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Revista Private Brokers 28

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PRIVATE BROKERS COELHO DA FONSECA

LUCIANA DINIZ A AMAZONA BRASILEIRA NA ELITE MUNDIAL

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EDITORIAL

A ARTE DA

FELICIDADE

Em evento recente promovido pelos amigos da Trip Editora, em São Paulo, tive a oportunidade de presenciar uma verdadeira aula sobre o sentido da felicidade, em uma conversa com o filósofo francês Gilles Lipovetsky. Não que haja um sentido só, e o professor Lipovetsky deixou isso muito claro em sua prosa fácil, mesmo com toda a bagagem acadêmica da formação na Sorbonne. Muito modestamente, também acreditamos aqui que a felicidade tem menos a ver com a realização individual – uma parte importante do processo, evidentemente – do que com as relações pessoais que construímos no dia a dia. E com o jeito como vamos transformando o mundo, a partir delas, em um lugar melhor para viver. Luciana Diniz, minha amiga da vida inteira, nossa convidada da capa nesta edição, segue no mesmo caminho. Amazona de elegância e sucesso reconhecidos mundo afora, incluindo Aachen, na Alemanha, a Wimbledon do disputadíssimo calendário hípico internacional, Luciana se prepara para um salto de qualidade. Vivendo na pequena cidade alemã de Fürstenau, onde mantém há muitos anos o seu centro de criação e treinamento de cavalos para competição, Luciana está lançando agora o projeto Grow, um centro de formação voltado para o bem-estar e a qualidade de vida. “Quero ajudar as pessoas na busca de uma existência feliz e realizada, a encontrar a melhor maneira de atingir seus objetivos, de maneira integrada e harmoniosa”, diz em entrevista exclusiva à Private Brokers. Luciana não está sozinha, nesta edição, em seu impulso generoso de nos levar a refletir sobre a ligação entre o bem-estar pessoal e as relações que estabelecemos com o mundo à nossa volta. Arquiteto da casa mais querida do amigo José Zaragoza e de outras tantas onde seus moradores são mais felizes, como não se cansam de dizer, o genial Aurélio Martinez Flores se especializou em desenhar espaços já descritos pelos colegas como “caixas de sentimentos”. Espaços em que os afetos de seus moradores são nutridos cotidianamente para serem compartilhados com as pessoas mais queridas. Se o mundo lá fora é um desafio, a casa, aqui dentro, deve ser acolhimento. A felicidade também se manifesta de outras maneiras ao longo desta edição. É o que pretendemos com o perfil do Jota. Erre. Duran que não o fotógrafo; com as histórias de Sig Bergamin, Alex Atala e Giovanni Bianco, que se transformaram em profissionais internacionalmente bem-sucedidos sem perder de vista a origem humilde; com o apreço do paisagista Sérgio Santana pelos jardins de Monet em Giverny, na França; com o relato do cotidiano borbulhante do edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace, um dos mais clássicos endereços cariocas. Boa leitura.

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SUMÁRIO

Capa: Luciana Diniz Foto: André Sampaio

Diretores Alvaro Coelho da Fonseca e Paulo Roberto Coelho da Fonseca Editor Paulo Lima Diretor Editorial Fernando Luna Diretora de Criação Ciça Pinheiro Diretor de Núcleo Tato Coutinho Diretor de Redação Marta Góes Gerente de Marketing e Publicidade Cecília Mattos de Magalhães Barros Analista Sênior de Marketing e Publicidade Juliana Pereira Barretto Conselho Editorial Wilson Mello, Alessandra Pires e Carlos Sarli Diretora de Arte Paula Carvalho Editora Ana Paula Orlandi Produtora Executiva Renata Campos Projeto Gráfico Paula Carvalho Produção Gráfica Walmir Graciano, Monica Yamamoto, Erley Mainardi, José Antonio M. Rodriguez, Alex da Silva, Edson Torres, Marisa Sena, Maurício Correia e Rose Chileli Produtora Gráfica Jr. Mariana Pinheiro Tráfego Comercial Jessica Oseki Banco de Imagens Aldrin Ferraz (coordenação), Fernando Cambetas (pesquisador) Coordenadora de Revisão Daniela Lima Revisão Ecila Cianni, Janaína Mello e Léa Tosold Trade e Logística Daniela Basile (diretora) danielab@trip.com.br, Thais Meneghello (analista de trade) t.meneghello@trip.com.br, Jéssica Panazzolo (gerente de logística) jessica@trip. com.br, Bruna Costa (assistente) brunacosta@trip. com.br Colaboraram nesta edição: Texto Antonia Leite Barbosa, Carla Caffé, Carlos Moraes, Daniela Fernandes, Ethel Leon, Giuliano Cedroni, Rachel Almeida, Sérgio Zobaran e Tatiana Bonumá Arte Kiki Saraiva Fotografia André Penteado, Beto Riginik, Douglas Garcia, Felipe Pagani, Jorge Bispo, Marcos Vilas Boas, Nino Andrés e Sérgio Santana Produção Gueguela Baccari e Alexandre Breve Ilustração Carla Caffé Versão em inglês Allan Vidigal Revisão em inglês All Tasks Publicidade Private Brokers Cecília Mattos de Magalhães Barros, tel. (11) 3882-4184 ceciliamagalhaes@coelhodafonseca.com.br Todos os empreendimentos brasileiros desta revista, que estão em fase de construção ou acabamento, têm registro de incorporação, estando a documentação à disposição na sede da Coelho da Fonseca A revista Private Brokers Coelho da Fonseca é uma publicação trimestral da Trip Editora e Propaganda S.A., sob encomenda da Coelho da Fonseca. Endereço para correspondência: Caixa Postal 11485-5, CEP 05422-970. Pré-impressão Retrato Falado Impressão Ipsis

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Residência Zaragoza, no Guarujá, projeto de Aurélio Martinez Flores

14 SÃO PAULO POR CARLA CAFFÉ Reminiscências do Theatro São Pedro, peça de resistência da cultura paulistana 16 MEU CANTO O santuário de relíquias afetivas do galerista e colecionador João Pedrosa 22 SMALL IS BEAUTIFUL Do clean ao retrô, três paulistanos mostram como transformaram suas casas dando tempo ao tempo 28 CAPA A mais prestigiada amazona brasileira no circuito internacional de hipismo, Luciana Diniz fala com exclusividade a Private Brokers sobre a criação de seu centro de formação voltado ao bem-estar e à qualidade de vida 40 SOCIEDADE Moradores famosos e as histórias que fizeram do edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace, um mitológico endereço carioca 46 DESIGN A jornalista e curadora Ethel Leon seleciona nove criações que melhor representam a história do design brasileiro

56 ARQUITETURA A obra do mexicano Aurélio Martinez Flores, com sua elegância feita de simplicidade, é festejada por grandes arquitetos do Brasil e do mundo 66 ANTES E DEPOIS Alex Atala, Sig Bergamin e Giovanni Bianco: histórias de sucesso transformam a origem humilde numa referência tão emblemática quanto sobrenomes ou diplomas 70 PAISAGISMO O paisagista Sérgio Santana renova suas ideias sobre harmonia, intuição e sutileza nos jardins de Claude Monet, em Giverny, na França 78 PERFIL As iniciais de sua assinatura se tornaram conhecidas primeiro dos créditos de suas fotos, mas o alcance do olhar de J. R. Duran pode ir muito além 86 MEMÓRIA O Museu de Arte Brasileira da Faap comemora 50 anos com duas exposições e celebra seu pioneirismo na arte que pensa a tecnologia 119 ABRIDGED ENGLISH VERSION

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COLABORADORES

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3 ANDRÉ PENTEADO 1 JORGE BISPO Este carioca nasceu em uma família de atores e diretores teatrais, mas se enveredou pela fotografia na Escola de Belas Artes da UFRJ. Desde então colabora para títulos como Playboy, Vogue e The New York Times Magazine. Para esta Private Brokers, clicou a reportagem “Chopiníssimo”

Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas, este paulistano trabalha como fotógrafo há 12 anos. De Londres, onde vive desde 2005, André colabora para títulos brasileiros, como Elle e Exame, e revistas inglesas a exemplo da Big Issue e Company. É dele o ensaio de capa desta edição.

5 DANIELA FERNANDES Antes de trocar a São Paulo natal por Paris há 11 anos, Daniela trabalhou na Gazeta Mercantil, Folha e IstoÉ Dinheiro. Hoje, colabora para veículos como BBC Brasil e Valor Econômico. A nosso pedido, Daniela foi à Alemanha entrevistar a amazona Luciana Diniz, capa desta edição.

2 CARLOS MORAES

4 GIULIANO CEDRONI

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Gaúcho de Lavras do Sul, ele passou pelas redações de Realidade e Ícaro, além de ter vencido o prêmio Jabuti na década de 1980 com o livro infanto juvenil A vingança do Timão. Para nós, assina o perfil do arquiteto Aurélio Martinez Flores.

Giuliano é historiador, jornalista e roteirista, nessa ordem. Ex-diretor de redação da revista Trip e atual sócio da Prodigo Films, assina roteiros de documentários como Motoboys - Vida Loca (2002) e a direção de Trinta – A Raça Síntese de Joãosinho, com lançamento previsto para 2011. Aqui, ele investigou as várias facetas de J. R. Duran.

Retratos, cenas urbanas e paisagens figuram entre as preferências deste fotógrafo paulistano que colabora para revistas como Bravo, Rolling Stone e Wallpaper. Nesta edição, ele registrou Aurélio Martinez Flores no escritório do arquiteto, em São Paulo.

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SÃO PAULO POR CARLA CAFFÉ

MATUITI MAYEZO / FOLHAPRESS

PEÇA DE RESISTÊNCIA

O interior do teatro, restaurado em 1998: palco para ópera, orquestras e música de câmara

THEATRO SÃO PEDRO Percorro as coxias do Theatro São Pedro para cenografar mais uma ópera da temporada, Norma, de Vincenzo Bellini. Nos ensaios o tom do piano de cauda e a batuta do maestro orientam os atores e o diretor de cena. A sala com sua paleta de vermelhos aveludados e anjos com trombetas anuncia o ano de inauguração: 1917. O imigrante português Manuel Fernandes Lopes, que o construiu, praticava o mecenato no início do século XX. Quando os jornais anunciaram a abertura de uma nova casa de espetáculos no então emergente bairro da Barra Funda, São Paulo estava em plena transformação graças à economia do café e à industrialização pujante. Logo, o prédio de estilo neoclássico do Theatro São Pedro

virou ponto de encontro dos moradores de bairros vizinhos como Higienópolis e Santa Cecília. Na década de 1940, o teatro acabou desativado e passou a funcionar como cinema. Em 1968, arrendado pelo produtor Maurício Segall e por sua mulher, a atriz Beatriz Segall, retomou a vocação teatral e se tornou um foco de resistência cultural à repressão dos anos de chumbo, com montagens como O Interrogatório, de Peter Weiss, encenada por Celso Nunes, e O Inimigo do Povo, de Ibsen, com direção de Fernando Torres. Desde então, passaram por seu palco espetáculos marcantes como Macunaíma (1978), dirigido por Antunes Filho, e Ópera do Malandro (1979), de Luís Antônio Martinez Corrêa. PARA RECORTAR E EMOLDURAR >

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MEU CANTO

POR SYLVAIN JUSTUM FOTO BETO RIGINIK

Gravuras do livro Sertum Palmarum, de 1903 e cerâmicas do século XX

COLECIONADOR DE HISTÓRIA CURIOSO E OBSTINADO, JOÃO PEDROSA É CAPAZ DE PROCURAR UM ITEM RARO POR 25 ANOS COMO COMPÔS SEU CANTO? Juntei minhas diversas coleções

– de livros raros, cerâmicas e gravuras – e criei um pequeno santuário. Algumas peças eu comercializo, outras nem empresto. QUAL A PEÇA MAIS IMPORTANTE DO CONJUNTO? A coleção de objetos aerodinâmicos, de 150 peças. Tem de mobiliário a eletrodomésticos e design industrial dos anos 1930 e 1940. UM ITEM COM HISTÓRIA CURIOSA... Procurei durante 25 anos um exemplar de Sertum Palmarum Brasiliensium, obra-prima raríssima de João Barbosa Rodrigues, o maior 16

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botânico brasileiro, publicada em 1903. Encontrei por acaso, no ano passado, com um marchand e comprei na hora (um exemplar do livro foi vendido este ano pela Christie’s por US$ 25 mil). O QUE SEU CANTO DIZ SOBRE VOCÊ? Estudei história, gosto do erudito. Respiro isso 24 horas por dia. Cada objeto aqui tem sua carga emocional e alguma relação com um episódio que me interessa. Recentemente, comprei um banco desmontável de metal, comemorativo do IV Centenário de São Paulo. PRIVATEBROKERS | COELHO DA FONSECA

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DO CLEAN AO RETRÔ , TRÊS MORADORES COM MUITO ESTILO MOSTRAM COMO TRANSFOMARAM SUAS CASAS DANDO TEMPO AO TEMPO POR SYLVAIN JUSTUM FOTOS DOUGLAS GARCIA

O terraço ganhou piscina e deck para aproveitar o panorama. Na sala sem paredes, luz natural

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Novos degraus no lugar da antiga escada em caracol levam ao quarto, ao escritório e à sala de TV/quarto de hóspedes. A cozinha é pop e funcional

PONTO DE VISTA | 144 m2

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omo competir com a vista do Rio de Janeiro quando se mora em São Paulo? Tendo uma cobertura na Vila Nova Conceição, de onde se contempla o verdejante parque do Ibirapuera, oras. Essa foi a principal preocupação do advogado carioca João Eduardo Amaral ao discutir o projeto de seu novo endereço paulistano com o arquiteto Gustavo Calazans. Depois de morar no quarto andar (de fundos) do mesmo prédio e conseguir comprar a cobertura, João pediu um apartamento funcional e confortável, onde ficar em casa fosse prazer. Daí a única exigência: valorizar o panorama, integrando-o ao conceito clean do projeto. A solução foi explorar o terraço, onde nasceram uma piscina e um deck de madeira, separados do living por enormes portas de vidro. Na sala sem paredes, linhas retas, cozinha integrada e luz natural. A antiga escada em caracol foi substituída por degraus mais modernos, que levam ao amplo dormitório, à sala de TV – híbrido de quarto de hóspedes – e ao escritório. Na decoração, João usou seu gosto pelo avant-garde, lapidado nos anos de mestrado em Nova York. Escolheu poucas e boas peças da Micasa e da Brentwood, em harmonia com o dinamismo do neopaulistano sem roubar a atenção da vedete da casa: a vista.

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SMALL IS BEAUTIFUL

TOQUE FEMININO | 110 m2

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la chegou depois, moça barroca em território minimalista. Aos poucos, foi transformando o ambiente meio gélido, típico dos homens práticos e workaholics, sem tempo para firulas decorativas. A jovem empresária Juliana Motter encontrou pronto o apartamento em que vive com o namorado, em Pinheiros, já que foi ele o primeiro a se mudar para o privilegiado 14º andar, de onde se avista um hipnotizante skyline de São Paulo. Linhas retas e cores sóbrias reinavam no espaço projetado pela arquiteta Tânia Eustáquio. A cozinha, antes quase cenográfica, já que o cooktop de duas bocas pouco funcionava, hoje está a todo vapor, pilotada pela moça, dona da fábrica de delícias Maria Brigadeiro. A estante da sala é seu microcosmo; a mesa, uma área coletiva de trabalho do casal; a cadeira Oscar, de Sergio Rodrigues, sua peça preferida para a leitura enquanto avista lá fora até o Pico do Jaraguá. Os janelões, que seduzem até Miles, o cão galgo da família, já renderam foto de primeira página de jornal, tirada por um amigo, no apagão de 2009. Com o tempo, algumas peças coloridas e muitos livros depois, a casa ganhou ares de Juliana. Depois da reforma, em vez dos três quartos originais, uma suíte e um amplo living diante do skyline de São Paulo

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FOTOS FELIPE PAGANI

Com o tempo, os livros e as peças coloridas deram à casa o jeito de Juliana: “A estante [abaixo] é meu microcosmo”

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SMALL IS BEAUTIFUL

Invenções de Ana: velhas máquinas de costura e tramas de arame em destaque no ambiente retrô

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CHARME RETRÔ | 87 m2

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designer Ana Moraes fez de sua casinha de vila no Alto da Lapa uma espécie de santuário de referências ao charmoso tempo de nossas avós. Comprado há cinco anos, o sobrado ganhou ar retrô na reforma e decoração, que contou com a colaboração afetuosa da tia-avó – os aparadores, as cadeiras e a simpática mesa amarela da sala de jantar trazem a simplicidade do desejado luxo de antigamente. No ambiente nostálgico, a atenção se distrai em bordados, crochezinhos, caixas de madeira lixada, na chita servindo de base para máquinas de costura antigas, uma delas herdada da mãe. Ao fundo, o simpático jardim onde predominam plantas de umidade, as “plantas de mãe”, como gosta de chamá-las a designer. Entre juncos e marias-sem-vergonha, plantou também uma pequena horta que abastece de ervas fresquinhas as receitas de sua cozinha. Na profissão, Ana reaproveita sobretudo pedaços de arame, transformados em esculturas e objetos de design. Saudosista, o conceito é aplicado também à vida: “Gosto de recuperar coisas que tendem a se perder no tempo”.

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O jardim das “plantas de mãe” faz fundo para o interior nostálgico: “Gosto de recuperar coisas que tendem a se perder com o tempo”

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SALTO DE QUALIDADE CONSAGRADA NO CIRCUITO MUNDIAL DE HIPISMO, LUCIANA DINIZ COMEMORA OS 40 ANOS COM UM NOVO SENTIDO DE PLENITUDE E QUER COMPARTILHAR ESSA CONQUISTA NUM PROJETO EDUCACIONAL VOLTADO PARA A BUSCA DA HARMONIA

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POR DANIELA FERNANDES, DE FÜRSTENAU, ALEMANHA COLABOROU CHRISTOPH WÖHRLE FOTOS ANDRE PENTEADO

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amazona paulistana Luciana Diniz costumava ouvir da mãe que a vida começa aos 40. E a mãe de Luciana, Lica Diniz, não se contenta com pouco: é recordista Guiness, com oito vitórias consecutivas em campeonatos brasileiros de adestramento, uma das modalidades de esporte equestre. Ao completar 40 anos, dia 11 de outubro, Luciana confirma a lição materna. “Tive a chance de ver que isso era realidade”, concorda. Ícone em Aachen, a Wimbledon do hipismo mundial, classificada em quarto lugar na Copa do Mundo 2010 de salto, em Genebra, na frente do tricampeão Rodrigo Pessoa, e com um vasto currículo de prêmios no circuito internacional, ela se prepara agora para o que considera um dos saltos mais importantes de sua vida: vai lançar em São Paulo, nos próximos meses, o projeto Grow, empreendimento educacional voltado para o crescimento mental e o bem-estar. Luciana mora na Alemanha, na pacata Fürstenau, no noroeste do país, onde criou, há 11 anos, um centro equestre. Vive rodeada pelo que é fundamental na sua existência: os filhos gêmeos, Pedro e Paulo, 8 anos, seus cavalos, que são seus “melhores amigos”, como costuma dizer, e a natureza por todos os lados. É ali, no dia a dia, em pleno campo, entre vizinhos que dirigem tratores, que a espiritualizada Luciana põe em prática seus valores, resumidos na definição filosófica do conceito Grow: “A busca de uma vida feliz e realizada, por meio do desenvolvimento espiritual no cotidiano”. O vilarejo de Fürstenau integra o distrito de Osnabrück, cidade universitária e medieval, fundada no século VIII e situada no coração de um parque natural da Unesco,

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a cerca de 100 quilômetros de Bremen, a maior cidade da região. O LD (de Luciana Diniz) Equestrian Village, onde mora e treina, fica a cerca de 45 minutos de carro do aeroporto de Osnabrück. Ao longo da estrada, paisagens verdes a perder de vista – bosques, campos de milho e vaquinhas pretas e brancas pastando bucolicamente, além das casas de tijolos marrons ou avermelhados com telhados pontudos, para evitar o acúmulo de neve. UM RITUAL PARA A ENERGIA Na entrada da propriedade, um traço típico de cidades do interior da Alemanha: uma pequena capela, com uma estátua da Virgem Maria, onde Luciana mantém sempre uma vela acesa. Ela cuida regularmente do local, retirando as folhas caídas com uma pequena vassoura de palha. “Faz parte do ritual deixar tudo em ordem; é bom para a energia e a proteção do lugar”, explica, enquanto espana as paredes da capela, sempre decoradas com flores.

Na ioga e na caminhada matinal, com a energia adicional da cromoterapia

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A casa, perto do vilarejo de F端rstenau (no alto); as cocheiras do centro h鱈pico, onde cavaleiros estrelados v達o treinar aprendizes; com os filhos, Paulo e Pedro, depois de um jogo do campeonato de futebol na regi達o, em setembro

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Quando Luciana inaugurou o centro equestre, em julho de 1999, já encontrou no local as instalações necessárias para criar cavalos; só precisou fazer pequenas modificações. Naquela época, ela e o exmarido, o alemão Andreas, treinador de cavaleiros e vendedor de cavalos, de quem se separou há cinco anos, procuravam um lugar tranquilo, no campo, onde pudessem se dedicar a atividades esportivas e empresariais ligadas ao mundo do hipismo. O LD Equestrian Village reúne um pavilhão com cocheiras, que dispõe de algumas “comodidades” para os cavalos, como ducha fria com hidromassagem, pista de areia aberta com obstáculos, um picadeiro coberto e grandes espaços de grama. A fachada de sua casa, situada na parte mais elevada do terreno, é toda branca e cheia de flores, outra grande paixão da moradora. Lá dentro, amplos janelões garantem a vista da vegetação por todos os lados e iluminação natural, reforçada pelo branco, não só das paredes, mas também do imaculado piso de lajotas. “Aqui é o meu refúgio, que me dá paz”, diz. Entre as atividades do centro hípico, estão a compra e venda de cavalos jovens e estágios de treinamento com cavaleiros premiados, com a participação de “mental trainers”, psicólogos especializados em atividades esportivas. Atualmente, residem no local sete cavalos de salto. Dois deles, Dover e As Taro, pertencem a seu pai, o empresário Arnaldo Diniz; e um, Winningmood, ao barão Edouard de Rothschild, com quem Luciana tem uma parceria. Os dois possuem em comum os cavalos Suzie Quattro, Calvie, Lennox, um de seus mais novos “parceiros”, como diz a amazona, e Locarno, com o qual ela venceu muitas provas. Entre elas, a qualificação para a

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Copa do Mundo de saltos, em Leipzig, na Alemanha, que ela obteve, no ano passado, em condições dificílimas. Poucas horas antes da prova qualificatória, com medo de entrar na pista, o cavalo fez um movimento brusco, e a amazona fraturou o cóccix.“Venci a prova e fui direto para o hospital. Estava com tanta determinação para ganhar que Locarno sentiu minha energia”, conta Luciana. Ela conhece em detalhes as características psicológicas de seus cavalos e as descreve como se falasse sobre a personalidade de uma pessoa. “São meus parceiros de vida, tento entendê-los”, justifica. AUTORIDADE NAS RÉDEAS Desde 2006, a brasileira defende nas competições as cores amarela e azul do Haras de Méautry, da família Rothschild, um dos mais famosos da França. Ela conheceu o empresário e também cavaleiro Edouard de Rothschild durante a compra de um cavalo e criou com ele laços de negócios e de amizade. “Luciana é a mais competente amazona que conheço”, elogia Rothschild. “Ela cuida dos cavalos como uma artista e tem a competência de quem pratica esporte de alto nível há 30 anos. Monta com classe, sentimento e elegância.” Basta ver Luciana sobre um cavalo para entender rapidamente as palavras de Rothschild. A amazona esguia desde criança, cuja voz delicada soa ao telefone como a de uma adolescente, transformase na montaria. Ela comanda o animal com autoridade natural, numa postura que poderia inspirar escultores, mas ao mesmo tempo, sobretudo no momento do aquecimento, é carinhosa com o cavalo e transmite o sentimento de real cumplicidade que existe entre ambos.

EM SUA CASA, NO INTERIOR DA ALEMANHA, VIVE RODEADA PELO QUE É FUNDAMENTAL NA SUA EXISTÊNCIA: OS FILHOS GÊMEOS, PEDRO E PAULO, 8 ANOS, E OS CAVALOS, QUE CONSIDERA SEUS “MELHORES AMIGOS” Luciana brinca que já nasceu cavalgando, devido às atividades esportivas de sua mãe, Lica, com quem tem uma relação muito próxima. A família é de cavaleiros: o pai, o empresário Arnaldo Diniz, é jogador de polo; os irmãos Fábio e André já detiveram, respectivamente, os dois primeiros handicaps na modalidade no Brasil. Luciana, que cursou a “faculdade da vida”, como ela diz, transformou seu amor pelos cavalos em profissão. “Meu pai sempre falou que na vida a gente não pode só fazer o que gosta, mas precisa amar o que faz”, afirma. Montou pela primeira vez com apenas 1 ano de idade e aos 8 já havia se tornado campeã de adestramento no Brasil, em sua categoria. Começou a saltar aos 11 anos, depois que a morte do cavalo Marko, um evento doloroso de sua infância, a fez afastar-se do adestramento. Aos 15, contratou uma veterinária. “Pensei que não era para valer, mas ela já era tão decidada quanto hoje”, lembra Santina Moral, que cuida de seus cavalos há 26 anos. “Como

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“ELA É CALMA, NUNCA TENTA CHAMAR A ATENÇÃO, MAS QUANDO DISPUTA UM TORNEIO LUTA COM TODAS AS FORÇAS PELA VITÓRIA” Ludger Beerbaum, campeão olímpico de salto

“LUCIANA É A MAIS COMPETENTE AMAZONA QUE CONHEÇO, ELA MONTA COM CLASSE, SENTIMENTO E ELEGÂNCIA” Barão Edouard de Rothschild

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FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

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OS PARCEIROS DOS GRANDES MOMENTOS DA CARREIRA: Depson 1º lugar, Campeonato Brasileiro Infantil, São Paulo, 1986 Minsk 1º lugar, Campeonato Brasileiro Júnior, São Paulo, 1984 e 1988 Phiphi Du Hequet GP de Roma, 1990 Graf Grande 4º lugar, por equipe, Campeonato Mundial Hague, 1994 Lordon 1º lugar, GP de Palm Beach, EUA, 1997 Dover 1º lugar, Licher Grand Prix de CSIO Aachen, Alemanha, 1998 Ralph 2º lugar, Nations Cup de Rotterdam, Holanda, 1998 Mariachi 9º lugar, por equipe, Olimpíada de Atenas, 2004

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Suzie Quattro 1º lugar, prova Forte de Deauville, França, 2008 Locarno 1º lugar, GP de Spangenberg, Alemanha, 2004 Son of Marco 5º lugar, GP de Aachen, Alemanha, 2007 As Taro 2 3º lugar, GP de Estoril, Portugal, 2009 Chaman 6º lugar, GP de Aachen, Alemanha, 2010 Winningmood’ 4º lugar, Copa do Mundo de Saltos 2010, Genebra Calvie 6º lugar, GP de Aachen, Alemanha, 2010 Lennox 3º lugar, sexta etapa do Global Champions Tour, Estoril, 2010 Lewin 6º lugar, AOIHS, Rio de Janeiro, 2010 Chaman 6º lugar, Prix Generali Assurance de Bordeaux, França, 2010

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POR PATRICIA BROGGI

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ALRV/STRAUCH

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1 Lewing, AOIHS, 2010 2 Depson, Sรฃo Paulo, 1987 3 Ralph, Manheim 2005 4 Lennox, Balve, 2010 5 As Taro, Paderborn, 2009 6 Son of Marco, Aachen 2007 7 Locarno, GP de Spangenberg, 2008 8 Winningmood, Copa do Mundo 2010 9 O estรกdio principal de Aachen

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amazona, Luciana é tão sensível quanto em tudo mais, ela é calma, nunca tenta chamar a atenção ou falar mais alto do que os outros. Mas quando disputa um torneio luta com todas as forças pela vitória”, diz o cavaleiro alemão Ludger Beerbaum, que já foi o número 1 mundial e medalha de ouro em Jogos Olímpicos e conhece a brasileira há 20 anos. Ela tem mesmo um jeito tranquilo de falar, mas diz sem rodeios o que pensa. Também com os filhos é suave, mas firme. O que poderia ser uma simples bronca se torna uma calma explicação. Ela não aplica castigos, mas sim tarefas educativas em casa. Quando Pedro, numa travessura, sujou o toalete da escola, teve que lavar o seu banheiro em casa durante uma semana. O TOQUE PINK Luciana se considera tímida, mas quando fala sobre o projeto Grow e de seus conceitos – o controle das emoções para atingir o equilíbrio pessoal – defende suas ideias com ânimo e energia de atleta. Chega a parecer uma palestrante profissional. As únicas exceções à sua discrição habitual ocorrem por conta da predileção pelo rosa-shocking , visível até na capa do telefone celular. Com um sobretudo longo rosa fluorescente, da grife italiana Gianni Versace, Luciana é um ponto luminoso na maré de casacos escuros que invadem as ruas das cidades europeias no inverno. Adepta das teorias da cromoterapia, ela conta que nunca usou roupa preta. Prefere, no dia a dia, modelos confortáveis nas cores azul, verde e lilás-claro. Por isso gosta tanto do poema de Vinícius de Moraes que, ao falar das borboletas negras, exclama – “oh, que escuridão!”. Sua rotina concilia atividades de esportista de alto nível, de administradora de negócios e de mãe. Acorda às sete horas da manhã para preparar as crianças para a escola, faz ioga ou pratica por uma hora

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Um beijo de agradecimento na égua Minsk, que lhe deu muitas vitórias. Na fazenda da Toca: com o treinador Alfinete; ensaiando uma tacada, aos 5 anos; e montando Drambuie aos 14 anos

“nordic walking” – caminhada com passos acelerados, semelhante à marcha atlética, com bastões, muito popular nos países nórdicos. Essas caminhadas pela propriedade, que inclui uma área com lagos, são momentos inspiradores para os projetos de Luciana, que se diz emotiva e intuitiva. Foi num deles que pensou em criar o Grow, “um centro voltado para a melhor qualidade de vida”, que implantará no Brasil. Ainda pela manhã, ela monta os cavalos e treina. A equipe do centro hípico reúne seis pessoas, sob sua supervisão. Em casa, conta há cinco anos com o carinho e a ajuda de Isabel, uma senhora portuguesa que perdeu o sotaque e prefere dizer que é brasileira. Na hora do almoço, Luciana busca os filhos na escola, situada nas proximidades, e os leva de volta à tarde, como fazem muitas mães europeias. Seu filho Paulo começa a seguir os passos da mãe e já monta um pônei, que também fica no centro hípico. Os dois

meninos sao loucos por futebol e acabam de vencer um campeonato regional. Às vezes, Luciana lê pela madrugada adentro. Seu livro de cabeceira é um bestseller de autoajuda publicado em mais de 60 países, A Boa Sorte, de Alex Rovira Celma e Fernando Trías de Bes. Fürstenau não oferece propriamente uma vida cultural, mas não chega a fazer falta, já que ela viaja regularmente a outros países, para competições ou para passear. Para enfrentar os desafios da vida e os momentos difíceis, Luciana recorre também às experiências vividas com os cavalos, que considera “companheiros, parceiros e confidentes”. Eles a ajudaram a “saltar os obstáculos da vida” e a adquirir autoconfiança. Quando se separou, houve quem pensasse que ela não conseguiria levar adiante o centro hípico sozinha. “Os cavalos mostraram o que sou capaz de realizar. Aprendi no trabalho com eles a sair vitoriosa das difiPRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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culdades”, aponta. “O cavalo tem de ser perfeito, cumprir seu percurso sem erros e o mais rápido possível”, explica, referindo-se à capacidade obrigatória no mundo esportivo de se reerguer após a derrota. Seu maior parceiro foi o puro-sangue brasileiro Dover, que deverá em breve ser enviado definitivamente ao Brasil. Foi por causa dele que ela passou, em 2006, a representar Portugal nas competições, já que o comitê brasileiro não queria que ela disputasse com o animal o campeonato mundial. À época com 18 anos, era tido como velho e sem chance de uma boa performance. “Eu sabia que podia confiar no Dover, ele fazia tudo por mim”, lembra Luciana. E estava certa: com a bandeira portuguesa, classificou-se entre os top 25 no Mundial de Aachen, um dos mais importantes do mundo, em uma competição disputada por 176 cavaleiros. O substituto de Dover como fiel escudeiro de Luciana é Winningmood, o garanhão tordilho – que na linguagem técnica quer dizer branco – do barão de Rothschild. Ele lhe prometeu que o cavalo

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ficará com ela até o fim de sua carreira esportiva. Luciana brinca: “Eu e Winningmood vamos nos aposentar juntos”. VOLTA ÀS RAÍZES Luciana gosta de viajar e vive no exterior sempre desde os 19 anos. Já morou em Palm Beach, nos Estados Unidos, e em outros países europeus, antes de se instalar na Alemanha. Fala alemão, inglês, francês e espanhol. Agora, aos 40 anos, acha que chegou o momento de levar para o Brasil as experiências pessoais e esportivas conquistadas mundo afora. Quer iniciar a nova etapa com o centro educacional ligado ao bem-estar, para ajudar as pessoas a encontrar a melhor maneira de atingir seus objetivos e viver de maneira harmoniosa. Lições que aprendeu com as rotinas simples de vida no campo. O projeto Grow está, segundo ela, em fase adiantada de elaboração. Vai reunir pesquisadores, filósofos, escritores e personalidades de várias áreas, para falar de um amplo leque de temas, entre eles

MONTOU PELA PRIMEIRA VEZ COM 1 ANO E AOS 8 JÁ ERA CAMPEÃ BRASILEIRA DE ADESTRAMENTO. ELA É CAPAZ DE DESCREVER UM CAVALO NOS DETALHES DE SUA PERSONALIDADE, COMO SE FALASSE DE UMA PESSOA

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CAPA

TALENTOS DE TERCEIRA GERAÇÃO

L Os avós Floripes e Valentim e o primo Felipe

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uciana Diniz pertence à terceira geração dos descendentes de Floripes e Valentim dos Santos Diniz (1913-2008), imigrante português de Pomares de Jarmelo, que desembarcou no Brasil sozinho, aos 16 anos, em 1929, e lançou as bases da fortuna da família. Na década de 1940, ele abriu uma doceria na avenida Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo, e em 1950, no mesmo endereço, o primeiro supermercado Pão de Açúcar. Em parceria com os filhos, o patriarca implantou a rede que se tornou o Grupo Pão de Açúcar, uma das maiores empresas brasileiras. Os seis filhos de Floripes e Valentim, Abílio, Arnaldo, Alcides, Vera Lúcia, Sônia e Lucília, deramlhes 20 netos. Embora nascidos depois que a família já construíra boa parte de seu império, os jovens Diniz são empreendedores, e muitos deles se destacam em diversas áreas, nem sempre convencionais. Os filhos de Abílio – Ana Maria, João Paulo, Pedro Paulo e Adriana – gerenciam negócios próprios. Administradora experiente, ex-diretora de Operações do Grupo Pão de Açúcar, Ana Maria acaba de abrir uma escola de dança, a Anacã, um espaço de 700 metros quadrados na avenida Brasil, em São Paulo. João Paulo se divide entre o Grupo Pão de Açúcar e a holding Componente, que administra a academia Body Tech; os restaurantes Forneria, Ecco e Dressing; e a Globalbev, distribuidora de bebidas. Ex-piloto de Fórmula 1, Pedro Paulo também comanda uma holding, gosta de investir em negócios sustentáveis e se interessa pela pesquisa sobre alimentos orgânicos. É também sócio do Ecco e do buffet Manioca. Felipe Diniz, filho de Alcides, é arquiteto reconhecido e faz projetos residenciais e comerciais. Seu irmão, Dinho, é sócio da Au Pet Store, com duas lojas em São Paulo, e gerencia carreira de cantores. Carola e Ana Paula

FOTOS: JANETE LONGO/FOLHAPRESS. MASTRANGELO REINO/FOLHAPRESS

OS JOVENS DA FAMÍLIA SEGUEM UMA CARTILHA DE EMPREENDEDORES, E MUITOS DELES SE DESTACAM EM ÁREAS NEM SEMPRE CONVENCIONAIS são empresárias – a primeira teve, em Sao Paulo, uma grife infantil chamada Mini Me. Advogada de formação, Mariana, filha de Sônia, trabalha na Conceito Firma Casa, loja de decoração da mãe. Manoela, filha de Lucília, se prepara para lançar-se como cantora. Um dos irmãos de Luciana, André, administra uma agência digital chamada Urban Summer, que conta com clientes de peso como Itaú, Unibanco, Pepsi e Vivo. Outro irmão, Fábio, é guitarrista da banda de rock Os Mustangues. BALDE, VASSOURA E CADEIRAS Quando crianças, os primos Diniz conviviam sobretudo na fazenda da Toca, propriedade do avô, perto de São Carlos, interior de São Paulo. Mariana, filha de Sônia, recorda: “Adorávamos vê-la saltar”. É de autoria de Luciana uma brincadeira que contagiava os primos. Com a ajuda de apetrechos como balde, vassoura e cadeiras, imitava uma pista de equitação na garagem da casa dos pais, em São Paulo. Seu primo Felipe recorda, divertido: “Era uma competição desigual; na época, eu era menor e mais gordinho, e ela, magra e leve, vencia todos os obstáculos”. O amor aos cavalos é um dos traços da família que perduram há três gerações. Foi introduzido pelo avô Valentim, que cavalgou até os 80 anos. “Na nossa casa, pelo menos, o interesse pelo esporte e o repertório vieram dos Diniz”, reconhece Arnaldo, pai de Luciana. “Mas a competitividade e vocação esportiva fazem parte do DNA de minha mulher, Lica.” Dos quatro filhos do casal, três foram atletas profissionais. Além de Luciana, André e Fábio foram jogadores de polo equestre por 15 anos nos Estados Unidos e viveram na casa da família em Palm Beach. A predileção dos Diniz pelos esportes, contudo, não se restringe à seara equestre. Pedro Paulo fez carreira no automobilismo, enquanto o irmão João Paulo começou a participar de provas de triátlon em 1986 e correu mais de 20 maratonas pelo mundo, como as de Nova York e Chicago. No Brasil, ele criou a Maratona de Revezamento Pão de Açúcar, cuja 18ª edição, em setembro, atraiu 32 mil corredores de rua, em São Paulo. POR JULIANA MARIZ

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postura e nutrição. Ela conta com o apoio do antropólogo Luiz Almeida Marins, autor de 25 livros de autoajuda empresarial. Juntaram-se à equipe o médico José Sproesser, autor do livro Viver bem com Qualidade; a especialista em ioga Márcia De Luca, organizadora do evento Yoga pela Paz, que reuniu 15 mil pessoas em São Paulo, em agosto passado; e o psicólogo Esdras Vasconcelos, professor da USP. Além deles, a advogada alemã Maria Luise Kohne, especializada em direito de família. “Nossas atitudes em busca da excelência é que nos levam à felicidade”, diz Luciana. “A Grow vai ajudar as pessoas a encontrar suas metas.” Na Alemanha, o projeto vai começar numa versão infantil – Grow Kids – com as crianças da região onde mora. “As crianças vão aprender desde apreciar uma comida ou uma obra de arte até a desenvolver autoestima.” No Brasil, as atividades se voltarão para públicos de

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diversas idades. Incluirão palestras e workshops sobre temas ligados ao bemestar (Grow Haus), atividades equestres (Grow Horses) e a produção de uma linha de roupas que promova a motivação (Grow Fashion). A decisão de desenvolver no Brasil essa nova fase representa para Luciana uma oportuna volta às raízes. Depois de duas décadas no exterior, é no país, e na língua materna, com a força da família e dos amigos, que ela se sente mais segura e confiante para tocar o novo projeto. Sempre contou com o apoio da família para tudo. “Meu pai é pé no chão e minha mãe sonhadora, como eu, põe energia em tudo o que faz”, descreve. “Isso resulta no equilíbrio perfeito.” Aos 40 anos, ela se vê num grande momento. “Estou concretizando um sonho. É muito forte achar o sentido de sua vida”, celebra. Ao ouvi-la, alguém ainda duvidaria de que a vida começa aos 40?

Lica, Arnaldo e os filhos, Arnaldinho, Luciana, Fábio e André: o repertório da família paterna e a competitividade materna

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FOTO: STUART WESTHORLAND/ CORBIS/ CORBIS (DC) LATINSTOCK

SOCIEDADE

Entrada do edifício Chopin, localizado no número 1.782 da avenida Atlântica, no Rio. No detalhe, o prédio com seu vizinho ilustre, o hotel Copacabana Palace

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POR ANTONIA LEITE BARBOSA E RACHEL ALMEIDA FOTOS JORGE BISPO

CHOPINÍSSIMO JANELAS QUE SE ABREM PARA O MAR E PARA A PISCINA DO COPACABANA PALACE SÃO PARTE DO ENCANTO DO EDIFÍCIO CHOPIN, MAS MORADORES FAMOSOS E FESTAS QUE DESAFIAM A AUDÁCIA DOS PENETRAS FIZERAM A MITOLOGIA DESSE CLÁSSICO ENDEREÇO CARIOCA

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SOCIEDADE 1

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Alguns projetos de Philip Johnson: prédio da AT&T, 1984, hoje sede da Sony (1). Lincoln Center, 1964 (2). Edifício de escritórios Seagram, 1956 (3). Casa de hóspedes de John Rockfeller III, 1949-50 (4). Lipstick Building, 1986 (5)

Nesta página, moradores e convidados de algumas das famosas festas do Chopin nas décadas de 1980 e 1990: 1 Regina Gama, ex-Marcondes Ferraz, Carmen Mayrink Veiga e Eleonora Mendes Caldeira 2 Lourdes Catão e Jorginho Guinle 3 Maitê Proença com a filha, Maria, e Narcisa Tamborideguy 4 Aparício Basílio da Silva, Raul Cortez, Eugênio Restelli e Regina Gama 5 Ibrahim Sued e o ex-presidente norte-americano Gerald Ford. Abaixo, a princesa Diana na piscina do Copabacana Palace, em 1991

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EDUARDO TEIXEIRA/ CPDOC JB

magine ser obrigado a usar aquela pulseirinha típica de áreas VIPs e de festas concorridas para entrar no prédio onde você mora. Os moradores do edifício Chopin, em Copacabana, estão preparados para aceitar, a cada dezembro, “o sacrifício”. Só assim, e com inúmeras reuniões, conseguem diminuir a circulação (de dezenas e dezenas) de penetras das famosas festas que consagraram o edifício – especialmente no réveillon. O condomínio já chegou a registrar mais de 2.500 visitantes nas viradas de ano, entre convidados, garçons, seguranças etc. Como diria certa moradora, “ai, que loucura!”. É verdade que hoje se comenta que o lugar anda mais sossegado – Bruno Chateaubriand e André Ramos se mudaram há quase dois anos, e Narcisa Tamborindeguy agora passa o fim do ano no exterior. Mas as histórias saborosas eternizaram esse ícone da vida social carioca. Fincado no número 1.782 da avenida Atlântica, o Chopin, na verdade, não é um só: forma com o Balada e o Prelúdio um conjunto de 60 apartamentos, endereço de personalidades como a atriz Maitê Proença, o galerista Mario Cohen, o empresário Humberto Saade, a socialite Regina Gama, ex-Marcondes Ferraz, o empresário de educação Paulo Gama Filho, e a viúva de Adolpho Bloch, Anna Bentes Bloch, entre tantos nomes da alta sociedade. Projeto assinado pelo arquiteto francês Jacques Pilon, o Chopin, primeiro edifício do bairro a ter janelas de vidro até o chão, foi construído em 1956 onde antes havia uma pedreira – o terreno foi, por anos, oferecido a Octávio Guinle, fundador do Copacabana Palace, que nunca quis comprá-lo porque achava impossível remover a rocha. Histórias que remontam à época da construção referemse à possibilidade assustadora que rondou, por algum tempo, o hotel: as áreas de serviço do novo prédio se abririam para a linda piscina do Copa!

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FOTOS: 1, 2, 4 E 5, ARQUIVO PESSOAL REGINA GAMA; 3, FÁBIO COSTA/ AG O DIA

Não se sabe como transcorreram os entendimentos, mas os primeiros moradores podiam frequentar a piscina. A relação entre edifício e hotel foi estreita – existe até um corredor de comunicação entre as duas construções, mas hoje o portão é fechado. Os moradores do Chopin têm que pagar para usar a piscina e os spas do Copacabana Palace. “Assim como qualquer outro cidadão do Rio de Janeiro, eles podem se tornar sócios. Mas a mensalidade anual custa R$ 10 mil!”, esclarece a gerente geral do Copacabana Palace, Andrea Leal. NO PASSADO, OFERENDAS Agora, ser vizinho do hotel faz parte do charme do Chopin. “Os apartamentos com final 2 são os mais valorizados porque têm vista para o mar e a lateral dá para o Copa. Mas dos de final 3, 4, 5 e 6 também se vê o hotel, e o que é melhor, a piscina, gente bonita e dribla a poluição e o barulho característicos do bairro”, enumera o síndico do edifício, César Thomé, 62 anos, morador do Chopin desde os 8. “Eu mesmo vi, anos atrás, a falecida princesa Diana nadando na piscina do

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Regina Gama em seu apartamento no Chopin: pioneira

Copa às seis da manhã, rodeada por cinco seguranças. Um privilégio.” A socialite Regina Gama é uma das pioneiras nas festas do edifício Chopin. A primeira foi em 1974. “Não havia nem fogos de artifícios em Copacabana ainda. A gente via grandes rituais religiosos de oferendas aos orixás, era muito bonito. Depois, nos anos 1980, os ubandistas foram perdendo espaço, ao mesmo tempo em que crescia o

“NÃO HAVIA NEM FOGOS DE ARTIFÍCIOS EM COPACABANA AINDA. A GENTE VIA GRANDES RITUAIS RELIGIOSOS DE OFERENDAS AOS ORIXÁS, ERA MUITO BONITO” Regina Gama

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SOCIEDADE VIAGEM

POBRES PAPPARAZZI Com apartamento voltado para as suítes presidenciais do hotel, Narcisa já viu da janela muitos hóspedes importantes: Sting, Bono, Lady Di, Ron Wood... Dizem que chegava a pegar o megafone e gritar “I love you” em alto e bom som para os que mais gostava. Ela não comenta. Também chamava os paparazzi de plantão para subirem à sua casa e conseguir ângulos melhores para fotos que as revistas de celebridades dariam dias depois. “Ficava com pena deles”, confirma Narcisa. “Hoje, enjoei.” Todas essas histórias – e muitas, muitas outras – foram reunidas pelo jornalista Bruno Chateaubriand, num livro que não chegou a ser publicado. Bruno, que morou no prédio com o companheiro, André Ramos, de 1999 a 2009, explica: “Escrevi um livro para mim mesmo, para lembrar das histórias incríveis que vivi ali... Agora que saí, acho que fica meio sem sentido publicar”, comenta o anfitrião de festas inesquecíveis no edifício. Numa delas, resolveu preparar uma pegadinha: sabendo que convidados enxeridos tinham a mania de mexer no armário do seu lavabo, jun44

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tou dezenas de bola de gude para dar um susto em quem abrisse. “Foi um jornalista do Globo, que jura que o armário abriu sozinho”, diverte-se Bruno, que sempre gostou de promover o encontro de convidados que, a princípio, nada tinham em comum. “Nossos eventos eram verdadeiras torres de Babel. Uma vez, vi na mesma mesa o então diretor do FMI Rodrigo Ratto conversando com Rogéria e Chiquinho Scarpa. Uma maravilha”, lembra ele. Bruno gostava de eventos temáticos. “Tivemos festa de Rio de Janeiro, 200 anos de chegada da família real ao país, Ano da França no Brasil...”.

O jornalista Bruno Astuto era frequentador assíduo. “Parecia um parque de diversões”, resume. “Uma vez, vi a [socialite]Marie Annick Mercier, chiquérrima, chegar à festa deles numa moto dessas de motoboy, para driblar o trânsito da avenida Atlântica.” Outro momento marcante para ele foi buscar a atriz Monica Bellucci em seu hotel para uma festa de Bruno. “Pode aquela atriz deslumbrante pegando um táxi na Nossa Senhora de Copacabana?” Bruno diz que mantinha bom relacionamento com a imprensa. “Minhas portas sempre foram abertas para eles, mas quando achava que havia

FOTOS: TUCA REINÉIS

número de eventos em hotéis e restaurantes. Fiz 25 festas de réveillon no meu apartamento; hoje, cansei. Foi curioso, ano passado, assistir à virada aqui. Finalmente, pude ver os fogos direito, sem precisar disputar espaço na janela”, comenta Regina. A inexplicável cobertura de 2.700 metros quadrados foi da socialite Josefina Jordan e, depois, do milionário Alfredo Saad, representante da família real saudita no Brasil. Hoje dividido, o espaço antes reunia dois apartamentos com cobertura (o 1.201 e o 1.202) e mais um terraço com quadra de tênis privativa. Mas foram as constantes visitas de Pelé que tornaram o espaço especial. “Ele veio muito com a Xuxa, claro”, lembra a festeira Narcisa Tamborindeguy, que mora no Chopin desde que se conhece por gente. Durante dez anos, calcula, foi anfitriã das festas mais comentadas no edifício, mas agora ela viaja na passagem de ano. “Hoje cansei, estou mais seletiva”, acredita.

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“QUEM DESEJA ENTRAR PARA A FAMÍLIA CHOPIN PRECISA PRIMEIRO AMAR COPACABANA COM TODO SEU CHARME E IDIOSSINCRASIAS” Mario Cohen

exagero na cobertura pedia para dar um tempo”, explica o antigo morador, que resolveu se mudar do Chopin quando decidiu que queria adotar um filho. “É uma nova fase”, declara.

Nesta página, em sentido horário, entrada da Pequena Galeria 18, na lateral do prédio; home office e sala de estar com vista para o Copacabana Palace do apartamento do galerista Mario Cohen (à esquerda)

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SUPERLOTAÇÃO Mas nem tudo era diversão naqueles tempos. Que o diga a jornalista Heloisa Tolipan, que passou um aperto no réveillon de 2003 para 2004. “Altas horas, pósmeia-noite, o elevador entrou em pane entre o terceiro e o quarto andares. Eu estava dentro dele, com o então editor assistente da minha coluna Vagner Fernandes, dois fotógrafos e convidados de outras festas. Onde cabiam seis pessoas, havia 12. Foram 40 minutos de sufoco”, lembra. “Os elevadores sempre quebravam”, acrescenta Astuto. “E tinha gente que achava que, se era convidado para uma festa, podia, automaticamente, entrar em outra. Por isso, o sistema de pulseiras foi criado para as festas também. Alguns tinham umas dez no pulso...” Quem acompanhou o entra e sai do edifício e festas de todo o tipo, mas pouco fala sobre isso, é a elegante Anna Bentes Bloch, viúva do empresário e jornalista

Adolpho Bloch, criador da revista Manchete. Ela vive no Chopin há 22 anos. “Os momentos mais importantes que passei aqui foram ao lado do meu marido, é uma casa de muitas lembranças. Em relação ao prédio, só confirmo que é muito dinâmico, muito vibrante”, destaca. Além dos festeiros, quem se interessa muito pelo que existe por trás das luxuosas portas do prédio são os colecionadores e apreciadores de arte. O galerista Mario Cohen, morador do edifício há uma década, com a mulher, Adriana Mattoso, é dono, desde 2003, da Pequena Galeria 18, discreta loja na lateral do Chopin, primeiro espaço no Rio totalmente dedicado à fotografia. Às vezes, seu apartamento é a própria extensão da galeria. “Quando o cliente tem dúvidas quanto à disposição das fotografias, convido-o para ir à minha casa, olhar a minha coleção”, conta Cohen, que adora Alex Flemming, Mario Cravo Neto e Cássio Vasconcellos. A quem quer entrar para a família Chopin, ele recomenda: “O morador precisa primeiro amar Copacabana, com todo o seu charme e todas as suas idiossincrasias”. É um bairro cheio de manias, sim, igualzinho aos moradores do edifício.

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DESIGN

REBELDE, O NOVO DESIGN BRASILEIRO NÃO TEM COMPROMISSO COM OS PRINCÍPIOS AUSTEROS DO DESENHO INDUSTRIAL, MAS PREZA A HISTÓRIA E CELEBRA SEUS PIONEIROS

O

design brasileiro está em alta. Não só porque o Brasil é a primeira letra dos Brics e tudo que se faz aqui ganha notoriedade. Mesmo nos anos de crise, muitos brasileiros brilham no star system do design, com sede em Milão. O caso dos irmãos Campana é exemplar. A dupla atraiu a atenção no fim dos anos 1980, ao apresentar numa exposição batizada de “Desconfortáveis” cadeiras que em nada desmentiam o título da mostra. Eram peças de ferro bruto, manchadas, sem nenhum dos acabamentos habituais. Sem almofada ou revestimento de tecido, eram mais para ver do que para sentar e exprimiam o fim do longo período em que o design foi sinônimo de produção industrial, funcionalidade e, ao menos na intenção, vontade de alcançar a muitos. Os irmãos Fernando e Humberto logo seriam aclamados por empresas italianas que mostram suas novidades no célebre Salão de Milão e rejeitam o lema que dominava o design europeu: a forma segue a função. Apresentam seus lançamentos de maneira espetacular, não importa se ao custo da tal da funcionalidade, do conforto, do preço viável e da produção em massa. Artesãos, os Campana passaram a projetar com dejetos urbanos. Organizaram workshops, estimulando os alunos a trabalhar, não com madeira, pedra-sabão ou aço, mas com objetos já existentes, relidos como matérias-primas. Desde então, como se houvesse a liberação do potencial criativo, muitos jovens designers começaram a fazer luminárias a partir de papéis de bala ou de

sobras de tecidos; cadeiras com colheres de metal; bolsas com escovões; embalagens de alimentos com outros alimentos. O que era proibido – projetar objetos efêmeros – passou a ser a regra num mercado de consumo aberto a importações e saturado de novidades. Ao mesmo tempo, com a veloz substituição de itens nas lojas de presentes e de decoração, surgiu a preocupação com a história. Pioneiros foram celebrados e reeditados, histórias foram recontadas. E abriu-se o território do design brasileiro para a experimentação em diversas linhas. Se nos anos 1950 fazer design era projetar e fabricar móveis preferencialmente de belíssimas madeiras de lei, hoje os designers de produtos têm liberdade para adotar o ideário moderno e ascético e os novos materiais e processos de produção – das grandes indústrias automatizadas às oficinas de fundo de quintal ou mesmo dos teares e tornos manuais do artesanato. O desenho industrial dos anos 1960 e 1970 tornou-se design, aproximando-se da moda e de outras manifestações do novo business e da cultura urbana. Nele podemos enxergar ainda os antigos esforços do desenho de produtos, mas também a recuperação de técnicas artesanais de antigos mestres e a desconstrução contínua do que era estável e previsível – uma marca da produção contemporânea. Os nove objetos desta reportagem pertencem a diferentes linhagens do design brasileiro e remontam, cada um, a uma espécie de árvore genealógica própria.

FOTO: G. EVANGELISTA/ OPÇÃO BRASIL IMAGENS (RIO DE JANEIRO) E ANDRÉ ROLIM/ SAMBAPHOTO (SÃO PAULO)

MAS BEM-NASCIDO

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POR ETHEL LEON

CALÇADAS DO SÃO PAULO E DE RIO DE JANEIRO

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DA PEDRA PORTUGUESA AO LADRILHO HIDRÁULICO Nada exprime melhor o espírito das duas cidades que suas calçadas típicas. As do Rio foram instaladas na praia de Copacabana no começo do século XX, quando o prefeito Pereira Passos decidiu que a capital federal devia tomar ares de metrópole europeia. Nada de blocos irregulares, herança do período colonial. As pequenas pedras pretas e brancas foram trazidas de Lisboa, junto com pedreiros especializados em seu assentamento. O desenho calcado em negativo e positivo procurou repetir o movimento das ondas da Princesinha do Mar. Copacabana já foi reurbanizada um par de vezes desde então, mas as ondas de pedras portuguesas continuam lá, símbolo da cidade. Em São Paulo, tão desprovida de belezas naturais, a história foi bem posterior e muito diversa. Em 1966, a arquiteta Mirthes dos Santos Pinto projetou um piso composto de apenas três peças de ladrilhos hidráulicos, uma branca, outra preta e uma terceira preta e branca, dividida na diagonal. Com esses elementos mínimos, era possível reproduzir um mapa esquemático do Estado de São Paulo, referência abstrata, talvez a única possível de uma cidade sem grandes monumentos característicos (como o Cristo Redentor). Diferentemente das calçadas do Rio, introduzidas na reforma higienista de Pereira Passos, de difícil assentamento, que exigem profissionais habilidosos e trabalho meticuloso e paciente, as calçadas típicas da capital paulista são fáceis de instalar, cobrindo grandes superfícies em pouco tempo. A rapidez e o apelo industrial de SP contra o gracioso rebolado artesanal do Rio.

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FOTO MÓVEL: DIVULGAÇÃO EDRA E RETRATO PAULO FRIDMAN CORBIS/ CORBIS (DC) / LATINSTOCK

DESIGN

POLTRONA ANÊMONA

Fernando e Humberto Campana

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... E AINDA POR CIMA CONFORTÁVEL Ela é de 2000, mas continua surpreendendo. Trata-se de justaposição de materiais inusitados: uma estrutura metálica fina e redonda sobre quatro pernas, que parece pronta para receber almofadas ou estofamento, mas sobre a qual se apoiam mangueiras de PVC translúcidas, dessas encontradas em lojas de materiais de construção. As mangueiras se entrelaçam no centro da estrutura, deixando tombar as pontas para fora. Quem olha costuma achar que esta é apenas uma peça decorativa, feita para não ser usada, mas, surpresa, ela é extremamente confortável e deixa que o corpo se amolde a seu gosto, meio sentado, meio deitado, se quiser. Faz parte de certa “estética da precariedade” que faz escola no mundo pós-moderno.

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RETRATO: ADRIANA CALDAS/ CPDOC JB

LUMINÁRIA ECLIPSE

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Maurício Klabin

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UNIVERSAL COMO UM PLANETA O engenheiro Maurício Klabin (1952-2000) praticava asa-delta e era dado a invenções em várias áreas, de equipamentos de voo a móveis e utensílios. Seu mais notável projeto é a luminária Eclipse, de fitas de polipropileno branco, toda articulável, que se apoia sobre estrutura delgada de aço pintado de preto. O resultado é um objeto que se aproxima das formas de objetos espaciais ou mesmo planetas e satélites. Como diz o nome, a luminária pode se abrir, deixando vazar uma agradável luz difusa, ou fechar-se, e aí sua lâmpada fica à vista. Vem acondicionada numa prosaica caixa de pizza, solução dada pelo próprio designer, que sempre buscou o projeto de baixo custo. Como uma dessas criações muito bem resolvidas, a Eclipse é vendida em todo lugar, das lojas de design, como a do Museu de Arte Moderna de Nova York, ao comércio menos elitizado.

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FOTO MÓVEL: ETEL INTERIORES / WWW.ETELINTERIORES.COM.BR. RETRATO: ZECA WITTNER/ AE

POLTRONA DINAMARQUESA OU BRASÍLIA

PARA HOMENAGEAR NIEMEYER

Jorge Zalszupin

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Jorge Zalszupin é o autor desta cadeira, produzida por sua fábrica L’Atelier, que durou dos anos 1950 até o fim dos anos 1980. Com clara referência ao design escandinavo, a poltrona de jacarandá é leve no visual e na estrutura e homenageia Oscar Niemeyer. Seus pés e braços têm desenho próximo ao das geniais colunas do Ministério das Relações Exteriores na capital federal. Talvez por isso alguns a chamem de Brasília. Muito (mal) copiada, foi reeditada pela empresa Etel Interiores junto com outros itens desenhados por Zalszupin, que comenta a respeito: “Esta é uma cadeira de um péssimo designer, mas de um grande marceneiro”.

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RETRATO: ADRIANA LORETE/ CPDOC JB

CADEIRA RIO

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Bernardo Figueiredo

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MISSÃO PARA MARCENEIROS SOFISTICADOS Esta é daquelas cadeiras muito imitadas – nem sempre bem, porque de execução difícil e primorosa. Sorte que, nos últimos tempos, a marcenaria tradicional encontrou alguns adeptos entre arquitetos e designers, caso da dupla Fernando Mendes de Almeida e Roberto Hirth, do Rio de Janeiro. Sem medo das complicações produtivas, eles vêm se lançando ao trabalho de reconstruir peças clássicas do nosso repertório dos anos 1960, caso desta poltrona leve e delicada. Ela une peças retas e outras ligeiramente arredondadas, pouca madeira e muita palhinha, resultando naquele móvel que Joaquim Tenreiro, mestre do design de móveis modernos brasileiros, julgava perfeito para o clima tropical. Só de olhar para ela, já se respira frescor.

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DESIGN

Lina Bo Bardi

DURINHAS E BRINCALHONAS Depois que passou a pesquisar a cultura popular brasileira, Lina Bo Bardi (1914-1992) se afastou progressivamente da ideia de conforto nos móveis. A cadeira, a mesa e os bancos Girafa são feitos de pinho recortado, elementos mínimos e maciços, desenho quase puritano e, no entanto, têm forma sofisticada e que dificilmente se esquece. Cadeira, bancos e mesa se apoiam sobre três pernas apenas, cada um, mas são mais estáveis que muito móvel metálico de quatro pés. O assento da cadeira e o tampo da mesa são círculos perfeitos. E o encosto da cadeira parece mesmo um pescoço de girafa, longo, acompanhando apenas a coluna vertebral de quem senta, finalizado com pequeno elemento horizontal. As curvaturas são sutis, o acabamento com três cavilhas de ipê brinca com o formato de rostos humanos (dois olhos e uma boca) em cores contrastantes de madeira. Um conjunto lindo na sua simplicidade aparente, produzido desde 1987 pela marcenaria Baraúna, de Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki (então sócios), antigos colaboradores da arquiteta italiana.

FOTO MÓVEL: RÔMULO FIALDINI. RETRATO: SÉRGIO TOMISAKI/ FOLHAPRESS

MESA E CADEIRAS GIRAFA

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CHAISE LONGUE GUARACI

FOTO MOVEL: ANDRÉ GODOY. RETRATO: DIVULGAÇÃO

Hugo França

MEMÓRIA DE UMA CANOA Lembra uma canoa e não podia ser diferente. Feita de tronco de madeira pequi, da região de Trancoso, na Bahia, resulta do aprendizado do designer com os canoeiros do litoral do sul da Bahia. A peça utiliza canoas abandonadas e uma trama de couro costurada na estrutura. O pequi é uma madeira dura, oleosa, perfeita para aguentar o contato prolongado com a água do mar. Seguindo os passos de Zanine Caldas, lendário construtor de casas e móveis de madeira, França utiliza madeiras enormes, troncos ainda enterrados no solo desmatado por queimadas da região. As formas dos troncos variam bastante e são elas que sugerem os móveis, mesas, poltronas, chaises, e também as esculturas. A Guaraci (2007), portanto, é a terceira encarnação do pequi, antes árvore e canoa. Diferentemente do produto industrial, que esconde suas origens, a Guaraci mantém sua árvore genealógica bem aparente e esse é seu maior encanto.

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DESIGN

UM CERTO MARTINEZ, DE ARARAQUARA O tempo pode transformar itens banais madeira, uma malha metálica. A cama em objetos cult. E caros. É o caso extrapolou as encomendas do hospital da cama patente, que começou a ser e acabou enviada para muitas cidades fabricada há quase um século. Com a brasileiras. Tomava o lugar das redes ou Primeira Guerra Mundial deflagrada, as das esteiras de palha que muitas casas importações para o Brasil tornaram-se ofereciam como acomodações para difíceis. Foi assim que um hospital de seus empregados. O êxito comercial Araraquara, interior de São Paulo, se viu foi tal, que ela passou a ser produzida com dificuldades de repor as econômipor concorrentes, originando uma cas e higiênicas camas hospitalares de disputa em torno da patente, o que tubos de ferro. O diretor do hospital explica seu nome. Hoje, depois de ter pediu ao marceneiro espanhol radicado sido estudada pela professora Maria na cidade Celso Martinez Carrera Cecília Loschiavo, tornou-se objeto cult (1883-1955), tio-avô do diretor teatral e alcança preços altos em antiquários. José Celso Martinez Correia, que Há mesmo quem restaure os colchões fabricasse similares. E foi o que ele fez. de algodão, finos e revestidos de tecidos No lugar do metal, madeira tornealistrados, fazendo da cama mais popular da. E, em vez de estrado de ripas de do Brasil uma peça de estilo. 54

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OBRA DO MCB (MUSEO DA CASA BRASILEIRA) GAL OPPIDO

CAMA PATENTE

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VENTILADOR SPIRIT

RETRATO: MARCELO CARNAVAL/ AGÊNCIA O GLOBO

Guto Índio da Costa

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ECOS DE UM AVIÃO HISTÓRICO Este é um caso e tanto do design brasileiro. Não foi decidido da maneira clássica, por uma fábrica, mas sim encomendado por uma rede de lojas ao designer Guto Índio da Costa, do Rio de Janeiro. E ele tratou de procurar um fabricante, encontrando como parceiro uma fábrica de fitas cassete às vésperas da falência, com a entrada em cena dos CDs. O escritório de Índio da Costa conseguiu um feito e tanto. Ao reduzir componentes para baratear o produto, chegou a desenho elegantíssimo, com duas pás, enquanto a maioria dos ventiladores que conhecemos tem três delas. As formas das lâminas lembram

as hélices do célebre Spirit, de Charles Lindbergh, o primeiro aviador a atravessar o Atlântico. O ventilador foi batizado, então, com o nome do aeroplano e ganhou uma cartela de cores que o aproximou da visualidade dos computadores Apple, uma das mais importantes referências do design do período. O Spirit teve enorme êxito comercial, não apenas na cadeia de lojas populares, mas também nas butiques chiques de design, caso muito raro entre produtos de massa. Em 2002, ganhou o primeiro prêmio do IF Product Design Award, em Hanôver, na Alemanha, espécie de Oscar do design.

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ARQUITETURA

CAIXAS de SENTIMENTOS AURÉLIO MARTINEZ FLORES FAZ DE SUAS CASAS DE PAREDES BRANCAS, FECHADAS PARA FORA, REFÚGIOS PARA A INTIMIDADE DOS MORADORES, PARA ELE, OS VERDADEIROS PROTAGONISTAS DE SUA OBRA uces uc esso es so éé,, an ante tess de ttud te udo, ud o fidellidad o, id dad a e ao dom o . Ne N ss s e pr p in in-cípi cí pioo Au pi Auré rélililioo Ma ré Mart rtin rt inez in ez F Flo lore lo ress ac re acre reedi d ta atéé hoj ojee, aos 83 83 anos an o . O di os difí fíci fí cil,l, n ci naa su suaa Pu Pueb ebla eb la n nat atal at al,, foi con al onve venc ve ncer nc err o paii de quee sua vvoc pa ocaç oc ação aç ão eera ra m mes esmo es mo a aarq rqui rq uite ui tetu te tura tu ra e o des esig ign. ig n. A nd Ai ndaa nã nãoo ti tinh nhaa mu nh muit itoo co it como mo p pro rova ro var. va r. C Com omoo de om desi sign si gner gn e , su er suaa prrim imei eira ra obr braa na vid da, um avviã iãoo de m mad adei ad eira ei ra,, se eesp ra spat sp attif ifou o ou cont co nttra r um poost ste. e. E ssua ua p pri riime m ir iraa in inte terv te rvven ençã çãoo em aarq çã rqui rq uite ui tetu te tura tu ra nãão paass ssou ou d daa re refo form rm ma daa fac acha hada ha da da lo loja ja d dee mó móve veis ve is oond nde, nd e, aos 177 ano ao nos, s, tra raba balh lhav ava. a. Seem gr gran ande dess ar argu gume ment ntos o , co os conc nced nc edeu ed eu ao pa paii um m ano n de agonia na Fa Facu c ldad a e de Med edic icin inaa (“ (“éé ma mais is sseg egur eg uro, ur o, m meu eu fillho ho”) ho ” ”) paara,, em 1952, para 9552, mud udar ar-s ar -see de ccor -s orpo or po e aalm lmaa pa lm p ra a E Esc scol sc o a de ol A qu Ar quit itet e urra e Ur Urba bani ba nism ni smoo da Uni sm nive vers ve rsid idad ad de Au A tô tôno n ma do no México Mé c , on o de de caara esc s olhe lhe ccom omoo or orie i nt ie ntad ador ad or o arq rqui u te ui teto to o Jorgge Go Jo G nz nzalez Rey e na, porr co cons nsid id derráá lo o mai aiss afinad adoo co com m seu se u íd ídol oloo ma maio ior,r, o aale lemã mãoo na natu tura r liizaadoo ame meeriica cano no Mie Mie i s va van n derr Ro de Rohe he,, um d dos os men ento tore ress da m mon onás ásti t caa Bauha au uhaaus u e auttor do jjáá fa famo moso so ccon once ceit ito“ o“me meno noss é ma mais is”. ”.

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POR CARLOS MORAES RETRATO MARCOS VILAS BOAS

Aurélio em seu escritório, numa vila nos Jardins, em São Paulo. Em 1960, trocou o México pelo Brasil

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Formado, nem ele podia imaginar tanto: em 1958, a convite de uma poderosa empresa de design, a Knoll International, o jovem arquiteto participa no detalhamento de interiores do único projeto de Mies van der Rohe na América Latina, a sede da Bacardi na Cidade do México. Torna-se diretor industrial de mobiliário da Knoll, que detém exclusividade na fabricação de móveis e objetos assinados por nomes tão consagrados como o húngaro Marcel Breuer, o finlandês Eero Saarinen e o italiano Henry Bertoia, todos, aliás, naturalizados americanos. Aurélio estava, pois, em boa companhia, na melhor das empresas e, quando tudo apontava para os Estados Unidos, em 1960 a Knoll o convida para divulgar e desenvolver produtos da marca na parceria que fizera com a Forma, em São Paulo, Brasil. Veio por três meses e nunca mais voltou. Logo trouxe a mulher, os três filhos e, por dez anos, fez da Forma um polo de irradiação de obras e ideias para a arquitetura de interiores no país. Trabalha-se muito, são mais de 30 projetos por mês. A empresa vira um símbolo de modernidade naquele Brasil pós-Brasília. Em 1970, desfeito o vínculo com a Forma, Aurélio continua seu trabalho através de uma loja, a Inter/design, que abre nos Jardins com o amigo Luis Carta. Ali o ritmo continua febril. Além de criar, importar e comercializar objetos de design, a nova loja toca centenas de projetos de arquitetura de 58

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interiores para casas, lojas, empresas, restaurantes e galerias. Apesar da rotina intensa e de muitos trabalhos, a melhor notícia é que ele agora tem mais tempo para a arquitetura. Sua primeira obra mais expressiva, uma casa no Guarujá para o publicitário José Zaragoza, vira matéria na prestigiada Archictetural Digest, dos Estados Unidos. AS PROPORÇÕES DA ELEGÂNCIA Aurélio Martinez Flores é, como sua obra, tão despojado de vaidades que, antes de ouvi-lo em seu escritório na rua da Consolação, não é demais auscultar um pouco o seu entorno humano e profissional. Para concluir, talvez, que São Paulo e o Brasil foram, afinal, uma boa escolha. Que, para chegar aonde chegou, ele não precisava mesmo ir com a Knoll para os Estados Unidos e trabalhar talvez com Mies van der Rohe e conquistar, quem sabe, uma projeção internacional mais rápida. De certa forma, lenta e discretamente, o mundo é que veio a ele. Um dia, ao almoçar no restaurante Gero, o arquiteto americano Hugh Newell Jacobsen não parava de se perguntar quem conseguira tanto domínio de luz e elegância num espaço tão estreito. No fim, perguntou ao maître o nome do arquiteto, de quem logo ficou amigo e admirador. Durante um almoço na casa de José Zaragoza no Morumbi, projeto de Aurélio Flores, o famoso e pouco efusivo arquiteto francês PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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FOTOS: DIVULGAÇÃO BEI EDITORA/ TUCA REINÉS FOTOS: OTTO STUPAKOFF / ACERVO IMS

A residência Zaragoza, de 1973, no Guarujá: paredes cegas porque, para o autor, só a luz e a paisagem justificam janelas. No alto à direita, o estúdio de Zaragoza: a melhor decoração é a que vem de circunstâncias pessoais

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ARQUITETURA

Jean Nouvel confidenciou ao colega mexicano naturalizado brasileiro: “Se eu fosse construir uma casa para morar, convidaria você para fazer o projeto”. De passagem pelo Brasil, o arquiteto espanhol Alberto Campo Baeza fez questão de conhecer todos os projetos de Aurélio Flores, espantado com a harmonia dos seus largos espaços e a felicidade com que fazia uso do material mais luxuoso e barato do mundo, a luz do sol. O arquiteto brasileiro Gian Carlos Gasperini concorda com igual fervor: “São obras com luz própria em mais de um sentido”. Na visão de Pedro Moreira Salles, membro de uma família que confiou a Aurélio pelo menos quatro grandes projetos, a obra de Aurélio Flores brilha pela sobriedade e depuração, sem vãs pirotecnias. Para o arquiteto Isay Weinfeld, que foi seu aluno e sócio, Aurélio dirigiu o olhar de toda uma geração para o bom desenho, do objeto em si e de uma arquitetura notável pela elegância da proporção. Há quem se pergunte como pode, de um México tão colorido e esfuziante, surgir um mestre em despojamento, contenção e brancura. Especialmente se ele nasceu e viveu na barroca e colonial Puebla, declarada Patrimônio Cultural da Humanidade. À luz de que princípios foi ele lapidando esta joia barroca da sua infância, da qual, aliás, guarda uma memória de intocável beleza, generosidade de espaços e consistência de materiais? NOBRE É O ESPAÇO, NÃO O MATERIAL No seu escritório meio escondido numa vilinha da rua da Consolação, Aurélio Martinez Flores fala sobre suas muitas obras e a única alma que as habita. A voz é suave, o olhar penetrante vai do terno ao irônico, mas a fala é de cátedra, e que cátedra: ele está sentado uma cadeira concebida em 1929 por Mies van der Rohe para um cliente da cidade tcheca de Brno. O modelo foi replicado pela Forma na década de 1960 e Aurélio lembra o quanto não foi fácil chegar ao ferro fundido dos braços e ao suave balanço do todo. Aurélio conta como trabalha e no que acredita em termos de arquitetura e vida. Resumir as sutilezas do seu pensamento é tarefa de risco. Mas sua visão de arquitetura é, como suas obras, clara. Vamos tentar: Espaço simples não quer dizer pobre. Em arquitetura, a riqueza deve estar mais na 60

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nobreza e justeza dos espaços criados do que nos materiais empregados. Uma casa toda de ouro pode ser feia. A função do arquiteto é criar cenários para que os reais artistas, seus moradores, brilhem e se exerçam em suas individualidades. Eles é que são os protagonistas da cena, não o arquiteto. As cores brancas, ou claras, garantem esse destaque tanto para as pessoas como para seus objetos mais significativos. Mal comparando, numa loja o que deve se destacar é a força e a graça dos produtos, não a elegância das prateleiras. A vitalidade de um ambiente não precisa ser garantida por tons fortes ou objetos ruidosos, mas por cores e sentimentos das pessoas reais. São as pessoas e suas circunstâncias que decoram, em essência, um ambiente. Tem razão o austríaco Richard Neutra quando fala que a boa arquitetura parte ‘de uma sincera compreensão das confidências dos clientes’. Uma escolha delicada e primordial: casa deve ser significativa para os donos, não necessariamente para as visitas. O ideal, em resumo: grandes espaços claros crepitantes de vida pessoal. Para Le Corbusier, uma casa é uma “máquina de morar”. Para Aurélio, na feliz expressão de um jornalista americano sobre sua obra, casas são “caixas de sentimentos humanos”. Sim, caixas, isso Aurélio assume plenamente. Caixa no sentido de algo com quatro lados fechados para o exterior. Já

ARQUIVO PESSOAL

NUMA IGREJA, A SENSAÇÃO DEVE SER DE SACRALIDADE; NUMA DISCOTECA, DE FRENESI. NUMA CASA, DE INTIMIDADE

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DIVULGAÇÃO DIVULGAÇÃO RIOTUR

Ao lado, iluminação natural no Gero carioca; acima, visibilidade para os produtos na loja Scandinavia Design. Abaixo, a residência Martinez Freyssinier, de 1988, em Cotia, SP: a casa cresceu em blocos, ao sabor das necessidades do morador

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ARQUITETURA

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FOTOS: DIVULGAÇÃO/CASA DA CULTURA DE POÇOS DE CALDAS

A Casa de Cultura de Poços de Caldas: fachada (ao lado); e o espaço de exposições (acima)

as casas egípcias e romanas guardavam, diz ele, esse caráter de hortus conclusus, expressão nascida erótica no Cântico dos Cânticos, espiritualizada na Idade Média, sem nunca perder, no entanto, seu sentido literal de jardim fechado, refúgio introspectivo de paz e reposição de energias. O importante para Aurélio é a criação de sensações através dos espaços. Ao entrar numa igreja, por exemplo, a sensação é de sacralidade; numa discoteca, de frenesi. E numa casa? “Deve ser de intimidade”, diz. É por isso que, em suas obras, Aurélio de certa forma dificulta a passagem da rua para o interior da casa através de um vestíbulo de distribuição que insinua: sacode, como Moisés no Sinai, a poeira das tuas sandálias, porque o solo agora é sagrado. Ou, pelo menos, outro. Há um ritual de passagem. Mesmo em restaurantes como o Gero, um anteparo logo na entrada propõe uma pausa para o ingresso no recinto. Essa intimidade proposta na caixa reflete-se também nas aberturas, especialmente nas janelas: elas só se justificam em função da luz e da paisagem. O que pode implicar paredes cegas e dar à obra certo ar de esfinge, mas plenamente assumido. Uma janela para a rua ou para o nada, diz Aurélio, não faz falta nenhuma. Ele exemplifica com uma janela do seu escritório que daria para o vil tráfego da 62

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rua e, assim, foi coberta por um providencial painel. Nos seus projetos, quando uma janela dá para um jardim, um rio, um mar, ele prefere contrapor um pátio limitado por um muro cego e aberto, plenamente, ao sol. Com sorriso maroto, confessa outra razão para suas famosas fachadas cegas: “Na verdade, eu nunca fui muito bom em desenhar portas e janelas”. Para confirmar o quanto essa clareza de princípios não resulta em monotonia, repetição de fórmulas, nada como uma visita a alguns dos seus projetos. A OUSADIA DO SIMPLES Nas fachadas e nas paredes laterais do restaurante Gero em São Paulo tijolos de demolição e claraboias criam o ambiente que tanto intrigou Hugh Newell Jacobsen. Já no Gero carioca os tijolos se repetem, mas janelões do piso ao teto celebram a luz e o ar tropical da cidade. O Gero de São Paulo foi premiado em 1997 pela Bienal de Arquitetura de São Paulo. Num apartamento da avenida Atlântica, no Rio, o branco das salas revela-se a moldura perfeita para o azul do mar lá fora. Na varanda, outro requinte, um deck elevado dá ao recinto uma sensação de barco. Mies van der Rohe: “Deus está no detalhe”. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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FOTOS: DIVULGAÇÃO BEI EDITORA/ SÉRGIO BURGI

REPRODUÇÃO ARQUIVO PESSOAL

WALTER MOREIRA SALLES VIU A ARCHITECTURAL DIGEST E QUIS CONHECER AURÉLIO. DESSE ENCONTRO NASCERAM MUITAS OBRAS

Ao lado, o prédio da reserva técnica de fotografia, uma torre junto ao Instituto Moreira Salles, no Rio: cuidados técnicos para guardar o acervo com segurança. No alto, Aurélio Martinez Flores (de barba) com Walter Moreira Salles

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FOTO J. R. DURAN

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AMIGOS, HABLANDO ESPANHOL POR JOSÉ ZARAGOZA

“ Conheci o Aurélio nos anos 1960, logo que ele chegou ao Brasil. Eu tinha, nessa época, junto com Francisco Petit, um estúdio, Metro 3, de propaganda, design, desenho industrial e arquitetura promocional. Um dos clientes era a Forma, que tinha a patente dos móveis Knoll, criados por nomes como Mies van der Rohe, Eero Saarinen e Marcel Breuer. Fiz uma campanha para as poltronas do Mies van der Rohe e quem deveria aprovar era um senhor indicado pela Knoll de Nova York para supervisionar a produção dos móveis e a comunicação criada para eles. O nome dele era A.M.F., Aurélio Martinez Flores. A partir daquele dia, hablando español, tornamo-nos amigos. A família Flores – Aurélio, Stela e filhos – morava num prédio na avenida Paulista e nós na rampa do túnel da avenida 9 de Julho. Éramos quase vizinhos. Stela, esposa de Aurélio, e minha mulher ficaram muito amigas. Eu tinha um terreno na praia de Pernambuco, no Guarujá. Perguntei ao Aurélio se ele gostaria de construir uma casa na praia. Naquela época o Aurélio, sendo mexicano, não poderia assinar o projeto, mas eu não estava nem aí, ele também não. Fomos visitar o terreno e, enquanto conversávamos, ele foi rabiscando e assim surgiu o projeto. Uma beleza! A casa saiu na revista Architectural Digest. Walter Moreira Salles viu e quis conhecer a casa e o arquiteto. A amizade entre os dois resultou em diversas grandes obras. A família Flores mudou-se para o prédio em que eu e minha família morávamos, na rua Professor Picarollo. Luis Carta, que estava sempre com a gente, morava na rua Suécia, onde vivo agora. Quando ele se mudou para Madri, comprei a casa dele e, de novo, convidei Aurélio para fazer uma casa. ‘Uma casa não, um palácio!’, respondeu. E assim fez. Aurélio é inesquecível. Toda vez que vou ao Guarujá, penso nele. Toda vez que entro na minha casa aqui em São Paulo, penso nele e, quando entro no meu estúdio, não posso deixar de lembrar-me dele.”

No escritório: maquetes e colagens de Aurélio e lembranças dos amigos Niemeyer, Ricardo Legoreta e Hugh Jacobsen

N.R. No exemplar de Zaragoza do livro sobre sua obra, Aurélio escreveu: “Para meu fraternal amigo José. Sem sua confiança ao me confiar minha primeira obra no Brasil, este livro não teria sido possível”.

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FOTO E REPRODUÇÕES MARCOS VILAS BOAS

ELE CRÊ, COMO MIES VAN DER ROHE, QUE DEUS ESTÁ NO DETALHE, NAQUILO QUE, SUTILMENTE, QUEBRA, IRROMPE

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Essa ousadia do simples e a harmônica generosidade de grandes espaços contínuos vão se repetindo em outros projetos: no sutil jogo de volumes da Casa da Cultura de Poços de Caldas, no refrescante jardim tropical entre os blocos sede da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, em São Paulo, na gravidade do Instituto Moreira Salles, no Rio. No edifício Moreira Salles, em Poços de Caldas (MG), primeira agência do Unibanco, marco da saga da família, Aurélio logo percebeu que era preciso dar à obra um justo caráter de monumento, de pedra fundamental. E foi o que aconteceu: são três corpos horizontais solenemente revestidos de placas de granito. Houve, claro, projetos que não saíram do papel, como uma torre de escritórios na Berrini, em São Paulo, considerada “moderna demais para os investidores”. Pensando bem: o que um ipê-amarelo tem a ver com aquela floresta negra de eucaliptos? Também na capital paulista, não faltaram projetos realizados, mas ligeira ou gravemente abalroados: a sede da CBMM da avenida Juscelino Kubitschek por um heliporto e a Câmara de Comércio Americana, originariamente uma casa de leilões, por uma lancinante grade na frente. Aurélio conta que teve a sorte de projetar sua própria casa – aos poucos. Expulso do apartamento na 9 de Julho por um mecanismo popular na época, a denúncia vazia, foi erguendo suas próprias caixas num terreno que tinha fora da cidade. Os espaços foram se adaptando ao mobiliário mais significativo que tinha em casa, como uma

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mesa de Saarinen. Essa, diz ele, é “uma boa maneira de fazer uma casa; fica-se mais atento às necessidades e aos afetos reais que a possíveis delírios de ostentação”. Não sem notar que esses delírios de grandeza às vezes curiosamente se expressam através de carros suntuosos e casas modestas. E cita, rindo, um amigo designer: “No Brasil, a casa e seu entorno significam o que uma pessoa é; o carro, o que ela gostaria de ser”. O que é hoje São Paulo para Aurélio? Não é, claro, uma cidade planejada e bonita, mas para ele foi-se tornando uma caixa do que importa, os afetos. Onde os clientes se tornaram seus cúmplices e amigos. Para um deles, o publicitário Washington Olivetto, projetou uma casa de três andares num terreno suspenso no 17º andar de um edifício em construção. Um dia surpreendeu o cliente e amigo com a releitura de um couch Mies van der Rohe, com um detalhe fatal: na almofada da cabeceira, o distintivo do Corinthians e a frase “Mies van der Rhoe também era corintiano”. Corintiano roxo, Washington talvez ache que, em seus cem anos de existência, o seu time também sempre fez mais com menos. ONDE DEUS ESTÁ Aurélio Martinez Flores continua sentado em sua cadeira histórica e não custa perguntar como ele interpreta uma das frases mais intrigantes da sua referência maior, Mies van der Rhoe: “Deus está nos detalhes”. Ele sorri e sussurra, em inglês, “God is in the detail...”. Sim, pode ser, conclui. Deus não está na planura, no chapado, no óbvio, no previsível, no monocórdio, mas no requinte e na surpresa do detalhe. No que sutilmente quebra, irrompe, interrompe. No pequeno luxo às vezes mais sentido que notado. Mas não é fácil explicar. Então Aurélio mostra um simples painel que no seu escritório anula a janela para a rua. O painel desce na direção do piso, mas se interrompe a poucos centímetros do chão. Um detalhe de nada, mas algo ali respira melhor. Ele aponta e brinca: “Deus pode estar por ali”.

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ANTES E DEPOIS

sem PRECONCEITO HISTÓRIAS DE SUCESSO TRANSFORMAM A ORIGEM MODESTA NUMA REFERÊNCIA TÃO POSITIVA QUANTO SOBRENOME OU DIPLOMAS. E MUITO MAIS SABOROSA

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FOTOS: ARQUIVO PESSOAL E CÁSSIO VASCONCELLOS

COM ORGULHO,

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POR TATIANA BONUMÁ

ALEX ATALA

A MÚSICA DAS CAÇAROLAS

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Alex Atala na cozinha do seu restaurante D.O.M., considerado um dos melhores do mundo pela mídia especializada. À esquerda, no colo da mãe, na década de 1970

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ma de suas melhores lembranças de infância eram as viagens para pescar que fazia com seus pais e sua irmã. Assim era a vida de Alex Atala, nascido na Mooca, na zona leste de São Paulo, e criado na Vila Euclides, em São Bernardo. Uma vida simples, de “subúrbio”, como ele próprio diz. E foi justamente desse passado que Atala tirou suas referências para se tornar o chef festejado que é, dentro e fora do Brasil – este ano seu restaurante D.O.M. entrou pela quinta vez consecutiva na lista dos 50 melhores restaurantes do mundo segundo a prestigiada revista inglesa Restaurant Magazine. O salto para o mundo das caçarolas se deu quase por acaso, durante uma aventura juvenil. “Minha ideia era juntar grana no exterior, voltar para o Brasil e me dedicar ao punk rock”, diz. Com esse objetivo na cabeça, Atala começou como pintor de parede na Bélgica antes de conseguir um bico na cozinha de um restaurante. “Eu entendia aquilo como um subemprego”, revela. “Até que, ao ser promovido, ouvi de minha namorada que deveria investir na profissão de chef em vez de ficar sonhando com uma carreira musical.” Atala passaria os anos seguintes pulando de cozinha em cozinha, na Bélgica, na França e na Itália. Um dia, aterrissou de volta ao Brasil com duas convicções: cozinhar era sua especialidade e, de preferência, comida brasileira. “Por mais que conhecesse e praticasse, eu nunca seria um especialista em cozinha italiana como um italiano ou um expert em receitas francesas como um francês”, pondera. “Em compensação, poderia ser muito bom como um brasileiro cozinhando com alimentos brasileiros.” Foi assim que ingredientes como mandioca, tucupi, priprioca, cajá, pequi e açaí viraram estrelas nos pratos do D.O.M., que já contabiliza dez anos de sucesso. De lá para cá, Atala ainda escreveu três livros – Por uma Gastronomia Brasileira (2005), Com Unhas, Dentes & Cuca (2008, com Carlos Alberto Dória) e Escoffianas Brasileiras (2008, com Carolina Chagas) – e abriu uma segunda casa, o Dalva & Dito, nos Jardins. Fora as aulas de gastronomia ministradas na Espanha e na Itália. Desses frutos todos, o chef tem duas felicidades na conta: ter levantado a autoestima da gastronomia nacional e o orgulho que seus pais têm dele. “Eles são meus maiores fãs”, conclui. “Eles acompanham minha persistência e reconhecem o valor que uma trajetória batalhada tem.”

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FOTOS: ARQUIVO PESSOAL E LETÍCIA MOREIRA/ FOLHAPRESS

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GIOVANNI BIANCO

UM PÉ NA FEIRA Giovanni Bianco, na década de 1970; e na gravação da campanha da Arezzo, com Maitê Proença: o diretor de arte das estrelas

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diretor de arte carioca Giovanni Bianco considera a educação que recebeu um ingrediente fundamental de seu sucesso profissional. “Aprendi a ter uma boa relação com o público, com a mercadoria e com a maneira de apresentála ajudando meu pai na barraca de frutas que ele tinha”, conta o criador da identidade visual de marcas internacionais como Miu Miu e Missoni e de artistas como Marisa Monte e Madonna (para ficar só na letra M, sua predileta). “Em tudo na vida, é importante saber vender sua ideia. Ter um pé na feira me ajudou.” Giovanni chegou a cursar dois anos de engenharia civil, como queria sua mãe, Giovanina. Quando os horários da faculdade o impediram de trabalhar na banca de frutas com o pai, fez uma infinidade de pequenos serviços, entre eles vender caneta em ônibus. Mas o desejo de saber mais o levou à escola de arte do Parque Lage, nos anos 1980. “Um professor falou que eu não tinha talento para pintar, mas demonstrava

sensibilidade para imagem e poderia me tornar um ótimo publicitário”, lembra. Aos 22 anos, com o passaporte italiano, embarcou para a Itália com uma passagem só de ida e US$ 800 no bolso. Em Milão, dormiu a primeira noite na estação de trem. No dia seguinte, bateu à porta do consulado brasileiro, em busca de trabalho. Lá, conseguiu alguns telefones de empresas que poderiam precisar de estagiários. Um deles era de um escritório de design. Por ser a hora do almoço, o dono atendeu o telefone. O filho de feirante vendeu bem sua ideia e ganhou um estágio. “Nem precisei lavar prato”, ele ri, em seu apartamento em Nova York, onde vive desde 2001. À frente de seu Studio 65, Giovanni hoje trabalha com vídeos, publicidade, revistas, livros e identidade visual de poderosas grifes. Ao se mudar para Nova York, já era um diretor de arte conhecido. Em 2003, fez o projeto visual de um livro sobre Madonna, com fotos de Steven Klein. Meses depois, o fotógrafo o indicou para criar o conceito da turnê Re-invention, da cantora, a primeira de muitas parcerias entre os dois. Aos 45 anos, quando pensa no caminho percorrido, Giovanni Bianco experimenta uma boa sensação: “Avancei pelo menos a metade do que pretendo realizar”, brinca. “Para quem tem força e desejo de fazer, a necessidade de ganhar a vida e a falta dos instrumentos para isso são um estimulante útil.” PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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FOTOS: ARQUIVO PESSOAL E MARCIO SCAVONE

SIG BERGAMIN

ARQUITETANDO ASCENSÕES

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té os 15 anos de idade, José Antônio morou em um sítio próximo a Mirassol, no interior paulista, com seus pais, seu José e dona Palmira. “Os amigos, o clube da cidade, as festinhas, a escola que eu adorava: foi uma época muito feliz”, lembra Sig Bergamin, nome que José Antonio adotaria anos mais tarde. Livros e revistas, no entanto, não faziam parte da rotina da família. Tampouco em Mirassol havia monumentos, praças ou casas que merecessem apreço estético. Mesmo assim, Sig deu seus primeiros passos na profissão que o consagraria. “Com 14 anos decorei a boate do clube e com 15, o baile de Carnaval”, conta. “As lojas Pernambucanas eram minha fonte de inspiração”, diverte-se. Aos 17 anos, Sig deixou Mirassol para cursar arquitetura em Santos. Pessoas e casas tornaram-se para ele referências de bom gosto estético. Uma vez em São Pau-

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lo, o jovem estudante economizava cada centavo que ganhava como estagiário em escritórios de arquitetura para investir no que mais gostava: “A cada duas camisas e uma calça que comprava, eu me dava um livro. Foi assim que comecei minha biblioteca”. A faculdade acabou, os empregos e os salários melhoraram, as viagens para o exterior tornaram-se frequentes, as inspirações, mais diversificadas, e o repertório, mais enriquecido. Nos anos 1980, com escritório próprio na avenida Faria Lima, Sig passou a ser convidado para decorar residências e endereços paulistanos emblemáticos, como a boate Gallery. Para quem já havia feito a ponte Mirassol-São Paulo, São Paulo-Nova York foi um caminho quase natural. “Com a cara e a coragem, montei um escritório na Madison Avenue”, relembra Sig.

Sig Bergamin no sítio onde morava com os pais em Mirassol, SP. À esquerda, na casa que vive hoje, no Jardim Europa

Assim passou anos dividido entre seus escritórios no Brasil e nos Estados Unidos. Um dia, sentiu que precisava de mais Brasil no seu dia a dia. Fixou então morada em São Paulo, mas nem por isso deixou de tocar seus projetos – às vezes até 35 ao mesmo tempo – nas Américas e na Europa. E ainda encontrou tempo para escrever três livros: Sig (1997), Adoro (2002) e Adoro o Brasil (2003). Aos 59 anos, José Antônio continua cheio de projetos e ideias: “A idade só fortalece o espírito criador. O passado foi ótimo, mas o presente é sempre melhor”.

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PAISAGISMO VIAGEM

IMPRESSÕES DE UM PASSEIO NO JARDIM DE MONET “C DIANTE DA PROFUSÃO DE FLORES AO REDOR DA CASA DO PINTOR, EM GIVERNY, O PAISAGISTA SÉRGIO SANTANA RENOVA SUAS IDEIAS SOBRE HARMONIA, INTUIÇÃO E SUTILEZA

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ores opostas, como vermelho e azul, jamais devem ser combinadas. Essa e tantas outras regras do gênero defendidas pelos manuais de paisagismo me vinham à cabeça enquanto eu circulava pelos canteiros floridos da Fundação Monet, propriedade situada na pacata Giverny, um vilarejo que hoje soma cerca de 500 moradores no interior da França. Nesse lugar encantador – onde estão acomodados a casa de Claude Monet [1840-1926] e dois belíssimos jardins criados a partir do fim do século XIX pelo célebre pintor impressionista – uma profusão de flores como tulipas, azaleias, gerânios e bocas-de-leão se encarrega de contrariar normas preestabelecidas com seu nada previsível fuzuê colorido e exuberante. Não à toa, o refúgio costuma arrancar suspiros e sorrisos de fascinação dos visitantes. E, no caso de paisagistas como eu, o passeio funciona, de quebra, como uma verdadeira aula aberta em que se aprende muito sobre sutileza, harmonia e intuição. É por isso que não abro mão dessa espécie de ritual que cumpro há seis anos: viajar uma vez por ano para os principais jardins do mundo. Ao cabo desses mergulhos costumo voltar revigorado e cheio de ideias para aplicar nos projetos que faço pelo Brasil [ver boxe na página 71]. Em maio passado reservei três semanas para visitar alguns jardins na França, clássicos como o Jardim das Tulherias e PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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FOTO: ARQUIVO PESSOAL

POR PATRICIA BROGGI DEPOIMENTO A ANA PAULA ORLANDI FOTOS SÉRGIO SANTANA

Tulipas no Clos Normand, o jardim dianteiro, em Giverny: novas leis para o uso de cores

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PAISAGISMO

“DE QUALQUER JANELA DA CASA SE AVISTAM CENÁRIOS MAGNÍFICOS”

A casa e o jardim no traço de Santana 72

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1 o Jardim de Luxemburgo, em Paris. Entre tantas atrações, contudo, os domínios de Monet em Giverny permanecem no topo da minha lista de favoritos. MEMÓRIA DIGITAL Para chegar lá, parti de trem de Paris, meu QG, até uma estação nos arredores de Giverny. Depois um ônibus me deixou próximo ao estacionamento da Fundação Monet. Ali, já saquei a máquina fotográfica e registrei o pátio dos carros cheio de árvores. Gosto de usar essas imagens como referência para meus clientes e, naquele caso específico, mostrar que estacionamentos não precisam resultar em paisagens áridas. Em geral, saio desses passeios com os cartões de memória da minha digital lotados. Na Fundação Monet, por exemplo, foram mais de 500 fotos, sem contar os desenhos que fiz a caneta. Mesmo com tantas pausas, bastam cerca de três horas de caminhada para conhecer tudo. Minha primeira parada foi a casa, pintada de rosa com janelas e portas verdes, onde Monet costumava receber amigos como Renoir e Matisse. Apaixonado pela natureza, o artista parisiense PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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1 Fachada da casa de Claude Monet 2 Tulipas, amores-perfeitos amarelos e petúnias cor de vinho enfeitam o canteiro que contorna a construção 3 Tulipas e plumbagos (azuis) 4 O paisagista Sérgio Santana 5 Glicínias diante do lago de ninfeias

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se mudou para Giverny em 1883 e, depois de atravessar períodos de extrema pobreza, começou a prosperar graças ao sucesso de suas telas. Sete anos depois, pôde comprar a casa que alugara e onde viveria 43 anos de sua vida, ao lado da segunda esposa, Alice, e dos oito filhos. Aos poucos foi arrematando outras glebas vizinhas e plantou ali até o fim da vida, com a ajuda de um séquito de jardineiros, mais de 1.800 espécies de flores e plantas. Quem atravessa a fachada da casa ornada com tulipas pode conhecer em seu interior a coleção de gravuras japonesas do antigo morador, com 231 trabalhos de artistas como Utamaro, Hokusai e Hiroshigue. Na sala de estar ficam cópias de obras do impressionista, cujos originais estão, em sua maioria, no Museu d’Orsay e no Marmottan, em Paris. E a cozinha azul exibe até hoje panelinhas de cobre usadas pelo anfitrião, cozinheiro de mão-cheia. O mais impressionante, entretanto, é observar a profunda integração da casa com o jardim Clos Normand, em frente à construção: de qualquer abertura é possível vislumbrar cenários magníficos, como se estivéssemos diante de uma tela viva.

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PAISAGISMO

(que, apesar de artificial, parece obra da natureza de tão bem-feito!) onde abundam plantas flutuantes, sobretudo as ninfeias, grande fonte de inspiração do artista. Para se ter ideia, Monet pintou em seu recanto nipônico mais de 272 obras catalogadas, durante 20 anos de trabalho. Só a ponte foi retratada 45 vezes, sob diversas luzes, em seus cenários naturais. Com o tempo, o interesse de Monet pelo jardim aquático cresceu a ponto de dominar por completo seu trabalho – em 1914, ele construiu no terreno um estúdio especial para que pudesse trabalhar em telas gigantescas. O caminho (acima) que conduz ao jardim Japonês foi reproduzido por Sérgio Santana neste desenho a caneta. “São referências que uso em meu trabalho”, diz Sem dúvida, o que mais me emociona no Clos Normand é a miríade de cores. Nossa fauna tropical é belíssima, mas muito pautada pelo verde das folhagens. Assim, para nós, brasileiros, observar aquela quantidade de flores coloridas esparramadas pelos magníficos canteiros da propriedade tem sabor muito especial. É de se imaginar, contudo, a dificuldade dos jardineiros da fundação em cuidar de uma seleta tão variada e, portanto, tão complexa do ponto de vista botânico. Mais comedido, o jardim Japonês é um convite à contemplação com sua ponte de madeira sobre um lago 74

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FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

“A SELETA DE FLORES É MUITO COMPLEXA DO PONTO DE VISTA BOTÂNICO”

AVENTURA AMERICANA Esta foi minha segunda visita à Fundação Monet, em Giverny. A primeira vez foi em meados da década de 1970, logo depois de eu ter concluído o curso de arquitetura da paisagem, nos Estados Unidos. Trata-se de uma graduação inexistente até hoje no Brasil e forma profissionais com habilidades de arquiteto, botânico, engenheiro civil e agrônomo para pensar o espaço de forma criativa. Entre outras coisas, determinamos o posicionamento das construções, o desenho de praças e a dimensão das ruas. E, se necessário, até reinventamos a paisagem se a natureza não oferecer atrativos suficientes. Soube desse curso por acaso. Em 1971, após ser aprovado em engenharia civil pelo Mackenzie, fui estudar inglês na cidade de Baton Rouge, na Louisiana. Como estava inPRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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TELA VIVA O VIAJANTE SÉRGIO SANTANA ELEGE SEUS JARDINS E ESPAÇOS PAISAGÍSTICOS PREFERIDOS

AGE FOTOSTOCK / KEYSTOCK

ABBY A. ROCKEFELLER SCULPTURE GARDEN, NOVA YORK

“Toda vez que vou a Nova York faço questão de visitar o Jardim de Esculturas do MoMA, onde se respira uma atmosfera de paz. Criado em 1953, foi restaurado há seis anos pelo arquiteto japonês Yoshio Taniguchi.” VILA D’ESTE, TIVOLI

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“O palácio erguido no século XVI e situado próximo de Roma, na Itália, é Patrimônio Mundial da Humanidade desde 2001. Trata-se da bíblia de qualquer paisagista que deseja aprender a usar fontes e lagos em um terreno montanhoso.”

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ARQUIVO PESSOAL

PARQUE VERDE DO MONDEGO, COIMBRA

“A área de mais de 400 mil m2 foi inaugurada em 2004 na cidade portuguesa. Entre os destaques está o Pavilhão Centro de Portugal, projeto dos arquitetos Souto Moura e Álvaro Siza Vieira, que abriga exposições itinerantes. Vale também apreciar o casamento das árvores centenárias e os caminhos retilíneos com jardins experimentais.”

MICHEL FILHO / AGÊNCIA O GLOBO

SÍTIO BURLE MARX, BARRA DE GUARATIBA

“Localizado nos arredores do Rio de Janeiro, foi residência particular de Roberto Burle Marx de 1973 a 1994. O acervo botânico e paisagístico inclui cerca de 3.500 espécies cultivadas, com ênfase em plantas tropicais brasileiras. É simplesmente o jardim tropical mais bonito que conheço.”

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1 Pelo caminho, petúnias vermelhas, árvore da vida e watsonias brancas 2 Tulipas vermelhas e vinho fazem par com papoulas de miolo branco 3 Tulipas e plumbagos azuis 4 Crisântemos azuis e petúnias vermelhas

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FOTO: ALAMY/ OTHER IMAGES

DIANA, PRINCESS OF WALES MEMORIAL FOUNTAIN, LONDRES

“Inaugurada em 2004, no Hyde Park, a fonte é um grande anel de granito no qual a água corre em duas direções, a velocidades diferentes como se fosse um colar. O centro pode ser usado pelas crianças como área de lazer. Ao chegar é irresistível tirar os sapatos e mergulhar os pés na água.”

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VIDA & OBRAS

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ALINARI / OTHER IMAGES

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“O ENCANTO DE MONET PELO JARDIM AQUÁTICO DOMINOU SUAS TELAS”

deciso profissionalmente, uma professora me falou do curso oferecido pela Louisiana State University, considerado o melhor dos Estados Unidos. Fui me informar e, ao chegar ao saguão da universidade, vi um panfleto sobre o curso com fotografias de praças, parques e até uma imagem de Brasília. Percebi que era aquilo que gostaria de fazer. A questão é que minha família não tinha condições de bancar aquela aventura americana, mas ao ver meu entusiasmo pelo assunto e também meus desenhos o coordenador do curso resolveu me conceder uma bolsa de estudos. Foi um período em que vivi experiências muito ricas e intensas. E não apenas nos Estados Unidos. De férias na faculdade, resolvi arriscar e fui pedir, na cara de pau, um estágio no escritório de [Roberto] Burle Marx, no Rio. Após muita insistência, ele me recebeu e disse que, para aquela experiência fazer sentido para nós dois, eu precisaria conhecer a flora tropical. Passei então boa parte dos três meses de estágio imerso no Jardim Botânico carioca desenhando e estudando espécies. Foi fantástico. Mais tarde nossos caminhos se reencontraram quando a universida76

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1 Ponte do jardim Japonês 2 A paisagem na tela Le Bassin aux Nymphéas, de Monet, de 1919 3 Papoula e plumbagos (ao fundo) 4 Bordô japonês, árvore de floração cor-de-rosa só encontrada em clima temperado 5 O célebre lago com ninfeias

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DEDO VERDE ALGUNS DESTAQUES DA OBRA DE UM PROFISSIONAL QUE VALORIZA, INTERFERE OU, ATÉ, REINVENTA PAISAGENS

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1 Americas Business Park (2000) Sérgio Santana criou para este centro empresarial situado na marginal do Pinheiros, em São Paulo, um bosque com árvores da mata atlântica, cachoeira, pista de cooper e áreas de bem-estar. 2

FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

2 Residência Chácara Flora (2001) Como os proprietários desta casa em São Paulo são apaixonados por jardinagem, o paisagista apostou em espécies variadas e raras. A iluminação de cor branca simula o luar.

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de americana pediu que eu intermediasse uma visita do mestre brasileiro ao campus. Ficamos amigos desde então, e eu costumava passar temporadas com ele no sítio de Guaratiba, quando visitava o Rio. Depois de pegar o canudo na Louisiana State University resolvi permanecer nos Estados Unidos. Nos dois primeiros anos trabalhei para custear uma viagem pela Europa: queria muito conhecer as cidades planejadas da Escandinávia, as melhores do mundo, e os jardins que havia visto nos livros durante o curso, entre eles o legado de Monet em Giverny. Foi a melhor coisa que fiz. Esse tour ampliou meu vocabulário paisagístico e ao voltar aos Estados Unidos pude assumir trabalhos de fôlego, como o Arboretum do Jardim Botânico de Dallas, o paisagismo da Central Expressway da mesma cidade, jardins de centros empresariais, residências... Morei quase duas décadas nos Estados Unidos. Meu endereço mudou quando, em 1990, fui contratado para comandar um projeto nos arredores de Belo Horizonte: transformar uma mina de ferro exaurida em área residencial. O trabalho deu certo, gerou o bairro das Águas Claras e foi apresentado na conferência Eco 92, no Rio de Janeiro. A partir daí, surgiram outros convites para trabalhar em cidades brasileiras e, por dois anos, vivi praticamente no avião entre Brasil e Estados Unidos. Quando percebi que havia uma paisagem para ser construída no país, resolvi voltar de vez. Aqui, me especializei em desenvolver grandes projetos, como o Millenium Office Park, em São Paulo, ou a Vila do Pan, no Rio. Sempre que estou preparando um novo trabalho e busco na memória os jardins que vi pelo mundo, crio feliz.”

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3 Cittá América (2004) O paisagismo deste shopping center no Rio de Janeiro procura reproduzir trechos da mata atlântica. As cores do jardim mudam ao longo do ano de acordo com a floração das plantas. 3 4 Paradiso (2006) O condomínio de alto padrão no Rio de Janeiro reúne seis prédios de seis andares. Cada apartamento conta com varanda voltada para os jardins com espécies da mata atlântica e riachos. 4 5 Vila do Pan (2007) O empreendimento de 240 mil m² e 1.450 apartamentos na Barra da Tijuca foi concebido para abrigar os atletas dos Jogos Pan-Americanos realizados no Rio de Janeiro, em 2007. Hoje, funciona como condomínio residencial.

5 6 Haras Larissa (2008) O ponto de partida do projeto deste empreendimento em Monte Mor, interior de São Paulo, foram as fileiras de sibipiruna que havia no terreno. Outras espécies, como as primaveras, foram adicionadas à paisagem.

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POR GIULIANO CEDRONI

JOTA ERRE DURAN COM DUAS INICIAIS E SOBRENOME, A ASSINATURA J. R. DURAN SE TORNOU CONHECIDA PRIMEIRO NOS CRÉDITOS DE SUAS FOTOS E DEPOIS EM MUITOS OFÍCIOS. O CATALÃO MAIS ZIRIGUIDUM DO BRASIL MOSTRA SEUS LADOS B, C, D, E...

DURAN NÃO É NOVO• Aos 58 anos, é de se esperar o branco nos cabelos e as marcas no rosto. Tampouco é um senhor insistindo no ridículo de parecer jovem. Carrega com dignidade cada mudança de país, cada idioma absorvido, cada prêmio na prateleira, cada trabalho encomendado. O chefe de família não esconde a lágrima ao falar da filha adolescente. Cercado por grifes clássicas como Hasselblad, Land Rover e Moleskine, o catalão busca cada vez mais o auxílio do Ray-Ban modelo Woody Allen para ler – e faz isso muito antes de o modelo virar moda. “As pessoas se deslumbram com o novo.” DURAN NÃO É VELHO• É charmoso e sedutor e sabe disso. Faz uso do cavanhaque esporádico, que lhe imprime um ar moderno, no bom sentido da palavra. Está longe de ser um velho de alma, fechado para as novidades. “Não necessariamente a novidade é o novo”, disserta calmamente, com uma taça de Malbec em punho, num restaurante de sua escolha, na Vila Madalena, em São Paulo. Está sereno e focado, experiente e cheio de energia. Não tem pressa, mas não tem tempo a perder.

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DURAN NÃO É BRASILEIRO• Nasceu na Espanha de Franco e ali viveu até os 18 anos de idade. “Barcelona era um lugar triste, vazio, sem arejamento cultural. A única coisa bacana eram as suecas que vinham no verão, ávidas pelos ibéricos...”, lembra Jota. Erre. Duran (ele não declina os nomes escondidos sob as iniciais: “Superstição”), um dos filhos de um industrial e de uma dona de casa. A família veio pra São Paulo em 1970, quando a empresa do pai foi vendida. “O Brasil era uma terra mítica para nós europeus. Eu imaginava viver de canga andando pelo mato, e ao chegar aqui vi que não era bem assim.” Aqui, o jovem catalão deparou com as brasileiras em carne e osso. Intimidado, até tomou pau na escola. Ninguém poderia imaginar que aquele garoto acanhado se transformaria no autor de alguns dos melhores registros da mulher brasileira. Ou, mais do que isso, da sua sensualidade, em memoráveis ensaios para revistas masculinas, como Playboy.

Hotel Norfolk, Nairobi, 2007: anotações de viagem que deram origem ao livro Cadernos Etíopes

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A IDEIA É REGISTRAR A VIDA, SEJA COM CÂMERA DIGITAL, TECLADO OU GRAFITE SOBRE A PÁGINA BRANCA

DURAN NÃO É UM INTELECTUAL• No entanto, guarda artigos de jornal em pastas como um velho professor da USP. E lê. Sempre que pode, na língua original. Inglês, francês, espanhol, catalão. Livros, revistas, jornais. E não abre mão da versão papel: “Ler o jornal com uma xícara de café é um dos meus rituais. Como vou fazer isso no iPad? E se eu derrubar um pouco?”. O leitor declara que muito do que imprime hoje em sua fotografia são referências escritas. Mas ele não é óbvio. Cita autores norte-americanos pouco conhecidos, o francês Stendhal e o argentino Bioy Casares. “Nesse momento estou lendo sobre a queda de Constantinopla e a briga por Malta. Descobri que em Malta existem dois puta Caravaggios e isso me faz querer me mandar pra lá...”

Quartos de hotel, como o da aquarela acima, são o tema de anotações que Duran vem fazendo há 20 anos; no alto com os inseparáveis Moleskines, em Taroudant, Marrocos, 1993

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DURAN NÃO É UM TURISTA• É um viajante. Já visitou dezenas de países, muitos deles diversas vezes. “Nem ideia de quantos... Nem ideia.” A ida a Eritreia, por exemplo, nasceu da leitura da biografia de Hugo Pratt, que tinha passado por aquelas bandas. “Comentei com Mario Sergio [Conti, editor da revista Piauí], e ele disse que, se eu fosse, ele publicava. Fui.” Outra viagem para a África virou o livro Cadernos Etíopes (Cosac Naif, 2008); já a passagem pelo sul da Espanha gerou Sevilla (Burti, 2005)... E assim ele pratica o não turismo produtivo. “Essas são minhas férias. Não consigo ficar deitado num hotel em Campos do Jordão”, provoca esse cidadão instigado, que lançou dois outros livros atípicos para um fotógrafo, cujos títulos são nomes de cidades. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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DURAN NÃO É UM ESCRITOR• Mas ostenta em sua biblioteca, e na de muitos outros leitores, dois romances de sua autoria. Lisboa e Santos (Francis, 2002 e 2006, respectivamente) podem ser definidos como boa literatura noir. Como todos os seus textos, ele escreve em primeira pessoa. Os protagonistas são homens misteriosos, charmosos viajantes que planam sobre a vida. Café, cigarro, trepadas em quartos de hotel com mulheres desconhecidas, aeroportos, táxis. “Primeira pessoa não significa que seja eu”, defende-se. Além dos romances, o fotógrafo assina centenas de crônicas, matérias e pensatas em forma de linguagem escrita. “Meu primeiro texto me fez parar de escrever. Eu tinha 12 anos e a professora pediu uma redação com tema livre. Escrevi sobre a chuva. Ela disse que eu havia copiado aquilo, e, ao invés de ficar lisonjeado, fiquei puto!”, conta às gargalhadas. Graças à sensibilidade didática da professora, não escreveria por muito tempo. Até que nos anos 1980 publicou sua primeira matéria, na revista

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Cadernos das viagens a Hong Kong e a San Juan

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Playboy, a convite do jornalista Mario de Andrade, lendário editor da revista à época. “Esse cara me ensinou muita coisa. Ele falava coisas impressionantes... Me ferrei muito com ele, mas aprendi mais ainda.” A matéria foi finalista do prêmio Abril, o que o encorajou a seguir escrevendo. Hoje, Duran assina uma coluna semanal no jornal Brasil Econômico e uma mensal na revista Trip, entre outras. Além, é claro, de textos para seu website e frases para o universo on-line... DURAN NÃO É UMA WEB VICTIM• Mas vive conectado. Uma vez por mês, atualiza pessoalmente seu website e mescla o seu portfolio com um blog. O homem não checa o smartphone a cada minuto. Quando está conversando, fotografando ou simplesmente pensando numa resposta, usa do mesmo poder de foco que utiliza para suas imagens. Não está no Facebook nem no Orkut, mas é simpatizante do passarinho azul. “Adoro o Twitter.” No momento da entrevista, Duran contabilizava 28.914 seguidores no microblog. A sentença “O passado é azul e superexposto” foi tirada dali. Quem fotografou com película e já entrou num darkroom sabe o poder imagético que a frase sintetiza. 82

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2 1 Na Tailândia, em foto para a revista inglesa Tatler, em 1993 2 Fragmentos de uma viagem a Johanesburgo 3 Com índios zoés, em 2008 4 Com o chefe da tribo dos rashidas, na Eritreia, em 2009

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DURAN NÃO É UM EDITOR• Mas aprendeu a editar logo cedo. Faz parte do ofício de todo fotógrafo mostrar ao seu editor, ou diretor de criação, cliente etc., somente as imagens de que você mais gosta. Em resumo, editar é isso: escolher, sintetizar, melhorar. ‘“A vida é editar’, já dizia Pedro Martinelli”, diz Duran citando o colega. Ainda assim, são poucos os fotógrafos que sabem editar o próprio trabalho, quanto mais o trabalho dos outros. FREEZE, sua primeira publicação, o colocou pela primeira vez na cadeira de “diretor e editor de fotografia”. O projeto editorial consistia num portfolio de luxo de fotos suas – com raras exceções –, com alguns poucos textos que acompanhavam os ensaios... basicamente ensaios de mulheres e viagens. A empreitada durou de 2000 a 2005 e encheu os olhos de muita gente. Mês passado, no entanto, Duran se lançou novamente como editor. Des-

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AS DECISÕES QUE TOMA DURANTE OS VOOS E AS CORRIDAS OXIGENAM O LADO PROFISSIONAL

Didot e imagens cuidadosamente impressas, causou frisson no mercado. Muitos se perguntaram como editoras grandes e renomadas, vivendo o Brasil da euforia Copa/Olimpíada, não possuem um título à altura da revista desse fotógrafo solitário. “Meu trabalho é autoral, sempre. Meu olhar é autoral.”

Oito livros publicados: a resposta a uma estreia escolar desanimadora. No alto, com a mulher, Alex, no Mitsubish Cup em 2001; e em voo sobre São Paulo, no comando de um helicóptero R22, em 1999

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sa vez da Revista Nacional, um compêndio de textos longos assinados por grifes do jornalismo brasileiro. Tudo ilustrado por ensaios em preto e branco e organizado numa direção de arte clássica e atemporal. Ali o design gráfico é de J. R., a edição dos textos é de Duran e as fotos são de J. R. Duran. Sem exceção. “Estou editando meus editores... Um prazer.” O resultado dessa feliz troca de cadeiras se materializou em 143 páginas e apenas 2 mil exemplares numerados. Sua ideia é lançar uma edição por ano durante dez anos, e, o mais surpreendente: “Não haverá versão on-line. Somos do papel!”, celebra o autor, que, somando livros de fotografia e de texto, já contabiliza oito títulos com sua assinatura. Todos de papel. A parruda Revista Nacional, com seu quilo e meio de Novatech 170 gramas, fonte

DURAN NÃO É UM PILOTO• Mas de tempos pra cá deu para fixar os olhos em outras máquinas que não Cannons, Nikons e Leicas. Em vez disso, foi se meter com Mitsubishis e Robinsons e, quando viu, estava pilotando automóveis de rali e helicópteros. Há anos ele se aventura por terra e ar comandando essas maravilhas tão potentes como perigosas. Gosta de adrenalina misturada com poeira e da visão panorâmica que uma aeronave proporciona. “As decisões a serem tomadas numa corrida ou num voo oxigenam minha profissão”, explica ele. Já terminou em oitavo lugar na classificação geral do Rally dos Sertões, em 2004, e contabiliza mais de 150 horas de manche. DURAN É UM FOTÓGRAFO• Desde 1972, quando iniciou a carreira fazendo assistência para mestres da arte da luz, o jovem se enxergou fotógrafo. Mas não só fotógrafo. “É meu core business, o resto aconteceu.” Se na moda e nos retratos Duran reflete sombras de Helmut Newton, Cartier Bresson e Irving Penn, em suas viagens ele absorve a bagagem de Antonioni e Salgado, Bertolucci e Albert Watson, Chambi e Weber. Mas suas referências vão muito além do cinema e da fotografia. Pintores como Sargent e Sorolla, quadrinistas do calibre de Hugo Pratt, escritores como Richard Burton... todos estão impressos em seu trabalho, seja em foto, livro, edição ou PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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desenho – sim, sua próxima cartada vai ser um livro de desenhos de quartos de hotéis que ele fez nos últimos 20 anos. Mais uma prova de que para Duran não importa o como, e sim o quê. “Meu conceito hoje é trabalhar com a verossimilhança, com a autenticidade. Quero recriar uma situação, um gesto, uma roupa que faça com que as pessoas lembrem de uma passagem da vida delas”, explica. “Busco isso na publicidade, nos ensaios de nudez, na moda e também em meus textos...” Talvez o termo fotografar, no ano de 2010, seja justamente isso – registrar os acontecimentos à sua volta independente da ferramenta. Pode ser uma câmera digital ou um teclado de computador ou o grafite sobre uma página branca de Moleskine. Ao esquecer as amarras, o purismo e a autocensura teremos um profissional inquieto e atento. E curioso, sempre curioso. Um... fotógrafo.

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Acima, em acampamento no rio Negro, em 2007; na nova revista, cuidada pessoalmente até nos detalhes, o prazer de editar seus editores

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ARTE

MÉRITO HIGH-TECH DUAS EXPOSIÇÕES COM CURADORIA DE DENISE MATTAR MARCAM OS 50 ANOS DO MUSEU DE ARTE BRASILEIRA DA FAAP, EM SÃO PAULO, E CELEBRAM SEU PIONEIRISMO NA ARTE TECNOLÓGICA

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POR SERGIO ZOBARAN E RACHEL ALMEIDA RETRATO NINO ANDRÉS

Denise Mattar diante da obra Túnel, de Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti, uma das mais visitadas da mostra “Tékhne”

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o iniciar há um ano e meio uma pesquisa sobre os 50 anos do Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado, o MAB, a curadora Denise Mattar sabia que iria se defrontar com uma bela história, cheia de capítulos marcantes. Foi uma exposição do MAB, em 1970, por exemplo, que tirou Ismael Nery do ostracismo, e, quando reunidos pelo museu, em 1978, na coletiva “15 Jovens Artistas do Brasil” nomes como Claudio Tozzi, Gilberto Salvador, Luis Paulo Baravelli e Ivald Granato ainda cabiam nessa categoria. A surpresa da curadora, que já assinou grandes montagens históricas, como as dos centenários de Di Cavalcanti e de Flávio de Carvalho, foi o pioneirismo do museu na fronteira da arte com a tecnologia. E foi esse o tema que ela decidiu iluminar nas exposições que celebram, até 12 de dezembro, os 50 anos da instituição. “Ao começar o trabalho, eu não sabia dessa proximidade”, recorda Denise. “Talvez por ser um museu particular, o MAB custou a ser percebido com toda a importância que merece”, avalia. Duas exibições, “Memórias Reveladas” e “Tékhne”, afirmam o lugar do museu no cenário artístico brasileiro. A primeira recorreu à linguagem museológica dos nosso dias, com seus recursos digitais, para lembrar a história da instituição. A segunda exposição, “Tékhne”, mergulhou de cabeça na arte tecnológica. “Mostrase aqui o impacto de grandes inovações, como o advento da internet e a edição digital de imagens, sobre a sociedade e a produção artística”, explica Denise. “Tékhne”, cuja curadoria ela assina com Christine Mello, distribui-se em dois núcleos. Um deles, o contemporâneo, reúne numa coletiva nomes de peso, como Amélia Toledo, Ana Maria Tavares, Regina Silveira e Lucas Bambozzi. Um conjunto de cinco exposições da vertente tecnológica, realizadas pelo museu entre 1964 e 1985, compõe o núcleo histórico. Como seus artistas, que valorizam a interação com o espectador, “Tékhne” deu ênfase à relação lúdica da arte com o público. “Não por acaso, as obras que mais permitem essa interação tornaram-se as estrelas do evento”, aponta 88

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Denise. Assim como Pedra-luz, de Amélia Toledo, Túnel, de Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti, e Mobile Crash, de Lucas Bambozzi, que acaba de receber o prêmio austríaco Ars Eletronica, são as mais visitadas pelo público. Na obra de Amélia, o espectador assiste num espelho no teto às projeções de imagens de mares e rochas sobre o lençol que o recobre e o inclui na obra. Na de Cantoni e Crescenti, ao atravessar um corredor de lâminas de metal, o visitante gera uma esteira de reflexos que o seguem com um pequeno retardo no tempo. Visto de fora, o efeito parece uma sombra que persegue sua fonte. Mobile Crash, com atmosfera de videogame, é uma tela acionada pelos movimentos do espectador, em ritmo progressivo. Em Airshaft (para Piranesi), criada por Ana Maria Tavares em 1982, imagens projetadas de pontes e escadas produzem efeitos labirínticos e poéticos – “É um Escher contemporâneo”, compara Denise Mattar.

Reproduções do Alejadinho, as montagem dos vitrais, no edifício do Pacaembu; e as primeiras aulas na Faap, em 1961

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“TÉKHNE” NÚCLEO CONTEMPORÂNEO As obras convidam o espectador a participar. Acima, à esquerda, Pedra-luz, de Amélia Toledo: o visitante faz parte da cena que vê no espelho. Acima, Airshaft, de Ana Maria Tavares: escadas e pontes projetadas como um labirinto poético

FOTOS : DIVULGAÇÃO FAAP

NÚCLEO HISTÓRICO Cinco exposições de arte tecnológica realizadas no MAB entre 1964 e 1985, remontadas nesse núcleo, registram o impacto da tecnologia na arte. Abaixo, Zero Cruzeiro, de Cildo Meireles; e Wanted, de Lygia Pape. À esquerda, acima, Retrato de Lydia ou a Respeito do Filho, de Wesley Duke Lee; abaixo, A Mulher que Não É B.B., de Waldemar Cordeiro; e Objeto Cinético CK-8, de Abraham Palatnik

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Uma das exposições do MAB recuperadas no núcleo histórico de “Tékhne” é “A Instabilidade”, de 1964, um marco da desmitificação da obra de arte e da valorização do jogo com o espectador. Realizada pelo Grupo de Pesquisa de Arte Visual, foi exibida na III Bienal de Paris, no ano anterior. Revisita-se, também, “Arteônica”, montada em 1971, uma das primeiras mostras de computer art no Brasil, com curadoria e obras de Waldemar Cordeiro, um dos fundadores do movimento da arte concreta, nos anos 1950, em São Paulo. “Arte Novos Meios/Multimeios: Brasil 70/80”, outra mostra resgatada, de 1985, com curadoria de Dayse Picinini, promoveu um levantamento das manifestações artísticas que utilizavam xerox, videoarte, videotexto, mimeógrafo e super-8, então recém-chegados. Entre os artistas, José Roberto Aguilar, Cildo Meireles, Hudinilson e Carmela Gross. “É interessante notar que essa mostra aconteceu simultaneamente à Bienal de 1985, que celebrava a grande tela”, aponta Denise. “Enquanto a Bienal refletia sobre o mais tradicional dos suportes, a mostra da Faap atentava para os novos meios que, ao final, predominaram”, comenta a curadora. NOVA VELHA HISTÓRIA Em “Memórias Reveladas”, a ousada cenografia de Guilherme Isnard reflete a história do MAB e da Faap em imagens rápidas e ambientes informativos. A longa lista de intelectuais e artistas do circuito que passaram por ali, tanto em salas de aula quanto em alguma das 500 exposições realizadas pelo museu, virou uma cascata de nomes projetados numa tela. Os programas de mostras e peças revestem uma alta torre penetrável. Sobre uma parede de 12 metros, projetam-se imagens da construção do prédio. Ao vivo, aprecia-se uma seleção do melhor da arte nacional, parte do acervo de quase 4 mil obras, de artistas como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Lasar Segall, Emiliano Di Cavalcanti, Candido Portinari e Iberê Camargo. O barroco foi o tema da exposição inaugural, em 1961, para a qual se pro90

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“15 Jovens Artistas do Brasil”, 1978: Takashi Fukushima, Claudio Tozzi, Aldir Mendes de Souza, Luiz Gregório Correa, Newton Mesquita, o curador Von Schmidt, Marcello Nitsche e Luis Paulo Baravelli. Sentados, Gilberto Salvador, Marcos Concílio e Juarez Magno . A fotografia está em programa da mostra “Memórias Reveladas”

duziram as réplicas dos profetas do Aleijadinho que se veem hoje no saguão da Faap, cujos originais estão em Congonhas do Campo, em Minas Gerais. “A deterioração da obra do Aleijadinho, exposta ao tempo, tronou as réplicas do museu um inesperado documento histórico.” A pesquisa sobre os 50 anos do MAB resultou também na edição de três livros: Arte Brasileira – 50 exposições do MAB-Faap registra suas principais exposições, com textos da curadora e das críticas Angélica Moraes e Fernanda Lopes; Teatro Faap – A História em Cena, assinado pelo crítico de teatro Valmir Santos, lembra a atuação da instituição nas artes cênicas; e Memórias Reveladas – A Atuação Cultural da Faap retoma a trajetória desde a construção do MAB e a transformação da Escola de Artes em Faculdade de Artes Plásticas, na década de 1970, até o reconhecimento da fundação como centro formador de artistas. NOVOS VENTOS Quando a Faap abriu a Faculdade de Artes Plásticas, nos anos 1970, a aproximação entre professores e alunos do mundo artístico trouxe uma nova efervescência ao edifício

solene do Pacaembu. “Os professores eram artistas que me influenciaram muito”, recorda Leda Catunda, que estudou lá entre 1980 e 1984 e voltaria às salas de aula anos depois como professora. Menciona entre os mestres, por exemplo, Regina Silveira, Nelson Lerner, Walter Zanini e Julio Plaza. Os novos ventos sopraram também sobre as atividades do museu. Nos anos 1970, sob a curadoria de Carlos Von Schmidt, o museu abriu espaços importantes para a experimentação. O cinquentenário do MAB colocou em perspectiva, nas exposições e nos livros, acontecimentos marcantes da arte brasileira. Responderam, no conteúdo e na forma de apresentação, a uma queixa constante até na porção do público mais familiarizado com as artes plásticas: a dificuldade de contextualizar a produção artística contemporânea. Como observa a curadora Denise Mattar: “As possibilidades do mundo moderno são múltiplas e seus caminhos se entrecruzam muito rápido; fica difícil apreender o fenômeno artístico”. O MAB fez dos seus 50 anos uma ótima oportunidade para trazer um pouco de lógica a essa vertigem. PRIVATE BROKERS | COELHO DA FONSECA

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“MEMÓRIAS REVELADAS”

FOTOS : DIVULGAÇÃO FAAP

Segunda exposição comemorativa dos 50 anos do MAB, apresenta, além de material iconográfico sobre a trajetória da Faap, uma seleção do melhor do acervo do MAB. Acima, à esquerda, Estudo para a Boba, de Anita Malfatti, 1915; a seu lado, O Sapo, de Tarsila do Amaral, 1928. Abaixo, Mestiça, de Candido Portinari, 1934; e à sua esquerda, Caboclas Montadas, de Lasar Segall, 1948

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Famed horse rider Luciana Diniz celebrates her 40th birthday with a new sense of fullness The new Brazilian design is not bound by the austere principles of industrial design, but values its roots and celebrates its pioneers

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As essential as his master Mies Van der Rohe, Aurélio Martinez de Flores’s designs are sanctuaries for their residents

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Landscapist Sérgio Santana refreshes his notions of harmony, intuition and subtlety at Monet’s Giverny gardens

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Writer, editor, designer, rally driver, helicopter pilot. J.R. Duran, the most Brazilian of all Catalonians, shows his side B. And C, D, E...

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COVER

BY DANIELA FERNANDES, FROM FÜRSTENAU, GERMANY COLLABORATOR CHRISTOPH WÖHRLE PHOTOGRAPHY ANDRE PENTEADO

LEAP OF QUALITY Famed horse rider Luciana Diniz celebrates her 40th birthday with a new sense of fullness and wants to share her accomplishment through an educational project targeted at the pursuit of harmony

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uciana Diniz’s mother, Lica, used to say that life begins at 40. As she approaches that mark, Luciana confirms her mother’s words. Fourth-placed in the Geneva 2010 Show Jumping World Cup and with a huge collection of international prizes, she now prepares for one of the most important leaps ever: launching Grow project, an educational endeavor focused on mental growth and wellness. Luciana lives in the peaceful German village of Fürstenau, surrounded by the fundamentals of her life: eightyear-old twins Pedro and Paulo; her horses, which she calls her best friends; and nature. There, in the country, a highly spiritual Luciana puts her values into practice, as summarized in the philosophy of Grow project: “The pursuit of a happy and accomplished life through spiritual development in everyday life.” ENERGIZING RITUAL At the entrance to the property stands a typical German chapel with an image of the Virgin Mary, where Luciana always keeps a candle burning. She takes zealous care of the site, sweeping away the dead leaves. “Keeping it in shape is part of a ritual; it’s good for the energy and protection of the place,” she explains while dusting the flower-festooned walls of the chapel. The LD Equestrian Village has horse “amenities” like barns with cold showers and water massage, an open-air sand course, an indoor ring and expansive lawns. Seven jumping horses live here now. Two, Dover and As Taro, belong to her father businessman Arnaldo Diniz; and one, Winningmood, to Baron Edouard de Rothschild, with whom Luciana is partners. The two are joint owners of Suzie Quattro, Calvie, Lennox and Locarno, with which she won many prizes, including the qualification for the World Jumping Cup in Leipzig, which she won last year under extremely difficult conditions: a few hours before

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the qualifying run, the horse made a sudden movement and she broke her coccyx.“ I won the event and went straight to the hospital.” A TOUCH OF PINK Luciana claims to be shy, but has the energy of an athlete and sounds like a seasoned public speaker when she talks about Grow project and its concepts – controlling emotions to attain personal balance. The only exceptions to her habitually discreet appearance come from her love of hot pink. In a bright anklelength Versace overcoat, Luciana is a bright light among the waves of dark coats that walk European cities in wintertime. A follower of chrome therapy theories, she never wears black and prefers comfortable items in glue, green and pale purple. Her greatest partner was the Brazilian thoroughbred Dover, which will soon be sent back home for good. It was because of him that she started to represent Portugal in competitions in 2006, since the Brazilian committee didn’t want her to ride him in competitions. At the age of 18, he was considered old and with no chances of a good performance. “I know I could trust Dover,” Luciana says. And she was right: she made the top 25 out of 176 riders in the Aachen World Cup. Dover’s replacement is Winningmood, the Baron de Rothschild’s white stallion.

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1 Ralph, Manheim 2005 2 Son of Marco, Aachen 2007 3 Locarno, GP de Spangenberg, 2008 4 Lennox, Balve, 2010

Luciana loves to travel and has lived abroad since she was 19. She lived in Palm Beach, US, and elsewhere in Europe before settling down in Germany. Now, at 40, she thinks it is time bring her international personal and sporting experience to Brazil. And wants to start this new phase with an education center focused on wellness and teaching people how to best reach their goals and live harmoniously. BACK HOME According to her, Grow project is at an advanced stage of development. It will gather researchers, philosophers, writers and personalities from several areas to address a broad range of subjects. “Our attitudes in pursuit of excellence lead us to happiness,” Luciana says. “Grow will help people reach their goals.”

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In Germany, the program will start out as Grow Kids, intended for the children of the area where she lives. In Brazil, activities will focus on different age groups, including wellness lectures and workshops (Grow Haus), equestrian activities (Grow Horses) and a line of motivational clothing (Grow Fashion). The decision to develop this new phase in Brazil is a welcome return home for Luciana. After two decades abroad, it is at home, in her native language, with the support of family and friends, that she feels secure and confident to run the new project. At 40, she sees herself at her peak. “I’m living a dream. Finding the meaning of one’s life is incredible.” Listening to her speak, who could doubt that life really begins at 40?

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POR PATRICIA BROGGI

NEW PATHS YOUNG MEMBERS OF THE DINIZ FAMILY ARE ENTREPRENEURIAL AND MANY SHINE IN SOMETIMES UNCONVENTIONAL FIELDS Luciana Diniz is a third-generation descendant of Floripes and Valentim Diniz (1913-2008), Portuguese immigrants who laid the foundations for the family’s fortune. In the 1940s, he opened a candy-store in São Paulo. In 1950, at the same address, came the first Pão de Açúcar supermarket. The patriarch created the chain that became Grupo Pão de Açúcar, one of Brazil’s largest conglomerates. Although born after the family had already built much of its empire, the younger Diniz are entrepreneurial and stand out in sometimes unconventional fields. Abílio’s children – Ana Maria, João Paulo, Pedro Paulo e Adriana – run their own businesses. Ana Paula, an experienced manager and former Operations officer at Grupo Pão de Açúcar, has just opened Anacã, a dance school in São Paulo. João Paulo splits his time between Grupo Pão de Açúcar and holding company Componente, which

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Above, Lica, Arnaldo and sons, Arnaldinho, Luciana, Fábio and André; the grandparents, Floripes and Valentim

manages gyms, restaurants and a beverages distribution company. Former Formula One driver Pedro Paulo also runs a holding company, invests in sustainable businesses and researches organic foods, besides being a partner in restaurants. Alcides’s son Felipe is a famed architect. His brother, Dinho, owns the Au Pet Store chain and manages musicians. Carola and Ana Paula are businesswomen – the former owned a children’s clothing label called Mini Me. Sonia’s daughter Mariana works at her mother’s interior design store, Conceito Firma Casa. Lucília’s daughter, Manoela, is preparing to start her career as a singer. One of Luciana’s brothers, André, manages Urban Summer, a digital ad agency that has important clients. Another singling, Fábio, is a guitarist with rock band Os Mustangues.

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DESIGN

REBELLIOUS, YET WELL BORN The new Brazilian design is not bound by the austere principles of industrial design, but values its roots and celebrates its pioneers. Open to experimentation, it drew close to urban business and culture and reached the world’s star system It’s not just being the first-named in the BRIC acronym that lends international notoriety to everything done here. Even during the years of crisis, many Brazilian designers had already attained fame in the international circuit that has Milan as its center. The Campana brothers are exemplary. Their public presence begins in the late 1980s, with the “Desconfortáveis” (“Uncomfortable”) exhibition, where they showed iron chairs with none of the usual finishing touches that fit the title perfectly: they were meant for the eyes rather than sitting. Fernando and Humberto Campana reject the motto of form after function and value spectacle, even if at the cost of purpose, comfort, viable pricing and mass production. Many young designers since have made light fixtures from candy wrappers or fabric scraps; chairs from steel spoons; purses from mops; sets from metal pails; food containers from... other foods. The field of Brazilian design opened up to experimentation on different fronts. The objects ahead belong to different lineages of Brazilian design, each with its own family tree. RIO’S AND SÃO PAULO’S SIDEWALKS From cobblestones to hydraulic tiles Nothing expresses the spirit of the two cities better than their signature sidewalks. Rio’s were installed before Copacabana beach in the early 1900s: out with the flagstones of the colonial period. The new, small, black and white cobblestones came from Lisbon, along with specialized craftsmen. The design attempted to replicate the sea waves. In São Paulo, so bare of natural beauty, the story was quite another. In 1966, architect Mirthes dos Santos Pinto designed a walkway made from just three simple tiles, one in black, one in white and another in black and white, divided diagonally. These minimal elements allowed making a stylized map of São Paulo State, an abstract reference and, perhaps, the only one possible in a city

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GUARACI CHAISE LONGUE, HUGO FRANÇA It started out as a canoe It looks like a canoe, and so it should. Made from the trunk of a pequi tree, it is the outcome of what the designer learned from canoe makers, and is made from abandoned canoes with a sewn-in leather mesh. Like Zanine Caldas, the legendary builder of wood furniture and homes, França uses dead tree trunks he brings to his studio and studies at length. The shapes of the logs vary and suggest pieces like tables, armchairs, chaises and sculptures. Guaraci (2007), however, is the third incarnation of a pequi that was first a tree and then a canoe. Unlike manufactured products, which hide their roots, Guaraci keeps it family tree out in the open. PATENT BED By a certain Martinez, from Araraquara Time can turn banal items into cult objects. Such is the case of the patent bed, which was first manufactured almost a century ago. With WWI, imports into Brazil became complicated and a hospital in Araraquara, in the São Paulo countryside, saw itself unable to replace the sanitary steel beds. The hospital director asked Spanish carpenter Celso Carrera Martinez to make similar pieces and so he did, replacing the metal with lathed wood and the wood frame with wire mesh. The bed eventually made it to several cities across Brazil. It was so successful that competitors started making it, leading to a fight over patents and to the piece’s name. Today, after being studied by Professor Maria Cecília Loschiavo, it became a cult object that sells for high prices at antique shops. PRIVATEBROKERS | COELHO DA FONSECA

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devoid of major landmarks. Unlike Rio’s sidewalks, which require skilled workers and patient labor, São Paulo’s are easily installed, covering large surfaces in little time. The industrial speed and appeal of SP versus the artful swaying of Rio.

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POR ETHEL LEON

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Rio and São Paulo sidewalks

Dinamarquesa or Brasilia chair, by Jorge Zalsupin

Rio chair, by Bernardo Figueiredo

Anêmona chair, by Campana Brothers

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ARCHITECTURE VIAGEM

SETTING THE STAGE As essential as his master Mies Van der Rohe, Aurélio Martinez Flores’s designs are sanctuaries for their residents. His Spartan work, which has left great masters wondering, influenced an entire generation of Brazilian architects

I

n 1958, after graduating from Architecture School, Aurelio Martinez Flores went to work for Knoll International, collaborating in the interior details of Mies van der Rohe’s only project in Latin America, the Bacardi headquarters in Mexico City. Flores became head of furniture manufacturing at Knoll, which holds exclusive rights to the production of items by the likes of Marcel Breuer, Eero Saarinen and Henry Bertoia. In 1960, Knoll asked him to publicize and design products in the corporate partnership with Forma, in São Paulo, Brazil. He came and never went back. For ten years, he made Forma a radiating hub for interior design pieces and ideas. The company became an icon of modernity in postBrasilia Brazil, with over 30 new designs every month. In 1970, he left to continue his work at Inter/design, the store he opened with friend Luis Carta. In addition to creating, importing and marketing objects, the new store ran hundreds of interior design projects for homes, stores, companies, restaurants and art galleries. And he now had more time for architecture. His first expressive site, a beach house in Guarujá for advertiser José Zaragoza, was featured in US magazine Architectural Digest.

Brazil may have been a good choice after all. That he didn’t really need to work with Mies van der Rohe at Knoll US and maybe win international acknowledgement faster. That the world would, slowly but surely, reach him. Icons of architecture like Jacobsen, Nouvel Baeza and Gasperini unanimously revere his work. According to former student and business partner Isay Weinfeld, “Flores made an entire generation look at proper design, at the object in and of itself, at an architecture remarkable for its elegant proportions.” REAL-LIFE STAGE-SETTING In his office at a small cul-de-sac off Consolação St., Flores talks about his work and beliefs for architecture and life. Simple doesn’t mean poor. The wealth of architecture lies more in the nobility of the design than in the materials used. A house entirely made of gold may be ugly. The architect’s job is to create sets where the true artists, the residents, can shine and play their roles as leading characters. In a poor analogy, a store should emphasize the strength and grace of the products, not the elegant shelves. In essence, it is actual people and their circumstances that decorate an environment. The ideal, in sum, lies in large, light, vibrant spaces for personal life. For Flores, what matters is creating sensations through spaces. Entering a church, one feels holiness; entering a disco, one feels frenzy. What about a home? Intimacy is the answer. This

ELEGANT PROPORTIONS Flores is as devoid of vanity as his work. Before listening to him at his office, one should sound out his human and professional background to conclude that São Paulo and 100

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BY CARLOS MORAES PORTRAIT MARCOS VILAS BOAS

Architect Aurélio Martinez Flores and Instituto Moreira Salles’ building

is why Aurélio’s designs tend to place a vestibule between the outdoors and the house itself, as if to say: “shake the dust off your sandals, as Moses did, for the ground here is sacred.” Or different, at any rate. Even at restaurants like Gero, a divide at the entrance creates a pause before admission into the inner sanctum. WHERE GOD LIES We ask Aurélio Martinez Flores for his interpretation of one of the most intriguing quotes from Mies van der Rhoe: “God is in the details.” He smiles and repeats the sentence in a whisper. Yes, maybe, he concludes. God is not on planes, on flatness, on the obvious, on the predictable, but in the luxury and surprise of details. On things that subtly break from and interrupt the background. In small luxuries that are sometimes sensed more than they are noticed. Nothing easy to explain. Aurélio points to the simple panel in his office that cancels out the window opening on to the street. The panel drops down from the ceiling, but stops a few inches shy of the floor. A tiny detail, but something there breathes easily. He points and says: “God may be somewhere around there.”

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LANDSCAPING

IMPRESSIONS FROM A WALK IN CLAUDE MONET’S GARDEN Faced with the profusion of flowers in the French painter’s Giverny home, Landscapist Sérgio Santana refreshes his notions of harmony, intuition and subtlety

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pposite colors, like red and blue, should never be combined.” This and other landscaping rules came to mind as I walked among the flowerbeds of the Monet Foundation, in the peaceful village of Giverny. This charming place – which includes the home of Claude Monet (1840-1926) and two wonderful gardens he planted in the late 1800s: flowers in profusion challenge the standards with bursts of color and exuberance. For landscape artists like me, it is an open lesson with much to teach about subtlety, harmony and intuition. Six years ago I adopted a ritual of sorts: taking a trip each year to one of the world’s top gardens. I come back from each expedition invigorated and full of ideas for my jobs around Brazil (see box on page XX). Last May, I set aside three weeks to see gardens in France like the Tuileries and Luxembourg, in Paris. But Monet’s domains remain at the top of my list. Three hours are enough to see it all. My first stop was the pink house with green windows and doors where Monet used to entertain friends like Renoir and Matisse. The Parisian artist moved to Giverny in 1883 and started to prosper after a period of extreme poverty. He was eventually able to buy the house where he would spend 43 years with his second wife, Alice, and eight children.

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He gradually added neighboring parcels and planted over 1800 species of flowers and other plants. Inside the house feasted with tulips lies the former homeowner’s collection of Japanese prints, with 231 items by artists like Utamaro, Hokusai and Hiroshigue. The living room shows off copies of his own works, whose originals are mostly at the d’Orsay and Marmottan museums, in Paris. The blue kitchen still boasts the copper pots he used. Most impressive, however, is to see how well the house blends in with the Clos Normand garden before it: every outside view is like a living canvas. The Japanese garden, in the back of the property, is more sedate and an invitation to contemplation with its bridge over a lake rich in floating plants. Monet’s Japanese getaway inspired over 272 of his paintings over 20 years. The bridge alone was portrayed 45 times. AMERICAN ADVENTURE This was my second visit to the Monet Foundation. My first was in the mid-1970s, after I completed my Landscape Architecture degree in the US. To this day, no similar degree exists in Brazil: it trains architects, construction engineers and agronomists to consider space in a creative manner. My family couldn’t afford my American adventure,

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TESTIMONIAL TO ANA PAULA ORLANDI PHOTOGRAPHY SERGIO SANTANA

but the program coordinator gave me a scholarship once he saw how enthusiastic I was, and some of my designs. After graduating, I decided to stay in the US. I saved for two years to pay for a trip around Europe: I wanted to visit the planned cities in Scandinavia and the gardens I had seen in my textbooks, including Monet’s legacy in Giverny. The tour expanded my landscaping vocabulary and allowed me to take on jobs like the Arboretum at the Dallas Botanical Garden, the Central Expressway landscaping in that same city, as well as corporate and residential gardens. I spend almost two decades in the US and moved in 1990, when I was hired for a project near Belo Horizonte: turning an exhausted iron ore mine into a residential development. Since then other jobs came up and for two years I spent a lot of time going back and forth between Brazil and the US. I returned for good when I realized there was landscape to build here. I specialized in major projects like the Millenium Office Park, in São Paulo, or the Pan-American Games village in Rio.

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GETTING THERE BY TRAIN: Board in Paris at Saint-Lazare and get off at the

Vernon station, 3 miles from Giverny. A bus will take you from the station to the house BY CAR: Take highway A-13 to exit 14. It’s an 87 km trip from Paris to Giverny. A 50-minute drive, assuming light traffic. The house and the two gardens managed by the Monet Foundation (www.fondation-monet.fr) are open to visitation daily from April to November, from 9h30 AM to 6 PM. Admission for €6.

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PROFILE VIAGEM

J. R. DURAN Two initials and a last name. This is the how the J.R.Duran became famous. First in the credits of his photographs and later in a range of occupations – writer, editor, designer, rally driver, helicopter pilot. The most Brazilian of all Catalonians shows his side B. And C, D, E...

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uran isn’t young. At 58, the white streaks and wrinkles are expected. He proudly carries each life experience. Surrounded by classic brands like Hasselblad, Land Rover and Moleskine, he relies more and more often on his Woody Allen Ray Bans to read – which he did years before the model became fashionable.

Duran isn’t old. He is charming and seductive, and he knows it. He is far from being shut down to novelty. He is serene and focused, experienced and full of life. He is in no hurry, but has no time to waste. Duran isn’t Brazilian. He was born in Spain under Franco and lived there until the age of 18. “Barcelona was a sad, empty place with no cultural air. The only good thing was the Swedish girls that came to visit in the summer,” says J. R. (he doesn’t name the names behind the initials: “Superstition”) Duran. The family came to São Paulo in 1970, when his father’s firm was sold. Upon arrival he was so intimidated by the local women that he even missed a school year. Who would imagine that shy boy would become the author of some of the best portraits of Brazilian women? Duran isn’t an intellectual. But keeps newspaper articles in folders like an old university professor. And he reads. In the original, whenever possible. English, French, Spanish, Catalonian. Books, magazines, newspapers. He says much of his photography today comes from literary references. But not obvious ones. Little-known authors come up, like Stendhal and Bioy Casares. Duran isn’t a tourist. He is a traveler who has seen scores of countries, many of them several times. His trip to Eritrea, for example, was the result of reading the biography of Hugo Pratt. Another trip to Africa became the book ‘Cadernos Etíopes’ (Cosac Naif/2008);

PRIVATEBROKERS | COELHO DA FONSECA

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while a passage through southern Spain became ‘Sevilla’ (Burti/2005). “Those are my vacations. I can’t just lie down in a mountain resort.” Duran isn’t a writer. But his library (and those of many) includes two novels he wrote. ‘Lisboa’ and ‘Santos’ (ed. Francis/2002 and 2006, respectively) can be defined as good noir literature. He also wrote hundreds of essays, chronicles, news stories and thoughts. Duran now has a weekly column in the ‘Brasil Econômico’ newspaper, a monthly in ‘TRIP’ magazine, and another in the brand-new ‘ALFA’. Not to mention text for his website and sentences for the online universe. Duran isn’t a web victim. But he is always plugged in. He personally updates his website every month. He is not on social networks, but is a fan of Twitter. At the time of this interview, Duran had 28914 followers there. Duran isn’t an editor. But soon learned how to edit. It’s part of every photographer’s job to show publishers, creative directors or clients only the best images. In sum, this is editing is all about: choosing, abridging, improving. Duran isn’t a pilot. But has for some time set his eyes on machines other than Canons, Nikons and Leicas, and soon found himself in the driver’s seat of rally cars and helicopters. He likes adrenalin mixed with dust and the bird’s eye view aircraft have to offer.. he once finished 8th in the Rally dos Sertões and has over 150 air hours. Duran is a photographer. Since 1972, when he started out as assistant to masters, he saw himself as a photographer. But not just a photographer. “It’s my core business. All the rest just happened.” Maybe ‘photography’ in 2010 means just that – to record events on any tool available, whether it may be a digital camera, a computer keyboard or pencil on a white Moleskine sheet.

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TEXTPATRICIA GIULIANO CEDRONI POR BROGGI

Thailand, 1993: portrait for english magazine Tatler; Duran’s moleskine

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4 2007 2008 2009 2010 Fonte: Duty-Free News International

The American Travel Retail of the Year


os n e t n e Pres

ros i e z u e Cr s o t r po o r e A pais i c n i r p


Foto: Lucas Lima


“SAÍMOS MAIS HUMILDES, CONSCIENTES E TRANSFORMADOS. TODOS OS PREMIADOS ERAM EXEMPLOS DE COMPORTAMENTO, COMPROMETIMENTO, ATITUDE E DE VIDA.”

diretor de criação da Almap e apoiador do prêmio

Vem aí o Prêmio Trip Transformadores 2010. Saiba como foram as outras edições no www.trip.com.br/transformadores


REFLETIR A SUA VERDADE COM OS NOSSOS OLHOS Muito mais que editar revistas, trabalhamos como aliados de nossos clientes, aprofundando o entendimento de suas histórias e a identidade de suas marcas. Deciframos as verdadeiras razões que os levam a empreender e o que, de fato, leva milhares (em alguns casos milhões) de pessoas a serem magnetizadas por suas marcas. Há mais de 23 anos no mercado de comunicação, a Trip Editora vem se consolidando como uma das maiores intérpretes dos códigos de comportamento e comunicação para públicos específicos do Brasil. Hoje, a editora publica cerca de 50 milhões de exemplares por ano, distribuídos entre os títulos que edita: revistas Trip e Tpm e as customizadas Daslu, Audi Magazine, Gol Linhas Aéreas Inteligentes, Pri-

vate Brokers (Coelho da Fonseca), Notícias da Gente (AmBev), Revista Mais (Grupo Pão de Açúcar), Revista Natura, Consultoria Natura, Natura Latam, Natura para Quem se Importa (Natura), Personnalité (Itaú), Dufry World (Dufry do Brasil Duty Free Shop), Cidade (Shopping Cidade Jardim) e Jornal Vista (C&A). “A Trip é hoje muito mais do que uma editora de revistas. É um centro de observação de comportamento humano, que ajuda a entender marcas, comunidades e tendências produzindo conteúdos em diversas plataformas e contextos materializados em edições de revista, sites, programas de rádio e TV, geração de conteúdos customizados, ações de comunicação incomuns, projetos especiais, eventos e iniciativas que traduzem pensamentos e inspirações, nossa visão das coisas e do mundo.’’ Paulo Lima — publisher

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