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Revista Private Brokers 29

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PRIVATE BROKERS COELHO DA FONSECA

MARIA DA NAZARÉ DE ALMEIDA BRAGA METSAVAHT FIBRA CARIOCA

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EDITORIAL

LETRA E MÚSICA

Continua lindo – de todas as canções sobre o Rio, são essas duas palavras escolhidas por Gilberto Gil as que melhor resumem a cidade. E isso acontece porque certos ingredientes que não cabem na geografia – mesmo naquela geografia – fazem a sua parte. Sem menosprezo pelo verde das encostas e pelo azul do mar, aliás, o macio azul do mar, é preciso tirar o chapéu para a fibra carioca, sua capacidade de se jogar num projeto e acreditar no fi nal feliz contra todas as expectativas. Quem já assistiu a um desfi le de escola de samba, o megaespetáculo cujos milhares de participantes reúnem-se pela primeira vez no dia da estreia e arrasam, sabe do que estamos falando. Há projetos ambiciosos no horizonte e, agora, com os ventos a favor, essa confiança vai ser premiada. Foi assim na vida de Nazaré Metsavaht, personagem de nossa reportagem de capa. Nascida numa família de empreendedores, os Almeida Braga, ela deparou com um distúrbio de aprendizado que atinge em diferentes graus 10% da população, a dislexia. Poderia ter-se acomodado na desculpa da adversidade, mas preferiu exercer seu lado solar. Colocou o talento e o prazer na tarefa de construir ao lado do marido, Oskar Metsavaht, uma das maiores marcas da moda brasileira e transformou numa bandeira as experiências duras da vida escolar. A Apad, Associação de Pais e Amigos dos Disléxicos, que ela criou e preside, tornou-se uma fonte de informação e orientação. Fibra é um traço familiar aos brasileiros de todos os cantos. Wesley Duke Lee, falecido em setembro, em São Paulo, aos 78 anos, ampliou os limites da arte ao experimentar caminhos, afastar-se da segurança do já aprovado. Um mestre fascinante, oxigenou seus contemporâneos com novas ideias e saberes. Ele é o tema de um perfi l nesta edição (página 72). O marceneiro Antônio de Pádua Assunção, nascido em Ritápolis, no interior de Minas, também levou bem longe o alcance de seu ofício. Não só porque vive muito longe da cidade natal, em Descalvado, SP, a 240 quilômetros da capital paulista, mas, sobretudo, pelo virtuosismo com que o exerce. Ele é o mestre da Marcenaria da Fazenda, que construiu, entre outras peças, a cadeira do papa, concebida pela designer Claudia Moreira Salles por ocasião da visita de Bento XVI, em 2007 (reportagem à página 44). Que todos esses talentos, e a fibra, deem ainda mais frutos em 2011. Que a gente possa dizer para sempre, ao olhar o Rio: continua lindo. Boa leitura.

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SUMÁRIO

Diretores Alvaro Coelho da Fonseca e Paulo Roberto Coelho da Fonseca Editor Paulo Lima Diretor Editorial Fernando Luna Diretora de Criação Ciça Pinheiro Diretor de Núcleo Tato Coutinho Diretora de Redação Marta Góes Gerente de Marketing e Publicidade Cecília Mattos de Magalhães Barros Analista Sênior de Marketing e Publicidade Juliana Pereira Barretto Conselho Editorial Wilson Mello, Alessandra Pires e Carlos Sarli Diretora de Arte Paula Carvalho Editora Ana Paula Orlandi Produtora Executiva Renata Campos Projeto Gráfico Paula Carvalho Produção Gráfica Walmir Graciano, Monica Yamamoto, Erley Mainardi, José Antonio M. Rodriguez, Alex da Silva, Edson Torres, Marisa Sena, Maurício Correia e Rose Chileli Produtora Gráfica Jr. Mariana Pinheiro Tráfego Comercial Jessica Oseki Banco de Imagens Aldrin Ferraz (coordenação), Fernando Cambetas (pesquisador), Livia Lopes (indexadora), Daniel Andrade (assistente de pesquisa), Flavio Pereira e Juliana Almeida (estagiários) Coordenadora de Revisão Daniela Lima Revisão Ecila Cianni, Janaína Mello e Léa Tosold Trade e Logística Daniela Basile (diretora) danielab@trip.com.br, Thais Meneghello (analista de trade) t.meneghello@ trip.com.br, Marina Caetano (assistente de trade) marinacaetano@trip.com.br, Jéssica Panazzolo (gerente de logística) jessica@trip.com.br, Bruna Costa (assistente de assinatura) brunacosta@trip.com.br, Juliana Mantovanmi (assistente de circulação) juliana. mantovani@trip.com.br e Rodrigo Ferraz (estagiário de logística) Comercial Kiki Pupo (gerente comercial) kikipupo@trip.com.br, Catarina Carvalho catarina@ trip.com.br, Claudia Atala claudiaatala@trip.com. br, Fernanda Costa fernandacosta@trip.com.br, Gabriel Coelho gabriel.coelho@trip.com.br, Ivie Furlan ivie@trip.com.br (executivos de publicidade) e Fabio Pinheiro fabiop@trip.com.br (assistente comercial) Colaboraram nesta edição: Texto Carla Caffé, Carolina Overmeer, Maria Lúcia Rangel, Marília Scalzo e Thomas Garms Fotografia Carolina Overmeer, Douglas Garcia, Eduardo Delfim, Felipe Hellmeister, Jorge Bispo, Kitty Paranaguá, Nino Andrés e Tuca Reinés Ilustração Carla Caffé Arte Kiki Saraiva Maquiagem Omar Bergéa e William Ferrari Versão em inglês Allan Vidigal Revisão em inglês All Tasks Publicidade Private Brokers Cecília Mattos de Magalhães Barros, tel. (11) 3882-4184 ceciliamagalhaes@coelhodafonseca.com.br Todos os empreendimentos brasileiros desta revista, que estão em fase de construção ou acabamento, têm registro de incorporação, estando a documentação à disposição na sede da Coelho da Fonseca A revista Private Brokers Coelho da Fonseca é uma publicação trimestral da Trip Editora e Propaganda S.A., sob encomenda da Coelho da Fonseca. Endereço para correspondência: Caixa Postal 11485-5, CEP 05422-970. Pré-impressão Retrato Falado Impressão Ipsis

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EDU DELFIM

Capa: Maria da Nazaré de Almeida Braga Metsavaht Foto: Jorge Bispo

Detalhe da antiga tulha reformada pela equipe da Marcenaria da Fazenda

14 BAHIA POR CARLA CAFFÉ Uma visita à praia do Forte faz a artista compreender o verdadeiro significado da palavra Salvador 18 MEU CANTO O escritório de Antonia Leite Barbosa, autora do guia Agenda Carioca, que reúne os melhores endereços do Rio 20 SMALL IS BEAUTIFUL Despojamento minimalista, moderno brasileiro e profusão charmosa, em três apartamentos paulistanos 26 CAPA Maria da Nazaré Metsavaht, de solteira Almeida Braga, pertence a um clã de gente criativa e empreendedora. Superou desafios pessoais e construiu com o marido, Oskar Metsavaht, a Osklen, um sucesso da moda brasileira

numa fazenda paulista, mas depois vieram tantas outras que o marceneiro Antônio de Pádua Assunção abriu a Marcenaria da Fazenda 54 PERFIL Lu Pimenta, referência em moda masculina, traça um paralelo entre seu repertório pessoal e as transformações do figurino nas últimas décadas 62 VIAGEM Em companhia de amigos, entre eles o rolling stone Ron Woods, nossa colaboradora Carolina Overmeer subiu o rio Douro, no Norte de Portugal, hospedando-se em hotéis instalados em velhas quintas de vinho 72 MEMÓRIA O olhar retrospectivo de críticos e amigos desenha a estatura imponente de Wesley Duke Lee, falecido em setembro passado, no cenário das artes brasileiras

36 LIVROS Com uma fórmula feita de luxo e erotismo, entre outros ingredientes, Benedikt Taschen fez de sua editora um fenômeno do mercado editorial

80 TENDÊNCIA Ao perceber que o consumidor de luxo poderia apreciar o prazer de aprender, os fundadores da Casa do Saber demoliram preconceitos e revelaram um fervilhante setor

44 OFÍCIO A primeira encomenda era restaurar um armário

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COLABORADORES

BETI NIEMEYER

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3 MARÍLIA SCALZO 1 THOMAS GARMS Antes de lançar este ano a versão alemã da revista Trip, Thomas era vice-presidente de negócios da Axel Springer International, um dos maiores grupos de comunicação da Alemanha. A nosso pedido, escreveu a reportagem sobre a editora Taschen.

2 MARIA LUCIA RANGEL Maria Lucia enveredou pelas redações cariocas no fim da década de 1960 e participou da época de ouro do Caderno B, do Jornal do Brasil. É dela o perfil de Maria da Nazaré Metsavaht, capa deste número.

Marília dirigiu por mais de uma década o Curso Abril de Jornalismo. Hoje vive entre São Paulo e Tiradentes (MG) escrevendo livros, revistas e reportagens, a exemplo de “A gente quer cultura, diversão e arte”, publicada nesta edição.

4 DOUGLAS GARCIA Na década de 1990 Douglas trocou o curso de direito pela fotografia. Desde então faz editoriais para revistas como Casa Vogue e Tpm. Neste número, ele registrou os três apartamentos da seção Small is Beautiful.

5 JORGE BISPO David Lynch e Oscar Niemeyer são algumas das personalidades clicadas por este carioca. Nesta edição, acrescentou mais um nome à lista: Maria da Nazaré Metsavath. “Ela tem o espírito de Ipanema”, elogia.

6 EDUARDO DELFIM Edu costuma dizer que, se não fosse fotógrafo, gostaria de ser arquiteto e designer de móveis. Assim, não pensou duas vezes para aceitar nosso convite: registrar a Marcenaria da Fazenda, nos arredores de Descalvado, SP.

7 CAROLINA OVERMEER Carolina montou seus QGs em São Paulo e Londres, mas gosta de viver pelo mundo – nesta edição nos brinda com o relato sobre o passeio que fez pela região do rio Douro na companhia de amigos como o rolling stone Ron Wood.

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BAHIA POR CARLA CAFFÉ

MAURICIO SIMONETTI / TYBA

PRAIA DO FORTE

ÚTIL PAISAGEM A paisagem singela foi o que mais me encantou na praia do Forte, situada a cerca de 50 quilômetros de Salvador. A praça, de chão de areia batida, recebe uma brisa aconchegante que acalma e faz meditar sobre o cenário pontuado de traineiras, barcos e canoas de várias cores e nomes. Em uma dessas embarcações li a frase “Salva a dor, Salvador” e compreendi o significado do nome da capital da Bahia. Os baianos para aliviar a dor recorrem a todos os santos e usam as máscaras do candomblé para afastar os maus espíritos que trazem o infortúnio, o mau humor e o sofrimento.

Vila da praia do Forte: cenário pontuado por símbolos que ajudam a entender a Bahia

PARA RECORTAR E EMOLDURAR

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MEU CANTO

POR ANA PAULA ORLANDI FOTO KITTY PARANAGUÁ

O MAPA DA MINA

As escolhas de Antonia: tela grande e cadeira ergonômica

A JORNALISTA ANTONIA LEITE BARBOSA NO ESCRITÓRIO EM QUE TRANSFORMA EM PÁGINAS DO GUIA AGENDA CARIOCA AS INFORMAÇÕES QUE PESQUISA SOBRE OS CANTOS DESCOLADOS DO RIO O QUE ESTE CANTO TEM DE ESPECIAL? Aqui é o QG do Agenda

COMPÔS ESTE CANTO? Priorizei o conforto e a praticidade:

Carioca [guia que reúne mais de 800 endereços do Rio e cuja terceira edição acaba de chegar às livrarias]. Faço boa parte da apuração na rua com minha Scooter, mas também recebo dicas de amigos e pesquiso na internet. Passo 12 horas por dia neste home-office. Meu marido reclama que prefiro o escritório a ele [risos]. QUAL É O ITEM MAIS VALIOSO PARA VOCÊ? Uma Iemanjá bordada que minha tia Tatiana Mindlin me deu de casamento. Fiquei emocionada ao saber que foi feita à mão. É um gesto de carinho que vou guardar para sempre. COMO

tenho uma cadeira Herman Miller e uma tela ampla de computador para poder trabalhar em janelas simultâneas. As prateleiras são Carrapixxo, sistema de módulos criado pelo designer Guto Índio da Costa. Alguns itens têm história, como a maçã de prata que foi de minha avó e que hoje uso como porta-clipe. Tenho recebido fotos dos bebês de várias amigas... ISSO A INSPIRA? Muito [risos]. Não apenas quero engravidar, como pretendo fazer uma versão do Agenda Carioca para crianças em breve.

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E NTRE O MÍNIMO E O MÁXIMO , TRÊS APARTAMENTOS PAULISTANOS EXPRESSAM O ESTILO DE VIDA MUITO PARTICULAR DE SEUS MORADORES POR ANA PAULA ORLANDI FOTOS DOUGLAS GARCIA

AQUARELA BRASILEIRA | 120 m2 ma gama sortida de matizes colore o dúplex do consultor pernambucano Carlos Rodolfo Barbosa, que há dois anos vive em um prédio no centro de São Paulo. “Sempre fui fascinado por este edifício, desenhado por Oscar Niemeyer na década de 1950”, conta. “Quando soube que havia um apartamento à venda, bati o martelo na hora, apesar do estado deplorável do imóvel.” Com ajuda de um amigo, o designer Adonis Galvão, comandou a reforma, que durou um ano e meio. Entre outras mudanças, anexou a área de serviço à cozinha, abrindo espaço para a chegada da mesa de jantar. A interferência deixou à mostra o elemento vazado da fachada, ícone da arquitetura modernista e responsável pela luz natural no ambiente. A dupla garimpou em antiquários e feiras de antiguidades aqui e no Rio objetos e móveis que reforçam a atmosfera vintage – o aparador de jacarandá que sustenta a coleção de garrafas e a mesa Tavolo, outra criação de Niemeyer. O ponto alto da decoração, contudo, são as tapeçarias – a maioria delas de Kennedy Bahia (1929-2005), artista chileno radicado no Brasil, conhecido por imagens da fauna e da flora brasileiras. “As cores levantam meu astral”, conclui.

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Carlos Rodolfo trabalha à mesa Tavolo, diante do skyline paulistano. Ao lado, parede com elemento vazado, ícone modernista valorizado pela reforma

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À esquerda, Carlos Rodolfo entre as tapeçarias e as peças vintage que decoram seu apartamento no centro de São Paulo. Acima, gravuras de artistas concretistas como Hércules Barsotti e Luis Sacilotto

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SMALL IS BEAUTIFUL

MÍNIMO NECESSÁRIO | 100 m2 óveis de cores sóbrias pinçados a dedo. Paredes sem adornos ou obras de arte. É assim, levando ao pé da letra a máxima “menos é mais”, que este dúplex revela a personalidade do advogado gaúcho Eduardo Carlezzo. “Sou muito prático e objetivo”, diz. “Talvez por isso me identifique tanto com o minimalismo.” Em nome desse apreço, convocou os amigos arquitetos Rodrigo Marcondes Ferraz, Fernando Forte e Lourenço Gimenes, do escritório Forte, Gimenes & Marcondes Ferraz, para tocarem a reforma no apartamento que comprou nos Jardins há cerca de um ano. “Temos gostos parecidos”, justifica Eduardo. Com carta branca, o trio eliminou um dos quartos para aumentar a sala, agora integrada à cozinha. As paredes do bloco social receberam revestimentos de pedra, concreto, couro ou madeira. “Isso evitou que o ambiente ficasse monótono”, explica Rodrigo. Monotonia, aliás, passa longe do apartamento de Eduardo, que costuma atacar de DJ nas festas que oferece com frequência para o batalhão de amigos. “A pista de dança, que fica na churrasqueira, ferve”, conta. E quando alguém lhe pergunta se a decoração em branco e preto não trai a cor do time do coração, vermelho, o morador, especializado em direito esportivo, afirma: “Torço pelo Internacional com muito orgulho”.

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No dúplex de Eduardo, apenas uma bancada divide sala e cozinha. O armário acomoda os apetrechos de DJ do morador

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A pedido de Eduardo (no alto, à direita), a decoração do living (à esquerda) é pautada por tons neutros. Abaixo, ele exercita seus dotes de DJ na churrasqueira do apartamento

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SMALL IS BEAUTIFUL

A colagem de João Migotto (acima) inspirou as cores das cadeiras da mesa de jantar e da cabeceira da cama (ao fundo). Abaixo, Cristina com a cadela Frida

TUDO À VISTA | 80 m2

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inha alma é barroca”, diz a arquiteta Cristina Bozian ao observar a profusão de objetos que reúne no apartamento onde mora há cerca de um ano, nos Jardins. A estante abriga presentes de amigos, fotos de família, guias de viagem e livros de astrologia; a mesa de jantar, em torno da qual recebe amigos para sessões de desenho e bate-papo sobre arquitetura, é coalhada de livros e revistas. Está nessa mistura o charme do lugar. Graças à reforma conduzida por ela mesma, o espaço exibe essa variedade de elementos sem perder a leveza. “Escolhi um apartamento com planta quadrada para fazer tudo integrado sem muita mão de obra”, explica Cristina. Como vive sozinha, pôde juntar living, mesa de jantar e quarto. “Meu dia a dia é corrido, preciso ter tudo à vista e à mão”, avisa. É o MÚSICA BOM HUMOR E CRIATIVIDADE CONFEREM caso dos colares pendurados no banheiro – que abocanhou a CHARME A ESTES TRÊS APARTAMENTOS antiga área de serviço. Ali, na lateral do espelho, vê-se uma foto da moradora aos 7 anos. “Toda manhã olho para o retrato e prometo fazer essa menina feliz”, confidencia. POR MARIANA HADDAD FOTOS FELIPE PAGANI

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No alto, livros e objetos queridos povoam a estante. Abaixo, à esquerda, colares e foto de infância expostos no banheiro. À direita, o assento das duas poltronas foi revestido com xales de Istambul

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CAPA

FORÇA DISCRETA SOB A APARÊNCIA SUAVE DE MARIA DA NAZARÉ DE ALMEIDA BRAGA METSAVAHT, CONVIVEM UMA EMPRESÁRIA QUE CONSTRUIU COM O MARIDO UMA DAS MARCAS MAIS IMPORTANTES DA MODA BRASILEIRA, UMA MULHER QUE VENCEU A BARREIRA DA DISLEXIA E UMA LEGÍTIMA ARISTOCRATA CARIOCA

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POR MARIA LUCIA RANGEL FOTOS JORGE BISPO

No Arpoador, em frente de casa: o dia comeรงa com um mergulho no mar ou com uma caminhada na areia

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CAPA

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omo sua família de origem, um clã de gente criativa e empreendedora, Maria da Nazaré de Almeida Braga Metsavaht é totalmente low profile. Aparece pouco, de preferência em nome de alguma causa, mas ela é a alma feminina por trás da Osklen, uma das marcas mais bem-sucedidas da moda brasileira, mistura sofisticada de urbano e campestre, global e local, orgânico e tecnológico. Nazaré é casada há 19 anos com Oskar Metsavaht, criador da grife. Juntos, construíram o que é hoje uma grande empresa, com 29 lojas em todo o Brasil e dez no exterior. É Oskar quem dá entrevistas e bate o martelo para todas as decisões. O trabalho de Nazaré é mais discreto, mas não menos importante: cuida da ambientação das lojas, numa empresa que pretende, mais do que vender roupas, transmitir uma filosofia de vida ligada à preservação da natureza e ao desenvolvimento sustentável. Além disso, cuida dos filhos, Caetana, 17 anos, Tomás, 14, e Felipe, 12, e se dedica aos projetos do marido. “Trabalho full time, porque ele é uma fábrica de ideias. É impossível viabilizar todas”, afirma. Em 1989, quando abriu as portas, a Osklen resumia-se a uma loja no balneário turístico de Búzios que, estranhamente, além de camisetas, mochilas e bermudas, vendia casacos de neve. O dono, Oskar Metsavaht, médico especializado em medicina esportiva, desenvolvera uma linha de roupas de frio porque ia subir o monte Aconcágua, no Chile. Foi o primeiro alpinista brasileiro a escalar o Monte Branco,

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Na festa de lançamento de uma campanha contra o câncer de mama, em 2008, no hotel Fasano do Rio; com o filho Felipe; com Caetana e Tomás, em Búzios, em 2006; e no Amazonas, em 2004

na França, com Bruno Menescal. Decidira vender seus agasalhos em Búzios porque era por lá que circulavam os cariocas que viajavam para o exterior. Em fevereiro de 1990, na rua das Pedras, a mais badalada de Búzios, estreita passarela de pouco mais de 600 metros, onde, até hoje, os jovens se encontram, ele cruzou com a jovem Nazaré. Dez meses depois estavam casados. NOIVA OCUPADA Ela brinca que foi “convidada” para o próprio casamento. A mais nova das quatro filhas de Kiki e João Carlos de Almeida Braga e a única a se casar na igreja – a tradicional Nossa Senhora de Bonsucesso, no centro do Rio –, Nazaré já mergulhara de corpo e alma na abertura da segunda loja Osklen, dessa vez no Rio, no Fashion Mall. Entregou os preparativos nas mãos da mãe, craque na organização de festas. “Outro dia voltamos à igreja, Oskar e eu. É linda!”, lembra, quase 20 anos depois, em seu apartamento no Arpoador. O começo teve trabalho duro e grandes decisões. O primeiro desfile da Osklen foi no Copacabana Palace. Reuniu socialites,

artistas, surfistas e atletas e afirmou, pela primeira vez, seu perfil de aventura e sofisticação. Hoje ele é amplamente reconhecido. Regina Martelli, editora de moda da Central Globo de Jornalismo, observa: “A Osklen é uma marca importante porque tem conceito próprio, não fica copiando as tendências internacionais.” Segundo Regina, contribuem também para seu prestígio, hoje, o volume e o alcance da produção. “É uma marca estabelecida, de peso, que chegou ao mercado internacional.” A atleta e apresentadora Cynthia Howlett, que conhece Nazaré há 20 anos, desde que a encontrou em Aspen, quando a Osklen a patrocinava em competições de snowboard, explica: “O Oskar é leonino, é quem aparece, mas deve muito a Nazaré, primeira-dama discreta; ela é a própria Mulher Maravilha”.

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FOTOS ARQUIVO PESSOAL

Com o crescimento da empresa, Nazaré optou por trabalhar no que mais gosta: arquitetura e ambientação. Montou uma equipe com dois arquitetos e dois estagiários e durante alguns anos foi a responsável por esse escritório. Em 2007, passou o comando para uma amiga, mas nem por isso passou a se envolver menos. O pai de Nazaré, João Carlos, é um grande empreendedor imobiliário. Seu tio Antonio Carlos, o Braguinha, é um nome lendário no mundo dos negócios, por ter se tornado sócio majoritário do Bradesco, ao fundir ao banco sua empresa, a Atlântica Seguros. Uma das primas de Nazaré, Kati Almeida Braga, comanda o Banco Icatu e criou a gravadora Biscoito Fino, que tem no cast alguns dos maiores artistas da música brasileira. Criada nesse meio, seria apenas natural que Nazaré fosse, também, vitoriosa, a não ser por uma dificuldade

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que tornou seus êxitos tremendamente difíceis, e, por isso mesmo, admiráveis. Nazaré tem dislexia – distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração –, diagnosticada pela mãe quando ela era pequena.

“NAZARÉ É PISCIANA. MESMO QUE PASSE POR DIFICULDADES FAZ TUDO PARA TRANSMITIR AOS FILHOS E AO CASAMENTO OS VALORES QUE TROUXE DA FAMÍLIA”

A MÃE FEZ O DIAGNÓSTICO As derrotas escolares a tornaram uma criança desafiadora. Não conseguia entender as matérias nem anotar as aulas. “Quando eu não conseguia terminar uma prova, rasgava tudo na cara da professora; chorava trancada no quarto e quebrava tudo, era um horror”, descreve. “Eu era a burra, a preguiçosa, a que não aprendia. Foi muito difícil.” Passou por diversos colégios, desde o tradicional Sion, de freiras, até encontrar, finalmente, uma escola montessoriana em que os professores eram profissio-

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Em casa, na sala que está acabando de decorar, com os palpites de Oskar: “Ele se mete em tudo” 30

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EM SUA FAMÍLIA, ENTRE TANTOS EMPREENDEDORES, ELA SERIA APENAS MAIS UMA PESSOA DE SUCESSO, NÃO FOSSE PELA DISLEXIA, QUE TORNOU SUAS CONQUISTAS MAIS DIFÍCEIS E AINDA MAIS ADMIRÁVEIS

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nais formados não só em pedagogia, mas também em psicologia. “Mas foi minha mãe quem desvendou o problema, ao ler revistas estrangeiras e perceber que eu me encaixava na descrição da dislexia”, reconhece Nazaré. Aos 18 anos, não falava inglês, e isso a incomodava terrivelmente. Interrompeu o ensino médio e foi passar um ano na Inglaterra. Na volta, terminou o ensino médio e parou de estudar. Por causa da dislexia, não pôde cursar a faculdade de arquitetura, como sonhava. Hoje Nazaré é vice-presidente da Associação de Pais e Amigos de Disléxicos (Apad), que ajudou a fundar. A associação dá assistência sobre educação de crianças disléxicas. Estima-se que 10% da população tenha esse distúrbio, e a Apad trabalha junto ao MEC para que seja exigido um diagnóstico nas escolas. Até hoje, a leitura exige de Nazaré um esforço que ela nem sempre está disposta a despender. Pela manhã, enquanto Oskar lê os jornais, ela assiste ao noticiário na televisão. Ao se exercitar na esteira, passeia pelos canais CNN e Globonews. Só lê um livro se estiver muito interessada no assunto. “Aprendi a ler com fotonovelas: as figuras ajudavam. Hoje leio romances, aqueles com capas bem cafonas. Ainda assim, me sinto vitoriosa”, revela. A LEVEZA DE CAETANA Nazaré mostra no BlackBerry a foto da filha, linda. Caetana também é disléxica. “Tenho um superorgulho dela”, afirma, ao falar da atitude positiva da filha. “Quando lhe digo que precisa ler, ela responde que prefere esperar o livro virar filme”, conta. “Ela não passou por frustrações como eu. Nunca teve cobranças”, garante. Nazaré se surpreende com o pudor das mães de contar aos filhos que têm dislexia. “Se não

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souberem, eles correm o risco de pensar que são burros”, alerta. “Dislexia não tem cura, é preciso aprender a lidar com ela.” Para compensar a síndrome, Nazaré se dedicou desde pequena ao esporte. É campeã brasileira de voo livre, campeã carioca de esqui aquático e campeã brasileira de snowboard, este na categoria master. Aprendeu a voar aos 19 anos, na Inglaterra. “Minha irmã tinha feito um voo duplo e resolvi experimentar. No mesmo dia, voei sete vezes.” Nessa época, ela trabalhava no escritório de administração do pai – mas só quando a meteorologia avisava que ia chover. “Eu precisava provar que conseguiria ser boa em alguma coisa”, justifica. Sempre se deu bem com o mar. Nele se sobressai. Começou cedo a mergulhar – no Rio e em Búzios, onde o pai tem uma casa. Este ano foi com a família para Bali. Todos adoram surfar, influência do pai de Oskar, o doutor Renato. Carioca filho de estonianos, formado em medicina em Porto Alegre,

ele foi ao Rio participar de um congresso médico, em 1965, e viu pela primeira vez os surfistas no Arpoador. Perguntou onde mandavam fazer aquelas pranchas e encomendou a sua. Virou curiosidade entre os banhistas gaúchos. ALMA VERDE Nazaré pratica snowboard em Aspen, todos os anos. Tomás e Felipe acabaram de se sagrar campeões brasileiros nas categorias juvenil e infantojuvenil, respectivamente. Mas o refúgio predileto dela fica numa casa, pequena, com apenas dois quartos e fogão a lenha, em Macaé de Cima, localidade nas encostas da serra do Mar, área de proteção ambiental: “É o paraíso”, diz. Vão raramente – são três horas e meia de carro e é preciso um fim de semana prolongado para compensar a viagem. Além disso, os meninos querem fazer cada um o seu programa. Nazaré suspira: “Lá, deitada na minha cama, vejo uma cachoeira a 50 metros”. O sobrenome Metsavaht significa guarda-florestal, em estoniano. Não por acaso Oskar e Nazaré se envolvem decididamente com as questões ambientais. Criaram PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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FOTOS ARQUIVO PESSOAL

NAZARÉ É CAMPEÃ DE VOO LIVRE, DE ESQUI AQUÁTICO E DE SNOWBOARD. “EU PRECISAVA PROVAR QUE ERA BOA EM ALGUMA COISA”

Na página ao lado, com Oskar e a amiga Carolina Ferraz no réveillon de 2005, em Búzios; na foto maior, em Aspen, com Felipe, no mesmo ano. Nas fotos pequenas, com Felipe em Aspen; com a família toda em Jericoacoara, 2007; em Tallinn, na Estônia; e, acima, com a mãe, Kiki, e a filha, Caetana, numa loja Osklen

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CAPA

uma instituição sem fins lucrativos para promover o desenvolvimento sustentável, e investem em projetos como o e-fabrics, que identifica tecidos e materiais desenvolvidos a partir de critérios ecológicos. Em parceria com a ONG Esplar, apoiam 147 famílias que plantam algodão orgânico no Ceará. Recentemente, a Osklen associou-se também a uma empresa que produz materiais de fécula de milho, a Clean Living. Outro trabalho ao qual se dedica com afinco é o de mulher do cônsul honorário da Estônia no Rio de Janeiro, cargo que Oskar, neto de estonianos, ocupa há algum tempo, nomeado pelo ministro das Relações Exteriores daquele país. “Tenho paixão pela Estônia”, afirma. “Apesar das guerras e de todas as ocupações por que passou, Tallinn, a capital, é especial. Pequena, intacta, medieval, linda!” Mas quando Oskar fala em comprar um terreno na rua Metsavaht, em Tallinn, ela desconversa. “Espero ser só brincadeira”, diz. A agenda do casal mal dá conta de Caxias do Sul, onde Oskar nasceu e onde moram hoje seus pais. “E ainda temos as visitas às lojas na Itália, no Japão e nos Estados Unidos.” TOALHA NA JANELA No Rio, os jantares com os filhos são sagrados: “Aqui não rola comer diante da TV. Aliás, a televisão é controlada”. Durante a semana eles saem para jantar com clientes ou com amigos íntimos, como Lenny Niemeyer e Carolina Ferraz. Nazaré e Lenny conheceram-se em 1998, esquiando na

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ELA TENTA SE PROTEGER DA CULTURA DA CELEBRIDADE, SOBRETUDO NOS DIAS EM QUE CUIDA DO SITTING DOS DESFILES DA OSKLEN, E TODO MUNDO QUER SENTAR NA PRIMEIRA FILA

lagoa Rodrigo de Freitas. Carolina, com a filha, Valentina, convive com os Metsavaht em Búzios e nas viagens a Aspen. “Nazaré é uma pessoa com quem se pode contar”, define a atriz. A banqueteira Zazá Piereck, dona do Zazá Bistrô, no Rio, que conhece Nazaré há dois anos, adora sua simplicidade. “Para chamar os meninos na praia para o almoço, ela coloca uma toalha na janela do apartamento”, conta. PISCIANA RESISTENTE Não falta energia a Nazaré. “Sempre gostei da forma como ela organiza o dia”, comenta Oskar. “Ela acorda cedo, feliz com a vida, faz mil coisas e à noite está linda para me acompanhar a um jantar ou evento social”, elogia. Num dia típico, Nazaré corre na praia ou nada no mar em frente de casa, no Arpoador, liga para as três irmãs, toma o café com o marido e os filhos, administra a escola e as tarefas deles, almoça com alguma amiga. À tarde, coordena a arquitetura e a decoração da Osklen, analisa projetos da empresa e investimentos da família. “Ela me surpreende pelos valores arraigados”, diz a amiga Cynthia Howlett. “Ela é pisciana, e mesmo que passe por dificuldades não abre mão de passar seus valores familiares para o casamento e os filhos.” Nazaré está acabando de decorar o amplo apartamento para onde se mudaram há um ano e meio, no Arpoador. Reclama que, ao contrário da maioria

das mulheres, não tem autonomia para a decoração: “Oskar gosta de palpitar em absolutamente tudo em relação à casa”. Muito claro, com móveis modernos e algumas obras de arte, a casa convida à descontração: Nazaré acha graça quando o filho Tomás cruza a sala de skate. Ela também é simples para se vestir. Maquiagem e salto alto só para grandes festas. No dia a dia se veste com elegância casual – quando não usa Osklen, pode ser vista em modelos de Lenny Niemeyer ou NK Store. “Nazaré é uma mulher discreta, que brilha quando se percebe a sua elegância”, elogia Oskar. Por força da história profissional, em matéria de grife ela gosta mesmo é de ver a Osklen no guarda-roupa alheio. Sua coleção de histórias faria inveja a uma mãe coruja. Conta que a atriz Sarah Jessica Parker pediu as roupas da Osklen, ao fim de uma campanha para o shopping Cidade Jardim; que Whoopi Goldberg se encantou com uma bolsa de couro de salmão, na loja de Nova York; que Marc Jacobs perguntou se uma saia na vitrine era masculina e falou: “That’s cool!”... Em dia de desfile da Osklen, Nazaré tenta se proteger da chamada “cultura da celebridade”. Certos convidados dizem que só vão se o lugar for na primeira fila. “Que ego! Quantos assentos elas acham que existem na primeira fila? Desfile é feito para jornalistas e compradores, não é festa.” Ela lembra que já teve que tirar gente que teimava em se dizer amiga de Oskar. “Ora, estou casada com ele há anos e não conheço a pessoa!” Ossos do ofício: na vida pessoal ela é uma anfitriã generosa e acolhedora. Oskar resume o savoir-faire de Nazaré com um cumprimento definitivo: “Ela possui a rara e legítima aristocracia carioca”. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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MAQUIAGEM: WILLIAM FERRARI

Ela 茅 simples para se vestir. Maquiagem e salto alto s贸 para grandes festas

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

LIVROS

IMPÉRIO DE PAPEL LIVROS DE ARTE, ALGUNS A PREÇOS POPULARES, OUTROS CARÍSSIMOS, E EDIÇÕES ERÓTICAS COM AURA ARTÍSTICA FIZERAM DA TASCHEN UMA DAS EDITORAS MAIS BEMSUCEDIDAS DO MUNDO. SEU FUNDADOR, BENEDIKT TASCHEN, RELATA ESSA TRAJETÓRIA

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POR THOMAS GARMS, DE COLテ年IA

Na loja de Londres a marca da rede: visual cuidado e status de flagship store; na pテ。gina ao lado, Benedikt em seu primeiro endereテァo, onde vendia quadrinhos

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LIVROS

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REI DAS MESINHAS O tema – arte – sem dúvida é dos seus preferidos. Por ele, o jornal inglês The Times certa vez classificou Benedikt como “o rei dos coffee table books”, sugerindo que seus livros, sempre impecavelmente editados e impressos em tiragens que podem bater nos 100 mil exemplares, só servem para decorar mesinhas de centro, e não para serem lidos. O editor dá de ombros para opiniões assim. O que conta para ele é que os livros sejam atraentes o bastante para serem comprados. E que tenham o peso de uma obra de arte, para se justificar, diante da necessidade crescente de economizar papel. Nascido em 1961, em Colônia, e morador da Mulholland Drive, Los An38

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uxo, volúpia e sexo são os três pilares sobre os quais o editor alemão Benedikt Taschen sustenta há 30 anos o mais bem-sucedido império de livros de arte do mundo, com vendas de 15 milhões de exemplares por ano. Pelas suas contas, é como se a cada dois segundos alguém em alguma latitude do planeta comprasse um livro com seu sobrenome. “Ao redor do mundo, existem umas cem editoras que produzem livros de arte. Dessas, talvez cinco sejam internacionalmente relevantes”, contabiliza. “Vendemos mais livros do que todas elas juntas.” Bronzeado e em dia com a moda, Benedikt recebe os visitantes em seu escritório, no terceiro andar do prédio da Taschen, um dos raros hôtels particuliers do século XIX em Colônia, situado na Hohenzollering, uma rua feiosa, repleta de construções de concreto, entre elas um sex shop e um nightclub. O interior da editora, cuidadosamente iluminado, é decorado com uma impressionante coleção de artistas contemporâneos como os norte-americanos Mike Kelley e Jeff Koons e o alemão Martin Kippenberger, todos amigos de longa data do anfitrião.

geles, desde 2000, quando comprou a famosa Chemosphere House – projeto futurista de John Lautner imortalizado em filmes como Dublê de Corpo (1984), de Brian de Palma, e As Panteras (2000), Benedikt remete seu sucesso ao uso equilibrado de duas ferramentas básicas do bom empresário: criatividade e planejamento. “Como posso investir melhor meus poucos recursos de energia e dinheiro? Como obter o máximo com o mínimo de despesa?”, ensina o mantra. “Me alegra pensar assim.” Indagações que, ao que tudo indica, começaram a ser formuladas quando Benedikt, quinto filho de uma família de médicos, tinha 9 anos e ocupava seu tempo

desenhando vampiros. Um dia, pôs sua coleção de desenhos debaixo do braço e arranjou um canto no chão da Art Cologne, a mais importante feira de arte alemã. Em dois dias, embolsou 800 marcos (moeda alemã anterior ao euro, soma equivalente hoje a mais ou menos R$ 2.500). Aos 18, encorajado pelos pais, Benedikt arriscou-se em abrir, num cubículo de pouco mais de 20 metros quadrados, uma loja de HQs, a Taschen Comics. O negócio levaria quatro anos para emplacar, e isso só aconteceu quando o futuro campeão de livros de arte comprou da editora norteamericana Nal Abrams 40 mil exemplares encalhados de um volume ilustrado sobre o surrealista belga René Magritte. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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Na página ao lado, primeiras sedes, em Colônia; acima (em sentido horário), as lojas de Nova York; Paris; Bruxelas; Hamburgo; e Copenhague

AS EDIÇÕES MAIS EXCLUSIVAS SÃO DISPUTADAS COMO PEÇAS DE COLECIONADOR, MUITAS DELAS POR LEITORES BRASILEIROS

RETRATO: NINO ANDRÉS

SEXO E OUSADIA

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“Meu título favorito da Taschen é Sumo, uma compilação de trabalhos do fotógrafo alemão Helmut Newton, que ganhei de um amigo fotógrafo, o Miro. A primeira edição saiu em 1999 com tiragem especial de 10 mil exemplares e dimensões gigantescas. Para se ter ideia, quem comprava o livro levava de brinde um suporte de alumínio para acomodar o catatau de cerca de 30 quilos. Na época, um dos exemplares foi autografado por mais de cem celebridades e vendido em um leilão em Berlim pela bagatela de US$ 430 mil. A edição que tenho é aquela lançada em 2009, cinco anos após a morte de Newton, conhecido pelas imagens que misturavam sexo e ousadia. É uma versão compacta, mas tão marcante quanto a edição original.” Tânia Otranto, relações-públicas

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LIVROS

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BENEDIKT COMPROU UMA EDIÇÃO ENCALHADA E REVENDEU CADA LIVRO POR CINCO VEZES MAIS

LUGARES AO SOL

RETRATO: NINO ANDRÉS

O TOQUE DE ANGELIKA Juntos, eles começaram a emoldurar com aura artística temas que iam da Bíblia luterana ao erotismo. Este último logo se mostrou uma mina cobiçada. A Taschen tornou-se o principal endereço para os nus artísticos de fotógrafos como Roy Stuart, Terry Richardson e David LaChapelle, para ficar nessas três estrelas norte-americanas. Ainda hoje, Benedikt situa os quadros do fetichista de pés Elmer Batters (1919-1997) no mesmo nível das melhores obras de Picasso. Angelika engordaria o portfólio da Taschen criando coleções de design, arquitetura, lifestyle e livros de viagem. [Veja na página 45.] Nos anos 1990, enquanto outras concorrentes ocupavam-se da dita haute culture, a Taschen, cada vez mais popular, abria filiais em Berlim, Bruxelas, Beverly Hills, Copenhague, Hollywood, Hamburgo, Londres, Nova York, Miami e Paris. Algumas dessas lojas, decoradas por top designers como o francês Philippe Starck, têm porte de genuínas flagship stores. A certa altura, a popularidade de seus livros crescera tanto que o incansável Benedikt resolveu ampliar sua equação: edições de luxo para colecionadores. “Se os livros forem expostos nas lojas como sacos de batatas, ninguém vai querer comprar”, diz. Assim, em 2000, na contramão de tudo o que havia construído,

FOTOS: TUCA REINÉS

Valor de compra por unidade: US$ 1. Valor de revenda: US$ 5, dez vezes menos do que o preço original. A velocidade das vendas apontou-lhe o rumo. Benedikt logo tratou de preparar uma série de lançamentos baseados em grandes artistas (Picasso foi o primeiro), tudo muito bem ilustrado e a preços populares. O salto definitivo para o mercado de massa seria a chegada de Angelika à sua vida, pouco depois. Mãe solteira de uma filha e à procura de emprego, ela se candidatou a uma vaga na editora. “Sou recém-formada, mas nem tão inexperiente como pareço”, assegurou. “Sei que posso ser útil a vocês.” E se tornou não só ajudante como mulher de Benedikt.

“Além da impressão primorosa e do projeto gráfico cuidadoso, os livros da Taschen me agradam porque tratam de temas do meu interesse: fotografia, arte, moda, arquitetura e decoração. Tenho vários deles em minhas prateleiras, entre eles Seaside Interiors, que reúne casas de praia fantásticas em lugares como Islândia, México e Dinamarca. O Brasil é representado por um projeto de Isay Weinfeld. E não posso deixar de incluir na lista de preferidos os livros do maravilhoso fotógrafo Mario Testino, como Let me in, que flagra a intimidade de celebridades de forma despojada.” Carola Diniz, empresária PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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A PESO DE OURO LIVROS DE LUXO QUE FORAM MARCOS NA HISTÓRIA DA EDITORA E DO MERCADO EDITORIAL

Os livros de viagem e de estilo de vida sugeridos por Angelika engordaram o portfólio da grife.

Um palacete do século XIX, recheado de obras de arte, abriga os escritórios da editora A história de Mohammed Ali, lançada em 2003, custava R$ 25 mil. Uma escultura de Jeff Koons acompanhava os primeiros mil exemplares.

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“Acho que hoje, com a necessidade cada vez maior de economizar papel, um livro precisa fazer muito sentido, ser quase uma obra de arte. E a Taschen cumpre esse papel de forma brilhante. Sou tão fã que tenho, em casa e no trabalho, praticamente todos os títulos lançados pela editora. Inclusive as edições de tiragem limitada, que se valorizam muito com o passar do tempo, a exemplo de Gold, do fotógrafo norte-americano Peter Beard, que comprei por US$ 1,5 mil e hoje vale mais que o dobro.” Sergio Gordilho, publicitário

“ Reproduções do projeto Jewlery on Jeanne-Claude’s hand, um estudo de 1965, mereceram uma edição de apenas cem exemplares, a R$ 85 mil cada um.

FOTOS DOS LIVROS: DIVULGAÇÃO

RETRATO: NINO ANDRÉS

RESPEITO AO PAPEL

Sumo, com as fotos de Helmut Newton, é um volume de 20 quilos. Das 10 mil cópias, 2 mil foram autografadas por Newton.

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FOTO: THE NEW YORK TIMES / LATINSTOCK

resolveu bancar o maior e mais caro livro do século XX. Com 70 centímetros de comprimento por 50 de largura, Sumo, nada menos do que 30 quilos de fotos de seu conterrâneo Helmut Newton (19202004), teve tiragem de 10 mil exemplares a R$ 30 mil cada um, todos devidamente assinados pelo autor e entregues com um cortador de páginas de Philippe Starck.

Com Angelika, em 2007, na Chemosphere House, em Mulholland Drive, Los Angeles, que apareceu nos filmes Dublê de Corpo e As Panteras. Ele vive lá seis meses por ano

“Coleccionar Arte Contemporáneo, de Adam Lindemann, é um título que sempre tenho à mão. O livro destrincha o mercado de arte contemporânea por meio de uma série de entrevistas com críticos, marchands, colecionadores e artistas. Um deles, Damien Hirst, declara: ‘A arte trata da vida, o mercado de arte, de dinheiro’. Para completar, há uma lista de conselhos para novos colecionadores, um glossário com a terminologia básica do meio e um calendário com as principais feiras do mundo. Do catálogo da Taschen, destaco também os livros do americano Robert Vavra, que considero o melhor fotógrafo equestre do mundo, com suas imagens poéticas e sua luz incrível.”

Fabrizio Fasano, fotógrafo 42

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RETRATO: NINO ANDRÉS

ARTE E DINHEIRO

FOTO: ARCAID/DIOMEDIA BRASIL

LIVROS

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UMA EX NO HORIZONTE Outro peso pesado do catálogo de luxo da Taschen foi Goat – Um Tributo a Mohammed Ali. Lançado em 2003, teve 10 mil cópias autografadas pelo pugilista e pelo artista Jeff Koons, que fez uma escultura especial para os mil primeiros compradores (ao custo médio de R$ 25 mil esta edição especial). Na esteira, vieram outras edições limitadas, como Christo and Jeanne-Claude Art Edition (R$ 85 mil), Peter Beard Collector’s edition (R$ 30 mil) e La Chapelle Arts and Prostitutes (R$ 7 mil). Isso, claro, ao lado de milhares de outros títulos a custos que ficam frequentemente entre os R$ 20 e os R$ 100. Em 2004, Angelika e Benedikt se separaram e, este ano, desfizeram a sociedade na editora. Em breve, ela será concorrente do ex-marido. Junto com o colecionador de arte e publicitário Christian Boros e a curadora Uta Grosenick, Angelika está prestes a inaugurar sua própria editora em Berlim, a Distanz. No catálogo, livros de arte, fotografia, arquitetura, design e moda. O império de Benedikt pode sofrer sua primeira grande ameaça, com um concorrente à altura – e, pior, conhecedor de seus segredos. Os ávidos leitores de coffee table books que se preparem. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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FOTO: ARQUIVO PESSOAL/ TUCA REINÉS

Reinés na Patagônia: 11 meses na estrada em busca dos melhores hotéis

O FOTÓGRAFO E ARQUITETO PAULISTANO TUCA REINÉS TEM TRÊS TÍTULOS PUBLICADOS PELA TASCHEN: GREAT ESCAPES SOUTH AMERICA, LIVING IN BAHIA E BAHIA STYLE. O OUTRO BRASILEIRO COM LIVRO NO CATÁLOGO DA EDITORA ALEMÃ É SEBASTIÃO SALGADO, COM AFRICA década de 1990, recebi um telefonema da editora americana Diane “NaDorrans, que escrevia sobre decoração, arquitetura e design para veí-

culos como The New York Times, W e Architectural Digest. Na época, ela coordenava para a editora Taschen um livro sobre refúgios de praia e queria incluir a casa (já publicada na Elle francesa) que eu havia construído para minha família na praia do Espelho, perto de Trancoso, no sul da Bahia. A partir daí comecei a vender fotos para outros títulos da editora, e nossa relação se estreitou. Anos depois, Angelika Taschen (então casada com Benedikt) pediu dicas sobre a Bahia, onde passaria férias. Eu já servira de cicerone para Benedikt em um tour por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, por conta de um livro sobre Oscar Niemeyer que ele planejava lançar. Graças a essa proximidade, fui convidado para fotografar a coleção de arte de Benedikt e, claro, aproveitei para visitar a sede da editora em Colônia, na Alemanha. Isso foi em 2000. Fiquei encantado. A Taschen funciona em um prédio do século XIX totalmente restaurado, com interiores bem contemporâneos. Foi muito divertido. Benedikt é um cara informal, que anda a pé ou de bicicleta pela cidade. No trajeto entre a Taschen e sua casa, íamos parando pelos bares. Nessa época, Angelika me apresentou um projeto que estava tocando: a coleção The Great Escapes, com fotos dos melhores hotéis do mundo. Propus fazer um volume da América do Sul. Voltei ao Brasil com a missão de selecionar sugestões para avaliação. Os 80 endereços da primeira leva foram recusados por Angelika. Vi que precisaria melhorar a lista. Para os europeus, não importa se a diária vale US$ 10 ou US$ 1.200, mas sim a localização e a exclusividade. Nem pensar em hotéis com centros de convenção ou cadeiras de plástico na pis-

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

“É UM PRIVILÉGIO” cina. Recorri então a conhecidos que selecionam locações para cinema e publicidade. Após muitas trocas de fotos, catálogos e e-mails, aprovamos uma lista com 44 hotéis – nove deles no Brasil. EM VITRINES DISTANTES Ia começar a aventura. Os hotéis eram em lugares remotos e a logística precisava ser perfeita, pois o contrato previa multas altíssima para atrasos. Passei 11 meses viajando sozinho. Aluguei carro, lancha, barco, desci de avião em pistas de terra, capotei o carro, atravessei tempestades. Mas fui tratado a pão de ló pelos donos dos hotéis. E que hotéis! O lançamento do livro, na Feira de Frankfurt de 2004, foi incrível. Desde então venderam-se 350 mil exemplares pelo mundo. Quatro anos depois apresentei outro projeto: um livro sobre casas na Bahia. E, de novo, não foi fácil emplacar. Para checar a viabilidade do livro, a Taschen, como de praxe, utilizou os serviços de uma empresa de consultoria inglesa. E eles não conseguiam entender o que era a Bahia. Foi Angelika, que havia visitado o Brasil, a grande defensora do livro, o primeiro sobre o assunto publicado fora do país. Living Bahia saiu em 2008 com casas como a de Caetano Veloso e a de Calazans Neto. Depois fiz o pocket Bahia Style (2009), só com imagens, que colocou o estilo de vida do baiano nas principais livrarias do mundo. Esta é a grande vantagem de trabalhar para a Taschen: você chega aos aeroportos mais remotos do mundo e vê seu nome nas vitrines das livrarias. Não é questão de ego, mas dos contatos que se fazem a partir daí. Todo dia recebo e-mail de gente do mundo inteiro querendo comprar uma foto ou pedindo dicas daquele hotel bacana. É um privilégio.”

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A reinvenção

da MADEIRA SOB A BATUTA DE MESTRE TONINHO, A MARCENARIA DA FAZENDA PRESERVA A TRADIÇÃO DE UM SABER AO EXECUTAR SUAS CRIAÇÕES E AS ENCOMENDAS DE BADALADOS ARQUITETOS BRASILEIROS

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POR ANA PAULA ORLANDI FOTOS EDUARDO DELFIM

Nesta página, figueira da fazenda Sant´Ana do Monte Alegre, propriedade no interior de São Paulo que abriga a marcenaria; e vigas de peroba do campo. Ao lado, ferramentas usadas pelos marceneiros; e detalhe de tora de madeira de demolição: ciclos

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FOTOS: PETER SCHEIER/IMS; REPRODUÇÃO REVISTA MÓDULO

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oventa dias. Esse era o prazo máximo para Antônio de Pádua Assunção permanecer na fazenda Sant’ Ana do Monte Alegre, nos arredores de Descalvado, a 242 quilômetros de São Paulo. Restaurador formado nas oficinas do tradicional Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo, o marceneiro havia sido contratado pelo casal dono da fazenda para recuperar dois armários de farmácia do século XIX trazidos do Piauí. “Os móveis estavam muito danificados, mas calculei que o serviço não levaria mais do que três meses”, lembra. O esmero com que o artesão tratou a mobília, contudo, chamou a atenção dos proprietários, que logo o convidaram para transformar uma antiga tulha de café em ruínas na sede da propriedade. A partir daí, a obra ganhou tal proporção que foi necessário criar uma marcenaria no interior da gleba, naquele início da década de 1990. Dezesseis anos se passaram desde então e seu Toninho, como é conhecido, hoje comanda a Marcenaria da Fazenda, ideia que transcendeu a missão original, de projeto particular, para se consolidar como uma marca referendada por profissionais como Claudia Moreira Salles, Isay Weinfeld, Felippe Crescenti, Renato Marques e Eduardo de Almeida. O segredo do marceneiro que hoje encanta designers e arquitetos está no acabamento caprichado de itens como móveis, painéis e esquadrias executados pela equipe de 33 marceneiros sob a batuta de seu Toninho. “Usamos o sistema de encaixe, que dispensa pregos e parafusos”, explica o mestre marceneiro do alto de quatro décadas de experiência na lida com a madeira. Ele arriscou os primeiros passos no ofício na cidade de Ritápolis, interior de Minas, onde nasceu, há 55 anos. “Meu avô era carpinteiro, reformava o madeiramento dos telhados, e de olhar comecei a aprender.”Na adolescência, chegou a bater ponto em uma marcenaria em São João del-Rei, conhecido polo moveleiro próximo à terra natal, antes de partir para São Paulo, onde já moravam alguns parentes. “Vim por uma questão de sobrevivência, pois na época era difícil para um rapaz sem experiência como eu encontrar trabalho lá”, conta. Aqui, acabou indo reformar cadeiras na portinha que a irmã havia aberto na rua Melo Alves, nos Jardins, até ser contratado por um antiquário vizinho de uma loja do Liceu de Artes e Ofícios, no bairro Pinheiros. “Fiz amizade com o pessoal e fui convidado para trabalhar nas oficinas do Liceu.” Guiado pelo mestre Aníbal Braz, seu Toninho

O SEGREDO QUE ENCANTA DESIGNERS E ARQUITETOS ESTÁ NO ACABAMENTO CAPRICHADO DOS ITENS PRODUZIDOS PELA MARCENARIA, CUJO SISTEMA DE ENCAIXE PERFEITO DISPENSA PREGOS E PARAFUSOS

se embrenhou pelo mundo do restauro. “Devo a ele toda minha formação”, diz. “Sou completamente fascinado por antiguidades.” Movido por esse fascínio, ele exercita agora um de seus grandes deleites: garimpar madeira de demolição pelo interior do Brasil, principalmente em fazendas seculares de Minas Gerais, para alimentar a marcenaria. “Gosto de madeira de demolição porque, além de respeitar a natureza, tenho a possibilidade de trabalhar com um material estável, com pelo menos 150 anos de vida.” O resultado é que dois dos três galpões que compõem a marcenaria ficam apinhados com toras de várias procedências – boa parte do atual lote, com mil peças, é de achados do mestre, espécies extintas, como jacarandá-da-baía ou gonçalo-alves, que dividem espaço com madeiras de corte sob supervisão do Ibama. Também no lote, madeiras certificadas pelo selo PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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Em sentido horário, seu Toninho em um dos galpões da marcenaria; o armário de farmácia que deu origem a tudo; vista geral da oficina de produção; o grupo de 33 marceneiros liderado pelo mestre; e a fachada da marcenaria

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Nesta e na outra página, registros da fazenda Sant´Ana do Monte Alegre. A partir do alto, toras de madeira de demolição; estante de jatobá feita pela marcenaria; armário do século XIX; mesa dom João V do século XVIII; e escada de assoalho de demolição: três itens restaurados pela equipe de mestre Toninho. Ao lado, detalhe da fachada; e interior da antiga tulha de café 48

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UMA DAS PRIMEIRAS ENCOMENDAS DA MARCENARIA VEIO DA DESIGNER CLAUDIA MOREIRA SALLES, CONVIDADA PARA DESENHAR A CADEIRA USADA PELO PAPA BENTO XVI EM SUA VISITA AO BRASIL, EM 2007

FSC (Forest Stewardship Council). “As peças mais usadas são os assoalhos, por conta da versatilidade: elas podem tanto forrar o piso quanto fazer portas, mesas, escadas e painéis”, constata a engenheira Drica Jenk, que administra o negócio desde 2005, ano em que a marcenaria abriu as portas para clientes. Uma das primeiras encomendas veio da designer Claudia Moreira Salles, convidada para desenhar a cadeira usada pelo papa Bento XVI em sua visita ao Brasil, em 2007. Amiga dos proprietários da fazenda, ela se lembrou da marcenaria e resolveu apostar no novo negócio. “O trabalho ficou muito bem-feito e marcou o início de uma parceria com muitos frutos”, conta Claudia, que recentemente desenvolveu com os marceneiros os novos bancos de descanso do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e hits como o banco Dominó, exposto na mostra “Imaginários Dpot”, em novembro, no Mube. “Aquela cadeira foi muito importante para divulgar nosso trabalho”, diz o mestre, que se define como um católico que não liga para religião. Mesmo assim, ele se emociona ao lembrar da procissão organizada pelos donos da fazenda quando ficou pronta a peça, composta de um mosaico de madeiras como pinho-de-riga, perobado-campo e pau-brasil de demolição. “Nessas horas você se sente muito importante”, constata ele. Hoje o móvel é exibido com status de relíquia em uma redoma na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, interior de São Paulo, onde a missa foi celebrada. PORTFÓLIO A CÉU ABERTO O feito que melhor ilustra o fôlego e a delicadeza da marcenaria, contudo, é a restauração da própria fazenda Sant’Ana do Monte Alegre, que produzia café do século XIX comprada pelos atuais proprietários no início da década de 1990. A primeira empreitada ali foi restaurar a antiga tulha de café, tarefa que consumiu quatro anos de trabalho. “O desafio da tulha era total: ela estava completamente destruída 50

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e todos os arquitetos que vinham à obra recomendavam demoli-la”, diz. “Ainda bem que os proprietários bateram o pé e hoje o lugar é a menina dos olhos deles.” Para ajudá-lo no restauro, o mestre passou a recrutar parentes e conhecidos de Ritápolis, cidade onde o ofício de talhar a madeira passa de pai para filho. Junto da equipe, seu Toninho recuperou com dedicação boa parte da casa de pau a pique e paredes de pedra, trazendo de volta a utilidade e a beleza de vigas, pilares, assoalhos, esquadrias e escadas. Além disso, produziu novos armários, guardacorpos e até parte da caixilharia. Ao fim do trabalho, a construção passou a ser a casa principal, onde ficam os quartos dos proprietários e as salas – tudo povoado por mobiliário europeu e brasileiro do século XIX. “Restaurar a tulha foi um trabalho emocionante”, conta o marceneiro Domingos Savio José de Oliveira, o primeiro a chegar a convite do amigo e até hoje nos quadros da oficina. “Para descobrir como fazer o forro tipo fundo de gamela, executado pelos escravos no passado, fomos a uma fazenda da região”, conta. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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Em sentido horário, a partir da foto maior: armário de freijó desenhado pela moradora desta casa em São Paulo; estante de MDF e freijó projetada pelos arquitetos Daniela Jank e Antonio Estefan; deck da paisagista Isabel Duprat; e a escada de sucupira maciça certificada encomendada pelos arquitetos André Vainer e Guilherme Paolielo

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A antiga tulha de café, restaurada pela equipe de marceneiros ao longo de quatro anos, hoje sede da fazenda; os interiores são povoados por mobiliário europeu e brasileiro do século XIX

Com a tulha pronta, os marceneiros não tiveram tempo de descansar: permaneceram na fazenda para, entre outras tarefas, transformar a antiga escola em um complexo com sete suítes para hóspedes. Ao todo foram dez anos de trabalho, cujo resultado primoroso consegue arrancar suspiros até dos mais refratários. Quando a odisseia chegou ao fim, os proprietários decidiram emancipar a marcenaria e abri-la a terceiros – uma forma de não dispensar a mão de obra, que somava na ocasião 18 trabalhadores. Com a mesma generosidade, na época implantaram um viveiro de mudas de manejo com espécies nobres e raras como jacarandá-da-baía, cabreúva e peroba-do-campo. “Foi a maneira que encontraram de retribuir à natureza a madeira usada no restauro da fazenda”, conta Drica. Agora no papel de clientes fiéis, os donos da fazenda produzem com seu Toninho e equipe os presentes que

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costumam enviar para amigos mais próximos no Natal. A cada ano, preparam uma surpresa: de mesinha de apoio a bengaleiro. Não por acaso, o galpão da marcenaria só faz crescer – atualmente, são oito projetos em curso. Embora tudo seja feito sob encomenda, a marcenaria apresenta também uma coleção própria de móveis e objetos. “Essa versatilidade de executar peças variadas é um dos pontos altos do trabalho deles”, destaca o arquiteto André Vainer. Com ele concorda o colega Renato Marques, conhecido pelos projetos com madeira de demolição. “Além do capricho, eles mantêm vivo um ofício artesanal que está perdendo espaço para a indústria no Brasil.” Por conta do boca a boca que engorda o volume de trabalho, novas máquinas chegaram nos últimos meses à oficina, mas o grupo de marceneiros sabe que está na destreza de suas mãos a receita do sucesso.

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PERFIL

ELA VIU O

GUARDA-ROUPA SAIR DO ARMÁRIO LUIZA PIMENTA PARTICIPOU DE MUITOS CAPÍTULOS DA MODA BRASILEIRA DAS ÚLTIMAS DÉCADAS, DA EXPLOSÃO DA CULTURA HIPPIE AOS ANOS YUPPIES, ATÉ O JEITO CASUAL DOS NOSSOS DIAS

A

estilista Luiza Pimenta, que já vestiu um presidente – Fernando Henrique Cardoso –, e um rei – Roberto Carlos –, não cursou nenhuma escola especializada para se tornar referência em moda masculina no Brasil. A base do seu conhecimento foi o repertório pessoal. “Meus pais [Bené e Ana Maria Sampaio Barros] e seus amigos eram muito chiques; quando comecei a trabalhar é que me dei conta de quanto havia prestado atenção à minha volta”, conta Luiza. Por causa dessa trajetória tão particular, em que a estética e a vida se misturam, a história de Luiza contém muitos capítulos da moda brasileira das últimas décadas. Ela era pequena, mas já ligada, quando os acordes do rock’n’roll expulsaram as últimas gotas da brilhantina dos anos 1950. Desde então, seguiu todas as metamorfoses, até este começo de século, em que gravatas e colarinhos convivem no escritório com o figurino casual antes restrito ao fim de semana e, em toda parte, com os looks de uma infinidade de tribos – atletas, surfistas, rappers, punks e a moçada da informática, para ficar apenas em algumas. 54

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Responsável pela linha masculina da Daslu, a Daslu Homem, ela sabe tudo sobre a maneira como seu público se comporta no provador. “Homem só muda de estilo quando se separa da mulher”, brinca a estilista. A regra é o apego cauteloso a fórmulas já conhecidas, de preferência calça cáqui e camisas azul-claras. Ao contrário das mulheres, para quem as compras são um programa, para eles é uma tarefa, da qual querem se livrar depressa. Daí sua admiração pelos homens capazes de alguma ousadia, por menor que seja, e a gratidão pelos que ousam justamente com uma peça criada por ela. Recentemente, comemorou quando o tenor espanhol José Carreras comprou uma camisa de estampa Liberty que outros clientes tinham olhado com desconfiança. Basta vê-la numa manhã de trabalho, de jeans e mocassim vermelho, nas salas suntuosas da loja na Vila Olímpia, em São Paulo, para entender que sua relação com as grifes e regras é muito livre. É o estilo genuíno que lhe interessa. “Elegância montada qualquer um pode ter”, alega. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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MAQUIAGEM: OMAR BERGEA

POR MARTA GÓES RETRATO FELIPE HELMEISTER

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Lu observou desde menina os homens elegantes à sua volta. Esse repertório foi a base de sua formação

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FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

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Lu com os pais, seu primeiro modelo de elegância; na época de “hippie de butique”, fotografada por George Love para a revista Setenta; e posando com o ex-marido, Alfredo Pimenta, para Vânia Toledo: um sopro de rebeldia

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Na infância e até o começo da adolescência, seu repertório cabia todo no horizonte dos pais, na São Paulo da década de 1950, nas temporadas na fazenda da família, no interior, e nos verões do Guarujá. “Os homens que eu achava bacanas e que circulavam pela vida social dos meus pais eram, por exemplo, Luis Carlos Street, Jean-Louis Lacerda Soares, José Luis Herreros e Jua Haffers”, cita. “Sem que eu percebesse, fizeram sim a minha cabeça, pois eu reparava que eram especiais.” Um pouco mais tarde, conheceu Attilio Baschera, artista gráfico e decorador, também do círculo de seus pais, que se tornou um amigo muito próximo até hoje. “Suas combinações, sua postura, sua ousadia foram muito inspiradoras pra mim”, reconhece.

Nas primeiras festinhas, no começo dos anos 1960, ela chegou a vestir um ou outro tubinho Courrèges, cabelo gatinho e delineador nos olhos. Mas as amigas daquela época lembram que ela já desenhava seus vestidos. “Minha mãe tinha uma costureira, chamada Benê, que ia em casa uma vez por semana. Comprávamos tecidos na Firenze, na rua Augusta, e ela costurava os modelos que escolhíamos”, explica. Um namorado que estudava arquitetura, Alfredo Pimenta, chegou a sua vida junto com as primeiras notícias do movimento hippie e da contracultura, e chacoalhou suas convicções bem-comportadas. A juventude deixara de ser uma idade para se tornar uma atitude e, como era de se esperar, o figurino mudou. “O Alfredo amarrava uma bandana na cintura, no lugar do cinto, usaPRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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EVERETT COLLECTION / KEYSTOCK

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EVERETT COLLECTION / KEYSTOC

THE PICTURE DESK / AFP EVERETT COLLECTION / KEYSTOCK

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EVERETT COLLECTION / KEYSTOCK

ATRÁS DO BALCÃO A peça inaugural logo se desdobrou numa linha completa de alfaiataria masculina e surgiu a marca Tweed. Naquela época não existiam ainda faculdades de moda no país. “Como disse uma vez o Renato Kherlakian, foi trabalhando atrás do balcão que nós aprendemos”, lembra Lu. Kherlakian, o criador da etiqueta Zoomp; Tufi Duek, da Forum; e Teresinha Macchione, entre outros estilistas, foram seus companheiros no grupo São Paulo de Moda, um dos movimentos pioneiros do prêt-à-porter, fundado em 1986. Viagens e peças que traziam na mala também foram fonte de aprendizado. Contaram para isso com valiosas ajudas, como a do decorador Sig Bergamin, que também estava começando. “Viajávamos juntos e rachávamos algumas compras”, ela recorda. “Depois que a gente olhava, virava a peça pelo avesso e mostrava para a costureira, ela ia para o guarda-roupa do Sig.” O convívio foi instrutivo também para Sig, que considera que aprendeu com ela muito sobre estilo: “Sou do interior, nunca tinha ouvido falar em alfaiataria”, conta. “Até hoje Lu é uma referência para mim.”

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PHOTO12 / AFP

va jeans rasgados e tamancos holandeses pretos. Era o máximo!”, recorda. “Éramos hippies de butique, claro, mas aquele momento teve muito impacto não apenas no meu visual, mas na minha vida”, avalia. Casou com Alfredo, pai de seus três filhos, Luis, Marina e Martim, e ficaram juntos durante 15 anos. A carreira de estilista começou por um convite casual da amiga Olga Almeida Prado. Ao voltar de uma viagem a Londres no início dos anos 1970, Olga comentou que todos os seus amigos tinham comprado um paletó de veludo. “Era o famoso paletó de veludo preto de King’s Road”, lembra Lu, divertida. Olga propôs fazerem alguns casacos como aquele. Lu desistiu de procurar emprego num escritório de artes gráficas, com o recém-tirado diploma de comunicação visual do Mackenzie, e topou a proposta.

PARA SUSPIRAR NO CINEMA OS MELHORES FIGURINOS MASCULINOS SEGUNDO LU PIMENTA

O Poderoso Chefão, todos (1) O Grande Gatsby, com Robert Redford, 1974 (2) O Paciente Inglês, com Ralph Fiennes, 1996 Out of Africa, com Robert Redford, 1985 (3) Hair, de 1979, com Treat Williams (4) Qualquer filme do Fred Astaire, acima em Roberta, de 1935, “Para ver aqueles ternos impecáveis e ele dançando...” (5) Saturday Night Fever, de 1977, “Adoro o Travolta com aquelas camisas bregas, bem disco” (6) James Bond, “Os do Sean Connery, of course” Indiana Jones, todos

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PERFIL HERANÇAS CULTURAIS BOSSA NOVA “Trouxe João Gilberto, não precisa dizer mais nada” JAZZ “Negros elegantérrimos com sua música elegantérrima”

ARQUIVO PESSOAL

REGINALDO MANENTE / AGÊNCIA ESTADO / AE

LYNN GOLDSMITH / CORBIS / CORBIS (DC) / LATINSTOCK

ROCK “As calças justas de Mick Jagger, brilho, veludo, cores, irreverência”

Lu fotografada pelo designer Rafic Farah

ONDE MORA O PERIGO “Prefiro um homem de tênis, de Havaianas, a com um sapato duvidoso”

CAMERA PRESS / OTHER IMAGES

“Ombreiras gigantes tiveram sua época, muito feias”

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“Como alguém consegue usar saltos imensos, altíssimos, com legging?”

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A jornalista e consultora de moda Glória Kalil, que era dona da marca Fiorucci quando começou a prestar atenção ao crescimento profissional de Lu, nos anos 1980, define o saber da amiga: “Lu, assim como Olga, sempre frequentou lugares chiques e conviveu com homens que sabiam se vestir; ela era uma insider fazendo roupas para insiders”, resume. A Tweed vestiu os homens mais elegantes da iminente democracia, na virada dos 1970 para os 1980: o deputado Eduardo Suplicy, o senador Fernando Henrique Cardoso e toda a família Montoro. “Eles melhoraram bastante o padrão do Palácio dos Bandeirantes”, elogiou a revista Senhor. Por alguns anos, Lu e Olga foram os alfaiates do Rei: era delas o figurino do espetáculo de fim de ano de Roberto Carlos na TV Globo. O lado fã prevalecia sobre a porção estilista: “Não importam as ombreiras que ele pedia, nem as mangas arregaçadas, ele é lindo!”, rende-se Lu. CHICO DE TÊNIS A seleção de grandes momentos de sua carreira inclui um show de aniversário de São Paulo, no parque do Ibirapuera, em 1991. Roberto de Oliveira, que produziu o evento, chamou as donas da Tweed para

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vestir Chico Buarque, Milton Nascimento e Tom Jobim. Elas escolheram para Chico um terno de linho branco e sugeriram que ele o usasse com o tênis All Star que trazia no pé. “Ele ligou para Marieta [Severo] e perguntou na nossa frente o que ela achava”, conta Lu. Marieta aprovou e os experts (e as leigas) deliraram. Para Milton, elas escolheram uma camisa tie-dye. Tom as recebeu no bar. “Depois de vários uísques, disse que o figurino ia ser aquele mesmo. Examinamos seu paletó de linho cáqui”, recorda Lu. “Era da Tweed! Foi nosso momento de glória”, recorda. Algumas mulheres começaram a invejar o chique bem-humorado das calças e dos paletós da marca. “A moda era mais unissex, nos anos 1980; saíamos com os mesmos jeans e blazers que os homens usavam”, lembra Glória Kalil. Além disso, a presença feminina estava crescendo no mercado de trabalho. “Precisávamos de umas roupas sérias, de umas ombreiras, ou, até, de uns ombros para enfrentar os novos tempos”, comenta Lu. Foram anos intensos. Um grupo de amigos que incluía Lu e Alfredo Pimenta, Olga Almeida Prado, Artur Guimarães e Dedé Gadelha, então mulher de Caetano Veloso, abriria, em 1986, uma inesquecível

“ HOMEM SÓ MUDA DE ESTILO QUANDO SE SEPARA DA MULHER. EM GERAL PREFERE O APEGO CAUTELOSO A FÓRMULAS JÁ CONHECIDAS”

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FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

EM 1986, COM UM GRUPO DE AMIGOS, ABRIU UMA CASA NOTURNA, O RADAR TANTÃ, PALCO DE SHOWS INESQUECÍVEIS

No alto, Lu, grávida, com o grupo do Radar Tantã: Artur Guimarães, Olga Almeida Prado, Alfredo Pimenta e Dedé Gadelha; acima, com Olga, na Tweed; e as duas num hotel em Nova York com Sig Bergamin

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casa noturna, o Radar Tantã, na Barra Funda, que durante dois anos abrigou shows de artistas como Caetano e os Titãs. “Foi bom e breve”, ela suspira. Alfredo e outros sócios lançaram em seguida uma nova casa no largo de Pinheiros, o Aeroanta, mas ali ela ia apenas se divertir. Enquanto isso, a confecção crescia. Chegou a ter 240 funcionários e se tornou uma grife de prestígio, mas a inflação galopante e a insegurança provocada por sucessivos planos econômicos não eram os melhores aliados para o empreendimento. Sobretudo depois que ela passou a enfrentar sozinha aqueles sobressaltos – Olga, sócia e amiga da vida toda, morreu em 1992, aos 38 anos, vítima de um aneurisma. “Quando ela morreu, fui fazer psicanálise para conseguir suportar a perda. Olga foi importantíssima na minha vida, ainda penso nela todos os dias.” Lu manteve a empresa até 1997 e, depois de 20 anos, fechou as portas. A marca Tweed foi licenciada para a empresa Vila Romana. Durante sete anos, Lu cuidou apenas de zelar pela qualidade

das peças de cada coleção. “Era o melhor dos mundos, fiquei só no gostoso”, lembra. O foco fechado na alfaiataria ampliou-se em direção a outros territórios. Assim, quando Eliana Tranchesi a convidou, há cinco anos, para cuidar da linha masculina da Daslu, estava preparada. “A ideia aqui é oferecer tudo, do smoking à moda praia, da meia à gravata”, explica. TUDO EM CIMA Uma mulher esguia e graciosa, Lu é a avó insuspeitável de três netos, que ficam com ela todos os sábados. As baladas do tempo do Radar Tantã e do Aeroanta deram lugar a pequenos jantares e à agenda cultural de São Paulo. “Ela é curiosa, antenada”, comenta o amigo e inspirador Attilio Baschera. Também na moda seus hábitos ficaram mais frugais. Paletós da Tweed e vestidos de dez anos atrás da estilista Pirilena Lacerda continuam utilíssimos em seu guarda-roupa. “Tenho um casamento no sábado, decidi não comprar nada; a essa altura da vida, acho que já tenho tudo”, arrisca. Olhando para ela, não há como discordar. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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POR PATRICIA BROGGI

A LISTA DE LU

MARCOS MENDES / AGÊNCIA ESTADO / AE

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EVANDRO TEIXEIRA / CPDOC JB

1 CLÉO VELLEDA / FOLHAPRESS

MASTRANGELO REINO / FOLHAPRESS

“OS MAIS ELEGANTES PELO ESTILO, PELA AUTENTICIDADE, PELA EDUCAÇÃO, MAS TAMBÉM PELA ROUPA, CLARO”

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CECILIA ACIOLI / AG.FOTOSITE

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Attilio Baschera (1) Gregório Kramer Cesar Giobbi (2) Pedro Lourenço (3) Mario Cohen (4)

MARCELO SOUBHIA / FOLHAPRESS

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Tom Jobim (5) Paulo Velloso Sig Bergamin Jô Soares Conrado Malzone (6)

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Suaves caminhos do rio

Douro

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TEXTO E FOTOS CAROLINA OVERMEER

TÃO BELA OU MAIS DO QUE A TOSCANA OU A PROVENCE, E COM POUCOS VISITANTES, A REGIÃO DO DOURO, NO NORTE DE PORTUGAL, O MAIS ANTIGO TERRITÓRIO DEMARCADO DE VINHOS NO MUNDO, SEDUZ ATÉ OS ABSTÊMIOS

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VIAGEM

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em sei direito como fui parar lá. Um amigo sugeriu e nós confiamos: entramos no carro, dirigimos horas, pulamos num barco e navegamos outras tantas. Tudo estava indo bem, mas nada me dizia que a viagem seria tão boa. De repente, me vi sozinha, parada no alto de uma colina, apreciando o silêncio e a paisagem belíssima do rio Douro e suas encostas cobertas por vinhas a perder de vista. O tempo parou. Percebi o apito de um trem a vapor que passava pela margem e um grupo de alegres passageiros acenou das janelas. Respondi com o mesmo gesto. Dei um gole de vinho do Porto. E então suspirei de satisfação ao constatar a magia daquele momento: sim, ainda é possível surpreender-se com uma boa viagem. Nem tudo está perdido para a banalização do turismo globalizado. O rio Douro nasce na Espanha, corta Portugal ao norte e deságua no Atlântico junto às cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia. É o segundo rio mais longo da península ibérica, com quase 100 quilômetros de comprimento. Seus arredores são uma região agrícola conhecida pelos vinhos de ótima qualidade, especialmente o 64

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famoso vinho do Porto, que só se produz lá. Ela é a mais antiga região demarcada de vinhos do mundo, estatuto concedido pelo marquês de Pombal, em 1756, para garantir a qualidade e a autenticidade dos vinhos locais. Hoje é também designada Patrimônio da Humanidade na categoria paisagem cultural pela Unesco, não apenas pela importância histórica e comercial, mas pela beleza excepcional de sua paisagem. A origem do nome, Douro, pode ser interpretada como De+Ouro, pelo fato de o rio outrora ter abrigado ouro em suas profundezas. Ou pode ser do latim duris (duro), pela dureza de seus contornos tortuosos. Antes de ser domado pelo homem, o Douro era um rio cheio de declives, curvas fechadas, rochas submersas e correntezas violentas. Apenas um pequeno barco de madeira, o rabelo, de calado raso como o de uma canoa, conseguia navegar por suas águas e transportar o vinho desde os vales até a foz. Foram anos de trabalho insano, remoções de rochas, construções de pontes, barragens e eclusas, até que o rio se tornasse um leito viável para o transporte e o turismo. Nas minhas pesquisas descobri que o primeiro filme do PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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A vista da Quinta da Romaneira, a partir das vinhas; e o piquenique: Carolina Overmeer com a filha, Mia, e a amiga Alexandra Lobato Faria

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VIAGEM

O Friend Ship no cais do restaurante DOC, em Peso da Régua, pronto para subir o rio

cineasta português Manoel de Oliveira, Douro, Faina Fluvial (1931), mostra bem a intensa atividade do rio – gente trabalhando nas docas, pescadores descarregando seus barcos, pontes e barragens sendo erguidas. Embora mudo (o cinema falado iniciou-se naquela década), as primeiras imagens captadas por Oliveira são consideradas pelos críticos “um mosaico geográfico”, “uma sinfonia visual”, e até hoje são revisitadas em importantes festivais de cinema, a exemplo do London Film Festival, em 2001, ou de Cannes, em 2008. Uma pena não estar disponível para compra na internet. SOB ENCOMENDA O convite para conhecer o Douro veio em boa hora. Setembro é considerado o melhor mês para viajar por lá, primeiro porque é a época da colheita e da pisa do vinho, o que torna o programa ainda mais curioso. Depois, 66

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porque o clima ainda é quente, mas já bastante agradável – um ditado popular diz que o Douro tem “três meses de inverno e nove de inferno”, de tão quente que é a região na maior parte do tempo. Nosso ponto de partida foi o restaurante DOC, na capital Peso da Régua. Além de boa reputação gastronômica, a casa tem um píer na beira do rio e portanto muitas embarcações turísticas acabam por chegar ou partir dali. Não almoçamos porque a viagem de Lisboa até lá, que deveria durar quatro horas, durou seis por conta de um acidente e atrasou toda a programação. Mas nosso charmoso barco Friend Ship já nos aguardava com uma bela mesa de frios, queijos e vinho branco gelado. Navegando rio acima, visitamos a Quinta do Crasto (www.quintadocrasto.pt), famosa por suas vinhas centenárias e pelos vinhos de qualidade – destes, o Reserva Vinhas Velhas e o Vinha da Ponte, de 2007, são os mais premiados. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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No alto, veleiro visto do barco. Em sentido horario: Ana Claudia Araújo, Ron Wood e Mia; um belo exemplar das uvas locais; turistas escandinavos na “pisa” da Quinta da Pacheca, em Vila Real; os viajantes Alexandra Faria, Luiz Horta Costa, Luiz Pastore e Antonio Carlos Figueiredo Ferraz na adega da Romaneira; Ron e Pastore no barco

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VIAGEM

RONNIE E ANA FIZERAM MASSAGEM E NADARAM NA PISCINA AQUECIDA DO SPA. LUIZ E ALEXANDRA ANDARAM DE BICICLETA POR ENTRE AS VINHAS. NOSSA FAMÍLIA FEZ PIQUENIQUE NUMA TENDA DELICIOSA À BEIRA DO RIO

Do alto da piscina da quinta, a vista que se tem do Douro é incrível. Minha filha, de 2 anos de idade, aproveitou o dia quente para brincar na água enquanto nós petiscamos sardinhas, bebemos vinho, petiscamos mais sardinhas e bebemos mais vinho, até que um helicóptero apareceu no céu trazendo o casal de amigos que ainda faltava no grupo. Foi como cena de filme: barulho, vendaval, e eis que surge o rockstar Ronnie Wood, guitarrista dos Rolling Stones, e sua namorada, a brasileira Ana Araújo. Os dois de óculos escuros, roupas pretas, yeah, yeah – mas, coitados, cumprindo rigidamente uma abstinência alcoólica, e, portanto, nada de vinhos do Douro para eles. LUXO SÓ Outra vez a bordo, continuamos a subir o rio apreciando a paisagem das colinas, as quintas e suas vinhas – tudo à luz do entardecer. O cenário da região tem uma beleza suave e imponente ao mesmo tempo, diferente de tudo o que eu já havia visto antes. “Isso aqui é mais bonito do que a Toscana italiana, do que a Provence francesa, e está vazio! Não tem ninguém!”, comentavam os amigos. Quando muito passava outro barquinho, um grupo de três canoeiros, uma lancha puxando esqui. A viagem parecia feita só para nós, sob encomenda. Quando chegamos ao destino final, a Quinta da Romaneira (www.maisondesreves.com), em Alijó, já era quase noite. Deu tempo apenas de dar uma volta pelas vinhas 0 68

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em carrinhos elétricos e tomar um banho antes do jantar – mais outro banquete com boa comida e muito vinho. A Romaneira é uma pequena quinta tradicional portuguesa que foi inteiramente reformada e hoje é a única do Douro que leva o selo Relais & Châteaux. Ela está situada em um vinhedo de 400 hectares e oferece hospedagem para 40 pessoas. As duas sedes principais têm vista para o rio e são muito agradáveis – apesar da decoração moderninha e do incenso de canela em alguns ambientes. Nossa estada foi curta, de apenas um dia, mas suficiente para aproveitar todas as mordomias do lugar. Ronnie e Ana fizeram massagem e nadaram na piscina semiolímpica coberta e aquecida do spa. Outro casal amigo, Luiz Horta Costa e Alexandra Lobato Faria, andou de bicicleta por entre as vinhas. Nossa família fez piquenique em uma tenda deliciosa à beira do rio, onde havia almofadas de linho cru e um baú cheio de comidinhas e bebidas geladas. Luxo só. Também visitamos as adegas da propriedade, em um casarão de arquitetura moderna e maquinários de alta tecnologia, onde pudemos compreender a diferença entre o vinho de mesa e o vinho do Porto. Além do processo normal, que inclui colheita, esmagamento (mecanizado ou feito com os pés, chamado “pisa”), fermentação, filtragem e envelhecimento, o vinho do Porto tem a sua fermentação interrompida pela adição de aguardente vínica (de uvas), o que o torna mais doce e de teor mais PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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POR PATRICIA BROGGI

No alto, a casa principal da Quinta da Romaneira, em Alijó, centro de um vinhedo de 400 hectares: selo Relais & Châteaux; à direita, a piscina do hotel; à esquerda, a segunda sede; e, na página ao lado, Carolina (à direita), com os companheiros de viagem Alexandra, Luiz, Pastore e Antonio Carlos

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VIAGEM

“ O TREM APITOU NA OUTRA MARGEM E UM GRUPO DE PASSAGEIROS ACENOU DAS JANELAS. SUSPIREI DE SATISFAÇÃO DIANTE DA MAGIA DAQUELE MOMENTO”

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forte (entre 18° e 22° de álcool). Dizem que a bebida surgiu na época dos grandes descobrimentos, quando o vinho passou a ser armazenado com mais álcool para sobreviver durante as viagens. O resultado é que hoje há três tipos de vinhos do Porto: o Branco, o Tawny e o Ruby, este último o mais popular. No fim da tarde descemos o rio de volta a Régua, e de lá fomos de carro até a Quinta da Pacheca (www. wonderfulland.com/pacheca), em Vila Real, onde outra cena surreal nos aguardava: um grupo de turistas escandinavos divertia-se a valer cantando e dançando músicas portuguesas ao som de uma sanfona, enquanto pisavam em uvas dentro de um grande tanque de concreto. Suas pernas branquelas manchadas de roxo pareciam PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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POR PATRICIA BROGGI

SEM MODERAÇÃO PODE SER A BORDO DE TREM, NAVIO OU HELICÓPTERO: O QUE IMPORTA É IR COM SEDE AO DOURO

incapazes de seguir a tradicional coreografia da pisa do vinho, o que lhes valia imensas gargalhadas. A Quinta da Pacheca é uma das primeiras propriedades a engarrafar seus vinhos com um label próprio desde 1738. Hoje ela tem um pequeno hotel de 14 quartos, bonito por fora e feio por dentro, e um ótimo programa de wine tasting, com direito a passeio por todo o processo de produção do vinho, terminando em uma lojinha com ótimos produtos locais – artesanato, geleias, azeite de oliva e vinhos de safras especiais. Na manhã seguinte, era hora de retornar a Lisboa para o vernissage do artista e fotógrafo português radicado no Brasil Fernando Lemos. Mas esta é uma outra história.

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O melhor da viagem ao Douro é que parti com vontade de voltar, de conhecer outras quintas, passar férias por lá enquanto ainda é tempo. E por isso sigo pesquisando o roteiro. Idealmente, viajar pelo Douro requer no mínimo uma semana. Subir o rio de trem e descer de barco é o mais indicado. O antigo trem com sua locomotiva a vapor e cinco carruagens históricas promete uma viagem através do tempo e uma vista incrível do Douro, já que sua via férrea segue beirando o rio – ele parte aos sábados, entre junho e outubro (www.cp.pt). E o melhor percurso é entre as cidades de Peso da Régua e Tua. Na volta, vale a pena partir de Barca d’Alva, divisa entre Portugal e Espanha, e descer de barco (www.douroazul. com) toda a extensão portuguesa do Douro (210 quilômetros) até a foz. Dizem que os mais aventureiros fazem esse passeio a remo, mas acredito que um barquinho como o Friend Ship, romântico e confortável, seja suficientemente inesquecível. A primeira parte, de Barca d’Alva até Pinhão, é a mais selvagem e bonita. De Pinhão ao Porto o ponto alto são as eclusas. Parece que a experiência pode causar claustrofobia em certas pessoas ao depararem com uma imensa parede de concreto e esperarem cerca de meia hora até as águas se nivelarem para então fazer a travessia – mas nada que uma boa garrafa de vinho não resolva. Para os que preferem ver tudo de cima, também há serviço de helicópteros. Por incentivo do governo, ultimamente muitas quintas do Douro abriram suas portas para o turismo, portanto há opções para todo tipo de bolso, de casas muito simples a quintas senhoriais transformadas em hotéis de luxo. Alguns locais de hospedagem recomendada: CS Hotel Vintage House (www. csvintagehouse.com/pt), que fica na beira do rio, em Pinhão, uma linda propriedade do século XVIII cuja adega foi transformada em hotel cinco estrelas; a Quinta do Vale Meão (www.quintadovalemeao.pt), que no século XIX pertenceu à dona Antonia Adelaide Ferreira, popular figura da região; e a Quinta da Ervamoira (www.ramospinto.pt), ambas localizadas em Vila Nova de Foz Côa, uma das áreas mais bonitas do Alto Douro, já quase na divisa com a Espanha. A dica mais importante, porém, é não viajar até lá em regime de abstinência alcoólica como fez meu amigo Ronnie Wood. Não beber no Douro é uma ofensa a Baco. Vá com sede e beba sem moderação. Saiba mais em Turismo do Douro (www.douro-turismo.pt) e Rota do vinho do Porto (www.rvp.pt).

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FOTO GENTILMENTE CEDIDA POR EDIÇÕES PINAKOTHEKE

MEMÓRIA

Sumi-ê e aquarela sobre papel da série “Caligrafia, Ideograma, etc.”, 1977 PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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POR MARÍLIA SCALZO

O OLHAR DE CRÍTICOS E AMIGOS RESGATA A VERDADEIRA ESTATURA DE

WESLEY , DUKE LEE UM CRIADOR INQUIETO

FOTO: OTTO STUPAKOFF / INSTITUTO MOREIRA SALLES

QUE EXPRIMIU NA ARTE BRASILEIRA O ENCANTO PELA ERA DA COMUNICAÇÃO

Fotografado por Otto Stupakoff, um dos integrantes do grupo Realistas Mágicos, que durou de 1962 a 1966

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MEMÓRIA 1

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FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS POR EDIÇÕES PINAKOTHEKE

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uando conheceu Paris no fim da década de 1950, o artista Wesley Duke Lee achou a cidade parecida com o bairro paulistano de Santo Amaro. “Era muito devagar.” Ele tinha então 27 anos. Havia estudado em Nova York, experimentara alguns caminhos artísticos, abandonara vários deles, amara algumas mulheres. Era assim, inquieto – um dos dois adjetivos mais usados por seus amigos para qualificá-lo; o outro é inteligente. Chamado certa vez pelo colecionador Kim Esteves de “Tom Jobim das artes plásticas brasileiras”, Duke Lee, que morreu em setembro passado em São Paulo, depois de sofrer alguns anos com o mal de Alzheimer, ganhou nos últimos tempos exposições que resgataram sua obra para as novas gerações. Duas delas organizadas por Ricardo Camargo, que conheceu o trabalho do artista em 1970 e sempre achou que ele recebia menos atenção do que merecia. “Sua recolocação no mercado e a percepção de sua importância foram fundamentais.” Nem sempre foi assim, entretanto. Com trabalhos rejeitados em várias bienais e marginalizado por ser de direita em uma década em que os artistas eram de esquerda – a de 1960 –, Wesley em alguns momentos foi mais conhecido no exterior do que no Brasil. Ele tinha que experimentar. Levou a inquietude ao extremo. Criando seus movimentos, como o Realismo Mágico, pesquisando e usando técnicas que iam da têmpera medieval ao scanner. Foi pioneiro no Brasil em happenings e instalações, e estava na frente também quando se submeteu a experiências com LSD no início da década de 1960. Ofereceu-se como voluntário em uma clínica paulistana, onde tomava o ácido e depois se trancava em uma sala para desenhar. “Para nós, não se tratava de droga, mas sim de uma experiência”, disse o artista Nelson Leirner,

amigo e parceiro que em 1967 se associaria a ele no projeto Rex Gallery. O pensamento inquieto de Wesley, que era, além de criador, um professor fascinante, fertilizou a produção artística em São Paulo. “No fim dos anos 1950, fui a uma exposição do Wesley na galeria Miani”, lembra Carlos Fajardo, um de seus mais consagrados discípulos. “Fiquei impressionado com seu trabalho, que naquele momento eram têmperas, e pedi para estudar com ele.” Wesley ponderou que as aulas custariam muito caro para um só aluno e sugeriu que ele convidasse mais gente. “Chamei Luiz Paulo Baravelli, José Resende

e Frederico Nasser, meus colegas na FAU”, conta. Após um ano inesquecível, Wesley convidou Fajardo para ser seu assistente num curso no museu Gismonti, de Ribeirão Preto. “Depois de uma ou duas aulas ele foi embora para a Bienal de Tóquio; acabei dando o curso todo e assim me tornei professor”, explica Fajardo. Quando Wesley voltou do Japão, um ano depois, convidou os ex-alunos para abrir com ele e Nelson Leirner a Rex Gallery. “A galeria publicava um jornal, o Rex Times, promovia discussões e exibia filmes”, lembra Fajardo. “Mas não cumpriu sua principal missão, que era vender, PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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Ao lado, catálogo do Grande Espetáculo das Artes, primeiro happening do Brasil, realizado às escuras no João Sebastião Bar, em Sao Paulo, em 1963; acima, Wesley (de terno claro) e amigos do grupo Rex: Geraldo de Barros (à esquerda), Frederico Nasser, Nelson Leirner, José Resende e Olivier Perroy por isso fechou.” A última exposição, de Nelson Leirner, provocou grande tumulto ao prometer que os visitantes poderiam levar de graça as obras. “Wesley sempre foi além do seu tempo”, diz o marchand carioca Max Perlingeiro, responsável por suas últimas exposições.“Era um grande inovador, um espírito inquieto”, ressalta Cacilda Teixeira da Costa, que o conheceu quando, na década de 1970, fazia pesquisa para uma exposição com artistas dos anos 1960 para o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, MAC. Impressionou-se com ele. Tanto que depois se tornaria sua biógrafa, com dois livros publicados sobre o artista e sua obra (Wesley Duke Lee, da coleção da Funarte, e Wesley Duke Lee,

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Um Salmão na Corrente Taciturna, sua tese de doutorado), vários textos para exposições e um curta- metragem (A Última Viagem de Arkadin d’y Saint Amèr). Múltipla, como ele próprio, a formação de Wesley começou por um curso no Museu de Arte de São Paulo, em 1951, passou pelo aprendizado com o artista italiano de origem austríaca Karl Plattner, seu mestre, a quem seguiu no Brasil e na Europa, e pelos conhecimentos que foi adquirindo ao longo das muitas viagens pelo mundo. O curso que fez na Parsons School de Nova York, entre 1952 e 1955, aproximou-o da publicidade. Chegou a trabalhar como publicitário na volta a São Paulo, mas sempre fez questão de manter a atividade separada de seu trabalho artístico – a pro-

A REX GALLERY PUBLICAVA UM JORNAL, PROMOVIA DEBATES, AGITAVA. MAS FECHOU PORQUE NÃO CONSEGUIA CUMPRIR A MISSÃO DE VENDER OBRAS DE ARTE

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paganda e as ilustrações eram uma fonte de renda. Mesmo assim, faria alguns trabalhos de destaque na área, como a série de ilustrações para a fábrica de automóveis francesa Renault, que lhe rendeu um prêmio e, no mínimo, mais uma admiradora. O prêmio em dinheiro resultou em uma viagem de moto pela Europa com o irmão, William Bowman Lee Neto, em 1960. “Quando jovens, éramos muito unidos”, conta William. “Wesley me convidou para gastarmos juntos o prêmio da Renault viajando pela Europa; ele queria conhecer todas as igrejas.” William tomou um navio em Santos, desceu em Gênova, comprou uma Vespa e foi buscar o irmão em Bolzano, onde trabalhava com Plattner. “Ele era metido com cinema e queria conhecer o Ingmar Bergman, seu ídolo. Fomos até o norte da Suécia, enfrentando chuva e neve. Wesley pediu uma entrevista. A resposta de Bergman foi: ‘Não tenho o menor interesse nos sul-americanos’.” Uma decepção. O cineasta apenas mandou dois ingressos para que eles assistissem ao filme A Fonte da Donzela, seu último na época. A admiradora foi Costanza Pascolato, que, antes de conhecer Wesley, viu seus desenhos para a Renault em revistas estrangeiras, recortou e pregou na parede do quarto. Depois, apaixonou-se pelo artista. “Eu tinha 19 anos quando o conheci, ele morava na rua Augusta, atrás da loja de discos Hi Fi, tinha uma romiseta amarela... Apaixonei-me por ele e por tudo o que ele fazia; ele me ensinou a olhar, aprendi a ter muitos olhares para as coisas.” Quando Costanza teve câncer, em 1993, ele soube e foi visitá-la. “Trouxe um quadro e, junto, uma carta bem dobradinha que se chamava ‘O Renascimento’, porque eu tinha me safado. A coisa mais bonitinha!” Costanza foi uma entre tantas admiradoras do artista.“Ele namorava todo mundo”, lembra, “mas a mulher mais importante na 76

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FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS POR EDIÇÕES PINAKOTHEKE

MEMÓRIA

sua vida foi a Lydia Chamis.” De fato, Lydia, que Wesley conheceu em 1958 e com quem se casou em 1967, foi sua grande musa, segundo os amigos e a família. Foi ela quem inspirou sua série de desenhos “Ligas”, elemento central de O Grande Espetáculo das Artes, considerado o primeiro happening brasileiro, que o artista realizou no João Sebastião Bar, reduto da boemia intelectual paulistana, em 1963. Thomaz Souto Corrêa, que conheceu Wesley no fim da década de 1950 e esteve no evento de 1963, testemunhou as paixões do artista e seu sucesso com as mulheres. Em 2008, quando da realização da exposição “O Filiardo” escreveria na revista Bravo!: “Sentado em um canto da galeria, elegante

como poucos, Wesley recebia cumprimentos de conhecidos e desconhecidos, artistas e compradores, mas as atenções maiores vinham do grupo feminino. ‘Elas continuam chegando perto’, brinquei com ele”. “Ele gostava de casar”, diz o irmão. “Ficar casado é que era difícil”, diverte-se. A sobrinha Patrícia Lee, filha de William, que cuidou do tio quando doente e hoje é responsável por seu acervo, diz que ele se casou com Lydia, com Luisa Strina e com Maria do Carmo Abreu Sodré, mas que teve tantas outras mulheres que seria impossível citar todas. “Mas no papel mesmo só com a tia Lydia, que minha avó considerava sua nora.” Lydia teria prometido para a mãe de Wesley que cuidaria sempre dele e fez PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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THE HELICÓPTERO, QUE ELE MOSTROU NO JAPÃO EM 1969, FOI DEFINIDA COMO INSTALAÇÃO-ESCULTURA, “UMA MÁQUINA DE COMUNICAÇÃO”

No alto, The Helicóptero, que inclui pintura, desenho, escrita, colagem, assemblage e componentes mecânicos e eletrônicos; acima, Yukiko-e (A Zona: 19 a 45), políptico de 1965: a influência do Japão aparece na criação e na vida do artista, que ajudou a difundir a gastronomia nipônica em São Paulo

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MEMÓRIA

FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS POR EDIÇÕES PINAKOTHEKE

DEPOIS DAS VIAGENS PELO MUNDO, VOLTAVA SEMPRE PARA A CASA-ATELIÊ EM SANTO AMARO. “É AQUI QUE VENHO ME BUSCAR”, DIZIA

Ao alto, na primeira temporada em Tóquio, em 1965; a casa erguida no terreno dos avós, com quem viveu, no bairro paulistano de Santo Amaro e onde tudo permanece igual, como numa derradeira instalação; acima, com a primeira mulher, Lydia Chamis, que conheceu em 1958 no Museu de Arte Moderna e inspirou a série “Ligas”

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isso. “No último ano, ela ia visitá-lo todos os dias”, conta Patrícia. Vaidoso, Wesley sofreu críticas também por encarnar o dândi quando muitos artistas faziam questão de não ligar para isso. “Era muito cuidadoso com a aparência”, diz seu irmão. “Até o fim tinha 40 ternos, 90 camisas, tudo de qualidade.” “É o homem mais charmoso que já vi na vida”, diz a artista Lenora de Barros, filha de Geraldo de Barros, que acompanhou Wesley na aventura da Rex Gallery. “Quando o conheci, eu tinha 11 para 12 anos e havia descoberto os Beatles. Ele tinha um boné de veludo que dizia ser do John Lennon”, lembra Lenora. “Nas festas, monopolizava as atenções: ele sentado e todo mundo em volta.” Voltando a Santo Amaro... Era ali sua base, para onde sempre voltava das inúPRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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meras viagens que fez para a Europa, os Estados Unidos, o Japão – forte influência em sua vida e em sua obra e lugar onde ele seria mais reconhecido do que no Brasil. Foi em uma bienal no Japão, em 1969, que ele apresentou um de seus trabalhos mais importantes: The Helicóptero. Sobre ele, escreveria Paulo Herkenhoff: “Uma folia neodadaísta, a escultura-instalação inclui pintura, desenho, escrita, colagem, assemblage e componentes mecânicos e eletrônicos (...) uma máquina de comunicação”. Para Wesley, a obra trazia “o conceito de voo virado para dentro; é você quem voa, não o helicóptero”. A obra, que hoje pertence ao acervo do Masp, ficou 11 anos presa na alfândega quando voltou ao Brasil. Santo Amaro é também onde está a casa em que Wesley viveu seus últimos 45

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anos e parte da infância. Nascido em 1931, ele e seu irmão moraram entre 1934 e 37 e entre 1941 e 43 com seus avós paternos – William Bowman Lee e Mamie Fonville Lee –, missionários da igreja metodista, norte-americanos. Em uma parte do terreno da chácara, que ficava onde hoje é a avenida João Dias e onde o reverendo plantava e sua mulher dava aulas de desenho para crianças, ele construiria sua casaateliê, uma estrutura metálica recheada de tijolos, com 6 metros de pé-direito. “Minha casa é minha fantasia”, dizia. “É aqui que venho me buscar.” Quando Wesley morreu, o amigo Mino Carta escreveu na revista Brasileiros: “Mais de uma vez ele abriu seu ateliê para meu deleite, algo assim como a antecipação do loft, a misturar móveis de estilo, vitrais déco, camas japonesas”. “Está tudo lá, seus recortes, as tralhas,

brinquedos... tudo”, conta a sobrinha Patrícia. Estão lá obras de seu mestre Karl Plattner e dos discípulos Luiz Paulo Baravelli, Carlos Fajardo e José Resende. Objetos acumulados para compor uma instalação: garrafas de vinho vazias, correntes, cordas, copos quebrados, cacos de vidro, máquina fotográfica, livros, retratos e uma grossa camada de pó cobrindo tudo. Naturezas mortas pintadas pela avó Mamie Lee. Fotos de todas as fases de sua vida. Recortes com manchetes de jornal que atestam seu humor, como “Assassinou a cozinheira por duas azeitonas”. Sua “pequena floresta”, o jardim em que não deixava ninguém mexer. Patrícia está montando o Instituto Wesley Duke Lee – que talvez seja na casa, talvez não – e por isso não mexeu em nada. Está tudo ali, igualzinho, naquela que talvez seja sua última grande instalação.

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TENDÊNCIA

A GENTE QUER

CULTURA, DIVERSÃO “ E E ARTE COM UM RECORDE DE 138 CURSOS E 99 PROFESSORES EM UM SEMESTRE, A CASA DO SABER TORNOU-SE UM EXEMPLO DE SUCESSO AO REVELAR QUE O CONHECIMENTO ERA UM OBJETO DE DESEJO DO CONSUMIDOR DE LUXO

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u quero filosofia! Eu quero filosofia!” A moça insistia no balcão da recepção da Casa do Saber, na rua Mario Ferraz, em São Paulo, diante dos olhos incrédulos do professor Franklin Leopoldo e Silva – 38 anos de aulas de filosofia na Universidade de São Paulo –, não aceitava outra opção. As vagas para todos os cursos de filosofia que a escola oferecia naquele semestre estavam esgotadas e as filas de espera, compridíssimas, mas ela não queria saber de história, arte ou literatura. “É uma coisa que jamais esperei ver na minha vida, mas aconteceu”, diz Franklin, um dos professores-estrelas da Casa. “É um sinal.” Sim, é um sinal, entre outras coisas, de que o projeto Casa do Saber, que completou seis anos em 2010, deu certo. Criada em 2004, com 17 cursos oferecidos em seu primeiro semestre de funcionamento, a escola informal que logo ganhou apelido de Daslusp, por reunir em suas salas a sabedoria e os professores da USP com o público endinheirado e elegante frequentador da loja Daslu, neste último semestre bateu todos os seus recordes. O catálogo trouxe 138 cursos com 99 professores ou palestrantes, sobre música, artes, história, psicanálise, literatura, cinema, religião, antropologia e, claro, filosofia. Os cursos lotam a matriz – a casa da Mario Ferraz –, a filial do shopping Cidade Jardim, aberta em 2008, e a do Rio de Janeiro, que tem outro grupo de sócios. Em comum, todas elas têm como sócio majoritário e mentor o advogado, ex-banqueiro e empresário Jair Ribeiro – com 50%. Foi inspirada em encontros que aconteciam em sua casa que a ideia do negócio nasceu. “Sempre quis reunir um grupo para estudar alguns temas, mas não queria voltar para a escola”, conta Jair. Quando voltou de Nova York, onde liderou entre 2001 e 2003 a área internacional de renda variável do JP Morgan, aproveitou seu ano sabático para montar o tal grupo em casa. “Começou a pegar”, lembra, “o pessoal falava: ‘Vamos na casa do Jair, é terça-feira’; depois rolava um vinho, uma música... Era uma semifesta.” Todo mundo queria ir; Jair, que costuma acertar nos negócios, sentiu que havia PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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POR MARÍLIA SCALZO RETRATO NINO ANDRÉS

O jornalista Mario Vitor Santos e o empresário Jair Ribeiro, dois dos oito fundadores: a Casa do Saber é a hora do recreio deles

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TENDÊNCIA VIAGEM

A TURMA DE 2004

EDUARDO KNAPP/FOLHAPRESS

NO COMEÇO ERA UMA REUNIÃO NA CASA DE JAIR RIBEIRO. QUANDO ELE DECIDIU ABRIR UMA ESCOLA, SEIS AMIGOS O ACOMPANHARAM NA AVENTURA

EDÚ SIMÕES

ANA MARIA DINIZ

PATRICIA STAVIS/FOLHAPRESS

LUIZ FELIPE D’ÁVILA

LEONARDO AVERSA / AGÊNCIA O GLOBO

PIERRE MOREAU

DIVULGAÇÃO

MARIA FERNANDA CÂNDIDO

DIEGO PADGURSCHI/FOLHAPRESS

CELSO LODUCCA

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GABRIEL CHALITA

aí uma demanda não atendida. “Existia esse desejo”, diz Mario Vitor Santos, jornalista de formação e diretor da Casa desde sua criação. “As pessoas às vezes se sentem irrelevantes, fúteis, vazias; as ideologias e as religiões não respondem mais, os relacionamentos são complicados. O saber é uma coisa consistente.” Os amigos (que dividem os outros 50% do negócio) se uniram a Jair na empreitada – a empresária Ana Maria Diniz e seu marido, o escritor e empresário Luiz Felipe D’Ávila, a atriz Maria Fernanda Cândido, o publicitário Celso Loducca, o advogado, ex-secretário da Educação e agora deputado federal Gabriel Chalita, o advogado Pierre Moreau e Mario Vitor Santos. Discutiram o conceito, decidiram o modelo de negócios e contrataram uma empresa para avaliar o mercado e a viabilidade econômica. Tudo certo. Ainda dentro do ano sabático de Jair, foi corrido, mas deu tempo de fazer. “No começo, era o Mario Vitor e mais dois estagiários, o Felipe Corazza e eu”, conta Marina Beran, funcionária primeira que nessa época cursava o último ano de ciências sociais. Ela lembra que a Casa nem tinha prédio, os três dividiam dois computadores no escritório do sócio Pierre Moreau. Hoje, são 23 funcionários trabalhando entre a Casa do shopping e a da Mario Ferraz. Nesse começo improvisado, todos faziam tudo. “Até o Jair atendia o telefone e fazia inscrições de alunos”, conta Marina. “Uma vez uma aluna percebeu e disse: ‘Que espécie de lugar é esse onde o presidente faz as vezes de recepcionista?! Vocês não devem ser sérios’.” Eram. Sérios, mas não mal-humorados. “Uma das coisas boas da sociedade é que nunca tivemos uma reunião de sócios desagradável. É para ser leve. Cada um de nós já tem sua atividade principal e stress; aqui só pode ter alegria. A gente manda embora as pessoas chatas e não contrata ninguém chato”, revela Jair. Os sócios frequentam a Casa, dando cursos, assistindo às aulas ou inventando atividades que só podem fazer ali. Maria Fernanda Cândido e Pierre Moreau, por exemplo, seguiram cursos de poesia com o professor Davi Arrigucci Jr.; Ana Maria Diniz e Celso Loducca nesse último semestre foram mediadores de cursos que ajudaram a inventar. “Eu fiz um CD”, conta orgulhoso Jair, “com músicas que escolhi e textos que líamos nos saraus; são pequenos prazeres que a Casa proporciona.” Luiz Felipe D’Ávila resume: “É a versão moderna dos antigos saraus culturais de São Paulo”. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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“MATRICULEI-ME PELA PRIMEIRA

PAULO GIANDALIA/AGÊNCIA ESTADO/AE

VEZ ANTES DE UMA VIAGEM AO ORIENTE, PARA ME PREPARAR. DEPOIS VOLTEI OUTRAS VEZES. OS PROFESSORES SÃO ÓTIMOS E AS BIBLIOGRAFIAS, MUITO ÚTEIS”

A Casa já teve uma livraria (depois vendida para a Livraria da Vila), tem uma parceria com a editora Casa da Palavra, para a edição dos livros da Casa do Saber, com dois títulos já lançados (Os Pensadores, um Curso e Nietzsche, Filósofo da Suspeita) e mais três saindo agora (Grandes Publicitários, Conhecimento de Si e Kant x Nietzsche); e uma parceria também com a agência de viagens Latitudes para as viagens do saber, que levam alunos e professores para lugares como Turquia, Índia ou Vietnã. A artista plástica, e aluna fiel da Casa, Magda Colares já fez duas – uma para a Turquia com o professor de filosofia Luiz Felipe Pondé, outra para Vietnã e Camboja com Leandro Karnal, que dá aulas de história. POR QUE DEU CERTO? “Por duas razões”, explica Jair Ribeiro, “porque atende a uma necessidade real do nosso público de querer conhecer mais e porque somos fiéis a nossos princípios e nos preocupamos com os detalhes.” Entre os valores que a Casa defende e publica em seu site – em redação revisada pela escritora Lygia Fagundes Telles – estão o debate, a busca do crescimento e o prazer de aprender e de pensar.

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ELEONORA ROSSET PSICANALISTA O que cursou: Índia, de Flavia Galli, Jayme Spikowitz, Leandro Karnal e Marcos Vinicius de Moraes; e Uma Introdução ao Budismo, de Monja Coen, lama Tsering, Eliane Machado da Silva e Flavia Galli

“Além disso, nós valorizamos o saber”, completa Mario Vitor. “Os cursos são caros e as pessoas pagam. Achamos que devem pagar pelo saber o que pagam por terapia ou por bons jantares.” Um curso de quatro aulas custa R$ 400 e pode ser pago em parcelas. Para os mais assíduos, a Casa criou o cartão Paideia (termo grego, ligado à cultura e à educação), que por R$ 5 mil dá direito a assistir a qualquer curso no semestre; o aluno só tem que avisar meia hora antes da aula. Para professores do ensino médio de escolas públicas e estudantes universitários que comprovem baixa renda, há uma cota de bolsas a cada período. E as aulas não são apenas aulas, são uma experiência. “Você chega, tem uma musiquinha tocando, um monitor que dá suporte, os professores são escolhidos a dedo...”, enumera Jair. “Quanto mais árida a vida fora, mais aqui aparece como um oásis produtivo, de fruição”, diz Mario Vitor. Atrás desse oásis chegam alunos como as empresárias Natalie Klein e Ana Tereza Albert, o administrador de empresas José Onofre de Araújo Neto, o designer Ronald Kapaz, a psicanalista Eleonora Rosset e, até, o apresentador Jô Soares. Ana Tereza durante três anos foi quase diariamente à

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MASTRANGELO REINO/FOLHAPRESS

TENDÊNCIA

NATALIE KLEIN EMPRESÁRIA Cursou: Grandes Nomes da Moda, de João Braga; e O Que É uma Vida Bem-sucedida, de Clovis de Barros Filho

Casa. Fazia cursos na hora do almoço ou à noite quando saía do trabalho. “Era um pit stop, fugia do trânsito e aproveitava. Era gostoso, bem-humorado, encontrava amigos, batia papo, tomava um vinho...” “É muito conveniente; chego às 20 horas, paro, bebo um vinho, converso; é bom para a rede de relacionamentos”, concorda José Onofre de Araújo Neto, que começou em 2004, com o curso Os Pensadores – o maior hit da Casa com edições em todos os semestres e mais de mil alunos diplomados –, e já fez cerca de 70 outros depois disso. “O corpo de professores é fantástico”, diz. Os professores são mesmo um dos pontos altos da Casa. “São todos avaliados depois dos cursos pelos alunos”, conta Mario, “e a média está acima de nove.” E tem os campeões de audiência, como Clovis de Barros Filho, Franklin Leopoldo e Silva, Davi Arrigucci Jr. e Luiz Felipe Pondé. “Têm seguidores fiéis.” Ronald Kapaz durante os últimos cinco anos fez cursos todos os semestres. “Tenho uns 40 diplomas.” Interessou-se por filosofia e seguiu Pondé, Barros Filho e Leopoldo e Silva. “Já fiz todos, esgotei a área.” 84

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Os professores queridinhos devolvem os elogios. “Adoro dar aulas na Casa por causa do alto nível dos alunos, do comprometimento da equipe, da liberdade absoluta dos temas, das condições excelentes de trabalho e da boa grana”, diz Luiz Felipe Pondé, que não tem mais ideia de quantos cursos deu desde 2005. Renato Janine Ribeiro, professor na USP desde 1975, dá aulas na Casa desde o seu começo e admira a diversidade do público e como isso pode enriquecer os cursos. “Há uma grande liberdade para levantar questões.” Clovis de Barros Filho, também na Casa desde o começo – na verdade desde antes, nos saraus da casa de Jair Ribeiro –, a cada semestre lança novidades para atender seus fãs e engrossa o coro: “O aluno que vai lá dificilmente exige do professor o que é mais chato hoje em dia, que é manter a disciplina na classe e conseguir dar a aula. O que mais me surpreendeu nessa experiência é que ela abre horizontes e baixa a guarda dos preconceitos”, diz. O mesmo aconteceu com o jornalista, escritor e músico Cadão Volpato, que deu três PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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DEISI REZENDE/AJB/FUTURA PRESS

JÔ SOARES

DIVULGAÇÃO

cursos na Casa, todos sobre rock. Foi um sucesso: “Tinha engravatados exaustos depois de um dia de mercado financeiro, adolescentes espinhudos acompanhados dos pais, ou não, senhores e senhoras de cabeça branca que foram topetudos no passado; achei ótimo e confesso que me livrei de vários preconceitos”. Os preconceitos recíprocos da porção USP e da porção Daslu da Casa do Saber não sobreviveram ao convívio. Segundo Mario Vitor Santos, isso acontece porque o projeto mobiliza o melhor desses dois mundos: “Não é qualquer professor da USP que pode dar aulas aqui nem qualquer aluno abastado que consegue acompanhar o que eles vêm ensinar”, explica. Como em qualquer escola, há casos folclóricos. Clovis de Barros Filho recorda-se de uma aluna que deixou a sala batendo o pé rumo à diretoria em uma aula sobre Nietzsche para reclamar daquela conversa sobre a morte de Deus. Na classe de Luiz Felipe Pondé sobre as dificuldades do amor na pósmodernidade, uma aluna também não aguentou: disse que não suportava a agonia e queria um marido.

APRESENTADOR E ESCRITOR O que cursou: Os Grandes Julgamentos da História, de Carlos Frederico Nogueira Coelho e Leandro Karnal

RONALD KAPAZ DESIGNER O que cursou: Todos os cursos de filosofia de Luiz Felipe Pondé, Clovis de Barros Filho, Franklin Leopoldo e Silva, entre outros

POR QUE FILOSOFIA? Na Casa, porque ela nasceu do grupo que estudava filosofia. “A disciplina dá bases para entender as fases da vida, ajuda no processo de autoconhecimento e impacta a vida profissional”, diz Jair Ribeiro. “Talvez ela possa substituir algumas formas de responder coisas na vida”, fala Mario Vitor. “Em alguns momentos, os cursos de filosofia do Clovis e do Pondé eram quase uma sessão de terapia”, revela a aluna Ana Tereza. “Para mim, é uma parada para reflexão”, diz Magda Colares.

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RODRIGO CAPOTE/FOLHAPRESS

TENDÊNCIA

LUIS FELIPE PONDÉ Filósofo e psicanalista, professor da PUC-SP, da Faap e da Universidade Federal de São Paulo. Cursos: Tragédia e Filosofia e Os 10 Mandamentos, e outros 38

DAVI ARRIGUCCI JR.

EDUARDO KNAPP/FOLHAPRESS

PATRICIA STAVIS/FOLHAPRESS

Professor de teoria literária e literatura comparada da USP de 1965 a 1996. Ensaísta e ficcionista, ganhador de dois prêmios Jabuti, em 1979 e 1987. Cursos: Jorge Luis Borges, O Que Eu Penso e outros quatro

CLOVIS DE BARROS FILHO

“ ÀS VEZES AS PESSOAS SE SENTEM IRRELEVANTES, VAZIAS. RELIGIÕES E IDEOLOGIAS NÃO RESPONDEM MAIS E O SABER É UMA COISA CONSISTENTE”

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Professor livre-docente da Escola de Comunicação e Artes da USP, advogado e jornalista Cursos: Dez Obras Fundamentais na Filosofia, A Maratona do Desejo e outros 38

Luiz Felipe Pondé tenta fazer da filosofia em suas aulas “algo que tenha a marca da filosofia no seu nascimento, uma espécie de terapia da alma e do cotidiano”. Renato Janine Ribeiro impressiona-se há vários anos com o número de pessoas interessadas em história da filosofia. “Quando fiz faculdade, no fim da década de 1960, falava-se que o tempo da filosofia tinha acabado. Depois, a ditadura reprimiu seu ensino, mas a partir do começo dos anos 1980 o interesse voltou e se tornou crescente.” Um sinal? “Tenho pensado muito nisso”, diz Franklin Leopoldo e Silva. “Tenho a impressão de que é um bom sinal, mas também é um sinal de que a vida está se tornando mais complicada e as pessoas precisam entender um pouco essa complicação.” É, sem dúvida, um sinal. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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PRAZER EM CONHECER ESTUDAR MAIS DEIXOU DE SER BICHO DE SETE CABEÇAS E VIROU UM SONHO POSSÍVEL PARA DIVERSOS PÚBLICOS

FOTOS: DIVULGAÇÃO

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rabalha-se muito em São Paulo, é preciso ter uma válvula de escape para refrescar a cabeça.” Assim Pablo Pinheiro, um dos mentores do Centro Cultural b_arco, justifica a multiplicação nos últimos anos de cursos voltados para arte, cultura e filosofia na cidade. Para Isabella Prata, da Escola São Paulo, há também outra explicação: “Educação é hoje um diferencial”, diz. De fato, a exemplo do que ocorre com a Casa do Saber, o sucesso desses cursos evidencia um fenômeno social curioso: o anseio de um público crescente por ampliar sua bagagem cultural. O caso da Escola São Paulo é emblemático. Neste ano passaram por lá cerca de 5 mil alunos interessados em se aperfeiçoar em temas como moda, fotografia, arquitetura. “Enquanto a Casa do Saber tem uma proposta mais reflexiva, apostamos em cursos mais práticos”, explica Isabella. “A demanda é grande e há espaço para todo mundo.”

No alto, Ruy Castro e Jorge Furtado em aulas sobre biografia e roteiro no Centro Cultural b_arco. Acima, Marie Ruckie e Pedro Lourenço em curso de moulage na Escola São Paulo em 2009

TESOURO DA JUVENTUDE

NO MESMO BARCO

Em meio ao burburinho da rua Augusta está a Escola São Paulo (www.escolasaopaulo.org) com seus cursos livres ministrados por gente como Paulo Mendes da Rocha, Bob Wolfenson e Marie Ruckie. “Nosso público é jovem, a maioria tem MBA, fala várias línguas e quer se aprofundar em algum tema ligado à cultura contemporânea”, define Isabella Prata, que inaugurou o espaço há quatro anos. No ano que vem a escola pretende lançar uma série de cursos profissionalizantes – o primeiro deve ser formação em moda. “A ideia, novidade no Brasil, é oferecer a possibilidade de conquistar uma profissão sem a necessidade de passar por uma faculdade”, resume Isabella. Lá, as palestras custam R$ 90 e os cursos de um ano valem R$ 800 por mês.

Sediado no interior da galeria Virgílio, em Pinheiros, o Centro Cultural b_arco (www.obarco.com.br) abriu as portas há quatro anos e desde então já recebeu cerca de 6 mil alunos. “Um deles, publicitário, costuma dizer que vem para cá espantar seus demônios”, diverte-se Pablo Pinheiro, que comanda o espaço com os irmãos Gabriel e Gidu. Entre os cursos mais disputados da grade atual estão a oficina de biografia do escritor Ruy Castro, o workshop de roteiros com o cineasta Jorge Furtado e os encontros de filosofia com Peter Pál Pelbert, discípulo de Giles Deleuze e professor de pós-graduação da PUC-MG. Oficinas a partir de R$ 350 com aulas semanais.

UMA CHANCE DE EXPERIMENTAR ARTE Fundado em 2000, para divulgar e refletir as grandes transformações artísticas das últimas cinco décadas, o Instituto Tomie Ohtake (www. institutotomieohtake.org.br) oferece cursos livres há sete anos. Parte deles, patrocinada por empresas, é gratuita e destina-se a professores da rede pública; os demais, pagos (de R$ 200 a R$ 400 por um módulo de 16 horas), atraem um público variado, geralmente em busca de uma experiência artística. Oficinas com atividades, como Pintura: prática e reflexão, por Paulo Pasta, chegam a reunir 40 alunos por turma. Mas são os teóricos, sobretudo os de história da arte e filosofia, que atraem a clientela mais elitizada. São best-sellers nessa categoria, por exemplo, Arte Contemporânea – Direções Recentes, por Agnaldo Farias, e Conversações com Deleuze, por Peter Pál Pelbart.

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REFLETIR A SUA VERDADE COM OS NOSSOS OLHOS Bj^id bV^h fjZ ZY^iVg gZk^hiVh! igVWVa]Vbdh Xdbd Va^V" Ydh YZ cdhhdh Xa^ZciZh! Vegd[jcYVcYd d ZciZcY^bZcid YZ hjVh ]^hi g^Vh Z V ^YZci^YVYZ YZ hjVh bVgXVh# 9ZX^[gV" bdh Vh kZgYVYZ^gVh gVo Zh fjZ dh aZkVb V ZbegZZcYZg Z d fjZ! YZ [Vid! aZkV b^a]VgZh Zb Va\jch XVhdh b^a] Zh YZ eZhhdVh V hZgZb bV\cZi^oVYVh edg hjVh bVgXVh# ={ bV^h YZ '( Vcdh cd bZgXVYd YZ Xdbjc^XV d! V Ig^e :Y^idgV kZb hZ Xdchda^YVcYd Xdbd jbV YVh bV^dgZh ^c" i gegZiZh Ydh X Y^\dh YZ XdbedgiVbZcid Z Xdbjc^XV d eVgV e Wa^Xdh ZheZX ÒXdh Yd 7gVh^a# =d_Z! V ZY^idgV ej" Wa^XV XZgXV YZ *% b^a] Zh YZ ZmZbeaVgZh edg Vcd! Y^h" ig^Wj Ydh ZcigZ dh i ijadh fjZ ZY^iV/ gZk^hiVh Ig^e Z Ieb Z Vh Xjhidb^oVYVh 9Vhaj! 6jY^ BV\Vo^cZ! <da A^c]Vh 6 gZVh >ciZa^\ZciZh! Eg^kViZ 7gd`Zgh 8dZa]d YV ;dchZ" XV ! Cdi X^Vh YV <ZciZ 6b7Zk ! GZk^hiV BV^h <gjed E d

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ABRIDGED

ENGLISH VERSION 90

Maria da Nazaré Metsavaht, a woman that, with her husband, built one of the most important Brazilian fashion labels

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Benedikt Taschen the founder of Taschen tells the story of his publishing house, one of the most successful in the world

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Marcenaria da Fazenda preserves the craft’s tradition with its own creations and orders from top-flight Brazilian architects

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Luiza Pimenta had a role in many chapters of Brazilian fashion, from the hippie explosion to today’s casual style

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The beautiful Portugal’s Douro region, the world’s oldest demarcated winemaking region Wesley Duke Lee, a brazilian artist who expressed the charms of the age of communication

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VIAGEM COVER

Maria da Nazaré de Almeida Braga Metsavaht’s subdued appearance conceals a woman that, with her husband, built one of the most important Brazilian fashion labels, a woman who overcame the obstacles of dyslexia, and is a true Rio aristocrat

At home, in the living room she is finishing decorating with input from Oskar.

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POR PATRICIA BROGGI BY MARIA LUCIA RANGEL PHOTOGRAPHY JORGE BISPO

SUBTLE STRENGTH

M

aria da Nazaré de Almeida Braga Metsavaht is the female soul behind Osklen, one of Brazil’s most successful fashion labels, and has been married to its founder, Oskar Metsavaht, for 19 years. Together, they built what is now a major corporation with 29 stores across Brazil and ten abroad. Oskar gives interviews and makes final decisions. Nazaré’s job is more subtle, but no less important: she is in charge of store ambience in a company that, more than selling clothes, expects to disseminate a living philosophy. In 1989, when it was founded, Osklen was just a store that, in addition to t-shirts, backpacks and Bermuda shorts, sold snow jackets in the Búzios coastal getaway, in Rio de Janeiro State. Its owner, Oskar Metsavaht, a doctor specialized in sports medicine, had developed a line of cold-weather clothing because he was planning to climb the Aconcagua in Chile. In February 1990, he and Nazaré met and got married ten months later. Brought up in a family of successful businesspersons, Victoria’s success would be only natural, except for one thing: dyslexia. Trouble at school made her a challenging child, unable to understand lessons or take notes. She went to several schools until she found a Montessori-method institution where teachers were psychology graduates. At 18, annoyed that she couldn’t speak English, Nazaré left high school to spend a year in England. Upon her returned, she completed her studies, although being dyslexic prevented her from going to architecture school. Nazaré co-founded and is now vice president of APAD, a dyslexia support organization that helps parents educate dyslexic children. The disorder afflicts 10 percent of the population and APAD lobbies the Ministry of Education to make dyslexia diagnosis mandatory at schools. To compensate for the disorder, Nazaré has always been a sports fanatic. She is Brazilian hang gliding champion, Rio State water ski champion and Brazilian snowboard champion in the master category. She learned to hang glide in England, at 19. At that time she worked at her father’s realty – but only when the forecast was rain. “I had to prove I could be good at something.” The Metsavaht surname means “woodsman”. It is no coincidence that Oskar is decisively involved with envi-

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ronmental issues. He established a non-profit organization dedicated to promote sustainable human development and development of projects like e-fabrics, which identifies fabrics and materials made according to socio-environmental standards. With NGO Esplar, he supports 147 organic cotton farmers in the State of Ceará. “Oskar’s concern has made all of Osklen environmentally aware,” Nazaré notes. Another role she plays to the hilt is that of wife to the honorary Estonian consul to Rio, a position Oskar, as an Estonian descendant, has filled for some time. She performs several tasks in this role, some of them as complicated as the case of an Estonian underage, who was arrested in Rio. She wakes up early, at 6:30 AM, a habit she picked up from her father. On a typical day, Nazaré jogs on the beach or swims in the ocean in front of their home, has breakfast with her family, helps them with homework and has lunch with a friend. In the afternoon, she runs Osklen’s architecture and interior design, analyzes corporate projects and family investments. When it comes to fashion, what she really loves is to see Osklen in other people’s wardrobes, and has a collection of stories to tell: that actress Sarah Jessica Parker asked to keep her Osklen outfit after a campaign for Cidade Jardim mall; that Anne Hathaway is a customer of their New York store; that Whoopi Goldberg loved their e-fabrics salmon skin purse... She is particularly proud to have Marc Jacobs among the company’s VIP clients. The English designer found out about it in a trip to Brazil and started shopping at the New York store. During Osklen fashion shows, Nazaré tries to protect herself from the “celebrity culture”, but it’s not always easy. Some guests say that they won’t go unless they get a first-row seat. “How many front-row seats do they think there are? Shows are for journalists and buyers, not social events.” Her nature makes it easier for her to entertain than to keep people out. She likes being with a few true friends. According to Oskar, “she is a classy and charming hostess, regardless of whether the guest is Sting, an ambassador, or a surfer fried.” Oskar summarizes Nazaré’s savoir-faire with the ultimate compliment: “She is a stalwart of the rare and true Rio aristocracy.”

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BOOKS

PAPER EMPIRE Art books, whether low priced or incredibly expensive, and erotic art publications made Taschen one of the world’s most successful publishing companies. Founder Benedikt Taschen tells the story. Luxury, desire and sex are the three pillars on which German publisher Benedikt Taschen has built the world’s most successful art books empire, with roughly 15 million copies sold annually. “There are approximately 100 artbook publishers worldwide. Five of them, perhaps, are internationally relevant. Well, we sell more books than all of them together,” says Taschen. Tanned and up to date with fashion, Benedikt welcomes visitors to his office on the third floor of the Taschen HQ , one of the few 19th century hôtels particuliers in Cologne, on an ugly street full of cinderblock constructions, which includes a sex shop and a nightclub. Inside the building, the modern and meticulously lit ambience boasts an impressive collection of contemporary art by the likes of Mike Kelley, Jeff Koons and Martin Kippenberger, all long-time friends of our host. Born in Cologne in 1961 and a resident in Los Angeles, since the year 2000, when he bought the famed Chemosphere House – a futuristic design by John Lautner featured in films like “Body Double” (1984) and “Charlie’s Angels” (2000) –, Benedikt credits his success to the balanced use of two basic business tools: creativity and planning. At 9 years old, Benedikt spent his time drawing vampires. One day he picked up his collection of bloodsuckers and sat down on the floor at Art Cologne, Germany’s most important art fair, and made 800 deutschmarks in two days. At 18, Benedikt opened a comic-books store, Taschen Comics. The business would only flourished four years later, when he bought from the US publisher Nal Abrams 40 thousand copies of an illustrated book from Belgian artist René Magritte for one US dollar apiece. The selling price: 5 US dollars. The books sold out quickly and pointed the way to his future business. Benedikt soon got busy planning new releases on great artists (Picasso was the first), all beautifully illustrated and popularly priced. The point of no return toward the mass market came when Angelika entered 92

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Benedikt’s life. She applied for a job with the company and became not only his assistant, but also his wife. Together, they lent an artistic aura to subjects as varied as the Lutheran Bible and erotica. Taschen soon became the main publisher of artistic nudes by photographers like Roy Stuart, Terry Richardson and David. Angelika would further enrich the Taschen portfolio with design, architecture, lifestyle and travel books. Eventually, Benedikt’s books became so popular that he decided to add a few more numbers to the equation: luxury collector editions. In 2000, he decided to bankroll the 20th century’s biggest and most expensive book. Seventy centimeters long and 50 wide, “Sumo”, is a 30-kilo collection of pictures by German photographer Helmut Newton (1920-2004), had 10 thousand copies at 30 mil Brazilian Reais each. All signed by the photographer and delivered with a book holder designed by Philippe Starck. Another heavyweight in the Traschen luxury catalog was “Goat – a tribute to Mohammed Ali”. Released in 2003, it had 10 thousand copies signed by the boxer and artist Jeff Koons, who produced a special sculpture for the first one thousand buyers (the special edition cost about 25 thousand Brazilian Reais). Then came other limited editions like “Christo and Jeanne-Claude Art Edition” (85 thousand Brazilian Reais), “Peter Beard Collector’s edition” (30 thousand Brazilian Reais) and “LaChapelle Arts and Prostitutes” (7 thousand Brazilian Reais). Not to mention thousands of others often priced within the range of 20-100 Brazilian Reais. Angelika and Benedikt were separated in 2004, but their partnership in the company only ended this year. She will soon compete against her former husband and open “Distanz”, her own publishing house in Berlin. The new company’s portfolio? Art, photography, architecture, design and fashion books. It seems Benedikt’s empire will face its first major threat and worthy opponent. PRIVATEBROKERS | COELHO DA FONSECA

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POR THOMAS GARMS

Rio and S達o Paulo sidewalks

At the top: Benedikt at Taschen Comics, which led to the publishing company. Above: one of his London shops; in 2007, with Angelika at the Chemosphere house, on Mulholland Drive, Los Angeles,

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CRAFT

REINVENTING WOOD Under master Toninho, Marcenaria da Fazenda preserves the craft’s tradition with its own creations and orders from top-flight Brazilian architects

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inety days. That was how long Antônio de Pádua Assunção could stay at the Sant’Ana do Monte Alegre farm, 242 km from São Paulo. Trained as a restorer at the traditional Liceu de Artes e Ofícios, the farm owners had hired him to recover two 19th century apothecaries purchased in the State of Piauí. The meticulous work led the farmers to ask him to turn an old coffee silo into the property’s farmhouse, which required an on-site carpentry shop. Sixteen years have elapsed, and Toninho, as he is known, now heads Marcenaria da Fazenda, a brand endorsed by architects like Claudia Moreira Salles, Isay Weinfeld, Felippe Crescenti, Renato Marques and Eduardo de Almeida. His secret lies in the attention to detail in items executed by his team of 33 carpenters. Toninho took his first steps as a carpenter in Ritápolis, in Minas Gerais countryside, where he was born, 55 years ago. “My grandfather was a carpenter and I learned by watching him.” As a teenager, he worked in a carpentry shop in São João del-Rei, before leaving for São Paulo, where he started out repairing chairs at the small store his sister had, until an antique shop next to a Liceu de Artes e Ofícios store in the Pinheiros district hired him. “I became friends with the people there and was asked to work at the Liceu’s workshop.” Under 94

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master craftsman Aníbal Braz, Toninho braved the world of restoration. “Antiques fascinate me.” Driven by this fascination, one of his greatest pleasures is to scour the Brazilian countryside for demolition wood, usually from ancient farms in Minas Gerais. “I like demolition wood because, besides being environmentally appropriate, it allows working with a stable material that is at least 150 years old.” Two of the three carpentry sheds are full of raw material – including extinct species like jacarandá-da-bahia or gonçalo alves, which share space with FSC-certified lumber felled with Environmental Authority supervision. One of the first orders came from the designer Claudia Moreira Salles, who got a commission to design the chair for Pope Benedict the 16th’s, used in a visit to Brazil in 2007. As friend of the farm owner, she decided to gamble on their new business. Claudia, and the carpentry crew recently developed the new benches for Rio’s Modern Art Museum and hits like the Dominó chair. The best example of the shop’s strength and gentleness is the renovation of the Sant’Ana do Monte Alegre farm itself, a 19th century coffee plantation that the current owners purchased in the early 1990s. Restoring the old coffee silo alone took four years. “It was in ruins and PRIVATE PRIVATEBROKERS BROKERS || COELHO COELHO DA DA FONSECA FONSECA

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BY ANA PAULA ORLANDI PHOTOGRAPHY EDUARDO DE LFIM

every architect who saw it recommended tearing it down. Fortunately, the owners stood their ground.” Toninho started recruiting relatives and acquaintances to help him from Ritápolis, where the craft is transferred from father to son. He and his team zealously recovered the wood and stone construction, revealing the beauty of beams, pillars, floors, fittings and stairs. They also produced new furniture and fixtures. The entire enterprise took ten years to be finished. When the saga was over, the owners decided to offer carpentry services to third parties to keep from having to dismiss the 18-man team. Their generosity and concern with sustainability led them to set up a nursery for rare hardwoods like jacarandá-da-bahia, cabreúva and peroba-do-campo. The shop doesn’t seem to stop growing – there are now eight projects on the way. Although everything is made to order, they also offer their own furniture and objects collection. “The ability to execute different kinds of items is one of their highlights,” says the architect André Vainer. Renato Marques, known for projects based on demolition wood, agrees: “In addition to their meticulous work, they are keeping alive a craft that is losing ground to industrial production in Brazil.”

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Carpenter’s tools and detail of a demolition wood beam: cycles; Toninho at a woodshed; the apothecary that lies at the root of it all; and the shop’s façade Giant ficus at the Sant´Ana do Monte Alegre farm, a property in the São Paulo countryside

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PROFILE VIAGEM

SHE SAW FASHION COME OUT OF THE CLOSET Luiza Pimenta had a role in many chapters of Brazilian fashion in recent decades, from the hippie explosion to today’s casual style

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ashion designer Luiza Pimenta, who has dressed a president – Fernando Henrique Cardoso – and a king – Roberto Carlos –, didn’t take special lessons to become a Brazilian men’s fashion guru. Her knowledge comes from personal experience. “My parents and their friends were very chic,” she tells. Because of her unique path, Luiza’s history spans many chapters of Brazilian fashion in recent decades. She was an attentive little girl when rock ’n’ roll bid the 1950s farewell. Since then, she followed every change until the present day, when ties and stiff collars share office space with the casual attire previously set aside for weekends and with the looks of countless tribes. In charge of Daslu Homem – Daslu men’s fashion line –, she knows everything about how her public’s dressing-room behavior. “Men only change styles when they get divorced,” she jokes. They tend to stick to familiar standards, usually khakis and powder blue shirts. Unlike women, who see it as entertainment, men regard shopping as a chore. Hence her admiration for those who go out of the box and her gratitude to those who do it with one of her creations. She recently celebrated when José Carreras bought a Liberty print shirt that other clients had shied away from. As a child and a young teenager, her repertoire was familiar. “The men I thought looked good and who were in my parents’ social circle helped me to form my opinions.” A while later, she met artist and decorator Attilio Baschera, who became a very close friend. “His combinations, attitude and boldness have been an inspiration.” Friends from the early 60s, recall that she designed her own dresses even then. Alfredo Pimenta, a boyfriend who was in architecture school, entered her life and made 12 96

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her aware of the hippie and counterculture movement. Youth was no longer an age, but an attitude and, naturally, clothes changed. “We were boutique hippies, of course, but that period had an impact on my looks and my life.” She and Alfredo married and had André, Marina and Martim, and stayed together for 15 years. Her career as a designer began at an invitation from her friend Olga Almeida Prado. Returning from a trip to London in the 70s, Olga said all of her friends had bought velvet jackets and suggested they make a few of those. Lu gave up trying to find a job in graphic design and joined in. Their first item soon developed into a comprehensive men’s wear line that became the Tweed brand. Trips and pieces she brought back became a source of learning, as did helpful tips from the likes of interior designer Sig Bergamin. “We’d travel together and share a few items. After we came back, turned them inside out and showed it to our tailors, they went into Sig’s wardrobe. Some women liked the label’s fun and chic pieces. “Fashion was more unisex, in the 80s; we wore the same jeans and blazers that men did,” says Glória Kalil. The label grew, but the runaway inflation and economic insecurity were not best business allies, especially after Lu had to face them alone – Olga, her partner and lifelong friend, died of an aneurysm in 1992, at 38. Lu kept the company going until 1997 and then closed its doors. The Tweed brand was licensed to Vila Romana. For seven years Lu was responsible only for the quality of each collection. Her sharp focus on tailored clothes expanded to other realms. She was ready when Eliana Tranchesi asked her to take over Daslu’s men’s line. “The concept here is to have it all, from tuxedos to beachwear, from socks to ties.” PRIVATE PRIVATEBROKERS BROKERS || COELHO COELHO DA DA FONSECA FONSECA

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BY MARTA GÓES PORTRAIT FELIPE HELMEISTER POR PATRICIA BROGGI

The elegant men in Lu’s life provided the basis for her repertoire

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VIAGEM TRAVEL

THE SWEET DOURO ROUTE At least as beautiful as Tuscany or Provence and with fewer visitors, Portugal’s Douro region, the world’s oldest demarcated winemaking region, seduces even teetotalers

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he Douro River begins in Spain, cuts across northern Portugal and feeds into the Atlantic, near the cities of Porto and Vila Nova de Gaia. Its basin comprises an agricultural region known for its high quality wines, in particular the famous Port. Douro is the world’s oldest demarcated winemaking region, a status granted by the Marquis of Pombal in 1756 to ensure the quality and authenticity of local wines. It is now a Unesco World Heritage Site not only for its historic and commercial relevance, but also for its exceptionally beautiful scenery. Our starting point was the DOC restaurant in the city of Peso da Régua. In addition to its gastronomic reputation, the establishment maintains a pier used by many tourist boats. Our boat, the Friend Ship, was already waiting with a beautiful spread of cold cuts, cheeses and chilled white wine. We sailed upriver to Quinta do Crasto (www. quintadocrasto.pt), famed for its ancient vines and quality wines. My two-year-old daughter played in the swimming pool while we nibbled on sardines and drank wine until a helicopter arrived with the two friends still missing from our group, Rolling Stones guitarist Ronnie Wood and his Brazilian girlfriend, Ana Araújo. Both wearing sunglasses and black clothes, but on a strict non-alcoholic diet, so no Douro wine for them. 12 98

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Back on board, we continued to enjoy the view of the hills, and the quintas (farms) and their vineyards. The scenery is at once subdued and grand, unlike anything I’d ever seen before, at least as beautiful as Tuscany and Provence, but not nearly as crowded. The trip felt like it had been designed for us alone. It was almost dark when we got to our final destination at Quinta da Romaneira (www.maisondesreves.com), in Alijó. We had time for a quick tour on the vines and a shower before dinner. Romaneira is a small, traditional Portuguese quinta that has been entirely remodeled and is now the only one in Douro with the Relais & Châteaux seal. We only stayed for one day, but it was enough to enjoy everything the place has to offer. Ronnie and Ana had massages and swam in the spa’s indoor pool. Another couple, Luiz and Alexandra, took a bike ride among the vineyards. Our family picnicked under a riverside tent equipped with linen pillows and a trunk full of chilled finger foods and beverages. We also visited the property’s cellars, where we learned the difference between table wines and Port. In addition to the regular process, the fermentation of Port is interrupted with the addition of grape schnapps, which makes it sweeter and increases alcohol content. We sailed back to Régua in the late afternoon and drove to Quinta da Pacheca (www.wonderfulland.com/pacheca), in Vila Real, where a surreal sight awaited: Scandinavian tourists singing and dancing to Portuguese tunes as they crushed grapes under their feet in a concrete vat. Quinta da Pacheca was one of the first estates to bottle wine with its own label, starting in 1738. It now offers a small 14-room hotel and an excellent wine tasting program. PRIVATE PRIVATEBROKERS BROKERS || COELHO COELHO DA DA FONSECA FONSECA

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TEXT AND PHOTOGRAPHY CAROLINA OVERMEER

Architect Aurélio Martinez Flores and Instituto Moreira Salles’ building

The picnic: Carolina Overmeer with her daughter Mia and friend Alexandra Lobato Faria; terraced hillsides along the river and the Quinta da Romaneira manor, in Alijó, at the heart of a 400-hectare vineyard

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MEMORY VIAGEM

Critics and friends give the proper measure of

WESLEY DUKE LEE , a restless creative who expressed the charms of the age of communication in Brazilian arts

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esley Duke Lee’s friends and relatives call him restless – one of the two adjectives they use the most to describe him; the other one is “intelligent”. An important character in Brazilian arts, Lee, who died last September in São Paulo, after battling Alzheimer’s for a few years, was recently featured in exhibitions to show his work to new generations. Two were set up by Ricardo Camargo, who became acquainted with the artist’s work in 1970 and always believed he got less attention than he deserved. With his work rejected by several biannual exhibitions and marginalized in the 1960s because he was to the right when artists leaned to the left, Lee was at times more famous abroad than in Brazil. He took restlessness to the extreme. Creating movements like Magic Realism, researching and using techniques from medieval tempera to scanners. He pioneered happenings and installations in Brazil and was also at the lead when he submitted to LSD experiments in the early 60s. He volunteered at a São Paulo clinic where he took the acid and locked himself in a room to draw. Lee was a teacher in addition to a creative, and his restless mind fertilized artistic production in São Paulo. “In the late 50s I went to one of his exhibitions,” says Carlos Fajardo, “and was impressed with his tempera work. I asked to study under him.” Lee said that the classes would be too expensive for a single student and suggested finding more people. “I invited Luiz Paulo Baravelli, José Rezende and Frederico Nasser, who were Architecture School colleagues”. After a year Lee invited Fajardo to be his assistant in a course at the Gismonti museum in Ribeirão Preto. “After two or three classes he went to the Tokyo Biannual; I ended up teaching the entire course.” Upon returning from Japan, a year later, Lee asked his former students to start the Rex Gallery with himself and Nelson Leirner. “He was always ahead of his time,” says art dealer Max Perlingeiro, who organized Lee’s last showings. “He as an 100

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innovator,” says Cacilda Teixeira da Costa, who met him in the 1970s and became his biographer, with two books, text for several exhibition folios and a short film. A course at the NY Parsons School in 1952-5, drew Lee closer to advertising. He even worked in the field upon returning to São Paulo, but always kept publicity and illustration work apart from his art. He did, however, produce noteworthy ad work, such as a series of illustrations for car maker Renault that won him a prize and at least one more admirer, Costanza Pascolato, who, years before meeting him, saw his illustrations in foreign magazines and taped them to her bedroom walls. Costanza was among many. “He dated everyone,” she says. “But Lydia Chamis was the most important woman in his life.” Lydia, whom Lee met in 1958 and married in 1967, was his muse, according to friends and relatives. Thomaz Souto Corrêa was witness to the artist’s passions and success with women. In 2008 he wrote for Bravo! Magazine: “Sitting in a corner, elegant like few, Lee got compliments from acquaintances and strangers, but most of the attention came from women.” Back to Santo Amaro district, his home base, where he always returned after traveling to Europe, the US, Japan – which was a strong influence and where he got more recognition than in Brazil. His most important work was displayed in a 1967 Japanese art show: Helicóptero, on which Paulo Herkenhoff would later write: “A neoDadaist folly, the sculpture-installation includes painting, drawings, writing, collage, assemblage and mechanical and electronic parts (...) a communication machine.” According to Lee’s niece, Patrícia, “the house was his living memory. It’s all there, his clippings, odds and ends, toys... everything.” Patrícia is organizing the Wesley Duke Lee Institute – maybe at the house, maybe not – and hasn’t touched anything. It’s all there, just the way he left it, perhaps as his final installation. PRIVATEBROKERS | COELHO DA FONSECA

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BY MARÍLIA SCALZO POR PATRICIA BROGGI

Shot by Otto Stupakoff, a member of the Magic Realism group, which lasted from 1962 to 1966

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www.trip.com.br/tripfm

Gente que tem o que dizer, num ambiente descontraído. Entrevistas e jornalismo misturando seriedade e bom humor. O Trip FM completa em breve 25 anos levando o ambiente da revista Trip para o rádio em mais de 480 cidades pelo Brasil. O programa é apresentado pelo editor das revistas Trip e Tpm, Paulo Lima, que entrevista as mais diferentes figuras: de Chiquinho Scarpa a Tom Zé, passando por nomes como Mãe

Dinah, Adriane Galisteu, Luana Piovani, J. R. Duran, Serginho Groisman, Lars Grael, Franklin Martins, Raí, Hermeto Pascoal, Raul Gil, entre muitos outros. Além das conversas mais divertidas do dial, muita música boa e a participação especial do repórter Arthur Veríssimo.

Confira abaixo a programação do Trip FM em todo o Brasil. São Paulo Grande São Paulo – Sexta-feira 20 h, com reprise às quartas, 0 h – Rádio Eldorado FM 92,9 MHz; Campinas – Domingo 20 h – Clip FM 88,7 MHz; Ribeirão Preto – Segunda-feira 22 h – Oi FM 94,1 MHz; Jundiaí – Domingo 20 h – Clip FM 88,7 MHz; Santos – Domingo 19 h – Litoral FM 91,9 MHz; Indaiatuba – Domingo 20 h – Clip FM 88,7 MHz; Itu – Domingo 20 h – Clip FM 88,7 MHz; Sumaré – Domingo 20 h – Clip FM 88,7 MHz. Rio Grande do Sul Grande Porto Alegre – Domingo 22 h – Itapema FM 102,3 MHz; Caxias do Sul – Domingo 22 h – Itapema FM 102,7 MHz; Santa Maria – Domingo 22 h – Itapema 105,7 MHz. Rio de Janeiro Rio de Janeiro – Segunda-feira 22 h – Oi FM 102,9 MHz. Minas Gerais Belo Horizonte – Segunda-feira 22 h – Oi FM 93,9 MHz. Espírito Santo Vitória e Ceará Fortaleza – Pelo www.oifm.com.br. Pernambuco Recife – Segunda-feira 22 h – Oi FM 97,1 MHz.


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entral de Atendimento Coelho da Fonseca: Rua Estados Unidos, 209 – São Paulo-SP – CEP 01427-000 – Tel. (011) 3888-3000 – www.coelhodafonseca.com.br – CRECI J-961. Projeto Arquitetônico: MCAA Arquitetos. Projeto Paisagístic eusa Nakata. Projeto de Decoração: Andrade Azevedo Arquitetura Corporativa. Os acabamentos e os equipamentos serão entregues conforme Memorial Descritivo. Incorporadora responsável: Luba 5 Empreendimentos Imobiliários Ltda v. Pres. Juscelino Kubitschek, 50 – 14º- andar – São Paulo-SP – CEP: 04543-000. CNPJ: 10.197.555/0001-29. Todas as imagens são meramente ilustrativas. O empreendimento só será comercializado após registro do Memorial de Incorporaçã


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