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O décimo planeta

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Março 2006-N°121

JK: A CRIAÇÃO DE UM MITO

FLORESTAS EM UMA CRATERA

NORDESTE É MAIS VULNERÁVEL AO AQUECIMENTO GLOBAL

Eficiência total. O tempo todo.

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POLÍTICA CIENTIFICA

28

FINANCIAMENTO

BNDES cria linhas de crédito e governo articula fundo para estimular desenvolvimento tecnológico das empresas

30

LEGISLAÇÃO

Governo paulista cria sistema de parques tecnológicos e lança projeto de lei estadual de Inovação

31

FOMENTO

FAPESP aumenta número de bolsas concedidas para 2006 e reajusta seus valores em 20%

CIÊNCIA

42

PALEOBOTANICA

Pólens de uma cratera em São Paulo evidenciam as mudanças ambientais dos últimos 100 mil anos

46

GENOMICA

Equipes de cinco estados identificam seqüências de DNA que podem tornar o eucalipto mais resistente a doenças

54

MEDICINA

Estudo com 520 mil casais revela o impacto causado pela doença ou morte de um cônjuge

TECNOLOGIA

64

ENGENHARIA

BIOMÉDICA

56

VIROLOGIA

Formas recombinantes do HIV complicam a epidemia de Aids no Brasil

Processamento de imagens de mamografia detecta lesões com mais precisão e reduz o número de biópsias

68

GEOLOGIA

Novo método de sensoriamento com imagens de satélite facilita a identificação de jazidas

72

NOVOS MATERIAIS

Revestimento cerâmico esteriliza instrumentos médicos e odontológicos

74

QUÍMICA

Pesquisadores da USP desenvolvem método para produção de tintas quase livres de odor

76

PETRÓLEO

Prêmio da Petrobras revela novos métodos e novos profissionais para a indústria petrolífera

79

MEDICAMENTOS

Instituto Butantan produz biofármaco para pulmão de bebês prematuros

HUMANIDADES

86

ARTES CÊNICAS

Teatro Municipal ajudou na modernização urbana e estética da capital paulista

90

LITERATURA

Edusp lança volumes ilustrados sobre os livros de José e Guita Mindlin

SEÇÕES

A IMAGEM DO MÊS 3

CARTAS 8

CARTA DA EDITORA 9

MEMÓRIA 10

ESTRATÉGIAS 18

LABORATÓRIO 32

SCIELO NOTÍCIAS 58

UNHA DE PRODUÇÃO 60

RESENHA 94

LIVROS 95

FICÇÃO 96

CLASSIFICADOS 98

Capa: Hélio de Almeida Foto: Observatório W.M. Keck

24

AMBIENTE

Indicador mostra como a saúde pública dos estados brasileiros está vulnerável às mudanças climáticas

0

BOTÂNICA

Versão eletrônica da Flora brasiliensis amplia o acesso ao conhecimento sobre as plantas do Brasil

36

ASTROFÍSICA

Astro distante e gélido é forte candidato a décimo planeta do sistema solar

12

Gilberto Câmar. diretor-gerafdo Inpe, propõe" um programa^ espacial £Í voltado para as necessidades nacionais 1 I

80

HISTÓRIA1

Acadêmicos apo? excessos em romantização do ex-presidente Jusc Kubitschek

CAPA

Pesquisa Brasil

Rádio Eldorado AM

Sintonize 700 kHz

Toda semana, em meia hora, você tem:

Novidades de ciência e tecnologia

Entrevistas com pesquisadores

Profissão Pesquisa

Memória dos grandes momentos da ciência

E o que não poderia faltar: sua participação nas seções

Pesquisa Responde

Promoção da Semana

Apresentação Tatiana Ferraz

Comentários Mariluce Moura

Diretora de redação de Pesquisa FAPESP

Sábados, às 12h30

Reprise aos sábados às 19h30 e aos domingos às 14h LDORADO Hz

www.radioeldoradoam.com.br

Ciência eTecnologia no Brasil FAPESP

www.revistapesquisa.fapesp.br

MEMÓRIA

18.02.2006

Apresentadora

- Se você olhar para o céu à noite, com sorte vai deparar com a Lua ainda cheia. Mas quem fez o mesmo no distante 20 de julho de 1969 certamente viu mais do que uma Lua: enxerqou uma conquista humana que se fazia naquele momento. Na tarde daquele dia, o homem finalmente pisava na Lua. Uma equipe composta por três americanos chegou bem pertinho do satélite, a bordo da nave espacial Apollo 11. Os astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin desceram ao solo lunar num módulo de pouso, enquanto Michael Collins ficou circundando a Lua. Em duas horas, eles colheram amostras do solo e se muniram de informações científicas. Armstrong fez um pronunciamento que ficou muito conhecido. Eis a tradução de algumas frases que ele disse:

"Um pequeno passo para um homem, um gigantesco salto para a humanidade. A superfície é fina e poeirenta, aderindo à sola e à lateral das minhas botas."

PESQUISA RESPONDE

25.02.2006

Mariana Muniz, 25 anos, ouvinte de São Paulo

- Por que as formigas param para se cumprimentar quando se encontram?

Carlos Ferreira Brandão, biólogo do Museu de Zoologia, da Universidade de São Paulo

- As formigas são seres sociais. Numa colônia todos são parentes. Sua sociedade é baseada na comunicação, que pode

Formigas: insetos sociais, com comunicação mecânica e química

acontecer de várias formas. Pode ser a comunicação mecânica, tocando as antenas - que deve ser a que a ouvinte viuou uma comunicação química. Elas têm glândulas na superfície do corpo que eliminam alguns odores. Para as formigas, esses odores significam que elas devem realizar alguma ação, que elas devem modificar o seu comportamento. As formigas têm essa forma de comunicação muito elaborada porque sua organização social é muito complexa. São insetos que vivem na Terra há mais de 100 milhões de anos. Elas tiveram tempo de desenvolver formas bem distintas de comunicação e, portanto, de socialidade.

ENTREVISTA 11.02.2006

Apresentadora

- O que deve acontecer de significativo na ciência brasileira neste ano?

Sérgio Rezende, ministro da Ciência e Tecnologia - Uma evolução do que vem acontecendo nos últimos anos. A ciência brasileira, como se sabe, é muito nova. Começa-

mos a formar pesquisadores com mestrado e doutorado há apenas 40 anos. E era natural que essa formação fosse voltada para a área acadêmica. Nos últimos anos, o que está acontecendo é um amadurecimento dessa área. As empresas perceberam que precisam inovar. Se não inovarem, não vão competir, não vão crescer. Esse amadurecimento se dá de diversas formas. As medidas e ações do governo federal têm contribuído não só para aumentar a competência científica e tecnológica do sistema nacional, mas também para aproximar a comunidade de pesquisa acadêmica e as empresas. Nes-

se sentido, um grande instrumento deste ano, de 2006, é a subvenção a empresas. Até a aprovação da Lei de Inovação, não havia como repassarmos um recurso não reembolsável para que as empresas desenvolvessem pesquisa e desenvolvimento. Neste ano teremos também uma ampliação dos recursos destinados à ciência. No governo Lula, a cada ano, o valor do Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) tem aumentado. Em 2005 investimos R$ 780 milhões e, neste ano, devemos atingir R$ 1 bilhão.

PROFISSÃO PESQUISA 04.03.2006

Rezende: ciência na empresa

Sérgio Adorno, sociólogo do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo - A violência é um dos principais problemas da sociedade brasileira. Sucessivos governos têm que enfrentar a questão de como reduzir a violência e como oferecer maior segurança à população. Afinal de contas, o direito à segurança é um direito consagrado nas nossas Constituições. Mas, para que haja uma ação eficaz, é necessário o conhecimento científico baseado em pesquisas e em análises de séries históricas que nos permitam ver a evolução do crime, ver quem está se envolvendo no mundo do crime e verificar quem são suas vítimas potenciais. Também é importante fazer pesquisa para saber em que medida as políticas de contenção da violência têm conseguido, se é que têm conseguido, diminuir ou conter o crime dentro do estado democrático de direito. Portanto, esse tipo de estudo é fundamental para que possamos ter uma sociedade mais justa.

Pesquisa

As reportagens de Pesquisa FAPESP retratam a construção do conhecimento que será fundamental para o desenvolvimento do país. Acompanhe essa evolução.

Números atrasados

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Site da revista

No endereço eletrônico www.revistapesguisa.fapesp.br você encontra todos os textos de Pesquisa FAPESP na íntegra e um arguivo com todas as edições da revista, incluindo os suplementos especiais.

No site também estão disponíveis as reportagens em inglês e espanhol.

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O

Cartas

cartas@fapesp.br

Nanotecnologia

Obrigado pela oportunidade que a revista Pesquisa FAPESP nos deu na reportagem "Nanotubos no mercado" (edição 118). Recebi inúmeros telefonemas e e-mails de todo o país com algumas vendas e muitas pessoas e instituições interessadas em comprar nanotubos de carbono.

Luiz O. LADEIRA Universidade Federal de Minas Gerais

Belo Horizonte, MG

Rádio

Semanalmente escuto o programa Pesquisa Brasil na Rádio Eldorado AM e observo que é muito comum o tema musical que fecha determinados comentários de Mariluce Moura, diretora de redação da revista Pesquisa FAPESP, ir sempre para o lugar-comumdecantores como Chico Buarque e Caetano Veloso. Por que não trazer canções de pessoas com outra visão do mundo e do Brasil?

cação não é apenas para doutores, mestres e intelectuais.Até mesmo alunos que estão disputando vagas em universidades públicas precisam se atualizar em diferentes áreas do conhecimento e não apenas com o que foi aprendido no ensino médio.Acharia interessante que escolas públicas do Brasil recebessem ou até mesmo fizessem a assinatura da revista como fonte de pesquisa.

DIONES CHARLES COSTA DE ARAúJO Universidade Católica de Brasília Samambaia Sul/DF

EMPRESA QUE APOIA A PESQUISA BRASILEIRA

Pesquisa FAPESP proporciona uma divulgação científica de excelente qualidade e assim estimula os pesquisadores a vencer barreiras e garantir o reconhecimento de nossa ciência.

l}> NO

VARTIS

TropiNwt.org

MARCOS DUARTE São Paulo, SP

Nota da redação: Sugestão aceita, Marcos.

Revista

Cumprimento a revista Pesquisa FAPESP pelas excelentes edições mensais.Vejo que o Brasil tem alto poder científico e tecnológico, pouco divulgado, mas a revista está aí para mostrar o que acontece no país e no mundo. Quero ressaltar que a publi-

MARIANA BAIOCCHI Universidade Católica de Brasília Brasília, DF

Correções

A ilustração da reportagem "Choque de partículas" (edição 120) é de Hélio de Almeida.

Na reportagem"Van Dyck- Falso ou verdadeiro?" (edição 120), as partes brancas retocadas da pintura atribuída ao mestre flamengo apresentam o pigmento conhecido como branco-de-titânio, que só começou a ser utilizado a partir do século 20, e não o branco-de-zinco, pigmento usado no século 19.

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas®fapesp.br, pelo fax (II) 3838-4181 ou para a rua Pio XI, 1.500, São Paulo, SP, CEP 05468-901. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

Pesquisa

CARLOS VOGT

PRESIDENTE

MARCOS MACARI

VICE-PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR

ADILSON AVANSI DE ABREU, CARLOS VOGT, CELSO LAFER, HERMANN WEVER, HORÃCIO LAFER PIVA, HUGO AGUIRRE ARMELIN.

JOSÉ ARANA VARELA, MARCOS MACARI, NILSON DIAS VIEIRA JÚNIOR, VAHAN AGOPYAN, YOSHIAKI NAKANO

CONSELHO TÉCNICO-ADM1N1STRAT1VO

RICARDO RENZO BRENTANI

DIRETOR PRESIDENTE

JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER

DIRETOR ADMINISTRATIVO

CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ

DIRETOR CIENTIFICO

PESQUISA FAPESP

CONSELHO EDITORIAL

LUIZ HENRIQUE LOPES DOS SANTOS (COORDENADOR CIENTÍFICO), CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ, FRANCISCO ANTÔNIO BEZERRA COUTINHO, JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER,

LUIZ EUGÊNIO ARAÚJO DE MORAES MELLO, PAULA MONTERO, RICARDO RENZO BRENTANI, WAGNER DO AMARAL, WALTER COLLt

DIRETORA DE REDAÇÃO

MARILUCE MOURA

EDITOR CHEFE NELDSON MARCOLIN

EDITORA SÊNIOR

MARIA DA GRAÇA MASCARENHAS

DIRETOR DE ARTE HÉLIO DE ALMEIDA

EDITORES

CARLOS FIORAVANTI (CIÊNCIA), CARLOS HAAG (HUMANIDADES), CLAUDIA IZIQUE (POLÍTICA CST), HEITOR SHIMIZU (VERSÃO ON-LINE), MARCOS DE OLIVEIRA (TECNOLOGIA)

EDITORES ESPECIAIS FABRÍCIO MARQUES, MARCOS PIVETTA

EDITORES ASSISTENTES

DINORAH ERENO, RICARDO ZORZETTO

CHEFES DE ARTE

JOSÉ ROBERTO MEDDA, MAYUMI OKUYAMA ARTE FINAL

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FOTÓGRAFOS

EDUARDO CÉSAR, MIGUEL BOYAYAN

COLABORADORES

ANA LIMA, ANDRÉ SERRADAS (BANCO DE DADOS), BRAZ, BRUNO SIMÕES, EDUARDO GERAQUE (ON-LINE), FRANCISCO BICUDO, GONÇALO JÚNIOR, JAIME PRADES, LAURABEATRIZ, MANU MALTEZ, MÁRCIO GUIMARÃES DE ARAÚJO, MARGÔ NEGRO, SÍRIO J. B. CANÇADO, THIAGO ROMERO (ON-LINE) E YURI VASCONCELOS ASSINATURAS TELETARGET

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Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da FAPESP

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GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Carta da Editora

Um novo planeta e a velha pergunta sobre nossa origem

Só muito raramente Pesquisa FAPESP apresenta como tema de capa algo alheio ao repertório da produção de ciência, tecnologia ou humanidades no país. É natural que assim seja, porque o foco, a razão de ser desta revista, e isso é sobejamente conhecido, é a pesquisa científica e tecnológica feita no Brasil. Eventualmente, contudo, a liberdade editorial, que é sempre saudável conselheira, provoca um olhar um tanto diferente, uma visada para além do hábito, e daí nasce a pergunta: por que não? Por que não este determinado assunto? Por que não esta descoberta com a qual nós, brasileiros, nada tivemos diretamente a ver e, no entanto, açula a nossa imaginação do mesmíssimo modo como convoca a de nossos semelhantes do mundo inteiro? E isso porque, digamos, em última instância - expressão que nos era tão cara entre o final dos anos 60 e os 70 do século passado a ponto de se ter carregado de afetividade para minha geração -, trata-se de uma descoberta que nos remete à complexa questão original de nossa humanidade. Ou seja: quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Toda vez que um estudo, uma proposição científica ou uma descoberta mexem mesmo que indiretamente com isso, eles provocam aquela curiosidade universal, aquela enorme atenção, que todo mistério longamente e talvez para sempre insolúvel galvaniza. E aí os limites político-geográficos perdem temporariamente sua crucial importância, subsumidos que ficam em nossa universal humanidade.

Essas considerações vêm, claro, a propósito da escolha da capa da revista de março.A possibilidade de ser um planeta o astro gelado e longínquo, situado para além de Plutão, para além das regiões que até há pouco tínhamos como os últimos confins de nosso sistema solar, se impôs como um assunto com força para quebrar nossa regra das capas brasileiras, por seu potencial para mudar, como poderia dizer o velho Thomas Kuhn, um paradigma para lá de sólido.

Afinal, já há algumas gerações repetimos que são nove os planetas do sistema solar. Foram muitos milhões de exemplares impressos dos livros didáticos de geografia para as primeiras séries de nossa educação formal a repetir no mundo inteiro alista dos nove, abertapor Mercúrio e fechada por Plutão, e com as sugestões sub-reptícias de que a vida só teria, talvez, uma remotíssima possibilidade de existir ou ter existido algum dia, além da Terra, em nosso vizinho Marte, o planeta vermelho.

Enfim, o (talvez) décimo planeta com sua lua tornou-se a capa a partir de uma detalhada reportagem do editor especial Marcos Pivetta, que entre outras fontes internacionais e nacionais ouviu Mike Brown, o próprio descobridor de Xenaé esse o apelido provisório do astro, também provisoriamente chamado, em linguagem mais técnica, de 2003 UB313. Feito isso, só nos resta aguardar a decisão da União Internacional dos Astrônomos, possivelmente em sua assembléia geral que será realizada em agosto próximo em Praga, na República Tcheca, a respeito do status do astro distante feito de rocha e gelo.

Depois de viajar pelo espaço, aportamos na Terra Brasilis, em tempos não muito remotos. Esta edição da revista, aproveitando a oportunidade da minissérie sobre o ex-presidente Juscelino Kubitschek que a Rede Globo tem posto ante nossos olhos de terça a sexta-feira, em hora avançada talvez além do conveniente para a maioria dos telespectadores, propõe uma leitura reflexiva sobre como se deu a construção da atual imagem de JK. Vale a pena ler a partir da página 80 a reportagem de Gonçalo Júnior em torno de alguns estudos que tentam dar conta da diferença entre a percepção que se tinha do presidente que construiu Brasília, enquanto ele estava no cargo, e as imagens pelas quais tentamos revelo e compreendê-lo hoje, no contexto da história política recente deste país.

MARILUCE MOURA - DIRETORA DE REDAçãO

A era do plástico

Há cem anos era inventada a primeira resina sintética

Modelo de rádio em baquelite usado a partir de 1930

uando perguntaram ao inventor e empresário Leo Hendriz Baekeland por que havia entrado no ramo das resinas sintéticas, ele respondeu sem hesitar: "Para ganhar dinheiro". Baekeland (1863-1944), belga radicado nos Estados Unidos desde o final do século 19, não era apenas um químico brilhante, mas também um empreendedor de visão. Antes de criar a baquelite, o primeiro plástico sintético, ele inventou em 1893 um papel de impressão fotográfico sensível a luz artificial, o Velox, e o vendeu seis anos mais tarde para George Eastman, criador Leo Baekeland

da Kodak, por quase US$ 1 milhãosoma astronômica para a época. Rico aos 36 anos, o químico começou a procurar outro desafio. E o achou em meio a um sério problema da crescente indústria elétrica: onde obter isolantes abundantes e a baixo custo? Por séculos a solução esteve na goma-laca, produto feito a partir de uma resina natural produzida por cochonilhas, um parasita (Laccifer lacca) que habita árvores da Ásia. Mas com a rápida industrialização da eletricidade a demanda por goma-laca explodiu. Baekeland decidiu entrar na corrida para achar um substituto sintético. Por três anos ele leu tudo sobre fenóis e formaldeídos - substâncias sintéticas abundantes e baratas - e repetiu

experiências já feitas. Ele sabia que a chave estava em interromper no momento certo a polimerização (processo no qual moléculas pequenas se agregam para formar macromoléculas, mais longas). Usou todos os solventes conhecidos, mas não chegava a um produto sintético parecido com a goma-laca. Ao perceber que o fenol e o formaldeído juntos resultavam em uma substância dura, Baekeland deu novo rumo à pesquisa: por que não fazer uma resina que pudesse ser fundida e modelada? Em vez de retardar a polimerização, ele a apressou empregando calor e pressão. Usou uma máquina autoclave e obteve uma massa cor de âmbar que podia ser transformada em qualquer objeto. Começava ali a era do plástico.

Telefone da Kellog da década de 1920

automático de disco

Boneca de baquelite: múltiplos usos

O químico chegou a esse resultado em 1907 e o apresentou formalmente à Sociedade Americana de Química dois anos depois. Por ser resistente ao calor, podendo ser laminada e moldada na fase inicial da produção e ter baixo custo, a baquelite teve muitas aplicações, além de ser utilizada como isolante pela indústria elétrica. Era conhecida como o "material dos mil usos": de rádios a bijuterias, de brinquedos a telefones, de bolas de bilhar a máquinas fotográficas. Como não podia ser refundida, virou até moeda na Indonésia durante a Segunda Guerra Mundial. "Com o desenvolvimento de novos plásticos, menos rígidos, mais resistentes e leves, a baquelite perdeu espaço em todos os mercados a partir dos anos 1960", diz Roberto Mendonça Farias, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo de São Carlos e do Instituto Multidisciplinar de Materiais Poliméricos.

Quanto a Baekeland, ele atingiu seus objetivos. Fundou a General Bakelite Corp. e tornou-se ainda mais rico.

Aparelho

Por um novo programa espacial

fechado círculo onde ocorrem as pesquisas espaciais brasileiras começou 2006 sob holofotes. Dois fatos contribuíram para isso. O primeiro é a iminente ida do tenente-coronel Marcos Pontes ao espaço. Depois de oito anos, ele deverá embarcar no final deste mês na nave russa Soyus 10 para uma temporada na Estação Espacial Internacional. O segundo fato foi a nomeação do engenheiro eletrônico Gilberto Câmara para a direção geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A atenção recebida pelo primeiro astronauta brasileiro é fácil de entender - é até previsível. Mas a promoção de um diretor-geral do Inpe não costuma chamar atenção. Normalmente quem dirige o instituto não tem por hábito fazer declarações polêmicas ou despertar a curiosidade da comunidade científica. Escolhido por um Comitê de Busca do Ministério da Ciência e Tecnologia, Gilberto Câmara, 49 anos, começou sua gestão de modo diferente. Logo na posse, em dezembro de 2005, se convidou para conversar com outros pesquisadores na sede da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em São Paulo, no início deste ano. Nessa reunião, ele deu a linha de sua direção: é preciso lutar por um programa espacial que seja do tamanho do Brasil. Ou, em outras palavras: os programas nacionais tecnológicos precisam estar voltados para as necessidades brasileiras. "Não é só colocar astronauta no espaço", disse na

ocasião. Também se declarou aberto à críticas e sugestões que a comunidade científica deseje fazer ao instituto ou aos programas desenvolvidos lá.

Natural de Fortaleza, Câmara cursou o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e fez toda sua carreira no Inpe, onde entrou em 1980. Nos últimos anos vem liderando a equipe de pesquisa e desenvolvimento em geoprocessamento e coordenou a Observação daTerra, um centro do Inpe que trabalha nos campos de sensoriamento remoto e geoprocessamento, levantamento de recursos naturais e monitoramento do meio ambiente. Publicou quatro livros, mais de 120 artigos, além de textos sobre política científica e tecnológica e divulgação da ciência. É casado com Vera Lúcia, com quem tem uma filha, Anita, de 20 anos, estudante de filosofia.

Seu interesse pela ciência rivaliza com a paixão pela música. "O melhor amigo do homem não é o cachorro. É o iPod. O iPod é o cachorro digital", diz ele se referindo ao tocador de música e vídeo digital, na prática um computador portátil do tamanho de um rádio pequeno que pode armazenar milhares de faixas. Câmara ouve música o tempo todo: no carro, no trabalho, ao caminhar. Criou até um blog onde tenta difundir a música contemporânea erudita. Nele, escreve sobre Iannis Xenakis, Pierre Boulez ou Bela Bartók, entre outros. Enfim, um engenheiro eclético.

Desde que assumiu a direção geral do Inpe o senhor tem pregado um reposicionamento do Programa Espacial Brasileiro para adequá-lo ao país. O que precisa mudar?

Hoje temos uma questão que remete à lógica de desenvolvimento tecnológico que o Brasil teve nos anos 1970 e 1980. Os grandes programas tecnológicos daqueles anos, como o nuclear, o espacial e o de informática, por exemplo, tinham uma lógica que seguia o modelo de substituição de importações. Deveríamos ter a tecnologia aqui porque o Brasil iria ser autônomo em cada uma dessas áreas.A idéia era: primeiro desenvolvo a tecnologia toda, depois repasso os resultados para a sociedade. Essa foi um pouco a lógica da política de informática. Pagava-se muito caro para ter computador enquanto se desenvolvia a tecnologia no Brasil. Esse modelo está

em crise. Eu digo que, neste modelo, o Brasil está a serviço do programa. Hoje os programas nacionais tecnológicos precisam estar voltados para as necessidades brasileiras. Eles têm que convencer a sociedade de que vão resultar em benefícios concretos, rápidos e operacionais. E a partir desse convencimento a sociedade tem que se dispor a financiar a tecnologia. É isso que chamo de um programa a serviço do Brasil ou um programa espacial do tamanho do Brasil.

O senhor pode dar alguns exemplos?

O que significa o "tamanho do Brasil"? É algo que não vai embora, que não se perde. São as dimensões geográficas que nós temos (por exemplo, a Amazônia), as dimensões ambientais (por exemplo, o Pantanal, o Cerrado, o Semi-Árido nordestino, nossas cidades). São também as dimensões de demanda econômica da sociedade brasileira, na questão de telecomunicações e GPS [Sistema Global de Posicionamento por Satélite, na sigla em inglês]. Todas essas são necessidades da sociedade brasileira atendidas pelo programa espacial. O exemplo mais evidente é o combate ao desmatamento da Amazônia, no qual o programa espacial tem contribuição importante. Que melhorias podemos fazer em novos sensores e satélites para que a nossa capacidade de monitorar, controlar e evitar desmatamento na região seja maior ainda? Esse é um programa que parte primeiro da necessidade do Brasil, e não da substituição de importações ou da tecnologia. Isso é o que eu chamo de um programa do tamanho do Brasil.

Essa mudança não depende só do Inpe, mas também da Agência Espacial Brasileira e do Ministério da Ciência e Tecnologia. Como lidar com esta questão? Os americanos têm um termo para isso: evangelização. Ou, como chamávamos anteriormente: ganhar corações e mentes. Esta questão é um debate que tem de se tornar público. Queremos mostrar que teremos um programa espacial coerente, mais forte, que trará benefícios, como uma capacidade tecnológica melhor. Vou dar um exemplo: temos hoje o sistema Detecção de Desmatamento em Tempo Real, o Deter, que utiliza imagens dos satélites americanos Terra e Acqua. Segundo as infor-

mações da Nasa, eles terão uma vida útil de mais três anos. Se quisermos continuar com capacidade de monitoramento em tempo real da Amazônia depois desse prazo teremos de arrumar uma solução. Isso sugere que devemos lançar, em 2009, um ou mais satélites que nos dêem essa capacidade diariamente. Isto é ótimo, porque aponta para uma data firme. E uma data definida é a melhor coisa para um programa. Programas apenas voltados para tecnologia sempre podem ser adiados porque, afinal de contas, autonomia tecnológica não tem data para se conseguir. Então podemos adiar um, dois, três anos, como aconteceu com vários programas extremamente importantes no Brasil. Como na área nuclear, por exemplo. É sempre um motivo para a área econômica do governo dizer: "Ah, mas se não tem data, se é só uma questão de autonomia tecnológica, a gente espera mais um ano".

O problema é que esses grandes projetos tecnológicos estão sempre comprometidos pela falta de dinheiro, o que dá margem para mais adiamentos. Ao estabelecer metas e datas, na verdade, o que estabelecemos são desafios. Com a mistura adequada de tecnologia feita no Brasü e alguma absorção de tecnologia de fora, nós vamos conseguir cumpri-los. O que a história da engenharia no mundo mostra é que os grandes sucessos são feitos a partir de metas muito firmes estabelecidas em cronograma. Os engenheiros são forçados a usar toda a sua habilidade, toda a sua criatividade, para resolver o problema. O exemplo clássico é o discman da Sony, um caso de engenharia famoso. O chefe dos engenheiros da Sony mandou construir uma pequena caixa de madeira e disse para a sua equipe: "Quero um tocador de CD que tenha a dimensão desta caixa e um peso menor do que 1 quilo. Não me importa se vocês vão colocar cigarras ou gafanhotos dentro da caixa, mas dêem um jeito de isto produzir som. E quero isto em um ano". Foi feito.

Em um ano?

Em um ano. A história ficou famosa. Os engenheiros, durante madrugadas de insônia, chegavam a considerar trocar a caixa por uma outra maior. Mas

não o fizeram e construíram o que foi pedido. Há outros exemplos nos quais o tempo era uma restrição e mesmo assim os objetivos foram alcançados no prazo estabelecido.

Esse é um exemplo da área privada, acostumada com prazos e concorrência. No caso público sabemos que as complicações e as insônias são maiores.

Não há dúvida. Mas o que acontece é que todos os exemplos dos anos recentes indicam que há uma enorme restrição da política econômica e até, por extensão, da sociedade a programas tecnológicos sem data. O essencial é que exista uma meta e ela seja uma meta do Estado brasileiro. Com isso temos chance-não querdizerque sempre teremos sucesso - de influenciar o governo, para convencê-lo de que haverá benefício para a sociedade e por isso as metas de cronograma têm que ser cumpridas. Infelizmente, o argumento de que"ciência e tecnologia é bom para o Brasil" chegou no seu limite de financiamento.

Isto é, apenas falar bem de ciência e tecnologia não resolve nada.

Nada, nada. Esse discurso chegou ao nível da trivialidade, ou seja, ele é aceito por todos, ninguém questiona. O perigo de um argumento desse tipo é que ele se esgota em si mesmo. É preciso haver bens tangíveis no horizonte, benefícios palpáveis e aí não teremos dificuldades de financiamento.

Isso vale para ciência e tecnologia em geral?

Vale. Um exemplo que é um sucesso, no caso do Inpe, é o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos, o CPTEC. Nós estabelecemos um centro que, desde o início, tinha um caráter operacional. Não era um centro de pesquisa em supercomputação para previsão numérica de tempo, que iria gerar capacitação para um serviço operacional no futuro. O CPTEC tinha que gerar previsões do tempo, num determinado prazo de investimento,que melhorassem substantivamente a capacidade do Brasil nesse setor. O que aconteceu? Hoje nós temos a previsão de tempo do Inpe, que está diariamente nos telejornais da Rede Globo. Nossa previsão de quatro, cinco e até seis dias é muito boa. Criamos um centro que tinha a meta de chegar até a

previsão na mídia. Foi isso que nos ajudou a conseguir investimentos e nos levou, inclusive, a combinar pesquisa com operação num patamar distinto daquele que a universidade, tradicionalmente, e mesmo os institutos de pesquisa do governo, está acostumada a trabalhar.

De qualquer maneira, a pesquisa básica tem por princípio uma grande elasticidade, uma maneira de trabalhar que não leva em conta essa operacionalidade desejada pelo senhor.

Nós não estamos falando de pesquisa básica. A small science, que é a ciência de pesquisa básica, do pesquisador, tem uma lógica universal. Falamos de grandes programas nacionais que têm um caráter de investimento'de governo. Estes são programas nos quais o Brasil está trabalhando com grandes tecnologias de grandes ciências (big science). Quando falo que o programa espacial tem que ter o tamanho do Brasil, e não o Brasil ter o tamanho do programa, digo quetemos que reverter alógica de operação de um programa de grandes investimentos como é o programa espacial.

Aí há uma questão que vem sendo bastante discutida nos últimos meses. Pesquisadores da área e até o ministro Sérgio Rezende, da Ciência e Tecnologia, têm relativizado cada vez mais a ida do tenente-coronel Marcos Pontes ao espaço. Os US$ 10 milhões gastos com essa operação não poderiam ser utilizados em outra direção com resultados mais palpáveis?

Os recursos investidos no astronauta são pequenos ante o nível de investimento que temos no programa espacial. Portanto, o dinheiro que estaríamos economizando com a não-ida do astro-

nauta não iria resolver problema nenhum. Não é o caso de deixar de fazer um satélite para lançar um astronauta. Desse ponto de vista, o grande mérito do vôo do astronauta brasileiro é o de conquistar os corações e mentes da sociedade. O objetivo é dizer "nós temos capacidade de ter um programa espacial", da mesma forma que foi feito nos Estados Unidos, na Rússia, na China. É um investimento pequeno frente ao volume de recursos do programa, frente à exposição à mídia que o fato está tendo e frente a colocar na cabeça da sociedade brasileira que o programa espacial pode ser pacífico, civil, com ligação com as universidades.

A missão é acusada de ter pouca expressão científica.

Cientificamente a expressão do que o astronauta fará é limitada pelas próprias restrições de uma missão tripulada com experimentos no espaço. Isso vale para o programa tripulado como um todo, não é só no Brasil. Há pouquíssima coisa no espaço que não possa ser feita por robôs ou por elementos automáticos. Entre essas poucas coisas estão experimentos como o que o astronauta deverá fazer. Ocorre que uma das principais motivações de um programa tripulado é a conquista do espaço pelo homem. É importante que o Brasil sinalize sua participação nesse projeto.

Nesses 45 anos de programa espacial, o Brasil produziu sozinho dois satélites, fez outros dois em cooperação com a China e avançou no desenvolvimento de material propelente. Mas teve também seus reveses, como os três veículos lançadores e de satélite que não deram certo. Conside-

rando o tempo e o que se gastou no período, o senhor acha o saldo positivo?

O investimento no programa espacial tem uma característica importante: ele precisa de prazos. O SCD-1 e o SCD-2, que são satélites de coleta de dados, e o CBERS são casos em que cumprimos metas. A meta de ter um veículo lançador continua sendo importante. E a própria revisão que foi feita no programa de lançadores está apontando deficiências que, tudo indica, estão sendo supridas pela nova geração de lançadores projetada pelo Centro Técnico Aeroespacial, o CTA. Espero que nós consigamos resolver esse problema. Mas o principal dessa história foi ter, no processo de construção de satélites, também construído instituições. Nesse caso, o Inpe é um bom exemplo que busca unir a relevância do que faz com a excelência e a qualidade de seus trabalhos. O Inpe tem uma lógica de funcionamento, inclusive com programas de pós-graduação, de formação de pessoas, de pesquisa, que constrói uma ligação forte entre pesquisa e operação. Esta lógica permitiu construir um centro de previsão do tempo e disseminar tecnologia de sensoriamento remoto no Brasil. Temos hoje um grande conhecimento sobre meteorologia, climatologia, geofísica espacial, sensoriamento remoto e geoinformação em razão do trabalho do Inpe. As conquistas não se limitam aos satélites. A longo prazo, um dos resultados mais importantes é produzir instituições que dão retorno. Mesmo que todos os satélites tivessem falhado, o Inpe ainda teria um retorno forte porque não fazemos só o satélitefazemos todas as tecnologias e pesquisas associadas a esse programa de satélite.

O senhor disse para Pesquisa FAPESP, em 2003, logo depois do acidente de Alcântara, a seguinte frase: "Não há caminhos baratos para a tecnologia de ponta, que custa caro em termos de investimento, gente e compromisso nacional". O senhor reclamava que o programa espacial nunca teve investimentos à altura.

Ou que os investimentos que são colocados não são suficientes para o tamanho do programa. Continuo com essa idéia. Essa frase é a motivação pela qual eu digo que o programa espacial tem que ter o tamanho do Brasil. Ao fazer isso, o programa deve obter resulta-

dos que convençam a sociedade a colocar investimentos na magnitude que nós precisamos. Queremos fazer um satélite de observação da Terra que tenha capacidade de imageamento do mundo inteiro, inclusive do Brasil, repetidas vezes. Queremos também que ele funcione operacionalmente, com confiabilidade, durante vários anos. Não se trata só de lançar e funcionar uma vez - isso não atende a nenhum programa da sociedade porque não será capaz de dar as informações que ela precisa.

Os gastos brasileiros são comparáveis aos de outros países em desenvolvimento? O programa espacial brasileiro hoje tem um patamar de US$ 100 milhões por ano. A China gasta mais de US$ 1,5 bilhão, a índia está gastando US$ 600 milhões. É uma diferença brutal. Nós consideramos que, num país do tamanho do nosso, esse programa não reflete o que ele poderia ser para atender a sociedade. Só que para que convençamos a sociedade - e também os ministros do Planejamento e da Fazenda - de que precisamos ter um orçamento comparável ao orçamento da índia é necessário mostrar que haverá benefícios muito concretos. Não basta dizer que eles têm um orçamento seis vezes maior que o nosso.

Há chances reais de o programa espacial ser plenamente retomado este ano?

Eu acho que são reais. O Inpe trabalha arduamente na finalização do satélite CBERS-2B, em colaboração com a China, para lançamento neste ano ou no máximo no início do ano que vem. Nós estamos construindo o CBERS-3, cujo lançamento vai ocorrer no final de 2008 ou início de 2009. Isso indica que estamos em plena carga de trabalho. Nossas equipes estão trabalhando com muito afinco para manter o cronograma do programa dentro dos requisitos da sociedade. O CBERS não pode parar. Então, o CBERS-2 já está no ar há quase dois anos e meio e nós temos que ter o CBERS-2B no ar a tempo de, quando o CBERS-2 completar sua vida útil, ele já entrar em operação.

Vamos falar agora do Inpe como instituição. Como será a relação com a Agência Espacial Brasileira com as mudanças que ocorreram no ano passado, quando o

orçamento do Inpe passou a ser subordinado à agência?

Acho que as mudanças têm um impacto menor do que tem sido dito. O mais importante hoje é que exista uma forma de trabalhar na qual o Inpe saiba qual é a sua missão e a agência saiba qual é a dela.A agência é o grande órgão de política espacial. É onde são tomadas as macrodecisões, do tipo "vamos fazer um programa com a China","vamos fazer um satélite de coleta de dados", "vamos fazer um lançador em cooperação com a Rússia". E, ao decidir o que se vai fazer, escolher se será o CTA ou o Inpe, que são os órgãos de execução. Acho que, se todos souberem trabalhar em conjunto, há uma sinergia possível, necessária e positiva entre a agência e o Inpe. Embora o Inpe não seja subordinado à agência, é ela que define o programa espacial. Nessa matéria, o Inpe não pode tomar decisões sozinho. Ou seja, se quisermos mudanças ou ajustes no programa, temos que convencer a agência de que eles são necessários.

Temos aí, então, um problema de organograma?

Não creio. Pelo menos não como algo fundamental. A agência, para mim, representa o governo. Pode-se dizer que a agência é o órgão de governo que diz para o Inpe quais são os limites da sua atuação. Uma instituição do tamanho do Inpe é condicionada por fatores externos. Tudo que fazemos é negociado. É inviável eu transferir a autonomia de um laboratório universitário, onde o pesquisador tem liberdade de pesquisa completa com seu aluno para definição da tese de doutorado, para uma instituição do tamanho do Inpe. É inviável imaginar que possamos simplesmente decidir o que fazer a partir da nossa cabeça. Se quisermos influenciar o Brasil, temos de aceitar que o Brasil nos influencie. Não podemos ter atitude de redoma, de dizer "nós sabemos o que o Brasil precisa".

Isso nos leva a outra questão. A comunidade científica, de modo geral, considera o Inpe um instituto muito fechado, de decisões verticais, pouco permeável ao debate. Por que isso acontece?

Acho que essa percepção é absolutamente correta. O Inpe tem um encontro malsucedido com a sociedade e tem

dever de casa para fazer, que é se dispor ao diálogo e à crítica a todo setor da sociedade, incluindo aí a comunidade científica. O Inpe tem uma tradição de não se expor ao debate, de se fechar e de se auto-referenciar, se bastar. Isso não é satisfatório para os dias que correm. A instituição tem uma tradição de bunker, de casamata.

Essa tradição tem a ver com algum tipo de militarização da instituição?

Não diretamente. O Inpe não corre, não correu e não correrá o risco de militarização. Mas tem a ver com a sua herança. Evidentemente o programa espacial nasceu dentro de um locus que tem uma herança militar, que é São José dos Campos. Até hoje há uma enorme lógica militar e estratégica na cidade, que nunca teve universidade pública. Isso faz a diferença.

Por quê?

O fato de São José dos Campos ser, das cidades tecnológicas de São Paulo, a única que não tem universidade pública de grande porte, seja estadual ou federal, faz toda a diferença. Não temos espaço de debate aqui. São José é uma cidade de engenheiros. Sociólogos fazem falta. Os engenheiros não discutem, fazem. Engenheiro não gosta de discutir, de se justificar. Gosta mesmo é de fazer. Então, para ele não importa quem está mandando fazer, o importante é fazer o artefato, seja um satélite, uma bomba, um avião ou um computador. A realização do engenheiro está no ato de realizar, de construir. A falta que faz ter reflexão intelectual mais ampla, humanística, que é o que traria uma universidade pública em São José dos Campos, é enorme. Ao perpetuar na cidade e no Inpe a lógica do engenheiro que não discute e que faz, criase a mentalidade de bunker. Mas isso não pode continuar. Eu fui o primeiro diretor do Inpe a ir à SBPC debater abertamente com a comunidade científica. E vou fazer isso sempre com todos, de uma forma clara e aberta. É muito cômodo não ter que dar satisfação para ninguém. Democracia dá trabalho.

Internamente não há um conselho que receba essa pressão de baixo?

Hoje existe um Conselho TécnicoCientífico (CTC), mas estamos redi-

0 Inpe tem

uma tradição

de não se

expor ao

debate, de se

fechar,

de se bastar \ fWm

mensionando seu papel de tal forma que os membros internos do conselho tenham uma capacidade muito maior de influenciar as ações da direção do que tiveram no passado. Com reuniões freqüentes, com discussões, com debates internos. Eu sou o primeiro diretor do Inpe que responde e-mail de funcionário, só para você ter uma idéia. Quando não nos dispomos a discutir o debate não existe.

Quais são as prioridades científicas para os próximos dez anos, até 2015?

Estamos iniciando um programa de planejamento da instituição, para o qual estamos contando com o apoio do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência e Tecnologia, e do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. É um programa que envolverá diagnósticos dos ambientes interno e externo, que levará à definição de grandes metas para a próxima década. Já existe, colocada como um desafio científico fundamental para o Inpe, a criação do que chamamos por enquanto de Centro de Ciência do Sistema Terrestre, uma das respostas que o Brasil tem que dar ao desafio de entender o que são as mudanças globais e como elas vão afetar a sociedade. É algo quejunta a capacidade de modelagem climática para o futuro, o processo de mudanças globais, com a capacidade de entender as mudanças de uso do solo e outras que o homem está provocando na natureza. Precisamos entender as condicionantes dessas mudanças e também as conseqüências disso sobre o ambiente humano. Essa ciência do sistema terrestre é uma ciência multidisciplinar da qual o Inpe tem hoje uma parte. Te-

mos hoje alguns grupos muito bons em meteorologia e climatologia, em sensoriamento remoto e um outro em geofísica. Faltam grupos bons em ciências humanas. Mas eles ainda farão parte do Inpe em 2015, dentro de um centro multidisciplinar e multiinstitucional. A introdução da Ciência do Sistema Terrestre como disciplina de trabalho e como meta é uma imposição das mudanças globais sobre o Brasil. De novo: é o programa do tamanho do Brasil. O Brasil é um dos países que tem o maior potencial de ser afetado pelas mudanças globais negativamente. Enquanto a Rússia pode ter uma estepe menos fria, nós vamos ter um Cerrado mais quente. Portanto a nossa agricultura pode sofrer muito com as condições climáticas, assim como o agronegócio e a disponibilidade de água para nossas cidades, por exemplo.

O senhorpensa nesses projetos a médio prazo?

Precisamos instalar esse tipo de competência até 2015 para pensar no Brasil de 2030,2040,2050. Mas o sonho se constrói um dia de cada vez. O Inpe tem uma tradição de trabalho multidisciplinar. Falta montar os quebracabeças para construir esse Centro de Ciência do Sistema Terrestre. É possível que um dia nós contratemos sociólogos? Claro, eu já fui orientador de três arquitetos na pós-graduação. Um dos meus projetos de pesquisa é o de Políticas Públicas da FAPESP com o centro de pós-graduação em serviço social da PUC de São Paulo, com a professora Aldaíza Sposatti. Então não se espante se um dia o Inpe abrir vagas para contratar sociólogos e antropólogos. •

Interesses secretos

A indústria do tabaco assumiu o compromisso de não patrocinar pesquisas médicas na Alemanha que pudessem ser usadas para promover seus interesses. Segundo entidades antitabagistas, a Fundação Philip Morris quebrou a promessa. De acordo com a revista Nature, a fundação premiou com US$ 31 mil (cerca de R$ 65 mil) o químico Thomas Carell, da Universidade de Munique, que estuda mecanismos de reparo do DNA. Para a Philip Morris, a premiação é aceitável, pois Carell trabalha só com vegetais. O lobby antitabaco vê interesses secretos. Danos ao DNA causados pelo cigarro podem desencadear o câncer, caso os

Os mandarins da academia

Duas vozes respeitáveis criticaram os privilégios acumulados por membros de academias científicas da China, acusados de abandonar suas obrigações nos laboratórios, inebriados pelas delícias do poder. Em carta publicada pelo jornal Science Times, de Pequim, o chinês radicado nos Estados Unidos Yu-Chi Ho, professor da Universidade Harvard, afirmou que a hierarquia da pesquisa chinesa cria sinecuras e desencoraja a inovação."Em mui-

mecanismos de reparo estudados por Carell sejam desarmados.Aligação entre os cientistas e a indústria tabagista é assunto sensível naAlemanha, país refratário ao controle do cigarro. Em 2005 um artigo do toxicologista Thilo Grüning ganhou repercussão ao acusar cientistas alemães de esconderdados sobre os males do cigarro, bancados por empresas de tabaco. •

Um caixa dois para a ciência

No México, quando um partido político comete abusos em campanhas eleitorais,quem sai lucrando é o orçamento de ciência e tecnologia. Multas

tos países ocidentais, pertencer a uma sociedade acadêmica é só um título honorário, mas na China isso garante um status abusivo", declarou, referindo-se aos rumores de que certos membros aceitam suborno de cientistas que querem ser indicados como novos integrantes. Ho é um dos 713 integrantes da Academia de Ciências da China e recebe modestos US$ 124 mensais (cerca de R$ 262) para participar de suas reuniões. Mas o cargo é co-

impostas pelo Instituto Federal Eleitoral (IFE) a partidos políticos entre 2000 e 2003 renderam no ano passado US$ 44,5 milhões extras (cerca de R$ 94 milhões) para a pesquisa. Boa parte delas punia gastos de campanha superiores ao que a lei permite. O mais multado foi o Partido Revolucionário Institucional, que governou o México por 70 anos até ceder o poder em 2000. Gastou US$ 100 milhões a mais do que o permitido na campanha presidencial de 2000, perdida para o atual presidente, Vicente Fox. Fernando Agíss Bitar, um dos diretores do IFE, disse ao jornal Vanguardia que a regra vai repetir-se nas eleições

biçado porque governos provinciais e universidades conferem aos acadêmicos salários altos e poder sobre a distribuição de verbas. Wu Mengchao, membro daAcademia de Ciências da China e vencedor do mais importante prêmio de ciência do país, endossou as críticas em entrevista ao mesmo Science Times. Ele disse que boa parte dos acadêmicos parou de fazer pesquisa e não se constrange em dar palpites sobre especialidades alheias. •

presidenciais deste ano. "Esses recursos irão para a ciência e a tecnologia por decisão da Câmara dos Deputados, que define o destino das multas", afirmou. •

Bolsas de estudo para os vizinhos

O presidente do Egito, Hosni Mubarak, criou um programa que irá distribuir 200 bolsas de estudo por ano em universidades do país para estudantes de outras nações africanas, de acordo com o jornal The Ethiopian Herald. Mubarak confirmou a intenção numa reunião de autoridades de países da África, realizada em janeiro no Sudão. •

Parceria contra a seca

O governo do Chile e a Unesco, o braço das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, celebraram uma parceria que vai reforçar o financiamento da pesquisa

sobre fontes alternativas de água em regiões desérticas nos países andinos. Segundo o compromisso, assinado no dia 2 de fevereiro, a Unesco trabalhará com o Centro para Zonas Áridas e Semi-Áridas da América Latina e Caribe (Cazalac), baseado em La Serena, no Chile. "Para nós, significará nos tornarmos uma instituição internacional, com mais dinheiro e mais colaboração com outros centros", disse ao site SciDev.AfefGuido Soto, diretor executivo do Cazalac. O foco do trabalho serão áreas como o altiplano, platô com altitudes entre 3.500 e 5.000 metros que ocupa partes daArgentina, Bolívia, Chile e Peru, e os desertos costeiros do Chile e do Peru. •

Ambições peruanas

Pela primeira vez na história o Peru traçou uma estratégia de longo prazo para a área de pesquisa e desenvolvimento. O Plano Nacional Estratégico de Ciência e Tecnologia para a Competitividade e o Desenvolvimento Humano, com força de lei, estabelece metas até o ano 2021 e prioriza os setores nos quais o país planeja desenvolver, baseando-se em suas vantagens competitivas. Esses setores são a biotecnologia, a genômica, a ciência de materiais,

o meio ambiente, as tecnologias de informação e comunicação e as tecnologias limpas para pequenas e microempresas. "O plano tem objetivos, estratégias e visão de longo prazo, com programas que se constróem e se aperfeiçoam", disse ao site

Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, com base em dados de 2002. De acordo com o estudo, os gastos em relação ao total mundial caíram em cerca de 1% de 1997 a 2002 tanto na América do Norte quanto na Europa. Na Ásia houve um crescimento Wm .

SciDev.Net Benjamín Marticorena, presidente do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. •

O salto asiático

A América do Norte continua a ser líder em investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), com 37% do bolo mundial de recursos. Mas o segundo lugar foi ocupado pela Ásia, com 32%, destronando a Europa, que ficou com 27%. Os dados emergem do Unesco Science Report 2005, levantamento do Instituto de Estatística da Unesco, braço das Nações

de 4% no período, com destaque para a China, cuja participação subiu de 4% para 9% do bolo mundial. O Brasil é destacado pelo relatório, com investimento de US$ 13,1 bilhões em 2002 (cerca de R$ 27,6 milhões). O valor é inferior ao da índia. Mas, ao considerar os gastos em P&D em relação ao Produto Interno Bruto, o Brasil passa à frente, com 1% ante 0,7%. Em relação ao Brasil, dados mais recentes mostram que houve um avanço para 1,5% do PIB e há indicações, ainda não confirmadas, de que no ano passado pode ter alcançado um patamar de 1,7% •

iWte*

Estratégias

Silêncio obsequioso

James Hansen, principal climatologista da agência espacial norte-americana (Nasa), acusou seus superiores de tentarem silenciá-lo, em represália a uma palestra proferida emjaneiro na qual exigiu a imediata redução de gases de efeito estufa - tese que contraria o governo George W. Bush. O grupo de Hansen, que é diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, anunciou em fevereiro que 2005 foi o ano mais quente da história. Conforme publicou o jornal The New York Times, a direção da agência exigiu que Hansen submeta declarações e textos à censura prévia. Até pedidos de entrevista teriam de passar pela Nasa, que poderia escalar outros pesquisadores para falar no lugar de Hansen. "Há um esforço para que não se trate dos perigos das mudanças climáticas", diz o climatologista. Dean Acosta, vice-assistente para assuntos externos da Nasa, tentou explicar. "Qualquer funcionário que emite declarações ou publica dados deve coordenar tais atividades com nosso escritório de relações públicas", disse. Sherwood

Boehlert, presidente do Comitê de Ciência da Câmara dos Deputados, condenou a censura. "A boa ciência não sobrevive num ambiente de intimidação", disse. •

Com a chave do cofre

O programa de saúde global da Fundação Bill e Melinda Gates, que investe US$ 6 bilhões (cerca de R$ 12,6 bilhões) no combate a doenças como tuberculose,Aids e malária, será administrado pelo executivo TachiYamada, de 60 anos, atual chefe de pesquisa e desenvolvimento da multinacional farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK). A fundação tem uma parceria com a GSK para a criação de remédios e vacinas. Segundo analistas, a escolha mostra que a fundação investirá na estratégia junto a outras indústrias de medicamentos. "Yamada conhece o caminho que transforma promessas de laboratório em produtos talhados para as necessidades das pessoas e é hábil em reunir parceiros", disse Bill Gates, segundo o site de sua fundação. •

Ciência na web

Envie sua sugestão de site científico para cienweb@trieste.fapesp.br

www.unesco.org/shs/ethics/geobs

0 site mantido pela Unesco reúne um banco de dados e de especialistas sobre bioética e ética aplicada à ciência e à tecnologia.

www.stemcellcommunity.org

0 portal traz imagens e informações científicas sobre linhagens de células-tronco, além de notícias sobre o tema para o público leigo.

http://scienceblogs.com/ 0 endereço reúne uma seleção de blogs de especialistas sobre temas científicos, da biologia evolucionária à computação.

|The Stem Cell Community

EstratégiasBrasil

A Câmara e o Senado aprovaram, no início de fevereiro, o projeto de lei que autoriza a exploração econômica de florestas nativas no país. O texto define três formas de gerenciamento: a criação de zonas de conservaçãovoltadas para a exploração sustentável; agestão de áreaspor

Monitor da aftosa

A Embrapa Monitoramento por Satélite, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sediada em Campinas (SP), está montando um sistema de gerenciamento de informações sobre a fronteira entre o Brasil e o Paraguai, com o objetivo de monitorar o risco de eclosão de novos surtos de febre aftosa na região. Os dois países vizinhos comprometeram-se em fazer um cadastramento de seus pastos fronteiriços e um inventário dos rebanhos bovinos localizados num raio de 25 quilômetros de ambos os lados da divisa. Imagens de satélite de alta resolução foram adquiridas pela unidade da Embrapa, cobrindo um raio de mais

Alugam-se florestas

comunidades locais; e, por fim, as concessões de matas virgens através de licitação pública. Quem vencer a licitação poderá explorar a área por até 40 anos, comprometendo-se a manter a floresta de pé. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) prevê que 13 milhões de hectares, o

de 100 quilômetros dentro do território paraguaio e brasileiro, com detalhe de 10 metros. A iniciativa fornecerá elementos para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento administrar situações de crise e planejar ações preventivas. Uma base de dados sobre a região será integrada ao sistema, com informações a respeito de infra-estrutura, rede viária e estatísticas. •

equivalente a 3% da Amazônia, serão alcançados pela lei na próxima década. Segundo o ministério, a exploração sustentável é a forma mais eficaz de inibir as ocupações ilegais que, no caso da Amazônia, chegam a 75% da área de floresta. "O projeto inova ao definir que

Reestruturação profunda

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) demitiu 322 professores e 114 funcionários no dia 17 de fevereiro, numa segunda tentativa de zerar o déficit mensal de R$ 4 milhões, uma das metas para amortizar a dívida bancária de R$ 82 milhões. Levando-se em conta os cortes feitos desde novembro, a

florestas públicas devempermanecer florestas e públicas, ao contrário do que aconteceu nos últimos 500 anos, quando as florestas foram privatizadas e transformadas em outros usos de terra", disse Tasso de Azevedo, diretor do Programa Nacional de Florestas do MMA. •

universidade perdeu cerca de 30% de seus docentes e servidores. As demissões foram definidas por dois representantes nomeados pela arquidiocese de São Paulo, mantenedora da universidade. Isso porque a reitoria não conseguira atingir a economia exigida pelos bancos, ainda que tenha promovido mudanças administrativas, expansão de vagas e outros cortes na folha de pagamentos. "Fiquei chocada. Tinha pessoas na lista de demitidos que considero importantes para a universidade", disse a reitora Maura Veras. A crise financeira da PUC-SP se deve a uma dívida acumulada nas últimas três décadas. Em agosto de 2005, o débito foi renegociado - e uma das condições dos bancos credores era que o déficit mensal fosse extinto. •

>opro de ar nos acervos

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou a segunda edição da seleção pública de projetos de preservação de acervos de museus, bibliotecas e arquivos, com o objetivo de torná-los mais modernos e mais acessíveis ao público. Serão destinados R$ 5 milhões para projetos nas áreas de catalogação, gerenciamento ambiental, instalação de sistemas de segurança, melhoria de infra-estrutura, higienização e acondicionamento e restauração de acervos raros. Cada proposta poderá receber até R$ 500 mil. Os projetos serão selecionados por uma comissão composta por especialistas da área, representantes do BNDES e do Ministério da Cultura. As propostas podem ser apresentadas até o dia 17 de março. •

Estratégias Brasil

Idas e vindas das cotas

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que prevê a reserva de 50% das vagas das universidades federais para estudantes que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Nesse universo de vagas haveria uma cota para afrodescendentes e indígenas, na proporção dessas populações em cada estado. Como foi aprovado na comissão em "caráter conclusivo", o projeto poderia seguir diretamente para o Senado, sem ser submetido ao plenário da Câmara. Mas o teor polêmico da lei acabou colocando obstáculos à proposta. De um lado, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) reclamou do prazo curto - de apenas quatro anos - que as universidades teriam para cumprir a nova lei. Queria um prazo de dez anos. De outro, parlamentares oposicionistas passaram a exigir que o projeto fosse submetido ao escrutínio de todos os deputados,

sob o argumento de que o caráter polêmico da medida requer mais reflexão. O MEC propôs um acordo pelo qual o prazo seria estendido para seis anos e, como compensação às universidades federais, elevaria os recursos destinados à assistência estudantil (como auxílios à moradia e à alimentação). Segundo a proposta, haverá uma reserva de 12,5% das vagas no primeiro ano em que a medida entrar em vigor, com aumento paulatino até alcançar os 50%. A proposta será levada ao plenário da Câmara, como uma emenda ao projeto. •

Educação sem fronteiras

Acontece no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, entre os dias 29 e 31 de março, o Io Fórum Brasileiro de Educação Internacional, que vai explorar temas como a mobilidade de estudantes e professores e o potencial do Brasil como destino para estudantes internacionais. A iniciativa é da Brazilian Education & Language Travei Association e do Fórum das Assessorias das Universidades Brasileiras para Assuntos Internacionais, com apoio de vários ministé-

rios e da FAPESP. Mais informações pelo telefone (11) 3254-4333.

0 desafio de pôr ordem na casa

O bioquímico Walter Colli foi nomeado presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão encarregado, entre outras tarefas, de regular as atividades relacionadas aos organismos transgênicos. Professor titular do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), ex-diretor-técnico do Instituto Butantan e assessor adjunto da diretoria científica da FAPESP, Colli assume o cargo com o desafio de coordenar a avaliação de 417 processos pendentes."Estarei me orientando Dela le-

gislação e acatarei o que for definido pelos membros", afirmou Colli. •

Pará deve ganhar sua FAP

O Estado do Pará deverá ter sua Fundação de Amparo à Pesquisa. Até abril, um projeto de lei que cria a FAP paraense será enviado ao Legislativo estadual. O anúncio foi feito por Antônio Gomes de Oliveira, representante do governo paraense na reunião do Fórum Nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa Professor Francisco Romeu Landi, realizado em Fortaleza. O presidente do Fórum das FAPs, Jorge Bounassar Filho, destacou que, além da iniciativa paraense, houve a recente criação da FAP de

Goiás e a reestruturação da FAP de Sergipe. Vinte e uma unidades da Federação têm fundações de amparo à pesquisa. Só os estados do Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins ainda não dispõem dessas instituições.»

\

nados R$ 445,6 milhões, voltados para ações como o apoio à infra-estrutura de instituições, formação de recursos humanos e de redes de pesquisa. Para o eixo de apoio à Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior,

Nova safra de editais

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) anunciou o lançamento de 45 editais para o financiamento de projetos de pesquisa e inovação. O valor total é R$ 873,8 milhões, sendo R$ 787 milhões provenientes dos fundos setoriais e o restante de outras fontes. Os editais distribuemse por quatro eixos estratégicos. Para o eixo de Consolidação e Expansão do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação serão desti-

^^MAÍ/U ; haverá R$ 188,6 milhões para estimular parcerias entre instituições científicas e empresas. O eixo dos Objetivos Estratégicos Nacionais terá R$ 10 milhões para o apoio à cooperação científica entre grupos de pesquisa para a região amazônica e R$ 6 milhões para fomento a estudos sobre temas de cooperação internacional. O eixo de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social receberá R$ 55,4 milhões, destinados à popularização da ciência e ao desenvolvimento de conteúdos educacionais. •

AMBIENTE

Flancos vulneráveis

Indicador mapeia o impacto

das mudanças climáticas na saúde pública em todos os estados

Raros países do mundo, inclusive no rol dos mais desenvolvidos, ocuparam-se de mapear o quanto estão vulneráveis às mudanças globais do clima, embora muitos sejam signatários de convenções internacionais que recomendam esse tipo de levantamento. O Brasil não fugia à regra. Produziu estudos isolados sobre o impacto das alterações climáticas, por exemplo, em certas culturas agrícolas e em ecossistemas marinhos e terrestres. Mas um grupo de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), patrocinados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), vai apresentar no próximo mês uma contribuição importante nesse campo. Trata-se de uma metodologia que poderá servir de base para qualquer nação avaliar as ameaças do aquecimento a um flanco crucial, o da saúde pública. O resultado foi a criação de um indicador, o índice de Vulnerabilidade Geral (IVG), composto pela ponderação de dados sobre a incidência de algumas doenças, as condições de vida da população e as oscilações do clima, que se propõe a apontar o quanto uma certa região está sensível aos danos da transformação climática. Coordenada pelo epidemiologista Ulisses Confalonieri, professor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, a metodologia demorou três anos para ser concluída e aplicada em todos os estados brasileiros. A principal conclusão é que a Região Nordeste, graças a uma combinação de pobreza, exposição a moléstias e o cíclico fenômeno da seca, é a que demonstra menor capacidade de suportar os efeitos do aquecimento. O destaque negativo é o Estado de Alagoas. Na escala de 0 a 1, Alagoas exibiu um IVG de 0,64, o mais alto do país. Em seguida despontam os estados da Bahia (0,46) e Pernambuco (0,44). No outro extremo surgiram os estados do Rio Grande do Sul (0,13), Mato Grosso do Sul (0,14), Distrito Federal (0,17), Paraná (0,18), Santa Catarina (0,19) e Goiás (0,20). "Eles se revelaram menos suscetíveis às mudanças e/ou os mais capazes de enfrentá-las", diz Confalonieri, que participa, como

coordenador do comitê de saúde, do Painel Intergovemamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), grupo de cientistas ligados às Nações Unidas que avalia o conhecimento existente sobre a mudança climática. A equação desenvolvida pela Fiocruz inspira-se na metodologia do índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento com o objetivo de comparar a situação dos países a partir de indicadores de educação, longevidade e renda. O IVG é calculado a partir da média aritmética de três outros indicadores, também idealizados pela equipe de Confalonieri. O primeiro é o índice de Vulnerabilidade Socioeconômica (IVSE), que combina 11 indicadores, cada qual com um peso específico, relacionados com demografía, grau de urbanização, renda, educação, saneamento e saúde.

Seca na Paraíba: apesar da capacidade de adaptação dos sertanejos, a vulnerabilidade dos estados nordestinos é a maior do país

Nesse quesito, São Paulo e Santa Catarina revelaram os menores índices, respectivamente, de 0,10 e 0,15, na escala de 0 a 1. Na outra ponta,Alagoas (0,76), Maranhão (0,75) e Piauí (0,73) despontaram como os mais vulneráveis.

Uma segunda categoria de dados compõe o índice de Vulnerabilidade Epidemiológica (IVE), que leva em conta a incidência atual de doenças como a dengue, a malária, a cólera, a leishmaniose, a leptospirose e as hantaviroses, endemias prevalentes no Brasil e sensíveis à variação climática. O caso clássico é o da leptospirose, cujos surtos epidêmicos se dão em áreas alagadas. Da

mesma forma, os extremos de precipitação também influenciam o ciclo biológico de mosquitos transmissores da malária e da dengue. Os estados mais suscetíveis foram a Bahia (0,30) e o Pará (0,31). No caso da Bahia, os índices para dengue, cólera, leptospirose e leishmaniose (quatro das seis doenças) mostraram-se peculiarmente elevados. Já em relação ao Pará, há taxas elevadas de incidência de dengue e malária.

A terceira categoria de informações forma o índice de Vulnerabilidade Climatológica (IVC), que classificou as unidades da Federação segundo a incidência de oscilações drásticas de precipitação, como secas e enchentes, nos últimos 42 anos. Alagoas, com um índice de 1 - na escala de 0 a 1 -, apresentou o maior número de eventos extremos, seguido de Sergipe, Ceará e Maranhão, com índice de 0,55. Já os estados do

Acre (índice 0), Amazonas (0,01) e do Pará (0,01), mesmo nos meses em que seus níveis de chuva são altos, não apresentaram oscilações abruptas. "Os cenários futuros associados ao aquecimento global incluem, como hipótese, maior instabilidade de fenômenos ligados às variações climáticas", diz Confalonieri. "Essa instabilidade potencializa a vulnerabilidade, porque é difícil prever sua ocorrência e proteger a população", afirma.

Alagoas é o estado mais vulnerável porque sofreu mais eventos extremos de precipitação, ostenta alta densidade demográfica, a mais alta taxa de pobreza, uma das menores taxas de serviços de saneamento, a menor esperança de vida ao nascer e a mais alta taxa de mortalidade infantil brasileira. Também foi a unidade da Federação com a maior incidência de cólera.

A temperatura média do planeta elevou-se de 0,6 a 0,7 grau Celsius nos últimos cem anos, de acordo com pesquisas divulgadas em revistas internacionais. Os cinco anos mais quentes desde o início dos registros climáticos modernos, em 1890, ocorreram na última década, segundo o Instituto Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa. A enorme maioria dos pesquisadores do sistema climático acredita que a causa do aquecimento são as emissões de gases causadores do efeito estufa promovidas pelas indústrias, os automóveis e as queimadas. O IPCC trabalha com vários cenários climáticos para os próximos cem anos, de dois tipos principais: com a estabilização ou com o aumento das emissões de gases. Em ambos projetamse aumentos de temperatura, de 1 a 6 graus Celsius. Os efeitos podem ser desastrosos, da elevação do nível do mar à desestabilização de ecossistemas, mas não há modelos confiáveis que permitam vislumbrar o tamanho do estrago. "Do ponto de vista da formulação de políticas públicas, os estudos de vulnerabilidade são fundamentais para que os governos tenham clareza sobre os problemas e possam tomar decisões duras, como mexer nas matrizes ener-

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géticas", diz o astrogeofísico Luiz Gylvan de Meira Filho, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP).

criação do IVG é um passo para mapear tais impactos na área da saúde. "Esse trabalho é o primeiro com foco em saúde e mudança do clima e ajudará a criar políticas que atuem no sentido de melhorar o controle de doenças", observa Haroldo Machado Filho, da Coordenação de Mudanças Climáticas do MCT, órgão que encomendou o estudo à Fiocruz. Contudo, o próprio autor da pesquisa aponta alguns limites de sua metodologia. A principal delas, diz Confalonieri, foi a delimitação do universo avaliado. "Analisamos o impacto ligado às doenças, mas há outros fatores vinculados à saúde, como a oferta de água e de alimentos, que necessitam ser igualmente mapeados para dar um sentido mais completo à vulnerabilidade", afirma. A princípio, o MCT deu prioridade a um tipo de levantamento, o inventário das emissões de gás carbônico no país. O incentivo a pesquisas sobre vulnerabilidade começou a surgir recentemente. Além do estudo de Confalonieri, foram financiadas pesquisas direciona-

índice da vulnerabilidade

Numa escala de 0 a 1, a suscetibilidade dos estados brasileiros às mudanças climáticas na área da saúde.

Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina Amazonas, Distrito Federal, Goiás, Acre, Mato Grosso do Sul e Rondônia

Minas Gerais, São Paulo, Amapá, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Roraima, Pará e Tocantins

Rio Grande do Norte, Paraíba e Sergipe

Piauí, Ceará Pernambuco, Bahia e Maranhão

Alagoas

Fonte: Análise da vulnerabilidade da população brasileira aos impactos sanitários das mudanças climáticas

das para temas específicos, como o impacto das mudanças climáticas na morte de recifes de corais.

Outra limitação foi o uso de um dado meteorológico simples - os índices de precipitação dos últimos 42 anos -, quando se sabe que eventos climáticos são tremendamente complexos. É certo que o atual estado do conhecimento não permite estabelecer cenários regionais de mudanças climáticas com grande acurada, mas existem modelos matemáticos que permitem simular, com um grau cada vez maior de confiança, os efeitos futuros da mudança do clima. "Hoje tentaria fazer essa análise de uma forma mais abrangente", diz Confalonieri. A metodologia não contempla um fenômeno importante: a capacidade de adaptação das populações aos efeitos das mudanças climáticas. Segundo Confalonieri, isso tem peso na situação de

Enchente em São Paulo: com o aquecimento global, oscilações drásticas do clima serão mais freqüentes e difíceis de prever

vulnerabilidade. Ele cita um exemplo: nos estados nordestinos, apesar da suscetibilidade elevada, uma capacidade de adaptação desenvolveu-se ao longo de séculos de seca. A tendência é que o lavrador abandone sua terra por não ter o que comer e vá para a cidade. São conhecidas as estratégias para reduzir o êxodo, como as frentes de trabalho que garantem alguma renda aos lavradores. Já na região amazônica, onde são raros os eventos extremos do clima, a capacidade adaptativa é menor. A calamidade provocada pela seca de 2005 mostrou isso. Como os rios secaram, as populações ribeirinhas perderam a

mobilidade e uma fonte de alimento, os peixes. "Eles sabem se adaptar ao excesso de chuva, mas ficaram impotentes diante da seca", diz Confalonieri.

Essa lacuna deverá ser preenchida por duas pesquisas que a Fiocruz prepara-se para desenvolver. Uma delas, a cargo de Confalonieri, pretende colher dados sobre o potencial de adaptação em nível municipal na Amazônia Central, no entorno do município paraense de Santarém. A segunda também vai analisar a capacidade regional de adaptação, num esforço patrocinado por uma organização não-governamental inglesa que também financiará estudos em outros países em desenvolvimento.

A elaboração de um mapa integrado de vulnerabilidade nacional foi uma das principais recomendações de um painel de 27 especialistas que se reuniu em Brasília há dois anos a convite do

Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), ligado ao Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da Presidência da República. O encontro atualizou o conhecimento científico acerca das ameaças. Um exemplo: no campo da agricultura, o aumento da concentração de carbono na atmosfera tem o dom de aumentar a produtividade agrícola, mas o excesso de chuvas pode acentuar a erosão de solos frágeis. Um grande consenso uniu os especialistas - o diagnóstico da vulnerabilidade depende, em muito, do investimento em novas pesquisas sobre agricultura, zona costeira, ecossistemas e energia, com o objetivo de identificar as populações e as áreas de maior risco. O governo está preocupado em suprir essa deficiência. O MCTjá começou a patrocinar uma nova safra de pesquisas, algumas delas nas áreas propostas pelos especialistas. •

FINANCIAMENTO

Choque de inovação

nDuas iniciativas do goverW no federal propõem-se a alavancar o desenvolvimento tecnológico e a inovação dentro das empresas brasileiras. A primeira: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou duas linhas de crédito para empresas, com juros fortemente subsidiados, cujo objetivo é financiar esforços de pesquisa para o desenvolvimento de produtos inovadores e viabilizar a construção de plantas industriais desse tipo de produto. A segunda iniciativa deve tomar forma ainda este mês e implica a criação de um fundo de US$ 500 milhões, com recursos do governo, de

fundos de pensão e de investidores estrangeiros, para financiar companhias nascentes, sobretudo na área de tecnologia. O passo inicial foi dado em fevereiro, com a edição de uma medida provisória que reduziu a zero a tributação sobre ganhos de investidores estrangeiros em aplicações em fundos especializados em bancar empresas nascentes, chamados de venture capital. As linhas de incentivo à inovação do BNDES são o carro-chefe das novas políticas operacionais da instituição, que também contemplam financiamentos - embora em condições não tão favoráveis - para a infra-estrutura, a competitividade da indústria brasileira de bens de capital e o desenvolvimento das pequenas e médias empre-

sas. "A inovação tecnológica é o caminho para chegar ao mercado mundial, e as empresas que decidirem investir seus esforços nesse caminho terão forte apoio do BNDES", disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, em visita à FAPESP no dia 14 de fevereiro, data de lançamento das medidas de incentivo.

Uma das linhas de financiamento, a Inovação PDI, será destinada a projetos de empresas que representem grandes saltos de competitividade por meio de esforços de pesquisa e desenvolvimento de produtos. Terá taxa de juros fixa de 6% ao ano e zero de spread, a taxa de risco cobrada pelos bancos. Até então, projetos desse tipo no BNDES tinham

O BNDES lança linhas de crédito e governo cria fundo para alavancar o desenvolvimento tecnológico das empresas

incidência da taxa de juros de longo prazo (TJLP), fixada atualmente em 9%, mais remuneração de 2,5%. Na linha de financiamento para a construção de plantas industriais, batizada de Inovação Produção, os empréstimos serão corrigidos pela TJLP, mas não cobrarão spread. Cada uma das linhas contará inicialmente com recursos de R$ 500 milhões.

Será criado um comitê, composto por diretores de diversas áreas do BNDES, cuja tarefa será avaliar se os projetos realmente representam esforços de inovação. "Mas não acredito que surjam grandes dúvidas, pois o conceito é bem definido", disse Aluysio Asti, superintendente da área de planejamento do BNDES. De acordo com

os critérios do banco, só serão aprovados projetos que elevem as empresas a um novo patamar de competitividade, criem estruturas que alimentem a inovação de forma permanente e permitam realizar esforços de pesquisa tão ousados que não poderiam ser concretizados sem auxílio. O BNDES já vinha incentivando a inovação em linhas de financiamento para softwares e fármacos. Decidiu alçar a inovação a um novo patamar de suas prioridades por dois motivos. "De um lado, as empresas precisam criar um esforço permanente de inovação para serem competitivas. De outro, a inovação é essencial para proteger o patrimônio do BNDES: se as empresas não se modernizarem, não conseguirão manter o valor que serve de garantia aos empréstimos", afirmou Asti.

As linhas do BNDES têm potencial para complementar iniciativas da FAPESP, como o Pipe (Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas), que estimula empresas a investir em pesquisa e desenvolvimento. É comum que as empresas nascentes enfrentem dificuldades na hora de transformar a inovação em produção. Na visita que fez à FAPESP, o ministro Furlan mostrou-se receptivo a parcerias. O superintendente Asti explicou como isso poderia acontecer. "Quando se constituem empresas de base tecnológica, mas que ainda não têm um mercado definido, é comum que elas precisem de um volume não muito expressivo de recursos, porém de alto risco. O mercado de venture capital não dá guarida a essas empresas e muitas fecham por hiato de apoio nesse momento", disse Asti. "Podemos criar especializações dentro das linhas de crédito que contemplem essas demandas específicas."

Segundo dados da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, o mercado de venture capital movimentou US$ 125 bilhões em 2005. Enquanto a China arrebanhou US$ 5 bilhões e a Índia, US$ 4 bilhões, o Brasil recebeu modestos US$ 100 milhões. O fundo de US$ 500 milhões que o governo está criando tem a meta declarada de elevar a participação do Brasil neste mercado. Já foi batizado de "o fundo dos fundos", pois seus recursos serão aplicados em fundos de venture capital e de equity (para empresas de maior porte). Do total de recursos, o governo federal arcará com uma parcela de US$ 100 milhões, provenientes do Ministério da Ciência e Tecnologia. Fundos de pensão aplicarão US$ 150 milhões e investidores estrangeiros os outros US$ 250 milhões.

A disponibilidade de recursos para investimento empreendedorvai aumentar, mas, como observou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, restará um obstáculo a vencer. Não é só dinheiro que falta às empresas nascentes de base tecnológica. O Brasil sofre de uma deficiência de gestores capazes de administrar tais empresas e pavimentar o seu caminho. "No venture capital, isso é um elemento-chave. É indispensável a figura do gestor empreendedor que saiba converter a idéia e a capacidade científica em sucesso de negócios", afirmou Brito Cruz. "A abertura do fundo a estrangeiros talvez nos ajude a trazer de fora não apenas dinheiro, mas também pessoas. Em vez de tentarmos reinventar a roda, seria interessante trazer para o Brasil quem tem experiência e possa ajudar essas empresas a dar certo", disse. •

FABRíCIO MARQUES

Terreno propício

Parques tecnológicos e projeto de lei incentivam inovação no estado de São Paulo

Tá novidades no arcabouço jurídico que regulamenta a inovação tecnológica no Estado de São Paulo. No dia 6 de fevereiro, em cerimônia realizada no auditório da FAPESP, em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin assinou decreto que institui o Sistema Paulista de Parques Tecnológicos e enviou à Assembléia Legislativa o projeto de lei estadual de Inovação Tecnológica. Os parques serão grandes empreendimentos imobiliários ancorados em grandes instituições, como universidades e institutos de pesquisa, cujo objetivo será atrair, criar e manter empresas de tecnologia e centros de pesquisa e desenvolvimento. Cada parque será instalado numa região e terá uma vocação peculiar. O da Região Metropolitana de São Paulo vai dedicar-se à nanotecnologia. O de Campinas será direcionado para a instalação de centros em tecnologia de comunicação e informação. O de São José dos Campos vai estimular a pesquisa aeroespacial e de defesa; o de São Carlos, a óptica e instrumentação avançada em agricultura; e o de Ribeirão Preto, as áreas médica e odontológica.

Dos cinco centros tecnológicos previstos, três poderão ficar prontos ainda em 2006: os de São José dos Campos, Campinas e São Carlos. Os outros dois, que serão instalados na Grande São Paulo e em Ribeirão Preto, serão concluídos em 2007. Nos próximos três meses será feita a seleção de gestores para administrar os parques. "Eles terão a tare-

fa de atrair investidores e cuidar da infra-estrutura do núcleo central dos parques", disse Carlos Américo Pacheco, professor do Instituto de Economia da Unicamp e um dos coordenadores do projeto. No total, o governo estadual investiu R$ 11 milhões no sistema, dos quais R$ 9 milhões para as obras de infra-estrutura e R$ 2 milhões para os estudos de viabilidade.

A criação do sistema de parques faz parte de um esforço de levar a pesquisa e o desenvolvimento para dentro das empresas, que também é o mote do projeto de lei estadual de inovação enviado à Assembléia. O texto que será discutido pelos deputados propõe-se a regulamentar parcerias entre os setores público e privado e prevê a criação de fundos de capital de risco, com dinheiro do governo e de empresas, para sustentar projetos inovadores. O Estado, segundo o projeto, poderá participar na qualidade de cotista de fundos mútuos de investimentos destinados a empresas cuja atividade seja a inovação tecnológica.

O projeto paulista se pauta pela lei federal de Inovação regulamentada no ano passado. "São dispositivos de âmbito estadual, que se somam aos previstos na lei federal", disse o secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, João Carlos Meirelles. "O sentido do projeto é levar a pesquisa para dentro das empresas. As grandes empresas do mundo têm centros de desenvolvimento e captam recursos. Não haveria a Microsoft se no passado não houvesse nos Estados Unidos mecanismos que permitissem aplicar recursos nos primeiros projetos inovadores de Bill Gates", afirmou Meirelles. Ainda de acordo com o projeto de lei, pesquisadores vinculados a instituições estaduais poderão afastar-se por até quatro anos de suas funções para trabalhar em processos de inovação do setor privado. O projeto também prevê que alunos de pós-graduação e pesquisadores de instituições públicas recebam parte dos royalties quando suas criações forem exploradas comercialmente. •

FOMENTO

Mais quadros para a ciência

Aumenta número de bolsas concedidas para 2006 e valores são reajustados

s candidatos a bolsas e bolsistas da FAPESP começam o ano com motivos para comemorar. O Conselho Superior da Fundação aprovou em fevereiro o aumento no número de bolsas de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado. Os valores também foram reajustados em 20%, incluindo as bolsas dos programas Jornalismo Científico nos níveis JC-I, JC-II e JC-III e Ensino Público. A exceção é a modalidade Pós-Doutorado, que recebeu aumento em maio de 2004. O reajuste já está valendo para os pagamentos a serem efetuados agora em março.

O Programa de Bolsas para Pesquisa é o principal apoio da FAPESP em instituições de ensino superior oficiais ou privadas no Estado de São Paulo. No programa é investido um terço do dispêndio anual da Fundação, excluindo-se gastos ocasionais, como os Programas Equipamento Multiusuário e FAPLivros, por exemplo. A ampliação no número de bolsas foi calculada de acordo com a disponibilidade orçamentária para 2006 e estimando-se a dos anos seguintes. O objetivo é que se mantenha o porcentual destinado a bolsas em torno de 33%, conforme estabelecido pelo Conselho Superior. Nos últimos dez anos vem ocorrendo um crescimento contínuo no número de solicitações em todas as modalidades. Para Mestrado, por exemplo, o número de pedidos subiu de 550 em 1994 para 3.443 em 2005. As conces-

EXPANSÃO NA PESQUISA

* Iniciação Científica (IC); Mestrado (MS); Doutorado (DR); Doutorado Direto (DD); Pós-Doutorado Brasil (PDBR); Jornal smo Científico (JC); Ensino Público (EP).

soes seguiam a curva das solicitações com uma taxa de 63%, mas foram reduzidas com a crise. Em 2005 a taxa de concessão foi de 24%. Para Doutorado, as solicitações foram de 234 em 1994 para 1.543 em 2005 e as concessões caíram de um máximo de 73% em 1999 para 29% em 2005.

Ao decidir pelo aumento das concessões de bolsas, a FAPESP concluiu

que, considerando-se a qualificação da demanda, observada pelos comitês de seleção, embora todas as propostas consideradas excelentes tenham sido aprovadas, havia outras muito boas que acabavam sendo rejeitadas por falta de recursos. Agora a Fundação começa a apoiar um número maior de bolsistas e ajuda a formar mais pessoal com nível de excelência. •

Laboratório Mundo

Menos luz do Sol chega à Terra

O pôr-do-sol não é mais o mesmo. Desde 2000 menos luz do Sol chega à superfície da Terra, mas paradoxalmente essa redução não está esfriando o planeta. Philip Goode, com sua equipe do Instituto de Tecnologia de Nova Jersey, Estados Unidos, depois de medir a quantidade de luz solar que foi re-

Mais gelo para o mar

Nas proximidades da Groenlândia a temperatura do ar subiu de 2 a 3 graus nos últimos anos. Foi o bastante para intensificar o degelo. Em um estudo publicado na Science, pesquisadores da Nasa, sob a coordenação de Eric Rignot, demonstram que o volume de gelo das regiões costeiras da Groenlândia lançado ao Atlântico mais que dobrou na última década: passou de 90 quilômetros cúbicos em 1996 para 220 quilômetros cúbicos em 2005. É muito mais do que se esperava. As conclusões sugerem também que pode ser maior que o previsto a contribuição da Groenlândia para o aumento do nível dos oceanos - da ordem de 3 milímetros por ano. •

fletida pela atmosfera terrestre, bateu na Lua e voltou, descobriu que a Terra está refletindo 3% mais luz do Sol que entre 1985 e 2000 (Newscientist, 28 de janeiro). Poderia ser um efei-

cobertura de nuvens, que de fato aumentou. No entanto, a temperatura global está

As magrelas e a imagem feminina

As modelos que de tão magras parece que vão quebrar têm sido acusadas de personificar padrões irreais de beleza e de reduzir a auto-estima feminina, como se outras mulheres pudessem apenas sonhar em ser tão esbeltas. No

subindo. Como entender? A explicação pode ser a reorganização da cobertura de nuvens nos últimos anos: está aumentando a proporção de nuvens mais altas em relação às mais baixas. Nuvens mais baixas ajudam a resfriar a Terra, refletindo a luz; as mais altas atuam como um cobertor, retendo

entanto, de acordo com um estudo publicado este mês no Journal ofConsumer Research, olhar para modelos moderadamente magras ou extremamente pesadas não causa necessariamente um impacto negativo sobre a auto-estima das mulheres, digamos, normais, que podem até se sentir valorizadas e ganhar uma no-

calor. Ou seja, há mais nuvens e o tipo mudou. Por isso o planeta esquenta mesmo com menos luz. Para Goode, essas constatações reforçam a idéia de que as mudanças climáticas são sutis e o que parece óbvioincidência menor de luz e resfriamento do planetanem sempre está certo.

ção mais clara - e tranqüilado próprio peso. As mulheres podem, sim, sentir-se com a auto-imagem arrasada quando observam as modelos supermagrelas ou as moderadamente encorpadas, que as fazem se lembrar de quão acima do peso elas mesmas se sentem. •

Siga o dinheiro e entenda os vírus

Iceberg à deriva: calor acelera degelo da Groenlândia

Para prever como podem se propagar epidemias como a gripe aviaria que chegou à Europa, pesquisadores alemães e norte-americanos trataram de entender como as pessoas viajam - porque é assim que levam vírus e bactérias de um lugar a outro. Mas, em vez de listar as distâncias percorridas e a freqüência com que usam carros, trens ou

aviões, adotaram um enfoque diferente. Por meio de uma página na internet, a equipe coordenada por Dirk Brockmann, do Instituto Max Planck de Dinâmica e AutoOrganização, em Gõttingen, Alemanha, acompanhou o percurso de 500 mil notas previamente marcadas por milhares de quilômetros nos Estados Unidos. De modo geral, em duas semanas metade das notas permanecia no próprio estado em que foram registradas pela primeira vez e 7% viajavam pelo menos 600 quilômetros. Analogamente, poucas pessoas viajam grandes distâncias. Esse estudo, publicado na Nature, permitiu aos pesquisadores elaborar equações descrevendo a probabilidade de as pessoas viajarem distâncias maiores ou menores e disseminarem doenças. Na Idade Média as pestes se espalhavam lentamente porque as pessoas viajavam poucos quilômetros por dia, a pé ou a cavalo. •

Cidades com telhados brancos

Em conseqüência do excesso de prédios, megalópoles como Nova York e São Paulo formam ilhas de calor, mais quentes que as regiões vizinhas. O problema é que o ar mais quente pode afetar a saúde, além de aumentar o consumo de energia. Duas medidas bastante simples ajudam a diluir as ilhas de calor. De acordo com um estudo da Nasa, a agência espacial norte-americana, plantar mais árvores é a melhor forma de reduzir a temperatura. Outra medida que se mostrou efetiva é pintar os telhados de branco ou de cores brilhantes. Desse modo, a cobertura das casas e dos edifícios vai refletir a luz do Sol e, portanto, o calor. "Precisamos ajudar os administradores públicos a encontrar os modos mais eficazes de reduzir o efeito das ilhas de calor em Nova York", comentou Stuart Gaffin, pesquisador da Universidade de Colúmbia, Estados Unidos, e co-autor do estudo da Nasa, que comparou os métodos propostos por cientistas, gestores públicos e ambientalistas. Caso contrário, lembrou, a qualidade do ar só vai piorar, já que as cidades estão se tornando mais populosas e povoadas. •

Antigas crenças por água abaixo

Doses extras diárias de cálcio e vitamina D pouco podem fazer para evitar as fraturas

causadas pela osteoporose, segundo estudo realizado nos Estados Unidos com 38.282 mulheres saudáveis com 50 a 79 anos. Os resultados contradizem as expectativas e questionam as recomendações de saúde para a população. O único efeito positivo foi um aumento de 1% na densidade óssea do quadril. O estudo faz parte do Women's Health Initiative, o mesmo projeto que, também no mês passado, divulgou outro estudo, mostrando que dietas com pouca gordura não protegem contra doenças cardíacas nem contra os cânceres de mama e colo-retal. •

Casamentos em perigo

O marido ronca, a mulher reclama e o empurra, ambos acordam mal-humorados - e o casamento segue ladeira abaixo. Casais que lutam contra a apnéia do sono - falta de ar por fechamento das vias respiratórias - se divorciam mais que os que dormem bem, segundo Rosalind Cartwright,coordenadora do Centro dos Distúrbios do Sono da Universidade Rush, Estados Unidos. Em um estudo com dez casais, sua equipe mostrou que a

mulher pode perder horas de sono por causa do ronco do marido e que surge um clima hostil se ambos dormem menos do que gostariam. Com olheiras, marido e mulher mostravam-se insatisfeitos com o casamento, principalmente se não conseguiam dialogar sobre o tormento dos ruídos noturnos. Quando os homens com apnéia passaram a dormir melhor, o sono das esposas melhorou e o casamento voltou a ser algo bom. •

A cavalo: La triomphe de Ia mort, de Giovanni di Paolo

A terra preta vale ouro

Um tipo de solo encontrado na Amazônia, a terra preta, pode não só transformar solo pobre em fértil, até mesmo triplicando as colheitas, como também ajudar a reduzir os efeitos das mudanças climáticas, por reter carbono. A terra preta foi produzida milhares de anos atrás por populações nativas que usavam uma técnica de desmatamento chamada cortar-e-chamuscar: cortavam a mata e a queimavam por meio de fogos de baixa intensidade, controlados com terra. Segundo Johannes Lehmann, biogeoquímico da Universidade de Cornell, Estados Unidos, esse método pode reduzir as emissões de metano e de oxido nitroso do solo e reter até 50% do carbono da biomassa. Lehmann estima que poderia haver uma redução de até 12% na quantidade de gás carbônico produzido pelas atividades humanas se essa técnica substituísse a atual, cortar-e-queimar, com amplas queimadas usadas que convertem a biomassa em cinza e liberam gás carbônico

para a atmosfera. Segundo ele, o que se está aprendendo sobre a terra preta pode ajudar agricultores a manter a fertilidade dos solos e a reduzir custos. Por reter fósforo, cálcio, enxofre e matéria orgânica, a terra preta não empobrece após o uso contínuo como os outros solos. •

Chumbo no solo e no ar

A mineradora Plumbum ainda é lembrada, 11 anos depois de ter sido fechada. Quase cem famílias da zona rural de Adrianópolis, no Paraná, vivem em terras contaminadas pelo chumbo extraído na região durante cinco décadas pela empresa, e cerca de 60% dos adultos e das

crianças apresentam teores de chumbo no sangue mais elevados que o aceitável, segundo o geólogo Bernardino Ribeiro de Figueiredo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Partículas de chumbo eliminadas para o ar pela Plumbum contaminaram o solo num raio

de 2 quilômetros da sede da empresa, onde as escórias de minério se acumulam a céu aberto. Verduras e legumes plantados nesses solos, além da poeira das casas, contêm quantidades elevadas de chumbo. "Orientamos a população a ser cautelosa quanto ao consumo de alimentos

Raridades do Nordeste: fósseis de Vinctifer comptoni (na imagem maior, sendo devorado por um Calamopleurus cylindricus)

Uma carta para Lisboa

Exploradores portugueses estiveram no Nordeste brasileiro, descobrindo e coletando peixes fósseis, quase 20 anos antes do botânico Carl Friedrich von Martius e do zoólogo também alemão Johann Baptistvon Spix, integrantes de uma expedição científica financiada pelo imperador da Áustria que percorreu o país entre 1817 e 1820. Uma carta de 11 de dezembro de 1800, escrita

de suas hortas e lavar o interior das casas para eliminar a poeira que vem das ruas", diz Figueiredo, coordenador dos recém-publicados Atlas geoquímico do Vale do Ribeira e Atlas geoambiental da bacia do rio Ribeira de Iguape. •

Os raros amigos do verde à mesa

Olhe ao redor e veja como é fácil encontrar quem não gosta de verduras e de frutas - ou simplesmente esquece de comê-las, mesmo sabendo que são importantes. Mas não ache tão estranho. Menos da metade da população brasileira - mais exatamente, 41% - saboreia alguma verdura ou legume e só 30% se lembra de comer ao menos

por João da Silva Feijó, um naturalista que nasceu no Rio de Janeiro e estudou na Universidade de Coimbra, descreve a petrificação dos peixes na Chapada do Araripe e lista amostras que ele enviou para serem analisadas em Lisboa. Algumas são do Vinctifer comptoni, um peixe do Cretáceo, com cerca de 110 milhões de anos. Desconhecida durante muito tempo, a carta de Feijó

uma maçã ou uma banana ao longo do dia. São resultados de um estudo feito a partir de entrevistas com 5 mil pessoas e publicado nos Cadernos de Saúde Pública. Fontes de micronutrientes e de fibras, vegetais e frutas são mais consumidos entre os moradores

mendam que principalmente os mais jovens, os homens, os menos escolarizados e os moradores de comunidades rurais sejam estimulados a comer mais tomates, algumas folhas a mais de alface ou de rúcula ou uma porção de brócolis ou de couve durante as refeições, que poderiam ser intercaladas por uma maçã, uma banana, uma pêra ou uma fatia de melão. •

As marcas dos genes

foi apresentada na revista Comptes Rendus Palevol em um artigo assinado por Miguel Telles Antunes, da Academia das Ciências de Lisboa, Ausenda Balbino, da Universidade de Évora, e Idalécio Freitas, da Universidade Regional do Cariri, no Ceará. Os exemplares descritos nesse documento encontram-se guardados no Museu daAcademia das Ciências de Lisboa.

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de cidades que das áreas rurais - o consumo cresce com .a idade e a escolaridade. Os coordenadores desse levantamento, Patrícia Constante Jaime e Carlos Augusto Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP), consideram insuficiente o consumo e reco-

Os testes de paternidade são apenas um dos exemplos de aplicação dos marcadores moleculares, seqüências de DNA que detectam diferenças entre indivíduos. Servem também para reconhecer a diversidade genética ou a evolução dos organismos, para identificar vírus e bactérias que causam doenças, para estudar o comportamento de genes introduzidos em plantas ou distinguir as variedades resultantes de melhoramento genético convencional. Podem ser empregados até mesmo para identificar cadáveres ou autores de crimes. O livro Marcadores moleculares (Editora UFV) mostra quando e como usar essas ferramentas fundamentais em genética e agronomia e normalmente importadas - um tubo de ensaio com material para dezenas de testes custa em média R$ 200 reais. Coordenado por Aluízio Borém, da Universidade Federal deViçosa, e por Eveline Teixeira Caixeta, da Embrapa, o livro reúne o trabalho de outros especialistas da UFV e da Embrapa e de universidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, com ênfase no uso de marcadores moleculares no melhoramento genético de plantas. •

Um irmão maior

ASTROFÍSICA

Representação'artística de Xena e sua lua ao fundo: astro é o maior objeto encontrado no sistema solar desde a descoberta de Netuno, em 1846

Astro distante e gélido é forte candidato a décimo planeta do sistema solar

Um astro longínquo e gelado, ainda sem nome oficial, pode mudar o conteúdo daquela aula de ciências na qual se aprendia que o sistema solar era formado por nove planetas. Agora, segundo alguns astrofísicos, a lista dos mundos que giram em torno do Sol são dez. O candidatíssimo a novo membro da família solar, apelidado de Xena e chamado tecnicamente de 2003 UB313, é muito parecido com Plutão, formado basicamente por rocha e gelo, mas é um terço maior e atualmente se encontra duas vezes e meia mais afastado do Sol que o nono planeta, no início da periferia de nosso sistema. Há exatos 160 anos, desde a descoberta de Netuno, não se achava nada do tamanho do 2003 UB313 no sistema solar. Pela primeira vez em décadas, há de fato um corpo celeste com chances reais de ser alçado à condição de planeta em nosso sistema, uma hipótese que mexe com o imaginário popular e o conhecimento científico.

Não são raros os objetos celestes que já pleitearam a condição de planeta em nosso sistema desde 1930, quando foi descoberto Plutão, por enquanto ainda reconhecido como o mais distante dos mundos solares. Mas todos os aspirantes a planeta não preenchiam um dos requisitos que costumam ser cobrados dos

astros que almejam essa condição: ser maior que Plutão. Pelo menos nesse teste o 2003 UB313 já passou. Se havia alguma dúvida sobre a dimensão do novo astro, um estudo publicado na edição de 2 de fevereiro deste ano da revista científica britânica Nature desfez boa parte dos questionamentos. No trabalho, astrofísicos da Universidade de Bonn foram os primeiros a confirmar o diâmetro de Xena, por volta de 3.100 quilômetros, ou seja, cerca de 35% maior que o de Plutão. Quase o tamanho da Lua. "Agora ficou difícil justificar o uso do termo planeta para Plutão, mas não para o 2003 UB313", afirma o astrofísico Frank Bertoldi, principal autor do trabalho, reavivando a polêmica sobre o status de Xena que havia começado há alguns meses.

A ratificação do diâmetro do novo astro, que demora 560 anos para dar uma volta completa em torno do Sol, se fazia necessária. Quando a existência do candidato a décimo planeta solar foi anunciada ao público em julho de 2005, o astrofísico Mike Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, principal responsável pela descoberta do astro, afirmou que o frio e distante

A família solar

0 candidato a novo planeta, 2003 UB313, é maior que Plutão e o mais distante dos mundos que giram em torno do Sol Mercúrio Vênus *0,39 0,72

' Diâmetro em quilômetros

objeto era mais avantajado que Plutão, mas não apresentou dados mais precisos sobre suas dimensões. Apesar dos pontos em comum com Plutão, o 2003 UB313 ainda não foi oficialmente reconhecido como planeta.

palavra final sobre o seu status será dada pela União Astronômica Internacional, entidade responsável por classificar e dar nomes aos objetos celestes, talvez em agosto deste ano, durante sua assembléia geral em Praga, República Tcheca. Xena dista 14,5 bilhões de quilômetros do Sol, ou 97 unidades astronômicas (UA). Uma UA eqüivale ao percurso médio que separa a Terra do Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros.

Mais notícias sobre objetos situados na periferia do sistema solar vieram à tona no mês passado. Em outro artigo na Nature, desta vez na edição de 23 de fevereiro, cientistas norteamericanos comprovaram a presença de duas pequenas novas luas girando em volta de Plutão, chamadas temporariamente de PI e P2, que vieram se somar a Caronte, descoberta em 1978, e até agora o único satélite conhecido do nono planeta solar. A possível exis-

tência de PI e P2 havia sido divulgada em outubro de 2005, mas só agora saiu o primeiro estudo ratificando a descoberta. A primeira lua tem entre 60 e 165 quilômetros de diâmetro e demora 38 dias para dar uma volta em Plutão. A segunda é 20% menor e precisa de 25 dias para completar sua órbita. São diminutas se comparadas aos 1.200 quilômetros de diâmetro de Caronte, que apresenta metade do tamanho de Plutão. Os cientistas acreditam que PI e P2 se formaram da mesma maneira que Caronte, a partir de pedaços de Plutão que foram ejetados depois de um objeto colidir com o planeta. A Lua terrestre também pode ter se originado dessa forma. A novidade veio em boa hora: numa missão de US$ 650 milhões, a Nasa, a agência espacial norte-americana, lançou em 19 de janeiro deste ano a sonda New Horizons, que, se tudo correr como o previsto, se tornará em 2015 a primeira espaçonave a ver de perto Plutão, um mundo gelado que se encontra 39 vezes mais distante do Sol que a Terra. Só que em vez de ter uma lua para espiar, terá três. Depois de colher dados sobre o nono planeta solar, a sonda ainda tentará observar um ou dois objetos do chamado Cinturão de Kuiper, região periférica do sistema solar, situa-

Marte
Distância média do Sol - em Unidades Astronômicas (UA) Uma UA eqüivale à distância média que separa a Terra do Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros

da depois de Netuno, onde já se encontraram mais de mil corpos gelados, como cometas, asteróides, candidatos a planetas e até Plutão. "Estimamos que 20% dos objetos do cinturão podem ter satélites", afirma o astrofísico Hal Weaver, da Universidade Johns Hopkins, principal descobridor de PI e P2. Aliás, o candidato a décimo planeta, que foi apelidado de Xena, também possui uma lua, por ora sem nome oficial, mas chamada informalmente de Gabrielle.

Grosso modo, o sistema solar pode ser dividido em três grandes regiões. A primeira é formada pela sua porção mais interna, que inclui os chamados planetas terrestres, de tamanho médio ou pequeno (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte). Esses mundos se situam mais próximos ao Sol e têm superfície sólida.A segunda parte engloba os planetas gasosos gigantes (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), que se encontram mais afastados da estrela-mãe e não apresentam superfície rochosa. São compostos basicamente de hélio e hidrogênio. Há ainda um cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter, formando uma espécie de zona de transição entre os mundos predominantemente sólidos e os majoritariamente gasosos. A terceira região, vastíssima e pouco conhecida, compreende tudo que se encontra além

de Netuno, portanto acima das 30 UA: pequenos corpos gélidos, chamados genericamente de objetos transnetunianos, como Plutão e o candidato a décimo planeta. O Cinturão de Kuiper, entre 30 UA e 50 UA, marca o início dessa região. O fim dela seria a Nuvem de Oort, uma proposta teórica, ainda sem comprovação irrefutável, mas muito aceita entre os astrofísicos.

Berço dos cometas - Como o nome indica, a nuvem seria uma esfera gasosa que delimitaria o fim do sistema solar e seria também o berçário dos cometas de longo período, que demoram mais de 200 anos para dar uma volta em torno do Sol. Por essa proposta, o que está dentro da Nuvem de Oort, provavelmente entre 50 mil UA e 100 mil UA, ainda pertence ao sistema solar. O que está fora escapou da influência gravitacional do Sol. Desde 1995, os astrofísicos sabem que outras estrelas, além do Sol, podem dar origem a sistemas planetários. Mais de 150 mundos extra-solares foram descobertos nos últimos anos, mas nenhum deles ainda se mostrou exatamente igual à Terra.

Qual a importância de se estudar Plutão, o provável décimo planeta solar e outros corpos situados além de Netu-

no? "Essa região é uma espécie de sítio arqueológico do sistema solar", compara o astrofísico Enos Picazzio, da Universidade de São Paulo (USP). "Por estarem distantes do Sol, congelados, seus objetos são os mais bem preservados da nossa vizinhança." Em outras palavras, a composição química desses astros frios e longínquos deve ser hoje a mesma que apresentavam no momento da formação do sistema solar, há 4,5 bilhões de anos (o Universo, segundo a teoria do Big Bang, teria surgido muito antes, de uma explosão primordial há cerca de 14 bilhões de anos). A própria gênese do Sol e de seus planetas poderá ser mais bem entendida à medida que o conhecimento humano penetra nos mistérios da periferia de nosso sistema. Há quem acredite ainda que pistas sobre a origem da água e do material orgânico, essencialmente carbono, que veio do espaço e fez a vida florescer na Terra, podem ser achadas em cometas, asteróides ou planetas do Cinturão de Kuiper. Esses são objetivos de fundo que norteiam a exploração e o estudo dos confins do sistema solar. De imediato, há questões mais prosaicas e pontuais - como decidir o que é um planeta e quantos existem em nosso sistema. Há praticamente um consenso entre os astrofísicos de que Plutão nunca deveria

ter sido classificado como tal. Foi um erro de julgamento que resiste ao avanço do conhecimento. Afinal, Plutão não se parece com os planetas terrestres nem com os gasosos. Sua órbita é muito elíptica (alongada) e percorre um plano 17 graus mais inclinado que o dos demais planetas solares (a órbita do 2003 UB313 é ainda mais estranha, 45 graus mais inclinada que a da Terra). Rochas e gelo devem responder pela composição básica do planeta, cuja temperatura na superfície deve ser inferior a -200 graus Celsius. Enfim, Plutão é um mundo à parte.

O problema é que na época de sua descoberta, em 1930, ainda não havia a noção da existência dos frios objetos transnetunianos e imperava uma corrida em busca de novos planetas. Então, como se queria localizar um planeta, e inicialmente se acreditava que Plutão era maior do que realmente é, rotulouse o astro de planeta. "Plutão foi acha-

do antes do tempo", diz Rodney Gomes, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, que, numa série de três artigos publicados na edição de 25 de maio do ano passado da revista Nature, debitou a atual arquitetura do sistema solar a migrações sofridas pelos planetas gasosos Júpiter e Saturno cerca de 700 milhões de anos depois do nascimento do astro-rei e do conjunto de objetos que o circundam.

Quaoar e Sedna - A rigor, Plutão foi o primeiro objeto do Cinturão de Kuiper a ser localizado, embora a noção do verdadeiro status do astro só tenha ficado clara décadas depois de sua descoberta - quando todo mundo, inclusive os livros escolares, já tinha incorporado a idéia de que existiam nove planetas no sistema solar.

Não é fácil descobrir objetos além de Netuno. Várias razões explicam essa dificuldade: os gélidos corpos celestes

dessa zona do sistema solar são muito pequenos (menores que a Lua), estão muito longe de nós e mal refletem a escassa luz do Sol que eventualmente lhes atinge. Obter uma boa imagem de um desses astros ainda não foi conseguido, como atestam as fotos pouco nítidas de Plutão. Apesar dos percalços, desde o início da década passada os astrofísicos estão conseguindo localizar mais e mais objetos transnetunianos com o auxílio de novas técnicas ou equipamentos. Depois de Plutão e Caronte, a descoberta do primeiro objeto transnetuniano só ocorreu em 1992, quando se encontrou um pequeno asteróide de cerca de 200 quilômetros de diâmetro. Desde então, mais de mil corpos celestes foram achados no Cinturão de Kuiper. A maioria deles é de pequeno porte, o que facilita classificá-los como asteróides ou algo do gênero. No entanto, alguns astros descobertos nesta década, como Quaoar e Sedna, apresen-

tam quase o tamanho de Plutão e chegaram a ser considerados como candidatos a planeta. Mas, como eram menores que Plutão, esse tipo de discussão não prosperou por muito tempo. Não vai ser possível fazer o mesmo com o 2003 UB313, que é uma espécie de Plutão ligeiramente aumentado.

Corpos que se movem - Ao longo do tempo, o termo planeta - hoje geralmente compreendido como um astro de formato esférico, sem luz própria, e que gira em torno de uma estrela - mudou ligeiramente de sentido e adquiriu novas nuances. De origem grega, a palavra era utilizada originalmente na Antigüidade para discriminar no céu os astros que se moviam em oposição aos que pareciam estar fixos, as estrelas e constelações. Era uma definição bem genérica, na qual cabiam vários tipos de objetos celestes. "Os primeiros asteróides, como Ceres e Pallas, chegaram a

ser chamados de planetas, mas depois foram classificados de outra forma", comenta a astrofísica Daniela Lazzaro, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro. Não é à toa que os asteróides - termo que atualmente engloba astros de formato irregular e de tamanhos variados, com dimensões de uma pedra ou até cerca de mil quilômetros de diâmetros - são chamados informalmente de planetas menores.

Em alguns casos, como os planetas propriamente ditos, os asteróides, quase sempre vistos como rochas que viajavam sozinhas no espaço, possuem até luas orbitando em torno de si. O primeiro satélite de um asteróide, Dáctilo ao redor de Ida, foi achado em 1993 pela sonda Galileo. Ou seja, a linha divisória que separa o que pode ser chamado de planeta do que merece outra designação é, por vezes, tênue e arbitrária. "É difícil estabelecer a linha de corte entre o que é um planeta e o que não é",

diz Daniela, que, no entanto, acha toda essa discusão secundária. "O importante é saber como é um objeto, e não como se deve chamá-lo."

Qualquer que seja a decisão da União Astronômica Internacional a respeito do status oficial dos maiores objetos do Cinturão de Kuiper, como o 2003 UB313, o veredicto não vai agradar a todos. Por razões mais históricas que científicas, Plutão dificilmente perderá sua condição de planeta. A questão é saber se outros mundos gelados do Cinturão de Kuiper, de tamanho semelhante ao do nono planeta solar, receberão o mesmo tratamento. Se pudesse escolher um nome oficial para sua maior descoberta, Mike Brown batizaria o provável décimo planeta de Perséfone, a mitológica mulher de Plutão, o deus grego das profundezas. "Mas um asteróide já tem esse nome", diz o astrofísico do Caltech. "Acho então que ele está fora de questão." •

Pólens de espécies de Mata Atlântica ampliados 200 vezes: registros das vegetações gue se sucederam

Pólens de uma cratera na cidade de São Paulo testemunham as mudanças climáticas e ambientais dos últimos 100 mil anos

do tempo

flém de Parelheiros, um dos bairros mais ao sul da capital paulista, as casas, lojas e depósitos de ferro-velho progressivamente dão lugar a sítios com hortas, pastos, palmeiras, pinheiros e um pouco de MataAtlântica. É difícil perceber que esse terreno quase plano seja a cratera de Colônia, formada possivelmente pelo impacto de um cometa ou de um meteorito há pelo menos 3 milhões de anos. Seus limites só se tornam evidentes à medida que se abre o olhar para o horizonte e se nota um anel de morros cercando uma área circular de 10 quilômetros quadrados. O centro da cratera é ocupado por um charco coberto por vegetação rasteira no qual nem os bois entram. Os bois evitam, mas os pesquisadores adoram entrar nesse brejo. Também chamado de turfeira, é formado por uma camada que pode atingir 450 metros de espessura, com sedimentos lamacentos e negros que se depositaram lentamente entre as bordas da cratera desde o suposto impacto do corpo celeste. A turra - matéria orgânica em decomposição cuja cor, ali, varia do preto acinzentado ao preto esverdeado - mistura-se com pedaços de caules, restos de folhas e espinhos, alguns frutos e grãos de pólen. "Esses sedimentos podem conter registros das mudanças climáticas dos últimos 4 milhões de anos na Região Sudeste", diz o geólogo Cláudio Riccomini, do Instituto de Geociências (IG) da Universidade de São Paulo (USP). Ele visitou a cratera pela primeiravez em 1980 e ainda hoje não hesitaria em, de novo, enfiar-se até a cintura nesse brejo e colher amostras de um tesouro que fascina apenas os cientistas. "Geologicamente", diz ele, "essa cratera é única, por ainda estar fechada e isolada por suas bordas".

Situada nos limites da zona urbana, a 50 quilômetros do centro da cidade, a cratera de Colônia é a única da Região Sudeste e uma das seis no Brasil cuja origem ainda precisa ser atestada por

estudos mais detalhados. A essas se somam outras cinco que, comprovadamente, resultam do impacto de corpos celestes - na América Latina há 11 e no mundo todo 170 depressões já conhecidas formadas pelo impacto de objetos vindos do espaço. Com um diâmetro de 3,6 quilômetros e bordas com 100 a 125 metros de altura, a cratera de Colônia volta a ganhar importância em razão de um estudo feito com os 130 tipos de grãos de pólen encontrados em uma coluna de sedimentos de 7,8 metros retirados do meio do charco.

Os tentáculos da floresta Nesse trabalho, publicado na revista Quaternary Research, pesquisadores do Brasil e da França, a partir da seqüência, da diversidade e da abundância de pólens, concluíram como a vegetação mudou, de acordo com as alterações climáticas. Ao longo dos últimos 100 mil anos, limite que corresponde à idade aproximada dos sedimentos da base da coluna, a floresta avançou e recuou algumas vezes de modo radical, ganhando ou perdendo espaço como se fosse um polvo abrindo ou encolhendo os tentáculos. Segundo a' coordenadora desse trabalho, a paleobotânica francesa Marie-Pierre Ledru, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD, na sigla em francês) e professora visitante do Instituto de Geociências da USP entre 1998 e 2003, nesses 100 mil anos a floresta atlântica expandiu-se oito vezes e retraiu-se duas, em resposta ao clima, ora mais quente e úmido, ora mais frio e seco.

Quando a umidade e a temperatura se mostravam mais favoráveis à reprodução das plantas, em um dos períodos interglaciais recentes, entre 130 mil e 85 mil anos atrás, a floresta apresentou três ciclos de crescimento. As árvores nutriam-se à vontade de luz e de água, formando matas fechadas semelhantes às encontradas no litoral paulista. Mas se seguiu um longo período de clima hostil - o período glacial, que durou 73 mil anos, de 85 mil a 12 mil anos atrás. A temperatura média caiu pelo menos

cinco graus - o bastante para desregular os ciclos reprodutivos das plantas, que muitas vezes morriam sem deixar descendentes. Pouco a pouco, no lugar da floresta alta e densa brotou uma vegetação campestre, aberta e baixa, com árvores apenas nas margens dos rios. Segundo Marie-Pierre, provavelmente nessa época havia ventos fortes, capazes de derrubar as árvores mais altas ou mais frágeis.

A floresta recompunha-se nos momentos de clima mais ameno. De acordo com a análise dos pólens ao longo da coluna de sedimentos, a mata expandiu-se entre 55 mil e 43 mil anos atrás e retraiu-se severamente entre 43 mil e 28 mil anos. Mas voltou a ganhar espaço entre 28 mil e 23 mil para depois encolher, a ponto de outra vez quase desaparecer, entre 23 mil e 12 mil anos. No período interglacial mais recente, que começou há 12 mil anos e segue até hoje, as árvores se viram novamente sob condições climáticas mais amigáveis. A floresta atlântica se espalhou também em três momentos nesses últimos 12 mil anos, recompondo a mata fechada, densa e rica em espécies. As mudanças no clima e na vegetação registradas na cratera de Colônia coincidem com as verificadas em duas cavernas, uma em São Paulo e outra em Santa Catarina, em que já se fez esse tipo de estudo. Conferem também com os testemunhos de gelo da Groenlândia e da Antártida.

Jardim de coníferas

Cada vez que a floresta encolhia, surgiam novas espécies de árvores, enquanto outras desapareciam. Em um dos momentos de retração da mata, há cerca de 80 mil anos, propagaram-se as árvores do gênero Weinmannia. Um dos representantes atuais desse gênero, a Weinmannia paulliniifolia, uma árvore de até 16 metros também chamada de gramimunha ou gramoinha, com uma casca rica em tanino bastante utilizada para curtir couros, é normalmente encontrada no alto de morros. Ao mesmo tempo, em decorrência das

mudanças climáticas, quase acabaram as representantes da família Myrsine, formada por quase mil espécies, geralmente arbustos, hoje encontradas nas regiões tropicais do planeta. Nos tempos mais frios restavam poucos exemplares, contidos em refúgios, provavelmente perto dos rios. "Esses refúgios se expandiram há 15 mil anos por causa das condições climáticas favoráveis", conta Marie-Pierre.

Segundo Marie-Pierre, nos últimos 12 mil anos, nos arredores da futura metrópole paulista, também cresciam em abundância coníferas como a Araucária e a Podocarpus. Seus descendentes, como o pinheiro-do-paraná {Araucária angustifolia) e o pinheiro-bravo (Podocarpus lambertii), formavam populações mais densas nos estados do Sul e em áreas montanhosas da serra da Mantiqueira - atualmente apenas pontuam a capital paulista. "Esse fenômeno de retração das coníferas é muito interessante", diz Marie-Pierre, "porque não se deve à ação do homem, que chegou muito depois. Pode ser o resultado da história evolutiva das antigas coníferas, que não encontraram mais condições climáticas favoráveis às expansões".

A cratera atrai os pesquisadores também por causa das incertezas sobre sua origem. Após se eliminar outras possibilidades, como erosão ou vulcanismo, em razão das características geológicas do terreno, aceitou-se a idéia de que essa depressão possa ser o resultado do impacto de um corpo celeste. No entanto, "cientificamente só o descarte de outras possibilidades não é suficiente", comenta o geólogo Álvaro Crósta, professor do Instituto de Geologia da Universidade Estadual de Campinas

(Unicamp), que estuda crateras há três décadas. "Esse é um ponto frágil do trabalho científico", observa o astrônomo Oscar Matsuura, professor aposentado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Anos atrás, o geólogo norte-amerciano Eugene Shoemaker, um dos maiores especialistas em asteróides e cometas, examinou os dados sobre Colônia e comentou aos colegas brasileiros: "Não tenho dúvidas de que se trata de um impacto de um corpo celeste. Mas vocês terão de provar". Shoemaker morreu num acidente de carro em 1997, de férias na Austrália.

ssa hipótese só seria demonstrada se os pesquisadores encontrassem sinais do impacto que pudessem ser aceitos como conclusivos, já que o objeto que veio do espaço se desfez logo após chocar-se com a superfície. Seria preciso colher amostras das rochas que sustentam a camada de sedimentos e tera sorte de encontrardeformações em minerais como o quartzo ou resquícios de metais do grupo da platina, como o irídio, que só se forma fora da Terra.

Foi o irídio detectado em 1980 em rochas com 65 milhões de anos em pontos distantes como a Itália e a China que sugeriu aos geólogos a possível ocorrência de um gigantesco impacto nessa mesma época em algum lugar do planeta. Só em 1991 é que encontraram a cratera de Chicxulub, submersa no golfo do México, com 180 quilômetros de diâmetro. O impacto de um asteróide com cerca de 10 quilômetros de diâmetro deve ter gerado uma densa nuvem de poeira que se espalhou pelo planeta, bloqueou a passagem da luz solar, fez a

temperatura cair abruptamente cerca de dez graus e contribuiu para a extinção em massa de muitas formas de vida de então, inclusive os dinossauros.

Punhal de gelo

Riccomini acredita que o impacto sobre Colônia também tenha formado uma nuvem de poeira e gerado uma onda de choque e de calor, ainda que bem menor, mas larga e densa o suficiente para causar a morte dos animais que viviam a um raio de 50 quilômetros. Foi ele que estimou que a colisão possa ter ocorrido em um momento qualquer entre 5 milhões e 3 milhões de anos atrás - e, a seu ver, pode não ter sido causada por um objeto rochoso como um meteorito ou um asteróide, mas por um cometa, que, por ser formado de gelo, não deixaria vestígios. "Seria como um punhal de gelo, que se desfaz depois de um crime", compara.

Os pesquisadores estão um pouco aflitos, sobretudo porque a região está sendo progressivamente tomada por moradias. Por ali moram cerca de 30 mil pessoas. Teme-se que a ocupação desordenada desfigure as bordas, altere a composição dos sedimentos da turfeira ou dificulte futuras escavações. Os primeiros habitantes chegaram à região no final do século 18, quando o imperador dom Pedro I autorizou a instalação de chácaras por colonos alemãeso nome da cratera vem daí. As chácaras persistiram até duas décadas atrás, quando seus donos começaram a vender as terras, requisitadas para um presídio, inaugurado em 1987, e depois para moradias. Desde 2001 a cratera integra a Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos, mas as casas continuam avançando sobre os morros e a vegetação original da cratera.

Ao sul da capital

A cratera de Colônia é formada por um charco cercado por matas e morros parcialmente ocupados por 30 mil habitantes (acima). Situa-se a cerca de 50 quilômetros do centro, na transição da zona urbana para a rural (destaque ao lado)

Natureza e cultura

"Essa região tem uma clara vocação, que poderia ser aproveitada por meio de um parque temático que atendesse a toda a cidade", diz Matsuura. O parque que ele esboçou explora não só o patrimônio natural - as diversas formas de vegetação - e o antropológico: ali perto há duas aldeias de índios tupi-guaranis. Há exemplos notáveis de como conservar e explorar esses lugares. Nos Estados Unidos, a família Barringer construiu um museu de geologia e astronomia perto de uma cratera de 50 mil anos no deserto do Arizona. Na Alemanha, uma cidade medieval, Ries, cresceu no interior de uma cratera de 25 quilômetros de diâmetro e se mantém com a renda gerada pelo turismo. No Brasil há apenas sinais do desejo de explorar as crateras, como a torre de 30 metros erguida há poucos anos para os visitantes apreciarem o Domo deVargeão, uma cratera de 12 quilômetros de diâmetro no oeste de Santa Catarina. Em 2005, Crósta esteve mais uma vez no Domo de Araguainha, cratera de 40 quilômetros em Mato Grosso. Participou da inauguração de um marco instalado no centro da cratera, fez palestras em escolas e conversou com os prefeitos e vereadores de Araguainha e Ponte Branca, situadas no interior da cratera.

Há quase 20 anos Crósta andou bastante por lá e se lembra de como era difícil explicar aos moradores o que fazia e o que era aquela estrutura circular cortada pelo rio Araguaia. Mas não hesitava em mostrar seus mapas e imagens de satélite. Pouco depois ele conseguiu provar que Araguainha não era uma estrutura vulcânica, como se pensava, mas uma cratera de impacto - a mais antiga e a maior da América do Sul, com 245 milhões de anos. •

Os genes do papel

Equipes de cinco estados identificam seqüências de DNA que podem tornar o eucalipto mais resistente à seca e às doenças

v V os próximos meses devem brotar no laboratório do agrônomo Ivan de Godoy Maia, em Botucatu, interior de São Paulo, IV os primeiros pés de tabaco com uma caIV racterística especial: genes que não são

I originalmente dessa planta de folhas verde-claras grandes, largas e macias, mas do eucalipto, árvore de até 35 metros de altura e folhas duras em forma de lança. Desde o final de 2005 Maia trabalha na preparação de seis genes dessa árvore aparentemente ativos em um único tecido vegetal - a folha, o caule, a raiz, a flor ou o fruto - para implantá-los no tabaco. A razão para produzir pés de tabaco transgênico é que essa planta cresce e atinge a fase reprodutiva em cerca de seis meses, ao menos 12 vezes mais rapidamente que o eucalipto. Assim, é possível confirmar em pouco tempo em qual tecido vegetal cada um desses genes atua e sua provável função. Controlar esse ou outros genes é o primeiro passo para criar árvores de eucalipto mais resistentes à seca e às pragas ou capazes de produzir madeira de melhor qualidade para a extração de celulose e a produção de papel.

Esses experimentos com tabaco ou com outra plantamodelo, a Arabidopsis thaliana, são o que os geneticistas chamam de genoma funcional - neste caso, é a terceira etapa do projeto Genoma Eucalipto, o primeiro genoma de árvore seqüenciado no Brasil. Espera-se que em alguns anos os resultados obtidos em laboratório formem plantações mais produtivas de eucalipto. Natural da Oceania, essa árvore foi introduzida no país no início do século 20 por Edmundo Navarro de Andrade para produzir dormentes para as ferrovias que avançavam pelo interior paulista. O

Plantação de eucalipto: produtividade quadruplicou em 40 anos

Brasil possui a maior área plantada no mundo destinada a fins comerciais. São 3,5 milhões de hectares que garantem ao país a posição de 7o produtor mundial de celulose e 1 Io de papel, atividades responsáveis por 4% do Produto Interno Bruto, ou R$ 80 bilhões.

A busca de variedades de eucalipto geneticamente modificadas é a parte final de um projeto de seqüenciamento de genes que começou em 2001 e, com um perfil pouco comum no país, aproximou universidades e empresas. Na fase anterior, chamada data mining ou mineração de dados, encerrada no fim de 2005, foram identificados genes que podem contribuir para o aprimoramento dessa árvore. Com o auxílio de programas de computador equipes de 20 laboratórios do Rio Grande do Norte, Alagoas, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo vasculharam 123.889 segmentos de genes. Esse total corresponde a quase 15 mil genes que haviam sido seqüenciados pelo consórcio Genoma Eucalipto (Forests), formado pela FAPESP e por quatro empresas do setor de madeira, papel e celulose - Duratex, Ripasa, Suzano e Votorantim -, com a colaboração das equipes do projeto Genomas Agronômicos e Ambientais (AEG).

No data mining os pesquisadores compararam os genes de cinco espécies de eucalipto comuns no país - Eucalyptus grandis, E. urophylla, E. camaldulensis, E. saligna e E. globulus - com genes já conhecidos de plantas como o tabaco, o álamo e a Arabidopsis. E descobriram quase 200 genes produtores de proteínas do sistema de defesa contra patógenos e 15 outros responsáveis por um complexo de proteínas que silencia outros genes. Outros resultados são relatados nos 19 artigos do suplemento da revista Genetics and Molecular Biology de novembro de 2005. "Esses e outros genes deverão servir como indicadores de características que se deseja reproduzir nas plantas", diz o engenheiro florestal Luis Eduardo Aranha Camargo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), coordenador da segunda e da terceira fases do Genoma Eucalipto.

Nos últimos 40 anos técnicas de melhoramento genético tradicional como as usadas no século 19 pelo monge e botânico austríaco Gregor Mendel, um dos fundadores da genética, possibilitaram um aumento de até quatro vezes na produtividade dos eucaliptais brasileiros. A produção de madeira por hectare de floresta subiu de 12 metros cúbicos por ano na década de 1960 para até 50 metros cúbicos. Essa produção anual corresponde a uma sala de 5 metros de comprimento por 4 de largura cheia até o teto com a madeira obtida pela derrubada das árvores plantadas em uma área equivalente a um quarteirão.

as nem sempre o simples cruzamento de variedades distintas surte o efeito desejado. Por esse motivo, o que se tenta ao produzir eucaliptos geneticamente modificados é alterar características que não são facilmente manipuladas por meio do melhoramento genético tradicional. Um exemplo é o controle da concentração da lignina, polímero natural que funciona como um cimento entre as células e confere dureza à madeira. O sonho de todo produtor de papel e celulose é colher plantas com um teor de lignina inferior ao normal, de 20% a 30% da massa da árvore. Níveis mais baixos de lignina simplificariam o processamento da madeira para obter celulose, açúcar formado por milhares de moléculas de um açúcar mais simples, a glicose. Já para a indústria de móveis ou para a indústria siderúrgica interessam as árvores com teores de lignina mais elevados.

O controle da quantidade de lignina dependerá da habilidade dos pesquisadores para controlar um ou mais genes identificados pelo biólogo Ricardo Harakava, do Instituto Biológico de São Paulo. Harakava encontrou 13 genes que regulam a produção de lignina, conhecidos anteriormente apenas em plantas herbáceas, como a Arabidopsis thaliana, e no álamo, árvore de até 35 metros de altura, principal fonte de celulose nos países do hemisfério Norte. A comparação do nível de atividade desses genes nas diferentes espécies de eucalipto - são cerca de 700 - pode re-

Uma das metas: controlar genes ativos nas folhas para aumentar a defesa contra fungos e insetos

velar um padrão de funcionamento típico das árvores com baixa produção de lignina, funcionando assim como marcadores biológicos dessa característica. "Com o auxílio de marcadores biológicos é possível fazer a seleção precoce de plantas com baixo teor de lignina", exemplifica Harakava. Outra possibilidade: reduzir a atividade desses genes por meio de técnicas de transgenia, ainda em fase experimental no caso do eucalipto.

Antibióticos naturais - Também se pretende desenvolver eucaliptos mais resistentes a doenças. Nas regiões mais quentes e úmidas do Brasil, uma elevada variedade de patógenos ataca especialmente as plantas jovens e impedem seu crescimento. Espécies como a Eucaliyptus urophylla, bastante usada por crescer rapidamente e atingir a idade reprodutiva em apenas cinco anos, são muito suscetíveis a fungos que digerem a madeira, danificam as folhas ou causam o apodrecimento das raízes. Analisando os dados do Genoma Eucalipto, a equipe da geneticista Ana Maria Benko-Iseppon, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), localizou 210 genes capazes de ajudar a resolver esses problemas. "É um número bastante elevado, uma vez que o material genético foi extraído de plantas saudáveis", diz Ana Maria. "Esse resultado sugere que pode haver um número ainda maior de genes de resistência no eucalipto." Esses 210 genes integram as cinco classes de genes de resistência (genes R) conhecidas em plantas e talvez haja até mesmo uma nova classe, a sexta, que ainda deve ser confirmada por meio de experimentos. Associados a diferentes mecanismos do sistema de defesa do eucalipto, desencadeiam sinais químicos

que induzem um suicídio celular coletivo nos tecidos infectados ou estimulam a produção de compostos que atuam como antibióticos naturais e eliminam fungos, bactérias, vírus ou vermes.

Já o trabalho do geneticista Márcio Alves-Ferreira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pode auxiliar no desenvolvimento de variedades de eucalipto menos sensíveis à seca - a falta de chuva por mais de um mês é uma ameaça às plantações da região noroeste de São Paulo. A equipe do Rio encontrou 50 genes reguladores da família homeobox, que ligam ou desligam outros genes relacionados à tolerância à falta d'água."Se os experimentos derem certo, poderemos produzir variedades resistentes à seca usando genes do próprio eucalipto, e não de outras espécies", diz Alves-Ferreira. Seu trabalho com os genes MADS-box, responsáveis pelo desenvolvimento da flor, pode impedir a produção de grãos de pólen e a contaminação de plantas normais com o material genético de variedades transgênicas.

Interruptor genético - O grupo do biólogo Marcelo Menossi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), identificou dito genes muito ativos em quase todos os tecidos do eucalipto. São genes como o que contém a receita da catalase, enzima antioxidante que protege as células de danos causadosfpor radicais livres, e o responsável pela produção da proteína HSP (heat shock protein), que evita danos celulares provocados pelo aumento da temperatura do ambiente. Outros 13 genes distinguem-se dos demais por funcionarem em um único tecido.

Para as pesquisas avançarem, é essencial conhecer o tecido em que os genes atuam. Cada gene contém um trecho inicial chamado região promotora ou reguladora que atua como um interruptor genético, controlando onde o gene vai funcionar ou se desligar. Desse modo, um gene que coordena a produção das pétalas das flores durante o período reprodutivo vai se manifestar somente nos tecidos florais - e permanecerá inativo na raiz e no caule

- porque sua região promotora tornase ativa somente nas células da flor. Caso se deseje proteger o eucalipto de insetos que atacam as folhas, é possível associar um gene que produz uma toxina contra o inseto a uma região promotora de um gene ativo apenas em folhas. Já se a meta for gerar uma variedade resistente a fungos que atacam todos os tecidos, será necessário associar um gene contra o fungo a um promotor ativo em todos os órgãos da planta. Foi justamente a região promotora de seis desses genes - dois específicos da folha, um da raiz, um de botão floral e outro de botão floral e fruto, além de um gene ativo em todos os tecidos - que Ivan de GodoyMaia obteve em seu laboratório na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, e prepara agora para inserir em plantas de tabaco. Se der certo, os pesquisadores terão à disposição seqüências promotoras identificadas no Brasil e não precisarão pagar royalties pelo uso de trechos promotores já patenteados no exterior. •

Rigor sensi ade

inda que indiretamente, a versão eleW trônica da obra de referência sobre as ^W plantas do Brasil, apresentada oficialmente neste 8 de março, nasceu por^^S que um dos imperadores da Áustria, B Francisco I, gostava de botânica e, em H especial, das florestas tropicais. As matas desse lado do Atlântico sempre fascinaram os europeus, com suas árvores grossas, finas, altas e baixas misturadas entre si, com os galhos se entrelaçandoeram exageradas, misteriosas e variadas, tão diferentes das matas relativamente uniformes e bem-comportadas que estavam acostumados a ver.

Em 1817, Francisco I conciliou seu interesse pelas plantas com a possibilidade de ampliar a influência política de seu reino. Para acompanhar sua filha de 20 anos - a arquiduquesa Maria Leopoldina, fluente em seis línguas e igualmente apreciadora das ciências naturais - que seria enviada ao Brasil para casar-se com o futuro imperador Pedro I, o monarca austríaco reuniu os representantes da elite científica européia. Formavam a Missão Austríaca, criada com o propósito de estudar as plantas e os animais das florestas tropicais, símbolos do paraíso perdido.

A filha do imperador, que teria um papel importante na independência do Brasil, chegou ao Rio em novembro de 1817. Casou-se e teve sete filhos antes de morrer em conseqüência de um parto em 1826, aos 29 anos. Em julho de 1817 havia chegado uma parte da Missão Austríaca, que logo se pôs em campo. Durante três anos o botânico Carl Friedrich Philipp von Martius e os zoólogos Johann Baptiste von Spix e Johann Natterer, acompanhados por desenhistas e assistentes, percorreram 10 mil quilômetros de Mata Atlântica,

Vegetação dos arredores da cidade do Rio de Janeiro (ao fundo o aqueduto), desenhada por Benjamin Mary

Versão eletrônica da Flora

amplia o acesso ao conhecimento sobre as plantas do Brasil

brasiliensis

As raízes da botânica no Brasil

Cerrado, Caatinga e Floresta Amazônica, atentos a tudo o que encontravam de diferente. Anos depois, a partir das amostras de plantas e das impressões colhidas por Von Martius, nasceria a Flora brasiliensis, uma obra em 40 volumes que se tornou uma referência sobre as plantas do Brasil e agora pode ser consultada também pela internet, por meio do Flora brasiliensis on-line. A versão eletrônica da obra de Von Martius reúne em uma página na internet (www.florabrasiliensis.cria.org.br) um banco de dados dos nomes das espécies identificadas na Flora e as imagens de 3.811 pranchas com os desenhos de folhas, frutos e flores. As ilustrações podem ser consultadas a partir do nome científico de cada espécie ou do volume ou da página da obra original em que foi descrita. Com essa base de dados, financiada pela FAPESP, pela Fundação Vitae e pela Natura Cosméticos, os botânicos do Brasil e de outros países poderão ganhar tempo na identificação de plantas, que nos casos mais difíceis atualmente consome anos de trabalho, e no estudo da situação de uma espécie. Volker Bittrich, botânico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que participa desse projeto, enquanto preparava dados para a Flora

on-line encontrou um único registro da Sciaphila caudata, realizado pelo francês Auguste-Francois-Marie Glaziou no Rio de Janeiro por volta de 1870. Como nunca mais foi coletada, essa espécie de flores minúsculas pode ter sido extinta - e a ilustração da Flora brasiliensis é praticamente a única pista para os botânicos que desejam reencontrar essa planta. Já o público em geral, especialmente professores, estudantes e artistas, pode usufruir de um acervo de belíssimas imagens, antes guardadas em não mais de dez bibliotecas brasileiras.

"A Missão Austríaca foi um dos primeiros esforços de conhecer cientificamente a natureza brasileira", comenta Vanderlei Perez Canhos, diretor do Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), responsável pelo desenvolvimento dessa base de dados de acesso livre. A monumental obra de Von Martius representa não só o único levantamento completo feito até agora sobre as plantas do Brasil, mas também um olhar panorâmico, integrado e de rara erudição sobre a própria paisagem do país. Em um fas-

cículo do primeiro volume publicado postumamente, em 1906, Von Martius enriquece com citações de Platão, Goethe e Sócrates as descrições, por si sós já refinadas, do Cerrado, da Caatinga e das florestas Atlântica e Amazônica.

on Martius era extremamente culto e mostrava muita preocupação com as formas de vida e a cultura dos nativos, algo bastante incomum para a época", comenta o botânico George Shepherd, professor da Unicamp e um dos coordenadores desse projeto. Algumas partes do primeiro volume, com as descrições de plantas, saíram em 1840, 20 anos depois de Von Martius ter regressado à Europa. Ele próprio editou os primeiros volumes, até morrer, em 1868. Outros editores assumiram o trabalho que só terminaria 38 anos depois, em 1906, com a publicação de partes dos volumes 3 e 1. Os volumes, partes e fascículos da Flora saíam à medida que ficavam prontos, sem uma seqüência lógica.

Pôr a Flora on-line no ar foi só o começo. Em paralelo corre a atualização dos nomes científicos das plantas, a car-

Bignonia exoleta
Jacaranda decurrens
Tabebuia obtusifolia

Cuspidaria erubescens

go de uma equipe coordenada por Shepherd, da Unicamp. Segundo ele, como houve grandes mudanças na classificação de muitas espécies desde que a obra foi publicada, talvez seja preciso acertar mais da metade dos 22.767 nomes de espécies descritas - aquela planta que ninguém viu mais, a Sciaphila caudata, é agora chamada de Peltophyllum caudatum. "O próprio conceito de espécie mudou", diz o botânico da Unicamp. Há casos em que uma espécie descrita na Flora foi desdobrada em duas ou três - ou o contrário. Na versão quase completa da Flora brasiliensis que a Biblioteca Nacional da França colocou na internet em 1995 constam só os nomes criados por Von Martius ou por sua equipe, que reuniu 65 botânicos de vários países.

A versão eletrônica é igualmente um trabalho coletivo e não corre só no Brasil. Um dos responsáveis pela idéia inicial foi Paul Berry, da Universidade de Michigan, Estados Unidos, que se mantém como um dos colaboradores. Já participaram pesquisadores dos jardins botânicos de Missouri, Estados Unidos, ou de Munique, Alemanha, e a próxima etapa contará com botânicos da Universidade de São Paulo (USP), como Lúcia Lohmann e José

Rubens Pirani, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), como Ana Odete Vieira, e da Unicamp, como Ingrid Koch e Luiza Kinoshita, além de Daniela Zappi, do Jardim Botânico de Kew, Inglaterra.

Nos bastidores não há só botânicos. Em um dos computadores do Cria, o matemático Sidnei Souza, depois de ter dado forma à Flora on-line, está estruturando o sistema internacional de classificação das plantas atualmente aceito. "Serão dois bancos de dados independentes mas interligados", diz ele. Sua meta é que o usuário passe de um

O PROJETO

Flora brasiliensis: desenvolvimento de um protótipo

MODALIDADE

Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa

COORDENADOR

GEORGE JOHN SHEPHERD - Unicamp

INVESTIMENTO

R$ 119.895,55 (FAPESP)

R$121.000,00 (Fundação Vitae)

R$ 185.000,00 (Natura)

para outro sem perceber e chegue à planta que procura, não importando se está partindo de um nome científico antigo ou novo. Conhecido pela sigla APG, de Angiosperm Phylogeny Group ou Grupo de Filogenia das Angiospermas (plantas com flores), esse novo sistema de classificação define os principais grupos de plantas por meio das semelhanças no DNA, além das características externas de suas folhas, frutos e flores. O APG está provocando uma revolução silenciosa na botânica, porque há casos de mudanças radicais - e uma família de plantas pode abrir-se em outras quatro ou cinco. A atualização dos nomes científicos, alegam os especialistas, é essencial para que a Flora on-line possa servir de base para a integração com os levantamentos florísticos em andamento no Brasil - e assim talvez se saiba, finalmente, o número de espécies de plantas do país. As 22.767 espécies descritas por Von Martius e por sua equipe representam o conjunto de plantas conhecidas até meados do século 19, mas se acredita que o total de espécies de plantas do Brasil possa ser de pelo menos o dobro e chegar a 50 mil, de acordo com as estimativas de Shepherd, enquanto outros cálculos variam de 35 mil a 70 mil. •

Tribouchina arbórea
Tribouchina axillaris

QCIÊNCIA

orno se nao suportasse a saudade, o marido octogenário morre semanas depois que a mulher com quem convivera três quartos de sua vida ficou doente, foi internada e morreu. Não é só um episódio de uma família ou outra, mas uma situação comum, de acordo com um estudo feito com 518.240 casais norte-americanos com idade entre 65 e 98 anos, acompanhados durante nove anos. É o efeito do luto.

Nesse levantamento, Nicholas Christakis, médico e sociólogo da Universidade Harvard, e o sociólogo Paul Allison, da Universidade da Pensilvânia, verificaram que é 21% maior a probabilidade de o homem também morrer depois que sua companheira se foi, não importando se ela estava doente ou não. Entre as mulheres, aumenta apenas em 17% o risco de também partir depois do marido. Só a hospitalização de um dos idosos do casaljá é o bastante para elevar o risco de o outro morrer - também nesse caso, os homens respondem mais intensamente (risco de morrer 4,5% maior) que as mulheres (risco 2,7% maior).

Enfim, a liberdade - Ao menos no Brasil essa diferença poderia ser explicada porque homens e mulheres enfrentam a viuvez cada um a seu modo. Para os homens, a morte da esposa é o momento mais triste da vida, enquanto para as mulheres a perda do marido representa, com freqüência, o fim da opressão da vida conjugai e a conquista da autonomia, de acordo com os estudos realizados pela antropóloga Guita Grin Debert, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O quadro observado por Christakis e Allison não é tão simples assim,já que a possibilidade de perder a saúde varia de acordo com a doença que motivou a hospitalização ou a morte do parceiro. A internação do homem ou de sua companheira por causa de um câncer de intestino praticamente não afeta a

MEDICINA

Unidos até na morte

Estudo com 520 mil casais mostra quão intenso pode ser o impacto da doença ou da morte de um cônjuge

saúde do outro. Se o motivo da hospitalização era insuficiência cardíaca, fratura de quadril ou uma doença pulmonar crônica como o enfisema, a probabilidade de morte do companheiro aumentava de 11% a 15%.

Mas foram as doenças mentais que mais prejudicaram o bem-estar dos cônjuges. A internação da esposa por um distúrbio psiquiátrico a exemplo da esquizofrenia ou por causa de demência, a perda progressiva da memória e da capacidade de julgamento, elevou o risco de morte do parceiro em até 32%. "Doenças que provocam sofrimento crônico e mudanças drásticas no grau de dependência de um dos cônjuges acabam afetando a saúde e a sobrevida do outro", comenta o geriatra Luiz Roberto Ramos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que coordena um estudo que acompanha desde 1991

a saúde dos idosos na capital paulistana, o projeto Epidoso.

Maior fragilidade - Desse estudo, publicado no New England Journal of Medicine, emergem também algumas informações que indicam aos familiares e médicos os momentos em que deveriam dar mais atenção aos recémviúvos. O período mais crítico é o primeiro mês após a morte ou hospitalização do companheiro, quando o risco de o outro também morrer pode ser 61% maior. "Esse risco permaneceu elevado por até dois anos", observa Christakis.

Segundo ele, a razão desse aumento é que tanto a doença como a morte do cônjuge impõem ao outro um elevado nível de estresse ou a perda de apoio social, emocional e mesmo econômico. Outra possível causa é a adoção de há-

bitos nocivos, como o consumo exagerado de álcool.

"Ainda não sabemos de que modo as redes sociais afetam a saúde", comenta Richard Suzman, diretor de pesquisas sociais e comportamentais do Instituto Nacional do Envelhecimento, um dos centros de pesquisa dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, que financiou a pesquisa. "Precisamos investigar os mecanismos por trás do estresse associado a essas hospitalizações enquanto procuramos formas de proteger as pessoas quando suas relações sociais se rompem." O certo é que depois de compartilhar a vida com um companheiro durante anos tanto o homem como a mulher sofrem o impacto da solidão. No projeto Epidoso, a equipe de Luiz Ramos constatou que o casamento funciona como um fator protetor da saúde. •

Os truques doHIV

Formas recombinantes do vírus complicam a epidemia de Aids no Brasil

ftela do computador exibe uma imagem com retângulos azuis everdes de tamanhos diferentes: é a reconstituição de um vírus da Aids. Após apresentar a figura, o virologista Ricardo Sobhie Diaz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), chama a atenção para as duas cores, usadas para identificar partes - ou melhor, informações genéticas - de dois subtipos do HIV. Essa mistura é uma característica especial desse vírus colorido: trata-se de umavariedade com potencial epidêmico, que foi capaz de superar as barreiras de seleção e pode ser transmitido de uma pessoa para outra. Chamada de circulante recombinante (CRF, na sigla em inglês), essa nova variação do HIV foi identificada pela primeira vez no Brasil e já preocupa os especialistas. "A epidemia de Aids está se tornando geneticamente muito complexa", observa Diaz, um dos autores de um estudo publicado na revista Aids Research and Human Retroviruses com

esses resultados. "Precisamos repensar algumas estratégias de combate à doença e ficar atentos à sensibilidade dos testes diagnósticos, à atividade de antiretrovirais ante essas cepas geneticamente diferentes e à escolha de componentes que deverão ser usados em testes de vacinas."

Encontro de vírus - A identificação de formas recombinantes do vírus tende a dificultar o controle da epidemia de Aids. No Brasil, dados do Ministério da Saúde revelam que, de 1980 até junho de 2005, haviam sido notificados cerca de 372 mil casos de Aids - mais de 80% deles concentrados nas regiões Sul e Sudeste. No mundo inteiro, de acordo com a Unaids, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2005 havia 40,3 milhões de adultos e crianças infectados com o HIV; desse total, 4,9 milhões, cerca de 10%, haviam sido contaminados no ano passado. A África negra abriga 25,8 milhões de vítimas da doença - quase 65% do total.

Variações do HIV já são conhecidas há pelo menos 15 anos.Atualmente, além

de dois tipos (HIV 1 e 2), existem nove subtipos do vírus, identificados por A, B, C, E, F, G, H, J e K. Todos agem destruindo o sistema imunológico da pessoa infectada, e os sintomas e problemas que provocam, como as infecções oportunistas, também são os mesmos. A diferença fundamental é que as variações são formadas por seqüências de genes distintas. Por essa razão, os subtipos podem ser mais ou menos agressivos, ter maior ou menor capacidade de resistência aos medicamentos anti-retrovirais, replicar-se rapidamente ou de maneira mais lenta, além de atingir grupos sociais (usuários de drogas eheterossexuais, por exemplo) e regiões diferentes (na cidade de Santos, no litoral paulista, os mais comuns são o B e o F; no Sul do país o que mais aparece é o C, o mais freqüente na epidemia mundial). "Essas diferenças biológicas podem oferecer vantagens a alguns subgrupos em detrimento de outros", explica Diaz. Quando as informações genéticas de dois subtipos se misturam, surge um microorganismo que pode ser classificado de híbrido, com seqüências de ge-

nes de dois originais distintos. Por isso é chamado de recombinante. Esse mix genético nasce em geral em células de pessoas com comportamentos de risco, com a infecção dupla - em no máximo três semanas, depois de serem contaminadas com o primeiro vírus, acabam contraindo um segundo, de grupo diferente. Quando começam a se reproduzir e a se multiplicar, os dois tipos acabam se encontrando.

Nem sempre, porém, essa variação tem o potencial de transmissão. O cenário se agrava quando o recombinante se expande em um grupo da população e ganha o status de circulante - ou epidêmico. "Essa é uma das exigências para classificação. Ele deve ser encontrado em pelo menos três indivíduos, não relacionados", afirma Luiz Mario Janini, também autor do trabalho. "Não podem ser considerados, por exemplo, parceiros sexuais ou mãe e filho." Já haviam sido descritos 27 subtipos de recombinantes circulantes até o início deste ano no mundo. Os brasileiros identificaram mais dois, resultados do encontro dos subtipos B e F, classifi-

cados como CRF28_BF e CRF29_BF (os números indicam a ordem da descoberta; as letras depois do traço, os subtipos que reúnem). Embora os dois sejam muito parecidos, o 29 tem uma seqüência maior do subgrupo F.

Tratamentos mais difíceis - A identificação dos CRFs no Brasil faz acender o sinal de alerta. Suas possíveis conseqüências, embora ainda colocadas no plano das especulações, não são animadoras. A mistura B e F brasileira foi encontrada em amostras de sangue coletadas na cidade de Santos, onde outros trabalhos feitos pela equipe da Unifesp identificaram uma resistência primária - anterior ao tratamento com anti-retrovirais - de 36%, o maior índice registrado no mundo. Em estudos publicados em 2000 e em 2005, o grupo já tinha demonstrado que, graças a uma mutação, o subtipo F, o mais freqüente na cidade litorânea, torna-se mais resistente aos medicamentos.

"A partir desse conjunto de fatores, é possível imaginar que os remédios possam ter selecionado o vírus do sub-

tipo F, predominante no município de Santos, que assim pôde sobressair e sobreviver entre os outros", afirma Diaz. Os subtipos B e F não apresentam as mesmas respostas ao tratamento e são resistentes a diferentes anti-retrovirais. Em tese, o recombinante somaria essas duas vantagens e estaria livre dos efeitos de um arsenal maior de remédios. Essa é uma das possibilidades que Diaz pretende testar em laboratório, além de avaliar se o recombinante pode se replicar mais rapidamente e se as infecções que provoca seriam mais agressivas.

"A epidemia brasileira passa a ter pelo menos cinco vírus que circulam, os subtipos B, C e F, antigos conhecidos, além dos dois novos recombinantes", reforça Janini. A diversidade genética cadavez maior representa um novo perfil da doença e pôde ser um impedimento para os atuais tratamentos e principalmente para a elaboração de uma vacina. Embora os impactos mais precisos desse novo cenário no Brasil ainda não sejam conhecidos, é possível trabalhar com algumas analogias. No início da epidemia mundial, o principal subtipo do HIV encontrado no Sudeste Asiático era o B, que atacava majoritariamente usuários de droga.

Em meados dos anos 1990 foi detectado naquela região o recombinante circulante EA - o primeiro do mundo a ser descrito -, infectando heterossexuais. Graças avantagens biológicas e de adaptação e por já ter superado processos de seleção mais rigorosos, o EA acabou varrendo o grupo B, que atualmente quase não é encontrado por lá. Já o recombinante AG, mais fraco, perdeu a disputa, na África, para o subtipo C. "Os recombinantes podem até não prevalecer, mas o fato de aparecerem com freqüência cada vez maior assusta", insiste Janine. "Involuntariamente, estamos criando condições para o HIV ampliar sua diversidade genética." •

Biblioteca de Revistas Científicas disponível na internet www.scielo.org

Nos dias de 7 a 10 de fevereiro, Fabiana Montanari e Roberta Takenaka, da Unidade SciELO, estiveram em Ribeirão Preto (SP) para dar suporte técnico às equipes dos periódicos Brazilian Journal of Medicai and BiológicaI Research e Genetics and Molecular Biology, que estão realizando os testes no Sistema SciELO de Publicação. Baseado no princípio de código aberto Open Journal Systems (OJS), esse sistema cobre todo o processo de publicação de periódicos científicos, desde a submissão de manuscritos até a publicação na coleção SciELO, incluindo a geração de indicadores de uso e impacto e a criação de links com fontes de informação nacionais e internacionais. Além dos dois periódicos de Ribeirão Preto, estão capacitadas para executar os testes com a versão piloto do sistema as equipes de Clinics e da Revista Brasileira de Psiquiatria.

Agricultura

Soja de boa qualidade

O Estado do Paraná cultivou, na safra de 2002/03, uma área de mais de 3,4 milhões de hectares de soja, com mercado estimado em mais de 200 mil toneladas de sementes. "Para que a oferta de sementes atenda às necessidades do mercado, é fundamental um planejamento de produção ajustado à demanda", explica o artigo "Uso de sementes de soja no Estado do Paraná". "Uma informação indispensável é a taxa de utilização de sementes comerciais por parte do agricultor, assim como a avaliação da qualidade da semente fornecida pelas empresas", aponta o estudo. Além dos aspectos de qualidade e da origem da semente utilizada, diversos outros fatores que interferem no estabelecimento da lavoura devem também ser avaliados para um melhor embasamento das projeções de mercado. Por conta disso, o artigo de Ivo Marcos Carraro e Silmar Teichert Peske, da Universidade Federal de Pelotas, teve como objetivos determinar a taxa de utilização de sementes, avaliar a qualidade empregada pelo agricultor, verificar a participação por cultivar e determinar a freqüência de uso de diferentes práticas agronômicas no momento da semeadura de soja no Estado do Paraná.

REVISTA BRASILEIRA DE SEMENTES - VOL. 27 - N° 2 - PELOTAS - DEZ. 2005

www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010131222005000200011&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Saúde

Dilemas do tabaco

Apesar de todo o conhecimento científico acumulado sobre o tabagismo como fator de risco de doenças graves e fatais, seu uso aumenta globalmente. É o que mostra "O controle do

tabagismo no Brasil: avanços e desafios", de Tânia Maria Cavalcante, chefe da Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco de Câncer do Instituto Nacional do Câncer. "Embora o consumo de tabaco venha caindo na maioria dos países desenvolvidos, o consumo global aumentou cerca de 50% durante o período de 1975 a 1996, à custa do crescimento do consumo em países em desenvolvimento", aponta ela. Nesse período, o consumo cresceu 8% na China, 6,8% na Indonésia, 5,5% na Síria e 4,7% em Bangladesh. Atualmente, o total de fumantes no mundo é de cerca de 1,1 bilhão de pessoas, dos quais 800 milhões em países em desenvolvimento. O resultado são os atuais 5 milhões de mortes, dos quais 50% ocorrem em países em desenvolvimento. A autora afirma que a ausência de medidas abrangentes para controle do tabagismo nesses países torna-os vulneráveis às agressivas estratégias de marketing das companhias de tabaco. O consumo nas nações desenvolvidas deve seguir uma tendência de redução até o final do século, ao passo que nos países em desenvolvimento o consumo pode aumentar em 3% ao ano."Mas, mesmo sendo o segundo maior produtor mundial de tabaco e o maior exportador em folhas, o Brasil tem conseguido escapar dessa tendência", diz Tânia.

REVISTA DE PSIQUIATRIA CLíNICA - VOL. 32 - N° 5 - SãO PAULO - SET./OUT. 2005

www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010160832005000500006&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Desnutrição

Alterações oftalmológicas

A situação ocular de crianças que tiveram desnutrição energético-protéica durante os primeiros anos de vida dá suporte ao conceito de que esse fenômeno, ocorrendo precocemente, interfere na saúde visual dos indivíduos. Essa é a principal conclusão do estudo "Manifestações oculares em pacientes que tiveram desnutrição nos primeiros seis meses de vida", de Alessandra Pereira Dantas e Daena Leal, da Fundação Altino Ventura, em Recife, e Carlos

Teixeira Brandt, da Universidade Federal de Pernambuco. Foram analisados olhos de 91 crianças entre 2 e 11 anos que tiveram desnutrição grave durante os primeiros seis meses de vida. O estudo teve como grupo de controle 88 crianças, selecionadas aleatoriamente. Foi observado no primeiro grupo, de forma significante, maior freqüência de crianças com sérias alterações oftalmológicas. "A desnutrição energéticoprotéica constitui-se num dos principais problemas de saúde coletiva em escala mundial, por sua magnitude, conseqüências biológicas e danos sociais", alertam os pesquisadores. No Nordeste do Brasil, por exemplo, as formas graves de desnutrição chegam a atingir 24% das crianças menores de 5 anos. De acordo com o artigo, a desnutrição que ocorre no período pós-natal pode ocasionar lesões cerebrais permanentes, responsáveis pelo retardo do desenvolvimento neuropsicomotor das crianças desnutridas, o qual pode ser reversível se a recuperação da desnutrição se fizer em condições favoráveis. "A visão desenvolve-se principalmente nos seis primeiros anos. A sua plasticidade sensorial é maior nos dois primeiros anos, isto é, até esta idade qualquer obstáculo ao desenvolvimento da visão causa diminuição rápida da acuidade visual, assim como o tratamento nesse período promove pronta recuperação."

ARQUIVOS BRASILEIROS DE OFTALMOLOGIA

N° 6 - SãO PAULO - NOV./DEZ. 2005

VOL. 68www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S000427492005000600009&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Educação

Pós no Norte e Nordeste

A história da implantação dos cursos de mestrado e doutorado nas regiões Norte e Nordeste, a partir dos anos de 1970, é descrita no artigo "A pós-graduação em educação no Norte e Nordeste: desafios, avanços e perspectivas", de Vicente de Paulo Carvalho Madeira e Betania Leite Ramalho, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). "A pós-graduação em educação nas regiões Norte e Nordeste parece hoje irreversivelmente consolidada. Do Amazonas à Bahia encontram-se cursos e programas que têm crescido em quantidade e se desenvolvido em qualidade, como demonstrado nas avaliações oficiais, na crítica e na aceitação da comunidade", garantem os autores. "É uma marca visível no atual estágio dos programas das duas regiões, uma nova cultura acadêmico-científica."

O artigo também relata a consolidação das duas regiões nos programas de pós-graduação, entre 1980 e 1990, acompanhando os Planos Nacionais de PósGraduação, da Coordenação de Aperfeiçoamento de

Pessoal de Ensino Superior (Capes). O que, nos anos de 1980, não havia sido possível estabelecer em termos de parcerias intra-regionais, dez anos após os programas as duas regiões encontraram o caminho do trabalho coletivo para sua realização. Mais adiante, um dos marcos importantes foi a histórica decisão em 1996, durante a 19a Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, de unir em um único fórum regional o Norte e o Nordeste, antes separados por critérios geopolíticos.

REVISTA BRASILEIRA DE EDUCAçãO - N° 30 - Rio DE JANEIRO - SET./DEZ. 2005

www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S!41324782005000300006&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Esporte

Musculação entre os sexos

O estudo "Comparação entre o desempenho motor de homens e mulheres em séries múltiplas de exercícios com pesos" verificou possíveis diferenças de desempenho físico entre os sexos em exercícios com intensidades semelhantes. "A prática regular de exercícios tem atraído a atenção tanto de homens quanto de mulheres. Esse fato é plenamente justificável pelo avanço do conhecimento científico na área do treinamento com pesos", diz o estudo. Mas ainda existem muitas controvérsias envolvendo esse tipo de treinamento, uma vez que diferentes variáveis, como número de séries e repetições, ordem de execução, velocidade dos exercícios, descanso entre as séries e freqüência semanal, podem proporcionar respostas bastante diferenciadas. Ao todo, 83 indivíduos, sendo 50 homens e 33 mulheres, 48 horas após serem submetidos a exercícios de supino em banco horizontal, agachamento e rosca direta de bíceps, executaram um protocolo composto por quatro séries até a exaustão. A idéia foi avaliar a capacidade de resistência à fadiga nos diferentes grupos musculares. Foi verificada uma queda significativa de desempenho, tanto nos homens quanto nas mulheres, da primeira à quarta série em todos os exercícios investigados. Porém, embora a magnitude da fadiga tenha sido maior nos homens, nos três exercícios, o efeito do sexo foi identificado somente no exercício rosca direta de bíceps. Os resultados indicaram que homens e mulheres apresentam comportamentos relativamente diferentes em séries múltiplas de exercícios com pesos. "As mulheres apresentam desempenho mais estável e maior capacidade de resistência à fadiga, sobretudo no exercício rosca direta de bíceps", aponta o artigo.

REVISTA BRASILEIRA DE MEDICINA DO ESPORTE - VOL. 11N° 5 - NITERóI SET./OUT. 2005

ww w.sc ielo.br/scielo. p h p?sc ript=sci_a rttext&pid=S151786922005000500002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Leitura sensível na microscopia

A nanotecnologia ganha uma nova ferramenta para a evolução de suas pesquisas. É um microscópio capaz de captar imagens com maior sensibilidade que o microscópio de força atômica, AFM na sigla em inglês, usado atualmente em experimentos nanométricos (1 nanômetro é igual a 1 milímetro dividido por 1 milhão). A novidade surgiu nos laboratórios do Instituto de Tecnologia Geórgia (Geórgia Tech), dos Estados Unidos, e teve o financiamento da Fundação Nacional de Ciência, NSF na sigla em inglês, e do

O mundo está gerando cada vez mais patentes, como mostram as estatísticas de 2005 divulgadas pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual, Wipo na sigla em inglês. Foram 134 mil pedidos dentro do sistema Tratado para Cooperação de Patentes (PCT), que garante proteção internacional por um período de 30 meses, quando o solicitante pode analisar e colher melhores informações sobre a possibilidade comercial de seu invento

Instituto Nacional da Saúde. Chamado de Force Sensing Integrated Readout and Active Tip (Firat), algo como força integrada de leitura sensível e ponta ativa, ele é cem vezes mais rápido que o AFM na captura de imagens, com a possibilidade também de fil-

em outros países. O total do ano passado é 9,4% superior ao de 2004. Chama a atenção o aumento de solicitações de PCT por parte dos países em desenvolvimento. Um crescimento de 20% liderado pela Coréia do Sul, com 4.747 solicitações. Em seguida vêm China, 2.452, índia, 648, Cingapura, 438, África do Sul, 336, Brasil, 283, e México, 136. Os países com maior número de PCTs são Estados Unidos, com 33,6% de todas as so-

mar os experimentos e decifrar as características físicas da amostra. O novo instrumento possibilita medições de nanoestruturas com qualidade não oferecida pelo AFM em áreas como microeletrônica, além de propiciar imagens de ensaios moleculares. •

licitações, Alemanha, Japão, Grã-Bretanha e França. Entre as empresas, a multinacional holandesa Philips é a primeira, seguida pela Matsushita (Japão), Siemens (Alemanha), Nokia (Finlândia), Bosch (Alemanha) e Intel (Estados Unidos). As principais empresas solicitantes entre os países em desenvolvimento foram as coreanas Samsung e LG, seguidas pela Huawei, da China, e pelo Conselho de Investigação Científica e Industrial (índia). •

Tela transparente que emite luz

Quem passou pela "dura" decisão de escolher entre uma TV de plasma ou de LCD, sigla em inglês para tela de cristal líquido, vai se surpreender dentro de pou-

Captação de imagens com o Firat: várias características de um mesmo material

cos anos com mais uma alternativa: a TV com tela Oled, sigla de Organic Light Emitting Diodes, ou diodos orgânicos emissores de luz. Já usados em celulares e tocadores de MP3, o salto para a televisão está próximo. Os fabricantes de aparelhos televisivos estão finalizando essa nova alternativa. Enquanto isso, a tecnologia Oled está ganhando outros terrenos.

Caminhonete tricombustível

Uma caminhonete triflex, capaz de rodar com três combustíveis, no caso gasolina, etanol e hidrogênio, foi apresentada pela Ford, como veículo conceito, para teste de novas tecnologias e designs, e não necessariamente vai para a produção. Baseada no modelo F-250, a caminhone-

Brasil Variedade brasileira de feijão-branco

A IPR Garça estará disponível em 2007

Pesquisadores do Instituto Fraunhofer de Pesquisa em Polímeros, de Potsdam, na Alemanha, tiveram sucesso na produção de uma tela Oled transparente. Assim elas podem emitir luz dos dois lados quando uma corrente elétrica passa pelo polímero. Uma das funções investigadas pelos pesquisadores alemães é a construção de painéis luminosos e bem visíveis mesmo de dia com novos efeitos e aplicações.

• te, segundo o fabricante, economiza, quando usa hidrogênio, 12% de combustível em comparação ao mesmo motor a gasolina utilizado atualmente. Também com o hidrogênio, a caminhonete gera 99% menos dióxido de carbono (CO2) em relação ao motor a gasolina. O etanol usado no motor da F-250 é o E-85, composto por 85% desse combustível, principalmente extraído do milho, e 15% de gasolina.

•

Apreciado em saladas, sopas, no cassoulet, com carnes de forma semelhante a uma feijoada, ou mesmo na tradicional dobradinha, o feijão-branco deverá estarmais disponível nos supermercados e mercearias brasileiras. Em 2007, o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) lançará comercialmente sementes desse tipo de feijão que acabou de ser apresentado na cidade de Cascavel, no Paraná, durante o Show Rural, em fevereiro. Chamada de IPR Garça, a nova variedade foi desenvolvida durante dez anos no instituto por meio de melhoramento genético tradicional. No Brasil são consumidas, em média, 25 mil toneladas de feijão-branco por ano. "Praticamente tudo vem da Argentina", diz o pesquisador Marco Antônio Lollato, responsável pela produção de sementes da nova variedade. "Alguns agricultores importaram sementes, mas elas não

se adaptaram às nossas condições de clima e solo." A IPR Garça está indicada inicialmenteparaos estados do Paraná e do Rio Grande do Sul. •

Solicitação de propostas

Pesquisadores de todo o Brasil que tiverem interesse na aplicação de pesquisas em internet relacionadas a produtos e serviços podem se inscrever no programa de requisição de propostas Microsoft Live Labs: Accelerating Search in Academic Research 2006. O Live Labs reúne pesquisadores, engenheiros e designers com experiência em tecnologia da internet que pretendem interagir e apoiar comunidades de pesquisa acadêmica e de inovação. Para mais detalhes: http://research.microsoft.com/ur/us/fundingopps/RFPs/Search_2006 _RFP.aspx •

ifocn O*

Acompanhante eletrônico

Avisar a hora do medicamento e fazer perguntas sobre o estado de saúde são duas das funções de um acompanhante eletrônico que dentro em breve poderá estar incorporado por meio de um software a um telefone celular para ajudar idosos e enfermos. A novidade é da empresa paulistana Vidatis, que desenvolveu todo o sistema. O acompanhante virtual informa a hora dos remédios e, de tempos em tempos, faz perguntas e solicita interação. Quando o usuário não responde por um período preestabelecido, o sistema entende que algo de ruim pode estar acontecendo e envia automaticamente uma mensagem para um parente, um amigo ou um membro de uma equipe de atendimento de emergência. A Vidatis foi criada em 2004 para prestação de serviços na área de informática e sistemas de saúde. Ela foi formada na incubadora de inova-

Hortaliças para o Haiti

Não é apenas com soldados e carros blindados incorporados à tropa de paz da Organização das Nações

Unidas (ONU) que o Brasil colabora para a melhora da situação institucional e socialdo Haiti.Agora é avez de a Embrapa Hortaliças, uma unidade da Empresa Brasileira de PesquisaAgro-

ção da Fundação Aplicações de Tecnologias Críticas, que possui o nome comercial de Atech, uma organização de direito privado e sem fins lucrativos criada em 1997 para integrar o Sistema deVigilância da Amazônia (Sivam). •

pecuária, dar apoio técnico e aprimorar a produção de verduras e legumes naquele país. Os objetivos são adaptar as variedades brasileiras desses vegetais às condições de produção do Haiti e diversificar a oferta de alimentos à população.

A participação brasileira foi firmada com o Institu-

Mauá

vence competição

A equipe Brazilian Business Strategy, formada por três alunos de engenharia química da Escola de Engenharia do Instituto Mauá de Tecno-

to Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina (Inta) durante visita de pesquisadores argentinos às instalações e ao campo experimental da Embrapa Hortaliças, em Brasília. O Inta atua em território haitiano na capacitação deprofissionais e na implantação de hortas comunitárias. •

logia (IMT), venceu a competição internacional L'Oreal Ingenius Contest 2006 realizada em Paris, na França. Eles ofereceram a melhor proposta para um projeto de uma unidade industrial de xampu, batom, máscaras e esmalte, do ponto de vista do diferencial tecnológico, inovação, criatividade e excelência da apresentação. No final da competição, realizada em janeiro em Paris, os brasileiros derrotaram as equipes da Alemanha, China, Estados Unidos, França e México. Como prêmio, ganharam um estágio de seis meses, em qualquer unidade da L'Oreal em todo o mundo, além de um troféu.

Verduras e legumes da Embrapa para a população haitiana

Esse foi o primeiro ano de uma participação brasileira na competição. •

Controle operacional

Quatro usinas da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) - Jupiá, Ilha Solteira, Três Irmãos e Porto Primavera - vão utilizar um software desenvolvido pela empresa M&D - Monitoração e Diagnose para acompanhar o desempenho operacional de geradores e turbinas. A americana Duke Energy, sócia na Usina de Capivara, em São Paulo, e a espanhola Endesa, que detém parte do patrimônio da Usina de Cachoeira Dourada, em Goiás, também adquiriram o novo sistema de monitoramento. Esses não são os primeiros clientes da M&D, empresa que cresceu na Incubadora de Empresas do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apoiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). A primeira versão do software de monitoramento e diagnóstico já está em operação numa das unidades geradoras de energia elétrica da Usina de Sobradinho, na Região Nordeste. Enquanto os sistemas tradicionais permitem o monitoramento de máquinas

a partir de dados sobre vibração e variação de temperatura, o sistema da M&D também leva em conta outras variáveis, como pressão, correntes, tensões e vazões, que explicam o sucesso do novo sistema. •

Oleodutos sem vazamento

Vazamentos em tubulações de óleos e de gases, além de representar prejuízos econô-

micos, podem ser altamente contaminantes para o ambiente. Esse problema que pode acontecer em uma empresa de processamento de petróleo e de combustível ou mesmo em uma indústria está agora mais fácil de ser combatido com um programa de computador capaz de monitorar oleodutos e gasodutos com elevada precisão a um custo cinco vezes menor em relação aos sistemas disponíveis no mercado. O software

baseado em inteligência artificial, capaz de tomar decisões como desligar equipamentos em caso de vazamento, foi desenvolvido pela equipe do professor Paulo Seleghim Júnior, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), da Universidade de São Paulo (USP). Foram feitas 3 mil simulações de escoamento num oleoduto piloto e o índice de acerto foi de 100%. Agora os testes serão feitos em oleodutos reais. •

O avanço dos transqênicos

S O plantio de alimentos

5 transgênicos avança na

< agricultura brasileira. Em 2005 foram plantados 9,4 milhões de hectares, um aumento de 88% em relação a 2004, constituindo-se no país que mais cresceu nesse segmento em todo o planeta. A soja tolerante a herbicidas continua na frente na preferência dos agricultores, contabilizando 60% da área plantada com transgênicos. Essas informações constam de um relatório sobre a situação mundial de organismos geneticamente modificados emitido pelo Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas (Isaaa, na sigla em inglês) e divulgado pela entidade brasileira Asso-

ciação Nacional de Biossegurança (Anbio). A Isaaa tem o objetivo de disseminar a biotecnologia agrícola principalmente em países pobres e em desenvolvimento e funciona em forma de rede com centros na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, no Quênia, na África, e nas Filipinas, na Ásia. No relatório, o Brasil aparece em terceiro lugar em área plantada, atrás dos Estados Unidos e da Argentina. No mundo, o total de países que plantam transgênicos subiu de 17, em 2004, para 21 no ano passado. O crescimento mundial em hectares foi de 11%, sendo que um terço é relativo a países em desenvolvimento, como China, índia e África do Sul. •

Detalhes preciosos

Sistema de processamento de imagens de mamografia

detecta com mais precisão lesões cancerígenas e reduz número de biópsias

na faixa etária entre 40 e 69 anos que se registram mais casos de morte de mulheres brasileiras por câncer de mama, muitos dos quais descobertos apenas com a doença em estágio avançado. A detecção precoce, fundamental para reverter estimativas que apontam 48.930 novos casos e 9.335 óbitos em 2006, passa pelo exame clínico e pela mamografia, feita normalmente com um aparelho de raios X capaz de apontar lesões iniciais com potencial cancerígeno. Em muitos casos, para chegar a um diagnóstico mais preciso, é necessário recorrer à biópsia, que consiste na retirada de um fragmento de tecido suspeito para análise. Em média, de cada oito biópsias realizadas, apenas uma é positiva, ou seja, confirma as suspeitas iniciais do médico. Mas esse número de procedimentos desnecessários representa gastos extras para o serviço público da saúde. Para corrigir essa distorção foi desenvolvido na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) um novo sistema de processamento de imagens que melhora a qualidade e a sensibilidade do diagnóstico.

"Com o sistema o médico é auxiliado na avaliação da radiografia, principalmente na identificação das microcalcificações, um dos indicadores de câncer de mama", diz a professora Annie France Frère Slaets, coordenadora da pesquisa na UMC. Resultados preliminares de testes realizados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) mostraram que os pesquisadores estão no caminho certo. "É possível reduzir em 25% o número de biópsias benignas, ou de oito para seis os resultados negativos, sem diminuição significativa na taxa de detecção de casos malignos", diz o professor Paulo

Mamografia com microcalcificações assinaladas

Mazzoncini de Azevedo Marques, do Centro de Ciências das Imagens e Física Médica do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina e um dos integrantes do grupo de pesquisa.

Resultados comparados - A avaliação do sistema de processamento de imagens no HC de Ribeirão Preto não interferiu na rotina médica do hospitalescola. Lá os exames de mamografia realizados passam inicialmente por um médico-residente para fazer um laudo, revisto por docentes radiologistas ou médicos contratados. Paralelamente, as mesmas imagens são levadas para o laboratório de informática, onde são digitalizadas antes de serem avaliadas por um software que ainda não está no formato comercial. Os resultados do laudo médico são comparados com os emitidos pelo computador. "Estamos no processo de validação do sistema de processamento, um passo intermediário para que possa ser aplicado na rotina hospitalar", diz Marques.

As imagens trabalhadas até agora permitiram verificar que, com a aplicação do novo sistema de processamento, alguns procedimentos poderiam ter sido evitados ou outros exames complementares poderiam ter sido pedidos an-

tes da indicação de biópsia. Nos Estados Unidos, sistemas semelhantes aprovados pela agência norte-americana de controle de alimentos e medicamentos, a Food and Drug Administration (FDA), já fazem parte da rotina clínica. "Lá os médicos que trabalham com esses sistemas de apoio recebem do convênio um pagamento adicional pelo uso", diz Marques. Pesquisadores da Universidade de Chicago foram os pioneiros em estudos nessa área. Em 1998 eles lançaram, em parceria com a empresa R2 Technology, o primeiro sistema comercial de pro-

0 PROJETO

Auxílio ao Diagnóstico Computadorizado (CAD) na detecção de microcalcificações

MODALIDADE

Linha Regular de Auxílio à Pesquisa

COORDENADORA

ANNIE FRANCE FRERE SLAETSUniversidade de Mogi das Cruzes

INVESTIMENTO

R$ 263.699,70 e US$ 74.289,61 (FAPESP)

cessamento de imagens de mamografia aprovado pelo FDA, chamado de ImageChecker. Posteriormente, outros dois programas semelhantes foram lançados nos Estados Unidos e um na Europa. O grande diferencial dos Estados Unidos é que a mamografia digital já está inserida na rotina das clínicas e dos hospitais. Isso facilita a utilização de sistemas de processamento de imagens, já que não há necessidade de adotar nenhum procedimento adicional, como a digitalização de imagens.

Aqui a situação é bem diferente. Os poucos aparelhos digitais encontramse em clínicas particulares. O sistema público de saúde e a maioria dos convênios trabalham com mamógrafos convencionais de raios X, semelhantes aos utilizados no começo da década de 1990, quando Annie France começou a se interessar pelo tema, que resultou em um projeto iniciado em 1997, financiado pela FAPESP.

Na época, ela dava aulas na Faculdade de Engenharia Elétrica da USP de São Carlos, e o professor Kunio Doi, da Universidade de Chicago, esteve em São Carlos para falar das pesquisas que resultaram no primeiro sistema comercial de processamento de imagens de mamografia. Antes de se aposentar

Imagem gerada em computador mostra detalhes da mama

na USP em 1998, Annie France reuniu um grupo de pesquisadores interessados na mesma área. Hoje muitos estão espalhados em locais diferentes e distantes entre si como Mogi das Cruzes, Ribeirão Preto, Sorocaba, Canadá e Japão, mas ainda trabalham no aperfeiçoamento do sistema de processamento de imagens de mamografia.

Nesse tipo de exame, o tamanho da mama influencia no resultado da imagem. "Quanto maior, mais ruído na imagem", diz o engenheiro biomédico Henrique Jesus Quintino de Oliveira, participante do grupo de pesquisa. Isso ocorre porque os raios X se desviam ao atravessar o tecido mamário, o que resulta na deformação da imagem. O efeito, chamado de espalhamento, pode chegar a 30% da radiação e interfere na qualidade da imagem do filme que vai ser analisado. Para chegar ao sistema que será transformado em um software comercial, foi necessário desenvolver um sistema de simulação computacional da mama e suas imagens. As simulações permitem que todos os parâmetros que contribuem para a formação da imagem sejam controlados e avaliados indivi-

dualmente, o que não é possível com imagens reais. Uma dessas simulações tem como objetivo avaliar qual a técnica de exposição ideal para detectar microcalcificações.

s análises envolveram todas as condições da mama, como espessura, proporção de gordura e tecidos glandulares, além das condições técnicas dos equipamentos de raios X, do filtro que vai ser usado e do tempo de exposição.

O resultado é um programa que analisa detalhes da radiografia digitalizada e age como um interlocutor do médico. "Ele alerta sobre possíveis detalhes que não foram detectados na análise visual", diz Annie France. Na prática, funciona como uma segunda opinião médica, recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a avaliação de mamografias. No Brasil são mais de 40 milhões de mulheres que se encontram na faixa etária indicada para a mamografia, um mercado potencial para a disseminação desse novo sistema. Para apopulação feminina abaixo dos 30 anos, o exame mais indicado é a ultra-sonografia, porque nessa fase a mulhertem mais tecidos

glandulares, difíceis de serem visualizados com os raios X porque não proporcionam muito contraste.

Embora a pesquisa tenha começado com o objetivo de melhorar a sensibilidade das imagens obtidas pelos aparelhos de raios X que utilizam filmes, o sistema desenvolvido também pode ser utilizado nos equipamentos de mamografia digitais. Como o sinal já está digitalizado, basta usar o software no aparelho digital. Todo o processo torna-se mais simples ainda, e os diagnósticos mais precisos. Com isso, é possível a diminuição no número de biópsias desnecessárias, sem contar que as lesões podem ser diagnosticadas mais precocemente, possibilitando às pacientes iniciarem o tratamento mais cedo.

A diminuição no número de biópsias negativas obtidas nos testes realizados no Hospital das Clínicas de Pdbeirão Preto,que chegou àproporção de um caso positivo para cada seis procedimentos realizados, ainda não é a ideal, já que o preconizado sob o ponto de vista de garantia de saúde da paciente e custo do serviço é uma biópsia positiva para cada quatro realizadas. Mas o novo sistemajá avançou bastante e tudo indica que deve chegar, com mais alguns acertos, a uma relação próxima da ideal. •

GEOLOGIA

Olhar penetrante

MARCOS DE OLIVEIRA

exploração de miné-

HB rios preciosos sempre foi uma atividade que dependeu

B^B muito do esforço fíB sico de antigos exB ploradores e, mais recentemente, de geólogos munidos de martelo para recolher amostras de rochas. Uma situação que começa a mudar e a incorporar o que há de mais avançado em tecnologia. O uso de satélites e as técnicas de processamento digital de imagens são algumas dessas novas ferramentas, como mostra o trabalho desenvolvido no Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Por meio de imagens de dois satélites, o Landsat e o Terra, ambos lançados pela agência espacial norte-americana (Nasa), a equipe coordenada pelo professor Álvaro Penteado Crósta desenvolveu

um método de sensoriamento remoto aplicado à exploração mineral que identifica locais favoráveis à ocorrência de minérios importantes comercialmente, como ouro, prata e cobre.

"A vantagem do novo método é delimitar preliminarmente as áreas favoráveis às ocorrências minerais, sem a necessidade de um conhecimento detalhado da geologia da região, que na maioria das vezes não existe, a um custo muito menor e em prazos bem mais reduzidos", diz Crósta. É uma forma de não precisar percorrer grandes áreas observando e coletando manualmente amostras de rochas, uma tarefa dispendiosa e demorada.

O novo método utiliza imagens de satélites obtidas nos espectros visível, como uma fotografia, e infravermelho, invisível ao olho humano. Ele foi testado em uma parceria com a empresa canadense de mineração Iamgold, que

Novo método de sensoriamento com imagens de satélite facilita a identificação de jazidas minerais

pretendia expandir suas atividades na região da Patagônia, na Argentina, onde não existiam muitas informações geológicas disponíveis. Um dos dirigentes da empresa é brasileiro e, em 1998, procurou Crósta, que já havia desenvolvido uma técnica de processamento digital de imagens de satélite para exploração mineral durante o seu doutorado no final da década de 1980, baseada na tecnologia de sensoriamento remoto existente naquela época. "A utilização de técnicas de sensoriamento para identificar previamente áreas com minerais metálicos representa grande economia para as empresas que sabem, antecipadamente, as áreas exatas aonde devem enviar geólogos para desenvolver trabalhos mais detalhados, coletar amostras para análises químicas do teor de metais e, se os indícios se confirmarem, realizar perfurações para localizar as reservas", diz Crósta.

Região de Los Menucos, na Argentina (acima), e na imagem de satélite (abaixo): áreas com caulita, em vermelho, diguita, em amarelo, ilita e sericita, em verde: sinal de metais

A parceria com a empresa canadense serviu para aperfeiçoar o método de processamento desenvolvido anteriormente, utilizando imagens do sensor Thematic Mapper (TM) do satélite Landsat-5. O projeto foi realizado na Província de Rio Negro, no norte da Patagônia, região favorável ao uso de imagens de satélite para geologia porque o clima é árido e a vegetação pouco densa. Os pesquisadores localizaram inicialmente diversas áreas propícias à ocorrência de ouro e de prata, a partir das imagens do Landsat. Em cerca de 50 áreas identificadas, 42 revelaram presença de ouro. "É um índice de acerto excelente, de 84%", comemora Crósta, também diretor do IG da Unicamp. De todos os locais apontados, as análises e as perfurações realizadas pela empresa durante dois anos mostraram a presença de ouro e prata nas proximidades da localidade de Los Menucos. Mas o resultado final indicou que os teores de ouro não eram suficientes para a exploração comercial.

Pouco tempo após a conclusão desse trabalho regional com o Landsat TM, foi lançado um novo sensor multiespectral a bordo do satélite Terra, denominado Aster, sigla de Advanced Spaceborne Thermal Emission & Reflection Radiometer, desenvolvido pela Nasa e pela Agência Espacial do Japão. Esse é um dos cinco sensores para captar imagens que estão instalados no Terra, lançado em dezembro de 1999 como parte do programa Sistema de Observação da Terra, EOS na sigla em inglês, da Nasa, que inclui também o satélite Aqua. O objetivo do programa é a análise de vários parâmetros ambientais e climáticos do planeta.

O sensorAster capta a energia solar refletida e a energia termal, esta relacionada à temperatura emitida pela superfície da Terra, por meio de 14 bandas espectrais, representadas por faixas de ondas eletromagnéticas desde a região do visível até vários comprimentos de onda no infravermelho. O Landsat utiliza a mesma técnica, mas as informações captadas são restritas porque ele trabalha com apenas sete bandas. As informações do Aster baseiam-se em faixas de radiação eletromagnética mais

estreitas e servem, entre várias outras aplicações, para identificar em detalhes as características de diferentes minerais. Conhecendo as características da área de Los Menucos, por meio do trabalho realizado anteriormente e cientes de seu potencial para o desenvolvimento e teste de técnicas de processamento adequadas às novas imagens do Aster, os pesquisadores da Unicamp elaboraram um projeto para a aplicação das técnicas disponíveis proporcionadas pelo novo sensor.

equipe, composta por Crósta, pelo professor Carlos Roberto de Souza Filho e pelo doutorando Diego Fernando Ducart, obteve também o suporte da empresa Iamgold para o desenvolvimento do projeto. "Eles nos deram apoio logístico para o desenvolvimento dos trabalhos de campo, necessários para validar os resultados obtidos com o emprego das novas técnicas desenvolvidas para as imagens do Aster." Os pesquisadores brasileiros também tiveram a colaboração da Universidade Nacional de Rio Cuarto, na Argentina, por meio do professor Jorge Coniglio, um ex-aluno de pós-graduação do IG-Unicamp.

A nova técnica identifica nas imagens a assinatura espectral dos minerais, que é a forma como os materiais da superfície da Terra interagem com a radiação eletromagnética. Cada tipo de rocha interage com a radiação do Sol, refletindo ou absorvendo determina-

O PROJETO

Avaliação das imagens multiespectrais do sensor

Advanced Spaceborne Thermal Emission and Reflection Radiometer

MODALIDADE

Linha Regular de Auxílio à Pesquisa

COORDENADOR

ÁLVARO PENTEADO CRóSTA Unicamp

INVESTIMENTO

R$ 66.925,75 e US$ 21.450,00 (FAPESP)

dos comprimentos de onda, transformando-se numa espécie de impressão digital desse material. Esses minerais são formados pela ação das águas com temperaturas extremamente elevadas ou de vapor, cuja circulação é relacionada a processos vulcânicos. "As águas termais, junto com vapor, ao mesmo tempo que removem e transportam os metais de rochas que estão em profundidade e os depositam de forma concentrada mais próximos à superfície, também modificam as rochas existentes e criam os minerais de alteração hidrotermal. Desse modo, a presença desses minerais em superfície pode ser usada como um indicador da ocorrência de mineralizações metálicas abaixo da superfície", explica Crósta.

"Com o Aster foi possível avançar mais no detalhamento da composição mineralógica da alteração hidrotermal, um fenômeno que nessa região decorre de atividade vulcânica antiga", diz Crósta. A alteração hidrotermal é a denominação dos minerais que estão associados à ocorrência de metais.

Imagem tridimensional - Uma vez identificados os vários minerais de alteração hidrotermal, por meio da aplicação de técnicas de processamento de imagens que extraem seletivamente apenas a informação de interesse dentre a enorme quantidade de outras informações contidas nas imagens Aster, eles são transpostos para mapas que mostram as zonas de alteração hidrotermal sobrepostas a imagens de relevo topográfico também captadas pelo mesmo sensor. A composição cartográfica resulta numa projeção com características tridimensionais da região. As imagens finais não mostram de forma direta o ouro, cobre ou qualquer outro metal, mas exibem a presença de minerais de alteração como caulinita, ilita, alunita e sílica. Eles são indicadores indiretos da eventual presença de metais preciosos. "Extraímos da imagem a assinatura espectral relacionada à composição química e à estrutura dos minerais que estão na superfície do terreno", diz Crósta. Muitos materiais da superfície da Terra, incluindo os minerais, possuem assinaturas espectrais distintas, que são captadas pelos sensores multiespectrais e utilizadas para analisá-los.

Imagem em infravermelho de toda a região de Los Menucos. Em vermelho, a sílica indica área com potencial para ouro e prata

"No caso de Los Menucos, nós identificamos, com a nova técnica de processamento das imagens, os locais onde ocorriam os diversos minerais de alteração hidrotermal relacionados às ocorrências de ouro e depois fomos verificar os resultados no campo", conta Crósta. O segundo estudo para a confirmação do método de mapeamento de alteração com imagensAster aconteceu na cordilheira dos Andes, na região de Quellaveco ao sul do Peru e norte do Chile, em uma mina de cobre já conhecida e em fase inicial de exploração. As cores encontradas no mapa, como a vermelha, indicam a presença dos minerais de alteração chamados de quartzo (sílica) e ilita de alta cristalinidade. Eles funcionam como um sinal que identifica na área pesquisa da a presença de cobre. "Nessa representação utilizada, quanto mais vermelha a área da imagem, maior a probabilidade de encontrar o cobre", explica Crósta.

Temperatura preciosa » Nessas pesquisas com imagens multiespectrais, é de fundamental importância o uso da técnica analítica de espectroscopia de reflectância. Para isso, foi utilizado o Laboratório de Espectroscopia de Reflectância do próprio Instituto de Geociências (veja Pesquisa FAPESP n° 86). Nele é feita a caracterização espectral das amostras das rochas para a identificação do mineral e a comparação com os resultados obtidos a partir das imagens multiespectrais. Esses estudos incluem também a análise da cristalinidade do mineral, fator que pode dar indicações das temperaturas em que os minerais de alteração se formaram, informação importante na identificação de jazidas de metais preciosos.

O projeto também resultou em um mestrado, um doutorado e publicações em revistas científicas internacionais da área. As próximas ações de pesquisa do grupo já estão traçadas. Eles

deixam a Patagônia e a cordilheira dos Andes, locais propícios ao uso do sensoriamento remoto para exploração mineral porque possuem boas condições de exposição superficial de rochas e vegetação pouco densa - ao contrário da Amazônia, onde a cobertura vegetal dificulta a identificação de reservas minerais por esse método - e partem para o Nordeste brasileiro, mais precisamente na serra da Borborema, entre Rio Grande do Norte e Paraíba. Lá existe grande concentração de pegmatitos, rochas que produzem gemas para pedrarias e joalheria, como água marinha, turmalina e várias outras, além de vários tipos de minerais industriais. "No caso dos pegmatitos, as ocorrências também têm relação com a circulação de águas termais e, portanto, com a presença de minerais de alteração hidrotermal nas rochas, o que permite estudá-las utilizando as imagens multiespectrais do Aster." •

Bisturi autolimpante

Revestimento cerâmico

esteriliza instrumentos médicos e odontológicos

combate às infecções hospitalares ganha um novo aliado. É uma fina camada de um material cerâmico à base de oxido de titânio que agrega propriedades bactericidas e antimicrobianas à superfície de instrumentos médicos e odontológicos como bisturis, pinças e brocas. A boa notícia para profissionais da saúde e pacientes é da empresa Science Solution, uma spin-off, ou empresa originada de uma instituição, no caso o Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara. Os quatro sócios-pesquisadores, Luiz Gustavo Pagotto Simões, André Luiz de Araújo, Daniel Tamassia Minozzi e Cauê Ribeiro, todos químicos graduados na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), fazem pós-graduação na Unesp e mantêm a empresa instalada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cinet) da Fundação Parqtec, em São Carlos.

O trabalho de pesquisa na universidade levou os quatro a criarem um material nanoestruturado que é auto-esterilizante e foi batizado de Nanox Bactericida. Ele é uma espécie de tinta cerâmica que não altera as propriedades originais dos instrumentos cirúrgicos. A tecnologia rendeu duas patentes e já está sendo negociada com indústrias nacionais e do exterior, que produzem os instrumentos médicos e odontológicos, cujos nomes permanecem em sigilo a pedido das próprias empresas.

Os utensílios revestidos pelo filme nanométrico de dióxido de titânio (Ti02) têm as suas propriedades bactericidas ativadas quando estão na presença da luz ultravioleta (UV), existente em câmaras pró-

prias com esse tipo de radiação ou mesmo na presença de luz solar. Além de destruir a parede celular das bactérias, esse sistema elimina também os fungos e toda matéria orgânica. "O efeito da luz sobre o material aciona um processo de oxirredução, em que dois materiais interagem, perdem e ganham elétrons. Nesse caso a interação com o oxido de titânio, sob a ação do UV, degrada a matéria orgânica." Esse processo físico-químico é semelhante à ferrugem que cresce sobre uma base de ferro, sob a ação da temperatura e da umidade, absorvendo e reagindo com o oxigênio.

Sem sujeira - "O Ti02 também decompõe corantes, gorduras e defensivos agrícolas", diz Simões. "Outra propriedade do material é ser autolimpante. Ele é eficaz na limpeza de poeiras e de pequenas quantidades de gordura e, por isso, pode ser também aplicado num grande número de produtos com superfície de aço, cerâmica e vidro, como fogões, geladeiras, janelas de vidro de automóveis, de prédios e de residências." No Japão, paredes e pisos de alguns hospitais são pintados com tintas contendo partículas micrométricas de Ti02 para minimizar a possibilidade de contaminação dos ambientes e reduzir os índices de infecção hospitalar.

A produção do novo revestimento - ou coating - bactericida, diz o pesquisador, é de custo relativamente baixo e não requer equipamentos sofisticados. Primeiro o material que vai receber o revestimento é imerso em um recipiente contendo um polímero líquido à base de água e íons de titânio à temperatura ambiente. Depois é aquecido num

Protótipos de materiais metálicos recobertos com cerâmica à base de oxido de titânio

forno entre 300 e 400 graus Celsius. O tratamento térmico faz com que os íons de titânio transformem-se em dióxido de titânio. De quatro a seis horas, o filme nanoestruturado bactericida é formado na superfície do material. "Em tese, os equipamentos médico-odontológicos recobertos com Nanox não precisariam ser esterilizados em autoclaves, como é feito atualmente. Bastaria colocá-los numa câmara na presença de luz ultravioleta, porque a película bactericida que os reveste é fotoativada", diz Simões.

Além do filme nanoestruturado, o novo material também pode ser produzido na forma de pó. Nesse caso, o Nanox tem várias aplicações relacionadas à sua capacidade de absorção dos raios ultravioleta. Isso porque ao mesmo tempo que possui efeito ^ bactericida o produto impede que a radiação UV penetre no material. "Os filtros solares para proteção de radiação UV, por exemplo, possuem em sua composição dióxido de titânio, mas de uma fase química diferente da usada nos instrumentos. Acrescentando pequenas frações de Nanox em pó é possível potencializar a ação protetora dos filtros solares", diz o sócio Araújo. Ele esclarece que, no bactericida, o dióxido de titânio encontra-se na

fase anatase e, no protetor solar, na fase rutilo. "Fase, na química, é o nome dado a determinada forma de um material em que ele mantém a mesma composição química, mas com arranjo atômico diferente", diz Araújo. O dióxido de titânio possui três fases distintas (anatase, rutilo e brookite) e quando ele está 100% na fase anatase suas propriedades bactericidas são potencializadas. Segundo os pesquisadores da Science, existe um produto similar ao Nanox vendido no Brasil por uma multinacional alemã, mas que não é 100% na fase anatase. Além disso, esse material não é disponibilizado na forma de película nanoestruturada, mas apenas em pó, o que limita seu campo de aplicação.

Para desenvolver o produto, os quatro sócios da Science contaram com o apoio tecnológico do Liec, laboratório que integra o Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), um dos dez centros de pesquisa, inovação e difusão mantidos pela FAPESP. Para financiar as pesquisas, a empresa tem o apoio do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP. Das duas patentes já depositadas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), a primeira se refere ao processo genérico de obtenção de filmes e óxidos nanoestruturados e a outra está relacionada ao efeito bactericida dos filmes e pós nanométricos 100% anatase.

O PROJETO

Aplicação de coating cerâmico em superfícies metálicas

MODALIDADE

Programa Inovação Tecnológica em Peguenas Empresas (Pipe)

COORDENADOR

Luiz GUSTAVO PAGOTTO SIMõESScience

INVESTIMENTO

R$ 74.728,63 (FAPESP)

Criada em julho de 2004, a Science nasceu com o objetivo de desenvolver coatings e óxidos nanométricos para modelagem, modificação de superfícies e aplicação em indústrias, principalmente, petroquímicas. A expectativa dos pesquisadores é colocar o Nanox no mercado em julho deste ano, durante uma feira de produtos hospitalares em São Paulo. "Já estamos em negociação com empresas dos setores médico-hospitalar e de eletrodomésticos de linha branca. Participamos recentemente de uma feira de nanotecnologia e uma empresa suíça demonstrou interesse pelo produto. Recobrimos algumas pinças de alta precisão para uso cirúrgico e para manipulação de semicondutores, que estão em testes na Suíça", diz Luiz Simões. "Ao mesmo tempo, já realizamos testes laboratoriais com pequenas placas de aço inox de fogões e de geladeiras. Agora vamos fazer aplicações em peças maiores para que o cliente possa testá-las." Fogões e geladeiras de aço inox revestidos com Nanox estariam protegidos de riscos e de amarelamento, processo resultante da formação de óxidos indesejados na superfície. •

QUÍMICA

Sem cheiro e menos tóxica

Pesquisadores da USP desenvolvem método para produção de tintas quase sem odor

Fabricar uma tinta de parede sem cheiro para ambientes que possam ser utilizados logo em seguida à aplicação é um objetivo perseguido pelas indústrias químicas há cerca de duas décadas. O produto seria útil em hospitais, escolas e restaurantes, locais onde é indesejável a presença de vapores responsáveis pelo odor característico das tintas. A solução ficou mais próxima de ser alcançada com estudos do Centro de Engenharia de Sistemas Químicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP). A pesquisa, coordenada pelo engenheiro químico Reinaldo Giudici, apresentou resultados satisfatórios e conseguiu reduzir a concentração de monôeros residuais - substâncias tóxicas responsáveis pela aior parte do cheiro das tintas - para menos de 100 pares por milhão (ppm), ou seja, 0,01% ou 0,01 grama de monômero para cada 100 gramas de emulsão polimérica, resina que é o principal componente da tinta. Embora o cheiro não tenha sido totalmente removido, ele ficou quase imperceptível. "Os processos mais eficientes para remoção de odor hoje utilizados comercialmente não conseguem concentrações menores do que 1.000 ppm, dez vezes maior do que obtivemos", diz o pesquisador. "Para chegar a esse resultado, prolongamos e intensificamos a reação química de polimerização, de modo que mais monômeros reajam e sejam transformados em polímeros." Para entender o que isso quer dizer é preciso, antes, compreender como se dá o processo de fabricação das tintas látex, à base de água (sem solventes), as mais utilizadas para pintura de paredes internas e externas. O principal componente desse produto é uma emulsão aquosa constituída por polímeros, macromoléculas formadas a partir de unidades estruturais menores, os monômeros. Os monômeros mais utilizados nas tintas látex são o acetato de vinila (que dá origem às tintas vinílicas) e o acrilato de butila (matéria-prima das tintas acrílicas). Usualmente dois tipos de monômero são polimerizados conjuntamente de modo a se obter determinadas propriedades no polímero. Os monômeros estireno e butadieno, por sua vez, são usados na fabricação de um látex empregado em

revestimentos de papel cuchê - o mesmo utilizado nesta revista -, produto que também será beneficiado com a nova tecnologia.

Para que a polimerização ocorra, substâncias químicas conhecidas como iniciadores são misturadas aos monômeros e, numa reação em cadeia, essas pequenas moléculas transformam-se em macromoléculas, que são os polímeros. O problema é que durante esse processo, realizado em um reator a uma temperatura média de 60 a 80 graus Celsius, os monômeros não reagem completamente, restando ao final da polimerização uma pequena quantidade desses compostos que permanecem intactos na emulsão polimérica e, depois, na tinta. Quando ela é aplicada na parede, a água presente na emulsão evapora e as partículas poliméricas se unem formando um filme que recobre a superfície. "Por serem substâncias voláteis, os monômeros também evaporam, fazendo surgir o cheiro característico das tintas, em geral desagradável. Dependendo de sua natureza e concentração no ar, podem ter diferentes níveis de toxicidade", explica Giudici. "Além de irritantes das mucosas das vias respiratórias, os monômeros residuais podem causar náuseas, alergias e outras sensações desagradáveis."

Para reduzir a concentração de monômeros no produto final, a alternativa encontrada pelos pesquisadores foi intensificar a reação. Eles alteraram as condições de operação do processo a fim de consumir mais monômeros residuais. Assim, entre outras coisas, a equipe modificou a temperatura da reação, alterou a concentração dos componentes e variou a presença de reagentes. "Tivemos cuidado para não comprometer a produtividade do processo e, ao mesmo tempo, não alterar as propriedades finais do látex. Pelo contrário, melhoramos sua qualidade porque reduzimos os teores de monômero residual", explica Giudici.

Atualmente, o processo mais empregado para redução de odor em tintas é a chamada desvolatilização, que, apesar de eficaz, apresenta desvantagens em relação ao método desenvolvido na Escola Politécnica. Esse processo consiste no

borbulhamento de um gás, geralmente vapor de água, no polímero em emulsão para fazer com que os monômeros presentes se volatilizem, ou seja, sejam expulsos do produto. "O inconveniente da desvolatilização é que esse processo gera resíduos que não podem serlançados no ambiente, por serem poluentes", lembra Giudici. Com isso, os efluentes precisam ser tratados, o que acrescenta uma etapa ao processo produtivo, tornando-o mais longo e mais caro.

 tecnologia desenvolvida pela equipe da USP levou sete anos para ficar pronta e foi financiada pela FAPESP dentro do programa Parceria para a Inovação Tecnológica (Pite). Inicialmente, o projeto foi firmado com a Rhodia, empresa multinacional francesa do setor químico. Mas, ao longo do trabalho, ela vendeu as suas unidades de fabricação de látexde estireno e butadieno para a finlandesa Raisio Chemicals, que fez o investimento conforme o estabelecido no Pite. Em seguida, a Raisio Chemicals foi adquirida pela multinacional suíça Ciba Especialidades Químicas, parceira atual no projeto. Com a conclusão das pesquisas na USP, o processo encontra-se em fase de testes nos laboratórios da empresa no Brasil e na França.

O PROJETO

Desenvolvimento de processos de polimerização para a produção de polímeros com baixo teor de monômero residual

MODALIDADE

Programa Parceria para a inovação Tecnológica (Pite)

COORDENADOR

REINALDO GIUDICI - USP

INVESTIMENTO

R$ 55.000,00 + US$ 259.000,00 (FAPESP)

R$ 135.000,00 (Ciba Especialidades Químicas)

Ainda não há previsão de quando a nova tecnologia será implantada pela empresa, que, num primeiro momento, vai testá-la em escala semi-industrial. "Como os testes industriais ainda não foram iniciados, não sabemos se será mais interessante, do ponto de vista econômico, utilizar nosso processo isoladamente ou combinado com a desvolatilização. Como a desvolatilização é feita por último e, como a presença de monômeros residuais seria menor, haveria pouca produção de efluentes, reduzindo o custo de tratamento", diz Giudici.

"O projeto realizado com a USP foi muito importante para a Ciba Especialidades Químicas. Foi excelente o contato e a troca de informações com os pesquisadores envolvidos no projeto, que sempre demonstraram preocupação na aplicabilidade dos resultados nos processos industriais", diz Odair Araújo, do laboratório de polimerização da Ciba e coordenador do projeto na empresa. "Outro aspecto foi a qualidade dos resultados obtidos, que nos possibilitou obter uma visão importante do potencial de aplicação na planta piloto e, futuramente,na planta industrial. Poderíamos dizer que o projeto Ciba Especialidades Químicas e Universidade de São Paulo foi um sucesso e pretendemos, no futuro, continuar a fazer esse tipo de convênio."

Além da criação de um processo capaz de produzir tinta praticamente sem cheiro, o grupo da USP também desenvolveu métodos de monitoramento online de reações de polimerização em emulsão. O processo é baseado em sistemas de espectroscopia, que utilizam a absorção e reflexão de radiações eletromagnéticas no produto por meio de laser, permitindo detectar a presença e a quantidade de determinadas substâncias. Assim, esses métodos permitem monitorar remotamente e em tempo real várias propriedades e variáveis durante a polimerização. "A cada 15 segundos, sabemos qual é a quantidade de monômero residual, a concentração e a composição do polímero e o tamanho médio das partículas poliméricas. Esses dados são fundamentais para fazermos um rígido controle do processo e implementarmos as condições de operação de maneira precisa", diz Giudici. •

YURI VASCONCELOS

PETRÓLEO

Investimento profundo

Prêmio da Petrobras revela novos sistemas e novos profissionais para a indústria petrolífera

Petrobras atingirá, neste ano, a auto-suficiência na produção de petróleo. A meta, perseguida há tempos pela empresa, é fruto, entre outras coisas, do investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novas tecnologias, que lhe permitiu aprimorar as técnicas de prospecção e exploração petrolífera. Neste ano, a companhia irá investir R$ 1 bilhão em P&D e continuará mantendo estreito contato com universidades e institutos de pesquisa em todo o Brasil. Como reconhecimento à importância da academia para o fortalecimento da indústria de petróleo, a Petrobras instituiu em 2005 o Prêmio Petrobras de Tecnologia, dirigido a estudantes de graduação, mestrado e doutorado. Além de proporcionar o surgimento de novos métodos e processos tecnológicos de interesse da companhia, o concurso também incentiva o surgimento de profissionais especializados não só na área petrolífera mas também na produção de energia em vários segmentos como gás natural, biodiesel e hidrogênio.

Divido em nove categorias, a primeira edição do prêmio Petrobras contou com a participação de 335 alunos inscritos, oriundos de 18 estados brasileiros. "O objetivo foi dar uma abrangência nacional, e a intensa participação mais a qualidade dos trabalhos superaram as nossas melhores expectativas", destaca Carlos Tadeu da Costa Fraga, gerente executivo do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes). Os autores dos trabalhos vencedores receberam R$ 20 mil na categoria doutorado, R$ 15 mil, no mestrado e R$ 10 mil,

na graduação, além de uma bolsa de estudos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) nas modalidades de mestrado, doutorado ou pós-doutorado.

Líder mundial na exploração em águas profundas e ultraprofundas, a Petrobras retira cerca de 70% de sua produção desses poços, situados a profundidades acima de 400 metros entre a superfície da lâmina d'água e o solo marinho. O projeto vencedor na categoria Tecnologia de Produção contempla exatamente essa área de exploração. O trabalho, de autoria de Jorge de Almeida Rodrigues Júnior, do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), teve como objetivo o desenvolvimento de novos fluidos de perfuração para poços localizados em grandes profundidades. Esses fluidos são responsáveis, entre outras funções, pela lubrificação das rochas, o que facilita a perfuração. Ao mesmo tempo, eles devem apresentar elevada viscosidade nos momentos de pausa da perfuração, impedindo a deposição de cascalhos gerados no processo e que podem causar a obstrução do poço. No entanto, em razão dos diferentes tipos de formação

geológica e das condições de temperatura e pressão existentes ao longo do processo, a perfuração é feita em fases e o fluido precisa ser trocado a cada etapa do trabalho.

O produto formulado pelo pesquisador da UFRJ, sob orientação das professoras Regina SandraVeiga Nascimento e Elizabeth Roditi Lachter, mostrou, em laboratório, ser adequado para perfuração de todas as fases do poço com a vantagem de ser menos agressivo ao ambiente e mais barato do que os fluidos utilizados comercialmente. "O fluido será patenteado e os testes em campo serão a próxima etapa do projeto", diz Rodrigues Júnior. Para o desenvolvimento da pesquisa, a equipe contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

O trabalho vencedor na categoria Tecnologia de Produtos foi realizado

pelo engenheiro químico Manoel Orlando Alvarez Méndez nos laboratórios da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep)."Nosso projeto é sobre um problema da indústria, que é a geração de coque, um resíduo com alto teor de carbono e baixo teor de cinzas resultante da refinação do petróleo. Nossa intenção foi utilizá-lo como matéria-prima para a fabricação dos chamados materiais carbonosos ativados (MCA), que têm larga aplicação industrial", diz Méndez.

Pressão baixa - Os MCA apresentam elevada área superficial, grande quantidade de poros em sua estrutura e são utilizados em vários processos de adsorção (retenção de moléculas de uma substância na superfície de um sólido), como a purificação de gases e água. Além disso, esses materiais também podem ser empregados no arma-

zenamento de gás natural. "Recheamos um tanque de armazenamento com coque de petróleo ativado e preenchemos o espaço livre com gás natural, que será adsorvido pelo coque. Com isso, aumentamos a densidade do gás e podemos trabalhar com uma pressão menor do que a usual. Com a pressão mais baixa, é possível construir tanques mais leves, de paredes mais finas. Essa é uma vantagem do uso do coque nesses processos de armazenamento", diz o pesquisador, ressaltando que, com a colocação do coque, a capacidade de armazenamento de gás cairia pela metade. A pesquisa ainda está na fase laboratorial. "Sabemos que existem poucos grupos de pesquisa no exterior trabalhando nessa mesma linha de estudo (transformação de coque em MCA), mas até agora ninguém conseguiu avançar para uma escala comercial."

Na categoria Tecnologia de Gás, o projeto vencedor saiu do Laboratório

de Materiais Cerâmicos da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Assinado pelos alunos Márcio Dias Lima, Mônica Jung de Andrade e Renato Bonadiman, o trabalho tratou da síntese de nanotubos de carbono que são uma nova classe de materiais que medem de 1 a 50 nanômetros - 1 nanômetro é igual a 1 milímetro dividido por 1 milhão de vezes - de diâmetro e até 1 milímetro de comprimento. Eles são formados por uma camada de átomos de carbono enrolados como um cilindro. "Estudos mostram que esse material pode atingir uma altíssima resistência à ruptura sob tração, cerca de cem vezes superior ao de aços de alta resistência", afirma Bonadiman. A inovação do grupo gaúcho foi o uso de gás natural veicular (GNV) no processo de síntese dos nanotubos de carbono pelo método CCVD (Catalytic Chemical Vapor Deposition ou deposição química de vapor catalisada, em português), técnica para a produção de nanotubos em larga escala. "Normalmente, a fonte de carbono utilizada na síntese de nanotubos, por meio da técnica CCVD, é o gás metano. Nós propusemos o emprego de GNV como fonte de carbono por ser um gás muito barato quando comparado ao metano puro. A troca de matériaprima pode reduzir os custos de produção", afirma Bonadiman. "Esse é um trabalho de desenvolvimento contínuo e ainda estamos evoluindo nos métodos de síntese, como também na aplicação dos nanotubos." Atualmente estão em estudo muitas aplicações para esse material, como em compósitos para indústria aeronáutica e automotiva, dispositivos eletrônicos, telas de computadores e sistemas de armazenamento de hidrogênio.

Orientado pelo professor Liacir dos Santos Lucena, o físico potiguar Deilson Tavares, do Centro Interdisciplinar de Estudos Avançados sobre Sistemas Complexos em Petróleo e Gás da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, levou o primeiro prêmio na categoria Tecnologia de Exploração. O trabalho apresentou vários métodos para melhorar a resolução de imagens do subsolo na exploração de petróleo. Esse

tipo de imagem, chamada sísmica, é materializada a partir da reflexão de ondas sonoras produzidas por uma determinada fonte sonora. Para sondagens em terra, utilizam-se explosivos e, no mar, são empregados canhões de ar.

ensores distribuídos na superfície captam a reflexão das ondas de som e, a partir desses dados, elaboram-se as imagens do subsolo", diz Tavares. Essas imagens são fundamentais para a descoberta de novas jazidas de petróleo. Técnicas que envolvem o processamento de imagens sísmicas são o meio mais econômico para a obtenção de visualizações em larga escala do subsolo. "O método que desenvolvemos, batizado de WTDecon, possibilita a elaboração de uma imagem muito mais bem definida com menor erro de posicionamento das estruturas, bem como a visualização de detalhes que são imperceptíveis quando se usam outros métodos", diz Tavares, que já teve seu trabalho publicado na revista científica Integrated Computer-Aided Engeneering. Dado o sucesso da inovação, a Petrobras está incorporando esse novo método ao arsenal tecnológico utilizado na exploração de petróleo.

Na categoria Energia o vencedor foi Wagner Pinheiro, do Instituto Militar de Engenharia, com o projeto Construção de um equipamento de sublimação em espaço reduzido para fabricação de células solares de filme fino de baixo custo. Eduardo Abreu, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, venceu na categoria Recuperação de Petróleo com o projeto Desenvolvimento de novas estratégias para a recuperação avançada de hidrocarbonetos em reservatórios de petróleo. Na categoria Refino e Petroquímica, os vencedores foram Edson Silveira, Marcos Gelesky, Carla Scheeren e Glédison da Fonseca, todos da UFRGS. O nome do projeto deles foi Nanopartículas de metais de transição em líquidos iônicos: síntese, caracterização e aplicação em reações de hidrocarbonetos.

Na categoria Segurança Operacional e Preservação Ambiental, o vencedor foi Fábio Coimbra de Macedo Soares, da UFRJ, com o projeto Dispersão atmosférica de gás natural por ruptura em duto submarino pressurizado e valvulado. Os ganhadores na categoria Transporte de Petróleo e Derivados foram Marco Antônio Rosa, Joanes Dias, Júlio César Grion, Leandro Lima e Nelson Soares Júnior, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com o projeto Análise do desempenho de um reparo em duto corroído utilizando multicamadas metálicas coladas. •

MEDICAMENTOS

Garantia de vida

Biofármaco para bebês será produzido em grande escala

m biofármaco produzido pelo Instituto Butantan em parceria com a Sadia, que tem como matéria-prima pulmões suínos, deve evitar a morte de cerca de 50 mil crianças recém-nascidas por ano, vítimas da síndrome do desconforto respiratório (SRD). A doença, típica de bebês prematuros, é causada pela deficiência de surfactante pulmonar, substância que se forma nos pulmões do bebê no final da gravidez e que serve para funcionamento pleno da respiração. Produzido naturalmente pelos pulmões, o surfactante age no interior dos alvéolos, permitindo que eles se mantenham abertos durante a expiração. Quanto menor o tempo de gestação, maior a incidência da SRD. O tratamento é feito com a aplicação de surfactante na traquéia do bebê, logo após o nascimento. A dose do medicamento importado custa R$ 700,00, o que torna inviável a distribuição na rede pública de saúde. Um problema que começa a diminuir com a fabricação em larga escala do primeiro surfactante produzido com tecnologia nacional a partir dos pulmões suínos, com custo previsto de cerca de 40% a 50% do valor do importado. Atualmente, o Instituto Butantan produz 4 mil doses por ano. A meta é chegar a 200 mil. Para isso, a Sadia, que enviava os pulmões suínos em caminhões refrigerados para o instituto, vai se encarregar da primeira fase do processo, a extração do surfactante. Uma área com 40 metros quadrados foi montada pela empresa em sua unidade

Recém-nascido: plena respiração com surfactante

de Uberlândia, em Minas Gerais, onde serão preparados 500 quilos de pulmões de suínos por semana. Inicialmente, eles são lavados e moídos. Após a moagem, é adicionada uma solução salina aos pulmões, posteriormente filtrada. Em seguida, adiciona-se à mistura a celulose, responsável pela absorção do surfactante. Em vez de mandar os pulmões ao Butantan, a empresa enviará, por semana, 300 quilos de celulose com o surfactante. As outras duas etapas, de purificação e liofilização, ficarão por conta do instituto.

As pesquisas que deram início ao medicamento começaram em 1997 e

O PROJETO

Desenvolvimento industrial de surfactante pulmonar de origem animal

MODALIDADE

Projeto Temático

COORDENADOR

ISAIAS RAW - Instituto Butantan

INVESTIMENTO

R$ 1.062.917,31, US$ 193.000,00

e € 145.000,00

(FAPESP e Ministério da Saúde)

resultaram em uma nova tecnologia de extração do surfactante de pulmões de suínos, que substitui o uso de centrífugas de alta velocidade por um tipo de papel chamado DEAE celulose (veja Pesquisa FAPESP n° 70). Depois de cumpridas todas as etapas de testes pré-clínicos, foi iniciado no ano passado o ensaio clínico para validação do medicamento, com 33 instituições de todo o Brasil. Os testes estão previstos para terminar na metade deste ano, mas os resultados mostram quetanto o surfactante importado quanto o nacional são igualmente eficazes. "A quantidade de produto necessária também é a mesma para a sobrevivência das crianças", diz o professor Isaias Raw, presidente da Fundação Instituto Butantan.

A coordenação dos testes clínicos está a cargo do Instituto das Crianças do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O financiamento da pesquisa desde o início contou com o apoio da FAPESP. O projeto mais recente é um projeto temático financiado também pelo Ministério da Saúde dentro de um convênio firmado em 2005. Numa primeira fase, toda a produção do biofármaco será distribuída a maternidades públicas do país. •

.a HUMANIDADES

HISTORIA

Acadêmicos apontam excessos históricos em romantização de ex-presidente

m momento flagrado pelo fotógrafo da revista Manchete em 8 de junho de 1964 revelava o expresidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) com H H um aspecto de tristeza e desolação, no momento em que um assessor lhe mostrava a edição com a manchete de sua cassação e de mais 40 políticos ^ ^P do jornal Última Hora. O mundo ruía sob seus ^^^ pés. O sonho de voltar à Presidência em 1965 estava sepultado, numa manobra de seus principais adversários, Magalhães Pinto e Carlos Lacerda, governadores de Minas Gerais e da Guanabara, respectivamente, que o transformou num dos vilões do regime militar que começava. Nunca tivera a imagem tão arranhada. Além de responsabilizado pela "deterioração" do governo pelo general Costa e Silva, seu nome chegou a ser ligado a denúncias de corrupção na construção de Brasília. Pouco mais de 40 anos depois, a foto se tornara apenas a referência de um episódio do passado de contexto bem diferente do Juscelino mostrado na minissérie JK, exibida a partir da primeira semana de janeiro pela Rede Globo. São dois momentos distintos: o de bandido e o de herói popular. Mais que fazerjustiça histórica, o teledrama superdimensiona ainda mais o mito do ex-presidente mais idolatrado de todos como nunca se viu na história política brasileira. Apresentado como visionário, Juscelino virou símbolo da 0 modernidade de uma época cada vez mais idealizada e romanti| zada, marcada pela construção de uma nova capital para o país, 1 Brasília, pelo florescimento da indústria automobilística e de eleg trodomésticos e pelo seu êxito em superar as crises de instabilis dade e chegar até o fim de seu mandato. Compreender esse fenô-

meno tem se tornado um desafio em importantes universidades brasileiras.

A "heroicização" de Juscelino Kubitschek vem desde o início da Nova República - embora cinco anos antes o filme de Silvio Tendler Os anos JK (1980) já tivesse deflagrado o processo, que dignificou tanto ele quanto João Goulart (1918-1976) - em Jango (1984) -, só que numa outra perspectiva, não só do documentário como também para trazer a história recente do país que massacrara a trajetória desses personagens. É o que explica a cientista social carioca Mônica Almeida Kornis, autora da tese de doutorado em comunicação "Uma história do Brasil recente nas minisséries da Rede Globo".

Tanto que, lembra ela, a primeira cédula criada no governo José Sarney, de Cr$ 100.000,00, ainda em 1985, antes mesmo do padrão cruzado, trazia o rosto de JK estampado, juntamente com imagens de Brasília e outras realizações importantes de seu governo. "Ele renasceu naquele momento e pas-

sou a ser o ícone da democracia brasileira. O que a minissérie faz agora é reafirmar esse lugar", diz Mônica, cujo estudo foi defendido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), com orientação de Ismail Xavier - à procura de editor, no momento.

ilmes de época sobre o ex-presidente chegaram a ser usados em campanhas de candidatos já a partir do final dos anos 1980. Mais recentemente, Fernando Henrique Cardoso recorreu à sua figura de modernizador do Brasil. O presidente Lula fez o mesmo, sobretudo a partir da crise política inaugurada no ano passado. E não foram somente eles. A pesquisadora da Universidade de Campinas (Unicamp) Rosilene Dias Montenegro lembra que Fernando Collor levou para seu palanque nada menos que Sarah e Márcia Kubitschek - a viúva e a filha de JK - e explorou, também, a imagem de político jovem, dinâmico. E qual era o discurso de Collor? "A mo-

dernização do país, termo que re-significa a visão de desenvolvimento." Em 2001 Rosilene defendeu a tese de doutorado em história "Juscelino Kubitschek: mito e mitologia política do Brasil moderno", orientada por Maria Stella Martins Bresciani e ainda inédita em livro. Ela recorda que Anthony Garotinho, na última campanha presidencial, apareceu tendo ao fundo uma fotografia de Getúlio de um lado e Juscelino de outro. De acordo com Rosilene, a habilidade política de JK - seu poder de persuasão - é uma qualidade reconhecida por todos os políticos de sua época, inclusive por Lacerda. "Não é porque morreu que JK virou santo, mas negar suas qualidades políticas, desconhecer sua liderança singular é tentar desqualificar uma possibilidade extremamente rica produzida por nossa cultura", pondera.

Ingredientes - Pesquisadora do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ), Mônica Kornis analisou seis produções de época da Globo realizadas a partir da Nova República: Anos dourados (1986), Anos rebeldes (1992), Agosto (1993), In-

Juscelino, altos e baixos na vida do homem público: informado de sua casacão e fazendo um discurso no Rio

cidente em Antares (1994), Decadência (1995) e Hilda Furacão (1998). O trabalho acabou focado nas duas primeiras, ambas escritas por Gilberto Braga, que tiveram Juscelino como político de destaque. Para Mônica, mais que em Anos dourados, na minissérie JK seu heroísmo é ressaltado e faz com que o mito ressurja de forma mais intensa, porque a história é centrada em sua pessoa e trajetória política.

Uma história, aliás, com bons ingredientes para a ficção: a trajetória de um menino que cedo perdeu o pai e teve na mãe uma figura importante para a sobrevivência da família, até tornar-se um presidente da República, depois de passar pela opção primeira da profissão de médico."No caso da minissérie, assim como a mídia sempre faz ao se referir a ele, os telespectadores tendem a juntar tudo e a achar que JK estimulou o surgimento da bossa nova e do Cinema Novo, por exemplo, o que não é verdade."

Assim, a marca"anos dourados"vem sendo alimentada há décadas. Inicialmente, Mônica procurou analisar como a TV, com o olhar do presente, da redemocratização do país, representava a

história do Brasil dos últimos 50 anos. Enfatizou não só o contexto de produção como também discutiu o formato que esse conteúdo assumiu na ficção para representar fatos, personagens e períodos históricos importantes. Ela deu importância à linguagem da produção ficcional voltada para um grande público. "Daí ter sido fundamental analisar a narrativa desses seriados, cuja estrutura costuma ser ancorada em esquemas simplistas e de fundamento moral."

Foram identificadas características comuns entre todas as minisséries. A exceção de Agosto, baseada no romance histórico de Rubem Fonseca, que tem uma narrativa um pouco mais complexa. Nas demais, diz a autora, a visão política se revela como algo que se move no interior de um drama moral, maniqueísta, nos quais os políticos aparecem em extremos como bons ou maus - e os primeiros são identificados como modernos e honestos.

Mesmo naquelas em que só há uma ambientação de época e com destaque para o choque geracional, como é o caso de Anos dourados, a pesquisadora identificou umadivisão entre personagens mo-

dernos (moralmente positivos, nos quais se enquadram osjovens) e conservadores (imorais, nos quais só existem adultos). "A história do período, das questões políticas às comportamentais,passaaserassim polarizada. Esse se torna o conhecimento histórico veiculado pela mídia."

No caso de JK, a minissérie, opina Mônica, a narrativa estabeleceu uma empatia com a figura do ex-presidente, apresentada como moderna, honesta, simpática, empreendedora e sedutora. "Enfim, um tipo construído com destaque para atributos de ordem pessoal e moral e, assim, contrapostos, por exemplo, às figuras da UDN, tanto políticos quanto eleitores." A história se faz a partir desses parâmetros e das forças políticas assim apresentadas. "É lógico que existe umaliberdade na ficção,e que, sobretudo na televisiva, há a preocupação em destacar as tramas românticas e que os autores não estão preocupados em dar uma aula de história."

O fato, porém, diz a pesquisadora, é que a história está ali. Ou melhor, o produto "história do Brasil" está presente e é veiculado por meio de valores morais e pessoais. "Acho que, se existe uma preo-

cupação em refletir criticamente sobre uma minissérie, o debate não pode se restringir a considerações do tipo 'é bem ou malfeito', 'a reconstituição histórica está ou não fiel aos fatos'." Mesmo com o apuro técnico nas produções da Globo e a preocupação com a fidelidade da reconstituição histórica, é preciso construir uma ficção histórica atenta a esses aspectos.

Caberia aos cientistas sociais saírem da posição de espectadores de final da noite e se debruçarem com mais rigor no exame dos meandros de uma produção audiovisual de massa que conforma um certo conhecimento sobre a história do país. "Essa questão é ainda pouco valorizada, do meu ponto de vista. Os

professores continuam utüizando o material audiovisual como recurso glamouroso para falar de fases da nossa história, sem discutir a própria forma que esse conteúdo assume nesse meio. Não se trata de minissérie trazer ou não prejuízos.

A questão é ter consciência e visão crítica disso, sobretudo no caso dos professores, historiadores e cientistas sociais."

Fez-se necessário reconhecer, portanto, a existência de uma mediação entre o fato e a sua representação. Não basta discutir se os acontecimentos foram ou não como a televisão - ou mesmo o cinema - os apresentou. Basta observar Agosto, que mostrou a crise política que levou ao suicídio de Vargas numa outra perspectiva, diferente, cen-

trada no presidente, porém representada como uma figura amarga, sofrida. "Não há glamour em Vargas."

O telespectador, nesse processo, é sempre passivo? As minisséries da Globo serão sempre lembradas pela comentada relação que houve em Anos rebeldes e a crise que levou ao impeachment de Collor. Os jovens "caras-pintadas" teriam ido às ruas pedir a queda do presidente aparentemente influenciados pela produção. Mônica é mais cautelosa ao avaliar o episódio. "A mídia acompanhou a repercussão da audiência e fez a relação com os caras-pintadas. Havia um momento de efervescência favorável, mas não estabeleço essa ligação direta, por força da minissérie.

Operário olha admirado o nascimento da nova capital feita por JK em tempo recorde

A mídia, sim, foi responsável por essa relação de causa e efeito."

Incertezas - Em sua tese, Rosilene Montenegro encontrou raízes bem distantes para justificar a imagem que se construiu de Juscelino. Ela partiu da premissa de que o momento de profundas incertezas vivido na década de 1950 propiciou a efervescência do imaginário, dos mitos e mitologias políticas existentes. Resultou disso a criação de um novo mito político e a reelaboração de conhecidas mitologias políticas. "Busquei a apreensão das imagens e do imaginário do mito Juscelino Kubitschek, representados pela memória acerca desse mito, produzidos por diferen-

tes segmentos sociais - intelectuais, camadas populares, biógrafos, correligionários políticos e o próprio JK."

Percebeu que o modelo político surgiu a partir de sua própria intervenção no processo de construção enquanto tal e que, em determinado momento de sua instituição, atende e se confunde com os sonhos, anseios e esperanças de um futuro melhor por parte do coletivo social. "Muitos anos depois incita a força criadora do imaginário mitológico do retorno a um tempo de felicidade, harmonia e prosperidade, o tempo da idade de ouro, confundido com as mitologias políticas da modernidade."

Nesse raciocínio, a impressão do mito Juscelino Kubitschek, principal perso-

nagem dos "anos dourados" brasileiros no imaginário coletivo, deve-se também à seguida recorrência à narrativa de sua vida, a qual é apresentada através de uma lógica ordenada pelas fases de um tempo contínuo do surgimento, auge e morte, ou o tempo do apelo, do poder e glória, e do martírio de JK.

objetivo da pesquisa de Rosilene não foi desconstruir o mito JK. "Poderia sê-lo, mas optei por mostrar sua construção, devido à compreensão de que os mitos são elementos de representação do mundo que gostaríamos de criar, revelam a narrativa fabulosa e podem também escamotear, falsear a chamada realidade. Mas são poderosos instrumentos de mobilização de subjetividades de pujança política, à medida que acionam símbolos e imaginários caros ao coletivo social, conforme já o percebia Georges Sorel, em Reflexões sobre a violência."

O poder de Juscelino junto à mídia teria, em parte, contribuído para sua imagem histórica. Rosilene ressalta que ele cooptou grande parte da impressa, a começar pelo acordo que firmou com Assis Chateaubriand, dos Diários Associados. "Logo, a transmissão de uma narrativa mítica de progresso, mudança, superação de problemas econômicos e construção de um futuro próspero mexe com o imaginário coletivo, porque instiga anseios, sonhos recônditos." Daí a importância de compreender o contexto ou a configuração histórica que produzem o mito.

Que candidato a presidente que explorar o legado de JK será mais beneficiado com isso nas eleições de 2006? A pesquisadora não arrisca nomes. "Não temos ainda elementos suficientes para isso. Pode ser que os maiores beneficiados sejam os políticos, porque a história de Juscelino pode ser interpretada também como uma possibilidade moralmente aceitável de se fazer política, o que pode amenizar a rejeição aos políticos de modo geral e à política nesse momento de profunda descrença." •

ARTES CÊNICAS

São Paulo nova, Ato I

iscreta ao nascer, a República logo se tomou de amores pelo espetáculo. Assim, se a monarquia deu pouca atenção ao aspecto das cidades, o novo regime, "moderno", queria mostrar que o Brasil mudara, fazia parte da civilização, cujo sinônimo, no início do século 20, era a Paris de Haussmann, com seus bulevares, iluminação elétrica e grandes avenidas, todas desaguando na catedral dos tempos industriais, a ópera. O Rio de Janeiro adaptou-se rapidamente ao novo modelo do governo. O prefeito Pereira Passos botou abaixo a velha cidade, reconstruindo Paris no centro carioca por meio do conjunto de grandes edifícios, cujajóia da coroa era o Teatro Municipal, inaugurado, não à toa, em 14 de julho (dia da Bastilha) de 1909.

Já São Paulo amargava uma modorra colonial, que era, para as elites paulistanas, motivo de vergonha, já que também queriam ter a sua Paris."A vida social fechada nas fazendas e restrita às missas era substituída pela busca cada vez mais constante das ruas e praças, dos encontros na esfera pública, da vida em sociedade, referenciada pelos padrões do mundo dito civilizado", observa a historiadora Margareth Rago, da Unicamp. No início do século, um colunista do jornal O Estado de S.Paulo externava as queixas paulistas: "Há muito retraimento das famílias e pouca sociabilidade. Falta um ponto de reunião, condigno com o bom gosto dos paulistas". A solução, segundo ele, seria "um

teatro que vai operar uma transformação radical nos hábitos da cidade, fazendo com que se inicie uma fase nova de vida noturna que não pode parar aí". Naqueles tempos, São Paulo não podia parar. O prefeito republicano Antônio Prado (1840-1929) fazia coro: "A cidade não tem vida social e um Teatro Municipal atenderá tanto a parte material como a educativa", declarou, tentando aplacar os ânimos dos adversários, que não viam tal obra como prioritária.

Barões do café - "O que contava era o monumento que a cidade ganharia: um símbolo tanto político e cultural quanto estético, a serviço da modernidade. Sua construção correspondia aos anseios da elite paulistana de ver a cidade equipada com um grande teatro lírico, à altura do lugar que ela ocupava no país, como representante de um centro urbano das primeiras indústrias nacionais e dos barões do café", analisa Maria Elena Bernardes, autora da tese de doutorado, defendida na USP, O estandarte gbrioso da cidade: o Teatro Municipal de São Paulo (1911-1938). Em verdade, o que se pretendia não era apenas erguer uma casa de ópera, mas iniciar um novo movimento urbano para São Paulo, fazer dela uma metrópole para as elites, com características européias e, numa dimensão nacional, assegurar a mediação entre os interesses dos cafeicultores e os do governo federal. "A concepção da cidade para Prado era uma metrópole cosmopolita internacional, que incorporava elementos do urbanismo francês e inglês, como os bulevares e parques, onde os palácios neoclássicos se tornariam refe-

rênciana organização do espaço da cidade", observa o historiador Nicolau Sevcenko. O catalisadorda renovação seria o Municipal, primeiro monumento assumido pelo poder público paulista. "A gestão da cidade se desenrolava até então sem a tutela governamental: expansão urbana, saneamento, prestação de serviços como água, energia, transporte etc. tudo se materializava graças a proposições de origem privada, sem articulação entre as ações. Antônio Prado vai ser a figura paradigmática nesse espectro desconjuntado de transformação urbana", avalia o arquiteto Hugo Segawa, da USP. Mas, diferente do expansivo Pereira Passos, que realizava uma grande intervenção de saneamento físico-social e de embelezamento urbano, Prado optou por uma cirurgia urbana discreta do triângulo central (ruas 15 de Novembro, São Bento e Direita). O bisturi abriria o corte com a criação de um teatro nos moldes da Ópera de Garnier. As primeiras discussões sobre o Municipal iniciaram-se em 1895, mas apenas em 1903 uma lei autorizou a sua construção. As obras ficaram a cargo do arquiteto Ramos de Azevedo. O edifício levou oito anos para ser completado e custou 4.500 contos de réis, o dobro do orçamento aprovado. Não se poupou dinheiro: adornado com pinturas a ouro e um grande lustre, com 700 pingentes de cristal e 220 lâmpadas, era o prédio mais alto da São Paulo de 1911. Foram usados 4 milhões e meio de tijolos, 700 toneladas de estruturas de ferro que geraram uma construção de 3.600 metros quadrados, elevando-se de uma esplanada conjugada a jardins que ocupavam 12.600 metros

Teatro Municipal ajudou na modernização urbana e estética da cidade

quadrados. Havia lugares para 1.816 espectadores, todos presentes em 12 de setembro de 1911, quando o teatro foi inagurado, realizando, segundo a revista Ilustração Paulista, "o seu destino de mostruário de civilização". Já em 1906, um vereador propunha "melhorias do entorno malcuidado do monumental edifício, como a transformação do vale do Anhangabaú num jardim público". O palco começava a sair do edifício para tomar a cidade. "Ainda não era corrente em São Paulo se falar em intervenção urbana planejada. A gestão de Prado foi uma etapa preparatória para instaurar os primeiros debates de natureza urbanística em São Paulo", conta Segawa.

O Municipal, ao lado das estações férreas (como a da Luz), nos moldes da intervenção de Haussmann, foi a centelha que espalhou o fogo da modernização pela "vila" acanhada. Em 1910, um ano antes de sua inauguração, um grupo de figuras da sociedade propusera a construção de três grandes avenidas. "Não é quimera esperar que São Paulo possa mostrar a vontade ingente de seus filhos demolindo, e, nas ruínas, erguer uma nova cidade, digna dos progressos do século", escreveu o autor do projeto,Alexandre de Albuquerque. As novas vias estabeleciam uma ligação reta entre o Municipal e as estações ferroviárias, a conexão com o bairro nobre dos Campos Elíseos e um caminho para a região além-rio Tietê, setor de expansão da metrópole futura. "Longos bulevares, definindo pontos de fuga monumentais, valorizariam edifícios como o Municipal e as estações de trem, solução calcada no sistema de circulação parisiense,

com a Ópera de Garnier como ponto visual culminante", analisa Segawa. Nem todos viam com bons olhos. "Um belo dia, um grupo de bandidos se deu conta que São Paulo não tinha o aspecto de uma cidade moderna e que lhes faltava o dinheiro para prostitutas e para o jogo. Disparou, então, a moda do patriotismo. Todos os jornais gritam o hino do embelezamento. Mãos à picareta! Abaixo velhas casas. Alarguem a city. Queremos teatros como Paris,jardins como Berlim. Derrubadas as casas, tudo o que deveria ser embelezado era propriedade do bando", denunciou o jornal operário La Battaglia, em 1912, comparando a elite paulista e o gabinete Prado a"membros da alta camorra". São Paulo, porém, não podia mais parar de ser Paris. A ponto de arrancar de Clemenceau o estupor: "São Paulo é tão curiosamente francesa que durante a minha estadia de uma semana pela cidade não me recordo da sensação de estar no exterior". Enfim, modernos. Essa modernização, no entanto, trouxe incômodos. "De todos os bares da cidade, o do Municipal era o mais concorrido da sociedade e um dos mais visados pela polícia. O elogio do progresso passa a ser contrastado com o que denunciavam os seus altos custos. Embora muitos se felicitassem pela importação de costumes europeus, outros lamentavam a perda da simplicidade da vida provinciana, atentando para os males introduzidos pela modernização, como as drogas", afirma Margareth. O Municipal também foi palco da primeira bofetada contra as elites do café,

Para prefeito, metrópole sem vida precisava de teatro

a Semana de 22. Ainda que restrita àqueles que pagassem 186 mil-réis por camarote, para ouvir odes contra o burguês, as dissonâncias de Villa-Lobos e, no hall do teatro, uma exposição com obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Rego Monteiro. Escandaloso nos anos 1920, Mário de Andrade voltou ao Municipal em 1935, dessa vez como diretor do Departamento de Cultura, realizando revoluções culturais mais substanciosas na vida do teatro do que a mera afronta.

ário possibilitou à população o acesso ao equipamento mais suntuoso da cidade, estabelecendo a f obrigatoriedade de uma recita gratuita de ópera, além de outras a preços populares", conta Maria Elena. "O público que vai ao Municipal? Mas esse f não representa absolutamente o povo da cidade que elegeu os donos da prefeitura para que ela subvencionasse uma empresa para que esta, por preços exorbitantes, satisfizesse uma moda de elite", esbravejou o autor de Macunaíma. Apesar dos esforços de Mário, ao sair, em 1938, tudo voltou ao mesmo, situação que parece se manter até hoje."Enquanto as estruturasjurídicas dos teatros municipais do Rio e de São Paulo estiverem condicionadas ao paternalismo estatal e sujeitas às intempéries de mudanças políticas, não existem soluçõesviáveis para um trabalho de aprimoramento artístico a longo prazo", avisa o maestro Isaac Karabtchevsky, que já foi diretor artístico dos dois teatros.

"A inevitável e obrigatória mudança das direções artísticas enseja todo o tipo de amadorismo, de cancelamento de temporadas a mudanças abruptas de orientação musical. Fala-se na transformação desses teatros em fundações, mas isso esbarra nos problemas que atingiram recentemente a Itália, onde, por falta de respaldo comunitário, o governo reduziu os recursos para pagamento de pessoal e artistas convidados", conta. "Nossa tradição não é comunitária, mas deveríamos achar um jeito de preservar, à frente dos teatros, profissionais que contribuam para o resgate e evolução dos corpos estáveis." Afinal, no caso do Municipal de São Paulo, há um passado de glória, com a passagem, pelo seu palco, de estrelas como Isadora Duncan, Caruso, Gigli, Toscanini, Callas, Tebaldi etc. O que restou dessa glória toda? Não foram sons ou gestos, mas roupas, trajes de cena de grande beleza e valor histórico."O acervo de hoje, que remonta à década de 1940, conta com cerca de 50 mil peças, quantia digna da Ópera de Paris ou do Metropolitan de NovaYork. Mas ele foi negligenciado, atacado por pragas ou simplesmente descartado", revela Fausto Viana, pesquisador da USP e coordenador do projeto Traje em Cena: Catalogação dos Figurinos Teatrais do Theatro Municipal de São Paulo, financiado pela Fundação Vitae, que realizou a catalogação e a higienização de figurinos de mais de 60 óperas.

Há raridades como os trajes de uma Aída feitos todos à mão, o figurino usado por Renata Tebaldi em sua passagem por São Paulo, os costumes criados por Denner para a ópera Lakmé, de Delibes, e, tesouro, todas as roupas do Bale do IV Centenário, idealizadas porPortinari,Di

Cavalcanti, Burle Marx, Lasar Segall, entre outros. "É importante que figurinos de valor histórico ou estético sejam preservados para pesquisas e não sejam reutilizados em montagens do teatro", afirma Viana, que ressalta não ser sua intenção "engessar" o acervo do teatro, apenas proteger os trajes mais antigos (com mais de 30 anos) ou cujo design ou designer tenham importância museológica. Contando com uma equipe de 75 voluntários, sem onerar os cofres públicos, o grupo já organizou 3.800 figurinos, separados por ópera, época e figurinista. Todo esse trabalho, no entanto, está em risco de ser perdido. O Municipal está transferindo os figurinos catalogados para um galpão aberto do Metrô e ainda não se decidiu a doar a parte museológica do acervo para o Museu do Teatro Municipal (que, pasmem, não pertence ao teatro, mas à Divisão de Iconografia e Museus).

"Seria fundamental preservar esse legado para que ele possa servir como material de pesquisa para a posteridade. Mais importante ainda seria a criação de um museu de teatro, não apenas com os trajes do Municipal, mas reunindo os muitos acervos de figurinos teatrais espalhados pelo país, fundamentais para se poder guardar a história da nossa cena", diz. Não parece difícil avaliar as conseqüências danosas de reutilizar (e com certeza no processo, inutilizar) trajes antológicos apenas para vestir um figurante numa montagem atual. Afinal, do teatro que foi criado para "civilizar" São Paulo não restou grande coisa, além de sua história, dos fantasmas que, dizem, habitam o teatro e, concretamente, esses figurinos. A cidade os merece. •

LITERATURA

A biblioteca de babel

Edusp lança caixa com dois volumes ricamente ilustrados com os livros de José e Guita Mindlin

Ie ne fay rien

sans Gayeté (Montaigne, Des livres)

tem Ceei amou tanto Peri: por 20 anos o bibliófilo e ex-industrial José Mindlin caçou a primeira edição de O guarani, de José de Alencar, de 1857. Nos anos 1960, um grego misterioso ofereceu a seus amigos o livro por US$ 1 mil, mas, para desespero de Mindlin, ninguém se lembrou de avisá-lo. Dez anos depois ele pediu a um livreiro londrino que arrematasse o original num leilão, mas o inglês, achando o livro muito caro, o perdeu. Por fim, em Paris, ele acabou comprando, por um preço bem maior do que os anteriores, o seu objeto de desejo. No vôo de volta, dormiu e deixou o livro caído no tapete do avião e só deu falta do seu tesouro ao desembarcar. Por três dias a companhia aérea procurou Peri e Ceei e os achou em Buenos Aires e os trouxe de volta ao colecionador. Cochilada à parte, não se pode acusar o empresário de indisciplinado quando o assunto são livros. No entanto, dono de mais de 30 mil exemplares, esse filho de imigrantes russo e sua mulher, Guita (apaixonada por ele e por sua mania), apelidaram sua portentosa coleção de Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin, cujo ex-líbris, sintomaticamente, é "Não faço nada sem alegria".

Ex Libris

José Mindlin

Agora ele decidiu compartilhar a sua"loucura mansa" com todos os leitores por meio de dois belíssimos volumes que levam como título o nome de batismo de sua biblioteca, editados numa parceria entre a FAPESP, a Edusp e a Fundação Biblioteca Nacional. Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin é um deleite visual, em especial o primeiro volume, dedicado à Brasiliana, um dos

Di Cavalcanti criou esta mulher para livro de Drummond

Juan Miro ilustra Parler seul: poeme, livro de Tristan

«merlüoxooeoonPolindo*

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Tzara

MARC CHAGALL

POÈMES

GRAVURES ORIGINALES SUR BOIS DE MARC CHAGALL

CRAMER ÉDITEUR GENÈVE 196I

Única obra de Chagall com ilustrações e poemas do pintor

orgulhos do bibliófilo paulista, com as primeiras edições das Orbas (sic) de Cláudio Manoel da Costa, de O Uraguay, de Basílio da Gama, a Marilia de Dirceo, de 1810, a Phalenas, de Machado deAssis, com dedicatória do autor, um charme presente também nas edições originais de Paulicea desvairada, de Mário de Andrade, entre outros. A caixa com a seleta da biblioteca de Mindlin traz, ainda, a Crônica de Nuremberg, de 1493, o Poema em louvor de Santa Cruz, do século 9, bem como obras ilustradas por Miro, Di Cavalcanti, Chagall etc. "Foi difícil fazer a seleção, pois os livros têm vida e linguagem próprias, apesar da sua aparente imobilidade, e praticamente todos eles, bem como os documentos raros, se consideravam com direito de ser escolhidos", conta Mindlin. No final, valeu o mote do ex-líbris. "A biblioteca não foi planejada. Ela foi crescendo ao sabor de

nossos interesses, meu e de Guita, tendo como principal objetivo a leitura, e não o desejo de colecionar. Daí a indisciplina, mas relativa,já que ela entra quando sou tentado a comprar obras que não se enquadram nas vertentes definidas por mim", explica. Afinal, como ele gosta de lembrar: "Os livros foram feitos para a gente e não a gente para os livros".

frase, aliás, tem uma irmã quase gêmea: "A gente procura o livro e o livro procura a gente". Mindlin ressalta que é o prazer, não a cobiça, que o move e o faz gastar pequenas fortunas para levar um volume a morar em sua estante (tantas que o obrigaram a alugaroutro imóvel para guardar o que não coube em sua casa)."È umvínculo misterioso entre o caçador e a presa, como se uma afinidade criasse a atração de um pelo outro, de tal modo que o exemplar ansiosamente procurado durante anos

acaba um dia se situando como que deliberadamente no caminho de quem o procura", observa o amigo Antônio Cândido. "Assim, depois de reunidos, os livros parecem formar uma sociedade com vida própria, dotada de coerência que vai obrigando o amador a seguir sua linha de força. Por isso, diz Mindlin, sua biblioteca foi crescendo por si mesma."

E cresceu a um tamanho tão formidável que várias instituições estrangeiras tentaram comprá-la do casal. Mas eles preferiram deixar parte do acervo, cerca de 10 mil volumes da Brasiliana, para a Universidade de São Paulo, que dedicará um terreno de 10 mil metros quadrados, com toda a tecnologia de conservação necessária, no seu campus, para erguer uma biblioteca a partir do material doado. Estudantes e pesquisadores terão, por exemplo, acesso à História geral do BraziL, de Varnhagen, de 1876, ou às Viagens de Hans Staden, numa edição de 1557 (presente nos livros recém-lançados). Ele já leu tudo aquilo? "O contato físico com o livro já

Um Pantagruel, de Rabelais, numa bela edição francesa de 1948

é algo prazeroso. Se eu fosse ler tudo que há na minha biblioteca, precisaria de pelo menos uns 300 anos e, mesmo assim, de nada adiantariam. Durante esse tempo, novos livros surgiriam e eu precisaria de mais 300 anos", fala. Essa paixão ("Eubrinco que há no meu amor aos livros um conteúdo patológico, mas é uma patologia que faz sentir bem, embora seja incurável", graceja) nasceu cedo. Leitor assíduo da revista TicoTico (da qual possui uma coleção quase completa), aos 13 anos, Mindlin comprou o seu primeiro livro importante, o Discurso sobre a história universal, de Bossuet, numa edição portuguesa do século 18.0 vírus estava inoculado. Hoje sua biblioteca de obras sobre o Brasil é considerada maior e melhor do que a da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Metal Leve - Mindlin foi repórter de O Estado de S.Paulo aos 15 anos, fez direito na Faculdade do Largo São Francisco (onde conheceu Guita, com quem se casou em 1938 e que é a encadernadora oficial da coleção do marido), advogou por 15 anos, defendendo imigrantes europeus que queriam entrar no Brasil durante o Estado Novo e, em 1950, virou empresário. Alguns clientes o procuraram para redigir um contrato de sociedade com uma fábrica alemã de pistões, mas desistiram do negócio, que interessou o advogado. Com outros sócios ele montou a Metal Leve, por causa do alumínio, matéria-prima dos produtos. Com JK e o desenvolvimentismo, a empresa se transformou numa potência do setor de autopeças e chegou a empregar 6 mil trabalhadores. O patrão,

BE-^t .GINNETH^ THE BOOK OF 5THE TALES OF íCANTERBURY

Um favorito do colecionador: os Canterbury Tales ilustrado por Eric Gill

no entanto, não tinha a mínima idéia do que produzia, com a cabeça nos livros e longe da mecânica. Em 1996 vendeu suas ações. Sem vergonha da sua "ignorância" técnica, pediu aos filhos que lhe dessem o seguinte epitáfio: "José Mindlin. Fabricou pistões a maior parte da vida, sem saber o que eram". Preferia e prefere ler. São de 80 a 100 livros por ano, incluindo-se as releituras. O volume só cresce, como se pode ver em Destaques da Biblioteca InDisciplinada, plena de tesouros antigos recentes. "Dinheiro agente recupera,mas um livro raro não."

Bonito lema de um colecionador que vê tanta beleza nas capas, lombadas e letras de seus volumes. "O livro transmite pensamentos, traduz emoções, estimula a imaginação e o sonho, permite que nossas vivências cotidianas se transformem em um mundo cheio de encantos e seduções, dando à vida um sentido intelectual e espiritual de inestimável valor", avisa. Um amor assim não se vê em qualquerlugar. Como o de Ceei por Peri, é coisa digna de livros. Como esses. •

CARLOS HAAG

O mundo de cabeça para baixo

Brasilianista mostra como a vinda de dom João VI ao Brasil revirou o sistema colonial

i11 mundo estava de I ponta-cabeça.

IMPÉRIO A DERIVA

PORTUGUKSA

' Dois anos antes de o Brasil se declarar independente de Portugal, uma revolução no Porto pregava a necessidade de Portugal ficar independente do Brasil. "A idéia de ser reduzida a um status de colônia afeta todos os cidadãos que conservam um sentimento de dignidade nacional", afirmava, em 1820, o Manifesto da Nação Portuguesa aos Soberanos e Povos da Europa. O paradoxo de um movimento anticolonial em pleno solo europeu era o resultado final de uma troca de valores iniciada com a vinda da família real para o Brasil, em 1808, fugida das tropas de Napoleão. "Nunca antes a realeza européia tinha colocado os pés em suas colônias, ficando insuladas da fonte de sua riqueza e prestígio. Apenas no século 20 é que reis e rainhas passaram a circular por seus impérios, ainda assim, para reafirmar o abismo entre colônia e metrópole. Logo, a experiência da corte portuguesa no Brasil foi única e sem precedentes", analisa Patrick Wilcken em seu relato dos 13 anos que a realeza lusa passou no Rio. Por um paradoxo espantoso, a metrópole se viu reduzida à "colônia da colônia": o Império estava à deriva, indicando tanto o movimento do poder, deslocado para o Rio de Janeiro, quanto o ápice da decadência portuguesa, que já ameaçava Lisboa bem antes dos franceses. Afinal, já em 1800, um conselheiro de dom João VI avisara o monarca de que, em breve, Portugal se transformaria numa província da Espanha, e "a única forma de defender a independência da Coroa é criar um grande império no Brasil". Em 1805, também antes de Bonaparte, os ingleses defendiam a mudança real para o Rio, uma manobra política que pretendia eliminar a intermediação lusitana nos negócios britânicos. A chegada dos franceses, então, apenas adiantou um movimento que se colocava havia décadas para o soberano indeciso, que, em 1808, se viu no fogo cruzado entre a entrada das tropas de Junot em seu país e a ameaça de

Império à deriva: a Corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821

Patrick Wilcken

Editora Objetiva

328 páginas

R$ 34,90

Lord Strangford de bombardear Lisboa se não fugisse para o Brasil. Apesar de planejada meses antes, a saída da Corte foi patética. Na pressa, as caixas com a biblioteca real ficaram esquecidas no porto. Na chegada à colônia, novos sustos. Uma coisa era ter escravos num lugar remoto da América, outra era conviver com eles. A escravidão já não existia em Portugal desde 1761, mas, por aqui, chegavam, a cada ano, 20 mil negros. A Corte apavorou-se com a idéia de manter as instituições imperiais numa cidade dominada por cativos, alguns dos quais, para surpresa geral, usavam jóias, cartola e cheiravam rape.

Que lugar era aquele? O medo fez a Corte mais generosa com os negros e há relatos do rei e de Carlota Joaquina libertando escravos em plena rua, durante seus passeios. O monarca igualmente foi gentil com seu protetor (quase carcereiro) britânico e, cumprindo promessa feita antes de deixar a Europa, abriu os portos para as "nações amigas". Anos depois, com a expulsão dos franceses, uma campanha que custou a vida de 250 mil lusitanos, era hora de dom João voltar, mas o robusto soberano, temeroso da situação instável em seu país, ficou no Rio. A imobilidade real foi assunto até no Congresso de Viena, onde Tayllerand sugeriu que o impasse seria solucionado se o Brasil fosse elevado à condição de Reino Unido, com Portugal e Algarve. Assim se fez e a colônia ficou em igualdade com a metrópole. Nisso, a diferença marcante entre os movimentos de independência das colônias espanholas, todos violentos, e a pacífica transição ocorrida por aqui. Com a vinda da família real, a equação colonial se invertera e a pressão por liberdade foi sendo distendida. Afinal, em 1808, éramos uma nação emancipada; em 1820, a própria metrópole queria independência do Brasil; 1822 só ocorreu porque a experiência de o Brasil funcionar como centro do Império falhou. Não precisávamos mais de Portugal. O mundo voltava, aos poucos, ao seu prumo. Ao menos por uns tempos.

Caetana diz não: histórias de mulheres da sociedade escravista brasileira

Sandra Graham

Companhia das Letras

289 páginas, R$ 48,00

Um olhar histórico no microcosmo da escravidão, a partir de eventos reais ocorridos com mulheres cativas que enfrentaram, direta ou indiretamente, o sistema. A Caetana que dá título ao livro foi uma escrava que se recusou a consumar o seu casamento, arranjado contra sua vontade, com outro escravo, por ordem de seu senhor. As outras mulheres mostram como funcionava o universo patriarcal.

Companhia das Letras (11) 3707-3500 www.companhiadasletras.com.br

Novos horizontes no estudo da linguagem e da mente

Noam Chomsky

Editora da Unesp

364 páginas, R$ 42,00

O polêmico Chomsky está de volta ao seu campo de estudo inicial, após anos falando sobre tudo, a lingüística. Nesse livro, ele retoma idéias dos anos 1960 sobre a origem da revolução cognitiva, afirmando a linguagem como um objeto biológico que deve ser analisado com os métodos das ciências naturais. Aprofundando os conceitos, Chomsky os discute de forma histórica, aponta para novos caminhos de como alcançar o conhecimento.

Editora da Unesp (11) 3242-7171 www.editoraunesp.com.br

O pensamento católico no Brasil

Antônio Carlos Villaça

Editora Civilização Brasileira

336 páginas, R$ 42,90

Reedição de um clássico publicado originalmente em 1975, o estudo de Villaça historiciza o catolicismo brasileiro, datando a sua evolução e demonstrando sua conexão com o próprio desenvolvimento do país. Dos tempos coloniais aos atuais, o autor apresenta todos os estágios dessa fé no Brasil e as figuras que foram responsáveis pela sua manutenção por tantos séculos.

Editora Record (21) 2585-2000 www.editorarecord.com.br

MEMÓRIA

E HISTÓRIA

BORIS

Memória

e história

Boris Fausto Graal

261 páginas, R$ 39,00

Um dos nossos maiores historiadores, Boris Fausto ganhou uma merecida coletânea de seus textos mais recentes, publicados em jornais e revistas.

Dividido em quatro partes (América Latina: semelhanças e estranhamentos; História, interpretações e idéias; Temas brasileiros; Cenas da Microhistória), traz o pensamento preciso do pesquisador, livre para discorrer sobre temas os mais diversos com seu estilo seco e intenso.

Graal/Paz e Terra (11) 3337-8399 www.pazeterra.com.br

A real história do real: uma radiografia da moeda gue mudou o Brasil

Maria Clara do Prado

Editora Record

573 páginas, R$ 49,90

Colunista do jornal Valor, a jornalista

Maria Clara do Prado usou todo o seu conhecimento prático ao cobrir a consolidação da nova moeda e juntou a ele uma pesquisa densa, realizando uma história ao mesmo tempo fascinante e precisa dos bastidores, do comportamento dos protagonistas, enfim de tudo o que levou à estabilização monetária do Brasil com a implementação do Plano Real.

Editora Record (21) 2585-2000 www.editorarecord.com.br

0 imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964

Jorge Ferreira

Editora Civilização Brasileira

390 páginas, R$ 45,90

Para aqueles em que a menção do PTB só traz à cabeça os escândalos recentes do mensalão, esse estudo de Jorge Ferreira. Analisando o período compreendido entre 1945 e 1964, quando o golpe militar colocou fim ao regime democrático, o livro mostra como o getulismo deitou raízes fortes e profundas no imaginário popular e na relação delicada das trabalhadores com o Estado e com o capitalismo.

Editora Record (21) 2585-2000 www.editorarecord.com.br

Ficção Sobre os rumos da instituição

lhou para o seu cãozinho e disse: Neném, precisamos mudar esse estado de coisas. Sou um pesquisador, tenho uma opinião própria sobre o projeto, e não posso aceitar resignadamente que os rumos do saber acadêmico continuem assim, prestando contas, cumprindo prazos, participando de congressos, produzindo artigos... E clamou aos céus: por Netuno, a vida é muito mais do que isso!

Neném ficou estático, contemplando fixamente seu dono; ou melhor, permaneceu tal como estava, antes de lhe dirigirem sentenças tão resolutas. Uma coceira intensa atrás da orelha desviou sua atenção. Passada a coceira, começou a farejar em volta de onde estava sentado e, abanando seu rabinho coto, deu um latidinho, como quem assentisse na conclamação em discurso proferida pelo orador.

Mas, quê?! Trabalhar como um coveiro, depositando sobre o leito marmóreo dos grandes pensadores as lápides em notas de rodapé, em cujo epitáfio se lê idem, ibidem7 Empunhava sua caneca azul com chá de menta, dirigindo a Neném um semblante inflamado: uma república, com efeito, também necessita de coveiros; mas e quanto aos vivos? Resta-lhes algo a ser dito? Uma mísera verdadezinha sequer? Se não, então tudo não passa de uma tarefa classificatória, planejada por um sistema fechado e perverso, em que a tarefa principal consiste numa embromação infinita sem nenhum outro resultado além de taxonomia bibliográfica. E é por isso que insisto: não só a vida é muito mais do que isso, como me disponho a mostrá-la. E esbravejou: ao computador, Neném! Se falta coragem para expressar-me diretamente em assembléia, falar-lhes umas boas verdades, esbocemos ao menos algumas considerações sobre os propósitos

iniciais da pedra fundamental da instituição propósitos esses os mais louváveis e comparemo-los com os seus atuais resultados corretos, reconheço, mas muito aquém daquilo que poderíamos alcançar. E,a partir disso, investiguemos as causas: enumeremos os motivos mundanos, os virtuosismos vaidosos e frívolos que resultaram nesse torpor absoluto. Neném pegou seu osso de borracha e, sem nenhuma hesitação, acompanhou seu dono até o quarto, para redigirem o relatório. Senhor diretor, Com o perdão do desplante, deixo de lado o tradicional "venho por meio desta". Se é a vossa senhoria que me dirijo, logo a apresentação está subentendida. Como funcionário dessa instituição há mais de dez anos, dou por certo que o motivo de minha carta não o surpreenderá. Afinal, como diretor, sois um dos mais diretamente envolvidos e, portanto, responsáveis pela lamentável situação em que se encontra nossa auspiciosa morada do conhecimento. Mas não o culpo. Sabeis bem que a história, nossa infalível albergadora dos fatos, há muito atesta que não é de hoje que as coisas chegaram aonde chegaram, donde a constatação de que a vossa mencionada responsabilidade está diluída no oceano das contingências.

O que gostaria de tratar aqui não ignora o resultado eficiente e devido das tarefas almejadas e cumpridas, mas prefiro ater-me ao entorno de diversos elementos que, a meu ver, foram empregados levianamente no correr do processo.

Estive conversando com Neném, meu leal conselheiro, especialista em questões prementes, sobre alguns incômodos que me aturdiram no espaço hierárquico da instituição; e embora Neném não faça parte do projeto, tenho cada vez mais a forte

convicção de que é de "gente" como ele que necessitamos para a obtenção de melhores resultados. Entenda: creio que, em primeiro lugar, tergiversa-se em demasia nas nossas reuniões mensais. Todos queremos colaborar, trazendo novas análises e informações referentes aos tópicos delimitados no cronograma, mas acabamos apenas nos submetendo a um festival de frases de efeito, gracejos e comentários retorcidos. Como já disse, não tenho dúvidas de que, no final das contas, conseguimos atingir o programado. Mas, pergunto-lhe da mesma forma que consultei Neném —, será que isso não ocorreria de modo mais profícuo, caso conseguíssemos, como se costuma dizer, sair um pouco da teoria, partindo finalmente para a prática? Não estaríamos nos amotinando nos muros que encerram o universo do saber, ignorando a existência de vida inteligente no mundo real, efetivo, onde as coisas acontecem? Em suma, o que se tem feito durante essas nove décadas de reconhecimento e respaldo público não é pura divagação em nome da tradição?

Mencionei a pessoa de Neném, e insisto nesse ponto, porque se não é ele quem escreve diretamente esta carta, ainda assim é o espírito ilustrado de meu cãozinho que perfaz a minha letra sim, é hora de trazer a verdade à baila: é num quadrúpede doméstico que me baseio, num assíduo freqüentador de pet shop, com menos de cinco quilos, fruto dos percalços de uma sociedade consumista imprestável. O senhor não pode ouvir agora os latidos frenéticos e agudos de Neném, tomado de fúria em virtude dessa calamidade apática de que o pus a par. Garanto-lhe, porém, que não é sem razão que Neném late, apoiando-me nessa luta que deflagro contra a mesmice institucional. Se até hoje

outros funcionários não lhe comunicaram nada a esse respeito, é porque se encontram entorpecidos pelos fungos da burocracia que, ao cultivarem sua colônia, transformam a espontaneidade em má-fé. O balcão da copa, por exemplo, onde tomamos nosso ordinário e aguado cafezinho: ao nos defrontar com nossos conhecidos, todos dizemos um saudável e sorridente bom dia!, como vai!, quanto tempo!, mas, pelas costas, granjeamos os pensamentos mais insidiosos e nefastos.

(desculpe por persistir tanto no conectivo e; mas, o senhor sabe: nunca é coisa só)

• Tenho consciência do risco que corro ao pôr nossa instituição em xeque à luz dos conselhos que Neném tão solicitamente me ofertou. Não que tenhamos abandonado a solidariedade nas reuniões e na convivência quase diária. Contudo, que medidas poderíamos tomar para dissipar esse ambiente pasmado do profissional, que se comporta como quem tudo sabe, mas nada diz, já que reza a paranóia os outros se apropriariam indevidamente das idéias alheias.

E torno a reclamar: a objetividade que nos falta, Neném tem de sobra, e isso sem tergiversar; mesmo sendo muito novinho, ele vai direto ao ponto...

Uma súbita descarga elétrica apagou a tela do computador. Um ganido seco e breve. Ao chão, enquanto seu dono escrevia, após muitos latidos, Neném abandonara seu osso de borracha e começou a roer o cabo ligado à tomada a única maneira honesta de dar cabo àquilo tudo.

BRUNO SIMõES é tradutor, mestre em Filosofia pela USP e atualmente desenvolve uma tese de doutorado sobre o pensamento conservador.

Importação direta para Universidades. Fundações e projetos de pesquisa:

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Bolsas de Auxílio à Pesquisa FUNDAÇÃO MAPFRE

A Fundação MAPFRE oferece Bolsas de Auxílio à Pesquisa para estimular e apoiar pesquisas em áreas relacionadas à segurança e à prevenção de acidentes humanos, materiais e com o meio ambiente, além da redução de suas conseqüências.

O valor das bolsas varia de R$ 5.400 a € 35.000.

Breve descrição das bolsas com processo de inscrição em aberto:

Prêmio Internacional de Seguros Júlio Castelo Matrán

• Público-alvo: Pesquisadores e estudantes de pós-graduação de países latino-americanos e península Ibérica.

• Áreas de estudo: Trabalhos relacionados aos aspectos jurídicos, econômicos e técnicos do seguro e risco.

• Prazo de inscrição e entrega dos trabalhos: até 30 de junho de 2006.

Bolsa MAPFRE de Auxílio à Pesquisa - 2006

• Público-alvo: Pesquisadores e estudantes de pós-graduação de universidades brasileiras.

• Áreas de estudo: Trabalhos relacionados à Segurança no trabalho e higiene ocupacional, Gerenciamento de riscos e Meio ambiente.

• Prazo de inscrição: até 30 de abril de 2006.

Bolsa de Auxílio à Pesguisa MAPFRE - USP 2006

• Público-alvo: pesquisadores e estudantes de pós-graduação da USP.

• Áreas de estudo: Higiene industrial e ergonômica; Riscos ambientais; Educação para prevenção de riscos; Comunicação de riscos ambientais; Prevenção de incêndios; Segurança viária; Prevenção e gerenciamento de riscos e Segurança no trabalho.

• Prazo de inscrição: até 02 de junho de 2006.

(<* Fundação MAPFRE BRASIL

A Fundação MAPFRE tem por objetivo a promoção da segurança em todos os seus aspectos, a prevenção dos acidentes e a redução de suas conseqüências.

Saiba mais sobre a Fundação MAPFRE Brasil e as bolsas oferecidas no site www.fundacaomapfre.com.br.

A Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" comunica que, desde dezembro de 2005, informações sobre Concursos Públicos de Docentes e de Servidores

Técnico-Administrativos podem ser encontradas em:

íTNCONG

RESSO ONLINE

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\ O DESENVOLVIMENTO DO BRASIL DE MARÇO DE 2006 pletos de 05/01 a 20/03/2006 "tências da Saúde Ciências Agrárias Ciências Sociais Aplicadas Ciências Humanas Letras, Artes, Lingüística, outros ISSN 1809-3957

Mais informações: congresso@sodebras.com.br www.sodebras.com www.unalar.com.br

BOLSAS DE PESQUISA

O Hospital Universitário da USP, participante do consórcio Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (ELSA), está selecionando candidatos a bolsas de pesquisa financiadas pelo Conselho Nacional de Pesquisa na categoria de Desenvolvimento Tecnológico e Industrial (DTI) nos seus diversos níveis para o Centro ELSA-SP. O ELSA é um estudo epidemiológico pioneiro financiado pelos Ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia em seis centros do país: São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória e Salvador. Mais informações sobre as bolsas DTI deverão ser consultadas em http://www.cnpq.br/bolsas_auxilios/normas/is0605.htm#dti. Candidatos a bolsas nos outros cinco centros terão sua correspondência enviada aos coordenadores locais dos respectivos centros.

Comunicação preferencial elsa@usp.br ou por escrito para Hospital Universitário da USP - Superintendência

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A hanseníase ainda é um sério problema de saúde pública em nove países. O Brasil é o segundo país com maior índice da doença, perdendo apenas para índia. Como parte de nossas ações de responsabilidade social, assumimos, desde 2000, o compromisso junto à Organização Mundial da Saúde (OMS) de combater à hanseníase. A Novartis fornece gratuitamente à OMS a medicação necessária para erradicar a doença do mundo. Na primeira etapa da doação (2000 a 2005) foram necessários US$ 40 milhões em investimentos, que permitiu a cura de 4 milhões de pessoas. Agora, o acordo se extende até 2010. Para essa nova fase serão destinados até US$ 24,5 milhões, dependendo do número de J casos que podem ser detectados nos próximos anos. 0 desafio assumido pela Novartis e pela \JJ fsj O VA R.T I S OMS é atender os atuais casos em tratamento no mundo e eliminar definitivamente essa doença.

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