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Luz

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Plataforma da USP que modela roupas sob medida vence concurso mundial de inovação

Ministro da Ciência da Argentina quer ampliar P&D nas empresas

Tensão positiva marca relação entre pesquisadores e jornalistas na divulgação científica

Campinas terá o primeiro sistema de reúso de água potável do país

Diretor do Fermilab diz que megaprojeto sobre neutrinos é prioridade dos EUA

Busca por talentos, flexibilidade e internacionalização compõem o sucesso do Impa

Avanços

no controle do laser melhoram tecnologia do cotidiano, permitem aplicações médicas e devem moldar a eletrônica do futuro

revistapesquisa.fapesp.br assinaturaspesquisa@fapesp.br

F otol A b

Se você tiver uma imagem relacionada à sua pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

Gota reveladora

Uma gotícula de seiva da haste da soja paira na ponta dos estiletes (mandíbula e maxila) de um percevejo (Edessa meditabunda), que foram seccionados. A imagem permite identificar o sítio específico de alimentação do inseto, neste caso os vasos do floema, parte da planta que conduz a seiva e tem pressão positiva. A foto feita pelo doutorando Tiago Lucini confirma os estudos sobre identificação de locais específicos de alimentação de percevejos em tecidos vegetais realizados no Laboratório de Monitoramento Eletrônico EPG da Embrapa Trigo, em Passo Fundo (RS), coordenado por Antônio R. Panizzi.

Foto enviada por Tiago Lucini, doutorando em Entomologia da UFPR

CAPA

16 Avanços na tecnologia do cotidiano dependerão cada vez mais do controle microscópico da luz

20 Inicialmente considerado uma solução à procura de um problema, laser ganha cada vez mais espaço na área da saúde

ENTREVISTA

24 Lino Barañao, ministro argentino da Ciência, quer ampliar parcerias com o Brasil e diz que o exemplo de São Paulo pode inspirar empresas de seu país a investir mais em pesquisa

POLÍTICA

CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

29 Matemática

Flexibilidade acadêmica e internacionalização fazem parte da equação de sucesso do Impa

36 Cooperação

Simpósios FAPESP Week inspiram pesquisadores paulistas a criar parcerias internacionais de alto nível

40 Colaboração

Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia contrata pesquisadores para ampliar base científica na área

42 Inovação

Plataforma brasileira que fornece moldes de roupas sob medida vence a ImagineCup, da Microsoft

setembro 235

CIÊNCIA

46 Entrevista

Diretor do Fermilab espera que pesquisadores brasileiros participem de megaexperimento sobre neutrinos

50 físico-química

Confinada em nanotubos a -69ºC, água apresenta simultaneamente duas densidades distintas

52 Geomorfologia

Análises de grãos de quartzo em planícies fluviais revelam processos recentes de transformação do relevo

56 Biologia molecular

Pesquisadores brasileiros afirmam que o código genético é similar ao funcionamento do sistema digital

60 Zoologia

Cães ajudam a definir áreas de ocorrência de cervídeos farejando fezes para extração do DNA

64 Botânica

A genética, a fisiologia e a ecologia indicam o que fazer para preservar o faveiro-de-wilson

TECNOLOGIA

66 Engenharia sanitária

Reúso da água a partir do tratamento de efluentes é alternativa para ajudar no combate à crise de abastecimento

70 Pesquisa empresarial

GranBio investe em P&D para superar os desafios da segunda geração de etanol

74 Astrofísica

Universidades e empresa do interior paulista desenvolvem braço mecânico para telescópios que serão instalados no maior observatório de raios gama

78 Automação

Sistemas computacionais, sensores, lasers e radares garantem a autonomia de carros e caminhões

HUMANIDADES

82 Comunicação

Relacionamento entre cientistas e jornalistas melhorou, mas ainda é possível avançar

86 Ciência política

Estudo aponta aumento do desconhecimento sobre o que é o sistema democrático

SEçÕES

3 Fotolab

5 Cartas

6 on-line

7 Carta da editora

8 Dados e projetos

9 Boas práticas

10 Estratégias

12 Tecnociência

90 memória

92 arte

94 Carreiras

96 resenhas

99 Classificados

CARTAS

cartas@fapesp.br

CONTATOS

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Aviões experimentais Excelente a reportagem “Berçário de aviões” (edição 234) sobre as indústrias de pequenas aeronaves. É importante que essas empresas sejam prestigiadas e apoiadas pelas universidades. Entretanto, como ex-coordenador e um dos propositores do curso de engenharia aeronáutica da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP), gostaria de dizer que temos como meta formar projetistas de aeronaves em todos os seus aspectos, e não somente em manutenção de aeronaves como dito no texto. Uma das atribuições do engenheiro aeronáutico é a gerência da manutenção de aviões e damos uma ênfase no nosso currículo de modo que os egressos podem se especializar nessa área tão importante para que a aviação tenha um padrão elevadíssimo de segurança.

Fernando Martini Catalano

Depto. de Engenharia Aeronáutica/EESC-USP

São Carlos, SP

Gostaríamos de agradecer e também parabenizar Pesquisa FAPESP pela belíssima reportagem “Berçário de aviões”.

Rodrigo Scoda

Scoda Aeronáutica Ltda.

Ipeúna, SP

Empresas

Vale a leitura da reportagem “Interação produtiva” (edição 234). Esse é um dos grandes desafios do país. Criar novos e, ao mesmo tempo, consolidar os sistemas de inovação existentes, capazes de articular as universidades com as empresas, os poderes públicos, as agências de financiamento e as organizações sociais.

Elias Machado

Via Facebook

Sobre a reportagem “Interação produtiva”, há aqueles que pensam que qualidade científica significa não ter relação direta com empresas. Pesquisa FAPESP está mostrando que não é bem assim!

Bianca Longo Via Facebook

Boas práticas

A respeito da nota “Fraude termina em prisão” (seção Boas práticas, edição 234), deveria ocorrer o mesmo em todo o mundo. Não se brinca com a saúde das populações. Não se fabricam ou adulteram resultados de pesquisas. Deveríamos ser mais rigorosos também aqui no Brasil.

Tomaz Puga Leivas

Via Facebook

Vídeos

Parabéns ao pesquisador Luiz Domingos Costa pelo trabalho retratado no vídeo Renovação à brasileira (revistapesquisa. fapesp.br/category/multimidia/videos/). Que pesquisa sensacional. Um verdadeiro raio X da nossa história parlamentar.

Marino Mirante

Via Facebook

O vídeo Renovação à brasileira mostra um estudo interessantíssimo e sério sobre o sistema partidário brasileiro, sobre quem são os senadores e deputados federais.

Júlia Barnabé Via Facebook

Muito interessante e instrutivo o vídeo Um zoológico entre as penas. Estudos ou pesquisas como essas deviam ser amplamente divulgados. Se aprendermos a conhecer melhor o ambiente que habitamos, tanto mais saberemos lidar com ele.

Consuêlo Ruíz

Via Facebook

Fotos

A Galeria de Imagens sobre a coleta de amostras no roteiro de Saint-Hilaire mostrou um excelente trabalho do fotógrafo Eduardo Cesar (revistapesquisa.fapesp.br/2015/08/13/na-trilha-de-saint-hilaire-2/). Parabéns!

Mariana P. Massafera Via Facebook

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 10º andar – CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

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ESTRATÉGIAS

Familiaridade com a ciência

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e xclusivo no site

x Há algum tempo se sabe que a insuficiência renal crônica, ou perda progressiva da capacidade dos rins de filtrar o sangue — condição que afeta 1 a cada 10 pessoas no b rasil —, pode em alguns casos levar ao desenvolvimento de complicações cognitivas como depressão, perda de memória e demência. agora, em um estudo publicado na revista PLoS One, um grupo de pesquisadores brasileiros sugere ter identificado os mecanismos envolvidos nesse processo. em experimentos coordenados pelo farmacologista cristoforo scavone, do Laboratório de Neurofarmacologia molecular no instituto de ciências b iomédicas da universidade de são Paulo, eles induziram complicações renais em ratos ao retirar um de seus rins e parte do outro. os animais foram divididos em dois grupos — um de animais com os dois rins e função renal normal e outro de animais operados —, acompanhados por 120 dias, e submetidos a testes comportamentais e de memória. os pesquisadores verificaram que o comprometimento da função renal desencadeou inflamações neurais que afetavam o funcionamento do cérebro dos animais.

níVEiS dE

lE tRAmEnto CiEntíFiCo no bRASil Em 2015

Galeria de imagens

Rádio

Socióloga Marta Arretche fala sobre as desigualdades no Brasil nos últimos 50 anos

Vídeos do mês

confira no registro fotográfico de Eduardo Cesar a expedição de coleta de amostras em trecho do roteiro feito por saint-Hilaire em 1822

youtube.com/user/PesquisaFa PesP

A relação entre a redemocratização do Brasil e o perfil de parlamentares

Pesquisadores estudam e descrevem os ácaros de aves

Assista ao vídeo:
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entre 21 e 24 de agosto no perfil de Pesquisa FAPESP

fundação de aMParo à Pesquisa do estado de são Paulo

Celso lafer

Presidente

eduardo MoaC yr Krieger

vice-Presidente

conSElho SUPErIor

Celso lafer, eduardo MoaC yr Krieger, fernando ferreira Costa, HoráCio lafer Piva, joão grandino rodas, josé goldeMberg, Maria josé soares Mendes giannini, Marilza vieira CunHa rudge, josé de souza Martins, Pedro luiz barreiros

Passos, suely vilela saMPaio, yosHiaKi naKano

conSElho técnIco-AdmInIStr AtIvo

Carlos Henrique de brito Cruz d iretor cientíFico

joaquiM j. de CaMargo engler d iretor Administr Ativo

c A rtA dA E d I tor A

Financiamento à pesquisa

redação

Eissn 1519-8774

conSElho EdItorIAl

Carlos Henrique de brito Cruz (Presidente), Caio túlio Costa, eugênio bucci, fernando reinach, josé eduardo Krieger, luiz davidovich, Marcelo Knobel, Maria Hermínia tavares de almeida, Marisa lajolo, Maurício tuffani, Mônica teixeira comItê cIEntíFIco

luiz Henrique lopes dos santos (Presidente), anamaria aranha Camargo, Carlos eduardo negrão, Celso lafer, fabio Kon, francisco antônio bezerra Coutinho, joaquim j. de Camargo engler, josé roberto de frança arruda, josé roberto Postali Parra, lucio angnes, Marie-anne van sluys, Mário josé abdalla saad, Paula Montero, roberto Marcondes Cesar júnior, sérgio robles reis queiroz, Wagner Caradori do amaral, Walter Colli coordEnAdor cIEntíFIco

luiz Henrique lopes dos santos

dIrE tor A dE rEdAção alexandra ozorio de almeida

EdItor-chEFE neldson Marcolin

EdItorES fabrício Marques (Política), Márcio ferrari (Humanidades), Marcos de oliveira (Tecnologia), ricardo zorzetto (Ciência); Carlos fioravanti e Marcos Pivetta (Editores especiais); bruno de Pierro (Editor-assistente)

rE vISão daniel bonomo, Margô negro

ArtE Mayumi okuyama (Editora), ana Paula Campos (Editora de infografia), Maria Cecilia felli e alvaro felippe jr. (Assistentes) Fotógr AFoS eduardo Cesar, léo ramos

mídIAS ElE trônIc AS fabrício Marques (Coordenador)

IntErnE t Pesquisa FAPESP online Maria guimarães (Editora) rodrigo de oliveira andrade (Repórter) rádIo Pesquisa Brasil biancamaria binazzi (Produtora) colAbor AdorES alexandre affonso, andré julião, daniel bueno, daniel Kondo, evanildo da silveira, fabio otubo, igor zolnerkevic, josé luiz goldfarb, josé de souza Martins, jayne oliveira, juliana sayuri, Mauro de barros, negreiros, Pedro Hamdan, orlando Margarido, rafael garcia, sandro Castelli, valter rodrigues, yuri vasconcelos

é ProIbIdA A rEProdUção totAl oU PArcIAl dE tE xtoS E FotoS SEm PrévIA AUtorIz Ação

PAr A FAlAr com A rEdAção (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br

PAr A AnUncIAr Midia office - júlio César ferreira (11) 99222-4497 julinho@midiaoffice.com.br

Classificados: (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br

PArA ASSInAr (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br

tIr AgEm 42.800 exemplares

ImPrESSão Plural indústria gráfica dIStrIbUIção dinaP

gEStão AdmInIStr AtIvA instituto unieMP

PESQUISA FAPESP rua joaquim antunes, no 727, 10o andar, CeP 05415-012, Pinheiros, são Paulo-sP FAPESP rua Pio Xi, no 1.500, CeP 05468-901, alto da lapa, são Paulo-sP

seCretaria de desenvolviMento eConôMiCo, CiênCia e teCnologia govErno do EStAdo dE São PAUlo

ste número da Pesquisa FAPESP apresenta três reportagens que oferecem reflexões importantes sobre a organização institucional da ciência no mundo e no Brasil.

A escala dos megaprojetos de física de partículas hoje é tal que nenhum país é capaz de financiá-los exclusivamente com os seus recursos. Pela primeira vez, os Estados Unidos se propõem a sediar um projeto internacional bilionário em seu território, com o objetivo do estudo dos neutrinos, misteriosas partículas abundantes no universo. A mudança de posição se deve à percepção de que o país se atrasou na área de física de partículas após a inauguração do Grande Colisor de Hádrons (LHC), que conta com recursos norte-americanos, mas é comandado pela Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (Cern). Em entrevista (página 46), o diretor do Fermilab, Nigel Lockyer, explica que, a partir de um relatório produzido por um grupo de especialistas na área, os Estados Unidos decidiram concentrar seus esforços em física de partículas e montar um grande experimento sobre neutrinos. O Deep Underground Neutrino Experiment (Dune), que terá como sede o laboratório de Chicago, busca agora parceiros internacionais, como o Brasil.

A busca pela ampliação das fontes de financiamento para pesquisa e desenvolvimento (P&D) motivou o governo da Argentina a procurar novos instrumentos. As parcerias público-privadas são uma das estratégias do país para aumentar a participação das empresas argentinas nas atividades de P&D, que hoje respondem por apenas 24% dos investimentos. Lino Barañao, titular do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva desde a criação da pasta, em 2007, ex-

plica em entrevista (página 24) durante visita a São Paulo que a Argentina quer assimilar as boas práticas da iniciativa privada paulista, que considera inovadora, para avançar em projetos com potenciais aplicações a curto e médio prazos. A comparação com um exemplo bem-sucedido e próximo da realidade argentina, defende o ministro, permite mostrar aos empresários de seu país que investir em P&D é rentável.

Um exemplo de instituição de pesquisa bem-sucedida que implementou um modelo de financiamento pouco comum no Brasil é o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O perfil da instituição (página 29) mostra que o reconhecimento recebido deriva de uma série de fatores, como o alto grau de internacionalização de seu corpo docente e discente e a flexibilidade acadêmica que permite o ingresso na pós-graduação de alunos antes de terem completado o ensino médio. A decisão, tomada no início dos anos 2000, de se tornar uma organização social (OS), isto é, uma pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, ajuda a explicar a condição atual do instituto. A fonte de recursos da instituição é um contrato de gestão estabelecido com o MCTI, mas doações privadas integram seu orçamento anual (entre 2% e 3% do total). Uma das vantagens de ser OS é a autonomia para definir sua própria política de contratação e remuneração de pessoal, que contribui para a atração de bons quadros. Cessão de soberania na liderança de projetos científicos em troca de parceria e cofinanciamento e busca por novos modelos e regimes são algumas das questões complexas das reportagens que compõem esta edição. Boa reflexão.

DaDos e projetos

t

emáticos e JoV em Pesquisador recentes

Projetos contratados em julho e agosto de 2015

temáticos

 e studo da corrosão localizada e caracterização da resistência à corrosão associada a fadiga na região de solda em ligas de alumínio de elevada resistência soldadas por fricção (F s W)

Pesquisadora responsável: Isolda

Costa

i nstituição: Instituto de Pesquisas

Energéticas Nucleares/SDECTSP

Processo: 2013/13235-6

Vigência: 01/06/2015 a 31/05/2019

 c aracterização e processamento de nanoestruturas semicondutoras e

aplicações como dispositivos

Pesquisador responsável: Gilmar

Eugenio Marques

i nstituição: Centro de Ciências Exatas e Tecnologia/UFSCar

Processo: 2014/19142-2

Vigência: 01/07/2015 a 30/06/2020

 Genômica de paisagens em gradientes latitudinais e ecologia de Anopheles darlingi

Pesquisadora responsável: Maria

Anice Mureb Sallum

i nstituição: Faculdade de Saúde

Pública/USP

Processo: 2014/26229-7

Vigência: 01/08/2015 a 31/07/2019

J oV ens Pesquisadores

 Banco de espermatogônias-tronco em peixes para conservação do genótipo de espécies ameaçadas e de interesse econômico

Pesquisador responsável: Rafael

Henrique Nobrega

i nstituição: Instituto de Biociências de Botucatu/Unesp

Processo: 2014/07620-7

Vigência: 01/08/2015 a 31/07/2019

 d esenvolvimento de metodologias e processos de síntese empregando uma nova plataforma tecnológica: a síntese de produtos naturais e

impacto relativo e colaboração com o exterior

derivados com potencial atividade farmacológica assistida por micro e mesorreatores contínuos

Pesquisador responsável: Julio Cezar Pastre instituição: Instituto de Química/Unicamp Processo: 2014/26378-2

Vigência: 01/08/2015 a 31/07/2019

 desenvolvimento de sistemas-modelo em sorgo e uso da biologia de sistemas na elucidação dos mecanismos moleculares do metabolismo fenólico e de lignina em gramíneas

Pesquisador responsável: Igor Cesarino instituição: Instituto de Biociências/USP Processo: 2015/02527-1

Vigência: 01/07/2015 a 30/06/2019

Documentos*, porcentagem de documentos com colaboração internacional, impacto relativo** ao mundo e impacto relativo ao mundo das publicações com colaboração internacional*** no período 2004-2014

universidade i tem

Brasil (total com pelo menos um autor no país)

USP

Documentos*: são considerados artigos em periódicos, em proceedings, notas e resenhas da base considerada, com pelo menos um autor com endereço no Brasil ou em uma das universidades listadas. Impacto relativo ao mundo**: é a razão entre o número médio de citações por publicação com pelo menos um autor do país ou universidade e aquele para todas as publicações constantes da base utilizada

Fonte: InCites (FAPESP), ThomsonReuters, atualização de março de 2015

Boas práticas

Políticas para retratar artigos

Um levantamento feito com editores de 174 revistas científicas de várias áreas do conhecimento, todas com fator de impacto elevado, mostrou que 65% delas dispõem de políticas para lidar com retratações de artigos científicos, ou seja, com a desqualificação e o cancelamento de papers publicados em virtude da descoberta de erros ou fraudes. Esse percentual, divulgado em artigo na edição de julho do Journal of the Medical Library Association, é três vezes maior que o registrado numa pesquisa de 2004 com 122 publicações da área biomédica. Segundo os autores do levantamento, é plausível concluir que cresceu o número de revistas com normas para retratação porque seus editores se tornaram mais conscientes da importância de enfrentar o problema. “Isso ajuda a corroborar a hipótese de que o número de retratações de artigos vem crescendo nos últimos 10 anos porque mais publicações adotaram políticas para lidar com elas”, afirma o trabalho assinado por David Resnik e Grace Kissling, ambos do National Institute of Environmental Health Sciences dos Estados Unidos, e Elizabeth Wager, ex-presidente do Committee on Publication Ethics (Cope), fórum de 9 mil editores científicos dedicado à discussão sobre ética na pesquisa.

O estudo avaliou a origem das regras adotadas. Na metade dos casos, as políticas foram definidas pelos próprios editores. Em outros 30%, basearam-se parcialmente em recomendações do Cope, que lançou em 2009 orientações sobre o tema. E, para outros 6%, as normas eram integralmente inspiradas em sugestões do Cope. Outras fontes, como o International Committee of

Medical Journal Editors (ICMJE), também foram mencionadas.

Entre as revistas com políticas para retratações, 94% permitem que um artigo seja cancelado sem que os autores concordem com a decisão. Da mesma forma, 53% das publicações se permitem publicar declarações de preocupação, que são alertas sobre possíveis irregularidades em um artigo que ainda estão sendo averiguadas, sem autorização dos responsáveis. Segundo os pesquisadores, esse tipo de garantia é importante porque nem sempre os autores concordam com a retratação ou com a investigação e as revistas necessitam de instrumentos para preservar a integridade de seus registros.

Entre as que ainda não têm regras para retratações, a maioria é especializada em artigos de revisão, aqueles que compilam e analisam dados da literatura existente, sem divulgar dados inéditos. Segundo os autores, essas publicações não se

sentem compelidas a criar políticas sobre retratação porque raramente registram casos de falsificação ou fabricação de dados. A recomendação, porém, é que tais revistas também adotem normas para enfrentar o problema. “Elas podem lidar com autores que plagiaram outras publicações”, escreveram os pesquisadores.

Desdobramentos de investigações

Há desdobramentos recentes nas investigações sobre um inusitado tipo de fraude, em que o processo de revisão de artigos de algumas editoras foi manipulado por um esquema criminoso (ver Pesquisa FAPESP nº 201). A editora Hindawi, com sede no Cairo, responsável por mais de 400 publicações em acesso aberto, anunciou os resultados de uma auditoria que analisou 57 mil artigos publicados entre 2013 e 2014. Concluiu que 32 papers em biologia molecular e engenharia de computação tiveram a publicação recomendada por revisores que, na verdade, não existiam: perfis e contas de e-mail falsos foram

inseridos nas bases de dados dos periódicos. Segundo comunicado da Hindawi, a fraude foi cometida por três editores: o iraniano Amir Kajbafvala, do Journal of Nanoparticles, o chinês Yuxin Mao, da Mathematical Problems in Engineering, e o sul-coreano Jason J. Jung, do International Journal of Distributed Sensor Networks. Em outro desdobramento, a plataforma BioMedCentral, do Reino Unido, mudou o texto da retratação de um artigo manipulado pelo esquema, publicado na Diagnostic Pathology, alertando que não existem evidências sobre a participação dos autores do paper na fraude.

e stratégias

Goldemberg é o presidente da FAPESP

O físico José Goldemberg foi nomeado presidente da FAPESP pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, no dia 22 de agosto. Professor da Universidade de São Paulo (USP), Goldemberg, de 87 anos, encabeçou a lista tríplice definida pelo Conselho Superior da Fundação e encaminhada ao governador em 12 de agosto, da qual também fizeram parte os conselheiros José de Souza Martins e Eduardo Moacyr Krieger. Especialista em física nuclear e em energia, Goldemberg presidiu a Sociedade Brasileira de Física (1975-1979), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (19791981) e a Companhia Energética de São Paulo (1983-1986). Foi reitor da USP (1986-1989) e, no governo federal, secretário do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia e ministro da Educação, entre 1990 e 1992. Ocupou, ainda, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (2003-2007). Em 2008, a Asahi Glass

Torre gigante na

Foi inaugurado no dia 22 de agosto o Observatório de Torre Alta da Amazônia (Atto, na sigla em inglês), estrutura para pesquisa científica de 325 metros de altura instalada na Reserva do Uatumã, entre as cidades de São Sebastião do Uatumã e Itapiranga, no Amazonas. Equipada com sensores e radares em diferentes alturas, vai coletar dados sobre gases de efeito estufa, partículas de aerossóis, propriedades de nuvens e transporte de massas de ar, entre outros. As informações serão transmitidas para os

Foundation, do Japão, laureou Goldemberg com seu prêmio Planeta Azul, por “ter dado grandes contribuições na formulação e implementação de diversas políticas associadas a melhoras no uso e na conservação de energia”, com destaque para um conceito formulado por ele segundo o qual, para se desenvolver, os países pobres não precisam repetir paradigmas tecnológicos trilhados no passado pelos ricos. Seus trabalhos sobre a sustentabilidade do etanol brasileiro renderam-lhe reconhecimento. Em 2007, a revista Time incluiu seu nome numa lista de “heróis do meio ambiente” e, em 2013, recebeu nos Emirados Árabes o prêmio Zayed de Energia do Futuro. Recentemente, foi agraciado com o Prêmio da Fundação Conrado Wessel, categoria Ciência. Goldemberg substitui Celso Lafer, que presidiu a FAPESP por oito anos, cujo mandato no Conselho Superior da Fundação se encerrou em 7 de setembro.

floresta

laboratórios do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e dos institutos Max Planck de Química e Biogeoquímica, da Alemanha, parceiros do projeto. Mais alto que a torre Eiffel, em Paris, o observatório custou € 8,4 milhões e é ligado ao programa Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA). A intenção é criar um banco de dados, capaz de municiar pesquisas e modelos climáticos. “Os resultados da medição estarão disponíveis para os formuladores de políticas desenvolverem

José Goldemberg: primeiro nome em lista tríplice encaminhada ao governador

regulações sobre política de ambiente e metas climáticas globais”, disse ao site do Inpa o vice-presidente da Sociedade Max Planck, Ferdi Schüth.

Observatório de Torre Alta da Amazônia: dados sobre a floresta intocada

Um ministério para a ciência

Estão adiantados os planos para criar um ministério de ciência e tecnologia no Chile. Uma comissão criada em janeiro pela presidente Michelle Bachelet apresentou um relatório, intitulado “Um sonho compartilhado para o futuro do Chile”, que propõe ações para o desenvolvimento do país até 2030. Entre eles, sugere-se a criação de uma “arquitetura institucional” em ciência, tecnologia e inovação capaz de orientar a execução das prioridades nacionais nessa área. Segundo Michelle Bachelet, as recomendações do relatório terão desdobramentos em breve. “Nós queremos cumprir o compromisso de criar um ministério para a ciência e a tecnologia. Vamos estudar as alternativas propostas e tomar as decisões certas”, afirmou a presidente, de acordo com o site da Times Higher Education. Ela classificou as sugestões do relatório como “sólidas”, mas afirmou que a criação do ministério só será definida após uma discussão com setores da sociedade envolvidos.

Novos rumos na Antártida

Um relatório das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos propôs mudanças na estratégia científica do país na Antártida, que envolve uma comunidade de 450 pesquisadores. O estudo foi encomendado pela National Science Foundation (NSF), que investe US$ 70 milhões por ano em projetos de pesquisa e US$ 255 milhões em infraestrutura e logística no continente gelado. Em linhas gerais, sugere a manutenção da linha de pesquisa que atende à demanda espontânea dos pesquisadores. Mas advoga a criação de três novas linhas para induzir estudos em mudanças climáticas, com ênfase na perda da massa de gelo; em genômica, a fim de ampliar o conhecimento sobre as espécies da região; e no estudo de raios cósmicos, por meio de experimentos que vêm

sendo realizados no polo Sul e nos Andes. Os temas foram selecionados por sua relevância científica e também pelo possível impacto social e a capacidade de atrair parceiros, entre os quais agências e instituições internacionais, disse à revista Nature a glaciologista Robin Bell, pesquisadora da Universidade Colúmbia e uma das responsáveis pelo documento. Em tempos de orçamentos enxutos, projetos muito dispendiosos foram desaconselhados, tais como a segunda geração do IceCube, rede de detectores subterrâneos instalados perto do polo Sul voltada para observação de neutrinos, partículas produzidas em explosões estelares. Segundo o relatório, os gastos em logística de um novo IceCube poderiam inviabilizar o apoio a outros projetos importantes.

Voz da ciência nas secretarias

Pesquisador da Universidade de Rochester mede testemunho de gelo do glaciar Taylor

O governo do estado de São Paulo vai introduzir na estrutura de suas secretarias a figura do cientista-chefe, responsável por fornecer dados e conselhos baseados no conhecimento científico. O anúncio foi feito pelo vice-governador Márcio França, na abertura do Fórum do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), sediado na FAPESP nos dias 27 e 28 de agosto. A proposta, segundo França, que

também é secretário de desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, é fruto de uma visita feita por ele à FAPESP em março. Na ocasião o presidente da Fundação, Celso Lafer, lembrou a experiência de países como Reino Unido e Israel, cujos governos têm essa função em seus organogramas, e do departamento de Estado norte-americano. “é preciso estabelecer a parceria entre a pesquisa e a política”, disse França. A proposta, afirmou o vicegovernador, está sendo detalhada em conjunto com a FAPESP. “A intenção é levar a ciência a contribuir para o governo”, disse à Agência FAPESP o diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz. “durante tanto tempo se falou em interação entre a universidade e a empresa. A interação da universidade com o governo é igualmente meritória. A ciência e os cientistas podem ajudar a empresa e o governo a serem melhores.”

t ecnociência

Lagarto de 80 milhões de anos

Pedaços fossilizados, mas muito bem preservados, de uma mandíbula pré-histórica encontrados no município de Cruzeiro do Oeste, no noroeste do Paraná, estão ajudando pesquisadores brasileiros e canadenses a entender melhor a origem na América do Sul da fauna dos lagartos iguanídeos, que contabilizam mais de 1.700 espécies vivas, sem contar as extintas. De acordo com os pesquisadores, a nova espécie, batizada de Gueragama sulamericana, habitou o sul do Brasil há aproximadamente 80 milhões de anos (Nature Communications, 26 de agosto). Análises indicam que o lagarto pertenceu a um grupo chamado acrodonte, encontrado até então apenas na Ásia, África e Europa. A descoberta do G. sulamericana por pesquisadores das universidades de Alberta,

no Canadá, e do Contestado, em Santa Catarina, e do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sugere que a dispersão desse grupo de répteis pelo hemisfério

Sul se deu muito antes do que se imaginava e que os acrodontes alcançaram uma distribuição em escala global antes da Era Cenozoica, período que compreende os últimos 66 milhões de anos.

“A espécie vivia provavelmente em tocas para evitar as altas temperaturas durante parte do dia, como fazem atualmente os lagartos acrodontes de hábitat semelhante no norte da África e do Oriente Médio”, diz o paleontólogo brasileiro Tiago Rodrigues Simões, aluno de doutorado na Universidade de Alberta e principal autor do estudo sobre o novo fóssil de acrodonte.

O tremor que ergueu o Pó

Gueragama sulamericana: primeiro lagarto do grupo dos acrodontes encontrado na América do Sul

Mapa antigo do Pó: em Ferrara curso do rio deslocou-se 40 km ao norte em razão de tremores ocorridos em 1570

Em 17 de novembro de 1570, um terremoto de magnitude 5,8 ocorreu próximo à cidade de Ferrara, no norte da Itália. Esse tremor e os outros que o sucederam nos dias seguintes foram determinantes para alterar o curso final do rio Pó, o maior do país, e deixar a cidade sem água. Os geólogos Livio Sirovich e Franco Pettenati, do Instituto Nacional de Oceanografia e Geofísica Experimental da Itália, usaram dados históricos e técnicas modernas de modelagem para identificar a origem do tremor principal. Segundo eles, o tremor teria sido gerado nas proximidades de uma falha geológica localizada aproximadamente a 14 quilômetros a noroeste de Ferrara, um importante centro cultural durante o Renascimento que entrou em declínio após ser integrado ao estado

papal – hoje Ferrara é uma cidade industrial. Os tremores de 1570 foram o último estágio do processo tectônico que ao longo de milhares de anos alterou o curso do rio Pó. A falha geológica que originou os terremotos daquela época, e também outros ocorridos posteriormente, está na porção norte dos Apeninos, a cadeia montanhosa que nasce ao sul do vale do Pó e atravessa a Itália rumo ao sul. A sequência de tremores de 1570 elevou em 15 centímetros o terreno na porção sul do vale do Pó, deslocando o curso do rio 40 quilômetros para o norte nessa região (Journal of Geophysical ResearchSolid Earth, no prelo). À época, o papa Pio v teria dito que Deus enviara o terremoto para punir o duque da cidade, que havia acolhido judeus e cristãos novos fugidos da Espanha.

O peso da comida ultraprocessada

Um estudo recente do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens-USP), feito a partir de dados fornecidos por 30.243 brasileiros com mais de 10 anos durante o Inquérito Nacional de Alimentação entre 2008 e 2009, mostra que 30% da energia obtida (na forma de comida) pelos entrevistados vinha de produtos altamente processados, como pães, pizzas, hambúrgueres, bebidas adoçadas, doces e bolachas

produzidos pela indústria de alimentos ( Preventive Medicine , julho 2015). Ao dividir e analisar a amostra total em grupos menores, separados pela quantidade de alimentos processados consumidos, os pesquisadores verificaram que os indivíduos adeptos de uma dieta rica em produtos industrializados – aqueles que retiravam ao menos 44% de sua energia de comidas prontas para comer – tinham índices mais elevados de massa corporal em relação às pessoas menos acostu-

Candidato a Concorde 2

De Londres a Nova York em uma hora, seis a menos do que costuma durar a viagem hoje nos jatos comerciais. Essa seria a incrível performance de um avião supersônico, capaz de atingir a velocidade máxima de 5.500 quilômetros por hora (km/h), voar a uma altitude de 30 quilômetros –três vezes maior do que a normalmente empregada pela geração atual de aeronaves de linha – e carregar apenas 20 passageiros. Os detalhes do projeto de construção desse possível sucessor do finado Concorde, que viajava a pouco mais de 2 mil km/h, foram divulgados no mês passado, após a fabricante europeia Airbus ter obtido uma patente nos Estados Unidos que lhe assegura a propriedade intelectual desse tipo de avião-conceito.

Ainda não se sabe para que tipo de viagem o Concorde 2, como

o candidato a avião futurista tem sido chamado, poderia ser usado, se apenas para ligar mais rapidamente as cidades do globo ou também para fazer turismo espacial. De acordo com o projeto, a aeronave seria equipada com três tipos diferentes de motor, inclusive foguetes. Os propulsores permitiriam que o jato decolasse na vertical, como um ônibus espacial, quebrasse a velocidade do som (1.236 km/h) e atingisse ritmo de cruzeiro. A Airbus não disse se pretende lançar o avião.

Alimentos ultraprocessados: tendência a ganhar peso

madas a ingerir esse tipo de alimento. Os mais adeptos da comida pronta também apresentaram riscos, do ponto de vista estatístico, significativamente maiores de serem obesos ou de estar ao menos com sobrepeso. Segundo o trabalho, as comidas industrializadas, fabricadas a partir do processamento posterior de constituintes dos alimentos ou por meio de síntese química, tendem a ser agradáveis ao paladar das pessoas e a estimular seu consumo excessivo.

v írus da Europa para o Ceará

Desenho do candidato a Concorde 2: três tipos de motor e velocidade máxima de 5.500 km/h

O surto de sarampo registrado entre dezembro de 2013 e dezembro de 2014 no Ceará, que contabilizou 681 casos da doença, foi provocado possivelmente por uma variedade do vírus da doença importada da

Europa, segundo artigo recém-publicado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (Emerging Infectious Diseases, 9 de setembro). Análises filogenéticas da população do vírus que causou o ressurgimento da doença no estado mostram que a única cepa identificada do patógeno, a D8, é a mesma em circulação no velho Mundo. Desde 2000, o sarampo não era mais considerado endêmico no Brasil, em grande parte devido à inclusão da vacina tríplice-viral no calendário básico de imunização de crianças de até 1 ano de idade em todo o país.

Conversa de sagui

Não é novidade para quem já acompanhou o desenvolvimento de um bebê: a fala surge com sons aleatórios e aparentemente sem sentido que, aos poucos, se associam a algum propósito. Nos seres humanos, o amadurecimento da capacidade de se comunicar nos primeiros meses de vida depende da interação do bebê com os pais – algo único entre os primatas. Agora, uma equipe da Universidade de Princeton, com a participação do médico e neurocientista brasileiro Daniel Takahashi, demonstrou que os filhotes de sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), originários do Brasil, também aprimoram sua capacidade de se comunicar ao interagir com os pais (Science, 14 de agosto). No estudo, os pesquisadores analisaram as emissões vocais de 10 filhotes de sagui-de-tufo-branco do primeiro dia de vida até os 2 meses de idade,

quando se comunicavam com os adultos. Monitoraram um som específico, chamado de “fi”, parecido com um assobio e usado em várias circunstâncias da comunicação de indivíduos dessa espécie. Os “fi”, nesse caso, eram sons emitidos pelos filhotes em situações nas quais um bebê humano choraria. Os cientistas queriam ver se a capacidade de comunicação dos filhotes evoluía do choro genérico às vocalizações mais específicas, semelhante ao observado em seres humanos. Nos testes, os filhotes eram colocados em áreas longe dos pais. Assim, podiam ouvir uns aos outros, mas não ver. Os pesquisadores verificaram que o tipo de vocalização dos saguis se alterava de forma considerável no período inicial após o parto. Mas o desenvolvimento era mais rápido quando interagiam mais com os pais.

Serpens chega à ISS

os país

Nanossatélite

Serpens: chegada à estação espacial

O nanossatélite Serpens, desenvolvido pela Agência Espacial Brasileira (AEB) em parceria com universidades e institutos de pesquisa federais, chegou no dia 24 de agosto à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), plataforma que fica na órbita da Terra a uma altura de 370 quilômetros. O satélite, no qual foram gastos R$ 800 mil, havia sido acoplado à cápsula japonesa HTv5 e lançado ao espaço a partir de Tsukuba, no Japão, cinco dias antes, em 19 de agosto. O próximo passo agora, segundo a AEB, será colocá-lo em órbita, o que deverá acontecer entre setembro e outubro deste ano. O satélite de pequeno porte – mede 10 x 10 x 30 centímetros

– faz parte do projeto Sistema Espacial para Realização de Pesquisas e Experimentos com Nanossatélites, financiado pela AEB. Em órbita, o dispositivo testará conceitos básicos de missões espaciais, recebendo, armazenando e retransmitindo mensagens por meio de um sistema de comunicação na frequência de radioamador. Ele será, assim, capaz de trocar mensagens com outras estações espalhadas pelo mundo. Dessa forma, os dados armazenados no satélite podem ser recuperados em vários locais do planeta, não apenas pelas universidades envolvidas, mas também pela comunidade com acesso a estações de radioamador.

Sagui-de-tufo-branco: vocalização melhora quando filhotes interagem com

Suspense no cérebro

Os momentos de maior tensão dos filmes não fazem apenas as mãos suarem e o coração disparar. De acordo com um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Geórgia, Estados Unidos, ocorrem alterações, agora mais evidentes, no cérebro, principalmente em uma área chamada sulco calcarino, a primeira a processar informações visuais (Neuroscience, setembro). Nos momentos de suspense intenso, a atividade neural nas áreas de processamento visual

periférico do sulco calcarino pode diminuir e a atividade das áreas centrais aumentar, estreitando o foco visual, ampliando a atenção em informações críticas e ignorando as que parecem menos relevantes. Nas cenas mais calmas, a atenção periférica aumentava. Os pesquisadores analisaram, por meio de imagens por ressonância magnética funcional, a atividade cerebral de 23 pessoas, que assistiram a cenas de 10 filmes de suspense, incluindo Intriga internacional e O homem que sabia

Primeira planta com flor do mundo

Análises detalhadas de mais de mil fósseis de vegetais sugerem que a Montsechia vidalii, uma espécie de água doce identificada há mais de 100 anos na Espanha, seja a mais antiga planta com flor do mundo, arrebatando o título das mãos de outra planta antiga, a Archaefructus sinensis, descoberta a partir de fósseis de 125 de milhões de anos encontrados na província de Liaoning, na China. Em laboratório, um grupo de pesquisadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, dissolveu o calcário de todos os exemplares. Em seguida, branquearam cuidadosamente as cutículas, o filme protetor que cobre as folhas, de cada planta com uma mistura de ácido nítrico e clorato de potássio. As amostras, então, foram examinadas em microscópios. A planta, de cerca de 130 milhões de anos, compunha, ao lado dos dinossauros, a paisagem da região central da Espanha e dos Pireneus, próxima à França, no período Cretáceo, crescendo abundantemente em lagos de água doce (PNAS,

demais, de Alfred Hitchcock. Para avaliar a atenção periférica, foi usado um tabuleiro de xadrez piscando nas bordas da tela em que o filme era exibido. Nos momentos mais tensos dos filmes, o cérebro estreitou a atenção das pessoas, orientando-as para o centro da tela e para a narrativa, sem dar atenção ao tabuleiro.

Cena de Intriga internacional: ativação do sulco calcarino, primeira área do cérebro a processar informações visuais

Células para o fêmur

17 de agosto). Ao que tudo indica, a M. vidalii não tinha raízes ou sequer pétalas. As folhas, segundo os pesquisadores, dispunham-se ao longo do eixo em espiral ou opostas umas às outras. Delas brotavam pequenas flores, cada uma com uma semente. “Essa descoberta levanta questões importantes sobre a história evolutiva das plantas com flores, bem como sobre o papel dessas plantas na evolução de outras formas de vida vegetal e animal”, diz o paleobotânico David Dilcher, principal autor do estudo.

Fóssil de Montsechia vidalii: flores há 130 milhões de anos

Em um ensaio clínico feito com 89 pessoas com necrose de fêmur associada à anemia falciforme, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Universidade de São Paulo (USP) e da Faculdade de Medicina de Petrópolis conseguiu impedir a progressão da degeneração e reduzir as dores ao injetar próximo à cabeça desse osso uma mistura de células-tronco extraídas dos próprios pacientes. No experimento, o grupo coordenado pelo ortopedista Gildasio Daltro, da UFBA, implantou na articulação do fêmur com o quadril células-tronco da medula óssea enriquecidas com células precursoras do tecido ósseo e acompanhou os participantes por um período que variou de um a cinco anos. Em todos os casos o problema estabilizou-se e 96% dos participantes sentiram menos dor (Stem Cell Research and Therapy, maio de 2015). Ainda são necessários mais estudos para testar a eficácia prolongada do procedimento.

Onda, partícula e laser

500-300 a.c .

Pitágoras, Platão e outros sábios gregos não distinguiam visão e luz. Empédocles dizia que olhos emitiam tentáculos de fogo. Já para Leucipo a luz era feita de partículas emitidas pelos objetos

300-200 a.c . Euclides e Ptolomeu descreveram os fenômenos da reflexão e da refração com auxílio da geometria assumindo que a luz viaja em linha reta antiguidade idade Média

O avanço da compreensão da natureza da luz através dos tempos cerca de 1120 O filósofo árabe Ibn al-Haytham, conhecido no Ocidente como Alhazen, publica o Livro de óptica, obra em que combina técnicas experimentais e geometria e formula as leis da refração. Contesta Empédocles ao mostrar que a luz penetrava nos olhos. Fez experimentos com lentes, estudando também o fenômeno da dispersão da luz, que acreditava ser formada por partículas

1200-1300

Roger Bacon e outros estudam propriedades das lentes e seu uso para corrigir problemas de visão, como a miopia

Avanços na tecnologia do cotidiano dependerão cada vez mais do controle microscópico da luz | igor Zolnerkevic

Um futuro brilhante e

m uma década, computadores,  tablets  e celulares sofrerão uma transformação invisível, movida a luz. Na aparência, não deverão ser muito diferentes. Mas seu funcionamento será mais rápido e consumirá menos energia elétrica graças a um novo conjunto de tecnologias para manipular a luz na escala microscópica. Novas tecnologias já estão permitindo a construção dos chamados chips nanofotônicos de silício. Assim como os chips de silício convencionais, os nanofotônicos são feitos de peças eletrônicas microscópicas. A diferença crucial é que, em vez de serem integrados por circuitos de fios metálicos, responsáveis por transmitir os sinais elétricos, os componentes do novo chip se comunicam por meio de sinais de luz, mais especificamente laser. A vantagem dos sinais luminosos sobre os elétricos é transportar mais informação mais rapidamente. Nos chips nanofotônicos, a troca de informações deve ocorrer quase sem a conversão de energia elétrica em calor.

Chips com elementos nanofotônicos já fazem parte dos programas de pesquisa de multinacionais da área de eletrônica e existem em protótipo. Quando estiverem prontos para serem comercializados, deverão beneficiar, no início, supercomputadores dos principais centros de dados do mundo. “Há ainda problemas de física básica e de engenharia para resolver”, afirma Gustavo Wiederhecker, físico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que estuda a interação da luz com materiais nanométricos. “Mas, em algum momento, o custo de produção vai baixar e a nanofotônica poderá entrar no cotidiano das pessoas.”

“Os avanços recentes da nanofotônica são impressionantes, mas nada disso é tão revolucionário quanto o laser”, explica Paulo Nussenzveig, físico da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em óptica quântica. Nussenzveig colabora desde 2012 com a equipe da física Michal Lipson na Universidade Colúmbia, Estados Unidos, tentando explorar fenômenos quânticos da luz em chips nanofotônicos. No ano passado, o grupo publicou um artigo na revista Nature Photonics demonstrando como um efeito magnético quântico poderia ser usado para guiar a luz por um canal microscópico em um chip de silício. “O laser foi a mudança de paradigma que permitiu o desenvolvi-

idade MOderna idade cOnteMpOrânea

1690

Christiaan Huygens descreve matematicamente a luz como ondas se propagando em um meio material, explicando reflexão e refração

1704

Em Opticks, Isaac Newton descreve a luz como partícula e explica sua separação em cores ao atravessar um prisma por diferenças na massa e na velocidade das partículas

1800

William Herschel descobre a luz infravermelha. No ano seguinte, Johann Ritter identifica a luz ultravioleta

1804

Thomas Young demonstra a interferência da luz ao fazê-la passar por duas fendas paralelas, fenômeno explicável se a luz for por ondas

1865 Ao sintezar as leis da eletricidade e do magnetismo em quatro equações, James Clerk Maxwell conclui que campos elétricos e magnéticos podem oscilar no vácuo e se propagar como onda à velocidade da luz

mento de todas as tecnologias que o seguiram”, diz Nussenzveig, que em julho deste ano abordou os avanços recentes em sua área no workshop Light: Life & Science, realizado em São Carlos, interior de São Paulo, para celebrar o Ano Internacional da Luz, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para aumentar a consciência das pessoas sobre a importância da fotônica, a ciência e tecnologia do controle da luz, que permitiu a invenção do laser e das fibras ópticas que hoje conectam computadores mundo afora (ver a linha do tempo na pág. 16).

LuZ cO ncentrada

A invenção do laser só foi possível graças ao fim do debate histórico sobre a verdadeira natureza física da luz, encerrado no início do século XX. Novos fenômenos envolvendo a matéria (átomos e elétrons) e a luz só foram completamente entendidos com o desenvolvimento da teoria da mecânica quântica. De acordo com essa teoria, um feixe de luz é feito de trilhões de fótons, entidades elementares cuja natureza é ambígua, podendo se comportar ora como ondas, ora como partículas.

Albert Einstein calculou em 1916 que, nas circunstâncias adequadas, a presença de um fóton na vizinhança de um átomo “excitado” – isto é, prestes a emitir ele mesmo um fóton – estimularia esse átomo a emitir um fóton idêntico. Nos anos 1950, vários pesquisadores tentaram usar esse efeito para criar o chamado laser, acrônimo em inglês para amplificação de luz por emissão estimulada de radiação. O engenheiro norte-americano Theodore Maiman foi o primeiro a produzir um equipamento capaz de emitir um laser com sucesso, em 1960.

O poder do laser está na sincronia de seus fótons. Diferentemente das fontes de luz natural e artificial, cujos átomos emitem fótons em tempos, frequências e direções diferentes, os átomos de um gerador de laser emitem fótons em sincronia, com a mesma frequência e a mesma direção. Um feixe de laser usado para soldar ou cortar chapas de metal, por exemplo, emite fótons com a mesma potência que uma lâmpada caseira de 100 Watts. A diferença é que o feixe laser permite concentrar toda essa potência em uma área muito pequena.

O laser também transformou a pesquisa básica e permitiu aos físicos explorarem a chamada

óptica não linear, especialidade de Cleber Mendonça, da USP de São Carlos. “Essa área trata de fenômenos ópticos que só aparecem quando a intensidade da luz é muito alta”, explica o físico. Quando um feixe de laser muito intenso é focalizado sobre um ponto em um material, ocorre o seguinte na região próxima ao foco: as propriedades ópticas do material, tal como a sua capacidade de refletir ou refratar a luz, são transformadas pelo laser e, consequentemente, a luz do laser é transformada pelo material, alterando suas frequências de oscilação, por exemplo. Mendonça e sua equipe na USP exploram esses efeitos não lineares para fabricar estruturas micro e nanométricas em vidros e polímeros orgânicos que os pesquisadores tentam tornar compatíveis com o silício. Já o grupo do físico Paulo Dainese, da Unicamp, investiga como os efeitos não lineares podem melhorar a manipulação da informação codificada em pulsos luminosos conduzidos por fibras ópticas.

prepara experimento para medir o espalhamento da luz no Laboratório de Fibras Ópticas da unicamp

1905

Einstein explica o efeito fotoelétrico assumindo que a luz é feita de partículas, mais tarde chamadas de fótons. No mesmo ano, apresenta sua teoria da relatividade restrita, que explica os experimentos mostrando que a luz se propaga no vácuo a velocidade constante

1916

Einstein descobre que um átomo, ao interagir com a luz, pode ser estimulado a emitir mais luz. Quando se encontra na presença de um fóton, um átomo que ganhou energia (excitado) emite outro fóton com a mesma direção e energia que o primeiro. É o princípio do laser

1960

Theodore Maiman cria o primeiro laser de luz visível, baseado nos cálculos de Einstein de 1916 e na invenção do maser (laser de microondas), produzido por vários pesquisadores em 1954

Caminhos luminosos: Omar Florez Penaloza

As fibras ópticas são canais flexíveis feitos de um vidro muito uniforme e transparente, capazes de conduzir os sinais luminosos por longas distâncias quase sem perder energia. Hoje, mais de 1 bilhão de quilômetros de fibras ópticas conectam os computadores do mundo, algo que seria impossível de fazer com cabos de transmissão de sinais elétricos, que se propagam pela oscilação de elétrons em um fio de metal. Esse chacoalhar dos elétrons provoca a perda de muita energia, em geral convertida em calor – já os fótons, se comparados aos elétrons, praticamente não perdem energia nesse processo.

Dainese explica que uma única fibra óptica pode transmitir múltiplas mensagens simultaneamente codificadas em sinais de luz, graças a componentes ópticos chamados multiplexadores, que combinam feixes de luz com frequências diferentes – cada frequência de luz transmite uma mensagem. “Às vezes, em telecomunicações, é preciso passar uma mensagem transmitida por um canal de frequência para outro”, conta Dainese. “Hoje isso é feito convertendo o sinal codificado em certa frequência de luz em um sinal elétrico e depois retransmitindo-o em outra frequência de luz, mas estamos estudando maneiras de usar efeitos não lineares para eliminar essa etapa elétrica, que é lenta e cara.”

Da mesma forma que se reduziu drasticamente o custo da transmissão da informação a longas distâncias usando fibras ópticas no lugar de cabos elétricos, chegou a hora de fazer o mesmo nos chips de computador. “No passado recente, os microchips eram muito compactos e tinham apenas um único núcleo de processamento com centenas de micrômetros de extensão”, explica Wiederhecker. “Isso mudou nos últimos 15 anos com o surgimento de processadores com vários núcleos, que trabalham em paralelo.” Nesses processadores, uma tarefa computacional é dividida em partes que são executadas simultaneamente pelos diferentes núcleos.

Para manter a sincronia entre os processadores trabalhando em paralelo, os núcleos precisam se comunicar. Hoje isso é feito por sinais elétricos transmitidos por fios metálicos. “A comunicação por sinais de luz resolveria o problema da velocidade e da dissipação de calor”, diz Wiederhecker.

“Mas, para isso, precisamos recriar multiplexadores, roteadores, filtros e outros componentes das redes de fibras ópticas na escala de algumas centenas de nanômetros.”

No momento, Wiederhecker e seus colegas trabalham na criação de nano-osciladores mecânicos movidos e sincronizados pela luz. “Dentro dos computadores há um cristal de quartzo que oscila acoplado a um circuito elétrico”, esclarece. “O oscilador funciona como um metrônomo, sincronizando as operações dos componentes do computador, como o processador, a memória e a placa de vídeo. Queremos construir uma estrutura nanométrica que vibre ao receber um sinal luminoso.”

cada ve Z M en O r

Wiederhecker e outros pesquisadores estimam que essa integração microscópica da eletrônica com o laser permitirá a miniaturização de equipamentos que usam a luz para exames médicos e análises químicas. Atualmente, a maioria desses aparelhos é utilizada em laboratórios, mas o uso de chips fotônicos combinados a outras tecnologias pode permitir o desenvolvimento de equipamentos mais baratos e portáteis, que possam ser transportados para qualquer lugar.

“Alguns obstáculos ainda impedem que essa tecnologia se torne realidade, mas eles vêm sendo contornados rapidamente”, avalia Vilson R. Almeida, pesquisador que estuda aplicações da fotônica em sensoriamento biológico e aeroespacial no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e no Instituto de Estudos Avançados (IEAv), ambos vinculados ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, ligado ao Comando da Aeronáutica. Almeida participou de uma equipe internacional que desenvolveu um dispositivo composto de estruturas nanométricas em um chip de silício, capaz de transmitir luz em apenas uma direção. O trabalho foi capa da revista Nature Materials, em 2013.

Um desses obstáculos, Almeida explica, é o uso do silício como base dos chips eletrônicos e fotônicos comerciais. Apesar de transmitir bem a luz, o silício não gera nem detecta luz de modo eficiente. “Já se demonstrou que existem soluções como o uso de materiais híbridos, que estão sen-

cerca de 1960

A invenção do laser permite estudar interações não lineares em que a matéria altera as características da luz e a luz altera as propriedades ópticas da matéria

1962

Nick Holonyak e outros criam os diodos emissores de luz (LE ds) vermelha e verde. Em 1993, shuji

Nakamura cria o LE d azul, permitindo a criação de LE ds de qualquer cor

1966

Charles Kao e George Hockman descobrem que impurezas reduzem a capacidade de fibras ópticas transmitirem luz por longas distâncias, problema resolvido nos anos 1980

cerca de 1980

Físicos geram os primeiros pulsos de laser altamente controlados e de duração ultracurta, usados em navegação, astronomia, telecomunicações e espectroscopia

2010

IBM apresenta protótipo de chip integrado de silício com componentes nanofotônicos, que deverá ser utilizado no futuro

do aperfeiçoados e devem se tornar disponíveis comercialmente em até três anos”, ele prevê.

Um dos nanomateriais mais promissores a serem integrados aos chips nanofotônicos de silício são os chamados pontos quânticos, especialidade do físico Lázaro Padilha, da Unicamp. Pontos quânticos são pequenos grãos, com menos de 10 nanômetros de diâmetro, feitos de diversos materiais semicondutores. Ajustando o tamanho e as propriedades do material de que são feitos, os pontos quânticos podem transformar eletricidade em luz e funcionar como potentes lâmpadas de LED microscópicas – monitores de telas planas de altíssima resolução feitos de pontos quânticos foram lançados recentemente pela indústria eletrônica. Padilha participou de um estudo publicado em 2013 na Nature Communications no qual os pesquisadores mostram como aumentar de 0,2% para aproximadamente 8% a eficiência com que os pontos quânticos convertem eletricidade em luz.

Fazendo outros ajustes, os pontos quânticos também podem realizar a operação inversa: transformar luz em eletricidade, funcionando como minúsculos painéis solares. “Costumo dizer aos meus estudantes que a célula solar e o LED são o mesmo animal, mas de ponta-cabeça”, diz Padilha. “Daqui a 20 ou 30 anos”, ele prevê, “o telhado e as janelas das casas, o capô dos carros, tudo será coberto por uma camada de materiais que funcionarão como painéis solares microscópicos de alta eficiência, convertendo a luz do sol em energia elétrica”. n

Projetos

1. Aplicações de pulsos de femtossegundos em óptica não linear: espectroscopia, formatação de pulsos e microfabricação (nº 2011/12399-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Cleber Renato Mendonça (IFsC-usP); Investimento R$ 1.181.820,00.

2. Óptica quântica e informação quântica em chips de silício (nº 2011/12140-6); Modalidade Bolsa no Exterior – Pesquisa; Pesquisador responsável Paulo Alberto Nussenzveig (IF-usP); Investimento R$ 105.116,00.

3. Espectroscopia avançada em novos nanomateriais (nº 2013/169112); Modalidade Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes; Pesquisador responsável Lázaro Aurélio Padilha Junior; Investimento R$ 2.658.400,00.

4. Nanofotônica em semicondutores do Grupo IV e III-V (nº 2012/17765-7); Modalidade Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes; Pesquisador responsável Gustavo silva Wiederhecker (unicamp); Investimento R$ 1.113.640,00.

5. Processos de espalhamento de luz em microestruturas fotônicas (nº 2013/20180-3); Modalidade Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes; Pesquisador responsável Paulo Clóvis dainese Júnior (unicamp); Investimento R$ 1.219.080,00.

Artigos científicos

LAWRENCE, d et al. Non-reciprocal phase shift induced by an effective magnetic flux for light. nature photonics. 3 ago. 2014.

FENG, L. et al. Experimental demonstration of a unidirectional reflectionless parity-time metamaterial at optical frequencies. nature Materials. 25 nov. 2012.

BAE, W. K. et al. Controlling the influence of Auger recombination on the performance of quantum-dot light-emitting diodes. nature communications. 25 out. 2013.

Mil e uma utilidades

Inicialmente considerado uma solução à procura de um problema, laser ganha cada vez mais espaço na área da saúde

Bem-humorado, o físico norte-americano Arthur Schawlow ganhou o apelido de “ Laser Man ” nos anos 1960 por causa de suas demonstrações do invento que ajudara a criar. Em uma de suas preferidas, usava uma pistola a laser para estourar um balão de ar em forma de Mickey, colocado no interior de um balão transparente. No teste, um feixe de laser vermelho de meio milissegundo de duração atravessava a parede do primeiro balão sem danificá-la e concentrava a sua energia na parede escura do segundo, rompendo-a. Esse experimento simples, que Schawlow contou no livro Lasers and their uses, de 1983, ilustrava o princípio que havia gerado uma das primeiras aplicações do laser: seu uso na oftalmologia para evitar o descolamento da retina. Ao atravessar algumas camadas de tecido sem danificá-las e causar pequenas lesões na retina, estimulava a formação de cicatrizes nessa fina camada de células que absorve a luz no fundo do olho, evitando que se soltasse e levasse à perda da visão.

Desde que começou a ser empregado na oftalmologia, o laser e suas aplicações na saúde evoluíram muito. Físicos, engenheiros e técnicos aprimoraram o domínio sobre a produção dessa luz de cor muito pura, emitida de modo contínuo ou em pulsos de frações de segundo, sempre em

sorriso iluminado: na odontologia, laser corta e molda dentes, além de reduzir infecções

feixes muito condensados, e desenvolveram uma ampla variedade de tipos de laser, agora usados em áreas tão distintas quanto a cardiologia, a dermatologia, a odontologia ou a fisioterapia. Hoje cortam-se, desbastam-se e desintegram-se tecidos vivos num piscar de olhos com o laser. Mas, com ele, também é possível soldar vasos ou fornecer energia extra para as células, auxiliando-as a eliminar infecções e a se regenerarem. Em sintonia com os avanços no exterior, pesquisadores brasileiros vêm testando e aprimorando o uso de lasers e de LEDs – diodos emissores de luz, aparatos que, como o laser, permitem controlar a cor e a potência luminosa – para auxiliar o diagnóstico e o tratamento, em alguns casos ainda experimental, de diferentes problemas de saúde. Um dos grupos mais ativos nessa área está na Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos. Lá, a equipe do físico Vanderlei Bagnato e da dentista Cristina Kurachi trabalha há pouco mais de uma década no desenvolvimento de uma terapia à base de laser e de LED para identificar e tratar tumores de pele. Em parceria com médicos do Hospital Amaral Carvalho, centro de referência em oncologia localizado em Jaú, os pesquisadores ajudaram a produzir a versão nacional de um composto à base de ácido aminolevulínico e de aparelhos de LED ou de laser que podem ajudar

a definir as bordas do tumor e a eliminar as células doentes. Nessa estratégia de tratamento, conhecida como terapia fotodinâmica, a luz ativa o ácido aminolevulínico, absorvido pelas células tumorais, e desencadeia a produção de substâncias tóxicas que provocam a morte celular.

cO ntra O câncer de pe Le

Nos últimos anos, Bagnato e seus colaboradores vêm testando a segurança e a eficácia da terapia fotodinâmica para combater o carcinoma basocelular, a forma mais comum e menos agressiva do câncer de pele – por ano, surgem quase 130 mil novos casos desse tumor no Brasil. O estudo mais extenso que fizeram incluiu 297 pessoas atendidas em 27 centros dermatológicos do país. Médicos treinados pela dermatologista Ana Gabriela Salvio aplicaram a terapia fotodinâmica em 366 carcinomas com até 2 centímetros de diâmetro e 2 milímetros de espessura. Essa estratégia eliminou a lesão tumoral em ao menos 70% dos casos, segundo artigo publicado em 2014 na Photodiagnosis and Photodynamics Therapy. “A resposta melhora quando o diagnóstico da lesão é feito com o auxílio da luz ultravioleta”, afirma Cristina. Caso mais estudos comprovem a efetividade do tratamento, os pesquisadores pretendem tornar a terapia disponível no sistema público de saúde. “Ela pode se tonar uma ferramenta útil no Brasil, onde as pessoas podem levar até um ano para receber tratamento para um tumor de pele”, diz a pesquisadora, que tenta usar laser para detectar precocemente o melanoma, o câncer de pele mais agressivo e letal. A atuação da equipe de São Carlos vai além da oncologia. Atualmente, os pesquisadores testam outros agentes fotossensibilizadores e cores específicas de luz para eliminar micoses de unha e acelerar a cicatrização de feridas difíceis de fechar, comuns em pessoas com diabetes. Com dentistas de São Paulo, do Paraná e da Bahia, Bagnato e Cristina tentam adequar a terapia fotodinâmica ao combate de bactérias e fungos que causam infecções na boca (ver Pesquisa FAPESP nº 181). Em paralelo, o dentista Carlos de Paula Eduardo e sua equipe na Faculdade de Odontologia da USP em São Paulo usam o laser há 25 anos em estudos pioneiros no país para recuperar a saúde bucal. Eduardo criou o Laboratório Especial de Laser em Odontologia (Lelo) em 1990, ao retornar de um estágio na Universidade de Kyushu, no Japão. Desde então, cerca de 250 dissertações de mestrado e teses de doutorado desenvolvidas no Lelo analisaram diferentes aspectos do uso de laser de alta e de baixa potência em odontologia: de sua aplicação em cirurgia, para realizar cortes precisos em dentes e tecidos moles, ao seu emprego na prevenção de inflamações e infecções ou na recuperação dos tecidos.

Uma das contribuições importantes do grupo foi demonstrar que o laser de baixa potência ameniza a mucosite, inflamação do tecido que reveste a boca e atinge 40% das pessoas que fazem quimioterapia e 90% das que recebem transplante de medula óssea para restaurar o sistema imune após o tratamento da leucemia. Com equipes do exterior, Eduardo e o dentista Walter Niccoli Filho, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São José dos Campos, testaram o efeito do laser em 70 pessoas submetidas ao transplante de medula. De 7 a 13 aplicações foram feitas entre o primeiro dia de preparo para o transplante e o terceiro dia após o procedimento. O laser vermelho foi mais eficaz que o infravermelho para reduzir a inflamação e ambos se saíram melhor do que o placebo, embora não eliminassem a mucosite, que torna difícil até comer.

Desde que começou a trabalhar com laser de baixa potência, Eduardo e sua equipe testaram diversas estratégias de aplicação até chegar a uma eficaz para prevenir o ressurgimento da herpes labial. Causada por um vírus que se aloja nos nervos e gânglios, essa infecção se manifesta na forma de feridas doloridas, acompanhadas de febre e dores musculares em períodos de estresse, quando a imunidade baixa. Com aplicações de laser vermelho nos lábios, o grupo do Lelo reduziu a frequência e a intensidade das infecções, segundo estudo que acompanhou os pacientes por três anos. “Demorou 15 anos até chegarmos a esse protocolo de tratamento, que agora pode ser adotado na prática clínica”, conta Eduardo.

Mai S FO rça e M en OS can S aç O

A mesma luz que acelera a morte das células também pode protegê-las. O fisioterapeuta Nivaldo Parizotto, professor sênior da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), vem confirmando que algumas cores de laser e LED produzem um

À esquerda, teste com LE ds verdes para eliminar fungos

Abaixo, sessão de terapia fotodinâmica para tratar tumor de pele

efeito revigorante nos músculos. A aplicação sobre a pele de luzes vermelhas e infravermelhas reduziu a fatiga e melhorou o desempenho muscular, mostram estudos conduzidos por Parizotto e seu ex-aluno de doutorado Cleber Ferraresi, em parceria com pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Em testes com camundongos, o uso dessa luz dobrou a capacidade de realizar esforço físico. A redução da fadiga foi atribuída ao aumento da capacidade das células de produzir energia, que se elevou em 10 vezes. Por um mecanismo ainda pouco compreendido, a aplicação de luz vermelha e infravermelha antes do exercício físico intenso protege as células musculares de danos mecânicos. Em um trabalho mais recente, Parizotto e Ferraresi usaram um dispositivo de LED e laser, desenhado pelo grupo de Bagnato e desenvolvido por uma empresa de São Carlos, para realizar sessões de fototerapia na equipe masculina de vôlei profissional de São Bernardo.

Os atletas receberam de 20 a 60 segundos (s) de irradiação sobre a coxa, a musculatura mais

exigida nesse esporte, entre 40 e 60 minutos antes das partidas. O tratamento com luz, em especial nas doses intermediária (40 s) e máxima (60 s), reduziu os danos nas células musculares. No artigo da Laser in Medical Science de maio deste ano, em que descrevem os resultados, os pesquisadores supõem que a luz ajude a estabilizar a membrana das células musculares, evitando o rompimento. O mesmo grupo já havia mostrado antes que a luz infravermelha, associada ao exercício, produz efeitos sistêmicos: aumenta o desempenho muscular, melhora o funcionamento do sistema cardiovascular e acelera o emagrecimento (ver Pesquisa FAPESP nº 187). “O uso da luz parece auxiliar no controle da inflamação subclínica associada à obesidade e melhorar a capacidade de queimar gordura”, diz Parizotto.

O laser de baixa potência pode acelerar a cicatrização e promover a analgesia, diz Maria cristina chavantes

A médica Maria Cristina Chavantes, especialista no uso clínico e cirúrgico do laser e atual presidente da Sociedade Brasileira de Laser em Medicina e Cirurgia, coordena há anos ensaios clínicos-piloto para avaliar o potencial terapêutico dessa ferramenta em situações diversas. Depois de receber treinamento no Japão, na Alemanha e nos Estados Unidos, ela começou a usar o laser de alta potência no fim dos anos 1980 para remover tumores que invadiam a traqueia e os brônquios e prejudicavam a respiração de pessoas com câncer de pulmão – o procedimento não eliminava o câncer, mas facilitava a respiração. Também auxiliou a equipe de James Ausman a aplicar o laser em neurocirurgias no período que passou no Hospital Henry Ford. No início dos anos 1990, a convite do cirurgião cardíaco Adib Jatene (1929-2014), ela criou uma unidade de laser no Instituto do Coração (InCor) da USP, local onde em 1979 o cardiologista Radi Macruz havia iniciado um trabalho pioneiro no mundo: o uso de laser para remover depósitos de gordura (ateromas) da parede da artéria aorta. No InCor, Maria Cristina ajudou os cirurgiões Luís Alberto Dallan e Sérgio Almeida de Oliveira a usar um laser de potência muito elevada para perfurar canais na parede do coração e restaurar parte de sua capacidade de bombear o sangue. O procedimento era realizado em pessoas com doença cardíaca grave, para as quais não havia alternativa de tratamento – de 40 operados, 34 tiveram redução dos sintomas um ano após a cirurgia. Por volta de 1996, Maria Cristina conheceu

os primeiros lasers de baixa potência e começou a usá-los em outras situações para as quais não havia tratamento satisfatório, como a cicatrização de cirurgias extensas, como as cardiovasculares ou as de reparação da coluna vertebral.

Mais recentemente Maria Cristina e sua equipe na Universidade Nove de Julho vêm testando a ação anti-inflamatória do laser de baixa potência para auxiliar na cicatrização de cirurgias de redução de estômago, para estimular o funcionamento da glândula tireoide e para tratar uma doença inflamatória crônica na região genital, o líquen escleroso. Ela também avalia a aplicação do laser em distintas áreas do corpo para ajudar a reduzir a pressão sanguínea de gestantes com hipertensão. Para a médica, algumas características do laser de baixa potência – ele é seguro, não invasivo e sua aplicação é indolor – lhe conferem potencial de uso clínico em muitas áreas da medicina. “Em especial para auxiliar na cicatrização e na analgesia”, diz Maria Cristina. Nada mal para uma ferramenta que, logo após criada, chegou a ser considerada sem utilidade ou, como dizia o físico Charles Townes, que com Schawlow propôs a base teórica dos emissores de laser, era uma solução à procura de um problema. n

Projetos

1. Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica - Cepof (nº 2013/072761); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e d ifusão (Cepid); Pesquisador responsável Vanderlei salvador Bagnato (IFsC-usP); Investimento R$ 24.240.400,00 (para todo o projeto).

2. uso das terapias laser e LEd de baixa intensidade para aumentar o desempenho muscular: do in vitro e experimental ao uso clínico (nº 2010/07194-7); Modalidade Bolsa no Brasil – doutorado; Pesquisador responsável Nivaldo Antonio Parizotto (uFsCar); Beneficiário Cleber Ferraresi; Investimento R$ 111.006,00.

3. Estudo clínico do efeito da radiação laser (alta e/ou baixa potência) no tratamento de mucosite oral pós-radioterapia (nº 2005/57578-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Carlos de Paula Eduardo (FO-usP); Investimento R$ 26.161,90. 4. Avaliação da terapia fotodinâmica aplicada no tratamento de herpes labial: estudo in vivo, randomizado e cego (nº 2013/12317-9); Modalidade Bolsa no Brasil – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Carlos de Paula Eduardo (FO-usP); Beneficiária Karen Muller Ramalho Eboli; Investimento R$ 94.191,90.

5. Estudo in vitro do uso do laser de baixa potência na proliferação celular de tecido muscular cardíaco (processo de bioestimulação com arseneto de gálio (nº 2001/11865-5); Modalidade Bolsa no Brasil – Mestrado; Pesquisadora responsável Maria Cristina Chavantes (universidade do Vale do Paraíba); Beneficiária Ritchelli Ricci; Investimento R$ 26.400,00.

Artigos científicos

RAMIREZ, d. P. et al. Experience and BCC subtypes as determinants of MAL-PdT response: preliminary results of a national Brazilian project. photodiagnosis and photodynamic therapy. v. 11. p. 22-6. 2014. sCHuBERT, M. M. et al. A phase III randomized double-blind placebo-controlled clinical trial to determine the efficacy of low level laser therapy for the prevention of oral mucositis in patients undergoing hematopoietic cell transplantation. Supportive care in Medicine. 2007.

FERRAREsI, C. et al. Light-emitting diode therapy in exercise-trained mice increases muscle performance, cytochrome c oxidase activity, ATP and cell proliferation. Journal of Biophotonics. 2015. FERRAREsI, C. et al. Light-emitting diode therapy (LEdT) before matches prevents increase in creatine kinase with a light dose response in volleyball players. Lasers in Medical Science. 2015.

O desafio de criar conhecimento e riqueza

Ministro argentino quer ampliar parcerias com o Brasil e diz que o exemplo de São Paulo pode inspirar empresas de seu país a investir mais em pesquisa

Fabrício Marques | retrato Léo ramos

o

governo da Argentina criou em 2007 o seu Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva (Mincyt) e, ao longo dos últimos oito anos, a pasta manteve o mesmo titular: o portenho Lino Barañao, 61 anos, doutor em Química pela Universidade de Buenos Aires, especializado em biotecnologia animal. Em sua trajetória de cientista, atuou como pesquisador visitante do Instituto Max Planck, em Munique, na Alemanha, e da Universidade do Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e se tornou diretor do Laboratório de Biologia de Reprodução e Biotecnologia Animal, vinculado ao Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet, na sigla em espanhol), a principal agência de promoção da ciência e da tecnologia do país. Em 2002, participou da primeira equipe na América Latina a clonar um bezerro, a novilha Pampa. No ano seguinte, assumiu a presidência da Agência Nacional de Promoção Científica e Tecnológica (Anpcyt), criada nos anos 1990 para dar mais fle-

xibilidade ao financiamento à pesquisa, até então concentrado na estrutura do Conicet. Comandou a agência até 2007, quando foi convidado pela presidente Cristina Kirchner a assumir o ministério. Sua gestão teve impacto no modo como a Argentina faz ciência. A ampliação no investimento em infraestrutura promoveu a construção de 190 mil metros quadrados em laboratórios e um programa de repatriamento de pesquisadores argentinos trouxe do exterior mais de mil deles, instalando-os em centros de pesquisa públicos e em empresas, além de estabelecer uma teia de relacionamentos com mais de 5 mil cientistas do país radicados em outros países, transformados em pontas de lança de colaborações científicas internacionais. Os reduzidos investimentos das empresas argentinas em pesquisa e desenvolvimento (P&D) – 76% das atividades de P&D no país são financiadas pelo Estado – seguem como um gargalo no desenvolvimento científico do país, que vem recorrendo a parcerias público-privadas para mudar esse quadro.

idade 61 anos

esPecialidade

Biologia celular, fisiologia da reprodução e biotecnologia animal

FOrMaçãO

Graduação (1976) e doutorado (1981) em Ciências Químicas pela Faculdade de Ciências e xatas e Naturais da Universidade de Buenos aires. Pesquisador convidado do Instituto Max Planck de Psiquiatria (1981); pesquisador-associado da Universidade do estado da Pensilvânia (1982-1984)

institUiçãO

Laboratório de Biologia de reprodução e Biotecnologia animal (Conicet)

PrOdUçãO cientíFica

Publicou mais de 50 artigos em revistas científicas internacionais e 5 capítulos de livro. orientou 6 doutorados

Em agosto, Barañao fez uma visita ao Brasil. Esteve na sede da FAPESP, discutiu a ampliação das colaborações com pesquisadores paulistas e relatou que está dentro do cronograma a construção, nos Andes argentinos, do radiotelescópio Llama (sigla em inglês para o projeto Grande Arranjo Milimétrico Latino-americano), concebido por meio de uma parceria na qual pesquisadores paulistas são os responsáveis pela compra da antena de 12 metros, cujo custo total, financiado pela FAPESP, é de US$ 9,2 milhões, cabendo aos argentinos montar a estrutura física para receber o equipamento e cuidar de sua operação, que deve ter início em 2017. O ministro também visitou o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas, bastante utilizado por pesquisadores argentinos, e foi a Brasília reunir-se com o ministro brasileiro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo. Na capital federal, disse que Brasil e Argentina têm desafios complementares e defendeu uma maior integração entre cientistas dos dois países. Barañao fez questão de reservar tempo em sua agenda para conceder à Pesquisa FAPESP a entrevista a seguir.

O Brasil é o terceiro país com o qual a Argentina mais produz artigos científicos em colaboração internacional, atrás apenas dos Estados Unidos e da Espanha. Em que campos do conhecimento a colaboração entre os dois países tem sido mais produtiva? Isso foi mudando ao longo da história. Algumas décadas atrás, a preponderância era da física e da química. Depois, com o surgimento do Centro Argentino-Brasileiro de Biotecnologia, o Cabbio [rede binacional de grupos de pesquisa criada em 1987 que já apoiou mais de uma centena de projetos], a colaboração se intensificou em áreas como biologia e biotecnologia aplicada tanto na produção vegetal quanto animal. Mais recentemente, cresceu muito a cooperação em temas de biologia estrutural e em questões de saúde, nesse centro brasileiro e argentino, fundamentalmente em células-tronco.

Que é uma de suas áreas de interesse, não é?

Sim, trabalho também com células-tronco.

Na FAPESP Week Buenos Aires, realizada em abril passado, houve mesas-redondas sobre temas de pesquisa que interessam aos dois países, tais como energia, alimentos funcionais, nanociências e informação quântica. O senhor destacaria alguma área?

Há uma nova iniciativa relacionada com estudos de física quântica e átomos frios. É algo bastante original e poderá incorporar ciência de ponta à cooperação.

O ministério tem interesse em ampliar parcerias com pesquisadores do estado de São Paulo? Em que setores?

de economia liberal, com um mercado aberto, foram penalizados aqueles empresários que investiram em pesquisa e tentaram competir saudavelmente por meio da incorporação de conhecimento. Eles estão se recuperando lentamente. Mas a comparação com exemplos bem-sucedidos serve, e muito, principalmente quando a referência é tão próxima, como é o caso de São Paulo. Não faz sentido comparar com a Irlanda ou com os países nórdicos, porque há fatores culturais que tornam esses países muito diferentes do nosso. Já as diferenças culturais entre o Brasil e a Argentina não são grandes.

Na Argentina, 76% dos investimentos em P&D dependem do setor público. Que estratégias o país adota para tentar ampliar a participação das empresas nos investimentos?

Um setor de impacto crescente é o de software. a a rgentina já exporta mais software do que carne

Mais do que pensar em uma área específica, interessa assimilar as boas práticas de um setor privado inovador. Vemos a participação do setor privado na pesquisa como um diferencial do estado de São Paulo. Nosso grande desafio é conectar conhecimento com geração de riqueza. Dessa forma, estamos interessados em avançar em projetos que tenham possíveis aplicações no curto e médio prazo, além de casos bem-sucedidos que permitam mostrar para os empresários argentinos que investir em P&D é rentável. Em São Paulo há essa diferença qualitativa, graças a um processo de seleção natural. Não que os empresários argentinos sejam intrinsecamente menos propensos à inovação, mas, por causa dos anos

Em São Paulo, as empresas contribuem com 61% dos investimentos em P&D, um percentual muito alto. Essa proporção decorre da matriz produtiva. Na Argentina, os setores extrativistas, incluindo a agricultura, a mineração, os produtos não elaborados, têm ainda um peso importante na economia. Essas empresas não investem em P&D ou porque têm processos já estabelecidos ou porque são filiais de companhias estrangeiras que aplicam tecnologia já desenvolvida. O setor da agricultura, contudo, começou a investir mais na última década e já existe uma parceria dos produtores, chamada Bioceres, que criou um centro de pesquisa num campus universitário. É o primeiro caso de um setor que compreendeu a importância da biotecnologia para a competitividade e deseja desenvolver tecnologia própria. Mas, claro, quando se tenta medir o impacto disso, ele ainda não é detectável. Outro setor com impacto crescente é o de software, que é um setor de serviços. A Argentina já exporta mais software que carne. Isso é um fato, embora o software não seja tão saboroso... Analisando individualmente, as empresas de software investem uma proporção tão alta de seus lucros quanto a de uma empresa americana, porque é próprio de uma empresa de software ser

competitiva e melhorar continuamente seus processos. Esse setor está crescendo aos poucos. Ainda não temos empresas que faturem US$ 500 milhões ou US$ 1 bilhão. Aí sim o percentual aplicado à pesquisa seria mais notável. Eu confio que, à medida que tenhamos uma diversificação da matriz produtiva, com empresas com mais conhecimento agregado, iremos ter uma maior proporção de investimento do setor privado.

O investimento em pesquisa do governo argentino cresceu nos últimos anos em áreas como biotecnologia, nanotecnologia, agroindústria, saúde e informática, que fomentam investimentos de risco em inovações dentro de instituições públicas com o objetivo de repassá-las, quando estiverem maduras, para o setor privado. O modelo tem funcionado?

O que fizemos foi criar um fundo que financia primeiro setores previamente estabelecidos, como biotecnologia, nanotecnologia, meio ambiente, entre outros. Mas, além disso, financiamos unicamente parcerias público-privadas. Ou seja, o esforço precisa ser conjunto: de um lado, o pesquisador com a ideia inovadora e, de outro, o empresário disposto a se engajar com o investimento necessário para chegar ao mercado caso o produto passe no teste de sucesso.

O governo investe na inovação de risco, é isso?

O setor público investe na fase de risco e o setor privado acompanha depois. Para o desenvolvimento de anticorpos monoclonais, por exemplo, concedemos subsídios num montante de US$ 7 milhões. Nenhuma empresa farmacêutica na Argentina poderia investir isso a risco, então foi algo novo. Uma empresa construiu uma fábrica que custou US$ 25 milhões, mas sobre a base de um produto que havia sido testado e estava pronto para ser comercializado. Nós expandimos essa modalidade de parceria público-privada. Já temos mais de 30 em andamento, com desenvolvimentos concretos. Acreditamos que elas são um jeito eficaz de acoplar esses dois mundos diferentes. O problema principal é que os mecanismos de recompensa do setor privado e do setor público são diferentes. O setor privado tem como recompensa a rentabilidade, já que vive disso, enquanto no setor público o pesquisador busca o

a antena de 12 metros do Llama, que deve ser instalada em 2016, é semelhante à do apex (acima), no Chile

reconhecimento dos pares por meio das publicações, das citações.

Como aproximar os dois sistemas de recompensa?

É difícil compatibilizar, a menos que haja um estímulo grande, como um financiamento que o pesquisador não conseguiria para seu trabalho de modo tradicional. Assim, ao participar dessas parcerias, os pesquisadores podem comprar equipamentos maiores e ter mais bolsistas na equipe, e isso em geral não atrapalha sua capacidade de publicação. Muitas vezes eles terminam publicando coisas que desenvolveram para as parcerias como uma contribuição ao conhecimento geral. Também podemos incentivar esse acoplamento utilizando instrumentos como a Lei de Software, que fez aumentar o investimento das empresas do setor, sobretudo fazendo P&D – porque para poder contar com a isenção fiscal precisam fazer P&D e investir. Isso tem sido benéfico. As empresas têm um incentivo concreto para escoar parte dos lucros para pesquisa, porque são compensadas por outra via. Trata-se de uma combinação de instrumentos de promoção e instrumentos fiscais, que, em síntese, creio que seja a ferramenta mais adequada.

Quais são as perspectivas da parceria entre o Conicet e a FAPESP para a construção do Llama? O que esperar, em termos de resultados científicos, desse projeto? Além de agregar recursos,

qual a aspiração com a elaboração de projetos conjuntos?

O projeto Llama está em andamento, cumprindo o cronograma exatamente em conformidade com o previsto. Agora está na etapa da engenharia, de design das bases para a antena, a parte logística; mas tanto o Conicet como o ministério e o governo da província de Salta estão aportando os recursos tal como previsto. Por isso nós acreditamos que entrará em funcionamento na data estabelecida originalmente. Este tipo de iniciativa tem duas vertentes de resultados. Por um lado, há os resultados científicos, como analisar fontes de energia do espaço estelar, conhecer a origem do Universo e saber como ele foi evoluindo. Isso tem a ver com satisfazer a curiosidade, creio que todos nós a compartilhamos, de saber de onde nós viemos e o que acontece com o Universo. Contudo, vemos na prática que, para alcançar os resultados científicos, é preciso desenvolver tecnologias que servem também para outras coisas. Assim, evoluem a engenharia e as comunicações, porque é preciso produzir detectores, construir instrumentos com extrema precisão. É o caso, por exemplo, da “máquina de Deus” [Grande Colisor de Hádrons, LHC na sigla em inglês], do Cern [Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear], em Genebra, cujo desenvolvimento gerou, por exemplo, tecnologias aplicáveis para o diagnóstico médico. Acho que o Llama vai contribuir para o conhecimento universal e desen-

volver tecnologias, mas, sobretudo, será um símbolo muito forte da cooperação entre o Brasil e a Argentina num projeto que contribui com a ciência global. Do ponto de vista político, que retroalimenta o investimento em ciência, emite-se um sinal muito claro. Por outro lado, o governo provincial de Salta também apoia o projeto, de fato, por interesse turístico, juntando gastronomia e astronomia.

Como assim?

A ideia é conectar a astronomia ao desenvolvimento regional por meio da gastronomia. Ocorre que esses empreendimentos atraem aficionados em astronomia que desejam ver algum telescópio e eles buscam um local de alojamento à noite e boa comida. O Chile já fez isso para promover o turismo, um turismo seletivo, mas que não chega apenas para fazer uma observação particular e sim para conhecer o entorno, porque, obviamente, de dia não dá para ver estrelas, então se pode bater perna, fazer compras… Achamos que poderá ser um corredor turístico, uma iniciativa interessante, já que também pode servir para transmitir a cultura da região.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva foi criado em 2007 para, segundo palavras que o senhor usou na época, colocar a ciência a serviço do desenvolvimento econômico da Argentina. A ênfase na transferência de conhecimento para a sociedade é uma forma de legitimar o investimento em ciência?

mos em consideração as consequências das mudanças climáticas, com grandes oscilações no regime de chuvas. No campo da saúde, o desenvolvimento de novas terapias para o câncer; a contribuição à indústria de satélites, com o desenvolvimento, por uma empresa privada, de nanossatélites; temos uma quantidade de exemplos que mostram que é preciso um tempo de pelo menos cinco ou seis anos para conseguir resultados. Agora estamos começando a colher os frutos disso.

O senhor costuma utilizar o verbo “pasteurizar” quando se refere à estratégia do ministério para a ciência argentina. Pode explicar o conceito? O conceito de “pasteurização” tem a ver com o livro de [Donald] Stokes, O qua -

de demais para pensar em estratégias. Como avalia, hoje, o papel da agência? Separamos a elaboração de políticas, o financiamento e a execução. As políticas estão sob a égide do ministério, o financiamento fica por conta da agência, que é descentralizada dentro do ministério e tem seus mecanismos de avaliação, tanto para o setor privado quanto para o público, e cabe ao Conicet o papel de braço executor e de financiar projetos específicos. Esta divisão de papéis tem sido extremamente eficaz, pois permite uma avaliação objetiva dos projetos para além dos currículos dos pesquisadores. Digamos que são critérios complementares. A existência desses dois balcões também resulta útil porque há projetos que às vezes não têm uma aplicação concreta hoje, mas terão no futuro, e então são financiados pelo outro balcão.

Podemos contribuir para gerar conhecimento original por

meio

da solução de problemas

É. Depois de oito anos dessa política, temos alguns resultados concretos. Eu já mencionei a produção de anticorpos monoclonais no país. Em breve, vamos também exportá-los para países em desenvolvimento por meio de um programa da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ou seja, não só vamos abastecer o mercado interno como também seremos provedores globais desta tecnologia. O desenvolvimento de variedades de plantas resistentes à seca pode, ainda, ter um impacto estimado em US$ 20 bilhões por ano, se de fato melhorar a produção em escala mundial, principalmente se levar-

drante de Pasteur. Ele recomenda para os Estados Unidos, e achamos que vale para os países em desenvolvimento, fazer ciência básica inspirada no uso. Isso permite superar a contradição entre ciência básica e ciência aplicada. Podemos contribuir para gerar conhecimento original por meio da solução de problemas. O que defendemos é, de alguma maneira, resolver problemas usando várias disciplinas e a maior quantidade de imaginação possível.

O senhor presidiu a Agência Nacional de Promoção Científica e Tecnológica, criada em 1996 para dar mais flexibilidade ao financiamento à pesquisa. Dizia-se que a estrutura do Conicet havia ficado gran-

Qual é o balanço do programa Raíces, que desde 2008 repatriou mais de mil cientistas argentinos radicados no exterior? Onde eles estão trabalhando? Tem sido muito eficaz. Não apenas repatriou pesquisadores, e temos já 1.160 residindo e trabalhando na Argentina tanto no setor público como no privado, mas também estabeleceu vínculos muito ativos com os pesquisadores argentinos residentes no exterior. Isso por meio do sistema de bolsas, que permite a eles virem à Argentina para trabalhar, da organização de workshops e da interação com empresas. Recuperamos não apenas fisicamente os pesquisadores, mas também o vínculo com quase 5 mil pesquisadores argentinos que trabalham em diferentes instituições no exterior; assim estamos recuperando com acréscimos o capital humano que investimos lá fora.

A Argentina ainda sofre com a fuga de cérebros?

Não temos mais fuga. O que fazemos com os bolsistas é mandá-los por períodos curtos para destinos específicos quando já têm contratos no país. Ou seja, garantimos que eles continuem se formando, mas retornem. n

Aula ministrada na sede do instituto, no bairro fluminense do Horto: abertura para talentos precoces, como a prata da casa Artur ávila, ganhador da Medalha Fields

Uma fórmula que deu certo

Flexibilidade acadêmica e internacionalização fazem parte da equação de sucesso do Impa

t exto Marcos pivetta, do Rio de Janeiro | Fotos léo Ramos

Em uma visita ao Rio de Janeiro no início dos anos 1980, o economista carioca José Alexandre Scheinkman resolveu passar na nova sede própria do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), um prédio envidraçado de quatro andares situado no bairro do Horto, nas bordas de uma área de Mata Atlântica entre a Floresta Nacional da Tijuca e o Jardim Botânico. O então professor da Universidade de Chicago mantinha laços com o instituto desde o final dos anos 1960, quando, em paralelo ao curso de economia concluído na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lá fizera mestrado. Entre 1978 e 1979 fora ainda professor visitante do Impa. Mas aquela não era uma visita totalmente desinteressada. Scheinkman estava tendo dificuldades em entender um paper sobre a teoria matemática do caos, cujas ideias queria aplicar a um problema de economia. Pretendia bater na porta da sala de Jacob Palis, velho conhecido e um dos mais renomados quadros do Impa, que certamente lhe explicaria os detalhes do artigo. “Bati e um sujeito enorme abriu a porta e disse, em inglês, que o professor Palis estava em viagem”, relembra

Scheinkman, 68 anos, hoje professor emérito da Universidade de Princeton e docente da Universidade Colúmbia, em Nova York. “Em seguida, ele se apresentou: chamava-se Floris Takens.” Era o matemático holandês autor do trabalho que levara Scheinkman ao número 110 da estrada Dona Castorina. O próprio Takens, colaborador de Palis que passava uma temporada no país, contou-lhe do que tratava exatamente o paper.

oepisódio com o economista ilustra três características que, ao longo de mais de seis décadas, foram incorporadas ao DNA do Impa: a busca por jovens promissores, o desapego a formalidades acadêmicas e a internacionalização do seu corpo docente e discente. Fundado por três pesquisadores em 1952, o instituto, que dispõe de um orçamento anual de R$ 35 milhões oriundo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), conta hoje com 48 pesquisadores fixos contratados, dos quais 18 são estrangeiros. Cerca de 40% de seus atuais 154 alunos de mestrado e doutorado são do exterior, com forte presença de estudantes da América Latina. Entre os 60 pós-doutorandos, a história não é muito diferente: os brasileiros representam 40% e 60% vêm de fora.

Uma página no site do Impa atualiza todos os meses o número de pesquisadores visitantes ministrando aulas ou fazendo pesquisa no prédio do Horto. Em agosto, havia 51 nomes nessa lista, 12 de instituições brasileiras. “O Impa é um líder in-

ternacional tanto em pesquisa como na formação para a área de matemática”, diz o argentino Matias del Hoyo, especialista em geometria, que tem uma bolsa de estudos de até três anos para atuar como pesquisador-professor visitante. “O instituto tem recursos e se destaca pelo nível de seus pesquisadores e por ter um ambiente muito ativo, com congressos e visitantes ao longo do ano.”

A fama de excelência do Impa extrapolou os limites acadêmicos quando o carioca Artur Ávila, um dos mais destacados rebentos da extensa genealogia de matemáticos ali formados (744 mestres e 401 doutores em seis décadas de atuação), tornou-se o primeiro sul-americano a ganhar a Medalha Fields, o maior prêmio internacional da matemática, em 2014 (ver entrevista com o pesquisador no nº 223 de Pesquisa FAPESP). A história de Ávila, 36 anos, hoje pesquisador extraordinário no instituto fluminense e diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Paris, é típica do jeito Impa de ser. Ele concluiu o mestrado ainda como aluno do ensino médio, aos 18 anos, e obteve o doutorado aos 21 anos junto com a graduação na UFRJ. “Aqui não priorizamos os formalismos acadêmicos, somos mais flexíveis”, diz César Camacho, diretor-geral do instituto, que tem dupla cidadania, peruana (é de Lima) e brasileira. “Além disso, a matemática costuma apresentar talentos precoces.” Camacho foi aceito no mestrado do Impa, ainda nos anos 1960, sem ter concluído o curso de ciências físicas e matemáticas na Uni -

Fachada (acima) e biblioteca (página ao lado) do Impa: 60 mil volumes para 48 professores, 154 alunos de mestrado e doutorado e 60 pós-doutorandos

versidade Nacional de Engenharia, em Lima. A legislação brasileira não permite que pessoas sem graduação completa recebam o título de mestre ou doutor. Por isso, o Impa deixa que seus alunos nessa condição façam o mestrado ou o doutorado normalmente, mas só entra com o pedido para validar o título da pós depois que os estudantes terminam formalmente a graduação.

Os números referentes à produção de artigos científicos publicados por pesquisadores do Impa em revistas com peer review parecem modestos se comparados aos índices das ciências biológicas, mas, de acordo o instituto, são semelhantes aos exibidos pelos melhores departamentos de matemática do mundo. Segundo o relatório de gestão do Impa publicado no ano passado, que usou dados extraídos da publicação MathSciNet, da Sociedade Matemática Americana, seus docentes produziram 76 papers em 2012, média de 1,65 artigo por professor. Com 88 papers publicados naquele ano, o Departamento de Matemática da Universidade de Princeton obteve a melhor média, 2,10 artigos por pesquisador. Em termos de fator de impacto, cada artigo do Impa foi citado 1,46 vez de acordo com uma média ponderada, desempenho superior ao de departamentos importantes de pesquisa matemática, como os da Universidade da Califórnia em Berkeley (1,41) e da Universidade de Cambridge (1,30). Novamente, por esse critério, sempre de acordo com o relatório do Impa, Princeton liderou o ranking, com 2,59 citações por paper. O Impa sem dúvida tem prestígio internacional, ainda mais depois da Medalha Fields. Mas o ranking das melhores instituições superiores do mundo com atuação no campo da matemática

divulgado neste ano pela consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS) situa o instituto carioca em uma posição modesta: entre o 301º e o 400º lugar, atrás da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Campinas (Unicamp), ambas entre o 51º e o 100º lugar, da UFRJ (151-200) e da Universidade Federal de Minas Gerais (251-300). “Não concordo com essa comparação. Ela envolve instituições com estruturas distintas. O resultado não é confiável”, diz Palis, diretor do Impa entre 1993 e 2003 e atual presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “As avaliações da matemática da USP e da Unicamp também parecem distorcidas para baixo. A matemática brasileira como um todo tem grande prestígio internacional.”

palis acredita que o sucesso do Impa possa ser explicado, em parte, por sua trajetória discreta, de crescimento lento, mas marcada por bons quadros e continuidade administrativa. “Se o Impa tivesse começado grande, talvez não tivesse alcançado tanto sucesso”, diz ele. Primeira unidade de pesquisa criada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o instituto foi fundado em 1952 por três destacados pesquisadores: Lélio Gama, astrofísico e matemático, seu primeiro diretor, função que exerceu até 1965 em paralelo à direção do Observatório Nacional; Leopoldo Nachbin, matemático, também um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), com boas conexões no exterior; e Maurício Matos Peixoto, que desenvolveu a área de sistemas dinâmicos, em que o próprio Palis, Ávila e outros matemáticos do Impa atuam. Depois de Gama, o Impa só teve mais

quatro diretores. Entre 1965 e 1993, dois nomes se alternaram, em diferentes períodos, no comando da instituição, Lindolpho de Carvalho Dias e Elon Lages Lima, este último ainda hoje seu professor emérito. A seguir, vieram Palis e agora Camacho.

Antes de se instalar definitivamente no aprazível Horto, em 1981, o Impa teve três endereços temporários. Durante os cinco primeiros anos, ocupou uma sala do CBPF na praia Vermelha. De 1957 a 1967, funcionou em um casarão em Botafogo e posteriormente em um prédio no centro do Rio de Janeiro até se transferir para a sede própria. A mudança de casa ocorria conforme crescia. Na virada do século XXI, já no prédio da estrada da Castorina, tinha 31 pesquisadores fixos. Em 2001, durante a gestão de Palis, uma mudança estrutural conferiu-lhe ainda mais autonomia administrativa e científica: o instituto transformou-se em organização social (OS), pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, mantida basicamente por meio de um contrato de gestão com o MCTI. “Ficamos um ano discutindo se deveríamos virar ou não uma OS”, lembra Luiz Velho, coordenador do Visgraf, o laboratório de computação gráfica criado em 1989 no Impa. Na época, a principal crítica que se fazia é que essa forma jurídica de atuação representaria uma porta de entrada para a privatização do setor público de pesquisa. “Aqui usamos o regime de OS de forma responsável”, diz Velho. O contrato de gestão do Impa com o MCTI estabelece 18 metas anuais a serem atendidas por seu corpo docente, como a publicação de um determinado número de artigos em revistas internacionais de primeira linha e a formação de uma certa quantidade de mestres e doutores.

Instituto recebe doações da família Moreira s alles. No ano passado ganhou um terreno da Globo para expandir sua sede

A Associação Brasileira de Tecnologia em Luz Síncrotron (ABTLuS), de Campinas, foi a primeira instituição de pesquisa a se converter em OS e firmar contrato de gestão com o MCTI. Em janeiro de 1998, ela ganhou esse status jurídico. Hoje, cinco instituições de pesquisa associadas ao ministério adotam esse regime, que permite criar regras próprias de funcionamento, distintas das que regem o setor público. “Uma instituição ruim não se torna boa por se transformar em OS”, afirma Carlos Américo Pacheco, diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM, sucessor da ABTLuS), organização social que administra o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e outros três laboratórios. “As OS têm um contrato de gestão com uma missão clara, que lhe dá liberdade de ação para perseguir seus objetivos e evita, por exemplo, o estabelecimento precoce de estabi-

Diretor césar c amacho (na outra página), pesquisador

Jorge Zubelli (acima) e professor visitante Matias del Hoyo, respectivamente, um peruo-brasileiro, um brasileiro e um argentino: internacionalização dos quadros do Impa

lidade no emprego, o que pode gerar, em certos casos, acomodação. Mas nem todas as instituições de pesquisa precisam trabalhar nesse regime.”

Uma das razões de haver poucas OS vinculadas ao MCTI, segundo Pacheco, foi a insegurança jurídica que pairou durante mais de 15 anos sobre a legalidade dos contratos de gestão firmados entre essas entidades e o Estado brasileiro. Desde 1998, corria uma Ação Direta de Inconstitucionalidade que questionava a existência das OS que atuam em áreas que seriam de responsabilidade estatal, como saúde, educação, pesquisa, ensino e preservação do meio ambiente. Em abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal se posicionou sobre o tema e considerou legal a atuação das OS.

Uma das vantagens de ser uma organização social é ter a possibilidade de definir uma política própria de contratação e remuneração de pessoal. A carreira dos matemáticos contratados pelo Impa é dividida em nove faixas salariais, três para cada um dos três estágios do cargo de pesquisador (adjunto, associado e titular). A remuneração mais baixa, de pesquisador adjunto de nível 1, é de R$ 16,7 mil. A mais alta, de pesquisador titular de nível 9, chega a R$ 22,9 mil.

“O Impa é uma instituição que nasceu bem e foi bem implementada. Suas qualidades foram potencializadas quando virou uma organização social”, diz o físico José Fernando Perez, ex-diretor científico da FAPESP, o mais antigo dos 10 membros do conselho de administração do instituto – novidade criada com a adoção do regime de OS. “Hoje ele tem uma flexibilidade para contratar e demitir que é impossível de ser adotada em universidades públicas.”

Quando decidiu largar o emprego na sede da Microsoft Research, nos arredores de Seattle, no estado americano de Washington, e voltar para o Rio de Janeiro no fim da década de 2000, o engenheiro da computação Diego Nehab, 38 anos, tinha duas boas propostas de emprego na área acadêmica: de uma universidade privada e do Impa. A do instituto no Horto pagava 30% mais e oferecia outras vantagens comparativas. “O Impa tem muitas colaborações no exterior. Como morei nos Estados Unidos por um bom tempo, todos os meus contatos também estavam lá fora”, diz Nehab, que antes de entrar na gigante dos softwares fez doutorado em Princeton e, desde 2010, é pesquisador associado do Impa. O intercâmbio internacional dos pesquisadores contratados é facilitado com a adoção de um calendário letivo mais flexível. Nehab, por exemplo, tem de dar aulas em dois dos três períodos do ano letivo do Impa. Pode escolher entre ministrar seus cursos em janeiro e fevereiro, durante o chamado programa de verão, de março a junho ou de agosto a novembro. Dessa forma, se optar por dar um curso no verão, terá um se-

mestre livre para se dedicar exclusivamente à pesquisa e a eventuais viagens. “O Impa recebe muitos visitantes e propicia uma grande liberdade para os pesquisadores viajarem”, diz o francês Hubert Lacoin, de 30 anos, especialista em teoria da probabilidade, com ênfase em problemas físicos, contratado desde outubro passado como pesquisador adjunto. Do processo de seleção que escolheu Lacoin e o alemão Oliver Lorscheid, de 37 anos, participaram 100 candidatos. Dezessete eram do Brasil; os demais, do exterior.

Aatuação dos pesquisadores do Impa se distribui por 11 áreas da matemática: álgebra, análise e equações diferenciais parciais, computação gráfica, dinâmica dos fluidos, dinâmica holomorfa e folheações complexas, economia matemática, geometria diferencial, geometria simplética, otimização, probabilidade e sistemas dinâmicos/teoria ergódica. A piada que se ouve nos corredores do instituto é que Impa significou, durante um bom tempo, instituto de matemática pura e abstrata. Hoje a brincadeira já não faz tanto sentido. As áreas aplicadas ganharam terreno nas duas últimas décadas. Há quatro anos foi criado o Laboratório de Análise e Modelagem Matemática em Ciências Aplicadas, que usa e desenvolve ferramentas matemáticas para solucionar problemas em diferentes setores, como o petrolífero, o mercado financeiro e a saúde pública. “Gostaríamos de ter mais alunos atuando em nossa área”, diz o pesquisador Jorge Zubelli, coordenador do laboratório.

Andar pelos corredores do número 110 da estrada da Castorina, um endereço em que a matemática caminha emoldurada por sons, cheiros e imagens da Mata Atlântica, é uma introdução ao estilo Impa de ensinar e fazer pesquisa. Conversas em espanhol, francês e inglês fundem-se ao português ouvido na grande sala de café, que costuma encher durante os intervalos de aulas e eventos. Pendurada em um canto da sala, uma lousa dá um ar quase acadêmico ao cafezinho. “Quero fazer também o doutorado aqui”, diz, em “portunhol”, Jennifer Loria, uma costa-riquenha que iniciou o mestrado em janeiro deste ano no Impa após ter entrado em contato com um pesquisador brasileiro, há dois anos, numa edição internacional da olimpíada de matemática. Com 24 anos, ela é um pouco mais velha do que boa parte de seus colegas de turma. “O ambiente aqui é lindo e as pessoas são calorosas.” A presença de mulheres no Impa é minoritária: apenas uma professora e 12 alunas de mestrado e doutorado, menos de 10% do total de estudantes. Dos atuais pós-doutorandos, 10 são do sexo feminino.

Das grandes janelas nas salas de aula do Impa, vê-se a floresta ao redor, lambendo as paredes da edificação. Quando um professor para sua expli-

corredor na sede do Impa, no Horto: bermudas e clima de descontração

Estudo nas férias

cursos livres de verão atraem jovens talentos ao Impa

Uma porta de entrada para a pós-graduação do Impa, muito utilizada por alunos que às vezes nem terminaram o ensino médio ou ainda estão no meio da faculdade, são os chamados cursos livres de verão, oferecidos de forma intensiva entre janeiro e fevereiro. As férias escolares permitem que estudantes de fora do Rio e do Impa frequentem disciplinas mais facilmente nessa época. os cursos são gratuitos e a inscrição pode ser feita no site do instituto. Na prática, as disciplinas livres funcionam como um teste para ver se o aluno tem condições de entrar na pós do Impa e contam créditos se o candidato for aceito. o carioca João Pedro Gonçalves Ramos, de 19 anos, aluno de mestrado do Impa, fez dois cursos no verão de 2013 (Análise na reta e combinatória I), quando estava no segundo ano do ensino médio. em outubro daquele ano foi aceito no mestrado.

“tinha um amigo de 18 anos matriculado no doutorado no Impa. Por isso já sabia que era possível fazer o mestrado sem ter a graduação”, diz Ramos, que recebe uma bolsa de R$ 2.200 da Fundação de Amparo à Pesquisa do e stado do Rio de Janeiro (Faperj) e, em paralelo, faz graduação em matemática aplicada na UFRJ. Natural de Pirajuba, no triângulo Mineiro, Maria clara Mendes silva, 20 anos, fez um percurso ligeiramente mais tortuoso antes de se tornar neste ano oficialmente mestranda do instituto fluminense. Destaque em várias edições da olimpíada Brasileira de Matemática das e scolas Públicas (oBMeP), projeto implementado pelo Impa em 2005 do qual participam anualmente 18 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio, Maria clara foi aluna durante o ano de 2013 do bacharelado em ciência

cação diante do quadro negro, é possível ouvir, com um pouco de sorte, a bagunça dos macacos nas árvores mais próximas. Mesmo em um dia de outono ou inverno não é raro deparar com alunos ou jovens professores de bermudas. Se a busca é por silêncio, vale a pena entrar na biblioteca. Além ter à disposição 60 mil volumes divididos entre livros clássicos e modernos e periódicos especializados em matemática, o visitante pode se dedicar à leitura em um amplo salão com vista para a Floresta da Tijuca e a Lagoa Rodrigo de Freitas. A excelência do Impa conseguiu uma proeza rara no meio acadêmico brasileiro: atrair contribuições privadas, prática comum no ambiente universitário dos Estados Unidos. Hoje as doações externas representam entre 2% e 3% do orçamento anual do instituto. Os meses que Ávila passa no Brasil são, por exemplo, custeados por um auxílio de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio de um banco de investimentos. Ávila ostenta o título de pesquisador extraordinário e ocupa uma cátedra no Impa com o nome do banqueiro. Em abril do ano passado, a família Marinho, dona do grupo Globo, cuja sede está no bairro Jardim Botânico, doou um terreno de 250 mil metros quadrados contíguo ao prédio do Impa. A área é coberta em sua quase totalidade pela Mata Atlântica, que não pode ser cortada, e apresenta grandes restrições em termos de possi-

e tecnologia da Universidade Federal do ABc (UFABc), em santo André (sP). Mas logo viu que não era isso que queria estudar. Fez então o curso de verão no Impa em 2014, quando foi aprovada também na graduação em matemática na PUc-Rio.

“Gosto da flexibilidade e da falta de burocracia do Impa”, diz a aluna.

Uma das dificuldades para os jovens alunos de fora do Rio é encontrar um lugar para morar a preços razoáveis. Um quarto alugado perto do Impa custa por volta de R$ 700. Nascido em Lima, o mestrando Raúl Arturo cháves sarmiento, de 17 anos, divide desde março deste ano um imóvel perto do Jardim Botânico com o irmão enrique, de 26 anos, que faz doutorado no Impa, e mais dois peruanos. “entre 2012 e 2015, fiz quatro cursos de verão no Impa”, afirma sarmiento, também aluno da

bilidades de construir edificações. Mas nas franjas, em setores já parcialmente alterados, existe espaço para edificar um novo prédio. “Vamos fazer alojamentos e ampliar nossas instalações”, diz o diretor Camacho. O elevado preço da moradia no Rio é um problema para os alunos e professores visitantes que passam temporadas no Impa.

Afamília Moreira Salles, que foi a principal acionista do Unibanco, hoje incorporado ao Itaú, é outra que apoia o Impa. O cineasta e jornalista João Moreira Salles travou contato mais próximo com o instituto em 2009, quando começou a preparar o perfil do matemático Artur Ávila que seria publicado em sua revista, a piauí, no ano seguinte. A partir desse perfil, Moreira Salles estreitou a relação com a direção do Impa. Ele e o irmão Pedro organizaram um grupo de pessoas que financiaram o programa Conferências Magnas, que, entre 2012 e 2014, trouxe sete matemáticos de ponta, seis deles medalhistas Fields como Ávila, para palestras e uma semana de convívio com os alunos e pesquisadores do instituto. Os Moreira Salles também auxiliam quando se trata de arrumar hospedagem no Rio para visitantes do Impa. O cineasta diz que é parte de um grupo de pessoas abertas à ideia de ajudar e apoiar o Impa e o Departamento de Matemática da PUC-RJ. “Há uma vontade cada vez maior da sociedade

fazem o mestrado em paralelo à graduação

graduação em matemática aplicada na Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio. Boa parte dos alunos que precocemente são aceitos na pós-graduação do instituto obteve algum destaque na oBMeP ou na olimpíada Brasileira de Matemática (oBM), concurso também organizado pelo Impa para alunos da rede pública ou privada que estejam cursando desde o ensino fundamental até o nível universitário. “o principal objetivo da oBMeP é estimular o ensino da matemática na rede oficial”, explica claudio Landim, diretor adjunto do Impa e coordenador-geral da olimpíada para as escolas públicas. “Mas esse tipo de iniciativa nos ajuda a descobrir novos talentos.” em 2017, o Brasil será, pela primeira vez, sede da olimpíada Internacional de Matemática. talentos, nacionais e estrangeiros, estarão por aqui.

civil carioca de estreitar relações com o Impa. É um centro de excelência em pesquisa que está no Rio, quando a maioria fica em São Paulo. Temos o dever de ajudá-lo”, diz o cineasta. Um efeito colateral do reconhecimento alcançado pela matemática brasileira é o assédio dos grandes centros internacionais a talentos formados pelo Impa. Em setembro do ano passado, o matemático alagoano Fernando Codá, de 35 anos, que fez carreira no instituto fluminense, transferiu-se para Princeton. O nome de Codá é especulado como candidato à Medalha Fields, concedida a cada quatro anos a matemáticos com menos de 40 anos. Ao lado do português André Neves, Codá solucionou a Conjectura de Willmore, um dos mais desafiadores problemas da geometria. “É normal perder pessoas. Isso não é defeito”, comenta Palis. “As pessoas saem, mas podem voltar. Quem sabe a gente não consegue uma boa doação para trazê-lo de volta?” As próximas medalhas Fields serão anunciadas em agosto de 2018 durante o 28º Congresso Internacional dos Matemáticos, que ocorrerá no Rio. A festa da matemática será na casa do Impa. n

Joao Pedro (abaixo), Arturo e Maria clara: alunos do Impa que

COOPERAÇÃO

Conexões cultivadas

Simpósios FAPESP Week inspiram pesquisadores paulistas a criar parcerias internacionais de alto nível

Fabrício Marques

Com 12 edições realizadas em oito países estrangeiros desde 2011, os simpósios FAPESP Week procuram, entre outros objetivos, divulgar a pesquisa de nível internacional feita em instituições paulistas e criar novas conexões entre cientistas de São Paulo e do exterior. Pesquisadores que já participaram dos eventos afirmam que essa troca de experiência ajuda a semear colaborações. Isso aconteceu, por exemplo, numa sessão sobre câncer e doenças inflamatórias da FAPESP Week Califórnia, que ocorreu nos campi da Universidade da Califórnia em Davis e Berkeley em novembro de 2014. A bióloga Silvia Rogatto, da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), compartilhou seu trabalho em oncologia molecular com o bioquímico colombiano Luis Carvajal-Carmona, professor da Universidade da Califórnia, em Davis. No fim dos anos 2000, os dois já haviam se encontrado nas reuniões anuais no projeto Chibcha (sigla para Genetic Study of Common Hereditary Bowel Cancers in Hispania and the Americas), consórcio internacional que investigou as raízes genéticas do câncer colorretal. À época, Carvajal-Carmona trabalhava na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e Silvia representava o A.C.Camargo Cancer Center, que contribuiu com amostras de mil casos brasileiros para o estudo. Mas acabaram perdendo contato.

No simpósio da Califórnia, ela comentou com Carmona sobre casos de câncer de testículo, tireoide e mama que está estudando, sabendo que o colega acabara de publicar um artigo na Nature Communications sobre o câncer de mama e alguns outros sobre câncer de tireoide. Foi o bastante para criar uma colaboração. “Nós fizemos o sequenciamento do exoma [fração do genoma que codifica os genes] e a análise dos dados de câncer de testículo de casos brasileiros em gêmeos e ele me ajudou na parte final das análises. Estamos escrevendo um artigo juntos”, diz a pesquisadora. “A presença do câncer de testículo em gêmeos aumenta a probabilidade de detecção do gene associado com a doença. A chance de estudar gêmeos idênticos abre a oportunidade de aprofundar o conhecimento sobre a origem genética desse tipo de câncer”, afirma.

A estada na Califórnia também foi proveitosa para Paulo Mazzafera, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE). Ele foi procurado em Davis por uma pesquisadora que acabara de fazer o doutorado naquela universidade e manifestou interesse em estagiar na Unicamp. De origem portuguesa, Ana Raquel dos Santos Figueiredo teve sua bolsa de pós-doutorado aprovada pela FAPESP recentemente e já iniciou

estudos, no laboratório de Mazzafera, sobre a suberina, biopolímero presente na parede celular das plantas que, no caso da cana-de-açúcar, é um dos responsáveis pela recalcitrância de sua biomassa, que dificulta o uso do bagaço para produzir etanol. Mazzafera também aproveitou a viagem à Califórnia para procurar Markus Pauly, que coordena um laboratório dedicado à pesquisa em paredes celulares de plantas na Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Ele havia viajado para a Austrália no período do simpósio, mas consegui contatá-lo pelo Skype e estamos conversando sobre uma possível colaboração”, conta. Mazzafera enviou para o laboratório de Pauly quatro espécies de cana, sendo que duas acumulam mais sacarose e as outras duas, mais fibras e menos sacarose. “Dependendo dos resultados das análises que estão sendo feitas, poderemos começar uma parceria. O grupo de Pauly é muito bom em caracterizar compostos da parede celular de plantas”, explica o professor.

AFI n I dA d E S

Os temas abordados nas edições da FAPESP Week são escolhidos de acordo com afinidades e interesses da comunidade científica de São Paulo e do país sede do evento, observa o físico Marcelo Knobel, professor da Unicamp e coordenador adjunto de colaborações em pesquisa da FAPESP,

que participou da organização dos simpósios. No caso da FAPESP Week Pequim, que levou 10 pesquisadores brasileiros à capital chinesa em abril de 2014, os anfitriões optaram por concentrar as sessões em temas como ciências dos materiais, agrárias, ambientais e médicas.

Já na FAPESP Week Buenos Aires, que ocorreu em abril deste ano, o leque de temas abordados foi expressivo. Foram apresentados os avanços obtidos pela ciência paulista e argentina em áreas como astronomia, alimentos funcionais, energia, nanotecnologia, informação quântica, saúde e humanidades, entre outros. “Levamos a Buenos Aires um número significativo de pesquisadores do estado de São Paulo. Foi o maior evento entre as edições da FAPESP Week”, diz Knobel. Para Héctor Luis Saint Pierre, professor da Faculdade de História, Direito e Serviço Social de Franca, da Unesp, e especialista em defesa e relações internacionais, o encontro de Buenos Aires gerou uma oportunidade de articulação preciosa. No último dia do evento, o pesquisador, argentino radicado no Brasil há duas décadas, reuniu-se com colegas de várias universidades, como a de Buenos Aires, de La Plata, de Quilmes e de Lanús, além de pesquisadores vinculados ao Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), entidade que coorganizou o simpósio. “Foram três reuniões em que pesquisadores se

FAPESP Week Munique, realizada em 2014: acordos de cooperação e novas interações entre pesquisadores de São Paulo e da Alemanha

o s simpósios FA pE Sp

Week

2011

América do norte (Washington, Estados unidos)

24 a 26 de outubro

2012

América do norte (toronto, C anadá; Cambridge, Washington e Morgantown, Estados unidos)

17 a 24 de outubro

Fronteras de la Ciencia (Salamanca e Madri, Espanha)

13 e 14 de dezembro

juntaram por amizade ou interesse temático”, diz Saint Pierre. “Todos manifestaram interesse em participar de redes de cooperação com o Brasil.” Dessas reuniões, houve um agrupamento em torno de dois tópicos. Um deles, liderado por pesquisadores da Universidade de Quilmes, estuda a situação das ilhas Malvinas e a ofensiva diplomática em torno de sua soberania. O segundo, ancorado em Lanús, analisa a importância estratégica da cooperação Sul-Sul. “São temas de política externa e de defesa que devem ser trabalhados em cooperação internacional”, afirma. Parte do grupo já se reuniu em Lima, Peru, em julho, num congresso promovido pela Associação Latino-americana de Ciência Política (Alacip). “Eu não pude ir, mas continuamos conversando virtualmente e pretendemos submeter projetos em conjunto”, diz Saint Pierre.

Os simpósios costumam ser uma oportunidade para firmar novos acordos de cooperação entre a FAPESP e instituições estrangeiras. Na FAPESP Week Londres, realizada na capital inglesa em setembro de 2013, foram assinados memorandos de entendimento para estabelecer cooperação entre pesquisadores de São Paulo e do Imperial College London. Também saíram acordos com as universidades de Cambridge e Manchester, que se somaram às parcerias já existentes com os sete Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK), o British Council e 13 universidades britânicas. Outro simpósio que inspirou cooperações foi a FAPESP Week Munique, em outubro de 2014. Foram celebrados acordos com o Ministério da Educação e Pesquisa da República Federativa da Alemanha, com a Universidade de Münster e com a Fraunhofer-Gesellschaft, maior organização para a pesquisa aplicada da Alemanha. Em 2015, foi assinado acordo com a Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg (FAU). Segundo Irma de Melo-Reiners, diretora executiva do Centro Universitário da Baviera para América Latina (Baylat), coorganizador do simpósio, a FAPESP Week Munique já começa a produzir colaborações. Ela cita um projeto aprovado numa chamada de propostas do Baylat pelos pes-

2013

Londres (Londres, inglaterra)

25 a 27 de setembro

C arolina do norte (Charlotte, Raleigh e Chapel hill, E stados unidos)

11 a 13 de novembro

Japão (tóquio, Japão)

15 e 16 de março

quisadores Thomas Hamacher, da Universidade Técnica de Munique, e Gilberto Jannuzzi, da Unicamp, sobre o fornecimento de energia em regiões remotas do Brasil. Hamacher e Jannuzzi participaram de uma sessão do simpósio sobre energias renováveis e sustentáveis. “Pretendemos enviar um de nossos estudantes para a Alemanha no próximo ano para estudar modelos de políticas para a disseminação de geração de eletricidade e a integração de energia renovável no sistema elétrico”, completa Jannuzzi.

r E to MA dA

A organização dos simpósios costuma convidar para as sessões temáticas pesquisadores que mantiveram no passado alguma colaboração com as instituições anfitriãs. Há casos em que o encontro serviu para reacender a parceria. A FAPESP Week Carolina do Norte, realizada em novembro de 2013 nas cidades norte-americanas de Charlotte, Raleigh e Chapel Hill, marcou a retomada de uma parceria entre o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) e a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), vinculados à Universidade de São Paulo (USP), e o Craniofacial Center, ligado à Escola de Odontologia da Universidade da Carolina do Norte (UNC), em Chapel Hill. “Trabalhamos de forma colaborativa desde os anos 1990, quando o professor Donald Warren era diretor do Craniofacial Center, mas a parceria perdeu ímpeto depois que ele se aposentou”, explica Inge Trindade, professora da FOB, que participou da FAPESP Week. “Já era nossa intenção retomá-la, mas o evento acelerou o processo.” Em Cha-

2014

Califórnia

(Davis e Berkeley, Estados unidos)

17 a 20 de novembro

Munique (Munique, Alemanha)

15 a 17 de outubro

pequim (Pequim, China)

15 a 18 de abril

pel Hill, Inge se encontrou com o brasileiro Luiz Pimenta, que fez mestrado na FOB e atualmente é diretor odontológico do Craniofacial Center. Das conversas com ele e outros pesquisadores, foi definido um intercâmbio em estudos sobre reabilitação de pacientes com fissuras no palato e outras anomalias craniofaciais. “Essas fendas são fechadas cirurgicamente quando o paciente ainda é um bebê, mas ao longo do crescimento surgem deformidades e disfunções que prejudicam a respiração, a fala e o sono”, diz a professora Inge. O novo convênio ainda não foi assinado, mas o intercâmbio já foi reativado. Ivy Trindade-Suedam, professora da FOB, foi convidada a atuar como professora associada adjunta da Faculdade de Odontologia da UNC Chapel Hill e um de seus alunos, Thiago Freire Lima, bolsista de mestrado da FAPESP, fez um estágio sanduíche de três meses no Cranofacial Center, sob supervisão de Luiz Pimenta. Ambos receberam treinamento para o uso do software Mimics, que avalia tomografias das vias aéreas superiores. A tese de livre-docência da professora Ivy está baseada em estudos feitos com o software, disponibilizado pelo Craniofacial Center. Três alunos da Escola de Odontologia da UNC fizeram, neste ano, uma visita de uma semana ao Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, e estão previstas outras visitas anuais. Em breve, a aluna de doutorado do HRAC Letícia Dominguez Campos passará um período sanduíche na UNC, para estudo da morfologia da faringe e sua relação com o sono em pacientes com deformidades maxilo-mandibulares, utilizando simulações computacionais.

2015

Barcelona (Barcelona, Espanha)

28 e 29 de maio

UC davis no Brasil (São Paulo, Brasil) 12 e 13 de maio

Buenos Aires (Buenos Aires, Argentina) 7 a 10 de abril

No caso do pesquisador Carlos Eduardo Ambrósio, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, em Pirassununga, a participação na FAPESP Week Carolina do Norte ajudou a consolidar uma parceria com Jorge Piedrahita, diretor do Centro de Medicina Regenerativa da North Carolina State University, que já resultou na publicação de vários artigos científicos em colaboração. Os dois grupos queriam trabalhar juntos há algum tempo e tinham submetido um projeto conjunto em um edital da rede UGPN (sigla para University Global Partnership Network), dos Estados Unidos, que estava aprovado na época do simpósio, em 2013. “Mas minha participação na FAPESP Week foi importante para estreitar os contatos e, depois disso, pude utilizar instrumentos do acordo de cooperação celebrado entre a Fundação e a universidade em 2012”, diz. As duas equipes trabalham com linhagens de células animais adultas em que se induz a pluripotência, que é a capacidade equivalente à das células-tronco embrionárias de se diferenciar em qualquer tecido. “Nosso foco é obter uma linhagem segura, sem o potencial de formar tumores, para ser usada em testes pré-clínicos e clínicos”, diz Ambrósio. Para induzir a pluripotência em fibroblastos de cachorros, os pesquisadores usam a técnica premiada com o Nobel de Medicina em 2012. O método consiste em inserir na célula adulta da pele certas proteínas – conhecidas como fatores de transcrição – capazes de reprogramar o genoma celular. Uma estudante de mestrado orientada por Ambrósio, Vanessa Cristina de Oliveira, esteve na Carolina do Norte, com bolsa estágio de pesquisa no exterior (Bepe) da FAPESP, para fazer uma pesquisa que descreveu uma nova fonte de células-tronco em modelos animais e foi publicada em fevereiro no Journal of Tissue Engineering and Regenerative Medicine. A pesquisadora Natália Nardelli Gonçalves também esteve nos Estados Unidos realizando estudos com células-tronco de pluripotência induzida em cães para o seu doutorado. “Nesse estudo, produzimos a primeira linhagem brasileira destas células em cães”, diz Ambrósio. n

2016

América do norte (Michigan e Ohio)

Ainda sem data definida

Para enfrentar gargalos

Centro Paulista de Pesquisa em

Bioenergia contrata pesquisadores para ampliar base científica na área

sediado nas três universidades estaduais paulistas, o recém-criado Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia (SPBioenRC, na sigla em inglês) anunciou a chegada de 17 pesquisadores, contratados para ampliar a produção de conhecimento nessa área no país e auxiliar na formação de recursos humanos. O centro é o resultado de uma partilha de investimentos e de responsabilidades de três atores – governo estadual, universidades e FAPESP. As três universidades incumbiram-se de contratar pesquisadores para trabalhar nos laboratórios do centro: até o momento, sete pesquisadores foram admitidos pela Universidade de São Paulo (USP), oito pela Estadual de Campinas (Unicamp) e dois pela Estadual Paulista (Unesp). Já o governo estadual repassou recursos para as três universidades, que estão sendo usados para a construção de laboratórios, reformas e compra de equipamentos vinculados ao centro. A FAPESP assumiu o compromisso de selecionar e financiar os

projetos em bioenergia ligados ao centro (ver Pesquisa FAPESP nº 168). Segundo Glaucia Mendes Souza, do Instituto de Química (IQ) da USP e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), a chegada dos novos quadros do SPBioenRC vai incorporar temas e projetos que não vinham sendo muito explorados dentro do programa. “O centro insere jovens pesquisadores em uma rede de colaboração madura. O SPBioenRC nasce em um contexto no qual tecnologias e metodologias importantes estão sendo desenvolvidas em várias iniciativas de pesquisadores do Bioen. Os novos pesquisadores se beneficiarão disso. Cabe agora a eles formar bons grupos de pesquisa e trazer coisas novas”, ressalta Glaucia, que participou da organização de um workshop realizado na sede da FAPESP, no dia 4 de agosto, em que foram apresentados os projetos de alguns dos novos profissionais. No encerramento do workshop, Luís Cor-

tez, professor da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp e coordenador adjunto de programas especiais da FAPESP, ressaltou que o SPBioenRC deve ganhar em breve um conselho consultivo internacional, do qual deverão fazer parte membros do Bioen. “Em um ou dois anos o centro já vai estar bem maduro”, prevê.

Bruno de Pierro

O desenho do SPBioenRC começou a ser discutido em 2009 como resposta ao desafio de ampliar a capacidade da comunidade científica de resolver grandes problemas em bioenergia. Na época, um mapeamento de pesquisadores atuantes nas três universidades estaduais paulistas identificou 456 docentes e profissionais. Eles foram consultados sobre gargalos enfrentados para garantir competitividade à pesquisa e à indústria brasileira nesse campo.

Um tema que reunia um número limitado de pesquisadores era o de biorrefinarias, que busca desenvolver insumos químicos e polímeros verdes, estimulando a substituição de petróleo como matéria-prima. Um dos pesquisadores contratados pelo centro, o português Pedro Vidinha se dedica a esse desafio no IQ-USP. Um dos objetivos de seu projeto é aumentar o rendimento do dióxido de carbono como matéria-prima na indústria química para a produção de metanol, um álcool com várias

aplicações que também é utilizado para produzir biodiesel. Na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, Marcus Soares Forte trabalha com uma técnica de pré-tratamento do bagaço de cana com líquidos iônicos, considerados solventes verdes. Além de buscar maior eficiência na produção de etanol de celulose, a pesquisa contribui para a implantação de biorrefinarias, já que os líquidos iônicos podem tornar solúveis os componentes do bagaço de cana de forma seletiva.

Uma área importante para ampliar a produtividade da cana é a dos estudos na área de genômica estrutural e funcional. A bióloga Tatiane da Franca Silva, da Escola de Engenharia de Lorena da USP, desenvolve um projeto para a identificação e caracterização de genes de cana envolvidos na organização das microfibrilas (fibras pequenas e delgadas) de celulose, que apresentam um grande potencial de aplicação biotecnológico na área de bioenergia. O objetivo é aumentar a eficiência do processo da sacarificação, que é a quebra de açúcares existentes nas fibras por meio de enzimas. Outro recém-contratado, o especialista em bioinformática Gabriel Rodrigues Alves Margarido, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), pretende desenvolver algoritmos para elucidar a estrutura e o funcionamento de genomas complexos como o da cana-de-açúcar.

Pl A nt I o d I r E to

A pesquisa em sustentabilidade é outro foco de interesse do SPBioenRC, com ênfase em temas como a utilização de técnicas de plantio direto de cana-de-açúcar para reduzir a compactação do solo causada pela colheita mecanizada. No Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp, Antonio Riul Jr. quer desenvolver dispositivos capazes de analisar as características do solo e orientar o uso de adubos e defensivos agrícolas, a fim de reduzir impactos ambientais e aumentar a produtividade em culturas como a de cana-de-açúcar. Já Lucas Rios do Amaral, da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da mesma universidade, estuda

a aplicação de conceitos da agricultura de precisão e de geoprocessamento para melhorar o uso de insumos, identificar problemas no cultivo e guiar tratamentos localizados, também com foco em cana-de-açúcar, buscando aumentar a sua produtividade e a rentabilidade da exploração agrícola.

A Unesp contratou pesquisadores que estão trabalhando no Laboratório Central do Instituto de Pesquisa em Bioenergia (IPBen) em Rio Claro, inaugurado em dezembro de 2014. Um dos novos integrantes é Sandra Maintinguer, pesquisadora do Centro Multidisciplinar de Pesquisa em Combustíveis, Biocombustíveis, Petróleo e Derivados (Cempeqc), vinculado ao Instituto de Química, em Araraquara. Ela investiga a viabilidade do uso de efluentes da indústria de suco de laranja na produção de hidrogênio. “Nas águas residuárias das indústrias citrícolas há glicose e outras fontes de carbono, como frutose e ácidos orgânicos, necessárias para a produção de gás hidrogênio”, explicou.

Associado à criação do SPBioenRC foi desenvolvido o Programa Integrado de Doutorado em Bioenergia, oferecido em conjunto pelas três universidades. O curso foi reconhecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em 2013 e iniciou suas atividades no primeiro semestre de 2014. No primeiro processo seletivo, 46 estudantes fizeram inscrição para o programa, entre eles nove estrangeiros. Em 2015, foram inscritos 28 estudantes, dos quais cinco são do exterior. No total, foram matriculados 40 alunos desde o ano passado. O curso oferece disciplinas em temas como produção de biomassa, processos de fabricação de biocombustíveis, biorrefinarias, motores e sustentabilidade socioeconômica e ambiental. “Queremos promover a formação de recursos humanos de excelência internacional na área de bioenergia para docência e pesquisa, atendendo aos setores público e privado”, diz Carlos Alberto Labate, pesquisador da Esalq e membro da coordenação do programa de doutorado em bioenergia. n

Democracia na moda

Plataforma brasileira que fornece moldes de roupas sob medida

vence a ImagineCup, da Microsoft

Acena aconteceu na noite de 31 de julho diante de uma plateia de 5 mil pessoas no Washington State Convention Center, em Seattle, nos Estados Unidos, e durou apenas três minutos. A equipe eFitFashion, composta por três pesquisadores e três estudantes de graduacão e pós-graduação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP), apresentou para um trio de jurados as utilidades de uma plataforma on-line capaz de fornecer de forma automática moldes de roupas personalizados, bastando digitar as medidas do cliente e fazer a encomenda. Como o tempo era muito curto, a imagem foi mais forte que as palavras. Uma das estudantes, Juliana Pirani, de 26 anos, trajava uma versão de um vestido usado pela filha do imperador Pedro II, a prin-

cesa Isabel (1846-1921), cujo molde foi produzido pelo software desenvolvido pelo grupo, batizado de Clothes for me

Os demais membros da equipe, os professores Luciano Vieira de Araújo, Isabel Italiano e Fausto Viana, e os alunos Bianca Letti, 21 anos, e Daniel Freire Tsuha, 24, usavam uma camisa azul-clara igualmente produzida pelo programa de computador. O júri era composto pelo sueco Jens Bergensten, um dos inventores do game Minecraft, o brasileiro Alex Kipman, criador do Kinect, sensor de movimentos desenvolvido para os consoles Xbox, da Microsoft, e Thomas Middleditch, astro da série Silicon Valley, do canal HBO. Os jurados fizeram algumas perguntas e o grupo da EACH rapidamente deixou o palco, abrindo caminho para a apresentação dos outros finalistas da ImagineCup 2015, competi-

ção mundial de inovação em tecnologias da informação promovida anualmente pela Microsoft.

Mais tarde, o presidente da Microsoft, Satya Nadella, anunciou os vencedores e prevaleceu o caráter inovador e o potencial impacto social do projeto brasileiro, voltado para pessoas que necessitam de roupas sob medida e capaz de ampliar o mercado de trabalho de costureiras e alfaiates, além de servir como plataforma para estilistas interessados em comercializar suas criações. O Clothes for Me teve uma conquista inédita: venceu na categoria Inovação, na qual concorria, e ainda levou o primeiro lugar geral da competição, superando os ganhadores das outras duas categorias: uma equipe da Rússia, em Games, e uma da Austrália, em Cidadania. “Vocês representam a paixão de sonhar o impossível e torná-lo

arara com roupas que farão parte de livro sobre trajes históricos, produzidas em algodão cru a partir de moldes feitos utilizando a plataforma

possível. Foi um prazer para mim ver a paixão e a inovação que vocês mostraram hoje”, disse Nadella, ao fazer o anúncio. Além de um troféu, a equipe ganhou US$ 50 mil e uma vaga na Microsoft Ventures, programa de aceleração de startups e treinamento de jovens empreendedores, que os levará de volta a Seattle por quatro semanas a partir de outubro. Também terão uma sessão de mentoria com Satya Nadella. “A competição da Microsoft busca reconhecer soluções que tenham impacto global e apostamos que o nosso projeto tinha esse perfil. Foi

gratificante ver que estávamos certo”, diz Luciano Vieira de Araújo, professor de Sistemas da Informação da EACH e membro do grupo de pesquisa interdisciplinar que reúne os professores da área de moda, Isabel Italiano, e de cenografia, Fausto Viana.

O projeto de pesquisa que resultou na plataforma começou a ser gestado em 2010, quando estudantes e professores dos cursos de moda e de sistemas de informação da escola começaram a trabalhar no desenvolvimento de um software para produzir moldes sob medida. “A professora Isabel me procurou e propôs que criássemos um programa capaz de melhorar a vida da costureira, com o qual ela pudesse facilmente obter moldes apenas digitando as medidas do cliente”, diz Araújo. “A costureira sabe tirar medidas e costurar a peça, mas

em geral depende de alguém que faça os moldes”, afirma Isabel Italiano.

O primeiro passo do grupo foi analisar softwares profissionais usados pela indústria de moda. “Os programas existentes exigem treinamento técnico de quem os utiliza e não eram acessíveis para costureiras e alfaiates”, afirma Juliana Pirani, que se graduou na EACH em moda em 2013 e hoje faz mestrado na instituição. A equipe do curso de sistemas de informação incumbiu-se de desenvolver um algoritmo capaz de adaptar moldes às medidas de um cliente. “Não se tratava apenas de criar um molde que crescesse ou diminuísse de acordo com as proporções do corpo do cliente, mas de obter um algoritmo para redesenhar o molde segundo as medidas informadas”, diz o mestrando Daniel Tsuha. “A composição de um molde, com suas curvas

abaixo, réplica de vestido da princesa Isabel em tamanho infantil. ao lado, da esq. para a dir., os alunos Bianca, daniel e Juliana (trajando versão do vestido da princesa Isabel), a professora Isabel Italiano e, ao fundo, os professores viana e araújo

Juiz da competição alertou para o perigo de receber na plataforma desenhos pirateados de roupas de grife

e derivações, tem grande complexidade. Tivemos de nos debruçar sobre questões de anatomia e sobre como produzir um molde em duas dimensões a partir de uma modelagem em três dimensões”, observa Luciano Araújo. “Não bastava criar uma roupa que coubesse. Não era um exercício acadêmico. A roupa precisava ter bom caimento e qualidade.”

Levou algum tempo para que o algoritmo fosse desenvolvido. Foi preciso aprender a representar um molde e indexar seus dados, de modo que fosse possível recuperá-los e adaptá-los às medidas do usuário. “Moldes são dinâmicos. Há camisas com manga curta, manga longa ou

sem manga. Cada peça tem um conjunto de medidas e regras diferentes. A dificuldade era achar a melhor representação dessa complexidade”, explica Araújo. Outro desafio foi criar uma interface de uso intuitivo. “Fomos criando um sistema no qual um modelista pudesse facilmente inserir e cadastrar o seu molde e uma costureira conseguisse obter a modelagem personalizada de um cliente a partir de suas medidas, podendo imprimi-lo em pedaços até mesmo em uma impressora doméstica”, diz Bianca Letti, graduanda do curso de sistemas de informação responsável por criar um ambiente virtual em que os moldes

são oferecidos e comercializados. Bianca também consultou bancos de dados de startups . Não encontrou nenhuma iniciativa parecida.

opasso seguinte foi fazer testes com o software. A princípio, o uso do programa foi validado com peças básicas, como camisas e saias. A prova de fogo veio em 2013. Isabel Italiano passou dois dias fechada numa sala do Instituto Feminino da Bahia, em Salvador, copiando o modelo de um vestido original usado pela princesa Isabel, uma peça de desenho complexo, guardada no acervo da instituição. O vestido foi reconstruído em algodão branco, etapa necessária para validar o molde, que foi então cadastrado no software . O Núcleo Traje de Cena, Indumentária e Tecnologia da EACH, coordenado pelo pesquisador Fausto Viana, propôs então um desafio para costureiros e cenógrafos: que reproduzissem a roupa da princesa em qualquer tamanho, com liberdade também para usar cores e tecidos diferentes do original, desde que utilizando o software para gerar os moldes. Deu certo e cinco vestidos derivados do traje, incluindo até mesmo um feito nas proporções de uma boneca, foram expostos em uma mostra no Senac, em São Paulo, no início deste ano. O modelo vencedor na competição, feito pelo cenógrafo José Alfredo Beirão, uma recriação que transformou o modelo verde e amarelo em um traje noturno em vinho e preto, foi usado por Juliana Pirani na final da ImagineCup, em Seattle. “Perguntamos ao Beirão o que tinha achado do software . Ele nos disse que era simples e fácil e que a ferramenta poupou pelo menos um dia de trabalho, tempo que ele gastaria para fazer o modelo”, diz Isabel Italiano.

O grupo também prevê aplicações no campo da cenografia, com a possibilidade de reproduzir trajes de época para espetáculos, e em museologia, com a

popularização de peças de roupas dos acervos de museus a partir de moldes oferecidos na internet. A equipe de professores passou uma temporada no Victoria and Albert Museum, em Londres, e no Museu Nacional do Traje, em Lisboa, estudando roupas antigas. O resultado desse trabalho será divulgado num livro que analisa a história da modelagem no século XIX, a ser publicado ainda neste ano, que terá links para a plataforma on-line nos quais os usuários poderão obter moldes de algumas peças.

As possibilidades do software são variadas. Um pesquisador indiano que avaliou o Clothes for me em Seattle na semana que antecedeu à premiação sugeriu o uso do software, em seu país, para a fabricação de trajes típicos que são tradicionalmente feitos pela população em festividades. Durante a validação do programa, o grupo da EACH produziu moldes de trajes típicos, como vestidos de festa junina e de baianas, que foram levados pelo professor Fausto Viana a um curso de modelagem que ministrou em uma escola de teatro e moda em Hong Kong, no ano passado.

As quatro semanas em que o grupo participará do programa de aceleração em Seattle serão dedicadas à busca de

O software também pode ter aplicações na cenografia e na museologia, permitindo a reprodução de trajes de época

um modelo de negócios que defina, entre as aplicações possíveis, quais são as mais apropriadas para que a plataforma ganhe escala rapidamente. O sucesso nessa tarefa poderá ajudá-los na etapa decisiva do projeto, que é atrair investidores para a startup Alguns riscos foram apontados durante a ImagineCup, como o perigo de inclusão na plataforma de moldes piratas, copiados de roupas de grife sem a

autorização de seus criadores ou o pagamento de direitos autorais. “A depender da abordagem da questão da propriedade intelectual, a ideia pode se tornar viável ou inviável comercialmente”, alertou Thomas Middleditch, membro do júri. A aposta do grupo é reunir parceiros diversos, incluindo desde cooperativas de corte e costura, estilistas e até revistas de moda, em torno do projeto da startup. “Há um potencial para criar renda para vários tipos de profissionais com nosso software”, diz Luciano Araújo. “Uma costureira que hoje trabalha 10 horas por dia produzindo o mesmo tipo de peça para um fornecedor poderia, com o nosso sistema, fazer roupas sob medida para clientes e aumentar sua renda, assim como um estilista poderia oferecer seus modelos cobrando royalties a cada vez que alguém fizer o download de um molde criado por ele. Da mesma forma, uniformes escolares de escolas estaduais poderiam ser fabricados em cada cidade, usando a força de trabalho de cooperativas locais”, afirma Juliana Pirani. “A ideia não é excluir ninguém da cadeia produtiva da moda, mas, ao contrário, criar novas oportunidades para quem está dentro dela e quem deseja entrar.” n Fabrício Marques

A física das alianças

Diretor do Fermilab espera que pesquisadores brasileiros participem de megaexperimento sobre neutrinos

Desde setembro de 2013, quando assumiu o cargo de diretor do Fermilab, o principal laboratório de física de partículas dos Estados Unidos, Nigel Lockyer, físico escocês criado no Canadá com cidadania americana, tem dedicado boa parte de seu tempo a atrair novos parceiros internacionais para o Deep Underground Neutrino Experiment (Dune), megaprojeto bilionário que tentará descobrir novas propriedades dos neutrinos, uma fugidia partícula elementar, quase desprovida de massa, que viaja a uma velocidade muito próxima à da luz. Embora sejam considerados a segunda partícula mais abundante do Universo, perdendo apenas para os fótons, os neutrinos são extremamente difíceis de serem detectados pois apresentam interação tênue com outras partículas.

O projeto Dune prevê a construção de uma fonte subterrânea emissora de um feixe de neutrinos no Fermilab, nos arredores de Chicago. Esse feixe de partículas viajará sob a terra e será flagrado por dois detectores: um a 600 metros de profundidade, localizado no Fermilab, e um segundo, maior, situado a 1,47 quilômetro de profundidade, no Sanford Lab, em Lead, localidade de Dakota do Sul, distante 1.300 quilômetros de Chicago. Nessa longa jornada apartada da atmosfera, os neutrinos, esperam os físicos envolvidos no projeto, devem fornecer pistas sobre suas características mais elementares e talvez ajudar a entender por que o Universo tem mais matéria do que antimatéria. “O Fermilab é um grande laboratório que precisa de um grande projeto, que envolva os melhores cientistas e realmente amplie nosso conhecimento”, diz Lockyer, ex-diretor

“Acredito muito no planejamento global para a física de partículas. Deveríamos aproximar os planos, porque precisaremos de uma máquina ainda maior no futuro”

do Triumf, o laboratório de física de partículas do Canadá. Ele reconhece que os Estados Unidos ficaram em segundo plano na área de física de partículas depois que a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) inaugurou em 2008 o Grande Colisor de Hádrons (LHC), o maior acelerador de partículas do mundo, nos arredores de Genebra.

No ano passado, o chamado relatório P5, produzido por um grupo de especialistas em física de partículas, recomendou que os Estados Unidos deveriam concentrar seus esforços na área e abrigar em solo americano um grande experimento sobre neutrinos, além de continuar colaborando estreitamente com o LHC e de apoiar a construção de um colisor linear de partículas no Japão. O Dune é esse grande projeto com neutrinos. É a primeira vez que os Estados Unidos

se propõem a sediar um projeto internacional de megaciência em física em solo próprio. Nesta entrevista, concedida durante visita à FAPESP no mês passado, Lockyer fala dos planos para a montagem do experimento e da possível participação brasileira no projeto.

Qual o propósito de sua visita ao Brasil?

O principal é discutir a física de neutrinos que será feita no Dune, que vemos como o futuro do programa de pesquisa em física de partículas nos Estados Unidos. O Dune está apenas começando. Tenho discutido com [Carlos Henrique de] Brito Cruz [diretor científico da FAPESP] a possibilidade de o Brasil participar desse projeto desde o início, opinando sobre a seleção das tecnologias que nele serão usadas. Queria encontrá-lo pessoalmente. Até então tínhamos conversado apenas por telefone, a última vez durante a Copa do Mundo no ano passado.

Como está a colaboração internacional para implementar o Dune?

Já temos 26 países envolvidos, a maioria da Europa. Nas Américas, o Brasil é o país que tem demonstrado mais interesse. Alguns pesquisadores do estado de São Paulo já estão trabalhando no Fermilab em experimentos, tanto com feixes de neutrinos como com feixes de partículas eletricamente carregadas, que são uma plataforma de desenvolvimento e avaliação de ideias para o Dune. A ideia básica é criar um feixe de neutrinos no Fermilab e, como a Terra é curva, apontá-lo para baixo e fazê-lo emergir no lugar certo. Estamos construindo um experimento em uma antiga mina de ouro chamada Homestake, em Dakota do Sul, a cerca de 1 milha de profundidade. Por estar a 4.850 pés de profundidade [1,47 quilômetro], chamamos esse local de nível 4850. Construiremos um detector criogênico, com argônio líquido, com uma massa total de 70 mil toneladas. Ele será inacreditavelmente grande.

O orçamento total do projeto é de US$ 1,5 bilhão? Essa é apenas a parte dos Estados Unidos. Não falamos sobre o total para não assustar ninguém. Não há um projeto pronto. Estamos convidando todo mundo a participar do projeto desde o início e perguntamos o que cada um gostaria de fazer. Coloco todas as possibilidades na mesa. Temos seguido de perto a estrutura de governança do LHC porque vimos que ele é um modelo bem-sucedido. Contar com as agências de fomento à pesquisa em cada decisão é importante. Mas é necessário ter um conselho superior, como o do Cern, para arbitrar quando necessário. Já o governo dos Estados Unidos quer uma única pessoa no comando, que possa ser consultada quando houver algum problema.

Léo

Esse enfoque internacionalizado é diferente do habitualmente adotado pelos Estados Unidos, que costumam tocar seus projetos de forma mais independente?

Sim, muito diferente. É a primeira vez que os Estados Unidos se propõem a sediar um projeto internacional de megaciência em física em solo próprio. É também a primeira vez que o Cern investirá em um projeto de outro país. Prometemos ajudá-los no LHC e eles prometeram nos ajudar com os neutrinos.

Esse novo cenário é consequência de um trabalho bem-sucedido no LHC e também da falta de financiamento a pesquisa, não apenas nos Estados Unidos?

Acredito muito no planejamento global para a física de partículas. Os projetos são muito grandes. Temos o plano europeu, o dos Estados Unidos, o da Ásia. Pouco a pouco, deveríamos aproximar os planos, porque precisaremos de uma estrutura ainda maior no futuro. Temos de aprender a trabalhar conjuntamente desde o começo. O diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica, John Holdren, tem mostrado muito interesse no Dune. Ele disse que é desse modo que deveríamos fazer as coisas no futuro. O secretário de Energia, Ernest Moniz, tem formação na área de física de neutrinos e entende muito bem o que estamos tentando fazer.

o Cern aprovou uma verba para construir uma plataforma de desenvolvimento que permitiria sua união a um programa de pesquisa em neutrinos de algum país. Deixou-se em aberto se esse país seria os Estados Unidos ou o Japão. Isso, no entanto, permitiu aos físicos da Europa trabalhar no Cern para desenvolver protótipos de componentes de detectores de neutrinos.

O Japão também considera a possibilidade de investir em um grande experimento com neutrinos que seria um concorrente do Dune?

Certamente. Eles podem optar por construir uma extensão do seu detector atual de neutrinos, o Super-K, que hoje tem

Gostaríamos que o Brasil formasse um grupo de 10 pesquisadores principais, focados em uma área

Quais as dificuldades para tocar esse novo experimento com neutrinos? A parte difícil é convencer o governo dos Estados Unidos a começar o projeto antes de ter a certeza de que outros países participarão do Dune. Mas costumo dizer que, se começarmos, outros virão atrás. Todos estão envolvidos, mas os acordos de investimento levam anos. Apostamos em um acordo com o Cern, que dará ao governo a confiança na participação de outros países. O Cern representa as agências de financiamento de 21 países. Em setembro, o organismo europeu votará o orçamento. Há um ano,

um tanque de 50 mil toneladas de água. Eles falam em alcançar até 1 milhão de toneladas de água, algo inacreditável. Mas essa ampliação vai depender da decisão que tomarem a respeito de construir ou não o Colisor Linear Internacional. Claro que gostaríamos que o Japão se juntasse a nós. Teremos que esperar para ver qual é a sua posição. Não acredito que eles possam tocar os dois projetos, o do colisor e o de neutrinos.

Que tipo de parceria no Dune o senhor propõe para o Brasil?

Estamos tentando motivar os físicos brasileiros interessados no nosso programa a, primeiramente, por meio de uma colaboração, estabelecer-se no Fermilab.

Eles devem dizer o que querem fazer, apontar de qual parte do detector eles gostariam de ser os responsáveis. Todos os grupos estão trabalhando assim. Em seguida, viria a parte de financiamento da pesquisa. Ainda não estive em nenhum outro país da América do Sul, mas há sinais de interesse de outros. Aqui há físicos que já se uniram a experimentos do Fermilab para desenvolver suas pesquisas. Gostaríamos que o Brasil pensasse na possibilidade de formar um grupo de 10 pesquisadores principais, com massa crítica focada em uma área. É assim que fazemos no Canadá: focamos em áreas específicas de modo a ter impacto científico. Os físicos brasileiros se interessaram pela área de coleta de luz. Quando uma partícula eletricamente carregada atravessa o argônio líquido, ela emite luz em frequências diferentes. Nesse caso, o mais óbvio seria construir detectores na faixa do ultravioleta distante para registrar informações muito rápidas porque se trata de luz. No Dune, estaremos olhando para as propriedades de neutrinos que virão de um feixe de partículas criado no Fermilab, de neutrinos oriundos da colisão dos raios cósmicos na alta atmosfera, que cria uma chuva de partículas, e também de neutrinos provenientes da explosão das estrelas, como supernovas. O detector com argônio líquido permite identificar e separar os diferentes tipos de neutrinos. Será possível ver detalhes da formação de uma estrela de nêutrons. Se tivermos sorte, essa estrela de nêutrons formará um buraco negro, cujo sinal poderemos ver.

É correto dizer que os físicos de partículas dos Estados Unidos, Europa e Japão dividiram entre si as diferentes linhas de pesquisa desse campo de conhecimento, visto que não há verba para todos se dedicarem a tudo?

As agências de financiamento é que dizem que não se pode fazer tudo em todo lugar. Os físicos jamais diriam isso, porque gostariam de fazer tudo em todo lugar! Mas, de fato, não é possível traba-

lhar assim, seria preciso muito dinheiro. O Dune é um projeto imenso. Ninguém vai construir um projeto similar em outro lugar. Não faria sentido. É preciso reunir todos os especialistas do mundo para construir os equipamentos do Dune. E temos de fazê-los funcionar. Durante mais de 20 anos o Fermilab trabalhou com colisões de partículas em altas energias [antes do LHC, o maior acelerador de partículas foi o Tevatron, do Fermilab, que funcionou entre 1987 e 2011]. Os Estados Unidos chegaram a começar a construção de um supercolisor no Texas, que seria maior e mais potente do que o LHC, mas o projeto foi cancelado no início dos anos 1990 por questões financeiras. O LHC foi adiante. Surgiu então a questão: quem quer fazer um colisor linear, que é uma máquina para estudar com mais precisão as partículas? A Europa já tem o LHC. Os Estados Unidos poderiam fazer o colisor linear. Mas ele é caro demais. Quando cheguei no Fermilab, disse que eles deveriam investir em um feixe de neutrinos de forma conjunta com outros países. Não há razão para fazerem isso sozinhos. As coisas não funcionam assim hoje. O Cern não terá um feixe de neutrinos. A prioridade deles é explorar o LHC e fazer a pesquisa com neutrinos em outro lugar. Assim, o que estamos fazendo é pedir ajuda. Podemos fazer mais à medida que mais parceiros queiram contribuir com o projeto. Na física de neutrinos é a massa total que importa. Poucos neutrinos devem interagir com o detector a cada dia, talvez apenas um. Então se pudermos dobrar o tamanho do detector, haverá dois neutrinos interagindo.

Depois do LHC, não compensa mais construir máquinas pequenas para fazer descobertas na área de física de partículas?

Algumas coisas serão pequenas, mas haverá projetos de megaciência – e esses serão cada vez maiores. O acelerador que deverá suceder o LHC tem sido chamado de Future Circular Collider, FCC. Dizemos, em tom de brincadeira, que FCC pode significar Future Cern Collider, Future Chicago Collider ou Future China Collider. O significado da sigla vai depender de onde estará sediado o acelerador, que poderá ter 100 quilômetros de circunferência. O mundo quer construir essa máquina, mas, ironicamente,

o gerador

Cockcroft-Walton, uma das etapas do acelerador de partículas do Fermilab

nenhum país tem recursos suficientes para isso. Então o FCC será uma máquina mundial. Não há dúvidas sobre isso. Ninguém sabe também para onde vai a física de neutrinos. É um novo espaço a ser explorado, em certo sentido.

Quando o detector de neutrinos do Dune deverá entrar em operação?

Em 2021 ou 2022 pretendemos começar o comissionamento de seu primeiro módulo. Falamos em dois números, massa total e massa fiducial [de referência]. A massa total é de 17 mil toneladas e a massa fiducial é de 10 mil toneladas. Parte da massa é usada como blindagem, protegendo o detetor de rochas e de raios cósmicos. A massa que realmente importa é a de 10 mil toneladas. Essa tecnologia já foi escolhida por meio da colaboração [com pesquisadores de outros países], mas outras coisas ainda não foram decididas e podemos optar por fazer algo de forma um pouco diferente.

Quantos físicos e pesquisadores vão participar do Dune?

No momento, há 775 pesquisadores prin-

cipais, que assinaram a proposta de adesão. Mas o número deve dobrar. É um grupo grande. Há também os pós-doutores, estudantes e outros.

É correto dizer que, com o LHC, a liderança em física de partículas foi perdida para a Europa?

Sim, é justo dizer isso. Essa é a minha tarefa, consertar esse problema. A primeira coisa que temos a fazer é começar a cavar um buraco em Dakota do Sul. Esse é o plano, será o sinal mais forte que os Estados Unidos podem dar de que estão avançando com o projeto. Esperamos que isso comece no ano fiscal de 2017, como está no orçamento que estamos discutindo agora. Dessa forma, o financiamento começaria em outubro de 2016, daqui a um ano. O experimento em si tem até 2019 para decidir o que realmente vai ser construído. A definição sobre a melhor forma de construir o primeiro dos quatro módulos do detector de neutrinos, por meio dos protótipos no Cern e no Fermilab, tomará dois ou três anos de trabalho pesado. Temos de trabalhar com rapidez. n

H2O no nanotubo

Confinada nessa ínfima estrutura a -69ºC, água apresenta simultaneamente duas densidades distintas

imagem de microscopia eletrônica de microtubos de difenilalanina (acima à esq.). Cada fio do microtubo é um nanotubo (à dir.). a água fica no centro do nanotubo, em um espaço com 1 nanômetro de espessura (detalhe, ampliado 65 mil vezes)

Azero grau Celsius (ºC), a água normalmente se solidifica, virando gelo. Mas, em certas condições específicas, mesmo a temperaturas bem abaixo do ponto de congelamento, ela se mantém líquida e apresenta propriedades termodinâmicas peculiares. Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) acredita ter flagrado um comportamento singular das moléculas de H2O quando submetidas a uma situação extrema. Confinada em micro e nanotubos feitos do composto orgânico difenilalanina e submetida à temperatura de 204 Kelvin (K), ou -69,15ºC, a água não só permanece no estado líquido, algo já conhecido, como exibe simultaneamente duas fases distintas, uma possibilidade teórica até agora não demonstrada em laboratório. “Há uma coexistência de água de alta e de baixa densidade quando a armazenamos nessas condições controladas”, afirma o físico Herculano Martinho, da UFABC, um dos autores de um experimento que forneceu evidências da ocorrência desse duplo rearranjo das moléculas de H2O quando submetidas às condições acima descritas.

Os resultados do estudo, feito sem alteração da pressão atmosférica incidente sobre as diminutas estruturas com água confinada, foram publicados em 1º de junho no periódico científico Physical Chemistry Chemical Physics (PCCP). As amostras de H2O líquidas foram analisadas por meio das técnicas de espectroscopia Raman, capaz de determinar em alta resolução os detalhes estruturais de um material ou substância, e de difração de raios X. Os pesquisadores encontraram evidências de duas “assinaturas físico-químicas” distintas para a água presa nos micro/ nanotubos a -69°C. “Usamos os nanotubos mais simples que existem para estudar as propriedades da água confinada”, explica o químico Wendel Alves, da UFABC, outro

autor do estudo. Os trabalhos do grupo coordenado pela dupla de pesquisadores são financiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Aprisionar a água em micro/nanotubos da molécula biológica é mais fácil do que um leigo pode imaginar. Todo o processo ocorre de forma espontânea, natural, sem nenhum controle de temperatura e pressão, de acordo com uma receita já consagrada. O primeiro passo é sintetizar em laboratório ou adquirir a difenilalanina, peptídeo presente na formação de fibras beta-amiloide na doença de Alzheimer, que pode ser ordenada na forma de micro/ nanotubos em um processo de cristalização. “Misturamos os aminoácidos com álcool butílico e água”, conta Martinho. Em uma ou duas horas, formam-se as diminutas estruturas de difenilalanina com moléculas de água no interior dos canais. “Os nanotubos funcionam como uma esponja e retêm a água”, compara Alves.

A olho nu, as estruturas estudadas não passam de um montinho de pó branco. Em nível molecular, o arranjo interno do material é mais complexo, embora seja fácil de ser alcançado. As moléculas de difenilalanina se ligam em grupos de seis e formam uma estrutura circular. No centro desse hexâmero, espaço equivalente a 1 nanômetro de diâmetro, ficam aprisionadas em média 24 moléculas de

H 2O. Essas estruturas circulares com água no meio se ligam entre si no plano vertical e originam nanotubos. A junção de vários nanotubos forma um microtubo de difenilalanina (ver quadro).

Os nanotubos funcionam como tijolos porosos que se agregam para moldar as paredes permeáveis à água do microtubo.

A facilidade e o baixo custo de produzir essas estruturas tornaram os estudos com nanotubos feitos de peptídeos um tema frequente na literatura científica atual. Há grupos no Brasil e no exterior analisando a possibilidade de usá-las em diferentes áreas, como biossensores, carregadores de drogas no interior do corpo humano ou até geradores de energia em miniatura (ver Pesquisa FAPESP nº 174).

s egU nd O pO ntO Críti CO

Por sabidamente conter água líquida em seu interior, os micro/nanotubos de difenilalanina são uma boa estrutura para analisar possíveis alterações nas propriedades das moléculas de H 2O a baixas temperaturas. “Entender o comportamento da água confinada é importante para a biologia e até para a indústria espacial”, comenta Martinho. “Boa parte da água no corpo humano está armazenada em nano e microcanais. No espaço, parte da corrosão do equipamento ocorre pelo acúmulo de água em nanoporos.” Em seu experimento, Martinho, Alves

a água superfria que não congela

o estranho comportamento das moléculas de h2o presas em nanotubos

moléculas de difenilalanina

a união de vários nanotubos origina um microtubo feito do peptídeo difenilalanina

Cada nanotubo se forma a partir do empilhamento de estruturas circulares desse composto

a s moléculas de difenilalanina são as paredes da estrutura, em cujo centro fica a água

e seus colegas analisaram o comportamento da água confinada no intervalo de temperatura entre 290 K (16,85ºC) e 10 K (-263,15ºC). Aos 204 K, registraram um comportamento anômalo na água, que denotaria a coexistência de arranjos distintos das moléculas de H2O.

A possibilidade de a água líquida super-resfriada apresentar concomitantemente duas fases diferentes é denominada, no jargão dos físico-químicos, seu segundo ponto crítico. Por definição, o ponto crítico de um material é representado por uma determinada temperatura e uma certa pressão em que dois estados distintos dessa substância, quase sempre o líquido e o gasoso, coexistem. Em outras palavras, trata-se de uma situação extremamente específica em que não se consegue dizer se o material é líquido ou gasoso, pois ele é ambos ao mesmo tempo.

moléculas de água com densidade maiOr

moléculas de água com densidade menOr

a -69 ºC, a água confinada se mantém líquida e apresenta duas densidades diferentes, segundo estudo da uFabC

A água exibe um (primeiro) ponto crítico quando aquecida a 647 K (374 ºC) e mantida a uma pressão 218 vezes maior do que a atmosférica. Nessa situação, não se consegue diferenciar a água líquida de seu vapor. Nas últimas duas décadas, vários autores propuseram que a água, a baixíssimas temperaturas, poderia apresentar um segundo ponto crítico, no qual se manteria na forma líquida, mas teria duas densidades distintas, uma mais viscosa e outra, menos. Como praticamente tudo cristaliza nessas condições, essa hipótese teórica é de difícil comprovação. “Confinar a água evita formar o cristal e, dessa maneira, o segundo ponto crítico seria visível”, diz a física teórica Márcia Barbosa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que estuda comportamentos anômalos das moléculas de H2O. “O artigo dos pesquisadores da UFABC traz indícios de um segundo ponto crítico da água. Ele não dá a martelada final no tema, mas é um grande avanço.” n marcos pivetta

projeto

auto-organização hierárquica de peptídeos anfifílicos: mecanismos fundamentais e potenciais aplicações (nº 2013/12997-0); Modalidade auxílio à pesquisa – regular; Pesquisador responsável Wendel alves (uFab C); Investimento r$ 374.155,00.

artigo científico

Ferreira, p m et al relaxation dynamics of deeply supercooled confined water in l,l-diphenylalanine micro/nanotubes. physical Chemistry Chemical physics. 1º jun. 2015.

A história da paisagem na areia dos rios

Grãos de areia extraídos das margens de rios estão trazendo à tona informações sobre mudanças no relevo e delineando possíveis variações do clima nas regiões sudeste e nordeste nos últimos 20 mil anos. Dois estudos publicados em abril na Revista Brasileira de Geomorfologia apresentam diferentes idades obtidas com a análise de cristais de quartzo dos depósitos de areia das margens de dois rios paulistas, o Mogi Guaçu e o Corumbataí, e sugerem a ocorrência de períodos de chuvas intensas alternados com outros, de chuvas escassas. não são casos isolados. Geógrafos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os autores desses trabalhos, encontraram grãos de quartzo com idade variando de 200 a 3.500 anos em nove rios de são Paulo e caracterizaram os movimentos de construção e reconstrução de planícies

Análises de grãos de quartzo em planícies fluviais revelam processos recentes de transformação do relevo

Carlos Fioravanti

fluviais, que, com as outras formas de relevo, formam o que o geógrafo francês Jean Tricart chamava de epiderme da Terra.

As conclusões desse e de outros estudos foram obtidas por meio de uma técnica de análise chamada luminescência opticamente estimulada, que revela quando um cristal de quartzo foi exposto à luz solar pela última vez antes de ser coberto por sedimentos mais recentes. Os resultados fortalecem as conjecturas sobre a evolução da paisagem brasileira propostas há 50 anos pelo geógrafo Aziz Ab’saber e pelo zoólogo Paulo Vanzolini. Eles afirmavam que a alternância entre clima seco e clima úmido teria sido decisiva para construir e esculpir o

relevo e determinar a formação do solo e a expansão ou retração de florestas e do Cerrado em todo o país.

As análises dos cristais de quartzo, a serem confirmadas ou ajustadas por outras abordagens, também questionam conceitos estabelecidos. “Os dados obtidos mostram que a paisagem tropical é frágil e recente, diferentemente do que se afirmava”, diz o geógrafo Archimedes Perez Filho, professor do Instituto de Geociências da Unicamp. Com sua equipe, ele percorreu 8.610 quilômetros e coletou 93 amostras de areias de nove rios paulistas que desaguam no Paraná (ver mapa na página 54). “As possíveis oscilações climáticas nos últimos 20 mil anos não são apenas regionais”, diz Ar-

chimedes, com base em observações realizadas também ao longo do rio Itapicuru e na foz do rio Jequitinhonha, na Bahia. “A ideia de que a paisagem, as florestas e o solo são muito antigos, com centenas de milhares ou milhões de anos, precisa ser revista. não é o que estamos vendo”, reitera o geógrafo Antonio Carlos de Barros Correa, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). segundo ele, a técnica de luminescência opticamente estimulada pode fazer datações de até 1 milhão de anos, mas as idades obtidas até agora não passaram de 100 mil anos. Ele próprio encontrou uma idade máxima de 40 mil anos em levantamentos realizados nos estados de Piauí, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande

planície do rio Beija-Flor, em Minas Gerais: um dos lugares estudados para se conhecer melhor o clima nos últimos 20 mil anos

do Norte e Alagoas. “Sedimentos mais antigos já foram levados para o mar”, afirma Correa.

As diferentes idades dos cristais de quartzo indicam que a intensidade dos processos erosivos poderia variar por região. “Cada região tem uma história climática própria, mais ou menos conectada com a região vizinha, até mesmo de modo oposto. Quando chovia no Sudeste, fazia seca no Nordeste, de modo alternado”, diz Correa, que tem visto sinais de que o clima no Nordeste foi muito mais dinâmico do que se pensava. “Identificamos sinais de chuvas torrenciais nas encostas do planalto da Borborema, em pernambuco, há 17 mil anos. Em uma fase de clima seco no Nordeste, portanto, houve momentos de muita chuva, que podem ter durado décadas.” A análise dos movimentos dos sedimentos transportados pelas chuvas o levou a cogitar que “a paisagem é transformada aos poucos, por meio de pulsos climáticos de grande intensidade, sem ciclos definidos, e não de modo contínuo”.

A F o R m A ção do S RI o S

Archimedes identificou variações da vazão dos rios ao examinar cristais de quartzo colhidos de profundidades entre 80 centímetros e 1 metro nos altos e baixos terraços. Os altos terraços, localizados entre 30 e 50 metros acima do nível atual dos rios, constituíram as áreas antes inundadas, com seixos do fundo de leito, enquanto os baixos estão de 3 a 5 metros acima do nível atual dos rios. Segundo ele, o volume de água determinou a ampliação das planícies, em épocas mais secas, ou seu entalhamento, formando degraus, em períodos mais chuvosos, em que o rio transbordava para além de seu leito. “O clima tem de ser quente e seco, com chuvas torrenciais, para os terraços se expandirem”, diz ele, “enquanto o entalhamento dos leitos dos rios se faz por meio de chuvas contínuas, predominantes no clima quente e úmido”.

As análises dos cristais de quartzo delinearam quatro períodos de acúmulo de sedimentos nas planícies dos rios –portanto, de provável clima seco – nos últimos 2 mil anos entre os nove rios examinados. O primeiro foi de cerca de 200 a 300 anos atrás, o segundo de 600 a 700 anos, o terceiro de 1.100 a 1.200 e o quarto de 1.900 a 2.000 anos. “Tais

Rios que levam ao passado

Análises de sedimentos coletados em 93 pontos de planícies fluviais ajudaram a desenterrar a história da paisagem

Rios examinados

planalto Ocidental paulista

depressão periférica paulista

planalto Atlântico

o hemisfério Sul pode ter tido um período de clima quente e seco, enquanto o norte vivia a pequena idade do gelo

pulsos estão sendo também identificados na Argentina, por equipes de geomorfólogos que estudam processos glaciares”, diz Archimedes. Os climatologistas ainda não conseguiram delinear ciclos com tamanha precisão e observam que a formação das planícies não deveria ser considerada um indicador direto

de variações climáticas, embora outros estudos tenham indicado uma aceleração nos processos erosivos nos últimos 4 mil anos, em consequência das chuvas mais intensas e frequentes.

“Com as informações climatológicas atuais, muitas delas com períodos de registros de menos de 100 anos, é muito difícil identificar ou avaliar ciclos climáticos na escala de centenas de anos”, comenta o climatologista José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas aos Desastres Naturais (Cemaden), que analisa a variação do clima de ano para ano no último século. “Indicadores paleoclimáticos podem ser úteis para preencher as lacunas no conhecimento sobre o clima na escala de milhares de anos e para comparar os mecanismos de variabilidade climática do presente com os do passado.”

Cada rio guarda sua própria história. períodos mais secos ocorridos há cerca de 5.060 anos, 2.570 e 1.070 anos devem ter favorecido a deposição de sedimentos nos altos e baixos terraços do rio Corumbataí, enquanto os baixos terraços do Mogi Guaçu parecem ter se formado ao mesmo tempo ou em períodos secos

Atibaia c apivari
corumbataí
Itapetininga
Mogi Guaçu
Jacaré Guaçu
Jacaré pepira
santo Anastácio
são José dos dourados piracicaba
pardo peixe
Turvo
São pAUlo

Transformações: o salto quatiara, perto de Tupã, foi uma das corredeiras desfeitas com as hidrelétricas do rio peixe (ao lado), hoje mais largo e profundo do que há um século

não está necessariamente ligada à vegetação associada a ela. Vegetações bastante recentes podem estar assentadas em terrenos muito antigos”. Antes de formarem uma vegetação específica, as árvores que hoje caracterizam o Cerrado provavelmente estavam dispersas em meio a outras, com as araucárias, mais adaptadas ao clima frio que deve ter predominado na região Sudeste há cerca de 20 mil anos.

mais recentes, a 1.900, 1.150 e 630 anos. As datações, ressalta Archimedes, têm uma margem de erro em torno de 10% para mais ou para menos.

Em 2012, Fred Teixeira Trivellato, do mesmo grupo, repetiu – e comparou – as medições realizadas pelos integrantes da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São paulo em 1906 no rio peixe, um dos afluentes do paraná. Trivellato verificou que, diferentemente dos comentários dos moradores da região, a largura, profundidade do leito e velocidade e vazão do rio aumentaram, em consequência da expansão das áreas urbanas e da agricultura e da retirada da vegetação nativa. “Antes, com as florestas, a infiltração da água no solo era maior”, diz Archimedes. “Hoje, quando chove, a água escoa mais rapidamente para os rios.” Outra mudança é que, em consequência da construção dos reservatórios das hidrelétricas, as corredeiras desapareceram.

C ERRA do tA mbém RECE nt E

Cada região ou trecho estudado pode apresentar um mosaico de áreas com diferentes idades. A geógrafa Gizelle prado da Fonseca, em seu doutorado, a ser

defendido até o fim deste ano, verificou que a idade das planícies de uma região ao norte do pantanal, em Mato Grosso, varia de menos de 10 mil a 70 mil anos. “Esses estudos mostram como o relevo é produzido e esculpido e como a vegetação se instala e se recompõe”, comentou o geógrafo Jurandyr Ross, professor da Universidade de São paulo (USp) que orientou o estudo no pantanal.

A equipe da Unicamp verificou que a idade dos terrenos atualmente ocupados pelo Cerrado no interior paulista varia de 12 mil a 15 mil anos, bem menos do que se esperava. portanto, concluiu Archimedes, as diferentes fisionomias atuais do Cerrado devem ter essa idade aproximada, já que a vegetação depende da formação do solo para se manter. A conclusão converge com outros estudos, como os de Luiz Carlos pessenda, do Centro de Energia Nuclear da USp, que identificou registros de Cerrado com pelo menos 15 mil anos em fragmentos de carvão naturalmente soterrados no solo na região de Jaguariúna e Campinas.

O biólogo Marcelo Simon, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), observa: “A idade do solo

O geólogo Francisco Cruz, professor do Instituto de Geociências da US p, participou de um estudo publicado em 2012 que indicou intensas variações do clima, inferidas a partir da análise da proporção de formas de oxigênio em minerais de cavernas e sedimentos de lagos, nos últimos 2 mil anos no estado de São paulo. Agora é a vez de a equipe da Unicamp detectar sinais de oscilações do clima por volta do ano 1100, reforçando a ideia de que o hemisfério Sul possa ter tido um contraponto de clima quente e úmido, com muita chuva, à chamada pequena idade do gelo, verificada no hemisfério Norte nessa mesma época. para ampliar suas conclusões, Archimedes começou a colher amostras de materiais do solo nas planícies de rios da chapada de Uberlândia e Uberaba, em Minas Gerais. “Eu queria ter 20 anos a menos e os equipamentos que tenho hoje”, diz o geógrafo, hoje com 67 anos. n

projeto

Evolução da paisagem e geocronologia do relevo no planalto ocidental e na depressão periférica paulista/ sp (nº 2012/00145-6); Modalidade Auxílio à pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Archimedes perez Filho (IG/unicamp); Investimento R$ 258.247,58. Artigos científicos

sTORAnI, d. L. e pERE z FILhO, A. novas informações sobre geocronologia em níveis de baixo terraço fluvial do rio Mogi Guaçu, sp, Brasil. Revista Brasileira de Geomorfologia. v. 16, n. 2, p. 191-9. 2015. dIAs, R. L. e pERE z FILhO, A. Geocronologia de terraços fluviais na bacia hidrográfica do rio corumbataí-sp a partir de luminescência opticamente estimulada (LOE). Revista Brasileira de Geomorfologia. v. 16, n. 2, p. 341-9. 2015. VuILLE, M. et al. A review of the south American monsoon history as recorded in stable isotopic proxies over the past two millennia. Climate of the past v. 8, p. 1309-21. 2012.

A estrutura matemática do DNA

Pesquisadores brasileiros mostram por meio de equações que o código genético é similar ao funcionamento do sistema digital

Um grupo de pesquisadores brasileiros das universidades Estadual de Campinas (Unicamp) e de São Paulo (USP) está mostrando em artigos científicos que sequências genéticas podem ter uma estrutura matemática semelhante aos Códigos Corretores de Erros (ECC, sigla de error-correcting codes) utilizados tanto no sistema de transmissão como de gravação digital. Os ECCs são um conjunto de comandos embutidos em softwares instalados nos chips de computadores, em equipamentos de telecomunicações, televisores e smartphones para corrigir informações digitais com defeitos ao longo de uma conversa telefônica ou, por exemplo, no armazenamento de dados no disco rígido de um computador. A mesma lógica matemática, de acordo com os pesquisadores, está presente na formação do DNA – o ácido desoxirribonucleico que carrega nas células os genes Biologia

e todas as instruções para a formação e a manutenção de um ser vivo. No estudo, eles comparam as equações algébricas de um código corretor de erros com certas sequências do DNA, atribuindo uma lógica aos nucleotídeos que formam o genoma – timina (T), guanina (G), citosina (C) e adenina (A) – e descobriram que há padrões ligando o nucleotídeo a um número. Assim, dependendo do tipo de sequência, o A é representado pelo 0, o C é 2, o G, 1 e o T, 3, por exemplo. Na linguagem digital, formada de bits , as informações são traduzidas em 0 ou 1. “Mostramos que o DNA tem sequências que seguem estruturas matemáticas e as mesmas regras da comunicação digital”, conta Márcio de Castro Silva Filho, do Departamento de Genética da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP. “A sequência de DNA não é aleatória, segue um padrão”, diz Márcio.

Marcos de Oliveira

O mais recente estudo do grupo foi publicado em julho na revista Scientific Reports , da mesma editora da Nature Na introdução, eles escreveram que os sistemas de comunicação biológica e digital têm semelhanças em relação aos procedimentos correspondentes utilizados para transmitir a informação de um ponto para outro. De acordo com os pesquisadores, a informação contida no DNA é copiada (transcrita) na forma de RNA que irá orientar a ordenação dos aminoácidos nas proteínas necessárias ao funcionamento da célula com uma lógica matemática. No estudo, eles apresentam uma ferramenta computacional para compreender a via evolutiva do código genético ao analisar, por exemplo, a Arabidopsis thaliana, planta-padrão de estudos genéticos, e a formação dos nucleotídeos em agrupamentos de três letras chamados de códons. Em casos raros, esse agrupamento biológico – TGA,

por exemplo – apresentou diferenças que não se encaixavam nos resultados apresentados pelo ECC.

Ao apresentar o problema no Congresso Brasileiro de Genética em 2011, Márcio ouviu uma pergunta do biólogo Everaldo Barros, da Universidade Católica de Brasília, que o ajudou a encontrar um caminho. Barros queria saber se aquela alteração em um códon no DNA da batata-doce (Ipomoea batatas) não se referia a um código ancestral. Márcio e o engenheiro eletrônico Reginaldo Palazzo Júnior, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp, outro coordenador do grupo, empenharam-se em achar a resposta. Junto com as doutorandas Luzinete Cristina Bonani Faria e Andréa Santos Leite da Rocha, eles mostraram que a diferença detectada entre a sequência derivada do código de erros para a biológica é uma mutação que não bate com as equações

matemáticas do genoma primordial da batata-doce, encontrado em sequências de organismos mais antigos como as algas prymnesophytes ou variantes mitocondriais ancestrais do código genético. A mitocôndria é uma organela da célula que guarda resquícios de material genético mais remoto. Assim, apenas o DNA mais antigo se encaixa na equação.

“A sequência do gene que codifica a subunidade delta da proteína F1-ATPase da batata-doce apresenta o códon TGG que codifica o aminoácido triptofano. Entretanto, a sequência gerada pelo código matemático para o códon triptofano era TGA, o que introduziria um stop na síntese da proteína, inviabilizando a sua função. A princípio, essa alteração gerada pelo código matemático estaria errada", diz Márcio. Quando verificamos o aminoácido triptofano que está ali ancestralmente, codificado pelo códon TGA, a conta fechou, então compreendemos que ali aconteceu uma mutação”, diz Reginaldo. Esse tipo de mutação já era conhecido por meio do processo bioquímico, mas nunca havia sido identificado por processo matemático.

Os pesquisadores fazem agora um estudo filogenético para saber mais sobre a evolução das espécies do ponto de vista matemático e biológico. Eles analisam sequências genéticas para verificar se as mutações encontradas apresentam nos indivíduos características relevantes para a funcionalidade da espécie. Os estudos atuais estão sendo feitos em genomas de

No futuro, o estudo por meio de estruturas matemáticas de genes ligados a doenças poderá levar à correção de problemas como o diabetes

plantas e animais para confirmar se de fato o modelo matemático tem uma relação estrita com o que ocorre na biologia.

A descoberta levou o grupo a depositar uma patente internacional do modelo de uso do sistema desenvolvido por eles, que já foi concedida nos Estados Unidos. “Essa estrutura matemática poderá ser importante na área de engenharia de proteínas para a elaboração de organismos geneticamente modificados, novos medicamentos, vacinas e alterar a sequência de DNA em futuros sistemas de terapia gênica, ou, ainda, produzir e descobrir novas proteínas a partir do código matemático”, explica Márcio, um engenheiro agrônomo com mestrado e doutorado em genética e biologia molecular e especialista em transporte de proteínas.

Seria possível também, no futuro, em um tratamento contra o diabetes, por exemplo, estudar os genes ligados à doença por meio de uma estrutura matemática e corrigi-los para que o problema desapareça. Márcio prevê que a indústria farmacêutica terá grande benefício com essa nova forma de ver o DNA porque tanto o entendimento das doenças como a formulação de medicamentos com alvo mais específico de ser atingido estarão facilitados com o uso do código matemático.

Alt E r A çõ E s s EQ u EN ci A is

Entre matemáticos e cientistas da computação, o código utilizado pelos pesquisadores brasileiros é conhecido pelas letras BCH, iniciais do francês Alexis Hocquenghem e dos indianos Raj Chandra Bose e Dwijendra Kumar Ray-Chaudhuri, que o descobriram entre 1959 e 1960. O BCH é apenas um dos códigos corretores de erros existentes. Utilizando esse código, biólogos, bioquímicos e farmacêuticos, possivelmente com a colaboração de matemáticos, poderão fazer análises preliminares com as sequências no computador para testar a alteração de aminoácidos, proteínas e mutações e só então ir para o laboratório verificar se o resultado está correto. “A existência de uma estrutura matemática em sequências de DNA implica uma complexidade computacional enorme, porém factível para a realização de análises e previsões de mutações”, diz Reginaldo, que é engenheiro eletrônico e atua nas áreas das teorias da informação e codificação. Atualmente, esse processo de alteração para produção de um organismo geneticamente modificado ou de

um medicamento é realizado por meio de extensivos testes laboratoriais. A função do código matemático nos processos biotecnológicos será de minimizar a ocorrência de erros no núcleo da célula, depois da transcrição gênica do DNA para o RNA, o ácido ribonucleico que dirige a síntese da proteína nos ribossomos.

A possibilidade da associação de códigos de correção de erros com sequências de DNA não é nova. Um dos principais estudiosos do assunto é o professor Hubert Yockey, que atua na área desde a década de 1980 na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Outro pesquisador da área é Gérard Battail, professor aposentado da Escola Nacional Superior de Telecomunicações, na França, que publicou vários artigos propondo a relação entre código de correção de erros e genoma. Eles têm demonstrado o processo e levantado hipóteses, mas não apresentaram as efetivas relações matemáticas com o DNA. Os brasileiros conseguiram estabelecer essa relação nas sequências genéticas produtoras de proteínas. “Ao conhecermos a estrutura matemática do gene que codifica a proteína, é possível alterar a ordem das bases e também corrigir as mutações ou erros que possam acontecer para ela voltar à condição original de uma proteína”, diz Márcio.

O estudo inicial surgiu com Reginaldo, que indicou às duas doutorandas, em 2008, o desafio de modelar a transmissão da informação, no caso as proteínas, entre o núcleo celular e a mitocôndria. Para isso, Luzinete e Andréa procuraram então Márcio de Castro, na Esalq. O diálogo foi estabelecido e as duas passaram a testar alguns modelos matemáticos de sistemas de comunicação com o objetivo de encontrar um que se adequasse ao modelo biológico. Depois de alguns meses, elas mostraram o resultado para Márcio, que, no início, pensou haver apenas uma coincidência entre as sequências geradas pelo ECC e a biológica em relação aos aminoácidos. Com o avanço dos estudos, foram realizados levantamentos de sequências de DNA de diferentes seres vivos e o resultado se manteve independentemente da espécie. A descoberta teve também a participação do então doutorando João Henrique Kleinschmidt, engenheiro da computação que hoje é professor na Universidade Federal do ABC (UFABC), e mais

nesta página e na outra, as letras e número em vermelho indicam mutação na sequência genética

recentemente da bióloga Larissa Spoladore, doutoranda da Esalq, e do biólogo Marcelo Brandão, professor da Unicamp. Em 2009, Márcio, Reginaldo, Luzinete e Andréa submeteram um artigo à revista Eletronic Letters, que foi publicado na edição de fevereiro de 2010 ( ver Pesquisa FAPESP nº 178 ). “Agora com a publicação na Scientific Reports, acreditamos que a comunidade mundial da área das ciências biológicas poderá se interessar mais”, diz Márcio. “Não existe outro grupo fazendo pesquisa nesse sentido segundo a literatura aberta, até onde sabemos, porque pode ter alguém da indústria farmacêutica, de forma fechada, desenvolvendo algo nesse sentido.”

“Como várias outras descobertas científicas, essa deverá ter um caminho longo para ser aceita e utilizada. Eles deram um salto que, sem nenhuma dúvida, é uma quebra de paradigma”, diz o biólogo Rogério Margis, professor do Centro de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Imagino que existirão novos desafios com a descoberta desse padrão que transcende a sequência linear das bases e adiciona mais uma camada de complexidade e de padrões de código na molécula de DNA. Para expandir esse tipo de análise será necessário ter uma grande infraestrutura computacional”, comenta Rogério.

“Até agora os estudos deles não tiveram o impacto e a repercussão esperada na comunidade científica. Um problema é que o estudo, embora único, engloba áreas distintas como biologia e matemática, que pouco conversam”, diz.

“Já apresentei os estudos em eventos no exterior, mas acho que há uma certa desconfiança por várias razões. O assunto é extremamente complexo, poucas pessoas conseguem transitar nas duas áreas, da genética e dos códigos corretores de erros, o grupo é de brasileiros e o trabalho de 2010 foi divulgado em uma revista da área de engenharia elétrica”, explica Márcio. O interesse maior pelos estudos, segundo ele, deve partir do pessoal da biologia molecular e da biotecnologia. Do lado da matemática, seriam os grupos de teoria da informação e comunicação. Mas isso só vai acontecer se houver uma integração multidisciplinar, como aconteceu no caso da descoberta. n

Projetos

1. código matemático de geração e decodificação de sequência de dna e proteínas: utilização na identificação de ligantes e receptores (n° 2008/04992-0); Modalidade Programa de apoio à Propriedade intelectual (Papi); Pesquisador responsável márcio de c astro silva Filho (usP); Investimento r$ 13.200,00 e us$ 20.000,00.

2. Herbivory and intracellular transport of proteins (nº 2008/52067-3); Modalidade Projeto temático; Pesquisador responsável márcio de castro silva Filho (usP); Investimento r$ 1.392.217,77 e us$ 169.187,06.

3. Biologia de sistemas aplicada à agricultura: análise de transcriptomas e interactomas (nº 2011/00417-3); Modalidade Programa Jovens Pesquisadores em centros emergentes; Pesquisador responsável marcelo mendes Brandão (unicamp); Investimento r$ 199.169,39 e us$ 3.846,15.

artigos científicos

Brandão m m., et al. ancient dna sequence revealed by error-correcting codes. scientific reports. v. 5, n. 12051. jul. 2015.

Faria l c . B., et. al. transmission of intra-cellular genetic information: a system proposal. Journal of t heoretical Biology. v. 358, p. 208-31. out 2014.

Faria l c . B., et al is a genome a codeword of an error- correcting code? plos ONE. v. 7, n. 5, e 36644. mai. 2012.

Faria , l c . B. et. al. dna sequences generated by BcH codes over gF(4). Electronics letters. v. 46, n°. 3, p. 202-3. fev 2010.

No mato com cachorro

Cães ajudam a definir áreas de ocorrência de cervídeos farejando fezes para extração do DNA

André Julião

Granada já encontrou mais de 1.800 amostras de fezes de veado, mas se vir um desses animais na natureza provavelmente não saberá do que se trata. Embora tenha colaborado para o estudo de espécies como as dos veado-mão-curta (Mazama nana), veado-mateiro (M. americana), veado-mateiro-pequeno (M. bororo) e veado-catingueiro (M. gouazoubira), quatro das oito espécies de cervídeos catalogadas no Brasil, a cadela só tem um objetivo: localizar o cheiro para o qual foi treinada e ganhar o agradecimento em forma de carinho e uma bolinha de tênis dos integrantes do Núcleo de Pesquisa e Conservação de Cervídeos (Nupecce), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal – o único grupo de pesquisa brasileiro concentrado no estudo desse grupo de animais.

No mais recente trabalho em que a cadela colaborou com pesquisadores coordenados pelo professor José Maurício Barbanti Duarte, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, foram percorridas 46 áreas protegidas

das regiões Sul e Sudeste brasileiras. Em parte graças às fezes encontradas por Granada e seu antecessor, Apolo, os pesquisadores conseguiram definir a área de ocorrência das quatro espécies na Mata Atlântica por meio da identificação do DNA dos cervídeos presente em 555 amostras fecais colhidas em 30 desses lugares. Eles descobriram que o veado-mateiro-pequeno, espécie descrita em 1996 por Duarte (ver Pesquisa FAPESP nº 65), ainda pouco estudada, está fortemente associada aos 37.517 quilômetros quadrados (km 2) da densa floresta na região chuvosa ao longo da costa brasileira, o que mostra a dependência de um tipo restrito de vegetação e clima para a sobrevivência da espécie, de acordo com artigo ainda não publicado. “É o maior animal endêmico do Brasil e possivelmente o que tem a menor distribuição geográfica dentre todos os cervídeos neotropicais já descritos”, diz Duarte. O uso de cães farejadores é um dos grandes trunfos do pesquisador e coordenador do Nupecce, que utiliza os cachorros em coletas de campo desde 2002 – antes da vira-lata Granada, quem fazia

Veado-catingueiro: monitorado por marcação e transmissor de rádio

as buscas era o springer spaniel Apolo, morto em 2007 aos 12 anos. Cães farejadores são usados em pesquisas para a localização de fezes de lobo-guará, onça-pintada, suçuarana e tamanduá-bandeira, no Brasil, além de raposas e até mesmo baleias, no exterior (neste último caso, a bordo de um barco cujo condutor segue indicações do parceiro canino para rumar até os dejetos flutuantes).

Sem os cães, provavelmente se saberia ainda menos sobre os cervídeos brasileiros que, de audição e olfato apurados, saltam e correm ao menor sinal de perigo. “Não adianta ficar de tocaia; eles sentem nosso cheiro”, lembra Duarte, acostumado a embrenhar-se na mata em busca desses mamíferos, normalmente sem sucesso, desde a graduação. “Em um projeto de pesquisa sobre o veado-mateiro-pequeno, capturamos apenas três indivíduos em quatro anos de buscas”, conta.

Além da dificuldade de localização, soma-se o fato de as espécies do gênero Mazama serem crípticas, ou seja, tão parecidas que só é possível determinar a diferença entre elas com segurança por meio de testes de DNA. Amostras de sangue e outros tecidos são ideais para extrair o material genético de qualquer animal, mas como é raro capturar os veados na natureza não resta opção para os pesquisadores dessas espécies senão usar as fezes, que em 2013 eles mostraram ser uma possibilidade viável para a pesquisa sobre veados em artigo na Genetics and Molecular Research.

É aí que entra Granada, treinada pela Polícia Militar. O adestramento é parecido com o dos cães que buscam entorpecentes em aeroportos, só muda o cheiro a ser encontrado. “Para procurar drogas, os cachorros andam presos em uma guia e têm apenas uma área pequena para procurar: uma sala, algumas malas. Aqui nós temos florestas ou campos inteiros”, conta Márcio Leite de Oliveira, doutorando pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e pesquisador do Nupecce.

Mamíferos ameaçados

Das espécies de cervídeos que vivem no Brasil, metade é vulnerável à extinção

CErvo-do-pANtANAl Blastocerus dichotomus

vEAdo- CAMpEIro Ozotoceros bezoarticus

Por isso, a segunda parte do treinamento dos cachorros é feita com os próprios pesquisadores, andando na mata sem a guia. Em cerca de uma semana indo a campo todos os dias os animais começam a entender o que devem fazer. Em um mês, já ajudam os pesquisadores. “Enquanto andamos na trilha, ela vai procurando as fezes num raio em torno da gente, aumentando em muito a área de busca”, explica Pedro Peres, pesquisador do Nupecce. “Ela pode achar apenas um cíbalo embaixo da vegetação, sem nem mesmo vê-lo”, conta, se referindo ao termo usado para fezes em forma de bolinhas.

Mesmo com as fezes coletadas, porém, as dificuldades continuam. Enquanto extrair DNA de sangue e tecidos é uma técnica consagrada, o mesmo não se pode dizer do excremento. Uma das dificuldades é obter DNA suficiente nas amostras – além de escasso, degrada-se rapidamente nesse tipo de material. “Existem enzimas e microrganismos que degradam o DNA assim que as fezes caem no chão”, explica Duarte. Além disso, em cada amostra há não só o material genético do animal que o expeliu como das plantas que ele comeu, das bactérias presentes no seu trato digestório e também no solo. “Qualquer pelo de outro animal que estiver ali ou mesmo de quem o coletar pode contaminar a amostra”, diz. Por isso, além de demandar amostras frescas, cujo DNA ainda não se degradou tanto, os pesquisadores precisam separar o que é realmente material genético dos veados. Para isso, a equipe de Duarte criou, em 2002, os primeiros marcadores genéticos específicos para o gênero Mazama, permitindo diferen-

vEAdo-MAtEIro-pEQUENo Mazama bororo

ciar o gênero e suas cinco espécies em qualquer amostra.

Ao encontrar as fezes, marcar os pontos no GPS e determinar a espécie que esteve ali, os pesquisadores do Nupecce obtêm um conjunto valioso de dados sobre a área de ocorrência dos cervídeos. Além disso, podem relacionar os animais com o ambiente em que são encontrados (tipo de vegetação, umidade do ar, temperatura). Esses dados reunidos dão uma estimativa de onde os animais se encontram e qual o seu hábitat, informações essenciais para embasar políticas de conservação, como a definição de áreas de proteção.

No r AS tro do S v EA do S

Parte dos dados da pesquisa mais recente, com espécies da Mata Atlântica, é fruto da pesquisa de doutorado de Oliveira, que está definindo áreas prioritárias para a conservação do veado-mateiro e do veado-mão-curta e deve defender a tese nos próximos meses. “Sabendo onde estão localizados e qual o tipo de vegetação que utilizam para viver, podemos fornecer dados para que se protejam essas áreas”, afirma. Os cervídeos brasileiros são ameaçados sobretudo pela perda de hábitat, mas somam-se a esse fator as doenças transmitidas pelo gado, a caça e a predação por cães.

Os encontros entre fauna silvestre e cachorros são comuns na fronteira entre unidades de conservação e áreas de ocupação humana. Mesmo sozinhos, cães podem detectar veados e persegui-los por horas. Os cervídeos são conhecidos pela agilidade e reação rápida, ideais para fugir das onças (Panthera onca) e suçuaranas ( Puma concolor ), mas não

vEAdo-Mão- CUrtA Mazama nana

vEAdo- CAtINGUEIro Mazama gouazoubira

vEAdo-MAtEIro Mazama americana

vEAdo-dA-AMA zôNIA Mazama nemorivaga

vEAdo- GAlhEIro Odocoileus virginianus

n Vulnerável n menos preocupante n Dados insuficientes

FoNtE iuCN

dos cães, que podem correr por grandes distâncias. Mesmo quando não são pegos, os veados podem morrer em decorrência de uma síndrome causada pela intensa atividade física durante a fuga, a miopatia de captura. Granada, por ser treinada para localizar apenas fezes, não ameaça os cervídeos. Outra consequência provocada pelo contato com áreas de ocupação humana é a transmissão de enfermidades bovinas, como a língua azul e a doença epizoótica hemorrágica, que não matam bois e vacas, mas causam hemorragias letais nos veados.

As pesquisas com DNA fecal geram dados para mudar a própria definição das espécies que vivem em solo nacional. “Já temos indícios para propor a divisão do gênero Mazama, que está presente do México à Argentina”, diz Duarte. De acordo com ele, pelo menos dois gêneros devem ser criados para enquadrar os atuais Mazama nemorivaga, conhecido como veado-roxo ou veado-da-amazônia, e M. gouazoubira, o veado-catingueiro. “É possível que ainda sejam descritas quatro ou cinco novas espécies crípticas, de animais que já são conhecidos, mas estão classificados como outras espécies”, afirma. Para obter a abrangência nacional e o número de indivíduos necessários para essa reorganização, as fezes podem ser o único recurso.

Os pesquisadores também realizam extensa revisão histórica da literatura e colhem amostras de DNA de material

de museus de história natural para confirmar geneticamente o que foi descrito pela morfologia. Parte do trabalho é realizada pela doutoranda Aline Mantellatto, que colheu fragmentos de ossos de cerca de 400 esqueletos de cervídeos do gênero Mazama da Mata Atlântica depositados em 10 museus brasileiros e no Museu de História Natural de Londres.

tr A b A lho d E d E t E t I v E

Metade dos fragmentos já foi classificada e 20 deles mostraram ser de Mazama bororo, mas estavam identificados nos museus como outras espécies. Aline descobriu ainda que a espécie, descrita por Duarte em 1996, já havia sido registrada em 1901 como uma subespécie, M. americana jacunda. Se isso for confirmado, o veado M. bororo deve mudar de nome para Mazama jacunda.

O trabalho em campo e no laboratório feito pelos pesquisadores tem ainda o suporte de um criadouro no Nupecce, no qual 58 indivíduos de sete das espécies que ocorrem no Brasil servem como repositório genético e permitem a realização de pesquisas sem que seja necessário capturar animais selvagens. Esse acervo vivo pode ajudar na revisão da classificação desses animais, com limitações. Justamente a que foi descrita por Duarte, por exemplo, não tem um representante ali, tão difícil é sua localização na natureza.

Também difícil de encontrar, pelo menos no estado de São Paulo, é o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), que se não for visto nos próximos anos pode vir a ser classificado como regionalmente extinto. Na Estação Ecológica de Santa Bárbara, onde vivia a última população conhecida da espécie no estado, Peres recentemente coletou 73 amostras fecais com auxílio da Granada – todas do veado-catingueiro. Pode ser que o veado-campeiro não esteja mais por ali. Durante um assalto no início de agosto, a única fêmea dessa espécie em cativeiro no Brasil desapareceu do Nupecce, onde havia a esperança de iniciar um programa de reprodução. Para que o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) não tenha destino parecido, o grupo de Jaboticabal conseguiu gerar embriões a partir de uma população de cativeiro para implantá-los em uma fêmea selvagem. O animal foi capturado na natureza e levado para o Nupecce, onde receberá o embrião depois de tratamento hormonal. Depois de prenhe, a fêmea voltará ao local de origem para dar à luz e criar o filhote da “barriga de aluguel” em liberdade. As fases da gravidez serão monitoradas também por meio das fezes, já que os pesquisadores desenvolveram uma metodologia que agora permite reconhecer os diferentes hormônios excretados durante a gravidez, conforme mostra artigo de 2012 na Animal Reproduction Science. A ideia é aumentar a diversidade genética e as chances de reprodução da espécie, vulnerável à extinção, em grande parte por conta da inundação de seu hábitat por barragens de hidrelétricas. A operação envolveu até um helicóptero para localizar e capturar a futura mãe selvagem. Dessa vez, Granada ficou em casa. n

projeto

os veados-cinza do Brasil (mammalia: Cervidae: Mazama): a busca das variantes genéticas, morfológicas e ecológicas no sentido de explicar a complexa taxonomia e evolução do grupo (nº 2010/50748-3); Modalidade projeto Temático; Pesquisador responsável josé maurício Barbanti Duarte (FCAV-unesp); Investimento r$ 808.564,00. Artigos científicos

oliVeir A, m l. & DuArTe, j m. B. Amplifiability of mitochondrial, microsatellite and amelogenin DNA loci from fecal samples of red brocket deer Mazama americana (Cetartiodactyla, Cervidae). Genetics and Molecular research. v. 12, n. 1, p. 44-52, 16 jan. 2013. KrepsCHi, V. g et al. Fecal progestins during pregnancy and postpartum periods of captive red brocket deer (Mazama americana). Animal reproduction Science. v. 137, n. 1-2, p. 62. fev. 2013.

granada: recompensada com bola e afagos quando encontra fezes de veados

O resgate de uma

espécie

espécie

1

A genética, a fisiologia e a ecologia indicam o que fazer para preservar o faveiro-de-wilson, árvore rara que virou símbolo da resistência de Minas Gerais

Uma árvore frondosa e rara do cerrado mineiro, notável pelos cachos de flores amarelas e pelas favas de sementes com perfume adocicado, ganhou nova perspectiva de conservação. Com apenas duas dezenas de exemplares contados até uma década atrás, o faveiro-de-wilson (Dimorphandra wilsonii) passa agora a ser mais bem conhecido. Nos últimos anos, sua diversidade genética foi mapeada, seus inimigos foram identificados e mais de 200 exemplares encontrados na natureza. Esses resultados ampliam a chance de evitar que a espécie desapareça.

O trabalho de entender o que se passava com essa árvore naturalmente rara e relativamente nova para a ciência – foi descrita apenas em 1969 – começou em 2003 com pesquisadores da Fundação Zoo-Botânica (FZB) de Belo Horizonte. O projeto atraiu o interesse de equipes

de outros centros e tornou a planta símbolo da resistência mineira.

Em abril deste ano um grupo liderado por Luiz Orlando de Oliveira, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), publicou o mais recente perfil genético da árvore. Quando iniciou o trabalho, só se conheciam 21 indivíduos adultos na natureza e a preocupação era saber se a preservação do faveiro não estaria comprometida por causa da baixa diversidade genética da espécie, detectada anos antes pelas biólogas Helena Souza e Maria Bernadete Lovato, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“A endogamia, cruzamento entre indivíduos aparentados, pode levar ao aparecimento de características deletérias”, explica Oliveira. “Várias plântulas [embriões] provenientes de sementes que a gente coletou apresentavam clorose [insuficiência de clorofila], indicando

1 raridade: um dos 219 exemplares de faveiro identificados na natureza

2 biólogos analisam flores do faveiro, amarelas como as do parente pau-brasil

3 o polígono do faveiro: árvores estão na região central de Minas Gerais

indivíduos

limites dos municípios

rodovias federais

Área de ocorrência

que poderia existir algum problema. Isso talvez seja fruto da endogamia.”

Analisando a constituição genética das sementes, porém, Oliveira percebeu que essas árvores não estavam isoladas reprodutivamente: estavam sendo fertilizadas pelo pólen de outros exemplares da mesma espécie, cuja localização era desconhecida. Com a bióloga Christina Vinson, ele concluiu que seria necessário recolher sementes de cerca de 150 árvores para garantir a integridade genética da espécie, embora não se soubesse se esse número existia na natureza.

pR oc URA -SE

Após submeterem o estudo em junho de 2014 à revista Tree Genetics & Genomes, os pesquisadores receberam uma boa notícia. Em julho, uma equipe da FZB publicou o resultado da busca por novos espécimes, que contabilizou 219

faveiros adultos, com capacidade de reprodução, em 16 municípios de Minas Gerais (ver mapa).

Esse era o resultado de um projeto –o Programa de Conservação do Faveiro-de-wilson – que durava havia uma década, liderado por Fernando Moreira Fernandes, engenheiro florestal da fundação. Para encontrar as árvores, os pesquisadores produziram cartazes com o título "Procura-se", espalharam pelos municípios da região e conversaram com cerca de mil pessoas.

O material ensinava a identificar o faveiro e trazia os contatos dos pesquisadores. A cada alerta positivo, eles iam a campo para confirmar a existência da árvore e mapear sua posição. Com mais de uma centena de exemplares catalogados em 2010, os pesquisadores fizeram uma modelagem da distribuição espacial da espécie, usando variáveis do clima e

do ambiente, para tentar prever onde a árvore poderia ocorrer e escolher alvos para novas expedições.

“Agora provavelmente conhecemos a maior parte dos indivíduos que restaram na natureza, porque percorremos toda a região de ocorrência”, afirma a bióloga Juliana Rego, da FZB, que participou do projeto com Fernandes. Segundo Juliana, isso preocupa porque 219 árvores não são suficientes para tirar o faveiro do status de “criticamente ameaçado” de extinção.

A principal dificuldade que os pesquisadores enfrentam é que as sementes que germinam em pastagens e são deixadas sem acompanhamento podem não sobreviver. Um estudo da UFMG indicou que o principal inimigo do crescimento da árvore são as braquiárias.

Esses capins africanos do gênero Urochloa, introduzidos no país para cobrir pastagens e alimentar o gado, crescem rápido. “Por competição, as braquiárias podem limitar o crescimento das raízes e impedir o desenvolvimento das plântulas”, afirma Marcel Giovanni Costa França, professor da UFMG e um dos autores do estudo, publicado em 2014 na revista Journal of Plant Interactions Para contornar o problema da competição com o capim africano, o plano de ação nacional para a conservação da espécie, elaborado pela FZB, pelo Centro Nacional de Conservação da Flora e mais 12 entidades, prevê, entre outras medidas, o treinamento de proprietários de terra e de técnicos para tentar conter o avanço dos capins invasores, proteger os faveiros já existentes e plantar novos. Sob condições ideais, em 10 anos o faveiro-de-wilson atinge 15 metros de altura e alcança a maturidade reprodutiva. Multiplicando mudas, plantando-as nos lugares adequados e tentando acompanhar o seu crescimento, a meta do plano é tirar a espécie da condição de criticamente ameaçada de extinção até 2025. n

Artigos científicos

FernAndes, F. M. e reGo, J. o dimorphandra wilsonii rizzini (Fabaceae): distribution, habitat and conservation status. Acta Botanica Brasilica. v. 28, n. 3, p. 434-44. 2014. Vinson c c et al population genetics of the naturally rare tree dimorphandra wilsonii (caesalpinioideae) of the brazilian cerrado. Tree Genetics & Genomes. 2015. Fonsec A, M. b et al early growth of brazilian tree dimorphandra wilsonii is also threatened by African grass urochloa decumbens. Journal of Plant Interactions. v. 9, n. 1, p. 92-9, 2014.

Belo Horizonte
Vespasiano
FontE FernAndes e reGo, ActA
BotAnic A Br A silic A, 2014

tecnologia ENGENHARIA SANITÁRIA y

Estação de produção de Água Industrial Aquapolo: exclusivamente para fins não potáveis

Água reciclada a

Reúso a partir do tratamento de efluentes é alternativa para ajudar no combate à crise de abastecimento

Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), órgão responsável pelo fornecimento de água e tratamento de esgoto do 1,1 milhão de moradores de Campinas, no interior paulista, vai iniciar em setembro um estudo pioneiro com a finalidade de implantar no Brasil o primeiro sistema de produção de água de reúso potável, destinada ao abastecimento da população. O projeto será realizado com apoio do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água (Cirra), da Universidade de São Paulo (USP), um dos principais órgãos de pesquisa na área. Produzido a partir do tratamento avançado de efluentes domésticos, o reúso é apontado como uma das alternativas para a escassez de água, um problema que surge quando as chuvas são insuficientes, como nos dois últimos anos na região Sudeste.

No estudo da Sanasa serão estabelecidos parâmetros e analisados os melhores processos de tratamento a fim de se projetar um sistema em escala real de reúso potável. O projeto em escala-piloto – fase de pesquisas de laboratório que antecede os equipamentos definitivos utilizados na estação de tratamento – terá capacidade para fazer o tratamento de 700 litros de esgoto por hora. “Esse piloto será alimentado com a água de reúso não potável que já produzimos na Epar [Estação Produtora de Água de Reúso] Capivari II”, conta o tecnólogo em saneamento Renato Rossetto, gerente de operação de esgoto da Sanasa. “Esperamos finalizar o estudo em sete meses.” A água de reúso pode ser classificada em dois tipos: não potável e potável. Hoje, no Brasil, poucas companhias de abastecimento, entre elas a Sanasa, a Sabesp e a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), produzem água de reúso não potável, que pode ser empregada na lavagem de pisos, descarga de banheiros, irrigação de jardins e culturas agrícolas, caldeiras industriais e sistemas de resfriamento, entre outras finalidades. Já a água de reúso potável, aquela destinada ao consumo direto pela população (para beber, cozinhar e higiene pessoal), precisa atender a padrões elevados de potabilidade e ainda não está disponível no país. Esse tipo de reúso pode ser classificado como direto, quando o efluente tratado é injetado diretamente na rede de distribuição, ou indireto, quando o líquido é despejado nos mananciais usados para captação de água pelas companhias de abastecimento, sofrendo, em seguida, um novo sistema de processamento nas estações de tratamento de água.

“Temos tecnologia para tratar efluentes e transformá-los em água de reúso potável, que a população pode beber com segurança, sem risco nenhum. Mas ainda falta no Brasil uma legislação a respeito”, diz o engenheiro Ivanildo Hespanhol, diretor do Cirra e um dos maiores especialistas em reúso de água no Brasil. “Com o projeto da Sanasa pretendemos mostrar que é viável produzir água potável a partir de esgoto e, dessa forma, pressionar as autoridades a criar uma norma específica sobre o

Yuri Vasconcelos

assunto”, diz ele. A água de reúso é uma solução moderna, economicamente viável e que conta com tecnologia comprovadamente eficaz, segundo Hespanhol. Essa prática já existe em diversos países, entre eles Estados Unidos, África do Sul, Austrália, Bélgica, Namíbia e Cingapura. “Nunca se detectaram problemas de saúde pública associados ao reúso nesses países”, diz o especialista. Maior companhia de saneamento do país, a Sabesp é a empresa líder na produção desse tipo de água. Com capacidade instalada de aproximadamente 830 litros por segundo, o reúso é feito em quatro estações de tratamento de esgoto (ETEs) da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) –Barueri, Jesus Neto, Parque Novo Mundo e São Miguel – e na Estação de Produção de Água Industrial Aquapolo, um projeto em parceria com a empresa Odebrecht Ambiental. De acordo com a Sabesp, o volume produzido é comercializado para cerca de 50 clientes, entre eles prefeituras, construtoras e indústrias dos setores têxtil, petroquímico e de papel e celulose. O fornecimento, exclusivamente para fins não potáveis, é feito via rede adutora, sendo que uma parcela minoritária dos clientes recebe o líquido por caminhões-pipa. A empresa Aquapolo, criada em 2012 pela Sabesp, é, segundo a companhia, o maior projeto do tipo na América Latina e um dos 10 maiores do mundo.

A estação fornece água para o polo industrial de Mauá e indústrias da região do ABC, em São Paulo.

limpeza do S rio S

Crítico da política de trazer água de lugares distantes para abastecimento dos moradores de São Paulo, Hespanhol afirma que uma solução sustentável e de longo prazo para a crise hídrica em São Paulo passa, necessariamente, pela implantação da tecnologia de reúso. No fim de junho, ele apresentou, durante o workshop Subsídios para Suprimento de Água na Região Metropolitana de São Paulo, realizado na Escola Politécnica da USP, uma proposta que prevê a implantação desse sistema utilizando membranas de ultrafiltração e tecnologias avançadas.

Nos primeiros cinco anos do projeto seria implantado um sistema indireto, pelo qual o esgoto seria convertido em água não potável e armazenado em um reservatório, sendo posteriormente tratado para virar água potável e ser distribuído à população. Na segunda etapa, nos cinco anos seguintes, seria implementado o reúso direto. “Tecnologias como membranas, osmose reversa, processos oxidativos avançados e carvão ativado possibilitariam converter o esgoto em água potável para ser distribuída diretamente à população”, explica o diretor do Cirra. Nos 10 anos seguintes seria feita a limpeza dos rios Tietê e Pinheiros, que deixariam de receber efluentes, já que eles estariam sendo reutilizados.

e stação de água de reúso potável

1

tratamento preliminar Ao chegar à estação de reúso, o esgoto passa por um gradeamento e por uma caixa de areia para a retenção de resíduos no nível de milímetros

2

Biorreator com memBrana é formado por finas membranas permeáveis de ultrafiltração. com poros que variam de 0,01 a 0,1 micrômetro de diâmetro, eles retêm partículas em suspensão, inclusive vírus e bactérias

O Brasil já domina a tecnologia de fabricação de membranas de ultrafiltração, componente fundamental dos biorreatores com membrana (ou MBR, sigla para Membrane BioReactor), que é o sistema mais empregado para a produção de água de reúso. “A pesquisa para desenvolvermos no Cirra o protótipo de uma membrana de ultrafiltração começou em 2009, com um projeto Pipe [Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas] da FAPESP, envolvendo a Escola Politécnica e a empresa Ambihidro Engenharia Ambiental”, conta o engenheiro químico José

No laboratório do cirra, biorreator com membranas para ultrafiltração fabricado pela empresa Ambihidro

Fonte cIRRA

Modelo proposto pelo centro Internacional de Referência em Reúso de Água (cirra) a ser implantado em c ampinas

oSmoSe re Ver Sa

Aqui o efluente tem baixa carga de poluentes, mas ainda carrega impurezas. A membrana de osmose reversa elimina sais, reduz a carga microbiana e elimina hormônios

proce SSoS oXidatiVoS aVançadoS

3 4 5

Na etapa final, o efluente recebe água oxigenada e é submetido à radiação ultravioleta para a formação do radical hidroxila (·oH). Esse elemento oxida os compostos químicos ainda presentes na água

Carlos Mierzwa, professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Poli-USP. Essas membranas, dotadas de poros com 0,01 a 0,1 micrômetro de diâmetro, são uma barreira eficiente, capaz de reter partículas sólidas com diâmetro mil vezes menor do que um fio de cabelo, inclusive vírus e bactérias. “Existem no mundo menos de 10 fabricantes de grande porte desse produto. Nossa intenção é disponibilizar a tecnologia que criamos por meio de uma parceria entre o Cirra e uma companhia interessada ou, mesmo, pela transferência de tecnologia”, diz Mierzwa, que também é o coordenador de projetos do Cirra. Um estudo comparativo conduzido pela doutoranda Izabela Major Barbosa, aluna da Poli e orientanda de Mierzwa, mostrou que as membranas sintetizadas no Cirra tiveram melhor desempenho do que os modelos comerciais. “A adição das nanopartículas de argila na composição do material levou à redução da adesão de biofilme na membrana, o que elevou a capacidade de filtração. Com isso, nossa membrana apresentou melhor resultado do que as outras”, explica Izabela. O biofilme a que ela se refere é formado por partículas retidas nos poros da membrana. As membranas de ultrafiltração fazem parte da etapa inicial do tratamento do esgoto nas estações de reúso, que podem ter diferentes configurações (ver no infográfico as etapas básicas de um sistema-padrão). Em seguida, o efluente, já livre de boa parte da carga de contaminantes, é

retenção e certiFicação

Antes de ser distribuída para a população, a água de reúso potável passa por um balanceamento químico para correção do pH e eventual adição de microelementos (ferro, zinco etc.)

submetido a tratamentos avançados em série, baseados no conceito de múltiplas barreiras, para tornar o produto próprio para uso.

“A configuração do sistema avançado de tratamento deve ser pensada em função das características do esgoto a ser tratado”, explica Ivanildo Hespanhol. “Mas, seja qual for, a tecnologia hoje disponível possibilita a produção de uma água de reúso segura para consumo”, diz o pesquisador. “O uso do efluente doméstico é um caminho natural para termos um processo sustentável na produção de água no país”, afirma o especialista em recursos hídricos Gesner Oliveira, ex-presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e sócio da consultoria GO Associados. “Hoje, a água de reúso representa menos de 1% do consumo nacional de água. Seria muito interessante se houvesse mais incentivo para essa prática e o governo estabelecesse metas para elevar paulatinamente esse percentual.” n

projetos

1. produção de sistemas de membranas de polissulfona e de membranas de polissulfonas nanocompósitas de micro e ultrafiltração para tratamento de água para fins potáveis (nº 2006/51800-3); Modalidade programa pesquisa Inovativa em pequenas Empresas (pipe); Pesquisador responsável Ivanildo Hespanhol (Ambihidro); Investimento R$ 50.408,54 e uS$ 5.770,83.

2. Avaliação de membranas modificadas de ultrafiltração em biorreatores de membranas submersas (nº 2013/06821-6); Modalidade Bolsa de doutorado (Izabela Major Barbosa); Pesquisador Responsável José carlos Mierzwa (uSp); Investimento R$ 112.085,22.

P esquisa em P resarial y

A vez da biotecnologia na biomassa

GranBio investe em P&D para superar os desafios da segunda geração de etanol

Apalha da cana-de-açúcar deixada no campo após a colheita é a principal matéria-prima da GranBio na produção de etanol. Em setembro de 2014 a empresa foi a primeira a produzir no Brasil, em escala fabril, o etanol celulósico ou de segunda geração (2G) fabricado a partir de biomassa por um processo biotecnológico. A forma tradicional, de primeira geração, produz o combustível com base no caldo da cana. Com sede na capital paulista, a empresa de biotecnologia industrial foi fundada em 2011 e atua do começo ao fim da cadeia produtiva, procurando soluções científicas e tecnológicas em diversas frentes do sistema de produção agrícola e industrial.

A empresa já obteve conquistas tecnológicas importantes como uma leve-

dura modificada geneticamente e uma variedade de cana voltada à produção de etanol 2G. A fábrica Bioflex 1 foi instalada em São Miguel dos Campos, Alagoas, ao lado da Usina Caeté, produtora de etanol de primeira geração. É dela e de três outras usinas da região que são obtidas as palhas da cana. O etanol celulósico é produzido de forma experimental em poucas usinas comerciais no mundo. São duas nos Estados Unidos, que usam como matéria-prima caules e folhas de milho; uma na Itália, com folhas de trigo; e em julho deste ano a Raízen, em Piracicaba, inaugurou uma usina que usa bagaço e palha de cana.

A estratégia inicial da GranBio foi trazer tecnologia do exterior para acelerar o processo produtivo. Foram escolhidos ingredientes como leveduras da DSM, da Holanda, e enzimas da dinamarquesa

Gonçalo, em pé, à esquerda, e a equipe de pesquisa e desenvolvimento da GranBio, em Campinas. atrás, fardos de palha de cana

e M presa

GranBiO

Centro de P&D Campinas, sP

Nº de funcionários 18

Principais produtos Desenvolvimento de tecnologia para a produção de etanol a partir das folhas e do colmo da cana-de-açúcar

Novozymes. Ao mesmo tempo, a empresa montou a área de pesquisa e desenvolvimento (P&D), localizada em Campinas. “O que fazemos é converter ciência em tecnologia”, diz Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, sócio e cientista-chefe da empresa. Aos 51 anos, é professor há 18 anos do Laboratório de Genômica e Expressão do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Do grupo de pesquisadores que lidera, a maioria foi recrutada na universidade. Atualmente são 18 pesquisadores e técnicos trabalhando diretamente com P&D: oito doutores, dois mestres e quatro doutorandos.

Leved U ra especia L

A equipe foi responsável pelas duas conquistas tecnológicas anunciadas recentemente. A primeira é a elaboração de uma

levedura capaz de processar a xilose, açúcar presente na hemicelulose, uma das três principais fibras das folhas e do colmo da cana, junto com a celulose e a lignina. “Na primeira geração, a cepa de levedura industrial [da espécie Saccharomyces cerevisiae] consome a sacarose e a frutose existente de forma solúvel no caldo da cana para produzir etanol; no bagaço, os açúcares das fibras das folhas, como xilose e pentose, não estão solúveis e a levedura não os reconhece”, explica Gonçalo. Para tornar a levedura apta a processar a xilose, a equipe da GranBio desenvolveu uma linhagem geneticamente modificada com um gene de outro microrganismo – que preferem não revelar – e alguns genes modificados da própria Saccharomyces. O organismo já foi aprovado para uso comercial pela coordenação-geral da

Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em abril e seu uso é objeto de uma patente depositada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). “Vamos começar a usar a levedura geneticamente modificada em 2016 na linha de produção.” O aproveitamento da xilose, segundo Gonçalo, representa um ganho de cerca de R$ 50 milhões anuais para a empresa, que pretende processar 400 mil toneladas de biomassa por ano. “A glicose representa 40% desse material e a xilose, 25% [a pentose compõe cerca de 35%], o que significa cerca de 100 mil toneladas. Para a segunda geração ser rentável é preciso processar a xilose e outros açúcares encontrados na palha e no bagaço.”

O trabalho de engenharia genética realizado na levedura teve à frente o biólogo Leandro Vieira dos Santos, de

32 anos. “Fizemos um estudo para identificar quais seriam os genes e as combinações favoráveis para a Saccharomyces passar a consumir a xilose”, diz Leandro, que cursa o doutorado na Unicamp. Formado na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde fez mestrado em microbiologia, ele, depois de trabalhar dois anos na empresa de biotecnologia Agrogenética, resolveu fazer o doutorado com leveduras e procurou Gonçalo em 2011, quando o pesquisador montava a equipe da GranBio. Hoje, com a levedura pronta, Santos se dedica a aperfeiçoá-la.

A propagação e o escalonamento do microrganismo são tarefas do engenheiro em biotecnologia Luige Calderon. Peruano formado pela Universidade Católica de Santa Maria, em Arequipa, fez o mestrado na Unicamp e, em 2012, foi

Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, engenheiro agrônomo, cientista-chefe

José Bressiani, engenheiro agrônomo, diretor agrícola

Osmar Carvalho Neto, cientista de alimentos, coordenador de processos

Leandro Vieira dos Santos, biólogo, pesquisador

Luige Calderon, engenheiro em biotecnologia, pesquisador

convidado a trabalhar na GranBio como pesquisador na área de bioprocesso. “Eu seleciono microrganismos utilizando engenharia genética e evolutiva, desenvolvendo, por exemplo, o meio de cultivo mais adequado”, explica. A genética de leveduras também levou Osmar de Carvalho Netto para a empresa. Formado em ciência dos alimentos pela Universidade de São Paulo (USP), ele fez o doutorado na Unicamp. Participou do sequenciamento do genoma da Saccharomyces na Unicamp e pensava em montar, junto com Leandro Vieira, uma empresa de leveduras industriais. “Íamos ser fornecedores da GranBio, mas nos convenceram a integrar o quadro da empresa”, conta. Tornou-se, no entanto, coordenador de processos em áreas como fermentação, hidrólise e pré-tratamento da biomassa. Também foi

universidade Federal da Bahia (uFBa): graduação universidade de são Paulo (usP): mestrado e pós-doutorado universidade de Düsseldorf, alemanha: doutorado

universidade de são Paulo (usP): graduação, mestrado e doutorado

universidade de são Paulo (usP): graduação e mestrado universidade e stadual de Campinas (unicamp) e universidade do Colorado, e stados unidos: doutorado

universidade Federal de Viçosa (uFV): graduação e mestrado universidade estadual de Campinas (unicamp): doutorado (em curso)

universidade Católica de santa maria, Peru: graduação universidade e stadual de Campinas (unicamp): mestrado e doutorado (em curso)

1 em Pauliceia (sP), à esquerda, a cana tradicional e, à direita, a cana-energia

2 Palha da cana no laboratório de biologia molecular

3 amostras de cana no laboratório de química analítica

4 Teste de etanol em analisador bioquímico

designado para fazer a ponte entre a pesquisa e a área corporativa. “Precisava ser alguém que entendesse a linguagem dos cientistas e passei a fazer isso em 50% do meu tempo. Nos outros 50% trabalho na coordenação dos processos”, diz. Ele trata, por exemplo, de organizar testes, entregas de material e contatos com a usina, tudo para que os pesquisadores se concentrem na pesquisa.

vOLta aO princípi O Além da levedura, outra novidade da GranBio foi a cana-energia apresentada em agosto. É uma variedade nova, não transgênica, desenvolvida com cruzamentos tradicionais entre vários outros cultivares em colaboração com a Rede Universitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa) de Alagoas e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC). “Voltamos ao início do melhoramento genético da cana. Em vez de aumentar o açúcar no caldo, aumentamos a quantidade de fibra na planta. Assim temos uma cana mais rústica. Ela é mais alta, tem longevida-

F O r M açã O d O s pes QU isad O res da e M presa

de de colheita, floresce menos e é mais resistente ao ataque de pragas, além de ser mais dura”, explica o agrônomo José Bressiani, diretor agrícola da empresa. Com graduação, mestrado e doutorado pela USP em melhoramento genético, ele adquiriu experiência na produção de cultivares de cana durante os 15 anos que trabalhou no Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e mais cinco anos na Canavialis, do grupo Monsanto. “Minha função é equacionar a função de biomassa para plantas de cana. Estamos criando uma planta que deverá ter custo de produção baixo”, afirma.

Os testes com a cana-energia, que tem o nome comercial de Cana Vertix, ocorrem nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. A ideia é de que, no futuro, variedades específicas de cana-de-açúcar sejam usadas apenas na produção de etanol 2G e para gerar energia elétrica por meio da queima de resíduos. Inicialmente, da Cana Vertix será utilizada apenas a palha. Depois do corte por máquinas colheitadeiras, a palha fica no solo e seca após alguns dias, quando

é recolhida e transportada para a usina 2G ou para estoque, onde pode ficar por vários meses.

até agosto deste ano, a empresa produziu

Os avanços tecnológicos e o crescimento da GranBio ampliaram a importância do centro de P&D, que passou a ser uma subsidiária com o nome de BioCelere. A formação da empresa teve início a partir de uma conversa entre Gonçalo, Bernardo Gradin, presidente, e Alan Hiltner, vice-presidente executivo da GranBio, em março de 2010. Gradin estava saindo da presidência da Braskem e queria investir em biotecnologia e etanol 2G. “Fiz no verso da conta do restaurante em que estávamos um esboço do que poderia ser a futura GranBio no campo científico. Ele gostou e depois me convidou para ser um dos sócios”, conta Gonçalo. Os dois já se conheciam – serviram juntos ao Exército na Bahia e se reencontraram em 2007 quando Gonçalo coordenou um projeto do Programa Parceria para Inovação Tecnológica (Pite) da FAPESP, entre Unicamp e Braskem, sobre propeno (matéria-prima para produção de plásticos) renovável feito com cana-de-açúcar.

O investimento realizado pela GranBio já atingiu US$ 265 milhões para uma capacidade de produção de 82 bilhões de litros por ano. Até agosto a produção tinha atingido um total de 3 bilhões de litros de etanol. Só não foi maior porque alguns processos industriais precisam de aperfeiçoamentos. “Mas já encontramos as soluções e vamos implementá-las até o início de 2016”, prevê Gonçalo. n

Made in Brazil

Universidades e empresa do interior paulista desenvolvem

braço mecânico para telescópios que serão instalados no

maior observatório de raios gama

Obraço metálico responsável por dar sustentação e posicionar a câmera de 2 toneladas dos telescópios de médio porte do Cherenkov Telescope Array (CTA), iniciativa internacional que pretende construir o maior observatório de raios gama até 2020, será fabricado de acordo com as especificações de um protótipo dessa estrutura desenvolvido no estado de São Paulo. Concebido ao longo dos últimos quatro anos pela equipe de Luiz Vitor de Souza Filho, do Instituto de Astrofísic A y

Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), em parceria com a Universidade Federal do ABC (UFABC) e uma empresa de São José dos Campos, a Orbital Engenharia, o suporte mecânico made in Brazil bateu um projeto rival francês, que também criou uma estrutura semelhante, e foi escolhido para equipar 40 telescópios que devem ser montados e operados pelo observatório. “Nosso protótipo cumpriu todas as exigências pedidas”, afirma Souza Filho, que contou com dois

financiamentos da FAPESP para o desenho e construção do braço metálico. Composta pela junção de 84 peças distintas, a estrutura, de formato tubular, é feita de aço-carbono, pesa 4,5 toneladas e tem 16 metros (m) de altura. Em novembro do ano passado, foi enviada desmontada à Alemanha para ser instalada nas demais partes do protótipo do telescópio de 12 m de diâmetro e submetida a testes. O suporte se mostrou extremamente estável, como é exigido de um componente cuja principal função é conectar a base

Marcos Pivetta

Montagem de como deverá ser o observatório ctA (acima). Protótipo do telescópio de 12 m (à esq.): estrutura criada no brasil, formada por tubos prateados, conecta o espelho à câmera

onde está o espelho à câmera do telescópio e manter essas duas partes no alinhamento correto. “Ele funciona bem”, diz o físico de partículas Stefan Schlenstedt, do Deutsches Elektronen-Synchrotron (Desy), centro de pesquisa nos arredores de Berlim, responsável pelo desenvolvimento dos telescópios de médio porte do CTA. “Esperamos que o Brasil possa bancar ao menos 25 dessas estruturas.”

As demais, mesmo se construídas fora do país ou com verba de outros parceiros do CTA, deverão ser idênticas ao desenho e

ter a mesma qualidade do protótipo feito no interior paulista, segundo Schlenstedt. O custo de fabricação do braço mecânico criado pelo IFSC e a Orbital, empresa dedicada essencialmente à construção de painéis solares para satélites, é de cerca de R$ 500 mil por unidade. O projeto de desenvolvimento do protótipo da estrutura de apoio da câmera do telescópio foi objeto de um pedido de patente por parte de seus criadores.

Com um orçamento total estimado em € 270 milhões, o CTA é um consórcio internacional formado por 1.200 cientistas e engenheiros de 170 instituições de pesquisa e 31 países. Seu objetivo é instalar cerca de 120 telescópios do tipo Cherenkov, ideal para realizar observações em raios gama dos fenômenos mais energéticos do Universo, como a colisão de partículas de matéria escura, a natureza de eventos capazes de acelerar os raios cósmicos (como o choque de estrelas e a ação de buracos negros supermassivos) e ocorrências que violam a constância da velocidade da luz. Os telescópios serão de três tamanhos: os maiores terão 24 m, os de porte médio chegarão a 12 m e os menores medirão 4 m. Aproximadamente 70 telescópios serão do tamanho pequeno e 40, do tipo intermediário. Os grandões provavelmente não chegarão a uma dezena de unidades.

Cada tipo de telescópio observa eventos em diferentes faixas de energia, entre poucas dezenas de gigaelétron-volt (GeV) e 100 teraelétron-volt (TeV), e apresenta um campo de visão distinto. “As maiores energias são captadas pelos pequenos telescópios e as menores pelos grandes”, explica Souza Filho. Quando estiverem 100% operacionais, os instrumentos de observação do CTA deverão aumentar em 10 vezes a capacidade dos físicos e astrofísicos de registrar eventos de alta energia nas frequências de raio gama, argumentam os apoiadores do consórcio.

s ít IO s EM AtAc AMA E L A PALMA

Os telescópios do CTA serão distribuídos em dois sítios astronômicos, um no hemisfério Sul e outro no Norte. Em julho deste ano, o consórcio internacional decidiu os prováveis lugares onde eles serão montados. Um conjunto ou array de 100 telescópios (dos quais 25 de porte médio) será instalado em Paranal, no deserto de Atacama, no Chile, onde funciona uma das unidades do Observatório Europeu do Sul (ESO). Um segundo set, menor, com 20 telescópios (15 deles de tamanho intermediário), será erigido no Observatório del Roque de los Muchachos, em La Palma, um concorrido ponto de observações astronômicas nas Ilhas

Canárias, na Espanha, situado a 2.400 metros acima do nível do mar.

Quem olha a grande estrutura tubular não se impressiona com sua aparência simples. Um leigo diria que ela parece ser formada pela junção de dois tripés gigantes dotados de algumas singularidades. Em sua parte inferior, é composta por seis pés, quatro grossos e dois finos, que se encaixam no painel onde fica o espelho do telescópio. Na porção superior, 10 pontos de apoio, quatro principais e seis auxiliares, fixam-se na câmera ou no suporte da câmera. “Não se trata de uma estrutura convencional, fácil de ser projetada e fabricada”, explica o engenheiro mecânico Celio Costa Vaz, presidente da Orbital, que participou diretamente do desenvolvimento do protótipo. “Ela tinha de preencher uma série de pré-requisitos específicos.”

A mais draconiana das exigências dizia respeito à estabilidade e à precisão do braço mecânico depois de ser instalado no telescópio. A estrutura tinha de suportar as 2 toneladas da câmera sem deformar mais do que 19 milímetros (mm), resistir à neve e aguentar ventos

ilustração de buraco negro supermassivo: ctA deve estudar ação desses sugadores de matéria, que podem acelerar os raios cósmicos

de até 200 quilômetros por hora. Com o telescópio em funcionamento, sua vibração não podia ultrapassar 3 mm. “Em 50 segundos, o telescópio gira para qualquer posição e a estrutura de suporte da câmera tem de se manter estável”, comenta Ronald Cintra Shellard, pesquisador da área de física experimental de altas energias do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), do Rio de Janeiro, que representa o Brasil no conselho financeiro do CTA.

Uma estrutura fechada, sólida, seria mais fácil de ser projetada, mas limitaria o campo de visão do espelho do telescópio. Isso fez com que os pesquisadores da USP e os engenheiros da Orbital optassem por criar um braço mecânico tubular, vazado. “Dessa forma, a sombra gerada pela estrutura afeta menos de 10% da área do espelho”, diz o físico Marcelo Leigui da UFABC, outro pesquisador envolvido no projeto.

Plug and Play

Outras exigências menores também guiaram o trabalho de concepção e fabricação do braço mecânico. Os telescópios do CTA serão instalados em dois sítios de acesso relativamente difícil. Nesse contexto, a estrutura de sustentação da câmera precisava ser de fácil transporte e montagem, prescindir de manutenção constante e apresentar uma vida útil de ao menos duas décadas. “Por isso criamos uma estrutura do tipo plug and play”, diz, em tom de brincadeira, Vaz, da Orbital. As partes do suporte tubular são montadas com o emprego de 584 parafusos. As peças de aço-carbono foram galvanizadas a quente por imersão, técnica que garante a proteção até das faces internas dos tubos. Se o cronograma inicial for mantido, o protótipo de braço mecânico para telescópios de 12 m desenvolvido no eixo São Carlos-São José dos Campos será mandado provavelmente no segundo semestre de 2016 para o sítio austral do CTA, no deserto de Atacama. Segundo o físico Souza Filho, do IFSC, não foi fácil encontrar no Brasil um parceiro privado disposto a participar do processo de criação do braço mecânico. “Além da Orbital, outras empresas têm capacidade técnica para conceber um projeto com essas características”, afirma o pesquisador da USP de São Carlos. “Mas a maioria delas não tem como abrir espaço em sua linha de produção,

Anatomia de um braço mecânico

Um terço dos 120 telescópios do observatório ctA será do tamanho médio e usará a estrutura de suporte da câmera criada no b rasil

ME dIdA s

o braço mecânico pesa 4,5 toneladas e tem 16 metros de altura. será instalado em 40 telescópios com espelho de 12 m de diâmetro (25 no chile e 15 na Espanha)

MAtErIAL

É composto pela junção de 84 peças de formato tubular, feitas em aço-carbono. os tubos foram galvanizados a quente por imersão para proteger inclusive suas faces internas

rE sIstêncIA

A estrutura suporta uma câmera de 2 toneladas sem deformar mais do que 19 mm, resiste a neve e ventos de 200 km/h. com o telescópio em operação, sua vibração não chega a 3 mm

cUstO

o processo de desenvolvimento e de fabricação do braço mecânico demorou quatro anos. o custo de uma unidade da estrutura é de r$ 500 mil

voltada à fabricação de produtos comerciais, para investir no desenvolvimento de uma estrutura destinada a um fim muito específico.” Em seus contatos com firmas de engenharia, Souza Filho conta que conheceu uma empresa que, como a Orbital, teria todas as condições de conceber e construir o projeto de braço mecânico para o telescópio do CTA. Só havia um problema: sua linha de produção é praticamente toda monopolizada

suporte óptico Espelhos c âmera Estrutura de suporte da câmera trava da câmera sistema de rotação

pela fabricação de antenas parabólicas, um mercado com boa demanda no país. Além de ter desenhado e fabricado o protótipo de braço mecânico que deverá equipar os telescópios de 12 m do CTA, o Brasil também colabora nos projetos dos telescópios de pequeno e grande porte do futuro observatório de raios gama. Pesquisadores do CBPF e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) trabalham no desenvolvimento e construção das placas de interface dos dispositivos mecânicos que fazem o alinhamento dos espelhos dos telescópios de 24 m. A astrofísica Elisabete de Gouveia Dal Pino, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, coordena a atuação nacional no Astri Mini-Array, iniciativa que prevê a instalação de nove telescópios de 4 m no sítio do CTA em Paranal, no Chile, entre 2016 e 2017. Ao custo de cerca de € 3 milhões, a FAPESP banca a construção na Itália de três telescópios pequenos destinados a esse primeiro array do CTA, baseados em um protótipo concebido pelo Instituto Nacional de Astrofísica da Itália, e a participação de engenheiros brasileiros na iniciativa. n torre contrapeso

Projetos

1. Design e construção do protótipo do cherenkov telescope Array observatory (n° 2010/19514-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável luiz Vitor de souza filho (ifsc-UsP); Investimento r$ 128.568,00.

2. Desenvolvimento e construção de protótipo da estrutura dos telescópios do ctA (n° 2012/22540-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável luiz Vitor de souza filho (ifsc-UsP); Investimento r$ 406.449,00.

Paranal chilE
ilhas c anárias E sPAnhA
Caminhão autônomo: radares e GPS no teto e câmeras na frente

O FUtUrO sem mOtOrIStA

Sistemas computacionais, sensores, lasers e radares garantem a autonomia de carros e caminhões

Carros autônomos não se cansam, não se distraem, nem ficam bêbados. Eles prometem transformar a mobilidade urbana. Podem se movimentar sem motorista ao volante, sob o comando de um sistema de controle computacional interligado a sensores e equipamentos. Vão de um local a outro conforme a instrução do usuário. No caminho, devem ser capazes de obter informações do ambiente, como sinalização, pedestres e outros veículos, além de se orientar por sistemas de satélite. A tecnologia para esse fim está em desenvolvimento por meio de vários projetos no mundo, em universidades e centros de pesquisa e na própria indústria automobilística. No Brasil existem alguns projetos desse tipo em instituições científicas, dos quais pelo menos um em parceria com uma fabricante de veículos.

A Scania investiu R$ 1,2 milhão em um projeto para desenvolver um caminhão robótico em parceria com pesquisado -

res da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos. O modelo cedido pela empresa sueca aos pesquisadores para o trabalho, iniciado em 2013, é o G360, de 9 toneladas. Para torná-lo autônomo, a equipe do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), liderada pelo cientista da computação

Denis Fernando Wolf, teve que fazer alterações mecânicas e instalar sensores e sistemas eletrônicos. “Acoplamos pequenos motores elétricos no volante e nos freios e um chip no comando do acelerador para poder controlar as manobras e a velocidade”, explica. Além disso, o caminhão foi equipado com sistema de câmeras estéreo e aparelho GPS (sistema de posicionamento global) de alta precisão, que dá a direção e a posição do veículo com margem de erro de 5 centímetros (cm). São três câmeras, instaladas na frente do caminhão, a 1,5 metro (m) de altura e a 20 cm uma da outra, que funcionam, duas de cada vez, como uma só, a exemplo dos olhos humanos, tor-

nando possível estimar a distância dos objetos da imagem.

Há ainda um radar, que identifica obstáculos em situação de baixa visibilidade. De acordo com Wolf, os dois tipos de equipamento se complementam. O radar detecta, a longa distância, a presença ou não de obstáculos. As câmeras são mais precisas e sensíveis, podendo identificar a sinalização horizontal da faixa de trânsito ou semáforo e distinguir cores e texturas, além de pessoas e animais na pista. Mas, por si sós, esses aparelhos não são capazes de dirigir o caminhão, sendo necessário o “cérebro”: um computador. Instalado atrás do banco do motorista, ele recebe os dados dos sensores e os processa, controlando o veículo em tempo real.

V E íc U lOS SUS t E ntá VEIS

Rogério Rezende, diretor de Assuntos Institucionais e Governamentais da Scania Latin America, explica que o principal objetivo da parceria não foi comercial. “Nós investimos em projetos de pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo e o autônomo, em parceria com a USP de São Carlos, está dentro deste cenário”, conta. “A ideia é gerar conhecimento, fundamental para promover um transporte sustentável.”

Além do caminhão, a equipe de Wolf trabalha em outro projeto, o Carro Robótico Inteligente para Navegação Autônoma (Carina), que começou em 2011, com apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sistemas Embarcados (INCT-SEC). Enquanto o objetivo do projeto do caminhão era demonstrar que é possível desenvolver a tecnologia no Brasil ao menor custo possível, preservando a funcionalidade, o pesquisador explica que o Carina é uma plataforma de pesquisa. “Quanto mais sensores, e mais sofisticados eles forem, melhores as condições para fazer pesquisa de ponta.”

O Carina é equipado com duas câmeras (em estéreo), GPS de precisão e uma unidade inercial (um tipo de bússola em 3D). Possui ainda um emissor de laser giratório no teto, que lança 32 feixes que fazem uma varredura identificando tudo que está em torno, criando uma espécie de mapa em 3D do caminho percorrido. Em outubro de 2013 o veículo foi testado nas ruas de São Carlos, sem ninguém no

1.

2. Carina na uSP de São Carlos: laser giratório no teto

banco do motorista (ver Pesquisa FAPESP nº 213). “Foi o primeiro da América Latina a fazer um teste desses, em vias urbanas”, orgulha-se Wolf. “Até então, isso só havia ocorrido em pouquíssimas cidades dos Estados Unidos, França e Alemanha.”

O trecho que o Carina deveria percorrer era de 3 quilômetros (km), mas o total trafegado chega perto de 30 km. A próxima missão do carro deverá acontecer até o fim do ano. Ele está sendo preparado para ser usado como transporte autônomo dentro do campus da USP de São Carlos, demonstrando a tecnologia desenvolvida por quem queira testá-lo. Para isso, será desenvolvido um aplicativo pelo qual interessados no serviço chamam o veículo. Uma vez nele, o passageiro indicará o destino por meio de uma tela sensível ao toque. Ao fim da corrida, o automóvel retornará para seu ponto de estacionamento à espera de outra chamada.

Pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) também desenvolvem um veículo robótico, o Iara. O projeto começou em 2009, no Laboratório de Computação de Alto Desempenho (LCDA), com um pequeno carro-robô e um objetivo amplo: entender como o ser humano consegue dirigir usando sua capacidade visual e destreza para controlar o automóvel. Essa etapa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes). Em setembro de 2012, a equipe importou dos Estados Unidos um carro híbrido, a eletricidade e a gasolina. Para essa segunda fase, que se estenderá até dezembro, o apoio é do CNPq. Parte da adaptação do carro para as pesquisas, como volante, freio e câmbio especiais para veículo autônomo, já chegou pronta ao Brasil. “Os outros equipamentos nós adicionamos”, conta o coordenador do projeto, Alberto Ferreira de Souza. Entre eles, está um emissor de laser em cima do Iara, semelhante ao do Carina. Além disso, ele possui GPS de precisão e várias câmeras agrupadas aos pares ao seu redor, que funcionam como o olho humano. O grupo da Ufes desenvolveu o software que faz o controle do carro, que já deu uma volta completa no cam-

Carro desenvolvido pela Google: já nasceu autônomo

pus da Ufes, em um trajeto de 3,8 km. O próximo objetivo é uma viagem autônoma do veículo de Vitória a Guarapari, a 50 km de distância.

H IS tór IA E SE gU r O

No Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), o professor Edvaldo Simões da Fonseca Júnior coordena um grupo de alunos de pós-graduação que desenvolve alguns projetos na área de navegação autônoma, usando pequenos carrinhos de 80 cm de comprimento. “Uma das pesquisas usa GPS para fazer o veículo se deslocar entre dois pontos”, conta. “Outra criou um carrinho que pode se deslocar no interior de espaços fechados, como um prédio, onde o GPS não funciona, guiando-se por uma rede wi-fi, e poderá ser útil no interior de minas, por exemplo.”

Fonseca acompanha o assunto há anos e lembra que os carros robóticos têm uma história antiga. No artigo “Veículos autônomos: conceitos, histórico e estado da arte”, apresentado em 2013 no Congresso de Pesquisa e Ensino de Transportes, assinado com seus colegas de departamento Rodrigo de Sousa Pissardini e Daniel Chin Min Wei, Fonseca relata que a primeira vez em que se falou em automação nos transportes foi em 1939, durante a Feira Mundial de Nova York, nos Estados Unidos. Previa-se o mundo dali a 20 anos, exibindo “um protótipo de sistema de rodovias automatizado, onde as estradas corrigiriam as falhas de condução humanas, impedindo ações que não pudessem ser realizadas”. Desde então, as pesquisas evoluíram, principalmente com o surgimento da área de robótica móvel. Em 1985 surgiu, segundo o artigo, o protótipo VaMoRs, uma van Mercedes-Benz equipada com câmeras e outros sensores, na qual a direção e outros componentes eram controlados por comandos computacionais. O veículo podia, de forma autônoma, atingir até 100 km/h em vias sem tráfego. A partir de então, várias outras empresas da indústria automobilística, como Nissan, Volvo, Volkswagen e BMW, começaram a desenvolver automóveis robóticos. Um dos mais avançados é de uma novata no setor, a gigante de tecnologia Google. A empresa começou as pesquisas em 2010, adaptando modelos do mercado. Hoje ela tem seu próprio carro, que se assemelha

não há respostas para apontar quem será o responsável se o carro autônomo infringir leis de trânsito ou provocar acidentes

ao Fiat 500, mas é menor. Esses veículos também têm um conjunto de sensores com radares, GPS e câmeras. Os carros da Google possuem um equipamento chamado de telêmetro [um dispositivo óptico usado para medir a distância entre o observador e um ponto qualquer] a laser instalado sobre o teto, que gera um mapa tridimensional do ambiente. Desenvolver a tecnologia e construir os carros autônomos não basta para que seu uso se torne realidade. Antes de colocá-los nas ruas é preciso discutir as regras que vão regular seu tráfego e definir as responsabilidades legais em caso de acidentes. Embora teoricamente eles sejam menos sujeitos a falhas e erros, não há garantias absolutas. “O carro autônomo vai ser feito para não infringir regras e não causar acidentes, mas ele pode ter uma pane e bater em outro veículo ou atropelar alguém. E aí quem será o responsável? Quem o comprou, quem o fabricou? Vai ter um seguro? Não sabemos ainda”, diz Fonseca. Wolf lembra de outras questões que terão de ser resolvidas. “A tecnologia para construí-los está praticamente pronta, mas sua adoção em larga escala vai depender muito do mercado”, diz. “É preciso esperar para ver se interessará à indústria automotiva.”

Apesar de ainda não estarem à venda – o que deve demorar alguns anos –, os veículos robóticos têm contribuído para introduzir, de forma sutil, a automação no caótico trânsito das grandes metrópoles. Entre os exemplos mais marcantes, Fonseca cita o cruise control, que mantém o veículo na mesma velocidade, o freio ABS, que evita que a roda trave e derrape, o automatic parking, que estaciona o carro usando sensores, e sistemas anticolisão com radares ou câmeras para detectar uma colisão iminente. A autonomia está chegando aos poucos. n

Projetos

1. instituto Nacional de Ciência e tecnologia de Sistemas embarcados Críticos (iNC t-SeC) (n° 2008/57870-9); Modalidade Projeto temático-iNC t; Pesquisador Responsável José Carlos maldonado (uSP); Investimento r$ 2.639.677,06 (para todo o iNC t-SeC) (FAPeSP/CNPq).

2. A Collaborative effort For Safer And more efficient transportation With i ntelligent Vehicles (FAP e SP- oSu/2013) (n° 2013/50332-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável Denis Wolf (uSP); Investimento r$ 21.660,00.

3. Projeto Carina – Carro robótico inteligente para Navegação Autônoma (n° 2011/10660-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável Denis Wolf (uSP); Investimento r$ 55.753,20.

4. Projeto Ca ri NA – l ocalização e Controle (nº 2013/24542-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável Denis Wolf (uSP); Investimento r$ 61.412,95 e uS$ 15.840,10.

humanidades comunicação y

na segunda de uma série de reportagens sobre jornalismo científico, motivada pelos 20 anos da publicação do primeiro boletim Notícias FAPESP, que originou esta revista, o objeto é a relação por vezes conturbada entre cientistas e jornalistas. a primeira reportagem, publicada na edição de agosto, relatou o trabalho pioneiro de Júlio abramczyk e José Hamilton Ribeiro

Relacionamento entre cientistas e jornalistas melhorou, mas ainda é possível avançar | Carlos Fioravanti

m 2008, Ana Lúcia Azevedo, então editora de ciência do jornal O Globo, recebeu a tarefa de preparar com urgência uma reportagem sobre os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro. O historiador a quem ela ligou para marcar uma entrevista concordou com seu plano de reportagem e em seguida lhe pediu: “Venha daqui a dois meses”.

Ela esperava marcar a entrevista para o mesmo dia ou o dia seguinte. Não foi possível, e ela procurou outro especialista, que a recebeu logo. Os pesquisadores acadêmicos vêm, aos poucos, reconhecendo que é importante se comunicar com públicos mais amplos, mas ainda há dissonâncias de ritmos e expectativas no relacionamento entre cientistas e jornalistas. “Já foi muito mais difícil do que hoje”, diz Ana Lúcia, que editou ciência durante 22 anos e desde maio deste ano é repórter especial, escrevendo principalmente sobre temas científicos, ambiente e medicina. “Antes os pesquisadores simplesmente não queriam falar. Hoje são mais receptivos, principalmente os jovens.” Apenas uma vez um pesquisador jovem impôs uma série de condições antes de dar uma possível entrevista: a jornalista não aceitou, procurou o chefe dele, “um inglês supergentil, e a reportagem saiu ótima”, ela recorda.

“Nos últimos 10 anos houve uma clara melhora na forma de a imprensa se colocar em relação à ciência”, observa o físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). “De modo geral os repórteres hoje parecem se preparar melhor para formular perguntas mais consistentes. Antes as perguntas eram muito básicas, perguntavam-me: ‘É verdade que o planeta está se aquecendo?’, e hoje me perguntam: ‘Como você avalia as estratégias brasileiras de combate aos impactos das mudanças climáticas?’.”

Artaxo tem uma longa experiência e uma rara habilidade de falar com jornalistas. Seu didatismo e cordialidade, porém, não evitaram infortúnios. Várias vezes ele recebeu repórteres que tinham acabado de receber a tarefa de entrevistar um especialista em mudanças climáticas. “Eles me pediam: ‘Professor, o que é que eu tenho de te perguntar?’”, relata Artaxo. “Aí a entrevista é um fiasco.”

Outro problema são as entrevistas que começam bem, mas depois revelam um tácito direcionamento político para uma abordagem da qual ele discorda e para a qual voluntariamente jamais faria qualquer comentário. “Não dou mais entrevistas para alguns órgãos de imprensa porque o que vai sair não é o que eu disse, mas o que o editor quer”, ele decidiu, depois

de ver que os pedidos de erratas não eram bem-vindos. Uma vez ele ligou para um repórter de uma revista e disse que o que tinha sido publicado não era exatamente o que ele tinha falado. “E o repórter me respondeu: ‘Foi assim que eu entendi’”, diz Artaxo.

“Quem faz o título não é quem faz a matéria”, diz Esper Cavalheiro, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele reconhece que hoje os jornalistas estão mais bem preparados e já conhecem melhor o funcionamento da ciência, mas também guarda decepções. Há muitos anos ele deu uma entrevista quando começou a usar um composto convulsivante, para induzir epilepsia em animais usados em experimentos. “E o título que saiu era algo como: ‘Pesquisa busca droga anticonvulsivante’”, ele recorda.

outros embates resultaram de descuidos com a linguagem ou da dificuldade em encontrar uma linguagem comum. Ele diz sempre “pessoa com epilepsia” e nos jornais sai, como se ele tivesse falado, “epiléptico” ou “portador de epilepsia”, termos que abomina. “E depois os pacientes me cobram: ‘Mudou de ideia?’. Eu jamais falo assim. Temos de tomar cuidado com a palavra que o público vai ler.”

A tensão entre jornalistas e cientistas – embora hoje esteja menor, por causa do amadurecimento da relação, das concessões e do conhecimen-

to recíprocos – provavelmente sempre existirá, porque os dois grupos trabalham com diferentes regras e ritmos, analisa Alicia Ivanissevich, editora executiva da Ciência Hoje, uma revista de divulgação científica híbrida, composta por reportagens e notícias feitas por jornalistas e artigos escritos por pesquisadores. “É uma tensão positiva, que nos obriga a pesquisar, a simplificar sem ser simplista e a ver o lado do leitor.”

Como editora da Ciência Hoje há 18 anos, ela recebe e, com editores científicos, examina artigos de cientistas para eventual publicação. “Muitas vezes os artigos têm uma quantidade enorme de erros, em assuntos que os cientistas deveriam dominar. São erros de conteúdo, de interpretação de gráficos, de nomes científicos, de metodologia, erros de todo tipo”, diz ela. “Às vezes, fico me perguntando se o erro não é transferido para o jornalista por comodidade ou falta de modéstia do cientista. Assim como há bons e maus jornalistas, existem bons e maus cientistas.” Os cuidados com o texto na revista asseguram a qualidade dos artigos. “A grande maioria reconhece a intervenção positiva dos jornalistas”, ela relata. “Atualmente, 90% dos autores agradecem pela edição e pela divulgação.”

Três pesquisadores da Universidade de Twente, da Holanda, entrevistaram 21 cientistas da área de ciências biomédicas e 14 jornalistas que cobrem ciência para examinar as vantagens, desvantagens e dificuldades de se comunicar com um público mais amplo que o acadêmico. Na Holanda, de acordo com esse trabalho, publicado em maio deste ano na revista Journal of Science Communication, os cientistas acreditam que a interação com jornalistas pode aumentar a visibilidade, o prestígio acadêmico, a possibilidade de conseguir novos colaboradores, apoio financeiro para suas pesquisas e atrair a atenção para sua área de trabalho. Por outro lado, se a reportagem for ruim, pode prejudicar a credibilidade científica e o status acadêmico, além de atrair críticas negativas dos colegas.

Os cientistas consideram como um dever a divulgação do trabalho científico, principalmente quando financiado com dinheiro público, e comentam que os artigos de divulgação sobre ciência são superficiais, incompletos e tendem a ser

sensacionalistas. Para eles, os jornalistas deveriam saber mais sobre os assuntos que escrevem e ter uma formação acadêmica mais consistente. Além disso, muitas vezes os profissionais da imprensa não apresentariam claramente suas intenções e seriam arrogantes, exigentes e inflexíveis, embora existam muitas diferenças entre os jornalistas e os veículos de comunicação para os quais trabalham.

Por sua vez, os jornalistas disseram que em geral gostam de conversar com cientistas, embora lhes falte habilidade em comunicar o que fazem em linguagem simples. Além disso, os jornalistas afirmaram que tinham dificuldade em encontrar outros pesquisadores para entrevistar, o que explicaria a baixa diversidade de entrevistados, agravada pelos prazos apertados para a produção das reportagens. “Tanto os jornalistas quanto os cientistas já conhecem melhor os papéis um do outro”, disse Anne Dijkstra, primeira autora do estudo, para Pesquisa FAPESP Segundo ela, quando necessário os jornalistas deveriam tornar públicos os resultados ou descobertas controversos, ainda que abdicando das relações amigáveis com os cientistas.

A jornalista Fabiane Cavalcanti chegou a conclusões similares após ouvir 10 cientistas e sete jornalistas de Recife em um estudo realizado em 1993 na Universidade Federal de Pernambuco. De acordo com esse trabalho, os cientistas temem que a objetividade e o imediatismo dos jornalistas simplifiquem demais seus trabalhos, enquanto os jornalistas se queixam que os cientistas se mantêm refratários e relutam em fornecer informações. Cavalheiro, da Unifesp, incomoda-se com o maniqueísmo dos jornalistas, que faz com que um cientista seja endeusado, caso faça coisas aparentemente extraordinárias, e em seguida esquecido caso cometa algum erro. Artaxo também tem observado a dificuldade dos jornalistas em lidar com as incertezas científicas: “Não existe ciência 100% exata”. Uma compreensão mais apurada dos processos de produção do conhecimento científico pelos jornalistas e – algo raríssimo nas universidades brasileiras – um treinamento dos cientistas para falar com a imprensa certamente levariam a reportagens mais satisfatórias. O biólogo Guilherme Becker descobriu como um pouco de preparo para falar com repórteres pode ser útil. Em 2007, ele deu algumas entrevistas sobre o declínio das populações de anfíbios na Mata Atlântica, resultado de seu mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Como não tinha prática em expor suas ideias para públicos não acadêmicos,

não gostou de algumas reportagens publicadas e achou que seus entrevistadores também não gostaram. Em 2014, foi diferente, e ele falou com segurança para jornalistas dos Estados Unidos e do Brasil sobre seu trabalho de doutorado, feito na Universidade Cornell, nos Estados Unidos (ver Pesquisa FAPESP nº 226).

O que o fez sair-se bem da segunda vez foi uma conversa com sua orientadora, Kelly Zamudio, que lhe apresentou o media box, uma tática que ela havia aprendido em um curso de desenvolvimento profissional oferecido aos professores de Cornell. Também chamado de press box, o media box é um roteiro com os pontos centrais do trabalho a ser apresentado, que ajuda a organizar o raciocínio e a manter o foco da conversa. Em um quadrado no centro de uma folha deve estar a ideia central que se deseja ver no título da reportagem. Acima, abaixo e aos lados do quadrado, o pesquisador a ser entrevistado deve colocar os comentários complementares, por tópicos, sobre a metodologia ou as implicações do trabalho, tudo em frases curtas, claras e sintéticas. Para reduzir o risco de dizer o que poderia ser mal interpretado, “não dar muitos detalhes nem falar muito”, ele sugere.

“muitas vezes os artigos dos cientistas têm uma quantidade enorme de erros”, diz a lícia

Um refinamento do media box são os conectores, temas que os jornalistas poderiam levantar – já que têm hoje um conhecimento maior sobre a ciência –, e o entrevistado deveria evitar, voltando rapidamente para a ideia principal ou para as complementares. “Kelly me disse que até o presidente Barack Obama usava o media box, mentalizando os comentários, para não cair em arapucas”, diz Becker. “Na Holanda, o media training é comum”, comenta Anne Dijkstra. “Em minha universidade, o pessoal de relações públicas treina os pesquisadores que vão entrar em contato com a mídia.” n

artigos científicos

caVaLcanTi, F. G. Jornalistas e cientistas: os entraves de um diálogo. intercom. v. 18, n. 1, p. 140-152. 1995.

DiJKSTR a , a m et al. The science-media interaction in biomedical research in the netherlands. opinions of scientists and journalists on the science-media relationship. Journal of science Communication v. 14, n. 2, a03, p. 1-21. 2015.

Uma

Estudo aponta aumento do desconhecimento sobre o que é o sistema democrático

Nas últimas eleições, em 26 de outubro de 2014, mais de 100 milhões de brasileiros foram às urnas para escolher seus representantes. Dias depois, uma equipe de pesquisadores de várias universidades saiu a campo para investigar a relação dos eleitores com o sistema político representativo. Vinculado a um convênio internacional com a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, o estudo, como ocorre desde 2002, foi realizado num momento em que os resultados das

eleições já estavam definidos. “Queremos analisar o quanto a democracia é um sistema compreendido como um regime que satisfaz ao cidadão”, diz a cientista política Rachel Meneguello, professora do Departamento de Ciência Política e pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenadora da pesquisa. Um dos principais eixos do projeto é o Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), um survey nacional com 3.136 entrevistas

realizadas entre 1o e 18 de novembro de 2014, que abordou questões como adesão à e definições de democracia, memória do voto, preferência partidária e representação política. Em 2002, época da eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para seu primeiro mandato, cerca de 59,1% dos brasileiros preferiam a democracia como sistema político, 15,6% admitiam a possibilidade de uma ditadura, 15,2% responderam “tanto faz” e 9,9% não souberam responder. Em 2010, na transição entre Lula e Dilma

relação difícil

prEFErêncIAS dO ElEItOr

Levantamento nacional com 3.136 eleitores indica queda na adesão à democracia em 2014 (em %)

n democracia n ditadura n Tanto faz n Não sabe/não respondeu

Rousseff, a adesão à democracia saltou para 78,5%, diante 8,7% que não se opunham à volta de um regime autoritário. Em 2014, porém, a preferência pela democracia caiu para 65,2%.

“É preciso comparar com outros dados da pesquisa”, comenta Rachel Meneguello. “A parcela que considera a ditadura preferível à democracia em algumas situações aumentou [de 8,7% para 10,5%], mas ainda é baixa. No entanto, a porcentagem dos que não sabem definir o regime democrático cresceu sig-

nificativamente, de 25,1% em 2010 para 47,8% em 2014.” Esse dado, mais o fato de que menos da metade dos entrevistados (40,7%) se diz satisfeita com o funcionamento da democracia, revela a existência de um descontentamento com o regime do modo como está sendo exercido no país. “Preferir a democracia não significa estar contente com ela”, aponta Rachel. “Além disso, recebemos respostas diferentes sobre as definições de democracia”, diz Valeriano Mendes Ferreira Costa, da Unicamp, um dos integrantes da equipe de pesquisadores. “Teria a ver com direitos e deveres? Com justiça? Com liberdades? É um momento de redução de crença na democracia, o que é compreensível pela conjuntura, polarização política, menor identificação com os partidos – incluindo o PT –, o desgaste e a crise econômica. Há uma série de oscilações a considerar, mas não há uma curva contínua de queda na adesão à democracia”, acrescenta Ferreira Costa.

Ao contrário, até 2010 essa adesão vinha subindo regularmente. A queda só se verifica entre 2010 e 2014. Na interpretação dos cientistas políticos, essa quebra de tendência revela um paradoxo, que é o ponto principal a ser estudado a partir de agora. Ou seja, após um período em que as políticas de inclusão, ampliação dos direitos e redução da desigualdade têm ampla difusão como elementos básicos da construção democrática do país, os referenciais associados ao aprofundamento da democracia perderam peso, aumentando a parcela da população que não sabe definir o fenômeno.

A pesquisadora observa que a percepção da democracia traz oscilações relacionadas com a principal bandeira dos governos da vez. Nos mandatos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), um dos itens mais reconhecidos entre os valores associados à democratização do país era a estabilidade econômica ao lado das eleições diretas. Nos governos petistas, a predominância passou a ser das políticas sociais. Esta última tendência não mudou entre os eleitores ouvidos pela pesquisa de 2014, mas mesmo assim apareceram nos resultados menor adesão à forma de governo vigente e queda no entendimento do que é democracia. “Se analisarmos o salto de 2002 para 2010 [a adesão à democracia passou então de 59,1% para 78,5%], é preciso lembrar que estávamos num terreno de conquis-

Oscilação da percepção da democracia está relacionada com a bandeira do governo da vez

ta de direitos e inclusão socioeconômica. E os dados de 2014 sugerem que se perderam no período as referências que constituíam a noção de democracia para a população”, diz Rachel.

A cientista política é cautelosa em relacionar o resultado da pesquisa com os protestos e a crise política de 2015. “Não é possível analisar os dados de 2014 à luz do que aconteceu depois. Mas o descontentamento já estava indicado na pesquisa”, afirma. Para a pesquisadora, um sinal eloquente é a queda pela metade, entre 2010 e 2014, da porcentagem de entrevistados que se consideravam representados por um partido (57,9% e 26,4%, respectivamente).

dES cO n FIA nç A

Um dos principais focos da pesquisa é o estudo da capacidade representativa do sistema eleitoral. “No Brasil, temos uma tradição presidencialista. O eleitor lembra em quem votou para o Executivo, mas, com muita frequência, esquece o candidato escolhido para o Legislativo pouco tempo depois das eleições”, prossegue a pesquisadora. Os dados da pesquisa, segundo ela, indicam desconfiança em relação ao próprio funcionamento das instituições representativas: em 2010, 25,6% dos cidadãos tinham uma avaliação positiva do Congresso; em 2014, a cifra caiu para 16,8%. “Isso quer dizer que a relação entre o cidadão

e o sistema político está ruim”, avalia. Não há, no entanto, uma crise importante em relação ao valor da participação e da escolha eleitoral: em 2014, 79,1% acreditavam que seu voto tem poder de mudança. Em 2010, eram 71%. Além das análises proporcionadas pelos dados colhidos no Eseb, há outras linhas de pesquisa que compõem o projeto e congregam cientistas políticos de diversas universidades. Da Unicamp há Rachel, Ferreira e Oswaldo Estanislau do Amaral; da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maria Teresa Miceli Kerbauy; da Federal de São Carlos (UFSCar), Pedro Floriano Ribeiro e Maria do Socorro Sousa Braga; e da Universidade de São Paulo (USP), Bruno Wilhelm Speck.

Um segundo eixo do projeto se dedicou a um estudo inédito no Brasil a respeito do funcionamento interno das organizações políticas, avaliando o papel da militância e dos filiados partidários no estado de São Paulo, território onde os 32 partidos ativos do país marcam presença. Foram entrevistados 445 eleitores, filiados aos 10 maiores partidos de São Paulo. Um dos indicadores do estudo revelou a atividade vigorosa dos militantes: 92,1% dos filiados do PT participaram de um evento partidário, no mínimo, em 2013 – uma tendência alta acompanhada por PSDB (90,2%), PSB (82,8%) e PDT (82,4%), entre outros.

MEMórIA dO vOtO

Em 2014, mais de 40% dos entrevistados não lembravam quem escolheram para deputado federal e estadual semanas depois da eleição

*Em 2006 e 2014 houve eleição para apenas 1/3 da composição do senado

rESpOStAS vArIAdAS

Preferência por regime segundo as definições de democracia (2010-2014)

A democracia é sempre melhor que qualquer outra forma de governo

algumas situações é melhor uma ditadura que uma democracia

e deveres/ direitos sociais/Cidadania

e governo/ Procedimentos para governar

direito ao voto

da população/ Conquista do povo/Luta

de escolha/ direito de escolha

democracia

Diversas teorias tentam explicar o comportamento eleitoral mundo afora. Uma delas defende que a economia é o fator determinante para as disputas eleitorais. No projeto liderado pela Unicamp, os pesquisadores consideram outras variáveis contextuais, como as estruturas socioeconômicas, abrindo-se para abordagens que reconhecem o impacto de diferentes níveis da realidade social sobre o comportamento político dos indivíduos, sem esquecer o peso da economia e o papel das instituições. “No geral, a economia é um fator importantíssimo para o comportamento eleitoral, mas sozinha não é capaz de explicar as diferentes escolhas dos eleitores”, diz Bruno Bolognesi, pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da Universidade Federal do Paraná (Nusp/UFPR) e do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-americanos (Nepla/UFSCar). “É preciso investigar diversos fatores.” Rachel alerta para outra questão: “Nós estamos trabalhando com dados individuais, com as percepções das pessoas. Se os eleitores percebem que a economia vai bem, votam no governante X. Se vai mal, pensam: ‘Vou perder meu emprego, não tenho expectativa econômica’, e votam no candidato Y. Mas não é só isso. As pessoas têm ideologias, crenças e valores políticos.”

Segundo Valeriano Ferreira Costa, o momento de polarização política das eleições consolidou ainda mais essa observação. “A economia importa, mas a identificação ideológica e partidária também. Em 2014, por exemplo, por que tantas pessoas votaram em Aécio Neves [que recebeu 48,35% dos votos], se a economia, na época, estava aparentemente bem com Dilma? Em 2006, diante do escândalo do mensalão, por que tantas pessoas reelegeram Lula?”, pergunta o pesquisador. “O voto, afinal, expressa a opinião do eleitor. Por muito tempo, na década de 1970, os estudos democráticos focaram apenas indicadores socioeconômicos. O que explica muito, mas não explica tudo. No fim, nossos estudos de opinião pública destacam essa dimensão: a opinião importa.” n

Projeto

Organização e funcionamento da política representativa no estado de são Paulo (1994-2014) (nº 2012/193308); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Rachel meneguello (Cesop-Unicamp); Investimento R$ 854.931,60.

Não lembrou voto do SEnAdOr
Não lembrou voto do 2º SEnAdOr*
Não lembrou voto do dEp. FE dEr Al
Não lembrou voto do dEp. EStAdUAl

As primeiras formas da província

Impresso em Paris, primeiro grande mapa de São Paulo facilitou o planejamento de estradas e a ocupação do território

Carlos Fioravanti e Rodrigo de Oliveira Andrade

Mappa chorographico da provincia de São Paulo, de 1841: consultado por administradores públicos, intelectuais e viajantes

ooeste paulista aparece como “sertão desconhecido”, sem nenhuma menção às populações indígenas, mas a região próxima ao litoral está bastante detalhada no Mappa chorographico da provincia de São Paulo, a primeira carta impressa a representar toda a província de São Paulo e a se tornar um instrumento de gestão do território. Impressas em Paris em 1841, as primeiras cópias – cerca de 100 –chegaram no ano seguinte às mãos dos deputados da Assembleia Legislativa, que desde 1835 ansiavam por mapas para administrar a província, após conquistarem relativa autonomia tributária com as reformas constitucionais decorrentes da abdicação de dom Pedro I, em 1831.

O engenheiro militar Daniel Pedro Müller foi o escolhido para fazer o mapa. “Em 1835, Müller era o engenheiro militar mais experiente e preparado na província de São Paulo para a

1

execução daquela tarefa”, avalia José Rogério Beier, historiador que estuda o mapa desde 2012 na Universidade de São Paulo sob a orientação da professora Iris Kantor. Müller baseou-se em notas pessoais e em observações de outros engenheiros a serviço da Coroa para fazer sua própria representação gráfica da província paulista, que naquela época incluía parte do atual estado do Paraná.

Nascido em Portugal, filho de pais alemães, Müller cursou a Real Academia de Marinha de Portugal e se mudou para o Brasil em 1802, aos 17 anos, como ajudante de ordens do governador da capitania. Como engenheiro, fez várias obras, como a estrada do Piques, atual rua da Consolação, e o chafariz do atual largo da Memória, no Anhangabaú. Como militar, Müller participou da campanha contra uma ameaça de ataque dos espanhóis em 1819 e da guerra da Cisplatina, contra a Argentina, em 1825. Como marechal de campo reformado, voltou a São Paulo. Em 1835 a recém-instituída

Assembleia Legislativa fez a ele uma encomenda dupla: organizar as estatísticas e preparar um mapa da província.

“A encomenda de um mapa e de um levantamento populacional e econômico pela Assembleia Legislativa sugere uma preocupação da elite política com a ocupação do território, o desenvolvimento da infraestrutura viária e de comunicação com o porto de Santos e com a capacidade de expansão da ocupação do território no sentido oeste”, comenta

Iris. “O levantamento e a carta desenhada por Pedro Müller permitiram aos governantes paulistas consolidar um projeto de autonomia e de afirmação dos interesses econômicos a partir de 1835”, conclui Beier. O mapa, que media 102,4 por 151,6 centímetros, por falta de uma tipografia adequada no Brasil, foi enviado para Paris, então um centro mundial de produção cartográfica. As cópias “circularam não só entre órgãos da administração provincial e da corte, mas

mapa equivocado: atribuído a müller, mas sem confirmação de autoria, e o povoado de Pinheiros deve ser a atual cidade de valinhos

obelisco no largo da memória, centro de São Paulo: uma das obras de müller

também entre academias de ciências, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, intelectuais e viajantes, como sir Richard Francis Burton”, observou Beier em um artigo publicado em 2014 na revista Tempos Históricos. Em meio às pesquisas, ele encontrou um mapa atribuído a Müller no Arquivo Público do Estado de São Paulo, indicando um caminho novo a ser aberto para um povoado chamado Pinheiros, e o examinou com Élzio José da Silva, coordenador da seção de cartografia do arquivo. “Não encontramos nenhuma evidência de que tenha sido feito por Müller. Não há assinatura e a caligrafia não corresponde à do marechal de campo reformado”, diz Beier. “Mais ainda, o mapa não descreve um caminho para o atual bairro de Pinheiros, em São Paulo, mas sim para uma povoação próxima à então vila de São Carlos, atual Campinas. O povoado de Pinheiros, representado no mapa, deve ser a atual cidade de Valinhos, que à época era conhecida como Pouso dos Pinheiros.” Müller tinha uma casa próxima ao rio Pinheiros. Em 1842, endividado e angustiado, ele se suicidou, afogando-se no rio. n

Teatro

Teatro do real

Grupo Vertigem retrata a vida urbana em encenações na rua e prédios públicos

Poderia ter sido uma sessão maldita, daquelas à meia-noite. A intenção dos fiéis reunidos na Igreja Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, não era assistir, mas impedir um espetáculo considerado blasfemo. Enfim, cansados, retiraram-se. Foi então, à 1 hora da manhã de 5 de novembro de 1992, que O paraíso perdido estreou, marcando o início da trajetória do Teatro da Vertigem. “Em certo momento, acreditei que só mesmo o Espírito Santo faria a peça estrear”, brinca o diretor artístico da companhia, Antonio Araújo.

Na época, um apoio determinante à realização veio do arcebispo emérito de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns. Araújo chegou a receber telefonemas anônimos com ameaças de morte. Desde então, alguma polêmica sempre acompanha a trajetória de um dos coletivos teatrais mais bem-sucedidos da cena contemporânea, quase sempre em razão da ocupação de espaços urbanos não convencionais e pelo fator físico, elementos essenciais do grupo. Na segunda peça da trilogia bíblica do Vertigem, O livro de Jó (1995), de Luís Alberto de Abreu, o intérprete se debatia nu em macas e aparelhos cirúrgicos no abandonado Hospital Umberto Primo, na zona Sul paulistana. O público, perturbado, caminhava pelos corredores com cheiro de éter.  Esses desafios aos sentidos encerrariam uma primeira fase da companhia no desativado presídio do Hipódromo, na zona Leste da capital. Tratava-se de encenar a evocação do massacre de presos do Carandiru no projeto Apocalipse 1,11 (1999). A ousadia de encenação prosseguiu nos anos 2000. Em BR-3, a plateia navegava pelo rio Tietê à mercê da visão e dos odores que tal experiência implica e os atores encenavam em alguns pontos da margem, quando o barco parava. “É quando o Vertigem deixa uma noção metafísica e idealizada para enfiar o pé na lama”, diz Silvia Fernandes, professora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) especializada na produção teatral brasileira dos anos 1990. “O grupo passa então a uma ação contundente e por isso o classifico como um teatro político, se lembrarmos a alusão às torturas contidas em Jó, e um teatro do real, isto é, ligado à realidade no sentido de trabalhar com temas urbanos, fazer encenações nas ruas e em prédios públicos.”

Araújo, mineiro de Uberaba, é egresso do curso de artes cênicas da ECA-USP, do qual hoje é professor. Com sete outros colegas da universidade iniciou uma pesquisa de linguagem aplicada aos movimentos dos atores influenciado pelos estudos de mecânica clássica do matemático irlandês William Hamilton (1805-1865). O passo seguinte foi imaginar esses movimentos realizados em espaços simbólicos. “Pensamos primeiro no sentido mítico do Paraíso e da queda do homem, dos

O filho, mais recente trabalho do Vertigem: atuação elogiada de Antonio Petrin (centro)

corpos, a partir de obras como Paraíso perdido, de John Milton [1608-1674]”, explica o diretor. “Daí surgiu um jogo às avessas com o espectador em um lugar sagrado como a igreja.” Veio dessa experiência o batismo da companhia. Em 2011, Araújo lançou A gênese da Vertigem (editora Perspectiva com o apoio da FAPESP). Trata-se da dissertação de mestrado em que o diretor esmiúça o processo de criação de O paraíso perdido A prática do lugar ideal para a encenação, diz Araújo, sempre vem depois da dramaturgia. No grupo, o ofício pode ser dividido com autores e escritores convidados, como Sérgio de Carvalho, da Cia. do Latão, e Fernando Bonassi. A concepção de BR-3, por exemplo, foi ambiciosa. Partiu de uma busca da identidade nacional fundamentada em três “brasis”, o bairro paulistano Vila Brasilândia, a capital Brasília e Brasileia, cidade do Acre. O grupo viajou de ônibus ao Norte com o escritor Bernardo Carvalho. “Nessa viagem, vimos uma modernização predatória, desde lixo no córrego até florestas devastadas”, diz Araújo. O rio Tietê veio a calhar como cenário da montagem de BR-3, que teve coordenação de dramaturgia da professora Silvia Fernandes. Vez ou outra, o Vertigem abre mão da paisagem urbana, como ocorre agora com O filho, baseado na Carta ao pai, de Franz Kafka, com direção de Eliana Monteiro, assistente de Araújo desde Apocalipse. Ela utilizou o galpão do Sesc Pompeia, em São Paulo, e o recheou de objetos domésticos descartados, além de criar mezaninos. A peça rendeu elogios generosos ao veterano ator Antonio Petrin, de 77 anos.

A marca registrada do grupo, no entanto, é o estranhamento e a provocação a uma realidade urbana, o que já chamou a atenção no exterior. Bom Retiro 958 metros (2012), uma deambulação noturna pelo bairro de comércio paulistano, recebeu recentemente uma adaptação chilena para uma zona equivalente de Santiago do Chile. n

carreiras

EmprEEndE dorismo

Transição para o mercado

dificuldades e objetivos que uma empresa spin-off acadêmica deve ter para alcançar o sucesso

Uma ferramenta gerencial para auxiliar os criadores de spin-off acadêmica. Esse é o resultado prático do artigo “Inovação como transição: uma abordagem para o planejamento e desenvolvimento de spin-offs acadêmicas”, publicado em fevereiro na revista Production A rota traçada por pesquisadores do Laboratório de Gestão da Inovação (LGI), da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), pode ajudar os novos empreendedores a construir uma estratégia para planejar o negócio e lidar com as incertezas do mercado e da tecnologia, tanto internas da empresa quanto as coletivas do setor em que vão atuar.

Criadas normalmente por pesquisadores e alunos ou egressos de cursos superiores que desejam transformar determinado trabalho científico em produto comercial, as spin-offs têm de superar uma série de dificuldades antes de se

consolidar e ter sucesso no mercado. Segundo o engenheiro de produção Leonardo Augusto de Vasconcelos Gomes, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP), à época doutorando da Poli-USP e autor principal do artigo, a ferramenta gerencial proposta no trabalho fornece um conjunto de passos para que o empreendedor planeje e gerencie o seu negócio, auxiliando no complexo caminho de transformar um resultado de uma pesquisa acadêmica em um negócio bem-sucedido. Aborda simultaneamente o desenvolvimento do produto e da empresa, inclusive a parte administrativa e financeira. O primeiro passo é compreender quais são as grandes tendências ou pressões tecnológicas e mercadológicas que podem criar uma janela de oportunidades para

a inovação concebida ou a ser explorada pela spin-off. O segundo é identificar os direcionadores existentes, que podem ser novos requisitos técnicos dos produtos atuais ou as necessidades atendidas ou não. E o terceiro é verificar o que a inovação vai mudar, por exemplo, no mercado. “O primeiro e o segundo passo explicam como o mercado e a cadeia produtiva estão funcionando”, diz Gomes. “O terceiro aponta o que a spin-off e a tecnologia em desenvolvimento vão alterar em relação aos produtos que já existem.”

O quarto passo é verificar que soluções emergentes concorrem com a proposta da empresa, porque pode haver outras tecnologias ou modelos de negócio que estão disputando o mesmo mercado. “O passo cinco consiste em determinar o ecossistema, ou seja, a rede de fornecedores e clientes, por exemplo, necessária para conseguir desenvolver e comercializar o novo produto”, explica Gomes. “E o último constitui-se basicamente de entender a agenda de cada um dos atores e estruturar um plano de ação para a gestão de uma spin-off acadêmica.”

Em relação às incertezas, Mario Sergio Salerno, coordenador do LGI e coautor do artigo, diz que há quatro categorias. Uma delas é a tecnológica, porque não há como saber se ela vai dar certo. Outra é a de mercado, se o produto vai ser aceito ou não, a que preço e em quais condições. Há ainda

a incerteza de recursos – haverá dinheiro ou competências para desenvolver o produto e o negócio? – e a organizacional, em que a companhia pode não ter um bom sistema de decisão, ou haver mudanças de orientação estratégica, por exemplo. “Uma empresa iniciante de base tecnológica só vai dar certo se ela conseguir diminuir essas incertezas”, diz Salerno.

Fabíola Spiandorello, gerente de Propriedade Intelectual da Agência Unesp de Inovação, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), lembra outro obstáculo que pode surgir para as spin-offs. “Muitas vezes o produto é tão inovador que ainda não existe mercado para ele”, afirma. Nesse caso, Salerno diz que é necessário desenvolver todo um “ecossistema” envolvendo outras empresas, fornecedores, financiadores e órgãos reguladores. “A invenção da lâmpada elétrica é um exemplo histórico”, lembra. “Ela exigiu não apenas a produção de lâmpadas, mas o aumento da infraestrutura de produção e distribuição de energia, o desenvolvimento de mecanismo de medição e controle do consumo de eletricidade.”

Além da necessidade de se ter um bom produto a preço razoável, não há uma fórmula ou receita para que uma spin-off faça com sucesso a transição da academia para o mercado e se firme nele. Fabíola cita, no entanto, algumas estratégias que podem ajudar. “Primeiro, o empreendedor precisa mudar sua mentalidade”, sugere. “Ele não é mais um pesquisador de laboratório cujo foco está nos resultados que saem da bancada. O objetivo agora deve estar em fazer a empresa sobreviver. Precisa entender também que há necessidade de agregar diversos tipos de conhecimento para isso, como administrativo, financeiro, legal e captação de recursos.” n Evanildo da Silveira

pErfil

Motivação da mudança

depois de 10 anos, engenheiro deixa a universidade para trabalhar com tecnologia da informação na iB m

O desejo de se dedicar totalmente à pesquisa aplicada foi a maior motivação que levou o engenheiro de computação Renato Cerqueira, de 45 anos, a trocar a posição na academia por um cargo numa empresa privada. Depois de 10 anos lecionando em tempo integral no Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ele se transferiu em setembro de 2011 para o Laboratório de Pesquisas da IBM Brasil, na capital fluminense. “Sempre gostei de pesquisa aplicada, de ver o resultado do meu trabalho colocado à disposição da sociedade. Um dia, um colega do IBM Research me convidou para um teste no laboratório recém-criado no Rio”, conta Cerqueira. Ele se interessou, participou de um processo seletivo e foi contratado. No início, Cerqueira foi incorporado a uma das equipes de pesquisa do IBM Research, mas com um ano de casa assumiu a gerência da área de Soluções para Recursos Naturais do laboratório. A unidade é responsável por abordar desafios científicos e tecnológicos enfrentados pelas indústrias de petróleo e gás, mineração e agricultura, por meio do desenvolvimento de soluções que combinam modelos analíticos baseados em dados com modelos físicos, construídos sobre plataformas computacionais em nuvem.

No seu dia a dia, Cerqueira lidera uma equipe de algumas dezenas de pesquisadores com especializações em diferentes áreas, tais como ciência da computação, engenharias elétrica, mecânica e civil, matemática aplicada, estatística, lógica e linguística. Essa equipe se dedica a investigar e criar novos métodos e tecnologias de software para a caracterização e gerência de recursos naturais, assim como para o aprimoramento das operações das indústrias do setor de recursos naturais.

“São, por exemplo, programas que ajudam os gestores de companhias petrolíferas na tomada de decisão sobre explorar ou não determinado reservatório de óleo. Trabalho num ambiente instigante, exposto a uma diversidade de desafios e interagindo com cientistas que atuam em laboratórios da IBM em diversos lugares do mundo”, afirma. “É muito bom fazer pesquisa numa organização que conta com uma rede global de 3 mil cientistas.”

A decisão de deixar a PUC-Rio, no entanto, não foi tão fácil. Foi lá que Cerqueira fez graduação, mestrado e doutorado – os dois últimos em ciência da computação. Nos 10 anos em que lecionou na universidade, publicou mais de 40 artigos científicos e orientou 38 alunos de mestrado e doutorado. Ele diz que tem saudades da sala de aula e do ambiente acadêmico e planeja voltar a lecionar. Com uma ressalva: “Sem abrir mão do trabalho na empresa, que me proporciona muita satisfação”. n Yuri Vasconcelos

A figueira e a UsP resenhas

José de souza Martins

a Glette, o palacete e a Universidade de são Paulo

César Ades (in memoriam)

Angélica Z. P. Sabadini

Carlos Ribeiro Vilela

Neusa G. de Carvalho

Viktoria K. L. Osorio (organizadores)

CM-IPUSP

256 páginas

Em breve, disponível para ser baixado gratuitamente no site do CM-IPUSP: citrus.uspnet.usp.br/centrode memoriaip/

Uma velha figueira no terreno baldio da alameda Glette, em São Paulo, transformado em estacionamento, entrou no imaginário de toda uma geração de antigos alunos da Universidade de São Paulo (USP) e tornou-se símbolo de seus anos de formação universitária. Está no centro da memória e das lembranças de um grupo de ex-alunos de vários antigos cursos da USP reunidas em livro lançado em 2014: A Glette, o palacete e a Universidade de São Paulo, organizado por César Ades, Aparecida Angélica Zoqui Paulovic Sabadini, Carlos Ribeiro Vilela, Neuza Guerreiro de Carvalho e Viktoria Klara Lakatos Osorio. Foi publicado pelo Centro de Memória do Instituto de Psicologia da USP (CM-IPUSP).

A figueira é o que resta do passado no terreno do antigo palacete, que fora de Jorge Street, médico e industrial famoso, dono da Fábrica Nacional de Tecidos de Juta, no bairro do Belenzinho, onde mandara construir a vila operária conhecida como Vila Maria Zélia. Industrial socialmente progressista, plasmou na vila a que deu o nome de uma das filhas, falecida com 16 anos de idade, seu ponto de vista sobre a relação entre o capital e o trabalho. A vila, inaugurada em 1917, ano da histórica greve geral, é a configuração de sua concepção do que deveriam ser as relações de produção na indústria moderna.

Malogrado como empreendedor e endividado, acabaria vendendo a fábrica em 1924, para pagamento de credores. Ele se tornaria funcionário público e, finalmente, funcionário da Fiesp, de que fora um dos fundadores. O palacete do bairro dos Campos Elíseos também foi perdido para uma companhia de seguros e a família de Street teve que deixar a casa. Até móveis ficaram no imóvel, que seria adquirido em 1937 para abrigar diversas seções e cadeiras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, criada três anos antes para nuclear a Universidade de São Paulo, que assim nascia. Compra de urgência porque a Faculdade de Filosofia fora literalmente expulsa pelos alunos da Faculdade de Medicina, ali provisoriamente alojada no início de sua história. A faculdade esteve por muitos anos dispersa, em diferentes lugares da cidade, não raro os alunos assistindo a algumas aulas num lugar e outras noutro, sempre em acomodações pro -

visórias e em casa alheia. O palacete da Glette foi a primeira casa “própria” da escola. Talvez por isso os alunos dos cursos nela frequentados tenham guardado cálidas lembranças daqueles tempos iniciais da USP, lembranças do que foi, de fato, a batalha pela universidade. Lembranças de uma casa materna.

Raramente lembram alunos e professores de hoje que a USP, em particular a Faculdade de Filosofia, só se tornou possível graças à teimosia e à obstinação de docentes e estudantes de então. O quadro era o do lúcido empenho de governantes que concebiam a universidade e a educação pública, gratuita e laica como instrumentos de democracia e de emancipação social. Hoje a USP está configurada e realizada sobretudo no espaço da Cidade Universitária, em boa parte como a idealizou Júlio de Mesquita Filho num dia dos anos 1930. Foi quando visitou a Fazenda Butantã com seu cunhado Armando de Salles Oliveira, governador do estado, e Paulo Duarte, jornalista. Nas proximidades do portão do Instituto Butantã que dá agora acesso à ladeira que corre ao lado do prédio de História e Geografia e do Instituto de Química, estendeu o olhar por aquilo que viria a ser o campus do Butantã e povoou imaginariamente o descampado com os edifícios que formariam a arquitetura da universidade que estava sendo criada. Era sonho de visionários. A USP vingou porque existiu, previamente, como um todo na imaginação dessas pessoas e também na de professores e alunos. Testemunha dos primeiros tempos da Faculdade de Filosofia dispersa, Claude Lévi-Strauss, que foi nela o

1 Entrada social do Palacete jorge Street, após reforma de 1926

2 figueira da Glette em foto de 2014. desde 1973 funciona no local um estacionamento

3 Sala localizada no porão do palacete, em 1948, escavado para instalar parte da Biologia Geral

segundo professor de sociologia, ao visitá-la na Cidade Universitária, já velhinho, muitos anos depois de ter voltado à França, não resistiu e chorou. Um sentimento parecido com o de outros artífices da obra, o triunfo do espírito republicano e da razão, entre nós, sobre o atraso e o oligarquismo de uma sociedade que tinha raízes profundas na escravidão ainda próxima e no autoritarismo que lhe era próprio.

No palacete da Glette fincaram raízes, além da administração da atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, em cujos saguão e diretoria ainda há belos móveis procedentes da antiga residência de Jorge Street, também antigas seções da escola, como se dizia, que vieram a ser departamentos e cursos. São hoje o Instituto de Geociências, o Instituto de Biologia, o

Instituto de Química, o Instituto de Psicologia. Com o tempo foram se transferindo para outros lugares até serem localizados definitivamente na Cidade Universitária, deixando o antigo palacete, construído no final do século XIX. Em 1973, mediante concorrência pública, o imóvel foi vendido pela USP e demolido pelo comprador. Restou a figueira do antigo jardim da família Street, hoje tombada.

A antiga figueira foi clonada, quatro mudas foram produzidas. Foram plantadas em diferentes pontos da Cidade Universitária, especialmente nos jardins de algumas das unidades que tiveram suas raízes no palacete da Glette, como o Instituto de Psicologia e o Instituto de Geociências. Um original e criativo modo de construir o memorial dos primeiros tempos da Universidade de São Paulo.

O livro é não só rico em detalhes históricos sobre o estabelecimento e sobre docentes e alunos que se destacaram na história de diversos campos do conhecimento. É rico, também, de imagens fotográficas oriundas de arquivos da própria família Street como ainda de arquivos de pessoas ligadas à origem da USP. Uma verdadeira história visual da universidade. Um belo e emocionante documento de uma geração que não se perdeu no tempo nem abriu mão da memória enquanto alimento vital do espírito.

José de souza Martins é sociólogo e professor emérito da faculdade de filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Entre outros livros, é autor de A sociologia como aventura (Contexto, 2014) e Linchamentos: a justiça popular no Brasil (Contexto, 2015).

Uma obra para especialistas e leigos

Oscar t. Matsuura (org.)

Mast / Cepe Editora / Sectec

656 páginas (volume I)

604 páginas (volume II)

disponível para ser baixado: www.mast.br/HAB2013/

Uma obra de fôlego. Com mais de 1.200 páginas, acaba de ser lançado o livro História da astronomia no Brasil, em versão digital e impressa. Em uma iniciativa conjunta do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), do Rio de Janeiro, Cepe Editora, de Recife, e Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco, e com organização de Oscar Toshiaki Matsuura, a obra tem na comissão editorial Alfredo T. Tolmasquim, Antônio Augusto P. Vieira, Cristina H. Barbosa e Walter J. Maciel, e conta com mais de 60 colaboradores de diferentes especialidades.

O livro está dividido em dois volumes. O primeiro deles tem 16 capítulos e trata da época mais remota: parte da era pré-colombiana com a arqueoastronomia e a astronomia indígena, segue para a época do descobrimento, visita os tempos do Brasil holandês, mergulha nas expedições europeias ao Brasil e suas consequências para essa área do conhecimento. Passa então para o início do ensino da astronomia no país, com destaque para a determinação da hora legal, os meteoritos em solo brasileiro – incluindo alguns eventos marcantes –, o começo dos estudos científicos de astrofísica no país, com rico capítulo sobre Mario Schenberg, e, ainda, capítulos sobre a consolidação do ensino superior e pesquisa e a construção dos observatórios.

Já o segundo volume tem 18 capítulos, em que os temas tendem a ser tratados de modo mais fatual e menos analítico do que na primeira parte. São abordadas diversas áreas da pesquisa em astronomia no Brasil, como raios cósmicos, radioastronomia, cosmologia teórica, ondas gravitacionais, além de capítulos que abordam como se deu a estruturação da área no país, incluindo a pós-graduação, formação de sociedades científicas, grandes eventos internacionais, divulgação, planetários e temas correlatos.

Segundo o organizador, a ideia inicial do projeto surgiu durante a realização de um evento científico que celebrava o quarto centenário de Jorge Marcgrave, historiador natural, cartógrafo e cosmógrafo do conde Maurício de Nassau no Brasil holandês, em um simpósio internacional realizado em 2010 na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. Na mesa de encerramento do evento, concluiu-se que a história da astro -

nomia deveria ser recontada e o projeto dessa obra abrangente foi lançado. Já em novembro daquele ano foi distribuída pela internet uma circular com a primeira versão do projeto para 17 potenciais participantes. A partir de então, o projeto assumiu um caráter de empreendimento coletivo com envio de outras sugestões e comentários que levaram a uma nova versão do trabalho, mais ambiciosa.

O processo se repetiu várias vezes até convergir no início de 2012 para a versão consensual que resultou na obra agora disponível ao público. Ainda segundo o organizador, após minuciosa visita à bibliografia existente na área da história da astronomia, constatou-se que novos estudos sobre episódios do passado mais remoto estavam ausentes. Além disso, os estudos estavam espalhados em livros, teses, artigos publicados em periódicos especializados ou comunicações públicas em anais de encontros. Os episódios da nova astronomia brasileira – aquela feita a partir dos anos 1960, como definido por Sylvio Ferraz-Mello – eram abordados de forma isolada ou abreviada e tocavam apenas na sua fase inicial.

Essas considerações levaram Oscar Matsuura a concluir pela falta de uma narrativa abrangente e integrada da história da astronomia no Brasil. Assim, a nova obra deveria incorporar tanto os episódios mais recentes quanto os novos estudos a respeito dos episódios do passado. Lançar um projeto com o objetivo de recontar essa história e sanar essa séria lacuna bibliográfica tornou-se sua meta, plenamente justificada, e que recebeu total apoio da comunidade de historiadores da ciência. O resultado é esta vasta História da astronomia no Brasil , que passa agora a ser uma obra referencial. Sua diversidade no enfoque, metodologia e estilo não é um demérito, mas, pelo contrário, comprova a riqueza da atividade da história da ciência no país. Devemos louvar os esforços do organizador Matsuura e o trabalho de tantos colaboradores. Podemos agora conhecer em profundidade e abrangência a história da nossa astronomia.

José luiz Goldfarb é físico, doutor em História da Ciência e coordenador do Programa de Estudos Pós-graduados em História da Ciência da PUC-SP.

história da astronomia no Brasil

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