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HÁ UM SOL ESPLENDENTE NAS COISAS
FOTOGRAFIAS DE CARLOS VENTURA MARTINS
03 NOV - 3 DEZ DE 2021 ESPAÇO ARTES - POLITÉCNICO DE LISBOA ESTRADA DE BENFICA, 529, 1549-020 LISBOA
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POLITÉCNICO DE LISBOA
(Página deixada propositadamente em branco)
O PRESTIDIGITADOR ORGANIZA O ESPECTÁCULO Há um piano carregado de músicas e um banco há uma voz baixa, agradável, ao telefone há retalhos de um roxo muito vivo, bocados de fitas de todas as cores há pedaços de neve de cristas agudas semelhantes às das cristas de água, no mar há uma cabeça de mulher coroada com o ouro torrencial da sua magnífica beleza
Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 1981
há o céu muito escuro há os dois lutadores morenos e impacientes há novos poetas sábios químicos físicos tirando os guardanapos do pão branco do espaço há a armada que dança para o imperador detido de pés e mãos no seu palácio há a minha alegria incomensurável há o tufão que além disso matou treze pessoas em Kiu-Siu há funcionários de rosto severo e a fazer perguntas em francês há a morte dos outros ó minha vida há um sol esplendente nas coisas
Mário Cesariny
UMA ETERNIDADE PESSOAL Quem gosta de fotografar o sol, o céu, o mar, a terra, a luz, o vento, a sombra, o fogo é porque gosta de ter o universo perto de si. Nesta exposição de fotografias de Carlos Ventura Martins reconhece-se esse movimento de aproximação à imensidão cósmica e à obrigação que o olhar sente de captá-la, de capturá-la, de catapultá-la. Por isso, a escala destas imagens contém em si uma vontade de se exceder e de se ampliar, de se amplificar e de se desmedir. “Qualquer que seja a forma da sociedade futura nunca mais escaparemos a esses gregos”, exclamava o poeta brasileiro Murillo Mendes. Os gregos fizeram do universo uma grande e constante pergunta atravessada por deuses, mitos, cosmogonias e conceitos. Entre eles, houve dois filósofos pré-socráticos que quiseram dizer coisas opostas sobre o universo e a realidade dele. Parménides defendia que nada muda e tudo permanece no Ser. Heraclito afirmava que tudo flui e muda no Devir, nada continuando igual. O universo, como aliás a vida, é o lugar onde as contradições vivem umas com as outras melhor do que na nossa mente. Parménides e Heraclito tinham razão apenas juntos e o código que abre a porta do cofre onde o segredo se guarda está na aliança de opostos com que cada um confrontava o outro. O sol e o céu, o mar e a terra mudam e é nessa mudança que permanecem no que são. A passagem do tempo e das estações do ano, as mudanças do clima e da atmosfera, as transformações das cores e as transições dos tons não desmentem, mas confirmam, que tudo é - no que vai sendo. É por isso que o sol, como a lua, tem várias fases e muitas faces. É essa a sua biografia e a sua iconografia. Estas fotografias, que Carlos Ventura Martins foi fazendo a muitas horas de muitos dias, dão as notícias da mudança incessante do que muda, permanecendo. Nelas, a luz sobe e desce, as cores acendem-se e apagam-se, as formas ostentam-se e ocultam-se, o olhar torna-se mais imprevisível e pessoal ou mais previsível e impessoal. Olhamos estas fotografias e lembramo-nos de que o nascimento do Impressionismo aconteceu com o nascimento do sol. Aquele sol que, no inverno de 1872-73, no Havre, Claude Monet pintou na sua obra “Impression: soleil levant”. Esta pintura que inaugurou um movimento artístico capital foi apresentada, pela primeira vez, em 1874, numa exposição mostrada no estúdio do fotógrafo Félix Nadar. Desde então, e como nunca até então, a pintura tornou-se mais atmosférica e aérea, mais gradativa e infinitesimal, mais sismográfica e subtil, mais vigilante e detectivesca, mais veloz e livre.
Contudo, se os Impressionistas foram os primeiros a propor, conscientemente, uma alternativa subjectiva à fotografia e à sua novidade, alguns fotógrafos, desde essa data, não têm parado de tornar essa subjectividade numa nova objectividade, pois após os pintores da luz e da sua fugacidade, o olhar dos artistas sobre o mundo passou a ser outro. As fotografias de Carlos Ventura Martins são um observatório cosmológico, uma estação meteorológica e um laboratório visual. Aproximamos o nosso olhar destas imagens, diversas e comuns, e vem até nós uma temperatura, uma vibração, uma irradiação, um ambiente, uma diferença. Elas trazem-nos também a memória de um sol antigo e o desejo de um novo sol. Sob o céu e o sol, sobre a terra e o mar, a luz foge de si mesma e voa como uma ave acrobática. O horizonte é o espelho onde as imagens se reconhecem e desconhecem, onde as figuras se fundem e desfiguram, onde as formas se formam e deformam. Às vezes, tudo parece imaterial e inconstante, volátil e vertiginoso. Há céus em tumulto de cores e mares em sedição de formas. Mas, de repente, surge um moinho, uma árvore, um muro, uma planta, um chão, uma flor, um vulto e tudo aí se condensa numa consistência coesa e concentrada. Nestas fotografias são notadas algumas das características – algumas das qualidades – que já se notavam nos ciclos de pinturas, também eles bastante solares, que o autor, mestre e aprendiz de si-mesmo, apresentou há algumas décadas. Falo dum sentido cromático que se foi afinando e refinando, de um gesto que se expande ou contém, de uma apreensão sinuosa da luz e da sombra, de um lirismo que avança vitoriosamente e se salva quando recua. Entre uma euforia serena e uma melancolia secreta, estas fotografias selam a cedência do Carlos Ventura Martins a uma pulsão estética que nele existe mesmo quando se distrai da sua existência. Essa pulsão encontrou na fotografia uma disciplina e na sua técnica um superego. Para Platão, apenas a morte liberta a alma do corpo e permite olhar a luz sem sombras do sol absoluto (“Alegoria da Caverna”). No século XVII, o moralista François de La Rochefoucauld avisou que não nos é dado fitar fixamente o sol e a morte. Em Nietzsche, contrariando Platão, o apolíneo e o dionisíaco aliam-se: Zaratustra ergue o cântico de louvor ao grande e quente sol da vida e é à sua luz que a morte (e a morte de Deus) se olha. No século XX, o escritor e artista Jean Cocteau repõe e reposiciona a advertência de La Rochefoucault (“Le Grand Écart”). E o filósofo contemporâneo Peter Sloterdijk deu o título “Nem o Sol nem a Morte” ao seu livro de diálogos. Nos poetas o sol e a morte olham-se de olhos nos olhos. Em Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro (“ Quase”), Teixeira de Pascoaes, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen e Mário Cesariny, Herberto Helder
o sol e a morte são notas da música com que encantamos a serpente, fixando a sua ameaça sinusoidal e rastejante. Para fitar a morte, precisamos da vida (e da arte) como filtro, como fuga, como fenda. Para fixar o sol, necessitamos de fotografias como estas para o assaltarmos com o nosso olhar curioso, obstinado e inquieto. Nas imagens que aqui se mostram, o fotógrafo aproxima-se do universo e olha-o através de uma luz que o desvela - e o revela. É esse o instante em que uma eternidade pessoal lhe é, nos é, concedida. José Manuel dos Santos
Académico Efectivo da Academia Nacional de Belas Artes
setembro de 2021
CARLOS VENTURA MARTINS Nasceu em Lisboa, num dia 1 de abril do século passado. Concluiu estudos em Ciências Históricas e Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade Lisboa. Jornalismo Jornalista de profissão, colaborou no Diário de Lisboa e exerceu atividade nos seguintes órgãos de comunicação social: A Província de Angola, revista Notícia, Jornal Novo, de que foi fundador, ANOP - Agência Noticiosa Portuguesa, RTP Radiotelevisão Portuguesa, Editorialista e Diretor da Revista Focus. Foi Diretor Geral de Publicações do Grupo Editorial Impala. Política Foi adjunto de imprensa do Primeiro Ministro do IX Governo Constitucional Foi assessor de Imprensa do Presidente da República Mário Soares, nos dois mandatos. Pintura Expôs na Galeria do Correio Mor Expôs na Galeria do Casino Estoril Participou em exposição coletiva no Centro Cultural de Belém Organizou a Exposição Mário Soares visto por caricaturistas. Lisboa, Palácio de Belém Distinções Oficial e Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique (Portugal), GrãCruz da Ordem do Mérito (Alemanha), Grande Oficial da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (Brasil), Comendador do 1º Grau da Ordem Real de Dannebrog (Dinamarca), Comendador da Ordem de Isabel a Católica e da Ordem do Mérito (Espanha), Comendador da Ordem Nacional do Mérito (França), Comendador da Ordem Real da Rainha Vitória (Reino Unido), Grande Oficial da Ordem Real da Estrela Polar (Suécia) entre outras.
HÁ UM SOL ESPLENDENTE NAS COISAS
POLITÉCNICO DE LISBOA HÁ UM SOL ESPLENDENTE NAS COISAS FOTOGRAFIA DE CARLOS VENTURA MARTINS 3 de novembro a 3 de dezembro de 2021
Curadoria: Paulo Morais-Alexandre e Carlos Ventura Martins Coordenação do Espaço Artes Politécnico de Lisboa: Paulo Morais-Alexandre Edição: Politécnico de Lisboa Conceção Gráfica: DesignLab4u Paginação: Gabinete de Comunicação e Imagem do IPL Impressão: Gráfica 99 Montagem da Exposição: Ângelo Ramiro, Miguel Serra, Vítor Faria Copyright © Carlos Ventura Martins - 2021 - Todos os direitos reservados. Proibido reproduzir e copiar.
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HÁ UM SOL ESPLENDENTE NAS COISAS
FOTOGRAFIAS DE CARLOS VENTURA MARTINS
03 NOV - 3 DEZ DE 2021 ESPAÇO ARTES - POLITÉCNICO DE LISBOA ESTRADA DE BENFICA, 529, 1549-020 LISBOA
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