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Da aldeia ao laboratório

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Pesquisa

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Boas notícias para encerraro ano

As culturas pré-históricas do país, anteriores à própria existência do Brasil, e sua rica biodiversidade têm ambas recursos ainda mal suspeitados para oferecer à pesquisa científica mais contemporânea. Combinadas, então, elas eventualmente se revelam um manancial impressionante para a identificação de novas drogas que, a par de contar sobre determinadas estratégias, caminhos e produções simbólicas dos habitantes primitivos do país na busca por sua sobrevivência, bem-estarfísico e espiritual,trazempromessas de desenvolvimento de uma indústria farmacêutica fortemente enraizada - finalmente - em solo nacional. É precisamente isso que se pode constatar na reportagem de capa desta alentada edição de Pesquisa FAPESP. Elaborada pelo repórter especial Marcos Pivetta, a reportagem, que começa na página 14, conta em detalhes o trabalho de um grupo de pesquisadores paulistas que permitiu a identificação de 164 plantas nativas da flora brasileira, usadas pelos Krahô, tribo do Tocantins, em intrigantes rituais de cura. Dessas, 138 mostraram algum tipo de influência sobre o sistema nervoso central, área de interesse da pesquisa do grupo. Pode-se prever um longo caminho pela frente, como é de praxe na pesquisa de fármacos, até que princípios ativos dessas plantas se transmudem em remédios nas farmácias, em alguma forma de bem-estar para pessoas com problemas sobre os quais eles tenham potencial para agir e mesmo em faturamento e lucros, com percentuais, muito justificadamente, destinados aos Krahô. Mas, desde já, há que se comemorar os belos resultados do trabalho.

No/rorcída pesquisa científica, são várias as boas notícias contidas nesta edição da revista. Uma delas: pesquisadores de São Paulo demonstraram que o popular chá de quebra-pedra, o Phyllantus niruri, se de fato não quebra

nada, por outro lado impede que os cristais de oxalato de cálcio - o componente químico mais comum das tais pedras - se agreguem. Portanto, sua ação é preventiva.

A reportagem que abre a seção de Tecnologia da revista, na página 64, mostra que as incubadoras de empresas, geralmente ligadas a pólos ou parques tecnológicos, tornaram-se, no intervalo de 15 anos, um fenômeno mundial poderoso para acionar a inovação nos mais variados campos produtivos. Em 1985, elas eram 200 em todo o mundo e hoje chegam a 3 mil, das quais 800 estão nos Estados Unidos. No Brasil, existem 159, número que se revela extraordinário quando se sabe que em 1986 havia somente duas. O maior desafio que se apresenta para cada pequena empresa que se fez sob a sombra protetora de uma incubadora certamente é prosseguir seu caminho com as próprias pernas, a partir do momento em que é lançada para o mundo real, nada suave, do mercado. As expectativas de quem chegou a esse ponto é o que se apresenta na reportagem sobre as empresas recentemente graduadas pela Ciatec de Campinas, na página 69. Vale, para terminar, um destaque especial para a reportagem que abre a seção de Humanidades, na página 82, referente a um estudo internacional muito amplo - cobrindo 135 países, entre 1950 e 1990 - e da maior importância sobre a relação entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade das democracias. Pelo que traz de subsídios para as reflexões contemporâneas sobre a articulação entre economia e política, entre renda per capita da população e regime democrático (ele estaria completamente assegurado a partir de uma renda de US$ 6 mil), esse estudo, que teve a participação de um brasileiro, apoiado pela FAPESP, disputou fortemente a capa desta edição de Pesquisa FAPESP.

Corveta Trajano, 1.4141, de 1873: maior estabilidade, rapidez e volume de carga

Inovaçãoesquecida

Invenção de 133 anos, que modificava o formato da parte imersa dos navios, foi uma das primeiras pesquisas tecnológicas brasileiras a ter repercussão no exterior

Um formato inovador para a parte imersa dos navios, conhecida como carena, obteve excelentes resultados em 1868, quando foi inventado pelo engenheiro naval catarinense Trajano Augusto de Carvalho. Não era para menos: sua criação permitia que o barco vencesse mais facilmente a resistência da água e aumentava a velocidade ao mesmo tempo em que reduzia o consumo de combustível. Também melhorava a estabilidade e o governo do navio, proporcionava maior capacidade de carga e diminuía o custo de construção.

Cruzador Guanabara, 1.911 t, de 1878

{acima): navio ganhou mais espaço para volumes com os costados planos

Esse desempenho espetacular foi comprovado em experiências reais aplicadas a navios construídos com essas características no Brasil e na Inglaterra, especialmente. O professor aposentado da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, estudioso do tema, Pedro Carlos da Silva Telles, afirma

que a invenção foi, muito provavelmente, a primeira pesquisa tecnológica a ter repercussão no exterior, onde também foi patenteada. A inovação da Carena Trajano, como foi chamado o invento na época, basicamente modificava o corpo da proa (frente) dos navios. Ele trocou as balizas

late Silva Jardim, 781, de 1879 (abaixo): seções transversais em "U" evitavam as forças que tendiam a suspender a proa

abertas em "V", como era usual, pelo formato em "U", com os costados praticamente verticais. Dessa forma, as linhas d'água ganharam o formato de cunha, que diminuía a resistência ao avanço do navio. Mas todo o reconhecimento pela inovação caiu no completo esquecimento. As únicas imagens do sistema Trajano conhecidas {todas nesta página) estão no Museu Naval do Rio de Janeiro. São aquarelas pintadas por seu filho - que tinha o mesmo nome, o almirante Augusto Trajano de Carvalho - e três meio-modelos que representam os quatro barcos construídos pelo Arsenal de Marinha da Corte com o novo formato. O primeiro deles, uma corveta, recebeu o nome de Trajano por sugestão do próprio imperador d. Pedro II, em homenagem ao inventor.

Corveta Parnaíba, 4271, de 1874: corpo de proa dos modernos petroleiros têm formato semelhante

Por um plano nacional devacinação

0 Brasil deve contribuir de forma mais ativa para desenvolver imunizantes

As vacinas são reconhecidas há longo tempo como uma das medidas de maior custo-benefício em saúde. A vantagem de seu desenvolvimento não necessita, assim, de maior justificativa. Após a descoberta fundamental de Pasteur, surgiram vários imunizantes contra numerosos patógenos, principalmente bacterianos e virais. Após um longo período com aparecimento esparso de novas vacinas, recentemente ocorreu um novo período de crescimento na área. Esse ressurgimento se deve, entre outros fatores, ao desenvolvimento tecnológico e ao aumento do conhecimento da patogênese.

A maior parte do conhecimento básico que permitiu esse avanço ocorreu no setor público, universidades e institutos. Mas o processo de desenvolvimento de vacinas que chegam até o público foi realizado pela indústria farmacêutica. Esse aspecto restringe o espectro de novas vacinas disponíveis, pois é limitado pelas características de mercado e possibilidade de retorno financeiro do investimento feito. Recentemente, o Institute ofMedicine, nos Estados Unidos, realizou um estudo sobre a prioridade de vacinas para os norte-americanos no século 21. A escolha levou em conta que as doenças fossem de importância primariamente doméstica. Em 1985, os países ricos utilizavam, de forma rotineira, sete vacinas nos seus esquemas de imunização, enquanto os países pobres usavam seis. No ano 2000, os pobres passaram a usar sete vacinas e os ricos 12. Esses aspectos refletem a necessidade de planos nacionais que contemplem a realidade de cada país ou região.

"Mais importante do que iniciativas isoladas, é a integração de todas as medidas*»

ridades a países mais pobres que o Brasil, o que não garante que o nosso panorama de necessidades seja contemplado. Ademais, o Brasil possui condições para contribuir de forma mais ativa para melhorar a situação atual. O expressivo crescimento do país na produção de conhecimento e na formação de pesquisadores é uma garantia de que pode ter um desempenho proeminente no setor. Hoje, o Brasil não assume o papel que lhe cabe, por diversas razões. A ausência de um programa de incentivo ao conhecimento básico nas doenças de interesse, e o desenvolvimento de tecnologia em vacinologia são algumas delas. Os grupos de pesquisa clínica, em grande parte, atendem a uma agenda ditada pela grande indústria internacional, seja pela escassa demanda interna, seja pela falta de estímulo e coordenação por agências governamentais.

Um plano de desenvolvimento de vacinas pelo Brasil é possível e necessário. Mas será essencial cuidar da proteção da propriedade intelectual e industrial, e os mecanismos orientadores dessas ações precisam ser difundidos e facilitados. A formação de equipes multidisciplinares, além do aparelhamento adequado de unidades de testeem modelos experimentais ou por meio de ensaios clínicos -, precisa ser estimulada. Porém, mais importante do que iniciativas isoladas para a correção das falhas, é necessária a integração de todas as medidas. Sem um plano global que contemple todos os aspectos, estaremos embarcando em um mais esforço inútil.

É necessário considerar os objetivos da Global Alliance for Vaccines and Immunization (Gavi). A iniciativa visa a garantir o uso amplo das vacinas existentes e estimular o seu desenvolvimento contra as doenças responsáveis por maior mortalidade nos países mais pobres. A Gavi dirige suas prio-

MANOEL BARRAL-NETTO é professor titular de Patologia, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia e membro titular da Academia Brasileira de Ciências.

ESTRATÉGIAS

Governo dos EUA

quer criar sua

própria Internet

Os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos levaram o governo a analisar a possibilidade de criar uma rede de comunicação especial, separada da Internet. Tudo para tornar o sistema de informações essenciais menos vulnerável a ataques que possam interromper atividades federais fundamentais. A idéia partiu de Richard Clarke, ex-especialista do governo norte-americano em contraterrorismo, nomeado pelo presidente George W. Bush como conselheiro especial para segurança do ciberespaço. Para Clarke, é importante fazer um esforço para imaginar

Medo diminui viagem de pesquisadores

O pavor do terror parece ter afetado todas os setores dos Estados Unidos, incluindo o meio científico. Depois dos atentados de 11 de setembro, os pesquisadores reduziram as viagens de avião com medo de novos ataques. Como resultado, dois dos encontros médicos mais importantes do ano realizados na Califórnia em novembroum da Associação Americana do Coração e outro da Academia Americana de Reumatologia - tiveram freqüência abaixo do esperado. O encontro sobre doenças cardíacas, por exemplo, deveria receber 30 mil profissionais, mas apenas 23,5 mil se dispuseram a pegar um avião para comparecer aos quatro dias do even-

em Nova York: cuidados contra ciberatentados como terroristas romperiam redes que controlam energia, telecomunicações, abastecimento de água e tráfego aéreo. "Antes de 11 de setembro, as pessoas

imaginavam que a única coisa que os terroristas poderiam fazer era o que já faziam", disse ele ao jornal

The New York Times. "Agora, sabemos que eles podem

realmente provocar algo catastrófico." O grande problema do projeto é quanto custaria uma Internet governamental - especula-se que chegaria a algumas centenas de milhões de dólares. E há uma outra questão, lembrada pelo senador democrata Ron Wyden: "A mesma quantia de dinheiro não permitiria um acesso seguro à Internet por parte dessas mesmas agênciaschave que queremos proteger?". O setor de telecomunicações foi incumbido pelo governo de dizer, nos próximos meses, como esse projeto funcionaria e quanto custaria. •

to. Os estrangeiros, especialmente, demonstram maior cautela em ir aos Estados Unidos.

Resultados concretos na compra degenes

A compra dos direitos de exclusividade sobre os estudos do gene dos 300 mil habitantes da Islândia pela empresa deCODE Genetics deu o primeiro resultado em outubro. Os pesquisadores da companhia identificaram o gene associado à forma mais comum do mal de Parkinson e querem usar a informação para criar um teste de diagnóstico e novas formas de tratar a doença. A deCODE comprou o acesso exclusivo sobre os registros de saúde da Islândia em meio a grande polêmica com a população, que contes-

tou a decisão do governo de comercializar informações genéticas dos moradores. O país foi escolhido pela empresa devido à composição genética de seu povo, que permanece estável há cerca de mil anos, segundo estimam os pesquisadores. O objetivo é procurar mais rapidamente genes ligados às doenças. O gene associado à doença de Parkinson, localizado no cro-

mossomo 1, foi achado por meio de um estudo com 51 famílias islandesas. •

A ignorância científica dos chineses

A maior parte do 1,2 bilhão de chineses (22% da população mundial) não conhece conceitos científicos elementares, de acordo com estudo da Associação de Ciência e

Escombros

Ciência na web

Envie sua sugestão de site científico para cienweb@trieste.fapesp.br

www.ozonio.crn.inpe.br

Serviço do Inpe indica onde o Sol está forte ou fraco em quase 200 cidades brasileiras por meio dos índices de radiação ultravioleta (UV-B).

www.cspinet.org/integrity

Bom fórum de discussão sobre conflitos de interesse e relações malformadas entre ciência, cientistas e indústria.

www.bn.br

O projeto Biblioteca Nacional sem Fronteiras, da Biblioteca Nacional, inaugura homepage com catálogo de obras raras e manuscritos.

Tecnologia da China divulgado pela agência oficial chinesa Xinhua. Os pesquisadores trabalharam com 8,5 mil pessoas entre 18 e 69 anos e apenas 14 em cada mil entrevistados responderam corretamente a mais de 20 perguntas básicas sobre ciência (1,4%).

Boa parte dos chineses não tem noção, por exemplo, de que a Terra gira em torno do Sol. Segundo a pesquisa, 52% dos chineses têm como única fonte de informação científica jornais e revistas. Os autores do trabalho se dizem alarmados porque os números colocam a educação da China a grande distância de países mais desenvolvidos. •

Italianos pedem mais verba para pesquisa

Tentativa de revigorar a ciência russa

O presidente russo Vladimir Putin prepara a criação de um conselho para reativar com vigor os setores científicos e de alta tecnologia do país. Os pesquisadores russos esperam que o organismo

Pesquisadores italianos estão enfurecidos com a possibilidade de o governo voltar atrás na promessa de aumentar o fundo para a ciência em 2002. Mais de 5 mil pesquisadores assinaram uma carta se opondo à decisão governamental, que pode eliminar US$ 200 milhões dos US$ 900 milhões a mais previstos para o ano que vem. O novo orçamento "levará à ruína os trabalhos dos cientistas italianos", criticou a pesquisadora Rita LeviMontalcini, prêmio Nobel de Medicina de 1986 e ex-diretora do Instituto de Biologia Celular, em Roma. A área de ciência deveria receber US$ 8,2 bilhões em 2002, 12% a mais do que em 2001. Mas a promessa foi feita pelo primeiro-ministro GiulianoAmato, posteriormente substituído por Silvio Berlusconi, que determinou os cortes. A Itália gasta 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no setor por ano, pouco se comparado com a média dos países europeus, de 2,2%.

Kremlin: força para trazer de volta o brilho do passado

torne prioritária uma política de ciência e tecnologia, embora sejam integrantes do conselho alguns funcionários que contribuíram para a queda livre de recursos e prestígio no setor e tornaram os cientistas alguns dos mais mal pagos profissionais do país, informa a revista Nature (15 de novembro). Em parte, o conselho representa a reação à acusação de que a administração de Vladimir Putin tem falhado ao lidar com a ciência. O conselho é encabeçado por Sergei Abramov, oficial do Kremlin, e inclui Yuri Osipov, presidente da Academia Russa de Ciência, e Victor Sadovnichii, reitor da Universidade Estadual de Moscou, entre outros. •

ESTRATÉGIAS

Mamíferos predadoresterão banco genético

Sempre ameaçados de extinção, os mamíferos predadores típicos da fauna brasileira terão sêmen e embriões preservados. No próximo ano fica pronto um centro de referência genética no qual será armazenado material colhido de 26 tipos de animais, como onças, lobos,jaguatiricas e cachorros-do-mato. Criado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o laboratório funcionará na cidade de Votorantim, região de Sorocaba (SP), nas dependências do Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais (Cenap)."Ainda não existe um banco genético como este no Brasil, dedicado a esses mamíferos", diz Ronaldo Gonçalves Morato, coordenador do projeto, ligado também

Rede de olho nas bactérias

A área de saúde receberá um reforço importante para evitar o agravamento de doenças provocadas por bactérias. Em janeiro começa a funcionar um programa nacional para monitorar alguns gêneros de bactérias resistentes a antibióticos. A rede de laboratórios de saúde pública de todo o país, que de certo modo já realiza esse monitoramento, será interligada sob a coordenação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pa-

a organização não-governamental Associação PróCarnívoros. "Esse banco será importante para recuperar animais que forem realmente extintos, no futuro." O objetivo é criar outros bancos semelhantes em pólos regionais. Um dado que comprova a necessidade de montar um banco genético vem de estudo que Morato publicou

com outros pesquisadores na revista Reprodution, da Sociedade para Reprodução e Fertilidade da Inglaterra (edição de novembro). O artigo sugere que a população de animais em cativeiro pode estar sofrendo de consangüinidade e, conseqüentemente, dificuldade na reprodução em comparação com os animais que vivem em liberdade. •

Onça-pintada: centro preservará sêmen e embrião

trocinada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), organismo do Ministério da Saúde. O programa é importante porque a multirresistência das bactérias vem crescendo de ano para ano, provocando o aumento do tempo de hospitalização, no custo do tratamento e maior

ProBE tem duas novas editoras

O Programa Biblioteca Eletrônica (ProBE) está oferecendo aos consorciados o acesso a títulos de duas novas editoras: a Gale Group e a Ebsco on line - que publicaram as revistas do Massachusetts Institute of Technologies (MIT), Blackwell Science e a Blackpublisher. As duas editoras reforçam o acervo do programa com publicações nas áreas de humanidades, saúde e biologia. Com essas aquisições, o número de títulos disponibilizados pelo ProBE salta dos atuais 1.400 para 2.260. A partir do dia 15 de dezembro, entra em operação o novo portal do programa (www.probe.br), que permitirá a pesquisa por título e assunto, independentemente da editora, facilitando a consulta dos interessados. •

Ganhadores do Governadordo Estado

risco de mortalidade. "Se não tivermos o controle da situação a médio prazo, vai ser cada vez mais difícil vencer as bactérias que se tornam resistentes", diz Dália Rodrigues, pesquisadora da Fiocruz e coordenadora do programa. Bactérias comuns, como a Salmonella e a Shigella, que agem no intestino, já apresentam resistência a diversos tipos de antibiótico. "Com a criação da rede, vamos ter mais informações e saber quais decisões tomar para evitar que a situação se agrave", afirma a pesquisadora. •

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) se destacaram, este ano, no Prêmio Governador do Estado - Invento Brasileiro, promovido pelo Serviço Estadual de Assistência aos Inventores (Sedai). Um dos requisitos para concorrer é que o trabalho tenha sido patenteado. A pesquisadora Edi Lúcia Sartorato, autora de um método de teste de surdez de origem genética (reportagem sobre o tema foi publicada na Pesquisa FAPESP 50), levou o primeiro lugar, ao lado de uma equipe do Centro Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento de Instrumentação Agropecuária da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de São Carlos, que desenvolveu um sensor à base

de plásticos condutores e lipídios para avaliação de paladar de bebidas. Os coordenadores de cada pesquisa receberão um prêmio de R$ 11 mil. Equipes da Unicamp receberam também sete das 12 menções honrosas. •

Água do mardo

Nordeste para beber

As quentes águas do Nordeste são o novo alvo para combater a seca nos Estados da região. O Comitê Gestor Fundo de Recursos Hídricos (CTHidro), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, pretende ampliar a oferta de água potável utilizando técnicas de dessalinização - uma espécie de superfiltragem da água salgada. O assunto é estudado há algum tempo e já foi debatido, em outubro deste ano, por técnicos e diretores do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do próprio CTHidro. A principal conclusão dos debates é que o Brasil precisa desenvolver tecnologia própria para dessalinização, a exemplo do que ocorre em lugares que enfrentam escassez de água. Espanha e Japão são exemplos de países que investem pesado na tecnologia de dessalinização. O INT vai trabalhar em um projeto de plataforma tecnológica sobre o tema para avançar nos estudos de viabilidade. •

Fruticultura terá apoio de biofábrica

Começou a ser construída em novembro, na cidade de Campos, Rio de Janeiro, a mais moderna biofábrica de mudas do país. Parceria entre a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio e

Mar do Nordeste: água dessalinizada combaterá a seca

Cuba, o projeto terá papel importante no Programa de Fruticultura do Norte Fluminense. "Para que o programa tenha boa chance de sucesso, vamos criar uma infra-estrutura para produzir 4 milhões de mudas por ano de cinco tipos: banana, goiaba, abacaxi, mamão e cana", explica Sílvio Lopes Teixeira, do Laboratório de Fitotecnia do Centro de Ciências e Tecnologia Agropecuária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). A Uenfestá recebendo e implantando a tecnologia cubana. A biofá-

brica de Campos será a mais moderna do país. "Usaremos luz natural em vez da artificial e teremos com isso uma economia de 20% no consumo de energia", diz Teixeira. Além disso, a esterilização será feita em meio químico (em vez de usar autoclave). A construção ocupará 600 metros, e a superfície telada - na qual as plantas serão cultivadas -, outros 8 mil metros. A Uenf está trabalhando com o Instituto de Biotecnologia de Plantas da Universidade de Las Villas, de Cuba. •

Embrapa cria instituto na Nigéria

Cinco integrantes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estão empenhados em um trabalho especial em Jigawa, o Estado mais novo da Nigéria, África. Eles ajudarão os nigerianos a montar um Instituto de Pesquisa Agropecuária, dentro do projeto de cooperação técnica entre a empresa brasileira e o governo de Jigawa. Os cinco técnicos - na verdade, três da Embrapa e dois da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícolafarão o levantamento de informações relativas à estrutura física, de recursos humanos e institucional. Também

serão realizados os primeiros estudos para manejo de pastagem em zona semi-árida, característica da região. Os nigerianos estão interessados em fruticultura tropical, grãos (milho, sorgo, feijão e arroz), pastagens, fertilidade de solos, irrigação e sistema de informação geográfica. Hoje, a atividade agrícola da Nigéria se limita à produção de grãos e hortaliças, além da exploração da madeira. •

PrêmioJovem

Cientista

O Prêmio Jovem Cientista, o mais importante no gênero da América Latina, agraciou estudos bem distintos na edição 2001. O primeiro, de Gilberto Lacerda, da Universidade de Brasília (UnB), ganhou na categoria Graduados pela criação de dois softwares de educação infantil na área de ciências batizados de Hércules e o jiló e O dado de contos. Jean Piton Gonçalves, estudante de matemática da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também criou um software para alunos do ensino fundamental, o Formei, que ensina a disciplina para crianças que nunca tiveram contato com Internet ou computador. Na categoria ensino médio, Vanderly da Conceição Veloso Júnior, de 17 anos, de Belo Horizonte, montou uma estrutura para a prática de rappel - técnica de descida de pontos altos por meio de cordas - e a usou para explicar conceitos físicos como atrito, energia cinética, movimento retilíneo e uniforme, força e peso. Os ganhadores dividirão mais de R$ 70 mil em prêmios. O tema de 2002 será "Energia elétrica: geração, transmissão, distribuição e uso racional". •

As lições dos Krahô

Em busca de novas drogas, pesquisadores identificam164 plantas usadas por índios doTocantins em rituais de cura

MARCOS PIVETTA

A cultura dos índios brasileiros é freqüentemente Í^L objeto de estudo de antropólogos. Mas suas J^m práticas medicinais, baseadas no emprego tei % rapêutico de plantas, são pouco pesquisadas JÈL* JL. e raramente servem de base para o desenvolvimento de novos remédios. Um projeto do médico Elisaldo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), deu o primeiro passo para reverter esse quadro. Pelo menos no que diz respeito àpouco conhecida fitofarmacopéia empregada por um grupo indígena nacional, a etnia Krahô. Uma doutoranda orientada por Carlini, abióloga Eliana Rodrigues, passou dois anos mapeando asplantas e receitasprescritas por sete xamãs- sacerdotes-curandeiros encarregados de cuidar dos doentes e promover rituais de cura - de três aldeias que fazem parte da Kraolândia, a reserva indígena da etnia situada numa área de cerrado no norte do Estado de Tocantins. Ao fim do levantamento, patrocinado pela FAPESP, Eliana conseguiu identificar, com o auxílio de taxonomistas do Instituto de Botânica do Estado de São Paulo, um arsenal de 164 espécies vegetais usadas com fins medicinais -todas plantas nativas da florabrasileira. Desse total, 138 parecem ser espécies com algum tipo de influência sobre o sistema nervoso central, a área de interesse das pesquisas do grupo. Aparentemente, essas plantas podem curar patologias ou promover alterações comportamentais, de humor ou cognição. Na visão dos Krahô, algumas são para namorar, casar ou até mesmo separar marido e mulher. Outras carregam a fama de aumentar a resistência física e são usadas pelos índios em competições, nas quais carregar toras de árvores ou disputar corridas figuram entre as atividades preferidas. Outras ainda são alucinógenas.

Com essas 138 espécies, os xamãs preparam 298 receitas curativas, destinadas a 51 tipos de indicações terapêuticas. "A mesma planta pode ser empregada para mais de uma finalidade", conta Eliana, que fez dez visitas às aldeias,

tendo convivido cerca de 200 dias com os Krahô. Dependendo de como é preparada, a espécie chamada de ahtu na língua timbira dos Krahô, por exemplo, pode ser usada para resolver problemas amorosos com o parceiro ou como fortificante. Para lidar com um determinado problema de saúde,é comum existiremvárias alternativas detratamento. No caso dos fitoterápicos com propriedades analgésicas, a bióloga contabilizou 48 receitas, que se utilizam de 40 plantas.

As perspectivas de encontrar alguma nova droga nesse conjunto de quase 140 espécies com potencial de ação sobre o sistema nervoso central parecem boas.Afinal, trata-se, em sua imensa maioria, de plantas nunca analisadas pelos critérios científicos do homem ocidental. Apenas 11 das 138 es-

As práticas de sete sacerdotes-curandeiros da etnia, os chamados xamãs (acima), foram estudadas por equipe da Unifesp

pécies haviam sido alvo de estudos farmacológicos e fitoquímicos e, em somente um caso, houve coincidência entre o uso preconizado pelos índios e a prescrição apontada pela medicina convencional. "Temos material de pesquisa para mais de 20 anos", comenta Carlini, entusiasmado com os resultados do trabalho de campo. "Não conheço nenhum levantamento desse porte a partir da cultura indígena." O nome científico das plantas e seu possível uso terapêutico é mantido em sigilo. A precaução sejustifica: a informação é valiosa e poderia ser aproveitada indevidamente por laboratórios farmacêuticos e outros grupos de pesquisa interessados em eventuais dividendos econômicos decorrentes do mapeamento feito pelo projeto. "Os direitos dos índios

Na visão dos índios, algumas plantas atuam como fortificantes e são usadas em competições, como a corrida de toras serão respeitados", garante o médico. "Já firmamos um préacordo com os Krahô, que receberão sua parte se desenvolvermos remédios comerciais apartir de seus conhecimentos." Como a quantidade de informações e plantas obtidas junto aos Krahô é muito grande, ainda que trabalhassem apenas com as que parecem ter algum efeito sobre o sistema nervoso central, Carlini e Eliana resolveram direcionar seus esforços para cinco categorias de interesse: espécies com efeitos analgésicos; que ajudam a controlar o peso; com ação hipnótica/ansiolítica; que atuam sobre a memória e o processo de aprendizagem; e que sejam adaptógenas (aumentam a resistência física). Se não procedessem assim, o risco

de o projeto perder o foco seria grande. A idéia é escolher duas ou três plantas de cada uma dessas categorias e concentrar os estudos farmacológicos nessas 10 ou 15 espécies. O resto do material coletado no levantamento fica, por enquanto, fora da linha de frente dos estudos. "Não daria para pesquisarmos tudo", comenta Eliana. "Tínhamos de estabelecer algumas prioridades, apesar de termos encontrado práticas curiosas fora de nossas categorias de interesse, como o emprego, entre as mulheres, de plantas para promover a fertilidade ou inibir, temporária ou permanentemente, a concepção."

A maior parte dos fitoterápicos feitos pelos Krahô é administrada na forma de chás, feitos com uma ou várias

Massacres e migração:a saga dosfilhotes de ema

Dos milhares de membros do povo Krahô que tiveram os primeiros contatos com o homem ocidental em fins do século 18, quando ainda habitavam o Maranhão, sobravam cerca de 400 índios na década de 1930, possivelmente o momento mais crítico de sua história. Alvo de inúmeros massacres e deslocamentos, os remanescentes da etnia migraram para o sul, subiram o rio Tocantins e se fixaram numa área onde, em 1944, o governo federal delimitou sua reserva indígena: 302 mil hectares de cerrado no norte do Es-

tado do Tocantins, nos municípios de Goiatins e Itacajá. A Fundação Nacional do índio (Funai) demarcou as terras da Kraolândia, como é chamada a reserva, apenas em 1975. E sua homologação se deu ainda mais tarde, em 1990. Hoje os membros da etnia batem na casa dos 1 700 índios. A reserva conta com 16 aldeias e 58 xamãs. A partir de entrevistas e questionários aplicados em sete desses curandeiros, a bióloga Eliana Rodrigues, da Unifesp, fez o levantamento de plantas medicinais usadas em três aldeias, Serra Grande, Forno Velho e

Aldeia Nova, as duas primeiras de difícil acesso. Cada aldeia é constituída em torno de um pátio circular, ao redor do qual são erigidas as moradias. Sua quantidade de habitantes pode variar de 40 a mais de 250 pessoas. Entre suas lideranças, destacam-se o cacique (pahi) e o prefeito, além dos xamãs. Os homens se ocupam da caça, pesca e do preparo da roça. Além de cuidar da casa e dos filhos, as mulheres cortam lenha e, não raro, desempenham as mesmas tarefas dos homens. Suas casas são de pau-a-pique, com telhado feito de

partes das plantas, inteiras ou raladas. O xamã também pode aplicar topicamente, sobre o corpo dos pacientes, partes dos vegetais ou usá-las para preparar cigarros, banhos ou inalações. Em alguns casos, folhas e raízes de algumas plantas são consumidas pelos doentes, pois os índios acreditam que as propriedades terapêuticas estejam no su-

mo desses vegetais. Durante o exercício de sua função, os xamãs, denominados wajacas em timbira, fumam cachimbos recheados de tabaco, maconha ou outras plantas alucinógenas. A fumaça é assoprada sobre os pacientes. Dependendo do caso, o wajaca pode espalhá-la pelo corpo do doente, a fim de "visualizar" melhor o mal. Ou concentrála num único ponto para poder "chupar" o mal, extraindo a enfermidade-feitiço do organismo em sofrimento.

No dia seguinte a esse ritual, praticado geralmente à noite, os xamãs formulam a receita com as plantas que, em sua visão,

Cerca de 1 700 índios vivem na Kraolândia, reserva de 302 mil hectares no norte de Tocantins

folha de palmeira, sem água encanada ou luz elétrica.

Em poucas aldeias há escolas, com professores nativos, mantidas por uma entidade não-governamental, o Centro de Trabalho Indigenista (CTI). As aulas são em timbira - os índios que falam português só usam nosso idioma para se comunicar com o homem das cidades. Os inte-

resses da etnia são defendidos por uma entidade que representa vários povos timbira, entre os quais os Krahô, a Associação VYTY-Cati. Em sua língua, os Krahô se autodenominam Mãkrare, que significa literalmente filhotes de ema. O paralelo entre os índios e o animal faz sentido. Assim como esse bicho, os membros da etnia gostam de vagar pelo cerrado, mas sempre voltam para casa. É o destino do índio.

vão ajudar o colega da aldeia. | Para acompanhar o efeito de s seus preparados, passam a vi- 1 sitar a casa dos seus pacientes. Se uma receita não funciona, tentam outra. "Como os nossos médicos, os xamãs dos Krahô se especializam em uma ou mais doenças", comenta Eliana. "Alguns cuidam mais de picadas de cobra, gripes e assim por diante." Às vezes, obviamente, não há tratamento que dê resultado. A morte é vistapor eles como fruto de um acidente, feitiço ou doença.

Por que os pesquisadores da Unifesp resolveram estudar o emprego de fitoterápicos entre os Krahô, presentes unicamente no Tocantins, em vez de qualquer outra etnia nacional? Resposta: esse povo foi o que mais se aproximou do perfil desejado. Estava num bioma cuja flora é pouco estudada do ponto de vista etnofarmacológico, o Cerrado. Carlini e Eliana não queriam trabalhar com grupos humanos estabelecidos naMataAtlântica ou na FlorestaAmazônica, ecossistemas onde se concentra a maior parte das pesquisas botânico-farmacológicas. Além disso, a etnia preenchia outros três requisitos fundamentais: valia-se de rituais e plantas alucinógenas durante suas práticas medicinais; tinha, entre seus membros, especialistas em práticas de cura; e se encontrava numa área isolada geograficamente, sem acesso à rede pública de saúde. "Muitos índios nem sabem o que é novalgina", diz Eliana, que, no trabalho de campo, foi auxiliada por seu irmão Eduardo Rodrigues, estagiário da Unifesp. A maior cidade próxima das aldeias Krahô é Carolina, no sul do Maranhão, com 24 mil habitantes, distante cerca de 12 horas de carro. A viagem, por estradas de terra, só pode ser feita em umveículo com tração nas quatro rodas, geralmente uma picape. O processo de descoberta de uma droga sempre é longo. É verdade que a opção de conduzir as pesquisas a partir daindicação de fitoterápicos uti-

lizados pelos índios encurta um pouco esse percurso. Afinal, antes de iniciarem os estudos científicos, os pesquisadores já têm uma noção de qual pode ser a esfera de ação do possível medicamento. Mesmo assim, há uma série de etapas que precisam ser vencidas para comprovar a eficácia - e a não-toxicidade- de um medicamento. Quando se trabalha com fitoterápicos, uma dessas etapas é promover o cultivo das espécies nativas compotencialparagerar remédios, gerando assim uma fonte controlada das plantas que serão alvo de novas coletas. Isso vem sendo feito nas aldeias desde junho passado,com o auxílio de umaagrônoma, Kátia dos Santos, que orienta os Krahô sobre os melhores procedimentos agrícolas. De posse de exemplares das plantas escolhidas,ospesquisadores preparam extratos e dão início às análisescientíficaspropriamenteditas em seus laboratórios. As espécies candidatas a gerar fitoterápicos são inicialmente testadas em animais, para de-

O PROJETO

Usos Tradicionais de Plantas

Psicoativas por Dois Grupos Humanos no Brasil: Uma Reflexão sobre Eficácia

Simbólica e Princípios Ativos

MODALIDADE

Linha regular de auxílio à pesquisa

COORDENADOR

EUSALDO CARLINI - UNIFESP

Os autores do trabalho, a bióloga Eliana Rodrigues e o médico Elisaldo Carlini

INVESTIMENTO

R$ 45.887,50 e bolsa de doutorado

terminar se seu emprego oferece algum risco. Se aprovados nessa etapa, os extratos vegetais seguem para uma série de experimentos com seres humanos. Nessa nova bateria de testes, sua toxicidade é novamente averiguada e determinada sua eficácia como droga contra algumproblemade saúde. Em seguida, os pesquisadores devem estabelecer em que dosagem o medicamento pode ser prescrito e quais são seus eventuais efeitos colaterais. Os pesquisadores da Unifesp não têm a pretensão de encontrar o princípio ativo das plantas que se mostrarem úteis para gerar medicamentos. Querem apenas determinar e garantir o registro comercial de seu extrato, a partir do qual se produzirá um fitoterápico. "Para cada planta que chega ao fim desse processo, abandonamos dez pelo caminho", estima Carlini. Isso depois de consumir cinco anos de pesquisa e R$ 2 ou R$ 3 milhões de reais em investimentos.

O médico, no entanto, está convencido de que é mais barato procurar drogas no meio da ricabiodiversidade nacional - o Brasil está entre os sete países do mundo com maior número de espécies vegetais - do que trabalhar com a síntese química de fármacos, como fazem os grandes laboratórios multinacionais. "Essa é a grande chance para a indústria brasileira", afirma Carlini. Para acelerar suas pesquisas com os fitoterápicos indicados pelos índios, o projeto da Unifesp buscaagoraestabelecerparcerias comainiciativa privada. O laboratório Ache, a maior indústria farmacêutica nacional, é um dos interessados em financiar os estudos. "Perdemos o bonde da história nageração dedrogas apartirdaquímica fina", diz José Eduardo Bandeira de Mello, diretor-geral da empresa. "Se o Brasil não entrar firme agora na pesquisa de fitoterápicos, vamos perder o segundo bonde." •

EMPRESA

IBGE sai a campo

Pesquisa vai avaliar os esforços de inovação da indústria brasileira

OInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), vai avaliar o esforço de inovação da industria brasileira. A Pesquisa sobre Inovação Tecnológica (Pintec), iniciada em 19 de novembro, vai consultar 10 mil empresas de diversos setores - num universo de 72 mil indústrias -, com mais de dez empregados, em todo o país. O objetivo é identificar as iniciativas inovadoras em tecnologia de produtos e processos, contabilizar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e analisar as relações de cooperação com outras instituições, explica Wasmalia Bivar, coordenadora da Pintec. O resultado será uma série de indicadores setoriais e regionais para avaliar a inovação tecnológica no país.

Também serão avaliadas outras formas de incorporação de tecnologia, por meio de patentes, marcas e aquisição de máquinas e equipamentos, assim como os gastos com treinamento e qualificação de mão-deobra, entre outros. "Será possível saber, por exemplo, se a empresa solicitou patente no Brasil ou no exterior e qual o percentual do faturamento coberto por esse registro", ela acrescenta. As fontes de financia-

mento serão identificadas, assim como os principais parceiros das empresas no processo de inovação.

"Essas informações serão importantes para desenhar políticas de incentivo e investimento em P&D", diz Sinézio Pires Ferreira, assessor da Secretaria Executiva do MCT. Para as empresas, a pesquisa vai gerar informações fundamentais para orientar a escolha de estratégias de modernização, de forma a ampliar sua produtividade e aumentar a competitividade no mercado internacional, completa Wasmalia. Os resultados estarão disponíveis em duas etapas, em maio e abril do próximo ano.

Será a primeira pesquisa sobre investimentos em tecnologia e inovação de abrangência nacional. A Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Trans-

nacionais e da Globalização Econômica (Sobeet) realizam pesquisa semelhante, mas com caráter regional e setorizado. A Pintec terá abrangência maior: coletará dados de empresas em todo o território nacional para o período 1998 - 2000, consolidando informações sobre os investimentos públicos e privados em inovação tecnológica. Esses indicadores permitirão, ainda, compatibilizar as informações da indústria nacional com o desempenho das empresas de outros países, já que a Pintec obedece a padrões semelhantes aos de pesquisas realizadas, por exemplo, na União Européia. "É importante que os dados possam ser comparados e que a Pintec tenha um período de referência", justifica Wasmalia. Além das variáveis da pesquisa, os dados da Pintec serão ainda cruzados com as informações da Pesquisa Industrial Anual (PIA), realizadapelo IBGE, que avalia receitas, gastos Ç~r j | e outras características \s **/ s das empresas. Essa estra' tégia permitirá a amplia/ ção das informações, o aprofúndamento do perfil das empresas e a multiplicação dos indicadores sobre os investimentos em inovação no país.

O IBGE também está inovando na forma de aplicação do questionário da Pintec. O sistema tradicional, com questões feitas diretamente ao entrevistado, será adotado apenas nas empresas com mais de 500 funcionários. "A estrutura mais complexa vai exigir visitas diretas", afirma Wasmalia. Nas demais, os dados serão coletados por telefone, em entrevistas previamente agendadas. Nos dois casos, os pesquisadores utilizarão um palmtop - um computador pouco maior que uma agenda de bolsa - para a coleta das informações. "Esse sistema permite avaliar a consistência dos dados durante a própria entrevista", ela garante. •

METEOROLOGIA

Previsão confiável

FAPESP,em parceria

com SCTDE,lança programa de hidrometeorologia

AFAPESP, em parceria com o Conselho de Hidrometeorologia (Cehidro), da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico (SCTDE), está lançando o programa Sistema Integrado de Hidrometeorologia do Estado de São Paulo (Sihesp). O programa vai reunir um conjunto de pesquisas sobre os recursos hídricos - tanto os de superfície e subsuperfícies como os de atmosfera -, cujos resultados permitirão ao setor produtivo, e à sociedade como um todo, dispor de informações meteorológicas confiáveis que permitam previsões de curtíssimo, médio e longo prazo (ver quadro nesta página). A expectativa é de que cerca de 60 projetos participem da seleção. "No ano passado, pedimos

que os interessados nos enviassem pré-projetos para que pudéssemos avaliar o programa, que estava em fase de elaboração. Naquela época, recebemos 68 solicitações. Estamos supondo que agora não será diferente", conta Luiz Nunes, coordenadoradjunto da Fundação.

A maior parte dos recursos que a FAPESP destinará ao Sihesp - algo em torno de R$ 15 milhões - financiará a compra de equipamentos, como radares meteorológicos, perfilaÁreasde pesquisa do programa Sihesp

Meteorologia

• Hidrologia Superficial

• Água Subterrânea

Sensoriamento Remoto da Atmosfera

" Recursos Hídricos e Saneamento

' Oceanografia Costeira

e Gerenciamento Costeiro

Agricultura

• Meio Ambiente

Impactos Socioeconômicos

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dores de vento, monitores do estado do mar e redes meteorológicas que serão utilizadas para o desenvolvimento dos diversos projetos de pesquisa. A Secretaria entrará com contrapartida financeira que incluirá a instalação, manutenção e operação dessa rede observacional. Concluídos os projetos, os equipamentos serão doados às instituições às quais estavam vinculados os pesquisadores. Os pedidos de financiamento serão encaminhados à FAPESP até o dia 14 de dezembro para serem avaliados por assessores internacionais. "Os resultados, muito provavelmente, serão publicados até meados de fevereiro", afirma. Os projetos serão analisados como auxílios individuais. Os aprovados contarão com apoio para a pesquisa por um período de dois anos, que poderá ser prorrogado, em função do estágio de desenvolvimento do projeto.

Os resultados das pesquisas, adianta Nunes, deverão ter forte impacto na prevenção de enchentes, na defesa civil, em programas de reflorestamento, entre outros. Outro objetivo do programa é desenvolver tecnologias que permitam a avaliação de reservatórios de água, do aquecimento dos reservatórios, desmatamento da Serra do Mar ou da poluição do aqüífero Guarani.

Da teoria à prática

0 novo presidente do CNPq, o neurologista Esper Cavalheiro,fala sobre bolsas, Relatório

Tundisi e o papel das agências de fomento

O neurologista paulista Esper Abrão Cavalheiro é o novo presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Substitui Evando Mirra, indicado para a coordenação do recém-criado Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Há dois anos, Cavalheiro deixou a diretoria do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para assumir a Secretaria de Políticas e Programas do MCT. Participou do processo de reformulação do ministério e afirma, em entrevista à editora Claudia Izique, que a troca no comando da agência é uma "substituição de continuidade".

Quais são os seus planos no comando do CNPq? Há mudanças em curso?

Não estamos no momento de promover grandes mudanças. Desde que fui chamado pelo ministro Ronaldo Sardenberg, há dois anos, para ocupar a Secretaria de Políticas e Programas do MCT, passei a integrar uma equipe de trabalho que envolvia diretamente as duas agências de fomento do governo: o CNPq e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Os planos

foram traçados naquele momento. Agora é hora de colocá-los em prática. Desde aquela época, a intenção do ministro era aumentar os recursos disponíveis para pesquisa em ciência e tecnologia. Essa meta está sendo alcançada com a implementação dos fundos setoriais. O plano também previa a implantação de políticas de longa duração, que não fossem atropeladas por problemas circunstanciais e que permitissem um planejamento e o avanço do setor no país. Esse objetivo está para ser alcançado: o MCT realizou a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, em setembro, e está elaborando o Livro Branco com as principais metas para o desenvolvimento. Vivemos, portanto, uma fase em que a política estábastante clarae o papel das agências definido. Recentemente, passamos a contar com o apoio do CGEE para a definição de políticas estratégicas. Assim, as regras do jogo já estão definidas. Assumo o cargo numa substituição de continuidade.

Quais são os novos papéis das agências aos quais o senhor se refere?

A Finep ficará claramente voltada para a relação com empresas, com o objetivo de promover a sua aproximação com a universidade e estimular a pesquisa empresarial, propriamente

dita. No Brasil, como se sabe, o investimento na inovação é muito pequeno, salvo honrosas exceções. Temos um potencial muito grande de pesquisadores nessa área de tecnologia, mas, infelizmente, estão distantes do parque empresarial. No caso do CNPq, a nossa missão é financiar e balizar as atividades desenvolvidas nas universidades e nos institutos de pesquisa, formando, ao mesmo tempo, recursos humanos e estimulando a pós-graduação no país.

Na sua posse, o ministro Sardenberg falou que o CNPq terá um Núcleo de Planejamento Estratégico, nos mesmos moldes do da Finep. Qual será sua tarefa? Estamos estudando a constituição deste Núcleo de Planejamento Estratégico dentro do CNPq. O primeiro esboço de sua estruturajá está pronto. Esse núcleo vai fazer a interface do CNPq com o CGEE, com a Finep e com o próprio ministério. O CNPq tem uma quantidade enorme de instrumentos, desde as bolsas de iniciação científica até programas especiais como o Southern Observatory for Astrophyskal Research (Soar), em construção na região de Cerro Pachón, no Chile. O CGEE vai delinear quais são as prioridades. Precisamos saber se o CNPq tem instrumentos necessários

para se adequar às políticas que o CGEE considerar necessárias. É bom lembrar que o CNPq, a Finep e o CGEE têm atividades independentes. É preciso afinação para não atirar em direções opostas, utilizando o mesmo dinheiro.

'Nesses rearranjos, estão previstas alterações nas relações com asfundações estaduais de amparo à pesquisa e as secretarias estaduais de Ciência e Tecnologia?

Não há mudança nenhuma. Não há dúvida de que cada região deste país tem necessidades diferentes. Mas tem que haver uma clara interação entre as ações regionais, estaduais e municipais com aquilo que o MCT definiu como prioridade. Sabemos que determinadas ações que ocorrem em regiões do país são dominadas por desejos políticos que nem sempre têm relação com os problemas da comunidade científica local. Pretendemos, na discussão com os líderes, tentar acoplar os programas do MCT, CNPq e Finep a esses anseios que são legítimos, levantados por discussões mais amplas e menos conduzidos por situação política momentânea.

No ano passado, o CNPq reduziu para 4.075 o número de bolsas distribuídas em São Paulo. Há perspectiva de aumento no número de bolsas para São Paulo?

Essa é uma discussão ótima. São Paulo tem uma quantidade de grupos de pesquisa muito maior que a média nacional. A competência instalada é muito grande. Isso não é novidade. São Paulo soube, por meio da FAPESP, criar mecanismos de estabilidade financeira para grupos de pesquisa que são invejados até no exterior. Nós, aqui em São Paulo, nunca nos preocupamos com a possibilidade de o dinheiro não chegar. A demanda por mais recursos para bolsas é justa. Mas é preciso levar em conta que, no panorama nacional, a situação é diferen-

Tem que haver interação entre ações regionais, estaduais, municipais eo MCT

te. São Paulo tem um desempenho muito superior em relação ao resto do país. No Brasil existem regiões onde a ciência começou ontem. São Paulo auxilia todos os demais Estados ao receber alunos para pós-graduação, e esse treino permitiu que outras áreas começassem a produzir ciência. São Paulo treinou mestres e doutores e eles, agora, estão ativos.

Os fundos setoriais aumentaram significativamente o orçamento do MCT. Esse crescimento vai se refletir também no orçamento do CNPq, elevando o número de bolsas ou os valores pagos aos bolsistas?

O orçamento do MCT deverá crescer, no mínimo, 20%. Mas o dinheiro para recursos humanos é votado separado dentro do Plano Plurianual. Os recursos destinados abolsas representam cerca de 60%. Alguns programas têm dotação específica, como, por exemplo, o de biotecnologia. Em relação às bolsas, seus valores são proporcionais ao valor dos salários dos docentes das universidades federais. Há perspectivas de que esses valores sejam revistos. Não dá para imaginar que esses valores se manterão no mesmo estágio.

O Relatório Tundisi preocupa a comunidade científica. A retirada dapós-graduação dos institutos éfactível? Como o senhor vê as críticas ao relatório?

Tomei conhecimento do relatório como membro do MCT. O debate em torno de suas propostas deixa claro um problema: todos gostam de mudança, mas ninguém gosta de mudar. O relatório é resultado de uma ampla discussão com cada um dos institutos de pesquisa do país. Mas as pessoas insistem em generalizar as propostas contidas no relatório. O grande problema é como elas avaliam o seu feudo. A pós-graduação não pode seguir o mesmo caminho da especialização, copiando-lhe a estrutura. A formação do pesquisador não é a do especialista. Na área da saúde, por exemplo, foi feito um trabalho imenso para agrupar coisas que jamais deveriam ter sido desmembradas. Com cursos frág-

il Ninguém quer dividir poder. Todos gostam de mudança, mas ninguém gosta de mudar JJ

mentados por área de especialização, a pós-graduação acabou por se tornar um feudo. Ninguém quer dividir poder. Quando se fala em associação, está implícito que alguémvai cair fora. Se a coordenadoria fica na universidade e não no instituto, o dinheiro será administrado pela universidade. A solução é umaboa conversa entre as partes envolvidas. Há quem diga que o relatório não é bom por razões intelectuais. Eu preciso ser convencido disso.

O sistema de pós-graduação brasileiro se orgulha do aumento do número de doutores formados nos últimos anos. Ao mesmo tempo, há um número de doutoresjovens, com boaformação, que não consegue emprego nem nas universidades nem nos institutos. Como abrir esse mercado?

Nós nos orgulhamos do crescimento do número de doutores no país. Na década de 70 e 80, cresceram as universidades privadas, o que poderia ter representado uma abertura de mercado para doutores e mestres formados nas universidades públicas. Mas a Lei de Diretrizes e Bases da Educação permitiu que as universidades privadas colocassem especialistas, e não doutores e mestres, no comando da pós-graduação. Isso encurtou o

mercado. Além dessa dificuldade, os jovens recém-doutores disputam o mercado das universidades privadas com doutores com mais tempo de formação. Por outro lado, as universidades públicas não podem crescer mais por força de restrições orçamentárias. As particulares, infelizmente, têm frustrado as nossas expectativas ao não se tornarem centros de pesquisa. É claro que existem honrosas exceções. E, finalmente, mais um problema: as empresas não estão empenhadas em receber os jovens pesquisadores. A nossa expectativa é que as universidades públicas voltem a contratar. Há um envelhecimento dos professores universitários. A média de idade aumenta a cada ano, o que não é um bom sinal para a C&T. Esperamos também que as universidades privadas, em vez de montar um quadro de pessoal para demonstração, invistam nas pessoas.Apostamos, ainda, no desenvolvimento empresarial e na inovação para ampliar o mercado de trabalho para nossos doutores.

Como um pesquisador como o senhor se sente ao deixar o laboratório de pesquisa para assumir um cargo como a presidência do CNPq?

Estou muito contente de poder olhar o país como um todo. Nós, pesquisadores de São Paulo, somos protegidos por uma agência de fomento como a FAPESP. Mas é um privilégio dirigir o CNPq e ver o grande número de desafios que se colocam para a C&T no país. Só lamento, como pesquisador, não estar ao lado do aluno quando ele faz uma observação pela primeira vez, quando descobre o conhecimento. Agora, eles me comunicam seu sucesso por e-mail. Essa é a vitória do professor. Por outro lado, em Brasília, o momento é dos mais dinâmicos. Nunca se faloutanto em ciência e tecnologia. Quando fui convidado, a grande motivação era colocar C&T na agenda nacional. E foi o que ocorreu. Descobri que tinha coisas importantes fora da área da medicina. É bom poder estudar coisas de áreas que não conhecia. Às vezes, sinto desejo de começar de novo. •

LABORATÓRIO

A salvação deVeneza na arte de Canaletto

Mesmo morto há 230 anos, o pintor Canaletto (16971768) contribui para tentar salvar Veneza do avanço do mar. Pesquisadores descobriram que a alta precisão de seus quadros retratando a cidade no século 18 mostrava o nível do mar um século e meio antes que fossem criadas técnicas de medição, segundo a revista

New Scientist (20 de outubro). Veneza é construída sobre uma laguna do Mar Adriático, o que a faz tremendamente vulnerável à mudança do nível das águas, especialmente agora, com o aquecimento global. Os primeiros instrumentos usados para medir o nível do mar surgiram em 1872. Hoje, os pesquisadores estão empenhados em procurar caminhos para descobrir o que aconteceu antes disso, para ajudar a prever o que deverá ocorrer no futuro. Dario Camuffo e equipe, do Instituto de Ciência Atmosférica e Clima de Pádua, descobriram que as pinturas de Canaletto (Giovanni Antônio Canal) po-

Areia ácida,de Gobi para oJapão

Areia poluída tornou-se um problema pior do que chuva ácida no Japão. Normalmente, a areia soprada para o Japão dos desertos de Gobi e de Taklamakan, no este da Ásia, a cada primavera, não causam problemas para os japoneses. Ocorre que pesquisadores do Instituto Nacional para Estu-

O Canal de São Vio, pintado em 1723: precisão e detalhes já auxiliam os pesquisadores

dem ser usadas para reconstruir o passado. O pintor veneziano utilizava um tipo de câmara escura para delinear a paisagem com os edifícios que ele colocava nas telas. Os especialistas dizem que esse foi umjeito encontrado para que conseguisse terminar os quadros - sempre extremamente detalhistas - mais rapidamente. De

acordo com Camuffo, o efeito é quase tão bom quanto uma fotografia. "Canaletto é absolutamente confiável", diz o pesquisador. Olhadas com atenção, essas "pinturas fotográficas" mostram um linha marrom-verde nos edifícios, que marca o nível da maré. Camuffo comparou a posição da linha na pintura com a dos dias de

hoje. E descobriu que o nível relativo do mar em Veneza aumentou 0,8 metro (ou 2,7 milímetros por ano) desde o tempo de Canaletto. A informação será de grande valor para ajudar os pesquisadores a decidir qual a melhor maneira para proteger Veneza e sua herança cultural do avanço das marés. •

dos Ambientais de Tsukuba têm demonstrado que a areia tornou-se ácida porque capta poluentes químicos durante a viagem de um lugar para outro, como ácido sulfurico e nítrico. "A areia, trazida pelo vento através do Pacífico, pode chegar até o Havaí", disse Masataka Nishikawa, que lidera a equipe de estudos, para a revista New Scientist (20 de outubro). •

A nova ameaça trazida pelas pombas

Além da sujeira que fazem pelas cidades, as pombas estão disseminando um tipo de ácaro típico do meio rural, que começa a aparecer com freqüência em áreas urbanas e a preocupar especialistas. O ácaro hematófago Dermanyssus galinae (piolho de galinha) causa dermatite (coceira intensa) e transmite bactérias como a riquetsia, responsável pelo tifo. O principal vetor na cidade são os pombos, que fazem ninhos nos telhados. O Laboratório de Ixódides do Departamento de Entomologia da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) estuda o fenômeno desde 1999, a partir da infestação pelos ácaros em um dos prédios da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em um apartamento residencial de Copacabana, no Rio, e no próprio prédio do Pavilhão Carlos Chagas, no campus da fundação. "Quando os ninhos são destruídos e os pombos expulsos, o ácaro hematófago busca alimento no sangue humano", diz Nicolau Serra Freire, coordenador do estudo. Como prevenção, o ideal é evitar os ninhos de pombos em telhados, calhas e condicionadores de ar. Os prejuízos financeiros são maiores na indústria avícola, na qual os Dermanyssus infestam as galinhas e fazem a produção de ovos cair 15%. •

Teste para diagnóstico de pânico

Já é aplicado experimentalmente no Rio de Janeiro um teste que ajuda no diagnóstico e tratamento de transtornos do pânico. O trabalho vem sendo feito pelo Instituto de Psiquiatria e Instituto

Pombas fazem ninhos em telhados e calhas e podem estar infestadas com o ácaro Dermanyssus (ao lado)

de Biofísica Carlos Chagas Filho, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O teste consiste em fazer o paciente inspirar por alguns segundos uma mistura dos gases C02 e 02 "As sensaçõ-

es são as mesmas que as sentidas pelos indivíduos que têm o transtorno do pânico, apenas um pouco mais brandas, segundo alguns relatos, porque o paciente sabe que está num hospital sob

cuidados médicos", explica Antônio Egídio Nardi, do Instituto de Psiquiatria. Hoje, o mal é diagnosticado por meio de exames psiquiátricos, com base nos sintomas. O estudo dos especialistas da UFRJ é promissor. Estima-se que o teste, mais preciso, poderá ser usado em clínica em mais cinco anos. "Existem pesquisadores que têm estudos semelhantes em outros países, como Estados Unidos e Holanda, mas conseguimos desenvolver aqui um trabalho original, que dá mais precisão no diagnóstico." O transtorno caracteriza-se por crises súbitas de alta ansiedade sem motivo aparente, que incluem taquicardia e falta de ar. O distúrbio pode atingir proporções tais que, às vezes, impedem o paciente de sair de casa. •

Um perfeito embrião de dinossauro

Um ovo desenterrado há mais de 30 anos nos Estados Unidos contém um embrião de dinos sauro em excelente estado. De acordo com James Lamb, doutorando em geologia e paleontologia da Universidade Esta dual da Carolina do Norte, esse é um dos melhores fósseis descobertos até hoje. Lamb acredita que os estudos sobre o embrião podem apontar novas pistas sobre como era o clima e o ambiente no tempo dos dinossaurosno caso específico, há 83 milhões de anos. Esse foi o primeiro ovo encontrado na parte oriental dos Estados Unidos. Ele provavelmente pertence a Lopho-

Ovo com embrião: conservação excepcional rhothan, um dinossauro combico de pato que viveu apenas na área do atual Estado do Alabama. O ovo foi descoberto por três estudantes em 1970, mas, na época, os pesquisadores não puderam determinar com precisão o conteúdo.

Lamb começou a estudá-lo e descobriu o que lhe pareceu três pequenos ossos. Ao usar um scanner, ele confirmou que havia um embrião em bom estado dentro do ovo e começou a dissolver a casca com ácidos. O pesquisador acredita que, no passado, o ovo ficou mergulhado no mar e a casca porosa permitiu que a água salgada e sedimentos o enchessem por dentro. Essa combinação de material marinho ajudou a preservar o embrião em excelente estado por milhões de anos. Depois que a pesquisa tiver sido concluída, o material ficará exposto no Museu de Ciências Naturais. •

Chá de quebra-pedra impede que os cristais de oxalato de cálcio sejuntem e formem cálculos renais

os últimos anos, várias pesquisas científicas praticamente comprovaram os benefícios do uso do chá de quebrapedra para combater cálculos renais. Faltava, no entanto, desvendar o mecanismo de ação das infusões feitas com as folhas e sementes da espécie vegetal Phyllantus niruri, nome científico da planta. Estudos recentes conduzidos por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) deram um passo significativo nessa 'ireção. Ao contrário do que a sua poular designação dá a entender, o chá de quebra-pedra não quebra nada.

tir em pedaços menores, como muitos acreditam. Seu efeito positivo é um pouco mais sutil, mais preventivo do que curativo, mas não menos eficiente. O chá impede a agre cristais de oxalato de cálcio, >., nente químico mais comum d; dras. Sob sua ação, os cristais acabai não aderindo uns aos outros, evitan-

do assim a formação de cálculos de maior dimensão, aqueles que provocam dor na região do rim e são difíceis de ser expelidos sem o auxílio de algum remédio ou tratamento.

Na prática, as infusões com Phyllantus param o processo de crescimento das pedras já existentes e evitam a formação de novos cálculos. Somente por causa dessa propriedade, o consumo do chá, sob supervisão médica, já seria recomendado. Mas as pesquisas indicam que a bebida pode proporcionar ainda um segundo alívio aos portadores de cálculos renais, em torno de 10% da população geral: o quebra-pedra é capaz de relaxar o sistema urinário, o que torna menos penosa a tarefa de eliminar as pedras. "Na pior das hipóteses, o chá de quebra-pedra é tão eficaz quanto as drogas convencionais usadas para tratar de cálculos renais", compara o nefrologista Nestor Schor, da Unifesp.

ís barato e comprovadamente o." Schor é coordenador de

projeto temático da FAPESP sobre insuficiência renal aguda e outras questões relacionadas aos rins, como o estudo da formação de pedras no órgão e o mecanismo de ação do extrato aquoso - c-próprio chá - do Phyllantus. Numa outra linha de estudo do temático, pesquisadores descobriram que uma protaína da urina, a retinol binding protein (RBP), pode ser um indicador precoce de futuros problemas renais emlacientes que sofreram transplante de coração (ver quadro).

A presença de pedras nos rins é um problema antigo da espécie humana. A análise de múmias egípcias ik. mostra que os cálculos renais já atormentavam a vida desse povo há, pelo menos, 7 mil anos. Não há nada específico que possa ser apontado como o grande fator desencadeador da formação das pedras na maioria das pessoas, apesar da incidência de cálculos apresentar uma curva crescente na história recente.

Fatores genético-hereditários, problemas metabólicos, infecções no trato urinário e até o sedentarismo podem estar associados à ocorrência do problema. A idéia de que dietas extremamente ricas em cálcio originam obrigatoriamente pedras nos rins não tem respaldo científico. A menos que tenha uma clara predisposição genético-metabólica, uma pessoa não desenvolve cálculos por causa do consumo de leite e seus derivados, alimentos com alta concentração desse elemento químico. De concreto, as estatísticas médicas mostram que as taxas atuais de reincidência de cálculo são altas. "Metade das pessoas que tiveram pedra nos rins volta a ter o problema no período de um ano e 70% em dois anos", diz Mirian Boim, fisiopatologista da Unifesp que estuda há 15 anos o emprego do quebra-pedra contra cálculos.

Ação antiaderente - O mecanismo de ação do chá no combate à gênese de pedras nos rins ainda não foi total-

mente desvendado, mas os pesquisadores contabilizam alguns progressos. Descobriram, por exemplo, que a infusão de Phyllantus diminui a adesão de cristais de oxalato de cálcio nas paredes (epitélio) do túbulo renal, um fino tubo que faz parte de cada unidade ativa de excreção do rim. O que isso tem a ver com a origem dos cálculos? Para que ocorra a formação de pedras no rim, é imprescindível que haja a adesão dessas minipartículas nos tecidos do túbulo."Se isso não acontecesse, os cristais de oxalato ficariam em suspensão e seriam eliminados pela urina", diz Mirian. Após grudar nos tecidos do túbulo,as partículas de oxalato de cal- Cristais de cio são absorvidas pelas células renais, num processo chamado de endocitose. Quando são grandes, com mais de meio milímetro, os cristais podem provocar a morte das células. Jáos menores passam algumtempo no interior das células e são liberados de volta ao túbulo renal. O problema é que, depois do passeio intracelular, os cristais retornam mais robustos, acrescidos de proteínas e agregados que aumentam a sua dimensão.

Com os indícios colhidos em seus experimentos, os pesquisadores formularam uma hipótese para explicar por que o chá de quebra-pedra evita a adesão das partículas de oxalato de cálcio. De uma forma simplificada, pode-se dizer que os cristais se prendem à parede celular porque há uma atração elétrica entre ambos. Os cristais têm carga positiva, e a parede celular, negativa. "O Phyllantus parece

mudar a polaridade da carga dos cristais, inibindo assim sua adesão ao epitélio e diminuindo o processo de endocitose", diz Mirian. Para dificultar ainda mais a formação de cálculos, o chá promove também uma alteração na estrutura do tipo de cristal de oxalato de cálcio mais maléfico ao organismo, os chamados monoidratados, que se fixam mais facilmente à parede celular. O chá os transforma em cris-

Um alívio para ostransplantados

A ciclosporina, principal droga usada no combate à rejeição de órgãos transplantados, aumenta a sobrevida dos pacientes, mas costuma causar um efeito colateral indesejado. Seu uso continuado e em altas doses provoca danos aos rins, podendo levar ao comprometimento total desse órgão, problema de saúde que aumenta o risco de morte nesse tipo de doente. A equipe do médico Álvaro Pacheco e Silva Füho, da Unifesp, descobriu uma forma de diagnosticar precocemente essa agressão

aos rins, quando os prejuízos ao funcionamento do órgão ainda estão em sua fase inicial e, talvez, possam ser controlados.

Os pesquisadores perceberam que transplantados do coração que apresentam altas concentrações de uma conhecida proteína encontradanaurina, a retinol binding protein (RBP), têm maior chance de desenvolver insuficiência renal crônica. Mesmo quando todos os demais parâmetros clínicos do paciente revelam-se plenamente satisfatórios, como a taxa

de creatinina (proteína classicamente medida para inferir o grau de funcionamento dos rins), o simples aumento na quantidade de RBP na urina indica que o dano aos rins já está em curso. "Nesse caso, estamos falando de transplantados que, até agora, julgávamos perfeitamente saudáveis", comenta Silva Filho. "Pacientes que qualquer médico examinaria e diria que estão muito bem."

O médico conseguiu estabelecer a relação entre os níveis de RBP e problemas nos rins depois de realizar

cálcio em uma folha de Phyllantus ampliados 400 vezes: suposta autodefesa

tais diidratados, cujo grau de adesão é bem menor.

Evitar a entrada de partículas de oxalato de cálcio em células parece ser uma propriedade não só do chá de quebra-pedra, mas da própria planta. Alertada por uma colega australiana, que havia observado a presença de cristais nas folhas de espécies vegetais semelhantes ao Phyllantus, a fisiopatologis- Pedras de oxa ta percebeu o mesmo fenômeno no quebra-pedra. Num aparente mecanismo de autodefesa, que regula o nível de cálcio em suas células, a planta inibe a entrada dos cristais, o que provocaria o acúmulo das partículas na sua parte externa, as folhas. Com auxílio de um microscópio eletrônico, Mirian visualizou facilmente os cristais nas folhas da quebra-pedra. Ao que tudo indica, esse mecanismo natural de regulação da entrada de cálcio mantém-se no extrato aquoso da planta e é repassado para quem toma o chá.

Bola de golfe - As pedras nos rins podem ser do tamanho de um grão de areia ou de uma pérola. Em casos extremos, alcançam a dimensão de uma

medições em 92 transplantados cardíacos em ótimas condições clínicas. Entre os que exibiam índices da proteína superior a 0,4 miligrama por litro de urina, 38% desenvolveram insuficiência renal crônica, levando à perda de um ou ambos os rins. Nos pacientes com taxas menores do que esse índice, não houve registro de nenhum caso de insuficiência. "E nenhum desses transplantados perdeu o rim."

Vista agora como um marcador do nível de toxicidade renal da ciclosporina, a taxa de RBP é uma nova arma na luta para controlar os efeitos colaterais da ciclosporina. É

bola de golfe. Podem ser lisas ou exibir recortes. Ser amarelas, avermelhadas ou marrons. Em 80% dos casos, são constituídas de oxalato de cálcio, mas há também cálculos feitos de fosfato de cálcio, ácido úrico e outros materiais. Ou ainda uma combinação

O PROJETO

Aspectos Celulares e Moleculares da Insuficiência Renal Aguda

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR

NESTOR SCHOR - Unifesp

INVESTIMENTO

R$ 2.469.886,53

uma batalha árdua. Para diminuir a ação negativa da droga anti-rejeição, os médicos costumam reduzir a dose do remédio ou utilizar novos compostos aparentemente menos tóxicos, como a azatioprina ou o micofenolato mofetil. "Com esses procedimentos, já conseguimos diminuir a taxa de RBP em alguns pacientes, mas ainda não temos certeza de que as células renais deixaram de sofrer", pondera Silva Filho. De qualquer forma, a descoberta do marcador fornece um aviso antecipado do problema. "Encontramos um novo uso para um velho teste", comenta Silva Filho.

de vários elementos químicos. Em casos simples, os médicos geralmente pedem que os portadores de cálculos tomem muita água, o que facilita a movimentação e eliminação da pedra, e um analgésico ou antiinflamatório para diminuir a dor. Em situações extremas, em que a pedra é maior e o sofrimento é grande, o paciente é internado num hospital. No passado, o procedimento - padrão nessas ocasiões era a cirurgia para retirar o cálculo. Hoje em dia, em alguns casos, podem ser empregados métodos alternativos não - invasivos, como o uso de equipamentos que criam ondas de choque que partem as pedras em pedaços menores.

Todas as evidências científicas, fruto de pesquisas com o uso do chá em ratos, seres humanos e testes conduzidos in vitro, indicam que a bebida pode ser uma alternativa a alguns desses procedimentos. Afinal, o extrato aquoso do Phyllantus realmente previne a formação de novas pedras e pode auxiliar a eliminação das já existentes. Isso, no entanto, não quer dizer que os pesquisadores da Unifesp recomendem seu uso indiscriminado. Ainda são necessários estudos mais prolongados, que acompanhem a ação do chá em seus usuários por um período de seis meses. Até agora, o tempo máximo de acompanhamento se restringiu a três meses. Os médicos também não sabem qual é a dose ideal de chá que deve ser consumida pelos portadores de cálculo. Além dessas questões científicas, há empecilhos práticos que desestimulam a automedicação com as infusões de quebrapedra. Não há disponível no mercado um chá comercial de qualidade feito com a espécie vegetal e algumas pessoas podem confundir o Phyllantus com outras plantas e acabar tomando a infusão errada. "O chá funciona, mas é preciso ter cuidado com o que se toma", afirma Schor. •

ato de cálcio: tormento há pelo menos 7 mil anos

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