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Prêmio FCW 2004

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F undação C o nrado W essel

Os vencedOres dO PrêmiO cOnradO Wessel de arte, ciência e cultura 2004

Conselho Curador e diretoria da FCW

Conselho Curador

Presidente

Dr. Antonio Bias Bueno Guillon

Membros

Dr. José Hermílio Curado

Dr. Reinaldo Antonio Nahas

Dr. José Antonio de Seixas Pereira Neto

Stefan Graf Von Galen

Dr. Lélio Ravagnani Filho

Dr. José Álvaro Fioravanti

Capitão PM Kleber Danúbio Alencar Júnior

diretoria exeCutiva

Diretor Presidente

Dr. Américo Fialdini Júnior

Diretor Vice-Presidente

Dr. Sérgio Roberto de Figueiredo Santos e Marchese

Diretor Financeiro

Dr. José Moscogliatto Caricatti

Diretor Administrativo

Dr. Adilson Costa Macedo

Coordenação desta edição

José Moscogliatto Caricatti

Fundação Conrado Wessel

Rua Pará, 50 - 15º andar Higienópolis - 01243-020

São Paulo, SP - Brasil Tel./fax: 11 3237-2590 www.fcw.org.br diretoria@fcw.org.br

4

FCW cumpre desejo de seu idealizador: faz filantropia e dá prêmios

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Na terceira edição, Fundação aprimora formato da premiação

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A festa dos ganhadores reuniu cerca de 750 pessoas no Masp

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Conheça as sete instituições parceiras da Fundação

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Pesquisas de César Victora moldaram políticas públicas

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Museu Goeldi ajuda a manter a riqueza biológica da Amazônia

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Wessel criou a primeira fábrica brasileira de papel fotográfico

20

IAC desenvolveu 700 cultivares desde sua fundação

29

Estudos de Alberto Franco são fundamentais para a navegação

14

Isaias Raw transformou o ensino da ciência e melhorou o Butantan

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Ferreira Gullar faz verso e prosa com a mesma competência

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As fotos publicitárias que ganharam o prêmio de Arte

Capa Hélio de Almeida - Foto da capa: Miguel Boyayan

Ideal consolIdado

Fundação Conrado Wessel cumpre desejo de seu idealizador ao fazer filantropia e premiar arte, ciência e cultura

AFundação Conrado Wessel (FCW), criada em 1994, em poucos anos de vida já cumpre fielmente o desejo de seu idealizador, Ubaldo Conrado Augusto Wessel, de torná­la uma instituição que carreie recursos com “objetivos filantrópicos, beneficentes, educativos, culturais e científicos”. Hoje seis entidades recebem uma doação anual relevante que beneficia diretamente 1.600 jovens e crianças carentes e 370 adultos. A fundação oferece também, desde 2002, o maior prêmio destinado à arte, à ciência e à cultura no Brasil. Tudo isso sem ter uma empresa que vise vender produtos com sua marca. A FCW existe para fazer filantropia e premiar artistas e pesquisadores ou institutos de pesquisa com trabalhos relevantes no país.

As entidades que recebem do a ção são as Al dei as In fan­

tis SOS do Brasil, o Colégio Benjamin Constant, o Corpo de Bom bei ros da Po lí cia Mi li tar do Estado de São Paulo, a Fundação Antônio Prudente, a Promoção Social do Exército da Salvação e uma institu i ção de aju da a cri anças carentes escolhida anualmente pelos dirigentes da FCW. Em 2003 foram doados R$ 480 mil; em 2004, R$ 640 mil; em 2005, R$ 720 mil. Os Prêmios FCW de Arte, Ciência e Cultura tiveram a primeira edição em 2002. Nesta terceira edição foi outorgado o prêmio à Fotografia Publicitária, na categoria Arte, distribuído a três fotógrafos, no total de R$ 140 mil líquidos; às respectivas agências foi concedido um diploma de hon ra ao mé ri to. Em Ciência e Cultura, os premiados foram pesquisadores em ciência e tecnologia e um poeta. Cada um ganhou um troféu e R$ 100 mil líquidos

– o maior valor para escolhas do gênero do país. No caso da Ciência, o sistema de seleção dos ganhadores contribui significati va mente para sua credibilidade entre a comunidade científica. Os nomes foram es co lhi dos a par tir de indicações feitas por 104 univer sidades federais e estaduais, academias, institutos e outras entidades de tradição no meio acadêmico nacional. Por todas essas características, a FCW acredita estar contribuindo para o incentivo de atividades que farão o Brasil maior e mais valorizado do que é hoje. A presente edição destina­se a divulgar as ações da fundação para o público interessado – no caso, prováveis candidatos aos prêmios no futuro –, contar a história de Conrado Wessel (na página 6) e apresentar os ganhadores do Prêmio FCW de 2004 (a partir da página 14), conhecidos este ano. •

Alunos durante aula no Colégio Benjamin Constant e pesquisa no Hospital do Câncer, da Fundação Antônio Prudente: apoio da FCW

RetRato de um inventoR

Conrado Wessel

criou a primeira fábrica brasileira de papel fotográfico

Conrado Wessel era apaixonado pela ciência e pela arte.

Inventor nato e em pre en de dor obstinado, criou a primeira fábrica brasileira de papel fotográfico, no início dos anos 1920, utilizando tecnologia desenvolvida e patenteada por ele. Conquistou um mercado até então dominado por fornecedores estrangeiros e formou um patrimônio imobiliário que, obedecendo ao desejo expresso em seu testamento, foi utilizado como lastro para criar uma fundação que apoiasse atividades educativas, culturais e científicas de seis entidades e incentivasse a arte, a ciência e a cultura por meio de prêmios. A fundação foi institu­

ída em 1994, um ano depois da sua morte, aos 102 anos.

Con ra do Wes sel nas ceu em Buenos Aires, em 1891, filho de família tradicional de fabricantes de chapéus, em Hamburgo, na Alemanha, que imigrara para a Argentina, em meados do século 19, para se estabelecer como estancieira. No ano seguinte ao seu nascimento o pai, Guilherme Wessel, formado em física, migrou para Sorocaba e, posteriormente, para São Paulo, convida do a le ci o nar na re cémfun da da Es co la Politécnica, no bairro da Luz.

A pai xão pela fo to gra fia Conrado Wessel herdou do pai, que, paralelamente às aulas na Politécnica, adquiriu uma loja de material fotográfi­

co onde instalou um ateliê de fotografia, na rua São Bento. Ainda jovem, Conrado Wessel ganhou dois prêmios em concur sos pro movi dos pela Secretaria da Agricultura.

O interesse pela fotografia levou­o ao estudo da química e, em 1911, Conrado Wessel foi para Viena, na Áustria. Lá apren deu fo to quí mi ca na K.K. Lehr und Ver suchs Antstalt, renomada escola de fotogra fia, es pe ci a li zan do ­ se em clichês para jornais e revistas. Voltou ao Brasil, dois anos depois, cer to de que o conhecimento adquirido na Europa não era suficiente para o seu “desenvolvimento técnico e comercial”, como ele mesmo obser vou em uma breve autobiografia. Seu projeto era

ambicioso: sonhava com a criação de uma fábrica de papel fotográfico nacional.

Na época, os fotógrafos do Jardim da Luz, um dos principais locais de lazer da cidade, trabalhavam com uma câmeralaboratório: uma caixa de madeira com uma objetiva sobre um tripé. A câmera era dividida em duas partes.A inferior continha os banhos de revelador e fixador utilizados para o processamento químico de filmes e papéis. O papel utilizado era importado de fabricantes como a Kodak, Agfa e Gevaert.

Para realizar seu projeto de produzir papel com qualidade equivalente ao do importado, e a preços mais baixos, Conrado Wessel matriculou­se como

Conrado Wessel com aparelho fotográfico: paixão herdada do pai, professor da Politécnica

O próximo desafio era iniciar a produção. Faltavam­lhe no entanto dinhei ro, má quinas e pa pel. As máquinas, ele adquiriu “por 8 contos e 500” de um estudante de fotoquímica que, tal como ele, tentara fundar uma fábrica de papel fotográfico. O negócio não ti nha dado cer to e o equi pa men to es tava dis ponível. As máquinas foram instaladas num pequeno prédio de propriedade do pai, na Barra Funda, em 1921. “As fórmulas que eu havia elaborado pareciam boas, mas não poderia assegurar que seriam boas tam bém na fa bri ca ção”, ele registrou, preocupado.

ouvinte na Escola Politécnica. “Durante quatro anos fiz de tudo ali”, contou. “Desde a preparação do nitrato de prata até os estudos das diferentes qualidades de gelatinas. Da ação dos halogênios como o bromo, o cloro e o iodo sobre o nitrato de prata. Fiz inúmeras experiências misturando o nitrato de prata ao brometo de potássio, ao cloreto de sódio e ao iodeto de potássio. Cheguei à conclusão de que a mistura de uma pequena dose de iodo ao bromo dava muito melhor resultado, assim como a adição do bromo ao cloro.” Depois de centenas de experiências, Conrado Wessel chegou a uma fórmula satisfatória para o papel, cujas provas, como ele sublinhou, agradaram muito ao seu pai.

Faltava­lhe, ainda, o papel necessário para os testes, já que no Brasil não havia nenhuma fábrica que pudesse fornecer o papel baritado. O material tinha que ser comprado na França, fabricado pela Rivers, ou na Alemanha, pela Scholler. Conrado Wessel saiu à cata de um importador. “Enquanto a encomenda não chegava, estudei como pendurar o papel emulsionado para secar no pequeno espaço de que dispunha”, disse.

O acaso, ele reconheceu, ajudou­o a encontrar a solução. Conrado Wessel estava na Tapeçaria Schultz, para a qual realizava um ser viço de propaganda, quando lhe chamou a atenção o sistema de cor tinas que se moviam por cordinhas usadas pelos tapeceiros. Fez um croqui do sistema utilizado na Schultz e ima ginou que, empregando método semelhante, poderia secar mais de 100 metros de papel.

O papel chegou e a peque­

FUNDAÇÃO CONRADO WESSEL

Documento atesta “uso effectivo” do novo processo de produção de papel fotográfico patenteado por Conrado Wessel em 1921

na fábrica iniciou sua produção. “Foi um desastre”, resumiu Conrado Wessel. Não se aproveitou mais do que 10 centímetros dos 10 metros de pa pel emul si o na dos. Nova tentativa, nova frustração. O papel, ele descre veu, estava quase todo “eivado de pequenas bolhas e outras partículas indesejáveis”.

Enquanto “matutava” sobre o problema, mais uma vez o acaso – e o olhar arguto –trouxe a solução. Conrado Wessel foi chamado à fábrica das Linhas Correntes, no Ipiranga, para executar um ser viço de clichês. Sozinho no salão de espera, reparou numa pequena máquina utilizada para passar goma no verso das etiquetas. Ele descreveu esse

equipamento: “Havia uma cuba e um rolo imerso dentro dela. Com a máquina em movimento, o rolo passava uma certa quantidade da solução, deixando estrias sobre o papel, que também seguia seu cur so. Eureca, pensei, meu problema está resolvido”. Mais uma vez fez um croqui e adaptou a máquina de emulsionagem ao modelo daquela utilizada para gomar etiquetas. E detalhou os resultados: “A máquina se resumia no seguinte: uma cuba de barro vidrado (naquela época não existia o aço ino xidável) cheia de emulsão e um rolo de ebonite que mergulhava nela. O papel passava entre um outro eixo fixo, regulado como o rolo. Dessa maneira, as bolhas fica­

vam todas na cuba. Mais tarde esse sistema foi melhorado, com mais de um rolo de ebonite, tornando impossível o surgimento de bolhas sobre o papel. Fizemos novas experiências com pleno êxito.Vamos fabricar e vender”, comemorou. Nasceu assim a Fábrica Privilegiada de Papéis Photograficos Wessel.

Conrado Wessel não imaginava, no entanto, que teria que enfrentar ainda a resistência dos fotógrafos, seus potenciais cli en tes. “Eles ex pe ri mentaram o material, acharam bons os resultados, mas julgaram melhor continuar com o postal da Ridax, da Gevaert, apesar do preço do meu ser bem menor.” Foi nessa época que ele forjou o lema que o acom­

panharia por toda a vida: “Insista, não desista”.

Os negócios iam mal até que a sorte – ou talvez a história – reverteu o risco do fracasso. No dia 5 de julho de 1924, Isidoro Dias Lopes de fla grou o mo vi men to conhecido como a Revolução dos Tenentes. São Paulo ficou sitiada, isolada do resto do país. Aos fotógrafos da Luz faltou papel importado. “Numa manhã de um dos primeiros dias de revolução apareceu um deles em minha casa e perguntou se eu tinha postais para vender”, contou Conrado Wessel. A revolução abriulhe o mercado. Ao fim de 29 dias de cerco, os rebeldes se renderam. O fluxo de papel importado foi restabelecido,

Conrado Wessel foi premiado em concursos de fotografias no início do século 20

mas a fábrica de papéis criada por Conrado Wessel já tinha, definitivamente, conquistado a clientela que lhe permaneceu fiel.

Os gran des fa bri can tes estrangeiros, como a Gevaert, tentaram ainda recuperar o mercado oferecendo produtos mais ba ra tos. Con ra do Wessel também baixou os preços. “Por incrível que pareça, estes postais mais baratos não foram aceitos pelos ambulantes. Nem os meus, nem os da Gevaert.” A produção brasileira cresceu, Conrado Wessel comprou um prédio maior, na mesma rua, e consolidou sua posição no mercado. Não faltaram propostas de empresas estrangeiras interessadas em parce­

ria com a ago ra prós pe ra fábrica brasileira de papéis, até que Conrado Wessel firmasse um contrato com a Kodak. Ficou acer tado que a em pre sa nor te ­ ame ri ca na construiria uma fábrica nova em Santo Amaro, com maquiná rio mo der no, que se ria ad mi nis tra da por Con ra do Wessel por um período de 25 anos ao fim do qual a fábrica e a pa ten te pas sa ri am à Kodak.

Ao longo desse período, com o lu cro dos ne gó ci os bem administrados, Conrado Wessel comprou imóveis nos bair ros de Cam pos Elí se os, Barra Funda, Santa Cecília e Higienópolis, que, no futuro, se tornariam o patrimônio da fundação. •

Parceria com a Kodak permitiu a construção de nova fábrica de papel fotográfico

CiênCia, arte e Cultura

FCW aprimora for mato da maior premiação em dinheiro conferida por uma instituição brasileira

Acada edição do Prêmio FCW de Arte, Ciência e Cultura, a Fundação vem aper fei ço an do seu for ma to para torná­lo mais interessante e cobrir eventuais lacunas. Na terceira edição, de 2004, cuja cerimônia de entrega dos prêmios ocorreu em 30 de maio de 2005, houve uma mudança: agora, na categoria Arte, em que a FCW homenageia o fotógrafo publicitário, são lembradas também as agências de publicidade às quais as fotos se vincularam – seus diretores recebem um diploma de honra ao mérito. O nome do prêmio Ciência Aplicada ao Mar foi substituído por Ciência Aplicada à Água para ampliar o escopo do prêmio e permitir a candidatura de especialistas em estudos sobre recur sos hídricos.

Na galeria de laureados pelo Prêmio FCW observa­se uma profusão de talentos brasileiros. Na primeira edição,

em 2002, os prêmios na área de Ciência foram distribuídos por meio de concurso nas escolas da rede pública de São Paulo. A FCW distribuiu 18 computadores e R$ 150 mil entre as escolas, professores e alunos premiados. Na área de Literatura foram premiados três autores inéditos, selecionados por críticos literários entre 94 concorrentes: Noêmia Sartori Ponzeto, Maria Filomena Bouissou Lepecki e Santiago Nazarian. O prêmio foi a edição do livro inédito de cada um, com tiragem de 2 mil exemplares, com noite de autógrafo no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. O prêmio de Arte foi conferido aos fotógrafos Klaus Werner Mittel dorf, Mau rí cio Sa lo mão Na has Fi lho, Al lard Wil len Meindert van Wielink.

Na se gun da edi ção, em 2003, a premiação adquiriu novo formato para destacar o trabalho de pesquisadores vinculados a universidades e institutos de pesquisa. O prêmio

foi dividido em seis categorias: Ciência Geral (Carlos Henrique de Brito Cruz foi o ganhador), Ciência Aplicada ao Meio Ambiente (Philip Mar tin Fearnside), ao Campo (Jairo Vidal Vieira), ao Mar (Dieter Carl Ernst Heino Muehe), Medicina (Maria Inês Schmidt) e Literatura (Lia Luft). Na categoria Arte ganharam os fotógrafos Bob Wolfenson, Leonardo Martins Vilela e Márcia Ramalho.

Para ampliar a participação dos cientistas, a FCW firmou acordo com entidades de fomento à ciência e tecnologia, entre elas a FAPESP, que passou a integrar a comissão de organização e avaliação das candidaturas. Os vencedores de cada categoria recebem um prêmio no valor de R$ 100 mil líquidos – o maior já conferido por uma instituição brasileira – e uma escultura de Vlavianos. A lista com o nome dos indicados foi submetida à avaliação de um júri formado por entidades parceiras da

Medicina Ciência Aplicada ao Campo
Ciência Geral

FCW (veja a lista no final desta edição).

Em 2004, na terceira edição, o bioquímico Isaias Raw, pre si den te da Fun da ção Butantan, ganhou o prêmio de Ciência Geral. Raw tem uma extensa história como pesquisador na Universidade de São Paulo (USP) e em centros dos Estados Unidos, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade Harvard, e de Israel, como a Universidade Hebraica de Jerusalém. Exerceu importante papel na formação de pesquisadores e na difusão da ciência no Brasil e foi um dos fundadores da Fundação Carlos Chagas e do Centro de Biotecnolo gia do Ins ti tu to Bu tan tan (conheça o perfil dos ganhadores de 2004 a partir da página 14).

César Gomes Victora, professor da Faculdade de Medicina da Univer sidade Federal de Pelotas (UFPel), ganhou o prêmio de Medicina em razão de seus tra balhos para a

melhoria da saúde infantil no Brasil e em outros 40 países. Dos dez trabalhos mais citados sobre aleitamento materno na América Latina, sete são de sua autoria ou co­autoria, de acordo com dados do Institute for Scientific Infor mation (ISI). Na categoria Ciência Aplicada à Água ganhou o almirante Alber to dos Santos Franco, especialista na análise e previsão das marés, trabalho de grande importância para a Marinha e todo o transporte marítimo por per mitir completa monitoração de navegabilidade do país.

Em Ciência Aplicada ao Campo o escolhido foi o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) por pesquisas sobre produ ção ve ge tal vi san do ao desenvolvimento socioeconômico com qualidade ambiental. O IAC é órgão da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e tem 118 anos – foi criado pelo

imperador d. Pedro II. O Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém, foi o premiado na categoria Ciência Aplicada ao Meio Ambiente. Primeira instituição científica da Amazônia, o Emílio Goeldi produz e di fun de conhecimentos sobre a região, cataloga e analisa sua diversidade biológica e sociocultural, além de contribuir para a for ma ção da me mó ria cul tu ral, para o desenvolvimento regional e educação.

Fer rei ra Gul lar, po e ta maranhense radicado no Rio de Janeiro, foi o laureado em Literatura. Escritor ver sátil, é expoente da crítica e da dramaturgia nacionais. Poema sujo, Na vertigem do dia e Dentro da noite veloz são alguns de seus livros de poemas mais conhecidos. Por fim, os premiados na categoria Ar te (Foto Publicitária) foram os fotógrafos Ricardo Cunha, em primeiro lugar, Paulo Vainer, em segundo, e Felipe Hellmeister, em terceiro. •

Ciência Aplicada ao Meio Ambiente
Ciência Aplicada à Água
Arte
Literatura
MIGUEL BOYAYAN

Os ganhadores do Prêmio FCW de Arte, Ciência e Cultura

Festa dos vencedores no masp

Acerimônia de entrega do Prêmio FCW 2004 de Arte, Ciência e Cultura foi realizada no dia 30 de maio de 2005 no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista. Os sete vencedores das áreas de Ciência, Cultura e Arte, os integrantes do júri que fez a escolha final, o Conselho Curador e os diretores da Fundação Conrado Wessel estiveram presentes no auditório do museu. Cerca de 750 pessoas assistiram à cerimônia. Na mesma ocasião foi aberta a Mostra de Fotografia Publicitária, que ficou no Masp até o dia 12 de junho. A exposição apresentou o que de melhor foi produzido pelos fotógrafos da área e que concorreram ao prêmio de Arte da FCW. Veja nestas duas páginas alguns flagrantes da festa.

2004 durante a cerimônia no Masp
Antonio Bias Bueno Guillon, presidente do Conselho Curador da FCW, e Ferreira Gullar
Isaias Raw com Julio Neves, presidente do Masp, logo depois da cerimônia de premiação

Integrantes do júri que escolheu os vencedores (primeira fila), do Conselho Curador e da diretoria da FCW

FERNANDO SILVEIRA
GABRIEL VALLEJO
Secretário estadual da Cultura, João Batista de Andrade (esq.), Américo Fialdini Jr. e José M. Caricatti, da FCW, e Carlos Vogt, da FAPESP
Felipe Hellmeister, Ricardo Cunha e Paulo Vainer ganharam o prêmio de Arte com suas fotos
Almirante Alberto dos Santos Franco e Fernando de Arruda Botelho, da FCW
Visitantes observam fotos na abertura da Mostra de Fotografia Publicitária
GABRIEL VALLEJO

A Arte de trAnsformAr

Isaias Raw revolucionou o ensino da ciência e a produção de insumos para a saúde

Isaias Raw diver te­se fazendo ciência. E vive arquitetando meios e modos de compartilhar esse prazer com as novas gerações. Ainda aluno do ginásio, na década de 1940, transfor mou a garagem de sua casa em um laboratório que viraria base de operação, no futuro, de um programa revoluci o ná rio de edu ca ção em ci ên cia: os fa mo sos kits de Quí mi ca, Ele tri ci da de e Bi ologia. Durante anos esses kits foram distribuídos em escolas e, posteriormente, passaram a integrar o portfólio de produtos da editora Abril. Es tu dan te da Fa cul dade de Medicina da Univer sidade de São Paulo (USP), aos

20 e poucos anos construiu um Museu de História Natural e fundou a revista Cultus para di fun dir in for ma çõ es so bre a bi o lo gia mo der na en tre pro fes so res. Aos 75 anos, tanto fez até que conseguiu inaugurar, em 2002, o Museu de Microbiologia, no Instituto Butantan, cuja missão é estimular a curiosidade científica entre alunos e professores do ensino fundamental e médio. Um dos departamentos mais concor ri dos do mu seu é o seu la bo ra tó rio, equi pa do com microscópios individuais e moder nas ver sões dos velhos kits de experimentos científicos que incluem, en tre ou tros, a manipulação de organismos unicelulares.

Não foram as iniciativas na área de educação em ciência que deram fama a Isaias Raw. No início da década de 1960, ele já era um bioquímico re co nhe ci do in ter na ci onal men te. “En trei na fa culda de interessado em fazer pesquisa, não em ser médico”, explica o cientista. Isolou uma das enzimas do ciclo de oxi da ção de áci dos graxos, obteve a cristalização da cro to na se, en zi ma do ci clo de oxidação de ácidos graxos, demonstrou a existência de uma via alter nativa de transpor te de elétrons na membrana exter na da mitocôndria e – contribuição maior – provou que subpar tículas mitocon dri ais eram ca pa zes de conser var energia química na

molécula de ATP. Suas observações confrontaram o dogma de que a mitocôndria de ve ria estar in tac ta para haver fosforilação e incomodaram os papas da bioquímica. A descober ta da existência de uma via alter nativa de elétrons na membrana externa da mitocôndria só foi reconhecida em 1967. Foi também pioneiro na investigação de enzimas do metabolismo do Trypanosoma cruzi. Na épo ca, ele tam bém dava aulas na Faculdade de Medicina. “Isaias era desafiador”, lembra Ricardo Brentani, di re tor pre si den te da FAPESP e diretor do Instituto Ludwig de Pesquisa contra o Câncer, ex­aluno e discípulo de Isaias Raw. Na terça­feira,

quando chegavam as revistas in ter na ci o nais, Isai as comparecia à biblioteca bem antes do início do expediente – um privilégio exclusivo dos professores – e lia tudo que ha via de no vi da de para depois instigar seus alunos com infor mações que eles não tinham. No laboratório, es ti mu lava ­ os a ex pe ri mentar qualquer idéia, mesmo que a única conclusão fosse a de que só se aprende fazendo er rado. “Isaias foi fundamental na nossa for mação como ci en tis tas e como gen te”, reconhece Brentani.

O cientista­professor teve seu momento de empreendedor: criou na Fundação para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec), então

sob sua direção, uma indústria de equipamentos médicos e científicos, de onde saíram os primeiros eletrocardiógrafos, mo ni to res, cardi over so res, pHmetros e fotocolorímetros produzidos no país.

A qua li da de da pes qui sa credenciou­o para o cargo de professor de Química Fisiológica da Faculdade de Medicina em 1964, logo depois de ter saído da prisão, acusado de sub ver si vo. Isai as Raw, ali ás, foi preso duas vezes. A segunda, em 1969, o levou ao exílio. Desembarcou na Univer sidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, que ele considerava sua segunda pátria, com pla nos de con tri bu ir para o ensino da ciência – mas a experiência foi frustrante. “É

Ainda aluno do ginásio, Raw transformou a garagem de casa num centro de produção de kits distribuídos em escolas MIGUEL

mu i to di fí cil in ter fe rir na educação de um outro país se você é estrangeiro”, reconheceu. Um ano depois estava no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Esta dos Uni dos. Lon ge de seu grupo de pesquisa, decidiu dedicar­se à velha paixão: a educação em ciência. O programa foi capa da presti gia da Chemical News e virou livro.“Quando o programa mor reu, fui convidado para ir para a Es co la Pú bli ca da Uni ver si da de Har vard, no Depar tamento de Nutrição”, lembra. No exí lio es cre veu o li vro From mo le cu le to medicine-ane mia , em que defendeu a idéia – colocada em prática anos antes, na USP – de integração da ciência básica e clínicas num cur so de medicina experimental.

Voltou ao Brasil, em 1980, e não aceitou ser reintegrado aos quadros da USP. Alegou que o Departamento de Bioquímica que, na prática, tinha ajudado a fundar não necessitava mais dele. Foi acolhido por amigos no Laboratório Lavoisier de Análises Clínicas até ser contratado pelo Instituto Butantan. Aí começou outra empreitada: a de modernizar o instituto e transformá­lo num órgão de Estado com a missão de produzir insumos para a promoção da saúde.

Sob a liderança de Isaias Raw, o instituto ampliou seus qua dros, inves tiu no de senvol vi men to de pes qui sa e nas plan tas de no vos pro dutos. Hoje o Butantan produz 200 mi lhõ es de do ses de va ci na por ano, entre elas a tríplice (co que lu che, dif te ria

O bioquímico levou o Instituto Butantan a produzir 200 milhões de doses de vacinas anualmente

e té ta no), a dupla (difteria e té ta no), as va ci nas con tra hepatite B, contra a tuberculose e gripe, além de um surfactante para pro te ger crian ças pre ma tu ras. Isso sem fa lar no pro je to de cons trução de uma fábrica de hemoderivados, proteínas obtidas a par tir do plas ma, uti li za das no tratamento de doenças como a hemofilia A e B e como matéria­prima na produção de vacinas.

Wal ter Col li, pro fes sor ti tu lar do Ins ti tu to de Quími ca da USP, as ses sor da

di re to ria ci en tí fi ca da FA PESP, ex ­ alu no e com panhei ro de Isai as Raw, tes temu nhou o seu es for ço transfor ma dor. “Em tu do o que to cou Isai as foi re vo lu ci o nário”, ele afir mou no dis cur so em ho me na gem aos seus 75 anos. “Fez a subver são da in te li gên cia con tra a me di ocri da de; da provo ca ção in telec tu al con tra a aco mo dação; da verda de no dis cur so con tra a im pos tu ra da re tó rica va zia; da mo der ni da de pro gres sis ta con tra a tra dição re a ci o ná ria.” •

Pesquisas de César

Victora moldaram políticas públicas

A bênção do leite mAterno O

epi de mi o lo gista gaúcho César Gomes Victora, de 53 anos, vencedor do Prêmio FCW na categoria Medici na, vive há mais de duas décadas em Pelotas, cidade a 250 quilômetros de Porto Alegre. Professor da Faculdade de Medicina da Univer sidade Federal de Pelotas (UFPel), Victora lidera o maior e mais duradouro estudo de acompanhamento de uma população já feito nos países em desenvolvimento. Desde 1982, seu grupo acompanha a saúde das cerca de 6 mil pessoas que nasceram na cidade naquele ano. Perto de 80% desse universo, hoje formado por jovens adultos, continua sendo monitorado e, do trabalho, já brotaram algumas dezenas de pesquisas, a maioria sobre o impacto de problemas ocorridos na gravidez e nos primeiros anos de vida na saúde de indivíduos adultos. A pesqui­

Victora: maior estudo populacional já feito em países em desenvolvimento

sa demonstra o efeito duradouro das condições adversas, notadamente a desnutrição, no risco de desenvolver patologias como a obesidade, a hipertensão ou o diabetes.

Mas as tarefas de pesquisador e de professor são freqüentemente interrompidas por um outro trabalho que Victora desenvolve, bem longe do Brasil. Desde 1994, ele é um dos coordenadores inter nacionais de um programa da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) que implementa ações de comba­

te à desnutrição e a doenças prevalentes em crianças de áreas rurais paupérrimas, onde a mortalidade infantil é elevada. Neste programa, conheci do como Ava li a ção In ter na ci onal do Impacto do Programa AIDPI (Atenção Integral à Saúde da Criança), Victora planeja ações, como o treinamento de agentes co mu ni tá ri os ou a re for mulação do atendimento em postos de saúde, e depois acompanhando os resultados. Só neste ano esteve na Tanzânia, nas Filipinas e no Peru, e se pre pa ra para ir a Ban gladesh. E isso é ape nas uma

O pesquisador em área rural do Camboja: viagens freqüentes a regiões miseráveis como emissário da OMS

amostra dos 40 países onde já trabalhou. Mas também costuma viajar para grandes cidades, como Londres, Genebra e Nova York, onde participa de reuniões da OMS e do Unicef. O convite para integrar­se a esse projeto inter nacional resultou de sua experiência no tema no Brasil. Entre 1986 e 1994 realizou tra balho semelhante em cidades do Nordeste brasileiro, cenário de várias de suas pesquisas. “Passo no exterior uns dez dias por mês e o restante eu fico em Pelotas, onde me fixei logo que foi criada a univer sidade federal. Já recebi convites para sair daqui, mas optei por permanecer. Em Pelotas reúno as melho res con di çõ es de re ali zar meu trabalho”, diz, referindo­se às opor tunidades de pesquisa, como o estudo com os nascidos em 1982. Casado pela segunda vez, Victora tem

dois filhos adultos – um deles seguiu a car rei ra de pes quisa dor na área da saúde: é imunologista – e uma enteada adolescente.

Seu interesse pela epidemiologia despontou logo no início da carreira de médico. Quando concluiu o curso de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, Victora foi trabalhar num serviço de medicina comunitária numa favela da cidade, o Morro da Cruz.“Me preocupavam muito aquelas crianças desnutridas, macérrimas, que não ganhavam peso devido a uma dieta inadequada, falta de aleitamento e infecções repetidas, principalmente a diarréia. A população tinha um termo para descrever esta doença,‘a míngua’, que em termos médicos corresponde

ao marasmo, ou desnutrição severa”, recorda­se o médico. “Eu tratava aquelas crianças repetidas vezes, e elas acabavam retornando sempre, em sua maioria sem apresentar melhora. Foi então que surgiu meu interesse em estudar saúde pública, para descobrir como prevenir essas doenças. E, dentro da saúde pública, escolhi a epidemiologia, disciplina que identifica as causas das doenças nas populações, propõe e testa intervenções contra estas doenças. Escolhi também a epidemiologia porque sempre gostei muito de matemática e estatística“, diz. Em três décadas de carreira, acumula na biografia a publicação de cerca de 300 trabalhos científicos sobre a saúde da criança e do adolescente, com destaque para o papel do aleitamento mater no na prevenção das doenças e mortalidade na infância. De acordo

Com crianças em Níger, país africano que ostenta um dos piores níveis de desenvolvimento humano

com o Institute for Scientific Information (ISI), que indexa os melhores periódicos científicos do planeta, dos dez trabalhos mais citados sobre aleitamento mater no na América Latina, sete são de autoria ou co­autoria de Victora, incluindo­se aí a pesquisa que ocupa o primeiro lugar, Evidence for a strong protective effect of breast-feeding against infant deaths due to infectious diseases in Brazil, publicado no jornal Lancet em 1987. Com 234 citações em outras revistas científicas até o final de 2004, este artigo foi o primeiro com mé to dos epi de mi o ló gi cos modernos a mostrar uma forte associação entre a mortalidade infantil por diarréia, pneumonia e outras doenças infecciosas, com a falta de aleitamento materno.

O risco de morrer por diarréia em crianças desmamadas revelou­se 14 vezes maior do

que naquelas que tomavam leite materno e mais nada (nem água, nem chazinhos, nem leite em pó). Para pneumonia, o risco dos desmamados é quatro vezes superior. Em 2000, Victora coordenou um grupo de trabalho da OMS que analisou dados de seis países diferentes, comprovando a importância do aleitamento materno para evitar a mortalidade de crianças menores de 2 anos de idade. Esse estudo, com 106 citações no ISI, foi também publicado na revista Lancet Suas pesquisas serviram de lastro para as novas diretrizes da OMS e do Unicef, adotadas pelo Ministério da Saúde do Brasil, recomendando o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade, e a continuidade do aleitamento, complementado por outros alimentos, até o segundo ano de vida. Seu campo de interesse não se limita à questão do

aleitamento. Também participa de pesquisas nas áreas de Avaliação de Ser viços de Saúde, Desigualdades em Saúde, Sexualidade na Adolescência e Estudos Antropométricos, entre outros. Em 1996 foi indicado pela OMS para preparar o protocolo de um estudo que irá estabelecer novas cur vas de crescimento infantil, baseadas em crianças amamentadas, que têm padrão de crescimento diferente das crianças que recebem outros tipos de leite. A Universidade Federal de Pelotas foi o primeiro centro a coletar dados para o Estudo Multicêntrico de Cur vas de Crescimento, seguido de Davis (Califórnia, EUA), Oslo (Noruega), Nova Delhi (Índia), Omã (Omã) e Accra (Gana). As novas cur vas de crescimento estão em fase final de preparação e serão publicadas pela OMS no início de 2006. •

ConheCimento repartido

Desde sua criação, em 1887, IAC colocou 700 novas espécies

vegetais nas mesas dos brasileiros

Criado com o apoio dos barões do ca fé no fi nal do século 19, preocupados em melhorar o cul ti vo da plan ta, o Instituto Agronômico (IAC) já colocou desde a sua fundação 732 variedades vegetais à disposição da agricultura brasileira com base em pesquisas de café, arroz, feijão, soja, milho, trigo, canade­açúcar, seringueira, fru tas, hor ta li ças, ci tros e fi bras. Esses resulta dos só fo ram alcançados porque o instituto tem como rotina um intensivo e con tí nuo tra ba lho de melhoramento genético de plantas, por meio de cruzamentos nos laboratórios ou nas casas de vegetação. “Para obter uma nova cultivar de feijão ou soja são necessários de oito a dez anos de pesquisas”, diz Orlando Melo de Castro, diretor­geral do IAC, órgão da Agência Paulista de Tecnologia

dos Agronegócios (Apta), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. As atividades do instituto criado por d. Pedro II em 1887, chamado então de Imperial Estação Agronômica de Campinas, não se resumem apenas ao melhoramento genético de espécies vegetais que geram novas cultivares. Dois impor tantes programas genômicos, o do café e o dos citros, encerrados em 2004, foram coordenados pelo IAC, que também participou do projeto de seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da praga do amarelinho, que traz grandes prejuízos às plantações de laranja. Nesse mesmo ano, a descoberta feita no instituto de um tipo de café naturalmente descafeinado, o cafeeiro arábica, ganhou espaço nas páginas da revista Nature. Para chegar ao café descafeinado, os pesquisadores do IAC, em parceria com a

Univer si da de Es ta du al de Campinas (Unicamp), analisaram 3 mil plantas de cafeeiro arábica da Etiópia. O trabalho, que teve início em 1999, consistiu da análise de planta por planta em busca de baixa quantidade de cafeína. Foram identificadas três plantas com traços mínimos dessa substância nas sementes – elas apresentam 0,07% de cafeína, enquanto o café comum tem em tor no de 1%. O índice encontrado é próximo da quantidade existente no café descafeinado encontrado no mercado, só que obtido por processos químicos.

A descoberta do café descafeinado só foi possível porque o instituto mantém bancos de germoplasma das cultu ras de interesse. “Esse é o maior patrimônio que um país tem, porque é a base para qualquer programa de melhoramento”, diz Castro. Não por acaso o IAC, que ao longo de sua tra­

Frutos de café arábica cultivados em fazenda do IAC

ria não pára de render bons fru tos, foi pre mi a do pela Fundação Conrado Westegoria Ciência Aplicada ao Campo.

bora o conceito de mento genético nem se na época em que a ra estação agronômica sil foi criada em Campinas, já existia a preocupação em rar o cultivo do café, pal produto agrícola culdo na região, que havia do do Vale do Paraíba ta do esgotamento do solo.“Não por coincidência o ro diretor do instituto, tríaco Franz Wilhelm fert, era especializado em ca aplicada na agricultusalta Castro. Os primeisaios realizados na época eram focados em adubação, que já se sabia na Alemanha, onde esses estudos estavam mais avançados, que o solo se esgotava por falta de tes.

A crise do café no final dos anos 1920 contribuiu para a diversificação da agricultura paulista. Os estudos ainda incipientes sobre cana, uva, algodão e outras culturas ganharam força. Em 1928 o instituto havia criado a estação de São Roque para estudar a uva e em 1932 ampliou suas pesquisas com a inauguração da estação experimental de Jundiaí, hoje Centro de Frutas do IAC. Com a diversificação da agricultura, era preciso criar variedades adaptadas às condições brasileiras. Foi quando efetivamente começou o trabalho de melhoramento de plantas, com a criação de uma área de genética no instituto. “A criação de variedades para as nossas condições tropicais fez a nossa agricultura forte”, diz Castro. Nos anos 1940 e 50 foram feitos porta­enxertos tropicalizados de uvas originá­

rias de climas temperados. Esses porta­enxertos deram origem às uvas plantadas no Vale do São Francisco, no semiárido nordestino, que têm como principal destino o mercado externo.

Se antes os programas de melhoramento tinham como foco a resistência da planta a doenças e pragas por motivos econômicos, para que os produtores tivessem menos gastos com defensivos agrícolas, hoje esse objetivo decorre também da pressão ambiental. Dentro dessa linha de atuação, o IAC lançou este ano quatro novas variedades de feijão que, pela resistência às principais doenças do feijoeiro, dispensam ou reduzem o uso de defensivos e, conseqüentemente, diminuem o custo de produção e o impacto ambiental. Entre os lan çamentos que merecem

destaque encontram­se também uma nova variedade de girassol com 42% de óleo, ideal para produzir biodiesel, além de quatro novas variedades de arroz e quatro novas variedades de cana­de­açúcar, que têm como característica o fato de serem adaptadas para determinadas regiões.

O conhecimento adquirido nesses 118 anos de atividade tem sido desde 1999 repassado para os interessados tanto por meio de um curso de pós­graduação referendado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), dividido pelas áreas de Gestão de Re cur sos Agro am bi en tais, Melhoramento Genético Vegetal e Tecnologia da Produção Agrícola, como por cursos a distância, dias de campo e palestras para produtores. •

Clonagem de plantas pela técnica de reprodução in vitro utiliza pequenas porções de tecido para fazer a micropropagação

CULTURA

O pOeta múltiplO

Ferreira Gullar faz verso e prosa com a mesma competência

Ele é conhecido pela pluralidade: fez, e faz, teatro, televisão, pintura, crítica de arte e, é claro, poesia. Mas o próprio Ferreira Gullar gosta mesmo de se reconhecer em sua dualidade: “Sou um poeta que estabelece uma conver sação constante com seu alter ego: José Ribamar Ferreira, nascido em São Luís do Maranhão em 1930. Sem pre que o seu es tado existencial está propício para fazer nascer um poema, José Ribamar se transforma em Ferreira Gullar. Se esse está frio, se não é capaz de escrever poesia, ele deixa que seu lu gar se ja ocu pa do pelo homem comum, José Ribamar. Quando este último percebe que a temperatura sobe e que é tempo de escrever, é ele que dá lugar ao poeta: eis que nasce, com freqüência, Ferreira Gullar”, explica ele, considerado um de nossos maiores poetas.

Gullar: “Poderia virar pintor, qualquer coisa assim, mas virei poeta”

Essa alternância de personas começou com um fato prosaico: aos 18 anos, Gullar leu no jornal de São Luís um poema assinado com seu nome verdadeiro, Ribamar Ferreira (em verdade, a poesia era de um tal Ribamar Pereira). Mas a visão não agradou ao jovem e ele trocou o nome, usando como inspiração Goulart, da mãe. Não foi sua única decisão drástica. Mais jovem, ao se apaixonar pela vizinha, Tereza, e não ser correspondido, trancou­se em casa para ler o que podia e escrever poemas. Não parou por aí. Na escola, em 1945, escre veu

uma redação em que ironizava que, no Dia do Trabalho, não se trabalhava e ganhou um 9,5, por causa de dois er ros de por tuguês. Outra decisão ousada que o levou a só estudar gramática por dois anos e, depois, a publicar o seu primeiro poema, O trabalho, de inspiração parnasiana. O fascínio pelo ver so antiquado continuou até 1949, quando editou seu primeiro livro, Um pouco acima do chão. Era o “rei dos poetas” maranhense, mas um crítico do Rio, ao ler o que escrevera, desancou o jovem pelo seu passadismo.

O choque o levou a procurar a modernidade. Teve bons guias e leituras: Mário de Andrade, Murilo Mendes e Drummond. Mudou­se para o Rio em busca de novos horizontes e encontrou amigos fundamentais, entre eles o crítico de arte Mário Pedrosa seu mestre nas artes plásticas, e Oswald de Andrade, seu tutor de vanguarda.Virou poeta profissional.“Eu descobri a poesia talvez por não ter o que fazer da vida. Eu rejeitava as ocupações nor mais das pessoas. Poderia virar pintor, qualquer coisa assim, mas virei poeta”, conta. E o parnasiano se rendeu ao novo. A partir de um galo presente num anúncio de sal de frutas, escreveu o poema O galo, que vence o concurso do Jornal de Letras, com um júri que incluía Manuel Bandeira. Em 1954 publica A luta corporal, com um projeto visual ousado que quase o obrigou a fazer jus ao título do livro em briga com os gráficos da revista O Cruzeiro, onde o texto foi impresso. Em São Paulo, os concretistas nascentes, os irmãos Campos e Décio Pignatari, adoraram a coragem do jovem e o chamaram para integrar seu grupo. Gullar participa da Primeira Exposição de Arte Concreta no Masp, mas em pouco tempo se cansa do “cerebralismo teórico” dos paulistas e rompe com o grupo, criando a sua vanguarda, o movimento neoconcreto, em parceria com Amílcar de Castro, Lygia Clark e Lygia Pape. Em 1959 escreve o Manifesto neoconcreto. Em 1961, durante o governo de Jânio Quadros, dirigiu a Fundação Cultural de Brasília e, no ano seguinte, passou a integrar e fundar o Centro Popular de Cultura (CPC), da

UNE, ao lado de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Começa o seu namoro dilemático com a arte social. De início, se irrita com a “necessidade” de fazer “poesia política”, como pregado pelo Partidão, o Partido Comunista. A resposta que se deu foi: “A poesia tem que mudar alguma coisa. A única razão de ela existir é mudar algo, nem que seja a mim mesmo”. Era o meio­termo ideal de um artista sincero. A leitura de Marx, num livro escrito para desestimular padres a aderir ao comunismo, o encantou. “Quando li Marx, vi uma coisa concreta, densa, real. Não era aquele negócio lá das idéias. Eu virei marxista por causa da concretude e pelo elogio do trabalho.”

No sintomático dia 1º de abril de 1964 filia­se ao Partido Comunista. Mais tarde, pa ra se opor, como moderado, ao grupo radical de Carlos Marighela, decide se candidatar a um cargo de direção, apenas para defender suas idéias. Vence. E perde. Pois com a chegada do AI­5 Gullar, que pouco tinha de dirigente comunista, passa a ser uma presa valiosa para a di ta du ra. As sim, vê ­ se obriga do a se exilar. Vai para Moscou, aprende marxismo na faculdade e, depois de idas e vindas, acaba em Buenos Aires. Lá, só, isolado num apartamento, vendo os amigos sendo presos pelos militares argentinos, decide escrever Poema sujo (que acaba de completar 30 anos), com o espírito de estar pondo no papel a sua obra derradeira. Daí o peso de resgate de toda uma vida e de sua desilusão com a injustiça

social do Brasil. Segundo Gullar, o poema era sujo porque não tinha reser va moral, porque rompia com valores estéticos (inclusive os seus) e porque falava da miséria de seu país natal. Com mais de 70 páginas, a poesia chegou ao Brasil contra bandeada em uma fita cassete trazida por Vinicius de Moraes. Quando foi lançada em livro, em 1976, por Ênio Silveira, o autor, exilado, não estava presente. Depois de sete anos na Ar gen ti na, vol ta ao Bra sil, onde é preso e tor turado.

O poeta em casa: sem tempo para polêmicas, Gullar prefere apenas criar

Livre, passou a escrever para o jor nal O Pasquim, com o pseudônimo maroto de Frederico Marques (homenagem a Engels e Marx). Aos poucos, vai ocupando seu lugar na cena cultural nacional, como crítico, dramaturgo e poeta. Chega mesmo a trabalhar na Rede Globo, escrevendo séries especiais e uma novela, Araponga, com Dias Gomes. Em 1990 perde o filho mais novo. No Dia de Finados do ano seguinte vai ao cemitério, pega um pedaço de papel e escreve: “Eu te amo, meu

filho”. A mor te não deixará mais de par ti ci par de sua poesia. “A poesia me ajudou a enfrentar problemas, me ajudou a viver. Sem ela não sei o que seria de mim. A poesia nos dá a capacidade de nos indignar mos e, ao mes mo tem po, manter mos a nossa dignidade humana”, explica. Quando o poeta descansa, surge o crítico preciso de arte, capaz de provocar frisson ao decretar a mor te das vanguardas em Argumentação contra a morte da arte, uma asser tiva interpretada

er ra da men te por mu i tos. “Não acho que a vanguarda, desde o seu início até hoje, seja charlatanismo. O processo que deu origem à vanguarda, o questionamento das linguagens ar tísticas existentes, gerou uma experiência nova na arte. Só que, exatamente porque produziu o que produ ziu, es go tou ­ se”, ana li sa Gullar. Não gosta de perder tempo em polêmicas e prefere usá­lo para criar. De quando em quando, volta, tranqüilo, a ser o cida dão José Ribamar Fer reira. •

O cOraçãO de uma flOresta

Museu Goeldi revela e ajuda a preservar a riqueza biológica e cultural da Amazônia

No final de 2003, sociólogos e antropólogos do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em conjunto com biólogos e geógrafos, revelaram que em uma região central do Pará conhecida como Terra do Meio havia uma rede de atividades ilícitas: trabalho escravo, tráfico de drogas e de armas e venda ilegal de terras e de madeira. Foi um dos primeiros resultados da Rede Temática de Pesquisa em Modelagem Ambiental da Amazônia (Rede Geoma), que havia sido criada em 1999 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, com a participação de cinco outras instituições, com

o propósito de acompanhar a ocupação territorial, detectar problemas e auxiliar na formulação de políticas públicas para a região amazônica.

O alerta sobre os conflitos latentes da Terra do Meio é também uma amostra da diversidade de ações do museu criado em 1866 para zelar pela diver sidade de culturas, de plantas e de animais da Amazônia. Uma das mais antigas instituições científicas do país, o Museu Paraense Emílio Goeldi concilia um intenso trabalho de atendimento ao público (cerca de 400 mil visitantes por ano) com uma atividade científica que se expressa por uma média de 90 artigos científicos publicados anualmente

em revistas especializadas do Brasil ou do exterior. Os especialistas do MPEG tratam de temas tão diversos como a classificação de aranhas, a identificação de um composto químico em alguma planta ou a gramática de uma língua indígena. A tarefa de estudar a diversidade natural e cultural amazônica pode hoje parecer ampla, embora no final do século 19, quando o museu foi criado, tenha sido necessária, por falta de instituições de pesquisa que tratassem da Amazônia. Com o tempo, o MPEG foi ganhando mais atribuições, sem abdicar das antigas. Seus especialistas são freqüentemente convocados para avaliar as propostas de de­

marcação de terras indígenas ou de unidades de conservação, ou os impactos de empreendimentos de grande porte, como as hidrelétricas.

A contribuição científica do Museu Goeldi exibe­se também pela habilidade em intervir na realidade amazônica. “É preciso que a ciência se aproxime da realidade e ajude a resolver problemas”, comenta Ima Vieira, agrônoma com doutorado em ecologia que trabalha no museu desde 1988 e em setembro tomou posse como di re to ra. “A taxa de conhecimento sobre a região amazônica ainda está aquém da taxa de destruição”, diz ela.

Ao Museu Goeldi, ganhador do Prêmio FCW 2004 na

categoria Ciência Aplicada ao Meio Ambiente, cabe também um am plo tra ba lho de inventário e monitoramento da biodiver sidade amazônica. Em boa parte, tais pesquisas são conduzidas na Estação Científica Ferreira Penna, a mais recente de suas três bases físicas. Inaugurada em 1993, ocupa uma área de 33 mil hectares (ha) em meio à Floresta Nacional de Caxiuanã, a 400 quilômetros de Belém. A ela soma­se um campus de pesquisa com 10 ha na periferia da cidade e o Parque Zoobotânico, uma síntese da Floresta Amazônica encravada no centro da capital do Pará, com 5,3 ha, cem espécies de animais e 3 mil de plantas.

Desenho esculpido na rocha em um dos 111 sítios arqueológicos já mapeados: a arte de antigos habitantes do Pará

O Museu Goeldi tem sido um exemplo notável sobre como o trabalho científico pode retornar à população – e não é de hoje. Conta­se que há cerca de 40 anos apareceu por lá um artesão conhecido como Mestre Cardoso, que trabalhava no pólo ceramista da Vila de Icoaraci, em Belém. Naquela época, a produção artesanal de vasos e potes não guardava mais vínculos com as principais tradições ceramistas da região – a marajoara e a tapajônica –, pois as populações que as haviam criado já estavam extintas. Caboclo curioso,

Mestre Cardoso pediu para ver as peças de que apenas ouvira falar. Os técnicos do museu lhe abriram as portas do acervo –hoje com cerca de 17 mil peças etnográficas e 80 mil peças e fragmentos arqueológicos – e o ensinaram como fazer réplicas dos vasos e potes fabricados antes da chegada dos europeus. O interesse se espalhou entre outros artesãos. Há poucos anos a demanda por esse tipo de informação se tornou tão intensa que o MPEG se uniu ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para publicar um catálogo e oferecer um curso para os ceramistas de Icoaraci, ampliando o resgate dos padrões históricos do artesanato local.

Resultados semelhantes emergem do Grupo de Lingüística Indígena do Museu. Os especialistas dessa área não se contentaram em apenas conhecer as línguas faladas na região – e já registraram, por meio de audiovisuais, 52 línguas ameaçadas de extinção. Também elaboram gramáticas, dicionários e materiais pedagógicos que oferecem aos educadores indígenas para manter vivas essas culturas à beira do desaparecimento. Um caso extremo é a língua poruborá, falada por apenas duas pessoas no município de Costa Marques, em Rondônia. O MPEG foi criado em 1866 a partir da Associação Philomática. Dirigido inicialmente por Domingos Soares Ferreira Penna, o então chamado apenas Museu Paraense fechou as portas em 1889 e só reabriu em 1891. Foi quando chegou a Belém, aos 34 anos, o zoólogo

Floresta Amazônica do Pará: pesquisadores do MPEG detectam e ajudam a resolver problemas

Ponta de lança (esq.) e ponta de machado: instrumentos dos primeiros habitantes da Amazônia

suíço Emílio Goeldi, vindo do Rio de Janeiro para transformar a instituição em um centro de pesquisa de renome internacional. Foi ele quem coordenou a coleta de informações científicas sobre o Amapá, de 1895 a 1900, que permitiram ao governo brasileiro pleitear a posse de um largo trecho desse estado em um tribunal internacional. O episódio imortalizou o zoólogo suíço, cujo nome então se incorporou ao do museu.

O MPEG está reabrindo a área de exposições da Rocinha, uma construção que é um marco arquitetônico do sé cu lo 19 e es te ve fechada por nove anos. O primeiro instituto da América do Sul a ser dirigido por uma mulher – a alemã Emile Snethlage, de 1914 a 1921 – chega aos 140 anos, em outubro de 2006, sob a tutela de outra mulher – e, pela pri meira vez, uma paraense. •

Mestre das Marés

Estudos de

Alber to dos Santos

Franco são

fundamentais para a navegação

Oin gresso na Escola Naval do Rio de Janeiro aconteceu aos 16 anos, em 1930, por inspiração da família. O avô materno e dois tios tinham percorrido a mesma trajetória. Já apaixonado pelos oceanos, encantou­se pela matemática. “Não é nada complicada, mas mal ensinada. É fascinantemente racional”, diz o almirante Alberto dos Santos Franco. E decidiu usar os números para estudar o comportamento das marés. Nas últimas seis décadas, os trabalhos de Franco foram – e continuam sendo – fundamentais para que se pudesse compreender e analisar com mais detalhes fenômenos como as altas e as baixas das marés, a influência da Lua e de efeitos meteorológicos sobre esses movimentos, bem como as recentes elevações do nível dos oceanos, informações estratégicas para a navegação. Esses estudos renderam ao almirante o Prêmio

Almirante: referência na oceanografia e reconhecimento internacional

FCW na categoria Ciência Aplicada à Água.

A primeira grande contribuição veio ainda nos anos 1940. Preocupado com as teorias, e não apenas com a aplicação de conceitos, Franco investiu seu tempo na investigação do método de análise e comportamento de marés que havia sido idealizado por Arthur Doodson, do Tidal Institute, ligado à Universidade de Liverpool, Inglaterra. Naquela época, o inglês analisava a maré com um engenhoso algoritmo de sua autoria, que considerava 62 componentes

de origem puramente astronômica. As demais componentes eram geradas por efeito hidrodinâmico da pequena profundidade. Essa estratégia representava uma espécie de padrão mundial e era o que de melhor se podia realizar com as calculadoras da época. Mas, além disso, adverte Franco, era um modelo extremamente rígido, pois admitia que aquelas componentes eram as que deveriam ser consideradas em diferentes locais do planeta. Sua tarefa foi mostrar as limitações e apontar a necessidade de formulação de novos méto­

Tides: fundamentals, analysis and prediction, livro de Alberto Franco publicado no exterior, que deve sair em português em breve

dos.“Ainda estávamos presos a conceitos e técnicas de análise do século 19”, explica. As máquinas eram lentas, comparadas com as de hoje.”

O de sa fio es tava co lo cado: encontrar outras formas de análise, que utilizassem toda a potencialidade dos computadores que começavam a ser de uso cor rente. Naquele momento, o obstáculo a ser vencido era a tecnologia – ou a falta dela. Paciente, aproveitou a década seguinte para aprofun dar ­ se nos co nhe cimentos sobre o fenômeno. O re conhecimento no Brasil não demoraria. Em 1961, já como almirante da reser va, e cada vez mais especializado no assun to, foi in di ca do pela Ma rinha para concor rer às eleições para o cargo de diretor do Bureau Hidrográfico Internacional, com sede em Mônaco, di ri gi do por um co mi tê com três integrantes de diferentes países. Foi eleito e assumiu o posto em 1962. Foram cinco anos ines­

quecíveis. “Fiquei conhecendo a elite da oceanografia mundial. Travei con ta to com as sun tos cor riquei ros para a co mu ni da de inter nacional, mas que para mim eram novidades.”

Avolta ao Brasil, em 1967, foi traumática. Franco perdeu a primeira esposa no ano seguinte, vítima de câncer. Passou tam bém a de di car mais aten ção ao filho mais moço, com proble mas psi co ló gi cos. Não fossem o tra balho e a von tade de com pre en der as ma rés, ad mi te, tal vez não tivesse supor tado os percalços. Durante 1968 e 1969 esteve no Instituto Nacional de Pes qui sas Es pa ci ais (Inpe). No início de 1970 foi con vi da do para as su mir a diretoria do Ins ti tu to Oce ano grá fi co da Uni ver si da de de São Pau lo (IO/USP). Embora ainda não soubesse

mexer com as má qui nas, tinha à disposição enor mes com pu ta do res e pôde finalmente avançar na formulação de um modelo de análise mais flexível que o de Doodson. Melhor ainda: a técnica ide a li za da pelo al mi ran te não mais tra balharia di re tamen te com os da dos ob serva dos, e sim com o re sultado da análise desses dados. Ele explica: as marés são constituídas por vários grupos de componentes: um grupo que realiza um ciclo por dia, outro que efetua dois ciclos diários e assim por diante até 12 ciclos diários. Finalmente, há grupos de variação lenta, desde um ciclo trimes tral até um anu al. Até então era usual separar aqueles grupos usando filtros matemáticos. Com base em um sofisticado sistema de equações, Franco conseguiu criar um algoritmo de análise refinado, capaz de separar todos aqueles grupos, ofe re cen do ain da in forma ções úteis sobre pos sí veis

anoma li as. “Os resultados começaram a sair em alguns minutos”, diz.

A passagem pelo IO/USP ter minou em 1974, quando o almirante foi contratado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para assessorar a área de engenharia naval. Em 1976 defendeu a tese de doutorado, sem necessidade do mestrado, na Escola Politécnica da USP, sobre as marés em águas rasas. Foi uma espécie de sistematização de boa par te dos estudos desenvolvidos até aquele momento. Em meados dos anos 1980, decidiu sair do IPT e trabalhar em casa. E é assim que atua até hoje. Casado pela segunda vez, o almirante procurou re fú gio no sos se go da Granja Viana – distante da rotina acelerada do centro da capital paulista. Em seu escritório recor re agora a um PC para rodar seus programas.“Vamos ver como es ta vam as ma rés na região de Cananéia, no litoral nor te de São Paulo, há

dez anos.” A resposta aparece na tela em menos de um minuto. “É fantasticamente rápido.” Mesmo distante das univer sidades e dos centros de pesquisa, Franco não parou de produzir. Aproveitando os avanços tecnológicos, criou, no início da década de 1990, um método de análise extremamente rápido para o tratamento de longas séries de obser vações capaz de separar 1.014 componentes, sem perder as van ta gens dos métodos anteriores. Quando os estudos sobre as marés oceânicas, por exemplo, são fei tos com equi pa men tos baseados em acústica submarina, há variações indesejáveis que alteram alguns valores impor tantes. “Com meus métodos de análise para períodos cur tos é possível detectar as causas de contaminação dos resultados finais”, explica. Ele conta que outra vantagem é poder trabalhar com períodos de análise mais longos.

Para Afrânio Rubens de Mesquita, professor do IO/USP, o almirante é um pioneiro. “Come çou a tra ba lhar pra ti camente sozinho, em condições inóspitas, decifrando artigos publicados no exterior e procurando adaptá­los à realidade brasileira”, diz. “Graças a esses estudos, transfor mou­se em referência na área e o Brasil passou a ser re co nhe ci do pela oceanografia internacional”, completa. Aos 91 anos, Alber to Franco aproveita o tempo livre com a leitura, principalmente de obras que tratem de história e religião. Quando pode, não perde a chan ce de manter contato direto com o mar. Tem um veleiro guardado no Iate Clube de Santo Amaro, às margens da re pre sa de Guarapiranga, em São Paulo. “Por conta da idade, não me arrisco mais a velejar sozinho. Preciso de companhia. Quando a opor tu ni da de apa re ce, não a desperdiço. O mar é minha grande paixão.” •

As fotos escolhidAs

Ricardo Cunha, carioca, foi o grande vencedor do Prêmio FCW de Arte 2004 (fotografia publicitária). Sua foto Irado integra a campanha da agência Giovanni, FCB para a revista Vizoo. Ele ganhou o troféu criado por Vlavianos e R$ 80 mil. Paulo Vainer, de São Paulo, ficou com o segundo lugar e R$ 40 mil com a foto Borboleta, estrelada pela modelo Gisele Bündchen, para a campanha da Grendene, da W/Brasil. E Felipe Hellmeister, também da capital paulista, ganhou em terceiro mais R$ 20 mil, com a foto Gordinha, para os Sucos Camp, da agência Age Comunicações. •

1º lugar: Irado, de Ricardo Cunha, para a agência Giovanni, FCB
ARTE
2º lugar: Borboleta, de Paulo Vainer, para a W/Brasil
3º lugar: Gordinha, de Felipe Hellmeister, para Age Comunicações

I nst I tu I ções P arce I ras da F c W

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP

Ligada à Secretaria de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, é uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do país. Desde 1962 a FAPESP concede auxílio à pesquisa e bolsas em todas as áreas do conhecimento, financiando outras atividades de apoio à investigação, ao intercâmbio e à divulgação da ciência e tecnologia em São Paulo.

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes

Fundação vinculada ao Ministério da Educação, tem como missão promover o desenvolvimento da pós­graduação nacional e a formação de pessoal de alto nível, no Brasil e no exterior. Subsidia a formação de recursos humanos altamente qualificados para a docência de grau superior, a pesquisa e o atendimento da demanda dos setores público e privado.

Conselho Nacional de Desenvolvimento

Científico e Tecnológico – CNPq

Fundação vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), para apoio à pesquisa brasileira, que contribui diretamente para a formação de pesquisadores (mestres, doutores e especialistas em várias áreas do conhecimento). Desde sua criação, é uma das mais sólidas estruturas públicas de apoio à ciência, tecnologia e inovação dos países em desenvolvimento.

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

Fundada há mais de 50 anos, é uma entidade civil, sem fins lucrativos, voltada principalmente para a defesa do avanço científico e tecnológico e do desenvolvimento educacional e cultural do Brasil.

Academia Brasileira de Ciências – ABC

Sociedade civil sem fins lucrativos, fundada em 3 de maio de 1916, tem por objetivo contribuir para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, da educação e do bem­estar social do país.Atualmente reúne seus membros em dez áreas: Ciências Matemáticas, Ciências Físicas, Ciências Químicas, Ciências da Terra, Ciências Biológicas, Ciências Biomédicas, Ciências da Saúde, Ciências Agrárias, Ciências da Engenharia e Ciências Humanas.

Academia Brasileira de Letras – ABL

Fundada em 20 de julho de 1897 por Machado de Assis, com sede no Rio de Janeiro, tem por fim a cultura da língua nacional. É composta por 40 membros efetivos e perpétuos e 20 membros correspondentes estrangeiros.

Centro Técnico Aeroespacial – CTA

Criado na década de 1950, é uma organização do Comando da Aeronáutica que tem como missão o ensino, a pesquisa e o desenvolvimento de atividades aeronáuticas, espaciais e de defesa, nos setores da ciência e da tecnologia.

JÚRI DOS PRÊMIOS FCW

CIÊNCIA GERAL

Erney P. Camargo – Presidente do Júri

Luiz Rodolpho R. Gabaglia Travassos

DE ORIGEM

Helena Bonciani Nader Escola Paulista de Medicina

Walter Colli

Hugo Aguirre Armelin

Marco Antonio Sala Minucci

CIÊNCIA APLICADA AO CAMPO

Joaquim J. de C. Engler – Presidente do Júri

João Lúcio de Azevedo

José Oswaldo Siqueira UFLA Capes

Mariza Marilene Tanajura Luz Barbosa

Ernesto Paterniani USP Esalq

CIÊNCIA APLICADA AO MEIO AMBIENTE

José Galizia Tundisi – Presidente do Júri

Monica F. A. Porto

Umberto Giuseppe Cordani

QUE

Min. da Agricultura

Bráulio Ferreira de Souza Dias Min. Meio Ambiente

CIÊNCIA APLICADA À ÁGUA

Fernando de Arruda Botelho – Presidente do Júri

Belmiro Mendes de Castro Filho

CNPq

Arthur Germano Fett Neto UFRGS Capes

Rolf Roland Weber USP FAPESP

Luiz Fernando Palmer Fonseca

IEMAPaulo Moreira Marinha do Brasil

José Galizia Tundisi IIEcologia ABC

Odmir Andrade Aguiar Sec. Esp. Aqüi. e Pesca

MEDICINA

Renata Caruso Fialdini – Presidente do Júri

Manoel Barral Netto

CNPq CNPq

Emmanuel de Almeida Burdmann USP Rib. Preto Capes

Marco Antonio Zago USP Rib. Preto SBPC

Mario José Abdalla Saad Unicamp FAPESP

Protásio Lemos da Luz

LITERATURA

Celia Procopio Araujo Carvalho – Presidente do Júri

Marisa Philbert Lajolo Unicamp CNPq

Carlos A. Vogt Unicamp FAPESP

Antonio Carlos Secchin

UFRJ e A. B. de Letras ABL

José Ephim Mindlin ABC

Carlos Alberto Ribeiro De Xavier Min. Educação

Sérgio Sá Leitão

Min. Cultura

Cronograma da Premiação 2005

Divulgação para a imprensa Outubro de 2005 e convite oficial para que as instituições e entidades encaminhem à FCW suas indicações

Prazo para recebimento

31 de dezembro de 2005 das indicações pela FCW

Preparação dos dossiês Janeiro a março de 2006 dos indicados

Julgamento e escolha dos premiados Março de 2006

Divulgação dos trabalhos

Abril de 2006

Premiação Maio de 2006

F undação C onrado W essel www.fcw.org.br

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