Page 1


A BÚSSOLA DO PEREGRINO


A BÚSSOLA DO PEREGRINO

PEDRO TERRÓN

Tradução Lizandra Magon de Almeida


AGRADECIMENTO

Para Pastora e Pedro: meus adorados pais. Desconheço que mecanismo ativa essa fonte inesgotável chamada inspiração. Ignoro se vocês, daí do “outro lado”, têm a faculdade de abrir um manancial tão valioso. Para mim, um mistério é bem certo, sentado na frente do computador na solidão da noite, muitas vezes senti seus olhos por cima de meu ombro, fixos na tela. De alguma maneira, que escapa a meu entendimento preciso, vocês têm muito a ver com o resultado final desta obra. Ajudaram-me nesta vida e continuam fazendo-o na outra. Sou um filho incrivelmente feliz. Continuo amando-os tanto quanto na época em que podia sentir seus abraços inesquecíveis. A Conchi: minha sogra celestial. Começo a acreditar que o “além” está mais perto do que imaginamos. Pressinto que suas mãos ativas também intervieram para que pudesse aproveitar essa iluminação inspiradora de uma maneira eficaz. Você sempre será minha segunda mãe. A meu amigo Fernando Marañón. Um escritor temperado com lava de vulcão e esfriado em sangre de tigre. Para Cris Carneiro Pena por enfrentar com sucesso um verdadeiro desafio. Obrigado por me presentear com um parágrafo impecável escrito com a alma de uma escritora experiente (2º parágrafo página 327).


Para Iñigo Ortiz por ter razão: “tudo o que vai devagar é sinal de que vai bem”. Para Irene Aragón por suas opiniões corajosas e por cumprir sua palavra. Para Ruth Hernández por ser capaz de extrair e fotografar expressões de minha alma. Para Daniel Moraleja, especialista em mergulho em cavernas, por seus conhecimentos sobre buscas submarinas. Para Lorena Pajares, coordenadora da afesip na Espanha, por nos ceder algumas realidades terríveis para nossa pequena ficção. Aos amigos do Sri Lanka, por entenderem desde o princípio que sua tragédia pode servir de aviso, mesmo que seja por meio de uma obra humilde como esta. Para o mestre Salgari, por completar mais 100 anos, jovem e imortal. Para Chambao, por oferecer música a todos os caminhos da ilha resplandescente. Para “eles”, onde quer que estejam. E a todos aqueles que participaram de alguma maneira desta edição. Quando apoio as mãos sobre o teclado, minha vocação temerária de fabulador é quem manda, pois sempre escrevi para leitores que se deixem levar, além de precisões e certezas, pela aventura em si, pelo prazer de percorrer um atalho imprevisível. Deixo a advertência diante de certos parágrafos que talvez não descrevam com exatidão rigorosa a posição da arqueologia, das medicinas milenares ou da técnica de mergulho, para dar três exemplos. Sou o único culpado. Só pretendo pegar o necessário e nada mais. Em Kalixti é preciso viajar com pouca bagagem. Acho que me perdoam e por isso agradeço.


SUMÁRIO

Prólogo, 10 1

Século iv de nossa era, 13

2

Orlando, novembro de 2003, 16

3

Ibiza. Final de fevereiro de 2005, 20

4

Pontos de vista, 30

5

Sa Caleta, 33

6

Confissões, 44

7

Sa Pedrera, 56

8

A Torre do Pirata, 77

9

Jogo inconfessável, 86

10

Compartilhar a mesma lua, 90

11

Testemunha muda, 104

12

Tatuagem, 108

13

A força do passado, 111

14

O Metropolitan contra-ataca, 117

15

O velho armazém, 120

16

Testemunha eloquente, 128

17

As duas damas, 132

18

Jornada intensa, 142

19

Ossudas e grandes, 149

20

Quem é Yarami?, 154


21

Ilha resplandescente, 159

22

O banquete do rei, 165

23

Lembranças e máscaras, 169

24

A grande corrida, 179

25

Confidências, 187

26

A missão, 191

27

A última coisa que esperava, 196

28

Como a vida muda!, 200

29

Kandy, 206

30

Pedra de sangue, 216

31

Caçada noturna, 219

32

Ar denso e dramático, 222

33

Suspeitas, 226

34

Fumaça verde, 231

35

Onde estou?, 235

36

O camponês cego, 240

37

Mais perto, 249

38

Tantra: canalizar o fogo, 252

39

É o que necessito, 261

40

Um dragão de muitas cabeças, 264


41

Que noites mais longas, 272

42

Madhuni, 280

43

Resistir ao irresistível, 286

44

Uma cerimônia real, 293

45

A perseguição, 300

46

Kurunegala, 305

47

Cara a cara, 309

48

Incriminação, 320

49

Aliviar seus pesares, 324

50

De novo em casa, 329

51

Grandeza de espírito, 335

52

Ouvindo o mestre, 343

53

A corda do meu destino, 350

54

Garças brancas, 371

55

Camboja. março de 2005. O Plano, 400

56

Dia D, Hora H?, 411

57

O prestígio do Metropolitan, 425

58

Um jantar sem disfarces, 429

59

O infinito em uma lajota, 431

60

Dois anos depois..., 434


PRÓLOGO

O

rastro de sete estrelas de fogo conduziu-me à Feira do Livro de Madri. Lá conheci Kalixti. Lá conheci Pedro Terrón que, no canto de um estande branca, atendia aos fãs da saga com um atrevimento carinhoso que com o tempo descobri ser “marca registrada”. Logo nos entendemos. Falou-me do projeto e, generosamente, ofereceu-me os dois primeiros volumes de sua obra. Foi assim que tudo começou. Descobri então um narrador nato, jovial e preciso. Encontrei um fabulador, um fazedor de vidas e histórias capaz de criar uma saga diferente das conhecidas até agora. Uma saga na qual a luta incessante entre o bem e o mal está no centro de cada um, onde a busca da identidade nos conduz em direção à felicidade esquiva e à amizade heroica. O primeiro livro da coleção, A Cidade Perdida, emerge como uma luz que cintila no meio da noite da Humanidade, essa noite que continua soprando apesar dos séculos e do progresso científico de nossa civilização. Em A Chave do Amanhecer, segunda parte de Kalixti, Pedro Terrón se veste com a pele de Dámeris, sua bela heroína, para nos 10


presentear com aventura, mistério e romance nas terras exóticas da América do Sul. Agora é a vez de A Bússola do Peregrino, romance que assim que terminei de ler me impulsionou a conversar com Pedro para somar esforços nesta edição e descobrir assim o segredo entusiasmado que encerra. Creio que chegou o momento de fazê-lo. A busca pelas estrelas continua. E com ela a história de duas almas gêmeas adiante do tempo, salpicada de descobertas arqueológicas, encontros clandestinos, loucuras temporais e viagens a civilizações remotas. Você encontrará seus amigos como se tivesse acabado de vê-los ontem: Runy, Dámeris, Miros Tolsen, Jorge, Sirion, Yarami... Personagens cheios de encanto que enfrentam seu destino imprevisível com a coragem dos heróis imortais. A “nova velha vida” de Runy, resgatada de seu passado mais turbulento e distante, é uma aventura apaixonante. Nela, o rapaz impulsivo se transforma em homem íntegro; e o príncipe orgulhoso aprende no fim a ser rei. Com a habilidade de um narrador maduro e o respeito de um simples aprendiz, Pedro nos convida a acompanhar Runy, transformado desta vez no príncipe Kasim, para enfrentarmos com ele a ameaça de um inimigo invisível, o labirinto de uma selva impenetrável, a sabedoria dos velhos reis, o amargo sabor da vingança ou a prova mais difícil de todas: o amor verdadeiro. Prepare-se para esta fascinante viagem ao passado — encontro imperdível em todas as novelas da saga — que ajuda Runy e seus amigos a compreender o mistério do presente, o risco que ameaça a nossa civilização e o poder curativo das estrelas. Definitivamente, Kalixti em estado puro. Santos Rodríguez, editor 11


1

SÉCULO iv DE NOSSA ERA

E

ntardece no paraíso. Um paraíso em forma de lágrima, a lágrima da Índia, a pérola do Oriente. Uma pérola transbordante de pântanos e selvas, de pagodes e palácios, de praias de sonho e terra fértil. Uma terra que, séculos depois, terá cheiro de canela, cacau e chá e inspirará os intrépidos marinheiros árabes a batizá-la com o nome de Serendib, que significa descoberta inesperada. Mas o início deste relato situa-se até mesmo antes que Marco Polo, o veneziano incansável, tivesse a oportunidade de trilhar suas sendas, de aspirar as fragrâncias que exalam muitas de suas montanhas. Picos de colinas sinuosas como a que um viajante cansado acabou de deixar para trás, um peregrino sem vocação que foge de seu destino. Forjou um novo a custa de audácia e, enquanto cruza a selva no lombo de um jovem elefante indiano, prefere recriar-se em um futuro pleno de riquezas do que no passado, sujo de traições. Mal se apagou a mancha de fogo além do horizonte, um mar de sombras se apossa de uma planície densa, em uma das poucas clareiras da selva que rapidamente vai perdendo sua cor. O paquiderme descansa com uma pata amarrada a uma palmeira sólida en13


quanto seu dono, deitado sobre uma esteira gasta, tenta colocar as emoções em ordem. Carrega nas costas muito mais quilômetros do que desejaria, muitas horas de trote interminável suportadas mais por suas nádegas do que por suas costas. Rayimo, assim se chama, apesar de se considerar um apátrida, um gatuno de oportunidades desesperadas, conseguiu o que se propunha. E, rodeado de solidão, tenta voltar no tempo algumas semanas para fazer um balanço. A paz do momento convida-o a abrir-se consigo mesmo. Em silêncio, reconhece que não se sente nada orgulhoso dos erros que cometeu no passado. Entre os desatinos mais recentes houve um que deixou marca em sua memória. A consciência o recrimina repetidas vezes por sua covardia diante de um fato infame pelo qual ainda não sofreu castigo... Ainda. Há pouco tempo foi cúmplice no martírio de um homem que foi abandonado depois de ter sido dado como morto. Ainda se lembra da imagem daquele jovem indefeso amarrado ao tronco de uma árvore. Ainda luta para esquecer a cena. Noite após noite, implora para que a lei de causa e efeito, a crença mais arraigada de seu povo, não seja totalmente certa. Talvez o ouro possa servir para fazê-lo escapar de suas garras. O viajante acaba de engolir um jantar leve e se dispõe a conciliar o sono, mas — apesar do cansaço — vai custar-lhe fazê-lo. Os últimos acontecimentos lhe enchem de desassossego. Nesta mesma tarde, por exemplo, escondeu a única coisa que garante o que será, sem dúvida, uma nova vida de abundância que lhe restituirá tudo. Em um local pouco frequentado, enterrou uma caixa cujo conteúdo e verdadeiro valor se conhece mas não se compreende. Isso causa emoções desencontradas em seu íntimo. De um lado, a satisfação do dever cumprido; e, de outro, o peso na consciência resultante de ter feito isso com o produto do roubo do jovem que abandonaram à própria sorte. À sua má sorte. 14


As inquietudes e dissabores que sente no silêncio da noite amainam quando se lembra de que chegou a hora de receber uma recompensa generosa. Depois de esconder o objeto, dirige-se a uma bela cidade de régios palácios, de construções nobres habitadas por personagens igualmente nobres e... endinheirados. Saboreando a vitória iminente, dispõe-se a fechar os olhos, mas um movimento suspeito o impede. O rugido próximo de uma fera o põe em guarda tarde demais. Subitamente, entre as sombras surge uma figura enorme que se lança sobre ele. Tenta levantar-se para agarrar o punhal, mas antes de conseguir é arrasado pela fúria do animal. Logo sente os caninos procurando sua garganta frágil e com as mãos tenta, a duras penas, conter a investida. Quando está a ponto de alcançar e empunhar sua arma afiada, um segundo felino o ataca com sanha idêntica. Sabe que está perdido, não tem opção diante de um casal adulto de leopardos. Os golpes se sucedem e a carne se desprende ante a força das unhas e dentes afiados. Seus gritos desesperados não encontram resposta. Está só e indefeso. Depois de uma luta tanto encarniçada quanto breve, o pescoço do viajante é um manancial de sangue. As garras já não soltam a presa e, exausto, o pobre homem se rende disposto a morrer. Mas antes assume com resignação que ninguém jamais saberá onde escondeu a estranha peça que, por circunstâncias inexplicáveis, caiu em suas imerecidas mãos. Ali, enterrada entre pedras e esquecimentos, dormirá placidamente por séculos e séculos. E ainda tem tempo de pensar em algo mais. No último alento de vida recorda a crença de seu povo: é dando que se recebe. Muito pesarosamente não lhe resta outro remédio além de aceitar a vigência dessa lei eterna; ninguém pode fugir dela. Assim como com os leopardos, não pode escapar de suas garras. 15

A bússola do Peregrino - Pedro Terrón  

A bússola do Peregrino - Pedro Terrón - Vol. 3 da Trilogia Kalixti.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you