Pref·cio
de Bruno Carvalho
Certo dia, em Havana, na esplanada do bar La Bombilla Verde, nome de uma m˙sica de Silvio RodrÌguez, conheci o poeta basco que fugira dentro de uma coluna depois de um concerto na pris„o onde estava encarcerado por lutar pela independÍncia do seu paÌs. Pouco depois, o grupo punk Kortatu imortalizou a fuga de Joseba Sarrionandia com a canÁ„o Sarri Sarri. Foragido durante mais de 30 anos, escreveu num poema que ì‡s vezes È mais difÌcil dar um beijo do que pÙr uma bomba no quartel general do inimigoî.
Debaixo da luz intermitente do comboio nocturno, consigo ouvir a voz de SÈrgio Godinho cantar que sÛ quer a vida cheia quem teve a vida parada. A histÛria de Apartado1675 e os desenhos de Love for Rebellion s„o um breve relato ficcionado dos que n„o baixam os braÁos. S„o eles que enchem os comboios e os autocarros de madrugada. Quando sobra tristeza e bolsos vazios, n„o È f·cil esboÁar mais do que luto num rosto caÌdo.
Quando o fascismo alastrava pela Alemanha e pela Europa, Bertolt Brecht pediu ‡s geraÁıes futuras que quando falassem das fraquezas daqueles tempos passados se lembrassem dos tempos sombrios que de que teriam conseguido escapar. ìÕamos, com efeito, mudando mais frequentemente de paÌs do que de sapatos, atravÈs das lutas de classes, desesperados, quando havia sÛ injustiÁa e nenhuma indignaÁ„oî. Por isso, como escreveu Mario Benedetti, È importante ìdefender a alegria como uma trincheiraî. Eles querem-nos calados, longe dos seus condomÌnios de luxo, e que a nossa existÍncia se limite a engordar-lhes as contas banc·rias. O ˙nico direito que nos reservam È o da repress„o de cada vez que ousarmos levantar a cabeÁa. Inevitavelmente, precisamos de semear a tempestade para que chegue o dia em que o inferno deixe de estar do nosso lado.
Um dia, testemunhou Jack London, um frota de famintos navegou atravÈs do Mississipi para assaltar todas as casas que aparecessem no caminho. A cavalaria norte-americana foi obrigada a esmagar este exÈrcito de esfomeados. As mulheres e os homens que assaltaram os cÈus em Paris e os bolcheviques mostraram o caminho: n„o precisamos de roubar, precisamos de governar.
Finais de Agosto È, por isso, o retrato de uma geraÁ„o absolutamente precarizada que tem cada vez menos a perder. A referÍncia ‡ cultura punk e skinhead com origens na irmandade antifascista entre a classe oper·ria inglesa e jamaicana traduz a rebeldia de um gÈnero musical que foi sempre contra o sistema capitalista.
O ambiente festivo das bancadas, o convÌvio em tabernas e as festas em casa ocupadas enquanto se discute polÌtica e se reforÁa os vÌnculos de classe na luta contra a exploraÁ„o laboral È familiar para quem longe de Olh„o se forjou no choque com a polÌcia, a mando do governo, em frente ‡ Sorefame ou ‡ MB Pereira da Costa. N„o È inocente que os sucessivos executivos tenham apostado na repress„o contra as claques limitando a sua actividade, simultaneamente esvaziaram as cidades das nossas tabernas investindo na gentrificaÁ„o. Apenas nos querem para servir turistas e nÛmadas digitais e tudo o que fuja dessa lÛgica de financeirizaÁ„o das grandes urbes È dissidÍncia e deve ser excluÌda.
… por isso que, como bem demonstra este livro, os governos preferem mandar a polÌcia procurar criminosos nos nossos bairros do que nos condomÌnios fechados, onde realmente est„o os donos das grandes empresas e bancos, que cometem os grandes roubos deste paÌs. … por isso que, como tambÈm demonstra este livro, querem as paredes brancas e as cidades cheias de enormes estruturas de publicidade perseguindo quem pinte muros.
Que este livro se espalhe, de m„o em m„o, como uma faÌsca a incendiar a noite. Na luta pela construÁ„o da democracia popular que n„o haja um dia em que n„o nos lembremos de que todos devemos dar um pouco para que uns poucos n„o tenham de dar tudo. Precisamos desta e de tantas outras obras que falem de nÛs, das nossas lutas e aspiraÁıes. E que mais cedo que tarde possamos danÁar para celebrar a revoluÁ„o numa madrugada regada de muita cerveja e um ˙nico momento de silÍncio. Para ouvirmos os passos dos tiranos que partem, como escreveu Gioconda Belli.
Puxou a ˙ltima baforada e atirou a beata para o ch„o. Tinha ficado uma boa meia hora a mirar as Ilhas sentado na borda do Cais e a pensar nos 2 amigos que tinham sido detidos pela PolÌcia Judici·ria por participarem "activamente" na Greve Geral da semana passada..


Ao caminhar para o barco ainda sa˙da Amadeu, velho pescador ocasional e bÍbado veterano que pulula o seu tempo pelas v·rias tabernas locais, apanhando "camadas" de meia-noite.



















t„o? vais onde, meu menino?





































































ska, reggae e copos, amadeu!
ska, reggae e copos....

aaaaaHAhAh!!
Fazereee?!
n„o gastes tudo em alcool..














Bem, passo a noite na ilha.. com sorte ainda conheÁo uma c·mone giraÁa que me albergue na tenda dela..
Entra no Ferry e logo se depara com um grupo de punks e skins a falar alto e partilhar litrosas. Deviam ser uns 7 ou 8 e, como n„o podia faltar, tinham 2 c„es. Aproveitou o embalo do six-pack para meter conversa..


S„ da onde vocÍs?? po nosotroh somo de sevilla, killo! vamo a ech· la nosshe en Armona y luego pal Seixal del tiri, cabeza!
mekie, tasse bem?

do Avante. n„o??
aro killo! Ahi que noh plantamoh to loh aÒoh!


Quando j· estavam a meio caminho todos comentam os graffittis da Zona Industrial..
anda que no! que guapada!



















Enga, que la vamoh a li· hoy en Armona!

Ya moÁe! temos de passar no bucaneiro, v„o tar a passar reggae e ska, bandas nacionais, v„o curtir!
Passados 15 minutos o barco prepara-se para atracar..

Aro que si! unah servesitah bailando ska bajo er sÛ, no hay n· mejÛ!
enquanto todos se amontoam junto ‡ entrada para sair, vislumbram uma outra pintada...
REPUBLICA DEMOCR£TICA DA ARMONA!
Iam-se aproximando, em franca cavaqueira, comeÁam a ouvir os altifalantes do Bar Bukaneiro...
Ficam c· os radicais
Violentos, marginais Que se baldam ‡s propinas E ‡s provas globais!!





vamos ao bar, HERMANOS.. t· mesmo a pedi-las! aro, killo!



V„ conhecer o Eloi, dono do Bucaneiro.. e o grande Gery, IrlandÍs, t· c· a passar o ver„o!
O DEB riu-se e todos eles fizeram um sonoro brinde com as botelhas de cerveja. Encararam isto como umas excelentes boas-vindas ‡ Ilha.
si hay servesa en er chiringuito desta gente, dahÌ que no me muevo, compadre!

O bar bucaneiro estava quase vazio, ainda estava toda a gente na praia ou no mar, na faina..
olha quem È ele!! grande DEB.. ahahah
Bar Bucaneiro

DEB, how are ye, lad?
Eloi, Ès pior c·s moscas, mÙce!!! sempre agarrade ao balcanite a lamber cerveja morta, hahahahhah...!
Apresentaram-se todos, os sevilhanos e os portugueses, e ali ficaram, bebendo Cristais e petiscando tremoÁos ou anchovas salgadas em conserva, para puxar a sede e enganar a fome...
Vamoh a por otra...
vaya chiringuito guapo que tas montao, compa!
Si, pero a esta invito yo!
Bar Bucan
Eh Eh Eh Eh Eh!!
Obrigade, compa! s„o sempre ben vindes aqui!







Enquanto o dia se esvai no pÙr-do-sol vai chegando mais e mais turma da praia, ansiando por refrescar a goela..







ONE STEP BEYOND!!





A dada altura DEB puxa ElÛi ‡ parte e comeÁam a conversar,,,
At„o mano, que merda foi aquela do C·rlinhes e do Salom„o?
O Salom„o j· È a segunda vez, a primeira foi em Novembro...
Pois, temos de fazer alguma coisa para lhes dar apoio.. NÛs c· fora e eles l· dentro. A advogada j· sabe e tasse a mexer. Agora tems È tamÍm de ser nÛs na ruas a mexer o c˙ por eles.. J· n„o È a primeira vez que os nossos v„¥de choldra.. NÛs temes SEMPRE que fazer alguma coisa..
Sim, vames fazer alguma coisa, primo..
No dia seguinte DEB, de ressaca, desperta debaixo da sombra de um velho barco abandonado..

Aaaaahhhh Domingo... e joga o Nautico. Tenho que aparecer para falar com a malta..
Cely, tou a chegar aos 7 cotovelos..


sen stress moÁe.. tou ‡ porta..!


Vas ser tu que me arranjas um bilhete hoje pÛ jogue?!
oh moÁe, desde quando È que tu entras com bilhete?!
ahah.. nada mana, Í sÙ bom moÁe desde que na haja Bofia.. ahah




Vou dar uma palavrinha ao Kinks, o magano de certeza que me orienta..
Boa sorte DEB, agente vÍ-se l· dentre..
Sei pois, ganda merda.. filhes da puta. Mas deixa que temes hoje faixa pr`a eles, j· estamos a pint·-la..
MekiÈ Kinks, j· sabes o que se passou com o C·rlinhes e o Salom„o?
ora, vem comigo..
At„o foda-se, o qu`È que achas, que andamos a dormir DEB..? ehhehe!! O quÍ? J£??
tÍmes de esconder a faixa se n„ a direcÁ„o chiba-se ‡ bÛfia...




J· no est·dio, decorridos 5 minutos da partida...
NauticOi!
NauticOi!
NauticOiiiii!
Artilharia alcoÛlica d'Olh„„ooo, Somos Torpedoooossss A puta da confus„„ooo!!!






ANTIFA HOOLIGANS
ULTRAS CONTRA O RACISMO
TORPEDOS
T· na hora... malta, a encomenda t· pronta...

Obrigada, moÁe! Veme-nos no bunker!
Boa sorte!
Se cair jogue-te l· píra baixo píra ires bescar...
Assim a faixa foi aberta, juntamente com 3 tochas, suspensa no ar atravÈs dos membros do grupo.
NauticO! NauticO! Somos ultras d'Olh„„ooo, Hooligans antifascistas sempre contra a reaÁ„aaao!!


















Assim que a faixa foi aberta ouviram-se muitos aplausos das outras bancadas tambÈm... eram oper·rios e oper·rias, pescadores, jovens, que faziam parte da massa adepta, e muitos deles haviam participado da greve...







Viva os camaradas Carlinhes e Salom„o!! A luta continua!



O dono da Conserveira Petiz, Salvador Cerqueira, era presidente da direcÁ„o do Clube, e o seu maior accionista. Tinha sido na conserveira Petiz, a maior da cidade, que se tinham levantado os maiores protestos organizados aquando do an˙ncio dos cortes nos ordenados da TrÛika...
O doutor j· viu isto?
ELes deviam era estar agradecidos...
Ainda est„o a tempo de ir todos para o olho da rua..
A VIDA DURANTE A TROIKA
Os trabalhadores consideravam inadmissÌvel que lhes fossem subtraindo os sal·rios enquanto o lucro dos industriais conserveiros aumentasse. E, por causa da crise, a populaÁ„o cada vez consumia mais produtos em conserva por serem baratos...
Isto n„o pode continuar.. temos de fazer alguma coisa..
No decorrer da Greve Geral o patr„o tinha dado um "extra" a quem a furasse. Apesar de serem uma minoria, a f·brica estava a laborar nesse dia e Salom„o (dirigente da Comiss„o de Trabalhadores da Petiz) e C·rlinhes, decidiram juntar-se a um piquete de Greve mÛvel que ia cortar uma linha ferrovi·ria afluente. Esta linha fazia as mercadorias saÌrem desta Conserveira para a linha ferrovi·ria principal,
Quando chegarmos aos comboios cortamos a linha e as saÌdas dos camiıes... n„o pode sair ninguem!
Podes crer, Salom„o..

..as vias continuam com perturbaÁıes na zona da saÌda para olh„o, os manifestantes continuam a resistir neste bloqueio que se alastra agora a todo o paÌs..
A nossa luta È todo o dia, contra o patr„o e contra a burguesia!!!
N„o podemos deixar ninguem furar. estamos em forÁa, n„o v„o conseguir passar por nÛs!
Ficamos de olho nos camiıes...
… isso Carlinhes, e muita atenÁ„o aos furas, o Cerqueira andou a pagar extras...
AÌ foram detidos quando o piquete estava a bloquear a saÌda de um cami„o dos "fura-greves". Como o condutor ia investindo com o veÌculo sobre os trabalhadores em greve, ambos se empoleiraram na cabine e deram um par de galhetas aos "furas". O cami„o parou, claro. Mas a polÌcia depressa interveio e deteve-os, sobre um cerrado coro de protestos e de sonoros petardos que caÌam na direcÁ„o da linha frontal do Corpo de IntervenÁ„o...
mas tu t·s de que lado, meu?!
Viste bem o que È que fizeste?!!
ESPERA S” ATE CHEGARMOS ¿ ESQUADRA!!
Seus porcos!


CERQUEIRA CABR O, N O VALES UM TOST O!!
CERQUEIRA CABR O, N O VALES UM TOST O!!

ANTIFA HOOLIGANS

ULTRAS













TORPEDOS
CONTRA O RACISMO REP˘BLICA
Assim que a direcÁ„o viu a faixa, rapidamente ordenou aos spotters para a retirarem..
Meu Comandante, s„o aqueles comunas... È hora de largar os bois!
POW!! POW!!
SACA ESSA MERDA SE N O LEVAM TODOS NOS CORNOS, SEUS COMUNAS DE MERDA!!!
Deixa comigue..
Leva a faixa para o bunker e n„o te deixes apanhar! Agente j· se encontra!

j· n„o me apanham...
AGARREM-NO!!
Passado uns minutos j· na sede do grupo, o "bunker", todos se riam e brindavam... incluindo a turma sevilhana, que entretanto tinha chegado da ilha e se juntava ‡ galhofa.
Donde vamos la liamos, Y en tu fama nos cagamos!! Donde vamos la liamos!! Nosotros no negociamos!!
Habia mucho madero fuera, sa liao o quÈ?!
ULTRAS CONTRA O RACISMO
REP˘BLICA POPULAR ALGARVIA
ANTIFA HOOLIGANS
nada mÍs hermanos, chegaram na altura certa!
DEB sentia que, com uns companheiros assim, nunca se sentiria sozinho por mais dura que fosse a luta. Olhava em volta e via a express„o de contentamento de todos.. Estavam orgulhosos. Ele incluÌdo. Mas havia ainda muito a fazer....



















TORPEDOS

















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