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Dia do Estudante Suplemento Pisca de Gente Março 2013

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Pisca de Gente Suplemento Especial

Dia do Estudante

Escola Básica Integrada da Praia da Vitória  24 de Março de 2013


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SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

COMEMORAÇÃO DO DIA DO ESTUDANTE 24 DE MARÇO DE 2013

S

eleccionámos um conjunto de indi-

de formação, de encontros, de descobertas, de

vidualidades relevantes da socieda-

partilhas. Ali se fazem amigos e se aprendem coi-

de açoriana e solicitamos-lhes um

sas que estão muito para lá dos curricula, embora

testemunho sobre os seus tempos

estes contribuam para solidificar percepções, para

de escola. Entendemos que era uma boa maneira

assimilar conceitos, para estruturar linguagens. E

de comemorar o Dia do Estudante — que, no

é, também, um percurso. Distintos percursos tra-

nosso país, se comemora no dia 24 de Março, por

duzem-se, como é óbvio, em textos cuja tónica é a

acaso o mesmo dia do patrono da nossa escola,

pluralidade. Mas não podemos deixar de assina-

Francisco Ornelas da Câmara — e de providen-

lar que essa diversidade acaba por entroncar num

ciar aos nossos leitores um leque variado de rela-

ponto comum: o da relevância da escola para o

tos sobre a importância dessa instituição na vida

desenvolvimento da personalidade, da formação

de todos.

do carácter e de uma cultura de cidadania, inde-

A escolha dos nomes foi, como não podia deixar de acontecer, orientada. A mundividência

pendentemente das conjunturas políticas, económicas ou sociais.

dos alunos é ainda muito limitada e os interesses

Tendo em conta as várias idades dos nossos

e motivações são também assaz rudimentares.

ilustres convidados, os seus textos fazem referên-

Tentou-se ser o mais abrangente possível na

cia a distintos momentos da escola portuguesa.

selecção das individualidades, procurando que

Uns adoptando o acordo ortográfico, outros man-

representassem diferentes tendências e posturas

tendo-se fiéis à antiga ortografia. A questão não

políticas, económicos, sociais, estéticas e despor-

está, ainda, resolvida (nem a nível internacional,

tivas. E a maior parte dos nossos ilustres convi-

nem a nível nacional) e aqui ficam, pois, mais

dados correspondeu ao nosso pedido com agra-

algumas achegas para esse debate.

do, ora visitando os seus tempos de infância ou

A par do testemunho pessoal, solicitámos uma

adolescência, ora misturando memórias com con-

fotografia da época a que cada um se referiria nos

siderandos éticos ou políticos, que traduzem um

seus textos. Como seria expectável, as dificulda-

ponto de vista particular, revelador de uma mun-

des foram de monta e nem todos puderam corres-

dividência que, esperamos, possa inspirar e

ponderam a esse nosso devaneio.

orientar os alunos e demais membros da comunidade escolar.

Por último, referir que os nomes aparecem, tal como nas listas de escola, ordenados alfabetica-

Como seria de esperar, nem todas as pessoas

mente pelo primeiro nome. E deixar, a todos os

que contactámos puderam corresponder ao nosso

que tornaram possível este número especial do

pedido. Por exemplo, os desportistas contactados

nosso jornal, o nosso muito, muito obrigado.

que, mau grado a anuência manifestada, não chegaram a enviar-nos os seus testemunhos. A escola, mais do que um edifício, é um lugar

CARLOS BESSA


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SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

MEMÓRIAS DE ESTUDANTE DE

Álamo Oliveira Álvaro Monjardino Ana Luísa Luís Aníbal Pires António da Fonseca Marcos António Manuel Bettencourt Machado Pires Artur Lima Carlos César Dimas Simas Lopes Francisco Jorge Ferreira João Bosco Mota Amaral Jorge Paulus Bruno José Guilherme Reis Leite José Lourenço José Nuno da Câmara Pereira Luiz Fagundes Duarte Marcolino Candeias Paulo Raimundo Roberto Monteiro Sandro Paim Zuraida Soares


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SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

DISTINÇÃO COM PRÉMIO ÁLAMO OLIVEIRA

A

os cinco anos, a minha avó Flo-

distante do meio urbano da ilha, nos anos longín-

rinda era a narradora dos meus

quos de 1952 a 1956, o nosso quotidiano era enfor-

contos e foi a minha professora

mado por atos simples e minimalistas e qualquer

de uma espécie de ensino pré-

pequena alteração ganhava dimensões de drama

primário.

ou de festa. Estávamos no tempo que acabara de

Aos sete anos, descalço, alvaroses de cotim,

consagrar, como obrigatórios, quatro anos de

camisa de linho riscado e mala de serapilheira a

escolaridade; não havia agricultura mecanizada,

tiracolo, com um livro (o da 1ª classe), uma ardósia

nem eletricidade, nem água canalizada; não havia

e o lápis adequado, entrei na escola, que funciona-

tabela etária para se começar a trabalhar; o pároco

va numa velha casa desventrada dos seus frontais.

controlava a gravidade dos pecados, dos pensa-

Éramos seis dezenas de crianças, distribuídas pelas

mentos, das obras e das omissões; o governo

quatro classes. Ali começámos a aventura de jun-

governava conforme lhe apetecia; desconheciam-se

tar letras e algarismos, vendo como as palavras

palavras tão simples como liberdade, democracia,

nos formavam e informavam e como os números

eleições. Toda a gente tinha uma enorme vontade

nos deixavam entender grandezas somadas e mul-

de emigrar. A fome desse tempo era uma espécie

tiplicadas ou diminuídas e divididas até à zerifica-

de passos coelho emigrador. Para muitas crianças,

ção.

o horário escolar era o seu tempo de descanso.

À medida que íamos passando de classe,

Estava muito perto de fazer exame do 1º grau

aumentavam-se livros, tabuadas, ciências ditas

(3ª classe) quando a avó Florinda morreu. Senti-

naturais, história de Portugal, geo-

me com a escola perdida. Deixava

grafias com as suas ilhas adjacentes

de ter a minha mais atenta e amoro-

e as suas colónias. O nosso material

sa inspetora. Ela aliciava-me, ante-

didático era rudimentar e pouco:

cipando-se à professora, com sabe-

três mapas dependurados na parede,

res complementares na área da geo-

um quadro a giz, uma régua de meio

metria e da álgebra, da leitura

metro centimetrada, um dicionário

interpretativa e da escrita criativa.

da Língua portuguesa, carteiras de

Lemos vezes sem conta «O Toiro

madeira para cinco alunos cada, com

Azul» e «As Pupilas do Senhor Rei-

tinteiros de porcelana embutidos e... (penso que

tor» e desenhámos corações, chaminés de mãos

mais nada). Um crucifixo, um retrato do general

postas, flores para bordar. Eu tinha a sorte de ser

Carmona (presidente da República) e outro de

neto de uma raríssima mulher que, naquele tempo

Salazar (presidente do Conselho) ornamentavam

e neste lugar com um índice elevadíssimo de anal-

de sisudez a parede principal da nossa escola, rigo-

fabetismo, sabia ler, escrever, desenhar, bordar,

rosamente destinada ao sexo masculino.

costurar, cozinhar. Nem meu pai, nem nenhuma

Numa freguesia vestida de grande ruralidade,

das minhas tias se lhe aproximavam nos saberes.


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SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

Nem eu. Comecei a 4ª classe sem apoios suplementares. Sentia-me órfão de escola. O meu rendimento estremeceu durante todo o primeiro trimestre. Depois..., fui recuperando como se fizesse fisioterapia à massa encefálica. O chamado exame de 2º grau aproximou-se rapidamente. A 28 de julho de 1956, quinze dias após o encerramento oficial das escolas, fomos até à cidade de Angra fazer as provas correspondentes na Escola Infante D. Henrique, ao Alto das Covas. Fomos seis a exame. Com alunos de outras freguesias, enchemos uma das salas destinada à prova escrita. Após o almoço, seguiu-se a prova oral. Às cinco horas da tarde, o diretor da escola veio ler a classificação do exame por aluno. Era-se aprovado, aprovado com distinção, reprovado. Fui aprovado com distinção e com direito a prémio – uma novi-

catar para este e para aquele. Devo ao padre da

dade classificativa.

freguesia a minha ida para o Seminário. Durante

(Como lembrança desse dia, ficou a fotografia

sete anos andei por lá aprendendo. E pela vida fora

em anexo, tirada no Jardim de Angra, com uma

continuei a aprender. Mas sei tão pouco. Por culpa

máquina com explosão de magnésio. Sou o da

minha, claro. Quando olho para o meu passado,

esquerda, sentado, com sapatos emprestados.

sinto-me tocado por uma remorsada saudade. O

Alguns meses depois, foi-me entregue, em festa

tempo perdido nem se deixa avistar no fundo do

escolar, um caixote com vinte e seis livros de pré-

poço da vida. E rendo-me a esta verdade dorida: a

mio, o embrião natural de uma biblioteca que foi

Avó Florinda é que devia ter sido aprovada com

crescendo ao longo de cinquenta anos, e que vai

distinção e prémio.

perto da dezena de milhar). No entanto, essa novidade classificativa foi bater na nossa pobreza sem dó nem piedade. Nesse

dia à noite, meu pai disse, em reunião familiar, que, apesar da distinção premiada, não havia hipótese

Álamo Oliveira (Raminho, 1945) é poeta e

de continuar a estudar – o que era uma verdade

escritor de mais de trinta livros. Está tra-

muito nua e muito crua.

duzido para inglês, francês, espanhol, croa-

Até foi bem feito. A minha vaidade de melhor aluno queimou-se que nem frango no forno. Deixei de sorrir por dentro. Durante um ano, andei a bis-

ta e japonês. Foi um dos fundadores do grupo de teatro Alpendre.


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SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

O NOSSO NATAL DE GUERRA ÁLVARO MONJARDINO

N

o dia 6 de Outubro de 1943,

funcionava na casa da esquina da Praça Velha com

em que completei 13 anos,

a rua da Sé, onde agora é a agência da Caixa Geral

ouvi falar pela primeira vez de

de Depósitos. Nos primeiros tempos, os ingleses –

um iminente desembarque de

que vinham, se não propriamente com fome,

forças inglesas na ilha Terceira. No dia 8, muito

decerto privados de muita coisa em termos ali-

cedo, vimos de São Carlos passarem de vários

mentares – invadiam os restaurantes, alguns cria-

navios, em comboio vindo do lado oeste, e fui ver a

dos ad hoc, onde comiam desabaladamente, sobre-

chegada deles do alto da

tudo bifes com ovos e batatas,

Rocha

regados

de

Cantagalo.

A

com

champanhe

manhã estava muito bonita,

(português). Dois dias antes do

os navios eram vários e um

Natal, o major inglês que era o

deles encostou de proa ao

oficial de ligação com o meu avô,

topo do Porto de Pipas,

procurou-o para lhe dizer: «Meu

abrindo-a em prancha por

coronel, venho desejar-lhe merry

onde começaram a sair veí-

Christmas porque a partir de ama-

culos, de que os primeiros

nhã não estarei em estado de o

traziam escrito vivas a Por-

fazer». Depois disso foi com

tugal e ao «dr. Salazar». Bar-

outros

caças de desembarque chega-

recém-aberto (o «Chave de Ouro»,

vam entretanto ao varadou-

defronte da Sé) bebidas q.b. e

ro, abrindo as proas e dei-

camas de campanha para todos ali

encomendar

num

café

xando sair os soldados que traziam. As fardas

cozerem a bebedeira natalícia, que durou até ao dia

deles eram cor de mostarda. Tudo aquilo, homens

26. Para esse Natal, à porta do Orfanato – no lar-

e veículos, se movimentava logo a caminho da

go dos Remédios, onde hoje está a Secretaria

Vinha Brava e das Lajes. Passavam por Detrás das

Regional da Saúde – elementos do contingente

Hortas (ainda não havia a praça Almeida Garrett)

inglês abatiam perus em série, em cima de um

desciam a rua da Conceição, subiam o último troço

camião aberto, com o pescoço rápida e eficazmente

da rua do Galo, que nessa parte ainda não tinha

esmagado sob uma tranca de madeira. Foi pelo fim

calçada, com polícias militares a servirem de sina-

deste ano, com os ingleses já instalados e utilizan-

leiros para todos estes ziguezagues. Quem sabia

do a pista das Lajes, ampliada para 1800 metros e

inglês, ou «americano», falava com eles. Para se

coberta com chapas de aço furadas, que chegou

evitarem desequilíbrios do mercado local formou-

aqui, à paisana um «grupo de reconhecimento»

se a chamada Comissão dos Abastecimentos que,

norte-americano para estudar a ampliação daquele

presidida pelo meu avô, então coronel na reserva,

aeródromo fazendo dele um aeroporto a sério.


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SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

Eu tinha entrado para o 3º ano do liceu (hoje o

anos e era o mais afoito dos três, tentou ainda

7º ano do Secundário). Nesse mesmo Natal, por

pegá-lo à unha, mas sem êxito, apesar das ajudas.

sugestão do padre Henrique Ávila, que era o nosso

Como, entretanto, a noite avançava, pedimos

professor de Moral, fora decidido matar-se um

então ao dono de um pátio perto de S. Rafael que

bezerro (dado pelo senhor José da Câmara) e dis-

o deixasse ali ficar até ao outro dia. Só que duran-

tribuir-lhe a carne em esmolas a pobres. O ir bus-

te a noite o bezerro fugiu, e na manhã do dia

car este bezerro ao mato da Lagoínha para o mata-

seguinte, foi preciso ir de novo buscá-lo à Lagoí-

douro onde seria abatido, foi uma pequena epopeia

nha. Desta vez evitou-se a Vinha Brava, e mete-

que vivemos eu, o António Bruges e o Paulo Jorge

mos pela canada que nos levou a S. João de Deus.

Rodrigues, entre os dias 22 e 23 de Dezembro. O

Quando, no matadouro, o vimos cair morto, com

bezerro, que era malhado de preto e branco e já

uma martelada na testa dada por um inglês enor-

grandote, chegado que foi à Vinha Brava após o

me, de braços nus e avental, abraçámo-nos uns

termos feito descer a Ladeira da Pateira, espantou-

aos outros em congratulação; e estávamos nisto

se com o movimento constante e os faróis de veí-

quando apareceu o padre Henrique, que andava à

culos pesados ingleses, porque a noite caíra já. E

nossa procura, alertado pelas famílias; e lembro-

assim, fugindo e voltando a fugir, entrou às tantas

me de que ele trazia na cabeça o chapéu de palha

num grande espaço do armazenamento de combus-

que usava para tratar das abelhas, porque estava

tíveis para avião, que se alargava por um terreno

uma bela manhã de sol. E, assim, na véspera des-

onde está hoje a Estação Agrária, com bidões de

se Natal, foram distribuídas as esmolas, na sala

gasolina empilhados até considerável altura – e,

de Canto Coral, onde é hoje o auditório do

como era já crescido, corria e bufava, pondo em

Museu. Para nós tinha sido um acontecimento

fuga os guardas ingleses… Atrás do bezerro, já

inesquecível – o nosso Natal de guerra…

então perdido pelas vielas que havia entre aquelas pilhas de bidões, tentámos entrar, mas aí os guar-

das já não deixavam… Nenhum de nós falava inglês. Tentei o meu francês: «Veau!», sem efeito;

Álvaro Monjardino (Angra do Heroísmo,

então o António, mais prático, disse: «Mister, mis-

1930), advogado, foi deputado independente

ter, muu, muu, muu!» e com as mãos e a cabeça

à Assembleia Nacional do Estado Novo, elei-

fazia como se fosse arremeter. Aí, os guardas perceberam a ligação que tínhamos ao animal que os assustara – e deixaram-nos entrar. Nunca mais esqueci as voltas que demos naquele labirinto, que cheirava tremendamente a gasolina. O bezerro,

to nas listas da ANP, por Angra do Heroísmo (1973-1974) e integrou a Junta Regional dos Açores. Deputado e primeiro presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Aço-

também tonto no meio daquilo tudo, acabou final-

res (1976-1984), ocupou o cargo de Ministro

mente por sair, creio que por um lado diferente

Adjunto do Primeiro-Ministro no IV Gover-

daquele por onde entrara. Já estávamos exaustos

no Constitucional, de 1978 a 1979. Foi ainda

de correr atrás dele, o Paulo Jorge, que tinha 12

diretor do jornal terceirense A União.


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SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

VIVER ERA TÃO FÁCIL COMO SONHAR! ANA LUÍSA LUÍS

F

orever Young era o lema do nosso

envolviam alunos, pais e professores. Tudo tinha

grupo. Tão perfeito que parecia

de ser pensado ao pormenor para corresponder às

impossível algum dia tornar-se

expetativas de diversão que os colegas deposita-

menos

vam em nós e do cumprimento das regras estabe-

verdadeiro

nas

nossas

vidas…

lecidas pela Escola. Queríamos a perfeição, desde o

Foi com esta convicção que senti o 11º ano

planeamento do baile até à limpeza final do espaço.

como o ano determinante do meu percurso de

E alcançávamos todas as nossas metas, porque

estudante. Antecedia a etapa

viver, mesmo com uma ou

considerada a mais importan-

outra desilusão, era tão fácil

te da minha vida no ensino –

como sonhar. O meu sonho de

o acesso ao ensino superior –

estudante era a minha licen-

e encerrava o ciclo da alegria

ciatura. Quando o atingi, já

quase irresponsável do estudo

tinha percebido que só o tra-

sem outra ambição que não

balho concretiza os sonhos!

fosse a de viver intensamente,

Hoje, ao olhar para trás,

abrigada na segurança da

vejo o tempo do Colégio de

família e aconchegada na ami-

Santo António, da Escola Pre-

zade eterna do meu grupo.

paratória e da Secundária – e

Era também um período

sobretudo a excitação parti-

basilar do meu crescimento

lhada da camaradagem e dos

juvenil e a antecâmara da

ideais! – como um sopro mági-

minha responsabilização como

co que fez de mim (também!) a

ser individual. Os 17 anos,

pessoa que sou hoje. A vida

que precedem a maioridade… os ideais de trans-

tem agora um sentido mais vasto e mais conscien-

formar o mundo num só voo rasante, eliminando

te dos direitos e deveres que nos cabem a todos,

todas as injustiças e erguendo acima de toda a

mas a jovem que habita em mim todos os dias me

humanidade os valores imperecíveis da harmonia,

segreda o lema forever young…

da fraternidade, da paz. A caminhada afigurava-se plena de sucesso e a meta era o bem-estar do mundo, ancorado na

igualdade e na inesgotável confiança no futuro – que só podia ser bom! E os bailes de finalistas? Ah, os bailes foram a primeira tarefa em que o prazer da música e a força do companheirismo se misturaram com a aprendizagem da partilha da responsabilidade de organizar, pela primeira vez, um evento em que se

Ana Luísa Luís (Horta, 1976), economista, é Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores desde novembro de 2012, onde fora já deputada (2008-2009).


9| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

CHUVAS DE AGOSTO ANÍBAL PIRES “A melhor maneira de ser livre é ser culto!” José Martí

F vos

mas,

suficiente para perceber o quanto a valorizo, isto para não ter de vos recordar o tempo que dediquei à Escola enquanto professor que sou, porém

oi-me solicitado que descrevesse

não me pareceu uma boa opção vir fazer a apolo-

um episódio, uma estória da

gia do bom aluno e da importância da frequência,

minha vida estudantil, lamento

certificação e aprendizagem escolares, para isso

desapontarna

verdade,

depois de algum esforço

estão aí os vossos pais, encarregados de educação e professores.

feito, entre os afazeres que

Fiquem então com o

me preenchem o tempo, só

texto a que dei o título

me vieram à lembrança

“Chuvas

acontecimentos que não se

Nada criativo, estava por

constituem,

lá em férias e de visita às

exemplos

diria, para

bons

partilhar

de

memórias

da

Agosto”.

minha

convosco nas celebrações

infância e juventude e,

do “Dia do Estudante”. Jul-

nesse Agosto de 2004

go que o objetivo desta ini-

choveu no interior conti-

ciativa da vossa escola é a recolha de depoimen-

nental, limitei-me a dizê-lo.

tos que valorizem o saber, o conhecimento e a cultura escolástica, se calhar ajuízo mal mas, na

CHUVAS DE AGOSTO

dúvida e para não me meter em trabalhos dando a

«As temperaturas desceram e uma incomum

conhecer alguns aspetos das aprendizagens mar-

chuva de Agosto abateu-se sobre algumas

ginais feitas sob a égide do “currículo escondido”,

regiões continentais – veio mesmo a “calhar”

e, como vale mais prevenir do que remediar, optei

para a azeitona. As oliveiras estão “carregadas” e

por vos transcrever um texto que escrevi em

esta rega vai engrossá-las. Vai ser um bom ano

Agosto de 2004. Fala da escola, da minha primei-

de azeite – diz-me um agricultor, ao acabar de

ra escola. Frequentei-a apenas alguns meses, aliás

plantar alguns pés de couve portuguesa que hoje,

no meu primeiro ano de escolaridade frequentei 3

pela manhã, comprou no mercado agrícola da

escolas em outros tantos locais.

cidade (Castelo Branco, Beira Baixa).

Esta minha opção não é sinónima de desvalo-

As inusitadas condições meteorológicas que,

rização da Escola, o meu currículo académico é

nos últimos dias, afetaram algumas regiões do


PISCADEGENTE| 10

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

continente português afastaram o perigo de

truição dos sectores produtivos e, ao consequen-

novos incêndios florestais e deixam os agriculto-

te empobrecimento desta como de outras regiões

res satisfeitos na expectativa de um bom ano

do interior do continente português.

agrícola. Eu, embora de férias, fiquei contente,

Embora sem os contornos de outros tempos,

não só pela floresta poupada e pelas esperanças

os jovens adultos continuam a procurar, na

dos agricultores, mas também por mim, habitua-

Europa e no litoral, as oportunidades que lhes

do que estou aos índices de humidade mais eleva-

satisfaçam expectativas e necessidades, que por

dos e às temperaturas mais amenas dos Açores.

aqui não encontram, por muito que procurem e

Confesso-vos que já me é difícil aguentar com as

queiram. A desertificação e o envelhecimento da

altas temperaturas e

população aumentam e

com o ar seco do verão

o espaço rural vai-se

na interioridade conti-

transformando

nental onde nasci e

enorme “lar de tercei-

cresci.

ra idade”.

Interioridade que,

A

chuva

num

deste

apesar das novas e

Agosto veio amenizar

rápidas vias de comu-

o tempo e dar-me

nicação viária e das

coragem para sair da

novas tecnologias de

sombra das “latadas” e

informação à velocidade da banda larga, conti-

pôr-me ao caminho de Escola de Barbaído, Concelho de Castelo Branco

um desses lugares do

nua a marcar os lugares e as pessoas. Hoje chega-

interior que, pela sua diminuta população, difi-

se à capital (Lisboa) em 2 horas ou, um pouco

culdades na acessibilidade, importância económi-

mais se em vez do automóvel se utilizar o com-

ca, afastamento da sede do concelho e do distrito

boio ou o autocarro, bem diferente das 5, 6 ou 7

ou, outros motivos menos objetivos, são como

horas de há 30 anos. A “net” está por aí disponí-

pequenas “ilhas” perdidas na vastidão destes

vel para quem quer, ou melhor, para quem pode.

campos onde ainda impera o pinheiro bravo, o

Os grandes espaços comerciais proliferam como

sobreiro, o olival e a vinha.

cogumelos.

Há cerca de 42 anos que não vinha a este

É inegável, o interior ficou mais perto, as con-

lugar do qual, na altura, se dizia ser o “centro do

dições de vida melhoraram e o acesso aos bens de

mundo” (Barbaído, Concelho de Castelo Branco).

consumo, seja para satisfação das necessidades

Nunca soube porquê, e ainda não procurei saber,

básicas ou outras, está mais facilitado mas é,

ficará para mais tarde se tempo houver. A razão

igualmente, inegável que a par de todo o progres-

que me levou a percorrer o sinuoso caminho,

so registado se foi assistindo ao declínio e des-

hoje de asfalto, até esse perdido lugar onde o


11| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

único meio de transporte para lá chegar, à época,

gua construção aparentava estar em ruínas mas,

era o burro ou, para quem o não tivesse, as pró-

numa observação mais minuciosa verifiquei que

prias pernas, foi o facto de aí ter iniciado o ensino

os sinais, afinal, eram de reconstrução. Alguns

primário.

instantes depois três jovens, que vieram indagar

À data vivia numa secular aldeia, já sem a

o que fazia por ali um forasteiro de máquina

importância de outros tempos mas, ainda assim,

fotográfica em punho, confirmaram isso mesmo.

uma

das

mais

A escola foi desa-

do

tivada, como tan-

emblemáticas

concelho de Castelo

tas

Branco, o episódio

uma dezena de

que

anos. O seu esta-

me

levou

a

outras,

abandonar o acon-

do

degradou-se

chego materno e a

mas, agora, está a

deslocar-me

para

ser reconstruída

esse pequeno lugar,

para outras ser-

do qual se dizia ser o

ventias.

“centro do mundo”,

A melancolia

para frequentar a

misturou-se com

primeira classe do ensino primário numa pequena

esperança e alegria. A “minha” primeira escola

escola da qual era professora a minha tia Celeste,

vai voltar a encher-se de vida e a servir aquela

ficou a dever-se à impossibilidade de me poder

pequena comunidade.»

matricular, ao que julgo por não haver vaga e pela idade, na escola primária de S. Vicente da

Beira, onde vivia com os meus pais e irmã. Não cheguei a terminar o ano na escola da minha tia, resolvidas que foram as questões que impediam a minha entrada legal no ensino regressei ao seio da família e a S. Vicente da Beira. Chegado ao meu destino para além dos postes de eletricidade, inexistentes quando por ali percorri os caminhos da minha infância, nada parecia

Aníbal Pires (Castelo Branco, 1956) vive nos Açores desde 1983. Professor do ensino básico e líder do PCP / Açores é, des-

ter mudado, o pequeno edifício onde aprendera as

de 2008, deputado desse partido na

primeiras letras lá estava. Ao aproximar-me a

Assembleia Legislativa Regional. Mantém

nostalgia misturou-se com alguma tristeza, a exí-

um blog: www.anibalpires.blogspot.com.


PISCADEGENTE| 12

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

A MINHA VIDA COMO ESTUDANTE... ANTÓNIO MARCOS a década de cinquenta do século passado raros eram os alunos que frequentavam o então ensino liceal. Nasci na ilha do Pico, no seio de uma família

N

Foi essa a minha alternativa deslocando-me para a cidade da Horta onde lá estive sete anos. Os meus pais alugaram um quarto pelo preço recebido do abono de família e três vezes por semana mandavam-me a comida.

relativamente pobre. Éramos cinco irmãos e, eu, o mais novo. Nenhum deles tinha outra habilitação que não fosse o exame do 2º grau (4ªclasse).

Na realidade foi um percurso difícil em que os livros de estudo eram cedidos pelo liceu e havia que estudar para ter isenção de propinas pelas

Fruto de um professor que lecionou na Escola que eu frequentava e com quem fiz a 4ª classe, tive

razões atrás expostas. Não foi fácil mas consegui atingir os objetivos que os meus pais tanto

a felicidade de ele insistir junto dos meus pais, nomeadamente da minha mãe, para que eu prosseguisse estudos. O meu pai era contínuo de uma câmara e a

desejavam e com a complacência e a amizade do meu professor a quem devo o que sou. Durante o meu percurso escolar tive momentos altos e outros menos mas

minha mãe doméstica. As dificuldades financeiras eram imensas e, daí, a quase impossibilidade de aceitar o desafio. Acontece que, sendo o meu pai funcionário público, eu tinha direito ao abono de família no valor de cem escudos, até aos

recordo com saudade quer professores quer colegas, infelizmente muitos deles já falecidos. Houve episódios que me marcaram mas a vida de estudante dessa época era muito diferente da atual nomeadamente no que se reporta a respeito

12 anos de idade. Fiz a 4ª classe e depois continuei por mais um

pelos professores, funcionários e colegas. Inclusivamente e, durante um dos anos escola-

ano na expetativa da resolução dos meus pais me ser favorável. Isso veio a acontecer no ano letivo de 1955/56 após ter sido sujeito a exame de admissão ao Liceu da Horta.

res, almocei em casa de uma professora de FísicoQuímica que gentilmente percebeu as dificuldades que eu passava e se disponibilizou para me apoiar. Foi uma atitude que nunca mais esquecerei.

Nos Açores, apenas existiam liceus nas três capitais de Distrito e, como tal, qualquer aluno que pretendesse estudar tinha de se deslocar para aquelas ilhas.

 António da Fonseca Marcos (Madalena do Pico, 1943) é professor e Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo.


13| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

A VIDA É UMA VIAGEM ANTÓNIO MANUEL BETTENCOURT MACHADO PIRES

A

vida é uma viagem, o estudo

Fui, vim, voltei a ir e vir, viajei no espaço e no

uma forma de a apreciar e valo-

tempo. Conheci pessoas, dei aulas, escrevi livros,

rizar. Viajar é conhecer, estudar

tive missões e cargos a desempenhar.

é conhecer. A viagem é uma

Tudo passa velozmente. Entra-se e sai-se.

navegação no espaço, o estudo

Espera-se e logo passa. Olha-

uma navegação no conhecimen-

mos para trás e o que era ansio-

to. Viajar pode ser uma paixão.

samente esperado num instante

Studium, em Latim, é aplicação,

já é passado. O Tempo brinca

paixão. Um estudante fica-o

ou “joga” connosco. Dá e tira e

sendo para toda a vida, manten-

nós temos de agarrar o que é

do acesa a chama da vontade de

bom…

aprendizagem e de renovação.

escolhido? Mal escolhido? Nem

Nunca ninguém tem a última

sempre saberemos. Mas o que

palavra sobre nada. Cada gera-

sabemos é que vale a pena ten-

ção busca a sua resposta, tem as

tar – como o estudante que ten-

suas ilusões e as suas desilu-

ta um exame. Nem sempre sabe

sões, os seus ganhos e as suas

o porquê da obrigação daquela

perdas. Ilusão é entrar num

matéria, mas sabe que avança

Difícil? Bem

na vida.

jogo, o jogo da vida! Mais uma vez o Latim nos ajuda: ludus,

Fácil?

Imagem de Octávio Sérgio, in http://guitarradecoimbra.blogspot.pt

Sim, porque um estudante é

jogo, brincadeira…Mas não somos nós que brin-

alguém mas bem apetrechado para a grande via-

camos com a vida, a vida é que brinca connos-

gem da Vida…

co… “We do not take a trip, a trip takes us”, disse John Steinbeck de viagens reais o que também

é aplicável à grande viagem da vida. Para mim foi um “dia” feliz a expectativa de –

António Manuel Bettencourt Machado

finalmente! – sair da Ilha para “ir estudar lá

Pires (Angra do Heroísmo, 1942). Profes-

fora”. “Lá fora” era, no caso, Lisboa, o entrar para a Universidade. Lisboa era, assim, uma espécie de “terra da

sor Catedrático aposentado da Universidade dos Açores (onde foi Reitor, de 1982

Promissão”, algo de messiânico, de vida nova.

a 1995). E um dos fundadores do Seminá-

Era a grande viagem que começava…

rio Internacional de Estudos Nemesianos.


PISCADEGENTE| 14

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

CICLO 1974 ARTUR LIMA

I

niciei a minha vida de estudante

os professores, num espirito de entreajuda e de

com 7 anos na Escola primária da

um humanismo notável que me marcou certa-

Ribeira Seca

mente para o futuro. Um

de

episódio

que

ficava

jamais esquecerei foi a

mais perto da minha

nossa viagem de finalistas

casa.

(9.º ano), a Lisboa, com os

baixo,

porque

Em outubro de 1974,

professores Carlos Soares

meses depois da revolu-

e João Feliciano. Foi a pri-

ção de Abril, então com

meira vez que viajei para

11 anos fui frequentar o

fora dos Açores. A viagem

5º ano para o Ciclo da

teve muitas peripécias e

Praia, hoje EBI Francis-

momentos

co Ornelas da Câmara,

como o de um colega que

escola onde fiquei até

ficou

completar o 9º ano de

com o metro a tal ponto

tão

inesquecíveis

deslumbrado

escolaridade. A seguir tive que mudar para o

que nos abandonou para ir lá andar durante uma

Liceu de Angra pois a escolaridade na Praia aca-

tarde. Era novidade para ilhéu…

bava no 9º ano. Fiz a licenciatura em medicina dentária na Universidade do Porto. Curiosamente, ainda hoje guardo gratas e

felizes recordações do Ciclo da Praia, atualmente a vossa moderna escola. Naquela época era mais modesta, pois tínhamos aulas em módulos pré-

Artur Lima (Praia da Vitória, 1963) é

fabricados, perto das Figueiras do Paim. A

médico dentista, presidente do CDS-PP/

modéstia das instalações era compensada pelo

Açores e deputado na Assembleia Legisla-

bom ambiente vivido entre alunos e entre estes e

tiva dos Açores, desde 2003 .


15| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

VIVA A ESCOLA CARLOS CÉSAR

Q

uando,

pela

primeira

vez

O que mais me chocou no despertar da minha

depois do 25 de Abril, ainda

adolescência não foi o momento em que desafiei

nos anos setenta, foi formal-

um professor com um autocolante da Oposição

mente evocado nas comunida-

Democrática, ainda no tempo da Ditadura, e aca-

des académicas o Dia do Estudante, a 24 de Mar-

bei expulso sem mais apelação. O alarme soou

ço, em homenagem às lutas estudantis portugue-

anos antes.

sas de 1962, a luta era pela democratização do

Foi quando acabei a 4ª classe – agora, quarto

ensino, que é como quem diz pela

ano de escolaridade – e senti ver-

liberdade e pelo direito de ques-

gonha do Silva, do Furtado, do

tionar e de participar na aprendi-

Rodrigues, do Miranda. Eles

zagem e no conhecimento.

tinham sido os meus companhei-

Na verdade, a Escola é um

ros de viagem da Arquinha, da

espaço de Liberdade e um retrato

Rua do Amorim e do Passal, em

da sociedade em que se insere.

Ponta Delgada, a caminho da

Esta asseveração parece uma

Escola Primária, agora chamado

redundância com que alguns

primeiro ciclo do Ensino Básico.

analistas e pedagogos enchem,

Eles, como então a maioria dos

quando lhes faltam as ideias, os

outros, com dez e doze anos de

seus discursos, dissertações e

idade, passaram a “brincar na

escritos. Mas só parece, porque,

rua”, a “fazer recados” ou a

em rigor, a nossa Escola nem

“trabalhar para ajudar a família”.

sempre foi um lugar, por defini-

Não seguiram comigo pelas ruas

ção e por composição, de diversi-

por onde passei a andar a cami-

dade natural. Faltou-lhe tantas vezes Liberdade

nho do Liceu – agora Escola Secundária Antero

e foram tantas as vezes que milhares de crianças

de Quental. Não foram no primeiro, no segundo e

e de jovens foram excluídas do seu retrato.

no terceiro dia à minha nova Escola, e evitaram,

Despertei muito cedo para a participação cívica e para a luta pela democracia, motivado por

quando me viram de bata branca nova, olhar-me. E eu também os evitei nos dias posteriores.

familiares e amigos, mas foi justamente por causa

No alvoroço familiar dos meus primeiros dias

da Escola que a minha muito jovem e principian-

de Liceu, as perguntas da minha avó e dos meus

te consciência se sobressaltou. Foi na Escola e

pais eram quase sempre as mesmas: Carlos, gos-

por causa dela que compreendi que as diferenças

taste das aulas? Como se chamam os teus profes-

não são apenas um indício de liberdade, mas

sores? Ou então, eram os conselhos: Cuidado, não

podem ser um testemunho de injustiças.

sujes a bata! Cuida dos cadernos. Não fales nas


PISCADEGENTE| 16

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

aulas! Não te ponhas a rir nas aulas! Não se diz

ensino superior foram colocados menos de uma

só “sim”, mas sim “Sim, senhor doutor!”.

centena de outros estudantes açorianos; em 2011/2012, felizmente, já entraram 797. Nessa altura, em 1976, havia 80 alunos no ensino profissional nos Açores; no ano passado eram perto de 2700. Os índices de escolarização progrediram excepcionalmente. Como se ouve dizer, temos a “geração mais preparada de sempre” apesar dos que ainda ficam pelo caminho… É esse sentido de progresso que não podemos perder. A Escola deve ser protegida, defendida e estimada. É como um retrato que só serve se conservar a nitidez e a cor e que só é verdadeiro se nele continuarem a aparecer todos. A Escola é a primeira instância da Democracia e a casa comum dos que se fazem cidadãos. Assim deve continuar a ser. Falem disso, quando puderem, a todas as troikas nos dias 24 de Março.

Mas as minhas respostas eram quase sempre a mesma pergunta: Mas por que é que o Silva, o Furtado, o Rodrigues, o Miranda, não vão ao Liceu? A minha mãe ainda disfarçava dizendo

que eles iriam mais tarde, mas a minha avó, mais desprevenida, lá me disse: Eles não vão porque são pobrezinhos… “Mas são tantos”, respondi eu. Pois, eram muitos. Assim era, e assim não pode nem deve voltar a ser.

Carlos César (Ponta Delgada, 1956), foi presidente do Governo Regional dos Açores de 1996 a 2012, depois de ter sido

Talvez por isso, quando fui para Lisboa, para

adjunto do Secretário de Estado da Admi-

a Universidade que não havia nos Açores, logo a

nistração Pública do II Governo Constitu-

seguir à Revolução do 25 de Abril de 1974, anti-

cional (1978), líder do PS de 1983 a 1985

patizei ativamente com a exibição de capas e batinas negras com que os estudantes frequente e ostensivamente se diferenciavam e se diferenciam dos outros. É que, quando entrei para o

e de 1994 a 2013 e deputado na Assembleia da República e na Assembleia Legislativa Regional dos Açores.


17| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

A ESCOLA A MEIO DO SÉCULO XX

DIMAS SIMAS LOPES

N

os anos 50 do século pas-

além-mar, a tabuada de frente para trás e de trás

sado, para a escola primá-

para a frente, sem pestanejar e na ponta da lín-

ria, levava-se ao ombro

gua, a tabuada de cor, do latim cor, do coração,

um saco de lona com um

do centro do afecto, com estímulos e carícias na

quadro e um lápis de ardósia, um livro e o almo-

memória, como se contava histórias desde o prin-

ço e a gente ia aos saltinhos ou a correr, com ou

cipio do mundo, muitos ditados, atenção às letras

sem remendos nas traseiras

das palavras, atenção aos

e dianteiras das calças,

erros, olha os olhos da

(hoje, as mais caras têm

régua a olhar para ti, as

remendos), uns com botas

contas de somar, subtrair,

e muitos outros descalços,

multiplicar, dividir, núme-

conforme as posses o pilim

ros

dos pais, na sala de aulas,

sobre assuntos marcantes, o

no centro da parede por

Natal, o Bodo do Espírito

cima do quadro negro, o

Santo, o Mar, trabalhos de

retrato de Salazar e as

casa, contas de diminuir,

palavras «Se soubesses o

contas de dividir, contas de

que custa mandar obede-

partir. Na cobiça do recreio,

cias toda a vida», na mesa

no intervalo das aulas, era

do senhor professor o pon-

dar corda e vida às cordas

teiro e um ou duas réguas

vocais, lançar o pião para

quebrados,

redações

de respeito, de boa madeira rija, as carteira com

rachar o do parceiro, saltar ao eixo, amocham os

tinteiros de tinta azul no centro, respeitinho,

mais pequenos para os maiores saltarem por cima

nem um chio ou um espirro abafado, a régua está

do lombo, o jogo do arco de ferro, os tiros de cas-

com olhos em ti, a e i o u, a b c, de enfiada o alfa-

ca de laranja das atiradeiras e das fisgas, acordam

beto, os algarismos, de 1 a 100, até ao infinito,

os pacatos. Receber as caixinhas dos americanos

cópias para trabalho de casa e na aula, os rios e

uma vez por ano, um dia de festa rija, as caixas do

seus afluentes e as províncias de aquém-mar e de

People to People, muitos cheirosas, cheias de


PISCADEGENTE| 18

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

lápis de cor, berlindes, ioós, piorretas, gamas,

calos, muitos, a maioria, passavam para a enxada,

bolachas com canela, ofertas para terceiro mun-

para o alvião, para as linhas de pesca, para os

do, do programa People to People, maravilhas

enxós e as plainas e para outras vidas, a criar

para os olhos desse mundo, as varandas da escola

calos nas mãos, essa vida hoje tem um nome, o

serviam para olhar o mundo, o vasto mundo dos

nome de trabalho infantil.

crescidos, dos adultos, as coisas da vida, não se

Nem em sonhos, nesse tempo, havia as técni-

pode esquecer a briga do Gracioso contra o

cas de hoje, da comunicação e do acesso ao mun-

Caneca, ao vivo, o nosso Far West, ali à nossa

do, cada época tem o seu sistema de compensa-

frente, a gente a torcer pelo nosso herói, sem

ções, valiam o cinema, a banda desenhada, a

perder uma migalha da acção, o nosso John

rádio, os livros, os jogos e as relações de juventu-

Wayne e o nosso Chefe Índio, como nos filmes

de, a biblioteca itinerante da Fundação Gulben-

de cowboys de John Ford, dois matulões de 15

kian, leitura suculenta, com mais letras e mais

anos, a trabalhar nas vinhas e na lavoura, antigas

palavras e menos imagens e espetáculo. Cada

rivalidades, das palavras à acção, zumba que

tempo o seu tempo, uma questão de velocidade.

zumba, o Gracioso de bordão e o Caneca com as

Com mais vagar e outras palavras, no livro publi-

correntes de ferro da carroça, vira que vira, a

cado em 2012, Sonata Para Um Viajante, todas

gente pendurada na varanda a ver a luta, sem

estas coisas vêm à baila.

perder uma nica, bordão para lá e corrente para cá, de fazer faísca, valente luta de valentes, acabada em boa hora por gente grada. O exame da 4ª classe dava dores de barriga,

as provas feitas na sede do concelho, na Praia da Vitória, a carranca dos senhores professores, só passa quem souber, alunos bem ensinados pelo

Dimas Simas Lopes (Biscoitos, 1946)

senhor professor Macedo, resultado, todos apro-

artista plástico, escritor e produtor de

vados. A prova da 4ª classe era um marco na vida

vinho verdelho, foi médico cardiologista e

das crianças, poucos continuavam com os livros

fundador, em 2004, da Carmina Galeria de

na escola técnica ou no liceu, e com as mãos sem

Arte Contemporânea.


19| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

RECORDANDO A MINHA ESCOLA... FRANCISCO JORGE DA SILVA FERREIRA

E

ntrei para a velhinha escola Dr.

teu sobre mim. Nunca tinha visto sequer aquelas

Sousa Júnior em 1952, tinha ape-

letras à minha frente e não sabia como tinham ido

nas seis anos e levava a minha

ali parar. Apanhei logo com a régua mas contive

grande mala de madeira feita na

as lagrimas que queriam sair seguidas. Continua-

base com a ardosa, o giz e a car-

va sem acreditar nesta situação,

tilha. Levava uma roupinha

mas de que valeria a minha pala-

melhor e um aperto na barriga

vra. O que é certo, foi que quando

por começar esta nova caminha-

viu a minha cara, depois de levar

da. Eram tempos difíceis mas

com a régua e me sentir comple-

era um orgulho enorme estar na

tamente ofendido, o professor

escola. Aqui deixo um pequeno

percebeu que alguma coisa não

testemunho de um episódio que

batia certo e insistiu no mesmo

jamais esqueci e que marcou

assunto até que o meu colega

profundamente os meus primei-

confessou ter colocado as letras

ros dias de aulas.

no meu casaco. Respirei de alívio, salva estava a minha inocência

O meu primeiro professor

apesar do castigo já apanhado.

foi o senhor Lucindo Ormonde, amigo dos seus alunos e sempre

É com alegria que transmito

disponível para ajudar nas difi-

este pequeno episódio e é com

culdades. Homem trabalhador e

mais alegria que digo, passados

com discurso fácil, capaz de transmitir de forma

estes anos, que ainda vou falando da escola a três

genuína e capaz os seus conhecimentos. Um cer-

professores meus que se encontram de saúde e

to dia, a Câmara Municipal da Praia da Vitória

com a capacidade de reviver os momentos que

através de um Vereador fez uma visita à escola

passamos juntos.

para transmitir ao professor que estavam a ser

roubadas letras do monumento do adro da igreja e se fosse possível fizessem uma vistoria aos alunos porque estes foram vistos no mesmo local. Quando o professor começou a vistoria nas malas

Francisco Jorge da Silva Ferreira (Praia

e nos casacos dos alunos foram achadas as famo-

da Vitória, 1946) é Provedor da Santa

sas letras dentro do meu casaco. Fiquei pasmado,

Casa da Misericórdia da Praia da Vitória

sem conseguir respirar, tal foi o susto que se aba-

desde 1989.


PISCADEGENTE| 20

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

DESVENDANDO A BIBLIOTECA JOÃO BOSCO MOTA AMARAL

E

ntrei pela primeira vez na Biblio-

chovia, aventurei-me pela porta, sempre aberta, e

teca do meu Liceu — hoje Escola

perguntei à severa encarregada, a Menina Maria

Secundária Antero de Quental —

do Espírito Santo, se podia ler algum livro.

no próprio dia da sessão solene de

Cumpridas as formalidades, lá foi ela abrir a

abertura das aulas do meu 1º ano, 1 de Outubro

estante onde eu já tinha descoberto a colecção

de 1953.

completa dos livros de Júlio Verne, para tirar

A antiga Sala de Música do Palácio Fontebela

aquele que eu pedira, não me lembro qual.

estava cheia de gente, pro-

A primeira vez é sem-

fessores, alunos e seus

pre a mais difícil, diz-se…

familiares, todos bem ves-

A partir daí tornei-me

tidos, como então se usava

visitante

para ocasiões especiais. No

Biblioteca e lá fui lendo os

tecto,

livros que nesse tempo

figuras

pintadas

com

angélicas, requinte,

longínquo

assíduo

da

despertavam

ostentavam variados ins-

interesse aos miúdos da

trumentos musicais. Ao

minha idade.

fundo, num estrado, o imponente

Reitor

Dos romances de via-

do

gem e aventuras passei

Liceu, Dr. João Hickling

para os de capa e espada e

Anglin, e as mais altas

daí para os romances his-

autoridades

distrito

tóricos. Paul Féval, Ale-

autónomo de Ponta Delga-

xandre Dumas, Walter

da, preparados para os dis-

Scott proporcionaram-me

do

cursos da praxe e para a entrega dos diplomas do

horas e horas de entusiástica leitura, e nos seus

Quadro de Honra e dos prémios aos melhores

livros fui adquirindo muitos conhecimentos

alunos.

valiosos. O mesmo aconteceu com os autores por-

O que mais, porém, me impressionou foi o

tugueses, acessíveis nessa época: Almeida Gar-

conjunto das estantes, umas vinte talvez, encos-

rett, Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Campos

tadas às paredes, em toda a roda da enorme divi-

Júnior, Silva Gaio e ainda outros.

são, cheias de livros, de alto a baixo, muito direi-

Passei por uma fase de romances policiais e de

tos e bem ordenados: — fiquei deveras fascinado!

ficção científica — mas esses não se encontravam

Em breve me tornei frequentador da Bibliote-

na Biblioteca do Liceu, antes nas estantes das

ca. Num dia em que um professor faltou à aula e

casas de colegas e amigos. Vale a referência tam-


21| PISCADEGENTE

bém para os livros e revistas de aventuras aos

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

durante o ano lectivo e mais ainda nas férias. Mas

quadradinhos, adquiridos pes-

isso nunca me impediu de

soalmente ou emprestados, que

dedicar tempo e atenção ao

me fizeram até hoje um entu-

estudo; e, nas férias, passar,

siasta da Banda Desenhada,

com familiares e amigos,

sublimada agora com a aura de

manhãs inteiras, nos banhos

Nona Arte.

de mar, tardes em passeios e

Nos últimos anos do Liceu,

jogos diversos e serões cal-

eu já era um veterano na Biblio-

correando, para cá e para lá,

teca e tinha mesmo acesso

em amena conversa e namori-

directo ao molho das chaves das

cos juvenis, o passeio maríti-

estantes, privilégio raríssimo,

mo da Avenida Marginal, sob

sinal de confiança e estima da

o luar e estrelas ou sob

funcionária e do próprio biblio-

nuvens e uma ou outra chu-

tecário, o meu professor de His-

vada estival.

tória Dr. João Bernardo Olivei-

Naqueles

ra Rodrigues, cujos dotes de

tempos

não

havia televisão e ao cinema ia

pedagogo lançaram a semente de historiador em

-se uma vez ou outra, que o dinheiro era escas-

mais do que um dos seus muitos alunos e alunas,

so… Mas conversávamos, brincávamos e ríamos

conforme os próprios — José Manuel Medeiros

muito! E das leituras, que davam tema para gran-

Ferreira e Sacuntala de Miranda, por exemplo —

des discussões, todos íamos tirando substracto

expressamente reconheceram.

cultural para o nosso amadurecimento como

Por essa altura, os livros que me interessa-

homens.

vam eram já outros: muita poesia, biografias várias, os romances de Tolstoi e Dostoievski;

peças de teatro, a começar pelos clássicos gregos e por Shakespeare, com muitas boas traduções a

João Bosco Soares Mota Amaral (Ponta

espreitar-me na segunda prateleira da primeira

Delgada, 1943) foi deputado à Assembleia

estante à esquerda da porta; os Diálogos, de Pla-

Nacional (1969) nos anos finais do Estado

tão; livros de História, de História da Literatura

Novo e um dos fundadores do PPD

e de História da Arte… Com a Filosofia tive menos sorte: comecei a ler a Crítica da Razão Pura, de Kant, mas não passei das primeiras páginas.

(actualmente PSD), em 1974. Exerceu, depois, as funções de presidente do Governo Regional dos Açores (de 1976 a 1995) e

Trouxe da escola primária e dos livros de

de deputado na Assembleia da República

contos infantis o gosto pela leitura. Nos anos de

(instituição que presidiu de 2002 a 2005),

Liceu tornei-me um leitor voraz. Lia muito

cargo que ainda exerce.


PISCADEGENTE| 22

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

O SENTIDO ROMÂNTICO DE UMA REVOLUÇÃO JORGE A. PAULUS BRUNO

D

ecorria com falso vagar o mês de

roso convite que me foi formulado pelo grupo de

abril do ano de 1974. No Liceu de

alunos da Escola Básica Integrada da Praia

Angra, eu frequentava o 5º ano (o

da Vitória para participar na comemoração o Dia

antigo 5º ano). Havia entre os alu-

do Estudante, aproveito a oportunidade para evo-

nos que frequentavam este

car – no contexto do que aci-

ano a angústia do exame

ma descrevi – o dia, possivel-

final, em junho ou julho,

mente durante o ano de

que era tido como uma

1975, em que, numa RGA

prova que exigia responsa-

(Reunião Geral de Estudan-

bilidade…

o

tes), no ginásio do Liceu de

Revolucionário

Angra, todos os alunos se

dispensou-nos a todos de

uniram uma vez mais na sua

exame.

luta e acompanharam a Lúcia

Governo

Afinal,

Os vapores do incon-

Coelho, em uníssono, can-

formismo com o regime já

tando a Grândola Vila More-

se manifestavam conscien-

na. Foi um momento ines-

temente numas conversas

quecível e, por ventura, o

à socapa, nuns acordes de

mais marcante do meu per-

uma guitarra num saguão

curso estudantil.

onde se entoavam canções

A partir dessa ocasião,

de José Mário Branco, Zeca Afonso e tantos

sempre que ouço a Grândola vila morena / Terra

outros, na distribuição de uns panfletos denun-

da fraternidade / O povo é quem mais ordena /

ciadores da Guerra Colonial e na inscrição nas

Dentro de ti, ó cidade, não consigo ausentar-me

paredes alvas de cal dos edifícios da Rua da Rosa,

de uma profunda emoção.

à noite, no regresso da explicação de Matemáti-

Hoje voltei a cantar a Grândola Vila Morena…

ca, da sigla CDE (Comissão Democrática Eleitoral), ação algumas vezes espiada por uma ou outra sinistra personagem da polícia política. A Revolução Democrática de 25 de abril de 1974 ocorreu quando eu tinha 15 anos de idade, por isso pertenço àquela geração de jovens para quem a revolução, para além de um movimento de ação política, teve algo de profundamente romântico. É neste sentido que, correspondendo ao hon-

 Jorge A. Paulus Bruno (Angra do Heroísmo, 1959) é diretor do Museu de Angra do Heroísmo. Foi, em dois momentos diferentes, Diretor Regional de Cultura dos Açores; Diretor Regional de Segurança Social, VicePresidente do Serviço Regional de Proteção Civil e presidente do Instituto Açoriano de Cultura (1990-2009).


23| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

UMA REDAÇÃO INFELIZ JOSÉ GUILHERME REIS LEITE

E

stava eu a caminho de fazer dez

com desvelo de quem sofria a mágoa de não ter

anos quando os meus pais se ate-

tido filhos, brincávamos por uma hora, talvez

morizaram com a minha manifes-

menos, num pequeno jardim e o resto do dia pas-

ta impreparação para enfrentar o

sávamos num barracão frio e desconfortável, em

temível exame da 4ª classe e sobretudo o ainda

turma mista, coisa rara nessa época, nas aulas e

mais temível exame de admissão ao liceu e por

estudo das matérias necessárias aos exames que

isso decidiram matricular-me

no fim do ano nos esperavam,

numa escola particular, que

com júris severos de professo-

funcionava numa pequena

res encartados do ensino oficial.

de

Não era fácil, mas não se

Angra, em regime de semi-

pode dizer que fosse coisa insu-

internato.

portável. Os êxitos em breve

quinta

dos

arredores

Era um recurso drástico,

começavam

a

despontar

e

depois de três anos de expe-

renascia a esperança que num

riências infrutíferas em que

ano se ultrapassariam as insufi-

frequentara a escola oficial

ciências dos três anos anterio-

da minha freguesia, a Sé de

res.

Angra, e em que tivera um

Um belo dia, mandou-nos o

ao

mestre fazer uma redação sobre

domicílio, tudo sem resulta-

Camões, que depois lhe entre-

dos palpáveis de progresso.

garíamos e que, escolhida uma,

Creio mesmo, que lá no ínti-

serviria de ponto de partida

professor

contratado

mo, duvidariam das minhas capacidades, mas

para uma aula de língua pátria, como então se

nunca mo disseram. Aceitaram sempre que as

designada o ensino do português.

culpas dos maus resultados se partilhariam entre mim, os professores e a ineficácia do sistema.

Eu e um amigo meu, que conhecera melhor na escola, mas que era meu vizinho, enchemo-nos de

A nova escola, onde se haviam matriculado

brios, decididos a ganharmos a corrida. Em casa

não mais do que uma dezena de alunos, era pro-

dele existia uma bela biblioteca, com instalações

priedade de um antigo professor do ensino oficial

próprias, que nos fascinava e onde passávamos o

que fora afastado (nunca cheguei a saber porquê)

pouco tempo livre que nos ficava depois da esco-

mas que tinha fama e proveito de grande exigên-

la. Congeminamos que a nossa redação começaria

cia, de inabalável rigor e incontestável êxito nos

por uma citação de alguns versos dos Lusíadas,

resultados finais. Entravamos de manhã cedo,

copiando aquilo que aos domingos costumávamos

levávamos almoço, que a sua mulher nos aquecia,

ouvir nas homilias das Sé, onde o padre antes de


PISCADEGENTE| 24

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

iniciar a prédica debitava quase sempre uma passagem do evangelho, em latim, que nem nós, nem a maioria dos paroquianos entendíamos,

zava a tão altas cavalarias. Dito de forma mais popular: não devia ir o remendão além do chinelo.

mas que nos parecia ser garantia de êxito. Lá

Corados, desiludidos e alvo da chacota dos

escolhemos, num exemplar dos Lusíadas, os

colegas, com aquela crueldade inerente aos pré-

decassílabos, que não sou capaz, a esta distância,

adolescentes, ali ficamos especados ouvindo a

de me lembrar quais eram, mas certamente

repreensão do mestre e o risinho escarnento dos

alguns bem conhecidos de exaltação patriótica,

condiscípulos.

como era timbre dos textos que a nossa seleta continha.

Passados sessenta anos ainda recordo com amargura esta experiência infeliz, mas tenho que

Devo dizer que não resistimos a dar uma

admitir que a lição do nosso professor, dura e tal-

espreitadela ao canto nono do poema porque

vez despropositada, ficou marcada para sempre.

ouvíramos uns rumores que nele se tratava de

A ambição e o orgulho cegam e são maus conse-

assuntos pouco recomendáveis, que a moral e os

lheiros. Contudo, se nos tivéssemos limitado à

bons costumes reprovavam, mas que se liam e

mediocridade das nossas fracas capacidades nem

não se confessava. Foi uma deceção, porque nada

eu hoje estaria a recordar a infeliz redação nem

entendemos do que lá se dizia e uma frustração

teríamos, eu e o meu amigo, contribuído para

por não conseguirmos descortinar as razões que

uma lição acerca dos perigos da vaidade dos

levavam a olhar “A Ilha dos Amores”, que até se

homens. A lição daquele dia foi mais de ética e

afirmava com orgulho que era a Terceira, como

civilidade do que de língua pátria, mas valeu.

coisa maligna e perigosa. Mas, avante, porque evidentemente não foi do canto nono que retirámos a citação que viria,

julgávamos nós, valorizar a redação e contribuir para alcançarmos a palma da vitória. O que escrevemos na redação não o recordo eu. O que recordo, sem sobra de dúvida, foi o desastre da

José Guilherme Reis Leite (Angra do

iniciativa, porque no dia aprazado o professor

Heroísmo, 1943),

escolheu realmente o nosso texto para a aula sobre Camões, não como sonháramos para nos enaltecer mas antes para nos humilhar. Chamados a ler, em frente aos colegas, o que escrevêramos foi-nos dito, em tom ríspido, que cometêra-

historiador

e

políti-

co açoriano, foi Secretário Regional da Educação e Cultura do Governo Regional dos Açores (1976-1984), deputado e presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Aço-

mos um grave erro ao iniciarmos a redação com

res (1984-1992) e deputado pelo círculo

coisas que não entendíamos porque nem a nossa

dos Açores à Assembleia da República (1992-

idade nem os nossos conhecimentos nos autori-

99).


25| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

A VISITA DO SENHOR MINISTRO JOSÉ LOURENÇO

E

stávamos em 1959, tinha seis

com múltiplos, mas equilibrados, elementos

anos e acabara de entrar para a

escultóricos. A obra era de tal maneira considera-

primeira classe do ensino pri-

da importante que acabaria por ser inaugurada

mário de uma pequena escola,

pelo ministro das Obras Públicas de então, Aran-

de uma pequena aldeia fronteiriça – Vilar Formoso – onde meu pai desempenhava as funções

tes e Oliveira. As semanas que antecederam o evento foram

de chefe da estação de

de grande agitação na aldeia.

caminhos de ferro. Diga-

Nunca antes um ministro

se que Vilar Formoso

tinha estado por aquelas ban-

era, à época, a principal

das e, à boa moda daqueles

fronteira do país com

tempos, os caciques locais

Espanha e por aí entra-

recebiam

vam e saíam muitas mer-

envolverem toda população

cadorias e pessoas, quer

numa receção calorosa. Claro

por via férrea, quer por

que a escola não escapou a

rodovia.

esses preparativos. A nossa

instruções

para

É dessa época a inau-

professora, senhora baixinha,

guração dos novos edifí-

solteirona, totalmente devo-

cios da alfândega sobre o

tada ao magistério, foi-nos

limite da linha de fron-

enchendo a cabeça com os

teira e instalações equivalentes foram também

preparativos… que vinha aí uma pessoa muito

construídas do lado de Espanha. Gerou-se uma

importante, que tínhamos de estar todos apruma-

concorrência na construção dos imóveis – esta-

dos, de bata branca imaculada. Entre os trabalhos

vam em causa questões de dimensão dos países e

escolares calhou-nos fazer as bandeirinhas nacio-

dos respetivos orgulhos nacionais – mas conve-

nais, ora pintadas, ora com colagens de papéis de

nhamos que Portugal levou a palma. Construiu

cor. Foram semanas atribuladas essas, martelan-

um conjunto de edifícios de grande qualidade

do nas nossas cabeças a expectativa sobre o tal

arquitetónica e com preocupação de adorná-lo

“homem muito importante” nunca jamais visto


PISCADEGENTE| 26

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

em tempo algum. E o dia chegou, finalmente. Amanheceu claro

(talvez por ser o benjamim da escola), beliscoume a bochecha e seguiu caminho.

e desde cedo andei de roda de minha mãe preocu-

Logo que a professora deu ordem para deban-

pando-a com a bata branca que teria de estar res-

dar, corri a bem correr para casa e - recorda a

plandecente e lá marchei para a escola, contente

minha mãe - sorumbático, mal disposto, sobrolho

por ter chegado a grande oportunidade de ver

carregado, o que denotava algum desencanto e

um homem muito importante “dono” daquela

muita desilusão. Desconsolado, como se diz na

obra imensa aos meus olhos de miúdo e que eu

Terceira. Quando a minha mãe me conseguiu

tinha visto crescer porque constituiu durante

acalmar, lá terei desabafado: “Afinal é um homem

algum tempo o passeio preferido do meu pai –

como os outros! Até usa gravata e tudo!”

ver o andamento das obras.

Creio que nas redações (composições escritas

Fomos alinhados lateralmente à entrada

sob tema dado) que, nos dias que se sucederam,

imponente do edifício principal, uma boa hora

fizeram parte dos trabalhos escolares, omiti estes

antes da chegada da comitiva e a nossa professo-

desabafos de alma… quem sabe se terá sido a

ra inquietou-se para nos manter sossegados e

minha mãe que mo recomendou… não fosse o

alinhados naquela posição, durante esse tempo

diabo tecê-las. Eram outros tempos, mas a magia

interminável. Até que, ao fundo da avenida,

de aprender era a mesma de agora.

começou a aparecer, a passo de caracol, uma fila de carros que me pareceram iguais aos carros de aluguer da altura, só que mais imponentes, sobretudo brilhantes e de cuja frente esvoaçavam pequenas bandeiras bem mais bonitas do que

aquelas que empunhávamos e, a essa hora, já agitávamos no ar, como nos fora ordenado e profusamente treinado. Claro que, mesmo entre automóveis pareci-

José Lourenço (Guarda, 1953) é diretor do jornal Diário Insular desde 1986 e empresá-

dos, havia um que se destacava e foi esse que

rio, com ligações aos ramos da imprensa,

parou mesmo à nossa frente. De dentro saiu uma

automóvel, transportes terrestres e maríti-

figura magra e pequena, de casaca preta, calça

mos, turismo e panificação. É representante

cinzenta às riscas e usando chapéu. Sorriu para a

dos Açores (eleito na Assembleia Legislativa)

minha cara espantada de miúdo de seis anos

no Conselho de Opinião da RTP, SA.


27| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

TESTEMUNHO DE JOSÉ NUNO DA CÂMARA PEREIRA eus caros amigos, a gentileza do vosso professor Carlos Bessa quis dar-me o prazer de vos falar da

vossa idade entre sonhos e quimeras… Aos 13 anos já gostava de desenhar, mesmo nos espaços mais inoportunos – nas aulas do liceu Antero de Quental em Ponta Delgada, várias vezes castiga-

minha vida de artista plástico. Aqui vai o que tenho para vos dizer (antes porém quero dar-vos o testemunho do que é ser artista neste mundo contemporâneo) para que

do por distração e trocas de desenhos por soluções de problemas de matemática. Por castigo inerente a estas vicissitudes os meus pais transferem-me para o recém Colégio Gonçalo Velho em

saibam os desígnios e caprichos que a arte faz àqueles a quem escolhe e ama: A escolha que vos faço é esta, a de Van Gogh e

Santa Maria, fico mais próximo da família e aí fico por 2 anos. Começo a levar a sério a minha vocação de futuro artista. Apoiado pelos meus pais

M

Picasso. Comecemos por falar do triste fado de Van Gogh – holandês, filho e irmão da gente das artes – como um claro exemplo do destino de alguns artistas. Homem

que eram amigos do pintor Domingos Rebelo, do poeta Armando Cortes Rodrigues e também do grande Vitorino Nemésio, começo a trilhar o caminho das artes. Nas Belas Artes fui feliz.

honesto, lutador por causas nobres, trabalhou enquanto pastor protestante com os mineiros da sua terra natal ainda na Holanda. Inquieto, instável, apercebeu-se que o seu destino era outro, era entregar-se apaixonadamente à arte. Foi um dos maiores e mais infeli-

Bom aluno mas interativo naquele tempo cívico de 1958 e presidente da JUC – Juventude Universitária Católica, ao tempo das lutas dos estudantes de 1960 -61. Foram tempos de entusiasmo juvenil por causas nobres, que muito vos convido para a vossa reflexão. Eis o testemunho que

zes artistas da História da Arte. Vamos ver o contraste com Picasso, este

vos deixo da minha idade enquanto jovem: lutem sempre por boas causas, não se irão arrepender!

outro nasce de rabo voltado para a lua: audaz, impulsivo, protegido pelos deuses do Olimpo. Aos 15 anos fazia já obras de arte que previam o futuro do seu génio criador. E assim nos ziguezagues de uma vida cheia de peripécias chegou aos 96 anos, idade em que morre, celebrado como um dos grandes génios da arte. Agora baixemo-nos à terra comum dos homens. Aqui estou eu entre vocês pensando na

 José Nuno da Câmara Pereira (Santa Maria, 1937) é artista plástico com obra espalhada por muitas localidades. Vive na ilha Terceira desde 1994. Tem um blog: http://josenunocp.viaoceanica.com/.


PISCADEGENTE| 28

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

UM TESTEMUNHO DOS MEUS TEMPOS DE LICEU LUIZ FAGUNDES DUARTE

E

u nasci em 1954, na freguesia de

cação. Por isso, muitos dos livros que ajudaram a

Serreta. A II Guerra Mundial termi-

formar-me enquanto pessoa, e que ainda hoje

nara nove anos antes, e ainda se

recordo, li-os enquanto era aluno do Liceu – como

sentiam os seus efeitos: o que havia

então se chamavam as escolas onde se ministravam

para comer e para vestir tinha que ser bem aprovei-

os anos que iam do 1.º ao 7.º (actuais 5.º a 11.º, que

tado, porque os meus pais tinham passado pela fal-

era o ano terminal).

ta de víveres e transmitiam, a mim e aos meus

Era no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo,

irmãos, a necessidade de

actual Escola Secundária

se ser poupado. Nesse

Jerónimo Emiliano de

tempo ainda não havia

Andrade.

electricidade nas fregue-

Como sempre gostei

sias rurais, e por isso

de letras, no 6.º ano

aprendi a ler e a escrever

(actual 10.º) inscrevi-me

à luz de um candeeiro

na alínea a): Português,

de petróleo. Os rapazes,

Francês, Latim, Grego,

na sua maior parte,

Filosofia e Organização

andavam descalços e, tal

Política e Administrativa

como as raparigas, não

da Nação. Fui bom alu-

iam além da 4.ª classe

no, acho, mas como

(actual 4.º ano do 1.º

então Portugal vivia na

ciclo do Básico).

ditadura

Logo que fui capaz

Na primeira fila, de óculos

de ler e entender os textos

do

Estado

Novo, não havia liberdade de expressão, e tudo

que lia, apaixonei-me pela leitura. Havia alguns

o que se publicava – livros, filmes, artigos de jor-

livros em minha casa, sobretudo sobre História e

nais, etc. – era sujeito à censura: o que fosse contra

Geografia, e como de quinze em quinze dias passa-

as ideias do regime era censurado, ou seja, não era

va pela Serreta a carrinha da Biblioteca Itinerante

publicado, e os seus autores podiam ser incomoda-

da Gulbenkian, eu requisitava o máximo de livros

dos ou mesmo presos pela polícia política que se

que podia – dez –, que lia todos. Ou seja, pelos

chamava PIDE (Polícia Internacional de Defesa do

meus 14-15 anos, eu lia em média cinco livros por

Estado). Apesar disso, e sempre com o apoio dos

semana – o que não era muito bem visto pelos

meus pais – que apesar de terem pouca instrução e

outros rapazes, que preferiam jogar à bola ou brin-

viverem num meio rural, com pouco acesso à infor-

car às touradas. Mas os meus pais incentivavam-me

mação, eram pessoas atentas e de olhos abertos –

a ler, e diziam que a melhor herança que me pode-

desde cedo me interessei pela vida política, sempre

riam deixar eram “os estudos”, referindo-se à Edu-

no sentido de lutar pela liberdade e pela democrati-


29| PISCADEGENTE

zação do conhecimento – e assumi algumas posições

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

Nessa altura, eu era muito controlado pela PIDE.

que me trouxeram muitos problemas com o Reitor

Mas, também com outros colegas, tive a ideia de

do Liceu (equivalente ao actual Presidente do Conse-

organizar uma série de colóquios no Liceu, com o

lho Executivo, mas não eleito, porque nessa época

objectivo de discutirmos assuntos que então nos

não havia eleições para nada) e com a PIDE.

preocupavam: o consumo do tabaco e de drogas

O primeiro artigo que escrevi era para ser publi-

(que ainda não era o problema que é hoje, mas já era

cado no jornal diário “A União” (recentemente

preocupante aqui na Terceira), o controlo de nasci-

extinto), tinha o título “Para uma Verdadeira Revolu-

mentos (educação sexual, para evitar as gravidezes

ção” – e, como seria de esperar, não foi publicado: a

precoces), e outras matérias deste tipo. O Reitor pri-

censura proibiu-o.

meiro autorizou, mas depois proibiu. Eu fiz um arti-

Depois, em 1973, com mais dois amigos – o

go para o “Diário Insular” a dizer que o Reitor não

Eduardo Ferraz da Rosa, meu colega e amigo quase

permitia que discutíssemos matérias importantes

inseparável, e o Padre António Pimentel, professor

como estas, e ele voltou a autorizar. Conclusão: reali-

do Seminário de Angra e nosso mentor intelectual,

zámos alguns dos colóquios (acho que dois ou três),

que faleceu muito jovem ainda –, criei um suplemen-

mas eles acabaram por ser definitivamente proibidos.

to cultural para “A União”, com o nome “Acesso”:

Foi-me levantado um processo disciplinar, e só não

nele, falávamos de literatura, de filosofia, de crítica

fui expulso do Liceu porque era bom aluno e houve

política – e ao fim de três números foi proibido pela

uma grande professora – a Dr.ª Maria Alice Borba,

censura. O jornal era então dirigido pelo Dr. Cunha

que ensinava Literatura – que me defendeu com

de Oliveira, um homem muito culto e de vistas lar-

todas as suas forças. Assim, terminei o 7.º ano mas,

gas. Em conivência com ele, avançámos com um

como castigo, não me foi passado o respectivo diplo-

novo suplemento, agora com o nome “Passo”, e

ma, o que me impedia de ir para a Universidade.

assinávamos com nomes diferentes daqueles por que

Só com o 25 de Abril de 1974 me foi passado o

éramos conhecidos: como o meu nome completo é

diploma do Liceu, e tentei matricular-me na Univer-

Luiz Manuel Fagundes Duarte, e assinava, como

sidade de Lisboa. Porém, fui chamado para o serviço

agora, Luiz Fagundes Duarte, neste novo suplemen-

militar, pelo que só consegui entrar na Universidade

to passei a assinar Manuel Duarte. Mas a PIDE e a

em finais de 1975. A partir daí segui uma vida estu-

censuram estavam atentas, o suplemento foi proibi-

dantil e profissional, que já é outra história…

do ao fim do segundo número – e o director do jor-

nal foi demitido. Por essa altura, com um grupo de colegas, decidimos ressuscitar o jornal “Vida Académica”, do Liceu de Angra, que era o jornal estudantil mais antigo do país. Fizemos um número clandestino (ou seja, sem

Luiz Fagundes Duarte, (Serreta, 1954), Professor Universitário e escritor, foi Diretor Regional da Cultura de 1996 a 1999 e

autorização e sem ser submetido à censura), impres-

deputado do PS à Assembleia da República

so, de que eu fui o director. Claro que apenas teve

entre 1999 e 2011. Actualmente é Secretá-

um número, que nem sequer consta dos registos:

rio Regional da Educação, Ciência e Cultu-

mas ainda existem exemplares, que poderão ser lidos.

ra.


PISCADEGENTE| 30

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

COMO VIREI COMUNISTA MARCOLINO CANDEIAS — Ó pessoal, olh’o pr’f’ssor! — gritava um, da porta. Já nessa altura começava a evidenciar-se esta nossa mania de engolir as vogais, por conta da qual muitos estrangeiros não nos entendem e preferem o português dos trópicos, com as suas vogais nítidas e bem pronunciadas. Na sala, a turma era uma confusão perfeita, feita de algazarra, vozearia estridente e sons graves, de alguns encontrões e pontapés. À voz de «olha o professor» os gestos, os encontrões, os pontapés dissolviam-se; o formigueiro disperso e irrequieto corria às carteiras, entrecruzando rotas, num zúpete, todos velozes que nem perseidas numa noite de agosto, cada um tomando o seu lugar de pé, perfilado e em silêncio, ao lado da carteira, para a entrada do professor. — Ei! Para, vou fazer queixa de ti. — Olh’o queixinhas! Já vais ver, lá fora... Maricas... O queixinhas era o bufo, o delator, função muito mal vista entre a malta. O bufo bufava mentiras com verdades, misturava e inventava para salvar a pele e para ficar bem diante dos professores, enquanto entalava os outros, deixando-os sem defesa perante o tribunal do Reitor, um homem escolhido pelo Regime, com fama de simpático e muito amigo dos alunos. Bufos havia que, além disso, para se vingar, bufavam inconveniências políticas, coisas de nada que fossem, ouvidas de passagem ou à sorrelfa, mesmo até as nunca ouvidas, mas que indiciassem o alvorecer de perigosos agitadores — de comunistas... Comunista! Era um labéu terrível, um rótulo fatídico que, se não caísse, havia de dar cabo de uma vida. E nem carecia que fosse mesmo comunista — e que fosse! — era um ferro que ferrava e

que ferrando matava. Eu tinha acabado de publicar, em edição de autor, a minha primeira coletânea de versos — Por ter escrito AMOR. O meu pai, amante de poesia, muito ufano do seu rebento poeta, viera à cidade falar com o sr. Bárbara da tipografia e disse-lhe que até 1 conto de réis garantia. O livrinho, artesanal e magrinho, saiu, causou alarido no Liceu. Havia poemas que mexiam com a malta. A minha vida hoje é um a-bê-cê sem gosto de um menino triste sem imaginação Puseram-me de castigo toda a manhã por ter escrito AMOR no tampo da carteira. E outros, julgados ainda mais «inconvenientes». O livrinho vendia-se, por isso, rapidamente, graças também a um dos meus colegas — muitos anos mais tarde ele haveria de ser um editor de sucesso — que, sobraçando uma pilha de exemplares, os vendia pelos corredores do Liceu. O Reitor soube. Veio e viu. E saltou, furioso: — Lá pra fora! Rua! Não autorizo a venda dessa porcaria cá dentro! E voltando-se para mim: — Foste tu que o escreveste? — Sim, senhor Reitor... — Tu és um comunista! E gritou de novo: — Comunista!

Marcolino Candeias (Cinco Ribeiras, 1952), poeta, foi diretor da Casa da Cultura da Ilha Terceira (1987-1999), Diretor Regional da Cultura (1999-2001) e Presidente do Gabinete da Zona Classificada de Angra do Heroísmo (2001-2005). É, desde então, diretor da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo.


31| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

25 DE ABRIL DE 1974 A DESCOBERTA DA NOÇÃO DE CIDADANIA PAULO VILELA RAIMUNDO

E

ste dia começou como muitos

população em geral habituava-se gradualmente

outros, ao deslocar-me pela manhã

ao valor do seu voto, que deveria corresponder à

para a escola (Liceu Padre António

sua opinião sobre diferentes matérias do seu inte-

Vieira – delegação de Vila Franca

resse.

de Xira). No percurso entre casa e a escola fomos

Enquanto toda esta revolução de conceitos e

verificando que existia um movi-

redefinição de papeis cívicos se

mento anómalo de militares, que

desenrolava, continuei a estudar

para além de se posicionarem jun-

e a aprender a questionar todo o

to às estradas de maior movimen-

meu quotidiano, de modo a,

to, utilizavam lenços coloridos

compreendendo o que ia evo-

que eventualmente os identifica-

luindo à minha volta, me habili-

vam.

tar a construir a minha própria

Neste período eu frequentava

opinião, de modo a preparar-me

o 2º ano do curso geral dos liceus,

para assumir as minhas próprias

que equivaleria hoje ao 8º ano de

escolhas e decisões.

escolaridade.

Passados quase quatro déca-

Com o correr do dia, foram

das, continuo convicto de que a

chegando informações que asso-

formação pessoal de cada um de

ciavam a presença dos militares

nós é que nos poderá habilitar a

fora dos quartéis a um golpe de

(possuindo-se uma noção clara

estado desencadeado por segmen-

da realidade que se pode con-

tos progressistas e democratas

quistar através do estudo e da

das Forças Armadas, com vista à destituição do

reflexão individual) construir o nosso futuro

regime de partido único até aí existente, que era

coletivo.

liderado pelos Dr. Marcelo Caetano (presidente

Hoje, como sempre, a obrigação de cada um

do conselho do governo) e General Américo

de nós contribuir com a sua opinião para a defini-

Tomás (presidente da república).

ção do futuro, corresponde a um direito e dever

Destituído o governo e criado um sistema de governação provisório liderado pelos militares,

cívico que ninguém pode negar. O futuro depende de todos!

iniciou-se um período de reajustamento da socie-

dade portuguesa a um conjunto de conceitos novos: liberdade de expressão, democracia, igualdade, ideologias político partidárias… enfim, para mim começou um mundo novo! Tudo se tornava discutível e questionável. A

Paulo Vilela Raimundo (Lisboa, 1960), engenheiro, é presidente do Instituto Açoriano de Cultura (IAC).


PISCADEGENTE| 32

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

MEMÓRIA DA MINHA INFÂNCIA NA ESCOLA ROBERTO LÚCIO SILVA PEREIRA MONTEIRO

E

m 1973, tinha eu 5 anos, frequentei

a

pré-

escola,

na

sabe toda a matéria que irei dar no ano, vou leválo à sala do 2.º ano à professora Luísa Trindade”…

altura deno-

Sem perceber o que se

minada de “escola-paga”,

estava a passar, só sabia que

em São Lázaro (atuais ins-

me estavam a afastar dos

talações da creche da Santa

meninos da minha idade e me

Casa da Misericórdia da

juntaram aos do 2.º ano, e com

Praia da Vitória). Era um

receio da reação dos meus

ano de preparação para a

pais, passei o meu primeiro dia

entrada na 1.ª Classe onde,

de escola em duas salas: de

na prática, era lecionada

manhã no R/C na 1.ª Classe; à

toda a matéria que seria

tarde no 1.º Piso na 2.ª Classe!

ministrada um ano mais

No segundo dia de escola a

tarde…

professora Zulmira chamou-

Tal como as outras crianças da minha idade,

me e disse: “Roberto, tudo fiz para que pudesses

no ano de 1974, entrei para a 1.º Classe, no edifí-

ir diretamente para a 2.ª Classe porque estás

cio da atual “Casa das Tias de Nemésio – R/C),

mais do que preparado, contudo a Direção Esco-

onde tive a honra e o privilégio de ter como pro-

lar não autorizou, justificando que és demasiado

fessora a D. Zulmira Maciel.

novo… na verdade eu sei que já autorizaram a

Logo no primeiro dia de escola a professora

outros, mas não és filho de professor!...”

ordenou que cada aluno fizesse uma cópia de um

Com alegria voltei para a sala dos meus ami-

texto, à escolha, do livro de leitura. Escolhi o

gos e passei dois anos maravilhosos com a minha

último texto do livro, porque o tinha mais pre-

professora Zulmira!

sente da pré-escola, contudo para a professora

Guardo esta memória porque na verdade foi

Zulmira a minha opção teve outro significado!

um 1.º dia de escola atípico e que me motivou

Após constatar a minha escolha mandou-me ler o

múltiplos sentimentos. Contudo, e por ironia,

texto; posteriormente fez-me perguntas de inter-

acabou da forma que eu mais queria e desejava!...

pretação; e no final mandou-me fazer uma breve composição. Ainda recordo as suas expressões: “Muito bem menino Roberto, agora só necessito que faças esta Ficha de matemática”; “Esta criança já

 Roberto Lúcio Silva Pereira Monteiro (Praia da Vitória, 1968) é Presidente da Câmara Municipal, desde 2005. Antes disso foi gerente de várias empresas.


33| PISCADEGENTE

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

DOIS MOMENTOS DO MEU PERCURSO SANDRO PAIM

O

primeiro momento que gostaria de realçar foi a passagem do ensino básico para o secundário. Ingressei no colégio de Santa Clara para a pré-primária aos 6 anos. Na altura o colégio só lecionava com freiras que nos tratavam de uma forma muito especial. Se, por um lado, eram muito exigentes, aspeto muito importante para a consolidação de conhecimento que me veio a servir para todo o meu percurso estudantil, (ainda hoje sinto essa importância), por outro, a realidade é que vivíamos num ambiente muito protegido. Recordo-me dos primeiros 6 anos da minha vida de estudante como anos muito felizes. Foram, claro, momentos marcantes da minha vida. Mas gostaria de realçar a saída do Colégio de Santa Clara para o "Ciclo". Um momento difícil e marcante. A saída de um ambiente protegido para o mundo "real". O ingresso num Mundo em que não existiam as irmãs para ajudar a fazer os trabalhos de casa, a separar das brigas entre colegas e a aconselhar quando estávamos tristes. Claro que hoje tudo mudou e o colégio já se abriu ao "mercado", bem como as escolas públicas já têm um conjunto de iniciativas de suporte ao aluno bem diferente ao que existia na altura. Hoje a lição que continuo a tirar desta pequena história é a de que um ambiente protegido (protecionista) pode ser bom num determinado momento, porém existe sempre um preço a pagar por isso. O segundo momento que gostaria de relatar assume uma importância maior, pela idade (16 anos) e pelos impactos na minha vida. Na altura estava a iniciar o 11º ano no Liceu de Angra e tomei a decisão de desistir para voltar ao 10º ano técnico profissional, na área de gestão de empresas, em São Miguel. Na altura começavam a aparecer as primeiras escolas com cariz técnico. Este momento foi muito marcante por variadas razões que, de forma sucinta, vou tentar elucidar.

Desde logo pela confiança depositada em mim pelos meus pais. Como é fácil de compreender (e hoje como pai ainda percebo melhor), é muito difícil para os pais aceitar e apoiar uma decisão de um filho de 16 anos que pretende perder um ano da sua vida estudantil, com a agravante de sair de casa para estudar noutra ilha. Mas foi isso que aconteceu, deram-me todo o seu apoio nessa decisão. A minha vida mudou radicalmente!!! Peguei nas malas e fui para São Miguel viver para um quarto de uma família que conheci pela primeira vez quando lá cheguei. Esta decisão trouxe profundas alterações na forma como passei a ver a minha vida. Agora tinha de cozinhar a minha comida, tratar da minha roupa, fazer as compras, conciliar o prazer com as responsabilidades... Mas, acima de tudo, tinha a obrigação de não desiludir os meus pais pelo apoio que me tinham dado na minha decisão. Mudou a minha forma de ver a escola e conferiu-me empenho e responsabilidade, o que até àquele momento não acontecia. Foi um teste na minha vida de "pré-adulto" que passei com sucesso. Os resultados que tive foram os melhores de sempre, passei com distinção os três anos e, até há pouco tempo atrás, continuava a ser o melhor aluno que por lá passou. Por várias vezes os professores dispensaram-me de fazer teste por saberem do meu conhecimento da matéria. Hoje a lição que mais uma vez continuo a retirar deste momento da minha vida é o de que a responsabilização, o gostar daquilo que fazemos e o compromisso com os resultados que pretendemos atingir são essenciais para o sucesso!!!

 Sandro Paim (Angra do Heroísmo, 1972) é presidente da Câmara do Comercio e Indústria dos Açores e da Associação Regional de Turismo, sendo também administrador de várias empresas regionais.


PISCADEGENTE| 34

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

“A HORA MAIS SOMBRIA É A QUE PRECEDE A AURORA” ZURAIDA SOARES

A

credito que a luta é o elemento mais

assim…

essencial do mundo. A evolução, o

Corria o ano de 1972. Vivia, então, em Espinho,

desenvolvimento e as conquistas

pequena vila piscatória e de veraneio, a cerca de 14

civilizacionais resultam de combates

quilómetros do Porto, cidade para onde me deslocava,

travados, muitas vezes ao longo de séculos, nem sem-

diariamente, e em cuja Universidade frequentava o

pre de forma pacífica e, frequentemente, à custa de

curso de Filosofia. Estava no meu segundo ano. O

sofrimento e de vidas. A luta é inerente a cada passo

nosso país continuava mergulhado num isolamento e

em frente dado pela humanidade. “O mundo pula e

atraso profundo, submetido a uma ditadura fascista

avança”, quando a resig-

que parecia não ter fim à

nação é sacudida e substi-

vista. Era extremamente

tuída pelo sonho e pela

difícil condená-la, publica-

urgência.

em

mente. O simples protesto

1986, a Assembleia da

era inconcebível, a menos

República fixou o dia 24

que estivéssemos dispos-

de Março como o Dia do/

tos a tudo arriscar, da pri-

a Estudante, fê-lo em

são à própria vida.

Quando,

memória de uma longa

Posso

dar-vos

um

luta estudantil, iniciada

exemplo deste estado das

na Universidade de Coim-

coisas, transcrevendo um

bra, em 1921, tendo por

pequeno excerto de um

base a reivindicação de

comunicado emitido pela,

condições de dignidade

então, Comissão Nacional

para

estudantes,

de Socorro aos Presos

dentro e fora da Acade-

Políticos (e o nome desta

mia. Por isso, comemorar

entidade já diz tudo sobre

este dia, é também (e

o ambiente que se vivia, na

os/as

sobretudo) assumir o compromisso de levantar bem

época): “A CNSPP considera seu dever alertar solene-

alto o estandarte da indignação, a voz da denúncia e a

mente o País para o preocupante agravamento da

exigência de justiça, individual e colectivamente.

repressão política. O poder, através das suas diversas

Não foi fácil escolher um episódio do meu percur-

polícias e serviços congéneres, desencadeou uma con-

so estudantil para partilhar convosco. A memória não

tinuada ofensiva no sentido de atemorizar os portu-

é um armazém. É, antes, um palácio, repleto de salas

gueses e de deles dispor ainda com mais à vontade.

(umas vazias, outras a rebentar pelas costuras),

Uma onda de violência e de desregramento caiu sobre

recantos secretos, portas que não se conseguem abrir,

um número crescente de cidadãos, sujeitando-os a

cheiros e sons que invocam ambiências e emoções.

buscas, interrogatórios, rusgas, agressões, detenções,

Não vos garanto objectividade, nem sequer isenção.

ameaças, multas, atropelos judiciais e prisionais. (…)

Cada um/a terá vivido este acontecimento (e conti-

Neste momento em que o Governo demonstra ter

nuará a vivê-lo) à sua maneira e de acordo com a sua

dado plena liberdade às suas polícias para, sem olhar a

grelha de interpretação do mundo. Eu recordo-o

meios, destruir todas as formas da vida política a si


PISCADEGENTE| 35

SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

contrárias, nomeadamente no campo estudantil e no da oposição à guerra em Angola, Moçambique e Guiné, neste momento em que um evidente e cego espírito de desforra levam à prisão o padre Mário de Oliveira, o cantor José Afonso, trabalhadores rurais de Mértola, operários de Alcobaça e de muitos outros pontos do País, centenas de estudantes no Porto e em Lisboa, vários e indiscriminados cidadãos chegados do estrangeiro e dezenas de trabalhadores caboverdianos em Lisboa, e se não hesita em repetir as agressões a tiro que levaram à morte o jovem Ribeiro Santos(…)”. Alonguei-me, propositadamente, nesta transcrição porque me parece que ela conta o essencial. Havia uma repressão feroz e desumana, é verdade. Mas havia, também, oposição, resistência, denúncia, coragem, numa palavra, luta. Nunca tinha deixado de haver, aliás. E o ano de 1972 foi pródigo em exemplos desta natureza: greves em diversos sectores, reivindicações sectoriais por melhores salários e condições de trabalho, manifestações, meetings estudantis, abaixo-assinados, álbuns musicais mobilizadores (José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho), livros inspiradores que desafiavam o reaccionarismo da moral vigente (‘Novas Cartas Portuguesas’, escrito por Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa – “As três Marias” -, com direcção literária de Natália Correia). E muitas, muitas outras formas de acção e de reacção que davam sinais de fazer tremer os donos de Portugal e dos/as Portugueses/as. Os/as estudantes, apesar de um grupo social restrito, lá se foram organizando como podiam, conseguindo, com mais frequência do que seria de esperar,

ordem ‘Contra a Carestia de Vida’ e por aumentos salariais que lhe pudessem fazer frente. Alguns dias antes, os seus organizadores foram perseguidos e várias prisões preventivas tinham sido feitas. Obviamente que, no dia D, as polícias de choque saíram à rua, desviaram trânsitos, impediram as pessoas de parar nas ruas, ameaçaram e empurraram violentamente toda a gente. No meio da multidão, exibiam-se polícias fardados e também à paisana, acompanhados de cães, cassetetes, matracas de aço e pistolas. No entanto, nada foi capaz de impedir o desfraldar da bandeira nacional, o lançamento ao ar de milhares de tarjetas e o arvorar de numerosos cartazes, portadores das palavras de ordem da manifestação. Mais uma vez houve gritos, correrias, prisões e feridos, também. E mais uma vez houve a certeza de que nos poderiam obrigar a fugir e castigar, pela ousadia de manifestarmos a nossa oposição a um regime totalitário e criminoso. Mas jamais seriam capazes de destruir a corrente de solidariedade e de convicção que se agigantava. Esta história não tem moral. É apenas a história de uma jovem de 20 anos que, depois de ter corrido a bom correr à frente da polícia, fez toda a viagem de comboio de regresso a casa, com um pé descalço. Algures, na imensa confusão, perdeu um sapato… Mas tem um compromisso, para a vida, enquanto ela durar: lutar por aquilo em que acredito, mesmo que a multidão não me acompanhe, ainda que só a utopia seja o farol. Pelos/as outros/as, sim. Mas, fundamentalmente, pela centelha de dignidade que reivindico para mim.

mobilizar activistas e formar quadros políticos, num contexto profundamente adverso e perigoso. Muitos foram aqueles/as que ficaram pelo caminho (mortos, presos, expulsos, marginalizados) mas, a mim sempre

Zuraida Soares (Lisboa, 1952) foi professora do

me pareceu que, por cada um/deles/as, dois, cinco ou

ensino secundário durante 23 anos e, posteriormente, docente na Universidade dos Açores.

dez surgiam no seu lugar. E foi assim que, no dia 15 de Abril de 1972, me

Coordenadora do Bloco de Esquerda/Açores des-

juntei às cerca de 40 mil pessoas que participaram

de 2004, é deputada na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, desde Outubro de 2008.

numa grande manifestação, na Praça da Liberdade e na Avenida dos Aliados, no Porto, sob a palavra de


SUPLEMENTO | DIA DO ESTUDANTE

A crise académica de 1962 constituiu um dos principais momentos de conflito entre os estudantes universitários portugueses e regime do Estado Novo. A 24 de Março de 1962, os estudantes da Universidade Clássica de Lisboa foram proibidos de comemorar o Dia do Estudante. Anos depois, no dia 21 de Abril de 1987 a Assembleia da República criava o Dia do Estudante. Aqui fica transcrição do excerto relativo à sessão desse dia.

Dia do Estudante - Documento de criação do «1 - No corrente ano assinalaram-se 25 anos sobre a data de 24 de Março de 1962, data em que, por iniciativa das mais representativas associações de estudantes da Academia de Lisboa, da Associação Académica de Coimbra e de diversas estruturas do Movimento Associativo Estudantil do Porto, os estudantes portugueses entenderam por bem comemorar a nível nacional o Dia do Estudante. O governo salazarista de então, por intermédio do Ministro Lopes Almeida, decidiu proibir a comemoração, o que provocou largas movimentações e manifestações estudantis. A defesa da autonomia da universidade e o reconhecimento das associações de estudantes eram então posições de princípio dos estudantes portugueses, posição que já então tinha alguns anos e que tivera ponto alto na luta contra o Decreto n.º 40 900. O Dia do Estudante foi, assim, no passado um marco na unidade e na tomada de posição dos estudantes portugueses pela liberdade, pela democracia, pelo fim da guerra colonial, pelos direitos de cidadania. 2 - Ao longo de diversas sessões legislativas os partidos presentes na Assembleia da República tomaram diversas iniciativas legislativas no sentido de consagrar institucionalmente o dia 24 de Março como Dia do Estudante. Infelizmente, não foi até agora possível proceder à consagração desse marco do história do movimento associativo estudantil. As iniciativas ora presentes pretendem colmatar essa falha. Em todos os projectos o dia 24 de Março é consagrado como Dia do Estudante ou Dia Nacional do Estudante.» Reunião Plenária da Assembleia da República de 21 de Abril de 1987 (in http://demo.cratica.org/sessoes/1987/4/21)

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TESTEMUNHOS DE Álamo Oliveira Álvaro Monjardino Ana Luísa Luís Aníbal Pires António da Fonseca Marcos António Manuel Bettencourt Machado Pires Artur Lima Carlos César Dimas Simas Lopes Francisco Jorge Ferreira João Bosco Mota Amaral Jorge Paulus Bruno José Guilherme Reis Leite José Lourenço José Nuno da Câmara Pereira Luiz Fagundes Duarte Marcolino Candeias Paulo Raimundo Roberto Lúcio Silva Pereira Monteiro Sandro Paim Zuraida Soares

Pisca de Gente Suplemento Dia do Estudante Escola Básica e Integrada da Praia da Vitória Rua Padre Damião 9760-519 Praia da Vitória


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