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Povos de Lagoa Santa

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Povos de Lagoa Santa

Rituais funerários revelam cultura de 10 mil a 8 mil anos atrás

e xposição de esculturas e pinturas resgata o trabalho do médico osório Cesar no hospital Juquery

Centros de pesquisa aplicada e bolsas no exterior são destaque no relatório 2015 da FAPesP

trabalhos de sylvio Ferraz mello ajudaram a entender a órbita de asteroides e planetas

Nanocircuito pode atuar como processador e memória de micro b onecos e modelos de partes do corpo facilitam o ensino e o planejamento de cirurgias

ESTIVEMOS TRABALHANDO JUNTOS DESDE O COMEÇO

É HORA DE NOS CONHECERMOS

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F otol A b

A belez A dO cOnheciMentO eM iMAGenS

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br

Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Um verme luminoso

Soterrados na areia e escondidos em tubos feitos por eles mesmos, de um material que parece um pergaminho, os poliquetas da espécie Chaetopterus variopedatus têm uma estratégia curiosa em caso de emergência: soltam um muco pegajoso e emitem uma luz azul. Falta confirmar que a reação sirva como defesa desses animais com cerca de 10 centímetros de comprimento, um pitéu macio para muitos peixes. “Quando entendermos a parte química, poderemos explicar a função ecológica do comportamento”, prevê o químico Anderson Garbuglio de Oliveira, que estuda o processo responsável pela bioluminescência, incomum em outras espécies desse tipo de organismo.

Imagem enviada por Anderson Garbuglio de Oliveira, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo

66 Energia

Células solares orgânicas começam a ser produzidas no Brasil

CAPA

16 Sepultamentos humanos em Lagoa Santa (MG) revelam costumes entre 10 mil e 8 mil anos atrás

22 Ameríndios capturavam tubarões e corvinas há 5 mil anos na costa do Rio de Janeiro

ENTREVISTA

26 Sylvio Ferraz Mello

Estudos do astrofísico ajudaram a entender características e anomalias na órbita de asteroides

POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

32 Instituição

UFABC completa 10 anos com 15 mil alunos e indicadores de pesquisa consistentes

36 Indicadores

Relatório de atividades 2015 da FAPESP destaca criação de centros de pesquisa aplicada e bolsas no exterior

40 Bioengenharia

Clube de estudantes prepara equipes para participar de disputa internacional em biologia sintética

CIÊNCIA

42 Neurologia

Grupos buscam as causas de óbitos súbitos e inesperados de pessoas com epilepsia

46 Saúde pública

Número de acidentes com escorpiões cresceu quase 600% em 15 anos

50 Zoologia

Desmatamento promove encontro entre espécies distintas de raposa e propicia surgimento de híbridos

52 Nanotecnologia

Pesquisadores tentam mostrar qual mecanismo está por trás do memoristor, um componente eletrônico

56 fotônica

Luz de intensidade variável revela conexões inesperadas entre áreas da física

59 física

Simulações em computador ajudam a entender a flexibilidade dos cristais de hélio

TECNOLOGIA

62 Engenharia biomédica

Bonecos e reproduções de partes do corpo humano produzidos em impressoras 3D auxiliam no planejamento de cirurgias

70 Pesquisa empresarial

Tecnologia da Atech para gestão de tráfego aéreo aumenta a segurança de voos no país

74 Indústria do petróleo

Instituições de pesquisa em parceria com a Petrobras desenvolvem equipamentos para o pré-sal

76 Entomologia

Armadilha captura insetos e identifica a espécie por meio do batimento das asas

HUMANIDADES

78 Saúde mental

Esculturas e pinturas resgatam o trabalho do médico Osório Cesar, que valorizou a produção artística em um hospital psiquiátrico

84 Planejamento familiar

Estudo da atuação de uma clínica de assistência à mulher recupera a história dos direitos reprodutivos

87 Educação

Pesquisa relaciona reflexões de Hannah Arendt sobre o ensino com conceitos de sua obra política

SEçÕES

3 Fotolab

5 Cartas

6 On-line

7 Carta da editora

8 dados e projetos

9 Boas práticas

10 Estratégias

12 tecnociência

90 Memória

92 resenha

94 Carreiras

98 Classificados

CoNtAtoS

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CA rtAS

Anibal Faúndes

Parabéns pela entrevista com Anibal Faúndes (edição 245). Que personalidade! Em uma cultura na qual o machismo ainda predomina, este homem de 85 anos reconhece publicamente o quanto uma mulher – sua primeira esposa, a socióloga Ellen Hardy – mudou seu ponto de vista sobre as próprias mulheres, influenciando profundamente o direcionamento de sua carreira. Que tenhamos outros “Anibals” na nossa comunidade científica.

Fátima Nunes

EACH-USP

São Paulo, SP

Carro híbrido

Com respeito à reportagem “Apresentado protótipo de carro movido a etanol e a célula a combustível”, publicada no site de Pesquisa FAPESP em 5 de agosto, achei muito curioso, para não dizer negativo, que a montadora Nissan seja referenciada no parágrafo introdutório apenas como “uma fabricante japonesa de veículos”. O nome Nissan só aparece no quinto parágrafo da reportagem, obviamente de modo proposital. Veículos que procuram respeitar o ambiente, como os elétricos ou híbridos, não recebem incentivos dos governos federal e estadual. O que se viu na reportagem é uma atitude que parece algo envergonhada em apoiar uma pesquisa em que a iniciativa privada está presente.

Antonio Mario Magalhães

IAG/USP

São Paulo, SP

Xylella

Precisamos cobrar investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Como no caso do sequenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, os resultados levam tempo para aparecer, mas vale a pena (“Ousadia recompensada”, edição 246).

Claudia Lage

Vídeos

O vídeo com Guido Carlos Levi, sobre vacinação, mostra como as últimas duas gerações, mimadas pelos confortos que

a medicina trouxe, estão, ironicamente, sendo as mais empenhadas em tirar dos próprios filhos a segurança que tiveram.

Caetano Julio Neto

Fui uma das proprietárias de um berçário classe “AA” e pude constatar o que Guido Carlos Levi diz no vídeo sobre vacinas. Havia um grande número de mães “naturebas” que não vacinavam seus filhos, mas que brigavam para que a alimentação que servíamos fosse estritamente orgânica.

Maria Amelia Nogueira

Acho que a melhor forma como a história do acidente do rio Doce já foi contada está no vídeo “Open science: O futuro da ciência e o desastre de Mariana”. Parabéns a toda a equipe pelo trabalho.

Dante Pavan

Correções

Na tabela “A divisão dos orçamentos”, que consta da reportagem “Os impactos do investimento” (edição 246), o subtítulo correto é “Desembolso da FAPESP por objetivo de fomento, em 2015, em R$ mil”, e não milhões como foi publicado. Veja abaixo a versão correta da tabela.

Desembolso da FAPESP por objetivo de fomento, em 2015, em R$ mil*

*Não inclui desembolsos com infraestrutura de pesquisa, que foram de R$ 93.813.340

Diferentemente do que afirmamos na nota “O supertelescópio chinês” (edição 246), o radiotelescópio Fast não será o maior do mundo. O maior é o Ratan-600, com um espelho de 576 metros de diâmetro, em funcionamento na Rússia.

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 10º andar – CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza. Via facebook.com/PesquisaFapesp

on-line

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A mais vista do mês no Facebook

b Oas prá T i C as o espectro das imagens duplicadas

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e xclusivo no site

x em meio à relativa calmaria que o inverno impôs à epidemia de zika, uma notícia deixou todos em alerta: o vírus pode continuar ativo no organismo dos bebês por semanas após o nascimento. em agosto, pesquisadores de são Paulo publicaram no New england Journal of Medicine a descrição do caso de um bebê do sexo masculino que foi infectado pelo vírus durante a gestação. seu organismo continuou a apresentar o zika até o 67º dia após o parto bit.ly/2bzrkpi

x Pesquisadores identificaram um mecanismo molecular que pode ajudar na obtenção de um tratamento para o câncer de pulmão de células não pequenas. ao analisar 490 indivíduos com esse tipo de câncer, eles acharam uma correlação entre a baixa expressão do fator de transcrição c/ebPα, associado à supressão de tumores, e a superexpressão da bmi1, proteína associada à proliferação celular. um composto em fase de testes, administrado em camundongos com câncer de pulmão induzido, inibiu a expressão da bmi1 e interrompeu o crescimento do tumor nos animais com baixa expressão do c/ebPα, conforme descreveram em um estudo na science Translational Medicine bit.ly/2bz1hLs

no site de Pesquisa FaPesP estão disponíveis todos os textos da revista em português, inglês e espanhol, além de conteúdo exclusivo

Rádio

Bióloga Erika

Hingst-Zaher fala sobre o trabalho colaborativo entre pesquisadores e observadores de aves bit.ly/2bOF7mi

Vídeos do mês

Galeria de imagens

confira nas fotos de eduardo cesar o contraste entre áreas verdes e áridas da cidade de são Paulo bit.ly/2bCFLTr

youtube.com/user/PesquisaFa PesP

Infectologista Guido Levi expõe causas e consequências da recusa à vacinação no Brasil bit.ly/2c8qkna

Conheça o trabalho de análise da contaminação do rio Doce feito pelo Grupo Independente para Análise do Impacto Ambiental bit.ly/2bXxKMl

Assista ao vídeo
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fundação

José GoldemberG Presidente

eduardo moacyr KrieGer vice-Presidente

conSElho SUPErIor

c armino antonio de souza, eduardo moacyr KrieGer, fernando ferreira costa, João fernando Gomes de oliveira, João Grandino rodas, José GoldemberG marilza vieira cunha rudGe, José de souza martins, Julio cezar duriGan, Pedro luiz barreiros Passos, Pedro WonGtschoWsKi, suely vilela samPaio

conSElho técnIco-AdmInIStr AtIvo c arlos américo Pacheco d iretor-Presidente

c arlos henrique de brito cruz d iretor científico

Joaquim J. de c amarGo enGler

d iretor Administr Ativo

issn 1519-8774

conSElho EdItorIAl carlos henrique de brito cruz (Presidente), caio túlio costa, eugênio bucci, fernando reinach, José eduardo Krieger, luiz davidovich, marcelo Knobel, maria hermínia tavares de almeida, marisa lajolo, maurício tuffani, mônica teixeira comItê cIEntíFIco

luiz henrique lopes dos santos (Presidente), anamaria aranha camargo, ana maria fonseca almeida, carlos américo Pacheco, carlos eduardo negrão, fabio Kon, francisco antônio bezerra coutinho, Joaquim J. de camargo engler, José Goldemberg, José roberto de frança arruda, José roberto Postali Parra, lucio angnes, marie-anne van sluys, maria Julia manso alves, Paula montero, roberto marcondes cesar Júnior, sérgio robles reis queiroz, Wagner caradori do amaral, Walter colli

coordEnAdor cIEntíFIco luiz henrique lopes dos santos

dIrE tor A dE rEdAção

alexandra ozorio de almeida

EdItor-chEFE neldson marcolin

EdItorES fabrício marques (Política), márcio ferrari (Humanidades), marcos de oliveira (Tecnologia), ricardo zorzetto (Ciência); carlos fioravanti e marcos

Pivetta (Editores especiais); bruno de Pierro (Editor-assistente)

rE vISão alexandre oliveira e margô negro

ArtE mayumi okuyama (Editora) ana Paula campos (Editora de infografia), Júlia cherem rodrigues e maria cecilia felli (Assistentes)

Fotógr AFoS eduardo cesar, léo ramos

mídIAS ElE trônIc AS fabrício marques (Coordenador)

IntErnE t Pesquisa FAPESP online maria Guimarães (Editora) rodrigo de oliveira andrade (Repórter) Jayne oliveira (Redatora) renata oliveira do Prado (Mídias sociais) rádIo Pesquisa Brasil biancamaria binazzi (Produtora)

colAbor AdorES daniel almeida, daniel bueno, evanildo da silveira, everton lopes, fabio otubo, igor zolnerkevic, larissa ribeiro, marcelo cipis, Paulo lumatti, veridiana scarpelli, valter rodrigues, yuri vasconcelos

é ProIbIdA A rEProdUção totAl oU PArcIAl dE tE xtoS E FotoS SEm PrévIA AUtorIz Ação

PAr A FAlAr com A rEdAção (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br

PAr A AnUncIAr midia office - Júlio césar ferreira (11) 99222-4497 julinho@midiaoffice.com.br

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tIr AgEm 29.600 exemplares

ImPrESSão Plural indústria Gráfica dIStrIbUIção dinaP

gEStão AdmInIStr AtIvA instituto uniemP PESQUISA FAPESP rua Joaquim antunes, no 727, 10o andar, ceP 05415-012, Pinheiros, são Paulo-sP FAPESP rua Pio Xi, no 1.500, ceP 05468-901, alto da lapa, são Paulo-sP

secretaria de desenvolvimento econômico, ciência e tecnoloGia govErno do EStAdo dE São PAUlo

c A rtA dA E d I tor A

v isita à pré-história brasileira

ofascínio sobre a morte é possivelmente uma característica atemporal da humanidade. Uma maneira de o homem lidar com a própria finitude é entender como as gerações anteriores cuidaram de seus mortos, o que por sua vez significa entender como viviam e enxergavam o mundo.

Pesquisas recentes baseadas em escavações ainda em andamento no sítio arqueológico da Lapa do Santo, na região de Lagoa Santa, MG, oferecem um amplo retrato sobre os costumes funerários dos povos que viveram na região entre 12 mil e 8 mil anos atrás. O período, que antes era considerado homogêneo em termos de ocupação humana, mostrou-se dividido em três culturas bastante distintas. Cada uma apresentou padrões de sepultamento complexos, com rituais ligados à morte que seguiam regras precisas, mostra a reportagem de capa desta edição (página 16).

ves propor que o continente teria sido ocupado não por uma, mas sim por duas levas distintas: uma com morfologia mais parecida com a dos africanos e aborígenes australianos, e outra parecida com a dos asiáticos, dos quais descendem os índios de hoje.

A riqueza arqueológica do conjunto de sítios de Lagoa Santa tem sido estudada para responder a perguntas diversas, formuladas no decorrer dos anos. O projeto multidisciplinar hoje em andamento na Lapa do Santo procura contribuir para a explicação dos modos de vida desses povos. O potencial da região é conhecido desde o século XIX, quando o naturalista dinamarquês Peter Lund descobriu ossos humanos associados aos de grandes animais. O problema de então dizia respeito à possível coexistência dos hominídeos com a megafauna que habitou o continente. Depois, os resultados das escavações foram usados para tentar entender o processo de povoamento da América. O crânio de Luzia, de aproximadamente 11 mil anos atrás, escavado na Lapa Vermelha na década de 1970 por uma missão franco-brasileira, permitiu ao bioantropólogo da USP Walter Ne-

O principal interesse da arqueologia é a cultura material. Como exemplo, a diversidade de adornos em peças de cerâmica escavadas revela muito sobre a vida de seus donos. As variadas formas de viver resultam em modos diferentes de ver o mundo, por sua vez representadas nos ritos e nos objetos, a principal evidência dos povos antigos a que temos acesso. Nos trópicos, artefatos orgânicos, como de palha e madeira, podem não sobreviver para se tornar objeto de estudo. No sítio da Lapa do Santo, os complexos ritos de sepultamento encontrados não estão acompanhados por adornos ou objetos sofisticados. Sofreram decomposição ou nunca existiram? É uma de muitas perguntas que as equipes atuais e futuras procurarão responder.

Foram objetos e restos de comida deixados por antigos habitantes do litoral fluminense em um período um pouco mais recente (5 mil anos) que permitiram a pesquisadores entender os hábitos alimentares desses ameríndios. Os sambaquis, vestígios arqueológicos também relacionados com práticas funerárias, são registro da dieta daqueles habitantes. Pesquisa reportada à página 22 mostra que esses pescadores-coletores pré-coloniais tinham uma atividade de coleta de peixes muito desenvolvida e diversificada. Os indícios da pesca excessiva ou de espécimes muito jovens de peixes como corvinas e tubarões sugerem que a prática possa ter representado a primeira ameaça significativa aos estoques naturais dessas populações marítimas.

Alexandra

DaDos e projetos

t emáticos e JoV ens Pesquisadores recentes

Projetos contratados pela FAPESP em julho e agosto de 2016

temáticos

 i nteração Xylella fastidiosa -inseto-vetor-planta hospedeira e abordagens para o controle da clorose variegada dos citros e cancro cítrico

Pesquisadora responsável: Alessandra Alves de Souza

i nstituição: Instituto Agronômico de Campinas/SAASP

Processo: 2013/10957-0

Vigência: 01/11/2016 a 31/10/2021

 mudbelts do sul e sudeste do Brasil: i mplicações sobre as influências antrópicas no ambiente marinho

Pesquisadora responsável: Marcia Caruso Bicego

instituição: Instituto Oceanográfico/USP

Processo: 2015/17763-2

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2021

 e studo da associação de aspectos clínicos, funcionais e de neuroimagem em mulheres com migrânea

Pesquisadora responsável: Debora Bevilaqua Grossi

i nstituição: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP

Processo: 2015/18031-5

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2021

 c ontrole luminoso e hormonal da qualidade nutricional em Solanum lycopersicum

Pesquisadora responsável: Maria Magdalena Rossi

instituição: Instituto de Biociências/USP

Processo: 2016/01128-9

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2021

 o sistema terra e a evolução da vida durante o n eoproterozoico

Pesquisador responsável: Ricardo Ivan Ferreira da Trindade

i nstituição: IAG/USP

Processo: 2016/06114-6

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2021

J oV ens Pesquisadores

 d esenvolvimento e processamento de compósito de al2o3-zro2 para

próteses monolíticas cad/cam : e feito do envelhecimento na resistência à flexão biaxial

Pesquisador responsável: Estevam Augusto Bonfante i nstituição: FO Bauru/USP Processo: 2012/19078-7

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2020

 m ecanismos de egresso em P. falciparum : i dentificação de novos alvos terapêuticos

Pesquisador responsável: Mauro Ferreira de Azevedo i nstituição: ISS/Unifesp Processo: 2015/19316-3

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2020

 Física além do modelo Padrão: d esafios teoréticos e fenomenológicos

Pesquisador responsável: Enrico Bertuzzo i nstituição: IF/USP Processo: 2015/25884-4

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2020

d e onde vêm os coordenadores dos projetos Pipe

Instituições líderes na formação acadêmica dos responsáveis pelos projetos do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP entre 1997 e 2014

Graduação

n usP n unicamp n unesp n uF sCar n I ta n o utras

mestrado

 Vulnerabilidade de biomas brasileiros ao aquecimento climático (Fa PesP- n erc-Biome)

Pesquisadora responsável: Immaculada Oliveras Menor i nstituição: IB/Unicamp

Processo: 2015/50517-5

Vigência: 01/11/2016 a 31/10/2019

 Papel de galectina-3 na infecção por Cryptococcus neoformans Pesquisador responsável: Fausto Bruno dos Reis Almeida i nstituição: FMRP/USP Processo: 2016/03322-7

Vigência: 01/07/2016 a 30/06/2020

 transcriptômica para identificação de genes de interesse comercial em cana-de-açúcar (Bioen)

Pesquisador responsável: Gabriel Rodrigues Alves Margarido i nstituição: Esalq/USP Processo: 2015/22993-7

Vigência: 01/08/2016 a 31/07/2020

doutorado

usP n unicamp n unesp n uF sCar n I ta n o utras n usP n unicamp n uF sCar n unesp n unifesp n o utras

Base pesquisada: 802 coordenadores com dados sobre a formação acadêmica, Pipe, 1997-2014. Todos com título de graduação, 639 (79,7%) com mestrado e 549 (68,5%) com doutorado. Fontes: Elaboração da Coordenação de Indicadores/FAPESP a partir de dados coletados por M. A. Loureiro (aluno de pós-graduação, DPCT/IG/Unicamp) a partir das bases: FAPESP/Biblioteca Virtual e Currículo Lattes/CNPq/MCTIC.

Boas práticas

Falta de cuidado em artigos de revisão

Os artigos de revisão, aqueles trabalhos científicos que organizam dados da literatura existente em uma determinada área do conhecimento, nem sempre são escritos com o cuidado necessário para evitar a citação de papers com dados incorretos ou com suspeita de má conduta. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Suíça, França e Alemanha, publicado pela revista BMJ Open Foram analisados 118 artigos de revisão publicados em 2013 em quatro periódicos da área médica: Annals of Internal Medicine, The British Medical Journal, The Journal of the American Medical Association e The Lancet

Os pesquisadores investigaram se os autores haviam seguido seis procedimentos importantes para prevenir a inclusão de dados equivocados ou fraudados nos artigos de revisão. A conclusão é que em apenas metade dos trabalhos os autores adotaram três ou mais desses procedimentos capazes de detectar problemas.

Os procedimentos são os seguintes: cotejar resultados de papers citados com dados brutos de testes clínicos; entrar em contato com os responsáveis pelos artigos para ter acesso a resultados não publicados; avaliar se há publicações duplicadas sobre o mesmo achado; verificar se houve interferência dos patrocinadores nos artigos; analisar possíveis conflitos de interesse; e checar se as pesquisas descritas nos papers passaram por comitês de ética. Para verificar se as recomendações foram adotadas, os pesquisadores analisaram os artigos de revisão, em busca de relatos dos métodos utilizados, e entraram em contato com os autores para fazer perguntas adicionais.

O estudo observou que 11 dos 118 trabalhos de revisão não levaram em consideração nenhum dos procedimentos. Em 79 (66%), seus autores buscaram dados brutos; em 73 (62%), fez-se contato com autores dos papers originais; em 81 (69%), procuraram-se artigos duplicados e apenas em 5 (4%) foram analisados conflitos de interesse. Verificou-se também que somente três trabalhos de revisão (2,5%) checaram se os estudos revisados passaram por comitês de ética.

Os pesquisadores observaram que poucos autores de artigos de revisão denunciam sinais de má conduta que encontram durante a revisão da literatura. Sete autores admitiram ter incluído na revisão papers sobre os quais havia alguma suspeita, como sinais de plágio ou manipulação de imagens, mas apenas dois fizeram advertências no artigo de revisão. “Quando autores de

revisão suspeitam de má conduta em algum artigo, parece que eles não sabem o que fazer com essa informação”, disse Nadia Elia, pesquisadora da Universidade de Genebra, na Suíça, e autora principal do estudo, ao site Retraction Watch.

A dose exata de plágio

A revista Nanomaterials adotou uma nova política editorial e agora realiza checagem para detectar indícios de plágio antes de enviar aos revisores os manuscritos submetidos à publicação.

A medida busca evitar casos como o de um estudo sobre a toxicidade de nanopartículas publicado no periódico em 2014, assinado por pesquisadores da Universidade de Hokkaido, no Japão.

O trabalho foi retratado após uma investigação concluir que 56% de seu conteúdo não era original. Um software detectou que 46% do texto se caracterizava como autoplágio, que é a repetição de trechos presentes em

manuscritos anteriores do mesmo autor, e mais 10% do conteúdo foi classificado como plágio ou apropriação de ideias alheias. Observou-se também que quatro das seis imagens do artigo foram reproduzidas de outros papers, ainda que os autores tenham atribuído a fonte corretamente. Thomas Nann, editor-chefe da Nanomaterials, lamentou não ter descoberto o problema antes. “Os autores revisaram o manuscrito e um editor o aceitou. Dado o grande número de submissões recebidas pelos periódicos, pode acontecer de o plágio ser descoberto após a publicação do artigo”, desculpou-se Nann.

e stratégias

Visão sobre os transgênicos

Um levantamento feito pelo Ibope, encomendado pelo Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), mostra que a maioria dos brasileiros (80%) tem noção de que alimentos transgênicos são aqueles que tiveram genes modificados. No entanto, sua segurança não é reconhecida por uma parcela da população. Pouco menos da metade (44%) concordou parcial ou totalmente com a afirmação de que os transgênicos são pouco testados e 33%, que fazem mal à saúde. Foram ouvidos 2 mil entrevistados de todas as classes sociais, sem vínculo com a área de biotecnologia. “As pessoas têm pouco acesso a estudos sobre a segurança dos transgênicos compilados por órgãos como a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança [CTNBio]”, diz Adriana Brondani, diretora executiva do CIB. A pesquisa mostra que apenas 23% acreditam que a ciência possa auxiliar a produção de alimentos, enquanto 84% reconhecem que ela contribui para a cura de doenças e 51%, para o desenvolvimento de medicamentos. Para o médico e bioquímico Walter Colli, ex-presidente da CTNBio, o debate em torno dos transgênicos é complexo e envolve embates políticos e ideológicos. “É preciso que empresas e pesquisadores saibam esclarecer as dúvidas da população com o respaldo da ciência”, recomenda Colli.

Ameaças de demissão na Rússia

A notícia de que o governo da Rússia pretende demitir, nos próximos três anos, cerca de 10 mil pesquisadores vinculados a órgãos públicos deixou apreensiva a comunidade científica do país. A maior parte das demissões deve acontecer em institutos ligados à Academia Russa de Ciências, informou a revista Science Os cortes representariam 17% da força de trabalho dos institutos, que atualmente

empregam mais de 49 mil pesquisadores. A medida está sendo preparada pela Agência Federal de Organizações Científicas (Faso, em inglês), órgão criado em 2013 para gerenciar e regulamentar a atividade de pesquisa realizada por institutos federais. Recentemente, a agência anunciou que cortará gastos para tornar os institutos mais enxutos e eficientes.

Em carta aberta ao presidente Vladimir Putin, cerca de 150 pesquisadores criticaram a proposta. Segundo eles, as reformas previstas podem comprometer a imagem da ciência russa e provocar uma fuga de cérebros sem precedentes. Uma fonte do Kremlin ouvida pela Science disse que o governo se preocupa com os cientistas e dará “grande atenção” ao caso.

Perda na física

O físico norte-americano

Mudas de cana-de-açúcar geneticamente modificadas em laboratório da USP

James Watson Cronin, ganhador do Nobel em 1980, morreu no dia 25 de agosto, aos 84 anos. Professor da Universidade de Chicago, Estados Unidos, Cronin dividiu o prêmio com Val Logsdon Fitch pela descoberta de violações de princípios fundamentais de simetria no decaimento de partículas subatômicas conhecidas como mésons-k neutros. Ele foi um dos idealizadores do Observatório Pierre Auger de Raios Cósmicos, que começou a ser construído em 1998 em uma área de 3 mil quilômetros quadrados em Malargüe, na Argentina. O observatório reúne hoje cerca de 500 pesquisadores de 16 países, entre eles o Brasil, que contribuiu no projeto com a compra de equipamentos com o apoio de instituições como a FAPESP e

James Cronin, vencedor do Nobel de Física em 1980, morreu aos 84 anos

Acesso à nuvem computacional da USP

A Universidade de São Paulo (USP) abriu acesso a seu serviço de computação em nuvem, o InterNuvem USP, para utilização de pesquisadores de outras universidades ou instituições de pesquisa. Eles poderão contratar serviços de armazenamento de dados de pesquisa, tendo acesso a servidores e discos rígidos pela internet. O serviço pode ser pago com recursos de projetos de pesquisa financiados por agências de fomento ou empresas. “Nas propostas de projetos submetidos à FA-

a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). “Cronin nos inspirou a ir em busca do desconhecido, com profunda intuição, respaldo científico e visão poética”, declarou ao jornal New York Times

Angela Olinto, professora da Universidade de Chicago. Em nota à imprensa, Ronald Shellard, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), disse que Cronin era “uma pessoa inspiradora”. “Quando dava palestras, tinha sempre o cacoete de esfregar um dedo no outro. Os amigos sabiam que isso era um sinal de que deveriam prestar atenção no que diria a seguir”, escreveu Shellard, que conheceu Cronin no Observatório Pierre Auger.

PESP, o pesquisador proponente pode incluir na rubrica ‘serviços de terceiros’, do orçamento solicitado, os custos para uso da nuvem como serviço, adicionando a justificativa da necessidade para o projeto”, disse à Agência FAPESP Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação. O objetivo da abertura da nuvem computacional é racionalizar o uso dos serviços disponibilizados pelo sistema e dos recursos públicos aplicados em computação para realização de pesquisas. “O serviço de armazenamento

d iplomacia científica no Oriente Médio

O Synchrotron-light for Experimental Science and Applications in the Middle East (Sesame), a primeira fonte de luz síncrotron do Oriente Médio, em construção na Jordânia, deverá entrar em operação em dezembro deste ano. O anúncio foi feito por Chris Llewellyn Smith, presidente do Conselho do Sesame, em evento realizado em julho no Reino Unido. Segundo o físico, em breve será divulgada uma primeira chamada de projetos que privilegiem o uso de

radiação para investigar átomos e células. O Sesame é considerado um marco da diplomacia internacional, já que o projeto é fruto de uma cooperação entre Bahrein, Chipre, Irã, Israel, Jordânia, Paquistão, Palestina e Turquia. “Trata-se da única iniciativa, depois da Organização das Nações Unidas [ONU], que coloca Israel e Irã na mesma sala”, disse Llewellyn Smith ao site SciDev.net O equipamento poderá ser utilizado por pesquisadores de

on-line oferecido pela USP poderá custar de 30% a 50% menos que o valor cobrado por empresas como o Google”, explica João Eduardo Ferreira, superintendente de tecnologia da informação da USP. Implementada em 2012 com apoio da FAPESP, o InterNuvem atende às demandas dos pesquisadores da universidade e da administração da instituição. Também hospeda a infraestrutura de ensino a distância da universidade. O serviço está disponível no endereço nuvem.uspdigital.usp.br/client/. diversas áreas, incluindo biologia, química, geologia, medicina e arqueologia. “Esse projeto mostra que a ciência é uma ótima maneira de estabelecer relações diplomáticas e superar barreiras políticas”, afirma o físico brasileiro Antonio José Roque da Silva, diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas. Anos atrás, o LNLS recebeu e treinou três pesquisadores do Oriente Médio ligados ao Sesame para trabalhar com luz síncrotron.

t ecnociência

Esperança de vida extraterrestre

Um planeta recém-descoberto é o mais novo foco das buscas por vida fora da Terra. Batizado de Proxima Centauri b, foi descrito por uma equipe internacional liderada pelo astrofísico Guillem Anglada-Escudé, do Queen Mary College da Universidade de Londres, e tem uma massa apenas ligeiramente maior que a da Terra (Nature, 25 de agosto). O planeta leva pouco mais de 11 dias para completar uma volta em torno de sua estrela, a Proxima Centauri, a mais próxima do Sol, e poderia ser alcançado em cerca de 20 anos por uma

nave que viajasse a uma velocidade correspondente a 20% da velocidade da luz.

Essa estrela faz parte de uma família classificada como anãs M, muito estudada porque seus planetas podem ser detectados quando, pela atração gravitacional, causam uma irregularidade no movimento da estrela que orbitam. No caso de Proxima Centauri b, o efeito foi detectado pela equipe de Anglada-Escudé usando telescópios do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile. O novo planeta está a uma distância de sua estrela em que

a temperatura permitiria a existência de água líquida, característica considerada essencial para o surgimento e a evolução da vida. Resta saber se existe uma atmosfera e um campo magnético, como o da Terra, que protejam a superfície do planeta das explosões da Proxima Centauri e dos raios X que ela emite. Novos instrumentos, como o telescópio espacial James Webb, a ser lançado em 2018 pela agência espacial norte-americana (Nasa), podem contribuir para encontrar essas respostas.

Concepção artística do planeta Proxima Centauri b, semelhante à Terra, que orbita a estrela Proxima Centauri

Fármaco em nova função

A clorpromazina, um medicamento antipsicótico, utilizado no tratamento da esquizofrenia, está sendo testada contra a leucemia, um tipo de câncer que tem início na medula óssea e acomete os glóbulos brancos. Pesquisadores do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC (UFABC), em Santo André, usaram um polímero para encapsular a clorpromazina e, assim, criar um sistema nanoestruturado que facilite a entrada do medicamento nas células. O sistema mostrou-se eficaz no combate a células de leucemia in vitro (Pharmacological Research, setembro). “O efeito contra as células tumorais foi maior quando o fármaco atuou com a nanoestrutura e não sozinho”, diz o farmacêutico Tiago Rodrigues, professor na UFABC e coordenador do estudo junto com a professora Daniele Ribeiro de Araújo. Atualmente, os pesquisadores da universidade estão realizando testes em animais e estudando o mecanismo de ação da droga em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 1

Cochilos em pleno voo

Há algum tempo já se suspeitava, mas faltava a comprovação que agora veio: aves que voam por dias seguidos tiram cochilos breves durante o voo. Pesquisadores do instituto Max Planck de Ornitologia, na Alemanha, desenvolveram miniaturas de aparelhos que registram a atividade elétrica do cérebro e monitoraram a viagem de 15 fêmeas de tesourão-grande (Fregata minor). Em 10 dias, as aves voaram quase 3 mil quilômetros sobre o oceano.

Após o anoitecer, em diferentes momentos, metade do cérebro dos

pássaros adormecia, enquanto a outra metade permanecia desperta. Esse padrão de sono já havia sido observado em patos durante testes feitos em terra. O surpreendente foi que houve instantes em que as aves permaneceram voando mesmo com os dois hemisférios cerebrais adormecidos – em alguns momentos o cérebro entrou em sono REM, a fase em que os músculos relaxam e ocorrem os sonhos (Nature Communications, 3 de agosto). Elas dormiram 40 minutos por dia na viagem, cerca de 10% do que dormem em terra.

Grafeno para uso em implantes

Grande resistência mecânica, alta porosidade e ao mesmo tempo rigidez e biocompatibilidade são características de uma nova concepção de óxido de grafeno com potencial para uso em implantes ósseos. O grafeno 3D, resultado da junção de camadas desse material por meio de soldagem por plasma, é mais leve que o titânio, material utilizado em próteses. O grafeno é uma folha de átomos de carbono dispostos de forma hexagonal. “A ideia

Das rochas para o mar

Fêmea de tesourão-grande (Fregata minor): sonecas breves nas alturas em viagens que duram dias seguidos

No final da era Neoproterozoica, que durou de 850 milhões a 541 milhões de anos atrás, a concentração de oxigênio nos oceanos e na atmosfera terrestre apresentou um aumento acentuado e, pela primeira vez, atingiu um valor próximo do atual. Os geólogos associavam essa elevação à atividade de microrganismos capazes de fazer fotossíntese, como algumas bactérias, e ao rápido soterramento de matéria orgânica. Agora, uma equipe franco-brasileira sugere que o mineral pirita, formado por ferro e enxofre, também poderia ter contribuído para o aumento da concentração de oxigênio nos oceanos e na atmosfera,

fundamental para o surgimento dos seres pluricelulares (Nature Communications, 22 de julho). Os pesquisadores chegaram a essa conclusão examinando a proporção de isótopos de sulfatos de amostras de minerais de depósitos glaciais com 635 milhões de anos na região central do Brasil e a taxa com que são decompostos por bactérias, formando oxigênio. “A decomposição dos minerais ocorreu de forma rápida e exauriu quase 60% do sulfato disponível nos oceanos da época, algo sem precedentes na história do planeta”, diz o geólogo Ricardo Trindade, professor da Universidade de São Paulo e um dos autores do trabalho.

Bloco de camadas de óxido de grafeno soldadas: mais leve que o titânio

foi criar um grafeno 3D usando pedaços de 2D”, conta Douglas Galvão, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele e os pós-doutorandos Pedro Autreto, da Universidade Federal do ABC (UFABC), e Cristiano Woellner, da Unicamp, participaram do desenvolvimento dessa configuração de óxido de grafeno com pesquisadores das universidades Rice e do Texas, nos Estados Unidos, e do Centro Internacional de Pesquisa Avan-

çada de Metalurgia do Pó e Novos Materiais (Arci), da Índia. “O material agora parece uma cortiça porosa”, explica Galvão. “A alta porosidade é importante porque a rugosidade em nanoescala facilita a integração com as células do corpo.” O trabalho dos brasileiros foi financiado pelo Centro de Pesquisa em Engenharia e Ciências Computacionais (CCES), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP.

Robô macio e sem esqueleto

Sem placas de circuito eletrônico rígidas ou sistemas de articulação motora, o Octobot é um robô macio e de corpo mole que imita os polvos. Foi desenvolvido, sob a coordenação do professor Robert Wood, na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, para ser um robô-conceito e abrir novas frentes na robótica. Em sua construção, foram usados três métodos de fabricação: litografia, moldagem e impressão 3D. O corpo foi produzido com um sistema interno de microcanais (Nature, de 26 de agosto). O combustível do Octobot é água oxigenada (peróxido de hidrogênio). Por meio de uma reação química com um catalisador de platina, a água oxigenada se transforma em gás, que se dissipa pelos microcanais e infla os atuadores, uma espécie de pequenos balões localizados no interior dos braços do Octobot. Essa reação faz o robô se mover. Um circuito impresso com tinta especial para condução de elétrons funciona como um oscilador eletrônico simples, que envia impulsos repetitivos e controla a transformação do peróxido de hidrogênio líquido em gás. O reservatório de água oxigenada quando cheio representa 50% do peso do Octobot. Para melhor visualizar as características internas do dispositivo foram adicionados corantes fluorescentes no interior do robô.

Octobot: corantes fluorescentes e água oxigenada como combustível

Um mundo mais alto

As populações humanas ganharam alguns centímetros no último século em todo o mundo, segundo um grande estudo que compilou informações sobre a estatura de 18,6 milhões de pessoas nascidas entre 1896 e 1996. Os pesquisadores do consórcio internacional NCD Risk Factor Collaboration, do qual participam grupos brasileiros, reuniram os dados sobre a estatura de indivíduos de 200 nacionalidades apresentados em 1.472 artigos científicos e constataram que o aumento variou bastante de uma população para outra. De modo geral, os homens cresceram entre 1 centímetro (cm) e 15 cm ao longo desse período, enquanto as mulheres se tornaram de 2 cm a 20 cm mais altas (eLife, julho).

Os holandeses são hoje os homens mais altos do mundo, com 1,83 metro (m) em média. Os mais baixos são os do Timor-Leste, com 1,60 m. Já as mulheres mais altas são as da Letônia,

com estatura média de 1,70 m, e as mais baixas, da Guatemala, cuja altura não chega a 1,50 m. Nesses 100 anos, os grupos que mais cresceram foram as mulheres sul-coreanas, que ganharam 20,2 cm, e os homens iranianos, que se tornaram 16,5 cm mais altos. Homens e mulheres brasileiros ganharam cerca de 10 cm de altura e hoje têm, respectivamente, cerca de 1,70 m e 1,60 m em média. O ganho geral de altura reflete uma melhoria nas condições de vida. Embora as características genéticas de uma população influenciem a estatura de seus indivíduos, estudos sugerem que a diferença de altura seja decorrente da nutrição durante a gravidez e na infância e adolescência. Alguns estudos sugerem ainda que as pessoas mais altas vivem mais e têm menos risco de desenvolver doenças cardiovasculares e respiratórias. Outros trabalhos indicam também que elas alcançam níveis educacionais mais elevados e recebem melhores salários. Na África subsaariana e no sul da Ásia estão as populações que cresceram menos (algumas até encolheram), possivelmente em consequência da piora nas condições de vida nas últimas décadas.

Célula na palma da mão

As aulas sobre as estruturas celulares podem se tornar menos abstratas, se depender do veterinário especializado em imunologia Marco Guimarães e do biofísico kildare Miranda, respectivamente, das universidades federais do Espírito Santo (Ufes) e do Rio de Janeiro (UFRJ). Eles produziram modelos digitais tridimensionais de células sanguíneas e as transformaram em peças reais usando impressoras 3D.

“Usamos ferramentas

da pesquisa científica para disponibilizar o material fora do meio acadêmico”, explica Guimarães. As impressoras 3D estão se tornando comuns, e imprimir é a parte simples da história. O complicado é digitalizar as células e saber quanto suas estruturas devem ser ampliadas. Eles reproduziram células com um aumento de até 34 mil vezes (PLoS oNe, 15 de agosto). Usaram três técnicas: fatiar as células para obter imagens de seu interior,

Contra a distrofia muscular

Um experimento com cinco cães indica que o transplante de células-tronco humanas para tratamento da distrofia muscular de Duchenne, a mais frequente e severa forma de degeneração muscular, pode ser seguro (Stem Cell Reviews and Reports, agosto). Uma equipe do instituto de Biociências da Universidade de São Paulo coordenada pela geneticista Mayana Zatz extraiu células-tronco de tecido adiposo de doadores humanos, cultivou-as e depois as implantou em cinco cães da raça golden retriever com distrofia muscular e sistema imune intacto.

Esses animais podem nascer com uma mutação genética que causa uma distrofia semelhante à humana e permitem um acompanhamento de longo prazo. As células foram injetadas em uma

tomografia para desmembrá-las em camadas virtuais e vetorização de imagens 2D. “Os protótipos impressos foram gerados a partir de modelos virtuais de células de verdade, e não de modelos artísticos. isso os torna mais realistas”, afirma o veterinário. A dupla pretende montar um site para receber arquivos digitalizados de colaboradores. As imagens ficarão disponíveis para serem baixadas e impressas livremente.

Protótipo de monócito, impresso em 3D: 15 mil vezes maior que o original

veia da pata dianteira dos cães em nove aplicações feitas em seis meses. Os cães receberam a primeira injeção com 2 a 3 meses de idade. Os exames clínicos e os de sangue, de imagem e as avaliações cardiológicas indicaram que o tratamento foi bem tolerado, aparentemente sem efeito indesejado de longo prazo – os animais foram acompanhados por sete anos.

Os pesquisadores atribuem a longevidade de dois cães aos benefícios do tratamento. Estudos com animais são importantes para tratá-los e para determinar a segurança de terapias antes de serem avaliadas em seres humanos. De origem hereditária, a distrofia muscular de Duchenne pode levar à perda dos movimentos a partir dos 10 anos de idade.

O sobrepeso e o cérebro

O excesso de peso pode alterar algumas estruturas do cérebro, concluíram pesquisadores da Universidade de Cambridge, na inglaterra. Eles compararam a substância branca do cérebro de pessoas com sobrepeso com a de indivíduos com peso normal (Neurobiology of Aging, 27 de julho).

Células-tronco humanas usadas para tratar distrofia em cães da raça golden retriever

A substância branca é formada por células que auxiliam a sustentação e a nutrição dos neurônios e por fibras que conectam diferentes áreas cerebrais. Os pesquisadores examinaram 473 pessoas com 20 a 87 anos de idade e observaram que o cérebro daquelas com sobrepeso ou obesas tinha um menor volume de substância branca, similar ao de indivíduos magros 10 anos mais velhos. O cérebro de uma pessoa gorda com 50 anos parecia o de uma magra com 60. As diferenças se tornaram detectáveis a partir dos 45. A despeito da redução da substância branca cerebral, as pessoas com sobrepeso aparentemente não perdem as habilidades cognitivas.

Os povos de Lagoa Santa

Sepultamentos humanos em

Minas Gerais revelam uma sucessão de costumes entre 10 mil e 8 mil anos atrás

Guimarães

Um abrigo em meio ao Cerrado, Lapa do Santo parece ter sido um importante centro de rituais ligados à morte
Maria

Uma abertura na face de um penhasco em meio ao Cerrado na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, tem revelado surpresas a arqueólogos, biólogos e antropólogos. Essa caverna, a Lapa do Santo, já foi um importante centro de rituais ligados à morte, como revelam escavações descritas em artigo em processo de publicação na revista Antiquity, uma das mais prestigiadas da área. Padrões de sepultamento complexos, com desmembramento de corpos e disposição seguindo regras precisas, revelam uma sucessão de culturas muito distintas em um período que se considerava homogêneo, por volta de 10 mil anos atrás. “O maior mérito foi enxergar essas transformações culturais ao longo do tempo, que por algum motivo ninguém tinha percebido”, avalia o arqueólogo brasileiro André Strauss, professor visitante na Universidade de Tübingen e doutorando no Instituto Max Planck, ambos na Alemanha, autor principal do artigo. O estudo vai além da morte e permite uma espiadela em como viviam e quem eram essas pessoas.

Strauss sentiu que ali havia algo especial no primeiro ano do curso de geologia na Universidade de São Paulo (USP), quando teve sua primeira expedição de campo como estagiário do bioantropólogo Walter Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), em 2005. “Eu ficava no fundo de uma trincheira de 2 metros de profundidade, cavando e peneirando o que encontrava.” Foi desse posto que Strauss se encantou com o que havia por descobrir ali e queria fazer algo diferente de se concentrar na medição de crânios e na busca por indícios de coexistência com grandes animais, a megafauna. Esse era o foco das pesquisas realizadas ainda no século XIX, quando o naturalista dinamarquês Peter Lund descobriu ossos humanos associados aos de grandes animais numa caverna de Lagoa Santa e iniciou uma tradição de escavação no

Sítios arqueológicos

em cavernas

Cidades

que se tornou uma das mais longevas regiões arqueológicas no país. Cinco anos depois, já no mestrado sob a orientação de Neves, Strauss viu que havia alguma ordem na confusão aparente do sítio: o que parecia uma mistura de ossos sem sentido na verdade seguia um padrão. “É difícil perceber as sutilezas, os sepultamentos são muito complexos.”

“Isso foi possível porque o Walter inverteu a ordem habitual dos procedimentos de campo”, afirma Strauss. A arqueologia brasileira, segundo ele, concentra-se em artefatos, de maneira geral, e apenas chama especialistas em fósseis humanos quando ossos são encontrados. “Muitos esqueletos são danificados no processo.” Nos projetos de Neves, que desde 1988 analisa a evolução humana na América, com estudo de caso nessa região, são os bioantropólogos que coordenam a escavação e documentam tudo o que aparece, com especialistas para analisar os artefatos – na Lapa do Santo, lascas de pedra e ferramentas de osso como espátulas, buris e (raramente) anzóis.

Nessa caverna, onde há paredes decoradas com desenhos em relevo que indicam rituais de fertilidade (imagens fálicas), o resultado foi marcante. Strauss, Neves e colegas identificaram três períodos distintos de ocupação humana, o mais antigo entre 12,7 mil e 11,7 mil anos atrás. Entre 2001 e 2009, foram exumados e analisados 26 sepultamentos humanos ocorridos aproximadamente

MG Matozinhos
Lagoa Santa Aeroporto de Confins
Lapa do Santo c ar StE dE LaGOa Santa

entre 10.500 e 8 mil anos atrás que revelam práticas mortuárias altamente variáveis e nunca antes descobertas nas terras baixas da América do Sul, descritas no artigo da Antiquity e em outro assinado apenas por André Strauss, publicado na edição de janeiro-abril do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi

“Existiram práticas funerárias altamente sofisticadas nos Andes”, conta Neves, “mas as múmias chilenas já estudadas são mais recentes do que o material da Lapa do Santo”. Outra distinção é que na caverna mineira não há oferendas mortuárias, enquanto a prática habitual de caçadores-coletores era sepultar os mortos acompanhados ao menos de seus pertences. “A complexidade das práticas da Lapa do Santo não reside nos objetos, mas numa alta manipulação do corpo e do esqueleto de maneira muito sofisticada”, afirma o professor da USP.

rI t Ua IS d E MO rt E

O padrão de sepultamento mais antigo, datado entre 10.600 e 9.700 anos atrás, foi descrito com base em um homem e uma criança de cerca de 5 anos, ambos enterrados inteiros. A criança foi posta sentada, com as pernas dobradas e os joelhos próximos à cabeça. A mandíbula afastada, como se a boca estivesse aberta, indica que a cova não foi completamente preenchida.

A remoção de partes dos cadáveres em seguida à morte caracteriza o período seguinte, entre 9.600 e 9.400 anos atrás. Representado por sete sepultamentos, mais alguns ossos avulsos, esse conjunto ficou descrito como o segundo padrão. Alguns dos esqueletos estavam articulados, mas com partes faltando. Um caso marcante foi o de um homem cuja cabeça parece ter sido removida horas depois da morte e enterrada com as duas mãos (também decepadas, como atestam marcas de corte em ossos do punho) cobrindo o rosto – uma voltada para cima e outra para baixo, como Strauss e colaboradores descreveram em 2015 na revista PLoS onE (ver notícia em bit.ly/DecapMG).

Outros esqueletos estavam completamente desmembrados e arrumados em fardos, indicando que os ossos foram armazenados juntos, talvez embrulhados, e enterrados apenas depois de descarnados e secos. Muitos dos ossos isolados também passaram por alterações como queima, cortes, aplicação de pigmento

c ulturas sucessivas

Padrões funerários mudaram ao longo do tempo

10.600 a 9.700 anos

Sepultamentos simples e sem sinais de manipulação do corpo. Neste caso, um homem e uma mulher

Os achados representam uma mudança no paradigma de como se vê a habitação humana por ali nesse período

vermelho e remoção dos dentes. Em alguns casos, eram combinados ossos de criança (uma ou duas) com o crânio de um adulto, ou vice-versa, de uma maneira que sugere regras muito precisas de como esse sepultamento deveria acontecer. Dentes removidos também eram sepultados com os restos mortais de outra pessoa.

O terceiro padrão de sepultamento, datado entre 8.600 e 8.200 anos atrás, envolve nove ossadas dispostas com -

pletamente desarticuladas em covas circulares (entre 30 e 40 centímetros de diâmetro) e apenas 20 centímetros de profundidade. Cada cova, preenchida por inteiro, abrigava um único indivíduo. No caso dos adultos, os ossos mais longos em geral eram quebrados após a morte e só assim cabiam nas exíguas tumbas. Mesmo em meio a tantos desmembramentos, não há indícios de que a violência em vida fosse uma prática corrente. “Nós lemos os ossos, tudo fica registrado neles”, conta Strauss. E eles guardam níveis muito baixos de fraturas recompostas, que indicariam terem acontecido em vida. De maneira geral, Strauss considera que os achados representam uma mudança no paradigma de como se vê a habitação humana por ali nesse período, o início do Holoceno. “Por muito tempo a grande questão era se a Luzia era a mais antiga da América e se era parecida com africanos”, afirma, referindo-se ao crânio de 11 mil anos descrito por Neves e que redefiniu como se deveria pensar a ocupação humana dessa região (ver edição 50 anos de FAPESP, bit.ly/AmLuzia).

“Agora sabemos que não houve um povo de Luzia em Lagoa Santa; foi uma sucessão de povos que habitaram a região com transformações culturais muito claras.” Afinal, trata-se de um período de cerca

9.600 a 9.400 anos

Corpos sofriam alterações e podiam ser sepultados misturando partes de várias pessoas. Cabeça disposta com as mãos decepadas é o exemplo mais marcante

de 5 mil anos, tempo suficiente para povoamentos muito diversos, mesmo que fossem até certo ponto descendentes uns dos outros.

Estudos com DNA devem em breve começar a render resultados e trazer algumas respostas sobre como esses grupos se sucederam e qual o parentesco entre eles. “A morfologia craniana mostra que eles tinham a mesma ‘arquitetura’ geral”, conta Walter Neves. Há uma variação contínua nesse grande grupo que ele define como paleoamericano. De acordo com sua teoria, de que duas migrações distintas deram origem aos habitantes da América, as primeiras pessoas com características asiáticas teriam chegado por ali há cerca de 7 mil anos –e não há resquícios humanos em Lagoa Santa datados entre 7 mil e 2 mil anos atrás. Mesmo assim, o que há de indícios de lá e de outros lugares aos poucos vem refinando a hipótese. “Eu achava que a segunda leva migratória teria substituído o povo de Luzia”, admite. “Mas hoje temos evidências muito fortes de que aquela morfologia sobreviveu praticamente intacta até o século XIX.” É o caso, por exemplo, dos índios Botocudos (que foram dizimados no período colonial), de acordo com crânios armazenados no Museu Nacional do Rio de Janeiro, como

8.600 a 8.200 anos

Covas circulares rasas abrigavam ossos de uma única pessoa e eram cobertas por blocos de pedra

defendem Strauss, Neves e colegas em artigo publicado em 2015 na revista American Journal of Physical Anthropology

p rát I ca S d E v I da Desde o início do doutorado, em 2011, Strauss coordena os trabalhos na Lapa do Santo, com financiamento alemão. A riqueza arqueológica garante o interesse da colaboração pelos dois países, que inclui parcerias para estudos genéticos. A contrapartida brasileira no projeto é Walter Neves, e seu Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos (LEEEH) recebe todo o material coletado nas expedições. Nos últimos anos, não foram encontrados vestígios de cerâmica no local, um indício forte de que eram populações de caçadores-coletores que moravam ali uma parte do tempo, e não agricultores, corroborando o que já se acreditava. Os animais caçados eram peixes, lagartos, roedores, tatus, porcos selvagens e pequenos cervos, todos carregados inteiros para a caverna. Nada de bichos um pouco maiores, como antas, e dos imensos mamíferos representantes da megafauna, que se acreditava associada aos humanos de Lagoa Santa desde que Peter Lund encontrou essa associação em outra caverna da região, entre 1835 e 1844. Nem sempre, pelo jeito.

“Eles comiam até mocó”, exclama Neves, referindo-se ao roedor pouco maior do que um porquinho-da-índia. Para ele, não há nada mais precário do que incluir esses animais na dieta, indicação de que os grupos de Lagoa Santa não tinham melhores fontes de proteína à disposição e viviam numa situação limite para garantir a subsistência. É uma teoria apenas, mas a escassez de pertences nos sepultamentos pode ser sinal de que não havia espaço para desperdício, e as ferramentas – como anzóis, de que só foram encontrados sete na Lapa do Santo – eram necessárias aos vivos. “O tempo deles era dedicado a viabilizar a existência do grupo”, especula Neves. E eram grandes grupos, estima ele.

O modo de vida pode estar agora mais definido, mas a conclusão também propõe um enigma: análises químicas que refletem a dieta por meio da quantificação de isótopos de carbono e nitrogênio, feitas pelo biólogo brasileiro Tiago Hermenegildo como parte do doutorado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, mostraram que os habitantes da região comiam muitos vegetais e complementavam a dieta com caça. Esse alto grau de consumo de vegetais é inesperado para caçadores-coletores, sobretudo com a dieta rica em carboi-

dratos indicada pelas frequentes cáries nos dentes encontrados.

O dentista Rodrigo Elias de Oliveira, pesquisador do grupo de Neves, é coautor de um artigo liderado por Pedro Tótora da Glória, também do LEEEH, sobre a saúde dental na Lapa do Santo, a ser publicado na revista Annals of the Brazilian Academy of Sciences. Parceiro de Strauss desde 2006 nas escavações da Lapa do Santo, Elias explica as discrepâncias entre a incidência de cáries que tem observado e a documentada para outras populações de caçadores-coletores por ser Lagoa Santa uma região de clima tropical, com vegetação de Cerrado. “Os outros exemplos que temos são de climas temperados”, compara. “Aqui os alimentos naturalmente disponíveis – muitas frutas e tubérculos – podem gerar mais cáries.” Ele aposta no pequi e no jatobá, muito usados até hoje na região, como uma fonte alimentar já naquele tempo. São frutos ricos em carboidratos e fragmentos carbonizados foram encontrados nos sítios de Lagoa Santa. Elias, que fez doutorado com Walter Neves e agora realiza estágio de pós-doutorado em periodontia na Faculdade de Odontologia da USP, traz ao projeto um detalhamento no estudo dos dentes, cujo material mais resistente do que os ossos os torna abundantes em sítios arqueológicos. “O dente é como uma cápsula, acaba virando nosso cofrinho”, afirma. Ele explica que os ossos se renovam constantemente, a ponto de se dizer que a cada 10 anos uma pessoa substitui seu esqueleto por inteiro. Os dentes de um adulto, no entanto, são testemunho do período da vida em que se formam os dentes permanentes. Ele espera que estudos com isótopos, em andamento agora em colaboração com Hermenegildo, ajudem a aprofundar aspectos da dieta até o

Crânio com dentes removidos (dir.), anzóis feitos de osso (outra página) e cenas de campo e laboratório

detalhe de que tipos de planta comiam, de migrações ao longo da vida, de quanto tempo as crianças eram alimentadas com leite materno. O dentista adianta que isótopos de estrôncio, assim como o formato do fêmur, que responde à ação da musculatura, indicam que as pessoas encontradas na Lapa do Santo eram nativas de Lagoa Santa. “Eles tinham mobilidade, mas não eram errantes.”

chã O d E c I nza S

A inferência de intensa ocupação humana vem da confirmação de que muitas fogueiras foram acesas na Lapa do Santo. “Eles usavam fogo o tempo todo, sabiam o que estavam fazendo”, afirma a arqueóloga Ximena Villagran, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Ela fez análises ao microscópio do sedimento da caverna e mostrou uma grande quantidade de cinzas até

uma profundidade de 1 metro, conforme mostra em artigo publicado em julho no site da revista Journal of Archaeological Science. Mais do que controlar o fogo, os habitantes da região aparentemente planejavam seu uso, armazenando madeira em processo de decomposição. Esse nível de detalhe é possível graças a análises de petrologia orgânica, uma técnica que recentemente passou a ser usada em arqueologia, à qual Ximena teve acesso por meio da parceria com o geólogo francês Bertrand Ligouis durante estágio de pós-doutorado na Universidade de Tübingen, onde ele dirige o Laboratório de Petrologia Orgânica Aplicada. Outra técnica de ponta usada por ela foi a Espectrometria de Infravermelho por Transformada de Fourier (FTIR), normalmente usada para analisar sedimento solto. Ximena dispôs suas amostras em lâminas de vidro, de maneira que

conseguia investigar com precisão por que o sedimento é composto por agregados de vários tons de amarelo, laranja e vermelho. Ao caracterizar o sedimento dentro da caverna e em torno dela, ficou claro que a produção de cinzas acontecia dentro do abrigo. Ela também identificou fragmentos de cupinzeiros, indicando que por algum motivo o material era trazido para dentro da caverna. “Talvez eles os usassem como pedras quentes para cozinhar ou como forno do lado de fora, como os xavantes usam para fazer seu bolo de milho”, especula. Depois da revelação na escala microscópica, passou a dar-se conta de que os campos de Lagoa Santa são repletos de cupinzeiros. Um enigma surgiu ao verificar que a coloração vermelho-escura que observava em certas partes do sedimento teria exigido altas temperaturas, mais de 600 graus Celsius (°C). Em experimentos nos quais acendia fogueiras e inseria nas chamas um termômetro de cabo bem longo, Ximena verificou que o solo embaixo do fogo não era sujeito a tão altas temperaturas. A explicação literalmente lhe caiu na cabeça na segunda vez em que

visitou o sítio arqueológico. “Percebi que uma chuva de sedimento cai do paredão de rocha acima da entrada da caverna”, conta. Se caíssem diretamente sobre uma fogueira, essas partículas encontrariam temperaturas entre 800 °C e 1000 °C. Ao analisar a microestrutura do sedimento em torno dos sepultamentos, Ximena percebeu uma continuidade perturbada em certos pontos, como se alguém tivesse cavado para fazer uma cova. Ela pretende continuar as análises para detalhar como os sepultamentos eram feitos. Strauss também quer saber se as práticas funerárias sofisticadas só existiam na Lapa do Santo: ele aposta que era uma cultura mais disseminada. “Fui olhar as publicações passadas e os sinais estão lá, faltou analisar dessa maneira”, afirma o arqueólogo, que quer ampliar os estudos para outras regiões do país. Uma limitação é que o que já foi escavado não pode ser recuperado, a não ser que a documentação tenha sido extremamente meticulosa. E até recentemente os registros eram falhos, até por falta de recursos. “Fazer uma escavação é como ler um livro e queimar as páginas”, compara Strauss, que se especializou em documentação arqueológica. Ele conta que retirar um sepultamento leva de 20 a 25 dias, nos quais o sedimento é retirado aos poucos enquanto se gera um modelo tridimensional dos achados e registra-se tudo com fotos e vídeo. As cadernetas de campo dos arqueólogos, segundo ele, devem trazer as informações e observações detalhadamente e serem públicas: nada de diário pessoal. “Essa percepção ainda está crescendo na arqueologia brasileira.”

De 2011 para cá mais 11 sepultamentos foram exumados, corroborando os padrões descritos anteriormente, e estão em processo de estudo. As escavações

continuam na Lapa do Santo e prometem revelar ainda outras camadas de tempo e costumes. De acordo com o arqueólogo norte-americano Kurt Rademaker, professor na Universidade do Norte de Illinois e especialista em caçadores-coletores, o trabalho em Lagoa Santa está se somando ao que é feito na região dos Andes em revelar uma grande diversidade cultural. “Strauss e sua equipe interdisciplinar estão fazendo ciência arqueológica de ponta e enriquecendo nosso conhecimento sobre a aparência física, a ancestralidade e os modos de vida dos sul-americanos antigos, em particular suas interessantíssimas práticas rituais”, afirma. É impossível saber o que se passava na cabeça desses antigos habitantes do que hoje é Minas Gerais, mas a equipe envolvida nos estudos está empenhada em construir um retrato aproximado. n

Projeto

origens e microevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica (iii) (nº 2004/01321-6); modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; pesquisador responsável Walter Alves Neves (iB-uSP); investimento R$ 2.032.930,19.

Artigos científicos

STRAuSS, A. et al. early holocene funerary complexity in South America: The archaeological record of Lapa do Santo (east-central Brazil). antiquity. No prelo. dA-GLoRiA, P. J. T. et al. dental caries at Lapa do Santo, central-eastern Brazil: An early holocene archaeological site. annals of the Brazilian academy of Sciences No prelo.

STRAuSS, A. et al. os padrões de sepultamento do sítio arqueológico Lapa do Santo (holoceno inicial, Brasil). Boletim do Museu paraense Emílio Goeldi. ciências humanas. v. 11, n. 1, p. 243-76. jan.-abr. 2016.

STRAuSS, A. et al. The oldest case of decapitation in the New World (Lapa do Santo, east-central Brazil). pLOS OnE. set. 2015.

STRAuSS, A. et al. The cranial morphology of the Botocudo indians, Brazil. american Journal of physical anthropology. v. 157, n. 2, p. 202-16. jun. 2015.

viLLAGRAN, X. S. et al. Buried in ashes: Site formation processes at Lapa do Santo rockshelter, east-central Brazil. Journal of archaelogical Science on-line. 26 jul. 2016.

Pesca pré-histórica

Ameríndios capturavam tubarões e corvinas, talvez de forma excessiva, 5 mil anos atrás na costa do Rio de Janeiro

Usiminas e Ilha do Cabo Frio são dois sambaquis localizados na ilha homônima: o primeiro fica em assentamento rochoso e o segundo em dunas

Marcos Pivetta
UsiMinas
ilha do c abo Frio

Tubarão-branco: umas das mais de 20 espécies desses peixes que os povos dos sambaquis pescavam

acosta brasileira apresenta mais de 2 mil sambaquis conhecidos, um tipo de vestígio arqueológico que remete às práticas funerárias e à dieta dos primeiros habitantes do litoral. Em tupi, sambaqui quer dizer amontoado de conchas. Pescadores-coletores pré-históricos, que ocuparam as margens do Atlântico, enterravam seus mortos em covas rasas, recobertas por conchas e restos de peixes, acompanhadas de artefatos de pedra e de osso. Com o tempo, os lugares mais usados para sepultamentos acumularam grande quantidade de materiais e formaram montes, alguns com até 30 metros (m) de altura, como se verifica em sítios arqueológicos de Santa Catarina. Segundo um estudo feito por pesquisadores do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Rio Grande do Sul, a pesca conduzida pelos ameríndios em trechos do litoral fluminense, cujos vestígios se encontram registrados nos sambaquis, pode ter representado a primeira ameaça significativa aos estoques naturais de certos peixes, como corvinas e tubarões.

ilhA

brasil

a localização dos saMbaQUis

Os sítios fluminenses estudados ficam entre a Ilha Grande e a Ilha do Cabo Frio em área de ressurgência, rica em peixes

Algodão bigode c aieira

Major

bAíA DA GuAnAbARA

Peri Manitiba b eirada

niteRói

Ponte do Girau saquarema

GRAnDe ilha do c abo frio camboinhas usiminas

Acaiá

Os autores do trabalho examinaram mais de 6 mil fragmentos ósseos, dentes e otólitos (cálculos calcários formados no ouvido interno) de peixes encontrados em 13 sambaquis da costa do Rio de Janeiro. Os sítios se localizam entre as baías da Ilha Grande, em Angra dos Reis, e da Ilha do Cabo Frio, em Arraial do Cabo, com idade de 5.600 a 700 anos (ver mapa). A análise desse material, que faz parte do acervo arqueológico do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), levou-os a ter uma ideia aproximada da quantidade e do tamanho dos exemplares capturados ao longo de alguns milhares de anos. Também serviu de base para concluírem que a captura de peixes era uma atividade muito desenvolvida e diversificada antes da chegada dos europeus ao Brasil. No acervo, foram identificadas 97 espécies de peixe. “Esse número representa 37% de todas as espécies de peixe registradas até hoje naquele trecho do litoral fluminense”, comenta o paleontólogo marinho Orangel Aguilera, da Universidade Federal Fluminense (UFF), de Niterói, coordenador do estudo, publicado em 29 de julho no periódico Plos one. “Os sambaquieiros realmente dominavam a arte da pesca.”

As características do registro arqueológico de algumas espécies marinhas comumente encontradas em sambaquis indicam que certos tipos de peixe teriam sido capturados em excesso ou na forma de exemplares muito jovens, pescados, às vezes, em áreas que funcionavam como berçários desses animais. Essa prática teria inaugurado o processo de vulnerabilidade ou até de diminuição das populações costeiras de alguns peixes. Segundo Aguilera, os povos concheiros, também denominados sambaquieiros, pescavam em distintos ambientes marinhos, rasos e mais profundos, desde praias arenosas coladas à costa até o leito rochoso do oceano repleto de peixes. Apesar de haver registros arqueológicos de que o homem pesca há pelo menos 40 mil anos, existem poucos estudos sobre eventuais impactos ambientais da captura de peixes na pré-história. Um raro trabalho, feito em 2010 pelo Centro de Investigaciones Pesqueras de Cuba, sugere até que os ameríndios não disporiam da tecnologia necessária para explorar a maior parte dos estoques de seres marinhos do Caribe — conclusão agora refutada pelo pesquisador da UFF.

Os vestígios marinhos recuperados nos sambaquis fluminenses atestam que a pesca era uma atividade dominante naquela região. A espécie com maior número de registros, e provavelmente a mais intensamente capturada pelos pescadores-coletores do litoral fluminense, é a corvina (Micropogonias furnieri). Foram estudados 5.532 otólitos da espécie, que habita fundos lodosos e arenosos de águas costeiras ou de estuários e pode chegar a 70 centímetros (cm) de comprimento. “A corvina é atualmente a segunda espécie mais pescada no litoral brasileiro, atrás apenas da sardinha”, informa o oceanógrafo Acácio Tomás, pes-

corvina: espécie era a mais pescada entre os sambaquieiros fluminenses

a meríndios capturaram exemplares de quase 40% das espécies atualmente encontradas na região

quisador do Instituto de Pesca de Santos, coautor do estudo. “Os povos ancestrais também devem ter pescado sardinhas, mas infelizmente não temos registros da espécie no material coletado nos sambaquis fluminenses”, explica Tomás. Onze dos 13 sítios arqueológicos estudados apresentavam vestígios de M. furnieri A ubiquidade da espécie nos sambaquis possibilitou estimar o impacto causado pela pesca nos estoques de corvina nos últimos 5 mil anos. Segundo os cálculos dos pesquisadores, houve uma redução de 28% no tamanho médio das corvinas desde aquela época até hoje, em razão da exploração continuada da espécie.

A presença marcante de vestígios de tubarões adultos e de filhotes, sobretudo de algumas espécies de ocorrência oceânica (longe da costa), também chamou a atenção de Aguilera e seus colaboradores. Eles examinaram 660 vértebras fossilizadas, além de dentes e ossos do crânio, de mais de 20 espécies diferentes desse peixe, como o tubarão-branco (Carcharodon carcharias), a mango -

na (Carcharias taurus), o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) e o tubarão-martelo ( Sphyrna lewini ). A abundância de registros é interpretada pelos autores do trabalho como um indício de que as populações dos sambaquis tinham uma grande capacidade de pesca.

De acordo com estimativas dos pesquisadores, os ossos estudados pertenceram a exemplares cujo comprimento variava de 30 cm, no caso de filhotes, a 2,5 m, entre os espécimes maduros. Os tubarões capturados pelos sambaquieiros eram quase sempre menores do que o tamanho médio estimado atualmente para essas mesmas espécies, consideradas hoje vulneráveis ou em risco de extinção. Eles provavelmente são fruto de uma pesca excessiva em áreas de berçário, importante para a manutenção da capacidade reprodutiva dos animais. Entre os resquícios de arraias presentes nos sambaquis, os mais abundantes foram da arraia-pintada (Aetobatus narinari).

c anoas E r E d E s d E PE sca?

A localização dos sítios arqueológicos é um indicador de que os ameríndios não se instalaram por acaso nessas latitudes. Os 13 sambaquis se espalham por uma faixa de cerca de 270 quilômetros do litoral fluminense conhecida por ser uma área de ressurgência, em que águas mais profundas, ricas em nutrientes, afloram. Nos pontos do litoral onde ocorre esse fenômeno oceanográfico tende a haver maiores concentrações de peixes. “Os sambaquieiros eram grandes coletores de mariscos, mas esse alimento não era suficiente para alimentá-los. Eram os peixes que basicamente os sustentavam”, diz a arqueóloga Tania Andrade Lima, do MN-UFRJ, outra coautora do estudo. “Eles conheciam bem o ambiente marinho e pescavam tanto na costa como perto do alto-mar.” Além de serem a base da dieta dos sambaquieiros, os seres marinhos capturados também podiam ser usados em rituais funerários, como as conchas enterradas com os mortos, ou na confecção de objetos decorativos. Dentes

Dentes de tubarão: usados como adorno de colar

de tubarão eram perfurados e usados como peças de colares, um tipo de adorno comumente encontrado em sambaquis. Embora todos os sambaquis analisados no estudo se situem sob a influência de uma zona de ressurgência, os sítios podem ser agrupados de acordo com algumas particularidades geográficas. O sambaqui de Acaiá se situa na Ilha Grande. Os sítios do Algodão, Major, Bigode, Caieira e Peri ficam em ilhotas ou em áreas costeiras rochosas da baía do Ribeira, em Angra dos Reis. Camboinhas

Vértebras de tubarões e arraias (à esq.) e vestígios de outros peixes (à dir.) dos sambaquis fluminenses: mais de 6 mil peças foram analisadas

se encontra em uma planície arenosa costeira dominada por lagoas na região oceânica de Niterói. Os sambaquis de Saquarema, Beirada, Manitiba e Ponte do Girau ocupam uma parte da planície arenosa, também pontuada por lagoas costeiras, da região de Saquarema. Por fim, a Ilha do Cabo Frio, no município de Arraial do Cabo, abriga dois sítios: Usiminas, em um assentamento rochoso, e o homônimo Ilha do Cabo Frio, em área de dunas.

Para explorar essa diversidade de ambientes marinhos, os pesquisadores sustentam a hipótese de que os povos do passado desenvolveram estratégias e ferramentas de pesca. A captura de seres marinhos se beneficiava provavelmente do emprego de linhas e redes de espera (emalhe) feitas de fibras vegetais, anzóis e arpões confeccionados com ossos de animais. A busca por espécies que viviam longe da costa ou por ilhas estratégicas para a pesca em mar aberto requeria o emprego de alguma forma de embarcação. “Não temos registros arqueológicos de canoas ou redes, que eram feitas de madeira e fibras vegetais que não se preservam com o tempo”, explica Aguilera, que contou com o apoio de duas alunas da pós-graduação da UFF na produção do artigo, Mariana Lopes e Thayse Bertucci. No entanto, há evidências indiretas de que os ameríndios eram bons de pesca: projéteis feitos de ossos, encontrados

em sambaquis, parecem ter sido usados para dar o golpe final em espécimes de grande porte; artefatos de pedra, também presentes em alguns sítios, podem ter sido empregados na confecção de canoas. Estudioso dos sambaquis da costa brasileira, em especial os de Santa Catarina, o arqueólogo Paulo DeBlasis, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), elogia o trabalho de Aguilera e seus colegas. “O artigo adota uma abordagem muito interessante sobre a relação dos sambaquieiros com a pesca marinha”, afirma. Segundo o arqueólogo do MAE, ainda hoje alguns pesquisadores mais tradicionalistas acreditam que, devido à abundância de conchas nos sambaquis, a base da dieta dos habitantes pré-históricos do litoral eram frutos do mar. “Em Santa Catarina, também há sítios arqueológicos em ilhas. Há tempos, temos a percepção de que eles eram grandes pescadores, além de caçar mamíferos marinhos e terrestres.”

Ossos diversos de arraias: a espécie mais pescada era Aetobatus narinari, a arraia-pintada

Não se sabe até que ponto plantas e cultivos agrícolas também fizeram parte do cardápio dos ameríndios da beira-mar. Cinco anos atrás, a bioantropóloga Sabine Eggers, do Instituto de Biociências (IB) da USP, reconstituiu a dieta de Luzio, um ameríndio que habitou há aproximadamente 10 mil anos em um sambaqui de rio do Vale do Ribeira (SP), distante cerca de 100 quilômetros da costa atual. O resultado do estudo foi surpreendente: Luzio comia carne de caça, tubérculos, frutas e quase nenhum peixe ou crustáceo, seja de água doce ou marinha. Mas, a julgar pelo novo trabalho feito com material dos sambaquis do Rio de Janeiro, os povos antigos da costa fluminense gostavam mesmo era de um bom pescado. n

Artigo científico
loPes, M. s et al the path towards endangered species: Prehistoric fisheries in southeastern brazil. Plos onE 29 jun. 2016.

Sylvio Ferraz Mello

u ma trajetória singular

Estudos do astrofísico ajudaram a entender características e anomalias na órbita de asteroides e outros corpos celestes

marcos pivetta e igor Zolnerkevic | r E tr AtO Léo ramos

em 22 de maio, o paulistano Sylvio Ferraz Mello, professor emérito e ex-diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), esteve em Nashville. A visita à meca da música country não era para assistir a shows. Ferraz Mello foi aos Estados Unidos para participar da reunião anual da Divisão de Astronomia Dinâmica da Sociedade Americana de Astronomia, que o agraciara com o Brouwer Award, prêmio concedido a pesquisadores que deram uma contribuição de destaque na área.

A astronomia dinâmica estuda os movimentos dos corpos celestes, como satélites, planetas e asteroides, regidos principalmente pelas interações gravitacionais entre esses objetos. Não é uma área que costuma gerar manchetes em publicações não especializadas. Mas suas teorias, equações e modelos são a base para explicar por que o Sistema Solar e, mais recentemente, os conjuntos de exoplanetas exibem suas atuais configurações.

Físico de origem, Ferraz Mello é o associado número 1 da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB). Fez doutorado na Universidade de Paris (Sorbonne) em 1967. De 1987 a 1994, foi coordenador adjunto da área de Exatas e Engenharias da FAPESP. Em sua carreira, estudou as órbitas de satélites, de asteroides e, ultimamente, de exoplanetas. Seus modelos ajudaram a entender, entre outras questões, por que há muitos asteroides no Sistema Solar com período orbital de oito anos e poucos ou quase nenhum com período de quatro e seis anos.

idade 80 anos especialidade

Dinâmica do Sistema

Solar e sistemas planetários extrassolares formação

Graduação em física pela Universidade de São Paulo (1959); doutorado em astronomia pela Universidade de Paris/ Sorbonne (1966) instituição

IAG-USP produção científica 137 artigos, 40 capítulos de livros, 19 livros como autor ou organizador. Orientou 17 mestrados e 23 doutorados (1 em andamento)

Um dos fenômenos mais estudados por Ferraz Mello é a ressonância, um tipo de influência gravitacional que um corpo celeste exerce sobre outro quando seus períodos orbitais são comensuráveis. Ou seja, quando o período de um é uma proporção racional do outro, como no caso de asteroides que demoram seis anos para dar uma volta ao Sol, metade do tempo necessário para Júpiter completar a mesma tarefa. Nesta entrevista, além das pesquisas, Ferraz Mello conta um pouco de sua trajetória, que inclui a passagem pela astronomia do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), pelo Observatório Nacional (ON), a longa carreira na USP e a participação no trabalho de prospecção do sítio em que seria instalado nos anos 1970 o Observatório do Pico dos Dias, do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). “Descobrimos o lugar quase por acaso”, lembra, ativo, em sua sala no IAG, às vésperas de completar 80 anos em outubro.

O senhor recebeu o Brouwer Award por algum trabalho específico ou pelo conjunto da obra?

Foi fundamentalmente pelo meu trabalho sobre asteroides. Duas outras questões também devem ter influenciado. Uma foi o peso que a comunidade de astronomia dinâmica tem hoje na América Latina. Há três anos, a Divisão de Astronomia Dinâmica da Sociedade Americana de Astronomia fez sua reunião anual em Paraty e levou um susto. Foi o maior encontro deles em número de participantes. Aqui há poucas reuniões. Então, quando tem uma, vai todo mundo. Acho que também pesou a atuação na revista da comunidade, a Celestial Mechanics and Dynamical Astronomy. Desde 2001, sou o editor-chefe, cargo que deixarei no próximo ano.

Em 1983, um asteroide ganhou seu nome, o 5201 Ferraz-Mello. Por que recebeu essa homenagem?

Praticamente todos os colegas da comunidade de astronomia dinâmica tem o seu asteroide. Não é uma exclusividade. O descobridor desse, Ted Bowell, é uma pessoa com quem sempre me dei bem e ele me deu esse prêmio. É um asteroide muito peculiar. Fiquei muito feliz e comecei a trabalhar com esse asteroide. Descobri nele características dinâmicas notáveis. Ele tem um período próximo

A ressonância provoca reações caóticas em um corpo. O asteroide roda ao redor de Júpiter, mas sua órbita começa a se deformar

Eu conhecia quase todo mundo. Devia haver menos de 100 pesquisadores seniores no mundo nessa área. É um setor que necessita de conhecimentos muito precisos para embasar as missões espaciais. Em determinado momento, vi que havia uma similaridade entre um problema específico dos satélites e dos asteroides. Pensei em aproveitar o gancho. Naquele tempo, eram conhecidos talvez 40 ou 50 satélites enquanto já se conheciam mais de mil asteroides. Esse era, portanto, um assunto mais rico, com uma comunidade muito maior. Comecei a trabalhar com asteroides na década de 1980.

Mas o que o atraiu exatamente para esse campo?

Vi que havia problemas com asteroides não resolvidos que mereciam um estudo sistemático. Houve também uma circunstância favorável. Eu estava com um grupo muito bom de alunos de pós-graduação no IAG. Quase todos eram bolsistas da FAPESP e dois deles depois do doutorado receberam vários prêmios. Com esse grupo, montei um projeto temático que me permitiu comprar uma workstation com alta capacidade de processamento, era top de linha. Tinha então um poder de cálculo maior do que muitos colegas do exterior. Os processadores Risc da HP tinham acabado de sair e uma das primeiras máquinas veio para cá. Conseguimos estudar vários problemas dos asteroides e resolver alguns.

Como eram esses problemas?

de seis anos, é ressonante, e está numa órbita bem alongada. Foi observado no Soar [Observatório Austral de Pesquisa Astrofísica, no Chile] por colegas do Rio de Janeiro e descobrimos que pode se tratar de um cometa extinto ou de um que nunca se acendeu. Daqui a dois anos, ele se aproximará bastante da Terra e poderá ser bem observado. Poderemos verificar se aparece uma auréola de gás em volta dele. Quando chegar mais perto do Sol, ele poderá se aquecer e formar uma cabeleira. Isso seria um indicativo de que ele tem algo de cometa.

Por que resolveu estudar o fenômeno da ressonância orbital em asteroides? Antes, eu trabalhava com a dinâmica de satélites, área relativamente ingrata, extremamente importante, mas pequena.

Sempre falo em números redondos para ficar mais fácil. Júpiter leva um período de 12 anos para dar uma volta ao redor do Sol. Os períodos dos asteroides se situam entre dois e 12 anos. Alguns deles estão em ressonância orbital com o planeta. Tem períodos comensuráveis com o de Júpiter. Então se encontram com Júpiter sempre no mesmo ponto de sua órbita. Asteroides que não estão em ressonância cruzam com Júpiter cada vez em um lugar diferente. A ressonância altera de forma significativa o movimento do asteroide, amplificando sua órbita. Essa saga começou com estudos de outros pesquisadores sobre asteroides com período de quatro anos, um terço do de Júpiter. Eles queriam saber por que não existem asteroides com período de quatro anos no Sistema Solar. Essa particularidade é denominada falhas de Kirkwood.

Como assim?

Quando olhamos a distribuição dos asteroides, encontramos corpos com período maior ou menor, mas não de quatro anos. Por que no ponto que seria um terço do período de Júpiter não há asteroides?

Essa questão foi resolvida nos anos 1980 antes de eu começar a estudar asteroides. A ressonância provoca reações chamadas de caóticas na órbita de um corpo. O asteroide roda ao redor de Júpiter, mas, como recebe um impulso gravitacional do planeta gasoso sempre no mesmo lugar, sua órbita começa a se deformar. Ela vai ficando extremamente alongada. O asteroide começa a excursionar em uma área muito maior do Sistema Solar. Isso pode levá-lo a uma quase colisão com Marte. Ao colidir, deixa de ser um asteroide com período de quatro anos. Continua existindo, mas em outra órbita. Em nosso primeiro trabalho estudando essa questão, vimos que a situação era muito mais drástica do que os colegas haviam verificado.

Drástica em que sentido?

Nessa situação, o asteroide não só podia cruzar a órbita de Marte, mas também a da Terra. Ele pode passar a menos de 1 milhão de quilômetros (km) de distância da Terra, o que é muito perto. Nada impede que um dia um objeto desses venha a colidir com a Terra. Isso não quer dizer necessariamente uma colisão física, mas passar muito perto. Se isso ocorrer, o asteroide será desviado de sua trajetória para uma outra órbita. Esse tipo de instabilidade está presente em muitos asteroides. Em seguida, tentei estudar com o mesmo método asteroides com período de seis anos, mas a abordagem não funcionou. A órbita desses asteroides não crescia o suficiente para levar a uma colisão com outros planetas.

O que o senhor fez então?

Comecei a trabalhar com a família de asteroides com período de oito anos, equivalente a dois terços do de Júpiter. Esse caso é um pouco diferente. Em vez de existir uma falha, há um grupo de asteroides com esse período. Muita gente tentava entender por que era assim. Então, como eu disse antes, compramos um bom computador e melhoramos o modelo para essa situação. Quanto mais complicado o modelo, mais complexas ficam as equações. Para estudar a ausên-

cia de asteroides de quatro anos, havíamos adotado um modelo simples, com três corpos. Colocamos o Sol, Júpiter e um asteroide em órbita. Mas, graças ao novo equipamento, fizemos um modelo mais complexo, com um corpo a mais, para os asteroides com período de oito anos. Havia o Sol, o asteroide, Júpiter e Saturno. Quando introduzimos esse planeta a mais no modelo, tudo se resolveu tranquilamente. Conseguimos inclusive explicar até por que não há grandes asteroides com período de seis anos. Não há asteroides antigos nessa ressonância, apenas pedrinhas que entraram lá recentemente.

Quer dizer que o modelo servia para explicar tanto a ausência de grandes asteroides com período de seis anos quanto o excesso de asteroides com período de oito anos?

Quando escrevemos as equações para os asteroides de seis e de oito anos, vimos que elas eram rigorosamente as mesmas. Mas por que havia falta de asteroides de um tipo e excesso de outro? Por que alguns podiam ser desviados para perto de um planeta e outros não? Para responder a essa questão, tivemos de fazer o nosso trabalho mais longo até então. Concluímos que os dois casos eram idênticos, mas a escala de tempo associada a cada situação era diferente. Era uma questão numérica. O lugar onde estão os asteroides de oito anos também vai se esvaziar desses corpos, só que isso ainda não ocorreu. Calculamos que sejam necessários 10 bilhões ou 20 bilhões de

anos para que isso ocorra na região com os asteroides de oito anos. Mas o Sistema Solar tem só 5 bilhões de anos. Na região onde estavam os asteroides com período de seis anos o tempo de esvaziamento é de 100 milhões a 1 bilhão de anos. Já deu tempo para isso ocorrer. Assim matamos a charada.

A sua resposta foi logo aceita pela comunidade científica?

A primeira vez que apresentei esse trabalho foi em Belgirate, na Itália, em 1993. Estávamos em um evento, no segundo andar de um prédio, e quase me jogaram pela janela quando expus meus resultados. Me obrigaram mesmo a eliminar várias passagens no artigo que publiquei nos anais desse evento.

Qual era a crítica fundamental ao trabalho?

Acho que era ter encontrado algo que os outros não tinham achado e ter mostrado as órbitas em que os asteroides dão esses grandes pulos gravitacionais. Para chegar a esse cálculo, de que a região com os asteroides de seis anos se esvaziava em no máximo 1 bilhão de anos, usei uma fórmula empírica, que havia sido deduzida por pesquisadores de Harvard a partir de experimentos numéricos. Sabemos que a fórmula é uma verdade prática, estatística, mas não há um teorema matemático que a prove. Logo depois, recebi um excelente aluno da República Tcheca, David Nesvorny, que ficou encarregado de estudar essa questão com uma metodologia mais robusta e de mais fácil acei-

Ferraz Mello em 1997 com os ex-alunos Daniela Lazzaro, tatiana Michtchenko, Fernando roig, Cristian Beaugé, Alessandro Simula, roberto Vieira Martins, tadashi Yokoyama e rodney Gomes

tação pelos meus colegas europeus, de formação mais matemática. Ele fez um grande trabalho. Ficou anos programando e calculando e mostrou de maneira irrefutável, por A mais B, que um tipo de asteroide sumia da ressonância em menos de 1 bilhão de anos enquanto o outro precisaria de pelo menos 10 ou 20 bilhões de anos para sumir. Nessa história, houve algo divertido. Uma das pessoas que estavam na reunião de Belgirate e que me colocou várias questões – amigavelmente, pois éramos todos amigos – era um estudante, um recém-doutor de Milão, Alessandro Morbidelli. Mais tarde, ele se rendeu aos nossos argumentos e usou até uma figura nossa para ilustrar a capa do livro que escreveu sobre a dinâmica do Sistema Solar.

Como o senhor começou a estudar a órbita dos exoplanetas?

Houve uma situação gozada. Fiquei dois anos no Observatório Nacional, no Rio, entre 1999 e 2001, e depois voltei para a USP. Quando retornei, a professora Tatiana Michtchenko, que fez parte da minha equipe de alunos e que hoje trabalha na sala ao lado da minha, estava estudando os movimentos em sistemas ressonantes de exoplanetas, com outro ex-integrante da equipe, o pesquisador argentino Cristian Beaugé. Eu também estava começando a pesquisar essa questão, mas com outra abordagem, estudando a evolução de sistemas ressonantes sob o efeito da maré [efeito secundário da gravidade que faz as partes mais próximas de um corpo serem mais atraídas do que as mais dis-

tantes]. Um dia mostrei uma figura para eles e eles me mostraram outra, idêntica à minha. Tínhamos chegado aos mesmos resultados. Acho que fomos os primeiros a estudar sistemas de exoplanetas cujas órbitas são ressonantes entre si. Um dos sistemas estudados foi o Gliese 876, cujo planeta mais interno precisa de 200 dias para dar a volta ao redor de sua estrela, enquanto o outro planeta demora 400 dias, exatamente o dobro.

Foi a melhora dos espectrógrafos que permitiu a descoberta dos planetas extrassolares?

Exatamente. Hoje um espectrógrafo mede velocidades radiais com precisão de 1 metro por segundo. O Usain Bolt corre 10 metros por segundo. O equipamento mede o efeito Doppler do Usain Bolt. Realmente a precisão é fantástica.

Como o senhor avalia hoje a astronomia brasileira?

É uma astronomia de boa qualidade. Temos vários colegas que são muito respeitados em suas áreas. O problema, como o de toda ciência brasileira, é que temos um pesquisador que é referência internacional em cada área. Tem um na especialidade A, outro na B e outro na C. Mas não existe massa crítica para formar equipes. Sofremos do mal da universidade. Quando abre uma vaga, ela deve procurar a melhor pessoa possível para o posto. O concurso para aquela vaga tem de ser amplo. Só que, às vezes, a pessoa escolhida, que é a melhor, não está interessada em nada do que os outros pesquisadores da universidade fazem. Para a universidade, está tudo bem. A diversificação é importante para ela. Mas, do ponto de vista do estabelecimento científico, isso não contribui para a manutenção de equipes. Elas se formam, têm um certo tempo de vida, mas o trabalho não tem continuidade. Mesmo os institutos ligados aos CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], que poderiam pensar diferente, acabam fazendo exatamente como as universidades.

Como surgiu seu interesse pela astronomia? Alguém na família era pesquisador?

Um tio, Ary Ferraz Mello, era químico e teve uma grande influência no que fiz. Ele trabalhava em cursos técnicos e tam-

bém foi professor universitário. Escreveu um livro de química analítica que foi usado em várias universidades e chegou a ser convidado para vir para a USP, mas já estava com a vida toda encaminhada e não aceitou. Naquele tempo, nos anos 1960, trabalhar na USP era para rico. Podia-se ficar três, quatro meses sem receber até que a burocracia da contratação terminasse. Mas a entrada na astronomia foi meio por acaso. Até hoje tenho dificuldade em me considerar astrônomo. Sou físico, não astrônomo. Minha física tem muita matemática. Na França, onde fiz doutorado, a astronomia fundamental era colocada dentro da matemática. Não sei como é hoje. Acho que hoje seria um doutorado em astronomia, nem em física, nem em matemática.

O senhor foi funcionário técnico da USP antes de ser professor. Como ocorreu isso?

Em 1955, entrei no curso de física da USP, que funcionava no prédio da rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, e ali fiquei cinco anos. Um dia fomos tomar café no bar da esquina com o professor de mecânica, Abrahão de Moraes. Ele estava com um caderno na mão e colocou em cima da mesa. Havia um carimbo no caderno, no qual estava escrito Observatório de São Paulo. Nem sabia que existia um observatório em São Paulo. Então comecei a fazer perguntas para ele sobre astronomia. Alguns meses

Com Luiz Muniz Barreto, Abrahão de Moraes e o belga Sylvain Arend: reunião de astrônomos em Hamburgo em 1964
Em frente ao Palais de L‘Institut, em Paris, por volta de 1970: doutorado na Sorbonne

depois, ele me convidou para ser técnico no observatório, que fica no Parque do Estado, no bairro da Água Funda [o IAG funcionou lá até o início deste século].

Eu estava no segundo ano da faculdade e era estagiário no acelerador Van de Graaff, com o professor Oscar Sala. No IAG, fiquei vários anos como técnico, fazendo cálculos para publicações do instituto. A história é mais complexa do que isso, com um longo período lecionando no Colégio Bandeirantes, depois na Física da USP, mas, mais tarde, acabei vinculado ao IAG e aqui estou até hoje.

Houve um estudo interessante sobre o primeiro satélite artificial soviético, o Sputnik?

Luiz de Queiroz Orsini e Antônio Hélio Guerra Vieira, da Escola Politécnica, fizeram uma antena para medir as radiações que atravessam a ionosfera e chegam até aqui quando o centro da galáxia passa pelo meridiano. A antena era uma rede de fios, não uma parabólica. Eles queriam fazer a medida todos os dias e ver como variava a ionosfera. Quando lançaram o Sputnik em 1957, apareceu no registrador a passagem do satélite. Acompanhamos o Sputnik 1 e o 2.

Como técnico, o senhor já pensava em ser pesquisador?

Fiz o curso de física para ser pesquisador. Tinha isso na cabeça.

O que era a astronomia brasileira nessa época?

Não existia. Fui um dos primeiros a sair do país para estudar e a voltar. Trabalhei com o professor Abrahão de Moraes [físico e astrônomo, dirigiu o Instituto Astronômico e Geofísico, primeira designação do atual IAG-USP, de 1955 a 1970] de 1956 até ir para a França em 1962. Estava com ele o tempo inteiro. No início, até dividia a mesa de trabalho com ele.

Depois do doutorado fora, como foi o retorno ao Brasil, já com a ditadura instalada?

Foi um período meio cinzento. Quando terminei o doutorado, não tinha emprego na USP. Estava a ponto de voltar para o Brasil, mas não sabia o que ia fazer. Muitos anos depois fiquei sabendo que circulara a notícia de que eu seria comunista e tinha até ficha no Dops. De fato, eu havia sido do Partido Socialista antes de

A astronomia brasileira é boa. Mas temos um pesquisador que é referência internacional em cada área. Falta massa crítica para formar equipes

em astronomia no Brasil, em 1968. Logo depois apareceu a do Mackenzie, criada pelo Pierre Kaufmann. Voltei a trabalhar de novo no IAG quando criaram a pós-graduação aqui em 1973, primeiro só em tempo parcial, para dar aulas. Mas continuei também no ITA até 1975, quando vim definitivamente para a USP.

É verdade que o senhor é o sócio número 1 da SAB, criada em 1974?

Sim, sou. Mas foi porque eu que fiz a lista dos associados iniciais. Se você tivesse feito, também seria o número 1. O número inicial de sócios era da ordem de 60 pessoas. Enchia uma sala. Estávamos tentando organizar a astronomia de algum modo no Brasil. Fizemos uma reunião no prédio da reitoria velha da USP, onde o IAG tinha algumas salas. Ali tivemos a reunião em que decidimos formar uma sociedade. Nessa época, havia um trabalho conjunto da USP, do Observatório Nacional, do ITA, da Universidade Federal de Minas Gerais, do Mackenzie, para dotar o Brasil de um observatório. Estávamos procurando o sítio para montar o Laboratório Nacional de Astrofísica, o LNA. Quando ainda estava no ITA, coordenei os anos finais dessa procura.

Foi fácil escolher o Pico dos Dias, em Brazópolis (MG)?

sair do Brasil. Isso pode ter influenciando as coisas por aqui, mas, certamente, não da parte do Abrahão. Um dia, ainda em Paris, encontrei uns professores do ITA que lá estavam fazendo estágio e falei das minhas dificuldades. Eles sugeriram que eu fosse para o ITA. Dei risada e pensei o que faria no meio dos militares. Então me contaram que o ITA tinha acabado de instalar um telescópio e o reitor, professor Francisco Antônio Lacaz Netto, queria desenvolver a astronomia. Escrevi uma carta para ele e pedi para dar aula no departamento de matemática. Respondeu que na matemática não haveria emprego, mas, se eu viesse para desenvolver a astronomia, me empregaria. Fui para o ITA, onde fiquei oito anos. Lá criei a primeira pós-graduação

Não foi, não. Descobrimos a área por acaso. Havia um problema: estávamos fazendo prospecção do melhor lugar para instalar o observatório no Brasil, mas não tínhamos um bom mapa da região onde estava o pico. Tínhamos de adivinhar onde as coisas estavam. Na época, os melhores mapas publicados eram as cartas aeronáuticas. Elas tinham todo o relevo marcado, o lugar onde estavam os picos, as serras. O estado de Minas Gerais ocupava várias folhas enormes do mapa, com muitos detalhes. Mas, por azar, Brazópolis ficava na área de exclusão aérea da escola de aeronáutica de Guaratinguetá. Nessa área, o mapa era todo hachurado e ali não se via nenhum pico. Quando estávamos estudando um pico próximo dali, em Maria da Fé, Germano Rodrigo Quast, que se aposentou recentemente do LNA, disse, segurando um binóculo: “Que pico é aquele que estou vendo daqui?”. Assim se descobriu, para a astronomia brasileira, a existência do Pico dos Dias, em Brazópolis. n

Universidade sem departamentos

UFABC completa 10 anos com 15 mil alunos e indicadores de pesquisa consistentes

Fabrício Marques

Uma experiência inovadora entre as universidades públicas do país está completando uma década de existência com indicadores científicos e acadêmicos consistentes. No dia 11 de setembro de 2006, a Universidade Federal do ABC (UFABC) iniciou suas atividades num campus provisório no município de Santo André, a 19 quilômetros de São Paulo, recebendo os primeiros 500 alunos de graduação. Eles estavam matriculados em um mesmo curso, o bacharelado em ciência e tecnologia, e tinham aulas com 80 professores vinculados não a faculdades e departamentos, mas a três centros interdisciplinares, o de Ciências Naturais e Humanas, o de Matemática, Computação e Cognição, e o de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas.

Passados 10 anos, a UFABC abriga hoje cerca de 15 mil alunos que frequentam dois campi com mais de 110 mil metros quadrados (m2) instala-

dos nas cidades de Santo André e São Bernardo do Campo e oferece 26 diferentes cursos de graduação. A porta de entrada são dois bacharelados interdisciplinares, em ciência e tecnologia e ciências e humanidades, mas após três anos de formação generalista, que já garantem um diploma de nível superior, os estudantes podem optar por 24 cursos, tais como ciências biológicas, física, matemática, química, relações internacionais, políticas públicas, neurociência e engenharias. Os 24 programas de pós-graduação da instituição, 13 deles com doutorado, já produziram mais de mil teses e dissertações.

Todos os 660 docentes da UFABC têm título de doutor, situação incomum em universidades federais recém-criadas, e a maioria é jovem – a média de idade é inferior a 40 anos. Houve um esforço para atrair pesquisadores do exterior para os quadros da instituição – 12% dos professores são estrangeiros. Na universidade, é permitido

que aspirantes a docente façam concursos em inglês, assim como o idioma pode ser utilizado em disciplinas de graduação e pós-graduação, principalmente em cursos de engenharias.

O atual reitor, o físico Klaus Werner Capelle, nasceu na Alemanha e radicou-se no Brasil em 1997. “Adotamos diversas medidas para estimular a pesquisa na universidade. Mesmo pesquisadores tão bem qualificados e motivados como a maioria dos docentes da UFABC precisam de incentivo”, diz Capelle, que antes de assumir o comando da universidade, em 2014, passou quatro anos à frente da Pró-reitoria de Pesquisa. O reitor se refere a editais internos para apoiar projetos de pesquisa de recém-doutores, à criação de laboratórios multiusuários e a incentivos no campo da iniciação científica que incluíram até mesmo dar bolsas para calouros, em um programa batizado de Pesquisando desde o Primeiro Dia (PDPD).

Campus da UFABC em santo André: 26 cursos de graduação e 24 programas de pós-graduação

A produção científica ainda é modesta quando comparada à de universidades de pesquisa já consolidadas. Em 2015, os 660 docentes da UFABC publicaram 683 artigos em periódicos, segundo dados da Plataforma Lattes, marca distante, por exemplo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que acaba de completar 50 anos e cujos 2,4 mil docentes publicaram pouco mais de 4 mil artigos em 2015, de acordo com a mesma plataforma. Mas a instituição obteve destaque em alguns indicadores internacionais de qualidade. Um exemplo foi a edição 2015 do ranking internacional Scimago, que contabilizou 179 instituições brasileiras com 100 ou mais artigos científicos publicados de 2009 a 2013, indexados na base de dados Scopus. Nesse universo, a UFABC é a mais bem colocada do país em quesitos como publicações de alta qualidade, que mede a proporção de artigos de uma instituição nas revistas científicas mais prestigiadas do mundo. Outro ranking, feito pela Universidade de Leiden, na Holanda, listou as universidades que mais publicaram artigos científicos de 2003 a 2012 e colocou a UFABC como a número 1 do Brasil em colaborações internacionais. Já o ranking da Times Higher Education listou a UFABC como a 18ª melhor universidade da América Latina.

aatividade de pesquisa se consolidou na UFABC não apenas pela formação de grupos de investigação, mas também por meio de núcleos interdisciplinares, criados a partir da demanda dos pesquisadores contemplada em editais da universidade. Hoje, existem cinco deles nas áreas de bioquímica e biotecnologia; cognição e sistemas complexos; ciência, tecnologia e sociedade; democracia, desenvolvimento e sustentabilidade; e universos virtuais, entretenimento e mobilidade. “A ideia dos núcleos é forçar a interação entre pesquisadores de várias áreas”, explica a biomédica Marcela Sorelli Carneiro Ramos, professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas, atual pró-reitora de Pesquisa. A experiência de um desses núcleos, o de Cognição e Sistemas Complexos, inspirou a criação de curso de graduação na área e outro de pós-graduação. O núcleo, criado em 2008, reúne biólogos, físicos, farmacologistas e especialistas em modelagem matemática e computacional em torno de pesquisas sobre o funcionamento do cérebro (ver Pesquisa FAPESP nº 232).

A pesquisa e a formação dos alunos têm interação com o setor privado da região. Dos 41 registros de patentes pedidos por pesquisadores da UFABC, quatro são fruto de colaborações com empresas, no caso Braskem, Cristália e STC Silicones. A universidade também criou, juntamente com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Doutorado

microscópio eletrônico de varredura da Central Experimental multiusuário da UFABC

Acadêmico Industrial (DAI), iniciativa voltada para a interação com o setor produtivo por meio da qual os alunos desenvolvem seus projetos de pesquisa dentro de empresas conveniadas, tais como a Thyssenkrupp, de elevadores, as montadoras General Motors e Mercedes-Benz, ou a Suzano de Papel e Celulose. Atualmente, há 26 alunos atuando em 14 empresas. “Nossa região é uma das mais industrializadas do país e somos procurados pelas empresas para ajudar na solução de problemas tecnológicos”, afirma o físico Fabio Furlan Ferreira, coordenador do Laboratório de Cristalografia e Caracterização Estrutural de Materiais da UFABC. Furlan foi beneficiado pelo programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, da FAPESP, entre 2010 e 2014, período em que montou o laboratório. O incentivo à interdisciplinaridade permitiu que a UFABC expandisse sua atividade de pesquisa de uma forma diferente da que acontece nas universidades brasileiras. Para amparar a atividade dos pesquisadores, foi criado, nos primeiros anos da universidade, um complexo de laboratórios com equipamentos multiusuários, em Santo André e São Bernardo, com mais de 50 equipamentos compartilhados de médio e grande porte para experimentos nas áreas de física, química, biologia e engenharias, tais como microscópios de varredura, ressonância magnética nuclear, difração de raios X, espectroscopia Raman, entre outros. “O objetivo é oferecer um conjunto de técnicas que permitisse aos nossos docentes

sistema avançado de difração de raios X utilizado pelos pesquisadores da universidade

nas, e sugeria no lugar uma estrutura mais ágil e flexível, capaz de responder melhor às tendências interdisciplinares da ciência na fronteira do conhecimento. Esse trabalho foi considerado quando o governo federal decidiu criar uma universidade no ABC paulista, região contígua à capital paulista que foi berço da indústria automobilística e reúne uma população de 2,5 milhões de habitantes.

Núcleo de pesquisa em cognição deu origem a um curso de graduação e um de pós-graduação nessa área

fazer pesquisa competitiva internacionalmente”, diz o físico Herculano Martinho, coordenador das centrais experimentais multiusuário da UFABC.

“A cultura do compartilhamento de equipamentos, que tem pouca tradição no Brasil, faz parte dos valores da UFABC desde o início e permitiu aproveitar recursos e adquirir equipamentos de grande performance”, diz Martinho. Os equipamentos eventualmente podem ser utilizados por empresas conveniadas e por pesquisadores de outras universidades.

Um novo prédio com 6 mil m 2 dedicados apenas à pesquisa deverá ser entregue nos próximos meses. A cultura de compartilhamento também está presente nos laboratórios menores. “Divido um laboratório com outros dois colegas e adquirimos equipamentos de uso comum”, informa a pró-reitora Marcela Sorelli, também beneficiada pelo programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, da FAPESP. “Pudemos fazer isso porque utilizamos técnicas e metodologias semelhantes, embora a minha pesquisa seja sobre fisiologia cardiovascular e a dos colegas sobre reprodução bovina e obesidade.”

O modelo interdisciplinar adotado pela UFABC inspirou-se num documento produzido em 2004 pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) com sugestões para uma reforma no ensino superior do país. Esse documento criticava a propensão dos departamentos a se fecharem em si mesmos, assumindo o controle permanente de discipli-

A criação da UFABC foi garantida em seus primeiros anos por uma oferta contínua de recursos federais, por meio do Ministério da Educação e de órgãos de fomento como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A universidade agora se ressente de restrições orçamentárias, que colocam um ponto de interrogação em sua capacidade de seguir crescendo no ritmo da primeira década. “A infância da universidade se desenvolveu num cenário favorável, mas a adolescência está sendo influenciada pela crise financeira, que chegou antes de o projeto ser completamente consolidado”, afirma o reitor Klaus Capelle. Vários programas perderam recursos – o número atual de bolsas do PDPD, de iniciação científica, é de 120, ante 400 há cerca de quatro anos. É provável que atrase a planejada ampliação dos campi – há planos, por exemplo, de construir novos prédios no campus de Santo André do lado oposto do rio Tamanduateí, interligando os dois terrenos por meio de uma passarela sobre o rio e a avenida marginal.

Outros desafios estão sendo enfrentados. Logo em seu primeiro ano de funcionamento, em 2007, o Programa de Pós-graduação em Nanociências e Materiais Avançados recebeu nota 5, numa escala de 3 a 7 adotada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O desempenho foi bastante comemorado, uma vez que programas nascentes costumam partir de notas menores. Mas a nota caiu para 4 na avaliação mais recente. “Os avaliadores da Capes consideraram que as nossas publicações científicas estão muito concentradas nos docentes e deveriam envolver mais os estudantes”, diz Fábio Furlan Ferreira, ex-coordenador do programa. “Diversas ações foram tomadas após a divulgação da avaliação, como a execução de um planejamento estratégico, principalmente para fortalecer a maior mobilização do corpo discente nas publicações de alta qualidade, marca característica do programa.” O jovem sistema de pós-graduação da UFABC dá sinais de consolidação: a avaliação do programa de mestrado e doutorado em física, por exemplo, subiu de nota 4 para 5. n

Investimento contínuo

Relatório de atividades 2015 da FAPESP

destaca criação de centros de pesquisa aplicada e crescimento de bolsas no exterior

AFAPESP aplicou em 2015 R$ 1.188.693.702 no apoio à pesquisa científica e tecnológica no estado de São Paulo. Apesar da queda da arrecadação tributária do estado e, consequentemente, do repasse de recursos estabelecido pela Constituição estadual à Fundação, o desembolso com pesquisa foi 3,1% superior a 2014, em termos nominais. Os dados são parte do Relatório de atividades 2015, com lançamento programado para o dia 14 de setembro, na sede da Fundação, com uma exposição de obras do pintor Paulo Pasta, que ilustram o documento e essa reportagem. A íntegra dos relatórios anuais desde a criação da FAPESP, em 1962, está disponível em www.fapesp.br/publicacoes.

A receita da Fundação em 2015 foi de R$ 1.350.088.934. Desse total, 77,4%, ou R$ 1.045.335.370, foram transferidos pelo Tesouro estadual, repasse equivalente a 1% da receita de impostos do estado de São Paulo. Outros 5,5% (R$ 73.996.678) vieram de recursos patrimoniais da Fundação e 17,1% (R$ 230.756.885) referem-se a outras fontes de recursos, como convênios com instituições para finan-

ciamento conjunto de pesquisas em que a FAPESP administra o desembolso.

Uma novidade do Relatório de atividades 2015 é o capítulo que dimensiona o sistema paulista de ciência e tecnologia, composto por 62 entidades com missão orientada a atividades de pesquisa, entre universidades, instituições isoladas de ensino superior, institutos de pesquisa públicos e particulares, e por 14.787 empresas que desenvolvem atividades de inovação. O estado dispunha, em 2015, de 74 mil pesquisadores e respondeu pela publicação de 21.783 trabalhos científicos. Um total de R$ 27,5 bilhões foi aplicado em pesquisa e desenvolvimento no estado naquele ano. As empresas foram responsáveis por 57,2% desse montante, enquanto 22,7% vieram do governo estadual, 17,7% do governo federal e 2,4% de instituições de ensino superior particulares (ver quadro na página 39).

Do total de recursos investidos pela FAPESP, 52% foram destinados a Pesquisas com Vistas a Aplicações, 40% em Pesquisas para o Avanço do Conhecimento e 8% no Apoio à Infraestrutura de Pesquisa paulista. “É dominante a

atividade voltada a aplicações, a qual inclui uma carteira especialmente intensa em saúde, agricultura e engenharia”, escreveram na apresentação do relatório o presidente da FAPESP, José Goldemberg, e o vice-presidente, Eduardo Moacyr Krieger. A Fundação financia diversas categorias de pesquisa aplicada, como as que estimulam a inovação em pequenas empresas e a parceria entre empresas e universidades para o desenvolvimento conjunto de conhecimento e de novas tecnologias, assim como os estudos que contribuem para a formulação de políticas públicas. Também se enquadram nesse rol programas de pesquisa voltados para temas específicos como bioenergia, mudanças climáticas globais, biodiversidade e ciência aplicada com base em grandes bancos de dados, entre outros. Um destaque de 2015 foi a criação de três novos Centros de Pesquisa Aplicada Colaborativa, que envolvem grandes parcerias entre empresas e universidades ou institutos, todas elas com um contrato por até 10 anos para desenvolver atividades de pesquisa avançada. Cada R$ 1 investido pela FAPESP mobiliza mais R$ 1

Paulo Pasta, sem título, 2015, óleo sobre tela

c omo os recursos foram aplicados

desembolso da Fundação em 2015 segundo quatro classificações

Desembolso D a Fa P es P em a P oio a P rojetos D e P esquisa r $ 1,188 bilhão

s egundo a natureza da aplicação

Apoio à pesquisa com vistas a aplicações

segundo a área do conhecimento

ciências da vida

segundo o vínculo institucional do pesquisador

Apoio ao avanço do conhecimento

ciências exatas e da terra e engenharias

segundo os programas da fundação

Bolsas regulares no país e no exterior

Apoio à infraestrutura de pesquisa

ciências humanas e sociais interdisciplinar

Unesp Unicamp instituições federais

Auxílios regulares

auxílios em acordos para colaboração internacional em pesquisa

Empresas particulares

instituições estaduais instituições particulares

Programas de pesquisa para inovação tecnológica

auxílios e bolsas no programa pesquisa inovativa em pequenas empresas –P ipe

da empresa e R$ 2 da universidade ou instituto de pesquisa. A multinacional farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK) é parceira de dois desses novos centros. Serão feitos investimentos da ordem de R$ 88,4 milhões, dos quais a FAPESP e a GSK vão compartilhar igualmente R$ 34,6 milhões. Outros R$ 53,7 milhões serão investidos pelas instituições que sediarão os centros. “Nosso objetivo é, no futuro, lançar um produto orgulhosamente descoberto no Brasil”, afirmou Cesar Rengifo, presidente da GSK, em novembro, segundo a Agência FAPESP

QU ím I c A SUS t E ntáv E l

Um dos centros, o de química sustentável, está sediado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e busca descobrir insumos farmacêuticos e desenvolver sua produção sustentável. Outra meta é encontrar solventes, reagentes e matérias-primas sustentáveis, já que mais de um terço das emissões de carbono da cadeia de suprimentos da GSK é atribuído a esses materiais. O segundo centro, voltado para a identificação de alvos moleculares que permitam o desenvolvimento de fármacos para doenças inflamatórias, tem o Instituto Butantan como instituição sede.

Já o terceiro centro, de pesquisa e inovação em gás natural, é uma parceria entre o BG Group-Shell, a Escola Politécnica (Poli) e o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEE), ambos da Universidade de São Paulo (USP), além do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). O centro foi concebido para desenvolver pesquisas sobre uso e aplicações de gás natural. A meta é intensificar sua presença na matriz energética paulista e brasileira e contribuir para a redução de emissões de gases de efeito estufa. “Nossas linhas de pesquisa serão voltadas para o transporte e para o uso do gás, além da prospecção de novos insumos a partir dele”, conta Julio Meneghini, professor da Poli-USP e coordenador do centro. O modelo desses centros, com financiamento de longo prazo e abordagem de temas de fronteira, foi adotado em iniciativas com outras empresas, como a montadora Peugeot Citröen e a empresa de cosméticos Natura. Também houve, em 2015, um crescimento significativo do apoio ao Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe). A cada semana, foram

programas que apoiam pesquisas com caráter mais ousado receberam

R$ 391,3 milhões em 2015

aprovados três projetos de pesquisa em pequenas empresas de base tecnológica no estado. No total, foram contratados 159 projetos e 77 bolsas vinculadas a eles, em um total de 236 contratações – no ano anterior, a soma foi de 182 contratações. Contando os projetos que estavam em curso em 2015, 271 pequenas e médias empresas de 50 cidades foram apoiadas pelo programa. A capital paulista concentra 30% dessas empresas. As demais estão em Campinas (16%), São Carlos (15%), São José dos Campos (7%), Ribeirão Preto (6,5%), Piracicaba (4%), entre outras. O Pipe procurou responder a demandas específicas do desenvolvimento tecnológico do estado. Um exemplo de 2015 foi um edital lançado pela FAPESP e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para a seleção de empresas qualificadas para o desenvolvimento de peças, produtos, processos e serviços do Sirius, nova fonte brasileira de luz síncrotron (ver Pesquisa FAPESP nº 234).

comp E t I t I v I dA d E A FAPESP criou e mantém um conjunto de programas que busca apoiar pesquisas com caráter mais ousado e competitivo em nível internacional, tais como os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), os Projetos Temáticos, o Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes (JP), o São Paulo Excellence Chairs (Spec) e os Centros de Pesquisa Aplicada Colaborativa. O de-

sembolso em 2015 com esse conjunto foi de R$ 391,3 milhões. O valor inclui gastos com equipamentos multiusuários, bolsas e auxílios vinculados a projetos desses programas, uma novidade do relatório de 2015 em relação aos anteriores. No caso dos temáticos, que têm duração de até cinco anos e envolvem frequentemente equipes com vários pesquisadores, foram desembolsados R$ 152,9 milhões nos projetos e quase R$ 100 milhões em itens vinculados a eles: R$ 62,6 milhões em bolsas no país, R$ 14,1 milhões em bolsas no exterior e R$ 20,8 milhões em outros auxílios. No total, os 482 projetos temáticos vigentes receberam R$ 250,6 milhões. Em 2015 foram contratados 82 novos temáticos. Há também os Spec, financiamentos que trazem cientistas de alto nível de outros países para liderar projetos em instituições do estado. Em 2015, oito projetos receberam um total de R$ 6,2 milhões. Os 17 Cepid receberam R$ 66,1 milhões. O objetivo desses centros, financiados por até 11 anos, é produzir pesquisa de classe internacional e caráter multidisciplinar, na fronteira do conhecimento.

Já os 326 pesquisadores beneficiados pelo programa JP receberam R$ 67,4 milhões. Esse programa busca atrair e fixar no estado de São Paulo jovens doutores com grande potencial, estimulando a criação de laboratórios e núcleos de pesquisa em centros ainda sem uma tradição em investigação científica ou a implantação

de novas linhas de estudo em instituições consolidadas. Saúde, biologia, física e engenharia foram as principais áreas de foco de pesquisa. O programa também procura atrair jovens cientistas estrangeiros, com inserção internacional e que atuam em temas de fronteira ainda não cobertos por pesquisadores no estado. Nove projetos vigentes em 2015 são de pesquisadores estrangeiros.

Algumas áreas do conhecimento, com uma comunidade de pesquisadores mais densa e numerosa, tradicionalmente têm um número maior de projetos, como é o caso de saúde, que ficou com 27,9% do total desembolsado, seguida por biologia, 14,9%, ciências humanas e sociais, com 10,3%, engenharia, 8,6%, agronomia e veterinária, 7,8%, química, 5%, física, 4,9%, astronomia, 3,1%, entre outros. Em 2015, pela primeira vez, as pesquisas interdisciplinares ficaram com o terceiro maior desembolso, com 10,4% do dispêndio total. Dos 26.445 projetos em andamento em 2015, 40,6% estavam vinculados a pesquisadores da USP, que receberam o maior volume de recursos (R$ 576,3 milhões), enquanto os das universidades estaduais Paulista (Unesp) e de Campinas (Unicamp) receberam quase R$ 156 milhões cada uma. Os pesquisadores das instituições federais sediadas em São Paulo receberam 12,6% do total, ou R$ 149,5 milhões, com destaque para as universidades federais de São Paulo (Unifesp), com R$ 57,8 milhões, e de São

Paulo Pasta, sem título, 2013, óleo sobre papel

Carlos (UFSCar), com R$ 44,4 milhões. No ano, foram gastos R$ 65,6 milhões com 1.316 projetos nas instituições de ensino e pesquisa estaduais – o Instituto Butantan ficou com R$ 15,2 milhões. O restante do desembolso, R$ 35,9 milhões, foi aplicado em 2.117 projetos de instituições particulares, municipais, empresas e associações.

d E m A ndA ES pontân EA

Pouco mais de 40% do desembolso da FAPESP em 2015, o equivalente a R$ 477,7 milhões, foi destinado a bolsas regulares no país e no exterior, uma das linhas de fomento por meio das quais a Fundação atende à demanda espontânea de estudantes e pesquisadores. Estavam vigentes no ano passado 16.200 bolsas regulares, sendo 14.282 projetos realizados no país e 1.918 no exterior. No ano, foram contratadas 5.448 novas bolsas. As bolsas no país receberam R$ 373,1 milhões. Duas modalidades ficaram com 81% desse desembolso: pós-doutorado, com R$ 157,4 milhões, e doutorado, com R$ 146 milhões. Já as modalidades de bolsas no exterior receberam R$ 104,6 milhões. Embora representem apenas 21,9% do desembolso com bolsas regulares, os recursos destinados às modalidades no exterior tiveram aumento nominal de 32,9% em relação a 2014, compensando os resultados das bolsas regulares no país, que receberam 7,6% a menos. Parte significativa dos recursos foi direcionada às Bolsas Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe), destinadas a bolsistas da FAPESP, da iniciação científica ao pós-doutorado, interessados em realizar em outro país estágios de pesquisa de até um ano de duração. O montante em 2015 foi de R$ 81,2 milhões. Mas foi a modalidade Bolsa de Pesquisa no Exterior (BPE), de nível de pós-doutorado, que registrou o maior crescimento de desembolso: 52,1%. A área de ciências humanas e sociais lidera em número de projetos vigentes nas BPE, com 142 (36%), e em volume de recursos (R$ 7,0 milhões ou 30%). Também registrou o maior volume de projetos vigentes de mestrado (80) e doutorado (181) das bolsas Bepe. Engenharia teve o maior número de bolsas Bepe em iniciação científica, com 21 projetos. A área da saúde destacou-se no número de estágios de pesquisa de doutorado direto e pós-doutorado no exterior e recebeu o maior volume de recursos na modalidade Bepe.

o sistema paulista de c&t

instituições, pesquisadores, recursos e outros indicadores compilados no Relatório de atividades da FAPESP

62 entidades de pesquisa

dE PESqUiSA PArticUlArES inStitUtoS dE PESqUiSA

ProdUtoS dE mEtAl

14.787 empresas inovadoras

6.777 doutores

11.168 mestres foram titulados em 2015

1.714 patentes de invenção foram solicitadas ao inPi por pesquisadores do estado

74 mil P esquisa D ores no esta D o

43,2 mil

Em instituições de ensino superior

empresas

institutos de pesquisa estaduais, federais e particulares r $ 27,5 bilhões a P lica D os em P &D no esta D o

% R$ 15,73 bilhões Empresas

6,26 bilhões governo estadual

O relatório registra, ainda, um avanço no apoio a iniciativas de colaboração internacional. Foram 355 auxílios a pesquisa e 1.185 bolsas em vários programas de estímulo à cooperação internacional. Ao todo, foram investidos R$ 139 milhões, sendo R$ 59 milhões em cofinanciamento de pesquisa resultante

4,86 bilhões governo federal

0,66 bilhão instituições de ensino superior particulares

de convênios com universidades e agências de fomento do exterior – a FAPESP mantinha no ano passado 142 acordos de cooperação vigentes com instituições de 27 países, sendo 26 assinados em 2015 – e R$ 80 milhões em projetos de intercâmbio científico não vinculados a esses convênios. n Fabrício marques

oUtr AS

Prontos para competir

Clube de estudantes prepara equipes para participar de disputa internacional em biologia sintética e enfrenta falta de recursos

Um grupo de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) especializou-se em organizar equipes para participar de competições científicas internacionais. Desde 2012, o Clube de Biologia Sintética da USP prepara alunos de graduação e pós-graduação, estagiários de pós-doutorado e docentes para disputar a International Genetically Engineered Machine Competition (iGEM), realizada anualmente nos Estados Unidos. Há dois anos, um time que tinha integrantes também das universidades Estadual Paulista (Unesp) e Federal de São Carlos (UFSCar) foi premiado com medalha de bronze pelo projeto que propôs uma forma de diagnóstico de doença renal crônica (DRC) a partir de biomarcadores. Agora, outras duas equipes formadas na USP, em reuniões promovidas dentro do clube, participarão da edição 2016 da iGEM, que será realizada entre os dias 27 e 31 de outubro em Boston.

A competição, lançada em 2004 no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), objetiva incentivar o avanço de pesquisas em biologia sintética, campo que desenvolve dispositivos biológi-

cos, como sensores, equipamentos e softwares, voltados à solução de problemas nas áreas de ambiente, saúde, alimentos e energia. Neste ano, deverá contar com mais de 300 equipes formadas por estudantes e pesquisadores de instituições de ensino superior de todo o mundo. “O Clube de Biologia Sintética da USP funciona como um agregador de pessoas para viabilizar projetos, organizar equipes para competições e promover discussões sobre novas ideias relacionadas à pesquisa em biologia molecular e sintética”, explica Otto Heringer, aluno de graduação em química na USP e um dos coordenadores do clube.

Uma das equipes que participarão da iGEM utilizou lâminas de madeira MDF, chapas de acrílico e moldes de silicone para construir artesanalmente uma cuba de eletroforese e uma microcentrífuga, equipamentos que permitem a separação de moléculas e amostras biológicas em experimentos de laboratório. Um estudo iniciado em janeiro utiliza os aparelhos no desenvolvimento de um curativo para queimaduras com propriedades antimicrobianas. A manipulação genética de microalgas

marinhas faz com que sintetizem proteínas de teia de aranha, utilizadas como matéria-prima. O grupo, formado por pesquisadores da USP, da Unesp e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresentará os primeiros resultados do trabalho na iGEM. “Uma das categorias da iGEM premia equipes que desenvolvem seus próprios hardwares. Por isso, além de concorrermos com o projeto, esperamos conquistar alguma medalha com os equipamentos que fabricamos”, conta João Vitor Dutra Molino, doutorando da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e integrante da equipe.

Os times que participam da iGEM não precisam necessariamente apresentar resultados finais ou protótipos. No entanto, espera-se que mostrem o que há de promissor no projeto em andamento e os achados preliminares já obtidos. “Começamos a segunda etapa da pesquisa, que consiste em expressar a proteína da teia de aranha em microalgas. Estamos correndo contra o tempo para concluir essa fase até a data da competição”, diz Molino, que já participou de outras edições da iGEM.

Bruno de Pierro

Pesquisadores da USP buscam sintetizar proteínas de teia de aranha (esq.) a partir de microalgas. acima, da esquerda para a direita, parte da equipe que irá à competição em Boston: Mireia Mitter, Tiago Lubiana, allan Tanaka, João Vitor Dutra Molino e Livia Camargo. ao lado, equipamento de eletroforese feito pelo grupo

Os 25 integrantes da equipe, que inclui professores, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação, enfrentam não apenas desafios científicos, mas também a dificuldade em conseguir recursos para financiar o projeto e a viagem de parte do grupo aos Estados Unidos. “Tenho contribuído com a equipe entrando em contato com empresas que possam nos ajudar doando dinheiro ou insumos para pesquisa, como reagentes”, conta Lívia Seno Ferreira Camargo, pós-doutoranda na FCF-USP e uma das coordenadoras do time. O primeiro obstáculo da equipe foi a inscrição do projeto na competição. “O valor da inscrição para participar da iGEM é de US$ 5 mil (cerca de R$ 16 mil) por equipe. Conseguimos apoio da multinacional farmacêutica Merck, na Alemanha, que pagou nossa inscrição.”

Os pesquisadores também lançaram uma campanha de financiamento coletivo na internet (crowdfunding) e conse-

guiram angariar cerca de R$ 5 mil. A USP disponibilizou mais de R$ 20 mil para cobrir despesas de alunos da instituição. De acordo com Lívia, a dificuldade em levantar recursos suficientes ajuda a explicar a baixa participação do Brasil na iGEM. Neste ano, serão apenas três equipes brasileiras disputando prêmios. “Há muitos grupos de pesquisa em biologia sintética no país, com competência para participar da iGEM, mas sem condições financeiras de se inscrever e participar da competição”, informa.

mod E lo r EP lI c A do

A USP tem tradição na iGEM graças à organização estudantil. “Uma das maneiras de se organizar é por meio dos clubes, cujo modelo brasileiro nasceu no campus da capital e foi replicado nas unidades de Lorena e Ribeirão Preto, bem como em outras universidades, como a Federal do Amazonas [Ufam] e a Unesp de Assis”, explica Otto Heringer, lembrando

que clubes estudantis são comuns em universidades de outros países.

No caso da Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP, alunos de graduação e pós-graduação organizaram-se pela primeira vez em torno de um projeto para a iGEM. Sob coordenação do geneticista Fernando Segato, professor da EEL, a equipe trabalha na produção de alcanos, componentes na produção de diesel de petróleo, a partir de bactérias Escherichia coli geneticamente modificadas para resistir aos ácidos graxos. Isso permitiria produzir um óleo livre de oxigênio, aumentando a eficiência dos motores.

O outro projeto brasileiro que participará da iGEM é desenvolvido na Ufam em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Manaus. O grupo participou da edição de 2014 da competição e foi laureado com medalha de ouro em sua categoria, ao criar uma linhagem de bactérias geneticamente modificadas capazes de detectar, absorver e quebrar compostos de mercúrio presentes na água. A ideia é usar os microrganismos que, de acordo com os pesquisadores, podem ser classificados como máquinas geneticamente modificadas, para livrar os mananciais da Amazônia desse metal pesado, altamente prejudicial à saúde. A contaminação dos rios da região por mercúrio ocorre principalmente por causa de sua utilização na atividade de mineração do ouro.

Agora, a mesma equipe irá a Boston apresentar uma nova etapa do estudo: o protótipo de um biorreator para limpar água contaminada com mercúrio. Para participar da competição, o time arrecadou R$ 42 mil via crowdfunding e conseguiu apoio de empresas privadas: o Google doou R$ 15 mil e a Natura, R$ 13 mil. A Ufam bancou o custo da inscrição e a UEA também ajudou em passagens de avião para seus estudantes. “Envolver alunos de graduação em competições como a iGEM traz benefícios concretos para a formação de novos pesquisadores. Eles passam a se comprometer com o trabalho em equipe e tentam dar sentido prático ao conhecimento aprendido em sala de aula”, afirma Carlos Gustavo Nunes da Silva, professor de engenharia genética da Ufam e coordenador do projeto, que envolve 10 alunos e três professores. n

Mortes cercadas de mistério

Grupos no Brasil e no exterior buscam identificar as causas de óbitos súbitos e inesperados de pessoas com epilepsia

Estudos internacionais indicam que a Sudep responde por algo entre 8% e 17% das mortes entre indivíduos com epilepsia. O que mais surpreende e intriga, no entanto, é que suas vítimas em geral têm menos de 40 anos e não apresentam problema de saúde além da epilepsia.

oneurofisiologista Fulvio Scorza, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Morte Súbita nas Epilepsias da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), está interessado em identificar as possíveis alterações moleculares que as crises epilépticas podem provocar no coração de ratos. Nos próximos meses, sua equipe realizará em 40 animais um longo processo de sensibilização do cérebro que leva os roedores a desenvolver epilepsia. O estudo deverá ajudar na investigação que ele faz há quase 15 anos sobre a causa das mortes associadas à epilepsia, especialmente a morte súbita e inesperada ou Sudep, na abreviatura em inglês, um problema poucas vezes citado pelos médicos nas consultas com pacientes e seus familiares. A suspeita é que a atividade elétrica anormal do cérebro durante as crises leve o coração a adoecer e, eventualmente, a parar de funcionar.

Pessoa com epilepsia durante crise em uma maca, obra atribuída a jean jouvenet (1644-1717); e registro de crise epiléptica (no alto), com redução da atividade cerebral

Scorza espera encontrar no coração desses animais algumas moléculas produzidas em níveis alterados que funcionem como sinalizadoras do dano cardíaco provocado pela epilepsia. Caso as identifique, como outros estudos já indicaram ser possível, e consiga quantificá-las por meio de um simples exame de sangue, ele, por fim, estará perto de um marcador de risco cardíaco específico para a epilepsia. Essa ferramenta, buscada nos últimos tempos por diferentes grupos internacionais, pode ajudar a conhecer quais são as pessoas com essa enfermidade neurológica que apresentam maior probabilidade de sofrer uma parada cardíaca durante uma crise epiléptica. “Se formos capazes de identificar esses pacientes, podemos orientá-los a passar por um acompanhamento cardiológico mais rigoroso ou, quando for o caso, indicar ao neurologista a necessidade de alterar a medicação para o controle das crises”, explica o pesquisador.

Algumas estimativas indicam que, em média, uma em cada mil pessoas com epilepsia sofre morte súbita. Se esses dados valerem para o Brasil, onde cerca de 2 milhões de pessoas (1% da população) têm epilepsia ativa, a projeção é que ocorram por aqui 2 mil casos de Sudep por ano. Especialistas suspeitam que a parada do coração seja a causa imediata de uma parcela relativamente grande desses óbitos. “Calculo que, em um terço dos casos, a morte súbita seja decorrente de arritmia e posterior parada cardíaca”, afirma o neurologista brasileiro Josemir Sander, uma das mais importantes referências internacionais na investigação da Sudep. Sander vive há 33 anos na Inglaterra, onde é professor na University College London (UCL), e já publicou mais de 600 artigos científicos, quase 10% deles relacionados à Sudep. Seu interesse no assunto surgiu de uma eventualidade ocorrida em 1993, quando Sander trabalhava como residente médico no hospital universitário da UCL. Durante um passeio, encontrou o irmão de um paciente que não havia comparecido a consultas recentes. Sander perguntou ao rapaz sobre a saúde do irmão e se surpreendeu ao saber que o paciente havia morrido inesperadamente. A notícia o deixou atônito. “Corri para o hospital e comecei a procurar o nome dos pacientes que haviam faltado às últimas consultas”, conta Sander. Ele identificou cerca de 30 indivíduos que haviam deixado de ir ao hospital e escreveu uma carta para o médico de família de cada um deles. A descoberta de que a maioria estava morta transformou o seu modo de ver a epilepsia. Boa parte dos neurologistas considerava a doença um problema de saúde pouco grave. Muitos ainda pensam assim, mas não mais Sander. Nem Scorza. “Se não for tratada adequadamente, a epilepsia pode matar”, enfatiza o neurofisiologista da Unifesp, um dos poucos que investiga Sudep no Brasil. Estima-se que existam 50 milhões de pessoas com epilepsia no mundo, cerca de 80% vivendo em países em desenvolvimento. Estudos feitos nos

Ricardo Zorzetto

anos 1990 e no início da década passada indicam que a frequência de Sudep pode variar muito, dependendo da gravidade da epilepsia. Os números mais baixos, obtidos em levantamentos menos rigorosos, mostram que, a cada ano, entre uma e quatro pessoas podem morrer repentinamente em cada grupo de 10 mil indivíduos com epilepsia. As estatísticas mais aceitas, porém, apresentam números até 10 vezes mais elevados: haveria de uma a duas mortes por ano em cada grupo de mil. Essa proporção pode chegar a um em cada 100 entre as pessoas com epilepsia de difícil controle e número elevado de crises, candidatas a uma cirurgia que remove a área cerebral disparadora das tempestades elétricas no cérebro.

Ainda nos anos 1990, Sander e seus colaboradores na UCL iniciaram o acompanhamento de diferentes grupos de pacientes, alguns deles seguidos até hoje, e revisaram informações sobre centenas de pessoas com epilepsia que morreram. Eles também estabeleceram colaborações com pesquisadores da Europa, da África e da Ásia por meio das quais buscam conhecer quão comum é a Sudep. Nesse tempo, Sander e sua equipe descobriram padrões importantes que ajudaram a caracterizar essa forma de morte.

Um de seus primeiros achados, confirmado recentemente, é o de que a maioria das mortes repentinas ocorre à noite, em geral durante o sono. Quase sempre quem morre está sozinho e é encontrado com lesões que indicam a ocorrência recente de um surto, como marcas de mordida na língua. Essa constatação levou os médicos a fazerem uma recomendação geral: quem tem epilepsia, em especial não controlada por medicamentos, deve sempre que possível dormir acompanhado de um adulto. “Uma pessoa que esteja por perto pode impedir que o indivíduo se sufoque, caso sofra uma crise enquanto dorme de bruços. Também é possível que o simples toque de quem acompanha o paciente seja suficiente para que recobre os sentidos e volte a respirar depois da crise”, diz Sander.

ralizadas. Elas se iniciam com o funcionamento anormal de um grupo de neurônios altamente excitáveis, que passam a disparar sinais elétricos de modo sincronizado, gerando uma onda de ativação que toma o cérebro. Essa tormenta elétrica é acompanhada de uma descarga de compostos químicos que inunda o corpo. Vários hormônios são liberados, os batimentos cardíacos podem saltar de 60 para 180 por minuto e a pressão arterial sistólica, passar de 12 para 21 milímetros de mercúrio.

Durante esse tipo de crise é comum perder-se a consciência. A excitação dos neurônios faz os músculos contraírem vigorosamente e permanecerem retesados por alguns instantes – é a chamada fase tônica. A seguir, com a diminuição das descargas elétricas, inicia a fase clônica, em que os músculos relaxam e se contraem sucessivamente, fazendo o corpo contorcer. “É um período de horror que em geral dura de um a dois minutos”, resume a neurologista Elza Yacubian, professora da Unifesp e especialista em epilepsia.

Quem tem epilepsia não controlada por medicamentos deve dormir acompanhado de um adulto, dizem médicos

Os médicos imaginam que, como forma de evitar a morte, o cérebro reage à ativação excessiva liberando neurotransmissores que acalmam os neurônios. Se essa reação for intensa demais, porém, ela pode desligar as áreas cerebrais que coordenam os batimentos cardíacos e a respiração, levando à morte por parada cardíaca, respiratória ou ambas.

Há seis anos Sander participou de um trabalho que analisou conjuntamente os resultados de quatro grandes estudos que haviam comparado as características das vítimas de Sudep com as de indivíduos com epilepsia que continuavam vivos. Ao confrontar os sinais apresentados por 289 pessoas que morreram subitamente com os de 958 que haviam sobrevivido, os pesquisadores encontraram diferenças importantes.

tOR m E nta E lét R ica

A diversidade e a duração das crises variam muito. Algumas levam segundos e quase não são percebidas, por causarem apenas leves tremores ou um ligeiro movimento da cabeça, enquanto outras podem se estender por minutos e provocar desmaios e fortes contrações musculares. As mais graves são as crises tônico-clônicas gene-

Um dos fatores que mais aumentou o risco de morte foi o número de crises epilépticas por ano. Ter de uma a duas crises tônico-clônicas generalizadas elevou em três vezes o risco de morrer repentinamente, de acordo com o trabalho, publicado em 2011 na revista Epilepsia. A probabilidade de morte súbita, porém, era oito vezes maior entre as pessoas que tinham de três a 12 crises por ano do que entre aquelas que permaneciam livres dos surtos. Acima de 13 crises o risco de morte era 10 vezes maior.

Outros dois fatores também influenciaram o risco de morte: o início precoce da epilepsia e

Na imagem do século XIv, médico realiza trepanação, cirurgia que era usada para tratar epilepsia

o número de medicamentos usados para tentar manter a pessoa livre das crises, um indicador indireto da gravidade do problema. De modo geral, quanto mais grave a epilepsia, mais remédios precisam ser associados para controlar o problema, embora também exista uma suspeita não confirmada de que certas medicações possam aumentar o risco de morte. Esse estudo mostrou também que o risco de morte crescia ainda mais se, apesar do uso da medicação, a pessoa continuasse a apresentar crises.

Levantamentos que investigavam casos de paradas cardíacas súbitas, ocorridas sem que o coração estivesse previamente doente, sugeriam que o problema era até 20 vezes mais comum entre as pessoas com epilepsia do que entre aquelas sem o problema neurológico. Mais recentemente, a equipe do neurologista francês Philippe Ryvlin constatou que a interrupção da atividade cardíaca em geral era precedida de uma parada respiratória. Ryvlin é pesquisador do Centro de Pesquisa em Neurociência de Lyon, na França, e do Centro Hospitalar Universitário Vaudois, em Lausanne, na Suíça, e coordena o projeto Mortemus, que acompanha em cinco países pessoas com epilepsia refratária ao tratamento. Na tentativa de descobrir os mecanismos por trás das mortes, ele e colaboradores reuniram informações sobre 29 casos de paradas cardiorrespiratórias e 16 de Sudep ocorridos após crises epilépticas. Nes -

sa análise, identificou-se que logo após a crise epiléptica a respiração se tornava acelerada e, por vezes, era temporariamente interrompida, antes de cessar definitivamente, de acordo com os resultados iniciais do estudo apresentado em 2013 na revista Lancet Neurology.

QUa SE pa R and O

Em 2013, o neurologista Veriano Alexandre, médico-assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), passou um ano em Lyon, na França, trabalhando com a equipe de Ryvlin em outro projeto. Lá, analisou os dados do eletroencefalograma de 69 franceses com epilepsia resistente aos medicamentos e constatou que, em alguns casos, a atividade elétrica do cérebro diminuía muito após a crise, como se o órgão estivesse parando de funcionar. Ele viu ainda que a diminuição dessa atividade poderia ser evitada se o paciente recebesse logo após o surto um suprimento de ar rico em oxigênio. Não se sabe se o problema aumenta o risco de Sudep, mas os pesquisadores recomendaram que, sempre que possível, se administre oxigênio durante e após a crise.

Sander conta que já desistiu de buscar uma causa única para as paradas cardíaca e respiratória associadas à epilepsia. “Está ficando claro que a Sudep é um problema multifatorial”, avalia. Enquanto não se descobre mais sobre o problema, os médicos são unânimes em suas recomendações. O mais importante, dizem, é fazer o tratamento adequado para evitar as crises – os medicamentos controlam a epilepsia de modo eficaz em 70% dos casos. Eles também aconselham a manter hábitos saudáveis, como dormir em horários regulares e praticar atividade física, além de evitar o estresse excessivo, que pode desencadear crises. Em estudos com animais de laboratório, Scorza, da Unifesp, encontrou evidências de que o consumo de suplementos ricos em ácidos graxos ômega 3 exercem uma ação protetora sobre o cérebro e o coração. n

projeto

O impacto da frequência de crises epilépticas no coração e na variabilidade da frequência cardíaca (nº 2015/19279-0); Modalidade Auxílio à pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Fulvio Alexandre Scorza (Unifesp); Investimento R$ 77.883,90.

Artigos científicos

HERSdORFFER, d. C.; et al. Combined analysis of risk factors for Sudep. Epilepsia. 28 jan. 2011.

RYvLIN, p et al. Incidence and mechanisms of cardiorespiratory arrests in epilepsy monitoring units (Mortemus): A retrospective study. lancet neurology. out. 2013.

ALEXANdRE, v et al. Risk factors of postictal generalized EEG suppression in generalized convulsive seizures. neurology. set. 2015. BORGES, M. A. et al. Urban prevalence of epilepsy: populational study in São josé do Rio preto, a medium-sized city in Brazil. arquivos de neuropsiquiatria. v. 62 (2-A), p. 199-205. 2004.

Por que os escorpiões agora preocupam

Número de casos de envenenamento cresceu

600% em 15 anos

Lopes Batista

o escorpião-amarelo, causador da maioria dos acidentes graves

Dezenas de caixas de plástico empilhadas do piso ao teto em uma sala climatizada de uma ala nova do biotério do Instituto Butantan abrigam cerca de 5 mil exemplares vivos de Tityus serrulatus , o escorpião-amarelo, a espécie que mais causa envenenamento em pessoas no país. Técnicos e pesquisadores do laboratório de artrópodes transitam entre as caixas com cuidado, mas sem receio, para alimentar os animais com baratas e grilos, retirados diariamente de um estoque de milhares de insetos mantido nas salas ao lado.

Os escorpiões – tanto o amarelo quanto os de outras espécies – são mantidos ali com duas finalidades. A primeira é a produção do soro usado para neutralizar a ação do veneno – ou peçonha—, cada vez mais importante em vista do aumento de quase 600% no número de acidentes e mortes causados por esses animais nos últimos 15 anos. Esse aumento é o resultado da expansão urbana sobre áreas antes ocupadas por matas, do acúmulo de lixo e entulho que atraem insetos que servem de alimento, e da capacidade desses animais de se adaptarem a ambientes variados, de florestas úmidas até desertos. De acordo com os registros do Ministério da Saúde, os escorpiões provocaram a maior parte dos acidentes com animais peçonhentos no país, com 74.598 casos registrados, e causaram mais mortes (119) que as serpentes (107), em 2015 (ver gráfico).

A segunda finalidade é a pesquisa dos efeitos – muitas vezes inesperados – do veneno de escorpiões no organismo humano. “O conhecimento sobre os componentes do veneno e seus efeitos ainda tem lacunas”, afirma a médica Fan Hui Wen, gestora de projetos do Butantan, que acompanha a produção de soro contra picadas de escorpiões. “Algumas espécies estão causando acidentes com manifestações clínicas diferentes das que até agora eram conhecidas.”

Em um estudo publicado neste mês de setembro na revista Toxicon, pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical, de Manaus, apresentaram o provável primeiro registro de um caso de acidente classificado como grave, com espasmos musculares e alterações neurológicas, causado por Tityus silvestris , uma espécie comum na Amazônia, em geral associada a acidentes sem gravidade. Um homem de 39 anos, com problemas no fígado causados por hepatite B – estava à espera de um transplante –, foi picado no cotovelo e no ombro enquanto dormia em sua casa na periferia de Manaus. Três horas depois, chegou ao hospital da Fundação Medicina Tropical relatando apenas dor e parestesia (formigamento) na região da picada, no braço esquerdo. Em duas horas, porém, o homem apresentou dificuldade para respirar, taquicardia, hipertensão e espasmos musculares. O quadro se agravou. Ele foi internado em uma unidade de terapia intensiva, recebeu soro e outros medicamentos e foi liberado apenas sete dias depois. “Esse caso indica que o quadro clínico pode se complicar independentemente da espécie que causa o envenenamento”, diz o farmacêutico bioquímico Wuelton Marcelo Monteiro, pesquisador da fundação e um dos responsáveis pelo estudo. “Ainda há poucos trabalhos sobre as consequências e a variação dos efeitos dessa espécie de ampla distribuição geográfica na Amazônia.”

Entre as cerca de 160 espécies de escorpião encontradas no Brasil, apenas 10 causam envenenamento em seres humanos. De modo geral, o veneno – formado por proteínas, enzimas, lipídeos, ácidos graxos e sais – age sobre o sistema nervoso, causando dor intensa e dormência muscular no local da picada. Com menor frequência se observam efeitos sistêmicos como vômitos, taquicardia, hipertensão arterial, sudorese intensa, agitação e sonolência. A dificuldade de respirar caracteriza os quadros mais

graves, verificados principalmente em crianças. As picadas por Tityus obscurus, comum na região amazônica, podem causar também efeitos neurológicos, com espasmos, tremores e uma sensação de choque elétrico. “Como o veneno escorpiônico pode ser rapidamente absorvido na corrente sanguínea”, diz o pediatra Fábio Bucaretchi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), “as manifestações clínicas indicativas de envenenamento grave se iniciam em geral nas primeiras duas horas após a picada”.

Em um estudo amplo, publicado em 2014 na Toxicon, Bucaretchi e outros pesquisadores examinaram 1.327 casos de acidentes com escorpiões atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp de 1994 a 2011. Nesse levantamento, predominaram os acidentes apenas com reações locais (79,6%) e sistêmicas, com vômitos, sudorese e alterações no ritmo cardíaco (15,1%). A chamada picada seca – sem sinais de envenenamento – respondeu por 3,4% do total de casos analisados, enquanto os casos mais graves, com risco de morte, foram de 1,8%. “Todos os casos graves e o único caso letal ocorreram em crianças com idade menor que 15 anos”, diz Bucaretchi.

A maioria dos acidentes provocados por animais identificados foi atribuída ao

Perigo crescente

escorpião-preto, Tityus bahiensis (27,7%), e ao amarelo (19,5%), normalmente o principal causador de acidentes e, neste estudo, responsável pelas ocorrências mais graves. O escorpião-amarelo inquieta também em razão de sua capacidade de adaptação ao ambiente urbano e ao tipo de reprodução. As fêmeas dessa espécie conseguem se reproduzir sozinhas, sem precisar de machos, por meio de um processo conhecido como partenogênese; cada ninhada pode resultar em até 30 filhotes.

Em LAB or Atór I o

“Os estudos com a peçonha de Tityus serrulatus ajudam a entender o quadro de envenenamento, direcionam a produção de melhores antivenenos e possibilitam a descoberta de novas drogas terapêuticas”, explica a biomédica Manuela Berto Pucca, contratada como professora em julho deste ano pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

Em seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCF-RP-USP), ela isolou duas toxinas, chamadas Ts6 e Ts15, do veneno do escorpião-amarelo. Em testes in vitro, as duas toxinas inibiram tanto a proliferação de um grupo de células brancas do

sangue, os linfócitos T, quanto a produção de uma citocina – molécula de comunicação do sistema imune – conhecida como interferon-gama. De acordo com esse trabalho, publicado em fevereiro deste ano na Immunology, essa propriedade poderia qualificar as duas toxinas como candidatas a medicamentos contra doenças autoimunes. “Os testes já estão sendo realizados e se apresentaram promissores”, diz ela.

Sob orientação do médico José Elpidio Barbosa, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FM-RP) da USP, Manuela desenvolveu um anticorpo monoclonal humano (produzido a partir de técnicas de clonagem de DNA), que deteve a ação do veneno do escorpião-amarelo em testes em células e em modelos animais (camundongos). Com base nos resultados, os pesquisadores propuseram o uso do anticorpo como uma alternativa ao soro usado atualmente contra picadas de escorpiões. Segundo ela, uma das principais limitações do novo anticorpo é o custo de produção, estimado em R$ 3 mil por ampola.

“Queremos melhorar o antídoto, mas também procuramos por novos medicamentos que possam surgir de moléculas isoladas do veneno”, diz a química Fernanda Portaro, pesquisadora do Butantan. Ela e sua equipe e colegas de outros

Total de acidentes causados por escorpiões em 2015 é três vezes maior que o provocado por serpentes

Choque elétrico de baixa intensidade induz liberação de veneno

Acidentes com

laboratórios do instituto isolaram e estão caracterizando dois compostos extraídos do veneno: um com ação pró-inflamatória e outro com atividade analgésica. “O veneno dos escorpiões é como uma orquestra executando uma sinfonia, em que cada elemento tem uma função específica, sobre os músculos, o sistema nervoso ou o coração”, afirma a bióloga Daniela Carvalho, da equipe de Fernanda.

Pr E v E nção

Estima-se em 2,5 bilhões o número de pessoas em áreas de risco para escorpiões no mundo e em 1,2 milhão os casos anuais de envenenamento, com 3.500 mortes, causadas essencialmente pela demora em buscar o atendimento médico. “Os casos fatais podem ser evitados quando se busca ajuda médica com urgência e o tratamento é iniciado logo após o acidente”, ressalta Fan Hui Wen, do Butantan.

Depois de apresentar as salas dos escorpiões, ela mostra, em outra sala, a extração feita de modo manual. Cada animal recebe um choque elétrico de baixa intensidade na cauda e, em resposta, solta uma pequena gota esbranquiçada de veneno. É preciso manter uma grande população de escorpiões porque os animais não resistem a mais de cinco extrações induzidas por choque elétrico, explica Denise Candido, bióloga responsável pela extração de venenos dos escorpiões.

Os animais provêm de hospitais (em geral as pessoas os levam após picadas para identificação), de centros de controle de zoonoses ou de expedições dos próprios pesquisadores, e só entram na linha de produção após passarem por uma quarentena, que elimina aqueles com eventuais doenças. Depois, o método usado para produção de soros é o mesmo usado contra picadas de serpentes e aranhas: o veneno é diluído e aplicado nos cavalos da fazenda São Joaquim, no município de Araçariguama. Os 850 cavalos produzem anticorpos contra o veneno, que depois são extraídos de seu sangue para formar o soro, em um processo que leva de seis a oito meses. Segundo Hui, o Ministério da Saúde necessita de 80 mil ampolas de soro antiescorpiônico por ano, produzido no Butantan, no Instituto Vital Brasil, no Rio de Janeiro, e na Fundação Ezequiel Dias, em Minas Gerais.

c asos fatais podem ser evitados quando se busca ajuda médica com urgência, alerta especialista do Butantan

“É muito importante prevenir acidentes, limpando os terrenos que possam abrigar escorpiões e evitando o acúmulo de lixo”, recomenda Bucaretchi, da Unicamp. Os especialistas consideram de baixa eficácia uma estratégia adotada em cidades do interior paulista e noticiada nos últimos meses: a criação de galinhas nos quintais de casas ou em condomínios. A razão é simples: apesar de serem predadores naturais dos artrópodes, as galinhas têm hábitos diurnos e os escorpiões são animais noturnos. No passado, as soluções eram ainda mais inusitadas. No início da década de 1950, os moradores de Ribeirão Preto, então com uma população de quase 80 mil pessoas (hoje são cerca de 600 mil), usaram dois inseticidas hoje proibidos, o benzeno hexaclorado (BHC) e o diclo-

Fêmea de escorpião-amarelo com filhotes após se reproduzir sozinha, por partenogênese

rodifeniltricloroetano (DDT), para deter uma infestação de escorpiões – cerca de 10 mil foram capturados em banheiros, quartos de dormir, cozinhas e quintais de 1949 a 1951, de acordo com um relato na American Journal of Tropical Medicine and Hygiene. Havia campanhas em rádios e jornais, palestras em escolas, pontos de coleta espalhados pela cidade e um prêmio, promovido pelo prefeito, para o estudante que coletasse o maior número de escorpiões. n

Projetos

1. Estudo das toxinas Ts6 e Ts15 do escorpião Tityus serrulatus como potenciais drogas terapêuticas para o tratamento de doenças autoimunes (no 2012/129546); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Eliane Candiani Arantes – Faculdade de Ciências Farmacêuticas de ribeirão Preto (FCF-rP) da universidade de São Paulo (uSP); Beneficiária Manuela Berto Pucca; Investimento r$ 235.699,44.

2. Análise do potencial tóxico de proteases e peptídeos presentes no veneno do escorpião Tityus serrulatus e do poder neutralizante dos antivenenos comerciais: Aprimorando o conhecimento do veneno e seu mecanismo de ação (no 2015/15364-3); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisadora responsável Fernanda Calheta Vieira Portaro – Instituto Butantan; Investimento r$ 97.681,32. Artigos científicos

MoNTEIro, W. M. et al. Scorpion envenoming caused by Tityus cf. silvestris evolving with severe muscle spasms in the Brazilian Amazon. toxicon. v. 119, p. 266-9. 2016. BuCArETCHI, F. et al. Clinical consequences of Tityus bahiensis and Tityus serrulatus scorpion stings in the region of Campinas, southeastern Brazil. toxicon. v. 89, p. 17-25. 2014.

PuCCA, M. B. et al. Immunosuppressive evidence of Tityus serrulatus toxins Ts6 and Ts15: Insights of a novel K+ channel pattern in T cells. Immunology. v. 147, n. 2, p. 240-50. 2016.

SILVA, T. L. da. The scorpion problem in ribeirão Preto, São Paulo, Brazil. Notes on epidemiology and prophylaxis. American Journal of tropical medicine and Hygiene v. 1, n. 3, p. 508-13. 1952.

As raposas da América

Desmatamento promove encontro entre espécies distintas e propicia surgimento de híbridos

Com espécies distribuídas em todos os continentes, exceto o antártico, as raposas não gozam de muita popularidade no Brasil. Não que tenham má fama: na verdade sua existência quase passa despercebida, apesar de serem vítimas frequentes de atropelamento em estradas. Mesmo os biólogos não costumam lhes dar atenção, mas o grupo do geneticista Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), começou a reconstruir a história da diversificação desses animais na América do Sul e indica como alterações no ambiente podem afetar geneticamente essas espécies – embora seja incerto que isso cause problemas aos animais. De acordo com artigo publicado na edição de julho/setembro da revista Genetics and Molecular

graxaim-do-campo (esq.) e raposinha-do-cerrado (dir.) procriam no estado de são Paulo

Biology, a raposinha-do-cerrado (Lycalopex vetulus) foi a primeira espécie desse grupo de canídeos a divergir evolutivamente das linhagens norte-americanas, entre 1 milhão e 1,3 milhão de anos atrás, depois que um ancestral comum atravessou o istmo do Panamá rumo ao sul. Entre as oito espécies de raposas sul-americanas, essa é a única restrita ao Brasil, habitante de toda a extensão do Cerrado e por isso afeita a paisagens abertas. As análises realizadas pela geneticista Ligia Tchaicka como parte do doutorado orientado por Thales de Freitas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e coorientado por Eizirik, mostram que o surgimento e a diversificação do gênero Lycalopex aconteceram já na América do Sul.

A conclusão se encaixa na hipótese desenvolvida por outros grupos de que uma elevação no nível do mar teria separado a América do Sul em duas partes durante o Pleistoceno. A divisão teria deixado um grupo no leste brasileiro, que deu origem à raposinha-do-cerrado, e outro ocidental, que se expandiu até a região dos Andes e ali se diversificou, dando origem às outras espécies.

Híbr I do S

Ao comparar o material genético de cinco espécies de raposas da América do Sul, Ligia, hoje professora na Universidade Estadual do Maranhão (Uema), notou outro enigma: alguns indivíduos que haviam sido classificados como graxaim-do-campo (L. gymnocercus) – típico da região Sul brasileira, além de Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia – tinham o DNA mitocondrial (recebido apenas da mãe) mais aparentado à raposa-cinzenta-argentina, L. griseus, amplamente distribuída no Chile e na Argentina – nas duas vertentes dos Andes, portanto. Uma explicação possível seria que essas raposas fossem na verdade híbridas, uma conclusão surpreendente já que, apesar de haver sobreposição entre as distribui-

ções das duas espécies, não há registros de locais onde ambas existam. Estudos mais recentes, ainda não publicados, apontaram outro foco de hibridização, desta vez entre o graxaim-do-campo e a raposinha-do-cerrado, em São Paulo. “Com o desaparecimento gradual da Mata Atlântica, a raposa vai ocupando áreas abertas e expandindo sua distribuição para fora do domínio do Cerrado”, explica o geneticista. “Já havíamos imaginado a possibilidade de que ela poderia acabar se encontrando com o graxaim-do-campo.”

A formação de híbridos não é novidade para ele, que já encontrou resultados semelhantes em gatos-do-mato (ver Pesquisa FAPESP nº 159).

É exatamente o que vem mostrando o trabalho do biólogo Fabricio Garcez durante o mestrado e agora o doutorado, em andamento no laboratório de Eizirik, na PUC-RS. Alguns animais com aparência de L. vetulus têm o DNA mitocondrial de L. gymnocercus, uma mistura corroborada por marcadores no material genético nuclear, que cada animal recebe tanto do pai quanto da mãe. Garcez agora está fazendo análises genômicas, com resultados preliminares que indicam que todas as raposas paulistas amostradas até o momento combinam material genético das duas espécies. Os resultados também sugerem que ao menos alguns desses animais já não eram da primeira geração mestiça. Sinal de que os híbridos, nesse caso, são ao menos parcialmente férteis.

“Estamos vendo que o DNA de L. gymnocercus está invadindo mais as populações de L. vetulus do que o contrário”, conta o professor da PUC. É uma hibridação muito provavelmente causada pelas alterações resultantes da ocupação humana, o que lhe causa preocupação. “Ainda não sabemos se esse processo causará mudanças genéticas profundas que possam afetar a existência da espécie”, reflete Eizirik, que apresentou essas descobertas no simpósio sobre os 20 anos da genética da conservação no Brasil no congresso da Sociedade Brasileira de Genética ocorrido este mês em Caxambu, Minas Gerais.

Para ampliar os estudos e aprofundar o entendimento genético do que está acontecendo com essas raposas, Eizirik defende que o ideal seria a formação de uma rede – tanto de pesquisadores como de cidadãos não ligados à esfera acadêmica – que pudesse coletar e compartilhar informações, fotografias e até amostras de material biológico adquiridas de animais atropelados (os doadores involuntários mais frequentes de material genético), assim como dados obtidos em expedições de campo e animais mantidos em cativeiro. n

artigo científico

tCHaiCKa l et al. molecular assessment of the phylogeny and biogeography of a recently diversified endemic group of south american canids (mammalia: Carnivora: Canidae). Genetics and Molecular biology. v. 39, n. 3, p. 442-51. jul./set. 2016.

Ilustração de rede neuronal baseada em memoristores: nanocomponentes funcionariam de forma similar às sinapses

O segredo do memoristor

em 1971, um professor de engenharia elétrica e ciências da computação da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) publicou um trabalho em que propunha a existência de um novo componente básico da eletrônica. Leon Chua defendeu a ideia de que poderia haver um resistor com memória, o memoristor, com propriedades únicas desde que fosse confeccionado na escala nanométrica. Então um conceito teórico e matemático, esse elemento seria capaz de oscilar, quase instantaneamente, entre o comportamento de um isolante e o de um semicondutor e de “lembrar” seu último nível de resistência elétrica quando deixasse de receber uma corrente. Apenas em 2008, 37 anos mais tarde, uma equipe dos HP Labs, dos Estados Unidos, produziu o primeiro circuito baseado no componente elusivo. Os pesquisadores fizeram um nanofilme de óxido de titânio com memoristores de 15 nanômetros. A partir desse trabalho, o memoristor passou a ser divulgado como um curinga em potencial da nascente nanoeletrônica. Ele seria capaz de desempenhar, mais rapidamente, com menor consumo de energia e de espaço físico, as duas tarefas mais básicas de um computador: processar (como um chip com transistores de silício) e armazenar (como os discos rígidos de PCs e a memória flash de pen drives) informação.

Até hoje, não se sabe ao certo por que os memoristores funcionam de maneira singular, embora algumas empresas, como a gigante Panasonic e a pequena Knowm, do Novo México (EUA), já estejam comercializando timidamente versões modestas de chips baseados nesse

Pesquisadores tentam mostrar qual

mecanismo está por trás da capacidade de processar e armazenar dados

desse componente da eletrônica

componente. A movimentação de alguns átomos de oxigênio no interior de nanofilmes feitos de óxidos metálicos, quando submetidos a distintas correntes elétricas, é a tese mais aceita para justificar as propriedades singulares dos memoristores. Uma equipe de físicos teóricos das universidades Federal do ABC (UFABC), Estadual Paulista (Unesp) e Nacional de Yokohama (Japão) propôs no início de julho, em um artigo no periódico Scientific Reports, uma explicação alternativa para o fenômeno: a circulação de elétrons seria a principal responsável pelas características desse componente, visto que o “andar” de átomos não seria rápido o bastante para produzir os efeitos atribuídos aos memoristores.

Esses componentes podem mudar sua resistência em razão da passagem de uma corrente elétrica em poucos picossegundos (a trilhonésima parte de um segundo equivale a um picossegundo). “Não estamos afirmando que esse efeito se deva apenas a um fenômeno eletrônico”, explica Gustavo Dalpian, físico da UFABC, coordenador da equipe que produziu o estudo teórico, feito no âmbito de um projeto temático da FAPESP. “Mas acreditamos que só a oscilação dos átomos no interior do material não seria suficiente para explicar as características dos memoristores.” Segundo o artigo, em determinadas configurações internas de seus átomos, como nas chamadas fases deficientes em oxigênio do óxido de titânio, os memoristores conseguem armazenar carga. “Isso altera suas propriedades eletrônicas e, consequentemente, sua capacidade de conduzir ou não a eletricidade”, afirma o físico Antonio Claudio Padilha, outro

coautor do estudo, que fez doutorado sobre o tema na UFABC e hoje realiza um pós­ doutorado na Universidade de York, na Inglaterra.

Anova proposta de teoria para esclarecer a natureza do funcionamento do memoristor ainda precisa ser amparada por dados provenientes de experimentos. Alguns pesquisadores que trabalham há mais tempo na área se mostram céticos em relação a mudar o foco explicativo do fenômeno dos átomos para os elétrons. Esse é o caso do físico Gilberto Medeiros­Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em abril deste ano, três meses antes do artigo de Dalpian e seus colaboradores, Ribeiro e uma equipe de pesquisadores da HP reforçaram a hipótese tradicional sobre o mecanismo de funcionamento desse tipo de componente com novas evidências.

Em artigo publicado na Nature Communications, os cientistas relataram a medição de um ruído interno origina­

do pela movimentação de íons (átomos que perderam ou ganharam elétrons) em um sistema com memoristores feitos de óxido de tântalo. “O ruído era 10 mil vezes maior nos pontos de contato entre os átomos e os eletrodos do circuito”, informa Ribeiro, que trabalhou por quatro anos e meio nos HP Labs como gerente de pesquisa com memoristores antes de ser contratado pela universidade mineira. “Nas dimensões de nossos dispositivos, basta um átomo de oxigênio ‘andar’ uma posição atômica dentro do memoristor para que sua resistência diminua 10 vezes.” No estudo, Ribeiro e os colegas da empresa norte­americana criaram memoristores em que o canal interno, o espaço em que os íons poderiam se mover, equivalia à espessura de um átomo. Como a radiação cósmica de fundo é um dos indícios da existência do Big Bang, esse ruído interno excessivo dos memoristores, que ocorre apenas em condições de contato atômico, seria uma evidência do movimento dos íons dentro do material.

Computadores baseados em memoristores consumiriam menos energia e seriam mais

rápidos

Apesar de os memoristores não necessitarem de condições especiais para funcionarem, trabalhos anteriores de Ribeiro e outros pesquisadores indicam que podem ocorrer enormes variações de temperatura em pontos específicos desses componentes. “O circuito como um todo está em temperatura ambiente, mas os pontos de contato entre os óxidos metálicos e os eletrodos podem atingir 800 graus Celsius”, explica Ribeiro. Esse acúmulo de calor em certas regiões também explica a rápida movimentação dos átomos dentro desses componentes, segundo o físico da UFMG.

A estrutura de um memoristor é extremamente simples. Trata­se de um nanofilme, composto por fios de um óxido metálico de largura entre 20 e 50 nanômetros, conectado a dois eletrodos de metal, os tais pontos ou polos de contato. Não fosse por sua diminuta escala, essencial para que apresente suas particularidades, o memoristor poderia ser confundido com um resistor convencional, um dos três componentes passivos (que não geram energia) fundamentais dos circuitos eletrônicos, ao lado dos capacitores e indutores. “É um componente relativamente fácil de ser fabricado, embora ainda haja muitas questões sem resposta a respeito de seu funcionamento”, comenta Dalpian. Folhas nanométricas de memoristores podem ser empilhadas e originar colmeias com esse componente.

eimagem de circuito com 17 memoristores (ao lado) e desenho com esquema do nanocomponente: filme de um óxido com dois eletrodos de metal

m termos funcionais, um memoristor, cujas propriedades de processamento e armazenamento costumam ser comparadas às dos neurônios, pode fazer muito mais do que um resistor. Este apresenta uma resistência elétrica constante. Sua capacidade de se opor à passagem da corrente elétrica em um circuito é constante, independentemente da voltagem em que opera. Em outras palavras, sua condutividade elétrica, grande ou pequena, de acordo com o material usado em sua fabricação, nunca muda. Por isso, o resistor é um componente fundamental para limitar e estabilizar a corrente em um sistema. O memoristor exibe um comportamento diferente. Quando submetido a uma determinada tensão em um certo sentido, ele se comporta quase como um isolante: a corrente elétrica passa com dificuldade pelo material. Ou seja, é muito resistente a ela, com baixa

condutividade. Se a tensão e o sentido da corrente são alterados, o componente se transforma em um semicondutor ou mesmo metal, com baixa resistência elétrica. A corrente flui com facilidade. A capacidade de alternar sua condutividade ­ resistência faz com que o memoristor possa codificar informação na forma binária (0 e 1), como os chips atuais dos computadores. O modo isolante equivaleria ao 0 e o semicondutor ao 1, ou vice­versa.

osurpreendente é que, além de processar dados, o memoristor também consegue armazená­los. Isso é possível porque o componente se “recorda” do seu último estado de condutividade, se era o modo equivalente ao 0 ou ao 1. Quando é desligada a corrente que o alimenta, o memoristor se “lembra” se estava trabalhando no regime de quase isolante ou de semicondutor. Essa capacidade é denominada propriedade não volátil. Em termos computacionais, significa que um circuito baseado em um tipo de memória não volátil pode ser desligado e ligado novamente e, ainda assim, ele consegue recuperar as informações arquivadas. A maioria das memórias de armazenamento dos computadores atuais, como os discos rígidos e a memória flash, é desse tipo. “O tempo de gravação de dados em um memoristor é baixíssimo, da ordem de nanossegundos, e a retenção das informações dura anos”, comenta Padilha.

Além de atuar como um disco rígido para guardar informações a longo prazo, o memoristor também pode funcionar como o outro tipo de memória presente nos computadores, a RAM (memória de acesso aleatório). Esse é um tipo de memória volátil. Quando a máquina é desligada, tudo que está na RAM é perdido. É ela que permite carregar os programas que estão instalados no computador. “Ao possibilitar a integração das memorias voláteis e não voláteis em um único dispositivo, um computador hipotético baseado em memoristores poderia simplesmente ser desligado da tomada sem que fossem perdidos os programas e as informações armazenadas”, comenta Padilha. E, quando fosse religada, a máquina instantaneamente começaria a exibir os dados no ponto em que parou de funcionar.

A chance de os memoristores se tornarem o coração de uma nova geração

Protótipo de componente com a nova tecnologia da HP (à dir.), circuito comercial com oito memoristores da empresa Knowm (abaixo) e chip criado por universidade alemã: nanocircuitos mais perto do mercado

Novo

componente da nanoeletrônica

poderia

substituir processadores e memórias das máquinas

de computadores, com uma arquitetura que integre chips de processamento e dois tipos de memória em um só componente, parece razoável diante dos avanços da nanotecnologia. Pesquisadores acadêmicos e de empresas, como a IBM, trabalham com a ideia de que esses componentes são os que mais se assemelham a redes neurais humanas e seriam capazes de imitar as sinapses. A HP, companhia referência nos estudos com os memoristores, havia prometido lançar neste ano um computador, denominado “The Machine”, baseado nessa nova tecnologia. Mas os planos foram adiados, oficialmente por questões de economia de escala.

“Os computadores baseados em memoristores são muito mais viáveis do que as promessas de computação quântica, que necessitam de condições extremamente controladas para funcionar”, opina Ribeiro. “Mas ainda não é trivial transferir a tecnologia dos memoristores para uma linha de produção e fabricar um produto comercial.” Independentemente de eventuais divergências sobre os mecanismos que geram as propriedades características desses componentes, seu colega Dalpian pensa de maneira semelhante. “Embora seja fácil, em tese, construir memoristores, há questões de controle de qualidade dos componentes ainda não totalmente resolvidos”, ressalva ele. n

Projeto

Propriedades eletrônicas, magnéticas e de transporte em nanoestruturas (nº 2010/16202-3); Modalidade Projeto temático; Pesquisador responsável adalberto Fazzio (iF-USP); Investimento R$ 1.327.201,88.

artigos científicos

PaDilHa , a c . M. et al charge storage in oxygen deficient phases of t io2: Defect Physics without defects. Scientific Reports. 1º jul. 2016.

Yi, W. et al. Quantized conductance coincides with state instability and excess noise in tantalum oxide memristors. Nature Communications. 4 abr. 2016.

FOTÔNICA

y Um laser nada convencional

Luz de intensidade variável revela conexões inesperadas entre áreas da física e promete imagens microscópicas mais nítidas

Ofísico Cid Araújo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), gosta de dizer em suas palestras que realiza experiências astrofísicas bem em cima de sua bancada de trabalho. Nas mesas de seu laboratório de óptica, ele e seus colegas exploram as propriedades de alguns materiais fazendo-os emitir uma forma de laser diferente da convencional. São os chamados lasers aleatórios, que podem ser emitidos naturalmente por objetos no espaço interestelar e cuja produção começa agora a ser mais bem compreendida por causa de resultados recentes obtidos por grupos como o da UFPE.

O laser convencional é gerado ao se aprisionar um feixe de luz entre dois espelhos e fazê-lo atravessar um cristal que emite luz com eficiência. O vaivém da luz entre os espelhos estimula os átomos

do cristal a emitirem ainda mais luz (ver infográfico na página 60). Ao escapar por um dos espelhos, que é semitransparente, essa luz sai com grande intensidade. Suas ondas eletromagnéticas oscilam em sincronia, na mesma frequência, e se propagam na mesma direção. É uma luz completamente ordenada, bem diferente da emitida por uma lâmpada incandescente, cujas ondas apresentam diferentes frequências e viajam em diferentes direções. Já a produção do laser aleatório não utiliza espelhos. Para criá-lo, os pesquisadores da UFPE usam um laser comum para iluminar um material com propriedades ópticas especiais, em geral um pó ou coloide contendo partículas capazes de absorver, emitir e espalhar luz de maneira desordenada. Entre os materiais usados estão nanopartículas contendo íons de neodímio ou óxido de titânio, como as preparadas e caracterizadas pelo

Laser convencional (verde) incide sobre material que o converte em laser aleatório (vermelho), capaz de se propagar em várias direções

físico Lauro Maia, da Universidade Federal de Goiás, integrante da equipe da UFPE. Iluminadas por um laser comum, essas nanopartículas, misturadas a outros materiais no estado sólido ou líquido, podem gerar laser aleatório.

“O laser aleatório é uma fonte de luz com propriedades intermediárias entre as de uma lâmpada incandescente, cujas ondas eletromagnéticas são emitidas ao acaso, e um laser convencional, cujas ondas estão em sincronia e condensadas em um feixe unidirecional”, explica Araújo.

No laser convencional, as ondulações da luz são ordenadas e adquirem um comportamento extremamente bem organizado. Já no laser aleatório, a radiação oscila de maneira desordenada, como em uma das raras fontes naturais de laser já descobertas no Universo: as nuvens ao redor da estrela gigante Eta Carinae, situada a 7.500 anos-luz da Ter-

ra. Além da semelhança com as emissões de laser do meio interestelar, os lasers aleatórios acabam de revelar similaridades inesperadas com fenômenos naturais totalmente distintos.

Uma das propriedades dos lasers aleatórios é que, cada vez que um pulso é disparado, sua intensidade varia ao acaso. Em um artigo publicado em agosto deste ano na revista Optics Letters e em outro publicado em junho na Scientific Reports, a equipe coordenada por Araújo e pelos físicos Anderson Gomes e Ernesto Raposo, ambos da UFPE, mostrou como explicar e caracterizar as propriedades estatísticas dessas intensidades aleatórias a partir das propriedades dos materiais emissores de laser.

Raposo, que é físico teórico, explica que em geral a intensidade dos diferentes tipos de luz varia seguindo dois padrões: um regido pela chamada distribuição

estatística gaussiana e outro pela distribuição estatística de Lévy. No primeiro caso, as flutuações estatísticas são bem menos intensas do que no segundo. É o que acontece com a intensidade da luz comum e a do laser convencional, que apresentam flutuações gaussianas. Já a intensidade dos lasers aleatórios também segue a estatística gaussiana, mas, sob certas condições, ela pode se ampliar e se comportar segundo a estatística de Lévy.

“Eles encontraram uma maneira simples de investigar a transição da estatística gaussiana, mais comum, para a do tipo de Lévy nas flutuações”, diz o físico Diederik Wiersma, especialista em emissões de laser aleatório da Universidade de Florença, na Itália.

A distribuição estatística de Lévy é a mesma que Raposo e outros colegas já haviam mostrado estar por trás da flutuação nas distâncias que aves pescado-

ras, como o albatroz, percorrem em suas excursões em busca de alimento. Em um artigo publicado na Nature, em 1999, eles haviam demonstrado que o albatroz voa em direções aleatórias, na maioria das vezes não indo muito longe de seu ponto de partida, quando sai atrás de peixes. De vez em quando, porém, ele percorre distâncias bem maiores.

Nos experimentos realizados na UFPE, os pesquisadores verificaram que o aumento repentino na variação de intensidade do laser depende de uma súbita e complexa mudança no comportamento óptico influenciado pelas nanopartículas. À medida que a luz atravessa o material, as ondas eletromagnéticas interagem e se somam em alguns trechos e se aniquilam em outros. Quando as flutuações aumentam, as propriedades das ondas eletromagnéticas mudam de um padrão mais ordenado para outro,

Duas formas de produzir laser

As propriedades dessa luz especial dependem das características do meio que lhe fornece energia

cOnVEncIOnAL

fonte de luz externa

Cristal amplificador

ALEAtóRIO

fonte de luz externa

Nanopartículas amplificadoras e dispersoras e spelho semitransparente e spelho

um feixe de luz aprisionado entre dois espelhos sofre um aumento na sua intensidade cada vez que atravessa um cristal amplificador. A partir de certa intensidade, uma luz bem ordenada e intensa (laser) escapa por um dos espelhos

FOntE CID Ar AújO / uFPe

mais desordenado, que lembra aos físicos a estrutura microscópica de certos materiais, como o vidro.

Essa mudança segue um comportamento previsto por um modelo matemático conhecido como teoria dos vidros de spin, usado para entender diversos fenômenos que envolvem muitas partes interagindo entre si de forma complexa: do comportamento coletivo dos átomos em um material magnético desordenado à dinâmica das redes de neurônios em um cérebro. “Uma das vantagens dos lasers aleatórios é que eles servem de plataforma para estudar problemas multidisciplinares”, comenta o físico Anderson Gomes, que participou dos experimentos ao lado de André Moura, físico atualmente na Universidade Federal de Alagoas e de doutorandos do Departamento de Física da UFPE.

A conexão das flutuações na intensidade do laser com a teoria dos vidros de spin investigada pelos pesquisadores da UFPE pode ainda ajudar a desenvolver fontes de laser com a aleatoriedade variável, que poderia ser adequada a diferentes usos tecnológicos. Uma possível aplicação é na transmissão de dados por fibra óptica. Em 2007, Araújo, Gomes e colaboradores preencheram fibras ópticas com um líquido capaz de emitir ra-

um feixe de luz, às vezes um laser convencional, incide sobre um material com nanopartículas que absorvem luz e a reemitem com maior intensidade. O laser emitido pelo material sai em direções aleatórias

emitem uma luz laser mais aleatória do que a produzida por tecidos de células sadias. Mais recentemente, em 2012, um estudo coordenado pela física Hui Cao, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, demonstrou que objetos microscópicos iluminados com laser aleatório produzem imagens mais nítidas (com resolução espacial maior) do que as de um objeto iluminado por lED ou laser convencional. Isso porque, ao incidir sobre um objeto, o laser convencional cria ilusões de óptica na forma de uma nuvem de pontos luminosos que embaçam a imagem captada por uma câmera. A desordem das ondas do laser aleatório atenua esse efeito. Em princípio, explica Araújo, quanto mais as amplitudes do laser variarem aleatoriamente, mais nítida será a imagem gerada.

Os lasers aleatórios podem aumentar a eficiência na transmissão de dados via fibras ópticas

diação laser aleatória. A fibra preenchida transmitiu sinais luminosos com eficiência 100 vezes maior que a convencional.

Os físicos da UFPE e de outras instituições também investigam as propriedades do laser aleatório por sua potencial aplicação na detecção de substâncias químicas ou em diagnósticos médicos. Em 2004, o grupo do físico Randal Polson, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, verificou que tecidos contendo células cancerígenas tingidos com corantes especiais, quando iluminados por um laser convencional,

A pesquisa com lasers aleatórios deslanchou em 1994, quando físicos da Universidade Brown, Estados Unidos, reportaram na Nature a criação do primeiro laser aleatório de alta eficiência. Gomes participou desse estudo, que demonstrou pela primeira vez de modo inequívoco a possibilidade de gerar laser a partir da emissão e do espalhamento desordenado de luz no interior de um material, como proposto em 1966 por físicos russos liderados por Nicolay Basov, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Física de 1964 pela invenção do laser convencional.

Um dos colegas de Basov, o físico Vladilen letokhov, propôs logo em seguida que a emissão de laser aleatório poderia explicar por que a luz emitida em certas frequências por algumas nuvens interestelares era mais intensa do que o esperado teoricamente. A teoria ajudou o astrônomo brasileiro Augusto Damineli, da Universidade de São Paulo, a explicar a origem de algumas das emissões de luz infravermelha vindas de uma região nebulosa próxima à estrela Eta Carinae. Essas emissões vez ou outra se apagam, um fenômeno que a teoria dos lasers ajuda a entender. Damineli e letokhov trabalharam nesse problema juntos em 2005. n

Artigos científicos

GOmes, A. s. L. et al. Observation of Lévy distribution and replica symmetry breaking in random lasers from a single set of measurements. Scientific Reports. 13 jun. 2016. PINCHeIr A, P. I. r et al. Observation of photonic paramagnetic to spin-glass transition in a specially designed TiO2 particle-based dye-colloidal random laser. Optics Letters. v. 41 (15). 1º ago. 2016.

Sólido S bem maleáveiS

Cristais compostos de átomos do elemento químico hélio-4 apresentam um comportamento espantoso. Quando atingem temperaturas próximas do zero absoluto (-273 °C), esses cristais, criados em laboratório, adquirem inesperada plasticidade. Deixam de ser rígidos como uma rocha para se tornarem tão maleáveis quanto massa de modelar.

Descoberta em 2013, essa propriedade – a plasticidade gigante do hélio sólido – ainda é pouco entendida. Simulações em computador do comportamento dos átomos de hélio começam a revelar como ela surge. “Nossas simulações sugerem que pequenos defeitos na estrutura do cristal desempenham um papel importante em definir a capacidade do hélio sólido de se deformar plasticamente”, diz o físico Maurice de Koning, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos autores do estudo publicado em julho na Physical Review Letters. O hélio é o elemento químico mais leve, depois do hidrogênio. À temperatura ambiente e sob a pressão atmosférica, ele existe na forma de gás. Só quando resfriado a temperaturas próximas ao zero absoluto, o hélio se transforma em líqui-

do. Essa mudança de estado ocorre tanto com a sua variedade de massa atômica 3, em que o átomo é formado por dois prótons e um nêutron, quanto com a de massa atômica 4, contendo dois prótons e dois nêutrons. Se, além de resfriado, ele também for submetido a altas pressões, o hélio-4 congela, transformando-se em um sólido cristalino. No cristal, seus átomos se arranjam em um padrão geométrico mais ou menos uniforme, formado por camadas planas empilhadas.

Como todo cristal, porém, essa estrutura possui defeitos ou discordâncias: ausência de átomos em alguns pontos ou átomos deslocados da posição ideal em outros. Alguns desses defeitos têm a forma de linhas finas e alongadas. Quando determinada força é aplicada sobre o cristal, essas discordâncias podem migrar ao longo de uma mesma camada, fazendo os planos se deslocarem uns em relação aos outros e deformando o material. “Quanto mais facilmente essas discordâncias puderem se mover, menos força é necessária para deformar o material”, explica De Koning.

Aplicando as leis da mecânica quântica, De Koning e dois colaboradores dos Estados Unidos simularam em compu-

Simulações em computador ajudam a entender

a flexibilidade

dos cristais de hélio

tador o que ocorre em um cristal de hélio-4 contendo 8 mil átomos (um cristal de milímetros crescido em laboratório contém bilhões de átomos). O cristal virtual era formado por camadas perfeitas, exceto por duas discordâncias, cada uma com algumas dezenas de átomos de comprimento.

As simulações indicaram que, mesmo a temperaturas tão baixas, flutuações na posição dos átomos de hélio fazem as discordâncias mudarem de lugar o tempo todo de modo espontâneo, mesmo quando nenhuma força age sobre o cristal. “A mobilidade delas é extremamente alta”, diz De Koning. “Em temperaturas baixas o suficiente, não é preciso muita força para que elas comecem a se mover.”

“Os cálculos deles concordam precisamente com o observado [em testes com amostras reais de cristal]”, diz o físico Sébastien Balibar, da Escola Normal Superior de Paris, na França, cuja equipe descobriu a plasticidade gigante do hélio. Segundo Balibar, o deslocamento de discordâncias no cristal é o mesmo fenômeno que faz ligas metálicas convencionais, como o aço, tornarem-se maleáveis a altas temperaturas. “Enquanto nesses materiais as discordâncias precisam de altas temperaturas e grandes forças para se moverem, efeitos quânticos fazem as discordâncias do hélio sólido se moverem rapidamente em condições opostas”, observa. n Igor Zolnerkevic

Projeto

Centro de Engenharia e Ciências Computacionais – Cecc (nº 2013/08293-7); Modalidade Programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Munir Salomão Skaf (Unicamp); Investimento R$ 14.009.150,98 (para todo o projeto).

Artigo científico

BORDA, E. J. L.; CAI, W. E DE KONING, M. Dislocation structure and mobility in hcp 4He. physical Review Letters. 22 jul. 2016.

No hélio sólido, os defeitos (esferas azuis, brancas e verdes) se deslocam ao longo das camadas do cristal

CIÊNCIA EMDIA

O ESPAÇO DA CIÊNCIA BRASILEIRA

SETEMBRO DE 2016

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia está saindo do forno

Com o tema “Ciência alimentando o Brasil”, a 13ª edição da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) vai agitar mais de mil municípios brasileiros entre os dias 17 e 23 de outubro. O objetivo, neste ano, é mostrar como o conhecimento científico e tecnológico é um importante aliado na promoção do acesso aos alimentos e à nutrição saudável.

Para o coordenador do evento, Douglas Falcão, a SNCT vem para mostrar que as técnicas de agropecuária combinadas corretamente com a inovação são suficientes para alimentar os mais de 7 bilhões de humanos que habitam o planeta. “Nesse sentido, o Brasil é uma potência mundial. Nossa agricultura é muito pautada

nas tecnologias e nas pesquisas científicas”.

Por meio de um edital inédito, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) destinou R$ 4,3 milhões para realização da SNCT 2016. O Distrito Federal e mais 24 estados foram contemplados, ampliando a distribuição dos recursos e estimulando o surgimento de novos organizadores.

Em 2015, cerca de 147 mil atividades ocorreram em mais de 2,6 mil instituições espalhadas pelo País. Para fazer parte da programação oficial, basta se cadastrar no site http://semanact.mcti.gov.br/ a partir de setembro. É nesse canal que você também fica por dentro de tudo o que está acontecendo antes e durante o evento.

Água de reúso vira

adubo líquido no semiárido

Uma alternativa viável para aumentar a produção de alimentos em zonas secas é o reúso do esgoto doméstico. Estudo realizado na Paraíba pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) – unidade de pesquisa do MCTIC – mostrou que

irrigar o solo com água de reúso faz crescer a fertilidade em até 800%. A técnica aumentou as quantidades de fósforo, nitrogênio, cálcio e magnésio no solo, ao mesmo tempo em que reduziu a presença do alumínio.

Combate à desnutrição: um legado dos Jogos Rio 2016

O MCTIC e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançaram uma plataforma digital que vai unir pesquisadores de diversos países. A iniciativa é fruto da parceria entre os dois últimos países-sede das Olimpíadas, Brasil e Reino Unido, firmada para enfrentar o problema que mata

Na mídia

O Google escolheu o Brasil para receber o seu primeiro campus latino-americano para o desenvolvimento de startups. Localizado em São Paulo, o espaço vai receber 15 empresas nacionais que contarão com o apoio da gigante da internet e seus experts para turbinarem os projetos. A visita rendeu ainda novas parcerias entre o MCTIC e o Google, especialmente na área de educação e sistemas para equipamentos públicos.

3 milhões de crianças no mundo a cada ano. A Rede Global de Ensino, Pesquisa e Extensão em Nutrição, Soberania e Segurança Alimentar (Nutri SSAN) foi desenvolvida pelo Ministério e estará em funcionamento pleno até o início de 2017.

tecnologia Eng E n haria B i omé D ica y

simuladores para a medicina

Bonecos que imitam bebês e reproduções de partes do corpo humano produzidos em impressoras 3D inovam o ensino e o planejamento de cirurgias

Marcos de o liveira

Parece um boneco de bebê daqueles que as crianças gostam de brincar. Tem peso e pele de um recém-nascido verdadeiro, mas a cabeça apresenta alongamentos ou deformidades típicas de humanos que nascem com cranioestenose, fusão precoce das suturas dos ossos cranianos. Modelos de bebês com essa doença e também com hidrocefalia, em que a criança apresenta cabeça aumentada devido ao acúmulo irregular de líquor (líquido cefalorraquidiano) em cavidades do cérebro, foram idealizados pela neurocirurgiã pediátrica Giselle Coelho, do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo, que faz doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e, parte dele, no Boston Children’s Hospital da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, no chamado formato sanduíche. Desde os tempos da formação na residência médica em neurologia, Giselle sentia falta de modelos mais evoluídos para treinar as cirurgias.

Chamado por Giselle de simulador, o modelo permite que o médico-residente treine os procedimentos de várias técnicas, com bisturi e outros instrumentos cirúrgicos. Quando ocorre algum erro, como o corte de uma veia, por exemplo, o modelo “sangra”. Com o bebê simulador, Giselle ganhou em 2015, aos 36 anos, o prêmio Jovem Neurocirurgião concedido pela Federação Mundial de Sociedades de Neurocirurgia (WFNS, na sigla em inglês). Feitas de silicone e resina, as peças foram produzidas com financiamento do Instituto de Desenvolvimento da Educação e Inovação Científica (Siedi, na sigla em inglês), de São Paulo, pela Prodhelphus, de Olinda (PE), empresa que fabrica material para ensino médico. A figura do bebê-modelo foi produzida pelos artistas plásticos Jair Lyra, Josemi Fabrício e Georgina Barreto, daí o nome Gigi, que uniu os nomes da médica e da artista. O projeto contou também com a parceria científica do professor Benjamin Warf, da Universidade Harvard. O de-

Bebê Gigi, acima, modelo para cirurgias de cranioestenose e hidrocefalia. Ao lado, modelo de seio para visualização de pequenos tumores e cistos com equipamentos de ultrassom

F oto S l éo ramos

senvolvimento e a validação tiveram a colaboração da professora Nelci Zanon, do Departamento de Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os bebês são parte do doutorado de Giselle, orientado pelo professor Manoel Jacobsen, da FM-USP. Os simuladores têm a estrutura do crânio, sensível aos raios X porque aparecem nas radiografias. “A parte óssea do modelo é importante para definir e treinar a melhor técnica cirúrgica de acordo com a anatomia do paciente, principalmente na osteotomia, parte da operação em que é preciso cortar o osso e remodelá-lo”, explica Giselle. Mas tal característica trouxe problemas para ela em uma viagem aos Estados Unidos. Com o bebê-modelo dentro da mala, foi parada no aeroporto sob suspeita de estar viajando com um crânio na bagagem. Depois de muita explicação ela foi dispensada. O uso de simuladores vem crescendo na medicina. Antes, o mais usado no aprendizado nas escolas de medicina eram os cadáveres, que continuam, mas em menor número. Os indigentes –origem mais comum dos corpos – diminuíram muito devido a novas formas de identificação, como o exame do DNA, e, em alguns procedimentos, o uso de cadáveres não se aplica. “Os mortos não têm pele e músculos com a consistência e resistência de uma pessoa viva. O simulador consegue reproduzir ao máximo o paciente com patologia específica”, comenta Giselle. Os Gigis passam agora por validações de dois grupos de cirurgiões: os experientes, que já deram o sinal positivo para o uso do simulador, e os médicos-residentes, que atualmente estão testando o equipamento. Depois de finalizada essa fase, Giselle vai decidir como esses simuladores poderão ser usados em outros hospitais e universidades. Outra iniciativa brasileira na área de simuladores médicos é da empresa Gphantom, de Ribeirão Preto, que desenvolveu e lançou recentemente produtos para uso em treinamento de ultrassom. Um deles é de uma mama, na qual o aluno de medicina consegue visualizar pequenos tumores ou cistos, além de treinar a biópsia no modelo utilizando uma agulha. O outro modelo é uma peça que simula uma parte de tecido humano para testes de acesso venoso, prática de biópsias, treinamento de ultrassom e aplicação de anestesia.

A empresa foi formada em 2013 por dois alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP), o físico-médico e doutorando Felipe Grillo e a química e mestranda Michelle Ferreira da Costa Abrãao. “No meu mestrado comecei a estudar esses modelos, que no exterior são chamados de phantoms [fantasmas, em inglês], e desenvolvi um para treinamento de biópsia de tireoide. Esses modelos eram uma linha de pes-

quisa do Grupo de Inovação e Instrumentação Médica e Ultrassom [Giimus] que participei na USP ”, diz Grillo. Os modelos desse tipo eram, até então, importados. O empresário diz que empresas que fabricam aparelhos de ultrassom, como Ericsson, GE e Konica-Minolta, já utilizaram os simuladores da Gphantom com o objetivo de demonstrar seus equipamentos em feiras e congressos, por exemplo. Cerca de 200 modelos foram disponibilizados no mercado. Até agora, das instituições de ensino, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) comprou, a pedido de um professor, modelos para uso de um aluno de mestrado. Cada peça que simula uma mama custa R$ 550,00 e as usadas em treinamento de procedimentos de anestesia e biópsia, R$ 600,00. Grillo explica que o material é reciclável. “Depois de um desgaste natural, com furos de agulha, a peça pode retornar à empresa e vale até a metade do valor de uma nova aquisição.”

O avanço da tecnologia em impressoras 3D, capazes de imprimir com polímeros todo tipo de peça plástica, também propicia a feitura de modelos médicos personalizados de um local do corpo do paciente que passará por cirurgia. A BioArchitects, empresa paulistana de tecnologia de medicina que produz biomodelos com impressoras 3D desde o final de 2015, fez parcerias com alguns médicos, que são professores em universidades, para oferecer os modelos para teste. Em troca, os cirurgiões se comprometem a relatar em artigos científicos a experiência em trabalhar com as réplicas em 3D. “A partir de exames de ressonância magnética ou tomografia, nossos bioengenheiros transformam as imagens em modelos tridimensionais que retratam a situação do paciente”, conta Felipe Marques, diretor executivo da empresa. A produção do biomodelo com formatos, textura, flexibilidade e consistência muito próximas do real é possível porque a impressora de origem israelense pode utilizar nove tipos de polímeros em uma única impressão, misturando dosagens de cada um, para formar pele, tecidos subcutâneos e ossos. As cores que diferenciam órgãos, tecidos e ossos também podem ser escolhidas com a mistura dos polímeros.

o s modelos 3D podem ser usados para verificar a posição de um tumor no fígado e as estruturas ao redor

ra. A criança com 10 meses de idade recebeu o diagnóstico de atresia das vias biliares. Para melhor preparar a cirurgia que vai extrair um pedaço do fígado do pai e implantá-lo no bebê, o médico enviou para São Paulo as imagens de tomografia da criança para a BioArchitects. Depois de cinco dias, o material estava pronto e foi enviado para Curitiba. “Nesse tipo de cirurgia, o tamanho certo é muito importante porque se o órgão ficar maior pode ocorrer uma síndrome de compressão em que o abdômen tem que ficar aberto até diminuir o edema”, explica o cirurgião Júlio Cesar Wiederkehr, professor do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que vivenciou essa situação no início do ano. Além dessa operação, ele fez outra para extrair um tumor no fígado de um paciente. “Nos deparamos frequentemente com variações anatômicas no momento da cirurgia; o mais importante é saber a posição do tumor em relação às estruturas do órgão e também às adjacentes”, explica. “O uso dos modelos 3D pode ter aplicações variadas em neurocirurgia, ortopedia, cirurgia cardíaca, cirurgia hepatobiliar, entre outras”, explica Wiederkehr.

coração impresso: a partir de imagem de ressonância, peça mostra áreas de calcificação, em branco no interior do órgão. ao lado, processo de finalização de modelo para aplicação de placa de titânio nas costelas

Em Curitiba, um biomodelo da empresa contribuiu no planejamento de uma cirurgia de transplante de fígado em que parte da cavidade abdominal de um bebê foi reproduzida na impresso -

No geral, o uso desses modelos médicos em 3D personalizados é indicado para cirurgias mais complexas, quando é necessário um planejamento prévio. “As cirurgias de cardiopatias congênitas e as que utilizam mais de uma técnica serão mais bem planejadas se tivermos um biomodelo para simular a correção mais adequada”, afirma

o cardiologista Luiz Antônio Rivetti, professor da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo, que também experimentou os produtos da empresa. Ele utilizou o modelo em 3D para visualizar um aneurisma de ventrículo esquerdo, uma patologia que ocorre entre 10% e 15% de pessoas que têm infarto do miocárdio. “Com o modelo, soubemos com precisão a extensão do problema, além de ter a certeza sobre a extensão da fibrose a ser extraída”, diz Rivetti. “Foram três casos operados, com resultados muito bons, nos quais conseguimos escolher previamente a melhor técnica.” O cardiologista apresentará os resultados com os biomodelos no congresso mundial da The World Society of Cardiothoracic Surgeons, este mês, na África do Sul.

bene F í cio S a D i cionai S

Os biomodelos da BioArchitects custam entre R$ 4 mil e R$ 5 mil. O diretor da empresa, Felipe Marques, prevê que o preço deve cair com o aumento da demanda. “Em algumas cirurgias, como a de múltiplas fraturas de costela, na qual o cirurgião molda as placas de titânio conforme a curvatura anatômica dos ossos de cada paciente, os biomodelos têm apresentado redução de custos e de tempo cirúrgico com o planejamento prévio da patologia do paciente. Em uma dessas cirurgias, o médico utilizou o biomodelo no dia anterior ao procedimento para treinar e levou as placas já personalizadas para a fixação nas costelas.” Segundo Marques, há benefícios em todas as esferas: o hospital aumenta o número de cirurgias por sala, a seguradora tem previsi-

bilidade de uso e redução de material, os cirurgiões podem planejar e prever possíveis dificuldades na operação e o paciente fica menos suscetível à infecção.

O mercado de impressão 3D movimenta atualmente cerca de U$ 4,5 bilhões no mundo, segundo a consultoria norte-americana ATKearney. A expectativa é de U$ 17,2 bilhões até 2020. O setor de saúde representa em torno de 15% desse total e deve crescer em até 25% nos próximos quatro anos.

A utilização dos modelos médicos foi medida em um artigo científico publicado na revista Surgery, em junho deste ano, que analisou 158 artigos científicos sobre o uso de produtos em 3D, entre 2005 e 2015. Foi realizado por pesquisadores do Hospital Georges Pompidou e da Universidade Paris-Sud, na França. O estudo indicou que a impressão tridimensional está se tornando cada vez mais importante na medicina, especialmente nas cirurgias, e avaliou vantagens e desvantagens do uso dos modelos. O procedimento já foi experimentado em 37 países, como China, Alemanha e Estados Unidos. Os estudos indicam que 50% dos modelos foram utilizados em cirurgias na área bucomaxilofacial e 24,7% em operações ortopédicas. Do total, 71,5% dos estudos reportaram usos desses modelos em cirurgias. Uma porcentagem menor, de 9,5%, mostrou o uso de impressoras 3D para produzir implantes ou próteses personalizadas, e 6,3%, no projeto de moldes ou próteses faciais como orelha e nariz. Entre as vantagens para os médicos nas cirurgias, o estudo identificou a melhor visualização de malformações e antecipações de dificuldades anatômicas, além da diminuição do tempo da cirurgia e de complicações no pós-operatório como hemorragias e infecções. As desvantagens estão no longo tempo de preparação do modelo e na necessidade de tempo adicional para o planejamento do pré-operatório, além dos custos adicionais referentes à aquisição do modelo. n

Projeto

análise de viabilidade técnica-comercial de simuladores sintéticos do tecido biológico para treinamento em procedimentos médicos guiados por ultrassom (nº 2014/50414-9); Modalidade Programa Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável Felipe grillo (gphantom); Investimento r$ 100.875,00.

artigos científicos

martElli, n et al advantages and disadvantages of 3-dimensional printing in surgery: a systematic review. Surgery on-line. jan. 2016. coElho, g et al new anatomical simulator for pediatric neuroendoscopic practice. child’s nervous System. v. 31, n. 2. fev. 2015.

do Sol do Sol a energia a energia

Flexíveis, ao contrário dos painéis fotovoltaicos tradicionais, células

solares orgânicas começam a ser produzidas no Brasil em pequena escala

Acada ano, a Terra recebe o equivalente, em forma de luz e calor, a 10 mil vezes o consumo mundial de energia elétrica. O problema é transformar toda essa potência em eletricidade. A tecnologia mais eficiente e usada hoje, empregada desde os anos 1980, são as células fotovoltaicas de silício, com aplicações limitadas, por serem pesadas e rígidas. A busca atual é por dispositivos na forma de filmes finos que possam ser aplicados e moldados em vários locais como vidros de janelas, por exemplo, como as células orgânicas OPV (do inglês Organic Photovoltaic), feitas de material semicondutor à base de carbono. No

Filmes captam

Brasil, há vários grupos de pesquisa e empresas trabalhando no desenvolvimento de células orgânicas.

A empresa nChemi, de São Carlos, produz nanopartículas de óxido de molibdênio, ferro, titânio e zircônio, por exemplo. Entre suas aplicações diversas, elas podem integrar algumas das camadas das células solares orgânicas. A nChemi foi criada há um ano em laboratório do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que é parte do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDFM), um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP.

As nanopartículas da nChemi estão sob análise, no nível de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), no CSEM Brasil para futura utilização pela empresa mineira Sunew, que começou em agosto a produção das células fotovoltaicas orgânicas. A Sunew foi criada em novembro de 2015 como spin­off do CSEM Brasil em composição com gestoras de fundos de capital empreendedor. O CSEM Brasil é uma instituição sem fins lucrativos que tem o objetivo de desenvolver pesquisa tecnológica e repassar para a indústria. Foi o que aconteceu com a tecnologia das OPVs licenciada para produção e comercialização pela Sunew. Para chegar a essa maturidade

tecnológica, o CSEM recebeu apoio financeiro para pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), entre outras instituições públicas e privadas. A nChemi tem financiamento do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP.

“Pela parceria que firmamos, somos responsáveis pelo design e pela produção das nanopartículas e o CSEM pela análise de seu desempenho nos dispositivos fotovoltaicos”, conta Bruno Lima, um dos sócios­fundadores da nChemi. “Esse acordo tem sido um modelo que queremos seguir, com a participação ativa do parceiro no desenvolvimento de

Em forma de filme, células solares da csEm Brasil

nanopartículas sob demanda.” O pesquisador Edson Leite, do CDFM, que foi professor de Lima e de seu sócio, Tiago de Goes Conti, orientou os dois na aplicação das nanopartículas em OPV e na criação da nChemi. “Os elétrons são gerados no material ativo da célula, que é um polímero semicondutor”, explica Leite. “Eles surgem quando o polímero absorve a luz solar e são responsáveis pela geração da energia elétrica.” As nanopartículas são atualmente importadas pelo CSEM Brasil e a ideia principal do trabalho da empresa de São Carlos é ser

À esquerda, nanopartículas em solução na nchemi. acima, protótipos de células solares no c Ti renato archer. na página ao lado, prédio em são Paulo com filmes orgânicos da csEm Brasil

um fornecedor nacional para oferecer vantagens em termos de custos e logística. “Esse desenvolvimento visa também obter materiais com melhor desempenho”, acrescenta Leite.

“As nanopartículas podem ter diversas funções, como aumento de propriedade mecânica, barreira contra entrada de umidade externa, ou até mesmo melhora das propriedades elétricas das células fotovoltaicas orgânicas”, explica Luiza Correa, pesquisadora do CSEM Brasil. “Dependendo de onde elas são aplicadas, existe um alto potencial pa­

c hina tem maior potência instalada

a utilização de energia solar cresce em todo o mundo. segundo o boletim Energia solar no Brasil e no mundo 2015, publicado em julho deste ano pelo ministério das minas e Energia (mmE), a potência instalada no mundo no ano passado era de 234 gW (gigawatts), o que corresponde a 16,7 usinas de itaipu. a china é a primeira colocada, com 43,4 gW, seguida da alemanha, com 39,6 gW, e do Japão, com 35,4 gW. O Brasil, em julho, contava com apenas 51 megawatts (mW) de potência

instalada de geração solar, correspondentes a 3.851 instalações (o triplo do que havia oito meses antes), principalmente residências, empresas e fábricas. ainda de acordo com o boletim do mmE, o Plano Decenal de Expansão de Energia prevê que a capacidade instalada de geração solar chegue a 1% do total da energia produzida no país em 2024. Em julho, esse índice era de apenas 0,01%, segundo o Banco de informações de geração, da agência nacional de Energia Elétrica.

ra aumentar a eficiência e o tempo de vida dos módulos.” Luiza esclarece que o OPV é um conjunto de camadas poliméricas impressas por meio de solução sobre um substrato, que pode ser rígido, como vidro, ou flexível, como plástico. Segundo Filipe Ivo, gerente de Novos Negócios do CSEM Brasil, um dos primeiros projetos com OPV desenvolvidos é a fachada de vidro do novo prédio da Totvs, em São Paulo, uma empresa brasileira de software, que será entregue em novembro deste ano. “É a instalação da primeira fachada de célula orgânica encapsulada em vidro e geradora de energia elétrica do país”, garante Ivo. “Os vidros externos do novo edifício vão gerar energia elétrica para consumo interno.” O CSEM mantém ainda projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) com a Fiat, para integração de OPVs no teto de automóveis; com a Votorantim, para aplicação em estruturas flutuantes em usinas hidrelétricas; e com a Medabil, para aplicação em telhas metálicas, entre outros projetos.

n A nopA rtíc U l AS SE m I cond U tor AS No Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI) em Campinas, o pesquisador Fernando Ely desde 2007 trabalha no desenvolvimento de OPVs. Elas são produzidas a partir de tintas de nanopartículas semicondutoras na camada ativa. “As células que desenvolvemos no laboratório possuem, em ge

ral, cinco camadas, cada uma delas com função específica de geração, transporte e coleta de cargas”, explica. “O uso de tintas viabiliza a fabricação por técnicas baratas de impressão da indústria gráfica, reduzindo o custo de produção e aumentando as possibilidades de aplicações, quando feitas sobre materiais leves e flexíveis.”

Além de ter uma variedade maior de aplicações, as células fotovoltaicas orgânicas têm outras vantagens. “Diferentemente das de silício cristalino, que são caracterizadas por serem monolíticas, em forma de lâminas, a maior parte das células OPV é constituída de filmes de algumas centenas de nanômetros de espessura, depositados sobre substratos de vidro ou plástico”, informa Ely. “Assim, enquanto para fabricar um painel de silício é preciso soldar as células in­

gânicas têm outra grande desvantagem, que é menor tempo de vida útil que as de silício. “Ao passar a usar as nanopartículas, nosso objetivo é aumentar seu tempo de duração”, diz Leite. “É nisso que a nChemi trabalha, em parceria com o CSEM e o CDFM. As células orgânicas hoje duram entre 5 e 10 anos, enquanto as de silício passam de 10 anos.”

As células solares flexíveis ainda têm menor eficiência energética em relação às tradicionais de silício, que são rígidas

dividuais, os de OPV são fabricados diretamente sobre os substratos a partir de um desenho predefinido.” A medida, de acordo com ele, simplifica o processo produtivo. O consumo de energia (elétrica e térmica) para criar painéis fotovoltaicos do tipo OPV é menor do que para fazer os convencionais de silício, que consomem mais, especialmente na etapa de purificação da matéria­prima. Leite, do CDFM, acrescenta que, diferentemente das células orgânicas, as convencionais de silício, por não serem flexíveis, são bem mais frágeis mecanicamente. Em compensação apresentam uma melhor eficiência na conversão solar, mais de 15%, ante algo entre 4% e 8% das OPVs. Essas porcentagens indicam o quanto do total de energia recebida do Sol é convertido em eletricidade. Além da menor eficiência energética, as or­

Ainda em relação à menor eficiência energética das células orgânicas, Filipe Ivo, do CSEM Brasil, ressalva que nessa nova tecnologia se leva em conta outras variáveis, como as próprias características físicas do material: leveza, transparência, flexibilidade, baixa pegada de carbono e ser reciclável, por exemplo. “Por esses fatores, as OPVs são a melhor opção de utilização em vários cenários de aplicação, como, por exemplo, no teto de automóveis ou em fachadas de vidro”, afirma Ivo. “É importante ressaltar que a tecnologia do silício é uma indústria madura com mais de 40 anos de existência. Já a orgânica impressa é recente e vem conquistando espaço agora.” Para ele, a produção em grande escala trará melhoria dos processos produtivos para ter impacto na eficiência e na vida útil. Ely, do CTI, é cauteloso quanto ao avanço das OPVs. “Para tornar essas células comercialmente viáveis ainda é preciso superar desafios importantes, como aumentar a confiabilidade, a durabilidade e a eficiência”, alerta. “Existe também a dificuldade econômica comum à maioria das fontes de energias renováveis porque ainda levam desvantagem no preço em relação às fontes mais tradicionais como a hidrelétrica ou a térmica.” n

Projetos

1. Tinta nanoestruturada para células fotovoltaicas orgânicas (nº 2015/15921-0); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável Tiago de goes conti (nchemi); Investimento r$ 124.450,00.

2. síntese de nanopartículas funcionalizadas em escala piloto (nº 2014/21682-5); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável Bruno Henrique ramos de lima (nchemi); Investimento r$ r$ 113.157,00.

pesquisa empresarial y

mais controle no céu

Novas tecnologias

da atech para gestão de tráfego aéreo diminuem os atrasos e aumentam a segurança dos voos no país

osetor aéreo nacional cresceu de forma acentuada nos últimos anos. O número de passageiros transportados passou de 50 milhões, em 2005, para 120 milhões em 2015. O movimento de aviões no espaço aéreo brasileiro, relativo a pousos e decolagens, subiu de 2,7 milhões, em 2008, para 3,8 milhões, em 2015, segundo estimativa da Força Aérea Brasileira (FAB). Para dar conta dessa evolução em um período de tempo relativamente curto, a FAB, responsável pelo controle e pela vigilância do espaço aéreo nacional, adotou uma série de medidas para modernizar o setor. Entre elas, foram implantadas duas novas tecnologias nacionais para gestão da navegação aérea: os sistemas Sagitario, para controle das aeronaves em tempo real, e Sigma, uma ferramenta para otimização do fluxo aéreo. Atuando em conjunto, essas soluções permitiram que o tráfego aéreo crescesse, nos últimos anos, sem os graves problemas ocorridos em 2006 e 2007, quando uma série de falhas na infraestrutura fez com que milhares de passageiros lotassem os aeroportos sem saber se conseguiriam embarcar.

O desenvolvimento dos novos sistemas tecnológicos foi importante para ajudar a normalizar a situação e a suprir as necessidades da grande movimentação aérea durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos deste ano. A Concessionária Rio-Galeão, que administra o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, no Rio de Janeiro, informou que 90 mil passageiros passaram pelo terminal em 22 de agosto, dia seguinte ao término dos Jogos Olímpicos – o dobro da média diária – sem que se registrassem atrasos. “As características operacionais do Sagitario se baseiam em referências de entidades internacionais de controle de tráfego, como a norte-americana FAA [Federal Aviation Administration], e a europeia Eurocontrol [European Organization for the Safety of Air Navigation]”, afirma Edson Carlos Mallaco, presidente

Yuri Vasconcelos

da Atech, que tem sede em São Paulo. A empresa pertence 100% ao Grupo Embraer desde 2013.

O projeto do Sagitario, sigla de Sistema Avançado de Gerenciamento de Informações de Tráfego Aéreo e Relatórios de Interesse Operacional, foi iniciado em 2007 e, durante todo o período de desenvolvimento, a empresa manteve uma parceria com o Laboratório de Simulação do Instituto de Controle do Espaço Aéreo (Icea), em São José dos Campos, que faz o treinamento dos controladores, onde foi instalado um protótipo do Sagitario para avaliação, críticas e sugestões de profissionais de vários centros de controle do país. “Essa parceria nos ajudou a atingir rapidamente um estágio de maturidade operacional”, conta Mallaco.

O Sagitario é usado pelos controladores de voo para monitorar o movimento de aviões no espaço aéreo brasileiro. Desenvolvido a partir do conceito gate to gate (portão a portão), ele é formatado para garantir operações mais seguras desde a decolagem da aeronave, passando pelo voo em rota e finalizando com o pouso no aeroporto de destino. Trata-se de um sistema de controle de aviões e helicópteros que utiliza informações de radares e outros tipos de sensores de vigilância aérea, proporcionando ao controlador informações precisas.

O sistema foi concebido pela equipe de pesquisadores da Atech formada por 180 profissionais, dedicados às áreas de desenvolvimento de produto e inovação tecnológica. Cerca de 90% dos colaboradores da empresa, com sede em São Paulo, têm nível superior em diversas áreas do conhecimento, tais como engenharias (civil, mecânica, elétrica, eletrônica, infraestrutura aeronáutica e de computação), ciências exatas (matemática, estatística e física) e ciências humanas (administração de empresas, economia, marketing e gestão de projetos). A maioria dos funcionários conta com mais de 10 anos de experiência, sendo que 27 possuem mestrado e seis têm doutorado. A Atech investe cerca de 9% de seu faturamento em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

t ELA CINZEN tA

Uma das inovações mais visíveis do Sagitario é o modo como as informações são apresentadas nas telas dos computadores na sala de controle de voo. Enquanto no sistema antigo, conhecido pela sigla X-4000 (e que também foi feito pela Atech), o fundo de tela era preto, no novo sistema ganhou a cor cinza. “Essa alteração é parte da nova padronização de uso de cores adotada para o Sagitario ancorada em estudos e recomendações

Decolagem na pista do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Ao fundo, tela do sistema Sagitario de controle de aeronaves

E mpr ESA

atech

Centro de P&D são paulo, sp Nº de funcionários 180 em p&d&i

Principais produtos sistemas de controle de tráfego aéreo, sistemas de monitoramento, gerenciamento e de informações, além de sistemas de controle meteorológicos

internacionais. A cor cinza, quando comparada com outras, reduz a fadiga visual do controlador”, afirma Marcos Ribeiro Resende, diretor de Tecnologia e Inovação da Atech. A mudança também faz com que a tela propicie mais contraste de cores, facilitando a identificação de cada funcionalidade do sistema. A nova ferramenta também inova no console, mais ergonômico e fácil de operar. Antes, as orientações transmitidas pelos controladores aos pilotos – pedidos de mudança de rota, de velocidade ou de nível de voo, por exemplo – precisavam ser digitadas no teclado. Agora, esses comandos podem ser feitos mais rapidamente com a ajuda do mouse. Os planos de voo – documento com dados essenciais, como identificação do avião, horário de partida e chegada e informações sobre a rota – são também visuali-

Edson Carlos Mallaco, engenheiro mecânico, presidente da Atech

Marcos Ribeiro Resende, engenheiro da computação, diretor de Tecnologia e Inovação

Fábio Kawaoka Takase, engenheiro mecânico, gerente técnico

zados na tela em um recurso chamado de “etiqueta inteligente”. Até há poucos anos, o plano era visualizado numa tela à parte ou era impresso em uma etiqueta de papel, que ficava na frente do controlador. Quando precisava checar dados do voo, era preciso tirar os olhos da tela, deixando de acompanhar a movimentação dos aviões.

Além do alto nível de automação, o novo sistema tem uma função conhecida como coordenação silenciosa. Durante o voo, o avião precisa ser continuamente transferido de um controlador, que cuida de determinado setor do espaço aéreo, para outro. “Antes, essa transferência era feita por telefone, em uma comunicação sujeita a ruídos e problemas de fonia. Com o Sagitario, ela ocorre por meio de uma interface disponível na etiqueta inteligente onde o sistema

pontifícia universidade c atólica de minas Gerais (puc-mG): graduação

universidade Federal de uberlândia (uFu): graduação universidade de são paulo (usp): mestrado

usp: graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado universidade Nacional de Yokohama (Japão): pós doutorado

Eric Conrado de Souza, engenheiro mecatrônico, desenvolvedor sênior usp: graduação, mestrado e doutorado

Claudinei Walker da Silva, cientista da computação, analista de sistemas

Edson Fagundes Gomes, matemático, especialista em sistemas de controle de tráfego aéreo, gerente comercial

universidade estadual paulista (unesp): graduação universidade presbiteriana mackenzie: mestrado instituto Nacional de pesquisas espaciais (inpe): doutorado

universidade Federal do paraná (uFpr): graduação

Funcionários no centro de controle de aproximação de são paulo. abaixo, tela do sistema sagitario mostra as posições das aeronaves

gera mensagens padronizadas internacionalmente”, explica o especialista em sistemas de controle de tráfego aéreo Edson Fagundes, gerente comercial da Atech. “Todas essas inovações diminuíram o uso do telefone pelo controlador e reduziram o estresse contínuo a que o profissional está sujeito, garantindo assim um maior conforto e segurança operacional”, afirma Fagundes.

Segundo o especialista em transportes aéreos Jorge Eduardo Leal Medeiros, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), o Sagitario, com suas novas funcionalidades, põe o país no grupo de nações que dominam a fabricação das mais modernas tecnologias de gestão de tráfego aéreo. “A solução da Atech está no mesmo nível de sistemas similares desenvolvidos no exterior”, afirma Medeiros, engenheiro aeronáutico e de aeronaves formado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Segundo ele, os requisitos de gerenciamento de fluxo aéreo são estabelecidos pela Organização da Aviação Civil Internacional (Icao, na sigla em inglês) e as soluções tecnológicas desenvolvidas pelos fabricantes devem estar de acordo com as normas da entidade.

o rdem no ar

como funciona o sistema de tráfego aéreo brasileiro

a torre de controle dos aeroportos coordena a movimentação dos aviões em solo e nas proximidades do aeroporto. os controladores conduzem os pilotos pela pista, autorizam as decolagens e orientam os pousos

quando o avião perde contato visual com a torre, a uma distância entre 5 e 10 quilômetros (km) do aeroporto, o controlador transfere o voo para o centro de controle de aproximação (app). o app controla o avião até cerca de 100 km do aeroporto

a partir desse ponto, quando a aeronave já está voando em nível de cruzeiro, ela passa a ser gerenciada pelo centro de controle de Área (acc). o espaço aéreo brasileiro está dividido em cinco acc s

c ada acc , por sua vez, é dividido em setores. a ssim, durante o voo em rota, o avião é transferido entre os controladores sempre que sai de um setor e entra em outro

oS CINCo CENtroS dE

CoNtroLE dE árEA (ACC)

No pAíS

O pesquisador destaca ainda que o Sagitario é resultado de um investimento feito pelo governo brasileiro ao longo dos anos a fim de formar profissionais capazes de desenvolver novas tecnologias para o setor aéreo – a Atech foi formada em 1997 por um grupo de engenheiros que trabalharam no Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), programa elaborado pelos órgãos de defesa do país para assegurar o controle do espaço aéreo da região amazônica. O Sagitario está instalado em quatro dos cinco Centros de Controle de Área (ACC, em inglês) que gerenciam o espaço aéreo do país – falta ser instalado apenas no centro de controle da região do oceano Atlântico sob responsabilidade do Brasil. O primeiro ACC a receber o sistema, em 2010, foi o de Curitiba, que cuida da navegação aérea na região Sul e parte do Sudeste. Em seguida, versões atualizadas foram instaladas nos centros sediados em Brasília (que cobre a região Centro-Oeste e parte do Sudeste), Manaus (que abrange a região Norte) e Recife (que cuida da região Nordeste, além do oceano Atlântico). O sistema também já funciona em nove Centros de Controle de Aproximação (APP) do país e nas instituições de formação e capacitação do Comando da Aeronáutica,

em São José dos Campos e na Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAR) em Guaratinguetá (SP), e deve substituir o sistema X-4000 em mais 16 APPs nos próximos três anos. Enquanto os APPs gerenciam o espaço aéreo em torno dos aeroportos, durante a decolagem e a aproximação para o pouso, os ACCs monitoram as aeronaves quando atingem o nível de cruzeiro (ver infográfico).

Um dos últimos lugares a receber o sistema da Atech foi o Centro de Controle de Aproximação de São Paulo, que é o maior do país e responsável por controlar as saídas e chegadas de aeronaves dos aeroportos de Congonhas, Guarulhos, Campo de Marte, Campinas e São José dos Campos. “Por enquanto, o Sagitario só está em operação no país, mas buscamos oportunidades para exportá-lo. Nossos mercados-alvo são países da Ásia, África e Oriente Médio”, explica Mallaco.

FLUXo or GANIZA do

A outra solução criada pela Atech para tornar mais eficiente o gerenciamento de tráfego aéreo é o Sistema Integrado de Gestão de Movimentos Aéreos (Sigma). Empregado no planejamento estratégico para fins de cálculo de demanda dos voos e capacidade do espaço aéreo, inclusive

nos aeroportos, o Sigma integra informações de companhias aéreas, aeroportos e órgãos de controle, permitindo adequar o crescimento da demanda do setor à capacidade de infraestrutura aeronáutica brasileira. “Enquanto o Sagitario faz a gestão em tempo real dos aviões que voam de um ponto a outro, o Sigma é usado para planejar, com antecedência, o fluxo de aviões nos céus do Brasil e para atuar em tempo real, no movimento aéreo corrente, resolvendo de forma colaborativa, com companhias aéreas e órgãos de controle, eventuais problemas que gerem mudanças nos voos, provocados pelas condições meteorológicas, por exemplo. Ele foi criado a partir do aumento do tráfego aéreo nacional”, diz Mallaco, destacando que se trata da primeira ferramenta do gênero desenvolvida no país e uma das poucas do mundo. A produção do Sigma foi realizada em parceria com a FAB e o sistema também está em operação na Índia. Uma unidade do Sigma foi comercializada para a Autoridade de Aeroportos da Índia (AAI). “Vencemos uma concorrência internacional com fornecedores norte-americanos e europeus e implementamos o sistema na Índia em 2014. Lá, ele se chama SkyFlow”, conta Resende. n

FoNtE aNuÁrio estatístico de tr ÁFeGo aéreo 2015, decea

Indústr I

soluções para o pré-sal

Instituições de pesquisa em parceria com a Petrobras desenvolvem equipamentos para operar em áreas ultraprofundas

Quanto mais profundas são as águas do oceano e mais espessa a camada terrestre submersa sob a qual se encontram os depósitos de gás e petróleo, maiores os desafios tecnológicos para extraí-los. Para a extração desses produtos do pré-sal – depósitos localizados abaixo da camada de sal que está situada entre 3.500 e 5.500 metros de profundidade do solo marinho –, os dutos descem a mais de 3 mil metros de profundidade no mar. Um dos pontos críticos da extração é ter métodos confiáveis de análise e monitoramento de tubos e sistemas que suportem altas pressões e grandes diferenças de temperatura. Para operar nesse ambiente hostil, a Petrobras, pioneira na exploração de combustíveis fósseis em águas profundas (de 300 a 1.500 metros) e ultraprofundas (mais de 1.500 metros), por meio do seu Centro de Pesquisas (Cenpes), fez parcerias com instituições para o desenvolvimento de tecnologias para exploração do pré-sal. Dois desses projetos foram realizados com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e um com o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), localizado em Campinas (SP).

Um dos trabalhos conjuntos com a PUC-Rio resultou em um equipamento

equipamento para inspeção interna de tubulações de óleo e gás. tem vários sensores em forma de hastes – daí o nome –espetados ao seu redor. Um sistema de molas faz o conjunto de sensores encolher e se expandir. e sse movimento detecta as mínimas diferenças de relevo interno que podem ser áreas de corrosão

para a inspeção interna dos dutos apoiados no leito marinho ou inseridos no solo abaixo do oceano. O equipamento criado para a inspeção interna dos dutos é um tipo de PIG, dispositivo que se desloca no interior dos tubos impulsionado pelo próprio fluido (óleo ou gás) com o objetivo de limpar ou inspecionar, por meio de sensores, suas paredes. “Os tubos utilizados em águas profundas têm espessuras grandes de parede e diâmetros pequenos, percursos longos e podem ter curvas fechadas, além de estarem sujeitos a altas pressões e grandes variações de temperatura”, diz Jean Pierre von der Weid,

do Centro de Pesquisa em Tecnologia de Inspeção (CPTI) da PUC-Rio. “Por isso, e por ser um mercado relativamente pequeno, não há PIGs comerciais para essa aplicação.”

Para atender a demanda da Petrobrás, o grupo da PUC-Rio desenvolveu o PIG Palito, um equipamento cilíndrico dotado de vários sensores em forma de hastes. O sistema possui um hodômetro que mede o local exato do problema encontrado pelos sensores. A equipe desenvolveu dois protótipos do PIG Palito capazes de inspecionar tubos com diâmetro entre 20 centímetros (cm) e 120 cm. “Testamos um deles com sucesso na Bacia de Santos, em uma linha de transporte de gás entre os campos de Uruguá e Mexilhão, com 190 quilômetros (km) de comprimento”, conta o pesquisador. No Laboratório de Sensores a Fibra Óptica (LFSO) da PUC-Rio foi desenvolvido o sistema de Monitoramento da Integridade Estrutural de Risers Flexíveis (Moda). Segundo o coordenador do pro-

pig palito

jeto, Arthur Braga, a Petrobras é uma das maiores operadoras de dutos flexíveis do mundo, com a maioria deles operando em águas profundas ou ultraprofundas da costa brasileira. “Os primeiros foram instalados no fim da década de 1970 e hoje a empresa tem uma rede de mais de uma dezena de quilômetros, com mais de mil risers”, diz. “Alguns deles estão chegando ao fim de sua vida útil, por isso a capacidade de detecção antecipada da propagação ou surgimento de danos estruturais tornou-se fundamental para garantir e prolongar o uso desses equipamentos.”

Braga explica que os risers são feitos de camadas poliméricas e metálicas intercaladas. Entre essas últimas estão as armaduras de tração, feitas de arame de aço, que suportam os esforços causados pelo próprio peso do duto, do óleo e do gás transportados e pelo movimento do mar. “Com o passar do tempo, os arames se desgastam e podem se romper”, explica. “Por essa razão, a Petrobras agora exige que os tubos flexíveis que operam no pré-sal sejam equipados com sistemas para o monitoramento em tempo real dos risers.” Entre os componentes do Moda estão sensores feitos de fibras ópticas, instalados nos arames da camada de tração externa, no trecho do riser entre a plataforma e a linha d’água. O sistema pode ser instalado durante a fabricação do tubo flexível ou em dutos que estão em operação. “Se um deles sofre uma ruptura, os sensores de fibra óptica detectam essas alterações e as informações são enviadas para um computador na sala de controle.”

método analítico

Faz a análise da presença de monoetilenoglicol (MeG) em amostras de óleo e gás. Utiliza frascos de vidro ou plástico e análise visual. ao ser separado do gás, o MeG apresenta-se em meio líquido. aparecem dois tipos de resultado: turvo ou transparente, que indica a ausência de MeG

O projeto começou em 2007, com financiamento de R$ 8,5 milhões da Petrobras. Entre 2008 e 2013 foram realizados vários testes com o sistema Moda em laboratório e em campo. Recentemente, o sistema foi incorporado pela companhia em todos os campos do pré-sal. A tecnologia foi licenciada para a empresa Ouro Negro, spin-off do Laboratório de Sensores a Fibra Óptica da PUC-Rio. “Até o final de 2016 o número de sistemas Moda instalados nos dutos das plataformas operando no pré-sal deverá chegar a algo em torno de 200 unidades, com cerca de 13 mil sensores de fibra óptica.”

No caso do PIG Palito, o investimento da Petrobras foi de cerca de R$ 15 milhões e a tecnologia também deverá ser transferida para uma empresa, que irá produzir o equipamento em escala comercial. As duas tecnologias receberam o Prêmio ANP, da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, na categoria “Inovação tecnológica desenvolvida no Brasil por instituição de ciência e tecnologia nacional em colaboração com empresa petrolífera” – o Moda em 2014 e o PIG Palito em 2016.

análi SE do gá S

No projeto com o LNNano foi desenvolvido um método de análise química quantitativa para determinar o teor de monoetilenoglicol (MEG) em amostras do processamento de gás natural liquefeito (GNL). Ao ser transportado dos poços submarinos – tanto em águas profundas como nas ultraprofundas –para as plataformas ou navios offshore, são geradas nas tubulações de gás subs-

tâncias sólidas denominadas de hidratos que podem entupir os dutos. O MEG é adicionado ao combustível para evitar a formação desses hidratos. O problema é que essas substâncias são um contaminante que precisa ser retirado do GNL. Por meio de processos químicos, a Petrobras consegue fazer essa remoção do MEG presente no GNL em suas Unidades de Tratamento de Gás (UTG). A empresa precisa saber com precisão e rapidez, no entanto, qual a eficiência do processo de regeneração do MEG no GNL. “Criamos um método, que chamamos de Microemulsification-Based Method (MEC)”, conta Renato Sousa Lima, pesquisador do Laboratório de Microfabricação do LLNano, coordenador do projeto.

Lima explica que, ao ser separado do gás, o MEG fica dissolvido em um meio líquido composto de água, açúcares, ácidos e diversos metais. O teste ocorre com a adição de ácido oleico a esse líquido rico em MEG, gerando uma mistura insolúvel água-óleo. Em seguida, é adicionado etanol à mistura sob agitação. Aparecem dois tipos de resultado: turvo ou transparente. É possível saber a quantidade de MEG e a eficiência do sistema pela quantidade de etanol que foi necessário acrescentar à mistura para ela se tornar transparente. O MEC dura de 5 a 10 minutos enquanto a técnica utilizada pela Petrobras envolve uma série de reagentes químicos e demora algumas horas. O projeto que levou ao método desenvolvido por Lima recebeu financiamento da FAPESP e da Petrobras, no valor de R$ 1 milhão, e gerou um pedido de patente e quatro publicações científicas. A nova técnica ainda não entrou na rotina operacional da empresa. “Fizemos três demonstrações para os engenheiros e técnicos da companhia”, conta Lima. “Acreditamos que em breve o método possa ser utilizado como rotina pela Petrobras.” n Evanildo da Silveira

Projeto

Microemulsificação em química analítica para o desenvolvimento de plataformas point-of-care: estudo de fatores intervenientes e automação em microfluídica (nº 2014/24126-6); Modalidade auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável renato sousa lima (lnnano); Investimento r$ 61.425,00. artigo científico

da CUnHa, J. G. et al. Microemulsification-based method: analysis of monoethylene glycol in samples related to natural gas processing. Energy & Fuels. v. 29, p. 564954. 2015.

ENTOMOLOGIA y

Aedes flagrado em tempo real

Armadilha inteligente captura

insetos e identifica a espécie por meio do batimento das asas

em agosto, começou a ser testado na Flórida e na Califórnia o protótipo mais avançado de uma armadilha inteligente que, além de atrair e capturar insetos, identifica automaticamente a espécie e o sexo a que pertencem. Criado por dois pesquisadores brasileiros e um norte-americano, o equipamento pode simplificar o monitoramento das populações de mosquitos transmissores de doenças, como o Aedes aegypti, responsável pela disseminação de dengue, chikungunya e zika.

“Desde que começamos a desenvolver a armadilha, ela tem passado por aprimoramentos constantes”, afirma o entomologista Agenor Mafra-Neto, presidente da empresa brasileira Isca Tecnologias, especializada no controle de pragas, e um dos integrantes do projeto. Ele e os cientistas da computação Gustavo Batista, da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, e Eamonn Keogh, da Universidade da Califórnia em Riverside, já produziram versões que usavam laser no mecanismo de detecção, antes de obterem resultados melhores com led. Também construíram modelos alimentados por baterias e cabos de força conectados à rede elétrica e estudam conectar um painel solar ao equipamento. Simultaneamente a esses ajustes, eles testaram diferentes versões do software que reconhece a espécie e o sexo dos mosquitos pela batida das asas. “Esperamos até

Aparato para a análise do ritmo de batimento de asas de diferentes espécies de mosquito

o final do ano ter um protótipo robusto adaptado ao uso em campo para testar no Brasil”, diz Mafra-Neto.

A armadilha é simples: um cilindro de tecido preto de quase 60 centímetros de comprimento, fechado na extremidade inferior. Sua aparência austera, porém, não dá pistas de seu conteúdo tecnológico. Na extremidade superior, um tubo negro serve de entrada para os insetos e traz acoplado um sensor eletrônico que usa luz para detectar a passagem dos mosquitos e identificar a espécie e o gênero a que pertencem a partir da frequência com que batem as asas.

Os insetos são atraídos por um aroma artificial, desenvolvido pela Isca Tecnologias, que lembra o de plantas frescas. Sempre que um mosquito entra na armadilha, ele atravessa um cone de luz infravermelha, emitido por um led. Sua passagem pela região iluminada projeta uma sombra no sensor, que é transformada nos sinais elétricos que alimentam o programa de computador responsável por reconhecer a espécie e o sexo. Imediatamente são registradas a hora do evento, a temperatura e a umidade do ar. Uma vez no interior da armadilha, o mosquito não consegue escapar e morre desidratado.

Usar luz para medir o batimento de asas foi uma grande sacada do projeto. desde os anos 1940, buscam-se estratégias automáticas de se fazer isso. Mas as anteriores registravam o som com microfones, que captavam ruídos do ambiente. Tanto o aparato de detecção quanto o software de reconhecimento foram desenvolvidos pela equipe de Batista na USP. Seu grupo, com o da Isca Tecnologias e o de Keogh, usou uma abordagem computacional, chamada aprendizado de

Protótipo da armadilha: 99% de acerto na identificação do Aedes aegypti

máquina, para desenvolver um software que aprende a reconhecer os padrões de batimento das asas de cada espécie depois de exposto a alguns exemplos. Ao mesmo tempo que trabalhavam na programação, os pesquisadores começaram a criar bibliotecas de referência para ensinar o programa a identificar o ritmo de batimento de asa de diferentes espécies. Os pesquisadores já avaliaram a capacidade do programa de identificar ao menos seis espécies de mosquitos. de modo geral, a taxa de acerto foi alta: variou de 80% para as moscas-da-fruta da espécie Drosophila simulans a 99% para o Aedes aegypti, segundo artigo publicado em 2014 no Journal of Insect Behavior.

A p RI mo RA m E nto E A plI c At I vo Batista e Mafra-Neto calculam que já foram investidos US$ 5 milhões no desenvolvimento da armadilha, financiados pela FAPeSP, pelo Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo governo dos estados Unidos. em agosto, o projeto foi um dos 21 selecionados entre 900 concorrentes para receber financiamento da Agência Internacional de desenvolvimento dos estados Unidos (Usaid) para combater a zika. Os pesquisadores terão US$ 500 mil dólares para aprimorar a armadilha. O dinheiro já tem destino. Mafra-Neto e seu grupo na Isca Tecnologias devem finalizar o desenvolvimento da isca atrativa de longa duração, um blend de com-

postos que atrai os mosquitos e repele polinizadores. e m São Carlos, Batista e sua equipe trabalharão no aprimoramento do sensor, para barateá-lo, e na finalização de um aplicativo móvel, que permitirá receber via celular informações sobre as espécies de mosquitos e sua densidade populacional nas áreas monitoradas pela armadilha. O aplicativo também deverá fornecer dados sobre o comportamento das espécies e dicas para combatê-las. “esse tipo de informação pode estimular as pessoas a controlar os mosquitos e os ovos em casa”, diz Batista. O objetivo é chegar a um produto de valor acessível, que possa ser facilmente usado pelas autoridades de saúde e pela população. “Hoje, a contagem e a identificação dos mosquitos são feitas manualmente por especialistas em taxonomia e entomologia”, explica Mafra-Neto. “ e sses profissionais são um recurso caro e escasso, o que provoca gargalos na detecção de focos de transmissão de doenças.”

As armadilhas disponíveis para o monitoramento de insetos apenas os capturam. “ d esconheço alguma que faça a identificação automática”, afirma o biólogo delsio Natal, estudioso da ecologia de mosquitos da família Culicidae e professor aposentado da Faculdade de Saúde Pública da USP em São Paulo. “Se esse projeto funcionar, será pioneiro”, diz. Para a bióloga da USP Margareth Capurro, que desenvolveu uma linhagem de Aedes geneticamente alterada para produzir machos estéreis, uma armadilha que identifique os mosquitos permitiria saber quando uma nova espécie entra no local. “esse tipo de monitoramento é importante, ainda que não permita saber se os mosquitos estão infectados”, afirma.

A versão atual da armadilha sai por US$ 100 e os pesquisadores querem barateá-la. “estamos próximos de chegar a uma versão que possa ir para o mercado internacional”, afirma Mafra-Neto. n

Projeto sensores inteligentes para controle de pragas agrícolas e insetos vetores de doenças (FAPE sP-PPP/2012) (nº 2012/50714-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável Gustavo Enrique de Almeida Prado Alves Batista (UsP); Investimento r$ 137.402,06.

Artigo científico

CHEN, Y. et al. Flying insect classification with inexpensive sensors. Journal of Insect Behavior. v. 27 (5). p. 657-77. set. 2014.

hum A nidA des SAÚDE MENTAL y

Ateliê Juquery

Esculturas e pinturas resgatam o trabalho do médico Osório Cesar, que valorizou a produção artística em um hospital psiquiátrico

Carlos Fioravanti

Em exposição: obras de autores desconhecidos espelham as emoções dos pacientes do hospital psiquiátrico

Retratos em cores vivas apresentam homens e mulheres com olhos grandes e olhar desconfiado. Em uma pintura, uma faca atravessa uma cabeça; em outra o vermelho intenso espirra como sangue pela tela. Entre os quase 100 trabalhos reunidos em uma exposição no Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, ligado ao Instituto Butantan, poucos são assinados. Todos os autores, porém, tinham distúrbios mentais e foram pacientes do hospital psiquiátrico do Juquery, um dos maiores centros de atendimento nessa área no país. O hoje chamado Complexo Hospitalar do Juquery atingiu sua ocupação máxima na década de 1970, com cerca de 15 mil pacientes, incluindo os detidos por razões políticas.

As obras tacitamente trazem à tona perguntas com respostas incertas – o que é arte? Quem é ou pode ser artista? – e, explicitamente, expressam o trabalho inovador do médico, crítico de arte e músico paraibano Osório Thaumaturgo Cesar (1895-1979). A partir da década de 1920, como responsável pela seção de artes e depois como fundador e diretor da Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery, ele valorizou a produção artística das pessoas com distúrbios mentais, em paralelo ao trabalho iniciado pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999) duas décadas depois no Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio de Janeiro.

Os dois conviveram com artistas, escritores e outros intelectuais, eram comunistas – foram presos várias vezes – e defendiam a livre expressão artística como possibilidade de reequilíbrio das emoções das pessoas com distúrbios mentais, com base nos estudos sobre o inconsciente do médico neurologista austríaco Sigmund Freud

Escultura de Maria

Aparecida Dias

(1856-1939), criador da psicanálise, e do psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961), criador da psicologia analítica. Esse uso da arte despontava na Europa, nos Estados Unidos e em outros países, como o Brasil, como uma eventual alternativa aos tratamentos violentos usados no início do século passado, como a lobotomia, o eletrochoque e a indução de febres para amenizar o descontrole mental. O uso de medicamentos para tratar distúrbios mentais só começou na década de 1950. Embora com as mesmas motivações, Osório Cesar e Nise da Silveira seguiram abordagens diferentes, ressalta a terapeuta ocupacional Elizabeth Araújo Lima, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e autora do livro Arte, clínica e loucura: Território em mutação (Summus Editorial/FAPESP, 2009), resultado de seu doutorado em psicologia clínica na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Adepto da psicanálise de Freud, Osório Cesar dirigiu a Escola Livre de Artes Plásticas com o propósito principal de ensinar um ofício que os pacientes pudessem exercer depois de deixar o hospital. Nise adotou a psicologia analítica de Jung e se opunha aos traumáticos tratamentos da época. Em 1946, ao assumir a seção de terapêutica ocupacional do hospital do Rio de Janeiro, ela começou a desenvolver seu próprio método de tratamento, valendo-se da produção de pinturas e esculturas para promover a reorganização mental dos pacientes.

O trabalho dela se tornou mais conhecido que o de Osório Cesar por várias razões, segundo Elizabeth. Retratada em vários filmes – o mais recente, Nise, o coração da loucura, de 2015, dirigido por Roberto Berliner –, a psiquiatra criou em 1952 uma instituição que se mantém até hoje, o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de

produção intensa: a oficina de artes na década de 1950 1

Janeiro, e guardava os trabalhos com cuidado para documentar a eventual melhoria do estado mental dos pacientes.

Osório Cesar, por sua vez, vendeu algumas obras para ajudar a manter sua escola, permaneceu no hospital até 1965, quando se aposentou por razões políticas, e a escola foi desativada na década de 1970. Os trabalhos se espalharam, até serem reunidos na década de 1980 pela historiadora de arte Maria Heloisa Corrêa de Toledo Ferraz, atualmente professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP, com a ajuda de outros pesquisadores. Autora do livro Arte e loucura: Limites do imprevisível (Lemos Editorial, 1998), Maria Heloisa participou do resgate de 2.258 trabalhos e da organização do Museu Osório Cesar, inaugurado em 1985 em um dos antigos pavilhões do hospital.

“Com seu olhar de crítico de arte”, diz a historiadora Josiane Oliveira, diretora do Museu Emílio Ribas, “Osório Cesar ressaltou a qualidade da produção artística das pessoas com distúrbios mentais a ponto de promover exposições em espaços públicos e museus de arte das obras produzidas no Juquery”. A primeira foi em 1933, integrando o Mês dos loucos e das crianças, organizado pelo artista Flávio de Carvalho (1899-1973) no Clube dos Artistas Modernos. O Museu de Arte de São Paulo (Masp) organizou três exposições de obras do Juquery, a primeira em 1948, outra em 1954 e, com o acervo doado por Osório Cesar, a mais recente, em 2015.

Osório Cesar cresceu em meio à música em João Pessoa, capital da Paraíba. Neto de um maestro de bandas que incentivava os moradores a ouvirem ópera, sobrinho de um violonista e compositor de valsas e filho de um regente de coral e professor de teoria musical, ele ganhou dinheiro como violinista e professor de violino para se manter enquanto estudava odontologia em São Paulo, de 1912 a 1916. Depois ele cursou medicina no Rio de Janeiro e começou a trabalhar em 1925 no Juquery como médico-assistente do laboratório de anatomopatologia.

ViolinistA e A n AtomistA Ele era um dos responsáveis pelas autópsias, por meio das quais se procurava associar eventuais alterações cerebrais ao desequilíbrio mental. Restaram cerca de 200 cérebros e outras peças anatômicas de pacientes das décadas de 1920 e 1930, mantidas em vidros com formol em prateleiras de madeira em seis salas de um dos prédios do Juquery; logo à entrada de uma delas está um cérebro de um paciente de 35 anos com microcefalia em data não registrada. Em uma sala em frente está outro material pouco explorado: os livros de autópsias de 1921 a 1979 e dezenas de caixas empilhadas com cerca de 5 mil negativos fotográficos em vidro.

Logo depois de chegar ao Juquery, Osório Cesar observou que os pacientes desenhavam no chão e nas paredes ou faziam esculturas com miolo de pão. “Ele se admirou com a proximidade

dos trabalhos com a arte moderna, valorizando o trabalho dos pacientes”, conta Elizabeth. Na Alemanha, o efeito foi inverso, ela observa. Os nazistas usaram a proximidade da então chamada arte dos loucos com a arte moderna para combater a arte moderna, vista como indesejável e prejudicial ao povo. Segundo Elizabeth, o médico brasileiro acreditava que a expressão artística dos denominados alienados “era uma necessidade indispensável à vida de enclausuramento a que estavam submetidos, possibilitando que se refugiassem em um mundo de beleza”.

Em 1929 Osório Cesar publicou seu primeiro livro, A expressão artística nos alienados, no qual analisava desenhos, pinturas, esculturas e poesias de pacientes do Juquery à luz da psicanálise. “O louco não é um indivíduo desprezível que mereça desinteresse da sociedade”, ele escreveu. “Dentro do seu mundo circundante e do seu ‘eu’ interior, tem seu ponto de vista anormal. Fora daí é um homem tão perfeito como qualquer outro.”

O livro “foi uma obra de referência obrigatória não só para aqueles que se dedicavam à psiquiatria, mas também para a intelectualidade de nosso país”, comenta Maria Heloisa em seu livro. Psiquiatras de São Paulo e do Rio de Janeiro o incentivaram a prosseguir em seus estudos. Desde 2015 examinando os prontuários de pacientes, João Fernando Marcolan, professor de enfermagem psiquiátrica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), encontrou registros de médicos encaminhando pacientes para as aulas de arte, indicando que os benefícios dessas atividades eram reconhecidos no final da década de 1920.

Acolhido entre intelectuais e artistas, Osório Cesar conheceu escritores como Mário de Andrade e artistas como Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral,

com quem viveu e viajou para a Europa. “Osório Cesar foi um divulgador da produção dos modernistas na Europa”, disse Rodrigo Lopes de Barros Oliveira, professor de literatura latino-americana na Universidade de Boston, nos Estados Unidos, em uma apresentação realizada na USP em 1º de setembro. Em julho de 1931, argumenta Oliveira, Osório Cesar enviou de Leningrado, Rússia, uma carta para Mário de Andrade, pedindo que o escritor mandasse com urgência os livros dele para o crítico e tradutor russo David Vygodski (18931943), que estava reunindo a produção literária da América do Sul e ainda não tinha nada do Brasil.

Desafiando os conceitos clássicos da época sobre o que era arte e quem poderia ser artista, Osório Cesar considerava artistas os internados do Juquery que pintavam e esculpiam. Eram mesmo? “O fato de serem chamados de loucos e estarem internados não impedia que fossem artistas, mas também não garantia que fossem”, diz Elizabeth. “Osório Cesar avaliava as obras a partir de sua qualidade estética, não do estado psíquico das pessoas que as haviam criado.”

Havia controvérsia. Em uma conferência no encerramento da exposição de trabalhos do Centro Psiquiátrico Nacional, organizada por Nise da Silveira no Rio de Janeiro em 1947, o crítico de arte pernambucano Mario Pedrosa (1901-1981) atribuiu o estranhamento até mesmo de artistas de vanguarda a “um resto de preconceito intelectua-

registro funcional de

)

Osório Cesar, em 1937 (acima), e retrato de Freud feito por um dos pacientes, istvan Csibák (abaixo

lista” e a uma “noção de certo modo anacrônica da questão”. Segundo Elizabeth, a interação de Mário Pedrosa e Nise da Silveira facilitou a aceitação de artistas que viveram em hospitais psiquiátricos. Um dos mais conhecidos é o sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). Hoje, uma de suas obras integra a exposição The keeper, em cartaz até setembro no New Museum, de Nova York. A arteterapia foi sistematizada pela psicóloga norte-americana Margareth Naumburg (18901983) e pelo artista inglês Adrian Hill (1895-1977) na década de 1940. Atualmente no Brasil as atividades artísticas são utilizadas principalmente para promover a integração social e o enriquecimento cultural de pessoas com distúrbios mentais e dos profissionais da saúde que os assistem, indica um estudo de uma equipe da FM-USP publicado em janeiro deste ano na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Responsável pelo levantamento, a terapeuta ocupacional Ana Tereza Galvanese acompanhou 126 atividades desse tipo promovidas por 21 Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) da cidade de São Paulo e verificou que as chamadas oficinas de arte e cultura abrangem não só a produção artística, mas também visitas a museus, música, dança, cinema, vídeo, fotografia e jogos dramáticos, dentro e fora das unidades de atendimento.

Em um artigo na Psychology and Psycotherapy de junho de 2016, pesquisadores da Universidade de Sheffield, Inglaterra, reconhecem a utilidade da produção artística como estratégia de tratamento em saúde mental, destacam a importância de o próprio paciente escolher a forma com que deseja ser tratado (por medicamentos ou por arteterapia), alertam para a necessidade de os profissionais selecionarem as estratégias mais adequadas para cada paciente.

e m tr A ns F orm A ção

Projetado pelo arquiteto Francisco Ramos de Azevedo e construído em 1898 no atual município de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, o Juquery foi um lugar assustador. Apesar de iniciativas como a de Osório Cesar para criar espaços amigáveis, há relatos de pacientes nus abandonados nos pátios e de outros que morriam logo após serem internados, em geral por desinteria, refletindo o descaso com que eram tratados. Há um ano Marcolan explora com deslumbramento crescente o ainda pouco estudado acervo de 80 mil prontuários dos pacientes internados desde 1895, organizados em uma sala em frente ao museu. Examinando os registros, ele verificou como as internações refletiam os hábitos e valores da sociedade do início do século passado.

Hospital central do Juquery no início do século XX

prédio da diretoria, ainda sem restauração após o incêndio de 2005

“Era comum a internação de mulheres com comportamento considerado inaceitável, como querer ir a bailes desacompanhadas, desejar se divertir ou ter perdido a virgindade sem estarem casadas”, ele conta. “No início do século XX, boa parte dos internados era de negros, considerados vagabundos e degenerados, devido à crença na eugenia, de purificação da raça. O simples fato de ser negro e não ter trabalho já era motivo de internação por vadiagem.” Marcolan encontrou registros dos internados por razões políticas durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), mas não localizou ainda os prontuários da época dos governos militares (1964-1985).

A situação começou a mudar a partir da década de 1980, com a redefinição das normas de tratamento psiquiátrico, valorizando a desinternação, e a intervenção de médicos apoiados pelo governador André Franco Montoro (1983-1987), que abriram as celas e as alas mais degradantes, das quais os internados só saíam quando morriam. Hoje, mais da metade do terreno é ocupada pelo Parque Estadual do Juquery, como forma de preservar as raras matas nativas de Cerrado. As equipes de serviços da prefeitura e do governo estadual ocupam nove dos 60 prédios, em geral cercados de árvores e gramados. Um hospital de traumas ocupa um prédio novo, concluído em 2011, e um centro de atendimento integral à saúde mental, com leitos para internação por até 45 dias, funciona em um dos antigos pavilhões, com 1.500 metros quadrados.

Em seis pavilhões ainda moram 123 pacientes, a maioria com esquizofrenia ou deficiência intelectual, com, em média, 60 anos de idade e 35 de internação. Sem famílias ou espaços exter-

nos adequados, são “remanescentes do modelo de internação de longa duração”, afirma o farmacêutico Glalco Cyriaco, diretor do complexo hospitalar do Juquery desde 2010, quando havia 260 residentes. Ele acredita que em alguns anos não haverá mais nenhum paciente morador no Juquery.

A maioria dos 60 prédios está fechada e desocupada, às vezes com paredes exibindo rachaduras ou largas manchas de bolor – o prédio da diretoria continua sem restauração após ter sido destruído por um incêndio em 2005 –, aguardando a definição de novos usos. Segundo o arquiteto Pier Paolo Bertuzzi Pizzolato, diretor do núcleo de acervo, o Plano Diretor prevê a ocupação da maior parte dos prédios hoje vazios por uma universidade pública e a construção de um hospital de reabilitação física de pacientes que necessitam de internação prolongada. O projeto de renovação, ainda sem financiamento, prevê também a construção de jardins com árvores frutíferas e canteiros de flores nos antigos pátios murados entre os pavilhões do hospital psiquiátrico. n

Artigos científicos

1. GALvANESE, A. T. C. et al. Arte, saúde mental e atenção pública: Traços de uma cultura de cuidado na história da cidade de São paulo. história, Ciências, saúde – manguinhos. v. 23, n. 2, p. 431-52. 2016.

2. SCOpE, A. et al. A qualitative systematic review of service user and service provider perspectives on the acceptability, relative benefits, and potential harms of art therapy for people with non-psychotic mental health disorders. psychology and psycotherapy On-line. 2016.

Livros

LiMA, E. A. Arte, clínica e loucura: Território em mutação. São paulo: Summus Editorial/FApESp. 2009.

FErr AZ, M. H. C. de T. Arte e loucura: Limites do imprevisível. São paulo: Lemos Editorial. 1998.

Leis no

feminino

Estudo da atuação de uma clínica de assistência à mulher recupera a história dos direitos reprodutivos no Brasil

Um período de cerca de 35 anos separa as primeiras articulações de setores da sociedade brasileira em favor de políticas relacionadas à regulação da fecundidade e os dias de hoje, em que as reivindicações se efetivaram, pelo menos parcialmente, na forma de leis e serviços oferecidos pelas redes públicas de saúde. “Houve um avanço notável nessas quase quatro décadas”, diz a psicóloga Margareth Arilha, pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A primeira reivindicação atendida, segundo a antropóloga Andrea Moraes Alves, professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi a criação, em 1983, do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (Paism).

Uma importante inflexão do período foi a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) instaurada no Congresso em 1992 e encerrada em 1993, para investigar denúncias de esterilização em

massa de mulheres no Brasil que teriam sido promovidas, entre outras instituições, pelo Centro de Pesquisas de Assistência Integrada à Mulher e à Criança (CPAIMC), entidade privada do Rio de Janeiro. O inquérito terminou inconcluso quanto a essas acusações, mas teria marcado uma guinada histórica que influenciou o teor da Lei de Planejamento Familiar (1996), de acordo com Andrea.

“A denúncia contra o CPAIMC, capitaneada por parlamentares, entidades feministas e especialistas na área da saúde e de estudos populacionais, contribuiu para a promoção do conceito de direito reprodutivo das mulheres, então discutido na sociedade, mas ainda não estabelecido legalmente”, afirma a pesquisadora, que analisou o desenrolar da CPMI na pesquisa “A trajetória do CPAIMC: A introdução da esterilização feminina no Brasil”. Além do acompanhamento das sessões parlamentares e seu contexto, o estudo percorreu a trajetória do fundador e diretor do centro, o médico Helio Aguinaga, entrevistado

por Andrea em 2013, aos 97 anos. Ele morreu dois anos depois.

O CPAIMC foi criado em 1974 por um grupo de médicos, enfermeiros e assistentes sociais do Hospital São Francisco de Assis, no Rio, e registrado no ano seguinte como “sociedade civil sem fins lucrativos”. Os recursos financeiros vieram, de início, do Fundo da População das Nações Unidas e em seguida da agência do governo norte-americano para ajuda internacional (USAID) e de várias organizações internacionais, sobretudo dos Estados Unidos. Nessa época, o grande debate internacional sobre controle da natalidade tinha como motor a preocupação com a então chamada “bomba populacional” – a ideia, baseada em projeções estatísticas, de que o crescimento do número de habitantes do planeta superaria a capacidade de geração de alimentos para todos.

No Brasil, o pensamento nas fileiras do regime militar se dividia entre os que abraçavam essa ideia e os que consideravam as grandes taxas de fecundidade locais oportunas para fazer a ocupação

Márcio Ferrari

do território nacional. Nos órgãos de representação da comunidade médica das instituições privadas, segundo Andrea, havia uma forte tendência de privilegiar a perspectiva da saúde pública, com o argumento de que o controle da natalidade contribuiria para o bem-estar da população, principalmente das mulheres, que deveriam ter filhos apenas quando quisessem. Para a Igreja católica, então mais influente do que hoje, é responsabilidade dos casais regular a fertilidade por meios “naturais”, para não terem filhos sem condições de criá-los, mas considerava contrário à natureza qualquer método de contracepção artificial. Segundo Andrea, a presença estrangeira – bastante explorada na CPMI como “ingerência externa” – tinha como principal motivação o interesse em desarmar a “bomba populacional” onde parecia mais perigosa, os países em desenvolvimento (na Europa, as taxas de fecundidade estavam caindo), e o temor, em tempos de Guerra Fria, de que o aumento do número de miseráveis viesse a dar

sustentação a movimentos de insurgência de orientação comunista. O objetivo declarado das doações de entidades internacionais era humanitário: promover o controle da natalidade para favorecer a qualidade de vida da população. Um dado objetivo ajudou a mudar o foco da discussão: a queda abrupta da taxa de fecundidade no Brasil, que passou de 5,8 filhos por mulher, em 1970, para 4,4, em 1980, e 2,9, em 1990. As práticas de esterilização, entretanto, continuaram.

“Com a expansão das atividades do CPAIMC em favelas da cidade do Rio de Janeiro, começaram a surgir denúncias de ações praticadas nos postos comunitários”, conta Andrea. A atuação do centro se apoiava em convênios com as administrações municipais e na criação de polos autônomos nas comunidades pobres. Em 1984, o jornal O Globo noticiou o fechamento de uma unidade da instituição que funcionava dentro de uma escola municipal no bairro de Acari, por incompatibilidade entre a atividade médica e a educacional. Uma moradora de baixa renda do bairro se disse coagida a submeter-se à cirurgia de esterilização. Na ocasião, Aguinaga declarou ao jornal: “O que nós queremos é trazer melhorias para essas pessoas que vivem mal, em condições sub-humanas.” Em 1986, o Ministério da Saúde suspendeu os testes do anticoncepcional Norplant realizados pelo centro entre mulheres pobres. Durante os debates para a redação da Constituição de 1988, Aguinaga se dedicou a uma campanha pessoal pela inclusão do planejamento familiar no

No inquérito parlamentar, em 1992, surgiu a suspeita de eugenia, com a suposta esterilização em massa de mulheres negras

texto constitucional. As argumentações públicas do médico, que continuavam vinculando o tema às condições de desenvolvimento do país, começaram a ser abertamente contestadas pelos defensores da perspectiva individual dos direitos de reprodução. Essa era a orientação unânime das organizações feministas, que tiveram uma vitória com a aprovação do texto do artigo 226 da nova Constituição, segundo o qual o planejamento familiar é “de livre decisão do casal” e fica “vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas”. Três anos depois, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro abriu uma CPI sobre esterilização de mulheres no estado, e Aguinaga foi convidado a depor. Ainda em 1991, isolado e sem apoio financeiro, o CPAIMC fechou suas portas.

OM issã O DO E sta DO

Nas investigações parlamentares foi levantada a suspeita de que as atividades do CPAIMC se orientavam por propósitos eugenistas, dados os indícios de que a “esterilização em massa” visava prioritariamente às mulheres negras. A CPI estadual recomendou, em seu relatório final, a abertura de inquérito parlamentar em âmbito federal, que foi solicitada pela deputada federal Benedita da Silva e pelo senador Eduardo Suplicy, ambos do PT. Benedita, identificada com o feminismo e o movimento negro, assumiu a presidência da comissão mista. Disputas acerca de metodologia estatística sobre a proporção de mulheres negras entre as esterilizadas deixaram em aberto as

conclusões relacionadas às acusações de eugenia. O relatório final da CPMI constatou alta incidência (44%) de esterilizações cirúrgicas “em detrimento de alternativas contraceptivas menos invasivas” e apontou “omissão do governo brasileiro” por não investigar as iniciativas privadas de controle da natalidade. Margareth Arilha, que esteve presente a algumas das etapas cruciais de mudança de perspectivas, como a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, em 1994 no Cairo, localiza as origens da construção do conceito de planejamento familiar como direito individual no crescimento dos movimentos feministas no Brasil no final dos anos 1970, período de distensão da ditadura militar. “Muitas feministas voltaram do exílio trazendo um debate em torno da máxima ‘nosso corpo nos pertence’”, diz Margareth. Outro marco importante, segundo a pesquisadora, foi a criação do Conselho da Condição Feminina em São Paulo, na gestão de André Franco Montoro, o primeiro governador eleito por voto direto, em 1982, desde a instalação do regime militar.

Duas conferências internacionais sobre população são destacadas como momentos históricos por Cristiane da Silva Cabral, docente do Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora do Nepo. “A conferência de Bucareste, em 1974, concluiu que o melhor contraceptivo é o desenvolvimento, e a do Cairo, em 1994, definiu a reprodução como direito humano fundamental”, diz ela.

A Constituição de 1988 e a Lei de Planejamento Familiar de 1996 seriam consolidações dessas iniciativas. Para a aprovação da lei, houve uma negociação com os setores mais conservadores do Congresso e da sociedade, o que resultou em restrições ao acesso à esterilização cirúrgica, entre elas a condição de que a mulher tenha mais de 25 anos ou dois filhos e a necessidade da autorização do cônjuge. “Mesmo assim, a lei é satisfatória ao garantir acesso amplo e legal a métodos contraceptivos”, afirma Cristiane. n

Artigo

ALVEs, A. M. A trajetória do Centro de Pesquisas e Atenção Integrada à Mulher e à Criança (1975-1992). século XXi, revista de Ciências sociais. v. 4, p. 180-216. jul./ dez. 2014.

Filósofa alemã participa, em 1969, de palestra em Nova York: críticas ao sistema educacional norte-americano

A criança mundo e o

Pesquisa relaciona reflexões de

Hannah arendt sobre o ensino com conceitos de sua obra política

Afilósofa alemã Hannah Arendt (19061975) escreveu apenas um ensaio sobre educação em meio a uma obra eminentemente política. O texto, intitulado “A crise na educação” (1958), publicado no Brasil em 1974 no livro Entre o passado e o futuro, contesta as orientações de ensino tidas como as mais avançadas à época por pedagogos e educadores nos Estados Unidos, onde a pensadora vivia. Hannah Arendt ia intencionalmente na contramão do que se pensava ao defender um sistema educacional que não se voltasse acima de tudo para a prática, mas sim para a tarefa de apresentar à criança um legado cultural de realizações históricas. “A filósofa mostra que mudar métodos não resolve o problema da educação se não houver uma discussão sobre sua própria substância”, explica Celso Lafer, professor emérito da Faculdade de Direito da USP e ex-presidente da FAPESP.

“A função da escola é ensinar às crianças como é o mundo, e não instruí-las na arte de viver”, afirma um trecho do ensaio em referência ao movimento Escola Nova, que tem no filósofo pragmatista norte-americano John Dewey (18591952) seu nome mais importante. Essa vertente educacional ficou conhecida por propor “uma educação para a vida”. Segundo a professora Carlota Boto, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), “o texto de Arendt é uma referência importante pela crítica que faz aos modismos da educação e por apontar alguns equívocos que estavam em voga, como só valorizar em sala de aula o que a própria criança criou”.

Oensaio da filósofa alemã apresenta vários desafios. “As reflexões presentes no ensaio sobre educação são intricadas e pressupõem uma razoável familiaridade do leitor com a complexa teia conceitual de que ela se vale em seus escritos políticos”, afirma José Sergio Fonseca de Carvalho, professor da FE-USP. Investigar tais relações na obra da autora, e assim entender em maior profundidade seu pensamento sobre educação, tem sido o objetivo dos estudos do pesquisador há 15 anos. O mais recente, sua tese de livre-docência “Educação: uma herança sem testamento” (2013), deve sair em livro até o início de 2017, com o mesmo título, pela editora Perspectiva. “Meu trabalho não procura apresentar soluções técnicas, mas pôr em questão a própria razão de ser do processo educativo”, diz Carvalho, em consonância com a afirmação da filósofa de que a relação entre crianças e adultos “não pode ficar restrita à ciência específica da pedagogia” porque “diz respeito a todos”.

Ao procurar uma compreensão mais profunda da dicotomia entre os conceitos de mundo e vida apresentada por Arendt em “A crise na educação”, o pesquisador encontrou a distinção entre domínio público e privado em obras como A condição humana (1958) e O que é política? (1955). No âmbito privado, caberia aos cuidados destinados à criança dar conta das atividades de sobrevivência e manutenção da vida, enquanto a escola exerceria a função de imortalizar e superar uma herança recebida do mundo. “Para Hannah Arendt, é assim que a formação e a experiência educativas

aula numa escola de são Paulo: adultos devem transmitir o legado da humanidade

ganham um sentido público, e não no preparo do indivíduo para a inserção na economia”, explica Carvalho. Segundo a especialista em psicologia escolar Maria Helena Patto, do Instituto de Psicologia da USP, a filósofa defende nesse ponto do texto que a tarefa de adaptação à sociedade que as escolas muitas vezes se atribuem “é antes uma deformação do que uma formação”.

Arendt rejeitava a ideia de uma educação a serviço de qualquer finalidade política. “Ela denunciou a instrumentalização da educação para fins políticos e a ideia de que caberia aos educadores preparar as crianças para uma ideia predefinida de cidadania”, diz Yara Frateschi, professora do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp). “Isso pode sempre ocultar o desejo de tirar das mãos das novas gerações a possibilidade de criar o novo.”

A crise na educação referida no título do ensaio não tem por consequência necessária um desastre, como a filósofa

adverte no texto. Crises, escreveu ela, são situações em que se perderam as respostas aceitas anteriormente, mas sem que a sociedade perceba quais eram as questões que pediam essas respostas. Dessa forma, diz Carvalho, o “mundo moderno não se mantém coeso nem pela tradição nem pela autoridade, das quais a educação, segundo Hannah Arendt, não pode abrir mão”. Segundo a filósofa, as crises nos forçam a regressar às questões originais. A complexidade da situação da educação contemporânea, diz ela, é que se trata de um prolongamento de uma “crise do mundo moderno”. Yara explica que essa perda da tradição é uma preocupação da filósofa provocada pelo impacto de seus estudos sobre o totalitarismo nazifascista. “Sua obra é uma busca incansável dos motivos que teriam levado a humanidade a um grau de barbárie que todos os recursos teóricos disponíveis são insuficientes para explicar”, diz a pesquisadora.

O mundo a que se refere a filósofa em seu ensaio não corresponde ao planeta Terra, nem mesmo à esfera pública por

mera contraposição ao espaço privado. “É antes uma criação do artifício humano, um legado ao qual os recém-chegados devem ser iniciados por meio da educação”, explica Carvalho. No processo educacional, essa iniciação levará o legado público a se tornar um legado de cada criança, “transformando o que lhe pertence por direito em algo que lhe pertence de fato”.

Um conceito da obra de Arendt articulado a sua concepção da escola é o de amor mundi, que ela desenvolveu a partir de sua tese de doutorado sobre a ideia de amor na filosofia de Santo Agostinho (354-430), defendida na Universidade de Heidelberg (Alemanha) em 1928. Amor ao mundo é o que se espera dos educadores ao transmitir e se responsabilizar pelo legado humano. Segundo Carvalho, isso tem três implicações: compartilhar o apreço pelo esforço da humanidade em imortalizar sua existência mortal, criar a sensação de pertencimento e recepcionar as crianças a um

para a filósofa, a mudança de métodos é inútil se a própria razão de ser da educação não for discutida

mundo “em que se sintam confortáveis, mas não muito”. O “não muito” produziria um incômodo que seria o motor da ação, até mesmo a ação revolucionária.

Para que se realize a inclusão da criança em um mundo pelo qual ela ainda não pode se responsabilizar, é indispensável que os adultos tomem as rédeas, na escola ou fora dela. “Mesmo que não gostem do mundo como ele é, os adultos não podem, na tarefa educativa, abrir mão de se responsabilizar por ele como herança”, afirma Carvalho. “Se não tivermos enraizamento no passado, que é o que define nossa humanidade, seremos seres rasos, que vivem apenas no presente, como mais uma peça de uma engrenagem.”

Sobre essa missão, Arendt afirma que “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele”. Tal responsabilidade é necessária porque, de acordo com a filósofa, o mundo não é das crianças, mas dos adultos. “Ela argumenta que um grupo de crianças deixadas livres para fazer o que quise -

rem cria uma tirania de muitos contra poucos, cujo exemplo claro é a prática do bullying”, diz Lafer.

Na origem do papel dinâmico da educação na história humana, estaria, para Fonseca, a noção de natalidade, que Arendt também desenvolveu a partir de Agostinho e que está presente em A condição humana. “O significado e a natureza da educação, para Arendt, decorrem do fato de que o nascer de cada criança representa, simultaneamente, que há um novo ser no ciclo vital da natureza, mas que há também um ser novo no mundo dos homens”, diz Fonseca. A simultaneidade pode ser desdobrada, à luz do pensamento da filósofa, em dois momentos: a do nascimento biológico e a do nascimento para o mundo, função da escola.

Hannah Arendt propunha uma separação radical entre os domínios da educação e da política. “Ela sustentava que a educação se inscreve num âmbito pré-político, por dever salvaguardar os novos de assumir uma responsabilidade pelo mundo que ainda não podem assumir”, esclarece Adriano Correia Silva, professor de filosofia da Universidade Federal de Goiás (UFG). Em consequência, a pensadora afirmava que “é preciso proteger a criança do mundo e o mundo da criança”. Para isso, é indispensável que o educador detenha uma autoridade – definida por Lafer como “mais que um conselho e menos do que um comando” – que só se alcança por meio do respeito despertado nos alunos pela responsabilidade que a escola deve abraçar. “A proteção tem de ser retirada gradualmente”, diz Carvalho. “Isso é o processo educacional.” n Márcio Ferrari

Raízes da genética no Brasil

Ensino do mendelismo começou

nas escolas de agronomia de São Paulo na década de 1910, com Carlos Teixeira Mendes

Rodrigo de Oliveira Andrade

Aulas de Mendes sobre genética mendeliana na Esalq baseavam-se em sua tese de cátedra, apresentada em 1917

Aredescoberta por cientistas europeus dos trabalhos do monge austríaco Gregor Mendel (1822-1884), em 1901, sobre a transmissão de características em ervilhas ampliou as possibilidades de pesquisa em uma então nova e promissora área da biologia moderna, a genética. A partir daquele começo de século, pesquisadores de várias partes do mundo se voltaram para os estudos sobre hereditariedade e variabilidade genética em espécies animais e vegetais. No Brasil, as ideias de Mendel começaram a ser disseminadas em fins dos anos 1910 por meio das atividades de ensino e pesquisa do agrônomo paulista Carlos Teixeira Mendes (1888-1950), professor da Escola Agrícola Prática de Piracicaba, à época vinculada à Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.

Em 1934, ela se tornou uma das unidades da nascente Universidade de São Paulo, já com o nome de Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP).

Em 1918, quatro anos após voltar de uma temporada de estudos no Instituto Nacional de Agronomia de Grignon, França, e reassumir suas funções como professor na Escola Agrícola, Mendes proferiu suas primeiras palestras sobre genética mendeliana nos cursos de agronomia e de zootecnia, este último coordenado por seu ex-aluno Otávio Domingues (1897-1972), que viria a ser um dos divulgadores das leis de Mendel no Brasil e um dos pioneiros na pesquisa de melhoramento genético de animais no país.

As aulas sobre o mendelismo e a nova ciência da hibridização baseavam-se na tese de cátedra de Mendes, apresentada em 1917 como resultado de suas pesquisas nos campos de experimentação da Esalq. Seus estudos lhe permitiram ir além dos clássicos exemplos de transmissão

de características em ervilhas para tratar do melhoramento de culturas importantes para a agricultura brasileira, conforme verificou a historiadora da ciência

Paula Arantes Habib, da Universidade de Brasília (UnB), ao analisar as cadernetas de aulas e livros com anotações de Mendes. “O ensino e a pesquisa envolvendo as leis da hereditariedade na Esalq podem ser compreendidos como o início da institucionalização da genética no Brasil”, afirma. Segundo Paula, Mendes reconhecia o mendelismo como uma teoria válida para o melhoramento de plantas. Ainda assim defendia a seleção empírica como sendo a melhor maneira de desenvolver a agricultura brasileira. O pesquisador considerava essa técnica mais simples que a hibridação mendeliana,

segundo ele, inviável para a criação e estabilização de variedades satisfatórias de plantas para serem cultivadas em larga escala. A seleção empírica consistia basicamente na escolha e no cruzamento das melhores sementes da colheita. Requeria, para isso, que o selecionador soubesse escolher qual a melhor semente possível do ponto de vista do fenótipo (característica que pode ser visível), e não do genótipo (composição genética). Além disso, essa técnica poderia ser ensinada facilmente aos pequenos agricultores.

Os trabalhos de Mendes na Esalq abriram caminho para que quase 10 anos depois, em 1928, a genética passasse a ser empregada pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) no melhoramento de produtos como café e milho, ou na adaptação de outras sementes, como as de trigo e cevada, ao ambiente brasileiro.

Com a criação da USP, a atividade de pesquisa em genética recebeu um novo impulso. André Dreyfus (1897-1952), médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi o responsável pela

No Brasil, geneticista alemão Friedrich Brieger elaborou um ambicioso programa de pesquisa em genética

criação de um núcleo de estudos de genética na nova universidade. Sob sua orientação, formaram-se no Departamento de Biologia Geral da USP muitos pesquisadores interessados em citologia e genética, entre eles Crodowaldo Pavan (1919-2009), outro membro importante do grupo que ajudou a institucionalizar a genética no Brasil (ver Especial Crodowaldo Pavan em Pesquisa FAPESP nº 168). Anos mais tarde, Dreyfus se articularia com a Fundação Rockefeller para trazer ao país o russo naturalizado norte-americano Theodosius Dobzhansky, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, introdutor do estudo da genética das drosófilas (a mosca-da-fruta) no Brasil. Em 1936, em um novo esforço de institucionalização da pesquisa em genética no país, a Esalq convidou o geneticista alemão Friedrich Gustav Brieger (1900-1985) para organizar um departamento de genética na instituição. Poucos anos antes, Brieger havia trabalhado no Instituto Kaiser Wilhelm, Alemanha, com Carl Correns, um dos cientistas que redescobriram os escritos de Mendel (ver Pesquisa FAPESP nº 239). Brieger aceitou o convite e, com a ajuda da Fundação Rockefeller, elaborou um ambicioso programa de pesquisa em genética das plantas e um intercâmbio com estudiosos estrangeiros. “Esses cientistas atuaram no debate científico nacional de forma a contribuir para a discussão, divulgação e institucionalização da genética no Brasil”, conclui Paula. n

Antiga Escola Agrícola de Piracicaba

A biografia política de Caio Prado Jr.

Iumatti

Caio Prado Júnior:

Uma biografia política

Luiz Bernardo Pericás

Boitempo

504 páginas | R$ 63,00

No livro Caio Prado Júnior: Uma biografia política, Luiz Bernardo Pericás, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), procura dar uma nova interpretação para a trajetória do historiador, filósofo e editor Caio Prado Jr., com ênfase em sua dimensão política. Nela, fica ressaltada a fidelidade do intelectual aos autores clássicos do marxismo – Marx, Engels e Lenin – e ao comunismo (para Pericás, Caio Prado foi um pensador livre e heterodoxo e, nisso, mais fiel aos “clássicos” do que muitos de seus interlocutores). Destaca-se o detalhamento factual de episódios ou – e aqui está, talvez, sua maior contribuição – de fases inteiras da vida de Caio Prado, relacionados a sua militância e a outros eventos até hoje ignorados ou pouco valorizados pelos estudiosos: suas viagens a países socialistas; as várias prisões; o exílio no Chile; a atuação em diversas organizações; e as muitas intervenções em palestras, cursos e eventos de todo tipo etc. Ao mesmo tempo, o autor esmiúça todo um universo de relações intelectuais, políticas e mesmo familiares.

Em relação aos anos de 1920 a 1940, a biografia faz leituras seletivas (o autor optou, por exemplo, por não utilizar as partes inéditas dos Diários políticos, bem como outros textos políticos do intelectual), sobressaindo, além do detalhamento de alguns episódios biográficos, a análise da primeira viagem à extinta URSS e o peso dado à leitura que Caio Prado fez dos escritos do intelectual russo Nikolai Bukharin. A maior contribuição da obra diz respeito ao pós-Segunda Guerra (embora não se demore muito na atuação do biografado como parlamentar, em 1947). Com relação ao período, o livro consegue mostrar, para além da idealização, por Caio Prado, os regimes totalitários do “socialismo real”, a importância e a complexidade de suas relações com tais regimes ao longo da vida. Ademais, é relevante a ênfase dada às reações do historiador às revelações de Kruschev e, depois, à repressão à Primavera de Praga.

De uma forma geral, Pericás consegue adentrar o intrincado mundo das concepções políticas, dos debates e do contexto social e ideológico do Caio Prado militante – e, ao mesmo tempo, voz dissonante – do Partido Comunista Brasileiro (PCB),

colaborando para situar traços de seu pensamento político, como sua defesa da “democracia parlamentar” (voltada para a construção do socialismo) e seu conceito de revolução, e evidenciando, noutro plano, suas conexões com intelectuais latino-americanos e do mundo socialista. Nesse sentido, o livro dá subsídio à história do marxismo, abordando algumas interlocuções e parte da recepção internacional das obras de Caio Prado. Procura, por outro lado, transcender tal enfoque, ao inserir o intelectual em meio a certa linhagem marxista nas Américas (Daniel De Leon, José Carlos Mariátegui, Octávio Brandão etc.), para além das evidências efetivas de contato e diálogo.

A escassa ou seletiva atenção à bibliografia secundária é de certa forma compensada pela exploração das fontes primárias. Entre estas, destacam-se os documentos do Fundo Caio Prado Jr. do Instituto de Estudos Brasileiros da USP –onde o autor fez pós-doutorado com bolsa FAPESP. Trata-se do primeiro estudo publicado que se beneficia de forma mais ampla e sistemática da organização quase completa do fundo.

O uso de avultada documentação primária (memórias, “depoimentos” e, em especial, correspondência) merece algumas ponderações. Sem chegar a comprometer as muitas qualidades da obra, é importante notar que, com algumas exceções (os documentos produzidos pela polícia política, por exemplo), não há nela uma reflexão mais detida sobre a natureza das fontes em que se apoia. Documentos como as cartas parecem ser tomados, por vezes, como manifestações excessivamente transparentes. Já em relação aos depoimentos e memórias do próprio biografado, seria interessante levar em conta a possibilidade de racionalizações a posteriori, ainda maior em contextos de luta política.

Tudo isso, porém, não chega a prejudicar as contribuições que o livro, em esmerada edição da Boitempo, traz não só aos estudos sobre Caio Prado, mas também à reflexão sobre o Brasil contemporâneo, no que tange à natureza das nossas instituições e aos impasses das lutas contra as desigualdades sociais e do próprio pensamento de esquerda no país.

Paulo Iumatti é professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

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divulgação CientífiC a

À procura de visibilidade

investir na divulgação de trabalhos na mídia pode ajudar pesquisadores a avançar na profissão e serem reconhecidos por um público mais amplo

Apesar das tensões e da dissonância de ritmos e expectativas, a relação entre cientistas e jornalistas melhorou nas últimas duas décadas no Brasil. Os pesquisadores, aos poucos, reconhecem a importância de se comunicar com públicos mais amplos e também percebem que a divulgação de seus trabalhos na imprensa pode ajudá-los a avançar na carreira, aumentando a visibilidade de suas pesquisas e seu prestígio entre os colegas acadêmicos. Essa foi uma das conclusões de um estudo publicado em março deste ano nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. Nele, a jornalista Luisa Massarani, do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e o cientista social Hans Peters, professor da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, avaliaram as percepções de pesquisadores brasileiros sobre os benefícios de se relacionar mais e melhor com a imprensa.

Luisa e Peters entrevistaram 956 pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento. Verificaram que 66% dos cientistas qualificam como profícua sua

relação com a mídia e que 67% consideram que a divulgação de seus trabalhos na imprensa poderia aumentar a notoriedade de suas pesquisas dentro e fora da universidade. Ao mesmo tempo, constataram que 24% dos pesquisadores entrevistados julgam que a interação com os jornalistas pode ampliar as possibilidades de se conseguir novos colaboradores ou mesmo apoio financeiro para seus projetos, além de atrair a atenção do público para seu campo de investigação. Diante disso, todos reconhecem que deveriam interagir mais com os jornalistas, tomando a iniciativa de comunicá-los sobre o andamento de suas pesquisas e sobre a publicação de artigos em revistas científicas, colocando-se à disposição, sempre que possível, para dar entrevistas e comentar assuntos relacionados à sua área de investigação.

Os resultados do estudo de Luisa e Peters parecem refletir a percepção de cientistas de outros países. Em um artigo publicado em 2015 na revista Journal of Science Communication, pesquisadores da Universidade de Twente, Holanda, avaliaram as percepções de 21 pesquisadores sobre os benefícios de se

comunicar com audiências mais amplas. Os cientistas daquele país consideram que a divulgação de seus trabalhos na mídia, entre outras ações, poderia contribuir para que suas pesquisas influenciem a formulação de políticas públicas. De modo mais amplo, os pesquisadores disseram que investir no aperfeiçoamento da relação com a mídia contribuiria para que as pessoas desenvolvessem uma compreensão mais apurada dos processos de produção do conhecimento científico, amenizando a ansiedade de certos setores da sociedade e de governantes pela obtenção rápida de novos resultados ou técnicas.

menos sensacionalismo

Para que possam tirar proveito dessa interação, os pesquisadores precisam antes aprender a atender às necessidades dos jornalistas, recomenda Marta Entradas, pesquisadora do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconômica e o Território, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, Portugal. Atualmente, ela é bolsista no Programa Marie Curie Fellow na London School of Economics and Political Science, na Inglaterra. Marta tem um histórico de pesquisas em comunicação científica. Foi professora assistente de comunicação de ciência e política científica na University College London, Inglaterra, e educadora na European Network for Science Communication, que ensina cientistas a se comunicar melhor com públicos mais amplos que o acadêmico. Segundo ela, um dos principais problemas que permeia a relação dos pesquisadores com a mídia é a dificuldade de encontrar um reconhecimento por parte dos meios de comunicação de que temas menos sensacionalistas, mas de interesse para

a sociedade, deverão ser também merecedores de cobertura. “A verdade é que a maioria das pesquisas conduzidas em instituições científicas não chega aos meios de comunicação e nem à sociedade”, diz Marta. Há também, segundo Marta, um trabalho que pode ser feito pelas próprias universidades, como a criação de cursos que ensinem pesquisadores a lidar com jornalistas, mantendo-os informados sobre o que estão fazendo. Ao mesmo tempo, ela diz, é importante que os pesquisadores se aproximem das assessorias de comunicação de suas próprias instituições, uma vez que elas frequentemente interagem com os jornalistas e, por isso, podem auxiliar os pesquisadores a lidar melhor com a mídia. Além disso, cada vez mais as assessorias de comunicação valorizam o diálogo direto com o público, por meio de atividades que promovem e dos seus próprios sites e perfis em redes sociais. “O amadurecimento dessas relações poderá significar o reconhecimento da importância da ciência na sociedade e um maior apoio social, político e financeiro”, afirma.

A expansão da mídia on-line também abriu novos caminhos de divulgação para os próprios pesquisadores escreverem sobre ciência. Já se tornou comum cientistas falarem a respeito de seus trabalhos mais recentes por meio de perfis pessoais em redes sociais, blogs ou colunas de jornais e revistas. Ou, ainda, em portais de acesso aberto, como o ResearchGate e o Academia.edu. O físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), é um dos que seguem essa estratégia há algum tempo. Atualmente ele mantém uma página com seus trabalhos no ResearchGate. Com 507 artigos disponibilizados para download, ele acumula mais de 18 mil citações — apenas nessa base de dados — e 26 mil leituras contabilizadas.

Artaxo considera quase como um dever a divulgação mais ampla possível de seus trabalhos científicos, sobretudo pelo fato de serem financiados com recursos públicos. O físico tem uma longa experiência em falar com jornalistas, sempre disposto a dar entrevistas ou a comentar assuntos relacionados a sua área. Além dos mais de 500 trabalhos científicos publicados, o gosto por problemas de importância social o tornou um dos pesquisadores mais requisitados pelos jornalistas para analisar questões ambientais ligadas à poluição atmosférica ou às mudanças climáticas. Para ele, apesar de trabalharem com base em regras e ritmo distintos, cientistas e jornalistas precisam de um diálogo mais intenso e maduro, de modo que o

Do laboratório para a imprensa

investir no aprimoramento da relação com a imprensa e se comunicar com audiências mais amplas pode ser benéfico para a carreira dos cientistas

manter jornalistas informados sobre o andamento de suas pesquisas e a publicação de artigos em revistas especializadas melhora a visibilidade dos papers

e xplicar o trabalho científico de forma clara e direta, evitando o uso excessivo de termos técnicos, ajuda a assegurar a compreensão do que foi dito

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Colocar-se à disposição para dar entrevistas e comentar assuntos relacionados a sua área de investigação pode atrair a atenção do público para campos de investigação menos conhecidos

aproximar-se das assessorias de comunicação de sua própria instituição de pesquisa facilita o contato com a imprensa

falar sobre seus trabalhos mais recentes por meio de perfis pessoais em redes sociais, blogs ou colunas de jornais e revistas amplia a possibilidade de se conseguir novos colaboradores

conhecimento científico chegue à população de forma mais fluida e completa. “Quanto maior o impacto de um determinado trabalho científico na sociedade, mais conhecido será o pesquisador que o fez, tanto pelo público quanto pelos seus colegas na academia”, avalia Artaxo. O astrônomo e astrofísico Augusto Damineli, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, vai na mesma linha: “Se o público tivesse uma percepção positiva do trabalho dos cientistas, teríamos mais apoio político e financeiro para a pesquisa científica no Brasil”. Segundo ele, a divulgação de suas pesquisas na imprensa e os artigos que ele próprio escreveu em diversos veículos de comunicação o ajudaram a ampliar a ressonância de seus trabalhos, inclusive incentivando alguns jovens a ingressar no curso de astronomia. Segundo Luisa Massarani, essa mudança de

percepção por parte dos cientistas no Brasil e na Europa é resultado de um esforço da própria comunidade científica para valorizar a divulgação da ciência. Um exemplo nesse sentido é a publicação, em 1985, pela Royal Society (academia britânica de ciências), em Londres, de um dos primeiros documentos pedindo aos cientistas que se comunicassem mais, e melhor, com a imprensa. “No Brasil, a atuação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tem sido importante para disseminar assuntos de ciência e tecnologia no país, por meio da criação de um Comitê Deliberativo em Divulgação Científica e uma aba no Currículo Lattes [banco on-line de currículos de pesquisadores mantido pelo órgão] que dá visibilidade a ações de divulgação científica feita pelos próprios cientistas”, ela avalia. n rodrigo de o liveira a ndrade

n ovas perspectivas de emprego para pós-graduados

Com o propósito de auxiliar pesquisadores a pensar em novas possibilidades de carreira, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) lançou o Individual Development Plan (bit.ly/1HEKgIe), uma plataforma on-line criada para ajudá-los a examinar suas próprias habilidades, identificar seus interesses, determinar seus valores e, a partir daí, explorar opções de carreira fora da universidade que melhor se adaptem ao seu perfil. A AAAS também lançou um documento com relatos de profissionais de áreas distintas sobre transições de carreiras bem-sucedidas e impulsionadas por motivações diversas (bit.ly/2bzmCSm).

A criação da plataforma se dá em um momento delicado. Um estudo recente da National Science Foundation (NSF), a principal agência de fomento à pesquisa dos Estados Unidos, verificou um aumento do índice de desemprego naquele país entre indivíduos que recém-concluíram o doutorado em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Stem, em inglês). Paralelamente, apenas 16% dos que terminaram o doutorado em áreas de ciência, engenharia e saúde conseguiram se estabelecer em universidades ou centros de pesquisa. Esse cenário está fazendo com que profissionais da pesquisa repensem suas carreiras e considerem mudar de área, arriscando-se em setores que não têm a ver diretamente com ciência e tecnologia. De acordo com o estudo da NSF, ao procurar emprego, os candidatos devem levar em conta que a experiência adquirida durante o mestrado e o doutorado gerou habilidades que os tornam qualificados para uma série de cargos também fora das atividades de pesquisa. n r .o.a .

Defensora dos cítricos

Bióloga abre empresa de fertilizantes contra pragas do campo com base em 16 anos de pesquisas sobre a Xylella fastidiosa

A bióloga Simone Picchi decidiu a que iria se dedicar em fins de 1997, ao visitar um dos laboratórios do Centro de Biologia Agrícola da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba. Então no último ano do curso de biologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, ela ficou fascinada pelas técnicas de cultura de tecidos e de biologia molecular desenvolvidas por lá. Antes de partir, pediu estágio à engenheira-agrônoma Helaine Carrer, à época responsável pelo laboratório, que pouco depois integrou a Rede de Organização para o Sequenciamento e Análise de Nucleotídeos (Onsa, em inglês), criada pela FAPESP para sequenciar o genoma da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da clorose variegada dos citros (CVC), o “amarelinho”, praga que ataca os laranjais. Simone conseguiu o estágio, e a partir daí se envolveu cada vez mais com os estudos sobre a Xylella. De 1999 a 2006 fez mestrado e doutorado em agronomia genética e melhoramento de plantas na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, em Jaboticabal. Em 2009, ela foi para os Estados Unidos, onde trabalhou com bacteriófagos, um tipo de vírus que ataca bactérias, durante um estágio de pós-doutorado na Escola de Medicina Veterinária da Universidade Cornell. A pesquisa foi feita no âmbito de uma parceria entre a universidade e a empresa Geneweave Biosciences.

“Foi então que comecei a ter uma visão mais empresarial sobre minha própria pesquisa”, ela conta. Em 2010, de volta ao Brasil, Simone começou um novo estágio de pós-doutorado no Centro de Citricultura Sylvio Moreira do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), na área de biofilme bacteriano, sob supervisão da bióloga Alessandra Alves de Souza, que estudava uma molécula chamada N-acetilcisteína (NAC) como uma possível alternativa sustentável de controle do amarelinho. A NAC é um composto usado para reduzir a secreção nasal e desobstruir as vias respiratórias, sendo inofensivo para o meio ambiente (ver Pesquisa FAPESP nº 214). “Após infectar a planta, a Xylella forma um biofilme que une a comunidade de microrganismos invasores”, explica. “Pensamos que romper esse biofilme no início de sua formação com a NAC seria uma forma de combater a doença.” Os experimentos renderam bons resultados e Simone resolveu ampliar o uso da NAC também no combate à bactéria Xanthomonas citri subsp. citri, causadora do cancro cítrico. Além de seguir desenvolvendo suas pesquisas na área de genética e microrganismos no IAC, Simone abriu a CiaCamp, empresa voltada à pesquisa e ao desenvolvimento de fertilizante à base de NAC para ser usado na citricultura como uma alternativa sustentável no manejo de doenças fitopatogênicas. Recentemente a empresa conseguiu financiamento da FAPESP por meio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe). “O objetivo é levar o conhecimento gerado na pesquisa para o produtor”, define a pesquisadora. n r .o.a .

JÁ PENSOU EM FAZER MESTRADO OU DOUTORADO?

Conheça os Mestrados e Doutorados da ESPM:

- Mestrado e Doutorado em Comunicação e Práticas do Consumo - PPGCOM

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Mestrado e Doutorado

INSCRIÇÕES ABERTAS espm.br/doutoradoemestrado

FAPESP

oferece recursos

para Pesquisa em Pequenas Empresas em São Paulo

Chamada de Propostas para o Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE)

As solicitações de financiamento devem apresentar projetos de pesquisa a serem desenvolvidos em duas etapas:

Fase 1 viabilidade tecnológica de produto ou processo. Duração máxima: 9 meses. Recursos: até R$ 200 mil

Fase 2 desenvolvimento de produto ou processo inovador. Duração máxima: 24 meses. Recursos: até R$ 1 milhão

Condições para participação

n O proponente deve ser pesquisador vinculado a empresas com até 250 empregados e unidade de P&D no Estado de São Paulo

As normas para submissão de propostas estão disponíveis em fapesp.br/pipe

n O proponente deve demonstrar conhecimento e competência técnica no tema do projeto

n A empresa não precisa estar formalmente constituída na submissão da proposta

n A empresa deve oferecer condições adequadas para o desenvolvimento do projeto de pesquisa

A FAPESP reservou até R$ 15 milhões às propostas consideradas meritórias nesta chamada

Data-limite para apresentação de propostas 31 de outubro de 2016

TIR e s U as DÚVID as

Participe do “Diálogo sobre apoio à pesquisa para inovação na Pequena Empresa”, reunião organizada pela FAPESP, CIESP, ANPEI e SIMPI para esclarecimentos sobre a Chamada de Propostas

30 DE SETEMBRO DE 2016 das 9h às 12h na sede da FAPESP

INSCRIÇÕES

fapesp.br/eventos/ dialogo42016

Previsão de divulgação do resultado da chamada 15 de março de 2017

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