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Abre Alas 10 | Catálogo

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Fernanda Taddei Guilherme Callegari

Felipe Braga

Yana Tamayo

Victor Saverio

Thiago Araújo

Sheila Ortega Steffania Paola Stephanie Gervais

Erika Romaniuk Evandro Prado

Deolinda Aguiar Eduardo Montelli

Peter Wüthrich Raquel Uendi Renan Marcondes

Noara Quintana

Letícia Lampert Louise Botkay

Jeferson Andrade Leandra Espírito Santo

Daniel Albuquerque

Cauê Novaes Coletivo Plástico Preto

Beatriz Nogueira Betelhem Makonnen Bruno Osório Carolina Cordeiro

ABRE ALAS 10

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Abrir Alas e Voar!

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Abram Alas que eles vão passar!

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Beatriz Nogueira

10 Betelhem Makonnen 12 Bruno Osório 14 Carolina Cordeiro 16 Cauê Novaes 18 Coletivo Plástico Preto 20 Daniel Albuquerque 22 Deolinda Aguiar

ABRE ALAS

24 Eduardo Montelli 26 Erika Romaniuk 28 Evandro Prado

10

30 Felipe Braga

32 Fernanda Taddei

34 Guilherme Callegari 36 Jeferson Andrade 38 Leandra Espírito Santo 40 Letícia Lampert 42 Louise Botkay 44 Noara Quintana 46 Peter Wüthrich 48 Raquel Uendi 50 Renan Marcondes 52 Sheila Ortega 54 Steffania Paola 56 Stephanie Gervais 58 Thiago Araújo 60 Victor Saverio 62 Yana Tamayo

curadoria de

Armando Mattos e Marta Mestre


ABRIR ALAS e VOAR! Mil vezes Viva! Esta é a celebração de 10 edições do Abre Alas, por onde 212 artistas passaram, desfilaram ideias e abriram espaço vociferando o que pensam, o que é tarefa natural da arte e da arte política de pensar! A Gentil Carioca é feliz por fazer parte da história de cada um deles, de proporcionar para muitos, o que por vezes foi a primeira vez nesta avenida. Lá se vão a sonhar, a gentil sonha também. Abrir Alas e poder voar. Que bom que estamos juntos nesta celebração! O ano de 2013 foi histórico e esperamos que o futuro seja melhor. Se precisarmos mais uma vez, vamos sair pelas ruas, em mais uma Manifestação Sexy. Evoluindo e revolucionando este samba Alalaô. Vamos erguer as máscaras de amarildo, atentos e fortes nesta encruzilhada. Lembrando que já é carnaval e que o grito que continua é de educação, de cultura, de justiça e igualdade de direitos, de respeito ao cidadão, por muita saúde para poder sambar no pé. E fazer longas caminhadas, abrindo estradas, empunhando cartazes, a fala muda, a fala que muda! Fantasias sobre fantasias. Que a realidade seja mais colorida, respeitando as diferenças. Colorir a encruzilhada, colorir as ruas. Fantasias sobre o que é proibido. E o que é proibido? Proibido é proibir. Abram Alas que nós todos vamos passar. SEU GUARDA, SEJA MEU AMIGO! Seja gentil, somos todos Amarildos, aqui onde o circo voa: a Aldeia Gentil! Que venham novos velhos novos artistas, que ocupem as ruas, os prédios, novos e velhos, a mostrar que queremos o Rio com arte e respeito ao cidadão. Paz e Amor. A voz de um, a voz de todos, a voz de todos, a voz de um. Empunhem seus cartazes! Vistam suas máscaras e fantasias! Vamos com eles, os cartazes da avenida! Aldeia Gentil: vamos ouvir a voz de todos!

ERA UM PAÍS MUITO ENGRAÇADO, NÃO TINHA ESCOLA, SÓ TINHA ESTÁDIO, NINGUÉM PODIA PROTESTAR NÃO, PORQUE A PM SENTAVA A MÃO!

IA EXCREVÊ ALGU LEGAU, MAIS FAUTOU EDUKSSÃO

DETESTO BALA DE BORRACHA, JOGA UM HALLS!

QUEREMOS HOSPITAIS PADRÃO FIFA!

SEU GUARDA SEJA MEU AMIGO

MANIFESTAÇÃO SEXY!

SEU GÁS DE RECALQUE BATE NO MEU VINAGRE E VOLTA!

SPRAY DE PIMENTA EM BAIANO É TEMPERO!

THE SNAKE IS GONNA SMOKE!

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VINAGRE É VIDA!

VENHA ASSISTIR AS MINHAS AULAS!

SE É PERIGOSO FICAR SEM CINTO NO CARRO, POR QUE TEMOS QUE ANDAR DE PÉ NO ÔNIBUS?

SOMOS A REDE SOCIAL! A CONSCIÊNCIA DO POVO DAQUI É O MEDO DOS HOMENS DE LÁ!

TÔ TÃO PUTO QUE FIZ UM CARTAZ! POR FAVOR NÃO NOS MACHUQUE! NÓS NÃO TEMOS HOSPITAIS!

ESTAMOS ATRAPALHANDO A COPA? DESCULPEM A FALTA DE EDUCAÇÃO.

ENFIA OS 20 CENTAVOS NO SUS!

82 ANOS: NÃO VIM PARA BRINCAR, VIM MANIFESTAR.

TEM TANTA COISA ERRADA QUE NEM CABE EM UM CARTAZ!

THE JIRIPOCA IS GOING TO PEWPEW #OCCUPYBRAZIL

QUANTAS ESCOLAS VALEM UM MARACANÃ?

CONSEGUIMOS OS CENTAVOS DE VOLTA, AGORA QUEREMOS O$ BILHÕES!

IGUALITÉ - LIBERTÉ - FRATERNITÉ - VINAGRÉ PROTESTO VOCÊ NÃO GOSTA, MAS A SAÚDE ESTÁ UMA BOSTA. O PROFESSOR VALE MAIS QUE O NEYMAR! FELICIANO ME DÁ UM ATESTADO QUE HOJE EU ACORDEI MEIO VIADO. ENTRE OUTRAS MIL ÉS TU BRASIL A MAIS ROUBADA! UMA CIDADE MUDA, NÃO MUDA!

O BRASIL ACORDOU. O QUE NOS DEVEM QUEREMOS EM DOBRO, E QUEREMOS AGORA! SE NÃO NOS DEIXAREM SONHAR, NÃO OS DEIXAREMOS DORMIR. MEU DINHEIRO NÃO É CAPIM! NA ARÁBIA SAUDITA OS LADRÕES SÃO AMPUTADOS. NO BRASIL ELES SÃO DEPUTADOS.

NÃO À BOLSA ESTUPRO!

DONA BARATINHA, VAI DE ÔNIBUS PARA O COPACABANA PALACE!

A DITADURA ACABOU... SÓ FALTA AVISAR PARA A POLÍCIA!

O MEU PARTIDO É O MEU PAÍS!

SE A PASSAGEM AUMENTAR, A ROLETA EU VOU PULAR!

NÃO MUDA NA URNA, MUDA NA RUA! #VEMPRARUA

MAIS UM AUMENTO NA PASSAGEM DO BUZÃO...FICAR PARADO NÃO É SOLUÇÃO!

DEPOIS DA CURA GAY, SÓ FALTA ALVEJANTE PARA NEGROS.

SR. GOVERNADOR LHE DESAFIO A SUSTENTAR SUA FAMÍLIA COM O MEU SALÁRIO! *

FELICIANO, ME CONTA QUEM FOI O BOY QUE PARTIU O SEU CORAÇÃO?!

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DILMA: ONTEM VOCÊ APANHOU, E HOJE MANDA NOS BATER

SEGUREM AS SUAS CARTEIRAS, ESTAMOS CHEGANDO À PREFEITURA.

PROFESSOR, DESEJO A VOCÊ O SALÁRIO DE UM DEPUTADO E O PRESTÍGIO DE UM JOGADOR DE FUTEBOL.

ATENÇÃO POLÍTICOS!!! O GIGANTE ACORDOU!!! MARACA PRO POVO!

EDUARDO PAESPALHO! DECLARO ABERTA A TEMPORADA DE CAÇA AOS CORRUPTOS! COPA PARA OS RICOS E REMOÇÃO PARA OS POBRES?!

ESTOU ARMADA COM LIVROS PARA EDUCAR! SENHORES POLICIAIS NÃO PRECISAM JOGAR BOMBA DE GÁS LACRIMOGÊNIO: O SALÁRIO DOS PROFESSORES É DE CHORAR!

FORA CABRAL, VAI COM PAES! A VERDADE É DURA, A REDE GLOBO APOIOU A DITADURA! O PROBLEMA DA SOCIEDADE É COMO UM CORPO. A CORRUPÇÃO É APENAS A PELE, E O SISTEMA MONETÁRIO É O CORAÇÃO. DILMA: RESPEITE OS POVOS DO XINGU. PARE BELO MONTE!

SENHORES BANDIDOS, ASSALTEM OS POLÍTICOS. ELES ESTÃO COM O NOSSO DINHEIRO. QUE SÓ OS BEIJOS CALEM AS NOSSAS BOCAS! NÃO VAMOS PARAR, O BRASIL PRECISA MUDAR! ME CHAMA DE COPA E INVESTE EM MIM!

O ESTADO É LAICO E NÃO TEOCRÁTICO! SOMOS TODOS UM! O GOVERNO QUER VER POVO X POVO. O NOSSO INIMIGO É O MESMO: O GOVERNO.

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QUANDO O SEU FILHO FICAR DOENTE, LEVA ELE AO E$TÁDIO.

FORA RENAN!

OS GOVERNOS DEVIAM TER MEDO DE ESTAR A CRIAR UM POVO QUE NÃO TEM NADA A PERDER.

ONDE ESTÁ O AMARILDO?

A SOCIEDADE É AQUILO QUE QUER SER.

FIM DA PM JÁ!

SOMOS ESTUDANTES E NÃO TERRORISTAS.

NEM DIREITA NEM ESQUERDA, QUEREMOS IR PARA FRENTE!

É MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE CONSEGUIR UMA VAGA NO SUS!!!

SE NÃO HÁ JUSTIÇA PARA O POVO, QUE NÃO HAJA PAZ PARA O GOVERNO!

OS JOVENS DE 1968 APOIAM OS JOVENS DE 2013.


UM POVO CONSCIENTE É O MAIOR MEDO DE UM GOVERNO CORRUPTO!

POLICIAIS NÃO NOS AGRIDAM ...VOCÊS TAMBÉM SÃO O POVO. NÃO SOMOS OS SEUS INIMIGOS!

ACORDAMOS DO COMA, SAÍMOS DO FACEBOOK E LEVANTAMOS DO SOFÁ! POR NÓS, PELO POVO E PELA JUSTIÇA!

2013: MANIFESTANTES NAS RUAS / 2014: MANIFESTANTES NAS URNAS.

DILMA, CHAMA A EDUCAÇÃO DE NEYMAR E INVESTE NELA!

NÓS JOGAMOS FLORES E VOCÊS NOS JOGAM BALAS.

LARGA O CANDY CRUSH E VEM PRA RUA!

NÃO PAGO NO BUSÃO O PREÇO DA CORRUPÇÃO

NÓS SOMOS O FUTURO DO BRASIL! SORRIA: VOCÊ ESTÁ SENDO EXPLORADO! PARA MUDAR O PAÍS É BOMBA! PARA FAZER PROTESTO É BOMBA! QUANDO INJUSTIÇA SE TORNA ROTINA, A REVOLUÇÃO SE TORNA DEVER.

SR. GOVERNADOR, SEGURANÇA POR FAVOR! AS PESSOAS VÃO VER QUE ESTAMOS SENDO ROUBADOS. VAMOS PARA A RUA!

MAIS FELICIDADE E MENOS FELICIANO. CIDADE PARA AS PESSOAS E NÃO PARA OS CARROS!

A EDUCAÇÃO PÚBLICA NO PAÍS É TÃO BOA, QUE QUANDO O FILHO DO POLÍTICO PRECISA ESTUDAR VAI PARA O COLÉGIO PARTICULAR!

SEXO É AMOR. SACANAGEM É R$3, 20! NÃO PRECISAMOS DE COPA! PRECISAMOS DE SAÚDE E TRANSPORTES DE QUALIDADE! NÃO É PELOS R$0,20 É PELO MEU FUTURO! PROTESTAR NÃO É CRIME!

REVOLUÇÃO NA SUA MENTE. VOCÊ PODE. VOCÊ FAZ. O POVO DECIDIU, QUEREMOS O MELHOR PARA O BRASIL! BEM-VINDOS À COPA DAS MANIFESTAÇÕES!

VEM PRA RUA PORQUE É A MAIOR ARQUIBANCADA DO BRASIL!

NÃO É VANDALISMO, É REVOLTA!

O VÂNDALO QUE QUEBRA É FILHO DO GOVERNO QUE ROUBA!

(frases compiladas dos cartazes das manifestações de 2013)

DESCULPEM O TRANSTORNO, ESTAMOS MUDANDO O BRASIL.

A Gentil Carioca

MENOS TARIFAS + EDUCAÇÃO!

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Foram quase trezentos portfólios analisados em dois dias, apenas entremeados por duas breves pausas para almoço, na proximidade da Galeria. Dois dias de sol escaldante, em que todo o Rio de Janeiro esteve entre o Leme e o Leblon, e nós debruçados em caixas “quentes” de expectativa interminável. Muita coisa para duas pessoas que acabavam de se conhecer por conta de mais um Abre Alas da Gentil, e que tinham juntas o ingrato desafio da seleção, a tarefa de incluir uns e excluir outros. Ainda assim, vimos a empreitada como uma oportunidade de nos atualizamos e ficar a par da criação de artistas jovens e não-jovens, estreantes ou, pelo contrário, já com atuação no meio, artistas acabados de sair da escola, ou sem nunca a terem frequentado, artistas regulares ou artistas bissextos. Tudo e todos estavam na expectativa desses quase trezentos portfólios. Esta edição apresenta 29 artistas, mais do que o previsto para o espaço em que habitualmente se realiza esta iniciativa, mas que com a adesão do sobrado recém-adquirido pela Gentil viabilizou a amplitude do território de ação. Desta forma pudemos dar alguma ênfase ao audiovisual, que era uma maioria entre os artistas, e que nesta edição se conecta também ao uso coletivo das ruas nas manifestações pós-junho 2013. No mais, o Abre Alas continua sendo, o gongo de quem vem lá, a festa trazendo novos ares, novos artistas que mandando ver surgem empolgados pelo fato de estarem juntos ali, se apresentando no espaço d’A Gentil. Nada muito formal, mas imprimindo marcas indeléveis nos afetos da cidade do Rio de Janeiro. Afinal esta é uma galeria de artistas, um espaço pensado e administrado por artistas, ainda e sempre necessários. Abram Alas que eles vão passar!

Armando Mattos Marta Mestre 7


FOTOGRAFIA FILIPE BERNDT

Beatriz Nogueira

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Habitante, 2013 / site specific / tinta, grafite e colagem / 589 cm (dimensão aproximada) Exposição Verso / SESC Pinheiros São Paulo, SP


Habitante

Habitante é aquele que vive num lugar. Há muitas formas de estar presente num lugar. De todas as formas conhecidas por mim, sei apenas de uma capaz de me conduzir diretamente à experiência de imensidão curva, de um silêncio duvidoso que me habita: a ação de desenhar, em si! Aqui, ser habitante será então como morar na própria ação de desenhar: construtora dos ossos e da carne, arquiteta de moradas. E eu desenho enquanto sou desenhada, capturando um tempo oco, oriundo não sei de onde. Aqui, trazer aquilo que me habita para tomar forma com este espaço, será como um convite para o público descobrir em ‘Habitante’, possíveis moradas.

Beatriz Nogueira é formada em Licenciatura em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Em 2010 realizou sua primeira individual na galeria El Conteiner em Quito, Equador. Dentre as exposições que participou desde então, destacam-se: a X Bienal do Recôncavo, em São Félix, BA; Sete na Casa, na Casa Contemporânea; exposição VERSO no Sesc Pinheiros, SP, com curadoria da artista Edith Derdyk; exposição Desenho – Estado. Ação. Acontecimento., no Sesc São Carlos, SP. Artista e arte-educadora, vive e 9 trabalha em São Paulo. Atua no ensino formal e informal em diversas frentes.


Betelhem Makonnen Tudo é Agora. Let’s Go.

Dizemos que queremos tudo, mas não queremos tudo. O tudo também inclui tudo o que não queremos. No final só queremos tudo o que queremos, que é muito diferente do que querer tudo. Fuga ou procura? Desde uma vista astral seria difícil perceber a diferença entre uma e a outra. Somos únicos mas conectados, iguais às ondas na hora de se deslocarem para cima na superfície do mar. Um é definido pelo outro. Navegue a área de tensão criada entre forças percebidas como opostas, sentindo o fluxo constante. Zoom in. Zoom out. OI-IO : estado O, que denota o vazio do tempo onde tudo pode ocorrer e estado I, que significa o surgimento de algo (obrigada J Latham). Saiba como prestar atenção, como cair, como ajoelhar, como ser ocioso (obrigada M. Oliver). Observe e preste atenção nas coisas, nas conexões e nos espaços entre elas. Também observe e preste atenção no tempo e nas conexões e nos espaços dentro do tempo. Lembre-se que, events take time, events take place and in relation to events, one can only be a participant or a spectator or, both (thank you M. Snow). Pense sobre Constante evolução VS Narrativa constante. Nasça todos os dias e morra persistentemente. Procure dentro de você o lugar selvagem, aquilo que não foi domesticado, que confessa tudo. Há muitos vocês em você. Pule no vazio procurando uma centelha qualquer. Há uma rachadura em tudo, é assim que entra a luz (obrigada Martin , obrigada Leonard). Seja fiel a nada, nem a linguagem, nem as ferramentas, nem ao resultado final. Seja apenas leal ao processo porque o processo é você. It’s all about evolution (thank you G. Matta-Clark). conselho para mim mesmo – janeiro 2014

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untitled (M.R. x), 2013 / impressão digital / 80 x 60 cm

Betelhem Makonnen é artista multimídia natural da Etiópia (1972). Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

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Bruno Osório Já faz um tempo que eu e o Bruno somos amigos. Tempo suficiente para ele dizer que eu sou chato, que não entendo ou não gosto ou fico azucrinando com uma porção de coisas. Inclusive quando o assunto das nossas discussões é arte contemporânea. Por isso, o convite do Bruno para que eu escrevesse o texto de apresentação dos dois primeiros trabalhos que ele expõe no Rio, além de ser uma honra para mim, diz muito sobre o artista que você vai conhecer. O Bruno não gosta do fácil, não está atrás de elogio, não busca atalho. Ele prefere o risco, a dúvida, o enfrentamento. Tanto que me fez o convite sem nunca ter me mostrado um trabalho da produção dele desde que voltou de Londres, onde cursou Fine Arts na Saint Martins. Tirando duas telas que ele pintou lá, e uma escultura (ou instalação?), não me mostrou mais nada. Quer dizer, e se agora eu não gostasse? E se o trabalho do Bruno, vá lá, essas coisas acontecem, não fizessem o menor sentido para mim? Mas ufa: quando vi pela primeira vez “Delay” e “4am”, foi uma mistura de emoção e de alívio. A emoção: porra, olha o que o Bruno tá fazendo. O alívio: não vou precisar medir palavras, usar eufemismos para falar o que eu penso. O que senti. Comecemos pelo vídeo “Delay, que me tocou bastante. As múltiplas imagens do próprio Bruno buscando-se e fugindo, uma indo atrás da outra sem descanso, poderiam falar da angústia pessoal do jovem artista (e, por que não, de todos os artistas), da busca da autoria, do caminho, da obra. Esse encontro-desencontro, esse tentar enxergar-se na produção. O problema é que “Delay” é muito maior. É das angústias do Bruno, mas é

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de todos nós. É a lembrança da falácia que é a ideia de identidade, de ser uma pessoa única, de ser o mesmo Bruno ou Reginaldo ontem, hoje, anteontem, amanhã, em todos os grupos e ocasiões. Portanto é também a lembrança da angústia que é perceber (consciente ou inconscientemente) que eu não sou. Eu somos. Eu fujo de mim, eu corro atrás de mim, num sísifo psíquico das nossas certezas e dúvidas e medos a respeito de nós mesmos, coisas que escondemos diariamente embaixo do tapete da consciência. Ser o que sou agora, o que quero ser, o que fui, ou o que o outro espera/deseja que eu seja? Não é fácil. E por isso, “Delay” incomoda e acalma. Incomoda porque lembra que a paz de espírito, o desejo de ser uno, a possibilidade de se autoconhecer é ficção. Me conheço hoje, já não me reconheço amanhã. Mas “Delay também acalma porque nos lembra ou avisa: ei, a coisa é assim mesmo. Lida com isso, rapaz. Vamos em frente. E vamos em frente e assistimos 4am. Ao assistir “4am” é importante saber de uma coisa: o primeiro endereço carioca do Bruno ficava em São Conrado. Aos pés da Rocinha. O que fez dele testemunha auricular da tomada da favela, da invasão pacificadora, chame como quiser as ações ocorridas em novembro de 2011 para instalação da UPP naquele morro. Preste atenção nesse detalhe: testemunha auricular. É que nessa madrugada o Bruno e muitos moradores do Rio – imagino que inclusive da Rocinha – viveram numa corda bamba entre o real e a representação, entre o próximo e o distante. As imagens quase abstratas e pacíficas das câmeras dos canais de notícias cobrindo os preparativos da ação eram invadidas pela violência do som dos helicópteros militares, que anunciavam uma sensação de guerra. E Bruno, ao retirar o áudio da TV e optar pelo som das ruas naquela madrugada, fundiu as duas experiências, a do confortável distanciamento da realidade mediada pela TV, que torna Rocinha e Bagdá equidistantes de nós, com o incômodo da proximidade quase epidérmica com o real. A lembrança de que se está no mundo. O ao-vivo versus o vivo, o em-tempo-real versus o real. De certo modo, o vídeo antecipa uma sensação que seria a de todos os brasileiros dois anos depois, durante as manifestações de junho e julho de 2013, quando as imagens distanciadas e apaziguadas dos protestos em todos os canais de TV disputavam nossa atenção e nosso medo com as hélices, as sirenes, que nos alertavam de que fazíamos de certo modo, ou de qualquer jeito, parte do que acontecia. Em um sentido mais amplo, faz pensar que a gente sabe que há assaltos, a gente sabe que há acidentes, que há tragédias. Mas é tudo narração, é tudo história contada, até o momento em que a vida nos dá um tapa na cara. E nos tira da condição de espectador, de plateia do dia a dia. Num mundo de relações tão mediadas, em que mais se consome a realidade do que se vive, “4am” parece resumir essa tensão que vivemos. Mas que na maior parte do tempo não sentimos. Talvez porque não passe na TV. Reginaldo Pujol Filho

Delay, 2012 / vídeo / 1 min 56 seg

Bruno Osório nasceu em Porto Alegre em 1979. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

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Carolina Cordeiro A inspiração do tempo

Os três trabalhos aparentemente diversos de Carolina Cordeiro reunidos nesta exposição possuem uma profunda conexão. Todos se propõem a transformar poeticamente os materiais utilizados ao elevá-los à experiência prazerosa de um tempo de percepção distendido, que foi perdido na aceleração de nosso universo contemporâneo. “Entre tanto” nos confronta com o impacto do momento congelado. Somos convidados a praticamente ver a simultaneidade do antes e do depois, a reconhecer o espaço fronteiriço entre o que está dentro e o que está fora e a imaginar o que teria gerado o acontecimento significativo fugaz exposto ao instante infinito. “Dia de festa” coincidentemente é o nome de um dos primeiros filmes do comediante francês Jacques Tati, que nos fazia rir da pressa para reconhecer a importância das coisas simples. Nesse trabalho é possível vislumbrar a espontaneidade lúdica de uma criança que vive bons momentos junto à natureza, deita-se sobre a grama, admira seus movimentos delicados e resolve fazer tranças em sua nova amiga. Diante da fotografia, quase podemos sentir a brisa que acalma nossa respiração ao reproduzir a inspiração do tempo que acompanhou o embelezamento da natureza. Finalmente em “Uma noite a 100 km daqui” a poesia eleva carrapichos que se encontram nesse mesmo tipo de paisagem rasteira ao céu noturno e ao campo das constelações. Nossa imaginação é convidada a acompanhar detalhes que se projetam aos confins do universo. O título também interfere sobre a nossa recepção e nos confirma a intuição de Duchamp de que mais importante do que criar um novo objeto com as próprias mãos, é o arranjo que se faz com o significado das coisas que é deslocado sob a influência de um título original e nos proporciona uma fruição estética reflexiva. A delicadeza do trabalho da artista se percebe na simplicidade da utilização das coisas da natureza e objetos que já se encontram no nosso cotidiano, somada ao atravessamento inesgotável de sentidos que resgatam nosso arsenal de lembranças na construção conjunta de uma beleza sutil. Bruno Guimarães

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Carolina Cordeiro é artista plástica nascida em Belo Horizonte. Trabalha com materiais que já estão no mundo, comuns no uso cotidiano e na natureza. Essa característica surgiu da urgência do fazer, mesmo na ausência de condições ideais, e continua orientando seu trabalho desde então.


Entre Tanto, 2013 / vidro laminado, pedra e silicone / dimensão variável h Dia de Festa, 2011 / fotografia digital / série de 9 fotografias com 66 x 100 cm cada k Uma noite a 100 km daqui, 2010 / tecido de lã e carrapichos / 140 x 900 cm g

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Cauê Novaes A rua é o principal espaço de expressão, diálogo e confronto de discursos dissonantes. Sem edição, mediação ou curadoria, é a rua quem proporciona a insurgência das vozes ausentes da mídia hegemônica e da representação política. A cidade amanhece sempre contando novas histórias, outras versões da noite anterior, diferentes da que se viu na TV. Se não mais que isso, o que a poesia que se lê nas ruas nos mostra é que tem mais gente do que a gente pensa se esforçando pra entender e tentando se expressar. A arte urbana é coletiva por natureza, é múltipla, imperfeita e indomesticável como a rua. Cada mínima intervenção altera e renova diariamente a composição da paisagem urbana. Há perguntas que só a rua faz, e respostas que só ali se encontram.

Poeta de parede, artista plástico, cenógrafo e roteirista, participou da criação do Coletivo Transverso em 2011, desde então realizando intervenções poéticas no espaço público utilizando técnicas diversas. É mestre em literatura (2013) e formado em ciência política (2008), ambos pela Universidade de Brasília. Como ator, participou em 2013 da peça “Caminhos: uma intervenção urbana”, da Companhia Enviezada. Escreve para a revista digital “Coisa com coisa” de literatura, fotografia e design (http://coisacomcoisa.org). 16 A parede que te impede é tua também, 2013, impressão em vinil, 50 x 50 cm


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A performance do coletivo Plástico Preto inicia-se com a colocação do plástico preto no teto. Logo em seguida cada integrante assume sua função específica. O músico gera o som ao vivo, baseado na estética do Harsh Noise e Glitch; a iluminadora lança mão de luzes neon, led, lâmpadas fluorescentes, entre outros, para iluminar o espaço; o cenógrafo desenha linhas de ação a partir do uso de fitas de delimitação, conduites, redes de proteção, plásticos transparentes, entre outros materiais; e por último, o ator se insere nessa instalação criada pela interseção dessas três áreas, como receptor de todos esses estímulos sensoriais e age como elemento unificador da obra. Além do corpo performático, existe um corpo virtual composto por fotógrafos e cinegrafistas, responsáveis pela captação de imagem, videografismo e edição. Todo material captado tem como propósito a multiplicação via manipulação de imagens e edição, gerando ecos através de subprodutos da performance. Dessa forma são abordas questões poéticas como excesso de informação (Big data), reprogramação, ditadura tecnológica, normas de comportamento social, invasão de privacidade, ruídos e poluição das mais variadas formas (sonora, visual etc.), lançando mão do Harsh Noise, da luz de LED em excesso, sucata, lixo urbano, entre outros.

O Coletivo Plástico Preto foi criado em maio de 2013 e é um grupo multidisciplinar composto por profissionais de diversas áreas (música, iluminação, cenografia, interpretação, fotografia e cinema), que combinam as suas poéticas individuais numa 18 instalação performática. Tem realizado diversos experimentos na rua e espaços alternativos.

Performance do Coletivo Plástico Preto, 2013

FOTOGRAFIAS JULIETA JLT

Coletivo Plástico Preto


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Daniel Albuquerque

20 Teorema, 2013 / porcelana esmaltada / 4,5 x 4 x 3 cm


O meu trabalho se desenvolve em escultura e desenho. Atualmente, utilizo técnicas de artesania como o bordado, o tricô e a cerâmica na construção de esculturas, além de produzir aquarelas. Pesquiso o corpo e as relações que suas partes sucitam no nosso imaginário. São recorrentes nessa pesquisa imagens de partes íntimas questionando uma visão meramente erótica em função de abordagens que revelam outras significações daquilo que é representado. Proponho com essas estratégias reflexões sobre questões conceituais, culturais e simbólicas, evidenciando vínculos e sensações sobre corpo e sexualidade. Tanto nos bordados quanto nos desenhos, utilizo cores que seguem os tons de pele, carne e mucosas. Nessa série, elejo não somente partes do corpo, mas também determinadas reações (como a boca que se abre, o pênis que se excita, os mamilos que se entumecem, a língua que lambe e etc) dessas partes, revelando as diversas conotações e possibilidades, gerando situações ambíguas, onde o espectador é convidado a completar o sentido daquilo que ele não está vendo a partir desses indícios que evidencio. O trabalho segue uma lógica instalativa bastante própria, utilizando como referência as alturas do corpo, ou seja, posiciono espacialmente na parede as esculturas nas mesmas alturas das respectivas partes sempre utilizando as minhas medidas como parâmetro e, em alguns casos, opto por posicionamentos que sugerem alguma relação do espectador com o trabalho. Dessa forma, cria-se, com alguns trabalhos, uma identificação direta por algo que é como um espelhamento e em outros engedra-se uma dinâmica relacional pela sugestão de uma situação.

Daniel Albuquerque vive e trabalha no Rio de Janeiro. É formado em Design de Moda pelo SENAI CETIQT e cursou a pós-graduação em Arte e Filosofia na PUC-Rio. Atualmente, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, cursa Teoria e Portfólio ministrado por Brígida Baltar, Efrain Almeida e Marcelo Campos.

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Deolinda Aguiar ROUPAS QUE ANDAM SOZINHAS

Roupas Estamos vestidos do primeiro ao último momento de nossas vidas. As roupas são membranas que nos protegem e separam do mundo, cascas intimamente ligadas ao corpo que inevitavelmente apreendem suas marcas. Estão impregnadas de cheiros, aderem ao formato, brincamos que, de tanto uso, algumas andam por aí sozinhas. Tornam-se imantadas. Se desfizéssemos as tramas desses tecidos, retirássemos sua utilidade de vedar, o que as fibras que sobram revelariam? É lá no interior dos fios que se escondem as lembranças? Onde ficam os gestos que se foram, o sol que tomamos? O suor de todo o trabalho pra onde vai? Autorretrato Existem muitas maneiras de se fazer um autorretrato. Fotografar-se em frente a um espelho é apenas uma delas.É possível falar de si mesmo contornando o próprio semblante. Assim como se apresenta nítido o corpo na cama vazia, no espaço vago na mesa de jantar, muita coisa se desenha nos objetos pessoais que foram elegidos, mantidos com apreço e depois deixados. Mesmo com o corpo do artista ausente é possível falar da sua subjetividade. As vezes é até mais honesto, brutal e direto evitar o próprio corpo e apresentar outras evidências. Mundos A representação já foi diferente. A tela era uma janela para uma virtualidade, depois se tornou superfície, a coisa em si mesma. Mais adiante ela passou a negociar um espaço em comum fazendo um trânsito entre dois mundos. A obra de arte então faz alusão a um mundo de significados depois retorna ao mundo em comum. Quatro bolsos que restaram de um casaco são justapostos e formam uma paisagem. Depois voltam a ser apenas bolsos que antes se escondiam e foram revelados. Um cinto antes que contornava o volume da cintura se planifica em linha e torna a ser apenas um cinto. Mas eis que algo impossível acontece na sala, animadas pelo mundo de lá, as roupas andam sozinhas. Marcelo Amorim

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Sem título, 2013 / objeto com tecido desfiado / 120 x 40 x 25 cm


Deolinda Aguiar nasceu em Ribeirão Preto. Vive e trabalha em São Paulo. Recebeu o prêmio aquisição no 33º Salão de Arte Contemporânea de Santo André - SP com curadoria de Angélica de Moraes. De 2004 a 2010, integrou o grupo de pesquisa Ateliê Fidalga, orientada por Sandra Cinto e Albano Afonso, com o qual participou das exposições “Entre tempos”, no Instituto de Pesquisa Carpediem Lisboa - Portugal e na Galeria Zum - Carlos Carvalho; “Boite Invaliden”, na Galeria Invaliden-Berlim; “Ateliê Fidalga no Paço das Artes” - Paço das Artes - USP; “ Em torno de- nos limites da arte”, FUNARTE-SP e SPArte/Specific na SPArte - 2010. Em 2011, participou da exposição About Change no World Bank of Washington- DC representando o Brasil juntamente com mais vinte e dois artistas brasileiros. Em 2013, ocupa uma das Vitrines do MASP, projeto de Curadoria de Regina Silveira . Apresenta a exposiçao individual “entre retratos e paisagens” no espaço Qualcasa -SP. Atualmente, integra o grupo de Acompanhamento 23 de Projetos- Hermes Artes Visuais, orientado por Nino Cais e Marcelo Amorim.


Eduardo Montelli

Resgate ou mosca sobre mão e piscina, 2012 / fotografia digital / 30 x 40 cm

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Eduardo Montelli é um colecionador de potencialidades. Registra paisagens em suspensão, vestígios de afeto, continentes à deriva. Com detalhes de pequenos acontecimentos, indica possibilidades de interpretação do cotidiano. A proximidade física é característica da vivência do encontro, que se desdobra em recortes precisos e em diferentes alternativas de existência. A descoberta de um beijo suado na janela ou um carvão queimado que boia na piscina se torna habitante das flexões do tempo, expandindo-se para dentro e para fora em passados, presentes e futuros potenciais. Pode existir como sobreposição de corpos, como cruzamentos afortunados, como interpretações emocionais. Pode povoar pensamentos com desenrolares infinitos, táteis e cítricos. Pode revelar poéticas ao notar o ordinário. A potência do acontecimento está na possibilidade de transforma-lo em encontro - a vida e a morte estão ao alcance das mãos se tivermos a delicadeza de percebê-los. Luiza Mendonça, Janeiro de 2014

Eduardo Montelli (Porto Alegre/RS, 1989) é artista visual mestrando em Poéticas Visuais pelo PPGAV/UFRGS. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS Interesso-me pela noção de formação de identidade e territorialização no sentido de inacabamento e investigação contínua. Busco explorar múltiplos aspectos inerentes à relação entre identificação e apresentação. Elaboro meus trabalhos a partir de leituras, de experiências cotidianas e de memórias pessoais (minhas e de outras pessoas). Desde 2007 desenvolvo um processo artístico nos espaços do pátio de minha casa, local habitado por minha família há mais de 40 anos. Trabalho com projetos gráficos, projetos para a internet, fotografia, vídeo, 25 texto e instalações multimeios. www.eduardomontelli.tumblr.com/cv


Erika Romaniuk Arquétipo [Do gr. archétypon.] substantivo masculino 1.Modelo de seres criados. 2.Padrão, exemplar, modelo, protótipo, fôrma. 3.Psic.Segundo C. G. Jung, imagens pisíquicas do insconsciente coletivo (q.v.), que são patrimõnio comum a toda a humanidade. Dicionário Aurélio, 2009.

Cada vez mais em nossa rotina somos quase que obrigados a nos adequarmos às limitações e imposições que a cidade e o nosso dia-dia impõem. O ambiente urbano é construído de forma que sujeita todos a uma trilha, rotina e a um caminho específico fazendo com que nos condicionemos e adequemos às mais variadas ações e lugares. Nos submetemos a ir de uma cabine à outro compartimento nesse ambiente repleto de espaços feitos quase que sob medida para o corpo. Do apartamento ao elevador, do elevador ao carro, à cabine telefônica, ao avião, ao ônibus e aos caixas automáticos. Quase que como peças de um sistema somos conduzidos a determinados lugares e padrões, o que nos faz reféns, quase que sem liberdade para sair desse ritmo a procura de uma rotina particular.

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Erika Romaniuk é bacharel em Direito que, cansada da rigidez do sistema jurídico, dedica-se as artes, colocando em prática toda a influência criativa que recebeu edurante sua infância, aplicando em seus trabalhos toda uma maneira própria e intensa do modo de fazer. Produzindo seus próprios trabalhos do início ao fim, vai em direção à manufatura, em contraponto ao seu discurso poético sobre os Arquétipos da cidade contemporânea.


Arquétipo- Família, 2012 / madeira e tinta esmalte / 185 x 150 x 40 cm

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FOTOGRAFIA FELIPE RIGHI

Evandro Prado

Sede vacante I, 2013 / massa plástica / 70 x 35 x 30 cm

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Desde o início de sua trajetória artística, o sul-matogrossense Evandro Prado sempre buscou uma aproximação com o universo que a igreja instituiu como sagrado. Essa relação que ele vem estabelecendo com o imaginário religioso propõe de maneira irônica uma desconstrução e ressignificação das imagens sacras que algumas sociedades, principalmente a brasileira, tem como símbolo de respeito e devoção. Prado utiliza a igreja e suas marcas construídas ao longo da história para estabelecer uma crítica no âmbito da sociedade contemporânea. Transformando seus devaneios em crítica social e política, quase sempre introduzindo os espectadores dentro de suas ironias, e potencializando, assim como Brecht fez com seu teatro épico, o ideal de que a obra de arte não é apenas um deleite passivo, mas um acontecimento em que abandona-se a postura de simples admirador, para transformar-se em sujeito da obra. O homem, portanto, é exposto e tem a chance de reavaliar-se ou continuar no obscurantismo do pensamento, revelando, involuntariamente, seu estado de alienação. Ao se aproximar do pensamento cristão para questionar a sociedade, Prado adquire uma relação com a filosofia nietzcheana. Para Nietzsche, um dos principais críticos dos cristãos, essa vertente religiosa ensina que o reino de Deus está nos corações dos homens, mas traiu essa intuição fundamental quando transformou o Reino em um “outro mundo”, um universo mais além, que é o nada. Nietzsche considera que, além de implantar no homem a ideia de pecado, pensamento que o enquadrou num estágio de negação da vida, a noção de reino minou de sentido todo e qualquer valor natural que pode garantir o surgimento de uma vida ascendente. Prado resignifica o sagrado por meio de sua obra e propõe um diálogo que ultrapassa a contemplação estética para, ironicamente, atingir o existencialismo humano. A fantasia se encarregando de suscitar conflitos e sentimentos genuinamente verdadeiros. Uma obra que se revela essencial, porque ao ser posicionada além do olhar, gera reações interiores que, posteriormente, são expostas em sinais de espanto, dúvida, repulsa ou aceitação. Resposta ao que a arte exige quando é intitulada como tal: atuar como poder transformador em seu receptor que, impactado, também emite. Renato Joseph Evandro Prado (1985) é artista visual, formado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, onde nasceu. Vive e trabalha em São Paulo desde 2008 onde também participa 29 do do Grupo Aluga-se.


Felipe Braga Letras brancas sobre cartela preta. Leia-se um filme de cinema. Na banda sonora alguma música. Não sei qual. Tudo dura exatamente 7 segundos. A frase some. A cartela some... fade out… começa o filme. . CENA 34: show do NADA: noite (off) o garoto tinha uma gangue. A gangue tinha uma banda. O NADA. Eram músicas de amor. Planejavam lançar seu único e derradeiro disco, o já intitulado Se leva a sério. Eles não se levavam a sério. Eles tocavam músicas de amor como atitude política. Felizmente ou infelizmente, na maioria das vezes não alcançavam seus objetivos. Enfim todos eram extremamente críticos e autocríticos. Não se levar a sério é algo muito difícil de se levar. Algumas dessas músicas até estão no mundo (soundcloud. com/nada-hits). O disco… um dia virá. Enquanto nada acontece o NADA segue fazendo seus shows imaginários. .

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CENA 9: Reunião da gangue: noite. Eles costumavam se reunir para beber e escrever manifestos. Quase todos eram jogados fora. Nesta noite fizeram alguns. Só consegui guardar esse... Manifesto SINUCA-ARTE No jogo de sinuca pular a bola vermelha em uma tacada só, sem tocá-la, sem rasgar o feltro verde, num gesto seco, com o objetivo único de atingir a bola preta, mesmo que não precise, mesmo que não queira jogá-la na caçapa mais próxima. No jogo de bilhar, daqueles jogados em pequenas mesas de bar com caçapas de metal, para matar uma bola deve-se escutar o barulho do encontro, o tuck que se dá quando a bola, seja ela azul ou vermelha, tocar com força e objetividade o fundo da caçapa. Jamais buscar a tática do jogo tático (toquinhos sutis que fecham as possibilidades do adversário). O jogo é rápido, dinâmico e belo. Ganhar o jogo não é uma questão. Diversão é uma questão. . Corta!

Nada Hits, 2012 / fita K-7 e pregos / dimensões variáveis


Show, 2012 / saco plástico, acrílica e circuito elétrico com leds / dimensões variáveis

Felipe Braga é artista (?) vive e trabalha no rio (?) cargocollective.com/felipebraga

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Fernanda Taddei

yourself. you. self. yourself yourself. You you someone else you you you others you yourself you yourself You you each other self. yourself. you you. you you you all living things. you you self everybody yourself all you all living things. all living things. You we You each other each other each other you you. yourself. you another person. You you you self others yourself You you you you you others you yourself another person you You someone else others yourself You you. yourself You you. you you you. You you you others you all. You another person You you all living things. you you self you another person you. all. You self you you

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O trabalho do nosso corpo, a obra das nossas mãos, 2012 / colagem / 41 x 33 cm


FOTOGRAFIA CAMILA FREITAS

Estudei Cinema e trabalhei como curadora e produtora de mostras e festivais. Em 2011, comecei a fazer filmes curtos em vídeo, pensados para exibição na sala de cinema. Inscrevi em alguns festivais de cinema, mas nunca consegui exibir. O trabalho do nosso corpo, a obra das nossas mãos é meu primeiro trabalho fora do suporte filme (é o primeiro, mas não é o único). Esta é também a primeira ocasião em que exponho um trabalho. Neste próximo mês de março, começo a cursar um mestrado em Artes Visuales, Mención Creación de Obra Visual, na Pontificia Universidade Católica 33 de Chile. Toco contrabaixo elétrico.


Guilherme Callegari Inicio cada obra com base em estudos de desenhos de letras, design gráfico e o universo pictórico. Ao construir cada pintura, penso como se elas fossem grandes cartazes ou grandes capas de discos, onde tenho que diagramar e organizar determinados elementos. Construo letterings (letreiramentos), junto a uma pintura bem suja e pesada, sempre despreocupado com a tinta que borrou, respingou ou escorreu, porque isto passa a ser parte integrante do trabalho no exato momento que acontece, então deixo tudo isso aparente na pintura. Se algo que fiz me parece não condizer com a obra, cubro-o com uma tinta branca bastante diluída e retomo a obra. O objetivo é deixar aquele ‘erro’ percetível de alguma forma, pois ele contribui com o resultado final, uma vez que é parte das escolhas que fiz para aquela pintura.

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another Point, 2013 / acrílica, nanquim e grafite sobre tela / 60 x 160 cm (políptico)


Nesse projeto, porém, há algo para o qual gosto de chamar a atenção, que é a nova obra que surge baseada em algum pequeno detalhe das pinturas de grande formato, tornando-se algo independente. Fotografo detalhes de pinturas maiores (que tem em média 190x150cm), para depois construir pinturas menores com referências nesses detalhes, resultando em novas obras que medem aproximadamente 70x50cm. Não se trata de uma reprodução do detalhe em maior formato e não há sequer uma ligação visual entre as pinturas maiores, as menores e as fotografias. O que as relaciona é a ideia do detalhe, de fazer uma parte do todo deixar de passar despercebida para se tornar um todo em si. Pretendo mostrar nesse projeto aproximadamento 30 pinturas. Trago para minhas pinturas materiais como esmalte sintético, carvão, lápis e tintas automotiva, serigráfica, óleo e acrílica. O objetivo de utilizar sempre tintas menos liquefeitas é sentir a textura da tinta antes mesmo de vê-la na tela, tornando cada pincelada única e orgânica.

Guilherme Callegari nasceu em 1986, em Santo André - SP. Hoje vive e trabalha na mesma cidade onde nasceu. Formou-se em Design Gráfico com ênfase em tipografia em 2011. Em 2008, seus trabalhos passaram a ter um significados mais forte para o artista. Em 2009, faz sua primeira exposição, com colagens e algumas pinturas. Em 2010, entrou em seu primeiro salão e decidiu que o que realmente queria era se aprofundar na pintura. Em 2012, recebe o prêmio de Menção Honrosa no 40º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto. Logo depois entra no Arte Londrina. Do final de 2011 ao começo de 2013, trabalhou como assistente do artista paulista Rodolpho Parigi. Logo depois trabalhou com 35 Sandra Cinto e Albano Afonso, onde frequentou o Ateliê Fidalga.


Jeferson Andrade

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Pensei em dois pontos criando uma reta, mas o que vejo são círculos em órbitas atravessando as políticas de um deserto que só existe em nós. Eu carrego comigo a civilização e desnudo a farsa liberal de um homem em uma ilha, habitar implica pensar a micropolítica que existe nos gestos. Somos o que fazemos? Raul tinha esquizofrenia e epilepsia, dois filhos, uma esposa. Tinha hábitos de caminhadas, acredito que é o que se faz quando não se sabe para onde ir. Desapareceu em 2007 numa de suas caminhadas e nunca mais foi visto, esse dado de desaparecimento coloca Raul no ponto político do que se fazer com os desaparecidos. O vazio que existe e que incomoda. Não há corpo, não há enterro, os ritos são deixados num hiato incongruente. Decidi então criar “Ritos de Memória”, complexificando a pesquisa arqueológica pautada numa análise anti-histórica, onde os dados coletados são pontos de criação ficcional, sem a tentativa de criar elos temporais ou reconstituições fidedignas. Estabeleço um acordo entre a minha imaginação e a memória sensível do espaço. A procura pela não ciência não me torna historiador ou arqueólogo, mas próximo a um Xamã urbano ( Xamã, é um termo de origem tungúsica que nessa língua siberiana quer dizer, na tradução literal, “Aquele que enxerga no escuro”). O vazio tem uma capacidade cosmológica de entendimento podendo expandir as relações míticas que temos com o espaço habitado, intento a partir disso criar micro-situações para desvendar os segredos invisíveis de cada parede para uma pesquisa de auto-convivência com o nada, propondo a escala de subjetividade com parâmetro para realização de uma política por vir.

j Civilização sem rosto, 2013 / objeto / 20 X 10 cm f Para Habitar o Vazio, 2012 / vídeo / 4 min

1989. Artista relacional e pesquisador experimental. Cursou Antropologia na UFF de 2008 a 2010 e atualmente faz História da Arte na UFRJ. Frequentou cursos livres na Escola de Artes Visuais Parque Lage desde 2010. Desenvolve trabalhos autorais que versam sobre ressignificações do espaço habitado, políticas de corpo e ocupação e memória social da imagem. A partir de 2012, inicia a ocupação do apartamento de um vizinho esquizofrênico desaparecido em 2007 para estruturação da ocupação como atividade poética. Vive 37 e trabalha no Rio de Janeiro.


Leandra Espírito Santo “Trabalho: atividade que produz e informa objetos” Vilém Flusser. Glossário para uma futura filosofia da fotografia. In: Filosofia da Caixa Preta. 1985

Um diagrama em que dois pontos - A e B - são conectados por linhas - algumas sinuosas, outras que se estendem como galhos, criando ramificações a outros pontos, até linhas retas e diretas - talvez seja a melhor representação de processo. Em cada uma das linhas de possível

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Leandra Espírito Santo é artista. Vive e trabalha entre Rio e São Paulo.

conexão entre A e B, encontramos uma multiplicidade de escolhas, tomadas de acordo com a urgência em se chegar a B, o que implica, naturalmente, o esgotamento da vontade de permanecer em A. Neste deslocamento entre um ponto e outro, há variáveis capazes de interromper, atrasar ou facilitar o percurso de A a B, que dependem da habilidade, única e exclusiva, de quem ou do que se desloca entre estes dois pontos. O processo é resultado de uma equação entre os elementos e fatores acima descritos, na qual todos os elementos que envol-


vem o que há entre A e B relacionam-se e afetam-se. Na tentativa de dominar a equação entre as variáveis que existem no processo, o homem desenvolveu uma série de aparelhos, instrumentos e máquinas, a fim de direcioná-lo ao melhor caminho a B. Uma vez que são deixadas a outro objeto as respostas de problemas práticos em relação aos meios utilizados para atingir determinado fim, o homem poderia, então, vangloriar-se de tempo livre para questões de ordem subjetiva e intelectual. Porém, o que aconteceria no caso de um “erro de cálculo” entre as variáveis? A máquina construída para facilitar o trabalho então falharia enquanto instrumento, correndo o risco de cair na disfuncionalidade e rebaixar-se ao mundo

dos objetos sem-função. Em “Cultivando pedaços de arte”, o funcionário emprega um cansativo esforço para produzir um objeto aparentemente inútil, fazendo de B um destino duvidável. O caminho escolhido então desconsidera a finalidade produtiva e alonga o processo,multiplicando-o em diversas funções, preenchendo o tempo, para adiar o fim. Aqui, homem e objeto, funcionário e produto, criam uma relação conflituosa: o objeto em sua ingênua simplicidade desfaz o esforço do funcionário, que, por sua vez, dedica-se a continuar replicando esta situação em um sistema de anulação que se retroalimenta. Isabella Rjeille, janeiro de 2014.

39 Cultivando pedaços de arte, 2013 / instalação/performance / dimensões variáveis


Letícia Lampert

Letícia Lampert – Porto Alegre/RS -1978. É formada em Design - Programação Visual, pela Ulbra, e Artes Visuais – Fotografia, pela UFRGS. Concluiu mestrado em Poéticas Visuais no PPGAV – UFRGS em 2013. No mesmo ano, foi vencedora do Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger na categoria Trabalhos de Inovação e Experimentação e do III Prêmio Itamaraty de Arte Contemporânea. Realizou até o momento quatro exposições individuais, sendo elas (des)construções, em 2008, Escala de Cor das Coisas, em 2009, Nalgum lugar entre lá e aqui, em 2012 e Conhecidos de Vista, em 2013. Atualmente seu trabalho está voltado para a 40 vida na cidade, o cotidiano, e as relações entre ver e ser visto em espaços públicos e privados.

Acordar, abrir a janela e deixar o sol entrar. Um gesto simples e banal, rotineiro, que faz parte da vida e do cotidiano de todos nós. Abrimos a janela para ver como está o tempo, para sentir a temperatura, para olhar a cidade, para arejar a casa, ou para, simplesmente, deixar a luz do dia entrar. Mas nas cidades, cada vez mais apinhadas de gente, com prédios cada vez mais estreitos e próximos um do outro, vista e claridade tornaram-se artigos de luxo. Mais do que abrir a janela e deixar o sol entrar, abrimos a janela e nos deparamos com um paredão de concreto ou, quem sabe, com a janela do vizinho. E quando a nossa vista é uma outra janela, passamos a ser, consequentemente e de forma simultânea, a vista de alguém. Querendo ou não, estamos todos sendo observados. Mas quem são estas pessoas? Como é a vista daquele ângulo? O que tem do outro lado da parede? A partir de uma flânerie às avessas, onde foram visitados cerca de 40 apartamentos em Porto Alegre, escolhidos aleatoriamente, as imagens desta série fazem parte de um projeto que lança um olhar crítico e poético para uma situação cada vez mais comum no contexto urbano contemporâneo: prédios com janelas próximas demais e as delicadas relações de vizinhança que se estabelecem nestas condições.

Apartamentos com vista #8, 2013 / fotografia / 150 x 100 cm

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Apartamentos com vista #5, 2013 / fotografia / 150 x 100 cm

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Louise Botkay

Vertières, 2014 / série de filmes Sp8 digitalizados / Cap-Haïtien Haïti / 5’ cada

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Os dois primeiros filmes de Louise que vi, já há alguns anos, foram realizados com um telefone celular: o primeiro debruçava-se sobre uma cerimônia vodu no Haiti; o segundo havia sido filmado em um banho turco, como os de Istambul. Eu me lembro de ter tido a nítida sensação de estar vendo pela primeira vez verdadeiras obras feitas com um telefone celular, e não uma mera sucessão de imagens. O telefone celular permite (e, em alguma medida, exige) uma espécie de espontaneidade brutal na captação das imagens. A resolução baixa e os enquadramentos imprecisos tornavam-se opções estéticas: a cerimônia vodu era assim filmada de modo quase clandestino, com a artista circulando em meio a dançarinos em transe e aparentemente inconscientes da presença da câmera. A montagem, no entanto, a um só tempo complexa e precisa, transformava o material visual bruto em uma verdadeira construção. De modo análogo, no confinamento do banho turco, o telefone celular permitia desvelar sem vulgarizar a intimidade daqueles corpos femininos, ao passo que os grãos altamente saturados da imagem evocavam uma experiência gráfica, como se se tratasse de um desenho orientalista na era da reprodutibilidade digital. Me parece que esses dois filmes, realizados nos primórdios de sua carreira de artista-cineasta, continuam bastante emblemáticos do modo como Louise concebe e utiliza o

dispositivo fílmico (e talvez também a fotografia): por um lado, seja utilizando a tecnologia digital ou a película super-8, ela mobiliza os seus conhecimentos das técnicas de enquadramento e de montagem adquiridos ao longo de seus anos de estudo na FEMIS (a principal escola de cinema da França) e de suas experiências como diretora de fotografia em filmes mais convencionais; por outro, ela utiliza a câmera para captar do modo mais íntimo possível a presença extática dos corpos em sua relação “inocente”, espontânea ou originária com o real e com a natureza. Esses dois aspectos de seu trabalho parecem entrar em contradição um com o outro, como se o acontecimento da imagem – uma figura alcançando a visibilidade – tivesse necessariamente que colocar em questão o dispositivo destinado a recebê-la. Penso que todos os futuros comentários sobre o trabalho de Louise Botkay deverão dar conta dessa marca singular que a meu ver constitui a originalidade de sua intuição e de seu método: trata-se de um uso negativo ou contraditório da técnica que visa a desfazer as convenções da linguagem cinematográfica a de fim de deixar seu objeto aparecer sem privá-lo de sua aura. Philippe Alain Michaud

Louise Botkay realiza fotos e filmes usando telefone celular, vidéo, película super-8, 16 e 35 milímetros revelados “a mão” pela a própria artista. Fez trab43 alhos em países, como Haiti, Congo, Níger, Chad, Holanda, França e Brasil.


Noara Quintana

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Inabitável

No refúgio de todos os homens a casa se supõe um primeiro universo, um corpo de sonhos, a essência do habitar. A planta, como parte desta promessa, precipita um espaço ainda inexistente, à espera do futuro. Recolho dezenas dessas promessas e com o estilete destituo as funções dos cômodos das figuras, restando apenas a estrutura vazada. As plantas nesta outra condição abraçam o vazio e, quando recombinadas, são lançadas na eterna suspensão ficcional. Inabitável # 2, 2013 / série de colagens / recorte e colagem de anúncios imobiliários / 100 x 70 cm

Noara Quintana, 1986, artista visual, nascida na cidade de Florianópolis, vive em São Paulo. A artista desenvolve trabalhos em suportes variados: instalações, desenhos, performance, publicação e vídeo. Atualmente sua pesquisa tange questões sobre o espaço. Desde 2012 coordena o selo editorial 45 LOTE, direcionado a publicações de videoarte.


Peter Wüthrich Peter Wüthrich’s world

Since the 1990’s, Peter Wüthrich’s art has focused exclusively on the medium of the book. It has thus focused on a medium that has generally been seen as standing in contrast to the work of a visual artist. In Wüthrich’s works, books are, in fact, characterized much more by their ambiguity, within which their legibility and their traditional function has been consistently denied without questioning their status as books. In numerous artistic investigations, from wall pieces and installations to photographs and films, Peter Wüthrich circumnavigates the obscure object of his desire. (Short-extract from cataloguetext by Dr. Stephan Berg, Director Kunstmuseum Bonn, Germany)

Born in Bern/Switzerland, where he did the HKB Academy of Fine Arts. He realized several Solo- and Groupshows at: Kunsthalle & Kunstverein Bremerhaven (GER); PS 1, New York (US); Kunsthaus Zürich (CH); CGAC, Centro Galego de Arte Contemporanea, Santiago de Compostela (SP); Kunsthalle Winterthur (CH); Fondation pour l’art contemporain Salomon, Annecy (FR); Aichi Prefectural Museum of Art, Nagoya (J); UMCA, University Museum of Contemporary Art, Massachusetts (US); Palazzo Zenobia, 54th Biennale di Venezia (IT); 4th Biennale of Contem46 porary Art, Thessaloniki (GR). He lives and works in Bern and Paris.


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Platonic love, 2007 / 12 photographs / 20 x 30 cm


Raquel Uendi

A Boa Onda, 2013 / jato de tinta em folha de sulfite, papel jornal e vidro / 83 x 31 cm

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Dado o fato que todos com uma câmera digital creem que são fotógrafos, poucos são aqueles que pensam sobre o fazer fotográfico e menos ainda os que adentram a caixa preta. Como consequência, cada vez mais imagens são produzidas, emolduradas e/ou ampliadas em metacrilato, prontas para serem colocadas na parede da sala de jantar. Na contra mão, Raquel Uendi trabalha com filme fotográfico, químicos, uma impressora caseira e papel sulfite. Fotografias que - diferente da maioria que são manipuladas por meios digitais - passam por uma edição manual de corte e dobra, dois gestos tão “simples” quanto os de Amilcar de Castro em suas esculturas. Para apresentar suas imagens no espaço, Uendi suspende-as por uma linha no ar, utiliza suportes de vidro construídos por ela mesma ou coloca-as na parede com fita adesiva e/ou pregos. Processos que agregam à concepção final da obra os próprios materiais utilizados na montagem, muitos deles caracterizados por serem frágeis e comuns. Resultando em trabalhos que parecem querer “saltar” do papel, na tentativa de encontrar o equilíbrio com o espaço em que este se encontra. O que faz com que o trabalho de Uendi possa ser tanto compreendido como fotografia quanto escultura, pois diferenciar uma técnica da outra é quase impossível, visto que ambas se relacionam através da mesma imagem, seja ela bidimensional ou tridimensional. Paula Borghi 1986, São Paulo - SP

A fotografia foi a primeira forma de expressão e contato como o universo da imagem. Busca novos caminhos e suportes para o objeto fotográfico, sua apreensão pelo público e outras formas deste no tempo/espaço. Atualmente, vive e trabalha em São Paulo, onde também cursa Filosofia na Universidade de São Paulo.

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Renan Marcondes Hipótese para racionalidade Dados: movimento = meio/transporte parada = fim.início/condicional meio = fim.início condicional = situação de condição condição = modo se ser.conjunto de regras transporte = ato ou efeito de transportar conjunto de regras = jogo poética= toda e qualquer relação do modo de ser com uma situação Sendo: lugar de parada = lugar de movimento lugar de (fim.início/condicional) = lugar de (meio/transporte) lugar de (fim.início/condicional) = lugar de (fim.início/transporte) Aplicando m.m.c: transporte.lugar de (fim.início/condicional.transporte) = condicional. Lugar de (fim.início/transporte.condicional) transporte. lugar de = condicional.lugar de transporte = condicional transporte = situação de condição ato ou efeito de transportar = situação de condição ato ou efeito de transportar = situação de (modo de ser. conjunto de regras) ato ou efeito de transportar = situação de (modo de ser. jogo) ato ou efeito de transportar = jogo.poética ato ou efeito de transportar = jogo poético Assim, conclui-se que: Todo ato de transporte, enquanto meio x movimento, pode ser traduzido como um jogo poético.

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Suposição para a gravidade, 2012 / video em HD. Cor. Som. / 0’ 20’’ em loop

Renan Marcondes é artista plástico, ator e performer. Mestrando em Poéticas Visuais pela UNICAMP, formado em artes plásticas pelo Centro Universitário Belas Artes (bolsa FAPESP) de São Paulo e tecnólogo em atuação pela Oficina de Atores Nilton Travesso. Integrou a Companhia Perdida, dirigida por Juliana Moraes. Expõe com performance e videoperformance em diversas exposições na cidade de São Paulo, das quais se destacam a Bienal Internacional de Dança do Ceará; o 41ª Salão de Arte Contemporânea Luiz 51 Sacilotto, no qual foi premiado com a performance “Hipótese sobre a construção”.


Sheila Ortega Manual de Sobrevivência “Os objetos assim acariciados nascem realmente de uma luz íntima; chegam a um nível de realidade mais elevado que os objetos indiferentes, que os objetos definidos pela realidade geométrica. Propagam uma nova realidade de ser. Assumem não somente o seu lugar numa ordem, mas uma comunhão de ordem. Entre um objeto e outro, no aposento, os cuidados domésticos tecem vínculos que unem um passado muito antigo ao dia novo. A arrumadeira desperta os móveis adormecidos.” Gaston Bachelard, A Poética do espaço, 2008, p. 80

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Manual de sobrevivência é uma série de trabalhos que aqui apresento como desenvolvimento de um pensamento sustentado no conceito de natureza-morta e estudo da composição na tradição da pintura. O desdobramento que dela advém, busca refletir sobre o espaço que os objetos ocupam no mundo, tanto do ponto de vista da arquitetura e espacialidade (seu caráter material), quanto da subjetividade, memória e tempo (imaterial). Com este trabalho busco discutir como nos apropriamos das coisas do mundo, trazendo à tona seus vários sentidos, revelando possibilidades de manipulação e combinações. As relações entre os elementos que constituem os trabalhos se dão por meio de dois vieses: primeiramente a construção de um cenário afetivo1 entre os elementos; segundo, sua construção com objetos que não perten-

cem ao mesmo leque de utilidades ou ambientes. Como se pode observar na série Ao alcance da mão, a construção da composição é constituída por uma coleção de objetos: móveis, utensílios domésticos e ferramentas, somados à presença de comida, tais como frutas e legumes que estão embalados com filme de PVC. Para a instalação Pequenos cúmulos foi criada uma regra compositiva: todos os elementos devem estar necessariamente equilibrados uns sobre os outros. Desenvolve-se aqui, a construção e reconstrução do espaço até o momento em que o estudo da justaposição das partes se organiza e se estrutura por sua própria natureza material. Tal pesquisa-ação gerou a série de vídeos Habitações, para os quais convido pessoas a participarem do processo na medida em que oferecem espaços de suas residências, escolhem o ambiente e os elementos (de constituição orgânica ou não) que farão parte da composição do trabalho, o qual é registrado em vídeo. Consequentemente, os trabalhos constituem-se como testemunhos e registros residuais de ações geradas a partir da manipulação das coisas do mundo, visto que muitas vezes uma fração do ambiente doméstico é deslocada de sua situação original para adquirir um novo significado – poético. Com isso, ações simples se transformam em operações repetidas e circunstâncias são desenvolvidas a partir do manuseio


e envolvimento com o objeto em seus múltiplos sentidos. Sobressai a ideia de colecionar o que não se coleciona - a memória do acúmulo. É diante dessas considerações que se abrem as perguntas: Por que nos afeiçoamos às coisas? Por que guardamos objetos e os acumulamos? Quais sentidos os objetos nos reservam? Por que guardamos tanta memória em forma de objetos? Quais são as memórias que dispomos para compor nossos “manuais de sobrevivências”? 1 Cenário afetivo é tudo aquilo que compõe cada espaço; os objetos, utensílios, ferramentas, roupas, instrumentos, brinquedos, etc. São todos os elementos que carregam memória, dizem da afetividade, lembranças e histórias, sentidos dados a eles por uma pessoa.

Pequenos Cúmulos #2 (da série Ao alcance da mão), 2013 / mármore, ferro, alumínio, cerâmica, vidro, madeira, tecido, sisal, plástico, filme de PVC, frutas e legumes / aproximadamente 3,0m x 4,0m x 3,50m

Sheila Ortega (São Paulo, 1980) é graduada em Artes Plásticas (I.A. – UNESP) e Mestre em Artes Visuais (I.A. – UNESP). Desenvolve sua pesquisa poética a partir da escolha, organização e transformação de materiais presentes no cotidiano. Interessa-se pelo espaço, pela memória e pelo tempo. Participou de exposições individuais e coletivas em São Paulo e outros estados. Atualmente é docente dos cursos de Licenciatura em Educação Artística e Tecnólogos em Design Gráfico e Design de Interiores do Centro Universitário Metropolitano de São Paulo (2005-2014). Desenvolve um trabalho de integração de linguagens artísticas na Escola Municipal de Iniciação Artística / 53 EMIA - Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo (2007-2014). Vive e trabalha em São Paulo.


Steffania Paola O vídeo “Projeto progresso” foi construído tendo como base uma caixa com 79 slides e uma fita K7 de propaganda do projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Projeto os slides utilizando um projetor com defeito e gravo a projeção tendo o áudio da fita K7 como som ambiente. Tento criar um vídeo que sincronize a seqüência de slides e o áudio, no entanto, com o projetor defeituoso, em muitos momentos o áudio ultrapassa o vídeo e o que era para ser uma narrativa sincronizada, torna-se uma sequência confusa, cheia de defeitos. Meu interesse esta em comentar, usando elementos do passado, mas que estão ligados ao presente e ao futuro, as conseqüências anacrônicas e confusas que o ideal de progresso tem gerado através dos anos.

Steffania Paola é formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro. Já participou de exposições no Brasil, Finlândia, Itália, Nepal e Portugal e, em 2012 participou do programa de residência artística do Arteles Creative Center (Finlândia). Trabalha na articulação entre arte, história e política como forma de intervir criticamente no 54 presente. www.steffaniapaola.com


Projeto progresso, 2013 / vídeo-instalação / 10’ 11’’

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Stephanie Gervais EU FUI CRIADA means I grew up which sounds like it means ‘I was created’ but it literally means ‘I was nurtured’, like to grow up is to be nurtured. It’s so weird, but calm and perfect, it’s like I was deprived of this my entire life, like I grew up in the wrong place and because of this things were always a little off for me. “Vem me ajudar carregar essa televisão! É pequenininha!” Descemos com ela, passando por pontes e trechos de lama. Mãos dadas com o Yuri, ele me perguntou sobre meus sonhos. Falei que eu sempre quis morar no Brasil. Ele concordou, mas disse “Eu só sei que meu sonho não é morar o resto da minha vida dentro dessa favela.” -Como assim? -Tenho vários sonhos que não se batem. // Cheguei na casa do Yuri e o chamei. Ele abriu a porta com neném no colo. Liguei o gravador e perguntei a ele sobre o que ele tinha dito aquela vez na pizzaria, a história da infância quando ele subia para casa. Depois das 9h, o bandido não estava mais. A gente sempre sonhava e imaginava coisas: figuras monstruosas, fantasmas indefinidos... 56

//

Inês: Você fazia uma, fazia duas, fazia três. Fazia quatro e tinha algo no papo. Qual é? Vai continuar na vacilação? O roubo aqui na Rocinha era impossível. Stephanie: Isso é uma coisa que sempre conversamos porque a gente andava em todos os lugares da cidade. Mas quando chegávamos aqui, sentíamos um certo tipo de alívio. Ao chegar aqui, só lá embaixo, já tem esse… - Parece que podemos respirar. - É! Parece que podemos respirar… - É uma sensação tão viva, né? - Tão viva… - Tão clara, tão objetiva, tão gostosa, né? - Tão gostosa, nossa! A sensação de chegar no seu lar, no seu lugar…ah eu tô em casa, aqui ninguém vai mexer comigo, aqui ninguém… - Ninguém vai me roubar…estou segura. - Eu tô segura, não só fisicamente…Ninguém vai mexer comigo, ninguém vai me roubar, mas…eu tô…eu tô fazendo parte dessa união. - Entenda bem...nós, nós aqui, o que nos deixou mais entorpecidos, o que ninguém parou de pensar…eu já parei… sabe o que me deixou mais triste? - O que te deixou mais triste? - Acho que as pessoas não perceberam ainda uma das coisas que a gente nunca mais vai ter aqui, sabe o que é?


- O quê? O quê? Fala. - A paz. - A paz? - A paz tá dentro de cada um de nós… Nós não vamos mais ter sossego. S: O sossego? I: É. Não teremos mais sossego. O sossego de andar, o sossego de sair, deixar

O Líder invisível, 2011 / papel, seda, viníl, beads e acrílico / 
impressão jato de tinta sobre papel de algodão / 70 x 70 cm

nossas portas abertas, garantia. - É isso que é gostoso. - Nós não vamos mais ter isso. Eu acho que a Rocinha era uma nação. Eu acho que era, não, continua sendo…só que nós, de uma certa forma, temos agora que aprender a viver sem líder. Sem essa liderança que nos mantinha seguros.

Stephanie Gervais mora e trabalha entre Rio de Janeiro e outros cidades. She has always used models that are available, are from the place, are invested in the project, and are committed to performing.

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Thiago Araújo Ferramenta para enterrar o mar

“Por que foi feito esse objeto? Mas para o que serve, digo-me, aquilo que os artistas produzem? Paul Valéry

O mundo artificial de coisas e os artefatos humanos, concentram não só utilidades, mas formas de fazer, viver e interagir com o mundo. Os objetos são como mediadores da nossa relação com o mundo, tanto podem condicionar, interferir, quanto transgredir a forma como compreendermos não só os objetos, mas o próprio mundo. O mundo, tal como o habitamos, é uma invenção humana artificial que se difere do mundo natural. Dessa invenção, provinda do pensamento e trabalho do Homo Faber, é que existe a possibilidade de vida humana da forma que a entendemos. Mas será que a entendemos ou apenas estamos habituados? Como interrogar o habitual, já nos dizia Georges Perec ao nos provocar a ver o infra-ordinário. “Nós vivemos, é claro, respiramos, é claro, nós caminhamos, nós abrimos portas, descemos escadas, sentamos em uma mesa para comer, deitamos em uma cama para dormir. Como? Onde? Quando? Por quê?”1 Mais que um método, filosofia poética para pensar o mundo, o escritor nos provoca a invenção de uma antropologia pessoal ou no mínimo, a partir dela, reinventa novas formas de estarmos no mundo. Talvez seja essa a maior das tarefas da arte da literatura. Reinventar uma pá é criar novas formas de uso, e com elas um manual de interferência naquilo que entendemos como realidade. Seguindo o Manual de Instruções de Julio Cortázar, ele nos convida à “tarefa de amolecer diariamente o tijolo, na tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo”.2 Isso se faz, observando e questionando a vida, reaprendendo entre outras, nas Instruções de como subir uma escada ou nas

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Instruções de como dar corda ao relógio. É preciso reinventar a vida desafiando nossas certezas, nem que seja desaprendendo saberes, provocando novas experiências e com elas também uma consciência renovada do que chamamos de corpo. Foi o que o artista fez a partir da observação e experiência direta na paisagem da praia. Para o que serve um objeto impossível? Para reinventar o sentido. Uma interferência que está para além de sua utilidade ou impossibilidade funcional, coloca-se como uma crítica ao condicionamento humano. Ao criar Ferramenta para enterrar o mar, Thiago Araújo desenvolve uma ação artística paradoxal de enterrar o mar e nela invoca noções de limites e de infinitos, seja na resistência física do corpo ou na capacidade humana imaginária de compreender as extensões do mar, quanto na sua ligação entre rios e lagoas, na sua profundidade, volume e diversidade, como se existisse no interior do objeto uma geografia condensada. Ressalta nessa ação com o objeto na paisagem, o quanto este possui um devir humano, comprovando que todo o objeto possui em si uma capacidade, uma potência infinita, mas também o seu avesso, o esgotamento e o fracasso. O objeto reinventado passa a ser instrumento de análise e investigação do mundo em que, ao subverter a forma e a função, consegue explicar como é precária a estabilidade de tudo que acreditamos, como se a modificação de um simples objeto, tivesse a capacidade de fundar no mundo um espaço para as exceções, acasos ou improbabilidades. E foi o que aconteceu! O que se percebe é que nessa ligação acentuada entre arte e vida, criada pelo artista, a objetividade do mundo pôde ser questionada. Lá na paisagem, na mesma lagoa onde o artista executou a ação, aconteceu pouco tempo depois um súbito esvaziamento das águas através de um estranho fenômeno climático. Quem sabe a arte tenha mesmo a capacidade de criar antecipadamente um registro do futuro? 1 2

PEREC, Georges. L’infra-ordinaire. Paris: Éditions Seuil, 1989. CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Rio de Janeiro: BestBolso. 2013.

Helene Sacco

Thiago Araújo nasceu em São Paulo, SP, em 16 de fevereiro de 1985. Reside em Pelotas-RS. Sua prática artística não é pautada em uma préescolha de materiais e procedimentos específicos, essas decisões são feitas considerando diversos aspectos dentro de sua experiência criativa, levando em conta condições sociais e políticas do lugar do qual esteja imerso. Busca explorar várias mídias e linguagens artísticas para realizar seus trabalhos, que surgem de uma relação direta com o espaço, o lugar, como estrutura física e contextual.

Ferramenta para enterrar o mar, 2013 / técnica mista / dimensões variáveis

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Victor Saverio Alguns artistas, e estou pensando também como artista, parecem produzir com uma notável facilidade. Acredito que esta aparência está diretamente ligada a uma verdade pessoal, verdade esta, que é transferida para a produção através de uma despojada sinceridade. Deve-se somar a esta verdade pessoal à originalidade, pois elas implicam em conteúdos não apenas formais, mas em maneiras pessoais de agir, determinando interpretações da realidade, atitudes diante da vida e principalmente uma postura singular ética, estruturadas por reações e indagações próprias. A produção de Victor Saverio está tão imersa neste conceito, que sua produção adquire um caráter fantástico e independente. Isola-se parcialmente do mundo porque comunica-se com ele através de informações e elementos que garimpa do cotidiano, o que aumenta o incomodo de sua produção na medida em que reconhecemos tudo que nos é apresentado, completamente subvertido de suas funções naturais. O natural e o verdadeiro que nos é dado é sua forma particular de olhar o mundo que se transforma em real através da produção artística. Julio Ferreira Sekiguchi Rio de Janeiro, 15/01/2014

Brasileiro, reside e trabalha em Niterói - RJ Estudou pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ 60 e frequentou cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage – EAV.


Moto contínuo I, 2013 / 50 (cinquenta) unidades de sandálias de dedo / 225 x 225 cm

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Yana Tamayo Meu interesse pelo espaço urbano vem se configurando como o centro de onde partem as possibilidades de criação de outras imagens para uma paisagem da cidade. Nela, localizam-se os objetos, circunstâncias e relações importantes para a construção do trabalho e para um corpo de investigações artística. A cidade aqui é vista a partir da escala humana e em constante comparação a outras escalas e magnitudes. A escala da vida cotidiana é uma medida em comparação com todas as outras. Nos diálogos com a arquitetura emergem questões relacionadas à construção de projetos modernos e de seus fracassos. Na fricção direta estabelecida com os materiais excedentes originados da construção civil, tentei encontrar elementos para uma outra imaginação de formas e futuros possíveis a partir do que já existe. O universo de composição de imagens em dança terminou permeando algumas composições fotográficas, sobretudo, a noção tradicional de coreografia que alude à orientação da conduta dos corpos, ao ritmo e à presença da música como marcação temporal. Propus ensaios. “Ensaio para um balé das coisas (meteoritos)” e “Sem título (revoluções provisórias)”, 2014, seguem em torno dos processos de transformação da cidade propondo, de alguma maneira, uma tentativa de reordenação poética de suas ruínas.

Yana Tamayo (Brasília, 1978) é doutoranda na linha de pesquisa Poéticas Contemporâneas da Universidade de Brasília - UnB. Realizou o mestrado pela mesma universidade e linha de pesquisa (2009) e é especialista pela Universidad Complutense de Madrid (2006) com o Master de Teoría y Práctica en Artes Plásticas Contemporáneas. Graduou-se em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da UFMG (2003) em Belo Horizonte. Desde 2003, vem expondo regularmente um trabalho com maior ênfase nos campos da fotografia, do vídeo e do desenho. Desde 2012, integra o grupo Entrebloco, com o qual desenvolve uma pesquisa voltada às possibilidades de inserção do 62 corpo na paisagem da cidade através da fotografia e do vídeo. Vive e trabalha em Brasília.

Ensaio para um balé das coisas (meteoritos), 2013 / série fotográfica / 12 fotografias de 18 x 18 cm cada / 1 fotografia de 110 x 146 cm


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coordenação editorial

A Gentil Carioca equipe da galeria A Gentil Carioca diretores Ernesto Neto, Laura Lima, Márcio Botner, Cecilia Tanure produção Tatiana Bührnheim assistente de produção Gabi Joppert estagiária Vanessa Soares Holanda administração Fabiola Neves assistente de serviços gerais Inacio Ferreira da Silva manutenção e montagem Gerardo Silva Filho, Leandro Batista e Daniel Albuquerque projeto gráfico e diagramação

Liliane Kemper revisão

Thais Medeiros

Publicado pela A Gentil Carioca por ocasião da exposição Abre Alas 10, realizada entre 22/02 e 15/03/2014 na galeria A Gentil Carioca, com curadoria de Armando Mattos e Marta Mestre.


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Abre Alas 10 | Catálogo by producao-agentilcarioca.com - Issuu