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Quem Tem Medo de Feliciano? O parlamentar mais polêmico do Brasil divide opiniões, gera manifestações apaixonadas e incomoda muita gente H

Por Cristiano

Bastos H

Ilustração Lézio Júnior

Silas Malafaia

Pastor-presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo

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O

38 | R ol l i n g S t o n e B r a s i l |

rollingstone.com.br

RENATO ARAUJO/Agência Brasil (Jair bolsonaro); Valter Campanato/Agência Brasil (Erika kokay); Antonio cruz/agência brasil (jeAN WYLLIS); Valter Campanato/AGência brasil (silas malafaia); divulgação

de pu t a d o f e de r a l Marco Feliciano (PSC-SP) é, antes de político, pastor da igreja Assembleia de Deus Catedral do Avivamento. Também é um cantor gospel de grande sucesso entre o público evangélico e, em março deste ano, foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. Desde aquele momento, o nome dele passou a ser ligado a controvérsias: atualmente, responde a um processo no Supremo Tribunal Federal (STF) por homofobia e estelionato (por ter sido acusado de receber R$ 13 mil para realizar um culto no Rio Grande do Sul sem ter comparecido ao evento); há denúncias também de que o parlamentar desviaria dinheiro público, por meio do cargo dele, para beneficiar a igreja e empresas de sua propriedade. Mesmo com as controvérsias, o PSC se tornou o maior beneficiado por tamanha visibilidade – e Feliciano, por sua vez, já expressou desejo de ver um presidente evangélico, além de se colocar à disposição para uma possível indicação como candidato. Não é à toa, portanto, que a personalidade forte do político-pastor gera reações apaixonadas e divide opiniões. A seguir, aliados e opositores discutem o fenômeno Marco Feliciano e tentam compreender para onde ele caminha e onde ainda poderá chegar. M a io , 2 01 3

Independentemente de concordar ou não com as declarações de Marco Feliciano, não posso esquecer que ele foi eleito pelo povo e que tem o direito de expressar a opinião, sendo resguardado pelo inciso IV, do artigo 5º da Constituição Federal. Mais do que isso, a Carta Magna lhe garante o direito à liberdade religiosa (incisos VI e VIII do mesmo artigo), uma vez que ele estava no púlpito falando na qualidade de pastor, e não como deputado. Pergunto: se a oposição pode acusar os que discordam deles de homofóbicos e “racistas”, por que o povo evangélico não pode chamar essa perseguição de “evangelicofobia”? Dentro deste Estado democrático de direito, onde a maioria é cristã, a democracia só vale para a minoria? O fato é que os ativistas gays e seus defensores não suportam o debate. Pode-se falar mal do presidente da República, do Judiciário, dos católicos, dos evangélicos, mas, se criticarmos a prática homossexual, somos rotulados de homofóbicos. O crime de opinião já foi extinto de nosso país com o fim da ditadura militar. Mas agora querem instaurar a ditadura gay, que, além de perseguir as ideologias políticas, também combate as crenças religiosas. Diante dessas manifestações, só podemos chegar a uma conclusão: PT e Dilma Rousseff estão sinalizando que abrem mão da comunidade evangélica nas próximas eleições.

Erika Kokay

Deputada federal pelo PT (SP) Não me surpreendi quando fiquei sabendo que o pastor e deputado Marco Feliciano vem sendo cortejado por alguns partidos políticos, tendo em vista o pleito de 2014. De repente, o Partido Social Cristão parece ter ficado pequeno demais para ele. Consta que os convites vieram de partidos importantes no quadro político, que inclusive participam M a io , 2 01 3

da base do governo. O que significa? Que os estrategistas políticos mais pragmáticos já perceberam que há um potencial eleitoral a ser explorado com a candidatura de Feliciano. Com suas declarações e atitudes parafascistas, o pastor está conseguindo aglutinar em torno de si uma corrente de opinião ainda bem forte em nossa sociedade. Esses cortejos partidários a Feliciano são motivos de grande preocupação. E não pelo que possam representar em termos de ganhos eleitorais. Essas articulações significam que começam a girar as engrenagens de uma ascensão política de tipo fascista. Adolf Hitler, por exemplo, só chegou ao poder a partir do momento em que setores da sociedade alemã perceberam que ele poderia ser útil aos seus interesses, mobilizando a população em um ódio irascível e crescente contra inimigos imaginários. Os crimes impetrados por Hitler e seus asseclas dificilmente encontram paralelo no mundo, e não é minha intenção estabelecer nenhuma comparação – que, aliás, seria indevida - entre o genocida alemão e o deputado Feliciano. Gostaria apenas de lançar a reflexão: se começarmos a semear o ódio por meio de palavras e de gestos, e isso se transformar em dividendos eleitorais e em poder político, quais serão os próximos passos nessa escalada? O que será feito a seguir em busca de aplausos e votos? É preciso que fiquemos atentos.

Jair Bolsonaro

Deputado federal pelo PP (RJ) Não sou contra a saída do deputado Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos. Deveremos votar, em maio, por exemplo, um requerimento em que estou convocando a Maria do Rosário [ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos] para debater alguns sérios itens. Eu quero que ela venha me dizer, por exemplo, sobre a campanha nacional que o governo fará voltada para adolescentes LGBT. Eu quero que ela me diga de que forma ela botará na TV e mostrará como um adolescente vai convidar o outro a fazer sexo anal de forma segura. E, claro, vão apinhar a comissão (de Direitos Humanos) de gays, neste momento. Mas quero encher a comissão de pais e professores para ver o que eles acham disso. O Marco Feliciano tem várias igrejas e, quando falou em racismo em um dos seus sermões (que o negro é uma raça “amaldiçoada”), tenho certeza de que pelo menos a metade dos que o estavam assistindo eram negros e afrodescendentes que, se tivessem se sentido ofendidos, reclamariam naquele exato momento.

que é amar e respeitar o próximo como ele é, com as diferenças. Todos somos diferentes. Nem melhores nem piores, apenas diferentes. Acredito que não construímos uma sociedade solidária, justa e igualitária, criando uma guerra religiosa. É importante que as religiões se respeitem, assim como os políticos e o ser humano, independentemente da raça, classe social e credo.

Lecy Brandão

Deputada estadual pelo PCdoB (SP) É lamentável e um retrocesso a nomeação de Marco Feliciano como presidente da Comissão de Direitos Humanos. Desde que foi criada, essa comissão foi comandada por parlamentares que tinham compromisso com as lutas das minorias e o reconhecimento dos movimentos sociais. Não podemos ter nesse cargo uma pessoa que reafirma o processo de exclusão e de violência que existe contra várias populações, especialmente a população negra, junto à qual o Estado deve atuar de forma decisiva para garantir igualdade de direitos e de oportunidades. Para o povo negro, essa nomeação foi um golpe. As declarações que Feliciano faz não são questão de opinião, elas são criminosas. Nossa juventude negra e pobre está sendo exterminada. Uma pessoa que diz que os negros são “amaldiçoados” jamais vai lutar contra isso e defender os direitos do nosso povo. A agenda dos direitos humanos hoje deve ser pautada pelas lutas do povo negro, LGBT e das populações e segmentos minorizados e em situação vulnerável. Para que isso ocorra, é necessário que a Comissão seja um espaço de diálogo e participação, em que os movimentos e pensamentos possam se manifestar. E uma pessoa com o posicionamento desse deputado nunca vai adotar um diálogo aberto e tampouco terá as questões desses segmentos como prioridade. É necessário que as pessoas entendam que as lutas das minorias não interessam só às minorias, mas a toda a sociedade.

Myrian Rios

Deputada estadual pelo PSD (RJ) Não gostaria de polemizar ainda mais este assunto, mas aproveito a oportunidade para lembrar que Deus é amor. Ele é Pai de todos nós, e, como Pai, nos orienta, educa e nos deixa livres para as nossas escolhas. Não julgar, nem criticar as pessoas, buscar a solidariedade e caridade, é como procuro viver. Sigo o que minha igreja ensina,

Jean Wyllis

Deputado federal pelo PSOL (RJ) Se tudo passa, como ele fica? Ele fica. Diz que os africanos são amaldiçoados, e fica. Diz que as mulheres não deveriam ter os mesmos direitos que os homens, e fica. Diz que Caetano Veloso fez um pacto com o Diabo, e fica. Diz que a Aids é um “câncer gay”, e fica. Diz que Deus mandou matar John Lennon, e fica. Diz que, antes de ele chegar lá, a Comissão de Direitos Humanos era presidida por Satã, e fica. Ele fica e ainda provoca os partidos que o levaram lá. Ri na cara dos aliados, que engoliram sua eleição por necessidades políticas e agora ficam paralisados, assistindo ao show mais grotesco que o Congresso já apresentou. Ele fica e os líderes das bancadas majoritárias dizem que não podem fazer nada. Ele fica e a Presidente fica calada. Um silêncio que diz muita coisa. A democracia ficou incapaz de impedir que parte do país fique com vergonha de si mesma. Está claro que esses acordos espúrios – entre os partidos majoritários, seus aliados e as legendas de aluguel – que levaram Feliciano à presidência da CDHM fizeram com que a democracia ficasse presa, sem defesas. Envergonhada. Contudo, há males que vêm pra bem. A permanência do pastor na presidência da CDHM, trazendo à luz uma intolerância religiosa que corria no subterrâneo, convocou milhares a não ficarem quietos ou indiferentes. Pastores evangélicos, padres, rabinos, pais de santo e religiosos não fundamentalistas de todos os credos também compreenderam que não podiam ficar calados, porque se se calassem, Feliciano ficaria como o porta-voz dos crentes brasileiros. Ele não representa os evangélicos e os cristãos, nem as pessoas de fé! O fundamentalismo do pastor mobilizou milhares, como não acontecia desde o impeachment de Collor. Ficou claro que o fundamentalismo não tem como alvo apenas os gays e o candomblé, embora esses segmentos sejam os mais prejudicados pelo discurso de ódio que os fundamentalistas difundem — não por convicção, mas por estratégia de marketing, porque precisam de um inimigo para crescer. Ficou claro que eles ameaçam direitos e liberdades de todos. Assim como os militares nos anos 60 e 70, eles ameaçam a democracia, porque querem acabar com a liberdade.

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