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Como bebe o Brasileiro

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Setembro 2007 ■ Nº139

PROTEINA DA CASCAVEL LEVA GENES AS CELULAS

INSETOS AJUDAM A DECIFRAR CRIMES

UM SEMAFORO A PROVA DE APAGOES

> ENTREVISTA

10 O cineasta mexicano

Paul Leduc, homenageado no 2º Festival deCinema Latino-americano de São Paulo, fala sobre seus filmes e cinema na América Latina

> AMBIENTE

34 MUDANÇAS

CLIMÁTICAS

Estímulo à produção pode ser combinado a créditos de carbono para evitar estagnação da economia

> CIÊNCIA

> POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

24 INDICADORES

Falta de informação compromete investimentos de empresas em inovação

28 BIODIVERSIDADE

Frutos do programa

Biota-FAPESP são repartidos entre as universidades paulistas

30 ENERGIA

Reator de submarino nuclear terá R$ 1 bilhão

42 CAPA

Um em cada dez brasileiros bebe a ponto de poder ter problemas físicos, psíquicos e sociais

50 FARMACOLOGIA

Proteína de veneno de cascavel é capaz de transportar remédios para as células

54 ENTOMOLOGIA

Insetos em cadáveres

ajudam a elucidar mortes misteriosas

58 ECOLOGIA

Bromélias são centrais na ecologia da Mata Atlântica nordestina

60 ARQUEOLOGIA

Crânio do Piauí reforça idéia de que grupos distintos ocuparam a América do Sul

> TECNOLOGIA

68 ÓPTICA

Pesquisadores desenvolvem semáforos e equipamentos com diodos emissores de luz, os LEDs

74 COMPUTAÇÃO

A internet se transforma em laboratório para pesquisas sobre seu próprio futuro

78 BIOTECNOLOGIA

Silvestre Labs produz biomaterial para substituição óssea > HUMANIDADES

80 ECONOMIA

Tragédia da TAM traz de volta debate sobre as agências reguladoras

86 SOCIOLOGIA

Setores da sociedade discutem formas de restringir propaganda dirigida a crianças

90 ARQUITETURA

Livros trazem a riqueza do pensamento de Paulo Mendes da Rocha

Predador monitorado

A harpia da foto é um filhote fêmea de 4 meses de idade, 4,4 quilos e 1,83 metro de envergadura, que ainda vive num ninho a quase 32 metros de altura, no topo de uma castanheira em Parintins, no Amazonas. Nos próximos meses, quando alçar seu vôo inaugural, ela se tornará a primeira de sua espécie a ser monitorada no Brasil por meio de satélites. Recebeu um radiotransmissor equipado com um sistema de posicionamento global que rastreará sua movimentação pelos próximos três anos. A tecnologia foi desenvolvida por três instituições, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Também conhecida como gavião-real, a harpia é uma das maiores aves de rapina do mundo. Vive cerca de 40 anos e habita florestas tropicais das Américas Central e do Sul.

As reportagens de Pesquisa FAPESP retratam a construção do conhecimento que será fundamental para o desenvolvimento do país. Acompanhe essa evolução.

■ Números atrasados

Preço atual de capa da revista acrescido do valor de postagem. Tel. (11) 3038-1438

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Envie cartas para a redação de Pesquisa FAPESP Rua Pio XI, 1.500 – São Paulo, SP 05468-901 pelo fax (11) 3838-4181 ou pelo e-mail: cartas@fapesp.br

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No endereço eletrônico www.revistapesquisa.fapesp.br você encontra todos os textos de Pesquisa FAPESP na íntegra e um arquivo com todas as edições da revista, incluindo os suplementos especiais. No site também estão disponíveis as reportagens em inglês e espanhol.

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Ciência na indústria

É claro que a interação entre empresas e universidades pode gerar inovações tecnológicas,mas o incentivo dado pelo governo por meio da Lei de Inovação 11.487 pode também gerar problemas (“Uma Lei Rouanet da pesquisa”, edição 138).Se for mais vantajoso para uma empresa fazer uma parceria com um ou mais grupos de pesquisa de uma universidade,então ela não precisará contratar cientistas.E a questão é:o que fazer com os milhares de mestres e doutores que o governo está formando todos os anos? Se o objetivo é incentivar a pesquisa na indústr ia,então devemos levar o cientista para dentro da empresa,e não a empresa para dentro da universidade.Nesse sentido,é preocupante que o presidente de uma entidade como a Capes, que dá bolsas a mestres e doutores,seja a favor da interação empresa-universidade,esquecendo que isso deveria ser uma exceção.Caso contrário,os milhares de mestres e doutores formados todos os anos continuarão sem emprego.

São Paulo,SP

Crise do masculino

Acabo de ler Pesquisa FAPESP de julho (edição 137).Como sempre,cheia de coisas interessantes.A reportagem sobre a crise do masculino (“Menino,eu sou é homem,e como sou”) merece suíte:é um assunto pouco trabalhado na

MIGUEL
BOYAYAN
CARTAS

mídia.O machismo tem raízes profundas em nossa cultura e é o principal responsável pela violência doméstica,mais disseminada do que se pensa.Tem razão o autor,Carlos Haag, que pede uma discussão mais ampla do que a que acontece individualmente,cada qual com seu analista...

CLAUDIUS CECCON

Rio de Janeiro,RJ

Roda viva

Excelente a iniciativa de disponibilizar os programas Roda viva na internet.Cumprimentos efusivos à FAPESP,à TV Cultura e ao Paulo Markun,que é um verdadeiro exemplo de profissionalismo e engajamento com os assuntos de interesse para a sociedade brasileira (“Armazém de idéias”, edição 137).

MARI CLEIDE SOGAYAR

INSTITUTODE QUÍMICA/USP

São Paulo,Brasil

Santos-Dumont

Co m profundo desgosto me deparei na seção Ficçãode Pes quisa FAPESP nº 137 com o texto “Paralelismos e inversões”,de autoria de Hermógenes de Castro e Mello.Sem citar nomes,o autor apresenta os irmãos americanos Wright como os verdadeiros cientistas e os verdadeiros pais da aviação com frases como: “Um curioso senhor da América Latina”,“Mundo afora,com o tempo, o latino-americano foi esquecido”,“O inventor de sucesso,à época,o outro pai da aviação”,que depreciam Alberto Santos-Dumont.Conforme diversas publicações aeronáuticas,o primeiro homem que alçou vôo com seus próprios meios foi Santos-Dumont,cumprindo os três requisitos de navegação em aeroplano:a decolagem,o deslocamento através do ar e a aterrissagem.O avião dos irmãos Wright era lançado no espaço de um

pilar,pela queda de um peso,logo, não decolava sozinho.Conforme a rev ista francesa L'Illustration daquela época,o aparelho dos Wright era projetado de um pilar e o impulso era dado por um peso de 700 quilos,ligado ao aeroplano por um fio.Ao cair,o peso provocava o deslocamento do aeroplano no trilho projetando-o no espaço (Santos-Dumont e a conquista do ar,de Aluizio Napoleão).O restante todos nós sabemos,o lobby do gove r no americano e das imprensas americana e inglesa,afirmando que o importante era o vôo,e não como ele se iniciava,fez o resto.Mas em 2003, no mesmo local em Kitty-Hawk,nos

Estados Unidos,uma réplica fiel do Flyer não conseguiu levantar vôo, comprovando a necessidade do auxílio do pilar e do peso.O que mais me decepcionou foi o fato de uma revista como Pesquisa FAPESP publicar artigo depreciando a pessoa de um dos maiores cientistas e pesquisadores brasileiros.Meus sinceros pêsames.

JOÃO BATISTA PIETROBON

Nova Fr iburgo,RJ

Nota da redação: Informamos ao leitor tratar-se apenas de uma obra de ficção.

Revista

Recebi com muita satisfação o exemplar da revista Pesquisa FAPESP,que re tr ata temas diversos.Agradeço e parabenizo toda equipe pelo excelente trabalho.

CLAURY ALVESDA SILVA

SECRETÁRIODE ESTADODE ESPORTE, LAZERE TURISMODE SÃO PAULO São Paulo,SP

Escrevo para agradecer o belo presente que é receber todos os meses a melhor (disparado) revista editada no Br asil.É o que há de melhor para quem realmente quer se instruir,se informar e se deliciar com os artigos maravilhosos publicados.A revista é um oásis se comparada com as porcarias publicadas no Brasil.É só dar uma olhada nas bancas.Adorei a frase em uma reportagem de Pe s quisa FAPESP,a qual diz que a TV é a melhor forma de se instruir:é só ligar e ver os programas que rapidamente desligamos e procuramos um bom livro. No caso,é só ler Pesquisa FAPESP.

ANTÔNIO ARMANDO AMARO

São Paulo,SP

Etanol

Pa r abéns pela publicação Brasil líder mundial em conhecimento e tecnologia de cana e etanol, um trabalho da gerência de Comunicação da FAPESP.Há muito defendo o papel estratégico deste setor para o Brasil,seja na área econômica,energética ou ambiental.Padecemos de uma definição mais clara do papel do etanol e da biomassa da cana na matriz energética,evidenciada pelo fracasso do último leilão de energias alternativas da Aneel,assim como precisamos de uma maior ousadia na diplomacia internacional e soluções para os gargalos estruturais.Defendo instrumentos de mercado capazes de oferecer a sustentabilidade necessária para a

expansão da produção nacional,como:alíquota única de ICMS;investimentos em transporte e logística;estoques estratégicos;linhas de financiamento para ampliar a produção; e,principalmente,recursos para custear a pesquisa e desenvolvimento.No âmbito internacional,cabe à diplomacia brasileira abrir as portas do mercado mundial para o nosso etanol,estabelecendo acordos de cooper ação técnica,maquinário e knowhow, no sentido de facilitar a produção de etanol em países fornecedores de açúcar de cana;estimular a criação de contratos de compra e venda de etanol nas principais bolsas de commodities ;e aproveitarmos as oportunidades abertas pelo Protocolo de Kyoto.É clara a necessidade de trabalharmos em várias frentes,sob a égide do planejamento,estruturação e ambição para mantermos a liderança na produção de um combustível renovável,limpo e economicamente viável na substituição dos derivados fósseis.

DEPUTADO, VICE-LÍDERDO PPS E

MEMBRODA COMISSÃODE ENERGIA

DA CÂMARA FEDERAL

Brasília,DF

Correção

Os parágrafos finais da reportagem “De onde vem a areia das praias”(edição 138) continham incorreções.Leia a seguir o trecho final do texto corrigido:

Os críticos alegam que ao menos duas dessas datações são questionáveis.A mais antiga atribui ao sambaqui da praia de Camboinhas,em Niterói,a idade de aproximadamente 8 mil anos.Os geomorfologistas que discordam desses números afirmam que essa região de restinga,extensa faixa de areia que avança sobre o mar, formou-se mais tarde,há 5 mil anos. A técnica de radiometria de Meigikos pode contribuir com dados que corroborem a datação de Camboinhas.

O físico também pretende reunir elementos para confirmar a idade do sambaqui de Algodão,na baía de Ribeira,em Angra dos Reis.Datações feitas em 2002 por Meigikos e Kita Macário, também da UFF,e pela arqueóloga Tania Andrade Lima,do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),sugerem que esse sambaqui tenha sido construído há cerca de 7,8 mil anos.A partir da análise dos elementos radioativos encontrados na areia de Ribeira,os pesquisadores esperam descobrir se a região estava ou não submersa naquele período – e,portanto,se era viável construir sambaquis ali.“Vamos usar a correlação entre tório e urânio.Se o resultado for entre 2 e 7 ou superior a 7,é possível que houvesse gente vivendo ali naquela época”, explica o físico.Caso os sedimentos sejam provenientes principalmente de águas profundas,é quase impossível que o local tenha sido ocupado por grupos humanos.

Em parceria com a arqueóloga Ângela Buarque,da UFRJ,Meigikos tenta encontrar uma resposta para outro enigma:por que algumas regiões da costa fluminense não apresentam nenhum sambaqui.“A região dos Lagos é uma das mais ricas nesses montes de conchas,comuns em Búzios,Cabo Frio,Arraial do Cabo,Saquarema.Mas não existe nenhum sambaqui em Araruama”,diz Meigikos.“Os estudiosos sempre se perguntaram por quê.Meu palpite é que essa região,por alguma condição específica da natureza,ficou muito abaixo do nível do mar durante o período em que ocorreu esse tipo de ocupação,o que pretendemos responder analisando o teor de tório e urânio das areias de lá.”Em última instância,esse estudo pode fortalecer a idéia de que o litoral centro-sul brasileiro foi colonizado muito antes do que se acredita.

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br, pelo fax (11) 3838-4181 ou para a rua Pio XI, 1.500, São Paulo, SP, CEP 05468-901. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

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MARCOS MACARI PRESIDENTE (INTERINO)

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CELSO LAFER, EDUARDO MOACYR KRIEGER, HORÁCIO LAFER PIVA, JOSÉ ARANA VARELA, JOSÉ DE SOUZA MARTINS, JOSÉ TADEU JORGE, LUIZ GONZAGA BELLUZZO, MARCOS MACARI, SEDI HIRANO, SUELY VILELA SAMPAIO, VAHAN AGOPYAN, YOSHIAKI NAKANO

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RICARDO RENZO BRENTANI DIRETOR PRESIDENTE

CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ DIRETOR CIENTÍFICO

JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER DIRETOR ADMINISTRATIVO

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A medida do veneno

Em 22 de agosto último,o psiquiatra Ronaldo Laranjeira,professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),apresentou no Palácio do Planalto,em Brasília,os resultados do mais abrangente estudo sobre consumo de bebidas alcoólicas já feito no Brasil.Graças a esse trabalho,sabe-se agora que cerca da metade da população adulta do país,mais exatamente 48% dos que têm mais de 18 anos,é abstêmia,enquanto 25% consomem bebidas alcoólicas mais de uma vez por semana.Dentro desse grupo,mais de 5 milhões bebem em níveis considerados nocivos para a saúde,conforme relata o editor de ciência,Ricardo Zorzetto,a partir da página 42.Já os dependentes de álcool,bebendo muito ou pouco,ele esclarece, são cerca de 12 milhões.Todos esses dados saíram de uma pesquisa com 3.007 pessoas com mais de 13 anos,em áreas urbanas e rurais de 147 municípios das cinco regiões brasileiras,levada a cabo de novembro de 2005 a abril de 2006 por pessoal treinado por Laranjeira e sua equipe.A rigor,30 anos acumulados de pesquisa sobre efeitos do abuso do álcool e de outras drogas deram ao pesquisador paulista uma fundamentação para lá de sólida na condução desse estudo,que fornece consistentes subsídios ao governo brasileiro para sua campanha contra o abuso do álcool no país.A reportagem que virou capa desta edição de Pesquisa FAPESP,entretanto,não se limita ao trabalho de Laranjeira.Mostra resultados de outros estudos de respeitados pesquisadores desse campo,de tal sorte que chega por sua leitura a uma visão nova,rica e bem contextualizada no mundo dos padrões de consumo de bebida alcoólica entre nós.

Vale destaque também entre as reportagens da editoria de ciência da rev ista o inspirado texto do editor especial Carlos Fioravanti,a partir da página 50,que indiretamente faz justiça à mal-afamada cascavel,serpente que tem contribuído para o desenvolvimento da ciência em terras brasileiras. O que ele mostra é que a crotamina, uma pequena proteína do veneno da cobra em questão,é capaz de atravessar a membrana celular e transportar DNA ou outras moléculas para o interior e mesmo para o núcleo das células que estão em processo de multiplicação.Dessa forma,ela pode ser usada em diagnósticos de doenças,no transporte de medicamentos e até para destruir tumores,“a julgar pelos experimentos mais recentes”.Nada mais longe de um poder maléfico do que isso. Vou me permitir aqui uma parada mais prolongada do que o usual na seção de ciência para comentar uma excelente e intrigante reportagem na qual eu realmente não apostava – estava,como se poderá ver,completamente equivocada.Elaborada pelo jornalista Francisco Bicudo,nosso colaborador,ela trata de estudos que estão produzindo um significativo desenvolvimento da entomologia forense no Brasil e,dessa forma,contribu indo com vigor para a elucidação de crimes e mortes misteriosas.Em termos mais estritos,o conhecimento que os pesquisadores da área estão ampliando é o das informações que diferentes espécies de insetos encontrados junto a cadáveres fornecem sobre as causas e o tempo decorrido desde a morte das pessoas a que tais corpos pertenceram.A reportagem,muito longe de qualquer morbidez,inicia sua narração à maneira de bons con-

tos policiais,o que estimula o leitor a seguir até o fim,ainda que tal assunto possa lhe parecer um tanto angustiante.E para quem chega ao fim do percurso a certeza é de que aqui se está num campo de inestimável interesse público num mundo tão abalado pela violência.

Dado que esta é uma revista cujos textos se organizam sob quatro editorias ou seções,entre elas a de ciência, com a qual já gastei quase todo o espaço disponível para esta carta,preciso ao menos recomendar em poucas linhas reportagens que merecem destaque nas demais.Assim,em política científica e tecnológica,a par da reportagem de Claudia Izique,editora desta área,sobre a desinformação das empresas brasileiras relativamente à oferta de crédito e mecanismos de fomento ao desenvolvimento tecnológico,que se levanta como obstáculo poderoso ao avanço da inovação no país, vale destaque um pequeno texto do editor especial Fabrício Marques sobre a institucionalização do programa Biota-FAPESP.

Em tecnologia,a revolução provocada pelos LEDs,os diodos emissores de luz com os quais pesquisadores de São Carlos estão desenvolvendo desde novos semáforos à prova de apagões elétricos até um aparelho que substitui o laser no tratamento do câncer de pele,valeu uma reportagem imperdível de Yuri Vasconcelos,a partir da página 68.E,para concluir,merece leitura cheia de atenção a reportagem do editor de humanidades,Carlos Haag,sobre as agências reguladoras,a exemplo da Anac,da Anatel ou da Anvisa,que a triste tragédia com o Airbus da TAM trouxe para o centro do debate político nacional.

Desenho de O Malho, de 1904: cem anos depois, varíola ainda assombrava a população

Veredicto oficial

Documento inédito indica começo da imunização no Brasil, em 1804 | N ELDSON M ARCOLIN

Ahistória da introdução da vacina no Brasil emergiu dos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico Br asileiro (IHGB), no Rio de Janeiro,em um documento inédito. Quando pesquisavam na centenária instituição, a historiadora da ciência My r iam Bahia Lopes, da Universidade Federal de Minas Gerais,e Ronald Polito,historiador e escritor,depararam com 19 páginas manuscritas de Joaquim Manuel de Macedo e Joaquim Norb erto de Souza Silva. O texto,de 1859,não tem título.Mas na ficha consta “Parecer sobre a introdução da vacina no Brasil”. Os autores Macedo e Norberto,da então Comissão Subsidiária de Trabalhos Históricos do IHGB,informam que receberam a incumbência do Ministério dos Ne gócios do Império, por ordem do imperador dom Pedro II.A viscondessa de Santo Amaro,filha do marechal Felisberto Caldeira Brant,depois marquês de Barbacena, pedia licença para colocar o busto de seu pai na sala do Instituto Vacínico alegando ter sido ele o real introdutor da vacina no país em 1804.Ocorre que Antônio Mendes Ribeiro reiv indicava a primazia para o pai,o cirurgião-mor Fr ancisco Mendes Ribeiro de Vasconcelos.Ele,sim, ter ia praticado a primeira imunização em 1798. Ambos apresentaram cartas comprobatórias.

A invenção da vacina é atribuída ao médico inglês Edward Jenner,que fez o primeiro teste em 1796.

Recortes da primeira e última página do manuscrito de Norberto e Macedo: fundação da vacinação documentada

Ele observou que a doença dos cascos dos cavalos, the grease,era tr ansmitida ao úbere das vacas pelas mãos humanas.Em volta das tetas infectadas surgiam pústulas,que, por sua vez,contaminavam o homem.A infecção provocava uma doença pouco virulenta que deixava as ordenhadoras das vacas imunes à agressiva varíola.Para tirar a prova,o médico recolheu o líquido dos úberes feridos e infectou um garoto.O menino teve alguma febre e pequenas lesões,mas ficou bom. Semanas depois, Jenner o inoculou com o vírus da varíola e o garoto mostrou-se imunizado.

Os brasileiros Macedo e Norberto conheciam bem essa história. O primeiro era médico

e escritor,considerado um dos fundadores do romance brasileiro –autor de A moreninha, entre outros.Norberto foi historiador e literato. Amb os leram as cartas

apresentadas,consultaram documentos oficiais e concluíram ser o marquês de Barbacena o real promotor da vacina.De acordo com eles,Francisco Mendes praticava a inoculação.Ou seja, tr atava-se de introduzir na pele material contaminado com o vírus,um método altamente perigoso.Já o marquês de Barbacena trouxe a técnica da vacina de Portugal e a pôs em prática na Bahia. A vacinação só seria efetivamente obrigatória com as campanhas de Oswaldo Cruz,no começo do século XX.A varíola foi considerada erradicada do mundo apenas em 1980.

Revista da Semana, de 1904, usava a varíola para infernizar Oswaldo Cruz e a campanha contra a febre amarela

“Macedo e Norberto produziram para o imperador um documento de fundação,que registra o marco inicial da introdução da vacina jenneriana no Brasil”, comenta Myriam Bahia Lopes.Ela publicou a íntegra das 19 páginas na re v ista História,Ciências, Saúde: Manguinhos (abril-junho 2007).

Paul Leduc ‘

cheiodevida Um cinema

Diretor mexicano recebe homenagem em festivalem São Paulo

Frida,naturaleza viva (1983) é um filme magnífico em muitos sentidos.Por exemplo,na eficiência de um roteiro que mesmo fugindo de toda a linearidade e fragmentando o tempo sem piedade nos joga fascinados para dentro do rico mundo mental e afetivo de Frida Kahlo,essa extraordinária mulher mexicana cujo centenário de nascimento comemorouse em 6 de julho deste ano.É magnífico na força de imagens que podem vir tanto carregadas de uma estranha delicadeza – como aquelas em que Frida diante de Trotski desiste pesarosa do amor que ele lhe oferece – quanto transpassadas por intensa paixão – política,inclusive,caso da cena memorável em que a artista quase agonizante vai à rua em cadeira de rodas para participar de uma manifestação contra a derrubada do governo guatemalteco de Jacobo Arbenz, pelos Estados Unidos.E é belo nos passeios da câmera pela pintura tão autobiográfica,corporal e dolorosa da artista, do mesmo modo que na recriação da atmosfera das relações em que ela viveu,corporificada no trabalho dos atores, em especial Ofélia Medina,que faz tão intensamente Frida Kahlo.É simultaneamente um filme vigoroso e extremamente sensível ao olhar feminino.

A sinopse publicada no programa do 2º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo,que aconteceu de 22 a 29 de julho passado,no Memorial da América Latina (ver página 16), apresenta o filme nestes termos:“Em seu leito de morte,a pintora Frida Kahlo recorda sua vida.Por sua mente desfilam os personagens e situações mais significativos de sua atormentada existência:sua infância,sua doença,o comprometimento político,sua agitada vida sentimental,a amizade com Trotski e o pintor Siqueiros,o casamento com Rivera”.Admitamos que esse resumo lido a posteriori funcione como estímulo à decisão de alguém ver imediatamente o filme – não será nada fácil.Como também será difícil ver Reed, México insurgente (1970), Etnocídio (1976), Barroco (1988) ou os curtas-metragens Os animais (1995) e A flauta de Bartolo (1997),todos eles filmes do cineasta mexicano Paul Leduc,apresentados durante o citado festival em São Paulo.A dificuldade decorre de esses filmes não serem exibidos normalmente em circuito comercial no país e muito menos serem encontrados em videolocadoras,como acontece,aliás,com uma imensa parte da produção latino-americana de cinema,brasileira inclusive.

É possível que alguma coisa diferente se dê com Cobrador – In God we trust,o novo filme do diretor,apresentado no Brasil pela primeira vez em 16 de agosto passado,no Festival de Cinema de Gramado,onde aliás Leduc ganhou um prêmio especial do júri. Baseado em O cobrador e outros contos de Rubem Fonseca,filmado em Nova York,México,Guadalajara,Buenos Aires,mas principalmente em duas cidades brasileiras – Rio de Janeiro e Belo Horizonte –,gastando-se uma semana em cada um desses lugares,com trilha musical de Tom Zé,tendo Lázaro Ramos como protagonista e contando ainda com Milton Gonçalves,Zezé Motta e Jonas Bloch no elenco,talvez esse filme sirva de porta de entrada de um número bem maior de brasileiros à filmografia do cineasta mexicano. A considerar,entretanto,a crítica de Luiz Carlos Merten ( O Estado de S. Paulo , 17/8),não será a melhor das

portas,dado que Frida e Reed são,a seu juízo,filmes muito superiores.

Seja assim ou não,importante é que Cobrador pode criar a chance de um primeiro contato de Paul Leduc, reconhecido como um dos mais talentosos diretores de cinema do México, co m platéias mais amplas no Brasil, por meio de uma produção que investiu firmemente na parceria entre países latino-americanos.Para os cinéfilos,ele é,claro,um velho conhecido e não surpreendeu que esse autor de uma bela obra “marcada por uma abordagem realista da situação política e social do México e da América Latina”– recorrendo aqui mais uma vez ao catálogo do Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo – tenha sido o homenageado da segunda edição do evento.

Nessa condição,aliás,foi dele a aula magna que se constitui num momento importante do festival,desde o primeiro ano,quando a tarefa coube ao argentino Fernando Birri (leia Pesquisa FAPESP no 127).Avesso,entretanto, aos moldes de uma aula clássica,Leduc preferiu responder a uma série de perguntas que lhe foram encaminhadas pelo curador do festival,o cineasta João Batista de Andrade,pelo presidente do Memorial,Fernando Leça,e por colegas de ofício e jornalistas que foram ouvi-lo na fria manhã paulistana do sábado,28 de julho.Em dado momento,respondendo à questão sobre como se forma um cineasta no México,ele lembrou que o cinema de massa que conheceu na infância e na juventude já desapareceu,enquanto a televisão segue como a grande formadora do gosto geral – daí ser natural que o filme mais superficial e linear se torne o mais apreciado.

“Quando a minha geração começou a fazer cinema,para o bem e para o mal,abusamos de uma linguagem própria que dominava as experiências mais avançadas desse meio,na Hungria,no Japão ou na América Latina”, disse.No México,a sua geração “odiava o cinema popular mexicano daqueles anos”,em seu olhar,excessivamente mitificador da realidade.“O México tivera uma indústria cinematográfica importante nos anos 1940 e 1950,tive-

ra atores muito conhecidos,como Cantinflas e María Félix.”Mas terminada a Segunda Guerra Mundial,chegados os anos em que a Itália produziu o neo-realismo e influenciou outras filmografias pelo mundo afora,a fórmula do cinema popular mexicano de certo modo se perdeu e se tornou sua própria caricatura,relatou.No rastro da teoria do autor que ganhou espaço nos cinemas húngaro,tcheco e com a nouvelle vague francesa,“o que antes era música de baile tornou-se música de câmara”,e fora das produções hollywoodianas começou-se a esquecer o grande público e se trabalhar de olho num público mais refinado. Foi todo um processo,como observou João Batista,muito similar ao que ocorreu no Brasil,quando os autores ligados ao Cinema Novo “torceram o nariz para a chanchada e a Vera Cruz, sem que nunca mais se conseguisse uma superação dialética do conflito entre o popular e o novo,a bilheteria e a idéia”.Na aula magna bastante atípica,Paul Leduc falou um pouco sobre as atuais relações entre cinema e televisão em seu país,abordou a rigidez da fórmula da telenovela mexicana,a mesma há três ou quatro décadas,e se deteve um pouco na legislação atual referente aos meios audiovisuais. Em linhas biográficas rápidas,Leduc nasceu na Cidade do México em 11 de março de 1942 e estudou arquitetura na Universidade Nacional Autônoma do México.Formado arquiteto,começou a se envolver com cinema via cineclubes (não havia curso de cinema em sua cidade) e a fazer crítica de cinema.Entendia que isso era uma atividade paralela,mas lá para as tantas descobriu que não queria ser arquite to.E foi daí que chegou a Paris em 1965 para estudar cinema até 1966 no Institut des Hautes Études Cinemato gr aphiques,o famoso IDHEC.De volta ao México,em 1967 fundou o grupo Cine 70 com o montador e dire to r Rafael Castañedo,o fotógrafo Aléxis Givas e a produtora Bertha Navarro.Com o belo Reed, México insurgente,seu primeiro longa e um marco do novo cinema mexicano,começa efetivamente,pouco tempo depois,sua premiada carreira de cineasta.Leduc

fala sobre esse filme e outros e sobre desafios do fazer cinema na América Latina na entrevista a seguir que concedeu a Pesquisa FAPESP

■ Vamos começar por sua atual visão a respeito de Reed,México insurgente.Em uma entrevista a Luís Carlos Merten,de O Estado de S.Paulo,você disse que não lhe agrada muito o tempo,o andamento do filme.Gostaria que você falasse um pouco mais sobre isso.

— Bem,eu quase não vejo meus filmes porque logo algum tempo depois constato que mudaria muitas coisas.Não é algo que diz respeito só a Reed mas a todos.Concretamente com este filme o que se passa é que quando ele foi feito,em 1970,estávamos todos,os latino-americanos,os brasileiros inclusive, buscando uma linguagem diferente –esse era o nosso foco.Discuti muito isso com Glauber depois,até porque não me parecia muito apropriado falar de uma linguagem latino-americana num continente que abriga tão grandes diferenças.Glauber,que trouxera à cena a estética da fome,falava por exemplo de uma linguagem baiana,ligada ao tropicalismo.Eu lhe dizia que no México seria falso fazermos filmes por esse caminho,com a forma e a linguagem que Glauber usava.O México tinha mais a ver com o que emergia de um criador como Juan Rulfo,um escritor do silêncio,do deserto,dos vales secos… O ritmo é muito diferente nos países onde existiram civilizações indígenas,em relação àqueles para onde vieram os negros – a música o demonstra.Não se trata de um ser pior,outro melhor,trata-se de ser diferente.Mas o fato é que,com essa visão da música e da linguagem,eu pensava que para contra-arrestar um pouco a linguagem do cinema norte-americano eu precisava estender o tempo – uma bobagem, porque as coisas não são tão simples assim.Daí quando vi o Reed outras vezes pensei:“Ah,mas está lentíssimo esse filme,poderia reduzi-lo facilmente sem nenhum prejuízo…”.

■ Mas creio,mesmo considerando que o México já tivera uma indústria cinematográfica florescente em décadas anteriores,que a forma como você filmou

cenas de batalha,cavalgadas etc.,em Reed,traz alguma coisa diferente e rica para o cinema de seu país,não?

— É que talvez essas cenas reflitam que Reed foi um filme muito barato.São interessantes? É possível que as limitações econômicas às vezes sejam boas,porque estimulam a imaginação,impelem à busca de soluções fora dos padrões estabelecidos.No filme havia muitas cenas que se prestavam a essa busca.

■ A vida de John Reed foi objeto de um filme norte-americano com Warren Beaty nos anos 1970.

— O de Warren Beaty,que se chama Reds,e o filme soviético de Serguei Bondarchuk,que se chama Campanadas de media noche ou algo assim.Este último nunca vi porque todos diziam coincidentemente que era uma porcaria. Reds vi anos depois na televisão e gostei muito. É um filme feito dentro do sistema de Hollywood,evidentemente,mas já o fato de se falar de John Reed em Hollywood é muito interessante.Não tocava praticamente na parte mexicana de sua biografia,era a parte da revolução soviética que lhe interessava e,claro,tinha a história de amor,vida pessoal demais,mas era muito bem-feito,emotivo e respeitoso com o personagem e seu ambiente.E,além do mais,a maravilhosa Diane Keaton.

■ Quando você começou a filmar Reed era um rapaz de…

— Um menino!

■ … ok,um menino de 20 e poucos anos… — … 26,27 anos,por aí…

■ Assim,não lhe pareceu um desafio mu i to grande,desmedido,o filme naquele momento?

— O que acontece é que éramos um grupo de amigos que haviam estudado cinema fora e compramos uma câmera éclair 16 sincrônica e auto-silenciosa,que era a primeira câmera desse tipo que chegava ao México.E então tínhamos muitos projetos,todo tipo de documentários e filmes de ficção,mas ocorre que havia um problema sério nessa época.Porque toda uma geração,não de idade,mas de ci-

países onde existiram civilizações indígenas ‘
O

México tinha mais a ver com o que emergia de um criador como Juan Rulfo, um escritor do silêncio, do deserto, dos vales secos. O ritmo é diferente nos

O escritor
García Márquez disse, ao fundar a Escola de San Antonio de los Baños, em Cuba, que essa poderia ser a forma mais cara de produzir desempregados no mundo

neastas,não conseguia fazer cinema porque havia uma legislação do sindicato,corporativo e corrupto,que determinava que não se podia entrar no sindicato caso não se houvesse feito antes um filme rodado em pelo menos cinco semanas e investimento mínimo de 1 milhão de pesos… e naturalmente não havia produtor que investisse 1 milhão de pesos num filme de cinco semanas e que seria feito por gente de fora do sindicato e que,por isso mesmo,não poderia ter distribuição legal. Então… obviamente você não podia fazer filmes… era um círculo vicioso.Então começamos,vários cineastas,a buscar nesses anos diferentes caminhos para fazer filmes.Eu optei por fazê-los em 16 milímetros,coisa que baixava os custos,mas além disso não estava regulamentado por lei,porque se considerava este um formato amador.Pensava-se então em projetos simples:histórias de poucos atores em um departamento.Mas,falando com amigos,terminou se verificando que era possível conseguir um trem praticamente grátis… que podíamos conseguir cavalos porque havia alguém de uma fazenda que os emprestava,era possível obtermos coisas do amigo de um amigo de um amigo… etc.etc.,então foi um tanto mais complicada a produção,mas não muito mais complicada do que fazer tudo em um departamento,e então Reed, México insurgente ,q ue era um projeto que eu havia pensado para mais adiante,acabou sendo meu primeiro filme.Percebemos que se podia tentar e havia que tentá-lo porque era como romper com o gueto onde nos queriam encerrar,faze ndo todos os filmes num departamento e com poucos atores.

■ Por que você tinha uma ligação com a história e com a vida de Reed?

— A Revolução Mexicana permanecia como um tema muito importante em todos esses anos.Ela era muito discutida,saía livros de todo tipo,análises sobre a revolução… Escolhi John Reed, um escritor da primeira hora,e que havia feito um livro a partir das reportagens que mandava.E também uma vantagem é que nós sabíamos o que ia se passar com John Reed.Quando ele

escreveu o livro não sabia que iria à União Soviética,que iria escrever Os dez dias que abalaram o mundo,e morre r ali – nós sabíamos.Assim,para além do tema da revolução mesma,tínhamos a possibilidade de explorar uma personagem rica como John Reed,um estrangeiro que estava observando a revolução,mas estava nela tomando partido – e este era um tema extremamente atual naquele momento, dado que depois de 1968,com o movimento estudantil,se apresenta para muita gente,estudante ou não estudante,o dilema de como participar em qualquer movimento social e político.

■ Sim,a pergunta geral era sobre as formas novas e eficazes de participação dos estudantes,intelectuais e outros grupos da classe média na luta política por uma profunda transformação da sociedade na direção do socialismo.

— Exato.E em nosso caso testemunhando um duplo nível de leitura da revolução,porque havia uma idéia de uma Revolução Mexicana tal como foi apresentada anteriormente pelo cinema no México.Era um cinema que mitificava,que inventava uma revolução,contava histórias que se passam na revolução,mas nas quais não se põe a revolução,salvo em poucos filmes que eram a exceção a essa regra, co mo El compadre Mendoza ou Vámonos com Pancho Villa , os dois de Fernando de Fuentes.

■ Aliás,lembro de uns filmes remotos passados aqui no Brasil em que aparecia a figura de Pancho Villa,mas sem que pudéssemos ter qualquer idéia mais verdadeira do que foi a Revolução Mexicana.

— Sim,há dezenas de filmes sobre “As mulheres de Pancho Villa”,“As canções de Pancho Villa”etc.Era só pretexto para os filmes.

■ Depois de Reed,o que você filmou até chegar ao belíssimo Frida,naturaleza viva?

— Reed,apesar de ter ido muito bem e de ter ganhado muitos prêmios,me trouxe muitos problemas.Em nosso caso,filmamos em 1970,no final da presidência de Díaz Ordaz [19641970],e o editamos no princípio do governo de Echeverría [1970-1976],

que chegou tratando de legitimar-se sob a idéia de negar tudo o que ocorrera em 1968 [em 2 de outubro de 1968,a propósito,ocorreu na praça Tlatelolco uma das mais intensas ações repressivas do governo mexicano contra o movimento estudantil,de que resultou 32 mortes segundo os dados oficiais da polícia,ou 325 segundo levantamentos independentes,inclusive de órgãos da imprensa internacional].De todo modo,pronto o filme em 16 milímetros,não tínhamos o direito de exibi-lo no México,porque não o havíamos feito dentro do sindicato.Então o enviamos a Cannes,à quinzena dos realizadores,ele foi muito bem ali,depois encontrou distribuição e acabou ganhando o prêmio de melhor filme estrangeiro na França,e depois conquistou vários outros prêmios,no México e no exterior,que beneficiaram muito o filme.A essa altura Echeverría havia posto seu irmão, um ator conhecido,à frente do cinema,e os dois eram tipos inteligentes, independentemente do que se pense sobre suas idéias políticas,e trataram de cooptar todo mundo para sua causa.Não queríamos entrar nesse jogo, mas finalmente nos propuseram legalizar o filme no sentido de colocare m dinheiro para pagarmos o que devíamos pagar ao sindicato como multa por não haver trabalhado com eles,em troca dos direitos de distribuição.Discutimos entre nós e realmente terminamos aceitando porque a película assim passaria no México. A fora isso tivemos problemas com outros produtores porque o filme hav ia sido produzido com 360 mil pesos e nos mesmos anos foi feito um filme sobre [Emiliano] Zapata que custou 14 milhões de pesos.Então, nosso filme demonstrava involuntariamente,pelos custos muito menos inflados,que era absurdo filmar com o sistema que se filmava estando no sindicato,em que havia tanta gente inútil na produção… Então, apesar do êxito que teve Reed , não pude voltar a filmar ficção como desejava.Fiz um outro documentário que passa aqui [no 2o Festival de Cinema Latino-americano],esses dias, Etnocídio.

■ E Barroco?

— Barroco foi feito muitos anos depois. É uma produção espanhola,da Televisão Espanhola,inspirada no livro de Alejo Carpentier, Concerto barroco.Digamos que é um divertimento,não se aplica sobre nada.Não é um musical:é um filme sobre a música.Não tem nenhum diálogo e o roteiro,a única coisa que pretende é sugerir respostas à pergunta que faz Miguel Matamoros em uma das canções mais populares de Cuba:“De onde são os cantores?”

■ Entre seus filmes,em qual você mesmo se sente melhor representado?

— Para o bem ou para o mal,em todos. E me sinto agora mais próximo de O cobrador,porque é o mais recente.

■ Conversei há pouco com seu colega brasileiro João Batista de Andrade,curador deste festival,e uma das coisas que ele pensa é que o peso do passado no cinema latino-americano como um todo, a despeito de todas as diferenças entre as c inematografias nacionais,sempre foi muito grande nos diferentes encontros, fóruns.E neste festival ele queria trazer as novas gerações como protagonista de alguma coisa que se deve fazer contra a ocupação quase absoluta do espaço de exibição pela indústria cinematográfica norte-americana.Você falou um pouco sobre isso quando apresentou Reed Poderia detalhar sua visão desse problema? E há uma diferença sensível entre México e Brasil relativamente ao fato de cineastas internacionalmente bem-sucedidos em nossos países contribuírem ou não para o desenvolvimento das cinematografias locais?

— Bem,vejo aí duas questões diferentes.Uma é o peso do passado sobre as pessoas jovens.Penso que isso é diferente entre os países.Hoje,aliás,quando saí da gravação do Roda viva [programa de entrevista da TV Cultura] e v im para o hotel,um tanto tonto de responder a tantas perguntas,fiquei pensando que nesse tema do que é mais novo em nosso cinema não se tocou muito,por exemplo.Mas não sei se isso é sintomático de nada.Quanto à outra questão,a influência ou não dos cineastas bem-sucedidos em nossa cinematografia,veja:penso que do

mesmo modo que aqui no Brasil ocorre u com Walter Salles,que ganhou uma grande projeção internacional e cujo trabalho pode ter ajudado também um ou outro cineasta,mas não teve conseqüência direta sobre o conjunto do cinema brasileiro,no México algo muito parecido se deu com Del To ro,Q uarón ou Iñarritu ou,antes, com Arau ou Mandoki.Não por culpa deles,claro,são duas coisas diferentes:o que se passa com cineastas que filmam fora do México com produçõesestrangeiras e se tornam reconhecidos na cena internacional e o que pode realmente mudar no panorama da produção local do cinema.

■ Mas em sua visão há algo que se pode efet ivamente fazer para reduzir o peso demasiado do cinema norte-americano no mercado exibidor de nossos países ou essa é uma causa perdida?

— Temos que desenvolver uma visão mais clara de como podemos mudar as coisas de uma maneira diferente do que temos feito até agora.Por um lado há os desenvolvimentos na tecnologia de filmagem,pelos quais os custos se tornam mais acessíveis.Há as mudanças no campo da circulação das imagens:internet,DVD,o que irá mudar na distribuição por cabo ou satélite para as salas cinematográficas etc.E há que se ver o que pode surgir da articulação dos meios que deve mudar muito o que entendemos por filme.Na verdade,isso já está mudando.Já em alguns lugares, para apresentar um projeto de um filme há que fazê-lo como parte de um pacote de coisas que seriam para a televisão e o cinema comercial simultaneamente e,além disso,como possível base de séries interativas para internet,geradoras de gadgets comercializáveis etc.

■ Quando conversei com Fernando Birri,ele propunha algo semelhante,ou seja, que todas as conversas entre diferentes meios transformariam o que entendemos por cinema e por filme de uma forma que ainda mal podemos supor. Mas João Batista manifesta,a par dessa visão das transformações tecnologicamente fundadas,uma preocupação forte com a necessidade de se fazer algo em termos políticos para garantir a perma-

nência do cinema nos países latino-amer icanos.Você crê também que há que se descortinar novas formas de luta política para isso?

— Fazer pressão dentro dos governos, formular novas instituições para o cinema,são coisas que não invalidam umas as outras.E além disso haveria muitas outras coisas.Creio,por exemplo,que este festival de São Paulo ainda deve mudar,não porque esteja mal, mas precisamente porque está bem. Assim como no festival de Guadalajara,a par de toda a parte artística,da mostra de filmes,busca-se adensar as sessões de debates,a discussão de coisas práticas e de idéias.E creio que pouco a pouco ele irá mudando,porque o que nos faz muita falta,mais que um festival,é um lugar de encontro,como foi por muito tempo o festival de Havana,onde se sufragaram muitas coisas,como o Comitê de Cineastas da América Latina,a Fundação do Novo Cinema Latino-americano,a Escola dos Três Mundos… e as reuniões não aconteciam só na época do festival,mas em outras datas,para discutir os problemas do cinema no continente e tratar de incidir em propostas e soluções.Por exemplo,se na Argentina estudava-se na Câmara dos Deputados uma lei de incentivo ao cinema para modificála,podíamos auscultar as experiências de todos os outros e ver de trás para a frente o que funcionou ou não… Enfim,coisas práticas desse tipo,tratar de estabelecer cadeias de distribuição. Há cada vez mais festivais no mundo, e todos querem ter 300 filmes,400 filmes,daí creio que o de São Paulo seria muito mais útil se em vez de se fazer uma gigantesca mostra propiciasse sobretudo o encontro de jovens.Só na Argentina hoje há 7.500 estudantes de cinema.García Márquez disse,ao fundar a Escola de San Antonio de los Baños,que essa poderia ser a forma mais cara de produzir desempregados no mu ndo.Esse perigo está latente em todas as partes.

■ Neste momento,qual o projeto que você está desenvolvendo?

— Top secret.Sou muito supersticioso e não gosto de falar dos projetos. ■

FESTIVAL DE CINEMA

pesodo passado Contra o

Quando em 2005,ainda na posição de secretário da Cultura do Estado,o cineasta João Batista de Andrade pensou num festival de cinema latino-americano em São Paulo e começou a desenvolver o projeto junto com Fernando Leça,presidente do Memorial da América Latina,duas idéias rondavam sua cabeça:contribuir para uma leitura nova do cinema que se produz agora nesse subcontinente e investir contra um culto ao passado que quase se tornara opressão para permitir que os novos talentos assumam o papel que lhes parece devido, ou seja,o de protagonistas da cena contemporânea.

“Continuávamos ali com o viés do cinema marcado pela ditadura e pelas lutas contra a ditadura dos anos 1960,70 e 80 e isso me preocupava”, diz João Batista,que,como secretário, viu se materializar em 2006 o 1º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo (leia Pesquisa FAPESP nº 127) e em 2007,já distante da secretaria,assumiu a curadoria do segundo. Realizado,como o primeiro,no Memorial da América Latina,entre os dias 22 e 27 de julho,o festival deste ano incluiu a exibição de 120 filmes de 16 países,vistos por 15,6 mil pessoas,muitos debates e a concessão de t rês prêmios,além da promessa de Fernando Leça de trabalhar pela montagem de uma sala para exibição permanente de filmes latino-americanos no Memorial.

Esclareça-se que João Batista,como ele enfatiza,nada tem contra o passado do cinema latino-americano em si,“excelente em vários momentos”,nem contra os belos frutos que indiscutivelmente produziu.“Mas

para construir um gesto político conseqüente hoje,que contribua para tornar viável o novo cinema,é fundamental livrar-se do peso excessivo do passado e ver com os olhos do presente o que se passa”,diz.E em seu entendimento,o que está em curso é,primeiro,“uma globalização perversa”. Sinteticamente,trata-se de um fenômeno que produz a visibilidade e mesmo o sucesso internacional de alguns cineastas,técnicos e atores de diferentes países da América Latina, “sem que isso tenha qualquer conseqüência efetiva para as cinematografias nacionais no subcontinente”.

O diretor de O homem que virou suco (1981) cita Héctor Babenco,Fernando Meirelles,Iñarritu e Walter Salles,entre outros,cita filmes como Machuca, Cidade de Deus, Amores perros, Ce ntral do Brasil e Como água para chocolate, para ilustrar sua visão sobre uma espécie de coleta de produtos de valor que o mercado internacional tem feito nesse subcontinente.É algo “nos velhos moldes da coleta do pau-brasil”,exagera ele,com um resultado que “é bom para os cineastas,é bom para os filmes eleitos,mas é nulo para as cinematografias nacionais – elas permanecem do mesmo jeito”.João Batista observa,entretanto,que há que se preservar cineastas e filmes nessa crítica,para analisar de fato e a fundo as contradições da situação presente.Essa internacionalização de certas personagens e filmes,ele acrescenta, acontece sem nenhuma espécie de pater nalismo em relação aos cineastas e se dá no âmbito da indústria e do comércio segundo seus interesses.E já hoje “vários produtores e exibidores passaram a trabalhar em nossos países com a idéia do cinema industrial.

Novos talentos devem se tornar protagonistas do cinema latino-americano

Eles são os novos executivos do cinema, cujos escritórios estão sendo abertos em Nova York,Xangai ou Paris”.

Em paralelo a esse modelo de internacionalização,o que se passa hoje,segundo João Batista,é uma ocupação brutal do mercado exibidor do Brasil e de seus vizinhos pelo cinema norteamericano.E o reconhecimento dessa condição,diz,é vital para qualquer novo gesto político conseqüente no âmbito do cinema latino-americano.“Não é possível tornar viável esse novo cinema que produzimos enquanto o cinema norte-americano continuar ocupando 90% do mercado exibidor.Temos que fortalecer a idéia de que quere mos dar um basta nisso.Recentemente,em dado momento,apenas três filmes norte-americanos ocupavam 70% do mercado de exibição em São Paulo”, protesta João Batista.

A sua visão relativamente à indústria cultural é de que ela não pode ser gerida como uma indústria qualquer,porque não o é. “Assim,incentivo financeiro aos exibidores,reserva de dias para a produção local nas salas de cinema,medidas similares às que fora m tomadas na França para ampliar a cadeia de cinema comprometida com essa produção,tudo é válido”,ele argumenta.Alguma saída,insiste,“temos que encontrar politicamente”, e João Batista promete

se empenhar para difundir em outros festivais,como os de Guadalajara e Mar del Plata,as idéias de ação política já debatidas em São Paulo.De todo modo, ele pensa que é tempo de os governos nacionais encararem a questão sem medo dos Estados Unidos.“Essa idéia de que o exibidor deve ser livre para exibir o que quer corresponde a uma falsa noção de liberdade.Não decorre da liber-

dade o poder de uma indústria cultural sufocar outras.”

Num outro diapasão,Fernando Leça observa como o festival,em seu segundo ano,ganhou maturidade e vislumbra caminhos para que ele se torne mais e mais importante para o cinema latinoamericano.“Mantendo os pressupostos dessa segunda experiência,o festival deverá ter uma mostra de qualidade, representativa do melhor cinema do subcontinente, deverá prosseguir como um lugar para a reflexão sobre o fazer cinematográfico e os desafios da indústria do cinema e,em terceiro lugar, deve manter a premiação, mas ampliando-a,para o que precisa obter recursos substancialmente maiores.”

Em 2007,o custo total do festival foi de US$ 725 mil e,para conseguir bem mais, Leça já começou a se movimentar,ao mesmo tempo que tratará de viabilizar a construção de duas salas de projeção no anexo do Auditório Simón Bolívar. No encerramento do 2º Festival,receberam o Troféu Memorial da América Latina,além de prêmio em dinheiro no valor de R$30 mil,o grande homenageado do evento,o cineasta mexicano Paul Leduc (ver página 10),e os filmes Que tan lejos,equatoriano,dirigi do por Tânia Hermida (prêmio do público),e Arcana,chileno,dirigido por Cristóbal Vicente (prêmio da crítica). ■ Protótipo em aço do troféu entregue aos ganhadores

EDUARDO CESAR

De volta às raízes

Cerca de 7 mil cientistas argentinos migraram nas últimas décadas, principalmente para os Estados Unidos e a Europa, mas um grupo de 310 deles retornou recentemente, atraído por um programa do governo chamado Raices (rede de pesquisadores e cientistas da Argentina no exterior,na sigla em espanhol).“No começo, nosso propósito era criar um banco de dados de pesquisadores que vivem no exterior.Agora temos um fundo de repatriação que paga passagens de volta”,disse Agueda Menvielle,responsável pelo Raices ao serviço de notícias Latin Business Chronicle. A Argentina amargou três ondas de fuga de cérebros. A primeira aconteceu na década de 1960 e foi causada pela elevada demanda de bons pesquisadores nos países desenvolvidos. A segunda teve motivos políticos e aconteceu em meados dos anos 1970, quando o país mergulhou numa ditadura militar.

A terceira foi impulsionada pela crise econômica do início desta década. O programa trabalha em conjunto com empresas de áreas estratégicas,que recorrem ao Raices para divulgar oportunidades de trabalho a profissionais argentinos no exterior. “Já recebemos 160 currículos de candidatos. Em pelo menos dois casos a contratação está muito perto de se concretizar”, diz Massimo Macchiavello, da IBM argentina,uma das empresas participantes.

> Os rastros do plágio

O economista alemão Hans Werner Gottinger,de 63 anos,protagoniza o mais recente escândalo envolvendo fraudes acadêmicas.Segundo reportagem publicada da revista Nature, um estudante de economia avisou a revista especializada Research Policy que um artigo publicado por Gottinger apresentava equações muito semelhantes às de um estudo publicado em 1980 em outra revista. A revista iniciou uma investigação e descobriu que o caso não era isolado.Em 1999,Gottinger fora acusado

de plágio em outra revista. Os editores começaram a lançar trechos de seus artigos em ferramentas de busca da internet e detectaram outras cópias. Autor de mais de cem estudos em áreas como ética, estatística e política ambiental,Gottinger dizia-se diretor do Instituto de Ciência Administrativa da Universidade de Maastricht,na Holanda. Os investigadores descobriram que, na instituição holandesa, ninguém o conhece. O pesquisador argumentou que não teve intenção de plagiar ninguém e que os artigos em questão eram apenas revisões de outros estudos,sem propor nada de original.

> Marcha à ré na África do Sul

Nozizwe Madlala-Routledge, vice-ministra da Saúde da África do Sul,foi demitida do cargo pelo presidente Thabo Mbeki.Oficialmente, foi exonerada por insubordinação:o governo não autorizou que ela

participasse de uma conferência na Espanha, mas ela foi assim mesmo. Segundo a revista Nature, as razões da demissão são mais complexas e preocupantes.Nos últimos tempos,a vice-ministra liderou iniciativas que contrariaram a tradicional política de negar as enormes proporções da epidemia de Aids no país.Madlala-Routledge aproveitou a doença de sua chefe,a ministra Manto Tshabalala-Msimang, submetida a um transplante de fígado em 2006,para propor a primeira estratégia realista de combate à epidemia,com metas para reduzir o contágio, melhorar serviços de diagnóstico e tratar os 5,5 milhões de cidadãos doentes.Ela causou constrangimento extra ao submeter-se publicamente a um exame anti-Aids,um tabu para as autoridades.Com a volta de TshabalalaMsimang,que defende tratamentos alternativos contra a síndrome, as duas entraram em irremediável rota de colisão.

> Santuário no extremo Sul

O presidente da Argentina, Nestor Kirchner,criou um novo parque ecológico marinho na costa da Patagônia,voltado para proteger mais de meio milhão de pingüins-de-

magalhães,além de aves marinhas raras que habitam a região.Localizada no golfo San Jorge,o parque tem 650 quilômetros quadrados e se estende por mais de 40 ilhas e 160 quilômetros de costa.Segundo o serviço de notícias Eurekalert,a criação do parque é uma

iniciativa conjunta do serviço de parques nacionais da Argentina com a entidade norte-americana Wildlife Conservation Society (WCS),que desde os anos 1960 promove pesquisas na região com os pingüins-de-magalhães.

> Primavera portuguesa

Portugal apresentou números expressivos numa reunião de ministros da União Européia (UE) dedicada à competitividade. O contingente de pesquisadores em atividade alcançou 25.651 em 2005, 4% mais do que em2002. Entre 1996 e 2006, o número anual de doutoramentos aumentou de 608 para 1.273.Portugal ocupa o quarto lugar no ranking dos países europeus com mais mulheres trabalhando em ciência: 44%,ante a média de 29% da UE.“Na Alemanha, esse índice não ultrapassa 16% do total”,disse ao jornal Público o ministro da Ciência,Tecnologia e Ensino Superior,Mariano Gago. Pingüins-de-magalhães: hábitat preservado

DIVULGAÇÃO

> A corrida do petróleo

A Rússia deu um passo simbólico na corrida para controlar reservas de petróleo,gás e minerais no Ártico.No mês passado, o explorador Artur Chilingarov liderou uma expedição que fincou uma bandeira russa no leito do oceano, a 4 quilômetros de profundidade,abaixo do pólo Norte.“O Ártico é nosso”,disse Chilingarov à agência BBC.O país alega que uma cadeia de montanhas submarina é uma extensão de seu território.Um mapeamento geológico feito pelos Estados Unidos calculou que o continente pode abrigar um quarto das fontes de energia do mundo.Com a perspectiva de degelo de parte do Ártico,efeito do aquecimento global,acirrouse a disputa pelo controle de

futuras rotas de exploração. O Canadá e os Estados Unidos vão construir novos navios polares.Noruega e Dinamarca também disputam pedaços da região. À exceção dos Estados Unidos,que não aceitam restrições a seus interesses, os outros quatro países já negociam formas de partilhar a calota polar.

PESQUISA FAPESP ONLINE

Pesquisa Brasil

Toda segunda-feira a mais recente edição do programa semanal de rádio de Pesquisa FAPESP pode ser ouvida online ou baixado no computador.

> Universidade binacional

Um plano de cooperação entre o Irã e a Síria prevê a implantação de um centro de ensino e pesquisa binacional. A universidade Farabi será um braço internacional da Universidade Tarbiat Modarres (TMU),de Teerã, mas funcionará na Síria e terá

vínculos com uma instituição local,a Universidade Teshrin. Terá como foco áreas como ciências marinhas, agricultura e engenharias. “Nossa intenção é que a experiência inspire colaborações entre outros países muçulmanos”,disse Hossein Naderimanesh, vice-presidente da TMU à agência SciDev.Net

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Nossas Colunas

Em seu artigo de estréia, nosso novo colunista, o pesquisador Vanderlei Salvador Bagnato, professor titular do Instituto de Física de São Carlos da USP, fala sobre a terceira revolução da óptica: os LEDs, diodos que emitem luz e podem ser uma alternativa de iluminação.

Antonio Bianco comenta uma ambigüidade da globalização: os americanos criticam os brinquedos chineses que apresentam riscos de contaminação por chumbo, mas se esquecem de olhar para as casas velhas de seu país, pintadas, às vezes, com tintas impregnadas do metal pesado.

Oleoduto no Ártico: Rússia reivindica primazia na exploração da região

> Parceria para atuar na África

A Petrobras e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinaram um protocolo de intenções para implementar projetos na área da saúde em Angola,Nigéria e Moçambique,países africanos onde a Petrobras deverá manter as suas atividades pelos próximos 20 anos.As ações,que serão esmiuçadas pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), contemplam pesquisas para aperfeiçoar o fornecimento de medicamentos, o controle de endemias e a transferênciade tecnologia para produção, distribuição e controle de remédios.Em Moçambique, uma fábrica de soros será ampliada para produzir remédios.No campo do treinamento profissional, o projeto apoiará a implantação da Escola de Saúde Pública de Angola, voltada para a capacitação de médicos e enfermeiras. A Fiocruz está treinando uma turma de 33 professores no país africano.

Mudanças no Conselho Superior

O poeta e lingüista Carlos Vogt deixou a presidência da FAPESP no dia 14 de agosto e aceitou o convite para assumir a Secretaria Estadual de Ensino Superior, substituindo José Aristodemo Pinotti. Em outra mudança anunciada, a FAPESP deixou de se vincular à Secretaria de Desenvolvimento para integrarse à estrutura da Secretaria de Ensino Superior. À frente da FAPESP desde 2002, Vogt deixou legados como a recomposição do equilíbrio financeiro da Fundação, afetado pela crise cambial do início da década. As três universidades estaduais paulistas estão vinculadas à Secretaria de Ensino Superior, que, sob a batuta de Vogt, também preparará o lançamento de uma universidade aberta e virtual, um projeto de ensino a distância em consórcio com universidades e a TV Cultura. Professor de semântica lingüística da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), instituição da qual foi reitor entre 1990 e 1994, Vogt é presidente do Centro Franco-Brasileiro de Documentação Técnica e Científica e coordena o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp.

O vice-presidente do Conselho Superior, reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marcos Macari, assumiu interinamente a presidência da Fundação. O substituto será eleito na próxima reunião do Conselho, que ganhou em agosto três novos integrantes: Eduardo Moacyr Krieger, José de Souza Martins e Luiz Gonzaga Belluzzo, todos da cota de livre escolha do governador. Eles entram nas vagas de Hermann Wever, Carlos Vogt e Giovanni Guido Cerri, cujos mandatos terminaram.

Eduardo Moacyr Krieger é diretor da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Formado pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, é professor emérito pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Foi presidente da Academia Brasileira de Ciências, da Sociedade Brasileira de Fisiologia e da Federação das Sociedades de Biologia Experimental.

José de Souza Martins é professor titular aposentado da USP, onde se graduou em ciências sociais e fez mestrado e doutorado em sociologia. Foi professor visitante da Universidade da Flórida, além de fellow do Trinity Hall e professor da Cátedra Simón Bolívar, na Universidade de Cambridge.

Luiz Gonzaga Belluzzo, que já atuara como conselheiro da FAPESP entre 1992 e 1995, é professor titular de economia da Unicamp. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. É fundador das Faculdades de Campinas (Facamp).

No dia 3 de dezembro haverá a substituição de mais um membro, com o final do mandato de Marcos Macari, cuja vaga será preenchida pelo governador José Serra a partir de uma lista tríplice escolhida pelos institutos de pesquisa e de ensino superior paulistas. Poderão participar da escolha instituiçõesque se credenciaram entre 20 de agosto e 4 de setembro. A eleição será realizada entre 19 e 23 de novembro, por via eletrônica.

Vogt, que deixou a FAPESP, e os novos conselheiros Martins, Belluzzo e Krieger

> Ganhadores do Prêmio Scopus

O Prêmio Scopus 2007 foi entregue no dia 6 de agosto a 15 pesquisadores que se destacaram pela produtividade científica. Entre os ganhadores estavam Constantino Tsallis, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas,Helena Nader,da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),e Ricardo Renzo Brentani,da Fundação

Antônio Prudente,que é diretor presidente do Conselho TécnicoAdministrativo da FAPESP. Também foram agraciados

Aluizio Rosa Prata,da Federal do Triângulo Mineiro (medicina),Jairton Dupont,da Federal do Rio Grande do Sul (química), João Batista Calixto,da Federal de Santa Catarina (farmacologia),José Claudio Geromel,da Estadual de Campinas (engenharia eletrônica),José Murilo de Carvalho,da Federal do Rio de Janeiro (ciência política), Maria Aparecida Juliano,da Unifesp (biofísica),Mauro Martins Teixeira,da Federal

A importância das células-tronco

Uma platéia de cerca de 180 pessoas, entre estudantes, leigos e profissionais das áreas médica e biológica, lotou o Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura da avenida Paulista, em São Paulo, para participar da mesa-redonda que reuniu os pesquisadores Mayana Zatz e José Eduardo Krieger, o psiquiatra Jorge Forbes e a vereadora Mara Gabrilli, sobre a utilização em pesquisas das células-tronco embrionárias humanas. O debate foi o quinto da série Encontros com a Pesquisa, promovido por Pesquisa FAPESP e a Livraria Cultura. Em comum, os debatedores mostraramse preocupados com o julgamento no Supremo Tribunal Federal de uma ação que pode derrubar a lei que autorizou pesquisas com células-tronco extraídas de embriões congelados mas considerados inviáveis para gerar um ser humano. A geneticista Mayana

de Minas Gerais,UFMG (biologia),Mayana Zatz,da Universidade de São Paulo (biologia),Patricia Bozza, da Fundação Oswaldo Cruz (farmacodinâmica),Ricardo Gazzinelli,da UFMG (bioquímica e imunologia), Rubens Belfort,da Unifesp (medicina) e Sebastião Valadares Filho,da Federal de Viçosa (zootecnia).

Zatz, pró-reitora de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), traçou um panorama sobre as aplicações das células-tronco e as promessas contra doenças genéticas neuromusculares. José Eduardo Krieger, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, disse que a pesquisa com embriões será fundamental para compreender os mecanismos que levam as células-tronco a se diferenciarem em células típicas de órgãos e tecidos. Jorge Forbes levantou aspectos éticos polêmicos e Mara Gabrilli emocionou a platéia ao narrar sua militância em defesa dos portadores de deficiência, ela que perdeu os movimentos ao sofrer um acidente de automóvel há 13 anos. A próxima mesa-redonda vai abordar o alcoolismo e irá acontecer no mesmo teatro no dia 13 de setembro.

> Conhecimento em expansão

O programa SciELO (Scientific Electronic Library Online),biblioteca eletrônica de publicações científicas, acaba de completar dez anos. A biblioteca começou a ser implantada em 1997,como um projeto cooperativo do Centro Latino-Americano

e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme) e da FAPESP.Em 2002, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) passou a apoiar o projeto. A SciELO desenvolveu-se progressivamente como uma rede de coleções de periódicos em acesso aberto,estendendose para o Caribe,Portugal

Forbes, Mayana, Mara Gabrilli e Krieger falaram para 180 pessoas

e Espanha,utilizando a mesma metodologia de publicação on-line de periódicos com a operação de links na web e o acompanhamento do desempenho para artigos individuais,periódicos e coleções.Atualmente abriga

dez coleções em oito países –Argentina,Brasil,Chile, Colômbia,Cuba,Portugal, Espanha e Venezuela – e conta com mais de 130 mil artigos em 452 títulos de periódicos certificados.“Até o fim do ano atingiremos cerca de 10 milhões de acessos mensais”, disse Abel Packer,diretor da Bireme e coordenador operacional da SciELO.

> Para incentivar a inovação

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) criou uma dotação de US$ 2,1 milhões para o Capital Tech, fundo voltado para o investimento em inovação em pequenas e médias empresas brasileiras de base tecnológica.O pacote vinculado ao Fundo Multilateral de Investimentos, que é administrado pelo BID e apóia o setor privado na América Latina,prevê um financiamento reembolsável de US$ 2 milhões para capitalização do Capital Tech e uma concessão de US$ 100 mil para cooperação

técnica.O fundo receberá contribuições de fontes privadas e institucionais. Os investimentos deverão ser alocados em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os setores-alvo são telecomunicações, software, hardware,biotecnologia, entretenimento,produção e serviços.

> Cai a velocidade do desmatamento

O desmatamento da Amazônia caiu um terço nos últimos 12 meses e atingiu a menor taxa anual desde 2000,de acordo com dados preliminares divulgados pelo

Ministério do Meio Ambiente. Foram derrubados 9.600 quilômetros quadrados de mata entre os meses de agosto de 2006 e julho de 2007, equivalente a 6,5 cidades de São Paulo,ante 14.039 quilômetros quadrados no período anterior.Em 2004, o desmatamento atingiu 27.429 quilômetros quadrados.As áreas estão espalhadas em muitas localidades.Em 2005,os 20 municípios que mais devastaram acumularam 8.300 quilômetros quadrados de destruição.Agora 95 municípios chegaram ao mesmo somatório.Só em Roraima e Amazonas o índice de devastação foi mais veloz.

Queimada no estado do Pará: menor taxa de devastação em sete anos

INDICADORES

Pedras no caminho

Falta de informação compromete investimentos de empresas em inovação

C LAUDIA I ZIQUE ILUSTRAÇÕES B RAZ

Afalta de informação das empresas sobre a oferta de crédito e sobre os mecanismos de fomento ao desenvolvimento tecnológico é um obstáculo ao avanço da inovação no país.Resultados de uma pesquisa realizada pelo Departamento de Tecnologia e Competitividade (Decomtec) da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) em 2007 revelaram que apenas 30% das empresas inovadoras conhecem as linhas oficiais de financiamento:mais da metade das empresas consultadas,precisamente 53%,desconhecia a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep),a principal apoiadora de projetos de inovação no país,e apenas 45% sabiam da existência dos programas da FAPESP,ainda que a grande maioria já tenha ouvido falar no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Para as empresas inovadoras,a desinformação tem um custo alto.“Cerca de 70% da inovação na empresa é feita com recursos próprios”,afirmou José Ricardo Roriz,diretor do Decomtec,durante seminário realizado na Feira de Negócios em Inovação (Inovatec),no início de agosto.O levantamento,em que foram consultadas 230 empresas dos diversos portes,revelou que os investimentos públicos representam apenas 13% dos gastos com inovação do total das empresas consultadas na pesquisa da Fiesp.

Esse quadro,na avaliação de Roriz, lança alguma luz sobre os resultados da terceira Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec),de âmbito nacional,realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com um universo de 91 mil empresas,divulgada no dia 31 de julho.A Pintec mostra que o número de empresas inovadoras no país cresceu 8,4% entre 2003 e 2005,mas a sua participação no total das empresas industriais manteve-se praticamente inalterada,em torno de 33%.A inovação caminha devagar no Brasil – entre outras razões – porque os estímulos oficiais,por falha na comunicação,não chegam às empresas,segundo Roriz.

A própria Pintec investigou os motivos pelos quais as empresas não investem em inovação e apurou que os principais obstáculos apontados são os custos elevados,os riscos econômicos e a escassez de fontes de financiamento.Constatou também que das 33 atividades industriais pesquisadas 12 diminuíramos investimentos em inovação,a maioria delas constituída por empresas de pe-

queno porte,entre 10 e 49 empregados. O maior número de empresas inovador as estava entre as de médio e grande porte e,principalmente,nos setores de telecomunicação e informática.

Muitos empresários ainda desconhecem mecanismos importantes,como o da subvenção econômica,por exemplo,previsto na Lei da Inovação e na Lei do Bem,que permite a aplicação de recursos públicos não-reembolsáveis para financiar atividades de pesquisa,desenvolvimento e inovação,observou Reinaldo Dias Ferraz de Souza, coordenador-geral de Serviços Tecnológicos do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT),que também esteve presente na Inovatec.Outro entrave é a dificuldade de entendimento dos textos das leis.“Com a grande quantidade de instrumentos,editais,programas e fundos,o financiamento da tecnologia parece não ser mais o grande gargalo.O problema é a tecnologia do financiamento”,afirmou.

A Fiesp começa a divulgar o resultado de sua sondagem junto com uma

agenda de propostas,batizada de Políticas de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico para o Brasil e o Estado de São Paulo,por meio da qual pretende estimular uma maior participação do mercado de capitais no financiamento à inovação.Junto com a agenda,fará uma campanha de divulgação dos mecanismos oficiais de financiamento disponíveis nas várias agências de fomento.

Recursos humanos - A Pintec também traz boas notícias:entre as empresas inovadoras,segundo o IBGE,um total de 6.107 realizou pesquisa e desenvolvimento (P&D) de forma contínua,número quase 20% superior ao registrado pela segunda edição da Pintec,em 2003. O número de pessoas envolvidas em P&D nas empresas também cresceu 12,5%.Em 2005,das 47,6 mil pessoas envolvidas em atividade de pesquisa e desenvolvimento nas empresas,27,6 mil tinham nível de graduação e pós-graduação,a maioria delas empregada nos setores de telecomunicação e de informática.Em 2003,dos 38,5 mil empregados

dedicados ao desenvolvimento tecnológico, 21,8 mil tinham nível superior. Os investimentos em P&D dentro da empresa devem ser reforçados,na avaliação de Hugo Borelli Resende,cientista-chefe de desenvolvimento tecnológico da Embraer e presidente da Associação Nacional de Pesquisa,Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei).“É preciso difundir os mecanismos de estímulos à P&D em empresas e tentar promover ação a favor das equipes internas”,afirmou em seminário na Inovatec,apontando o que considera ser o caminho para a consolidação da inovação no país:a P&D empresarial. Por outro lado,as relações entre as empresas e as universidades e institutos de pesquisa,segundo a Pintec 2005,já estão mais estreitas.A participação da academia cresceu de 8,4% para 12% entre as fontes de informação das empre-

sas inovadoras,assim como a importância atribuída ao seu papel entre os parceiros privilegiados das empresas. Mas a principal fonte de informação tecnológica segue sendo as áreas internas à empresa (64,6%),fornecedores (63,8%) e clientes ou consumidores (60,9%);e ainda é baixa a inovação realizadapor meio de aquisição de licença, patente e know-how. A aproximação entre empresa e institutos de pesquisa pode estar repercutindo nos esforços dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) e Escritórios de Transferência de Tecnologia (ETT) organizados pelas universidades.Entre 2001 e 2006,o MCT aprovou a criação de 76 deles.“Esse número diz respeito àquelas instituições que pediram apoio do governo.O número certamente é maior.Isso provocou a criação de um ambiente propício à inovação”,diz Souza,do MCT.

Lei de Inovação - Esse sinal positivo de cooperação ainda não reflete os resultados da Lei de Inovação,promulgada em dezembro de 2004.Embora tenha criado um arcabouçojurídico para aproximar os diversos atores envolvidos na inovação,a lei não é auto-aplicável,sublinhou Carlos Américo Pacheco,secretário-adjunto da Secretaria do Desenvo lv imento do Estado de São Paulo. “Pressupõe um ativismo forte de outras políticas públicas para a exploração de suas potencialidades”,afirmou durante seminário na Inovatec.“Se não houver outras modalidades de apoio para fomentar as iniciativas de cooperação entre universidades e empresas,a lei por si só não resolverá o problema.”

Universidades,institutos de pesquisa e empresas que testaram,na prática, os benefícios das leis de Inovação e do Bem identificaram incongruências do novo marco legal com outras leis federais – sobretudo com a Lei no 8.666,de licitação de compras públicas – e com a falta de preparo dos organismos de controle,como o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Advocacia Geral da União (AGU).Antes da lei,por exemplo,as empresas tinham mais facilidade para contornar os entraves jurídicos em contratos de licenciamento de uma nova invenção.“A lei,que deveria flexibilizar o licenciamento de patentes,acabou criando dificuldades maiores.Devemos

reavaliar e atualizar esse quadro regulatório.Precisamos de uma ação mais indutora que aproveite as possibilidades abertas pelos instrumentos da lei,como os incentivos à parceria público-privada,de modo a que a inovação se torne realidade nas empresas brasileiras”,sugeriu Pacheco.

O presidente da Anpei – que,na Embraer,é responsável pela interface entre a empresa e as universidades – reconhece que os projetos inovadores têm mais valor quando executados em parceria entre a empresa e institutos de pesquisa.Ressalva,no entanto,que é preciso diferenciar ciência e tecnologia da inovação.“A ciência e a tecnologia desenvolvidas nas universidades ocorrem quando se quer descobrir um novo conhecimento.Na inovação,a palavrachave continua sendo a novidade,mas não do ponto de vista do conhecimento,e sim da criação de um novo produto ou processo”,argumenta.Isso significa que,para inovar,a empresa pode lançar mão de um conhecimento que já existe,tenha sido ele desenvolvido “em 1800 ou em 2007”.Ele dá o exemplo do Ipod,um dos produtos mais inovadores dos últimos anos,desenvolvido pela Apple a partir de um visor idealizado pela Secretaria de Defesa dos Estados Unidos,de uma bateria de lítio inventada pela Secretaria das Minas e Energia, e softwares de uma empresa indiana em parceria com uma norte-americana.

“Pesquisa é uma atividade realizada para gerar novo conhecimento e,por isso,deve ser feita na universidade.O objetivo da empresa é outro:é vender produtos desenvolvidos por engenheiros, biólogos e físicos que vieram das universidades,mas que trabalham na empresa.Raramente um produto inserido no mercado de forma facilitada foi inteiramente elaborado dentro da universidade.”A tese do presidente da Anpei, de que a inovação empresarial não precisa necessariamente ser de ruptura e que,nesse caso,pode prescindir da parceria com as universidades para oferecer novos produtos ao mercado,é endossada por Glauco Arbix,ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea),atualmente no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

Arbix coordena uma pesquisa para a Agência Brasileira para o Desenvol-

Pesquisa realizada pela Fiesp com

230 empresas paulistas, em 2007, revelou que 70% delas desconhecem

as linhas oficiais de fomento à inovação e investem em P&D

com recursos próprios

vimento Industrial (ABDI),do Ministério do Desenvolvimento,Indústria e Comércio Exterior (MDIC) que analisa os processos de inovação em sete países: Estados Unidos,Canadá,Finlândia,Irlanda,França,Grã-Bretanha e Japão.Os resultados serão divulgados provavelmente em novembro,mas Arbix já arr isca algumas conclusões.“Há economiasinovadoras como as da Finlândia e Noruega,onde a maior parte das empresas não faz P&D,não tem convênios com universidades e institutos de pesquisa e são inovadoras”,afirma.Por outro lado,alguns países europeus que têm investido pesado para conseguir elevar os gastos com P&Dpara um patamar acima da média de 3%,seguindo recomendação da União Européia,têm verificado que esse esforço não se traduziu numa dinâmica maior da economia. “Eles têm constatado que o dinamismo

vem de outras áreas.A P&D é de longa maturação”,conta Arbix.

Essas conclusões estão levando a duas novas linhas de reflexão:a primeira é que “não é necessário trabalhar a inovação só como tecnologia”e a segunda,que é preciso distinguir P&D e inovação.

Para sustentar seu argumento,Arbix cita o caso oposto da China,que cresce a uma taxa de 10% ao ano.“Mas, quando se desagrega os números,percebe-se que o investimento em pesquisa tem um ritmo muito mais lento do que os investimentos em engenharia”, co nta.“Temos que analisar melhor a idéia de que,para crescer,tem que investir em P&D”,recomenda.

Ritmos e motivações - A conclusão que começa a ganhar força a partir das informações coletadas in loco por Arbix e sua equipe nos países analisados pela pesquisa da ABDI é que P&D é chave para o desenvolvimento,mas tem ritmo e motivação diferentes daqueles demandados pela inovação.“Se o país quer crescer, tem que desenvolver a inovação e não necessariamente P&D”,argumenta. “Quando incentiva a P&D para criar um novo conhecimento,é preciso mobilizar uma rede de materiais e de pessoas completamente distintos do que se necessita para fazer a inovação.”Exemplifica:o desenvolvimento de um aparelho para ativar as células cancerígenas não movimenta a “mesma malha”de recursos e de especialistas necessários para empreender uma pesquisa sobre o câncer.“No primeiro caso você precisa de um engenheiro e, no segundo,de um Prêmio Nobel.” Essa nova abordagem poderá exigir uma reavaliação dos intrumentos de avaliação do avanço da inovação no país. “O grande problema é que os economistas precisam de medidas palpáveis,como os investimentos das empresas em P&D,já que nossos indicadores são um tributo à nossa tradição industrial que só mede bens tangíveis”,explica.Por esse critério,as empresas que fazem a tropicalização de produtos ou engenharia reversa são consideradas malditas.“Nós temos batido recordes sucessivos de exportação e não conseguimos explicar, a não ser pelo argumento de que o mercado externo está aquecido.Precisamos reconhecer que nossas empresas têm hoje uma capacidade diferente da que tinham no passado.” ■

A idade da razão

Frutos do Biota-FAPESP são repartidos entre universidades e ganham perenidade

São abundantes os frutos do programa Biota-FAPESP.Desde sua criação em 1999,o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo permitiu a descrição de mais de 500 espécies de plantas e animais espalhados pelos 250 mil quilômetros quadrados do território paulista, produziu 75 projetos de pesquisa,150 mestrados e 90 doutorados,além de ger ar 500 artigos em 170 periódicos,16 livros e dois atlas,graças a um investimento médio anual de US$ 2,5 milhões feito pela FAPESP.Os frutos do Biota amadureceram a ponto de alçar o programa a uma nova fase.Um acordo de co operação acadêmica celebrado em agosto vai garantir a perenidade da iniciativa ao vincular sua estrutura às três universidades estaduais paulistas.A partir de agora,elas se tornarão responsáveis pela manutenção das ferramentas de pesquisa do Biota,considerado um dos maiores programas de estudo da biodiversidade já feitos no mundo.“Chegou a hora da rotina de manutenção – como geração de back-ups e atualização de softwares – de tudo o que foi feito e essa tarefa não cabe à FAPESP,pois não se trata de um trabalho de pesquisa”,diz Carlos Alfredo Joly,mentor e ex-coordenador do Biota,professor titular do Departamento de Botânica/IB e coordenador do programa de doutorado em Ambiente e Sociedade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Nos últimos oito anos,a administração do Biota-FAPESP dependeu de uma comissão de pesquisadores que atuava de forma avulsa,sem dispor de uma estrutura permanente para eventos,publicações ou atualização do banco de dados.Cada uma dessas atividades exigia a solicitação de recursos específicos. Com a institucionalização do programa,

tais atividades serão fortalecidas.A Unicamp e o Centro Nacional de Processamento de Alto Desempenho (Cenapad),por exemplo,serão responsáveis pela página do programa na internet, pelo Sistema de Informação Ambiental do Biota (SinBiota) e pela revista eletrônica Biota Neotropica, desde a estrutura física até o pagamento de pessoal que fará manutenção e atualização dos bancos de dados e softwares.A plataforma do SinBiota relaciona as informaçõesgeradas pelos pesquisadores a uma base cartográfica digital,que permite a difusão da informação sobre a biodiversidade paulista.A ferramenta virtual co ntabiliza registros de aproximadamente 56 mil espécies encontradas em São Paulo (44 mil de vida terrestre,8 mil de água marinha e 4 mil de água doce). A revista Biota Neotropica,periódico eletrônico editado pelo Biota-FAPESP,publica resultados de pesquisas que abordam a caracterização,conservação e uso sustentável da biodiversidade na região neotropical e já atingiu a marca de mil usuários por dia.

Fármacos - Já a Universidade Estadual Paulista (Unesp) se responsabilizará pelo banco de dados e de extratos da Rede Biota de Bioprospecção e Bioensaios (BIOprospecTA).Um prédio será construído no Instituto de Química,em Araraquara (SP),para abrigar esse acervo, parte do qual,por ter possível interesse econômico,será franqueada apenas a pesquisadores cadastrados.O BIOprospecTA nasceu como um subprograma do Biota voltado para o desenvolvimento de fármacos,cosméticos e defensivos agrícolas a partir de extratos vegetais ou moléculas de plantas e animais encontrados em São Paulo.A Universidade de São Paulo (USP),por meio de unidades como o Instituto de Física,em São Carlos,a Faculdade de Medicina,o Insti-

tuto de Ciências Biomédicas e o Instituto de Química,em São Paulo,ficará incumbida dos testes clínicos com moléculas sintetizadas em laboratório a partir da base do BIOprospecTA .Os custos da secretaria do programa e da revista Biota Neotropica serão divididos entre Unicamp e USP.“A avaliação é que a institucionalização exigirá US$ 4 milhões,nos próximos oito anos,para salários de secretaria e analistas de sistemas,reforma de infra-estrutura para armazenar bancos de dados e outras despesas”,dizJoly.

Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP,a institucionalizaçãopermitirá que o programa ande com suas próprias forças.“É um pouco como se o Biota fosse um spin-off da FAPESP.A expectativa é que isso aumente a abrangência do programa e seu impacto nas políticas públicas se torne ainda maior”,afirmou.Brito Cruz lembrou ainda a participação fundamental de Joly para o sucesso do Biota.“É notável a capacidade da comunidade científica de se articular no tema da biodiversidade,mas um empreendimento dessa magnitude,embora seja de construção coletiva,só decola quando há a atuação heróica de alguns indivíduos com espírito de liderança.Por isso,é importante destacar a atuação do professor Joly em toda a trajetória do programa”,afirmou. Joly lembra,contudo,que a ajuda da FAPESP continuará sendo fundamental quando for preciso desenvolver novas ferramentas para o Biota.“Claro que continuaremos em busca de novidades e apresentaremos novos projetos de pesquisa à FAPESP para desenvolver as ferramentas do futuro do Biota”,diz.

A solenidade que definiu a institucionalizaçãodo prog r ama Biota-FAPESP teve a presença de Michel Loreau, da Universidade McGill,em Montreal, Canadá,e vice-presidente do comitê exe-

cutivo do Mecanismo Internacional de Expertise Científica em Biodiversidade (Imoseb),criado recentemente para organizar e sintetizar o conhecimento científicosobre a biodiver sidade e abastecer de informações os governos e formuladores de políticas públicas nessa área,especialmente a Convenção sobre a Diversidade Biológica.Loreau tinha uma boa notícia:um dia antes reuniuse na FAPESP com representantes dos ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia, que aceitaram fazer uma consulta à comunidade científica do país acerca dos termos em que o Brasil poderia participar do Imoseb.

A decisão representou uma guinada na posição do país sobre o tema.Há dois anos,a diplomacia brasileira rejeitara um chamamento para integrar os cientistas brasileiros ao Imoseb,temerosa de que a vulnerabilidade do país no cuidado com sua biodiversidade pudesse fragilizá-lo em outras negociações multilaterais.O governo brasileiro,no entanto,só integrará o processo do Imoseb se a participação se der no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB),principal fórum mundial na definição de leis e políticas para questões relacionadas à biodiversidade.“Há muito interesse em ajudar a promover políticas públicas internacionalmente,mas há um receio de que se crie mais um mecanismo,sendo que a CDB já existe e não consegue implementar suas decisões”,afirmou Bráulio Dias,gerente de Conservação da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente. Os pesquisadores do Programa Biota/FAPESP festejaram essa mudança de posição do governo e estão empenhados em participar da estruturação do processo de consulta à comunidade científica brasileira.“É imprescindível que a Academia Brasileira de Ciências e a SBPC participem da organização desta consulta”,afirma Joly. ■

EDUARDO
CESAR

O submarino que dá luz

Programa terá R$ 1 bilhão para o reator que também servirá à geração elétrica

Ogoverno federal começa,aos poucos,a retomar o programa nuclear brasileiro interrompido no final da década de 1980.Além de aprovar,em junho,a conclusão das obras da usina nuclear de Angra 3,incluiu no Plano Plurianual do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) para o período 2007-2010 medidas para o fortalecimento institucional da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e recursos para a conclusão da primeira fase da Planta de Enriquecimento de Urânio da Indústria Nuclear Brasileira (INB), em Resende,no Rio de Janeiro. O ministro Sérgio Resende, da Ciência e Tecnologia,também implementará, nos próximos anos,uma política nacional para os rejeitos radioativos,com a criação da Empresa Brasileira de Gerência de Rejeitos e da construção de depósitos definitivos. Em julho,essa disposição ficou ainda mais clara:o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a liberação de R$ 1 bilhão em oito anos para o programa nuclear da Marinha.A previsão é repassar anualmente um valor em torno R$ 130 milhões ao orçamento do Ministério da Defesa para financiar as obras civis e equipamentos do reator do protótipo em terra do submarino nuclear brasileiro, além de bolsas de pesquisa,logística,manutenção,entre outros.O projeto está em desenvolvimento no Laboratório de Geração Nuclear Elétrica (Labgene) do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).

O submarino nuclear é um projeto dual,na linguagem da Marinha.O domínio da tecnologia de construção do reator vai permitir que,no futuro,o Brasil adote procedimentos mais ágeis e seguros na proteção das águas territor iais e ao mesmo tempo habilitará o país na construção de pequenas centrais nucleares de energia elétrica.“Nos dois casos,os conceitos de geração elétrica são os mesmos”, explica o comandante André Luis Ferreira Marques,assessor de Salvaguardas e coordenador do projeto de enriquecimento de urânio do CTMSP.No submarino o reator nuclear embarcado gera energia para movimentar a turbina de propulsão (ver ilustração na página 32);fora da embarcação,produz o calor necessário para o funcionamento das turbinas de centrais nucleares de geração elétrica.Os requisitos de operação é que são diferentes.“Uma usina nuclear funciona como se fosse um grande caminhão:acelera e vai numa velocidade mais ou menos constante.Num submarino,não:acelera,faz curva,freia.O reator,nesse caso, tem que ser mais arisco”,explica.

O domínio da tecnologia viabilizaria a construção de pequenas usinas nucleares com capacidade de geração de até 1.000 megawatts (MW),previstas no Plano Nacional de Energia Elétrica 2030,elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE),do Ministério do Planejamento.Es-

Reator nuclear de pesquisa do Ipen utilizado na produção de radioisótopos

sas usinas estariam aptas para atender à demanda de energia elétrica na Região Nordeste e poderiam vir a ser uma alternativa contra eventuais riscos de apagão.

O Labgene será o primeiro reator nu clear de alta potência totalmente construído no Brasil.Os reatores das usinas nucleares Angra 1 e 2 – com 600 MW e 1.300 MW,respectivamente – for am fabricados pela norte-americana Westinghouse;e o de Angra 3,com 1.300 MW,será fornecido pela francesa Areva,no âmbito de acordos internacionais. Existem ainda dois outros reatores menores em operação no país:o IR1,norte-americano,instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen),no campus da Universidade de São Paulo (USP),com 5 MW de potência,que é utilizado apenas para a irradiação de materiais e produção de radioisótopos;e o Ipen MB-01,também de baixa potência,que funciona como um laboratório de teste para modelagem eletrônica.

O reator do Labgene será um protótipo com capacidade de geração de 48 MW térmicos,menos de 10% da capacidade de Angra 1.Essa potência,no en-

O projeto

Painel de propulsão

Turbina de propulsão

tanto,é suficiente para movimentar o submarino e para alimentar sistemas de iluminação,eletrônicas etc.,utilizados pela embarcação.Ainda que menor,o reator utilizará o mesmo sistema de pressurização do tipo PWR (pressurized water reactors) das três usinas nucleares brasileiras,afirma o comandante Ferreira Marques.

Estoque de US$ 130 milhões – Desde o início do programa,há mais de 25 anos, a Marinha,em parceria com empresas privadas,tem investido na construção de componentes do projeto,como o vaso do reator,condensadores,pressurizadores,turbogeradores de propulsão,entre outros.Boa parte desses equipamentos já está comprada.“Temos US$ 130 milhões em material estocado em Aramar”, descreve o comandante.

O vaso do reator foi confeccionado pela Nuclebras Equipamentos Pesados S.A.(Nuclep),uma empresa estatal de engenharia criada em 1975 para a fabricação de componentes pesados,em Itaguaí (RJ);a turbina é da Dedini S.A. Indústria de Base,em Piracicaba (SP), fabricante de equipamentos para o se-

tor sucroalcooleiro e usinas hidrelétricas;e o pressurizador e o condensador foram fabricados pelo grupo Garcia Jaraguá,de Sorocaba (SP),que desenvolve projetos para os setores de petróleo,petroquímica e química.A Siemens Brasil fez os geradorese a WEG, em Jaraguá do Sul,Santa Catarina,de acordo com Ferreira Marques,é forte candidata a fornecer os motores elétricos.O índice de nacionalização do projeto é superior a 90%.“Esse é um programa de grande efeito de arraste para toda a indústria brasileira”,sublinha o comandante.

O Labgene já começou a ser construído nas instalações da Marinha em Aramar,em Iperó,São Paulo,uma área de 8 milhões de metros quadrados protegida por 22 quilômetros de cerca.Será formado por um conjunto de prédios que abrigarão as turbinas,o pressurizador,o combustível,e contará com área para embalagem de rejeitos,entre outros.As obras de fundação dos prédios do reator e do combustível já estão prontas:serão à prova de abalos sísmicos e até de tornados tropicais.“Agora, com os recursos do governo,vamos ace-

Turbina auxiliar

Gerador de vapor

Condensador Nuclear

Pressurizador

Reator

Gerador de propulsão

Bomba de resfriamento

Bomba de extração

Bomba de alimentação Gerador auxiliar

Bomba de circulação

lerar a construção e montar equipamentos”, diz Ferreira Marques.

Todas as configurações do reator serão testadas e homologadas no próprio Labgene,do projeto da máquina propriamente dita até questões relacionadas com a segurança das instalações, condições de operação,entre outras.No laboratório será possível,por exemplo, simular vários fatores cruciais,como o combustível e a blindagem nuclear.Só depois de aprovada e testada,a tecnologia poderá ser transferida à Indústria Nucleares Brasileira para o uso civil,ou seja,para a construção de uma central nuclear de energia elétrica.“Um programa dessa envergadura não poderia ser desenvolvido sem uma forte base experimental que testasse métodos de cálculo,ferramentas de projeto e de construção”,sublinha Ferreira Marques.

O reator deverá estar pronto entre quatro e seis anos,prevê ele.“Tudo depende da liturgia,já que o programa é feito de acordo com a Lei de Licitação nº 8.666,e da liberação de recursos.”Num cenário otimista – ou seja,se o programa receber os anunciados R$ 130 milhões por ano – o reator deve estar pronto em 2014.Num cenário mais pessimista,com R$ 100 milhões por ano,a conclusão do projeto será adiada para 2019.

O programa nuclear brasileiro – formado pelos projetos de propulsão e geração nuclear elétrica e do ciclo de combustível – tem 28 anos.Começou a ser arquitetado em 1979.Desde então já consumiu US$ 1,1 bilhão de recursos do orçamento da Marinha.Os repasses,no entanto,foram irregulares.Em 1989 atingiram o pico de U$ 90 milhões e,a partir daí,caíram sistematicamente até 2004,quando começaram a registrar ligeira recuperação.“O programa vai devagar,mas os resultados em relação ao que se tem lá fora é bom,até em termos de custos”,observa Ferreira Marques. “Os Estados Unidos declaram ter gasto US$ 3 bilhões em 20 anos no desenvolvimento de tecnologia de enriquecimento do urânio”,compara.

No submarino, o reator nuclear gera energia para acionar o sistema de propulsão; na usina termelétrica produz calor que aciona as turbinas para a geração de energia elétrica

Essa segunda vertente do programa nuclear contabiliza resultados:a Marinha devolveu e repassou à INB tecnologia de enriquecimento do urânio por meio de ultracentrifugação.As máquinas foram desenvolvidas pelo CTMSP e o Ipen e os primeiros módulos já estão instalados na fábrica da INB,em Resende.

sende já anunciou a intenção do governo de retomar a prospecção de urânio. Fe rreira Marques aposta que ao final dessa nova avaliação o Brasil deve galgar mais duas posições no ranking das maiores reservas de urânio do mundo. O urânio extraído da mina de Catité, na Bahia,é transformado no hexafluoretode urânio no Canadá.Mas,segundo Ferreira Marques,o Brasil já está pronto para iniciar a construção da Usina de Hexafluoreto de Urânio (Usexa),também nas instalações da Marinha em Aramar. As obras civis estão em andamento e boa parte dos equipamentos já está comprada.A conclusão da usina demandará algo em torno de R$ 20 milhões.Quando pronta,a Usexa processará 40 toneladas de urânio por ano,10% das necessidades de Angra 1 e 2.A tecnologia será repassada à INB,uma empresa federal de economia mista,que poderá assim garantir seu suprimento de gás.

Diversificação energética - Os dois projetos são desenvolvidos em parceria com diversos institutos e universidades,como Ipen,Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT),USP,Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),entre outros,com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT),da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“Temos agora que concentrar o nosso foco na propulsão e geração de energ ia,já que o ciclo do combustível está dominado”,sublinha Ferreira Marques. A tecnologia do reator,ele diz,permitirá que o país diversifique a sua matriz energética.A energia nuclear é uma boa opção com vantagens ecológicas, ainda que a vocação do Brasil siga sendo,preponderantemente,a energia hidrelétrica.Mas em países como Japão, Coréia do Sul e China a única saída para ampliar a oferta de energia elétrica é a nuclear.“Para esses países,no mundo pós-petróleo,não há outra solução.”

O ciclo do combustível é composto pelas seguintes fases:prospecção mineral,mineração e beneficiamento do yellow cake,conversão deste composto em hexafluoreto de urânio (UF6),enriquecimento de urânio,reconversão para o dióxido de urânio (UO2),fabricação de pastilhas e do elemento combustível. Nesse processo,o Brasil conta com uma vantagem relativa importante:o país tem a sexta maior reserva mundial de urânio,algo em torno de 310 mil toneladas,o suficiente para gerar 8 mil MW gerados em Angra 1 e 2 nas próximas oito décadas.As reservas brasileiras,no entanto,podem ser muito maiores: apenas 30% do território nacional foi prospectado e a apenas 100 metros de profundidade,sendo que a última prospecção foi feita 30 anos atrás,utilizando técnicas soviéticas há muito superadas. “Hoje já temos tecnologia para isso”,diz Ferreira Marques.O ministro Sérgio Re-

O Japão e a Coréia do Sul,por exemplo,já dominam a tecnologia nuclear, mas não têm urânio.Compram a tecnologia dos americanos e dos canadenses.“O Brasil será um dos poucos países que têm tudo.” ■

O projeto de propulsão e geração nuclear elétrica,o Labgene,já recebeu investimentos da ordem de U$ 300 milhões.Outros US$ 214 milhões foram aplicados no projeto do ciclo de combustível,criado também em 1979 com o objetivo desenvolver tecnologia nacional do ciclo do combustível nuclear. C LAUDIA I ZIQUE

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Ventos verdes

Estímulo à produção pode ser combinado a créditos de carbono para evitar estagnação da economia

Marabá,Parauapebas,Curionópolis,Tucumã,Pau D’Arco,Rio Maria,Xinguara e outros municípios do sudeste do Pará formam uma região economicamente dinâmica.Nas décadas de 1960 e 1970 foi o palco de grandes projetos pecuários incentivados pelo governo federal.A agricultura familiar recuou,mas depois voltou a expandir-se,em paralelo à mineração,tanto a das grandes empresas quanto a dos milhares de garimpeiros anônimos.As cidades se alargam sem parar.Em razão da rápida transformação da Floresta Amazônica em terras para uso agropecuário o balanço líquido de gás carbônico (emissão menos seqüestro) em 2004 é estimado em quase 300 milhões de toneladas,o equivalente a 35% das emissões em toda a Região Norte nesse ano. O gás carbônico liberado para a atmosfera ajuda a esquentar o planeta e acelera as mudanças climáticas.À primeira vista não há razão para se incomodar porque essa emissão pode ser reduzida. Um dos mecanismos cogitados para evitar os desmatamentos e as queimadas que liberam gás carbônico é compensar os fazendeiros,por meio de créditos de carbono,para manter a floresta em pé. Os donos da terra ganhariam para olhar a mata em vez de plantar ou criar gado.No entanto,essa alternativa pode ser desastrosa para a economia regional,por gerar um dramático encolhimento da atividade econômica,de impostos e de empregos, de acordo com um estudo do economista Francisco de Assis Costa,professor visitante do Centro de Estudos Brasileiros (CEB) da Universidade de Oxford,Inglaterra.

“Essa estratégia para reduzir a emissão de carbono não vai beneficiar o desenvolvimento regional da Amazônia,nem ajudar a incorporar a Amazônia à economia nacional,se for usada apenas como forma de compensação econômica voltada só para um agente econômico,os produtores rurais”,alerta Costa,pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da Universidade Federal do Pará,em Belém.“Para dar certo,o dinheiro tem de entrar na economia como força pro-

dutiva,não simplesmente como renda.”Segundo ele,transformar fazendeiros em rentistas equivale a fazer com que o dono de uma pequena fábrica de móveis,por exemplo,a fechasse e vivesse apenas do aluguel de seu imóvel:os fornecedores de madeira e de outras matérias-primas para móveis teriam menos compradores e teriamde produzir menos ou de vender a preços mais baixos.O suposto negócio da China,de ganhar sem fazer nada,estaria longe de representar desenvolvimento em bases produtivas,já que os elos que fazem a economia funcionar,gerando e distribuindo riqueza,estariam rompidos.

As conclusões a que chegou emergem de simulações matemáticas que reproduziram o funcionamento real da economia do sudeste paraense em 2005,à qual ele acrescentou uma nova mercadoria,o ar.Com base em uma metodologia clássica de entradas e saídas de produtos proposta pelo economista russo Wassily Leontiefnos anos 1970,Costa analisou a circulação dos 101 produtos da produção rural identificados no Censo Agropecuário do Pará de 2004 em 18 setores de atividade econômica e seus desdobramentos – da agropecuária e mineração ao consumo final das famílias – nos 31 municípios do sudeste paraense,uma área 20% maior que todo o estado de São Paulo.

Os resultados não são nada animadores.No primeiro caso,o mecanismo de compensação pela redução de emissões – ainda que por meio de um acordo justo com os fazendeiros e de valores equivalentes aos que eles recebiam com a agricultura ou com a pecuária – repõe apenas parte da renda perdida pela renúncia à produção.Se os fazendeiros reduzissem a produção à metade,recebendo 50% do lucro anual gerado pela terra para manter a floresta e reduzir também à metade a emissão de gás carbônico,a economia local receberia R$ 435 milhões extras,por meio dos créditos de carbono.Não é lá tanto assim,porque o valor bruto da produção econômica da região,equivalente à circulação total de mercadorias,é quase 60 vezes maior.Nesse cenário a produção cai 50% e a emissão de gás carbônico até um pouco

mais da metade (56,7%),mas ao custo do retraimento da economia local (9,3%) e da massa de salários (11,3%).

Encolhem também os lucros (10,5%) e, levemente,os impostos (0,1%).O número de empregos é que sofre o maior impacto,caindo nada menos que 41,9%.

Outro cenário que Costa analisou considera uma estratégia que mantivesse a mata nativa e ao mesmo tempo evitasse essas perdas por meio do incentivo à rentabilidade nas áreas que permanecessem intocadas pelos mecanismos geradores de crédito de carbono (a produção de outros fazendeiros substitui a dos que entraram no programa de redução de emissão de carbono).Nesse caso a economia local cresceria 5,4%, os salários 9,8%,o emprego 9,9%,os lucros 4,7% e os impostos 3,8%.A economia estadual ganharia R$ 90 milhões e a nacional R$ 340 milhões.O problema é que as emissões de gás carbônico também cresceriam (6,7%).“O fracasso da política de contenção de emissões de gás carbônico corresponderia nesse caso a um notável sucesso econômico”, conclui Costa.

Seus cálculos indicam que a renda global da economia regional perde R$ 1,8 para cada R$ 1 retirado da produção;contrariamente,a renda de todas as cadeias de produção e de consumo ganha R$ 1,8 para cada R$ 1 inco rp orado pela economia.Por meio desse estudo ele uniu duas áreas de interesse:o desenvolvimento regional na Amazônia,sobre o qual publicou 12 livros (um deles em alemão,como resultado de seu trabalho de doutorado,realizado na Freie Universitat,em Berlim),e as mudanças climáticas.Como professor visitante do CEB,participou intensamente dos debates sobre mudanças climáticas realizados de janeiro a julho deste ano em Oxford,cidade que concentra a produção científica mundial nessa área.

O estudo de Costa mostra também que a implantação isolada desse mecanismo abre espaço para o efeito contrário ao desejado:mais desmatamento e mais poluição atmosférica,já que nem to dos os fazendeiros ganhariam para deixar de plantar ou formar pastos.“Um fazendeiro deixaria de desmatar e ganharia os créditos de carbono,mas o filho dele continuaria desmatando”, exemplifica o pesquisador.A emissão de

gás carbônico só cairia efetivamente em um cenário utópico:se todos os milhares de fazendeiros mantivessem a floresta em pé,ainda que o contrato fosse com apenas uma parte deles.

Costa acredita que as políticas de contenção de desmatamento (e de redução de emissão de carbono) devem estar ligadas a políticas de produção que conciliem estratégias de desenvolvimento local,endógenas e ambientalmente sustentáveis,sem levar ao esgotamento os recursos naturais da região. “Temos de criar nossas próprias inovações”,diz ele.“Nem sempre as experiências de outros países nos servem.”

Uma das possibilidades é empregar metade dos estimados R$ 435 milhões por ano que os fazendeiros da região receberiam para reduzir a emissão de gás carbônico em um programa consistente de pesquisa científica que levasse a uma agricultura moderna,sem saldo de emissão;a outra metade para mudar os atuais métodos de produção agrícola, mantendo assim a dinâmica de desenvolvimento econômico da região.

Estímulo à produção - Se,por exemplo,os R$ 435 milhões fossem aplicados em um programa de redução de emissão de gás carbônico que invertesse a base produtiva – dos sistemas produtivos que mais emitem para os que emitem menos – por meio de pesquisa científica e tecnológica e de subsídios que viabilizassem essa conversão. Segundo Costa,a economia local cresceria 5,6%,a massa de salários 2,7% e a massa de lucros 6,9%,ao passo que a emissão de gás carbônico cairia 32,3%.Segundo ele,é uma situação de ganhos recíprocos:caem as emissõese a economia se expande. Em outra simulação,em que outros setores da economia crescem mais que a agricultura,também se mantendo a meta de reduzir as emissões em 50% em cinco anos,o emprego aumentaria 155,3% e a massa de salários 112,3%. Mas esse impulso econômico independente da agricultura faz as emissões de gás carbônico se elevarem 60% em relação ao ano anterior:cresce e diversifica-se a economia local,mas a estratégia para conter as emissões malogra.

Manter a floresta não é a única forma de os países em desenvolvimento obterem – e negociarem – créditos de

carbono.Há outras,definidas como Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL),que implicam alternativas menos poluentes de produzir bens industriais como papel ou cimento.No entanto,a maioria dos projetos de MDL desenvolvidos na África do Sul,no Brasil,na China e na Índia,os países com mais projetos de MDL no mundo,também implica concentração de renda, muitas vezes desemprego e,paradoxalmente,danos ao ambiente,já que os impactos desses projetos nem sempre são explicitados,de acordo com um levantamento do biólogo Eduardo Ferreira, da Environmental Change Institute (ECI),da Universidade de Oxford.

Ferreira visitou em maio oito projetos de MDL em andamento no Brasil e verificou que nem todos conseguem reter tanto carbono quanto o esperado, enquanto os de pequena escala,justamente os de maior impacto positivo social,encontram muita dificuldade para obter financiamento.Já as empresas que desenvolvem projetos de MDL se ressentem da demora e da burocracia do governo na aprovação dos projetos. Em um artigo publicado em fevereiro na Nature,Michael Wara, da Universidade Stanford,Estados Unidos,reforça a argumentação de que o mercado global de carbono por enquanto não tem funcionado como esperado:nem está ajudando a criar um mercado para tecnologias limpas,de baixo consumo de carbono,nem está permitindo que os países em desenvolvimento se tornem de fato participantes ativos na luta contra os impactos do aquecimento global,à medida que funciona como subsídio indireto e insuficiente para as economias periféricas.

Não se trata de um problema simples mesmo em outros países.Em uma entrev ista ao jornal inglês The Guardian, Ngaire Woods,diretora do Global Economic Governance Programme da Universidade de Oxford,referindo-se aos debates sobre as perspectivas de redução de emissão de carbono no Reino Unido,disse que os funcionários do gover no estavam olhando unicamente para partes do problema:alguns tentavam lidar com preços,outros com os impactos das mudanças climáticas,outros ainda com a pobreza no mundo. Em nenhum lugar,segundo ela,havia um plano estratégico coerente. ■

Produção com menos poluição

Transformações na economia do sudeste paraense provocadas por um programa que reduza à metade a emissão de CO2 em cinco anos (em relação aos valores de 2004, em %)

Cenários

Proprietários recebem o equivalente à metade da produção para manter a mata

Outros fazendeiros substituem a produção dos que entraram no programa de redução de emissão de carbono no cenário anterior

Produção se desloca para formas produtivas que emitem menos carbono

Outros setores da economia crescem mais que a agricultura

FONTE:

> Os indianos que calculavam

Por volta de 1350,indianos da Escola de Kerala identificaram um dos componentes básicos do cálculo:a série infinita, que se acreditava ter sido descoberta no século XVII pelo físico e matemático inglês Isaac Newton e pelo matemático e filósofo alemão Gottfried Leibniz. Foi também na Escola de Kerala que se calculou o valor do número π (pi) com uma precisão de 9,10 e 17 casas decimais muito antes dos europeus.As descobertas são antigas,a novidade é saber quão antigas.Quem desenterrou a matemática do século XIV foi o indiano George Gheverghese Joseph, da Universidade de Manchester,Inglaterra,ao preparar a terceira edição de seu livro The crest of the peacock,a ser publicada em breve.Joseph acredita que os indianos tenham passado seu conhecimento a missionários jesuítas, que o disseminaram pela Europa.A perícia dos matemáticos de Kerala ajudou na astronomia e permitiu o avanço na exploração dos oceanos.

> Partículas com sabor

Em um laboratório subterrâneo em Áquila, na Itália,físicos europeus e norte-americanos detectaram em tempo real o fluxo de partículas subatômicas chamadas neutrinos de baixa energia. Produzidos inicialmente no Big Bang,a grande explosão

que teria gerado o Universo, e atualmente no interior do Sol e outras estrelas, os neutrinos são lançados ao espaço e atravessam a Terra quase sem interagir com nada – calcula-se que 100 trilhões deles atravessem nossos corpos a cada segundo –,razão por que é difícil detectá-los. Conhecido como Borexino, o experimento mostra que os neutrinos mudam de estado – ou sabor,como dizem os físicos – antes de chegar à Terra.Essa mudança de sabor,que explica por que só parte dos neutrinos é detectada em seu estado original,já fora observada em neutrinos de alta energia.Faltava detectar em partículas de energia mais baixa.Agora as contas fecham.

> Sem o mérito devido

Em agosto,morreu no Texas, aos 86 anos,o físico norteamericano Ralph Alpher, personagem de um dos mais clamorosos casos de injustiça científica.Em 1948, Alpher escreveu com seu orientador de doutorado,o físico russo George Gamow, o artigo “The origin ofchemical elements”. Considerado o primeiro modelo matemático para a criação do Universo, esse trabalho explicava a distribuição dos elementos químicos no Cosmo a partir de uma explosão primordial:o Big Bang.No mesmo ano,em trabalho com Robert Herman,Alpher prevê que essa explosão teria deixado vestígios:a radiação cósmica de fundo em

LAURABEATRIZ

microondas.Em 1964 o astrofísico Arno Penzias e o astrônomo Robert Wilson detectaram em antenas de comunicação um ruído que não conseguiam explicar. Após meses de investigação, Penzias e Wilson descobriram que o ruído era,na verdade,a radiação cósmica de fundo. Descreveram esse resultado em um artigo de 1965 no qual não se lembram do nome de Alpher nem de Herman.Em 1978,Penzias e Wilson receberam o Nobel de Física pelo resultado que confirmava a existência do Big Bang.Alpher e Herman foram esquecidos pela Academia Sueca de Ciências.

> O ozônio e as plantas

Se nada for feito,o uso de combustíveis fósseis e as queimadas podem elevar a concentração de ozônio na atmosfera a ponto de, até o final do século,reduzir em 30% a produtividade das plantas da Amazônia,do Cerrado e da Mata Atlântica. Essa projeção,publicada em julho na Nature por pesquisadores ingleses,inclui

o mundo todo e leva em consideração os danos que o ozônio causa nas folhas, reduzindo a capacidade de absorver gás carbônico, essencial para as plantas crescerem.A diminuição da capacidade de absorver gás carbônico pode aumentar sua concentração na atmosfera e agravar o aquecimento global.Para os autores,é importante levar em conta o ozônio nos modelos que tentam prever os efeitos das mudanças climáticas.

Sequinhas ou empapadas: gordura em fast-food varia entre países

promover obesidade e doenças cardiovasculares (International Journal of Obesity).Cadeias de fast-food deveriam detalhar o conteúdo nutricional de seus alimentos,torná-los mais saudáveis e reduzir suas porções,alertam os pesquisadores.

> Missão impossível

As diferenças entre uma refeição de frango com fritas num McDonald’s chinês ou russo – ou em um KFC na Hungria ou na Inglaterra –podem ser grandes.No gosto,e sobretudo nas conseqüências.De um país para o outro,o mesmo produto pode ter 40% mais calorias e teores mais elevados de gordura trans industrializada,uma forma especialmente eficaz de

Munidos de binóculos e detectores de som, pesquisadores em dois barcos percorreram durante seis semanas o rio Yang-tse, na China,com a missão de encontrar o baiji,um golfinho tão diferente de seus parentes mais próximos que foi classificado numa família separada. Um décimo da população humana mundial vive ao longo do Yang-tse.Por ali também trafegam barcos de carga – cujo barulho inutiliza o sistema de sonar que esses golfinhos,quase cegos,usam para se orientar – e pesqueiros,cujas redes e anzóis causaram a morte de quase metade dos baijis encontrados nas últimas décadas.Apesar da busca intensiva,a equipe não encontrou nenhum deles e em agosto anunciou sua provável extinção (Biology Letters).Ding Wang,do Instituto de Hidrobiologia da Academia Chinesa de Ciências,ainda não admite a derrota.Ele continuará procurando e tentará reproduzir em cativeiro qualquer baiji que encontre. “Eu sei que é muito difícil e talvez até mesmo uma missão impossível, mas temos escolha?”

Extinto? Talvez os golfinhos baijis não voltem a ser vistos
> Frango com fritas

> Caminho de conchas

Em certo ponto no interior da Ilha do Cardoso,litoral de São Paulo,os pescadores caminham sobre conchas. Não davam a isso muita importância até que Flávio Calippo,do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP),apareceu por lá perguntando por montes de conchas.Mas não montes quaisquer. Oculto pela vegetação densa da Mata Atlântica,um desses montes é na verdade a camada superficial de um sambaqui, o Cambriú Grande,erguido por comunidades que habitaram o litoral há milhares de anos.Nesse caso, 8 mil anos atrás,cerca de 3 mil anos antes do que se acreditava serem as ocupações mais antigas da região.Integrante da equipe de Cristina Scatamacchia, Calippo descobriu que Cambriú Grande guarda uma história que vai de 8 mil a 5,5 mil anos atrás.O próximo passo é contar essa história.“Podemos levantar a hipótese de que,desde os primeiros momentos,os sambaquieiros (ou os grupos

dos quais se originaram) tenham estabelecido um corredor de ligação entre o litoral e o interior,por onde teriam chegado à zona costeira ou vice-versa”,conta Calippo,que não descarta a hipótese de o sambaqui ter sido construído com intenções simbólicas.

> Em boa companhia

“Você vai assistir ao parto?” Esta é a pergunta que se faz com freqüência aos futuros pais.Mas talvez não caiba a eles responder. Pesquisadores de Santa Catarina e de Campinas

verificaram que mulheres acompanhadas durante o trabalho de parto por alguém de sua escolha dão à luz mais satisfeitas. Satisfação aqui inclui uma avaliação geral de como ela se sentiu durante o nascimento do bebê, sua percepção de como foi tratada e informada pela equipe médica e de enfermagem,como descrevem os pesquisadores na edição de julho da Reproductive Health. A equipe avaliou o nível de satisfação das mães na maternidade de Sumaré, interior de São Paulo, que na época do estudo não permitia aos pais assistir Na hora do parto: acompanhante deixa mãe tranqüila

ao nascimento dos filhos. A lei brasileira garante às futuras mães o direito de escolher um acompanhante – direito que boa parte dos hospitais ainda não respeita.Ao mostrar que a companhia traz benefícios e não interfere no trabalho dos profissionais da saúde, os autores esperam ajudar a mudar o regulamento das maternidades.

> Sono contra o diabetes

Dormir bem é fundamental para a memória e a saúde do coração.É também essencial para o bom funcionamento do sistema imunológico e para evitar doenças autoimunes como o diabetes tipo 1. A fim de verificar os efeitos da privação de sono sobre o sistema imunológico, uma equipe da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) manteve dois grupos de camundongos –um de roedores saudáveis e outro de portadores de uma enfermidade semelhante ao diabetes – acordados por um período de um a quatro dias. Em seguida,colheu amostras de sangue para medir

a quantidade de um tipo de linfócito,célula que destrói microorganismos invasores. A privação de sono diminuiu entre 40% e 80% o número de linfócitos no sangue.Mais importante: uma única noite em claro bastou para reduzir a quantidade dessas células de defesa,sobretudo nos camundongos com diabetes (Brazilian Journal ofMedical and Biological Research). Níveis normais de linfócitos são importantes para evitar o diabetes tipo 1,que exige a reposição da insulina, hormônio associado à utilização pelo organismo do açúcar disponível no sangue. Por mecanismos ainda não elucidados,os linfócitos impedem a destruição das células do pâncreas produtoras de insulina.

> Alívio para respirar

A asma periodicamente tira o fôlego de cerca de 10 milhões de brasileiros. Muitos deles recorrem ao pronto-socorro em busca de tratamento que lhes permita respirar aliviados. Em Salvador,Bahia,uma experiência liderada por Rosana Franco,do Programa para o Controle da Asma e da Rinite Alérgica (ProAR), mostrou que nesses casos sai mais barato fornecer medicamentos do que atender as emergências. Por 12 meses,64 portadores de asma receberam remédios gratuitos – entre eles,os corticosteróides inaláveis, que não são fornecidos pelo sistema público de saúde –, além de informações sobre como usá-los.Essas medidas

Aluno registra a experiência de plantar amendoim

bastaram,em média,para reduzir em cinco dias o período de internação de cada paciente e poupar cada um deles de 68 visitas imprevistas aos hospitais. Mesmocedendo remédios, os gastos do governo caíram pela metade.Para as famílias,os custos – diretos e indiretos – diminuíram 90% em relação ao ano anterior à adesão ao programa (BMC Public Health).

> A botânica vai à escola

Luiza Kinoshita decidiu testar uma estratégia diferente para despertar em alunos do ensino fundamental o interesse pela botânica.Em vez de propor que memorizassem informações,Luiza e sua equipe na Universidade Estadual de Campinas estimularam as crianças a pôr a mão na massa: plantaram flores no jardim da escola Padre Francisco Silva e também canteiros de amendoim.De olhos fechados,tentavam adivinhar pelo aroma,pelo toque ou pelo sabor que planta havia sido colocada em sua frente.

A experiência de Campinas, relatada no livro A botânica no ensino básico, publicado pela editora RiMa,e as feitas em outras três cidades paulistas – Santos,São Paulo e São Carlos –,se destinaram a tornar os resultados do projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo acessíveis a estudantes do ensino fundamental e contaram com professores e pesquisadores de diferentes disciplinas.Ao integrar professores de ciências, português,geografia,artes, história e educação física, as atividades botânicas revelaram potencial para a reconstrução do currículo escolar,que pode se tornar menos fragmentado em áreas distintas do conhecimento.Segundo Luiza,o livro tem servido como modelo para outras escolas.Os pesquisadores de sua equipe gostaram da experiência e alguns deles já começaram a participar de um novo projeto pedagógico, agora com outros colégios.

> Café mais saudável

Em doses moderadas, o café tem uma ação antioxidante que pode ajudar a proteger contra os males de Parkinson e de Alzheimer,catarata,câncer e doenças cardiovasculares. Mas para preservar esse efeito é preciso alterar a forma como o café é torrado no Brasil. A nutricionista Fabiana Amaral Araújo,da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, mostrou que tostar os grãos de café a uma temperatura mais baixa – a 180°C,em vez dos 220°C geralmente adotados aqui – preserva a propriedade antioxidante do café.Durante 30 dias, Fabiana deu a ratos de laboratório diferentes doses de um extrato de café menos torrado.Ao fim do experimento,ela verificou um efeito protetor no cérebro,no coração, no fígado e no plasma, sobretudo nos animais que consumiram doses mais altas.A mudança na torra do café nacional seria uma boa notícia para quem gosta de um cafezinho.

Mais suave: torra branda preserva poder antioxidante

EDUARDO CESAR

Um em cada quatro brasileiros bebe a ponto de correr riscos de sofrer problemas físicos, psíquicos e sociais | R ICARDO Z ORZETTO

Semanas atrás um telefonema deixou o psiquiatra Ronaldo Laranjeira sem reação.Do outro lado da linha,um primo co m quem não falava fazia tempo contou a peregrinação pela qual o pai,dependente de álcool havia anos,passara pouco antes.Ao sentir-se mal em uma sexta-feira à noite,teve de experimentar o tratamento a que estão sujeitos os 10% da população que já não conseguem se libertar da bebida e não passam mais de um dia sem um gole de cerveja ou um tr ago de aguardente.Foi levado a um hospital municipal de São Paulo,onde o médico que o atendeu aparentemente não compreendeu a situação nem gostou do que viu e o dispensou.Mas não sem antes dar uma bronca nos familiares e perguntar por que haviam levado um bêbado ao hospital.No dia seguinte o tio de Laranjeira morreu. A notícia chegou em um momento em que Laranjeira acaba de dar um passo importante para compreender como

se desenvolvem na população brasileira as raízes da dependência do álcool.Após 30 anos de pesquisas sobre os problemas ligados ao consumo de álcool e outras drogas na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),Laranjeira se preparava para publicar o primeiro levantamento nacional a mostrar quanto,como e o que se bebe no país,apresentado em agosto no Palácio do Planalto.De novembro de 2005 a abril de 2006,pesquisadores trei- nados por ele e sua equipe entrevistaram 3.007 pessoas com mais de 13 anos de idade em áreas urbanas e rurais de 147 municípios das cinco regiões brasileiras. O resultado é o mais abrangente re- trato do consumo de álcool no Brasil, que,ao lado de outras pesquisas,poderá orientar a implantação das medidas pre- vistas na Política Nacional sobre Bebidas Alcoólicas.Sancionada em maio pe- lo presidente Lula,essa lei tem por meta reduzir o consumo de álcool e os danos a ele associados,como os acidentes de trânsito,o desenvolvimento de câncer, além de prejuízos emocionais.

O que esse estudo mostra? Muita coisa sobre a qual se tinha apenas uma idéia aproximada,em geral obtida a partir de estudos feitos com uma população mais restrita ou de pesquisas realizadas no exterior.Já de início o trabalho coordenado por Laranjeira e financiado pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad),subordinada à Presidência da República,revela um padrão de consumo de álcool mais complexo que o imaginado e desfaz o mito de que quase todo brasileiro bebe,mas bebe pouco –apenas uma ou outra caneca de chope ou taça de vinho de vez em quando. Agora se sabe que cerca de metade da população adulta,mais especificamente 48% das pessoas com mais de 18 anos,é abstêmia:não consome bebidas alcoólicas ou o faz,em média,menos de uma vez por ano,dado que o grupo da Unifesp ainda não consegue explicar completamente.Segundo Laranjeira, esse número é mais elevado do que se esperava e pode,ao menos em parte,ser justificado por razões religiosas,uma vez

que uma em cada quatro pessoas entrevistadas declarou ser evangélica ou protestante,religiões que costumam desaprovar o consumo de álcool ou estimular a abstinência.

que mais preocupa os pesquisadores,no entanto,é o que acontece com os outros 52% dos brasileiros.Desses, aproximadamente metade aprecia umacerveja gelada ou uma taça de vinho com pouca freqüência,entre uma e três vezes por mês.O problema está na outra metade,correspondente a 25% da população adulta ou cerca de 30 milhões de brasileiros,que consome bebidas alcoólicas mais de uma vez na semana.Um em cada seis desses consumido-

res,classificados como freqüentes,ingere níveis de álcool considerados nocivos para a saúde porque aumentam o risco de se envolver em brigas,de sofrerquedas ou fazer sexo sem proteção.Na maioria das vezes em que se sentam em um bar,essas pessoas tomam ao menos cinco doses de bebida – uma dose contém ce rca de 12 gramas de álcool puro e equivale a uma lata de cerveja,a 45 mililitros de uísque ou cachaça,a uma taça de vinho ou a uma garrafa pequena de bebida do tipo ice.

É um padrão de consumo distinto do europeu.Nos países mediterrâneos da Europa em geral toma-se vinho com freqüência e em pequenas quantidades, durante as refeições,enquanto nos países nórdicos e do Leste Europeu o mais comum é consumir doses e mais doses de uísque ou vodca.O perfil de consumo do brasileiro é mais diverso.Muitos bebem pouco e poucos bebem pra valer,o que nos coloca entre os consumidores de médio porte nas Américas,segundo dados de um levantamento inédito da Organização Pan-americana da

Saúde.“Não bebemos mais do que canadenses,norte-americanos e os povos de outros países da Europa,mas consumimos álcool de modo mais nocivo”,explica a psiquiatra Florence Kerr-Corrêa,da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu,que estuda a diferença no padrão de consumo entre o sexo masculino e feminino.

Outra característica do consumo brasileiro é ingerir níveis elevados de álcool por mais tempo na vida.Como em vários outros países,quem mais bebe são os jovens.Mas no Brasil se continua a beber muito até por volta dos 45 ou 50 anos,enquanto nos Estados Unidos a ingestão de bebidas alcoólicas diminui a partir da terceira década de vida.“Esses dados sugerem que provavelmente haverá mais problemas com consumo abusivo e dependência de álcool por parte de pessoas em idade produtiva,numa fase da vida em que geralmente já constituíram família”, explica o epidemiologista e psiquiatra brasileiro Raul Caetano,professor da Universidade do Texas e autor do questionário e da estratégia usados no estudo.

Aqui bebe-se mais nas regiões Nordeste e Centro-Oeste,onde 38% das pessoas não param antes do quinto copo. No Sul e no Sudeste o consumo é mais moderado,mas freqüente:metade da população não passa da segunda dose. Quase sempre são os homens quem mais bebe,enquanto as mulheres,mais sensíveis aos efeitos do álcool,geralmente ficam no primeiro ou segundo copo. Em todas as regiões a bebida mais consumida é a cerveja,embora haja variações no Norte e no Nordeste,onde a cachaça aparece em segundo lugar,à frente do vinho.Outra diferença é que as pessoas de classes sociais mais elevadas (A e B) consomem álcool de modo distinto das da classe E.“As primeiras bebem durante as refeições,em bares comendo algum petisco ou sozinhas em casa”,explica Laranjeira.“Já entre os mais pobres quem bebe são os homens que se reúnem em um boteco e tomam cachaça em pé,sem comer nada.”

Feitas as contas,conclui-se que esses bebedores,ditos freqüentes e também pesados,são nada menos do que 10% dos brasileiros adultos ou 12 milhões de

pessoas.É uma população equivalente à de uma metrópole como São Paulo que uma vez na semana lota dezenas de milhares de restaurantes,bares,botecos e padarias do país e toma pelo menos cinco copos de cerveja ou várias doses de pinga.Pode-se até imaginar que cinco doses,coisa que muita gente é capaz de beber quando sai para bater papo com os amigos,não são quase nada.Será?

Mi nutos após o primeiro gole do ch ope – ou,como é mais comum entre os gaúchos,a primeira taça de vinho – o álcool chega ao estômago,onde metade é digerida.O que não é quebrado quimicamente ali atravessa as paredes do estômago e do intestino delgado,chegando rapidamente à corrente sangüínea.Formada por 2 átomos de carbono, 6 de hidrogênio e 1 de oxigênio,a molécula do etanol – o álcool da vodca,do conhaque e de todas as bebidas – se dilui facilmente no sangue.Uma pequena parte é filtrada pelos rins e se acumula na bexiga,razão do desejo freqüente,e em geral urgente,de urinar.O restante acumula-se em tecidos e órgãos ricos em água,como os músculos e o cérebro,até

ser transportado para o fígado,onde passa por duas etapas de transformação em que origina um composto menos tóxico para as células:o ácido acético.Uma parte do álcool,porém,sofre apenas uma transformação parcial,gerando um composto altamente tóxico:o aldeído, responsável por danos às células e também pela dor de cabeça característica da ressaca do dia seguinte.

Esse processo de degradação é um tanto lento.Calcula-se que o organismo leve cerca de uma hora para degradar o álcool de uma única dose de bebida. Em um adulto de 70 quilos,os 12 gramas de álcool puro encontrados em uma lata de cerveja ou em um copo de uísque em poucos minutos atingem uma concentração de 0,2 grama por litro de sangue.Pouco mais do que isso já é suficiente para relaxar o corpo e deixar a pessoa mais desinibida,falando de modo desenfreado – é o estágio de euforia,desejado por todo mundo que decide tomar um trago para esquecer o dia ruim ou sentir-se mais seguro para conversar com a garota da mesa ao lado. A excitação e a autoconfiança,no entanto,duram pouco.Se em menos de uma hora mais duas latas de cerveja forem entornadas,facilmente se ultrapassa a concentração de 0,6 grama por litro de sangue,o limite máximo em que é permitido dirigir,de acordo com o Código Brasileiro de Trânsito.Nessas horas é melhor deixar o carro no estacionamento e pegar carona com alguém sóbrio ou voltar para casa de táxi.É quando começa a se manifestar outro tipo de efeito provocado pelo álcool,que interfere na atividade dos mensageiros químicos dopamina,ácido gama-aminobutírico e noradrenalina,reduzindo o funcionamento de diferentes regiões cerebrais.Após a quinta dose,o raciocínio torna-se lento,escolhem-se as palavras com menos pudor,a visão fica menos acurada e diminui a capacidade de reação.Ingerido em quantidades ainda mais elevadas em poucas horas – é o porre que os adolescentes costumam tomar nas baladas –,o álcool pode levar ao coma e até à morte por impedir o funcionamento dos centros cerebrais que coordenam a respiração.

Repetido raramente,o consumo exagerado não costuma causar em quem bebe prejuízos maiores do que uma intoxicação aguda que dura um dia e faz

EDUARDO CESAR

a cabeça girar,o estômago embrulhar e deixa uma sensação amarga na boca.Se esse comportamento se torna hábito,no entanto,podem surgir danos irreversíveis em órgãos como o coração,o cére- bro e o fígado,além do aumento do ris- co de desenvolver depressão e algumas formas de câncer.Nesse nível de consumo,os danos superam em muito os benefícios que quantidades de álcool consideradas seguras pela Organização Mundial da Saúde – duas doses diárias para homens e uma para mulheres – po- dem proporcionar ao sistema cardiovas- cular.“Mesmo no nível seguro,o álcool só proporciona benefício cardiovascu- lar para homens com mais de 40 anos. Em termos de saúde,os mais jovens na- da ganham com a bebida”,diz Caetano. Outra conseqüência do consumo fre- qüente em altas ou baixas doses de cer- veja,uísque e até mesmo vinho é o au- mento do risco de dependência,que traz problemas para quem bebe e também para sua família e seus amigos.Esse trans- torno psiquiátrico,responsável por 90% das internações ligadas ao uso de drogas no país,afeta aproximadamente um em cada dez brasileiros,proporção cinco ve- zes superior à média mundial.E há sinais de que está aumentando nas cidades de médio e grande porte:subiu de 11,2% em 2001 para 12,3% em 2005 entre as pessoas com idade entre 12 e 65 anos que vivem em municípios com mais de 200 mil habitantes,segundo estudos feitos pela equipe do Centro Brasileiro de In- formações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid),da Unifesp.

Mais facilmente reconhecíveis,a dependência e as enfermidades que atin- gem os diferentes órgãos do corpo estão longe de ser os únicos problemas decor- rentes do consumo de álcool.Há um outro tipo de dano tão importante quanto os anteriores que até poucos anos atrás permanecia invisível.É o chamado prejuízo social,pago por toda a comunidade por meio da redução da produtividade no trabalho,de ferimen- tos em brigas,de doenças que debilitam do ponto de vista físico e psicológico e de tratamentos em hospitais públicos. Dados da Organização Mundial da Saú- de indicam que direta ou indiretamen- te o álcool é responsável por 3% das mortes e 4% de todas as doenças.Esse índice é mais elevado nos países em de- senvolvimento como o Brasil,onde o ál-

cool está associado a aproximadamente 10% das mortes e também das doenças, segundo estimativa de Laranjeira e José Ninio Meloni publicada em 2004 na Rev ista Brasileira de Psiquiatria. Embora não se conheçam os números com precisão,acredita-se que a causa de boa parte dessas mortes seja os acidentes de trânsito provocados por motoristas que insistem em voltar para casa dirig indo,mesmo após vários copos de chope.Todos os anos cerca de 20 mil pessoas morrem em acidentes de carro no Brasil,segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito.Esse número representa quase metade das mortes por acidentes automobilísticos nos Estados Unidos,onde a frota de veículos é seis vezes maior que a nacional – lá circulam cerca de 240 milhões de automóveis,enquanto aqui são cerca de 38 milhões.

No levantamento nacional,Laranjeira constatou que 10% das pessoas que bebem já dirigiram ao menos uma vez depois de consumir álcool no ano anterior à entrevista.“É uma proporção altíssima”,comenta Laranjeira.“Nos Estados Unidos as autoridades ficam alarmadas quando esse número atinge 3% ou 4% dos motoristas”,afirma.Cerca de três vezes mais comum entre os brasileiros do que entre os norte-americanos, esse hábito pode ser ainda mais comum nas cidades grandes.

Em outro estudo recente,Laranjeira e o médico Sérgio Duailibi decidiram ir para as ruas de cinco cidades brasileiras (São Paulo,Diadema,Santos,Belo Horizonte e Vitória) verificar se os motoristas dirigiam depois de ingerir bebida alcoólica.Entre as 10 da noite e 3 da ma-

nhã de várias sextas e sábados,eles pararam 5.600 motoristas e pediram que soprassem em um bafômetro,aparelho que estima o teor de álcool do sangue a partir de sua concentração no ar expirado.Em média,um em cada três condutores havia consumido álcool antes de pegar o volante – índice que variou de 21% em Diadema,Região Metropolitana de São Paulo,a 41% em Vitória,no Espírito Santo.Em todas as cidades um quinto dos motoristas não deveria estar ao volante, porque os níveis de álcool no sangue haviam ultrapassado o limite legal.

O Código de Trânsito Brasileiro permite a condução de veículos com uma concentração máxima de 0,6 grama de álcool por litro de sangue.Mas talvez nem esse valor possa ser considerado seguro. Em julho a revista Quatro Rodas apresentou os resultados de um teste informal, mas bastante ilustrativo,do que pode acontecer no trânsito.Sob a supervisão de médicos,nove jovens tomaram doses sucessivas de bebida alcoólica antes de dirigir por um curto trajeto em que cones de plástico simulavam curvas e obstáculos.Mesmo antes de atingir o limite legal,a maior parte dos motoristas atropelou cones e passou a correr mais. Houve ainda quem freasse diante de um sinal verde ou se atrapalhasse ao guardar o carro na garagem.

Se doses baixas já foram suficientes para pôr em risco a segurança de quem dirige – e de quem está por perto –,não é difícil imaginar o que de fato se passa nas ruas de nossas cidades,onde o consumo é elevado,principalmente entre os jovens.Quase metade dos entrevistados no levantamento nacional consumiu álcool de modo considerado compulsi-

vo – mais de cinco doses para homens e quatro para mulheres em um período de poucas horas – ao menos uma vez no último ano.Metade deles bebe assim ao menos uma vez por mês.

ssa forma de consumo, chamada pelos médicos de binge,é mais comum entre os homens mais jovens,em especial até os 42 anos.Mas não só.Mulheres com idade entre 18 e 44 anos,solteiras ou divorciadas e que cursaram o colegial ou ainda estão na universidade,também costumam exagerar nas doses tanto quanto os homens, segundo estudo conduzido pelos psiquiatras Laura Andrade,Camila Magalhães Silveira e Arthur Guerra Andrade,da Universidade de São Paulo (USP).

Eles avaliaram o padrão de consumo de álcool de 1.464 pessoas com mais de 18 anos em dois bairros de classe média e alta da cidade de São Paulo – o elegante Jardim América e a boêmia Vila Madalena,onde,em muitas ruas,os bares se espremem uns ao lado dos outros. Observaram que uma em cada dez participantes do estudo havia ingerido bebidas alcoólicas de modo exagerado ao menos uma vez no último ano.A maioria consumia nesse padrão mais de uma vez por semana,como descreve a equipe da USP em artigo do Journal ofStudies on Alcohol and Drugs.

“Quanto mais cedo as pessoas começam a beber,maior o risco de desenvolverem esse padrão de consumo”,diz Camila.E,quanto mais bebem,mais problemas enfrentam.Laura perguntou com que freqüência os participantes da pesquisa apresentavam um ou mais problemas de ordem física,emocional ou social – num total de 24 tipos diferentes.E comparou o resultado com o número de vezes em que bebiam na semana e a quantidade de álcool que tomavam cada vez que se sentavam para beber.À medida que crescia o consumo de álcool,aumentava a proporção de problemas – principalmente entre os homens,que se envolviam mais em brigas e se tornavam motivo de reclamação de amigos ou parceiras.Mas as mulheres que ingeriam níveis elevados de álcool também enfrentavam a mesma proporção de problemas que os homens. Além disso,elas apresentam o que os médicos denominam efeito telescópico.

“Aquelas que começam a beber cedo passam a fazer uso freqüente de álcool mais rapidamente e também se tornam dependentes mais cedo”,explica Laura.

Florence Kerr-Corrêa atribui o consumo elevado de álcool pelas mulheres à mudança de seu papel na sociedade. Ela comparou como as pessoas bebiam em Botucatu e em Rubião Júnior,cidade menor e de nível socioeconômico e

cultural mais baixo.Constatou que o consumo de álcool – em pequenas doses ou exagerado – era mais comum entre as moradoras de Botucatu,com acesso a educação e trabalho remunerado.

m dos resultados do levantamento nacional que mais chama a atenção da equipe de Laranjeira é o consum o de álcool por adolescentes.Dos 3.007 entrevistados, 661 tinham entre 14 e 17 anos de idade e não deveriam conseguir comprar álcool, de acordo com a leg islação brasileira. Mesmo assim,24% afirmaram consumir bebida alcoólica mais de uma vez por mês.Quase metade dos adolescentes que bebem geralmente passa das três doses,e uma proporção semelhante consome álcool de modo compulsivo ao menos uma vez por mês. Mais importante:os dados desse estudo sugerem que as pessoas estão começando a tomar cerveja,vinho ou outras bebidas cada vez mais cedo,comenta Ilana Pinsky,psicóloga da Unifesp e co-

autora do estudo nacional.As pessoas que na época das entrevistas eram menores de idade haviam bebido pela primeira vez pouco antes dos 14 anos – e seis meses mais tarde já consumiam álcool regularmente –,enquanto quem tinha entre 18 e 25 anos só experimentou os primeiros goles aos 15 anos e passou a beber dois anos mais tarde,depois dos 17.“O adolescente em geral bebe para relaxar,se divertir e se enturmar”,explica Ilana,“o problema é que eles são mais suscetíveis aos efeitos do álcool”.

“A adolescência é um período em que naturalmente as pessoas testam novas experiências”,reconhece Laranjeira. “Mas a experimentação química sempre traz riscos.”Estudos feitos no Brasil e no exterior mostram que quanto mais cedo se começa a beber maior o risco de se tornar dependente.Também aumenta a probabilidade de ocorrerem acidentes, brigas e quedas e de fazer sexo sem proteção.As complicações não param aí.Do ponto de vista fisiológico,a adolescência é uma fase da vida em que o cérebro ainda se encontra em desenvolvimento,que pode ser comprometido pelo álcool. “Não há nível de consumo de álcool considerado seguro para adolescentes. Quanto mais se consegue retardar o início do uso,menores são os problemas”, afirma Camila,que integra com Arthur

Guerra Andrade o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa),organização não-governamental que tem entre seus patrocinadores a Companhia de Bebidas das Américas (AmBev),a maior produtora de cerveja do país.

Diante desse cenário surge a dúvida: o que fazer para reduzir no país o consumo de álcool e os prejuízos a ele associados? A resposta para esse problema, que só nos últimos anos atraiu a atenção das autoridades brasileiras e no mundo todo é mais grave que o uso de drogas ilícitas,é múltipla e nem sempre consensual.Entre os especialistas brasileiros há quem afirme que a saída está na educação,uma vez que o consumo de álcool é um hábito que acompanha a humanidade há milênios – possivelmente desde que alguém experimentou frutos ou cereais fermentados bem antes do surgimento da agricultura.

“O álcool dá prazer e é agradável para a maior parte das pessoas.É preciso ensinar que esse é um hábito que pode ser mantido de forma adequada,em locais adequados”,explica o psicofarmacolog ista Elisaldo Carlini,coordenador do Cebrid,que até março era membro da Junta Internacional de Controle de Narcóticos,órgão da Organização das Nações Unidas que monitora a produção e o comércio de entorpecentes no mundo. “Faltam no país projetos intensivos,contínuos e inteligentes que ensinem sobre os perigos do uso de drogas”,afirma.

Só educação,porém,não resolve.A restrição dos horários de exibição na te vê das propagandas de bebidas pela qual vem batalhando recentemente o ministro da Saúde,José Gomes Temporão,pode produzir resultado,principalmente entre os mais jovens.Também é preciso aplicar de fato as leis existentes no país,como a que proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos e a que prevê a suspensão do direito de dirigir de quem é flagrado conduzindo um veículo embriagado.“No Brasil somos lenientes no que diz respeito à quebra de regulamentos.Aceitamos mais certas formas de transgressão do que a sociedade norte-americana”,diz Caetano.“Há no país a sensação de impunidade,que é real.A lei não é aplicada e as pessoas sabem disso.”

Laranjeira defende o aumento dos impostos e do preço das bebidas.Na opinião de Caetano,também são necessárias me-

OS PROJETOS

1. Levantamento nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira

2. Estudo epidemiológico dos transtornos psiquiátricos na Região Metropolitana de São Paulo

3. Gênero, cultura e problemas relacionados ao álcool: um estudo no estado de São Paulo e multinacional

COORDENADORES

1.RONALDO LARANJEIRA – UNIFESP

2. LAURA HELENA GUERRA ANDRADE – USP

3. FLORENCE KERR-CORRÊA – UNESP

INVESTIMENTO

1.R$ 1.000.000,00 (Senad)

2. R$ 1.040.825,00 (FAPESP)

3. R$ 187.393,75 (FAPESP)

didas federais,estaduais e até municipais, como o controle do horário de abertura dos bares.Além,claro,de acesso dos dependentes de álcool a tratamento adequado.Segundo Pedro Gabriel Delgado, coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde,até 2002 o sistema público de saúde não oferecia alternativas de atenção especializada e os problemas associados ao álcool eram tratados por instituições filantrópicas ou grupos como os Alcoólicos Anônimos.Haviam escassas consultas ambulatoriais e internações de baixa eficácia em hospitais psiquiátricos.Hoje há no país 160 centros comunitários e serviços de atenção à saúde para tratar dependentes de álcool.Ainda é pouco.“A solução desse problema passa pela regulamentação do mercado”,afirma Laranjeira, acusado de defender propostas radicais contra o consumo excessivo de álcool. “Sem isso,a indústria continua lucrando e a sociedade pagando a conta.” ■

EDUARDO CESAR

FARMACOLOGIA

Direto ao núcleo: células em divisão no pulmão de camundongo se tornam verdes ao produzirem a proteína fluorescente cujo gene a crotamina transportou

O carteiro das células

Proteína do veneno da cascavel penetra nas células em multiplicação e mostra potencial como transportadora de medicamentos e antitumoral

Hábil em encontrar pessoas talentosas,que deixa trabalhando com liberdade,o químico Tetsuo Yamane formou no Brasil um grupo de pesquisa já com ramificações em outros países que em poucos anos levou à identificação das propriedades bastante raras de uma proteína do veneno de uma serpente típica do Cerrado e da Caatinga,a cascavel.A crotamina,como essa proteína é chamada, atravessa a membrana celular e transporta genes ou outras moléculas para o interior e mesmo para o núcleo das células – não qualquer célula,só as que estão se multiplicando.Por essa razão,essa proteína pode ser usada em diagnósticos de doenças,para conduzir medicamentos e,a julgar pelos experimentos mais recentes,para destruir tumores.

Yamane,hoje com 76 anos,à frente de um laboratório de biotecnologia no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e no Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA),começou a criar novas vertentes para o estudo da crotamina lá por 1993,quando pensava em voltar ao Brasil,depois de 40 anos vivendo nos Estados Unidos.Isolada na década de 1950 pelo bioquímico José Moura Gonçalves,a crotamina já havia sido bastante estudada,em razão de sua capacidade de paralisar os músculos de roedores.Quarenta anos depois parecia não oferecer mais grandes enigmas – a não ser para um químico,filho de japoneses,cuja ousadia havia sido nutrida dia a dia pela convivência com cientistas do nível de Richard Feyman e Linus Pauling,durante a graduação e a pós no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech);sua capacidade de fazer perguntas novas aprimorou-se ainda mais ao longo dos quase dez anos de trabalho com os físicos do Laboratórios Bell,onde foram inventados o transistor, o laser,o circuito integrado e a comunicação por satélite.Ao conhecer a crotamina,Yamane se deixou levar pelas dúvidas sobre os mecanismos então ainda nebulosos pelos quais a proteína age no organismo e pelas possíveis interações dessa molécula cuja estrutura lembra um dragão de lã.

A crotamina poderia interferir na divisão das células? Foi com essa pergunta que Yamane,desde 1994 instalado no Instituto Butantan e então trabalhando apenas com os bioquímicos Gandhi Rádis-Baptista e Álvaro Prieto da Silva,atraiu o interesse do biólogo celular Alexandre Kerkis e de sua esposa,a bióloga Irina.Ambos são russos.Haviam trabalhado em um dos maiores centros de pesquisa da Rússia,na Sibéria,antes que a perestróica fragmentasse a estrutura de produção de conhecimento científico por lá.Depois de uns tempos na Universidade Estadual do Norte Fluminense,os Kerkis vieram em 1999 para São Paulo.Instalaram-se no Institu-

to de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) e começaram a estudar células-tronco embrionárias de camundongo.Foi quando conheceram Yamane e,em conjunto,descobriram novas propriedades da toxina que parecia não ter mais nada para contar.Em doses muito baixas,verificaram, a crotamina chegava rapidamente – em apenas cinco minutos – ao núcleo não só de células-tronco embrionárias de camundongos como também a outros tipos de células.

Era a primeira vez que se demonstrava que uma proteína até então vista somente como toxina atuava também co mo carteiro celular:atravessava a membrana das células em divisão e chegava ao núcleo,onde estão os cromossomos.Lá dentro,essa pequena proteína adere aos centrômeros,o ponto por meio do qual os cromossomos duplicados se mantêm unidos durante a divisão celular.Em seguida,assim que os cromossomos se separam em células independentes,a crotamina sai da célula e permanece no espaço intercelular,como que à espera de outro momento para entrar em ação.Os resultados,publicados em julho de 2004 no FASEB Journal,abriram outras perspectivas de pesquisa e de uso dessa proteína.“Começamos a ver uma toxina por outra face”,conta a farmacologista Mirian Hayashi,que trabalhou com Yamane no Butantan durante três anos nessa pesquisa,depois de outros três em desenvolvimento de fármacos no Japão.

Contra dor e parasitas - Foi também no Butantan que outra equipe encontrou na cascavel uma substância com um poder de analgesia 600 vezes maior que o da morfina e aparentemente sem efeitos colaterais relevantes.Em um experimento realizado na USP,o veneno da Crotalus durissus terrificus, que rasteja pelas terras do sul e oeste do Brasil,foi o que se mostrou mais eficaz contra o parasita causador da leishmaniose,em comparação com o de outras duas subespécies,uma típica da Caatinga e outra das regiões Sudeste e Centro-Oeste.As frações mais ativas nos testes em células e em camundongos foram a girotoxina e a crotamina.

Componente majoritário do veneno da cascavel,a crotamina é uma proteína pequena.Tem apenas 42 aminoá-

Estrutura da crotamina: componente majoritário do veneno da cascavel

cidos,quase tanto quanto a insulina,o hormônio de 51 aminoácidos que controla a quantidade de açúcar no sangue. Mas é minúscula se comparada,por exemplo,com a hemoglobina,a portentosa molécula de quatro cadeias de 140 aminoácidos cada uma que transporta oxigênio a toda célula do corpo.Como é pequena,é compreensível que atravessasse facilmente a membrana das células.Mas como?

Eis a resposta:unindo-se a moléculas da superfície celular conhecidas como proteoglicanos de heparam-sulfatos,que transitam pelo interior da célula.Não se trata de uma ligação fortuita.“O momento em que as células mais produzem heparam-sulfatos é durante o ciclo reprodutivo”,conta o bioquímico Ivarne Tersariol,professor da Univer-

O PROJETO

Estudo do sistema de transporte mediado por peptídeos catiônicos

MODALIDADE

Linha Regular de Auxílio a Pesquisa

COORDENADOR

TETSUO YAMANE - IPEN

INVESTIMENTO

R$ 65.649,56 (FAPESP)

sidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de Mogi das Cr uzes (UMC).Como esse grupo demonstrou em um artigo no Journal of Biological Chemistry,a afinidade entre as moléculas de crotamina com o proteoglicano de heparam-sulfato se deve essencialmente a forças eletrostáticas: a crotamina é uma molécula com carga elétrica positiva e os heparans,negativa.

Ocorre que a crotamina não é inteir amente positiva:uma de suas faces é eletricamente neutra.Essa peculiaridade alimentou a perspectiva de ligar outr as moléculas tanto do lado positivo quanto do neutro.Mas ainda era só teoria,como também era só hipótese a possibilidade de a crotamina,por ser positiva,ligar-se ao DNA,negativo.Havia indícios de que seria possível;no entanto a crotamina poderia se unir,não diretamente,mas a alguma outra proteína conjugada ao DNA.

Para tirar a dúvida,Mirian conversou com Vitor Oliveira.Químico formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),ele trabalhava em projetos de análise de estrutura de proteínas em uma universidade particular.Era ele quem operava na Unifesp um equipamento que analisa como as moléculas absorvem os componentes de um tipo especial de luz.A resposta veio em cinco minutos,por meio de um gráfico:sim,a crotamina se unia diretamente ao DNA. Pouco depois,um experimento do grupo demonstrou que a crotamina poder ia de fato transportar uma forma de DNA circular conhecida como plasmídeo para o núcleo de células de fígado, pulmão e medula óssea que se encontr am em multiplicação contínua.O DNA forasteiro funcionou normalmente,como se fosse nativo,em uma em cada quatro células:um resultado notável. Acumulam-se também evidências de que a crotamina poderia estar ligada à defesa do organismo – e não só por ser parte de um veneno.Sua estrutura tr idimensional é semelhante à da beta-defensina,uma proteína encontrada na saliva e no muco (do nariz,por exemplo) dos seres humanos e de outros animais.“Moléculas como essas fazem parte das primeiras defesas dos organismos”,conta Irina.De modo semelhante às beta-defensinas,a crotamina poderia integrar o sistema imune inato,que funciona intensamente durante

a gestação e nos primeiros meses após o nascimento,enquanto o organismo ainda não produz anticorpos contra microorganismos.Portanto,as serpentes também usam algo de si,mas em quantidade maior,como veneno,para se defenderem:a glândula de veneno é uma glândula salivar modificada,lembra Mirian.Nem todas as Crotalus durissus terr ificus ,p orém,produzem crotamina. Gandhi Rádis-Baptista verificou que todas têm o gene responsável pela produção da crotamina;algumas das representantes dessa espécie – de até 1,5 metro de comprimento e facilmente reco nhecíveis pela cauda com guizo –produzem uma proteína com uma estr utura semelhante,chamada crotasina,de efeito ainda desconhecido.

Rádis-Baptista está agora na Universidade Federal de Pernambuco,cumprindo o que parece ser a sina dos participantes dessa história:não criar raízes ou,ao menos,partir logo para trabalhos ainda mais desafiadores.Mirian saiu do Butantan há um ano,pouco depois de Yamane,e está agora na Unifesp como professora de farmacologia;Vitor Oliveira deixou a universidade particular e voltou à Unifesp como professor de biofísica.Irina Kerkis saiu da USP e está agora no Butantan,enquanto Alexandre Ke r kis trabalha agora em um laboratório de uma clínica médica.O bioquímico Fábio Nascimento,que executou os experimentos com os heparam-sulfatos,encontra-se hoje em uma empresa de biotecnologia na Suíça.

Incertezas à frente - Mesmo distantes, aparentemente não perderam o fôlego de trabalhar em conjunto em problemas que talvez não consigam resolver sozinhos.Extraída e purificada com destreza por Eduardo Oliveira na USP de Ribeirão Preto,a crotamina forma conjuntos de duas ou três unidades que reduzem sua capacidade de transportar moléculas.Evitar a formação desses agregados talvez seja mais difícil do que produzir uma versão sintética da crotamina,que evitaria a dependência da purificação do veneno de serpentes. Embora com muito trabalho pela frente,os pesquisadores já negociam com empresas interessadas em usar trechos da crotamina como transportadores de genes.Em 2004 solicitaram a patente dos usos potenciais dessa molécu-

la porque não querem repetir a história de outras moléculas descobertas por brasileiros que,por não terem sido patenteadas nem contarem com o apoio de empresas,foram incorporadas por outros grupos de pesquisa.Eles sabem que ter uma patente é apenas um dos requisitos para iniciar o longo caminho de desenvolvimento de um fármaco. Mais à frente,se os próximos testes de laboratório confirmarem o potencial da crotamina,o grupo terá outro desafio:produzir a molécula em maior quantidade – em escala piloto e,depois, em escala industrial –,de modo a facilitar as negociações com empresas ou ins-

tituições interessadas em fazer os testes finais,antes que a molécula se torne um medicamento ou um marcador para diagnósticos contra o câncer.“Quem tiver boas idéias pode entrar em contato”,diz Yamane.“Somos um grupo aberto.”Pouco a pouco,Yamane já atraiu outros grupos – da Alemanha,Polônia, Estados Unidos e Japão – para trabalhar com a crotamina.“Cada um pode contribuir;só assim a ciência avança”,diz, sem abdicar da ousadia que marcou sua carreira científica:“Linus Pauling sempre lembrava que,ao começar um trabalho,devemos pensar em como contribuir de modo original”. ■

A Crotalus: esperança também contra parasitas como o da leishmaniose

Com uma corda em volta do pescoço,o jovem pendia do teto da cozinha de um imóve l abandonado em um bairro na Zona Oeste do Rio de Janeiro.Estava morto hav ia pelo menos 15 dias,garantiam os vizinhos.Mas os indícios analisados pela polícia carioca contavam outra história.Os exames de praxe,que levam em consideração o estado de conservação,a temperatura e o grau de rigidez do corpo,induziram os peritos a calcular o tempo de morte em apenas uma semana.A fim de desfazer a dúvida,a polícia recorreu a Janyra Oliveira da Costa,perita do Instituto de Criminalística do Rio de Janeiro e especialista em uma área da ciência que se tornou bastante conhecida por causa dos seriados de tevê norte-americanos,a entomologia forense.Na cena do crime,Janyra concentrou sua atenção não no corpo,mas nas larvas de moscas e besouros que o povoavam e também se espalhavam pelo chão.“A diversidade de insetos era grande,cenário que aponta para um período mais longo decorrido desde a morte”,conta Janyra.“Como o corpo permaneceu o tempo todo pendurado, preservou-se melhor do que se estivesse em outra posição”,explica.É que as larvas de insetos que se alimentam da matéria orgânica em decomposição, em uma espécie de reciclagem natural de nutrientes,caíam no chão em vez de permanecerem no corpo.A explicação de Janyra fortaleceu a versão dos vizinhos e a polícia ampliou a lista de suspeitos,que passou a incluir pessoas que haviam estado por ali nas duas semanas anteriores.

Trabalhando na identificação das espécies de insetos geralmente encontradas junto aos mortos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro,Janyra é uma das pesquisadoras que nos últimos anos vem ajudando a desenvolver no Brasil essa especialidade de acordo com a fauna e as características ecológ icas daqui,bastante distintas das de outros países.Mais recentemente,ela tenta incluir a observação da presença e do comportamento dos insetos na rotina da polícia carioca.A razão é que moscas,besouros,vespas e borboletas que se aproveitam dos mortos para nutrir suas proles podem ajudar a esclarecer quando,onde e como um crime ou uma morte misteriosa ocorreram.

Os exames tradicionais feitos pelos médicoslegistas são úteis para desvendar casos complicados,mas apenas se realizados até 72 horas após a morte.Depois desse período a precisão diminui muito porque as reações bioquímicas que continuam a ocorrer no corpo já sem vida sofrem a influência de fatores que nem sempre podem ser identificados ou controlados.Assim,torna-se mais difícil chegar à causa ou à data da morte.Com os insetos é diferente.Incapazes de controlar a temperatura do próprio corpo,os vários estágios de seu desenvolvimento – eclosão do ovo,transformação em larva ou em pupa – são controlados por fatores externos bem conhecidos dos pesquisadores:a temperatura do ambiente e a disponibilidade de alimento.

Como a comida costuma ser abundante nesses casos,a partir da temperatura do corpo e do am-

ENTOMOLOGIA

Memórias póstumas

Insetos em cadáveres contêm informação que ajuda a elucidar mortes misteriosas

biente é possível,depois de identificar as espécies dos insetos,estimar quanto tempo levou para que os insetos atingissem o estágio em que foram encontrados e,assim,determinar quando ocorreu a morte.Logo após a morte,proteínas,açúcares e gorduras do organismo humano ou de outros animais são transformados em compostos químicos voláteis,como álcoois e aldeídos.O odor ácido é imediatamente detectado pelos insetos,que vêem nessescorpos uma importante fonte de alimento para seus descendentes.“Quanto mais o tempo passa, mais os insetos ajudam a definir com precisão o intervalo decorrido desde a morte de uma pessoa”, afirma o médico Arício Xavier Linhares,especialista em entomologia forense do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Um dos pioneiros no estudo da entomologia forense no país,Linhares coordena uma equipe que inclui pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e desde 1991 investiga quais espécies de insetos primeiro chegam ao corpo após a morte e quais as sucedem com o passar do tempo.É uma tarefa exaustiva em um país de dimensões continentais como o Brasil,onde a diversidade de insetos é grande e são variadas as condições de temperatura e umidade,fatores que podem favorecer a proliferação de determinadas espécies de moscas,borboletas e besouros,mas dificultar a de outras.

Em 16 anos de trabalho o grupo de Linhares constatou,por exemplo,que moscas como a Sarconesia chlorogaster, esverdeada com asas longas,e a Calliphora vicina,negra e arredondada com asas es-

curas,são encontradas sobretudo no Sul do país.A primeira é mais comum em áreas silvestres e rurais,enquanto a segunda é tipicamente urbana.Já no estado de São Paulo as principais representantes urbanas são as moscas-varejeiras verde-metálicas Chrysomya megacephala, Chrysomya albiceps e Lucilia cuprina Em áreas rurais ou de vegetação densa do interiordo estado,o mais freqüente é encontrar as moscas Hemilucilia semidiaphana e Chloroprocta idioidea, além de espécies do gênero Paralucilia.

Informações sobre as populações de insetos características dos ambientes –urbano,rural,Mata Atlântica ou Cerrado – investigados pela equipe de Linhares são importantes para determinar não apenas a data da morte,mas também seu local.É que permitem avaliar se houve transporte de cadáveres,estratégia muito usada por criminosos para atrapalhar as investigações policiais.“Se no corpo de uma pessoa encontrada no Rio de Janeiro achamos larvas de insetos do interior de São Paulo,podemos afirmar que ela não morreu onde foi encontrada”, conta Linhares,cujo grupo percorre o estado há quase dois anos com o objetivo de identificar as espécies mais comuns de insetos nas diferentes regiões paulistas.

Na Unesp em Rio Claro,interior de São Paulo,o biólogo Leonardo Gomes,da equipe de Claudio von Zuben,descobriu que a variedade de insetos que se alimentam de corpos em decomposição é muito maior do que se imaginava.Gomes trabalhou com porcos por causa das semelhanças que guardam com os seres humanos,como tamanho,peso e pêlos.A cada estação do ano,colocou dois animais em áreas de campo aberto e acompanhou em visitas diárias de manhã,à tarde e à noite a evolução do ataque dos insetos,desde logo após a morte até a limpeza total dos corpos.Constatou que eram consumidos por cerca de 60 espécies de insetos, quase o dobro do que relatam estudos feitos na Europa e nos Estados Unidos.

As moscas mais comuns foram a Chrysomya albiceps e a C.megacephala. Entre os besouros,um dos mais abundantes foi o Necrobia rufipes,de apenas 5 milímetros,carapaça de azul-escuro a negr a e antenas avermelhadas.“Estamos trazendo à tona detalhes específicos do nosso cenário,onde as temperaturas são

mais altas e o inverno não é tão rigoroso. Por isso,encontramos uma diversidade bem maior do que indicam os registros de outros países”,afirma Gomes,organizador do livro Forensic entomology: new trends and technologies,coletânea de artigos que resgata as origens da entomologia forense e discute suas tendências recentes,a ser publicado este ano pela editora internacional Springer.

Atento ao clima,Gomes constatou que no verão de Rio Claro a decomposição dos corpos é acelerada e dura em média 14 dias.No inverno,com temperaturas mais amenas,o processo pode levar um mês.A diversidade e a quantidade de besouros e moscas também variaram bastante entre essas duas estações.No verão o biólogo coletou 21.231 insetos de 32 espécies distintas.Já no inverno foram 17.762 insetos de 19 espécies.“O suporte dessas informações genuinamente brasileiras é peça-chave para que a entomologia forense ajude a esclarecer crimes que acontecem no país”,afirma Gomes. Outra descoberta feita por ele pode reorientar a forma como são feitas investigações de mortes misteriosas.Sabendo que os insetos não passam todo o ciclo de vida no corpo do animal morto – após se alimentarem,as larvas se enterram no solo e passam por um processo de transformação (metamorfose) até chegarem à forma adulta –,Gomes cavou buracos de 30 centímetros de profundidade e recolheu amostras de terra até uma distância de 10 metros das carcaças dos porcos. As amostras ficaram guardadas até que os insetos emergissem na forma adulta e sua espécie fosse identificada.Com essas informações,Gomes e Von Zuben co nstruíram um modelo matemático

O PROJETO

Entomologia forense: a utilização de artrópodes para a determinação do tempo, local, causa e circunstância da morte

MODALIDADE

Projeto Temático

COORDENADOR

ARÍCIO XAVIER LINHARES - Unicamp

INVESTIMENTO

R$ 487.884,39

que mostra que as larvas mais antigas –e que primeiro se transformarão em adultos – em geral ficam a até 3 metros do corpo.“Por serem as primeiras a entrar em contato com o corpo,são as que guardam mais informação sobre o momento da morte”,explica Gomes.“É nessa área que os peritos criminais devem concentrar as investigações”,diz. Gomes também observou que por aqui a seqüência em que as diferentes espécies de insetos ocupam os corpos não são iguais às de outros países.Estudos europeus e norte-americanos falam em sete ou oito ondas de invasão,seguindo seqüências regradas.Em Rio Claro,ele mostrou que essa ordem não é tão rígida.Em tese,as primeiras a chegar são as moscas,em busca de líquidos e tecidos em estágio inicial de decomposição.Os besouros aparecem no final,quando restam apenas tecidos mais finos e menos gordurosos,como as cartilagens.“Encontr amos ao menos dois besouros, Dermestes maculatus e uma espécie não identificada do gênero P hanaeus ,que surgem pouco tempo após o óbito”,diz Gomes.Para ele,essa variação altera a compreensão sobre como se sucedem esses ciclos e deveria ser levada em conta por peritos envolvidos em investigações,pois interfere na estimativa do tempo de morte. “Ao ver os besouros,a tendência é apontar que a pessoa morreu há pelo menos cinco dias.Nossos dados mostram que esse intervalo pode ser menor”,afirma o pesquisador,que em junho deste ano começou a replicar o experimento. Dessa vez,Gomes decidiu acompanhar a decomposição dos porcos em um canavial nos arredores de Rio Claro.“É nesse ambiente que se encontram muitas vítimas de assassinato no estado de São Paulo”,justifica.Os resultados preliminares comprovam a importância de examinar ambientes diferentes numa mesma região.“A quantidade de insetos e de espécies é bem menor no canavial”,diz Gomes.Além disso,a ocorrência de espécies varia de modo bem distinto nas diferentes fases de decomposição.

Recentemente Wesley Godoy,biólogo da Unesp em Botucatu e membro da equipe de Linhares,confirmou no laboratório outro comportamento incomum entre os insetos e que pode atrapalhar a investigação de uma morte.Godoy observou que a mosca Chrysomya albiceps pode se tornar predadora de outros in-

setos quando o alimento convencional se tor na escasso.“Quando não encontra mais alimento no corpo em decomposição avançada,as larvas passam a atacar outras espécies”,diz Godoy,que descreveu esse comportamento no ano passado em artigo do Journal ofInsect Behav ior.“Como a C.albiceps passa a dominar,a diversidade e a abundância de outros insetos diminuem e o técnico pode concluir equivocadamente que a morte se deu há pouco tempo”,explica.

Em Campinas,o grupo de Linhares descobriu que os insetos podem reve lar mais do que detalhes sobre quando e onde uma morte ocorreu.Testes realizados pela bióloga Patrícia Jacqueline Thyssen mostram que eles também podem sugerir a causa de uma morte.É que,ao se alimentarem,as larvas absorvem substâncias químicas que compõem medicamentos ou drogas ilícitas, que alteraram o seu desenvolvimento.Patrícia observou que as larvas da mosca C. albiceps em geral levam 96 horas para se tornarem adultas e saírem voando. Quando se alimentam do corpo de uma pessoa que consumiu cocaína,porém, o tempo de desenvolvimento cai para entre 74 e 80 horas.“Em uma investigação, pode-se pensar que se trata de um inse-

to maduro,quando de fato é um jovem cujo desenvolvimento foi acelerado.É uma falsa pista”,explica a bióloga da Unicamp.Ela constatou ainda que o contrário também pode ocorrer.Larvas que se alimentam do corpo de alguém que consumiu fenobarbital – princípio ativo de medicamentos contra convulsões e crises epilépticas – se desenvolvem mais devagar que o normal.O fenobarbital atrasa em até 72 horas o desenvolvimento das moscas Chrysomya putoria – e,conforme a quantidade,pode até matar as larvas. Exames toxicológicos em insetos podem trazer mais informações.Patrícia conta um caso recente atendido pelo Instituto Médico Legal (IML) de Campinas. Um jove m fora encontrado morto e, mesmo depois da perícia tradicional,restavam dúvidas sobre a causa do óbito. Chamada pelo IML,Patrícia notou que algumas larvas encontradas no corpo do rapaz – em especial na região do nariz –se comportavam de modo curioso.Eram maiores que o normal e estavam mais separadas umas das outras.Os testes de laboratório mostraram que as larvas hav iam entrado em contato com cocaína – suspeita levantada por seu rápido desenvolvimento e comportamento não usual –,sugerindo que o jovem teria morrido pelo consumo excessivo da droga.

Além das drogas ilícitas,a equipe da Unicamp estuda substâncias encontradas em medicamentos que podem ajudar a identificar desaparecidos,mesmo anos depois da morte.“Quando detectamos o princípio ativo de certo medicamento em insetos enterrados próximo a uma ossada e sabemos que a pessoa desaparecida consumia aquela medicação, temos mais uma evidência que auxilia na identificação”,explica Linhares,que pretende facilitar a identificação das espécies a que pertencem as larvas,visualmente idênticas umas às outras,por meio de testes e exames de DNA.

Segundo os especialistas brasileiros em entomologia forense,a intenção agora é levar as descobertas científicas recentes para o dia-a-dia dos peritos.Na opinião de Patrícia,um primeiro passo foi dado em março,com a criação da Associação Brasileira de Entomologia Forense (Abef).“Estamos negociando uma parceria com o Instituto de Criminalística de São Paulo para auxiliar na identificação das causas de crimes misteriosos”,diz.Se der certo,poderá se repetir no Brasil uma colaboração que vem se mostrando bem-sucedida em países como a Alemanha e os Estados Unidos. ■

O poder das ninfas

Pontas rígidas serrilhadas,decoradas com finas listras vermelhas,perfuram a camada de matéria orgânica que forra o chão da floresta.São as folhas da bromélia pernambucana Cryptanthus felixii,de cujas bases espiam tubos esverdeados que terminam em delicadas pétalas brancas,chamariz para abelhas,que ao sorver o néctar ajudam na polinização.Bromélias Vriesea freicanecana se agarram à pedra nua onde morcegos transferem pólen de uma flor para outra.Só assim se formam frutos,que pendem na ponta de ramos expostos ao vento –responsável por espalhar as sementes para outros morros.Da água das chuvas que se acumula em Neoregelia silvomontana,encarapitada no alto de árvores no interior da Bahia, emergem pequenas flores brancas.Os macacos sabem que ali encontram insetos e girinos,importantes fontes de proteína.As plantas descritas acima são algumas das espécies nordestinas descobertas por José Alves Siqueira Filho,da Fundação Universidade Federal do Vale do São Francisco em Pernambuco,cujo trabalho vem mostrando o papel central das bromélias na ecologia da Mata Atlântica. Como as ninfas gregas,estão por toda a floresta e são alimento para beija-flores,morcegos e insetos,abrigo essencial para a reprodução de pererecas e outros animais e nelas germinam outras plantas.Algumas espécies de bromélia se instalam no alto de árvores e só se reproduzem com a ajuda de animais que cumprem as funções de transferir pólen para outras flores e sementes para locais onde possam germinar.Essa interdependência entre bromélias e outros habitantes da mata faz com que elas sejam peças-chave do ecossistema edenunciem os primeiros indícios de deterioração da floresta.“As bromélias servem como bioindicadores para contar a história da Mata Atlântica”,diz Siqueira Filho.Com Isabel Cristina Machado,da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE),ele mostrou que as bromélias dependem sobretudo de vertebrados para reproduzir-se e são a principal fonte de alimento para beija-flores.Dentre as 39 espécies estudadas,60% são polinizadas por aves,26% por abelhas,11% por morcegos e 3% por mariposas.Já as sementes são dispersas em grande parte por aves (40%),mamíferos (11%) e formigas (6%).Porém em muitas das áreas examinadas a dupla já não encontrou o polinizador ou dispersor necessário.A extinção localizada dos animais pode significar o princípio do fim para as bromélias que deles dependem.Esses dados estão entre os artigos originais que compõem o livro Fragmentos da Mata Atlântica no Nordeste,organizado por Siqueira Filho e Elton Leme,da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

Bromélias

são centrais no funcionamento

da Mata Atlântica nordestina e

ajudam

a delinear sua conservação | M ARIA G UIMARÃES

A redução da floresta a manchas desconexas é a mais séria ameaça à biodiversidade – em ilhas ecologicamente incompletas,plantas e animais precisam transitar entre fragmentos para sobreviver. Com isso em mente,Marcelo Tabarelli,botânico da UFPE,simulou em computador a capacidade de locomoção de animais entre trechos de floresta interligados por corredores.O estudo mostra que,ao norte do rio São Francisco,ecossistemas viáveis exigiriam a criação de entre 9 e 32 quilômetros de corredores.Além disso,o desaparecimento de vertebrados interrompe a dispersão de sementes e pode levar à extinção de 30% das árvores e arbustos da região.Tabarelli prevê uma floresta futura com menos diversidade,onde espécies que precisam de sombra serão raras e as hoje raras deixarão de existir.Siqueira Filho analisou a distribuição de bromélias em Pernambuco e Alagoas e viu que mais de 60% das espécies correm o risco de desaparecer desses estados e 41 espécies que só existem ali estão às portas da extinção total.Em alguns locais observou uma invasão por plantas da Caatinga,talvez o início de uma mudança drástica na paisagem.

Ontem e hoje - A destruição da mata tem raízes históricas que remetem ao descobrimento.Clóvis Cavalcanti,professor da UFPE especialista em aspectos socioambientais da Mata Atlântica,explica que o colonizador encontrou no Brasil uma natureza de exuberância tal que lhe parecia infinita.A mesma ótica permaneceu nos descendentes como o próprio Cavalcanti,que cresceu achando que a mata estaria sempre ali, embora a cana-de-açúcar fosse o ganhapão de sua família.O desmatamento para plantação de cana-de-açúcar se ampliou nos anos 1970,com o programa do álcool combustível.“Foi com essa iniciativa,considerada ambientalmente saudável – por evitar a queima de combustíveis fósseis,substituídos pe-

lo etanol da cana-de-açúcar –,que quase todas as últimas ilhas de floresta que cobriam os cumes dos morros da Zona da Mata de Pernambuco desapareceram por completo”,escreve Cavalcanti.Em 1990 a Mata Atlântica nordestina não chegava a 6% da área original,e entre 1989 e 2000 perdeu mais 10% da sua cobertura vegetal.

A perda da Mata Atlântica ao norte do rio São Francisco é especialmente grave,pois essa região tem particularidades que a destacam.Em estudo publicado este ano no Journal ofBiogeography,Tabarelli analisou 452 espécies de árvores da região e mostrou que a floresta pernambucana é mais aparentada à Amazônia do que à Mata Atlântica ao sul do rio São Francisco,no entanto geograficamente mais próxima.O mesmo padrão emerge do trabalho de Siqueira Filho com bromélias.

As 24 novas espécies de bromélias descritas por Siqueira Filho nos últimos dez anos são sinal do muito que resta a descobrir por ali.O mesmo se aplica à fauna.Em 2006 o macaco-prego-louro chamou a atenção para as matas nordestinas:seria a nova espécie Cebus queirozi ou a redescoberta de C.flavius,registrado pela primeira vez em 1648 e nunca mais visto desde então.Porém quase todas as espécies descritas recentemente – como a ave caburé-silvestre (Glaucidium mooreorum),em 2002 – já são descobertas ameaçadas de extinção.

Siqueira Filho teme que as plantas e os animais típicos da Mata Atlântica nordestina já estejam perdidos,mas não hesita em apontar soluções como replantar matas ciliares e estabelecer reservas em áreas de usinas.“Há oportunidades econômicas:a Europa e os Estados Unidos começam a exigir certificados de qualidade ambiental”,afirma. Seu trabalho está contribuindo para uma melhor compreensão da ecologia da Mata Atlântica,mas para ele o conhecimento científico pode – e deve – ser base para ações concretas. ■

Para todos os gostos: Hohenbergia catingae (esquerda), Neoregelia pernambucana, Cryptanthus burlemarxii e Araeococcus nigropurpureus

ARQUEOLOGIA

de Zuzu

Crânio do Piauí reforça idéia de que grupos humanos fisicamente distintos ocuparam a América do Sul há 10 mil anos

Asaga de Zuzu,um esqueleto humano de 10 mil anos de idade considerado um dos mais importantes da pré-história brasileira,pode sofrer uma reviravolta se uma nova análise de suas características morfológicas estiver correta.Anos atrás um estudo indicou que Zuzu era uma mulher – daí o apelido.Mas detalhes do crânio e da pelve sugerem que,na verdade,se trata de um homem.Mais importante: um homem com traços intrigantes.Embora tenha morrido entre os 35 e os 45 anos de idade onde hoje é o Piauí,ele se encaixaria com perfeição entre o povo que viveu há milhares de anos na região de Lagoa Santa,em Minas Gerais – uma gente com traços físicos muito distintos dos apresentados pelos índios modernos e próximos aos dos aborígenes da Austrália.

Essa análise é um dos primeiros frutos da colaboração entre o grupo coordenado pela arqueóloga Niède Guidon, da Fundação Museu do Homem Amer icano (Fumdham),sediada no Piauí, e o do bioantropólogo Walter Neves,do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (USP).Depois de vários anos com visões co nflitantes sobre como e quando os seres humanos modernos teriam chegado à América,ambos os grupos resolveram deixar de lado certa animosidade e explorar as possíveis intersecções entre suas linhas de pesquisa.

Zuzu é justamente um desses pontos em comum.Encontrado em 1997 pela equipe de Niède no rico complexo pré-histórico do Parque Nacional Serra da Capivara,o esqueleto é um dos mais antigos da América do Sul,mais velho inclusive que a grande maioria das dezenas de crânios e outros ossos humanos encontrados em Lagoa Santa.Nas últimas décadas,Neves e seus colegas têm se dedicado a mostrar que esses primeiros habitantes da América do Sul,os paleoíndios,tinham aparência física muito distinta daquela dos indígenas modernos.Com seus crânios longos e estreitos,além da mandíbula e de outros ossos da face mais projetados para a frente,os paleoíndios de Lagoa Santa lembram os atuais povos africanos ou os nativos da Austrália e da Melanésia, enquanto os indígenas modernos têm claras semelhanças com os povos origi-

nários do nordeste asiático,também conhecidos como mongolóides.

Neves e seus colaboradores já mostraram que mais de 80 crânios de Lagoa Santa,com idade entre 12 mil e 8 mil anos,enquadram-se na chamada morfologia australomelanésia.Essa gente representaria,para os pesquisadores brasileiros,a primeira leva de imigrantes a chegar às Américas.Para mostrar que a população antiga dessa região mineira não é uma mera idiossincrasia gerada pelo isolamento,crítica feita por outros especialistas em pré-história das Américas,a equipe da USP partiu para a investigação de crânios de outras partes do Brasil e das Américas.“Declaramos guerra contra quem duvidava da ocupação da América do Sul por povos com morfologia australomelanésia”, re sume Neves.“Essa estratégia de pegar amostras de vários lugares é uma forma de cercar a questão, para que não se possa mais usar o argumento de que a população de Lagoa Santa é aberrante.”

Desde então,além de um trabalho independente feito pelo antropólogo argentino Rolando González-José,que achou a mesma morfologia de Lagoa Santa entre índios mexicanos do século XVI,a equipe da USP identificou esses traços no Chile, na Colômbia,no Vale do Ribeira, interior de São Paulo,e entre os índios botocudos,que ocuparam o Brasil Central no período colonial.Faltava,no entanto,saber onde se encaixava a importante população do Piauí,cujo representante mais antigo com crânio preservado é Zuzu.

É aí que entra o convite de Niède para que Neves e seus colaboradores examinassem o crânio.A dúvida sobre o sexo de Zuzu já pairava havia algum te mpo.Embora uma análise de DNA feita em 2002 pendesse para o lado feminino,os artefatos achados com o esqueleto causavam certa dúvida.“O sepultamento incluía uma série de artefatos de pedra,entre eles duas pontas de lança”,conta Mark Hubbe,ex-aluno de Ne ves e hoje pesquisador da Universi dade Católica do Norte e do Museu Arqueológico de San Pedro de Atacama,no Chile.“Esses artefatos,teoricamente,favorecem a idéia de que seja um esqueleto de homem”,diz Hubbe,co-

autor da análise apresentada num artigo a ser publicado no American Journal ofPhysical Anthropology

Feição intrigante: paleoíndio tinha traços de aborígenes australianos

Além dos artefatos que,acredita-se, fossem de uso exclusivo masculino,uma análise antropológica anterior já havia sugerido que Zuzu poderia ser apenas um homem de ossatura pouco robusta.No trabalho atual,Hubbe e Neves rev isaram detalhes – principalmente do crânio e da pelve – que ajudam a determinar o sexo.Também compararam as semelhanças entre o crânio piauiense e o de nativos dos cinco continentes.Os resultados mostraram uma associação estreita do crânio de Zuzu com o dos paleoíndios da Colômbia e de Lagoa Santa,que apresentam traços classificados como negróides,semelhantes ao dos africanos,aborígenes australianos e nativos da ilha de Páscoa. Niède não se surpreendeu com o resultado da análise,que atribui a Zuzu traços aborígenes semelhantes ao do povo de Lagoa Santa.“Lagoa Santa não está tão longe assim do norte de Minas Gerais e do rio São Francisco. Como esses grupos viviam da caça e da coleta de alimentos, facilmente poderiam se espalhar pelo território”,diz a arqueóloga.“Com esses trabalhos,praticamente esgotamos a investigação dos esqueletos disponíveis de paleoíndios da América do Sul.Finalmente estamos progredindo em convencer a comunidade científica internacional de que dois grupos com características físicas distintas devem ter entrado no continente”,comenta Hubbe. E,do ponto de vista morfológico,o esqueleto parece realmente pertencer ao sexo masculino.

Neves elogia a disposição de seus colegas do Piauí para trabalhar em conjunto.“Niède foi extremamente aberta à cooperação”,diz Neves.Para a pesquisadora da Fumdham,ainda é preciso definir se será feita uma nova análise de DNA em Zuzu para eliminar de uma vez por todas a dúvida sobre se era homem ou mulher,informação importante para se descobrir se havia diferenças rituais no enterro de homens e mulheres.“Essa é uma discussão que está no campo dos antropólogos físicos”,comenta Niède.“Se acharem necessário, faremos a análise.” ■

Biblioteca de Revistas Científicas disponível na internet www.scielo.org

Notícias

No dia 26 de julho

ocorreu na

Bireme/OPAS/OMS a XIV Reunião do Comitê Consultivo SciELO Brasil. Na ocasião foram selecionados e avaliados periódicos para a inclusão na base SciELO. Além de selecionar e avaliar periódicos para inclusão e permanência na coleção SciELO Brasil, a reunião revisou políticas, procedimentos e critérios de avaliação.

■ Medicina

Médicos

e abortos

Foram estudados o conhecimento e a opinião de ginecologistas e obstetras acerca do aborto induzido,comparando resultados de dois inquéritos,realizados em 2003 e 2005.Foi aplicado um questionário estruturado e pré-testado enviado a todos associados à Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).Perguntou-se sobre conhecimento da legislação referente ao aborto no Brasil e opinião sobre ela.O artigo sobre a pesquisa “Variações no conhecimento e nas opiniões dos ginecologistas e obstetras brasileiros sobre o aborto legal,entre 2003 e 2005”foi escrito por Anibal Faúndes,da Universidade Estadual de Campinas,Graciana Alves Duarte e Maria José Duarte Osis,do Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas,e Jorge Andalaft Neto, da Febrasgo.Nos dois inquéritos,a porcentagem de médicos que sabiam quais as circunstâncias em que o aborto não é punido esteve acima de 80%.Porém houve redução significativa na porcentagem daqueles que conheciam a legalidade do aborto por risco de vida.Aumentou em mais de um terço a proporção dos que responderam que sabiam que o aborto por má-formação congênita grave não está dentro dos permissivos legais atuais.Cresceu consistentemente a porcentagem de médicos favoráveis à permissão do aborto em várias circunstâncias e diminuiu a proporção dos que consideravam que não deveria ser permitido em nenhuma circunstância.De modo geral,tem havido maior reflexão sobre o problema do aborto provocado no período transcorrido entre os dois inquéritos. Entretanto continua se evidenciando a necessidade de informar corretamente os gineco-obstetras brasileiros sobre as leis e normas que regulamentam a prática do aborto legal no país,visando assegurar que as mulheres que necessitam tenham,de fato,acesso a esse direito.

REVISTA BRASILEIRADE GINECOLOGIAE OBSTETRÍCIA – V 29 – Nº 4 – RIODE JANEIRO – ABR 2007 www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo139/medicina.htm

■ Produção científica

Fraudes em trabalhos

Fraudes na produção científica não são situações raras,mesmo na área da saúde.Entre elas incluem-se alguns tipos de má conduta em autoria,como o plágio e a prática de ghostwriting (escrever um artigo com o nome de outro autor) patrocinada pela indústria farmacêutica.Um outro tipo particularmente nocivo para a ciência é o comércio de trabalhos científicos,que tem crescido na internet.O texto “Escritores-fantasma e comércio de trabalhos científicos na internet:a ciência em risco”,escrito por Maria Christina Anna Grieger,em trabalho realizado na Faculdade de Medicina de Itajubá (MG),analisou o comércio de artigos e o modo como são oferecidos esses serviços na rede.Foram selecionadas 18 páginas eletrônicas nacionais que oferecem serviços de elaboração de artigos científicos,monografias, dissertações e teses.Para cada uma foi enviada mensagem solicitando informações sobre a elaboração de uma monografia de conclusão de um curso de especialização fictício.A pesquisa já havia sido realizada,de forma que suas características técnicas, éticas e bibliográficas já eram conhecidas pela autora da pesquisa.Os resultados indicaram que,das 18 empresas consultadas,dez aceitaram a encomenda e,exceto por uma delas,não se opuseram às condições impostas previamente: pesquisa de campo,aprovação por comitê de ética em pesquisa e utilização das normas de Vancouver.Seis não responderam e duas não aceitaram a encomenda alegando não ter colaboradores disponíveis.

REVISTADA ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA – V. 53 – Nº 3 – SÃO PAULO – MAIO/JUN 2007

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo139/producao.htm

EDUARDO CESAR

■ Sociologia

Carreira universitária

O presente trabalho faz um estudo da evolução da relação entre titulação e carreira institucional,entre 1992 e 2003,nas instituições de ensino superior brasileiras, usando para isso dados coletados em dois levantamentos representativos da profissão acadêmica no Brasil.Os resultados obtidos foram surpreendentes porque apontam para uma desorganização crescente da estrutura da carreira nessas instituições e um enfraquecimento na associação entre titulação e carreira.O estudo “Carreira e contexto institucional no sistema de ensino superior brasileiro”, de Elizabeth Balbachevsky,da Universidade de São Paulo,apresenta um exercício de análise multivariada para verificar quais dimensões são relevantes para explicar a ascensão do professor a diferentes degraus da carreira. O resultado corrobora a hipótese de que a carreira oferecida pelas instituições de ensino superior esteja,pouco a pouco,perdendo sua capacidade de discriminar e recompensar o desempenho acadêmico,já que o principal referencial a partir do qual ela foi construída – a titulação – tendeu,na última década,a se homogeneizar.

SOCIOLOGIAS – Nº 17 – PORTO ALEGRE – JAN./JUN.2007 www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo139/sociologia.htm

■ Saúde coletiva

Contadores de histórias

O trabalho “Contadores de histórias:práticas discursivas e violência de gênero”,de Stela Nazareth Meneghel,da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (São Leopoldo),e Lupicínio Iñiguez,da Universidad Autónoma de Barcelona (Espanha),analisa uma oficina de contadores de histórias em uma organização não-governamental de São Leopoldo (RS).A oficina foi construída em três momentos,compreendendo a narração de uma história com o foco em violência de gênero,a discussão da narrativa e a realização de pinturas corporais.O referencial usado foi o das práticas discursivas e,nas falas dos oficineiros,foram identificados pelo menos dois repertórios interpretativos:um pautado na categoria gênero e o outro no cotidiano e na rememoração das histórias de vida dos participantes.As narrativas,como ferramentas para trabalhar com mulheres em situação de violência,são pouco exploradas,sobretudo como possibilidade de intervenção em saúde coletiva.Nessa pesquisa,as histórias foram analisadas como possíveis estratégias para enfrentar as desigualdades de gênero,mostrando-se uma ferramenta analítica poderosa para avaliar ações de saúde.

CADERNOSDE SAÚDE PÚBLICA – V. 23 – Nº 8 – RIODE

JANEIRO – AGO.2007

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo139/saude.htm

■ Psicanálise

Freud e Jung

O artigo “Crônica de um fim anunciado:o debate entre Freud e Jung sobre a teoria da libido”,de Kátia Mariás Pinto, da Universidade Federal de Minas Gerais,enfoca o histórico da parceria de Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961) no trabalho com psicóticos,e as divergências anunciadas desde as primeiras correspondências trocadas por eles sobre o papel da sexualidade na vida psíquica do indivíduo.O debate com Wilhelm Fliess (1858-1928) sobre a sexualidade se constitui como o pano de fundo para todo o desenvolvimento da parceria com Jung.A hipótese central desse artigo é a de que o conceito de libido foi,certamente, um ponto crucial que definiu os rumos da psicanálise em relação à sua concepção do mecanismo causal das psicoses.

ÁGORA: ESTUDOSEM TEORIA PSICANALÍTICA – V. 10 – Nº 1 – RIODE JANEIRO – JAN./JUN.2007

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo139/psicanalise.htm

■ Urologia

Vasectomia falha

O risco de paternidade após vasectomia é raro,mas existente,segundo os médicos pesquisadores Marcos Lucon, Antonio Marmo Lucon e Miguel Srougi,da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,e Fabio Firmbach Pasqualoto,da Universidade de Caxias do Sul,autores do artigo “Paternidade após vasectomia com dois espermogramas sem espermatozóides”.Falha em atingir esterilidade após vasectomia ocorre em 0,2% a 5,3% dos pacientes devido à falha técnica ou recanalização.O objetivo desse trabalho é descrever um caso raro,mas importante,de paternidade comprovada cujo espermograma mostrava ausência de espermatozóides.Um homem de 44 anos vasectomizado,cujo espermograma evidenciou azoospermia,tornou-se pai após quatro anos da esterilização.Análise sangüínea por DNA da criança e do marido provou paternidade biológica.Vasectomia pode falhar a longo prazo até com azoospermia no espermograma.O paciente deve estar informado dessa possibilidade.

SÃO PAULO MEDICAL JOURNAL – V. 125 – Nº 2 – SÃO PAULO – MAR 2007

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo139/urologia.htm

REPRODUÇÃO

> Hidrogênio que vem do Sol

A produção de energia elétrica para os mais diversos fins por meio da injeção de hidrogênio em equipamentos chamados de células a combustível exige uma oferta constante desse gás inexistente na natureza de forma isolada.Uma alternativa renovável para esse fim foi desenvolvida pela empresa suíça Clean Hydrogen Producers (CHP) e já está licenciada para a espanhola Ibereólica. Trata-se da extração de hidrogênio por meio de um forno aquecido com os raios do Sol.O sistema possui uma superfície de espelhos de 93 metros quadrados.Eles concentram a luz solar e produzem calor para a quebra das moléculas da água em hidrogênio e oxigênio. A estimativa da empresa é processar,em um pouco mais de seis horas de sol, 95 litros de água e produzir 10,4 quilos de hidrogênio por dia.Esse gás é levado

para células a combustível que possuem uma eficiência energética de 64%,índice maior do que o de células solares. Um sistema semelhante é o Hydrosol,projeto coordenado pelo pesquisador Anthanasios Konstandopoulos,do Instituto de Pesquisa em Engenharia Química, da Grécia,e ganhador do Prêmio Descartes 2006 da Comunidade Européia. Nesse caso,a eficiência energética anunciada é de 70%.Ele se baseia também em espelhos que captam a energia dos raios do Sol e, nesse caso,aquecem um reator com corpo de cerâmica com canais internos cobertos com nanomateriais que quebram as moléculas do vapor d’água.

> Uma supernanobateria

Uma minúscula bateria, que facilmente pode ser confundida com um pedacinho de papel preto dobrado,foi desenvolvida por um grupo de pesquisadores do Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos. O dispositivo é ultrafino, extremamente leve, completamente flexível e poderá,no futuro,ser usado na fabricação de uma série de microequipamentos que necessitam de energia para funcionar,como implantes médicos em miniatura. Além de ser capaz de operar a temperaturas extremas, entre -70°C e 150°C,ele é completamente integrado e pode ser impresso como

um papel.O nanocompósito também é peculiar porque funciona como uma bateria para armazenar energia e como um supercapacitor, dispositivo que acumula energia e a libera de forma quase instantânea –na maioria dos aparelhos eletrônicos esses dois componentes são separados. Outra característica interessante do invento é que

ele pode usar sangue,urina ou suor humano como fonte de energia.A semelhança com o papel,no entanto,não é coincidência:mais de 90% da matéria-prima usada para produzi-lo é de celulose. A cor preta é resultado do uso de nanotubos de carbono em sua estrutura. São esses nanotubos que, ao agir como eletrodos, permitem que o dispositivo conduza energia.

> Implantes em miniatura

Dois dispositivos biomédicos criados por cientistas da Universidade Purdue,nos Estados Unidos,prometem melhorar a vida de quem sofre de epilepsia e glaucoma.Um dos sistemas é um transmissor miniaturizado,apenas três vezes mais espesso do que um fio de cabelo,capaz de detectar,previamente,sinais de uma crise epiléptica. O aparelho,a ser implantado debaixo do couro cabeludo, grava continuamente sinais da atividade neural do paciente graças a eletrodos implantados em vários pontos do cérebro e ligados a ele por fios.As informações são repassadas a um dispositivo externo.Para

o professor de engenharia biomédica Pedro Irazoqui, a diferença do aparelho para outros similares já em testes em outras instituições é que os demais gravam dados neurais de somente oito diferentes pontos do cérebro, enquanto o sistema que ele criou capta informação de mil locais diferentes.Com isso,fica mais fácil prever um ataque epiléptico.O outro aparelho é um nanossensor a ser implantado no olho de pacientes com glaucoma para monitorar a pressão intra-ocular.Assim como o dispositivo para controle da epilepsia,este também mede

continuamente a pressão do olho e transmite os dados para um aparelho externo. Ambas as tecnologias devem entrar em testes clínicos com seres humanos dentro de,no máximo,dois anos.

> Chips resfriados

Uma nova tecnologia, chamada de motor de vento iônico,mostrou em testes ter potencial de aumentar em até 250% a taxa de resfriamento dos chips,de acordo com os pesquisadores da Universidade Purdue,

Estados Unidos,que desenvolveram o dispositivo experimental com financiamento da empresa Intel.O equipamento, parecido com um ventilador minúsculo e construído sobre a superfície de um chip,consiste de um ânodo – um fio com carga positiva – e vários cátodos carregados negativamente. O ânodo foi colocado cerca de 10 milímetros acima dos cátodos.Quando a corrente elétrica passa pelo dispositivo, os cátodos descarregam elétrons no ânodo.Ao colidir com as moléculas de ar, esses elétrons produzem íons com carga positiva,que são atraídos de volta pelos cátodos,criando um vento iônico que aumenta o fluxo de ar na superfície do chip, fazendo com que ele se resfrie mais rapidamente. Os resfriadores tradicionais são limitados pelo fato de que as moléculas de ar mais próximas da superfície ficam imóveis,enquanto as que se encontram mais distantes se movem mais rapidamente. Isso constitui um obstáculo ao resfriamento da superfície quente do chip.O próximo passo na pesquisa é miniaturizar ainda mais os ventiladores iônicos para que eles possam ser usados em chips comerciais.

> Falsificação identificada

Técnica desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) consegue identificar com precisão,em cerca de um minuto,adulteração em produtos como perfumes, vinhos,óleos,combustíveis e medicamentos.Uma das vantagens em comparação com os métodos convencionais é que ela dispensa a etapa de preparação de amostras, o que demanda tempo. Em alguns casos essa fase pode demorar de três a quatro horas.Um equipamento,chamado spray sônico de ionização,é utilizado para retirar algumas partículas das amostras,que são então analisadas pelo espectrômetro de massas do laboratório do Instituto de Química da Unicamp. “É possível saber exatamente a massa molecular correspondente a cada

Microscopia premiada

Uma imagem que mostra a superfície das células vermelhas do sangue depois do tratamento com peptídeos (pequenas proteínas) com características antibióticas – no caso uma nova molécula encontrada na pele de um anfíbio – ficou com o segundo lugar na primeira edição do Prêmio Internacional de Imagens de Microscopia de Força Atômica, promovido pelo Conselho Superior de Pesquisas Científicas e pela Universidade Autônoma de Madri, Espanha. A imagem é de autoria do pesquisador Luciano Paulino da Silva, do Laboratório de Espectrometria de Massa da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, de Brasília, uma das 41 unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. O primeiro lugar ficou com

Andreas Fuhrer, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), na Suíça. A brasileira foi a única premiada fora do continente europeu, entre as mais de 250 inscritas. “A imagem faz parte de um projeto em que procuramos avaliar os efeitos dos peptídeos sobre diversos tipos de membranas celulares”, diz Luciano. “Alguns são ativos somente contra fungos, bactérias e protozoários, outros exercem seus efeitos também sobre células humanas.” A microscopia de força atômica ressalta características topográficas da superfície de materiais, sejam eles biológicos ou não. Os efeitos do antibiótico nas células vermelhas do sangue aparecem nas protuberâncias de cor vermelho-amarelada.

Efeito de antibiótico em células vermelhas do sangue

composto analisado e, dessa forma,identificar com clareza as substâncias contidas nos produtos analisados”,diz Rodrigo Catharino,vinculado ao grupo coordenado pelo professor Marcos Nogueira Eberlin,que tem como pesquisadores Regina Sparrapan e Renato Haddad, responsável pelo

desenvolvimento do novo método.Em algumas amostras de perfumes falsificados os pesquisadores encontraram até condicionador de cabelo no lugar de óleos essenciais e matérias-primas nobres. A técnica,que está em fase de depósito de patente,foi validada com medicamentos. Foram analisados nove tipos

diferentes,entre eles antiinflamatórios e anticancerígenos.

> Furos precisos com laser

Um equipamento adaptado, composto por uma máquina fresadora integrada a um laser,resultou em maior

precisão nos furos micrométricos feitos em bicos injetores para veículos movidos a diesel,em soldas finas e em peças utilizadas pelo setor médico e eletrônico.“A principal inovação nesse equipamento é que substituímos o eixoárvore tradicional,onde ficam fixadas as ferramentas como brocas e fresas utilizadas nos processos de usinagem,por uma plataforma onde apoiamos o laser”,diz o físico Spero Morato, sócio da LaserTools, empresa que se originou no Centro de Lasers e Aplicações do Instituto de Pesquisas

Energéticas e Nucleares (Ipen),em São Paulo, apoiada pelo Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe). O laser utilizado nesse caso é chamado de estado sólido de neomídio Nd:YAG pulsado,ou seja,emite pulsos que podem ser ajustados. O Nd é um elemento químico conhecido como terra-rara e o YAG é um cristal sintético

feito com óxido de ítrio e alumínio.“A operação no modo pulsado do laser permite o controle exato do diâmetro do feixe no ponto focal”,diz Morato.O laser foi integrado ao sistema de modelagem CAD-CAM de uma fresadora comercial especialmente projetada e desenvolvida pela Indústrias Romi.A empresa também colocou réguas ópticas no equipamento,que aumentam a precisão da máquina.

> Linguagem de sucesso

A linguagem de programação Lua,criada pelos professores Roberto Ierusalimschy e Waldemar Celes,da Pontifícia Universidade

Católica do Rio de Janeiro, em parceria com o pesquisador Luiz Henrique de Figueiredo,do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada,tem 90% de seus usuários no exterior. O software livre de código aberto criado em 1993 está presente em vários tipos de aplicações industriais nas áreas de robótica,logística, bioinformática,programação web,processamento de imagem,entre outras. No Brasil,a linguagem dá suporte aos estudos de modelagem ambiental,como as projeções da evolução do desmatamento na Amazônia, feitos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A Lua foi uma das 12 linguagens selecionadas para participar,em junho,da terceira edição da conferência sobre a história das linguagens de programação, HOPL III,em San Diego,na Califórnia,Estados Unidos.

Bandeja reduz danos ao fruto

> Figo protegido no transporte

Uma cesta plástica com compartimentos individuais para proteger o figo-roxo durante a colheita e o transporte,desenvolvida

em parceria entre a Embrapa Instrumentação Agropecuária,unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), será fabricada e vendida pela empresa NSF,de São Carlos, no interior paulista.Para criar a bandeja que acomoda 40 figos,os pesquisadores recorreram à ressonância magnética para avaliar os danos internos causados pelo empilhamento na cesta convencional de bambu. Testes em campo mostraram redução de 20% nas perdas com a nova cesta.

Diagnóstico rápido

Após 11 anos foi concluído o desenvolvimento de um teste para diagnóstico da leptospirose que necessita de apenas uma gota de sangue para mostrar em 15 minutos o resultado. O estudo foi feito no Centro de Pesquisa Gonçalo Muniz, unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)na Bahia. A rapidez da resposta em comparação com o tempo de espera de até duas semanas dos testes atuais deve-se à iden-

tificação de um componente da bactéria Leptospira interrogans, agente causador da doença, chamada de proteína lig, que induz a produção de anticorpos na fase inicial da infecção. Uma gota de sangue em contato com uma fita é suficiente para o diagnóstico. Se o paciente estiver contaminado pela bactéria, anticorpos vão reagir com a proteína e o visor do aparelho ficará com a cor rosa.

EDUARDO CÉSAR
Cor rosa no visor indica leptospirose
Soldas finas nas fresadoras
EMBRAPA FIOCRUZ

Semáforo inovador: lente especial distribui e emite efeito luminoso dos LEDs

A revolução dos LEDs

Pesquisadores de São Carlos desenvolvem equipamentos com diodos emissores de luz

Uma nova concepção de semáforo de trânsito, com design inovador, mais leve e compacto, que possui, no lugar das tradicionais lâmpadas incandescentes, diodos emissores de luz de alto brilho como fonte luminosa, os chamados LEDs, foi criada por pesquisadores do Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica de São Carlos (Cepof) da Universidade de São Paulo (USP). O novo equipamento tem um formato plano, com espessura menor que 2 centímetros e de fácil instalação. Outras vantagens estão no baixo consumo de energia, 15% inferior ao dos aparelhos tradicionais, e no fato de permanecer funcionando mesmo se houver falta de energia na região onde está o semáforo. Isso acontece porque ele opera acoplado a um jogo de baterias compactas que lhe confere autonomia de uma hora e meia em caso de blecaute.

Retrofit substitui lâmpadas dos semáforos tradicionais e reduz custo de manutenção

“É uma tecnologia mais barata do que a convencional,econômica em termos de consumo energético e de baixo custo de manutenção”,afirma o professor do Instituto de Física da USP,em São Carlos,Vanderlei Salvador Bagnato,coordenador do Cepof.O semáforo usa quatro emissores LEDs e um desenho que aproveita toda a refração da luz.“Já registramos uma patente do equipamento completo e,até onde sabemos,nenhum outro grupo no Brasil ou no exterior está fabricando semáforos como o nosso.”

Batizado de blackout,em referência ao fato de não apagar quando falta energia,o aparelho utiliza quatro LEDs,da sigla em inglês de light emitting diode,de alto brilho em cada refletor (vermelho, amarelo e verde).Uma lente plástica com um desenho óptico especial distribui a luz e emite o efeito luminoso desejado.

Segundo Bagnato,uma das maioresvantagens da nova tecnologia é a segurança que trará ao sistema viário das cidades.“Ela irá reduzir muito a probabilidade de acidentes e transtornos no trânsito provocados por pequenos apagões,principalmente nas grandes cidades,como São Paulo,onde o fluxo de veículos é intenso”,afirma.O produto está em fase final de acabamento e o grupo da USP já faz contatos com empresas que atuam no setor de sinaliza-

ção de trânsito para negociar o repasse da tecnologia.

O semáforo blackout é apenas uma das aplicações da equipe comandada por Bagnato baseada na tecnologia de LEDs.O grupo,formado por 70 pesquisadores fixos e outros 50 colaboradores ou associados,vem pesquisando e desenvolvendo,nos últimos anos, uma série de outros equipamentos que empregam essa fonte luminosa,descoberta na década de 1960 (leia quadro na página 73).“O processo de produção de luz nos LEDs é muito mais eficiente que nas lâmpadas comuns e até

80% da energia elétrica empregada é convertida em energia luminosa.Isso representa uma inversão na eficiência de produção de luz,porque a taxa de conversão das lâmpadas incandescentes é de apenas 20%”,explica Bagnato. “Há muito tempo os LEDs deixaram de ser simplesmente aquelas pequenas luzinhas indicadoras dos painéis de aparelhos de som,normalmente vermelhas ou verdes,e outros equipamentos eletrônicos para ser uma fonte efetiva de iluminação.”

Substituição vantajosa – Outro aplicativo no setor de sinalização viária desenvolvido no Cepofde São Carlos,um dos 11 Centros de Pesquisa,Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP, é um sistema chamado retrofit,que usa seis ou sete LEDs e foi criado para substituir apenas as lâmpadas incandescentes utilizadas nos semáforos tradicionais.Ao contrário do semáforo blackout,em que os LEDs estão integrados às lentes refletoras,o retrofit tem formato parecido ao de uma lâmpada comum e conta com um soquete rosqueável,o que permite a fácil substituição das luzes convencionais.A tecnologia foi repassada para a empresa Meng Engenharia,de São Paulo,e está à venda desde novembro de 2005.“Já comercializamos cerca de 15 mil lâmpadas,que foram instaladas em semáforos de São Paulo e de Guarulhos”,diz Alberto Monteiro,dono da Meng.A empresa é especializada na fabricação de dispositivos para o setor de sinalização rodoviária,urbana e industrial.

Programa de inovação tecnológica do Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica de São Carlos (Cepof)

MODALIDADE

Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid)

COORDENADOR

VANDERLEI SALVADOR BAGNATO – USP

INVESTIMENTO

R$ 200.000,00 por ano (FAPESP) O PROJETO

“A utilização da lâmpada à base de LED em semáforos traz uma série de vantagens,porque ela é mais econômica,segura e eficaz,além de iluminar melhor.Sem falar que o retrofit tem uma grande vida útil,reduzindo o custo de manutenção dos semáforos em até 80% e a freqüência da troca de lâmpadas. Nos aparelhos convencionais as trocas ocorrem em cerca de quatro vezes ao ano,para verde e vermelho que ficam mais acesas,e duas vezes no amarelo.O custo delas varia de R$ 4 a R$ 8,totalizando cerca de R$ 60 anuais fora os gastos com manutenção e troca.Com o retrofit,basta uma visita anual apenas para inspeção porque cada um dura de três a cinco anos”,destaca Monteiro.Cada retrofit custa cerca de R$ 500,o que

daria no total R$ 1.500,00,que,divididos por quatro anos (como média), dariam R$ 375 por ano.“Com a redução das visitas ao semáforo e do custo de manutenção,a instalação dos LEDs dá retorno em cerca de um ano e meio”, diz Monteiro.

A eficiência luminosa e a longa durabilidade,de mais de 50 mil horas – 50 vezes maior do que as lâmpadas convencionais –,são dois importantes diferenciais dos LEDs,que apresentam ainda uma vantagem comparativa:o baixo impacto ambiental de seu processo produtivo.As lâmpadas fluorescentes,sempre lembradas como uma alternativa mais econômica do que as incandescentes,utilizam mercúrio em sua composição,substância altamente tóxica.“Esses fatores têm levado a um crescimento explosivo nas pesquisas nos últimos cinco anos e várias empresas estão lançando mais e mais LEDs de alto brilho e produtos baseados neles com as mais variadas combinações”,ressalta o físico Henrique de Carvalho,integrante da equipe do Cepof.

Uma área fortemente beneficiada com o desenvolvimento da tecnologia LED é a iluminação residencial e urbana.Luminárias para vias públicas feitas com diodos emissores de luz e projetadas no Cepofjá se encontram em testes em São Paulo.Em Nova York,um exemplo pode ser visto na gigantesca tela do Nasdaq Marketsite Tower,na Times Square,a praça central da cidade, que utiliza 18,6 milhões de LEDs para decoração da fachada do prédio e indicação da cotação das ações negociadas

LEDs auxiliares para iluminação de salas cirúrgicas

na bolsa de tecnologia norte-americana.Segundo os pesquisadores da USP de São Carlos,no âmbito residencial, é possível substituir toda a iluminação por LEDs,tanto da área interna quanto externa,sem perder intensidade,melhorando a qualidade da iluminação e reduzindo o consumo energético.

Luzes de emergência,dessas que são ativadas quando falta energia,também são uma aplicação promissora para os LEDs.Em parceria com o Cepof,a empresa Direct Light,de São Carlos,formada por ex-pesquisadores do centro, desenvolveu dois modelos de luzes au-

Refletor odontológico desenvolvido com a empresa Gnatus

xiliares de emergência com a tecnologia LED.“O primeiro lote,de 25 unidades,foi comprado pelo próprio Cepof, que o instalou em seus laboratórios. O segundo,com cem lâmpadas,deverá ser colocado à venda em setembro”,diz o engenheiro elétrico Alexandre Oliveira, um dos sete sócios da Direct Light, fundada há apenas um ano.

A lâmpada usa somente um LED de 3 watts de potência e tem autonomia de uma hora com 70% de intensidade luminosa.“Além de serem mais compactas,nossas lâmpadas utilizam uma bateria recarregável de níquel-metal-hidreto,que dura pelo menos duas vezes mais do que as baterias seladas à base de chumbo ácido usadas nas luzes de emergência encontradas no mercado”,explica Oliveira.O produto custa cerca de R$ 90,preço equivalente ao de uma luz de emergência de qualidade dos concorrentes.O preço ainda é alto mas a tendência é cair com uma produção maior.

Consultório do dentista – A tecnologia LED também tem sido empregada no desenvolvimento de vários produtos destinados à área médico-odontológica como,por exemplo,iluminadores bucais para consultórios dentários. Um segmento que também está no foco do Cepof.Segundo Bagnato,o dis-

LEDs que variam de cor iluminam mesa que serve para estudo de microorganismos

positivo,criado por sua equipe em parceria com a empresa Gnatus,fabricante de equipamentos médico-odontológicos com sede em São Carlos,permite aos dentistas enxergar as cores de dentes e gengivas com mais nitidez e definição.Isso porque as lâmpadas halógenas normalmente utilizadas nos refletores odontológicos têm uma tonalidade mais amarelada,dificultando a perfeita visualização.

O engenheiro mecânico Carlos Banhos,gerente de engenharia da Gnatus, aponta outros diferenciais do aparelho, que está sendo lançado no país neste mês de setembro.“Como a luz emitida pelo LED é fria,ela não emite calor e evita desconforto para o paciente.Além disso,o novo refletor permitirá uma redução do consumo de energia de 90% comparado aos dispositivos tradicionais”,informa.A Gnatus aposta alto no equipamento,que será apresentado,durante o segundo semestre deste ano,em diversos congressos odontológicos internacionais em países como México,Estados Unidos,Itália e Rússia.“Temos a expectativa de vender o produto,batizado de Refletor Gnatus LED,para clientes no exterior.Nossos produtos já são exportados para 140

países”,diz Banhos.O aparelho é cerca de 10% a 20% mais caro do que dispositivos convencionais que usam lâmpadas halógenas.

Outro equipamento nascido nos laboratórios do Cepofe que já ganhou o mercado é o PDT LED,um aparelho que emprega a tecnologia de diodos emissores de luz para a técnica de terapia fotodinâmica,o PDT,na sigla em inglês,em pacientes com câncer de pele, recorrência cutânea de câncer de mama e outras lesões superficiais (leia em Pesquisa FAPESP nº 74).

Fabricado pela MM Optics,outra empresa gerada (spin-off) no Cepof,o PDT LED é uma alternativa aos dispositivos que usam laser para o mesmo tipo de tratamento.“Com a diferença de ser quatro vezes mais barato.Enquanto um aparelho a laser custa cerca de US$ 40 mil,o nosso sai por R$ 20 mil”,diz o engenheiro mecânico Fernando Ribeiro,um dos sócios da empresa.Desde que foi colocado à venda no primeiro semestre do ano passado, a MM Optics já vendeu 20 aparelhos para terapia fotodinâmica.

O equipamento tem um conjunto de 21 LEDs com potência total de 3 watts num comprimento de onda de

630 nanômetros.A luz emitida reage com as drogas sensibilizadoras,aplicadas no paciente,que ficam concentradas nas células tumorais.A reação causa a morte do tumor.“A robustez do aparelho resulta em baixa necessidade de manutenção,tornando-se mais um diferencial do nosso produto.Sem dizer que o LED,por emitir uma luz menos concentrada,consegue tratar uma área maior da pele do paciente,ao passo que o laser tem um alcance mais pontual”,explica Ribeiro.“Esse é o primeiro e único dispositivo com tecnologia LED feito no país destinado à terapia fotodinâmica.”

O sucesso do equipamento fez com que Bagnato e sua equipe desenvolvessem uma nova versão do dispositivo. Trata-se de um kit com três dispositivos para tratar não apenas pacientes portadores de câncer de pele,mas também de psoríase,uma doença que causa descamamento da pele,de papilomavírus humano (HPV) genital ou anal,que são verrugas visíveis ou microscópicas,e câncer de boca.Esse projeto conta com a parceria da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto,do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo,do Hospital Amaral Carvalho,em Jaú,do laboratório farmacêutico ESM-Sigma-Pharma,de Hortolândia,entre outros.

“A novidade do projeto é oferecer um kit que trate várias enfermidades ao mesmo tempo.Estamos perto do desenho final,comercializável,dos dispositivos.”Os pesquisadores do Cepofestão tão entusiasmados com o kit que já fizeram um pedido de financiamento ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para concluir o projeto de criação de cem centros de tratamento em todo o Brasil utilizando o kit”, afirma Bagnato.De acordo com o pesquisador,três empresas, entre elas MM Optics e Direct Light, já estudam a produção do kit.

Microscópio colorido – Para a área científica,os pesquisadores do Cepofcriaram dois aparelhos inovadores à base de LEDs.Um deles é uma mesa iluminada para estudos de fotobiologia,chamada de biotable.Seu funcionamento é simples:o cientista coloca microorganismos sobre uma placa de plástico transparente posicionada em cima da

mesa e verifica como eles reagem à aplicação de luzes de diferentes cores instaladas dentro da mesa.O aparelho,ainda um protótipo,está sendo testado por várias instituições de ensino,como as faculdades de Odontologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara,da USP de Ribeirão Preto e de Bauru,e o curso de Bioquímica da USP de São Carlos.

O outro aparelho é um microscópio óptico iluminado com LEDs.“É uma tecnologia própria,que usa três LEDs:azul,vermelho e verde.Ao combinar a intensidade de luz,o pesquisador consegue realçar algumas estruturas morfológicas do microorganismo que está sendo estudado.Isso seria imp ossível fazer num microscópio óptico tradicional”,explica o coordenador do Cepof.A tecnologia,conhecida como microscopia por contraste cromático, ainda está em fase de testes e já tem uma patente registrada.

“Todos os desenvolvimentos feitos pelo nosso grupo revelam o enorme potencial aplicativo dos diodos emissores de luz.Das cerca de 40 patentes originadas dentro do Cepof,pelo menos 15 já se transformaram em produtos finais e,dessas,metade são dispositivo s à base de LEDs”,afirma Bagnato. “Depois da invenção da lâmpada elétrica e do laser,acreditamos que o LED representa a terceira revolução no campo da óptica.” ■

Uma história luminosa

O primeiro diodo emissor de luz ou LED (sigla em inglês de light emitting diode) foi criado pelo cientista norte-americano Nick Holonyak Jr., em 1962, quando ele trabalhava em um laboratório da General Electric em Syracuse, no estado de Nova York. O interesse no uso desses novos dispositivos para fins de iluminação, entretanto, surgiu apenas na década de 1990, quando um grupo de pesquisadores da Hewlett Packard, também nos Estados Unidos, desenvolveu o primeiro LED de alto brilho. “Logo em seguida, pesquisadores da empresa japonesa Nichia chegaram ao primeiro LED azul de alto brilho que abriu caminho para os LEDs de luz branca”, diz o físico Henrique de Carvalho, do Cepof de São Carlos. “Hoje os LEDs varrem todo o espectro eletromagnético, do ultravioleta ao infravermelho.”

O LED é um emissor de luz com um princípio diferente do das lâmpadas incandescentes ou

fluorescentes. “É um dispositivo semicondutor que, com a passagem de corrente elétrica, emite luz visível por meio de um processo conhecido como eletroluminescência, com cerca de 80% da potência aplicada nele, dependendo do comprimentode onda do emissor”, diz Carvalho. Um dos diferenciais do LED é que, ao contrário das lâmpadas comuns, ele pode produzir luz que muda de cor, intensidade e distribuição. Além dos LEDs, pesquisadores em institutos de pesquisa e em empresas estão aprimorando os diodos emissores de luz à base de substâncias orgânicas, como polímeros compostos com moléculas de carbono em vez de semicondutores inorgânicos feitos de silício e gálio. Batizados de diodos orgânicos emissores de luz (OLEDs), podem ser produzidos com materiais maleáveis e transparentes. Já são usados em celulares e tocadores de MP3 e os primeiros protótipos de telas para TV estão em fase detestes.

Aparelho substitui o laser em terapia fotodinâmica para tratamento de câncer de pele

Experimentos na rede

A internet do futuro é objeto de estudo de pesquisadores

No início dos anos 1980 era difícil imaginar a internet que temos hoje.São e-mails, uma infinidade de sites e,mais recentemente,o aparecimento e a proliferação de blogs.Pensar agora como será a internet do futuro,dentro de 15 ou20 anos,não é das tarefas mais fáceis.Certamente,a maior utilização de fibras ópticas para interligar a rede com maior velocidade de transmissão,via laser,é um caminho que vai moldar a nova rede.Esse aspecto e outros usos da rede no futuro,da mesma forma como nos anos 1970

até o final dos anos 1980, quando foi criada no âmbito e para uso científico,estão sendo fomentados por pesquisadores de instituições tecnológicas e científicas do mundo. A internet continua um labor atório para pesquisas,em testes de novos equipamentos para fibras ópticas,na movimentação de robôs e no estudo de objetos a distância ou ainda em novas formas de conteúdo e ensino.

No Br asil,grande parte desses anseios está no Programa Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada (Tidia) financiado pela FAPESP que já reúne,depois de quatro anos, quase 600 pesquisadores de

institutos de pesquisa do estado de São Paulo,principalmente entre alunos e professores.O programa,que recebe R$ 7,5 milhões por ano da fundação,possui três vertentespr incipais.Uma é a KyaTera (www.kyatera.fapesp.br), que provê o Tidia (www.tidia. fapesp.br) com uma rede de fibras ópticas e sustenta experimentos variados.Os outros dois são uma incubadora virtual (www.incubadora. fapesp.br),que já reúne 325 por tais,com temáticas também variadas em que os próprios geradores de conteúdo fazem suas páginas sem necessidade de webdesigner e webmaster para controle das açõesna grande rede.

“O Tidia permite aos pesquisadores pensar a internet do futuro.Nós fornecemos a infra-estrutura para que eles possam desenvolver novas tecnologias”,diz o físico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Luis Fernandez Lopez, coordenador do programa.“É um dos raros programas no mundo que usa a rede para fazer projetos experimentais. Nós,do Tidia,começamos a fazer isso em 2003”,diz Lopez.

“Nos Estados Unidos já há quem fale que a rede está confusa e precisa parar e ser repensada.Lá,uma das iniciativas nesse sentido é o financiamento da Fundação Nacional de Ciência,NSF na sigla em in-

g lês,para o Global Environment for Network Innovations (Geni no site www.geni.net), um projeto que é uma plataforma de pesquisa para explorar a internet do futuro. Eles querem saber como as pessoas vêem a rede,quais os ideais e os limites reais.”O Geni foi lançado como idéia em 2005 e passa atualmente pela finalização do projeto,que vai incluir uma rede física de fibras ópticas,servidores e redes sem fio regionais,além de um sistema de softwares com o objetivo de servir milhares de experimentos e criar,segundo seus criadores,a internet do século XXI.Os projetos estarão abertos à comunidade acadêmica norte-americana e a

empresas,especialmente as de pequeno porte com capacidade de pesquisa tecnológica.

Enquanto novidades mais radicais estão sendo elaboradas,há muito o que fazer na internet clássica de hoje.“Ainda é preciso acelerar os processos de inclusão e ter um maior número de pessoas conectadas à rede”,diz Demi Getschko,diretor presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto br (www.nic.br),órgão que implementa as decisões do Comitê Gestor da Internet no Brasil.Para ele,os sistemas de uso da rede caminham para uma não percepção da internet. “Cada vez mais vamos en-

xergar os serviços da rede,como sites e e-mails,e menos a infra-estrutura ou a própria rede.Isso já acontece com a telefonia,em que não é preciso mais acessar o computador para falar via TCP/IP (siglas em inglês de Protocolo de Controle de Transmissão e Protocolo Internet).Amanhã poderá ser a TV digital via IP.”

Com base nas tendências atuais,Getschko também acredita em mudanças de modelos econômicos propiciadas pela internet,como a diminuição da intermediação,principalmente no meio cultural. Com a expansão da rede muitos meios físicos como CDs e DVD, gravados com músicas e filmes tendem a desapare-

M ARCOSDE O LIVEIRA

cer. “Além de o transporte dessas informações passar a ser,de forma majoritária,via rede,o que deve mudar também é a maneira de remunerar por esse tipo de trabalho de produção intelectual.Mas de qualquer forma não será simples remunerar os autores em uma troca entre indivíduos por e-mail de uma música ou filme porque os pacotes de dados (forma digital e eletrônica de enviar material pela rede) parecem todos iguais e não há como identificar e cobrar por isso.”

A ampliação da rede,para Getschko, também inclui um maior aproveitamento das fibras ópticas.“Acho que a espinha dorsal será toda de fibra,difundindo-se o acesso local ao usuário (a fibra chegando à porta de todos) com sistemas sem

fio.Com maior banda é possível testar aplicações mais complexas como o Tidia faz,que não é repetir o que existe,mas sim caminhar na evolução.O protocolo TCP/IP está se mostrando resistente para esses experimentos mesmo em velocidades altíssimas,como tem demonstrado a Internet 2”,diz Getschko.A Internet 2 é uma rede composta por 200 universidades e institutos de pesquisa norte-americanos.Em 1996 ela começou a interligar todas essas unidades com redes de alta velocidade em fibras ópticas. Não confundir com Web 2.0,que são tendências e ações na forma de interatividade na grande rede como YouTube ou a enciclopédia Wikipedia,em que o internauta também pode participar.

Big Brother Bee: comportamento de abelhas nativas poderá ser estudado a distância, via internet, por vários grupos de pesquisadores ao mesmo tempo

Para o suporte ao Tidia,a rede KyaTera finalizou em agosto a sua plataforma de cabos de fibra óptica exclusiva, interligando as universidades e institutos de pesquisa paulistas.Até o final do ano,com a instalação de equipamentos, ela deverá estar totalmente ligada,unindo instituições de cidades como São Paulo,São Carlos,Campinas,São José dos Campos,Ribeirão Preto e Santos. Em abril deste ano,um acordo da FAPESP com a empresa Telefônica,detentora de grande parte da rede de telefonia do estado,permitiu que mais 3.300 quilômetros de fibra fossem incorporados aos 1.050 próprios da KyaTera,por um período de três anos.Os pesquisadores já conectados ou que vão entrar na rede terão fibras chegando no próprio laboratório com velocidades de até 10 gigabits por segundo (Gb/s),uma tr ansmissão alguns milhares de vezes maior que a mais rápida interconexão via banda larga comercial,em torno de 8 megabits por segundo (Mb/s).

Aestrutura de fibras ópticas vai permitir uma série de experimentos como o que será realizado pelo grupo do professor Hugo Fragnito,do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).“Poderemos testar em campo,em uma rede real,o nosso amplificador Fopa (fiber optic parametric amplifier, ou amplificador paramétrico de fibra óptica).O teste vai fazer com que a luz viaje pela fibra e sofra oscilações,temperaturas diferentes e vibrações mecânicas”,diz Fragnito,que é também o coordenador do KyaTera e do Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof) de Campinas,também financiado pela FAPESP.O Fopa é uma evolução dos amplificadores atuais instalados ao longo das fibras ópticas,em distâncias de 20 a 100 quilômetros,principalmente entre cidades e nas conexões internacionais,que recuperam a onda luminosa ao longo da transmissão.Se os

testes forem positivos,será possível aumentar em centenas de vezes a velocidade de transmissão de dados e voz em redes de longa distância.O Fopa está em desenvolvimento desde 2000 (leia em Pesquisa FAPESP nº 81) e agora o projeto conta com pesquisadores da Universidade Stanford e Universidade Cornell,ambas dos Estados Unidos.

O novo amplificador poderá evitar um congestionamento da internet previsto para 2015 ou 2016,principalmente entre países e cidades,com a tecnologia de hoje.“Também vamos testar outros dispositivos para essas redes,de tamanho menor que as atuais,como filtros, módulos etc.Com a necessidade de mais fibras e mais lasers em uma mesma fibra é preciso reduzir o tamanho dos equipamentos e o consumo elétrico.”Para Fragnito,ninguém sabe ao certo as aplicações que vão ser necessárias na rede dentro de dez anos.“O que sabemos é que será preciso passar,de forma rápida,filmes com a maior resolução possível. Também vai acontecer a maior disseminação do telefone pela internet,além de telefonia com imagem.”Os testes que Fragnito vai fazer envolvem velocidades de até 320 Gb/s em um conjunto de fibras.Normalmente,pesquisadores usam velocidades de 1 Gb/sa 10 Gb/s em experimentos,por exemplo,de WebLabs,que são projetos realizados em laboratórios reais e controlados por meio da internet, desenvolvidos por grupos do KyaTera.

Um dos experimentos mais fáceis de admirar é o WebLab,que trata de observar o comportamento de abelhas nativas sem ferrão a distância por meio da internet.Uma câmera instalada numa colônia montada no prédio do Instituto de Biociências (IB) da USP,na capital paulista, vai permitir que vários grupos de pesquisa possam,ao mesmo tempo,estudar esses insetos e também proporcionar material para educação a distância.“Será um vídeo em tempo real que poderá ser visualizado de imediato pela internet ou gravado para estudo posterior”,diz o professor Antônio Saraiva,do Laboratório de Automação Agrícola da Escola Politécnica da USP que está montando o WebLab junto com pesquisadores do IB,coordenados pela professora Vera Lúcia Imperatriz-Fonseca.

A vida das abelhas já é acompanhada com o auxílio de uma lâmpada vermelha que não incomoda os insetos e

por um sistema similar,de gravação de vídeo.“Com a nova rede,a velocidade será muito maior e a transmissão será de alta definição e com mínimos atrasos.Esses vídeos poderão ser confrontados com dados de sistemas de instrumentação ambiental como temperatura, umidade e até para contar abelhas”, diz Saraiva.Outra possibilidade é captar e registrar os sons das colméias,analisá-los e correlacionar com o comportamento das colônias,se estão em alerta,se procuram alimento etc.“Existem estudos que relacionam sons diferentes com a qualidade e a distância da fonte de alimentos,como o néctar de determinadas flores.”Com o som,o WebLab das abelhinhas,como é mais conhecido no âmbito do Tidia,se transforma num verdadeiro BBB,ou Big Brother Bee,de abelha em inglês.

Além do comportamento das abelhas,o WebLab também vai permitir acompanhar,pela internet,outros serviços de ecossistemas,como são chamados esses processos naturais,como,por exemplo,a fotossíntese e a polinização.Por meio de câmaras de topo aberto,usadas em ensaios de fisiologia de plantas,em que os vegetais ficam dentro de uma estrutura metálica circular e recoberta com plástico transparente com 1,5 metro de altura e quase o mesmo tamanho de largura,será estudado o comportamento das plantas em condições de elevada concentração de gás carbônico (CO2),como as possíveis situações futuras.É possível injetar esse gás na câmara e simular os efeitos,de muitos anos,nas plantas,de forma mais rápida.Um dos principais objetivos nesse projeto,coordenado pelo professor Marcos Buckeridge,do IB,é verificar o nível de fotossíntese da planta,analisando se ele aumenta ou não.Chamado de WebLabs de Serviços em Ecossistemas, o sistema estará disponível no Virtual Networking Center ofEcosystem Services (Vinces) (www.ib.usp.br/vinces/).

Outro WebLab pretende reunir imagens médicas e os respectivos prontuáriosdo Instituto do Coração (InCor) e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e de outros hospitais que possam se interessar.Coordenado pelo professor Sérgio Furuie,o grupo em contato com outros institutos da USP,em São Carlos e Ribeirão Preto,já desenvolveu algoritmos e testa agora softwares

para processamento de imagens de raio X,ecocardiograma,ultra-sonografia,tomografia e ressonância magnética.“Nosso objetivo no WebLab de Imagens Médicas é criar e disponibilizar uma base de imagens,de vários centros,que tanto vai permitir a avaliação de softwares de forma mais abrangente como poderá ser utilizada para fins didáticos”,diz Furuie. Uma outra iniciativa na área da medicina é a Rede Universitária de Telemedicina (Rute) anunciada em agosto e criada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) mantida pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.Com apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Associação Brasileira de Hospitais Universitários,a Rute vai implementar uma estrutura sobre uma rede de alta velocidade para conexão entre hospitais visando a conferências,programas de medicina e cirurgia a distância e telediagnóstico.A rede a ser usada é a Ipê,montada pela RNP,que une todas as capitais do país.A maior capacidade dessa rede está entre São Paulo,Rio de Janeiro,Brasília e Belo Horizonte,com velocidade de conexão,em fibras ópticas,de 10 Gb/s. Imagens a distância também estão no foco do WebLab coordenado pelo professor Fragnito.“Dentro das novas aplicações da rede estamos trabalhando com videoconferência com a maior resolução possível.”O objetivo é atingir uma capacidade de transmissão de vídeo que sirva para uma percepção maior de quem está se comunicando.“Queremos chegar ao ponto que a presença da pessoa na tela da viodeoconferência permita até sentir o rubor no rosto,o entusiasmo ou o olhar desconfiado.Isso facilitaria a sensação de presença das pessoas em atividades científicas,econômicas e também em situações de medicina a distância”,diz Fragnito.Ele dá um exemplo próprio e atual.Um pesquisador da Universidade Cornell,que colabora com o grupo do Cepof,está no Brasil para trabalhos conjuntos e para testar uma peça.“Se tivéssemos um telão com alta resolução com estruturas técnicas semelhantes dos dois lados,a peça poderia vir pelo correio e ele ficaria em conferência conosco o tempo todo com a sensação de presença.”Para Fragnito,o KyaTera é um pontinho do que a internet vai ser no futuro.“Estamos formando gente,não só engenheiros e físicos,que estarão mais familiarizados e com menos medo desse tipo de tecnologia.” ■

Aescolha da Silvestre Labs como uma das empresas mais inovadoras do país pelo Índice Brasil de Inovação (IBI) descortinou uma história de sucesso de pesquisa e desenvolvimento que vem sendo construída nos últimos 20 anos.Fabricante de produtos farmacêuticos e instalada no Pólo de Biotecnologia do Rio de Janeiro (Bio-Rio), a empresa lançou recentemente o Extr a Graft X-13,um biocomposto que ajuda na proliferação celular e é indicado para ser utilizado no preenchimento e substituição óssea em casos de lesões. O IBI foi criado pelo Instituto Uniemp e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com apoio da FAPESP (ver edição 136 de Pesquisa FAPESP).

O Extra Graft pode,por exemplo, substituir uma placa de platina,com a vantagem de não precisar ser trocado e de induzir o crescimento do tecido ósseo onde é aplicado.“O produto nasceu de um projeto desenvolvido na Unicamp,liderado pelo professor Benedicto Vidal”, diz Eduardo Cruz,presidente da Silvestre Labs.“Após uma análise bastante criteriosa do projeto,vimos que havia oportunidade de desenvolver um produto.”

A matéria-prima do biomaterial é a hidroxiapatita,um dos constituintes do osso,e uma malha de colágeno,ambos de origem bovina.A empresa e a Unicamp são detentoras da patente do Extra Graft,já lançado no mercado brasileiro.A Silvestre Labs aguarda a obtenção dos registros na Food and Drug Administration (FDA),a agência federal norte-americana que fiscaliza e regulamenta alimentos e remédios,na Comunidade Européia e na China,para colocar o produto no mercado internacional.Um acordo,que envolve permuta de co nhecimento,já foi fechado com os chineses.Uma empresa de biotecnologia de Xangai,criada por um grupo de pesquisadores formado na Universidade Harvard,nos Estados Unidos,tem feito importantes avanços em terapia gênica.Os chineses propõem à Silvestre Labs um vetor para terapia gênica e,em troca,receberão a tecnologia do Extra Graft.Inicialmente,o produto foi lançado apenas para lesões odontológicas, mas com a evolução do projeto passou a ser utilizado também em cirurgias que envolvem a reconstituição de ossos da face e do crânio.“Ao entrar em contato com os osteoblastos,células jovens do

tecido ósseo,o produto induz a proliferação celular,funcionando como uma matriz de proliferação óssea”,diz Cruz. O produto é o primeiro na área de bioengenharia lançado pela empresa, que iniciou suas atividades em 1984 como farmácia de manipulação e hoje conta com mais de cem funcionários, dos quais oito têm mestrado e quatro doutorado.O primeiro lugar no ranking do grupo de média e alta intensidade tecnológica do IBI “foi uma grata surpresa,porque em mais de 20 anos de atividades a empresa não recebeu nenhum apoio público para o financiamento das suas pesquisas”,diz Cruz.

Indústria farmacêutica - A vocação da Silvestre Labs para desenvolver produtos e se transformar em indústria farmacêutica aflorou em 1990,quando foi instituído o Pólo Bio-Rio dentro do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a empresa se mudou para o novo endereço.Nessa época,Cruz cursava medicina,após ter feito farmácia na Universidade de São Paulo e se formado na UFRJ,onde também fez curso de especialização em bioquímica. “Um fato que me chamou a atenção

Escalada de sucesso

Depois de creme bactericida para tratar queimaduras, Silvestre Labs produz biomaterial para substituição óssea

D INORAH E RENO

quando cursava medicina é que no Centro de Tratamento de Queimados do Hospital do Andaraí boa parte dos pacientes morria por falta de um medicamento importado”,conta.

Por isso o primeiro desafio da empresa na nova fase era obter a síntese molecular do princípio ativo do medicamento importado para tr atar a infecção da pessoa com queimaduras em uma área extensa do corpo.Dados da Secretaria de Saúde e Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro apontam que cerca de 80% dos óbitos em pacientes com queimaduras são decorrentes de complicações infecciosas.O resultado do desenvolvimento realizado pela Silvestre Labs foi a obtenção de uma via sintética distinta da patenteada por uma empresa norte-americana e a formulação de um produto farmacêutico em forma de creme que recebeu o nome de Dermazine.O princípio ativo do produto é a sulfadiazina de prata,que possui uma ampla atividade antimicrobiana.“Quando começamos a aplicar o produto no Centro de Queimados,houve uma queda de 50% no índice de mortalidade de queimados graves”,relata Cruz.

Complexo tóxico - Apesar do resultado positivo,havia os outros 50% que não respondiam ao tratamento.“Mesmo com o controle das bactérias,boa parte dos queimados morre devido a problemas imunológicos e inflamatórios”,explica Cruz.“Isso ocorre porque há um gr ande distúrbio imunoinflamatório relacionado à formação de toxinas na pele pela ação da energia térmica.” A energia térmica sobre a pele queimada produz um tipo de complexo lipoprotéico que é tóxico e induz a complica-

ções imunológicas nos pacientes com queimaduras graves.Os pesquisadores da Silvestre Labs fizeram parte de um grupo internacional que descobriu essas toxinas, formado pelo professor Brian Sparkes,do Departamento de Defesa do Canadá,pelo professor William Monafo,da Universidade de Washington em Saint Louis,e pela equipe liderada pelo professor Frank Allgower,da Universidade de Zurique,na Suíça.

“Nos estudos,descobrimos ainda que essas toxinas se formam em outros tipos de feridas,mas por razões diversas”,diz Cruz.Com base nesse conhecimento,a empresa desenvolveu outro composto,à base de sulfadiazina de prata e nitrato de cério.A

associação do nitrato de cér io à sulfadiazina de prata potencializa a ação bactericida.Quando colocado na ferida,o creme antimicrobiano,com o nome comercial de Dermacerium,retira as proteínas tóxicas que atrapalham o processo de cicatrização. Até dez anos atrás,a empresa tinha um único canal de vendas,os hospitais.Foi quando decidiu colocar os seus produtos em farmácias. Essa decisão fez com que as ve ndas atingissem rapidamente um outro patamar e, com isso,a empresa resolveu transferir,há três anos,a promoção e distribuição de produtos para o Farmasa – Laboratório Americano de Farmacoterapia.Na mesma época do lançamento de produtos no mercado,a empresa começou a investir em outras linhas de pesquisa,como malária,hanseníase,proteína recombinante,células-tronco e bioengenharia.

Extra Graft, que tem como base a hidroxiapatita, um dos constituintes do osso, e uma malha de colágeno, induz a proliferação celular e o crescimento ósseo nos casos de lesões

Uma dessas linhas de pesquisa,a de células-tronco,resultou em uma spin-off (empresa menor derivada de outr a),a Cryopraxis,o maior banco de cordão umbilical da América Latina,com sede no Pólo Bio-Rio.A empresa é uma unidade de manipulação celular,principalmente de células-tronco para cirurg ias cardíacas.As pesquisas co m células-tronco renderam outro fruto,a Cell Praxis,uma divisão voltada para a terapia celular de músculo cardíaco que conta com a participação de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.Em 2001,a linha de pesquisa de proteína recombinante gerou outr a empresa,a Chron Epigen,também no Pólo BioRio,voltada para pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos. ■

MIGUEL BOYAYAN

Quem vigia os vigilantes?

Tragédia da TAM traz de volta o debate sobre as agências reguladoras

hurchill,com certeza,tinha razão ao afirmar que “a guerra é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos dos militares”.Será que o mesmo se aplicaria ao Estado,que,como acreditam muitos,não deveria ficar nas mãos dos políticos escolhidos pelo voto popular,mas nas mãos “isentas”dos técnicos? “Nós fomos eleitos e esse pessoal manda mais do que a gente.Como é que pode?”,desabafou recentemente o vice-presidente José Alencar, referindo-se à autonomia das chamadas agências reguladoras.“O modelo de agências autônomas existe para restringir o poder discricionário dos políticos, para o bem do país e deles próprios.É preciso vigilância contra idéias como as de Alencar,que desprezam mais de 800 anos de evolução institucional,sem a qual a humanidade estaria vivendo na Idade Média”,rebateu o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega.Ainda assim gerou polêmica o pouco-caso com que o presidente da Agência Nacional de Av iação Civil (Anac),Milton Zuanazzi,respondeu às perguntas dos congressistas após a tragédia em Congonhas, deixando claro que não pretende renunciar ao posto,apesar das manifestações do Planalto e de setores da sociedade nessa direção.

“A mistura de interesse entre ‘reguladores’e ‘regulados’é perversa nessa relação.Quem deveria regular virou refém de quem deveria ser regulado.É uma espécie de privatização do Estado”,afir-

ma o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.Vicente Faleiros,professor associado da Universidade de Brasília (UnB) na área de políticas sociais,acaba de encerrar uma pesquisa,financiada pelo CNPq, que analisa justamente a reforma do Estado e as agências reguladoras,trazendo resultados bem próximos das observações de Belluzzo.“Se elas foram criadas no governo FHC para defender os interesses dos cidadãos e regular as empresas,menos de uma década depois elas se mostram maiores defensoras do mercado do que dos consumidores.Veja o caso da Anac:há muitos funcionários da GOL e da TAM que fazem parte da agência,que só instalou sua ouvidoria em janeiro deste ano e dos 22 membros do seu conselho apenas dois representam os usuários”,conta Faleiros.“Houve a construção de uma cidadania de mercado,e não de Estado,e os cidadãos têm o seu direito assegurado pela capacidade de comprar no mercado,de consumir.Não há uma cidadania de igualdade de oportunidades.”A eleição de Lula,afirma o pesquisador,trouxe esperança de mudanças no modelo,mas “houve mais continuidade que mudança,com a armadilha criada pelo modelo regulatório que privilegia o mercado”.

As chamadas agências reguladoras nasceram em meados dos anos 1990,no bojo das privatizações do governo FHC. A ampliação das possibilidades de concessão de serviços públicos à iniciativa privada gerou a necessidade de reformular a função reguladora estatal.À me-

dida que o Estado não se encarregava mais da prestação de serviços,tornouse essencial prevenir e corrigir,por meio da regulação,as “falhas”do mercado, exercendo-se a fiscalização sobre os serviços públicos prestados pelas empresas privadas nos setores de telecomunicação,energia,transporte e outros.“Entre as décadas de 1950 e 1970,o Estado brasileiro tinha um forte papel na criação de infra-estrutura para o desenvolvimento nos moldes do paradigma nacional-desenvolvimentista.Mas,a partir dos anos 1990,houve uma revisão dos papéis estatais e várias empresas do governo foram transferidas para a iniciativa privada.Na maioria dos setores,a criação de agências para regular e fiscalizar os novos agentes privados deuse após a privatização”,lembra Regina Pacheco,professora da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas, autora do artigo “Agências reguladoras”. Para Cláudio Schüller Maciel,professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas,“a materialização institucional das regulações setoriais foi contaminada pelo seu atrelamento aos ditames e ritmos do processo de privatização.As instituições reguladoras derivam-se de estudos elaborados por consultorias internacionais, com o apoio do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento,que procuraram moldar padrões jurídico-administrativos anglo-americanos para o Brasil”,analisa em “A supremacia dos mercados”.

Segundo Schüller,nas atividades de formulação de políticas regulatórias,cujos novos entes (as agências) não poderiam deixar de dialogar com os ministérios setoriais,eis que,surpresa,a administração direta foi duramente marginalizada.“Os ministérios infra-estruturais não apenas se situaram à margem do processo,como permaneceram seriamentedesaparelhados para cumprir suas funções clássicas ao longo das duas gestões FHC.”O propósito da criação das agências foi a necessidade de dar especialização e eficiência a essa função que, acreditava-se,os ministérios,com quadros pequenos e burocratizados,não conseguiam realizar.Embora fazendo parte da estrutura estatal,elas são consideradas como órgãos especializados numa dada atividade,com carreiras estruturadas e com estruturas mais ágeis do que as máquinas ministeriais.As agências foram dotadas de autonomia com o propósito de colocar certas questões fora da esfera política de curto prazo, para dar continuidade às políticas do planejamento de longo prazo e para evitar suspeitas de favorecimento.Tudo seria feito em prol do interesse público,alvo per manente da ação reguladora.A iniciativa,inovadora,não era totalmente inédita,como lembram Marcos Pó, coordenador do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec),e Fernando Abrúcio,da FGV,em seu estudo “Desenho e funcionamento dos mecanismos de controle e accountability das agências reguladoras”.

“As primeiras ações em busca da profissionalização da burocracia foram dadas na década de 1930 pelo varguismo. Mas,no modelo criado,conviviam clientelismo,corporativismo estatal e insulamento de setores da burocracia em relação à política”,observam.Na década de 1960,com o regime militar,a administração pública mergulhou de vez no insulamento da burocracia em relação a qualquer accountability , ao mesmo tempo que se desenvolvia uma visão tecnocrática de atuação estatal.A grande reforma administrativa ocorreu na gestão de FHC,com o Plano Diretor de Reforma do Aparelho de Estado,que pretendia alterar as bases do Estado para melhorá-lo e democratizá-lo.Com a passagem das “atividades não essenciais” para o setor privado,implantou-se a “administração pública gerencial”com a criação das agências reguladoras.O

movimento se deu,analisam os pesquisadores,em três etapas:entre 1996 e 1997,com as agências ligadas à privatização e a quebra do monopólio do Estado,englobando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel),a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a Agência Nacional de Petróleo (ANP);num segundo momento,entre 1999 e 2000, buscou-se a modernização do Estado, com a criação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Agência Nacional de Saúde (ANS);por fim, entre 2001 e 2002,foram criadas a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e,mostrando a perda de referencial,a Agência Nacional de Cinema (Ancine) e a Agência Nacional de Águas (ANA).“Copiavam-se instituições em contextos e problemas diversos.”A última nasceu no governo Lula,a Anac, instalada em 2006.

O Brasil não estava só:na década de 1990 foram criadas agências de regulação em 150 países.“O problema é o espelho dessa mudança,inspirado na tradição anglo-americana,construída numa experiência peculiar,alheia à tradição de cunho autocrático das economias e sociedadesem desenvolvimento e periféricas do mundo.O transplante de uma tradição jurídico-institucional estranha é a fonte primordial de entreveros da nova construção regulatória brasileira,originando controversas adaptações do modelo imitado”,avalia Carmen Alveal,do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro,autora de “Estado e regulação econômica”.Segundo ela,o Brasil,por circunstâncias históricas,abraçou o conceito de fusão do Estado e o poder de sua comunidade e,por essa razão,a união entre política e regulação no país sempre assumiu marcada centralização do processo decisório na esfera do Executivo.“A necessidade de criar em alta velocidade expectativas positivas de credibilidade do processo reformador do Estado limitou a tomada de decisões estratégicas a um campo decisório pressionado pelo curto alcance de objetivos conjunturais.”Para a pesquisadora,esses fatores configuraram “um obscuro nascimento das agências”,em que a separ ação da esfera política da regulatória conduziu “à obliteração da responsabilidade dos ministérios”.

Técnicos - Esse processo,nota Enrique Saravia,da FGV,em “O modelo regulatório”,debilitou a governabilidade do Estado no que se refere à existência de quadros técnicos capazes de formular políticas coerentes e eficazes.“Isso leva as entidades reguladoras a tomar decisões que excedem suas competências de meros implementadores de políticas setoriais.”

Daí não causar surpresa a declaração de Jerson Kelman,diretor-geral da Aneel,de que “as agências não são um fim em si mesmo,mas existem para criar um ambiente propício para o investimento privado”,argumento que,segundo o estudo “Análise e avaliação das agências reguladoras”,feito em 2003,a pedido do presidente da República,sob os auspícios da Casa Civil,reforça o ideal de que “o Brasil,ao contrário do que desejam as agências atuais,deve se alinhar à grande maioriados países,onde as reguladoras não são responsáveis pela formulação

Há a possibilidade de uma agência independente poder tornar-se tão forte ou tão independente que venha a se comportar como um poder dentro do Estado e, se não contida, pode ir além do papel visado para ela

de políticas setoriais,que devem ser formuladas pelos ministérios,a fim de que política setorial não seja tomada por regulação econômica e vice-versa”.Ainda de acordo com o relatório,que serviu de base para o projeto de alteração das agências,enviado pelo governo ao Congresso em 2004 (e ainda não votado),“a independência regulatória não é uma panacéia para os desafios da ação regulatória do Estado.O distanciamento com relação ao Executivo,por exemplo,pode dar origem à negligência da autoridade do regulador para com outros fortes atores políticos do Executivo e do Legislativo”. A fraqueza maior das reguladoras,adverte o estudo,estaria relacionada,pasmem, com sua força.

“Há a possibilidade de uma agência independente poder tornar-se tão forte ou tão independente que venha a se comportar como um poder dentro do Estado e,se não contida,pode ir além do papel visado para ela ao tempo de sua criação.”Ou,nas palavras de Abrucio e Pó,“a proliferação de agências reguladoras pode levar ao fenômeno da ‘agencificação’,trazendo novos desafios à democracia,ao criar domínios controlados por burocracias técnicas com pouca ou nenhuma res-

ponsabilização pública,a chamada accountability”. Mesmo defensores da autonomia das reguladoras insistem na sua transparência.“Essa é fundamental para se garantir a legitimidade social à atuação independente da agência.É preciso assegurar,por meio de estruturas estatutárias e mecanismos práticos,a maior quantidade possível de canais de comunicação com os consumidores,de forma a obter uma visão pluralista e balanceada dos pontos de vista específicos dos grupos de interesse”,analisam José Cláudio Pires e Andréa Goldstein no estudo “Agências reguladoras:avaliação e desafios”,preparado pelo departamento de economia do BNDES.

“No entanto,a tradição brasileira reside na opacidade e nos critérios tecnoburocráticos como norteadores dos processos de decisão.Tais características tornam ainda mais aguda a questão sobre ‘quem controla o controlador’,ou seja, ‘quem regula as agências reguladoras’”, nota Regina Pacheco.Curiosamente,segundo a pesquisadora,a origem desse engano estaria justamente na aceitação de uma experiência bem-sucedida no campo da regulação:os Estados Unidos, onde há mais de um século existem atividades regulatórias.O problema é que a importação de institutos foi feita com sinais trocados e objetivos diametralmente opostos.Nos EUA,a criação de agências foi impulsionada pelos reformadores do New Deal,entre os anos de 1930 e 1960.“Só que,comprometidos com a redistribuição de riqueza e com a criação de novos direitos sociais,os new dealers defendiam a criação de agências autônomas visando aumentar o poder regulador do Executivo federal.Lá,ao contrário do Brasil,a defesa da regulação por meio de agências significou a maior atuação do Estado,contrariando a sobrevalorização dos estados em detrimento do poder federal.Era ‘mais Estado’para promover justiça social”,avalia a pesquisadora.“Aqui,a criação das agências reguladoras independentes sucede uma longa tradição intervencionista do Estado na economia e nos mercados.Com um Estado vigoroso e freqüente politização de decisões que afetam a lógica dos setores de infra-estrutura,o debate da regulação tende a valorizar a despolitização.”

Para a professora,a necessidade de autonomia para os entes reguladores visa

criar credibilidade junto aos investidores,agora privados,de que regras não serão alteradas e preços não serão controlados segundo critérios políticos.“Assim, a diferença fundamental entre o Brasil e os EUA refere-se à natureza das relações entre regulação e poder do Estado.A autonomia das agências,para os new dealers,reforçava o poder do Estado,enquanto no Brasil dos anos 1990 a concessão de independência às novas reguladoras buscou reduzir as incertezas,para o investidor,advindas do legado de intervenção do Estado.”Mas,lembra Gustavo Binenbojm,autor de “Regulação e democracia”e professor de direito administrativo da UFRJ,“com o passar dos anos,diante do crescente grau de intrusividade das agências nas atividades privadas,da sua questionável eficiência na gestão dos mercados regulados e da sua não sujeição ao mecanismos de accountability, as agências independentes amer icanas foram submetidas a críticas e pressões dos agentes políticos e econômicos”.Assim,segundo ele,o grande tema de discussão sobre as agências nos Estados Unidos há muito deixou de ser o da sua autonomia como condição para o exercício técnico e politicamente neutro de suas funções,para se tornar rapidamente o do seu controle político, responsabilidade social e legitimidade democrática.“Aqui,a implantação de um modelo que subtraísse o marco regulatório do processo político-eleitoral se erigiu em verdadeiro tour de force da reforma do Estado,como uma blindagem institucional de um modelo que resistisse até a uma vitória da esquerda nas eleições.”

Cópia - Assim,com certa dose de razão, Murilo Ramos,especialista em telecomunicações e professor da Universidade de Brasília,afirma em seu estudo “Agências reguladoras”que “a cópia do modelo americano foi malfeita,a partir da introdução na legislação brasileira do conceito de independência política,administrativa e financeira,mas de modo inconsistente,à medida que se atribuiu às agências a condição de autoridade administrativa independente,incompatível com a organização administrativa constitucionalmenteadmitida no Brasil”.Ou,nas palavras de Binenbojm,“enquanto nos EUA as reguladoras foram concebidas para propulsionar a mudança,aqui elas foram criadas para garantir a preserva-

ção do status quo;enquanto lá elas buscavam a relativização das liberdades econômicas básicas,como o direito de propriedade e autonomia da vontade,aqui a sua missão era a de assegurá-las em sua plenitude contra eventuais tentativas de mitigação por governos futuros”.

Para Regina Pacheco,isso revela como o debate em torno do grau de autonomia das agências reguladoras no Brasil ainda não faz as distinções necessár ias entre controle político e controle hierárquico,nem entre controle político e controle social,tendendo a remeter autonomia à ausência de controle.“O controle hierárquico não garante responsabilização,e sim alinhamento,e pode,portanto,não criar os mecanismos de accountability requer idos.”A questão é velha como a própria burocracia e já foi discutida em detalhes por Max Weber em seus escritos sobre o desafio da delegação de poderes às burocracias especializadas por governantes escolhidos por processo eleitoral.Weber perguntava-se como conciliar os requerimentos de eficiência administrativa e a exigência de que as decisões político-administrativas traduzissem de forma adequada os interesses e preferências dos eleitores, como ponderou o vice-presidente José de Alencar.Segundo a lógica weberiana,ao mesmo tempo que a complexificação das funções estatais passou a impor requerimentos de conhecimento crescentes,o que justificava a racionalização da administração e a delegação de decisões a corpos técnicos,essa mesma delegação corresponderia à expansão do espaço para o exercício do poder pelos burocratas.O risco era que decisões administrativas viessem a não espelhar as preferências políticas dos representantes eleitos,frustrando-se assim as expectativas de que os interesses dos eleitores pudessem ser concretizados em políticas públicas.“Fico sabendo do aumento da gasolina pelos jornais.O Estado brasileiro terceirizou-se”,reclamou,recentemente,o presidente Lula.

Das 47 vagas de diretor de agências reguladoras,37 perderão o cargo apenas em 2010,final do segundo mandato de Lula.Daí o desejo crescente do Executivo em promover ajustes no modelo, já que o governo considerava que as agências gozavam de autonomia excessiva,que permitia ao ente regulador assumir a formulação de política para o seu

“É verdade que os políticos
não são tão confiáveis quanto desejamos, mas não há razão para acreditar que eles sejam menos confiáveis do que técnicos”, afirma Luiz

Carlos BresserPereira

setor de atuação,inviabilizando seu controle por parte do Executivo.Qualquer tentativa em contrário,observa o estudo da Casa Civil,é vista por setores da sociedade e da mídia com desconfiança do governo e com seu perfil “intervencionista”ou estatizante,razão pela qual qualquer proposta que possa afetar o status quo existente é,antes de ser analisada e considerada por seus méritos,criticada e questionada.“A transferência de poder de concessão das agências para o Poder Executivo suscita o risco de influênciapolítica indesejada na análise das questões que devem ser estritamente técnicas”,avisa um estudo feito pela Confederação Nacional da Indústria.Essa postura,avalia o Grupo de Estudos,impede a criação de formas novas de inserção das reguladoras,como a instituição necessária do ouvidor independente em cada agência (a maioria delas não os tem) ou a implementação dos chamados contratos de gestão.O que se pretende é a obrigatoriedade de as agências firmarem contratos de gestão com o poder concedente,contratos esses que teriam que prever, entre outros,metas de desempenho administrativo e de fiscalização,as responsabilidades em relação a essas metas,es-

timativas dos recursos orçamentários e cronograma de desembolsos.

“Esses contratos,como instrumento adicional de controle social e de aperfeiçoamento da gestão e desempenho das agências,visam assegurar a compatibilidade entre meios e fins,viabilizando melhores condições operacionais às próprias reguladoras e permitindo uma melhor avaliação da relação custo-benefício da sua atuação para o conjunto da sociedade ao indicar a necessidade,no âmbito da gestão,para permitir essa adequação”,analisa Luiz Alberto Santos,do Setor de Análise de Políticas Governamentais da Casa Civil.Hoje quatro agências já têm sua gestão vinculada à firmaturade contratos,e o que o Executivo propõe ao Legislativo é que todas as outras também adotem o mesmo modelo.Regina Pacheco igualmente cobra maior atitude do Legislativo na questão das reguladoras.“A questão central agora é de que forma o Congresso se comportará diante dessa oportunidade de revisão que se apresenta hoje.Vale dizer,se for correta a hipótese de que no momento da concepção do modelo de reguladoras o Legislativo optou por não se imputar atribuições de controle político muito significativas,cabe perguntar se,nesse momento,o leque de incentivos que informa o cálculo político dos congressistas é mais favorável à assunção de tarefas dessa natureza.”Para ela,aperfeiçoar o aparelho regulador significa tornar as agências socialmente controladas,transparentes,eficientes,comprometidas com o interesse dos consumidores e usuários de serviços públicos,zelando pelo cumprimento dos contratos de concessão,fomentando a competitividade,induzindo à universalização de serviços,aptas a enfrentar não apenas as “falhas”do governo,mas também as do mercado.

Exemplos não faltam,como revela a reportagem da revista Carta Capital, “Autonomia de fachada”.Em 2005 órgãos de defesa do consumidor consideraram ilegal a cobrança de ponto adicional de TVs a cabo.A Anatel e a Associação Brasileira de TV por Assinatura subsidiaram o parecer de Carlos Leifert,do Conselho de Comunicação Social,que devolveu à Anatel a responsabilidade pela decisão.Leifert era diretor de Relações com o Mercado da Rede Globo.O ponto adicional é cobrado até hoje.Detalhe: a Globo é dona da NET.No mesmo ar-

tigo,o procurador de Justiça do Estado de Minas Gerais Paulo Calmon observa que “ANP foi instalada em estrutura necessária,em 1998:de uma hora para outra houve liberação de preços e da distribuição e havia apenas 50 fiscais para vigiar 30 mil postos de gasolina,centenas de distribuidoras e milhares de carretas”. A questão polêmica do mandato de cinco anos dos presidentes das reguladoras é questionada até mesmo por quem,no passado,foi responsável pela reforma do Estado que gerou as agências.

Autonomia - “O presidente Lula reclamou que não é possível um presidente eleito,que tem de prestar contas à população,ter menos poder do que um diretor que foi indicado por um mandato de cinco anos e não pode ser demitido.Ele tem razão:não é razoável e nem democrático.À exceção da Aneel e da Anatel,as demais agências reguladoras devem ter uma autonomia administrativa maior do que departamentos ou secretarias,mas não podem ter autonomia política e devem estar subordinadas ao respectivo ministro”,escreveu num artigo recente no jornal O Estado de S.Paulo,o ex-ministro da Fazenda e professor emérito da FGV Luiz Carlos BresserPereira.“Está se confundindo autonomia administrativa,ou seja,maior liberdade na administração de pessoal e recursos financeiros,com autonomia política,com a existência de mandatos para a diretoria e seu poder de definir políticas”,critica.O economista lembra que,como ministro da Administração Pública e Reforma do Estado do presidente FHC,lutou contra a atribuição de autonomia política real às diretorias das agências.Para Bresser,então como hoje, não faz sentido dar autonomia política à agência que regula o petróleo ou cinema,águas,transportes e,é claro,transportes aéreos.Isso,afirma,além de antidemocrático é perigoso.“É verdade que os políticos não são tão confiáveis quanto desejamos,mas não há razão para acreditar que eles sejam menos confiáveis do que os técnicos.Ambos são corrompíveis pelas empresas reguladas,mas o político,além de responder à lei,responde a seus eleitores,que podem não reelegê-lo.Essa é a força da democracia.” Que,dizia Churchill,“é a pior forma de governo imaginável,à exceção de todas as outras que foram experimentadas”. ■

Guerra ao consumismo infantil

Crianças viram alvos diretos de todo tipo de produto

ATV engorda.Principalmente as crianças,a faixa de público considerada a mais influenciável por especialistas em mídia e psicologia.Anúncios de salgadinhos,sanduíches,sorvetes e biscoitos não prometem apenas refeiçõessaborosas,mas brindes como bichinhos de pelúcia,carrinhos ou bonecos do desenho animado do momento, que induzem a algo a mais:não basta comprar e saborear.É preciso comprar muito.Juntar cupons, tickets e códigos de barra,além de um complemento em dinheiro,às vezes.Se não bastasse,com a justificativa da diversidade de escolha,são oferecidas coleções extensas,o que obriga os pais a multiplicarem as compras.

Cr escer na vertical ou para os lados? Nenhum desses comerciais traz anúncios sobre o valor nutritivo ou calórico dos alimentos.E o que fazer com tantos salgadinhos,sorvetes e sanduíches? Comer,ora.“Comer,comer,comer para poder crescer”,dizia um comercial. Assim,a obesidade infantil não tem a ver somente com estresse e falta de orientação alimentar dos pais.Está relacionada às estratégias de marketing da indústria de alimentos,cujos efeitos para a saúde da garotada podem ser devastadores.

Não por acaso,no dia 18 de julho passado,um grupo de empresas norteamericanas se comprometeu a assumir um comportamento mercadológico “socialmente responsável”.Dez das 11 maioresdo setor de alimentos,que abocanham dois terços do mercado,prometer am restringir anúncios de alimentos dirigidos às crianças que não correspondam aos padrões nutricionais do Departamento de Agricultura,Saúde e Serviço Social dos EUA.

Em todo o país são 9 milhões de obesos em idade infantil.Sem contar outro bom número com peso acima da média.McDonald’s,Pepsi-Cola,CocaCo la,Campbell’s,Cadbury Adams, Hershey’s,Kellogg’s,Kraft,Mars,Unilever e General Mills reconheceram que estão cientes do crescente problema da obesidade infantil no país.Algumas anunciaram ainda que tentarão modificar sua linha de produtos a fim de se adequar aos padrões nutricionais.Os especialistas acreditam que as empresas se anteciparam e adotaram medidas de auto-regulação por temerem uma lei de exclusão de suas publicidades,como aconteceu com a indústria do tabaco.

No Brasil,a preocupação com a obesidade infantil não é menor.Em São Paulo,30% dos alunos da rede pública estão acima do peso.O bombardeio incansável das propagandas de alimentos na TV,direta ou indiretamente,levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a fazer a consulta pública de número 71,no ano passado,sobre possíveis mudanças na veiculação de publicidade ao público infantil.Como tem poderes reguladores,a entidade discute no momento com ONGs,universidades e profissionais da saúde uma forma de restringir a publicidade de bebidas com baixo teor nutricional e alimentos com alto teor de sódio,açúcares e gordura em rádio e televisão no horário das 6 às 21 horas.Embora a publicidade não seja o único fator para a “epidemia”de crianças gordas,espera-se que a medida diminua o problema que virou questão de saúde pública.

A relação entre publicidade e peso físico,porém,é apenas um dos elementos que preocupam médicos,psicólogos,

comunicólogos e acadêmicos de outras áreas,além de instituições que cuidam dos direitos e da saúde das crianças e do próprio governo federal.Pesquisa da TNS InterScience mostra que os gastos com crianças de 4 a 12 anos aumentaram pelo menos 400% desde 1989 e continuam crescendo.Outro estudo da mesma instituição,divulgada em agosto,feita com mães e filhos em cinco países latino-americanos – Brasil,Argentina,Chile,Guatemala e México –,mostrou que, se em 2005 42% desse público influenciava fortemente as compras familiares, em 2006 o porcentual pulou para 52%.

As facilidades de acesso à tecnologia e à informação são apontadas como causas para a mudança do perfil dessa faixa de consumidor nos últimos 20 anos.Expostas a estímulos de marketing cada vez mais de forma direta,sem a mediação do adulto,e bem informadas sobre detalhes de objetos de desejo,as crianças interferem na escolha de produtos a elas destinados,elegem categorias e até marcas para o segmento adulto.

Mais que isso,os pequenos consumidores querem mesmo é sair e comprar seus próprios itens de consumo.Foi o que revelou a pesquisa “Kids experts”, divulgada em julho,realizada no Brasil pelo grupo de comunicação Turner International Networks,responsável pelo canal infantil Cartoon Network.Foram ouvidas 1.066 crianças entre 7 e 15 anos e mapeado o comportamento dos consumidores infantis no país.Dentre os resultados,descobriu-se que 40% gostariam de ganhar dinheiro como presente,na ordem de preferência,em vez de citarem algum brinquedo.

A preocupação da criança como vítima da publicidade para consumo tem

a ver com a sua fragilidade para perceber os propósitos por trás dos anúncios, uma vez que é um ser em formação.A psicóloga Ester Cecília Fernandes Baptistella,professora de educação e psicologia da Universidade São Francisco – onde realiza pesquisas sobre a compreensão do conteúdo televisivo na infância –,ressalta que desde os 6 meses de idade as crianças manifestam as primeiras condutas de atenção à televisão. As mudanças rápidas de imagem e som, sobretudo nos anúncios,e o próprio formato da televisão são apontados como motivadores para os bebês.Não significa que sejam capazes de compreender uma narração televisiva ou a intenção de um anúncio publicitário.

Sergio Marin,consultor independente e professor da Universidade Anhembi Morumbi e Centro Universitário UniFieo,acrescenta que crianças com apenas 3 anos de idade já entendem o valor do dinheiro e têm uma noção muito clara que ele representa um meio de troca.Em sua tese de doutorado,ele estudou os aspectos motivacionais que embasam o comportamento de consumo infantil – e que dá suporte às práticas promocionais dirigidas à criança. Submetida a tamanha pressão,observa ele,a criança faz da aparência e do consumo dos meios de comunicação elementos para ser aceita.

Oobjetivo da propaganda dirigida é causar impacto na turma com quem essa criança convive e gerar satisfação pessoal.Segundo ele,os menores de 3 a 6 anos não têm noção de caro/barato,são altamente impulsivos e usam o dinheiro para comprar jogos e doces.Os de 7 a 9 anos sabem o que é caro/barato,planejam,calculam,negociam e utilizam o dinheiro para comprar roupas de marca, MP3,celulares e jogos eletrônicos.“Eles percebem o impacto das marcas e também conhecem e se interessam por categorias destinadas a outros segmentos.”

Ester Cecília defende a necessidade atual de educar as crianças e adolescentes para a mídia como forma de ensinálos a exercer sua cidadania.No momento,ela faz um trabalho de alfabetização televisiva como parte do projeto de sua tese de doutorado,que desenvolve na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),com orientação de Orly Zucatto Mantovani de

Assis.A psicóloga defende a compreensão da linguagem televisiva e a necessidade do uso pedagógico da TV em sala de aula.Assim,propicia ao aluno a vivência de situações com a mídia que o tornem mais crítico e menos vulnerável à propaganda para consumo.

Não é fácil precisar o momento exato em que a criança começou a ser cobiçada pela publicidade televisiva.Aldo Pontes,doutorando em educação e comunicação (FE-USP) e autor organizador dos livros Infância,cultura e mídia e Construindo saberes em educação (Editora Zouk),concorda que esse fenômeno teve início na década de 1980.É a partir desse momento que a indústria de cultura passa a conceber o público infantil enquanto faixa de consumidor potencial.Não demorou para que uma infinidade de programas,produtos e serviços passassem a ser veiculados na programação da telinha.

Para situar,ele recorda que são dessa época atrações infantis como: Bozo (TVS), TV criança (Bandeirantes), Clube da criança (extinta Manchete), Balão mágico (Globo), TV Fofão (Bandeirantes), Xou da Xuxa (Globo) etc.“Não podemos esquecer que apesar de a televisão ser uma concessão pública a maioria das empresas radiodifusoras são privadas,independentemente de serem abertas ou de sistemas de TV por assinatura.”Dessa forma,acrescenta ele,“o que acaba preponderando são as estratégias de propaganda e marketing para manter os altos índices de audiência,mesmo quando se trata do telespectador infantil”.

Culturalmente,destaca Pontes,edificou-se nas sociedades capitalistas liberais contemporâneas uma cultura de que é preciso ter para ser,na qual as crianças começam a ser alvo muito cedo.“Em outras palavras,somos ‘programados’para atrelar produtos a sensações de bem-estar abstratas como felicidade,gozo,realização,paz de espírito.”Inseridas nesse contexto,prossegue Pontes,as crianças, a exemplo do que ocorre com os adultos, acabam sucumbindo ao consumo,geralmente de forma inconsciente,para serem também aceitas e escaparem da exclusão que vitima os que não podem comprar.

Esse comportamento pode ser observado no cotidiano escolar.O pesquisador lembra que precisa apenas que um do grupo vá para a escola com uma mochila,um tênis,um fichário de uma

marca que está em alta para os outros quererem também.Pontes conta que,na disciplina de educação e comunicação, que ministra no curso de pedagogia,é bastante corriqueiro chegarem histórias de crianças que,de tão ansiosas para terem algo que geralmente os pais não poderiam lhes dar,acabaram ficando até mesmo doentes.

Nessa perspectiva,as empresas não medem esforços para abocanhar o público infantil que vai além dos horários comerciais,diz Pontes.Ele cita filmes “ultra”animados e coloridos,mascotes,inserção de personagens humanos em personagens de desenhos animados, promoções e concursos.O pesquisador coloca sob suspeita as coleções de bichinhos,figurinhas e outros objetos que vêm dentro das embalagens de lanches tipo fast-food, salgadinhos,doces.“Esse recurso coage as crianças a consumirem o produto apenas para completar as coleções,que,com o tempo,logo são substituídas por outras e outras.”

As crianças,às vezes,são usadas como iscas para pegar os pais.Um estudo de James McNeal citado por Pontes verificou a existência de três grupos de consumidores infantis:a criança como consumidora primária,que consome produtos criados para a sua faixa etária; a criança como influenciadora do consumo dos adultos;e,por último,a criança como mercado futuro,consumidor do futuro.“O grupo das que persuadem seus pais/responsáveis ao consumo é um dos que mais crescem,pois,na ausência dos pais/responsáveis,os filhos sofrem um verdadeiro bombardeio publicitário, assim consomem uma enxurrada de anúncios que,como uma lavagem cerebral,são exibidos inúmeras vezes,tanto nos intervalos quanto no bloco dos programas (merchandising)”,justifica o pesquisador brasileiro.

Dentre as estratégias mais comuns para induzir ao consumo no horário comercial,Carlos André Migliorini,coordenador de consumo e pesquisa do projeto Criança e Consumo da ONG Instituto Alana,destaca três:a publicidade convencional;o licenciamento de personagens do cinema,dos desenhos animados e dos quadrinhos para atrelar sua imagem ao produto;e brindes nos postos de venda – que,às vezes,exigem complemento em dinheiro.

Com voluntários em todo o país,o instituto age como órgão fiscalizador e chega a enviar reclamações extrajudiciais a emissoras,anunciantes e agências. Em casos extremos,formaliza denúncia ao Ministério Público.Além de manter um centro de pesquisa e referência, o Alana também faz acompanhamento nos três Poderes para propor projetos e dar suporte técnico.

Mi g liorini aponta ainda as conseqüências de se ter em casa crianças com descontrole consumista:aumenta o estresse familiar porque nem sempre se pode atender a uma vontade do filho; desequilíbrio no orçamento;diminuição das brincadeiras,conseqüente vida sedentária e tendência à obesidade;aumento da violência de quem não pode comprar;em longo prazo,posturas de conformismo,individualismo e egoísmo.Ao mesmo tempo,existem pais que recorrem à compra de presentes como forma de compensar a ausência imposta pela carreira profissional.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) tem preocupação semelhante em relação às crianças.Tanto que produziu,em parceria com a ONG Criança Segura e a Fundação Abrinq,o guia Essa turma ninguém passa para trás, lançado em março deste ano.Os alvos são as crianças e adolescentes entre 11 e 14 anos,considerados consumidores cada vez mais ativos e decididos.Em linguagem acessível,a cartilha utiliza crianças como personagens,ilustrações e situações do dia-a-dia como exemplos para transmitir conceitos de consumo responsável e sustentável,noções de direitos do consumidor e segurança no consumo de bens e serviços.

A coordenadora executiva do Idec e presidente da Consumers International,Marilena Lazzarini,afirma que o instituto tem investido na educação para o consumo na sala de aula,na faixa da quinta a oitava séries,com a incorporação de temas para discussão nas disciplinas curriculares.Como exemplo,o debate sobre os juros abusivos nas aulas de matemática ou de consumo sustentável em geografia.Como parte do programa,em 2002,o Idec lançou quatro livros para professores. “Fazemos isso dentro das perspectivas de ver o consumo de forma ampla,e não apenas restrito ao Código do Consumidor”,justifica. ■

ARQUITETURA

A virtude da simplicidade

Livros trazem a riqueza do pensamento arquitetônico de Paulo Mendes da Rocha

Arocha é o grande desafio lançado pela natureza ao homem:como retransformar,por meio da técnica,um “obstáculo”inabalável.

“A primeira e primordial arquitetura é a geografia.Fui formado com a certeza de que os homens transformam uma beleza original, a natureza,em virtudes desejadas e necessárias para que a vida se instale nos recintos urbanos.A natureza,para o arquiteto,é a base material onde o homem operará as transformações necessárias”,observa quem carrega o desafio em seu nome,o arquiteto Paulo Mendes da Rocha,para quem “a cidade nada tem a ver com a natureza,ela é o supremo projeto do homem no planeta”.À primeira vista parecem palavras saídas da boca do protagonista do Segundo Fausto,de Goethe,em sua sanha de transformação da natureza e do velho em nome do progresso e do desenvolvimento dos povos.

Mas para o ganhador do Prêmio Pritzker de 2006, antes conferido apenas a outro brasileiro,Oscar Niemeyer,os dilemas faustianos passam pela ética.Talvez a aproximação entre o brasileiro e o personagem de Goethe se dê mais por um outro lado de Fausto,

Singeleza da Capela de Nossa Senhora da Conceição, em Recife

como quando ele observa a Mefistófeles:“Nada é a fama;a ação é tudo”.Para o arquiteto,é mais importante buscar os espaços que abrigam a humanidade,e não apenas o ser humano,por meio de edifícios que se incorporem à natureza e não que dela se apropriem.Prova disso está no segundo volume dedicado aos trabalhos de Mendes da Rocha,editado pela Cosac Naif(160 páginas,R$ 99),organizado pela historiadora Rosa Artigas,em que se analisam seus projetos mais recentes,desenvolvidos ou imaginados entre 1999 e 2006.A intensa produção abordada compreende edifícios educacionais,habitacionais,técnicos,recreativos,religiosos,instalações esportivas e museus,além de estudos de adequação urbana em grande escala.Entre os projetos e obras reproduzidos com fotos atuais,croquis e desenhos técnicos estão o Sesc 24 de Maio;os estudos para a postulação de São Paulo como sede dos Jogos Olímpicos de 2012;a Capela de Nossa Senhora da Conceição e o Edifício-garagem no Paço da Alfândega,em Recife;o Parque do Engenho Central, em Piracicaba;e o Plano diretor da Universidade de Vigo na Espanha.

Os textos que acompanham os projetos,com base em depoimentos do próprio arquiteto,reafirmam sua posição humanista e antidogmática,revela-

da na visão da arquitetura como uma atividade que deve “amparar a imprevisibilidade da vida”e no inalterável desejo de construir a “cidade para todos”. Ao mesmo tempo,a editora lança também Maquetes de papel (64 páginas,R$ 28),com projeto gráfico de Flávia Castanheira,que transforma o livro num objeto tridimensional,cujo formato simula as curvas de nível de um terreno, representadas pelo corte especial na lateral de cada caderno,em degraus.Um livro-aula, Maquetes tem sua origem num curso oferecido pelo arquiteto capixaba na Casa Vilanova Artigas,de Curit iba,em 2006.Mendes da Rocha revela como elabora as soluções de seus projetos,indica algumas de suas premissas criativas,discute questões contemporâneas envolvidas no projeto de arquitetura e emprega referências provenientes de vários campos do conhecimento,sobretudo da física,da geografia,das artes plásticas e da filosofia. O arquiteto demonstra a importância do momento em que constrói os modelos de papel como recurso para afer ir suas proposições.No curso,revela os caminhos pelos quais a idéia se materializa em formas e volumes no espaço e mostra que a cidade e o homem estão sempre como referência estrutural para articular as edificações.

Em ambos os lançamentos impera o espírito condutor de Mendes da Rocha,para quem “a arquitetura não pode ser vista como uma coisa que você encomenda e se vira para fazer de qualquer maneira;o primeiro ímpeto de fazer surgir algo,que é o que o arquiteto faz,é uma convocação emotiva”.Para a organizadora,Rosa Artigas,são conceitos como esse que têm tornado difícil o trabalho dos críticos em “enquadrar”sua arquitetura em modelos,escolas ou movimentos.“Ela é inquieta diante dos problemas e necessidades urgentes,é presente,possível e crítica às soluções comuns,aos estereótipos,ao gosto fácil e às economias injustificadas.Responde,enfim,às questões da vida contemporânea.”No sentido mais amplo possível.Pois Mendes da Rocha não acredita em idéias como “arquite-

tura brasileira”.“Talvez seja melhor dizer que não há nem deveria haver uma arquitetura brasileira.Não faz muito sentido defender um caráter nacional. O que,entretanto,se pode imaginar de modo sadio é que há algo de peculiar na experiência da América”,ressalta.“A amplitude de sua utopia social fica mais evidente quando notamos o escasso uso do termo Brasil e recorrente referência à América.O que nos une é a grande aventura civilizacional em uma geografia nova,é a promessa de um futuro comum”,analisa Abílio Guerra,arquiteto,professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).Olhar os projetos mais recentes de Mendes da Rocha é,justamente,essa visão abrangente de intervenção nas cidades grandes,ou,nas palavras do próprio arquiteto,“construircidades americanas na natureza,estabelecendo novos raciocínios sobre o estado das águas,das planícies,das montanhas,a espacialidade de um continente, novos horizontes para nossa imaginação quanto à forma e o engenho das coisas que haveremos de construir”.

Guerra ressalta,em Mendes da Rocha,a presença constante e crescente da certeza da inadequação do modelo civ ilizacional europeu para os trópicos, bem como da crença inabalável nas virtualidades presentes na ação humana inovadora ante a natureza exuberante,possibilidade aberta com a apropriação engenhosa da tecnologia ocidental. “Há uma semelhança com os mecanis-

mos intelectuais da antropofagia oswaldiana,que também obtinha seu vetor transformador e utópico do saque seletivo de desenvolvimentos civilizacionais e a recusa dos vícios e desvirtuamentos intelectuais importados”,analisa o professor.Daí,por exemplo,a possibilidade de o arquiteto nacional reverter o movimento e “ensinar”os europeus a melhor pensarem seus espaços, como o projeto feito pelo arquiteto para os Jogos Olímpicos de 2008,em Paris. Embora a cidade tenha perdido a candidatura para Pequim,o trabalho de Mendes da Rocha,um dos 12 arquitetos do globo escolhidos pela França para aportarem suas idéias,“a natureza,o território e a memória urbana são desvelados em Paris a partir do rio Sena e dos seus canais,que denotam uma unidade européia preexistente”,como avalia Rosa Artigas.Isso se mostra de forma ainda mais forte no plano para possíveis Olimpíadas de 2012,em São Paulo,em que a festa dos esportes iria se expandir pela cidade toda a partir do Tietê,seus afluentes,as represas e nos parques e equipamentos públicos que já pertencem ao cotidiano da cidade.

Plano

“O desejo que orienta esse projeto estratégico-espacial é o de ver,ao arrumar a casa para receber os visitantes, um pretexto para incentivar e desencadear antigos e insubstituíveis projetos de consolidação íntegra do sistema complexo e estrutural de engenharia urbanística de São Paulo”,nota a organizadora do livro.As cidades brasileiras são galvanizadas quando Mendes da Rocha enfrenta as limitações impostas pela especulação e por políticas urbanas tímidas.“Ele responde com ousadia notável,como no projeto para o Museu Nacional de Belas Artes,no Rio de Janeiro.Ou com gentileza diante de cer tas áreas urbanas,como o Paço da Alfândega e da pequena Capela de Nossa Senhora da Conceição,ambas em Recife.Por vezes surpreende com invenções,como na ‘naveta’auxiliar,projetada como apoio funcional para a sede do Sesc 24 de Maio,ou da tela retrátil da galeria do Museu da Língua Portuguesa”,observa Rosa.Há mesmo subversão total à demanda inicial do projeto,em busca de uma melhor solução,como no caso das propostas para os museus da USP,em que questiona a localização pensada,transferindo-os para outro lugar e transformando a paisagem.“A arquitetura não é feita para ser histriônica.Não interessa a uma cidade que requer tantos artefatos urgentes (casa para todos,escolas etc.) que se coloquem cerejas sobre seus desastres.É uma virtude mostrar a simplicidade”, avisa Paulo Mendes da Rocha. ■

diretor da Universidade de Vigo (à esq.) e Praça dos Museus da Universidade de São Paulo (à dir.)

Olhar o passado para ver melhor o futuro

Se o programa estruturalista perdeu o seu brilho, é urgente avaliar sua riqueza

Numa época caracterizada pelo que tem sido chamado de pós-estruturalismo,é surpreendente que a História do estruturalismo seja um daqueles livros que,quando se começa a ler,é difícil de parar.A sinopse do enredo da ascensão e queda desse movimento,que marcou a cena intelectual francesa nos anos 1950 e 60,é bem conhecida.Apesar da diversidade dos protagonistas envolvidos e da lógica singular a cada uma das disciplinas,a busca do rigor científico e de um método eficaz,como o das ciências exatas,consagrou um programa voltado para o desvendamento de estruturas subjacentes às aparências mutáveis dos fenômenos sociais.O determinismo das estruturas levou à dissolução do sujeito e ao banimento da história do universo das análises então empreendidas.

História do estruturalismo, 2 volumes (caixa)

François Dosse

Edusc

1.088 páginas

R$ 110,00

man Jakobson,que,exilado como ele,dá aulas de fonologia estrutural em francês.É em Alexandria, no Egito,que Barthes enco ntra Greimas,que,decepcionado por não achar a grande Biblioteca,aconselha o colega,em pleno deserto,a ler Saussure e Hjelmslev.Vemos como foi longo o caminho traçado por Lacan até chegar nos Écrits e retumbante a entrada da jovem búlgara Julia Kristeva em Paris,na véspera do Natal de 1965,com apenas US$ 5 no bolso.Quem poderia hoje imaginar que Foucault verteu lágrimas ao tomar conhecimento da morte de Stalin?

Nos moldes do reverso da fortuna,esses domínios que ficaram de fora do estruturalismo ganham,a partir dos anos 1970,uma atenção renovada;“intertextualidade”,“desconstrução”e o desafio de “articular ação e estrutura”são expressões marcantes do movimento teórico contemporâneo,empenhado em redesenhar novas abordagens enfaticamente definidas em contraposição ao estruturalismo.

A aventura estruturalista apresentada por Dosse,ao oferecer uma viagem ao coração da intelectualidade francesa no pós-guerra,sofistica qualquer visão apressada desse movimento.

O livro começa com Sartre,objeto privilegiado da crítica empreendida pela revolução estruturalista.O papel revolucionário dos então jovens intelectuais ganha vida através do traçado cuidadoso dos itinerários percorridos por figuras mais ou menos proeminentes no que era então tido como “um corte epistemológico radical”.As imagens são inesquecíveis.A Sorbonne nos anos 1950 é uma espécie de Bastilha inexpugnável e por isso a revitalização cultural terá que seguir roteiros sinuosos.Nova York é o lugar decisivo da elaboração de uma antropologia estruturalista,graças ao encontro de LéviStrauss com o seu colega,o lingüista da New School Ro-

Em dois grandes volumes,com mais de mil páginas, a análise de livros e artigos ganha corpo e alma com o material levantado pelas 110 entrevistas,nas quais a trajetória dos personagens centrais dessa reviravolta cultural é esmiuçada.Apesar de boa parte dos intelectuais terem depois evitado o qualificativo estruturalista,jurando com fervor que de fato nunca o foram,esse foi um movimento tão ativo na derrubada de fronteiras a tal ponto de o treinador da seleção francesa de futebol anunciar,na década de1960,uma reorganização “estruturalista”da equipe a fim de melhorar seus resultados.

Aprendemos com esse livro que fazer uma história do mundo intelectual não é se deter exclusivamente na análise interna das obras publicadas,mas é preciso levar em conta o amplo contexto histórico e compreender as configurações específicas do campo intelectual em que se movem disciplinas como filosofia,ciências sociais,psicanálise,crítica literária,lingüística,história e economia e seus praticantes.

Se o programa estruturalista perdeu o seu brilho,é urgente avaliar sua riqueza para compreender os desafios teóricos do presente.Olhar para o passado é uma forma de ampliar os horizontes futuros.Um livro que é uma referência indispensável aos interessados na história intelectual das humanidades.

GUITA GRIN DEBERT é professora de antropologia da Unicamp.

Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo

Inês Bogéa (org.)

Cosac Naify

224 páginas, R$ 68,00

Os nove ensaios reunidos neste livro bilíngüe português-inglês têm em comum a intenção de pensar o Grupo Corpo,fundado em 1975,no contexto mais amplo da cultura brasileira dos nossos dias.Organizado e apresentado pela ex-bailarina do Grupo Inês Bogéa, o livro traz ensaios de Luis Fernando Verissimo,Zuenir Ventura,Marco Gianotti,entre outros, além de belas fotos da trajetória do grupo de dança mineiro.

Cosac Naify (11) 3218-1444 www.cosacnaify.com.br

Estudos de literatura brasileira e portuguesa

Paulo Franchetti

Ateliê Editorial

296 páginas, R$ 40,00

Os ensaios reunidos no livro de Paulo Franchetti abordam estudos sobre autores como Garrett,Camilo,Eça, Gonçalves Dias,Alencar e poesia brasileira do século XIX e da segunda metade do século XX. Cada um dos 17 textos que compõemo livro busca o equilíbrio entre a apresentação do estado da arte e a análise aprofundada entre a tradição e a contemporaneidade.

Ateliê Editorial (11) 4612-9666 www.atelie.com.br

Macroeconomia da estagnação: crítica da ortodoxia convencional no Brasil pós-1994

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Editora 34

328 páginas, R$ 44,00

Bresser-Pereira em Macroeconomia da estagnação realiza uma crítica acurada ao pensamento econômico hegemônico.Tenta demonstrar como o país,com as políticas ortodoxas convencionais,em nome do combate à inflação, tornou-se refém de juros exorbitantes e apreciação cambial,que impedem o seu d esenvolvimento econômico. Em contrapartida,o autor propõe uma nova estratégia nacional de desenvolvimento.

Editora 34 (11) 3816-6777 www.editora34.com.br

A Igreja militante e a expansão ibérica: 1440-1770

Charles R. Boxer

Companhia das Letras

184 páginas, R$ 35,00

As inúmeras formas de articulação e contradições entre a cruz e a espada, entre a fé e o interesse material na expansão marítima ibérica,que modificou o mundo entre os séculos XV e XVIII,são analisadas por Charles Boxer,que se v ale de documentos produzidos pelos membros da Igreja,com vistas a analisar o seu papel ambíguo e suas disputas internas,bem como as motivações e os dramas pessoais dos religiosos. Companhia das Letras (11) 3707-3500 www.companhiadasletras.com.br

A guerra total de Canudos

Frederico Pernambucano de Mello

A Girafa Editora

368 páginas, R$ 49,00

A história e os motivos da sangrenta Guerra de Canudos que reuniu mais de 30 mil habitantes em torno de Antônio Conselheiro,em plena Caatinga nordestina,são contados por Frederico de Mello neste livro onde analisa,entre outras questões,as causas remotas e próximas do conflito, as características dos meios natural e social sertanejos e o papel desempenhado pelo despreparado Exército.

A Girafa Editora (11) 3258-8878 www.agirafa.com.br

Orgulho de jamais aconselhar: a epistolografia de Mário de Andrade

Marcos Antonio de Moraes

Edusp

248 páginas, R$ 41,00

O caráter biográfico e histórico da epistolografia de Mário de Andrade é reconhecido atualmente,no entanto Marcos de Moraes interpreta as cartas mariodeandradianas como um projeto pedagógico inserido no ideário modernista.Em suas correspondências,Mário emprega uma retórica avessa às formas do conselho,semeando inquietações, exigindo posicionamentos artísticos e reações dos jovens escritores sedentos por opiniões do carteador.

Edusp (11) 3091-4008 www.edusp.com.br

Almanaque secreto da filosofia e do esporte

PARTEUM :F ILÓSOFOS - NÃO - TÃO - FILÓSOFOS

■ Polículo era um cidadão fidalgo e refinado,mesmo nos dias de chuva.Foi o primeiro antigo a amarrar as sandálias nas pernas,ainda que tenha amarrado as sandálias umas nas outras e pisado nos cadarços.

■ O grande momento da vida de Flatão (319-265 a.C.) foi quando o grande legislador Sólon,constipado,chamou Platão de Flatão,alçando este últ imo à fama repentina e criandoa e fêmera escola Flatônica.

■ Brotágoras de Mileto acreditava que era sofista e,mesmo tendo nascido em 1981,fazia questão de pegar todos os dias o coletivo 701-U Jaçanã–Butantã/USP vestido como um ateniense orgulhoso,proclamando em voz alta:“A exper iência ensina que para triunfar no mundo não é mister justiça e retidão,mas prudência e habilidade”,ao mesmo tempo que murmurava palavras incompreensíveis,alternadas com “Sócrates”e “maldito barbudo”.

■ Monógoras descobriu que a matéria era formada de pequenas partes,que por sua vez eram formadas por partes menores ainda,e assim por diante.A menor de todas as partes ele chamou de “minhoca”.Decidiu apresentar sua descoberta na feira de ciências de sua escola ptolomaica, mas perdeu o p rêmio máximo para Demócrito,que copiou totalmente seu trabalho,mas mudou o nome das pequenas partes para “átomos”e distribuiu balinhas de coco aos visitantes.

■ Hermeto era,provavelmente,a pessoa mais sábia de toda Tebas.Porém,sua tremenda dificuldade em ficar mais do que trinta segundos em uma sauna causou grande isolamento social,especialmente porque ele nunca conseguia ouvir uma piada de Xerxes até o final.

■ Penóprates (447-398 a.C.) era orador,mas seu sonho era ser técnico em informática.

■ Érmio de Platéia foi grande atleta em seu tempo,sobretudo nas provas de soletrar,as que mais agradavam os deu-

ses na época.O célebre embate entre Érmio e Eustáquio de Átila foi interrompido por falta de segurança após Érmio soletrar “Mãe Edite,sua calvície molestou o otomano!”,em vez de “Mas Alice,eu já disse que não sou mitômano!”,e em seguida alegar falha no sistema de som,causando tumulto de grandes proporções.

PART ED OIS :ATLETASNÃO - TÃO - ATLETAS

■ Jogos Olímpicos,76 a.C.

“Os corredores já partiram! A torcida entra em delírio! Mas que competição,patrícios e patrícias! Aquiles,o favorito, tomou a dianteira,mas...espere um segundo! Ele parece demorar uma infinidade de tempo a correr o primeiro metro, como se o movimento fosse de algum modo impossível!”

Na tribuna da plebe,Zenão divaga:“Não acredito que comprei bilhete para isto”.

■ Estocolmo,1912

Sob um frio de -5ºC,o húngaro Fèrènc Çzabosz enfrenta o dinamarquês Zork Zjork pela disputa do ouro no joquempô, categoria freestyle.

No primeiro lançamento,Zjork,apoiado pela torcida dinamarquesa em maior número,escolhe “pedra”,ante o atônito húngaro,que nada pode fazer com sua “tesoura”.Çzabosz,visivelmente nervoso,é agredido pelo treinador,enquanto Zjork leva as mãos em concha à orelha,como que pedindo para a massa gritar seu nome.Isso faz com que a torcida local dispare uma série de apupos contra o atleta dinamarquês,colocando-se ao lado do húngaro.

O fato animou Fèrènc,que,no segundo arremesso,desferiu a “tesoura”,minando os planos de Zjork com seu “papel”. Empatados em um,foram para o set derradeiro com enorme tensão.E nenhum torcedor,por mais doente que fosse, poderia imaginar o que viria a seguir:uma fuinha decidiria

o ouro.Ao sinal do árbitro,os dois oponentes se preparavam para o lançamento final,quando uma fuinha atravessou o gramado*.Desnorteado,o dinamarquês escolheu “pedra”, sendo alvejado pelo “papel”do húngaro,que,em êxtase,começou a correr em volta de seu cotovelo.Zork Zjork,em vão, tentou invalidar o lance alegando invasão de gramado,porém seu recurso não foi aceito,iniciando uma confusão que não acabaria antes de Antuérpia,1920.

*Até 1952,o joquempô olímpico era disputado na grama.

■ Amsterdã,1928

A competição de Tiro ao Pato era o momento mais aguardado das olimpíadas,devido ao esperado embate entre dois monstros sagrados do esporte.De um lado,o paquistanês Mahutah Singh,único atleta da história a vencer um mundialde Tiro ao Pato atirando-se ao pato (ver “Mundial de Tiro ao Pato,Glasgow 1926”).Do outro,o não menos popular Mohutah Singh,da Índia,que certa vez matou um alvo-pato apenas olhando para ele e fazendo tremenda força.

Como esperado,os oponentes não erraram nenhum alvo na fase eliminatória,levando ao delírio os mais de 162 mil espectadores que superlotavam o estádio olímpico,com capacidade para 25 mil pessoas.Ainda no primeiro lance,Mahutah atingiu os dez alvos-patos enquanto discutia com seu agente as confusas cláusulas de seu contrato;Mohutah,por sua vez,acertou os dez patos com um único tiro,disparado no breve intervalo entre um cochilo e outro.

Depois de 174 rodadas e nenhum erro por parte dos gênios do esporte,a organização informou que todos os patos do continente europeu estavam extintos,restando apenas um.Decidiu-se por fazer os competidores atirarem simultaneamente,e aquele que atingisse primeiro o pato seria o campeão.Segundos antes do lançamento da ave,o público inclinou-se para a frente de modo a não perder nenhum detalhe da História sendo escrita.Porém,o mundo não esperava que o torcedor curvo Rítias,possuidor de escoliose,esti-

vesse inclinado exatamente na linha de tiro,fato que impossibilitou o disparo dos atletas e permitiu ao pato seguir seu caminho rumo à liberdade.

Mahutah Singh e Mohutah Singh começaram a atirar a esmo em qualquer coisa que parecesse remotamente com um pato,alvejando e matando o arquiduque Francisco Ferdinando Filho;o incidente gerou um conflito bélico entre Índia e Paquistão que persiste até os dias atuais.

■ Helsinki,1952

Faltando dezoito metros para o final da maratona,exatos 174 atletas estavam empatados em primeiro lugar,todos espremidos ombro a ombro.Eis que surge o ruivo Crítias e,em uma arrancada digna de um herói mitológico,ultrapassa cada um dos competidores e vence.Mas sua glória é efêmera, pois os árbitros anunciam que o ruivo Crítias está eliminado por ter participado da prova somente nos últimos vinte metros e por estar totalmente nu.

■ Corrida do Queijo de Gloucester,1964

A célebre contenda de 1964 é,até hoje,motivo de discussões acaloradas e regadas a destilados.Há aqueles que se solidarizam com Harry Truman,não só por ele ser homônimo do presidente americano,mas também por ele não ter largado do queijo mesmo seis dias após a Corrida.Do outro lado,estão os partidários de Zenk Skifalver,o Austríaco, que demonstrou força física e de espírito incompatíveis para seu 1,41m.

Mesmo os dois tendo rolado 33 metros com o queijo entre eles,cada qual se agarrando ao lactoso à sua maneira,a rainha declarou como vencedor um simpático coelhinho,gerando uma batalha campal entre o público e a família real.

MARCOS BARBARÁ tem 27 anos e é autor de Anão vestido de palhaço mata 8 (Editora Rocco).

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Sábados, às 11h

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Apresentação Leandro Andrade

Comentários Mariluce Moura

Diretora de redação de Pesquisa FAPESP

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