Skip to main content

São Paulo no olhar da ciência

Page 1


www.revistapesquisa.fapesp.br

A metrópole nas telas

Impunidade e violência

Capa: Hélio de Almeida - Foto Miguel Boyayan

FAPESP

CARLOS VOGT

PRESIDENTE

PAULO EDUARDO DE ABREU MACHADO

VICE-PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR

ADILSON AVANSI DE ABREU,CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ,CARLOS VOGT,CELSO LAFER, HERMANN WEVER,HORÁCIO LAFER PIVA,MARCOS MACARI, NILSON DIAS VIEIRA JUNIOR, PAULO EDUARDO DE ABREU MACHADO,RICARDO RENZO BRENTANI,VAHAN AGOPYAN,YOSHIAKI NAKANO CONSELHO TÉCNICO-ADMINISTRATIVO

FRANCISCO ROMEU LANDI

DIRETOR PRESIDENTE

JOAQUIM J.DE CAMARGO ENGLER

DIRETOR ADMINISTRATIVO

JOSÉ FERNANDO PEREZ

DIRETOR CIENTÍFICO

PESQUISA FAPESP

CONSELHO EDITORIAL

LUIZ HENRIQUE LOPES DOS SANTOS (COORDENADOR CIENTÍFICO), EDGAR DUTRA ZANOTTO,FRANCISCO ANTONIO BEZERRA COUTINHO,FRANCISCO ROMEU LANDI,JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER,JOSÉ FERNANDO PEREZ, LUIZ EUGÊNIO ARAÚJO DE MORAES MELLO, PAULA MONTERO,WALTER COLLI

DIRETORA DE REDAÇÃO

MARILUCE MOURA

EDITOR CHEFE NELDSON MARCOLIN

EDITORA SÊNIOR

MARIA DA GRAÇA MASCARENHAS

DIRETOR DE ARTE

HÉLIO DE ALMEIDA

EDITORES

CARLOS FIORAVANTI (CIÊNCIA),CARLOS HAAG(HUMANIDADES), CLAUDIA IZIQUE (POLÍTICA C&T),HEITOR SHIMIZU(VERSÃO ON-LINE), MARCOS DE OLIVEIRA(TECNOLOGIA)

EDITOR ESPECIAL

MARCOS PIVETTA

EDITORES-ASSISTENTES

DINORAH ERENO,RICARDO ZORZETTO CHEFE DE ARTE TÂNIA MARIA DOS SANTOS

DIAGRAMAÇÃO

JOSÉ ROBERTO MEDDA,LUCIANA FACCHINI FOTÓGRAFOS

EDUARDO CESAR,MIGUEL BOYAYAN COLABORADORES

EDUARDO GERAQUE (ON-LINE), FABRÍCIO MARQUES,GIL PINHEIRO,LAURABEATRIZ, MARGÔ NEGRO,RENATA SARAIVA, SAMUEL ANTENOR,SÍRIO J.B.CANÇADO, THIAGO ROMERO (ON-LINE),YURI VASCONCELOS ASSINATURAS TELETARGET TEL.(11) 3038-1434 – FAX:(11) 3038-1418 e-mail:fapesp@teletarget.com.br

APOIO DE MARKETING SINGULAR ARQUITETURA DE MÍDIA singular@sing.com.br PUBLICIDADE TEL/FAX:(11) 3838-4008 e-mail:mpiliadis@fapesp.br (PAULA ILIADIS) PRÉ-IMPRESSÃO GRAPHBOX-CARAN IMPRESSÃO PLURAL EDITORA E GRÁFICA TIRAGEM:44.000 EXEMPLARES DISTRIBUIÇÃO DINAP CIRCULAÇÃO E ATENDIMENTO AO JORNALEIRO LMX (ALESSANDRA MACHADO) TEL:(11) 3865-4949 atendimento@lmx.com.br FAPESP

RUA PIO XI,Nº 1.500,CEP 05468-901 ALTO DA LAPA – SÃO PAULO – SP TEL.(11) 3838-4000 – FAX:(11) 3838-4181 http://www.revistapesquisa.fapesp.br cartas@fapesp.br

NÚMEROS ATRASADOS TEL.(11) 3038-1438

Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da FAPESP

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS E FOTOS SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO

FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO

SECRETARIA DA CIÊNCIA,TECNOLOGIA, DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E TURISMO

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Carta do editor

Decifra-me ou devoro-te

Uma onda alucinante de sons,tons,cheiros,cores, imagens,palavras,discursos se espraiou por São Paulo nos últimos dias de janeiro,no dia 25 em especial.Uma multidão impressionante, multiétnica,se aglomerou sob a chuva na esquina da Ipiranga com a São João,invadiu o Parque Ibirapuera,se espalhou pela avenida 23 de Maio,chegou à Liberdade,ao Pátio do Colégio,tomou a Luz,entrou na Pinacoteca,cantou,dançou,festejou.Era tudo festa,e festa popular,pelos 450 anos da cidade.Houve,claro,quem torcesse o nariz.Quem achasse tudo aquilo uma chateação.Uma bobagem.Produção de mero marketing eleitoreiro.Um exagero,enfim,uma celebração kitsch até a náusea.Mas só uma má vontade extrema não reconheceria na vibração positiva da multidão na rua,em sua alegria coletiva,aberta ou meio contida,traços de um sentimento valioso de pertencimento,tão raro de ser flagrado no cotidiano de São Paulo.Ou expressões de um renovado e forte vínculo social com o lugar em que se vive,sempre tão ameaçado nesta cidade. E um e outro são certamente ingredientes fundamentais de contraposição à face violenta da metrópole,a seu lado duro,não raro selvagem,que também é parte integrante das relações sociais e econômicas que ela estabelece.

Comemorar não impede o pensar,antes o propõe.E,em paralelo à festa,vieram as reflexões.Mostrou-se muito nesses dias de janeiro,por uma infinidade de ângulos e numa diversidade de meios,a complexidade extraordinária de São Paulo. Mas o tema é,sem dúvida,inesgotável,e Pesquisa FAPESP pretende,em seu campo próprio,dar uma pequena contribuição para os debates que ele provavelmente suscitará ao longo deste ano.Assim,esta edição especial da revista reúne reportagens sobre estudos que tomaram como objeto problemas ou aspectos significativos da gigantesca metrópole.Para começar,abordamos um denso e inédito trabalho sobre o próprio perfil atual da Região Metropolitana desenhado no livro São Paulo metrópole,a ser lançado em breve pela Edusp.Elaborado pelos pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole (CEM),um dos dez Centros de Pesquisa,Inovação e Difusão (Cepids) patrocinados pela FAPESP,ele é resultado de quase duas décadas de pesquisa.A análise daí decorrente,relata a editora de Política,Claudia Izique (a partir da página 6),não cai na tentação

Grafite no túnel de acesso à avenida Paulista: intervenção no espaço urbano

das interpretações causais.Em vez disso,mostra a metrópole como expressão de uma nova etapa do sistema produtivo e elege os temas que melhor descrevem o percurso de transformação,do ponto de vista da evolução urbana,qualificando as situações emergentes e transitórias.

As outras reportagens que constituem essa edição foram selecionadas dentre o extenso material a respeito de São Paulo publicado pela revista,de forma dispersa,ao longo dos dois últimos anos – um pouco mais,a rigor,já que o trabalho mais antigo aqui tratado é de novembro/dezembro de 2001.Buscamos contemplar diferentes enfoques científicos sobre a cidade,mas sempre considerando a relevância do tema pesquisado para seus habitantes.Dessa forma,abordamos a poluição que a capital paulista não só produz como exporta para cidades distantes de seu território até 400 quilômetros,detalhadamente examinada sob o comando de pesquisadores do Instituto de Astronomia,Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.Mostramos as conclusões de uma grande pesquisa sobre a exclusão social na cidade,coordenada por pesquisadores da Faculdade de Serviço Social da PUC-São Paulo.A violência,as dores e alegrias do envelhecimento na metrópole,mas também o cinema que busca entendê-la ou expressá-la,são outros temas que aparecem nesta edição,oferecendo uma bela amostra das preocupações de pesquisadores de diferentes áreas que têm em São Paulo não apenas um lugar para viver,mas um fascinante desafio profissional:há que compreendê-la,decifrá-la e,por que não?,ajudar a transformá-la.

ESPECIAL

PAULO 45O ANOS

Metamorfose ambulante

Livro que será lançado em breve faz radiografia da transformação urbana de São Paulo

São Paulo é uma metrópole em transformação. Favelas,cortiços e esgoto a céu aberto,remanescentes de um período de crescimento desordenado,dividem o cenário com um padrão de urbanização moderno e comprometido com novas funções produtivas e novas tecnologias,que tem como ícones os edifícios e condomínios auto-suficientes.Essas oposições marcam o fim de um ciclo predominantemente industrial e,simultaneamente,o início de outro,caracterizado pela expansão dos serviços. São Paulo não transita,exatamente,entre os dois modelos:o precário e o moderno,a indústria e os serviços coexistem no território urbano,enquanto a metrópole ganha contornos de cidade metropolitana.

O novo perfil da Região Metropolitana está desenhado no livro São Paulo metrópole,elaborado pelos pes-

C LAUDIA I ZIQUE

quisadores do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) – um dos dez Centros de Pesquisa,Inovaçã o e Difus ã o (Cepids) patrocinados pela FAPESP –,que está sendo lançado pela Edusp. “O livro mostra o processo de transformação da metrópole”,sintetiza Regina Prosperi Meyer,da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU),da Universidade de São Paulo (USP),coordenadora do grupo de urbanismo do CEM e co-autora do livro.

Resultado de quase duas décadas de pesquisa,a análise não cai na tentação das interpretações causais:a metrópole é vista como expressão de uma nova etapa do sistema produtivo.Busca articulações de tempo e espaço e elege os temas que melhor descrevem o percurso de transformação,do ponto de vista da evolução urbana,qualificando – com dados e informações georreferenciadas – as situações emergentes e transitórias.

O livro é ilustrado com um excelente acervo de mapas e fotos,registradas em seis horas de vôo de helicóptero sobre a região,que revelam as contradições e ajudam a apontar saídas para o futuro da metrópole. “O objetivo é auxiliar os órgãos responsáveis a formular hipóteses sobre a natureza e a estrutura do processo de transformação urbana em curso,assim como produzir uma agenda de ações a serem assumidas pelas políticas públicas de alcance metropolitano”,sublinha Regina Meyer.

Expansão centrípeta - São Paulo registra uma redução drástica no ritmo de crescimento populacional desde a década de 1980,quando a taxa foi de 1,18% ao ano.Esse padrão se manteve na década de 1990:a população cresceu 0,88% ao ano.As mudanças e os rearranjos urbanos nesse período,no entanto,foram intensos e contamina-

ram todo o espaço metropolitano.Os bairros centrais,como Barra Funda,Bela Vista e Pari,perderam população,crescendo a taxas negativas no mesmo período,enquanto as políticas públicas levavam seus moradores para “ casinhas” na periferia. “Os cortiços são uma resposta a isso”,comenta Regina Meyer.Essa dinâmica criou um novo paradoxo urbano e econômico: áreas plenamente equipadas com infra-estrutura e transportes de massa encontram-se em processo de esvaziamento populacional,enquanto se abrem,indiscriminadamente,novos – e distantes – setores de expansão urbana,numa espécie de expansão centrípeta. Outros bairros,mais consolidados, verticalizaram-se,atraindo para seu entorno atividades de comércio e serviços especializados.Tatuapé,Jardim Anália Franco,Mooca e Moema são exemplo disso.Ao longo de 20 anos,essas áreas

FOTOS
NELSON
KON
Contraste urbano: avenida Faria Lima e serra da Cantareira

registraram intenso movimento de troca de população:prédios novos foram ocupados por pessoas de maior renda e os velhos moradores deslocaram-se para bairros novos que ainda hoje se multiplicam na periferia.

Ali,na periferia,a ação dos órgãos públicos fez proliferar os conjuntos habitacionaisde interesse social, novo endereço dos moradores do centro,do Tatuapé,do Jardim Anália Franco e tantos outros. Juntocom os conjuntos habitacionais, cresceram as construções informais de comércio e serviços e,no espaço originalmente destinado pelos programas oficiais aos equipamentos de serviço, formaram-se novas favelas.

Cidade informal - A metrópole abriga 2 mil favelas com população de mais de 1 milhão de habitantes,legado dramático dos tempos da São Paulo industrial. Atualmente,as grandes fave las,como Heliópolis e Paraisópolis,ganharam atributo de bairro de “pleno direito”, como diz Regina Meyer.Mais uma vez, por iniciativa do próprio poder público,já contam com serviço de ônibus e Correios,por exemplo. “O poderpúblico não pensa mais em remover favelas, só aquelas instaladas em propriedade privada”,afirma Regina Meyer. “Hoje,a palavra de ordem é transformá-las em bairros equipados,a exemplo do programa Favela-Bairro,do Rio de Janeiro. ” Como grande parte delas está assentada em áreas públicas e desocupadas – como as regiões de fundos de vale, impróprias para o desenvolvimento de programas habitacionais –,seguirão como permanências do ciclo industrial, no jargão dos urbanistas.E demandam programas de reorganização urbana, como regularização fundiária e implantação de infra-estrutura e equipamentos sociais,ou seja,um desafio para os governos locais e estadual.

O estabelecimento de sistemas viários de grande extensão que atravessam áreas ocupadas por população de baixa renda – como a avenida Jacu Pêssego/Nova Trabalhadores – contribuiu,e muito,para a consolidação dos conjuntos habitacionais nas áreas periféricas e das permanências,como as favelas,agora transformadas em bairro.

Rua Verbo Divino
Avenida Luiz Carlos BerriniAlphaville Empresarial
Centro de São Paulo
Itaim Bibi

A oferta de moradias por meio de programas públicos tem sido reduzida diante da demanda e do déficit habitacional,sobretudo para a população com renda de até três salários mínimos.No decorrer dos anos 1980 e 1990,foramse firmando novas abordagens para provisão de habitação e aprimoraramse os programas de atuação nas áreas informais da metrópole,como a urbanização de favelas,a regularização de loteamentos irregulares e clandestinos, e a realocação de população em área de risco. “A informalidade passou a ser objeto de políticas públicas,embora sua área de atuação seja ainda muito pequena”,diz Marta Grostein,do Laboratório de Urbanismo da Metrópole,da FAU,e co-autora do livro. É preciso que esses programas contem com a participação de empreendedores privados na produção de habitação de interesse social,que se implementem programas de melhorias em assentamentos informais consolidados – como as favelasbairro – e que a construção por mutirão se transforme em prática comum.

O roteiro do capital - A metrópole se transforma e as atividades terciárias se deslocam do centro tradicional para o sudoeste do município de São Paulo. Esse fenômeno,a rigor,ocorre há 50 anos:passou pelas avenidas Paulista e Faria Lima até alcançar o eixo da Marginal Pinheiros.Esse percurso,no seu início,foi resultado da metropolização da cidade.Mas,a partir dos anos 1980, passou a corresponder à movimentação do grande capital imobiliário e a interesses especulativos.Esse processo não criou novas “centralidades”:materializou-se em edifícios corporativos. Os investimentos públicos,nas décadas de 1980 e 1990,na infra-estrutura viária do eixo sudoeste da metrópole facilitaram o acesso de novos usu ários.Roteiro,aliás,idêntico ao do setor financeiro que ocupou as avenidas Luiz Carlos Berrini e Naçõ es Unidas, instalando-se em edifícios auto-suficientes – equipados com restaurantes, shoppings e outros serviços – que criaram “centralidades” inevit á veis,ainda que exacerbadas.Cada torre é um corpo aut ô nomo.O padrão é o isolamento. “A localização das sedes das empresas,sobretudo das grandes corporações multinacionais, também reflete esse deslocamento”,observa Ciro

Cerqueira César
Avenida Paulista
Vila Olímpia FOTOS NELSON

Evolução da área urbanizada - de 1949 a 1992

Biderman,da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo,um dos autores do livro.Esses bairros funcionais foram beneficiados por obras pú blicas vi árias que propiciaram – por meio de desapropriações e transformações de usos – a formação de novas áreas qualificadas de comércio,serviços e habitação de padrão médio e alto.

Antes mesmo disso,empreendimentos imobiliários de grande porte já tinham gerado projetos como Alphaville e Tamboré,destinados à população de alta renda,também concebidos com o conceito de auto-suficiência. “Os condomínios fechados multiplicam-se e tornam-se um padrão de organização agora também para as classes B e C. Esse é um modelo pernicioso de ocupação,já que cria enclaves graves para a urbanização”,avalia Regina Meyer. Os condomínios fechados alastram-se na grande maioria dos municípios da região,em áreas com qualidade ambiental,um atributo que acrescenta valor imobiliário aos empreendimentos.Ignoram o seu entorno,voltando-se ex-

clusivamente para o interior da gleba ou lote onde estão instalados.

O mercado imobiliário também foi responsável pelo adensamento populacional junto aos trechos urbanos das rodovias que,a partir dos anos 1990, alcançaram o município de São Paulo. Os novos edifícios residenciais,localizados até o quilômetro 18 da rodovia Raposo Tavares,por exemplo,atendem às faixas de renda média e baixa,exigindo que os moradores tenham veículos que permitam tamanho deslocamento.Os planos do poder público de transformar esses trechos rodoviários em vias expressas com acessos locais deverão ampliar a oferta habitacional nessas áreas.

A dinâmica de expansão da metrópole aproximou áreas urbanas de ocupação distintas do ponto de vista socioeconômico.Hoje,a favela de Paraisópolis é contígua ao Morumbi,e a Granja Viana,vizinha de Carapicuíba. “Essa situação aponta para o fenômeno descrito como ‘proximidade física e distância social’ e não chega a gerar

formas de inclusão social ou urbana,já que cada um dos grupos está assentado em sistemas urbanos isolados”,observa Regina Meyer.E esse isolamento se deve,em parte, à organização do sistema viário e de transporte.

Na cidade metropolitana – futuro inevitável de São Paulo – perdem nitidez os contornos de cada um dos 39 municípios que formam a região,e o território transforma-se num espaço urbanizado contínuo.Nesse contexto de dispersão,as vias expressas dão continuidade ao territ ó rio da metr ó pole esão condição para a mobilidade.Os sistemas de transporte de massa e mobilidade passam a ser o elemento agregador. É possível morar em Cotia e trabalhar na Zona Leste da capital.

A malha viária também contribui para o deslocamento das indústrias das regiões mais centrais para municípios metropolitanos como Osasco e Arujá E foi responsável pela expansão dos

Estrutura viária e de transportes metropolitana

municípios-dormitórios,com grande estoque habitacional,como Franco da Rocha,Francisco Morato e Poá.Essas cidades concentram população de baixa renda sem oferecer postos de trabalho na escala necessária.São regiões precárias,com urbanização insuficientee baixo valor imobiliário.Concentram grande número de moradias produzidas pelo poder público na forma de conjuntos habitacionais,assim como favelas e loteamentos irregulares,muitas vezes assentados em áreas de proteção ambiental e no interior de bacias hidrográficas dos principais sistemas produtores de água.Vigora nessas áreas, desde os anos 1990,uma nova abordagem de intervenção que busca recuperar a degradação,regularizar a ocupação urbana e conter os processos predatórios,lembra Regina Meyer.

A nova metrópole - O novo modelo espacial da metr ó pole requer uma infra-estrutura de transportes que integre as atividades dispersas no território metropolitano e crie pólos

articuladores locais. “A identificação dessespólos de convergência deve ser um dos focos de planejamento urbano”,sugere Regina Meyer.Os pólos metropolitanos – definidos como localizações que articulam funções urbanas locais e metropolitanas associadas ao transporte público de massas –têm papel decisivo na estruturação do novo território metropolitano.

Acidade metrópole também exige a identificação de espaços estratégicos que permitam que as intervenções do poder público ganhem escala metropolitana.Uma dessas áreas de intervenção multiplicadora,sugere a pesquisa, é a orla ferroviária que se estende ao longo dos distritos centrais da cidade de São Paulo, cujo uso está liberado pela privatização da operação das ferrovias.As terras pertenciam à Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e o poder p ú blico tem possibilidade de utilizá-las na instalação de novos empreendimentos habi-

tacionais que permitiriam trazer novos moradores para o centro,diz Regina Meyer.

Os bairros centrais devem propiciar espa ç os de moradia que redirecionem o fluxo migratório do centro para a periferia.As transformações para á rea da Luz – previstas no Plano Integrado de Transportes Urbanos (Pitu 2020),que integrará o metrô e o trem metropolitano –,por exemplo,serão estratégicas para a intensificação do uso habitacional desse setor urbano.

A incorporação da cidade informal à cidade legalmente constituída é,atualmente,o grande desafio das políticas públicas,especialmente aquelas relativas à regularização fundiária.Desde 1997,a nova Lei de Proteção e Recuperação de Mananciais permite ao planejador legislar sobre áreas específicas: as bacias ou sub-bacias hidrográficas. Mas é preciso conjugar política urbana e ambiental para garantir que a metrópole se consolide,garantindo qualidade de vida a toda a sua população, conforme Marta Grostein. •

Metrô existente Trem urbano
Corredores de ônibus
Ferrovias 2001 operadas pela CPTM
Rodoanel e anéis viários
Sistema viário principal

Noroeste da capital e pico do Jaraguá: poluição é barrada pela serra da Cantareira, considerada de “ar puro”, e ali se acumula

ESPECIAL

SÃO PAULO 45O ANOS

Estufa queexporta poluição

Mais quente e sem garoa, São Paulo espalha a fumaça que produz para cidades distantes até 400 km

Oclima de São Paulo mudou.Os dias de verão são cada vez mais quentes e os de inverno,mais secos. A temperatura média da maior cidade do Brasil está 1,3º C (grau Celsius) mais alta do que há quatro décadas.E,ao contrário do que se poderia imaginar, os efeitos da urbanização,sobretudo a impermeabilização do solo e o excesso de veículos,não são os principais responsáveis pela mudança:respondem por cerca de 30% nas alterações,enquanto os 70% cabem às forças naturais,principalmente ao aquecimento do oceano Atlântico nesse período.

Além de explicar essas alterações,as pesquisas coordenadas por Pedro Leite da Silva Dias,do Instituto de Astronomia,Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAGUSP),mostram algo pior:a Região Metropolitana de São Paulo – capital e 38 municípios vizinhos – é um centro exportador de poluentes.Cercada ao sul pela serra do Mar,que separa a planície litorânea do planalto – e ao norte pela serra da Cantareira,de cerca de 1.200 metros de altitude,a região ocupa um quadrilátero de 200 por 150 km (quilômetros),onde vivem 17 milhões de pessoas.Seu ar poluído,principalmente no inverno,pode chegar a cidades situadas a até 100 km da capital,ainda que em concentrações menores do que nas imediações das avenidas ou plantas industriais onde é produzido.Silva Dias estima que,conforme a época do ano,de 20% a 30% da poluição de Campinas,Tatuí e Sorocaba,por exemplo,venha de São Paulo.

A poluição tornou-se,portanto,um problema não mais apenas local,mas regional.Má notícia para os próprios paulistanos que, nos finais de semana e férias,vão se refugiar na montanha em busca de ar puro,um dos atrativos de cidades serranas próximas.Modelagens feitas em computador atestam que o ar pode não ser tão puro assim,por causa da poluição trazida sorrateiramente pelos ventos que sopram da capital.Quem vive mais longe nem sempre escapa.Se embalado por ventos mais intensos,o ar poluído da metrópole pode alcançar Bauru,a quase 400 km.

Delineou-se outro problema para os vizinhos de São Paulo:há lugares onde a concentração de ozônio (O3) perto do solo chega a superar a da capital.Formado pelos poluentes emitidos pelos carros, esse ozônio é prejudicial,ao contrário do que existe numa camada atmosférica elevada,que protege o planeta de radiações danosas. Na alta atmosfera,essa forma de oxigênio filtra os raios ultravioleta do Sol,mas junto do solo pode irritar os olhos e causar rinite,

Túnel Jânio Quadros: medições valiosas nesse “laboratório” livre da radiação solar, que acelera as reações entre poluentes

tosse e outros problemas respiratórios. É tóxico também para as plantas.

Em Barueri,Embu e Jundiaí,por exemplo,o teor desse ozônio poluente pode ser até 50% maior que na praça da Sé ou no vale do Anhangabaú – nesses pontos,em pleno centro,a média horária de ozônio,de 60 ppb (partes por bilhão),oscila conforme a época do ano e às vezes excede o limite de segurança,que é de 80 ppb.

Quando se pensa em soluções,surge um complicador.Quem deve assumir a responsabilidade pelos problemas de saúde causados pela poluição:o município que exporta poluentes ou o que os recebe? Nem os especialistas em Direito Ambiental da Europa ou dos Estados Unidos se entendem a respeito.

Na capital,também há surpreendentes pontos de formação de ozônio,como a serra da Cantareira e o pico do Jaraguá.Embora considerados refúgios de ar puro,são regiões altas,e por isso barram a passagem do ar e podem ter as mesmas concentrações de ozônio que áreas densamente urbanizadas,segundo levantamentos do IAG e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

A situação preocupa porque hoje o ozônio é o poluente que mais ultrapassa o limite de segurança,sobretudo nos bairros paulistanos do Ibirapuera e da Mooca,bem como em Cubatão,na Baixada Santista.A formação de ozônio em locais distantes dos pontos de origem dos poluentes é um problema comum aos grandes centros.Silva Dias acredita que haja muito ozônio nos arredores de Brasília e Curitiba, por exemplo,já que o fenômeno costuma ocorrer em cidades com mais de 400 mil habitantes.

O trabalho conjunto de físicos,químicos,meteorologistas e matemáticos mostra por que hoje a terra da garoa não passa de uma lembrança.Esse apelido de São Paulo se refere a uma situação que persistiu até os anos 1960,quando a chuvinha fina era assídua e se somava ao clima mais frio:no inverno,

Cubatão, ao pé da serra do Mar: brisa marinha leva ao planalto poluentes dessa cidade industrial

os paulistanos não dispensavam casacos grossos,luvas e cachecóis.Hoje praticamente não há garoa,enquanto são mais freqüentes as chuvas torrenciais,causadoras de inundações na estação quente.

Os pesquisadores analisaram as condições meteorológicas – variação de temperatura e umidade,distribuição de chuvas,freqüência de nevoeiros e ventos – que determinam o transporte dos poluentes e concluíram:as forças naturais são decisivas para e transformação da São Paulo da garoa numa cidade de chuvas torrenciais. “Há uma forte correlação entre as mudanças do clima da capital e as ocorridas no Atlântico Sul,cuja temperatura média anual aumentou 1,4ºC em 40 anos”,explica Silva Dias.

Influências marinhas - Embora não se possa garantir que o aquecimento do oceano seja a causa direta do aquecimento da capital,a hipótese é plausível.Medições feitas desde 1933 na estação meteorológica do IAG na Água Funda,junto ao Jardim Zoológico,apontam para uma mudança drástica no regime pluviométrico:aumento das chuvas intensas no verão e diminuição das chuvas leves no inverno.Disso resultou uma mudança no teor de umidade do ar.O ar mais seco que passou a predominar no inverno dificulta a dispersão dos poluentes gerados pelos 6 milh õ es de autom ó veis,400 mil caminh õ es e ô nibus e cerca de 30 mil instalações industriais da Região Metropolitana.

Apoiados ainda em medições de 1999 e 2000,que se somaram a informações colhidas rotineiramente pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb),os pesquisadores passaram a entender melhor não só as mudanças climáticas,mas também as origens e os movimentos das massas de ar que se desfazem,estacionam ou mudam de rota ao encontrar as serras e os corredores de prédios.São os ventos originados mais freqüentemente no mar que carregam a poluição produzida na cidade,principalmente por veículos,em volumes nada

desprezíveis:1,6 milhão de toneladas de monóxido de carbono,380 mil toneladas de hidrocarbonetos e 64 mil toneladas de aerossóis (material particulado) por ano.Além de mostrar que esses poluentes afetam a qualidade de vida na capital e nos municípios vizinhos,o estudo é provavelmente o primeiro a medir a origem e o destino do ar respirado em São Paulo.

A Região Metropolitana produz a maior parte de seus poluentes:de 70 a 80%.O resto vem do interior ou de outros estados:entre fins de outubro e começo de novembro,cerca de 10% da poluição da metrópole é resíduo de queimadas, principalmente de cana,feitas a até 300 km de distância,nas regiões de Piracicaba ou Ribeirão Preto.Mesmo as cinzas de queimadas no sul da Amazônia podem chegar à maior cidade do Brasil,dependendo da direção e da intensidade dos ventos – a movimentação diária dos ventos pode ser acompanhada na página www.master.iag.usp.br,construída com os resultados da pesquisa.

Aanálise do movimento e da qualidade do ar baseou-se numa metrópole ampliada em raio de 100 km – inclui parte da Baixada Santista (Santos e Cubatão),do Vale do Paraíba (até São José dos Campos) e de áreas mais planas,como Sorocaba e Campinas.Foi essa visão abrangente que permitiu conhecer os pontos e os processos de formação de ozônio.

Já se sabia que há menos ozônio no Centro ou em Congonhas,porque os próprios poluentes dessas áreas – sobretudo óxidos de nitrogênio – o consomem. É pela falta desses poluentes que pode haver mais ozônio no parque do Ibirapuera do que na vizinha avenida 23 de Maio.

Levados pelas massas de ar,os poluentes emitidos pelos carros – formadores do ozônio – saem da capital e participam de reações promovidas pela luz solar,que demoram de duas a três horas para se completar – tempo suficiente para que cheguem a municípios vizinhos ou estacionem nas en-

costas das serras.A situação se agrava em novembro,quando há muitos dias ensolarados e sem nuvens.

O detalhamento do processo foi um trabalho duro.A vice-coordenadora Maria de Fátima Andrade,do IAG,estudou a formação e interação de poluentes.Com os valores do inventário de emissões,estudou a formação de ozônio a partir de óxidos de nitrogênio,hidrocarbonetos e radicais livres (fragmentos de moléculas formadas a partir de oxigênio).O programa de previsão de formação de ozônio que ela usou tem cerca de 200 reações com 90 poluentes.

Tampa de panela - Ficou clara a importância da brisa marinha – corrente de ar de baixa intensidade que nasce no oceano,como resultado da diferença de temperatura entre o mar e o continente. É essa brisa,ao circular a 500 metros da superfície,que ameniza a temperatura da capital e intensifica a dispersão de poluentes,sobretudo quando associada aos ventos de Sudeste,correntes mais intensas,também originadas no mar.O efeito refrescante desses ventos marinhos,descobriram os pesquisadores,pode chegar até São Carlos ou Pirassununga,a 230 km da capital. “São Paulo tem sorte de estar perto do mar”,diz o coordenador. “O clima seria pior,do ponto de vista do impacto sobre a saúde pública,sem a brisa.” Dias quentes e abafados são dias em que a brisa marinha não atinge a cidade.

A equipe fez também um perfil tridimensional das massas de ar na Região Metropolitana: é a camada-limite planetária,região baixa da atmosfera onde os poluentes reagem entre si.Descrita num artigo publicado em abril de 2001 em Atmospheric Environment,essa região ocupa de 50 a 100 km ao redor do centro de São Paulo.Sua altura depende da força dos ventos que abriga,mas durante o dia chega a 1.500 metros do solo. À noite,o limite cai para 400 metros ou menos e,como o volume ocupado pelo ar urbano diminui,a concentração de poluentes aumenta.

Oar piora com um fenômeno típico do inverno paulistano:inversão térmica.Na chegada de uma frente fria,a temperatura sobe com a altura,ao contrário do habitual:normalmente a temperatura cai 1ºC a cada 100 metros de altitude.Em 1999 e 2000 houve observações por meio do Sodar – Sounding Detection and Ranging ou sondador acústico,aparelho que emite sinais sonoros como um radar de submarino e traça o perfil da variação térmica a até 1.500 metros do solo.Apurou-se que,sob forte inversão térmica,a camada-limite pode cair para 200 metros.Ela funciona como uma tampa de panela e,quanto mais baixa,mais concentração de poluentes. “Para os moradores da cidade, é a pior situação”,diz Fátima.

O Sodar evidenciou também dois fenômenos que afetam a qualidade do ar.Um deles é o dos “jatos noturnos”,ventos verticais intensos que resultam de mecanismos atmosféricos de maior escala,como as frentes frias – massas de ar vindas do sul do continente.Os jatos quebram a estabilidade da camada-limite noturna e podem trazer para baixo poluentes como o ozônio,aumentando sua concentração perto da superfície.Além disso,a mistura do ar provocada pelos jatos também pode contribuir para a diminuição da concentração de poluentes produzidos na superfície,como a poeira.

A situação pode melhorar com o segundo fenômeno,o das ondas de gravidade.Mais intensas à noite,assemelhamse às ondas de água que batem numa barreira:ao subir a

Cantareira,o ar origina oscilações,análogas às ondas de água, o que contribui para reduzir a poluição.

“Esta foi a primeira vez que se estudou o perfil tridimensional da poluição na Região Metropolitana”,comenta Paulo Artaxo,pesquisador do Instituto de Física da USP que participou do trabalho.Para chegar onde chegaram,os especialistas soltaram balões parecidos com os de festas de aniversário,que sinalizam a direção e a intensidade dos ventos.Valeram-se também de um avião Bandeirante do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).Em quatro vôos, nos invernos de 1999 e 2000,coletaram amostras de ar das cidades de São Paulo,Sorocaba,São José dos Campos,Campinas e Cubatão,voando a 200 metros do solo,abaixo do tráfego aéreo.

Variação brusca - Os pesquisadores analisaram a concentração dos gases poluentes ozônio, óxidos de nitrogênio, monóxido de carbono e dióxido de enxofre.A concentração de material particulado foi analisada por uma técnica que analisa os raios X gerados por uma amostra num acelerador de partículas.Foram analisados tanto o material fino,de menos de 2 micra (1 mícron é a milésima parte do milímetro),que entra na corrente sanguínea e atinge os alvéolos pulmonares,quanto o grosso,acima de 2 micra,que causa rinite,tosse e resfriado.

Primeira conclusão:a concentração de poluentes pode variar bruscamente num local.Em medição do dia 13 de agosto de 1999 no aeroporto Campo de Marte,havia 9 mil partículas por centímetro cúbico (cm3) a 1 mil metros de altitude.A 1.500 metros,o teor de material particulado caía para 2 mil por cm3.A diferença também variamuito com a distribuição geográfica: “Das áreas litorâneas para o centro da cidade,a concentração de material particulado subiu 20 vezes”,diz Artaxo.E as fontes desses poluentes variam no ano.Num estudo feito no inverno,a distribuição de material particulado fino foi esta:veículos,28%; poeira do solo,25%;sulfatos de fontes industriais,23%;e queima de óleos industriais,18%.Já no verão,a partici-

Beleza enganadora: as cores do pôr-do-sol na metrópole se devem ao excesso de poluição

pação dos carros cai para 24% e se destacam a poeira do solo (30%) e a queima de óleo residual (21%).

Ficou claro que a emissão de poluentes se casa com as condições meteorológicas para determinar a qualidade do ar.O problema é que uma lógica ainda misteriosa rege essa combinação. “Se reduzíssemos a emissão de poluentes pela metade,pode ser que a poluição não caísse pela metade”, diz Artaxo. “Em algumas condições meteorológicas,poderia cair muito pouco.”

Estudos mais refinados do Instituto de Física indicaram que o material particulado afeta o comportamento das camadas mais baixas da atmosfera.Já se descobriu que a poeira,sobretudo a mais fina,absorve e reflete luz,além de aquecer o ar ao redor – o ar poluído a 1 km do solo é mais quente que o ar puro na mesma altitude.As partículas também diminuem a visibilidade e dificultam a dispersão de poluentes – e oferecem o pôr-do-sol avermelhado típico da capital.Já se conhece a composição dessa poeira da cidade:há partículas de pelo menos 13 elementos,como enxofre,cloro,titânio,ferro,níquel,zinco,bromo e chumbo. No particulado fino,predomina o enxofre e no grosso elementos vindos do solo,como silício,cálcio e ferro.Nessa sopaaérea também circulam esporos de fungos e bactérias.

Só não se sabe de onde vem mais material particulado,se dos carros ou das indústrias.Por isso, Fátima e a equipe do Instituto de Química da USP coordenada por Lílian Carvalho viveram dois dias desconfortáveis fazendo medições e coletas em dois túneis da cidade:o Jânio Quadros,por onde só passam veículos leves,e o Maria Maluf,que também recebe caminhões.São laboratórios onde se misturam poluentes que ainda não reagiram entre si – entre outras razões, porque ali não há radiação solar.Nos próximos meses, à medida que o grupo concluir as análises,conhecerá melhor a contribuição dos veículos.

O aprofundamento da pesquisa evidencia mais as soluções.Estudos semelhantes em Santiago do Chile permiti-

ram reduzir pela metade a concentração de poluentes,cuja dispersão é barrada pela cordilheira.Segundo Artaxo,foi simples:depois de se descobrir que a poeira era o maior poluente,concluiu-se ser mais viável investir em caminhões que varrem as ruas toda noite do que controlar a emissão de poluentes por indústrias e veículos. “Poluição do ar tem solução”,diz Artaxo. “Basta criar um plano de controle bem embasado cientificamente,com metas claras e multas para quem não cumpri-las.”

Soluções à mão - Para ele,não se trata de criar,mas de implantar medidas já anunciadas:mais investimento no transporte urbano coletivo,controle anual de emissões veiculares e substituição dos ônibus a diesel por equivalentes a gás. “Se essas medidas houvessem sido aplicadas há dez anos,a poluição hoje seria de 30 a 50% menor.”

Há mudanças em andamento.Já funciona no pico do Jaraguá uma estação móvel da Cetesb que mede o teor de material particulado,dióxido de enxofre,monóxido de carbono e ozônio a 300 metros do solo.Há outras 23 estações fixas e duas móveis na Região Metropolitana e seis fora:Cubatão (duas),Campinas,Paulínia,Sorocaba e São José dos Campos.

Atentos ao futuro,pesquisadores da USP buscam o estudo da poluição por imagens de satélites com resolução de 1 a 5 km.O satélite Terra,lançado no ano passado pela Nasa,a agência espacial dos Estados Unidos,mostra ser possível detectar ao menos o teor de partículas na faixa da luz visível e de monóxido de carbono no infravermelho.Em dez anos, quando a Região Metropolitana fundir-se com Campinas e São José dos Campos,como se prevê,talvez seja difícil administrar centenas de sensores para saber como está o ar do dia. De imediato,o estudo ensina a ter uma idéia da qualidade do ar só com uma olhada no céu.Se há nuvens, é bom sinal, pois elas funcionam como aspiradores:sugam o ar poluído das camadas baixas da atmosfera e o expelem para o alto. •

Pesquisa FAPESP nº 71,janeiro de 2002

Serra da Cantareira: reserva de vegetação natural que perde espaço com o crescimento da capital paulista

ESPECIAL

SÃO PAULO 45O ANOS

A cidade de climas

A temperatura na maior

metrópole brasileira varia até 10 graus no mesmo momento

R ICARDO Z ORZETTO

ão dez horas da manhã de 3 de setembro na maior metrópole do Brasil.O ano,1999,quando foi feita uma das medições da pesquisa que fundamenta esta reportagem,mas o cenário mudou pouco nesse tempo.Em meio ao corredor de prédios e ao barulho do trânsito da avenida Paulista, é fácil ver homens com ternos escuros e mulheres desfilando sobre saltos com tailleursquase sempre pretos.Por causa dos 28º C,atípicos para a manhã ensolarada de final de inverno,os trajes parecem pouco adequados,mas são exigências do trabalho no maior centro financeiro do país –e,é verdade,a temperatura pode cair à tarde.Oito quilômetros a oeste dali,na mesma hora,em mangas de camisa,os vendedores do mercado municipal da Lapa atendem seus clientes – nas redondezas do mercado,a temperatura é de 32º C.A 10 quilômetros dali,em um bairro do lado oposto,na Mooca,não é menos intenso o calor enfrentado pelos comerciantes e moradores.

A diferença de temperatura,que incomoda quem vive em São Paulo,pode chegar a 10 graus no mesmo horário entre dois pontos próximos,

2004 ■ PESQUISA FAPESP ■ 21

como o Parque Ecológico do Tietê e a Marginal do Tietê,a dez quilômetros um do outro.Quem sofre mais com essa peculiaridade da maior cidade brasileira são os habitantes das favelas e dos cortiços,seguidamente empurrados para regiões cada vez mais distantes do Centro.

Suas casas,despreparadas para enfrentar as oscilações de temperatura,são como fornos durante o dia e geladeiras à noite.O põe-e-tira de agasalho – e,claro,a propagação de habitações precárias,nas quais vivem 12% dos 10 milhões de moradores da capital – é conseqüência do crescimento desordenado da metrópole,agora esmiuçado com a publicação este mês do Atlas Ambiental do Município de São Paulo,projeto conduzido pelas secretarias municipais do Verde e do Meio Ambiente e do Planejamento,com apoio do Biota-FAPESP,programa de levantamento da flora e da fauna paulistas.O Atlas,cujos primeiros resultados foram anunciados em dezembro de 2000 (veja Pesquisa FAPESP nº 60),já se encontra na internet (http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br).O projeto de pesquisa que o fundamentou “é resultado de uma parceria paradigmática entre o poder público municipal e o sistema de pesquisa do Estado de São Paulo”,comenta José Fernando Perez,diretor científico da FAPESP,no prefácio do livro. “O sucesso desse empreendimento deve nos remeter a uma reflexão sobre o potencial dessa relação possível e necessária,mas ainda tão pouco explorada.”

O Atlas mostra como se distribuem os 200 quilômetros quadrados que ainda restam de vegetação intacta no município,o equivalente a 13% do seu território (1.512 quilômetros quadrados).Ao longo de seus quase 450 anos, a serem completados no início de 2004,a construção de casas,prédios e indústrias pôs abaixo 87% da vegetação nativa da capital paulista.De acordo com esse estudo,coordenado pela geóloga Harmi Takiya,subprefeita da Mooca,a cidade perdeu um quinto de sua vegetação natural entre 1990 e 2000.Hoje as árvores se concentram nos 39 parques estaduais e municipais e em poucos bairros – Jardins,Pinheiros e Morumbi,na Zona Oeste,e Moe-

22 ■ PESQUISA FAPESP ■ 2004

Avenida São João, centro de São Paulo: luz do Sol não chega ao solo por causa do excesso de prédios

ma,na parte da Zona Sul mais próxima ao Centro.Mas à medida que se segue rumo a Capão Redondo e Jardim Ângela,no miolo da Zona Sul,o braço mais longo da cidade,a cerca de 20 quilômetros do Centro,as árvores escasseiam.Ganha espaço uma paisagem horizontal absolutamente urbana,com prédios esparsos e impressionantes conjuntos de casas precárias – e a temperatura sobe,lentamente.Em bairros mais próximos da serra do Mar,como Marsilac,por causa da proximidade

com a reserva de Capivari-Monos,a temperatura é bem mais baixa,oscilando ao redor dos 23º C.

Mosaico de microclimas - Em uma das vertentes de trabalho do Atlas,uma equipe da Universidade de São Paulo (USP) descobriu que,em conseqüência das distintas formas de ocupação do espaço urbano,a cidade apresenta 77 climas diferentes – vistos em uma concepção mais ampla,que,além da temperatura e da umidade do ar,consi-

O calor da metrópole

Variação de temperatura (°C)

Obs.: Medição feita às 10h do dia 3 de setembro de 1999. Foram consideradas apenas as 14 categorias básicas de microclimas, sem as variações internas de cada uma delas.

dera os fatores que alteram as características do clima e influenciam o bem-estar das pessoas,como o tipo de construção predominante (mais ou menos casas,prédios ou favelas) e a intensidade do trânsito,já que a temperatura pode subir com o calor emitido pelos carros e a poluição.O resultado é um mosaico que ganha homogeneidade nos extremos da cidade,por causa da proximidade com as serras da Cantareira,ao norte,e a doMar,ao sul.Há também uma certa uniformidade nos bairros que circundamo Centro,num arco que começa na Barra Funda,na Zona Oeste,passa por Limão e Santana, na Norte,avança até Penha e Vila Matilde,na Leste,e termina no Sacomã,na Zona Sul da cidade.Há variações de temperatura dentro dos próprios bairros,em ruas ou praças,razão pela qual esses climas também podem ser chamados de microclimas.Mas o mosaico se embaralha,com diferenças mais acentuadas de temperatura,nasporções das regiões Oeste e Sul próximas ao Centro.

Uma das principais causas de tamanha variação é o desmatamento, associado a loteamentos clandestinos e favelas que se disseminam nos extremos da cidde.Aos danos da devastação,de acordo com o estudo coordenado pelo geógrafo José Roberto Tarifa,soma-se inicialmente o impacto provocado pela impermeabilização do solo:São Paulo tem hoje 60 mil quilômetros de ruas asfaltadas,que retêm calor e assim tornam a cidade mais quente.Há também uma forte influência da circulação diária dos 3 milhões de carros na cidade. Além de gerar calor com a queima de combustíveis,que corresponde a um décimo da energia que a cidade recebe do Sol,os veículos lançam ao ar 2,6 milhões de toneladas de poluentes por ano,segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Cetesb) – e,quanto mais fumaça no ar,mais calor.Adicione-se o concreto de 4 milh õ es de casas e pr é dios. Resultado:a temperatura tende a subir ainda mais com a densidade de construções verticais – efeito conhecido como ilhas de calor.O centro histórico de São Paulo é uma exceção.A densidade de arranha-céus é tão elevada que surge o efeito oposto,as ilhas de frio:

Represa de Guarapiranga: com clima ameno, é um oásis em meio a regiões de intensa urbanização

em muitos prédios,os andares mais baixos não recebem a luz do Sol.

Desde que começou a estudar o clima de São Paulo há 30 anos,Tarifa não se conformava com a idéia de que ambientes tão diferentes – as alamedas dos Jardins e o tapete acinzentado de casas da Zona Leste – tivessem o clima homogêneo,de acordo com a visão clássica de físicos e meteorologistas. “Os estudos eram segmentados e avaliavam apenas um ou outro aspecto,como as chuvas ou a poluição”, diz Tarifa,que logo após aposentar-se da USP,em 2002,foi contratado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT),em Rondonópolis. “A visão antiga não levava em consideração que a vida das pessoas em São Paulo sofre a influ ê ncia,por exemplo,da qualidade do ar e do conforto t é rmico.” Segundo ele,a mudança na forma de analisar o problema era necessária também porque há períodos do dia em que as atividades dos moradores,a exemplo do deslocamento para o trabalho, pesam mais que o relevo para definir

a temperatura em uma região específica em um determinado horário.

Tarifa e Gustavo Armani,outro geógrafo do Laboratório de Climatologia e Biogeografia da USP,reuniram os estudos sobre o clima paulistano realizados de 1970 a 2000 e compararam os dados com fotos aéreas da cidade e imagens do saté lite Landsat 7.Foi a partir dessa base de dados que eles listaram 18 variáveis relacionadas ao clima da cidade.O clima de uma região é definido inicialmente por oito delas, como a temperatura da superfície do solo,a umidade do ar e a quantidade de chuva.Os outros dez fatores regulam essas características básicas:são os chamados controles climáticos,como emissão de poluentes,dimensão da cobertura vegetal e densidade da população e de edifícios.O resultado final – os 77 climas apresentados no livro Os Climas na cidade de São Paulo –Teoria e prática,publicado em 2001 –deixa claro que essas expressões da urbanidade são hoje mais importantes na definição do clima metropolitano

que o próprio relevo,um dos principais fatores determinantes das características dos climas naturais até o início do século passado.

São Paulo cresceu a partir de uma colina entre os rios Tietê e Tamanduateí,a 720 metros de altitude,sobre a qual os padres jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega criaram o Colégio de São Paulo de Piratininga em uma precária cabana de madeira.Dali, os moradores ganharam,primeiro,as terras mais planas e baixas.Num segundo momento,avançaram rumo à elevação conhecida pelos geógrafos como espigão central,a 800 metros acima do nível do mar,sobre o qual hoje se assentam bairros como Sumaré,Cerqueira César,Vila Mariana e Jabaquara. O trecho mais alto desse corredor é a avenida Paulista,que até 1900 não passava de um bucólico conjunto de chácaras e mansões.

Desde o começo do século passado, a população da cidade,então com 240

mil habitantes,cresceu 40 vezes e hoje se espalha até mesmo pelas áreas antes de difícil acesso como a serra da Cantareira,uma muralha natural a 1.200 metros de altitude. “Cada vez que se altera o espaço,redefine-se o clima”,lembra Tarifa.Cercada ao norte pela Cantareira e ao sul pela serra do Mar,a maior metrópole brasileira se encontra em um corredor que facilita a entrada das massas de ar frio provenientes da Antártida e das correntes de ar carregadas de umidade do oceano Atlântico,distante apenas 45 quilômetros em linha reta – ainda hoje elementos naturais responsáveis pela temperatura relativamente amena da cidade.

Terra sem garoa - Da época dos jesuítas para cá,São Paulo devorou quase todo o verde ao redor e deixou de ter apenas cinco climas,como há quinhentos anos, na época do descobrimento.Os cinco tipos eram variações do clima Tropical, marcados por uma estação fria e seca, que se estende pelo outono e o inverno,e outra quente e chuvosa,durante a

primavera e o verão,com temperaturas médias que variavam de 15 º C a 25º C. De acordo com um estudo feito no Instituto de Astronomia,Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP,a temperatura média da cidade subiu 1,3º C nos últimos 40 anos.Até os anos 60,a capital ainda era a Terra da Garoa,por causa da chuva finae assídua que se somava a um clima maisfrio que o atual.No inverno,os paulistanos não dispensavam casacos grossos,luvas e cachecóis.

Tão elevada diversidade de climas não é uma exclusividade de São Paulo. Em maior ou menor grau,existe também em metrópoles mundo afora,como a Cidade do México,Santiago,no Chile,e Buenos Aires,na Argentina. “Variações tão acentuadas de climas surgem quando se abdica do sonho de uma vida harmoniosa com o ambiente”,comenta Tarifa. “É um fen ô meno que ocorre quando a lógica do lucro passa a determinar a forma como os espaços devem ser ocupados.”

Pesquisa FAPESP nº 92,dezembro de 2001

EDUARDO CESAR

Terra da garoa e da ciência

“terra da garoa”ganhou loas em seu aniversário.Nem sequer a “poesia concreta de suas esquinas”foi esquecida. No entanto,quem se lembrou de celebrar a “terra da ciência”? A cidade de São Paulo, em 2001,ganhou da ONU o status de Centro Mundial de Inovação Tecnológica e,historicamente, tomou a dianteira nacional na implementação de uma política de ciência e tecnologia num país em que a elite via ações desse tipo como perda de tempo.Mas, já no espírito do “avesso do avesso do avesso”,São Paulo,crescendo em passos acelerados por causa da prosperidade cafeeira,compreendeu a necessidade de se colocar ao passo da revolução técnico-científica que ocorria no Primeiro Mundo.

De início,os institutos de pesquisa que surgiram na metrópole incipiente destinavam-se a resolver problemas práticos do capitalismo paulistano, em especial,a agricultura,a saúde e a engenharia.A elite cada vez mais endinheirada de São Paulo podia se dar ao luxo dessas experiências e,a partir da notável instalação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, responsável pela expansão e renovação de uma cidade então em franca decadência, esse grupo pôde ver com seus olhos como o conhecimento também gerava progresso material.Daí,o nascimento da Escola Politécnica,criada em 1893, pelo engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza;do Instituto Adolfo Lutz (na época,o Laboratório Bacteriológico), em 1899;o Instituto Butantan,também de 1899;o Instituto Biológico,de 1927, um dos casos mais bem-sucedidos

da associação entre pesquisa e necessidades práticas;entre outros. Mesmo o surto da industrialização dos anos 1920 e 1930,que previa apenas uma política de substituição de importações (logo,sem criação de tecnologia),não arrefeceu o ânimo paulistano.Em 1934,acreditando que era preciso preparar sua elite para a nova revolução e para a modernidade, foi fundada a Universidade de São Paulo, uma cartada inteligente da cidade para manter sua hegemonia,apostando na ciência e na cultura.Teve papel central nessa criação a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) que,anos mais tarde,na rua Maria Antônia, durante a ditadura militar, transformou-se em símbolo da resistência contra o autoritarismo. Não foi também por acaso que, no mesmo ano,a cidade foi escolhida

para abrigar o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

A ideologia da metrópole invadiu o estado:em 1947,a Constituição Estadual destina 0,5% da arrecadação para amparo à pesquisa.Esse passo realizou o sonho da comunidade científica paulista que ganhou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP),poucos anos após ter participado do esforço pela criação do então Conselho Nacional de Pesquisas,atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),em 1951.A “terra da garoa” se convertia na “terra da ciência”.O ensaio fotográfico que você verá nesta e nas próximas páginas deseja justamente homenagear a beleza dessa luta,infelizmente algo esquecida nas celebrações dos 450 anos de São Paulo.Justiça seja feita.

Campus da Cidade Universitária

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP)

Sino e escadarias da torre da praça do Relógio, Cidade Universitária

Instituto Butantan, na USP
Centro Universitário Maria Antônia
30 ■ PESQUISA FAPESP ■ 2004
Instituto Biológico
Pontifícia Universidade Católica
Faculdade de Direito do Largo de São Francisco

Mais de 8,9 milhões de pessoas em São Paulo vivem abaixo de um padrão desejável

ESPECIAL SÃO PAULO 45O ANOS

Omapa da exclusão

Projeto indica piora da qualidade de vida em 76 dos 96 distritos da cidade de São Paulo nos últimos dez anos

C LAUDIA I ZIQUE

Acidade de São Paulo ganhou 1 milhão de excluídos nosdez últimos anos. Atualmente,dos mais de 10 milhões de habitantes da capital,em torno de 8,9 milhões vivem abaixo de um padrão desejável de vida:além de baixa renda, têm dificuldade de acesso à educação, saneamento,habitação,entre outros serviços.Essa deterioração na qualidade de vida da população em 76 dos 96 distritos em que se divide a capital é resultado da ausência ou inadequação de políticas públicas e da carência na oferta de equipamentos sociais.E o quadro é ainda mais grave:a falta de planejamento aprofundou as desigualdades intra-urbanas.Na Vila Jacuí,por exemplo, há um déficitde mais de 27 mil vagas nas creches,um problema desconhecido para a população do Jaguaré,Brás ou Bom Retiro;para cada novo emprego em Aricanduva são criados 1.114 postos de trabalho na Sé;para cada morador de rua no Morumbi,existem 1.061 na Mooca,e,no Jardim Ângela,a taxa média de homicídios é 28 vezes maior que a de Moema. Essa topografia social perversa está estampada no Mapa da Exclusão/Inclusão Social da Cidade de São Paulo, destaque do projeto de pesquisa Dinâmica social,qualidade ambiental e espaços intra-urbanos em São Paulo: Uma

análise socioespacial,desenvolvido no âmbito do Programa de Pesquisas em Políticas Públicas da FAPESP. Resultado da parceria entre Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Instituto Pólis,o mapa,já em sua terceira versão,foi elaborado a partir da comparação dos dados dos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1991,1996 e 2000,de estatísticas municipais e dados da pesquisa Origem/Destino da Companhia do Metropolitano de São Paulo,que subdivide a cidade em 270 regiões.A pesquisa utiliza uma metodologia de análise geoespacial e tratamento matem á ticocomputacional das informações em ambiente de Sistema de Informação Georreferenciado (SIG),que permite identificar “o lugar” dos dados nas distintas áreas da cidade e na criação de um Índice de Exclusão/Inclusão (IEX) que possibilita classificar os níveis de qualidade de vida nos diversos distritos de São Paulo. “As informações geradas pelo mapa são estratégicas para a definição de políticas públicas adequadas às necessidades de cada região”,diz Aldaíza Sposati,coordenadora do projeto e secretária de Assistência Social do município de São Paulo.

O Índice,construído pela equipe de pesquisadores que integra o projeto, é uma espécie de Índice de Desenvolvimento

Humano (IDH),utilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para classificar a qualidade de vida dos países,só que ampliado.Enquanto o IDH utiliza quatro indicadores para avaliar a situação socioeconômica das várias nações,o Índice de Exclusão usa 47 variáveis – que a equipe de pesquisadores chama de “utopias”– agregadas em quatro grandes áreas:autonomia,qualidade de vida,desenvolvimento humano e eqüidade.

Os pesquisadores responsáveis pelo projeto desenvolveram uma metodologia de análise semelhante em Santo André,no ABC paulista,e começam a mapear as desigualdades intraurbanas nos municípios de Campinas, Guarulhos,Piracicaba e Goiânia. “Os dados principais são do IBGE,mas é fundamental compatibilizá-los com informações das prefeituras”,explica Dirce Koga,pesquisadora da PUC-SP, que integra o grupo.

Qualidade de vida - O indicador de Autonomia avalia a renda dos chefes de família e a oferta de emprego nos diversos distritos;o de Qualidade de Vida mede o acesso a serviços,como saneamento, saúde,educação,além de densidade habitacional e conforto domiciliar;o indicador Desenvolvimento Humano considera o nível de escolaridade dos chefes de família,longevidade,mortalidade infantil e juvenil e a violência;e o índice de Eqüidade registra o grau de concentra-

Topografia perversa

O Mapa da Exclusão foi construído a partir de 47 “utopias” agregadas em quatro grandes áreas: autonomia, qualidade de vida, desenvolvimento humano e eqüidade. Para cada indicador, foram atribuídas notas negativas e positivas, variando de -1 a 1

ção de mulheres na condição de chefes de família.A cada um desses indicadores foram atribuídas notas decimais negativas e positivas,variando de -1 a 1,sendo o zero definido como o padrão básico de inclusão social.Os distritos foram classificados nesses intervalos em função da distância positiva ou negativa do padrão. De acordo com esse critério,o pior lugar para se viver em São Paulo é o Jardim Ângela,com índice -1;e o melhor,Moema,com índice 1.Dentro de um padrão desejável está a Vila Jaguara,com índice 0.Segundo essa avaliação,76 dos 96 distritos da capital foram considerados excluídos.A Zona Leste perdeu para a Sul a condição de região mais carente da capital . “Constatamos que,na última década,os níveis de exclusão na Zona Leste não se alteraram. A região conseguiu melhorias coletivas. Na Sul,a exclusão se intensificou.Precisamos agora entender como isso ocorreu”,afirma Aldaíza.

Além da Zona Sul,a situação também é grave na região que faz limite com a serra da Cantareira,a noroeste da ca-

pital,onde se concentra um grande número de distritos excluídos.O mais perverso é que essas são áreas de mananciais e de preservação ambiental que foram “congeladas”,conforme diz Aldaíza,tantodo ponto de vista dos investimentos como de melhorias.Desvalorizadas,elas são objeto de ocupação e estão sendo degradadas. “Os índices de exclusão estão comprometendo o futuro da cidade”, alerta Aldaíza. “Não há combinação de política ambiental e de defesa humana.”

Planejamento urbano - O Mapa da Exclusão faz uma radiografia detalhada da topografia social de São Pauloe é uma importante ferramenta de planejamento urbano.O primeiro mapa,que compara os dados dos censos de 1991 e a recontagem realizada em 1996,foi utilizado pela Secretaria Municipal da Educação,durante a gestão do prefeito Celso Pitta,para avaliar a demanda educacional nas diversas regiões.O segundo,publicado em 2000 – já no âmbito do programa de Políticas Públicas da FAPESP –,tem sido ferramenta es-

tratégica para a definição de áreas de implantação de programas sociais na gestão da prefeita Marta Suplicy. “O foco são as áreas de maior índice de exclusão”,diz Aldaíza.

A terceira versão,que incorpora à série histórica os dados do censo de 2000, ainda está em fase de conclusão,mas os resultados preliminares já são referência para debates sobre o Orçamento Participativo da prefeitura e para o planejamento de programas de saúde.

“As políticas públicas se beneficiam da espacialização dos dados.Essa metodologia de análise permite a compreensão das diferenças entre os vários territórios de um mesmo município”, diz Gilberto C â mara,coordenadorgeral de Observação da Terra do INPE e coordenador-assistente do projeto. “Os pobres do Itaim Paulista não são os mesmos do Jardim Ângela”,resume. O uso da estatística espacial,ele ressalta, é bastante sensível à análise e subsidia as avaliações qualitativas.Aumenta a possibilidade de se identificar e focar “um alvo”,no caso das políticas públi-

Ranking da exclusão

1 Jardim Ângela-1,00

2 Grajaú -0,95

3 Cidade Tiradentes-0,93

4 Itaim Paulista-0,92

5 Lajeado-0,92

6 Guaianases-0,90

7 Iguatemi-0,87

8 Parelheiros-0,85

9 Jardim Helena-0,84

10 Brasilândia-0,82

11 Vila Curuçá -0,79

12 Capão Redondo-0,77

13 Pedreira-0,75

14 José Bonifácio-0,73

15 Perus-0,72

16 São Rafael-0,71

17 Cidade Ademar-0,70

18 Cachoeirinha-0,70

19 Jardim São Luís-0,68

20 Cidade Dutra-0,67

21 Sapopemba-0,67

22 Itaquera-0,67

23 Marsilac-0,64

24 São Miguel-0,64

25 Vila Jacuí -0,63

26 Jaraguá -0,63

27 Campo Limpo-0,61

28 Parque do Carmo-0,60

29 Cidade Líder-0,58

30 São Mateus-0,53

31 Vila Medeiros-0,50

32 Cangaíba-0,50

33 Anhangüera-0,49

34 Ermelino Matarazzo-0,49

35 Artur Alvim-0,49

36 Sé -0,47

37 Raposo Tavares-0,46

38 Ponte Rasa-0,46

39 Tremembé -0,44

40 Jaçanã -0,42

41 Rio Pequeno-0,42

42 Pirituba-0,41

43 Aricanduva-0,40

44 Vila Andrade-0,37

45 Brás-0,36

46 Jabaquara-0,33

47 Freguesia do Ó -0,3

48 Sacomã -0,31

49 São Lucas-0,29

50 Jaguaré -0,27

51 Vila Maria-0,24

52 Limão-0,24

53 Socorro-0,21

54 São Domingos-0,21

55 Vila Matilde-0,20

56 República -0,18

57 Penha-0,18

58 Vila Sônia-0,18

59 Mandaqui-0,17

60 Vila Prudente-0,16

61 Bom Retiro-0,16

62 Liberdade-0,15

63 Tucuruvi-0,15

64 Vila Formosa-0,14

65 Pari-0,13

66 Cursino-0,12

67 Carrão-0,11

68 Casa Verde-0,10

69 Cambuci-0,09

70 Ipiranga-0,06

71 Vila Guilherme-0,06

72 Água Rasa-0,06

73 Campo Grande-0,04

74 Bela Vista-0,01

75 Morumbi-0,01

76 Mooca-0,01

77 Jaguara0,00

78 Barra Funda0,03

79 Santa Cecília0,05

80 Tatuapé 0,13

81 Vila Leopoldina0,16

82 Saúde0,21

83 Santana0,25

84 Belém0,25

85 Campo Belo0,33

86 Butantã 0,35

87 Itaim Bibi0,46

88 Alto de Pinheiros0,46

89 Perdizes0,49

90 Santo Amaro0,51

91 Vila Mariana0,57

92 Consolação0,76

93 Jardim Paulista0,90

94 Lapa0,91

95 Pinheiros0,91

96 Moema1,00

cas,ampliando as chances de sucesso de projetos e programas sociais e evitando o desperdício de recursos públicos. “O mapa da exclusão é uma forma de aumentar a capacidade de decisão do prefeito”,diz Câmara.

A metodologia de análise utilizada no projeto revela,por exemplo,que entre 1996 e 2001,período em que a população da capital registrou crescimento de 2%,o número de habitantes do distrito de Anhangüera aumentou 129,96%,enquanto o do Pari decresceu 27,54%.Os números sugerem que,nesse período, houve uma intensa migração intra-urbana dos distritos mais centrais,como o Pari,em direção a áreas periféricas,como Anhangüera,Grajaú,Cidade Tiradentes,entre outras,carentes de equipamentos e serviços públicos para atender às demandas da população ampliada.

O movimento populacional comprometeu a qualidade de vida nos diversos distritos paulistanos.O Índice Autonomia,por exemplo,mostrou uma impressionante desigualdade na oferta de emprego entre os vários distritos paulistanos.O da Sé,de baixa densidade de moradores,concentra a maior taxa distrital,com 6,80 empregos por habitante. O seu contraponto é Anhangüera,região que,apesar da explosão demográfica registradana década,manteve estável a taxa de crescimento da oferta de trabalho de 0,18 vaga por habitante.A falta de emprego obriga o deslocamento diário dos trabalhadores/moradores para outras á reas com maior oferta de trabalho. “ Essa situação deveria exigir do poder público local maior atenção no quediz respeito aos transportes coletivos”,diz Dirce Koga.

O quadro ocupacional se agrava quando se contabiliza a oferta distrital de emprego em relaçã o à popula çã o economicamente ativa (PEA),entre 14 e 69 anos:existem empregos para 64% da PEA na cidade.Os demais 36%,pelomenos estatisticamente,estão forado mercado de trabalho.Nessa perspectiva de análise,a pior situação é a de Cidade Tiradentes:de cada dez moradores,menos de dois (1,8) tem emprego no próprio distrito.

A menor renda familiar,correspondente a 4,64 salários mínimos,está no distrito de José Bonifácio,e a maior,quase 41 mínimos,em Moema.O padrão básico de renda,base para a construção do Índice de Exclusão,foi de 14 míni-

mos,encontrada noBomRetiro.Por esse critério,20 distritos tiveram nota positiva,e 54,notasnegativas.

Serviço deficitário - O déficit de vagas nas creches públicas e privadas na cidadecresceu 34%,desde 1995. É certo que,nesse período, a população entre 0 e 4 anos reduziu 12%, mas, ainda assim,as vagas são insuficientes.O problema é particularmente grave em Vila Jacuí,onde o déficit saltou de540 para 10.014 vagas.Também faltam vagas nas escolas de educação infantil,queatendem crianças entre 5 e 6 anos de idade,em 85 dos 96 distritos paulistas.Em algumas áreas,como o Pari –que teve decréscimo de população –,foi registrado superávit de 83,49%.As vagas nas escolas de ensino fundamental também não atendem à demanda em pelo menos 13 regiões da cidade.Na República,só existem matrículas em escola pública para 868 das 3.646 crianças,um déficit de 76,19%.

Não existem unidades de saúde em dez distritos.Nas áreascentrais,o déficit chegaa 100%.Noutras 76,a cobertura está abaixo do padrão básico de um posto de atendimento para cada grupo de 20 mil habitantes.A pior situação é a do Campo Limpo.Já em Jaguara ou na Ponte Rasa,há superávit.

A pesquisa mostra pelo menos um ponto positivo:o percentual de chefes de família sem instrução baixou de 9,47% para 6,45%, em 1996,uma redução de quase 32%.Ainda assim,em 47 distritos,o percentual de chefes

“A gente faz o que Deus quer”

Inscrustada no alto do Jardim Ângela,Copacabana parece uma cidade fantasma. Às 13h30 de uma segundafeira,as ruas est ã o vazias e as casas trancadas.Todas têm as portas e janelas protegidas por grades pontiagudasde alumínio.Os bares estão igualmente fechados.O silêncio parece absoluto.Na esquina,um grupo de crianças joga bola num terreno baldio atulhado de lixo. Duzentos metros à frente,cinco garotos empinam pipa sobre uma laje que se debruça sobre a VilaTupi.Dizem que lá,sim, é que os chefes do tráfico impõem aos moradores toque de recolher a qualquer hora do dia e da noite.

Com uma população de 250 mil habitantes,o distrito de Jardim Ângela

é uma espécie de corredor isolado,na Zona Sul da cidade,um tipo de “buraco urbano” que acaba na serra do Mar.De povoamento recente,abriga uma população sem qualificação profissional e atrai grande parte do contingente de migrantes intra-urbanos.Registra a maior taxa de homicídios e o pior índice (-1) de exclusão da cidade de São Paulo. “Acho que há um certo exagero quando se fala que esta região é muito violenta”,diz Helena dos Santos,de 54 anos,36 dos quais vividos no Jardim Ângela. “A violência está em todo lugar. ” Foi ali que ela conheceu e se casou com João,que já foi até dono de caminhão,mas que hoje “dirige o caminhão dos outros”.Foi com o dinheiro que ele

trazia da estrada e como seu salário de costureira numa confecção da rua José Paulino,naregião central,que ambos criaram os dois filhos. “Resolvi largar a confecção e hoje faço bolos para festas e uma ou outra costura”,conta Helena. É assim que ela está ajudando na educação de seus cinco netos,filhos do seu primogênito assassinado há dois anos. “Ele era Policial Militar,mas,naquele dia,não estava em serviço.Era domingo e ele tinha jantado com a mulher,aqui em casa.Foi morto a poucos metros daquie até hoje não sabemos exatamente o que aconteceu”,diz,deixando claro quenão gosta de tratar do assunto.Não atribui a suatragédia pessoal à violência que campeia no Jardim Ângela.Mas

Populações carentes ocupam áreas de mananciais e de preservação ambiental, comprometendo o futuro da cidade

Moema: o melhor lugar para se viver em São Paulo

confessa: “Na época,tive vontade de voltar para o interior.Mas depois pensei:a gentefaz o que Deus quer.Resolvi ficar e estou bemaqui” Regina Eugênia,de 34 anos,três filhas,tamb é m defende o lugar onde mora há 11 anos. “Nãofaltam escolas para as crianças.” Ela desconhece o déficit de vagas nas creches do bairro. “Nunca precisei.Eu não trabalhava e ficava em casa com as crianças.” Regina reconhece que a região tem problemas com atendimento de saúde. “Quando alguém precisa de médico,procuramosum hospital em Campo Limpo,afinal, é para isso que servem os convênios”,afirma.Campo

Jardim Ângela: campeão no ranking da exclusão

Limpo é distrito vizinho ao Jardim Ângela,com índice de exclusão de -0,61, e que ocupa a 27 ª posição no ranking da exclus ã o.A grande dificuldade, confessa,está em continuar pagando o conv ê nio m é dico.Seu marido era inspetor de qualidade numa grande

de família analfabetos superava a média dos municípios,em alguns casos em até 20,08%. A maior concentração estavano Grajaú,e a menor,na Barra Funda.O percentual de chefes de família com oito a 14 anos de estudo cresceu 32,20%,com destaque para Lajeado. Outra boa notícia é que o número dos que têm nível universitário cresceu 13,85% no conjunto da cidade,no mesmo período.A maior incidência de diplomas de 3º grau foi registrada no distrito do Iguatemi. Os índices de longevidade também são positivos.E caiu o número de anos potenciais de vida perdidos,calculado pela diferença entre o ano da morte e a expectativa de vida da população,em 23 dos 96 distritos.A taxa de homicídios,no entanto,cresceu 11,33%,entre 1996 e 1999.No Jardim Ângela,a taxa –que é calculada pelo número de homicídios multiplicada por 100 mil habitantes e dividida pela população do distrito – foi de 94,42. Na Sé,essa taxa saltou de 37,52 para 93,47.

Novas utopias - O projeto entra na fase II do Programa de Pesquisas em Políticas Públicas. As metas são produzir novos mapas,aperfeiçoaros indicadores,rever o conteúdo do indicador de eqüidade e agregar ao Índice de Exclusão/ Inclusão novas “utopias”:democracia,cidadania e felicidade. “Trabalhamos com a idéia de que há um sofrimento na exclusão e que a felicidade é um direito público”,explica Dirce. •

Pesquisa FAPESP nº 83,janeiro de 2003

empresa,mas está desempregado há três meses e ela “faz bicos”,como diz,para sustentar a família:passa roupas,faz faxina,cozinha. “ Tivemos que cortar alguns gastos,inclusive com o convênio”,justifica.

Do outro lado da estrada do M’Boi Mirim,Maria do Socorro Pereira,47 anos,frita mais uma rodada de pastéis sob a barraca de lona. “Tenho esta barracahá oito anos e nunca fui assaltada”,orgulha-se.A proximidade de uma Base Comunitária da Polícia Militar ajuda a intimidar.Mas ela diz que tem um pacto com quem tem “cara de bandido” “Ofereço-lhe pastel gratuitamente e conquisto a sua simpatia.” Aguarda ansiosa que a prefeitura cumpra a promessa de transformar a M’Boi Mirim num corredor de ônibus. “Isso com certeza vai aumentar o movimento e eu vou aumentar a venda de pastéis”,prevê

MIGUELBOYAYAN

R etratos doentardecer

Em sua maioria de origem rural, os idosos da cidade de São Paulo foram trabalhadores braçais e têm baixa escolaridade

M ARCOS

P IVETTA

Nascida há 87 anos em Pedreira,cidade do interior paulista,Matilde Lazzari Zanardi nuncafoi à escola.Sua irmã mais velha morreu cedo,e ela,ainda menina,teve de ajudar a mãe a tomar conta de seus nove irmãos mais novos.Enquanto eles estudavam,tinha de cuidar da casa.Além de se ocupar dos afazeres domésticos,tocava o trabalho na roça.Em 1940,após ter morado por um breve período no ABC paulista,retornou a Pedreira e ali se casou com Hugo Antonio Zanardi,com quem viria a ter um casal de filhos,Osvaldo e Maria Ivone.No dia seguinte ao matrimônio,o par mudou-se definitivamente para a cidade de São Paulo.Na capital,ambos trabalharam no setor têxtil. Ele como estampador.Ela como tecelã.Por volta dos 50 anos,Matilde,que aprendera a ler e escrever sozinha apesar de nãoter freqüentado colégios,aposentou-se.Mas, para reforçar o caixa e se manter na ativa,a descendente de italianos passou a comercializar jóias.“Ela visitava os clientes em casa e vendia artigos em ouro e prata”,lembra a arquiteta Liamara Milhan,40 anos,neta de Matilde.A vida seguia seu curso natural no clã dos Zanardi,que moravam

População com 60 anos ou mais representa 9,3% dos habitantes na capital paulista

EDUARDO CESAR

Homens são pouco mais de 40% dos idosos em São Paulo

todos (pais,filhos e até netos) próximos uns dos outros em casas na Vila Prudente,bairro da Zona Leste de São Paulo.Até que,em 1984,o marido de Matilde,aos 70 anos,morreu de infarto.Mesmo coma perda,a aposentada (um salário mínimo de pensão) seguiu em frente.Em outubro de 98,um aneurisma cerebral,seguido de derrame,quase a fez tombar.Apesar da idade avançada,hoje se recupera do baque em casa, coma ajuda da família e dos remédios.

Atrajetória dessa ex-tecelã serve,em grande medida,como testemunhoda história de vida de uma parte significativa dos idosos que moram na capital paulista.Por ser mulher,ter pouco estudo,vir do meio rural, ser aposentada,ganhar pouco,ter exercidouma profissão braçal,morar com a família e depender de medicamentos –enfim,por tudo isso –,dona Matilde reúne algumas das principais característicasdo contigente de quase 1 milhão de idosos que moram na maiore mais próspera metrópole brasileira.Pode-se dizer isso ao deparar com os principais resultados de um levantamento feito por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São

Paulo (USP),em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e com apoio da FAPESP.Formalmente denominado Sabe (Saúde,bem-estar e envelhecimento),o trabalho traçou um retrato de quem são,como vivem e qual é o estado de saúde das pessoas com 60 anos ou mais que residiam no ano 2000 no município de São Paulo.Os moradores dessa faixa etária equivalem a 9,3% da população da capital paulista,de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eis alguns números fornecidos pelo estudo,que registrou uma idade mé-

dia de 69 anos entre os idosos de São Paulo.Majoritárias na população total da metrópole,as mulheres são ainda mais fortemente representadas naterceira idade,respondendo por quase 60% dessa faixa etária.Um em cada cinco idosos nunca foi à escola e 60% estudaram até sete anos.Antes de terem se mudado para São Paulo, quase dois terçosdeles moraram no campo até os 15 anos de idade por um período não inferior a 60 meses.Em sua vida profissional,pouco mais de 75% dos idosos exerceram ocupaçõesque lhes demandaram esforços predominantemente físicos.Os medicamentos são um companheiro de todas as horas e de quase todos:87% usam algum remédio.Dois terços das pessoas que atingiram a terceira idade têm um rendimento entre um e cinco salários mínimos,provenientes essencialmente de aposentadorias,visto que 80% delas nãotrabalham mais.Por fim,86% dos idosos moram acompanhados,ao lado de alguém da família (cônjuge,filhos ou parentes).Dá para

enxergar um quê de dona Matilde nos idosos de São Paulo?

Essas cifras e porcentagens são apenas uma amostra das centenas de informações que começam a emergir do Sabe ( para outros dados,veja quadro à página 43).Para cumprir o objetivo do projeto,seus pesquisadores tiveram de entrevistar 2.143 idosos que residiam em São Paulo,visitar seus domicílios e tirar suas medidas (peso,altura,prega cutânea para ver a capa de gordura etc.).As pessoas que deram depoimentos ao estudo foram estatisticamente selecionadas para formar um conjunto representativo do segmento mais velho da população do município. “Temos muito material com os mais variados dados sobre os idosos”,comenta a pesquisadora Maria Lúcia Lebrão,da Faculdade de Saúde P ú blica da USP,um dos coordenadores do Sabe. “Falta gente para analisar tanta informa çã o. ” A Opas promoveu projetos idênticos ao realizado em São Paulo nas capitais de mais sete países da Am é rica Latina e Caribe (Cuba,Costa Rica,Uruguai,Argentina,México,Chile e Barbados).Por ora,apenas uma pequena parte desses dados,coletados com a mesma metodologia usada na capital paulista,está

Boas histórias de mulheres de fibra

disponível para comparação. Pelos padrões definidos no Sabe, 96% dos idosos de São Paulo moram em residências cuja qualidade é boa. Suas moradias – em 78% dos casos próprias,deles ou de alguém que lhes cede graciosamente o espaço – têm água encanada,sistemas de esgoto e banheiro e contam com um cômodo para cozinhar.Essa boa notícia,contudo, esconde um dado perverso da localização geográfica dos idosos na cidade. A imensa maioria está concentrada em bairros mais centrais,de melhor estrutura,longe das favelas e da periferia, um indício de que envelhecer ainda é um privilégio das classes mais abastadas.Embora somente 13% dos idosos residam sozinhos,sete de cada dez indivíduos com 60 anos ou mais disseram que não contam com ninguém para ajudá-los em suas atividades diárias.Que tipo de auxílio eles gostariam de ter? Possivelmente,uma mãozinha para desempenhar tarefas outrora corriqueiras que se tornaram pequenos martírios:17% têm dificuldade para se vestir,12% para deitar e se levantar, 10% para tomar banho,7% para ir ao banheiro e 6% para comer.

As doenças crônicas são uma sombra que paira sobre os idosos,segun-

do o projeto Sabe.Pouco mais da metade dos idosos que residem em São Paulo disse ter pressão alta.Um terço relatou sofrer de artrite,reumatismo ou artrose.Um quinto afirmou apresentar algum problema cardíaco.Os que se declararam diabéticos chegam a 18%,quatro pontos percentuais a mais que as vítimas de osteoporose,a descalcificação progressiva dos ossos que afeta especialmente as mulheres. Outras enfermidades freqüentemente mencionadas foram problemas nos pulm õ es (12%),embolia/derrame (7%) e câncer (3%).Num primeiro olhar,o estado de saúde de uma pessoa de idade avançada parece ser inversamente proporcional ao número de doenças:mais enfermidades significam menos qualidade de vida.Isso, no entanto,nem sempre é verdade. “Às vezes,um idoso com quatro ou cinco doenças crônicas,só que todas sob controle,pode viver melhor e ter menos risco de parar numa cadeira de rodas ou morrer do que outro com um ou dois problemas de saúde que não são tratados de forma adequada”, pondera o geriatra Luiz R.Ramos,do Centro de Estudos do Envelhecimento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

2004 ■ PESQUISA FAPESP ■ 41

Aos 65 anos, Guiomar Hachel (à esq) gosta de dançar. Matilde Zanardi (87) se recupera de derrame com ajuda da filha Maria Ivone

Receita para envelhecer bem - Na segunda metade da década passada, Ramoscoordenou um projeto que acompanhou,por dois anos,a saúde de 1.667 idosos que moravam na Vila Clementino,bairro da capital paulista onde fica a Unifesp.Seus objetivos centrais eram levantar fatores de risco que aumentavama chance de óbito na terceira idade e tentar entender por que algumas pessoas envelheciam bem e outras,não.Uma das principais conclusões do estudo foi que o foco do atendimento a essa faixa da população não devia ser pura e simplesmente nas doenças,mas sim nos impactos que essas enfermidades tinham sobre as funções cognitivas e motoras do paciente.

“O mais importante é que o tratamento vise preservar ou,se possível,até aumentar o grau de independência (mental e de locomoção) do idoso em relação a outras pessoas”,afirma Ramos.

Ao passar os olhos sobre a montanha de números do Sabe,um ponto se destaca: o nível de escolaridade dos idosos parece se comportar como um marcador de sua condição geral de saúde,sobretudo de seus aspectos cognitivos.Aparentemente, quanto maior o grau de educação formal do entrevistado,menor o seu desconforto físico e mental.Como evidenciar essa relação? Ela começa a ganhar contornos de realidade quando se vê que aproximadamente 65% dos indivíduos sem escolaridade classificaram sua saúde de ruim ou má,dez pontos percentuais acima do resultado geral da amostra.Se o assunto é saúde mental, essa relação se explicita de vez.Independentemente do grau de instrução dos idosos,a ocorrência de problemas cognitivos,como perda de memória,raciocínio e outras funções cerebrais,atinge 11% de toda a amostra do Sabe,com freqüência um quarto maior nas mulheres do que nos homens.Entre as pessoas com 60 anos ou mais que nunca foram à escola,a incidência dessetipo de problema é de 17%.Nos idososque estudaram menos de sete anos,essa taxa cai para 5%.E entreos que contabilizaram mais de sete anos nos bancos escolares, é de apenas 1%. “Quem pôde estudar geralmente atingiu uma melhor condição socioeconômicadurante a

Cifras da terceira idade Cifras da terceira idade

Alguns dados obtidos a partir de levantamento feito em 2000 com 2.143 pessoas com 60 anos ou mais residentes na capital paulista

vida e é mais bem informado sobre as questões de saúde”,afirma Ruy Laurenti,também da Faculdade de Saúde Pública da USP,outro coordenador do Sabe. “Ele se prepara e tem maiscondições de envelhecer bem.”

Os preocupantes índices de deterioração cognitiva em idosos,também encontrados nos demais países latino-americanos radiografados pelo Sabe,sãoum indício de que uma série de problemas devem aparecer no futuro próximo,em especial demências,como o mal de Alzheimer,e perda de autonomia para a realização de tarefas cotidianas.Em outras palavras,esse idoso,se a deterioração mental avançar,terá de ser assistido por alguém diuturnamente.Paraa psicóloga Ana Teresa de Abreu Ramos Cerqueira, da Faculdade de Medicina deBotucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp),que também participada análise dos dados do Sabe,a relação entre escolaridade e dist ú rbioscognitivos realmente existe. É um problema real, mas precisa ser um pouco relativizado. “Os resultados variam muito de acordo com a metodologia que usamos para levantar esse tipo de dado”,pondera Ana Teresa. “Muitas vezes ocorre o que chamamos de falso positivo para problemas de cognição ou demência,especialmente no diagnóstico da situação de pessoas menos instruídas.” Os idosos sem estudo têm mais dificuldade de responder aos questionários dos pesquisadores do que as pessoas com maior escolaridade.Resultado:muita gente com pouca ou nenhuma escolaridade acaba sendo rotulada,erroneamente, de demente ou portadora de problemas mentais.

Mais velho e sem dinheiro - A preocupação da Opas em estudar a velhice nesta parte do planeta tem uma razão clara:nos próximos 20 anos,o número de pessoas com 60 anos ou mais na América Latina e Caribe vai praticamente dobrar,saltando de 42 milhões de indivíduos no ano 2000 para estimados 82 milhões depois de 2020.Nesse mesmo período,em termos proporcionais, o aumento será um pouco menor,mas ainda assim muito expressivo.Os idosos passarão de 8,1% para 12,4% da população total desses países.Nesse quadro

Idosos em praia do Rio de Janeiro: a capital da terceira idade

de rápido envelhecimento das sociedades latino-americanas,o Brasil não é exceção.Em 1940,só 4% de sua população tinha 60 anos ou mais.Segundo o censo,os idosos em 2000 já somavam 8,6% de todos os brasileiros – um contingente de 14,5 milhões de indivíduos, 55% dos quais mulheres.Nos próximos 20 anos,a população idosa do Brasil poderá ultrapassar os 30 milhões de pessoas e representar quase 13% de seus habitantes. “Pode até não parecer tanta gente assim em termos proporcionais, sobretudo quando se olha para dados de países europeus,onde mais de 15% da população é de idosos”,comenta Ruy Laurenti. “Mas o número absoluto de idosos no Brasil é muito grande e continuará crescendo.”

As conseqüências do aumento expressivo na quantidade de pessoas da chamada terceira idade sobre os sistemas de saúde e a Previdência Social são evidentes e já são sentidas hojeem dia. Basta mencionar o acalorado debate nacional sobre o teto máximo das aposentadorias e a idade mínima para se requisitar o benefício.Foraisso,há ainda o impacto do envelhecimento nas relações familiares.Quem nunca participou daquela reunião de família para discutir,baixinho e de forma meio constrangida,onde a vovó iria morar

depois que o vovô se foi? A rigor,o problema maior nem é o envelhecimento da população na América Latina (também na Ásia e África),mas,sim,o seu envelhecimento sem saúde e qualidade de vida.Essa questão é ainda maisdramática no universo das nações pobres e em desenvolvimento,como o Brasil e seus vizinhos latinos,onde boa parte dos idosos tem pouca instrução formal,dinheiro contado e serviços públicos prec á rios. “ Primeiro os pa í ses desenvolvidos ficaram ricos e,depois,velhos”, afirma Maria Lúcia Lebrão. “Nós estamos ficando velhos antes de sermos ricos. ” Os dados do projeto Sabe na capital paulista servem para ilustrar essa máxima.Pagar um plano de saúde é um luxo que apenas quatro de cada dez idosos que moram em São Paulo conseguem manter.Dona Matilde está entre os que contam com esse benefício. Por ser antigo e lhe dar direito a atendimento em apenas um hospital da região,o valor da mensalidade,cerca de R$ 150, é consideradobaixo para a idade da portadora do convênio.

O envelhecimento da população e o aumento da expectativa média de vida ao nascer – em 1980,era de 62,7 anos para os brasileiros e hoje está em quase 69 anos – s ã o fen ô menos nacionais.Mas,segundo dados de cen-

sos do IBGE,a presença de idosos nas 27 unidades federativas varia – e muito.Na base,há um grupo de estados em que a parcela mais velha da população representa entre 4% e menos de 7% de seus habitantes.Esse é o caso de toda a região Norte.Numa situaçã o intermedi á ria,h á um grande grupo de estados cuja propor çã o de idosos varia de 7% a 9% de seus moradores. Em São Paulo,por exemplo,as pessoas com 60 anos ou mais representam 9% da população.No topo,com uma taxa de idosos que chega a dois d í gitos,figuram tr ê s estados:Paraíba (10,2%), Rio Grande do Sul (10,5%) e Rio de Janeiro (10,7%).Nãopor acaso,os municípios de Porto Alegre e Rio de Janeiro também são as capitais com mais gente de idade (11,8% e 12,8%,respectivamente,de seus habitantes).

Já se tornou clássica a associação de um dos mais tradicionais bairros da Zona Sul carioca à imagem de simpáticos velhinhos – relativamente prósperos em relação ao grosso dos aposentados nacionais – andando na praia ou se exercitando na areia. “Vinte e sete por cento dos moradores de Copacabana são idosos”,diz o médico Renato Veras, diretor da Universidade Aberta da Ter-

ceira Idade (Unati),projeto mantido pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) que,por semestre,ministra 125 cursos para 2.200 idosos.Especialista na saúde da terceira idade,Verasafirma que o setor público de saúde ainda não está preparado para atender à demanda crescente de serviços especialmente voltados para a parcela de mais idade da população. “Mesmo com essa enorme presença de idosos,quem acha um geriatra num posto de saúde em Copacabana?”,indaga o médico.

Creche para idoso - Cuidar do idoso é diferente de tratar de uma criança ou adulto.Por isso,muitos especialistas defendem a implementação de serviços diferenciados para essa faixa etária.Veras é a favor do incremento do atendimento domiciliar para essa parcela da população. “Em casa,o idoso tem menos infecção hospitalar e está num ambiente conhecido”,diz o diretor da Unati.Implantar um sistema de atendimento domiciliar exige uma logística complexa,que gerencie de forma eficiente e racional o deslocamento de equipes médicas.Mas,segundo Veras,se bem administrado,esse serviço até reduz os custos do atendimento,na medida em que atua mais preventivamente e evita internações desnecessárias.

Aliás,sair de casa e chegar a um hospital ou consultório médico pode ser uma tarefa impossível de ser cumprida por muitos idosos.Em São Paulo, de acordo com os resultados do Sabe,a falta de (bom) transporte público chegou a ser a causa mais citada pelos entrevistados para faltarem a consultas médicas.Outra possibilidade de serviço diferenciado para os idosos,que não exclui a proposta anterior, é estimular a criação de centros de convivência para esse segmento da população,lugares que funcionam como creches da terceira idade.Nesses locais,quem já chegou aos 60 anos pode passar o dia desenvolvendo atividades físicas e intelectuais sempre sob a supervisão de alguém da área médica,uma enfermeira ao menos. À noite,o idoso volta paracasa. “Dessa forma,ele não perde o vínculo familiar e se mantém ativo”,diz Maria Lúcia Lebrão,da Faculdade de Saúde Pública da USP,que advoga essa idéia.

Algumas das chamadas universidades da terceira idade fazem,de certa forma,o papel de centro de convivência de idosos. É verdade que o número de vagas oferecidas em seus cursos e atividades geralmente é pequeno diante da procura.Mas quem consegue um lugar fica satisfeito.Esse é o caso da dona de casa Guiomar Genaro Hachel,65 anos,que freqüentou durante quatro anos atividades para idosos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/ SP) e,há três,participa da Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati) mantida pela Unifesp.Desacompanhada do marido,Guiomar já assistiu a todo o ciclo de palestras e agora faz “aulas extracurriculares” de teatro,dança de salão e tai chi chuan. “Na universidade,fico mais esclarecida e faço amizades”,diz essa avó de seis netos.A presença de homens é menor nos cursos para terceira idade, mas não inexistente.Viúvo e aposentado, o ex-profissional de marketing Celso Pavarin,73 anos,começou a freqüentar a Uati neste ano.Além das palestras regulares promovidas pela universidade,faz aulas de teatro,dança de salão e informática. “Mais do que o conhecimento, o que mais me impressiona na Uati é o carinho das pessoas”,afirma Pavarin,que há 21 anos carrega uma safena no peito. “Aqui é bom ser velho.Mais pessoas deveriam ter essa oportunidade.” • Pesquisa FAPESP nº 87,maio de 2003

2004 ■ PESQUISA FAPESP ■ 45

SIMONE MARINHO/JB ZS

ESPECIAL

SÃO PAULO 45O ANOS

A metrópole nas telas

Como o cinema paulistano – em especial, sete filmes – mostrou as mazelas e os personagens de São Paulo durante a década de 1980

Se você mora ou conhece razoavelmente a cidade de São Paulo,feche os olhos e pense nas primeiras imagens que lhe vêm à cabeça.Provavelmente não ficará livre dos pedestres andando às pressas pelo Centro ou na avenida Paulista.Tampouco dos limites impostos pelos rios Pinheiros e Tietêe das pontes cobertas de congestionamento no cair da tarde.Certamente se lembrará também de algum arranha-céu famoso:o prédio do Banespa, o Terraço Itália ou o Copan.Algumas palavras sobre o cenário? Trabalho,correria,progresso,modernidade,oportunidades e barulho.

Estereótipos da capital paulista,assim como de qualquer outra grande cidade,permanecem na memória de seus moradores.São frutos da vivência do indivíduo na metrópole,mas,também,das imagens veiculadas pelo cinema,pela televisão,pelos jornais e até mesmo pela literatura.A observação é de Andréa Cláudia Miguel Mar-

Anjos do Arrabalde: relação difícil entre indivíduo e cidade

ques Barbosa,que escreveu a tese São Paulo: Cidade azul.Análise da construção de um imaginário da cidade pelo cinema Paulista dos anos 80,do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia,Letras e Ci ê ncias Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

Durante quatro anos,financiada pelaFAPESP por meio da bolsa de doutorado,Andréa analisou,do ponto de vista antropológico,a visão da cidade de São Paulo existente em sete filmes produzidos por cineastas paulistas na década de 1980.Observou com atenção,tamb é m,a maneira como os personagens (indivíduos) lidavam com essa cidade.Colocando-se como espectadora privilegiada,ela viu e reviu dezenas de vezes,escutou e interpretou obras de Wilson Barros,Chico Botelho,Carlos Reichenbach,Guilherme de Almeida Prado e Cecílio Neto. “Escolhi filmes da década de 1980 porque esse foi o período em que a temática urbana foi muito comum no cinema nacional”,explica a pesquisadora. “E isso não foi privilégio de São Paulo;em outros locais do país também ocorreu. ”

O primeiro filme da lista é de 1979, Disaster movie,um curta-metragem de Wilson Barros.Os demais são: Diversões solitárias (Wilson Barros,1983), Cidade oculta (Chico Botelho,1986), Anjos da noite (Wilson Barros,1987), Anjos do arrabalde (Carlos Reichenbach,1987), A dama do Cine Xangai (Guilherme de Almeida Prado,1988) e Wholes (Cecílio Neto,1991). “Na ordem cronológica,o primeiro e o último filme não foram feitos na década de 1980,mas contêm as mesmas características dos demais”,observa Andréa. Os filmes foram selecionados entre dezenas de opções,por terem sido produzidos,em sua maioria – com exceção de Anjos do arrabalde,do já veterano Carlos Reichenbach –,por cineastas recém-formados,os chamados jovens cineastas paulistas.O ponto em comum entre alguns deles é o fato de terem utilizado recursos técnicos nas áreas de fotografia e de iluminação advindos da publicidade. “Ao se formarem,esses cineastas encontraram grande dificuldade para atuar como autores”,explica a pesquisadora. “Assim,muitos passaram a trabalhar com

publicidade e,dessa área,que tem melhores recursos econômicos,levaram um gosto pelo rebuscamento técnico para o cinema.

Reivindicação - Ironicamente,utilizando tais recursos,esses diretores também conseguiram romper com algumas limitações impostas pelo padrão de patrocínio vigente na época,o da Embrafilme, órgão oficial de financiamento do cinema.Atualmente,muitos cineastas reivindicam a criação de um organismo semelhante,já que a Embrafilme foi extinta pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello e,hoje,a política de financiamento do cinema se dá por meio das leis de incentivo fiscal,principalmente da Lei do Audiovisual,de esfera federal.

Do ponto de vista histórico,os anos 1980 representaram grandes transformações na cinematografia nacional. Com a morte de Glauber Rocha,Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman,houve uma superação do modelo hiper-realista do Cinema Novo.A luz ambiente foi substituída pela iluminação artificial e os filmes noturnos se

Cidade oculta (à esq.) e Disaster Movie (acima): ao criar suas estratégias para sobreviver em São Paulo, os personagens dos filmes tentam construir uma cidade própria

tornaram possíveis,como vários da lista de Andréa demonstram: Cidade oculta, Anjos da noite e A dama do Cine Xangai

“Ainda que não conscientemente, esses cineastas formaram um movimento estético”,afirma a doutoranda. “Além dos recursos técnicos,desenvolveram temáticas comuns”,diz. Disaster movie,de Wilson Barros,trata da questão da incomunicabilidade entre os seres humanos,mesmo tema de Diversões Solitárias,do cineasta.A marginalidade social ou cultural,por meio de personagens outsiders,está presente tanto em Cidade oculta quanto em Anjos do arrabalde.Esse filme,mesmo contrastando com os demais – além de produzido por um cineasta veterano e autodidata, preservava o realismo cinemanovista –, foi escolhido justamente por causa da temática. “O tema principal é o da relação entre o indivíduo e a cidade”,afirma. Ao começar seus estudos,a pesquisadora acreditava que haveria algumas constantes nos filmes:a solidão,a violência e a fragmentação.Para seu espanto,pelo menos um desses elementos,o da sensação de fragmentação,não

era vivido pelos personagens. “Ao criar estratégias para sobreviver nessa imensacidade,os personagens faziam uma seleção entre as milhares de referências existentes nela para construir uma cidadeprópria,um percurso pessoal”,analisa a antropóloga.

“O personagem Anjo,de Cidade oculta,por exemplo,trabalha em uma draga,retirando lixo acumulado do fundo do rio.Ele constrói um mundo próprio por meio de objetos encontrados (um anel,um brinquedo,uma foto) no lixo”,conta Andréa. “São objetos que simbolicamente constituem sua própria cidade,ou seja,não um amontoado de fragmentos e referências,mas uma totalidade”,explica.

Recurso audiovisual - Para compreender melhor a influência das imagens cinematográficas sobre o cotidiano dos paulistanos,Andréa lançou mão do próprio recurso audiovisual analisado teoricamente em sua tese.Saiu às ruas da cidade entrevistando todo tipo de cidadão,do camelô ao dono do restaurante ou o executivo da Bolsa de Valores,e produziu um vídeo de dez minu-

tos. “A pergunta básica era:o que é a cidade de São Paulo para você?”, conta a pesquisadora.Indo além das primeiras impressões,Andréa ouviu pacientemente os entrevistados e chegou à conclusão de que existia uma estrutura comum ao discurso construído por todos eles, muito semelhante à construção da cidade para muitos dos personagens dos filmes analisados.

“Num primeiro momento,as pessoas se valem de estereótipos da cidade: ‘É uma cidade difícil,mas só aqui há oportunidades’, ‘é a cidade do progresso’”,conta ela.Num segundo momento,Andréa aponta,o indivíduo costuma se inserir nesse estereótipo,com depoimentos do tipo: “É difícil,acordo às 5 horas e chego às 11 da noite,mas tenho trabalho”,por exemplo.Conforme a conversa continua,ela nota,descobre-se que as pessoas também constroem a sua própria cidade,a cidade que é possível para elas.

Dentro dessa construção,a pesquisadora encontrou outro fato interessante. “A noção de que na grande cidade só há lugar para o individualismo é equivocada”,diz. “Isso porque as pessoas pertencem a grupos, nunca estão o tempo todo sozinhas, assim acabam construindo cidades simbólicas semelhantes e redes de solidariedade para sobreviver”,observa. Com esses elementos,Andréa resume duas conclusões de sua tese.De um lado,o trânsito de mão dupla em que, por um lado a construção simbólica do cinema alimenta a vida e a imagem que as pessoas têm da cidade,por outro, essa memória também alimenta o trabalho dos cineastas.A segunda conclusão é que não há uma cidade,mas várias cidades em São Paulo e nos filmes que a retratam.O que não significa, obrigatoriamente,uma fragmentação, mas a intersecção de várias totalidades. “Uma pessoa pode pertencer a um ou a diversos grupos ao mesmo tempo”, desde que escolha assim. “É como um bancário que esconde suas tatuagens durante o dia,quando defende seus interesses profissionais e, à noite,transforma-se no punk a bater cabeça em um baile”,exemplifica.São as complexidades da urbe moderna. •

Pesquisa FAPESP nº 81,novembro de 2002

REPRODUÇÃO

ESPECIAL

SÃO PAULO 45O ANOS

Impunidade e

Porcentagem de crimes violentos convertidos em pena com reclusão do acusado é muito baixa, constatam pesquisadores

Omodelo de Justiça que deveria proteger os brasileiros está enfraquecido.Nos últimos cinco anos,dos mais de 600 mil crimes registrados em 16 delegacias de polícia na cidade de São Paulo,há indicações de que só uma pequena porcentagem poderá resultar em pena com reclusão do acusado.Isso porque,de um total de 338,6 mil crimes,violentos e não violentos, analisados no período,apenas 21,8 mil foram objeto de inquérito policial.Estima-se com base em outros estudos que,desses inquéritos,40% venham a ser arquivados.Se essas estatísticas se confirmarem,apenas 13,1 mil crimes se traduzirão em denúncia encaminhada ao Ministério Público e acolhida pela autoridade judiciária.“Alguns serão desqualificados por falta de provas,por exemplo,e possivelmente algo em torno de 5% dos crimes analisados redundarão em pena”, diz Sérgio Adorno,coordenador do Centro de Estudos da Violência,um dos dez Centros de Pesquisa,Inovação e Difusão (Cepids) financiados pela FAPESP.“Na França,em 20

crimes violentos,19 tendem a merecer pena”, compara.

Os números que estão sendo revelados pela pesquisa Identificação e medida da taxa de impunidade penal não chegam a surpreender.Outro levantamento,sobre o assassinato de crianças e adolescentes,realizado em São Paulo entre 1991 e 1994 e já concluído,revelou taxa de conversão do crime em pena de apenas 1,72%.Esse quadro certamente é agravado pelo despreparo e falta de recursos da polícia para conduzir as investigações. “A maioria dos crimes é de autoria desconhecida”,observa Adorno.Mas pode também estar relacionado ao perfil da vítima ou do agressor,ou à natureza do crime,suspeita. “E pode ter a ver com obstáculos enfrentados pelos réus no acesso à Justiça penal,inclusive à plena garantia dos direitos de defesa.Paradoxalmente,pode ainda estar relacionado a subterf ú gios processuais,como o excesso de recursos protelatórios que retardam a aplicação das sanções”,acrescenta Adorno.O resultado é que a impunidade ajuda a sustentar o crime e também alimenta o medo.

A pesquisa está em curso. É parte de um projeto ainda mais amplo desenvolvido pelo centro,em que se avalia a crise na Justiça brasileira,inclusive por meio de estudo histórico das políticas de segurança pública implementadas em São Paulo,desde 1822 até hoje,a partir de documentos normativos e oficiais.No caso da impunidade,os pesquisadores igualmente partiram de estatísticas oficiais,mas tiveram de optar por outros procedimentos metodológicos. “Nos países com estatísticas confiáveis,o fluxo do sistema de Justiça criminal produz estatísticas em todos os segmentos – policial,judicial e na execução da sentença –,o que permite observar o movimento dos crimes registrados,dos denunciados e processados e dos condenados”,diz.No Brasil, no entanto,continua Adorno,as estatísticas disponíveis,além de incompletas,não permitem a realização de um follow-up.Em função da extensão e o volume de informações,foi necessário restringir o levantamento a uma única seccional de polícia que coordena o desempenho e as atividades de postos policiais entre as zonas Oeste,Noroeste e Sul da cidade,num total de 14 delegacias de polícia e duas delegacias especializadas.Em vez de acompanhar o movimento geral dos crimes,recorreuse à observação individualizada de registros de forma a perseguir o seu destino no interior do sistema de Justiça criminal. “Fizemos um estudo detalhado e crítico dos registros primários,de forma a cercar com maior precisão os crimes que efetivamente interessam à observação,ou seja,o homicídio,roubo, roubo seguido de morte,estupro,tráfico de drogas,considerados crimes violentos”,ele relata.A primeira parte da pesquisa está praticamente concluída. Na etapa seguinte será feito o estudo detalhado dos inquéritos e processos penais.

Situação de risco - O Centro de Estudos da Violê ncia analisa,desde 1987, a violência e transgressões aos direitos humanos no país,desenvolvendo estudos sobre temas como pol í ticas de seguran ç a p ú blica e participa çã o da comunidade na solução da violência. Atualmente,desenvolve cinco linhas de pesquisa,entre elas o projeto Identificação e medida da taxa de impunidade penal,coordenado por Adorno.

52 ■ PESQUISA FAPESP ■ 2004

A exemplo do estudo sobre a impunidade,a grande dificuldade dos pesquisadores dos demais projetos está na coleta dos dados.Sabe-se,que em São Paulo o homicídio corresponde a 186,7 mortes em 100 mil jovens com idade entre 15 e 19 anos e 262,2 dos óbitos em 100 mil pessoas com 24 anos,de acordo com estatísticas de 1995 e 1998, respectivamente.Mas pouco se sabe sobre os agressores e tampouco sobre a vítima,além do seu endereço residencial e causamortis.Os registros da Justiça,da polícia ou da saúde não lançam luz sobre a natureza dessa violência, não informam sobre o grupo responsável pelo homicídio nem dão subsídio para que se conheça a relação entre os envolvidos.E,nessa zona cinzenta, é impossível conhecer as vítimas potenciais ou as circunstâncias que favorecem o homicídio e,menos ainda,implementar políticas eficazes para combatê-lo. As estatísticas,no entanto,revelam alguns padrões e mostram que alguns bairros de São Paulo têm taxas de homicídio mais elevadas que a média da cidade,que crescem num ritmo superior ao do conjunto de 96 distritos que compõem a capital.Entre 1996 e 2000, por exemplo,enquanto as taxas médias de homicídio da capital cresciam de 55,6 por 100 mil habitantes para 66,9,o distrito de Jardim Ângela já registrava a marca de 116,23 homicídios por 100 mil habitantes.Essa disparidade foi observada em vários distritos da cidade. Os n ú meros e a distribuiçã o geogr áfica das ocorrências sugeriam que as regiões com altas taxas de homicídio eram,igualmente,as de maior concentração de pobreza.

infantil acima da média,ausência de hospitais na região,menor acesso a esgoto e com alto congestionamento domiciliar,isto é,menor privacidade, maior tensão e competição por espaço. “Diversos estudos já provaram que,dividindo áreas exíguas,as pessoas ficam mais insensíveis,até por defesa,mas essa situação afeta as estatísticas de criminalidade”,explica Nancy Cardia, vice-coordenadora e responsável pelo programa de difusão do Cepid.

Carências sociais e econômicas enfraquecem relação com autoridades

A violência letal,portanto,sobrepõe-se à violação de direitos sociais e econômicos e esse conjunto de fatores se entrelaça para formar uma espécie de círculo vicioso de carências e violência.O emprego é escasso nas áreas de elevadas taxas de homicídio,e a alternativa para os chefes de família está no mercado informal de trabalho,com ocupação irregular,mal remunerada e sujeita a período de desemprego prolongado.A ociosidade forçada pode aumentar a tensão dentro da família,o consumo de álcool e tende a favorecer a violência.De fato,nos 24 distritos da cidade onde existiam muitos chefes de família sem renda,os estudos mostraram que a violência se agravava. “Esses distritos tinham 49% de todos os chefes de família sem renda. É uma super-representação”,constata Nancy.

A partir desses dados,os pesquisadores do centro iniciaram uma pesquisa de georreferenciamento da violência. Constataram não ser a concentração elevada de população pobre a responsável pelas altas taxas de homicídio.O cenário da violência registrava alta concentração de jovens entre 11 e 14 anos e 15 e 19 anos,grande número de chefes de família com menos de quatro anos de escolaridade e/ou sem renda,baixa oferta de emprego local,mortalidade

Os pesquisadores também identificaram um enfraquecimento dos grupos sociais entre si e com as instituições de proteção social. “Os vínculos institucionais entre a população e as autoridades são caracterizados por tensões,mútua desconfiança e até mesmo quase inexistência”,diz Nancy.Essa ausência de vínculos se manifesta,por exemplo,em situações de linchamento. “O linchamento parece algo que acontece no calor do momento,mas,quando se investiga o caso, é possível dar conta de que a população já tinha se mobilizado anteriormente em situações semelhantes, sem ter obtido apoio ou proteção das autoridades.Os meios para solucionar o problema foram exauridos,eles se sentiram impotentes e foram levados à violência”,completa Adorno.

Prestígio dos grafiteiros ajudou na consolidação do fórum de adolescentes

Nesse cenário,a presença de muitas crianças e jovens em situação de concentração de pobreza e de carência social torna-os extremamente vulneráveis à possibilidade de serem vítimas ou agressores. “A faixa de idade entre 11 e 14 anos está muito exposta à situação de violência mais severa:os pais,assim como a escola,já consideram que ele se vira sozinho e eles acabam por ficar sem nenhuma supervisão”,afirma Nancy.Nas vésperas de se tornarem adultos,esses jovens acabam por adotar condutas de risco,envolvendo-se freqüentemente em situações de delinqüência,alcoolismo,uso de drogas,entre outros.Ou se tornam alvos fáceis em conflitos por motivos fúteis,como,por exemplo,brigas na vizinhança em razão de uma janela quebrada,música alta etc. “O problema reside em identificar quais situações sociais estão mais associadas ao risco,de modo a que governos e organizações da sociedade civil possam promover programas de prevenção”,diz Nancy.

Vítimas indefesas - Identificadas as vítimas mais indefesas,os pesquisadores do Cepid começaram a trabalhar dentro de uma escola no bairro do Jardim Ângela,com crianças entre 11 e 14 anos,

na tentativa de desenvolver modelos de gestão de conflitos.Esses encontros foram batizados de fórum de convivência “ vem quem quer”,conta Nancy. “Discutimos qualidade de vida,violência, criminalidade,conflito entre homens e mulheres,relação com amigos no recreio,entre outras situações,e a vantagem de fazer as coisas juntos”,ela diz.A intenção dos pesquisadores é iniciar esses jovens na resolução de pequenos conflitos,seguindo o modelo desenvolvido pelo pesquisador canadense Clifford Shearing para lidar com a violência em conjuntos habitacionais em Toronto,no Canadá,e que foi adaptado para mediar tensões nos guetos da África do Sul e em comunidades carentes de Rosário,na Argentina. “Quando a comunidade começa a resolver conflitos internos,ganha mais poder para negociar com as autoridades a sua situação”,explica Nancy.Antes de iniciar os grupos, a proposta de trabalho foi apresentada aos professores,aos pais e aos próprios alunos,que visitaram a sede do Centro de Estudos da Violência,instalado na Universidade de São Paulo (USP). Além desses adolescentes,os pesquisadores também trabalham com fóruns de convivência com adultos e jo-

vens grafiteiros da região. “As pessoas não se vêem como uma comunidade, em parte por conta da violência do cotidiano e das carências econômicas”, conta Nancy.Os grafiteiros,aliás,ajudaram na consolidação do grupo de adolescentes que era rejeitado pelos demais alunos da escola. “Os grafiteiros são respeitados e isso lhes deu prestígio”,explica a pesquisadora.A expectativa é de que,se eles aprenderem a lidar com incidentes de violência pessoal,estarão mais fortalecidos para negociar com as autoridades.

O centro também implementou observatórios da violência em quatro comunidades,para debater o problema pela perspectiva das vítimas.E desenvolve,ainda,cinco projetos educacionais, tendo como tema central a violência, voltados para orientadores pedag ógicos da rede municipal e estadual de ensino,entre outros,além de um projeto de ensino a distância,em parceria com a Escola do Futuro. “Estamos,agora,treinando uma equipe de Moçambique,em colaboração com a Organização Mundial da Saúde,num projeto interministerial que reúne programas de vigilância epidemiológica,prevenção e avaliação da violência.” •

Projeto de política pública mede situações de violência da população paulistana

Agrande maioria dos atos de violência que resultam em ferimentos causados por arma de fogo na cidade de São Paulo ocorre nos finais de semana,principalmente aos sábados.As agressões sexuais às mulheres são mais freqüentes nos dias úteis, com pico nas quintas-feiras,quando elas estão longe da família,deslocandose para o trabalho,a escola ou compras. As auto-agressões ou suicídio se concentram nas terças e quartas-feiras,sugerindo forte relação com situação de emprego,e também aos sábados,possivelmente motivados pela angústia e solidão.Poucos atentam contra a própria vida nas sextas-feiras.A idade média das vítimas é de 30 anos.Esses dados, que constam de 7.073 atendimentos realizados entre janeiro e dezembro de 2002 no Hospital Municipal Dr.Arthur Ribeiro de Saboya,também conhecido como Hospital Jabaquara – um centro de referência de trauma e com serviço especializado às vítimas de agressões –, deixam claro que é possível estabelecer cálculos de riscos nos casos de violência que demandam o sistema hospitalar – e que,portanto,implicam risco de morte – e implementar políticas de prevenção em microescala na cidade de São Paulo. “Com pouco investimento é possível desenvolver e implantar um sistema de monitoramento capaz de captar as informações relativas às ocorrências violentas e acidentes mais comuns”,diz Paulo Saldiva,professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do projeto Epidemiologia da Violência Criminal na Cidade de São Paulo: Uma Abordagem em Macro e Microescalas,desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde,Secretaria da Administração Penitenciária e Instituto de Mate-

mática e Estatística da USP,no âmbito do Programa de Políticas Públicas,financiado pela FAPESP.

Saldiva,especialista nos estudos dos efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde humana,decidiu utilizar os critérios de pesquisas epidemiológicas para estudar a violência,utilizando estatísticas para cálculos de risco. “A violência, diferentemente da poluição,não está homogeneamente distribuída. É necessário levar em conta variáveis de tempo e espaço e criar novas técnicas teóricas de avaliação de risco”,reconhece.Os estudos,a exemplo do que ocorreu com os pesquisadores do Centro de Estudos da Violência (veja matéria na página 48), esbarraram nas dificuldades de coleta de dados confiáveis nos órgãos oficiais de segurança pública.A opção foi coletar informações sobre o tema no sistema de saúde.

No caso dos dados do Hospital Saboya, “apesar do esforço e dedicação do Núcleo de Atenção às Vítimas de Violência”,ele ressalva,a análise dos dados foi dificultada pela falta de padronização de algumas variáveis importantes. Os pesquisadores tiveram,por exemplo, de gerar algumas variáveis,como a classificação da ocorrência,tomando como base informações registradas em motivo da procura e descrição da ocorrência. “A qualidade da informação é um item essencial em qualquer pesquisa”, observa.Para definir a classificação da ocorrência,os pesquisadores recorreram à Classificação Internacional de Doenças,freqüência de determinadas ocorrências e interesses específicos de outras,para chegar às seguintes categorias principais:acidentes,agressões,intervenções legais,complicações médicas e cirúrgicas e eventos de intenção ignorada.As agressões foram classificadas em auto-agressões,agressões se-

xuais,demais agressões com uso de arma de fogo,com uso de outros objetos contundentes e demais agressões com uso de força física ou não especificadas. Padronizados e classificados,os registros revelaram informações preciosas. Indicaram,por exemplo,que homens e mulheres apresentam distribuição parecidas em relação à idade da vítima no momento do registro da ocorrência, tendência de queda da violência nos meses de janeiro a julho,seguida de um aumento constante de agosto a dezembro,e prevalência de vítimas do sexo feminino nesse período.Na distribuição de ocorrência faixa etária e local do fato,os pesquisadores observaram maior freqüência da faixa entre 16 e 65 anos (9,2%) nas violências registradas no local de trabalho e maior incidência de vítimas na ∫faixa de 0 a 5 anos (18,6%) quando a agressão ocorre na própria moradia.Nos demais locais de ocorrência – área de comércio e serviço,via pública e estrada,em outra moradia,não informado e outros –,as distribuições dos casos foram semelhantes em todas as faixas etárias.

Promiscuidade e violência - A equipe de Saldiva também coleta dados sobre violência na Coordenadoria de Saúde do Sistema Penitenciário (Cosaspe), que concentra todos os prontuários relativos aos atendimentos hospitalares dos detentos na cidade de São Paulo. “A Cosaspe não possui nenhuma informação em arquivo magnético. Assim,a primeira etapa do trabalho foi desenvolver,em parceria com a Secretaria de Administração Penitenciária,a estrutura de um banco de dados para,então,iniciar a digitação e análise dos mesmos”,conta Liliam Pereira de Lima,estatística que participa do projeto.Também ali os dados foram

reveladores.A violência nos presídios se manifesta na forma de doenças:o HIV e a tuberculose,com incidência de 67,5% e 35,1% dos pacientes detentos atendidos no Centro Hospitalar do Carandiru,onde converge boa parte dos casos de doença e violência ocorridos no sistema penitenciário paulista.Os ferimentos por arma de fogo não ultrapassaram os 5,2%,e os com arma branca,1,3%.Nos dois casos,as vítimas foram encaminhadas ao hospital pela Secretaria de Segurança Pública,responsável pelo atendimento de feridos nos distritos policiais.Essas agressões,portanto,podem ter ocorrido no momento da prisão.A violência,no caso do sistema penitenciário, está na falta de controle das doenças infectocontagiosas. “Os presídios são insalubres e os presos vivem em promiscuidade”,sublinha Saldiva. “A solução está na redução da possibilidade de contágio e na dispensa de medica-

mentos de controle dessas doenças”,diz.

Algoritmo de riscos - Concluído o diagnóstico,o projeto de pesquisa entra,agora,na sua segunda fase. “Vamos propor ao sistema penitenci á rio uma codificação de dadose um gerenciamento de informações baseado em crit é rios l ó gicos”, afirma Saldiva.Na área de saúde,a proposta será implementar um sistema unificado para o preenchimento de informações críticas que deverão alimentar um banco de dados da violência na capital. “Informações qualificadas permitirão,por exemplo,levantamentos de custos da violência,relacionados a procedimentos médicos,horas de trabalho perdidas,entre outras informações relevantes para a implementação de políticas públicas”,diz Saldiva.Esses dados permitirão elaborar um mapa georreferenciado de estudo da morbidade.Mas o projeto de Saldiva quer ir mais longe e chegar a um algoritmo de cálculo de risco que se traduziria num alerta à sociedade:uma mulher,andando sozinha, por região entre tais e tais ruas,no período de x horas e y horas,tem um grande percentual de risco de se tornar vítima de violência sexual.

Pesquisa FAPESP nº 88,junho de 2003

ESPECIAL

SÃO PAULO 45O ANOS

Em revista, o desvario da paulicéia cultural

Estudo mostra relação entre mídia e vida cotidiana na São Paulo antiga

Revistas “chiques” dos anos 10 e 20: apesar do esforço da elite cultural, as publicações que faziam sucesso eram as de consumo

Na paulicéia desvairada, a luz elétrica tomou conta das ruas.As mulheres encurtaram os cabelos e as saias,os bondes aceleraram a vida.Novos hábitos noturnos:o bar,o restaurante,as lojas de departamento iluminadas. São Paulo do início do século 20 viveu sua belle époque com direito a quase todo glamour de Paris.Mais:foi a cidade em que se desenvolveu,com esplendor,uma indústria até então incipiente no país:a da produção editorial de revistas.

Em Revistas emrevista: imprensa e práticas culturais em tempos de República,São Paulo (1890-1922) a historiadora Ana Luiza Martins apresenta um extenso levantamento documental e iconográfico sobre essas publica-

ções,que chegaram a somar mais de 200 títulos entre 1890 e 1922.A pesquisa,desenvolvida como tese de doutorado defendida no departamento de História da Universidade de São Paulo (USP),acaba de ser lançada em livro, uma publicação ilustrada e muito bem cuidada,feita com apoio da FAPESP pela Edusp e Imprensa Oficial (591 páginas,R$ 50).

O livro tem prefácio do bibliófilo José Mindlin e é comentado,na contracapa,pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro.Foi feito com base em documentos de diversos arquivos,entre eles o do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e o do Instituto de Estudos Brasileiros da USP,além de bibliotecas particulares,como a do próprio José Mindlin.Apresenta análises que permitem entender de que forma essas

revistas colaboraram para a formação de um público leitor,ao mesmo tempo que,fato inusitado,deram propulsão a uma nova realidade econômica e mercadológica nos centros urbanos.

Imprensa tardia - “As revistas tiveram um papel muito importante no Brasil naquela virada do século 20,em função da própria história da imprensa no país”,explica Ana Luiza.“Foi uma imprensa tardia,se comparada com a existente nos países latino-americanos de colonização espanhola,os quais conheceram o prelo desde o século 16.” A primeira impressão oficial feita em solo brasileiro só ocorreu após a chegada de D.João VI ao Rio de Janeiro em 1808,fato que elevou a cidade à capital do Império português.“Antes do Império,qualquer atividade que

pudesse resultar na publicação de um periódico era submetida a uma censura rigorosíssima,principalmente no tempo em que a Inquisição esteve na Colônia”,diz.

Um segundo momento curioso da imprensa nacional foi quando,apesar de ter surgido no Rio,ela teve São Paulo como palco de seu grande desenvolvimento.“Ela surgiu tardiamente,mas num período de grandes e importantes mudanças”,observa a professora Maria Luiza Tucci.Essas transformações ocorriam principalmente em solo paulista,sob a égide dos barões do café,que cultivavam a terra roxa no interior e apostavam na modernidade da capital.

De que tratavam,então, essas publicações,responsáveis pelo nascimento e crescimento de um verdadeiro parque gráfico na então terra da garoa? “De um pouco de tudo”,diz Maria Luiza.Entre as de maior popularidade estavam as femininas,as de esportes,as religiosas,as que tratavam de educação e –pasme – as revistas agrícolas. “Ocorre que essas publicações surgiram no início da República,quando os grupos mais progressistas estavam lutando por uma melhor educação – não podemos esquecer que o país tinha uma herança escravocrata,portanto,era predominantemente analfabeto”,explica a pesquisadora.O período foi marcado também pelo fortalecimento do ensino público,com a fundação,por exemplo,dos grupos escolares Caetano de Campos e Rodrigues Alves.“As revistas serviam para ampliar o público leitor e eraimportante falar sobre assuntos valorizados pelo governo,por exemplo,a agricultura,em primeiro lugar,e a educação,logo em seguida”,continua a historiadora.

escritora Júlia Lopes de Almeida despontou,publicando seus contos”,narra Maria Luiza.“Esse tipo de coisa era uma via de mão dupla:ao mesmo tempo que a autora conquistava seu público, sua obra ajudava a revista a encontrar leitores entre os mais diferentes grupos da sociedade”,explica ela.Como ainda não havia editoras de livros,muitos autores e até movimentos literários fica-

ção da República.Já as esportivas acompanhavam o modismo trazido pelos ingleses.Naquele tempo,além do tênis,o futebol,hoje um evento popular,também era um esporte exclusivamente elitista. “Sem dúvida,as mais lidas eram as revistas femininas”,afirma a autora.Vários motivos explicam essa popularidade.“Naquele tempo,havia mais mulheres do que homens alfabetizados na elite”,diz Maria Luiza.“Além disso,as revistas femininas podiam entrar nas casas das famílias,porque mesmo que contivessem,por exemplo, contos ou textos literários, eles jamais chocariam moças e senhoras,como costumava acontecer,muitas vezes,com as revistas literárias”,continua.O período estudado segue somente até 1922,justamente por se tratar do ano em que o Modernismo se afirmou e as revistas modernistas apresentaram rupturas de linguagem e de propostas em relação a suas antepassadas.

Ação do guarda: usando a imprensa para educar o povo

Embora fossem setorizadas,as revistas não eram monotemáticas,de forma que era possível,por exemplo,encontrar peças literárias em uma revista que tratava de assuntos ligados à terra e ao plantio.“Um grande exemplo foi a revista Chácaras e Quintais,na qual a

ram conhecidos graças aos periódicos. Niterói,por exemplo,a primeira revista brasileira de que se tem notícia,impressa na França,foi espaço de veiculação dos escritores do Romantismo. As revistas paulistas religiosas também apostavam na diversidade de assuntos para atrair mais leitores.Leia-se:fiéis. “Costumavam divulgar exposições de arte.A primeira exposição de Benedito Calixto em São Paulo foi divulgada em uma revista da Igreja”,aponta a pesquisadora.O impresso periódico foi o meio encontrado pelos eclesiásticos para compensar a diminuição do poder da Igreja após a separação dessa instituição do Estado,o que ocorreu com a proclama-

Beleza gráfica - Um passeio pelas páginas coloridas de Revistas em Revista permite ao leitor deliciar-se com a beleza gráfica de muitas dessas publicações (Sports, Correio Paulistano, A Estação, Vida Moderna).Os títulos mostram o esforço criativo para assuntos gerais (A Rolha, O Parafuso, A Cigarra, A Farpa, A Vespa, Arara, O Queixoso – de oposição ao governo, Caras Y Caretas) e para falar de São Paulo de maneiras diferentes (A Garoa, Ilustração Paulista, Correio Paulistano, Vida Paulista, Ilustração de S.Paulo, O Álbum Paulista).

Os esforços gráficos e editoriais eram acompanhados pelo desenvolvimento da publicidade.“Foi naquele período que surgiu a idéia de revista como negócio. Vingavam as de consumo.Revistas literárias eram conhecidas por durar pouco tempo,daí a inserção da literatura em outros tipos de publicação”,diz Maria Luiza.Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência. •

Pesquisa FAPESP nº 70,dezembro de 2001

ESPECIAL SÃO PAULO 45O ANOS

Fundos da Faculdade de Direito da USP, rua Riachuelo

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
São Paulo no olhar da ciência by Pesquisa Fapesp - Issuu