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Plant Project #54

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Para quem pensa, decide e vive o agribusiness

venda proibida distribuição dirigida www.plantproject.com.br

A ENERGIA QUE VEM DO CAMPO

O Brasil transforma o agronegócio em protagonista da transição energética mundial

TEMPO INSTÁVEL

Por que o El Niño deve mudar a rotina da produção agrícola em 2026 DE GRÃO EM GRÃO O ETANOL DE MILHO REDESENHA O MAPA DOS BIOCOMBUSTÍVEIS NO PAÍS

SAFRA PROTEGIDA NOVAS REGRAS E COBERTURAS MODERNIZAM O MERCADO DE SEGURO RURAL

GESTÃO NA LAVOURA EM UM AMBIENTE DE CUSTOS ALTOS, ADMINISTRAR BEM VIRA DIFERENCIAL COMPETITIVO

NATUREZA SELVAGEM O Pantanal tenta equilibrar o crescimento do turismo com a conservação

COMO O CITI FINANCIA O FUTURO VERDE DO BRASIL

Com presença em mais de 90 países, Citi estrutura projetos que conectam o campo brasileiro à transição energética global

Atransição energética global passa pelo Brasil – e começa no campo. É aqui que cresce a cana que vira etanol, o milho que abastece novas plantas de biocombustível e a soja que pode se transformar em combustível sustentável para aviação. Enquanto economias industrializadas correm para reduzir a dependência do petróleo, o Brasil já detém a tecnologia, a terra e a cadeia produtiva para ser um dos principais fornecedores dessa transição – e precisa, sobretudo, de quem ajude a financiá-la. Converter esse potencial em projetos concretos, com capital estruturado, acesso a investidores globais e instrumentos de hedge para atravessar a volatilidade geopolítica, é exatamente o que o Citi faz. O banco está no Brasil há 110 anos, desde quan-

do financiava as exportações de café, e mantém presença física em mais de 90 países. Poucas instituições conseguem, ao mesmo tempo, conhecer a fundo a cadeia produtiva brasileira e ter o alcance para mobilizar capital internacional em torno dela.

Desde 2020, o Citi globalmente acumulou mais de US$ 555 bilhões em transações voltadas ao financiamento sustentável, dentro de uma meta de US$ 1 trilhão até o fim desta década. No Brasil, o pipeline de projetos que podem estar relacionados a questões climáticas, incluindo biocombustíveis, agricultura considerada sustentável, aço verde e novas tecnologias ligadas à descarbonização são alguns destaques.

Um exemplo concreto desse compromisso está

sendo erguido em Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso. A FS Fueling Sustainability constrói ali uma usina de etanol de milho com capacidade para produzir 540 milhões de litros de combustível e gerar 56 mil MWh de energia elétrica por ano, tudo a partir do milho de segunda safra, em ciclo fechado, sem geração de efluentes. Com inauguração prevista para o fim de 2026 e mais de R$ 2 bilhões em investimentos, o projeto foi financiado no âmbito do programa Eco Invest, do Tesouro Nacional, e contou com investidores estrangeiros e locais, entre eles o Citi – por meio de uma debênture no valor total de R$ 85 milhões.

Na mesma linha, a Inpasa, produtora de etanol de milho com planta em Rondonópolis, captou com o Citi R$ 185 milhões via debêntures. No total, as indústrias de biocombustíveis acumulam mais de oito operações já financiadas dentro do Eco Invest, o que as coloca entre os segmentos com maior volume de operações no programa, que já soma 33 projetos espalhados por 14 estados brasileiros, abrangendo transição energética, economia circular, infraestrutura verde e bioeconomia.

Segundo estudo do Plano de Transformação Ecológica, liderado pelo Ministério da Fazenda, os biocombustíveis estão entre as rotas com maior impacto econômico para o País, com contribuição estimada de até US$ 36 bilhões ao PIB até 2030, além da possibilidade de gerar até 620 mil empregos. Nesse contexto, o etanol – de cana ou de milho – se destaca, aparecendo cada vez mais no radar dos mercados globais. O Brasil é o maior produtor e exportador de açúcar do mundo, mas sua vantagem real está na flexibilidade: a mesma cana pode virar alimento ou combustível, dependendo do que o mercado exige. Com a volatilidade nos mercados de petróleo e a pressão crescente por descarbonização, essa capacidade de escolha é um trunfo importante.

Parte dos projetos mais promissores, como os combustíveis de aviação sustentável (SAF) e os bioplásticos derivados da cana, ainda está em fase de maturação comercial. Estruturá-los exige ex-

periência para equilibrar retornos e perfis de risco, e é nesse trabalho que o Citi se diferencia. O banco oferece hedge de commodities, soluções de câmbio, financiamento de trade, além de instrumentos para liberação de capital de giro e apoio à cadeia produtiva, como supplier finance.

Como reflexo desse compromisso de longo prazo com o setor, o Citi Brasil conta com mais de R$ 10 bilhões em limites de crédito aprovados para mais de 40 empresas do segmento de biocombustíveis, um indicador concreto do conhecimento acumulado e da confiança depositada nas empresas que lideram essa transformação.

Soma-se a isso plataformas digitais como o Citi FXPulse e o CitiDirect, que permitem às empresas acompanhar e executar operações em diferentes países de forma integrada. Para empresas que operam cadeias complexas – da lavoura ao porto, do porto ao mercado externo –, isso faz grande diferença no dia a dia das operações.

O papel do Citi não se limita à estruturação de operações financeiras. No Encontro Anual do Agronegócio, realizado em Ribeirão Preto, o banco reuniu em 2025 mais de 100 lideranças de empresas, especialistas setoriais, parlamentares e representantes do comércio internacional para discutir os caminhos do agro brasileiro. O evento já se tornou referência no setor. O Citi também é patrocinador master e parceiro estratégico da Citi ISO Datagro NY Sugar & Ethanol Conference, um dos principais eventos do setor sucroenergético do mundo, realizado anualmente em Nova York, que conecta produtores e exportadores brasileiros com investidores e compradores globais.

A missão do Citi é levar Wall Street para o interior do Brasil – trazer capital e expertise internacional para projetos que nascem em solo brasileiro – e, ao mesmo tempo, abrir portas para que empresas brasileiras acessem o mercado global em condições competitivas. Nesse contexto, a nova energia do Brasil não depende só do campo, mas também de quem está disposto a financiá-la.

O CAMPO QUE

ABASTECE

O MUNDO Editorial

O agronegócio brasileiro está vivendo uma mudança silenciosa, mas de consequências barulhentas. A cana que virou etanol em 1975, numa aposta considerada improvável, foi o primeiro passo de uma jornada que hoje inclui querosene renovável para aviação, biometano a partir da vinhaça das usinas e diesel feito de palma. O campo deixou de ser apenas fornecedor de calorias para se tornar também um provedor de energia.

Essa transformação acontece num momento em que o mundo tenta reorganizar suas cadeias produtivas para reduzir emissões e diminuir a dependência de combustíveis fósseis. Não se trata apenas de substituir gasolina por etanol ou diesel por biodiesel. A transição energética dependerá de um conjunto de soluções, que inclui fontes renováveis, combustíveis de baixo impacto ambiental, fertilizantes mais eficientes e maior rastreabilidade em toda a cadeia produtiva. Em todas essas áreas, o Brasil ocupa uma posição privilegiada.

Poucos países reúnem ao mesmo tempo terra disponível, clima favorável, capacidade de produção em larga escala e uma matriz energética já relativamente limpa. No Brasil, a mesma cana que produz açúcar e etanol gera bioeletricidade. A soja que abastece a indústria de alimentos serve de base para combustíveis renováveis. Resíduos da pecuária, da suinocultura e das usinas viram biogás e biometano. Até o carbono capturado no solo é hoje um ativo financeiro.

Há uma oportunidade histórica se abrindo diante do País, mas aproveitá-la exigirá mais do que boas intenções. O Brasil precisa de regras estáveis, infraestrutura adequada, inovação tecnológica, capacidade de pesquisa, previsibilidade regulatória e uma estratégia clara de longo prazo. Só assim será possível atrair os investimentos necessários para que o agro brasileiro lidere a transição energética mundial. Se fizer isso, o Brasil será protagonista de uma das maiores transformações econômicas deste século.

plantproject.com.br

Diretor Editorial

Amauri Segalla amauri.segalla@datagro.com

Diretor

Luiz Felipe Nastari

Comercial

Carlos Nunes carlos.nunes@plantproject.com.br

Sérgio Siqueira sergio.siqueira@plantproject.com.br João Carlos Fernandes joao.fernandes@plantproject.com.br

Tida Cunha tida.cunha@plantproject.com.br

Arte

Thaís Rodrigues (Direção de Arte)

Colaboradores

Texto: André Sollitto, Lucas Bresser, Marco Damiani, Romualdo Venâncio e Ronaldo Luiz

Projetos

Claudia Marques Molina

Revisão

Rosi Melo

Eventos

Luiz Felipe Nastari

Administração e Finanças

Cláudia Nastari

Sérgio Nunes publicidade@plantproject.com assinaturas@plantproject.com

Impressão e acabamento: Piffer Print

Crédito foto de Capa: ShutterStock

ETANOL DE MILHO: FERMJET™ REDUZ TEMPO DE FERMENTAÇÃO E ELEVA NÚMERO DE MOAGENS EM ATÉ 16%

Tecnologia permite moer mais sem aumento de Capex em infraestrutura

ma nova geração de leveduras desenvolvida por pesquisadores da Lallemand Biofuels & Distilled Spirits (LBDS) conseguiu reduzir o tempo de fermentação nas usinas de milho de 55 para até 45 horas (diminuição de cerca de 18%), viabilizando a produção de aproximadamente 10.000 m³/ano de etanol adicional. Os números consideram usinas que moem mil toneladas por dia.

Devido ao aumento de velocidade, foram viabilizadas até quatro bateladas adicionais por mês. Com isso, em aplicações industriais no Brasil, a utilização da nova levedura possibilitou 16% a mais de moagem, ou seja, cerca de 50 mil toneladas de milho extra moídas por ano e um aumento de 6 a 9% na produção de etanol.

O número recorde foi obtido por meio da plataforma FermJet™, que permite o incremento na produtividade de maneira sustentável e sem a necessidade da aquisição de novos fermentadores na biorrefinaria.

Os dados obtidos com a nova geração de leveduras da LBDS confirmam que “tempo é dinheiro”, uma vez que fermentações mais rápidas associadas à biotecnologia de alta performance podem proporcionar aumento de receita acima de R$ 30 milhões por ano – o equivalente a cerca de R$ 85 por tonelada de milho processado.

E o mais importante, sem acréscimo de Capex ou de Opex (manutenção de trocadores de calor, bombas, limpeza, instrumentação, riscos operacionais etc.). De acordo com a LBDS, a FermJet™ rompe o ciclo padrão de fermentação, atacando diretamente o gargalo operacional por meio da lógica da "panela livre": quanto mais rápido o fermentador conclui o ciclo, mais rápido ele está disponível para uma nova fermentação, ampliando, portanto, o número de ciclos por ano da usina.

Além disso, diferentemente de outras estratégias vistas no mercado, a tecnologia não sobrecarrega a operação. O uso em ambiente industrial mostrou não haver necessidade de mais investimento energético para controle de temperatura na fermentação, ausência de riscos de contaminação agudas, preservação do rendimento e qualidade de coprodutos como o óleo e DDG.

Além disso, a nova tecnologia reduz custos operacionais, especialmente associados à necessidade de enzimas exógenas, que passam a ser dispensáveis. Portanto, foco em um processo lucrativo e eficiente.

REDUÇÃO DE INIBIDORES DA FERMENTAÇÃO: ÓLEO FÚSEL

Os resultados industriais apontam que as unidades utilizando FermJet™ reduziram em até 35% a formação de óleo fúsel, trazendo benefícios sistêmicos com fermentações mais saudáveis, destilação mais eficiente e mais etanol recuperado.

ECONOMIA COM ENZIMAS

Além da expressão significativa de glucoamilase pela levedura, a FermJet™ apresenta um pacote enzimático otimizado com atividades secundárias complementares. Ela consegue, assim, hidrolisar mais amido e consequentemente aumentar a produção de etanol, reduzindo o Açúcar Residual Total (ART). Biorrefinarias que implementaram a tecnologia FermJet™ reduziram em até 89% a inclusão de enzimas de fermentação.

FOCO EM ROBUSTEZ

A performance da FermJet™ também é sustentada por uma resistência superior a fatores que normalmente drenam a rentabilidade da usina. Em picos de temperatura de até 37 ºC, em condições industriais, a nova plataforma de fermentação manteve o metabolismo ativo e conseguiu reduzir em 14% a produção de glicerol.

Além do estresse térmico, a FermJet™ apresenta maior tolerância a ácidos orgânicos provenientes de contaminações e ao aumento de sólidos, reduzindo o risco de fermentações incompletas. A adaptação molecular de robustez realizada na FermJet™ minimiza a necessidade de formação de glicerol como mecanismo de resposta ao estresse do processo, favorecendo a conversão mais eficiente dos açúcares em etanol, com menor formação de metabólitos associados ao estresse celular.

Ao entregar mais moagem, de maneira sustentável, sem necessidade de Capex adicional, e mais etanol por unidade de tempo, a FermJet™ transforma o gargalo biológico em vantagem competitiva, provando que o investimento mais seguro e de menor intervenção de uma usina para aumentar sua capacidade produtiva pode estar, na verdade, na escolha da levedura correta.

Invasão perigosa

O avanço do mar sobre aquíferos de água doce ameaça a agricultura em diferentes partes do mundo

G

GLOBAL

O lado cosmopolita do agro

G

GLOBAL

O lado cosmopolita do agro

MUNDO

O AVANÇO DO SAL

A água salgada invade aquíferos, compromete o consumo e já muda a agricultura em diversas regiões do planeta

Há um problema silencioso avançando sobre diferentes partes do planeta, da Gâmbia aos Estados Unidos: a intrusão de água salgada em fontes antes confiáveis de água potável. Trata-se de um processo lento, quase invisível no dia a dia, mas com potencial devastador. Projeções indicam que, até 2050, todos os continentes, com exceção da Antártida, terão áreas costeiras com pelo menos um quilômetro de avanço da salinidade para o interior. Na prática, águas de mares e oceanos passam a invadir aquíferos de água doce, comprometendo o abastecimento e a produção agrícola.

Países mais vulneráveis, como Vietnã e Bangladesh, enfrentam perdas significativas, mas o problema também atinge economias ricas. Nos Estados Unidos, trechos da Costa Leste começam a sentir o impacto. Na Flórida e na Louisiana, moradores relatam gosto salgado na água da torneira, um sinal de contaminação que pode trazer riscos à saúde, como aumento da pressão arterial e complicações na gestação. Na Gâmbia, produtores de arroz viram a produtividade despencar. Em Bangladesh, parte da agricultura foi convertida para a criação de camarões, uma alternativa econômica que, no entanto, acelera a degradação do solo.

A origem do problema está diretamente ligada às mudanças climáticas. O aumento do nível do mar, a elevação das temperaturas e a alteração nos regimes de chuva desequilibram a relação

entre água doce e salgada, favorecendo o avanço dos oceanos sobre os reservatórios subterrâneos, sobretudo em regiões costeiras de baixa altitude.

Diante desse cenário, os governos buscam soluções. Na Flórida, sistemas de monitoramento de salinidade e separação de água estão sendo implantados para proteger o abastecimento. No Vietnã, bilhões de dólares foram investidos em comportas para conter o avanço do mar no Delta do Mekong, embora haja relatos de falhas operacionais. China e Holanda apostam no reúso de água: o esgoto tratado é devolvido aos rios para elevar o nível dos reservatórios e conter a intrusão salina.

EXTRAIR MAIS VALOR DO MILHO: O POTENCIAL AINDA NÃO EXPLORADO DA RECUPERAÇÃO DE ÓLEO

A

produção de etanol de cereais avançou de forma significativa nos últimos anos. Hoje, muitas plantas operam próximas ao rendimento teórico de etanol, resultado de melhorias contínuas em processos, tecnologia e controle operacional. Mas, quando o olhar se volta para os coprodutos, especialmente o óleo de milho, ainda há um espaço relevante para ganhos adicionais de valor.

Segundo Amanda de Souza, líder regional de Desenvolvimento de Aplicações para Processamento de Grãos da IFF, a recuperação de óleo segue como uma das principais oportunidades para os produtores. “O óleo vegetal gerado nas biorrefinarias é um insumo estratégico. Ele é amplamente utilizado na nutrição animal, contribuindo para o enriquecimento energético de rações para suínos e aves, além de atender à indústria química em diferentes aplicações. Ainda assim, grande parte do setor recupera apenas cerca de 50% a 60% do potencial total disponível no processo”, afirma.

Essa diferença tem impacto direto na rentabilidade. Em uma planta típica de etanol de milho, ganhos relativamente modestos na eficiência de recuperação – em torno de 2 kg por tonelada de milho processado – podem se traduzir em milhões de dólares adicionais por ano. Em unidades de médio porte, com capacidade ao redor de 400 milhões de litros anuais, o aumento da extração de óleo pode representar de US$ 3 milhões a US$ 6 milhões em receita incremental, sem necessidade de ampliar a capacidade instalada.

A comparação entre as curvas de rendimento ajuda a ilustrar esse cenário. Enquanto a eficiência na produção de etanol se aproxima cada vez mais do seu limite teórico, a recuperação de óleo ainda apresenta uma ampla margem de crescimento. “Isso indica que uma parcela significativa desse valor ainda não está sendo capturada”, destaca Amanda de Souza.

Entender onde está esse óleo é o primeiro passo para aumentar sua recuperação. No milho, ele se encontra na forma de oleossomos – microgotículas de triacilglicerídeos protegidas por proteínas e fosfolipídios –, uma estrutura que dificulta sua liberação ao longo do processo industrial. Além disso, o óleo pode estar associado a partículas insolúveis, a sólidos em suspensão ou presente em emulsões muito finas na fase aquosa, cada uma exigindo abordagens diferentes para sua recuperação.

COMPARAÇÃO ENTRE CURVAS DE CRESCIMENTO DO RENDIMENTO DE ETANOL E EXTRAÇÃO DE ÓLEO

Amanda de Souza: “O óleo vegetal gerado nas biorrefinarias é um insumo estratégico”

É nesse contexto que a biociência ganha protagonismo. “Na IFF, a ciência é aplicada ao longo de toda a cadeia de valor para transformar desafios industriais em oportunidades. A aplicação de soluções enzimáticas, como celulases e xilanases, atua na quebra das matrizes de fibras e proteínas, favorecendo a liberação do óleo e sua agregação em gotículas maiores, mais facilmente recuperáveis por centrifugação. Testes laboratoriais e industriais indicam ganhos de até 15% na recuperação de óleo, com impacto direto na rentabilidade das plantas”, afirma de Souza.

O convite é claro: olhar para o óleo não apenas como um coproduto, mas como uma alavanca estratégica de rentabilidade. Extrair o máximo do milho é uma jornada contínua – e ela se torna mais eficiente quando construída em parceria.

ESTADOS UNIDOS

FREIO NA INOVAÇÃO AGRÍCOLA

A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) sempre foi uma das principais financiadoras da pesquisa agrícola global, destinando cerca de 150 milhões de dólares por ano a centros e laboratórios dedicados a boas práticas agrícolas e sustentabilidade no campo. Após o desmonte da agência promovido pelo presidente Donald Trump, os recursos foram cortados drasticamente – e muitos estudos cancelados ou reduzidos.

Centros que pesquisam variedades de cultivares enfrentaram um rombo de 60 milhões de dólares no orçamento. Outros mantiveram parte do financiamento, mas com renovações anuais, o que inviabiliza projetos de longo prazo que dependem de acompanhamento contínuo por anos. Os impactos serão sentidos em todo o mundo: mais do que uma ajuda em momentos de crise, esses programas são fundamentais para tornar os sistemas agrícolas mais eficientes. Confira os principais projetos afetados:

MELHORAMENTO DE SOJA PARA A ÁFRICA OCIDENTAL

O laboratório de inovação da Universidade de Illinois vinha desenvolvendo variedades de soja mais produtivas e adaptadas a condições locais, com potencial direto de elevar renda e segurança alimentar na região. Com o corte de recursos, parte das pesquisas foi interrompida e novas variedades podem deixar de chegar ao campo.

EFICIÊNCIA NA PRODUÇÃO DE PROTEÍNA ANIMAL

Na Universidade da Flórida, estudos buscavam tornar a pecuária mais eficiente e ampliar o acesso a proteínas de origem animal em países em desenvolvimento. A redução do financiamento compromete testes de campo e a disseminação dessas tecnologias.

CEREAIS RESISTENTES AO

CLIMA

A Universidade Estadual do Kansas mantém pesquisas voltadas ao desenvolvimento de grãos mais tolerantes a seca, calor e variações climáticas. São projetos de longo prazo, que exigem anos de validação –exatamente o tipo de estudo mais afetado por cortes e incerteza orçamentária.

BANCO GLOBAL DE SEMENTES ESTRATÉGICAS

O Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, no México, abriga um dos maiores bancos genéticos do mundo, com mais de 150 mil variedades únicas. Os recursos da USAID ajudavam a manter e catalogar esse acervo, essencial para o desenvolvimento de novas culturas no futuro. Sem financiamento, há risco para a conservação desse patrimônio.

COMO A ICM SE TORNOU PROTAGONISTA DA EXPANSÃO DO ETANOL DE MILHO NO BRASIL

Com 40 profissionais no Brasil, a empresa amplia sua atuação em um mercado que deve responder por quase metade da produção nacional de etanol até 2035

Nos últimos anos, o etanol de milho se tornou uma das grandes apostas do setor de biocombustíveis no Brasil. O que era um nicho passou a atrair investimentos crescentes – e há razões concretas para isso. O Brasil é o segundo maior consumidor de etanol do mundo, com uma demanda construída ao longo de décadas desde o Proálcool, e o terceiro maior produtor global de milho, com custos competitivos e grande parte da produção concentrada na segunda safra, o que permite ampliar a produção sem disputar terra com outras culturas. A combinação entre oferta abundante de matéria-prima e um mercado já consolidado abriu caminho para a expansão do produto. Até 2035, o cereal deve responder por 40% a 45% de toda a produção de etanol no País.

É nesse contexto que a ICM tem ampliado sua atuação no Brasil. Presente no País desde 2012 e com filial estabelecida desde 2016, a empresa acompanhou de perto o crescimento do mercado – e foi protagonista desse processo. A primeira planta brasileira dedicada exclusivamente ao etanol de milho, inaugurada em 2017, utilizou suas tecnologias. Desde então, a ICM tem papel relevante na consolidação do etanol de milho no Brasil, contribuindo com tecnologias aplicadas ao desenvolvimento e à operação de unidades industriais no País.

A decisão recente de ampliar o escritório em São Paulo e nomear um general manager local reflete a confiança da empresa no País. Hoje, a ICM tem 40 profissionais no Brasil, distribuídos entre engenharia de processos, automação, instrumentação e acompanhamento de obras – trata-se de uma estrutura que acompanha os projetos do início ao fim e permanece presente depois que a planta entra em

operação. Na prática, isso significa conhecer de perto quem investe: grupos agrícolas, cooperativas e usinas de cana chegam ao etanol de milho com motivações e realidades diferentes, e é essa proximidade que permite desenhar projetos mais adequados a cada contexto.

Em grandes projetos industriais, pequenas variações de desempenho têm impacto direto no resultado econômico. Diferenças de processo podem representar dezenas de litros adicionais de etanol por tonelada de milho processado, além de reduções relevantes no consumo de vapor, enzimas e leveduras e ganhos na produção de coprodutos como DDGS e óleo de milho. A ICM ressalta que a escolha da tecnologia tem impacto determinante sobre o desempenho econômico do projeto, influenciando produtividade, eficiência energética, estabilidade operacional e geração de coprodutos. Trata-se de uma decisão estratégica, com efeitos que se estendem por toda a vida útil da usina.

Construir novas plantas importa, mas o desafio agora é outro: fazer cada usina render mais. O mercado brasileiro de etanol de milho avançou para um estágio em que ganhos de eficiência, previsibilidade operacional e melhor aproveitamento dos ativos existentes tornaram-se fundamentais para a competitividade. É nesse contexto que a escolha da tecnologia passa a ser cada vez mais estratégica. Para a ICM, líder mundial no fornecimento de tecnologias para etanol de milho com mais de 30 anos de experiência e presença em cerca de 70% do volume produzido nos Estados Unidos, o Brasil representa exatamente esse novo estágio: um mercado que amadureceu e agora demanda projetos cada vez mais sofisticados.

ITÁLIA

DA CINZA AO VINHO

Nas cidades ao redor do Etna, o vulcão ativo da Sicília, a queda de cinzas faz parte da rotina. A cada erupção, toneladas de material são lançadas ao ar e podem se espalhar por até 800 quilômetros. Durante décadas, esse fenômeno foi tratado como um transtorno para os produtores locais: além de danificar sistemas de irrigação e afetar lavouras, exigia a mobilização de equipes inteiras para a limpeza dos campos. Mas isso pode mudar. Um projeto da Universidade de Catania investiga o potencial das cinzas vulcâni-

PALESTINA

cas em diferentes aplicações, que vão da construção civil, como insumo para pavimentação e isolamento, à agricultura. Os primeiros resultados indicam que o material pode funcionar como fertilizante natural. Na região, viticultores já passaram a utilizá-lo para melhorar a drenagem do solo e enriquecer a terra com minerais como ferro, alumínio e sílica. Ainda há entraves regulatórios para o uso em larga escala, mas a pesquisa pode abrir caminho para novas regras, e transformar um velho problema em vantagem produtiva.

A GUERRA CONTRA O CAMPO

Desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, áreas agrícolas na Faixa de Gaza foram severamente atingidas pelos bombardeios. Além da destruição das lavouras, agricultores ficaram meses sem acesso às terras, impedidos de plantar ou colher. Mesmo após o cessar-fogo firmado no fim de 2025, a instabilidade persiste – e o retorno ao campo tem revelado um cenário devastado. Um relatório da FAO estima que cerca de 80% das terras cultiváveis foram danificadas, enquanto apenas 5% permanecem em condições de uso imediato.

A recuperação avança de forma lenta e desigual, esbarrando não apenas na destruição física, mas também em restrições de acesso. Parte dessas áreas está situada nas chamadas “zonas de tampão”, classificadas por Israel como regiões de segurança. Na prática, isso limita ou impede o retorno de agricultores e levanta o risco de perda permanente de terras produtivas. Mesmo onde o cultivo tenta recomeçar, a reconstrução do setor agrícola, essencial para a subsistência local, ainda parece distante.

BIOENERGIA

NO BRASIL: O ETANOL DE MILHO E AS BIOSSOLUÇÕES QUE IMPULSIONAM UMA NOVA ERA

á algum tempo, a transição energética global deixou de ser uma agenda de longo prazo para se tornar uma resposta imediata à volatilidade dos mercados de energia. O Brasil reúne condições únicas para avançar nessa direção, e o etanol de milho emerge como um dos principais vetores dessa transformação.

O setor vem apresentando crescimento consistente, impulsionado pela ampla disponibilidade de milho, pela expansão da segunda safra e por um ambiente regulatório mais estruturado. Esse cenário tem ampliado a capacidade produtiva e consolidado o etanol de milho como um complemento estratégico à produção tradicional de cana. Segundo projeções, essa capacidade de produção apresenta, ainda, potencial para dobrar nos próximos cinco anos.

O crescimento ocorre em paralelo a um sistema energético em transformação. A expansão de fontes renováveis – como solar e eólica – tem aumentado a complexidade operacional e evidenciado desafios que impactam a eficiência do sistema. Nesse cenário, os biocombustíveis ganham importância por oferecer previsibilidade, produção local e menor exposição a choques externos. ²

O setor também apresenta fortalezas relevantes: a disponibilidade de matéria-prima, a integração com cadeias agroindustriais e a capacidade de gerar valor a partir de coprodutos posicionam o etanol de milho como solução competitiva. Produtos como DDG e DDGS ampliam as fontes de receita e fortalecem a conexão com a cadeia de proteína animal, elevando a resiliência econômica das operações.³

As perspectivas seguem positivas. O avanço de políticas públicas voltadas à descarbonização, somado às discussões sobre a ampliação da mistura de etanol anidro na gasolina, de 27% para 30%, deve sustentar a demanda nos próximos anos. O Brasil ainda se beneficia de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com elevada participação de fontes renová-

POR FABRÍCIO LEAL ROCHA*

veis, o que reforça sua competitividade na transição energética global. Além disso, o País conta com uma frota de veículos leves predominantemente flex, o que representa uma enorme oportunidade de substituição dos combustíveis fósseis por renováveis.

No entanto, os desafios se intensificam à medida que o setor amadurece. Disponibilidade e custo da biomassa tornam-se fatores cada vez mais críticos, assim como o custo de capital e o equilíbrio entre oferta e demanda, essencial para preservar a rentabilidade.

É nesse ponto que a inovação assume papel central. Tecnologias baseadas em biotecnologia, como enzimas e leveduras industriais, melhoram rendimentos, aumentam produtividade, reduzem perdas e aumentam a previsibilidade da produção. Ao produzir mais com menos recursos e promover o melhor aproveitamento dos ativos existentes, essas soluções reposicionam a competitividade do setor a partir de dentro do próprio processo produtivo.

Nesse contexto a Novonesis desempenha papel estratégico: Por meio de biossoluções como enzimas, leveduras e outros insumos biológicos desenvolvidos para a indústria de bioenergia, é possível extrair mais valor de cada tonelada de milho processada, com impacto direto na eficiência operacional e na sustentabilidade das plantas.

O futuro do etanol de milho no Brasil dependerá, portanto, da capacidade de combinar escala, eficiência e inovação. Mais do que expandir a produção, o desafio será avançar na sofisticação tecnológica, na formação de talentos e no desenvolvimento de soluções que conectem bioenergia, indústria e sustentabilidade.

*Fabrício Rocha é Head of Bioenergy Sales na Novonesis, com atuação focada no desenvolvimento de soluções para a indústria de bioenergia na América Latina e no apoio à evolução tecnológica do setor.

A MANGA SE REINVENTA

Maior produtor mundial de manga, a Índia está acelerando mudanças para preservar o cultivo diante de um clima cada vez mais instável. O país, que reúne mais de 700 variedades da fruta, muitas delas adaptadas a condições regionais específicas, investe agora no desenvolvimento de novas linhagens mais resistentes a ondas de calor, secas e variações climáticas extremas. Técnicas de edição genética ajudam a encurtar um processo tradicionalmente lento,

ESPANHA

A FEBRE DO PISTACHE

A febre do pistache chegou à Espanha – e, ao contrário de outros países, já começa a se traduzir em produção relevante. Em 2018, regiões como Castela-La Mancha, Andaluzia e Aragão colhiam cerca de 8 mil toneladas por ano. No ano passado, o volume saltou para 42 mil toneladas. Apesar da expansão acelerada, o país ainda ocupa posição modesta no mercado global. Para ganhar escala, os produtores têm mudado a estratégia: em vez de vender apenas

permitindo ganhos mais rápidos em produtividade. Essa transformação já chega ao campo. Produtores começam a substituir variedades tradicionais por cultivares mais resistentes, que apresentam melhor desempenho em condições adversas. Ao mesmo tempo, práticas de manejo ganham importância: o controle da copa e o uso de reguladores de crescimento permitem ajustar o porte das árvores, induzir a floração e antecipar a colheita.

a matéria-prima, avançam no processamento industrial, onde o valor agregado é maior. Hoje, apenas 10% da produção passa por esse tipo de transformação. Entre as apostas está a pasta de pistache, segmento tradicionalmente dominado pela Itália. Para disputar mercado, os espanhóis apostam em diferenciais como rastreabilidade total e produção sem aditivos. Com o consumo global em alta, o movimento abre uma nova frente agrícola para o país.

GENERAL CHAINS AMPLIA ATUAÇÃO E

FORTALECE PRESENÇA NO

MERCADO SUCROENERGÉTICO E DE ETANOL DE MILHO

Para entender melhor essa evolução e os planos da empresa para o futuro, conversamos com Luis Carlos Broglio, diretor Técnico e Comercial da General Chains, que compartilha sua visão sobre o setor, os desafios enfrentados pela indústria e as oportunidades que se apresentam para fornecedores especializados. A história da General Chains está profundamente ligada ao desenvolvimento do setor sucroenergético brasileiro. Ao longo de décadas, a empresa consolidou sua atuação fornecendo componentes essenciais para o funcionamento das usinas sucroalcooleiras, sempre com foco em qualidade, durabilidade e confiabilidade. Confira a entrevista a seguir:

COMO A GENERAL CHAINS CONSTRUIU SUA TRAJETÓRIA NO SETOR SUCROENERGÉTICO?

A General Chains sempre teve como prioridade entender profundamente o ambiente em que nossos clientes atuam. O setor sucroenergético é extremamente exigente em termos de operação, com processos contínuos e equipamentos submetidos a condições severas. Por isso, nossos produtos precisam oferecer alto desempenho e resistência, garantindo segurança operacional e redução de paradas. As correntes industriais, eixos e engrenagens fornecidos pela empresa são componentes fundamentais em diversas etapas do processo produtivo das usinas, desde o transporte de matéria-prima até sistemas mecânicos de transmissão de potência. A confiabilidade desses elementos é determinante para a produtividade e a eficiência das operações.

O CRESCIMENTO DO ETANOL DE MILHO ABRE NOVAS OPORTUNIDADES PARA A EMPRESA?

Nos últimos anos, o etanol de milho ganhou destaque no cenário energético brasileiro, principalmente com a expansão de plantas industriais nas regiões produtoras de grãos. Esse movimento criou uma nova frente de oportunidades para empresas fornecedoras de equipamentos e correntes industriais. Para a General Chains, esse crescimento representa um passo natural de expansão. Observamos com grande interesse o avanço do etanol de milho no Brasil. Trata-se de um segmento que vem crescendo de forma consistente e que exige soluções industriais robustas e confiáveis, assim como ocorre no setor sucroenergético tradicional. Apesar de diferenças nos processos produtivos, muitas das demandas mecânicas são semelhantes, o que permite à empresa aplicar sua experiência acumulada.

COMO A EMPRESA SE PREPAROU PARA ATENDER ESSE

NOVO SEGMENTO?

Antes de iniciar nossa atuação nesse mercado, buscamos entender as necessidades das usinas de etanol de milho.

Luis Carlos Broglio, diretor Técnico e C omercial da General Chains: "O mercado de bioenergia no Brasil é extremamente promissor"

Cada processo industrial possui características próprias, e é fundamental que os componentes estejam adequados às condições de operação. Além disso, a empresa investiu na ampliação do relacionamento com clientes e parceiros do setor. Nosso objetivo é construir uma presença sólida também nesse segmento, assim como fizemos ao longo dos anos no setor sucroenergético. Estamos confiantes de que nossa experiência e capacidade técnica serão grandes aliados nesse processo.

QUAIS SÃO OS PLANOS DA EMPRESA PARA OS PRÓXIMOS ANOS?

Olhando para o futuro, a General Chains pretende continuar investindo em inovação, qualidade e expansão de mercado. A presença crescente no segmento de etanol de milho é uma das prioridades estratégicas. Estamos atentos às tendências do setor e às oportunidades que surgem. O mercado de bioenergia no Brasil é extremamente promissor, e queremos continuar contribuindo para o desenvolvimento dessa indústria.

SENEGAL

CELEIRO AFRICANO

Duas fazendas no Senegal se tornaram peças-chave no abastecimento de vegetais frescos no Reino Unido. Os projetos foram iniciados no começo dos anos 2000 pelo agrônomo Michael Laurent, que usou imagens de satélite para identificar áreas com potencial agrícola. A região senegalesa de Saint-Louis foi escolhida por reunir alta incidência de luz solar, disponibilidade de água do rio Senegal, terra acessível e mão de obra local. O que começou de forma modesta evoluiu para uma operação de mais de 2 mil hectares e cerca de 9 mil funcionários.

Hoje, a produção é de 2 milhões de maços de cebolinha, 100 toneladas de vagem e 80 toneladas de rabanete por semana. Aproximadamente 70% desse volume abastece redes de supermercados no Reino Unido, enquanto o restante segue para Alemanha e Holanda. Hortaliças, milho e outros vegetais completam a produção. O Reino Unido importa cerca de 40% dos alimentos que consome, mas essa proporção chega a 90% durante o inverno. Nesse cenário, fazendas como as de Saint-Louis se tornaram fundamentais para o abastecimento.

Plant +

AGROLEND ALCANÇA R$ 1 BILHÃO DE CARTEIRA

Fintech criada por executivos do agro e do mercado financeiro aposta em crédito customizado para aumentar o acesso a recursos no campo

Ocrédito sempre foi um dos maiores gargalos do agronegócio brasileiro. Em um setor marcado por ciclos longos e margens apertadas, o acesso a capital no momento certo pode definir o sucesso – ou o fracasso – de uma safra. É nesse contexto que a Agrolend surgiu com o propósito de expandir o acesso ao crédito para toda a cadeia.

Fundada em 2020, a empresa carrega uma bagagem bem mais antiga. “Num certo sentido, a Agrolend já existe há mais de 20 anos”, afirma o cofundador Carlos Fagundes, numa referência à experiência acumulada pelos sócios, muitos deles oriundos do mercado financeiro. Ele próprio soma 25 anos de trajetória no agronegócio, com passagens por gigantes como Syngenta, Monsanto e Bayer. A partir dessa experiência, os fundadores chegaram a uma conclusão comum: no Brasil, o crédito para o campo costuma encolher justamente quando o produtor mais precisa. “Se um segmento enfrenta desafios, os bancos tradicionais reduzem a exposição ao setor”, diz Fagundes. A Agrolend foi na direção oposta – e sua aposta deu resultados.

A empresa estreou em plena pandemia com uma proposta ousada: crédito 100% digital para o pequeno e médio produtor rural, sem burocracia, operado pelo celular. Em seu primeiro modelo de negócios, o produtor solicitava o crédito, enviava os documentos e assinava a Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F) digitalmente – pelo WhatsApp, sem sair da fazenda. No teste-piloto, os fundadores escolheram uma revenda no interior do Paraná para verificar a aceitação do produto disruptivo em uma região bem atendida pelo crédito rural. Os testes tiveram boa resposta e confirmaram a eficácia do modelo.

Com a operação já testada na prática, a empresa levantouR$ 9,5 milhões numa rodada semente em 2021, seguida de uma Série A de R$ 80 milhões e uma Série B de R$ 135 milhões. Em outubro de 2024, já num mercado de equity praticamente parado, fechou a Série C: R$ 317 milhões, com investidores como a Syngenta, maior empresa de defensivos do mundo, Yara, referência global em fertilizantes, o banco japonês Norinchukin Bank, o JICA, braço de desenvolvimento do governo do Japão, e a Vivo, que viu na Agrolend o parceiro ideal para financiar antenas de telecomunicações nas fazendas. No total, a empresa acumulou R$ 552 milhões em patrimônio líquido, o que lhe permitiria chegar a uma carteira de aproximadamente R$ 3 bilhões, mantendo uma alavancagem conservadora.

A Agrolend se viu então com capacidade de atender os grandes players do Agro e iniciou a transição para um novo modelo de negócios, focado em indústrias de insumos, cooperativas, tradings e processadoras, sempre com operações customizadas para cada cliente.

“De 2024 para 2025, o ticket médio da nossa operação saltou 12 vezes, chegando a R$ 4,9 milhões”, afirma Fagundes.

Carlos Fagundes, cofundador da Agrolend: “De 2024 para 2025, o ticket médio da nossa operação saltou 12 vezes, chegando a R$ 4,9 milhões”

O modelo de funding bastante competitivo permite oferecer condições atrativas ao cliente. A empresa usa seu patrimônio para conceder crédito, emite LCAs e CDBs lastreadas nessas operações e repõe o caixa rapidamente. Mais de dez plataformas distribuem esses papéis, entre elas empresas como XP, BTG, Nubank e Mercado Pago. “A LCA é algo mágico, você conecta a metrópole do campo. Hoje temos 40 mil depositantes em nossas LCAs e CBDs”, diz Fagundes. “A pessoa investe, ajuda a financiar o agro, e esse alimento volta para a mesa dela.”

Em dezembro de 2025, a Agrolend emprestou cerca de R$ 400 milhões em um único mês, encerrando o período com uma carteira de aproximadamente R$ 1 bilhão. Tudo operado por um time enxuto de cerca de 70 funcionários, com forte peso em operações e tecnologia. Segundo Fagundes, o foco continuará sendo tornar o crédito mais acessível e eficiente. Em um setor essencial para a economia e para a segurança alimentar do planeta, a aposta da Agrolend é levar crédito a quem produz, com mais velocidade, menos burocracia e em sintonia com a realidade do campo.

ESTADOS UNIDOS

PÁSSAROS AMEAÇADOS

Um novo estudo indica que o declínio das populações de aves está ganhando velocidade. Pesquisa conduzida pela Universidade de Ohio analisou 261 espécies entre 1987 e 2021 e constatou que cerca de metade apresentou queda significativa no número de indivíduos, enquanto um quarto registrou perdas em ritmo cada vez mais rápido. O diferencial do levantamento está na abordagem: além de medir o tamanho das populações, os pesquisadores mapearam onde as perdas são mais intensas e

quais fatores estão por trás do fenômeno. Os impactos são mais visíveis em regiões como o Meio-Oeste americano e a Califórnia, onde mudanças climáticas e o uso de defensivos pressionam os habitats naturais. O alerta vai além da biodiversidade. Aves desempenham funções essenciais nos ecossistemas – da polinização à dispersão de sementes e ao controle de pragas. A redução dessas populações, portanto, é um risco para o equilíbrio dos sistemas agrícolas e naturais.

A energia do agro

De etanol e biometano a combustível sustentável para aviação, o campo brasileiro amplia seu papel na transição energética global e atrai investimentos bilionários

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AGRIBUSINESS

Empresas e líderes que fazem diferença

Empresas e líderes que fazem diferença

A ENERGIA QUE NASCE DO CAMPO

DO ETANOL AO BIOMETANO E AO COMBUSTÍVEL DE AVIAÇÃO, O BRASIL TRANSFORMA O AGRONEGÓCIO EM

PROTAGONISTA DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA GLOBAL

Reportagem de Capa

Em 1975, quando o mundo ainda curava as feridas do primeiro choque do petróleo, o Brasil fez uma aposta que parecia improvável: transformar cana-de-açúcar em combustível para carros. O Proálcool nasceu como resposta a uma situação de emergência, mas acabou abrindo caminho para uma mudança que décadas depois ganharia um alcance que ninguém poderia prever. O programa deu certo – e de um jeito que surpreendeu até os mais otimistas. Vieram o motor flex, uma infraestrutura de abastecimento complexa e a consolidação do etanol como alternativa à gasolina, enquanto boa parte do mundo ainda tratava a ideia com ceticismo. Cinco décadas depois, aquela decisão mostrou ser muito mais do que um desvio circunstancial e acabou se revelando como o primeiro movimento de uma transformação mais ampla.

O milho de segunda safra, antes visto como produto secundário, tornou-se matéria-prima para usinas de etanol no Centro-Oeste. A vinhaça, um resíduo do processo de fermentação, passou a alimentar plantas de biometano. Mais recentemente, o bagaço de cana seguiu a rota do querosene renovável para aviação. O agronegócio, que o mundo insistia em enxergar apenas como produtor de alimentos, começa a ser reconhecido como um dos principais fornecedores de energia limpa do planeta – e a pressão por essa mudança não poderia vir em momento mais oportuno. A escalada de conflitos no Oriente Médio e a alta do petróleo nos últimos meses expuseram, mais uma vez, como a dependência fóssil é frágil. Agora, países que dependem de importação de energia

O B rasil, que durante décadas exportou grãos, começa a perceber que pode vender a energia que nasce desses mesmos produtos

olham para o Brasil com um interesse que vai muito além da diplomacia.

Não é coincidência que metade da oferta interna de energia brasileira já venha de fontes renováveis – índice que chegou a 59% no estado de São Paulo, segundo o Balanço Energético Nacional de 2025, contra 13% registrados pelos países da OCDE, o grupo das nações mais industrializadas do mundo, no mesmo período. Parte considerável dessa vantagem vem do campo. Segundo estudo da FGV Agro, o agronegócio responde por mais da metade da energia renovável consumida no Brasil, somando etanol, biodiesel e biomassa. Sem essa contribuição, a matriz nacional seria bem mais modesta. O campo brasileiro, nesse sentido, não apenas alimenta o mundo, mas também começa a abastecê-lo.

Quando se fala em bioenergia no Brasil, o etanol de cana ainda aparece como ponto de partida – e há bons motivos para isso. A cultura permanece entre as mais eficientes do mundo na produção de biocombustíveis, e o País construiu ao longo de décadas uma liderança difícil de replicar. Mas a revolução que ocorre no campo hoje vai além dela. Nos últimos anos, o agro foi se abrindo para novas culturas e tecnologias sem abandonar o que já sabia fazer. O resultado é uma cadeia mais sofisticada, com produtos e subprodutos sendo aproveitados de formas que até pouco tempo pareciam distantes da realidade industrial.

Em Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, a FS Fueling Sustainability ergue uma usina de etanol de milho com capacidade para produzir 540 milhões de litros por ano e gerar 56 mil MWh de

energia elétrica. O projeto, estruturado em ciclo fechado – em que subprodutos como vinhaça e resíduos do milho são reintegrados ao processo industrial, eliminando a geração de efluentes –, mobiliza R$ 2 bilhões em investimentos e foi parcialmente viabilizado por debêntures no âmbito do Eco Invest Brasil, programa do Tesouro Nacional voltado à atração de capital internacional para a transição energética. Por meio de uma operação semelhante, a Inpasa, que ao longo dos últimos anos consolidou uma presença relevante na expansão do etanol de milho no País, levantou R$ 185 milhões para sua unidade em Rondonópolis (MT). Ao todo, as indústrias de biocombustíveis já somam oito operações dentro do programa, que reúne 33 projetos distribuídos por 14 estados. De acordo com o Plano de Transformação Ecológica

do Ministério da Fazenda, essa cadeia está entre as de maior impacto na economia brasileira, com capacidade para adicionar 36 bilhões de dólares ao PIB até 2030 e gerar 620 mil empregos.

No mesmo movimento, a Cerradinho Bioenergia inaugurou recentemente em Maracaju (MS) uma unidade da subsidiária Neomille, com investimento de R$ 1 bilhão. A planta tem capacidade para processar 608 mil toneladas de milho e produzir 266 milhões de litros de etanol por ano. Combinada à unidade de Chapadão do Céu (GO), a Cerradinho passou a operar o maior complexo de etanol do Brasil, com capacidade de 13,6 milhões de toneladas de cana equivalente. Os coprodutos do processamento do milho, como óleo e DDG, seguem para a nutrição animal, fechando o ciclo sem desperdício.

O mercado internacional enxerga no B rasil uma plataforma estratégica para o SAF, o combustível sustentável de aviação

A diversificação do campo brasileiro, porém, não para no etanol de milho. Uma de suas fronteiras mais promissoras está bem acima do solo – literalmente. A aviação é um dos setores mais difíceis de descarbonizar. Responsável por 2,5% das emissões globais de CO₂, ela depende de combustíveis com alta densidade energética, e poucas alternativas ao querosene convencional conseguem atender a esse requisito. O etanol de cana brasileiro é uma delas, e o mundo começa a perceber isso.

A Raízen, maior produtora mundial de etanol de cana, foi a primeira empresa do mundo a obter uma certificação que habilita seu produto como matéria-prima para a fabricação de SAF nos padrões da aviação civil internacional. Pela tecnologia conhecida como Alcohol-to-Jet, o etanol é convertido em querosene renovável com

potencial de reduzir as emissões entre 70 e 80% em relação ao combustível fóssil, segundo a IATA, a associação internacional que reúne as principais companhias aéreas do mundo. Em maio de 2025, a companhia formalizou um memorando com a SAFPAC, empresa de Hong Kong especializada em projetos de substituição de combustíveis fósseis na região Ásia-Pacífico, para fornecimento de etanol brasileiro, incluindo o de segunda geração, feito a partir do bagaço da cana. A parceria prevê 170 mil toneladas de etanol ao ano na primeira fase, chegando a 500 mil toneladas anuais em 2033.

À medida que o etanol brasileiro avança em certificações e ganha espaço em novos mercados, o processo de qualificação da produção segue evoluindo. A Tereos, multinacional francesa com forte presença no País, obteve em fevereiro de 2026

uma certificação internacional que atesta que seu etanol não gera emissões associadas ao uso da terra, uma exigência das companhias aéreas e dos governos que começam a regular o combustível sustentável de aviação. Segundo a empresa, a obtenção do selo decorre de práticas agrícolas voltadas à melhoria do solo, aumento de produtividade e uso mais eficiente das áreas já cultivadas, sem necessidade de expansão.

Se empresas estrangeiras enxergam no Brasil uma plataforma estratégica para o SAF, a maior companhia do País também está nessa corrida, só que pela porta das refinarias. A Petrobras está construindo em Cubatão (SP), junto ao complexo Presidente Bernardes, sua primeira refinaria projetada exclusivamente para processar maté-

rias-primas renováveis – sem mistura com petróleo, do início ao fim do processo. A unidade terá capacidade para produzir 34 mil barris por dia de SAF e diesel verde, e uma segunda planta já está em estudo. “Se o etanol começou no Brasil, foi graças à Petrobras”, disse a presidente Magda Chambriard, durante evento realizado em Brasília. “O mesmo vale para o biodiesel. Agora vamos aumentar nossa participação novamente.”

Enquanto o etanol e o SAF ocupam as manchetes, uma transformação mais silenciosa acontece nos bastidores da cadeia produtiva. Empresas de perfis muito distintos estão aprendendo a extrair valor do que antes era simplesmente descartado, e os resultados já aparecem tanto nos balanços quanto nas emissões evitadas. Graças a esse

S egundo estudo da FGV, o agronegócio responde por mais da metade da energia renovável consumida no B rasil

movimento, a Agropalma, referência mundial na produção com óleo de palma, identificou uma redução de 24% nas emissões de gases de efeito estufa e traçou a ambiciosa meta de diminuir em 50% as emissões operacionais até 2030.

Na refinaria de Limeira (SP) da Agropalma, uma caldeira movida a biomassa de cavaco de madeira substituiu o gás natural sem alterar a capacidade produtiva, abatendo mais de 13 mil toneladas de CO₂ por ano. “No mercado atual, a transição energética não é mais um diferencial, mas um requisito de competitividade”, diz André Gasparini, diretor Comercial, Marketing e P&D da empresa. A companhia também retomou a produção de biodiesel no Pará com tecnologia 100% enzimática, convertendo resíduos oleosos do próprio refino em

combustível. A estimativa é que o biodiesel produzido evite a emissão de cerca de 39 mil toneladas de CO₂ por ano.

A BP Bioenergy percorre um trajeto parecido, mas a partir de uma origem diferente. A empresa é o braço de bioenergia da BP, uma das maiores petroleiras do mundo, com sede em Londres, na Inglaterra, e sua presença no Brasil é, por si só, um sinal de quanto o etanol de cana passou a interessar ao mercado global de energia. Depois de operar por anos em joint venture com a Bunge, gigante americana do agronegócio, a BP comprou em 2024 a participação restante do sócio e passou a controlar integralmente 11 unidades agroindustriais em cinco estados, com capacidade para cerca de 50 mil barris de etanol equivalente por

dia. Com a operação consolidada, o próximo passo aponta para o biometano: dois projetos estão em análise – um na Usina Tropical, em Goiás, e outro na Usina Moema, no interior de São Paulo –, com expectativa de produzir mais de 100 mil metros cúbicos por ano.

O biometano ocupa um lugar curioso nessa história: é a fronteira menos visível da transição energética no campo, e talvez por isso mesmo uma das mais promissoras. Obtido a partir da biodigestão de resíduos orgânicos como vinhaça de usinas, dejetos de animais, palha e bagaço de cana, ele é quimicamente equivalente ao gás natural e pode ser usado em veículos, processos industriais ou injetado diretamente na rede de distribuição. O agronegócio, portanto, acabou se tornando seu maior reservatório de matéria-prima. Segundo a Abiogás, associação brasileira que reúne os produtores do setor, o potencial brasileiro de produção é de 120 milhões de metros cúbicos por dia, o dobro da demanda atual por gás natural no País. Desse total, 56% vêm do segmento sucroenergético e 38% da pecuária. A Agência Internacional de Energia projeta que o Brasil pode se tornar o quinto maior produtor mundial de gás renovável, respondendo por mais de 10% do fornecimento global.

Esse potencial já começa a se materializar. A Atvos, uma das maiores produtoras de biocombustíveis do País, com capacidade para 3,3 bilhões de litros de etanol por ano, anunciou a instalação da maior planta de biometano com origem de vinhaça do mundo, em Nova Alvorada do Sul (MS), com R$ 350 milhões de investimento. “A bioenergia está moldando o futuro”, afirma Bruno Serapião, CEO da Atvos. “O etanol brasileiro é um ativo industrial e diplomático ancorado em uma economia circular madura e testada em larga escala.” A São Martinho,

um dos maiores grupos sucroenergéticos do País, avança por caminhos parecidos. Com apoio da International Finance Corporation, braço financeiro do Banco Mundial, a empresa levantou US$ 165 milhões para construir sua primeira planta de biometano a partir da biodigestão da vinhaça. Ao mesmo tempo, testou em parceria com a Case IH o primeiro trator movido a etanol do País, operando junto a uma colhedora de cana também abastecida pelo biocombustível.

Do lado regulatório, o ambiente também ficou mais favorável. A Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, estabeleceu um mandato de adição de biometano ao gás natural a partir de 2026, com meta inicial de 1% aumentando gradualmente até 10% em 2034. A medida cria um mercado previsível e de longo prazo para o produto, exatamente o tipo de sinal que investidores precisam para viabilizar projetos de maior escala. O RenovaBio, programa nacional de biocombustíveis que atribui créditos de carbono às usinas mais eficientes, reforça esse movimento ao tornar a produção limpa financeiramente mais competitiva. Juntos, os dois instrumentos formam uma arquitetura regulatória que o setor não tinha antes e que chega num momento em que o interesse externo pelo biometano brasileiro cresce. “Os conflitos mundo afora colocam o biogás e o biometano em uma nova era”, diz Felipe Marques, diretor do Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás¬). O Brasil, que durante décadas exportou grãos e proteína animal, começa a perceber que pode vender também a energia que nasce desses mesmos processos produtivos. O campo brasileiro passou os últimos 50 anos aprendendo a fazer energia limpa quando ninguém se interessava por isso. Agora, o interesse é de todos.

O AMBIENTE REGULATÓRIO FICOU

COMO A AGROPALMA SE TORNOU PROTAGONISTA DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

A empresa brasileira de óleo de palma une bioenergia, biodiesel e economia circular para produzir mais e emitir menos

Atransição energética deixou de ser uma agenda de longo prazo para se consolidar como uma urgência global. Pressionados por metas climáticas, mudanças regulatórias e a necessidade de garantir segurança energética, países e empresas redesenham suas estratégias para diminuir a dependência de combustíveis fósseis e acelerar a adoção de fontes renováveis. Mais do que uma simples substituição de matrizes, trata-se de uma transformação que requer expansão das energias renováveis, ganhos de eficiência, inovação tecnológica e integração entre diferentes setores da economia. Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular: com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, o País combina disponibilidade de recursos naturais, capacidade produtiva e conhecimento técnico.

É nesse cenário que empresas como a Agropalma – referência mundial na produção sustentável de soluções com óleo de palma – vêm demonstrando, na prática, como o agronegócio pode deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima para se tornar agente ativo da transição energética. “No mercado atual, a transição energética não é mais um diferencial, mas um requisito de competitividade”, diz André Gasparini, Diretor Comercial, de Marketing e P&D da Agropalma.

Nos últimos anos, a Agropalma registrou redução de 24% nas emissões de gases de efeito estufa e estabeleceu a meta de diminuir em 50% suas emissões operacionais até 2030. Na refinaria de Limeira (SP), a empresa implementou uma caldeira movida à biomassa a partir do cavaco de madeira, dispensando o uso de gás natural sem alterar a capacidade produtiva.

A solução utiliza matéria-prima renovável inserida em um ciclo de carbono fechado, no qual o CO₂ emitido na queima é previamente absorvido durante o crescimento do eucalipto. O resultado foi o abatimento de mais de 13 mil toneladas de CO₂ por ano, equivalente ao plantio anual de aproximadamente 91 mil árvores. O projeto rendeu à Agropalma o título de “Protago-

Caldeira na unidade de Limeira (SP): movida à biomassa, ela dispensa o uso de gás natural sem alterar a capacidade produtiva

nista da Transição Energética”. “Nossa caldeira de biomassa foi projetada com um filtro na chaminé para limitar as emissões de particulados, cumprindo as normas do Conama e da Cetesb”, diz Edison Delboni, diretor Industrial da Agropalma. “Tudo isso, além de ser positivo no quesito sustentável, nos habilita a suportar aumentos na produção da nossa fábrica, elevando a qualidade do nosso refino e a segurança da nossa equipe.”

Na área logística, a adoção do gás natural veicular avança como frente relevante da descarbonização: desde 2022, dois caminhões movidos a GNV reduziram em 21% as emissões de CO₂ nas rotas em que operam, além de mitigar emissões de óxidos de nitrogênio e eliminar compostos de enxofre.

Após 15 anos fora do segmento, a Agropalma também retomou a produção de biodiesel com a inauguração de uma nova usina no Pará baseada em tecnologia 100% enzimática, pioneira no estado e uma das mais modernas do setor. O modelo substitui insumos como o ácido sulfúrico e o metilato de sódio por um processo menos agressivo ao maquinário e ao meio ambiente, permitindo transformar diferentes tipos de matérias-primas, incluindo resíduos oleosos, em combustível. A planta foi instalada próxima às grandes bases distribuidoras da região para suprir a demanda local.

“A cadeia da palma construída pela Agropalma é verticalizada, mas tem circularidade”, ressalta Fabrício Menezes de Souza, coordenador da Planta de Biodiesel da Agropalma. “A geração do biodiesel, que parece ser o último estágio desse conjunto, na verdade, moverá toda a cadeia produtiva mais uma vez. Todo o CO₂ produzido nas operações será absorvido pela plantação, que, com a luz solar e a fotossíntese, produzirá naturalmente mais frutos que resultarão em mais óleo, e assim sucessivamente.” A estimativa é de que o biodiesel produzido pela companhia evite a emissão de cerca de 39 mil toneladas de CO₂ por ano, o equivalente à retirada de 19,7 mil veículos de circulação.

A ERA DO PRODUTOR GESTOR

EM UM AGRO MAIS COMPLEXO, COM

CRÉDITO SELETIVO E MARGENS

PRESSIONADAS, A PROFISSIONALIZAÇÃO DA GESTÃO SE TORNA DECISIVA PARA

PRESERVAR COMPETITIVIDADE NO CAMPO

Por Lucas Bresser e Giovanna Arruda

Oagronegócio brasileiro atravessa um momento de inflexão silenciosa. Depois de décadas em que o diferencial competitivo esteve concentrado em escala, tecnologia e ganhos físicos de produtividade, o setor passa a operar sob uma nova lógica: juros elevados, volatilidade climática mais intensa, crédito mais seletivo e cadeias globais que exigem rastreabilidade, conformidade e previsibilidade. Nesse ambiente, produzir bem já não é suficiente. O produtor que não profissionaliza a gestão perde margem, acesso a capital e capacidade de planejamento. É justamente aí que surge a figura do produtor “gestor” como vantagem competitiva estrutural.

Essa transição já é visível dentro da porteira. No interior de Bom Jesus (RS), o produtor Rodolfo Arns, de 35 anos, que atua com grãos e sementes, representa esse movimento. Sócio de uma propriedade familiar com quatro gerações no campo, ele voltou há sete anos para assumir a gestão do negócio dos pais depois de se formar em

administração, concluir um mestrado em Agronegócios e estudar nos Estados Unidos. “Sempre trabalhei no agro, desde que nasci, ajudando meu pai. Mas, quando retornei depois dos estudos, ficou claro que produzir bem não bastava mais”, afirma Arns. “Era preciso ter controle total do negócio.”

Essa mudança aparece de forma clara nas tendências mapeadas por grandes empresas do setor. Em análise publicada pela Cargill Brasil em 2025, a companhia elenca a gestão profissional e orientada por dados como um dos sete vetores centrais de competitividade do agro nos próximos anos, ao lado de eficiência no uso de insumos e rastreabilidade. Segundo a empresa, monitorar custos, adotar estratégias financeiras e estruturar processos de decisão deixou de ser um diferencial opcional e passou a ser condição para manter competitividade em cadeias cada vez mais integradas e exigentes.

Para Fabrício Orrigo, diretor de Produtos para Agro da TOTVS, gigante dos softwares de gestão,

essa transformação é inevitável. “A figura do produtor rural está deixando de ser apenas a de um especialista no cultivo para se tornar a de um gestor de negócios completo”, diz o executivo. “A principal demanda hoje é por eficiência e rentabilidade, especialmente em um cenário de margens mais pressionadas e alta volatilidade.” Segundo ele, a competitividade crescente faz com que decisões baseadas em dados deixem de ser um luxo e passem a ser uma necessidade operacional.

A leitura é reforçada por estudos de consultorias globais. A PwC, ao analisar a transformação digital do agronegócio brasileiro, aponta que o gargalo do setor não está na falta de tecnologia, mas na ausência de governança, estratégia e gestão integrada. No recorte setorial do Índice de Transformação Digital Brasil, o agro registrou maturidade digital de 3,1 em uma escala de 6, abaixo da média geral de 3,7. As dimensões com pior desempenho foram justamente decisões orientadas por dados (2,8), processos digitais (2,9) e pessoas e

C ada vez mais, o produtor que não profissionaliza a gestão perde acesso a capital e capacidade de planejamento

D ieisson P ivoto, sócio-consultor do G rupo R ara: " B oa gestão traz resultados melhores"

cultura (2,7), evidenciando que a tecnologia avança mais rápido que a capacidade de gestão para capturá-la como valor econômico.

Esse descompasso cobra um preço quando o ciclo econômico se torna menos favorável. Em um ambiente de juros altos e maior seletividade bancária, a organização financeira passou a ser determinante para acessar capital. Dados do Ministério da Agricultura mostram que o estoque de crédito privado do agronegócio atingiu R$ 1,36 trilhão em janeiro de 2026, consolidando CPRs, LCAs e CRAs como pilares do financiamento do setor. Só as CPRs somaram R$ 560 bilhões, alta de 17% em 12 meses, enquanto LCAs alcançaram R$ 589 bilhões e CRAs, R$ 177 bilhões.

O avanço do crédito privado muda o perfil de exigência sobre o produtor. Diferentemente do crédito oficial tradicional, instrumentos como CPR financeira, CRA e Fiagro demandam contabilidade estruturada, histórico financeiro confiável, organização documental e governança mínima.

© Divulgação

A FAZENDA COMO EMPRESA

DO PRODUTOR AO GESTOR: O QUE MUDA NA PRÁTICA

Produtor tradicional

Produtor

gestor

Tomada de decisão

Controle financeiro

Custos de produção

Fluxo de caixa

Processos operacionais

Uso da tecnologia

Gestão de riscos

Relação com crédito e mercado

Visão do negócio

Baseada principalmente na experiência e na intuição

Fragmentado, muitas vezes informal ou “no caderno”

Avaliados de forma agregada

Pouco planejado ou reativo

Pouco padronizados, dependentes das pessoas

Focado no campo, sem integração

Reação após o problema ocorrer

Baseada em histórico e relacionamento

Safra a safra

Orientada por dados, indicadores e cenários

Estruturado, integrado e acompanhado em tempo real

Detalhados por talhão, cultura e operação

Projetado, monitorado e usado como ferramenta de decisão

Padronizados, registrados e replicáveis

Integra campo, financeiro e planejamento

Antecipação de riscos climáticos, operacionais e financeiros

Sustentada por dados, transparência e governança

Curto, médio e longo prazo

E m um ambiente de juros altos, a organização financeira passou a ser determinante

“Produtores que têm uma gestão bem estruturada conseguem mostrar com clareza a saúde financeira do negócio, os planos de investimento e a capacidade de retorno”, diz Maria Flávia Tavares, economista, doutora em Agronegócios e sócia da MFT Consultoria. “Isso transmite segurança aos investidores e amplia o acesso a melhores condições de crédito.”

Na prática, isso significa que a margem do produtor passa a ser cada vez mais determinada fora da lavoura. Estudos recentes mostram que, diante da pressão sobre custos e preços, produtores vêm priorizando eficiência e controle interno em detrimento da simples expansão de área. Pesquisa do Boston Consulting Group com mais de 1.350 produtores indica que 49% têm como principal foco investir em produtividade e eficiência, enquanto uma parcela menor aposta exclusivamente em crescimento de área – um sinal claro de maturidade gerencial em resposta a um ambiente mais complexo. “Quando falamos de gestão, não é só fazer gestão: todo produtor faz”, diz Dieisson Pivoto, engenheiro agrônomo e sócio-consultor do grupo Rara. “É um nível mais formal, com controles,

R odolfo A rns, produtor de grãos e sementes: " É preciso ter controle total do negócio" ©

Fabrício O rrigo, da Totvs: " O produtor rural está se tornando um gestor de negócios completo"

indicadores e planejamento. Produtores que trabalham assim tendem, na média, a ter resultados melhores porque conseguem enxergar falhas, corrigir rotas e olhar o negócio no longo prazo.”

No caso de Rodolfo Arns, a busca por eficiência passou pela adoção de sistemas de gestão integrados. “A padronização de processos foi um divisor de águas”, afirma o produtor. “Fomos atrás de um sistema que fosse flexível, mas que registrasse tudo. Hoje, temos informações instantâneas do campo ao financeiro, o que evita erros e dá tranquilidade para quem está executando as tarefas”, relata. Segundo ele, falhas operacionais comuns no passado praticamente desapareceram. “O aplicador de defensivos não precisa mais fazer cálculo de cabeça. A orientação vem pronta. Antigamente, áreas eram perdidas por erros simples.”

Essa mudança estrutural também se reflete na adoção crescente de ferramentas de gestão. A expansão de ERPs rurais, plataformas financei-

ras e softwares de controle operacional indica que o produtor começa a tratar a fazenda como empresa. “A espinha dorsal dessa transformação é um sistema de gestão que integra planejamento de safra, operações e financeiro. A partir daí, dados padronizados permitem análises mais sofisticadas, inclusive com uso de inteligência artificial para previsões e mitigação de riscos”, explica Orrigo. Segundo ele, setores como bioenergia e produção de multiculturas lideram esse processo por exigirem controle rigoroso e governança robusta.

O ponto central é que, no agro contemporâneo, gestão virou instrumento de mitigação de risco. Em um setor exposto a eventos climáticos extremos, volatilidade de preços e ciclos financeiros mais curtos, a previsibilidade passa a valer tanto quanto a produtividade física. “Com gestão estruturada, o produtor consegue antecipar riscos, planejar cenários e enfrentar períodos de instabilidade com mais segurança”, afirma Maria Flávia Tavares. Para Pivoto, a gestão mais racional também permite casar melhor fluxo de caixa, entender o momento certo de investir ou não se alavancar e até enxergar a necessidade de diversificar atividades. “Esses ganhos são pequenos isoladamente, mas somados fazem muita diferença no resultado final”, afirma o consultor.

Segundo Rodolfo Arns, esse é o principal aprendizado dos últimos anos. “O agro brasileiro está vivendo talvez seu maior desafio depois de um longo período de sucesso”, avalia o produtor gaúcho. “Nesse contexto, qualquer erro pesa muito mais. Ter informação, controle e processos bem definidos pode ser a diferença entre margem positiva e prejuízo.” A profissionalização da gestão, portanto, não substitui a tecnologia nem o conhecimento agronômico. Ela os potencializa. O produtor “gestor” não é aquele que abandona o campo para ficar no escritório, mas aquele que transforma informação em critério, critério em decisão e decisão em resiliência. Num agro mais financeiro, regulado e orientado por dados, esse perfil deixou de ser exceção – e passou a definir quem permanece competitivo no longo prazo.

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COMO A WIZ CORPORATE APOIA A GESTÃO DE RISCOS DO AGRONEGÓCIO

BRASILEIRO

Da lavoura ao mercado financeiro, a Wiz Corporate estrutura soluções de seguros e gestão de riscos para um dos ecossistemas produtivos mais complexos do mundo

Quando falamos de agronegócio no Brasil, falamos de um ecossistema sofisticado e cada vez mais conectado ao mercado financeiro global, que vai das usinas sucroenergéticas às emissões de CRAs na B3, das fazendas hiperconectadas à exposição a riscos cibernéticos e ambientais que até poucos anos sequer existiam. Navegar com segurança por essa complexidade exige um parceiro que conheça cada camada desse universo. É esse o papel da Wiz Corporate, corretora especializada em seguros e gestão de riscos corporativos.

O setor sucroenergético brasileiro é um dos mais sofisticados do mundo. Com moagem projetada em 635 milhões de toneladas de cana para a safra 2026/27 e produção total de etanol estimada em 38,42 bilhões de litros, crescimento de 13,4% em relação ao ciclo anterior, segundo a Datagro, cada usina é uma indústria de grande porte exposta a riscos como incêndios, explosões, falhas operacionais e climáticas, contaminação de produto e responsabilidade ambiental por vazamento. Eventos dessa natureza geram impacto financeiro imediato e consequências reputacionais relevantes.

Estima-se que os ativos seguráveis do setor alcancem R$ 220 bilhões, com potencial de prêmios anuais de R$ 500 milhões, um mercado ainda amplamente subprotegido. Nesse contexto, a Wiz Corporate atua como intermediária entre seus clientes e as seguradoras, estruturando programas que endereçam riscos patrimoniais, operacionais, ambientais e de responsabilidade civil de forma coordenada – uma estratégia que faz sentido para o negócio como um todo. Essa transformação também se reflete na forma como o campo se financia. A migração do crédito público para o mercado de capitais privado ganha velocidade, com instrumentos como CRAs, Fiagros, LCAs e CPRs formando um estoque que ultrapassa R$ 1,4 trilhão. Só em 2025, as emissões de CRAs somaram R$ 52,1 bilhões, enquanto o estoque de LCAs registrou crescimento de 18%, atingindo R$ 603 bilhões. O agro representa 25% do PIB brasileiro, mas apenas 3,5% do mercado de capitais, uma oportunidade enorme que exige gestão de risco à altura. Nesse contexto, o seguro entra como elemento essencial: investidores institucionais exigem que os ativos sub-

jacentes estejam adequadamente cobertos, e emissores com programas de gestão de riscos robustos tendem a acessar melhores condições de crédito.

No campo ambiental, a pressão regulatória e de mercado se intensificou. O Regulamento Europeu EUDR condiciona o acesso ao mercado da UE à comprovação de que os produtos não estão associados ao desmatamento, afetando cerca de US$ 17,5 bilhões em exportações brasileiras de commodities como soja, carne bovina, café e cacau. Internamente, operações que causam danos ambientais geram responsabilidade civil, criminal e administrativa: multas, embargos, ações coletivas e perda de licenças. Empresas com programas estruturados de gestão de riscos ambientais acessam melhores condições de crédito e ganham vantagem competitiva nas exportações.

No ambiente digital, os riscos avançam na mesma velocidade da tecnologia. O agronegócio brasileiro registrou 39.034 ataques cibernéticos em 2025. O campo se transformou em uma indústria de dados: sensores IoT, drones, plataformas de gestão agrícola e ERPs conectados à cadeia de exportação são portas de entrada para invasores. Os ataques evoluíram, criminosos interrompem sistemas de irrigação, sequestram dados de exportação e paralisam operações por ransomware. No segundo trimestre de 2025, 26 grupos de ransomware foram identificados atacando o setor global de alimentos e agronegócio. Uma apólice bem estruturada vai além do reembolso: inclui resposta a incidentes, gestão de crise e proteção contra perdas operacionais.

O agronegócio brasileiro é, ao mesmo tempo, a maior potência produtiva do País e um dos ecossistemas de risco mais complexos do mundo.

A Wiz Corporate existe para ser o elo entre seus clientes e o mercado segurador: uma corretora que entende tanto de seguros quanto de agronegócio, e que constrói programas sob medida a partir de um diagnóstico preciso dos riscos de cada operação.

Proteger bem é tão importante e estratégico quanto produzir bem.

*Talita Ferrari é Sócia e Diretora Comercial da Wiz Corporate

POR TALITA FERRARI*

COLHEITA PROTEGIDA

NOVA LEI, PRODUTOS MAIS SOFISTICADOS E COBERTURAS ESPECÍFICAS IMPULSIONAM A MODERNIZAÇÃO DO SEGURO RURAL, MAS A REDUÇÃO DAS SUBVENÇÕES PÚBLICAS DIFICULTA O ACESSO DE PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES ÀS APÓLICES

Por Marco Damiani

A nova lei do seguro rural, com regras mais claras, trouxe avanços para produtores e empresas do setor

Oseguro rural brasileiro passa por uma transformação importante. Em um ambiente de mudanças climáticas mais intensas, aumento da frequência de eventos extremos, maior sofisticação financeira do agronegócio e crescimento das exigências de bancos e investidores, o setor vem deixando de ser apenas uma ferramenta de proteção contra perdas na lavoura para assumir um papel mais amplo de gestão de risco, previsibilidade de caixa e sustentação da atividade produtiva. Essa modernização ocorre em várias frentes. A nova lei do seguro rural, que entrou em vigor no ano passado, trouxe avanços relevantes para a relação entre produtores e seguradoras. As regras passam a exigir maior clareza sobre os riscos efetivamente cobertos e sobre as exclusões de cobertura, reduzindo disputas judiciais e divergências de interpretação entre segurados e seguradoras. A legislação também definiu prazos mais objetivos para a análise das propostas e para o pagamento das indenizações.

Pela nova regra, uma seguradora tem até 25 dias para recusar formalmente uma proposta. Caso não haja manifestação nesse período, a apólice é considerada automaticamente aceita. Já o pagamento da indenização deve ocorrer em até 30 dias após a apresentação de toda a documentação necessária em torno do sinistro. Na prática, a mudança busca trazer mais previsibilidade ao produtor e reduzir um dos principais focos de atrito do setor: a demora nas respostas e a falta de clareza sobre o alcance das coberturas. “O efeito mais importante da lei é aproximar contrato, gestão de risco e fluxo de caixa”, afirma o advogado especializado em agronegócio Gabriel Salviano. “Quando a proposta de fazer o seguro tem prazo de resposta da seguradora, o sinistro tem um tempo certo para a análise e a indenização conta com um prazo ajustado de pagamento, o produtor rural ganha em segurança jurídica e previsibilidade.” O próprio perfil das apólices também mudou. Além das modalidades mais tradicionais, ligadas à proteção da safra de soja, milho e trigo, ganham espaço coberturas mais específicas e sofisticadas,

voltadas para diferentes culturas, estruturas físicas, riscos ambientais e modelos de indenização mais rápidos. O chamado seguro paramétrico, por exemplo, vem crescendo entre grandes produtores e grupos agroindustriais. Nesse formato, a indenização é acionada automaticamente quando determinados indicadores climáticos, como volume de chuva, temperatura ou estiagem, ultrapassam parâmetros previamente estabelecidos, reduzindo disputas e acelerando o recebimento dos recursos.

As exigências de financiadores e investidores também vêm impulsionando novas modalidades. O seguro ambiental, por exemplo, passou a ganhar espaço entre grandes operações ligadas ao agronegócio como uma forma de atender a critérios ESG e ampliar o acesso a linhas de crédito. Grandes grupos do setor buscam coberturas mais abrangentes, capazes de proteger não apenas a produção agrícola, mas também silos, galpões, estruturas industriais, riscos ambientais, responsabilidade civil e até ameaças cibernéticas em fazendas cada vez mais digitalizadas.

Segundo Talita Ferrari, sócia e diretora Comercial da Wiz Corporate, a demanda por apólices mais sofisticadas cresce especialmente entre grandes empresas do agro. “Grandes players e indústria concentram os contratos de maior valor segurado e contratam seguros mais sofisticados, que cobrem uma maior gama de riscos e exposições”, afirma. “As modalidades inovadoras, como o seguro paramétrico, estão crescendo rapidamente e sendo utilizadas principalmente por grandes produtores que necessitam de agilidade no recebimento de indenizações.”

As seguradoras também têm ampliado a especialização de seus produtos. A Tokio Marine mantém forte atuação no seguro safra voltado à proteção de grãos. A Swiss Re se destaca no seguro de grandes estruturas, como silos e galpões. Já a Mapfre possui atuação relevante em culturas específicas, como o café. A Allianz Seguros, por sua vez, registrou crescimento superior a 50% no faturamento da carteira de seguro rural no ano passado, mesmo em um

Dados da CN seg mostram que a arrecadação de apólices somou r$ 12,9 bilhões no ano passado

ambiente de retração no mercado total. Segundo o diretor de Agronegócios da companhia, Rafael Marani, o avanço foi impulsionado pelo lançamento de produtos para 13 novas culturas, ampliação das parcerias com corretores especializados e aperfeiçoamento das coberturas oferecidas. Hoje, além das culturas mais tradicionais, a companhia oferece proteção para amendoim, arroz, aveia, café, canola, centeio, cevada cervejeira, feijão, mandioca, maçã, tomate e triticale.

Apesar do movimento de modernização, expansão de portfólio e maior sofisticação das coberturas, o mercado ainda enfrenta um desafio importante: ampliar o acesso dos pequenos e médios produtores ao seguro rural. É justamente nesse segmento que a retração vem sendo mais intensa. No ano passado, a arrecadação de apólices do seguro rural alcançou R$ 12,9 bilhões, resultado 8,8% inferior ao registrado em 2024, segundo a CNseg. Apenas em janeiro deste ano, a retração foi de 12,2%, equiva-

lente a cerca de R$ 1,1 bilhão a menos na corrente comercial. Diante desse cenário, a entidade reviu sua estimativa inicial de crescimento de 2,3% para uma queda de 3,9% ao longo de 2026.

A redução dos recursos destinados às subvenções públicas e as incertezas em torno do orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural pressionam a contratação de apólices e reduzem a área protegida. Nos últimos cinco anos, a área total de lavouras seguradas caiu de 13,7 milhões de hectares, em 2021, para 3,2 milhões de hectares no ano passado, uma retração de 76,6%. O movimento contrasta com o crescimento da área plantada, que passou de 83,9 milhões para 97,8 milhões de hectares no mesmo período. Sem os subsídios públicos, muitos produtores acabam obrigados a arcar integralmente com os custos das apólices, justamente em um momento de margens mais apertadas, custos elevados e preços pressionados das commodities agrícolas.

À PRAJ INDUSTRIES: CONECTANDO ÍNDIA E BRASIL NA TRANSIÇÃO GLOBAL PARA A BIOENERGIA

medida que as nações aceleram sua transição para sistemas de energia de baixo carbono, o etanol surgiu como um dos combustíveis renováveis mais práticos e escaláveis. Ele fortalece a segurança energética, apoia a descarbonização e gera valor no agronegócio. Nesse cenário em evolução, a bioeconomia global vem sendo moldada por países que combinam fortes recursos agrícolas, políticas voltadas para o futuro e inovação tecnológica.

Duas nações na vanguarda dessa transformação são o Brasil e a Índia. Ambos construíram ecossistemas robustos de biocombustíveis e demonstraram como combustíveis renováveis podem apoiar a segurança energética ao mesmo tempo que impulsionam o desenvolvimento rural. O compromisso compartilhado com a expansão da bioenergia sustentável está ajudando a moldar o futuro da bioeconomia.

Na Praj Industries, temos orgulho de contribuir para essa jornada rumo a um futuro energético mais sustentável. Com mais de quatro décadas de experiência em biotecnologia industrial e tecnologias de produção de etanol, a Praj fornece soluções integradas para plantas de etanol em todo o mundo, combinando avançada engenharia de processos, inovação em biotecnologia e sólidas capacidades de execução de projetos, para ajudar os produtores a construir instalações eficientes e preparadas para o futuro.

Nossa atuação na América Latina se estende por mais de três décadas. A Praj tem trabalhado em colaboração com produtores de etanol e governos em toda a região para apoiar o desenvolvimento de ecossistemas robustos de biocombustíveis. Atualmente, as tecnologias da Praj atendem diversos países, incluindo Brasil, Argentina, Paraguai, Colômbia, Peru, Guatemala e México. Destaca-se que a Praj viabilizou todas

as cinco plantas de etanol combustível da Colômbia, apoiando o programa de mistura de etanol do país e contribuindo significativamente para sua transição energética e para o desenvolvimento econômico rural.

A América Latina vive agora uma nova fase de crescimento impulsionada pelo etanol à base de grãos, especialmente no Brasil. À medida que o País expande rapidamente sua capacidade de etanol de milho, a Praj tem apoiado esse crescimento por meio de tecnologia, engenharia e parcerias em projetos em toda a região. Conquistas recentes incluem a entrada em operação da planta de etanol de milho da Alcogreen no Paraguai, bem como projetos e colaborações com produtores de etanol no Brasil, na Argentina e outros mercados latino-americanos. A atuação da Praj abrange plantas de etanol greenfield, expansões de plantas e atualizações tecnológicas que aumentam a eficiência operacional e a sustentabilidade. No segmento de etanol de milho, em rápido crescimento no Brasil, a Praj já entregou uma planta de etanol de milho em Mato Grosso, atualmente em operação, com outra planta em execução na mesma região. À medida que a produção de etanol se expande, garantir biomassa suficiente tornou-se um desafio fundamental. A Praj enfrenta esse desafio por meio de tecnologias avançadas de processo que permitem que plantas de etanol à base de milho operem com consumo zero de biomassa externa, permitindo que o milho permaneça como o único insumo da planta, ao mesmo tempo que melhora a eficiência energética e reduz os custos operacionais.

As inovações tecnológicas da Praj também permitem que os produtores de etanol reduzam seus índices de Intensidade de Carbono

POR DR. PRAMOD CHAUDHARI,

(CI), melhorem o desempenho energético geral e avancem rumo à prontidão para Combustível Sustentável de Aviação (SAF) – um caminho importante à medida que a aviação global busca soluções com menor emissão de carbono.

Essas inovações são impulsionadas pelo forte foco da Praj em pesquisa e desenvolvimento por meio do Praj Matrix – The Innovation Center, nosso centro de P&D de última geração e o primeiro da Ásia dedicado exclusivamente à pesquisa em biocombustíveis e bioplásticos. Por meio da inovação contínua, a Praj permite que plantas de etanol evoluam para biorrefinarias integradas capazes de produzir combustíveis renováveis, bioprodutos químicos e biomateriais.

Além do etanol, a Praj está avançando a bioeconomia por meio de tecnologias para SAF, biometanação e biomateriais. A plataforma RenGas® da Praj converte insumos como vinhaça e torta de filtro em biogás renovável, que pode ser utilizado para geração de energia verde, combustível para caldeiras ou convertido em biogás comprimido – ajudando as plantas de etanol a reduzir ainda mais as emissões e aumentar a sustentabilidade.

À medida que a comunidade global de bioenergia se reúne na Conferência Internacional Unem – Datagro sobre Etanol de Milho 2026, o foco será em inovações e parcerias capazes de acelerar a transição energética. Por meio de sua presença crescente na América Latina e de sua profunda expertise tecnológica, a Praj Industries continua trabalhando em parceria de longo prazo com os produtores da região – apoiando a evolução das plantas de etanol em biorrefinarias integradas que impulsionam uma bioeconomia resiliente e sustentável.

A VEZ DOS PEQUENOS

TECNOLOGIA, ESPECIALIZAÇÃO E RASTREABILIDADE REDEFINEM AS REGRAS DO MERCADO DE PROTEÍNA

ANIMAL NO BRASIL, ABRINDO ESPAÇO PARA PRODUTORES E AGROINDÚSTRIAS DE MENOR PORTE

Omercado de proteínas animais vive uma virada. Consumidores mais exigentes e a urgência por eficiência produtiva redesenharam as regras do jogo: do ovo à carne bovina, incorporar tecnologia, garantir bem-estar animal e honrar compromissos com a sustentabilidade deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem requisitos mínimos. Dois movimentos ilustram bem essa transformação. No setor avícola, em especial no segmento de ovos, a industrialização da cadeia produtiva avança e abre espaço para produtos de maior valor agregado. Na pecuária de corte, a ruptura com o modelo extensivo tradicional abre oportunidades também para produtores de menor porte.

O ovo é o exemplo mais eloquente desse movimento. Na Europa e nos Estados Unidos, a industrialização da cadeia produtiva já é realidade consolidada – e o Brasil começa a seguir o mesmo caminho. Baseada na transformação do produto in natura em itens de maior valor comercial, a tendência foi apresentada por especialistas em encontro da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (Facta), em fevereiro, e tem potencial para gerar novos negócios, inclusive para produtores e agroindústrias de menor porte.

Os números do setor ajudam a entender o interesse. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a produção cresceu 7,9% em 2025, com nova alta projetada de 6,8% para este ano. O consumo per capita avançou 6,7% no ano passado e deve crescer mais 7% em 2026. As exportações, por sua vez, dispararam 116,6% em 2025, com previsão de incremento adicional de 12,5%. “Para o setor produtivo, o recado é que o crescimento do consumo reforça a necessidade de se investir em industrialização para ampliar o acesso a novos mercados, tanto no nível doméstico quanto para as exportações”, afirma Jairo Arenazio, CEO da PlumaGen, empresa especializada em tecnologias para sanidade na avicultura.

Na prática, a industrialização se traduz na transformação da proteína in natura em produtos de alto valor agregado: ovo em pó, claras líquidas

pasteurizadas, omeletes congeladas, snacks proteicos e suplementos, entre outros. “É o ovo transformado em itens de conveniência, com praticidade, mas sem perda das características e propriedades nutricionais originais”, diz Arenazio.

Os novos formatos encontram boa receptividade no mercado fitness, em suplementação para crianças e pessoas com déficit nutricional. O segmento pet, segundo o executivo, “está prestes a explodir nisso também”. Para produtores familiares, o caminho pode passar por nichos de alto valor, como ovos orgânicos ou de galinhas criadas soltas. Pequenas agroindústrias, por sua vez, podem mirar a indústria de panificação e o fast-food, a partir de processos simples como a pasteurização. E há ainda um flanco pouco explorado: a transformação da casca do ovo – hoje um problema ambiental – em adubo e fertilizantes, num ciclo de economia circular.

O cenário externo também é favorável. Roberto Betancourt, presidente do Sindirações e vice-presidente da Federação Internacional da Indústria de Alimentação Animal (Ifif), destaca a competitividade da ração nacional, a disponibilidade de matérias-primas e a credibilidade sanitária do Brasil. “O País reúne condições únicas para crescer, desde que o setor atue de forma integrada e avance em infraestrutura”, diz. Sula Alves, diretora técnica da ABPA, reforça: “A capacidade de organização do setor tem transformado desafios em oportunidades.”

No agronegócio, virou senso comum que a bovinocultura, de corte ou de leite, só é viável para grandes produtores. Túlio Ramalho, gerente da DSM-Firmenich para a América Latina, discorda. Para ele, o volume de escala deixou de ser o único indicador de sucesso na pecuária moderna. Qualidade, diferenciação e sustentabilidade ganham cada vez mais peso na equação. “A ideia de que inovação e competitividade são condição exclusiva de quem tem grandes orçamentos ficou no passado”, afirma Ramalho.

Com a democratização do acesso a tecnologias de genética, manejo e nutrição, pecuaristas menores vêm obtendo índices produtivos

A rastreabilidade funciona como uma certificação, um selo de qualidade que abre portas para os produtores no mundo inteiro

expressivos. Os avanços digitais, em especial, têm nivelado o campo ao oferecer ferramentas e softwares de gestão independentemente do tamanho do rebanho.

A estratégia para o pequeno produtor, segundo Ramalho, passa pela especialização. A escolha por nichos de mercado de alto valor –onde os gigantes do setor frequentemente não conseguem operar com a mesma agilidade – surge como caminho natural. “Uma importante vantagem do pequeno produtor reside na gestão do dono”, diz ele. “Enquanto grandes operações lidam com a complexidade de equipes espalhadas e alta rotatividade, o pequeno está no dia a dia da lida.”

No confinamento, Ramalho projeta crescimento mais moderado em 2026, após alta de 16% no número de cabeças confinadas em 2025. “Essa tendência reflete uma estação de monta menos produtiva há dois anos, resultando em menos bezerros chegando ao mercado”, diz. Outra transformação em curso é o avanço do boitel (modelo de confinamento terceirizado) em relação à estrutura própria tradicional. Hoje, o

boitel representa 19% dos animais confinados no Brasil, totalizando cerca de 1,7 milhão de cabeças. Em meio a todas essas transformações, um tema atravessa toda a cadeia: a rastreabilidade. Mais do que informar ao consumidor a origem e o processo de fabricação de um produto, ela gera um repositório contínuo de dados capaz de melhorar processos, reduzir desperdícios e orientar decisões com base em evidências. Para a agricultura familiar, o impacto é ainda mais direto: na prática, a rastreabilidade funciona como uma certificação, um selo de qualidade que abre portas.

Frederico Bellini, gerente de Sustentabilidade e Marketing da GS1 Brasil, reforça a importância de padrões globais nesse processo. “Em um segmento onde diferentes empresas, indústrias e produtores usam sistemas próprios ou terceirizados, a adoção de padrões como o código de barras assegura que todos consigam falar a mesma língua digital, para que as informações fluam com qualidade e confiabilidade ao longo de toda a cadeia”, diz. “Isso é crucial para as exportações do agro.”

USINAS FLEX: O GRANDE SALTO DO ETANOL (E DA PROTEÍNA ANIMAL)

Atuação da Lindner Techno Systems mostra como o avanço do etanol de cereais, especialmente de milho, e de coprodutos como DDG/DDGS vem redesenhando a bioenergia no Brasil

Oetanol está no centro da estratégia energética brasileira, não apenas como combustível, mas como peça-chave de uma cadeia mais ampla, que integra energia, indústria e produção de alimentos. Na safra 2024/2025, a produção brasileira de etanol alcançou 37,3 bilhões de litros, o maior patamar já registrado, de acordo com dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica). Mais do que bater um novo recorde, o resultado confirmou uma virada estrutural na composição da oferta: o etanol de milho passou a responder por aproximadamente 22% do total nacional, abandonando, de forma definitiva, a condição de coadjuvante.

Mais do que volume, o que mudou foi a lógica do negócio. A cada tonelada de milho processada, a indústria entrega ao mercado não apenas etanol, mas também óleo de milho bruto, óleo refinado e DDG/DDGS (estes, coprodutos com alto valor para a nutrição animal). Estimativas técnicas amplamente utilizadas no setor indicam rendimento de cerca de 420 litros de etanol anidro e até 300 quilos de DDGS por tonelada de milho. O resultado é uma equação que começa a fechar de forma mais robusta: combustível renovável de um lado, proteína do outro.

Para quem já opera com cana, o milho resolve uma dor antiga: a ociosidade industrial. Diferentemente da cana, o milho é armazenável, carrega muito menos água e pode ser processado ao longo de praticamente todo o ano. Isso permite ampliar dias de operação sem, necessariamente, ampliar área agrícola.

Mas transformar uma usina tradicional em flex não é um exercício simples. Exige engenharia, leitura sistêmica e atenção a detalhes que não aparecem em planilhas genéricas. “A primeira etapa é ir à usina, entender os volumes de massa e energia, os equipamentos existentes, o que é apto e o que precisa ser colocado novo”, explica Jefferson Arley Martins Rodrigues, gestor de tecnologia em bioenergia da Lindner Techno Systems. Em tom didático, ele ilustra um risco comum: “Há colunas de destilação que funcionam muito bem para cana, mas que no milho podem gerar entupimentos graves e até riscos de segurança”.

É justamente nesse ponto que entra a experiência da Lindner. Com mais de 25 anos de atuação, a empresa brasileira construiu reputação na engenharia aplicada, olhando menos para soluções padronizadas e mais para o desenho específico de cada planta. No setor sucroenergético, isso se traduz em projetos que vão do diagnóstico inicial à implantação industrial, combinando tecnologia própria para etanol de cereais e integração com ativos já existentes.

O portfólio da Lindner dialoga diretamente com os gargalos típicos de uma usina flex: dispositivos para separação de óleo de milho bruto, equipamentos como decanters e tridecanters, sistemas ligados à fermentação e ao CO₂, maquinário para secagem de coprodutos, evaporadores, além de soluções para tratamento de água, efluentes e recuperação de etanol, pontos críticos para eficiência e segurança operacional. A proposta é transformar usinas em plataformas industriais mais completas, menos dependentes de uma única matéria-prima.

Um exemplo recente ajuda a entender esse movimento. A cooperativa Copercampos anunciou a construção da primeira usina de etanol de milho e trigo de Santa Catarina, em Campos Novos, com projeto 100% brasileiro desenvolvido pela Lindner Techno Systems. Com investimento superior a R$ 200 milhões, a unidade deve

Planta da Lindner: a proposta é transformar usinas em plataformas industriais mais completas, menos dependentes de uma única matéria-prima

produzir anualmente 25 mil toneladas de DDGS, mais de 1.500 toneladas de óleo e geração de energia elétrica, além do etanol. Não se trata apenas de diversificação, mas de reposicionar a indústria como elo entre energia e produção de alimentos.

Para o produtor que avalia iniciar um projeto desse tipo, o ponto de partida raramente é a escolha de uma tecnologia específica. Na prática, a decisão está no desenho do projeto: o que faz sentido para aquele ativo industrial, naquela região, com aquela combinação de matérias-primas, energia disponível e mercados consumidores.

A jornada costuma começar por um diagnóstico detalhado do que já existe na planta, com levantamento preciso dos fluxos de massa e energia. Em seguida, vem o mapeamento das utilidades, especialmente vapor e fontes térmicas disponíveis, etapa decisiva para viabilizar o processamento de cereais. A terceira etapa passa inevitavelmente pela estratégia de coprodutos – em especial DDG, DDGS e óleo – e pela logística de escoamento, muitas vezes integrada à produção pecuária local. Por fim, o projeto executivo consolida todas essas camadas, com foco em continuidade operacional, mitigação de gargalos e segurança do investimento. “Fazemos desde a parte teórica até a parte prática. Vamos da ideia, do chão, até a usina funcionando”, resume Jefferson.

Na visão da Lindner Techno Systems, a adoção do modelo flex vai além de uma solução para atravessar a entressafra. Ela representa uma mudança mais profunda na forma como as usinas se entendem dentro da cadeia produtiva. “O milho vem para virar a chave”, diz Jefferson. A partir dessa lógica, a usina deixa de ser apenas uma fábrica de etanol e passa a se enxergar como uma plataforma integrada de produção de energia – elétrica, térmica e combustível renovável –, bem como de alimentos, por meio dos coprodutos ricos em proteína. Quando a engenharia fecha a conta e existe mercado estruturado para esses coprodutos, especialmente na nutrição animal, cana e milho deixam de competir por espaço dentro da indústria. Passam, ao contrário, a se complementar no mesmo endereço, ampliando eficiência, reduzindo riscos e criando fontes de valor ao longo de todo o ano.

SUSTENTABILIDADE NO PRATO

SOUBEEF APOSTA NA PRODUÇÃO RESPONSÁVEL

PARA CONVENCER O CONSUMIDOR A PAGAR MAIS

PELA CARNE PREMIUM

Nos refrigeradores de supermercados, açougues e butiques de carne, os rótulos agora mostram uma variedade de informações. Eles indicam o corte, claro, que pode ser tradicional, como picanha ou maminha, ou uma das classificações novas, vindas de outros países, como assado de tira, ojo de bife, ribeye ou t-bone. Mostram também a raça do boi, se é Angus ou o cobiçado Wagyu. Incluem ainda certificações, como Angus Gold, que atesta que ao menos 50% da genética do animal é proveniente dessa espécie, ou “Certified Humane”, que se destina a comprovar o bem-estar animal. Em alguns casos, indicam se o animal foi criado em pasto. Agora, um produtor do Mato Grosso tenta dar o próximo passo nessa evolução: transformar a sustentabilidade em informação no rótulo – e, mais do que isso, em critério de escolha na hora da compra.

Responsável pela marca de carne premium SouBeef, o pecuarista e produtor rural Caio Penido defende há anos a bandeira da produção sustentável. “Temos todas as condições para fazer isso”, afirma. “Possuímos a maior biodiversidade do planeta, um Código Florestal que garante a conservação, um clima tropical, uma produção com bastante carbono e um sistema produtivo a pasto para o gado. Ou seja, já largamos na frente dos competidores.”

A SouBeef surgiu depois que Penido comprou a Fazenda Água Viva, em Cocalinho, no Mato Grosso. A proposta é oferecer um alimento feito de acordo com as melhores práticas de bem-estar animal, mas que também tenha qualidade para competir com os cortes premium do mercado. Hoje, a marca já está presente em empórios e plataformas especializadas, como a Talho Carnes, com

unidades em Pinheiros e na Vila Madalena, em São Paulo, na rede SuperVille, no e-commerce Raízs, voltado a orgânicos, e nas lojas da Korin, referência em produção natural. O próximo passo é ampliar a rede e também oferecer um e-commerce para venda direta, com previsão de estreia ainda no primeiro semestre de 2026. Levar a carne às gôndolas de butiques e aos sites especializados é, no fundo, uma vitrine do que acontece da porteira para dentro. Penido é um dos herdeiros da Fazenda Roncador, uma das grandes referências da pecuária brasileira, que chegou a ocupar 150 mil hectares na Serra do Roncador, no Vale do Araguaia. Criada nos anos 1970, a propriedade foi posteriormente dividida entre os três irmãos, dando origem a áreas menores, de cerca de 50 mil hectares cada uma. É na Fazenda Água Viva, em Cocalinho, que ele aplica esse aprendizado. Ali, mantém um

C aio P enido: " P ossuímos a maior biodiversidade do planeta. Ou seja, já largamos na frente dos competidores"

rebanho de cerca de 3 mil cabeças criadas soltas no pasto, prática associada a menor impacto ambiental e melhor bem-estar animal. Ao longo dos anos, investiu no aprimoramento genético, com cruzamentos entre Nelore e Angus, e mais recentemente incorporou o Wagyu, raça japonesa conhecida pelo alto marmoreio. Esse trabalho deu origem ao portfólio da SouBeef, que terá uma linha tradicional e outra dedicada a cortes especiais, a partir do cruzamento com Wagyu. O resultado não veio de uma única safra, mas de ajustes sucessivos até atingir o padrão desejado. “É difícil para a gente conseguir provar a própria carne”, diz. “Temos que vender para a indústria e depois recomprar alguns cortes.” Com o padrão definido, criou a própria marca para vender a carne diretamente ao consumidor.

Além da qualidade, a carne carrega diferenciais ligados à forma de produção. A Fazenda Água Viva,

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por exemplo, é certificada pelo Instituto Onça-Pintada, que reconhece propriedades que contribuem para a conservação da espécie. Na prática, isso significa conviver com a presença dos felinos, frequentemente avistados na região. Eventuais perdas de gado fazem parte desse equilíbrio – trata-se de um custo assumido para preservar o ecossistema local.

O desafio é convencer o consumidor a pagar um pouco mais por uma carne produzida com critérios de sustentabilidade. “Falávamos de uma tendência em alta, mas o mundo mudou de rumo e ainda não está claro como o consumidor vai reagir”, diz, em referência às tensões geopolíticas que vêm redesenhando o comércio global. Em mercados mais maduros, como o europeu, essa lógica já está incorporada: há o hábito de ler rótulos e escolher produtos alinhados à preservação de recursos e à redução da pegada de carbono. No Brasil, o movimento ainda é mais restrito e concentrado no público que busca carnes premium, com origem e qualidade certificadas. Esse nicho existe – e cresce. Hoje, representa cerca de 3% do mercado, mas associações de produtores indicam avanço gradual dessa fatia.

O avanço mais lento da agenda sustentável ainda é um entrave para o produtor. Mudar o sistema produtivo exige certeza de retorno – sem isso, a conta não fecha. Em mercados como o europeu, a pressão vem pela regulação, com regras mais rígidas que empurram a adoção de práticas sustentáveis. Há também mecanismos de incentivo, como benefícios fiscais e prêmios pagos por quem atende a determinados critérios. No Brasil, um exemplo emblemático é o “Boi China”, protocolo sanitário, técnico e comercial que abriu as portas para exportações. A bonificação inicial estimulou uma rápida adaptação: produtores, sobretudo

médios e grandes, passaram a investir em nutrição e manejo para atender às exigências. Com o tempo, o prêmio encolheu, mas o padrão ficou e hoje é praticamente obrigatório para acessar esse mercado. A redução da idade de abate, de cerca de 50 para 30 meses, também trouxe ganhos ambientais, ao diminuir as emissões ao longo do ciclo produtivo. Mais recentemente, o avanço de metodologias de mensuração de carbono tende a abrir outra frente de receita, com a possibilidade de geração de créditos no mercado internacional.

Por ora, outra forma de convencer o consumidor a pagar mais pela sustentabilidade é abrir a porteira – literalmente. Em breve, a Fazenda Água Viva passará a receber visitantes. A antiga sede, um mosteiro salesiano que serviu à catequização de indígenas na região, está sendo convertida no hotel-fazenda Santo Rei, agregando ao projeto um peso histórico. “Daqui a pouco, nossas carnes vão trazer no rótulo ‘conheça nossa fazenda’”, diz Penido.

A proposta é oferecer uma imersão no cotidiano do campo, com a chance de entender na prática o que é integração lavoura-pecuária (ILP), plantio direto, melhoramento genético e manejo do rebanho, do nascimento dos bezerros ao abate. “É um turismo de experiência, para que as pessoas entrem no ritmo da fazenda e tenham contato direto com os animais”, afirma o empresário. O projeto mira tanto o público brasileiro quanto estrangeiros. Entre os atrativos está um safári dentro da propriedade, com apoio do Projeto ASAS (Áreas de Soltura de Animais Silvestres), em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente, que permitirá observar araras, papagaios, tatus, tamanduás, antas e capivaras. Dessa forma, a conservação e a sustentabilidade passam a fazer parte da estratégia de negócios.

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ESG SEM ATALHOS

EXIGÊNCIAS AMBIENTAIS, SOCIAIS E DE GOVERNANÇA DEIXARAM DE SER DISCURSO E PASSARAM A DETERMINAR QUEM ACESSA MERCADOS, CRÉDITO E CONTRATOS NO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

Por Lucas Bresser e Giovanna Arruda

Durante muito tempo, ESG foi tratado no agronegócio como um diferencial reputacional. Algo importante, desejável, mas ainda distante da rotina produtiva. Esse cenário mudou de forma definitiva. Hoje, práticas ambientais, sociais e de governança já fazem parte do “pacote mínimo” exigido para que o agro brasileiro continue acessando mercados estratégicos, especialmente no comércio internacional. Os números ajudam a dimensionar o peso dessa mudança. Em 2025, o agronegócio respondeu por 48,5% de todas as exportações brasileiras, com vendas externas de US$ 169,2 bilhões e superávit superior a US$ 149 bilhões. Em um setor tão dependente do mercado externo, qualquer restrição comercial deixa de ser abstrata e passa a ter impacto direto sobre receita,

margem e sobrevivência do negócio. Não por acaso, as exigências ESG deixaram de ser voluntárias e passaram a integrar contratos, financiamentos e sistemas de rastreabilidade ao longo das cadeias produtivas.

Essa transformação não nasce no campo, mas chega rapidamente à porteira. Compradores globais – de tradings a grandes indústrias e redes varejistas – precisam comprovar conformidade ambiental e social diante de reguladores, investidores e consumidores. Para isso, transferem essa exigência para seus fornecedores. O resultado é que o produtor, mesmo sem negociar diretamente com o consumidor final, passa a ser cobrado por dados, documentos e evidências que antes não faziam parte do dia a dia da fazenda.

O exemplo mais emblemático desse novo momento é o Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR. A norma estabelece que produtos como soja, carne bovina, café, cacau e madeira só poderão entrar no mercado europeu se houver comprovação de que não estão associados a desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020. Além disso, exige a adoção de um sistema formal de diligência devida, com rastreabilidade e geolocalização das áreas de produção. Ainda que o cronograma de aplicação tenha sido ajustado pela União Europeia, o sinal é claro: a exigência veio para ficar, e o tempo adicional serve para adaptação, não para postergação da agenda.

Isso significa que não basta produzir dentro da

C ada vez mais o produtor passa a ser cobrado por dados, documentos e evidências que antes não faziam parte do dia a dia das fazendas

A mélia Tormin, da T imbro: " O ESG se tornou também uma agenda de integridade"

lei. É preciso provar. A documentação passou a ser tão relevante quanto a conformidade em si. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o acesso a mercados como o europeu exige informações detalhadas sobre a origem da produção, incluindo coordenadas geográficas das propriedades, comprovação de que não houve desmatamento após a data de corte definida pela regulação, evidências de cumprimento da legislação ambiental, fundiária e trabalhista e sistemas de rastreabilidade capazes de acompanhar o produto até o nível da propriedade ou do talhão. Todo esse conjunto precisa ser organizado e apresentado de forma padronizada, dentro dos sistemas exigidos pelos mercados compradores.

É nesse ponto que surge um risco ainda pouco

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visível no campo: produtores ambientalmente regulares, mas sem documentação adequada, podem enfrentar restrições comerciais ou perder competitividade simplesmente por não conseguirem comprovar suas práticas. O problema não está na produção, mas na gestão da informação. Para mitigar esse gargalo, o Mapa tem destacado a Plataforma Agro Brasil + Sustentável como um instrumento de organização e transparência, reunindo evidências socioambientais e facilitando a demonstração de conformidade perante compradores e instituições financeiras.

Além das exigências ambientais e de rastreabilidade, o ESG passou a incorporar, de forma crescente, dimensões jurídicas e de integridade nas operações de comércio exterior. Compradores internacionais, indústrias e varejistas atuam sob metas públicas de descarbonização, cadeias livres de desmatamento e tolerância zero a ilícitos, o que tem levado à inclusão de cláusulas contratuais específicas, programas de compliance e processos rigorosos de diligência sobre fornecedores e parceiros comerciais. Nesse cenário, a agenda ESG deixa de se limitar ao campo produtivo e passa a abranger governança corporativa, prevenção a

riscos legais, combate à corrupção, respeito a direitos humanos e responsabilidade social ao longo de toda a cadeia.

Para produtores e empresas do agro, estruturar mecanismos internos de controle, auditoria e gestão de contrapartes tornou se parte essencial da estratégia para reduzir riscos, garantir previsibilidade comercial e manter acesso a mercados cada vez mais regulados. “O ESG hoje também é uma agenda de integridade. Não se trata apenas de sustentabilidade ambiental, mas de estruturar governança, compliance e transparência para prevenir riscos como corrupção, lavagem de dinheiro e violações de direitos humanos, que já impactam diretamente contratos e relações comerciais internacionais”, diz Ana Amélia Tormin, CSO, diretora Jurídica e de Compliance da Timbro, empresa especializada em operações de importação e exportação, destacando-se no setor agropecuário.

A pressão por ESG também já está incorporada ao crédito rural. Um levantamento da consultoria Agroicone mostra que, na safra 2024/25, cerca de 23% de todo o crédito rural desembolsado no País – o equivalente a R$ 69,2 bilhões – já

A carne brasileira só entrará no mercado europeu se não estiver associada ao desmatamento apresentava potencial alinhamento à sustentabilidade. Esse movimento indica que critérios ESG estão sendo cada vez mais considerados na concessão de financiamento, seja para definir elegibilidade, seja para diferenciar condições. O próprio arcabouço regulatório brasileiro reforça essa tendência. Segundo o governo federal, produtores que adotam boas práticas ambientais, sociais e de governança podem acessar condições mais favoráveis no crédito rural, com base em normas como a Resolução CMN nº 5.152. A lógica é: quem comprova sustentabilidade tende a enfrentar menor risco regulatório, climático e reputacional, o que se reflete no custo do dinheiro. Na outra ponta, quem não se adéqua pode acabar pagando mais caro ou ficando fora de determinadas linhas e compradores.

Esse movimento ajuda a explicar por que o tema deixou de ser tratado como custo e passou a ser visto como estratégia. Estudos da consultoria PwC mostram que 56% dos CEOs do agronegócio brasileiro apontam as mudanças climáticas como o principal risco ao negócio, e 78% afirmam que pretendem investir em tecnologia, incluindo inteligência artificial e sistemas digitais, para

tecnologia é o que transforma intenção em impacto real"

M ayra T heis, da PWC B rasil: "A
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Nelson A nanias, da CNA : "Para muitos pequenos produtores, o ESG não aparece como estratégia"

melhorar rastreabilidade, gestão e eficiência. Ainda de acordo com a consultoria, 50% das empresas do agronegócio passaram a competir em novos mercados ou até em novos setores, refletindo a crescente exigência por padrões ambientais, sociais e de governança mais elevados. A digitalização das cadeias produtivas surge, assim, não apenas como ganho operacional, mas como resposta direta às exigências de mercado. “A tecnologia é o elo que transforma intenção em impacto real”, diz Mayra Theis, sócia e líder de Agronegócios da PwC Brasil. “No campo, ela viabiliza rastreabilidade mais robusta, melhor controle sobre insumos e decisões mais inteligentes diante da variabilidade climática. Transparência, dados confiáveis e rastreabilidade deixaram de ser diferenciais e já são pré-requisitos para participar das cadeias globais de alimentos.”

Para os especialistas, esse movimento consolida o ESG como um novo fundamento da competitividade no campo. Em um ambiente marcado por maior volatilidade econômica, riscos climáticos crescentes e pressão por eficiência,

produtores passaram a incorporar sustentabilidade, governança e tecnologia ao centro da estratégia do negócio, não apenas para atender exigências externas, mas para ganhar resiliência, acesso a capital e relevância no longo prazo. A combinação entre produtividade, dados confiáveis e práticas sustentáveis vem se tornando decisiva para quem pretende continuar inserido nas cadeias globais, cada vez mais reguladas e orientadas por critérios ambientais e sociais. “Mais do que um diferencial, o ESG está se consolidando como um novo fundamento da competitividade no agronegócio brasileiro”, diz Mayra Theis, da PwC Brasil. “As práticas deixaram de ser apenas uma resposta a exigências externas e passaram a funcionar como alavancas estratégicas, capazes de fortalecer a confiança do mercado, ampliar o acesso a capital e preparar o produtor para um sistema alimentar em profunda transformação.”

Dados consolidados pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) mostram que a agenda ESG no agro brasileiro parte de uma base estrutural já existente. Segundo a entidade, com base em estudos da Embrapa Territorial, cerca de 66% do território nacional permanece coberto por vegetação nativa, enquanto aproximadamente 30% são ocupados pela agropecuária. Dentro das propriedades rurais, em média 25% da área é destinada à conservação, por meio de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais previstas no Código Florestal. Esses números reforçam que a produção agropecuária brasileira convive, por força legal e prática produtiva, com elevados níveis de conservação ambiental, o que coloca o País em posição singular nas discussões globais sobre sustentabilidade, uso da terra e segurança alimentar. “No Brasil, sustentabilidade no agro não é um conceito importado nem um modismo recente”, diz Roberto Araújo, gerente de Relações Institucionais e sustentabilidade da Abag. “Ela está incorporada ao modelo produtivo há décadas, combinando eficiência, conservação ambiental e competitividade. O desafio agora é transformar essa realidade em evidência clara para o mercado internacional.”

O mercado deixa claro que o produtor rural precisa encarar o ESG como vantagem competitiva e condição para a sobrevivência

O Brasil tem visto melhorias inclusive entre os pequenos e médios produtores, para os quais a adaptação à regulamentação é naturalmente mais complicada. Isso advém, em grande parte, da aplicação das leis que regem a preservação ambiental em todo o território nacional. “Para muitos pequenos e médios produtores, ESG ainda não aparece como estratégia de mercado, mas como condição para continuar produzindo”, diz Nelson Ananias, coordenador de Sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “Cumprir o Código Florestal e manter o CAR em dia não é visto como ESG, é visto como obrigação para não sofrer sanções, mesmo que, na prática, isso já seja ESG.”

Apesar dos avanços, os desafios permanecem relevantes. A fragmentação de dados, a diversidade de exigências entre compradores, a dificuldade em estruturar sistemas de rastreabilidade e o risco de passivos indiretos ao longo da cadeia ainda representam pontos de atenção. Em muitos casos,

a adequação acontece de forma reativa, quando o contrato já exige a comprovação e o custo de correr atrás costuma ser maior. “Hoje, ESG não decide quem vende mais, decide quem continua vendendo”, diz Bruno Maniglia, diretor de TI da consultoria Delaware, especializada em tecnologia para o agronegócio. “O mercado internacional não compra discurso nem promessa: compra evidência. E evidência nasce de dados, rastreabilidade e governança bem estruturadas.”

O mercado deixa cada vez mais claro que o produtor rural precisa encarar o ESG como vantagem competitiva e condição para sobrevivência, e não como imposição externa. A adoção de boas práticas amplia o acesso a compradores, facilita o crédito, fortalece a imagem do produto brasileiro e ajuda a posicionar o País em um cenário internacional cada vez mais regulado. O ESG deixou de ser discurso. No agronegócio brasileiro, ele já opera como pré-requisito comercial. Quem não se adaptar corre o risco de ficar para trás.

O CAMPO SOB PRESSÃO CLIMÁTICA

COM A TRANSIÇÃO DO LA NIÑA PARA UM EL NIÑO DURADOURO, PRODUTORES DEVEM SE PREPARAR PARA MAIOR INSTABILIDADE NO CLIMA, POSSÍVEIS PERDAS DE QUALIDADE E MARGENS JUSTAS

Atransição de um La Niña curto e pouco intenso para um evento de El Niño mais persistente em 2026 marca uma mudança relevante no ambiente produtivo da horticultura brasileira. Depois de um 2025 em que chuvas relativamente bem distribuídas e temperaturas mais amenas favoreceram a produtividade de diversas culturas, o novo cenário climático tende a ampliar riscos, aumentar custos e exigir um nível ainda maior de planejamento técnico e comercial por parte dos produtores de frutas e hortaliças.

A principal característica desse novo ciclo não é apenas o aumento das temperaturas médias, mas a mudança no regime de chuvas ao longo do ano, com efeitos distintos entre regiões. Em linhas gerais, o El Niño costuma intensificar as chuvas no Sul do País, enquanto Norte e Nordeste enfrentam maior irregularidade e restrição hídrica. Sudeste e Centro-Oeste tendem a funcionar como zonas de transição, com impactos menos previsíveis e forte variabilidade intra-anual. Esse mosaico climático reforça um ponto central: não existe um único

efeito do El Niño sobre os hortifrútis, e os resultados no campo dependem da cultura, da região e do sistema produtivo adotado.

A experiência recente mostra que os efeitos do El Niño sobre o hortifrúti brasileiro tendem a se manifestar menos por quebras generalizadas de volume e mais por perdas de qualidade, desorganização do calendário produtivo e aumento da volatilidade de preços. Análises do evento de 2023/24 feitas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, indicam que chuvas volumosas no Sul comprometeram a qualidade e o potencial de armazenamento da cebola, com problemas de podridão e má-formação de casca, enquanto excesso de umidade afetou a produção de tomate nas primeiras áreas de plantio, reduzindo produtividade e padrão comercial.

Já no Sudeste, chuvas concentradas no início do ciclo prejudicaram a alface, com perdas ainda na roça, enquanto períodos posteriores mais quentes favoreceram a produtividade, evidencian-

A principal característica do novo ciclo climático é a mudança no regime de chuvas ao longo do ano

J orge de S ouza, da A brafrutas: a tecnologia é uma aliada para enfrentar os extremos do clima

do a forte variabilidade intra-anual típica de anos de El Niño. Em contraste, no Nordeste, o fenômeno esteve associado a temperaturas elevadas e restrição hídrica, elevando riscos de estresse em culturas irrigadas, como uva, e reforçando a dependência de manejo hídrico eficiente para manter produtividade e qualidade.

Estudos e balanços climáticos do Inmet e da Embrapa também destacam que, em anos de El Niño, o excesso de chuvas no Sul aumenta a pressão de doenças e dificulta operações de campo, enquanto a redução das precipitações no Norte e Nordeste limita o potencial produtivo e eleva custos com irrigação. Em conjunto, esses episódios reforçam que o El Niño tende a afetar o hortifrúti de forma regionalizada e assimétrica, com impactos relevantes sobre qualidade, custos e rentabilidade, mesmo quando a oferta total não sofre grandes quebras.

Segundo Fábio Marin, professor de Agrometeorologia e Modelagem Agrícola da Esalq/USP, algumas cadeias merecem atenção especial

justamente por coincidirem fases críticas do desenvolvimento das plantas com as condições típicas associadas ao fenômeno. “Os impactos do El Niño não são uniformes ao longo do território brasileiro. Na região Sul, o fenômeno provoca aumento no volume de chuvas e menor incidência de radiação solar”, explica. Esse cenário preocupa especialmente os produtores de maçã, principal fruta produzida na região, cuja floração e frutificação ocorrem, em geral, entre setembro e outubro. “Essas condições podem afetar diretamente essas fases, com reflexos tanto na produtividade quanto na qualidade dos frutos”, afirma.

Ainda no Sul, a cebola também entra no radar. A cultura é altamente dependente de luminosidade para o bom desenvolvimento dos bulbos e sensível ao excesso de umidade, que eleva a pressão de doenças e compromete a qualidade. Já no Nordeste, o sinal climático costuma ser oposto. “O El Niño está associado a temperaturas acima da média e menor volume de chuvas, o que pode afetar culturas sensíveis ao estresse térmico e hídrico,

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O excesso de chuvas no S ul aumenta a incidência de doenças e dificulta o trabalho dos produtores

M anoel O liveira, do I brahort: " E ntramos em um ambiente de grande imprevisibilidade"

como a videira”, destaca Marin. Hortaliças folhosas, como a alface, também exigem atenção redobrada nesse contexto, uma vez que temperaturas elevadas tendem a reduzir produtividade e padrão comercial. Parte desses impactos pode ser mitigada em cultivos protegidos, nos quais há maior controle de irrigação e temperatura, mas isso depende de investimento e gestão.

Mais do que provocar quebras expressivas de volume, o El Niño frequentemente se manifesta por meio de perdas de qualidade, especialmente em cadeias de produtos altamente perecíveis. Marin lembra que uma parcela significativa das perdas no hortifrúti ocorre após a colheita, e esse risco tende a aumentar em anos mais quentes e úmidos. “Temperaturas mais elevadas aceleram as trocas gasosas e aumentam a desidratação dos produtos, reduzindo a vida útil”, diz o professor

da USP. “No Sul, a elevada umidade do ar favorece o desenvolvimento de microrganismos decompositores, o que compromete a conservação pós-colheita.” Na prática, isso significa mais descarte, maior reclassificação e menor aproveitamento comercial, mesmo quando o campo entrega volumes satisfatórios.

Diante desse cenário, as estratégias de mitigação climática ganham centralidade. Para Marin, o manejo da irrigação se torna ainda mais sensível em 2026, tanto em regiões com déficit hídrico quanto naquelas sujeitas a chuvas excessivas. “O aumento das temperaturas e a alteração no regime de chuvas tornam essencial um manejo mais atento da irrigação. O monitoramento meteorológico contínuo permite antecipar decisões e alinhar o calendário fitossanitário de forma mais eficiente, evitando gastos além do

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necessário”, afirma. A lógica é clara: errar na dose de água ou no momento de intervir pode custar produtividade, qualidade e margem.

Segundo Jorge de Souza, gerente técnico da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), diante de um cenário climático cada vez mais imprevisível, a tecnologia tem sido a principal aliada. “O desenvolvimento de variedades mais adaptadas, o uso de diagnósticos por imagem, novas relações solo planta e produtos que ajudam a cultura a enfrentar estresses, seja por excesso ou falta de água, são os caminhos que vêm mostrando melhores resultados no campo”, afirma.

No plano mais amplo do setor, a leitura é de que a instabilidade climática deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano da horticultura. Para Manoel Oliveira, diretor

executivo do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), os últimos anos evidenciam uma ruptura com a previsibilidade que antes orientava o planejamento produtivo. “Saímos de um cenário de estações bem definidas e regionalização dos cultivos para um ambiente de grande imprevisibilidade, com forte variação de produtividade e interferência direta na oferta ao longo do ano”, afirma. Segundo ele, essa dinâmica tem provocado sucessivos descompassos entre oferta e demanda, com impactos econômicos relevantes.

Oliveira descreve situações recorrentes em que secas no momento do plantio ou chuvas excessivas na colheita reduzem a oferta e elevam preços, estimulando a expansão de área em outras regiões. Quando o clima se mostra favorável, essa produção adicional chega ao mercado ao mesmo tempo, gerando excesso de

U m E l N iño mais persistente em 2026 não representa apenas um desafio climático, mas um teste de gestão para o agro brasileiro

oferta e queda de preços. “Em alguns casos, os ciclos de produção se alteram a ponto de sobrepor colheitas de diferentes regiões, provocando uma remontagem de oferta que o mercado não consegue absorver”, explica. O resultado tem sido perda de margem e, em situações extremas, venda abaixo do custo. Para enfrentar esse ambiente, o setor vem adotando um conjunto amplo de medidas. Entre elas estão a redução de áreas de plantio, investimentos em tecnologia para lidar com a variabilidade climática, uso de fertirrigação, recobrimento do solo com filmes plásticos, ampliação do cultivo protegido e da hidroponia, ajustes no planejamento de plantio, busca por áreas mais adequadas, testes de novas variedades mais tolerantes, além do uso crescente de produtos biológicos e do fortalecimento do manejo integrado de pragas. Parte dessas práticas é acessível a produtores de menor escala; outras exigem maior capacidade de investimento, mas tendem a ganhar espaço à medida que o risco climático se intensifica.

O desafio, no entanto, não é apenas técnico. O aumento dos custos de produção – com irrigação, defensivos, energia e mão de obra – ocorre em um contexto em que o repasse ao preço final é limitado. “Hoje, a precificação está muito mais relacionada à oferta do que à pressão de demanda. Não temos observado crescimento relevante do consumo”, afirma Oliveira. Ele destaca ainda que cadeias longas, com muitos intermediários, acabam absorvendo parte do valor, dificultando que ganhos ou aumentos de custo cheguem ao produtor. “Com isso, o produtor sofre perda de margem ou até vende abaixo do custo.”

Nesse contexto, proteger rentabilidade em 2026 passa por decisões que vão além da lavoura. Estratégias como escalonamento de plantio, segmentação de mercados, diferenciação de produtos e organização coletiva ganham importância. Segundo Oliveira, a agregação de valor pode melhorar o posicionamento do produtor, mas exige regularidade de oferta, qualidade, rastreabilidade, certificações, logística eficiente e presença comercial, requisitos difíceis

no B rasil"

para pequenos produtores isolados. “A organização de grupos de produtores pode ser uma alternativa para ganhar escala e fortalecer o posicionamento”, diz. Para Jorge de Souza, da Abrafrutas, o planejamento passou a ser indispensável. “Hoje, o produtor precisa trabalhar com diferentes cenários – um provável, um otimista e um pessimista – e já ter planos de mitigação para cada um deles”, afirma o gerente técnico. “Ao mesmo tempo, a adoção de boas práticas agrícolas e de sistemas mais sustentáveis fortalece a posição da fruticultura brasileira, tanto no mercado interno quanto no externo, mostrando ao consumidor um compromisso real com eficiência e preservação.”

Um El Niño mais persistente em 2026 não representa apenas um desafio climático, mas um teste de gestão para a horticultura brasileira. Monitorar o clima, ajustar manejo e investir em eficiência produtiva serão condições necessárias, mas não suficientes. Em um mercado de perecíveis cada vez mais volátil, a capacidade de alinhar produção, qualidade e estratégia comercial tende a ser o principal diferencial entre quem atravessa o ciclo com rentabilidade e quem absorve o custo da instabilidade.

Fábio M arin, da E salq/ USP : " O s impactos do E l N iño são uniformes
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Análise

FORÇA IMPARÁVEL

ESCALA, PREVISIBILIDADE E DESCARBONIZAÇÃO

EXPLICAM POR QUE O ETANOL DE MILHO SE

TORNOU PEÇA-CHAVE NA SEGURANÇA ENERGÉTICA E NO FUTURO DOS BIOCOMBUSTÍVEIS BRASILEIROS

Análise

Nunca o Brasil produziu tanto etanol. Na safra 2024/25, a produção brasileira do biocombustível atingiu 37,3 bilhões de litros, o maior volume já registrado, segundo a União da Indústria de Cana de Açúcar e Bioenergia (Unica). Mais do que um novo recorde, o ciclo consolidou uma mudança estrutural na matriz produtiva: o etanol de milho respondeu por 22% da oferta nacional, deixando definitivamente o papel de coadjuvante. No total, foram 8,2 bilhões de litros fabricados a partir do grão, volume 30,7% superior ao da safra anterior, com forte concentração no Centro Oeste, especialmente em Mato Grosso (5,66 bilhões de litros), seguido por Mato Grosso do Sul (1,64 bilhão) e Goiás (855 milhões).

Ainda segundo a Unica, no acumulado da safra 2024/25, a produção de etanol no Centro Sul somou 34,96 bilhões de litros, um crescimento de 4,06% em relação ao recorde anterior. Desse total, 22,59 bilhões de litros foram de etanol hidratado, alta de 10,27%, enquanto a produção de etanol anidro alcançou 12,37 bilhões de litros, com retração de 5,63%. O avanço

expressivo do milho – 8,19 bilhões de litros no Centro Sul, o equivalente a 23,4% da produção regional – evidencia a crescente complementaridade entre cana e grãos e reforça um novo patamar de oferta ao longo de todo o ano.

É uma transformação estrutural em tempo recorde. “Há dez anos, a produção de etanol de milho no Brasil era um nicho desacreditado”, disse Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), durante a Conferência Internacional Unem Datagro, em Cuiabá. “Passamos de 80 milhões de litros na safra 2014/15 para mais de 8 bilhões de litros na safra atual (2024/25). Hoje, o milho representa mais de 23% da produção total de etanol do País”, resumiu.

As projeções confirmam a trajetória ascendente. No primeiro levantamento da safra 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou uma produção total de etanol de 36,82 bilhões de litros, ligeiramente abaixo do ciclo anterior, mas com o milho avançando: de 7,84 para 8,70 bilhões de litros (avanço de 11%). Já a Unem, em estimativa para o

C apazes de operar com milho e cana, as usinas flex viram uma tendência no promissor mercado brasileiro

Guilherme N olasco, da U nem: " O milho já responde por 23% da produção de etanol no País"

ano-safra 2025/26 (abril/março), apontou 9,9 bilhões de litros de etanol de milho, alta de 20% sobre 2024/25, reforçando que o cereal já responde por mais de 22% do etanol brasileiro quando se fala em ciclo completo de safra.

Poucas vezes na história do agro uma transformação industrial caminhou tão rápido e com tantos vetores ao mesmo tempo. O primeiro deles está num fator óbvio: a oferta de milho. O segundo, na urgência climática e na pressão por descarbonização. E o terceiro, no pragmatismo: etanol é etanol, independentemente da matéria-prima, desde que entregue sustentabilidade, competitividade e segurança de abastecimento. O ponto central, repetem os especialistas, é que milho e cana não estão em guerra. “As duas cadeias são complementares”, diz Nolasco. “O etanol de milho trouxe mais previsibilidade ao abastecimento do biocombustível no mercado nacional, que ficou menos dependente da sazonalidade da produção da cana e da demanda do açúcar no mercado internacional.”

A própria dinâmica industrial ajuda a explicar

esse movimento. A Unica tem destacado, nos boletins quinzenais, a presença de empresas “full milho” e, principalmente, de usinas flex (capazes de operar com milho e cana) durante a entressafra. A lógica faz sentido: a cana precisa ser colhida e processada rapidamente, sob pena de perda de qualidade. O milho, ao contrário, pode ser armazenado por longos períodos, o que dá previsibilidade operacional e permite que a indústria mantenha produção contínua ao longo do ano, ajustando o ritmo conforme preços, demanda e logística. Outro fator importante é a escala. O Brasil não está apenas “testando” o etanol de milho, mas construindo um parque industrial completo, com investimento, tecnologia e integração com cadeias de proteína animal. Nos dados setoriais mais recentes da Unem, o País contabiliza 27 biorrefinarias em operação, com 16 projetos autorizados para construção pela ANP e outras 14 unidades programadas. Esse número indica como o etanol de milho passou a ser tratado como infraestrutura estratégica: não é uma fábrica isolada, mas um ecossistema que movimenta armazenagem,

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Não basta produzir: é preciso mostrar ao mundo que o produto entrega baixa intensidade de carbono

Daniel L opes, da FS :

"A consolidação do etanol de milho já virou uma realidade" ©

biomassa para energia, logística e coprodutos.

O etanol é a estrela, mas não anda sozinho. A indústria do álcool de milho produz coprodutos que, em muitas regiões, são parte do racional econômico, especialmente DDG/DDGS (farelos proteicos para nutrição animal), além de óleo e energia (dependendo da rota e do arranjo energético de cada planta). A Unem chama a atenção para a consolidação do DDG/DDGS como produto de nutrição animal, utilizado em dietas de bovinos, suínos, aves, peixes e pets. Esses produtos, inclusive, fazem parte de uma estratégia de internacionalização. Em 2023, a entidade assinou convênio com a ApexBrasil para promover o produto no mercado externo, sob a marca Brazilian Distillers Grains. Esse ponto é chave para entender por que o etanol de milho “encaixou” tão bem no Centro-Oeste. Em regiões com forte produção de grãos e expansão de gado confinamento e semiconfinamento, o DDG/DDGS ajuda a reduzir custo de dieta e a estimular intensificação pecuária, gerando um ganho que se soma à agregação de valor ao milho excedente.

Se a oferta cresceu, a demanda também ganhou um novo capítulo. Em 2025, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a adoção do E30 – mistura de 30% de etanol anidro à gasolina – com início em 1º de agosto. A Unica classificou a medida como “avanço histórico” e ressaltou que houve testes técnicos conduzidos pelo Instituto Mauá, acompanhados

EM ALTA

A evolução da participação do etanol de milho no Brasil

Safra / Ano-base

Participação do milho (%)

Observação

Início da operação das primeiras plantas comerciais

Entrada das primeiras usinas “full milho”

Expansão acelerada no Centro-Oeste Consolidação industrial e modelos flex

pelo setor automotivo, sem impacto negativo relevante ao desempenho dos veículos. O Ministério de Minas e Energia também reforçou a viabilidade do E30 do ponto de vista técnico e ambiental, descrevendo a bateria de testes com veículos leves e motocicletas. Na prática, é mais um elemento que sustenta a expansão industrial. Quando o País eleva a mistura obrigatória, ele aumenta a necessidade estrutural de etanol, e o milho entra como “seguro” de oferta, reduzindo a pressão sazonal sobre a cana.

Há ainda um front que não aparece no posto de combustível, mas pesa no mercado internacional: a comparação entre pegadas de carbono. No debate global, “etanol de milho” muitas vezes é lido pelo filtro norte-americano. Isso pode ser um problema de narrativa para o produto brasileiro, que tende a operar com matriz energética e práticas agrícolas diferentes. Segundo estudos recentes da consultoria Agroicone, o etanol de milho brasileiro (especialmente associado à segunda safra e ao uso de biomassa como fonte

Produção de 4,4 bilhões de litros 7,7 bilhões de litros de etanol de milho

bilhões de litros (safra encerrada) Projeção Unem

O crescimento rápido do mercado de etanol de milho trouxe uma pressão inesperada para a logística

de energia) pode apresentar pegada de carbono entre 18,3 e 25,9 gCO₂e/MJ, comparável à do etanol de cana e inferior ao padrão tradicional de produção em outros países.

Do lado institucional, a Unica reforça que, na comparação com a gasolina, o etanol pode reduzir em até 90% as emissões de CO₂, e lembra que, de 2003 (início dos veículos flex) a março de 2025, o uso do biocombustível evitou mais de 730 milhões de toneladas de CO₂. Já no programa RenovaBio, a ANP explica que a certificação atribui notas inversamente proporcionais à intensidade de carbono do biocombustível, base para emissão dos CBios (créditos de descarbonização) negociados em bolsa. É nesse tabuleiro que o etanol de milho brasileiro tenta se diferenciar. Não basta produzir: é preciso provar que o produto entrega baixa intensidade de carbono. Também é necessário comunicar isso em fóruns internacionais, sobretudo em mercados que passam a exigir rastreabilidade.

“Podemos chegar ainda mais longe”, diz Daniel Lopes, vice-presidente de Sustentabilidade e Novos Negócios da FS, uma das maiores produtoras do Brasil. “A consolidação do etanol de milho já virou grande realidade, e tenho a convicção de que

vamos chegar a 40% do mercado em três a quatro anos.” O executivo também destaca que a busca pela descarbonização será fundamental para que o etanol se torne um combustível com ampla aceitação global. “Isso não vamos fazer sozinhos, exportando, mas trabalhando em coalizão com outros países e outros setores”, diz.

O horizonte segue otimista, mas com novos desafios. Do lado da produção, a Unem já sinalizou que, para a próxima safra (2025/26), a projeção é de 10 bilhões de litros de etanol de milho e que esse volume pode demandar cerca de 20 milhões de toneladas de milho. Em paralelo, as projeções da Conab indicam o aumento de produção a partir do milho mesmo em um cenário de leve recuo do etanol total, o que reforça o papel do cereal para o equilíbrio da oferta.

Mas o crescimento rápido traz pressão sobre a logística. Quando a oferta sobe muito acima do consumo projetado, o setor precisa abrir novas frentes: ampliar a penetração do hidratado em regiões onde o etanol ainda não virou hábito, avançar na exportação e, principalmente, posicionar o biocombustível para usos industriais e rotas emergentes, como combustível sustentável de aviação (SAF) e outras cadeias de baixo carbono.

"A escalada de tensões no oriente médio reforça a necessidade de o agro brasileiro diversificar destinos"

F FORUM o

Ideias e debates com credibilidade

#COLUNASPLANT

COMO A GUERRA AFETA O CAMPO

CRISE NO ORIENTE MÉDIO AMPLIA CUSTOS, AMEAÇA CADEIAS PRODUTIVAS E COLOCA À PROVA O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

POR MARCO RIPOLI*

Na virada de fevereiro para março de 2026, a escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu um dos principais pontos de fragilidade do comércio global. Episódios envolvendo Irã, Israel e ativos estratégicos dos Estados Unidos trouxeram novamente ao centro do debate um risco conhecido, mas ainda subestimado: a vulnerabilidade das cadeias agroindustriais a choques geopolíticos. Não se trata apenas de segurança internacional. Trata-se de fluxo de mercadorias, custo de insumos, previsibilidade logística e, em última instância, da margem do produtor rural a milhares de quilômetros de distância. No mundo atual, uma crise no Golfo Pérsico não é regional, mas sistêmica – e seus efeitos se propagam com velocidade crescente.

Em 2025, o Brasil exportou US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para o Oriente Médio, o equivalente a 7,4% de tudo que o agro nacional vendeu ao mundo. O Irã, sozinho, absorveu US$ 2,9 bilhões. Não estamos falando de um mercado periférico, mas de um eixo relevante da demanda global.

Em cadeias específicas, essa dependência assume caráter crítico. O Oriente Médio respondeu por 29% das exportações brasileiras de carne de frango, totalizando 1,5 milhão de toneladas. No milho, a participação foi ainda mais expressiva: 31,5% do volume exportado, ou 12,9 milhões de toneladas. O Irã destacou-se como principal comprador individual de milho brasileiro, com cerca de 9 milhões de toneladas, aproximadamente 22% das exportações totais dessa commodity.

Conflitos na região não impactam apenas a demanda, mas afetam diretamente a logística global. O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo, enquanto o Bab el-Mandeb é peça-chave para o tráfego entre Ásia, Europa e parte da África.

Para o exportador brasileiro, isso se traduz em aumento imediato de fretes, elevação dos prêmios de seguro e redirecionamento de rotas marítimas. Navios passam a contornar o continente africano, adicionando semanas às operações e custos relevantes à cadeia logística. Além disso, a região atua como importante ponto de abastecimento para embarcações que seguem para a Ásia. Quando esse sistema é pressionado, o impacto extrapola o Oriente Médio e se espalha por toda a malha global de transporte. O resultado é claro: mais custo, mais incerteza e menor previsibilidade.

Se a logística é o sistema nervoso do comércio global, os fertilizantes são seu insumo vital, e o Brasil permanece altamente exposto. O País importa mais de 85% dos fertilizantes que consome. Rotas associadas ao Oriente Médio concentram 45% da ureia global, 25% da amônia e volumes relevantes de DAP, MAP e enxofre.

Em 2025, 15,6% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil tiveram origem na região. Isoladamente, esse número pode parecer administrável. No entanto, somado à elevada concentração de fornecedores – com China, Rússia e Nigéria respondendo por mais de 70% do volume –, o quadro revela uma gran -

*Marco Ripoli é Ph.D. em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

#COLUNASPLANT

O E streito de O rmuz responde por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo

de vulnerabilidade. Choques recentes confirmam essa fragilidade: aumentos de preços entre 10 e 12% em um único dia, acompanhados pela suspensão de negociações por parte de fornecedores.

Tensões no Oriente Médio historicamente pressionam os preços do petróleo, com impacto direto sobre o custo do diesel no Brasil. Desde operações mecanizadas no campo até o transporte rodoviário de grãos e a distribuição de alimentos, o encarecimento do combustível eleva custos ao longo de toda a cadeia. Ao mesmo tempo, fertilizantes nitrogenados dependem do gás natural como insumo básico, ampliando o efeito da volatilidade energética sobre os custos de produção agrícola. O resultado é uma compressão simultânea de margens, tanto na produção quanto na logística, que tende a se propagar rapidamente por todo o sistema agroindustrial.

O agronegócio brasileiro construiu, ao longo das últimas décadas, uma notável capacidade de adaptação. Diversificou mercados, incorporou tecnologias e ampliou sua competitividade global. Além disso, soube aproveitar oportunidades em momentos de ruptura, como na guerra comercial entre Estados Unidos e China ou nas disrupções provocadas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia.

O problema é que a estrutura exportadora brasileira ainda é concentrada em poucos mercados e cadeias. A dependência da China já representava um ponto de atenção. Agora, soma-se a instabilidade no segundo eixo comercial relevante: o mundo árabe-muçulmano. O Brasil é líder global na produção e exportação de carne halal, uma vantagem construída ao longo de anos de adequação a padrões rigorosos. Perder acesso a esse mercado,

#COLUNASPLANT

O s conflitos no O riente M édio expõem a vulnerabilidade do agro a choques geopolíticos

mesmo que temporariamente, implica abrir espaço para concorrentes e comprometer posicionamentos consolidados.

Ocupamos hoje uma posição singular no cenário internacional: a de uma potência média com alta relevância alimentar. O Brasil mantém relações comerciais com múltiplos polos de poder – Estados Unidos, China, União Europeia, Oriente Médio e Rússia –, o que historicamente garantiu flexibilidade. No entanto, crises geopolíticas tendem a reduzir esse espaço. O agronegócio passa a desempenhar também um papel estratégico na política externa, deixando de ser apenas um setor econômico.

Não há solução simples para um problema que combina geopolítica, logística global, dependência de insumos e volatilidade energética. Mas há direções claras que podem ser tomadas:

• Diversificação de mercados: reduzir concentração em destinos vulneráveis e acelerar a abertura de mercados na África,

Sudeste Asiático e América Central.

• Segurança de insumos: transformar potencial doméstico – como reservas minerais e biotecnologia – em produção efetiva.

• Infraestrutura logística resiliente: ampliar rotas, fortalecer portos e diversificar modais, reduzindo dependência de corredores críticos.

• Diplomacia alimentar ativa: utilizar a posição do Brasil como fornecedor global de alimentos como ativo estratégico nas relações internacionais.

O agronegócio brasileiro continuará sendo competitivo, mas competitividade, isoladamente, não garante estabilidade em um ambiente de tensão geopolítica. Em um mundo onde rotas podem ser interrompidas, insumos podem escassear e mercados podem fechar temporariamente, uma estratégia eficaz deixa de ser diferencial. Passa a ser condição de sobrevivência.

O agro não para.

O reino das onças

O Pantanal cresce como destino turístico enquanto tenta preservar um dos biomas mais ricos e frágeis do País

rAARTE

Um campo para o melhor da cultura

Um campo para o melhor da cultura

NA NATUREZA SELVAGEM

MAIOR ÁREA ÚMIDA DO PLANETA, O PANTANAL ATRAI

TURISTAS DO MUNDO INTEIRO COM SUA FAUNA

EXUBERANTE E PAISAGENS ÚNICAS – E TENTA EQUILIBRAR O CRESCIMENTO TURÍSTICO COM

A CONSERVAÇÃO

DO BIOMA

quase meia-noite quando os barcos começam a sair. Os guias aceleram pelo Rio Paraguai, iluminado apenas pela luz da lua. Depois de algum tempo, a velocidade diminui. O barulho do motor arrefece e o barco é direcionado suavemente para as margens. O olhar treinado identifica de longe os pontos com maior probabilidade de encontrar jacarés. Com uma lanterna, o guia percorre rapidamente as folhas e a beira d’água em busca do reflexo dos olhos. É assim que encontra os animais, camuflados entre a água e a vegetação. Alguns submergem ao perceber a aproximação. Outros parecem indiferentes e deixam o barco chegar a poucos centímetros. Alguns passageiros sentem um frio na barriga, mas os répteis não querem confusão. Logo o barco se afasta em direção à outra margem. Quando termina o período de pesca no Pantanal, começa outro tipo de turismo de natureza – a focagem de jacarés, como é conhecida a prática de observar os répteis em seu habitat natural, é um dos principais atrativos. Em um cenário de crescente interesse pelo turismo no Brasil, o Pantanal desponta como uma região de enorme potencial.

O Brasil entrou de vez na rota dos turistas internacionais. Em 2025, o País registrou crescimento de 37% na entrada de visitantes estrangeiros em relação a 2024 – que já havia sido o melhor ano da história – e fechou o período com o recorde de 9,2 milhões de chegadas internacionais, segundo o Ministério do Turismo. Com esses números, as metas anuais do Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024-2027 têm sido superadas com folga. Os argentinos representam a maior fatia dos visitantes, seguidos pelos chilenos e pelos norte-americanos. Na sequência, aparecem turistas europeus de países como França, Portugal, Alemanha, Itália, Reino Unido

C om 4.700 espécies de plantas e vertebrados, o pantanal foi reconhecido como Patrimônio Natural da H umanidade ©

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e Espanha. Em 2026, a tendência de crescimento se mantém: mais de 2,6 milhões de estrangeiros desembarcaram no Brasil apenas entre janeiro e fevereiro, segundo a Embratur.

Publicações internacionais têm contribuído para estimular esse fluxo. Em 2023, a revista Time elegeu o Pantanal um dos 50 melhores destinos daquele ano. No ano passado, a região foi tema de reportagens em veículos especializados em viagem, incluindo uma recomendação na prestigiosa Condé Nast Traveler, que inseriu o Caiman Pantanal, localizado em Miranda, no Mato Grosso do Sul, em sua lista de Melhores Hotéis e Resorts do Mundo. A nova versão da novela Pantanal, exibida pela Globo em 2022, também ajudou a ampliar o interesse pela região no Brasil e no exterior.

Não faltam belezas naturais e atrações para quem se aventura pelo Pantanal, maior área úmida do planeta, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera. Segundo dados da WWF Brasil, o bioma ocupa 150,4 mil km² – cerca de 2% do território nacional, distribuídos entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul – e abriga 4.700 espécies de plantas e vertebrados. A experiência começa já nas estradas. A MS-184, parte da Rodovia Parque Pantanal, liga Corumbá, na fronteira com a Bolívia, ao restante do estado. Com 116 quilômetros de extensão, não é asfaltada e ainda é cortada por 74 pontes de madeira, instaladas nos trechos mais críticos. Na época da cheia, elas são indispensáveis para transpor áreas alagadas. No

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U m estudo realizado pelo ICMBio concluiu que o Pantanal é o bioma que mais preserva espécies de animais silvestres no B rasil

período de seca, compõem um cenário singular. Os principais atrativos estão ligados ao ecoturismo. Bonito, a cerca de 300 quilômetros de Campo Grande, é um dos destinos mais procurados por quem quer observar a fauna, contemplar as belezas naturais e explorar a transição entre o Pantanal e o Cerrado. A cidade tem boa infraestrutura hoteleira, com hotéis e pousadas para diferentes perfis, e bons restaurantes, como a Casa do João, que serve traíra sem espinhos e ceviche de jacaré, e o Restaurante Juanita, cujo carro-chefe é o pacu na brasa. As melhores atrações, porém, estão nos arredores. O Recanto Ecológico Rio da Prata oferece cozinha pantaneira com a assinatura do chef Paulo Monteiro, uma das principais referências no tema, e atividades

como a flutuação no Rio da Prata.

Para desbravar o Rio da Prata, o turista veste roupa de Neoprene e faz um curso rápido sobre o funcionamento do snorkel. A partir de um trecho específico, o grupo segue o guia e desce flutuando, com a cabeça submersa. Os peixes passam ao lado e a água cristalina revela o fundo do rio em detalhes. A experiência é tão disputada que os grupos costumam esgotar com antecedência. Para os mais aventureiros, há safáris que percorrem áreas de grande atividade da fauna local. A bordo de veículos abertos, os turistas têm a chance de observar tamanduás, antas e, com sorte, uma onça-pintada, o maior predador da região. O Caiman, por exemplo, oferece esse tipo de passeio, além de hospedagem para quem não quer abrir mão do

O s argentinos representam a maior fatia dos visitantes estrangeiros, seguidos pelos chilenos, norte-americanos e franceses

conforto. Segundo o lodge, já foram avistadas mais de 500 espécies no local, incluindo quase 350 tipos de pássaros.

Mesclar luxo e aventura é uma das tendências do turismo no Pantanal. Outra opção é o cruzeiro pelo Rio Paraguai a bordo do Kaymã, um barco-hotel com refeições e passeios para pesca ou observação de jacarés. Quem preferir algo mais urbano pode visitar o Bioparque, maior aquário de água doce do mundo, inaugurado em Campo Grande, em 2022. Com mais de 19 mil metros quadrados, o espaço reproduz ambientes do bioma pantaneiro e de outros biomas brasileiros, e conta ainda com espécies estrangeiras, como o axolote mexicano, um dos maiores sucessos de público.

Apesar do enorme potencial, a região enfrenta desafios. O principal está ligado à conservação. Um estudo do ICMBio divulgado em 2023 aponta que o Pantanal é o bioma que mais preserva espécies de animais silvestres, mas os incêndios provocados pela seca extre -

ma, o desmatamento para expansão agropecuária e o assoreamento dos rios representam uma séria ameaça. Em 2020, o fogo consumiu grande parte da vegetação, e os efeitos ainda são sentidos. Há iniciativas para estimular a pecuária sustentável e projetos para coibir a pesca predatória, mas a falta de fiscalização dificulta o avanço dessas ações.

Para os turistas, os obstáculos são de outra ordem: falta de infraestrutura hoteleira em algumas cidades, grandes distâncias entre os atrativos e estradas sem duplicação, com intenso tráfego de caminhões. O alto fluxo de estrangeiros também pressiona os preços, o que penaliza especialmente o viajante brasileiro. Não por acaso, alguns dos principais destinos da região recebem mais americanos, europeus e chineses do que visitantes de outros estados do País, o que se reflete em tíquetes médios mais elevados para hospedagem, alimentação e guias. Ainda assim, visitar o Pantanal é encontrar um dos biomas mais belos e mais preservados do Brasil.

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O s prazeres da mesa

No Trintaeum, a chef

Ana Gabriela Costa transforma sabores e tradições de Minas Gerais em uma experiência de alta gastronomia

WORLD FAIR

A grande feira mundial do estilo e do consumo

Tudo no menu do T rintaeum vem de M inas G erais, com itens produzidos apenas por fornecedores locais

As regiões produtoras do mundo

O SABOR DO SOTAQUE MINEIRO

Ao valorizar ingredientes locais e produtores regionais, o restaurante

Trintaeum transforma a culinária de Minas Gerais em alta gastronomia e revela a força de um ecossistema que vai do campo à mesa

Achuva cai sobre a região de Coronel Xavier Chaves, cidade próxima de Tiradentes, em Minas Gerais. Do lado de fora da casa da fazenda, as vacas da raça Jersey, vindas da Nova Zelândia, pastam sem se preocupar com a água. Em vez de se abrigar em uma área coberta, preferem o ar livre – um indício da maneira saudável com que os animais são tratados. Lá dentro, o produtor João Dutra e a filha, Mariana Rezende, apresentam alguns dos produtos que preparam na fazenda. O queijo Catauá é o mais famoso, reconhecido tanto pela embalagem envolvida em uma rede branca quanto pelo sabor intenso, resultado de seu período de maturação. Premiado em concursos internacionais e vendido nas melhores queijarias da região, já ultrapassou as fronteiras do estado. Mas não é o único produto que chama a atenção. A linha de charcutaria, assinada por Emmanuel Mayer, vem ganhando cada vez mais destaque no portfólio da fazenda. A chef Ana Gabriela Costa experimenta os embutidos e começa a fazer perguntas. Quer levar alguns deles para o seu restaurante em Belo Horizonte. À frente do celebrado

Trintaeum – uma referência ao código telefônico de Minas –, ela criou um menu que celebra a boa comida mineira e é elaborado integralmente com produtos do estado, dos queijos aos vinhos. Um esforço que só é possível graças à relação próxima que mantém com todos os seus fornecedores.

A proposta do Trintaeum é não apenas valorizar a boa comida mineira com uma abordagem “fine dining” (apresentação sofisticada e serviço de excelência), mas também colocar em evidência os produtos locais. Instalado no Tribe BH, hotel no bairro de Lourdes, em meio a uma vibrante cena gastronômica, o restaurante vem acumulando prêmios e menções em rankings importantes. Foi eleito um dos 100 melhores restaurantes do Brasil pela revista Exame e reconhecido por sua Excelência em Vinhos Regionais pela Prazeres da Mesa.

A trajetória de Ana Gabi Costa reforça sua conexão com a comida mineira. Ao contrário de outros profissionais da gastronomia que começaram a cozinhar com as avós, Ana Gabi conta que sempre viu a família preparando as refeições, mas raramente ajudava. Tanto que seguiu outra carreira. Começou a estudar comunicação, mas precisou interromper o curso para trabalhar na área de logística. Foi nessa época que descobriu o prazer de cozinhar. Quando ela e colegas de empresa se mudaram para uma casa alugada durante um projeto em Paraopeba, na região metropolitana de BH, passou a preparar algumas das refeições. “Na cidade não tinha muito para fazer, então a gente comprava umas cervejas, ficava conversando fiado e preparando um tira-gosto”, diz. “Gostei de ver como as pessoas ficavam felizes de comer a comida que eu havia feito.”

A partir dessa experiência, decidiu estudar gastronomia. Começou um curso e logo saiu em busca de um estágio na área que ajudasse a pagar as mensalidades. Conseguiu uma vaga com o chef

Ivo Faria, no Vecchio Sogno, um dos principais restaurantes de BH, em funcionamento entre 1995 e 2021. Depois de subir posições em um cenário desafiador – era a única mulher em uma brigada totalmente masculina –, foi trabalhar no restaurante Trindade com o chef Felipe Rameh, que hoje comanda o Tragaluz e o Lagar, ambos em Tiradentes. “O Vecchio Sogno e o Trindade eram as principais referências em alta gastronomia em Minas na época”, diz ela. Em toda a sua carreira, nunca saiu de Minas para trabalhar em outros restaurantes. “Cheguei a achar que isso podia ser uma fraqueza no meu currículo, mas hoje entendo que essa experiência faz com que o Trintaeum seja muito verdadeiro.”

Hoje, Ana Gabi trabalha para apresentar clássicos como frango com quiabo, galinhada, feijão com angu e couve ao lado de criações que remetem à comida mineira. Entre elas, está a “lasanha pinga e frita”, massa artesanal com fubá, recheio de frango pinga e frita, queijo e creme de milho, ou do “porco sem mágoas”, feito com copa lombo braseado, molho de cachaça e limão, acompanhado de angu de canjica

Gastronomia

O maître R onaldo da M ota e a chef A na C osta: cozinha premiada no B rasil e com menção em rankins mundiais

com queijo, milho e taioba.

Tudo no menu vem de Minas Gerais. É um desafio. O tomate pelado, por exemplo, não chega da Itália: é preparado dentro do próprio restaurante. A mostarda não vem de Dijon, mas também é feita de forma artesanal. Legumes, verduras, frutas e proteínas igualmente vêm de parceiros locais. “As pessoas me perguntam se tive dificuldade”, diz a chef. “Mas esquecem que somos o terceiro maior PIB do País e que temos muitos produtores incríveis.” São sabores familiares para quem é do estado ou guarda memórias da vida no campo, mas apresentados com elegância e uma proposta de alta gastronomia que foge do óbvio quando se fala em comida mineira, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial.

A carta de bebidas representa outro desafio. Todos os vinhos são elaborados em Minas, prova do quanto a viticultura regional vem se destacando, graças à técnica da dupla poda, que altera o ciclo natural das videiras e permite que os produtores colham as uvas no inverno, período de menos chuva. Há rótulos elaborados com a

uva Syrah, que até o momento tem mostrado ótimos resultados com a dupla poda (também chamada “poda invertida”), produzidos na Serra da Mantiqueira ou em municípios como Cordislândia e São Gonçalo do Sapucaí.

Abrir mão de rótulos sul-americanos e europeus foi uma decisão que pode parecer difícil, mas tem aberto a mente de muitos consumidores. Não raro, os comensais descobrem algum vinho surpreendente sugerido pela sommelière Cinira Varela e passam a se interessar por conhecer de perto a vinícola e o enólogo responsável. A carta de cachaças, com mais de 20 rótulos, foi elaborada pela sommelière especializada Pollyanna Ávila, com o objetivo de dar o devido valor ao destilado brasileiro. Já o mixologista Cássio Batista, conhecido como Cassin, cuida dos coquetéis. Ele criou composições autorais e encarou o desafio de adaptar clássicos como o Negroni sem recorrer às tradicionais bebidas importadas. Buscou os melhores produtores do estado e trabalhou com insumos únicos para recriar os perfis de sabor. “O negroni que servimos aqui vai remeter ao clássico, mas vai trazer um paladar diferente, que vai

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O restaurante tem ajudado a dar visibilidde a uma vibrante cena gastronômica em B elo H orizonte Gastronomia

surpreender”, diz ele. Quem se senta no balcão do bar pode acompanhar de perto sua equipe dando nova roupagem a drinques consagrados.

Há ainda uma imperdível degustação de queijos conduzida por Ronaldo Alves da Mota, queijista, maître e sommelier de queijos. Ele se aproxima da mesa com um carrinho de madeira e segue um ritual de serviço enquanto apresenta diferentes variedades mineiras, subindo em intensidade à medida que comenta sobre métodos de produção, os locais onde cada queijo é feito e quem são os produtores. De forma didática, explica a enorme variedade que existe na região e dá dicas para quem quer sair do restaurante e fazer compras no Mercado Central. O Trintaeum serve tanto refeições no almoço e no jantar quanto café da manhã para hóspedes do Tribe. Dentro do prédio do hotel, Ana Gabi Costa tem outros dois empreendimentos. No térreo, o café Broa tem se tornado um ponto de encontro de apreciadores de cafés especiais graças a sua seleção meticulosa e às comidas que acompanham as xícaras, como o saboroso pão de

queijo, o tostex de pamonha com queijo minas artesanal, tomate seco e bacon ou a broa de canjica. No rooftop, o bar Coreto destaca a coquetelaria autoral de Cássio Batista e serve como um laboratório para que a chef teste receitas de acordo com a sazonalidade dos insumos. Alguns podem ser incorporados posteriormente ao menu do Trintaeum.

Pela seriedade e pela proposta única, o trabalho de Ana Gabi Costa à frente do Trintaeum tem recebido o devido reconhecimento. Em 2025, Costa foi eleita “Chef Mulher” do ano pelo prestigiado Prêmio Cumbucca de Gastronomia. Além disso, o restaurante tem ajudado a dar visibilidade a uma vibrante cena gastronômica que vem evoluindo rapidamente em Belo Horizonte. Do Pacato, de Caio Soder, aos restaurantes Gata Gorda e Birosca, da chef Bruna Martins, passando pelo clássico Xapuri, aberto em 1985 e hoje sob o comando de Flávio Trombino, a boa comida mineira vive um momento de experimentação e valorização dos bons produtos locais.

A força das agtechs Tecnologia, inteligência artificial e soluções sustentáveis aceleram a transformação do agro na América Latina

SSTARTAGRO

As inovações para o futuro da produção

As inovações para o futuro da produção

AS STARTUPS CONSTROEM O NOVO AGRO

AGTECHS GANHAM ESPAÇO NO BRASIL E NA AMÉRICA

LATINA, IMPULSIONADAS POR AVANÇOS TECNOLÓGICOS, INICIATIVAS SUSTENTÁVEIS E NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO

Omercado global de startups climáticas deve atrair cerca de US$ 80 bilhões até 2029, mas apenas 4% desse capital chega à América Latina e à África. Os números calculados pela gestora argentina Kamay Ventures revelam tanto o tamanho da oportunidade quanto a desigualdade na distribuição dos recursos. Dentro desse movimento, agtechs e foodtechs despontam como os segmentos mais promissores.

Não faltam sinais de que o setor avança em ritmo acelerado. Só no primeiro semestre de 2025, o Brasil recebeu R$ 627,2 milhões em investimentos em agtechs e foodtechs, segundo o Rural Tech Report 2025. Na América Latina, os aportes em agfoodtechs cresceram 25% no último ano, e já são 451 hubs, incubadoras, parques tecnológicos e aceleradoras mapeados pelo Radar Agtech Brasil, da Embrapa. No campo, um estudo da pesquisadora Maira de Souza Regis, da Universidade de Brasília, indica que mais de 90% dos produtores rurais utilizam algum tipo de tecnologia ou sistema digital no dia a dia.

Para Humberto Matsuda, membro do Comitê de Investimentos da Kamay Ventures, o momento favorece startups que conseguem unir impacto ambiental mensurável, eficiência operacional e modelos de negócio escaláveis. “A América Latina tem uma combinação única de desafios estruturais e ativos naturais”, diz. “Isso cria oportunidades enormes para startups que atuam em agro, alimentos, economia circular e soluções baseadas na natureza, especialmente quando conectadas a grandes empresas e cadeias globais.”

Nessa agenda, ele observa a aceleração no desenvolvimento e adoção de tecnologias voltadas à regeneração de solos, biotecnologia, redução de insumos químicos e produção de alimentos mais saudáveis. “Mais do que mitigar impactos ambientais, essas soluções buscam aumentar produtivi-

dade, eficiência e competitividade ao longo de toda a cadeia de valor.”

Para entender o que está em jogo, vale olhar para o histórico das agtechs no Brasil. A primeira onda concentrou esforços nas tecnologias para o dia a dia nas lavouras, como sensores, softwares de desempenho em maquinários e soluções digitais para manejo. A segunda avançou para serviços de fora da porteira, como crédito rural, seguro e logística. Agora, um terceiro ciclo se desenha. “O foco mudou de produzir mais para produzir com inteligência de recursos”, afirma Matsuda.

Aurélio Favarin, analista de Inovação da Embrapa e editor técnico do Radar Agtech Brasil, aponta que esse movimento já é visível. “É possível observar um grande crescimento do número de startups que tornam a produção mais sustentável e com menos riscos, além de soluções viabilizadoras da produção, como é o caso das agfintechs”, diz. “Também percebemos o grande uso de inteligência artificial, seja ela a solução em si ou uma parte menor da tecnologia.”

A engenheira agrônoma Suelem Gonçalves, coordenadora do curso de Agronomia da Uninas-

A s agtechs e as foodtechs nunca receberam um volume tão grande de investimentos

H umberto M atsuda, da K amay Ventures: "A A mérica latina traz oportunidades para startups"

A conectividade avança nas lavouras brasileiras, mas ainda segue distante das necessidades do campo

sau, reforça o potencial transformador das agtechs “verdes”: produzir alimentos mais baratos, garantir maior estabilidade na oferta e viabilizar cultivos com menor impacto ambiental. “Esta transformação é uma poderosa aliada da sustentabilidade, porque reduz perdas e diminui o uso excessivo de fertilizantes, além de preservar o solo e a água.”

Tecnologia confiável que atenda às necessidades do mercado é o ponto de partida, mas está longe de ser suficiente. Para Favarin, o ambiente ao redor da startup importa tanto quanto o produto. Estar inserida em um ecossistema com parceiros tecnológicos, investidores e polos de inovação pode ser o diferencial entre crescer ou estagnar. Matsuda vai além e aponta um ingrediente que considera crucial: a capacidade de integrar a solução na cadeia de valor. “No campo, não há espaço para ferramentas complexas que isolam o produtor”, diz. “Uma agtech vinga quando entrega um ROI (retorno sobre o investimento) claro e imediato, mas que também conversa com as grandes indústrias que compram desse produtor.”

Em qualquer discussão sobre agricultura digital, a conectividade surge como um fator

fundamental. O Indicador de Conectividade Rural 2025, elaborado pela ConectarAgro, mostra que o Brasil avança nessa área: 34% do campo brasileiro está conectado, ante 19% em 2024. O acesso à internet, porém, ainda se concentra nos escritórios das propriedades, enquanto levar sinal às áreas de campo continua sendo o grande desafio. “A conectividade é um desafio, principalmente quando pensamos na agricultura de precisão e nos maquinários mais modernos que, muitas vezes, exigem internet 5G para funcionar”, diz Favarin.

Para Matsuda, o gargalo é real, mas não paralisa o setor. “O ecossistema latino-americano aprendeu a operar no modelo offline-first: as tecnologias coletam dados no campo e sincronizam quando há sinal”, diz. “A falta de sinal atrasa a velocidade da automação plena, mas a inteligência de dados já é uma realidade na gestão. Onde a conectividade chega plenamente, o agro deixa de ser apenas mecanizado e se torna uma indústria de precisão absoluta.” Mais do que sensores e algoritmos, o que as agtechs verdes estão plantando é uma nova forma de pensar o campo, em que o lucro e o planeta, pela primeira vez, podem crescer juntos.

O clima esquentou

O avanço das secas e das ondas de calor ameaça a produtividade e impõe novos riscos ao agronegócio argentino

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FRONTEIRA

As regiões produtoras do mundo

As regiões produtoras do mundo

CLIMA HOSTIL PARA OS HERMANOS

DÉCADAS DE MUDANÇAS NO REGIME DE CHUVAS E NA

TEMPERATURA TORNAM O PADRÃO CLIMÁTICO MENOS

PREVISÍVEL E MAIS EXTREMO, REDESENHANDO O MAPA

PRODUTIVO DA ARGENTINA

Por Cláudia Yamamoto, de Córdoba

Os últimos verões têm sido implacáveis com o agronegócio argentino. A combinação de calor extremo e ausência prolongada de chuvas castiga o cinturão agrícola, uma das regiões mais férteis do planeta, que atravessa Buenos Aires, Córdoba e Santa Fé e sustenta uma parcela relevante da oferta global de alimentos. A Argentina não é um produtor qualquer. Trata-se do maior exportador mundial de farelo e óleo de soja e o terceiro maior fornecedor de milho. O que está em jogo, porém, vai além de um episódio esporádico: é a expressão mais visível de uma transformação climática que vem se acumulando ao longo de décadas e que passa a redesenhar, de forma permanente, as bases da produção nos campos argentinos. Para entender o presente, é preciso voltar ao passado. Durante a maior parte do século 20, a agricultura argentina funcionou sobre riscos bem conhecidos. El Niño trazia mais chuva, La Niña mais seca, e os ciclos se alternavam com uma regularidade que os produtores aprenderam a incorporar no planejamento das safras. As perdas de um período eram, em geral, compensadas pela recuperação do seguinte. Mas agora isso mudou. Os intervalos entre eventos extremos encurtaram. A intensidade deles aumentou. E a previsibilidade que sustentava a produção agrícola começou a desaparecer.

O agronegócio é um dos pilares da economia A rgentina, que depende das exportações para equilibrar a balança comercial

A Argentina consolidou sua posição como potência agrícola apoiada em uma combinação rara de fatores. A Pampa Úmida possuía, até pouco tempo atrás, condições quase excepcionais: solos profundos de altíssima fertilidade, chuvas razoavelmente distribuídas ao longo do ano e temperaturas que raramente atingiam extremos capazes de comprometer safras inteiras. A partir dos anos 1980, pesquisadores do Servicio Meteorológico Nacional passaram a documentar uma tendência que, vista isoladamente, parecia promissora: a linha de chuvas regulares avançava para o oeste, empurrando a umidade em direção a regiões que historicamente viviam no limite da aridez. Áreas da zona semiárida pampeana que antes mal sustentavam pasto tornavam-se cultiváveis. No curto prazo, isso foi interpretado como ganho – e de fato o era. A fronteira agrícola se expandiu, incorporando solos que antes serviam apenas à pecuária extensiva. O que levou mais tempo para ficar claro é que se tratava de uma oscilação mais ampla do clima. E, quando o ciclo se inverteu, essas mesmas áreas voltaram a expor sua fragilidade.

A seca de 1988/89 foi um primeiro alerta – importante, mas rapidamente ignorado. Depois, vieram anos de recuperação que reforçaram o otimismo. Nos anos 1990, a virada tecnológica, com a disseminação da soja transgênica, o avanço do plantio direto e a mecanização em larga escala, coincidiu com um período de clima mais benigno. Isso ajudou a consolidar a ideia

A cidade de Salta: o governo de Javier Milei reduziu os impostos sobre exportações agrícolas para dar fôlego financeiro aos produtores

de que a tecnologia havia reduzido a dependência do clima. Em parte, era verdade, mas não na medida que se imaginava.

O sinal mais claro viria alguns anos depois. A seca de 2008/09, associada a um La Niña de intensidade incomum, provocou perdas estimadas em US$ 15 bilhões e derrubou a produção de soja a níveis que não se viam havia quase uma década. O episódio abalou as contas do governo de Cristina Kirchner, fortemente dependentes das receitas de exportação do agronegócio. Em 2011/12, houve uma nova seca severa. Em 2017/18, La Niña voltou com força suficiente para reduzir a produção de soja em quase 30% em relação ao ciclo anterior. Nas safras mais recentes, o padrão se confirmou: episódios de estresse hídrico passaram a se suceder com intervalo cada vez menor, sem que o campo tivesse tempo de recuperar a capacidade produtiva.

No verão de 2025/26, o Servicio Meteorológico Nacional emitiu alertas sucessivos de calor intenso para as principais regiões produtoras, com temperaturas chegando a 40 °C em pontos do cinturão agrícola e déficit hídrico prolongado em áreas críticas de Santa Fé, Entre Ríos e Buenos Aires. La Niña, ainda que em fase de enfraquecimento, seguia influenciando o regime de chuvas, mantendo o centro do país mais seco do que o normal.

No campo, os efeitos foram severos, especialmente para o milho plantado mais cedo. A cultura atravessa fases críticas – como a

polinização – justamente quando o calor e a falta de água atingem o pico. É nesse momento que se define o tamanho da espiga e a quantidade de grãos. E é também quando o prejuízo se torna inevitável. Na safra anterior, 2024/25, o estresse hídrico no nordeste do país chegou a reduzir o potencial produtivo da soja em mais de 20% naquela região, levando a Bolsa de Cereais de Buenos Aires a cortar sua projeção em 1 milhão de toneladas.

A crise não poupa ninguém. A pecuária

também sofre: pastagens e áreas de forragem perdem vigor, reduzindo o alimento disponível para o gado. Em muitas propriedades, produtores já discutem suplementação alimentar, uma medida que eleva custos num momento de margens apertadas. O Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária identificou sinais claros de estresse hídrico, sobretudo no norte do país, com risco de agravamento no futuro próximo. Para quem vive do campo, o problema se traduz em decisões difíceis. Plantar mais tarde?

Desafio climático: incentivos econômicos ajudam os produtores, mas não resolvem a dramática falta de chuva

Reduzir área? Segurar investimentos? “Hoje, a gente não planeja mais a safra com base no calendário, mas no clima, e o clima virou uma variável impossível de prever”, diz o agricultor Gastón Riggi, produtor de soja em Córdoba. “O risco sempre fez parte do negócio, mas agora ele está presente em todas as decisões.”

Os danos se estendem para além das fronteiras argentinas. Em Rosário, às margens do rio Paraná, um dos maiores complexos industriais de processamento de soja do mundo opera com capacidade diretamente ligada ao desempenho da safra. Gigantes como Bunge, Cargill e Louis Dreyfus construíram ali uma plataforma estratégica de exportação que movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano. Quando a produção encolhe, o efeito se espalha por toda a cadeia, dos portos argentinos aos mercados consumidores na Ásia e na Europa.

No plano político, o governo de Javier Milei tenta responder com medidas econômicas. A redução das retenciones – impostos sobre exportações agrícolas – busca dar fôlego financeiro aos produtores. É uma tentativa legítima de aliviar a pressão sobre um setor vital. Mas há um limite claro para qualquer resposta econômica. Incentivos aliviam o caixa, mas não resolvem a falta de chuva. Hoje, é o clima que define o que se produz – e o que se perde.

NOVOS DESAFIOS, NOVAS OPORTUNIDADES

Com recorde de participação, a 10ª edição da DATAGRO Abertura de Safra – Cana, Açúcar e Etanol debateu o presente e o futuro do setor sucroenergético brasileiro diante de um cenário geopolítico marcado por incertezas

P or r onaldo l uiz

setor sucroenergético, especialmente a produção de etanol, se mostra ainda mais estratégico para a segurança energética do Brasil diante das incertezas geopolíticas globais. Foi o que destacou o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, na abertura da 10ª edição da DATAGRO Abertura de Safra – Cana, Açúcar e Etanol, realizada nos dias 11 e 12 de março em Ribeirão Preto (SP). Apresentado pelo Santander e pela Koppert, o evento reuniu mais de 1,6 mil pessoas.

“O momento atual traz insegurança em relação ao abastecimento mundial de petróleo e derivados, com impacto também na cadeia de fertilizantes nitrogenados”, afirmou Nastari. Ele recordou que a produção total de etanol – da cana e do milho – cresceu 10 bilhões de litros nos últimos cinco anos e que, desde 1975, o biocombustível substituiu cerca de um terço das reservas de petróleo equivalente no Brasil.

“O Brasil está numa condição muito especial em relação a outros países, porque possui uma base muito relevante de biocombustíveis”, disse.

Em relação ao açúcar, o novo ciclo começa com preços mundialmente pressionados, com a produção nacional mantida em torno de 40 milhões de toneladas nos últimos três anos. Nastari ressaltou ainda que o sucesso do agro nacional decorre da conexão entre produção de alimentos e energia limpa: “Os biocombustíveis são um dos principais elos desta integração”.

O deputado federal Arnaldo Jardim, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), destacou que “o agro brasileiro produz alimentos e energia de forma simultânea e conciliatória” e defendeu o aumento dos percentuais de etanol anidro na gasolina e de biodiesel no die -

sel, posição endossada pelo presidente da Bioenergia Brasil e Siamig, Mário Campos Filho. Jardim lembrou ainda das oportunidades do etanol como rota para combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e marítimo (biobunker).

A 10ª edição reuniu mais de 180 usinas de cana-de-açúcar, responsáveis por cerca de 580 milhões de toneladas de cana processada, 11 usinas de etanol de milho, 75% da produção nacional de açúcar (cerca de 35 milhões de toneladas) e mais de 70% da produção de etanol de cana e 80% do etanol de milho.

ETANOL DE MILHO MUDA

PREÇO

DA SACA

A expansão do etanol de milho vem alterando as variáveis de formação de preço do cereal no mercado doméstico, destacou o economista sênior da DATAGRO, Bruno Wanderley de Freitas. “O preço do milho mudou de patamar – para cima – com o advento do etanol fabricado a partir do grão, passando a responder mais a fatores internos do que internacionais.”

Tomando como referência a cidade Sorriso (MT), o valor da saca está praticamente o dobro do de dez anos atrás. A diversidade de coprodutos – como DDG para alimentação animal e óleo de milho – é o que viabiliza essa mudança, permitindo que a saca nessa rota se aproxime de R$ 100. “O etanol de milho é uma verdadeira biorrefinaria”, afirmou o CEO da JBR Soluções Industriais, João Luís Bortolussi Rodrigues. O gerente comercial da Agrícola Alvorada, Cláudio Toledo, acrescentou que o etanol de cana e de milho são complementares. Wanderley de Freitas encerrou lembrando que o etanol de milho responde hoje por cerca de 25% da

oferta nacional, com aproximadamente 30 unidades em operação, e capacidade instalada de 12 bilhões de litros.

PAÍSES LATINOS DIVERSIFICAM PRODUÇÃO

Em painel moderado por Flávio Castellari, especialista em acesso a mercados internacionais, representantes da América Latina destacaram o crescimento e a diversificação dos negócios em torno da cana. O presidente da Unala, Alfredo Vila, apontou que o etanol avança no portfólio das usinas latino-americanas, ao lado de bioenergia (bagaço), biofertilizantes, bioplásticos, em-

balagens biodegradáveis e papel verde. O posicionamento foi replicado pelo gerente-geral da Asazgua (Guatemala), Luis Miguel Paiz; e pelo gerente-geral do engenho La Grecia (Honduras), Pablo Ernesto Guevara Alvarez. Todos classificaram o setor sucroenergético como segmento-chave para o desenvolvimento socioeconômico da região.

RATING DAS USINAS AVANÇA

O rating das usinas, antes restrito à avaliação interna, vem sendo cada vez mais usado em operações de crédito, comercialização, barter e fusões e aquisições. O diretor técnico Agrícola e auditor do Benri, Otávio

Tufi, explicou que o Rating Benri se baseia em KPIs de performance agrícola e industrial, personalizáveis por usina. O diretor Agrícola da Adecoagro, José Gomes, definiu o rating como ferramenta crucial para o acompanhamento diário e a integração das áreas. O painel foi moderado por Alberto Gomes, consultor e especialista agrícola sênior da DATAGRO, e contou com a participação de Mário Sérgio Salani Junior, gerente sênior de Mecanização da BP Bioenergy.

DIESEL E FERTILIZANTES

PESAM NO BOLSO

Os preços do diesel e dos fertilizantes

devem pesar mais nos custos das usinas na safra 2026/27, em função da guerra no Oriente Médio. O analista sênior da DATAGRO, Paulo Bruno Craveiro, apontou que o diesel doméstico está 32% abaixo do praticado no mercado internacional, o que é reflexo da política da Petrobras de não repassar reajustes imediatamente, e que os preços futuros da ureia já indicam alta de aproximadamente 30%.

Craveiro descartou, por ora, risco de desabastecimento. A sócia de consultoria estratégica da DATAGRO, Lívia Kosaka, lembrou que diesel e fertilizantes representam cerca de 15% dos custos agrícolas. A inte-

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grante do conselho da Usina Água Bonita, Tânia Pires Holzhausen, citou compras antecipadas e capacidade de estocagem como medidas de contingência. A superintendente da Usina Agrovale, Juliana Mikaela Alves, destacou a gestão eficiente do consumo de combustível e o uso racional de insumos.

MOAGEM DE CANA NO CENTRO-SUL

A DATAGRO projeta moagem de 635 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul na safra 2026/27, alta de 4% ante a temporada anterior. O mix para açúcar deve recuar para 48,5% (ante 50,7% em

2025/26). A produção do adoçante deve totalizar 40,70 milhões de toneladas, um nível praticamente estável. Quanto ao etanol, a estimativa é de 38,42 bilhões de litros (+13,4%), sendo 14,57 bilhões de anidro (+10,3%) e 23,85 bilhões de hidratado (+15,3%).

TRADERS DISCUTEM EXPANSÃO DA ÍNDIA

O painel sobre a visão dos traders – moderado por Thiago Callegari L. Duarte, do BTG Pactual – reuniu Don Gordon (Sugar Connections Inc.); Ivan Melo Filho (Raízen); e Ulysses Carvalho (Sucden). Gordon abor-

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dou os impactos das tarifas comerciais dos Estados Unidos sobre o açúcar, que levaram exportadores a absorver custos e a diversificar relações comerciais. Ivan ressaltou que as tarifas preocupam, mas também podem abrir novas oportunidades. Carvalho apontou o desafio de manter competitividade diante das barreiras. Sobre a Índia, Ivan destacou que o programa de etanol avança com mistura próxima de 25%, o que pode reduzir a disponibilidade de açúcar no mercado global. Carvalho acrescentou que o País enfrenta desafios de produtividade e clima. Já a Tailândia deve ter safra menor, o que pode oferecer suporte às cotações.

AVANÇOS DO E35

O diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Marlon Arraes, apresentou a estrutura de governança definida pelo CNPE e pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro (CTP-CF) para a avaliação do E35. O foco está em ensaios físico-químicos e mecânicos com teores entre 30 e 35%, com parte das análises conduzida pelo programa Política com Ciência, com apoio do CNPq. O relatório final poderá recomendar a aprovação direta da nova especificação ou indicar ajustes regulatórios. Arraes reforçou o compromisso do MME

com uma implementação técnica e baseada em evidências da Lei do Combustível do Futuro (14.993/24).

TRANSPORTE MARÍTIMO É NOVA FRONTEIRA

Moderado por Guilherme Nolasco, presidente da Unem, o painel reuniu Danilo Veras (A.P. Moller-Maersk); o comandante Flávio Haruo Mathuiy (Ministério da Marinha); Robert Klen (Wärtsilä); e Thiago Arruda (European Energy). Mathuiy destacou que a Organização Marítima Internacional (IMO) vem estabelecendo metas globais de redução de emissões no setor, abrindo es-

paço para os biocombustíveis. Veras afirmou que o Brasil tem potencial relevante na transição energética global. Arruda acrescentou que rotas de combustíveis sintéticos, como e-etanol e e-metanol, também estão em desenvolvimento.

IMPACTOS DO ACORDO UE-MERCOSUL

Luiz Gustavo Wiechoreki, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), detalhou o acordo que criará uma área de livre-comércio com cerca de 720 milhões de pessoas e PIB superior a US$ 22 trilhões. O tratado, que entra em vigor em maio, pre-

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vê cota de 180 mil toneladas de açúcar com tarifa zero para o Mercosul. Para o etanol, a cota negociada é de 650 mil toneladas/ ano (812,5 milhões de litros): 450 mil para uso industrial com tarifa zero e 200 mil para outros usos com tarifa reduzida. Também participaram Damian Lluna (Delegação da União Europeia no Brasil) e Patrick Chatenay (Prosunergy Limited).

ETANOL GANHA ESPAÇO NAS MÁQUINAS AGRÍCOLAS

O painel, moderado por Arlindo Approbato (DATAGRO), reuniu André Gustavo Alves da Silva (Cocal); Felipe Dias (John Deere); João Testa (CNH Industrial); e Murillo

Galli (E-Oxy Tecnologia). Testa informou que a CNH desenvolve desde 2024 protótipos de tratores e colheitadeiras movidos a etanol com desempenho similar ao do diesel. Dias destacou que a John Deere investe em eficiência a diesel e em tecnologias com combustíveis renováveis, incluindo soluções híbridas e elétrica s. Galli apresentou a conversão de motores diesel para etanol, com ganhos de eficiência e redução de custos. Silva destacou o uso do biometano, produzido a partir de resíduos da cana, já utilizado em caminhões pela Cocal.

DESAFIOS PARA O CONTROLE DE PRAGAS

Moderado por Vinícius Lopes (Koppert), o painel reuniu Álvaro Sanguino (ASAS Consultoria); Leila Dinardo (IAC); e Mariele Penteado (Usina Alta Mogiana). Dinardo ressaltou que não existe uma praga dominante na canavicultura – o impacto varia por região, ano agrícola e ferramentas disponíveis – e que o principal gargalo é a falta de amostragem de campo. Penteado relatou que o sucesso no controle depende de conhecimento técnico, treinamento e monitoramento constante. Sanguino alertou para o avanço de doenças sistêmicas associadas a mudas contaminadas e para a dificuldade de diagnóstico no campo.

WORKSHOPS E FEIRA DE NEGÓCIOS

Nesta edição, a DATAGRO estreou os workshops agroindustriais, com seis sessões temáticas: gestão de matéria-prima, manutenção industrial, incorporação de carbono no solo, controle de perdas, produção de açúcar com alta performance e parcerias DATAGRO Alta Performance. A expectativa é que o formato seja incorporado às próximas edições. O evento contou ainda com feira de negócios reunindo fabricantes de insumos e tecnologias, montadoras, operadoras de telecom e entidades institucionais ligadas ao setor sucroenergético e ao agronegócio.

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