Polo das Ciências da Saúde, Azinhaga de Santa Comba, 3000-548 Coimbra
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Caros Leitores, É com enorme prazer que apresentamos a 38º Edição da Revista “O Pilão”, um reflexo do trabalho e dedicação do Núcleo de Estudantes de Farmácia da Associação Académica de Coimbra (NEF/AAC). O pelouro renova o seu compromisso com a divulgação de conteúdos científicos diversificados e atuais, contribuindo para o enriquecimento científico e cultural dos nossos leitores.
Direção Editoral nefaac.pt/opilao.php
Nesta edição, procuramos reforçar a ligação entre as diferentes estruturas da Universidade de Coimbra, estreando uma parceria com a Biblioteca das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra, instituição essencial para o desenvolvimento multidisciplinar de todos os Estudantes. No âmbito desta colaboração, realizámos o lançamento da 38º Edição d’O Pilão no espaço da Biblioteca. Além disso, promovemos a III Edição do Workshop de Escrita Científica, cujo programa foi dividido em duas sessões, de modo a melhor responder às necessidades da comunidade estudantil.
Esta edição pretende realçar algumas das atividades promovidas pelo NEF/AAC que contribuíram significativamente para o dinamismo da Faculdade de Farmácia, destacando a I Conferência NEF/AAC e o programa de Voluntariado Internacional. O nosso compromisso para dar palco à voz dos Estudante ganha expressão no texto expositivo elaborado através da Open Call e da rubrica “Ca’ Tuna às Costas”.
Por último, mas não menos importante, expressamos o nosso sincero agradecimento a todos que tornaram possível a concretização desta edição: Doutora Lúcia Santos, Professora Doutora Marta Lavrador, Professora Doutora Joana Barbosa de Melo, Professor Doutor Diogo Reis Carneiro, Ana Borges, Matilde Campos, Ânia Sousa, Carolina Mineiro, Beatriz Godinho, Inês Silvestre, Joana Sousa, Maria Filipa Banaco, Carlota Serafim, Joana Alcaravela, Helena Gonçalves, Márcia Lopes, Imperial TAFFUC e Phartuna. Uma palavra especial de apreço aos pelouros da Pedagogia, Educação e Promoção para a Saúde e Formação do NEF/AAC, por toda a dedicação que demonstraram na execução das rubricas incluídas nesta edição.
Com os melhores votos de sucesso académico,
A Equipa d’O Pilão
A NOSSA EQUIPA
INTERESSAS-TE PELA ESCRITA E JULGAS QUE PODES ACRESCENTAR VALOR AO PILÃO?
ENTRA EM CONTACTO CONNOSCO E VEM DAR VOZ AOS ESTUDANTES DA FACULDADE DE FARMÁCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA!
Mariana Carpinteiro
Joana Sousa
Beatriz Godinho
Carolina Jorge Joana Abrantes
Matilde Campos
Maria Maia Lara Portugal
Mariana Silva
Mariana Louro
Beatriz Bento
Laura Paulo
Inês Silvestre
Inês Pires
Ânia Sousa
Carolina Mineiro
5
MENSAGEM DA PRESIDENTE 6
ATIVIDADES DO NEF/AAC
DIÁRIO DE UM CALOIRO
I CONFERÊNCIA NEF/AACTOXICOLOGIA FORENSE
VIII FEIRA DE EMPREGO
VOLUNTARIADO INTERNCIONAL
NA SOMBRA DE MARTA LAVRADOR
CANÁBIS MEDICINAL - UM APELO À EDUCAÇÃO
GRANDE ENTREVISTA LÚCIA SANTOS
ENTREVISTA À SENHORA DIRETORA DA BCSUC
TRANSFORMAÇÃO DA PREVENÇÃO, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DAS DOENÇAS NEUROLÓGICAS
C’A TUNA ÀS COSTAS
MENSAGEM DA PRESIDENTE
Há momentos que definem o rumo daquilo que somos, e ser Estudante na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra é um deles. Este caminho que agora se inicia é exigente, mas profundamente enriquecedor. É neste ambiente, de dedicação e excelência, que o papel das Estruturas Estudantis assume particular relevância, ao acompanhar e defender os Estudantes, em cada etapa do seu percurso académico.
O Núcleo de Estudantes de Farmácia da Associação Académica de Coimbra (NEF/AAC), o mais antigo da Academia, representa há quase 39 anos a força e a voz dos Estudantes da Faculdade de Farmácia. Guiado pelos princípios da resiliência, do rigor e da representatividade, o NEF/AAC assume o compromisso de servir com dedicação todos os que fazem parte desta casa, acolhendo-vos agora neste novo capítulo do vosso percurso.
Compete-nos criar oportunidades que complementem o vosso crescimento académico e pessoal. A Formação, enquanto pilar central, continuará a ser reforçada através de iniciativas que potenciem competências transversais e técnicas, preparando-vos para um futuro profissional sólido e competitivo.
O pelouro de Estágios e Saídas Profissionais assume-se como uma ponte entre a formação académica e a realidade profissional, reforçando a ligação entre o ensino e o exercício farmacêutico. Através de iniciativas que promovem o contacto direto com o setor e criam oportunidades de desenvolvimento, pretende-se preparar e valorizar cada estudante, garantindo uma transição sólida e consciente para o futuro da profissão.
Por sua vez, a Pedagogia tem como propósito consolidar um espaço de diálogo e reflexão, onde a voz dos estudantes se faz ouvir com clareza e assertividade. Por meio deste compromisso, constrói-se uma educação de excelência, sustentada na equidade, na transparência e na melhoria contínua.
O trabalho do NEF/AAC é resultado de um esforço contínuo e partilhado. Com uma estrutura sólida e próxima, procuramos responder às necessidades dos Estudantes, atuando com responsabilidade, transparência e compromisso para com a Faculdade de Farmácia e toda a sua comunidade académica. Nesta nova fase, reafirmamos o nosso compromisso de estar presentes, de ouvir e de agir com e para os Estudantes.
Borges, Presidente do NEF/AAC
Que cada desafio vos faça crescer, que cada conquista seja partilhada e que cada um de vós encontre, nesta casa, o espaço para traçar o seu rumo com confiança e convicção.
“Em Coimbra aprendemos que o nosso valor está em nunca deixar de querer ir mais longe.”
Que este seja o vosso tempo de aprender, participar e crescer, e de fazer da Faculdade de Farmácia não apenas o lugar onde estudam, mas o lugar onde pertencem.
Sejam bem-vindoS a caSa. Sejam bem-vindoS a coimbra.
Ana
Semana de Acolhimento Semana de Acolhimento
POR ÂNIA SOUSA E CAROLINA MINEIRO
Com a chegada de setembro, abrem-se as portas aos novos Estudantes na Universidade de Coimbra. Foi com grande ânsia e empenho que se deu início ao ano letivo 2025/2026, no aguardado dia 8 de setembro, na nossa estimada Faculdade de Farmácia de Coimbra.
O acolhimento iniciou-se com a Sessão de Boas-Vindas na qual os novos Estudantes puderam estabelecer o primeiro contacto com o Diretor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC), Professor Doutor Fernando Ramos, a Presidente da Direção do Núcleo de Estudantes de Farmácia da Associação Académica de Coimbra (NEF/AAC), Ana Borges e o Presidente da Associação de Antigos Estudantes da FFUC, Miguel Silvestre. Seguiram-se as atuações das tunas académicas da Faculdade, a Imperial TAFFUC e a Phartuna, que com o seu espírito e animação, promoveram um ambiente caloroso e cativante. Abstraindo-se da vida festiva que se fez sentir, foram posteriormente apresentados os cursos da Faculdade de Farmácia numa sessão paralela que contou com a presença dos Coordenadores e Coordenadores adjuntos dos três cursos.
Ao início da tarde, os novos Estudantes tiveram a oportunidade de conhecer as diversas instalações da Faculdade, através de Visitas Guiadas organizadas pelo pelouro do Gabinete de Apoio ao Estudante do NEF/AAC. Estas puderam contar com a colaboração de Estudantes, Docentes e a Biblioteca das Ciências da Saúde, que se mostraram disponíveis para encaminhar aqueles que iniciam a sua jornada.
A manhã seguinte foi marcada pela apresentação do NEF/AAC, Núcleo de Estudantes da Faculdade de Farmácia da Associação Académica de Coimbra, de modo a dar a conhecer este órgão aos novos Estudantes por ele representados. De igual modo, foram apresentadas as Comissões de Curso, elo de ligação entre Estudantes e Docentes, fomentando o diálogo e conhecimento sobre atividades de cariz pedagógico. Por fim, tiveram a oportunidade de se familiarizar com a APEF, Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia, contando com a presença do seu Presidente, Afonso Garcia.
Na terça-feira, os Estudantes tiveram ainda a oportunidade de participar num Peddy Paper dinamizado pela Associação Académica de Coimbra (AAC), em colaboração com a vertente desportiva do pelouro Recreativo do NEF/AAC. A tarde foi marcada pela visita aos locais mais emblemáticos da cidade, como o Palácio dos Melos e a Sé de Coimbra, entre muitos outros.
De modo a transmitir aos novos Estudantes um espírito de recetividade à Universidade de Coimbra, na tarde de 10 de setembro, dinamizou-se um leque diversificado de atividades, que incluiu a Sessão de Boas-Vindas à UC e culminou num evento de maior dimensão, a “MOSTRA UC”, organizada pela Associação Académica de Coimbra e pelo Student Hub. Este evento proporcionou o fortalecimento da ligação entre os novos Estudantes, o NEF/AAC e a FFUC.
Com o aproximar do fim desta tão esperada semana, a vertente cultural do pelouro Recreativo do NEF/AAC, com o intuito de fomentar o interesse pela participação ativa dos novos Estudantes nos diversos pelouros e pelo desenvolvimento de soft skills, dinamizou a atividade “NEF FOR YOU”. Esta baseou-se em ferramentas dinâmicas como apresentações e jogos, que deram a conhecer o Núcleo de Estudantes aos novos membros da comunidade estudantil. Desta forma, deu-se por encerrada uma semana inesquecível para todos os Estudantes, marcada por momentos de partilha, aprendizagem e comemoração.
Segunda-feira, dia 8 de setembro
Sessão de Abertura
Quarta-feira, dia 10 de setembro
MOSTRA UC
Quinta-feira, dia 11 de setembro
Feira NEF FOR YOU
Diário de um Caloiro
Por Beatriz Godinho
Setembro marca o início de mais um ano letivo e, sobretudo, a chegada dos novos Caloiros à Faculdade!
Para dar a conhecer as primeiras impressões e expectativas destes novos Estudantes, o pelouro d’O Pilão solicitou a um Caloiro de cada curso da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC) que partilhasse a sua experiência de adaptação à Faculdade e à nova vida académica.
“Olá, sou a Ana Margarida Alves, aluna do 1° ano do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas e venho falar um pouco da minha experiência como caloira deslocada até agora. A aprender a viver sem os pais pela primeira vez não é fácil, quer o fizesse agora ou daqui a 20 anos. Porém, ganhamos sempre muita independência e, sinceramente, nunca pensei que conseguiria desenrascar-me com tanta facilidade (não é que por vezes não queime o arroz, mas é raro!). Além de ter de lidar com toda uma nova rotina, não ter comida pronta a comer sempre que chego a casa, e ainda ter que limpar tudo, existem as saudades, em que há dias que tudo o que mais queria era ir para os braços da minha mãe, seja só por ter tido um dia cansativo, ou apenas porque acordei num dia menos bom.
Confesso que, fui uma sortuda, pois tenho algumas pessoas muito próximas a mim aqui que me têm ajudado a sentir sempre um pouco mais em casa!
Preferi Coimbra, mesmo que conseguisse tirar o curso mais perto de casa, devido à formação académica que a Faculdade de Farmácia oferece, assim como a vida académica que até agora experienciei.
A latada foi algo mágico, desde ouvir a serenata debaixo da capa da madrinha até ao cortejo que estará sempre guardado no meu coração. Pela primeira vez senti-me verdadeiramente em casa, com o sentimento de que sabia que tinha as pessoas certas a meu lado, e que não poderia ter feito melhor escolha.
Talvez seja sorte o quão bem acolhida me senti nesta cidade mas, muito sinceramente, penso que será muito pouco provável de alguém não ter uma boa experiência nesta cidade histórica.
Que Coimbra tem mais encanto na hora da despedida já todos ouvimos dizer, porém, para mim, a hora da chegada está a ser de longe algo encantador!”
“Olá, chamo-me Francisco Vital e estou no curso de LCB.
Desde que entrei em Coimbra e na FFUC que tenho vivido experiências como nunca, desde as aulas e as horas passadas nas filas da cantina ou até à serenata e ao cortejo da latada.
Coimbra sempre foi a minha primeira opção, devido ao espírito académico e à simpatia demonstrada por quase todos os estudantes assim como o carinho que as pessoas têm pela cidade e em relação à FFUC, que foi algo que sempre quis. Pretendo seguir com a área das análises e da farmácia e até agora tem sido uma experiência ótima.
A praxe e a latada foi e têm sido experiências que eu recomendaria a experimentar.
Através da praxe consegui unir-me mais a alguns colegas, ao fazer jogos e a berrar ou até mesmo durante o cortejo a cantar e a fazer o melhor para orgulhar o curso que escolhi.
Ter escolhido Coimbra e FFUC foi a minha melhor decisão e ainda agora começou.
Anseio os eventos que ainda estão por vir, mas sinto que vou fazer boas memórias em todos, conhecendo a cidade e as pessoas ao meu redor.”
“O meu nome é Sofia e sou Estudante do primeiro ano de LFB.
Ao longo de todo o secundário senti imensas dúvidas sobre o curso a escolher, em parte porque a entrada na universidade me parecia muito mais distante do que realmente estava. Acabei por não pensar muito no assunto, tendo chegado ao fim do 12º ano sem qualquer ideia sobre o que seguir.
Em julho participei na Universidade de Verão, na área de Farmácia, onde estive uma semana na FFUC a explorar um bocadinho desse ramo da ciência.
Despertou-me imenso interesse, e tive a sorte de contar com três monitoras incríveis da área que me esclareceram bastante, tendo feito assim finalmente a escolha.
Iniciando a semana de integração, tive o primeiro contacto com o que é ser estudante universitária. Conheci imensas pessoas novas e experienciei a praxe. Apesar de ainda ficar muito nervosa quando os doutores falam diretamente para mim, estou a gostar bastante e considero que é uma excelente forma de criar proximidade com os colegas do curso. Sempre vivi em Coimbra, mas assisti apenas uma ou duas vezes ao cortejo da Queima, pelo que a Latada me surpreendeu pela quantidade de gente junta e tão investida na mesma causa. Não me tinha apercebido de todo o espírito académico vivido em Coimbra. Assim, embora a cidade não me seja nova, sinto que estou a descobrir uma realidade completamente diferente da que conhecia.
Em síntese, a adaptação à universidade tem sido uma experiência muito positiva, marcada pela interação com diferentes pessoas e formas de pensar, na qual tenho a sorte de contar com o apoio dos meus amigos e da minha família!”
Recolha de Sangue
Por Matilde Campos
No dia 13 de outubro, o pelouro da Educação e Promoção para a Saúde do NEF/AAC organizou mais uma edição de recolhas de sangue, reforçando a importância da participação ativa dos estudantes nas causas sociais. A iniciativa que decorreu ao longo do dia, contou com uma equipa profissional dedicada e um processo bem organizado que garantiu a segurança e o conforto de todos os dadores.
Logo à chegada, os voluntários eram convidados a preencher um questionário de avaliação prévia, com perguntas sobre o seu estado de saúde, hábitos de vida, viagens recentes, medicação, gravidez e outros fatores que pudessem influenciar a elegibilidade para doar sangue. Após a entrega do formulário e apresentação de um documento de identificação, os participantes eram encaminhados para uma triagem médica, onde eram medidas a tensão arterial e os níveis de hemoglobina.
Após analisarem estes dados, eram fornecidos aos dadores um conjunto de autocolantes com códigos de barras para identificar corretamente os tubos e sacos de sangue recolhidos. A recolha era feita por uma equipa experiente de enfermeiros, num ambiente calmo e supervisionado, onde era dada atenção contínua ao estado físico de cada dador. Terminada a colheita, os participantes eram convidados a permanecer alguns minutos em repouso para garantir a sua estabilização e conforto. De seguida, após a devida recuperação, os voluntários tinham à sua disposição fruta, pão, sumos e água para restabelecer energia.
Cerca de três dias após a recolha do sangue, foi enviada a cada participante uma mensagem com o respetivo grupo sanguíneo e os resultados das suas análises, assegurando a total transparência neste processo.
Esta atividade, acabou por ter bastante adesão por parte dos estudantes, revelando a consciencialização desta ação solidária pela comunidade académica.
Um futuro com história
Vivemos numa era de transformação rápida e profunda, tanto no campo da saúde como a nível social e económico Estas mudanças, que frequentemente levantam desafios globais, têm evidenciado o crescimento exponencial do espaço de intervenção dos farmacêuticos comunitários.
Perante as objetivas dificuldades dos sistemas de saúde em dar resposta à procura de cuidados, a rede capilar de farmácias, ao permitir uma clara diminuição das desigualdades de acesso, é cada vez mais um suporte, assumindo novas responsabilidades em saúde pública e no acompanhamento das pessoas que vivem com doença.
Consequentemente, as dinâmicas da prática farmacêutica evoluíram. A profissão está agora mais clínica, mais multidisciplinar e intersectorial, e ainda mais focada nas pessoas. É uma prática que concilia o papel clássico de dispensa e aconselhamento terapêutico com uma complementaridade crescente ao sistema de Saúde português, garantindo uma abordagem mais integrada e personalizada na prestação de serviços de saúde e prevenção da doença.
Assim, optar por uma carreira em Farmácia Comunitária implica novas e renovadas responsabilidades, que além de não dispensarem uma qualificação elevada, exigem uma capacitação contínua. Porque trabalhar em Farmácia Comunitária é assumir um compromisso com a saúde das pessoas e com o desenvolvimento contínuo da profissão.
Diariamente, as farmácias desempenham um papel fundamental na vida de mais de 500 mil pessoas em Portugal. Com 5% da população a recorrer às farmácias todos os dias, há mais de 500 mil oportunidades diárias para os farmacêuticos intervirem e impactarem positivamente a saúde e o bemestar das comunidades. Este é um campo de trabalho repleto de desafios e de oportunidades e que exige profissionais altamente motivados para a prestação de serviços técnico-científicos humanizados e orientados para um trabalho em equipas multidisciplinares.
Durante o 14.º Congresso Nacional das Farmácias, o então presidente da Federação Internacional Farmacêutica (FIP), Dominique Jordan (1960-2023), disse estar convencido de que «o século XXI será dos farmacêuticos». A afirmação reflete o momento único em que nos encontramos. O papel do farmacêutico comunitário é cada vez mais reconhecido como uma peça fundamental para a sustentabilidade e o sucesso do sistema de saúde global. Este é o momento de construir uma carreira de futuro num setor com história e que todos os dias faz história na vida das pessoas
PROFESSORES VS ALUNOS
Por Inês Silvestre
PROFESSORES
O mítico jogo “Professores vs Alunos” voltou este semestre para reforçar o espírito da Comunidade Académica e arrancar gargalhadas entre todos os presentes.
No passado dia 18 de setembro, pelas 20 horas, o Campo de Santa Cruz foi palco de um animado encontro desportivo entre Estudantes e Docentes, perante uma bancada bem composta, cheia de energia, apoio e entusiasmo.
A primeira parte foi equilibrada, com inúmeras oportunidades de golo criadas por ambas as equipas. No entanto, ao cair do pano, foram os Alunos a inaugurar o marcador, colocando o resultado ao intervalo em 1-0.
Na segunda parte, contrariamente à primeira, a intensidade aumentou e praticamente todas as oportunidades de golo foram concretizadas. Assim, a partida terminou empatada 5-5, refletindo o esforço e empenho de todos os participantes.
Com o público a pedir um vencedor, o jogo foi decidido através de grandes penalidades, onde os Professores acabaram por vencer, demonstrando experiência e espírito competitivo.
Numa noite animada repleta de desporto, fair play e convívio, a iniciativa provou, mais uma vez, que o verdadeiro vencedor foi, sem dúvida, a Comunidade Académica.
ALUNOS
I CONFERÊNCIA NEF/AAC
TOXICOLOGIA E CIÊNCIAS FORENSES
No âmbito do atual mandato do pelouro da Formação, realizou-se no dia 11 de novembro, uma conferência que se afirmou como uma das grandes novidades deste mandato. A iniciativa surgiu com o propósito de abrir novos horizontes aos Estudantes, destacando áreas que têm vindo a assumir crescente relevância no panorama científico e profissional.
Dedicada ao fascinante universo da Toxicologia e das Ciências Forenses, a conferência proporcionou aos participantes uma oportunidade única de explorar temáticas que extravasam o âmbito da formação tradicional. Pretendeu-se demonstrar que o vasto campo das Ciências da Saúde é intrinsecamente multidisciplinar e oferece uma multiplicidade de percursos possíveis, incentivando a curiosidade, a investigação e a construção de trajetórias profissionais diversificadas.
Criado como um espaço de descoberta, debate e inspiração, o evento contou com a presença de especialistas de referência na área. Ao longo da manhã, os participantes tiveram o privilégio de ouvir a Dra. Maria João Porto, a Doutora Helena Teixeira, a Doutora Cristina Mendonça e o Doutor João Pinheiro, cuja experiência e disponibilidade enriqueceram a sessão com uma partilha científica de elevado valor. Ao longo da conferência, os participantes tiveram oportunidade de mergulhar em temas essenciais à atuação científica em contexto forense, desde os fundamentos e aplicações da Genética Forense até à Toxicologia Forense, com especial enfoque na investigação de crimes facilitados por drogas. Foram ainda explorados os exigentes procedimentos de Disaster Victim Identification e revisitados casos célebres em que a Toxicologia desempenhou um papel determinante na interpretação de evidências e na resolução de investigações.
Esta diversidade temática permitiu uma visão abrangente e profundamente prática do contributo das Ciências Forenses para a sociedade. A adesão superou largamente as expectativas, reunindo mais de 140 participantes provenientes de 16 cursos distintos, incluindo Estudantes, Profissionais e Doutorandos. Esta diversidade reflete, não apenas o interesse suscitado pelo tema, mas também a crescente necessidade de promover espaços de diálogo e aprendizagem em áreas emergentes das Ciências da Saúde.
No final da conferência, realizou-se ainda, uma visita guiada ao Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF). A visita permitiu conhecer as instalações e compreender de forma mais clara o trabalho desenvolvido na área da Investigação Toxicológica, concluindo o evento com um momento de grande interesse e enriquecimento científico.
Assim, esta conferência marcou de forma significativa a dinamização formativa do pelouro, abrindo portas a novas perspetivas e reforçando o compromisso com uma formação atual, abrangente e alinhada com os desafios futuros do setor.
Feira de Emprego Feira de Emprego
Por Joana Sousa
Nos dias 15 e 16 de outubro realizou-se mais uma edição da Feira de Emprego do NEF/AAC, dinamizada pelo pelouro de Estágios e Saídas Profissionais.
A oitava edição contou com a presença de várias indústrias, farmácias, laboratórios e outras entidades relevantes do setor farmacêutico, sendo uma atividade que despertou o interesse dos Estudantes da Faculdade de Farmácia.
Ao longo dos dois dias, os Estudantes puderam conhecer algumas das saídas profissionais que poderão seguir no futuro, interagindo com os representantes das entidades presentes nas bancas dispostas à porta da faculdade. Em semelhança aos anos anteriores, ocorreu a sessão fotográfica para o Curriculum Vitae de forma a permitir aos Estudantes aperfeiçoar o seu currículo e Linkedln
No dia 16 de outubro, estiveram presentes as seguintes entidades: APFH, AFP, APJF, Bailleul, Be Great, Farmácias Holon, FHC, Glintt, Labialfarma, LACUC, Ordem dos Farmacêuticos, OWLPHARMA, NUPE, Phagecon, Plural + Udifar, Farmácias STS e UniHealth. Para além deste contacto direto com as entidades, a feira promoveu atividades que procuraram dar a conhecer saídas profissionais menos exploradas na área das Ciências Farmacêuticas, como a atividade “Farmácia Fora da Caixa”, que contou com o testemunho do Dr. Diogo Quintela do Laboratório de Polícia Científica e a Dra. Paula Proença do Instituto Nacional de Medicina. O dia terminou com sessões complementares de algumas entidades presentes, de forma a dar a conhecer com mais detalhe o seu trabalho e oportunidades.
O segundo dia, contou com a presença de novas entidades, entre as quais ANF, Bluepharma, Pharmilab e Generis. Esta edição incluiu ainda a dinamização de flash interviews, nas quais os Estudantes puderam escolher entre as entidades participantes para realizar simulações de entrevistas de emprego, permitindo-lhes prepararem-se melhor para este momento desafiante do seu percurso profissional.
O dia encerrou-se, mais uma vez, com as sessões complementares.
Ao contrário das edições anteriores, após dois dias dedicados à presença de diversas entidades na Faculdade, o pelouro dos Estágios e Saídas Profissionais do NEF/AAC promoveu, na tarde de dia 17 de outubro, uma visita guiada às instalações do ICNAS, Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde.
Esta visita revelou-se uma oportunidade enriquecedora para conhecer mais uma possível saída profissional ao alcance dos Estudantes, reforçando a ideia de que a área das Ciências Farmacêuticas se encontra em constante evolução e oferece múltiplas formas de contribuir e marcar a diferença na sociedade.
Ainda alocado à Feira de Emprego do NEF/AAC, realizaram-se diversos workshops de maneira a garantir que os Estudantes tivessem oportunidade de adquirir skills que são importantes para o mundo profissional. Foram estes workshops de Comunicação Empresarial, Curriculum Vitae e Soft Skills, que contaram com a presença da Dra. Joana Nobre em regime online, e da Dra. Rita Mendes e Dr. Josué Moutinho já em regime presencial, respetivamente, nos dias 3, 6 e 10 de novembro.
A oitava edição da Feira de Emprego do NEF/AAC voltou a afirmar-se como um momento importante na vida académica da Faculdade de Farmácia.
Com iniciativas inovadoras, como as flash interviews e a visita guiada ao ICNAS, esta edição destacou-se pela diversidade de experiências e pela proximidade criada entre o meio académico e o profissional.
Pelouro da Pedagogia
Um passo à frente: a Ordem também é tua
Lúcia Santos (Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos)
O futuro começa mais cedo do que imaginas.
Entrar no 4.º ou no 5.º ano do MICF é muito mais do que uma nova etapa no curso: é o momento em que a ligação à profissão começa a ganhar maior profundidade. E é, também, provavelmente, o momento em que se começa a refletir, com maior cuidado, sobre o futuro profissional. Nesta fase, a Ordem dos Farmacêuticos não é apenas a entidade que um dia vos acolherá como membros efetivos; é também a vossa casa, ainda enquanto estudantes. Sabemos que o caminho para a profissão de farmacêutico é exigente e repleto de desafios. Por isso, a Ordem dos Farmacêuticos oferece aos estudantes, dos dois últimos anos do MICF, a oportunidade de começarem a construir o seu percurso profissional ainda nos corredores da faculdade, através da inscrição como membro estudante. Acedendo a este estatuto, o estudante ganha acesso a um conjunto de benefícios únicos, como:
• Mais proximidade à vida profissional, através de eventos, formações, estágios e contactos com colegas de diferentes áreas;
• Informação atualizada e acesso aos grandes debates e desafios da profissão;
• Descontos e condições especiais em atividades formativas e culturais;
• Uma preparação sólida para assumirem plenamente o vosso papel como farmacêuti-
A cereja no topo do bolo? Tudo isto sem pagar um cêntimo de quotas!
Num mundo em que o conhecimento avança a cada instante, quem chega mais cedo, chega mais longe. Tornar-se membro estudante é um passo que vos aproxima da realidade da profissão, que vos dá voz e vos coloca no centro de uma comunidade que vos valoriza, escuta e desafia. A profissão farmacêutica precisa de jovens preparados, curiosos, inquietos e capazes de olhar para o futuro com confiança. É isso que queremos encontrar em cada membro estudante: não apenas futuros colegas, mas protagonistas de uma profissão que nunca deixe de se reinventar. A Ordem dos Farmacêuticos está de portas abertas. O vosso lugar é aqui. E não custa (mesmo) nada!
O próximo passo é simples: consulta a informação e faz já a tua inscrição https://www.ordemfarmaceuticos.pt/pt/estudantes/
FROM NEF TO YOU
Ilha de São Vicente - Cabo Verde
De Cabo Verde aos Participantes:
Diferentes Perspetivas sobre a Atividade
Voluntariado Internacional
Como consideras que esta experiência complementou a tua formação académica, como futura profissional de saúde?
A participação neste projeto de voluntariado em São Vicente, era algo muito desejado por mim tanto a nível pessoal, e também enquanto estudante de MICF. Ao longo do curso, temos uma aprendizagem teórica e laboratorial contínua, mas esta experiência permitiu-me vivenciar, na prática, a dimensão social e comunitária da profissão farmacêutica.
O contacto com a população permitiu-me aplicar à vida real os conhecimentos adquiridos nas aulas, adaptando a linguagem científica para o nível de compreensão da comunidade. Desenvolvi habilidades de comunicação, empatia e escuta ativa que serão imprescindíveis para a minha futura profissão. Para além disso, a experiência revelou a importância do farmacêutico como um elo entre a ciência e a sociedade - não apenas como especialista do medicamento, mas como agente de saúde pública.
O desafio de trabalhar num contexto diferente, com realidades socioeconómicas diferentes de Portugal, reforçou a necessidade de adaptação, flexibilidade e sensibilidade cultural, habilidades que serão valiosas na minha prática futura.
Qual dirias que foi o momento alto desta experiência? E qual o impacto que teve a longo prazo? O verdadeiro destaque desta experiência foi, sem dúvida, o contato direto com a população local, e mais especialmente em momentos em que pudemos perceber o impacto direto da nossa intervenção - seja numa ação de sensibilização sobre o uso racional de medicamentos, no esclarecimento de hábitos de saúde ou em ações de rastreio e aconselhamento, a gratidão e o interesse das pessoas confirmaram que um farmacêutico pode ter impacto fora do espaço da farmácia ou do laboratório.
A longo prazo, esse momento teve um profundo impacto na maneira como eu encaro profissionais da minha profissão pois permitiu-me consolidar a ideia de que o farmacêutico é um profissional da saúde central na terapêutica e também na prevenção e educação para a saúde, trouxe-me maior responsabilidade social, consciência ética e desejo de continuar a desenvolver competências para atuar junto da comunidade.
Esta experiência também potencializou a minha motivação para contribuir futuramente para projetos de saúde comunitária e múltiplas iniciativas de cooperação, pois apercebi-me do quanto o conhecimento científico, quando tornado acessível e adaptado, tem um potencial para mudar realidades e potencializar significativamente as condições de vida das pessoas.
O que aprendeste sobre a comunidade local que mais te tocou? Quais foram as maiores semelhanças e diferenças culturais?
O que mais me tocou foi a forma como a comunidade valoriza a entreajuda e convivência com o próximo. Mesmo com recursos muito limitados, percebi que existe sempre espaço para a partilha - desde um prato de comida, dois ou três passos de dança ou simplesmente uma conversa de rua, entre dois desconhecidos. Em São Vicente, independentemente das posses materiais, todos partilhavam o que tinham. A nível das maiores semelhanças, senti que, tal como nós, a comunidade dá muita importância à família e às tradições. A grande diferença que me marcou foi a relação mais serena com o tempo. Enquanto nós estamos habituados a viver num ritmo acelerado, sempre a correr, a comunidade leva muito a sério a famosa frase “no stress”.
Em Cabo Verde cada momento é vivido com calma, como se fosse único.
Que conselho darias a futuros participantes nesta atividade?
Para os futuros participantes, diria para irem de coração aberto e sem expectativas muito definidas. Isso permitir-vos-á desfrutarem mais da experiência e trazerem convosco lições que levarão para a vida. O voluntariado não é só sobre dar, é muito também sobre receber. Deixem-se envolver pela cultura, pela música, pela dança, pelas conversas simples, pelas rotinas da comunidade.
Não se preocupem tanto em “fazer muito”, mas sim em estarem verdadeiramente presentes. O impacto maior está nas relações que se criam com as pessoas.
Carlota Serafim, 3º ano MICF
Joana Alcaravela, 5º ano MICF
O Voluntariado Internacional realizado pelos Estudantes da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra teve um impacto positivo na tua vida? Se Sim, de que forma?
Sim! Além de auxilia-las de perto nos projetos, aprendi muito com as voluntárias como pessoa. Sou membro do departamento de desenvolvimento de projetos do Volunturismo (projeto que as acolheu) e na época eu era estagiaria e esse grupo foi o maior grupo que acompanhei no terreno. Conhecer 12 meninas com o coração de ouro, cheias de vontade de ajudar e empatia por gente de outro país foi sem dúvida uma das melhores experiências que vivi com o Volunturismo.
Fiz amizades tão genuínas e verdadeiras que levo sempre no coração.
Como foi a receção da comunidade aos Estudantes?
Foi muito boa ao meu ver.
Ao acompanhá-las no terreno, verifiquei que a comunidade foi sempre aberta e sociável com elas. Os caboverdianos têm essa característica de receber bem e as meninas tiveram oportunidade de sentir isso.
Houve algum gesto dos voluntários que foi marcante para a comunidade?
Pela experiência que vivi, acredito que o mais marcante era quando as meninas brincavam com as crianças da comunidade e das associações. Elas eram capazes de as fazerem sentir seguras de si mesmas e que podiam conversar sobre qualquer coisa. Isso acabava por permitir que as crianças se sentissem mais à vontade.
Que costume ou tradição cabo-verdiana, consideram que surpreendeu mais os voluntários?
Os mandingas.
Apesar de não ter estado presente neste dia onde que as meninas tiveram o privilégio de viver um pouco da tradição dos mandigas de São Vicente, percebi através dos feedbacks e conversas, que os mandigas foi a experiência mais marcante pra elas. Embora acredito que muitas delas também gostaram de aprender a sambar e a dançar kizomba
Helena Gonçalves, 25 anos
Márcia Lopes ,24 anos
NA SOMBRA DE
MARTA LAVRADOR PROFESSORA AUXILIAR DA FACULDADE DE FARMÁCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA*
O Pilão: Realizou grande parte da sua formação académica na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, nomeadamente o Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas e o Doutoramento em Ciências Farmacêuticas. Esta era a área que ambicionava seguir? O curso correspondeu às suas expectativas?
Marta Lavrador: É verdade, todo o meu percurso académico foi feito na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra. O meu desejo de ser farmacêutica vem desde criança. Tenho uma composição que escrevi na disciplina de Francês, no 8º ano, que guardo religiosamente, em que disse que a profissão dos meus sonhos era ser “pharmacienne”. Talvez porque a minha madrinha é, também, farmacêutica e tinha (tem ainda) uma farmácia. A ideia de poder ter um papel ativo na saúde das pessoas sempre foi algo que me entusiasmou, assim como a possibilidade de ajudar as pessoas em momentos de maior vulnerabilidade. Via, realmente, os farmacêuticos como profissionais que podiam fazer toda a diferença nestas situações. O Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas acabou por superar as minhas expectativas, que já eram bastante elevadas. Apaixonei-me pelo curso, pelas suas múltiplas unidades curriculares e pela abrangência de conhecimento que ele proporcionava, pelas áreas tão distintas em que nos permite formar. No final dos 5 anos de curso, percebi que talvez não quisesse ficar por ali. A ideia de tirar o Doutoramento surgiu naturalmente, alimentada por outra paixão que sempre me acompanhou: o desejo de ensinar. Sabendo que, para ser docente, era necessário ter este grau académico e considerando que o Doutoramento me permitiria enveredar pela área da investigação, achei que seria o caminho que faria mais sentido para mim. Antes disso, trabalhei, ainda, um ano e pouco em Farmácia Comunitária, uma experiência enriquecedora e que guardo com muito carinho. Depois, candidatei-me a uma bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que felizmente ganhei. Iniciei o meu Doutoramento em 2017.
O.P.: Qual foi o momento mais desafiante no seu percurso académico?
M.L.: Terei que dizer o meu Doutoramento. Como qualquer percurso doutoral, há muitos imprevistos que surgem e que se tornam verdadeiros desafios, exigindo de nós uma extrema resiliência e muita capacidade de adaptação.
A Pandemia “COVID-19” surgiu mais ou menos a meio do meu Doutoramento. Houve coisas que tivemos que adaptar (metodologias, planos, rotinas), considerando o contexto pandémico e todas as restrições que daí advieram. Ainda assim, e apesar das dificuldades, julgo que também isso acabou por contribuir para o meu crescimento profissional. Ter que procurar respostas e soluções por caminhos inesperados permitiu-me descobrir novas abordagens e perspetivas que, se assim não fosse, talvez não tivesse identificado. Obviamente que há momentos em que estamos menos motivados mas, de uma forma geral, encaro esses desafios com otimismo e determinação.
O.P.: Enquanto docente, que papel desempenham as unidades curriculares que leciona na formação de um futuro farmacêutico?
M.L: No ano letivo que passou, lecionei aulas laboratoriais de Anatomofisiologia Humana I (2º ano do MICF) e aulas teóricas e teórico-práticas de Farmacoterapia e Farmácia Clínica (4º ano), Serviços Farmacêuticos Clínicos (5º ano) e, ainda, aulas teórico-práticas de Farmacologia II (3º ano). No que diz respeito à unidade curricular de Anatomofisiologia Humana I, é uma disciplina basilar para qualquer profissional de saúde. A par da Anatomofisiologia Humana II, estas duas unidades curriculares constituem a base para compreender o funcionamento normal do corpo humano, que é essencial para, mais tarde, reconhecer o que está alterado na doença. Ao conhecer a anatomia dos órgãos e sistemas, bem como os seus mecanismos fisiológicos, o futuro farmacêutico desenvolve a capacidade de integrar esse conhecimento com a farmacologia e a farmacoterapia, percebendo onde e como os fármacos atuam. São, por isso, disciplinas estruturantes, que sustentam grande parte da aprendizagem ao longo do curso e que permitem aos estudantes desenvolver um raciocínio clínico coerente desde os primeiros anos da formação. Já a farmacologia é também uma unidade curricular absolutamente basilar para qualquer futuro farmacêutico. O estudo dos mecanismos de ação, efeitos adversos, interações, propriedades farmacocinéticas, entre outros, permite ter uma base científica fundamental para entender como atuam os fármacos.
Também as unidades curriculares de Farmacoterapia, Farmácia Clínica e Serviços Farmacêuticos Clínicos afiguram-se como unidades curriculares essenciais. A nova diretiva delegada da União Europeia (2024/782/EU) para a profissão farmacêutica atualizou os requisitos de formação aplicáveis à formação do farmacêutico, identificando a área clínica como essencial, considerando a evolução da profissão. Assim, a Patologia e Fisiopatologia, a Farmacoterapia, a Farmácia clínica, os Cuidados Farmacêuticos e a Prática Farmacêutica são identificadas como áreas de formação farmacêutica obrigatórias. Estas disciplinas ajudam a construir uma ponte entre o conhecimento fundamental e a prática clínica, ajudando o Estudante a perceber como se pode escolher o fármaco mais adequado para determinada pessoa, considerando as suas características particulares e o seu contexto único de doença. São unidades curriculares que estimulam o pensamento crítico, a tomada de decisões baseadas na evidência e o raciocínio clínico, competências que considero absolutamente essenciais para qualquer farmacêutico, seja ele comunitário, hospitalar ou investigador.
O.P.: Se tivesse de destacar um avanço científico recente que mais a entusiasmou, qual seria?
M.L.: Um dos avanços científicos recentes que mais me entusiasmou foi o desenvolvimento das terapias baseadas em RNA mensageiro (mRNA), que se tornaram amplamente conhecidas com as vacinas contra a COVID-19. Além da inovação tecnológica em si, o que mais me impressionou foi a velocidade com que a comunidade científica e os sistemas de saúde conseguiram dar uma resposta eficaz a uma crise global de saúde pública. A pandemia foi um momento crítico, mas também um marco histórico no que diz respeito à mobilização da ciência. Assistimos a uma colaboração sem precedentes entre investigadores, instituições, indústria farmacêutica e reguladores. O que normalmente demoraria muitos anos foi concretizado em meses, sem comprometer os padrões de segurança e eficácia. Para quem trabalha na área da farmacologia e farmacoterapia, foi extraordinário ver como o conhecimento científico acumulado ao longo de décadas foi aplicado de forma tão direta para salvar vidas. E perceber que abordagens como o mRNA não são apenas uma resposta pontual, mas sim uma porta aberta para o tratamento de muitas outras doenças, como certos tipos de cancro, infeções complexas ou doenças genéticas raras. Tudo isto nos mostrou que a ciência salva vidas e que a comunicação entre investigadores, profissionais de saúde e socie-
dade é mais importante do que nunca.
O.P.: O que a motivou a especializar-se em Farmacologia e Farmacoterapia? Sempre demonstrou interesse por estas áreas?
M.L.: Sim, desde muito cedo percebi que as áreas da Farmacologia e da Farmacoterapia me fascinavam, talvez por combinarem o rigor da ciência com a aplicabilidade prática na vida das pessoas. Sempre tive curiosidade em perceber como é que os fármacos atuam, porque é que funcionam de forma diferente em cada pessoa e quais os riscos e benefícios reais de os utilizar. Durante o curso, essas perguntas foram-se tornando cada vez mais presentes e, por isso, escolher a especialidade de Farmacologia e Farmacoterapia para o meu Doutoramento afigurou-se como a opção ideal para explorar essas questões. O que mais me motiva nestas áreas é precisamente essa ponte entre a ciência e o doente. Não se trata apenas de saber que um fármaco tem determinado mecanismo de ação, mas de perceber se é mesmo a melhor opção para aquela pessoa, naquele contexto clínico. São áreas em constante evolução, que exigem atualização contínua e pensamento crítico, e isso é algo que me desafia e entusiasma todos os dias.
O.P.: De todas as suas publicações e projetos de investigação, qual se destaca, para si, a nível pessoal e profissional?
M.L.: É uma pergunta difícil de responder, uma vez que todas as publicações acabam por ter um contexto diferente, mas igualmente especial. Poderia mencionar o primeiro artigo científico que publiquei como primeira autora e que representa o ponto de partida da minha atividade científica. Este artigo resultou do trabalho da monografia final no âmbito da conclusão do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas e consistiu na avaliação da medicação potencialmente inapropriada de 185 idosos institucionalizados. Mas todas as publicações relacionadas com o meu Doutoramento são muito especiais para mim. Em relação aos projetos de investigação, não posso deixar de mencionar o meu projeto de Doutoramento, que obteve financiamento pela FCT e, mais recentemente, um projeto financiado pela Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica (AICIB) que pretende debruçar-se sobre a otimização da farmacoterapia em idosos, num estudo a desenvolver em cuidados de saúde primários.
O.P.: Tem realizado vários cursos na área do Envelhecimento e da Geriatria, como o Curso “Envelhecimento” do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e o Curso de Introdução à Geriatria integrado no núcleo de Estudos de Geriatria (GERMI), respetivamente. O que a levou a focar-se nesta área em específico?
M.L.: Na verdade, o contacto com esta área iniciou-se precisamente no último ano do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas, uma vez que o tema da minha monografia final estava relacionado com a avaliação da medicação potencialmente inapropriada em idosos institucionalizados, como referi anteriormente. Era uma área que vinha a ser desenvolvida pelas Professoras Margarida Castel-Branco e Isabel Vitória e que, por isso, surgiu naturalmente no momento de desenvolver a monografia. Com o desenvolvimento desse trabalho, percebi claramente a importância de aprofundar o conhecimento sobre a utilização dos medicamentos em idosos. É, de facto, uma população especial, com características únicas, alterações fisiológicas marcadas com impacto significativo nas respostas aos fármacos (muitas vezes imprevisível). Percebi, assim, que o envelhecimento é uma prioridade em termos de formação, investigação e intervenção em saúde pública. Foi esse propósito que orientou o meu projeto de Doutoramento, financiado pela FCT, e que continua presente no trabalho que desenvolvo atualmente, nomeadamente no projeto financiado pela AICIB em contexto de cuidados de saúde primários. Os cursos que realizei ajudaram-me a aprofundar o conhecimento nesta área, tendo sido fundamentais para consolidar conhecimentos e integrar novas perspetivas sobre o envelhecimento enquanto fenómeno biológico, clínico e social. Estes cursos permitiram-me compreender melhor os desafios que os idosos enfrentam, não apenas do ponto de vista farmacológico, mas também funcional, cognitivo e emocional.
O.P.: De que forma gere o equilíbrio entre a docência e os seus projetos de investigação?
M.L: Conciliar a docência com os projetos de investigação é, sem dúvida, um desafio constante, mas também uma oportunidade única de crescimento pessoal e profissional. São dimensões que se alimentam mutuamente: a investigação permite-me manter o pensamento atualizado, crítico e baseado em evidência, o que enriquece muito aquilo que levo para a sala de aula. Por outro lado, o contacto com os Es-
tudantes ajuda-me a repensar e comunicar a ciência de forma O.P.: Mudando um pouco a dinâmica desta entrevista, gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas de resposta rápida
Pessoa que tenha marcado o seu percurso?
As Professoras Isabel Vitória e Margarida Castel-Branco. O meu colega e amigo Tiago Lima. E todos os Estudantes de quem tive a honra de ser professora.
Livro ou série preferida?
Livro: O meu pé de Laranja Lima
Série: This is us
Local favorito para sair à noite, enquanto Estudante?
The Famous.
Cor preferida? Verde.
Hobby?
Os meus tempos livres são para aproveitar ao máximo para brincar com a minha filha, Aurora. Ir ao parque, passear, ir até à praia…
A Unidade Curricular que menos gostava do curso? Física.
Uma Cidade? Coimbra.
Momento mais marcante no seu percurso académico?
O dia da defesa do meu Doutoramento.
Um sonho?
Ser docente de carreira na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.
tudantes de forma clara, acessível e aplicada. Preparar aulas exige dedicação e tempo, assim como acompanhar os Estudantes e as suas necessidades. Mas, honestamente, é aquilo que mais me realiza profissionalmente. Claro que a gestão do tempo nem sempre é fácil, mas acredito que, quando se trabalha com entusiasmo e sentido de propósito, é possível manter o equilíbrio. E, mais do que isso, é possível fazer com que ensino e investigação coexistam de forma produtiva e, até, sinérgica.
A investigação ajuda-me a ser melhor docente e alimenta essa atividade.
O.P.: Recebeu alguns prémios, nomeadamente o de Melhor Comunicação Oral do XVII Curso Pós-Graduado sobre Envelhecimento “Geriatria Prática”, em 2017 e em 2019. O que significam estas distinções para si?
M.L.: Estas distinções deixaram-me obviamente muito feliz. Não pelo prémio em si, mas pelo reconhecimento do trabalho e da dedicação que está por trás de cada projeto. Estes prémios foram pequenos marcos que validaram a relevância científica e clínica daquilo que estava a desenvolver. Além disso, são também um incentivo para continuar a comunicar ciência de forma clara, estruturada e com impacto, algo que considero fundamental, tanto na investigação como na docência.
O.P.: Que mensagem gostaria de deixar à Estudante de Ciências Farmacêuticas “Marta Lavrador” acerca do seu futuro profissional e distinção nas áreas do Ensino e Investigação?
M.L.: Se pudesse falar com a Marta Lavrador, Estudante do MICF, dir-lhe-ia que vale sempre a pena lutarmos pelos nossos sonhos. Que fez muito bem em aproveitar o melhor da vida académica, porque é nesse equilíbrio saudável que se consegue tirar o melhor da vida. Ainda bem que aproveitou todos os convívios, todas as Latadas e Queima das Fitas, mas que também nunca descurou a importância das aulas e do estudo quando assim tinha que ser. Diria, ainda, para acreditar sempre nas suas capacidades, não ter medo de sair da sua zona de conforto e trabalhar sempre com alegria. Para ser sempre fiel àquilo em que acredita porque, no futuro, tudo isso leva a conquistar o que sempre sonhou.
O.P.: Por último, que mensagem gostaria de deixar aos Estudantes da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra?
M.L.: Vou dividir esta resposta em duas partes.
Primeiro, sob um ponto de vista mais pessoal, gostaria de agradecer por todo o carinho. Os prémios de “Melhor Docente” que me atribuíram por duas vezes encheram o meu coração. Ser docente sempre foi um sonho para mim e sentir que posso ajudar a formar os futuros farmacêuticos, partilhar conhecimento, influenciar positivamente o seu percurso é aquilo que me move e que me deixa verdadeiramente realizada.
OS ESTUDANTES SÃO A RAZÃO DE SER DE TODOS OS PROFESSORES.
Por isso, um profundo agradecimento por estes anos de ligação.
Em segundo lugar, queria dizer aos Estudantes que aproveitem ao máximo esta fase das vossas vidas.
Valorizem a formação sólida que estão a receber, mas também tudo aquilo que a Faculdade vos proporciona fora das aulas: as amizades, os desafios, os projetos, as causas que abraçam. Tudo isso faz parte do vosso crescimento pessoal e profissional.
Não tenham medo de mudar de ideias, de redefinir objetivos.
Sejam curiosos, críticos, empáticos. Como vos costumo dizer, independentemente da área profissional que escolherem, vão trabalhar com um dos assuntos mais nobres: a saúde das pessoas.
O mundo precisa de farmacêuticos competentes, sim, mas acima de tudo conscientes do seu papel na sociedade.
Acredito muito na vossa geração e no impacto que terão no futuro da profissão. Estarei sempre por aqui, com a mesma vontade de ensinar e de aprender convosco, porque é isso que torna este caminho tão especial.
SEJAM FELIZES E NUNCA DEIXEM DE SONHAR
Canábis Medicinal - Um apelo à educação
Observatório Português de Canábis Medicinal
A educação dos Estudantes dos cursos superiores da área da saúde para as inovações diagnósticas e terapêuticas reveste-se, de especial importância num mundo de mudanças rápidas, no qual muitas vezes os currículos académicos não são atualizados em tempo oportuno. Nesse contexto, brota frequentemente dos próprios alunos, através dos seus núcleos, a vontade de se prepararem adequadamente, criando oportunidades formativas para o momento em que são colocados perante a práxis profissional. Assim sendo, é de saudar a vontade de menção à canábis medicinal nesta edição da revista do NEF/AAC, tema recorrente no debate médico nos últimos anos, mas ainda longe de se afigurar claro e consensual, por várias razões.
Em primeiro lugar, pela variedade de formulações farmacêuticas (nomeadamente dos vários equilíbrios possíveis entre o Tetrahidrocanabinol/THC e o Canabidiol/CBD), vias de administração existentes (orais em gotas, spray ou por vaporização) e diferentes indicações terapêuticas distintas a que cada uma se aplica. Daqui resulta a necessidade de se conhecerem essas mesmas indicações, as linhas (ab initio ou apenas como add-on numa segunda ou terceira linha) nas quais cada produto é proposto em cada doença, além de eficácia e efeitos adversos. Em Portugal, as sete indicações terapêuticas para as quais a Canábis Medicinal foi aprovada estão claramente definidas na deliberação Nº 11/CD/2019 do Infarmed. Mais difícil é encontrar informação clara e acessível aos profissionais de saúde, mas também aos doentes, acerca das formulações farmacêuticas que se destinam a cada uma dessas indicações.
Destaca-se a particularidade das Epilepsias Refractárias (em particular as síndromes de Dravet e de Lennox-Gastault), para as quais é o CBD que está indicado e não outra formulação (incluindo as de venda livre que anunciam percentagens reduzidas de CBD), ou a espasticidade decorrente de Esclerose Múltipla ou de Traumatismo Vertebro-Medular para as quais há evidência com produtos de equilíbrio entre THC e CBD. Ficou por cumprir o artigo 10º da Lei nº33/2018 de 18 de Julho, que indiciava a promoção de informação aos profissionais através de serviços da administração pública. O papel pedagógico tem sido, na verdade, incorporado por algumas organizações independentes, como o Observatório Português de Canábis Medicinal e outras sociedades médicas e farmacêuticas.
Professor Doutor
Diogo Reis Carneiro
Médico Neurologista na ULS Coimbra.
Co - autor do artigo de revisão “Canábis Medicinal na Neurologia Clínica: Uma Nuvem de Incertezas”.
Palestrante convidado em conferências e debates científicos na área da canábis medicinal.
Membro do Conselho Consultivo Científico do Observatório Português de Canábis Medicinal.
Assistente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Um segundo elemento é a exploração experimental da eficácia e segurança da canábis Medicinal através de estudos básicos e clínicos que tentam tocar inúmeras doenças diversas (seja em termos de diferentes sistemas orgânicos, seja com distintos mecanismos fisiopatológicos). Se isto soa, por vezes, à expectativa de encontrar a pedra filosofal terapêutica que arrisca sair gorada, a verdade é que a existência de um sistema endocanabinóide humano, com receptores CB1 e CB2 anatomicamente muito dispersos e com funções tão abrangentes como a neuromodulação (incluindo interferência em circuitos de dor, memória, motores ou do ciclo sono-vigília) ou a regulação inflamatória, permite esta ousadia científica.
Ainda assim, a evidência deve ser conquistada habilmente, através de estudos bem desenhados que consomem tempo e recursos. Por isso, não se poderá propor, fora de um âmbito off-label e com muitas reservas, que um doente com uma doença neurodegenerativa (à cabeça as doenças de Alzheimer e de Parkinson, pela sua prevalência e embate sócio-económico) faça produtos à base de canábis, já que a evidência é muito limitada e o risco de efeitos adversos é grande. Além disso, são doenças altamente complexas e os sintomas potencialmente mitigados com a Canábis Medicinal deveriam ser muito bem identificados.
Em terceiro lugar, pelos desafios que a Cannabis sativa coloca em termos de produção, incluindo cultivo, controlo de qualidade e extração, elementos que definem o produto final e cuja dificuldade técnica deve também ser enquadrada na discussão.
Finalmente, por se tratar de um tema complexo também do ponto de vista social e que o imaginário colectivo aproxima da utilização recreativa da planta (para o que contribui, também, a frequente existência de plataformas híbridas, misturando conceitos médicos e recreativos e propagando a confusão). Esta circunstância leva a reacções de curiosidade, receio ou rejeição, de forma mais manifesta do que quase qualquer outra substância com potencial terapêutico. Este último aspecto, que se diria uma dimensão mais subjectiva (ou que radica mesmo em crenças e falsos preceitos), é muitas vezes partilhado por doentes e profissionais de saúde. E se, nos primeiros, é compreensível que a opinião possa tomar conta das rédeas do pensamento, nos segundos isso deverá ser refreado perante o suporte da evidência científica disponível e a possibilidade de adequação clínica da prescrição a cada doente, individualmente. Um dos factores que poderá evitar tal reacção em farmacêuticos, médicos e demais profissionais é precisamente a educação. Isso deverá ser feito desde o momento académico em que os leitores da publicação do NEF/AAC se encontram, de forma que a curiosidade natural a que a evolução científica conduz já não seja paralela ao obscurantismo ou à moralização, mas ao conhecimento com espírito crítico, trazendo a possibilidade de cuidar cada vez mais e melhor.
GRANDE ENTREVISTA
LÚCIA SANTOS
Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem de Farmacéuticos
O Pilão: O que a fez escolher a licenciatura em Ciências Farmacêuticas?
Lúcia Santos: Desde cedo percebi que queria enveredar pela área da saúde. Parecia-me ser a forma mais direta, e provavelmente a mais transformadora, de impactar positivamente a vida das pessoas. Cuidar da saúde é, no fundo, cuidar daquilo que é essencial e estruturante na vida de cada um, e essa consciência sempre me acompanhou. Quando chegou o momento de escolher o meu percurso académico, as Ciências Farmacêuticas revelaram-se uma opção particularmente sedutora. Trata-se de um curso técnica e cientificamente muito exigente, que obriga a uma preparação sólida e abrangente, mas que, ao mesmo tempo, abre um leque vastíssimo de possibilidades de intervenção profissional. Essa foi, aliás, uma das razões que mais me atraiu: não impor um percurso linear, confinado a uma única saída, mas oferecer uma verdadeira plataforma de oportunidades. Desde as áreas mais clássicas da profissão - a farmácia comunitária, a hospitalar, a indústria farmacêutica ou as análises clínicas - até à multiplicidade de novos domínios onde o farmacêutico pode intervir, o curso prepara-nos para um futuro plural e dinâmico. E, mais a título de brincadeira, costumo dizer que desde pequena me encantava o cheiro característico das farmácias, que me transmitia uma sensação de segurança, de ordem e de cuidado. Talvez tenha sido, também, essa memória sensorial que, de forma quase inconsciente, me foi conduzindo a este caminho.
OP: Para além de ser Licenciada e Doutorada em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Farmácia de Coimbra, obteve o grau de Mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. O que despertou em si a paixão por esta área e em que medida influenciou a sua trajetória profissional?
LS: O meu interesse pela Saúde Pública nasceu da perceção de que a saúde raramente é apenas individual, mas profundamente determinada pelo coletivo. Enquanto farmacêuticos, habituamo-nos a olhar para cada doente e cada terapêutica. Mas cedo percebi que, por detrás de cada história clínica, havia sempre determinantes mais vastossociais, culturais, económicos, ambientais. E que, sem compreender essa teia complexa, a intervenção de qualquer profissional de saúde fica limitada.
O mestrado em Saúde Pública foi, por isso, um momento de viragem. Trouxe-me instrumentos para pensar a saúde numa escala mais ampla: na prevenção, na educação, na promoção de estilos de vida, na vigilância epidemiológica, na equidade no acesso. E mostrou-me como a ciência e a política se cruzam inevitavelmente nesta área.
Essa formação moldou de forma definitiva a minha visão profissional. Hoje, quando penso na farmácia, penso nela como parte integrante de uma rede maior, em que o farmacêutico é, também, um agente de saúde pública, com um papel de grande relevo enquanto transformador da saúde coletiva.
OP: Presidiu o Fórum Regional do Centro das Ordens Profissionais (FoRCOP), cujo tema abordado foi “A Inteligência Artificial e as Profissões”. No âmbito das atividades realizadas no setor farmacêutico, quais prevê que sejam as consequências do crescimento exponencial desta tecnologia?
LS: Estou a assumir a Presidência do FoRCOP até ao final de 2025, o que se tem revelado uma experiência muito gratificante. O que de melhor se faz resulta sempre da multidisciplinaridade, de diferentes olhares e saberes sobre o mesmo problema, de trabalhar em conjunto. E é justamente essa a experiência que tenho tido no FoRCOP, onde já organizámos diversas iniciativas desde o início do ano, estando outras programadas.
A Inteligência Artificial (IA) foi o tema central escolhido para este ano. Trata-se porventura da revolução mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais disruptiva do nosso tempo. Já está a transformar a forma como produzimos conhecimento, como tomamos decisões clínicas, como gerimos dados de saúde e desenhamos políticas públicas.
No setor farmacêutico, o impacto será profundo. Por um lado, a IA abre possibilidades extraordinárias: prever interações medicamentosas com maior precisão, personalizar terapêuticas com base no perfil genético de cada doente, acompanhar em tempo real a adesão à medicação, antecipar surtos epidemiológicos através da análise de dados massivos, etc.
A velocidade e a capacidade de processamento destas tecnologias superam em muito aquilo que seria humanamente possível. Mas, naturalmente, há também riscos e dilemas éticos.
“O farmacêutico não pode tornar-se refém do algoritmo. “
O que distingue um profissional de saúde não é apenas a capacidade de aceder a dados, mas sobretudo de os interpretar, contextualizar e humanizar. A decisão clínica não pode ser delegada a uma máquina. Cabe-nos, portanto, assumir um papel de mediação crítica entre a tecnologia e o doente. Mas não vejo a IA como uma ameaça, mas antes como um desafio de maturidade: o de manter a centralidade da pessoa, num mundo onde os dados parecem querer sobrepor-se às histórias humanas. Li recentemente uma entrevista a um CEO de uma empresa tecnológica que dizia que o trabalho feito por humanos será, em breve, o verdadeiro serviço premium, e que o atendimento automatizado, feito por robôs, será apenas o standard. E eu concordo.
OP: Numa intervenção no Diário de Coimbra, abordou a temática da Saúde Mental dos Estudantes do Ensino Superior referindo que “Estamos a formar jovens altamente qualificados e emocionalmente exaustos”. De que forma é que considera que as Instituições de Ensino e o Sistema Nacional de Saúde deveriam intervir na prevenção e monitorização dos transtornos mentais que afetam esta faixa etária?
LS: Essa reflexão surgiu do incómodo que senti ao ler o relatório “Ecossistemas de Ambientes de Aprendizagem Saudáveis”, feito por uma equipa de professores e investigadores de várias instituições de ensino superior, de norte a sul do país. Os dados eram claros e perturbadores: mais de 60% dos estudantes sentem-se tristes ou deprimidos, com baixas expectativas em relação ao futuro, e quase 40% consomem psicotrópicos.
Este problema não pode deixar ninguém indiferente e deve preocupar-nos a todos, enquanto coletivo. Efetivamente, estamos a formar jovens com competências técnicas extraordinárias, mas emocionalmente fragilizados. A excelência académica não pode ser construída à custa da saúde mental de uma geração.
As Instituições de Ensino têm, aqui, uma responsabilidade inalienável. Precisamos de currículos mais equilibrados, que não confundam exigência com sobrecarga; precisamos de espaços de diálogo e acompanhamento psicológico acessível, permanente e desestigmatizado; precisamos de repensar a cultura académica, que tantas vezes glorifica a resistência ao cansaço, como se noites mal dormidas e ansiedade constante fossem medalhas de mérito.
O Sistema Nacional de Saúde, por sua vez, tem de olhar para esta faixa etária não como uma prioridade menor, mas como um grupo de risco que exige respostas concretas. Consultas acessíveis, integração de psicólogos nas unidades de saúde, programas de rastreio e de prevenção precoce são medidas urgentes.
Em última análise, o que está em causa é o futuro: uma sociedade que não cuida da saúde mental dos seus jovens está a hipotecar não só a qualidade de vida dessas pessoas, mas também a sua capacidade de inovação, de liderança e de transformação.
“Estamos a formar jovens que sabem muito de farmacologia, mas pouco sobre como respirar fundo, e isso deve ser uma prioridade política e social.”
OP: Tendo em conta a sua posição de prestígio e vasta experiência no panorama farmacêutico português, quais considera serem os maiores desafios que afetam a profissão em 2025?
LS: O ano de 2025 é, de certa forma, um espelho dos dilemas que a profissão carrega há décadas, mas também, espero, um ponto de viragem. O maior desafio é afirmar a centralidade do farmacêutico num sistema de saúde em tensão permanente. Vivemos entre a escassez de recursos, a pressão da inovação terapêutica, o envelhecimento populacional e as desigualdades crescentes no acesso aos cuidados.
Neste contexto, os farmacêuticos têm de ocupar um lugar mais central na prestação de cuidados. Para isso, precisamos de coragem e de capacidade de diálogo.
Coragem para reivindicar o nosso espaço, propor modelos de atuação inovadores e assumir que o futuro da profissão não será construído apenas na farmácia comunitária, apenas no hospital ou apenas no laboratório, mas em todos esses lugares interligados. E capacidade de diálogo para construir as pontes e os entendimentos necessários com os outros profissionais de saúde. Como escrevi recentemente, precisamos de muitas mãos diferentes a trabalhar coordenadamente, em prol do bem comum.
Outro desafio é interno: a coesão da própria profissão. É fundamental que deixemos de nos ver como ilhas - comunitários, hospitalares, analistas, industriais - e nos pensemos como um corpo coletivo. Diverso, sim, mas unido na defesa do doente. A diversidade da profissão farmacêutica é o que nos dá substância e força, mas só unidos nessa diversidade seremos realmente reconhecidos. Há ainda um terceiro desafio: a atratividade da profissão para os mais jovens. As novas gerações são exigentes, procuram propósito no trabalho, e valorizam acima de tudo o equilíbrio entre as várias dimensões da vida. Precisam de uma visão de futuro inspiradora. Não basta dizer que a profissão é “importante”; é preciso mostrar, com exemplos concretos, que podemos ser agentes de mudança social, científica e política.
Em suma, os maiores desafios resumem-se a três palavras: reconhecimento, unidade e futuro.
OP: Desde 2019 que desempenha funções como Deputada Municipal de Coimbra e desde 2022 que faz parte do Conselho Municipal de Saúde de Coimbra. Como é que a sua formação como Profissional de Saúde informa a sua intervenção na área política?
LS: A política, tal como a saúde, exige uma capacidade constante de ouvir, de interpretar e de agir. A minha formação como profissional de saúde deu-me uma lente particular: ensinou-me que, por detrás de cada número ou estatística, existe sempre uma pessoa, uma história, uma comunidade. E é essa consciência que levo para a política local.
Enquanto cidadã, na política, percebo que o mesmo se aplica às decisões públicas: um plano de mobilidade, uma política de habitação, uma decisão urbanística, podem ter impacto direto na saúde das populações.
No Conselho Municipal de Saúde, essa ligação torna-se ainda mais evidente. A saúde tem de ser entendida como um bem transversal. Não é apenas o hospital ou o centro de saúde que importam, mas também a qualidade do ar que respiramos, as casas que habitamos, a alimentação que temos disponível, ou os espaços verdes que nos permitem viver com mais equilíbrio.
A formação em saúde ensina-nos, acima de tudo, a colocar a pessoa no centro. E esse princípio deveria ser, também, o fundamento de toda a ação política. Por isso, a minha intervenção na política local é enformada por essa matriz: uma política que cuida é, no fundo, uma política que trata da saúde em todas as suas dimensões.
OP: Este ano, assumiu o cargo de Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos. Quais são os objetivos que pretende cumprir ao longo do seu mandato? Quais as expectativas e desafios que espera encontrar?
LS: Assumir a presidência da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos foi, para mim, não apenas uma honra, mas também uma enorme responsabilidade. Tenho plena consciência de que herdei uma instituição com história, credibilidade e uma missão central: ser a voz dos farmacêuticos, defendendo-os, apoiando-os e projetando o seu papel na sociedade, ao mesmo tempo que se constitui como garante do interesse público, zelando pela qualidade e pela excelência dos serviços prestados pelos profissionais.
O objetivo maior do meu mandato é simples de enunciar, mas exigente de concretizar: aproximar a Ordem dos seus membros. Aproximar significa estar presente nos territórios, escutar os colegas e compreender os desafios específicos de quem trabalha em contextos muito distintos, desde a farmácia comunitária na aldeia mais isolada do interior, até à investigação científica nos centros de excelência académica. Aproximar significa também construir pontes entre gerações, valorizando a experiência dos mais antigos e a energia e criatividade dos mais jovens.
Outro objetivo é reforçar a formação contínua e a capacidade de inovação. Não podemos ter uma Ordem que se limita a reagir; precisamos de uma Ordem que antecipe tendências, que prepare os farmacêuticos para os desafios do presente e do futuro: inteligência artificial, medicina personalizada, saúde digital, resposta a crises de saúde pública. As expectativas são elevadas, porque sei que há vontade de mudança entre os colegas. Mas os desafios também o são, desde a necessidade de sustentabilidade financeira até à gestão de expectativas diversas, numa profissão plural e heterogénea. Estou consciente de que haverá momentos de dificuldade, mas acredito que com dinamismo, transparência e capacidade de mobilização conseguiremos dar passos seguros no sentido da concretização destes objetivos.
No fundo, o que espero é que este mandato seja lembrado não apenas pelas iniciativas que promovemos, mas sobretudo por termos conseguido criar uma Ordem mais próxima, mais unida e mais preparada para o futuro.
OP: Na Tomada de Posse como Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos, reafirmou o seu compromisso com a formação contínua e valorização da profissão. Que medidas propõe para a concretização destes objetivos?
LS: A formação contínua é, para mim, um eixo estruturante da profissão farmacêutica. A ciência evolui diariamente e as necessidades da população transformam-se a um ritmo acelerado, pelo que não podemos conceber uma carreira sem atualização permanente. Assim, uma das medidas prioritárias é diversificar e inovar na oferta formativa. Não basta repetir modelos tradicionais; precisamos de formações mais práticas, interativas e orientadas para a realidade do dia a dia dos colegas.
Estamos a apostar em áreas como a inovação em medicamentos manipulados, a aplicação da inteligência artificial em saúde, ou a preparação dos farmacêuticos para responder em situações de emergência ou catástrofe. Outra medida é reforçar parcerias estratégicas. Acredito que a Ordem deve ser um catalisador de ligações entre universidades, empresas, instituições de saúde e organismos internacionais. Só assim conseguimos criar programas de formação que realmente preparem os profissionais para o futuro. Finalmente, a valorização da profissão não se faz apenas com palavras, mas com reconhecimento efetivo do trabalho dos colegas. Isso implica dar visibilidade às boas práticas, destacar a inovação que já se faz na região Centro, e criar espaços de partilha e colaboração que reforcem a nossa identidade coletiva. Em última análise, o que queremos é que cada farmacêutico sinta que pertence a uma profissão com futuro, respeitada e indispensável para a saúde da população. Porque uma profissão que investe no conhecimento investe, ao mesmo tempo, na sua dignidade e na sua relevância social.
OP: Colabora regularmente com a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, em Unidades Curriculares relacionadas às áreas de Nutrição e da Segurança Alimentar. De que modo é que considera relevante a intervenção de um Farmacêutico nestas áreas em particular?
LS: A Nutrição e a Segurança Alimentar são, muitas vezes, áreas subestimadas quando falamos da intervenção dos farmacêuticos. Mas, na realidade, são absolutamente centrais para a saúde pública e para a prevenção da doença. Hoje, sabemos que as doenças crónicas estão fundamentalmente ligadas ao estilo de vida. A obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares, tornaram-se as verdadeiras epidemias do século XXI.
A Nutrição, enquanto ciência, dá-nos ferramentas para atuar na prevenção, mas exige também uma integração com outras áreas do saber. E é aqui que o farmacêutico tem um papel distintivo: pela sua formação multidisciplinar, que abrange a bioquímica, a fisiologia, a farmacologia, a toxicologia, o farmacêutico está particularmente preparado para compreender os mecanismos através dos quais a alimentação influencia a saúde.
No campo da Segurança Alimentar, a intervenção é igualmente crucial. Garantir que os alimentos que chegam ao consumidor são seguros, livres de contaminantes, adequados do ponto de vista nutricional, é uma responsabilidade que exige rigor científico e capacidade de análise laboratorial, competências em que os farmacêuticos têm tradição e excelência.
Diria, portanto, que a relevância do farmacêutico nestas áreas reside na sua capacidade de fazer pontes: entre a ciência e a prática, entre a investigação e a vida quotidiana das populações. O nosso papel não é apenas identificar riscos, mas também educar, sensibilizar e promover escolhas informadas. E num país onde tanto ainda está por fazer em termos de literacia alimentar e em saúde, esta missão não é apenas atual: é urgente.
OP: No seu percurso académico, publicou diversos artigos científicos e participou ativamente na redação de diversos livros. Destes projetos, qual foi aquele que mais a marcou? E há alguma linha de investigação futura que gostasse de explorar?
LS: O projeto que mais me desafiou foi, sem dúvida, a investigação desenvolvida no âmbito do meu doutoramento. Consistiu em desenvolver e validar metodologias analíticas para a deteção e quantificação de resíduos de antibióticos em várias espécies de peixe de aquacultura, métodos que apliquei, depois, em amostras de espécies de aquacultura adquiridas em superfícies comerciais, em vários pontos do país.
Adicionalmente, estudei, ainda que numa vertente teórica, o impacto que a utilização de antibióticos na produção alimentar - em particular na aquacultura - tem na emergência e disseminação da resistência bacteriana. Trata-se de um dos problemas mais graves de saúde pública, a nível mundial, e ao qual, a meu ver, não tem sido dada a atenção devida. Sabemos hoje que a pressão seletiva exercida por estes fármacos, presentes em concentrações subterapêuticas durante longos períodos, em água e sedimentos, cria condições propícias para a emergência e seleção de estirpes resistentes e para a intensificação da transferência horizontal de genes e determinantes genéticos de resistência.
Está amplamente reconhecido que a circulação de genes de resistência antimicrobiana, e de bactérias resistentes, entre ecossistemas aquáticos, pecuária terrestre e ambiente humano - em ambos os sentidos - pode ter efeitos adversos muito significativos na saúde humana e animal, bem como na integridade dos ecossistemas aquáticos.
Este fenómeno traduz, de forma exemplar, o princípio de One Health – Uma Só Saúde: a consciência de que a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental são inseparáveis.
Esta é uma área que gostaria de continuar a explorar, agora numa vertente mais prática, avaliando a prevalência de bactérias resistentes em espécies de aquacultura e nos ecossistemas que envolvem estas explorações. Creio que é neste cruzamento entre investigação laboratorial, saúde pública e sustentabilidade ambiental que se joga parte importante do futuro da prevenção em saúde.
OP: Por último, que conselhos gostaria de deixar aos nossos leitores, maioritariamente Estudantes da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e futuros profissionais de saúde?
LS: O que vou dizer pode soar a cliché, mas é genuinamente o conselho que deixo: sejam a mudança que querem ver na profissão. Não se acomodem.
Nada de verdadeiramente transformador acontece sem que alguém dê o primeiro passo, por mais pequeno que pareça.
Sejam exigentes convosco próprios, mas nunca ao ponto de se perderem no processo. O futuro da profissão farmacêutica precisa de profissionais rigorosos, sim, mas também inteiros, criativos e humanos.
Não tenham medo de ser diferentes. O mundo farmacêutico é vasto, multifacetado e está em constante transformação. Precisamos de jovens que tragam ideias novas, que questionem o que parece imutável, que se atrevam a olhar para velhos problemas com olhos novos.
O futuro não se constrói repetindo o passado: constrói-se inovando, arriscando, explorando.
E, talvez o mais importante: nunca percam de vista a razão pela qual escolheram esta área. No centro de tudo está o doente, a comunidade, a saúde como bem comum. Não deixem que a burocracia, as dificuldades ou as desilusões vos roubem essa centelha inicial. No fim, ser farmacêutico é isto: usar a ciência para servir as pessoas, com rigor, com compromisso e com humanidade.
No fim, ser farmacêutico é isto: usar a ciência para servir as pessoas, com rigor, com compromisso e com humanidade.
TRANSFORMAÇÃO DA PREVENÇÃO, DO DIAGNÓSTICO E DO TRATAMENTO DAS DOENÇAS NEUROLÓGICAS
Por Maria Filipa Carvalho Banaco
No século XXI, a prática em saúde encontra-se profundamente marcada pela convergência entre ciência e tecnologia. O cérebro humano, outrora visto como um limite quase intransponível para a medicina, passou a ser analisado como um sistema de computação neuronal e um alvo central da farmacologia, que procura compreender de que maneira processos moleculares e neuronais podem ser modulados por fármacos no diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças. Se em tempos o objetivo era ultrapassar os obstáculos impostos pelas patologias neurológicas, hoje, a compreensão mais aprofundada da atividade cerebral abre caminho para soluções inovadoras que redefinem a própria prática médica e farmacêutica.
A neurocirurgia, como área de destaque, conheceu progressos notáveis ao longo do último século. Em Portugal, o contributo do Professor Egas Moniz foi determinante: considerado o pai da angiografia cerebral e um dos criadores da leucotomia pré-frontal (lobotomia), propôs nos anos 30 esta técnica que, à época desconhecendo-se os atuais medicamentos usados em Psiquiatria, representava o único tratamento para certos distúrbios psiquiátricos. Décadas mais tarde, o Professor Gazi Yasargil revolucionou a área com o desenvolvimento da microneurocirurgia, criando instrumentos específicos que permitiram avanços na microdissecção em cirurgias vasculares e tumorais.
Atualmente, a neurocirurgia beneficia de métodos cada vez menos invasivos. Procedimentos com incisões reduzidas, imagens de alta resolução e ferramentas assistidas por robótica aumentam a precisão cirúrgica e diminuem o impacto nos tecidos circundantes. A impressão 3D de próteses e biomateriais personalizados é outro campo em rápida expansão, permitindo soluções adaptadas às necessidades individuais dos pacientes. Aliada à Engenharia Genética, surgem ainda técnicas de terapia génica com recurso a vetores virais que permitem modificar a expressão de genes envolvidos em doenças neurológicas, ampliando as possibilidades terapêuticas.
Os dispositivos de neuromodulação - invasivos e não invasivos - constituem um dos maiores avanços recentes. Elétrodos implantados no cérebro já se revelam eficazes ao reduzir sintomas motores na doença de Parkinson. Já as técnicas não invasivas, como a estimulação magnética transcraniana, têm sido aplicadas em quadros de depressão e ansiedade. Por outro lado, a investigação em nanodispositivos promete, num futuro próximo, responder em tempo real às falhas de comunicação neuronal responsáveis por condições como a epilepsia.
Paralelamente, a inteligência artificial (IA) vem a adquirir um papel central. Modelos de aprendizagem profunda analisam imagens cerebrais, padrões de fala e comportamento, permitindo detetar precocemente doenças neurodegenerativas, muitas vezes antes da manifestação clínica dos sintomas. A IA contribui ainda para a identificação de biomarcadores, o desenvolvimento de tratamentos personalizados, a descoberta e reaproveitamento de fármacos, bem como para a monitorização remota através de dispositivos vestíveis.
“Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão.”
Prof. João Lobo Antunes (1944–2016)
APLICAÇÕES CLÍNICAS E IMPACTO NOS DOENTES
Doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, permanecem entre as principais causas de incapacidade e mortalidade em todo o mundo. Em muitos casos, quando os primeiros sintomas se tornam evidentes, os danos neuronais já ocorrem há vários anos, de forma irreversível. Daí a importância do papel do farmacêutico que aposta na prevenção: não apenas na dispensa de medicamentos, mas também na literacia em saúde, rastreio de sintomas iniciais, aconselhamento sobre adesão terapêutica e monitorização dos regimes farmacológicos.
As novas tecnologias oferecem respostas promissoras neste sentido. Pacientes beneficiam hoje de internamentos hospitalares mais curtos, menor dor pós-operatória e tempos de recuperação mais rápidos. O uso de neuronavegação e imagens intraoperatórias em tempo real permitem a neurocirurgiões preservar estruturas cerebrais delicadas, aumentando as taxas de sucesso cirúrgico em condições como estenose espinhal, hérnias discais e tumores cerebrais.
Do ponto de vista social, a neurotecnologia expande-se também para além do tratamento direto de patologias. Os implantes cocleares viabilizam a recuperação auditiva através da estimulação elétrica direta do nervo coclear, estabelecendo uma estreita relação com a saúde e funcionalidade do sistema nervoso central, enquanto dispositivos de reabilitação neurológica apoiam a recuperação de funções motoras após acidentes vasculares cerebrais. A integração de tecnologias digitais e de telemedicina torna o acompanhamento mais acessível e personalizado, aproximando os pacientes dos cuidados de saúde mesmo fora do ambiente hospitalar.
DESAFIOS FUTUROS: A ÉTICA, OS CUSTOS E OS NEURODIREITOS
Apesar dos progressos, subsistem desafios importantes. O elevado custo de algumas tecnologias coloca questões de acessibilidade e equidade, já que nem sempre as soluções mais modernas estão disponíveis a todos os doentes. Ao mesmo tempo, o avanço das neurotecnologias levanta questões éticas relacionadas com a proteção de dados pessoais, a privacidade neuronal e os chamados “neurodireitos”. Empresas privadas, como a Neuralink e a Kernel, desenvolvem interfaces cérebro-máquina que prometem ampliar as capacidades humanas e recolher grandes volumes de informação sensível. Este cenário exige regulamentação clara para prevenir riscos associados à manipulação de dados cerebrais, possíveis complicações neuropsiquiátricas ou uso indevido da tecnologia.
Assim, a prática clínica do futuro dependerá não apenas da incorporação de inovações, mas também da capacidade de garantir que estas sejam aplicadas com equidade, responsabilidade e respeito pela dignidade humana.
Os profissionais de saúde do século XXI encontram-se perante um cenário em que a farmacologia, a neurotecnologia e a farmacotecnologia oferecem ferramentas de enorme potencial para transformar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das doenças neurológicas. Contudo, permanece essencial que a inovação científica não se sobreponha aos valores humanos.
DA INVESTIGAÇÃO À INTERVENÇÃO:
O FARMACÊUTICO NAS DIVERSAS ÁREAS DA SAÚDE
O farmacêutico assume um papel de grande relevância no desenvolvimento de novas terapêuticas e na utilização e gestão seguras e eficazes dos medicamentos, intervindo desde a sua seleção e distribuição até à orientação personalizada de cada utente. Desta forma, promove ativamente o bem-estar e a saúde pública, colaborando estreitamente com outros profissionais de saúde.
Presente em diversos contextos como farmácias comunitárias, hospitais, laboratórios e indústria farmacêutica, afirma-se como um verdadeiro prestador de cuidados de saúde. A sua intervenção estende-se desde o aconselhamento individualizado à população até à participação ativa em campanhas de saúde pública, tendo sempre como prioridade a promoção da qualidade de vida e a saúde.
É urgente continuar a educar e esclarecer que a função do farmacêutico não se limita ao atendimento Importa destacar o seu papel na ligação entre a ciência e a prática clínica. O farmacêutico é responsável por traduzir o conhecimento técnico e científico em informação clara, acessível e útil para os utentes.
Num contexto marcado por desafios crescentes no acesso aos cuidados de saúde, os farmacêuticos assumem um papel estratégico na resposta às necessidades da população. Com a sua formação especializada, estão capacitados para intervir em áreas críticas como a adesão à terapêutica, o acompanhamento farmacoterapêutico e a deteção precoce de problemas de saúde, contribuindo para a sustentabilidade do sistema de saúde e para melhores resultados em saúde.
A prática farmacêutica assenta, assim, numa formação contínua e multidisciplinar, preparada para responder aos múltiplos desafios desta profissão.
Através do contacto direto com a realidade, o farmacêutico percebe como a investigação se traduz em benefícios concretos para os doentes - seja na descoberta de novos fármacos, no ajuste de posologias ou na deteção de interações medicamentosas.
Neste contexto, a promoção da saúde constitui um pilar essencial da atividade farmacêutica, exigindo uma abordagem centrada no doente, na qual a prevenção e a educação assumem tanta relevância quanto o próprio tratamento.
“Só seremos relevantes para a sociedade se formos capazes de ser imprescindíveis para melhorar a vida de alguém.”
António Hipólito de Aguiar
Entrevista à Senhora Diretora da Biblioteca das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra (BCSUC)
Prof.ª Doutora Joana Barbosa de Melo
O Pilão: Atualmente, quais são os principais objetivos da Biblioteca das Ciências de Saúde da Universidade de Coimbra?
Joana Barbosa de Melo: Em primeiro lugar, disponibilizar recursos científicos de elevado valor, com especial atenção à aquisição e manutenção de bases de dados relevantes nas áreas da saúde, de forma a responder às necessidades desta comunidade. De igual modo, assegurar um espaço físico confortável e funcional, que combine zonas de estudo individual e de trabalho colaborativo. A promoção da literacia da informação é essencial para todos os Estudantes que frequentam as nossas instalações, tendo-se mantido relevante o investimento na formação de utilizadores, através de sessões em dois momentos ao longo do ano letivo. Por fim, considera-se pertinente a promoção da leitura de lazer, através de iniciativas que incentivem hábitos de leitura para além do estudo académico, contribuindo para o bem-estar e equilíbrio dos estudantes.
OP: Que iniciativas têm sido desenvolvidas recentemente?
JBM: A BCSUC tem vindo a desenvolver iniciativas de âmbito cultural, de divulgação e melhoria contínua dos serviços, destacando-se:
• Criação da nova coleção de leitura de lazer “Take a break, take a book”, disponível no Cantinho de Leitura.
• Disponibilização da “Mesa de Ofertas”, um espaço onde se partilham livros e revistas para oferta livre;
• Desenvolvimento do jogo interativo “Quiz da Biblioteca” realizado em momentos-chave ao longo do ano, como o aniversário da Biblioteca ou eventos institucionais, nomeadamente o acolhimento aos novos estudantes;
• Melhorias no edifício e instalações, incluindo a requalificação das esplanadas e dos depósitos e a substituição faseada da iluminação por tecnologia LED, em linha com os princípios de sustentabilidade ambiental.
OP: Se pudesse implementar qualquer projeto sem limite de orçamento, qual seria?
JBM: Num mundo ideal, seria possível manter o funcionamento da Biblioteca 24 horas por dia, com todas as condições de segurança, apoio técnico e conforto, de forma a responder às necessidades dos utilizadores, especialmente em períodos de maior exigência académica. Seria possível, de igual modo, a criação de espaços de estudo modernos e adaptáveis, com reserva online, cabines insonorizadas para estudo individual ou em grupo, acesso a ecrãs interativos, mesas digitais para explorar modelos anatómicos e moleculares… Tudo pensado para responder às necessidades de quem estuda Ciências da Saúde.
OP: Qual é o papel da biblioteca no apoio ao ensino, investigação e prática clínica?
JBM: A Biblioteca afirma-se como um pilar essencial no apoio à formação académica e científica, promovendo o acesso à informação de qualidade, o desenvolvimento de competências e a valorização da investigação produzida na instituição, nomeadamente através de:
• Disponibilização de recursos científicos de elevada qualidade;
• Promoção da literacia da informação, através de ações de formação regulares dirigidas a estudantes, docentes e investigadores, com o objetivo de desenvolver competências na pesquisa, avaliação crítica e utilização ética da informação científica;
• Apoio direto à investigação e produção científica, nomeadamente através de orientação na utilização de recursos especializados, ferramentas de gestão bibliográfica e boas práticas na citação;
• Levantamento e tratamento de dados bibliométricos, a pedido das Faculdades ou de investigadores, com apoio na análise da produção científica e no uso de indicadores de impacto;
OP: Existe algo que gostaria que os utilizadores soubessem, mas que poucos sabem sobre a Biblioteca?
JBM: Apesar de divulgado na página web, poucos utilizadores conhecem o valioso acervo antigo da Biblioteca, guardado na Sala de Reservados. Ali estão 581 títulos da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, datados dos séculos XV a XVIII, incluindo cinco incunábulos, livros impressos nas primeiras décadas após a invenção da imprensa que são exemplares raros e de grande valor histórico. Destacam-se obras de autores como Avicena, Hipócrates, Galeno, Amato Lusitano e Jacob de Castro Sarmento, muitas provenientes do Mosteiro de Santa Cruz dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, e que foram dados à guarda da Universidade aquando da extinção das Ordens Religiosas em Portugal. Além disso, a Biblioteca conserva centenas de manuscritos do século XIX com registos clínicos detalhados do antigo Hospital da Universidade de Coimbra, documentos únicos sobre a prática e ensino médico da época.
OP: Qual a mensagem que gostaria de deixar aos Estudantes relativamente à utilização da Biblioteca durante o seu percurso académico?
JBM: Façam da Biblioteca também a vossa casa, acarinhem-na, usufruam dos excelentes espaços e recursos e, como em qualquer casa, cuidem dela e promovam sempre este espaço como um espaço seguro onde prevalece o respeito por todos. Estaremos sempre para vos acompanhar e ajudar no vosso percurso académico!
C’A TUNA ÀS COSTAS
Aquisição de soft skills
Pilão: Que habilidades interpessoais se desenvolvem naturalmente ao participar numa Tuna?
Phartuna: Creio que é unânime entre qualquer membro de uma tuna que a componente interpessoal é, talvez, onde se evidencia mais crescimento pessoal ao longo do tempo. A empatia, o espírito de equipa, a confiança no outro, o companheirismo e o espírito de entreajuda são talvez as qualidades interpessoais que mais evoluem ao participar numa tuna.
Rafael Fonseca, atual membro da Direção Artística
OP: Estar numa tuna exige espírito de equipa, sendo que muitas vezes é necessário colocar o bem coletivo acima do individual. Consegues dar um exemplo em que fizeste isso e o que aprendeste com essa situação?
P: Ir a um festival no meio de uma época de frequências, por exemplo. Era um fim de semana em que poderia estar a estudar, mas decidi ir a um festival, o que ajudou a tuna e, simultaneamente, aliviou um pouco a pressão das avaliações. No final, o festival correu bem e as avaliações também. Com esta situação aprendi que lido bem com o trabalho sob pressão e que não faz mal descontrair durante uma época mais desafiante.
Diana Nunes, atual membro da Direção Executiva
OP: Como é que as capacidades que adquiriste na Tuna contribuíram de forma positiva para o teu desenvolvimento académico?
P: A participação na tuna permitiu-me melhorar a minha organização pessoal. Ao estar envolvida em tantas atividades, aprendi a gerir o meu tempo de forma mais eficiente, o que teve um impacto positivo na minha produtividade académica. Organizar ensaios, eventos e outras atividades exigiu um planeamento rigoroso, algo que consegui também transpor para os meus métodos de estudo. Além disso, as amizades formadas com os membros da tuna proporcionaram uma rede de apoio, onde partilhamos os nossos conhecimentos, sessões de estudo e, frequentemente, cedemos materiais uns aos outros que nos auxiliam nos nossos estudos. A dinâmica da tuna, com a constante troca de experiências e de conversas com os restantes membros e pessoas envolvidas em todas as atividades, ajudou-me também a desenvolver um pensamento mais criativo, inovador e estratégico sobre inúmeros temas ligados com o nosso curso, o que se refletiu nas minhas abordagens nos projetos académicos.
Margarida Ferreira, antigo membro da Direção Executiva
OP: Houve algum momento particularmente desafiante durante a tua participação na tuna? Como o ultrapassaste e o que essa experiência te ensinou sobre ti?
P: Enquanto período desafiante sublinho o meu Mandato enquanto Presidente. Como é claro, ser Presidente exige uma responsabilidade contínua e acrescida, uma preocupação quase constante, uma equipa forte, definir objetivos e assegurá-los com ponderação, e, por muito complicado que possa ser em alguns momentos, também é muito gratificante. Aprendi a lidar com os desafios de gerir um grupo de trabalho, respetivas tarefas, gerir uma associação cultural estudantil, de estar numa posição de visibilidade e responsabilidade máxima. É bom termos objetivos e sermos “ambiciosos” na criação dos mesmos, mas, acima de tudo, sermos realistas com o que podemos ou não fazer. E claro, a perfeição não é alcançável, nem se calhar desejável, e é algo que temos de aceitar, sem nunca deixar de fazer o que achamos ser melhor. Entre muitas outras coisas que se vão aprendendo e desaprendendo ao longo do ano.
Catarina Neves, antigo membro da Direção Executiva
OP: No contexto do mercado de trabalho, o que responderias à questão: “O que aprendeste na tuna que te torna um/a candidato/a melhor?”
P: De certo modo, a desenvencilhar-me. A fazer muito com pouco de forma autónoma e desenrascada. As tunas têm recursos e meios escassos, mas provam que, apesar disso, são capazes de entregar projetos de elevada qualidade e excelência ao público e ao mundo do associativismo. Isto só é possível porque numa tuna os seus membros aprendem constantemente a fazer coisas novas com o pouco disponível. E, no meio desse improviso e desembaraço, aprendi a não esperar pela solução perfeita, mas sim a, com o grupo, encontrá-la, moldá-la e executá-la com o que há, confiando na nossa capacidade de adaptação, de resolver e de seguir em frente.
João Afonso Sousa, antigo membro da Direção Executiva
OP: O que é que a Tuna te ensinou que nenhuma unidade curricular do curso poderia ensinar?
P: A Tuna ensinou-me o verdadeiro valor da entreajuda, do espírito de grupo e da resiliência emocional. Gerir emoções sob pressão, lidar com imprevistos com calma e aprender a viver e aproveitar momentos simples são aprendizagens que nenhuma aula consegue transmitir. Só a vivência intensa de uma Tuna, nomeadamente a Phartuna, proporciona isso.
Beatriz Neto, atual membro da Direção Artística
C’A TUNA ÀS COSTAS
Aquisição de soft skills
O Pilão: Que habilidades interpessoais se desenvolvem naturalmente ao participar numa Tuna?
Imperial TAFFUC: A experiência de pertencer a uma Tuna expõe-nos a desafios fora do comum e dá-nos a oportunidade de conhecer outras realidades. Aprendemos a gerir e a adaptar as situações para o melhor do grupo. A capacidade de “multitasking” foi uma das competências mais importantes que desenvolvi ao integrar este grupo. Aprendi a identificar o que é prioritário e a alternar entre diferentes atividades para alcançar todos os nossos objetivos. A capacidade de ver o que as diversas pessoas do grupo podem fazer para cada atividade da Tuna e perceber as qualidades individuais, usando-as em benefício comum é algo que venho desenvolvendo no meu percurso na direção. Na Tuna, todos os integrantes têm o mesmo objetivo: assegurar a evolução e a continuidade do grupo, mas também divertir-se. Deste modo, desenvolve-se uma necessidade de interajuda, conseguindo um melhor resultado com a ajuda de todos.
Pedro Delgado, atual membro da Direção Executiva
OP: Estar numa tuna exige espírito de equipa, sendo que muitas vezes é necessário colocar o bem coletivo acima do individual. Consegues dar um exemplo em que fizeste isso e o que aprendeste com essa situação?
IT: Enquanto membro integrante do artístico da Imperial TAFFUC, quando percebo que tenho colegas com dificuldades numa determinada música, seja na parte vocal ou instrumental, não posso apenas focar-me no meu instrumento ou na minha voz, procuro ajudar todos. A Tuna é um grupo, e só atingimos o sucesso quando todos trabalhamos para chegarmos ao nosso melhor. O grupo não depende apenas de cada elemento individualmente, mas sim do esforço coletivo.
João Menano, atual membro da Direção Executiva
OP: Como é que as capacidades que adquiriste na Tuna contribuíram de forma positiva para o teu desenvolvimento académico?
IT: O planeamento de tudo o que faço é algo que devo à Tuna. Fazer parte desta é também ter de dividir o meu tempo com ela. Aprendi a planear a minha vida para ter tempo para tudo. Consigo delinear a minha semana para saber o que tenho fazer e quais são os tempos onde posso divertir-me sem preocupações.
Pedro Delgado, atual membro da Direção Executiva
OP: Houve algum momento particularmente desafiante durante a tua participação na tuna? Como o ultrapassaste e o que essa experiência te ensinou sobre ti?
IT: O momento mais desafiante que passei, até hoje, foi a organização do nosso festival, “VI IMPERIVS”, no ano passado, sendo esta uma experiência nova para muita gente. A comunicação, o trabalho em equipa e o respeito mútuo foram fundamentais para a concretização deste evento, que nos exigiu muito, mas que, no fim, compensou todo o esforço envolvido.
João Menano, atual membro da Direção Executiva
OP: No contexto do mercado de trabalho, o que responderias à questão: “O que aprendeste na tuna que te torna um/a candidato/a melhor?”
IT: A minha participação na Tuna destaca-me em relação aos outros candidatos pela minha capacidade de trabalhar em grupo, algo que fiz durante vários anos, uma vez que na Tuna temos de trabalhar juntos para o bem coletivo. Durante a vida tunante experienciei diversos ambientes que me fazem pensar fora da caixa, arranjando soluções não convencionais. A capacidade de liderança foi algo que desenvolvi ao longo do meu percurso na direção e que me permitiu adquirir experiência em liderar um grupo e delegar as diversas pessoas para um objetivo comum.
Pedro Delgado , atual membro da Direção Executiva
OP: O que é que a Tuna te ensinou que nenhuma unidade curricular do curso poderia ensinar?
IT: A Tuna fomenta-nos a mentalidade de que há sempre algo a ser feito e que todos têm de assumir o seu papel para o objetivo comum. Existe a necessidade de por vezes ter de abdicar do nosso tempo pessoal em prol do bem coletivo. As unidades curriculares são específicas da nossa formação académica, fornecendo-nos as ferramentas para termos sucesso na nossa profissão, mas não nos preparam para os desafios da vida.