Já há muitos anos que a Senhora Clap ouvira falar desta ilha
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e dos seus habitantes que, apesar de tristes, se despedem dos
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seus artistas com uma salva de palmas, como se eles tives-
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sem terminado a sua atuação e voltassem dentro de instanrodeado de mar, disse:
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tes. E no dia da sua conferência, naquele local deslumbrante, — A essência das palmas está na admiração.
— As pessoas batem palmas porque estão atentas. — É muito importante receber palmas em vida.
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— É muito bom sair de cena sob uma salva de palmas.
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A FESTA
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No dia seguinte, a Senhora Clap voltou a viajar de avião e foi direta para a festa da escola dos sobrinhos. Ela sabe que
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é um momento muito importante e não quer, de modo algum, chegar atrasada. Os alunos convidam a família e os amigos a assistirem a jogos de futebol entre turmas, a sessões de
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poesia e teatro e a outras atividades lúdicas.
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É sempre um dia feliz, com muitas palmas para todos e,
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sabendo da presença da Senhora Clap, ficaram muito curio-
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sos e atentos às suas palmas cristalinas. Nesse dia, a Senhora
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Clap ficou mais transparente do que um frasco de vidro cheio
de rebuçados. O seu lado esquerdo deixava ver claramente
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as cores da ternura, do amor e da admiração que sente pelos sobrinhos. Mesmo não tendo eles marcado nenhum golo,
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recitado bem um poema ou feito qualquer proeza.
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Nesse dia a Senhora Clap anotou no seu caderno:
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· Não é preciso ganhar pa ra que as pessoas mereçam pa lmas . · Qualquer boa vontade merece palmas .
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· Geralmente os avós ba tem palmas muito bem.
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· Ainda há pais que bate m palmas a olhar para o relógio.
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O TENOR
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Tinha passado apenas uma semana desse dia fabuloso na escola dos sobrinhos, e já a Senhora Clap tinha viajado
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novamente para um país onde ia atuar um tenor muito conhecido. O mundo inteiro sabia o seu nome, mas, mais do que o seu nome, conhecia a sua voz. Quando cantava, algumas pessoas emocionavam-se. Tanto fazia se falavam inglês, japonês ou português. Tanto fazia se eram brancas, pretas, vermelhas ou amarelas. As pessoas — algumas pessoas, de
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todos os continentes — ouviam aquela voz e havia qualquer coisa que as deixava arrepiadas e com os olhos muito brilhan-
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tes e trémulos como estrelas distantes.
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Quando a atuação terminou, as mãos da Senhora Clap
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estavam vermelhas como morangos! Aliás, toda a gente tinha
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as palmas das mãos muito coradas, porque as pessoas bate-
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ram palmas durante dez minutos sem parar. Uma eternidade de palmas! O calor foi tanto que chegou às faces e ao cora-
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ção do cantor. E, claro, também à palma das suas mãos. Ele cruzou os braços sobre o peito e fazia vénias espaçadas em sinal de agradecimento. As pessoas levantaram-se para bater palmas. Parecia que tinham molas, que explodiam de emoção se não batessem palmas de pé. Umas inclinavam-se ligeiramente para a frente, outras, ligeiramente para trás, mas todos
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estavam de olhos postos no tenor, sem nunca interromperem
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o longo aplauso.
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Sobre esta cena, a Senhora Clap tomou, como sempre,
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alguns apontamentos para depois desenvolver no seu Tratado
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Universal sobre a Arte de Bater Palmas em Situações Alegres
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ou Tristes:
do gostam n a u q s a o ra · As pess tam-se pa n a v le o im muitíss as. bater palm
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as batem d a n o ix a p as a ade. · As pesso is intensid a m m o c s palma em raídos bat t is d is a m de · Até os dão conta o d n a u q , palmas um astro. e cheia de m r o n e la a · Uma s um abraço ante. o m o c é s ort palma e e reconf t n e u q , e t gigan
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O CIRCO
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Após essa noite memorável, a Senhora Clap partiu para um país situado num rochedo, em frente ao mar, onde esta-
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va tudo preparado para acolher nada mais nada menos que o maior circo do mundo. Estavam todos muito entusiasmados, principalmente as crianças e a Senhora Clap, que tinha uma predileção por trapezistas.
No circo, no fim de cada número, havia sempre muitas palmas e a Senhora Clap ficava encantada quando via muita
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gente a bater palmas em círculo, pois dava-lhe sempre a
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impressão de que o mundo inteiro estava de acordo.
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Quando os palhaços entraram, as palmas soltaram-se
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como se fossem pássaros velozes. Só de os ver, as pessoas
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aplaudiram automaticamente. Nem precisavam de as fazer das outras, numa cadência regular.
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rir! No circo, as palmas pareciam ondas do mar, umas atrás
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Quando o mágico entrou na arena, todos voltaram a aplaudir. Depois, quando ele fazia aparecer e desaparecer coisas como se não houvesse impossível, as pessoas batiam palmas ainda com mais veemência, soltando ahs! e ohs! de espanto. Quanto maior era o objeto que ele fazia desaparecer mais palmas tinham para lhe dar.
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Também o domador de leões, depois de suspender todas as respirações com a sua coragem física, arrancou aplausos
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incrédulos e bastante vigorosos, cheios de aclamações.
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Mas quando chegou a vez dos trapezistas, a Senhora Clap
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nem sequer pestanejou. Agarrou-se à cadeira com muita
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força, uma mão de cada lado, como se a segurasse para não
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levantar voo e ficou ali, imóvel, até ao momento de desatar mente arrebatada.
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a bater palmas, cheia de admiração transbordante, completaNessa noite, antes de dormir, o que demorou algum tempo, devido à carga de emoções que trazia do circo, a Senhora Clap
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registou:
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os dos rar s m u é · O circo nde as pessoa o ar. o n lugares lmas de nariz a batem p
am cair ix e d e soas qu de · Há pes s no momento a as pipoc as. alm bater p
r iso faze c e r p é as. es não · Às vez a merecer palm os. r ç nada pa , como os palha ir Só exist co, s, no cir a lm a p · As . o mar45 ondas d
parecem
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O CINEMA
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Por aquela altura, a Senhora Clap já andava a contar os dias
para ir ao cinema e, depois, ao teatro, um dos espetáculos de
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que mais gosta. Talvez por lhe dar uma sensação de participação na história. Também aprecia cinema mas, com grande pena sua, eram raríssimas as pessoas que aplaudiam o desempenho dos atores e da trama projetada na tela. Em geral, no cinema, as pessoas não batem palmas e isso estava a ser minuciosamente estudado pela Senhora Clap. Até tinha pre-
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parado um questionário meticuloso para fazer em presença ou por telefone. Já tinha feito uma centena de entrevistas
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e coligido respostas incríveis.
— Que absurdo! Ninguém bate palmas no cinema —
respondiam-lhe alguns, desligando o telefone sem sequer pedir licença.
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— Eu bato palmas, sim — diziam outros —, mas muito dis-
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cretamente para ninguém notar. Às vezes até bato palmas debaixo do casaco ou da cadeira da frente…
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dedos, indicador com indicador. Disfarço muito bem.
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— Ainda bem que pergunta! Eu bato palmas só com dois
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Esta resposta deixava a Senhora Clap muito séria e com a perguntas.
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Se gostam, porque não batem palmas?
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testa franzida, como se fosse um caderno de linhas cheio de
Se batem palmas com convicção, porque querem ser discretos?
Se sentem vontade de aplaudir, porque não aplaudem? Interrogava-se, com frequência, enquanto analisava os dados obtidos nos inquéritos que ia fazendo.
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A Senhora Clap nunca se inibiu de aplaudir filmes de todo o género, desenhos animados e documentários, por isso, não
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compreendia muito bem quem tinha vontade de aplaudir e não o fazia.
Quem sabia, quem sentia e podia bater palmas e, simples-
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mente, não se manifestava!
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Fosse por vergonha ou por outro embaraço qualquer, a
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Senhora Clap tinha dificuldade em aceitar que ainda houvesse
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pessoas que não se dedicassem a ultrapassar obstáculos para
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aplaudirem livremente. São momentos únicos. Até podemos
nunca mais voltar a viver aquela emoção, pensava de si para
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consigo.
Uma vez, numa sessão de cinema ao ar livre, corria o verão no calendário, emocionou-se tanto, disse-lhe tanto aquele pequeno filme, que bateu palmas com tanta força e convicção que as suas mãos faiscaram até a noite se acender, iluminada e branca. E, porque estavam também emocionados, mas muito
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contidos, todos os outros espetadores se deixaram contagiar e acompanharam-na naquela inesquecível salva de palmas a
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um filme de animação.
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O TEATRO
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Finalmente tinha chegado o dia! A sua atriz preferida
pisava o palco daquele belo teatro, forrado de emoções e ins-
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tantes raros como a vida. Mais uma atuação a contar uma história diferente num palco igual a todos os palcos do mundo. Uma vez, a Senhora Clap tinha lido no jornal que a sua atriz de eleição tinha dito que, para os atores, todos os palcos tinham o mesmo valor. Maiores ou menores, tinham todos a enorme importância do momento. E a história do momento
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é sempre a mais grandiosa: não se repete nunca mais, em qualquer outro lugar.
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Como sempre, a Senhora Clap chegava uma hora antes do teatro começar. Gostava de espreitar a sala vazia e silenciosa. Pedia o favor de a deixarem entrar e ficava ali, a olhar cada um dos lugares, fila por fila, desde a plateia à tribuna. E, depois,
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os camarotes em toda a sua verticalidade e resguardo, como
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se fossem casulos de emoção, exatamente como alguns cantos do mundo por onde tinha passado.
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Admirava as cortinas corridas e imaginava o instante
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encantado da sua abertura. Amanhecia a cada noite no teatro.
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Dali a pouco, despertaria uma sala cheia de palmas a celebrar
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emoções, essa espécie de berlindes matizados que se desloou menos vigor.
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cam dentro de nós, com mais ou menos suavidade, com mais E assim foi, também naquele dia. No fim da peça, os atores voltaram aos palco três vezes. As pessoas, com uma ininterrupta salva de palmas, pediam o seu regresso, como se quisessem assegurar a sua gratidão por aquele momento. E eles voltavam, de mãos dadas, peito aberto, emocionados.
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Aquelas palmas, tão sinceras e sentidas, chegavam, como seiva, também a quem não estava no palco. Chegavam aos
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bastidores, aos camarins, aos autores, aos figurinistas e cenógrafos, aos eletricistas, aos sonoplastas, aos bilheteiros e arrumadores, a todos; como se todos fossem um só coração
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gigante, convergente e feliz.
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Chegada a casa, uma vez mais sem sono e absolutamente
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rendida ao teatro, a Senhora Clap anotou:
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· As palmas ch amam pelas pe ssoas . No teatro nota -se mais .
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· Nunca devem os conter a von tade de bater palm as.
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· Apesar de nã o ser habitual, podemos bater palmas no cinema .
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· As palmas, m uita são para quem s vezes, também não está visíve l.
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O ANIVERSÁRIO
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Certo dia, a Senhora Clap recebeu um convite muito pecu-
liar. Era convidada para o aniversário de uma caixa de música.
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Uma caixa de música muito bonita, sem dúvida. Mas nunca a Senhora Clap tinha assistido a aniversários de caixas de música, nem nunca tinha ouvido falar em tal!
Ao aniversário de músicos já tinha ido, e até levava sempre o mesmo vestido, estampado com claves de sol. Mas caixas de música? Curiosa, lá foi.
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Quando chegou à morada do convite, tocou à campainha, mas não ouviu nenhum ruído de festa. Por momentos, até
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pensou que se tinha enganado. Esperou um pouco e já o seu pé rodava para se ir embora quando a porta se abriu. Surgiu uma senhora bonita, porte esguio, serena e de sor-
riso emoldurado nuns cabelos brancos, alguns delicadamente
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presos no cimo da cabeça como se num pompom de lã, que
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lhe disse: — Obrigada por ter vindo! Entre. Entre.
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A Senhora Clap entrou e o silêncio era ainda maior do que
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a casa e o jardim juntos.
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— Onde estão as crianças? — perguntou, a ver se desven-
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dava rapidamente o mistério.
— Ah, não estão cá. Os meus netos foram todos para a
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escola. E eu aproveitei para a convidar, uma vez que a minha caixa de música faz 83 anos, tantos como eu. E queremos celebrar.
— Estão de parabéns, então! — congratulou a Senhora Clap, mortinha por ver a caixa de música…
— Pois estamos — disse a velha senhora muito sorridente.
AS
— Sabe, recebi esta caixa de música no dia em que nasci. O meu pai sempre achou que todas as meninas deviam ter
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uma e, sempre que na família nascia uma menina, ele oferecia-lhe uma caixa de música. — Que interessante — disse a Senhora Clap, enlevada com
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aquele episódio.
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— Sente-se. Esteja à vontade. Eu vou buscá-la ao meu quar-
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to. Se quiser pode ir servindo o chá e colocando as velas no
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bolo. São muitas.
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A Senhora Clap olhou para a mesa, tão bem posta, e para o bolo de chocolate e morangos, o seu preferido, e sentiu uma
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incontrolável vontade de bater palmas.
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— Vejo que está contente — observou a senhora de cabelos
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brancos, pousando a caixa de música na cabeceira da mesa.
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— Que caixa tão linda! — exclamou a Senhora Clap, a cami-
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nho da segunda ronda de palmas que não podia conter.
— É sim! Para mim, é a mais bela caixa de música do
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mundo! E, agora, se não se importa, vamos sentar-nos. Eu abro a caixa de música e, no fim da dança da bailarina, cantamos os parabéns.
— E não temos de esperar por mais alguém?
— Não — respondeu a senhora de porte esguio, explicando que, apesar de serem só as duas, aquela festa seria muito es-
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pecial. Levantou a tampa da caixa, com muito cuidado, como sempre fazia, e a bailarina começou a dançar, ao som do seu
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músico preferido, Erik Satie, o único que sempre a fez dançar. As duas senhoras estavam encantadas e no fim aplaudiram
de pé. A Senhora Clap começou a ficar tão transparente que podia ver-se o seu canal lacrimal do lado esquerdo, onde nas-
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ciam pequenas lágrimas de emoção. E podia ver-se a formação
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do desejo de ter uma caixa de música. E podia, ainda, ver-se a surpresa e a vontade de comer bolo de chocolate e morangos na companhia da senhora de cabelos brancos e daquela caixa encantada, onde morava a bailarina de Satie.
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— Muito obrigada pelas suas palmas de cristal, Senhora
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Clap! A minha bailarina está muito feliz e eu também. Desde
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sempre que apenas eu, e só eu, a aplaudo! Em criança,
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no quarto, no fim da sua atuação, dava-lhe sempre uma salva de palmas. Foi assim que alimentei o sonho de ser baila-
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rina como ela. E fui. Quando pisei o palco pela primeira vez, compreendi o quanto é bom sentir os aplausos das pessoas que admiram o nosso trabalho. Mas as palmas mais importantes eram sempre as que eu recebia do meu pai e de todas as pessoas que me amavam. Mesmo nos momentos em que eu
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não dançava tão bem.
Nesse dia, a Senhora Clap, depois de escrever as suas no-
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tas do costume, continuou a escrever noite adentro, pois sen-
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tia que, finalmente, o seu Tratado Universal sobre a Arte de
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Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes estaria pronto
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em breve. E apontou:
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pessoa a m u e as d s · As palm ma valem pela a que nos lateia. p de uma s as caixa cem d s a in r a re · As bail a também me ic de mús . palmas ·
bater Amar é
palmas
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Sim, amar é bater palmas. Voltou a escrever a Senhora Clap.
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Creio que é este o segredo. O conhecimento que deixarei
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à próxima geração.
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E diante das suas mãos silenciosas, tão silenciosas como
a noite à sua volta, a Senhora Clap pensava na gratidão que
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sentia por todas as viagens que tinha feito, por todas as pessoas que tinha observado, por tudo quanto aprendia e — sobretudo — por ter descoberto que as mãos são um lugar especialíssimo, reservado a acolher pessoas singulares e momentos extraordinários, exatamente como o coração. Foi assim, emocionada pelo conhecimento que a vida lhe
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proporcionava e pelas dúvidas que a faziam avançar, que a Senhora Clap, noite adentro, foi consultando os seus diários
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de campo, nos quais ia anotando as suas observações, e redigindo o seu livro que parecia não ter fim, tal era a vastidão do
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seu objeto de estudo.
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Talvez um dia entremos numa livraria, ou numa biblioteca,
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e tenhamos a surpresa de encontrar, finalmente concluído,
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um livro raro, intitulado Tratado Universal sobre a Arte de
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Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes, da autoria de uma certa especialista em Aplausologia. Ou talvez um dia
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a descubramos, a ela própria, por aí, entre as pessoas transparentes que habitam o mundo. Talvez, se andarmos muito atentos, a encontremos no meio da multidão ou no deserto, entusiasmada, a bater palmas aos mistérios do universo. Porque aplaudir é provavelmente a mais antiga manifestação de contentamento, de alegria, de reconhecimento que há na
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Terra. E é preciso que se aplauda com espanto e privilégio. Afinal, num mundo tão cheio de possibilidades calhou a cada
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um de nós o dom de sentir a beleza de um aplauso íntimo e silencioso ou o de uma estrondosa ovação. De uma ou de
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outra forma, «amar é bater palmas».
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A Senhora Clap continua a pesquisar para o seu Tratado de Aplausologia. Para isso, entrevista mui-
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tas pessoas, fazendo-lhes as seguintes perguntas:
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· Tem memória de algum aplauso que lhe tenha ficado para a vida? · Já aplaudiu de pé? Em que situação?
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· Hoje, o que lhe apetece aplaudir?
Caso queira participar na sua investigação, o leitor deste livro também pode responder e enviar as suas
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respostas por correio eletrónico (senhoraclap@ gmail.com), com uma fotografia do seu rosto ou das suas mãos, e, caso queira identificar-se, pode revelar o seu nome, a sua profissão e a sua idade. Muito
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obrigada — diz a Senhora Clap — e um forte aplauso! As suas respostas serão publicadas na página do facebook da Senhora Clap.
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Que a Senhora Clap nos acompanhe! Que através dela se perceba que amar, de olhos bem abertos e sem preconceitos, é um aplauso maior do que a vida. Pensem no tanto que devemos aplaudir, apesar de tudo. Bater palmas, no momento certo,
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pelas razões que contam, pode mudar o mundo por contágio. Aplaudamos os dias, as certezas,
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as paixões, aquela música, este livro, aquela
frase, aquele poema, aquele sorriso, aquela ideia,
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os sonhos, a coragem, a humanidade dos outros quando tudo esmorece.
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Miguel Carvalho
A Senhora Clap e o mundo na palma das mãos, remete-nos para a universalidade e para o acolhimento e exige mais do que uma superficial leitura. Exige que adultos e crianças comecem o seu treino de louvor ao Outro pelos teatros,
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pelas conferências, circos e demais acontecimentos e que depois reflictam sobre esta extraordinária responsabilidade que temos sobre tudo quanto nos rodeia, vivo ou não. Porque não é à toa que
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Marta Duque Vaz escreve também um capítulo sobre o aniversário de uma mulher e da sua caixa-de-música, objectos-memória que falam do testemunho humano e afectivo. Luísa Monteiro
Com muita imaginação e melancolia, Marta Duque Vaz escreveu um livro que é um elogio à celebração da vida, e que nos ensina que a alegria e a tristeza são as duas caras de uma moeda com um tempo demasiado curto para circular no mercado das emoções, que merecem ser celebradas com alma pelas palmas das mãos. Pedro Miguel Silva | Deus me Livro
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… a Senhora Clap, quando bate palmas, abre muito os olhos.
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transparente do lado esquerdo.
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Tanto, tanto, que se vê tudo dentro dela, ficando totalmente
O que podem causar as nossas palmas, se batidas com emoção e atenção verdadeiras? A Senhora Clap, investigadora de uma nova área do saber, a Aplausologia, vai pôr os leitores a aplaudir o mundo com os olhos bem abertos e a atenção toda desperta a esse pequeno-grande gesto, capaz de produzir verdadeira
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magia. Porque «amar é bater palmas».