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A cana-de-açúcar redesenhada

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Conheça mais sobre os 18 primeiros projetos do Programa de Políticas Públicas a passar para a segunda fase

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Projeto de mapeamento das algas do território paulista encontra 40 espécies inéditas no mundo e 500 não documentadas no Estado

Capa: Hélio de Almeida, sobre foto d e Eduardo C esar

54

Pesquisadores desvendam as transformações químicas que ocorrem com os ovos de libélulas, que liberam um ácido capaz de corroer a pintura de veículos

EDITORIAL

MEMORIAS

OPINIÃO

POLíTICA CIENTÍFICA E TECNOLOGICA

CIÊNCIA

TECNOLOGIA

HUMANIDADES

LIVRO

28

O Genoma Cana chega à reta final, com a identificação de 80 mil genes que, devidamente manipulados, podem resultar em uma cana ma1s produtiva, resistente e tolerante à seca e a solos pouco férteis

61

Cateter de fibra óptica capaz de transportar feixes de laser poderá ser usado para diagnóstico e tratamento de doenças cardíacas e de câncer

66

Tese mostra como mulheres lidam com o cotidiano do matrimônio e as estratégias que usam para mantê-lo

Revista

Devo o conhecimento da revista Pesquisa FAPESP à gentileza da Irmã Jacinta Turolo, da Universidade Sagrado Coração, de Bauru/SP. Tive a oportunidade de ler, pela primeira vez, os exemplares de junho e julho (números 54 e 55). Fiquei maravilhado pela forma clara e acessível de poder acompanhar os planos e projetos nas diferentes áreas de pesquisa em nosso país. Realizei uma leitura integral, da capa à contracapa, sem desperdício. Sou graduado em administração de empresas, com estudos em jornalismo na UFPR e atualmente estou desenvolvendo um projeto de pesquisa, "Na própria pele", sobre prisão e crime.

EDUARDO I SAAC M. ISRAEL Presidente Bernardes, SP

Como consultor internaciona l em tecnologia química e afins, tive a oportunidade de ler um exemplar da publicação mensal Pesquisa FAPESP e achei sumamente interessante. Gostaria de recebê- la regularmente

ToMAS M. WEJL São Pau lo, SP

Sou professor em uma escola técnica estadual (Centro Paula Souza), em uma faculdade particular, bem como no Ensino Fundamental (C iências) e Médio (Q uímica ). Gostaria de receber periodicamente a revista Pesquisa FAPESP, pois os assuntos são os mais diversos e interessantes e pretendo utilizá-los como material didático.

)OAO ROBERTO DA SILVA )aboticabal, SP

Faço parte do corpo de assessores científicos da FAPESP, na área de Lingüística . Assim, recebo regularmente a revista Pesquisa FAPESP, que aprecio enormemente Apesar de raramente haver notícia nessa área,

gosto muito da revista, pois fico inteirada das magníficas pesquisas feitas por n ossos cientistas e do avanço da ciências no Brasil e particularmente em São Pau lo. Gostaria de cumprimentar a equipe redatora pelo magnífico trabalho que vem fazendo. É digno da FAPESP e de São Paulo. A revista é muito apreciada também por meu filho que, embora trabalhe no setor financeiro, sem pre teve fascinação pela ciênc ia. Por isso, cada vez que vem a minha casa leva meu exemp lar da revista e eu "fico a ver navios':

MARIA TEREZA CAMARGO BIDERMAN São Paulo, SP

Complementação

Comp lementando a reportagem "Antibiótico extraí do da aranha", publicada na revista Pesquisa FAPESP No 56, gostaria de reiterar que o estudo da gomesina fez parte da tese de doutoramento, sob minha orientação, de Pedro Ismael da Silva Júnior, pesquisador científico do Laboratório de Artrópodes do Instituto Butantan. Além disso, três outros pesquisadores participaram no desenvolvimento doo projeto, sem os quais a lguns pontos importantes não poderiam ser elu cidados: a Profa. Dra. Maria Teresa Miranda, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), e o Prof. Dr. Antonio de Miranda , da Universidade Federal de São Pa ul o, antiga Escola Pau li sta de Med icina, responsáveis pela síntese química de vários dos peptídeos da pesq ui sa, e a Dra. Françoise Vovelle, do Centro de Biofísica Molecular, CNRS, de Orléans, França, que estabe leceu a estrutura tridimensional da gomesina. Saliento a importância dessas interações interdiscip linares, nas quais pesquisadores de diferentes especializações visam a contribuir para o entendimento da relação entre estrutura e função desses peptídeos antimicro-

bianos. Gostaria também de esclarecer que a fotografia publicada não é da aranha Acanthoscurria gomesiana, mas de um outro gênero de aranha caranguejeira, a Vitalius sp.

SIRLEI DAFFRE

Universidade de São Paulo São Paulo, SP

Correção

Constatei uma incorreção na edição de número 58 desta revista, na seção "Laboratório", na nota que tem por título "Água de coco contra a malária". Onde se lê: "Pesq uisadores do Peru descobriram uma forma nova de matar os mo squitos que causam a malária: o coco. Para matar as larvas do Plasmodium falciparum, ", não seria:" Pesquisadores do Peru descobriram uma nova forma de matar os mosquitos que causam a malária: o coco. Para matar as larvas de mosquitos transmissores do Plasmodium falcipa"? rum

NELSON S. CORDEIRO Instituto de Biologia/Unicamp Campinas, SP

O leitor está certo. A água de coco evidentemente está sendo usada para matar larvas de mosquitos e não, como foi publicado, larvas do Plasmodium falciparum.

O pesquisador à esquerda na foto acima, publicada na página 29 da Pesquisa FAPESP No 58, é José Augusto Miotto, não Hans Ebert, como indicado. Ao centro, Yociteru Nasui e, à direita, Norberto Morales.

PESQUISA FAPESP

ÉUMA PUBLICAÇÃO MENSAL

DA FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO

PROF. DR CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ PRESIDENTE

PROF. DR PAULO EDUARDO DE ABREU MACHADO VICE-PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR ADILSON AVANSI DE ABREU

ALAIN FLORENT STEMPFER

CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ

FERNANDO VASCO LEÇA DO NASCIMENTO FLÃVIO FAVA DE MORAES

JOSÉ JOBSON DE ANDRADE ARRUDA

MAURÍCIO PRATES DE CAMPOS FILHO

MOHAMED KHEDER ZEYN

NILSON DIASVIEIRA JUNIOR PAULO EDUARDO DE ABREU MACHADO RICARDO RENZO BRENTANI VAHAN AGOPYAN

CONSELHO TÉCNICO-ADMINISTRATIVO

PROF. DR FRANCISCO ROMEU LANDI DIRETOR PRESIDENTE

PROF DR JOAQUIM J DE CAMARGO ENGLER

DIRETOR ADMINISTRATIVO

PROF. DR JOSÉ FERNANDO PEREZ

DIRETOR CIENTÍFICO

EQUIPE RESPONSÁVEL

CONSELHO EDITORIAL

PROF. DR FRANCISCO ROMEU LANDI

PROF. DR JOAQUIM J DE CAMARGO ENGLER

PROF. DR.JOSÉ FERNANDO PEREZ

EDITORA CHEFE

MARILUCE MOURA

EDITORES ADJUNTOS

MARIA DA GRAÇA MASCARENHAS NELDSON MARCOLIN

EDITOR DE ARTE HÉLIO DE ALMEIDA

EDITORES

CARLOS FIORAVANTI (CIÊNCIA) CLAUDIA IZIQUE (POLÍTICA C&T)

EDITOR-ASSISTENTE

ADILSON AUGUSTO REPÓRTER ESPECIAL MARCOS PIVETTA ARTE

JOSÉ MEDDA (DIAGRAMAÇÃO)

TANIA MARIA DOS SANTOS

(DIAGRAMAÇÃO EPRODUÇÃO GRÁFICA)

COLABORADORES ANA MARIA FlORI CRISTINA DURAN EDUARDO STOPATO LÍGIA SANCHES

MARIA APARECIDA MEDEIROS MAURO BELLESA MIGUEL GLUGOSKI OTTO FILGUEIRAS

FOTOLITOS EIMPRESSÃO GRAPHBOX-CARAN

TIRAGEM:26 000 EXEMPLARES FAPESP

RUA PIO XI. No ISOO CEP OS468-90 I ALTO DA LAPA - SÃO PAULO - SP TEL. (O - I I) 3838-4000 - FAX: (O - I I) 3838-41 17

ESTE INFORMATIVO ESTÁ DISPONÍVEL NA HOME-PAGE DA FAPESP: http://www.fapesp.br e·mail: mariluce@fapesp br

SECRETARIA DA CIÊNCIA

TECNOLOGIA E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

O novo ciclo da

cana-de-açúcar

Acana-de-açúcar atravessou cinco séculos como uma das principais fontes de riqueza do Brasil. Trazida pelos portugueses da Ilha da Madeira em 1502, adaptou-se perfeitamente ao solo e clima local. Agora, na virada do século, a ciência brasileira está preparada para tornar essa cultura ainda melhor. O Genoma Cana- primeiro seqüenciamento de um vegetal realizado no Brasil - está chegando ao seu término, graças, em grande parte, à experiência da equipe e da infra-estrutura instalada. Dos 32laboratórios que iniciaram o trabalho, 23 haviam participado do Genoma Xylella, o pioneiro projeto de seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, que chamou a atenção da comunidade científica internacional para a pesquisa brasileira. Os 240 pesquisadores, de 60 laboratórios, identificaram cerca de 80 mil genes da cana-de-açúcar. Hoje sabe-se exatamente como a planta vive, se reproduz e morre. Este mapeamento permitirá que, em dois anos, os laboratórios produzam as primeiras variedades do vegetal resistentes a duas pragas: a bactéria Leifsonia xyli e o fungo-do-carvão O trabalho foi tão bom que o Genoma Cana deverá terminar quase um ano antes do previsto, com um custo 50% mais barato que os US$ 8 milhões aprovados pela FAPESP. A história de mais uma epopéia vivida pelos pesquisadores brasileiros é o tema de capa de Pesquisa FAPESP, contada em detalhes pelo editor de Ciência, Carlos Fioravanti.

O mês de novembro foi pródigo em boas notícias. Na página 14 há uma reportagem sobre a revolução no pós-doutoramento colocada em curso pela FAPESP. A nova política amplia os prazos de duração das bolsas de pós-doutoramento no país e reformula o intercâmbio com centros

de pesquisa no exterior. O principal objetivo é dar condições de trabalho mais atraentes para os jovens doutores dentro do sistema paulista de pesquisa, vinculando-os aos grupos de excelência de São Paulo, ao mesmo tempo em que se garante seu treinamento no exterior, em estágios articulados com o desenvolvimento do projeto de pesquisa no Estado. Essa nova política poderá ter um significativo impacto contra a evasão de cérebros para centros no exterior.

Há outras reportagens que trazem boas novas. Na seção de Tecnologia é apresentado um cateter de fibra óptica com luz laser, criado no Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento da Universidade do Vale do Paraíba (Univap). Ele terá importantes aplicações na identificação e restauração de artérias entupidas e para eliminar determinados tipos de tumor. Realizado com a empresa Tecnobio, o trabalho é resultado de mais uma boa parceria entre universidade e empresa.

Na página 54, uma surpresa: por que os poderosos fabricantes de automóveis instalados na região do ABC ficam em polvorosa quando revoadas de inocentes libélulas sobrevoam os pátios lotados de carros? Uma pesquisa do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que esses insetos não são tão inocentes assim. Ao confundir o capô brilhante dos carros com lâmina de água límpida, as libélulas depositam ovos na !ataria, que reagem com o forte calor e produzem um ácido. Resultado: a pintura dos automóveis zero quilômetro, que ainda nem foram vendidos, fica irremediavelmente estragada.

Não deixe de ler, na página 36, a entrevista com o físico José Leite Lopes. É uma boa oportunidade para conhecer o trabalho científico do veterano cientista, de 82 anos.

Acervo Freud visita

São Paulo e Rio

A maior exposição montada sobre Sigmund Freud (1856-1939), organizada pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, chegou a São Paulo em outubro depois de passar por Washington, Nova York, Viena e Los Angeles. Ela fica no Museu de Arte de São Paulo até 17 de dezembro e no começo do ano segue para o Rio. Os organizadores brasileiros de Freud: Conflito e Cultura criaram uma segunda mostra para situar o país dentro do movimento psicanalítico, batizada de Brasil: Psicanálise e Modernismo.

MEMÓRIAS

Mesa de trabalho

O gabinete onde Freud lia e escrevia foi remontado com seus objetos pessoais, como estatuetas antigas, caneta e óculos

Foto rara

A exposição traz cerca de 200 documentos, livros , cartas, filmes e fotos sobre as teorias e a vida pessoal de Freud, como esta, dele com a mãe, Amália, tirada na década de 20

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Referência brasileira

Psicologia Mórbida na Obra de Machado de Assis, do médico mineiro Luiz Ribeiro do Vale , de 1916, é o primeiro livro a tratar das idéias freudianas no Brasil.

Identificação

Placa do consultório em Londres , a partir de 1938

Psicanálise profissionalizada

A alemã Adelheid Kock, da Associação Psicanalítica Internacional, chegou ao Brasil em 1936 e psicanalisou analistas brasileiros. Seu trabalho legitimou a Sociedade de Psicanálise de São Paulo.

Vida em Londres

Em 1938, Freud foi para a Inglaterra e remontou seu consultório Na exposição, a poltrona ao lado é original, de 1900. O lendário divã é uma réplica , mas o tapete que o cobre é o mesmo sobre o qual Freud morreu.

Um caso histórico

Foi a partir da análise do caso de Anna O (Bertha Pappenheim, 1859-1936) , que sofria de paralisia facial e alucinações, que Freud chegou ao conceito de associação livre.

PESQUISA FAPESP • NOVEMBRO OE 1000 • 7

Metrologia é Vida

A ciência da medição é também a da competitividade

Ocidadão do mundo contemporâneo tem seu destino atrelado a números e medidas Exposto às exigências naturais das sociedades de consumo, talvez nem se aperceba de que por trás do "peso correto e da medida exata" subjaz um trabalho notável das sociedades técnico-científicas, que desempenham um papel fundamental no progresso das ciências e no amplo processo de desenvolvimento econômico e social que visam ao bem comum. Esse cidadão talvez nem saiba que o simples fato de aceitar ou ques-

"As sociedades técnico-científicas

estão a serviço da humanização da função dos números,

Inúmeros são os benefícios para a sociedade gerados pelas sociedades científica s. A própria "descrição factual" do hoje já incorporado conceito de physical quantity, formulado por James Clerk Maxwell (1873) em seu Tr eatis e on elec tricity and magnetism, surgiu para fundamentar a formulação axiomática de uma nova álgebra (quantity calculus) capaz de correlacionar "unidades de medida" e "grandeza física", à época conceito de impasse e polêmica no fórum das sociedades científicas. Foi esse fundamento básico, que tionar resultados de medições no curso de sua vida torna-o parceiro natural dessas organizações técnico-científicas. Assim ocorre quando da necessidade de verificação da febre do filho; da dosagem físico - química de propriedades e características do sangue humano; do tempo de exposição à radiote-

rapia; da indicação do fiel das balanças mais rudimentares que viabilizam o comércio; da tarifação do consumo de serviços básicos e essenciais, como os de fornecimento de água, energia, telefone; bem como das inúmeras outras circunstâncias em que a medição afeta direta ou indiretamente o bolso, o trabalho, a vida.

Nesse contexto, pode-se afirmar que as sociedades técnico-científicas estão a serviço da humanização da função dos números, da discussão conceituai sobre sua validação, o que se verifica pela sua preocupação em quantificar para qualificar. Qualificar produtos e processos para a existência do cidadão; para a vida, portanto. Utilizar a metrologia para medir a qualidade do ar, da água, dos alimentos, dos medicamentos, dos produtos de consumo básicos, do meio ambiente citadino e rural e de tudo o que interfira direta ou indiretamente na vida do cidadão é consolidar a ciência e a tecnologia como instrumentos políticos da reforma social segura e responsável.

inter-relaciona expressões matemáticas e incorpora a regularidade experimental das leis físicas, que permitiu a Helmholtz formular a teoria das medições fundamentado em trabalhos anteriores de notáveis físicos e matemáticos, permitindo-lhe postular que as possibi-

lidades de realização de medições empíricas diretas são consideradas propriedade essencial da própria grandeza física

No campo da ciência das medições, fortaleceram -se os fóruns científicos e tecnológicos interessados em, fina lmente, criar um sistema universal de unidades de medida, agregando não apenas os campos da mecânica e da eletricidade, mas incorporando os fenômenos térmicos, a termodinâmica, a fotometria, a radiometria e a química. Essa pode ser considerada a estratégia mais decisiva que viabilizou a integração das ciências, culminando com o entendimento universal da metrologia como ciência das medições ou como ciência da competitividade pela importância da technia como elemento de superação de barreiras técnicas impeditivas ao desenvolvimento do comércio internacional.

MA URIC IO N. FR OTA , da PUC-R], é Presidente da Sociedade Brasileira de Metrologia

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO
Secre t aria da Ciência , Tec n ologia e Dese n volvim en to Eco n ô m ico

ESTRATÉGIAS

Novos projeto s genom as à vista

A bactéria Gluconacetobacter: p r o d utivida d e

Depois de decifrado o código genético da bactéria

Xylella fastidiosa por pesquisadores de São Paulo e de a FAPESP estar financiando cerca de dez outros projetas semelhantes, dois novos trabalhos de seqüenciamento de genes de microrganismos foram anunciados. O Ministério da Ciência e Tecnologia decidiu criar a Rede Nacional do Projeto Genoma Brasileiro. "O objetivo é ampliar a competência em todo o país em infra-estrutura e capacitação de recursos humanos na manipulação da biologia molecular e da engenharia genética", explica Kumiko Mizuta, coordenadora-geral de Programas de

ME C cria

po rta l de peri ód icos ci entíficos

O Ministério da Educação (MEC) criou um portal para que a comunidade acadêmica de 71 instituições de ensino superior (IES) de todo o Brasil tenha acesso integral ao conteúdo de periódicos internacionais por meio da Internet. Até agora, apenas universidades e institutos do Estado de São Paulo tinham acesso às principais revistas científi-

Agropecuária e Biotecnologia, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O órgão está em fase de definição do microrganismo e de seleção de laboratórios. O prazo de execução do projeto é de um ano. Também a Fundação de Amparo à Pesquisa doEstado do Rio de Janeiro (Faperj) lançou o seu projeto genoma, o Riogene. O trabalho será decifrar o código genético da bactéria Gluconacetobacter diazotrophicus, que atua como fertilizante natural do solo e é importante para algumas culturas. O custo do projeto está estimado em US$ 5 milhões e deve durar 36 meses. •

cas por meio do Programa Biblioteca Eletrônica (ProBE), criado pela FAPESP. O portal do MEC vai beneficiar 550 mil professores e alunos de graduação e pós-graduação, que poderão acessar 1.500 periódicos da Academic Press e Elsevier. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) vai liberar R$ 1,5 milhão para compra de equipamentos de informática para montagem de ilhas de acesso

ao portal nas instituições federais. Segundo o presidente da Capes , Abílio Baeta Neves, os repasses serão feitos assim que os convênios com as instituições forem aprovados. "As ilhas de acesso beneficiarão, sobretudo, os estudantes, porque a maioria dos professores já tem acesso à Internet", afirmou. Por meio do portal, será possível acessar edições desde 1995 de importantes revistas, como Journal of Econometrics, International ]ournal of Heat and Mass Transfer, Physics Letters, Tetrahedron e New England ]ournal of Medicin, entre outras. O site para mais informações é www. periodicos. capes.gov.br. •

Estudante premiada no exterior

O congresso da Sociedade Americana de Crustáceo, realizado no México, premiou o trabalho de uma brasileira. Renata Biagi Garcia, doutoranda do curso de pós-graduação em Biologia Comparada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, recebeu o The Best Student Award pelo

estudo sobre o crustáceo Ermitão ( Calcinus tibicen) da região de Ubatuba, litoral de São Paulo. A pesquisa foi integralmente financiada pela FAPESP. Entre os 50 trabalhos selecionados, o dela concorreu com o de outros alunos de instituições de vários países, inclusive Estados Unidos, e ficou em primeiro lugar na categoria Pôster. O estudo foi apresentado na forma de um pôster de 1 metro por 1 metro com informações sobre a pesquisa, fotos da região e do animal, além de gráficos e tabelas com resultados. O crustáceo Ermitão tem um importante papel no ecossistema marinho e ocorre da Flórida até a costa brasileira. " O prêmio reconheceu o mérito do trabalho científico desenvolvido no Brasil", comemora Renata, que ganhou um certificado, uma anuidade para 2001 da Sociedade Americana de Crustáceo e um cheque deUS$ 50. •

Sa i nova edição de revista eletrônica

Está disponível para assinatura The ]ournal of Venomous Animais and Toxins, publicada pelo Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentas (Cevap), da Universidade Estadual Paulista (Unesp ), em Botucatu. O centro hoje está ligado à Faculdade de Medicina. Primeira revista eletrônica científica brasileira, The Journal of Venomous começou a ser feita totalmente em disquetes em 1995 e passou a CDROM em 1998, em edições

Renata Garcia: mérito reconhecido

CD: todas as edições em uma

bianuais, sempre em inglês, distribuída para pesquisadores da Sociedade Brasileira de Toxinologia e Sociedade Internacional de Toxinologia. "Desde o início optamos por traduzir todos os textos para o inglês para atingir os centros importantes que estão no exterior e não apenas os brasileiros", diz Heloisa Maria Pardini Toledo, editora de texto da revista. A e dição atual engloba as anteriores, de 1995 a 2000, e tem 131 documentos, entre papers originais, tese, e revisões. Para adquirir uma assinatura da revista basta acessar os sites www.cevap.org.br ou www.scielo.br/jvat. •

Laranjas com mais qualidade

Em dois anos, o mercado externo só vai aceitar frutas produzidas sob u m regime de produção com certificação de qualidade que garanta padrões mínimos exigidos mundialmente, como já vem ocorrendo há algum tempo com uva e manga Agora chegou a vez da laranja. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está iniciando o Projeto Estratégico de Produção Integrada de Citros do Brasil (PIFCitros), preparado com o objetivo de apoiar e revitalizar o negócio brasileiro de citros para exportação, que gira anualmente em torno de US$ 1,5 bilhão. Sua implantação vai beneficiar diretamente, numa primeira fase, 30 mil citricultores dos Estados de São Paulo, Sergipe e da Bahia, responsáveis por 70% da produção do país. O projeto abrangerá uma área equivalente a 10 mil hectares nos três Estados. A Embrapa avalia que, num futuro próximo, a ativi-

dade apresenta risco iminente de perda de mercado, em razão da crescente exigência do consumidor internacional por certificados que atestem a garantia de q u alida d e ambiental . O PIFCitros prevê uma aplicação total de R$ 6,7 milhões, sendo R$ 4,7 milhões oriundos do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, na forma de bolsas, e R$ 2 milhões de contrapartida da iniciativa privada Aderaldo de

ambientalmente corretos. "O sistema de Manejo da Produção Integrada é garantia da produção de alimentos seguros à saúde do consumidor associada à elevação da competitividade das empresas", afirma. Além de equipes da Embrapa e da Universidade Estadual Paulista (Unesp ), o projeto tem participação da Coopercitrus, Fundecitrus e Estação Experimental de Citricultura de Bebedouro, entre outros. •

Pl a ntação de la r anjas é o p ri ncipal a lvo do pro jeto

Souza Silva, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e líder no projeto pela estatal, diz que o trabalho vai apoiar os produtores de laranja na obtenção de padrões de produção

O lucro do caro coquetel anti-Aids

Enquanto as mais de 60 a compra e distribuição dos evitadas 146 mil internapesquisas em andamento medicamentos que com- ções de pacientes com Aids, realizadas com o objetivo põem o coquetel para tratar com uma economia de US$ de desenvolver uma vacina a doença. No Fórum 2000, 421 milhões. "A discussão não anti-Aids não surtem resul- que reuniu em novembro é apenas moral e ética, mas tado, o melhor é apertar ain- especialistas da América La- também econômica", diz da mais o cinto e gastar com tina e do Caribe para discu- Chequer. "No Brasil, o saldo tir a epidemia, Pedro Che- do investimento no tratamenquer - ex-coordenador do to já é positivo economicaPrograma Nacional de Aids mente." Segundo Badara e atual supervisor do Cone Samb, consultor da Unaids, Sul para Unaids, orga- o gasto anual com o coquenismo das Nações tel varia entre US$ 2,5 mil e Unidas - fez a se- US$ 9,1 mil por paciente. guinte conta: entre Entre os países da América 1997 e 1999, foram Latina e do Caribe, só Brasil, Uruguai, Argentina e VeCh eq ue r: o negócio nezuela oferecem os reméé pr eveni r dios gratuitamente. •

Pesquisadores ganham menção

Três projetas de pesquisa financiados pela FAPESP receberam menção homosa no Prêmio Governador do Estado deste ano. Josiane de Castro Dias, Fábio Santos da Silva e Evandro Luís Nohara estudaram aplicações de blindagem eletromagnética na área aeroespacial. Eles trabalharam nos Instituto de Aeronáutica e Espaço e no Centro Técnico Aeroespacial, de São José dos Campos. •

Jorn alismo ci en tífic o na Un icamp

A inscrição para o curso de especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp ) poderá ser feita até o dia 5 de janeiro. Mais informações no site www.uniemp.br/labjor. •

A arte ajuda a ciência

Na cerimônia de entrega do Nobel de 1980, o diretor Thomas Gover perguntou a seus colegas: "Vocês podem imaginar um exemplo em que um artista forneceu a peç a que faltava para alguma compreensão do mundo físico? " A arte não ofereceu nada à ciência, disseram os participantes. Robert S. RootBernstein, do Departamento de Humanidades Médicas da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, mostrou em artigo na revista Nature que eles estavam errados. Para o pesquisador, as artes contribuem freqüentemente para a ciência moderna. Os artistas muitas vezes inventam estruturas novas que os cientistas descobrem posteriormente na natureza. Virologistas tentando compreender, nos anos 50, a estrutura das capas de proteínas que envolvem vírus esféricos, como os da pólio, foram guiados pelo conhecimento das estruturas geodésicas do arquiteto norte-americano Richard Buckminster Fuller. O artista Wallace Walker, quando estudante nos anos 60, foi solicitado a fazer um objeto tridimensional a partir de uma folha de papel, com dobraduras e cola. A matemática Doris Schattschneider determinou que a escultura de papel de Walker era a primeira de uma nova classe de objetos geométricos hoje chamados caleidociclos. Muitas técnicas científicas se originaram também da arte . A anamorfose - mudança de forma- derivou da descoberta do desenho de perspectiva

na Renascença: a representação de um objeto tridimensional numa superfície plana. Essas transformações se tornaram centrais para D'Arcy Thompson e Julian Huxley - ambos descrevem processos evolutivos e embriológicos como distorções anamórficas. Mitchell Feingenbaum, um dos pioneiros da teoria do caos, acha que a compreensão de como um artista pinta poderá proporcionar os insights necessários para melhorar a ciência. "O que os artistas conseguiram foi perceber que só uma pequena parte do todo é importante, e só depois procuram ver qual é ela", diz Feingenbaum. "Por isso, eles podem fazer uma parte da minha pesquisa por mim."

MIT terá complexo sobre cérebro

O Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, vai erguer um complexo de prédios para estudar exclusivamente o cérebro. O objetivo é se tornar líder mundial nas pesquisas sobre neurociências. Já estão disponíveis

para investimento US$ 350 milhões, embora o custo dos prédios deva ultrapassar este valor. O complexo abrigará o novo instituto, três departamentos já existentes e um novo centro de imagens. •

Aldeias viram reserva genética

Algumas características especiais de moradores de dez aldeias do sul da Itália estão transformando a região numa reserva genética. Como os aldeões pouco se misturaram a populações de outras regiões e têm uma história genética que remonta diretamente aos

gregos, os cientistas querem saber se a análise do DNA desses habitantes poderá ajudar nas pesquisas sobre mal de Alzheimer, câncer, hipertensão e asma , entre outras. A idéia é tentar descobrir a origem de doenças herdadas por meio da identificação de diferenças genéticas em uma população homogênea. Os moradores das dez aldeias italianas concordaram em participar depois que os pesquisadores explicaram que o estudo poderá ajudar a desenvolver novos medicamentos. Os aldeões italianos não estão sozinhos. A empresa de biotecnologia australiana Autogen comprou do governo de Tonga, no Pacífico Sul, os direitos sobre a variedade genética dos 108 mil habitantes. Como eles vivem praticamente isolados, a corporação acha que os genes podem oferecer dados para as causas do câncer de mama, doenças do fígado e úlceras do estômago. •

França quer mais pesquisa na web

A Academia de Ciências da França entregou um relatório ao presidente Jacques Chirac pedindo maior divulgação dos

A perspectiva de quadros como Anunciação ( 1475), de Leonardo da Vinci, ajudou teorias científicas

Os doutores americanos de Cuba

Em outubro, os Estados Unidos passaram a permitir a venda de medicamentos para Cuba, pondo fim a 40 anos de sanções econômicas. Em Havana, a medida foi recebida com desdém pelo governo de Fidel Castro, segundo informa a revista Economist. Durante todos estes anos, o embargo norte-americano não impediu que C u ba construísse um sistema de saúde modelo e passasse a exportar médicos para outros países pobres. Em 2000, estima-se que existam médicos cubanos trabalhando em mais de 50 países. Cuba também se orgu lha de receber al unos de 19 países lat ino-ameri-

resultados de pesquisas públicas na Internet. "Se a Internet tem um papel a desempenhar para a economia e o comércio, tem também, desde sua origem, vocação para tornar-se plataforma universal de difusão da informação pública", enfatiza o documento. "As instituições sustentadas com dinheiro do contribuinte deveriam considerar que é parte integrante de sua missão colocar na rede os resultados que acumularem", recomenda o relatório. Gilles Kahn, diretor do Instit u to Nacional de Pesqui-

canos, que estudam medicina de graça na nova escola instalada nos arredores de Havana, com até a alimentação paga pelo governo. Agora, Fidel decidiu oferecer SOO bolsas para estudantes de medicina das regiões mais pobres dos Estados Unidos Bennie Thompson, congressista negro do Estado do Mississippi, aceito u a oferta: 250 norte-americanos negros e 250 latinos e indianos irão para Cuba. A oferta de Fidel parece algo extraordinário para um país com tantos problemas. Mas, lembra a Economist, é uma maneira espetacular de fazer boa propaganda da ilha.

quadrados em cinco blocos e está inserido no complexo cultural e educativo Cidade das Artes e das Ciências. O diretor da instituição, Manuel Toharia, explicou que a instalação parte de uma nova concepção de museu, em que não existem coleções próprias e permanentes, mas acervos que se renovam continuamente em períodos de seis meses a cinco anos. Estimase que o complexo cultural seja visitado por 3 milhões de pessoas quando estiver totalmente pronto.

Ciência russa

começa a se mover

sa em Informática e Automação, um dos autores do relatório, diz que não há nada de mais na reivindicação. "Trata-se de incitar os organismos públicos a informar via Internet os resultados de suas pesquisas."

Valência ganha Museu de Ciências

Depois de amargar uma década praticamente perdida, com orçamento reduzido a um quarto do que recebia nos áureos tempos do comunismo e perder para o exterior ou para a nascente iniciativa privada local 60% dos seus pesquisadores, a ciência russa dá sinais de que pode estar renascendo. Ainda não há motivos para grandes comemorações, mas o pior parece ter ficado para trás. Uma das primeiras medidas do presidente do país, o ex-espião da KGB Vladimir Putin, eleito em maio, foi extinguir o antigo Ministério da Ciência e Tecnologia e criar, em seu lu-

gar, uma superpasta. Trata-se do renovado e fortalecido Ministério da Indústria , Ciência e Tecnologia, que abriga mais de 1.400 empresas, sobretudo as do complexo industrial militar. A economia nacional, depois de anos de encolhimento, voltou a crescer. Resultado nos laboratórios: pela primeira ve z em quase uma década, o salário médio dos pesquisadores federais ultrapassou o dos trabalhadores em geral, batendo na casa dos US$ 80 - uma quantia ainda irrisória, mas crescente. Até o Prêmio Nobel de Física deste ano, dividido entre o russo Zhores Alferov, o alemão naturalizado americano Herbert Kroemer e o norte-americano Jack Kilby, serviu de estímulo para os ex-soviéticos espantarem o desânimo que imperava nas universidades. •

ESA escolhe novos projetos

O Museu de Ciências Príncipe Felipe, uma das maiores instalações do mundo no gênero, foi aberto em novembro em Valência, na Espanha O loca l tem 42 mil metros

Alfe r ov : Nobel ani ma r usso s

A Agência Espacial Européia (ESA) selecionou preliminarmente seis das 49 propostas de novos projetos de pesquisa. São eles: Telescópio Espacial de Próxima Geração, em cooperação com a Nasa, que deverá substituir o telescópio espacial Hubble em 2008; Storm, projeto de estudo das erupções solares; Solar Orbiter, sonda para pesquisa da superfície e da atmosfera do Sol; Eddington, satélite com telescópio para estudo das osci lações das estrelas e das passagens dos planetas ; Master, adaptação da Mars Express para sobrevoar Marte e asteróides; Hyper, para testar novos giroscópios atômicos e detectores de movimento de altíssima precisão; e Casimir, projeto de estudo da natureza fundamental do vácuo espacial. •

BOLSA

Uma revolução no pós-doe

APESP, que nos últimos anos tem procurado multiplicar e aperfeiçoar os mecanismos de inserção de recémdoutores no sistema paulista de pesquisa, soma agora um instrumento poderoso a seu arsenal de ataque ao velho problema da evasão de cérebros do país: uma nova política de pós-doutoramento.

Na verdade, essa política " vem dar continuidade e sistematizar diretrizes adotadas ao longo do último ano", diz o diretor científico da FAPESP, José Fernando Perez. Um de seus elementos básicos é considerar prioritária a linha regular de bolsas de pós-doutoramento no país, que passa a ter seu prazo máximo de duração estendido de dois para três anos. E outro: foi ampliada para quatro anos a duração máxima dessas bolsas quando vincu-

ladas a Projetos Temáticos, a Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) e aos programas de Apoio aJovens Pesquisadores, Genoma e Biota.

A nova política marca também uma reorientação no intercâmbio com centros de pesquisa no exterior, que, mais que o treinamento individual e de longa duração do jovem doutor, se dirige para os benefícios que esse intercâmbio possa trazer ao crescimento do grupo nacional de pesquisa a que o pós-doutorando es-

tiver integrado. Assim, possibilita-se a ele a realização de um ou mais estágios de pesquisa no exterior, com duração total de até um ano, desde que fique demonstrado que tais estágios podem trazer benefícios concretos aos projetos do pós-doutorando e de seu grupo de pesquisa. E os estágios serão permitidos sem que se subtraia o tempo neles consumido do prazo total de vigência da bolsa (em termos

práticos, um pós-doutorando com pesquisa ligada a um temático, por exemplo, além da bolsa de até quatro anos no país, pode ser apoiado pela FAPESP por até mais um ano em seus estágios externos).

Mais um ponto a destacar: dentro da nova política de pós-doutoramento, a figura do supervisor, um pesquisador mais experiente que acompanha de perto e colabora com

Nova política dá prioridade a bolsas de pós-doutoramento no país, amplia seus prazos de duração e reformula intercâmbio com centros de pesquisa do exterior

o trabalho do jovem doutor, também ganha mais importância.

Por essas vias, a FAPESP está dando forma a uma política que "alia o objetivo de assegurar aos jovens doutores processos de formação e aperfeiçoamento de alta qualidade à determinação de fortalecer os núcleos de excelência do Estado de São Paulo", diz Perez. E cria, nesse processo, opções novas e atraentes para a fixação dos jovens doutores no Estado. "Isso é fundamental, porque eles são, sem dúvida, o elemento mais precioso do nosso sistema

de pesquisa. Mantê-los no paíscompleta Perez - se apresenta hoje como o grande desafio para a expansão e a consolidação do sistema brasileiro de pesquisa ."

Dentro desse quadro, faz todo o sentido que deixem de ser consideradas prioritárias as solicitações de bolsas para pós-doutoramento no exterior encaminhadas por recém-doutores sem vínculo empregatício sólido com instituições de pesquisa do Estado ou sem bolsa de pós-doutoramento no país concedida pela FAPESP. E também que não mais se considere prioritária a concessão de bolsa de pesquisa no exterior a pesquisador firmemente vinculado a uma instituição de pesquisa paulista, por período superior a um ano.

Dentro da competição internacional - As novas decisões da FAPESP em relação ao pós-doutoramento somam-se a uma série de iniciativas anteriores que já visavam à criação de um ambiente favorável à absorção dos jovens doutores no sistema paulista de pesquisa - e, em conseqüência, à multiplicação dos grupos de excelência no Estado, capaz de transformá-lo num centro avançado de pesquisas, com clara inserção no sistema internacional de produção do conhecimento científico e tecnológico. Uma das iniciativas mais evidentes nesse sentido é o Programa de Apoio a Jovens Pesquisadores, lançado em 1995 e que, até outubro deste ano, apoiou 250 projetos, com investimentos de cerca de R$ 64 milhões. Nesse programa, um recém-doutor com currículo excelente e disposto a criar um novo grupo de pesquisa num centro emergente pode receber auxílio de valor significativo para seu projeto e, caso não tenha vínculo empregatício com a instituição na qual desenvolve suas atividades, também uma bolsa com duração máxima de quatro anos, além de uma soma anual destinada ao financiamento de viagens para participação em eventos e atividades de intercâmbio com centros no exterior.

Há que se considerar, no entanto, um contexto mais amplo no esforço da Fundação para evitar a evasão de cérebros do Estado para o exterior. E nele têm papel decisivo os projetas temáticos (hoje estão em andamento 250 desses projetos de pesquisa de grande porte, dos 520 aprovados desde 1990), grandes programas como o Genoma e o Biota e os primeiros dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão. Quando se soma isso às centenas de grupos de pesquisa apoiados nas linhas regulares de auxílios e bolsas da FAPESP, a conclusão obrigatória é que há, em São Paulo, "condições excelentes de treinamento e especialização para os recém-doutores, na grande maioria das áreas do conhecimento", como diz Perez. E condições, acrescenta ele, para que o sistema paulista de pesquisa possa absorver "cerca de mil doutores por ano': Registre-se que o Brasil forma anualmente cerca de 5 mil doutores, e São Paulo pouco mais de 60% deles- parte dos quais, depois de formados, volta a seus Estados de origem.

Centro atrativo de estrangeirosQue há boas condições de treinamento para recém-doutores em São Paulo, parecem confirmá-lo os estrangeiros de todos os quadrantes que fazem atualmente neste Estado seu pós-doutoramento. Quantos são eles? Mais de uma centena, com certeza, porque numa amostra de 104 temáticos, cujos coordenadores, em resposta a uma solicitação da FAPESP, informaram se contam ou não com pós-does estrangeiros, 42 deles confirmaram a participação de jovens doutores do exterior nos projetas sob sua responsabilidade, em numero variável de um a cinco. Os depoimentos desses estrangeiros são extremamente interessantes. Miguel Oscar Prado, por exemplo, um argentino de 42 anos, está fazen-

do seu pós-doe dentro do temático Problemas Decorrentes da Cristalização dos Vidros, no laboratório de Materiais Vítreos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), dirigido pelo professor Edgar Dutra Zanotto, que é também coordenador adjunto da diretoria científica da FAPESP. Sua área de pesquisa é a concorrência entre sinterização e cristalização de materiais vítreos, que queimam em alta temperatura. Doutorado no Instituto Balseiro da Universidade Nacional de Cuyo, Argentina, durante uma palestra em Buenos Aires Prado conheceu Zanotto, que o convidou para conhecer as pesquisas desenvolvidas em São Carlos. "Achei o trabalho de nível internacional e decidi pleitear uma bolsa para fazer o pós-doe no Brasil." Segundo ele, pesou em sua decisão a qualidade dos trabalhos científicos publicados pelo grupo de Zanotto, o nível de desenvolvimento das pesquisas, principalmente na área de cristalização, e o intenso contato do laboratório paulista com grupos na Alemanha, Rússia e Esta-

dos Unidos. Assim, ele chegou em outubro de 1998 com a mulher, três filhos e uma bolsa do Conselho Nacional de Ciência (Conicet) da Argentina, por um período de dois anos . A partir deste mês de novembro até outubro de 2001, ele tem uma bolsa da FAPESP e, em seguida, volta para a Argentina, por exigência do Conicet, por um período mínimo de dois anos. "Gostei do Brasil e gostaria de voltar. Pretendo continuar meu trabalho de pesquisa em conjunto com a equipe do laboratório da UFSCar", diz ele. Dirk Koedam, um holandês de 40 anos, está fazendo o pós-doutoramento dentro do temático Organização Colonial e Padrões de Reprodução em Abelhas Indígenas, coordenado pela professora Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, no Departamento de Biociências do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Ali ele desenvolve uma pesquisa sobre abelhas sem ferrão e sua importância para o meio ambiente, tema que o interessa desde os tempos de graduação na Universidade de Utrecht e que o ocupou também durante o doutorado, quando estudou as abelhas jataí, valendo-se inclusive de um intercâmbio com a Costa Rica. "Decidi vir para o Brasil,

Aliados poderosos

Os Estados Unidos andam preocupados com a situação de seus pós-doutorandos. Foi por isso que há cerca de dois meses a Academia Nacional de Ciências, a Academia Nacional de Engenharia e o Instituto de Medicina divulgaram diretrizes para melhorar a sorte dos jovens pesquisadores, que vinham reclamando com freqüência dos baixos salários, das longas jornadas e do parco reconhecimento ao seu trabalho. As diretrizes, segundo notícia publicada na Nature número 6801, de 14/09/2000, apareceram depois de uma extensa investigação do pro-

blema, ao longo do ano passado, de que resultou inclusive o relatório Enhancing the Posdoctoral Experience for Scientists and Engineers. Os pós-doutorandos nos Estados Unidos, segundo a revista britânica, situam-se num mundo nebuloso entre os estudantes de pós-graduação e os membros dos corpos docentes, geralmente sem nenhum status oficial. Em razão disso, raramente têm acesso aos benefícios concedidos a outros grupos e queixam-se de que sua condição indefinida os deixa vulneráveis à negligência e à exploração de chefes de laboratório.

primeiro, porque o t ipo d e abe lh a que era o meu alvo só se encon t ra aqui." Mas uma vez q u e "o Brasil está caminhan d o b em n o se n t id o de desven d ar o comportamen t o d essas abelhas", enquanto na Ho landa a situação de pesquisa em eto logia é difícil, ele faz planos de permanecer no país, onde já está h á quatro anos, embora sua bolsa só vá durar mais um ano . Imagina que poderia ficar dando aulas em universidades . Até porque tem um estímulo adic iona l para a permanência: sua namorada é uma brasileira, professora da Universidade Estadual Pau lista (Unesp). No caso da russa Marina Vachkovskaia, 25 anos, pós-doutoranda ligada ao temático Fenômenos Críticos em Processos Evo lutivos e Sistemas em Equilíbrio, no Instituto de Matemát ica da USP, as condições difíceis de tra b alho para os pesquisadores depois da dissolução da União Soviética foram um impulso decisivo para aportar no Brasil. Ela chegou em março de 1998, acompanhando o marido, Serguei Popov, 28 anos, que conseguira bolsa da FAPESP para seu pós-doe também na área de matemáti ca. Depois de um p eríodo, Marina o bteve um a b olsa do CNPq e, mais rece ntem ente, b olsa d a FAPESP para se d ed icar a um p ro jeto

As diretrizes das influentes academias que resolveram se aliar aos pós-doutorandos estão distribuídas em dez pontos, que são os seguintes: conceder reconhecimento institucional, status e remuneração apropriada; desenvolver políticas e padrões distintos para jovens cientistas; desenvolver mecanismos para regularizar a comunicação com orientadores, instituições, organizações financiadoras e associações; monitorar e fornecer avaliações formais de desempenho; garantir o acesso ao seguro-saúde; estabelecer limites para o tempo total de trabalho na condição de pós-doutorando; convidar jovens cientistas a participar da criação de

d e pesqu isa no campo d a Teoria d a Pro b ab ilidade . Para o casal de matemát icos, a bo lsa "re p resentava b astan t e dinh eiro", nu m mome n to em que na Rú ss ia não tinham cha n ces d e ganhar q u alq u er coisa. Agora, n u ma situação que ambos consideram m u ito boa, em q u e n ão poupam elogios à qua lidade do traba lh o científico do Instit uto de Matemática, inclusive pelo intercâmbio intenso com os nomes mais respeitados internacionalmente na área, o casal está disposto a permanecer no Brasil. Serg u ei Popov foi aprovado em concurso para dar aulas na USP e ela pretende seguir o mesmo caminho. "Queremos ter filhos brasileiros", planeja. Ambos apanharam um pouco para se adaptar e aprender o portugu ês . "Mas não tivemos maio res p rob lemas p orque n o In stituto d e Matemá tica t odo mun do fala inglês:'

A id éia de fica r n o p aís é recorrent e, co m o d emo n stra o exemp lo de

normas, definições e condições de exercício de seu trabalho; fornecer orientação concreta de carreira; melhorar a qualidade dos dados sobre concições de trabalho; e melhorar o processo de transição dos jovens pesquisadores para empregos regulares. Resta saber se os empregadores dos jovens cientistas vão seguir as recomendações. De qualquer sorte, para eles as diretrizes trazem um novo alento. "Acho que o endosso de instituições respeitadas vai fazer uma enorme diferença a nosso favor", disse Pauline Wong, presidente da associação de pós-doutorandos.da Universidade John Hopkins, em Baltimore.

O livier Franço is Vilpoux, um francês de 32 anos, que está fazendo seu pós-doe dentro do projeto temático Prospecção de Novos Amidos para a Indústria de Alimentos, coordenado pela professora Marney Pascoli Cereda, no Centro de Raízes e Amidos Tropicais, da Unesp de Botucatu. Apoiado numa medida do governo francês que permite aos alunos de curso superior substituir o serviço militar por trabalho de cooperação técnica remunerado, na área de sua especialização, Vilpoux, um administrador de empresas com mestrado na Universidade de Nancy, decidiu vir para o Brasil em 1993, aproveitando uma oferta inédita de vagas. "Fazia doutorado na França, cursando matérias na USP", diz. Defendeu sua tese de doutorado lá e logo depois iniciou sua pesquisa de pósdoutoramento dentro do temático, na Unesp, em projeto financiado pela FAPESP Casou-se e diz que fica no Brasil. O seu trabalho de pesquisa é desenvolvido junto a pequenos produtores de alimentos das regiões Su l e Sudeste e em algumas áreas d o Maran h ão Esses são apenas alguns exemplos, entre m ui tos ou t ros, da capac idade de at ração do sistema paulista de pesquisa, mesmo antes da nova política de pós - doutoramento. Com a mu d an ça das regras, a convicção n a FAPESP é de que não somente São Pau lo co n ti nu ará a exercer essa atração para fora, que garante uma certa irr igação do sistema, como principa lmen t e conseg u irá manter seus jovens do u tores dentro do Estado, formando e in t egran d o grupos d e exce lên cia, com proje t as de pesqui sa p róprios e inovadores, inser id os n o sist em a in ternacional de produ ção cie ntífi ca e t ecno lóg ica. •

ADMINISTRAÇÃO

Suporte às políticas públicas

Projetas aprovados consolidam parceria . . . . e tntctam pesqutsas

Assegurada a viabilidade dos projetas e consolidadas as parcerias com as organizações que vão implementá-los, 18 das 61 propostas aprovadas na primeira etapa do Programa de Pesquisas em Políticas Públicas (PP) passaram para a segunda fase: a da pesquisa propriamente dita. O programa foi lançado em 1998, para estimular o desenvolvimento de pesquisas focadas nas demandas da comunidade.

Todas as pesquisas que agora se iniciam têm, pelos próximos dois anos, que enfrentar o desafio de produzir e sistematizar conhecimentos, que contribuam para a definição e implementação de políticas públicas z relevantes e replicáveis, e de articular o trabalho acadê:> mico com as demandas das comunidades. "Na primeira fase, o objetivo era consolidar o formato do programa e a relação com parceiros, de tal forma que eles participassem efetivamente do desenho da pesquisa", diz Paula Montero, coordenadora do Programa de Políticas Públicas . Segundo ela, um importante critério para a aprovação dos projetas para a segunda fase foi a definição de um plano de transferência e divulgação científica que, encerrada essa etapa, garantisse a capacitação dos técnicos das organizações parceiras e assegurasse a continuidade do projeto, traduzido em política pública. "Os prognósticos são positivos", avalia Paula Montero.

A parceria com instituições, governamentais ou não, é um pressuposto

básico do Programa. Esse modelo de colaboração já se revelou bem-sucedido nos programas de Parceria para a Inovação Tecnológica, de melhoria do Ensino Público e de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas.

Durante a primeira etapa do Programa de Políticas Públicas, os proponentes de cada um dos projetas pré-qualificados tiveram o apoio

projeto vai medir nível de poluição por ozônio em áreas como o lbirapuera

financeiro da FAPESP para consolidar suas propostas. "Foram seis meses de trabalho intenso", lembra Antonio Carlos Coelho Campino, da Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo (USP) Ele é responsável pelo projeto que tem por objetivo avaliar e criar um modelo de monitoramento do processo de municipalização dos serviços de saúde em São Paulo e que será desenvolvido em parceria com o Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde.

A municipalização da saúde, em fase de implementação pelo governo

federal, transfere aos governos locais a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), tarefa nem sempre realizada com sucesso pelas prefeituras municipais, já que exige capacitação para o acompanhamento de recursos repassados pela União, cálculos de gastos per capita e um planejamento rigoroso de investimentos. O modelo de monitoramento que o projeto preten-

de formular será elaborado a partir de estudos da municipalização em 16 municípios selecionados na primeira fase, classificados por tamanho de população e condição de gestão do SUS, explica Campino. "Agora, vamos

Guardani:
Paula Montero : "Prognósticos positivos"

orientar o levantamento dos dados que serão coletados pelas prefeituras envolvidas no projetos e criar um modelo para apoiá-las no monitoramento deste processo", ele explica

Inquérito da saúde - Outro projeto aprovado na área da Saúde, coordenado por Chester Luiz Galvão Cesar, da Faculdade de Saúde Pública da USP, realizará um inquérito de saúde em cinco municípios da região da Grande São Paulo, Botucatu e Campinas, selecionados na primeira fase, em parceria com a Coordenação dos Institutos de Pesquisa da Secretaria

semelhante realizado há dez anos pela Secretaria de Saúde . O projeto coordenado por Lilia Blima Schraiber, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, também desenvolvido em parceria com a Secretaria Estadual da Saúde, tem como foco a saúde da mulher. Por meio da avaliação de ocorrência de casos de violência doméstica e sexual entre usuários de 20 Unidades Básicas de Saúde nas cidades de Santo André, Diadema e Mogi das Cruzes, na região da Grande São Paulo, pretende desenvolver uma tecnologia de atendimento

de Estado da Saúde. Os questionários serão aplicados também na região do Butantã, na capital, área de influência do Hospital Universitário e do Centro Saúde- Escola. Além da USP, também participam do projeto a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa, que será realizada em domicílios com uma amostra de 6.400 entrevistados, vai levantar os problemas de saúde ocorridos nos 15 dias que antecederam a aplicação do questionário e as soluções encontradas pela população. "Trabalharemos com morbidade referida e não com diagnósticos clínicos", ressalva o coordenador. Esses resultados serão comparados com os de um inquérito

Gaivão Cesar: inquérito de saúde avaliará acesso da população aos serviços

para programas de saúde da mulher. " Já existem serviços de apoio às vítimas de violência na área da Justiça, como, por exemplo, as Delegacias da Mulher. Este será o primeiro serviço na área da Saúde em todo o Brasil", revela Lilia Schraiber.

A violência doméstica, ela diz, tem forte impacto sobre a saúde da mulher, sendo responsável por casos de insônia, depressão, infecções urinárias e até por doenças sexualmente transmissíveis. Estudos realizados na Nicarágua em 1999 indicam que este problema se reflete também na saúde das crianças. "Se melhorar a qualida-

de do atendimento e da assistência, talvez seja possível enfrentar esse fenômeno." No primeiro dos dois anos previstos para a pesquisa, os profissionais que integram o projeto serão treinados para a aplicação dos instrumentos e pré-teste da pesquisa. "No segundo ano, analisaremos o material coletado para propor tecnologias em nível de atendimento", afirma a coordenadora.

Educação especial- Na área de Educação, já passaram para a segunda fase do Programa quatro projetos, entre eles o coordenado por Lisete Regina Gomes Arelaro, da USP, que vai avaliar o sistema público de educação especial em Campinas, em parceria com a Secretaria de Educação do município. "Campinas tem, proporcionalmente, o maior número de professores especialistas em educação especial, mas, contraditoriamente, a rede pública do município tem apenas 200 alunos especiais contra 2.500 alunos matriculados na rede privada", ela diz. A maioria dos professores, apesar de contratada pela prefeitura, está "emprestada" "'"!':'III- • z às escolas particulares de caráter filantrópico, proce" dimento autorizado por portaria do Ministério da Educação. "O nosso objetivo é desenvolver estratégias para ampliar o atendimento na rede pública, trazendo de volta alunos e professores " , explica . A estratégia a ser adotada prevê o desenvolvimento de um conjunto de ações que resgatem a confiança das famílias na qualidade dos serviços prestados pela escola pública e, ao mesmo tempo, estimulem as escolas a ampliar o número de matrículas especiais. A proposta inclui até uma espécie de campanha de marketing, com a produção de outdoors e vídeos sobre os direitos dos portadores de deficiências, que serão exibidos em locais de fluxo intenso de população, como, por exemplo, terminais de ônibus urbanos.

Políticas agrícolas - Dois d os projetos aprovados têm como foco o desenvolvimento d e políticas públicas nas áreas de Agricultura e Pec u ária . O primeiro, coordenado por Nelson Batista Martin, do Instit uto de Economia Agrícola da Secretaria de Agricultu-

ra e Abastecimen t o d o Estado de São Paulo, e que será implementado em parceria com a Prefeitura de Piraj u , prevê a elaboração de um plano d iretor para o municíp io . A idéia é desenvolver um sistema informatizado de análise e organização de dados para a

rea lização de um censo de imóveis rurais, cuja validade será testada em Piraju, mas que poderá ser utilizado em qualquer município. Na primeira fase do projeto, constatou-se, por exemplo, a existência de um grande número de pro-

Os já aprovados para a segunda fase

COORDENADOR INST.PROP.

ANTONIO CARLOS COELHO CAMPINO USP

CELIA REGINA DE GOUVEIA SOUZA SEMASP/I.GEOL.

CHESTER LUIZ GALVÃO CESAR USP

DILZA MARIA BASSI MANTOVANI SAGRSP/ITAL

JENER FERNANDO LEITE DE MORAES USP

JOYCE MARY ADAM DE PAULA E SILVA UNESP

LILIA BLIMA SCHRAIBER PUCSP

LISETE REGINA GOMES ARELARO USP

MARCOS SORRENTINO USP

MARIA ESTHER FERNANDES PART/UNAERP

MARTA SILVA CAMPOS PUCSP

NELSON BATISTA MARTIN SAGRSP/IEA

NEWTON ANTONIO PACIULLI BRYAN UNICAMP

RAQUEL ROLNIK PUCC

ROBERTO GUARDANI USP

SARAH FELDMAN USP

SERGIO LUIZ MONTEIRO SALLES-FILHO UNICAMP

SIGISMUNDO BIALOSKORSKI NETO USP

INSTITUIÇÃO PARCEIRA TÍTULO

Instituto da Saúde da Secretaria de Estado da Saúde

Secretaria do Meio-Ambiente do Estado de São Paulo

Coordenação dos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

Coordenadoria da Defesa Agropecuária

Prefeitura do município de Jundia í

Prefeitura Municipal de Rio ClaroSecretaria de Educação

Secretaria de Estado da Saúde

Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de Campinas

Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de São Paulo

Secretaria Municipal do Bem-Estar Social de Ribeirão Preto

Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania

Prefeitura Municipal de Piraju - SP

Prefe itura Mun icipal de Vinhedo / Sec retaria Municipal de Educação e Cultura

Instituto Pólis - Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais

CETESB - Cia. de Tecnologia e Saneamento Ambiental

Secretaria do Planejamento do Território e Meio

Ambiente da Prefeitura Municipal de Franca

Secretaria de Agricultura e AbastecimentoConselho Supe rior da Pe squisa Agropecuária

Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo - OCESP

Avali ação do proce sso de muni ci palização dos serviço s de saúde no Esta do de São Paulo

Sistema integrador de informações geoambientais para o litoral do estado de São Paulo com aplicação ao gerenciamento costeiro (SIIGAL)

Inqué rito de saúde no estado de São Pauloinqué rito domi cili ar de bas e popul ac ional em municípios do es ta do de São Paulo , 1999-2000

Avaliação da qualidade na piscicultura paulista I - avaliação química e microbiológica

Diagnósti co ag ro am bie ntal para gestão e mon itoramento da bacia hidrográfi ca do rio Jundi aí- Miri m

Subsídios para a implementação de um centro de aperfeiçoamento e inovações pedagógicas

Ocorrência de casos de violência doméstica e sexual nos servi ços de saúde em São Paulo e de senvolvimento de tecnologia de aten dimento para programa s de saúde da mulher

Diversidade e exclusão: conhecendo melhor quem as vivenda e construindo alternativas de inclusão

Avaliação de processos particip ati vos em program as de educ ação ambi enta l: su bsídi os para o del ineam ento de po lít ica s púb li ca s

Bairros periféricos: integração ou marginalidade? tentativa de diagnóstico do Universo de vida das camadas populares

Conso lidação da pol ítica de atendimento às vítim as da violência urb ana , baseada na dem and a real e na ação articul ada entre os diver sos setore s do Governo do Estado de São Paulo (Segu ranç a, Justiça e Cidadania , Saúde e Assistência Social )

Desenvolvimento de um sistema de suporte à elaboração de Plano Diretor Agrícola Municipal (PDAM)

Sistem atização de experiências , diagnó stico local e formulação de modelo de gestão para viabilização das novas competênci as do Si stem a Público de En sino Mun icip al no Estado de São Paulo

Programa de capacitação de agentes públicos e sociais para a formulação de políticas locais de regulação urbanística

Desenvolvimento de tecnologi a pa ra previsão de ozõn io na baixa atmosfera

Programas de gestão integrada para o município de Franca

Políticas Públicas para a inovação tecnológica na agricultura do Estado de São Paulo: métodos para avaliação de impacto s e priorização da pesquisa

Projeto de estabelecimento de uma política institucional de monitoramento da autogestão das cooperativas do Estado de São Paulo.

priedades com até 5 hectares, localizadas ao longo da represa que circunda o município, um uso intenso de tecnologia de hortaliças exploradas em estufas e áreas onde prevalece o plantio do café. Informações como essas, consolidadas num banco de dados municipal, permitirá aos pesquisadores elaborar pelo menos três cenários de políticas de desenvolvimento agrícola que serão apresentados às lideranças e ao Conselho Agrícola Municipal. "Trata-se de um sistema genérico, que poderá se adotado por qualquer município", ele garante.

O segundo projeto aprovado na área de Agricultura e Pecuária tem como meta estabelecer política institucional para o monitoramento da autogestão das cooperativas do Estado de São Paulo. Coordenado por Sigismundo Bialoskorski Neto, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, câmpus de Ribeirão Preto, o projeto tem como parceira a Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp). A proposta de trabalho é realizar um diagnóstico das 144 cooperativas agropecuárias z paulistas, avaliando o grau ll de sucesso e a capacidade de ::> arrecadação de cada uma delas, para quantificar o seu impacto na economia, conforme explica Bialoskorski Neto. "Os dados fornecidos pela Ocesp serão analisados por meio de Rede Neurais Artificiais (RNA), procedimento semelhante ao utilizado para medir risco de bancos e de países em desenvolvimento", explica o coordenador do projeto.

Monitoramento ambiental - Na área de Ambiente, dois projetas iniciam, agora, a fase de pesquisa. O projeto coordenado por Jener Fernando Leite de Moraes, do Centro de Solos e Recursos Ambientais do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), realizará um diagnóstico agroambiental para a gestão e monitora-

menta da bacia hidrográfica do rio Jundiaí-Mirim, que fornece 97% da água consumida na cidade de Jundiaí. O parceiro, no caso, é a prefeitura do município.

"Já realizamos uma avaliação das condições de solo, dos mananciais e da preservação das matas ciliares", afirma Leite de Moraes. Constatouse a prevalência de matas secundárias, poluição das águas por coliformes e uma forte pressão urbana que fragiliza o sistema hidrográfico, propiciando processos de erosão. Na segunda fase do projeto, a proposta é mapear culturas e associar, por exem-

plo, a variação dos índices de poluição às atividades agrícolas ou industriais desenvolvidas em áreas próximas aos mananciais, com o objetivo de subsidiar a formulação de políticas de proteção ambiental. Outro projeto na área de meio ambiente vai desenvolver um modelo que permitirá prever a formação de ozônio na baixa atmosfera em cidades densamente povoadas, como São Paulo. Coordenada por Roberto Guardani, do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP, a pesquisa será desenvolvida em parceria com

a Companhia Estadual de Tecnologia e Saneamento Ambiental ( Cetesb). A poluição por ozônio é de difícil controle, já que não é emitida por veículos, mas é formada por substâncias como o óxido de nitrogênio e em determinadas condições meteorológicas. Em São Paulo, por exemplo, uma das áreas com maior índice desse tipo de poluição é o Parque do Ibirapuera. "A poluição é levada pelo vento", justifica Guardani.

Além de conhecer melhor o fenômeno da formação do ozônio na atmosfera, o projeto vai criar uma espécie de serviço meteorológico,

com informações coletadas nas 30 estações de medição da Cetesb, que permitirá prever a ocorrência da poluição por ozônio com, pelo menos, um dia de antecedência. ''A população poderá se precaver e os riscos decorrentes da exposição, como problemas respiratórios e de pele, serão minimizados", afirma. A segunda fase do projeto prevê, ainda, a aquisição de uma estação móvel para a medição da poluição em áreas não cobertas pela Cetesb, com recursos financiados pela FAPESP.

Ao final de dois anos, prazo previsto para a execução das pesquisas, aquelas bem sucedidas irão para a terceira fase do Programa, de implementação, de responsabilidade da instituição parceira. •

avaliar casos de violência doméstica contra mulheres

INTERCÂMBIO

Acordos internacionais

Alemanha, França e Argentina alinhavam parceria tecnológica

Três delegações estrangeiras visitaram São Paulo com o objetivo de consolidar parceria e incrementar a cooperação com o Brasil.

A ministra da Educação e Pesquisa da Alemanha, Edelgarda Bulmahn, que esteve no Brasil para firmar convênios na área educacional e de cooperação tecnológica entre a Capes e o DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico), visitou o Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), no dia 3 de novembro, para conhecer o Centro de Estudos do Genoma Humano e o Projeto Genoma Xylella, patrocinado pela FAPESP e Fundecitrus. De acordo com o reitor Jacques Marcovitch, a visita teve como objetivo consolidar a colaboração internacional e avaliar a possibilidade de acordos de cooperação.

No dia 7 de novembro, uma delegação chefiada pelo geofísico Vincent Courtillot, diretor de Pesquisa do recém-criado Ministério da Pesquisa da França - desmembrado do Ministério da Educação Nacional , Pesquisa e Ciência, em março deste ano- esteve na FAPESP. Os franceses vieram reafirmar seu interesse em promover o intercâmbio de pesquisadores ou docentes-pesquisadores entre os dois países. Também foi debatida a possibilidade da criação de laboratórios conjuntos, que seriam compartilhados por pesquisa-

ração científica com o Brasil é uma prioridade. Queremos estreitar laços científicos com poucos países, inicialmente em poucas áreas", disse, citando as de genômica, bioinformáti-

ca, ciências ambientais, ciências dos materiais, ciências sociais e estudos multidisciplinares de problemas urbanos. Os diretores da FAPESP e a delegação francesa se comprometeram a, nos próximos meses, escolher duas ou três áreas de interesse comum para fomentar novos projetas binacionais.

Edelgarda Bulhmahn (acima) visitou o Centro de Estudos do Génoma Humano; delegação francesa negocia intercâmbio de pesquisadores (ao lado), e Bordón busca parceria para integração (abaixo)

A FAPESP e a Comisión de Investigaciones Científicas (CIC) da Província de Buenos Aires, Argentina, também estão preparando convênio de cooperação científica e tecnológica que deverá incluir o intercâmbio de grupos de pesquisadores, a realização de projetas conjuntos de pesquisa e a vinculação da investigação científica e tecnológica aos setores produtivos dos dois governos O convênio está previsto na Carta de Intenção firmada entre o secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, José Aníbal, e o diretorgeral de Cultura e Edudores dos dois países, com sede aqui ou na França. "Pode ser uma boa idéia", afirmou José Fernando Perez, diretor-científico da FAPESP.

No ano passado, o então ministro da Educação, Claude Allegre, já havia estado em São Paulo com esse mesmo intuito. "Houve algumas mudanças de ordem estrutural nos ministérios da França, mas continuamos com o mesmo discurso': disse Courtillot. "Para nós, incrementar a coope-

cação da Província de Buenos Aires, Argentina, José Octavio Bordón, no dia 9 de novembro. O acordo tem caráter estratégico e, segundo Bordón , é fundamental na consolidação e fortalecimento do processo de integração dos países do Mercosul, além do Chile e da Bolívia. "Precisamos fortalecer as relações com o Brasil para, juntos, construirmos uma América do Sul mais forte", afirmou. •

As publicações científicas brasileiras estão ao alcance de suas mãos. Não importa em que parte do mundo você esteja

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COOPERAÇÃO

Parceiros na pesquisa da Xylella

Pesquisadores vão decifrar código genético de mais duas bactérias

Os pesquisadores da rede ONSA (Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos) que participam do projeto Genomas Ambientais e Agronômicos mal tiveram tempo de se debruçar sobre seus dois empreendimentos atuais- decifrar o código genético de duas bactérias, da variante da Xylella fastidiosa que destrói as videiras e da Leifsonia xyli subsp.xyli, que ataca o talo da cana-deaçúcar- e já foram requisitados para mais duas missões. Os membros da rede virtual de laboratórios de pesquisa genômica criada pela FAPESP foram convidados pelo Joint Genome Institute (JGI), consórcio de laboratórios americanos com sede em Walnut Creek, na Califórnia, a auxiliá-lo na tarefa de desvendar o DNA de outras duas cepas da Xylella: a que acomete a amendoeira e a que se instala numa planta ornamental popularmente conhecida como espirradeira ou oleandro (Nerium oleander).

Pelo acordo verbal, fechado no fim de outubro, caberá aos brasileiros o trabalho de realizar a anotação do genoma dessas duas variantes da Xylella, cujo seqüenciamento puro e simples está sendo feito pelos próprios pesquisadores do JGI. Ou seja, os cientistas da ONSA vão identificar, entre os milhões de "letras químicas" (os pares de base) que compõem o genoma, as receitas que regulam a produção de proteínas, interpretando e analisando os dados brutos fornecidos pelos seus colegas californianos. No início de novembro, o JGI anunciou que acabara de terminar "rascunhos de alta qualidade" con-

tendo 95% das seqüências genéticas dessas duas variedades da Xylella e de mais 13 bactérias •

Em meados de dezembro, os pesquisadores brasileiros vão aproveitar uma viagem a Davis, Califórnia, onde participarão de um workshop com especialistas em Xy lell a, para discutir os detalhes finais dessa nova parceria. Falta definir sobretudo se, além da anotação, os pesquisadores brasileiros também se encarregarão da tarefa de preencher as lac u nas não cobertas pelo seqüenciamento feito no JGI, os 5% de material genético não mapeado. O acordo de cooperação não envolve valores monetários, apenas a troca de conhecimentos e esforços. "O convite de cooperação é um reconhecimento do nível de nosso trabalho. Podemos fazer a anotação sem problemas, mas preencher esses buracos é algo demorado Temos prazos

a cumpnr nos nossos proJetas': afirma Marie-Anne Van Sluys, do Departamento de Botânica do Instituto de Biocências da Universidade de São Paulo (USP), uma das coordenadoras do projeto da Xylella da videira.

"A cooperação é interessante porque teremos a chance de comparar diferentes linhagens dessa bactéria", diz Mariana Cabral de Oliveira, co lega de departamento de Marie-Anne e também coordenadora do projeto da Xylella das parreiras "Será um novo desafio Com esse intercâmbio, poderemos fazer mapas comparando os genes de todas as variedades de Xylella seqüenciadas por nós e pe los americanos", afirma João Paulo Kitajima, da Universidade Estadual de Cam-

pinas (Unicamp ), coordenador de bioinformática da Xylella da uva Em tempo : os pesquisadores paulistas foram os primeiros no m u ndo a decifrar o genoma completo de uma variedade da Xylella, a dos citros, causadora da praga do amarelinho que ataca os laranjais, num já célebre trabalho que mereceu capa da Nature, uma das mais renomadas revistas científicas do mundo .

O convite do JGI mostra que a relação com a rede ONSA, que se iniciou com um caráter claramente competitivo, pode evo luir para um patamar mais cooperativo. Vale a pena lembrar a recente disputa envolvendo os dois centros Numa batalha de palavras que extrapolou o âmbito dos laboratórios e ganhou as páginas dos jornais brasileiros, o JGI se colocou, alguns meses atrás, como principal concorrente da rede Onsa na disputa pelo projeto de seqüen-

Doenç a de Pie r ce destrói videi ra s da C a lifó r n ia

ciamento da Xylella das parreiras - iniciativa de grande interesse e em parte financiada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que tenta deter o avanço da doença de Pierce, causada por essa bactéria, na Califórnia, principal região produtora de vinhos nobres nesse país. Na ocasião, diretores do instituto chegaram a afirmar que teriam condições de realizar a

leitura do DNA da bactéria em muito menos tempo do que a rede da FAPESP. Primeiro, disseram que precisariam apenas de duas semanas para tal tarefa. Depois, baixaram o prazo para 24 horas Como o JGI não se comprometia a fornecer a anotação do material genético da bactéria da uva, justamente a parte mais analítica e refinada de qualquer esforço de desvendamento do DNA de um ser vivo, o USDA preferiu apostar suas fichas na ONSA.

Primeiros resultados - O projeto de seqüenciamento da Xylella das videiras, um investimento de US$ 500 mil bancado meio a meio pela FAPESP e pelo USDA, já apresenta os primeiros resultados. Até o dia 16 de novembro, os cinco centros que coordenam o trabalho dos 20 laboratórios envolvidos na iniciativa contabilizavam 20.375 seqüências já depositadas no banco de dados, quase 40% do número total de seqüências previstas paras serem mapeadas durante o proje-

JGI, um gigante da genômica

O Joint Genome Institute (JGI), apesar de operado pela Universidade da Califórnia, é um instituto do Departamento de Energia norte-americano (DOE). Ao lado dos Institutos Nacionais de Saúde (NIHs), o DOE é o segundo grande órgão americano envolvido no consórcio público internacional que toca o Projeto Genoma Humano. E o JGI é o braço do DOE que atua no Projeto Genoma e em outras iniciativas genômicas. Concebido em 1996 e formalmente criado no ano seguinte, o JGI nasceu com a missão de conjugar os esforços de três bem-sucedidos centros de pesquisa envolvidos há mais de uma década no Projeto

Genoma Humano: os laboratórios nacionais Lawrence Berkeley, Lawrence Livermore (ambos na Califórnia) e o de Los Alamos (no Novo México). Quando se diz bem-sucedidos, não há nenhum exagero na expressão. As contribuições dadas por essa trinca de laboratórios nas áreas de mapeamento físico e seqüenciamento de genomas, seus pontos fortes, fazem do JGI um consórcio de altíssimo pedigree científico. Apenas um exemplo basta para dar a dimensão desse gigante: em abril deste ano, o JGI divulgou o rascunho de três cromossomas humanos, os de número 5, 16 e 19. Genes desses cromossomas devem estar ligados à

to. Nesse tipo de iniciativa, os pesquisadores geram uma quantidade de seqüências muito maior do que o necessário para simplesmente mapear de forma superficial um genoma Eles procedem dessa maneira para reduzir ao máximo, ou até mesmo eliminar, trechos do DNA não lidos pelas máquinas de seqüenciamento e obter dados mais confiáveis. Por isso, apesar de o genoma da Xylella ter cerca de 2,7 milhões de bases, os pesquisadores vão seqüenciar 24 milhões de bases. Na prática, isso equivale a dizer que cada base do DNA da bactéria vai ser lida oito vezes -e não apenas uma. Até o final de dezembro, 95% do genoma da Xylella deverá ter sido mapeado. Em fins de janeiro, todo o trabalho deverá ter sido concluído, abrindo espaço nos seqüenciadores para o DNA da Leifsonia, a próxima missão da ONSA. •

ocorrência de doenças nos rins, câncer de colo, reto e próstata, leucemia, hipertensão, diabetes e arteriosclerose.

O JGI emprega 240 pessoas. Metade de seus funcionários fica na sede em Walnut Creek e metade nos três laboratórios do instituto. Para cobrir todas as etapas do processo de mapeamento de um DNA, além de contar com os serviços de seus três laboratórios membros, o instituto mantém parcerias com outros laboratórios nacionais: Oak Ridge (para anotação de genoma), Brookhaven (biologia molecular) e Pacific Northwest (estudos do proteoma, conjunto de genes responsáveis pela formação de proteínas). O Centro de Genoma de Stanford é outro parceiro do JGI. I '

Queimada de parreiral na Califórnia, atacado por Xylella

Expedição à Pré-História

Em jan eiro e fevereiro d e 200 1, 20 p aleontólogos d o Muse u Natural do Rio de Jan eiro, acompanhados d e uma equ ipe de logística e outra d e fi l magem, visitarão a Pré-História no interior do Bras il . Eles vascu l harão áreas ricas em fósseis de d inossauros em oito Estados brasi leiros do Norte e Nordeste na maior operação montada n o país para procurar vestígios

d esses animais, extintos h á Sérg io Azevedo : "Os recursos virão da inic iat iva privada " 65 milhões de anos. Dois meses é o tempo p revisto para realizar as filmagens do documentário - as pesqu isas já vêm ocorrendo há m ais de dois anos e vão continuar por te m po indeterminado. Além do doeumen t ário, serão produz id os u m livro de arte e uma coleção de livros infantis sobre dinossauros. O coorde-

Plantas têm ação comprovada

Um pesquisador de Santa Catarina comprovou cientificamente o poder curativo de três plantas nativas: a rosado-campo (Mandevilla illustris), o sarandi negro (Sebastiania schottiana) e a amora branca (Rubus imperialis). A primeira é originária de Minas Gerais e as outras duas de Santa Catarina. ''A rosa-do campo já era indicada pela medicina popular contra processos inflamatórios e picada de cobra, o sarandi negro pode ser usado para eliminar cálculos renais e é eficaz nos processos

nador da expedição, Sérg io Azevedo, espe r a enco nt rar novas espécies. "A abu ndância de fósseis nas áreas selecionadas é notável e com uma equipe atenta podemos achar mater ial descon h ecido", diz Azevedo. "Agora, p ode não ap arecer nada de novo." O projeto Em Busca d os Di n ossauros

dolorosos e a amora branca também funciona contra dor e diabetes", exp lica Rivaldo Niero, professor do curso de Farmácia do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Além da Univali, ele recebeu apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Programa Institucional de Capacitação Docente e Técnica (PICDT), ambos do Ministério da Educação (MEC) . O estudo levou quatro anos, custou cerca de R$ 50 mil e, segundo Niero, há uma empresa alemã interessada no trabalho. •

cust ará R$ 936 m il e é uma parceria d o muse u , da empresa Fogo-Fátuo Expedições, que cuidará da logística, do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério da Ciência e Tecno log ia Os pa leo n tó logos são to d os professores d a Univers id ad e Fe d er al d o Rio d e Jan eiro (UFRJ). •

Porcos maiores, macios e resistentes

Uma equipe de veterinários da Universidade Federal de Viçosa (UFV) trabalha para conseguir porcos maiores, com carne mais macia e resistente a doenças. Simone Guimarães e Paulo Sávio Lo-

pes desenvolvem o Programa de Identificação Genômica em Suínos (Pigs) e devem, até 2001, achar os genes responsáveis por essas qualidades para ajudar a acelerar o melhoramento genético e a produtividade Os pesquisadores cruzaram as duas linhagens comerciais- os suínos de pele branca, po u ca gordura e crescimento rápido com as raças nativas, os porcos pintados, que crescem devagar, comem m u ito e acumulam gordura. Os suínos respondem por quase a metade da carne consumida no planeta e são muito estudados em todo o mundo. "Temos um material valioso nas mãos", diz Simone. •

Nova bactéria produz plástico

O Brasil poderá ganhar um mercado promissor num futuro próximo: o de plástico biodegradável de cana-deaçúcar. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), ligado ao governo do Estado de São Paulo, identificou uma nova bactéria, a Burkholderia sacchari, isolada em solo de plantação de cana, que produz esse tipo de plástico. "Agora estamos trabalhando para aumentar a produtividade da bactéria", diz a pesquisadora Luiziana Ferreira da Silva, do IPT, que coordenou as atividades de microbiologia do projeto. "Há nichos importantes que poderão usar o produto a curto prazo, como a área de medicina, por exemplo" afirmou Luiziana. •

PER CIO CAMPOS I O GLOBO

Demorou dois anos, mas valeu a pena. Depois que a nave Soyuz entrou em órbita com os três tripulantes a bordo, rumo à Estação Espacial Internacional (ISS), americanos e russos se abraçaram, numa cena inusitada. O local da decolagem foi em Baikonur, no Casaquistão -o mesmo lugar onde a era espacial começou, há 42 anos, com o lançamento do primeiro satélite artificial, o soviético Sputnik. No dia 30 de outubro, o comandante americano Bill Shepherd e os russos Sergei Krikalev e Yuri Gidzenko partiram para a temporada inaugural da ISS, num projeto conjunto que está sendo considerado o início de uma nova época no conhecimento do espaço. "A partir de agora, estaremos sempre com pessoas orbitando a Terra", disse Daniel Goldin, diretor da Nasa, a agência espacial norte-americana. "Construiremos bases em Marte, na Lua e até em asteróides." O projeto internacional reúne 16 países, o Brasil entre eles, e custará US$ 60 bilhões no total, até sua montagem final prevista para 2005. Nas primeiras semanas, a tripulação trabalhou para colocar a casa em ordem: instalou cabos, monitores, ativou os sistemas de geração de energia e oxigênio. Eles ficam na estação até fevereiro, quando a equipe será trocada. A ISS substitui definitivamente a Mir, a estação russa que ficou 14 anos no espaço, embora fosse projetada para durar apenas três anos. Nesse período, ela recebeu 62 astronautas de 11 países, além dos cosmonautas russos, e abrigou 23 mil experiências científicas. Agora, o governo da

Quando pronta, a ISS terá o mesmo espaço de um Boeing

747. Sergei, Bill e Yuri serão substituídos em

Rússia já avisou que ela deverá cair a qualquer momento no Oceano Pacífico e se espalhar por uma área de 9.600 quilômetros por 200 quilômetros. A maior parte da Mir deve incendiar-se ao entrar na atmosfera. •

Estudo so b re mor ro s do Re cife

A prefeitura do Recife encomendou um estudo que pode ajudar a evitar os previsíveis desmoronamentos em morros da capital pernambucana

O sono regulado pelo fígado

o peixe-zebra (Brachydanio rerio), chamado no r' Brasil de paulistinha ou bandeira-paulista, pode ajudar a humanidade a dormir melhor. Pesquisadores da Universidade Louis Pasteur, em Strasbourg, na França, verificaram que essa espécie, originária da Índia, possui relógios biológicos periféricos Encontramse principalmente nas células do fígado, coração e rins e ajudam a controlar o ciclo circadiano, que regula a ai-

Pauli s ti nh a: es pe rança ternância entre vigília e sono. Os resultados dos experimentos sugerem que essas células possuem fotorreceptores, sujeitos à influência da luz. O mecanismo de controle periférico pode permitir a criação de terapias para os distúrbios de sono que surgem quando o relógio circadiano está desajustado •

durante a temporada de chuvas. A professora Margareth Alheiras, do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialista em riscos geológicos urbanos, catalogou as áreas de risco. A maior incidência de deslizamentos ocorre nas áreas onde houve intervenções importantes na região, como aterro e obstrução do caminho das águas, fatores que comandam o processo de instabilidade. "As fortes chuvas são, então, o gatilho que deflagara os desmoronamentos", diz Margareth. A maior dificuldade dos técnicos é evitar o deslizamento sem tirar todas as pessoas do morro. "Como os morros já são áreas ocupadas (SOO mil pessoas no Recife, 900 mil na região metropolitana), ainda estamos buscando soluções para resolver o problema de modo mais adequado à realidade local'; explica a pesquisadora. •

O alto vô o do s in se t o s

O Institute of Arable Crops Research, em Rothamsted, na Grã-Bretanha, descobriu que os insetos voam bem mais alto do que se pensava, segundo revelou a revista New Scientist. Usando um radar de ondas verticais, a equipe do entomologista Jason Chapman achou insetos em altitudes de até 1.200 metros. O fato deverá mudar os conceitos sobre migração em massa. "Até agora, não se acreditava nesse tipo de movimento", disse Jason Chapman. Os pesquisadores suspeitam que os insetos voam alto para aproveitar os ventos mais fortes. O resultado do estudo ainda está sendo preparado pelos pesquisadores para publicação em revista especializada. •

Os a uitetos da

O conhecimento acumulado pelos pesquisadores do Genoma Cana complementa as técnicas de melhoramento genético tradicional e mostra como desenvolver variedades mais produtivas e resistentes a pragas

a-de-açúcar ideal é realizável. Mais produva, resistente a pragas e doenças, tolerante à eca e a herbicidas e eficiente na absorção de nutrientes a ponto de sobreviver mais facilmente em solos ácidos ou pouco férteis, poderá tomar forma a partir das descobertas do Genoma Cana, que está chegando ao fim, um ano e meio após ter sido anunciado publicamente. Os 240 pesquisadores que estão trabalhando nesse projeto -o primeiro seqüenciamento de um vegetal realizado no Brasil- identificaram cerca de 80 mil genes que dão um mapa completo de como a planta vive, se reproduz e morre - e, devidamente manipulados, podem viabilizar essas características tão sonhadas pelos fazendeiros e fabricantes de açúcar e álcool.

A cana redesenhada já tem data para nascer. "Em dois anos, devem estar prontas, pelo menos em laboratório, as primeiras variedades de cana resistentes a duas pragas, a bactéria Leifsonia xyli e o fungo-do-carvão", anuncia Paulo Arruda, coordenador de DNA, que está à frente de uma rede de 60 laboratórios, 22 deles atentos ao seqüenciamento e outros 48 dedicados à mineração ou prospecção de dados, o chamado data mining. "Podemos sonhar ainda mais alto", diz Éder Giglioti, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ainda não é a prioridade, mas, segundo ele, já se pode pensar em utilizar a cana-de-açúcar como biorreator, capaz de produzir não apenas açúcar e álcool, mas também compostos químicos

de interesse para a indústria farmacêutica, como já começa a ser feito em outros países.

Em breve, o Genoma Cana ou Sucest, do inglês Sugarcane EST, deverá abrir-se em duas vertentes. De um lado, deve-se fortalecer a pesquisa aplicada, em busca de novas variedades de cana. De outro, prosseguem os estudos básicos, voltados para uma compreensão mais aprofundada dos biológicos da cana. Arruda imagina que essas duas linhas vão se cruzar e se beneficiar continuamente. "Vamos unir a fronteira do conhecimento científico com a busca de resultados': diz ele. A novidade é a participação dos produtores de açúcar e álcool, com quem ele tem conversado intensamente nos últimos meses. Seus objetivos: identificar os problemas específicos a serem trabalhados com as informações colhidas no Genoma Cana e conseguir novos parceiros que possam financiar uma parte das pesquisas nessa nova fase. "Queremos que esse trabalho ajude a resolver problemas concretos", diz. Com esse enfoque, devem ser ainda mais valorizadas as pesquisas de três laboratórios de melhoramento genético, que já participavam do Genoma e mantêm contatos freqüentes com os plantadores de cana. São eles: o Centro de Tecnologia da Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo ( Copersucar), que nessa etapa inicial contribuiu com cerca deUS$ 400 mil para o projeto, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Centro de Ciências Agrárias da UFSCar, em Araras, construído a partir das instalações do Plano

Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar (Planalsucar), extinto no início dos anos 90.

Feitas as contas, o Genoma Cana deverá terminar quase um ano antes do prazo previsto e custando a metade dos US$ 8 milhões aprovados pela FAPESP. A economia resulta, em parte, da infra-estrutura já instalada e da experiência da equipe: dos 32 laboratórios iniciais, 15 do grupo de seqüenciamento e oito do data mining haviam participado do Genoma Xylella, projeto pioneiro de seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, concluído no início do ano, que pôs a comunidade científica nacional na linha de frente da genômica mundial.

Réplicas dos clones da cana, da Xylella e, futuramente, de outras duas bactérias, a Xanthomonas citri e a Leifsonia, cujos mapeamentos se encontram em andamento, vão ficar no Laboratório de Estocagem e Distribuição de Clones, que deve começar a funcionar no próximo mês no campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal, e faz do Brasil um

fornecedor de material genético para o mundo (ver box).

Os pesquisadores superaram a meta inicial de 50 mil genes ativos ou expressos, diretamente associados ao metabolismo da planta. Já se conhece a função de dois terços desse total, por causa da semelhança apresentada com os genes de outros organismos, descritos em bancos de dados internacionais. A outra parte é ainda mais importante: um terço dos genes encontrados é inédito, sem equivalente em outros organismos

-pode residir aí a origem das características mais peculiares da cana. É uma montanha de informações que os pesquisadores pretendem organizar, até dezembro, na forma de um gene index, uma relação dos genes da cana agrupados por função. Há 40 categorias estruturadas e 15 mil genes já classificados, entre eles de oito a dez associados à produção de sacarose, cuja ação pode a princípio ser facilitada em busca de uma cana mais doce.

Comparações - O trabalho de análise de dados, o data mining, implica passar horas diante do computador à procura de semelhanças genéticas entre a cana e outras plantas e mesmo outras espécies, incluindo microrganismos, animais e o homem. Uma autêntica garimpagem: há cerca de SOO projetos de seqüenciamento em andamento no mundo- da maçã ao gato doméstico. Foi assim que, na Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, em Botucatu, Eiko Eurya Kuramae encontrou 240 genes

Clones do Brasil para o mundo

Prestes a ser inaugurado, o Laboratório de Estocagem e Distribuição de Clones ou Brazilian Clone Collection Center (BCCC), em Jaboticabal, vai manter os clones gerados nos projetos genoma a sete chaves, em uma sala climatizada a 20 graus Celsius, com parede dupla recheada de isopor, dentro de oito freezers man-

tidos a 86 graus Celsius negativos, sob vigilância permanente. Quando chegarem pedidos de clones, um sistema robotizado dotado de uma câmera de vídeo vai coletar bactérias na placa de petri e organizar as amostras em microplacas, com 96 ou 384 orifícios, ou em membranas de alta densidade, a serem usadas

O Brasil lidera

O Genoma Cana está na frente entre os projetes de seqüenciamento de plantas no mundo*

Cana (Sucest)

*os números indicam o total de seqüências (ESTs) realizadas

relacionados à produção de substâncias de defesa contra patógenos (fungos, vírus, bactérias) e insetos.

Com eles, Eiko chegou a um modelo de como a planta age diante de um ataque externo - um conhecimento estratégico quando se pensa em desenvolver plantas mais resistentes a pragas. É uma luta difícil, de lado a lado. Quando atacada, a planta procura impedir a entrada dos microrganismos. Se não consegue, produz substâncias tóxicas que inibem o avanço dos invasores (ver ilustração na página 32). Segundo ela , as reações dependem dos sistemas de interação com o patógeno, da idade, do tecido atacado e das condições de nutrição da planta. "O controle genético de resistência a patógenos em plantas é deter-

nos experimentos de manipulação genética.

É o primeiro laboratório do gênero na América Latina. Montado a um custo deUS$ 240 mil, vai funcionar em moldes semelhantes aos bancos da American Type Collection Clones (ATCC) ou do Image Consortium, dos Estados Unidos. Poderá atender a instituições públicas de pesquisa ao preço de custo, hoje entre US$ 30 e US$ 50, sob o

minado pela interação gene a gene", diz Eiko. "A resposta de resistência é induzida somente se o patógeno codifica um gene de avirulência específico, o avr, e a planta carrega um gene correspondente de resistência, o R." A doença ocorre somente se o gene R da planta e o avr dos invasores não existem ou são inativos.

a dessas substânas, o ácido jasmôico, Vicente Eugênio de Rosa Jr., co-orientado por Eiko, dedica seu doutorado. Sobre outra, o ácido salicílico, trabalha Marleide de Andrade Lima em seu pósdoutoramento Esses estudos nesse campo têm aplicações práticas: o sistema de defesa da planta pode ser ampliado pelo aumento da expressão dos genes associados à produção dessas substâncias de defesa.

Quem também trabalhou com as substâncias de defesa, com um enfoque complementar, foi Suzelei de Castro França, na Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp ) . Estudando os genes expressos da cana, ela descobriu que cada tecido da cana apresenta reações diferenciadas contra patógenos, predadores ou ferimentos em geral, valorizando ora Úm, ora outro composto químico, de acordo com a situação (ver ilustração na página 33). No momento, Suzelei concentra-se no estudo da sinalização celular, o mecanismo pelo qual os diferentes órgãos da cana secomunicam entre si, e aos poucos cria alternativas para a manipulação da produção das substâncias ligadas ao estresse.

compromisso escrito de que o material só será usado com finalidades acadêmicas, sem fins comerciais. "Dentro de três anos, o laboratório terá de ser auto-suficiente", afirma Jesus Aparecido Ferro, um dos coordenadores do Genoma Cana que vai cuidar do novo laboratório.

Segundo ele, empresas e instituições particulares de pesquisa devem receber um tratamento diferenciado. "Um comitê supervisor

vai analisar se o clone poderá ou não ser vendido", diz. "Em um caso extremo, o pedido poderá ser recusado." E, acrescenta, como medida de segurança, vão seguir apenas o nome do gene e a indicação de homologia (semelhança) do gene solicitado com os de outros organismos. "A seqüência de bases, fundamental aos estudos de manipulação genética, permanecerá confidencial", afirma Jesus Ferro.

Fonte: CBMEG/Unicamp

Do ponto de vista agro n ô m ico, isso significa plantas mais sadias, resisten t es a inte m péries e, portanto, plantações mais rentáveis.

Funções essenciais - Pode-se ter a falsa impressão de que o interior da célula não exibe mais segredos, tal a familiaridade com que os pesquisadores falam das intimidades da cana e acrescentam novidades ao conhecimento já estabelecido. Um exemp lo é a mitocôndria, um compartimento da célula que tem uma tarefa já atestada, a prod u ção de energia. Mas Francisco Gorgônio da Nóbrega, da Un iversidade do Vale do Paraíba (Univap ), em São José dos Campos, verificou que a mitocôndria cumpre o u tras funções essencia is. Uma delas é a produção do ch amado centro ferro-enxofre, associações de átomos de ferro e enxofre que têm função de transporte de elétrons dentro da célula. Formam também, como ele comprovou, uma espécie de caixa que dá estabilidade às proteínas elaboradas pela cé lu la .

A reprodução ce lul ar também se tornou razoavelmente clara . Foi estudada por Paulo

Dentro da célula

Como os compostos químicos interagem em resposta a o s patógenos

Pro te ína s d a memb ra na e x te rn a atuam como sensores que detectam a aproxim a ção do patógeno e a cionam os mecanismos \ iniciais de defesa.

As proteínas receptoras da planta (R) detectam o contato físico do patógeno ou as proteínas liberadas por ele.

A proteína GEBP se liga a glucanas (açúcares) da parede celular do patógeno.

A proteína R aciona a produção de peróxido de { o sinal químico que confirma a presença do patógeno aciona a produção de ácido salicílico ou de ácido

hidrogênio (H202) que age diretamente sobre o patógeno

O H202 também induz à produção de toxinas de ação geral, como as fitoalexinas , e de lignina , que serve de refo r ço à parede celula r.

O ácido salicílico aciona os genes ligados à produção de fitoalexinas (antifúngicos) , reações de hipe r sensibilidade e apoptose (morte celular progra mada).

O a cú mu lo d e H 20 2 , áci dos jasm ô nico e sa licí li c o e etileno funcion a c omo sin a is de alarme p ara a s c é lul as vizinh a s.

Ijasmônico, de efeitos antagônicos.

O ácido jasmônico aciona os genes que levam à produção de inibidores de proteases, que a nulam as proteínas

liberadas por insetos, e de glucanases , com ação sobre fungos.

Ferreira e Adriana Hemerly, da Universidade Fe d eral do Rio de Janeiro (UFRJ), u m dos primeiros grupos de data mining de fora de São Pau lo a integrar o projeto, em abril do ano passado. Descobriram até agora 15 genes exclusivos da cana, associados a pelo menos qua t ro for m as diferentes de proteínas ch amadas q u inases, cu ja fu n ção agora se conhece bem: são elas, segundo Ferreira, q u e at ivam ou desativam ca d a et apa do ciclo cel ul ar, da dupl icação do DNA à separação das d u as células. "As q ui n ases são proteínas de licenciamento, q ue disparam o processo de divisão celular e permitem a ação das proteínas do complexo de reconhec imento de origem, que se ligam ao DNA", diz ele. Há também as proteínas ch amadas complexo promotor de anáfase ou APC, aciona d as pelas quinases, que depois a cél ul a destrói, de modo a per mitir q u e os cromossomas se separem.

(ICB) da Universidade de São Paulo (USP), investiga como os organismos consertam a mo lécula de DNA- por meio de o u tras mo léculas . As proteínas de reparo recon h ecem a lesão, reúnem as enzimas que eliminam o trech o lesa d o e abr em caminho para o u tras enzimas que vão pôr no DNA o trecho q ue devia estar correto o início. Se o DNA permanecer danificado, ocorrem doenças gr aves, co m o a sín d rome d e Cockayne, com problemas de dese nvolvimento e retardo mental.

Menc k co m paro u os genes de reparo de h umanos, levedura (organ ismo unice lular) e dois vegetais, cana e Arabidopsis tha liana, u ma p lanta da família da mostarda de ape n as cinco pares de cromossomas usada como modelo nos es t udos d e bio logia mo lecular Encontrou 85 genes em comum, u ma seme lh ança de 73%. Análises mais refinadas in d icaram a proximidade entre os gru pos. "Nosso sistema d e re p aro se parece mais com o de u ma planta do q u e co m o de um a levedura", diz ele. Desse t otal, um terNem tudo está compreendido, eviden t eme n te . Ca rl os Martins Menck, n o In st it u to de Ciências Biomé d icas

Como a cana reage aos imprevistos

Cada parte da planta produz compostos químicos diferentes, de acordo com a situação

raios ultr<i'Vii:llet:a aciona a produ de antocianinas, flavonols e isoflavonas

A sinalização (comunicação) celular se realiza por meio do ácido salicílico, ácido jasmônico e Príi,Pnroi 'II ' JI

Le sõ e s físic a s '- (feriment o s) ' estimulam os processos de produção de cumestrol, cumarina, furanocumarinas, ésteres ferrúlicos,fenó licos aderidos à parede, ligninae suberina.

Causa de mutações - Também não se entende direito, ainda, o comportamento dos transposons - os genes saltadores, que pulam de um cromossoma para outro, descobertos na décad a de 40 pela geneticista norte-americana Barbara McClintock (1902-1992, Nobel de Medicina de 1983) e aceitos a muito custo pela comunidade científica. Marie-Anne Van Sluys, no Instituto de Biociências da USP, não esperava encontrar muitos deles na cana, mas achou nada menos de 13 tipos diferentes de transposons.

O at a qu e d e patógenos induz à liberação de isoflavonas, isoflavonóides prenilados, estilbenos, cumarinas e furanocumarinas.

A baixa concentração de nitrogênio induz a cana a produzir flavonóides e isoflavonóides.

ço dos genes encontrados em cana ainda não havia sido descrito em plantas.

As combinações são intrigantes- e indicam que, mais do que simples semelhanças, parece haver uma unidade entre os seres vivos. Segundo Menck, há genes de reparo em bac-

O PROJETO

Genoma Cana

MODALIDADE

Pensava-se que os genes saltadores funcionassem em lugares muito específicos, do mesmo tecido. Mas não. Como ela descobriu, mais de um desses genes inquietos está ativo em células do mesmo tecido ao mesmo tempo. "Nunca antes foi avaliada a capacidade dos transposons se expressarem juntos no mesmo diz Marie-Anne, que deixa escapar duas perguntas. Por que há diferentes transposons no mesmo tecido? Será que têm outra função que ainda não se conhece? Em bactérias, estão associados à resistência a antibióticos. Em drosóflias, a mosca-de-frutas, garantem a estrutura dos telômeros, as pontas dos cromossomos. Por pularem muito, os transposons provocam mutações e a variabilidade genética das espécies, selecionadas ao longo do processo evolutivo. Por essa razão é que Marie-Anne os vê como candidatos a marcadores genéticos de variedades de cana a serem desenvolvidas.

CProjeto de pesquisa no âmbito do Programa Especial Genoma FAPESP

COORDENADOR

PAULO ARRUDA - Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp

INVESTIMENTO

US$ 4.484.090,61

om o arroz, outra planta do grupo das gramíneas, a cana tem pelo menos um gene homólogo (semelhante), o XA21, que confere resistência à bactéria Xanthomonas orizae. A partir daí, Luís Eduardo Aranha Camargo e a mestranda Mariana Sena Quirino, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, resolveram trabalhar por aproximação : querem que o XA21 seja téria que aparentemente não há em humanos, mas estão presentes em plantas. Por outro lado, genes importantes de reparo do DNA, como o conhecido pela sigla XPA, presentes em humanos e leveduras, ainda não foram encontrados em Arabidopsis e em cana. Menck tem uma hipótese: "É possível que as plantas tenham mecanismos diferentes ou redundantes de reparo do DNA': Mas ainda não há como entender o que pode estar fazendo na cana o gene BRCA1, cuja deficiência causa o câncer de mama em humanos.

ainda mais eficiente contra uma bactéria semelhante, típica da cana, a Xanthomonas albilineans. Fizeram experimentos valorizando a expressão desse gene e agora examinam o DNA das plantas-pais e das plantas-filhas. A pesquisa mostrou quatro variações do mesmo gene (alelos), "talvez com funções diz Camargo. Nesse ponto, o trabalho ganha outros contornos. "Podemos usar as informações do genoma da cana para buscar os genes ancestrais, res-

ponsáveis pela cana moderna." Se der tudo certo, vão saber quais alelos vieram da Saccharum officinarum ou da Saccharum spontaneum, as duas espécies que deram origem à cana atual, um organismo considerado complexo.

A cana hoje utilizada para produzir açúcar, álcool, aguardente e a prosaica rapadura tem um número variável de cromossomas - de 100 a 130. Uma das prováveis razões é que em cada célula se mantêm pelo menos em parte as cargas genéticas das espécies originais- a S. spontaneum tem de 36 a 128 cromossomas, e a S. officinarum, entre 70 e 140. A planta atual é um híbrido ou, do ponto de vista celular, um organismo poliplóide: cada cromossoma tem de seis a dez cópias- nem sempre iguais. Essa peculiaridade fez com que o seqüenciamento integral do genoma fosse descartado desde o início. Seria provavelmente caro, desgastante e demorado demais.

Açúcares especiais - Como alternativa, a equipe do Genoma trabalhou por amostragem, valendo-se da técnica de Expressed Sequence Tags ou etiquetas de seqüências expressas (ESTs), que acelera as descobertas por identificar apenas os trechos de genes expressos, responsáveis pela formação de proteínas. As descobertas acumulavam-se num ritmo admirável. Em março de 1998, época das conversas preliminares sobre o projeto, as ESTs de plantas somavam 4,8% do total depositado no GenBank, no qual os ESTs humanos chegavam a 63,4%. Em dois anos, o número de ESTs de plantas aumentou mais de 15 vezes e hoje representa 18,2% do total (ver gráfico).

Na cana imaginada a partir dos genes descobertos, o teor de açúcar

não é um problema preocupante: desde os anos 70, a produtividade de açúcar tem crescido 1% ao ano, por meio do melhoramento genético tradicional, com cruzamento e seleção de novas variedades. A cana brasileira produz de 120 a 130 quilogramas de açúcar por tonelada, equiparável aos padrões internacio-

nais, ainda que um pouco abaixo dos australianos ( 140 a 150 quilogramas por tonelada).

statação de que há 162 genes ligados ao meholismo de açúcares em geral (44% dos genes já descritos em plantas e animais com a mesma função) estimula vôos mais altos, como a perspectiva de produzir açúcares especiais. É o caso da trealose, que, além de ter valores comerciais mais elevados, tem importância biológica: em outros organismos, confere resistência ao frio e à seca, uma característica pouco explorada na cana.

Eugênio Ulian, pesquisador da Copersucar que encontrou dois genes que levam à síntese de trealose, não está olhando apenas para a frente. Em julho deste ano, lembra ele, ocorreu em São Paulo uma geada forte, que abateu as plantações de milho, café e, em menor escala, a de cana. Ulian acredita que as perdas poderiam ser menores se já estivessem mais claros os mecanismos de ativação da produção de trealose.

Antiga fonte de riquezas

Trazida pelos portugu eses da Ilha da Madeira, a cana-de-açúcar ganhou as terras brasileiras em 1502. Nunca

mais deixo u de ser u ma fonte de riquezas para o país. A cultura ocupa 5 milhões de hectares e, a cada safra, o Brasil produz 300 milh ões de to nela-

das de cana, o equivalente a 25% da produção mundial, convertidos em 14,5 milhões de toneladas de açúcar e 15,3 bilhões de litros de álcool. Mobiliza também 350 indústrias, cerca de 50 mil produtores e um contingente de 1,4 milhão de trabalhadores

Alcance nacional- Essas perspectivas se desenham a partir do trabalho integrado de laboratórios espalhados nas três universidades públicas estaduais (USP, Unicamp e Unesp), três particulares (em Ribeirão Preto, Mogi das Cruzes e São José dos Campos), no IAC e no Centro de Tecnologia da Copersucar. Fazem parte da rede ONSA (Organização de Análise e Seqüenciamento de Nucleotídeos), apoiada por dois pontos centrais, o Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) e o Laboratório de Bioinformática, ambos na Unicamp -o primeiro preparando o material a ser seqüenciado pelos laboratórios (fez cerca de 1 milhão de clones do genoma da cana) e o segundo organizando as informações no banco de dados, analisado pelos grupos de data mining.

Desde a etapa de planejamento, as pesquisas contaram com o respaldo internacional do steering committe, o comitê externo avaliador, integrado por Jean Christophe Glaszmann, do Centro Internacional de Cooperação em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad), da França, e Andrew Paterson, da Universidade

diretos e outros 3,6 milhões indiretos, segundo a Copersucar. São Paulo é o maior produtor nacional: no Estado, os negócios nesse campo movimentam cerca de US$ 8 bilhões e empregam, diretamente, 600 mil trabalhadores.

O Genoma Cana foi concebido com um acentuado recorte econômico, com a finalidade de ampliar a

de Geórgia, Estados Unidos. Mesmo que o projeto seja paulista, os resultados são compartilhados cada vez mais por outros Estados. No final do ano passado integraram-se mais dois grupos, um da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e outro da Federal de Alagoas (UFAL), com o apoio das respectivas fundações estaduais de amparo à pesquisa. Em julho, outro avanço: aderiram mais 36 grupos de data mining, com grupos de institutos de pesquisa de Minas Gerais, Paraná, Bahia, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro. E tamanha é a quantidade de informações gerada que Paulo Arruda, o coordenador do projeto, anima-se com a possibilidade de dar espaço a novas equipes, a partir do próximo ano. "Precisamos de criatividade e de imaginação para aproveitar essas informações da melhor forma possível", lembra Menck, da USP. O esforço deve compensar. Ao romper os limites do melhoramento genético clássico, o que já se sabe sobre o genoma pode reduzir o tempo de desenvolvimento de novas variedades de cana, usualmente um processo demorado, que toma de 12 a 15 anos. "Se no início reduzir um ano de trabalho, já está ótimo", diz William Burnquist, gerente do Centro de Tecnologia da Copersucar. A modéstia é só aparente: cada ano implica investimentos da ordem deUS$ 8 milhões. Quando essa meta se viabilizar, por meio de marcadores genéticos que ajudem a selecionar as variedades de cana com as características desejadas já no início dessa maratona, a economia obtida será o dobro do que se gastou na pesquisa até agora. •

produtividade da indústria de açúcar e de álcool. Enfrenta também desafios iminentes. Um deles é o combate à bactéria Leifsonia xyli subsp. xyli, causadora de uma das mais graves doenças da cana em todo o mundo, o raquitismo-dasoqueira, que provocou perdas estimadas em US$ 2 bilhões no Brasil, nos últimos 30 anos.

E às vezes surgem novos problemas. Éder Giglioti, da UFSCar, caracterizou uma nova doença da cana-de-açúcar, a falsa estrias vermelhas, observada até o momento somente no Brasil. Segundo ele, há evidências de que se trata de uma nova espécie de Xanthomonas, a quinta do gênero a ser isolada da cana.

Um físico a toda prova

Oprofessor José Leite Lopes, um pernambucano rijo de 82 anos completados em 28 de outubro deste ano 2000, é um venerável personagem da ciência brasileira que continua muito perto de duas grandes paixões de sua vida: ''Acompanho o progresso das novas teorias da Física e os problemas políticos da ciência brasileira", diz. Esse exercício suave de fidelidade às suas vocações, mesmo estando aposentado e distante das pesquisas em Física de Partículas e em Teoria de Campos que o tornaram um cientista internacionalmente reconhecido, ele mantém principalmente no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, o CBPF, por cuja criação batalhou no fim da década de 40, depois dirigiu, de 1960 a 1964, e do qual se demitiu quando o golpe de Estado daquele ano espalhou arbitrariedades insuportáveis pelo país.

Leite Lopes tem entre suas contribuições originais à Física a proposição dos w+ w- como bósons vetoriais ligados ao fóton, o que daria uma unificação das forças

• Comecemos explicando seu trabalho sobre a unificação das forças eletromagnéticas e forças fracas.

- Na Física existem quatro tipos de forças fundamentais que se chamam interações. A gravitacional, que todos nós, toda a matéria, toda a energia, o que quer que exista sofre. Foi inventada por Isaac Newton e aperfeiçoada por Einstein. Existe a interação eletromagnética, carregada pelos fótons; a interação fraca, aquela que comanda a desintegração do nêutron em próton mais elétron mais neutrino; e existe a interação nuclear, a mais forte de todas e que dá estabilidade à matéria. Existimos porque existem as interações nucleares, que fazem com que nêutrons e prótons no núcleo atômico se reúnam, formando configurações estáveis. Já a gravitação, do ponto de vista da Física Atômica, é a mais fraca de todas, mas no universo é quem comanda soberana, porque uma estrela, por exemplo, é formada pela

eletromagnéticas e das forças fracas que foi o primeiro a apontar, e a predição de existência do bóson ZO, descoberto depois já na década de 80. São achados científicos de 1958.

Entre as atribulações que viveu em decorrência dos problemas políticos do país, ele registra a ida para a França em 1964 e o retorno ao Brasil em 1967, em parte atendendo a apelos dos estudantes cariocas e confiante numa redemocratização que afinal não se materializou. Inclui também a cassação de seus direitos pelo AI-S em 1969, a ida para Pittsburgh e, em 1970, para Estrasburgo, na França, onde permaneceu até 1986.

Professor emérito das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)- onde trabalhou de 1946 a 1964 e de 1967 a 1969-, de Estrasburgo e do CBPF, Leite Lopes falou com carinho de seus três filhos - o antropólogo José Sérgio, o especialista em informática Sílvio Ricardo e a dramaturga Ângela - quando concedeu a Mariluce Moura a entrevista a seguir, que é uma verdadeira aula de Física e de vida.

atração gravitacional da matéria que começa a se contrair. Tudo o que é massa, tudo o que é energia, sofre essa atração mútua e começa a se contrair, mas à medida que se contrai vai aumentando a temperatura até chegat a um ponto tal em que se produzem reações nucleares entre essas partículas.

• De quanto é essa temperatura?

- Oooh bilhões de graus centígrados. Há o aquecimento e então reações nucleares que emitem luz, emitem ondas, e é por isso que as estrelas são visíveis. Mas a interação importante nas estrelas é a transformação de hidrogênio em hélio. O hidrogênio reage entre eles e produz o gás hélio. Existe sempre uma quantidade finita e quando essa quantidade queima toda não há mais material para reações nucleares. Não as havendo, a gravitação dá uma gargalhada e continua mandando e contraindo, aumentando a temperatura nessa contração, e

dependendo da massa da estrela ela pode dar uma parte, são as supernovas, e vê-se quando elas queimam, produzindo uma grande luminosidade. Mas existe entre as partículas uma repulsão fundamental, que provém do princípio de Pauli. Ele é o prêmio Nobel com quem trabalhei, Wolfgang Pauli.

• O senhor trabalhou com ele em 1945?

- Sim, em Princeton. Pauli diz que não pode haver mais de um elétron em cada estado. Ou existe zero ou um, se vier um outro elétron, ele passa para o estado superior. Quando a matéria se contrai é como se houvesse uma força de repulsão, os elétrons não podem ocupar todos a mesma posição . Essa força se contrapõe à atração gravitacional, e chega um momento em que se forma o buraco negro, porque a gravitação manda sempre e termina formando um campo de gravitação muito forte, que atrai tudo para dentro dela. A luz, por exemplo, sai

normalmente, mas chega a um campo de gravitação tão forte que fica presa. Por isso temos o buraco negro, que só se sabe que existe pelo fato de ter uma massa grande e sem visibilidade alguma que atrapalha o movimento das outras partículas . Sempre me interessei por essas forças, trabalhei com Pauli sobre as forças nucleares, mas depois passei a estudar as interações fracas- aquelas que comandam a desintegração do nêutron em próton, elétron e neutrino, ou ainda o bóson Pi, que se desintegra em uma partícula chamada muon e um neutrino . Pauli inventou o neutrino em 1930, porque verificou-se que existem núcleos que se desintegram emitindo elétrons e esses elétrons que saem deveriam ter uma energia definida, resultado do núcleo filho menos o núcleo pai. Essa energia devia ir no elétron.

• Mas alguma coisa atrapalha isso.

- Ah, é, mas o elétron você encontra de todas as energias possíveis, desde esse máximo até zero, e ninguém compreendia por quê. Até que Pauli mandou uma carta para uma reunião que houve na Alemanha, porque ele tinha

uma dança, um encontro para ir, dizendo: "Prezados senhoras e senhores radioativos ...", e observava que o fato de o elétron ter todas as energias possíveis, até essa energia máxima, provém do fato de que um núcleo, quando se desintegra num outro núcleo, faz sair um elétron e uma partícula nova, de massa muito pequena, podendo ser zero, e a energia é distribuída entre as duas partículas: ou o

Turbulências no mundo das partículas

De tempos em tempos, teorias aparentemente sólidas e brilhantes como diamantes são destruídas por outras teorias emergentes, que mostram as falhas da anterior e apontam novos caminhos. A situação é absolutamente natural. Os problemas começam quando uma velha lei da ciência é derrubada e não se sabe o que colocar no lugar. Em 1900, Max Planck publicou o primeiro trabalho com a primeira versão da teoria quântica e começou a construir um modelo de como o Universo funciona. Cem anos depois, o resultado dos traba-

lhos dos físicos teóricos, de analisar os resultados dos experimentos saídos dos aceleradores de partículas de alta energia, está chegando ao fim com a descoberta da partícula chamada bóson de Higgs O problema é que o modelo padrão, ao que parece, está definitivamente envelhecido, segundo relata a revista The Economist, de 7 de outubro. A situação remete ao século 19, antes de Max Planck anunciar suas idéias, quando os físicos tinham uma descrição pronta do Universo, uma espécie de "teoria de tudo". Os físicos de hoje são mais cautelosos e

z elétron ou isso que ele chamou de d nêutron, mas é neutrino - ain a :> não havia o nêutron Depois ele foi descoberto e Enrico Fermi, a quem Pauli contou essa teoria, disse les particelle di Pauli sono piu tosto, são antes neutrinos e não neutrones, são pequenos.

• Quem descobriu o nêutron?

- Chadwick. Houve uma reação, na qual bombardeando acho que berílio com partículas alfa produziram-se partículas que Joliot e Irene Curie verificaram que tinham a propriedade, quando absorvidas por uma região que tem próton, de mandar prótons para

fora. Joliot achava que eram fótons de muito alta energia. Daí Chadwick disse que se saem prótons é porque vem uma partícula com massa quase igual à do próton e emite um. Quando se tem duas partículas que se faz interagir, uma pode passar a outra toda para ela, e essa fica parada. Um problema de mecânica que acho que Joliot não entendeu bem. Então ele achou que havia essa partícula, devia

sabem que não é prudente afirmar ter uma teoria à prova de falhas. Eles também não têm noção de qual será o próximo passo, que mudará os paradigmas vigentes. A revista New Scientist, de 14 de outubro, revelou que o pesquisador britânico Humphrey Maris é quem mais contribui para o debate sobre o futuro da física. Maris, da Brown University, afirma que há 30 anos o impensável aconteceu em Minnesota: pesquisadores quebraram o "indivisível" elétron em fragmentos. E, até agora, ninguém conseguiu provar o contrário. "Esses fragmentos de elétrons se comportam, para todos os meios e fins, como partículas totalmente separadas", diz.

ser o nêutron, cuja massa é um pouquinho superior à do próton, e ele era o homem para descobrir porque, já desde 1919, o grande Rutherford havia predito que no hidrogênio você tem o elétron em torno do próton, isso terminaria caindo, e elétron mais próton, negativo com positivo, daria uma partícula neutra. Depois Chadwick começou a procurar e, quando viu essa reação que produzia próton, achou que era uma partícula neutra, era o nêutron. Então o nêutron se desintegra dando um próton mais um elétron, mais o neutrino. Esse neutrino então foi inventado por Pauli, tinha uma partícula de massa muito peque-

na, podendo ser zero, e passou-se muito tempo sem se descobri-lo. Depois descobriu-se, César Lattes com Occhialini e Powell descobriram o píon, que se desintegra dando múon mais uma partícula neutra, que se pensava que fosse o mesmo neutrino. Mas, invertendo a reação, bombardeando a matéria com esse neutrino que sai, verificou-se que se ele fosse o mesmo do nêutron produziria um

"Eu as chamo de eletrinos!' As afirmações sacudiram o mundo da física porque nestes 103 anos, desde que foi descoberto, não houve nenhuma evidência de que o elétron seja divisível. "Humphrey conseguiu expor uma falha na estrutura da Teoria Quântica", admitiu para a New Scientist Peter McClintock, da Universidade de Lancaster. Maris imaginou que um elétron em uma bolha de hélio líquido poderia ser colocado num estado instável em forma de halteres e pressionada de tal modo que fosse possível separá-la em duas. Antes de testar a idéia, o físico vasculhou a literatura existente para ver se alguém já havia feito o mesmo. Descobriu o

''Qual foi a minha maior contribuição à Física?
Essa dos w+ wsendo bósons vetoriais ligados ao fóton. Isso dá uma unificação que fui o primeiro a apontar''

-É, tem três tipos de neutrino: o eletrônico, o muônico e o tauônico, esse descoberto recentemente

• Quando se descobriu o nêutron?

- Em 32. O píon e o múon em 1946, 47 Já o o tau é bem recente, da década de 70.

• Há alguma relação entre a descoberta das partículas em 46, 47 com as pesquisas que estavam sendo feitas no projeto Manhattan?

nêutron nessa reação inversa, o que não acontecia: essa partícula neutra saída dava lugar a píons, a múons, e então, além do neutrino de Pauli, que aparece na desintegração do nêutron, há um neutrino muônico que é ligado à desintegração do píon em múon mais esse neutrino.

• Então diferentes partículas têm o seu neutrino correspondente.

que procurava em artigos escritos no final dos anos 60, quando Jan Northby e Mike Sanders, na Universidade de Minnesota, estudaram a velocidade das bolhas de elétron se movendo no campo elétrico em hélio líquido. Em 1971 e 1984, outros pesquisadores fizeram trabalhos semelhantes. Ocorre que nenhum deles descreveu a divisão do elétron. O próprio Maris passou anos sem contar para ninguém o que pensava. Apenas em junho deste ano ele apresentou seu trabalho numa conferência em Minneapolis e o publicou no fournal of Low Temperature Physics (vol. 120, pg. 173). No final, mais de cem físicos questionaram cada aspecto da teoria.

- Não. O Projeto Manhattan queria fabricar bomba atômica e o pessoal só pensava em fazê-lo antes que Hitler o conseguisse . Nessa época eu estava em Princeton trabalhando com Pauli. Passou-se muito tempo sem saber como se dava a desintegração do nêutron em próton mais elétron mais antineutrino. Então, finalmente, Feynman e Gell-Mann acharam que essa interação fraca do nêutron em próton, elétron e neutrino era do tipo vetorial. Quer dizer: há uma forma geométrica. Podia ser escalar, podia ser várias outras, eles achavam que devia ser vetorial. Aí eu imediatamente pensei que haveria bósons

Mas Maris tinha resposta para tudo e, apesar de ninguém ter descartado totalmente a possibilidade da divisão da partícula, os críticos não condescenderam. "A idéia de um elétron se separar em fragmentos é totalmente incompatível com a Teoria Quântica de Campos", diz Anthony Leggett, da Universidade de Illinois, embora até admita que possa haver algo errado com a teoria. A maioria dos físicos acha que a argumentação de Maris desmorona na primeira dificuldade, embora ainda não saibam precisar como. O temor é compreensível. Se a descoberta for verdadeira, a Teoria Quântica estará errada - e não há nada para se colocar no lugar.

w+ w- que eram intermediários entre nêutron, próton, elétron e neutrino, e deviam ser vetoriais. Como o fóton da luz também é vetorial, achei que deviam ter um laço de família.

• O nome "bóson" aparece aí.

-Não, antes. Os bósons são partículas cujo spin é inteiro, ou O ou 1 ou 2, etc. E há os férmions, como o nêutron, próton, elétron, neutrino, cujo spin é um meio, é fracionário. Fiz um trabalho em 1958 em que propus uma relação entre o bóson e o fóton, e a partir daí uma igualdade entre a interação fraca e a constante eletromagnética que é dada pela carga do elétron. Quando fiz essa hipótese, obtive o valor da massa dos bósons w+ e w-, na ordem de 60 massas do próton. Isso foi novidade, e o C. N. Yang não acreditou. Ele achava que a massa do bóson seria apenas um pouco superior à do próton. Propus no mesmo trabalho a existência de um bóson neutro, que hoje se chama Z0 (z-zero), que se devia buscar na interação de elétrons com nêutrons.

• Esse bóson neutro só foi descoberto na década de 80, não é?

- Por aí, é. Mas pouca gente tinha lido meu trabalho, embora tivesse sido publicado na Nuclear Physics, uma publicação holandesa muito importante. O Yang depois publicou um artigo no qual dizia que o meu trabalho, embora não tivessem lido, era o mais ligado às pesquisas atuais.

• Depois de seu trabalho com os bósons, o que o senhor passou a pesquisar?

- Passei a estudar a possibilidade de haver léptons com spin excitado. Léptons são partículas ultraleves, elétrons, neutrinos leves. E mantive os estudos com léptons até alguns anos atrás .

• O que o senhor considera sua contribuição mais importante para a Física?

'' Vários cientistas brasileiros poderiam ter ganhado um Nobel. Carlos Chagas, Rocha Lima, César Lattes, Gilberto Freyre ...
Mas a Academia tem lá seus critérios políticos''

- Essa dos ws sendo bósons veto riais ligados ao fóton. Isso dá uma unificação que fui o primeiro a apontar, porque propus que a força fraca tivesse uma constante g igual à força eletromagnética e. Hoje g não é igual a e, mas é multiplicado por um outro fator. Esse foi meu trabalho fundamental, eSteve Weinberg, em seu discurso quando recebeu o Nobel, o citou. Yang também citou e muita gente, mas ele não caiu no gosto popular. Não passou a ser obrigatoriamente citado, apesar de o Weinberg continuar citando, inclusive no livro que acaba de publicar, assim como o Yang.

• Como, em um ambiente com escassa compreensão sobre o papel da pesquisa científica, pôde se formar no Brasil uma geração de físicos de primeira linha?

-Bom, essa Física fundou-se com a criação da Universidade de São Paulo (USP). Os que fizeram a USP mandaram um matemático da Politécnica, Teodoro Ramos, buscar professores lá fora. Ele foi ao Enrico Fermi, que indicou Gleb Wataghin, que veio para cá e fundou a Física moderna no Brasil. Ele formou o Mário Schenberg, o Marcelo Damy de Souza Santos e eu também vim para São Paulo.

• Na época o senhor estava no Rio.

- Sim. Eu fiz química no Recife, influenciado pelo professor Luiz Freire, que me fez ir para o Rio, onde fiz o curso na Faculdade Nacional de Filosofia. Daí, quando a Física moderna começou a ser feita em São Paulo, vim trabalhar com Mário Schenberg em São Paulo Todo mundo vinha para esse ambiente criado por Gleb Wataghin. Veio o Lattes, fomos colegas, veio muita gente e foi-se produzindo essa coisa nova. Em 1948 fui à Argentina e lá encontrei um físico alemão, Richard Gans, que queria compreender por que havia sido feita essa escola brasileira, se na

Argentina, disse-me, ele tinha estado antes e não conseguira o mesmo.

• Bem, depois de seu tempo em São Paulo o senhor fez todo um esforço para implantar um núcleo no Rio e as coisas não pareciam muito fáceis nem muito simples. Como foi isso?

- Quando terminei meu doutorado em Princeton fui nomeado professor da Faculdade Nacional de Filosofia O diretor era o San Tiago Dantas. Eu queria que os professores ganhassem salário de tempo integral, como em São Paulo. Mas havia o Dasp (Departamento Administrativo de Serviço Publico), que proibia o tempo integral. Então eu comecei a lutar. Estávamos no governo Dutra (General Eurico Gaspar Dutra) e depois no segundo governo Vargas (Getúlio Vargas). Eu fazia discursos, escrevia artigos, porque achava que era importante criar um ambiente igual ao de São Paulo. Queria que o Lattes, quando voltasse da Inglaterra, viesse para o Rio e, quando ele descobriu o píon, propus que se criasse a cadeira de Física Nuclear na UFRJ, o que foi feito. O Lattes viajou até o Rio para ver qual era a situação, e eu lhe disse "está ruim, porque o reitor nem nos apóia':

Acho que ele nem sabia que existia Física Nuclear e a bomba atômica... Aí um amigo chamado Nélson Lins de Barros me levou ao João Alberto de Barros, irmão dele e um político importante, que tinha feito parte da Coluna Prestes, do Tenentismo Era homem do Getúlio, que o fez ser interventor em São Paulo, e era então ministro do Itamaraty. Quando expliquei a ele que a Física Nuclear não podia ser feita porque os professores não ganhavam suficientemente e que a universidade não nos apoiava, ele disse "então vamos fazer fora da universidade". E criou-se o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

• Em que ano?

-Em 1940. Como uma instituição privada, financiada pelo próprio João Alberto, pelo presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Euvaldo Lodi, que dava cem contos por mês Saíamos, pedíamos para os sindicatos, houve um banqueiro, Mário de Almeida, que também nos deu dinheiro e construímos o pavilhão onde se instalou o laboratório, perto de onde estamos, no campus da Praia Vermelha da UFRJ. Em 1951 criou-se o CNPq, e Álvaro Alberto, o presidente, prometeu nos dar dinheiro. O centro estava no apogeu quando Getúlio suicidou-se, houve uma crise geral, e arquivou-se o projeto de um ciclotron de alta energia. O centro entrou em crise, porque só conseguíamos a metade do que precisávamos. Depois veio a inflação enorme, já com Juscelino (o presidente Juscelino Kubitschek), com Jango (o presidente João Goulart). Quando houve o golpe de 1964, pedi demissão do cargo de diretor científico do CBPF.

• E aí o senhor saiu do Brasil.

-Fui para a França a convite do físico Maurice Levi, e permaneci na Fa-

culdade de Ciência de Orsay, em Paris, de 1964 a 1967. Voltei em 1967 e reassumi na universidade e no CBPF. Mas em 1969 fui cassado pelo AI-5 (Ato Institucional número 5) e fui embora, primeiro para o Pittsburgh Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, mas não quis ficar, não gostei do ambiente, afinal lá estavam o Nixon e o Kissinger, que tinham apoiado o golpe no Brasil. Um ano depois recebi um convite e fui para Estrasburgo, na França, onde fiquei até 1986. ·

• O senhor, como Schenberg, era membro do Partido Comunista?

-Nunca fui. Eu apoiava as reformas de base e tudo, mas nunca pertenci a um partido que poderia fazer uma revolução de que eu não gostasse. Mas eles (os militares) consideraram que eu era.

• A situação política determinou um atraso na física brasileira?

- Bem, eles tiraram o Schenberg, a mim, vários outros, houve muito protesto, cartas mandadas por físicos franceses, americanos, o Yang mandou uma carta para Costa e Silva (o presidente militar Arthur da Costa e

z Silva), mas a chamada revolução :; foi implacável. Depois, o ministro Veloso (João Paulo dos Reis Veloso, ministro do Planejamento) achou que era tudo uma besteira e trouxe gente como Sérgio Porto, o Rogério Cerqueira Leite, que voltou dos Estados Unidos para a Unicamp, fundada por Zeferino Vaz em 1970. Então, mesmo na ditadura, muita gente estava trabalhando, o grupo de Campinas, o pessoal de Recife, que começou a se desenvolver. Se houve um atraso real foi mais na formação de gente.

• Como o senhor vê os avanços mais recentes em sua especialidade física, que parecem tornar ultrapassado o modelo padrão das partículas e trazem notícias como a da divisão do elétron (ver box)?

-Essas informações de que o modelo está ultrapassado são interessantes. Tenho simpatia pela supersimetria, mas até hoje não foram descobertas as partículas que a confirmem. A partição do elétron é uma novidade interessante. Na França estudei como pode se decompor, mas aqui há uma grande novidade da decomposição em uma partícula mais um elétron.

• Por que não há um Nobel brasileiro?

-O Carlos Chagas teria sido prêmio Nobel. Ele foi indicado, mas muitos médicos brasileiros foram contra. E houve outras pessoas também que mereciam. O Henrique Rocha Lima, do Biológico em São Paulo, o César Lattes, que descobriu o píon e não ganhou, porque quem ganhou foi o Powell, que era o chefe do laboratório, o Gilberto Freyre A Argentina tem prêmios Nobel, por que nós não?

• O senhor mesmo, por exemplo?

-Não me coloco nessa lista. Quando perceberam a importância do meu trabalho já tinha passado muito tempo. •

Novo microscópio de transmissão tem resolução de até O, 17 nanômetro: o mais potente do LME e da América do Sul

Em15 meses de operação, o Laboratório de Microscopia Eletrônica (LME) de Campinas, tornou-se um recurso precioso para 80 pesquisadores de 55 grupos em todo o país: os estudos ali desenvolvidos já resultaram na publicação de 36 artigos e cerca de 80 apresentações em conferências. Integrante da estrutura aberta a multiusuários do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) do Ministério da Ciência e Tecnologia, o LME foi recentemente avaliado por um comitê científico internacional a pedido da FAPESP. O comitê considerou excepcional a produtividade e qualificou os trabalhos ali feitos como "de máxima qualidade científica".

Um desses trabalhos recebeu em outubro o prêmio de Melhor Tese de Doutoramento da Sociedade Brasileira de Física (SBF). Foi o de Daniela Zanchet, engenheira química pela Universidade Federal do Paraná e

com doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que construiu e caracterizou novos tipos de cristais de ouro. Daniela, de 28 anos, seguiu para o pós-doutorctdo no Departamento de Química da Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos.

De primeira linha - Para equipar as cinco salas do laboratório, a FAPESP investiu US$ 1,9 milhão em equipamentos. O mais importante é o microscópio de transmissão por feixe de elétrons, cuja resolução chega até 0,17 nanômetro -o nanômetro é a milionésima parte do milímetro -, ou menos que a distância entre dois átomos vizinhos, na maioria dos materiais.

Único da América do Sul, o potentíssimo aparelho amplia uma imagem até 1,5 milhão de vezes. Com ele, se conseguem imagens precisas da posição dos átomos, o que permite ver como eles estão ar-

ranjados. Na sala onde fica o equipamento, a temperatura é mantida sob controle rigoroso e as paredes são revestidas com material à prova de vibrações sonoras.

Mais duas salas abrigam microscópios de varredura: com resolução de 1,5 ou 3,0 nanômetros, ampliam imagens até 300 mil vezes, o bastante para identificar a morfologia de grãos ou partes de um material.

Na sala onde do laboratório de preparação de amostras ocorre uma parte básica da pesquisa: para a análise em microscópio, o material é submetido a técnicas específicas, conforme o estudo pretendido.

Essa avançada infra-estrutura trouxe um grande benefício: já se pode tocar trabalhos de ponta em ciência dos materiais sem precisar ir ao exterior, o que dificultava ou até inviabilizava muitas pesquisas.

"Atualmente, grande parte das pesquisas depende de análises m1-

croscópicas desse tipo. Para entender as propriedades físicas e químicas dos materiais, é preciso visualizar as estruturas no nível dos átomos", diz o coordenador do LME, Daniel Ugarte. Com as ferramentas do laboratório, pode-se acompanhar, em pé de igualdade com os centros mais avançados do mundo, a tendência geral de miniaturização gerada pela microeletrónica, que parece estender-se a toda a ciência de materiais.

Montado em menos de um ano, "tempo recorde para um complexo desse porte", segundo Ugarte, o LME funciona como centro de apoio aberto a pesquisas acadêmicas ou empresariais. Só um quarto dos trabalhos já publicados é da própria equipe do LME. Gratuito para pesquisas acadêmicas, o uso do laboratório não envolve grandes formalidadesbasta submeter um projeto à coordenação do LME -, mas exige que o iniciante passe por treinamento, em geral de uma semana para o microscópio eletrónico de varredura e de dois meses para um microscópio de transmissão.

Centro de formação- O LME, contudo, não foi criado para prestar serviços, como fazem outros laboratórios: "Oferecemos as ferramentas e ensinamos a manuseá-las, mas todo o resto fica por conta do pesquisador". Essa filosofia que Ugarte implantou permite ao laboratório funcione com equipe mínima - só quatro funcionários contratados, além de um estudante de doutorado e um pós-doutor-, mas seu principal objetivo é formar profissionais qualificados em microscopia eletrónica. Além do treinamento, Ugarte faz palestras em todo o país e ministra cursos na Unicamp - o LME já treinou, por exemplo, 40 alunos de pós-graduação.

Juan Carlos Gonzalez Pérez, do Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ficou um mês e meio no LME para obter imagens necessárias

a sua tese de doutorado, sobre multicamadas de pontos quânticos autoconstruídos com arsenetos de índio e de gálio. "O apoio do pessoal do LME foi fundamental", diz Wagner Nunes Rodrigues, orientador da tese de Pérez, cujo objetivo é produzir sistemas de objetos chamados "pontos quânticos", que medem algumas dezenas de nanómetros. Esses obje-

tos, que se comportam como "átomos gigantes", ou "átomos" compostos de átomos, poderão ser usados para construir lasers mais estáveis à temperatura ambiente, além de vir como memórias.

Contar com a estrutura do LME na preparação das amostras foi fundamental para concluir a pesquisa, salienta Rodrigues: "Preparar esse tipo de amostra para microscopia não é simples, pois exige equipamentos especiais, nem sempre disponíveis em outros laboratórios de microscopia do Brasil". As imagens obtidas ajudaram a compreender melhor o sistema de produção de pontos quânticos e deram subsídios à continuação dos estudos, o que envolveu também o uso da luz síncrotron disponível no LNLS.

Magnetismo de liga - Outro usuário regular do LNLS é Marcelo Knobel, do Instituto de Física da Unicamp. Desde 1990 ele estuda o magnetismo

em nanocristais, partículas cristalinas que medem de 5 a 50 nanómetros. Recentemente, ele usou o microscópio de transmissão do LME para caracterizar a estrutura atómica de uma liga de ferro, zircónio, cobre e boro conhecida como Nanoperm. "Essa liga, que foi descoberta por pesquisadores japoneses, tem características magnéticas muito superiores às dos materiais comuns existentes no mercado", explica Knobel. Por ser facilmente magnetizável e desmagnetizável, poderia ser usada em núcleos de transformadores, cabeçotes de gravação magnética, sensores de campo magnético, transdutores e blindagem magnética.

O estudo da estrutura das nanopartículas presentes na liga permitiu conhecer melhor os mecanismos responsáveis por suas propriedades magnéticas. Como essas propriedades se relacionavam ao aquecimento a que a liga era submetida no processo de fabricação, foi possível testar outros métodos de tratamento térmico.

A novidade da pesquisa foi usar uma corrente elétrica para tratar o material, o que permitiu taxas de aquecimento maiores que as obtidas em fornos convencionais. Com isso, houve maior controle sobre a formação das nanoestruturas, o que possibilitou a otimização das propriedades magnéticas do material.

A própria equipe do LME desenvolve uma pesquisa importante em física de materiais nanoestruturados: Ugarte investiga as propriedades estruturais e elétricas de nano-

O PROJETO

Centro de Microscopia Eletrônica de Alta Resolução

MODALIDADE

Programa de infra-estrutura 3

COORDENADOR

DANIEL MARIO UGARTE - Laboratório Nacional de Luz Síncrotron

INVESTIMENTO

fios (fios tão finos que podem ser constituídos de uma simples fileira de átomos), para aplicação em diminutos sistemas eletrônicos.

Ele esclarece que propriedades como a condutividade e o isolamento de eletricidade podem ser substancialmente alteradas quando se reduz o material a um tamanho ou espessura de alguns átomos. Um material como o óxido de silício (similar a um vidro convencional), por exemplo, é um bom isolante elétrico, mas pode não apresentar a mesma propriedade isolante quando usado em filmes muito finos (1,5 nanômetro ou de 4 a 5 camadas atômicas). Esse fato impõe um limite inferior à miniaturização dos circuitos eletrônicos com a tecnologia atual baseada em silício.

Expansão- Além de pesquisas de Física, a maioria, há muitos trabalhos de Química, Engenharia, Geologia e Odontologia no LME. Ugarte prevê o crescimento do número e da complexidade das pesquisas quando o laboratório tiver outro microscópio, conhecido pela sigla FEG- TEM (microscópio eletrônico de transmissão esquipado com um canhão de elétrons por efeito de campo), específico para análises químicas e espectroscópicas em regiões da ordem ou menores que um nanômetro. Esse equipamento, que faz parte do projeto de expansão do LME a ser apresentado este ano, exigirá um investimento em torno de US$ 2 milhões.

A instalação do microscópio FEG- TEM, que constava do projeto inicial do LME, foi uma das principais recomendações do comitê internacional, que julgou necessária e oportuna a expansão do laboratório. De fato, o LME opera no limite da capacidade, com equipamentos que funcionam 12 horas por dia e uma fila de espera de dois meses para obter uma sessão de trabalho no microscópio eletrônico de transmissão. Embora o investimento seja grande, o comitê o considera fundamental para manter elevado o nível das atividades ali desenvolvidas.

Genes contra leucemia

Hemocentro paulista desenvolve técnicas para melhorar o diagnóstico

Doença do sangue caracterizada pela presença de glóbulos brancos cancerosos na medula, ·a leucemia atinge uma pessoa a cada 100 mil por ano. É o tipo de câncer mais comum em crianças e costuma afetá-las de forma aguda e rápida: em poucos meses, elas podem ficar gravemente enfermas. Já nos adultos, a forma mais freqüente é crônica e leva anos para evoluir.

Diagnosticar a doença com segurança e descobrir como evoluirá, para definir o tratamento, são objetivos permanentes da Fundação Pró-Sangue, o Hemocentro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), onde uma equipe conduz o projeto temático, coordenado pelo médico Dalton Chamone, Estudo de Marcadores Biológicos com Possível Implicação Prognóstica em Doenças Lin-

fo-Mieloproliferativas: Emprego de Técnicas de Citogenética, Biologia Molecular e Imunofenotipagem. Financiado pela FAPESP, o projeto começou em dezembro de 1996 e terminou em março último.

"Aperfeiçoamos técnicas reconhecidas e trouxemos novas técnicas de fora", diz o médico Israel Bendit, um dos responsáveis pelo projeto,

Llacer: contribuição ao sistema de saúde nacional

que envolveu o procedimento de translation research: "Esse conceito significa que aquilo que for detectado ou determinado na bancada do laboratório vai ser usado no cuidado do doente e vice-versa: se o doente apresentar algum aspecto novo, vamos tentar determinar o como e o porquê."

Em aplicação- Participaram 32 pesquisadores (médicos, biomédicos e farmacêuticos), 12 especialistas em leucemia e alunos de iniciação. As técnicas aprimoradas já são aplicadas nos 1.200 pacientes que Hemocentro, Hematologia da FMUSP e Serviço de Hematologia do Hospital das Clínicas atendem por mês, todos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). "Esse era um dos nossos objetivos", diz o médico Pedro Llacer, também responsável pelas pesquisas.

"Com a divulgação desses métodos mais eficientes de diagnóstico e prognóstico, esperamos que o sistema de saúde nacional passe a incluir os procedimentos em suas tabelas", continua Llacer. A nova metodologia já é aplicada, por exemplo, nos exames de quantificação da carga virai do HIV em pacientes de Aids.

Os pesquisadores buscaram marcadores biológicos que, presentes no corpo, confirmam o diagnós-

mornos gânglios) líquidos e sólidos. Entre os líquidos estão leucemias agudas e crónicas, síndromes mielodisplásicas (anomalias no desenvolvimento de uma ou mais linhagens de células do sangue) e mielomas múltiplos (que levam a lesões nos ossos e nos rins devido à produção exagerada de algum anticorpo). No início, podem estar só num gânglio, mas depois se espalham.

Com o projeto, o Hemocentro, um dos principais centros de pesquisa e tratamento da leucemia no país, tornou-se um dos primeiros a desenvolver o uso em grande escala do teste de Fish, ou hi-

tico inicial e, muitas vezes, mostram como a doença evoluirá Um exemplo foi a descoberta de uma correlação entre a porcentagem de células da medula com leucemia que expressam CD71 (molécula que aparece na superfície das células leucêmicas) e a sobrevida do paciente. Quanto mais CD71 tem o paciente, maior a expectativa de vida

Também detectaram marcadores biológicos sem relação com a doença. "Resultados aparentemente negativos como esses também são muito importantes': diz Llacer. "É necessário publicar e divulgar o fato, para que outros laboratórios não percam tempo procurando marcadores sem utilidade para diagnosticar e dar o prognóstico."

Teste de Fish - O campo de estudo abrange vários tipos de linfoma (tu-

Bendit: técnicas melhoradas e introdução de inovações

bridização com fluorescência in situ. Nesse teste, o pedaço de cromoss.omo a ser estudado, ou seqüênciaalvo, é posto num recipiente com sondas - cromossomas complementares, sintetizados em laboratório, coloridos de verde ou vermelho

O PROJETO

Estudo de Marcadores Biológicos com Possível Implicação Prognóstico em Doenças Unfo-Mieloproliferotivos:

Emprego de Técnicos de Citogenético, Biologia Molecular e lmunofenotipogem

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR

DALTON DE ALENCAR FISCHER

CHAMONE - Faculdade de Medicina da USP

INVESTIMENTO R$ 230 165.47

por uma substância fluorescente. As sondas são seqüências de bases de DNA que complementam e se encaixam perfeitamente na seqüência de DNA a ser estudada. Quando o recipiente é aquecido, tanto a dupla fita de DNA do pedaço de cromossoma humano como a dupla fita da sonda se abrem e ocorre um andamento da sonda com a seqüência-alvo. O pedaço de cromossoma fica colorido e fluorescente, o que facilita a pesquisa.

Gene híbrido - Esse método é muito útil no diagnóstico da leucemia mielóide crónica, em que normalmente aparece o cromossoma chamado Filadélfia, resultado da união entre pedaços dos cromossomas 9 e 22 e também ligado a alguns casos de leucemia aguda.

Segundo Pedro Llacer, o cromossomo Filadélfia traduz um movimento pelo qual os genes BCR e ABL, inicialmente em cromossomas diferentes, acabam por se unir, formando o gene híbrido BCR/ ABL. Na medula óssea, esse gene produz uma proteína que desregula a proliferação da célula onde está. Usando uma sonda com seqüência de bases complementar ao gene híbrido, o pesquisador determina rapidamente se a célula tem o BCR/ABL- e, portanto, se a doença está presente - e, em especial, se o cariótipo não mostrou a presença do cromossoma Filadélfia

Com a aplicação de métodos como esse, e tendo na mão um diagnóstico correto e também um prognóstico da evolução da doença, o médico poderá escolher entre um tratamento mais ou menos agressivo. Se o prognóstico é ruim, o tratamento mais agressivo começa imediatamente, sem esperar pelas piores conseqüências. Se o prognóstico é mais favorável, o paciente não precisará passar por tratamentos desnecessários.

Bendit acrescenta que "um dos objetivos do projeto, o de formar pessoas, foi plenamente atingido': •

OCEANOGRAFIA

De vento em popa

Depois de dois anos no estaleiro para reparos, volta aos mares o nosso navio oceanográfico

Volta ao mar na segunda quinzena de novembro o navio oceanográfico Prof W Besnard, principal embarcação de pesquisa do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (Iousp) e único navio desse tipo no Brasil capaz de fazer longas expedições em alto-mar. "O instituto volta a respirar e a produzir ciência", diz o pesquisador Belmiro Mendes de Castro, que já chefiou várias expedições de pesquisa do Besnard. O navio, que leva o nome do fundador do Oceanográfico, professor Wladimir Besnard (1890-1960), estava parado desde 1998, quando foi recolhido à doca de Santos devido a problemas com o motor. A paralisação dificultou os trabalhos de pesquisa e ensino no instituto . "Não se faz oceanografia sem um bom navio", afirma o veterano Luiz Bruner de Miranda, pesquisador-chefe de muitas expedições do Besnard, e acrescenta: "Não se conhece o oceano pela tela de um computador".

Batismo em 1967 -"Para fazer pesquisa oceanográfica é preciso um navio oceanográfico. Sem navio é melhor mudar o nome do Instituto Oceanográfico para Instituto de Estudos Costeiros", comenta bem-humorado o atual diretor, Rolf Roland Weber, sobre os apuros por que passou a instituição. Os maiores preju-

temporada de reparos em Santos: equipamento atualizado dicados foram pesquisadores e alunos, impedidos de usar o barco para pesquisa de campo em alto-mar. Alguns projetos ficaram atrasados . Com o retorno do Besnard às águas, tudo tende a melhorar.

O desenvolvimento da navegação e da oceanografia estava intimamente relacionado no século 19, quando navios de pesquisa e exploração, a exemplo do HMS Challenger, ficaram famosos. O professor francês Wladi-

Na reforma do navio, que custou perto de R$ 1 milhão e foi financiada em parte pela FAPESP, houve troca do motor e instalação de novos equipamentos. O empenho do Iousp para manter o Besnard em boas condições de uso também é justificado pela história de suas conquistas.

O ProfW Besnard na última

mir Besnard teve sempre presente a necessidade de um navio oceanográfico para o instituto que fundou e dirigiu desde 1946. Bruner assegura que essa era uma das principais motivações de Besnard.

O sonho do fundador tomou impulso com a aprovação de uma contribuição federal para a aquisição do navio, no final de 1958, mas só se concretizaria quase dez anos depois, em 5 de maio de 1967. Nesse dia, em Bergen, Noruega onde o navio foi construído por encomenda do governo paulista 19 8 4: o Besnard na inau guraçã o da Estação Antártica

Rei George pelo estaleiro AIS Mjellem & Karsen -, houve a cerimônia de batismo da embarcação, cujo nome foi uma homenagem póstuma a Besnard. Numa cerimônia de troca de bandeiras, ele foi transferido para a propriedade da USP em 30 de maio. No dia seguinte o Besnard levantava âncora em Bergen e só chegaria ao porto de Santos em 9 de setembro de 1967: é que essa viagem também foi sua primeira expedição científica, chamada de Vikindio em alusão à parceria entre cientistas noruegueses e brasileiros na construção dele. A expedição foi coordenada por Marta Vannucci, diretora do Iousp, e Thor Kwinge, do Instituto Geofísico da Universidade de Bergen. Sua rota abrangeu as Ilhas Canárias, a costa noroeste africana e a costa brasileira de Recife a Santos.

Montanh a descoberta - Luiz Bruner, que participou da viagem, revela que "no percurso foram coletadas amostras de água, dados hidrográficos, amostras de plâncton e feitas medições da Corrente do Brasil". Já nessa expedição o Besnard

fez sua primeira e importante descoberta no Atlântico Norte: uma montanha submarina de 3.500 metros de altura, com o topo a 194 metros de profundidade, situada na rota Dacar- Las Palmas, perto da Ilha do Sal. A montanha recebeu o nome de Besnard.

Bruner lembra que seu doutorado se deve em grande parte ao trabalho realizado no começo da década de 70 com o Besnard no projeto Cobra- Corrente do Brasil na plataforma continental sul -, com o qual praticamente fundou a cadeira de Oceanografia Física no instituto.

O PROJETO

Manutenção e Instrumentação do Navio Oceanográfico ProfW. Besnard e Substituição do Motor Principal do Navio Oceanográfico

MODALIDADE

Programa infra-estrutura 4 e auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADOR

RoLF ROLAND WEBER - Instituto Oceanográfico da USP

INVESTIMENTO

US$ 64 900 ,00 e US$ I50 000

Um experiente meteorologista e perito em telegrafia participou dessa fase histórica do navio: Rubens Junqueira Villela, pesquisador do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da USP, primeiro brasileiro a atingir o pólo Sul - em 1962, numa expedição norte-americana. Bruner lembra que Villela teve participação importante em várias expedições do Besnard nas décadas de 60 e 70, quando toda a transmissão de dados meteorológicos da terra firme para o navio era feita por telégrafo. Assim que recebia os dados, Villela fazia rapidamente suas previsões de tempo, essenciais nas missões .

Aven t ura na Ant á rt ic a - O Besnard já esteve em muitos grandes projetas. Um deles, o Coroas - Circulação Oceânica da Região Oeste do Atlântico Sul-, consiste numa avaliação da produtividade primária no Atlântico. Financiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o projeto se desenvolve desde 1992 em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Es-

Comandante Ferraz, na ilha

paciais de São José dos Campos (ligado ao Ministério de Ciência e Tecno l ogia) e a Fundação Universidade do Rio Grande do Sul (Furg) . Pelo Iousp, Belmiro de Castro participa do Coroas, cujas viagens já incl u íram os litorais de São Pa ul o, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A grande aventura do Besnard, contudo, foi a série de excursões científicas pela Antár t ica, como parte do ProgramaAntártico Brasileiro (Proantar), que se desenvolveram desde overão de 1982 até o de 1988. Foram seis campanhas de pesquisa, com destaque para a 1a Expedição Brasileira à Antártica e para a instalação da Estação Antártica Comandante Ferraz na ilha Rei

George- que permitiram ao Brasil ser admitido como um membro pleno do Conselho Consultidiversidade anima\

vo do Tratado da Antártica e da Comissão Científica de Pesquisa Antártica (SCAR - Scientific Committee on Antartic Research) Como integrante dessas missões, Rubens Villela pôde então revisitar o continente antártico. Ro lf W e ber, d

Armação : navio oce a no g ráfico

Comprimento total: 49,35 m

Comprimento na linha de flutuação : 42 ,60m

O navio viam provocado o desalinhamento de alguns cilindros do motor, o que, com o tempo, o impediu de funcionar

Boca: 9,33 m

Calado: 3,73 m

Pontal moldado: 5 m

Tonelagem: 670 t

Velocidade: 13,5 nós

Autonomia: 14 a 21 d ias

Tripulação: 23

Pesquisadores: 15

Comun ica çã o: a nten a do novo s ist em a lm a rs at -A

As atividades do Besnard na Antártica encerraram-se devido ao desgaste de sua estrutura, provocado pe las condições adversas do mar na região, o que em 1988 ocasionou a quebra do eixo da hélice da embarcação ao atravessar a passagem de Drake Esse desgaste estrutural foi a provável causa dos problemas mecânicos que passaram a prejudicar o desempenho do navio.

Assim, depois de 150 cruzeiros oceanográficos, o Besnard passou por uma ampla reforma de 1994 a 1997. Em 1998, contudo, teve que voltar aos reparos depois de prob lemas coin o motor : os desgastes estruturais ha-

Na reforma, foram instalados outro motor e novos equipamentos, o que deve melhorar o desempenho e garantir uma boa sobrevida ao Bes-

nard. Entre esses equ ipamentos estão o ADCP, um perfllador acústico de corrente destinado a medir automaticamente a velocidade, a direção e a condutividade da água de uma corrente marinha, sem que o navio precise parar. Também se destacam o Ecointegrador, que detecta a biomassa presente, e a Ecossonda EASOO, que faz a batimetria - medição da profundidade -e avalia a composição geológica do material de fundo. Além desses instrumentos de análise instalados no casco, o Besnard foi equipado com o novo sistema de transmissão de informação via satélite Imarsat-A, conjugado a uma rede interna de computadores, integrada a laboratórios e instrumentos.

Todos os novos instrumentos podem ser reaproveitados num futuro novo navio oceanográfico.

Enquanto isso, o Besnard se prepara para retomar sua função como principal laboratório da oceanografia brasileira. Já em dezembro, começa a participar de um estudo sobre a dinâmica do ecossistema da plataforma do Atlântico Sul, único projeto oceanográfico a fazer parte do Programa Núcleos de Excelência do CNPq (Pronex) •

Projeto encerra quatro décadas de mapeamento das espécies de São Paulo

Depois de quatro décadas de pesquisa e mais de 40 mil quilômetros de andanças coletando material de mar, rios, lagos e barragens, o biólogo Carlos Bicudo está perto de concluir o mapeamento das algas do território paulista . Esse feito começou a tornar-se realidade em julho do ano passado, com o início do projeto temático Flora Fico lógica do Estado de São Paulo, financiado pela FAPESP, coordenado por Bicudo e do qual participam 42 pesquisadores de 27 centros do Brasil e do exterior.

Esse projeto de identificação de toda a flora ficológica (de algas) paulista, que faz parte do programa Biota-FAPESP de levantamento dos recursos biológicos do Estado, é inédito no Brasil. Ajudará no monitoramen-

to preciso da qualidade da água nos mananciais, além de fornecer indicadores para a conservação ou a recuperação de ambientes aquáticos. É um projeto de taxonomia, a ciência da identificação e classificação das espécies. "Assim como não se pode ler sem conhecer o alfabeto, não se pode fazer ciência sem taxonomia", ressalta Bicudo, biólogo de 63 anos.

Passado desconhecido - Por meio desse trabalho pode-se inclusive conhecer o que não existe mais: em todo o mundo se extinguem espécies da flora e da fauna e, muitas vezes, não se sabe que organismos existiram antes. O Estado de São Paulo já foi todo ocupado por florestas, que hoje cobrem menos de 10% do território. O que existia no rio Tietê, por exemplo, ninguém sabe.

Bicudo já tinha isso em mente quando foi trabalhar no Instituto de Botânica (hoje ligado à Secretaria do Meio Ambiente) em 1960, ainda estudante. Então, começou a organizar

um herbário com as colegas Rosa Maria Teixeira Bicudo, Marilza Cordeiro Marino e Noemy Yamagushi Tomita. Hoje o herbário tem 15 mil amostras de algas marinhas secas esticadas em papel e outras 3 mil de água doce conservadas em frascos.

No início, entretanto, quase tudo estava por ser feito. As primeiras 200 algas que foram para o herbário do instituto, por exemplo, eram duplicatas identificadas ainda no século 19 por naturalistas estrangeiros, como Von Martius (ver quadro). Elas constavam antes do acervo da antiga Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo (atual Instituto Geológico da Secretaria do Meio Ambiente).

Todo o restante foi coletado nos últimos 40 anos pelos pesquisadores e estagiários do Instituto de Botânica. Calcula-se, contudo, que as 2.642 espécies de algas já reunidas representem só metade do que existe na natureza. Com a reunião de mais material em 400 municípios paulistas, o total

Carlos Bicudo e Eduardo Barcelos no lago do Jardim Botânico: indicadores de poluição e acervo de 5 mil espécies de algas

de espécies classificadas deve chegar a 5 mil. Bicudo revela que desde o início do projeto foram encontradas cerca de SOO espécies ainda não documentadas no Estado, das quais 40 são inéditas no mundo. Desde o início da década de 60, Bicudo e seu grupo pesquisaram em todo o Estado e reuniram as 3 mil amostras de algas de água doce do herbário.

Lacunas no mar- Mas havia lacunas: "A análise das 47 publicações dedicadas à taxonomia de algas marinhas macroscópicas bentônicas do Estado de São Paulo, por exemplo, mostrou que essa flora está representada por 308 espécies, das quais 198 são Rhodophyceae, 68 Chlorophyceae e 42 Phaeophyceae".

Faltava informação sobre essa flora porque não se pesquisou a área mais funda do chamado infralitoral, só acessível por mergulho. No caso das algas azuis ( Cyanophyceae) marinhas da faixa supralitoral, de águas mais rasas, a literatura só relacionava 108 espécies, pois a área coberta era muito restrita .

Até o início do projeto, 2 226 espécies de água doce estavam identificadas, ou cerca de 40% da diversidade existente. É que ao longo dos últimos 40 anos muitos ambientes aquáticos desapareceram e houve a tendência de procurar material muito mais nos ambientes lênticos (lagos, lagoas, charcos) e semilênticos (reservatórios, açudes) do que nos lóticos (rios, córregos e riachos).

Além de importantes para a preservação do ecossistema, pois for-

Desde Von Martius

Foram naturalistas estrangeiros do século 19 os primeiros a identificar algas brasileiras. Destacou-se entre eles o bávaro Carl Friedrich Philip von Martius (1794-1868), componente da missão científica que pesquisou no país entre 1817 e 1820. Von Martius coletou e listou 80 espécies de algas no livro clássico Flora Brasiliensis, de 1833. Outros estrangeiros do século 19 identificaram algas brasileiras, em geral a partir de amostras mandadas para eles em seus países. Depois, quase nada foi feito no país até meados do século 20. Em 1960, Carlos Bicudo e suas colegas Rosa Maria Bicudo, Marilza Marino e Noemy Tomita coleta-

. ·"

ram as pnmetras espeoes mannhas na baía de São Vicente e na região de Ubatuba. Na época, faziam o curso de História Natural (origem do atual Instituto de Biociências) na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP). E tinham aulas de taxonomia de algas marinhas com o professor Aylthon Brandão Joly, considerado o criador da ficologia brasileira.

Em 1957, Joly publicou Contribuição ao Conhecimento da Flora Ficológica Marinha da Baía de Santos e Arredores, primeiro inventário planejado das algas de uma certa região do Brasil. Com base no material coletado por seu grupo, Joly publicaria ainda em

mam o primeiro elo da cadeia alimentar em lagos, barragens, rios e mares, a!> algas indicam a qualidade da água. As Charophyceae, por exemplo, habitam lugares excelentes para a piscicultura. Já as Cyanophyceae e as Euglenoplyceae indicam ambientes ricos em nitrogênio e fósforo - ou seja, poluídos por esgoto -, enquanto as Bacillariophyceae ou diatomáceas não toleram esses ambientes e sua presença é sinal de água em boas condições.

1965 o importante estudo Flora Marinha do Litoral Norte do Estado de São Paulo e Regiões Circunvizinhas.

Em 1961 e 1962, Bicudo e Rosa Maria fizeram as primeiras coletas de água doce na Reserva Biológica do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga e depois publicaram dois fascículos sobre o assunto. Entre 1963 e 1965, Bicudo fez residência e mestrado sobre algas na Universidade de Michigan (EUA), orientado por Gerald W. Prescott. Voltou ao país com dez caixas de cópias xerox de tudo o que se publicara sobre algas brasileiras nos Estados Unidos e começou a juntar material de água doce no Estado. Daí por diante, foi desenvolvendo o estudo que chegou ao ambicioso projeto atual de mapeamento.

Foi a partir das algas que se constatou a poluição por esgoto do lago das Garças, no Jardim Botânico paulistano: "Estamos estudando o material e as condições físicas e químicas do lago para, em seguida, definir o projeto para recuperá-lo".

Até o final do projeto, o número de espécies de água doce conhecidas do Estado poderá chegar facilmente ao dobro. As Zygnemaphyceae, por exemplo, devem passar de 1.053 para 1.500 ou 1.600 e as 61 Bacillariophyceae devem chegar a 900.

Para isso, intensificou-se a coleta. Até agosto, foram realizadas 18 das 50 viagens programadas. O grupo que estuda espécies de água doce, com quatro pesquisadores e seis estudantes, fez 15 viagens ao interior e pegou material de água corrente, pouco representado no herbário. O grupo de algas marinhas, com quatro pesquisadores do instituto, três professores da USP e cinco estudantes, fez três viagens de pesquisa ao litoral norte: como já havia muitas amostras de boa qualidade da área entre as marés baixa e alta, a coleta passou a ser feita nas águas mais profundas da faixa infralitoralabaixo da maré baixa -e nas ilhas.

Equipamento- Os pesquisadores viajam munidos de rede, canivete, frascos e uma solução fixadora para preservar o material. Levam também três aparelhos: um GPS de localização por satélite, um medidor

O PROJETO

Flora Ficológica do Estado de São Paulo

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR

CARLOS EDUARDO DE MATTOS

BICUDO - Instituto de Botânica

INVESTIMENTO

R$ 87 750,00 e US$ 83 786,00

do PH (acidez ou basicidade) e outro da condutividade da água (que indica a quantidade de íons presentes). Baixa condutividade, por exemplo, é sinal de água de boa qualidf.de, enquanto alta condutividade indica água poluída.

Já houve pesquisas nos maiores rios paulistas - Grande, Paraná, Tietê, Paranapanema e Turvo -, bem como nas barragens. O tamanho dos exemplares vai de 0,002 milímetro (caso das algas do gênero Diogenes, de água doce parada) até 2 metros (as caráceas, de água doce) e mesmo a 35 metros de comprimento (as Macrocystis marinhas, de águas profundas).

O material é analisado pelos 43 pesquisadores brasileiros e estrangeiros envolvidos. Alguns dos estrangeiros trabalham aqui e outros recebem o material nos seus países. Bicudo revela que foi preciso recorrer a especialistas da República Checa, Japão, Estados Unidos, Austrália

e Argentina para identificar e classificar algumas espécies de água doce. Quando fazia a tese de doutorado, em 1969, Bicudo precisou de uma nova coleta em alguns ambientes da capital paulista. No Campo do Chá, onde é hoje o Vale do Anhangabaú, já cresceram espécies que não puderam ser coletadas novamente, pois o riacho do Anhangabaú foi inteiramente canalizado. "Temos até amostras de algas diatomáceas coletadas na avenida Paulista no fim do século 19, e que hoje não existem mais."

O pesquisador diz que o trabalho do professor Aylthon Brandão Joly sobre as algas da baía de Santos é um marco no estudo das algas do Estado: "Ele identificou 100 espécies de algas que ocorriam ali e hoje, com certeza, não existem nem 50 daquelas espécies. O lugar cresceu, houve impactos no meio ambiente, perdemos diversidade, perdemos espécies".

Treze volumes - Bicudo revela que mesmo nos Estados Unidos, país que investe US$ 1,5 milhão anuais por cinco anos na formação de taxonomistas, não se concebeu um projeto semelhante ao organizado em São Paulo. "Aqui estamos mapeando onde ocorre cada espécie." Algumas ocorrem em todo o Estado, outras só em certas regiões.

Além de conservação e recuperação ambientais, o projeto visa à formação de recursos humanos: 70 pessoas do Brasil e de países vizinhos passaram pela Seção de Ficologia do Instituto de Botânica, para pesquisar algas de água doce e marinhas.

O projeto resultará na publicação da Flora Ficológica do Estado de São Paulo, um conjunto de 13 volumes com a descrição das pesquisas desde o século passado até o ano 2000. O primeiro volume está pronto para publicação e refere-se a 31 espécies de algas Carofaceae que ocorrem no Estado. Também serão produzidos manuais de identificação de algas para ser usados em escolas de segundo grau e universidades de todo o Brasil.

Embrapa selecionou plantas de guaraná imunes à antracnose

Guaran á: clones para uma produção maio r

As plantações de guaraná ganharam novos estímulos da ciência. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu e coloca à disposição dos agricultores, neste mês, dez novos clones (estacas para plantio extraídas de matrizes pré-selecionadas). Produto típico da Amazônia, o guaraná tem grande importância econômica para a região como matéria-prima de refrigerantes e em forma de medicamento usado como energético ou para males do aparelho digestivo. Com os novos clones, a cultura ganha em produtividade. Cada planta poderá atingir a produção de 1,5 quilo contra os 200 gramas atuais. Outra vantagem dos clones é de serem imunes à praga antracnose, causada pelo fungo Colletrotrichum guaranicola, que pode resultar na perda total da produção. Os clones também apresentam precocidade para o plantio, em média dois anos contra quatro das p lan tas tradicionais. "O processo de melhoramento do gu aranazeiro

começou em 1973 com o início da escolha de matrizes em campos da Embrapa e de produtores", informa André Atroch, pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental. •

Um novo olhar para a agricultura

No próximo ano, os agricultores paulistas poderão contar com uma nova modalidade de sensoriamento remoto para monitorar em detalhes suas culturas sem depender das imagens de satélites estrangeiros. O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) está desenvo lvendo o protótipo de um ultraleve, dotado de uma câmera de vídeo multiespectral (com várias faixas de ondas eletromagnéticas) e do Sistema de Posicionamento Global (GPS). Segundo Antônio Carlos Cavalli, engenheiro agrônomo do IAC envolvido no projeto, esse tipo de medição pode apresentar um grau de resol u ção maior do que a dos satélites. "O ultraleve pode voar numa faixa de altitude entre 250 e 4 mil metros e conseguir imagens com uma reso l ução de 15 centímetros a 2 metros. Dá

para distinguir uma folha de sulfite em branco no chão': afirma Cavalli. Com esse equipamento, é possível, por exemplo, identificar com precisão a presença de pragas, ainda num estágio inicial, em áreas específicas da lavoura. O projeto recebe financiamento da Embrapa, de R$ 70 mil, com apoio do Banco Mundial. O primeiro protótipo fica pronto em janeiro. •

Testes industriais não-destrutivos

Com base em dois princípios físicos -o ultra-som e o magnetismo -, a empresa Safe Metal, do Rio de Janeiro , desenvolveu uma série de equipamentos para testes industriais ainda não produzidos no Brasil. "Nossa vocação é desenvolver tecnologia para ensaios não-destrutivos", afirma Antônio Claudio Sant' Anna, sócio na empresa. Um dos aparelhos, chamado de T-Scafl, dotado de ultra-som, mede espessuras e verifica possíveis defeitos em chapas de aço. O aparelho emite um pulso como um radar que, ao percorrer o interior da chapa e voltar, tem seu tempo de viagem medido. Se o eco retornar antes do previsto, as chances de existirem corrosões internas na chapa ou trincas são grandes.

A Safe Metal também desenvo lveu um equipamento que verifica a existência de trincas nos gargalos de cilindros metálicos. A empresa surgiu há seis anos na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há quatro meses, a Safe Metal ganhou asas próprias e deixou a incubadora. •

Após o hamb úrgue r, o motor do caminhão

Após tornar palatáveis hambúrgueres e batatas fritas, o óleo vegetal usado poderá ganhar o nome de biodiesel e servir de combustível para caminhões, ônibus e geradores de energia elétrica. A primeira fase do projeto que vai viabilizar esse uso foi concluída com sucesso na Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Testes realizados na Escola de Química da UFRJ comprovaram a similaridade entre as características dos óleos vegetais usados e do diesel. A segunda parte do projeto, já em andamento no Laboratório de Máquinas Térmicas da Coppe, se baseia em testes mecânicos que devem comprovar a viabilidade do biodiesel. A pesquisa é realizada com 25 mil litros de

Solo argiloso deix a 98 prédios fo ra do prumo na orla sant ista

ó leo usado cedidos pela rede de fast food Me Donalds, que se tornou parceira da Copp e neste projeto. O uso do biodiesel reduzirá em 78% a emissão de dióxido de carbono e em 100% a de enxofre. •

CPqD: softwares inéditos no mercado

nia celular. Ele viabiliza um cadastro do histórico do funcionamento das células, permitindo um maior contro l e e otimização da rede. O CPqD, ex-centro de pesquisa da Telebrás, é desde 1998, q u a nd o a holding estatal das tel ecomunicações foi privatizada, uma fundação de direito privado aberta ao mercado . •

Prédio de Santos é colocado

no prumo

Pela primeira vez no Brasil está se n do utilizada u ma técnica de reaprumo de um ed ifício u tilizando-se a transferênc ia da carga dos p il ares para estacas mais profundas por me io d e macacos h idráulicos. A rec u pe r ação acontece em Santos, no edifício Nu ncio Malzoni, com 17 an d ares, const ruído em 1967. Ele possu i um a in cli n ação de 4% (a famosa Torre de Piza, na Itália, te m 8%) provocada por recalques (reb aixamento) da camada de argila marin h a exis tente no so lo da orla santista q u e já compromete 98 prédios. O projeto da obra é d os p rofessores Carlos Eduard o Maffe i, Heloísa Helena Gonçalves e Paulo Pimenta, do Departamento de Enge-

Unicamp tem o maior número de patentes

Na década de 90 , as univers idades brasileiras depositaram 355 pedidos de patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A Universidade Estadual de Campinas (Unica mp) foi a que teve mais registros , 125. Em seguida, aparecem a Universidade de Sã o Paulo ( USP ) , com 76 depósitos, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG ) , com 39, Unive r sidade Federal do Rio d e Jan eiro (UFRJ), 31, e Univer s idade Estadual Pa uli sta ( Un esp ), 13 pedidos. Es sas cinco universidades detêm 80 % do total de pedidos de patentes oriundas das universidade s A Unic a mp e a USP apresentaram enfoque

n h aria de Estruturas e Fundações da Escola Politécnica da Un iversidade de São Paulo (USP). " Foram implantadas estacas de concreto ao lado do prédio que atingem a profundidade de 56 metros. O peso tra n smitido pelos pilares originais está sendo transferido pe los macacos para as estacas por meio de vigas de transição que ocupam o andar térreo do edifício': explica Maffei. Como comparação, a profund idade de algumas estações de metrô paulistano como São Bento e República não passam dos 34 metros de profundidade. Com velocidade de cerca de 1 centímetro por dia , Maffei espera que o Nuncio Malzoni esteja no prumo dentro de dois meses O custo da obra é de R$ 1,5 milhão, R$ 90 mil para cada apartamento. • Dois novos softwares destinados a empresas de telecomunicações e operadoras de Internet são as novidades da Fundação Centro de Pesq u isas de Desenvo lvimen to em Telecomunicações (CPqD) O primeiro, chamado de Promus-Comunicação de Dados, tem a função de gerenciar o registro do faturamento das empresas em diversos segmentos da área de Internet. O sistema reconhece o tipo de serviço prestado, faz a tarifação, inclusive com impostos e taxas, e ap lica aumentos, descontos ou q u alquer outra oferta de acordo com o plano de negócio. Além disso, o sistema imprime e envia a conta para o cliente ou para débito automático em banco e faz a interface com o agente arrecadador do serviço prestado. O outro produto da CPqD é o Software de Armazenagem de Dados de Drive Test, desenvolvido para empresas operadoras de telefo-

diferenciado em relação ao s campos tecnológicos dos p edidos d e patentes. A primeira concentrou - se na área química e a segunda apresentou um perfil diversificado, e a UFMG, por exemplo, apresento u a quase totalidade dos pedidos na área de biotecnologia Esse levantamento de dados e as análises relativas a eles foram organizados pelo economista Eduardo Assumpção, do INPI , no estudo O Sistema de Patentes e as

Univers idades Brasileira s nos Anos 90': Para ele , o registro de pate ntes teve uma maior procura a partir de 1997, quando entrou em vigor a nova lei de propriedade industrial 9279/96 , que define novos parâmetro s de patenteamento , e houve uma maior participação das fundaçõ es de a mparo à pesquisa e outras entidades públicas na formul ação dos pedidos. •

AS PATENTES DOS ANOS 90 NAS UNIVERSIDADES

INSTITUIÇÃO 1990 /93 1994 /96 1997/99 TOTAL Unicamp 37 22 66 125 USP 41 9 26 76

UFMG 12 27 39

UFRJ 12 14 5 3 1

Outros 33 12 39 84

Tota l 123 69 163 355

Fo nte : Ed uardo Assu mp ção/ INPI -= -=

menos circulares com cerca de 5 milímetros de diâmetro. E de nada adianta lavar ou polir o carro.

Boa pergunta - Levantado pela General Motors, o problema foi levado à Renner DuPont, fabricante da resina acrilomelamínica que faz parte da tinta usada nos carros. Na época, a imprensa destacava uma pesquisa

Brilho da lataria atrai as libélulas para a postura: depois de uma revoada, funcionários correm para esguichar água

de Bechara sobre a bioluminescência de vagalumes. Então, os técnicos da Renner procuraram o pesquisado.r com a pergunta óbvia que os atormentava: por que os ovos de libélula danificam a resina?

Achar a resposta não era simples, alertou Bechara. Ele e Stevani nunca haviam trabalhado com libélulas e, aparentemente, o assunto nada tinha a ver com as pesquisas que faziam. Mas aceitaram o desafio: atacaram o problema com um estudo bem específico - Natureza Química de Danos Causados a Filmes de Resina por Ovos de Libélulas: um Problema da Indústria de Tintas Automotivas -, financiado pela FAPESP como projeto de pós-doutoramento de Stevani.

Além de dois anos de trabalho, a pesquisa exigiu habilidade para transitar por várias áreas do conhecimento. "O primeiro passo': conta Bechara, "foi buscar informações sobre esses insetos:'

Acasalamento - Uma pesquisa que envolveu o Museu de Zoologia e o Instituto de Biociências da USP mostrou o que eles precisavam saber sobre o comportamento das libélulas. Aquáticas e predadoras, elas vivem em regiões de águas limpas, mas podem ser encontradas a alguns quilômetros de lagos, rios e represas -o tipo do lugar, aliás, onde ficam as montado< ras de carros da região paulista do ABC. Na

fase larval, as libélulas alimentam-se de insetos aquáticos, girinos e até peixinhos -e servem de comida para peixes maiores. Adultas, comem abelhas e outros insetos alados, inclusive os da própria espécie. Também são um dos alimentos prediletos de pássaros. Para entender o que ocorre com a pintura dos carros, foi importante descobrir que as libélulas são atraídas pela luz refletida em espelhos d'água, onde depositam os ovos. Ou seja: tudo indica que confundem a !ataria brilhante dos carros com um laguinho. Outros detalhes curiosos vieram à tona. As libélulas copulam durante o vôo e, como a fecundação só ocorre na fase da postura, o macho persegue a fêmea até que ela ponha os ovos, para evitar o assédio de outros machos.

A disputa pela reprodução é acirrada. O macho tem um aparato que usa como espátula para remover o esperma eventualmente já depositado por outro. Por isso, depois do coito, é comum que o macho segure a fêmea pelo pescoço com uma pinça abdominal, até que ela ponha os ovos.

Pontos fracos - Outro caminho foi o estudo da composição da resina acrilomelamínica. Muito usada no revestimento das chapas de automóveis e também de eletrodomésticos, ela forma sobre a pintura uma camada protetora, como um verniz. Assim, con-

Miragens fatais

Originada de uma indagação da indústria, a pesquisa também tem implicações ecológicas. Afinal, longe da água, os ovos de libélula não cumprem seu ciclo natural: eles se perdem, o que é um obstáculo à preservação da espécie. E, além dos automóveis, outras superfícies lisas, como o asfalto - principalmente quando molhado -, os pisos cerâmicos e os vidros, também produzem reflexos que atraem libélulas. Por isso, as descobertas de Bechara e Stevani chamaram a atenção do pesquisador húngaro Gábor Horváth, da Lorand Eotvos University, de Budapeste. Por estudar há vários anos esse fenômeno de atração, ele ajudou a esclarecer o que ocorre em centenas de lagoas de óleo formadas no deserto do Kuwait com a explosão de poços de petróleo na Guerra do Golfo, em 1991.

Segundo um artigo de Horváth publicado pela revista Nature (25 de janeiro de 1996, vol. 379, pág. 303), essas lagoas brilhantes produzem um efeito ainda mais forte do que a superfície da água, atraindo grande quantidade de libélulas e outros insetos aquáticos, além de aves. No outono e na primavera, transformam-se em armadilhas devastadoras para espécies em migração.

A visão é desoladora: grandes depósitos de carcaças, onde os que conseguem sobreviver perdem ali talvez sua última chance de procriar, o que põe certas espécies sob risco de extinção.

fere à pintura mais durabilidade e dureza, bem como resistência ao calor e aos riscos.

Uma análise da estrutura química desse polímero, contudo, mostrou seus principais ponto s de fragilidade. "A resina poderia ser atacada por ácidos, luz, enzimas presentes nos ovos ou radicais livres': afirma Stevani

O levantamento desses dados levou os pesquisadores a formular três hipóteses para explicar o efeito dos ovos na resina. O dano poderia ser fotoquímico: alguma substância presente nos ovos sena capaz de absorver a luz solar, causando a degradação da resina. Outra possibilidade seria de dano microbiológico: o material orgânico que envolve os ovosum gel protéico que garante proteção e serve de alimento para o embrião quando o ovo eclode - poderia servir de substrato para o desenvolvimento de fungos, capazes de lesar o polímero. A terceira hipótese era de dano químico: alguma substância ácida presente nos ovos seria responsável pela transformação da resina, de modo que o ácido funcionaria como agente corrosivo da resina na área de contato com o ovo.

Chuva ácida - Devido à sensibilidade da resina a substâncias ácidas, a suspeita de dano químico foi a mais cogitada desde o início. E um acontecimento relativamente casual - uma chuva ácida ocorrida em Sumaré (SP) - os fez perseguir com mais convicção essa hipótese.

"Mais uma vez fui procurado pela Renner DuPont, que nos convidou a ir até a fábrica da Honda em Sumaré, para analisar os danos que haviam ocorrido nos carros", conta Bechara. O pH da chuva coletada era 3 - grau de acidez bem superior ao das chuvas

da capital, que gira em torno de 4,5e ela era rica em ácidos sulfúrico, nítrico e clorídrico, além de compostos orgânicos. O que mais chamou a atenção foi a semelhança entre os danos provocados pela chuva ácida e pelos ovos de libélula.

A partir daí, os pesquisadores passaram a estudar os efeitos de vários ácidos sobre painéis recobertos com pintura automotiva, cedidos pela Renner DuPont, e a compará-los com os danos produzidos por ovos de libélula.

Captura no Tietê - Para obter os ovos necessários aos experimentos, Stevani partiu pa-

Na chapa, a evidência do dano, que é maior em carros escuros

ra a caça às libélulas. Viajou para Novo Horizonte (SP) durante o período de oviposição (postura) da espécieentre março e maio- e planejou uma aventura de barco por entre a vegetação aquática do rio Tietê, sempre entre as 11 horas e as 3 da tarde, o horário mais propício.

Stevani diz que não foi difícil coletar a matéria-prima para o estudo : "Segurava as libélulas pelas asas para identificar as fêmeas, fáceis de distinguir porque os machos têm uma protuberância no abdome. Com um toque suave dos dedos no abdome, as fêmeas liberavam os ovos, colhidos num tubo de ensaio com água destilada". Dos insetos capturados, só dois foram trazidos, para reconhecimento da espécie - os outros eram soltos imediatamente.

Ovos inocentes? -Até então, pensava-se que os ovos continham alguma substância ácida capaz de danificar a resina. Mas, depois de uma análise

química, descobriu-se que a ação dos ovos não era ácida, mas neutra. Essa constatação poderia ter derrubado a hipótese de hidrólise ácida da resina, mas acabou por ajudar a reforçá-la, graças à experiência multidisciplinar dos pesquisadores.

Envolvido em estudos com vagalumes e radicais livres por mais de duas décadas, Bechara sabia de um processo que ocorre asstm que os ovos são postos: "O ovo absorve grande quantidade de oxigênio, numa atividade conhecida como explosão respiratória, para a produção de água oxigenada, e esta reage com uma proteí-

Bechara (à esquerda) e Stevani: um feito multidisciplinar

na presente no ovo para formar um polímero que dá maior resistência" Nesse processo, chamado esclerotização, a superfície externa do ovo endurece e escurece - ou seja, forma-se a casca.

Ainda acreditando na hipótese de dano ácido à resina, Bechara considerou que a substância ácida não preci-

O PROJETO

Natureza Qu ímica de Dano s Causados a Filmes de Resina por Ovo s de Lib élulas : um Problema da Indústria de Tintas Automotivas

MODALIDADE

Auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADORES

ETELVINO JOSÉ HENRIQUES BECHARA e C ASSIUSYINICIUS STEVANIDepartamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP)

INVESTIMENTO

R$ 12 mil mais US$ 8 mil

saria estar presente no ovo: ela poderia formar-se a partir de determinadas condições físico-químicas.

Os pesquisadores atentaram então para o fato de que o processo de esclerotização dos ovos postos nos automóveis ocorria a alta temperatura - que, num carro ao sol, pode chegar a 50° C se ele for branco ou prateado e 92° C se for preto. Perceberam en-

tão que a cisteína - u m aminoácido do ovo -, quando em contato com água oxigenada, produzia ácido cistéico, semelhante ao ácido sulfúrico.

Isso reforçou a hipótese de h idrólise ácida e justificou testes q u e, nal, comprovaram : em temperatura igual ou superior a 70° C e na presença de água oxigenada, os ovos produzem ácido cistéico, capaz de danificar a resina de forma ainda ma is in tensa do que o ácido sulfúrico .

Pesquisadores - Os testes que comprovaram e conso lidaram a hipótese de dano químico en vo lveram o u tros pesquisadores. Dalva Lúc ia de Faria, do Instituto de Q u ímica d a USP, cuidou da caracterização espectroscópica do dano por uma técnica que permiti u constatar, indiretamente, a presença de ácido cistéico nos ovos tratados com água oxigenada Maria Teresa de Miranda e Cleber Lir ia, também do Instituto de Q u ímica, quantificaram o áci d o cistéico fo r mado nos

ovos. Marcelo Bariatto e Fábio Arraes, do Laboratório de Sistemas Integrados (LSI) da USP, fizeram exames de microscopia de varredura de elétron e perfilometria, que . permitiram a comparação visual dos danos causados à resina automotiva por diversos agentes químicos. Colaboraram também Jefferson Porto e Delson Trindade, da Renner DuPont, que forneceram os corpos-de-prova para os testes e tiraram eventuais dúvidas sobre a formulação de resinas automotivas. Ainda na USP, Cleide Costa, do Museu de Zoologia, e Francisco Cordeiro, do Instituto de Biociências, identificaram as libélulas.

Para o público - Embora a pergunta da indústria tenha sido respondida, o trabalho de Bechara continua. Na seqüência do projeto, ele pretende desenvolver um produto que o consumidor possa usar para proteger o carro de danos provocados por insetos aquáticos. Por isso, algumas descobertas do estudo são mantidas em sigilo. Segundo o pesquisador, o produto deverá beneficiar principalmente os carros escuros, ma is afetados porque absorvem mais luz e cuja !ataria atinge temperaturas superiores a 70° C ao sol. Já os brancos e prateados raramente são afetados.

Segundo Bechara, algumas montadoras, como a Honda, adotaram uma solução paliativa : "Elas passaram a recobrir os carros com filmes de polietileno, para protegê-los enquanto permanecem nos pátios': Mas, além de pouco eco lógica, a solução não reso lve o prob lem a do consumidor. Na opinião de Bechara, a solução defini t iva envo lver ia u m empenho da indústria para m u dar a composição da resina, tornando-a mais resistente à ação de ác id os, o q u e também red u ziria os danos provocados por ch uva ácida - mas n ão impediria q u e as inocentes libél u las contin uassem a perder a pro le, ludibriadas por uma ilusão de ótica. •

Um padrão nacional para o mel

Pesquisa da Esalq pode

ajudar no crescimento das vendas do produto

Aprodução de mel de abelha no Brasil poderia ser dez vezes maior do que as 40 mil toneladas colhidas anualmente e até ajudar o país a obter divisas com a exportação. Mas, para isso, o mel precisa de uma padronização nacional que ateste sua qualidade e permita aperfeiçoar as técnicas de produção .e profissionalizar mais a apicultura. Um grande passo nesse sentido foi dado com o projeto Análise Físico-Química de Mel de Flores Silvestres Produzido por Apis Mellifera L., 1758 (Hymenoptera) no Estado de São Paulo, coordenado pelo engenheiro agrônomo Luís

Carlos Marchini, professor do Departamento de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia

Agrícola da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba. Ele reuniu informações sobre o mel de flores silvestres da abelha africanizada (cruzamento da Apis mellifera de origens européia e africana) que contribuirão para normatizar a produção brasileira de mel e criar um padrão nacional que corresponda às peculiaridades de cada região.

"Ainda faltam leis adequadas que regulem a produção do mel brasileiro, pois os parâmetros e especificações estabelecidos pela legislação em vigor são baseados nas referências e normas dos Estados Unidos, cuja realidade de flora, clima e solo é bem distinta da imensa diversidade existente no Brasil", diz

características florais e regionais

Marchini, com a autoridade de quem estuda abelhas há 20 anos.

A composição e o valor nutritivo do mel dependem fundamentalmente da origem floral. Como nossa flora apícola é muito diversificada e varia de um lugar para outro, é fundamental conhecer a composição e as qualidades dos produtos obtidos em cada região, para caracterizá -los e estabelecer padrões.

Clima e solo - Marchini explica como o tipo de clima e de solo influenciam as propriedades minerais do mel: "Em climas mais secos, por exemplo, são encontrados méis com menores quantidades de elementos químicos inorgânicos em relação àqueles produzidos em locais de di-

mas mais úmidos. Amostras de mel de eucalipto proveni-

5 entes de lugares com solo tipo i' ô latossolo roxo, como na região de Ribeirão Preto, apresentam menores quantidades de ferro e manganês do que as amostras produzidas em regiões com solos formados por rochas ácidas e alcalinas, existentes no município paulista de Lavrinhas, quase na divisa do Estado do Rio de Janeiro " .

Direto do favo - Foi por isso que Marchini coletou 94 amostras de mel em apiários de 75 municípios do interior paulista, representativos da diversidade nas regiões do Estado. Cada amostra, de no mínimo 400 gramas, foi coletada diretamente nos alvéolos do favo das colméias.

O trabalho durou três anos, incluindo as análises, e teve a colaboração de duas estudantes estagiárias e da engenheira agrônoma Augusta Carmello Moreti, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. Foram feitas análises de condutividade elétrica, teores de proteínas, de cinzas e de minerais, porcentagem de umidade e cor. Os resultados permitirão estabelecer critérios de qualidade e identificar possíveis peculiaridades regionais ou de espécies florais.

"No caso de São Paulo, que tem um número expressivo de apicultores e um grande mercado consumidor, a caracterização e a padronização do mel, levando em conta as condições ambientais em que é produzido, são fundamentais para melhorar a qualidade e dar garantias às pessoas que compram e consomem o produto", diz Marchini.

Na análise, as características de condutividade elétrica e a presença de nitrogênio protéico, cinzas, umidade e minerais variaram muito. Na média, porém, a maioria das amostras estava dentro dos limites permitidos pela legislação brasileira. Isso, contudo, não significa que as amostras restantes devam ser rejeitadas. "As normas vigentes baseiamse na padronização norte-americana, cujos percentuais e especificações não podem ser

qüentes os pólens de vários tipos de gramíi5 neas e de outras plantas I' como m1mosas, vernonias e tibouchinas".

Atestar a qualidadeMarchini observa que, embora ainda não esteja prevista na legislação brasileira, "a identificação de minerais e da origem floral do mel é fundamental para atestar a qualidade do produto e deve fazer parte de uma futura normatização, inclusive para impedir falsificações': É que, além da adulteraaplicados mecanicamente às condições do Brasil", diz Marchini.

Produção de mel sem agrotóxico tem bom mercado no exterior

No caso da condutividade, que se refere à concentração de íons numa solução e tem relação com os elementos presentes- se o mel contém muitos minerais, por exemplo, a condutividade é maior __:_, a análise mostrou que 33% das amostras não estavam de acordo com a normatização vigente.

No teste das cinzas, que também expressa a riqueza do mel em minerais e é um bom indicador de qualidade, só 6% das amostras não atendiam aos padrões atuais. No caso da umidade, que verifica a quantidade de água existente e permite saber se o mel foi adulterado ou não, 16,2% das amostras estavam fora dos padrões.

Os valores encontrados na caracterização dos minerais variaram muito, mas comprovou-se uma correlação. "O mel escuro contém mais minerais do que o mel claro': diz o pesquisador.

Origem polifloral - O pólen presente no material também variou bastante e ficou demonstrado que todas as amostras receberam a contribuição de diversas plantas- havia de 3 a 13 tipos de pólen por amostra. Embora o eucalipto estivesse sempre bem representado, só em cinco amostras foi encontrado seu pólen como domi-

nante - com mais de 90% desse tipo polínico, o que define um mel de eucalipto. E só uma amostra foi considerada mel de citros, porque tinha em média 66,36% de pólen cítrico.

Das 88 amostras restantes, 12 mostraram dominância de pólen de flores silvestres e as outras 76 uma mistura de tipos polínicos, sem dominância de nenhum, o que define tipos poliflorais. De modo geral, revela Marchini, "além dos tipos polínicos dominantes, foram muito fre-

ção deliberada, como a de misturar glicose com mel, ocorre freqüentemente uma adulteração inconsciente: por falta de informação técnica sobre o manejo correto, o apicultor acaba oferecendo um mel impróprio para o consumo.

O mel puro se cristaliza necessariamente, mais cedo ou mais tarde: conforme as condições de armazenamento, origem florestal, composição físico-química, temperatura, umidade e manejo. "Quando colhi-

Mel também é alimento

O brasileiro, de forma geral, considera o mel apenas como um medicamento natural útil para as vias respiratórias. Mas esse produto das abelhas é na verdade um alimento rico em nutrientes. Tem grande quantidade de vitaminas e enzimas fundamentais à digestão . Também contém minerais, ácidos orgânicos, proteínas, aminoácidos e açúcares que são absorvidos rapidamente, proporcionando calor e energia ao organismo. Pela falta de consciência dessa amplitude alimentar, o consumo no Brasil é baixo. Consome-se apenas a média de 60

gramas de mel por habitante/ano, segundo o professor Luís Carlos Marchini Nesse dado é preciso considerar que na região Sul do país o consumo varia de 200 a 300 gramas per capita. Enquanto isso, na Suíça, é consumido 1,5 quilo de mel por habitante/ano. Na Alemanha, 960 gramas, e nos Estados Unidos, 910. - , CONSUMO

PA Í S HABITANTE/ANC

Suíça 1,5 quilo

Al emanha 0,960 quilo I Estados Unidos 0,9 10 quilo

Brasil 0,06 quilo __j

do nas mesmas condições, o mel de eucalipto, por exemplo, que é mais escuro, cristaliza mais rapidamente que o mel de laranja, que é mais claro", exemplifica Marchini.

Como há uma resistência dos consumidores ao produto cristalizado, os apicultores brasileiros costumam aquecer o mel que eventualmente já se cristalizou, para que retorne à forma líquida. Se aquecido a uma temperatura muito alta, no entanto, isso pode comprometer o valor nutritivo do mel e torná-lo im-

próprio ao consumo.

Manejo eficiente - "Além de ser um instrumento para coibir adulterações e atestar a boa qualidade do produto, a normatização do mel brasileiro é fundamental para o apicultor saber a composição do material que está produzindo e ter subsídios para adotar práticas de manejo que ajudem no ciclo biológico do enxame", explica Marchini.

Ocorre que a abelha se alimenta do mel e aumenta ou não a produção da colméia em função da quantidade e qualidade do alimento existente Quando há alimento abundante e bom, a rainha aumenta o número de posturas. Como conseqüência, cresce o número de operárias, aumentam as coletas de pólen, néctar e também a produção de mel. Por isso, a existência ou a falta de certos componentes na dieta das abelhas interfere diretamente no desenvolvimento populacional da colméia.

"Com o conhecimento da composição do mel, o apicultor pode fazer a suplementação da alimentação das abelhas com componentes que melhorem o ciclo biológico do enxame. Afinal, o grande segredo do manejo para garantir uma boa produção de

O PROJETO

Análise Físico-Química de Mel de Flores Silvestres Produzido por Apis mellifera L., 1758 (Hymenoptera) no Estado de São Paulo

MODALIDADE

Auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADOR

luis CARLOS MARCHINI - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP)

INVESTIMENTO

mel é ter uma constância de população na colméia, sem oscilações para cima e para baixo- uma situação de instabilidade que pode até estressar a abelha-rainha': Marchini acrescenta.

Mel orgânico - A normatização também é fundamental para abrir o mercado internacional ao produto brasileiro, já que o país tem um potencial muito grande para a produção de mel orgânico, aquele produzido a partir de plantas que não receberam aplicações de agrotóxicos.

O mel pode ser contaminado com produtos químicos usados no controle de doença das abelhas, ou

quando a abelha visita uma planta que recebeu aplicação de agrotóxicos contra pragas e traz a contaminação para a colméia. Como no país não há controle de doenças em abelhas, a possibilidade de contaminação fica restrita ao mel produzido a partir de plantas que receberam agrotóxicos " Mas, com um manejo adequado", assegura Marchini, "pode-se fazer apicultura em matas e plantações que não recebem pesticidas."

Vegetação nativa- Ele revela que no mercado externo há uma procura muito grande pelo mel orgânico, por isso muitos apicultore s das regiões Norte e Nordeste - onde existem boas extensões de terra com vegetação nativa - estão interessados em produzir para exportação.

Marchini esclarece que este trabalho é uma continuação de pesquisas sobre padrões melíferos conduzidas em outros projetos realizados num período de oito anos. E avisa que o resultado da análise das 94 amostras ainda não serve para estabelecer os parâmetros do mel brasileiro. "Elas foram coletadas em São Paulo, que tem características diferentes de outras regiões do país".

Para compensar isso, ele também está coordenando pesquisas feitas com méis da Bahia, do Mato Grosso do Sul e do Rio Grande do Sul. Só depois de agrupar amostragens de regiões representativas da diversidade de solo, clima e flora do território nacional, será possível estabelecer os padrões do mel brasileiro.

"A normatização do mel nacional é fundamental para o desenvolvimento da apicultura, que se tornou uma atividade rentável': conclui. Antes, era uma atividade meramente extrativa, como nos tempos em que o pesquisador vivia com os pais numa propriedade média de canade-açúcar, ali mesmo em Piracicaba: na época, ele e dois irmãos retiravam mel das colméias das árvores para consumo da família. Hoje, Marchini retira mel para todo o país. •

Marchini : 94 amostras em 75 municípios paulistas

O cateter é composto por sete fibras ópticas.A central emite o feixe de laser e as outras seis circundantes fazem a coleta dos dados

Aluz concentrada, conhecida como feixe de laser, prepara-se para ganhar mais uma utilidade na medicina Depois de ter conquistado, por exemplo, as cirurgias de olhos e de varizes, o avanço, agora, é no interior do corpo humano como auxiliar no diagnóstico e no tratamento de doenças cardíacas e até de câncer nas mucosas do trato digestivo e das vias respiratórias. Tecnologias para chegar a esses usos estão em desenvolvimento em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde, em São José dos Campos, um cateter de fibra óptica que serve para transportar a luz laser dentro das artérias foi desenvolvido no Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento (IPD) da Universidade do Vale do Paraíba (Univap ), sob a coordenação do professor Renato Amaro Zângaro, diretor da Faculdade de Ciências da Saúde.

O instrumento permite que a luz laser identifique e restaure possíveis entupimentos de artérias e elimine tumores em uma fração de segundo.

Pronto e testado em laboratório e em animais, o cateter aguarda o início dos testes em humanos.

O projeto Cateter à Fibra Óptica para Diagnóstico de Placas Ateromatosas no Sistema Cardiovascular é realizado em parceria com a Tecnol:iio, empresa especializada na fabricação e distribuição de equipamentos médicos . A iniciativa faz parte do Programa Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da FAPESP. O financiamento da Fundação para a universidade foi de R$ 129 mil, e a contrapartida da Tecnobio, R$ 150 mil.

A nova técnica foi concebida, em princípio, para substituir o tradicional cateterismo, exame para diagnóstico de obstruções nas artérias coronárias. Ela consiste em um cateter de fibra óptica com visão lateral acoplado a um espectroscópio, aparelho que emite a luz e permite ao médico avaliar minuciosamente as condições do tecido arterial. Com ele, identificam-se pequenas alterações celulares e a formação de ateromas - depósito

de material gorduroso dentro das artérias -, cuja evolução pode obstruir a passagem do sangue, causando um infarto do miocárdio. Facilitador de um diagnóstico precoce, o novo cateter também permite que, no mesmo procedimento, o laser seja acionado para tratar a área afetada, pulverizando o material ali acumulado.

Ação Dupla - Além do cateter para diagnóstico coronariano, Zângaro coordenou outro projeto que resultou em uma inovação tecnológica no cateter desenvolvido na Univap. Com uma pequena modificação na extremidade, o cateter foi adaptado para diagnosticar câncer no cólon retal. A emissão do laser e a coleta da resposta emitida pelos tecidos são feitas por um espectrofluorímetro, equipamento também gestado na Univap, com financiamento da FAPESP, no âmbito do programa de auxílio-pesquisa, por meio do projeto Espectrofluorímetro Multilinhas para Diagnóstico Precoce do Câncer.

Co m a co l a b o r ação do Hospita l do Câncer, onde 30 pacie n tes passaram pe lo novo exame, o equipamen to apresentou ót i mos res u ltados segundo Zângaro. A possível vantagem do novo sistema será a eliminação dos exames de biópsia, não sendo mais necessário retirar uma amostra do tecido do paciente para obter o diagnóstico completo. O novo aparelho mostra o resultado na hora, por meio de gráficos que de-

monstram a presença de Zângaro: in ovaçã o tecnológica para diagnóstico de câncer no cólon retal

dor, a p u lverização com laser é capaz de reduzir o ateroma a partículas minúscu l as, eliminando o risco de obstrução em algum ponto mais adiante na artéria, como pode ocorrer com o usual rotoablator, que funciona de forma semelhante a um triturador. Zângaro esclarece também que o diagnóstico a laser pode evitar outro tipo de acidente. "Durante o cateterismo, a simples introdução do cateter pode ser suficiente para deslocar um trombo ou coágulo, provocan- porfirinas (substâncias fluorescentes), normalmente presentes em tecidos cancerígenos. Se houver um tumor, por exemplo, a diferença das freqüências desse tecido doente para um normal será mostrada em um gráfico.

Diagnóstic o e tratamento- No exame cardíaco, o cateter também poderá analisar a natureza do material depositado ·na parede arterial e identificar os vários estágios de desenvolvimento de um ateroma. Com o laser será possível um diagnóstico que localiza e analisa as obstruções, sem a necessidade da visualização das artérias por raios X, como se faz hoje , mediante a injeção de uma substância que apresente contraste na corrente sanguínea.

O equipamento usado no novo exame é o espectroscópio Raman, aparelho que coleta dados para análise bioquímica de tecidos in vitro.

"Quando acoplado ao cateter de fibra óptica, essa análise do tecido pode ser feita diretamente no paciente, com resultado instantâneo", explica Zângaro.

Os procedimentos médicos para o diagnóstico são semelhantes ao cateterismo, mas os resultados são bem mais precisos: o equipamento permite identificar quais as moléculas presentes no ateroma. Segundo o pes-

quisador, isso traz uma grande vantagem para o médico, que poderá determinar o tratamento de acordo com o material observado, inclusive com o disparo do laser para remover possíveis obstruções.

Esse procedimento de destruição dos ateromas, chamado ablação, promete ser mais eficiente que o usado atualmente. Segundo o pesquisa-

OS PROJETOS

Cateter à Fibra Óptica para Diagnóstico de Placas Ateromatosas no Sistema Cardiovascular

MODALIDADE

Programa Parceria para Inovação Tecnológica (PITE)

COORDENADOR

RENATO AMARO ZÃNGARO • Univap

INVESTIMENTO

R$ 129 782,03 (FAPESP). e R$ 150 000,00 (Tecnobio)

Espearof1uorímetro Multilinhas para Diagnóstico Precoce do Câncer

MODALIDADE

Auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADOR

RENATO AMARO ZÃNGARO • Univap

INVESTIMENTO

R$ 47 118,00 e US$ 84.156,51

do uma obstrução grave. Mas com o cateter à fibra óptica isso pode ser evitado, pois ele permite visualizar e pulverizar o coágulo antes da passagem do cateter", afirma . Um exame coronariano não é coisa simples. Os procedimentos geralmente envolvem muitos riscos, que precisam ser reduzidos ao máximo. Por isso, só o projeto de desenvolvimento do cateter esbarrou em algumas dificuldades. A primeira delas foi em relação à flexibilidade.

Alto risco - "O cateter precisa ser muito flexível para não ferir as paredes da artéria, o que poderia provocar uma inflamação no local " , explica Zângaro Ele é composto de sete fibras: uma central, que leva o laser até o tecido, e seis ao seu redor, que coletam a resposta luminosa emitida pelo tecido. A tecnologia de montagem - junção das fibras, colagem e cobertura em poliuretano- foi fruto da parceria com a Tecnobio . Outra dificuldade do projeto foi identificar, dentre os tipos de fibra existentes no mercado - geralmente usadas em telecomunicações -, aquele que apresentasse o maior grau de pureza. Produzidas em sílica, as fibras apresentavam impurezas que interferiam no sinal coletado pelo aparelho. Esses "ruídos"

poderiam mascarar a leitura do sinal emitido pelo tecido, prejudicando o diagnóstico.

Embora essas dificuldades já estejam superadas e o projeto do cateter tenha sido concluído, ainda há algumas questões a serem resolvidas para que o equipamento possa cumprir sua finalidade nos centros médicos. Do ponto de vista operacional, o intervalo entre os procedimentos de diagnóstico e a ablação não pode passar de 0,5 segundo, tempo que o cateter é capaz de manter-se na mesma posição dentro da artéria. Acima de 0,5 segundo, o cateter pode se deslocar, impulsionado pela pressão sanguínea, fazendo com que o laser de ablação não atinja o ponto desejado.

Além disso, o tratamento também requer um rigoroso controle no pulso de ablação. Para determinar a quantidade exata de energia a ser lançada no tecido, está sendo realizado um estudo paralelo no Laboratório de Ablação do IPD da Univap, também com apoio da FAPESP. São necessários vários testes para avaliar o efeito de diferentes intensidades de pulso do laser sobre tecidos biológicos e também para verificar o comportamento do material resultante da ablação.

Teste em humanos - Devido ao custo do cateter - em torno de US$ 1 mil-, foram necessários também vários testes para aumentar a vida útil do instrumento sem que isso implique qualquer risco de contaminação para os pacientes. Segundo Zângaro , a expectativa é que o cateter possa ser usado em até dez exames. A comercialização desse produto vai ficar por conta da Tecnobio, mas ainda depende da obtenção do registro junto ao Ministério da Saúde. Apesar da dificuldade em testar o equipamento em humanos- só foram feitos testes em animais -, José Maria Rodrigues Bastos, presidente da Tecnobio, acredita que a liberação do produto, pelo menos para diagnóstico, não deverá apresentar problemas,

porque a eficiência e ausência de riscos estão bem fundamentadas. Bastos acredita que o produto deva entrar no mercado em meados de 2001, e sua expectativa é de uma grande aceitação no Brasil e no exterior. "É um produto promissor, tanto pela atual demanda como pelo baixo custo, além de possibilitar a eliminação de gastos com análises laboratoriais e sistemas sofisticados de diagnóstico por imagem", afirma.

Espectrofluorímetro: auxílio à fotodinâmica, técnica que deve substituir a quimioterapia

Existem vantagens também no uso do cateter para diagnóstico de câncer do cólon retal. Por ser capaz de diagnosticar casos de hiperplasia e adenoma, estados que podem ser pré-cancerosos, a expectativa do pesquisador é que esse tipo de exame venha a se tornar rotina, integrando a lista dos exames preventivos. "É muito mais barato para o Estado trabalhar na prevenção do que no tratamento do câncer, que muitas vezes requer longas internações, medicamentos e procedimentos caros", afirma.

Além de fazer diagnósticos, o espectrofluorímetro também pode auxiliar na terapia fotodinâmica, uma

técnica que pode vir a substituir a quimioterapia. Nesse sistema, injetase uma droga na veia do paciente, que se espalha pelo corpo e termina por se concentrar em áreas tumorosas. A droga sozinha não elimina o câncer, mas, quando é irradiada por laser, ela produz radicais livres e oxigênio, que penetram nas células cancerosas, provocando uma necrose da região tumoral. Nesse caso, o espectrofluorímetro auxilia na verificação da distribuição da droga na região tumoral, indicando sua concentração de forma qualitativa.

Grande vantagem - Por enquanto, a técnica aguarda a aprovação da Comissão de Ética do Hospital do Câncer para ser utilizada em pacientes que se submeteram a diversos outros tipos de tratamento sem resultados positivos. Segundo o pesquisador, a terapia fotodinâmica traz uma grande vàntagem para os pacientes em relação à quimioterapia. Como tem efeito apenas em pontos localizados, a técnica não ataca o sistema imunológico de forma generalizada, reduzindo a incidência de infecções oportunistas. A técnica pode ainda, na opinião de Zângaro, evitar um grande número de cirurgias, que sempre implicam maiores riscos, inclusive o de provocar metástases.

Ainda não há cálculos precisos sobre o custo de comercialização do espectrofluorímetro. Estima-se que chegue a US$ 70 mil, já que 70% dos componentes são importados. Ainda assim, na opinião de Zângaro, a relação custo-benefício pode ser altamente vantajosa.

Ele estima que daqui a um ano o equipamento poderá estar disponível no mercado, mas isso ainda depende de negociações com empresas interessadas em estabelecer uma parceria comercial. O importante é que tanto as pesquisas como a perspectiva comercial do cateter e do espectrofluoríinetro estão num ritmo avançado. Eles vão proporcionar melhores técnicas de diagnóstico e tratamento de doenças com o uso do laser. •

lpenlança iodo-123 ultrapuro

Radiofármaco detecta a presença de tumores e alterações na tireóide

Um recurso essencial da medicina nuclear para o diagnóstico de uma série de doenças já está disponível em São Paulo. O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), da Comissão Nac ional de Energia Nuclear (Cnem), desenvolveu tecnologia própria e começou a produzir o iodo-123 ultrapuro, um radiofármaco que, usado em exames específicos, facilita a localização de tumores e alterações na tireóide, no coração e no Na forma de um líquido incolor, essa substância tem meia-vida (período em q ue a atividade radioativa cai pela me t ad e) curta, de 13 horas Isso representa u ma vantagem p ara o paciente q u e é submetido a uma dose pe q uena desse tipo de produto, além de se b eneficiar com a precisão e a rapidez dos diagnósticos.

Até o início do próximo ano, o produto estará d isponível para todos os hosp itais e centros de diagnósticos que o desejarem Falt a po u co para isso . "Precisamos ainda sedimen t ar o processo. Só então poderemos produzir em escala to t almente comercia l e estabelecer o preço fina l do produto", informa o físico Valdir Sciani, coordenador do Grupo de Irradiações no Ciclotron do Ipen . O ciclotron, modelo Cyclone 30, é u m acelerador que custo u cerca d e US$ 5 m ilhões e produ z feixes de pró tons para a produ -

ção de radiofármacos de interesse em diagnósticos médicos, como o gálio67, tálio-201, indio-1ll, iodo-123 e flúor-18 . O desenvolvimento desse novo produto foi possível com o projeto de auxílio-pesquisa da FAPESP Desenvo lvimento e Implantação do Método de Obtenção de Iodo-123 a Partir da Irradia{iio de Xenônio-124 no Ipen-Cnen, coord enado por Sciani . O apoio financeiro da Fundação foi de R$ 109 mi l e US$ 50 mil. A Agênc ia Internacional de Energ ia At ômica contribuiu com US$ 50 mil e a co n trapartida do próprio insti t uto foi de R$ 70 mil. ·

A metodo logia de produção do iodo-123 a partir da irradiação do gás xenô n io não é nova e também é usada pe lo Instituto de Engen h aria Nuclear (IEN), do Rio de Janeiro. Em

O PROJETO

Desenvolvimento e Implantação do Método de Obtenção de lodo-123 a Partir da Irradiação de Xenônio-124 no lpen/Cnen/SP

MODALIDADE

Auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADOR

VALDIR SCIANI - Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (lpen)

INVESTIMENTO

R$ I09.500,00 e US$ 50 000 ,00

São Paulo, o sistema foi inteiramente desenvolvido no Ipen. "O domínio da tecnologia tornou possível o desenvolvimento e a implantação de sistemas próprios para todas as fases do processo, num trabalho que durou dois anos", explica Sciani. O trabalho também teve a participação de equipes do Laboratório de Ciclotrons, do Centro de Radiofarmácia e do Centro de Tecnologia das Radiações do Ipen. Além dos investimentos diretos no projeto, contaram também aqueles para a infra-estrutura, como a aq u isição de um distribuidor magnético com cinco saídas para uma das linhas de feixe de prótons do Cyclone 30 Com isso, agora podem ficar instaladas até cinco câmaras de irradiação, uma de las exclusiva para a produção do iodo-123. Antes, só se usava uma câmara, que t inha de ser montada e desmontada a cada novo radiofármaco produzido na linha

lodo no lncor - O Instituto do Coração (ln cor) da Universidade de São Paulo (USP) é um dos consumidores do iodo - 123 Cláudio Meneghetti, diretor do Serviço de Radioisótopos do Incor, informa que a primeira utilização do iodo-123 será no estudo de prognóstico dos pacientes que estão na fila de transplantes de coração, para identificar os que têm maior ris-

Sc iani: dom ínio da te cnolo gia permitiu criar novos sistemas e processos de produção

co de morte, por meio do uso de uma substância- a metaiodobenzilguanidina- marcada com o iodo-123. Com essas substâncias no organismo, o paciente é submetido a um exame de cintilografia, em que uma máquina especial capta a radiação concentrada nos locais doentes de forma semelhante a um equipamento de raio X. De acordo com a farmacêutica Marycel Barboza, responsável no Ipen pela marcação de moléculas com radioisótopos, o iodo-123 é usado apenas em diagnóstico e na monitoração de tratamentos, diferente do uso do iodo-131, utilizado em diagnóstico e radioterapia. Com o 123, pode-se diagnosticar disfunções da tireóide, como hipo e hipertireoidismo. Inserido na metaiodobenzilguanidina, possibilita estudos precisos do miocárdio e a identificação de tumores endócrinas e da crista neural (onde há neurônios envolvidos, centrais ou periféricos), que são de baixa ocorrência, mas atingem crianças - neuroblastoma - e adultos jovens- feocromocitoma. A conjunção das duas substâncias também facilita o acompanhamento terapêutico, corrigindo e avaliando a necessidade de aumentar a dose de um medicamento, além de verificar a eficiência da linha terapêutica. O iodo-123 pode também ser usado para marcar outras moléculas, como as utilizadas no exame de fluxo neural ou cerebral e estudos de neurorreceptores.

Fator vital - Na cardiologia, existem várias utilidades para o iodo-123 que ajudam o médico a entender o problema do paciente. "Por exemplo, se ele teve um infarto, o exame com a metaiodobenzilguanidina marcada pode constatar a área de arritimia. No caso dos transplantes cardíacos, muitas vezes é preciso escolher o re-

ceptor de um coração na fila de espera. Há um momento em que todos os fatores envolvidos, do ponto de vista clínico ou funcional, são similares, mas aquele que tiver menor concentração de noradrenalina no miocárdio é o caso mais grave e deverá, em termos estatísticos, morrer primeiro se não houver uma solução. O exame com a molécula marcada com o iodo-123 pode identificar quais são essas pessoas na fila de espera de um transplante de coração.

Meneghetti destaca ainda o caso de pessoas com arritmias ocasionais, motivadas por falhas na distribuição da rede neural do miocárdio e que poderão ter seu caso mais bem estudado. O uso do iodo-123 no diagnóstico da tireóide vai ser menor que o iodo-131, porque ele tem meia-vida maior, de oito dias. "Isso o torna mais facilmente disponível para as necessidades do dia-a-dia das clínicas", esclarece o químico Jair Mengatti, coordenador da produção de radiofármacos do Ipen. "Mas, mesmo que o iodo-131 continue a desempenhar papel significativo no diagnóstico da tireóide, o iodo-123 é inquestionável na marcação de moléculas para outros tipos de exame, pela excelência das imagens que propicia e a baixa radioatividade administrada ao paciente."

Sem impurezas - O iodo-123 era produzido anteriormente pelo Ipen a partir do óxido de telúrio, mas essa substância possuía o contaminante iodo-124. O Incor já trabalhou no passado, de forma acadêmica, com esse iodo. Se administrado a um paciente, mesmo em dose pequena, o iodo-124 permanece no organismo. Mas esse iodo impuro era utilizado de forma esporádica, segundo Meneghetti: "Apenas quando o benefício de sua aplicação compensasse os riscos da radiação do 124, caso de pacientes à espera de um novo coração e com perspectiva de vida curta caso o transplante não acontecesse': Com o gás xenônio-124, o iodo-123 garante, além da alta qualidade de imagens, a ausência de impurezas como o iodo-124. Atualmente, cerca de 1,5 milhão de pessoas são beneficiadas com radiofármacos produzidos pelo Ipen. Mengatti informa que a utilização desses produtos no Brasil tem crescido em torno de 13% ao ano. Alguns, como o iodo-131 e o 123, apre1;;;,;1 sentam taxa de 15%. "Mas, mesmo com essa velocidade de crescimento, estamos utilizando a quantidade de radiofármacos próxima à da Argentina." Considerando-se que a Argentina tem 1/4 da população do Brasil, o consumo brasileiro precisaria crescer 300% para se igualar ao dos argentinos. Meneghetti, por sua vez, comenta que o crescimento da medicina nuclear tem sido grande: "Estávamos num patamar de aplicação muito baixo. A situação mudou quando a Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear passou a divulgar, entre os médicos, os benefícios dos exames nucleares". Com a produção do iodo-123 ultrapuro, em São Paulo, consegue-se um novo avanço nessa área da medicina. •

PSICOLOGIA

Estratégias para manter o casamento

Estudo mostra como mulheres lidam com o cotidiano do matrimônio

(( , "O e que a morte os separe. efeito simbólico dessa frase, ouvida por milhões de casais em boa parte do mundo durante a cerimônia religiosa de casamento, costuma ecoar sobre o homem ou a mulher quando a união está ruindo ou quando o que resta da ilusão matrimonial é mantido a duras penas. É compreensível. Presume-se que a intenção da maioria ao assumtr um compromtsso como esse é ser feliz por longos anos. Embora já vá longe o tempo em que os casais mantinham o casamento mesmo que não restasse mais nada entre eles senão os hábitos, os filhos para criar, os netos para curtir ou contas a acertar, também é verdade que grande número de casais prefere continuar como está.

Homem e mulher continuam utilizando recursos diversos para manter a casa em pé: são estratégias diretas, indiretas, um jeito particular de se esquivar ao diálogo, optar pelo silêncio, esperar pela melhor oportunidade de abordar certo assunto e, assim, atingir seu objetivo sem traumas. Para entender os estratagemas adotados por mulheres que se mantêm casadas durante 15 anos ou

mais, as pesquisadoras Maria Lúcia Teixeria Garcia e Eda Terezinha de Oliveira Tassara decidiram investir num projeto que interessa a todos que são casados. Por três anos, elas trabalharam no projeto Da Utopia do Amor Romântico ao Cotidiano do Casamento. Lúcia é assistente social e professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Eda, co-autora e coordenadora científica do projeto, é doutora em Psicologia e docente do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP). Uma das conseqüências do trabalho das duas é a tese de doutorado de Lúcia, Problemas no Casamento: a Presença Utópica do Amor Romântico, que será defendida em fevereiro na USP.

A pesquisa de Eda e da Lúcia Garcia começou em 1997 e terminou em junho deste ano. A FAPESP financiou computador, impressora, a transcrição do material e programas de computador. O trabalho foi desenvolvido a partir de entrevistas com mulheres das classes média e alta da região da Grande Vitória, Espírito Santo. "As histórias narradas

possuem um início, um meio e uma projeção de futuro - avaliada como potencialmente boa ou ruim - em função da aproximação ou distanciamento do projeto de convivência conjugal", diz Eda, casada há 40 anos. "Tais avaliações dizem respeito a expectativas e aspirações das entrevistadas que podem diferir ou não das análises feitas por seus cônjuges. Para algumas, a discrepância na avaliação da convivência conjugal foi um dado destacado por elas, o que fazia com que aquilo que indicavam como inadequado para elas não o fosse necessariamente para seus parceiros."

Como avaliação geral pode-se dizer que, para as mulheres felizes e satisfeitas com o casamento, não há por que romper com um vínculo avaliado como adequado às suas expectativas. Entre as mulheres felizes, mas insatisfeitas com a relação conjugal, a separação se coloca como ameaça, embora, ao mesmo tempo, projetem alternativas de superação das dificuldades vividas. Entre as mulheres infelizes, a separação é vista como alternativa, mas evitada por elas ao avaliar os possíveis impactos sobre sua identidade.

Caminhos e estratégias - Não foi a primeira vez que o casamento despertou o interesse de Maria Lúcia. Casada há 14 anos, havia desenvolvido um trabalho de dissertação de mestrado na área de dependência química no Programa de Atendimento ao Alcoolista do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, em Vitória. Na ocasião, em 1995, pesquisou o significado do casamento entre mulheres que viviam uma relação de conflito em razão do consumo abusivo de álcool por seus parceiros. Conversou com mulheres de renda familiar baixa que evidenciaram dois problemas principais: o da questão material, de sobrevivência, e o de saúde, vivido pelo companheiro e cuja busca da solução podia contar com a ajuda da companheira. A pesquisadora con-

feriu que, embora o número de casos de divórcios fosse significativo nesse grupo, o uso do álcool não significava, a rigor, que essas pessoas ficassem sós. Portanto, a questão da premissa da separação existia anteriormente à relação e a pergunta não era respondida: o que se constituía realmente em problema no casamento para as mulheres?

Era natural que Lúcia voltasse ao tema e buscasse um caminho para descobrir as estra-

tégias adotadas pelas mulheres para manter e lidar com o casamento. "Ao definir como temática de investigação ocasamento, uma das ramificações possíveis do assunto com o qual vinha trabalhando até então, tive um misto de alegria e surpresa com o interesse que minha escolha causava nas pessoas", conta a pesquisadora. Em todos os segmentos sociais nos quais ela transitava sempre aparecia alguém com informações sobre uma "história interessante" de algum casal amigo. "Evidenciava-se, com isso, a reflexividade do tema, na medida em que falar, pensar, viver ou planejar manter uma relação afetivo-sexual faz parte da biografia de uma boa parte da população."

Moradora de Vitória, ela preferiu se basear em exemplos extraídos daregião por dois motivos: o crescimento populacional acelerado a partir da década de 70, em razão da instalação de empresas do ramo siderúrgico, e a composição da população da Grande Vitória, integrada por gente vinda de Minas Gerais, São Paulo e do Rio

de Janeiro. O projeto Da Utopia do Amor Romântico ao Cotidiano do Casamento nasceu a partir de um universo multifacetado. Foram escolhidas 20 mulheres, com idade média de 48 anos (mínima de 35 e máxima de 56), tempo médio de casamento de 24 anos (mínimo de 15 e máximo de 34). Já nessa fase, elas foram inseridas nas categorias de "casamento feliz" ou "casamento infeliz", depois analisadas conforme a auto-avaliação de cada uma.

A escolha do universo feminino obedeceu ao seguinte critério: o tempo de casamento mínimo (15 anos)

garante que o casal tenha ultrapassado os primeiros dez anos de vida conjugal, período caracterizado pelo delineamento da identidade do casal e que envolve o estabelecimento de regras que nortearão a vida conjugal. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para Vitória indicam que há maior probabilidade de separação no período compreendido entre quatro e nove anos de casadas. As mulheres, cujas identidades foram preservadas, passaram por uma média de três a quatro entrevistas semi-estruturadas, gravadas, abordando a história do casamentodesde o namoro, o início da união, o momento atual e a projeção para o futuro. Depois, receberam cópias de suas entrevistas e, ao iniciar uma nova entrevista, o pesquisador pode verificar se os textos haviam sido lidos e qual impacto causaram à autora. Os dados obtidos foram importantes para a pesquisa e seu detalhamenta, mas chegar a eles significou superar barreiras básicas, como manter os encontros preestabelecidos com integrantes do grupo e garantir o número de mulheres inicialmente proposto para o estudo. "Das 30 mu-

lheres, conseguimos entrevistar 20. Por envolver entre três e quatro encontros, muitas alegavam falta de tempo para participar ou ainda falta de vontade de falar sobre seus casamentos", diz Lúcia Garcia. A metodologia envolvia uma seqüência de encontros intermediados pela leitura que essas mulheres faziam do texto produzido por elas no encontro anterior. As histórias foram obtidas paulatinamente. "Os vá-

tes ou delicados no casamento; quatro mulheres usavam a estratégia indireta; oito lançavam mão do uso combinado de estratégias diretas e indiretas. Já os maridos, 13 deles utilizavam estratégias diretas e dois a dobradinha direta/indireta . E ainda, em cinco casos, revelou-se o uso da estratégia indireta - principalmente

nos encontros permitiram uma proximidade crescente entre entrevistada e entrevistadora", afirma a pesquisadora. "Também definiu-se um processo reflexivo no qual as contradições eram explicitadas pelas entrevistadas e se tornavam alvo de novas reflexões." Outra coisa: concluiu-se que as entrevistadas escolheram criteriosamente os fatos a serem narrados, de modo que a manutenção de seu casamento fosse justificada.

À medida que o material fornecido pelo grupo foi estudado, chegouse a alguns indicadores importantes. Por exemplo, para oito entrevistadas prevalecia a estratégia direta como forma de tratar assuntos importan-

o silêncio ou o adiamento da busca de solução para algo que perturba o relacionamento do casal.

Lamúrias e problemas- Como nada é simples quando se fala em relações de amor/parceria/casamento, da correlação dos dados levantados chegou-se a diversos modos de agir. Por exemplo, mulheres que avaliam negativamente seu casamento demonstram que ocorreu uma quebra naquele almejado e romântico projeto inicial e usam estratégias indiretas de abordagem, muitas vezes evitando ou fugindo do diálogo. É

como se dissessem "não adianta, não vai mudar" ou "ele não vai se comportar como desejo". Uma das entrevistadas mostrou que havia entre o casal uma comunicação calcada em lamúrias, ao mesmo tempo em que um não informava ao outro, adequadamente, os problemas existentes. Outra vivia aparentemente bem, mas expressou da seguinte maneira sua insatisfação: "Estávamos sempre juntos, mas não com-

partilhávamos nada, a não ser a casa, até que em determinado momento eu falei: 'A gente não conversa, a gente não sai um com o outro'. E ele: 'Talvez por isso estejamos juntos há tanto tempo'".

As mulheres que dizem ser felizes também se dividem em dois tipos. Há as que não identificam problemas de relação ou que associam os problemas apenas a pequenas questões do cotidiano ("o controle remoto", "o ronco", "o ar-condicionado", "o temperamento dele"). No outro grupo está a mulher que enxerga o problema, vive um conjunto deles e ainda assim afirma (ou acredita) que todos são gerenciáveis. "Eu acho que quando se co-

nhece as pessoas com quem está se relacionando, que você quer que dê certo aquilo que está construindo, vamos ajeitando as coisas", diz outra mulher.

São vários os tipos de relacionamentos e formas de abordagem ou não-abordagem. Há quem se diga feliz com o casamento, porém insatisfeita com o relacionamento. Nesse caso, o hábito (ou a estratégia) pode ser abordar as questões sem dar a entender ao outro tal insatisfação. Uma conseqüência é que, quando a mulher atinge o alvo (mudar o comportamento do parceiro), atribui o crédito ao outro e não a si. Veja o de-

!amos sobre o assunto. Mas não falamos quando estamos no meio do conflito. Porque eu acho que quando você fala com a cabeça quente pode dizer coisas que depois se arrepende. E ele tem também esse mesmo procedimento".

Ampliação dos papéis - O lar foi descrito como o espaço de expressão de todo afeto positivo que existe entre o casal. É o lugar ideal para a realização dos desejos de serem felizes, uma condição manifestada por todas as entrevistadas. Quanto a ter ou não problemas, isso foi associado ao tipo de vida e de situações pelas quais o

''As histórias narradas possuem um início, um meio e uma projeção de futuro''
Eda Tassara

poimento de mais uma mulher: "Eu gosto das coisas em pratos limpos logo, mas nem sempre a gente pode colocar as cartas na mesa e dizer... Nas horas boas, que a gente estava conversando, dava sempre uma charadinha, encaminhando para o assunto, mas sem demonstrar muito".

Também é curioso saber como elas se referem ao comportamento do homem. Algumas delineiam expectativas quanto ao papel sexual do parceiro. Outras indicam que existe uma similaridade de comportamento entre os dois: "Depois que passa, que a gente já voltou ao normal, fa-

O PROJETO

A Utopia do Amor Romântico no Cotidiano do Ca samento : um es tuda sobre estratégias para a m anut enção do casam ento

MODALIDADE

Auxílio a projeto de pesquisa

COORDENADORA

EDA TEREZINHA DE OLIVEIRA

TASSARA- Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP)

INVESTIMENTO

R$ 18 mil

casal passa: quanto mais perto do projeto de casamento idealizado, menor a possibilidade de haver problemas. Como, de maneira geral (e em razão de sua inserção socioeconômica), a sobrevivência material não aparece como problema, a questão do trabalho pode surgir em decorrência do momento, do ciclo de vida de cada uma. Por exemplo, com filhos era natural que elas ficassem em casa. Mas com o crescimento das crianças, não trabalhar fora tornouse um problema.

O trinômio mulher-esposa-mãe não só é bem aceito como almejado por muitas mulheres. Muitas vezes esse trinômio foi acrescido do item trabalho- exercido fora do lar e cuja renda veio incorporar-se à vida familiar. Dessa forma a mulher passa a ser, também, provedora financeira junto com o marido. Nada errado para ela, a não ser quando sua remuneração supera a do maridoafinal, entre contribuir e ser a provedora oficial, elas preferem a primeira situação. Também gostariam que os homens tivessem maior participação na organização doméstica, atitude que pode ser associada, assim, à de "provedor de afetos e cuidados".

Contornando e/ou enfrentando questões de vá§ rios tipos, as mulheres si0 nalizaram, por meio de " suas histórias, a idéia de manutenção do casamento como questão central. Seria a realidade da mulher da Grande Vitória igual ou similar à das moradoras de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e de outras localidades? "Por falarmos de um tema comum e alvo de tantas reflexões na mídia, o que se evidencia é que as questões sinalizadas pelas entrevistadas ilustram todo um processo de mudanças que vêm incidindo sobre os casais", diz Eda. "Para generalizar os dados, precisaríamos ampliar o estudo e englobar outras faixas etárias e localidades, projeto que pretendemos desenvolver no futuro." •

SOCIOLOGIA

Educação ambiental contra pobreza

Projeto ajuda a melhorar condições de vida em comunidades

Quase todos os meses, algumas integrantes da Associação de Mulheres de Espírito Santo do Turvo percorrem os mais de 300 quilômetros que separam seu município da capital paulista. Elas viajam para exibir e vender o artesanato que produzem em sua cidade. Dessa maneira e com uma doação da Fundação Levy Straus, já garantiram a construção da sede de sua associação. Esse é apenas um dos diversos resultados práticos do projeto temático Educação Ambiental via Representações Sociais, Acadêmicas e Populares do Meio. Patrocinado pela FAPESP com uma verba de aproximadamente R$ 200 mil para três anos e coordenado por Myriam Krasilchik, diretora da Faculdade de Educação e ex-vice-reitora da Universidade de São Paulo (USP), o projeto reúne cerca de 20 pesquisadores de áreas científicas em torno de Espírito Santo do Turvo e de Vera Cruz - cidades respectivamente com 3 mil e 13 mil habitantes, situadas na região oeste do Estado de São Paulo.

Apesar de terem em comum a pobreza e a degradação ambiental, com solos comprometidos, a realidade das duas cidades é bem diferente, o que amplia o resultado desse projeto . "No fim, essa diferença entre Espírito Santo e Vera Cruz foi importante para a diversidade de informações do banco de dados que estamos formando e sua análise comparativa", observa Nidia Nacib Pontuschka. Ela é coordenadoraadjunta da pes qui sa, professora de Metodo logia d e Ensino d e Geogra-

fia da FE e realiza pesquisas em educação ambiental.

Iniciado em março de 1998 e com término previsto para a segunda metade de 2001, além de membros da FE, o projeto está a cargo de pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e da Faculdade de Saúde Pública (PSP), ambas unidades da USP, e do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O trabalho envolve engenhei-

rização completa dos solos, sua classificação e mapeamento, entre outras informações que levarão à produção de um atlas de cada um dos municípios. Foram feitos igualmente um mapeamento e o diagnóstico do estado de conservação nativa existente nos dois municípios e o acompanhamento das diferentes espécies de fauna e flora - só de aves foram identificadas 64 espécies, num trabalho coordenado pelo professor Álva-

Venda de artesanato em São Paulo ajuda associações populares do interior

ros agrônomos, civis e florestais, biólogos, historiadores, geógrafos, sociólogos, além de educadores. "Essa diversidade é uma riqueza para a equipe, porque exigiu a construção de uma linguagem comum e a compreensão das diferentes metodologias", explica Myriam.

Diagnóstico da regi ã o - O trabalho desenvolvido no IAC, por exemplo, liderado pelo professor Pedro Donzeli, fez o diagnóstico do meio físico - dado relevante para o planejamento do uso agrícola das terras de forma sustentada. Além dos mapas planialtimétricos básicos, o estudo contém informações relativas ao uso at ual d as terras e su a vegetação natural , b em como so b re prob lemas de erosão em estra d as rurais, a carac t e-

ro Fernando de Almeida. A partir dos dados coletados e discussões com a população e autoridades municipais vêm sendo sugeridas modificações nas redes de infra-estrutura de saneamento, o asfaltamento das ruas, a localização de casos de doença e dados gerais dos municípios, como rede hidrográfica, estradas, área urbana, divisão por bairros e tamanho dos lotes urbanos.

Esse estudo é decorrência do projeto UNIR, iniciado no começo dos anos 90 com financiamento da Fundação W. K. Kellogg. Dentro do UNIR, em 1995 foi feito um diagnóstico participativo para conhecer as relações dos moradores das áreas rurais e urbanas com os municípios . A base do UNIR foi rural, de intervenção na pop ul ação das d u as ci-

dades e de pesquisa. Os dados levantados na época subsidiam esse segundo projeto cujo caráter é de pesquisa para coleta de dados necessários às mudanças de representação das populações locais. O objetivo é criar condições para o aumento da renda e melhoria do atendimento dos serviços públicos aos habitantes de Espírito Santo do Turvo e Vera Cruz.

Para avançar no processo é fundamental envolver os moradores da cidade. "O problema ambiental é grave, mas há questões cruciais que envolvem outras áreas, como educação, saúde e geração de empregos", afirma Myriam. Mais conscientes das suas necessidades, os próprios cidadãos desencadearão um processo de desenvolvimento econômico, social e político para a melhoria da qualidade de vida com a sustentabilidade do meio ambiente. "Quando o projeto chegar ao fim, eles mesmos já estarão agrupados, associados e conscientes de como devem continuar trabalhando", explica Nidia.

Periodicamente, os pesquisadores promovem reuniões com associações de moradores, diretores e professores das escolas, representantes do executivo municipal e de organizações comunitárias. Foi em encontros do gênero, por exemplo, que os habitantes de Espírito Santo do Turvo conseguiram, com a prefeitura, a limpeza, o controle de erosão urbana e a drenagem do Córrego do Rangel para o qual estão sendo projetados o replantio de mata ciliar e a criação de áreas de lazer. A recuperação do córrego é um dos 14 itens que constam da lista de primeiras necessidades urbano-ambientais para a cidade, detalhadas no projeto. A prefeitura também acabou de adquirir uma casa do século 19. Nela, fundará uma casa de cultura, com a participação da universidade, para resgatar um acervo que possa registrar a história do município. Espírito Santo do Turvo é distrito de Santa Cruz do Rio Pardo e

tornou-se município em 1992. A população vive do trabalho rural e da usina de álcool local, a Sobar. Ela oferece emprego a grande parte da população e, na safra, atrai também trabalhadores rurais de outros municípios.

Em Vera Cruz, a situação é diferente. O município vive basicamente da monocultura do café e do maracujá, como cultura alternativa, e é dez vezes mais populoso. Ao contrário de Espírito Santo, esse município, situado a 10 quilômetros de Marília, é muito mais antigo e foi próspero na era do café. "Com a queda do café, a economia local tornou-se de-

O PROJETO

TÍTULO

Educação Ambiental Via Representações Sociais , Acadêmicas e Populares do Meio

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADORA

MYRIAM KRASILCHIKFaculdade de Educação da USP

INVESTIMENTO

R$ 200 mil

cadente e partiu para a fruticultura", explica a professora Nidia. "O problema é que plantaram demais e, ainda por cima, apareceu uma doença que está sendo pesquisada por um grupo liderado pela Esalq."

Contudo, com a colaboração dos próprios moradores, que entenderam o projeto, foi desencadeada uma série de ações, como o levantamento de representações para discutir os problemas ambientais da cidade com a intensa e ampla presença da equipe da Faculdade de Saúde Pública, coordenada pela professora Helena Ribeiro. Verificadas as carências de infra-estrutura de saneamento básico, fez-se uma seleção das ações prioritárias na área ambiental. Realizou-se o levantamento da qualidade da água distribuída, das con-

dições sanitárias da moradia daquela população e seu entorno e da morbidade.

Como o projeto envolve as escolas como ponte de aproximação e discussão com a população dos dois municípios, a rotatividade dos professores tornou-se um problema. Na Escola Estadual de Espírito Santo do Turvo, por exemplo, o corpo docente foi muito mudado como decorrência

Myriam: participação da população é essencial

do concurso público, feito pela Secretaria do Estado de São Paulo, e da municipalização de 1a a 4a séries. "Isso demandou novos esforços para recomeçar a formação e o envolvimento deles", explica Myriam.

O projeto Educação Ambiental tem sido divulgado nos meios científicos pelos vários encontros nacionais e internacionais. Trabalhos acadêmicos estão sendo desenvolvidos em nível de graduação e pós-graduação derivando em relatórios, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Espera-se produzir um livro em que os dados do trabalho integrado de grupos tão variados permitam analisar problemas ambientais derivando regularidades para políticas públicas em municípios com características semelhantes. •

O ser negro em uma sociedade branca

Obra mostra como o Brasil camufla sua identidade étnica

Desde o final do século 19, o Brasil tenta camuflar a sua identidade étnica. Para tanto, vem negando continuamente o fato de ser um país negro. Esconde-se atrás dos ideários da mestiçagem, visando ao embranquecimento; criou a categoria "pardo" para designar negros de tez menos escura e se auto-inti-

Afro-des c endente: id enti d a d e em c ons tr uç ão

Ricardo Franklin Ferreira

Educ/Fapesp/Pallas

18 6 páginas

R$ 24,00

tulou o país da democracia racial. A construção ideológica desse tipo de pensamento passa necessariamente pe las elites e se expande por todos os demais segmentos sociais.

Toda essa trajetória de negação dos últimos cem anos acabou por trazer graves ônus à população negra brasileira, que representa 44,3% da sociedade, o que equivale a 70 milhões de indivíduos. O Brasil é o segundo país mais negro do planeta, sendo superado apenas pela Nigéria.

Foi procurando entender a construção da identidade negra em uma sociedade marcadamente eurocêntrica que o psicoterapeuta Ricardo Franklin Ferreira escreveu o livro Afro-descendente: identidade em construção, que é o desdobramento de sua tese de doutorado defendida ano passado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). O autor tenta desvelar o que é ser negro no Brasil, a perda e a formação da sua auto-estima e a sua luta afirmativa. "Vivemos em uma sociedade na qual os valores determinados por uma cultura branca européia são vistos como superiores, ocasionando aos afrodescendentes o desenvolvimento de auto-imagem negativa, acompanhada de baixa auto-estima, o que muito contribui para gerar condições desumanas de existência e tende a perpetuar-se em um processo de exclusão, sustentado por complexo mecanismo social", explica.

Franklin Ferreira elabora a construção da identidade do negro a partir do olhar do próprio

negro e de como ele se autodesigna. Essa análise passa necessariamente pela linguagem. "Se a pessoa for chamada de negra sentir-seá valorizada ou ofendida? É consenso entre os afrodescendentes o uso da denominação negro ou é um termo usado somente na academia e em alguns movimentos negros?", questiona. Para obter respostas a essas questões, Franklin Ferreira utiliza-se do método qualitativo de pesquisa, que permite o desenvolvimento de entrevistas biográficas e até mesmo centrar toda a pesquisa em uma única fonte No caso do seu trabalho, ele tem como referência um homem negro (cuja identidade ele preserva e passa a chamá-lo pelo codinome de João) que vai discorrer sobre o que é ser afrodescendente no Brasil de hoje. No livro, são apresentados trechos editados da fala do entrevistado. Talvez o ideal fosse o autor ter colócado a fala na íntegra para que o leitor pudesse compartilhar com o psicoterapeuta as confissões, as conquistas e frustrações de um homem negro que representa os mais de 70 milhões que vivem dia a dia Brasil afora.

A principal característica do livro é o fato de ele trazer uma linha de pesquisa sobre questões étnicas que não se finca tão somente nas questões sociológicas e antropológicas, que são as áreas de estudos de etnia e cultura por excelência, mas busca uma interpretação do ponto de vista da psicologia, demonstrando que antes mesmo de se pensar em mudanças sociopolíticas é necessário algo anterior, como a busca da auto-estima ou de uma identidade positiva para o próprio exercício da cidadania.

RI CARDO ALEXIN O F ERREIRA é jornalista, professor de jornalismo Especializado da Unesp e doutorando em Ci ências da Comunicação na USP.

O Desafio de Ensinar

Ciências no Século XXI

Edusp

Ernst Hamburguer e Cauê Matos, organizadores

352 páginas I R$ 25,00

Este lançamento reúne alguns dos textos apresentados durante a Quarta Mostra de Material de Divulgação e Ensino das Ciências, realizada no ano passado. A razão principal do evento foi pensar formas de desenvolvimento da divulgação científica, considerada pelos organizadores como uma das principais alternativas para a melhoria do ensino em tempos de crise. Entre os vários artigos: "I nternet para os Professores de Química e Ciência" e "Viajando com Dalí".

Ref0lexões so r:e0a VI a e a morte

Reflexões sobre a Vida e a Morte: Abordagem

Interdisciplinar do Paciente Terminal

Editora da Unicamp

Vera Lúcia Rezende, organizadora

128 páginas I R$ 15,00

Um tema delicado com uma boa abordagem: a morte. Os vários artigos desta coletânea tentam refletir sobre o assunto de forma a mostrar como a morte não deve apenas ser vista pelo profissional da saúde como uma derrota, mas igualmente pode servir como forma de reflexão sobre a suposta onipotência da medicina , que pode, de outro lado , ser entendida como sinônimo de impotência.

Desvendando o Arco-Íris:

Ciência, Ilusão e Encantamento

Companhia das Letras

DESVENDANDO O ARCO·IRIS

Richard Dawkins

424 páginas I R$ 34,50

O celebrado professor da Universidade de Oxford discute o racionalismo científico, visto em geral em oposição direta à poesia e ao humanismo. Neste livro delicioso, Dawkins- a partir do poema de Keats, em que o poeta critica Newton por ter destruído o encanto etéreo do arco-íris com suas descobertas- diz que a ciência pode servir como fonte de inspiração para os humanistas. O professor condena as pseudociências e o obscurantismo daqueles que atacam as verdadeiras ciências, chamando-as de arrogantes e absolutas.

REVISTAS

Revista USP

Número 46

A edição de junho-julho-agosto da Revista USP traz um dossiê que encerra a trilogia sobre os SOO anos do Descobrimento do Brasil, desta vez com o título "Depo is de Cabra l: Formação do Brasi l", que reúne belos estudos sobre como se formou o que chamamos hoje de povo brasileiro. Os artigos passam pela Antropologia, Sociologia, História, revelando a fundo como se configuraram as grandes etnias nacionais e o universo multiétnico que compõe o país.

Wired

Outubro

Uma das mais belas revistas internacionais dedicadas às novas tecnologias, a Wired traz como tema central um assunto que vem fascinando os jovens e irritando os donos de gravadoras de todo o mundo: o Napster, o processo de gravação e distribuição pela rede de músicas. Sem direitos, é claro. Além de discutir os rumos tomados pela pirataria on line, a Wired apresenta a úitima novidade no assunto, o Gn ut ell a, um upgrade do Napster, ainda mais poderoso. Há uma entrevista com David Boies, o homem forte da Microsoft, que apresenta seus planos de defesa contra o Napster.

Cinemais

Número 23

cinema i s

Vil/a-Lobos retrato do artista quando fervendo por dentro

A última edição desta revista bimestral, que discute os rumos do cinem a e questões audiovisuais, traz na capa uma entrevista co m o cineasta Ze lit o Viana sobre o maestro Villa-Lobos, tema de se u mais recente fi lm e. Publicada pela Editoria l Cinemais em parceria com a Odebrecht e com a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual do M ini stério da Cultura, a revista tem também artigos sobre o Pagador de Promessas, Estorvo, O Resgate do Soldado Ryan e m emória e cinema, entre outros.

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A cana-de-açúcar redesenhada by Pesquisa Fapesp - Issuu