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A vitória da ONSA

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Artigo científico sobre o seqüenciamento genético da Xylella fastidiosa, publicado pela Nature, é destaque na imprensa internacional e revela importantes descobertas científicas

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FAPESP cria o Programa para Inovação em Ciência e Tecnologia Aeroespaciais, influindo na decisão da Embraer de escolher São Paulo como local de sua nova fábrica

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Estudo busca compatibilizar as principais teorias da Física para explicar as forças do Universo

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Pesquisador adiciona moléculas modificadas de ácido linoleico conjugado à ração das vacas e obtém leite com mais proteína e menos gordura

EDITORIAL

MEMORIAS

OPINIÃO

POLITICA CIENTÍFICA E TECNOLOGICA

CIÊNCIA

TECNOLOGIA

HUMANIDADES

LIVRO

44

Equipe da USP ganha prêmio internacional com pesquisa sobre superfícies ópticas capazes de modificar as propriedades de um feixe de luz

54

Pesquisa analisa as transformações ocorridas na Zona Leste de São Paulo nas últimas décadas e traça o novo perfil econômico e urbano da região

Capa : Hélio de Almeida, sobre foto de Fabio Colombini / Kino Fotoarquivo

Pesqüisa

PESQUISA FAPESP É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL

DA FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO

PROF DR CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ PRESIDENTE

PROF. DR PAULO EDUARDO DE ABREU MACHADO VICE-PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR ADILSON AVANSI DE ABREU ALAIN FLORENT STEMPFER

CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ

FERNANDO VAS CO LEÇA DO NASCIMENTO FLÀVIO FAVA DE MORAES

JOSÉ JOBSON DE ANDRADE ARRUDA MAURÍCIO PRATES DE CAMPOS FILHO MOHAMED KHEDER ZEYN

NILSON DIAS VIEIRA JUNIOR PAULO EDUARDO DE ABREU MACHADO RICARDO RENZO BRENTANI VAHAN AGOPYAN

CONSELHO TÉCNICO-ADMINISTRATIVO

PROF. DR FRANCISCO ROMEU LANDI DIRETOR PRESIDENTE

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EQUIPE RESPONSÁVEL

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EDITORA CHEFE MARILUCE MOURA

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EDITOR DE ARTE HÉLIO DE ALMEIDA

EDITORES

CARLOS FIORAVANTI

MARCOS DE OLIVEIRA (TECNOLOGIA) MÀRIO LEITE FERNANDES (ENCARTES)

DIAGRAMAÇÃO E PRODUÇÃO GRÁFICA TÃNIA MARIA DOS SANTOS

COLABORADORES

ADILSON AUGUSTO ANA MARIA FlORI

CLAUDIA IZIQUE CRISTINA DURÁN

EDUARDO STOPATO

LUCAS ECHIMENCO MARIA LIGIA SANCHES

MAURÍCIO TUFFANI

OITO FILGUEIRAS ROBERTO MEDEIROS WILSON MAR/N/

ENCARTE ESPECIAL

MAPA GENÉTICO DA XYLELLA FASTIDIOSA

FOTOLITOS E IMPRESSÃO GRAPHBOX-CARAN

TIRAGEM : 22.000 EXEMPLARES FAPESP

RUA PIO XI, N" I SOO, CEP 05468-90 I ALTO DA LAPA- SÃO PAULO - SP TEL (O- 11) 3838-4000- FAX: (O- 11) 3838-4117

ESTE INFORMATIVO ESTÃ DISPONÍVEL NA HOME-PAGE DA FAPESP: http://www.fapesp br e·mail: mariluce@fapesp.br

SECRETARIA DA TECNOLOGIA E DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

SOO anos de C&T no Brasil

Causou-me espanto que o suplemento especial da revista Pesquisa FAPESP, comemorativo dos SOO anos de ciência e tecnologia no Brasil, não tenha dado a devida referência ao livro de Márcia Helena Mendes Ferraz, As ciências em Portugal e no Brasil (17721822): o texto conflituoso da química (São Paulo; Educ/FAPESP, 1997). Em um suplemento dedicado à história da ciência no Brasil, não deveria haver referência a uma obra seminal sobre a implantação dos cursos de química em Minas Gerais e no Rio de Janeiro?

PROF. DION DAVID MACEDO Universidade Metodista de São Paulo São Paulo, SP

De acordo com o professor Shozo Motoyama, coordenador do Suplemento, os livros relacionados na publicação são apenas indicações bibliográficas. O critério para a indicação foi o de serem livros clássicos que tratam da história da ciência e da tecnologia no país. Dos títulos relativos a temas ou áreas específicas, foram apenas assinalados os citados no corpo do texto sobre os 500 anos de C&T no Brasil ou os que foram utilizados como material de consúlta.

Pesquisadores mais citados

Li com interesse recente reportagem da revista Pesquisa FAPESP em que se fala dos "mais citados autores brasileiros de 1990 até hoje", seguido de lista de trabalhos. Gostaria de saber qual foi exatamente o critério usado para a feitura desta lista.

SIORGIO P. TOLEDO São Paulo, SP

A lista foi elaborada pelo Information Scientific Institute (ISI). O critério foi especifico para a premiação e elaborado exclusivamente pelo ISI. O Instituto escolheu os trabalhos com mais de 50 citações, levando ainda em consideração as áreas do conhecimento e as regiões

brasileiras mais representativas, chegando, ao final, àqueles 27 artigos, assinados por 104 pesquisadores brasileiros.

Revista

Parabenizo a revista Pesquisa FAPESP pelos temas abordados. Tive a oportunidade de ler pela primeira vez o exemplar do mês de abril, de número 52, cujos temas vieram contribuir na resolução das questões do Provão/ 2000, realizado no dia 11 de junho. Sou pesquisadora da Universidade Regional do Cariri- URCA, pelo programa Funcap, e aluna do curso de Ciências Biológicas.

DANIELLE lNACIO MAGALHÃES Crato, Ceará

Gostaria de parabenizar toda a equipe da revista Pesquisa FAPESP pelo excelente trabalho que vem desenvolvendo.

HW O P EDRINI Araçatuba, SP

Parabenizo-os pela revista Pesquisa FAPESP. Sou professor universitário e me interesso pelos assuntos tratados.

CARLOS NABIL GHOBRIL São Paulo, SP

Tenho acomparihado os artigos publicados na revista Pesquisa FAPESP e gostaria de demonstrar minha admiração. São artigos de grande importância científica, os quais nos proporcionam um maior conhecimento nas diferentes áreas de pesquisa em nosso país. Como trabalho com pesquisa, a revista tornou-se indispensável aos meus estudos.

VALESCA PANDOLFI CNPT/Embrapa- Passo Fundo, RS Correção

A capa da edição n° 54 da Pesquisa FAPESP saiu, incorretamente, como sendo do mês de maio. É de junho.

Boa ciência, boa tecnologia e boa divulgação

Apublicação na Nature do artigo sobre o genoma da Xylella fastidiosa representa um marco na história da ciência no Brasil. A equipe de quase 200 pesquisadores realizou um trabalho de primeira qualidade e colocou a ciência no Brasil nas manchetes internacionais O NY Times destacou a entrada de "um surpreendente novo ator num campo dominado pelas nações desenvolvidas" e a Nature elogiou a "determinação do Brasil de entrar na era pósgenoma de igual para igual com os cientistas dos países mais ricos ". O

The Economist afirma que agora o Brasil passa a ser conhecido por "Samba, football and genomics".

Poucas vezes boas notícias sobre o Brasil foram motivo de tanto destaque internacional. Ao lado de contribuir para a recuperação da autoestima dos cientistas brasileiros, a realização demonstra o acerto da

política de pós-graduação no país, voltada à formação de quadros científicos com qualidade determinada por referenciai s internacionais. Sem isso, como seria possível juntar um time de mais de 200 para esse empreendimento? O papel da FAPESP foi decisivo ao vislumbrar o momento certo para criar uma nova maneira de se organizar a atividade científica no país. Igual importância tiveram as agências federais, apoiando a formação desses pesquisadores, ex-bolsistas da Capes e do CNPq, e as universidades públicas que abrigam a quase totalidade dos pesquisadores O resultado destaca a importância do investimento estatal continuado em ciência e tecnologia, do apoio à ciência fundamental e à formação de pessoal. Coisas que requerem décadas de esforço, no qual o papel do Estado é insubstituível.

O programa da FAPESP, dirigido a quaisquer empresas do setor aeroespacial, foi fator importante para a Embraer decidir instalar sua nova planta em Gavião Peixoto, São Paulo, estado que é o locus natural desse tipo de atividade no Brasil. Além do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do CTA, que deram origem à Embraer, há no estado o INPE, e as universidades paulistas têm atividades destacadas nesse campo. Em comum com o exemplo da Xylella, a Embraer é resultado de décadas de esforços cumulativos de formação de pessoal, sempre com referenciais

"Poucas vezes boas notícias sobre o Brasil foram motivo de excelência internacionais e apoio do Estado. Parece que Francis Bacon tinha alguma razão ao destacar que "nenhuma ação do bom governo é mais valiosa do que o enriquecimento do mundo com conheci- de tanto destaque internacional, mento confiável e fértil ': Quando se discutia a criação da FAPESP, em 1955, José Reis destacou em artigo na Revista Anhembi (V. XVIII, n 50, p 278- citado em S. Motoyama, FAPESP- Uma História de Política Ci entífica e Tecnológica ) que seria "preciso que a Fundação faça ponto de honra da necessidade de apresentar relatórios sinceros ao

Aliar ciência fundamental à sua aplicação tem sido um desafio constante para a FAPESP. A Fundação acaba de criar o programa Parceria para Inovação em Ciência e Tecnologia Aeroespaciais. Aproveitando a oportunidade da iminência da decisão da Embraer de instalar uma nova planta para produção e desenvolvimento de tecnologia e, ainda, o desejo da empresa de intensificar suas parcerias com universidades e institutos de pesquisa.

·público... E esses relatórios não deveriam ser amontoados de cifras ou nomes, mas exposições vivas dos planos e projetos desenvolvidos, para que se percebesse a existência de um verdadeiro espírito de amparo à ciência .. . ". Pois o grande José Reis estava descrevendo quase que exatamente a revista Pesquisa FA PESP, que faz exatamente aquilo que o mestre recomendou: divulgar as ações da Fundação para o público, de maneira clara e acessível. Por isso foi maior ainda a nossa alegria ao vermos a Pesquisa FAPESPser premiada exatamente com o Prêmio José Reis de Divulgação Científica, outorgado pelo CNPq Está de parabéns a equipe responsável pela Pesquisa FAPESP mais do que tudo por ter construído nestes cinco anos uma revista ágil e de alta visibilidade, que destaca de maneira "viva os planos e projetos apoiados pela Fundação".

Oaa:l

Pela ciência A

O INPA firmou-se como centro gerador do nosso conhecimento da Amazônia

A importância de um centro como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) ressalta numa época em que volta a discussão sobre a posse da biodiversidadeacirrada pelo recente acordo entre outro orgão do Ministério da Ciência (Bio-Amazônia) e uma multinacional de medicamentos (Novartis) para a bioprospecção na região. Surgido como reação brasileira à proposta da Unesco de criar um centro internacional de estudos da floresta amazônica, o INPA foi fundado

em 1952 por decreto do presidente Getúlio

Vargas e instalado precariamente em 1954. Com o tempo, consolidou-se como centro de excelência em pesquisas amazônicas. Com a implantação do planejamento estratégico em 1993, sua finalidade inicial de promover "o estudo científico do meio ambiente e das condições da vida da região" foi mais especificada: o INPA tem hoje a missão de "gerar, promover e divulgar conhecimentos científicos e tecnológicos da Amazônia, para a conservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável dos recursos naturais, em benefício principalmente

da população regional". Assim, além do estudo da fauna, da flora e do ambiente, seus mais de 200 pesquisadores dedicam-se a um amplo trabalho de desenvolvimento de produtos e de tecnologia. Os conhecimentos acumulados pela instituição compõem o maior e mais importante banco de informações científicas sobre a Amazônia. Ocupando três quintos do Brasil e abrigando cerca de SOo/o da biodiversidade mundial, a Amazônia tem a maior floresta e um quinto da água doce do mundo. Só a xiloteca do INPA tem 3.500 espécies de árvores, das cerca de 5.000

existentes na região (contra apenas 650 em toda a América do Norte). O instituto tem cadastradas ainda 40o/o das cerca de 3.000 espécies de peixes da região. Além de atrações existentes na área que ocupa, como os tanques do peixe-boi, as trilhas educativas e as coleções botânicas e zoológicas, o INPA mantém reservas biológicas, estações experimentais e barcos equipados com laboratórios. Dirige ainda a Fundação Djalma Batista, que surgiu no início da década de 90 para dar mais agilidade ao trabalho dos cientistas.

Torre de pesquisa e observação do INPA em reserva florestal
Filhote de peixe-boi da Amazônia e flutuante de pesquisa

Projeção internacional, expansão nacional

Novo modo de produção de conhecimento se estabeleceu no país

Na semana entre os dias 9 a 15 de julho de 2000 a Revista Nature, uma das mais conceituadas publicações científicas do mundo, publicou (com capa e tudo) um artigo sobre as descobertas do grupo de cientistas paulistas que seqüenciou completamente o genoma da bactéria Xylella fastidiosa. Trata-se de um grande acontecimento para a comunidade científica do Estado de São Paulo, e, por extensão, para o próprio país

Muito já se escreveu recentemente sobre este feito, o que é bastante compreensível. Num país que

se acostumou a observar o sucesso da ciência e tecnologia (C&T) dos países desenvolvidos, observar que também é possível ter sucesso com a C&T nacional é motivo para orgulho e muitas celebrações.

O que gostaríamos de dar destaque não é o feito em si, mas sim o que acreditamos tenham sido os seus determinantes e seus impactos. Em primeiro lugar, salientar as "con-

çado. E o artigo publicado internacionalmente na Nature é apenas o primeiro dos produtos gerados por este novo modo de produzir conhecimentos.

A conclusão do primeiro genoma de fitopatógeno no mundo pelos cientistas paulistas não apenas coloca o Brasil na fronteira da Genômica internacional (os outros genomas que estão sendo feitos com financiamento da FAPESP garantirão esta posição), mas traz consigo a constatação de que um novo paradigma de produção de conhecimento foi estabelecido no país.

"o país está percebendo

que tem potencial, tem recursos humanos, tem tecnologia e muita riqueza a ser explorada, dições gerais da produção" deste feito, o que aqui denominaremos de "um novo mo d o d e pro d ução de conhecimento novo': Neste sentido, o fator que consideramos mais marcante foi a existência de um estoque de capital humano altamente qualificado na área das ciências biológicas no território do Estado de São Paulo.

A partir da introdução de uma inovação gerencial proposta pela FAPESP, como foi a da estrutura de trabalho em rede de laboratórios (a Rede Onsa), esse estoque de capital humano foi estimulado a viabilizar - numa escala e escopo sem precedentes na história da pesquisa nacional - um fluxo massivo de novas informações acerca do material que estava sendo pesquisado. Esse fluxo proporcionou, por meio da bioinformática, a acumulação de uma nova forma de capital (bancos de dados) que, tendo sido transformado em conhecimento novo (o mapa genético do organismo estudado), possibilitou que seu genoma fosse alcan-

E foi exatamente isto que atraiu a atenção da comunidade científica de Pernambuco. Quando a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe) formalizou, pioneiramente, seu convênio com a FAPESP para a participar da Rede Onsa no Genoma da Cana-deAçúcar, havia tanto o interesse em dominar a tecnologia de seqüencia-

mento genético automático, quan. to em dominar este novo modo de produção de conhecimento novo (fundamentalmente pelo fato de a Genômica ser uma ciência nova, interdisciplinar e portadora de futuro) Outros estados da federação também já perceberam este novo dado da realidade da pesquisa biológica nacional e estão expandindo esta rede, como é o caso de Alagoas e do Rio de Janeiro.

A grande lição que se pode tirar de um feito como este é a de que o país está se encontrando consigo mesmo. Está percebendo que tem chances, tem potencial, tem recursos humanos, tem tecnologia, e tem muita riqueza a ser explorada. Com o devido equilíbrio, com o foco adequado, com ciência de excelência internacional e tecnologia de relevância nacional, o Brasil pode ainda ir mais longe.

] OSÉ C ARLO S C AVALCANTI é professor do Departamento de Economia da UFPE e presidente da Facepe

Os achados científicos originais da equipe de pesquisadores do Brasil responsáveis pelo seqüenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa tanto quanto o significado cultural e político, para o país, do sucesso desse projeto mundialmente pioneiro de genoma de um microrganismo causador de doença em plantas - um fitopatógeno - ganharam uma nova e maior visibilidade internacional com a edição da Nature que começou a circular em 13 de julho último. O artigo científico de sete páginas sobre a Xylella- o paper, como se diz no jargão dos pesquisadores - com contribuições novas para a pesquisa genômica, elaborado e assinado por 116 dos 192 cientistas que concluíram em janeiro passado a decodificação genética da bactéria, forneceu nada menos que a capa da edição número 6.792, volume 406 da revista, uma das mais prestigiosas e respeitadas publicações científicas do mundo.

Em 131 anos de existência da Nature, jamais um artigo produzido por um grupo de pesquisa brasileiro chegara à capa da revista. Mas não bastasse isso, a decifração do genoma da bactéria causadora da Clorose Variegada de Citros (CVC) ou praga do amarelinho, pelos pesquisadores ligados à Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos-Onsa (a rede virtual de labo-

Depois de uma capa

na Nature, a pesquisa genômica feita

ratórios criada pela FAPESP em 1997 e que tem uma onça em sua logomarca), foi festejada em editorial da publicação inglesa e detalhádamente explicada em linguagem jornalística em sua seção News and Views. no país atrai a atenção do mundo

No editorial (ver íntegra no box), destacou-se que o seqüenciamento bem-sucedido do patógeno de planta "é uma realização política tanto quanto científica': E, ainda, que a concepção corrente de que somente os países mais industria-

M

lizados têm o potencial e o pessoal qualificado necessários para realizar pesquisa de ponta foi desmentida pelo projeto brasileiro. Para finalizar, o editorial afirma que o sucesso do projeto da X. fastidiosa somado ao fato incomum de uma agência do mundo avançado e industrializado- o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos - ter contratado a pesquisa genômica de uma variante da Xylella de um país em desenvolvimento "endossam a determinação do Brasil de entrar na idade pós-genômica de mãos dadas com os cientistas dos países mais ricos': Em termos de divulgação, os efeitos desse destaque concedido ao projeto brasileiro por um dos maiores ícones da comunidade científica internacional não se fizeram esperar. Ainda na noite da quarta-feira, 12 de julho, findo o embargo de publicação de notícias sobre o material semanal da Nature veiculado pela Internet, a versão on line do New York Times noticiava "Genes of plant disease mappeâ', e a BBC News Online relatava "Brazil hails scientific firsi: Mais tarde, em 18 de julho, o caderno de ciência do jornal NYTpublicaria a matéria "Agriculture takes its turn in the genome spotlighi'.

A matéria da BBC informava que a pesqu isa do genoma da Xylella está sendo saudada como "um triunfo da ciência brasileira" e, com base em entrevista do coordenador de DNA do projeto, Andrew Simpson, apresentava alguns resultados da pesquisa que representam contribuições novas à ciência e estavam sob sigilo até a publicação do paper pela Nature . Um deles é que muitos dos 2.900 genes da X. fastidiosa (cerca de um terço) são totalmente novos para a ciência, ou seja, são genes jamais descritos antes, enquanto outros são análogos a genes encontrados em outros organismos Outro resultado fundamental da pesquisa, destacado pela BBC, foi a identificação de genes na X. fastidiosa que codificam moléculas cuja existência só estava descrita em patógenos de seres humanos e animais, caso em que servem para sua adesão às células do hospedeiro . Ora, o que aí se apresenta é uma clara e importante indicação de identidade dos mecanismos de patogenicidade das bactérias, afetem elas plantas, seres humanos ou outros animais.

Por sua vez, a matéria publicadada no New York Times on line, produzida pela agência internacional de notícias Associated Press, destacava o caráter pioneiro do mapeamento genético de um fitopatógeno e o situava como um avanço capaz de levar a novas abordagens na luta contra "um flagelo bacteriológico que devasta laranjais e outras plantações". Na seqüência também informava que o trabalho lança luzes sobre o modo pelo qual bactérias infectam igualmente plantas e seres humanos e neutralizam suas defesas, e abria espaço para comentários entusiasmados de Charles J. Arntzen, presidente do Instituto Boyce Thompson, da Universidade de Cornell, sobre essa e outras contribuições científicas importantes apresentadas no artigo de capa da Nature.

Na quinta-feira, 13, uma nova amostra da repercussão internacional da capa da revista científica britânica aconteceria nas páginas de Le Figaro. Sob o título "Les mécanismes de la virulence dévoilés", o jornal francês publicou uma matéria entusiasmada, escrita uma oitava acima, digamos, do tom que boa parte da imprensa brasileira acha recomendável para noticiar conquistas nacionais fora da

arena esportiva. Nela resumiam-se os resultados científicos do projeto da X. fastidiosa, explicava-se como foi montada a estrutura da Onsa que permitiu seu desenvolvimento e apresentava-se um quadro da praga do amarelinho no Brasil. Le Figaro concedeu espaço, é claro, para observar que foram os pesquisadores franceses Joseph Bové e Monique Garnier que identificaram a Xylella como agente causador da'cvc, no começo dos anos 90 E para lembrar que quando a FAPESP, em 1997, lançou o projeto de seqüenciamento da X. fastidiosa, Bové se dispôs a fornecer os clones da bactéria produzidos pelo Inra (Instituto Nacional de PesquisaAgronômica) em Bordeaux, ao mesmo tempo em que Frédéric Laigret, pesquisador na Universidade Bordeaux 2, dava apoio à constituição de um banco de DNA da bactéria para fornecimento dos fragmentos a serem seqüenciados. Mas, em meio a tudo isso, o que pode soar como música a ouvidos brasileiros é o título do box da reportagem, "Le Brésil parmi les grands", que começa afirmando que o Brasil se alçou ao nível das potências "biológicas" do planeta: Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Japão, Alemanha" (ver íntegra na página 14).

Na quinta-feira seguinte, 20 de julho, reportagem da conceituada revista inglesa The Economist completava a avaliação positiva de alguns dos mais importantes órgãos da grande imprensa internacional sobre a ciência praticada no Brasil "Samba, futebol e genômica A lista de coisas pelas quais o Brasil é reconhecido subitamente ampliou-se", dizia na abertura a matéria sob o título "Fruits of co-opera-

A Xylella fastidiosa e a laranjeira

A bactéria tem 2.904 genes e os pesquisadores da ONSA conseguiram identificar as funções de 47% deles

I Um grupo de genes produz e libera a goma xantana, que permite à bactéria aderir à parede celular dos vasos que transportam a seiva e a ou tras bacterias

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3 A planta reage liberando substâncias tóxicas (oxidantes) , mas a X. fastidiosa

2 Outros genes produzem substâncias que atacam a parede celular da planta tem um mecanismo de defesa s116 • que as neutraliza ox d

Outro grupo de genes também colabora na defesa , desarmando drogas potencialmente nocivas , como o antibiótico penicilina

Além da externa, a bactéria tem uma membrana interna, em que se concentram os transportadores de substâncias , que cu idam de expelir ou " importar" certos compostos

6 A Xylella fastidiosa também tem genes para produzir toxinas, "armas químicas " con tra ou tras bactérias, por exemplo

7 Um grupo de pêlos , as fímbrias, também servem para a adesão da bactéria , provavelmente ao aparelho bucal da cigarrinha, o inseto transmissor da praga do amarelinho

8 Entre outros genes ligados à adesão, alguns são similares com os de micróbios que causam infecções em seres humanos Metais

9 Um grupo de genes absorve certos metais, como o cobre

lO Um conjunto de 67 genes é especializado na absorção de ferro, um nutriente importante para a Xylella

Roteiro elaborado pelo jornalista Ricardo Bonalume I Versão original publicada pela Folha de São Paulo em 13 107 12000

tion". Explicava em seguida que, apenas poucos dias depois de publicar o primeiro genoma de um fitopatógeno, cientistas ligados à FAPESP preparavam-se para anunciar, no dia 21 de julho, "um outro sucesso" : a identificação de 279 mil seqüências genéticas humanas, número, segundo a revista, só inferior ao de seqüências identificadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha A referência nesse ponto é aos resultados do projeto Genoma Humano do Câncer, que de fato seriam divulgados em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes no dia 21 (a cobertura do evento estará na próxima edição de Pesquisa FAPESP).

Otexto de The Economist dá a partir daí uma série de detalhes sobre o Programa Genoma da FAPESP e sobre a própria Fundação, para concluir dizendo que "a lição a retirar de tudo isso é que não há razão pela qual países como o Brasil não possam competir em ciência de ponta se se empenharem nesse sentido". Para finalizar, considerando "os benefícios da cooperação demonstrados por São Paulo, a fonte segura de financiamento à pesquisa existente neste Estado e os mais de 200 cientistas treinados como resultado apenas do projeto da X. fastidiosa", a matéria faz um prognóstico luminoso de crescimento da participação brasileira na produção científica mundial, que, em número de papers publicados, saltou de 0,4% para 1,2% do total mundial, de 1985 a 1999

Contribuições significativas

No front interno, onde a atenção da mídia para os projetas de pesquisa genômica feitos no Brasil intensificou-se muito a partir do anúncio da conclusão do seqüenciamento da X. fastidiosa em fevereiro passado, o significado da conquista da capa da Nature por essa pesquisa foi informado para dezenas de milhões de brasileiros. Ainda na quarta-feira, as emissoras de rádio e de televisão, a começar pela Globo em seu Jornal Nacional, deram ampla repercussão ao assunto e, na quinta-feira, 13, os principais jornais brasileiros noticiaram com detalhes o que a revista britânica publicara. Não raro o noticiário situou o fato nas esferas de um brilhante gol de placa da pesquisa feita no país. Na quarta, também a novíssima mídia eletrônica nacional juntara-se à difusão do "deu na Nature", idéia inevitável de título para traduzir o fato em questão com um laivo de humor genuinamente nacional, e que terminou sendo efetivamente usado pela revista Isto

É, na sexta-feira, 14 de julho. No sábado, 15, a Época mostrou os rostos de alguns dos principais responsáveis pelo sucesso do projeto da X. fastidiosa. Foram dias de tamanha exposição da pesquisa brasileira em genômica na mídia que, de repente, parecia aberto o caminho para mostrar a ciência não só como espaço privilegiado de resolução de inumeráveis problemas que afetam o indivíduo e a sociedade, mas como um campo capaz de contribuir para a elevação da combalida auto-estima nacional. Na verdade, uma amostra especial do fascínio exercido pelo êxito reconhecido dos pesquisadores brasileiros, na área científica hoje mais em evidência no mundo, já ocorrera na terça-feira, 11 de julho, durante a 52 3 Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que reuniu em Brasília cerca de 15 mil pessoas, entre cientistas seniores, jovens pesquisadores e estudantes que ainda estão definindo seus caminhos profissionais. Ali, num auditório superlotado sobretudo por jovens, Andrew Simpson recebeu uma ovação impressionante depois de mostrar por que o projeto da X. fastidiosa apenas em cerca de dois anos fez o Brasil dar um salto de 10 anos em sua competência científica.

Durante a palestra o pesquisador expôs por poucos segundos a capa da Nature que ainda estava sob embargo e declarou que ter um artigo publicado naquela revista era o sonho de todo pesquisador- ele e os demais pesquisadores que assinaram o paper, ressaltou, estavam vendo esse sonho materializado Essa mesma declaração Simpson

repetiria em estado de graça no dia seguinte, já em São Paulo, durante a entrevista coletiva à imprensa organizada pela FAPESP para que, junto com João Setúbal, um dos dois coordenadores de bioinformática do projeto (o outro é João Meidanis) explicassem os novos achados científicos que logo se tornariam públicos no mundo inteiro. Participaram da coletiva também o presidente da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, o diretor científico da Fundação, José Fernando Perez, a secretária adjunta de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de São Paulo, Betty Abramowicz, o pró-reitor de pesquisa da USP, Hernan Chaimovich, o vice-reitor da Unicamp, Fernando Galembeck e o pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da Unesp, Fernando Mendes Pereira.

Biologia decifrada

A seqüência do genoma da X. fastidiosa é o 24° genoma completo de bactéria agora conhecido para a ciência e o primeiro de um fitopatógeno. A Xylella possui quase 2,7 milhões de pares nitrogenados ou nucleotídeos em seu cromossoma (mais precisamente, 2.679.305), o que mostra que ela é um terço maior do que os pesquisadores imaginavam quando iniciaram seu seqüenciamento no começo de 1998.

Dentro desses pares de base estão 2.904 genes, regiões codificadoras de proteínas, dos quais um terço é novo para a ciência e 47% têm as funções precisamente descritas.

Esse percentual está um tanto abaixo do que outros grupos de pesquisa de genoma de bactéria obtiveram - por exemplo, ele chegou a 54% na Thermotoga marítima, a 52,5% na Deinococcus radiodurans e a 53,7% na Neisseria meningiditis. Os pesquisadores brasileiros atribuem esse resultado um tanto menor à inexistência prévia de qualquer outra seqüência completa de genoma de bactéria fitopatogênica antes da Xylella, que em princípio facilitaria o trabalho de definição funcional dos genes, ou seja, trata-se de um custo do próprio pioneirismo.

Âtéria se multiplica na cigarrinha e esse inseto to r a introduz diretamente nos vasos de trans·orte da seiva da planta, o chamado xilema. Aí instalada, ela se multiplica e, fastidiosa como o nome indica, age lentamente. Os sintomas da Clorose Variegada dos Citros vão demorar a aparecer, mas o resultado final é o entupimento dos vasos, a perda de clorofila, o amarelamento, as manchas das folhas e a produção precoce de frutos pequenos e duros, imprestáveis portanto para consumo. O resultado econômico desse processo, no Brasil, produtor de quase metade do suco de laranja concentrado posto no mercado internacional, são prejuízos estimados em US$ 100 milhões anuais. Lembre-se que a receita nacional com a citricultura é de quase US$ 2 bilhões anuais, e que em São Paulo essa atividade gera 400 mil empregos, entre diretos e indiretos.

A X. fastidiosa tem um metabolismo refinado. Ela é adaptada para o uso de açúcares encontrados livres na seiva do xilema e para a utilização da glicose derivada da quebra da celulose, principal componente das paredes das células vegetais. Os carboidratos fornecem energia para todas as reações biossintéticas dessa bactéria que não apresenta genes codificadores das enzimas necessárias

para produção de açúcares a partir de aminoácidos e outros metabólitos.

Outra descoberta dos pesquisadores: 67 genes da X. fastidiosa são dedicados à retirada de ferro e outros metais da seiva da planta, o que, segundo eles, contribui para alguns sintomas típicos da CVC.

Mais um achado científico importante: a X. fastidiosa apresenta dois diferentes sistemas de adesão celular. O primeiro deles compreende uma matriz de polissacarídeos extracelulares sintetizados e liberados pelos chamados genes de goma, que grudam a bactéria na parede celular do xilema e em outras bactérias, e terminam por entupir os vasos, bloquear a seiva e levar a planta ao estresse de água. Justamente para o operon ou conjunto de genes que sintetizam essa goma xantana é que a FAPESP solicitou no ano passado o registro de patente nos Estados Unidos. O outro sistema de adesão, especificado por 26 genes que codificam as chamadas proteínas frmbriais, serve provavelmente para grudar a bactéria no aparelho digestivo da cigarrinha.

Ara descoberta de grande alcance, já citada, 1 a identificação dos genes que codificam moléculas envolvidas na adesão da célula anteriormente só identificadas em patógenos de seres humanos e de animais. São moléculas diretamente associadas à superfície celular da bactéria, que respondem pela aderência ao tecido epitelial nos hospedeiros, cujo encontro na X. fastidiosa aumenta a evidência de que os mecanismos de patogenicidade das bactérias, ou seja, seu mecanismos para causar doenças são os mesmos, infectem elas plantas, animais ou seres humanos. O que os pesquisadores organizados na Onsa fizeram está bem descrito nas conclusões finais do paper da Nature. Eles determinaram "não só o metabolismo básico e as características de replicação da bactéria, mas também numerosos mecanismos potenciais de patogenicidade. Alguns jamais tiveram sua ocorrência antes postulada para fitopatógenos, fornececendo novas percepções para a generalidade desses processos:' Os resultados obtidos permitirão agora, diz o artigo, o começo de uma detalhada comparação entre patógenos animais e vegetais. Para completar, as novas informações deverão fornecer bases para uma investigação experimental, acelerada e racional das inte-

f : LE FIGARO

O Brasil entre os grandes

; c om o seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, o Brasil se alça ao nível das potências "biológicas" do planeta: Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Alemanha. A iniciativa surgiu, há três anos, na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Desejosa de desenvolver a bio logia molecular, essa instituição que administra o produto da arrecadação estadual destinado à pesquisa, lançava assim uma espécie de plano keynesiano de crescimento aplicado à ciência. A FAPESP forneceu a cada um dos trinta laboratórios que responderam à sua convocação um seqüenciador cujo preço unitário se avizinha de 700.000 francos. Esses esforços foram recompensados. Melhor, os Estados Unidos acabam de encomendar aos brasileiros o seqüenciamento de uma variante da X. fastidiosa que infesta seus vinhedos. E que poderá perfeitamente ameaçar a Europa e a França algum dia. Não causa espanto que esse grande país tenha sido convidado, juntamente com a China, a Índia e o México, para participar da reunião dos ministros da Pesquisa do GB, no final de junho, em Bordeaux.

Seqüenciamento de genoma para todos

O bem-sucedido seqüenciamento de um patógeno de planta por pesquisadores brasileiros é uma realização tanto política quanto científica

Há um equívoco comum de que somente nações avançadas e industrializadas têm o potencial e o pessoal qua lificado necessários para realizar ciência de ponta eficaz. Essa concepção equivocada tem sido adotada pelos pesquisadores de países em desenvolvimento que acham necessário obter seu treinamento de pesquisa no exterior - e decidem não vo ltar, alegando a falta de oportunidade científica. Mas isso foi desmentido por um artigo publicado nesta edição que descreve o resultado de um projeto realizado por um consórcio de centros de pesquisa do Estado de São Pau lo, no Brasil, para seqüenciar a bactéria Xylella fastidiosa Esta bactéria causa uma doença que afeta frutas cítricas e outras importantes culturas vegetais, resultando num prejuízo de muitos milhões de dólares por ano.

Como primeira seqüência pública de um patógeno de planta de vida livre, o artigo representa um marco científico significativo. Mas também envia um claro sinal político, notadamente o desejo e a capacidade de países como o Brasil de jogar na grande liga. O projeto de seqüenciamento foi escolhido deliberadamente pela sua principal agência financiadora, a FAPESP, para desempenhar um papel catalisador ajudando grupos de pesquisa a se prepararem eles mesmos para o desafio da era pós-genômica. Também se pretendeu enviar um sinal aos jovens cientistas do Brasil de que eles não precisam deixar o país para tomar parte da ciência de nível mundial. Em ambos os aspectos parece que houve sucesso.

É claro que o seqüenciamento do genoma da bactéria é só o primeiro passo no sentido do controle dos

rações entre a X. fastidiosa e seus hospedeiros, que devem conduzir a novos achados nas abordagens para o controle da CVC, a famosa praga do amarelinho.

São conclusões que, além de um sucesso, marcam também o começo de uma fase nova, "em que o Brasil passa a participar da definição da agenda mundial da ciência", como destacou o presidente da FAPESP, Brito Cruz. "Em que o país já revela uma competência científica na fronteira do conhecimento, em pé de igualdade com os países mais desenvolvidos", como assinalou Perez. Uma fase em que já pode prever a ampla utilização de conhecimento de ponta pelo setor produtivo no país, ressaltou Betty Abramowicz, para a produção de riqueza.

danos que ela causa. O próximo é aplicar a genômica funcional para entender como operam os genes da bactéria, abrindo caminhos para uma possível intervenção para restringir sua disseminação por insetos.

Com isso, o conhecimento do genoma poderia fornecer a informação necessária para gerar variantes resistentes para as plantações afetadas. Isso levanta um outro conjunto de desafios- convencer o público brasi leiro de que plantas transgénicas podem desempenhar um papel econômico importante e, ao mesmo tempo, dar passos firmes para evitar conseqüências sociais e ambientais indesejáveis.

Tecnicamente, muito disso de certa forma é coisa para o futuro. Mas o sucesso do projeto da X. fastid iosa já atraiu manifestações importantes de interesse por projetas semelhantes de outras áreas da comunidade agrícola - uma proposta que está na ordem do dia é a de que os mesmos centros de seqüenciamento voltem sua atenção para as etiquetas de seqüência expressa (ESTs) de frango O sucesso também foi responsável pelo bem-vindo e relativamente incomum fenômeno de uma agência do mundo industrializado e avançado- neste caso, o Departamento de Agricultura dos EUA, preocupado com o impacto de uma variante da X fastidiosa nos pomares de citros * da Califórnia - contratar pesquisa de um país em desenvolvimento. Esses dois feitos endossam a determinação do Brasil de entrar na idade pós-genômica de igual para igual com os cientistas de países mais ricos.

*Na verdade, a variante da X. fastidiosa afeta as vinhas da Califórnia

* Autores : A J Simpson F. C. Reinach P.Arruda, F.A.Abreu , M.Acencio, L. M C. Alves, J E. Araya G. S. Baia , C. S Baptista, M. H. Barros, E D Bonaccorsi, S Bordin,J M. Bové, M. R. S. Briones M. R. P. Bueno,A A. Camargo, L. E A. Camargo, D M. Carraro, H Carrer, N. B. Colauto, C. Colombo, F. F. Costa, C. M Costa-Neto, L. L. Coutinho, M Cristofani, E Dias-Neto, C. Docena, H. EI-Dorry, A. P. Facincani ,A.J S Ferreira V C. A. Ferreira,J A. Ferro, J S. Fraga , S. C. França, M C. Franco, M Frohme , L. R Furlan, M Garnier, G. H Goldman , S L. Gomes ,A. Gruber, P. L. Ho, J D. Hoheisel , M. L. Junqueira, E L. Kemper J P. Kitajima , J. E Krieger, E E Kuramae , F. Laigret, M R Lambais , L. C. C. Leite, E G. M. Lemos , S. A. Lopes C. R. Lopes , J.A. Machado, M.A. Machado,A. M. B N Madeira , H. M. Madeira, C. L. Marino, M.V Marques, E A. L. Martins , E M. F. Martins,A.Y Matsukuma, C. F. M Menck, E. C. Miracca, C.Y Miyaki, C. B. Monteiro-Vitorello, D H. Moon , M.A. Nagai ,A. L.T O Nascimento, L. E S Netto,A. Nhani Jr, F. G. Nobrega , L. R Nunes , M A. Oliveira, M C. de Oliveira, R C. de Oliveira, O A. Palmieri , A. Paris , B R. Peixoto, G A. G. Pereira, H A. Pereira Jr, J. B Pesquero, R. B. Quaggio, P. G. Roberto, V. Rodrigues , A.J de M Rosa,V E de Rosa Jr, R G de Sá, R V Santelli, H. E. Sawasaki , A. C. R. da Silva ,A M da Silva, F. R da Silva,W A. Silva , J F. da Silveira, M. L. Z. Silvestri,WJ Siqueira,A.A. de Souza ,A. P. de Souza , M. F.Terenzi, D Truffi, S M Tsai, M H Tsuhako, H.Vallada, M.A.Van Sluys , S Vejovski-Aimeida,A. L.Vettore, M.A Zago, M Zatz, J Meidanis & J. C. Setubal • PESQUISA FAPESP · JULHO DE 1000 • IS

AERONÁUTICA

Programa da FAPESP apoiará projetas de desenvolvimento do setor aeroesp acia l

IZIQUE

as asas

raer

aConselho Superior da FAPESP aprovou a implantação do programa Parceria para Inovação em Ciência e Tecnologia Aeroespaciais (PICTA) para apoiar projetos desenvolvidos por universidades e instituições de pesquisas em conjunto com empresas do setor aeroespacial. O novo programa contará com recursos da ordem de R$ 18 milhões anuais, de acordo com Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente do Conselho Superior da entidade O programa vai funcionar nos mesmos moldes do Programa de Inovação Tecnológica em Parceria (PITE): os projetos serão apresenta-

dos por universidades ou instituições, avaliados pela FAPESP, que, se aprovada a proposta, contrata com o pesquisador o financiamento de 50% da pesquisa . Os outros 50% serão apartados pela empresa interessada no desenvolvimento d o projeto.

A criação do PICTA pesou, e muito, na decisão da Embraer de instalar no Estado de São Paulo, no município de Gavião Peixoto, uma nova fábrica de aviões e uma pista de ensaio em vôo, com investimento total de R$ 340 milhões e criação de 3 m il empregos. "Vamos procurar estudar projetos em parceria com o curso de Engenharia Mecânica e Aeronáutica de São Carlos

e com outras instituições de pesquisa que tenham utilidade para a Embraer': afirma Satoshi Yokota, vicepresidente industrial da Embraer.

A fábrica e a pista de ensaio em vôo da Embraer começam a ser construídas em outubro para operar em 2001, e a empresa, provavelmente, será um dos principais clientes do PICTA. Mas a expectativa é que a região venha a se constituir num pólo aeroespacial, reunindo fornecedores nacionais e internacionais de produtos, processos e serviços na área de aeronáutica. A TAM, por exemplo, já adquiriu a área da extinta Companhia Brasileira de Tratores (CBTA), onde pretende

exigiu a construção de nova fábrica para produção de jatos militares e comerciais

instalar um centro de manutenção de aeronaves. De acordo com Yokota, a Embraer faz gestões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Ministério da Indústria e Comércio (Mine), no sentido de atrair alguns de seus fornecedores para o Brasil. "Nos interessa tê-los por perto", diz o vice-presidente da Embraer.

Pólo aeroespacial - O governo do estado aposta na formação desse novo pólo de desenvolvimento. Investe R$ 27 milhões na aquisição de uma área de 14,5 quilômetros quadrados no município, que será cedida à Em-

braer por um período de 35 anos, renováveis por mais 35; na infra-estrutura básica do terreno, como fornecimento de energia, água e tratamento de efluentes; e na pavimentação dos acessos rodoviários. "Antevemos uma nova fronteira para São Paulo, tanto do ponto de vista geográfico, já que se está expandindo para a região de Araraquara uma fronteira tecnológica até então articulada no Vale do Pa-

raíba, Campinas e na capital, como do ponto de vista estritamente tecnológico, o que permitiu fazer esse entendimento com a FAPESP para o financiamento de pesquisadores que apresentem projetos na área aeroespacial", diz o secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, José Aníbal. Ele lembra que a região tem uma forte tradição em pesquisa em torno da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e garante que as escolas técnicas estaduais da rede Paula Souza, assim como a Faculdade de Tecnologia de Taquaritinga, deverão desenvolver cursos de Engenharia Aeronáutica, com especialização em Engenharia Espacial.

Aeronaves militares -A proximidade das universidades e dos institutos de pesquisa contou pontos na decisão da Embraer de se instalar na região. Mas também pesou o fato de Gavião Peixoto possibilitar a construção de uma pista de teste distante de áreas urbanas e das rotas aéreas com intenso tráfego de aviões comerciais, além de permitir um requerido sigilo, já que a nova fábrica vai produzir jatos militares como o AL-X, conhecido como Supertuca-

no, e o AM-X, aeronaves de combate de alto desempenho cujos testes exigem ampla disponibilidade de espaço aéreo para manobras Atualmente, os aviões militares produzidos pela empresa, em São José dos Campos, são testados na base de Moses Lake, no Estado de Washington, nos Estados Unidos.

A topografia plana de Gavião Peixoto permitirá a construção de uma pista de ensaio em vôo de 3 quilômetros de extensão com mais 2 quilômetros de faixa de segurança para manobras. "A região se situa além da Serra da Mantiqueira e as condições meteorológicas são adequadas para testes durante todo o ano': ressalva Yokota.

Em função das demandas do mercado, a Embraer também poderá fabricar em Gavião Peixoto aeronaves comerciais, das famílias de jato ERJ 145/135/140 e ERJ 170/190.

Além de condições meteorológicas e geográficas adequadas, a região em torno de Gavião Peixoto apresenta uma vantagem adicional para a Embraer: a nova fábrica estará instalada em área próxima a cidades com população entre 100 mil e 150 mil habitantes, onde a empresa poderá recrutar funcionários. De acordo com o vice-presidente, é regra da empresa contratar, no máximo, de 3% a 5% da população dos municípios da região onde a empresa está instalada "para que a relação entre empresa e a cidade não seja de dependência vital".

Ampliação de contratos - A fábrica de Gavião Peixoto será a quarta unidade de produção da empresa no Estado de São Paulo. A Embraer tem duas plantas em São José dos Campos e uma em Botucatu . A decisão de ampliação decorre da expansão dos negócios da empresa no mercado internacional e das limitações dos parques industriais já existentes. A Embraer cresceu uma média de 50% ao ano, nos últimos cinco ano, e já ocupa o 4° lugar no ranking dos maiores fabricantes de aviões comerciais No

ano passado, o faturamento da empresa foi deUS$ 1,8 bilhão ante os US$ 300 milhões registrados em 1995 . Crescem as vendas externas para empresas do porte da British Airways, Alitália e American Eagle. A empresa acaba de fechar um contrato deUS$ 3 bilhões com a Continental Express e conta com a possibilidade de retomar contratos com o governo federal, que autorizou a Força Aérea Brasileira (FAB) a investir US$ 3,35 bilhões nos próximos oito anos para reaparelhar sua frota Uma das prioridades do programa de recuperação da FAB é a compra de 76 aviões AL-X, produzidos pela Embraer, no valor de US$ 420 milhões, que substituirão os velhos Xavantes utilizados no Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). A Embraer deverá ser responsável pela modernização de 53 jatos AM-X, cuja reforma está orçada em mais US$ 285 milhões, e de outros 47 jatos americanos F-5, que integram afrota da FAB Tudo indica que, a partir de 2001, a fábrica de Gavião Peixoto estará funcionando a plena carga.

Gavião Peixoto reescreve sua história

Quando os jatos AL-X e AM-X cortarem os céus de Gavião Peixoto, talvez dona Neiva se convença de que as coisas mudaram na cidade de 36 ruas e 4.500 habitantes. Há 30 anos, desde a porta do pequeno bar que herdou do marido, ela observa o vaivém matinal dos ônibus carregados de bóias-frias que partem para o trabalho nas lavouras de cana-de-açúcar e nos laranjais da região . Ela passa o resto do dia atendendo a uma clientela formada basicamente por aposentados, mulheres e crianças ainda sem idade para o trabalho na lavoura, que compra menos que o estritamente necessário. Dona Neiva passa o ano esperando a primavera, quando começa a temporada de pesca do lambari no Rio Jacaré-Açu. Só então ela ganha um pouco de dinheiro vendendo minhocas. "Os pescadores são a sal-

Gavião Peixoto espera superar dependência crônica do setor agrícola

vação da lavoura: nunca pedem fiado e gastam bem", justifica. Cética, dona Neiva afirma sem muita convicção: "Se a fábrica vier mesmo, acho que vou poder descansar':

A fábrica de aviões da Embraer talvez não mude muito a vida de dona Neiva, nem a do paranaense Milton Apoloni ou a da alagoana Quitéria Costa, que integram o contingente de 1.600 trabalhadores rurais responsáveis pelo cultivo de 18 mil hectares ocupados pelas lavouras de cana e laranja, quase 75% da área total do município. Afinal, trata-se de uma mão-de-obra sem qualificação e portanto dispensável num empreendimento de alta tecnologia.

Mas há quem aposte na possibilidade de obter uma vaga entre as 3 mil anunciadas pela empresa. Sandra Fernandes conta que ela e o marido, sócio numa carreta utilizada no

transporte de laranja, andaram pensando em ir embora da cidade. "Mas, quando ele ouviu falar na fábrica, decidiu ficar para ver se consegue um cargo de motorista."

Especulação imobiliária - Por enquanto, o único efeito que a fábrica produziu na vida da cidade foi a especulação imobiliária. Comenta-se que um terreno que custava R$ 10 mil saltou para R$ 90 mil. O aposentado Vavi Sampaio confidencia que o prefeito estava precisando de uma

casa boa para hospedar o pessoal da Embraer e ficou assustado. "O dono pediu R$ 15 mil de aluguel."

O prefeito Alexandre Marucci Bastos faz as contas antes de fazer planos para superar as carências de um município cujo orçamento não passa de R$ 3 milhões. A renda mensal per capita oscila entre R$ 300 e R$ 400 nos seis meses da safra de cana e laranja. A cidade tem uma escola estadual, um posto de saúde com seis médicos, não tem ônibus direto para São Paulo, tampouco cinema, hotel ou pousada. Para o viajante, o abrigo mais próximo fica na cidade de Nova Europa, a 12 quilômetros de Gavião Peixoto. "Primeiro vamos esperar.

Está tudo na mão do governo do estado. Quando estiver sacramentado, começaremos a pensar nisso", afirma o prefeito, precavido.

Para Gavião Peixoto, a fábrica de aviões pode ser a grande oportunidade de superar a crônica dependência da atividade agrícola, agravada nos anos em que preços pagos ao produtor ficam deprimidos. Os indicadores do município mostram estar em curso um perigoso cruzamento de cenário. A laranja, que ocupa 40% da área cultivada, geralmente em pequenas

propriedades, responde por 73,5% da receita municipal, enquanto a cana, que abrange 45% da área, responde por uma fatia bem menor, algo em torno de 18% da receita líquida. Em termos produtivos, o cenário é preocupante, já que o cultivo da cana depende de novos investimentos no solo e até na tecnificação da lavoura. Mas isso requer um capital que não existe e aponta para o risco do desemprego rural. ''A cidade tem absorvido praticamente sozinha a mão-de-obra rural", diz o prefeito Alexandre Bastos.

Vocações regionais - A perspectiva de instalação da nova fábrica da Embraer na região também mobiliza as

esperam a fábrica de aviões com ceticismo e desesperança

cidades de São Carlos, Araraquara e Matão. Nesses municípios a substituição da base agrária pela atividade comercial e industrial já lavrou tentos irreversíveis, e eles agora se preparam para desempenhar papéis diferenciados nesse rearranjo regional. Acenam com vantagens estratégicas para atrair as empresas fornecedoras que a fábrica de aviões certamente atrairá.

"Houve uma adequação de vocações': avalia José Galizia Tundisi, secretário de Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de São Carlos, município que tem um orçamento de R$ 110 milhões e uma imagem fortemente ligada às duas universidades locais: a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Na opinião de Tundisi, as universidades darão respaldo técnico às atividades da Embraer na região, seja por meio de cursos de nível superior, seja pela possibilidade real de treinamento e reciclagem de mão-de-obra. " Mesmo que a cidade não seja a sede da Embraer, creio que teremos um papel importante a desempenhar", avalia Tundisi.

Estão em São Carlos, por exemplo, o Centro de Caracterização e Desenvolvimento de Materiais, administrado pela UFSCar e Universidade Estadual Paulista (Unesp ), e o Núcleo de Manufatura Avançada (Numa), um pólo que une pesquisa básica e aplicada, mantido pelas universidades Estadual de Campinas (Unicamp), Metodista d e Piracicaba (Unimep) e USP. "Haverá ainda um respeitável pacote orçamentário para investimento em pesquisa, fator diferenciador dessa iniciativa", diz, referindo-se ao programa Parceria para

Inovação em Ciência e Tecnologia Aeroespaciais (PICTA), da FAPESP.

Crescimento estratégico - Em Araraquara, os projetos da Embraer serviram aos planos de crescimento estratégico, implementado no município desde a década de 90. Uma série de levantamentos realizados ao longo dos últimos 20 anos pela Divisão de Socioeconomia da Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente aponta para um crescimento vigoroso do parque industrial, hoje com mais de 600 empresas, e um orçamento municipal de R$ 97 milhões. ' :ii Mas na Divisão de Socioeco§ nomia da Prefeitura prevalece :> a cautela diante da promessa de número de empregos, instalação de empresas fornecedoras da Embraer e da possibilidade de uso da sua rede hoteleira e de serviços. "Talvez não redunde em grande quantidade de empregos", diz Maria Rita, chefe da divisão.

Parque tecnológico- Na cidade de Matão as contas estão sendo feitas com base na expansão da vocação industrial da cidade. "Temos o maior parque tecnológico da região", diz o prefeito Adauto Scardorelli. Nos seus planos, além de procurar investimentos que possibilitem às indústrias locais a capacitação para atender à nova fábrica, outras medidas estão em estudo Uma área de 6 alqueires está sendo liberada para a instalação dos novos fornecedores.

As culturas de café, cana e laranja e as indústrias processadoras de suco de laranja contribuem anualmente com cerca de R$ 25 milhões, mais da metade da receita total do município, de R$ 43,4 milhões. Outros setores reforçam o orçamento municipal, como a pecuária de corte, com um plantel de mais de 15 mil cabeças. "A Embraer representará um marco no desenvolvimento tecnológico da região': prevê o prefeito. •

Um novo perfil para a Fapergs

fala sobre os planos de reestruturação da fundação

AFundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs), criada em 1964, está se reestruturando para poder melhor atender às demandas e necessidades de desenvolvimento das pesquisas científicas implementadas nas universidades e institutos de pesquisa do Estado. Depois de atravessar um período marcado por grave crise orçamentária e perda de pessoal, a Fapergs está redefinindo sua estrutura organizacional e buscando eficiência para responder às demandas da comunidade científica e da sociedade, assumindo ativo papel no processo de desenvolvimento econômico e social. Renato Oliveira, recém-empossado no cargo de diretor-presidente da fundação, e o diretor-científico da entidade, Dalcídio Moraes Cláudio, visitaram a FAPESP, cujo modelo organizacional deverá pautar a reforma A meta da nova gestão é apoiar e fortalecer os grupos de pesquisa já consolidados, fomentar a atuação de grupos emergentes e induzir a demanda em algumas áreas e instituições consideradas estratégicas para o desenvolvimento do estado. Em sua passagem por São Paulo, Renato Oliveira - sociólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior (Andes) - concedeu entrevista a Maria da Graça Mascarenhas.

• Qual é a atuação da Fapergs, hoje, no fomento a projetas e programas de pesquisa no Rio Grande do Sul?

-A Fapergs é uma das mais antigas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) no País. Foi criada em 1964, por iniciativa de pesquisadores do Rio Grande do Sul, e muito marcada, na sua origem, pelo modelo da FAPESP. Em 1989, conseguimos a inclusão da obrigatoriedade de repasse de 1,5% da arrecadação líquida do Estado para o orçamento da fundação, que tem uma presença muito importante no desenvolvimento da ciência e tecnologia. Nos últimos anos, porém, a Fapergs não conseguiu acompanhar o crescimento da pesquisa no estado, sobretudo por falta de apoio político do governo. O repasse nunca foi garantido. Isso implica um déficit orçamentário muito grande e uma limitação operacional da fundação.

• Esta situação pode mudar a curto prazo?

-A nossa convicção é que está mudando. É comum no país que o apoio à ciência e à tecnologia seja uma espécie de concessão retórica dos governos ao discurso da modernidade, sem ser acompanhado de nenhuma medida prática. O Rio Grande do Sul não foi exceção. Mas essa situação está mudando. Ciência e tecnologia constituem hoje preocupação central nas políticas de governo, que assume essa área como fazendo parte de suas políticas estratégicas. Há uma crescente consciência de que, sem investimento forte em ciência e tecnologia, em inovação tecnológica, certos objetivos de política econômica e de desenvolvimento social são

O estado tem tradição de pesquisa em engenharia e é pioneiro no setor de informática

irrealizáveis, e isso deve refletir-se numa mudança de atitude em relação à Fapergs.

• A Fapergs, então, está se preparando para intensificar sua atuação?

-Assumimos a direção da fundação há dois meses e meio, praticamente, junto com o atual conselho técnico e administrativo. Estamos finalizando o encaminhamento de algumas medidas que já haviam sido tomadas pela gestão anterior para, então, podermos nos ocupar do redesenho estratégico da Fapergs, com o apoio do governo estadual. A nossa idéia é redimensionar a fundação, aumentando o quadro de pessoal, mas, sobretudo, redefinindo a estrutura organizacional, de forma a adequá-la às demandas do estado. No Rio Grande do Sul, é necessário que uma fundação de fomento à pesquisa não só apóie e fortaleça os grupos já consolidados, mas, também, fomente o desenvolvimento de grupos emergentes, atuando como fator de indução

de demanda em algumas áreas e junto a algumas instituições que não têm experiência na área de pesquisa.

• Como o senhor avalia o atual estágio de desenvolvimento da pesquisa no Rio Grande do Sul?

-O estado conta com uma infra-estrutura de pesquisa desenvolvida e uma comunidade de pesquisadores de alta qualificação. Ao mesmo tempo, apresenta uma saudável heterogeneidade institucional, com distintas vocações. O Rio Grande do Sul tem peculiaridades pelo fato de contar com quatro universidades federais e algumas universidades privadas importantes, como a Pontifícia Universidade Católica (PUC) e a Universidade Vale dos Sinos (Unisinos), que começam a investir na área da pesquisa. Isso sem falar nas universidades comunitárias, uma experiência típica do nosso estado, que são privadas , leigas e administradas por organizações comunitárias regionais.

• Qual a característica delas?

- Elas têm forte inserção regional e são voltadas para a problemática de sua região. Na área de pesquisa, todas são emergentes, mas muitas já desenvolvem atividades importantes, especialmente na área de agronomia ou de biomédicas. Temos, então , grandes universidades, que poderemos chamar nacionais, convivendo com sólidas e fortes universidades de vocação regional. Ao lado disso, há um conjunto de instituições de pesquisas ligadas à administração estadual. Elas sofreram desgaste grande, nos últimos anos, mas estão em processo de recuperação. A Fapergs, aliás, está com um programa específico de recuperação dessas instituições.

• No estado, há áreas de pesquisa de mais destaque?

- Uma área tradicional de pesquisa no Rio Grande do Sul é o setor agropecuário. Mais recentemente, ga-

nharam destaque outras áreas de pesquisa, como a de biomédicas. Na área de cardiologia, atualmente está sendo formado um centro de terapia gênica. O estado também tem tradição de pesquisa na área das engenharias e é pioneiro na pesquisa do setor de informática. Já contamos com um capital de recursos humanos de alta formação e com uma infra-estrutura de pesquisa extremamente importante Aliás, o desenvolvimento desse setor viabilizou a formação de convênio envolvendo as três principais universidades da região metropolitana de Porto Alegre, os governos do estado e da capital, além de um conjunto de empresas da área de informática e microeletrônica, com apoio da Motorola, para a formação de um centro de excelência em microeletrônica, um projeto que alia pesquisa e desenvolvimento. Te-

mos, ainda, uma área de ciências humanas bastante desenvolvida.

• Quais os programas de apoio à pesquisa implementados pela Fapergs?

-Há dois ou três anos, consolidou-se uma prá-

ção política e social que caracteriza o modelo político do Rio Grande do Sul e que envolve os vários grupos organizados da sociedade civil. Há um apelo a que esses grupos participem da formulação das políticas públicas. Isso deve recolocar a pesquisa no contexto da cultura política do estado.

• A fundação mantém programa de bolsas?

-A Fapergs tem programa de bolsas. Concedemos 1.200 bolsas de iniciação científica este ano, quase 50 % a mais que no ano passado. Temos também programa de bolsa-estágio para estudantes do nível técnico e um programa de bolsas que visa a atrair pesquisadores seniores de outras regiões do país ou de outros países. E há o programa muito restrito

''A nossa idéia é redimensionar
a fundação e redefinir a estrutura organizacional para adequá-la
as demandas do estado,,

tica de lançamento periódico de editais temáticos que acompanham um edital de nível de demanda. São lançadas duas séries de editais por ano, no início e no meio do ano. Essa prática acabou canalizando toda a demanda por financiamento de projeto de pesquisa para os editais. A vantagem óbvia é a canalização de investimento para setores que respondem mais diretamente aos interesses do estado. A desvantagem é que se corre o risco de cercear a liberdade acadêmica, de alguma maneira. Estamos preocupados com isso e vamos buscar um meio-termo, tentando fortalecer temas de livre demanda, possivelmente com fluxos contínuos, e também os editais temáticos. Com relação a esses, o nosso projeto é vincular os temas que serão escolhidos ao processo de delibera-

de bolsa de apoio emergencial ao mestrado e doutorado, implementado pelo estado. Os projetos que já foram credenciados pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e que já contam com cota de bolsa, podem receber uma cota emergencial da Fapergs O nosso propósito é criar um programa de bolsas para estudantes de mestrado e doutorado. Há, ainda, um programa de apoio a recém-doutores vinculados a instituições públicas ou privadas, que pretendemos ampliar por meio de convênios com organizações do chamado setor produtivo. O objetivo é a inserção de recémdoutores em empresas onde eles possam tocar projetos de pesquisa. Também estamos começando a definir um projeto mais ambicioso, que é

o estabelecimento de convênios com organizações ligadas a atividades econômicas específicas, para o estímulo à pesquisa e ao desenvolvimento. Uma possibilidade concreta é um convênio com uma cooperativa de pequenos agricultores do extremo noroeste do estado, com mais de 6 mil associados, 50% dos quais têm propriedade com menos de 30 hectares. Está sendo articulado e detalhado

o modelo do convênio que visa ao desenvolvimento de tecnologias na área de agricultura orgânica, no contexto da agricultura familiar, com o objetivo de desenvolver metodologias de rastreamento da produção e certificação do produto final. Isso vai agregar valor ao produto agrícola e pode viabilizar econômica e socialmente as atividades de milhares de famílias. Esse modelo de convênio poderá ser reproduzido em outras áreas, inclusive em setores de atividades econômicas mais tradicionais, que poderiam obter ganhos de escala, de qualidade e agregação de valor, se passassem por processo de incorporação de tecnologia. Pode também ser alternativa para os setores de desenvolvimento tecnológico como, por exemplo, o de informática. Com esse modelo, abre-

se um novo perfil para as atividades da Fapergs, com a orientação de recursos para o desenvolvimento tecnológico de setores específicos.

• E como se daria o apoio da Fapergs?

-Nesse convênio com a cooperativa de pequenos agricultores, a Fundação entra com um determinado volume de recursos, ao longo de três anos, com contrapartida dos parceiros. O convênio deixa aberta a possibilidade de apoio de outras instituições, ao longo da sua implementação. Os projetos que forem apresentados no contexto desse programa devem ser aprovados por um comitê técnico montado para esse fim, com representantes da fundação, da instituição conveniada e de pesquisadores da área de abrangência do convênio.

• Na sua opinião, qual a importância das FAPs no sistema de ciência e tecnologia?

-A FAPESP provou que a existência de um sistema de ciência e tecnologia que tenha autonomia de funcionamento, de gestão, e financiamento constante assegurado é vital para o desenvolvimento econômico e social de uma região e para o sucesso de políticas de governo. A Fapergs já deu passos importantes nessa direção. Acreditamos que a articulação e o fortalecimento do Fórum Nacional de Fundações de Amparo à Pesquisa estaduais poderia assegurar a institucionalização de políticas estáveis de ciência e tecnologia em todo o país, atendendo às peculiaridades das diversas regiões. É compreensível que em algumas regiões do país as fundações sofram ingerências constrangedoras por parte dos governos estaduais. Muitos estados do Norte e Nordeste, o Paraná e Santa Catarina nem sequer têm fundações organizadas. Se

conseguíssemos articular iniciativas de algumas instituições importantes, como a FAPESP, a Fapergs, a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) e a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), daríamos uma dimensão nova à discussão sobre ciência e tecnologia no país. E isso seria importante no momento atual, já que a instituição dos fundos setoriais está gerando expectativa forte e pode fazer com que a dinâmica regional seja simplesmente suprimida em algumas regiões, já que o modelo de gestão é muito centralizador. Além disso, os fundos adotam um modelo que prioriza os setores econômicos geradores de recursos. Isso pode se constituir um vício de origem que compromete toda a eficácia do programa.

• Convênios e parcerias entre as FAPs para o desenvolvimento de projetas conjuntos de pesquisa não fortaleceriam o sistema?

- Sim, dividiria a experiência das regiões que estão na frente com as outras áreas do país. Exemplo disso é a experiência da participação de outras FAPs em alguns projetos Genoma da FAPESP. Nós pretendemos desenvolver trabalho de parceria em algumas áreas. Estamos considerando a possibilidade de desenvolver um programa especial nas áreas de informática e de biotecnologia, que são áreas onde temos capacidade instalada, talento, massa crítica e que se constituem numa das fronteiras do desenvolvimento tecnológico e econômico. A partir da definição de um programa, pensamos em iniciar algumas atividades conjuntas com FAPs de regiões que já possuam grupos de trabalho naquelas áreas e que possam aportar recursos para um trabalho comum. A criação de um sistema nacional que garanta estabilidade não pode ser só política, tem de ter um trabalho conjunto de compartilhamento de experiência. •

Encontro re un i u I 5 m i l pes so as e mov im ent o u o câm p us da U niversi dade d e Brasí l ia entre os dias I O e 14 de j ulh o

O lugar da ciência e da tecnologia

Pesquisado res debatem

o Brasil na sociedade do conhecimento

Aúltima reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) do século 20, em torno do tema O Brasil na Sociedade do Conhecimento, movimentou o câmpus da Universidade de Brasília durante a semana de 10 a 14 de julho "Os países que não entrarem na sociedade do conhecimento vão ficar marginalizados", disse a presidente da SBPC, Glaci Zancan, bioquímica da Universidade Federal do Paraná.

No encontro foram avaliados os rumos da política de ciência e tecnologia no Brasil, os avanços da pesquisa e a sua relação com empresas, entre

outras questões como mercado de trabalho, meio ambiente e políticas sociais. As grandes estrelas dos debates, no entanto, foram o projeto de seqüenciamento genético da Xylella fastidiosa, realizado por cientistas brasileiros, a implantação dos fundos setoriais para o financiamento de pesquisas e a polêmica em torno da liberação dos alimentos transgênicos no país Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma Xylella, foi aplaudido por uma platéia de 400 pessoas quando anunciou a publicação do artigo sobre o seqüenciamento da bactéria na capa da revista Nature do mês de julho, fato inédito para a ciência brasileira. "Agora vamos concluir o seqüenciamento de outros genomas, tanto na área da saúde (Genoma Câncer), como na área da agricult ura (Genoma da bactéria Xanthomonas citri e Genoma Cana).

Fundos setoriai s - A aprovação pelo Congresso de cinco fundos setoriais para o financiamento de pesquisa nas áreas de energia, recursos hídricos, mineral, espacial e de transportes reuniu platéia de centenas de pesquisadores e suscitou polêmicas. Outros quatro fundos, de interação universidade e empresa, informática, telecomunicações e infra-estrutura, estão sendo analisados pela Câmara dos Deputados. Esses fundos terão uma receita estimada de R$ 1 bilhão por ano e serão formados por impostos pagos por empresas de vários setores da produção e destinados a pesquisas nas suas respectivas áreas de atuação. Parte da comunidade científica teme que a implementação desses fundos resulte em redução de recursos orçamentários da União para pesquisa. "É importante garantir que eles sejam recursos adicionais", afir-

ma a presidente da SBPC. "A maior vantagem dos fundos é que eles criam uma regularidade no repasse de verbas para a ciência", diz Humberto Brandi, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Sociedade Brasileira de Física.

O secretário-executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, Carlos Américo Pacheco, garantiu que "os fundos setoriais não irão substituir outras formas de financiamento da pesquisa" e, para reforçar seu argumento, distribuiu entre os presentes exemplares

ca", diz. Ou seja, poderá haver excesso de oferta de recursos em áreas nas quais a demanda é ainda pequena e, inversamente, escassez de recursos para áreas que exigem mais investimentos. ''A parte da pesquisa fundamental deveria ser mais impulsionada': alertou o físico Roberto Salmeron, um dos fundadores da Universidade de Brasília, que há quase 30 anos trabalha na École Polytechnique, em Paris. Salmeron lembrou que os novos recursos provenientes dos fundos equivalem ao que a França destina ao Centro Nacional de Pesquisa Cientí-

de uma cartilha sobre a ação dos fundos e os resultados esperados.

Reinaldo Guimarães, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, adverte que o modelo de gestão esboçado para gerenciar os fundos pode significar a perda da governabilidade do Ministério da C&T. Estudioso do perfil dos grupos que fazem pesquisa e desenvolvimento tecnológico no Brasil, Guimarães chamou a atenção para o fato de que 70% dos recursos de cada fundo irão para o desenvolvimento tecnológico e 30% serão para o desenvolvimento científico. "Quem demandará estes 30% serão os 90% de pesquisadores que representam a capacidade instalada de pesquisa

fica, o CNRS. "Se este mecanismo dos fundos funcionar será importante, mas tudo deveria ser feito com calma e uma melhor planificação científica, com prioridades estabelecidas em nível nacional", critica Salmeron.

Plantas transgênicas - O cultivo, comercialização e consumo de produtos geneticamente modificados continua a dividir a comunidade científica em torno de questões de saúde, éticas e ambientais. A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a SPBC defendem posições distintas, mas a presidente da SBPC nega qualquer divergência em relação aos transgênicos. Ela argumenta que "ninguém pode ser contra a

técnica da transgenia': mas defende a realização de testes locais para avaliar o impacto da produção de alimentos modificados sobre o meio ambiente. "Por causa das diferenças existentes entre os ecossistemas, os testes feitos em outros países não são válidos para a realidade biológica brasileira:'

Ciência, política, economia - Defendendo um dos únicos pontos de consenso entre cientistas, tecnólogos, dirigentes de instituições de pesquisa, professores e estudantes, o de que o Brasil precisa ampliar a capacidade de

investir em educação básica para não comprometer os avanços significativos conseguidos no nível da pós-graduação, o ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, afirmou que a chamada "década perdida", como tem sido referenciado os anos 90, merece uma reflexão mais profunda. Neste período em que se acentuou a crise do Estado, o Brasil conseguiu melhorar índices específicos da área de ciência e tecnologia. Ele lembrou que, no período, quadruplicou o número de doutores formados no Brasil e aumentou rapidamen-

te o número de artigos científicos indexados. "Isto não ocorreu por acaso': disse Sardenberg. ''Afinal, ciência e tecnologia é um setor vital, estratégico, central para o Brasil", disse, durante uma mesa-redonda no último dia da reunião da SBPC. Uma prova da melhora do desempenho brasileiro são os resultados preliminares do Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil, do CNPq. O pesquisador Reinaldo Guimarães, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mostrou que há hoje em atividade regular no Brasill1.613 grupos de pesquisa, baseados em 224 instituições. A versão de 1999 do Diretório de Grupos de Pesquisa registrava a existência de 8.544 grupos de pesqui-

Projeto Genoma, fundos setoriais e alimentos transgênicos foram as estrelas dos debates

sa atuando no Brasil. Mais da metade dos grupos brasileiros de pesquisa - 56% - realiza suas atividades na região Sudeste, dos quais 6.581 estão localizados no Estado de São Paulo. As três universidades públicas estaduais abrigam exatos 2.014 grupos de pesquisa (1.118 na USP, 537 na Unicamp, 359 na Unesp ). Os dados, obtidos em pesquisa direta junto aos grupos de pesquisa, revelam que a região Sul abriga 20% dos grupos, que totalizam 2.317. A região Nordeste registra a presença de 1.719 grupos, ou seja, 15% do total de grupos em ati-

FAPESP esteve presente na s• Expociência, uma mostra paralela à reunião da SBPC

vidade regular. Na região CentroOeste estão 669 grupos, representando 6% do total. Na região Norte atuam 327 grupos de pesquisa, 3% do total. "Mas é evidente que a concentração de grupos nas regiões mais fortes economicamente é uma realidade que se perpetua em nosso país", afirmou Reinaldo Guimarães.

Investimento em tecnol o gia - A capacidade de desenvolver pesquisa tecnológica das universidades brasileiras fica, no entanto, comprometida pela falta de recursos para transformar projetas em produtos. "Isso só acontecerá quando houver uma forte ligação entre universidades e empresas, reforçada pelo interesse dos governos estaduais e municipais em trabalhar em parceria com as instituições", avaliou Eduardo Krieger, presidente da Academia Brasileira de Ciências no debate sobre os desafios da inovação no país. Do lado das empresas, há uma certa inibição para o investimento em novas tecnologias, constata o presidente do Conselho Superior da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, que coordenou a sessão na SBPC onde se discutiram os retornos de investimentos de empresas. "O Brasil desenvolveu uma excelente capacidade de fazer ciência,

mas ainda não produz muita tecnologia. O ambiente econômico é hostil aos investimentos empresariais relacionados com pesquisa e desenvolvimento, que demoram para apresentar resultados." E também é precária a cultura de inovação tecnológica entre o empresariado. "O Brasil tem 77 mil pesquisadores e só 11% estão

dentro das empresas. Nos Estados Unidos, há 1 milhão, mas 80% estão pesquisando na iniciativa privada", comparou. "E lugar de produzir inovação é na empresa", concluiu.

R ecursos e distribuição regional - O papel das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) esteve dentre

FAPESP recebe Prêmio José

Reis na SBPC

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo foi a vencedora do 20° Prêmio José Reis de Divulgação Científica, do CNPq, concorrendo com outras 33 instituições . O prêmio reconhece o trabalho de disseminação de informações sobre ciência e tecnologia realizado pela Fundação, ao produzir material informativo para distribuir à imprensa em geral e editar a revista Pesquisa FAPESP. O Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), do Rio de Janeiro, recebeu menção honrosa.

O prêmio foi entregue em solenidade realizada no dia 10 de julho, presidida pelo ministro da Ciência e Tecno logia, Ronaldo Sar-

denberg, na 52a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Foi a primeira vez que a entrega do prêmio contou com a presença do ministro de C&T.

"Por intermédio do jornalismo científico, o governo e a comunidade acadêmica podem prestar contas à sociedade do uso dos recursos públicos aplicados em ciência e tecnologia, dos progressos alcançados e o que isso implica na vida cotidiana de cada um, de cada família, de cada grupo social", destacou Ronaldo Sardenberg.

Ao receber o diploma e a medalha do Prêmio José Reis, o presidente da FAPESP, Carlos Henrique de

os desafios relacionados ao desenvolvimento de pesquisa e tecnologia Dentre as moções votadas e aprovadas pela assembléia da SBPC, uma delas pede que seja criada a FAP de Goiás e recriada a FAP do Maranhão, extinta em 1998. Para Ennio Candotti, ex-presidente da SBPC e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, "nos Estados, em geral, prevalece a visão de que ciência e tecnologia é coisa do governo federal': Candotti lembrou que já se passaram 12 anos desde o início do funcionamento dos sistemas estaduais de C&T e, mesmo com o esforço do Ministério da Ciência e Tecnologia

em implementar ações conjuntas, estes organismos "patinam à espera dos partidos políticos e das associações efetivamente empenhadas em sua implementação local':

São Paulo continua sendo a solitária exceção na questão das Fundações de Amparo à Pesquisa "No Estado, para cada real investido pelo governo federal há um aporte de um real estadual", lembrou o diretorcientífico da FAPESP, José Fernando Perez, numa mesa-redonda da SBPC destinada a debater o financiamento da pós-graduação no Brasil. Nos últimos anos, disse Perez, 8 mil bolsistas têm sido atendidos pela FAPESP. Este

Brito Cruz, lembrou que este pesquisador e divulgador científico, que continua em atividade aos 91 anos, escrevendo todas as semanas na Folha de S. Paulo, foi um dos que defenderam a existência de uma Fundação dotada de autonomia e orçamento estável, em artigos publicados nos anos 50 e 60.

"A preocupação da FAPESP em divulgar o conhecimento reconhece que a ciência necessita do apoio do Estado, ou seja, utiliza recursos do contribuinte. Uma agência pública

deve ser, portanto, capaz de constantemente divulgar e demonstrar à sociedade e aos Poderes Executivo e Legislativo as realizações propiciadas por este apoio."

O Prêmio José Reis de Divulgação Científica é o mais importante do Brasil na área de divulgação e jornalismo científico. Mantido pelo CNPq desde 1978, o prêmio é concedido anualmente, de maneira intercalada, a uma das seguintes categorias: instituição, jornalistas e divulgadores científicos.

quantitativo está no limite das diretrizes estabelecidas pela Fundação, "que não pode se transformar numa agência de bolsas, o que comprometeria o apoio à pesquisa". Este número recorde de bolsas no Estado de São Paulo é conseqüência, em parte, da impossibilidade de agências federais, como o CNPq e a Capes, atenderem a esta demanda específica.

Nove moções foram aprovadas na assembléia-geral dos sócios da SBPC, realizada dia 12. A SBPC quer a continuidade do Programa Especial de Treinamento (PET), que permite a participação de universitários em 314 grupos de pesquisa. Mantido pelo Ministério da Educação, o PET foi modificado, após a ameaça de extinção, e a decisão governamental desagradou à comunidade científica.

A assembléia da SBPC quer também a anulação do contrato assinado pela Bioamazônia, uma organização social mantida com recursos do governo federal, e a empresa Novartis, para exploração da biodiversidade na Amazônia. "O Congresso Nacional precisa nar os projetos de lei sobre o acesso à biodiversidade", afirmou Glaci Zancan. Três projetos sobre o tema estão no Congresso, um de autoria da senadora Marina Silva (PT/Acre), outro do deputado Jacques Wagner (PT/Bahia) e o terceiro de iniciativa do Poder Executivo.

Durante os quatro dias de encontro, os anfiteatros da UnB ficaram lotados com cerca de 15 mil pessoas, de acordo com a direção da SBPC. Quatro mil trabalhos científicos foram apresentados e a SBPC-Jovem, voltada especificamente para acolher o trabalho de estudantes de primeiro e segundo graus, atraiu a atenção de 3 mil participantes. A 53 3 Reunião Anual da SBPC, em 2001, será no câmpus da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. •

Brito Cruz: a divulgação do conhecimento científico necessita do apoio do Estado

Uma briga pela Internet

No começo de julho, 120 líderes de publicações e de biomedicina reuniram-se em Nova York para discutir o efeito da Internet sobre as revistas científicas. Não demorou muito para se desentenderem, porque os dois grupos têm visões muito diferentes sobre o futuro: o primeiro prevê que as empresas privadas vão continuar fazendo as publicações mais legíveis e confiáveis, e o outro, que os cientistas logo abandonarão as publicações tradicionais para partilhar seus resultados diretamente com outros pesquisadores, via Internet.

Segundo a Science de 14 de julho último, as sementes desse debate foram lançadas há 16 meses, quando Harold Varmus, então diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), e o geneticista Patrick Brown, da Universidade de Stanford, lançaram um plano radical para um arquivo biomédico e uma publicação correspondente, antecipando-se aos que

seriam bancados pelos NIH. A partir daí, o alcance da venture de publicação eletrônica dos NIH - agora chamada PubMed Centralvem sendo reduzido e o arquivo público tem demorado para deslanchar. David Lipman, diretor do Centro para Informação de Biotecnologia dos NIH, que está dirigindo o PubMed Central, relatou no encontro que seu pessoal está fazendo francos progressos na colocação de artigos on-line a partir das 20 publicações que aceitaram, até agora, fornecer papers para o arquivo. Mas sua equipe "se chocou com problemas técnicos", disse ele, em especial com um dos mais ilustres contribuintes, o Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Segundo a Science, essas dificuldades não desencorajaram Vitek Tracz, diretor da editora londrina Current Science Group. Em maio, Tracz- cuja empresa patrocinou o encontro de Nova York- iniciou sua própria publicação na Internet, a Central BioMed, que dará acesso gratuito

to! a autores e leitores.

Apesar de Tracz 3 dizer que não tem nenhum plano comercial para o Central BioMed, ele pretende usá-lo para ganhar credibilidade junto aos cientistas e, dessa forma, desenvolver outras publicações e serviços noticiosos lucrativos. Reação pesada no encontro de Nova York teve Pieter Bolman, presidente da Academic Press de San Diego, Califórnia, que classificou os esquemas de publicação gratuita de utópicos, a ponto de lembrar trabalho de "acadêmicos sem ter o que fazer" ou "armação comunista': Colocar todos os dados da pesquisa biomédica num único arquivo aberto é "procurar problemas", disse, porque é pedir que os editores existentes abram mão de seus arquivos e "cometam suicídio econômico': As publicações não o farão, previu Bolman, a menos que sejam forçadas pelo governo. Bolman elogiou uma alternativa, uma venture chamada CrossRef, iniciada por uma editora e lançada em junho. Ainda este ano, ela vai abrigar um índice eletrônico com links para 3 milhões de arquivos em 4 mil publicações. Diferentemente dos usuários do PubMed Central, os do CrossRef, na maioria dos casos, terão de pagar uma tarifa para

obter um texto completo. Enfurecido, Brown disparou contra os "parasitas" que recebem o trabalho de cientistas de graça, levam uma eternidade para publicá-lo e cobram dos leitores um alto preço por um produto que freqüentemente pioram ao editar. Terminou exortando os cientistas a darem seu apoio a iniciativas gratuitas como o PubMed Central. Apesar de os participantes do encontro terem divergido fortemente sobre o modo como a Internet vai afetar a atividade editorial, todos pareceram concordar com o comentário de Varmus de que a experiência da publicação eletrônica mal começou e de que "estamos navegando para um porto distante" com ventos que às vezes favorecem e outras dificultam o avanço.

Transgênicos para o terceiro mundo

Um painel independente de lideranças científicas tanto de países industrializados quanto em desenvolvimento, aprovou, na primeira quinzena de julho, o uso de plantas geneticamente modificadas para atender às necessidades de alimentação dos pobres do mundo, informou a Nature, de 13 de julho último. Entretanto, o painel, formado por sete academias nacionais de ciência, também pediu que a indústria privada compartilhe a tecnologia dos transgênicos com "cientistas responsáveis" para aliviar o problema

da fome nos países em desenvolvimento. O painel foi instalado no ano passado pela Sociedade Real Britânica, academias nacionais de ciência dos Estados Unidos, Brasil, China, Índia e México, e mais a Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com o objetivo de oferecer "perspectivas científicas" sobre o papel da tecnologia de transgênicos na agricultura mundial. Segundo a nota da Nature, José Fernando Perez, um dos membros do painel e diretor científico da FAPESP, disse que os cientistas sentiram que "essa era uma boa oportunidade para oferecer uma reflexão técnica ao debate dos trângenicos". No Brasil, acrescentou, o tema tem sido discutido quase que exclusivamente em termos políticos. "Jamais tivemos um debate técnico:' O relatório defende que, entre outras metas,

a tecnologia transgênica deveria ser usada para reduzir o impacto ambiental da agricultura. Propõe, também, que os países implantem sistemas para monitorar os potenciais efeitos das plantas transgênicas sobre a saúde humana. Na questão das patentes, o relatór io diz que se certas tecnologias de alteração de plantas não forem extensivamente licenciadas ou fornecidas sem custo ao mundo em desenvolvimento, "dificilmente elas beneficiarão as nações menos desenvolvidas do mundo, por longo tempo." Críticos, diz a Nature, reclamam que o relatório dá legitimidade a so luções de alta tecnologia, como os transgênicos, sem dar a devida importância a soluções locais mais apropriadas. "Mesmo que a ciência tenha peso, não se pode considerá-lo isoladamente sem questionar o poder da mentira por trás da abordagem de mercado em relação à fome global", diz Mark Curtis, da agência internacional de desenvolvimento ActionAid. Mas os integrantes do painel

d izem que o relatório tem a preocupação de estabelecer a dimensão técnica de culturas transgênicas num contexto mais amplo. Isso requer, por exemplo, "isenções especiais" para agricultores pobres, a fim de protegê-los de "restrições inadequadas à propagação de suas culturas."

Frutos do Projeto Resgate

O Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto de Documentação Histórica da Universidade do Porto, com o apoio da FAPESP e do Instituto de Cooperação Científica e Tecnológica Internacional de Lisboa, vão realizar de 25 a 27 de setembro, um co lóquio de história luso-brasileira, cujo título é Perspectivas da Historiografia Luso- Brasileiras: Agenda do Milênio. O encontro pretende fazer um balanço da historiografia dos dois países e reforçar a colaboração futura.

Há mesmo uma forte expectativa de que, a partir dele, surjam grandes projetas liderados por pesquisadores de ambos os países.

Presidente assina lei dos fundos setoriais

O presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou no dia 25 de julho os projetas que criam quatro dos lO fundos setoriais destinados a financiar pesquisa científica e tecnológica com recursos privados. A proposta de criação dos fundos para os setores de Energia Elétrica, Espacial, Recursos Hídricos e Minerais e Transportes Terrestres havia sido aprovada pelo Congresso Nacional no começo do mês. Os fundos, formados por percentuais de faturamento de empresas, deverão somar cerca de R$ l bilhão para o investimento em Ciência e Tecnologia.

Uma única saída

Pressionada pela Lei de Genéricos, desenvolver a capacidade de inovação tecnológica parece ser a única saída para a indústria brasileira de medicamentos. "Ou a indústria nacional acaba de uma vez ou se posiciona de modo mais firme no mercado, desenvolvendo sua capacidade de inovação", disse Gonzalo Vecina Neto, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, durante a 52a reunião da SBPC. Ele aposta que as empresas que se apoiam nas universidades conseguirão assegurar avanços científicos e tecnológicos nos próximos quatro anos.

Em busca de uma teoria final

Pesquisa pretende unificar as f orças básicas da natureza

Um dos maiores desafios da Física moderna é desenvolver uma teoria que descreva de forma unificada todos os fenômenos do Universo. O grande obstáculo é a incompatibilidade entre duas das principais teorias físicas deste século, a relatividade geral e a mecânica quântica. Esse desafio é o tema da pesquisa de Victor de Oliveira Rivelles, profes-

sor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (Ifusp) e dedicado ao problema desde os anos 80. Cada uma dessas teorias desempenha perfeitamente seu papel quando é aplicada no contexto em que foi criada Mas cada uma fracassa ao ser aplicada aos fenômenos descritos pela outra. Por que, então, modificálas em vez de deixá-las como estão?

A idéia de unificação é a mola propulsora dos principais avanços da Física desde seus primórdios. Até o século 17, o movimento dos corpos terrestres e celestes era considerado distintamente. Os corpos terrestres tenderiam a parar depois de se movimentar por algum tempo, devido à sua natureza terrena. Já os corpos celestes, como o sol, a lua e os planetas, se moveriam eternamente- o que seria uma demonstração de seu caráter divino. A mecânica clássica, formulada pelo físico inglês Isaac Newton (1642-1727 ), mostrou que os corpos terrestres e celestes obedecem às mesmas leis de movimento, ao dar uma descrição unificada para ambos Suas idéias causaram uma mudança filosófica e religiosa profunda, pois mostraram, matematicamente, que o movimento dos corpos nos céus era puramente material.

Isaa c Newton : unificador das leis do movimento

Ao sintetizar teorias que pareciam antagônicas, os cientistas conseguem descrever um número maior de fenômenos com menos hipóteses e também prever fenômenos futuros . Newton, por exemplo, baseado em sua teoria, previu a data exata do retorno do cometa Halley.

O físico alemão Albert Einstein (1879-1955), segundo seu biógrafo Abraham Pais (em Einstein Viveu Aqui, Nova Fronteira, 1997, Rio de Janeiro), disse que a teoria física tem dois anseios: "Englobar o máximo possível de fenômenos e suas conexões " e "alcançar isso com base no

Duas teorias incompatíveis

A mecânica quântica nasceu em 1900, com a teoria de Max Planck (1858-1947), segundo a qual a energia não se propaga num fluxo contínuo, mas por meio de pequenos pacotes de energia, os quanta. Isso permitiu dois avanços: a proposição de Albert Einstein, em 1905, de que a luz também se propagaria por meio de pacotes de energia e o modelo atômico do dinamarquês Niels Bohr (1892-1987).

Ainda em 1905, Einstein formulou a teoria da relatividade restrita, baseada na proposição de que nenhum corpo pode alcançar velocidade superior à da luz no vácuo (300 mil km/s). Depois, mostrou a equação E=md (energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz). E, em 1915, lançou a teoria da relatividade geral, mostrando que a gravidade de um corpo deforma o espaço e o tempo a seu redor. Essa

menor número possível de conceitos independentes e relações arbitrariamente pressupostas':

O objetivo fundamental da unificação de teorias físicas é, portanto, obter modelos mais eficazes para explicar e controlar a natureza. Foi o que Einstein obteve em 1915 ao formular a relatividade geral: uma teoria da gravitação mais abrangente que a de Newton.

No Departamento de Física Matemática do Instituto de Física da USP, 'Rivelles e mais oito físicos (pós-doutores e pós-graduandos) trabalham há três anos e meio no projeto Gravitação Quântica, com financiamento de R$ 3,4 mil da FAPESP. Além da USP, há estudos nessa área nas universidades estaduais Paulista (Unesp) e do Rio de Janeiro (UERJ), nas federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Rio

tese foi comprovada alguns anos depois num eclipse solar em Sobral, no Ceará: comparando-se posições de estrelas ao redor do sol antes e durante o eclipse, constatou-se que, vistas daqui, elas pareciam estar mais próximas devido à passagem dos raios de luz delas perto do campo gravitacional do sol.

A relatividade geral inspirou outras teorias, como a da expansão do Universo, pelo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953), em 1929, e a da formação dos buracos negros pelo indiano-norte-americano Subrahmanyan Chandrasekhar (19101995), em 1931. Em 1997, Wei Cui, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e colaboradores da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, anunciaram a descoberta de buracos negros arrastando o espaço-tempo ao seu redor, o que comprovava previsões feitas a partir da relatividade geral 80 anos antes, quando ainda não havia incompatibilidade com a teoria quântica. Em 1924, o francês Louis-Victor de Broglie (1892-1987) propôs a dualidade onda-partícula, o que lhe va-

Grande do Sul (UFRGS) e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Eles não têm dúvidas: o resultado a ser obtido pode revolucionar a Física. Mas não é fácil chegar lá. Afinal, os dois extremos dessa conciliação são justamente os principais pilares da Física moderna.

Micro versus macro - A mecânica quântica pode parecer para o leigo um amontoado de conceitos que ferem o bom senso: aquilo que ora parece ser uma partícula, comporta -se como uma onda e vice-versa. Além desse aparente contra senso, há uma perda definitiva do que restava da Física clássica. Após séculos de tranqüilidade com as equações deterministas do movimento, os cientistas tiveram de encarar o terrível princípio da incerteza, formulado pelo físico alemão

leu o Prêmio Nobel de Física cinco anos depois: mostrou que o elétron pode apresentar comportamento de onda e também de partícula. Três anos depois foi a vez de Werner Heisenberg, com o princípio da incerteza. Contrariando toda a tradição da mecânica clássica, em que a posição e a velocidade de um corpo sempre poderiam ser determinadas precisamente, Heisenberg mostrou que no domínio quântico é impossível determinar ambas com precisão simultaneamente. Einstein jamais aceitou essa formulação.

Werner Heisenberg (1901-1976), para o qual é impossível determinar simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula. "Quando tentamos aplicar os conceitos da mecânica quântica à relatividade geral, somos conduzidos a resultados absurdos, que contradizem os próprios fundamentos dessas teorias", diz Rivelles.

Deus joga dados?- Apesar de ter contribuído para o nascimento da mecânica quântica, Einstein jamais aceitou sua interpretação probabilística. Na Física clássica, toda quantidade física tem um valor determinado. No mundo quântico, passou a vigorar a probabilidade. "Deus não joga dados com o Universo': disse Einstein. O físico britânico Stephen Hawking (1942- ), que ocupa o mesmo posto de Newton na Universidade de Cambridge, rebate Einstein: "Deus joga dados, sim!".

Instaurou-se assim o conflito entre mecânica quântica e relatividade

Einstein: rejeição permanente ao princípio da incerteza

Os vários conceitos para explicar a natureza

Al bert Einste in demonstra que a gravidade dos corpos deforma o es paço e o tempo ao seu re dor e que a teoria da grav itação de Isaac Newton não z

1l z Louis-Victor de Broglie ( 189 2-1987) mostra q ue o elétron pode apresentar características tanto de um corpúsculo quanto de uma onda.

Foi um avanço essencial para a formu lação da mecânica quântica.

propõe seu princípio da incerteza, mostrando ser impossível medir com precisão, simultaneamente, a posição e a velocidade de uma partícula.

A mecânica quântica

Um grupo de físicosentre eles o austríaco

Erwin Schrodinger ( 18871961 ), ao lado, e o alemão

Max Born (1882-1970, Nobel de Física de 1954) - finaliza os métodos matemáticos de da teoria de cordas

Os físicos chegam ao consenso de que a relatividade geral não é compatível com a mecânica quântica.

O físico japonês Yoichiro Nambu , hoje no Enrico Fermi lnstitute , da Universidade de Chicago, propõe a teoria de cordas dentro do contexto das partículas elementares Ainda não se suspeitava que as cordas descrevessem a gravitação.

geral. Muitos físicos seguiram os passos de Einstein e propuseram mudanças na mecamca quântica. O próprio Hawking deu os primeiros passos nessa direção. O holandês Gerard't Hooft ( 1946-)prêmio Nobel de Física de 1999 por seu trabalho sobre a unificação das forças fraca e eletromagnéticae o norte-americano Leonard Susskind (1940-)cujo aniversário foi comemorado no final de maio na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, onde leciona, com um seminário sobre gravitação quântica - propõem a manutenção da mecânica quântica e modificações na relatividade geral. As primeiras evidências de que a relatividade geral deveria mesmo ser modificada vieram com a proposta das supercordas, em meados de 80.

A motivação para as supercordas baseia-se na constatação de que o conceito de uma partícula idealizada como um ponto material é inadequado para formular a quantização da relatividade geral. "As teorias tle cordas são radicalmente diferentes das teorias usuais. Os objetos fundamentais não são mais partículas pontuais, mas sim objetos estendidos, unidimensionais, que são as chamadas cordas", diz Rivelles. "Por terem tamanho muito pequeno, elas parecem comportar-se como partículas." A teoria de cordas é objeto de estudo, em São Paulo, dos pesquisadores Nathan Berkovits, do Instituto de Física Teórica da Unesp, e Élcio Abdalla, do Instituto de Física da USP.

As teorias de cordas, no entanto, precisam ser formuladas de modo a descrever todos os tipos de partículas elementares conhecidos. Uma das teorias de cordas considera a existência de uma partícula com todas as propriedades do gráviton e que, embora

ainda não comprovada experimentalmente, seria capaz de conduzir a força da gravidade. É um resultado que Rivelles considera surpreendente. Outra partícula prevista pela teoria de cordas tem a propriedade de mover-se com velocidade superior à da luz. A existência dessa partícula, o táquion, é proibida pela relatividade especial de Einstein.

É aí que entra o conceito de supersimetria, que resolve o problema ao eliminar essa partícula indesejada. A supersimetria - tema que Rivelles abordou em sua tese de doutoramento de 1982 no King's College de Londres, Reino Unido - é um artifício teórico que unifica todas as partículas e forças da natureza simplesmente por considerar em pé de igualdade dois tipos de partícula bastante distintos, os bósons e os férmions.

Com a aplicação da supersimetria, as teorias de cordas se transformam em teorias de supercordas , unificando de forma adequada todos os tipos de partículas fundamentais.

Uma das surpresas da teoria das supercordas, segundo Rivelles, é que ela pressupõe um espaço de dez dimensões, sendo nove de espaço e uma de tempo. A explicação para o fato de nosso espaço-tempo só revelar quatro dimensões é que no início da formação do Universo, logo após o Big Bang, seis dessas dimensões se tornaram extremamente pequenas.

Nessa área, a comprovação prática é considerada praticamente impossível, por lidar com distâncias ínfimas, bilhões de bilhões de vezes menores que as distâncias investigadas nos mais modernos aceleradores de partículas em uso (nos quais se chega à distância de um bilionésimo de um bilionésimo de centímetro). É uma situação análoga à do Big Bang, a explosão que teria originado o Universo e igualmente não é passível de comprovação.

A teoria de supercordas, segundo Rivelles, poderá prever relações desconhecidas entre as partículas ou mesmo a existência de novas partícu-

Rivelles : pe r s istente na busc a da teo r ia ge ra l das forç as do Universo

las e, porta nto, de forças ain d a n ão d etectad as. À me d ida q ue a teor ia de supercordas se fo r co n solida ndo, poderá até resolver q u estões que in triga m físicos e filóso fos, t a is com o: p or qu e o Unive rso existe em quatro dim ensões (as três dim en sões espaciais d e comp ri m ento , largura e altur a, m ais a dime n são te mp oral) e n ão em m ais o u em me n os dimensões? Po r que a m atéria só ap arece n a fo rm a d e quarks e lépton s?

Rivell es n ão desa nim a ao lembrar qu e só se conhecem algun s pe d aços da teoria d e su percord as . As d úvidas se acum ulam , mas essa teoria, q u e d eve descrever todas as forças do Universo, ainda está na infâ n cia e su a formulação completa levará muito tempo, lembra o pesquisador. O próp rio Einstein levou dez anos para form ular a teoria da relatividade geral, que descreve apenas a gravitação O físico norte-americano Edward Witten comentou há anos - e seus colegas do mundo todo concordam- que a teoria de supercordas é uma teoria do século 21 que, por acidente, foi descoberta no final do século 20. •

PERFIL :

• V ICTOR DE ÜLIVEIRA R!VELLES, 48 anos, graduado em 1974 pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), com mestrado em 1977 na Universidade Federa l da Paraíba (UFPB), doutorado em 1982 no King's Coll ege de Lond res, é professor do Instit u to de Física desde 1987.

Projeto: Gravitação Quântica Investimento: R$ 3.452,00

1973

Supersimetria

O alemão Julius Wess, da Universidade de Munique (na foto), e o italiano Bruno Zumino, da Universidade da Califórnia, aplicam o conceito de supersimetria à teoria das partículas elementares. Embora a supersimetria tenha sido introduzida na teoria de cordas em 1971, era pouco conhecida pelos físicos

1974

Cordas e gravitação

O inglês John Schwarz (na foto) , atualmente no California lnstitute ofTechnology (Caltech) , e o norte-americano

Joel Scherk {falecido no início dos anos 80) descobrem que a teoria de cordas inclui a relatividade geral. As teorias de cordas , ainda nos seus primórdios, mostram-se inconsistentes e são deixadas de lado Poucos fís icos continuam a estudá-las

1984

A primeira revolução: supercordas

As inconsistências da teoria de supercordas são superadas pelos ingleses Michael Green , da Universidade de Cambridge , e J Schwarz

São encontradas cinco teorias de supercordas. Essa é a chamada primeira revolução das supercordas

O físico norte-americano

Edward Witten , do Caltech , propõe que as teorias de supercordas formam uma pequena parte de uma teoria mais geral , a teoria M, que inclui cordas, membranas e teorias de gravitação supersimétricas

As membranas são uma das extensões mais simples do conceito de cordas , o equivalente à superfície de uma bolha de sabão.

Diretamente da vaca,um

leite dietético

Molécula adicionada à ração reduz o teor de gordura, aumenta o de proteínas e acentua efeito anticancerígeno

Com a infinita calma dos bovinos, um grupo de vacas alimentase de capim e de ração no estábulo da fazenda experimental da Embrapa em Vassouras, RJ. Elas são especiais: seu leite tem 30% a menos de gordura e 10% a mais de proteína, além de propriedades anticancerígenas. Provavelmente dentro de três anos os pecuaristas brasileiros poderão distribuir esse leite, obtido a partir de estudos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba. Esse leite, equivalente a um semidesnatado, é o mais recente experimento do engenheiro agrônomo Dante Pazzanese Lanna, da Esalq, que trabalhou em parceria com pesquisadores dos Estados Unidos (EUA) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Este mês, o engenheiro agrônomo Sérgio Raposo de Medeiros, doutorando orientado

Dante Pazzanese Lanna, formulador da nova ração: leite já sai da vaca semidesnatado

por Lanna, apresenta a novidade na reunião da Sociedade Americana de Ciência Animal, nos EUA. Em agosto, é a vez de Lanna mostrá-la no Congresso da Associação Européia de Produção Animal em Haia, Holanda.

Para obter o leite sonhado pelos nutricionistas, Lanna formulou uma ração com moléculas modificadas de ácido linoléico conjugado (CLA), um ácido graxo que forma os lipídios (gorduras). Adicionado à alimentação animal, o ácido modificado funciona como um composto farmacêutico, alterando a síntese de gordura na glândula mamária.

Lanna começou a estudar há quatro anos as propriedades do CLA, que é produzido naturalmente no estômago dos ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos) e encontrado em alimentos de origem animal, sobretudo o leite. Seus efeitos biológicos e anticancerígenos têm sido reiterados em pesquisas internacionais. Em 1996, o Conselho Nacional de Ciências dos Estados Unidos confirmou que o CLA é capaz de inibir a formação de tumores. Além de prevenir o câncer, ataca células tumorais presentes no organismo e reduz tumores já formados. Em experimentos com ratos no Roswell Park Institute de Nova York, Estados Unidos, o CLA, mesmo em concentrações muito baixas, propiciou uma redução significativa no número de tumores mamários. Com doses da ordem de 0,25% da dieta, reduziu à metade o número de tumores em relação a animais que não o receberam.

Variações - A molécula de CLA tem 18 átomos de carbono e existe sob várias formas - os isômeros - em que esses átomos se agrupam diferentemente, o que altera seus efeitos no organismo. Um dos isômeros é o CLA 18 :2 eis 9, trans 11 (c9,tll)- as abreviações indicam que o CLA contém uma dupla ligação no carbono 9 na forma eis, isto é, no mesmo plano da molécula, e outra dupla ligação no carbono 11 na forma trans, ou seja, em outro plano, como se a molécula

virasse sobre seu eixo. Pesquisadores norte-americanos confirmaram recentemente em ratos que o CLA c9, tll impede a formação de células tumorais. A formação de placas de gordura (aterosclerose) nas paredes dos vasos sanguíneos é aparentemente reduzida por outro isômero, o CLA 18:2 tlO,cl2. "Procura-se agora saber a quantidade necessária para otimizar a proteção contra o câncer e adicionar essa molécula aos alimentos consumidos pela população em geral", diz o pesquisador da Esalq. Sabese que o isômero CLA 18:2 trans 10, eis 12 é o que inibe a síntese de gordura no leite e tem, portanto, um efeito antiobesidade.

Lanna imaginou um desafio: seria possível elevar o teor de proteína no leite? Para isso, a maior dificuldade foi obter uma combinação do ácido linoléico conjugado, contendo principalmente o isômero t10,cl2, somado a um suplemento de aminoácidos. A hipótese de que seria preciso pôr mais aminoácidos na dieta para a vaca produzir mais caseína (a proteína do leite) provou-se correta e ocorreu um notável aumento no teor protéico. A equipe de Lanna patenteou o efeito do CLA na redução da gordura do leite. Agora, os pesquisadores ·da Esalq, da Embrapa, da Universidade de·Idaho e a FAPESP estão requerendo o registro da descoberta de que o CLA aumenta o teor e a produção de proteína do leite em até 10% e 20%, respectivamente. Não é o único feito que se mostra inédito. "Também demonstramos, pela primeira vez, um aumento na produção de leite a pasto e o aumento da persistência da lactação, fazendo com que a vaca mantenha altas produções de leite ao longo do seu período de lactação, de cerca de dez meses", diz ele.

Já em contato com o setor privado, os pesquisadores querem oferecer a suplementação a baixo custo, o que parece viável porque o ácido linoléico, matéria-prima do CLA, pode ser facilmente obtido de alimentos como

os óleos de oliva e de soja. Pode ser um caminho para ampliar tanto a produção, hoje de 20 bilhões de litros, quanto o consumo de leite no Brasil, estimado em 137litros por habitante/ano, o equivalente a um copo por dia ou um terço do recomendável para evitar problemas como osteoporose (ver Pesquisa FAPESP no 52).

Influência do avô - Com seu trabalho, Lanna prossegue na linha do avô materno, o médico mineiro Dante Pazzanese, que dedicou a vida ao tratamento e à cura de doenças cardíacas. Filho de imigrantes italianos, ele

Uma das produtoras do novo leite light, na fazenda de Vassouras (RJ)

trouxe ao Brasil o primeiro aparelho de eletrocardiograma e em 1954 criou em São Paulo o Instituto de Cardiologia, uma das primeiras instituições do gênero no país, que hoje leva seu nome. Ao se aposentar, em 1974, dedicou-se à fazenda do norte do Paraná onde plantava café e soja e criava gado. A convivência com o neto, que passava lá as férias, foi curta -o médico morreu no ano seguinte, aos 75 anos, mas intensa, e despertou no garoto o interesse por agronomia. Outro empurrão para a universidade veio do pai, Amadeu Duarte Lanna, professor de antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e autor de um dos primeiros projetos de ciências humanas financiados pela FAPESP, com índios do Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso.

Recém-concluída, a pesquisa de Dante Lanna Ácido Linoléico Conjugado: Efeito da Suplementação por Longo Período sobre Vacas Lactantes teve financiamento de R$ 48,8 mil da FAPESP e a colaboração de pesquisadores das universidades de Cornell e Idaho, nos Estados Unidos, e de Helsinque, na Finlândia. Logo no início, um resultado animador veio de Cornell: quatro vacas leiteiras que receberam suplemento alimentar de 50 gramas de CLA por quatro dias tiveram redução de mais de 50% no teor de gordura do leite. "Após três dias de tratamento, os animais passaram a produzir leite com menos de 1,5% de gordura, portanto, mais magro do que o leite semidesnatado (com 2% de gordura) vendido nos supermercados", comenta Lanna, que verificou aqui os mesmos resultados num grupo de 32 animais. Com base nessa descoberta, Lanna e seu ex-colega de Cornell, Mark McGuirre (hoje em Idaho), iniciaram experimentos com suplementação de CLA por período mais longo (dois meses), em condições de produção comercial. "Não sabíamos nem se os animais poderiam ter problemas metabólicos ao produzir leite tão magro por tanto tempo': diz o pesquisador da Esalq. Nos Estados Unidos, McGuirre trabalhou com vacas holandesas puras e de alto potencial produtivo (mais de 50 kg de leite por dia) em sistemas intensivos confinados. Por aqui, Lanna e Luiz Aroeira, da Embrapa, usaram vacas cruzadas holandesas de menor potencial produtivo (18 kg/dia) e mantidas em pasto. Comiam em média 4 kg/dia de concentrado com CLA e uma suplementação de proteínas que fornecem aminoácidos.

Os estudos levaram a resultados semelhantes nos dois países. Na fase

inicial, quando se procurou verificar se o CLA prejudicaria os animais, comprovou-se que, mesmo por períodos prolongados, ele não causa nenhum problema digestivo, metabólico, reprodutivo ou sanitário. Mais tarde, os dois estudos atestaram que o CLA aumentou a produção de leite e manteve a produtividade após o início da lactação. No experimento brasileiro, o efeito de melhora na persistência da lactação continuou mesmo após a suspensão do fornecimento de CLA na décima segunda semana.

Tanto nos Estados Unidos como

CLA modificado: composto adicionado à ração especial é responsável pelo "milagre"

no Brasil, confirmaram-se os resultádos iniciais de laboratório, com reduções no teor de gordura de cerca de 26%. Por reduzir a gordura do leite, o CLA também reduz as exigências de energia da vaca . Isso faz com que seu organismo direcione mais nutrientes à reposição da gordura perdida no início da lactação, melhorando sua condição corporal e as taxas reprodutivas. As vacas pesquisadas passaram a produzir diariamente 20 litros de leite, mesmo em regime de pasto, que fornece menos energia que a obtida com dietas de milho, por exemplo.

Ganho extra - As pesquisas indicaram outro efeito benéfico: a adição controlada de CLA à alimentação animal inibe a síntese de ácidos graxas saturados de cadeia curta, entre

Alternativas para engordar o gado

Outro trabalho coordenado por Dante Pazzanese Lanna no Laboratório de Nutrição e Crescimento

Animal da Esalq e pronto há quase um ano é o programa de nutrição de bovinos Ração de Lucro Máximo. Feito por quatro pesquisadores da Esalq - Lanna, Luis Gustavo Barioni, Luis Orlindo Tedeschi e Celso Boin -,teve a colaboração de especialistas de Cornell e financiamento de R$ 6 mil da FAPESP.

O coordenador calcula que o programa já seja usado por cerca de 200 fábricas de ração, consulto-

eles o mirístico e o láurico - os mais perigosos à saúde, por aumentarem os níveis de colesterol. E, ao mesmo tempo, aumenta a proporção de ácidos de cadeia longa, como o palmítico, que tem menos efeito no teor de colesterol e provavelmente reduz a probabilidade de doença cardiovascular. Houve diferenças nos experimentos. Nas vacas tratadas nos Estados Unidos, o teor de proteína do leite aumentou 4%, enquanto nas brasileiras o aumento foi de 11%. Motivo: os animais daqui receberam quantidades maiores de proteína e de minerais que o considerado necessário para as vacas cruzadas holandesas em lactação. A dieta que o pesquisador formulou incluiu farinha de peixe e farelo de soja com tratamento térmico, o que evita a degradação excessiva das proteínas durante a digestão pelas bactérias do rúmen (primeiro compartimento do estômago bovino) Assim, sobra proteína, que a glândula mamária pode usar para secretar no leite. Além de o leite das vacas alimentadas com essa dieta, na proporção de 5 gramas de CLA por quilo de alimento, ter o aumento de 11% no teor de proteína, o aumento da produção de leite fez a produção

res e pecuaristas sul-americanos e envolva ao menos 250 mil do 1,3 milhão de cabeças de gado confinado do país. Até há pouco tempo, não havia um modelo semelhante para a realidade brasileira.

O trabalho integra o conhecimento de nutrição de gado num programa de computador, que inclui uma biblioteca de alimentos disponíveis no Brasil. Simula meta-

holismo de nutrientes, quantidade de alimento, conteúdos de proteína e gordura da ração e ganho de peso. Adaptado à criação tropical brasileira e ao gado de raças zebuínas (85% do rebanho nacional de 160 milhões de cabeças, o maior do mundo), o programa permite um gerenciamento compatível com cada propriedade. Para análises econômicas, conta com um sistema de

RLM 2.0

total de proteína crescer 19% (ver gráficos).

Segundo Lanna, a molécula de ácido linoléico conjugado que inibe a síntese de gorduras pelas vacas é a CLA tlO,cl2, que atua como um modificador metabólico ou repartidor de nutrientes: ela redireciona os nutrientes, reduzindo a proporção dos usados na síntese de gordura e aumentando a dos direcionados à síntese de proteína. Os dois processos ocorrem simultaneamente nas células. Como se verificou, o CLA inibe a síntese de gordura no leite e permite que mais nutrientes sejam redirecionados para a síntese de proteínas na mama. Havia um risco, entretanto : as bactérias no rúmen podem transformar o CLA em ácido linoléico, que não tem efeitos metabólicos. Para

evitar isso, os animais receberam ração um CLA protegido por sais de cálcio. Deu certo: o composto das moléculas do CLA t10,cl2 e tl1,c9 e o suplemento com proteínas metabalizáveis não degradaram no rúmen, foram absorvidos pela vaca e alteraram o metabolismo da glândula mamária, como se esperava.

Em resumo - A execução do projeto conduzido pelo engenheiro agrônomo e bioquímico Dante Pazzanese Lanna pode ser resumida em quatro fases:

1. O ácido linoléico conjugado (CLA) é protegido da degradação ruminai (no primeiro compartimento do estômago da vaca) por meio da adição de sais de cálcio. 2. O CLA com cálcio é adicionado à

otimização não-linear proposto por Lanna e Barioni, publicado recentemente no International Congress of Modelling and Simulation, da Nova Zelândia. Quando se dispõe de milho, sorgo e polpa de citrus, por exemplo, basta fornecer os preços de cada produto para que o programa aponte a alternativa mais vantajosa. Depois, ele faz todas as formulações possíveis desses alimentos e identifi"' ca a mais econômica, estimando ê o consumo e o ganho de peso. o fi1 Custa R$ 180 e é distribuído pela Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq).

Novo software: balanceamento ideal da ração para cada caso, em condições tropicais

ração destinada às vacas, juntamente com um suplemento de aminoácidos.

3. O isômero CLA t10,c12 absorvido pelo organismo da vaca chega às células de suas glândulas mamárias, onde reduz a influênciê dos genes das enzimas FAZ e ACC, que são responsáveis pela síntese da gordura do leite.

4. A vaca passa a produzir leite em maior quantidade, com menos gordura, mais proteína e contendo ainda o isômero CLA c9 ,tl1, que exerce uma forte ação anticancerígena e anti-aterosclerose (formação de placas de gordura que podem obstruir as artérias). O impacto da descoberta deve ser grande. Afinal, esse leite semidesnatado e com importantes efeitos terapêuticos é um produto inteiramente natural, cuja obtenção não requer a passagem por nenhum processo industrial. E, como o leite é a matéria-prima de muitos alimentos, toda a cadeia de produção dos laticínios deve ser atingida.

Entre produtores e beneficiadores de leite, a pesquisa merece ser comemorada, por reavivar o interesse por um produto cujo consumo se tem li-

Mais proteína no leite

1,50 1,25

1,00

0,75

0,50

0,25 o J

GORDURA

Fonte: Dante Pazzanese Lanna

mitado a crianças e adolescentes. "Na última década", diz o pesquisador, "houve uma considerável redução no consumo de manteiga e, simultaneamente, um aumento no consumo de leite desnatado, porque a gordura tem sido apontada como uma das principais vilãs em doenças do coração': Ele acrescenta que "a pesquisa permitirá o controle da produção dos componentes do leite de acordo com as necessidades do mercado".

Estábulo e laboratório - Lanna desenvolve outro projeto apoiado pela FAPESP - Efeito do Hormônio do Crescimento na Expressão Gênica de Enzimas Reguladoras da Lipogênese e Lipólise - com financiamento de R$ 171,6 mil e término previsto para 2001. Desta vez, a meta é entender os mecanismos celulares e moleculares da ação do CLA e de hormônios nos tecidos mamário e adiposo das vacas. Esses mecanismos podem explicar mais profundamente a inibição da produção de gordura no leite.

A redução no teor de gordura ocorre devido à menor atividade de certos genes. Esses genes codificam as enzimas sintetase dos ácidos graxas FASe acetil CoA carboxilase (ACC), responsáveis pela síntese da gordura . As duas enzimas são os motores da transformação em gordura dos nutrientes que chegam pelo sangue. A

partir de uma amostra do tecido da mama da vaca que recebeu o CLA, os pesquisadores extraem moléculas de ácido ribonucléico (RNA)- que levam para o restante das células as informações dos genes contidos no DNA Alterações na expressão desses genes são determinadas por meio de uma técnica que permite saber quantas cópias desse RNA mensageiro são feitas. Inicialmente, a equipe de Lanna, em conjunto com o grupo do projeto Genoma Xylella na Esalq, fez a clonagem e o seqüenciamento de alguns desses genes, desconhecidos para os bovinos. O objetivo é conhecer ós mecanismos envolvidos na regulação da secreção do leite para, por exemplo, desenvolver animais transgênicos que produzam mais leite - na composição considerada ideal para o consumidor- e sejam mais eficientes na conversão de alimentos.

O pesquisador Sérgio Medeiros, por sua vez, está avaliando a presença das diferentes formas de CLA nos alimentos consumidos pelos freqüentadores do restaurante da Esalq. Quer saber quanto do composto é preciso acrescentar para enriquecer os alimentos e proteger contra o câncer. E o zootecnista Dimas Estrásulas de Oliveira, em outro projeto de doutorado, avalia se as vacas comem mais ou menos capim quando suplementadas com o CLA. Seu trabalho poderá de-

tinir quantos quilos de ração a menos a vaca alimentada com CLA requer para produzir um litro de leite.

A equipe tem o mesmo objetivo: produzir leite com menos gordura e mais eficiência. Chegando cada vez mais perto da composição ideal e de uma compreensão clara do modo de atuação do CLA, Dante Pazzanese Lanna procura reduzir a incidência de problemas de coração -o sonho do avô com quem aprendeu a gostar de pesquisa e de agronomia. •

P ERFIL :

• DA NTEPA ZZANESELA NNA , 36 anos, formou-se engenheiro agrônomo em 1985 na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP ), onde fez mestrado e leciona desde 1996. Doutorou-se em Bioquímica Nutricional em 1993 na Universidade de Cornell, EUA.

Projetos: Ácido Linoléico Conjugado: Efeito da Suplementação por Longo Período sobre Vacas Lactantes; Efeito do Hormônio do Crescimento na Expressão Gênica de Enzimas Reguladoras da Lipogênese e Lipólise; e Desenvolvimento de Modelos do Uso de Nutrientes em Ruminantes e de Determinação da Exigências Nutricionais Investimentos: R$ 48.872,80, R$ 171.661,60 e R$ 6.000,00

Efeito do CLA na composição do leite de vaca em pasto no Brasil
Efeito do CLA na quantidade total de proteína e gordura do leite

Maravilha: fósseis de mastodonte, preguiça e tatu gigantes

Sinal orgânico no espaço interestelar

O telescópio espacial infravermelho (ISO) da Agência Espacial Européia (ESA) detectou a presença do radical meti!CH 3, formado por um átomo de carbono e três de hidrogénio- nas nuvens de gás e poeira entre as estrelas. Já registrado em 1998 pelo ISO em Saturno e, um ano depois, em Netuno, o CH 3 é produto intermediário nas reações que formam hidrocarbonetos -o grupo de compostos orgânicos do petróleo e seus derivados. É um radical chamado livre por ser muito reativocombina-se facilmente para formar substâncias orgânicas -e isoladamente, não existe por mais que milionésimos de segundo. Agora foi detectado no centro de nossa galáxia, numa nuvem de temperatura estimada em -256°C e densidade de cerca de 1 milhão de moléculas por centímetro cúbico. Anunciada em The Astrophysical Journal de 1o de junho, a descoberta fora prevista pelo alemão Gerhard Herzberg (1904-1999, Nobel de Química de 1971),masnão

de forma tão abundante- 13

CH3 para cada milhão de moléculas de hidrogénio - indicando que os atuais modelos teóricos terão de ser revistos. Segundo Helmut Feuchtgruber - do Instituto MaxPlanck de Física Extraterrestre e um dos autores da descoberta, junto com holandeses, espanhóis e australianos -o ISO está mostrando a singularidade dos processos químicos que ocorrem no espaço. Operando desde 1995 e já com cerca de 30 mil observações feitas, o ISO também detectou no espaço moléculas de água,

gelo e cristais de silicatos, entre outras.

Arqueologia no interior de Alagoas •

Nunca antes escavado, o município de Maravilha, no interior de Alagoas, se revela muito promissor para a paleontologia e a arqueologia. Ali, o biólogo Jorge Luís Lopes, do Centro de Tecnologia e Geociências da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) encontrou fósseis de mastodonte, de preguiça-gigante e de um tatu-gigante, de aproximadamente 1Omil anos. Estavam em depressões naturais das rochas chamadas caldeirões ou tanques, para onde devem ter sido trazidos pelas chuvas. Outros municípios de riqueza arqueológica comprovada são Ouro Branco, Poço das Trincheiras e Santana do Ipanema, em Alagoas, e Águas Belas, em Pernambuco. •

Para entender os ecossistemas

É difícil explicar a multiplicação desenfreada de algas

planctônicas em águas poluídas, com excesso de fosfatos e nitratos. Insatisfeitos com os modelos atuais- que supõem o ecossistema como uma cadeia linear de três níveis tróficos homogéneos (produtores primários, herbívoros e carnívoros)- franceses do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) e da Universidade de Paris VI criaram uma alternativa: em vez de uma sucessão, nos ecossistemas haveria uma rede de eventos. Para eles, em cada nível trófico há de um a três grupos funcionais, conforme o regime alimentar e a vulnerabilidade das espécies. O modelo de rede rompe com a idéia de que a abundância de nutrientes beneficiaria os níveis tróficos mais elevados, normalmente os carnívoros, em detrimento dos herbívoros. Ele identifica, no primeiro nível, três grupos de produtores primários: algas planctônicas mais comestíveis, algas planctônicas pouco comestíveis e perífiton (não consumidas e auto-reguladas). O segundo nível seria formado por pequenos e grandes herbívoros consumidores de algas. O terceiro, por carnívoros invertebrados que consomem pequenos herbívoros e, eventualmente, por peixes que se alimentam de todos os herbívoros e também de carnívoros invertebrados. Os resultados que o novo modelo prevê ficaram bem próximos dos verificados empiricamente - em experimentos com manipulação de nutrientes no lago de Créteilmas distantes do modelo clássico. •

Antiofíd ico de cascavel fica mais leve

Nova imunoterapia permitirá tratamento menos agressivo contra veneno da serpente

Acascavel é a serpente cuja picada causa mais mortes no Brasil. Duas pesquisas do Instituto Butantan (São Paulo) mostram que é possível usar fr-agmentos de anticorpos anti-veneno de cascavel que agiriam especificamente sobre o veneno, diminuindo os sérios efeitos adversos da soroterapia. Essa possibilidade de tratamento, menos agressivo que o convencional - adotado há mais de 100 anos e cuja aplicação é muitas vezes comprometida pelas reações adversas - tem mostrado bons resultados em laboratório, em testes com camundongos.

O veneno da cascavel ( Crotalus durissus terrificus) tem 65% de crotoxina, proteína que é seu principal componente ativo. Ela inibe os movimentos musculares: por isso, a vítima pode até parar de respirar se não tiver socorro adequado em tempo hábil, algo em torno de 2 a 6 horas. As conseqüências do envenenamento são bem conhecidas, mas pouco se sabe do efeito do veneno sobre as células e do desenvolvimento da resposta imune do organismo. Foi justamente a isso que se dirigiu o projeto Efeito do Veneno da Crotalus durissus terrificus (cascavel) sobre o Sistema Imune, do professor Ivan da Mota e Alburquerque, Liderança Científica do Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan.

A crotoxina age na região de contato entre o nervo e o músculo, inibindo a liberação de acetil-colina ao nível das junções neuromusculares. Com isso, impede a transmissão do estímulo nervoso para o músculo se contrair: "Um dos primeiros sinais de que o veneno está agindo é a ptose palpebral- a pessoa não consegue abrir a pálpebra': diz o professor Ivan . Quando o organismo percebe a entrada de proteínas estranhas, reage contra elas produzindo anticorpos, formados por células sangüíneas chamadas linfócitos Os linfócitos B produzem anticorpos que neutralizariam o efeito tóxico do veneno. Resultados anteriores obtidos no Laboratório de Imunopatologia mostraram que a crotoxina do veneno da cascavel diminui consideravelmente a resposta imune, de modo que o sistema imunológico da vítima produz menos anticorpos, sobretudo anticrotoxina, que neutraliza os efeitos da crotoxina.

Como a resposta dos linfócitos B é muito influenciada pelas citocinas (substâncias também produzidas por eles), a pesquisadora Diva Ferreira Cardoso, Ivan da Mota e sua equipe decidiram injetar em camundongos (Mus musculus) tanto o veneno de cascavel quanto a crotoxina isolada. Então, acompanharam a produção de citocinas e anticorpos pelo animal, para estudar a ação do

Extração do veneno é tradição secular, mas tratamento mudará veneno sobre o sistema imunológico. Verificaram que tanto o veneno como a crotoxina isolada inibem a produção de citocinas e de anticorpos, mas que esse efeito supressor no sistema imunológico ocorre apenas sobre os linfócitos B (produtores de anticorpos), e não sobre os linfócitos T (responsáveis pela imunidade celular).

O projeto, iniciado em fevereiro de 1997 e terminado em 1999, recebeu financiamento da FAPESP e resultou na tese de doutorado de Diva Cardoso, além de um artigo na mais importante revista científica sobre venenos animais, Toxicon (Vol. 35: 607, 1997), assinado por Mota e Diva.

Um legado importante

Formada em Ciências (1982) pela Universidade Mackenzie, de São Paulo, Diva Ferreira Cardoso fez mestrado em Microbiologia e Imunologia (1992) na antiga Escola Paulista de Medicina (atual Universidade Federal de São Paulo) e doutorado em Imunologia (1999) no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Desde 1987 era pesquisadora científica

A partir de então, ambos decidiram continuar os estudos sobre o veneno, em busca de uma alternativa para o soro anticrotálico produzido em cavalos ou ovelhas. Eficiente na neutralização dos componentes tóxicos do veneno, esse soro retirado de animais imunizados com o veneno total causa, em 30% a 84% dos casos, as reações indesejáveis, que vão desde a chamada doença do soro até o choque anafi-

Em relação ao mecanismo de ação do veneno, os pesquisadores também queriam responder a novas indagações. Uma delas era descobrir qual a dosagem de citocinas produzidas pelos linfócitos B e qual o efeito da crotoxina sobre a produção de citocinas por esses linfócitos.

No relatório de seu projeto, Mota já apontava, como objetivo futuro, a obtenção de "anticorpos monoclo-

lático. A doença do soro produz reações cutâneas que, em casos graves, causam insuficiência renal. Além disso, ocorre a diminuição de imunidade provocada pelo próprio veneno, o que resulta num quadro de resolução complicada.

no Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan. Assinou dez trabalhos em publicações internacionais, sobretudo sobre veneno de cascavéis. Foi a grande responsável pela obtenção do fragmento de anticorpo que poderá ser a diferença entre tratamento mais ou menos agressivo para as vítimas de picadas de cascavel. O importante trabalho da dra. Diva, interrompido por sua morte trágica, em dezembro de 1999, foi retomado por sua orientanda de mestrado Edna Cristina dos Santos sob a orientação do prof. Ivan Mo-

nais de origem humana para fins terapêuticos': que inibissem os efeitos colaterais. Então, sua equipe iniciou novo projeto, no decorrer do qual a pesquisadora Diva Cardoso conseguiu um grande avanço: sintetizou um

ta. Segundo a apresentação do projeto, a "alternativa proposta para o melhoramento da soroterapia é a possível utilização de anticorpos homólogos (de origem humana), específicos para as principais toxinas do veneno, que possam evitar essas reações adversas. Anticorpos humanos recombinantes já vêm sendo usados com sucesso no tratamento de tumores, rejeição de transplantes, artrites reumatóides e alergias, sugerindo que sua utilização também é possível no tratamento dos acidentes crotálicos."

fragmento de anticorpo humano, exatamente a parte que se liga ao antígeno (o veneno). Esse pedaço do anticorpo com especificidade para o veneno (reconhece o veneno) é chamado anticorpo humano recombinante ou scFv. "Diva mostrou que as moléculas scFvs anti-crotoxina são capazes de neutralizar, potencialmente, a atividade enzimática e letal da crotoxina in vitro e in vivo, com animais de experiência': revela Ivan da Mota.

O novo projeto - Caracterização do Potencial de Neutralização de Anticorpos Humanos Recombinantes (scFv) Anti-Crotoxina do Veneno do C. d. terrificus frente à Crotoxina dos Venenos de C. d. collineatus e C. d. cascavella - foi tema da tese de Diva e continua a ser desenvolvido pela biomédica Edna Cristina dos Santos, que tem bolsa da FAPESP para tese de mestrado, sob orientação de Ivan da Mota e com a colaboração do Hybridolab, do Instituto Pasteur, da França. Os pesquisadores têm pela frente um longo trabalho, que inclui mais testes com animais e humanos, até que o scFv possa ser usado na rotina de atendimento. •

PERFIL:

• IVAN DA MOTA E ALBUQUERQU E, 79 anos, formou-se em 1947 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco. Foi professor de Histologia na Faculdade de Medicina da USP e de Imunologia no Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Trabalha desde 1970 no Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan. Projetas: 1. Efeito do Veneno da Crotalus durissus terrificus (cascavel) sobre o Sistema Imune. Investimento: R$ 12.091,76 e US$ 36.200,37

2. Caracterização da Reatividade Cruzada e do Potencial de Neutralização de Anticorpos Humanos Recombinantes (scFv) Anti-Crotoxina do Veneno da Crotalus durissus terrificus frente à Crotoxina de outros Venenos Crotálicos

Professor Ivan, do Instituto Butantan : orientador previu uso de anticorpos humanos

Peixes do século passado

Pesquisadora resgata

desenhos inéditos

do inglês Alfred Wallace

Quase cem anos depois, uma carta chega ao devido destino. Em 1904, o naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913) escreveu a George Albert Boulenger, curador de répteis e peixes do Museu de História Natural de Londres. Perguntava se a instituição teria interesse em abrigar a coleção de 212 gravuras de peixes que havia feito ao longo de sua expedição pela Bacia do Rio Negro, na Amazônia, entre 1850 e 1852. Ao despedir-se, perguntava se "não haveria um estudante disponível, disposto a organizar um catálogo sobre as ilustrações':

O material foi aceito pelo Museu de História Natural e um ano depois outro curador, Charles Tate Regan , publicou uma lista onde identificou cerca de metade das espécies ilustradas. Mas o desejo de publicar as ilustrações não pôde ser atendido. Em fevereiro do ano passado, a carta chegou às mãos da bióloga paulista Mônica de Toledo-Piza Ragazzo, pesquisadora de 35 anos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP) . Ela agora providencia a identificação dos peixes e prepara um catálogo completo com as 212 gravuras, das quais pelo menos 180 são inéditas, que constituem uma pequena amostra da diversidade de peixes da Amazônia. O livro com os desenhos e a carta deve ser publicado no início do próximo ano pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp ), com apoio da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp ).

Autodidata, Wallace foi um dos primeiros naturalistas a percorrer a

Bagre-sapo (Asterophysus batrachus), uma das 212 gravuras reunidas ISO anos depois região do Rio Uaupés, um afluente do Rio Negro só explorado novamente muitos anos depois. As observações que fez durante a viagem pela Amazônia contribuíram para a formulação das idéias sobre evolução, depois apresentadas em co-autoria com o inglês Charles Darwin ( 1882). Wallace chegou a Belém em 1848 acompanhado pelo seu amigo e também naturalista Henry Walter Bates (1825-1892). Percorreram juntos o Rio Amazonas até 1850, quando Wallace preferiu seguir sozinho pelo Rio Negro.

As plantas e os animais coletados na Amazônia que Wallace levava à Inglaterra perderam-se quando o navio Helen se incendiou e naufragou, três semanas após deixar a costa brasileira. As gravuras de peixes e de palmeiras e anotações da viagem foram o que ele pôde salvar. Em 1853, um ano depois de retornar a Londres, publicou A Narra tive of Traveis on the Amazon and Rio Negro, traduzido em 1979 pela Edusp Em 1854, seguiu para a Malásia, onde ficou durante oito anos

R iq u eza de deta l hes - Em 1994, Mônica fazia o doutoramento na City University e no Museu de História Natural, em Nova York, quando , ao selecionar a bibliografia que sustentaria seu trabalho, tomou conhecimento da publicação de Regan que citava duas espécies do grupo de peixes que estava estudando, a subfamília Cynodontinae, chamados peixes-cachorro, com três gêneros e oito espécies, da ordem Characiformes, que inclui também piranhas e lambaris

Em julho de 1995, Mônica viajou a Londres para examinar o material da coleção de peixes do Museu de História Natural. Aproveitou para ver as gravuras de Wallace. Ficou impressionada com a riqueza de detalhes dos desenhos, feitos a lápis, em três tipos diferentes de papel, com cerca de 15 centímetros de largura por 5 de altura. Entre as gravuras de Cynodontinae havia uma espécie nova que ela estava descrevendo e chamou de Hydrolycus wallacei, em homenagem ao naturalista.

Atribulada para concluir o doutoramento, Mônica não pôde, na época,

Acará-bandeira (Pterophylum a/tum), no desenho preciso a lápis do autodidata Wallace ater-se às gravuras. Mas não as esquecera. Em 1998, enviou um projeto ao Museu de Londres prontificando-se a organizar o acervo e resgatar o trabalho de Wallace. Proposta aceita, voltou a Londres, com um apoio da FAPESP para passagens e estadia, no valor de US$ 3.841,00, e pôs-se a pesquisar a história das gravuras e cuidar da identificação das espécies retratadas nos desenhos, para a posterior publicação de um catálogo. Foi nessa viagem que descobriu o texto em que o pesquisador inglês expressava seu desejo de ver as gravuras publicadas. "Lendo a carta, fiquei emocionada por saber que Wallace não só aprovaria o catálogo, como na verdade estava à espera de alguém que realizasse sua vontade", diz ela. Para montar o catálogo, a pesquisadora examinou os relatos da viagem e as anotações do naturalista inglês, com as características morfológicas e as localidades de coleta da maioria das espécies dos peixes ilustrados. "Wallace era muito minucioso e os desenhos muito fiéis, mesmo ele não sendo um especialista", diz a pesquisadora.

Contou também com a vasta coleção de espécies amazônicas depositadas no Museu de Zoologia da USP. Após identificar as espécies, Mônica enviou cópia das gravuras, para confirmação, aos especialistas dos diferentes grupos de peixes de água doce da América do Sul, que trabalham em instituições de São Paulo, Rio de Janeiro

e Paraná, além de museus da Suécia, Estados Unidos e França. Desse modo, a pesquisadora está atualizando o trabalho de Regan, que havia trabalhado com a coleção no início do século. "Ainda hoje nosso conhecimento é insuficiente para identificar todas as espécies ilustradas", diz a pesquisadora. Outra dificuldade é que as gravuras nem sempre contêm os elementos necessários para chegar a uma conclusão satisfatória.

Agora, com quase todas as espécies identificadas, pelo menos até gênero, ela comprova que há cerca de 190 espécies diferentes. Cerca de 40 das espécies foram formalmente descritas somente depois do retorno de Wallace a Londres, das quais metade somente nas últimas décadas. Algumas das ilustrações representam espécies novas, ainda não estudadas.

Há um detalhe: as gravuras estão todas numeradas, de 1 a 215, mas não numa ordem cronológica completa. Mônica procura descobrir o critério que as organiza. "Wallace aparentemente não deixou qualquer indício do motivo da numeração", diz ela. Faltam as gravuras de número 10 a 14,53 e 210. Outras estão numeradas duas vezes. Mesmo com as dúvidas, a coleção e as anotações reiteram ovalor das observações de Wallace sobre a diversidade e a distribuição das espécies, que certamente influenciaram no desenvolvimento das idéias sobre a evolução das espécies. Darwin, ao publicar A Origem das Espécies, em 1859, recebeu a maior parte dos créditos sobre a formulação dessa teoria. Não deixou, porém, de reconhecer as descobertas de Wallace. •

PERFIL:

• MONI CA DE TOLEDO-PI ZA RAGAZZO é graduada em Biologia pela USP, com doutoramento pela City University/Museu de História Natural, em Nova York. É pós-doutoranda do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.

Projeto: Peixes do Rio Negro - Alfred Russel Wallace

Investimento: US$ 3.841

Mônica: descobriu e vai publicar

Controle fino das ondas luminosas

Equipe da USP ganha

prêmio internacional

com pesquisa inédita

OBrasil começa a desempenhar um papel relevante na pesquisa em óptica difrativa. Esse segmento da Física usa técnicas que modificam um feixe de luz para criar uma nova fonte luminosa. Com z isso é possível desenvolver iil tecnologias para fabricar no- '" ::> vos microcircuitos optoeletrônicos, como fotodetectores de câmaras fotográficas digitais, além de confeccionar hologramas impressos em cartões de crédito, por exemplo, ou ainda criar imagens artísticas e publicitárias.

O reconhecimento internacional nessa área foi para um trabalho em conjunto de dois grupos de pesquisadores, um da Escola de Engenharia Elétrica de São Carlos (EESC)

e outro da Escola Politécnica, ambos da Universidade de São Paulo (USP). Eles ganharam, em junho, o primeiro lugar na categoria Divisão Artística da versão 2000 do Diffractive Beauty Contest (Concurso de Beleza Difrati-

meio do atraso de sua propagação no espaço. O controle da luz, nesse caso, é realizado pelos microrrelevos gravados na superfície do EOD que funcionam como obstáculos para o feixe luminoso. Essa é a principal diferença entre elas e as lentes comuns que têm superfícies lisas produzidas por abrasão ou polimento.

O dispositivo mostrado no Canadá proporcionou as melhores imagens geradas até aquele evento com

com a utilização de um feixe de luz laser. Elas chamaram a atenção do público especializado presente na mostra, provocando até a formação de uma fila para a observação das imagens. Depois desse sucesso no Canadá, Gonçalves começou a preparar um pedido de patente para os novos EODs e a publicação dos resultados nas revistas Optics Photonics News e Applied Optics, editadas pela Optical Society of America.

A qualidade dessa imagem apresentada no Canadá foi inédita e valeu um primeiro lugar va), realizado em Quebec, no Canadá, e promovido pela Optical Society of America (OSA). O trabalho intitulado Elemento Óptico Difrativo com Modulação de Amplitude Complexa foi coordenado pelo professor Luiz Gonçalves Neto, docente das duas escolas.

Os dois grupos estudam os Elementos Opticos Difrativos (EODs), que são superfícies ópticas com microrrelevos capazes de modificar as propriedades de um feixe de luz por

essa tecnologia, além de a equipe ter demonstrado capacidade intelectual e tecnológica para elaborar os EODs. No evento, o grupo também apresentou novas propostas de cálculos para a confecção desses dispositivos.

Entre filas e patentes · A inovadora técnica desenvolvida e reconhecida no concurso da OSA foi materializada na projeção de duas imagens, uma borboleta e uma cabeça de águia,

O desenvolvimento de todo esse processo conta com recursos da FAPESP para o projeto Implementação de Miroelementos Ópticos Difrativos, que se desenvolve no âmbito do Programa Jovens Pesquisadores, com o aporte financeiro de R$ 32 mil e US$ 33 mil. &se programa oferece financiamento para auxílio de infra-estrutura e bolsas para pesquisadores recém-saídos do doutorado que demonstrem competência para conduzir projetos de pesquisa.

Outra função do Programa é abrir novas áreas de pesquisa e ajudar a inserir o novo pesquisador nas tradicionais instituições acadêmicas. Com isso o programa possibilita a criação de novos núcleos de estudo, como os dois grupos que estudam óptica difrativa em São Carlos e na Poli, em São Paulo.

Gonçalves chefia há três anos o Grupo de Microóptica, da EESC. Ali, sob sua orientação, um grupo de pesquisadores iniciou, há dois anos, projetas de pós-graduação nessa área. Entre eles, Patrícia Cardona e Giuseppe Cirino. Participam também como coordenadores os professores Ronaldo Domingues Manzzano e

A luz laser (à esquerda) atravessa os Elementos Ópticos Difrativos (à direita) onde ela é modificada para formar imagens desejadas

Patrick Verdonck, do Laboratório de Sistemas Integráveis da Poli- USP.

Alumínio nas placas - Foi trabalhando com t écnicas e ferramentas que po ssibilitam o controle dessas ondas que Gonçalves chegou à formulação de algo novo. "Elementos Opticos Difrativos são conhecidos há pelo menos 25 anos. A novidade que descobrimos foi a formulação de um jeito novo de aplicar alumínio nas placas dos EODs. Essa inovação provocou uma grande diferença com as tecnologias existentes até aqui. Consegui-

mos uma forma de controlar não apenas a modulação da fase de uma frente de luz, mas também, de forma simultânea, a modulação de sua amplitude (modulação da intensidade luminosa)", informa Gonçalves . Frente de luz ou frente de onda é um conceito em óptica que descreve as superfícies formadas pela junção de pontos no espaço com uma mesma fase (atraso da luz em relação a uma referência no espaço). Já a difração é a interação (desvio) das frentes de onda com obstáculos, que são os microrrelevos existentes na superfície dos EODs, de dimensões próximas a um comprimento de onda. Uma aplicação potencial desses con-

trução de elementos ópticos", afirma o professor.

Razão estratégica - O primeiro trabalho nesse campo foi publicado, em 1965, pelo norte-americano Alfred Lohman, que utilizou esses princípios na realização de hologramas por computador. Mais tarde, o governo americano decidiu investir recursos nessa área por razões estratégicas, sobretudo bélicas, na adoção de visão artificial mais precisa para a interceptação de alvos por meio de mísseis. " Hoje, a indústria óptica e a eletrônica de uma maneira geral começam a utilizar essa tecnologia", diz Patrícia. Detectores de distância a laser e até

ceitas que se materializam nas pesquisas dos dois grupos da USP é a possibilidade de melhorar a qualidade dos telescópios ópticos.

A ampliação do estudo e da aplicação da óptica difrativa no desenvolvimento tecnológico industrial tem causado uma procura crescente por pesquisadores e por projetas saídos de núcleos avançados de pesquisa. Uma grande empresa multinacional, por exemplo, procurou o Laboratório do Grupo de Optica da EESCUSP para estudar possíveis aplicações dos novos métodos de difração das ondas de luz. Uma boa idéia nessa área é capaz de economizar alguns milhares de dólares. ''A óptica difrativa contém tecnologias novas que eliminam etapas no processo de cons-

"visão de robôs" estão sendo implementados com essa tecnologia Há centenas de usos para as técnicas de difração, explica Gonçalves. Todas dependem de um Elemento Optico Difrativo. Na forma bruta, esse dispositivo parece uma bolacha redonda de vidro. Mas são muito mais do que aparentam conter. São lâminas redondas de dióxido de silício, com espessura de 1 milímetro, sobre as quais são gravadas informações em medidas extremamente reduzidas, que obedecem a especificações determinadas em mícrons, proporcionais ao comprimento de onda utilizado " Por ser necessário introduzir apenas um atraso de fase em cada região da frente de luz incidente, os Elementos Opticos Difrativos são mais finos e

leves do que todo material com característica refrativa, como as lentes comuns que utilizamos nos óculos e nos aparelhos fotográficos", explica

Essas características tornam o processo de produção de uma bolacha dessas em algo muito parecido com o que ocorre na fabricação de circuitos eletrônicos digitais, que são sempre processados em minúsculas estruturas, como os diversos tipos de chips fartamente utilizados, por exemplo, nos computadores. As técnicas de gravação das microinformações sobre os revelos existentes num EOD são basicamente as mesmas usadas na montagem daqueles circuitos, ou seja, li-

evento em Quebec saímos do zero. Eu tinha o conceito escrito e alunos de doutorado trabalhando no projeto. Montar tudo, testar, remontar no Canadá e fazer tudo de novo foi um belo trabalho de equipe. Fizemos todo o trabalho em duas semanas': Trabalhar com esses dispositivos controladores da onda de luz representa um desafio extra porque a imagem resultante sempre foi irregular, com um padrão baixo em termos de definição, principalmente se comparada ao conceito de imagem gerada pelo cinema ou pela televisão. No concurso ganho pela equipe brasileira, o dado diferenciador, em relação à

Patrícia e Gonçalves: estudo tem amplas perspectivas

tografia óptica, corrosão por plasma e litografia por feixe de elétrons. Um dos pontos de apoio da Escola de Engenharia da USP é a Fundação Centro Tecnológico para Informática (CTI), localizada em Campinas, que fabrica as máscaras necessárias para a materialização dos microelementos ópticos. A CTI tem três institutos (computação, automação e microeletrônica) nos quais são realizadas etapas cruciais no processo, tais como prototipagem (desenho) de circuitos integrados e microssistemas, microusinagem e máscaras fotolitográficas e o empacotamento eletrônico, entre outros.

Vitória da equipe - O próprio Gonçalves reconhece: "Para participar do

imagem, foi justamente o padrão de qualidade que nunca havia sido obtido em tal medida .

Mais do que o uso correto de bons equipamentos, os microelementos difrativos também dependem de inúmeros cálculos. Esse ponto também constitui uma dimensão especial do avanço conseguido. "Na verdade, não revolucionamos os cálculos, pelo contrário, quanto mais conseguirmos tornar o processo funcional e flexível, mais simples eles se tornam. Sempre digo aos meus alunos que se eles não sabem cálculo e o processo de fabricação a fundo para saber onde podemos introduzir uma simplificação, podem esquecer o assunto", relata Gonçalves.

Dominada a técnica de construção dos EODs, o país se capacita a

realizar processos como filtragem óptica, modelagem da luz laser e até mesmo a construir hologramas por computador de melhor qualidade. Entretanto, segundo os estudos da equipe, os custos, hoje, representam um entrave respeitável nesse campo. Os investimentos industriais são altos. ''A montagem de um laboratório de pesquisa de porte, equipado para proceder a caracterização dos materiais utilizados, além da fabricação, dos testes e da mão-de-obra especializada, atinge a cifra de US$ l milhão."

Separar canais - A correção de telescópios ópticos talvez seja a mais comezinha das possibilidades de uso dessas novas técnicas difrativas, afirma o professor. "É um campo de trabalho que está sempre se ampliando", acredita Gonçalves . Uma das áreas beneficiadas é a indústria de telecomunicações. Elas precisam usar dispositivos como demultiplexadores em redes de fibras ópticas, para tornar mais segura e eficiente a separação de informações ao longo desses tipos de rede. Os demultiplexadores são dispositivos que separam vários canais de informação existentes num determinado meio. Servem para separar os vários comprimentos de onda transmitidos por uma fibra, por exemplo.

Após esse primeiro reconhecimento internacional, os dois grupos da USP voltam a se embrenhar nos estudos de óptica difrativa, uma área que está apenas começando a se desenvolver. •

PERFIL:

• Lurz GO NÇ ALVES N ETO, 38 anos, formou-se em Engenharia Elétrica na Escola de Engenharia de São Carlos da USP. Fez mestrado no Instituto de Física de São Carlos, também da USP. Doutorou-se na Universidade Laval, em Quebec, Canadá.

Projeto: Implementação de Microelementos Ópticos Difrativos

Investimento: R$ 32 mil e US$ 33 mil

LINHA DE PRODUÇÃO

Audiência garantida: sem rodas e levitando sobre um trilho

Trem qu e levita é sucesso e m Brasíl ia

Um miniprotótipo de trem que levita e transita a 400 quilômetros por hora na presença de campo magnético foi um dos sucessos de público na 8• Expociência, feira paralela à 52• Reunião Anual da SBPC, acontecida em julho, em Brasília. O Laboratório de Aplicações de Supercondutores (Lasup) da Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) e da Escola de Engenharia da UFRJ desenvolveu esse trem durante dois anos. Ele corre a cinco centímetros, em média, de distância de um trilho único composto de um ímã comum feito de ferrita. A levitação acontece porque existe um campo magnético que se forma entre o trem e o trilho. Para criar esse campo, as rodas são substituídas por pastilhas supercondutoras compostas de ítrio, bário e cobre que recebem uma carga de nitrogênio líquido, deixando-as resfriadas a uma temperatura de -196°C. Esse tipo de tecnologia é mais avançado que outras experimentadas por países como Japão e Alemanha, que têm

protótipos em tamanho real prontos para entrar em operação comercial. O projeto brasileiro está agora na fase de captação de recursos para a construção de uma pista de 30 metros e um protótipo de laboratório. A concepção do projeto, financiado pela Faperj e Fundação José Bonifácio (UFRJ), foi de três professores da universidade, Richard Stephan, da Coppe, Rubens de Andrade Júnior, da Escola de Engenharia, e Roberto Nicolsky, do Instituto de Física. •

Entulho

reciclado é mais econômico

Multiplicam-se por todo o pais os experimentos que buscam

materiais alternativos e mais baratos para a construção civil. O mais recente vem da Bahia e utiliza a reciclagem de entulho resultante de atividades de construção e demolição na fabricação de novos materiais. Os resultados apontam uma economia de 65% quando o entulho reciclado é utilizado em pavimentação e 30% no uso de argamassa . Na fabricação de tijolos, o ganho é ambiental, pois esse material é prensado, não necessitando a queima de combustível para sua produção. A iniciativa é do Grupo de Estudos em Materiais de Construção (Gemac) da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que elaborou um p lano de utilização do entulho da região metropolitana de Salvador. "Em testes de laboratório, nós provamos a viabilidade técnica e econômica da reciclagem de entulho, mesmo que esse material apresente grande mistura de elementos como restos de cimento, pedra e cerâmica", explica Alex Carneiro, coordenador do projeto. O Gemac tem a colaboração da Limpurb, empresa de limpeza da capital baiana que está implantando 27 pontos de coleta de entulho. •

Antena simula energia dos raios

Em Salvado r estão pr ev istos 27 pontos de coleta de en t ulho

O desenvolvimento tecnológico ainda não eliminou por completo os perigos milenares das descargas elétricas atmosféricas mais conhecidas como raios. Ao contrário, hoje, há uma grande preocupação em fazer com que esses raios não "queimem" a profusão de equipamentos eletrônicos existentes em qualquer prédio ou residência. Ao contrário de carros e aviões, por exemplo, os edifícios não têm total garantia contra os raios. "Pela norma brasileira que regulamenta os pára-raios, eles protegem as pessoas e evitam incêndios, mas não eliminam a possibilidade de descargas elétricas atingirem os aparelhos eletrônicos, incluindo os computadores", afirma o professor José Osvaldo Paulino, da Escola de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele orientou a tese da doutoranda Maria Lu iza Grossi, que projetou uma antena capaz de gerar descargas elétricas similares aos raios. "Com essa antena instalada no alto de um prédio, podemos fazer uma descarga elétrica com o auxílio de um gerador que, ao mesmo tempo, testa o pára-raio e cria um campo magnético próximo ao dos raios, proporcionando medições do nível de tensão elétrica suportado pelos equipamentos." A antena está quase pronta e os pesquisadores preparam o processo de patente. Eles esperam, em breve, fazer uma parceria com uma empresa que se interesse em fabricar o equ ipamento. •

QUÍMICA

Equipamentos bem calibrados

Pequena empresa busca a excelência na produção de materiais de referência

As indústrias químicas brasileiras terão em breve uma nova fonte para obtenção de materiais de referência, usados na calibração e controle de seus equipamentos. A novidade vem de São José dos Campos, da empresa Quimlab, que está finalizando um laboratório de metrologia química adequado às normas internacionais. Instalada na Incubadora de Base Tecnológica Polovale II, dentro da Universidade do Vale do Paraíba (Univap ), a empresa já produz algumas substâncias de uso industrial para medição das chamadas grandezas químicas. Essas grandezas, em geral, estão ligadas à quantidade de matéria em uma determinada substância, líquida ou sólida. Por exemplo, a porcentagem de chumbo ou ferro encontrada em uma liga metálica é uma grandeza química. Da mesma forma, o valor de pH de um alimento ou líquido indica se a substância é ácida, neutra ou básica.

A Quimlab elabora e vende soluções-padrão de pH fundamentais para empresas químicas que produzem matérias-primas utilizadas na indústria de alimentos, no tratamento de água de piscina e até na análise de urina. Se a indústria usa ou fabrica uma substância que deve ter acidez correspondente a pH 4 (a escala é de Oa 14), o aparelho no qual rotineiramente são analisadas as amostras desse material é ajustado e calibrado por comparação com a solução-padrão de pH 4 produzida pela Quimlab. Como não há fabricantes de padrões de pH

com certificação no Brasil, grande parte desse material é importada. A fabricação desses produtos beneficia as empresas usuárias que pagam preços menores que os importados.

Para desenvolver o projeto Laboratório de Metrologia Química, a Quimlab recebe financiamento da FAPESP, dentro do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), desde 1997. São R$ 71,7 mil e mais US$ 149,8 mil que a empresa deve receber até março de 2001. Embora com tempo para encerrar o projeto, o laboratório está praticamente pronto e com uma ampla lista de clientes.

Padrão convencional - O químico e proprietário da empresa, Nilton Pereira Alves, relaciona alguns clientes como Alcan Alumínio, Petrobrás, Henkel, Texaco, Tintas Renner, Crylor e Leiner Davis Gelatin. São 30 empresas da região de São José dos Campos que compram padrões químicos da Quimlab e recebem consultaria no desenvolvimento de materiais específicos para cada uma delas. O gerente técnico da Crylor, Elson Garcia, compra da Quimlab os padrões mais convencionais, como os de pH e de condutividade, e contratou a empresa para ajudar no desenvolvimento de novos equipamentos. Outra empresa, a Leiner Davis Gelatin, produtora de gelatina utilizada como ingrediente na indústria alimentícia, compra da Quimlab soluções-padrão para calibração de equipamentos que medem o pH de seus produtos. ''A Leiner possui ISO 9001 e, quando

passamos por auditorias para manutenção dessa certificação, um dos itens verificados pode ser o certificado da solução-padrão': explica Eduardo Aparecido Stephano, assistente de pesquisa e desenvolvimento da empresa. O próximo passo da Quimlab é ter o Laboratório de Metrologia Química reconhecido e credenciado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). A empresa de certa forma sai na frente. "Estamos pedindo o credenciamento pela Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaios do Inmetro - por meio da norma internacional ISO Guia 25- porque a instituição ainda não tem normas específicas para nos certificar como produtores de materiais de referência", diz Alves.

Conceito mundial - A Quimlab foi criada em 1997, depois que Alves desligou-se da Kodak Brasileira, onde trabalhou durante 11 anos no desenvolvimento de padrões. Mestre em Química Inorgânica, ele viu a oportunidade de não sair de sua área de atuação, ao abrir uma empresa própria com as facilidades de infra-estrutura oferecidas pela incubadora. Como estratégia técnica, a empresa garantiu a qualidade das soluções-padrão ao

comparar as substâncias fabricadas por ela com os materiais de referência do National Institute of Standards and Technology (Nist), uma espécie de Inmetro dos Estados Unidos, que atua nessa área desde 1905 e hoje é o laboratório mais conceituado no mundo na área de metrologia química.

A outra área de atuação da Quimlab é a consultaria para desenvolver materiais de referência específicos, utilizados apenas por uma determinada indústria. É o caso, por exemplo, da produção de fibras sintéticas. As indústrias têm uma fórmula para esse produto que confere à fibra propriedades como maciez e capacidade de receber corantes. Para calibrar o equipamento que rotineiramente analisa as amostras e verifica os componentes da fórmula na proporção ideal, a indústria precisa de um material de referência. Nesse caso, pode ser um disco de fibra, produzido em escala de laboratório de acordo com a patente industrial. É uma fibra perfeita, que ajusta o aparelho na medida certa e serve de comparação para a produção do dia-a-dia.

A Crylor, por exemplo, fabrica 1200 t/mês de uma fibra sintética chamada de poliacrilonitrila, feita com matéria-prima derivada do petróleo. "Chamamos a Quimlab para calibrar

Fabricar soluções-padrão para o mercado brasileiro evita que as indústrias químicas instaladas aqui importem esses produtos

os aparelhos que medem o teor de acetato de polivinila durante a produção dessa fibra , explica Garcia, da Crylor"

Alves esclarece que existem inúmeros materiais de referência utilizados nas mais diversas indústrias químicas. Para delimitar um pouco o raio de atuação da Quimlab, a empresa dedica-se, basicamente, à fabricação de materiais de referência de íons (por exemplo, pH) e de padrões espectroquímicos. Esses últimos calibram os espectofotômetros, aparelhos que medem quantidades de elementos e compostos químicos nas mais diversas substâncias.

Conquista de mercado - A Quimlab tem sete funcionários, um com doutorado concluído, todos vinculados ao projeto Laboratório de Metrologia Química. Alves acredita que o faturamento atual, de cerca de R$ 18 mil por mês, possa atingir em dois anos cifras de cerca de R$ 300 mil reais mensais. "Estamos na fase de pesquisa e desenvolvimento e, terminado o projeto, teremos a fase de conquista do mercado, com aumento gradativo do faturamento", ele explica. No momento, a empresa também participa de uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Univap, na construção da primeira célula de hidrogênio da América Latina

para o desenvolvimento de materiais de referência de pH. O equipamento consiste de um sensor eletroquímico capaz de perceber e quantificar a variação na concentração do íon hidragênio numa solução qualquer. A precisão da análise chega a milésimos de unidade de pH, algo como 0,001 pH. O desenvolvimento dessa célula de hidrogênio segue as normas do Comitê Internacional de Química Pura e Aplicada (lupa c) e, de acordo com Alves, após sua conclusão, os materiais de referência de pH produzidos estarão no mesmo nível de confiabilidade dos materiais do Nist. Um futuro que ajudará a Quimlab a desenvolver novos materiais de referência. •

PERFIL:

• NILTO N PEREIRA ALVES é químico formado pelas Faculdades Oswaldo Cruz, de São Paulo Fez mestrado em Química Inorgânica no Instituto de Química da USP.

Projeto: Laboratório de Metrologia Química

Investimento: R$ 71.716,00 e US$ 149.878,00 \

Alves: de olho na produção de materiais específicos utilizados apenas por uma indústria

Vigia eletrônico a distância

Empresa de São Carlos

elabora um sistema inédito de acesso remoto

Um aparelho capaz de funcionar como um guardião que controla temperatura, pressão, umidade e mau funcionamen-

"Imagine uma célula de telefonia fora do ar por incêndio, sabotagem ou um raio. Quantos aparelhos ficarão mudos? E qual o prejuízo disso?", pergunta Paulo Giglio, sócio da Incon junto com Vanberto Nave. "A solução desse problema está cada vez mais no sensoriamento a distância", afirma Durval Makoto Akamatu, professor aposentado na Univer-

sidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador dos cursos de informática da Fundação Paulista de Tecnologia e Educação de Lins. Ele é o coordenador do projeto Desenvolvimento de um Controlador Microprocessado de Propósito Geral de Baixo Custo com Capacidade de Comunicação de Dados Remota em Rede Multiponto, do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP. Por esse projeto, que deve encerrar-se no início de 2001, a Incon está recebendo R$ 258 mil da Fundação ao longo de três anos

mais próximos de Akamatu são os professores Paulo Rogério Politano, chefe do Departamento de Computação da UFSCar, e Orides Morandin Júnior, do mesmo departamento, que resume a importância do trabalho que vem sendo feito: "Pesquisamos no mercado nacional e não encontramos nada parecido com o que é desenvolvido aqui em São Carlos':

to de sistemas e equipamentos. Essa é a proposta do Modcon, um controlador eletrônico a distância desenvolvido pela Incon, uma pequena empresa de São Carlos que produz 18 tipos de aparelhos voltados para o controle de processos. São contadores, tacômetros, temporizadores, termostatos microprocessados, codificadores, sensores, transmissores, conversores de sinais, fontes de alimentação e relés. Da central de supervisão, controla-se, por telefone e computador, a temperatura de outro ambiente O novo aparelho usa a linha telefônica comum como via de transmissão de informações discando automaticamente, se preciso, o número do telefone de uma central de supervisão da empresa que o está utilizando, durante as 24 horas do dia. Ele será muito útil para todos os tipos de empresas da área de telefonia, por exemplo, que mantêm estações isoladas de transmissão. O Modcon permite também que se atue a distância nos equipamentos, modificando desde o funcionamento de uma máquina até a temperatura do ar-condicionado por meio de softwares próprios. Mais do que interligar dados, esse aparelho informa o que acontece no ambiente, diminuindo, assim, o drama que ronda a cabeça de quem dirige companhias que operam dia e noite

Ao todo, entre funcionários e proprietários da Incon, além de estudantes da UFSCar que colaboram no projeto, mais de 20 pessoas estão mobilizadas Dois dos colaboradores

Testes práticos - Até agora foram realizados diversos testes de campo com bons resultados. "Todos os passos necessários para a efetivação do controlador foram dados", afirma o coordenador. Grandes empresas abriram portas e máquinas para que o engenho saído da Incon fosse testado no dia-a-dia. É o caso da Uniklima, empresa localizada na cidade de Embu, na Grande São Paulo, que fornece equipamentos de ar-condicionado para grandes empresas. "Nós fornecíamos termostato e controladores para a Uniklima e, quando a empresa passou a instalar máquinas de ar-condicionado nas salas dos transmissores das companhias de telecomunicação, surgiu o interesse pelo Modcon", explica Nave.

Disca

Hoje, o principal desafio da lncoo é desenvolver protocolos que interliguem os diversos sistemas de acesso que envolvem o funcionamento do Modcon. Um primeiro estudo está sendo iniciado agora em agosto para permitir a conexão do Modcon com a Internet. Tal estudo deverá ser desenvolvido juntamente com alunos de graduação e pós-graduação do Departamento de Computação da UFSCar.

Tanto na Incon quanto na universidade a contagem regressiva para interligação do Modcon à ln-

foi "tropicalizar" componentes de máquinas largamente compradas fora do país, tais como temporizadores para tratares compactadores de asfalto. Para crescer, a Incon foi ampliando seu leque de produtos. Assim, foram lançados controladores de temperatura, contadores digitais, instrumentos para avião e sistemas de controle para incubadoras, além de sensores, dos mais variados modelos, para uso em ambientes diversos, rurais e industriais. Dez anos depois de lançar a Incon no mercado, Nave e Giglio perceberam que

Akamatu, da lncon: diversos testes de campo comprovaram a eficiência do Modcon que deve ganhar, em breve, a interconexão com a Internet

ternet está acionada. Para a empresa, essa nova técnica será o incremento que falta para agregar valor a seus produtos, capacitando-a para atender a novos segmentos de mercado, até do exterior. Com isso, Giglio e Nave esperam, com o Modcon, elevar em pelo menos 20% o faturamento da empresa.

Sociedade acadêmica- A Incon iniciou suas atividades em 1987, com o objetivo de substituir alguns produtos eletrônicos importados. Nave e Giglio, então professor e aluno na Escola Técnica de Mococa, juntaram suas economias, cerca de R$ 4 mil, e fundaram a empresa que teve como berço o Centro de Desenvolvimento de Indústrias Nascentes (Cedin) de São Carlos. O empreendimento inicial

sonhar mais alto não era apenas uma necessidade imperiosa trazida pela globalização. Eles perceberam a necessidade de entrar na área de equipamentos para acesso remoto. Nesse caminho, Nave saiu a campo, associou-se à UFSCar e pediu financiamento à FAPESP. "Tudo o que está sendo feito é fruto do programa PIPE", reforça Nave.

O novo controlador usa uma diminuta placa com um chip-modem, menor mas muito parecida com as que existem nos computadores, responsáveis, por exemplo, pelo acesso à Internet. "Tivemos de desenvolver todo o hardware e o software, além dos protocolos de comunicação", explica Paulo Giglio. O Modcon é um equipamento que potencializa um conjunto de tecnologias já existentes. São

mais de 150 componentes num aparelho que pesa em torno de 350 gramas, fácil de instalar e de monitorar.

Diferença de custos - O desenvolvimento do produto forçou a Incon a trabalhar sistematicamente em microcomponentes. Por exemplo, utilizando técnicas que permitem uma redução das dimensões desses produtos eletrônicos. Para esse trabalho, foi preciso adquirir uma estação de solda e lentes que ampliam 30 vezes o material a ser gravado nos circuitos integrados.

A Incon tem concorrentes para o novo produto, todos importados, a um custo próximo deUS$ 1,2 mil. E com uma diferença importante. "Equipamentos de controle existem muitos no mercado, é lógico, mas com as características e para as fina!idades indicadas para o Modcon não existe nada igual no País", comenta Nave. Além disso, os controladores importados precisam de ajustes para funcionar nas condições e sistemas brasileiros. E isso certamente vai torná-los muito mais caros. Para Nave, além da tecnologia avançada do Modcon , uma outra questão deve garantir o sucesso desse aparelho. Ele deve custar cerca de R$ 300,00. Um preço baixo e atraente para um vigia eletrônico •

P ERFIL:

• DURVA L MAKOTO AKAMATU é professor aposentado do Departamento de Computação da UFSCar. Formou-se em Engenharia Civil na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), onde também fez mestrado. Doutorou-se em Engenharia de Sistemas e Computação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Projeto: Desenvolvimento de um Controlador Microprocessado de Propósito Geral de Baixo Custo com Capacidade de Comunicação de Dados Remota em Rede Multiponto Investimento: R$ 258.240,40

Alternativa para falar melhor

Prótese m ostra-se

eficaz para corrigir malformações labiais

Areabilitação de pessoas com fissuras e malformações no lábio e no céu da boca já pode ser realizada com próteses especiais. A solução é inédita no país e foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da Universidade de São Paulo (USP), mais conhecido como o Centrinho de Bauru. A nova técnica substitui a cirurgia no tratamento de alguns casos desse que é um dos problemas congênitos mais comuns do mundo . No Brasil, chamada popularme n te pelo nome de lábio leporino, essa anomalia atinge uma em cada 750 crianças que nascem, acrescentando 16 novos bebês por dia à população de 240 mil pessoas que têm fissuras labiopalatais

O lábio leporino seria suficientemente ruim se fosse apenas um problema estético. Mas não é As fissuras labiopalatais são a principal causa da disfunção velofaríngea, uma situação capaz de prejudicar de tal maneira a fala que a pessoa atingida não consegue comunicar-se normalmente "Ela pode levar o indivíduo a um desajuste psicológico e até mesmo ao afastamento social': afirma a fonoaudióloga Maria Inês Pego raro -Krook, coordenadora do projeto de pesquisa Tratamento de Pacientes Fissurados de Palato (Congênita ou Adquirida) por Meio de Prótese de Fala, que recebeu financiamento da FAPESP no valor de R$ 12,4 mil.

Normalmente, esse problema é tratado com uma intervenção cirúrgica. No entanto, os especialistas perceberam, há muito tempo, que um grande número de pacientes fissurados, inclusive

em função de acidentes, não podia ser tratado com cirurgias e, portanto, apresentava indicação para uma prótese de palato. Para identificar essas situações, a equipe do Centrinho realizou o estudo que envolveu 71 pacientes .

Alto nível - A adoção de prótese ajuda as pessoas a superar um sério pro-

blema de exclusão social. "A angústia de ser incompreendido e de não conseguir se expressar reprime a criatividade e a capacidade de aprender", lembra Maria Inês. Para o sucesso do estudo contou o fato de o Centrinho unir o atendimento de pessoas de todo o país a pesquisas acadêmicas de alto nível, com o objetivo de aprimorar as técnicas de tratamento não só das fissuras labiopalatais, mas de problemas como dismorfias craniofaciais, como são chamadas as malformações da cabeça que também apresentam deficiências auditivas, visuais e de linguagem de modo geral. Uma das próteses desenvolvidas no Centrinho corrrige a disfunção velofaríngea, que atinge uma válvula

muscular situada entre o nariz e a boca. Sua função é a de controlar a passagem do ar. Nas pessoas com fissuras labiopalatais, a válvula não efetua automaticamente o movimento de abrir ou fechar, por falta de tecido ou por incapacidade de fazer os movimentos adequados. Se a válvula não funciona perfeitamente, a pes-

soa, mesmo tendo boa articulação, não consegue emitir os sons da fala de forma natural. Há uma perda de ar pelo nariz durante a fala caracterizando a hipernasalidade, ou voz fanhosa.

Análise acústica - Os pesquisadores de Bauru começaram o projeto identificando algumas situações nas quais, pelas indicações existentes, o uso da prótese seria preferível à intervenção cirúrgica tradicional. As situações escolhidas foram: quando as fissuras são tão grandes que não existe tecido suficiente para o reparo cirúrgico, quando não há tecido suficiente para fechar o palato duro, a parte óssea do céu da boca, com tecidos do próprio local ou quando há

M ar ia Inê s: na sele çã o dos pacientes util i za- se o ex am e dos sons d a boc a e do nari z

deficiências neuromusculares no palato ou na faringe.

Foram escolhidos 71 pacientes com fissura do palato, congênita ou adquirida depois do nascimento. O principal instrumento usado na pesquisa foi um equipamento de avaliação acústica chamado nasômetro. O aparelho capta separadamente, por meio de dois microfones direcionais, separados por uma barra horizontal colocada acima dos lábios, os sons emitidos pelo nariz e pela boca. Os sinais, filtrados e digitalizados por módulos eletrônicos e processados num computador, indicam o grau de nasalância, ou intensidade da hipernasalidade do paciente.

59 pacientes, 41, ou 69,49%, apresentaram melhoras significativas quanto à compreensão da fala com o uso da prótese. Dos restantes, três, ou 5,08%, não apresentaram diferença e 15, ou 25,42%, mostraram uma leve piora. Quanto à avaliação nasométrica, realizada com 62 pacientes, houve melhora em 43 pacientes, ou 69,36%, piora em 18, ou 29,03%, e igualdade de condições em um, ou 1,61 o/o. A avaliação da ressonância da fala, feita em 55 pacientes, mostrou redução da hipernasalidade com o uso da prótese em 38, ou 69,09%, nenhuma dife-

Serviço de Prótese de Palato do Centrinho. Ela dirige também um convênio entre a USP e a Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Esse projeto de pesquisa foi assinado em 1992 e tem o objetivo de comparar os resultados obtidos na fala e na função da velofaringe em pacientes com fissura unilateral de lábio e palato submetidos à palatoplastia, ou fechamento cirúrgico da fissura palatina por meio de duas técnicas cirúrgicas, a de Von Langenbeck e a de Furlow. O projeto, que começou em fevereiro de 1996, preo vê a participação de 352 o o '"Q, pacientes.

No final, a pesquisa usou os dados de 59 pacientes. Os outros foram eliminados por estarem resfriados ou porque as gravações apresentaram problemas técnicos. Todos os pacientes leram um texto padronizado, constituído por 73 palavras em oito frases, chamado A História do Urso Preto. Em seguida, o paciente era solicitado a discorrer sobre um fato qualquer, para o registro do que é chamado de sua "fala espontânea". O uso de prótese obteve a melhora da fala em 69% dos pacientes

O projeto não ficou aí.

Alguns dos pacientes com prótese passaram por programas intensivos de fonoterapia no próprio hospital ou em suas cidades de origem. No final, passavam por novas gravações e os resultados eram confrontados. Isso levou a conclusões importantes não só com relação à prótese, mas também quanto ao tratamento de fonoterapia e ao conhecimento das alterações ocorridas no bulbo faríngeo. Ainda como parte do projeto, alguns pacientes foram filmados com e sem a prótese.

Melhora significativa - Os pesquisadores chegaram à conclusão que existem realmente situações indicadoras da prótese como o tratamento mais indicado para a fissura. Dos

rença em seis, ou 10,9%, e um aumento ligeiro na hipernasalidade em 11, ou 20%.

Acordo com a Flórida - Os resultados do projeto ampliaram os conhecimentos adquiridos pelo Hospital de Reabilitação, que, em 32 anos de existência, já atendeu quase 50 mil pessoas e é considerado centro de excelência nacional pelo Ministério da Saúde e centro de referência mundial pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Maria Inês, além de professora do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (USP), é responsável pelo Laboratório de Fonética Acústica e pelo

Para fazer a pesquisa, a Universidade da Flórida recebeu uma verba de US$ 1 milhão do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. O projeto foi aprovado em 1995, incluindo o repasse de parte do auxílio para o Centrinho, por meio da USP. Não é pouca coisa. "Somos a primeira universidade brasileira a ter um projeto aprovado por esse respeitado e concorrido órgão do governo americano", comenta Maria Inês. •

PERFIL:

• MARIA INÊS PEGORARO-KROOK tem 38 anos e formou-se em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1982. Fez mestrado e doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e está concluindo o programa de pós-doutorado no Centro Craniofacial da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Tem cursos de especialização na Universidade de Copenhague, na Dinamarca, e no Hospital Geral de Malmõ, da Universidade Lund, na Suécia.

Projeto: Tratamento de Pacientes Fissurados de Palato (Congênita ou Adquirida) por Meio de Prótese de Fala Investimento: R$ 12.430,70

URBANISMO

Zona Leste de São Paulo

o novo milênio

Pesquisa traça origens e destinos da região paulistana

Aarquiteta e urbanista Raquel Rolnik, professora e coordenadora do mestrado de urbanismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, acaba de completar Reestruturação Urbana da Metrópole Paulistana : Análise de Territórios em Transição. Resultado de 10 meses de pesquisa, o trabalho faz uma análise profunda das transformações ocorridas na Zona Leste de São Paulo, neste final de século, e traça o novo perfil econômico e urbano da região Patrocinado pela FAPESP, o trabalho é fundamental para a consulta de quem se preocupa com o reordenamento territorial urbano de São Paulo.

Com o auxílio de pesquisa da FAPESP - R$ 40 mil para a aquisição dos equipamentos necessários, entre computadores, software e scanners -, uma verba de R$ 30 mil proveniente

Raquel Rolnik com o mapa da cidade : o novo espaçoo urbano

do Sesc Belenzinho e do projeto Arte Cidade e em parceria com o Instituto Polis (organização não-governamental que trabalha com políticas urbanas e municipais), Raquel coordenou uma equipe de cinco pessoas, entre estudantes da PUC de Campinas e pós-graduandos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (PAU) da Universidade de São Paulo (USP), de março de 1999 e janeiro deste ano.

"Observamos os sinais da transformação econômica e comercial e das formas de trabalho, na passagem da industrialização de São Paulo para a terceirização e quisemos verificar o impacto dessas mudanças em lugares tomados pela indústria': conta Raquel.

"Nos centramos na Zona Leste para trabalhar em uma escala menor e mais detalhada e porque é ali que estão acontecendo as principais mudanças."

Em mais de 200 páginas, documentadas com tabelas, mapas e fotografias aéreas, Raquel radiografou a região baseada na observação das indústrias, comércio e mercado imobiliário residencial. "Cartografamos esse novo espaço, fizemos cartas temáticas como uma espécie de atlas da Zona Leste." Raquel e sua equipe utilizaram os cadastros do Senai sobre a estrutura industrial de São Paulo, de 1968 e 1993 , e os registras de lançamentos imobiliários do município paulista, de 1985 a 1999, arquivados pela Embraesp.

"Para cada tema que focalizamos, usamos uma base de dados; depois, sobrepusemos as planilhas e cruzamos informações até verificar o que permaneceu e o que já não existe na região." Na etapa final, Raquel também utilizou os resultados da Pesquisa da Atividade Econômica Paulista (Paep ), feita pela Fundação Seade. A urbanista traçou, assim, o novo perfil daquele território formado pelo conjunto de distritos situados a leste do centro histórico e do eixo Tamanduateí.

O resultado final surpreendeu. "Tomamos um susto porque a conclusão é bem diferente daquela que imaginamos no início: além de a indústria continuar existindo, ela cresceu, embora tenha se modificado", observa ela. "O que mudou foi sua inscrição territorial, antes implantada ao longo das ferrovias, hoje espalhada por toda a cidade."

Outra mudança verificada sobre aquele território é que as grandes indústrias manufatureiras deram lugar às pequenas e médias empresas industriais. "Antes elas empregavam até SOO trabalhadores, hoje não usam a mão-de-obra de mais de 100 pessoas." De acordo com Raquel, isso não se deve às novas máquinas e à tecnologia de ponta, mas sim à terceirização que, hoje, domina a economia da

cidade. "As empresas são prestadoras de serviços para a indústria."

Perfil histórico- Na introdução de seu trabalho, a urbanista recorre à história para localizar a formação do perfil anterior da Zona Leste. Recorda que no final do século 19, tempos áureos do café, a cidade viveu seu primeiro surto industrial, baseado principalmente na indústria têxtil e alimentícia. "Ocupando as várzeas por onde passavam as ferrovias, constituiu a grande região operária de São Paulo: sua Zona Leste-Sudeste", escreve Raquel. O primeiro dos 114 mapas que a urbanista apresenta mostra a cidade em 1877. Demonstra que, enquanto a colina histórica- ou centro velho - encontrava-se já ocupada e arruada, a várzea inundável do Tamanduateí a leste permanecia despovoada.

"Conforme a cidade cresce e aumenta a concorrência pelo solo urbano, instala-se a segregação no espaço, e nesse ponto inicia-se a história da ocupação das terras de várzea." Em paralelo aos trilhos do bonde e do trem, em um plano horizontal, começaram a surgir os galpões de tijolos, vilas e cortiços, oficinas e vendas, povoados por milhares de trabalhadores que chegavam à cidade, ocupando-a de maneira intensa e rápida.

Por outro lado, as colinas a sul e oeste, secas e ventiladas, eram procuradas pelas elites, para uso residencial. Surgiram, assim, os Campos Elíseos, primeiro, e Higienópolis, Paulista e Jardins em seguida. "A cidade fortemente dualizada entre as terras altas ricas e qualificadas e as terras baixas pobres e insalubres é uma das dominantes por meio da qual se poderia descrever São Paulo durante todo o século 20", prossegue Raquel.

"A barreira representada pelas ferrovias- a Santos/Jundiaí, ao longo da várzea do Tamanduateí, e a Central do Brasil, ao longo da várzea do Tietê -e pelas indústrias (que até os anos 30 ocuparam todo o território da orla ferroviária em busca de uma situação favorecida do ponto de vista do escoamento da mercadoria), com suas poucas possibilidades de transposição, era a muralha que dividia claramente o território da cidade." Com base nos mapas que apresenta para comprovar a evolução da ocupação da cidade, Raquel conclui que o poder público atua historicamente no sentido de reforçar a barreira e as diferenças.

A identidade dominante da região Leste foi se constituindo a reboque da industrialização e da habitação operária, consolidando-se em um ponto que a urbanista chama de

Igreja Universal baixada do Glicério
Estação do Metrô Pedro 11
Praça da Sé
Palácio das Indústrias

" Posição Leste": "É a posição das várzeas industriais ferroviárias e proletárias, dos conjuntos habitacionais, das baixadas e sua relação com as áreas de consumo e moradia de alta qualidade do outro lado da cidade." É, também, de acordo com ela, a posição dos investimentos públicos apenas funcionais - e não urbanísticoschegando muito após os lugares terem sido povoados. "É a luta contínua por espaços de vida e cidadania por parte daqueles que fazem da região a sua casa".

As mudanças ocorridas na cidade traçaram o novo perfil da Zona Leste, agora retratado por Raquel. "É de onde se sente com mais contundência a transformação industrial, pelo desaparecimento do emprego, da identidade operária e pela desintegração do próprio espaço urbano anteriormente estruturado pela indústria': escreve. E é, segundo diz, de onde se assiste ao surgimento aleatório de focos de dinamismo econômico e poder de consumo, provocando a concentração do comércio em shopping centers e hipermercados e a verticalização imobiliária da região "A verticalização da periferia, com o surgimento de novos edifícios de dois dormitórios e até de quatro dormitórios de alta renda em bairros como Tatuapé, Mooca e Vila Prudente, é um fenômeno residencial intenso", diz.

Raquel observa também que o termo "desindustrialização" não se aplica ao atual estágio do parque industrial da capital. "A concentração de empresas de potencial inovador, a exportação de plantas menos dinâmicas e a grande dispersão das pequenas e micro novas indústrias pela cidade indicam que se trata de um amplo processo de reconversão industrial." Em outras palavras, as indústrias de hoje na Zona Leste aboliram as chaminés e o maquinário pesado e foram substituídas por outras mais enxutas. "Houve uma mudança radical da indústria e o emprego industrial sumiu", diz ela. ·

Ordenamento futuro - A estrutura urbana que se insinua a partir daí caracteriza-se por dispor de um capital que se comporta de forma menos direcionada do que já foi. "Isso não significa que esteja se produzindo uma cidade melhor ou mais homogênea, já que mesmo megainvestimentos em regiões de urbanização incompleta não repercutem em melhora alguma em seu entorno: sua forma de inserção tem sido de forma a recortar e fragmentar o tecido circundante e, sobretudo, não estabelecer qualquer relação com este': escreve Raquel.

A urbanista conclui que uma intervenção pública no sentido de dirigir o reposicionamento da Zona Leste é fundamental. "Por enquanto,

todo o crescimento urbano da região é pautado pelo mercado. Seu futuro dependerá da política urbana adotada na cidade de São Paulo, onde o mercado lidera e a intervenção do poder público é escassa."

Apesar do trabalho minucioso que a urbanista realizou para analisar a Zona Leste, para ela, sua pesquisa apenas dá uma "pincelada" na nova realidade da região. Assim, ela planeja novo projeto para desenvolver pesquisa detalhada do atual perfil de suas indústrias.

De acordo com as observações que a urbanista fez sobre dados da pesquisa da Paep utilizados em seu trabalho, hoje em São Paulo predominam empresas de alta tecnologia. "É a indústria do software, programas produtivos de qualidade e informatização da gestão, que têm um impacto muito grande e economizam mão-de-obra."

O conteúdo de Reestruturação Urbana da Metrópole Paulistana: Análise de Territórios em Transição, também pode ser encontrado em CD para consulta, posterior distribuição e pos sível venda.

Raquel utilizou o mesmo método em outra pesquisa patrocinada pela FAPESP, em 1997, sobre o impacto da aplicação de instrumentos urbanísticos em cidades do Estado de São Paulo com mais de 20 mil habitantes. Em tempo de eleições municipais, o documento pode ser de extrema importância para um projeto de governo sério. •

P ERFIL :

• RAQ UEL ROLN IK é arquiteta formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Doutorou-se em História Urbana na Universidade de Nova York. Foi diretora de Planejamento do munícipio (1989 a 1992). É coordenadora do mestrado em Urbanismo da PUC de Campinas.

Projeto: Reestruturação Urbana da Metrópole Paulistana: Análise de Territórios em Transição Investimento: R$ 40 mil

Corpos femi ninos vestido s de tintas

Estudo analisa como artistas brasileiros

pintaram as mulheres

Arepresentação da figura da mulher na obra de Candido Portinari sugere a afirmação de um papel feminino preconizado pelos ideais políticos/governamentais Já em Di Cavalcanti (tomando, por exemplo, o quadro O Mangue, 1926), a mulher surge no papel da prostituta e, portanto, apesar do modernismo, sob o olhar masculino vindo do século anterior. Tarsila do Amaral traz em A Negra ( 1923) a mescla das experiências da vivência na fazenda onde cresceu, a estética cubista e o aspecto de seu compromisso "político". Estas e outras informações pertinentes ao estudo sobre o tratamento dado à representação do corpo feminino pelos artistas modernistas brasileiros instigaram os cinco anos de pesquisas feitas pela professora Giulia Crippa durante o desenvolvimento de sua tese de doutorado Imaginário e Construção da Experiência; as Representações do Corpo Feminino nas Artes Plásticas Brasileiras (1900/1940 ). Desenvolvida com o apoio da FAPESP, sob a orientação do professor Nicolau Sevcenko, e concluída em maio de 1999, a tese foi apresentada em novembro ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Italiana, 31 anos, formada em Letras pela Universidade de Bolonha, Giulia, que trabalhava em uma ONG ligada ao movimento feminista de seu país, partiu para esse trabalho em 1995. "Eu já tinha interesse nesse es-

tudo e queria dar a ele um aspecto acadêmico. Então elaborei um projeto que me permitisse pesquisar no Brasil. Propus uma revisão do tema modernista, levando em conta a leitura que vinha sendo dada a certos artistas latino-americanos do período, entre eles alguns brasileiros, como porta-vozes políticos. A minha indagação é sobre o que não aparece. Eu queria verificar no contexto, na inserção social dos artistas, que elabo-

Mangue, de D i Cavalcanti: mitologia da m ulata

ração tinha sido feita sobre a mulher. Se os dois lados tinham coisas em comum e de que forma esses artistas expressam para o imaginário coletivo o masculino e o feminino."

Imaginário e Construção da Experiência está dividida em dez capítulos: Análise do conceito de modernidade através de uma interpretação filosófica; Corpos vestidos/Corpos despidos; Oswald e Zola; Pistas para uma leitura de gênero na obra de Tarsila; Espelho, espelho meu, existe

alguém mais bonita do que eu?; Os difíceis percursos de uma expressão; A Natureza da mulher e a mulher na natureza: uma visão européia; Café: o ventre da mulher, origem da vida; O corpo como sucata; e Algumas considerações finais entre epistemologia e metodologia.

A autora valeu-se de farta base de estudos, tanto no que diz respeito à forma como a mulher é apresentada nas artes como na literatura. Para o começar, lembra que a representação da mulher no imaginário social o i do Ocidente sempre a colocou no âmbito da vida privada, do lar, reforçando as imagens de boa mãe, boa esposa, boa dona de casa e assim por diante . Também não ignora que, a partir do século 20, houve uma mudança no papel social da mulher em várias partes do mundo, que alterou a sua representação nas artes. O que, entretanto, não ocorreu de maneira homogênea, permanecendo a leitura do feminino delimitada pelo discurso médico do final do século anterior.

Como São Paulo é a base irradiadora do modernismo nacional, ganha destaque no texto a cidade que cresce a partir das décadas finais do século 19, graças à expansão da cultura cafeeira, à implantação da estrada de ferro e à chegada de novas levas de imigrantes europeus - que movimenta e dá importância à Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás. E também o fato de o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (fundado em 1883) apontar para uma necessidade de institucionalizar o papel do artista e do artesão num momento de transição técnica (o escultor Victor Brecheret foi "descoberto" por modernistas que visitavam o Palácio das Artes.)

Não passa despercebido o fato de que, em 1914, uma modernista emer-

gente, Anita Malfatti (1896/1964), expôs suas telas no chique magazine Casa Mappin, construido em frente ao Teatro Municipal. A mostra, instalada ali, aponta muito mais a interesses de consumo que propriamente artísticos. Naquele momento, inspirados mais pelo futurismo italiano que pelo pensamento francês Anita, Oswald de Andrade e Lasar Segall começavam a produzir algo que assinalaria o caminho do modernismo. Dez anos mais tarde, pinturas de Tarsila do Amaral (1897/1973) como São Paulo, Estrada de Ferro Central do Brasil (ambas de 1924) e A Gare (1925), que trazem em sua elabora-

(1903/1962). O primeiro, pela constante atenção a "sujeitos femininos" claramente associados à mitologia da mulata. O segundo por ser representativo das temáticas sociais e políticas que, conforme a autora, "especialmente nos anos 30, utilizavam de forma peculiar certa imagem da mulher inextricavelmente ligada à questão público/privado, em relação à construção de uma 'identidade nacional'".

O Mangue, de Di Cavalcanti, com cinco figuras masculinas e cinco femininas, apresenta três planos: no primeiro, uma das três mulheres; no segundo, outras duas (lação o sistema representativo cu- --:=-.:--

bista trazido da Europa, indicam sintonia com essa nova c: o cidade, epicentro de um movi- g menta -a Semana de 22 - que § iria motivar, também em outros g pontos do país, acaloradas dis- c: cussões e propostas estéticas reo lativas à arte, poesia, arquitetura z e literatura. iii '5 l:

'Leituras' do feminino - O pro- 8 jeto teve como meta a busca dos traços essenciais expressos na construção iconográfica do corpo e da imagem da mulher, visando a identificar nesse percurso as diferenças na linguagem figurativa entre os aspectos da autorepresentação e da representa-

ção do desejo masculino. "Em outros termos, tentar individualizar na obra dos artistas os traços de uma diferença sexual como produto do meio social na construção das representações", esclarece o texto. Para isso, a pesquisadora partiu para um cotejamento com a produção literária brasileira e estrangeira, além de considerar a produção artística nas suas relações internacionais. Entre as grandes questões levantadas e observadas estavam a modernização e a tecnologização presentes no Brasil, a construção do "nacional" e a condição feminina da época.

O Café, de Portinari: imagem clássica e politizada da mulher na década de 30

Entre os artistas plásticos modernistas estão Emiliano Di Cavalcanti (1897/1976) e Candido Portinari

deadas por um bêbado, pouco perceptível ao primeiro olhar); no terceiro, outras figuras indistintas nas feições. Conforme análise da pesquisadora, o centro real e simbólico do quadro está nas três mulheres, cujas linhas de olhares são paralelas, cruzando-se do lado externo da tela com o espectador. O quadro, de claro teor crítico social, evidencia ao mesmo tempo a formação de marco europeu do artista e os ecos revolucinários socialistas e influências de peso (Apollinaire, Picasso, De Chirico, Léger). E traz à discussão a figura da "mulher perdida", da "mulher perigosa" (novamente a herança do século 19),

sintomaticamente explorada em uma obra localizada no mangue -a região úmida, de água parada e acesso difícil - e o Mangue, zona de prostituição carioca.

Em outra investida -a tela Café (1934), a primeira de Di Cavalcanti onde surge a mulher sentada -, Giulia lembra que a interpretação do quadro sempre se deteve sobre a representação do trabalho humano O "esquecimento" para o papel da mulher retratada ali lhe pareceu grave, uma vez que este é funcional em dois níveis: "Primeiro, na construção de uma figura solidamente clássica, de um pintor capaz de transpor em uma

linguagem nacional a tradição européia (... ) Portanto, a referência à deusa da fertilidade (Ceres) caberia aqui. Segundo, o trabalho da mulher seria reconhecido não só como participação direta da coleta, mas no que mais sublime era considerado na época, isto é, na própria geração de homens, ou seja, dos braços e corpos que trabalham na lavoura':

Entre as mulheres, figuram Tarsila do Amaral e Anita Malfatti. A primeira tem sua obra comparada com a de outra pintora, Tamara deLempicka. Contemporâneas, estudaram com André Lothe, em Paris, e seguiram a "formulação estética no senti-

tura que poderia ser definida como 'nacional": conclui a pesquisadora. Contemporâneo, porém diferente de todos, é Ismael Nery (1900/1934). O artista à margem da "turma" modernista, que se recusa a entrar no debate sobre arte nacional, não apresenta uma obra que se encaixe no pacote da "oficialidade". Nery traz um outro tipo de discurso pictórico (quando a moda sugere um corpo feminino menos arredondado), no qual os limites entre o masculino e o feminino são tênues. Em sua obra- até 1927 com forte influência cubista, sendo depois marcada pelo surrealismo (especialmente Chagall)- muitas vezes é difícil esdo da poética derivada do cubismo ' maquinista' de Fernánd Legér", considera Giulia. Finalmente Anita, a artista, conforme artigo de Mário de Andrade, "original e corajosa", cujas obras eram "pesquisas duma exacerbação romântica formidável, em que poucos puderam perceber o enorme temperamento apaixonado, dramático " A ela é dirigida a pergunta: "Mas o que realmente aconteceu à pintora após os ataques ferozes de Monteiro Loba- Tropical, de Anita Malfatt i: olhar "desviante" da figura to?" Após o que cita a mexicana Frida Kahlo (que, como Anita, tinha um defeito físico), que fez de seu corpo devastado um emblema físico/metafísico da própria pintura.

Anita é estudada por meio do quadro Tropical (1916), no qual foram feitos alguns "recortes", como o olhar desviante da figura feminina (lição do expressionismo alemão) e o cesto de fruta, sugerindo a natureza morta como tema privilegiado na produção artística e um sistema sobre o qual é possível refletir levando em conta as questões nacionalistas da época. "A tela Tropical é um produto da fase mais rica da artista, quando, ainda fresca sua influência alemã, tenta procurar um caminho que permita uma fusão da experiência no exterior e, contemporaneamente, uma busca mais abrangente de uma pin-

tabelecer o gênero. Tomando o quadro Duas Figuras (1925), a autora afirma: "... impossível definir o gênero, através das características narrativas das figuras. Se na figura da frente os traços e as roupas são femininas, o cabelo curto é o mesmo que aparece nos auto-retratos. A outra figura ( ) tem cabelos longos mas não é dado saber se tratase de um homem ou uma mulher': O estudo da arte é precedido por uma análise da atuação de escritores. Machado de Assis, José de Alencar e Francisco Ferraz de Macedo estão presentes em fragmentos de textos que apontam uma "leitura" da figura da mulher marcada pela moral segundo a qual "o corpo feminino é perigoso vestido porque esconde suas verdadeiras formas, e despido porque revela o que realmente é':

Chegando aos modernistas, temos nomes como Menotti Del Picchia, e sua Salomé (livro iniciado em 1926 e só completado em 1939).Aqui é a mulher "alegoria': o fascínio da mulher com "M" maiúsculo, como escreviam literatos de finde siecle. Oswald de Andrade, com sua personagem Alma, a prostituta de luxo comparada à Nana, de Zola. Mário de Andrade com Amar, Verbo Intransitivo (1923/1924) e a ousadia de sua Elza, a friiulein, a prostituta/educadora, limpa, alemã e que remete à teoria da eugenia, antecipando o que viria com o nazismo. "Nas primeiras décadas do século, dos anos 30 em diante, temos um momento de modernidade, o mundo procura uma nova ordem. Na Europa surgem o fascismo, o nazismo. O Brasil e os artistas brasileiros - estamos no governo Getúlio Vargas -, portanto, estão colocados dentro desse contexto do mundo ocidental. Veja Portinari, por exemplo, ele faz uma pintura oficial para Vargas e em sua obra a mulher tem uma tarefa clara. Os artistas falam a linguagem do seu público para serem reconhecidos mas, ao mesmo tempo, colocam um indício do seu tempo, isso é inevitável", diz Giulia. Assim, Imaginário e Construção da Experiência "acrescenta mais um tijolinho em uma grande construção, para que se possa fazer novas associações, verificar se os aspectos tratados são satisfatórios e procurar novos caminhos de pesquisa. •

PERFIL:

• GIULIA CRIPPA é graduada em Letras Modernas pela Universidade de Bolonha e doutora em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Projeto: Imáginario e Construção da Experiência; as Representações do Corpo Feminino nas Artes Plásticas Brasileiras

Uma aventura do espírito

O tratamento psicanalítico não é apenas um processo terapêutico

Em Porque a psicanálise?, último livro de Elisabeth Roudinesco, o "homem trágico" descrito por Freud é contraposto ao "homem comportamental" definido pelo discurso da ciência, mesmo que esta última nada queira saber do inconsciente. Doravante, fica previsto que o século 21 será o palco onde ambas concepções irão se confrontar para dirimir o mal-estar da civilização. Enquanto isso, um tratamento psicanalítico nunca seria apenas um processo terapêutico; antes, talvez, mereceria ser valorizado como uma verdadeira aventura do espírito. Nesta perspectiva, qualquer paciente enfrenta um percurso incerto que só quando concluído a contento oferece a evidência de quanto teria valido a pena. Para poder chegar a ser de um jeito como -até então- nunca foi na vida, precisará passar por provas e provações, frustrações, lutos e elaborações. Como um herói destemido - apesar das angústias, inibições e sintomas - terá de arcar com seus medos e quereres, suas ansiedades e volúpias; enfim, lidar com seus fantasmas e se sair bem na empreitada.

Nada garante, a priori, um futuro promissor. O passado, entretanto, sobredetermina, e seus efeitos no presente parecem ter a força e o peso de um karma. Com maior precisão, digamos que a trama estrutural da própria história, subordinada ao desejo do Outro, faz do sujeito uma marionete do destino, cobrando um alto preço pela sua liberdade, tanto existencial quanto desiderativa. Exatamente disto uma análise seria capaz de curá-lo, para permitir-lhe a possibilidade - ainda que difícil- de ser feliz.

Neste sentido, todo analisante é um Édipo, um Hamlet, um Romeu, ou algum personagem de Nelson Rodrigues. E se fosse mulher, poderia ser uma Ofélia, uma Antígona, uma Julieta, ou uma "bonitinha mas ordinária". Pois viver é sempre

um risco, um drama, uma comédia, e também uma tragédia, entanto sina inevitável.

Portanto o trágico, considerado de forma ampla, não se restringe a um mero gênero teatral, na medida em que aponta a uma dimensão essencial da condição humana. E, pelas razões acima expostas, acaba por constituir um parâmetro capital da experiência analítica.

Neste particular, o excelente livro de Mauro Meiches, A Travessia do Trágico em Análise (Casa do Psicólogo Livraria e Editora/FAPESP), oferece uma contribuição relevante, aludindo simultaneamente à psicanálise em intenção e em extensão. Assim como o trágico diz respeito ao âmbito do teatro, lido desde a teoria freudiana, sua presença na prática fica explicitada nos momentos considerados cruciais das análises, ao se atingirem certas questões irredutíveis. São estes os rochedos que devem ser transpostos, contor. nados e superados, num processo constante, ao longo de anos. Daí a idéia de travessia: um périplo não linear, cuja meta previamente inexiste, sendo construída no trajeto, e onde o happy end - para além da catarse - conduz a uma posição subjetiva inédita. A vivência trágica na clínica concerne, embora de forma diferente, não só ao paciente, como também ao analista. O primeiro, colocando em palavras seus afetos, faz do seu discurso uma verdade inaudita e, dependendo de como é escutado, recupera para si a dimensão antes desconhecida do seu fado. O segundo, ciente de tal responsabilidade, sabe que suas palavras, na interpretação, terão sempre conseqüências. Como Lacan dizia, o horror do próprio ato não lhe é alheio.

OscAR CESAROTTO - Psicanalista. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

LANÇAMENTOS

Ciência na Periferia

[iência na periferia : a luz sínrrotron brasileira

O livro de Marcelo Burgos (um lançamento da Editora UFJF) disseca o longo processo de construção do LNLS. O estudo também traça um painel extenso da evolução das ciências físicas no país, desde a implantação intermitente da matéria nos tempos da República Velha até a implementação do portentoso laboratório síncrotron no Brasil, passando pela delicada questão nuclear e as tentativas de criação do organismo científico durante o regime militar. Burgos deixa claro as dificuldades enfrentadas pelos cientistas para a criação do Projeto Síncrotron em um país que carece de tradição científica.

Médicos e Clientela

O subtítulo do livro de Marina Cardoso (lançamento da editora da Universidade Federal de São Carlos, UFSCar, com apoio da FAPESP), Da Assistência Psiquiátrica à Comunidade, esclarece a intenção da autora: mostrar como se verificam as mudanças no atendimento clínico a partir da inclusão da assistência psiquiátrica na prática médica local. Não sem razão, a obra inicia-se, inusitadamente, com o relato de um dia de consulta numa pequena cidade do Vale do Jequitinhonha O estudo de Marina Cardoso explicita a evolução do sistema, daquele primórdio (um bom recurso estilístico) até hoje, passados 12 anos.

Retroviroses Humanas

Reunindo uma equipe de profissionais, coordenados pelo dr. Ricardo Veronesi, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Retroviroses Humanas: Doenças Associadas ao HTVL - Etiologia, Patogenia, Patologia Clínica, Tratamento e Prevenção é um estudo inédito, pelo seu porte, no Brasil. São pesquisas sobre os retrovírus HTVL iso lados no país, sua epidemiologia e quadro clínico. O estudo analisa a incidência do retrovírus em bancos de sangue, na população indígena e examina as suas origens na América do Sul.

REVISTAS

Novos Estudos

A revista mensal do CEBRAP chega ao no 56 (referente a abril de 2000), com 208 páginas (R$ 20,00), no momento em que o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento chega aos seus 30 anos de existência. O dossiê desta edição traz "Leituras de Gilberto Freyre", uma homenagem ao centenário do autor de Casa Grande e Senzala, com textos de Fernand Braudel, Frank Tannenbaum, entre outros. Franco Montoro tem a sua trajetória política relembrada por Eduardo Muylaert e Paulo Sérgio Pinheiro. E José Nun analisa o futuro do trabalho sob a perspectiva da "massa marginal", a população à margem do capitalismo contemporâneo.

C"'ADF.RNOS DF li!STÓRIA E FILOSOFIA !>A ( It:"!YCIA

Cadernos de História e Filosofia da Ciênci a

Editado pelo Centro de Lógica , Epistemologia e História da Ciência da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a revista chega ao volume 8 trazendo [5 artigos sobre Naturalismo Epistemológico.

Entre os estudi?sos que tratam da matéria: Paulo Abrantes com "Naturalismo Epistemológico: Apresentação"; Philip Kitcher em "O Retorno dos Naturalistas"; Alvin Goldman discutindo "Epistemologia Naturalista e Confiabilismo"; e L. Bonjour, "Contra a Epistemologia Naturalizada"

Revista Brasileira de Geociências

Este é o volume 29, número 3, de setembro de 1999, do órgão da Sociedade Brasileira de Geologia (com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq). Neste número: "O Diamante na Bacia do Rio Santa Rosa", de Paulo C. Soares; "Classificação de Recursos Minerais usando a Variância de Interpolação", de Rita Conde; ''América do Sul: Quatro Fusões, Quatro Fissões e O Processo Acrescionário Andino", de Benjamim Bley de Brito Neves; entre outros.

GuiO LA CAZ

Xylella fastidiosa

Main Chromosome Gene Map

XF1409 ABC 11anspor1er ATP-binding protein 60% XF2501 phage-related protein

protein (rfbE)

CELLULAR PROCESSES/CELL OIVISION MOBILE GENETIC ELEMENTS/PLASMIO-RELATEO FUNCTIONS

XF0659 celt cycle protein{mesJ) 41% XF2045 conjugal transfer protein{trbN) 76% XF1841 undecaprenol

XF0286 cell division inhibitor{suiA) 39% XF2046 conjugal transfer protein{trbl) 45%

XF1322 cell division inhibitor {minC) 35% XF2048 conjugal transfer protein{trbJ) ---% PATHOGENICITY. VIRULENCE. ANO AOAPTATION/HOST CELL

XF0093 cell division protein {hiiB/ItsH/mrsC/toiZ) 64% XF2049 conjugal transfer protein{trbl) 53% WALL OEGRAOATION pXF51 genes

XF0094 cell division protein {ftsJ/mrsF) 51% XF2050 conjugal transfer protein {trbH) 45%

XF0791 cell division protein{ltsl) 30% XF2051 conjugaltransfer protein!trbG) 65% XF1267 1.4-beta-cellobiosidase (cbhA) 46% INTERMEOIARY METABOLISM/REGULATORY FUNCTIONS

XF0796 cell divisionproteinUtsW) 44% XF2052 conjugal transfer protein{trbF) 49% XF0818 endo-1.4-beta-glucanase {engXCA) 64%

XFOBOO cell division protein{ltsO) 31% XF2053 conjugaltransfer protein{trbE) ---% XF2708 endo-1.4-beta-glucanase{egl) 47% XFaOOOI transcriptional regulator 31%

XF0801 cell division protein{ltsA/divA) 45% XF2054 conjugal transfer pro tein {trbO) 68% XF0810 extracellularendoglucanase precursor XFa0057 transcriptional regulator {korA) 40%

XFOB02 cell division protein {ftsZ) 59% XF2055 conjugal transfe r pro tein {trbC) 51% lengXCAI 33%

XF1450 cell division protein {ltsK) 50% XF2056 conjugal transfer pro tein{trb8) 69% XFDB45 family 3 glycoside hydrolase {xyiA) 45% MACROMOLECULE METABOLISM/ONA

XF1910 cell division protein (ltsY) 45% XF2058. conjugaltransfer pro tein(traF) 59% XF2466 polygalacturonase precursor (pgiA) ---% METABOLISM/Replication

XF2557 cell division protein (zipA) 17% XF2059 conjugal transfer protein {traE) 73%

XF2694 cell division protein (ltsX/ftsS) 31% XF2060 conjugal transfer protein {traO) 43% PATHOGENICITY, VIRULENCE. ANO XFa0061 single-strandbindingprotein(ssb) 54%

XF1320 cell division topological specificity factor XF1759 conserved plasmid protein 35% AOAPT ATI ON/EXOPOLYSACCHAR IOES XFaOOOJ topoisomerase I (topA/supX) 35% (minEI 48% XF2066 conserved plasmid protein (yacB) 35%

XF1657 cell filamentation protein(fic) 38% XF2161 conserved plasmid protein 30% XF2370 GumB protein (gumB)

XF2281 chromosome partitioning protein 43% XF1061 DNA primase {traC)

XF2282 chromosome partitioning protein {parA) 49% XF2444 pheromoneshutdownprotein(traB)

XF1785 chromosome partitioning related XF1589 plasmid stabilization protein

protein{soj) 17% XF1590 plasmid stabilization protein

XF2247 GTP binding protein (era) 51% XF2031 plasmid stabilization protein (parO)

XF1084 partition protein{parA) 31% XF2032 plasmidstabilízationprotein{parE)

XF1321 septum site-determining protein (minO)

CELLULAR PROCESSES/CHEMOTAXIS ANO MOBILITY XF1945 VirK protein (virK)

(traN)

XF1952 chemotaxis-related protein kinase (chpA) 41% MOBILE GENETIC ELEMENTS/TRANSPOSON- ANO INTRON-

RELATEO FUNCTIONS

MOBILE GENETIC ELEMENTS/PHAGE-RELATEO FUNCTIONS

ANO PROPHAGES

phage-related baseplate aSsembly proteín XF032S transposase OrlA

lgpWI

XF0724 phage-related baseplate assembly protein XF0326 transposase

igpJI

phage-related baseplate assembly pro tein

igpWI

phage-related

igpVI

XF0727 phage-related contractile ta ii sheath XF0243 acriflavin resistance protein (yerP)

protein{fiR2)

XF2386 acriflavin resistance protein (yegN)

XF2485 phage-related contractile ta ii sheath XF2385 acriflavin resistance protein O{yegN) 50% XF1379 luciferase

protein{fiR2) 46% XF2407 bacteriocin 17% XF0837 organic solvem tolerante

XF0728 phage-related contractile ta ii tube protein XF0165 beta-lactamase induction signal transducer (imp/ostA)

VIRULENCE. ANO AOAPTATION/OTHER lfiiR11 41% protein{ampG) 38% XF1623 periplasmic glucan biosyn thesis protein

XF0683 phage-related DNA polymerase {dpol) 50% XF1611 beta-lactamase-likeprotein(pbp) 14% lmdoHI

XF2525 phage-related DNA polymerase {dpol) 49% XF0010 biopolymer transpor! ExbB protein (exbB) 81% XF2682 periplasmic glucan biosyn thesis protein

XF0513 phage-rela ted endolysin (lycV) 46% XF0011 biopolymer transpor! Exb01 protein{exb01) 78% lmdoGI 36%

XFa0052 virulence-associated protein O(vapO)

XF0631 phage-related integra se (int) 18% XF0012 biopolymer transpor! Exb02 protein {exb02) 81% XF0785 sulfur deprivation response regulator (sac1) 21% pXF1.3 genes

XF0678 phage-related integra se (int) 17% XF2232 catalase/peroxidase (cpeB) 66%

XF1642 phage-related integrase{int) 18% XF2083 cation efflux system protein (czcA) 14%

XF085B survival protein{surE) 60%

XF2622 tem per ature acclimation protein 8(tap8) 85% MOBILE GENETIC ELEMENTS/PtASMIO-RELATEO FUNCTIONS

XF1718 phage-related integra se (int) 91% XF0262 colicin V precursor (cvaC) 36% XF0418 toluene tolerante protein (ng20) 14%

XF2288 phage-related integrase(int) 16% XF0263 colicinV precursor (cvaC) 31%

XF2530 phage-related integra se (int) 18% XF1948 colicin V production protein (cvpA) 31%

XF0419 toluene tolerance protein (ttg2C) 41% XFbOOOl replicationprotein 41%

XF0420 toluene tolerance protein (ttg28) 41%

XF1564 phage-related lysozyme (lycV) 43% XF1220 colicin V secretion ABC transporter XF0421 toluene tolerante protein{ttg2A) 50%

XF1669 phage-related lysozyme (lycV) 43% ATP-binding protein (cvaB) 40%

XF2314 phage-related lysozyme (lycV) 42% XF1216 colic inV secretion protein{cvaA) 15% PATHOGEN ICITY, VIRULENCE. ANO AOAPTATION/OTHER

XF0713 phage-related portal protein {gp4) 25% XF2084 component of multidrug efflux system (mexEI 28%

XF2498 phage-related portal protein{gp4) 15% XF1341 copper homeostasis protein {cutC) 47% XF0290 aconitase(rpfA) 79%

XF0485 phage-related protein 34% XF0132 copper resistance protein A precursor {copA) 61% XF1424 chitinase{chi) 43%

XF0680 phage-related protein 56% XF0133 copper resistance protein B precursor (copBJ 38% XF1527 general secretory pathway protein O

XF0682 phage-related protein 50% XF17"4] d11unorubicin C-13 ketoreductase (dnrU) 31% precursor(xpsO/pefO)

XF0684 phage-related protein 49% XF2148 dimethyladenosine transferase (ksgA/rsmA) 48% XF1517 general secretory pathway protein E

XF0685 phage-related protein 53% XF2416 drug tolerance protein (lytB) 64% {xpsE/pefE) 81%

XF0686 phage-related protein 41% XF0993 ctrug:proton antiporter (tetVl 14% XF1518 general secretory pathway protein F {xpsFJ 66%

XF0704 phage-related protein 31% XF1765 drug:proton antiporter (mmr) 33% XF15l9 general secretory pathway protein G

XF0705 phage-related protein 31% XF1029 glutaryi-7-ACA acylase precursor {gaa) 60% precursor{xpsG/pe fG) 78%

XF0707 phage-related protein 44% XF1890 glutathione perox idase-like protein{gpo) 50% XF1520 general secretory pathway protein H

XF0710 phage-related protein 17% XF1210 glutathione S-transferase (gst) 38%

XF1555 phage-related protein 34% XF0175 hemolysin III protein

XF1521 general secretorypathwayprotein I XF1570 phage-related protein 19% XF2398 hemolysin secretion protein D {hlyO) 39% precursor{xpsl/pefl)

XF1573 phage-related protein 17% XF0668 hemotysin-type calei um binding protein {frpC) 32% XF1522 general secretorypathwayproteinJ

XF1645 phage-related protein 31% XF1011 hemolysin-type calcium binding protein (frpC) 30% precursor !xpsJ/pefJ)

phage-related

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