Skip to main content

Aviso aos navegantes

Page 1


www . scielo . br

As publicações científicas brasileiras estão ao alcance de suas mãos. Não importa em que parte do mundo você esteja

SciELO - Scientific Electronic Library Online é uma biblioteca de revistas científicas disponível na Internet. Uma biblioteca virtual que reúne 55 publicações científicas brasileiras. Sua interface permite o acesso fácil aos textos completos de artigos científicos, por meio das tabelas de conteúdos dos números individuais das revistas ou da recuperação de textos por nome de autor, palavras-chaves, palavras do título ou do resumo.

A SciELO publica também relatórios atualizados do uso e do impacto da coleção e dos títulos individuais das revistas. Os artigos são enriquecidos com enlaces dinâmicos a bases de dados bibliográficas nacionais e internacionais e à Plataforma Lattes no CNPq.

SciELO é produto do projeto cooperativo entre a FAPESP, a BIREME!OPAS/OMS e editores científicos brasileiros, iniciado em 1997, com o objetivo de tornar mais visível, mais acessível e incentivar a consulta das mais conceituadas revistas científicas brasileiras. Em 1998, a coleção SciELO Brasil passa a operar normalmente na Internet e projeta-se rapidamente como modelo de publicação eletrônica de revistas científicas para países em desenvolvimento, em particular da América Latina e Caribe. Ainda em 1998, o modelo é adotado pelo Chile e em 1999 começa a operar a coleção SciELO Saúde Pública, com as melhores revistas científicas de saúde pública ibero-americanas. Outros países estão em processo de incorporar-se à rede de coleções SciELO.

O modelo SciELO destaca e valoriza a comunicação científica brasileira . Ao mesmo tempo, proporciona mecanismos inéditos de avaliação de uso e de impacto das nossas revistas científicas, em consonância com os principais índices internacionais de produção científica.

Ad ote a SciELO como sua biblioteca científica.

Muito se falou sobre a vida política de Mário Covas, morto no começo do mês. Mas pouco foi dito sobre sua contribuição para a ciência e tecnologia de São Paulo e do país. Pesquisa FAPESP presta sua homenagem ao governante que melhor soube apoiar o setor

EDITORIAL

POLITICA CIENTÍFICA

ETECNOLÓGICA 14

ESTRATÉGIAS 14

CENSO CIENTÍFICO 18

DEMANDA GARANTIDA 20

CONSÓRCIO CONTRA A MALÁRIA 21

CIÊNCIA

22

LABORATÓRIO 22

GOLPE NO ORGULHO VÃO 24

MARCADOR DETECTA CÂNCER 34

ÁGUA, RIQUEZA EM EXAME 35

SEM BICHOS, FLORESTA MORRE 38 PROGRAMADOS PARA VER •. 44

TECNOLOGIA

48

LI NHA DE PRODUÇÃO 48

VIGIA DE VENTOS EONDAS 50

CARTÓRIOS NO MUNDO DIGITAL 56 À PROVA DE TEMPO RUIM 58

TRATAMENTO COM QUALIDADE 60

HUMANIDADES •••••••••

62 EM BUSCA DO PENSAMENTO PERDIDO 62 AS ARMADILHAS PARA O REAL 65

24

A publicação do seqüenciamento quase completo do genoma humano atesta as semelhanças científicas entre as espécies

38

Capa : Hélio de Almeida , sobre foto de Michel Filho / Agência O Globo

Pesquisa revela que o desaparecimento de animais dispersares de sementes é mais uma ameaça à Mata Atlântica

50

Grupo do lnpe estuda a formação de ciclones no Atlântico Sul e mantém um serviço de previsões meteorológicas de ventos e ondas para o mar brasileiro

62

Pesquisa recupera a evolução do pensamento científico e tecnológico português e brasileiro do século 16 a 1900

CARTAS

Correção

Constatei uma incorreção na edição número 59 desta revista, na seção Política Científica e Tecnológica, reportagem sobre o Programa de Políticas Públicas. Na tabela "Os já aprovados para a segunda fase", a instituição proponente do projeto do qual sou coordenador - Diagnóstico agroambiental para gestão e monitoramento da bacia hidrográfica do rio Jundiaí-Mirim- é o Instituto Agronômico de Campinas (SAGRSP/ IAC) e não a USP, como foi publicado.

JENER FERNANDO LEITE DE MORAES Instituto Agronômico de Campinas Campinas, SP

Revista

Sou bióloga formada no Centro de Excelência Barão de Mauá em Ribeirão Preto, SP, e estagiária de Biotecnologia da Unesp de Jaboticabal. Tive acesso a algumas edições desta revista e fiquei entusiasmada com o enfoque sobre tudo o que acontece no mundo da ciência.

SILVANA POMPÉIA DO VAL DE MORAES Ribeirão Preto, SP

Sou aluno do Centro Regional Universitário de Espírito Santo do Pinhal (SP), do curso de Engenharia Agronômica. Vendo a revista Pesquisa FAPESP de um assinante, achei muito interessante os temas abordados e excelente a apresentação deles.

G!OVANI APARECIDO GOMES Guaxupé,MG

Sou estudante de Odontologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Quero parabenizar a revista Pesquisa FAPESP pelo seu sucesso. Leio sempre que posso, pois tenho amigos que a recebem. Seus temas são atuais, importantes e inteligentes.

ARI AzEVEDO CORTES Juiz de Fora, MG

Sou engenheiro agrônomo formado na Universidade Federal de Santa Catarina e gostaria de receber a revista Pesquisa FAPESP, publicação bastante interessante. Parabéns a toda a equipe pelo trabalho.

ALEXANDRE PARI ZZOTTO Videira, SC

Parabéns ao grupo responsável pela edição da revista Pesquisa FAPESP, que se tornou uma das minhas leituras preferidas. Numa visita a minha casa, um amigo se interessou pela publicação, levou todos os números que eu tinha e gostou demais Desde então tenho levado os novos números para ele. Seria possível ele receber regularmente a publicação?

FRANCISCO CARLOS LAVARDA Depto. de Física- Unesp/Bauru Bauru, SP

Sou estudante da Fatec-Sorocaba/SP e me interesso por tecnologia e pesquisa científica. Li algumas edições da revista Pesquisa FAPESP e me entusiasmei com as matérias publicadas. Estou interessado em recebê-la regularmente, para usá-la na faculdade e uo meu enriquecimento profissional.

EDUARDO JOSÉ DUTRA São Roque, SP

Sou estudante de escola pública e quero participar desse universo fascinante de conhecimento e tecnologias que se encerra no nosso país e em todo o mundo. Gostaria de receber a revista Pesquisa FAPESP para absorver novos conhecimentos e poder multiplicá-los em grupos de discussões. Futuramente estarei cursando Física em uma universidade pública, onde me dedicarei à pesquisa .

RENATA MARTINS Sorocaba, SP

Gostaria de saber como receber a revista Pesquisa FAPESP, valiosa

obra de divulgação científica. Sou estudante do curso de mestrado da Universidade de Uberaba.

FRANCIELLE SOUZA PARREIRA Uberaba,MG

Charge

Lamentei que uma revista como a Pesquisa FAPESP se preste a divulgar matéria de conteúdo sexista, como a que mostra em Arte Final da edição N° 61. Ficam aqui registradas a minha decepção e a minha indignação.

MARIA DO CARMO NICOLETTI Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia/UFSCar São Carlos, SP

Fotos sem crédito

Na edição passada da revista Pesquisa FAPESP, a foto acima foi publicada sem o crédito: Arnaldo Moura Bezerra.

Na mesma edição, a foto acima também foi publicada sem o crédito: Lalo de Almeida/ Agência Folha.

PESQUISA FAPESP PUBLICAÇÃO MENSAL

DA FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO

PROF. DR. CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ PRESIDENTE

PROF. DR. PAULO EDUARDO DE ABREU MACHADO VICE·PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR ADILSON AVANil DE ABREU

ALAIN FLORENT STEMPF ER CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ

FERNANDO VASCO LEÇA DO NASCIMENTO FLÁVIO FAVA DE MORAEI

JOBSON DE ANDRADE ARRUDA MAURICIO PRATES DE CAMPOS FILH O MOHAMED KHEDER ZEYN

NILSON DIAS VIEIRA JUNIOR PAU LO EDUARDO DE ABREU MACHADO RICARDO RENZO BRENTANI VAHAN AGOPYAN

CONSELHO TÉCNICO-ADMINISTRATIVO

PROF. DR FRANCISCO ROMEU LANDI DIRETOR PRESIDENTE

PROF. DR. JOAQUIM J. DE CAMARGO ENG LER DIRETOR ADMINISTRATIVO

PROF. DR. FERNANDO PEREZ

DIRETOR CIENTIFICO

EQUIPE RESPONSÁVEL

CONSELHO EDITORIAL

PROF. DR. FRANCISCO ROMEU LANDI

PROF. DR. JOAQUIM J. DE CAMARGO ENG LER

PROF. DR. FERNANDO PEREZ

EDITORA CHEFE MARILUCE MOURA

EDITORES ADJUNTOS

MARIA DA GRAÇA MASCARENHAS NELDION MARCOLIN

EDITOR DE ARTE DE ALMEIDA

EDITORES CARLOS FIORAVANTI (CitNCIA)

CLAUDIA IZIQUE (POLITICA C&D MARCOS DE OLIVEIRA (TECNOLOGIA) MÁR IO LEITE FERNANDES (ENCARTES)

EDITOR·AIIIITENTE ADILSON AUGUSTO

REPÓRTER ESPECIAL MARCOS PIVETIA ARTE

ROBERTO MEDDA (DIAGRAMAÇÀO)

TÃNIA MARIA DOI SANTOS (DIAGRAMAÇÃO EPRODUÇÃO GRÁFICA)

COLABORADORES

ANA MARIA FlORI

CRISTINA DURÁN LU CAS ECHIMENCO OITO FILGUEIRAS ROBERTO TANAKA SHEILA GRECCO SUZEL TUNES FOTOLITOS GRAPHBOX-CARAN IMPRESSÃO GRÁFICA BANDEIRANTES

TIRAGEM: 24.000 EXEMPLARES FAPESP RUA PIO XI, N° 1500,CEP 05468-901 ALTO DA LAPA- SÃO PAULO- SP TEL. (O- 11 I 3838-4000- FAX: (O- 11 I 3838-4117 ESTE INFORMATIVO ESTA DIIPONIVEL NA HOME-PAGE DA FAPESP: http://www.fapesp.br e-mail: mariluce@fapesp.br

Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do FAPESP

t PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS E FOTOS SEM PRtVIA AUTORIZAÇÃO

SECRETARIA DA CIÊNCIA TECNOLOGIA E DESENVOLVIMENTO ECONOMICO

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Exe mplo de como apoiar a pesquisa

Quando o governador Mário Covas morreu, no dia 6 de março, sua vida pública e privada foi repassada de alto a baixo. Todas as vozes ouvidas foram unânimes em lembrar a extrema retidão com que ele se portou durante a carreira política, sua coragem na luta contra a ditadura e de como agiu, na medida certa, para reerguer São Paulo nos seis anos em que governou o Estado. Mas o que pouco se falou é de sua atuação a favor da ciência e tecnologia paulista. Sem hesitação e com entusiasmo, Covas valorizou a produção científica das universidades e institutos de pesquisa. E soube ver, como nenhum outro antecessor, a importância do trabalho dos pesquisadores para o desenvolvimento pleno do país . Em outubro de 1999, durante cerimônia para o anúncio dos prim eiros projetas aprovados no programa de pesquisas em políticas públicas, ele ressaltou a importância da "sintonia do sistema de pesquisa com a promoção do bem-estar e da justiça socia l" A revista Pesquisa FAPESP substitui nesta edição a seção Memória pela homenagem ao homem público que sempre enxergou a ciência e tecnologia com clareza, sem subestimar seu papel, prática tão comum em outros governantes (página 6). Exemplo que certamente será seguido pelo governador Geraldo Alckmin, que, por formação, sempre esteve perto e atento às coisas do setor.

A capa da edição deste mês é um exemplo perfeito de como a ciência deve servir ao bem-estar da sociedade, como pregava Covas. Um projeto temático financiado pela FAPESP possibilitou a criação de um serviço que, certamente, já salvou muitas vidas em toda a costa brasileira. Do interior de São Paulo, a partir do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o matemático Valdir Inno-

centini criou um serviço de previsão de ciclones. Quando o Sistema de Previsão de Ondas, desenvolvido por ele e sua equipe, detecta o fenômeno se formando no Atlântico Sul, emissoras de rádio, televisão e jornais do litoral brasileiro são informados para avisar a população da possibilidade da propagação de ondas gigantes nas regiões costeiras Informados, os pescadores não saem para o mar e as pessoas ficam longe dos penhascos. Em duas ocasiões em 1999, os alertas do time de Innocentini ajudaram a evitar mortes. A reportagem sobre a pesquisa e este belo serviço começa na página 50.

A comemoração na divulgação do seqüenciamento do genoma humano causou uma certa frustração ao fim do anúncio dos dois grupos que trabalhavam no projeto . As equipes de Francis Collins e Craig Venter -respectivamente, líder do consórcio púb lico internacional e da empresa privada norte-americana Celera Genomics - mapearam 95% dos genes humanos e concluíram que eles são em muito menor número do que se pensava. Temos, segundo os dados divulgados, por volta de 30 mil genes, apenas o dobro do que possuem vermes e moscas . Um golpe no orgulho do homo sapiens, como conta a reportagem que detalha o gra n de trabalho dos dois grupos (página 24) . Em entrevista excl u siva à Pesquisa FAPESP (página 28), o po l êmico Craig Venter esquece a decepção e joga a bola para a frente . Ele acha que o número de genes é uma excelente base para os pesquisadores seg u irem adiante e tentar entender melhor como o genoma humano funciona "Quem só enxerga os genes ou o ambiente sai perdendo", disse. "É preciso ver os dois juntos." Resta aos pesquisadores continuar com as mangas arregaçadas.

Por um Brasil senhor de si

Governador Mário Covas sempre soube que não se fa z um país sem ciência e tecn ologia

,;

Eexplicável que nas centenas de textos produzidos sobre o governador Mário Covas des- de 6 de março, ou melhor, desde o agravamento de seu estado de saúde e conseqüente internação no Incor, em 25 de fevereiro, pra- ticamente nenhuma pa l avra tenha sido escrita sobre sua influência na história recente da pesquisa científica e tecnológica brasil eira. Afinal, na bela biografia do personagem são tantos os elementos emblemáticos para compor o perfil de alguém que

Covas garoto (terceiro da esq. para a dir.) quando nadava no Clube Regatas Saldanha da Gama, em Santos, em 1944

se consagrou por i n teiro à Política (com p maiúsc u lo), que aspectos não exatamente menos importantes, mas um tanto mais discretosou menos valorizados pelos que tentam contar dia após dia a história da política no país - terminaram por ficar sob uma certa sombra

Mário Covas, no entanto, não só deu provas suficientes de visão es-

Com os amigos (é o quarto à direita, agachado) entre os atletas da Associação da Universidade Santista

Momentos depois de dizer "sim " a Lila, no altar da Igreja Matriz de Santos,

em 19 54

tratégica no tratamento da ciência e da tecnologia, como desenvolveu ações muito concretas em benefício dessa área, a ponto de merecer do presidente e do diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz e José Fernando Perez, em artigo recente, o epíteto de "governador da pesquisa". Assim, a medalha do Mérito Científico e Tecnológico, que ele instituiu em março de 2000 e distribuiu para as duas centenas de cientistas responsáveis pelo seqüenciamento da X. fastidiosa numa festa memorável, e o troféu Árvore dos Enigmas ( escultura de Elvio Becheroni ) , criado na mesma ocasião e concedido aos 35 laboratórios em que se desenvolveu o projeto, são de certa maneira apenas os produtos mais visíveis de muitos de seus atos em prol da ciência e da

tecnologia à frente do governo do Estado de São Paulo.

No artigo de Brito e Perez são registrados vários outros momentos expressivos do apoio do governador à área de pesquisa. Em palestra no dia 13 de maio na Federação das Sociedades de Biologia Experimental, o diretor científico lembrou que ao anunciar, em outubro passado, o nome dos dez primeiros centros apoiados pelo programa dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), Covas se declarou disposto a aumentar em 20% a dotação que é destinada à FAPESP.

A revista Pesquisa FAPESP, ao se reunir aos veículos que homenagearam o governador, lembra esse lado de Covas, sua sensibilidade em relação à área de C&T, manifestada inclusive quando, senador, presidiu a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, em 1991, sobre as causas do atraso tecnológico do país. É esse lado que o artigo de seu colaborador de tantos anos, Gerson Ferreira Fi lho, destaca . Ferreira é coordenador da Unidade de Gestão Estratégica da Secretaria de Governo do Estado de São Paulo

Pelas sendas do conhecimento

FILHO

Estamos escrevendo estas notas no sétimo dia após a morte de Mário Covas. Tivemos, pois, o azo de ler e ouvir o muito que foi dito sobre a honestidade, a coerência, o exercício diário da dignidade, a coragem na adversidade, a credibilidade de quem não mentia, não prometia o improvável, e podia dispensar adesões condicionais.

Do que não foi dito, porém, há algo que transcende a tudo isso: Mário Covas tinha um amor extremado pelo seu país. Amava-o mais do que a si mesmo, e, portanto, muito mais que ao Santos Futebol

Discursando durante campanha para a prefeitura de Santos, em 1960.

Covas perdeu a disputa

Durante comício pelas Diretas na Praça da Sé, em 1984, falando para 1 milhão de pessoas

Como deputado, em 1968, na luta para defender o Congresso contra a interferência dos militares

Ao lado da mulher, Li la, em 1983, já como prefeito nomeado de São Paulo

Covas esteve na linha de frente na eleição de Franco Montoro ao

governo de São Pau lo, em 1982

Com velhos com pa n hei ros na criação do lançamento do novo partido, o PSDB, em 1988

Clube Mas o seu país, é claro, não era apenas o que se vê nos mapas e se mede nas estatísticas. Na sua visão apaixonada o Brasil era o conjunto de todos nós e assim, nessa sua unidade geográfica, o Brasil era, também, cada um de nós. Para ele, cada cidadão era um pedaço do seu país; e quem de fato amava ao seu próximo, no contexto das suas vicissitudes, e na perspectiva de um sentimento nacional mais amplo, não tinha saída: tinha que ter vergonha na cara.

Queria ser Presidente? Cremos que sim, mas não a qualquer preço, e apenas para

suas bandeiras. Para um país {< mais forte, mais solidário e, por .. certo, mais senhor de si. Por ele, bastava estar sendo útil onde o a

país mais precisasse; em toda a sua vida, o poder sempre foi um meio para servir, e mais nada.

Já doente, enfrentando uma manifestação de professores na Praça da República, em junho do ano passado

Na homenagem aos pesquisadores que mapearam a bactéria Xylella, em 2000

Com o presidente da FAPESP, Brito Cruz, ao lançar o Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas, em 1997

Cumprimentando populares, em dezembro de 2000, na saída do lncor: coragem reconhecida

Em prol das grandes causas, porém, ele era cônscio da urgência de um esforço coletivo, e mais que isso, diferenciado. Para um país senhor de si, hoje mais do que nunca, há que se trilhar pelas sendas do conhecimento. Essa a explicação que intuímos para o apreço tão grande que Mário Covas tinha pelos cientistas. Amar a sua ciência (e sempre que possível, usá-la como uma alavanca) parece-nos uma forma inteligente que o cientista dispõe para amar ao seu próximo, e também ao seu país.

Cremos, pois, que não corremos riscos ao agradecer, em nome dele, à FAPESP e aos cientistas, pelo que vêm fazendo nessa direção; somos testemunhas de que o reconhecimento público aos participantes da aventura do Genoma Xylella foi, para Mário Covas, um dos momentos de maior felicidade pessoal durante o seu governo. Mas sentimos, também, que ele quis fazer daquele evento um marco em favor da criatividade, da solidariedade e da persistência. •

Brazilian lnternational e nome Conference

Março,

26-29,

2001 -Angra dos Reis- Rio de Janeiro- Brasil

Temas Abordados: Genômica em Humanos, ltamíferos, Plantas e lticróbios

Pa/estrantes Confirmados:

Sérgio Verjovski-Aimeida , Paulo Arruda , Charles Auffray, Anamaria Camargo , Luiz (amargo, Ph il ip Campbell , Paul Farrell, Terry Gaasterland, Michael Galperin , Walter Gilbert, Philippe Glaser, Winston Hide, Jõerg Hoheisel, Tim Hubbard, Victor Jongeneel , Oli Kallioniemi , Pui-yan Kwok, Joshua LaBaer, Rob Martienssen, Sara Melville, Gene Myers, Steve O'Brien , Ross Overbeek, Svante Paabo, Sergio Pena , Nicole Perna , José F. Perez, John Quackenbush , Mark Ragan , Fernando Reinach , Luis Fernando Reis, Marcelo Bento Soares, João Setubal , Andrew Simpso n, Richard Simpson , Sandra de Souza , Robert Strausberg, Mike Stratton, Marie-Anne Sluys, Steve Tanksley, Math ias Uhlen, Julio Collado Vides, James Womack, Kurt Wuthrich

Patrocinadores

Mulheres na ciência

Os difíceis caminhos enfrentados pelas pesquisadoras em todo o mundo

Qu ando se anunciou que eu havia recebido o prêmio Unesco/L'Oréal for Women in Sciences as perguntas dos jornalistas nacionais e mternacionais eram: Como é ser uma mulher na ciência? Quais as dificuldades que uma mulher cientista enfrenta no Brasil? Que conselhos você daria às jovens que querem ingressar na carreira científica?

Para surpresa geral, respondi que as dificuldades enfrentadas na minha carreira científica foram as mesmas que um homem enfrentaria, pois nunca me

coordenadoras de projetas temáticos da FAPESP e menos de 10% dos professores titulares da Universidade de São Paulo ou dos membros da Academia Brasileira de Ciências são mulheres.

Será que isso ocorre porque há uma discriminação contra aquelas que tentam galgar posições mais elevadas ou é uma opção das próprias mulheres que querem trabalhar menos após uma certa idade? A participação feminina diminui após os 34 anos, que coincide com o período no qual, hoje, muitas decidem ter filhos. Enfrentar a dupla jornasenti discriminada por ser mulher no Brasil. Mas será que isso é verdade para todas as pesquisadoras?

Dados da Unesco mostram que apenas 5% a 10% das mulheres no mundo galgam funções de responsabilidade no campo das ciências.

Ainda hoje, mesmo na Europa e nos Estados Unidos, as mulheres são minoritárias em ciências. Na França, são 32% no CNRS (Conselho Nacional de Pesquisa) enquanto nos Estados Unidos a participação das mulheres é em média de

"Mesmo nos Estados Unidos

e na Europa, ainda somos um grupo minoritário no campo das

da de mãe e profissional certamente não é fácil e muitas não conseguem se dedicar tanto à pesquisa como gostariam ou deveriam.

A meu ver, as jovens mulheres que se iniciam na carreira científica não devem abdicar da experiência fantástica de ter filhos, apesar das dificuldades de se conciliar a carreira com a maternidade. Acreditar que podemos contribuir e ousar, ciências,

30%, variando de acordo com a disciplina (de 10% na matemática a 48% na psicologia). De acordo com uma pesquisa recente (Nature, dezembro de 2000), na Itália, os homens têm três vezes mais chances de atingir posições de chefia. E dentre aquelas que são líderes de pesquisa cerca de 40% não têm filhos.

No Brasil, de acordo com o CNPq, as mulheres constituem 43,7% das pesquisadoras, apesar de a proporção relativa diminuir com o aumento da faixa etária: 45,9% a 41,5% no grupo de 35 a 54 anos e ao redor de 30% entre 55 e 64 anos. Segundo essa projeção, o número de mulheres vai superar o de homens até o final da década. A questão é: será que isso também vai ocorrer nos postos de liderança? Quando se analisa a porcentagem de mulheres que lideram pesquisas, a desproporção sexual é gritante. Apenas 21 o/o das mulheres são

· sem medo de receber um não ao submeter um projeto de pesquisa ou um trabalho para publicação. Se optamos pela carreira científica porque temos um verdadeiro questionamento interior, se vibramos a cada nova descoberta ao mesmo tempo que abrimos um leque de novas questões, se trabalhamos incansavelmente em um problema simplesmente porque queremos compreender, porque queremos ajudar, certamente teremos nosso trabalho reconhecido mais cedo ou mais tarde. O sentimento de tentar contribuir para uma maior compreensão de um problema científico, para um mundo melhor e mais justo será certamente, independentemente de nossa posição hierárquica, a maior recompensa.

M A YANA Z ATZ é professora do Instituto de Bioci ências da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano ( Cepid-FAPESP )

Conflito de interesses: um desafio inevitável

Na exata medida em que vem crescendo a importância da pesquisa científica e tecnológica no contexto da vida econômica, tornam-se mais freqüentes situações em que os resultados do desenvolvimento de projetas de pesquisa promovem ou contrariam interesses econômicos objetivos, seja dos pesquisadores neles envolvidos, seja de empresas ou instituições responsáveis por seu financiamento, ainda que parcial. Até que ponto essa situação interfere na fidedignidade científica desses resultados? Como medir o grau dessa fidedignidade em cada caso? Quais os parâmetros relevantes para medi-lo? Em todo o mundo, há hoje um de-

tos colaterais tenham sido adequadamente avaliados. Esses múltiplos interesses podem, é certo, convergir - mas também é certo que podem divergir. Seja como for, configura-se uma situação, bem descrita pelo termo "potencial conflito de interesses': cujas ressonâncias tanto éticas quanto propriamente científicas não podem ser subestimadas. Suponhamos que alguém seja encarregado de apitar um jogo de futebol de que participe seu filho. Tratando-se de uma pessoa absolutamente íntegra, o potencial conflito de interesses é extremo : o desejo de que o filho tenha sucesso pode conflitar com o desejo de conduzir-se de maneira completamente bate intenso e salutar sobre essas questões, envolvendo agências de fomento, publicações científicas, universidades, pesquisadores, empresas e governos. Por exemplo, o New England Journal of Medicine, um dos mais importantes periódicos científicos do mundo, tem publicado vários artigos a esse respeito.

de julgar pode ser i nvol unta ria mente afetado por potenciais conflitos de interesses, Para melhor ilustrar a complexidade do problema e a relevância desse debate, consideremos um caso típico e ordinário . Antes de ser colocado no mercado, por uma empresa farmacêutica, um novo medicamento, pesquisas devem ser realizadas a fim de determinar se ele é realmente eficaz e se não tem efeitos colaterais nocivos. Via de regra, tais pesquisas contam com financiamento da empresaobjetivamente interessada em demonstrar que seu produto é bom e inofensivo - e, muitas vezes, são realizadas por pesquisadores por ela empregados ou contratados- objetivamente interessados no sucesso financeiro da empresa, de que depende, por exemplo, a manutenção de seus empregos ou a obtenção de futuros contratos e financiamentos. A esses interesses , soma-se o interesse ético e profissional dos pesquisadores em realizar seu trabalho segundo a boa metodologia científica, bem como o interesse da sociedade em dispor de um produto apto a resolver problemas de saúde, mas com garantias razoáveis de que os riscos de possíveis efei-

" O exercício da capacidade imparcial. Se todas as decisões de um juiz de futebol pudessem ser tomadas mediante a aplicação mecânica de regras explícitas, a existência desse conflito, na hipótese da integridade do juiz, em nada poderia interferir no resultado final do jogo Ocorre, porém, que muitas dessas decisões dependem de avaliações que comportam boa dose de subjeti-

vidade e é precisamente aí que o potencial conflito faz sentir seus efeitos: involuntariam ente, pode ser tomada uma decisão favorável ao filho, que não seria tomada em outras circunstâncias; ou, pelo contrário, na ânsia de agir com isenção, o juiz pode tomar uma decisão prejudicial ao filho, que não seria tomada em outras circunstâncias Em suma, o potencial conflito de interesses pode interferir no exercício da capacidade de julgar do juiz, de uma maneira que não pode, por princípio, ser por ele precisamente identificada, controlada ou evitada. Ainda que, de fato, não interfira, a percepção do grau de isenção de suas decisões será inevitavelmente afetada pela existência do potencial conflito de interesse. Em muitos aspectos, as conseqüências de um potencial conflito de interesses na pesquisa científica e tecnológica são da mesma espécie. Com efeito, em vários momentos de seu trabalho, o s pesquisadores são obrigados a tomar decisões cuja correç ão não se pode medir, de antemão, por nenhum con -

junto de regras precisas e explícitas- decisões relativas, por exemplo, a estratégias alternativas de condução da pesquisa ou à determinação do valor de dados certamente relevantes, porém não inteiramente conclusivos, ou até mesmo conflitantes entre si. Nesses momentos, a qualidade das decisões tomadas depende essencialmente de uma capacidade de julgar dos pesquisadores que se poderia chamar de "bom senso metodológico", fruto principalmente da conjugação de sua experiência com seu talento. É o exercício dessa capacidade que pode ser involuntariamente afetado por potenciais conflitos de interesses - de uma maneira que não pode , por princípio, ser por eles precisamente identificada, controlada ou evitada. Também aqui, a percepção do grau de isenção das decisões tomadas pode ser afetada pela existência de potenciais conflitos de interesses.

O modo mais simples de afastar os riscos de uma situação de conflito de interesses é impedir seu aparecimento: o pai não apitará um jogo de que participe seu filho, o pesquisador não desenvolverá um projeto cujos resultados possam contrariar seus interesses pessoais, uma empresa ou instituição não financiará um projeto cujos resultados possam

Normas da FAPESP rel a tivas a potenciais conflitos de in te resses

1) Ao apresentar um projeto à FAPESP. o pesquisador deve listar todas as fontes de financiamento, públicas ou privadas, com que conta ou espera contar para desenvolvê-lo.

2) O pesquisador deve consultar a FAPESP antes de aceitar qualquer apoio financeiro de qualquer outra fonte de financiamento, pública ou privada, para o desenvolvimento do projeto de pesquisa a que concerne o auxílio concedido.

3) Caso o desenvolvimento do projeto de pesquisa a que concerne o auxílio concedido tenha recebido apoio financeiro de qualquer outra fonte de financiamento, pública ou privada, o pesquisador obrigase a fazer referência expressa a esse apoio, com a identificação clara de sua fonte, em todas as formas de divulgação dos resultados obtidos (artigos, livros, teses, dissertações, trabalhos ou resumos apresentados em reuniões, etc.).

4) Em situações em que a assessoria da FAPESP identifique potenciais conflitos de interesse, poderá será exigido contratualmente que se garanta a outros pesquisadores, a órgãos ou agências governamentais e a associações não governamentais o direito de amplo acesso a todos os dados coligidos e procedimentos adotados, para eventual auditoria visando determinar se o projeto foi conduzido em consonância com as exigências da boa prática científica

contrariar seus interesses econômicos ou institucionais. Ocorre, porém , que essa solução pode ser demasiadamente simples, sendo no mais das vezes inviável, e até mesmo indesejável.

De fato, a recusa em apitar o jogo pode implicar seu cancelamento, de modo que os jogadores podem preferir correr o risco de submeter-se a um juiz involuntariamente enviesado. Analogamente, o teste clínico de um medicamento pode não ser materialmente viável sem o apoio da empresa interessada em sua comercialização, o que poderia significar a privação do acesso a um valioso instrumento terapêutico. Além disso, parece razoável que uma boa parte dos custos do processo de elaboração de um produto comercial sejam assumidos pela empresa que lucrará com sua comercialização, e não, por exemplo, por órgão s ou agências alimentadas por recursos públicos.

Por essa razão, não nos resta senão lidar com potenciais conflitos de interesses por meio de estratégias mais complicadas, que muita s vezes só podem ser completamente definidas caso a caso. No entanto, dois princípios devem articular, em todos os casos, a formulação dessas estratégias : o princípio da plena informação e o princípio da plena verificabilidade.

Não apenas a comunidade dos pesquisadores, mas toda a sociedade, deve ser informada sobre todas as circunstâncias de realização de um projeto que possa acarretar a exist ência de potenciais conflitos de interesse. Apenas assim poderá ser definido o grau de fidedignidade a priori dos resultados obtidos, que vai determinar em que medida tais resultados devem se submeter a tratamento crítico antes de serem incorporados como resultados cientificamente validados. A revista Nature, por exemplo, passará a exigir que, dos artigos por ela publicados, constem todas as fontes de financiamento das pesquisas que neles resultaram.

Para que esse tratamento crítico seja possível, todos os dados e procedimentos utilizados pelos pesquisadores na realização de seu projeto devem estar disponíveis para verificação de auditores independentes, por iniciativa seja de outros pesquisadores, seja de órgãos ou agências governamentais, seja de associações não governamentais. A aplicação desses princípios em casos particulares pode não ser uma coisa simples, mas é um desafio que o perfil e a motivação de boa parte da pesquisa científica e tecnológica contemporânea nos destina a enfrentar.

LUIZ H ENRIQ UE L OPES DOS S ANTOS é assessor científico da FAPESP E j osE F ERNANDO P EREZ é diretor científico

Instituto do Sem i-Árido começa a funcionar

O Programa Xingó ganhou a chancela oficial que faltava para ser reconhecido como um produtor de pesquisa e de desenvolvimento na Região Nordeste. Em fevereiro, o ministro da Ciência e Tecnologia (MCT), Ronaldo Sardenberg, anunciou a criação do Instituto do Semi-Árido, a primeira unidade de pesquisa do ministério para o Nordeste. Embrião do instituto, o Programa Xingó existe desde 1996, quando foi criado por iniciativa da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Programa Comunidade Solidária, além de receber o apoio de sete universidades federais e estaduais de quatro Estados e de outros órgãos de pesquisa de outras regiões. O programa utilizou a infra-estrutura montada pela Chesf na construção da hidrelétrica para realizar ações de caráter multidisciplinar que possam desenvolver os 29 municípios do semi-árido nordestino . A região, que fica no trecho do Rio São Francisco entre Itaparica e Xingó, abrange Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe, numa área de 14 mil quilômetros quadrados, com cerca de SOO mil habitantes. Hoje, 200 pesquisadores trabalham em um projeto piloto em dez cidades nas áreas de educação, arqueologia e patrimônio históri-

co, aqüicultura, atividades agropastoris, biodiversidade, fontes alternativas de energia, gestão do trabalho, recursos hídricos e turismo. Agora, com a definitiva institucionalização do programa, os projetos entram numa nova fase. O investimento do MCT no Instituto do Semi-Árido será de R$ 5 milhões em 2001. Isso sem contar com o apoio do Serviço de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), de mais R$ 7 milhões, para organizar e capacitar os pequenos produtores. O principal objetivo é transformar a região num pólo turistíco, com melhorias

c u rs o de man ipula çã o de pl a nta s me dicina is:

socioeconômicas. Aos po ucos, essa meta vem se n do atingida. No ano passado, o sítio arqueológico e o reservatório da Hidrelétrica de Xingó atraíram 40 mil visitantes. Até o momento, com a instalação de sistemas de bombeamento de água e de energização de prédios públicos, mais de 250 famílias foram beneficiadas. Também o núcleo de biodiversidade auxilia a comunidade a gerir os recursos naturais. Foram criados um herbário de plantas da caatinga e uma oficina de manipulação para testar e prod u zir fitoterápicos. •

• Unesco premia Ernst Hamburger

Ernst Wolfgang Hamburger, diretor da Estação Ciência, ligada à Universidade de São Paulo (USP ) , recebeu no dia 26 de fevereiro o Prêmio Kalinga pela Popularização da Ciência, dado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco)

Professor do Instituto de o Física da USP, ifl iii Hamburger trabalha há 40 anos pela educação e divulgação científica. O prêmio existe desde 1951, 5 Ham b urger: rec o nheci me nt o patrocinado pela Fundação Kalinga, da Índia. O físico foi indicado pela Academia Brasileira de Ciências e escolhido por um júri internacional Entre os premiados no passado houve seis ganhadores do Nobel e três brasileiros: José Reis (1974), Oswaldo FrotaPessoa (1982) e Ennio Candotti (1998). Hamburger, de 67 anos , está à frente da Estação Ciência há sete anos, mas sempre trabalhou com divulgação científica. Foi, por exemplo, um dos criadores da série Minuto Científico, exibida pela TV Cultura de São Paulo, em 1997 •

• Amazônia no foco de reunião da SBPC

A Amazônia e sua imensa diversidade biológica continuam na ordem do dia de pesqui sadores e ambientalista s. A 7• Reunião Especial da Sociedade Brasileira para o Progresso

Base de pesquisa na floresta amazônica: reunião especial

da Ciência (SBPC) terá como tema A Amazônia no Brasil e no Mundo e será realizada em Manaus, de 25 a 27 de abril. A idéia é debater desenvolvimento sustentável e futuro das pesquisas na região, urbanização e consolidação da cidadania, desmatamento, mudança climática e as relações da Amazônia com o Brasil e o mundo. Além dos simpósios e da apresentação de pôsteres, haverá a sessão especial Vivências Amazônicas, com relatos das experiências de moradores sobre o cotidiano da região. Esta reunião especial é uma parceria entre SBPC, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Universidade do Amazonas. A 53• Reunião Anual da entidade vai ocorrer entre 13 e 18 de julho na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador. O tema será Nação e Diversidade- Patrimônio do Futuro. As informações sobre os dois encontros, com prazos e fichas de inscrição, estão no site www.sbpcnet.org.br. •

1 Fapemig cria linha de apoio a empresas

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) instituiu

uma linha especial de apoio às micro e pequenas empresas mineiras e vai financiar R$ 1 milhão este ano para os pequenos empresários do setor. O objetivo do Programa de Apoio Financeiro às Micro e Pequenas Empresas de Base Tecnológica (Promitec) é melhorar as condições das empresas emergentes e nascentes de base tecnológica. O Banco

de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) participará dos projetas como o agente financeiro da Fapemig. É a primeira vez que a fundação mineira lança um programa desse tipo para pesquisa tecnológica. Até então, as linhas eram institucionais, todas de custeio, sem retorno financeiro - agora não, a negociação será feita diretamente com o empresário. O Promitec é semelhante ao Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas PIPE, criado em 1997 pela FAPESP, que dá apoio à pesquisa para inovação diretamente na empresa, por meio da concessão de financiamento ao pesquisador a ela vinculado ou associado. O alvo do PIPE são empresas com até 100 empregados, dispostas a investir na pesquisa de novos produtos de alto conteúdo tecnológico ou processos produtivos inovadores.

• 1 Medalha Instituto Butantan

O Instituto Butantan de São Paulo homenageou 25 cientistas e políticos que contribuíram para o desenvolvimento da instituição e para o avanço das ciências biomédicas no Estado. A Medalha Instituto Butantan, criada em 1981, foi outorgada às personalidades no dia 19 de fevereiro. Entre elas estavam o físico e engenheiro eletricista José Fernando Perez, diretor científico da FAPESP, o médico Adib Jatene e o secretário da Saúde do Estado de São Paulo, José da Silva Guedes. Os candidatos são escolhidos pelo conselho da instituição e a lista de laureados é divulgada em decreto do governo. A cerimônia marcou a emissão da Medalha Comemorativa do 1o Centenário do Instituto Butantan. •

Pesquisa de Campinas mostra força

Campinas será a estrela de uma grande mostra de ciência no segundo semestre deste ano. Onze instituições de pesquisa da região, além de empresas do Brasil e do exterior, estão organizando a Mostra de Ciência e Tecnologia para

Unicamp, Pontifícia Universidade Católica (Puccamp), Institúto Agronômico de Campinas (IAC), Instituto Biológico, Centro de Pesquisas e Desenvolvio Desenvolvimento ./ (Cientec 2001), que V \ I será realizada de 24 de ' agosto a 2 de setembro na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo os idealizadores do evento, o Cientec mostrará a região de Campinas como um pólo diferenciado no cenário brasileiro e latinoamericano em razão da qualidade de suas instituições de pesquisa, como

menta em Telecomunicações (CPqD) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), entre outras. O Cientec terá exposições temáticas, debates, seminários e, paralelamente ao evento, haverá uma bolsa de negócios e convênios, com o objetivo de estreitar relações entre o setor de pesquisa e o produtivo. Não é para menos: a região responde por 9o/o do Produto Interno Bruto (PIB) e de 10% a 15% das pesquisas científicas realizadas no país. Os organizadores querem agora atrair patrocinadores, colaboradores e expositores. Mais informações no site www.cientec200 1.com.br. •

Banco paralisa pesquisas

Uma dívida de US$ 2,5 milhões provocou a paralisação de pesquisas do Instituto de Imunologia de Bogotá (IIB ) , na Colômbia. O centro é liderado pelo controverso bioquímico Manuel Patarroyo, que trabalha há muitos anos numa vacina contra a malária. O BBVA Banco Ganadero, da Espanha, retirou do local equipamentos em razão de uma dívida com a Fundação Hospital San Juan de Dios , na qual o instituto está instalado. Segundo informa a revista Nature (edição de 1° de fevereiro), em janeiro o banco assumiu o controle de supercomputadores, seqüenciadores de DNA e máquinas de re ssonância nuclear magn é tica usado s para determinar estruturas tridimensionais de proteínas. O presidente do BBVA, José Maria Ayala, reconhece que o IIB está apenas associado à fundação, devedora do dinheiro. Mas diz que, depois de numerosas tentativas de receber e de confiscar a propriedade do hospital, " não havia mais nada de valor para ser apreendido". Ayala sugeriu a Patarroyo que deixasse a associação com a fundação e fosse para outro lugar. O cientista reagiu afirmando que o banco não tinha o direito de envolver o IIB nessa briga. E argumentou que o IIB é quase todo in-

Manuel Patar royo: vítima de dívidas alheias

dependente da fundação que mantém o hospital e apenas o prédio e metade do salário de 20, entre 168 pesquisadores, são bancados pelo hospital . O instituto recebeu US$ 3 milhõe s em recursos no ano passado. A atitude do banco deixou revoltados estudantes e pesquisadores. Os jornais colombianos têm publicado cartas de leitore s pedindo para correntistas e investidores fecharem contas no BBVA. "O episódio provocou um sentimento anti-Espanha na população", conta Patarroyo. Ayala afirmou que espera achar uma solução que permita devolver os equipamentos, talvez com a intervenção da Presidência da Colômbia. Patarroyo tornou-se famoso quando criou uma vacina sintética a partir de proteínas do protozoário Plasmodium falciparum, mas foi criticado pela comunidade científica ao usar uma metodologia considerada duvidosa e envolver 20 mil colombianos em testes. O pesquisador trabalha em uma nova vacina e espera fazer testes clínicos em dois anos. •

• Pós dos EUA têm mais estrangeiros

Uma an ál ise d as úl timas estat ís ticas di sp o n íve is da Fu ndação Nac iona l d e Ciência (NSF) d os Es t a d os Un idos r evel o u d o is d a d os im port an t es- um al en ta d or e o u tro p re o cupant e. A m elh or inform ação é q ue o núm ero de estud a nt es d e p ós-grad u ação d as áreas de ciência e engenh aria subiu 2% em 1999, d epois d e c in co anos d e declíni o, segund o a revista Business Wee k (e d ição de 5 de m a r ço). O curso co m m elh or d ese m pe nh o fo i o d e comp ut ação, co m 12 % d e a um en to. A pro c ur a p elos c ur sos de enge nh a ri a subiu 1o/o - o prim eiro c r esci m ento desde 1983. O n ú m ero d e estrangeir os n a pós cr esce u em cerca d e 8 mil e fic o u em 11 O mil, e nqu a nt o o d e a m er icanos caiu e m 1.00 0 e e es t ac io n ou em 300 mil. O qu e n ão agrad o u aos a m eri ca n os foi o fato d e es tud a nt es es t ra n geiros co m v ist o d e p erma n ência t emp o r ár io se r e m os respo nsáveis p elo maior preench im ento d as vagas d o setor. O p ro bl em a é qu e estu dantes es t ra n geiros n orma l mente vo ltam p a r a se u s países de o ri ge m e d eixa m d e co n tribuir p a r a a eco n o m ia d o país

visitante. Na última pesquisa feita pela NSF sobre o assunto, em 1994, descobriu-se que apenas 48 % dos alunos estrangeiros que fizeram doutorado em ciência e engenharia ai nd a ficavam no país por u m ano o u ma1s.

• UsodeDNA

preocupa Austrália •

O boom de negócios envo lvendo biotecnologia e pesquisas sobre o genoma humana levaram autoridades da Austrál ia a tomar medidas para evitar prob l emas n o fut u ro. Os australianos te m em q u e o seqüenciamen t o do genoma, divulgado em fevereiro, provoque u ma " invasão de privacidade" na vida dos cidadãos. Por isso , o governo começou u ma pesquisa nacional para avaliar as q u estões éticas e l egais envo lvidas na questão O ob j e tivo é sa b er se a at u al l egis l ação tem meios de proteger os m oradores do país co n tra o possível mau uso das informações genéticas. Dois grupos vão revisar as leis sobre o tema: a Comissão para a Reforma da Legislação Aust r aliana e a Comissão de Ética em Saúde, que devem terminar o t rabal h o até meados de 2002. •

Ciência na web

Envie sua sugestão de site científico para cienweb @trieste.fapesp br

ÁGUA SUBTERRÂNEA

www.mathsoft.com/asolve/

Um mar de problemas matemáticos , aparentemente insolúveis Ótimo para quem gosta de exercícios

• Taiwan quer atrair cientistas da China

Taiwan (Formosa) e China vivem em eterna posição de alerta, tentando resolver uma pendência política de cinco décadas. Mas, agora, as autoridades de Taiwan querem desfazer alguns nós entre as instituições da ilha e do continente. O esforço mais recente é para mudar regras que permitam aos pesquisadores da China trabalhar nas instituições insulares. Em fevereiro, as autoridades de Taiwan aumentaram o tempo máximo de permanência que os pesquisadores visitantes do continente têm para ficar na ilha, de dois para três anos. Outras mudanças são esperadas, como a adoção de vistos especiais e a possibilidade de transferência direta de dinheiro para bancos no continente, segundo afirmou para a revista Nature (edição de 15 de fevereiro) KuanHsiu Hsiao, do Conselho Nacional de Ciência de Taiwan. Os pesquisadores dizem que os vistos especiais são essenciais para o intercâmbio. Normalmente, os visitantes do continente perdem vários

globin.cse.psu.edu

Site turbinado com muitas informações, finks e algumas ferramentas (softwares) para estudar hemoglobina.

meses para obter um visto de entrada em Taiwan por causa da burocracia excessiva. •

• Italianos exigem pesquisa livre

A pressão de 1.500 cientistas da Itália levou o governo daquele país a voltar atrás na decisão de proibir até mesmo pesquisas com alimentos transgênicos (plantas geneticamente modificadas). As autoridades decidiram proibir os estu-

www.aguasubterranea . hpg .com.br

Dados sobre água subterrânea : tipos de aqüíferos , poluição, qualidade química, legislação, entre outras informações

Afonso Pecoraro, acusado de atrasar a pesquisa italiana em agrobiotecnologia sem nenhuma base concreta. Alguns dias depois da divulgação do manifesto, o governo voltou a permitir esse tipo de trabalho científico. Também no mês passado, dos seguindo a Dulbecco: contra tendência de to- veto do governo

Ocorre que alguns países, como França, Grécia, Dinamarca, Luxemburgo, Itália e Áustria, querem mais restrições para aceitar o fim definitivo do embargo. A disputa ainda parece longe do fim. •

• Orçamento da Estação Espacial encolhe

O governo do presidente norte-americano George Bush determinou cortes no gasto

foi aprovado um conjunto de regras para pesquisa, plantio e comercialização desses alimentos na Europa. A regulamentação precisará ser ratificada nos próximos 18 meses por 15 países membros da UE. dos os países da União Européia (UE) de proibir o cultivo de transgênicos. Pesquisadores de grande prestígio, como os laureados com o Nobel de Medicina Renato Dulbecco, em 1975, e Rita Levi-Montalcini, em 1986, encabeçaram um manifesto, em fevereiro, exigindo liberdade para pesquisa e contra o veto a experimentos com transgênicos. O principal alvo do documento foi o ministro da Agricultura,

com a Estação Espacial Internacional (ISS) no final de fevereiro. A Nasa, agência espacial, já estourou em US$ 4 bilhões o orçamento da fase atual do programa. Com os cortes, a tripulação que permanecerá no espaço cairá de sete para três astronautas, o número de vôos em 2001 será de seis e não mais oito e alguns equipamentos deixarão de ser instalados este ano. Como as mudanças, também as pesquisas científicas terão de ser limitadas durante certo período. Técnicos da Nasa dizem que a montagem total da ISS e sua colocação em operação custarão, no total, US$ 95 bilhões e poderão levar dez anos ou mais. Apesar dos cortes na ISS, o orçamento para 2001 da Nasa não foi diminuído. Pelo contrário, cresceu 2% em relação a 2000 e ficou em US$ 14,5 bilhões . No começo de março, a agência anunciou também a desistência de continuar o projeto do avião X-33, um sucessor mais barato dos ônibus espaciais. O aparelho nunca fez nenhum vôo de teste, mas consumiu US$ 912 milhões da Nasa e US$ 357 milhões da Lockheed Martin. •

Censo científico

Levantamento do CNPq radiografa grupos de pesquisa no país

Aquarta versão do Diretório dos Grupos de Pesquisa, uma espécie de censo da atividade científica promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), constatou, no ano 2000, que estavam em ação no país 11.760 grupos de trabalho, com um total de 48.781 pesquisadores, vinculados a 224 universidades e instituições, públicas e privadas. As universidades públicas, de acordo com esse levantamento, concentram 80 % dos grupos de pesquisa. Do ponto de vista regional , o destaque é para o Sudeste, que abriga 57 % da produção científica nacional . São Paulo segue na liderança, com 31% dos grupos de pesquisas A Região Sul reúne 20 % dos grupos ; o Nordeste, 15%; o Centro-Oeste, 5%, e na Região Norte, foi constatada a existência de 3% do total dos grupos de pesquisa.

Na primeira versão do Diretório, publicada em 1993, foram registradas as atividades de 4.404 grupos de pesquisa. Em 1995, esse número saltou para 7.271, e em 1997, na terceira versão, para 8.632. O crescimento do número de grupos de pesquisa expressa o aumento da base de dados que, além de estender a coleta a todas as unidades da Federação, passou a contabilizar também, a partir de 2000, as atividades de pesquisa de instituições privadas . " O Diretório cobre, atualmente, 80% da capacidade instalada de pesquisa no país", diz Reinaldo Guimarães , consultor do CNPq e coordenador do projeto. O primeiro levantamento, realizado em

1993, teve uma cobertura estimada em 40% do total dos grupos em atividade no país. A ampliação da cobertura do Diretório também foi responsável pela diminuição da posição relativa do Sudeste no conjunto da pesquisa no país, e de São Paulo, cuja participação caiu de 40%, em 1995, para os atuais 31 %

Estratificação - Nesta última versão, apoiado em critérios de estratificação, o Diretório classificou os grupos de pesquisa conforme a qualidade da produção científica, usando basicamente dois critérios: o número de bolsistas do CNPq e de docentes de pós-graduação avaliados pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior (Capes) que integravam os grupos. A partir desses parâmetros, foi possível distinguir os grupos de e;_celência (A) e consolidados (A+B), aqueles em consolidação (C+ D) e os grupos em formação (E). De acordo com Guimarães, cerca de 10% dos grupos se enquadraram no estrato A e 20% obtiveram A+B, 40% foram classificados como C+D e 30% se enquadraram na categoria E. Mais de 80% dos grupos considerados de excelência e consolidados estão localizados no Sudeste, principalmente nas universidades e institutos de pesquisas paulistas. Em São Paulo, 46% dos grupos estão no estrato A+B, 42% no C+D e 12% no A.

Do total de grupos de pesquisa em atividade no Estado de São Paulo, 11,5% estão na Universidade de São Paulo (USP), 4,6% na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp ),

3,1% na Universidade Estadual Paulista (Unesp ), 1,5% na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e 1,3% na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), apenas para citar alguns exemplos. Os grupos paulistas, ainda segundo os dados coletados pelo Diretório, reúnem 15.129 pesquisadores; 68% com doutorado, 19% com mestrado, 9% com graduação e 4% com especialização na sua área de atividade. O mapeamento do CNPq constatou que 31% das pesquisas desenvolvidas pelos 11.760 grupos em todo o país se concentram no setor de Saúde, seguidas de perto pelo de Educação, com 30%. Mais da metade dos pesquisadores têm doutorado (56,7%) e quase 65% têm artigos publicados em revistas especializadas, de circulação nacional e internacional, livros ou capítulos ou outras publicações.

Grupos e lideranças -A idéia de mapear as atividades de pesquisas no país surgiu em 1990, no Fórum de Pró-reitores de Pesquisa, estimulada por um desafio do então secretário Nacional de Ciência e Tecnologia José Goldemberg. "Ele nos pediu que apontássemos os bons grupos de

pes q uisa existe ntes n o p aís", lembra Gu imarães, na época pró - reitor de Pesquisa da Universida d e do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) "Não tínhamos como identificar os bons, sem id en t ificar todos O projet o de um censo de pesq u isa no país ama d ureceu e foi aprese nt ad o ao CNPq em 1992 . O primeiro levant am ento fo i realizado em 1993 co m três objetivos: preservar a m emór ia d a p es q uisa no país, pro m over int er câmb io entre grupos de pesq u isa d o r es e subsidiar as políticas de ciência e tecnologia no país!'

"Desde o início, de fen de m os a id éia de trabalhar com gru pos d e pesqu isa como unida d e d e an álise, apesar des t e não ser um m o d elo t r adicio n al no país, já que a relação d os ó r gãos de fo m ento é com os pes qu isa d ores': d iz Gui marães. O p ress uposto, ele ju st ifi ca, é q u e os gru pos d e pesquisa se organizam hierarqu icamente em torno d e um a liderança que será a fo n te d e informações para a base de dados. "Des d e 1993, co n sideramos difícil es t ab elecer re lações individuais, a co m eçar pela id en t ificação dos líderes Q u em tem cumprido esse pap el são as au to r idades máximas de pes q uisa nas instituições!'

Orientados pela equipe responsável pelo projeto, os pró- reitores, superintendentes, diretores ou vice-presidentes de pesquisa das universidades e instituições identificam os líderes de pesquisa, remetem a estes os questionários e se encarregam de seu recolhimento e envio ao CNPq.

A m eta inicial era realizar levantamentos bianuais. "Mas, em 1999, o CN Pq iniciou a imp lementação da Plat afor m a Lattes - um sistema operac io n al q ue integra a sua b ase de dados com os mais de 70 mil currículos Lattes e a gerência de fomento. Por isso tivemos que fazer a quarta versão em 2000 " No próximo censo, em

2002, já estão previstas algumas mudanças "A partir da quinta versão , os líderes poderão atualizar as informações de pesquisa ao longo do biênio. Hoje, só é possível fazer alterações quando a base de dados é renovada. Vamos separar a coleta de informações do processo de divulgação", ele explica.

O site do CNPq, com a quarta versão do Diretório, recebeu um total de 8 mil visitas, entre dezembro do ano passado e fevereiro último, uma média de cem visitas por mês "As informações reunidas nesta base de dados já podem orientar as políticas de fomento': diz Guimarães. •

Distribuição dos grupos de pesquisa por unidade da Federação

UNIDADES

DA FEDERAÇÃO

São Paulo

Rio de Janeiro

Rio Grande do Sul

Minas Gerais

Paraná

Pernambuco

Santa Catarina

Distrito Federal

Fonte: CNPq

do Norte

INCUBADORAS

Demanda garantida

Pequenas empresas

vão disputar mercado de genéricos

OParque de Desenvolvimento Tecnológico (Padetec), do Ceará, e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) estão criando incubadoras para abrigar pequenas empresas produtoras de medicamentos genéricos. As duas iniciativas são piloto, contam com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e passaram a integrar o Projeto Nacional de Incubadoras de Empresas de Base Tecnológica. O CNPq vai financiar a compra dos equipamentos e material de consumo, de acordo com Kumiko Mizuta, coordenador-geral de Pesquisa Agropecuária e de Biotecnologia

do CNPq. Os dois contratos, já firmados, têm validade de dois anos, podendo ser prorrogados.

que está se instalando no Ceará. O mercado também está garantido: o governo do Estado do Ceará, que compra uma média de R$ 7 milhões em genéricos, vai absorver a produção de medicamentos e garantir às novas empresas um faturamento médio de R$ 1 milhão por ano, nas contas de Afrânio Craveiro, superintendente do Padetec. "O governo, interessado em estimular a criação

certificados pela Unidade de Farmacologia Clínica, a ser inaugurada no dia 23 de março deste ano, que será responsável pela realização dos testes de bioequivalência dos genéricos.

Medicamentos "órfãos"- Na UFRGS, a idéia de criar uma incubadora para a produção de genéricos e de medicamentos "órfãos" - que não estão no mercado com apresentação desejada, como, por exemplo, remédios sem apresentação pediátricasurgiu há três anos, antes mesmo da regulamentação desses medicamentos. "A Faculdade de Farmácia já tinha laboratório industrial e pretendia qualificá-lo para o desenvolvimento de novas tecnologias e para abrigar uma incubadora que aumentasse as chances de aplicação comercial da pesquisa acadêmica", diz Paulo Mayorga, coordenador do projeto na universidade.

A UFRGS vai investir R$ 400 mil na construção de área física, adequada às normas de produção de medicamentos, para abrigar empresas novas ou já constituídas. O projeto terá uma planta para atender a medicamentos de forma sólida (comprimidos, cápsulas, granulados, etc.) e um laboratório para o desenvolvimento de medicamentos que será compartilhado peA expectativa do CNPq é que os projetos contemplem toda a cadeia produtiva dos genéricos, inclusive a sintetização de princípios ativos desses medicamentos. Atualmente, apenas 15% dos princípios ativos dos genéricos são produzidos no país. As novas empresas vão produzir medicamentos com grande demanda como o captopril, ampicilina, cefalexina, cetoconazol e verapamil.

Mercado garantido- No Padetec estão incubadas 17 empresas, sete delas com competência para produzir genéricos O princípio ativo dos medicamentos será desenvolvido pela Polifarma, empresa farmacêutica

de um pólo farmacêutico no Estado, vai apoiar o start up dessas empresas, adquirindo os seus produtos e por meio de incentivos à produção", diz. O Padetec, que contará com R$ 750 mil do CNPq, ao longo de dois anos, pretende também estimular o desenvolvimento de empresas com capacidade de desenvolver princípio ativo de medicamentos, como é o caso da Procariri, que vai produzir o L-Zopa, utilizado no tratamento do mal de Parkinson.

Os genéricos produzidos pelas empresas incubadas no Parque deverão chegar ao mercado em junho, quando também entrará em operação a fábrica da Polifarma. Serão

las empresas incubadas. O CNPq aportará outros R$ 350 mil, ao longo de dois anos. "Já existem vários grupos interessados. Publicaremos o edital para a seleção das empresas até o final do primeiro semestre e as propostas serão avaliadas por sua viabilidade técnica e perspectivas do mercado", afirma Mayorga. A meta é sincronizar o empreendimento com as demandas do Sistema de Saúde. "Estamos buscando o apoio do Estado. A evolução natural é que o projeto seja um núcleo gerador de novas tecnologias, dê origem a um parque tecnológico, criando novos empregos e ampliando a receita re•

Medicamentos: apoio das universidades e do CNPq

Consórcio contra a malária

ONSA integra rede internacional da laboratórios que vai seqüenciar o genoma do Anopheles gambiae

Os laboratórios integrados à Rede ONSA (Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos), montada pela FAPESP, deverão participar de um consórcio internacional que realizará o seqüenciamento genético do genoma do mosquito Anopheles gambiae, o principal responsável pela transmissão da malária na África. Também integrarão o consórcio a Celera Genomics, dos Estados Unidos; o Instituto Pasteur, da França; o Laboratório Europeu de Biologia Molecular, com sede na Alemanha, entre outros. O projeto tem o apoio do Programa Especial de Pesquisa e Treinamento de Doenças Tropicais, da Organização Mundial de Saúde (OMS). A cooperação brasileira foi acertada em reunião realizada no início de março, no Instituto Pasteur, em Paris. De acordo com José Fernando Perez, diretor-científico da FAPESP, os termos da participação brasileira ainda devem ser definidos .

O projeto tem como objetivo seqüenciar integralmente, ainda este ano, os 260 milhões de pares de base do genoma do Anopheles gambiae, utilizando a técnica shotgun, aperfeiçoada pela Celera Genomics. O início do seqüenciamento será feito pela Celera Genomics e pelo Centro Francês de Seqüenciamento (Genoscope); a junção dos fragmentos do genoma será feita também pela Celera Genomics, e a finalização ficará sob a responsabilidade do Genoscope, do Ins-

Anopheles gambiae: mais agressivo que o darlingi

ficar novos mecanismos de controle do ciclo da malária.

Vetor agressivo- A malária atinge, anualmente, 300 milhões de pessoas, principalmente na região subsaariana, e é responsável pela morte de um milhão de crianças. O Anopheles gambiae é o seu principal vetar. A incidência da doença cresce junto com a população do mosquito, que desenvolveu resistência a inseticidas. O mosquito africano é parente próximo do Anopheles darlingi , transmissor da doença no Brasil. "A principal diferença é que o gambiae é muito mais ávido e agressivo. Pica mais e por um maior período de temtituto de Pesquisa Genômica (TIGR), entre outros. A Rede ONSA participará da anotação do seqüenciamento, junto com outros sete laboratórios. O projeto também prevê o seqüenciamento de outras variedades de mosquito transmissor da doença, entre eles a do Anopheles darlingi, existente no Brasil.

Três organismos integram o ciclo da doença: o ser humano, o mosquito do gênero Anopheles e o protozoário que causa a doença, o Plasmodium falciparum, cujo seqüenciamento genético está em fase de conclusão, nos Estados Unidos. O seqüenciamento do genoma do mosquito, juntamente com o do parasita Plasmodium e do hospedeiro humano permitirá aos pesquisadores identi-

po': explica Marcos Boulos , chefe do Departamento de Doenças Infeciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Enquanto o darlingi ataca, geralmente, no início da noite, o gambiae faz suas vítimas noite adentro e até o início da manhã. O resultado é que, aqui, o número de vítimas é bem menor - atingiu 600 mil pessoas, em 1999, e a mortalidade é pequena. "Pelo menos 80% dos casos são benignos", diz Boulos.

A região Nordeste do Brasil já conviveu com o Anopheles gambiae, no início do século, por volta dos anos 30. O mosquito foi erradicado, segundo Boulos, numa da maiores vitórias da Saúde Pública no país, com o apoio da Fundação Rockfeller. •

Expansão da soja prejudica o Cerrado

Destruição da vegetação nativa, comprometimento de importantes bacias hidrográficas, maior concentração da propriedade da terra e redução dos postos de trabalho agríco la são conseqüências da grande expansão da cultura de soja no Cerrado. As conclusões estão no estudo Expansão Agrícola e Perda de Diversidade

Soja no Centro -Oeste : o Cerrado está apenas com 20% da área original

no Cerrado: Origens Históricas e o Papel do Comércio Internacional, lançado em fevereiro pelo WWF Brasil (Fundo para a Natureza), em Brasília. O Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo e 45% dela sai do Cerrado, na região central. Dos cerca de 30 milhões de toneladas produzidas anualmente, metade é exportada. O trabalho dos pesquisadores mostra que entre 1985 e 1996 houve uma redução de 19% dos postos de trabalho no Centro-Oeste, enquanto aumentava o número de propriedades entre 100 e 1.000 hectares. O Cerrado está com 20% de sua área original. "Queremos que o Brasil seja o maior produtor de soja e de carne bovina do mundo, mas a produção e o sistema de transportes para seu escoamento devem ser acompanhados de práticas conservacionistas", adverte o técnico do WWF Álvaro Luchiezi Jr. E exemplifica: "As

n ascentes das três principais bacias hidrográficas brasileiras estão localizadas no Cerrado': Ele sugere um macrozoneamento ecológico-econômico na região •

• Bacilo da hanseníase é mapeado

Agora foi a vez do bacilo da hanseníase (Mycobac terium leprae), seqüenciado por pes-

quisadores franceses e britânicos. O trabalho trouxe a esperança de desenvolvimento de novos testes de diagnosticar, mais rápidos e eficazes do que os atuais. As pesquisas sobre o bacilo são especialmente importantes em razão do grande número de casos em todo o mundo. A cada ano, são cerca de 700 mil novos doentes - mais de 40 mil deles apenas no Brasil. O estudo revelou que o genoma da bacilo da hanseníase é muito parecido com o da tuberculose: 93 % dos genes são iguais A principal diferença é que o de Hansen parece ter perdido metade de seus genes não essenciais (que não produzem proteína ). " Há um total de 1.604 genes", diz Stewart Cole, do Instituto Pasteur, de Paris. Com menos genes, será mais fácil identificar os mais importantes . •

Bromélias são foco de Aedes aegypti

A crescente utilização de brom élias na decoração de ambientes em casas pode se tornar um problema de saú de públic a Um estudo realizado no ano passado mostrou que essa planta é um provável foco do mosquito Aedes aegypti, transmissor da den gue e da febre amarela O professor Oswaldo Paulo Forattini, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), e Gisela Rita Marques, da Superintendência de Controle de Endemias (S ucen ), da Secretaria Estadual de Saúde,

fizeram o alérta ao descobrir larvas do mosquito em bromélia domesticada na cidade de Potim, a 150 quilômetros de São Paulo. "Atualmente, é muito comum ter esse tipo de planta em casa", diz Forattini. Para o pesquisador, os efeitos ainda não são sentidos em São Paulo porque a presença do Aedes ainda é pe-

Bromélia: decoração pode virar foco de mosquito

quena na capital paulista, mas crescente em outras cidades. A principal dificuldade para prevenir o problema é a questão cultural. "Qual pessoa deixa jogar inseticida ou jogar fora as próprias bromélias?", pergunta Forattini. O objetivo dos pesquisadores é alertar as autoridades para a campanha de combate à dengue. •

• O plástico que vem da bactéria

Graças às atividades digestivas pouco usuais de uma bactéria, a Ralstonia eutropha, o pesquisador Alexander Steinbüchel, da Universidade de Münster, Alemanha, conseguiu criar um biopolímero que deverá ser usado em implantes e instrumentos cirúrgicos invasivos. Conhecida por sua capacidade de digerir zinco e chumbo, a bactéria foi alimentada pelo cientista alemão com ácido carbônico e, como resultado dessa dieta, produziu um poliéster rico em enxofre. Como esse elemento químico apresenta propriedades antibacterianas, Steinbüchel acredita que o plástico poderá servir para diversas aplicações médicas, nos próximos anos Cateteres e sondas feitos com o biopolímero poderiam provocar menos rejeição no organismo humano, por exemplo. O estudo sobre essa propriedade da Ralstonia foi publicado na edição de fevereiro da revista Microbiology •

• Um camelo que bebe água salgada

Uma espécie nova de mamífero foi descoberta por uma expedição de pesquisadores chineses e britânicos e anunciada no começo de fevereiro pelo Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Pnuma). Trata-se de um camelo diferente de todos os tipos conhecidos : ele bebe água salgada, tem corcovas mais separadas e é mais peludo Sobrevive entre as dunas de areia de Kum Tagh, no deserto entre o Tibete e a China, uma região tão remota que foi usada de 1955 a 1996 para testes nu-

Universo tem 13,5 bilhões de anos

Um grupo de astrônomos li dera d os pelo francês Roger Cayrel, do Observatório de Paris, estimou a n ova idade do Universo: 13,5 bilhões de anos. Eles d escob r i r am uma das estrelas mais antigas da Via-Lác tea, a gigante CS 31082-001, e detectaram n ela a presença de urânio238, pela análise de sua luz. "É a primeira vez que det ectamos urânio fora do Sistema Solar", diz Beatriz Barb uy, do Instituto Astronômico e Geofísico da Un iversidade de São Paulo (IAG/USP), que particip o u do trabalho, publicad o na revista Nature (edição de 8 de fevereiro). A desco b erta, feita por meio d o Very Large Telescope do Observa tório Austral Europeu (ESO), instalado em Paranal, no Chile, e um espectrômetro tipo UVES, é importante porque a prese n ça de elementos radioativos como urânio e tório (este também detectado) permite calcular a idade da

cleares. Por tr atar- se d e um mamífero , tipo d e a nim al muito estudado, o a chad o foi considerado o m ais importante dos último s d ez

estrela: é que o decaimento dos átomos desses elementos- processo pelo qual se tornam mais leves e estáveis- ocorre a uma velocidade conhecida. Como a desintegração do urânio é três vezes mais rápida que a do tório, sua detecção permite um cálculo mais preciso: assim, fixou-se a idade da Via.- Láctea em

an os pe los espec ialis t as. Ago r a, os cie nti stas qu er em sab er co m o r i n s, fíga d o e pulm ões d esses ca m elos r esist em à ág u a salga d a. "Tes t es

12,5 bilhões de anos. "O Big Bang deve ter ocorrido mais ou menos 1 bilhão de anos antes da formação da galáxia, tendo, portanto, cerca de 13,5 bilhões de anos", estima Beatriz Barbuy. Os cálculos anteriores , feitos pelo decaimento do tório, mostram uma grande grande variação - entre 10 e 18 bilhões de anos •

genéticos feitos com os an ima is in di ca r a m u m a diferença d e 3% en tre os ge n omas do camelo domesticado e o do selvagem", diz Jo h n Hare, lí d er da expedição e criado r da Fu n d ação de Proteção do Came lo Selvage m A p opulação desses a n ima is é es tim ada em cerca d e mil espéc im es, m enor do que a d os pa nd as gigantes. E d eve di mi nu i r m ais ai n da. Freqü en t eme n te, para ch egar at é os poços com água sa lgad a, a única existente na região, eles têm de atravessar áreas coalhadas de minas coloca d as po r caçadores. •

A nebulosa M16, fotografada em 1995, fascina os astrônomos e ficou conhecida como "Pilares da Criação"
Camelo e filhote descobertos no deserto entre China e Tibete

Oseqüenciamento do genoma humano atesta as semelhanças científicas entre animais, plantas e bactérias e alimenta a idéia de que somos apenas uma espécie a mais sobre a Terra

Por um momento, o homem se sentiu pequeno. Exatamente no mesmo dia, 12 de fevereiro, os grupos se há pelo feito de termmar ma1s rap1do o sequenciamento de todo o genoma humano -o consórcio público internacional e a empresa privada norte-americana Celera Genomics - divulgaram, de forma separada e em publicações distintas, a mesma e surpreendente notícia. Depois de mapearem cerca de 95% do código genético humano, estimaram que o homem tem cerca de 30 mil genes, três a quatro vezes menos do que imaginavam. No emaranhado de dados, análises e opiniões que recheavam as duas radiografias iniciais do nosso genoma, impressas nas páginas da britânica Nature (consórcio público) e da norte-americana Science (Celera), esse número chamou a atenção de todos. Apenas 30 mil genes! A espécie que domina o planeta, o ser capaz de cravar sua bandeira na Lua e voltar à Terra, abriga em cada célula pouco mais que o dobro do número de genes de vermes e moscas. A reação da sociedade foi imediata. Espanto geral e piadinhas comparando o Homo sapiens a pequenos seres alados e rastejantes. Então seria essa a principal conclusão de um dos mais badalados e caros programas científicos já realizados pela humanidade?

Além dessa constatação, os dados do genoma mostraram que os genes são distribuídos de forma irregu lar pelos 23 pares de cromossomas, que formam o genoma humano. Há cromossomas com alta incidência de genes e outros com pouquísimos (ver pág. 35). Também se notou a predominância de seqüências repetidas, o chamado DNA-lixo, cuja função ainda é pouco conhecida. Por enquanto, é interpretado como uma evidência de que nosso código genético incorporou seqüências de outro seres (bactérias, por exemplo) e ainda não se livrou desse material de utilidade duvidosa. O fim de um grande trabalho científico pode freqüentemente prod u zir

mais dúvidas do que certezas. Foi o que se deu com o genoma humano, disseminando um efeito aparentemente- apenas aparentemente- oposto ao que inicialmente se esperava. À medida que se analisam as informações dos dois rascunhos do nosso DNA, uma série de novas- e velhas - questões entra na ordem do dia. A seguir, algumas delas :

O fim do começo ainda não terminou

É preciso deixar bem claro: o mapa do seqüenciamen t o, tal qual ganhou as páginas da Nature e da Science, é ainda um rascunho (o segundo) do nosso DNA, embora já exibindo contornos muito próximos da forma fina l. É como se a humanidade tivesse recebido uma enorme biblioteca com um catálogo ainda precário, que não permite saber quantos livros existem em todas as estantes nem separar as obras importantes das medianas e das quase sem valor. Nenhum dos resultados apontados pelos estudos publicados nas duas revistas é definitivo e inquestionável. Os números são provisórios e precisam ser mais bem calculados, as análises ainda carecem de refinamento e há uma série de questões em aberto. "Gerada por programas de computador, a atual configuração do genoma, com esse reduzido número de genes, é uma ótima hipótese de como deve ser o nosso DNA, mas ainda é uma hipótese': pondera Marcelo Briones, professor de biologia e evolução molecular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Esses senões são necessários por um motivo simples. A rigor, os pesquisadores dos dois grupos ainda não botaram ponto final no gigantesco trabalho a que se propuseram: estabelecer a ordem correta dos 3,2 bilhões de bases nitrogenadas - adenina, citosina, guanina e timina, representadas respectivamente pelas letras A, C, G e Tdispersas pelos cromossomas. Em junho do ano passado, já haviam anunciado a conclusão de mais de 80% do seqüenciamento do genoma humano, mas, na ocasião, não botaram no papel os seus achados. Agora, deram um

Quem está na frente

Exemplos de animais e plantas com genoma * maior que o dos humanos

*em bilhões de pares de bases

Fonte: DOGS - Data base of Genome Sizes

passo adiante. Aprimoraram o rascunho inicial e escreveram páginas e páginas nas duas revistas científicas mais influentes do planeta sobre o que encontraram. O consórcio público afirma ter decifrado a ordem de 94% da seqüência de bases nitrogenadas, um ponto percentual a menos do que aCelera. Ou seja, ainda há buracos consideráveis em nosso genoma - buracos que podem fazer a diferença, ainda mais quando se sabe que apenas 2% do matérial genético do homem é diferente do DNA do chimpanzé. Além disso, pouco mais de um terço dos genes identificados tem função desconhecida. O fim do começo - jogo de palavras usado por muitos cientistas para dizer que o seqüenciamento do genoma humano é a primeira etapa, não a última, da busca pela decifração de nosso DNA- definitivamente não terminou. Tanto que o consórcio público admite no artigo da Nature que apenas em 2003 deve ter uma seqüência do genoma com menos buracos.

A2003 era a data prevista para a divulgação mapeamento completo do genoma. Mas, orno aCelera se antecipou e resolveu publicar na Science o seu trabalho, ainda que não terminado, o consórcio público também decidiu divulgar seu material, antes do programado, na Nature, principal concorrente da revista norte-americana. "Não podíamos deixar uma sociedade privada reclamar o crédito de um trabalho que ela não poderia realizar sem se apoiar nos dados do esforço público", afirma Jean Weissenbach, diretor do Centro Nacional de Seqüenciamento da França, justificando a atitude da iniciativa pública. Os dados do consórcio - rede formada oficialmente por laboratórios de seis países (Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Japão e China), mas na prática abastecida por mais nações, como oBrasil- puderam ser usados -e de fato foram - pela Celera.

cepa grega ria bufo mays

Afinal, quantos genes temos?

Os dois artigos, da Nature e Science, situam o número de genes do Homo sapiens entre 26 mil e 40 mil. A tão comentada cifra de 30 mil genes humanos é uma espécie de média de consenso, que parece ter agradado tanto aos cientistas do consórcio público quanto aos da Celera. Antes da publicação, estimava-se que nossa espécie tinha cerca de 100 mil genes. Algumas previsões falavam em até 120 mil, 140 mil genes .

No entanto, há quem diga que a atual previsão de 30 mil genes é tão cristalina e indiscutível quanto o resultado da última eleição para presidente dos Estados Unidos. Eles apostam que - mais dia, menos dia -vai haver uma recontagem. Cientistas que participam de projetas genômicos no Brasil acreditam que podem existir mais genes ainda não detectados pelos modelos matemáticocomputacionais da Celera e do consórcio público. O total, dizem, pode chegar a 50 mil, se forem considerados os chamados genes transcritos, que formam as moléculas de ácido ribonucléico (RNA), a base da síntese das proteínas.

Andrew Simpson, coordenador do Genoma Humano do Câncer (GHC), projeto financiado pela FAPESP e pelo Instituto Ludwig, é um dos que sustentam essa projeção. No ano passado, sua equipe aplicou no cromossoma 22, um dos menores e dos primeiros a ser decifrado, a técnica usada pelo GHC, as ESTs ou etiquetas de seqüências expressas, que indica apenas os trechos atuantes da molécula de ácido desoxirribonucléico (DNA). Resultado: o grupo paulista encontrou 219 novas regiões transcritas, que parecem corresponder a cerca de 100 genes que ainda não haviam sido descritos. De tão relevante, a descoberta ganhou as páginas da edição de 7 de novembro de 2000 da Proceedings of the National Academy of Sciences, dos Estados Unidos. "Nosso

4 3,6 3,6 3,3

trabalho, se continuar bem feito, pode contribuir para determinar com precisão o número de genes do genoma humano", comenta Simpson.

Outra indicação de que o número de genes humanos pode estar sujeito a ajustes vem da equipe paulista do recém-concluído genoma da cana-de-açúcar, que mapeou parcialmente o DNA dessa planta e rastreou cerca de 80 mil genes (ver Pesquisa FAPESP no 59). Cruzando as informações obtidas no seqüenciamento da cana-deaçúcar com as disponíveis no GenBank, banco de dados sobre todos os genomas concluídos ou em andamento, os pesquisadores ligados ao projeto da FAPESP encontraram- quem diria- de 200 a 1.000 genes ainda não identificados na Arabidopsis thaliana, a primeira planta inteiramente seqüenciada, no final do ano passado. Ainda que sujeito a valores mais precisos, o resultado da comparação pode aumentar em até 5% o total de genes (25 mil) previstos na Arabidopsis. Se foram encontrados novos genes nessa planta, por que o mesmo não pode acontecer com o ser humano?

Determinismo genético versus fatores ambientais

A hipótese de o ser humano ter apenas 30 mil genes reavivou esse velho debate. Os críticos do determinismo genético, em geral pessoas e cientistas da área de humanas, mas também ilustres biólogos como Richard Lewontin, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, ganharam alguns reforços com a notícia da suposta escassez de genes do Homo sapiens. Com tão poucos genes, como podemos creditar tudo que somos- aparência física, propensão a doenças e gostos pessoais- apenas ao DNA e relegar a segundo plano o papel do ambiente? Críticos mais incisivos decretaram a morte do conceito de gene, como fez a Folha de·s. Paulo em um editorial logo após a publicação dos dados do consórcio público e da Celera.

3,3

No que parece ser uma mudança de postura, Craig Venter, dono e principal cientista da Celera, certamente um dos homens que mais sonham em ganhar dinheiro com o estudo dos genes, começou a proferir uma série de afirmações antibombásticas sobre o peso das seqüências de As, Cs, Gs e Ts em nossa existência, após a publicação do artigo de sua companhia. ''A montagem da seqüência do genoma humano é apenas o primeiro e hesitante passo de uma longa e excitante jornada na direção do entendimento do papel do genoma na biologia humana", disse. Ou: "Duas falácias devem ser evitadas: o determinismo, a idéia de que todas as características de um ser são ditadas

cação do artigo de sua eqmpe, Collins participou da reumao anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência, em São Francisco, nos Estados Unidos, e insistiu em difundir a idéia-clichê de que o DNA é o "livro da vida': metáfora que Venter, também presente no encontro científico, fez questão de rechaçar. Os dois, que sempre tiveram tantas divergências- acerca do patenteamento e dos métodos de seqüenciamento de genes -, conseguiram acrescentar mais um item em sua lista de diferenças.

Collins: concorrência e resultados antecipados Genômica compa rat iva

pelo genoma; e o reducionismo, (acreditar que) agora que a seqüência humana é totalmente conhecida é apenas uma questão de tempo entendermos as funções e interações dos genes que darão uma completa descrição causal da variabilidade humana" (ver entrevista abaixo).

Francis Collins, principal coordenador do trabalho do consórcio público do genoma humano, não acompanhou Venter no discurso moderado. Dias após a publi-

ENTREVISTA

Uma área que sai em alta com a publicação das seqüências presentes em nosso DNA, por mais que as analogias tendam a jogar por terra o antropocentrismo humano, é a genômica comparativa. Já se sabia que o tamanho do genoma- a quantidade de pares de bases- não guarda relação com o status evolutivo de um organismo . Um protozoário, a Amoeba dubia, tem 670 bilhões de pares de bases em seu genoma- 220 vezes maior que o humano E não é só esse ser que bate

Forças equivalentes

Oambiente pode ser tão determinante quanto os genes

Pode-se não gostar do irrequieto Craig Venter, o fundador da Celera Genomics, a empresa norte-americana que publicou no mês passado sua versão do genoma humano na revista Nature enquanto o consórcio público fazia o mesmo nas páginas da Science Mas é impossível ignorar sua influência nos destinos da pesquisa genômica nos últimos dez anos. Em 1992, inconformado com a burocracia dos NIH (National Institutes of Health) dos Estados Unidos, ele decidiu fundar um instituto de pesquisa genômica. Nascia em Rockville, no Estado de Maryland, a meia hora da capital, Washington, o TIGR (The Institute for Genomic Research), que

se tornou um produtivo centro de estudos e seqüenciamento.

Em 1998, Venter começou a escrever definitivamente seu nome na história da genômica. Nessa data, fundou aCelera, também em Rockville, com um propósito claro: estabelecer a ordem correta dos 3 bilhões de pares de bases q u e formam o genoma humano num prazo máximo de três anos, bem menos tempo do que o inicialmente proposto pelo consórcio público internacional, que planejava atingir esse nível apenas em 2005. A entrada da Celera- uma companhia disposta a impor um ritmo frenético nas pesquisas e, assim, ganhar dinheiro com suas descaber-

tas - causou muita polêmica e acirrou o debate ético Mas, sem dúvida, fez o consórcio público rever o seu cronograma de trabalho. De 2005, o consórcio passou a prometer o seqüenciamento completo para 2003.

Com a chegada de 2001, pode-se dizer que aCelera cumpriu a sua promessa, ainda que não de forma integral. A empresa publicou uma versão do genoma humano, que ainda contém buracos e não é a definitiva -a exemplo do que ocorreu com o trabalho do consórcio público. Duas semanas após divulgar parcialmente os dados de seu rascunho do genomasó tem acesso integral às informações da Celera quem virar assinante do banco de dados da empresa -, Venter deu a seguinte entrevista a Marcos Pivetta, por telefone:

• A revelação de que o genoma humano tem menos genes do que o esperado é uma notícia boa ou ruim?

- Bem, não é necessariamente nem uma coisa nem outra. Mas diria que é uma boa notícia porque agora sabe-

o Homo sapiens. Até o cachorro, nosso melhor amigo, deixa o homem para trás: o Canis familiares deve ter uns 100 milhões de pares a mais que seus donos.

ossa quantidade de genes, depois das novas projeções rebaixada para 30 mil, também deixou de ser, por si só, motivo de orgulho para a espécie. A popular moscada-fruta (Drosophila melanogaster) tem mais de 13 mil genes; o verme Caenorhabditis elegans, 19 mil; e a Arabidopsis, 25 mil. Sem falar na cana-de-açúcar, mapeada parcialmente em São Paulo e já com cerca de 80 mil genes. Para quem acredita que o homem é um ser único, as más notícias brotam de todos os lados. Segundo o consórcio público, os cromossomas humano e do camundongo apresentam muitas semelhanças: há no mínimo 200 segmentos com pelo menos dois genes comuns e na mesma ordem. "As comparações com o camundongo vão ajudar a identificar novos genes humanos", diz Sandro José de Souza, coordenador de bioinformática do Genoma Humano do Câncer.

Na genômica comparativa, o DNA do ser humano é colocado lado a lado com o de outros organis-

mos qual é a resposta (para o número de genes). É uma ótima base para os pesquisadores seguirem adiante.

• Mas isso quer dizer que vai ser mais fácil ou difícil entender o genoma?

- Ironicamente, o baixo número de genes mostra que a biologia é mais complicada do que muitas pessoas gostariam que fosse. Muita gente pensava na base de "um gene, uma proteína, uma função biológica, uma doença". Mas as coisas não funcionam dessa forma. Acho que o seqüenciamento do genoma ajuda a demonstrar algo que muitos de nós já sabíamos, mas não tínhamos a noção da extensão dessas complicações. A biologia ainda é a mesma de antes de seqüenciarmos o genoma. Só que agora temos uma melhor avaliação de sua complexidade.

• Menos genes no ser humano quer dizer menos genes para serem patenteados. Como a Celera vê essa questão?

- Isso é irrelevante. Patentear genes não é uma parte-chave do que a Cele-

mos. As conclusões podem ser surpreendentes. "Geneticamente, nós nos parecemos mais com as plantas do que com os fungos, diferentemente da filogenia, que põe as plantas e os fungos juntos", comenta Carlos Frederico Martins Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP). Após analisar 120 genes de reparo de DNA- os guardiães do genoma, que consertam os danos que ocorrem nessa molécula -, ele e sua equipe encontraram notáveis semelhanças e, ao mesmo tempo, nítidas diferenças entre os genomas do homem, animais, leveduras (fungos), bactérias e plantas (cana-de-açúcar e Arabidopsis).

Um mesmo gene pode ser encontrado em diversas espécies, mas as plantas, por exemplo, podem ter genes só encontrados no homem ou típicos de bactéria - ou não ter genes indispensáveis a outros organismos. "O pior é quando a gente não encontra nada nessas comparações de genoma. Nesses casos, temos de procurar novamente até ter a certeza de que não existe nada em comum mesmo", comenta Valéria Rodrigues de Oliveira, da equipe de Menck. No final do ano passado, ela encontrou pela primeira vez um gene de reparo de

ra está fazendo. Nunca foi. Nosso objetivo é ajudar o resto da comunidade científica, farmacológica e farmacêutica a entender como usar o genoma humano para desenvolver melhores diagnósticos e terapias. Esse é nosso único objetivo, desenvolver novos tratamentos para as doenças.

• O genoma ainda pode ser considerado o "livro da vida"? O senhor concorda com os pesquisadores que dizem que as informações do genoma são um duro golpe no determinismo genético?

- Sou uma das pessoas que você está

citando. Espero que eu conconde com isso (rindo). Há muitos termos diferentes usados para qualificar o genoma: livro da vida, fotografia da humanidade. O código genético não é o retrato de um ser humano, não é um dicionário da vida. Ele tem importantes partes de nossa história, importantes instruções para nossas células, sobre como modificá-las. Mas você não pode ir em um cromossoma e encontrar lá as instruções para fazer o coração, o cérebro. Essa discussão tem a ver com a questão anterior, sobre a complexidade do ser humano. A informação está nos níveis seguintes, nas interações entre as proteínas, entre as estruturas das células. Tudo isso não está diretamente codificado no nosso DNA.

• Daqui para a frente , a influência do ambiente vai ser reavaliada no aparecimento de doenças?

- Nossos estudos mostram que , de uma forma geral, os genes e o ambiente têm provavelmente a mesma importância. Em cada doença, em cada

bactéria em humanos -o mesmo que, depois se viu, funciona em cloroplastos, compartimentos das células vegetais em que se realiza a fotossíntese. "A troca de genes entre organismos é muito mais intensa do que pensávamos", afirma Menck. "Genomas são misturas de genomas."

Aquestão das raças

As duas seqüências quase completas do genoma humano trouxeram novas evidências de que, pelo menos do ponto Menck:"Genomas são de vista genético, não há diferenças sig- misturas de genomas" nificativas que justifiquem a noção de raça para qualificar seres humanos. O genoma de uma pessoa é igual em 99,99% de sua composição quando confrontado com o DNA de qualquer outro indivíduo na face da Terra -branco, preto, amarelo ou de origem indígena. ACelera estima que as diferenças entre o genoma de duas pessoas se resumam a 1.250 pares de bases com "letras" distintas. O artigo da empresa afirma que as diferenças genéticas entre pessoas que pertencem a uma mesma etnia podem até ser

ENTREVISTA

condição humana, há um equilíbrio diferente da influência desses dois fatores. A biologia molecular provou que o ambiente é realmente uma parte essencial da vida , da biologia. Eles não são separáveis. As pessoas que só enxergam os genes ou apenas o ambiente saem perdendo. Tem de ser os dois juntos por definição.

• O senhor acha que essa idéia é aceita pela maioria dos pesquisadores?

-Isso é algo que eu não tenho como assegurar. Eu esperaria que sim . Mas suspeito que ainda seja necessário muito tempo para as pessoas absorverem toda essa informação Eu tive a oportunidade de pensar sobre isso muito mais do que a maioria das pessoas.

• O que vem depois do genoma?

-Vem todo o resto da biologia Não há um passo único que vai resolver tudo . Temos de integrar toda a informação para entender a biologia .

• Muita gente tem falado do proteoma

maiores do que entre dois indivíduos de raças distintas.

A notícia, obviamente, é boa e contribui- espera-se- para diminuir o preconceito racial. Mas não se pode interpretá-la de forma errada. Sim, somos todos extremamente parecidos no interior de nosso DNA. Mas isso não quer dizer que cada grupo étnico não tenha predisposições genéticas específicas, o que pode aumentar ou diminuir a ocorrência de certas moléstias nessas populações. Causada por uma modificação na hemoglobina, resultante de alterações em um gene, a anemia falciforme tem, por exemplo, maior ocorrência na população negra. Já

o outro tipo de anemia, a talassemia, também provocada por alterações genéticas beta, apresenta maior incidência em indivíduos de origem mediterrânea. "Em alguns casos, pessoas de diferentes etnias podem ter respostas distintas para uma mesma droga. Isso tem de ser levado em conta na hora de se desenvol-

ver medicamentos", diz Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e pesquisadora do Instituto de Biociências da USP.

como o passo seguinte da genômica?

- Temos grandes pesquisas em desenvolvimento na separação e seqüenciamento de proteínas. Estamos construindo a maior unidade do mundo de seqüenciamento de proteínas. Temos feito pesquisas na de proteômica há um bom tempo.

• Como o senhor compara os dados da Celera e do consórcio público?

-Achamos que o consórcio público fez um grande trabalho. Mas o banco de dados da Celera é substancialmente mais acurado. Nossa seqüência está numa ordem mais correta, algo que o consórcio público ainda vai demorar dois ou três anos para fazer. Uma coisa é ter as partes da seqüência, outra é colocar tudo na ordem certa e obter a seqüência correta dos genes. É por isso que o banco de dados da Celera é tão popular entre os cientistas. Eles sabem, de longe, que temos o melhor dado.

• Quantos assinantes tem o banco de dados da Celera?

-Até ontem (l o de março ), tínhamos 37 assinantes, incluindo grandes escolas de medicina e instituições acadêmicas, como o Rockfeller Institute Cientistas de todo o mundo, do Instituto Karolinska (da Suécia) , do Instituto Max Planck, confiam na nossa informação.

• Esse número de assinantes já é suficiente para o senhor?

-A Celera tem apenas dois anos e meio. Nesse tempo, seqüenciamos a Drosophila melanogaster (mosca-dafruta), o genoma humano e agora o do camundongo. Tudo isso em dois anos e meio Já temos um número substancial de assinantes. Estamos apenas no começo. Estamos esperando o Brasil assinar nosso serviço.

• Pesquisadores brasileiros, a maioria financiada pela FAPESP, produziram uma grande quantidade de dados sobre o genoma humano, um milhão de ESTs de regiões codificadoras de genes Como o senhor avalia a qualidade dessas informações?

Matéria-prima para as ciências

Embora não sejam a versão final do genoma humano, os dois rascunhos do nosso DNA contêm dados em quantidade e qualidade suficientes para impulsionar pesquisas nas mais variadas áreas por anos e anos. "Agora vamos poder fazer a medicina do século 21", diz Briones:"Uma ótima Sérgio Danilo Pena, pro- hipótese sobre nosso DNA" fessor da- Imunologia da

Anamaria:"Ainda temos muitos genes para encontrar"

Ribeirão Preto. "Grupos do mundo inteiro vão divulgar trabalhos usando as informações das sequências:' Assim que saíram os artigos da Science e Nature, o físico Murilo da Silva Baptista, do Instituto de Física da USP, ligou para os biólogos que conhecia. Não os deixou em paz até conseguir a seqüência completa do cromossoma X, um dos menores. Seu plano: estudar padrões de organização Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor do Centro de Análise e Tipagem de Genomas do Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo. da molécula de DNA e ciclos de repetição de códons, conjunto de três bases que forma aminoácidos, componentes das proteínas.

É uma matéria-prima abundante também para engenheiros, especialistas em computação, matemáticos e filósofos. "Nos próximos meses, vamos começar a sentir o impacto do genoma, talvez de forma diluída", prevê Marco Antonio Zaga, da Faculdade de Medicina da USP de

- Não tenho conhecimento específico sobre as ESTs humanas produzidas no Brasil. Mas sei que outras seqüências de ESTs, as primeiras que foram conseguidas em seus país e que foram produzidas em colaboração com o meu instituto (TIGR, The Institute for Genom ic Research), eram de alta qualidade. Os cientistas brasileiros fizeram um grande trabalho no seqüenciamento do primeiro patógeno de plantas (a Xylella fastidiosa).

• No Brasil, os pesquisadores têm falado mais no estudo do transcriptoma do que no do proteoma nos próximos anos, diferentemente do que ocorre no exterior. Por que isso está acontendo e qual a importância do transcriptoma? -É um termo que ninguém reconhece, até onde eu saiba, como um termo válido do ponto de vista científico. É por isso que não se ouve muito falar dele. Acho que nunca usei essa palavra nesse sentido. As pessoas estão estudando o RNA todo o tempo. É um intermediário que pode ajudar com algumas indicações sobre

A comprovação da existência de uma regra que controla a ocorrência de códons pode ajudar a prever quando um deles deve aparecer novamente . "O genoma humano é um terreno extremamente fértil e só precisamos pôr as sementes", diz o físico, que, no ano passado, encontrou esses padrões de repetição ao analisar os geno-

"O

baixo número de genes mostra que a biologia é mais complicada do que muitas pessoas gostariam que fosse"

as variações nas proteínas, mas ele não pode dizer com grande precisão o que acontece com as proteínas.

• O senhor considera então muito mais importante o estudo do proteoma do que do transcriptoma?

-Minha posição é adotar uma visão holística da biologia. Tento não fazer julgamentos Você não teria nenhuma proteína no corpo sem o RNA e nenhum RNA sem o genoma. Tudo é importante e precisa ser estudado e entendido. A maior parte da biologia ocorre no nível das proteínas. As pessoas medem RNA para geralmente tentar adivinhar quanta proteína existe. Agora, temos novas técnicas

para medir as proteínas diretamente. Mas ainda há interesse acadêmico em medir o RNA em alguns lugares. As duas técnicas são muito importantes.

• O senhor acha que os softwares usados para seqüenciar o genoma humano também podem ser usados no estudo das proteínas?

- Estamos desenvolvendo novos softwares para lidar com proteínas, mas entendê-las está totalmente baseado em entender o genoma. Quando se lida com um sistema integrado, todos os componentes são necessários. Mas definitivamente vamos precisar de novos e melhores softwares e computadores.

• Tudo o que foi publicado na Nature e na Science sobre o genoma humano fez o senhor mudar alguma de suas crenças mais íntimas, como em Deus, no destino ou na evolução humana?

-Não. Nenhuma das minhas crenças mudou. Ainda sou a mesma pessoa. Apenas me dei ainda mais conta das complexidades da biologia .

mas da drosófila e da bactéria Mycoplasma genitalium. São sistemas com regras próprias, mas que, sabe-se lá por quê, apresentam características matemáticas em comum com a oscilação dos índices econômicos das bolsas devalores e com o comportamento de partículas atômicas carregadas eletricamente, o chamado plasma.

Aera pós-genômica : transcriptoma e proteoma

Com o trabalho de determinação da ordem dos 3 bilhões de pares de bases já bem encaminhado, a nova onda na área genômica - ou pós-genômica -é o estudo do proteoma, o conjunto de proteínas de um organismo. Como se sabe, os genes produzem proteínas, as moléculas que formam as células e os tecidos, cujo excesso ou falta pode causar doenças. Muitas moléculas conhecidas são proteínas: hemoglobina, insulina, hormônios e neurotransmissores como a dopamina e a serotonina - sem mencionar as enzimas, indispensáveis para as reações químicas. As proteínas representam cerca de 90% do peso seco do sangue, 80% dos músculos e 70% da pele.

No homem, o estudo da interação das proteínas promete ser uma tarefa ainda mais complicada do que o deciframento do genoma. Um dos motivos: ninguém tem uma idéia muito clara do tamanho do nosso proteoma Ao contrário do DNA, idêntico em qualquer parte do corpo, as proteínas produzidas num tipo de célula não são as mesmas encontradas em outras. Como o homem tem cerca de 100 trilhões de células, desta vez será difícil chegar logo a um número de consenso. Desde já, as estimativas vão de 100 mil a um milhão de proteínas. Tanto o consórcio público quanto a Celera já começaram a pesquisar nesse campo. No Brasil, há poucos grupos especializados. Fora de São Paulo, um dos únicos é o Centro Brasileiro de Serviços e Pesquisas em Proteínas da Universidade de Brasília (UnB).

Para alguns cientistas, a corrida rumo ao proteoma é inevitável, mas está ocorrendo de forma precipitada. "Deveríamos fazer diferente", afirma Simpson. Antes de se debruçar sobre as proteínas, dizem, convém entender o transcriptoma, o conjunto de genes que por serem expressos geram moléculas de RNA, necessárias para a síntese de proteínas. Quando conseguem demonstrar que uma região do DNA é transcrita, os pesquisadores comprovam que ali há um ou mais genes. A Iniciativa para Validação do Transcriptoma Humano, um recéminiciado projeto conjunto da FAPESP e do Instituto Ludwig, pretende encontrar 4 mil genes transcritos nos próximos dois anos. Trinta e um laboratórios participam do projeto, orçado em US$ 1 milhão. "Para nós, o fato de aCelera e o consórcio público não terem terminado todo o trabalho foi uma ótima notícia", afirma Anamaria Aranha Camargo, do Ludwig, uma das coordenadoras do Transcriptoma Humano. ''Ainda temos muitos genes para encontrar e validar."

Entre cidades e desertos

em todos aderiram aos gráficos, tabelas e longos relatos científicos para entender o genoma humano. Bob Waterson, diretor do Centro de Genoma da Universidade de Washington em St. Louis, Estados Unidos, não hesitou em lançar mão de metáforas com o propósito de deixar clara a irregularidade com que os genes se distribuem ao longo dos cromossomas humanos (ver tabela). "Em algumas regiões, os genes estão bastante amontoados, como os prédios nas cidades': disse ele. "Há também grandes desertos, onde o DNAlixo pode ser encontrado, e cada região contém informações únicas sobre a história de nossa espécie". Esse cenário contrasta fortemente com o genoma de outras espécies, como a Arabidopsis, o C. elegans ou a Drosophila - bem mais uniformes, esparramando-se em subúrbios, com uma distribuição relativamente regular de genes nos cromossomas.

Os centros urbanos, densos em genes, são constituídos predominantemente por blocos de duas bases nitrogenadas, guanina e citosina, G e C. Já os desertos ou DNA-lixo são ricos em adeninas e timinas, A e T. Em cada cromossoma, há longos trechos de GC, um com uma densidade de 60% e outro somente com 30%, por exemplo. Nunca ocorrem de modo padronizado e constituem o que Waterson chama de vizinhanças, com sotaques distintos.

"É como se as regiões de genes e o DNA-lixo tivessem feito um acordo, de modo que os primeiros ocupassem as cidades, e o outro, os desertos", diz Eric Lander, diretor do Centro de Pesquisa do Genoma d o Whitehead Institute, Estados Unidos. Próximq s às cidades, há trechos nos quais somente as bases G e C se

repetem 30 mil vezes ou mais. São as ilhas CpG, pouco representadas ao longo do genoma, que ajudam a regular as funções dos genes.

Outra peculiaridade: cada gene humano pode originar, na média, três proteínas, mais que as dos vermes e das moscas. É uma decorrência do chamado splicing alternativo, no qual as partes de uma proteína podem ser rearranjadas de modo diferente- ABC, CBA ou BAC, no caso hipotético de apenas três elementos-, como peças de um brinquedo de montar. Esse processo é possível porque os genes estão espalhados ao longo do DNA e as regiões que codificam proteínas não são necessariamente contínuas.

A espécie humana também expandiu as famílias de proteínas Calcula-se que cerca de 60% das famílias de proteínas humanas contenham mais elementos que em qualquer outra espécie. E a maioria dos grupos de proteínas está associada a funções fisiológicas mais desenvolvidas nos vertebrados. O artigo da Science lista 247 genes reguladores do desenvolvimento ou associados ao sistema nervoso, à interação de proteínas, a moléculas de sinalização ou a respostas do sistema imunológico, no homem, na Drosophila, no C. elegans, na levedura e na Arabidopsis- com soberba vantagem para nós

refinamento é evidente: só o organismo humano, entre os estudados, produz os genes da interleucina, um tipo de anticorpo. Também temos cerca de três vezes mais que as drosófilas e os vermes um grupo de proteínas que regula a resposta a infecções, as imunoglobulinas, ausentes em fungos e plantas. E temos pelo menos dez genes que pertencem a quatro famílias de proteínas envo lvid as na produ ção de mielina, o revestimento dos nervos; as drosófilas t êm apenas um desses genes, e o C. elegans, nenhum.

A análise do genoma detectou a presença de remanescentes de uma migração que ocorr eu nos primeiros ancestrais vertebr ados. Como tinham poucas defesas contra parasitas invasores, as bactérias podiam tornar-se resistentes no interio r dos organismos. O resultado dessa coexistência é que o genoma humano abriga cerca de 200 genes que pa recem provir de bactérias ou de genom as intermediários d e vírus, embora não se descarte inteirament e a hipóte se que as bactérias possam também ter furtado genes de ancestrais vertebrados . De acordo com o artigo da Nature, cerca de metade do genoma deriva dos chamados elementos transponíveis ou transposons - genes que saltam de um ponto a outro do cromossoma ou mesmo de um cromossoma para outro e regulam a função de outros genes.

Outro ponto interessante é o que os cientistas estão chamando de " mania de colecionar quinquilharias", em contraste com outras espécies. A quantidade de lixo acumulado em nosso genoma excede o de espécies mais

antigas, com exceção da ameba. Há repetições em metade de nosso genoma, muito mais que na Arabidopsis (11%), no C. elegans (7%) e na drosófila ( 3 % ). " Esse fato sugere que fomos muito lerdos ao fazer a limpeza de casa", compara Arian Smit, bioinformata do Instituto de Biologia de Sistemas Calcula-se que a drosófila tenha limpado a casa há cerca de 12 milhões de anos, enquanto os mamíferos há 800 milhões. •

Lógica peculiar

Nem sempre os maiores cromossomas contêm mais genes, nem os menores, menos

*Estimativa

** Considerando a estimativa mais baixa de genes humanos, na qual se incluem 328 genes que a Celera ainda não conseguiu associar a nenhum dos cromossomas humanos

*** Incluindo os 75 milhões de pares de bases que a Celera ainda não conseguiu associar a nenhum dos cromossomas humanos

Fonte: Science

Marcador detecta câncer

Proteína pode identificar câncer de bexiga com precisão em exame de urina

Com o objetivo de saber, já no momento do diagnóstico, qual será a evolução da doença em cada paciente -o que simplifica a escolha do tratamento -, o urologista Marco Aurélio Silva Lipay, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp ), estudou a glicoproteína CD44 como marcador molecular para câncer de bexiga. Substância que participa da arquitetura dos tecidos e une as membranas das células- como o cimento numa parede -, ela já é usada em diagnósticos de câncer de rim e mama.

Segundo Lipay, cujo estudo foi financiado pela FAPESP, o câncer de bexiga é o quarto de maior incidência nos Estados Unidos, onde se diagnosticam cerca de 50 mil novos casos por ano. No Brasil, a estimativa oficial foi de 7.550 novos casos em 1999, "mas ela pode estar subestimada".

Quando a glicoproteína CD44 não está expressa num tecido, é sinal de que há uma desorganização na estrutura dele, que as células começam a desprender-se desordenadamente. Como o câncer é uma doença de multiplicação desordenada de células, supõe-se que a falta de um elemento integrador, como a CD44, aponte para um prognóstico ruim, pois o grau de agressividade do câncer está diretamente relacionado à produção de células metas-

táticas, que se desgarram do tumor original.

Ainda em fase experimental, o método da CD44 depende de biópsia - retirada de uma amostra da região afetada para análise. Lipay pretende aumentar a sensibilidade do teste e torná-lo não invasivo, detectando a expressão ou ausência da CD44 na urina. Coletada a urina, é feita uma centrifugação, para obter as células que descamaram da mucosa interna da bexiga. O RNA

Lipay e Mônica: objetivo é ter um poo/ de marcadores tumorais

Análise de célula superficial da bexiga com CD44 expressa (no alto) e ausente (ao lado)

(ácido ribonucléico) dessas células é extraído e amplificado por reação em cadeia de polimerase. Se a CD44 estiver expressa, o RNA que promove sua produção também será amplificado pela reação.

Alterações genéticas - Lipay diz que o gene que codifica a glicoproteína CD44 está mapeado no braço curto do cromossoma 11. "Existem outros marcadores de tumor de bexiga em estudo. O ideal seria termos um único marcador." O câncer de bexiga

começa geralmente na mucosa e, no momento do diagnóstico, é impossível saber se o paciente vai ficar curado ou não. "O câncer é uma doença genética no nível somático: ou seja, antes que a doença se manifeste, a célula passa por diversos passos de alterações moleculares", explica. A geneticista Mônica Vanucci Nunes Lipay, que orientou o projeto juntamente com o urologista Flávio Hering, ambos da Unifesp, acrescenta: "Fatores não genéticos, como o tabagismo, podem interferir no processo, facilitando essas alterações. O câncer é uma doença de

múltiplos passos. Se um indivíduo tiver uma alteração genética que indique uma tendência de desenvolver a doença, mas não for exposto a agentes agressores, pode ser que nunca venha a desenvolver o câncer". Lipay continuará em sua linha de pesquisa rumo à criação de um pool de marcadores tumorais que representem o quadro real do paciente. •

O PROJETO

Estudo da Expressão da Glicoproteína CD44 Padrão, por Técnica lmunohistoquímica, como Fator Prognóstico na Neop/asia Urotelial da Bexiga

MODALIDADE

Auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADOR

FLAVIO LUIZ ÜRTIZ HERING - Unifesp

INVESTIMENTO

R$ 36 043,75

Agua, ri queza em exa me

Omaior reservatório de água da América do Sul pode ter excesso de radioatividade

Oimenso manancial de águas subterrâneas Aqüífero Guarani, uma riqueza pouco divulgada dos quatro países do Mercosul, tem sido objeto de estudos que devem facilitar sua preservação e aproveitamento seguro pelas populações da vasta região que cobre . A qualidade da água é considerada boa em muitas áreas, mas o físico Daniel Marcos Bonotto, professor de Geoquímica no Ins t ituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (Unesp ), em Rio Claro, aponta al-

Mar oculto

guns problemas Em diversos poços, ele encontrou teores excessivos de elementos radioativos, rádio e radônio, associados a cânce r p ul mona r e estomacal. Outra concl u são é qu e n as zonas de menor profun d idade o manancial es t á sen d o con t amina d o p or dejetos de suinoc ult u ra, miner ação de carvão e produ t os tóxicos de origem industrial ou agríco la. "Percebemos até um aumento de nit rato n as águas de um poço em Rib eirão Preto, e a fonte são esgotos n ão trat ados:' Um dos maiores reservatórios subterrâneos do m und o, o Aq ü ífero Guarani esten d e-se sob uma área de 1,2 mi lh ão de qu ilô m etros q u adrados, dois terços d ela no Brasilpar t es d os Esta do s d e São Pa ul o, Minas Ge r ais, Ma t o Grosso, Mato Gross o do o" o

Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul - e o restante no noroeste da Argentina, leste do Paraguai e norte do Uruguai Equivale ao território somado de Peru, Espanha, França e Grã-Bretanha.

O manancial é estimado em 50 mil quilômetros cúbicos de água doce - suficientes para o mundo todo por dez anos. Seu uso para consumo humano deve basear-se em estudos que atestem a potabilidade ou apontem a necessidade de prévio tratamento. No Brasil, as pesquisas sobre esse manancial se desenvolveram sobretudo a partir dos anos 70 pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do Estado.

Mas ainda faltam dados hidrogeológicos mais precisos sobre essas reservas . Por isso, o Brasil e demai s países do Mercosul iniciam em 2001 um projeto para aprofundar estudos e criar um modelo de gestão do uso das águas do aqüífero e sua proteção ambiental. O projeto é apoiado pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente (Global Environment Facility-GEF) e contará até 2005

ção do DAEE em São Paulo e Araraquara e da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) em São Paulo e Porto Alegre A pesquisa também levou em conta informações geradas em trabalhos do gênero conduzidos no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo ( USP ) sob a coordenação do professor Aldo da Cunha Rebouças, considerado uma das maiocom investimento de US$ 25 milhões dos países envolvidos.

Radiação e poluição- Bonotto dedica-se desde 1991 à investigação radiométrica - detecção de radioatividade - do aqüífero, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( CNPq) do Ministério da Ciência e Tecnologia, da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em Viena, e da FAPESP, que já liberou recursos para três projetos, incluin-

do um inves t imento de US$ 47,7 mil para compra de eq ui pamentos e modernização do laboratório.

Os sinais de radiação tornaramse evidentes d epois de nove anos de trabalho de campo (ver quadro) . O pesquisador coletou e analisou quimicamente, por três vezes, 80 amostras d e águas su bterrâneas de poços tubulares do aqüífero em quase 70 municípios de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A seleção dos poços foi feita com a colabora-

As medições e os cuidados necessários

No caso do urânio, Daniel Bonotto constatou que a radioatividade medida nas 80 amostras de água anali sadas é bem inferior ao nível máximo recomendado, o que atesta a potabilidade da água em relaçã o aos isótopos de urânio 238 e 234 Mas em algumas amostra s encontrou metai s pesados, como o cá dmio , considerado cancerígeno e identificado na água de um poço d e 124 metros de profundidade, usada para abastecimento pela C omp a nhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Naquele ponto, o teor de cádmio excedia em mais de 20 vezes o limite m áximo de concentração estabelecido pela Norma T é cnica Especia l (NTA-60) sobr e águas de con sumo alimentar no Estado de

São Paulo, aprovada pelo Decreto Estadual n? 12.486.

De radônio, o pesquisador encontrou níveis elevados nas águas da maioria dos poços analisados. Como não há no Brasil legislação sobre ingestão de radônio, Bonotto comparou os resultados com o limite de 300 pCi/1 (picoCuries por litro ) proposto em 1991 pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Usepa). Mais da metade dos poços analisados, inclusive alguns usados para consumo humano, ultrapassavam esse limite.

Havia teores elevados de radônio em águas de poços de Maringá (3.303 pCi!l ), Londrina ( 2.453 pCi/1) e Cornélio Procópio (2.408 pCi/1), no Paraná, mas nenhum deles era usado para consumo da po-

res autoridades no assunto.

Precau ções - Para Rebouças, os dados podem não ser representativos, dada a possibilidade de contaminação em laboratório. Acha conveniente coletar nova série de amostras de cada poço, para comprovar as análises Bonotto não crê na possibilidade de contaminação em laboratório e avalia que, no caso do rádio, os valores encontrados podem estar até subestimados , devido a perdas que ocorrem no processo.

pulação. Em São Paulo, no entanto, águas de poços usados para consumo humano revelaram níveis deradônio superiores ao limite estabelecido pela legislação internacional em Fernandópolis (2.902 pCi/1), São José do Rio Preto (1.272 pCi/1), Catanduva (1.272 pCi/1), Lins (1.516 pC i/1) e Ribeirão Preto (718 pCi/1). Bonotto tranqüiliza com uma ressalva: a meia-vida - tempo de desintegração de metade da quantidade original - do radônio é de no máximo quatro dias e, quando a água é tratada ou mesmo apenas armazenada em piscinas, como acontece freqüentemente, há um processo de aeração que diminui os teores de radônio, eliminando os riscos da radiação. Aldo Rebouças acrescenta: como o tempo de vida do radônio é muito curto , até a água ser ingerida pelas pessoas o gás já desapareceu De qualquer

Bonotto : an ál i se s, cu i dados no u so e controle do M ercosul

De qu alqu er m o do , co m o os resultado s p a rci ais m os tram qu e ovalor de refer ên cia d o r á dio é alt o em muito s municíp io s, isso p o d e sig n ificar o comprom etim ento d o u so das água s do a qüífer o p a r a con s um o humano em algum as lo -

calidades Bonotto considera fundamental um controle radiométrico efetivo pelo s órgãos sanitarista s responsáveis p ela di stribuiç ã o de água à população e a definiç ã o das regiõe s onde é apropri a d a p ar a consumo , par a banh os ou para agricultura

Para el e, a a mo stragem é bo a e repr esentativa, m a s ach a preciso analisar a água dos 15 mil poço s tubulare s qu e já captam água s do

Aqüífero Guar a n i, muito s em profundi-

forma , ele con corda que é preciso faze r tr atamento n o ca so d as águas que sã o r et i r a d as dos poço s e canali zadas imediatamente p ara as redes de distribu ição. E, mesmo assim , segundo o pesqui sa do r da Unesp, mesmo quan-

do o radônio desaparece d as ág u as armazenadas em reser v at órios o u piscinas, pode ficar o chumb o ra di oativo, que é um dos seu s filho s .

Como o radônio es t á alto, Bonotto suspeitou que o elem ent o qu e lhe dá origem , o rádio , pod eri a est ar alto tamb ém e fe z outr a co l et a de amostras de águas no s 80 p oç o s As análises confirmaram a s u speit a em alguns poços, com teore s d e r á d io superiores até quatro vezes o lim it e máximo estabelecido p ela le gis lação brasileira para a r a dio a tivi d ade alfa

d ade superior a 1.000 metros Pelo menos 200 municípios paulistas são abastecidos total ou parcialmente pe lo aqüífero, também usado em irrigação e indústrias de alimentos, beb idas e t êxteis.

Água na superfície

Assunção

tota l emitida por elementos radioativos, entre eles o rádio 226.

Bonotto explica que o rádio tem alto grau de radiotoxicidade, grande tendência de fixar-se nos ossos, l onga meia-vida de 1.622 anos e grande potencial de produzir dano biológico por ser emissor de radioatividade alfa. Segundo ele, a máxima concentração de rádio 226 nas águas, sugerida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é de 1 Bequerel por litro ( Bq/1). O critério empregado no Brasil é baseado na

Bonotto preocupa-se ainda com a exploração abusiva do aqüífero: "Se perfurarem muito ou tirarem água em demasia, pode ocorrer acomodação de terreno". Assim, a utilização de águas subterrâneas tem de ser dosada : "Temos de fazer um estudo para saber o quanto de água pode ser retirado da reserva, principalmente porque as bacias de extração são concentradas em alguns locais e em outros não". •

OS PROJETOS

O Rádi o no Aq üífe r o Gu a r a n i

INVESTIMENTO

R$ 18.0 00,0 0

Comporta m ento Geoq u í mica d o Rad ô nio em Ág u as Subterrâneas d a Bacia Se dim entar do Para n á

INVESTIMENTO

R$ 11 000,00

MODALIDADE

Au xí lio a p roje t o d e pes q uisa

COORDENADOR

D ANIE L M ARCOS B ONOTTO- Un es p de Rio Clar o

Portaria n° 36 de 19 de janeiro de 1990 do Ministério da Saúde, que estabelece o valor de referência de O, 1 Bq/1 (cerca de 2, 7 pCi/1) para a radioatividade alfa total e de 1 Bq/1 para a atividade beta total.

Os teores encontrados nas amostras de alguns poços estão acima dos limites sugeridos pela OMS e bem superiores ao valor máximo de 0,1 Bq/1 para a radioatividade alfa total na água- no qual o rádio se inclui- estabelecido pela legislação brasileira. Em São Paulo, o pesquisador constatou, por exemplo, que o teor de rádio num poço em Catanduva é de 1,8 Bq/1, quase 20 vezes acima do nível permitido pela legislação brasileira. Num poço em Monte Alto o teor de rádio é de 0,7 Bq/1, em Ribeirão Preto de 0,5 Bq/1 e em São Simão de 0,5 Bq/1.

ARGENTINA

Imitando essa estratégia, Galetti e as alunas Eliana Cazeta e Cecília Costa fizeram frutos artificiais com massa de modelar para verificar alterações no comportamento das Erva-de-passarinho: estratégia

Olho-de-cabra: imitando fruta

a planta está localizada no ambiente. Por isso, espera-se que fragmentos pequenos possuam mais arbustos com frutos pretos na borda que matas pouco alteradas. Ninguém imaginava que a fragmentação florestal pudesse afetar diferentemente as espécies de sub-bosque dependendo da cor do fruto':

rimento demonstra, pela primeira vez, que a fragmentação de uma floresta afeta a probabilidade de um fruto ser disperso por uma ave, dependendo da cor do fruto e de onde aves que comem frutos de plantas arbustivas. Distribuíram frutos artificiais brancos, vermelhos e pretos - cores dos frutos que as aves comem - nas bordas e no interior dos fragmentos de mata. Escolheram a faixa de sub-bosque porque nela, de mata mais baixa, cerca de 85% das plantas são dispersas por aves ou morcegos e só 15% por um mecanismo da própria plantacomo o de explosão, que joga a semente longe. Na faixa de árvores altas - como o jequitibá ( Cariniana legalis), com 30 a 40 metros de altura - os animais só dispersam as sementes de metade das espécies: na outra metade a dispersão é feita pelo vento ou pela própria planta. "Os resultados", diz Galetti, "mostraram que as matas maiores tiveram

Os fragmentos

Foram estes os oito fragmentos de Mata Atlântica estudados no interior do Estado por Galetti e sua equipe:

• Parque Estadual do Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio. É o maior dos fragmentos, com 35.000 hectares e preserva sua fauna completa, inclusive onças.

• Estação Ecológica de Caetetus, em Gália, perto de Bauru Tem cerca de 2.100 hectares e fauna quase inalterada, menos cutias e onças .

• Fazenda Barreiro Rico em Anhembi, Piracicaba. São cerca de 1.800 hectares, tem muita caça, mas é baixa a densidade de cutias e não há antas.

• Fazenda Mosquito, no Pon-

O passarinho da erva: interação delicada mais frutos bicados e removidos que as menores, indicando uma provável diminuição da dispersão de sementes por aves em fragmentos pequenos. Além disso, frutos pretos são menos bicados pelas aves no interior da mata do que na borda, enquanto para os frutos vermelhos não há diferença entre borda e mata. Esse expe-

tal do Paranapanema, perto de Presidente Prudente, com cerca de 2.000 hectares. Tem toda a fauna preservada.

• Mata São José, em Rio Claro. São 230 hectares, sem cutia nem anta, com poucos exemplares de macaco-prego ( Cebus apella) e sagüi ( Callithrix aurita)

• Mata de Santa Genebra . Reserva Municipal de Campinas com 250 hectares. Não tem cutia nem anta, só macaco-prego e bugio (Aloutta fusca).

• Mata do Ribeirão Cachoeira, em Campinas, com cerca de 230 hectares. Só tem bugio.

• Fazenda Igurê, em Gália. Cerca de 320 hectares, sem cutias nem antas, mas com aves dispersaras como tucanos (família Ramphastidae) e arapongas (Procnias nudicolis).

Ef eit o de borda - Esse experimento simples aponta um fator de risco importante para a regeneração de fragmentos florestais : o efeito de borda. Galetti explica que, quando a mata é fragmentada, suas bordas recebem muito mais vento e insolação que o interior, o que diminui muito a umidade, entre outros impactos. Isso facilita a invasão de espécies exóticas, não nativas da mata. Ocapim, por exemplo, não ocorre dentro da mata preservada, onde não tem como competir pela luz. O capim que invade a borda, contudo, impede a regeneração da mata nesse local. E o ciclo prossegue: quanto mais luz na borda, menos umidade, mais invasão do capim ou de outras espécies exóticas. Esse processo de estrangulamento da mata original pode levar muitos fragmentos florestais a desaparecer em menos de cem anos.

O ataque mais ou menos agressivo do efeito de borda sobre um fragmento depende de muitas variáveis, o que requer um estudo de manejo específico em cada área "Em fragmentos que têm plantações de eucalipto no entorno há menos efeito de borda que nos rodeados por cana-de-açúcar ou pasto. Isso porque os eucaliptos barram a ação do vento, que pode derrubar muitas árvores na borda. Como não há regeneração na borda por causa

do capim , o fragmento va i diminuindo cada vez m ais."

A quantid ad e de vari áveis ambient ais en contrada foi um tanto fru strante p ar a a equipe: " Procurávamo s um padrão sobre os efei tos d a fragmentaç ão n a di sp er são de semente s para as mat as semid ecíduas de São Paul o, na busc a de solu ções p ara seus probl em as. Embor a existam algun s pad rões d aros, como é o caso d o jatob á, as vari áve is d e ca d a fr agmento são tanta s que cada áre a respond eu d e uma m aneir a. Cada fragmento tem se u h istórico único de perturbaç ão, tipo de entorno -café, can a ou eucalipto -, pre ssã o de caça e outra s perturba ções".

Manejo cont ínu o - Em sum a, se n ão houver anim ais par a fa ze r o tr abalh o gratuito d e disp ersã o de se m ent es, para recompor um a flor es t a e ma ntê-la a uto-sustentável, ser á p reciso replantar espécies e tamb ém reintr o-

du zi r os bich os . Ga lett i acrescen t a q u e os fragm ent os p reci sa m se r m an eja d os con t i nu am ent e: in se ri r n o amb ie nt e animais di sp er sa res com o a cuti a e contro lar a caça, p or exe m p lo, p o d e fazer a popul ação anim al aum ent ar d em ais e ca u sa r outro im p acto na cadeia ali-

Os frutos e seus semeadores

Cor, tamanho e outras características do fruto são importantes para que se identifiquem os dispersares de sementes. Galetti revela que frutos dispersos por aves são em geral vermelhos ou pretos e adoçicado s, como o do pau-viola ( Citharexy llum m irianthum) e a pitanga ( Eugenia spp ), ou gordurosos , como a bicuíba (Vi rola spp .). Os di sperso s por mamíferos são quas e sempre doces, amarelos, cheiro sos e polpudos, como o araçá ( Campom anesia spp. ) e o bacupari (Rheedia gardneriana ). E os disperso s por morcegos são verdes, com cheiro forte e de fácil captura em vôo : figo ( Ficus spp.) e chapéu-de-praia ( Terminalia cattapa). Exi stem até os adaptados à dispersão por for-

Murta : do gênero da pitanga

miga s, como a mamona ( Ricci n us commun is) e o capixingui ( Croton spp .) , que t êm uma pequ ena re compen sa ol ero sa (elaio ssomo ) para os insetos . E h á fruto s que nem precisa m de animais para dispersar su as sem ente s: u sa m o vento para iss o, poi s sã o d o tados de asas ou plum as, como o araribá ( Ce ntrolobium tom entosum ), o jequitib á ( Cariniana legalis ) e o cedro ( Ce dr ella fi ssilis )

Cast a nh eira-do-pará: em trabalho duro e pac ie nte, c uti a per f ura a blinda g e m da casca e permite a di sp ersão das sementes

.. "' " !ii 5 mentar. "Uma vez que ocorreu a perturbação da mata, fica difícil refazer a natureza."

E no Brasil há pouca gente qualificada para o manejo adequado de fragmentos florestais: "Não existem nas universidades cursos que formem os que nos Estados Unidos são chamados wildlife managers, dedicados ao manejo da vida si lvestre Quem acaba fazendo o manejo é o biólogo ou o engenheiro florestal. Todas as unidades de conservação deveriam ter um grupo de pesquisadores dedicados ao manejo local. Sem manejo adequado, estaremos perdendo cada vez mais nossa biodiversidade Isso mostra um campo de trabalho gigantesco para biólogos nessa área, muito mais que na biotecnologia"

Ao comparar seu estudo com o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF ) , tocado desde 1979 na região Norte pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e a Smithsonian Institution dos Estados Unidos, Galetti aponta uma diferença: o PDBFF removeu partes da floresta e deixou b locos simétricos de 1, 10 , 100 ou 1.000 hectares isolados da mata contínua, enquanto em São Paulo a fragmentação é muito mais caótica e mais antiga, com matas isoladas há 100 ou 150 anos . " Primeiro, a onda do café derrubou quase todas as matas, principalmente porque o acesso

er a muit o fá cil, num a r egi ão pl an a. Depois, vie r am os cicl os d a ca n a e do e u ca lipt o . Um frag m ento iso lad o n um m ar d e ca n a n ão tem como rece b er se m ent es e p erd e d iversi d ad e co m o temp o "

O p r ojeto abr an ge u oi t o fragmentos: q u at ro co m cerca d e 300 h ectares e qu atr o ac im a d e 1. 000 hectares (ver quadro)

No Cerra d o, o u t r o ecoss ist ema q u e- co m o a Ma t a Atl ânti ca - consta da lista das 25 áreas d e biodiversidade m a is r icas e am eaça d as do pla n eta, seg und o a or gan ização preservac ion is t a C onse rvation Internationa l, o bi ó lo go considera a sit u ação m en os grave quanto à reprod u ção d as es p écies q u e na mata se m id ecí du a "M uitas p lantas do Cerra d o t êm reprodução vegetativa, n ão d ep endem só dos frutos. Se são cor t a d as, re b rotam o u lan ça m um a raiz lo n ga e geram o utro indiví du o a d ia nte , enq u an to na fl ores t a a m aioria d as árvores corta d as n ão r ebr o t a".

Ga letti come nt a qu e d is p ersão d e sementes é uma linh a d e pes qui sa muito nova no p aís . Ele, qu e d o utorou-se na U ni ve rsi d a d e d e Ca mbridge, Inglaterra, co m u m es tudo de dispersão de se m ent es d e p almit o (Euterpe edu lis) n a Ma t a Atl ân t ic a , também estudo u n a Indon és ia a di spersão feita pe los ur sos e ca la u s (aves de várias espécies e gêne ro s, semelhantes aos t u ca n os). Na vo lt a, obteve o incentivo d a FAPESP p ar a iniciar em 1997 o atu al proje t o, qu e deverá concluir em j ulh o. Em 1998, ao tornar-se doce nt e d o De p artamento de Eco logia d a Un es p em Rio Claro, monto u com a p rofessora Patrícia More ll at o, d o Depa rt am ento de Botâ n ica, o Grup o d e Fe n o log ia e Dispersão de Se m en t es Além do grupo d e Ga lett i, p o ucos no Estado d edi ca m -se à área. Wesley Rodrig u es Silva, d o In stituto de Biologia da Un iversi d a d e d e Campinas, e Jean Pa ul Me t zger, do Instituto de Bioc iênc ias d a Un ive r sidade de São Pa ul o (IB-USP), coordenam projetas n o p rograma Bio t a-

FA PESP. Ainda rio IB- USP, José Carlos Mott a Jr reúne pesquisadores d edicados ao assunto Para atrair mais interessados na área, Galetti e We sle y Silva organizar am o Terceiro Simpósio Internacion al d e Frugivoria e Dispersão de Se-

OS PROJETOS

Frutos e Frugívoros em Florestas Semidecíduas : Estrutura da Comunidade e Impacto na Dispersão de Sementes em Fragmentos Florestais em São Paulo

MODALIDADE

Programa de Apoio a Jovens Pesquisadores

COORDENADOR

MAURO RODR IGU ESGALETII - Instituto de Bioci ências da Unesp em Rio Claro

INVESTIMENTO

R$ 104 087,00

Demografia e Ecologia da Dispersão de Sementes de Bertholletia excelsa

HBK (Lecythidaceae) em Castanhais Silvestres da Amazônia Oriental

MODALIDADE

Au x íl io a projeto de pesquisa

COORDENADOR

CAR LOS EDUARDO DA SILVA PERE S- USP

INVESTI MENTO

R$ 72.138, 19

mentes, reunido de 6 a 11 de agosto passado na estância de São Pedro e que teve mais de 300 participantes de 30 países. Ali, o grupo de Galetti apresentou 15 trabalhos e o prêmio de melhor pôster foi concedido ao trabalho de duas pesquisadoras do IB- USP sobre a dispersão da castanha-dopará pelas cutias.

Cut ias e castanhais - O trabalho foi feito em terra indígena caiapó, no sudeste do Pará, como parte do Projeto Pinkaiti. Claúdia Baider trabalhou com demografia e dispersão de sementes, para tese de doutorado, e Maria Luisa da Silva Pinto Jorge fez mestrado sobre área de vida, atividade diária e densidade populacional de cu tias. Orientadas por Carlos Augusto da Silva Peres, do IB- USP, pesquisaram num dos poucos castanhais ainda não explorados na Amazônia, a cerca de duas horas de barco da aldeia de A'Ukre, perto da cidade de Redenção.

A floresta do castanhal estudado é aberta , com matas de palmeiras, bambus e cipós . Tem cinco meses de estação seca e em metade dela não cai uma gota de chuva Cláudia diz que a maior parte das castanheiras está em aglomerados, o que pode resultar do padrão de dispersão das sementes pela cutia. A cutia come as castanhas, mas enterra algumas sementes, que acabam germinando. Ela leva frutos em todas as direções e pode percorrer grandes distâncias, mas distribui a maioria das sementes relativamente perto das árvores. O fruto, que pesa entre 800 gramas e 1,5 quilograma, é formado por uma casca lenhosa como madeira recoberta por outra de cortiça. É extremamente duro e a cutia leva de 40 a 50 minutos para roer um buraco nele até chegar às castanhas A castanha-do-pará é importante para a economia extrativista da Amazônia, mas sua extração desenfreada ameaça a sobrevivência das cutias e dos próprios castanhais. •

Ga letti : nova fronte i ra da ciência a expl o rar

Participam deste evento renomados profissionais do mercado nacional e internacional, líderes industriais, representantes do governo e de entidades voltadas para o desenvolvimento econômico e tecnológico.

Painelistas e participantes terão a oportunidade de discutir e aprender sobre as novas perspectivas de investimento em empreendimentos nascentes e as tendências tecnológicas que guiarão o desenvolvimento da região.

Para mais informações e inscrições: www.endeavor.org.br

Programados para ver

Animais mostram aos computadores como identificar objetos

Oque se pode aprender com animais tão distintos quanto uma salamandra, um gato ou uma aranha? Cientistas da Universidade de São Paulo em São Carlos estão aprendendo a ver. O estudo de modelos biológicos tem sido indispensável para desvendar os segredos de uma das mais complexas atribuições do cérebro -a visão -, que depois se pretende ensinar a um computador. Há avanços tanto na teoria quanto na prática. Podemos ainda estar longe de Hal, o sagaz computador de 2001, Uma Odisséia no Espaço ou mesmo dos andróides quase humanos de Blade Runner, mas o Grupo de Pesquisa em Visão Cibernética já exibe neurônios virtuais, que criam vida própria dentro do ambiente virtual e podem ser controlados, de acordo com as regras inferidas da pesquisa com células reais. É o caminho para se fazer o inverso: entender, a partir do modelo matemático, como os neurônios naturais interagem entre siuma tarefa quase impossível pelos meios habituais, pois os neurônios em laboratório só podem ser estudados isoladamente

O conhecimento acumulado pela equipe tem servido para o desen-

volvimento de projetos aplicados . Já permitiu a construção de um olho mecânico, concluído no ano passado, com base no sistema visua l de uma aranha. Na medicina, subsidia o desenvolvimento de um sistema de diagnóstico de leucemia, que deve ser concluído em quatro anos.

O coordenador do grupo, Luciano da Fontoura Costa, engenheiro eletrônico com especialização em Física, tem prestado consultaria para indústrias nacionais e estrangeiras. Dois exemplos: para a Hewlett Packard do Brasil, criou um sistema de controle de qualidade de monitores de vídeo, e para a Intelligent Network, dos Estados Unidos, um programa de reconhecimento de padrões e inteligência artificial em redes de computadores e Internet.

Laranjas e maçãs- As aplicações práticas da visão computacional, nos mais diversos setores, são imensas e atraem o interesse de empresas e universidades em todo o mundo. Estima-se que, no exterior, essa área movimente cerca de US$ 5 bilhões, mesmo que os mecanismos de visão computacional ainda sofram limitações. Máquinas de inspeção visual já podem, por exemplo, reconhecer bolachas quebradas entre bolachas inteiras, mas ainda têm dificuldades em distinguir objetos de contornos semelhantes, como laranjas de maçãs ou rostos masculinos de femininos. Conscientes da estratégica importância dessa área de pesquisa, o grupo sediado em São Carlos con-

so lidou- se como um dos mais profícuos do Brasil, com base na multidisciplinaridade. Fazem parte da equipe especialistas em Computação, Matemática, Física, Engenharia Eletrônica e Mecânica. Há também neurocientistas, médicos, psicólogos e até filósofos. A maioria deles já completou o doutorado, de modo que pode parecer estranho que uma aranha ou uma sa lamandra ensine a um grupo de qualificados Homo sapiens algo so bre uma capacidade inata e aparentemente tão simples quanto a visão Afinal, ver parece exigir menos esforço do que fazer cálculos ou tomar decisões, por exemplo.

Não é bem assim. "Há uma tendência a considerar a visão como um processo si mples e a imagem que vemos como uma impressão direta do mundo ao nosso redor", diz Costa, que coordenou o recém-encerrado projeto Pesquisa em Visão Cibernética, financiado pela FAPESP. "Na realidade, a visão é um processo refinado, que requer cerca de metade da capacidade do córtex cerebral de um prima ta e consiste na passagem da imagem física para a

interpretação ." Trata-se de um conjunto de processos capaz de identificar e localizar os objetos existentes no mundo a partir da informação visual captada por sensores - uma habilidade que nem as máquinas mais sofisticadas ainda conseguiram conquistar, enfim.

Forma e função - Costa tem certeza de que encontrará na natureza as soluções para o desafio de ensinar uma máquina a ver. "Se comparássemos o sistema nervoso a uma máquina", diz ele, "o programa da visão estaria todo codificado nos neurônios." Assim, o primeiro passo da pesquisa consiste no conhecimento e na classificação das células nervosas. ''Antes de criar um bom modelo matemático-computacional, é preciso conhecer a anatomia e fisiologia dessas células e desvendar a relação entre suas formas e funções", comenta. O cérebro humano tem centenas de tipos de neurônios e tudo indica que essas diferenças sejam determinadas por interações internas e externas ao indivíduo, uma vez que nosso material genético não é suficiente para justificar um número tão vasto de formas.

A teoria não é original. No fim do século 19, o médico espanhol Santiago Ramón y Cajal (18521934), pioneiro no estudo de tecidos neurais, atribuía a própria inteligência humana à forma dos neurônios. Cajal ganhou, com o italiano Camillo Golgi (1843-1926), o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1906 e passaria à história como criador qa neurociência moderna, mas seu interesse pela forma neuronal não receberia maior atenção no decorrer do século 20.

No Brasil, a chamada neuromorfometria continuaria como um campo de pesquisa praticamente inédito até que o Grupo de Visão Cibernética iniciasse seus estudos de como a forma pode influenciar no comportamento dos neurônios. "A definição da forma de um neurônio pode estar diretamente ligada ao estabelecimento de conexões sinápticas. Células mais complexas, com maiores arborizações dendríticas, conectam-se a um número maior de células. Um dos nossos objetivos é obter parâmetros que possam classificá-las", diz Costa.

O estudo concentrou-se em dois tipos de neurônios, as células gan-

glionares e as piramidais, o primeiro da retina de gato e da salamandra e o outro de rato. Como o laboratório do grupo no Instituto de Física de São Carlos não trabalha com animais, as imagens de neurônios reais foram enviadas por parceiros da pesquisa, como o Departamento de Fisiologia da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A partir das imagens reais, analisadas por métodos estatísticos e de computação gráfica, é que os pesquisadores construíram os sistemas neuronais virtuais. Com eles, podem conhecer melhor o funcionamento dos neurônios, fundamentais à visão, e simular situações reais. É a chamada visão cibernética, a expressão que os pesquisadores adotam por essa área representar a interface entre a visão biológica e a computacional.

Simulações- Mas o que se quer realmente é gerar neurônios realistas, estatisticamente semelhantes aos naturais. Para chegar lá, o primeiro -e talvez mais difícil - desafio é estabelecer padrões de classificação. O

que faz um neurônio da célula ganglionar da retina do gato distinguirse de qualquer outro? Foi preciso escolher um conjunto de medidas que representassem cada grupo de neurônios, como tamanho, largura, orientação e ângulos dos segmentos dos dendritos, as ramificações desse tipo de célula. Segundo Costa, a escolha desses parâmetros ainda é um problema aberto, que deve levar em conta o que se quer estudar.

A questão da extração de medidas, ponto-chave da criação do sistema nervoso virtual, também é fundamental para o desenvolvimento de um mecanismo visual cibernético. A partir de uma cena qualquer, o computador terá de captar a imagem que lhe interessa- como faz o olho biológico - e dela extrair os atributos (ou medidas) necessários para seu reconhecimento. O segredo é saber que medidas são essas capazes de transformar a imagem em eficientes algoritmos (modelos ou expressões matemáticos) de identificação. No meio de um grupo de pessoas, por exemplo, o que torna homens e mulheres estatisticamente diferentes entre si? Altura, comprimento de cabelo, ângulos das feições? O que ao animal parece instintivo, o computador terá de aprender passo a passo.

O olho da aranha - Desenvolver um sistema de reconhecimento mais eficiente foi o objetivo de um dos primeiros trabalhos práticos realizados pelo Grupo de Pesquisa em Visão Cibernética, a construção de um olho mecânico. O trabalho começou em 1993, quando Costa voltou do doutorado no King's College, de Londres, e terminou no ano passado. O modelo utilizado foi o sistema visual de várias espécies de aranha saltadora, da família Salticidae, escolhida por ter a visão bastante evoluída. Segundo Costa, essa espécie

possui o sistema visual mais desenvolvido entre os invertebrados terrestres e, incluindo os aquáticos, só perde para o polvo. Além disso, consegue detectar segmentos de reta, uma habilidade ideal para o desenvolvimento de um olho mecânico, por facilitar o armazenamento das informações.

Olhar seletivo - O trabalho começou com a observação do comportamento da aranha. Presa diante de uma tela de computador, ela assistia a imagens de hipotéticas presas e

predadores e os pesquisadores observavam suas reações.

Costa agora reconhece que esse tipo de abordagem tinha uma falha: a observação humana é subjetiva, ou seja, diferentes observadores podem chegar a diferentes conclusões. Por isso, logo o trabalho se sofisticou, com a inclusão de um estetoscópio eletrônico. Colocado sobre o abdome da aranha, o aparelho mediu os micromovimentos abdominais- onde fica o coração desse animal -e obteve uma medição mais objetiva da resposta aos estímulos. Os pesquisadores observaram que a aranha saltadora era capaz de reconhecer, rapidamente, se a imagem projetada na tela era de outra aranha ou não.

A retina da aranha saltadora, com a forma alongada como a de um bumerangue e a capacidade de se mexer, enquanto a córnea permanece fixa (ao contrário do olho humano), serviu de modelo para a criação de um protótipo de olho mecânico que detectasse retas com

grande eficiência para reconhecer objetos de imediato. Essa abordagem levou também à interpretação do reconhecimento de retas como sendo um problema de otimização matemática.

Outra aplicação prática da pesquisa de visão cibernética envolveu aplicações experimentais nas estações ferroviárias de Londres, num trabalho em colaboração com o King's College. Trata-se de um sistema de estimativa de densidade populacional, para monitorar áreas onde se agrupam multidões . Como numa multidão aparecem apenas pedaços de corpos, o computador não chega a reconhecer seres humanos individualmente. A técnica é baseada em diferenças de padrões de textura Imagens de baixa densidade de pessoas tendem a apresentar textura grossa, enquanto imagens mais densas apresentam texturas mais finas. Desse modo, as imagens são classificadas em diferentes categorias de texturas. Depois, empregam-se estatísticas dessas classes para estimar o número de pessoas.

Computador t ambém escolhe - Ainda mais surpreendente é o programa que avalia a percepção visual, um atributo ainda pouco conhecido dos cientistas e bastante influenciado pelo ambiente, contexto sociocultural e emoções. "A imagem da TV é enviada aos aparelhos com perda de qualidade", exemplifica Costa. "Se nossa percepção fosse linear, bastaria medir a imagem original, tirar a diferença e estabelecer padrões de qualidade." Mas a imagem pode ter distorções e ainda assim ser agradável. Um modelo adequado para avaliar a qualidade das imagens teria de ser capaz de considerar as sutilezas do sistema visual humano. Foi exatamente isso o que o computador fez. No ano passado, os pesquisadores convidaram um

grupo de 20 pessoas de diferentes segmentos sociais a atribuir notas a cerca de 50 imagens. A partir das notas, associadas a medidas como dimensões, contraste e cor, os especialistas elaboraram um algoritmo que permitisse ao computador avaliar outras imagens. Em seguida, compararam os dois julgamentos. Hu-

Atualmente, o grupo de São Carlos trabalha num programa de diagnóstico semi-automático de leucemia, em colaboração com os hematologistas Marco Zago, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, e Sérgio Martins, do Hemocentro também de Ribeirão. O objetivo é criar um software de manos e máquinas apoio ao médico para valorizaram pontos o reconhecimento de como qualidade ar- células anormais, distística e originalida- j tintas por alterações de, atributos direta- de formato. "Primeiro, mente relacionados o computador precisa com o contexto cultural. A maior surpresa: as notas dadas pelos humanos e em seguida pelo modelo computacional mostraram-se bastante parecidas "

Resposta s rápidas - Como as imagens ficavam na tela por poucos segundos, uma justificativa possível para a incrível concordância é que tenham sido avaliadas medidas mais primitivas. No ser humano, a informação visual passa primeiro pela base do lobo occipital, região do córtex cerebral localizada próximo à nuca e responsável pelo reconhecimento de segmentos de reta, que faz o processamento primário da informação visual. Se a imagem ficasse na tela por mais tempo, a informação caminharia para regiões cerebrais mais influenciadas pelas emoções e contextos culturais, o que poderia causar distorções em relação à avaliação do computador. Segundo Costa, esse detalhe não inviabiliza uma possível aplicação do experimento, sobretudo para a avaliação de conteúdos visuais que devem provocar impacto ou agradabilidade imediata, como outdoors, páginas de Internet ou mesmo anúncios publicitários de televisão. "Um dos benefícios dessa pesquisa é a identificação da importância específica dos diversos atributos visuais no processo de percepção", diz ele.

OS PROJETOS

Pesquisa em Visão Cibernética

MODALIDADE

Programa de Apoio a Jovem Pesquisador

INVESTIMENTO

R$ 81.300,00 mais US$ S OOO,OO

Desenvolvimento e Avaliação de Métodos Originais e Precisos em Análise de Formas e Imagens e Visão Computacional

MODALIDADE

Projeto temático

INVESTIMENTO

R$ 325.000,00 mais US$ 130 000,00

COORDENADOR

LU CIA NO D A F O NTO URA C OS TAInstituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo

separar os tipos de célul a do sangue, reconhecer os leucócitos e só então fazer as medições", diz Costa. Hoje, o diagnóstico é feito de forma visual - e um tanto subjetiva.

Facilidades - Costa acredita que o diagnóstico ficará não apena s mais rápido, mas também mais preciso e objetivo. "Certos tipos de leucemia associam-se a alterações morfológicas bastante típicas, como anormalidades na forma do núcleo e citoplasma da célula", comenta. Por esse motivo, parece possível relacionar rapidamente a forma da célula com o tipo de doença e, cruzando o resultado com os dados clínicos, tomar decisões ainda mais precisas na forma de tratamento.

Recentemente , o grupo de São Carlos integrou-se ao Projeto Genoma Humano do Câ ncer. Uma de suas tarefas, já definidas, é aplicar técnica s de proce ssamento de . . . sma1s e Imagens, reconhecimento de padrões, inteligência artificial e mineração de dados na análise das informações obtidas nesse projeto financiado em conjunto pela FAPESP e pelo Instituto Ludwig. Parte dessa trajetória de oito anos está reunida no recém-lançado Shape Analysis and Classification: Theory and Practice, escrito por Costa em parceria com Roberto Marcondes César Jr., do Instituto de Matemática e Estatística da USP de São Paulo, a convite da editora norte-americana CRC Press. Olhando para a frente, a dupla de pesquisadores pretende agora avançar em pesquisas de visão cibernética com aplicações em análise de imagens de microscopia, inspeção visual e reconhecimento de faces, a partir do projeto temático recém-assinado, a ser desenvolvido nos próximos três anos •

Um neurônio virtual e Costa: pessoas e máquinas com gostos semelhantes

LINHA DE PRODUÇÃO

Mais luz nos ambientes, com menos despesas

Só há 12 países que não têm regulamentação para impor um padrão de eficiência energética aos prédios -e o Brasil está entre eles. Num país onde a luz natural é abundante o ano todo, a grande maioria das edificações usa durante o dia forte iluminação artificial e consome uma energia que começa a escassear. "Já O Rio de Janeiro iluminado: pouco aproveita mento da luz natural há 30 anos a luz solar é alternativa comum nos Estados Unidos e na Europa. É incompreensível que o Brasil, que possui condições privilegiadas para explorar esse recurso, não o faça", diz Louise Land Bittencourt Lomardo, pesquisadora da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia ( Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ). Em sua tese de doutoramento, ela aponta três parâmetros usados em normas estrangeiras: potência de iluminação por metro quadrado, proporção de janelas na fachada e transmissibilidade térmica das paredes. Louise compara as legislações aplicadas nos Estados Unidos, na Jamaica e em Portugal e aponta medidas simples para os projetos arquitetônicos que economizam energia. A partir desse trabalho, a Coppe asssinou um convênio com as universidades alemãs de Colônia e Berlim, para instalar o Nú-

som de Brasília, em fase de teste comercial. "Estamos agora captando recursos para iniciar a produção em série do V-Set", explica Eis. A empresa possui também, em fase de conclusão, um tacógrafo digital, aparelho que registra a velocidade, ignição e outras informações de um veículo. •

• DuPont licencia tecnologia genética

cleo de Referência em Prédios de Alto Rendimento. O principal objetivo do acordo entre os institutos é desenvolver tecnologias de uso da energia solar. •

• Aparelho alerta contra excesso de velocidade

Um pequeno aparelho instalado no painel do carro é a novidade para evitar o excesso de velocidade, ato responsável por grande parte dos acidentes de trânsito e por severas baixas nos bolsos dos motoristas multados nesse tipo de infração. Chamado de V-Set, o aparelho foi desenvolvido pela Control Ware, empresa recém-

emancipada da incubadora de empresas do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da Universidade de Brasília (UnB).

A concepção do produto é do desenhista industrial Adriano Braum, que usou o V-Set como trabalho de graduação na UnB, e do engenheiro elétrico Rudi Van Els, professor do curso de Engenharia Mecatrônica da universidade e dono da empresa. O apare lh o emite sinais sonoros e visuais após o motorista ter ultrapassado o limite de velocidade escolhido por ele entre as teclas 60, 70 ou 80 km/h O aparelho está disponível aos consumidores em uma loja de auto-

A empresa Artemis Pharmaceuticals, de Colônia, Alemanha, obteve licença da DuPont norte-americana para aplicações da tecnologia Cre- Iox de genômica funcional - que permite extrair genes selecionados de células de ratos, desligando uma função biológica. Essa tecnologia é um instrumento para o estudo dos genes, sobretudo os relacionados a doenças humanas, em tecidos e órgãos específicos. "A licença obtida, em combinação com outras tecnologias relativas à genômica funcional que estabelecemos, ajuda a criar uma plataforma otimizada para a identificação rápida da função do gene in vivo em relação a determinada doença", declarou o presidente da Artemis, Peter Stadler. •

• Softwares melhoram a agricultura chinesa

Dois softwares desenvolvidos em Campinas vão ajudar a agricultura chinesa a ter melhor desempenho e produtividade A empresa Soluções Informatizadas de Referências Agropecuárias (Sira) fechou um acordo com o grupo chinês Beijing Lupeng Technology no valor de US$

V-Set: motorista escolhe, nas teclas, a velocidade-limite

Fertilidade: em mandarim

SOO mil para exportação dos softwares Laboratorial e Fertilidade. Com eles é possível acompanhar qualquer cultura desde o plantio até a colheita. "Eles são ferramentas que ajudam a entender as necessidades da cultura a partir da análise do solo, indicando as dosagens certas de fertilizantes", explica Roberto Barducci Camargo, um dos quatro sócios da empresa. O primeiro contato com os chineses aconteceu em 1997 numa missão da Sociedade para Promoção da Excelência de Software Brasileiro (Softex), entidade à qual a Sira está associada. "D urante esses anos os chineses fizeram vários testes com os softwares e conseguiram aumentar os teores de açúcar na uva e melhoraram a produtividade da batata e do algodão." Agora, com contrato assinado, a Sira prepara o software para exportação, traduzindo-o para o dialeto mandarim. •

• Minirrobô pode fazer manobra em moeda

Cientistas do centro de pesquisas Sandia National Laboratories, dos Estados Unidos, comunicaram estar desenvolve ndo um robô minúsculo, que é possivelmente o menor já construído e consegue manobrar sobre uma

Usinas de álcool utilizam tese que ganhou prêmio

Antes tarde do que nunca Esse ditado bem que poderia servir para um novo sistema de obtenção de álcool anidro apresentado, em 1987, na tese de doutorado do engenheiro de alimentos Antonio José de Almeida Meirelles, que só agora está sendo utilizado por algumas usinas de álcool da região de Ribeirão Preto. Meirelles também ganhou, em 1989, o prêmio Jovem Cientista instituído pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A

nova técnica substitui o cicloexano pelo etilenoglicol no processo de desidratação do álcool, ou seja, a retirada da água do álcool hidratado (etanol) que se transforma em anidro e é usado como combustível misturado à gasolina. "As vantagens do etilenoglicol são a economia de mais de SOo/o de energia elétrica no processo de destilação, a melhor qualidade do álcool, que deixa de ser contaminado pelo cicloexano, e o fato de não ser inalável pelos trabalhadores da usina",

afirma Meirelles, hoje professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. O motivo de as usinas usarem somente agora a nova técnica está ligado à extração de energia elétrica do bagaço de cana. As usinas usam a energia e vendem o excedente para as companhias de distribuição Atualmente, as novas variedades de cana rendem menos bagaço. Assim, a hora é de economizar na produção para se atingir patamares anteriores de energia elétrica. •

< i5

moeda Alimentado por três baterias de relógio, ele anda sobre esteiras e tem dois motores, microprocessador e sensor de temperatura. Ed Heller, que desenvolveu a parte microeletrônica, prevê que, em sua evolução, o robozinho possa executar tarefas difíceis hoje feitas por robôs bem maiores, como localizar e desarmar minas terrestres ou detectar armas químicas e biológicas. Heiler explica que o avanço na miniaturização foi obtido a partir do uso de componentes eletrônicos isolados, em

vez de dispositivos miniaturizados prontos. Os componentes são montados em módulos sobre um substrato de vidro. Operado pela Sandia Corporation, empresa do grupo Lockheed Martin, o centro de pesquisas que desenvolve o robô trabalha sob contrato para o Departamento de Energia dos EUA .•

• Plástico tem poder de auto- regene raçã o

Microcápsulas com um agente químico "cicatrizante" e um catalisador são inseri-

das num composto matriz. Se ocorre alguma fissura no material, as cápsulas ali se rompem e liberam o agente, que entra em contato com o catalisador e inicia um processo de polimerização, preenchendo a falha. O novo material plástico foi dese nvolvido em pesquisa coordenada por Scott White, pesquisador e professor de engenharia aeronáutica e astronáutica da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. "E le pode ser usado onde um polímero sintético atua hoje ", disse White , segundo o informativo The Daily Illini Online. Com essa capacidade de auto- regeneração, o material feito com polímeros sintéticos teria o tempo de vida útil aumentado. Como o custo de produção previsto ainda é muito alto, as aplicaçõe s mais prováveis seriam em setores mais sofisticados, como a indústria aeroespacial. O uso de plásticos auto-regeneráveis é também um sonho antigo da indústria automobilística. •

Est eiras e três baterias de relógio fazem o minirrobô se movimentar

17 de dezembro de 2000: mapa indica direção e altura das ondas, com mais de 3 metros, no sul do país

de ventos acima de 15 metros por segundo, equivalentes a 54 km/h, produzem a grande maioria das ondas que chegam às praias.

Ciclones acoplados- Innocentini conta que algumas vezes o ciclone tropical, quando em fase de enfraquecimento, é absorvido por um extratropical, que se intensifica rapidamente. Foi o que aconteceu entre 24 e 26 de outubro de 1999, com o ciclone tropicai Irene. Ele se '" originou na costa ;:;; da África, atraves- o sou o Atl â ntico, ul- !;: trapassou parte da costa da Flórida, seguiu para o norte

e estava perto de Nova York, perdendo força, quando juntou-se a um extratropical que estava ao largo da costa canadense. Depois da j unção, formouse uma região com pistas enormes e velocidade de quase 20 m/s (72 km/h).

As ondas se propagaram em direção sul pelo Atlântico e

Telas do site do lnpe: previsões de ondas e ventos (no alto) e mapa para clicar em certos pontos litorâneos

chegaram com muita energia ao arquipélago de São Pedro e São Pauloo pequeno conjunto rochoso brasileiro situado 950 quilômetros a nordeste da costa do Rio Grande do Norte, onde a Marinha mantém uma estação científica desde 1998. Dois pesquisadores que estavam na ilha Sudoeste, onde foi instalada a estação, só sobreviveram porque foram para o farol local, único ponto a salvo, mas as ondas destruíram os ninhos das aves e danificaram parte da infra-estrutura da estação e os instrumentos de pesquisa.

O fenômeno é raro: "Só acontece uma ou duas vezes por década", diz o

pesquisador. Ele e sua equipe fizeram um trabalho de reconstituição do episódio com a aplicação de um modelo de geração e propagação de ondas. Com base em equações matemáticas, formuladas para quantificar os processos físicos que influem nas ondas, o modelo combina vá-

rias informações, principalmente as relativas aos ventos de superfície, e calcula a evolução da altura das ondas em cada ponto do oceano.

Agitação no mar - Embora faltassem observações sobre as ondas que chegaram ao arquipélago para confirmar o modelo, o trabalho - Vagas no Litoral Norte do Brasil Geradas por Furacões: Caso 24 de Outubro de 1999- mostra as ondas sendo geradas no extremo norte do Atlântico, cruzando o Equador, propagando-se para o litoral norte brasileiro e atingindo o arquipélago. Pelos resultados do modelo, esse ci-

5 6

clone extratropical gerou ondas com mais de 8 metros de altura em mar aberto próximo da Península Ibérica, do norte da África e dos Açores, que terminaram por chegar ao Brasil. Apesar das previsões do site do Inpe, ainda há naufrágios e outros desastres. Em 14 de dezembro do ano passado, por exemplo, os pesquisadores fizeram um alerta: nos dias 16 e 17 e na semana seguinte haveria intensa agitação marítima nos litorais de Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

resultado é que, naquele final de semana, um veleiro que saíra de Angra dos Reis desapareceu no domingo, 17, e só foi encontrado à noite no litoral sul do Paraná com apenas um dos três tripulantes. Segundo relato do sobrevivente, o veleiro foi tombado duas vezes por ondas muito altas, que lançaram ao mar os outros tripulantes, considerados navegadores experientes.

No mesmo final de semana, em Ilhabela, um barco naufragou na Ponta dos Castelhanos com 13 pessoas, das quais 12 foram salvas. E, no Rio de Janeiro, 21 pessoas ficavam isoladas em três ilhas: o resgate foi

feito por helicóptero, pois o mar estava agitado demais.

Matemático formado pela USP, onde fez mestrado em Meteorologia, Innocentini doutorou-se na universidade inglesa de Reading em 1986. Em 1989, começou a trabalhar no Inpe e, ao visitar o instituto de pesquisas da Marinha em Arraial do Cabo, técnicos dali falaram da necessidade de se fazer a previsão de ondas no país. Era preciso superar um

Modelo de ondas é repassado ao Peru

A Marinha de Guerra do Peru conta desde o ano passado com um modelo de previsão de ondas para todo o Pacífico, implantado por Valdir Innocentini e baseado na tecnologia desenvolvida pelos técnicos no Inpe. O objetivo é saber em detalhes como acontecem os ciclones no Pacífico e ter um modelo de previsão de ondas para as pequenas bacias, diz Fernando Vegas Castafi.eda, tenente da Divisão de Hidrografia e Navegação da marinha peruana. Ele chefia

grande atraso, atestado nesta frase na página do Inpe na Internet: "Embora a previsão da agitação marítima gerada pelo vento através de técnicas objetivas tenha se iniciado no final dos anos 50, o interesse de pesquisadores brasileiros por este assunto parece ter sido despertado apenas no final dos anos 80".

A previsão era importante para o litoral fluminense, freqüentemente atingido por fortes e inesperadas res-

uma m1ssao de quatro pessoas que chegou ao Brasil em 3 de janeiro último para um estágio de seis meses no Inpe e na USP. Os peruanos receberam nossa tecnologia e conseguiram ficar à frente do Brasil, comenta Innocentini. É que o modelo de previsão de ondas deles foi inserido no projeto Naylamp (El Nino Anual Y las Amostras Médias del Pacífico) - proposto para estudar o efeito do fenômeno El Nino na costa peruana com financiamento de US$ 5 milhões do Banco Mundial. Essa verba permitiu comprar seis bóias bem equipadas (duas são de reposição) por

17 de dezembro de 2000: ventos com velocidade de mais de 18 m/s (70 km/h} atingem Santa Catarina

sacas. É comum que as pessoas saiam de barco para pescar em algumas ilhas e, quando chega a ressaca, com ondas e ventos muito fortes, não consigam voltar. Por isso, mesmo barcos grandes de 30 a 50 pés ( 1O a 15 metros de comprimento) naufragam, há mortes e a Marinha é obrigada a fazer resgates com helicóptero. Além dos naufrágios, Innocentini constatou que, quando as ondas estão muito altas, operações rotineiras nos portos e nas plataformas de petróleo tornam-se difíceis e há alto risco de acidentes.

Modelo avançado- Os problemas provocados por ciclones extratropicais acontecem principalmente entre o Rio Grande do Sul e o Espírito Santo, mas, até o trabalho da equipe do Inpe, o máximo que se fazia era estudar as marés. "Os pesquisadores do Instituto Ocenográfico da Universidade de São Paulo (USP) coletam dados em Ilha Comprida para os estudos das variações de altura do mar e na Escola Politécnica da USP, na capital, os engenheiros fazem projetos que demostram os efeitos das ondas em

U$ 250 mil cada uma e equipamentos de informática para implementar os modelos numéricos de previsão de ondas.

As quatro bóias em atividade contam com sensores que medem as ondas detalhadamente, 1 além de diversos parâmetros meteorológicos e oceanográficos. Os pesquisadores peruanos pretendem, com essas informações, estudar e desenvolver métodos para as previsões do fenômeno El Nifio, que altera periodicamente a situação meteorológica normal 1 no Oceano Pacífico e provoca desastres como inundações e naufrágios na costa peruana.

diversas localidades da costa brasileira. Mas ninguém trabalha com previsão de ondas geradas pela ação do vento, na faixa de período de 1 a 30 segundos, que é a variação de tempo possível entre a passagem de duas ondas", diz Innocentini.

Por isso, entre 1992 e 1994, ele trabalhou num projeto de pesquisa precursor do atual e também

financiado pela FAPESP. Nele, desenvolveu um modelo numérico de ondas baseado em trabalhos publicados em revistas internacionais, para prever a agitação marítima provocada pelos ventos. Contudo, teve dificuldades para aferir se o modelo funcionava bem e se as previsões eram confiáveis, porque não havia dados sobre os fenômenos da costa brasileira.

antes

Mais tarde, o oceanógrafo italiano Luigi Cavaleri, pesquisador do Istituto Studio Dinamica Grandi Massa, de Veneza, Itália, forneceu dados coletados no mar Mediterrâneo referentes a um mês de medidas de ventos e ondas A partir daí, Innocentini e o pesquisador Ernesto dos Santos Caetano Neto, do IPM da Unesp de Bauru, criaram o modelo de previ-

Vasco da Gama quase descobriu o Brasil

Depois de estudar o diário de bordo da expedição de Vasco da Gama que descobriu o caminho marítimo para as Índias, a equipe do Inpe conseguiu, com seu modelo matemático, reconstruir as condições meteorológicas da viagem ao longo da costa oeste africanaespecialmente as tempestades enfrentadas na transposição do Cabo da Boa Esperança (até então chamado Cabo das Tormentas), tanto na ida como na volta.

O diário de bordo do navegador português, em parte publicado em 1998 na biografia Vasco da Gama feita pela francesa Genevieve Bouchon, tem uma lacuna proposital entre 22 de agosto e 27 de outubro de 1497, dias consumidos na chamada Volta ao Largo: os navios se afastaram da África e se aproximaram muito da então oficialmente desconhecida costa brasileira. Era segredo militar - os espanhóis e outros não podiam conhecer esse caminho.

No trabalho Possíveis Dificuldades que Acompanharam a Viagem de Vasco da Gama à Índia, a equipe do Inpe explica que "a descoberta do caminho das Índias pelos navegantes portugueses no século 15 foi o resultado de ·várias expedições malsucedidas no Oceano Atlântico". Daí surgiu a estratégica Volta ao Largo, manobra em que a frota guinava para sudoeste depois das ilhas de Cabo Verde: "Embora essa viagem fosse mais longa, era mais rápida, pois as velas inflavam com os ventos do setor oeste do anticiclone subtropical que as empurravam ao extremo sul do continente africano". Além disso, evitavam-se as calmarias próximas do golfo da Guiné, bem como os ventos do flanco direito do anticiclone subtropical que se opõem à navegação rumo ao sul.

A rota traçada por Vasco da Gama utilizou a Volta ao Largo pela primeira vez na história da navega-

são de ondas para o Mediterrâneo.

Em 1997, Innocentini começou a coordenar o atual projeto temático e, com os recursos obtidos, pôde contar com uma equipe de cinco pesquisadores, além de estações de trabalho (computadores potentes) de última geração conectadas à Internet.

Isso permitiu desenvolver um modelo numérico mais avançado, inicialmente baseado nas informações de dois órgãos norteamericanos - National Centers for Environmental Prediction (NCEP) e

ção a vela no Atlântico Sul. Ao rumar para sudoeste, os navios se aproveitaram da corrente do Brasil e dos ventos do flanco esquerdo do anticiclone subtropical do Atlântico, "evitando numerosas dificuldades que encontrariam no percurso ao largo da costa africana."

Restava um grande obstáculo, confirmado pela equipe: "A maior barreira para as expedições era o Cabo da Boa Esperança, onde ciclones extratropicais são bastante intensos e geram extensas regiões

lnnocentini: modelo permite pôr as previsões no site 72 horas

National Oceanic andAtmosphericAdministration (Noaa). Isso foi necessário porque, para fazer uma boa previsão em qualquer parte da costa brasileira, era preciso ter dados de todo o Oceano Atlântico, desde o Canadá e a Grã-Bretanha até as Ilhas Malvinas, pois as ondas que chegam à costa do Brasil são geradas acima da latitude de 40 graus, no Atlântico Norte, e abaixo de 40 graus no Atlântico Sul, em pontos próximos aos pólos.

A equipe concluiu, em 1998, um sistema próprio de previsão de ondas para o Atlântico: o Modelo Atmosférico de Área Limitada (Maal), que abrange a costa brasileira. Nele, trabalham com equações dos movimentos atmosféricos, usam dados -

com ventos fortes e ondas gigantes em mar aberto': O trabalho relata um caso recente com ondas acima de 5 metros geradas por um ciclone no Atlântico Sul que se deslocou para o Cabo da Boa Esperança.

''A expedição de Vasco da Gama foi surpreendida no Cabo da Boa Esperança em novembro de 1497 por uma grande tempestade na viagem de ida às Índias e quase toda a expedição naufragou nessa região na volta, em março de 1499, provavelmente devido a intensos ciclo-

O PROJETO

A Dinâmica da Cic/ogênese sobre o Atlântico Sul

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR

VALDIR INNOCENTINI- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (lnpe)

INVESTIMENTO

R$ 39.230,05 e US$ 265.933,34

pressão atmosférica, umidade relativa, etc. - de várias fontes e prevêem todos os parâmetros meteorológicos, incluindo os ventos que ocorrem 10 metros acima da superfície. Com os ventos previstos pelo modelo atmos-

ÁSIA férico é possível saber - os locais de geração, ;) propagação, refração e dissipação das ondas por todo o Atlântico.

Rotas de Gama: estudo mostrou que na ida era preciso afastar-se da costa

nes migratórios de oeste." Na verdade, os navegadores já sabiam dos perigos e planejaram entrar na região depois de outubro, para evitar o pior. Os pesquisadores do Inpe sentiram as dificuldades dos navegantes portugueses ao analisar o que acontece rotineiramente no Cabo da Boa Esperança e ao estudar um evento específico entre 11 e 14 de junho de 1999, quando dois ciclones geraram ventos e ondas no local. Um deles estava acompanhado de ventos de superfície com velocidade que ultrapassava 20 metros por segundo (72 km/h), suficientes para produzir ondas com altura acima de 5 metros em uma extensa região.

Atualmente os pesquisadores já fornecem informações sobre ventos e ondas que ocorrem diariamente no Atlântico e fazem previsões com até 72 horas de antecedência para toda a costa brasileira, especificamente para o litoral norte de São Paulo. As informações são divulgadas pela TV Vanguarda, do Vale do Paraíba, e pelo site do Inpe . No futuro, Innocentini e equipe pretendem implementar um modelo de ondas mais adequado para o mar raso (com menos de 50 metros de profundidade), que deverá gerar informações ainda mais detalhadas de propagação nas regiões costeiras - primeiro do litoral norte paulista e depois de toda a costa brasileira Um trabalho que deverá contribuir ainda mais para evitar acidentes e abrirá novos campos de utilização - como facilitar a atracação de navios e até ajudar surfistas a escolher a praia. •

Além da experiência e da bravura dos navegantes, foram as velas latinas idealizadas pelos sábios da Escola de Sagres que ajudaram os aventureiros a atravessar o mar, diz lnnocentini. "As velas latinas eram panos triangulares, capazes de impulsionar os navios em direção perpendicular ao vento. Dessa forma os navegantes tinham condições de vencer os alísios de nordeste que impediam o retorno a Portugal." Ele lembra ainda que os astrônomos e matemáticos da Escola de Sagres desenvolveram tabelas com a declinação dos astros, bem como eficientes instrumentos de navegação, como o astrolábio e a balestilha, usados para medir a posição dos astros e determinar a posição da embarcação. E conclui: "Todo esse desenvolvimento ocorreu devido à necessidade de novas técnicas, pois as então conhecidas foram desenvolvidas para navegar no Mediterrâneo e eram inadequadas para o Atlântico" -o Mar Tenebroso, como era chamado na época.

Cartórios no mundo digital

Projeto do PIPE resulta em software para registro eorganização de papéis

Um programa inédito capaz de ser utilizado em qualquer computador promete um futuro melhor para os setores que trabalham com o arquivo de documentos como cartórios, órgãos públicos e câmaras municipais, por exemplo. O aplicativo vai automatizar boa parte do até então dispendioso e complicado processo de arquivamento, organização e atualização de certidões, processos, atas e outros tipos de papéis documentais que contam a história e registram a vida dos cidadãos, das empresas e do poder público. A partir de um scanner, o novo programa vai registrar os papéis, principalmente aqueles antigos feitos com máquinas de escrever, e colocá-los na tela de um computador que tenha a bem disseminada base Windows, da Microsoft.

Pertencente à família dos reconhecedores automáticos de caracteres, conhecidos pela sigla OCR, do inglês Optical Character Recognition, o novo software está sendo preparado pela empresa paulistana Carta Consultaria por meio de um projeto do Programa Inovação Tecnológica em Pequena Empresa (PIPE) da FAPESP. Num primeiro momento, a versão que deverá chegar até o final do ano ao mercado será dedicada às funções de um cartório. Esses estabelecimentos são importantes emissores e depositários de certidões e escrituras e recebem por dia muitas solicitações de informações. Só na cidade de São Paulo, os cartórios realizam uma média de 7 mil buscas de

documentos durante todos os dias. Ao final do mês, são 140 mil consultas. Uma situação que ainda não conta com ferramentas eficazes para a busca de arquivos em sistemas de computação.

Substituir docume ntos - Para se ter uma idéia do que representa o avanço do novo programa, bem mais especializado que os seus congêneres, o conteúdo de várias salas com papéis poderia ficar empilhado num punhado de disquetes. É um parâmetro ainda difícil de ser atendido, porque o programa de OCR da Carta Consultaria não pretende, de forma alguma, substituir todos esses documentos. Legalmente, isso ainda não é possível. Cabe-lhe ordenar e facilitar o acesso a todos esses papéis, tanto por parte do funcionário da repartição, quanto na disponibilidade de um serviço melhor ao público. Dessa forma, documentos de papel que circulam nesses locais poderão ser rapidamente transformados em documentos digitais.

O desenvolvimento do produto teve a coordenação de Felício

Sakamoto, gerente de projetos da Carta. A empresa é uma consultaria de sistemas computacionais, principalmente nas áreas de documentação, geoprocessamento e mapeamento. Durante a fase de elaboração do software, a Carta teve a colaboração importante, na forma de consultaria, do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), por meio do departamento de Ciência da Computação. "Munido das informações repassadas pelo pessoal do IME, que incluíam um protótipo e indicavam a possibilidade técnica real para o produto, partimos para os estudos de pesquisa de mercado, definindo a viabilidade também financeira para o lançamento de um novo software': conta Sakamoto.

Primeiro alvo- A prospecção de mercado permitiu identificar que os documentos armazenados em cartório mereCiam ser o pnme1ro acervo a ter uma versão para o produto. Mesmo que recentemente esses estabelecimentos já possuam as vanta-

gens do arquivo digital, a maior Wil'í- :..1 parte dos documentos permanece armazena-

da em liv ros típicos. E toda vez que se exige uma alteração no conteúdo, por exemplo, é preciso refazer todo o documento. " É um trabalho de redigitação muito grande", justifica Sakamoto Mas por que dedicar-se a um produto específico, se já existiam poderosos programas OCR comerciais? "Consultamos alguns responsáveis de cartórios so-

bre os produtos disponíveis no mercado e eles afirm a ram que o desem-

CARTA CONSULTOR!

Impressão antiga - Ao tratar-se de documentos antigos, entretanto , a história muda . Com todos os seus borrões, carimbos manchas e a típica imprecisão gráfica das antigas máquinas de escrever, até mesmo os programas OCR comerciais mais gabaritados não conseguem uma eficácia satisfatória.

"Fizemos alguns testes com documentos recentes já digitalizados e o melhor dos softwares existentes atingiu 90% e o nosso penho desses produtos é fraco, por isso desistiram de usá -los."

Sakamoto:"Nossa inovação é a pré-se leção do documento"

Tipo s de papéi s - A inovação do sistema OCR da Carta é a especialização, porque os OCRs comuns não permitem uma pré-seleção da estrutura de documentos. "Escolhemos algumas categorias de papéis e, assim, ganhamos no desempenho': exp lica Routo Terada, professor de Ciência da Computação da USP e um dos principais consultores envolvidos com o projeto . O novo programa, portanto, começou a ser desenvolvido partindo dos problemas existentes no mercado a ser atingido. "Aproveitamos a experiência do IME e desenvolvemos uma ferramenta bem mais versátil " , explica

Junior Barrera , professor do IME- USP.

A etapa a seguir exigiria um longo e paciente processo de programação e de testes que, por fim, tomaria quase 80% de todo o período dedicado ao projeto iniciado em 1997.

Conceitos digitais- Do ponto de vista técnico, existem diversas maneiras de um programa de computador fazer a transformação das imagens, captadas pelo scanner, em caracteres de texto. Na prática, basta entender que os conceitos matemáticos e de geometria, seguidos depois por regras de estatís t ica, são utilizados, neste caso específico, para mapear e trabalhar sobre cada p equ enino trecho dos documeptos pré -d igitalizados. Para a funcionalidade do computador, qualquer imagem não passa de um acúmulo seqüencial de números.

98 % Num segundo documento, mais antigo e gerado por máquina de escrever, o índice do programa comercial era muito ruim, cerca de 60 % , enquanto o nosso chegou aos 90 %", conta Sakamoto , satisfeito. Na reta final da preparação do programa, a Carta faz os últimos acertos técnicos e dedica-se ao trabalho de marketing e de formatação do produto destinado aos cartórios . Os técnicos acham difícil calcular números sobre possíveis vendas e o faturamento previsto Mas pode-se estimar facilmente o seu potencial de utilidade Dentro de um universo de 5 mil municípios em todo o país , é correto imaginar que exista pelo menos um cartório em cada uma dessas localidades Um mercado carente de inovações eficazes para o arquivo e a organização de documentos •

O PROJETO

Aplicação de Aprendizagem por Computador e Morfologia Matemática em OCR de Documentos

MODALIDADE

Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE)

COORDENADOR

fEUCIO 5 AKA MOTO - Carta

INVESTIMENTO

R$ 75.000 ,00

CONSTRUÇÃO CIVIL

À prova de tempo ruim

Novo impe rmeabilizante

reúne resíduos de estireno eaparas de alumínio

Aconstrução civil ganha um novo tipo de impermeabilizante. O produto leva o nome de resina-compósito e é formado por dois tipos de resíduos industriais. O primeiro é originário da produção do estireno- um produto químico utilizado na indústria de plástico e já presente em resinas para a construção civil. O outro é uma apara de folha de alumínio, material usado na parede interna dos cabos telefônicos junto com um revestimento de plástico. A formulação do novo produto e os testes que aprovaram a ação impermeabilizante foram realizados em um projeto do Programa Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) financiado pela FAPESP. O estudo conjunto foi rea lizado entre a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da Universidade de São Paulo (USP) e a empresa Athena Engenharia da mesma cidade.

Coordenado pelo professor Fazal Hussain Chaudhry, do Departamento de Hidráulica da EESC, o projeto chega ao final e espera a confirmação dos pedidos de patentes realizados no Brasil e nos Estados Unidos com a intermediação técnica e financeira do Núcleo de Patentes e Licenciamento de Tecnologia (Nuplitec) da FAPESP.

Consertos dema is - A concepção do produto nasceu da experiência do engenheiro Celso Martinez Junior, dono da Athena. Formado em engenharia civil na USP, em 1980, ele concluiu mestrado em 1986 e vol-

tou-se para a aplicação de novos materiais em impermeabilização, preocupado com a freqüente necessidade de reparos em estruturas : "Sempre me incomodou o fato de que boa parte das estruturas impermeabilizadas, nas construções civis, sofria de uma crônica de faz-e-refaz, sem uma solução definitiva".

Com o surgimento do PITE, Martinez procurou Chaudhry, seu

Cem anos - Suas pesquisas produziram indagações que deram forma ao projeto . Juntando os dados teóricos do assunto, Martinez imaginou reunir alumínio às resinas conhecidas para uso em impermeabilização Ele buscava um material metálico resistente à corrosão aliado a uma característica familiar aos engenheiros, a de adesão viscoplástica - capacidade de os materiais permanecerem ligados mesmo em condições adversas.

O passo seguinte foi decisivo. Martinez conversou com o professor José Alexandrino de Sousa, da área de estudos de polímeros da Universidade Federal de São Carlos

Apl icação em duas etapas, primeiro a camada de estireno e depois a lâmi n a de alumín io

antigo professor na USP, para ver se conseguia transformar uma idéia em produto. "Na verdade, a idéia é antiga - descobrir um meio de reaproveitar resíduos industriais-, mas eu pensava em gerar um novo sistema para coberturas, nem pensava em novos produtos", conta Martinez

Por estudar processos de impermeabilização, Martinez sabia que os produtos usados no mercado precisavam ser melhorados . "Os resultados analisados não correspondiam às exigências técnicas e era preciso usar algum outro material para tornar o produto mais eficiente", lembra o engenheiro.

(UFSCar), que indicou um gerente de uma empresa produtora de alumínio (nome mantido em segredo). Foi assim que ele teve acesso a um compósito especial -a lâmina de alumínio revestida de plástico que tem na durabilidade sua pr incipal característica. "Nós estamos usando as aparas desse alumínio por apresentar uma vida útil de uns cem anos", explica.

Camada de resina - A etapa seguinte foi testar o compósito . De forma rudimentar, usando um maçarico, Martinez soldou duas metades de uma lâmina de compósito para mol-

dar um sistema de impermeabilização junto com uma camada de resina de estireno (disponível no mercado) aplicada sobre uma pequena placa de concreto. Ele deixou este teste piloto exposto a intempéries e começou a estudar os resultados Constatou que, apesar da construção rudimentar, a peça teve a estrutura preservada: "Não houve descolamento do compósito e os raios ultravioleta não conseguiram arruinar a camada de polímero na emenda das duas metades, conservando a integridade da impermeabilização':

Teste s exaustivos -Com a ajuda de Ch audhry, começou a nova etapa do trabalho . O primeiro grande teste foi a cobertura de um corredor do Departamento de Engenharia Civil da própria UFSCar Com os recursos obtidos da FAPESP, Martinez e Cha u dhry p u seram em ação um soprador térm ico capaz de emitir ar a 500°C, o suficiente para amo lecer o plástico e p romover a junção das mantas de compósito sem danificar a essência -a fatia de alumínio presente

O PROJETO

Avaliação da Reciclagem de Resíduos Industriais Derivados da Síntese do Estireno, da Alumina e do Alumínio Metálico com Vistas à sua Aplicação na Proteção de Coberturas de Constru ções Civis

MODALIDADE

Programa Parceria para Inovação Tecnológica (PITE)

COORDENADOR

FAZAL HUSSAIN (HAUDHRYDepartamento de Hidráulica da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP

INVESTIMENTO

RS 16.025,00 e US$ 399,00

no inter ior da lâmina. Mart in ez:" Me lhoramos o estireno Também fizeram uti li zado na impermeabilização"

resultados anteriores foram confirmados", relata Chaudhr y Para comprovar a eficiência do novo produto em relação a impactos, os corpos-de-prova foram submetidos, segundo os padrões convencionais, a choques causados por um tubo cilíndrico de 2,5 kg lançado de 1,10 m de altura. "Então constatamos que, além de funcionar bem naquilo que deveria ser sua função básica, a vedação, o conjunto resina-compósito mostrou ser resistente e durável " , afirma Martinez.

S ucesso em obras - O novo processo já foi usado em várias obras na cidade de São C arlos. "Os resultados estão disponíveis. Nenhum problema ocorreu nas aplicações realizadas por técnicos da Athena . Uma das obras é uma laje de 440 m 2 que recebeu uma camada de argila expandida para conferir proteção térmica ao conjunto", explica Martinez.

Para Chaudhry,

Chaud hr y: a apara de a lu mínio tem boa ca pacidade de aderência além das vantagens técnicas, o novo material tem o mérito de envolver controle ambiental, ao promover a reciclagem de mate- corpos-de-prova (amostras) para testes nos laboratórios do (DEMa) Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar, sob supervisão do professor Elias Hage Junior. Nos primeiros testes, produziram-se simulações para três condições ambientais -luz, calor e chuvafeitas por meio de equipamento provido de uma lâmpada de xenônio , para simular radiação solar, e de aspersão de água Desse modo, foram simuladas condições de envelhecimento equivalentes a cinco anos. Depois, Martinez e Chaudhry rompiam os corpos-de-provas e analisavam as modificações ocorridas no material.

"Os resultados foram muito bons . Nenhuma emenda -o ponto mais crítico no material - se rompeu", diz Martinez. Ainda era o início. Desenvolveu-se outro conjunto de corpos-de- prova destinado a uma nova série de testes, agora para simular condições de um dia de verão com sol intenso e em seguida chuva, o que foi feito com jatos de ar quente a 75 °C por um minuto e meio, seguidos de jatos d'água a 25°C por seis segundos "Fizemos testes equivalentes a cinco anos de exposição e de novo, não encontramos nenhum problema: todos os

riais (aparas de alumínio e resíduos de estireno ) que normalmente são incinerados e acabam deixando o ar polu ído Enquanto e s peram a confirmação das patentes, Martinez e Chaudhry trabalham para tornar viável a nova tecnologia. "Estamos trabalhando em duas frentes : uma comercial, para definir estratégias de mercado, outra para tornar a idéia operacional." Para isso , buscam financiamento para comprar equipamentos e construir uma fábrica modelo de onde sairá o novo impermeabilizante. •

Tratamento com qualidade

Método desenvolvido na

Unesp garante implantes

dentários mais eficientes

Um processo inédito para tratamento da superfície do titânio que serve de matéria-prima para implantes dentários ganhou inovações importantes no Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no campus de Araraquara. A nova técnica, mantida em segredo por estar em fase de patenteamento, garante uma melhor integração entre o implante e o osso. Ela vai permitir aos fabricantes dos pinos que sustentam o dente implantado um adicional de qualidade nos seus produtos.

Sob a coordenação do professor Antônio Carlos

ção de ossos, há pelo menos 20 anos . Para aprofundar o conhecimento desse material na área odontológica, Guastaldi teve como base o projeto de auxílio à pesquisa financiado pela FAPESP Estudo das Propriedades Mecânicas e de Corrosão do Titânio e das suas Ligas Aplicadas como Biomaterial e a colaboração de vários projetos de mestrado e doutorado.

As pesquisas partem da principal característica do titânio, que é ser um material muito reativo em presença de oxigénio e portanto ca-

O grande desafio dos pesquisadores da Unesp-Araraquara é desenvolver um processo que permita a alteração das características da camada oxidada. O objetivo é ter uma resposta mais adequada do s implantes e das próteses aos requisitos essenciais para um bom uso como biomaterial: ser biocompatível e biofuncional, ter bioadesão e preço compatível com a realidade brasileira.

Ligação sintética - "A nossa preocupação é promover uma mudança na superfície do titânio tornando-o um suporte apropriado, com área específica para se depositar a hidroxiapatita, um material sintético semelhante à parte inorgânica do osso, que faz a ligação entre o im-

Guastaldi, as pesquisas co- Pino de titânio aumentado 35 vezes

Detalhe do pino ainda sem revestimento meçaram há quatro anos, acompanhando o desenvolvimento do uso do titânio como biomaterial. Para Guastaldi, o biomaterial é definido como qualquer substância ou combinação de substâncias que não sejam drogas ou fármacos, de origem natural ou sintética. Eles são usados por qualquer período de tempo, como parte ou sistema com- Implante revestido com hidroxiapatita

Detalhe do implante aumentado 2 mil vezes pleto, na substituição de tecidos, órgãos ou funções do corpo. Para que a coexistência não desencadeie reações adversas ou incontroláveis nos sistemas biológicos, o material estranho ao corpo humano deve ser biocompatível.

O titânio já é usado como biomaterial na ortopedia, na substitui-

paz de oxidar-se rapidamente. Com isso, na superfície do metal formase um óxido, com grande estabilidade termodinâmica, que dificulta as reações químicas posteriores. Mesmo assim o titânio é usado com sucesso para aplicação como biomaterial.

plante e o osso, fenômeno este denominado osseointegração", explica Guastaldi.

"As nossas pesquisas direcionam-se por um caminho completamente diferente do que é realizado no resto do mundo", diz ele, acrescentando apenas que o segredo da

técnica está em promover mutações sutis na superfície do titânio.

Mesmo as soluções mais modernas têm limitações . ''A olho nu, os implantes dentários parecem perfeitos': diz Guastaldi. "Mas quando submetidos aos sistemas eletrónicos de análise, como a microscopia eletrónica de varredura com ampliações de 35 a 10 mil vezes, constatam-se imperfeições na superfície dos materiais utilizados que poderão comprometer a tão desejada osseointegração."

Uma das conseqüências é a abertura de frestas milimétricas nas peças implantadas. Nessas frestas, as substâncias existentes na saliva favorecem o crescimento de uma placa bacteriana, responsável pela corrosão induzida por microrganismos, comprometendo dessa forma o desempenho do biomaterial implantado.

Para dar conta desses desafios necessita-se do conhecimento de química básica e química de materiais . Com essas preocupações e necessidades, Guastaldi formou uma equipe, chamada de Grupo de Biomateriais, que inclui químicos, dentistas, farmacêuticos, engenheiros de materiais e matemáticos.

Estudo pioneiro - O primeiro estudo de titânio no Grupo de Biomateriais foi do químico Ivan Ramires com sua tese de doutorado Estudo dos Mecanismos de Corrosão Empregando-se Espectroscopia de Impedância Eletroquímica dos Biomateriais: Titânio e Ligas Metálicas à Base de Titânio, que teve bolsa da FAPESP. Ele

O PROJETO

Estudo das Propriedades Mecânicas e de Corrosão do Titânio e das suas Ligas Aplicadas como Biomaterial

MODALIDADE

Auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADOR

ANTÓNIO CARLOS GUASTALDI- Instituto de Química da Une sp-Araraq uar a

INVESTIMENTO

R$ 13.1 73,27 e US$ 34.475,00

Guastaldi : superfície inovadora

investiga, com o auxílio do matemático Jorge Capela, os mecanismos de corrosão e os tipos de filmes formados na superfície do material, quando estes estão em contato com meios que simulam a agressividade da saliva . A química Luci Cristina de Oliveira estuda em sua tese de doutorado Modificação da Superfície do Titânio e da Liga Ti-6Al-4V para Implantes Dentários, também com bolsa da FAPESP, a modificação da superfície dos materiais, com posterior incorporação de fosfato de cálcio que pode formar a hidroxiapatita, responsável pela osseointegração.

Técnica de plasma - Outro químico, Anselmo Colombo de Alencar, iniciou em 1998 seu doutoramento com o tema Estudo das Modificações na Superfície do Ti c.p. - Titânio Comercialmente Puro e da Liga Ti6Al-4V Usados como Biomateriais Utilizando-se Deposição por Plasma Spray, com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele utilizou a técnica de plasma spray que é uma das formas usadas para o recobrimento de implantes metálicos com gases ionizados por meio de aspersão térmica.

Nessa técnica, o pó do metal que se deseja depositar no material a ser tratado é aspergido junto com uma chama de plasma ( o quarto estado da matéria) por meio de uma pistola de alta temperatura e impulsionado pelo gás argónio que é inerte. Assim, o pó metálico é direcionado e fundido na superfície do titânio. O resultado é aumento da durabilidade do revestimento e a melhora da biocompatibilidade.

O problema, em todos os casos, é a instabilidade ou a pouca longevidade do processo de aderência dos depósitos de metal. "Com isso", explica ele , "as peças do implante e os depósitos apresentam propriedades mecânicas diferentes e conseqüentemente trabalham com módulos de elasticidade diferentes: ou seja, em vez de atuarem em movimento harmónico, reagem de modo antagónico durante os movimentos de mastigação, levando o implante ao " msucesso.

Interesse empresarial - A equipe de Guastaldi espera finalizar os testes dos novos implantes de titânio ao longo deste semestre. " Pode ser que demore até mais, mas vamos tomar todos os cuidados para que a descoberta tenha aplicação prática de forma rápida", diz

Guastaldi informa também que a empresa brasileira Conexão Sistemas de Prótese, fabricante de material para implantes dentários, está interagindo com o Grupo de Biomateriais e tem grande interesse nos resultados comentados pelos pesquisadores. Depois de ter o método completamente testado e a patente registrada no Brasil e em outros países, processo que terá o apoio da FAPESP, os pesquisadores da Unesp devem negociar o repasse da tecnologia para a Conexão. A empresa tem grande interesse em fabricar peças para implantes que proporcionem maior segurança e qualidade . Se tudo der certo, novos pinos dentários estarão no mercado odontológico em 2002 •

Em busca do pensamento perdido

Pesquisa recupera evolução das idéias científicas de Portugal edo Brasil

Como se articulava o pensamento científico e técnico português e brasileiro na época do Renascimento? Com a dificuldade de encontrar referências para pesquisa no período, em 1989, o professor Roberto de Andrade Martins, do Grupo de História e Teoria da Ciência, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), decidiu fazer um levantamento sobre o assunto. Curiosamente , deparou com um farto material e, em 1991, começou a desenvolver uma base de da -

dos informatizada. Trata-se do gigantesco projeto Lusodat, que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( CNPq) do Brasil e também da Commission on Bibliography and Documentation of the International Union of History and Philosophy of Science.

"O projeto começou pouco ambicioso", admite o pesquisador. "Eu achava inicialmente que haveria menos de mil livros científicos publicados em Portugal e no Brasil anteriores a 1822 e o projeto, em um primeiro momento, iria apenas até a Independência do Brasil", explica. "Desse período existem, na verdade, 7 mil livros", revela. Para sua surpre-

sa, até agora o pesq u isador e sua equipe de seis pessoas já registraram mais de 80 mil itens, em um período de pesquisa que foi ampliado do Renascimento para 1900 O trabalho ainda não está concluído e, segundo os cálculos de Martins, poderá ser finalizado com a catalogação de mais de 100 mil publicações q u e, posteriormente, serão colocadas à disposição pela Internet.

"O motivo básico da pesquisa foi estudar as raízes científicas e técnicas do país", conta Martins. "Obviamente, precisávamos incluir a história da ciência e técnica de Portugal." O pesquisador observa que, ao contrário dos países mais desenvolvidos, no Brasil e em Portugal há uma lacuna quando se trata de saber que gênero de informações científicas

circulava naquele rico período histórico.

"É bastante fácil descobrir o que se publicou nas revistas dos países mais desenvolvidos no século 19 sobre qualquer tema da física, por exemplo, utilizando os elementos bibliográficos existentes", observa ele. "Mas, salvo algumas poucas exceções, as publicações portuguesas ou brasileiras não estão presentes", completa.

Pesquisa ampla - O levantamento feito por essa equipe da Unicamp é amplo. São documentos primários e secundários sobre todos os assuntos científicos- da medicina, química e zoologia à farmácia, veterinária, antropologia, astronomia, navegação e artes militares, só para citar alguns. Eles procuram apenas os trabalhos de autores portugueses e brasileiros, inéditos ou publicados em qualquer país e idioma. Ficaram de fora obras estrangeiras sobre Portugal e Brasil e referências sobre literatura de ficção, obras jurídicas, religiosas e discursos. Há, no entanto, uma exceção entre os textos religiosos. Trata-se da tradução do Evangelho feita pelos portugueses para o chinês e para o japonês, no século 16. "Ela determina o domínio lingüístico dos portugueses daquela época e entra no gênero filologia", explica Roberto de Andrade Martins.

Se, inicialmente, a pesquisa Incluiu apenas livros impressos até 1822, a partir de 1993 a abrangência do levantamento foi ampliada, incluindo bibliografia secundária, manuscritos do período, mapas, folhetos e teses, artigos de periódicos e dados biográficos sobre os autores das obras incluídas no banco de dados, entre outras.

A partir de 1994, ampliou-se ainda mais a pesquisa, que passou a conter informações históricas e uma cronologia sobre o período. "Dessa

forma, dá para se acompanhar o processo histórico dos dois países", observa o pesquisador. "Permite ainda a compreensão dos fatores econômicos, sociais, políticos, que influenciaram o desenvolvimento científico e técnico", explica ele. Foi a partir de então que o período de pesquisa foi ampliado até 1900. Acrescente-se aos 7 mil livros, publicados do século 15 até 1822,

mapas, manuscritos e artigos de revistas e as referências sobre aquele período sobem para 20 mil itens. "De 1823 a 1900 devem existir uns 70 mil itens e outros 10 mil com informações biográficas, literatura secundária, dados históricos, entre outros", calcula o pesquisador. Isso explica por que eles não prosseguirão a pesquisa pelo século 20 adentro. "A partir daí explode o número de obras publicadas e seria um trabalho insano", lamenta.

"Encontramos fases interessantes da produção científica que de-

terminam o grau de publicações relacionadas com o período histórico que se vivia", diz o pesquisador. "Em torno de 1760, por exemplo, com a reforma pombalina e a expulsão dos jesuítas, em Portugal, mudou o sistema educacional", conta . "Pouco depois, foi criada a Academia das Ciências de Lisboa, e a produção científica cresceu como nunca", conclui ele. "Já no Brasil, se observarmos o período da proclamação da República verifica-

I G mos, claramente, uma queda de 30o/o na produção, que

ainda não conseguimos explicar", compara Martins.

Falta de estudos globais- Esse trabalho é inédito e facilitará, com certeza, a vida dos pesquisadores sobre qualquer um dos gêneros catalogados. Até então, no Brasil, existiam poucos estudos e, normalmente, sobre assuntos específicos. Há os antigos estudos globais editados por Fernando de Azevedo e por Mário Guimarães Ferri e Shozo Motoyama, por exemplo . Mais recentemente, os grupos de História da Universidade de São Paulo (USP) e de Geociências da Unicamp realizaram estudos sobre o desenvolvimento de algumas instituições importantes no século 19. Também há estudos sobre a química nos séculos 18 e 19 e sobre a história da matemática. A Casa de Oswaldo Cruz tem realizado um trabalho de pesquisa de fontes de medicina. O Museu de Astronomia e Ciências Afins realizou levantamento de arquivos no Rio de Janeiro . "Mas cada um procura coletar informações para seus estudos específicos, sem fazer um levantamento sistemático das fontes de pesquisa disponíveis", observa Martins. "Até agora não havia sido planejada, no Brasil, uma pesquisa tão abrangente quanto a desse projeto", completa o professor.

Geografia do passado: ciência ligada ao histórico

O pesquisador informa que em Portugal a situação não é muito diferente, embora exista uma tradição mais longa de estudos sobre a história das ciências e das técnicas. ''Apesar de bons estudos sobre temas específicos ou personalidades mais conhecidas, nunca foi possível ter uma visão global da produção do gênero naquele país", completa ele.

é tarefa fácil Martins: desej

consultar seus arquivos -o trabalho é feito por meio da análise dos catálogos da instituição . Mas Martins conta que, no fim do século 19, na Biblioteca Naciona l de Lisboa foi feito um inventário de t o d o o acervo. "Nós dispomos de có p ia desse material, é ainda a mel h or fonte de informações sobre o acervo antigo da Biblioteca Nacional de Lisboa", conta ele. "As bibliotecas de Portugal, incluindo a Nacional, estão informatizando tudo, mas começando pelas obras que vão sendo adquiridas", o professor.

ça Philosophica Contra a Opinião do Vulgo: Que a Natureza Não Faz o Homem Senão a Indústria De João Cointha, foi impresso em Lisboa em 1566.

Material precário- Dificuldade maior, no entanto, é manusear todo esse material, dado o estado precário em que se encontram as bibliotecas do país. Andrade Martins lembra, por exemplo, que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro guarda um verdadeiro tesouro histórico. "A instituição recebeu todo o acervo da família real portuguesa", observa o pesquisador. "Mas há muito material deteriorado, atacado por insetos e cupins", avisa Martins.

Os pesquisadores da Unicamp não se deslocam até Portugal para

Ainda assim, Andrade Martins encontrou algumas preciosidades na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro que não parecem existir em Portugal. Uma das apontadas pelo pesquisador é Paradoxo ou Senten-

O PROJETO

Projeto Lusodat

MODALIDADE

Au x ílio a projeto de pesquisa

COORDENADOR

ROB ERTO DE A NDRADE M ARTINSGrupo de Hi stória e Teoria da Ciênci a, da Unicamp

INVESTIMENTO

R$ 19 665 ,00

theca, foi trazido ao Brasil quando a famíla real portuguesa fugiu para o país em 1808. Além desses exemplares, de acordo com o pesquisador, sabe-se que há outro na Universidade de Harvard.

Outra obra daquela biblioteca que merece citação, segundo Martins, é De Regimine Cibi At que Potus, et de Caeterarum Rerum Non Naturalium Usu Nova Enarratio (Nova Narrativa Sobre o Regime dos Alimentos e Bebidas, e do Uso de Outras Coisas Não Naturais), de Henrique Jorge Henriques, impresso em Salamanca (Espanha) em 1594vale observar que, na época, Portugal ainda se encontrava sob o domínio da coroa espanhola.

"É uma obra filosófica de autor francês (Jean Cointhe), mas traduzida para o português e publicada em Portugal, por isso foi incluída no nosso projeto", esclarece Martins. A Biblioteca do Rio possui três exemplares dessa obra- um deles, da Real Biblio- pesquisar, juntar e organizar esses milhares de referências bibliográficas. O trabalho da equipe da Unicamp consiste em buscar informações tanto em obras de referência impressas (como bibliografias, catálogos, estudos históricos) quanto na consulta direta a bibliotecas e arquivos. Primeiro, eles usam obras encontradas por meio de bibliografias de bibliografias, pela consulta de fichários de bibliotecas ou por meio de citações achadas em outras obras. Depois, procuram cada um dos itens selecionados no banco de dados para verificar se já não fora registrado. "Se já existir, acrescentamos as novas informações", diz ele. Caso contrário, é criado um novo registro e as informações são digitadas.

"Essa é uma grande obra médica (444 páginas), de autor português, muito rara", observa Os exemplos citados pelo pesquisador são das mais importantes obras encontradas na pesquisa do século 16. "Mas poderiam ser citados mais exemplos, como as teses filosóficas do século 18, colecionadas por Diogo Barbosa-Machado, muitas das quais só existem no Rio", ressalta ele. Pelos cálculos de Martins, com a inclusão de todo o material pesquisado na Internet, o projeto só será encerrado em 2005. Informações sobre o Lusodat: www.ifi.unicamp br/-ghtc/datab.htm •

Não

LITERATURA

As armadilhas para o real

Estudos analisam como são relações sociais nas obras de Clarice Lispector

Os textos de Clarice Lispector ( 1920-1977) são material vasto para deleite tanto de formalistas quanto de conteudistas, mas a recepção crítica, via de regra, tem preferido analisar a forma aos aspectos sociais. Na contramão dessa linha, estão as teses de doutorado de Luiz Antonio Magalhães, Lugar-comum e Percepção em Clarice Lispector, e de Maria Angela Bacellar, Clarice Lispector e as Figurações da Mulherprojetas financiados pela FAPESP.

Se a obra toda de Clarice é um "romance de educação existencial" (termos do crítico Alfredo Bosi), e a palavra é importante para compreender os seus complexos e abstratos escritos, isso não é tudo. "O estudo das relações sociais não foi totalmente explorado pela crítica. A antropologia, a sociologia e a história são fundamentais para enfren-

e elaborar um roteiro de longa-metragem que privilegie a enunciação é o desafio de Maria Angela Bacellar, pesquisadora da área de cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECAUSP). "O narrador clariciano é de extrema modernidade e consciência, desprezar esse aspecto no cinema é negar uma parte significativa da revolução da escritora", observa.

O primeiro desafio dos dois pes-

ali, fez referências a outros textos, como os de Felicidade Clandestina, Onde Estiveste de Noite?, A Hora da Estrela, A Paixão Segundo G.H. e as crônicas de A Descoberta do Mundo. " O lar é o local onde se enraíza o habitual, o costumeiro, como mostra Clarice. É o ambiente do sabido , do previsível, em que estão dispostos objetos que somem aos nossos olhos , porque habituados, já cegos de tanto vê-los. Mas eis que surge a

Clarice Lispector: donas de casa rebeldes em romances de crítica social sutil e oculta tar o desafio interpretativo de uma obra tão rica como a de Clarice", explica Magalhães, pesquisador de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Na obra de Clarice, donas de casa vivem os seus momentos de rebeldia, epifania. Observar essas personagens

quisadores foi selecionar o corpus do trabalho. Clarice deixou uma vasta obra, que abrange de romances, contos e crônicas a livros infantis. Magalhães resolveu expandir sua pesquisa para além do volume de contos Laços de Família Ele analisou o romance A Maçã no Escuro, mas, aqui e

literatura para provar que pedra é pedra e reinventar a vida", alerta. Em A Hora da Estrela, livro publicado em 1977, temos a protagonista Macabéa. A carência da personagem é total: ela é descrita como feia; não é branca, nem preta, é pardacenta; tuberculosa; nordestina vi-

vendo no Rio de Janeiro. Segundo o narrador, ela era "uma incompetente para a vida", "tão jovem e já com ferrugem". Macabéa reúne em si a pobreza econômica, física, intelectual. Esse contexto de miséria parece um prato cheio para incentivar uma leitura social, mas essa é uma armadilha que Magalhães quer evitar. Os pesquisadores, Magalhães e Maria Angela, seguem os conselhos críticos do mestre Antonio Candido: o social não deve ser tomado de fora, exteriormente, mas como fator da própria construção artística . "O proselitismo dogmático é lamentável em qualquer esfera, sobretudo na literatura, cuja função é filtrar os céus da poeira ideológica tanto quanto possível. Não descarto a crítica feminista, que procura analisar a presença das figuras femininas, tão marcantes na obra de Clarice. Mas, por vezes, concordo que há exageros", destaca Magalhães. "O trabalho de Olga de Sá, A Escritura de Clarice Lispector, já observou os caminhos e descaminhos, entre outros, desse tipo de crítica da obra de Clarice Lispector", observa Maria Angela.

Clarice no cinema - Para Magalhães, as adaptações cinematográficas da obra de Clarice se nortearam por um viés realista. Embora elogie a versão de A Hora da Estrela, pelas mãos de Suzana Amaral em razão das belas e sensíveis interpretações, Magalhães faz suas ressalvas. "É difícil não perceber o quanto a obra perde em complexidade e densidade com a eliminação do narrador, Rodrigo SM, e de seu embate com a linguagem e a vida, com a linguagem como momento de vida e morte " , analisa.

A pesquisadora Maria Angela Bacellar concorda com Luiz Antonio Magalhães quanto à simplificação do roteiro ao eliminar os questionamentos do narrador. "Ao não enfrentar a questão do narrador, faz-se uma opção por um cinema convencional, clássico até. E o cinema é, ou

deveria ser, o palco privilegiado para a concretização de alguns procedimentos narrativos da literatura moderna, como o fluxo de consciência", aponta. "Há pressões de mercado que impedem um tratamento alternativo da linguagem cinematográfica. Perde-se muito com isso, porque Clarice é antes de tudo uma escritora moderna, instigante. Desprezar

abandonando a família (Os Laços de Família) ou têm um final de heroínas trágicas (como ocorre com a protagonista de Os Obedientes).

Maria Angela já havia trabalhado com adaptações cinematográficas em sua dissertação de mestrado, A Chave - Uma Adaptação para o Cinema Baseado em Três Contos de Lygia Fagundes Telles, defendida em 1995, na ECA-USP. Mas sentia que o desafio maior era o de fazer uma tradução intersemiótica em uma obra mais complexa, como a de Clarice. Antes de entrar nos roteiros propriamente ditos, Maria Angela faz um estudo minucioso de algumas traduções intersemióticas da literatura para o cinema, tais como: A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, O Corpo, de José Antonio Garcia, e Clandestina Felicidade, curta de Marcelo Gomes.

Seria possível dar conta dos movimentos internos das personagens somente através de recursos visuais? Para conseguir atingir esse

A jovem e enigmática escritora : suas personagens femininas vivem experiências-limite e são tidas pelos homens como loucas

esse aspecto é reduzir a sua ol:ira a um romance do século 19", observa Maria Angela. Para preencher essa lacuna, Maria Angela diz estar fazendo um roteiro de longa-metragem "à margem do mercado e de qualquer tipo de convenção". No projeto, ela se propõe a fazer a roteirização de dez contos de Clarice Lispector que apresentam mulheres como protagonistas. O que une tantas histórias são os perfis femininos. Trata-se da figura da dona de casa que, submetida a um cotidiano medíocre e banalizado, existencialmente se revela. Mulheres que vivem a experiêncialimite e são tidas como loucas (é o caso de A Imitação da Rosa) que retornam à normalidade (Amor), rompem as convenções socw1s,

estado, a pesquisadora tem se servido, sobretudo, das teorizações modernas do escritor e teórico Gérard Gennete e tem se inspirado em várias produções de Ingmar Bergman. "Seus filmes são cinema em estado puro", diz .

Mistérios de Clarice - A obsessão de Clarice pelo tema das relações familiares teria a ver com a sua própria experiência de vida, de raízes russas e judaicas, mas apaixonada pelo Nordeste brasileiro? "Escrever é procurar entender, reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador", aspecto de autoconhecimento, como definia a escritora em várias de suas crônicas. Como atestam os biógrafos,

Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, Ucrânia (ex-URSS), em 1920. "Cidade tão insignificante, que não cabe no mapa", lembrava Clarice Recém-nascida, veio para o Brasil com os pais, que se estabeleceram no Recife. Em 1934, a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde Clarice fez o curso ginasial e os preparatórios. Já na época da Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, causa polêmica com o seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, recusado, na época, pela editora José Olympio. Publica-o, no ano seguinte, pela editora A Noite e recebe o Prêmio Graça Aranha. Em 1944, vai com o marido para Nápoles, onde presta ajuda num hospital de soldados brasileiros que integravam a Força Expedicionária Brasileira. Voltando para o

"Ciarice Lispector, ao ana lisar o que estamos cegos de tanto ver, porque habituados, reinventa a diz Luiz Magalhães

OS PROJETOS

Lugar-comum e Percepção em

Clarice Lispector

MODALIDADE

Bolsa de doutorado

COORDENADOR

LUIZ ANTONIO MAGALHÃES- Unicamp

INVESTIMENTOS

RS 12.000,00

Clarice Lispector e as Figurações da Mulher

MODALIDADE

Bolsa de doutorado

COORDENADOR

MARIA ANGELA SILVA BACELLAR - ECA- USP

INVESTIMENTOS

RS 12.000,00

Brasil, escreve O Lustre, publicado em 1946. Depois de longas estadas na Suíça e nos Estados Unidos, a escritora fixa-se no Rio até a sua morte.

Esse misto de lugares, origens religiosas, influências, a sofrida perda da mãe aos nove anos, as viagens pelo mundo com o marido diplomata, essa vida itinerante te-

ria relação com a obra em que· o tema da família aparece de maneira obsessiva? "Sem dúvida que sim. O movimento que talvez tenha vindo do estruturalismo de riscar a presença do autor da obra já vem sendo revertido. O processo de entender o autor real também pode ajudar muito a compreender a obra em si, o que está dentro e em torno dela", fala.

Mas o pesquisador ressalta os perigos dessa via-crúcis entre autor/vida/obra. O risco é cair no biografismo, explicar a obra por fatos da vida do autor. "Coisas absurdas foram feitas no passado, como propor que a dicção ficcional de Machado de Assis vinha da sua gagueira ou a conclusão de que Augusto dos Anjos teria sido um assassino

em potencial para escrever o que escreveu", explica. No cinema, algumas adaptações têm corrido esse risco Maria Angela Bacellar ressalta o filme de Marcelo Gomes, que mistura ficção e biografia. "Trata-se de uma livre adaptação do conto 'Felicidade Clandestina', onde se mesclam referências biográficas, obtidas sobretudo na recente biografia Clarice, Uma Vida que se Conta, de Nádia Batella Gotlib (1995)", explica.

A vida reinventada - Magalhães afirma que escrever algo novo sobre Clarice Lispector - uma das autoras mais estudadas de nossa literaturaé um desafio proporcional à obra. O crítico alerta para a necessidade de democratizar os textos de Clarice e relê-los sobre novos ângulos, sobretudo em tempos de globalização. "Uma obra rica, plural, como a de Clarice, tem sempre algo a render, porque engendra e dissemina sentidos que permitem enorme gama de exploração. Servindo tanto para ler o desencantamento do processo de globalização hoje, quanto esse mundo fundado num tipo de racionalidade que recalca aspectos como a sensualidade e sensibilidade, contrários à lógica", acredita.

No momento, Maria Angela Bacellar finaliza os roteiros. Teremos novas adaptações da obra de Clarice em breve no cinema? "Pretendo, antes de mais nada, terminar a tese e defender o trabalho. Não me importo com o que vier além disso. Já tenho tido uma recepção positiva em seminários e entre pesquisadores, que acham instigante a proposta de roteirizar textos da Clarice, mas tenho plena consciência de que estou na contramão do cinema de apelo comercial", explica.

Magalhães também redige a versão final da tese. Ele pretende publicar trechos do trabalho, no formato de artigos ou ensaios. E, mais do que isso, espera contribuir para "prolongar o máximo possível na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem o impacto da obra de arte", o que considera tarefa primeira do crítico. •

O diálogo das artes entre Ocidente e Oriente

Livro analisa influência de tradições cê nicas japonesas em nossa cultura

Em 1986, quando se apresentou no Brasil pela primeira vez, Kazuo Ohno provocou grande impacto em espectadores e artistas da dança e do teatro Mesmo escapando à compreensão, o butô interpretado por um de seus mestres precursores passou a influenciar inúmeros criadores brasileiros, além de gerar igual quantidade de equívocos . Contudo, apesar das apropriações e interpretações superficiais, essa expressão japonesa aqui também ganhou estudiosos, entre os quais Christine Greiner, que, hoje, detém um conhecimento singular sobre o assunto

Desde 1998, quando publicou Butô, Pensamento em Evolução, resultante de sua tese de doutorado em semiótica, Greiner dispôs-se a gerar uma bibliografia pioneira e referencial no Brasil. Com o recém-lançado O Teatro Nô e o Ocidente, a autora amplia as vias de acesso ao butô ao buscar nas tradições cênicas do Japão os germes de um processo evolutivo que se estende até hoje

Em seu novo livro, Greiner se debruça sobre o diálogo entre Japão e Ocidente, procurando compreender as influências que tal intercâmbio continua a provocar na criação contemporânea. Num complexo jogo de encaixes, a autora tece confluências a partir de uma obra emblemática: At the Hawk's Well ou O Poço da Mulher Falcão, como é geralmente traduzida a primeira peça de dança do dramaturgo irlandês William Butler Yeats, que em 1916 foi coreografada pelo japonês Mishio Ito. A escolha de tal eixo, segundo Greiner, deve-se às correspondências que o texto e a dança da obra de Yeats/Ito estabelecem com a estrutura do teatro nô tradicional e a dramaturgia ocidental.

Antes de analisar a coreografia de Ito para a peça de Yeats, Greiner vasculha origens, encontrando as primeiras relações da estética japonesa com a dança ocidental em meados do século 19, nos conceitos proferidos pelos poetas Baudelaire,

O Teatro Nô e o Ocidente

Christine Greiner

Mallarmé e Valéry. Em seguida, a autora se detém no teatro nô, ressaltando um

Escrituras Editora/ dos elementos mais enigmáFAP ESP ticos para a compreensão 136 páginas RS 1s,oo dos conceitos de tempo e espaço orientais -o ideograma "ma". Presente tanto no teatro nô quanto no butô, o "ma" é tido como o vazio pleno, onde tudo pode acontecer. Transmitida integralmente apenas por atares experimentados, a noção de "ma" não deve ser confundida com o nada ou a inexistência.

Curioso, no livro de Greiner, é a constatação final de que Michio Ito parece ter se identificado muito mais com as inovações que a dança ocidental propunha em sua época do que com as tradições cênicas de sua própria cultura. Pioneiro na integração da estética japonesa com a dança moderna ocidental, Ito decidiu estudar dança depois de ver Nijinsky dançar em Paris. Naquele fervilhante início de século, também Isadora Duncan impressionou o coreógrafo japonês, que logo rumou para a Alemanha, onde estudou no Instituto Dalcroze ao lado de precursores expressionistas, como Mary Wigman.

Ao coreografar At the Hawk's Well, Ito colocou em prática o vocabulário estético que construiu, a partir do cruzamento entre Oriente e Ocidente No entanto, Greiner verifica a fragilidade do método deIto, que possuía um conhecimento superficial sobre o teatro nô. Assim como Ito, a geração seguinte de coreógrafos japoneses teria no expressionismo alemão o mais vigoroso elo com a dança ocidental. Por essa ponte, a autora chega ao butô, procurando iluminar tanto o entendimento dessa expressão quanto as suas relações com a dança contemporânea ocidental.

AN A FRA NC IS CA PO NZ IO é crítica de dança dos jornais Valor Económico, Folha de S Paulo e da revi sta Bravo.

REVISTAS

Sistema Físico-Metafísico dos Cometas

Museu de Astronomia e Ciê ncias Afi ns

José Mo nt eiro da Roc ha

251 páginas I R$ 20,00

Um livro fascinante, na medida em que é um testemunho dos primeiros passos da astronomia brasileira. Escrito em 1759 pelo padre jes u íta português José Monteiro da Roc h a, reúne as observações feitas pelo religioso quando da passagem do cometa de Halley por Salvador, fenômeno natural que confirmava as teorias desenvolvidas por Isaac Newton sobre a gravitação Impressionado, o jovem escreveu este tratado que, na época, não foi p u blicado O livro só é vendido na loja do Museu. Informações: (21) 580-7010, ramal242.

Sinfonia Inacabada

Boi t empo

Antonio Carlos Mazzeo

203 páginas I R$ 20,00

Já é tempo suficiente de se começar a fazer análises crí t icas sérias sob re a esquerda brasileira e sua at u ação entre os anos 70 e 80, coincidentes com os anos de chumbo da ditadura militar. Isso é o q u e se propõe

Antonio Carlos Mazzeo nesse perfil impressionan te da co n strução da teoria da revolução em terras brasileiras. Baseado em ideais do Komintern, a Internacional Com u nista, o movimento nacional queria construir uma revolta em etapas. O livro ainda mostra a influência internacional sobre os nossos socialistas.

Integração do Aluno com Deficiência: Perspectiva e Prática Pedagó.gica

Unes p Publ icações

Ricard o José Ma nzini (org aniz açã o)

139 pág in as I R$ 10,00

Este livro resultou de um curso de especialização em educação especial, ministrado na Facul d ade de Ciências e Tecnologia da Unesp, e reúne estudos sobre o tema da integração do aluno deficiente no ensino comum e os desafios a serem vencidos por pais e educadores no trato desses estudantes especiais. Entre os muitos artigos q u e compõem essa obra estão temas como: a integração de alunos deficientes sob o ponto de vista do diretor da esco la; dificuldades de professores de pré-escola na integração de estudantes especiais; entre outros.

Psicologia USP lJtJIII t M oniro A i le -.. ...... s......-._

Psicologia USP

2000- número 2- volume 11

A publicação semestral do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo traz um dossiê especial sobre um pioneiro da psicologia social no Brasil, Dante Moreira Leite, homenageado com artigos de Ecléa Bosi, Geraldo José de Paiva, Maria Luisa Sandoval Schmidt e Tatiana Freitas Stockler das Neves. De quebra, a revista oferece quatro textos escritos por Dante Moreira Le ite, entre esses um sobre a realidade americana na literatura Ainda: um artigo sobre o sonho e a literatura no mundo grego e a visão do louco de rua pela literatura.

REVISTA

Rev ista Latino Americana de Psicopatologia

Fundamental 2000- número4- volume III Editada trimestralmente pelo Laboratório de Psicopatologia do Núcleo de Psicanálise da PUC-SP e o da Unicamp, o número mais recente desta revista traz os seguintes estudos: Subjetividade, Tempo e Psicanálise, de Joel Birman; Psicoterapia e Empirismo, de Durval Mazzei Nogueira Filho; O Estupor Melancólico e o Estupor Maníaco, de Rubens Coura; Ideologia e Psicopatologia, uma Discussão Fenomenológica Transcultural, de Virgínia Moreira; Depressão e Melancolia, de Cassandra Pereira França; Reflexões sobre o Sofrimento, de Eugene Minkowski.

ESTUDOS DE Sociologia

Estudos de Sociologia

Número 9

A nova edição da revista semestral do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FCL- Unesp, de Araraquara, traz entre seus artigos: Mariátegui e a Ocidentalização da Política, de Ricardo Bao; Direitos Reprodutivos, Políticas de Saúde e Gênero, de Lucila Scavone; A Informação e a Comunicação no Capitalismo Contemporâneo, de Alain Herscovici; O Chile de Lagos, o Desafio de um Novo Curso Democrático, de Alberto Aggio; Um Modelo Social para a Mulher Operária, de Michel Ralle; e A Revolução Nacional Isebiana, de Virgílio Roma de Oliveira Filho

CÉLLUS

- Corno vão as pesquisas com o fogo?

-Mais ou rnenos Falta desenvolver urna metodologia de uso

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Aviso aos navegantes by Pesquisa Fapesp - Issuu