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O país avança

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Pesquisa

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CARTADO EDITOR

Uma lei pela vida

ALei de Biossegurança não poderia ocupar outra posição senão L a de capa desta edição de Pesquisa FAPESP. Porque sua aprovação final no Congresso, em 2 de março, e a sanção pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 24 de março último, representam um claro, importante avanço na política científica e tecnológica do país - aliás, bem compreendido e difundido pela mídia nacional em seu conjunto. Ao longo das 12 páginas que, a partir da 24, tratam do tema, os editores Claudia Izique e Marcos Pivetta se revezam para mostrar as batalhas e as articulações entre diferentes atores que garantiram a vitória dos defensores das pesquisas com células-tronco embrionárias e transgênicos; o panorama da pesquisa atual com células-tronco no país e suas possibilidades de desenvolvimento com a nova lei; e, por fim, as perspectivas, de conhecimento e econômicas, que se abrem com o capítulo referente aos alimentos geneticamente modificados na nova legislação. Para completar essa ampla cobertura ainda aproveitamos o fato de a geneticista Mayana Zatz ter se transformado numa espécie de figura símbolo da luta pela aprovação da pesquisa com as célulastronco embrionárias para fazer dela a personagem da entrevista pingue-pongue desta edição, a partir da página 12. Claro que Mayana, uma pesquisadora brilhante e reconhecida internacionalmente, ouvida aqui por Pivetta e por mim, poderia ter aparecido numa dessas entrevistas há muito tempo e, a rigor, a revista já devia isso a seus leitores. Aproveitamos então a oportunidade para saldar a dívida.

Um outro destaque neste número, que seguramente seria assunto de nossa capa, não fosse a Lei de Biossegurança, é a reportagem do editor assistente de ciência, Ricardo Zorzetto, a partir da página 48, sobre resultados das mais recentes pesquisas do sono em curso no Centro de Estudos do Sono, um dos Cepids, ou Centros de Pesquisa, Inovação

e Difusão financiados pela FAPESP. O mais surpreendente deles, a ser tomado e reexaminado com cautela, fala de evidências encontradas em ratos de que o hormônio feminino progesterona seria responsável em determinadas circunstâncias pela ereção do pênis. Nem sempre, ao que parece, a testosterona manda. Se isso for confirmado por novos estudos, temos certamente pela frente uma mudança de peso no conhecimento atual do papel dos hormônios sexuais, em especial a progesterona, o estrogênio e a testosterona. Ainda na seção de ciência vale destacar a reportagem do editor Carlos Fioravanti, a partir da página 62, sobre novas e inesperadas propriedades de materiais magnéticos, descobertas por um grupo de pesquisadores paulistas e cariocas. No mundo prático, essas propriedades autorizam já a sonhar, por exemplo, com refrigeradores alimentados por materiais capazes de esfriar ou esquentar com muito mais eficiência quando submetidos a um campo magnético.

De qualquer modo, se sonhos e sono têm ainda vastas regiões insondadas, e talvez mesmo insondáveis por muito tempo, os altos e baixos, os cumes e as depressões do relevo brasileiro, pelo contrário, se revelam agora com enorme nitidez, graças a um trabalho produzido pela Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, sobre imagens captadas pelo ônibus espacial Endeavour, como relata o editor de tecnologia, Marcos Oliveira, a partir da página 72.

E, por fim, vale a pena um mergulho lúdico no universo dos quadrinhos, para conferir sua trajetória e sua presença - poderosa, aliás - no panorama cultural brasileiro. O editor de humanidades, Carlos Haag, conta a partir da página 86 que novas pesquisas e um livro fascinante mostram como os quadrinhos, ao estilo do He-Man nos anos 1980, por aqui ainda têm a força.

MARILUCE MOURA - DIRETORA DE REDAçãO

Entre estrelas

Trabalho de César Lattes, morto aos 8o anos, foi fundamental para detectar o méson pi

NELDSON MARCOLIN

s condições de trabalho aqui são ótimas. Estou aqui a convite da Universidade de Bristol (o Occhialini conseguiu isso), recebo um ordenado mensal e tenho ampla liberdade de trabalho e iniciativa. Posso trabalhar no que mais me interessa eficar o tempo que quiser. É uma verdadeira 'mamata'"

César Lattes para Leite Lopes em 21 de abril de 1946

"Estou perfeitamente disposto a ir trabalhar aí em condições muito menos favoráveis (estou me referindo à parte científica e à possibilidade material de pesquisa, não à parte profissional) porque acho que é muito mais interessante e difícil formar uma boa escola num ambiente precário do que ganhar o prêmio Nobel trabalhando no melhor laboratório de física do mundo"

César Lattes para Leite Lopes em 12 de agosto de 1946

Os dois parágrafos acima de César Lattes têm um intervalo de menos de quatro meses. Constam de cartas escritas de Bristol, na Inglaterra, para José Leite Lopes, no Rio de Janeiro. Lattes tinha de 22 para 23 anos e faria os dois trabalhos que o ejetaram para a constelação das estrelas científicas nos anos seguintes, em 1947 e 1948. Pelos trechos percebe-se o deslumbre pelas condições

Lattes ao chegar ao Rio em 1948: celebridade internacional

de trabalho encontradas no H.H. Wills Laboratory, da Universidade de Bristol, e a preocupação em montar equipes competitivas para trabalhar em física no Brasil, especialmente no Rio. Morto aos 80 anos no dia 9 de março em Campinas em decorrência de uma parada respiratória, o mais reconhecido físico brasileiro usou o enorme prestígio adquirido pelas suas descobertas para montar laboratórios no Rio, em São Paulo e Campinas, fiel às idéias da juventude. As cartas estão no livro Uma história da física no Brasil, de Leite Lopes, com organização de Amélia Império Hamburger (Livraria da Física Editora, 2004). O físico italiano Giuseppe Occhialini (citado por Lattes) havia trabalhado no Brasil a partir de 1938 com Gleb Wataghin,

meson, produeed in a process of the type which we observe, will remain within the emulsion, of thickness 50 {L, for a distance greater than 500 ,u. If we assume, as a firsfc approximation, that the trajeetories are rectilinear, we obtain a value for the probability of 1 in 20. The marked Coulomb_s****«riní! ^the líuclear Res

ucraniano naturalizado italiano, que já dava aulas na Universidade de São Paulo (USP) desde sua criação, em 1934. Com Wataghin e um grupo de brasileiros muito talentosos, como o pernambucano Mário Schenberg e os paulistas Marcello Damy de Souza Santos e Paulus Aulus Pompéia, entre vários outros, Occhialini realizava trabalhos com raios cósmicos e foi um dos mestres de Lattes. O nome original do brasileiro era, aliás, Cesare Mansueto Giulio Lattes, nascido em Curitiba no dia 11 de julho de 1924, filho dos imigrantes italianos Giuseppe e Carolina. Seu pai, já morando em São Paulo, percebeu a inclinação de César para matemática e física e o apresentou a Wataghin, seu conhecido.

Aproveitando a brecha de uma portaria governamental, Lattes pulou alguns anos e ingressou na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL/USP). Aos 19 anos estava formado e integrado à equipe de Wataghin como terceiro assistente. Foi o primeiro e último curso superior que fez. Wataghin e Occhialini faziam física da melhor

If mesons of lower range are sometimes emitted in an alternativo type of process, they must occur much less frequently than those which we have observed; for the gaQnnfltj^,], ^rmrlitinT^, and tlw

Imagem das chapas com mésons publicada na Nature em 1947 e o caderno de anotações de Lattes: participação decisiva

Lattes em entrevista publicada na revista Ciência Hoje em agosto de 1995. "Quer dizer, não aprendi nada com eles, a não ser inglês." Em 1945 Occhialini foi para Bristol trabalhar com Cecil Powell, que utilizava placas (ou chapas) fotográficas comuns para o estudo de reações no núcleo do átomo. Um ano depois Lattes seguiu o mesmo rumo e integrou-se qualidade na FFCL nos anos 1930 e 1940. Mantinham a biblioteca atualizada, havia intercâmbio contínuo com grandes centros de pesquisa do mundo e se esforçavam para mandar os discípulos brasileiros ao exterior. "Não foi a Inglaterra nem os Estados Unidos que me deram a formação de físico.

Foi em São Paulo, com o Wataghin, com o Occhialini e com o Damy", contou à equipe de Powell. O procedimento para detecção de partículas era expor ao ar livre as placas com emulsão (semelhante ao de filme fotográfico comum). A emulsão detecta a passagem de partículas altamente energéticas carregadas eletricamente.

£3^-1vOBKiaVMXO» BY MSS. 1. POWSM,. (ÜOKB X 85 ACHROMATIC OIUECTIVE 02 TLFORD NUCLEAR RJSSEAHOH KMÜLSION L0AD1D WITH BOBO.V IHE TRACK OI THE /l-UESOS 1S ttIVBN IN TWO 1'AItTS. THE 1'OINT Of JUNCTION BKING INDICATED BY « ANDAS ARROW

Depois de revelada, a placa mostra o trajeto da partícula (observável no microscópio) pela seqüência de grãos contendo prata metálica ao longo de seu percurso. Ocorre que as partículas que vêm do espaço (raios cósmicos) e se chocam com partículas da atmosfera terrestre dão origem a outras partículas difíceis de serem detectadas. Por isso, Occhialini e Lattes concluíram que, além de precisarem de chapas com emulsão mais sensível, era necessário reduzir o tempo de exposição. Seria preciso realizar os experimentos em lugares muito altos, onde o ar é rarefeito. Occhialini fez a primeira experiência na França, em Pie du Midi, a 2.800 metros, em 1946. Ao revelar as chapas, em janeiro de 1947, encontrou algumas partículas e escreveu uma nota para a Nature exaltando as vantagens das placas de emulsão. Ocorre que o pulo do gato não estava apenas em expor as chapas na altitude, mas também na sugestão de Lattes de carregar algumas delas com bórax (tetraborato de sódio), o que permitiu conservar as marcas das partículas por mais tempo na chapa antes que elas decaíssem em outras partículas. O brasileiro e o italiano procuravam por mésons, partículas subatômicas que fazem a interação entre nêutrons e prótons, previstas pelo físico japonês Hideki Yukawa em 1935. Ao ver o resultado das chapas de Pie du Midi - e também a nota de Occhialini na Nature - o brasileiro pediu para repetir a experiência no monte Chacaltaya, a 20

quilômetros de La Paz, na Bolívia, onde há uma estação meteorológica a 5.600 metros. Lattes não queria ficar de fora da descoberta da qual teve participação relevante. Nos Andes, àquela altitude, as chapas receberiam 100 mil vezes mais partículas cósmicas do que na França. Deu tudo certo: o méson pi foi claramente detectado.

"A física de partículas começou aí", explica Igor Pacca, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG/USP), que trabalhou com Lattes entre 1961 e 1966. César Lattes queria mais. Em 1948 trocou Bristol pela Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Dessa vez a idéia era usar um acelerador

de partículas para detectar mésons criados artificialmente. Apenas duas semanas depois da chegada a Berkeley, Lattes e o norte-americano Eugene Gardner detectaram a partícula. Na verdade, os mésons já eram produzidos artificialmente desde novembro de 1946, apenas não se sabia como identificá-los. A notícia guindou Lattes a uma posição de grande destaque no cenário científico mundial. Quando terminou sua bolsa em Berkeley ele já sabia o que fazer: trabalhar no recém-criado Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio, que ele ajudou a fundar. "A presença de César Lattes foi aproveitada para valorizar a ciência no Brasil", escreveu a historiadora e pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) Ana Maria Ribeiro de Andrade no livro Físicos, mésons e políticaa dinâmica da ciência na sociedade (Hucitec/ Mast/CNPq, 1999). Lattes também foi importante na fundação do Conselho Nacional de Pesquisa, atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Durante sua gestão

Yukawa (em pé, no centro) com Lattes e demais físicos brasileiros
Gardner {dir.) e Lattes em Berkeley em 1948 e nos anos 1980 (acima)

no CBPF, ele montou o Laboratório de Física Cósmica em Chacaltaya e tornou viável outras linhas de pesquisa.

Mas em 1955 se afastou ao descobrir desfalques financeiros no centro.

Lattes foi para os Estados Unidos e trabalhou nas universidades de Chicago e Minnesota. Retornou à USP em 1960 e montou o Laboratório de Emulsão Fotográfica. Participou ativamente do International Cooperative Emulsion Flight, projeto internacional de análise de parte de um bloco de 80 litros de emulsões exposto por balão no Caribe. É desse período o começo da colaboração com pesquisadores japoneses para estudar emulsões expostas em Chacaltaya. Em 1967 transferiu-se para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e lá organizou e dirigiu o Departamento de Raios Cósmicos e o Laboratório de Emulsões Nucleares. César Lattes é quase sempre lembrado como o brasileiro que mais chegou perto

de ganhar o Nobel. Pelo trabalho de 1947, assinado por ele, Occhialini e Cecil Powell, quem levou o prêmio foi apenas este último, em 1950. Powell chefiava o laboratório e ganhou pelo desenvolvimento do método fotográfico de estudo do processo nuclear durante a década de 1940 e pelas descobertas

feitas com esse método. Considerou-se que ele soube dar visibilidade ao trabalho, explorar as potencialidades de seu grupo, reaproveitar os resultados e, segundo Ana Maria Ribeiro, tinha o dom de convencer platéias. Lattes poderia ter ganho também pela detecção do méson pi artificial, mas o co-autor Eugene Gardner morreu

Lattes no monte Chacaltaya, nos anos 1950: continuidade da pesquisa

Os físicos de Bristol, Lattes entre eles, relaxavam do trabalho no pub Robin Hood

precocemente, em 1950, e a Academia Real de Ciências de Estocolmo não premia cientistas mortos. Aparentemente, o brasileiro não se incomodava com o fato. Carola Dobrigkeit Chinellato, professora do Instituto de Física da Unicamp, que fez o doutorado com ele, diz que o apuro do cientista não se limitava à física. Lattes reclamava quando via um texto mal escrito. "Dizia: 'Vá para casa e leia Graciliano Ramos. Quando aprender a usar corretamente os adjetivos você escreve de novo e me mostra'." De acordo com pessoas que conviveram com ele, às vezes Lattes alternava momentos de extrema excitação, quando esquecia de comer e dormir e virava as noites trabalhando, com períodos de profunda depressão. Uma das raras críticas que se faz a ele é a de não ter deixado seguidores - o mesmo se disse de outros grandes físicos como Schenberg e Oscar Sala. Tal visão é contestada por Amélia Hamburger, física do Instituto de Física da USP com trabalhos em história da ciência: "Lattes e os outros formaram grupos de pesquisa e montaram laboratórios em vários centros no Brasil e esse trabalho deixou, obviamente, sementes". O ponto sobre o qual parece não haver dúvidas é a genialidade do cientista, de acordo com Igor Pacca: "Em física ele sempre via além dos outros, enxergava muito mais do que todos".

ENTREVISTA: MAYANA ZATZ

Um olho na razão, outro no coração

ayana Zatz é uma cientista respeitada, com a descoberta de alguns genes importantes assinalada em seu currículo, premiada no Brasil e no exterior, e declara com todas as letras que adora o que faz. Mais: considera uma sorte muito grande poder trabalhar naquilo que gosta. É também uma mulher capaz de se engajar com paixão nas causas em que acredita e lutar aguerridamente por seus pontos de vista, como se pôde ver nos dias que antecederam a votação da Lei de Biossegurança pela Câmara dos Deputados: de repente, seu rosto bonito parecia onipresente na televisão. No Jornal Nacional, no Fantástico, no programa de entrevistas de Bóris Casoy, aparentemente na mídia brasileira inteira, lá estava ela, articuladíssima, serena e forte, defendendo a pesquisa com células-tronco embrionárias, um dos pontos mais polêmicos da lei, e explicando como isso poderia no futuro salvar milhares, talvez milhões de vidas humanas.

Professora titular no Instituto de Biologia da Universidade de São Paulo, coordenadora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano, Mayana, ao mesmo tempo que começava no início dos anos 1980 sua vida de pesquisadora, digamos, sênior - porque a essa altura já atuara de fato como pesquisadora em formação na graduação, no mestrado, no doutorado e pós-doutorado -, implantava também um trabalho de caráter mais assistencial para portadores de distrofias e seus familiares, que resultou na criação da Associação Brasileira de Distrofia Muscular (Abdim).

Muito discreta sobre sua vida privada, foi com parcimônia de palavras que a brasileira Mayana Zatz, 57 anos, nascida Mayana Éden, em Israel, de pais romenos, fez referências a sua família nesta entrevista: ela é recém-separada, mãe de um

casal de filhos. Falou um pouco de sua rotina, que se organiza sobre muitas e muitas horas de trabalho, mas inclui o hábito de correr diariamente, o que talvez explique em parte sua silhueta esbelta, elegante.

Nas páginas que se seguem é possível tomar contato mais direto com um pouco da prática e do pensamento dessa personagem fascinante da cena científica brasileira que é Mayana (uma versão mais completa da entrevista encontra-se no site www.revistapesquisa. fapesp.br).

Como você descobriu sua vocação para pesquisa científica?

Foi desde criança. Achava o máximo essa coisa de cientista, os livros, as plantas. Mas eu tinha tendência também para a medicina. E fiquei assim entre medicina e pesquisa, mas tinha de ser cientista. Aí, quando entrei no colegial, me apaixonei pela genética, e decidi: "É isso que quero fazer".

Onde você estava nessa época?

Estava aqui. Eu vim para o Brasil com 7 anos. Nasci em Israel, saí, fui para a França e depois vim para o Brasil. Já estava alfabetizada.

Você veio direto para São Paulo?

Sempre São Paulo.

Você estava fazendo o curso científico [uma das modalidades do colegial, na época; a outra era o clássico, para quem ia se dedicar à área de humanas], estudando biologia e descobriu a genética.

Obviamente não tinha biologia molecular, não tinha nada do que existe hoje. Era aquela coisa de olho azul com olho castanho, aqueles cruzamentos... mas eu me interessei e já entrei na faculdade direcionada para isso.

Onde você fez o colegial?

No Colégio Estadual de São Paulo, na época um supercolégio. Fiz o vestibular para biologia porque, como queria fazer genética, fui ver onde existia. E uma outra influência foi Oswaldo Frota-Pessoa, que já tinha os livros de biologia que eu achava o máximo. A primeira coisa que fiz, quando entrei na faculdade, foi tentar conhecer o Frota. E aí já virei aluna dele, fiz iniciação científica desde o começo - elejá estava trabalhando com genética humana. Frota punha a gente para atender paciente logo. Então eu tinha 17,18 anos.

Como era esse atendimento?

Frota era e é médico. Ele fazia aconselhamento genético de famílias que tinham pacientes com diferentes doenças, fazia cálculos de risco e a gente participava disso. Ele achava que devíamos aprender tudo, todas as técnicas que havia. Tenho carinho e admiração por Frota, a quem devo muito. Seu questionamento científico era impressionante, quando você achava que tinha entendido um problema, ele lhe fazia uma pergunta que revolucionava tudo, desmontava tudo realmente para fazer você pensar. Depois havia a parte didática. E, em terceiro lugar, ele era um exemplo ao lidar com os pacientes, sempre carinhoso, humano.

Isso era em 1967, 1968, por aí?

Por aí. Nessa época minha mãe nem sabia como explicar para as amigas que a filha ia fazer genética, porque ninguém sabia o que era isso. Acabei me especializando em genética humana e médica, porque isso me possibilitava fazer pesquisa e lidar com o paciente também. Terminei a graduação, fiz mestrado e doutorado na USP, também sob orientação do Frota, e depois fiz um pós-doutorado na Ucla (Universidade da Califórnia, em Los Angeles). Quando voltei, no início da década de 1980, comecei um grupo de pesquisas na própria Biologia da USP. E também fundei a Associação Brasileira de Distrofia Muscular.

Como você conseguiu juntar a carreira de pesquisadora com esse trabalho de caráter assistencial?

Antes de eu ir para os Estados Unidos, tínhamos começado a estudar enzimas e vimos que algumas delas, por exemplo a creatinoquinase, que sai do músculo, estavam aumentadas no sangue numa freqüência de 60%, 70%, nas pessoas com risco de ter filhos afetados pela distrofia de Duchenne. Estudávamos os afetados, as mães, as irmãs, depois explicávamos isso tudo às famílias, ainda sob orientação do Frota. Quando voltei, alguns alunos logo me procuraram para começar a fazer pesquisa, e uma das coisas que me intrigavam era saber o que teria acontecido com aquelas famílias.

Essas casas estavam espalhadas por toda São Paulo?

Espalhadas, a maior parte em favelas. íamos para todo lugar, a violência não era nada comparada à de hoje e as pessoas nos abriam as portas. Tivemos uma surpresa muito boa porque as famílias tinham entendido o alto risco e a grande maioria não tinha tido mais filhos. Mas fiquei chocada ao ver as condições das crianças que tinham nascido antes do aconselhamento genético e não tinham uma cadeira de ro-

das, acesso a fisioterapia, acesso a escola, porque ninguém queria carregá-las. Isso era mais chocante ante o apoio gigantesco que eu vira nos Estados Unidos para famílias com problemas idênticos. Aí eu falei "preciso fazer alguma coisa" e fundei a Associação Brasileira de Distrofia Muscular.

Como você conseguiu mobilizar o pessoal daqui? Quem a apoiou?

No começo Frota foi diretor científico da associação e Maria Rita PassosBueno, se não me engano, foi uma das diretoras. Fomos mobilizando gente, usei dinheiro do meu bolso para fazer os estatutos, pagar um advogado... A sede era aqui na minha sala. Depois começamos a fazer bazar, vender rifa, até que eu conheci Pedro Moreira Salles, presidente do Unibanco, e lhe pedi um apoio mais substancial para conseguir ajudar as crianças.

Ele já tinha um problema de distrofia.

Já. Aí alugamos uma casa na entrada da USP para sediar a associação. Pedro a sustentou por todo esse tempo. Só conseguimos um recurso importante um ano atrás, numa parceria com a Secretaria Estadual de Saúde, que está ajudando não só a sustentar a Abdim como a pagar os testes genéticos em doenças neuromusculares.

mÉ muito alta sua incidência?

Todas têm uma incidência de uma criança afetada em cada mil. Dentro das doenças genéticas, que afetam 3% das crianças, talvez sejam as mais comuns. E o que as torna mais importantes é que a grande maioria é muito grave, e são progressivas.

Quer dizer, elas colocam seus portadores em risco de morte muito cedo.

É. Existem algumas formas adultas, mas muitas são infantis ou matam jovens. E eu sempre digo que não é uma criança ou um jovem que está afetado, mas a família inteira.

Como você se encaminhou para as distrofias?

A primeira paciente que me chamou a atenção foi uma moça que veio para o aconselhamento genético porque tinha três sobrinhos afetados por distrofia de Duchenne. Eu ainda era estudante. Ela

ia casar e estava muito preocupada com a possibilidade de ter filhos afetados. Ninguém fazia nada em relação a isso, na época. Aí,junto com o Frota, eu descobri um trabalho que já tinha sido publicado sobre a enzima que poderia ajudar a definir se ela era portadora ou não. Acabei estudando isso numa pesquisa com mil pessoas, que comecei no mestrado e continuei no doutorado.

E como evoluiu seu trabalho até a identificação dos primeiros genes da distrofia de cintura?

Trabalhávamos com enzimas, até que na década de 1980 começou a biologia molecular no exterior. Ficamos para trás, porque não fazíamos nada nesse campo. Aí a Rita, que tinha acabado o doutorado, disse que topava ir lá fora aprender essa tecnologia. Fiz contato com o grupo de Kay Davies, que era o papa na época, na Inglaterra, em Oxford, e ela foi para lá. E aí uma outra amiga minha, a Mariz Vainzof, que estava trabalhando com proteínas, com músculo, se dispôs a ir ao Canadá para aprender como se estudavam as proteínas musculares. Quando as duas voltaram, montamos essa parte de biologia molecular de doenças neuromusculares. Rita montou toda a parte de estudo de genes e Mariz, a dos estudos de proteínas de músculo. Conseguimos publicar um monte de trabalhos, achar genes novos, conseguimos realmente dar um salto qualitativo enorme.

Lembro de um relato seu sobre segredos de paternidade nesse trabalho de aconselhamento genético que por vezes geram temores imensos em pessoas que, se soubessem a verdade, nada teriam a temer. Como vocês entram nessa trama para lidar com os casos mais complicados?

Nem sempre entramos, cada caso é um caso, mas freqüentemente se descobre, quando se faz exame de DNA, que existe uma paternidade lá que não era esperada.

Você contou que eram mais ou menos 10% dos casos.

Sim, 10%. Então, como fazemos? Se aquilo não vai interferir no aconselhamento genético, não temos nada a ver com isso. Se interfere, aí temos que discutir. O caso em particular que vocês lembram era o de uma moça cujo pai

tinha hemofilia, e ela estava grávida. Ela seria portadora dessa doença que, embora não se manifeste nas mulheres, lhe dava 50% de chances de ter um filho hemofílico. Portanto, ela já veio com o diagnóstico para o pré-natal. Quando foram feitos os exames, viu-se que o pai dela não era realmente o pai biológico. Ela não tinha risco nenhum, nem naquela gestação nem em nenhuma outra. Mas ela tinha o maior carinho por aquele pai e contar a verdade poderia significar desestruturar toda a família. Então tínhamos uma escolha difícil. No fim, a idéia foi conversar com a mãe, que sabia de tudo. A mãe conversou com ela, e foi a melhor solução.

Vocês deparam com muitos casos assim?

Sim. E, quando as pessoas começam a discutir questões éticas desse campo, com um monte de teorias, acho interessante contar alguns casos práticos bem cabeludos. Lembro de um outro caso, o de um casal que tinha uma criança com uma doença neuromuscular. O pai estava se sentindo culpado porque achava que tinha transmitido a mutação para o filho. Por meio do exame de DNA, descobriu-se que ele não era o pai. Aí vem aquela angústia: contamos ou não contamos? Relatei essa situação num congresso de bioética que só tinha advogados e eles me disseram: "Olha, você pode ser processada nas duas situações, se contar ou não".

Afinal, o suposto pai ficou sabendo? Ele não voltou mais aqui.

Queria que vocêfalasse dos prêmios internacionais e nacionais que conquistou. Ganhei o prêmio das Mulheres na Ciência, Women in Science, da Unesco e L'Oréal, em 2001. Acho que ele abriu muitas portas, eu não tinha noção de que tivesse tanto impacto. E depois ganhei em 2003 o prêmio em Ciências Médicas Básicas da Academia do Terceiro Mundo. É muito gostoso ganhar prêmio. No caso do Mulheres na Ciência, como a L'Oréal tem um monte de dinheiro fez uma festa linda, emocionante, em Paris, na sede da Unesco.

E prêmios nacionais?

Ganhei o prêmio Claudia, o prêmio do Rotary e alguns outros.

Antes de ir para as células-tronco, eu queria que você falasse um pouco do seu Cepid (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão, financiados pela FAPESP).

Eu acho que o Cepid foi uma iniciativa muito importante. Deu essa possibilidade de não só associarmos vários pesquisadores, mas de reunirmos três vertentes, a da pesquisa científica e inovação, a transferência de tecnologia e a divulgação. Aprendemos muito nesses primeiros cinco anos e creio que agora temos a chance de um avanço bem importante. Em termos de pesquisa, o centro nos permitiu comprar equipamentos que não teríamos possibilidade como um grupo isolado, e nos possibilitou interagir. Na parte de transferência de tecnologia, melhoramos no atendimento a pacientes e a tendência é continuar melhorando.

Hoje, quantos pacientes são anualmente atendidos no centro?

Pelo menos uns mil.

Quantos pesquisadores trabalham dentro do centro?

São 10 pesquisadores, mas têm algumas pessoas que vão entrar, outras que vão sair, e se contarmos cada um com seus alunos deve ter umas cem pessoas.

Nos seus muitos anos de trabalho, sua equipe de pesquisadores já tomou contato direto com quantas pessoas?

Só de doenças neuromusculares estou no número 21.000, entre pacientes e pessoas da família. São 21 mil pessoas que foram testadas e é a maior amostra do mundo, com certeza, estudada num mesmo centro. Hoje seguimos a segunda geração desses pacientes.

Em termos de tratamento dessas doenças, você viu mudanças efetivas?

A grande esperança agora são justamente as células-tronco, por isso batalhei tanto por elas. Se falou muito em terapia gênica, uma década atrás, mas eu a vejo muito mais distante do que a terapia celular, que é um aprimoramento dos transplantes. Na terapia gênica tem que se manipular o gene, ter certeza de que se vai chegar no gene, enquanto na terapia celular há uma substituição de tecido.

E os avanços nos métodos diagnósticos?

Aconteceu o seguinte: pelo fato de termos dinheiro para apoio técnico - é pouco ainda, precisamos de muito mais - pudemos pegar pessoas muito bem-formadas para fazer a parte técnica de transferência de tecnologia, em vez de alunos, como acontecia. O Cepid nos deu essa possibilidade.

Que testes são esses exatamente?

Testes, por exemplo, de diagnóstico de distrofia de cintura, em que vemos quais são as mutações mais freqüentes. Teste de fibrose cística, que não é neuromuscular, mas é a doença genética mais comum em caucasianos, e em que você pode ter mais de mil mutações; desenvolvemos aqui um teste que consegue detectar 80% das mutações.

E onde eles hoje estão disponíveis?

Aqui na USP. Só que temos um problema, que é uma outra briga: o SUS (Sistema Único de Saúde) não cobre o custo desses exames. Temos um convênio com a Secretaria de Saúde só para as doenças neuromusculares. Para as outras e para pacientes de fora de São Paulo, não temos.

O custo dos testes é muito elevado?

Depende. Pode ser de R$ 300 a R$ 500, mas se pensarmos que por causa deles você deixa de fazer uma biópsia muscular, deixa muitas vezes de internar uma criança em hospital, pode começar tratamento precoce, prevenir o nascimento de outros afetados etc, o custo é irrisório; principalmente porque teste genético é para ser feito uma vez na vida, não precisa ficar repetindo.

É um. dizer para um pai que o filho tem uma doença e não há nada a ser feito. Foi isso que me mobilizou

Esses testes estão disponíveis em laboratórios privados?

Alguns sim. Mas, na verdade, no mundo inteiro existem centros de referência de determinados testes. Então escolhemos algumas doenças para testar, porque cada uma delas dá uma trabalheira e não vale a pena todo mundo fazer tudo. Há um grupo do Sul que trabalha com problemas do metabolismo. A idéia é essa no mundo todo. Envia-se o DNA, em sangue ou saliva, para testes, e poderíamos recebê-lo de todo o Brasil, para fazer um diagnóstico. Mas não tenho como cobrir esse custo. Porque aí não é mais pesquisa, é um serviço que precisaria ser coberto.

Por que você resolveu comprar a briga pela aprovação da pesquisas com célulastronco extraídas de embriões humanos?

Além de eu estar obviamente interessada na questão científica, o que me mobiliza é o contato direto com os pacientes. Esse é o outro lado do time em que eu jogo. É um sofrimento enorme dizer para um pai ou uma mãe que o filho tem uma doença e não há nada a ser feito. Eles ficam desesperados e querem levar o filho para qualquer lugar do mundo. Até incentivo aqueles que têm poder aquisitivo a fazer isso. Acho importante eles verem tudo o que existe para ter certeza de que está sendo feito o melhor aqui. Atendia pacientes que falavam o tempo todo: "Eu estou rezando para suas pesquisas darem certo". Eu dizia: "Não adianta rezar porque eu não tenho acesso às células-tronco embrionárias". Foi essa situação que realmente me deu a força para a mobilização.

Quando você teve o estalo, "vamos ter que brigar de frente por esse negócio"?

Quando vi que a lei podia não ser aprovada. O primeiro projeto de lei, apresentado pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB), permitia as pesquisas com células-tronco embrionárias. Isso foi em meados de 2004. O projeto era esquisito, contemplava tudo junto, células-tronco embrionárias e transgênicos. Mas, enfim, tudo era permitido e todo mundo estava feliz. Aí, de repente, na calada da noite, mudou tudo e a proposta foi modificada. Fiquei decepcionada. Então começamos a nos mobilizar. Pegamos o projeto, um grupo reescreveu a parte das células-tronco. Outro, a dos transgênicos, e fomos a Brasília falar com os senadores em busca de apoio. Naquela época, conheci o Drauzio Varella e lhe pedi apoio: "Você precisa nos ajudar nessa causa, dar uma força com a Globo". Ele topou. Fizemos uma audiência pública, que foi um divisor de águas.

Como foi a experiência de varar madrugadas dentro do Congresso?

Foi uma experiência muito rica. Primeiro, entendi como funciona o Congresso, coisa de que eu não tinha a menor noção. Segundo, acho que conseguimos desmistificar muitos conceitos nessas audiências públicas. A Igreja falava de aborto (quando se referia à pesquisa com embriões).

Você defendeu a idéia de que, assim como a morte hoje é cerebral, em termos legais, a vida também começa quando se forma o sistema nervoso.

Sim. Mas mesmo em relação ao aborto, há uma diferença fundamental, e eu falei isso inclusive para um padre. Se você não intervier numa gravidez indesejada, avida continua. Ela é interrompida no aborto. Já na pesquisa com os embriões das clínicas de reprodução é exatamente o contrário: eles não existiriam sem a intervenção do homem. Foram criados com a intervenção do homem porque o casal não conseguiu se reproduzir naturalmente. E, se não forem introduzidos no útero, não vão para a frente. Mesmo que sejam introduzidos logo no útero, a chance de virar vida é de 10%. Embriões congelados há três ou quatro anos, ainda que inseridos num útero, teriam uma chance de 2% a 3%

de talvez se transformar numa vida. Dizer que se está matando vidas, ao defender a pesquisa com embriões, é um exagero gigantesco. Sofremos grande oposição da Igreja Católica. Os evangélicos se dividiram sobre a questão.

Nessa luta, você se sentiu amparada pela comunidade científica?

Eu me senti. Acho que a Academia Brasileira de Ciências apoiou e a FAPESP também. Mas acho que a comunidade científica podia ter se mobilizado mais.

Como você reage diante das críticas de algumas pessoas à presença de pacientes em cadeiras de rodas na Câmara dos Deputados para pressionar pela aprovação da lei?

Essas pessoas em cadeiras de rodas nos pedem para ser ouvidas - e acho que elas têm esse direito. Elas são as que mais sofrem, sempre digo isso. A gente não pediu para ninguém ir (a Brasília) contra a vontade. Ao contrário. Eles dizem: "Pelo amor de Deus, deixa a gente falar com os deputados, deixa eles nos verem". E houve um diferencial nessa mobilização: a presença de jovens e crianças em cadeiras de rodas. A pesquisa pode ajudar esses jovens e crianças, e não apenas os pacientes com Parkinson e Alzheimer. Uma pessoa com Parkinson, como o papa, tem idade, uns 80 anos. Bem ou mal, ela está aí e já viveu a vida. Agora, uma criança com problemas neuromusculares, é muito triste. Acho que isso realmente sensibiliza.

Quando vai ser possível iniciar a pesquisa com células-tronco embrionárias? Espero que ainda este ano. Vamos fazer pressão para isso. Não queremos esperar muito tempo. Acho que a pesquisa precisa ser regulamentada - e muito bem controlada. Estou preocupada porque está cheio de gente esperta por aí, picareta, oferecendo tratamentos que não existem com células-tronco embrionárias. Agora é preciso botar água na fervura. Muitas pessoas telefonam para cá e se oferecem para ser cobaia de tratamentos experimentais. A gente não aceita esses oferecimentos. Então aparecem os picaretas dizendo que estão fazendo tratamento com células-tronco embrionárias importadas.

Agora eles vão dizer que estão fazendo com as nacionais.

Você espera ainda trabalhar muito tempo com animais antes de iniciar as pesquisas com células-tronco embrionárias humanas?

Espero que não. Já estamos trabalhando com células-tronco de cordão umbilical num modelo canino de distrofia. E vamos começar a trabalhar com camundongos imunodeficientes.A pesquisa com animais não precisava de Lei de Biossegurança para ser autorizada. É mais fácil trabalhar com camundongo, embora ele seja um modelo muito longe do humano. O cachorro é mais próximo do homem, mas não se consegue fazer fertilização in vitro nele. É muito difícil conseguir células-tronco embrionárias dele.

Por quê?

Porque, quando a cachorra engravida, só depois de 14 ou 15 dias o embrião se aloja no útero. Tanto é que você só sabe que ela está grávida a partir do segundo mês. Em colaboração com a professora MariaAngélica Miglino (da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP), a gente está tentando cruzar uma cachorra e fazer uma lavagem uterina para tentar obter embriões. Mas é difícil fazer uma linhagem de células-tronco a partir desses embriões. Até hoje ninguém conseguiu. É que os embriões da cachorra, quando se alojam no útero, já estão num estágio bem mais avançado do que os embriões humanos, que são apenas uma dúzia de células.

Células-tronco é um assunto complexo. Você não acha que as pessoas estão confundindo os estudos com células embrionárias humanas, que estão para começar no país, com os experimentos clínicos que já estão sendo feitos com células-tronco adultas?

É uma pergunta muito importante. Em termos de terapias a única certeza que há hoje é o uso de células-tronco adultas, da medula óssea e do cordão umbilical, para tratamento das doenças hematológicas, anemias e leucemias. A gente sabe com certeza que as célulastronco do cordão são melhores que as da medula. Mas é preciso que haja bancos públicos de cordão umbilical. Não

adianta nada guardar o cordão do próprio filho. Fora isso, tudo o que está sendo feito agora é tentativa terapêutica. Não é tratamento com célulastronco adultas. As pessoas estão confundindo tentativa terapêutica com tratamento. Quando aparece na televisão que injetaram células-tronco adultas numa mulher que teve AVC (acidente vascular cerebral), isso é uma tentativa terapêutica. Ninguém sabe como seria a recuperação dessa mulher se ela não tivesse recebido as célulastronco. O mesmo raciocínio vale para os estudos com cardíacos. Tudo isso é experimental. O programa que o Ministério da Saúde lançou é muito importante porque vai mostrar realmente qual é o potencial da terapia celular para melhorar problemas cardíacos.

Você não recomenda guardar o cordão umbilical do próprio filho?

Não. Qual a lógica em guardar o cordão do seu filho? É que, daqui a 30 ou 40 anos, ele pode ter, por exemplo, um problema cardíaco e as célulastronco do cordão dele podem ser usadas num possível tratamento. Mas quem garante que, daqui a três ou quatro décadas, essas células estarão viáveis? Quem garante que a pessoa que vendeu o serviço para guardar o cordão estará aqui para prestar contas, para começo de conversa? Além disso, as células da própria pessoa não servem para (tratar) doenças genéticas, nem leucemias. Você entendeu? As pessoas estão pagando por uma coisa que tem uma chance minúscula de servir para algo. Para mim, é propaganda enganosa.

Você acha que as células-tronco embrionárias, por serem teoricamente capazes de se transformar em todos os tecidos, podem gerar mais terapias que as adultas?

—As pessoas que são contra os estudos com as embrionárias dizem que os resultados com as células-tronco adultas são muito melhores. Mas as embrionárias ainda não foram testadas. Como se pode afirmar uma coisa dessas sem fazer pesquisa? Nós, por exemplo, estamos trabalhando com células-tronco do cordão há mais de dois anos, tentando transformá-las em músculo. Até agora vimos que o potencial é baixíssimo. Não sei se a gente não chegou na

célula-tronco certa, mas os resultados são frustrantes. A gente sabe que as células embrionárias têm a capacidade de formar qualquer tecido especializado. Mas não adianta colocá-las no organismo e esperar que elas façam o seu papel. A gente precisa aprender a transformá-las nos vários tecidos de que necessitamos. Ninguém seria louco de injetar células-tronco embrionárias indiferenciadas numa pessoa. Isso pode provocar tumores.

Você acha que em cinco anos pode surgir algum tratamento baseado no uso de células-tronco embrionárias?

Eu acho. Tem muita gente trabalhando com isso no mundo todo. A tecnologia para injetar as células no corpo seria semelhante à já existente, por exemplo, para leucemias, transplantes. A parte de imunossupressão também avançou muito. Acho que a gente chega lá, sim. Já a terapia gênica é uma abordagem muito mais complexa.

Quais doenças podem ser as primeiras a se beneficiar de tratamentos baseados nos estudos com células-tronco embrionárias?

As doenças neuromusculares, que a gente estuda, talvez sejam as mais simples e as primeiras a se beneficiar dos estudos. Apesar de haver muitos músculos no organismo, é muito mais fácil substituí-los do que fazer um órgão. Nessas doenças, ocorre uma degeneração natural do músculo. Por isso, tentamos substituí-lo por um músculo normal. Para mim, isso é uma coisa factível num período de tempo não muito longo. Agora, antes de fazer qualquer tratamento, é preciso ter certeza de que você vai injetar célulastronco embrionárias no corpo que já estejam encaminhadas, compromissadas, a virar músculo. Podemos injetar essas células em camundongos imunodeficientes e ver como eles reagem, descobrir onde essas células vão se alojar no corpo.

Uma vez você disse que nunca sentiu discriminação na sua vida profissional por ser mulher. É verdade?

Não só não senti como achei que sempre foi uma grande vantagem ser mulher. Na época em que tinha que sustentar filho, algo caro para chuchu, pagar escola de filho, tinha um marido que sustentava a casa. Apesar de estarmos hoje separados, ainda somos muito amigos. E eu devo muito a ele. Tinha época em que eu não tinha bolsa, ou tinha uma bolsa muito pequena, que não dava para pagar escola de filho. Antes de virar professora da USP, em 1982, fiquei 13 anos como bolsista, um pouco do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), depois da FAPESP, que me apoiou desde o começo.

Você já parou para pensar que talvez seja a cientista mulher mais conhecida do Brasil?

Nunca pensei nisso. Mas é gozado. Uma vez, o Leopoldo de Méis (do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro) me disse que escreveu um livro, entrevistando crianças e mostrando como é a imagem que elas têm dos cientistas. As crianças pintam os cientistas cheios de coisas loucas, fumaça por todo o lado. A gente pelo menos tem que desmistificar, mostrar que cientista pode ser mulher. Não precisa ser aquela coisa maluca.

O desafio da comandante

Em julho del999 a astronauta norte-americana Eileen Collins tornou-se a primeira mulher - e até hoje a únicaa comandar a missão de um ônibus espacial. Liderou a equipe que colocou em órbita o telescópio de raios X Chandra. Agora ela está na iminência de repetir a experiênciamas o cenário é bem diferente. Está previsto para maio o vôo da nave Discovery que marcará o retorno das viagens dos ônibus espaciais. Elas foram interrompidas há dois anos, depois que o Columbia pulverizou-se ao penetrar a

atmosfera, matando os sete tripulantes. Sobre os ombros da comandante Collins pesa a responsabilidade de provar que as idosas naves norteamericanas ainda são seguras. "As mudanças de engenharia e de organização que estamos promovendo são difíceis, mas vamos conseguir", diz a astronauta, de 48 anos, casada e mãe de uma menina de 9 anos. A tragédia do Columbia foi selada já no seu lançamento, quando um fragmento do tanque de combustível chocou-se contra um painel na asa esquerda, causando uma perfuração que levou à destruição da nave na reentrada da atmos-

fera. A equipe de Collins está sendo preparada para realizar eventuais consertos na nave em órbita. Eles aprenderam técnicas de reparo, como afixar remendos em buracos da

fuselagem. Também irão substituir um dos quatro giroscópios da Estação Espacial Internacional. Tais equipamentos são responsáveis pela orientação da estação. •

De horizonte a horizonte

O milionário norte-americano Steve Fossett, de 60 anos, tornou-se o primeiro homem a dar a volta ao mundo em vôo solo, sem escalas nem reabastecimento. No comando do ultraleve Virgin Atiantic GlobalFlyer, Fossett cumpriu o périplo em 67 horas e um minuto - partindo do aeroporto de Salina, no Estado de Kansas, às 18h47 (hora local) do dia 28 de fevereiro e aterrissando no mesmo lugar às 16h48 do dia 3 de março. Sobrevoou o Atlântico, o norte da África, o Oriente Médio e o Pacífico, e bateu o recorde

de distância percorrida sem escalas, que pertencia a um bombardeiro. Entrar para o livro dos recordes não é novidade para Fossett, que já bateu 103 recordes oficiais em

Alterego no reino animal

Museus de história natural freqüentemente guardam espécies que ainda não foram descritas. Em boa medida, isso é causado pela falta de investimento na taxonomia, ciência que lida com a identificação e a classificação de organismos. A entidade alemã Biopat, sigla para Patronos da Biodiversidade, arrumou uma forma engenhosa de enfrentar o problema. Em troca de dinheiro, permite que qualquer pessoa batize uma nova espécie. Mais de cem patrocinadores já destinaram mais de US$ 450 mil para pesquisa e conservação. O dinheiro é dividido entre a instituição que descobriu o organismo e projetos de pesquisa nos países onde ele foi encontrado. Entre as espécies cujos nomes foram "vendidos" há orquídeas, sapos e insetos de países como a Bolí-

modalidades esportivas como o iatismo e o balonismo. Aviagem teve momentos tensos, graças a falhas no sistema de GPS e vazamentos de combustível. •

via, Madagascar e Filipinas. O consultor norte-americano Stan Vlasimsky é um patrocinador generoso. Os membros de sua família têm um alter ego no reino animal. Uma orquídeaboliviana, Epidendrum lezlieae, homenageia a mulher, Lezlie. A filha Claudia e o filho Liam batizaram sapos do Panamá e de Madagascar, enquanto o caçula Carden emprestou o nome a um lagarto peruano, Euspondylus cardenü. "É um jeito de ajudar a ciência e dar um presente permanente a quem se ama", diz Vlasimsky, cujo alter ego animal é o besouro Eupholus vlasimskyi. O custo de batizar uma espécie vai de US$ 3,5 mil para insetos até US$ 13 mil para beija-flores. Há cerca de 40 animais sem nome à espera de patrocinadores, no site www.biopat.de (Science, 4 de março)

Mais bolsas no mundo muçulmano

0 GlobalFlyer: vôo ininterrupto de 67 horas

O IDB (sigla para Banco do Desenvolvimento Islâmico) aumentou o volume de recursos de seu programa de bolsas de estudo para pesquisadores de nações muçulmanas. Em reunião realizada na Arábia Saudita, o comitê executivo do banco aprovou a alocação extra de US$ 1 milhão por ano. O programa de bolsas existe desde 1992, já distribuiu US$ 11 milhões e viabilizou temporadas de estudo de pesquisadores em universidades e centros de excelência de países de vários continentes. •

ESTRATéGIAS MUNDO

Alerta contratsunamis

Ciência na web

Envie sua sugestão de site científico para cienweb@trieste.fapesp.br

O governo da índia anunciou um aumento de 24% no orçamento de ciência e tecnologia deste ano. O ministro das Finanças, Palaniappan Chidambaram, destacou o crescimento dos investimentos públicos em áreas estratégicas nas quais o país quer tornar-se líder mundial, como a pesquisa agrícola, a biotecnologia e o desenvolvimento de produtos farmacêuticos. O aumento das verbas também contempla a construção de um sistema de alerta de tsunamis. O Departamento de Desenvolvimento do Oceano terá um reforço de 64% em seus recursos. Irá receber US$ 87,7 milhões, incluindo-se US$ 4,6 milhões para criar um sistema de alerta e US$ 5,8 milhões para coletar dados no mar. (SciDev.Net, 2 de março) •

Vítimas do conflito

Choques entre governo e rebeldes na Costa do Marfim interromperam as pesquisas da Associação do Desenvolvimento do Oeste da África

(Warda, na sigla em inglês). Depois que um cientista da instituição, Robert Carsky, foi morto na explosão de uma bomba, a equipe do Warda abandonou o país. A grande proeza da associação foi o desenvolvimento de variedades de arroz conhecidas como Nerica (Novo Arroz daÁfrica, na sigla em inglês), que garantiram mais proteína para a dieta dos africanos e multiplicaram os lucros dos agricultores. (SciDev.Net, 2 de março) •

http://www.astronautix.com

0 compêndio on-line traz curiosidades históricas sobre a corrida espacial, descrições de naves e bases de lançamentos, e notícias.

http://www.pulganaideia.com.br

0 site brasileiro de jornalismo científico adapta fatos e informações para a linguagem do público infanto-juvenil.

http://geogdata.csun.edu/world_atlas/index.html 0 atlas com 500 imagens panorâmicas de países, continentes e acidentes geográficos é mantido por um professor de geografia californiano. Arroz Nerica: mais proteína

Campo agrícola na índia: mais dinheiro para pesquisa

ESTRATéGIAS BRASIL

O Brasil caiu da 39a para a 46a posição no ranking do Fórum Econômico Mundial que avalia o nível de preparação de 104 nações para participar dos avanços na tecnologia da informação e de comunicação. Passaram à frente do Brasil países como Malta, Tunísia, Eslovênia, Barein, Chipre, Hungria e Jordânia. Os Estados Unidos, líderes no ranking anterior, caíram quatro posições. O primeiro lugar foi conquistado por Cingapura, graças a seu desempenho extraordinário em áreas como qualidade de ensino em matemática e em ciências, preço de conexões telefônicas, grau de prioridade conferido pelo governo à tecnologia e custos de conexão com a internet."A experiência de Cingapura ilustra o

O maisvotado na Unicamp

O vice-reitor José Tadeu Jorge, de 52 anos, recebeu 82,59% dos votos válidos e saiu vencedor da consulta para a escolha do próximo reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi o mais votado entre professores, alunos e funcionários. O engenheiro mecânico Antônio Celso Arruda ficou em segundo lugar, com 12,67% dos votos, e o engenheiro eletricista Edson Moschim foi o terceiro, com 4,74% dos votos. Os três nomes serão avaliados pelo Conselho Universitário da Uni-

O Brasil perde terreno

papel central da tecnologia como motor do crescimento e da competitividade", afirmou o diretor do programa de competitividade global do Fórum, Augusto LopezClaros. Os Estados Unidos, contudo, ainda são os primeiros em temas como qualidade de instituições de pesquisa científica e oferta de

camp e encaminhados ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, a quem cabe nomear o novo reitor. O escolhido substituirá o físico Carlos Henrique de Brito Cruz,

oportunidades de treinamento para trabalhar no setor. O Brasil, apesar da queda, é o segundo mais bem colocado na América Latina. O primeiro é o Chile, em 35° lugar. As outras duas grandes economias da região também perderam espaço. A Argentina caiu 26 posições e está em 76° lugar.

que deixará a reitoria para assumir a diretoria científica da FAPESP. Atual vice-reitor e coordenador-geral da universidade, José Tadeu Jorge é professor titular na Faculdade de

O México caiu da 44a para a 60a posição. "Com exceção do Chile, a América Latina como um todo sofre com um arcabouço legal pobre para o desenvolvimento do setor de tecnologia da informação e de comunicação, pesados fardos administrativos, baixa prioridade governamental para o desenvolvimento do setor, baixas taxas de penetração da internet e fuga de especialistas, o que mina o potencial para um crescimento mais rápido do setor", disse Claros, que destacou a perda de terreno da América Latina para o Leste Europeu e, sobretudo, a Ásia.A China e a índia subiram no ranking. Passaram a ocupar, respectivamente, a 39a e a 41a posições no atual relatório. Estavam na 45a e 51a no relatório anterior. •

EngenhariaAgrícola (Feagri). Toda a sua carreira foi feita na Unicamp, onde se graduou em Engenharia de Alimentos (1975), realizou mestrado em Tecnologia de Alimentos (1977) e doutorado em Ciências deAlimentos (1981), concentrando suas pesquisas na área de tecnologias pós-colheita. Titulou-se livre-docente em 1992, professor adjunto em 1995 e professor titular em 1996. Foi pró-reitor de Desenvolvimento Universitário de 1994 a 1998 e diretor da Feagri em dois períodos, de 1987 a 1991 e de 1999 a 2002, quando deixou o cargo para assumir a vice-reitoria. •

Santuários particulares

As autoridades ambientais querem ampliar o número de áreas de proteção ecológica em propriedades privadas. O Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estabeleceu regras que desburocratizam a criação das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), glebas rurais que, por iniciativa de seus donos, tornaram-se santuários ambientais. O novo status não afeta o direito de propriedade, mas tem efeito permanente. As vantagens oferecidas são

escassas. Os proprietários estão aptos a receber repasses de verbas do ICMS, o que acontece em poucos estados, e não precisam recolher o Imposto Territorial Rural. Com isso, apenas proprietários realmente interessados em preservação ambiental recorreram ao expediente. Há 656 dessas reservas no país, ocupando 600 mil hectares. As novas normas do Ibama retiram exigências em relação à documentação, como a descrição dos limites da área demarcados com geoprocessamento de satélite.

ESTRATéGIAS BRASIL

Inovação cresce nas pequenas empresas

Os números relativos ao Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) se multiplicam de forma acelerada. No final de fevereiro, esse programa da FAPESP, que tem sete anos de atividade, atingiu a marca de 405 projetos e 332 empresas beneficiadas com investimentos em pesquisa tecnológica. No total foram investidos R$ 55,2 milhões e US$ 4,3 milhões, valores utilizados pelas empresas no desenvolvimento das pesquisas que envolvem a compra de equipamentos, inclusive no exterior, e o pagamento de bolsas para os coordenadores de cada projeto. A área que mais solicitou financiamento do PIPE foi a de engenharia com 206 projetos, se-

guida das agrárias com 41, computação, 34 e biológicas, 29. A cidade de São Paulo lidera no número de projetos, 107. Em segundo lugar vem Campinas com 67, São Carlos, 47, São José dos Campos, 29 e Ribeirão Preto, 8. Subdivididos em duas fases, a primeira que realiza pesquisas sobre a viabilidade das idéias propostas e a segunda de desenvolvimento do protótipo ou do processo produtivo, os projetos do PIPE ganharam no final do ano passado a possibilidade de ter uma terceira fase, a de implementação da produção e do plano de negócios. Essa fase é financiada por meio de uma parceria com o Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe) da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia. •

"Eram regras restritivas que atrapalhavam a criação de RPPNs e não garantiam transparência ao processo", disse o presidente do Ibama, Marcus Barros. Outra novidade é que os donos terão prioridade para concessão de recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente e facilidade na obtenção de crédito agrícola. As RPPNs podem explorar atividades sustentáveis, como ecoturismo, educação ambiental e pesquisa científica. "Elas são um instrumento de realização de parcerias públicas e privadas e de combate ao desmatamento", diz Barros. •

Canaisvigorosos de divulgação

Duas iniciativas no campo da divulgação científica dão provas de amadurecimento. A centenária Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), unidade da Universidade de São Paulo em Piracicaba, comemora o êxito da revista Visão Agrícola, publicação temática semestral lançada em 2004. O primeiro número trouxe artigos sobre a cadeia produtiva da canade-açúcar e o segundo, lançado em janeiro, tratou da cadeia produtiva dos citros. As próximas duas edições, que serão lançadas ao longo do ano, terão como tema a cadeia produtiva da carne bovina e a sustentabilidade da produção florestal. "É uma obra para ser lida e preservada, originando uma coleção com abordagens que reflitam o estado atual da agricultura, em diferentes áreas de interesse para o país", observou

José Roberto Postali Parra, diretor da Esalq. No campo da física, chegará à quinta edição uma publicação editada por alunos de pós-graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A revista Physicae, com periodicidade anual, é distribuída gratuitamente em mais de cem faculdades e universidades do país e está aberta a colaborações de pesquisadores de outras instituições. •

Remédios a caminho

A Fundação para o Remédio Popular (Furp), laboratório vinculado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, prepara-se para produzir 11 novos medicamentos, por meio de acordos internacionais de transferência de tecnologia. Entre as novas drogas estão dois anti-retrovirais utilizados no tratamento contra a Aids, o efavirenz e o nelfinavir, além de remédios contra o colesterol alto, a rejeição de transplantes, úlcera, hipertensão, osteoporose, câncer e antibióticos. A exceção dos anti-retrovirais e do imunossupressor, que ainda têm patentes em vigor e deverão ser objeto de negociação com seus criadores, os demais remédios deverão ser

0 depósito da Furp: 79 remédios

comercializados ainda este ano. A Furp produz hoje 79 medicamentos e é o maior laboratório público do país. •

Contribuição reconhecida

A última edição da revista Rairo - Theoretical Informatics and Applications, publicada com apoio do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, é dedicada a um cientista brasileiro. O homenageado é Imre Simon, pesquisador do Instituto de Matemática da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Incubadora Virtual de Conteúdos Digitais, um dos três projetos da Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet

Avançada (Tidia), da FAPESP. Nascido na Hungria, ele emigrou para o Brasil aos 13 anos. Em 1965, junto com Tomasz Kowaltowski e Cláudio Lucchesi, do então Centro de Computação da USP, implementou o primeiro vestibular computadorizado do

país. Em 1967 criou um software capaz de lidar com os índices de inflação, na casa dos três dígitos. "Foi uma grande conquista, considerando que a memória dos computadores tinha apenas 20 mil dígitos decimais", escreveram Christian Choffrut e Yoshiko Wakabayashi no prefácio da edição especial, cujo título é Imre Simon, o cientista da computação tropical. •

Physicae e Visão Agrícola: amadurecimento
Imre Simon: homenageado

PESQUISAR E SALVAR VIDAS

segurança

Nova lei autoriza pesquisas com células-tronco e libera comercialização de transgênicos

0Lei de Biossegurança, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 24 de março, alargou as perspectivas para a biotecnologia no país: autorizou e regulamentou as investigações com célulastronco embrionárias de seres humanos e liberou o plantio e comercialização de organismos geneticamente modificados (OGMs). Os sete vetos do presidente não comprometeram o projeto.

A decisão do Congresso, ratificada pelo presidente da República, é um reconhecimento da capacidade dos pesquisadores brasileiros de fazer ciência na fronteira do conhecimento.A aposta na competência da pesquisa nacional poderá transformar a nova lei num instrumento de independência tecnológica e ao mesmo tempo garantir que a sociedade usufrua dos resultados dos investimentos em ciência e tecnologia.

A nova lei permitirá que pelo menos uma dezena de laboratórios - muitos deles já desenvolvendo pesquisas com células-tronco de medula e cordão umbilical- inicie as investigações com células-tronco embrionárias que, no futuro, podem apontar caminhos para o tratamento de doenças como mal de Parkinson, diabetes, lesão da medula espinhal, entre outras (veja página 30). As duas linhas de pesquisa já contam com investimentos programados de R$ 28,3 milhões, conforme anunciou o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos.

Na área dos transgênicos, as pesquisas estão mais avançadas. As perspectivas são promissoras e em curto prazo. Na próxima safra, por exemplo, agricultores de todo o país terão acesso a sementes de soja geneticamente modificadas desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com ganhos de produtividade e renda. Empresas como a Monsanto, Bayer Seeds e Syngenta Seeds também estão prontas para colocar novos produtos no mercado (veja página 34).

Mobilização de pesquisadores - A tramitação da lei no Congresso, até a sua aprovação, foi marcada por intensa polêmica e exigiu a mobilização de cientistas. Patrícia Pranke, especialista em células-tronco umbilicais, das faculdades de Farmácia e de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, esteve em Brasília pelo menos umas 20 vezes no último ano para fazer "um trabalho de formiguinha", como ela diz. Junto com a geneticista Mayana Zatz (veja entrevista na página 12), Marco Antônio Zago, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e coordenador do Centro de Terapia Celular, e

Drauzio Varela, médico oncologista, Patrícia participou de audiências públicas no Senado e de diversos encontros com deputados na Câmara com o objetivo de esclarecer eventuais dúvidas de parlamentares.

Os resultados compensaram. "Foi a primeira vez que senadores, deputados e cientistas se uniram. Vencemos uma guerra santa", diz Darcísio Perondi (PSDB-RS), relator da matéria na segunda rodada de votação na Câmara.

A votação da lei também levou a Brasília integrantes do Movimento em Prol daVida (Movitae), que reúne entidades representativas de pais e pacientes com doenças neuromusculares. O Movitae foi criado em 2003, quando o Congresso Nacional iniciava os debates sobre clonagem terapêutica, técnica que ficou fora da Lei de Biossegurança. "No dia da votação reunimos na Câmara cerca de 50 pessoas de todos os cantos do país", conta Andréa Bezerra de Albuquerque, presidente do Movitae, que permaneceu em Brasília, de prontidão, até a sanção presidencial.

Entre os doentes mobilizados pelo Movitae estavam seis representantes da Associação Brasileira de Distrofia Muscular. Eles circularam pelos corredores da Câmara, aglomeraram-se no plenário e, junto com pesquisadores e deputados, comemoraram a aprovação da lei. "Perguntamos a um de nossos pacientes, com 8 anos, o que mais o tinha agradado em Brasília. E ele respondeu: a vitória", lembra Munira Tenezi Guilhon Sá, diretora-executiva da associação.

A mobilização dos doentes comoveu o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Ele já tinha se mostrado contra a aprovação da matéria, alegando motivos religiosos, apesar dos apelos da filha, a terapeuta ocupacional e deputada estadual em Pernambuco Ana Cavalcanti. "Antes mesmo de ser eleito presidente da Casa, eu já vinha conversando com ele para fazê-lo mudar de idéia", revelou Ana. Mayana e Patrícia também tentaram convencer o deputado. "Mas o que mais sensibilizou meu pai foi a presença dos portadores de distrofias e suas mães na entrada do

plenário", disse Ana. Cavalcanti colocou a proposta em debate, impediu a suspensão da sessão, pleiteada pelos opositores do projeto, mas retirou-se do plenário antes do final da votação. De qualquer forma, a rapidez com que a Câmara aprovou a matéria surpreendeu os pesquisadores.

encera resistência da Câmara, no entanto, não foi uma tarefa fácil. Por razões religiosas ou por falta de informação, muitos deputados temiam que, ao autorizar as pesquisas com células-tronco, estivessem legitimando a clonagem de seres humanos. Outros iam até mais longe: suspeitavam estar estimulando a prática do aborto. Essa preocupação foi uma das razões que levaram o mesmo plenário a negar autorização para as pesquisas com células embrionárias, na primeira votação da matéria, em fevereiro de 2004.

Uma parte das dificuldades na tramitação do projeto, no entanto, tem que ser creditada à sua abrangência. A proposta enviada pelo Executivo à Câmara, em 2004, buscava solução definitiva para a polêmica em torno do plantio da soja Roundup Ready (RR), da Monsanto, autorizado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), cuja competência foi contestada por ação civil pública. No meio de um imbróglio jurídico, faltou semente no mercado nacional e os produtores gaúchos compraram e plantaram sementes RR argentinas. Na ausência de um marco legal, o governo teve que editar uma medida provisória para garantir a colheita e comercialização da safra 2002/2003.

O governo então constituiu uma comissão para formular um projeto de lei que encerrasse a batalha dos transgênicos. Juntou à proposta a questão das células-tronco embrionárias e enviou ao Congresso. "Achamos esquisito o projeto juntar as duas coisas", lembra Mayana. O projeto sincrético foi analisado por uma comissão especial e acompa-

nhado de perto por pesquisadores e representantes de associações científicas. O parecer do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) - que autorizava as pesquisas com células-tronco, a clonagem terapêutica e o plantio e comercialização de transgênicos - já estava pronto para ser levado a plenário quando, às vésperas da votação, Rebelo foi nomeado ministro e substituído na relatoria pelo deputado Renildo Calheiros (PCdoB-CE). Calheiros preparou o seu próprio parecer. Considerou a possibilidade de desmembrar o projeto que tratava de assuntos diferentes, mas, sem respaldo, mudou de idéia. Na primeira versão do relatório manteve a autorização para pesquisas com células-tronco, ele conta. "Mas toda proposta tem que ser negociada", argumenta. Ante a resistência das bancadas evangélica e católica,vetou a clonagem terapêutica e as pesquisas com células-tronco embrionárias. No caso dos transgênicos, cedeu à pressão dos ambientalistas: limitou a competência da CTNBio à autorização para pesquisas, conferindo ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) poder para decidir sobre o plantio e comercialização de OGMs.

O projeto aprovado pela Câmara e então enviado ao Senado foi qualificado como um "Franskenstein jurídico" por Carlos Vogt, presidente da FAPESP. O Conselho Superior da Fundação também se manifestou, apelando aos senadores que ouvissem os argumentos da comunidade científica. Outras 13 entidades, entre elas a Academia Brasileira de Ciências, se posicionaram a favor das pesquisas com células-tronco e contra a limitação de competência da CTNBio. O Senado ouviu pesquisadores, promoveu audiências públicas e modificou a decisão da Câmara. O relatório do senador Ney Suassuna (PMDB-PB), com o aval dos cientistas, manteve o veto à clonagem terapêutica, mas resgatou a autorização para pesquisas com célulastronco e o poder decisório da CTNBio, no caso do plantio e comercialização de transgênicos. A informação venceu o medo e o projeto foi aprovado por ampla maioria: 53 votos a 2.

O papelda mídia - Na decisão do Senado, é bom que se saliente, teve peso a mobi-

lização da mídia. Antes da votação, o Fantástico, da Rede Globo, exibiu, por três domingos consecutivos, programas da série How to build a human, comprada da BBC de Londres, abordando os benefícios da utilização das célulastronco no tratamento de doenças. Os jornais de maior circulação no país, como O Globo, O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo também se manifestaram em editoriais contra o que qualificaram de "obscurantismo" e "bruxaria". O projeto, modificado, voltou à Câmara que, nesse segundo round, teria apenas poder de veto. Os opositores bem que tentaram derrubar o artigo 5o do texto, que autorizava as pesquisas com células-tronco. Todos os partidos, com exceção do Prona, demonstraram-se a favor do texto, que foi aprovado por 366 votos contra 59. Os

ambientalistas tentaram restringir os poderes da CTNBio, mas a proposta do Senado prevaleceu apoiada por 352 votos contra 60.

Mas ainda era cedo para comemorações.Aprovado nas duas Casas, o projeto de lei de Biossegurança foi encaminhado para a Casa Civil para análise do mérito, constitucionalidade e legalidade, antes de ir à sanção presidencial. Temia-se que, sob pressão de católicos e ambientalistas, o presidente vetasse alguns artigos do projeto.

As preocupações não eram infundadas: um dia depois da aprovação o Ministério do Meio Ambiente divulgou nota reiterando sua posição contra o projeto: o poder exclusivo e vinculante na liberação do plantio e comercialização dos transgênicos conferido pela nova lei à CTNBio relegaria os órgãos

públicos que atuam na área ambiental a um papel secundário.

O governo também recebeu manifestações a favor do projeto, como a do Conselho Superior da FAPESP, que, no dia 10 de março, encaminhou carta ao presidente solicitando que sancionasse o projeto de lei, tal como aprovado,"alicerçando, assim, as bases seguras, as esperanças de cura e de melhor qualidade de vida para milhares de pessoas que vivenciaram e vivenciam as expectativas desse grande momento".

Em artigo publicado em O Globo, no dia 21 de março, o ministro Eduardo Campos afirmou que a liberação das pesquisas com células-tronco de embriões humanos representa "o primeiro grande passo para o ingresso do país na fronteira da medicina". Agora, disse, "o importante é recuperar o tempo perdido". Observou que, mais cedo ou mais tarde, o Brasil terá que se preparar para um passo ainda mais ousado: autorizar a clonagem terapêutica. E ressalvou: "Ele será dado quando as condições sociais e políticas estiverem amadurecidas, representando mais um marco na afirmação do trabalho dos cientistas brasileiros". •

ronco

A

Lei de Biossegurança vai impulsionara pesquisa nacional, que já era forte na área

m 1998, a equipe do biólogo James Thomson, da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, isolou e desenvolveu pela primeira vez em laboratório uma linhagem de células-tronco extraídas de embriões humanos. Foi um feito técnico e um problema ético para a pesquisa biológica. Feito, porque os estudos com essas células podem, em teoria, levar a melhores tratamentos ou à cura de uma lista quase interminável de doenças. Se devidamente cultivadas, as células-tronco embrionárias, e apenas elas, podem dar origem a todos os tecidos de um organismo, cerca de 220 tipos distintos de células que seriam a matéria-prima de novas terapias. Problema, porque a forma de obtê-las ofende a crença de parcelas da sociedade, em especial os religiosos, e, em alguns países, também as leis: as células-tronco são retiradas de embriões, que, ao ceder esse material, tornam-se inviáveis. Desde então, em várias partes do globo, há um embate moral e jurídico entre os defensores e os opositores desse tipo de pesquisa. Aos poucos, com maior ou menor grau de restrições, parece haver uma tendência de os países com ciência forte, ou minimamente estruturada, permitirem experimentos com as células genitoras (veja quadro na página 32). No mês passado, o presidente Lula sancionou a nova Lei de Biossegurança e autorizou o início dos estudos com células-tronco embrionárias humanas, sem, no

entanto, dar sinal verde para a chamada clonagem terapêutica, procedimento permitido, por exemplo, no Reino Unido. O cardiologista José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração (InCor), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), usa uma interessante metáfora para descrever a importância do estímulo à pesquisa nessa área. "As células embrionárias são as únicas que têm o hardware completo do computador biológico", compara o pesquisador. "As pesquisas agora vão tentar desvendar os softwares específicos, os botões corretos, que direcionam a formação dos diversos tecidos."

Nos últimos anos, enquanto os trabalhos com células-tronco embrionárias de origem humana permaneciam vetados, os cientistas brasileiros não ficaram parados. Fizeram o que a legislação permitia: desenvolveram linhas de pesquisa com células-tronco de animais e células-tronco humanas retiradas de tecidos adultos, em geral da medula óssea e do sangue do cordão umbilical. Boa parte dos estudos é de biologia básica. Têm o intuito de entender e controlar in vitro os mecanismos de divisão e diferenciação das células-tronco e, em certos casos, gerar modelos animais para algumas enfermidades. Outros apresentam um caráter mais aplicado, em que possíveis terapias baseadas em células-tronco adultas são testadas em animais e humanos. Não há evidências irrefutáveis de que as células-tronco adultas possam exibir a mesma plasticidade das embrionárias. Mas, a cada dia, descobre-se que elas podem ser extraídas de mais tecidos maduros do que se pensava - a gordura é uma de suas fontes - e se diferenciar numa maior gama de tecidos. Talvez elas possam ser a base para

tratamentos de algumas doenças, como problemas cardíacos, ortopédicos e odontológicos.

Menos versáteis que as embrionárias, as células-tronco adultas têm uma vantagem: parecem ser mais seguras. Nas terapias experimentais são injetadas nos pacientes células-tronco extraídas, em geral, deles mesmos. Isso elimina o risco de rejeição ao material implantado e reduz a ocorrência de outros problemas. "Muitos estudos mostram que, em camundongos, quando se injetaram células-tronco embrionárias indiferenciadas, apareceram tumores", afirma Marco Antônio Zago, coordenador do Centro de Terapia Celular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP). "Seria loucura inocular células embrionárias em humanos antes de aprendermos a diferenciá-las", diz a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, que pesquisa o uso da terapia celular em distrofias musculares (veja entrevista na página 12).

Por isso, nenhum grupo de pesquisa sério, daqui ou do exterior, cogita no curto prazo aplicar uma dose de células-tronco embrionárias em nossa espécie. Nos próximos dois ou três anos, os resultados mais animadores, em termos clínicos, deverão sair de experimentos com possíveis terapias baseadas em células-tronco adultas, percorrendo um caminho mais cauteloso. Há um precedente de sucesso que justifica um otimismo moderado com essa abordagem. De todas as promessas de terapias celulares apenas uma se tornou, por ora, um procedimento médico que entrou para a rotina dos hospitais de ponta: o transplante de medula óssea, usado, há 40 anos, para tratar leucemias, certos tipos de linfoma e outras desordens sangüíneas. No"milagre" do transplante, o "santo", do qual quase nunca se falava até alguns anos atrás, é a população de células-tronco adultas existente nesse tecido mole e esponjoso situado no interior dos ossos. Existem dois tipos de célula-tronco na medula: as hematopoéticas, que geram o glóbu-

los vermelhos do sangue (hemácias), os glóbulos brancos e as plaquetas; e as mesenquimais, capazes de dar origem a distintos tecidos, como ossos, cartilagem, tendões, músculos e gordura.

a área mais básica, os progressos poderão vir das mais variadas frentes: trabalhos com células-tronco adultas, de origem humana ou animal, cultivadas em laboratório ou implantadas em bichos e até no homem; estudos com células humanas embrionárias in vitro, ou injetadas em animais; e experimentos com células embrionárias de animais. Algumas linhas de pesquisa aplicada e elementar com células-tronco tocadas por cientistas brasileiros são apresentadas a seguir.

Cardiologia - Ao lado da Alemanha, o Brasil é uma das referências internacionais na pesquisa clínica que usa célulastronco da medula óssea dos próprios pacientes para tratar seus problemas cardíacos. Entusiasmado com os resultados positivos de estudos piloto feitos com um pequeno número de pacientes vítimas de infarto agudo do miocárdio, cardiomiopatia dilatada, isquemia crônica e mal de Chagas, o Ministério da Saúde lançou em fevereiro um projeto de R$ 13 milhões para pesquisar nos próximos três anos a eficácia do emprego das células da medula contra essas disfunções que podem levar à insuficiência cardíaca. Ambicioso, o chamado Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatia será coordenado pelo Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras (INCL), no Rio de Janeiro, e contará com a participação de cerca de 30 universidades e hospitais de norte a sul do país. A nova abordagem será testada em 1.200 pacientes, divididos, de acordo com seu problema cardíaco, em quatro grupos de 300 indivíduos. Todos receberão o tratamento convencional para sua cardiopatia e serão acompanhados por um ano. Para aferir os possíveis efeitos benéficos da terapia celular, metade dos doentes será também alvo de uma dose de placebo

(material inócuo, sem efeito terapêutico) e metade, de uma injeção de células-tronco no coração. O estudo será duplo-cego: médicos e pacientes não saberão quem recebeu o quê.

Para cada patologia haverá um centro coordenador dos estudos. O INCL estará à frente dos trabalhos com cardiomiopatia dilatada (o coração aumenta de tamanho e tem dificuldade para bombear o sangue). O InCor comandará os estudos com isquemia crônica do coração. O Hospital Santa Izabel, de Salvador, em colaboração com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia, supervisionará a pesquisa com os chagásicos, inédita no mundo. O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB/UFRJ), ao lado do Hospital PróCardíaco, chefiará os experimentos com o infarto agudo do miocárdio. Se, ao final do estudo, alguma terapia celular for mais benéfica do que o tratamento hoje disponível para os problemas do coração, o procedimento passará a ser adotado pela rede pública de hospitais. "Daqui a um ano e meio deveremos ter os primeiros resultados em relação à eficácia do uso de célulastronco da medula para tratar o infarto", estima Antônio Carlos Campos de Carvalho, do INCL. "Para as demais cardiopatias, devemos ter de esperar cerca de três anos." Nos pacientes de infarto agudo, cardiomiopatia dilatada e Chagas, a terapia celular (ou o placebo) será administrada por meio de um cateter nas artérias coronárias. Nas vítimas de isquemia crônica, pessoas que tiveram um infarto há mais de seis meses, mas continuam com problemas de irrigação no coração, as células-tronco serão introduzidas diretamente no músculo cardíaco durante uma cirurgia para colocação de ponte de safena ou mamaria. Há grande expectativa em relação aos testes com chagásicos graves que desenvolveram insuficiência cardíaca e são candidatos ao transplante do coração. Normalmente, a maioria desses pacientes morre em menos de dois anos. "Em estudos preliminares, apenas dois dos 30 pacientes em que aplicamos células-tronco da medula morreram", afirma Ricardo Ribeiro do Santos, coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual e pesquisador da Fiocruz em Salvador. "Mas ne-

Células nervosas humanas derivadas de células-tronco embrionárias: neurônios maduros {vermelho) e células gliais {verde)

nhum foi por causa da terapia." Segundo Santos, boa parte dos chagásicos apresentou melhora na qualidade de vida e das funções cardíacas.

Duas críticas são feitas aos estudos brasileiros com terapias celulares contra problemas cardíacos. Primeiro senão: os experimentos avançaram de forma muito rápida, gerando expectativas exageradas de sucesso para o público leigo, antes de ter esgotado todos os trabalhos com animais e descoberto a forma ideal de obter e injetar células-tronco nos doentes. "Ninguém sabe qual é o melhor tipo de célula para uso nas terapias nem qual é a técnica ideal para administrá-las nos pacientes", diz o cardiologista Edimar Bocchi, do InCor, cujos trabalhos com célulastronco adultas em pacientes cardíacos não fazem parte do megaestudo do Ministério da Saúde. Segunda crítica: os pesquisadores desconhecem os mecanismos que estão por trás da possível melhora cardíaca verificada nos estudos preliminares. Até agora não há certeza se as injeções de células da medula

beneficiam o coração porque aumentam a sua vascularização, criam mais músculo cardíaco ou renovam células lesadas do coração. "Só decidimos fazer testes em humanos depois de termos trabalhado com animais e estarmos convencidos de que os riscos do emprego das células-tronco são menores do que os benefícios", pondera Radovan Borojevic, do ICB/UFRJ, um dos pesquisadores à frente das pesquisas com terapias celulares em cardiologia. De qualquer forma, os trabalhos brasileiros foram autorizados pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e estão fazendo escola no exterior. O Instituto do Coração do Texas começou recentemente um teste clínico, com células-tronco da medula óssea, inspirado nos estudos brasileiros. Treze pacientes receberam a terapia alternativa, e os resultados são animadores.

Diabetes e doenças auto-imunes -A eficácia do emprego de células-tronco adultas para controlar desordens originadas pelo próprio sistema imunológi-

co dos pacientesjá está em teste no Brasil. O grupo do pesquisador Júlio Voltarelli, do Centro de Terapia Celular da USP de Ribeirão Preto, realizou, por exemplo, 30 transplantes de célulastronco da medula em pessoas com esclerose múltipla, 15 em vítimas de doenças reumáticas e 5 em diabéticos do tipo 1 (que precisam tomar insulina cotidianamente). Antes de receberem a terapia, administrada por via endovenosa e com células previamente retiradas dos próprios pacientes, os participantes do estudo foram submetidos a sessões de quimio ou radioterapia para eliminar as células do sistema de defesa do organismo, responsáveis por desencadear as doenças auto-imunes. "Houve cinco óbitos de pessoas com doenças reumáticas e quatro de esclerose múltipla, em decorrência de complicações, geralmente infecciosas, da terapia", afirma Voltarelli. "Não houve mortes entre os diabéticos." Os pacientes que sobreviveram melhoraram ou tiveram adoença estabilizada, um indício de que as células-tronco podem ter ajudado na

Células da discórdia

Alguns países criaram recentemente leis que estabelecem as regras para a pesquisa com células-tronco extraídas de embriões humanos e a chamada clonagem terapêutica.Abaixo como oito países tratam o tema.

Reino Unido

Desde o início de 2002 permite a pesquisa com células-tronco embrionárias especialmente criadas para esse fim. Também autoriza a clonagem terapêutica, desde que a partir de embriões de no máximo 14 dias de vida. Duas equipes já receberam o sinal verde para clonar embriões humanos com fins terapêuticos.

" Coréia do Sul

Em fevereiro de 2004, uma equipe sul-coreana foi a primeira do mundo a conseguir clonar embriões humanos e deles extrair célulastronco embrionárias. No entanto, apenas no final do ano passado o governo de Seul definiu oficialmente sua política para o setor. A pesquisa com embriões e a clonagem terapêutica foram aprovadas.

Japão

Embora não haja uma lei regulamentando o assunto, o Ministério da Saúde autorizou, em julho do ano passado, as pesquisas com células embrionárias e a clonagem terapêutica.

» Brasil

A Lei de Biossegurança legaliza a pesquisa com células-tronco embrionárias se extraídas de embriões excedentes, não utilizados para fins reprodutivos por casais com problemas de infertilidade, desde que se encontrem congelados há três anos. É preciso consentimento do casal que gerou os embriões para que eles sejam destinados à ciência. Embriões inviáveis para a reprodução humana

também podem ir para a pesquisa. Proíbe-se a clonagem terapêutica.

* Estados Unidos

Desde agosto de 2001, o presidente George Bush só destina verba federal a estudos feitos com as poucas linhagens de células-tronco embrionárias que haviam sido criadas até aquela data. Mas os estados têm autonomia para criar leis próprias e a iniciativa privada também pode bancar as pesquisas. No ano passado, a Califórnia aprovou US$ 3 bilhões para estudos com células embrionárias e clonagem terapêutica.

França

Em agosto de 2004, uma revisão da lei de bioética autorizou, por um período de cinco anos, o início de pesquisas com células embrionárias a partir de material excedente mantido em clínicas de reprodução artificial. A clonagem terapêutica permanece vetada.

Alemanha

Autoriza a pesquisa com células embrionárias, desde que as linhagens estudadas sejam trazidas do exterior e tenham sido criadas antes de Io de janeiro de 2002. É preciso requerer uma autorização para importar as linhagens. A rigor, a lei inviabiliza o desenvolvimento dessa área de pesquisa.

» Portugal

Reina um vazio jurídico sobre a questão. Na prática, as pesquisas com células embrionárias não estão auto

recomposição de um sistema imunológico mais saudável. Agora o grupo de Ribeirão Preto vai iniciar, em parceria com o Hospital Albert Einstein, de São Paulo, e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um projeto de transplante de células-tronco adultas em pessoas com esclerose lateral amiotrófica (doença neurodegenerativa).

Odontologia - Dentes derivados do cultivo de células-tronco adultas? Pelo menos em animais, produzir um canino ou molar é quase realidade. Em julho do ano passado, um casal de dentistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Silvio e Monica Duailibi, publicou um artigo na revista científica Journal ofDental Research no qual descreviam a formação de dentes primitivos a partir do cultivo de células-

tronco extraídas de dentes-de-leite de ratos com 3 a 7 dias de vida. Os pesquisadores promoveram o crescimento das células num meio rico em um biopolímero e as implantaram numa região muito vascularizada do abdômen dos animais. Depois de três meses, coroas dentárias começaram a se formar ali. Antes desse estudo, um grupo de pesquisadores do exterior já havia conseguido o mesmo feito, só que em porcos. Tocado em colaboração com cientistas do Instituto Forsyth, de Boston, e do Hospital Geral de Massachusetts, o experimento com os roedores foi feito durante uma temporada de estudos dos brasileiros nos Estados Unidos e rendeu uma patente à equipe multinacional. Hoje, de volta ao Brasil, os Duailibi obtiveram resultados semelhantes nos laboratórios da Unifesp. E não pararam por aí. "Fizemos crescer dentes na mandíbula de ratos a partir das células-tronco dos animais", conta Monica, que deve publicar em breve um artigo sobre o novo trabalho. O próximo passo é tentar cultivar, ainda

Hemácias derivadas de células-tronco embrionárias humanas: uma possível fonte de sangue para transfusões

em roedores, células adultas retiradas de dentes humanos. "Vamos esgotar toda a pesquisa com animais antes de iniciarmos os testes com seres humanos", diz Silvio.

Neurologia - Alguns grupos de pesquisa no mundo produziram em animais e in vitro células nervosas a partir de células-tronco, façanha que aumenta a esperança de um dia se encontrar uma cura para as doenças neurodegenerativas, como o mal de Parkinson. Na Suécia, cientistas reverteram sintomas do Parkinson usando uma matriz escassa e polêmica de material biológico, célulastronco extraídas de fetos abortados, que têm a capacidade de se transformar em neurônios. Por isso, a ciência busca outras fontes de células-tronco igualmente capazes de se transformar em células do cérebro. Luis Eugênio Mello, da Unifesp, tentou produzir neurônios a partir do cultivo de células-tronco extraídas do sangue do cordão umbilical. Conseguiu, mas o número de neurônios obtidos, pequeno, não o entusiasmou."Esse material não é bom para gerar células nervosas", diz Mello, que pretende trabalhar, no curto prazo, com uma linhagem humana de células embrionárias importada dos Estados

Unidos. A neurocientista Rosalia Mendez-Otero, da UFRJ, conta uma história semelhante. Ela extraiu do cérebro de ratos e de camundongos célulastronco neurais e as cultivou até se tornarem neurônios. O processo, no entanto, foi muito lento. "Demorava de 12 a 15 dias para as células se dividirem e produzirem neurônios", comenta Rosalia. Com as células-tronco embrionárias, a obtenção de neurônios pode ser um processo mais rápido. Numa linha mais aplicada de pesquisa, a cientista da UFRJ testa o emprego de células da medula para reverter os sintomas do derrame cerebral. O resultado com o primeiro paciente foi bom. "Agora vamos testar a terapia em mais 25 pessoas", afirma Rosalia.

Pesquisa básica - Desde o fim da década passada, Lygia da Veiga Pereira, chefe do Laboratório de Genética Molecular do Instituto de Biociências (IB) da USP, é pioneira no país no estabelecimento de linhagens de células-tronco embrionárias de camundongos. Em 2001, ancorada nesse conhecimento, ela produziu os primeiros camundongos transgênicos nacionais, cobaias que tinham um gene modificado e podiam servir de modelo animal para o estudo

de doenças. Como outros pesquisadores brasileiros, Lygia aprendeu, em animais, a dominar algumas receitas químicas que direcionam o processo de diferenciação das células-tronco embrionárias. "Para induzir a produção de neurônios, adicionamos ácido retinóico ao meio de cultura", exemplifica a pesquisadora do IB/USP. "Para obter sangue, colocamos algumas interleucinas (uma família de proteínas)." É lógico que o processo de cultura celular não é tão simples assim, mas hoje se sabe ao menos que alguns ingredientes são indispensáveis para induzir as célulastronco a gerarem determinados tipos de tecido. Ainda neste ano Lygia deve iniciar trabalhos com células-tronco embrionárias humanas importadas.

Em Ribeirão Preto, o grupo de Dimas Covas, do Centro de Terapia Celular da USP,já domina boa parte do processo de transformação das célulastronco mesenquimais e hematopoéticas, os dois principais tipos de células genitoras presentes na medula humana, em tecidos diversos, como ossos e sangue. Também sabe extrair células mesenquimais de fontes diversas. "Dá para tirar essas células de veias e artérias e do sangue do cordão umbilical", afirma Zago, coordenador do centro. Um dos principais objetivos de seus estudos é mapear quais genes são ativados durante o processo de transformação das células-tronco da medula em tecidos mais especializados.

A pesquisa básica é custosa, demorada, intrincada. Por vezes polêmica, como no caso das células-tronco retiradas de embriões humanos, ou sem os resultados a priori esperados (a terapia gênica, por exemplo, é uma promessa que ainda não se cumpriu). Mas sem investimento em ciência é que não se vai chegar mesmo a novos tratamentos. Um exemplo de que vale a pena investir no progresso do conhecimento? No mês passado, cientistas da Universidade de Wisconsin, eles de novo, desenvolveram uma forma de cultivar as células-tronco embrionárias de origem humana sem a necessidade de mantê-las em contato com material biológico extraído de camundongos. Um passo importante para produzir linhagens de células embrionárias não contaminadas por células de animais, condição indispensável para seu emprego em humanos. •

penicos

Liberação para a comercialização de OGMs deve ampliar investimentos em biotecnologia

0 Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vai oferecer aos produtores de soja, a partir de maio, 11 variedades de sementes geneticamente modificadas adaptadas às várias áreas de plantio do país. As novas variedades, desenvolvidas em cooperação técnica com a Monsanto, têm seu plantio e comercialização autorizados pela nova Lei de Biossegurança, sancionada em 24 de março. A Embrapa e a Monsanto receberão royalties pela venda das sementes. Uma parcela deste valor formará um fundo, gerenciado por um comitê científico, que financiará pesquisas de produtos como o feijão e a batata, para atender demandas de pequenos produtores. "Esses são os resultados das primeiras pesquisas com transgênicos. Existem outros 150 cultivares em teste", diz Mônica Amâncio, da gerência de Propriedade Intelectual da Embrapa.

A nova lei encerra uma batalha legal em torno da competência da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTN-

Bio) para liberar o uso de transgênicos no país. A lei conferiu à comissão - que a partir de agora será formada por 27 doutores "de notória atuação e saber científicos"poder para aprovar pesquisas e o uso comercial de organismos geneticamente modificados (OGMs). As decisões da comissão poderão ser contestadas por órgãos e entidades de registro e fiscalização por meio de recurso encaminhado a um conselho nacional de biossegurança formado por 11 ministros.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei com sete vetos a artigos considerados inconstitucionais e contrários ao interesse público. Foi suspensa, por exemplo, a penalidade de dois a quatro anos de prisão para quem liberasse OGMs no ambiente fora das regras definidas pela lei. O argumento do Palácio do Planalto foi de que a pena era rígida,já que praticamente é a mesma prevista para quem fizer clonagem de seres humanos. O artigo que previa aumento da capacidade operacional da CTNBio e dos órgãos de fiscalização foi vetado por implicar despesas extras. O quorum de um terço dos votos da CTNBio para a aprovação de matéria, prevista na lei aprovada pela Câmara, foi igualmente rejeitado. A sistemática de votação será definida por decreto. Também

será regulamentado posteriormente o prazo para a manifestação do conselho de ministros.

Os vetos não comprometeram os pontos principais da nova legislação. Contrariaram as expectativas dos ministérios do Meio Ambiente e da Saúde, que pediram 16 vetos, mas foram bem recebidos pelas empresas e pelos pesquisadores. A Monsanto - produtora da soja Roundup Ready que durante quase sete anos esteve no epicentro da polêmica dos transgênicos no paísafirmou por meio de nota que a nova lei "representa uma vitória da ciência nacional". "Com o estabelecimento de regras claras para a regulamentação de plantas transgênicas, o Brasil poderá atrair investimentos de indústrias de biotecnologia de todo o mundo, além de incentivar as atividades de mais de 60 empresas brasileiras que hoje atuam no setor. E mais: a aprovação deste marco legal e regulatório vai proporcionar ainda a criação de empregos bem remunerados, além de investimentos na especialização da mão-de-obra", afirma a empresa.

Fim das incertezas - A Bayer Cropscience considerou o texto da lei um avanço em relação à legislação anterior, de 1995. "No que se refere à comercialização, a lei é clara e deixa pouca margem à insegurança jurídica. O texto também é claro sobre as licenças necessárias para o desenvolvimento das pesquisas e produção. Antes havia incertezas sobre as licenças necessárias", afirma André Abreu, gerente de tecnologia da divisão de biociências da Bayer Cropscience.

O Centro de Tecnologia Canavieira, antiga Coopersucar, aguardava apenas a sanção da lei para solicitar à CTNBio autorização para experimentos em campo. Os testes em casa de vegetação de plantas com maior teor de açúcar apresentaram resultados "interessantes", segundo Eugênio Ulian, responsável pelo programa de biotecnologia.

Aluízio Borem, presidente da Sociedade Brasileira de Melhoramento de Plantas e professor da Universidade Federal de Viçosa, acredita que o novo

marco legal vai atrair "investimentos pesados" da indústria de biotecnologia, já que agora a perspectiva de retorno,é segura. Aposta - garante que não está sonhando alto - que o Brasil vai superar os Estados Unidos, em dois ou três anos, no ranking da produção de soja. "Já temos produtividade maior, de

Três empresas aguardam liberação da CTNBio para o milho transgênico

2.780 kg por hectare ante 2.600 kg por hectare", compara. "Já ultrapassamos a produção norte-americana também em teor de óleo e proteína porque o nosso clima é mais quente. E a nossa soja é mais barata."

« A agenda de avaliação da CTNBio está carregada. Nos próximos meses serão analisados dois pleitos da Monsanto para a liberação comercial de algodão tolerante ao glifosato e de milho resistente a insetos; dois pedidos da Bayer para a comercialização de sementes de milho, algodão e arroz tolerantes ao

glufosinato de amônio; uma solicitação da Syngenta Seeds para a comercialização de milho resistente a insetos; e pedidos da Associação Brasileira das Indústrias Alimentícias (Abia) para a liberação de soja com alto teor de ácido oléico e sementes de milho resistentes a insetos e tolerantes a glufosinato e glifosato. Antes mesmo da sanção da lei, a comissão aprovou o plantio e comercialização de uma variedade de algodão transgênico, conhecida como Bt e patenteada pela Monsanto. O único voto contra foi do Ministério do Meio Ambiente, que promete entrar com recurso contra a decisão. Como em seu artigo 30 a lei valida os OGMs que tiverem obtido decisão técnica favorável à sua liberação comercial, as decisões da CTNBio sobre o algodão Bt e sobre soja Roundup Ready, anunciadas em 1998, prevalecerão, salvo manifestação contrária do conselho de ministros, de acordo com Reginaldo Minaré, advogado especialista em biossegurança. No mesmo dia em que autorizou a comercialização do algodão da Monsanto, a CTNBio também liberou para testes em campo uma variedade de cana-deaçúcar resistente ao mosaico, desenvolvida pela Alellyx Applied Genomics para clientes da CanaViallis, empresa de biotecnologia apoiada pelo grupo Votorantim. "Avariedade, das mais produtivas, era utilizada por produtores do Paraná, mas foi erradicada quando contaminada pela doença", explica Fernando Reinach, presidente da Alellyx e diretor executivo da Votorantim Novos Negócios. A reabilitação dessa variedade de cana-de-açúcar deverá aumentar a produtividade dos produtores, aposta Reinach. AAlellyx deverá agora submeter à aprovação da CTNBio a liberação para testes em campo de um cavalo de laranja resistente à doença conhecida como morte súbita dos citros, adianta Reinach.

A aprovação da lei, na avaliação de Reinach, criou um marco legal que deverá estimular investimentos e atrair novos empreendimentos na área de biotecnologia no país. •

GOVERNO

Modelo heterodoxo

A proposta de reforma das universidades muda estruturas burocráticas sem definir o que o país espera dessas instituições

FABRíCIO MARQUES

Para que serve a universidade ? O rascunho do anteprojeto da Lei de Educação Superior que o governo federal apresentou ao país dá uma resposta pouco ortodoxa a esta pergunta. O —^B—. texto, submetido a intenso debate nos meses de fevereiro e março, é lacônico quando trata de atribuições intrínsecas das instituições de ensino superior, como a pesquisa e a produção de conhecimento, mas se debruça, ao longo de cem artigos, sobre conceitos como responsabilidade social (prestação de serviços à comunidade e controle externo das atividades acadêmicas), gestão democrática (participação de estudantes, funcionários e professores na escolha de dirigentes) e reserva de vagas para alunos de escolas públicas. A proposta provocou reações enérgicas. No rol dos entusiastas, destacaram-se os dirigentes de universidades federais. Explicase: o projeto alivia o torniquete orçamentário a que elas foram submetidas nos últimos anos. Segundo dados da Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), no período de 1995 a 2001, as 54 instituições federais perderam 24% dos recursos para custeio (água, luz, telefone, compra de materiais) e 77% de recursos para investir em salas de aula, laboratórios, computadores e acervo bibliográfico. O projeto retira o peso das aposentadorias da folha de

Nos alicerces da proposta do MEC faltou tratar da pesquisa

pagamento, garante um volume maior de recursos e concede autonomia financeira às instituições, embora não aponte de onde sairá o dinheiro extra ou indique de que forma os recursos serão repartidos entre as unidades. Censuras ácidas vieram das universidades e faculdades particulares, submetidas a normas restritivas que, entre outros mecanismos de controle, limitam a participação dos mantenedores a 20% dos assentos no conselho superior das instituições - os demais 80% caberiam a representantes de professores, alunos, funcionários e comunidade. Há um consenso de que as federais precisavam de socorro, assim como era esperada uma regulação mais rígida das particulares, após a extraordinária expansão do sistema na década de 1990. Mas a paixão com que esses dois tópicos foram tratados desviou a atenção do debate principal, que é o tipo de universidade proposto pelo Ministério da Educação (MEC).

A crítica principal ao anteprojeto é que a universidade brasileira é muito mais complexa do que supõe o arcabouço jurídico traçado pelo governo federal. "Se era para resolver o problema das federais, o MEC poderia ter apresentado um projeto de lei orgânica das universidades. Uma reforma universitária não é urgente e merecia uma reflexão muito maior", diz o reitor da Universidade de São Paulo (USP), Adolpho Melfi. Marcos Macari, reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), concorda: "A proposta é recheada de boas intenções, como a autonomia de gestão das universidades federais e o aumento do número de estudantes matriculados em instituições públicas. Mas tem um texto ruim e prolixo, que trata de assuntos já abordados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação e ignora a realidade de universidades públicas estaduais e municipais". Carlos Henrique de Brito Cruz, que está deixando a reitoria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para assumir a diretoria científica da FAPESP, complementa: "Falta estratégia. A proposta não contempla a produção do conhecimento e valoriza demais a extensão comunitária, numa visão utilitária que apequena a universidade".

No pior dos cenários, as universidades correm o risco de canalizar recursos e esforços para cumprir as metas de ampliação de vagas e as novas tarefas de assistência à comunidade, em sacrifício da atividade de pesquisa. O titular do MEC, Tarso Genro, rejeita essa possibilidade. Lembra que a reforma estabelece a exigência, a ser cumprida num prazo de seis anos, de um corpo docente com no mínimo 50% de mestres e doutores em sala de aula e de pelo menos um terço em regime de dedicação exclusiva. E afirma que está prevista a destinação de recursos

específicos no orçamento para projetos de qualidade e expansão do ensino e pesquisa. Repetidamente, Genro se disse disposto a corrigir ambigüidades na próxima versão do projeto, que será divulgada em meados de abril para uma nova rodada de discussões. "Os únicos pontos inegociáveis são a autonomia, a expansão das vagas sem perda da qualidade e as cotas para alunos das escolas públicas", afirma o ministro. "Na nova versão do texto, deverá ser mais explicitado o papel da pesquisa como atividade intrínseca das universidades", concede Fernando Haddad, secretário-executivo do MEC.

Há sinais de que outros pontos, como a genérica sujeição de fundações de apoio às normas do anteprojeto, também serão revistos. Essa exigência motivou uma moção do Conselho Superior da FAPESP, assinada pelo presidente Carlos Vogt, que foi encaminhada ao MEC: "Um ponto em particular chamou a atenção do Conselho Superior da FAPESP: aquele, no inciso III do artigo Io que, mesmo modalizado sob a forma do 'no que couber', submete as instituições de fomento à pesquisa, de modo generalizado e, segundo nossa avaliação, indevido, ao tratamento do mesmo anteprojeto de lei, que por ser único e por tratar de matéria tão diversa corre o risco de ser perigosamente abrangente ou ser particularmente inócuo em matéria que tem suas especificidades e que, no caso das FAPs, já constituem objeto de regulação constitucional e legal em muitos dos estados do país". Numa reunião realizada na USP no dia 11 de março, o secretário Fernando Haddad garantiu que a intenção não era controlar as fundações e afirmou que o ponto será retirado. "O projeto amadurece e está melhorando", diz, otimista, o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti. O texto modificado deverá incluir temas esquecidos, como dispositivos sobre educação a distância e assistência aos estudantes. Da mesma forma, deverá haver algum refresco para as faculdades particulares. A participação de capital estrangeiro nessas instituições vai ser ampliada de 30%, no texto atual, para até 49%. A mudança faz parte da estratégia para tornar o anteprojeto mais palatável ao Congresso Nacional, que apreciará a proposta definitiva a partir de junho.

"Corporações internas" - A essência do projeto, contudo, deverá prevalecer, com impacto sobre o cotidiano das universidades. Um dos pontos mais polêmicos é a criação do conselho comunitário social, composto por membros da sociedade civil, do governo e da própria instituição,"responsável pela supervisão e acompanhamento de suas atividades" e pela elaboração de "subsídios da política geral da universidade". O temor é que o órgão tolha a autonomia acadêmica, colocando a instituição a serviço de interesses de grupos que nem sequer têm noção das complexas tarefas de uma universidade. Mesmo quem defende o projeto vê inconveniências. "Um tal conselho não pode ter a função de supervisionar as atividades da universidade, como está indicado na proposta ministerial", afirma Ana Lúcia Almeida Gazzola, reitora da Universidade Federal de Minas Ge-

Secundaristas pedem reserva de vagas nas universidades para oriundos de escolas públicas

rais (UFMG) e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Para o MEC, o medo é infundado. O objetivo seria criar "vasos comunicantes" entre a universidade e a comunidade, a exemplo do que acontece em instituições de outros países. O ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza considera que o problema não é o conselho em si, mas "a ameaça de que seja dominado por corporações internas". A Associação Brasileira de Ciências (ABC) propôs ao MEC a substituição do conselho comunitário social por um conselho de desenvolvimento, com participação externa e da comunidade e atribuições análogas às dos curadores de instituições norte-americanas e européias, que dão legitimidade externa à autoridade dos dirigentes universitários. Outro mecanismo de controle proposto é o plano de desenvolvimento institucional (PDI), que as universidades deverão apresentar a cada cinco anos, com objetivos e metas de ensino, pesquisa e extensão.

As atividades de extensão e de apoio à comunidade conquistam relevância inédita no texto do MEC, voltando-se à formação de quadros profissionais "cujas

habilitações estejam especificamente direcionadas ao atendimento de necessidades do desenvolvimento econômico, social, cultural, científico e tecnológico regional,-ou de demandas específicas de grupos e organizações sociais, inclusive no mundo do trabalho, urbano e do campo, voltados para o regime de cooperação". "Até este projeto, julgávamos que o interesse social ou a responsabilidade social das instituições de ensino superior no seu conjunto consistiam na formação de pessoal qualificado, por meio do ensino de qualidade, no desenvolvimento do conhecimento, por meio de pesquisa, e na extensão, isto é, na promoção do acesso ao conhecimento que elas detêm e produzem aos setores da sociedade que dele possam e desejem se beneficiar", observou a ex-secretária de Política Educacional do MEC Eunice Durham. "Na nova concepção, adiciona-se uma série de outras finalidades, formuladas de modo ambíguo, subsumidas no termo responsabilidade social".

Outras críticas referem-se aos métodos propostos, não aos objetivos. O texto institui a eleição direta para a escolha de reitor. Hoje tais eleições têm caráter apenas indicativo. O Conselho Universitário, composto por

70% de representantes de professores, determina os nomes (quase sempre respeitando o resultado das urnas) e os encaminha ao chefe do Executivo, a quem cabe fazer a nomeação. A democracia direta, observou o ex-reitor da USP Jacques Marcovitch em recente conferência no Instituto de Estudos Avançados da USP, distanciaria a escolha de seu principal objetivo, que é selecionar para o cargo alguém com mérito e capacidade administrativa. E abre as portas para a "partidarização da academia". Marcovitch coordenou um estudo que levantou o funcionamento do sistema eleitoral de 27 importantes universidades estrangeiras. Conclui que o ideal é um meiotermo entre a eleição direta e a escolha feita a portas fechadas por um conselho nem sempre representativo. "O cenário da eleição direta para reitor teria uma porta escancarada para o aparelhamento da universidade pública. Por ela entrariam grupos ideológicos em busca de fortalecimento. Grupos de direita, como no tempo da ditadura militar, ou grupos de vários matizes, como nos dias de hoje. Nocivos, todos, ao interesse universitário, porque visam em primeiro lugar à política e não às questões relevantes da academia", diz Marcovitch. O ministro Tarso Genro considerou exagerada a reação da comunidade acadêmica a tal preceito. Argumenta que os conselhos universitários terão autonomia para definir as regras do processo eleitoral e evitar abusos. Para o reitor da Unicamp, Carlos Henrique de Brito Cruz, a proposta rompe um equilíbrio altamente desejável. "A universidade pertence à sociedade, não aos grupos corporativos que a compõem. O chefe do Executivo, que foi eleito pelo povo, deveria manter a prerrogativa de fazer a nomeação, depois de ouvida a comunidade acadêmica", afirma.

A proposta de reservar 50% das vagas para alunos de escolas públicas (e estabelecer cotas para afrodescendentes e indígenas, obedecendo a sua proporção na população de cada estado) traz o receio de que o mérito deixe de nortear o ingresso no ensino universitário e a qualidade de ensino seja sufocada por estudantes com severíssimas lacunas de formação. "O ideal seria estabelecer a meta principal e dar autonomia para as universidades cumprirem os objetivos", diz o reitor Adolpho Melfi, da Universidade de São Paulo. "Poderíamos, por exemplo, identificar os melhores alunos das escolas públicas logo no início do ensino médio, investir na sua formação e ajudá-los a ingressar pela via do vestibular", afirma Melfi. Ele cita o exemplo da obrigatoriedade legal de vincular 30% das vagas das universidades paulistas a cursos noturnos. "Cada instituição adequou-se de forma autônoma. A lei não disse como elas deveriam fazer, apenas definiu as metas", diz. Para o presidente da SBPC, Ennio Candotti, a questão das cotas está mal colocada. "No cômputo geral, não estamos muito longe da marca dos 50% de vagas para alunos de escolas públicas. A questão é que, nas carreiras mais disputadas, o índice é irrisório, enquanto em cursos como o de pedagogia é altíssimo. É preciso encontrar meios de dar acesso a todas as carrei-

ras." A questão das cotas suscita uma coleção de críticas colaterais. Uma delas é que o anteprojeto silencia sobre a raiz do problema, que é a deficiente qualidade dos ensinos fundamental e médio. "É um equívoco fazer a reforma universitária sem vinculá-la diretamente a uma reforma do ensino básico. Não há universidade boa com ensino médio ruim", pondera o senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque (PT-DF). Igualmente, o projeto ignora os cursos noturnos, essenciais para os estudantes que necessitam trabalhar durante o dia. "Isso é revelador da ausência de um debate prévio sobre a universidade de que o país precisa. Isso está acontecendo agora", diz Candotti.

ambém se diz que o projeto é tímido ao fixar metas e frouxo na cobrança de desempenho. No artigo 3o , inciso VII, o texto estabelece como meta que as universidades públicas sejam responsáveis por 40% das vagas do sistema de ensino superior até 2011. Até meados da década de 1960 as instituições públicas eram responsáveis por 65% das matrículas do ensino superior e as instituições de ensino privado ficavam com 35% das matrículas. O quadro hoje inverteu-se, com as universidades públicas responsáveis por 30% das matrículas e as instituições privadas de ensino com 70%. Comparado à realidade de outros países, o objetivo de alcançar os 40% não é muito ambicioso. Nos Estados Unidos 77% das matrículas estão vinculadas a instituições públicas. Nos países da Europa passam dos 90%. "Se o projeto tomasse como objetivo, por exemplo, assegurar que em 15 anos 50% dos brasileiros entre 18 e 24 anos freqüentassem uma instituição qualificada de ensino superior, 50% dos quais em instituições públicas, haveria um rumo", escreveu Brito Cruz em artigo no jornal Folha de S. Paulo. "Digamos que, nos mesmos 15 anos, se desejasse, por exemplo, ter 15 universidades incluídas na lista das 500 mais importantes do mundo, em vez das quatro que ali constam. Seria desejável termos também 50% das vagas nas instituições públicas federais no período noturno em vez dos 25% que há hoje. Estabelecidas as metas, seria necessário especificar os meios para atingilas. Depois de tudo isso, chegaria, aí sim, o momento de comparar alternativas, de acordo com o resultado e com o custo, e então criar os instrumentos legais para que o Estado brasileiro persiga e atinja as metas e gere os meios para tal."

Há quem duvide que o governo consiga atingir as metas que estabeleceu. Ocorre que o projeto prevê, na expansão almejada, a reprodução do modelo das universidades federais, com pesquisa, ensino, extensão. "É um modelo caríssimo e dificilmente haverá dinheiro para

Com as cotas, os critérios que norteiam os vestibulares deverão ser revistos

isso", diz o reitor da Unesp, Marcos Macari."Poderíamos ampliar muito mais o acesso ao ensino superior propondo modelos diferentes, como o das faculdades tecnológicas. E não se trata de reduzir a qualidade. Hoje muitos estudantes passam cinco ou seis anos numa universidade e depois são subaproveitados pelo mercado de trabalho. Poderiam ter feito um curso mais curto para, mais tarde, recorrerem a uma especialização", afirma. "De que tipo de vagas estamos falando?", indaga o reitor da USP, Adolpho Melfi. "De cursos com cinco anos de duração, ou com duração menor, ou de faculdades tecnológicas? É bom que existam modelos diferentes, mas eles não são previstos no projeto", aponta.

"Falta glamour" - A trajetória da reforma foi acidentada. No primeiro ano do governo Lula, a reforma começou a ser debatida, mas voltou à estaca zero com a troca de guarda do MEC, quando Tarso Genro substituiu Cristovam Buarque. Recentemente, o governo lançou mão de medidas provisórias para realizar mudanças importantes, a exemplo da alteração no sistema de avaliação do ensino superior e, mais recentemente, do Programa

Universidade para Todos (Prouni), iniciativa inédita que garante bolsas de estudo em universidades particulares para estudantes com renda familiar baixa. Só agora conseguiu apresentar um pacote de mudanças. O desafio do governo é convencer a sociedade e o Congresso de que seu heterodoxo modelo de universidade é o mais adequado para o país. Para o físico Luiz Davidovich, professor da Universidade Federal do Pdo de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Ciências, a universidade precisa ser reformada a fim de superar obstáculos como os currículos obsoletos, o baixo número dejovens matriculados no ensino superior, a escassa demanda por profissões qualificadas e as deficiências dos ensinos médio e fundamental. Mas, diz ele, o grande erro é discutir estruturas burocráticas antes de definir o que se espera das instituições. "Falta glamour ao debate da reforma universitária", afirma. "Nos debates sobre a universidade dos anos 1950 as discussões não eram sobre formas de administração, financiamento ou eleições de reitor, e sim sobre novos modelos acadêmicos. Precisamos recuperar essas experiências renovadoras e sair da discussão burocrática." •

O Quadrante

_ de Pasteur

O pacto entre a ciência e o governo firmado ao final da Segunda Guerra Mundial e fundado na idéia da dicotomia entre pesquisa básica e pesquisa aplicada caducou. Um novo modelo de relacionamento entre ciência e tecnologia deve ser concebido para restabelecer o diálogo entre as comunidades científicas e políticas. Esse novo modelo deveria reservar um papel "criticamente importante" para a pesquisa básica inspirada pelo uso que conjugue as promessas da investigação científica e as necessidades da sociedade.

Essas três propostas - por si sós intrigantes - formam o eixo principal do livro O quadrante de Pasteur a ciência básica e a inovação tec-

Livro traduzido pela Unicamp revê pacto entre comunidade científica e governo

CLAUDIA IZIQUE

Pesquisa básica inspirada pelo uso: Pasteur

nológica, de Donald E. Stokes, editado em 1996 pela The Brooking Institution Press e recémlançado pela Editora Unicamp como parte da coleção Clássicos da Inovação. O grande mérito do livro, no entanto, está na incursão olímpica de Stokes pela história da ciência, pela história intelectual e pelas classificações das atividades de pesquisa, desde aAntigüidade clássica, para entender a relação entre ciência e tecnologia.

Para Stokes, a dicotomia entre ciência básica e aplicada consolidou-se no pós-guerra, quando, nos Estados Unidos, buscava-se uma forma de manter o apoio federal à ciência básica em tempo de paz e, ao mesmo tempo, restringir o controle do governo sobre a realização da pesquisa. Essa estratégia inspirou o documento Science, the endeless frontier, elaborado porVannevar Bush em 1945, a pedido do presi-

A idéia de criação de uma agência autônoma foi vetada pelo então presidente Harry Truman, mas a visão paradigmática e linear da relação entre pesquisa básica e inovação propugnada por Bush triunfou e foi endossada pela National Science Foundation (NSF), criada cinco anos depois. Durante décadas, o modelo linear, com algumas variantes, foi um referencial para a pesquisa e desenvolvimento. Mas, na avaliação de Stokes, a promessa de retorno tecnológico dos investimentos em pesquisa pura não tem mais força suficiente para abrir os cofres federais, e o pacto entre ciência e governo deve ser revisto.

Stokes propõe uma nova classificação das atividades de pesquisa e inovação, inserindo as atividades de pesquisa entre duas coordenadas: a primeira que dimensiona o avanço do conhecimento e a segunda, a sua aplicação. Projetada num gráfico, a pesquisa básica sem nenhuma aplicação imediata - que tem seu melhor exemplo nas investiga-

Tecnologia e desenvolvimento

A coleção Clássicos da Inovação, da Editora Unicamp, lançou, neste ano, outros dois livros de análise do desenvolvimento tecnológico. No Trajetórias da inovação - a mudança tecnológica nos Estados Unidos da América no século XX, David C. Mowery e Nathan Rosenberg analisam a institucionalização do

tura do átomo - ocupa o quadrante superior esquerdo; a pesquisa aplicada visando ao desenvolvimento tecnológico - como a do sistema de iluminação elétrica de Thomas Edison - se insere no quadrante inferior esquerdo.

dente Franklin Roosevelt, que propunha ções do físico Niels Bohr sobre a estrua criação da National Research Foundation (NRF). Essa concepção organizacional, aliás, também serviu de modelo para a FAPESR criada em 1960. Bush defendia a autonomia organizacional da NRF em relação ao governo com dois argumentos básicos: o de que a pesquisa básica não deve estar ligada a fins práticos e de que ela é precursora do desenvolvimento tecnológico.

o quadrante superior direito têm lugar as pesquisas que podem contribuir para o avanço do conhecimento - qualidade inerente da pesquisa básica - ao mesmo tempo que têm grandes perspectivas de aplicações práticas. As investigações de Pasteur na área de microbiologia - que fizeram avançar o conhecimento e beneficiaram os produtores de álcool de beterraba - são o seu exemplo mais notório. É nessa região de confluência dos preceitos das pesquisas básica e aplicada- o Quadrante de Pasteur - que Stokes inscreve a pesquisa básica inspirada pelo uso que, por colocar em movimento o conhecimento e atender às demandas sociais,

pode ser a base do novo pacto entre as comunidades científicas e políticas.

Stokes reserva o quadrante inferior esquerdo para a pesquisa que é impulsionada pela curiosidade do investigador sobre fatos que ele qualifica como "particulares", como o fazem, por exemplo, os observadores de aves.

Para Stokes, a saída para o impasse a que chegou a relação entre ciência e governo está no fortalecimento da pesquisa pura nos campos científicos que levam em conta as necessidades da sociedade, como é o caso, por exemplo, das investigações sobre o ambiente.

O apoio à pesquisa inspirada por objetivos sociais não desvia a atençãonem os recursos públicos - da pesquisa pura, ressalva Stokes. Ao contrário: fortalece a "causa" dos investimentos públicos,já que aumenta a capacidade dessa área de investigação como um todo.

Demanda, no entanto, um esforço institucionalizado do governo, por meio da construção de agendas de pesquisa financiadas por agências que consideram as necessidades da nação.

Uma parcela dos investimentos da FAPESP pode ser interpretada à luz da classificação de Stokes, no Quadrante de Pasteur, como é o caso, por exemplo, dos Programas Genoma e Biota.

O modelo de Stokes tem como referência a política científica e tecnológica norte-americana. Mas pode muito bem servir de inspiração para países que tentam traçar um caminho sustentável na direção da inovação. •

Mais dois títulos da coleção Clássicos da Inovação

processo inventivo, que aproximou a inovação da pesquisa organizada, e a contribuição de algumas mudanças tecnológicas - como o motor a combustão interna, por exemplo - para o crescimento econômico. Em Tecnologia, aprendizado e inovação - as experiências das economias de industrialização recente, os

organizadores Linsu Kim e Richard R. Nelson reúnem dez ensaios e quatro comentários de autores que analisam o progresso de países asiáticos tecnologicamente atrasados. O livro apresenta ainda um quadro comparativo entre as economias de industrialização recente do leste da Ásia e da América Latina.

Oscérebrossão mesmodiferentes

Em momentos de agressividade ou hostilidade, a atividade dos neurônios é mais intensa em muitas áreas do cérebro das mulheres que no dos homens, de acordo com um estudo da Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), Estados Unidos. Sob o efeito da nicotina, porém, o metabolismo das células nervosas cai bastante nas mulheres e sobe levemente nos homens - as diferenças iniciais praticamente desaparecem. Os resultados sugerem que a atividade cerebral relacionada a escolhas, atenção, humor, emoção e linguagem é distinta nos homens e nas mulheres, além de fornecer novas evidências de que os cérebros respondem de modo próprio ao mesmo estímulo. O coordenador desse estudo, Steven Potkin, diretor do Centro de Mapeamento do Cérebro da UCI, acredita que esse conhecimento ajudará a entender o

Porque elas são assim

A genética confirmou: as mulheres são mesmo seres especiais. Dois estudos da Nature de 17 de março esmiuçam o mais intrigante dos cromossomos humanos, o X, agora encarado como uma das chaves para entender a evolução da espécie humana, mostrando por que somos diferentes dos outros primatas,e os contrastes entre homens e mulheres que não são atribuídos aos hormônios sexuais. As mulheres têm dois X, enquanto os homens carregam um X e um Y. As conseqüências são trágicas: qualquer defeito nos genes do X tornam-se mais evidentes nos homens, já que o Y não carrega um cópia para compensar a falha. Nas mulheres uma das cópias do X é silenciada, embora não inteiramente. Um dos estudos da Nature, coordenado por Laura Carrel, da Universidade Estadual da Pen-

comportamento dos fumantes, explicando, por exemplo, por que as mulheres são menos bem-sucedidas quando tentam parar de fumar. Participaram desse estudo 42 mulheres e 77 homens, dos quais 64 eram não-fumantes. Em um dos testes tinham de participar de um jogo de hostilidade, que permitia ao ganhador controlar o som que seria tocado bem perto do jogador que perdeu - o adversário tinha a oportunidade de reta- 0 futuro depende da Izumo

liar. Os homens retribuíam regulando o som para um toque forte e repentino, como um grito, enquanto as mulheres preferiam um som mais longo, como um resmungo. •

Achave do primeiroencontro

Chama-se Izumo a recémidentificada proteína que permite ao espermatozóide fundir-se com o óvulo durante a

silvânia, Estados Unidos, mostrou que 15% dos genes escapam da inativação e 10% são inativos em alguns X e em outros não, indicando que as mulheres podem apresentar padrões distintos de expressão gênica - a inativação do X explica também por que algumas gatas têm pêlos de três cores. Já Mark Ross, do Wellcome Trust Sanger Institute, da Inglaterra, seqüenciou 99,3% das regiões gênicas do X e concluiu que tanto o X quanto oY derivaram de um par de cromossomos não-sexuais há cerca de 300 milhões de anos. Além de definirem as diferenças sexuais, os 1.098 genes do X estão associados a 10% das 221 doenças mentais de origem genética e participam da produção deproteínas importantes para o funcionamento do cérebro. •

Um X ativo e outro parcialmente inativo: peculiaridade feminina

fertilização e iniciar o processo que levará à formação dos 60 trilhões de células do corpo humano. Apresentada na Nature de 10 de março, essa e outras moléculas já conhecidas que levam à fusão das membranas celulares do espermatozóide e do óvulo podem levar a novos métodos anticoncepcionais e a novos tratamentos para a infertilidade. Masaru Okabe e sua equipe da Universidade de Osaka, no Japão, usaram um

anticorpo que bloqueia a fusão do espermatozóide de camundongos e saíram em busca da proteína que se liga a esse anticorpo. Os camundongos machos geneticamente modificados em que a Izumo foi bloqueada mostraram-se saudáveis, mas estéreis: os espermatozóides, ainda que produzidos em quantidade normal, eram incapazes de fundir-se com os óvulos. Esse mesmo anticorpo, OBF13, bloqueou a fusão de espermatozóides humanos congelados com óvulos de hamster.

A Izumo é uma proteína da família das imunoglobulinas e ganhou o mesmo nome de uma cidade do Japão que abriga a mais antiga das capelas dedicadas a casamentos, construída em tempos medievais, com 24 metros de altura. •

Congestionamento nasvias respiratórias

O bloqueio nas vias respiratórias mais estreitas do pulmão, que ocorre durante um ataque de asma, pode causar um efeito devastador em todo o conjunto de canais que conduzem o ar e dificultar a respiração - esse problema afeta cerca de 18 milhões de pes-

Efeito ampliado: bloqueio nos bronquíolos, que terminam nosalvéolos (representados ao lado), interrompe o fluxo de ar

soas e causa perto de 2 mil mortes por ano no Brasil. Por meio de imagens de pulmões em atividade, a equipe de JoséVenegas, do Hospital Geral

de Massachusetts, em Boston, Estados Unidos, mostrou que o bloqueio dos bronquíolosas ramificações mais finas das vias respiratórias - reduz o fluxo de ar para as ramificações de maneira aleatória e heterogênea e as torna mais suscetíveis ao colapso. Em seguida, atestaram as evidências experimentais por meio de um modelo matemático que levou aos mesmos resultados. Segundo seus autores, esse estudo publicado na edição eletrônica da Nature de 16 de março pode ajudar a explicar por que nem sempre funcionam os tratamentos de asma com inaladores que dilatam asvias aéreas mais finas, para facilitar a passagem de ar. •

Minos em operação

Seis meses depois do primeiro detector, entrou em operação em março o segundo detector de neutrinos do Minos, sigla de Busca das Oscilações de Neutrinos Usando o Injetor Principal. O detector recém-inaugurado (foto acima) enviará feixes de neutrinos do Fermilab, próximo a Chicago, Estados Unidos, ao outro detector, a 750 quilômetros de distância e a 750 metros abaixo da superfície. "Estamos participando ativamente desse projeto", diz Carlos Escobar, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Philippe Gouffon, da Universidade de São Paulo (USP), coordena a outra equipe brasileira que acompanha os experimentos. •

Equipes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), na Bahia, descobriram os mecanismos bioquímicos pelos quais os cacaureiros jovens enfrentam avassoura-de-bruxa, doença causada pelo fungo Crinipellis perniciosa que devastou as plantações de cacau da Bahia. Foi um trabalho de fôlego. Sob a coordenação de Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, da Unicamp, os pesquisadores acompanharam durante três anos a variação da concentra-

A luta contra avassoura-de-bruxa

ção de cerca de cem compostos químicos produzidos por 300 cacaueiros infectados e por 300 saudáveis. Após analisarem um volume respeitável de informações, agora publicado no Journal of Experimental Botany, eles concluíram que durante a fase inicial de infecção, quando os sintomas da doença se apresentam sob a forma de um ramo demasiadamente crescido (hipertrofiado) chamado vassoura verde, a planta procura deter a ação do fungo aumentando a produção de compostos químicos de-

LABORATóRIO BRASIL

Um lambari raro de 6 centímetros

Nomes científicos costumam se referir a características físicas ou comportamentais do organismo recém-descoberto. Ou ainda homenagear a região em que os exemplares da nova espécie foram achados ou uma pessoa associada aos estudos com aquele tipo de ser vivo. O nome de uma nova espécie de lambari, a Astyanax biotae, é um tributo de outra ordem: presta reverência ao Biota-FAPESP, o programa que há seis anos faz um levantamento da flora e fauna do Estado de São Paulo. Encontrada pela primeira vez em 7 de agosto de 2000 no córrego Água Mole, um riacho da bacia do rio Paranapanema no município de Diamantina do Norte, norte do Paraná, a espécie constitui provavelmente a menor das oito que compõem o gênero

nominados radicais livres. De acordo com esse estudo, feito em co-autoria com Paulo Mazzafera e Marlene Schiavinato, da Unicamp, e Alan Pomella, da empresa norteamericana MasterFoods, os radicais livres podem gerar desequilíbrios hormonais e fazer com que a região infectada seja tratada como um tecido em crescimento, que passa então a receber doses extras de nutrientes. As plantas valem-se também de outras defesas químicas, liberando até dez vezes mais alcalóides, como teobromi-

na e cafeína. "Mas nada disso funciona, porque o fungo consegue enganar a planta", comenta Pereira, que também coordena o seqüenciamento do genoma do fungo. Em seguida, a planta inicia o processo de fragmentação (degradação) de proteínas, que por sua vez aciona no tecido infectado o mecanismo de morte programada de células, também chamada de apoptose - recentemente, o grupo da Uesc, coordenado por Júlio Cascardo, conseguiu comprovar essa hipótese, de acordo com um estudo

Astyanax, que ocorrem na bacia do Alto Paraná. Seu comprimento é de até 65,5 milímetros e seu peso, de 4 gramas. Os únicos exemplares conhecidos do A. biotae foram capturados numa viagem de coleta conduzida por Ricardo Macedo Corrêa e Castro, da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto e coordenador de um dos projetos temáticos do programa Biota. Castro e Richard Vari, curadorde peixes do Mu-

seu Nacional de História Natural, de Washington, descreveram a nova espécie em um artigo publicado na Proceedings of the Biológica! Society ofWashington. Por ora, a ocorrência desse lambari se restringe a riachos do norte paranaense. A manutenção das matas ciliares parece ser importante para a preservação do A. biotae, que só foi encontrado em um único córrego protegido por esse tipo de vegetação. •

Nastrilhas de Debret

O artista francês Jean-Baptiste Debret desembarcou no Brasil aos 48 anos, em 1816, e por 15 anos explorou a paisagem brasileira. Outros sete franceses, dos quais cinco são botânicos, chegam dia 21 de abril com blocos de anotações e câmeras digitais em vez das tintas e pincéis, mas com o mesmo olhar dos expedicionários. Terão três semanas para conhecer a Mata Atlântica, em especial um de seus ambientes peculiares, a floresta de araucária, da qual só resta 0,8%. Com pesquisadoresbrasileiros,vão percorrer as matas de araucária de Campos do Jordão e a serra da Cantareira, na cidade de São Paulo; em Santa Catarina, devem conhecer as dunas e restingas de Florinópolis e as matas de São Joaquim, nas quais as araucárias crescem sob clima

Astyanax biotae: em córregos protegidos por matas ciliares

bastante frio; no Rio Grande do Sul, visitam o Parque Aparados da Serra e as florestas de Gramado e Canela; e no Paraná vão descer a serra do Mar, a partir de Curitiba. Organizada pelo Instituto Amigos Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e pelo Conservatório das Coleções Vegetais Especializadas da França (CCVS), a Araucária 2005Missão Botânica Franco-Brasileira à MataAtlântica do Sul e Sudeste do Brasil termina no dia 9 de maio em São Paulo com outra amostra da serra do Mar. "Queremos iniciar parcerias científicas e financeiras e contar com o reforço internacional para desenvolver projetos de conservação para as matas de araucária", diz Clayton Lino, presidente da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. •

Olhar matemático sobre as folhas

As folhas abaixo pertencem à mesma espécie de maracujá?

Até mesmo um especialista em classificação de plantas fi-

| submetido para publicação. | Começa então a segunda s fase da doença: quase duplica a liberação de etileno, um hormônio associado ao amadurecimento e ao apodrecimento, e o ramo infectado começa a morrer. "Esse é o mapa da doença, a partir do qual estamos criando estratégias de cultivar plantas resistentes ou de combater o fungo", diz o pesquisador da Unicamp. A partir desse estudo, que é parte do doutoramento da agrôno-

Cacaueiros no sul da Bahia: sob a sombra do fungo

caria em dúvida. Já um programa de computador demonstrou que são de espécies diferentes: as folhas da fila superior pertencem à espécie Passiflora mafilormis, as do meio à P. alata e as três de baixo à P. miersii. Examinando os detalhes dos contornos e as nervuras das folhas que escapam ao olhar humano, o programa identificou dez espécies diferentes de maracujá, previamente registradas

ma Leandra Scarpari, o fitopatologista Lyndel Meinhardt conseguiu criar um método para cultivar em laboratório o fungo em seus estágios iniciais de desenvolvimento após penetrar as células do cacaueiro - um artifício que deve facilitar o estudo das formas de combate à doença. O grupo da Unicamp encontrou também uma proteína do fungo que lhe permite resistir ao ataque de radicais livres da planta, na fase inicial da infecção. "Se conseguirmos bloquear essa proteína", diz Pereira, "a vassoura-de-bruxa poderá ser controlada." •

Sutilezas: a identidade está nos contornos e nas nervuras

em uma base de dados, com 100% de acerto. Esse olhar implacável é um módulo do projeto TreeVis, programa de identificação de folhas criado por uma equipe do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP). Outro resultado notável: o programa chegou às mesmas conclusões que a análise do DNA das plantas realizada por Juliano Gomes Pádua, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Para chegar a resultados confiáveis, é preciso colher, escanear e analisar pelo menos dez folhas da mesma planta adulta. "No final, cada espécie fica com uma assinatura diferente", afirma Odemir Bruno, coordenador do TreeVis. Os especialistas em classificação de plantas normalmente recorrem às flores, que são mais fáceis de diferenciar, mas aparecem somente uma ou duas vezes ao ano. •

Toda a noite e iodo o dia. a intolerável lucidez da insônia pesava sobre ele

JORGE LUíS BORGES. Labirintos

De olhos bem abertos

Falta de sono ativa sexualidade, aumenta a sensibilidade à dor e prejudica o fígado e o coração

RICARDO ZORZETTO FOTOS HéLIO DE ALMEIDA

Monica Levy Andersen conhece bem a importância de uma boa noite de descanso. Mesmo assim ela já abriu mão de horas preciosas de sono durante meses para se dedicar a uma paixão recente: investigar como longos períodos de privação de sono afetam o organismo. De outubro de 2002 a fevereiro de 2003, Monica se levantou de segunda a sábado às 5h30 e antes das sete já estava em seu laboratório com uma dezena de ratas preparados para os primeiros experimentos do dia. Em uma pequena sala do Laboratório do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), essa biomédica acompanhou nesses meses o comportamento de roedores mantidos acordados por quatro dias seguidos. Seu objetivo inicial era investigar a origem da agressividade e da agitação decorrentes da falta de sono, observadas pela primeira vez no final da década de 1970 pelo médico Sérgio Tufik, hoje um dos principais especialistas em distúrbios do sono no país. À frente do Centro de Estudos do Sono, Tufik coordena uma série de pesquisas que mapeiam os distúrbios do sono, capazes de provocar danos aos neurônios e a órgãos como o fígado e o coração.

Monica observou um efeito inesperado que - num primeiro momento - pode até animar os rapazes, além de questionar o conhecimento atual sobre os hormônios sexuais. Depois de tirar os ratos de um tanque com água em que se equilibravam sobre plataformas secas - se dormissem, cairiam na água e acordariam - e os transferir para suas gaiolas individuais, ela notou que metade dos animais passou a ter ereção espontânea e a ejacular antes de cair no sono, mesmo sem nenhuma rata por perto."Como a privação de sono afeta o funcionamento de uma área do sistema nervoso associada ao prazer,

encontrei nesse efeito a oportunidade de avaliar se drogas como a cocaína, a maconha e as anfetaminas de fato melhoram o desempenho sexual, como dizem seus usuários", conta Monica. E melhorou? Depende. Chamado de hipersexualidade, esse aumento de interesse por sexo tornou-se ainda mais intenso quando a biomédica injetou nos ratos cocaína ou ecstasy, drogas que agem sobre o centro cerebral de reforço do prazer. Todos os animais que receberam um desses dois compostos tiveram ereção - em muitos casos, ereções múltiplas. Antes que algum marmanjo imprudente tente repetir essa experiência, é preciso deixar claro que esse efeito só aparentemente é benéfico. O uso contínuo de cocaína causa impotência sexual e a privação prolongada de sono gera um desequilíbrio bioquímico no organismo capaz de levar à morte.

O estudo aprofundado desse efeito rendeu a Monica, aos 31 anos, uma invejável produção científica. São 34 artigos científicos, 20 deles já publicados e o restante previsto para sair em breve, todos reunidos em uma tese de doutorado de 500 páginas feita em três anos, com apoio financeiro da FAPESP. Esse trabalho permitiu-lhe ainda chegar a uma possível explicação para a hipersexualidade decorrente da insônia forçada: seria um tipo de compensação pelas ereções que ocorrem durante o sono que o roedor deixou de ter enquanto permaneceu acordado. Alguns mamíferos, entre eles os ratos e os homens, têm ereções espontâneas na mais peculiar das cinco fases do sono: o sono REM (Rapid Eyes Movement), quando os músculos associados ao movimento voluntário ficam paralisados e ocorrem os sonhos. Nessa fase o sistema nervoso central se encontra tão ativo quanto durante a vigília, razão por que o PvEM também é chamado de sono paradoxal (até uns 80 anos atrás pensava-se que a atividade cerebral era menor durante o sono). Há cerca de cinco anos, o médico Markus Schmidt, do Instituto Ohio de Neurociência e Medicina do Sono, nos Estados Unidos, propôs que essas ereções associadas ao sono REM teriam

uma função biológica: servir de treino para a cópula, já que, ao menos na natureza, a sobrevivência depende da reprodução eficiente e os encontros para o acasalamento são imprevisíveis. Portanto, é preciso estar preparado.

sses indícios levaram Monica e o orientador do seu trabalho, Sérgio Tufik, a pensarem na hipersexualidade como um segundo efeito de uma mesma causa: assim como quem não prega os olhos por uma noite inteira precisa de mais horas de sono na madrugada seguinte - é o chamado rebote de sono -, o mesmo ocorre com as ereções espontâneas do sono REM. O mais importante dessa série de estudos é indicar que o desequilíbrio dos níveis de mensageiros químicos do sistema nervoso a exemplo dos neurotransmissores dopamina e serotonina, sobre os quais agem, respectivamente, a cocaína e o ecstasy - está associado à disfunção erétil de origem neurológica. Disparada pela alteração no ritmo de liberação desses neurotransmissores em regiões do encéfalo ligadas ao desejo sexual e às emoções, essa forma de disfunção erétil é diferente daquela de origem física, provocada pela irrigação sangüínea insuficiente do pênis. "Possivelmente o desejo e o desempenho sexuais dependem de que todos os neurotransmissores se encontrem em níveis adequados no sistema nervoso", diz a pesquisadora.

Progesterona e ereção - Ao analisar o sangue dos animais, Monica fez outra descoberta intrigante, capaz de influenciar as terapias para a disfunção erétil em seres humanos. Ela constatou uma brutal redução dos níveis sangüíneos do hormônio testosterona. Encontrado em concentrações 20 vezes maiores nos machos que nas fêmeas, esse hormônio é geralmente associado ao desejo sexual e à ereção. Quatro dias depois do início do experimento, houve uma queda de cerca de 90% na taxa de testosterona dos ratos insones, enquanto os níveis

do hormônio progesterona, responsável pela preparação do útero para a implantação do feto e pelo desenvolvimento das glândulas mamárias na gravidez, apresentaram-se cinco vezes acima do esperado.

A privação de sono teria, então, provocado uma espécie de gravidez nos ratos machos? Claro que não. Monicaacredita em uma redefinição de papéis. O hormônio progesterona desempenharia no organismo masculino uma função antes atribuída à testosterona, permitir a ereção peniana, enquanto a testosterona responderia pela intensidade da libido. Em busca de confirmação, Monica deu isoladamente testosterona, progesterona ou estradiol a grupos distintos de roedores, que passaram quatro dias sem dormir e em seguida receberam cocaína - diferentemente do estudo anterior, esses animais haviam sido castrados e seus organismos praticamente não produziam mais esses hormônios. O tratamento com progesterona provocou ereção em seis de cada dez ratos, enquanto a testosterona despertou o mesmo efeito em 30%, segundo artigo publicado em 2004 no Journal ofNeuroendocrinology. Era mais um indício de que a progesterona desempenharia uma função importante na ereção. Faltava, porém, a contraprova. Em um estudo semelhante, Monica deu aos animais um composto chamado mifepristona, que anula o efeito da progesterona. Os animais que receberam mifepristona não tiveram ereção, de acordo com o artigo publicado neste mês na Hormones and Behavior. "Antes desse estudo não havia relatos científicos sobre o papel da progesterona na ereção", afirma Elaine Hull, da Universidade Estadual da Flórida, Estados Unidos, autoridade mun-

O PROJETO

Centro de Estudos do Sono

MODALIDADE

Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid)

COORDENADOR

SéRGIO TUFIK- Unifesp

INVESTIMENTO

R$ 13.121.912,69 (FAPESP)

Passei uma noite miserável, plena de sonhos amedrontadores, de visões terríveis

WILL1AM SHAKESPEARE, Ricardo III

dial em neurofisiologia do comportamento sexual. Segundo Elaine, o fato de a dose de progesterona que se mostrou eficaz ter sido muito elevada - os ratos receberam 100 miligramas por quilograma de peso, nível 250 vezes superior ao usado para deixar as ratas receptivas à cópula - não exclui a participação na ereção de outro hormônio como a corticosterona, associada ao estresse. "Mesmo assim, é um efeito interessante, uma vez que ainda não havia sido mostrada a ação da progesterona nem da corticosterona no controle da ereção", diz Elaine Hull.

Antes que os rapazes resolvam furtar o anticoncepcional das namoradas à base de progesterona, é preciso deixar claro dois pontos. Nem sempre os efeitos observados em roedores também acontecem nos seres humanos."Esses resultados não significam que um homem normal terá ereção se tomar progesterona", diz a fisiologista Janete Franci, da

Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, que estuda a fisiologia da reprodução em roedores. São necessários estudos específicos para comprovar o papel da progesterona na ereção, uma vez que os ratos avaliados por Monica não se encontravam em um estágio fisiológico normal. "Eeses trabalhos reabrem a questão da influência desse hormônio no comportamento sexual masculino", afirma Janete.

"Essa é uma de nossas principais contribuições para entender os prejuízos causados pela privação do sono", afirma Sérgio Tufik. Também ele começou a estudar as conseqüências das horas a menos de sono para o organismo há 25 anos, depois de obter um resultado inesperado em um experimento. Sob a orientação do psicofarmacologista Elisaldo Carlini, da Unifesp, Tufik investigava o efeito de drogas como a maconha sobre o sistema nervoso central quando verificou que a privação do sono REM

provocava um desequilíbrio químico e tornava as células nervosas mais sensíveis à ação da dopamina. Tufik, Carlini e o farmacologista Charles Lindsey publicaram em 1978 esse resultado em um artigo na Pharmacology, que se tornou referência nessa área. Essa descoberta reorientou o trabalho de Tufik, um homem corpulento de quase 2 metros de altura e voz grave, que coordena cerca de 60 pesquisadores no maior centro de investigação de sono do Brasil, com uma média de 25 artigos publicados por ano.

Obesidade e apnéia - A investigação do comportamento sexual exagerado dos ratos é a que mais chama a atenção, mas está longe de ser a única de relevância sobre os efeitos da falta de sono, que afeta quase um terço da populaçãocerca de 60 milhões de brasileiros. Outros estudos com animais e seres humanos estão ajudando a compreender como fatores aparentemente sem relação com o sonocomo a dor crônica de uma artrite ou o desgaste emocional de uma discussão no trabalho - afetam a qualidade do sono, pioram o desempenho da memória e nos fazem cochilar no dia seguinte. As pesquisas da equipe da Unifesp estão ajudando a melhorar o descanso noturno de quem não dorme bem por causa de breves interrupções na respiração - apnéia - durante o sono. Em geral provocada pela obstrução da passagem do ar para os pulmões e agravada pela obesidade, a apnéia atinge de 2% a 4% das pessoas com mais de 40 anos e aumenta em quatro vezes o risco de desenvolver hipertensão arterial. O acúmulo de gordura, em especial ao redor do pescoço, eleva o risco de ocorrência dessas paradas respiratórias entre os homens, segundo pesquisa coordenada pela pneumologista Sônia Togeiro, realizada com cem obesos de ambos os sexos. Já entre as mulheres a proba-

bilidade de desenvolver apnéia aumenta conforme cresce o índice de massa corporal, número obtido pela divisão do peso pelo quadrado da altura. Um dos principais tratamentos para a apnéia obstrutiva do sono é o uso de uma máscara acoplada a um aparelho que mantém o fluxo de ar para os pulmões conhecido pela sigla CPAP. Um estudo da pneumologista Lia Bittencourt mostrou que a adesão ao CPAP era maior quando os usuários passavam por um programa de orientação sobre uso do aparelho.

A médica reumatologista Suely Roizenblatt comprovou recentemente que a relação entre dor e qualidade do sono é uma via de mão dupla: a dor pode atrapalhar o sono, mas as alterações no sono também parecem aumentar a sensibilidade à dor. Em ambos os casos, o resultado é sempre uma intensa sensação de cansaço durante o dia seguinte, mesmo que a pessoa tenha dormido um número de horas suficiente para repor as energias. Por meio da polissonografia - exame que registra a atividade elétrica cerebral, os batimentos cardíacos e a respiração quando uma pessoa está dormindo -, Suely comparou o padrão de sono de 17 crianças saudáveis com o de 34 com fibromialgia, problema de origem desconhecida que provoca dores disseminadas por músculos e ossos, além de fa-

diga. Na entrevista com os portadores de fibromialgia, a pesquisadora notou que muitas mães se queixavam de não dormir bem e decidiu incluí-las na pesquisa. Resultado: 71% das mães de crianças com fibromialgia também apresentavam esse mesmo problema.

análise das polissonografias revelou uma perturbação no sono profundo, também chamado de sono de ondas lentas, que antecede o REM. "Essas alterações sutis não modificam a distribuição das fases do sono, mas afetam sua qualidade", explica Suely. Fica mais fácil compreender o que ela descobriu, com uma rápida explicação da estrutura do sono, que se caracteriza por um estágio REM e outro não-REM, com quatro fases. Quando os olhos começam a pesar após um longo dia de trabalho, é sinal de que o cérebro está mudando seu ritmo de funcionamento e começando a desacelerar. Nessa fase de sonolência, a freqüência das ondas elétricas cerebrais diminui, a consciência se esvai e os músculos relaxam. Mas qualquer barulhinho ainda incomoda e desperta. É a fase 1 do sono, que dura uns poucos minu-

tos. Na fase 2, o padrão das ondas se altera novamente e o eletroencefalograma registra rápidas descargas elétricas,de menos de um segundo de duração. O corpo já relaxou de vez e está mais difícil acordar. Essas duas fases iniciais recebem o nome de sono leve ou sono de ondas rápidas e duram cerca de 45 minutos, metade de um ciclo completo de sono.

Efeito alfa - À medida que o sono se aprofunda nas fases 3 e 4, as ondas cerebrais ficam progressivamente mais lentas. O ritmo da respiração cai, os batimentos cardíacos diminuem e os barulhos já não incomodam mais. "É quando fica mais difícil acordar", explica o biólogo inglês Paul Martin no Counting Sheep: the Science and Pleasures ofSleep and Dreams. Foi nessas fases, consideradas as mais reparadoras de todo o ciclo de sono, que surgiram essas tênues alterações chamadas padrão alfa.

Há também uma associação entre a ocorrência do padrão alfa e o aumento da intensidade da dor após o sono, como mostrou outro estudo, feito com 40 mulheres com fibromialgia e 43 sem esse problema. Segundo Suely, essa interferência chamada padrão alfa pode prejudicar a produção de serotonina. Fabricada em geral durante as fases 3 e 4 do sono, a serotonina atua como um neurotransmissor no sistema nervoso central, mas produz um efeito analgésico nos nervos periféricos. "Essa alteração do sono parece reduzir a resistência

onge dos remédios pesados

Uma vertente de pesquisas clínicas realizadas no Instituto do Sono da Unifesp vem contribuindo para melhorar a qualidade de vida das pessoas que a cada noite precisam contar rebanhos de carneiros antes de pegar no sono. Em um estudo que exigiu certo grau de ousadia, a neurologista Dalva Poyares mostrou que é possível deixar de lado, sem prejuízos à saúde, os medicamentos usados para induzir o sono. Ela propôs a um grupo de 25 pessoas com insônia crônica o abandono súbito dos benzodiazepínicos que tomavam havia pelo menos dois anos. Estima-se que

um em cada quatro insones tome esse medicamento que os médicos evitam receitar porque geram dependência.

Deu certo. Depois de alguns dias, os ex-usuários de benzodiazepínicos conseguiram dormir sem tomar nada. No primeiro dia sem o remédio, é verdade, a insônia piorou e os voluntários penaram ainda mais para dormir. Mas depois de três dias a falta de sono e o nervosismo causados pela retirada do medicamento diminuíram e essas pessoas já conseguiam dormir melhor. As polissonografias revelaram que, duas semanas depois de abandonar o remédio, a qualidade

do sono desses indivíduos já era melhor do que quando tomavam o medicamento. A razão é que os benzodiazepínicos diminuem a duração das fases 3 e 4 do sono, as mais restauradoras, segundo os resultados do estudo, publicado em 2004 no Journal of Psychiatric Research. "Os efeitos da insônia não são tão graves quanto os causados pelo uso crônico dos benzodiazepínicos", afirma Dalva. Como a insônia volta após as duas semanas sem o medicamento, a saída é buscar alternativas mais adequadas para uso prolongado, cuja indicação varia caso a caso.

ÉOh,

Sono, em

que tudo encontra descanso, o mais pacífico dos deuses, que acalma a mente...

OVÍDIO, Metamorfoses

à dor", comenta a pesquisadora. Como conseqüência, uma dor qualquer - de uma topada na quina de uma mesa, por exemplo - é sentida sempre com mais intensidade. O uso de ultra-som no tratamento da fibromialgia mostrou-se eficaz para reduzir a dor, mas não eliminou as interferências no sono de ondas lentas dessas pessoas, de acordo com um estudo de Suely e Tatiana Almeida publicado em 2003 na revista Pain.

A comparação do sono de 20 crianças e adolescentes saudáveis com idade entre 10 e 16 anos com o de 21 jovens da mesma faixa etária portadores de artrite reumatóide, inflamação que torna as articulações rígidas e doloridas, sugere o oposto ao observado na fibromialgia. Suely não encontrou interferências no sono de ondas rápidas nem no de ondas lentas, mas a polissonografia apontou que 12% das crianças e dos adolescentes com artrite acordavam durante a noite depois de adormecerem, o que ocorreu com só 2% daqueles sem inflamação nas articulações. O sono dos jovens com artrite também foi de qualidade inferior, com mais despertares ou

íem cochilarna estrada

A equipe de Marco Túlio de Mello, do Instituto do Sono, colhe há cinco anos bons resultados na redução de acidentes provocados por sonolência, causa de 30 mil a 50 mil mortes nas rodovias brasileiras. Mello começou a defender em 1995 a necessidade de reorganizar os horários de trabalho dos motoristas profissionais, a partir de entrevistas feitas com 400 motoristas de ônibus. Nas respostas, 16% deles assumiam já ter cochilado na estrada. Mas quando se perguntava "Algum amigo seu já cochilou ao volante?", o número de respostas afirmativas subia para 52%.

Em 2000, a empresa de ônibus mineira Nacional Expresso enviou 230 motoristas para o teste de polissonografia. Resultado: 55% sentiam sonolência no mesmo horário em que deveriam estar dirigindo. Mello propôs uma tabela de horários de trabalho que seguisse 5 ritmo biológico dos motoristas, que hoje alteram seus turnos só uma vez por mês, e não mais a cada 36 horas. O número de acidentes mensais caiu 40% e os gastos com pequenas batidas, de R$ 150 mil para R$ 30 mil.

No ano passado foi a vez da Reunidas Paulista, deAraçatuba, interior

de São Paulo, avaliar seus 400 motoristas. Refazendo a escala de turnos, 0 número de vítimas fatais de uma das rotas da empresa caiu de 3,6 para 0,6 a cada 100 mil quilômetros rodados. Houve ainda uma redução de até 30% dos acidentes nos horários críticos - entre 3 e 5 da manhã ou entre 1 e 3 da tarde. O efeito dessas pesquisas pode ser ainda mais amplos o Conselho Nacional de Trânsito estuda a possibilidade de tornar obrigatória a avaliação do sono de motoristas profissionais por meio da polissonografia, a cada renovação da carteira de habilitação.

interrupções nas diferentes fases do sono. Eles despertavam cerca de 12 vezes a cada hora de sono profundo e 24 durante o sono leve e o sono REM, ao passo que esses despertares não passaram de três por hora de sono entre aqueles sem problema nas articulações. O resultado desse acorda-apaga-acorda-apaga é que a pessoa se levanta com a mesma sensação de cansaço que sentia antes de se deitar.

Outra equipe do Laboratório do Sono, chefiada pela biomédica Deborah Suchecki, começa a desvendar como o desgaste de um dia tumultuado rouba a possibilidade de uma noite bem dormida. Uma das primeiras análises mostrou os efeitos despertados pelo estresse psicológico agudo, como o provocado quando se descobre um débito inesperado na conta bancária. Deborah submeteu ratos a diferentes formas de estresse com o objetivo de investigar se produziriam alterações distintas no sono. Para induzir nos animais esse estado, ela deixou um grupo de ratos imobilizados por uma hora antes do horário em que normalmente dormem e em seguida registrou o padrão de sono.

Em vez de caírem no sono, os roedores encontravam-se alertas e praticamente não dormiram nas primeiras horas após o estresse. Depois, compensando as horas a mais em claro, os ratos estenderam o sono por cerca de três horas. Esse resultado ajuda a entender por que as pessoas ficam sonolentas no dia seguinte àquele em que enfrentaram uma situação estressante, como ser assaltado na rua. Deborah obteve resultados semelhantes quando submeteu os animais de laboratório ao estresse físico, expondo-os ao frio de 4°C durante uma hora. A explicação: durante o es-

Deus abençoe o inventor do sono, a capa que cobre os pensamentos do homem... o peso que nivela o servo com o rei e o simples com o sábio

MIGUEL DE CERVANTES,

tresse o organismo responde com uma liberação mais rápida de corticóides, hormônios que aceleram a produção de energia e ajudam a manter o corpo em alerta. Mas os corticóides se tornam nocivos quando permanecem em níveis elevados por muito tempo. Há indícios de que os danos da falta de sono vão mesmo além do cansaço que não passa e da dificuldade de concentração no dia seguinte. Uma noite

mal dormida ecoa por todo o corpo. Em 1997 a bióloga Vânia DAlmeida observou os primeiros sinais de que a privação de sono poderia provocar lesões em alguns órgãos. Em uma série de estudos com ratos que dormiram menos que o normal,Vânia notou a redução de um composto químico responsável pela eliminação de radicais livres do organismo - a glutationa-no hipotálamo, área do sistema nervoso central associada à regulação da temperatura corporal, da fome e do ciclo de sono e vigília. Ainda não está claro se a redução do nível desse antioxidante realmente favorece a morte das células do hipotálamo, mas no ano passado o farmacólogo Roberto Frussa Filho descobriu como a privação de sono afeta a memória: o acúmulo de radicais livres gerados pelas noites em claro danifica as células nervosas de outra região, o hipocampo, reduzindo a capacidade de reter informações no longo prazo, segundo um estudo publicado em 2004 na revista Neuropharmacology.

O fígado e o coração também sofrem. Vânia verificou que, no fígado de ratos que sofreram privação de sono, cresce a produção de proteínas típicas de uma inflamação aguda como o fibrinogênio e a proteína C reativa, associada também a um risco maior de problemas cardíacos. Até o momento os resultados apontam que a ausência prolongada de descanso eleva o consumo de energia do organismo, que gera um desgaste no fígado semelhante àquele provocado pelo consumo exagerado de bebidas alcoólicas. Também há sinais de que, com horas a menos sob os lençóis, o músculo cardíaco acione formas alternativas de obter energia em resposta a esse desgaste extra. •

Assinatura molecular

Método usa um pequeno fragmento de DNA para identificar espécies animais

o supermercado não há produto sem um código de barras, forma de identificação composta na verdade por uma combinação de 11 dígitos. Mas cada variedade de mercadoria apresenta uma seqüência numérica específica, única e distinta da encontrada em todas as demais. Dois tipos de artigos ainda que muito parecidos, ostentam séries diferentes de algarismos. O sistema reconhece, com precisão e de forma rápida, qualquer gênero de item presente na loja. Na natureza não há animal sem o gene citrocromo C Oxidase I (COI), um dos mais estudados pela genética e localizado no genoma da mitocôndria, a usina de energia das células. Mas, segundo alguns biólogos, cada espécie tem um pequeno fragmento do COI característico, particular e diverso do achado em todas as outras. Duas variedades de organismo, ainda que extremamen-

te semelhantes, exibem, nesse gene, distintas seqüências de nucleotídeos, a unidade química que compõe o DNA. Tal pedaço do COI, de cerca de 650 nucleotídeos, dizem esses pesquisadores, contém a assinatura molecular de cada espécie e pode ser a base para a criação de um código de barras da vida: um sistema rápido, acurado e (relativamente) barato de identificar espécies em larga escala, sobretudo as de animais.

A idéia de implementar a taxonomia genética foi proposta há cerca de dois anos pelo biólogo Paul Hebert, da Universidade de Guelph, no Canadá. Desde então a nova forma de caracterizar e catalogar organismos ganha adeptos na comunidade científica. Em fevereiro, o Museu de História Natural de Londres sediou a primeira conferência internacional promovida pelo Consórcio para o Código de Barras da Vida, criado no ano passado para difundir a metodologia. Cerca de 200 pesquisadores de museus, zoológicos, herbários, universidades e instituições de pesquisa

dos cinco continentes, inclusive do Brasil, participaram do evento. O encontro serviu para alavancar dois projetos internacionais de peso para os próximos cinco anos: a iniciativa que vai determinar a assinatura genética das 10 mil espécies conhecidas de aves do planeta e o esforço que visa determinar o código de barras da vida de 23 mil espécies de peixes, 15 mil do mar e 8 mil de água doce. Há também iniciativas locais, como o projeto de caracterização genética das espécies de árvores da Costa Rica. "Estimamos que custaria cerca de US$ 1 bilhão para implementar uma biblioteca digital com o código de barras dos 10 milhões de espécies animais que devem existir, das quais conhecemos hoje apenas 10%", afirma Hebert."Seria prematuro calcular os custos da montagem de um sistema semelhante com dados de organismos de outros reinos."

Embora faça parte do Consórcio para o Código de Barras da Vida, o Brasil ainda não está formalmente engajado em nenhum projeto de larga escala que

Forma adulta da Astraptes fulgerator e exemplares de larvas da borboleta: dez espécies descobertas pela nova técnica

utilize a taxonomia molecular. "Temos apenas iniciativas pontuais, como os estudos que fazemos em nosso laboratório com morcegos e pássaros brasileiros", comenta o geneticista Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que integra o consórcio e esteve na conferência de Londres. "Mas precisamos de uma rede nacional, como ocorreu nos projetos Genoma, que estimule a participação de várias instituições em trabalhos mais abrangentes sobre certos grupos de animais, plantas e microorganismos."

Aves e borboletas - A geneticista Ana Maria de Lima Azeredo Espin, diretora do Centro de Biologia Moleculare Engenharia Genética da Universidade Estadual de Campinas (CBMEG/Unicamp), que também participou do encontro na Inglaterra, é igualmente favorável à formulação de iniciativas na área de taxonomia molecular. "Estamos pensando em propor um projeto que use o código de barras de DNA, talvez dentro do

programa Biota-FAPESP", diz Ana Maria, que usa a técnica em estudos genético-evolutivos com espécies de moscas.

A nova metodologia mostrou ser útil em duas grandes frentes: gerar uma assinatura molecular para animais já identificados pela ciência e descobrir novas espécies que não foram até agora flagradas pela taxonomia tradicional. Num estudo publicado em outubro passado na revista científica PLoS Biology, Hebert e colegas canadenses e norteamericanos mostraram que o seqüenciamento de apenas 648 nucleotídeos do gene COI foi suficiente para discriminar corretamente 260 espécies conhecidas de aves da América do Norte. Cada animal tinha um código de barras no DNA mitocondrial próprio, diferente da seqüência presente nos demais. As distinções na região analisada do gene COI eram 18 vezes maiores entre aves de duas espécies próximas do que entre dois exemplares da mesma espécie. Uma evidência de que somente com a infor-

mação genética, sem se recorrer a dados anatômicos e ambientais, era possível discriminar todas as espécies. Também em outubro, num artigo publicado na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences, Hebert e Daniel Janzen, da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos, apresentaram dez novas espécies de borboletas tropicais, todas derivadas da Astraptes fulgerator. Nesse caso, os cientistas usaram informações geradas pela técnica do código de barras de DNA para confirmar uma antiga suspeita fomentada por anos de estudos de campo com essa borboleta na Costa Rica: a de que A. fulgerator não era uma única espécie, mas sim um complexo de ao menos uma dezena de espécies ocultas. Embora gerem borboletas adultas praticamente idênticas, cada espécie exibia cores e traços físicos diferentes em sua forma larvar e se alimentava de distintas plantas - além, é claro, de apresentar uma seqüência particular no gene COI. Alguns biólogos, acostumados a classificar os organismos por meio da comparação de traços anatômicos e do estudo de hábitats, torcem o nariz para a abordagem molecular. E questionam: como um pedaço de um único gene pode identificar todos os bichos? Apesar da crítica, a nova técnica não surgiu para combater a taxonomia convencional. Ao contrário. Quer ser uma ferramenta para dinamizar o trabalho dos profissionais das espécies. "O código de barras não vai substituir a taxonomia clássica", explica Santos. "É apenas a incorporação de mais informação taxonômica, só que na forma de caracteres de DNA." Como toda técnica, tem suas limitações. O gene COI, por exemplo, pode não ser o melhor para identificar certos animais. No caso das plantas, há quase um consenso de que um gene do cloroplasto, organela encarregada da fotossíntese, deve ser o escolhido como assinatura molecular dos vegetais. •

As belas e asferas

Obra revela orquídeas do Brasil Central e descreve os danos causados porvírus e insetos

^ ntre as 16 mil orquídeas cultivadas no Instituto de I Botânica de São Paulo, A reunidas em longos corre_H_-^^fl dores cobertos de plantas até o teto, está perdida há pelo menos 20 anos uma chuva-de-ouro, assim chamada em virtude de suas pequenas flores amarelas que pendem dos galhos como cascata. Essa espécie, a Oncidiumflexuosum, é relativamente comum no Brasil, mas tem valor de jóia rara para o botânico Fábio de Barros: foi esse mesmo exemplar da chuva-de-ouro que lhe despertou a paixão pelas orquídeas há 32 anos. Naquela época, aos 16 anos, Barros fez o que hoje seria reprovável: arrancou a planta de uma árvore num sítio em Juquitiba, sudeste paulista, e a levou para sua casa, na cidade de São Paulo. Foi a mãe dele, Antonieta, quem lhe explicou que se tratava de uma orquídea. "Essa é uma das melhores lembranças que guardo de minha mãe", conta ele. Nia, como ela era conhecida, morreu meses depois e não teve tempo de ver o filho se tornar um dos principais especialistas em orquídeas no país. Barros tornou-se respeitado a ponto de seu nome ter sido atribuído por seus colegas a uma orquídea com flores púrpuras, a Pleurothallis fabiobarrosii, que vive no solo pedregoso de um conjunto de serras do norte de Minas Gerais conhecido como cadeia do Espinhaço. Cresce tam-

bém nos campos rupestres mineiros, repletos de ervas e arbustos com flores muito coloridas, uma variedade de orquídea recém-descrita por ele: a Grobya cipoensis, que perfuma e enfeita os trechos mais altos da serra do Cipó, na região central de Minas, com seu adocicado aroma de mel e flores miúdas amarelas salpicadas de marrom.

A G. cipoensis, a mais nova das 11 espécies descritas por Barros, foi apresentada em maio de 2004 em um artigo da revista inglesa Botanical Journal ofthe Linnean Society. Nesse mesmo trabalho, Barros e o ilustrador botânico Ricardo de Azevedo Lourenço descrevem outra espécie do mesmo gênero, a Grobya guieselli, cujas flores amarelas se assemelham a um pássaro. Encontrada apenas em trechos da Mata Atlântica catarinense, a G. guieselli pode ser até três vezes maior que a espécie da serra do Cipó e atingir 61 centímetros de altura.

Outras descobertas de Barros aparecem no livro Orquidologia sul-americana: uma compilação científica, coordenado por ele e por Gilberto Kerbauy, outro especialista nessas plantas, que trabalha no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Editada pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, a obra reúne estudos de cunho puramente científico e outros essencialmente práticos, assinados por 20 pesquisadores brasileiros e um argentino - enriquecidos, claro, com fotos e ilustrações deslumbrantes.

Merece destaque um estudo do próprio Barros sobre a distribuição de espécies de orquídeas nos planaltos e serras do Brasil Central. Ao analisar as serras de Minas, Goiás e Bahia, o botânico paulista constatou a surpreendente diversidade de orquídeas dessa região. Acreditava-se que essa área no coração do país fosse pobre em espécies desse grupo de plantas por ser ocupada pelo Cerrado, um tipo de vegetação normalmente seca, com árvores baixas e esparsas, sujeita a in-

As flores dos campos rupestresComparando a vegetação da serra do Cipó, em Minas, com a da ilha do Cardoso, remanescente de Mata Atlântica no litoral sul de São Paulo, Barros desfez essa idéia errônea. De fato, o Cerrado como um todo realmente apresenta baixa diversidade de orquídeas diante da exuberância da Mata Atlântica ou da Amazônia. Mas dois ambientes específicos do Cerradoos campos rupestres, que ocupam os trechos mais altos do Cerrado, acima de 1 mil metros de altitude, e as matas ciliares, que crescem nas bordas dos rios - abrigam dezenas de espécies diferentes. Por ali vivem exemplares tão distintos como a Habenaria magniscutata, espécie terrestre com raízes e folhas finas, e a Biilbophylliiin weddel//'/', de raízes e folhas carnosas - ambas exclusivas dos campos rupestres. Por fim, a diversidade de orquídeas da região do Cerrado mostrouse apenas um pouco inferior à observada na ilha do Cardoso, um refúgio cie floresta litorânea que constitui o paraíso das orquídeas: só ali, uma área aproximada de apenas 150 quilômetros quadrados,já foram identificadas 101 espécies. Esse total representa cerca de 3% das 3 mil espécies de orquídeas existentes nas florestas e nos campos do Brasil, país rico em espécies exclusivas: cerca de 1.700 só existem aqui. No mundo todo, são 20 mil espécies naturais e outras 30 mil híbridas, geradas pelo cruzamento de espécies diferentes em laboratório.

Como explicar essa inesperada riqueza do Brasil Central? Parte da resposta parece não estar ali, mas nos dois ecossistemas vizinhos: a Floresta Amazônica, a norte e noroeste, e a Mata

Atlântica, a leste. "Essas duas grandes massas de floresta preservam uma ampla variedade de espécies de orquídeas que podem ser encontradas também nas matas ciliares do Brasil Central", explica Barros. De certa maneira, as matas ciliares do Cerrado conectam esse ambiente com seus vizinhos mais úmidos, a Amazônia e a Mata Atlântica, permitindo a troca de espécies.

Bem mais difícil é explicar o que torna essas plantas tão fascinantes. As razões podem ser tão variadas como as próprias

Perigo constante: os Rhabdovirus {acima, ampliados 30.324 vezes) e uma folha com virose

orquídeas. Há espécies com 2 milímetros, outras de 4 metros de altura; as flores podem ser absolutamente brancas ou tão coloridas quanto as telas de artistas surrealistas; algumas espécies geram uma

mais de uma centena delas de uma única vez. As estratégias de sobrevivência também são notáveis: essas plantas adaptam-se a praticamente qualquer ambiente - a maioria é

- e suportam meses sem chuva porque são capazes de armazenar água e nutrientes nas folhas, nas raízes e no caule.

Cheiro de carne podre - Mas o que mais encanta nessas plantas são os diversos mecanismos de reprodução. Certa vez, o naturalista inglês Charles Darvvin, criador da teoria da evolução das espécies pela seleção natural, escreveu que as adaptações ligadas à polinização das orquídeas transcendem até mesmo o que a imaginação humana poderia criar. Exemplares de algumas espécies de Ophris imitam o parceiro sexual dos insetos polinizadores, que, seduzidos pelo odor, cor e formato, tentam copular com as flores - não dá certo, claro, mas saem de lá com o pólen, que carre-

suas flores, enquanto outras, como as dos gêneros Pleurothallis e Bulbophyl-

com seu cheiro de carne podre, mas é exatamente esse cheiro, liberado por

Hadrolaelia coccinea: nas regiões mais altas da serra do Mar

Cattleya intermedia: nas regiões mais baixas da serra do Mar

suas flores roxas, que atrai as moscase são elas que levam o pólen para outro exemplar da mesma espécie e assim garantem a fertilização da planta.

Vírus e vespas - Em outro capítulo do livro, Lo Siok Tien, Silvia Galleti e César Chagas, do Instituto Biológico de São Paulo, mostram como lidar com os principais vírus que infectam essas plantas. Dos 27 tipos já identificados, há três mais agressivos: o vírus do mosaico do Cymbidium, o da mancha anular de Odontoglossum e o Rhabdovirus. O primeiro vírus afeta 11% das orquídeas no Estado de São Paulo e tinge suas folhas com manchas amareladas. Já o vírus da mancha anular provoca o surgimento de anéis de tecido morto, enquanto o Rhabdovirus salpica as folhas de pontos castanho-avermelhados. Transmitidos principalmente pelo uso de tesouras ou de vasos contaminados, esses vírus só são contidos por meio da desinfecção do material de poda e plantio ou medidas mais radicais como a eliminação das plantas doentes ou suspeitas de estarem infectadas.

Os vírus não são os únicos inimigos naturais das orquídeas. Uma pequena vespa negra, a Calorileya nigra, deposita os ovos nas raízes de algumas espécies do gênero de Cattleya, que, como conseqüência, crescem feias e deformadas. À medida que as larvas dessa vespa se desenvolvem, surgem nas raízes globos chamados tecnicamente de galhas radiculares, descritos em detalhe em um capítulo assinado por Barros e dois especialistas do Instituto de Biociências da USP, Jane Kraus e Makoto Tanoue. Há

também outros capítulos com estudos de interesse dos produtores de orquídeas, cujas vendas movimentam por ano cerca de RS 400 mil no mercado interno, enquanto a exportação de mudas de orquídea gera um faturamento anual de cerca de USS 100 mil. É uma parcela pequena do mercado de flores no Brasil, estimado, neste mesmo livro, em RS 2 bilhões, mas esse negócio ainda pode florescer. "Há um potencial imenso a ser explorado", afirma Barros. "O Brasil tem um vasto território, clima propício para o cultivo de plantas tropicais e uma elevada variedade de espécies que podem ser cultivadas comercialmente."

A flora brasileira abriga de fato uma vasta variedade de orquídeas, muitas ainda não descobertas e outras provavelmente já extintas - só no Estado de São Paulo há 140 espécies que correm o risco de desaparecer. No Brasil, duas das orquídeas mais ameaçadas são a Cattleya schilleriana e a Cattleya velutina, bas-

e vistosas - ambas praticamente não existem mais em seu ambiente natural,

em cultivo. Mas há também formas de redimir as perdas: grupos de orquidófilos reproduzem espécies nativas raras em laboratório e mesmo reintroduzem as plantas em seu ambiente natural. É uma forma simbólica de devolver à natureza o que o homem retirou.

Cattleya amethystoglossa só nas matas da Bahia

O frioAe o calor que vêm dos ímãs

Equipe da Unicamp descobre propriedades inesperadas de materiais magnéticos

Novos conceitos científicos estão transformando o modo como os eletrodomésticos funcionam. Primeiro foi a televisão, cuja imagem não é mais gerada apenas pela colisão de elétrons ultra-acelerados com uma tela fluorescente. Aparelhos com telas de cristallíquido ou de plasma,pormeio de correntes elétricas ou de gases que originam os sinais luminosos, oferecem imagens mais nítidas, ainda que a um preço equivalente ao de um carro - de R$ 20 mil a R$ 80 mil. O próximo aparelho a passar por uma metamorfose similar deve ser a geladeira: a próxima geração não vai funcionar por meio da expansão e da contração de um gás, que retira calor do ar ao circular pelos canos das paredes do refrigerador, mas por meio da ação de campos magnéticos, que devem cumprir a mesma tarefa com maior eficiência e menor perda de energia. Nos protótipos de refrigeradores magnéticos - já em desenvolvimento em alguns países como Estados Unidos, Japão e França - o material adotado para reduzir a temperatura é o gadolínio, um metal escolhido por ser maleável e por apresentar uma eficiência aceitável à temperatura ambiente. Mas é quase certo que o gadolínio seja provisório: para os novos refrigeradores, buscam-se materiais capazes de esfriar ou esquentar com maior eficiência quando submetidos a um campo magnético. Descobertas recentes realizadas em Campinas mostram que podem de fato existir alternativas com melhor capacidade de refrigeração.

Físicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) verificaram que um composto formado por manganês e arsênio, sob alta pressão, apresenta uma capacidade de retirar calor do ambiente 20 vezes maior que a do gadolínio à pressão ambiente, de 1 atmosfera, a mesma sob a qual vivemos na superfície do planeta. É um achado científico relevante, ainda que por enquanto esteja longe de aplicação. A alta pressão a que esse composto de manganês e arsênio - o MnAs - tem de ser submetido para exibir esse resultado é apenas uma das limitações que impedem essa propriedade de ser usada de imediato nos protótipos de refrigeradores magnéticos.

Mas pode sair daí algo novo até mesmo em termos práticos porque essa capacidade tão intensa de absorver calor - batizada pelos físicos da Unicamp de efeito magnetocalórico colossalnão havia sido observada antes em nenhum outro material. "Essa descoberta abre um campo de pesquisa de outros compostos que apresentem o efeito colossal e consigam extrair muito mais energia da região a ser esfriada, sem as limitações do manganês-arsênio", comenta o físico Sérgio Gama, pesquisador da Unicamp e coordenador desse

estudo, relatado na edição de 3 de dezembro da Physical Review Letters. Nesse mesmo artigo, Gama também propõe uma explicação para o efeito colossal. Como ele e sua equipe verificaram experimentalmente, o manganêsarsênio esfria por meio de três efeitos associados (veja ilustração). O primeiro é o mecanismo mais comum dos materiais desse tipo: o desalinhamento dos spins dos elétrons. O spin é uma propriedade magnética das partículas atômicas elementares, com direção e sentido, assim como o campo magnético da Terra.A orientação do spin de uma partícula pode ser afetada por um campo magnético externo ou pelos spins das partículas vizinhas: quando os spins se alinham no mesmo sentido, a temperatura de um corpo qualquer aumentaesse é o princípio pelo qual se pretende chegar a uma refrigeração mais eficiente. O segundo mecanismo que explica o efeito colossal é a transformação da própria estrutura atômica - a rede cristalina - do MnAs. Finalmente, o terceiro e mais importante artifício do MnAs para absorver energia resulta da interação da rede cristalina com o campo magnético, expressa por meio da deformação do material.

te agora, o efeito magnetocalóricoa capacidade de um material magnético absorver ou liberar calor quando submetido a um campo magnéticoera explicado essencialmente por meio do alinhamento ou desalinhamento dos spins, sem que as mudanças na rede dos átomos tivessem muita importância. Quando submetidos a um campo magnético, em um ambiente termicamente isolado, os spins dos elétrons se alinham em um só sentido, abdicando assim do habitual pandemônio em que vivem. Esse ordenamento significa uma diminuição da entropia - ou desordem - de um sistema físico. Como não há troca de calor com o ambiente, a entropia to-

Ação em conjunto

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\a X<i

0 cristal de manganês-arsênio apresenta uma estrutura atômica hexagonal, com os spins (setas) desalinhados.

tal deve ser constante: em conseqüência, os átomos ou moléculas do material submetido ao campo se desorganizam de modo a compensar o alinhamento dos spins. Maior desordem, maior agitação atômica - e a temperatura do material aumenta.

É por meio do alinhamento de spins que um pedaço de gadolínio esquenta 4°C quando colocado em um ambiente isolado termicamente, ao qual se aplica um campo magnético de 1,5 Tesla, cerca de 30 muvezes maior que o campo magnético terrestre. Como o efeito é reversível, se retirado do campo, o gadolínio esfria os mesmos 4°C. Parece pouco para manter a cerveja bem gelada? Acontece que a construção dos refrigeradores magnéticos prevê o uso de trocadores de calor especiais, chamados regeneradores, que ampliam essa variação de temperatura. Para se tornar comercialmente viável, a refrigeração magnética depende também de novos arranjos geométricos de ímãs permanentes - como os já usados no leitor de disco rígido do computador ou nos motores que movem o limpador de pára-brisa dos carros - para que se formem campos magnéticos intensos e de baixo custo. Com o gadolínio, a capacidade de absorver ou ceder calor é de origem puramente magnética: resulta principalmente do alinhamento dos spins. É assim

que acontece também com outros materiais que apresentam o efeito magnetocalórico clássico, o mais tênue dessa categoria. É também o mecanismo básico pelo qual funcionam os materiais que apresentam o outro efeito conhecido até agora, o chamado efeito magnetocalórico gigante, evidentemente mais intenso que o clássico, mas inferiorao colossal. Algumas ligas que exibem o efeito gigante - como a chamada 5:2:2, formada por cinco átomos de gadolínio, dois de germânio e dois de silício - contam também com outro artifício: absorvem um tanto de energia, o chamado calor latente, enquanto sua temperatura permanece constante. É o mesmo fenômeno que se verifica com um bloco de gelo derretendo: o gelo absorve calor, que é usado em sua transformação para o estado líquido; sua temperatura estaciona ao chegar a 0°C e só volta a subir depois de todo o gelo ter derretido.

Deformação - Gama demonstrou experimentalmente que, no caso do manganês-arsênio, além do alinhamento dos spins dos elétrons e do calor latente, o próprio conjunto dos átomos do material, que os físicos chamam de rede cristalina, contribui de modo decisivo para explicar essa notável capacidade de extrair calor do ambiente: submetido a pressão e a um campo magnético, o

Sem campo magnético

Como o manganês-arsênio absorve e libera calor

Sob campo magnético

A estrutura do manganês-arsênio se torna romboédrica (prismas de base losangular) e os spins se alinham na direção do campo magnético (seta maior). Os átomos vibram mais intensamente e a temperatura do material aumenta.

manganês-arsênio também se deforma, provocando o efeito colossal, que é sete vezes maior que o efeito gigante. Outros materiais apresentam essa propriedade, chamada de efeito magnetoelástico, que normalmente causa sua deformação. Mas o MnAs é notável: contrai 3%. "É um valor absurdamente alto", diz Gama, "já que a deformação de outros materiais é dezenas ou centenas de vezes menor".

Embora dotado dessas propriedades, o manganês-arsênio não é um material conveniente para aplicações porque uma de suas características gera um problema insuperável: mesmo à pressão ambiente, não retorna ao ponto de origem quando submetido a um ciclo de aquecimento e resfriamento. Quando a temperatura aumenta, os spins se desalinham e seu arranjo atômico se modifica ao atingir 43°C - é esse o ponto em que ocorre achamadatransição magnética e estrutural. Mas o MnAs só volta ao estado inicial, com os spins alinhados e com a estrutura hexagonal, em uma temperatura muito mais baixa, de 35°C. É como se a água virasse vapor a 100°C e, resfriada, só voltasse ao estado líquido a 80°C. Se o MnAs fosse usado em um refrigerador, seria necessário uma energia extra para fazer o ciclo de refrigeração se fechar e outro ciclo recomeçar - algo bastante ineficiente.

Campo magnético

// Os átomos se aproximam e o cristal encolhe. As linhas tracejadas representam a estrutura atômica sem a interação magnetoelástica, responsável por essa deformação, que resulta nas linhas cheias do desenho.

"Os ciclos de refrigeração precisam começar e terminar à mesma temperatura ou com variações mínimas, para reduzir as perdas de eficiência", comenta Gama. Para complicar, quando o MnAs é submetido a altas pressões, essa diferença de temperatura aumenta ainda mais: chega a 32°C. Em busca de alternativas, o grupo da Unicamp descobriu, em estudos de outros grupos, que a diferença de temperatura entre o início e o fim do ciclo, a chamada histerese, aproxima-se do zero à pressão ambiente quando se substitui uma pequena parte (5%) do arsênio por antimônio. "Os compostos com maior quantidade de antimônio parecem promissores", diz o coordenador do grupo da Unicamp, "embora ainda se observe histerese sob pressão".

0 PROJETO

MODALIDADE

Projeto Temático

COORDENADOR

SéRGIO GAMA - Unicamp

INVESTIMENTO

R$ 2.285.714,11 (FAPESP)

Célula brasileira - Gama trabalha com materiais magnetocalóricos desde 2000, mas começou a estudar o comportamento de materiais sob pressão a partir do que ele e seu grupo conheceram em um congresso de magnetismo realizado em julho de 2003 em Roma, capital da Itália. Foi ali que viram um dispositivo do tamanho de uma caneta - uma célula de pressão -, produzida, como descobriram em seguida, por um carioca que havia criado uma empresa em Cambridge, na Inglaterra. Como o preço era alto - cerca de US$ 20 mil -, os físicos da Unicamp resolveram construir uma célula semelhante no Brasil. Fizeram um projeto próprio e conseguiram, aproveitando a habilidade dos técnicos do Instituto de Física. Construíram três células, já utilizadas por outros grupos de pesquisa do país. Cada uma delas custou menos de R$ 3 mil em materiais.

A célula brasileira, que estava pronta dois meses depois do congresso na Itália, é um cilindro de cobre-berílio de 10 centímetros de comprimento por 8 milímetros de diâmetro, com dois pistões travados por dois parafusos. Os pistões pressionam uma cápsula com uma amostra de manganês-arsênio com 1 a 2 milímetros imersa em óleo mineral. Esse cilindro é colocado dentro de um aparelho chamado magnetômetro com um sensor supercondutor por interferência quântica (do tipo Squid, na sigla em inglês), que mede o magnetismo do material que se deseja estudar, colocado dentro de uma cápsula de teflon. Com esse aparato, a equipe de Gama pôde então medir o efeito magnetocalórico sob pressão, que na época ainda não havia sido descrito.

O primeiro material a ser medido sob pressão foi justamente o manganês-arsênio, já estudado pelos físicos da Unicamp por apresentar dois efeitos gigantes: o magnetocalórico e o magnetoelástico. Gama só não foi o primeiro a reportar o efeito magnetocalórico sob pressão porque um grupo espanhol da Universidade de Zaragoza, junto com outro, de Praga, República Tcheca, publicou antes, também na revista Physical Review Letters, os resultados a que haviam chegado com um composto formado por térbio, germânio e silício. Mas era apenas o efeito gigante, não o colossal. •

Estudo do efeito magnetocalórico em compostos intermetálicos

Biblioteca de Revistas Científicas disponível na internet www.scielo.org

No mês de março, a SciELO Brasil incorporou os títulos Revista de Engenharia Agrícola (www.scielo.br/eagri) e Revista Brasileira de Epidemiologia (www.scielo.br/rbepid) na coleção, atingindo 134 títulos disponíveis integralmente na internet. Os novos títulos têm como objetivo publicar artigos originais e inéditos que contribuam para o conhecimento e desenvolvimento das suas respectivas áreas.

Ética

Quem é o autor?

Discutir os aspectos relacionados à autoria em publicações científicas, responsabilidades inerentes, práticas não-éticas e critérios para sua definição. Estes são alguns objetivos do artigo "Critérios de autoria em trabalhos científicos: um assunto polêmico e delicado", de Rosângela Monteiro e Fábio Biscegli Jatene, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Saul Goldenberg e Rosely de Fátima Pellizzon, da Universidade Federal de São Paulo, e Dinah Aguiar Poblacion, da Escola de Comunicações e Artes da USP. O estudo reflete sobre o papel dos editores de revistas científicas na coibição de desvios de autoria, enfatizando a importância do assunto e divulgando critérios éticos para sua determinação. "O principal benefício obtido com a publicação dos resultados de uma pesquisa é o progresso da ciência", diz o estudo. "As vantagens para o autor passam pelo reconhecimento de seu esforço intelectual, garantia de continuidade de seus projetos, prestígio e obtenção de posições acadêmicas hierarquicamente superiores." O artigo descreve que a principal explicação para a inflação no número de autores é a inclusão de co-autores de forma injustificada e desonesta. Por conta disso, o texto mostra um levantamento dos principais padrões de autoria irregulares, como a co-autoria "convidada", "pressionada" e "fantasma". A co-autoria"convidada", por exemplo, ocorre quando pessoas têm seus nomes incluídos como autores em um trabalho do qual não participaram."As razões para esta prática são as mais variadas, como agradar a pessoas hierarquicamente superiores, aumentar as chances de publicação do trabalho com a inclusão de nomes de maior prestígio ou, ainda, troca de favores", diz o estudo. O artigo mostra que esta prática, aparentemente inofensiva, tem implicações importantes, pois as pessoas são prejudicadas em disputas por promoções acadêmicas e na concessão de financiamentos. "Além disso, fere um dos princípios básicos da ciência, que é a transparência, colocando em jogo toda a credibilidade da pesquisa." Os autores concluem que existem várias irregularidades no estabelecimento de autoria em artigos científicos.

BRAZUIAN JOURNAL OF CARDIOVASCULAR SURGERY- VOL.19 - N° 4 - SãO JOSé DO RIO PRETO - NOV./DEZ. 2004

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid= Si678-974i2004ooo400002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Química

Uva equilibrada

A uva Isabel da Serra Gaúcha geralmente não alcança teor de açúcar suficiente para produzir vinho equilibrado e, em alguns casos, não consegue atingir a concentração mínima de álcool para vinho de mesa estabelecida pelalegislação brasileira. Com base nesses dados, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EmbrapaUva e Vinho) resolveram estudar produtos alternativos utilizados para a correção da composição química do vinho Isabel. "Chaptalização é a prática que consiste na correção da deficiência de açúcar da uva com sacarose", explicam os autores do estudo Luiz Rizzon e Alberto Miele. "Além de favorecer o equilíbrio do vinho por meio da elevação do grau alcoólico, o método também contribui na extração dos compostos fenólicos e aromáticos durante a maceração da uva." O experimento, cujos resultados podem ser encontrados no artigo "Correção do mosto da uva Isabel com diferentes produtos na Serra Gaúcha", incluiu tratamentos com sacarose, açúcar mascavo, mosto concentrado, álcool vínico e glicose de milho. As amostras de uva, provenientes dos municípios de Flores da Cunha e Farroupilha (RS), foram avaliadas em microvinificações por meio das análises clássicas, efetuadas por métodos físico-químicos, e dos elementos minerais por absorção atômica. A sacarose foi o produto mais adequado para a chaptalização do vinho, pois não incorporou componentes estranhos, não alterou a relação álcool em extrato seco reduzido e apresentou elevado rendimento alcoólico. "O álcool vínico

pode ser utilizado desde que seja um produto genuíno de procedência garantida, preferencialmente obtido de vinho branco", alertam os pesquisadores. Segundo o estudo, o mosto concentrado, o açúcar mascavo e a glicose de milho não são recomendados para a chaptalização do vinho Isabel, pois interferem na composição química e apresentam baixo rendimento alcoólico. Em nenhum caso constatou-se rendimento integral do álcool, provavelmente em conseqüência de perdas na transformação e sensibilidade analítica.

CIêNCIA RURAL - VOL. 35 - N° 2 - SANTA MARIAMAR./ABR. 2005

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=Soi0384782o050002ooo33&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Sociologia

Transformações na comunicação

A pesquisadora Isleide Fontenele, doutora em sociologia pela USP, com pós-doutorado em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, analisou algumas transformações pelas quais vêm passando as formas mercadológicas de comunicação. O artigo de sua autoria, "Os caçadores do coof\ procurou estudar o uso, pelo mercado, de uma das formas de pesquisa de "tendências culturais", as chamadas pesquisas coolhunting, com origem nos anos 1990. "Partese desse contexto com o objetivo mais amplo de entender as transformações no espaço comunicacional, presumindo que este configura nitidamente as mudanças socioculturais em curso e as relações de poder do nosso tempo", diz Isleide. Para ela, atualmente a comunicação mercadológica está numa fase de grande transformação, e a mídia, conseqüentemente, acaba passando pelo mesmo processo, pois é o mercado publicitário que assegura grande parte dos recursos disponíveis. "Por transformações nas atuais formas de comunicação mercadológica entende-se a evidente queda nos investimentos em anúncios comerciais, o que indica um cenário de mudanças nas agências de propaganda e veículos de mídia", acredita a pesquisadora. Segundo o estudo, as chamadas "pesquisas de mercado de tendências culturais", cujas origens remontam aos anos 1970, mas que ganharam um novo formato e um novo status a partir dos anos 1990, se destacam como ferramentas essenciais para as novas estratégias comunicacionais. "As informações captadas por essas pesquisas de tendências têm forte influência no direcionamento estratégico das formas de comunicação mercadológica, pois tais pesquisas visam captar as transformações nas mentalidades, nos estilos de vida e nas formas de manifestação do desejo do consumidor", sustenta o artigo. Nesse sentido, o estudo procura analisar o que mudou na "cultura de consumo" para que essas pesquisas tenham se tornado tão importantes para as grandes empresas multinacionais, por que e como elas indicam mudanças na forma de comunicar um pro-

duto e, mais ainda, que alterações elas provocam no espaço comunicacional como um todo.

LUA NOVA: REVISTA DE CULTURA E POLíTICA - N° 63SãO PAULO - 2004

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=Soi0264452004000300007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Zootecnia

Pasto eficiente

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) avaliaram com sucesso o emprego da rotação alternada do pasto de ovinos e bovinos adultos para auxiliar no controle da verminose em ovelhas. O estudo foi realizado em uma área experimental composta por três módulos de 1,67 hectare. Cada uma dessas áreas foi subdividida em oito piquetes. Vinte ovelhas lie de France, com aproximadamente 16 meses de idade, foram colocadas no módulo 1 e quatro bovinos adultos no módulo 2. Os animais permaneceram em cada piquete do módulo por cinco dias, totalizando 40 dias de permanência em cada módulo.Ao final desse período, as ovelhas foram transferidas para o módulo onde estavam os bovinos e estes para o módulo onde estavam os ovinos. Esse esquema foi mantido até o final do experimento. Um grupo-controle de 20 ovelhas permaneceu em um terceiro módulo, sem compartilhar a pastagem. As ovelhas submetidas ao manejo com bovinos apresentaram menor grau de infecção por nematódeos gastrintestinais e maiores valores de volume globular. Segundo o artigo "Efeito do pastejo rotacionado e alternado com bovinos adultos no controle da verminose em ovelhas", o pastejo rotacionado de ovinos, sem a utilização de bovinos, não foi eficiente no controle da verminose das ovelhas. "Já a utilização do pastejo rotacionado e alternado de ovinos e bovinos adultos exerceu efeito benéfico significativo no controle da verminose", escreveram os pesquisadores. Eles ressaltam a utilização da metodologia citando dois exemplos de sucesso. "Resultados satisfatórios de descontaminação da pastagem de ovinos foram obtidos na Austrália após o pastejo contínuo de bovinos por períodos mais longos, além de que também foram observados resultados positivos no Rio Grande do Sul, após a permanência de bovinos em piquetes por 90 dias", exemplificam.

ARQUIVO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINáRIA E ZOOTECNIA - VOL. 56 - N° 6 - BELO HORIZONTE - DEZ. 2004

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=Soio20935200400o6oooo6&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

LINHA DE PRODUçãO MUNDO Ecos de alerta

Uma bengala eletrônica desenvolvida pela empresa britânica Sound Foresight ajuda deficientes visuais a deslocar-se com independência e segurança. Batizada de Ultracane, o bastão usa ecos eletrônicos para alertar o deficiente visual do que ele encontrará à frente no seu caminho, como obstáculos e irregularidades nas calçadas e ruas. A novidade também tem a colaboração de pesquisadores da Universidade de Leeds, do norte da Inglaterra, que traalharam durante seis anos

Batata protege contra hepatite B

Batatas geneticamente modificadas apresentaram efeito protetor contra a hepatite B. A planta modificada produz uma das proteínas do vírus da hepatite, que pode auxiliar o sistema imune de pessoas que comerem as batatas, protegendo-as da infecção. Pesquisadores do Instituto do Câncer Roswell Park, em Buffalo, Estados Unidos, encontraram sinais de imunidade em 60% das 42 pessoas testadas. A hepatite B afeta severamente o fígado e mata milhões de pessoas todos os anos. Muitos dos casos ocorrem em países em desenvolvimento, onde comprar e estocar as vacinas existentes pode ter um custo proibitivo. A simplicidade e o baixo custo de uma vacina comestível fazem com que ela seja

no seu desenvolvimento.

Dean Water, diretor da Sound Firesight e professor da universidade, disse à agência London Press: "Nós nos inspiramos na maneira como o navio percorre um trajeto no mar na escuridão, chamado de ecolocalização". O sistema de orientação da navegação utiliza o radar e o sonar para localizar objetos que estão à frente. E se baseia no mesmo princípio usado por alguns tipos de morcego que emitem sinais de alta freqüência e captam o eco gerado por

uma candidata ideal para programas mundiais de imunização. No Irã foi aprovado para consumo humano o primeiro arroz geneticamente modificado, desenvolvido por pesquisadores iranianos em parceria com filipinos. O cereal possui um gene que o faz resistente ao ataque de insetos. Isso evita a pulverização de inseticidas sobre a plantação. •

Diamante sintético no transistor

A empresa inglesa Element Six (E6) anunciou ter encontrado um novo e rentável uso para o diamante sintético fabricado pela técnica de deposição química na fase vapor (CVD, na sigla em inglês). Numa parceria com a Universidade de Ulm, da Alemanha, o grupo de pesquisadores

Cabo da bengala vibra ao encontrar obstáculo

Proteção contra hepatite em batatas transgênicas

eles em diferentes obstácu los. Dessa forma, eles são capazes de se localizar espacialmente no escuro e interagir com o ambiente. Golfinhos ebaleias também usam a ecolocalização. "Colocar essa informação dentro de um modelo que as pessoas podem usar sem esforço consciente não é tão fácil", relata Water. As vibrações provocadas pelos ecos eletrônicos no cabo da bengala fazem o cérebro trabalhar de forma subconsciente para mapear os arredores forma semelhante à visí

ie pães de são. •

produziu com esse diamante transistores (amplificadores de sinais elétricos) chamados de Metal-Semiconductor Field-Effect Transistor (Mesfet), ou transistor de efeito de campo metal-semicondutor, portadores de cargas positivas ou negativas e cuja condutividade pode ser alterada por aplicação de um campo elétrico. Eles são produzidos normalmente com arseneto de gálio e silício. Segundo a empresa, a introdução do diamante, junto com nitrito de gálio e carboneto de silício, resulta em melhor desempenho para o transistor. •

Adesorganização de átomos na memória

As próximas gerações de celulares e câmeras fotográficas digitais poderão ter um sistema revolucionário de arquivar dados na memória eletrô-

Imagem microscópica do diamante CVD

nica.A proposta, que usa pulsos elétricos para reagrupar os átomos em vez do famoso processo binário de on ou off, é de pesquisadores do Laboratório de Pesquisa da empresa Philips e de Martijn Lankhorst, da Universidade deAachen, naAlemanha. Eles construíram um aparelho que demonstrou ser possível o novo processo, além de ser rápido e barato. Os pesquisadores afirmam que é possível transmitir informações organizando e desorganizando os átomos. Eles usaram um material chamado antimônio telureto que possui um estado amorfo porque não tem organização atômica interna definida, ao contrário dos cristais. Mas basta um pequeno pulso de eletricidade para

fazer os átomos dele se arranjarem em uma fila de forma ordeira. No segundo estágio, um pulso de alta voltagem encontra essa estrutura cristalina, fazendo o material voltar ao estado desordenado. Um sistema com antimônio telureto agrupado pode resultar em um chip de memória. Os pesquisadores, em entrevista para a revista Nature Materials (11 de março), disseram que com esse sistema um laptop pode estar pronto para o trabalho em apenas um segundo. •

Banda larga para áreas rurais

Testes de um inovador sistema de banda larga conduzidos por um consórcio de pesquisadores europeus sediados na Grã-Bretanha poderão levar essa tecnologia para áreas rurais remotas, subúrbios e usuários em movimento por meio de um dirigível. Com esse tipo de veículo, os serviços de banda larga serão 200 vezes mais rápidos do que os oferecidos hoje. O consórcio Capanina, liderado pela Universidade de York, do norte da Inglaterra, vai ajudar nos ensaios testando as plataformas aéreas em alta altitude (HAPs) e o equipamento que será instalado no dirigível. •

BRASIL

Painéis solares mais eficientes e baratos

Dirigível vai ser usado para testar expansão de banda larga

Uma planta pré-industrial de fabricação de módulos fotovoltaicos, que transformam a energia solar em elétrica, começou a funcionar em março na Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio Grande do Sul. A minifábrica tem dois anos para produzir 200 painéis solares e garantir a via.bilidade de fabricação em escala industrial. A tecnologia das células solares eficientes de baixo custo, produzidas com silício, foi desenvolvida pelos professores Adriano Moehlecke e Izete Zanesco, da Faculdade de Física e do Programa de Pós-graduação em Engenharia e Tecnologia de Materiais da PUC-RS, que por conta desse estudo receberam o Prêmio Jovem Cientista em 2002 (veja Pesquisa FAPESP n" 85). A planta piloto faz parte do projeto Eletrisol, que tem

como proposta reduzir os custos finais do módulo fotovoltaico sem perda de qualidade. "Transferir a tecnologia desenvolvida em laboratório para a linha pré-industrial é a grande motivação do projeto", diz Moehlecke. A instalação da planta pré-industrial está sendo financiada pela Petrobras, Eletrosul, Companhia Estadual de Energia Elétrica e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio da Rede Brasil de Tecnologia, do Ministério da Ciência e Tecnologia. O valor do investimento é de R$ 4 milhões. As três empresas financiadoras têm o direito de uso da tecnologia. "Passado o período de dois anos, existem prazos fixados em contrato para que elas se manifestem e comecem a industrializar o processo", diz Moehlecke.

Imagem microscópica do diamante CVD

nica.A proposta, que usa pulsos elétricos para reagrupar os átomos em vez do famoso processo binário de on ou off, é de pesquisadores do Laboratório de Pesquisa da empresa Philips e de Martijn Lankhorst, da Universidade deAachen, naAlemanha. Eles construíram um aparelho que demonstrou ser possível o novo processo, além de ser rápido e barato. Os pesquisadores afirmam que é possível transmitir informações organizando e desorganizando os átomos. Eles usaram um material chamado antimônio telureto que possui um estado amorfo porque não tem organização atômica interna definida, ao contrário dos cristais. Mas basta um pequeno pulso de eletricidade para

fazer os átomos dele se arranjarem em uma fila de forma ordeira. No segundo estágio, um pulso de alta voltagem encontra essa estrutura cristalina, fazendo o material voltar ao estado desordenado. Um sistema com antimônio telureto agrupado pode resultar em um chip de memória. Os pesquisadores, em entrevista para a revista Nature Materials (11 de março), disseram que com esse sistema um laptop pode estar pronto para o trabalho em apenas um segundo. •

Banda larga para áreas rurais

Testes de um inovador sistema de banda larga conduzidos por um consórcio de pesquisadores europeus sediados na Grã-Bretanha poderão levar essa tecnologia para áreas rurais remotas, subúrbios e usuários em movimento por meio de um dirigível. Com esse tipo de veículo, os serviços de banda larga serão 200 vezes mais rápidos do que os oferecidos hoje. O consórcio Capanina, liderado pela Universidade de York, do norte da Inglaterra, vai ajudar nos ensaios testando as plataformas aéreas em alta altitude (HAPs) e o equipamento que será instalado no dirigível. •

BRASIL

Painéis solares mais eficientes e baratos

Dirigível vai ser usado para testar expansão de banda larga

Uma planta pré-industrial de fabricação de módulos fotovoltaicos, que transformam a energia solar em elétrica, começou a funcionar em março na Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio Grande do Sul. A minifábrica tem dois anos para produzir 200 painéis solares e garantir a via.bilidade de fabricação em escala industrial. A tecnologia das células solares eficientes de baixo custo, produzidas com silício, foi desenvolvida pelos professores Adriano Moehlecke e Izete Zanesco, da Faculdade de Física e do Programa de Pós-graduação em Engenharia e Tecnologia de Materiais da PUC-RS, que por conta desse estudo receberam o Prêmio Jovem Cientista em 2002 (veja Pesquisa FAPESP n" 85). A planta piloto faz parte do projeto Eletrisol, que tem

como proposta reduzir os custos finais do módulo fotovoltaico sem perda de qualidade. "Transferir a tecnologia desenvolvida em laboratório para a linha pré-industrial é a grande motivação do projeto", diz Moehlecke. A instalação da planta pré-industrial está sendo financiada pela Petrobras, Eletrosul, Companhia Estadual de Energia Elétrica e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio da Rede Brasil de Tecnologia, do Ministério da Ciência e Tecnologia. O valor do investimento é de R$ 4 milhões. As três empresas financiadoras têm o direito de uso da tecnologia. "Passado o período de dois anos, existem prazos fixados em contrato para que elas se manifestem e comecem a industrializar o processo", diz Moehlecke.

LINHA DE PRODUçãO BRASIL

Economia na conta de água

está testando em uma resirianópolis, quanto dá para economizar por mês na conta de água. Para isso, eles estão utilizando principalmente a água de chuva nas descargas dos banheiros. Os resultados obtidos pelos pesquisadores do Departa-

Arroz mais produtivo e resistente

Duas novas variedades de arroz, desenvolvidas especialmente para as condições climáticas do Estado de São Paulo, foram lançadas pelo Instituto Agronômico (IAC), com sede em Campinas, órgão de pesquisa da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria deAgricultura eAbastecimento do Estado de São Paulo. Batizadas de IAC 105 e IAC 106, elas apresentaram produtividade superior e resistência moderada à brusone, principal doença que ataca essagramínea, caracterizada por lesões nas folhas que podem evoluir e matar até a planta.A IAC 105 supera em 9,8% em produtividade as duas varie-

economizar até 30% do gas-

sidade Federal de Santa Ca- sumo por mês. O projeto, tarina (UFSC), responsáveis que faz parte de uma das pelo projeto coordenado ações nacionais do Prograpclo professor Luiz Sérgio ma de Pesquisas em SaneaPhilippi, mostraram que, de mento Básico, começou em cada 30 dias, a água captada agosto de 2004. As medie reutilizada da chuva ga- çòes começaram em norantiu o funcionamento da vembro, após a construção descarga durante 23 dias. E da residência piloto. Nos apontam que é possível testes, tanto a água de chuva

dades que atualmente são cultivadas na região do Vale do Paraíba, principal área de produção no estado. De porte baixo e ciclo intermediário, caracterizado por 135 dias do plantio à colheita, a IAC 105 produz 6.500 quilogramas por hectare (kg/ha), e a IAC 106,

6.300 kg/ha. As sementes das novas variedades estarão disponíveis a partir de julho. •

Nanotecnologia para a indústria espacial

Cerca de 100 mil vezes mais finos do que um fio de cabe-

quanto a da pia do banheiro foram coletadas, armazenadas e reutilizadas. Na atual fase dos estudos, os pesquisadores estão desenvolvendo um sistema automático, que será instalado na residência de Ratones,

água, além do nível dos reservatórios e das válvulas de

Io, os nanotubos de carbono têm alta resistência mecânica, são excelentes condutores de calor e podem transportar eletricidade. Propriedades que fazem deles matériasprimas com diversificado potencial de aplicação. Uma delas, que está sendo estudada por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear, prevê o desenvolvimento de novos materiais para a indústria aeroespacial. "Os nanotubos de carbono serão adicionados a polímeros, como resinas fenólicas e epóxi, usados na estrutura de veículos de lançamento de foguetes, para a produção de nanocompósi-

IAC 105: nova variedade é 9,8% superior em produtividade

tos", diz a professora Glaura Goulart Silva, do Departamento de Química da UFMG, coordenadora do projeto. Dessa forma,eles podem substituir com vantagens as matrizes poliméricas puras. Misturados a determinados materiais, mesmo na proporção de apenas 2%, os nanotubos de carbono são capazes de aumentar em até 20 vezes a resistência mecânica da estrutura. Além disso, eles também melhoram a proteção térmica e a blindagem eletromagnética dos materiais, pois funcionam como condutores ou semicondutores, o que ajuda a dissipar a energia das descargas de raios.

pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e das Comunicações. Os projetos vão servir para desenvolver pesquisa aplicada e desenvolvimento científico com inovação tecnológica. Escolhidos por meio de chamadas públicas, esses projetos vão receber um financiamento total de R$ 14,5 milhões, recursos originários do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel) que são operados pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Ainda estão para ser contratados mais 13 projetos, no valor de R$ 21,9 milhões. Sempre com o objetivo de fa-

Patentes

Inovações financiadas pelo Núcleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologia (Nuplitec) da FAPESP. Contato: nuplitec@fapesp.br

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Com financiamento de R$ 90 mil do programa Uniespaço, da Agência Espacial Brasileira, o projeto terá duração de dois anos. Participam dele três grupos de pesquisa. •

Em busca daTV digital brasileira

O modelo brasileiro de televisão digital está sendo preparado por 223 pesquisadores de 58 instituições, entre empresas e instituições de pesquisa públicas ou privadas. Esses são números que envolvem apenas o primeiro lote composto de oito convênios assinados, em março,

Microscopia eletrônica: nanotubos suspensos por postes de dióxido de silício

zer da TV digital brasileira uma ponte para a inclusão digital, os pesquisadoresvão desenvolver os subsistemas de modulação,que fazem o transporte das informações digitais (bits) da emissora até o usuário, codificações de padrão de vídeo e o chamado middleware, software que faz a operação do sistema. Outro desafio é o terminal de acesso, que são receptores de TV digital, que poderão ser usados também pelas TVs analógicas. Eles terão que ser bem flexíveis tecnicamente e baratos para que possam ter grande adesão, inclusive pelas populações mais pobres. •

Leptospira interrogans: genoma gerou patente

Vacina e soro para leptospirose

Proteínas candidatas a uma vacina contra a leptospirose e à formulação de um kit para soro diagnóstico da doença em estágio inicial são o objeto da primeira patente internacional obtida pelo Nuplitec da FAPESP. A patente, concedida em fevereiro deste ano pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO), o escritório de patentes dos Estados Unidos, resultou do projeto de seqüenciamento do genoma da variedade Copenhageni da Leptospira interrogans, bactéria responsável pela maior parte dos casos da leptospirose humana no Brasil.

A trajetória para obtenção dessa patente teve início em fevereiro de 2002, quando os pesquisadores envolvidos com a pesquisa, coordenados por Ana Lúcia Tabet Oller Nascimento, do Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan, fizeram um depósito provisório

de 2 mil seqüências da L. interrogans. Dessa forma, eles garantiram a primazia sobre outros grupos de pesquisa. Um ano depois, eles reivindicaram a utilização de 23 proteínas para o desenvolvimento de vacinas ou de soro diagnóstico. Como a examinadora do USPTO pediu que as reivindicações fossem divididas em diferentes pedidos de patentes, os pesquisadores escolheram quatro proteínas que apresentavam resultados mais promissores. A patente de uma delas foi concedida e as outras três ainda estão sendo analisadas.

Título: Surface proteins of Leptospira

Inventores: Ana Lúcia Tabet Oller Nascimento (coordenadora), Paulo Lee Ho, Elizabeth Martins, Luciana Leite e Márcia Gamberini

Titularidade: FAPESP/Instituto Butantan

Grande São Paulo com parte do Vale do Paraíba e litoral sul em relevo. No município de São Paulo, a cratera Colônia, no círculo, produzida, provavelmente, por um meteorito

SENSORIAMENTO

Relevos do Brasil

Imagens captadas pelo

Endeavoure produzidas pela Embrapa mostram topografia brasileira

Mapas do Brasil com imagens captadas do espaço vão mostrar, de forma inédita, o relevo de todo o país. Montanhas, erosões, encostas e todo tipo de elevação ou desnível da superfície terrestre

estão agora mais nítidos, precisos e mais bem visualizados no conjunto de imagens da topografia brasileira que a unidade de Monitoramento por Satélite da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está preparando e irá disponibilizar a partir deste mês de abril no site da instituição. São mapas resultantes de uma metodologia desenvolvida pela Embrapa com base nos dados obtidos pela nave espacial Endeavour durante a missão realizada em fevereiro de 2000. A Missão Topográfica por Radar do Ônibus Espacial, mais conhecida pela sigla em inglês SRTM, de Shuttle Radar Topography Mission, gerou um gigantesco arquivo de dados (12 terabytes) sobre 80% da massa de terra do planeta onde vive cerca de 95% da população mundial. A missão espacial foi uma operação projetada e financiada pela Agência EspacialAmericana (Nasa),AgênciaAmericana de Inteligência Aeroespacial (NGA), em colaboração com a AgênciaEspacial Italiana (ASI) e o CentroAeroespacialAlemão (DLR). Com os dados brutos e gratuitos na mão, a equipe da Embrapa de Campinas, coordenada por Evaristo Eduardo de Miranda, iniciou o trabalho em 2002, quando a Nasa liberou os arquivos daAmérica do Sul ainda em forma de números ou imagens que nada lembram mapas coloridos e fáceis de entender. Finalizadas, as imagens ganham uma série de aplicações úteis principalmente

MARCOS DE OLIVEIRA

Quanto mais alto, mais frio

Temperatura média anual do ar (°C)

<1S 15-16 16-17 17-1 3-19 19-20 20-21 21-22 22-23 23-24 24-25 125

no âmbito do planejamento territorial e do monitoramento ambiental. "Dentre as aplicações estão o desenvolvimento sustentável da agricultura, os programas de manejo de bacias hidrográficas, a preservação dos recursos florestais, o zoneamento ecológico e econômico, os estudos de conservação de solos para identificar e evitar erosões e até a implantação de eletrificação rural e de estradas", diz Miranda. "Analisando os mapas nós podemos verificar, dependendo da direção, os declives ou aclives de uma estrada, além de sua altitude, o que pode facilitar o planejamento de viagens e

transporte de cargas, por exemplo." Os mapas da SRTM podem contribuir também para a melhoria da cartografia altimétrica existente, principalmente em áreas isoladas da Amazônia.

Os dados de altitude também vão beneficiar as telecomunicações. Com os mapas na mão, as empresas terão maior facilidade em identificar as melhores posições geográficas para torres de transmissão de celulares, por exemplo. "Acredito que o recém-criado programa Parcerias Público-Privada (PPPs) para a execução de obras de infra-estrutura também poderá se valer das imagens em

Mapa com as temperaturas médias será útil para o zoneamento agrícola

SRTM para tratar da malha rodoviária, mostrando como ela pode se expandir minimizando as interferências negativas no ambiente", diz Miranda. As imagens preparadas pela Embrapa mostram a altitude e o relevo em intervalos de 90 metros por 90 metros (quarteirões com 8 mil metros quadrados). Nos mapas gerados pela Embrapa para o município de São Paulo, por exemplo, o espigão da Paulista (elevação de terreno onde está a avenida Paulista) é perfeitamente visível, assim como as calhas e as confluências dos rios Tamanduateí, Tietê e Pinheiros, além da cratera Colônia,

Ônibus para muitasviagens

Para formar o mais completo e preciso mapa topográfico da Terra, o ônibus espacial Endeavour voou com um mastro de 60 metros de comprimento que foi estendido em pleno espaço, numa altitude de 233 quilôme-

tros. Na ponta desse mastro estava instalada uma das antenas que recebeu as ondas do radar nas bandas X e C usadas na formação da imagem. Outra antena estava no compartimento de carga do ônibus. Para completar a missão de 11 dias, entre 11 de fevereiro e 22 de fevereiro de 2000, o Endeavour orbitou a Terra 16 vezes por dia, completando 176 órbitas, com uma velocidade de 7,5 quilômetros por segundo (km/s). Com seis tripulantes,

Endeavour: nave com antena externa do radar que produziu as imagens de relevo do planeta

Rios e altitudes de São Paulo

no bairro de Parelheiros, formada, provavelmente, por um meteorito. "Nós esperamos que o governo americano libere a resolução original captada pela Endeavour, em 30 metros por 30 metros", diz Miranda. A Casa Branca resolveu restringir a resolução das imagens depois dos atentados do dia 11 de setembro de 2001. "Nós acreditamos que, em breve, eles vão liberar as imagens de 30 x 30 metros, como já estão fazendo para alguns programas de pesquisa." Mesmo com restrições, as imagens SRTM ainda são um produto sofisticado que traz avanços na obten-

essa foi a nonagésima sétima missão dos ônibus espaciais e a décima quarta do Endeavour. Essa aeronave, que foi lançada e pousou no Centro Espacial John Kennedy, na Flórida, é a quinta espaçonave da série. Sua irmã Discovery está sendo preparada para decolar em maio próximo para levar equipamentos para a Estação Espacial

Imagem do relevo mesclada com mapa da malha dos rios de São Paulo

ção de dados topográficos e também no uso do radar para esse tipo de trabalho. "Só para ter a dimensão da sofisticação da SRTM podemos compará-la com o projeto Radam (Radar para a Amazônia) que produziu imagens (e não topografia) por meio de radares em aviões, principalmente da região amazônica, na década de 1970. Se juntássemos todas as horas de vôo, gastaram quase três anos para fazer imagens de todo o Brasil com várias descontinuidades espaciais, enquanto o Endeavour fez em 11 dias medições homogêneas de quase todo o planeta."

Internacional, retomando assim os vôos dos ônibus espaciais que ficaram interrompidos com a perda da Columbia e seus tripulantes, no dia Io de fevereiro de 2003, quando a nave se desintegrou na reentrada da atmosfera terrestre. Em julho, deve ser a vez do terceiro ônibus, o Atlantis, subir ao espaço.

A tecnologia de radar usada no ônibus espacial só existe, de forma efetiva e comercial, com o satélite Radarsat, da Agência Espacial Canadense (CSA), para áreas restritas (veja Pesquisa FAPESP n° 80).

Atualmente, a maneira usual de medir relevo e altitude em grandes extensões é por meio da aerofotogrametria, em que duas câmeras captam sucessivas fotos do terreno em ângulos diferentes e controlados. Depois essas fotos são colocadas lado a lado num aparelho chamado de estereoscópio ou diretamente em computadores, pois cada vez mais câmeras digitais são utilizadas. Por meio de instrumentos ópticos ou digitais é possível ver as imagens em três dimensões e gerar as curvas e altitudes do relevo, em geral a partir de marcos geográficos conhecidos. "Com a SRTM poderemos corrigir possíveis erros do profissional que traçou as curvas feitas por esse processo óptico", diz Miranda.

As novas imagens feitas pelo Endeavour também foram formadas por duas fontes, no caso duas antenas. A nave utilizou o sistema de interferometria em que dois radares emitiram sinais nas bandas X e C, duas ondas eletromagnéticas que bateram no solo da Terra e voltaram para o ônibus espacial, onde foram captadas por dois conjuntos de antenas, inclusive uma externa presa por um mastro de 60 metros. O resultado são duas imagens captadas de posições ligeiramente diferentes. Comparando essas diferenças dos sinais refletidos, forma-se uma imagem com os relevos. O uso do radar é mais interessante do que as câmeras ópticas de aviões e satélites, para esse tipo de aplicação, porque é possível operar durante o dia e a noite, sem a interferência das nuvens. As imagens ópticas só podem ser feitas com luz solar e com o céu limpo.

O primeiro trabalho dos pesquisadores da Embrapa Monitoramento por Satélite com as novas imagens surgiu de um pedido do Ministério da Defesa com o objetivo de suprir o Exército bra-

Sergipe do alto

site da Embrapa vai apresentar imagens do relevo dos estados brasileiros

sileiro que seguiria para o Haiti no comando da missão de pazda Organização das Nações Unidas (ONU). "Nós coletamos as informações da Nasa e montamos mapas do território em três dimensões (3D), utilizando imagens da SRTM e sobre as quais foram sobrepostas imagens de vários satélites", diz Miranda. Assim, por meio de softwares específicos, é possível fazer um passeio pelas imagens como se estivéssemos num helicóptero sobre a cidade ou região. Essa mesma técnica foi usada para mostrar o Vale do Paraíba, a região da Grande São Paulo e parte do litoral paulista.

Modelo agrícola - Para demonstrar o leque de potencialidades das imagens e mapas topográficos da SRTM, os pesquisadores da Embrapa geraram uma carta das temperaturas médias do Estado de São Paulo, a partir das relações existentes entre elas e os níveis altimétricos. "É um modelo novo que contempla a altimetria para mostrar com resolução de até 90 metros por 90 metros a variação da temperatura em função do relevo, porque, aumentando a altitude, a temperatura diminui", explica Miranda. "Esse tipo de mapa é importante para o zoneamento agropecuário, porque fornece dados para uma análise mais precisa da adequação ou não de determinadas culturas agrícolas nas várias regiões do estado."

A preparação das imagens exigiu da Embrapa Monitoramento um grande esforço técnico no processamento de dados. "Nós nunca usamos tantos computadores. Se não fosse a nossa infra-estrutura de equipamentos, demoraríamos muito mais para preparar as imagens", diz Miranda. "Depois que baixamos os dados nós começamos a entendê-los, para organizar os sistemas de projeção para o Brasil." Um dos problemas apresentados por essa tecnologia é a não diferenciação de lâminas de água como rios e lagoas."Paravê-los, é preciso fazer correções com auxílio de outras imagens e mapas, principalmente de satélites." Para as visualizações em três dimensões, os pesquisadores geraram um sombreamento artificial do relevo, simulando um sol no período da tarde, posicionado ao norte da área e projetando seus raios num ângulo de 45 graus. A imagem assim obtida é facilmente projetada e facilita o entendimento dos mapas.

O primeiro estado a ter seu mapeamento de relevo pronto, a partir dos dados da SRTM, foi Sergipe, pela sua pequena dimensão de território. O trabalho realizado com ele permitiu uma maior facilidade de produção dos outros estados brasileiros. Todos os mapas e imagens numéricas estão compatíveis com a escala 1: 250.000, em que cada milímetro eqüivale a 250 metros no campo. As imagens e os dados numéricos da SRTM serão apresentados no site da Embrapa Monitoramento por Satélite (www.cnpm.embrapa.br) e em um futuro conjunto de CDs. Eles vão incorporar a coleção Brasil Visto do Espaço lançada em 2001 pela Embrapa, com base em dados do satélite Landsat, e que mostra as características ambientais do território nacional como florestas, cerrados e áreas agrícolas, sem a determinação do relevo. A Embrapa vai apresentar as duas imagens (SRTM e Landsat) lado a lado, no site e nos CDs, em mapas subdivididos por estados da federação. •

Peçonhas valiosas

Estudos com animais venenosos

resultaram no licenciamento de sete patentes candidatas a medicamentos

Q^^^^^^k intetizadas a partir ^B do veneno da jaraI raça, da cascavel, das ^k t cerdas da taturana e ^^^- ^r da saliva do carrapato-estrela, moléculas desenvolvidas pelo Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), com sede no Instituto Butantan, já resultaram em sete patentes licenciadas pelo Consórcio Farmacêutico (Coinfar), formado pelos Laboratórios Biolab-Sanus, União Química e Biosintética. Com a assinatura do contrato de licenciamento, finalizado em janeiro deste ano, o consórcio assume o compromisso de financiar todas as pesquisas necessárias para que as moléculas possam se transformar em um novo medicamento, como estudos pré-clínicos, que consistem, entre outros, de testes toxicológicos e em animais, e clínicos, feitos com seres humanos.

Três dessas patentes são de anti-hipertensivos chamados de evasins, da sigla em inglês endogenous vasopeptidase inhibitor, obtidos do veneno da jararaca (Bothropsjararaca). Esses anti-hipertensivos estão na fase de ensaios pré-clínicos há mais de dois anos, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "É provável que ainda este ano passemos aos ensaios clínicos", diz o professor Antônio Carlos Martins de Camargo, coordenador do CAT, um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP.

Duas outras patentes referem-se à proteína lopap, retirada das cerdas que

Taturana (acima) e carrapato-estrela: potencial para tratar trombose e tumores

recobrem o corpo da taturana Lonomia oblíqua, que mostrou ter potencial para transformar-se em um medicamento para tratar a trombose. A primeira patente da lopap trata da obtenção e caracterização da proteína a partir das cerdas, e sua indicação de uso na prevenção de trombose. E a segunda diz respeito à obtenção e ao uso da proteína recombinante produzida a partir de bactérias geneticamente modificadas. As duas últimas patentes licenciadas tratam, respectivamente, de uma proteína com poder analgésico chamada enpak (endogenouspain killer), obtida do veneno da cascavel (Crotalus terrificus) (veja Pesquisa FAPESP n° 100), e de uma proteína inibidora de fator de coagulação, extraída da saliva do

carrapato Amblyomma cajennense, a amblyomin-X. Em uma única dose, a enpak mostrou ter um poder de analgesia 600 vezes mais potente que o da morfina. Já a amblyominX mostrou ter ação em várias culturas de células tumorais, porém sem atingir as normais, conta Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, do Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Instituto Butantan, coordenadora das pesquisas da lopap e da amblyomin-X. "Camundongos com melanoma tiveram remissão completa do tumor e, um ano depois, ainda estão vivos e saudáveis", diz Ana Marisa.

O CAT recebe da FAPESP cerca de US$ 900 mil por ano. No entanto, alguns gastos, como manter uma equipe para cuidar da parte administrativa, não podem ser pagos com essa verba. Eles são bancados com o montante repassado pelo Coinfar, correspondente a 10% do investimento feito pela Fundação. A partir da assinatura do contrato de licenciamento de patentes, o consórcio responde pelos custos do desenvolvimento do produto. "Se for para a prateleira das farmácias, cada uma das partes, Instituto Butantan, FAPESP e Coinfar, receberá um terço dos royalties das vendas", diz Camargo. •

DlNORAH ERENO

Da natureza

OcLTcl ei

farmácia

Antiinflamatório feito com extrato de planta da Mata Atlântica está pronto para entrar no mercado

Uma planta nativa da Mata Atlântica, conhecida pelo nome de erva-baleeira ou maria-milagrosa, é a base de um antiinflamatório que já recebeu o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e está previsto para chegar às farmácias ainda neste semestre. "É o primeiro antiinflamatório tópico feito a partir do extrato de uma planta brasileira, a Cordia verbenacea" diz José Roberto Lazzarini, diretor médico e de pesquisa e desenvolvimento da Ache, empresa que vai lançar o produto em forma de creme com o nome comercial de Achefian. "Existem antiinflamatórios de plantas medicinais, mas de outras origens, como África e outros países." Patenteado no Brasil e no exterior, o novo produto pertence à classe dos fitomedicamentos, fármacos que têm em sua composição apenas substâncias ativas extraídas de plantas. Pela regulamentação da Anvisa, eles nunca podem estar misturados a princípios ativos sintéticos, vitaminas ou minerais. E as mesmas normas aplicadas para a produção de medicamentos devem ser seguidas para a de fitomedicamentos, como a comprovação de eficácia e de segurança. "Em testes clínicos, o Achefian demonstrou ser tão eficaz e seguro para os casos de tendinite crônica e dor miofascial quanto o principal antiinflamatório do mercado, que tem como princípio ativo o diclofenaco dietilamônio", diz Reynaldo Jesus-Garcia Filho, chefe da disciplina de Ortopedia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador das pesquisas na universidade. A dor miofascial tem como sintoma mais evidente dores musculares persistentes.

Estudos comparativos feitos com o creme de ervabaleeira e o de diclofenaco apontaram que o uso do fitomedicamento resultou em menos efeitos colaterais para os pacientes, como vermelhidão no local aplicado.

"Mesmo sendo usado na pele, tivemos no grupocontrole (com diclofenaco) um paciente com dor de cabeça relacionada ao uso do medicamento e outro

com dor de estômago, mostrando que há absorção significativa. No caso do grupo em estudo com a Cordia verbenacea, não houve nenhum comprometimento desse tipo", diz Jesus-Garcia. O creme de erva-baleeira apresentou efeito terapêutico com uso três vezes ao dia. "Em todos os parâmetros que analisamos na comparação entre os dois medicamentos, entre eles eficácia e efeitos colaterais, o de Cordia verbenacea apresentou uma tendência a melhores resultados, mas não foram estatisticamente significantes", diz Jesus-Garcia Filho. Para obter a comprovação estatística necessária, é preciso aumentar o número de pacientes.

A idéia de transformar o conhecimento dos caiçaras do litoral paulista, que há bastante tempo usam a planta para tratar contusões e estancar processos inflamatórios, surgiu do hábito de um dos donos e fundadores do Ache, Victor Siaulys, de utilizar a erva-baleeira depois das partidas de futebol. Ele notou que sempre que usava a"garrafada" - a infusão medicinal da plantasobre as lesões recuperava-se muito mais rapidamente. Essa constatação o incentivou a levar adiante a idéia de criar área de pesquisa e desenvolvimento para fitomedicamentos na empresa, em 1989. "Como era algo totalmente novo na época, foram muitas as dificuldades encontradas", diz Lazzarini.

Ação comprovada - O projeto seguiu em um ritmo inconstante até 1998, quando realmente tomou fôlego com a consultoria do farmacologista João Batista Calixto, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Em 2001 juntou-se ao grupo o consultor Luís Francisco Pianowski, especialista na área de tecnologia farmacêutica. Juntos, Calixto e Pianowski descobriram que o princípio ativo da planta responsável pela ação antiinflamatória não era aquele descrito até então na literatura, a artemetina, do grupo dos flavonóides, e sim o alfa-humuleno, um componente do óleo essencial. Mas até aquele momento não se conhecia seu efeito antiinflamatório. "Essa foi a grande descoberta", diz Lazzarini. A ação do alfa-humuleno como antiinflamatório

foi comprovada tanto nos testes préclínicos, em camundongos, como nos clínicos, em humanos. Para produzir um fitomedicamento não é necessário isolar o princípio ativo, como no caso dos medicamentos alopáticos.

orno se trata de um fitocomplexo, em muitos casos com mais de 50 substâncias, nem sempre se sabe o que está efetivamente agindo isoladamente ou em conjunto. "No nosso caso, nos testes em animais pudemos comprovar que o alfa-humuleno era responsável pelo efeito antiinflamatório", diz o médico Dagoberto Brandão, dono da Pharma Consulting, empresa de consultoria de desenvolvimento e pesquisa de medicamento e coordenador dos estudos pré-clínicos e clínicos do novo produto.

Tanto os óleos essenciais como os flavonóides relevantes para o medicamento concentram-se nas folhas da erva-baleeira, um arbusto encontrado principalmente no litoral da Região Sudeste. Os estudos relacionados ao cultivo e à extração do princípio ativo da planta, que englobam o desenvolvimento agronômico, químico e fitoquímico, foram realizados no Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenados pelo pesquisador Pedro Melillo de Magalhães. "A pesquisa agronômica teve como objetivo estabelecer o sistema produtivo na escala de cultivo necessária para atender à demanda de produção", diz Magalhães. Uma área do centro de pesquisa na região de Paulínia, ao lado de Campinas, com 12 hectares cultivados de erva-baleeira, é a garantia do fornecimento de matéria-prima em quantidade suficiente para a primeira fase do lançamento do produto. Nesse campo de cultivo, a cada quatro meses os arbustos são cortados a poucos centímetros da base para serem utilizados. Do mesmo tronco cortado ocorrem novos brotos, e assim sucessivamente. As

mudas de erva-baleeira plantadas no início do projeto ainda estão produzindo no campo.

A extração do óleo essencial, a matéria-prima necessária para o laboratório elaborar a formulação final, é também feita no centro de pesquisas da Unicamp, que tem um convênio de fornecimento com o Ache. Marcadores bioquímicos garantem a qualidade e a consistência do extrato, que não pode ter variação para garantir a padronização da matéria-prima. "Não pode haver nenhuma alteração na concentração dos princípios ativos, tudo tem que ser igual", diz Brandão. A padronização é uma das exigências de uma resolução da Anvisa, de março de 2004, para a produção de fitomedicamentos. E tem como objetivo controlar tanto a matéria-prima vegetal como os próprios medicamentos. Nos testes clínicos foi utilizado o extrato padronizado igual ao que vai chegar ao mercado. Agrônomos, bioquímicos, farmacêuticos e médicos somaram mais de uma centena de profissionais envolvidos com o projeto de 1998 até 2004. Os estudos pré-clínicos envolveram testes farmacológicos e toxicológicos em laboratório e depois em camundongos. "As pesquisas clínicas foram realizadas em centros universitários e seguiram rigorosamente diretrizes do Conselho Nacional de Saúde e da Anvisa", diz Brandão. Os clínicos foram feitos em três etapas, com a participação de quase 700 pacientes. Na fase 1, o produto foi testado em cerca de 290 voluntários sadios, na fase 2 em torno de 90 pacientes portadores de tendinites crônicas e de dor miofascial e na fase 3 em aproximadamente 280 pacientes com as mesmas doenças. Estudos semelhantes foram feitos nos Departamentos de Ortopedia da Unifesp e da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade de Campinas (Puccamp).

Depois de cumpridas todas as etapas dos testes pré-clínicos e clínicos, o Ache entrou com o pedido de registro na Anvisa, aprovado em novembro do ano passado, para uso do Acheflan nos casos de tendinites e dor miofascial. Agora o laboratório está pesquisando o uso do extrato em forma de comprimido para as mesmas indicações. E também começa a estudar a utilização da erva-baleeira para osteoartrite e trau-

mas físicos. Nos sete anos em que o projeto foi levado adiante sem interrupções, o Ache investiu mais de R$ 15 milhões em pesquisa e desenvolvimento do fitomedicamento. A empresa, que no ano passado faturou R$ 900 milhões, aplica anualmente R$ 10 milhões em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos.

Mercado bilionário - Por enquanto, o lançamento do Acheflan está restrito ao mercado nacional, que movimenta R$ 400 milhões por ano somente com medicamentos fitoterápicos. Alguns fitoterápicos que estão à venda, como chás e cápsulas de produtos naturais, não se enquadram na categoria de medicamentos e por isso não entram nesse cálculo. No exterior, esse segmento movimenta US$ 21 bilhões por ano. Por isso, conquistar uma fatia desse mercado bilionário é uma das metas da empresa. "Conversamos com possíveis parceiros na Europa e nos Estados Unidos e já temos vários interessados", diz Lazzarini. "Estamos agora na fase de avaliação."

A empresa tem ainda outros oito projetos de fitomedicamentos, mas que estão sob sigilo porque as patentes ainda não foram registradas. Para desenvolver os produtos nessa área criou uma divisão chamada Phytomédica, que apresentou como primeiro resultado de pesquisa e desenvolvimento um produto indicado para o tratamento dos sintomas da pós-menopausa à base de isoflavonas de soja, produto muito usado na China, de onde é originário, e no Japão. Já o novo fitomedicamento foi feito com uma planta brasileira. A pesquisa foi totalmente feita no Brasil, desde os estudos agronômicos, químicos e fitoquímicos até a formulação do produto. "O interessante é que surgiu de uma idéia que deu certo", diz Jesus-Garcia Filho. •

Implantevital

Primeiro stent nacional produzido a laservai reduzir o custo de terapias cardíacas

Dominar a tecnologia de produção de stents coronarianos pode levar o Brasil a participar do grupo de países que fabricam esses dispositivos inseridos em veias ou artérias por meio de cirurgias de angioplastia com o objetivo de desobstruí-las para que o sangue flua normalmente. O primeiro passo para a produção nacional dessas próteses foi dado no começo de março no Instituto do Coração (InCor), de São Paulo, com a colocação de um stent na artéria de um coelho. A pequena peça metálica foi desenvolvida pela empresa paulistana LaserTools, que a produziu por meio de feixes de laser. O procedimento representou o início de um longo processo de ensaios clínicos que culminarão com testes em humanos dentro de aproximadamente um ano. Só então, caso os resultados sejam satisfatórios, o dispositivo será liberado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso comercial. "Estamos confiantes de que isso vá acontecer em dois ou três anos. Até lá, teremos que vencer algumas barreiras", diz o físico e pesquisador Spero Penha Morato, sócio da LaserTools. A fabricação desse implante é de grande importância, porque existe atualmente no Brasil uma demanda da ordem de 90 mil stents coronarianos por ano e todos os dispositivos implantados são importados.

A fabricação dos stents pela LaserTools faz parte dos objetivos da empresa há sete anos."Percebemos a possibilidade de produzir esses implantes metálicos biocompatíveis desde a criação da empresa em 1998", diz Morato. "Mas, para conseguir desenvolver o dispositivo, tivemos que

criar uma rede de parceiros, porque o corte a laser, que é nossa especialidade, é apenas o primeiro passo para fabricação do produto. Depois disso virá a fase de desenvolvimento para chegarmos a um stent igual ou superior aos modelos importados, que são recobertos por fármacos", diz o pesquisador. Esse recobrimento serve para evitar a proliferação de tecido da cicatriz da parede da artéria que venha a causar uma nova obstrução do vaso, mesmo com a presença do stent.

Equipe multidisciplinar - A primeira parceria foi estabelecida no começo de 2003 com a empresa Scitech Medicai, de Goiânia, especializada na comercialização de stents. "No final daquele ano, lendo uma reportagem da revista Pesquisa FAPESP (edição 94 de dezembro de 2003), tomei conhecimento do trabalho do professor Marcelo Ganzarolli de Oliveira, do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que desenvolve filmes de polímeros usados para recobrir stents e o convidei para integrar o nosso time, que também inclui a equipe do InCor", recorda-se Morato. Naquela época, a LaserTools iniciava seu segundo projeto do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP, voltado exclusivamente para a criação de implantes médicos biocompatíveis, como stents coronarianos e periféricos (indicados para implantes em outras artérias do corpo), distractores (alongadores ósseos), telas de titânio (servem para integração óssea e são utilizadas em ortopedia e cirurgia bucomaxilar), clipes para aneurisma e implantes de coluna, tudo cortado a laser. "O desenvolvimento desses dispositivos deu origem a uma nova unidade de negócios, que

acabou se transformando na empresa Inovatech Medicai, que produzirá os stents", afirma Morato. Assim como a LaserTools no início de sua história, a Inovatech está sediada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), instalado na Cidade Universitária em São Paulo.

Desde o primeiro projeto PIPE, iniciado em 1998, a LaserTools desenvolve processos a laser para vários segmentos industriais, além de gravações com relevo. O stent e outros produtos biomédicos, portanto, marcam uma nova fase na empresa. São produtos delicados para implante no corpo humano que requerem um processo de produção minucioso. Cada peça, medindo 18 milímetros (mm) de comprimento por 1,8 mm de largura, é cortada em forma de malha metálica muito fina feita a partir de um tubo de aço inox com especificações especiais. A espessura da parede da malha é de cerca de 100 mícrons (1 mícron é a milésima parte do milímetro) e os cortes a laser para transformação do tubo na malha são feitos com uma precisão de 20 mícrons. Depois de cortado, o stent é decapado quimicamente para retirada da oxidação que aparece ao longo da produção. A etapa seguinte consiste de um tratamento térmico em alto vácuo para alívio das tensões causadas pelo corte a laser e também de um eletropolimento para dar o acabamento final. Por fim, o dispositivo passa por um processo de esterilização e fica pronto para ser implantado ou para ser recoberto por uma camada de polímero.

O stent implantado em um coelho em março no InCor é um modelo simples de aço, sem nenhum tipo de revestimento. O dispositivo ficará 30 dias em

O PROJETO

Implantes metálicos biocompatfveis

MODALIDADE

Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE)

COORDENADOR

SPERO PENHA MORATO - LaserTools

INVESTIMENTO

R$ 64.940,00 e US$ 133.510,00 (FAPESP)

Stent: malha metálica serve para desobstruir veias e artérias

uma artéria do coelho, com calibre similar a uma coronária humana, e depois será retirado para avaliação. Na primeira fase de testes, serão implantados, em nove coelhos, três diferentes tipos de stent de aço sem recobrimento, de aço recoberto com polímero e de aço revestido com polímero embebido com drogas. Estão previstos também testes com stents feitos com outras ligas metálicas e com desenhos diferenciados. Concluídos os implantes em coelhos, o procedimento seguinte será testar as malhas metálicas em coronárias de porcos. Nesses animais a avaliação do stent é realizada seis meses depois do implante.

Testes refinados - "Essas etapas experimentais, que deverão ter até um ano de duração, são fundamentais para a condução correta, do ponto de vista científico, do desenvolvimento desse tipo de dispositivo. Os estudos em animais de experimentação, coelhos e depois porcos, são muito importantes para estimar a segurança e a eficácia do dispositivo em teste. Servem também para refinar a tecnologia de confecção do dispositivo em desenvolvimento", afirma o médico Pedro Lemos, do Serviço de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista do InCor, responsável pelo implante. "Somente após a fase de estudo em animal, quando chegarmos a uma conclusão com relação ao formato final do stent, é que passaremos à fase de testes clínicos, em pacientes, que deverá ter a duração de, no mínimo, seis meses", diz Lemos.

O preço do stent nacional ainda não está definido, mas, segundo Spero, quando forem lançados no mercado serão bem mais baratos do que os similares importados, que custam entre R$ 4,5 mil (modelos de aço) e R$ 15 mil (com revestimento de fármacos)."0 valor vai depender do volume que for colocado no mercado", afirma o pesquisador, que espera produzir o suficiente para atender à demanda nacional e exportar para os vizinhos do Mercosul e de outros países. •

ENGENHARIA ELÉTRICA

O calor do corpo

Equipamento detecta variação da temperatura por meio da radiação infravermelha

uando febres, infecções ou dores não podem ter a sua causa definida de imediato é preciso exames mais apurados para decifrar esses sintomas e encontrar a origem das doenças. Uma das maneiras de fazer esse diagnóstico é medir a temperatura do corpo por radiação infravermelha. Conforme a variação da temperatura em determinada parte do corpo é possível verificar a incidência ou não de debilidades no organismo. Essa variação é detectada por uma câmera termográfica que registra a radiação e a transforma em uma imagem térmica capaz de representar ponto a ponto a temperatura superficial de um corpo. O equipamento auxilia na detecção de doenças como câncer, hanseníase, diabetes, lesões por esforço repetitivo (LER) e outros processos inflamatórios, ou ainda ser usado na medicina esportiva. Essas câmeras, que também medem a temperatura de equipamentos industriais, são bastante difundidas em alguns países, mas ainda pouco utilizadas no Brasil devido ao alto custo. Uma situação que começa a mudar com o trabalho dos pesquisadores do Instituto de Física de Universidade de São Paulo de São Carlos (IFSC/USP). Eles construíram, pela primeira vez no

país, dois protótipos de uma câmera termográfica capaz de realizar exames a distância e de modo não-invasivo.

Com o tamanho de uma câmera de vídeo convencional, o que deverá facilitar sua operação em hospitais, postos de saúde e clínicas, o equipamento desenvolvido com apoio da FAPESP captura as imagens com base em um único sensor, em que cada ponto de calor focalizado é codificado para um padrão de cores. Para detectar as imagens, dois espelhos se movimentam de forma sincronizada em direções diferentes, na vertical e na horizontal, fazendo uma varredura completa sobre todos os pontos da imagem a ser registrada. Captada pela objetiva da câmera, a radiação infravermelha se reflete nos espelhos, chegando até o sensor por meio de uma lente totalmente transparente a esse tipo de onda eletromagnética. A câmera é ligada a um computador e as imagens capturadas são salvas e analisadas por um software, também desenvolvido no laboratório.

Com exceção do sensor, importado e sem similar nacional, todos os itens da câmera termográfica foram fabricados no Brasil. Ela está preparada para medir temperaturas entre 18°C e 40°C, variações existentes na superfície do corpo humano. Para garantir esse desempenho, há uma metodologia de calibração com padrões de temperatura controlados e também desenvolvida pelo grupo. Essa calibração garante

uma sensibilidade de 0,1°C na faixa de uso para aplicações na saúde. Para utilização industrial, ela pode ser programada para medir temperaturas em faixas mais altas, de até 1.000°C.

Domínio tecnológico - De acordo com Luiz Antônio de Oliveira Nunes, que coordena a pesquisa no Laboratório de Lasers e Aplicações do IFSC/USP, a câmera termográfica não poderá ser patenteada, porque não existe inovação tecnológica, apenas domínio da tecnologia, que já é pública. "A nossa câmera não é uma cópia, o projeto é nosso e existem novidades, mas elas não justificam a patente. Nossa estratégia é dominar tecnologias importantes, disponíveis comercialmente, mas ainda não produzidas no país. Depois de dominar a tecnologia, queremos produzi-la em escala industrial", revela. A câmera nacional não tem prazo para chegar ao mercado porque ainda não está acertado quem vai produzi-la. Nunes busca parcerias com empresas para tornar viável a produção. O custo da câmera ainda é caro, cerca de US$ 10 mil, mas é um preço três vezes menor que o de uma similar importada. O mercado para esse equipamento é o de hospitais, postos de saúde e até aeroportos. Na área de clínica estética, a incidência de celulite poderá ser mais bem avaliada com as câmeras termográficas, que mostram onde o fluxo de calor é bloqueado pelas gorduras, mes-

Em vermelho, lesão no braço esquerdo da paciente

mo em problemas iniciais. Outra possibilidade é o uso veterinário. "Por exemplo, se um cavalo de corrida estiver com problemas musculares, bastará fotografá-lo com a câmera para saber suas reais condições de competição."

Todos os testes com a câmera foram feitos em nível laboratorial, com infra-

O PROJETO

Desenvolvimento de câmera termográfica

MODALIDADE

Linha Regular de Auxílio à Pesquisa

COORDENADOR

Luiz ANTôNIO DE OLIVEIRA NUNESIFSC/USP

INVESTIMENTO

R$ 49.000,00 e US$ 12.490,00 (FAPESP)

estrutura do próprio IFSC/USP, sob coordenação do médico fisiatra Antônio Carlos de Camargo Andrade Filho, do Instituto Lauro.de Souza Lima, de Bauru, especializado em terapias da dor. "Os testes clínicos já foram concluídos e comprovaram que a câmera auxilia no diagnóstico tanto de dores desconhecidas quanto de doenças de pele e tumores superficiais, além de permitir o acompanhamento da vitalidade da pele", diz Andrade Filho.

Uso industrial - Além do uso em medicina, esse tipo de tecnologia permite avaliar perdas térmicas também em máquinas e instalações, melhorando o desempenho de equipamentos em uso ou em desenvolvimento na indústria. Por isso, ao contrário do que ocorre na área médica, na industrial a tecnologia termográfica já é bastante utilizada. Medições em painéis elétricos ou quadros de força, por exemplo, reve-

lam perdas de energia provocadas, muitas vezes, por um simples mau contato (quanto mais elevada a temperatura, maior a perda de energia).

Na indústria automotiva, o equipamento pode verificar se aquecedores e desembaçadores de vidro estão bem instalados. Em siderúrgicas, pode revelar a fuga de calor nos altos-fornos, em usinas, caldeiras e sistemas de refrigeração. Nas Forças Armadas, as câmeras termográficas são usadas em equipamentos de alta precisão, instalados principalmente em aviões militares. A aplicação militar da termografia começou na década de 1940, e a médica, em 1960. A primeira câmera infravermelha foi desenvolvida em 1948 e era capaz de registrar uma imagem em 20 minutos. A câmera desenvolvida no IFSC/USP faz uma imagem em apenas três segundos, mas uma câmera de aplicação militar já é capaz de registrar até mil imagens por segundo. •

Diabetes: paciente com circulação sangüínea menor no pé direito
Paciente com dor na perna esquerda: baixa circulação

Pesquisas, arquivo, livro e tese mostram que os quadrinhos ainda mantêm sua importância

^ oi-se o tempo em que as mães tinham certa dose de razão de gritar: "Menino, pára de ler gibi e vai estudar!" Hoje as duas atividades andam juntas e fre—I^H— qüentam a universidade. "As histórias em quadrinhos são importantes demais para serem deixadas como reféns das circunstâncias. Infelizmente, durante muito tempo elas foram consideradas materiais de segunda ou terceira categoria por parcelas influentes da sociedade", afirma WaldomiroVergueiro, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (NPHQ), da USP. Acreditando no valor da "nona arte", Nogueira desenvolveu, com apoio da FAPESP, o projeto

Diretório geral de histórias em quadrinhos no Brasil-, que disponibiliza na internet (www.eca.usp.br/agaque) um catálogo com todos os títulos de HQs publicados no país. "O projeto visa à preservação da memória quadrinhística nacional."

Esse desinteresse pelas "revistinhas" exige uma explicação, pois como desprezar uma mídia que, nos anos 1960, chegava a vender espantosos 240 milhões de exemplares anuais num país cuja população não superava os 55 milhões? "Dos quatro maiores empresários da imprensa brasileira no século 20, três começaram no segmento de revistas como editores de quadrinhos: Roberto Marinho, Adolfo Aizen e Victor Civita (a Abril nasceu, em 1950, com um gibi, O raio vermelho, e, depois, arrebatou o mercado com

Super-Homem: como nas HQs, editores brasileiros brigavam entre si e com o governo por causa dos gibis

Pato Donald). O hoje megaconglomerado editorial Record, de Alfredo Machado, começou como o primeiro distribuidor de quadrinhos do Brasil. Esses empresários montaram seus impérios editoriais a partir do negócio lucrativo das HQs, cujas vendas impulsionaram seus negócios", afirma Gonçalo Júnior, autor de A guerra dos gibis (Companhia das Letras, 448 págs., R$ 52), história do impacto da chegada dos quadrinhos ao país.

E que estrondo. Em 30 anos eles alavancaram a imprensa nacional e mobilizaram, a seu favor e contra, as maiores

figuras da época, incluindo-se os presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart e Castello Branco, bem como Carlos Lacerda (inimigo dos quadrinhos que, dizia, tinham o poder de"delinqüirjovens e levá-los ao comunismo"), Gilberto Freyre (fã ardoroso que, deputado, tentou convencer o Congresso a lançar a recém-promulgada Constituição numa versão em quadrinhos), Jorge Amado (que atribuiu sua popularidade às versões feitas em gibi de seus primeiros livros), os jornalistas Samuel Wainer e Orlando Dantas (cujas cruzadas morais

contra as revistinhas escondiam uma briga de mercado com Marinho).

Apesar do preconceito que sofreram, os quadrinhos podem ter nascido no Brasil, em 1869, com As aventuras de Nhô Quim, de Ângelo Agostini. Ou seja, 30 anos antes da publicação nos Estados Unidos de Yellow Kid, considerada por muitos a "pioneira". Agostini, aliás, está de volta com a reedição em fac-símile de sua crítica ilustrada ao "provincianismo paulista", Diabo coxo, lançamento da Edusp (216 págs., R$ 65), recuperada por dois professores da USP, Ana Maria Camargo e Luiz Cagnin. Mas, apesar do êxito no exterior, os quadrinhos não despertaram o interesse dos editores brasileiros por décadas, até que, em 1934, Adolfo Ãizen, jornalista de O Globo, de Roberto Marinho, em viagem aos Estados Unidos, viu o sucesso que faziam os suplementos diários (feminino, esportivo, infantil etc.) dos jornais americanos e quis repetir a fórmula em seu jornal.

Mas deparou com o desinteresse do dono, o que o levou a procurar um concorrente para pôr sua idéia em prática. Resultado: o pico de vendas do periódico se dava no dia em que saíam as tais "historietas em quadrinhos", reproduções das tiras americanas. Era o início, silencioso, da"guerra dos gibis",pois Marinho percebeu o erro e reagiu, lançando, pouco depois, O Globo Juvenil, imitação do suplemento de Aizen. Editado, aliás, por Nelson Rodrigues, que, sem saber inglês, olhava o desenho e preenchia os balões com seus textos. Aizen, no entanto, não deixou barato e trouxe outra novidade, os comic books, em formato de "revistinha", inovação também copiada por Marinho em Gibi (palavra sinônima de "moleque"). Novos inimigos entraram em campo de batalha: ao ver o potencial das revistas, Assis Chateaubriand fez a sua, O Guri, onde lançou Capitão Américas Homem-Morcego, apelido tupiniquim de Batman (pouco antes Aizen lançara o Super-Homem).

Segundo Gonçalo, com o sucesso vieram os oportunistas, disfarçados de moralistas. Os primeiros ataques às

HQs, escreve, foram feitos por padres que, italianos em sua maioria, rezavam pela cartilha de Mussolini, um ferrenho opositor dos quadrinhos, os quais, urrava, "desnacionalizavam ajuventude". Aos poucos, o tom de censura foi subindo em volume e em poder político: em 1946, Carlos Lacerda, num discurso, definiu os gibis "como veneno importado para as crianças", já que, segundo ele, havia se multiplicado o número de escritores "comunistas" de gibis. Pouco antes, em 1944, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, do Ministério da Educação, divulgara um estudo que acusava os quadrinhos de causar preguiça mental e desestimular o aprendizado e a leitura de livros. "Por isso, em todo o país, colégios e paróquias organizaram monumentais fogueiras para queimar revistinhas", conta Gonçalo. A fobia das HQs chegou mesmo a gerar um projeto de lei, em 1949, de autoria do então vereador Jânio Quadros, para "impedir que as leituras atentatórias aos bons costumes" fossem expostas nas bancas de jornais e livrarias. Quadros versus quadrinhos.

Chegou-se também a se pensar numa emenda à Constituição que "combatesse os excessos das editoras de quadrinhos". Lacerda, embora contrário à medida, atacou com ainda mais força: "A idéia dessas revistas é que o crime seja uma condição normal de vida. Há a idéia de que a vida passa num plano superior a todas as contingências humanas e, ao mesmo tempo, ignorante de todas as onipotências divinas. Deus não admite super-homens, supermacacos ou super-Robertos Marinhos". A luta esquentava. Orlando Dantas, de O Diário de Notícias, e Samuel Wainer, de Última Hora, dedicaram várias páginas para mostrar que os quadrinhos eram "fábricas de criminosos mirins" e os gibis, "verdadeiros manuais de crime". "Por causa de uma desavença entre Marinho e Dantas pela liderança no mercado de jornais, institucionalizou-se a repressão aos quadrinhos no país. Não creio que padres e professores conse-

guissem fazer tanto barulho e pressão se os adversários de Marinho não o tivessem atacado por causa de suas revistas em quadrinhos."

ma reportagem da época contava como, num reformatório, ofereceu-se a um adolescente negro, Lilico, o "terror dos subúrbios", livros de Monteiro Lobato. "Isso é coisa para fedelho. Eu quero Gibi, O Guri. Quero histórias com tiros e facadas", teria respondido o moço, assegurava o artigo. "O preconceito atual às HQs é uma herança maldita desses tempos. Ainda hoje é muito grande, mesmo nas faculdades de comunicação", lamenta Gonçalo. Depois dos moralistas, os quadrinhos sofreram o ataque nacionalista. Em 1961, os quadrinhistas nacionais, entre eles Ziraldo, autor de Pererê, e Maurício de Sousa, pai da Mônica, exigiram do governo uma lei de nacionalização das HQs, que incluía reserva de mercado de 70% para os brasileiros. O primeiro a abraçar a causa foi Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, que subsidiou HQs nacionais. "Parte dos textos das revistas era panfletária e comprometida com as idéias nacionalistas de Brizola."

Em 1963, Goulart assinou um decreto-lei que "disciplinava a produção de revistas em quadrinhos no país", ato confirmado pelos militares em 1966, mas jamais aplicado. "Os artistas nacionais também quiseram criar em sua associação um departamento de censura aos quadrinhos americanos", revela Gonçalo. Entre os "censores" estava Ziraldo, tão combatido durante a ditadura. "Tudo foi fruto de uma falta de visão profissional que permanece entre nós. Há quem ainda diga que os syndicates dominam o mercado e asfixiam nossos pobres artistas. Ora, eles desapareceram do mercado e nem por isso a situação é boa. Os quadrinhos passam por seu pior momento em mais de um século de história", avisa. "Nos anos 1970, a revista que vendesse menos do que 200 mil exemplares sumia. Nos 1990, a 'linha vermelha' estava nos 55 mil e, agora, as editoras imprimem de 2 mil a 5 mil."

Gonçalo lamenta o que chama de "arrogância" de muitos quadrinhistas nacionais que escondem suas deficiências atrás da suposta "ameaça estrangeira". "Eles desprezam a qualidade dos roteiros e não buscam meios profissionais de produção.Ainda somos amadores, provincianos." Se o tal "imperialismo" das HQs é duvidoso, um fato é inegável para o autor: "Os quadrinhos foram muito importantes na difusão da cultura americana no país. Nossas crianças cresceram lendo quadrinhos americanos". E, talvez, tenham ganhado outros vícios. Selma Regina Oliveira, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), defende em sua tese de doutorado, Mulher ao quadrado, que os quadrinhos americanos ajudaram a reforçar estereótipos sexistas ao mostrar mocinhas indefesas, virginais, sempre precisando da ajuda dos super-heróis, por sua vez homens fortes, deuses perfeitos. Mesmo vilãs fascinantes como a Mulher-Gato, diz, dependem no final de um Homem-Morcego para sair das enrascadas. "A mulher má dos quadrinhos é mais instigante que a boazinha, mas o homem fica sempre com a última", nota a pesquisadora. Há muito balão a ser decifrado e, ao contrário do que mamãe dizia, parece ter chegado a hora de pegar os gibis e estudar. •

Barba, cabelo, sangria e extração de dentes {desenho de Debret): medicina nascida no navio negreiro

HISTORIA

Médicos monstros?

Escravidão impulsionou o desenvolvimento da medicina tropical

a^^^^ omos chegados ao maior I ^Ê flagelo que eu dizia dos E moradores destas Minas, B^^ M enfermidade em que, certa* ~^^ ^ mente, se enganam todos os principiantes neste clima, assim cirurgiões como médicos, porque, fazendo o que estudaram e os autores ensinaram, nenhum efeito vêem da sua diligência ou, se o chegam a ver em um enfermo, o não vêem em um cento. Falo como experimentado e como quem também se enganou, e, achando-me mui triste naquele princípio, vendo que esta doença era muito comum e que morriam tantos escravos e se perdia tanto ouro em poucos dias", anotou, em 1735, Luís Gomes Ferreira no seu Erário mineral, anotações feitas por ele sobre doenças vivenciadas ou observadas nas Minas Gerais no século 18. Ferreira era um dos muitos cirurgiões ou "médicos práticos" que trabalhavam no Brasil e cuja formação fora adquirida na labuta diária com os doentes. Ao contrário dos médicos, em número muito inferior e mais respeitados por sua formação acadêmica européia, práticos como Ferreira lidavam com o cotidiano das enfermidades coloniais, "experimentando" e, muitas vezes, "enganando-se". Quando isso ocorria, ficavam "mui tristes".Afinal, escravo morto era ouro perdido. Assim, os cirurgiões foram amplamente empregados no Brasil, utilizando muito do conhecimento tradicional da medicina de diferentes comunidades (negros, bandeirantes etc), mesclando-o com os conhecimentos da medicina ocidental. "Do exotismo das doenças existentes nas travessias e conquistas, da necessidade de improvisar terapêuticas e remédios, da carência de físicos nas

A botica colonial (desenho de Debref): Recife possuía uma média de três cirurgiões para 30 mil habitantes

novas terras e do vasto experimentalismo dos cirurgiões resultaram guias para a prática médica valorizados no reino e na colônia, como foi o Erário mineral", explica Maria Cristina Cortez Wissenbach, que, em sua tese de doutorado, Matéria médica, escravidão e tráfico no Brasil, apoiada pela FAPESP, analisou os chamados manuais de medicina prática. Esses, se a princípio eram destinados ao tratamento de escravos, que serviam de "cobaias", mais tarde foram usados para tratar do resto da população. Inusitadamente, a medicina nacional está em débito com essa pouco altruísta preocupação em manter os escravos vivos para o trabalho.

Pior: esses cirurgiões igualmente contribuíram para a otimização do tráfico escravista, escolhendo os melhores indivíduos e cuidando dos muitos que adoeciam na viagem da África ao Brasil. "Boa parte da medicina tropical nasceu a bordo dos navios negreiros", afirma Cristina. Berço pouco nobre. Mas necessário num mundo movido pela escravidão. Afinal, numa travessia de 60 dias, era comum que mais da metade dos 500 a 800 negros amontoados nos porões morresse de varíola e, mes-

mo sob a supervisão dos cirurgiões, a mortalidade nos navios girava em torno de 10 a 20%."Mas, ao cuidar de uma das fases mais importantes da comercialização dos escravos, os cirurgiões tornavam-se agudos observadores das qualidades e dos defeitos físicos, das evidências de idade, dos sintomas das doenças ou das predisposições mórbidas, que muitas vezes os mercadores procuravam esconder", diz a historiadora. Porém, vale ressaltar, essa preocupação em conhecer as doenças dos negros era mais voltada ao mercado do que ao lado humano. Cada perda significava a diminuição do lucro. Assim na terra como no mar.

"Era mais barato explorar o escravo ao máximo e substituí-lo quando estivesse doente", explica a historiadora. Os cirurgiões usavam o conhecimento adquirido na prática para, participantes ativos do comércio negreiro, agregar valor às chamadas "peças" rejeitadas. "Observei mais em aquele país, que homens havia de poucas posses, que se empregavam em comprar o remanescente da escravatura, a que já o Comissário não tinha comprador (...), levando-o para casa, medicando-o, e

dando-lhe o sustento, e o vestuário preciso, e fazendo-o mudar de ares; convalescendo a mesma escravatura desprezada, dentro de pouco tempo a revendiam como sã, robusta e forte por muito bom preço: e que neste tráfico continuavam, entregando-se a um novo gênero de indústria", relatou Luís Antônio de Oliveira Mendes, em texto escrito à Academia Real das Ciências em Lisboa, em fins do século 18. Esses expedientes davam aos cirurgiões a chance de elevar seus rendimentos, já que, muitas vezes, eram o único meio de aliviar a dor dos doentes, dada a escassez de médicos formados na Europa."Umavez estabelecidos, esses práticos se transformavam em senhores de engenho, comerciantes abastados ou mascates, donos de lavras e o exercício das funções ligadas à saúde aparece, muitas vezes, de forma circunstancial, possivelmente como imposição de uma sociedade carente que demandava seus serviços", esclarece a pesquisadora. A ajudar ainda mais seu enriquecimento havia o acesso difícil aos medicamentos na colônia, o que levou o Brasil a absorver facilmente a mão-de-obra dos práticos da saúde, já que eles atendiam as

A sangria em meio à rua: pouca distinção entre o conhecimento científico e a crendice popular dos negros

demandas e assimilavam os conhecimentos locais. Aos poucos, produtos europeus e orientais da medicina tradicional foram substituídos por outros da farmacopéia local. Uma característica comum entre eles é a pouca distinção que havia entre o conhecimento científico e popular, um mosaico de ensinamentos da medicina popular ibérica, indígena, africana, de sertanejos paulistas e jesuítas.

Embora, afirma a historiadora, seja impossível dimensionar a proporção entre médicos e cirurgiões existentes

O PROJETO

Matéria médica, escravidão e tráfico no Brasil (1683-1850)

MODALIDADE

Bolsa de Pós-doutorado

SUPERVISÃO

SILVIA LARA- Departamento de História/USP

INVESTIMENTO

R$ 65.160,00 (FAPESP)

no país, entre os séculos 17 e 18, alguns relatos indicam que havia apenas três cirurgiões para 30 mil pessoas que habitavam Recife no início de 1700, ou não mais que dois médicos e sete cirurgiões em Belém já no final do mesmo século para uma população de 11 mil. Nas fazendas, no entanto, os escritos dos cirurgiões tinham lugar reservado nas estantes, como era o caso do tratado de José Antônio Mendes, de 1770, Governo de mineiros mui necessário para os que vivem distantes de professores seis, oito, dez ou mais légoas, ou mais tarde, já no século 19, o Diccionario de medicina popular e das sciencias acessórias para uso das famílias contendo a descrição das causas, symtomas e tratamento das moléstias; as receitas para cada moléstia (1842), de Pedro Luís Chernoviz. Da pena desses práticos surgiram, fruto da experimentação no calor da hora, os guias para as novas gerações de homens da saúde. A despeito de sua origem mais do que pragmática, essas publicações acabaram por se transformar na base da medicina tropical e suas observações, enriquecidas com o trânsito de cirurgiões por Angola, Costa da Mina, Caribe e

Brasil, permitiram uma intensa circulação de conhecimentos, receitas e terapêuticas.

Basta lembrar que, ao relatar que o escorbuto era fruto de uma carência de vitamina C, os manuais ensinaram comandantes de negreiros a se abastecer com verduras e sucos de frutas cítricas para evitar a doença. Mas não apenas a eles: o mundo colonial pôde se expandir em suas fronteiras marítimas, beneficiado por esse conhecimento. Um saber que, em pouco tempo, foi enriquecido por outras experiências semelhantes, feitas em outras partes do globo. A pesquisadora, na comparação entre as várias obras analisadas em sua tese, observou inflexões no conhecimento médico que, se até a primeira metade do século 18 limitava-se às experiências portuguesas e luso-brasileiras, a partir das últimas décadas daquele século passou a absorver também o conhecimento sobre as doenças das demais áreas coloniais. O círculo vicioso, com o tempo e o fim da escravidão, transformou-se em virtuoso, salvando vidas, não importando a cor da pele. A medicina superava o pragmatismo dos lucros. •

Filosofia antidogmática

Ensaios de Rubens Rodrigues Torres Filho são reeditados

Os Ensaios de filosofia ilustrada, de Rubens Rodrigues Torres Filho, são agora reeditados com novos ensaios. Esse modelo do gênero ensaístico na filosofia alia ao rigor de suas análises o engenho da exposição, mostrando a figura do filósofo comprometido com a arte do ler e do escrever. Seus temas e variações, em formação camerística, vão ao encontro das expectativas dos que se perguntam o que pode oferecer hoje o estudo da filosofia.

"O dia da caça"põe em questão a figura singular do filósofo, cientista sem objeto preciso, ao exilarse, na sua ambigüidade, da ciência e da sabedoria inatingível. A reinvenção da filosofia no idealismo alemão traça para Torres o destino do filósofo.

Kant é o centro, o baixo-contínuo em relação ao qual esses ensaios se dispõem criticamente, aliás, a "caça" preferida pelo autor, que desvela o lado sombrio das Luzes. Em "A virtus dormitiva", retifica-se a leitura de Kant por Nietzsche, contraponteando os pontos de vista de ambos. Kant, acusado de ter sido o primeiro "idealista" alemão a cair no sono dogmático, afirmou ter despertado do cochilo dogmático por levar Hume a sério. A metafísica, como sintoma de uma doença da razão, não é para ele um equívoco, mas "uma ilusão necessária" inscrita na sua essência.

No "Cinismo ilustrado", o sobrinho do famoso músico Rameau põe à prova o filósofo ilustrado, remedando as cômicas pantomimas da sociedade burguesa e nem sequer poupa a sua figura ilustre, mesmo ao adotar uma postura cínica. "Quem é a ilustração" atina para um novo cinismo, desta vez o "cinismo transcendental" de Kant, que teria se curvado diante de Frederico II. Traça-se aí o destino do Sobrinho na história da filosofia: seu "descaramento" e sua "dialética anti-socrática", apropriados pela dialética "mais manhosa" de Hegel, viram "figura" de uma verdade universal. Só Sócrates músico, sonho de Nietzsche, recuperaria a leveza da dança e da musicalidade bufa do Sobrinho, contraposta à defesa da "sã razão".

Ensaios de filosofia ilustrada

Rubens Rodrigues

Torres Filho

Editora Iluminuras

192 páginas / R$ 35,00

"Kant na sala de aula" aponta a falácia em que incorreram certos leitores de Kant ao acusá-lo da recaída dogmática na 2a edição da Crítica, ignorando sua "intenção declarada" de "suprimir o saber para obter lugar para a crença", como antídoto contra o dogmatismo.

Em "A filha natural em Berlim" ressurge o tema da dualidade, agora em Fichte: o dualismo entre "espírito" e "letra" não é para ser tomado metafisicamente, pois a oscilação da imaginação entre os termos-limite, ideal/real, eu/não-eu, impede a reificação dos opostos, produzida pela ilusão transcendental. "Ter espírito" nada mais é do que se livrar dela. A noção de Darstellung apresentação ou exposição - reunificará teatro e teoria, permitindo que esta se exteriorize.

Os dois ensaios sobre Schelling revelam sua inventividade em relação a Kant e aos pós-kantianos. "O simbólico em Schelling" mostra como foi além da "vocação histórica do idealismo alemão" a busca da unidade entre as três críticas, ao propor a unificação da física e da ética numa "poética ou sistema da arte"."A produção extra-teórica da síntese" revê a questão central da Crítica. A síntese, a priori, vista por Schelling como "derivada", exigiria um fundamento,"uma síntese originária", no eu ou na liberdade, o que, aliás, Kant já sugerira, na exigência da razão pelo incondicionado.

Como fecho, o poema satírico "Profissão de fé epicurista", onde vibra o entusiasmo anti-religioso de Schelling:

"Quando falam de luz interior/ Conversam muito e nada tem valor,/ Grandes palavras enchem os ouvidos..."

Enfim, belas peças antidogmáticas, que expõem a gênese de pseudo-equívocos, mostrando seu significado, descartando sutilmente o exercício fácil da filosofia, sem o imprescindível redobro reflexivo.

MARIA LúCIA CACCIOLA, autora de Schopenhauer e a questão do dogmatismo (Edusp/FAPESP, 1994), é professora no Departamento de Filosofia da USP.

Participação e Deliberação

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Participação e deliberação

Vera Schattan P. Coelho e Marcos Nobre (organizadores)

Editora 34

368 páginas / R$ 49,00

Apesar de recente (acaba de completar 20 anos), a democracia brasileira passou por uma série de experiências dignas de atenção. Isso levou vários pesquisadores, boa parte deles do Cebrap, a se reunir e tentar avaliar, no contexto nacional, o significado de cidadania, de participação e as relações entre as formas deliberativa e eleitoral de democracia. Entre os participantes, Marcos Nobre, Cícero Araújo, Vera Schattan, Denise Vitale, Paulo Lessa Mattos, entre outros. Editora 34 (11) 3032-6755 www.editora34.com.br

Experiência crítica

Cosac Naify Ronaldo Brito 384 páginas / R$ 49,00

Sueli de Lima reuniu em um volume os mais importantes artigos e ensaios de Ronaldo Brito sobre artes plásticas num período de 30 anos. Brito (1949) é professor de História da Arte e Arquitetura no Brasil e de História Social da Cultura da PUC-RJ. Como observa o jornalista João Moura Jr. na brilhante introdução aos ensaios, "vemos aqui em funcionamento uma inteligência crítica rara em nosso meio". Cosac Naify (11) 3218-1444 www.cosacnaify.com.br

0 bruxo do Cosme Velho

Márcia Moura Coelho e Marcos Fleury de Oliveira (organizadores)

Alameda Casa Editorial 160 páginas / R$ 32,00

Se Shakespeare já foi "vítima" das leituras psicanalíticas, por que não o nosso querido Machado de Assis? Fruto da XV Moitará, organizada pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, de São Paulo, um centro de estudo junguiano, o livro traz uma série de ensaios sobre o bruxo do Cosme Velho analisado em seus aspectos menos conhecidos, como na sua relação com a música, a política da hipocrisia, entre outros temas. Os autores são

Flávio Aguiar, Luiz Roncari, Ariclê Perez, entre outros.

Alameda Casa Editorial (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

Do mel às cinzas

Claude Lévi-Strauss Cosac Naify 504 páginas / R$ 55,00

A editora traz agora o segundo volume das celebradas Mitológicas do francês que conhece o Brasil como poucos. Nesse tomo continuam as investigações iniciadas em O cru e o cozido, em que o antropólogo, partindo de metáforas inspiradas no mel, faz um longo percurso pelo como se dão o conhecimento

e as mitologias, vistas como formas de pensar e viver, para os ameríndios da América do Sul. Por meio dessa coleção de mitos chegamos mais perto do modo de pensar daqueles que nos ensinaram a pensar.

Cosac Naify (11) 3218-1444 www.cosacnaify.com.br

A propósito das águas virtuosas

Stelio Marras

Editora UFMG

415 páginas / R$ 47,00

A cidade balneária mineira de Poços de Caldas é usada pelo autor como um exemplo do funcionamento, no Brasil, das estações termais e de que maneira elas representam um microcosmo em que se digladiam o mundo natural, rústico, a ciência e a política. Da decadência à queda, a história da cidade é a cara do nosso país. Editora UFMG (31) 3499-4642 http://www.editora.ufmg.com.br

Humans-with-media and the reorganization of mathematical thinking

Marcelo de Carvalho Borba e Mónica Ester Villareal

Springer (importado) 232 páginas / US$ 79,95

Resultado de pesquisas feitas com o apoio da FAPESP, o livro do pesquisador brasileiro traz uma nova moldura conceituai para refletir o papel da tecnologia de comunicação na educação matemática. Inicialmente o livro será publicado apenas nos EUA, chegando nas livrarias norte-americanas no próximo semestre. e-mail:springeronline.com

Bibelôs

Apesquisadora chegou vinte minutos atrasada e disse que era por causa do trânsito, como se eu fosse besta. Eu sabia que aquilo já era parte do teste, pois quando eles testam a gente, L tudo o que perguntam é camuflagem para distrair nossa atenção e reparar em outras coisas: as que interessam para eles. Por isso eu não achei ruim e fiz um comentário do tipo: Nesse horário o trânsito é horrível.

Depois ofereci um copo d'água e isso a desarmou. Comentar que naquele horário o trânsito de São Paulo é horrível e oferecer água num dia quente são duas coisas normais que qualquer pessoa faria, e eu fiz! Hehe!

A pesquisadora comentou que a casa era a minha cara e eu respondi muito obrigada. Daí ela começou a mexer nos meus bibelôs e mudou um deles de lugar, para ver se eu teria um ataque histérico e começaria a correr pela casa com uma faca na mão. Eu não fiz nada disso. Disse que ela podia levar o elefantinho. Era um presente. Ela respondeu que era muita gentileza minha, mas não podia aceitar. Perguntei se era por causa das normas da USP e ela disse que não. Então eu coloquei o elefantinho na mão dela e disse: Leve.

Isto provava duas coisas: que eu não tinha asco de pegar na mão dela e que eu lidavabem com perdas. Quando ela me deu as costas e foi xeretar nos meus livros eu ocupei o lugar do elefantinho com um esquilo, que ficava mais para trás, na mesma mesinha. Ela perguntou se eu morava só e eu disse que havia um animal na casa. Eu sabia que se me referisse à Valentina pelo nome perderia pontos. Ela perguntou que espécie de animal. Daí ela se sentou na beirada do sofá duro e eu no sofá mole. Eu tirei meu chinelo e cruzei as pernas, para mostrar que não tinha medo dela. Respondi a uma série de perguntas que não vêm ao caso porque, como eu disse anteriormente, eram perguntas de fachada para reparar se meus olhos viravam para a direita ou para a esquerda antes de responder. Respondi a tudo olhando bem na cara dela, sem piscar. Com isso ela teria que rever seus critérios científicos. Hehe! Chegamos nos hábitos alimentares e a coisa começou a ficar tão chata que, sem querer, eu ofereci um café. Eu nunca devia ter oferecido um café. Ela aceitou e me acompanhou até a cozinha. Agora ela ia ver como eu fazia o meu café. Dei as costas para ela e comecei a falar da minha infância. Eles gostam de infância. A jarrinha de vidro da minha cafeteira havia quebrado na semana anterior e eu estava usando uma xícara grande no lugar. Só que eu gostava de tomar mais de uma xícara, de modo que quando uma estivesse quase cheia eu rapidamente a tirava e colocava outra. O café continuava pingando. Daí eu despejava as duas xícaras na garrafa térmica e dava no mesmo que a jarrinha de vidro. Por isso eu não fui até a Barra Funda comprar uma jarrinha nova. Ajarrinha velha quebrou enquanto eu lavava louça e levei um susto. Eu levei um susto porque a filha da vizinha gritou meu nome pela janela, mas até aí isso podia ter acontecido com qualquer um.

Esse pintinho te marcou muito?

O pintinho a que ela se referia foi o da minha infância. Para ser mais específica, ele é o sujeito da minha primeira lembrança. Eu tinha quatro anos de idade e um pinto amarelinho. Ganhei o pinto na feira. Mamãe disse que era para eu devolver o pinto para o japonês porque aquilo ia crescer e virar um frango e a gente morava em apartamento. Não era permitido. Eu respondi que não ia devolver porque era presente e se dependesse da boa vontade dela eu nunca teria bicho al-

gum. No fim eu fiquei com o pinto que nunca virou frango. Ele morreu esmagado pela porta de incêndio que fechou na cabeça dele. Minha vida começa aí. Antes disso é uma mancha escura. Muito interessante...

Ofereci bolo de cenoura com recheio de chocolate para a pesquisadora. Ela aceitou. Perguntei se ela gostaria de um pouco de mel para acompanhar e ela também aceitou. Perguntei se não achava que era demais, recheio de chocolate e mel. Ela disse que não. E geléia de morango? perguntei.

Ela não entendeu. Expliquei que além da camada de mel ela podia acrescentar mais uma de geléia de morango. Ou você acha que daí fica demais?

Ela respondeu que daí era demais. Uma vez li numa revista que os pesquisadores devem se manter neutros. Pelo menos com os do Smithsonian é assim. Ela tinha emitido duas opiniões pessoais: que minha casa era a minha cara e que adicionar mel e geléia de morango no bolo de cenoura com recheio de chocolate era demais. Isso, sem falar do elefantinho, que era interferência no habitat do entrevistado. Eu não podia esperar muita coisa daquela pesquisadora. Enfim... Agora não tinha volta. Ela queria ver o armarinho do meu banheiro e eu disse que isso era um clichê. Pode até ser clichê, mas é muito instrutivo.

Fui junto. Ela não tocou em nada. Anotou várias coisas. Durante todo o tempo em que ela olhou para meu armarinho, eu olhei para a cara dela. De tanto em tanto ela me dava um sorrisinho, que eu não retribuía.

Eu sei que essa parte é meio constrangedora.

Os do Smithsonian nunca falariam isso. Do arjnarinho do banheiro ela foi para a lavanderia ver as roupas no varal. Depois pediu para eu abrir a gaveta de talheres e por último olhou a cama onde eu dormia. Eu disse que ela podia bater na parede, se quisesse. Ela respondeu que não fazia parte do procedimento. Mesmo assim eu esclareci que não havia nenhum ponto oco em nenhuma parede e que ela podia anotar isso no bloquinho dela. Era fato que eu mesma havia comprovado. Você poderia falar um pouco mais sobre aquele pintinho?

Se nessa hora eu olhasse para cima e para a direita, era sinal que eu estava tentando puxar uma lembrança do passado. Mas como vinha fazendo até então, falei tudo o que tinha para falar sobre o pinto olhando bem para ela, sem piscar, em pé e parada no meio da sala. Para isto não há associação. É uma posição teatral, jamais usada no dia-a-dia. Seria muito bom para a USR Para eles aprenderem. Hehe! Eu disse que a partir daquele dia passei a me vestir de amarelo dos pés à cabeça, até os oito anos de idade. E como eu disse isso sem piscar e com os olhos vidrados, ela não teve meios para saber se era mentira. Ficou em silêncio. Eu teria continuado, dizendo que sentia muita dor quando, diariamente, às onze e meia da manhã minha mãe me mandava tirar o pijama amarelo e vestir o uniforme da escola: azul e branco. Mas ela não quis ouvir. Disse que era suficiente e foi embora. Assim que o carro virou a esquina eu fui para a rua. Tive que correr feito louca. A loja do chinês dos elefantinhos fecharia em quinze minutos.

ÍNDIGO é autora de Saga animal (Hedra), Caixinha de madeira (Altana) e Festa da mexerica (Hedra). É também uma das 25 mulheres de 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record).

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