Olha só! A revista do Portuguese Flagship Program da Universidade do Texas em Austin Edição número 3. Primavera de 2022
Reflexões sobre os 200 anos da independência O que pensa o movimento negro? Qual é a análise dos indígenas? Politicamente como anda o Brasil? COVID-19
Entrevistas Viagens internacionais depois dos 30 As vantagens e as desvantagens de ser aurpair nos EUA O que o samba brasileiro tem em comum com Nova Orleans Ritmos brasileiros na Alemanha
Culinária, cultura, dicas de livros, oficina de BatePapo e muito mais! Aprenda a fazer o pudim centenário! Capoeira feminista
Olha só! Número 3- Spring 2022 Editor-in-chief Denise Braz - Graduate Research Assistant for the PFP C O L A B O R A D O R E S Rodrigo Maia - Licenciado em Letras pela Universidade Luterana do Brasil e pósgraduado pela Laureatte International UniversitiesEscritor Lucas Scaravelli da Silva - Doutorando em Antropologia Social na USP e membro do Soweto Organização Negra Marcia Nunes - Licenciada em História pela Universidade de Pernambuco e em Serviço social pela Universidade Federal de Pernambuco. Integrante do coletivo Amsterdam pela democracia e do Frente Internacional Brasileira contra o golpe e pela democracia- FIBRA. Luana Lorrayne de Oliveira Coelho - Estudante de Administração Pública pela UNIRIO Andrezza Vieira - Formada em Administração com ênfase em comércio exterior pela PUC-Campinas Imani Aanu Stephan Tobias Muller - Mestre em alemão como uma língua estrangeira pela Universidade de Leipzig, Alemanha Adriana Rejane Gualberto Silva - Professora de capoeira Alessandra Machado Cardoso Melo – Graduada em Administração com ênfase em Marketing e Instrutora de capoeira Susanna Sharpe - Coordenadora de Comunicação para LLILAS Benson Latin American Studies and Collections na Universidade de Texas em Austin Diogo Leal Assis - Formado em administração de empresas pela Universidade São Judas Tadeu Samuel Antenor - Jornalista, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicam
PORTUGUESE FLAGSHIP PROGRAM E D I T O R I A L - O F F I C E Department of Spanish & Portuguese 150 W 21st Street, Austin, Texas, 78712 BEN 2.116 | lindsey.jamieson@austin.utexas.edu BEN 4.122 | denisebraz@utexas.edu
OLHA SÓ! IS THE MAGAZINE OF THE PORTUGUESE FLAGSHIP PROGRAM AT THE UNIVERSITY OF TEXAS AT AUSTIN.
Nota da editora de A revista tá es Número 3 ima, ís t n a s e r e t in cheia de es, õ ç a m r o f n i se a t s i v e r t en gos i t r a s o m óti l do i s a r B o sobre rio. á n e t n e c i B A terceira edição da revista Olha só! do Portuguese Flagship Program da Universidade do Texas em Austin está repleta de temas importantes sobre o Brasil, que tenho certeza irá agregar muita informação não apenas para a nossa comunidade brasileira, mas para toda a comunidade lusófona amante do idioma português espalhada em muitas partes do mundo. Nesta edição pude contar com a colaboração de vários parceiros e parceiras cujo os quais eu expresso aqui meus mais sinceros agradecimentos. O ano de 2022 promete! É o ano do Bicentenário da Independência do Brasil e também ano de eleições, por isso a revista está recheada de textos com ótimas reflexões sobre política, saúde pública e educação. Mas também selecionei entrevistas incríveis com dicas sobre intercâmbios, aulas de samba e de percussão, além de dicas culturais e uma receita centenária de dar água na boca! Desejo a você uma ótima leitura! Um abraço fraterno, Axe!
Denise Braz
PORTUGUESE FLAGSHIP PROGRAM
ÍNDICE ANTES DO BRASIL DA COROA: SEMÂNTICAS DECOLONIAIS DE ONDE VEM A PALAVRA BRASIL? DENISE BRAZ .........................................................6 ANTES DO BRASIL DA COROA, CÉLIA XAKRIBÁ ..............................................................7 OS POVOS ORIGINÁRIOS E OS 200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, LUANA FONTEL ...................................................................................................................................10 UM RESUMO DA HISTÓRIA DO BRASIL SOBRE UMA PERSPECTIVA INDÍGENA, DANIEL KUARAY ..................................................................................................... .................12 AQUI FALAMOS E ESCREVEMOS PRETUGUÊS, DENISE DA COSTA ..................................14
BICENTENÁRIO DA(IN)DEPENDÊNCIA ENTRE GRITOS, HINOS E BANDEIRAS: A INVENÇÃO DE BRASIL E INDEPENDÊNCIAS SELETIVAS, GILSON JOSÉ RODRIGUES JUNIOR............................................................. 12 BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, RODRIGO MAIA ................................15 FIBRAS QUE SE ENTRELAÇAM PELA VOLTA DA DEMOCRACIA NO BRASIL: RESISTIR OU RESISTIR!, MÁRCIA NUNES ......................................................................................... 17
COVID-19 E ATIVISMO EXPERIÊNCIAS NA CONVIVÊNCIA COM NOVO CORONAVÍRUS: O MUNSO SERÁ COMO ANTES? STELA MARIS PEREIRA SILVA ...................................................................... .. 23 BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, RODRIGO MAIA ................................15 FIBRAS QUE SE ENTRELAÇAM PELA VOLTA DA DEMOCRACIA NO BRASIL: RESISTIR OU RESISTIR!, MÁRCIA NUNES ......................................................................................... 17
ÍNDICE ALTERNATIVAS DE RESISTÊNCIA ACOLHER E DAR APOIO: COMO A TURMA DE PORTUGUÊS PARA FALANTES DE ESPANHOL CRIOU UM MAPA DE RECURSOS CRÍTICOS PARA REFUGIADOS QUE VÊM MORAR EM AUSTIN, MARIANA SABINO .........................................................................................29 ROBSON DE TAL: SUBJETIVIDADES E FRAGMENTAÇÕES DA MEMÓRIA NEGRA NO BRASIL, LUCAS SCARAVELLI ................................................................................................... 32 ENCONTRO FEMININO ABADÁ CAPOEIRA, ADRIANA REJANE GUALBERTO SILVA (PROFESSORA CAMALEOA) E ALESSANDRA MACHADO CARDOSO MELO (INSTRUTORA ORQUÍDEA) .................................................................................................................35
AMANTES DA CULTURA BRASILEIRA ENTREVISTA COM A PROFESSORA DE SAMBA IMANI AANU ........................................38 ENTREVISTA COM A CANTORA SUSANNA SHARPE ......................................................41 ENTREVISTA COM O EMPREENDEDOR DO PASTEL SÃO PAULO DIOGO ASSIS ............. 44 ENTREVISTA COM O PROFESSOR DE PERCUSSÃO STEPHAN MÜLLER ...........................47
BRASILEIROS PELO MUNDO: INTERCAMBIO INTERCÂMBIO APÓS OS 30, ISABELA BRAZ .................................................................. 51 ENTREVISTA COM LUANA LORRAYNE DE OLIVEIRA COELHO E ANDREZZA VIEIRA .......54
RECEITA CENTENÁRIA RECITA DO PUDIM ABADE DE PRISCOS, SAMUEL ANTENOR ..........................................60
ÍNDICE PROGRAMA FLAGSHIP PORTUGUÊS CONHEÇA O PROGRAMA PORTUGUESE FLAGSHIP DA UNIVERSITY OF TEXAS! LINDSEY JAMIESON .................................................................................................................. 62 A RELEVÂNCIA DO PORTUGUÊS NOS ESTADOS UNIDOS, ORLANDO R. KELM - DIRETOR, PFP UT AUSTIN............................................................................................................64 OLHA SÓ! TEMOS BATE-PAPO CONECTADO NA ÁREA! DANIELA MEIRELES....................66
Antes do Brasil da coroa Por Célia Xakribá Antes do Brasil da coroa Existe o Brasil do COCAR. Antes do Brasil verde e amarelo, existe o Brasil do vermelho, do urucum e do pau-brasil que originou o nome do nosso país. Antes do Brasil da pátria, existe o Brasil erguido pelas mulheres mátrias. O Brasil nasce do útero das mulheres indígenas, originárias da terra. A exploração do pau-brasil foi a primeira atividade econômica do país, logo após invasão do Brasil pelos portugueses, em 1500. A madeira foi a primeira riqueza que saltou aos olhos dos portugueses que aqui chegaram junto com Pedro Álvares Cabral. O pau-brasil foi o primeiro item explorado pelos portugueses com base no seu valor mercantil. Para isso, instalaram feitorias. E para quem constrói o imaginário violento de que Índígena é preguiçoso, foi imposto também aos povos Indígenas mão de obra escrava. A árvore ganhou importância para os portugueses por conta da sua madeira, que poderia ser utilizada na construção de inúmeros objetos (como móveis e caixas), mas, principalmente, porque a resina da madeira era utilizada para produzir corante.
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De onde vem a palavra Brasil? O que ela significa? Por Denise Braz A Caesalpinia echinata, uma espécie original da Mata Atlântica e popularmente conhecida como paubrasil, quase entrou em extinção devido ao excesso de sua exportação para Europa durante a invasão colonial. Havia uma enorme procura tanto pela madeira quanto pelo pigmento vermelho no tronco que, quando extraído, podia também ser usado para tingir tecidos. A palavra Brasil tem sua origem no idioma tupiguarani e significa vermelho como brasa. Felizmente, em 1928, o paubrasil foi redescoberto, porém, mesmo com os esforços de ambientalistas e especialistas em Fauna, ainda não é possível encontrar muitas espécies dessa àrvores no país.
FONTE: JARDINERIRO.NET
Desde que a espécie foi encontrada, a palavra Brasil fez partes dos inúmeros nomes que a região recebeu ao longo da história. No entanto, apenas em 1967, o país pssou a se chamar República Federativa do Brasil, por conta do sistema federativo que já havia sido consolidado poucos anos antes da ditadura militar. Esse nome foi mantido na Constituição de 1988 e prevalece até os dias de hoje. FONTE:SUPORTE GEOGRÁFICO
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Fernão de Loronha (ou Noronha) ganhou direito de exploração do território em 1501, e, logo depois, recebeu a ilha de São João (atual Fernando de Noronha) como capitania. Em 1511, aconteceu a primeira exportação de pau-brasil para Portugal, quando 5 mil toras da árvore foram levadas para Portugal. Se o português de 1500 mudou, por que nós não podemos mudar? Nós mudamos, e na maioria das vezes nem foi porque nós quisemos. Arrancaram nosso território e querem que, ainda hoje, vivamos da caça. O impacto da imposição da colonização é violento a ponto de dizer que não somos evoluídos e que, depois da transformação da "cultura", mesmo que indígenas não somos mais. As mãos que seguram a motosserra para tombar nossas florestas são as mesmas que cortam nossos direitos e tomba os corpos indígenas. Antes derrubavam pau-brasil hoje, derrubam os corpos originários. Lutamos por um Brasil que sinta orgulho do vermelho do urucum e não do sangue indígena derramado. Não é somente pintura. É a vestimenta do corpo e da alma. Não é somente corpo. É história e luta coletiva. Sou mulher de luta nas terras e de luta nas telas. Somos corpos que carregam cicatrizes na memória, causadas pelos colonizadores. Acredito que só avançaremos na luta antifacista, quando ecoarmos e reunirmos as mesmas vozes e compromissos na luta antirracista. Quando descolonizarmos os pensamentos, os corpos, os lugares, os olhares, o enxergar, o escutar e o falar. Quando descolonizarmos o sistema, porque é o sistema que tem essa capacidade violenta de reprodução hegemônica racista colonial.
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Eu sou do canto Terra, eu sou da terra do canto, meu rap é ancestral é a força do reecanto. Nasci do útero de uma mulher indígena, antes mesmo de nascer a pátria. Somos originarios do Brasil e nascemos das mulheres mátrias. Nosso canto é flecha certeira, nossa voz é a prova de bala, não cantamos só com a boca, nós cantamos é com a alma. Enquanto negam o território e projetam balas em nossos corpos com o ataque estrutural, nós projetamos o canto de cura que é imunidade espiritual. Quando matam um rio matam o aleitamento coletivo, o sangue que corre. Mesmo tentando matar nosso corpo território; nosso canto ancestral nunca morre.
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POVOS ORIGINÁRIOS E OS 200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL Por Luana Fontel
In.de.pen.dên.ci.a, substantivo feminino Estado, condição ou característica daquele que goza de autonomia ou de liberdade completa em relação a alguém ou algo. Caráter de um estado que não se acha submetido à soberania política de uma outra nação; autonomia política. Falar sobre processos de independência nacional, em qualquer lugar do mundo, exige que pensemos criticamente sobre as fases que constituem um processo longo, burocrático e especialmente cultural. Os principais desafios das nações consistem no estabelecimento de conjunturas onde possam projetar crescimento econômico, afastando seus cidadãos das mazelas sociais que assombram as veredas do capitalismo e do neoliberalismo. Contudo, em uma país neocolonial como o Brasil, que durante séculos vendeu a ideia de uma democracia racial, é necessário questionar: a quem estamos nos referindo quando falamos de cidadania e direitos conquistados? Para nossas populações originárias – bem como para a população preta –, o 7 de setembro de 1822 possui significados que, em dados objetivos, habitam a contramão do patriotismo e do orgulho. As estatísticas, atualizadas a cada ano, explicitam o lugar de um povo para o qual o termo “independência” ainda não faz sentido. Em 1822, diante das independências ocorridas na América Inglesa e Espanhola, a ascensão das ideias iluministas e a crise no sistema colonial, houve quem acreditasse no sentimento nacionalista de que havia chegado a nossa vez de se alinhar a um mundo que mudava e evoluía em busca de autonomia de território e pensamento.
No entanto, nossa independência não chegou por meio de uma revolução, nem rompeu as relações de poder instituídas no Brasil Colônia. Nosso território permaneceu nas mãos da Europa, nossa economia alimentou os cofres ingleses e nosso destino político foi liderado pelas mãos de um herdeiro de Portugal. 200 anos depois, as veias dos povos originários de Pindorama[1] ainda permanecem abertas. A luta pela demarcação territorial e pelo reconhecimento de direitos impede que indígenas desenvolvam autonomia em um país que ainda não superou a colonialidade e o extermínio. Em setembro de 2021, o movimento dos povos indígenas organizou, na capital do país, uma grande manifestação contra o chamado “Marco Temporal”, medida cujo principal objetivo é a expropriação de terras em beneficio dos grandes fazendeiros e do agronegócio. O Brasil é um país onde a Constituição de 1988 reconhece direitos que são usurpados e tensionados por Projetos de Ementa Constitucional cada dia mais assustadores. Com um governo liderado por Jair Bolsonaro, o negacionismo deu o tom político que, diante de mais de 600 mil mortes pela COVID-19, decidiu votar um projeto que tira indígenas de seus territórios – o PL 490.
[1] Nome tupi-guarani dado ao Brasil antes da invasão portuguesa.
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Foto: Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA)
“Quando o governo é mais perigoso que o vírus, ficar em casa não é uma opção.” Essa era a frase que impulsionava as marchas frente ao Congresso Nacional. E uma vez que a população indígena já estava significativamente vacinada, saíram às ruas para demarcar um espaço de voz historicamente silenciado. Com o fechamento de semanas de articulação e luta, a Marcha das Mulheres Indígenas do Brasil rompe nas ruas de Brasília, guerreando pela visibilidade de sistemas de vulnerabilidade interseccionais e reivindicando suas resoluções. Sem a demarcação territorial, com a indústria do minério altamente incidente e o uso desenfreado de agrotóxicos permitidos em lei, a reencenação do colonialismo contamina terras e povos que se encontram desprotegidos inclusive por aqueles que deveriam representá-los. Com um genocídio em andamento, “adiar o fim do mundo”, como nos sugere o pensador indígena Ailton Krenak, se torna uma utopia pela qual não cessamos de trabalhar. O sentimento de pertencimento a uma nação, a uma língua e a uma bandeira, não dá conta da pluralidade interna que constrói o Brasil. Para que aquilo que entendemos como “nacional” fosse instituído, uma série de apagamentos pavimentaram a estrada onde hoje caminha o poder. As filosofias originárias ensinam: precisamos uns dos outros. Atravessar dois séculos de independência nacional e celebrar as fronteiras do mundo não compreende nossa cosmovisão como herdeiros de Abya Yala e não impacta nossas realidades senão necropolíticamente. No entanto, ao ouvir os encantados e se firmar em uma luta que atravessa os séculos, podemos hoje articular nossos campos de força para que um dia a palavra “independência” seja por nós conjugada em uma língua contra-colonial.
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Um resumo da história do Brasil sob uma perspectiva indígena Por Daniel Kuaray Meu nome é Daniel kuaray, sou indígena Guarani e vivo em uma terra indígena chamada Mbiguaçu, nossa língua materna é o Guarani Nhandeva. Minha aldeia fica localizada no Estado de Santa Catarina, na cidade de Biguaçu, no Brasil. Minha Terra tem 59 hectares de área demarcada, somos em 34 famílias vivendo nessa terra. Na comunidade temos um postinho de saúde e uma escola que atende as crianças de ensino fundamental ao ensino médio.
Foto da Opy – Casa de reza,2022 Primeiramente vou começar escrevendo sobre a história no meu ponto de vista indígena, logo após farei esse breve resumo. Trago um pouco da época em que estamos vivendo, da nossa rotina na comunidade indígena. A história indígena
A história do ponto de vista indígena é bem diferente daquela contada pelo colonizador, o processo de colonização segundo a história contada por nossos ancestrais indígenas, foi totalmente exploratório, com vários massacres nas grandes aldeias indígenas, com a chegada desses exploradores vieram também grandes doenças virais que causaram a morte de muitos povos nativos, acostumados a serem livres, fomos amarrados e obrigados a ser escravos, muitos de nossos ancestrais lutavam pela liberdade e preferiam morrer do que ficar presos, muitas mulheres foram estupradas e mortas, muitas crianças foram levadas e abusadas. Nessa história atual, contada nos livros, colocam os povos indígenas como sendo amigos da pátria, somos 305 indígenas de diversos povos, tendo 274 línguas indígenas com vários grupos dialéticos em um mesmo povo, existe uma riqueza cultural em cada sociedade indígena com costumes e tradições diferentes .
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A história contada por nossos anciões é de resistência, eles contam que existia um tempo de fartura, onde as pessoas pescavam e caçavam na mata, onde plantavam o milho nativo, onde colhiam e festejavam, mas chegaram vários padres jesuítas, várias pessoas querendo as terras tradicionais. Então foram expulsas da terra e foram obrigadas a adorar uma outra divindade, fomos obrigados a falar uma outra língua. Mas ainda assim ajudamos a construir o Brasil, mostrando as plantas, os frutos, as sementes, os animais, e mostrando as riquezas naturais do nosso território Independência ou morte? Essa frase ecoada através dos tempos nesse 200 anos, falada por Dom Pedro, nas margens do Rio Ipiranga, foi histórica para o Brasil, pois é um laço que une essa sociedade brasileira. Para os povos indígenas, seria uma promessa de viver em paz. Mas, como diz o ditado, uma palavra muita vezes tem duplo sentido. Vimos que a independência veio somente para o lado dos colonizadores. Para nós povos tradicionais que ainda lutamos por autonomia, nossos direitos apenas foram garantidos no papel na Constituição de 1988, onde conseguimos reunir as principais lideranças indígenas e garantir nosso direito a vida tradicional. Nesses 500 anos, lutamos pelo direito à vida. Se fôssemos contar como seria fazer uma historia indígena, nos caberia reescrever a historia de nosso país. Lutamos juntos defendendo nosso Brasil, e fomos chamados de preguiçosos, fomos colocados como invisíveis. Nem mesmo lembrados. Porque nossos corpos não tinham o sangue real europeu, mas mesmo assim resistimos com a nossa crença, com a nossa dança, com os nossos cantos e falas sagradas.
Nhandereko - a nossa vida Guarani O Nhandereko é o que nós chamamos de vida Guarani, que reflete o que somos, o nosso respeito pela vida, pela mata, pelo território onde vivemos. Temos o nosso canto, as nossas músicas sagradas. Atualmente, nós ainda plantamos nossas sementes, respeitando o modo tradicional, temos nossos anciões que contam a historia da criação do mundo guarani, que contam sobre as moradas celestes das nossas divindades. Tomamos nossos remédios sagrados na nossa casa de reza tradicional. Temos nossa liderança espiritual, que é o cacique. Ainda falamos a nossa língua materna, escrevemos em nosso idioma, mas também em português. Onde vivemos, a terra indígena é demarcada, mas muitas terras não são. Então os indígenas que estão morando em uma terra que não é demarcada pelo governo podem ser expulsos a qualquer hora, ainda lutamos pelos direitos originários garantidos na constituição brasileira. Ainda temos nossas tradições e lutamos para mantê-las. A seguir, coloco uma fala da minha irmã Gennis Martins Timoteo, sobre a visibilidade da mulher Guarani. Mulheres Guarani: guardiãs dos segredos de cura “Quando tratamos de questões relacionadas à saúde da mulher guarani, não incluímos apenas a saúde do corpo físico, mas relacionamos também com a saúde mental, espiritual, psicológica, entre outras. Entendemos que a nossa saúde é vinculada à mãe terra, à natureza e ao meio ambiente em que vivemos. Assim, nossas práticas culturais são fundamentais para a manutenção da boa saúde, que se relaciona com o modo de ser guarani.
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Esse modo de ser e viver é regido por um misticismo que envolve o ser feminino de um modo mágico, onde a mulher possui o dom da cura. Ela tem o poder de curar a si mesma e também aqueles que necessitam, pois detém todo o conhecimento para lidar com as plantas medicinais, além de fazer curas através de rituais e cerimonias especificas para mulheres guarani. É importante falar da saúde tradicional porque faz parte de um conhecimento ancestral adquirido ao longo do tempo, que foi repassado através de gerações para que pudéssemos guardar e fazer bom uso no presente. Portanto, sentimos que temos o dever de repassar nossas sabedorias para nossos filhos, garantindo assim que esse conhecimento seja preservado para as futuras gerações. Esse tema é relevante, pois a sabedoria da mulher guarani sustenta as práticas culturais do povo relacionadas ao cuidado do corpo, da mente e do espírito. Ela é considerada a grande guardiã de vários conhecimentos e segredos jamais revelados ao Juruá (homem branco). Por mais que exista um grande preconceito em relação às mulheres guarani, aos poucos elas estão conquistando seus espaços dentro e fora da aldeia. Reivindicam seus direitos como mulher e mostram para a sociedade o quanto possuem poder dentro e fora das comunidades, afinal são também elas as grandes responsáveis pela economia e pelo desenvolvimento das aldeias. Enfim, a mulher guarani vive de acordo com sua cultura, respeitando seus próprios rituais, que a ensina desde cedo a se comportar dentro da sociedade e a desempenhar seu papel como menina e mulher. Guardiãs de sabedoria, as mulheres guarani vêm quebrando a barreira do machismo, e como grandes lideranças conquistando cada vez mais espaços.” (Dieh Arai).
Para falar da historia do Brasil temos que falar das crianças, dos velhos, dos jovens, da mulher, do povo pobre, do povo negro, do povo indígena, dos imigrantes, de todo povo invisibilizado. Somos considerados minorias. Precisamos ser vistos, precisamos ter a nossa história reconhecida, pois construímos a nossa nação. Somos todos humanos. Precisamos nos unir e valorizar nossos anciões, as nossas matas, e com isso garantiremos um futuro melhor para todos.
Ceremonia dentro da Casa de Reza da comunidade
Criança guarani descacando milho
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Aqui falamos e escrevemos "pretuguês" Por Denise Costa Assinado o papel de posse. Estou no pátio do Campus Liberdade Unilab, Ceará, e observo, sentindo o gosto de realizar um sonho, uma paisagem entrecortada por serras cearenses. Alunas, alunes e alunos negras, indígenas e quilombolas, falam uma grande variação do pretuguês, crioulo guineense, cabo verdiano e são tomense. As cenas que se repetiram ao longo desses pouco mais de três anos de UNILAB me inquietam e me instigam a pensar problemas colocados pela universidade ocidentalizada . Afinal, o que fazer com o fato de que essa norma culta [1] não diz sobre nosso falar e escrever? É curioso pensar que a UNILAB é uma Universidade que se quer, pelo menos no nome, da Lusofonia afro-brasileira. Talvez ela seja uma afro confluência disso que gostamos de chamar português. Sou uma antropóloga negra e brasileira e falo pretuguês. Lélia nos diz que o pretuguês é a africanização da língua portuguesa em nosso solo. A variação lexical encontrada em nossas formas de expressão seriam influências africanas no tão aclamado Português.
Lélia Gonzalez foi professora, escritora, filósofa, antropóloga e assessora política. Foi uma das pioneira nos estudos sobre Cultura Negra no Brasil e co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro, do Movimento Negro Unificado e coletivos artísticos negro.
A língua crioula, língua do contato em vários países africanos, permite que falemos desse encontro colonial e dessa variação linguística. Existem muitos estudos sobre elas e antropólogos se gabam de aprenderem as línguas e explanar sobre os significados das palavras encontradas nas mesmas. Não é raro ler, sobretudo de pesquisadores brancos, muitas reflexões sobre a impossibilidade de se realizar campo em solo africano sabendo falar apenas português. De acordo com essa literatura, engana-se quem acha que realizar campo em Maputo, por exemplo, capital de Moçambique, prescinde apenas dos conhecimentos de nossa língua pátria (porque colonial). O português falado ali daria aos pesquisadores variedades linguísticas que poderiam nos levar a variados equívocos de tradução cultural. A variação linguística africana, comemorada e, algumas vezes, exotizada por essa literatura, não recebe a mesma empolgação quando falamos de nossas línguas. Nossos pretugueses, por outro lado, são considerados errados, pobres, inadequados. O “erro" é lido como algo inadmissível, passível a retoques e toda forma de correções. Lembro, com pesar, que orientei um trabalho de dissertação do programa de Antropologia UFCUNILAB e que ao fim do trabalho pedi para que fosse realizada uma revisão gramatical e ortográfica. A aluna não tinha condições financeiras para pagar uma profissional e contou com a ajuda de amigas para revisar o texto. Deixei que aquele texto cheio de “erros" fosse apresentado como texto final. A banca foi muito crítica aos aspectos linguísticos encontrados na mesma. 1Grosfoguel (2016) fala de Universidades ocidentalizadas para descresver o rapto pelo conhecimento de outras epistemologias realizado por cinco países: França, Inglaterra, Itália, Alemanha e Estados Unidos.
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Pediu revisão e disse que a expressão “todo canto” (todo lugar), muito presente em sua escrita, fosse substituída pela norma culta. Infelizmente, naquele momento eu não defendi minha aluna e fiquei envergonhada de ter passado um trabalho com "erros". Passaram-se outras orientações, mais trabalho docente e aquele episódio sempre me perseguia. Eu senti que fiz errado em não defendê-la e argumentar que aquele também era um português passível de ser aprovado em uma banca de dissertação. Eu mesma olho para meus textos e encontro muitos "erros", sobretudo de regência. Possuo ainda em meus ensaios uma linguagem bastante coloquial e ancorada na oralidade. Mas, afinal, não somos nós parte de uma cultura da oralidade? Deveríamos defender a oralidade enquanto episteme e não como erro ao ser transportada para o papel. É Anzaldúa (2016) que se pergunta se há algo mais violento do que nos roubar a língua. Essa língua pátria, porque patriarcal, que adentra nossos corpos e está presente em nossa caixa morfológica, cérebro, língua e dedos. Quiçá em todo nosso corpo. Performamos línguas. Eu mudo ao falar kriol. Não sou eu mesma falando francês. Não consigo falar alemão. Sinto-me outra falando inglês. Ao perder uma língua perdemos nossa imaginação. Perdemos nossa humanidade. Perdemos o contato com a matéria barro moldada por Nanã. Muitas vezes, as formas de passagem da língua portuguesa se dá de forma muito violenta. A comemoração da língua portuguesa como língua que possui palavras que poucas outras apresentam, tais como a aclamada palavra saudade, nada mais é do que um apelo colonial aos signos que se impõem. Mas também aprendemos muito ao aprendermos uma língua. Quando isso é parte de um processo de trocas e não de imposições. Houve quem me dissesse que nos mercados de Redenção algumas pessoas já falam um pouco de crioulo. Se não falam, pelo menos entendem. E fica difícil falar em língua "desconhecida". Fazse importante destacar que o pretuguês não é uma síntese das línguas que se compõem de forma sintética, mas é uma africanização da língua portuguesa.
Uma contaminação no excelente sentido da palavra. Nossa língua, nossos corpos, nossas danças e comidas são muito mais africanas do que poderíamos supor. Assim, seria importante que aqui se falasse e se escrevesse pretuguês!
o g n i r g o l f a o ã n u E o r i e l i s r a b o l a Eu só f
Compositores: Nei Braz Lopes / Joao Batista Nogueira Jr. Letra de Eu não falo gringo Intérprete: João Nogueira
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Entre gritos, hinos e bandeiras: a invenção do Brasil as e independências seletivas [1] Por Gilson José Rodrigues Junior Ao longo dos seis meses em que pude caminhar pelas ruas do Senegal, principalmente em Dakar, me deparei com uma constante manifestação de surpresa nas interlocuções que por lá estabeleci: nunca era reconhecido imediatamente como brasileiro. Achavam que eu fosse originário da Guiné Conacri – República da Guiné – francosenegalês (portanto, métis[2]), originário da Martinica ou mesmo um negro estadunidense, mas nunca um brasileiro. Anos depois, participando da 31ª Reunião Brasileira de Antropologia - RBA, ao levantar questões sobre a urgência de nós, antropólogas e antropólogos, pensarmos sobre a racialização dos nossos corpos no desenvolvimento dos trabalhos de campo (RODRIGUES JR, 2020), ouvi de uma colega que pesquisava no contexto caboverdiano, a seguinte frase: “Ser branca nunca foi uma questão relevante para mim, mas sim o fato de ser brasileira”. Algo que contou com a concordância de outras pessoas, todas brancas, no recinto. A surpresa, pensada aqui enquanto categoria analítica, ao serem questionados acerca da racialidade de seus corpos brancos apontava para o fato de que a branquitude e a brancura – como chama a atenção Willian Luiz da Conceição (2020) – se constituem como a norma, e, portanto, dispensa categorizações e reafirmações; é a própria manifestação da neutralidade e universalidade. Neste sentido, voltando a minha experiência no Senegal, dois motivos se destacaram para que muitos senegaleses não me identificassem como brasileiro: 1. As novelas brasileiras[3] apresentavam uma maioria de personagens brancos e são largamente consumidas em diversas casas senegalesas; 2. Os brasileiros que moram no Senegal, ainda que não sejam tão numerosos como outras comunidades nacionais – a exemplo dos franceses, japoneses, chineses e marroquinos –, são quase que invariavelmente brancos.
Ao contrário da experiência de pessoas brancas em África, logo que anunciei que conseguiria realizar uma das fases do trabalho de campo para minha pesquisa de doutorado no Senegal, ouvi a frase: “Gilson vai descobrir o que é "ser negão no Senegal’”, uma maneira de pôr em negrito a minha identidade racial, mas que, também, gritava o lugar de exceção, gerador de surpresas. Destacava-se aí uma imagem de “Brasil” que não me reconhecia como brasileiro e isso faz, sim, parte de todo um processo histórico profundamente marcado na estrutura da sociedade brasileira, a qual irá se manifestar em vários momentos. Dentre esses, a formação do Partido Integralista Brasileiro, com suas disposições fascistas que incluíam o branqueamento da nação, como aponta Hélio Trindade (1974), ou mesmo antes disso, na construção de família oitocentista, como bem trabalhado por Jurandir Freire Costa ([1979] 2004), ao pensar acerca da parceria entre médicos higienistas e o Estado brasileiro na construção de um modelo familiar que segue sendo exaltado até o presente momento, o que recai também numa exaltação da branquitude como modelo, regra e régua, de todas as pessoas e grupos. [1] Agradeço imensamente as contribuições Thulho César Santos de Siqueira, Valdemiro Severiano Junior e Hallana Maria Almeida Carvalho, pessoas que tornaram este pequeno texto muito melhor do que seria sem suas sugestões. [2] Deixo o termo em francês por compreender que, apesar de significar “mestiço” em português, no cotidiano senegalês possui um uso relativamente distinto daquele no Brasil. Se aqui aparece frequentemente como uma forma de dissolver as diferenças étnicoraciais e reforçar o ideal de “democracia racial” já tão largamente analisado, criticado e refutado, lá tem, exatamente, a conotação de reconhecer que se o sujeito não é negro para os padrões senegaleses – filho de duas famílias negras –, tampouco será branco. [3] Acerca disso, sugiro o trabalho de Esther Haburguer (2011) sobre como as telenovelas brasileiras revelam aspectos da sociedade brasileira e contribuem com sua formação e manutenção.
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“Logo cedo, crianças brasileiras aprendem nas escolas que o Brasil foi proclamado independente de Portugal em 1822, segundo a narrativa oficial, por meio de D. Pedro I, o qual teria gritado às margens do rio Ipiranga: Independência ou morte”. Esta é, sem dúvidas, uma narrativa conhecida pela maioria das pessoas após aprender na educação formal brasileira. A despeito de se poder, acertadamente, questionar tal mito de origem, a primeira pergunta que pode ser feita é: Independência para quem? Dentre os elementos para a construção de Estado-Nação, destaco, aqui, a criação das bandeiras nacionais, totens por meio do qual um povo deve ser reconhecido, tal qual os hinos nacionais, línguas, etc. Símbolos que contam “histórias únicas”, como aponta Chimamanda Ngozi Adichie (2019), isto é, uma história que explicita certos aspectos de uma pessoa, grupo ou sociedade, e invisibiliza outros, os estigmatizam. Tudo isso para se conceber uma “alma nacional”, como destacado por Anne-Marie Thiesse (1999). A bandeira do Brasil por meio de suas cores, além de indicar uma continuação entre o Brasil Império – cuja bandeira foi criada em 1822 - para o começo de sua fase republicana, em 1889 – quando o símbolo da família imperial é substituído pela frase “Ordem e Progresso” – uma evidente alusão ao pensamento positivista de Auguste Comte, como bem destaca o estudioso José Murilo de Carvalho (2008). Ainda no sentido de compreender os símbolos nacionais a partir de uma construção hegemônica que se propõe a uma imagem homogeneizada de vários povos, gostaria de destacar que isto está diretamente ligado a um “etnocentrismo moderno” (RODRIGUES JR, 2019). Dito isto, quero retomar um importante diálogo entre o Achile Mbembe ([2003] 2018) e Aimé Césaire ([1955] 2020), quando o primeiro vai apontar para a necropolítica como construto fundamental do advento de Ocidente Moderno, a partir das ideias do segundo de que, por exemplo, o nazismo, com toda sua exaltação de uma suposta superioridade ariana, seria fruto da própria invenção de Ocidente. Não se trata, como aponta Césaire, de negar os horrores deste período, mas o fato dele ter ficado
tão indelevelmente marcado na história mundial, diz respeito não apenas aos horrores do holocausto, mas sobretudo a quem ele foi dirigido, isto é, o nazismo fez com outros povos brancos aquilo que os europeus haviam infligido aos grupos que não se pareciam com eles. Neste sentido, vale atentar que se os judeus, após toda a sua diáspora, foram se tornando cidadãos de diferentes países europeus, não sofrendo de um processo de inferiorização epidérmica, como ocorre às populações negras ao redor do mundo, como bem lembra Franz Fanon ([1952]2019). Sem isto a branquitude, as práticas colonialistas europeias, incluindo o próprio pensamento Iluminista e o sistema capitalista não existiriam. Neste sentido, é possível afirmar que, dentro dos referenciais da Alemanha Nazista os judeus não eram dotados de uma “natureza ariana”, isto é não eram brancos puros. Este tipo de pensamento de uma superioridade racial não foi inaugurado pelo Nazismo, mas este pode ser pensado como a afirmação mais explicita deste do pensamento moderno e Ocidental. “O ‘moderno’ olha para o mundo esperando que ele seja um reflexo de si, e, ao não o encontrar, sente legitimada a visão que este ‘outro’ se não se parece consigo será feio, errado, amoral, alienado, atrasado e inferior” (RODRIGUES JR, 2019, p. 133). O atual governo brasileiro, corporificado na figura do presidente Jair Messias Bolsonaro, apresenta evidentes flertes com ideais fascistas, especialmente no que diz respeito à apropriação dos símbolos nacionais como forma de exaltar uma suposta maioria da população, sendo um exemplo de como podemos trocar “maioria” por “tradicional”, e “tradicional” por “hegemônico”. Ao ouvirmos o atual presidente e sua equipe falar em “família tradicional brasileira”, percebemos logo um discurso fortemente cristão, classista, racista, xenófobo e LGBTfóbico. Ora, não são estes muitos dos valores morais que se impõem como naturais na construção do próprio Ocidente? Não seria, por consequência disto, que diversos grupos precisam constantemente lutar para que seus direitos mais fundamentais sejam respeitados e protegidos?
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Não seria a apropriação fascista dos símbolos nacionais um fruto direto dos valores nacionalistas e patrióticos do qual depende o advento de Estado-Nação? A crença em uma desigualdade natural entre diferentes grupos humanos não sustentou, e sustenta, toda a manutenção das desigualdades históricas, políticas e sociais que observamos na atualidade, seja nas relações entre grupos ou nas construções subjetivas? Não seriam as violentas práticas, materiais e simbólicas, do fascismo uma reverberação dos ideais que estruturam o Ocidente Moderno, e, consequentemente, o Brasil? Tais questionamentos não devem ser aqui compreendidos, como uma proposta de abandono de uma identidade nacional por parte da população negra ou de quaisquer outros grupos jogados para a margem desta construção. O Estado brasileiro é uma realidade com a qual precisamos lidar, assim como o fato de que, tal como outros Estados Modernos, é fruto de um longo processo colonialista que se manifesta contemporaneamente. No entanto, é necessário que não sejam mais os mesmos corpos-territórios (BANIWA, 2008) a gritar por uma independência seletiva, tal qual fez D. Pedro I. É necessário que as práticas contra-coloniais (BISPO, 2015) sejam cada vez mais reconhecidas em sua relevância para as rupturas com práticas tão naturalizadas na construção de Brasil, de modo que ao olhar para a Bandeira Nacional, possamos reconhecer outros “Brasis” dentro deste enorme território, possibilitando que os diversos corpos-territórios que o habitam, suas epistemologias, línguas, crenças e outros de seus aspectos fundamentais, gozem de reconhecimento e proteção das violências e dos abusos que têm sido uma marca que o Ocidente lega a todo o mundo.
Referencial bibliográfico ADICHIE, Chimamanda NGOZI. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. BANIWA, Gersen. Antropologia indígena: o caminho da descolonização e da autoimagem indígena. Trabalho apresentado na 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia, Porto Seguro, Bahia, Brasil, 2008. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: um longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. São Paulo: Ed. Veneta, 2020. CONCEIÇÃO, Willian Luiz da. Branquitude: dilema racial brasileiro. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens Edições, 2020. COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2004. FANON, Franz. Pele negra, máscaras brancas. Bahia: Editora UFBA, 2019. GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, Nº. 92/93 (jan./jun.). 1988, p. 69-82. HABURGUER, Esther. Telenovelas e interpretações de Brasil. Lua Nova, São Paulo, 82: 61-86, 2011 KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: N-1 Edições, 2018. RODRIGUES JR, Gilson José. Família para quem precisa... : Estado, instituições, políticas públicas e classes populares na construção de uma moral familiar. 2010. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2010. ______. Ação Seletiva do Estado: alguns apontamentos a partir da trajetória de mulheres com filhos em abrigos na cidade de Penedo-AL. In: KABENGELE, Daniela do Carmo; PALAMARTCHUK, Ana Paula. (Org.). Diálogos possíveis: a cultura nas ciências sociais e humanas. Maceió: EDUFAL, 2015. p. 187-218. ______.. Humanitarismo em nome do Reino: ações humanitárias de Tuparetama (Brasil) e Dakar (Senegal). 2019. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019. ______. Sobre o corpo racializado em campo: masculinidades negras e suas implicações para o trabalho de campo antropológico. In: Revista da ABPN, v. 11, n. 30, 2019. p. 130-151. SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, quilombos, modos e significados. Brasília: INCTI/UnB, 2015. THIESSE, Anne-Marie. La création des identités nationales: Europe XVIIIe-XXe siècle. Paris: Seuil, 1999. TRINDADE, Hélio. Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 30. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1974.
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BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL Por Rodrigo Maia A Independência do Brasil, oficializada por Dom Pedro em 1822, manteve intactos os privilégios da aristocracia brasileira, representados pelo latifúndio e pelo escravismo. A abolição da escravatura só viria a ocorrer 66 anos após a declaração da independência. O Brasil se torna independente para os aristocratas, mas mantém pretos escravizados por quase sete décadas após a independência, sendo o último país da América a abolir a escravidão. A abolição tardia representa o embrião de uma brutal desigualdade social que perdura na república brasileira até os dias atuais, em que pretos e pobres trabalham por salários miseráveis para enriquecer cada vez mais uma elite que representa 1% da população e detém metade da riqueza do país. Essa estrutura de desigualdade está tão arraigada na cultura brasileira, que mexer nessa engrenagem de injustiças históricas é algo que visivelmente incomoda as classes mais abastadas. Os governos populares que instituíram algumas políticas públicas para reduzir as desigualdades sociais — tais como as cotas nas universidades para pessoas pretas, o Bolsa-Família (renda mínima para famílias carentes) — e o Mais Médicos (atendimento médico gratuito em regiões carentes) - sofreram os mais violentos ataques da classe média, das elites e das grandes oligarquias midiáticas.
Ilustração de Paula Taitelbaum (2020) em "Dicionário da Independência:200 anos em 200 verbetes" de Eduardo Bueno
Apesar da sua independência de Portugal há quase 200 anos, o Brasil continua refém de um sistema perverso que mantém todos os privilégios e regalias aos mais ricos e impede que os mais pobres saiam da condição de miséria. É como se uma parte da aristocracia e dos senhores de escravos tivesse se amalgamado no país, sugando todas as suas riquezas naturais, exaurindo toda a sua força de trabalho em troca de migalhas e forçando a manutenção dos abismos sociais. Mesmo sendo uma república desde 1889, o Brasil só permitiu o voto aos analfabetos —
que
representavam a maioria da população brasileira até poucas décadas atrás — a partir de 1985. Ou seja, a maior parte da população brasileira foi impedida de votar por quase 100 anos, explicitando o caráter escravocrata e racista da plutocracia brasileira, visto que a população preta é a que, historicamente, pelas condições econômicas e pela necessidade de começar a trabalhar muito cedo, tem mais dificuldade de acesso ao ensino formal. Nas duas primeiras décadas do século XXI, o Brasil experimentou significativos avanços sociais e econômicos. O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, alcançou patamares recordes de 2000 a 2010. Da mesma forma, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) registrou significativa elevação.
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O Brasil parecia estar rumo a um caminho de progresso e conquistas que não iriam retroceder... Contudo, a partir do golpe de 2016, que destituiu de forma ilegítima a então presidenta Dilma Roussef, seguiram outros eventos de ataque à democracia, entre eles a prisão arbitrária do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, decretada por um juiz parcial que, logo em seguida, viria a se tornar o ministro da justiça do candidato vencedor do pleito, Jair Bolsonaro. A prisão arbitrária de Lula (líder nas pesquisas de intenção de voto naquela ocasião), o impediu de concorrer no pleito de 2018, deixando o caminho livre para a eleição do atual presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, numa eleição marcada por irregularidades e fake news. Desde a sua eleição, o atual presidente tem deixado um rastro de destruição por todo o país! O cenário de catástrofe é desolador, e atinge praticamente todos os setores da sociedade. Como exemplo, temos o desmatamento acelerado da Amazônia e o extermínio dos povos originários, a grilagem, a mineração predatória, o desmonte de programas sociais, o sucateamento da máquina pública, ações que estimulam o contágio e a proliferação da covid-19, a tardia aquisição de vacinas contra o vírus (que poderiam ter salvo milhares das mais de 600 mil vidas já perdidas), a economia em colapso (o Brasil no final de 2021 enfrenta a pior inflação em quase 20 anos), o desmantelamento da educação, o aumento dos crimes de ódio, a interferência do presidente na polícia federal, as propinas na aquisição de vacinas contra a covid-19, além de incontáveis escândalos de corrupção e dos mais diversos crimes envolvendo a figura do presidente e sua família. O legado de destruição que a extrema-direita de Jair Bolsonaro deixa ao Brasil é assustador! E é bem provável que, infelizmente, a destruição ainda siga em curso até as eleições de outubro, pois mesmo com as inúmeras manifestações que acontecem no Brasil e em diversas partes do mundo pedindo o impeachment de Bolsonaro – em Austin, o Coletivo Brasileiro Resistência Austin está sempre
engajado em atos contra a política da morte e da destruição instaurada por Bolsonaro no Brasil – os incontáveis pedidos protocolados são todos engavetados pelo presidente da Casa Legislativa. Além disso, há contra o atual mandatário da república brasileira seis denúncias por crimes contra a humanidade, protocoladas no Tribunal Penal Internacional de Haia. Em 2022, ano do Bicentenário da Independência, o Brasil elegerá o seu 39º presidente desde a Proclamação da República. O clima é de otimismo, de que o Brasil voltará à sua recente fase de crescimento e desenvolvimento. Contudo, seja qual for o governo que suceder o atual presidente, haverá um longo e árduo trabalho de reconstrução de um país que completa 200 anos de independência em um momento bastante dramático, como se ainda estivesse nas mãos de um colonizador predatório. Gritou Dom Pedro às margens do Rio Ipiranga: “Independência ou morte”! Talvez a morte tivesse sido o melhor caminho, pois só assim poderia ter nascido um novo Brasil: de fato heroico, sendo o herói do seu povo; com braços mais fortes para sustentar o penhor da igualdade e a liberdade para todos; de fato gigante pela própria natureza, mais orgulhoso de suas raízes, mais preto, mais indígena; e finalmente sendo a mãe gentil de todos os seus filhos, primordialmente dos filhos descalços com cheiro de mato e dos filhos trazidos da África. Poderia, então, ter nascido uma pátria deveras independente, com um céu em brilho intenso pelos raios fúlgidos do sol da liberdade.
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FIBRAS QUE SE ENTRELAÇAM PELA VOLTA DA DEMOCRACIA NO BRASIL: RESISTIR OU RESISTIR! POR MÁRCIA NUNES
"Tentam nos cegar nas telas e nas bancas
Com papo de patrão, não vi a gente lá Meu povo precisa ter a voz ativa Golpe é fogo na favela, não vou apoiar." (Música pela democracia: golpe não. Chico César)
Quem canta os males espanta, frase do personagem D. Quixote, de Miguel de Cervantes. Ah, se o escritor soubesse que o mal que mais queríamos espantar em 2016 era a ameaça que rondava a democracia brasileira. O canto era munição potente e presente em todas as manifestações progressistas contra o golpe em curso. Com a coragem estampada no rosto e a malemolência no corpo, na alma e no pé, driblamos a dor e a incerteza expressando através da música a nossa luta, força, esperança e resistência. Era início daquele ano. Os jornais de todo o mundo noticiavam o turbilhão político em que o Brasil se encontrava. As manchetes internacionais vinham sendo alimentadas de maneira superficial e partidária desde 2014, por beber somente na fonte da grande mídia brasileira, parceira do grande empresariado, dos bancos, e da elite branca conservadora. O Brasil, anos antes, reconhecida potência mundial, respeitada e aclamada, passava a ser naquele momento uma incógnita. O seu futuro político e econômico, e para não dizer também social e cultural, se tornava cada vez mais incerto. Certa era a cruel e determinada tentativa da direita de voltar a ocupar, mesmo que ilegitimamente, a presidência do Brasil. Mais certo ainda seria o retrocesso causado pelo golpe parlamentar e midiático, caso fosse consumado. Em solo brasileiro coube aos movimentos sociais articulados, acompanhados dos partidos políticos progressistas, o protagonismo da luta contra o golpe mais recente da história do Brasil, o primeiro pós-período militar. Isto, utilizando um pouco de otimismo e evitando mencionar os inúmeros golpes desde que foi proclamada a Independência do Brasil, em 1822. É, caro (a) leitor(a), tomamos muitas pancadas ao longo desses últimos 200 anos! Enquanto o golpe de 2016 se expandia a passos largos, a imprensa alternativa e progressista (leia-se aqui os blogs, como por exemplo, o Ópera Mundi (de Breno Altman), Brasil 247, Mídia Ninja, Jornalistas Livres, e tantos outros) ganhava espaço, adquirindo um papel importantíssimo na difusão, no alcance e na democratização da informação além mar. Era essa mídia, e pode-se dizer que ainda é, a mais procurada fonte de informação na qual os brasileiros e brasileiras progressistas residentes no exterior mergulhavam, e ainda mergulham para se manter a par do que acontece em terras brasileiras.
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"Não, Não, Golpe Não! Quem não teve voto tem de respeitar Não, Não, Golpe Não! Nossa voz na rua vem para lutar." O tempo urgia e era necessário denunciar ao mundo a ruptura democrática que viria a ocorrer no Brasil, onde mais de 54 milhões de votos, que tornaram possível a vitória da Presidente Dilma Rousseff em 2014, seriam pilhados em favor de interesses alheios à Constituição de 1988. Influenciada pelos últimos acontecimentos do cenário político nacional, seguido dos inúmeros protestos organizados pela esquerda atuante no Brasil e inconformadas com a audácia da direita em massacrar a constituição Federal, a resistência internacional brasileira viria a tomar as ruas do mundo. Ao som de ‘’Não, não, golpe não!’’ centenas de brasileiros e brasileiras residentes nas cidades de Berlim, Dublin, Lisboa, Londres, Barcelona, Nova Iorque, Amsterdam, Paris e outras cidades europeias, norte e latino americanas se aglomeravam em pontos turísticos e estratégicos para chamar a atenção aos riscos de um então iminente golpe de estado. Essas mobilizações usaram as redes sociais como ferramenta de integração de ativistas que acreditavam na construção de uma sociedade brasileira mais justa, mais democrática e com oportunidades iguais para todos e todas.
"O machismo mata, a imprensa mente Mas a internet é nosso canal Somos a guerrilha na nova trincheira A nação guerreira do bem contra o mal." Nas ruas do mundo, agitação. Os atos organizados por esses grupos de ativistas no exterior tiveram um resultado estrondoso, sendo cobertos pela imprensa local em seus respectivos países e também sendo destaque na mídia brasileira. A narrativa explorada nesses atos, foi reflexo da postura adotada pela resistência no Brasil, que se contrapunha à hegemonia da grande mídia. As nossas vozes no exterior ecoavam o grito desesperado por um Brasil sem retrocesso. Impeachment sem crime é golpe! A experiência e o sucesso dos atos no exterior demonstraram que era preciso conectar os grupos progressistas brasileiros espalhados pelo mundo, pois só atuando em conjunto poderíamos derrotar o inimigo comum. Sendo assim, partiu de militantes da Suécia, a ideia de se criar em determinada rede social um espaço de encontro da militância residente em terras estrangeiras. Após dezenas de contatos feitos, ativistas foram sendo adicionados(as) ao grupo geral recém-criado. Formava-se assim o espaço Articuladores, base da articulação internacional destinado à troca de experiências de atividades e discussão de estratégias. Tal fórum viria a ser composto por ativistas de várias cidades no exterior, fortemente organizados (as) em prol da defesa da democracia brasileira. Nascia uma nova forma de guerrilha. Sem confrontos físicos e com grande abrangência. Desta vez, virtual. Conhecida inicialmente como Rede de Brasileiros no Mundo contra o golpe e pela democracia, a rede passou o ano de 2016, estreitando laços, trocando experiências, realizando reuniões onlines, produzindo atas, cartas, manifestos, vídeos coletivos, incontáveis atividades, sempre fruto de muito debate, construções coletivas e vontade de lutar.
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Os recorrentes ataques aos direitos humanos e as afrontas ao Estado de Direito se tornavam mais frequentes. Foram várias as situações desprezíveis que o coração queria esquecer, mas que por amor e respeito à história, a memória não permitiu apagar. Ecoamos o "Fica, querida'', "queremos hospitais e educação padrão Fifa!"’, fomos testemunhas da misoginia e crueldade para com a Presidente Dilma Rousseff, injustiça essa aplaudida e estimulada por corruptos descarados, algozes da democracia. Ano conturbado, cheio de palavras de ordem que mudavam com a velocidade do aprofundamento da crise política. Iniciado com o Fora Cunha e encerrado com o ‘Fora, Temer’. Às vésperas de 2017, quase um ano depois de formada a rede, a articulação internacional permanecia atuante, apesar dos retrocessos. Com
Longe de nos abater, os primeiros desafios
coletivos e grupos sólidos, a militância no exterior sentiu a necessidade de extrapolar o contato para além das telas dos computadores - decidiu-se
representividade e dos direitos humanos. A
assim um encontro presencial. Considerado como fato inédito na história dos movimentos sociais, foi realizado no final de janeiro daquele ano, o I
de ânimo e mobilização. Tomados por esse
Encontro internacional de Brasileiros contra o golpe, sendo Amsterdam escolhida para sediar o evento. O Coletivo Amsterdam foi eleito anfitrião,
Juntos aclamamos a FIBRA - Frente Internacional
enquanto pessoas de vários outros coletivos ocupavam o posto de comissão geral. Foram 3 dias de puro ativismo, que contou com a presença física de 107 pessoas de diversas cidades ao redor do mundo e mais outras participações virtuais. À medida que o encontro acontecia era possível perceber nas fisionomias dos presentes a satisfação de estar ali naquele momento vivendo a história, ocupando os mesmos espaços daquele prédio, discutindo pautas comuns e necessárias à luta: a denúncia do lawfare sofrido por Lula, a defesa do patrimônio brasileiro (em especial a Petrobrás) e o golpe contra a Dilma. Houve conflitos? Sim, vários, como sempre ocorrem em eventos de natureza política. A diversidade entre nós nos surpreendia, fascinava e enriquecia! Dos momentos de tensão, embate e ajuste de tantas opiniões e ideias, começávamos a construir um caminho comum e mais rico, cada vez mais próximo das teses e rumos que nos represetavam.
no exterior não poderia ter melhor acrônimo,
daqueles dias nos estimularam a fortalecer a luta que só começava. A militância mostrava em Amsterdam que a luta contra o golpe era algo muito amplo, para muito além do que a dura e injusta retirada de Dilma do poder. O que começava a parecer visível a olhos nus, foi tornando-se a cada dia mais escancarado: o golpe dado , na verdade, foi contra toda uma população marginalizada,
desconsiderada,
sofrida
e
humilhada. Golpe que não seria vencido sem incluirmos como foco das discussões pautas essenciais, como a luta antirracista, a defesa dos povos oríginários (indígenas e quilombolas), a diversidade e igualdade de gêneros, a cultura e a educação como fatores transformadores da sociedade,
a
defesa
do
feminismo,
da
experiência de viver o primeiro encontro foi marcante, inesquecível. Uma verdadeira injeção sentimento, partiu de militantes da Suécia a sugestão de mudança de nome daquela rede. de Brasileiros (mais tarde, Frente Brasileira!) Contra o golpe e pela democracia. A resistência uma vez que viria a refletir o entrelaçar das linhas dos diferentes coletivos/grupos envolvidos nesta militância voluntária, espontânea, aguerrida e forte.
"Mulher no front aqui tem voz de monte E menos que isso não vou acatar Avisa o gueto avisa o gueto, desperta que é golpe Ninguém vai impedir o meu jeito de amar."
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Sob o lema "As ruas do mundo são nossas'', a militância internacional, formada em sua grande parte por mulheres corajosas e determinadas, ocupou em 2018 centenas de vias, ruas, parques e praças de muitos países. As razões mudavam e se somavam, na medida das demandas do que ocorria diariamente no Brasil, porém, uma tragédia marcou profundamente os/as milhares de ativistas residentes no exterior: o bruto assassinato de Marielle Franco. Atos foram organizados para denunciar a covardia de um crime bárbaro, que mirou e executou uma mulher negra, defensora dos Direitos Humanos, da comunidade LGBTQIA+ e da população menos favorecida - todas estas causas bandeiras de luta da militância internacional! Socióloga, cria da Favela da Maré, foi vereadora e ganhou destaque no cenário político ao defender os direitos das minorias e combater as milícias cariocas. No exterior, e talvez até no Brasil, muitas pessoas só viriam a conhecer a trajetória e o legado de Marielle depois de sua trágica morte, amplamente noticiada mundo afora. Os atos internacionais da militância brasileira foram fundamentais para que outros países reconhecessem em Marielle a figura importante no cenário político e lhe rendesse - a partir dos ecos dos protestos das ruas, as horas e reverências que mereceu. Marielle fortaleceu o ativismo, não somente pela forma como morreu, mas sobretudo pela forma como viveu. Se hoje ousamos ser sementes vivas e com raízes fortes, devemos ao modelo que foi Marielle. À sua garra, força e lições de resistência. O calendário seguia seu curso, enquanto as dificuldades aumentavam. Mal começado o mês de maio e nós já estávamos a postos no parlamento europeu denunciando o lawfare e a prisão injusta de Lula, do ex-presidente que, apesar da enorme admiração internacional e feitos políticos em prol dos mais necessitados, não tardaria a tornar-se um preso político. Acreditando em sua inocência, e confortados pela confiança e certeza que em uma hora a verdade haveria de prevalecer, a militância seguiu lutando
pela libertação daquele que afirmava que “uma ideia não se prende’’. Com liberdade aqui fora, seguimos sendo idéias e agentes vivos da história e de seu legado. Ecoamos aos quatros ventos “Lula Livre’’, ‘’Ele não’’, ‘’Eleição sem Lula é golpe’’. Em meio a uma corrida eleitoral viciada pela mídia propagando mentiras e uma campanha liderada pelo fascismo baseada em fake news, denunciamos o processo arbitrário contra Lula e sua condenação sem provas, o Brasil foi golpeado mais uma vez. Ao longo do ano, tantas foram as facadas contra o povo brasileiro, o resultado final não poderia ter sido diferente: perdeu a democracia, avançou o fascismo.
"As velhas raposas querem o galinheiro Roubaram dinheiro mas fingem que não Querem que o petróleo seja do estrangeiro Pra esconder ligeiro sua corrupção." O resultado inacreditável das urnas virou pesadelo: real e palpável. A vitória de Bolsonaro tornou-se um difícil revés para a militância internacional. Apesar do longo tempo nas ruas, mais uma vez era importante continuar a denunciar o inferno diário e ainda mais destruidor a ser vivido pela população, o meio ambiente, a cultura e o país por todas as partes. Cientes de que Bolsonaro oferecia (e ainda oferece!) riscos enormes à democracia e ao estado democrático de direito, cabia à militância no exterior seguir em alerta, atuando como observadores e denunciando a vergonhosa e criminosa situação brasileira. Foi com resiliência, desejo de mudança e fé em dias melhores, que em agosto de 2019 o II encontro internacional pela democracia foi realizado, desta vez em Berlim. Aproveitada a experiência e lições do encontro anterior, militantes de diversas partes do mundo se reuniram a fim de discutir os rumos e estratégias da militância internacional. O evento viria também a ser um momento de renovação de energias e esperanças. Parecia que se estava adivinhando o que o futuro reservava: pandemia, negacionismo, mortes à mercê de um governo cruel, desumano e destruidor.
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Se um dia fomos reconhecidos no exterior como um povo alegre e humano, a história recente impele à mudança dessa imagem. Deixamos de ser o país do futebol, do samba e do carnaval, para virar o país do retrocesso, da fome, do ataque ao meio ambiente, da piada misógina, racista e preconceituosa. Com Bolsonaro no poder, o Brasil virou chacota global, o país do verme e do vírus. Como justificar ao mundo a trajetória de Bolsonaro? Difícil para qualquer brasileiro ou brasileira no exterior explicar a gestão irresponsável e criminosa frente à crise sanitária da COVID19. Hoje mais do que nunca a militância internacional assume o papel da denúncia e de um
Foto Margo Dallas. Coletivo Amsterdam pela Democracia. II Encontro Internacional da Fibra. Agosto, 2019.
país à beira de um colapso social, político, ambiental etc.
"A Democracia é nossa bandeira Golpe é uma história que já sei de cor Todos nós queremos um País mais Justo Todos nós queremos um País melhor." Repetindo o que afirmamos no início, o Brasil foi palco de inúmeros golpes ao longo desses séculos. A começar por uma ideia frágil de independência, iniciada a partir de uma cena onde os elementos “grito e espada’’ fantasiam uma ideia parcial de liberdade, posto que vivida de fato, somente pelos
Arquivo do grupo Resistência em Austin. Ato contra assassinatos de pessoas negras no Brasil em Fevereiro, 2022
herdeiros do poder colonial. Independência como farsa para os olhos do mundo, mas que perpetuou a vergonhosa sina de um povo aprisionado até hoje, na miséria, nas injustiças, e no racismo que não nos permite que se comemore a Liberdade. No entanto, a história mostra que onde há golpes e opressão há resistência. Assim vendo sendo há 522
anos,
dos
quais
200
em
proclamada
independência. Em nosso tempo de vida, e com o colapso da democracia em 2016, não haveria de ser diferente. A diferença é que a militância internacional tornou-se sujeita da História, posto que luta! A nós não nos é dada a opção de desistir. Por um Brasil sem golpes, sem fascismo, sem genocídio
e
sem
retrocessos,
seguiremos
cantando: Fomos, somos e seremos resistência!
Arquivo do grupo Defend Democracy in Brazil em New York. Ato feminista em defesa da preservação dos direitos reprodutivos das mulheres.
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EXPERIÊNCIAS NA CONVIVÊNCIA COM NOVO CORONAVIRUS: O MUNDO SERÁ COMO ANTES? POR STELA MARIS PEREIRA SILVA Desde o dia 18/03/2020 vivemos assim, assustados, inseguros, mascarados. Em um período de tempo muito curto assistimos milhões de pessoas sendo infectadas, morrendo rapidamente e o Sistema de Saúde entrando em colapso. Não conhecíamos o tal vírus que tinha alta capacidade de transmissibilidade, que causava uma infinidade de sintomas e altamente letal. Pouco sabíamos sobre este inimigo chamado Novo Coronavírus. Mudamos a forma de trabalhar para atender aqueles que chegavam com sintomas. Era um frio na barriga a cada paciente que adentrava o consultório. Sair de casa todos os dias pela manhã para assumir o meu posto de Enfermeira era, e atualmente ainda é, sinônimo de ir para guerra. Como a saúde privada é um pouco mais privilegiada, não sofri tanto com falta de insumos, mas, houve momentos que economizar o que tínhamos era fundamental. A todo momento, novos treinamentos para manejo da doença eram ministrados. O tempo todo tentando otimizar o trabalho, o tempo e os esforços. Atuo na área da saúde desde 2000. Comecei como Auxiliar de Enfermagem pois o dinheiro que tinha me permitia fazer este curso. Logo no estágio fui contratada. Melhoraram os rendimentos e pude fazer a complementação do curso. Tornei-me Técnica em Enfermagem. Dez anos mais tarde, conclui a graduação. Agora sim, Enfermeira. Jornada dupla e plantões de 36 horas dentro do CTI (Centro de Terapia Intensiva) de um grande hospital público. Lutar contra a morte. Trabalhar pela vida, cuidar de pessoas, de amores. Sou fascinada com a Enfermagem e agora me vejo questionando a minha escolha. Como a minha trajetória é longa, tenho muitos colegas enfermeiros, técnicos, auxiliares e neste tempo compartilhamos muitos sentimentos dentre eles aqueles que mais nos afetam: insegurança, medo, cansaço e tristeza. Muitos atuam na rede pública e inúmeras foram as vezes que dividíamos o sofrimento por não ter EPIs (equipamento de proteção individual), de ver amigos morrendo
infectados pela doença e/ou infectados pela falta de apoio à Saúde Mental. Nunca houve tanta vaga disponível para enfermeiros. A demanda era alta demais e o número de profissionais doentes ou que morreram, também. Adoecimento, afastamento, hipermedicalização, suicídio. Como assistir a isso tudo e me manter equilibrada? A doença começou a chegar muito perto de todos nós. Amigos, família, colegas de trabalho morrendo rapidamente. Não podíamos visitá-los, abraçar nossos familiares, sermos apoio neste momento tão difícil. Acalentar o choro de um amigo só se fosse por áudio no Whatsapp. Quando aqueles mais próximos, irmã, amigo, adoeceram, juntar em uma cesta livros, cartinhas, bolo caseiro, pão de queijo, frutas, as vezes até um analgésico, era a forma que eu encontrava de amenizar um pouco a nossa dor. E vale lembrar que a cesta era deixada na portaria do prédio ou no portão da casa. Um aceno de longe, lágrimas no rosto, coração apertado, uma vontade imensa de dar um abraço apertado e dizer: Vai passar! Só vontade. Voltava para casa com um buraco no peito. Até quando? Muitos eram aqueles que, ligavam, enviavam uma mensagem pedindo orientação; “O que eu faço? Fulano teve contato com Sicrano que testou positivo? ” ou “Sabe onde consigo fazer o teste? Em tal lugar a fila está enorme? Você conhece alguém que trabalha no Hospital X? Tenho um parente, um amigo lá e não consigo notícias! ”. Quantas não foram as vezes que este pedido vinha do exterior. Amigos que residem em outro país precisando ter notícias de familiares hospitalizados aqui. A escuta se tornou o novo abraço. Quantas vezes durante este tempo me questionei: “Será que fiz a escolha certa? ”. Passei muito tempo isolada, sozinha. Não podia ver meus filhos e nem meus pais por medo de contaminá-los, de perdê-los. Imagine a culpa?
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Ser responsável pela contaminação dos amores da minha vida e com isso levá-los à morte? Não tinha escolha, a solidão virou minha companheira. Desenvolvi depressão. Tive medo de me infectar, de morrer sozinha num leito de UTI, pois esta era a triste realidade de milhares de brasileiros. Houve dias que não tinha forças para sair da cama, mas a farda estava lá, me esperando para mais um dia de luta. A COVID-19 provocou estragos na Saúde, na Economia, no modo de vida, nas relações humanas, na Educação. Não era só uma gripezinha e sim a pandemia mais grave vivida na história recente da Humanidade. Ainda não tínhamos vacina e o número de mortes desenhava uma curva ascendente cada vez mais alta. Discordâncias políticas, Kit Covid, desinformação, interesses próprios, falta de políticas sanitárias, inexistência de bons exemplos das principais lideranças do País, dos estados, que culminaram em desinformação e confundiram milhares de brasileiros. A comunidade científica num esforço sobrenatural alimentou a nossa esperança. E assisti, tomada por uma emoção sem medidas, às vacinas chegando ao nosso País. Com o passar do tempo e o aumento do número de vacinados, as curvas de mortes e infectados foram diminuindo. No trabalho, o número de equipes para atendimento de sintomáticos também diminuiu. Pudemos experimentar um certo alivio. Porém, a pandemia não acabou!
e com os amigos. Queremos viajar, conhecer novos ugares e culturas. Queremos fazer isto sem medo. Acreditar é a força que me faz seguir. Acredito na Ciência, na vacina, acredito também que os próximos anos ainda serão assim, difíceis. Acredito no cuidado humanizado, sistematizado e diferenciado que a Enfermagem pode oferecer. Somos aqueles mais próximos aos pacientes, somos aqueles que escutam, que acolhem. Ainda que cheios de equipamento de proteção, com o rosto quase que escondido por máscaras, óculos, face shields, toucas, podemos ser o olhar que acolhe e acalma. A pandemia veio para nos fazer repensar o nosso modo de viver. Compartilhar objetos pessoais, conviver em espaços fechados, utilizar transporte público, aglomerações, velórios, programas culturais, escolas, faculdades, o que antes era normal, agora é potencialmente adoecedor. Será que um dia viveremos como antes? Aproveito aqui para agradecer à minha grande amiga, Denise Braz, por ter me proporcionado a oportunidade de sistematizar toda a vivencia destes últimos anos. Organizar as ideias no papel me fez ver a complexidade e gravidade do momento que estamos vivendo. Ao reler o texto completo, me emocionei por relembrar tantos momentos críticos, tristes e desafiadores que passei.
No final de 2021 tivemos um aumento absurdo no número de casos de COVID-19, de síndrome gripal. Fruto do relaxamento das medidas de proteção? Acredito que sim. Pessoas passeando sem máscaras, outras não acreditando na eficácia da vacina, festas, confraternizações. O negacionismo e a anticiência resultaram no que estamos vivendo agora, com milhares de pessoas infectadas. E mesmo assim, várias pessoas me perguntam: “Você tem coragem de vacinar seu filho? Uma criança de 7 anos? Você não viu que a vacina está causando várias complicações em crianças? Que ela pode causar uma infinidade de problemas no futuro? Mesmo assim você tem coragem? ” É o que eu mais quero! Que todos estejam vacinados e seguros! Quero que ele vá a aula, ao parquinho, ao cinema, que conviva com os avós,
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ACOLHER E DAR APOIO: COMO A TURMA DE PORTUGUÊS PARA FALANTES DE ESPANHOL CRIOU UM MAPA DE RECURSOS CRÍTICOS PARA REFUGIADOS QUE VÊM MORAR EM AUSTIN Por Mariana Sabino Depois de três semanas que o curso de português havia começado, Nica e Oriana apresentaram para a turma a origem e as causas da atual crise de refugiados. Nessa altura do semestre, meus alunos principiantes nunca tinham se expressado com essa nitidez e entusiasmo. Foi difícil controlar minha emoção enquanto eles faziam sua primeira apresentação. Percebi que o rendimento deles estava fora do comum, provavelmente porque seus objetivos eram sociais e não pessoais. Oriana, uma imigrante venezuelana, expressou: “Os refugiados tinham uma vida inteira nos seus países de origem. Eles tinham família, amigos e emprego. Eles estão reiniciando suas vidas num outro país devido a situações no país de origem que colocaram suas vidas em risco. É importante acolhê-los e dar apoio a eles!”. Nos últimos três anos que tenho dado aula de português na UT percebi que muitos dos meus alunos tinham ideias voltadas para o ativismo e vontade de colaborar com grupos marginalizados. Mas as aulas pareciam desvinculadas das comunidades locais de falantes de língua estrangeira e os conteúdos dos livros focados em problemáticas que apontam a outras latitudes. Quando surgiu a oportunidade de estudar a metodologia de aprendizagem baseada em projetos (PBL pelas suas siglas em inglês), soube que queria trabalhar com grupos de refugiados e imigrantes em Austin com a turma de português para falantes de espanhol. A aula de português para falantes de espanhol é um espaço pedagógico único
porque uma porcentagem alta dos estudantes é imigrante, ou os seus pais, ou seus avós vieram de outro país. Portanto, esperava que tivessem maior empatia para com os refugiados e isso os motivasse a apoiar qualquer iniciativa relacionada a estas populações.
Foto de Mariana Sabino Texas é um estado fronteiriço que recebe imigrantes de todo o mundo, mas a maioria dos recursos informativos estão em espanhol. Da mesma forma, os requerentes de asilo e os refugiados que falam português precisam de informações na sua língua. O nosso objetivo foi criar um mapa para aumentar a auto-suficiência entre os imigrantes que falam português e chegam à cidade. A expectativa é que esse mapa pudesse beneficiar principalmente refugiados políticos angolanos e migrantes haitianos que moraram no Brasil e vieram ao Texas.
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Para a execução do projeto, dividi a turma em três grupos e o semestre inteiro esteve estruturado em torno da elaboração dum mapa com recursos críticos. Os estudantes realizaram entrevistas a refugiados para fazer um levantamento das suas necessidades. Mais tarde, começaram um mapeamento dos recursos que se oferecem de maneira gratuita ou a baixo custo em Austin. Assim, as três apresentações e os quatro ensaios estiveram focados em refletir sobre a experiência do refugiado, apresentar os resultados da sua pesquisa, e dar retroalimentação aos seus parceiros. Este projeto se desenvolveu com ajuda da Casa Marianella e Cultura Brasil Austin, duas organizações que trabalham com imigrantes em Austin. Educadores comunitários e voluntários destas organizações avaliaram os resultados e ajudaram na organização de eventos paralelos. A assistência técnica de Katherine Strickland, encarregada da coleção de mapas na Perry-Castañeda Library, foi também valiosa. Os pesquisadores no Centro de Inovação do Flagship Technology Center da Universidade de Havaí em Manoa apoiaramnos durante a implementação do projeto através de assessoria pedagógica. Finalmente, os estudantes consideraram as experiências que eles mesmos e a suas famílias tiveram quando migraram aos Estados Unidos. Alguns deles eram migrantes mexicanos de primeira
Foto de Mariana Sabino geração, outros tinham avós ou pais brasileiros, portugueses ou cubanos. Estas histórias de êxodo potencializaram sua participação no projeto e a sua aprendizagem de português. Os estudantes desenvolveram um mapa online que pode ser acessado através dum código QR. Chande Blurton, uma estudante da turma, também criou uma versão impressa que será entregue aos imigrantes e refugiados na sua chegada à cidade. O mapa inclui recursos críticos como ajuda legal, bancos de alimentos, e centros de saúde. Depois das entrevistas, os estudantes perceberam que haviam outros recursos que tínhamos negligenciado e também eram importantes para o bem-estar desses migrantes. Os estudantes desenvolveram um mapa online que pode ser acessado através dum código QR. Chande Blurton, uma estudante da turma, também criou uma versão impressa que será entregue aos imigrantes e refugiados na sua chegada à cidade. O mapa inclui recursos críticos como ajuda legal, bancos de alimentos, e centros de saúde. Depois das entrevistas, os estudantes perceberam que haviam outros recursos que tínhamos negligenciado e também eram importantes para o bemestar desses migrantes.
Foto de Mariana Sabino
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Por exemplo, a importância do embelezamento dos cabelos é uma forma da preservação da sua identidade, e a sua participação numa comunidade religiosa incide no seu processo de integração. Uma das questões que os estudantes tiveram que remediar foi a dificuldade que os migrantes tinham para ir dum lugar a outro, o que motivou a mudança do mapa do aplicativo izi.travel ao googlemaps onde teriam informação sobre as distâncias e meios de transporte entre pontos de partida e chegada. De fato, durante a execução deste projeto, os beneficiários não foram apenas os refugiados que tiveram acesso ao mapa, mas os estudantes que estiveram expostos à língua que aprenderam em situações que exigiam competências culturais difíceis de assimilar ao longo do semestre. Eles também puseram em prática metodologias que aprenderam em outras aulas, adquiriram conhecimento profundo sobre a cidade onde moram, usaram distintas plataformas para o mapeamento, desenho de logotipos e inquéritos, e aplicaram teoria migratória. Esperamos que através do Mapa ATX os refugiados tenham acesso a informações em português que os ajude a ter uma vida mais autônoma e digna. Foi uma aventura e um aprendizado imenso para todos os participantes deste projeto contribuir na realização do Mapa ATX.
Foto de Mariana Sabino
Foto de Mariana Sabino
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ROBSON DE TAL: SUBJETIVIDADES E FRAGMENTAÇÕES DA MEMÓRIA NEGRA NO BRASIL Por Lucas Scaravelli Memória e Esquecimento: Dentro da memória sobre Robson há a sombra do esquecimento. Porque não há aprofundamento sobre quem é Robson, como foi morto? Sobre o caso e o julgamento? Há uma política para o esquecimento, que afeta inclusive diversos setores dos movimentos sociais, inclusive o movimento negro? Pretendemos analisar os torvelinhos da oralidade e da memória coletiva na reconstrução de um determinado fato histórico. A morte violenta e truculenta de um jovem negro no final da década de 70, associada a outros acontecimentos de enfoque racial, tornou-se o ponto fator para a reorganização dos movimentos negros e a reconstrução intelectual e militante, que se conecta com o período histórico da Anistia e da redemocratização do Brasil. A questão é compreender o quanto o registro histórico depende da documentação estrita, e entendemos que a possibilidade da confiança rígida no que está registrado, talvez uma herança positivista de analisar os fatos através dos arquivos e todas as formas de tornar a história “guardada” em formas confiáveis. Há em Wally Salomão, poeta baiano de Jequié, uma sentença poética que nos promove interesse particular no que pretendemos alcançar neste ensaio, ele diz que: “A memória é uma ilha de edição...”, e nesse movimento poderoso de reter, conter, aumentar, diminuir, destacar, é que nos faz colocar em análise a forma que o ato fundacional dos movimentos negros em 1978 nas escadarias do Theatro Municipal em São
Paulo, trouxe a retórica empenhada em denunciar a morte violenta do jovem Robson Silveira da Luz, discurso que ficou desencontrado de informações, erros na idade, motivo do crime, e quem seria realmente Robson. Perde a subjetividade, o sujeito Robson? A oralidade não é uma fonte fidedigna de reconstrução de memória ou de afirmação existencial? Há injustiça nessa fragmentação de dados? Ao que nos parece, Robson ficou sendo um sujeito fraturado, carente de uma responsabilidade memorial e de uma organização oral, teria sido diferente se ele tivesse os mesmos signos e símbolos sociais que Marielle Franco? Assim pretendemos seguir na análise das efetividades e afetividades dos processos de fazer e ser memória. Esse traçado entre Antropologia e História, é o nosso desafio justaposto para compreender como narrar a memória do nosso sujeito pesquisado, que reflete não somente como sujeito ensimesmado, mas lança evidência á todos sujeitos e sujeitas pretos e pretas que precisam ser (re) lembrados sob o peso de suas vidas que foram ceifadas por serem quem eram, e como eram, pretos de tão pretos, ou quase todos pretos:
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O fato é que, em tempos mais recentes, a relação entre biografia e história acabou por inserir-se em um conjunto mais vasto de contraposições que opõe indivíduo a sociedade; individual a coletivo; social a particular; estrutura a contexto; ação individual a ação coletiva. Nessa rede de dualidades tensas, oscilamos entre ver o personagem como apenas a reiteração de impasses sociais e ligados a seu grupo, ou, ao contrário, em buscar nele um caso único, particular e afeito a uma memória de si. (SCHWARCZ, 2013. Pg, 54.) São Paulo talvez pudesse ser considerada a capital do protesto negro moderno. A cidade paulistana tornou-se palco de diversas expressões de negritude desde as primeiras décadas do século XX, com o crescimento e a difusão da imprensa negra – veículo de comunicação e articulação política dos filhos e netos de escravizados e libertos que migraram de diferentes partes do país e do interior do estado para a cidade – até a constituição de uma organização forte e expressiva, a Frente Negra Brasileira (FNB) que, nos anos 1930, promoveu e canalizou as reivindicações das camadas negras em processo de diferenciação nas urbes que sediaram a modernização do país (FERNANDES, 1964; DOMINGUES, 2007). Os avanços do debate público sobre relações raciais legados do ativismo negro organizado no pós-guerra sofreram fortes abalos durante o regime militar, na medida em que o Estado se tornou mais repressor, período também em que uma das lideranças negras, Abdias do Nascimento, deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos da América. Era 18 de junho de 1978 quando Robson Silveira da Luz, um comerciante negro de 21 anos, foi acusado de roubar frutas de uma camionete de um feirante. Levado para o 44º Departamento de Polícia de Guaianazes, na zona leste de São Paulo, foi torturado e morto por policiais militares sob a chefia do delegado Luiz Alberto Abdalla. Semanas depois, um grupo de 4 jovens foi impedido de jogar vôlei no hoje extinto Clube de Regatas Tietê. Faziam-se 90 anos da abolição da escravatura. Em resposta a esses fatos, um grupo de
militantes negros se reuniu em um casarão no início da rua da Consolação, em São Paulo, para discutir a construção de um movimento que pudesse mobilizar o Brasil contra a discriminação racial. Na lembrança de Hélio Santos, doutor em economia, administração e finanças e militante do movimento negro brasileiro, a manhã daquela reunião, que geraria muita repercussão nos anos vindouros, foi gasta discutindo o nome que o movimento teria. “Éramos eu, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, os irmãos Celso e Wilson Prudente e muito mais gente” (BRASIL, 2018). A primeira decisão tomada pelo grupo recém-formado foi ir às ruas protestar. Na fria manhã do dia 7 de julho, posteriormente transformado em data comemorativa do Dia Nacional de Luta Contra o Racismo, mais de três mil pessoas se reuniram em frente ao Theatro Municipal de São Paulo. A manifestação de então, intitulada Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR) - o nome que prevaleceu foi Movimento Negro Unificado – nascia assim o MNU - não era, obviamente, bem-vista pelo governo vigente: era a época da ditadura presidida pelo general Geisel, e a política estatal se esforçava em ignorar a questão racial e em mostrar o país como uma democracia das raças. Em um ambiente de muito medo, os manifestantes agitavam cartazes e
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clamavam palavras de ordem em meio a agentes infiltrados do Serviço Nacional de Informação (SNI) e da Polícia Federal. “Eu lembro de vários policiais federais infiltrados, inclusive negros, se passando por jornalistas e entrevistando Lélia, Abdias e os outros dirigentes do movimento”, rememorou o professor Hélio Santos (BRASIL, 2018). Uma das singularidades do ciclo de mobilização dos negros que emergiu nos finais dos anos setenta foi a presença marcante das esquerdas políticas (HANCHARD, 2001). Nesse sentido, não seria de todo incorreto afirmar que o surgimento do movimento negro contemporâneo recebeu fortes influências das esquerdas, gestadas durante o período do regime militar brasileiro. A bem dizer, foi dentro do movimento da Convergência Socialista que surgiu um fio condutor da luta contra o racismo, que mais tarde veio a constituir um dos segmentos mais influentes do MNU, marco fundamental para a luta política contra as discriminações e desigualdades raciais. Assim é vista e revista a necessidade de contar como sujeitos pretos e pretas sobre nós, nós mesmos, e nos alicerçamos sobre os princípios da escrita de si, para falarmos de todos e todas, nós, sempre!
Movimento Contra a Discriminação Racial, nas escadarias do Teatro Municipal, em São Paulo, no ano de 1978. (Foto: MNU)3 Lélia
Uma nota breve: Antes de mais nada, é preciso dizer que a grafia da palavra "Theatro", é na realidade " Teatro ", sem "H". Porém, como a criação do Theatro Municipal foi concluída antes da reforma ortográfica de 1911, que coincidentemente foi o mesmo ano de inauguração do Municipal, a grafia manteve-se como era antes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ATLAS DA VIOLÊNCIA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo, 2019. BRASIL, Mariana. Acervo Agência Globo. Ed. Globo. Rio de Janeiro, 2018 BORGES, Juliana. Encarceramento em massa. Pólen Livros. São Paulo, 2019. CPDOC, FGV. Arquivo Ernesto Geisel. Arquivo. São Paulo, 2016. DOMINGUES, Petronio. Uma História Não Contada: Negro, racismo, e branqueamento em São Paulo no pós-abolição. SENEC, São Paulo, 2003. __________________. Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos. Scielo v.12, n23. 2007. FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. Universidade de São Paulo. Editora Anhembi. Vol.I e II. 1964. ______________________. Significado do Protesto Negro. Fundação Perseu Abramo. São Paulo, 2017. HANCHARD, M. G. Orfeu e o poder. EDUERJ. Rio de Janeiro: 2001. OLIVEIRA, Dennis de. Dilemas da luta contra o racismo no Brasil In: RACISMO. Revista Margem Esquerda. Editora Boitempo, São Paulo. 2016 SCHWARCZ, Lilia. Biografia como gênero e problema. Rev.História Social, n. 24, primeiro semestre de 2013.Campinas.
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Encontro Feminino Abadá Capoeira Por Adriana Rejane Gualberto Silva (professora Camaleoa) e Alessandra Machado Cardoso Melo (instrutora Orquídea)
foto Thiago August Na Capoeira sempre existiu mulheres que fizeram história juntamente com os homens, porém em um ambiente extremamente masculino, no qual os homens são a maioria, as mulheres ainda tinham pouca voz e, muitas vezes, tinham suas opiniões silenciadas pelo sistema machista existente também na Capoeira. O Encontro feminino surgiu a partir do aumento significativo das mulheres na Capoeira e da necessidade de organizar e dar voz a tantos talentos que nela sempre existiram. O primeiro encontro foi em 2010, formado por grandes lideranças femininas e a participação de instrutoras, graduadas e alunas. Desde essa época, o encontro feminino entrou para as atividades anuais fixas do calendário. O encontro feminino enaltece, valoriza e ajuda o despertar dos múltiplos talentos que há nas mulheres capoeiristas, podendo dessa forma aperfeiçoar a técnica, através dos treinos, aumentar a conexão feminina e ser um espaço de fortalecimento de uma com as outras. Um dos grandes feitos desses encontros foi o surgimento de competições femininas e também o festival de cantigas, onde as mulheres cantam e compõem suas próprias músicas de capoeira, sempre acompanhadas de boas cantadoras, tocadoras e um coral simplesmente sensacional. Através dos festivais as mulheres construíram a ideia de realizar o primeiro CD Feminino em 2013, com as músicas e cantigas campeãs dos festivais, geralmente são músicas com letras que retratam o dia a dia feminino dentro e fora da capoeira.
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fotos professora Camaleoa
Apesar de ser um encontro totalmente voltado para as mulheres, feito e organizado por elas, os homens têm participação nas aulas e cursos, além de ajudar na divulgação, e ao longo desses anos vêm cada vez mais aprendendo a respeitar o lugar das mulheres na Capoeira. A experiência dos encontros também ajudou as mulheres a reconhecer que o corpo feminino é capaz de realizar todos os movimentos que a Capoeira propõe, não há diferença na realização dos golpes, floreios e até mesmo velocidade, vimos que a força é talvez a única diferença dentro da Capoeira que existe entre homens e mulheres, esse é um fator que não se compete, porém a malícia e habilidade que existe na capoeira faz com que a mulher tenha igual desempenho diante dos homens. Contudo, sabemos que a Capoeira é uma luta de resistência, assim como nós mulheres resistimos estar nesse ambiente. A Capoeira é para todos: homens, mulheres, crianças, idosos e também é um espaço inclusivo e democrático.
Fotos Professora Camaleoa
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Fato é que a Capoeira é uma luta de libertação, criada no Brasil colônia pelos escravizados vindos da África. Ela se tornou parte da História responsável por ajudar os negros a se libertarem dos cativeiros e se organizarem como parte de grandes feitos nas lutas que representavam o que havia de África no Brasil, por esse motivo a Capoeira no mercado escravo teve importantíssima força para ajudar na libertação dos negros e suas lutas ajudaram o Brasil a reconhecer que a libertação dos negros era um dos fatores fundamentais para a Independência do Brasil. Desde essa época encontramos registros, apesar de serem poucos, pois sabemos que naquela época muitos feitos femininos foram ignorados e silenciados, várias mulheres contribuíram e lutaram junto à Capoeira para a libertação dos negros, e desta forma continuamos nessa luta de resistência para que as mulheres sejam cada vez mais valorizadas e reconhecidas, por elas lutamos para que o Brasil seja igual para todos, independentemente de serem homens ou mulheres.
Fotos Rui Zilnet
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A EDIÇÃO DA REVISTA OLHA SÓ! ENTREVISTOU A PROFESSORA DE SAMBA E PASSISTA DA ESCOLA AUSTIN SAMBA, IMANI AANU Imani: (...) muito obrigado por me incluir em seu projeto. É uma honra ser incluída. (...) Meu nome é Imani. Eu sou residente em Austin, Texas, desde 2005 (...) mudei de St. Louis, Missouri para Austin e eu viemos para Austin por causa da minha trajetória profissional. Eu estava naquela época no Programa de Auditoria Interna Global para uma empresa e a Dell me contratou para executar o programa de auditoria interna para América do Norte e do Sul. (...) Eu fiz isso por cerca de um ano e meio. E naquela época, ao executar esse programa de auditoria interna, eu tinha equipes em toda a América do Norte, do Sul e Central. Então, como você pode imaginar, esse trabalho profissional me levou ao Brasil novamente porque antes disso, na minha carreira antes da Dell (...) eu já tinha viajado bastante para o Brasil. E, claro, naquela época eu estava viajando profissionalmente. Cada vez que meu trabalho me levava ao Brasil e a qualquer outro país ou comunidade que fosse nova para mim, eu queria aprender sobre a cultura. Eu queria descobrir mais sobre a cultura. Então, naquela época, eu viajei originalmente para São Paulo. Eu viajei para Sa José Dos Campos. Estive em Porto Alegre muitas vezes por causa do meu interesse pessoal pelas raízes africanas da cultura brasileira, particularmente o samba, e pelas pessoas que
Foto de https://cbsaustin.com/ vieram de Angola e da costa oeste da África por meio do comércio transatlântico de escravizados e que trouxeram essa rica cultura. (...)Eu decidi viajar para o Nordeste (...) Bahia e Salvador, que basicamente roubaram o meu coração.
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(...) eu compartilhei essa informação porque foi nessa época que eu comecei a aprender sobre a cultura brasileira. Denise: Poderia falar um poquinho sobre teu trabalho na escola de samba aqui em Austin? Imani: A Acadêmicos da Ópera the Austin Samba School é uma escola de samba que foi idealizada e fundada fundada por Robert Patterson, que é conhecido pelo apelido de jacaré . Ele descobriu a música brasileira e ficou tão apaixonado e tão cativado que ele quis aprender tudo sobre a Música Popular Brasileira (MPB). (...) Ele é a pessoa que plantou a semente e criou a comunidade que eu encontrei. Ele já tinha conseguido formar uma bateria gigante. Eu não sei se você sabe, mas a bateria da escola de samba de Austin é um dos maiores grupos de percussionistas no país. A escola já tinha também um pequeno grupo de dança que basicamente se concentrava nos estilos de samba do Rio de Janeiro, e ele sempre quis incorporar danças que refletissem as raízes africanas do samba. Ele queria uma dança que refletisse estilos vindos de Salvador. E então, ele me pediu para começar um grupo de dança que pudesse trabalhar vários estilos. (...) Então, a partir de 2009, entrei para o Austin Samba. Atualmente, somos a maior comunidade de samba que conhecemos em toda a América do Norte que abraçou a cultura brasileira e quer mostrar as raízes dessa cultura por meio do samba. No momento, eu sou a diretora e coreógrafa da escola. Denise: Como acontece o Carnaval aqui em Austin?
Imani: O Carnaval nós fazemos de forma diferente porque aqui é inverno e por isso a escola se apresenta no galpão. E em vez de um desfile pela Avenida, nós preparamos uma hora de apresentações no palco. Cada ano é um tema diferente. E todos os integrantes da escola apresentam os diferentes elementos que uma escola de samba tem: baianas, passistas, percussionistas, as alas, os cantores, etc. É uma grande festa. E queremos nos divertir durante toda a temporada. Gostaria de destacar que também damos cursos e organizamos diferentes eventos pelo Caribe. Denise: Você falava da preocupação que vocês têm de ensinar e apresentar as origens do samba, você poderia falar mais sobre como você vê essas raízes? Imani: (...) Gosto de garantir que as pessoas entendam que esse ritmo e essas danças vêm de um povo, vêm de um lugar, vêm de uma experiência. É uma parte da história política que está profundamente enraizada e que é mantida com muita honra para mim e muitos de nós que é a história negra no Brasil. E eu tento garantir que as pessoas experimentem o samba através de minha aula, mas além da dança meus estudantes sempre vão conhecer um pouco da história do samba, que é a história do povo negro no Brasil. A história do samba se vincula a minha história, porque a gente aprende sobre a história dos nossos ancestrais e do nosso vínculo com os tambores africanos e as danças de várias partes do continente. Denise: Como o samba e sua história fizeram você perceber que há uma ancestralidade em comum entre negros brasileiros e negros americanos?
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Imani: É a história dos negros. E a nossa história, nossa cultura, é a história da luta por liberdade. (...) Eu sou uma pessoa negra que também está enraizada nesses ancestrais, e isso é muito significativo para mim. Mas é nítido, sendo uma pessoa que não nasceu no Brasil, mas que está refletindo essa cultura brasileira, é sempre importante prestar homenagem, honrar e reconhecer a importância dos ancestrais e dizer isso às pessoas que estão aprendendo comigo. Esse belo estilo de dança e música que estamos curtindo vem de um lugar de resistência e resiliência dos negros, do povo africano que foi levado ao Brasil e que teve que trilhar um caminho para sobreviver e prosperar apesar das condições em que estava. E assim, toda vez que estou (...) sambando, estou numa conexão com esses ancestrais. Estou dançando a revolução. Estou dançando a alegria e celebrando a força a energia do nosso povo.
Eu me aproximo desses tambores, dos ritmos, da cultura, dos ancestrais, das pessoas, da comida, da história, de todas essas coisas para conhecê-las e entendê-las melhor. E depois, entender mais e me identificar cada vez mais. Porque, como você bem sabe, a experiência dos nossos ancestrais no Brasil e o que eles passaram é semelhante à experiência de nossos ancestrais nascidos no Mississippi ou em outros estados do sul dos Estados Unidos. Eu acho que isso é tão interessante!
Denise: Então você sente que tem uma conexão maior com o samba mais que com os estilos, também negros, como o Jazz ou Soul? No samba é onde você sente essa conexão que vai mais além da arte, algo ancestral? Imani: Eu me identifico com nossos ancestrais e com a luta. E no samba, vou admitir, sempre tive uma conexão com a bateria. A bateria (...) me liga, me move. Então, especialmente no sul e no oeste do Texas os negros se conectam com essa alma do jazz, algo que também transcende. E eu gosto disso também, mas quando eu ouço a bateria, eu percebo que é uma coisa especial, uma coisa diferente. E eu sinto que através dos tambores, eu ouço a voz dos meus antepassados e ali eu sinto essa conexão. E então é sempre uma inspiração para mim (...) e meu espírito reconhece algo sobre o qual quero aprender. É isso.
Foto de https://cbsaustin.com/
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A EDIÇÃO DA REVISTA OLHA SÓ! ENTREVISTOU A CANTORA SUSANNA SHARPE Foto de Brenda Ladd
Foto de Susanna Sharpe
Foto de Susanna Sharpe Denise: Como começou a sua relação com a música? Susanna: A minha relação com a música começou desde a minha infância. A minha mãe foi cantora e compositora, e meu pai tocava violino em casa. A minha mãe sempre cantava comigo. Além disso, ela tinha um repertório em vários idiomas, então eu sempre tinha essa ideia que se podia cantar em qualquer língua. Denise: Quando o idioma português entrou na sua vida? Susanna Eu tinha pouca consciência do português até entrar na universidade. Eu já tinha um grande repertório em espanhol, porque eu falava espanhol e tinha vivido um tempo no Mexico. Eu conheci um amigo que era do Rio. Ele tocava violão e me ensinou umas músicas, e eu acho que ele me deu um disco da cantora Zélia Barbosa com músicas de protesto.
Comecei ter curiosidade. Mas na universidade, o meu namorado me deu um ou dois discos do Chico Buarque. Eu lembro a minha reação ao ouvir as primeiras notas da música “Ela desatinou.” Como dizemos em inglês: “I was hooked.” Uma coincidência: A minha mãe, sendo também compositora de letras para músicas, tinha colaborado com os músicos brasileiros Luiz Henrique e Walter Wanderley, quando eu era criança. Ela escreveu versões de duas canções para um disco deles chamado Popcorn, para o mercado norte-americano. As músicas chamam-se “Blue Island” e “Dusty Road.” Mas de criança, eu não tinha ideia nenhuma da música brasileira. Denise: Quando você começou a pensar em projetos musicais em português? Susanna: Acho que comecei incorporar algumas músicas brasileiras no meu repertório durante a universidade, mas eram poucas,
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só músicas que eu podia tocar com minha técnica meio básica no violão. Quando me mudei para Austin, me juntei ao Brazilian Ensemble da escola de música da UT, e aprendi a tocar alguns instrumentos de percussão e a cantar algumas músicas com esse grupo. Depois, em 1986, fui convidada para cantar numa banda, Quizumba, que era talvez a primeira, ou entre as primeiras bandas, de música brasileira na cidade. Eu entrei como “substituta” porque o cantor tinha saído. Mas eu gostei tanto que fiquei. Essa banda tocava toda quarta-feira num clube no centro de Austin e foi um show amado por muita gente. O lugar ficava lotado com pessoas dançando até uma ou duas horas da manhã. Alguns anos depois, em 1988, eu fundei uma banda chamada Susanna Sharpe and Samba Police. Essa banda tocava música brasileira de vários tipos, principalmente para dançar, e durou até o ano 2000. Depois disso, continuei apresentando shows de música brasileira, além de música em espanhol, com vários músicos excelentes em Austin. Denise: Como nasceu o projeto musical que é apresentado no seu quintal, na frente de sua casa? Susanna: Essa é uma linda história. Mais ou menos no final de abril de 2020, depois de umas 6 semanas de lockdown, de medo, de confusão e isolamento, que vivemos no começo da pandemia, eu estava sentada no meu quintal com uma vizinha, bebendo uma Margarita (comprada de outra vizinha que fez um “side business” para vender Margarita. A vizinha viu o meu filho, Paulo Santos, um saxofonista, e pediu pra ele trazer o saxofone pra alegrar a nossa tarde. Na época, o Paulo era estudante da UT Butler School of Music.
Ele foi pra casa dele, depois da vizinha insistir, e trouxe o grande sax, e fez para nós um show de uns 20 minutos de jazz, com improvisação. Já tinham chegado vários outros vizinhos com suas cadeiras, para ouvir a música. Eu já estava um pouquinho alegre por causa da Margarita, e falei “Que tal se a gente fizer um show aqui no quintal semana que vem? Chama o teu amigo que toca piano, e eu lhes pago!” O Paulo aceitou, e assim, fizemos o primeiro show no quintal, que foi livestreamed pelo Facebook, com o pianista Thomas Wenglinski. Depois de ver que os vizinhos tinham interesse e vontade de assistir shows, a gente começou chamar vários músicos e tentamos oferecer uma variedade de estilos, inclusive música brasileira. O público cresceu, e era tão generoso que os músicos ganhavam muito bem tocando no quintal, numa época em que os gigs tinham quase acabado. Este ano pensamos continuar com os shows. Denise: É um grupo composto por? É uma banda fixa ou rotativa? Susanna: A banda que tem tocado comigo recentemente está composta por: Marco Antonio Santos (violão, guitarra elétrica, arranjos); Juliana Silveira (teclados); Fabio Augustinis (bateria); Sergio Santos (percussão); Paulo Santos (saxofone); Ben Bradshaw (baixo); Susanna Sharpe (vocais). Denise: Membros da sua família também são músicos e tocam no mesmo grupo? Susanna: O Paulo é meu filho e o Sergio é meu esposo. Sergio e eu tocamos juntos desde os anos da UT Brazilian Ensemble, e ele sempre tocou comigo nas bandas que eu tive. OLHA SÓ! | 42
Denise: E os vizinhos? Foi tranquilo desde o início com eles ou já tiveram reclamações? Como foi resolvida questão? Susanna: Nunca tivemos problemas. Até chamam amigos para assistir os shows. Às vezes as crianças andam de bicicleta na rua durante o show. Uma família falou para mim que o filhinho deles nunca tinha ouvido música ao vivo. Muitos vizinhos chegam para mim para agradecer, me deixam recados, etc. O show é de uma hora e acaba na hora do pôr do sol, então nunca tivemos reclamações. E temos uns vizinhos que são dançarinos de “tap,” e eles fizeram uma performance uma vez que foi lindo.
Denise: Vocês fazem shows em outros espaços? Quais? Susanna: Eu, com Brazil Night, vou fazer um show no Central Market dia 25 de março. Também gravamos um livestream no Monks Jazz, que está na YouTube aqui: https://www.youtube.com/watch? v=5kTWppNrbvU Denise: Já gravaram CDs? Susanna: Com este grupo, ainda não.
Denise: O projeto tem um nome? Como nasceu a ideia do nome? Susanna: O projeto dos shows no quintal tem o nome Karen Avenue Quarantine Concert Series. A minha banda não tem nome, então tenho chamado-a de Susanna Sharpe: Brazil Night. Denise: As gratuitas?
apresentações
são
Susanna: São gratuitas, mas eu convido o público a dar gorjetas. Até hoje, as gorjetas têm sido tão generosas que nunca tive que pagar a banda (além da primeira vez, quando o show foi bem pequeno). Mas quero dar ênfase: os músicos não tocam de graça e não deveriam tocar de graça. E seu eu fosse dona de um bar ou um clube, eu nunca pediria para eles só tocarem por gorjetas. Uma das musicistas falou pra mim: “It’s the most wholesome gig in Austin.” Todo mundo gosta de tocar lá porque é bem agradável, e o pessoal vem mesmo para escutar.
Foto Susanna Sharpe
Foto Susanna Sharpe
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ENTREVISTA COM O EMPREENDENDOR E DONO DO PASTEL SÃO PAULO DIOGO ASSIS
Fofos: Diogo Assis
Denise: Você é natural de qual estado? Diogo: São Paulo. Denise: Quando você chegou nos EUA? Você veio direto para Austin ou esteve em outras cidades antes? Diogo: Cheguei em Austin em dezembro de 2016. Uma dia depois do natal. Vim direto para Austin. Denise: O que te fez mudar para os EUA? Diogo: Vim pros EUA com o objetivo de tentar um master degree in animal science, na Texas A&M. Na época, queria mudar minha carreira e trabalhar com agribusiness no Brasil. O objetivo era vir pra cá, cursar o master e voltar para o Brasil para aplicar meu conhecimento.
Na época que estava começando a me planejar para a viagem, uma amiga, que tinha morado em Austin e também conhecia College Station, me sugeriu ficar em Austin. Como não falava nada de inglês eu precisava fazer um curso de idiomas antes de iniciar qualquer coisa. Então optei por vir pra cá (Austin). Denise: Como começou a ideia do Food Truck? Diogo: Sempre gostei da ideia de empreender. No Brasil, fiz parte de uma escola de mergulho e uma startup de gestão esportiva para condomínios residenciais. A ideia veio da junção de dois fatores: primeiro a falta que eu sentia de comer um pastel de feira, igual o que se vê nas feiras paulistanas, e segundo a vontade de empreender.
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Denise: Por que um Truck e não uma lanchonete ou um restaurante? Diogo: O principal motivo foi o capital inicial que precisei para começar o negócio, outro fator foi a flexibilidade de horários que o foodtruck te dá. Como eu não sabia se a ideia daria certo, e também pela falta de experiência no mercado americano, o foodtruck foi a minha melhor opção. Já um restaurante ou lanchonete te demanda um investimento de capital inicial muito maior do que o foodtruck, além de ser mais burocrático também. Denise: Por que o Pastel? A escolha tem algum valor simbólico ou foi escolhido pela falta de uma pastelaria na região? Diogo: Eu cresci indo para as feiras semanalmente, em São Paulo, para comer pastel. Me lembro que quando eu era criança, eu acompanhava meu pai aos domingos à feira e sempre parávamos na barraca do pastel. Então é uma comida que tem uma conexão muito forte com as minhas origens. E também porque não tinha ninguém em Austin fazendo pastel artesanalmente.
Fofos: Diogo Assis
Denise: Você trabalha sozinho ou conta com mais alguém? Diogo: Eu tive ajuda no começo, tinha um colaborador, mas agora estou sozinho. Mais quando temos algum evento grande, minha esposa, Josie, me ajuda também. Denise: O Pastel é totalmente artesanal ou tem algum ingrediente que é pre-pronto? Fofos: Diogo Assis
Diogo: O pastel é totalmente artesanal e feito no nosso trailer.
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Denise: É uma receita de familia? Diogo: Não, a receita eu desenvolvi através de várias pesquisas e também com a contribuição de um grande amigo de infância, Antônio Kina, que trabalha no ramo de pastéis no Brasil. Denise: Há quanto tempo você está nesse ponto? Diogo: A Pastelaria vai fazer 4 anos no próximo mês de junho, e nesse endereço atual estamos há 3 anos. Denise: Você atende em outras áreas? Diogo: Não, atualmente estamos fixos no West Campus. Denise: Há novidade para o futuro?
Atenção aos horários de funcionamento da Pastelaria São Paulo: Fechado nas Segundas e Terças Aberto de Quarta a Domingo das 12h às 21h
Diogo: Sim, em breve trocaremos o trailer por outro maior. O que vai nos ajudar e muito nos eventos que planejamos participar. Além disso, estamos trabalhando na possibilidade de industrializar a nossa massa para ser revendida aos clientes que desejarem fazer seus próprios pastéis em casa.
Comentários da edição: Está curioso para saber de quê é feito o pastel Romeu e Julieta e provar todos esses pastéis que ilustraram nossa entrevista? Para saber a resposta e provar essas delicias só indo na Pastelaria São Paulo que está localizada na rua 2512 Rio Grande. Austin, Texas 78705 Fofos: Diogo Assis
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A EDIÇÃO DA REVISTA OLHA SÓ! ENTREVISTOU O PROFESSOR DE PERCUSSÃO STEPHAN MÜLLER Denise: Poderíamos começar tua entrevista com uma apresentação pessoal tua? Quem é o Stephan por ele mesmo? Stephan: Então, eu me chamo Stefan, eu nasci em Erfurt, a capital de Turíngia aqui na Alemanha. Agora eu estou morando em Leipzig, desde 2016. Fiz um mestrado em Viena na àrea de língua estrangeira, porém, antes disso tudo, (...) eu estudei e trabalhei no Brasil 2 anos e 1 semestre durante a minha graduação. Denise: Em quais cidades brasileiras você esteve e por quanto tempo? Você lembra? Stephan: (...) Entre 2006 até 2011 eu estudei alguns semestres em Belo Horizonte no Centro de Extensão da Faculdade de letras da UFMG (Cenex FALE), onde além de estudar, eu fiz estágio no qual eu dava aulas de alemão como língua estrangeira. E depois de concluir meu estágio em BH, eu voltei para Alemanha para terminar minha graduação. (...) Voltei ao Brasil e trabalhei por mais dois anos em Curitiba e em Belém do Pará.
Denise: Foram muitos anos de ponte aérea entre Brasil e Alemanha? Stephan: (...) Sim, de 2010 até 2011, voltei em 2013 e fui para Curitiba. Em 2014, voltei para cá (Alemanha) e trabalhei por um ano dando aula de percussão de samba aqui. Entre 2015 e 2016, estive em BH, no Belém do Pará e em Curitiba. Denise: E como surgiu teu interesse pela música e especialmente por percussão? Stephan: (...) Foi totalmente por acaso. Não procurei e não tinha nenhum contato com a música brasileira, ouvia muitos estilos mas não tinha vontade de aprender sobre musicalidades brasileiras até que (...) a energia da percussão, da Batucada, me encantou muito. Então eu comecei a frequentar esses ensaios e era tudo novo e uma loucura para mim. Eu ia para dois ensaios por semana. E realmente me deixei levar por aquelas músicas dos ensaios. Elas me puxavam muito. Então de lá pra cá eu comecei (...) a ouvir música brasileira, e ouvia tudo em português, então tinha que aprender português mesmo (risos). Eu uni o útil ao agradável.
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https://www.facebook.com/arraialdopavu lagemoficial/photos
Denise: Como foi o teu contato com os estilos de músicas das cidades que você conheceu? Stephan: Lá em BH (...) fui para algumas apresentações de um cortejo de Maracatu, um grupo formado por mulheres. (...) Eu lembro muito bem dessa experiência. Eu nunca havia ouvido Maracatu de perto e foi muito impressionante. Não só a energia das mulheres e do batuque dos tambores mas também o canto das mulheres (...), sem dúvida foi uma experiência muito forte. Em Curitiba a galera não conversa muito sobre samba, mas lá eu conheci uma galera de um bloco que se chama Garibalde (...) já faz 20 anos que esse bloco existe e lá comecei a tocar ritmos carnavalescos de bloco de rua. Nesse grupo tive contato com mais instrumentos e comecei a estudar até ir me aperfeiçoando. Quando fui para o Rio de Janeiro, tive a oportunidade de estudar o samba dentro da escola de samba, lá junto com os percussionistas. (...) Na bateria de uma escola de samba você pode errar nos ensaios,
mas a escola de samba não te permite errar na apresentação na avenida (no desfile de Carnaval). Num desfile tudo conta, vale ponto para escola e também tem muiro dinheiro envolvido. (...) Tem toda aquela pressão em cima da bateria. Denise: Quando você começou a dar aulas de percussão? Stephan: Eu faço parte de uma associação na Turíngia que tem grupos em Erfurt e (...) lá eu dou aulas e faço meus ensaios, e posso ganhar dinheiro com isso também. (...) Eu trabalho nas segundas e sextas-feiras. Na sexta, antes desse de dar aulas nessa associação, eu dou aula numa escola pública para alunos da 5ª série. É uma parceria bem legal com a escola e professores das ciências exatas, porque eles usam o samba como uma ferramenta para ensinar matemática. Denise: No total você está dando aula de percussão há quantos anos?
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Stephan: Uns 14-15 anos. Denise: E como foi para você trabalhar na pandemia com percussão. Foi possível ter aulas virtuais? Stephan: Não tive muitas aulas. Eu gravei alguns vídeos para o pessoal estudar um pouco em casa, mas isso não é uma coisa muito muito legal, é uma situação muito louca. Então tive a ideia de ouvir música brasileira e reunir meus alunos uma vez por semana. Vi que meus alunos não escutavam música brasileira, e para tocar uma música você tem que escutá-la e se familiarizar com o estilo. Começamos a ouvir música brasileira e eu dava sugestões de como toca-las. (...) A gente ouvia a música juntos, eu compartilhava com um vídeo no YouTube e juntos falávamos sobre os estilos porque tem tantos estilos musicais no Brasil, tem tanta música diferente. E algumas músicas nos fizeram conversar sobre questões sociais e outro assuntos importantes. Denise: Você tem ido ao Brasil? Stephan: Não voltei mais para o Brasil, mas eu tenho planos de fazer uns trabalhos por lá em breve. Porém, no momento, devo me estruturar por aqui mais um pouco. Eu tenho saudades do Brasil e das pessoas que conheci por lá. Queria voltar para visitar (...), quem sabe no ano que vem? Seja o que Deus quiser, né? Espero que o Brasil tenha um governo novo e que tudo possa estar um pouco mais tranquilo outra vez.
Fotos: https://www.escola-popular.de/blog/
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VOCÊ É UMA PESSOA CURIOSA? E POR ISSO VOCÊ GOSTARIA DE SE AVENTURAR EM ALGUM INTERCÂMBIO, MAS ESTÁ CHEIO DE RECEIO E DE DÚVIDAS? ENTÃO ESSA PARTE DE NOSSA EDIÇÃO É PARA VOCÊ! A EDIÇÃO DA REVISTA OLHA SÓ! CONVERSOU COM TRÊS JOVENS QUE ESTÃO FAZENDO INTERCÂMBIO E ESPERAMOS QUE SUAS EXPERIÊNCIAS POSSAM AJUDAR VOCÊ A SE DECIDIR.
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INTERCÂMBIO APÓS OS 30 Por Isabela Braz Oi, meu nome é Isabela Braz. Eu sou estudante de Economia pela Pontifícia Universidade Católica do estado de Minas Gerais – BR e intercambista em Dublin como estudante de língua inglesa, desde março de 2020, mesmo período do qual desenvolvi interesse por Marketing Digital, mais especificamente em estratégias e negócios digitais. Bem, há um tempo recebi um convite para contar brevemente sobre a minha experiência como intercambista depois dos 30, e “Olha Só” me vi duplamente surpresa. De um lado, por sentir certa estranheza pelo “depois dos 30” (conceber tal ideia, vez ou outra ainda me causa um leve desconforto), e do outro, um sentimento síncrono e refrigério por ter me permitido tal aventura. Com relação a primeira sensação, tenho tentado me adaptar às honrosas mudanças que naturalmente são trazidas pelo tempo. Ter de lidar com todas elas e entendê-las tem se tornado um exercício regular. E para a seguinte, foi mediante a essas tantas transformações, e já no fim da curva decrescente dos meus 29 anos, que decidi viver essa escolha. Serei prosaica. Me lembro que ao chegar na ilha, além de algumas peças de roupas (que hoje eu sei que nem longe eram apropriadas
Foto de Isabela Braz .Temple Bar – Dublin, Irlanda
para o frio que me aguardava) trazia também na bagagem, e em escala planetária, uma vontade de concretizar tudo o que eu havia planejado e estabelecido como meta. Naquele ano, além das adversidades frequentes das quais um intercambista tem de enfrentar, também tive de lidar com os efeitos e impactos da pandemia, causados pela COVID-19.
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A princípio, o meu principal obstáculo foi a língua, eu nunca tinha estudado inglês anteriormente e para não dizer que eu não sabia nada, até que eu conseguia entender quando falavam “hi/hello”, “your name” e “bye”. Bem, diante disso, sem o domínio do idioma, os próximos passos já eram de se imaginar... Certamente, ter morado com uma host family, nos meus primeiros 8 meses, me impulsionou a aprender mais rapidamente sobre parte do universo irlandês. Apesar de eu ter podido contar com a consultoria de uma agência de intercâmbios, para tratar alguns trâmites logo quando cheguei, um outro ponto importante foi construir uma rede de contatos, principalmente para conseguir os primeiros trabalhos e acomodação. Nossa, e quantos trabalhos! Trabalhei como cleaner e como kitchen porter por 2 meses nas férias de verão; trabalhei e morei em um hotel 5 estrelas, em uma das cidades irlandesas que mais gosto, além de ter viajado para vários lugares e ter feito ricas e valiosas amizades.
Foto de Isabela Braz
Foto Isabela Braz Foto de Isabela Braz
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Sem mais, posso concluir que este intercâmbio tem sido um dos meus melhores investimentos. Tenho vivido novas descobertas e versões melhoradas de mim mesma. Desfrutar essa experiência com maior discernimento, foco e maturidade talvez seja a única diferença relevante por ter vindo na fase adulta. Salvo isso, lembrase do “depois dos 30”? Pois bem, ele foi perdendo a sua força e deu lugar a um acervo de desejos e célebres memórias. A cadência com a qual optei levar a vida e tomar algumas decisões me direcionaram/direcionam a pensar em outros depois, “depois desse intercambio”, “depois dessa viagem”, “depois desse projeto”. Agora são tantos depois que, às vezes, me perco na cronologia da vida. Espero poder ter tempo e condições para realizar todas essas vontades. Por ora, aguardo, ansiosamente, a próxima aventura “depois dos 40”.
Fotos de Isabela Braz
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A EDIÇÃO DA REVISTA OLHA SÓ! ENTREVISTOU AS AU PAIRS ANDREZZA VIEIRA E LUANA LORRAYNE DE OLIVEIRA COELHO Luana e Andrezza são brasileiras, Luana é da cidade Betim em Minas Gerais e Andrezza é da cidade de Salto, interior de São Paulo: Ambas estão nos Estados Unidos trabalhando como au pairs e vão falar um pouco dessa experiência para nós. Denise: Quando começou a sua procura por um intercâmbio, Luana? Luana: Eu cheguei nos Estados Unidos há três anos. Eu vim em (...) 2019 e esse foi um dos processos de intercâmbios mais baratos e acessíveis, na minha opinião. Eu acredito que neste intercâmbio você faz um investimento e recebe um retorno mais rápido do que nos outros intercâmbios, mas gostaria de destacar (...) que mesmo sendo o intercâmbio mais barato, na minha opinião, ainda assim reconheço que o preço não seria acessível para muitas pessoas que gostariam de participar, o que é muito triste. Eu sempre tive vontade de fazer um intercâmbio e por isso desde dos 12 anos de idade venho tentando aproveitar alguma oportunidade. Por isso, considero o meu processo de busca de um programa e de participação em algum intercâmbio um processo longo pra mim. Para que eu pudesse participar desse intercâmbio eu tive que correr atrás dos requisitos exigidos, como por exemplo a carteira de habilitação. Denise: E quais são esses requisitos?
Foto de Luana
Luana: A pessoa deve ter entre 18 e 26 anos, carteira de habilitação e ter no mínimo 200 horas comprovadas de trabalho na àrea de cuidado infantil. Lembrando que aqui nos EUA a pessoa terá que tirar sua carteira de habilitação também, mas o processo é bem mais tranquilo. Eu não tinha a carteira e pude vir dois anos antes da idade permitida no programa de au pair.
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Denise: Como uma pessoa poderia comprovar essas 200 horas de trabalho com crianças se ela nunca trabalhou numa instituição ou escola por exemplo, há outras formas aceitáveis de comprovação? Luana: Sim. Para uma pessoa que nunca trabalhou num instituto infantil ou escolinhas, mas que ajuda a cuidar dos filhos de algum parente, vizinho ou amigos, ela tem a opção de pedir referencias e registrar as horas trabalhadas para comprovar que de fato já trabalhou com crianças. Um detalhe importante é que a pessoa tem que gostar de crianças porque ela vai trabalhar 45 horas semanais - que é o máximo - com as crianças. Então se você não gosta de criança, é complicado. Denise: Como é o processo de escolha das famílias? Você já passou por quantas famílias?
Luana: É em comum acordo. A família te escolhe e você escolhe a família. Então há um processo de entrevista onde a familia e a au pair falam sobre os requisitos. Os requisitos são os itens que são importantes para você, por exemplo, no meu caso, num primeiro momento era ter carro, ter a empatia da família e não ser tratada de qualquer forma, mas sim como uma pessoa adulta. Eu passei por duas familias antes de chegar nessa que estou agora. A primeira desistiu na semana de eu viajar para os EUA. Eu que já estava com a papelada e tudo pronto. Encontrei rapidamente uma outra familia, mas quando cheguei vi que todos os requisitos que eles combinaram comigo não estavam sendo cumpridos. Apenas um não fugia muito do que a mãe das crianças me falou. Ela me disse que seria muito trabalho, e era muito, mas muito trabalho mesmo. (...) Fui para a terceira família. que tinha várias coisas que eu acreditei que seriam legais. Tanto é, que eu tenho um elo bacana com eles. Denise: E sobre o idioma, você já tinha feito inglês no Brasil ou aprendeu aqui? No início foi complicado para você se comunicar? Luana: Eu acho que foi um choque no início pra mim. Eu não sabia muito e creio que já tive uma evolução muito grande, mas eu ainda preciso melhorar, claro. (...) Eu sinto que ainda tenho muitas barreiras com o inglês. Morando com a família e conversando com as crianças diariamente eu aprendi bastante. A barreira que eu digo, vai mais além do aprendizado. Ela pode ser cultural também. Por exemplo, na minha primeira familia os pais eram indianos, então eu não entendia bem o que eles falavam porque eles também estavam no processo de aprender a falar bem o idioma.
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Eu faço de tudo para me comunicar o melhor possível. Faço mímica. E se eu não consigo falar uma palavra eu busco logo outras formas para falar, outras frases. E depois, a gente não fica trancada em casa. Você precisa se virar. Você tem que entender o trânsito, resolver problemas comuns e diários que em outro idioma ganham outra proporção. Se eu tinha que resolver isso ou aquilo, eu às vezes não conseguia. Não conseguia resolver coisas pra mim mesma no início, mas no momento eu consigo resolver tudo, sabe. Hoje em dia, sim.
Fotos de Luana
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Denise: E você Andrezza, o que te motivou fazer esse intercambio? Andrezza: Quando eu estava com mais ou menos com 24 anos, eu pensei: "não gente, preciso de uma mudança". Eu trabalhava há oito anos na mesma empresa e eu já estava enjoada de ficar ali. Não tinha uma perspectiva de crescimento, sabe. Eu gostava das pessoas com que eu não trabalhava, elas me tratavam muito bem, mas era isso. Eu não tinha visão de crescimento ali dentro. Denise: Qual é a sua formação? Andrezza: Eu sou formada em Comércio Exterior, e eu me formei acho que um ano antes de vir para cá (EUA). Denise: Como você ficou sabendo do programa au pair? Andrezza: Eu descobri o programa por uma amiga quando eu tinha 15 anos, mais ou menos. O curioso é quando eu era adolescente, eu falava sobre ir embora do Brasil porque naquela época eu dizia para as pessoas que eu não gostava do Brasil. Mas aí, quando eu comecei a viajar pelo Brasil, eu me apaixonei pelo nosso país. Eu descobri que eu amo o Brasil. Hoje eu entendo que não dá para amar sem conhecer. Eu sou do interior. Enfim, essas coisas, quem conhece o Brasil não tem como não amar. E daí eu deixei esse sonho de lado, depois tive alguns relacionamentos e só quando eu já estava com 21 para 22 anos foi que eu voltei a pensar nisso de novo. Denise: Com quantos anos você saiu do Brasil para começar a trabalhar no programa?
Foto de Andrezza
Andrezza: Eu entrei no programa com 24 anos, vim em fevereiro de 2020. Hoje eu estou com 26 Denise: E você já falava inglês antes de entrar para o programa? Andrezza: Sim eu trabalhava com inglês, mas o inglês que eu tinha era aquele inglês de bunisses (risos), aquele que só fala sempre as mesmas coisas (...) eu não tinha o inglês do dia a dia. Nossa... era bem fraco e isso foi uma das coisas que pesou bastante antes de vir para cá, porque eu não tinha um diálogo assim... fluente mesmo, sabe... (...) Então, isso pesou bastante. Num foi fácil no início.
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queria vir aqui pro Texas. Eu tinha uns preconceitos sobre o Texas, eu achava que era um estado muito cowboy ainda, muito conservador e muito machista. Infelizmente tem essas coisas, mas também tem as suas vantagens aqui, como por exemplo o clima, o inverno aqui não é tão severo (...) e aqui também não tem furacão... essas coisas. Eu gosto muito de morar aqui e quando eu conversei com essa família (...) eu vi que a gente se deu bem. Vi que eles gostavam das mesmas coisas que eu. (...) Eu gosto muito deles e acho que tive sorte de encontrá-los. Denise: Essa é a sua experiência como imigrante?
primeira
Andrezza: Sim, essa é a minha primeira experiência. As únicas viagens que eu fiz foram pelo Brasil. (...) Eu não conhecia nenhum outro país. Fotos de Andrezza
Denise: E quais foram os seus critérios para escolher a familia? Andrezza: Então, eu não queria trabalhar nos finais de semana, queria ter um carro para me locomover com ou sem as crianças e também perguntava se a familia não gostava de pessoas tatuadas. E uma vez a dona da casa disse que ia perguntar/pedir pro o marido.... (risos) Aaaaa, não... se vai ter que pedir permissão sobre tatuagem para o marido, então não. É tanto que quando apareceu essa família que eu estou atualmente, eu já estava de saco cheio de tanto fazer entrevista. Denise: Essa é a sua primeira familia ou a segunda? Andrezza: Essa é a minha primeira familia. (...) Depois de muitas entrevistas, entrou essa família. Nós conversamos, mas eu não queria
Denise: Você também teve dificuldades com o tema da carteira? Andrezza: Eu já dirigia no Brasil desde os meus 18 anos. Eu tirei minha carta com 18. Então quando eu cheguei aqui, com esses carros automáticos, não foi tão difícil porque eu já tinha dirigido um carro automático. O que foi um pouco mais complicado foi só pelas diferenças do que se pode ou não fazer no trânsito. Aqui você pode virar um sinal vermelho, também virar para a direita e o sinal de pare é de pare mesmo. No Brasil também (risos). É, tem umas coisas diferentes. Mas depois que você se acostuma, aí é tranqui. Denise: Depois de viver tanta coisa aqui, inclusive estar aqui durante a pandemia, e também de observar nosso país desde um outro ponto de vista, eu gostaria de saber se vocês querem
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voltar para o Brasil e qual a expectativa dessa volta ou vocês querem seguir vivendo fora do país? Andrezza: Eu não tenho mais vontade de morar no Brasil hoje. (...) Eu não me vejo mais morando na minha cidade, por ser uma cidade do interior e por várias questões. Eu amadureci aqui, eu me tornei uma outra pessoa que já não se enquadra com a cultura da cidade. Eu teria que morar em São Paulo, mas... não. Tá tudo muito caro. As questões políticas também, não dá. Eu trabalhava muito no Brasil, mas não conseguia juntar nada. Se eu trabalhasse aqui o tanto que eu trabalhava no Brasil, eu iria conseguir ainda mais coisas. Aqui você trabalha bastante, mas você tem mais oportunidade de conseguir fazer suas coisas. Tem coisas aqui eu acho que a gente deveria ter acesso gratuito como a saúde pública, ter um sistema igual ao do Brasil, mas é isso. Vejo que aqui eu trabalho e tenho mais resultado. Luana: Essa é uma pergunta que eu me faço bastante e estou cada dia mais em crise. Há uns 3 ou 4 meses atrás eu estava certa de querer voltar pro Brasil, mas agora eu tenho dúvida. Tenho feitos planos A, B, C e D (risos), mas decidi que devo voltar para o Brasil e se eu perceber que não tá rolando nada, que as coisas não estão andando, sabe, aí é ir embora de novo. Creio que o primeiro passo eu já dei, que foi viver essa experiência e aprender outro idioma... Foi difícil tomar a decisão de voltar pro Brasil, mas também não acho que tenho que necessariamente ficar lá, se as coisas não estiverem dando certo.
Fotos de Andrezza
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Receita do Pudim centenário Abade de Priscos, um pudim que é feito em Portugal desde o século 19. Anote a receita!! POR SAMUEL ANTENOR
Foto de samuel Antenor
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Conheci a receita em Lisboa, em 2017. Lembro que me senti o próprio Anton Ego, o crítico gastronômico de Ratatuille. Comi sentado no degrau de uma escada, mas é para comer de joelhos. No fim da viagem, comprei um livro de receitas portuguesas para, um dia, criar coragem e me arriscar a fazer este que foi um dos candidatos finalistas às sete maravilhas gastronômicas de Portugal. Criado por um abade da região de Braga no final do século 19, anote os ingredientes: Para o pudim: - 15 gemas - 500 gramas de açúcar - 250 ml de água - 50 ml de vinho do Porto - 50 gramas de toucinho (de porco) Para a calda do pudim: - 1 kilo de açúcar - 1 pau de canela - 300 ml de água Preparo:
Em uma panela, ou na própria forma onde será feito o pudim, deixe o açucar virar caramelo bem dourado e em seguida o coloque a agua e o pau de canela. Espere o caramelo derreter e ficar uma calda bem cremosa e reserve.
Foto de samuel Antenor
Em uma panela coloque a gordura, a água e o açúcar. Deixe ferver até a calda chegar no ponto de pérola fraco. Misture na calda o vinho do Porto e retire o toucinho. Coloque as gemas numa tigela e junte a calda de açucar aos poucos. É necessário misturar muito bem. Em seguida coloque o creme na forma de pudim por cima do caramelo. Leve para o forno em banho-maria numa temperatura de 180 graus. Após uma hora em banho-maria, espete a massa com uma faca, se ela sair limpa é porque o pudim está pronto. Retire do forno, deixe esfriar. Depois você deveria desenformar e colocar o pudim na geladeira por 1-2 horas antes de servi-lo.
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Conheça
o
programa
Portuguese
Flagship of the University of Texas!
Por Lindsey Jamieson
O ano de 2022 foi empolgante para o Programa Flagship Portuguese (PFP) na Universidade do Texas, em Austin. Após dois anos de atividades virtuais, ficamos extasiados em poder trabalhar com os estudantes de forma presencial. Organizamos uma série de eventos divertidos tais como: uma noite de cinema em português, no cinema da Universidade, e um workshop de Brigadeiro, um tradicional doce brasileiro.
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Também realizamos um dia de desenvolvimento profissional para os estudantes tirarem fotos para seu perfil no LinkedIn e aprender mais sobre o site de networking profissional. Fizemos dois encontros com as turmas de 2021 e 2022, nos quais os estudantes puderam se conhecer, se informar e produzir um currículum brasileiro. No outono de 2021, a Universidade da Geórgia (UGA) recebeu os estudantes em um divertido encontro de quatro dias para explorar Atenas e Atlanta. Na primavera de 2022, ambos as turmas (2021 e 2022) viajaram para Miami para vivenciar a cultura brasileira durante o fim de semana. Afinal, devido à pandemia, eles não puderam viajar para o Brasil durante os anos letivos de 2020 e 2021.
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Além disso, 2022 marcará o primeiro ano em que os alunos da Universidade da Geórgia poderão participar do programa de verão da Universidade do Texas que se realizará em Salvador, Brasil. Dessa forma, o programa de verão terá quase 30 participantes viajando para o nordeste do Brasil no final de junho de 2022. Os estudantes estarão na região por sete semanas. No final da primavera de 2022, os patrocinadores do programa flagship nos informaram de que a programação no país poderia ser retomada. Nos alegramos com a notícia e rapidamente começamos a planejar os próximos passos. Por isso, decidimos que a turma de 2021 viajaria para o Brasil no final do mês de maio para realizarem um mês de estágio em São João del Rei. A turma de 2022 viajará para o Brasil junto com a turma de 2021, eles passarão um mês em São João del Rei e em seguida para estágio de verão em Salvador, citado acima. Após essas semanas de mapeamento e contato com o idioma, finalmente nossos estudantes participarão de um estágio de 5 meses a partir de agosto em algumas empresas parceiras no Brasil. Estamos ansiosos por todas as grandes coisas que virão no ano que vem e desejamos a ambas as turmas toda sorte do mundo nessa maravilhosa temporada no Brasil. Sabemos que essas semanas trarão experiências inesquecíveis e importantes para a carreira de nossos estudantes. Estamos emocionados e entusiasmados por esse recomeço pós-pandemia!
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A Relevância do Português nos
Estados Unidos Por
Em
Orlando R. Kelm - Diretor, PFP UT Austin
março
recebemos
brasileiros
numa
que
missão
empresarial
a
visita
vieram
para
empresarial
foi
de
o
vários
Texas
empresários
para
Brasil-Texas.
organizada
pela
Câmara
visitantes, eles criaram boa vontade. Sem exagerar, os
participar
alunos
A
empresários
missão
Texana
de
criaram
um
sentimento
ficaram
positivo
convencidos
que
de
apoio.
Os
queriam,
de
verdade, abrir negócios com empresas aqui no Texas.
Comércio no Brasil. Eles se reuniram com representantes
Eu
do
de
relevância do português nos Estados Unidos, que, como
negócios em Houston, Dallas, e San Antônio. A verdade é
foi dito aos empresários, desde 2018 os Estados Unidos
que o inglês deles foi limitado, que implica que todas a
consideram
reuniões
de
críticos no país. Mas, mais importante ainda é que esse
o
evento evidenciou a relevância da comunicação. Quando
governo
e
com
empresários
incluíam
tradução.
Tudo
o
deu
desafio
certo,
de
de
mas
vários
setores
intérpretes
com
toda
ou
certeza
problema da língua foi desafiante.
Entre
as
atividades,
o
esse
evento
português
dá
como
tentaram
se
evidências
um
dos
sobre
cinco
comunicar
a
idiomas
com
esses
reuniram com os alunos da Universidade do Texas que
alunos e empresários fizeram um esforço de entender
fazem
ambas culturas, isso era relevante. E quando os alunos
Durante
essa
programa
reunião,
do
os
também
alunos
se
empresários em português, isso era relevante. Quando
do
visitantes
sei
se
parte
esses
os
não
Portuguese
alunos,
em
Flagship.
português,
se
interessaram
nos
projetos
e
nas
ideias
dos
interagiram com os ilustres convidados, almoçaram com
empresários, isso também era relevante.
eles,
os
A experiência com os empresários brasileiros foi ótima.
acompanharam em um tour pelo campus, e descreveram
Sem dúvida, apesar das importantes reuniões que eles
por que queriam aprender o português. Depois eu fiquei
tiveram
pensando
representantes do governo, o que mais impressionou foi
explicaram
vieram
no
para
o
plano
impacto
dessa
o
com
Texas
de
estudo
visita.
o
Esses
desejo
de
deles,
empresários
cooperar
com
empresas norte-americanas, eles queriam colaborar em
a
simples
com
parceiros
interação
com
um
profissionais
grupo
de
e
alunos
com
norte-
americanos que falaram com eles em português.
atividades de benefício mútuo. A cada passo eles tinham
que enfrentar o desafio do inglês, quer dizer, menos no
caso
da
visita
com
esses
alunos
da
Universidade
do
Texas. Os empresários brasileiros ficaram maravilhados
com o português dos alunos e com a habilidade deles. De
uma
certa
forma,
os
alunos
validaram
a
importância
desses
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Olha
só!
Temos
Bate-Papo
Conectado na área!
Por Daniela Meireles
Amigos e parceiros da língua portuguesa, trago ótimas novidades desde a minha última colaboração para a Olha Só! Magazine em 2020! O Portuguese Flagship Program (UT Austin) e o CofC Portuguese Club (College of Charleston) são agora parceiros num projeto nacional, o “Connected Bate-Papo”. O projeto engaja professores, conselheiros e alunos de português de Universidades nos Estados Unidos. O projeto foi criado para os interessados em praticar português através de conversas culturais relacionadas ao mundo lusófono. Ao mesmo tempo, a iniciativa propicia a formação de redes de contatos para os futuros profissionais falantes de português nos Estados Unidos e em outras regiões. Oferecemos nosso primeiro Bate-Papo Conectado na primavera de 2021 com a participação dos alunos de português do College of Charleston e da UT Austin com a professora Andreana Marchi. Os participantes fizeram um tour virtual pelo campus da UT Austin e do CofC, conversaram sobre a experiência de
aprender português nos Estados Unidos, bem como sobre seus projetos futuros envolvendo o português. Naquela ocasião, tivemos a animada participação do Brazil Nuts Portuguese Club da Universidade de Pittsburg, dos alunos de português da Saint Mary’s University em San Antonio, TX e de ex-alunos de programas de português que hoje moram em outros países. Também participaram em alguns dos eventos, membros falantes de português da cidade de Charleston, SC. Atualmente, o projeto “Connected BatePapo” está sendo liderado pelas professoras mineiras Daniela Meireles (College of Charleston) e Denise Braz (UT Austin). O que era bom está ficando “bom demais da conta”. O grupo continuou ofercendo apoio mútuo e motivação enquanto praticavam português e ampliavam seu vocabulário geral na língua. Durante as conversas sobre folclore brasileiro, festas, comidas e bebidas típicas que a gente adora, nós todos nos deleitamos com as história hilárias da Prof. Denise (estou rindo até agora)!
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Anúncio do Bate-Papo Conectado para os alunos do CofC Foto de Daniela
Foto de Daniela
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Foto de Daniela
Foto de Daniela
Agradeço a parceria da Prof. Denise e da diretora do Portuguese Flagship Program da UT Austin, Lindsey Jamieson que nos apoia e nos encoraja nessa iniciativa. Aguardem mais novidades sobre esse projeto que se amplia a cada dia pensando no benefício de todos os alunos de português nas universidades dos Estados Unidos e de outros países. Convidamos conselheiros e diretores dos clubes de português em universidades de todos os países a se unirem ao projeto para que possamos realmente transformá-lo num “Globally Connected Bate-Papo”! Daniela Meireles (CofC Portuguese Club/College of Charleston)- meirelesdl@cofc.edu Denise Braz (Portuguese Flagship Program/UT Austin) - denisebraz@utexas.edu Confira A Liga dos Clubes de Português no Facebook.
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EQUIPE FLAGSHIP Orlando René Kelm - Diretor Associate Professor of Spanish and Portuguese Department of Spanish and Portuguese The University of Texas at Austin
Lindsey Jamieson - Diretora é a Diretora Assistente do Portuguese Flagship Program da Universidade do Texas em Austin (UT Austin). Ela completou sua graduação na Universidade de Pittsburgh em 2014 com um Bacharelado em Relações Internacionais e Espanhol, incluindo um certificado em português. Ela trabalhou em publicidade no setor privado por três anos em Nova York antes de se mudar para Austin em 2018 para trabalhar com o recém-lançado Programa Portuguese Flagship na Universidade. Ela se formou recentemente no Moody's College of Communication da Universidade do Texas com um mestrado em Publicidade onde espera aplicar suas habilidades no programa Flgship.
EQUIPE FLAGSHIP Denise Braz - Editora da revista Olha Só! é Graduate Research Assistant (GRA) do Flagship Portuguese Program da Universidade do Texass e estudante do PhD no Lozano Long Institute of Latin American Studies na mesma universidade. É mestre em Antropologia Social pela Faculdade de Filosofia e Letras, Universidade de Buenos Aires, Argentina. Licenciada e Bacharel em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. É ativista do coletivo brasileiro Resistência em Austin, grupo Kilomba (coletivo de mulheres afro-brasileiras nos EUA). Denise também é ativista da Frente Internacional Brasileira contra o golpe e pela democracia (FIBRA), da Aliança Afro Brasileira (ABA) e da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN). E-mail: denisebraz@utexas.edu / Instagram: @denisezarb/ Twitter: @DeniseBrazao
SOBRE OS COLABORADORES Daniel kuaray Professor indígena Guarani, formado na licenciatura intercultural indígena do sul da mata atlântica pela Universidade federal de Santa Catarina, mestrando em antropologia social pela UFSC.
Denise Costa Doutora em antrampologia pela Universidade de Brasília, professora da Unilab Ceará, escritora ensaista e integrante do Comitê de Antropólogos Negros na Associação Brasileira de Antropologia - ABA.
denisecruz@unilab.edu.br
SOBRE OS COLABORADORES Célia Xakriabá- do povo Xakriabá que se define com uma mulher da lutalitura é da Articulação Nacional das Mulheres Indígena. É do biomas Cerrado mas tem feito a defesa da importância de todos biomas brasileiros. Ela atua em múltiplas frentes, como representante das causas dos povos e das mulheres indígenas, como professora, assessora parlamentar. Ele tem mestrado em Desenvolvimento Sustentável, obtido no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais, pela Universidade de Brasília. Atualmente é doutoranda em antropologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Ela reafirma que a sua primeira escola foi a luta em diversas frentes: garantia do território, porque a luta pelo território é a luta pela própria vida, tem um importante trabalho na reestruturação do sistema educacional, no apoio às mulheres e à juventude. Como ela costuma dizer, luta por essas causas “diretamente no chão do Território e no chão do mundo”.
Luana Fontel Remanescente da etnia Guaraní Anambé da Amazônia Atlântica Paraense. Mestre e Doutoranda em Linguística Aplicada CAPES/UFRJ. Membro do Coletivo de Estudos de Letramentos Contemporâneos – CELEC/UFRRJ e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Raça, Gênero e Sexualidade – ORI/CEFET-RJ.
SOBRE OS COLABORADORES Gilson José Rodrigues Junior Graduado em ciências sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mestre e doutor em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Vêm se dedicando a diferentes aspectos das desigualdades na sociedade brasileira, atuando em áreas como antropologia da família, antropologia jurídica, antropologia da moral e, mais recentemente, antropologia das ajudas humanitárias, por meio da qual vêm se dedicando as relações entre Brasil e Senegal. Soma-se a isto a dedicação a estudos sobre epistemologias contra-hegemonicas, epistemicidios e resistências. Doutor Rodrigues Junior é integrante do Comitê de Antropólogos Negros na Associação Brasileira de Antropologia ABA. gilson.rodrigues.jr@gmail.com
Rodrigo Maia Rod Maia é escritor, poeta e professor de português como língua adicional. É graduado em Letras pela Universidade Luterana do Brasil e pósgraduado pela Laureatte International Universities. Publicou em dezembro/2020 pela Chiado Books o livro "Vozes do Inconsciente poemas que escrevi para não enlouquecer". É brasileiro residente no Texas desde agosto/2019. É membro ativo do Coletivo Brasileiro Resistência em Austin. Publica poemas e contos com regularidade em suas redes sociais. https://www.facebook.com/rodmaiaescritor http://outrosespelhos.blogspot.com/ https://www.instagram.com/rodmaiaescritor/ https://www.wattpad.com/user/RodMaia Email para contato: rodmaiaescritor@gmail.com
SOBRE OS COLABORADORES Marcia Nunes Licenciada em História pela Universidade de Pernambuco e em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco. pernambucana residente na Holanda, faz parte do coletivo Amsterdam pela democracia, que por sua vez participa da Frente Internacional Brasileira contra o golpe e pela democracia (FIBRA).
Stela Maris Pereira Silva Enfermeira graduada pela Unifenas, pós-graduada em Saúde da Mulher e Formação de Educadores em Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atuou em CTI, Geriatria, Clinica Cirúrgica na rede pública. Atualmente trabalha na Atenção Primária à Saúde em uma Multinacional. Mãe do Miguel e da Mariana
SOBRE OS COLABORADORES Mariana Sabino Instrutora de português e doutoranda no Departamento de Espanhol e Português na University of Texas at Austin. Além de estudar a história romaní e a produção cultural sobre ciganos na América Latina, pesquisa sobre outras populações diaspóricas. Durante o ano de 2022, Mariana será bolsista Fulbright no Brasil.
Lucas Scaravelli da Silva Doutorando PPGAS/USP.
em
Antropologia
Social
pelo
SOBRE OS COLABORADORES Adriana Rejane Gualberto Silva (professora camaleoa). É uma referência da capoeira em Belo Horizonte. Ela canta, toca, joga capoeira e dança e devido a sua facilidade de atuar bem nas áreas do esporte recebeu o nome Camaleoa. Como educadora social, ela atende mais de 260 crianças no Barreiro em Belo Horizonte e através de sua história consegue mudar a vidas de meninas e meninos. Através da capoeira Camaleoa fomenta a importância da educação, dos movimentos populares e culturais.
Alessandra Machado Cardoso Melo – Instrutora Orquídea E-mail: amcardoso2014@gmail.com Instagram: alessandra_orquidea - Graduada em Administração com ênfase em Marketing; - Instrutora de Capoeira e membro da Escola Abadá-Capoeira. Professora Voluntária de Capoeira no Projeto PPL capoeira para todos. Criadora do Instituto Transformação.
SOBRE OS COLABORADORES Imani Aanu é atualmente a diretora de dança, coreógrafa e intérprete da escolda de samba Austin Samba no Texas, Estados Unidos. Imani vem ensinando samba há mais de dez anos e é uma das principais passistas da escola e além de ser também uma artista destacada nos principais espetáculos organizados pela escola. Imani também se apresenta com Bramaya, um grupo de música e dança da África Ocidental onde ela toca e dança os estilos tradicionais de Guiné. https://myoaustin.com/our-instructors/imaniaanu/
Susanna Sharpe é Coordenadora de Comunicação para LLILAS Benson Latin American Studies and Collections na Universidade de Texas em Austin. Nasceu em Nova Iorque e cresceu numa familia onde as palavras, a linguagem, e a música eram muito importantes. Se formou em estudos latinoamericanos e espanhol em Wesleyan University. Estudou o português num curso intensivo de verão na UT Austin, onde também estudou musicologia. Saiu do programa de musicologia para poder dar mais tempo à carreira de cantora e band leader. Além de cantar, trabalhou como editora de livros até começar o trabalho em LLILAS Benson (2014). Susanna é casada e tem uma familia musical já que seu marido e seus dois filhos são músicos. Atualmente, Susanna tem cantado em Austin em parceria com vários músicos. É parte Conselho Administrativo do Austin Jazz Workshop, uma organização sem fins de lucro que apresenta shows de jazz ao vivo nas escolas primarias em Austin.
SOBRE OS COLABORADORES Diogo Leal Assis é formado em administração de empresas pela Universidade São Judas Tadeu. É o idealizador e o responsável pela Pastelaria São Paulo, um foodtruck localizado na região de West Campus em Austin, Texas. Nos últimos 4 anos meu objetivo vem sendo dividir um pouco da cultura culinária brasileira com o povo americano através dos nosso pastéis artesanais e também matar um pouco a saudade que a comunidade brasileira local sente de comer um pastel de feira, com um gostinho bem brasileiro.
Stephan Müller é Bacharel em Artes pela Friedrich-SchillerUniversität Jena (em Jena) em 2013 com ênfases em alemão como uma língua estrangeira e Ciências da comunicação; É mestre em Artes pela Universität Leipzig e pela Universidade Federal do Paraná em Curitiba. E realizou estudos interculturais de língua, literatura e cultura alemãs. Atualmente Stephan faz parte de projetos musicais em Leipzig, Alemanha.
SOBRE OS COLABORADORES Isabela Braz é estudante de Ciências Econômicas e há dois anos está morando em Dublin, na Irlanda. Isabela que tem trilhado variados caminhos e em grupos distintos, ao longo de sua vida, já percorreu por alguns estilos de dança como de origem africana e ballet clássico, desenvolveu habilidades como violinista em uma orquestra filarmônica, exercício do qual, por alguns anos, lhe proporcionou realizar apresentações em casamentos, aniversários e em empresas, e ultimamente ela tem vivido uma interessante experiência de imersão na cultura irlandesa. Apaixonada por desafios e por desdobrar novas faculdades, em 2020, ela tomou a decisão de morar fora para aprender um novo idioma - o inglês. Desde então e sem nenhum dúvida, Isabela disse que essa tem sido a experiência mais desafiadora que ela tem vivido e que certamente trará grandiosas lembranças.
Luana Coelho é
estudante do sexto período de Administração Pública pela Universidade Federal Estado do Rio de Janeiro. Blogueira nas horas vagas, chegou nos EStados Unidos em outubro de 2019, morou em New Jersey, New York, Austin, Georgetown e New Orleans.
SOBRE OS COLABORADORES Andrezza Vieira formada em Administração com ênfase em Comércio Exterior pela Pontifícia Católica de Campinas. Desde 2020 Andressa tem trabalho como au pair atraves do programa Au pair in América.
Samuel Antenor é neto de portugueses e um brasileiro apaixonado por Portugal e sua gastronomia. Jornalista, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp com especialização em saúde. Ambientalista, pesquisa também as medicinas da floresta, parte intrínseca da cultura dos povos originários da Amazônia. Profissionalmente, foi diretor do Centro de Apoio Técnico-Científico do Instituto de Saúde da SES-SP, editor do Boletim do Instituto de Saúde (BIS), assessor da Comissão de Comunicação e Informação do Conselho Estadual de Saúde de SP, assessor de comunicação da FAPESP, onde atuou também como repórter na Revista Pesquisa e na Agência Fapesp. Também foi editor do site do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do IPEA e, atualmente, é responsável pelo conteúdo médico da McCann Health Brasil.
SOBRE OS COLABORADORES Daniela Meireles é instrutora de Espanhol e Português no College of Charleston na Carolina do Sul. Ela é doutora em Estudos Ibéricos e LatinoAmericanos pela Universidade do Texas em Austin e parceira do Portuguese Flagship Program na UT Austin promovendo o “Bate-Papo Conectado” desde a Primavera de 2020.