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A senhora Clap e o mundo na palma das mãos

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Marta Duque Vaz • Danuta Wojciechowska

e o mundo na palma das mãos


Este livro surge na era digital, numa altura em

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que nos vamos afastando cada vez mais deste lado mais humano que pode ser traduzido num

altura em que parece que estamos a perder a humanidade, que preferimos fazer o tal «like» – essa nova forma de bater palmas – , aparece

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A Senhora Clap e só por isso já seria muito

bem-vinda porque é um retorno ao essencial. (…) Para mim, este livro é sobre a gratidão,

um dos sentimentos mais nobres que podemos experimentar. Dulce Maria Cardoso

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A matéria do Tratado Universal sobre a Arte de Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes é vastíssima, mesmo inesgotável. Se «amar é

bater palmas», é impossível ficarmos quietos

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e calados por muito tempo, está bem de ver.

Comecemos por aplaudir a Senhora Clap e de certeza que sentiremos o eco da atenção dela em nós. Experimentem.

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Carla Maia de Almeida

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Um livro terno e imaginativo, onde se vislumbra a vontade de transmitir valores positivos da vida em sociedade. Rita Pimenta | Público

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substitui, apesar de mais abrangente. (…) Numa

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bater de palmas presencial e que um «like» não


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Marta Duque Vaz começou no Jornalismo, passou pela Gestão e,

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pelo caminho, licenciou-se em Antropologia. Em 2016, A Senhora Clap e o mundo na palma das mãos foi adaptada a uma peça de teatro no Rio ilustrado História interminável. Os anjos não morrem e tu morreste duas vezes é o título da sua primeira antologia de contos. Já aplaudiu de pé o pôr

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do sol no Arpoador, músicos e cantores favoritos, escritores que admira,

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de Janeiro. Escreveu o monólogo O lado esquerdo e publicou o álbum

o teatro e a dança, a ética de algumas pessoas e a coragem de outras, a poesia, a fé e a ciência, as árvores que a encantam e a bonomia e solidariedade entre

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seres humanos.

Danuta Wojciechowska vive e trabalha em Lisboa, onde fundou e dirige o atelier Lupa Design. Formou-se em Design de Comunicação e Educação pela Arte. O seu trabalho tem sido reconhecido com diversos prémios,

destacando-se o Prémio Nacional de Ilustração e a distinção «Mulheres

Criadoras de Cultura». Promove e realiza oficinas centradas nos seus livros ilustrados. Incentiva a criatividade e a literacia visual, aplaudindo o artista

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que existe em cada criança.

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A Senhora Clap e o mundo na palma das mãos Texto: Marta Duque Vaz

Ilustração: Danuta Wojciechowska Design: Lupa Design

Danuta Wojciechowska e Ana Sofia Simão

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Impressão e acabamento: Norprint - A Casa do Livro Depósito legal: 518636/23

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ISBN: 978-989-673-898-3 © Setembro 2023, Inst. Miss. Filhas de São Paulo Rua Francisco Salgado Zenha, 11 2685-332 Prior Velho Tel. 219 405 640 – Fax 219 405 649 e-mail: editora@paulinas.pt www.paulinas.pt


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A Senhora

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e o mundo na palma das mãos


Para os meus sobrinhos:

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João Maria, Francisca, Miguel, Guilherme, António, José e Maria, por mais que cresçam...

Para eles o meu aplauso transparente. Sempre.

de teatro. A ela e a toda a equipa que reuniu em volta desta história a minha gratidão. Inesquecível.

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Admiração sem fim, por ti, pelo teu olhar, pelas tuas mãos ao piano.

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Para a Elenise Bandeira de Mello que transformou este livro numa peça

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Francisco, afilhado do coração e à sua mana, Maria Miguel.


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As minhas mãos mantêm as estrelas […]

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E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas. Sophia de Mello Breyner Andresen


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Senhora Clap é excelente a bater palmas. Bate palmas mesmo muito bem.

Não bate só as pontas dos dedos, nervosamente, como

alguns. Nem bate os dedos todos juntos na outra mão passiva,

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como se bater palmas fosse só receber palmadinhas mais ou menos ruidosas. Não! Nem bate palmas com os dedos abertos, como se as mãos fossem barbatanas. Também não.

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Nem bate palmas a olhar para o lado. Isso nunca!

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A Senhora Clap bate as duas mãos uma na outra, num

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encaixe, ritmo e som absolutamente perfeitos. Para além dis-

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to, a Senhora Clap, quando bate palmas, abre muito os olhos. transparente do lado esquerdo.

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Tanto, tanto, que se vê tudo dentro dela, até ficar totalmente

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Foi assim que ficou famosa. Mas não foi só por causa disto. Todos sabem que ela está a escrever o Tratado Universal sobre a Arte de Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes, que nunca mais termina, pois está sempre a acrescentar coisas que vai descobrindo aqui e ali.

Especialistas de todo o mundo querem perceber porque

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é que a Senhora Clap fica transparente do lado esquerdo quando bate palmas e, principalmente, querem ler o que ela

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anda a escrever sobre o assunto. Convidam-na para muitas festas e espetáculos. Desta forma, sempre que não está a dar conferências sobre como bater palmas na perfeição, está em algum lugar do mundo a aplaudir alguém ou alguma coisa de

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forma notável.

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AS MÃOS

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É certo que a Senhora Clap sabe muitas coisas sobre a

importância da palma das mãos. Às vezes fica a olhar para as

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suas até alguma coisa a distrair daquela análise minuciosa. Há muitos séculos que existem pessoas que leem mãos como se fossem livros e, tal como os livros, as mãos são únicas e contam histórias diferentes. Da mesma forma que conhece as palmas das suas mãos, a Senhora Clap conhece quase todos os segredos sobre cada salva de palmas e sabe ler os senti-

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mentos e as emoções de cada pessoa que as dá.

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Este saber não surgiu assim de repente: tem passado de

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geração em geração, e cada uma deixa à próxima um legado

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de coisas novas. Algumas das teorias sobre bater palmas

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não são fruto da observação participante da Senhora Clap, mas sim coisas que leu no diário que herdou da sua tetravó

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e outras que vai pesquisando em relatos antigos.

Na família Clap, como em todas as famílias, todos sabiam bater palmas, mas houve sempre alguém que se destacou e batia palmas de forma magistral. Na atual geração, é a Senhora

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Clap que tem esse dom e, claro, alguma técnica.

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A Senhora Clap, sempre muito atenta a estas coisas, sabe,

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por exemplo, porque se diz tratar alguém «na palma das

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mãos». Sabe que isso significa tratar muito bem, com carinho

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e cuidado e, como tal, um dia, numa das suas conferências,

começou por dizer que a palma das mãos é um lugar especiamente como o coração.

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líssimo, reservado a grandes sentimentos e emoções, exataNesse dia, a Senhora Clap disse mesmo que a palma das mãos é um lugar igualmente seguro para acolher pessoas e momentos felizes. Mas, para além disto, a Senhora Clap, sublinhou com o seu sorriso amplo e sábio, que as palmas das mãos

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têm esta função peculiar: produzir um som especial sempre que se encontram uma com a outra, diante de uma situação

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ou pessoa que mexe nas nossas emoções e as faz vibrar.

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NA TELEVISÃO

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A primeira vez que foi convidada para ir à televisão bater palmas, a um daqueles programas que tem palmas encomen-

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dadas como se fossem bolinhos, a experiência não correu nada bem! As palmas da Senhora Clap perderam o som. Parecia um mimo. Nunca em nenhum momento ficou transparente, nem um pouquinho. E ficaram todos muito dececionados, menos a Senhora Clap. Ela percebeu de imediato o que lhe estava a acontecer: nesse programa de televisão só se podia bater

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palmas quando levantavam uma tabuleta a dizer «aplaudir». As pessoas não podiam bater palmas quando tinham von-

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tade. Nem pensar! Só quando as mandavam!

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Foi, aliás, num outro programa de televisão que a Senhora

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Clap descobriu os puxa-palmas, pessoas instruídas para bate-

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rem palmas em momentos rigorosamente assinalados pela

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produção dos espetáculos. Não importava se gostavam ou fizessem muito ruído!

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não do que iam aplaudir, interessava que aplaudissem. Que E foi aí que a Senhora Clap teve uma ideia: abrir uma escola onde se aprendesse a bater palmas com sentimento e entusiasmo e — mais — onde os puxa-palmas, por exemplo, fossem recrutados de acordo com os seus gostos e preferências,

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para poderem aplaudir com admiração!

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A este respeito, a Senhora Clap escreveu no seu diário

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de campo, o caderno de apontamentos que andava sempre

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consigo:

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· Só devemos bater palm as quando nos apetece.

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· Bater palmas é um sin al de satisfação.

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· Todos são capazes de bater palmas, até os mais preg uiçosos.

· Não devemos ter receio de bater palmas mesmo quando somos os únicos a fazê-lo.

· Nunca obedecer a tabu letas que dizem «aplaudir». · Abrir uma escola de ap

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lausos.


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AS CONFERÊNCIAS

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Tirando este episódio da televisão, que não correu bem, mas foi importante, toda a gente se espanta quando a Senhora

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Clap bate palmas. Todos a querem ver bater palmas em algum aniversário, na primeira fila do teatro, no circo, num concerto ou num bailado. Mas ela nem sempre pode estar presente porque tem cada vez mais conferências agendadas sobre a importância de bater palmas, ou então sobre como bater palmas muito bem.

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No início era muito estranho. Aparecia uma ou duas pessoas, pois toda a gente achava que sabia bater palmas e que

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não havia nenhum segredo, nem nada de novo para aprender sobre este fenómeno. Depois, começou a aparecer cada vez mais gente. As pessoas conversavam umas com as outras e diziam: «Fui a uma conferência da Senhora Clap! Foi extraor-

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dinário vê-la bater palmas. Ficou tão transparente que parecia

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um aquário.» Ou então diziam: «Aprendi coisas incríveis com a Senhora Clap.»

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E agora as conferências esgotam, apesar de ainda existirem

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muitas pessoas que desvalorizam estas coisas de bater pal-

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mas e afins. Há ainda quem entenda que bater palmas nem

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sequer é importante! Os mais perspicazes dizem que alguma ensinam às crianças.

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importância deve ter, uma vez que é das primeiras coisas que — Até as focas batem palmas — dizem uns.

— Todos sabem bater palmas — dizem outros.

— Se as palmas não existissem, não faziam falta — pensavam alguns em voz alta.

— São só as mãos a fazerem um pouco de barulho —

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comentam outros, em surdina.

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Uma vez, enquanto aplaudia, a Senhora Clap ouviu um

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comentário deste género e — zás — perdeu a transparência

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num ápice! Começou a ficar opaca, muito opaca, tão opaca

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que não se conseguia ver nada, nem a cor dos seus olhos, principalmente do esquerdo. E nessa altura disse:

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— Peço desculpa, mas hoje não consigo bater mais palmas!

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SENTIR

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As pessoas insistiram, ou por curiosidade ou porque estava muita gente presente, mas não valeu a pena. Mesmo

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com a sala cheia de pessoas prestigiadas, animadas para a verem aplaudir e ouvirem a sua palestra sobre bater palmas, a Senhora Clap não cedeu. Ela sabe muito bem que pode acontecer uma tragédia se bater palmas sem sentir. Para além de não se destacarem das outras, pelo som, podem mesmo perdê-lo. Já estava provado.

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Desta forma todos sabiam que quando a Senhora Clap batia palmas era porque as sentia mesmo muito e lhe apetecia estar

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onde estava. Às vezes podia ser por causa de um detalhe, de um gesto, de qualquer coisa especial. Outras vezes só ela própria sabia porque batia palmas. Mas todos sabiam que eram

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aplausos autênticos, mesmo desconhecendo o motivo.

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E a sua fama estava a tornar-se planetária.

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Aparecia nos jornais e nas capas das revistas. Sempre

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o lado. Todos começaram a reconhecê-la na rua.

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a bater palmas, muito concentrada, sem nunca olhar para

E às vezes acontecia de algumas pessoas muito distraídas,

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e outras que nunca atentaram verdadeiramente nas singularidades da Senhora Clap, pedirem-lhe e teimarem:

— Bata palmas, Senhora Clap, oh bata lá, por favor… — Não insistam — pedia a senhora Clap, triste por algumas pessoas ainda não terem entendido que bater palmas é uma questão emotiva e, em alguns casos, sentimental. E só por

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pensar isso ficava transparente como um dia cheio de sol.

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A VOZ DAS PALMAS

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Nestas alturas, quando as pessoas pediam que aplaudisse, a Senhora Clap contava sempre o episódio do programa de

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televisão, quando a obrigaram a aplaudir e as suas palmas perderam a voz como acontece às crianças que gritam brincadeiras no recreio da escola. Às vezes até se punham a bater palmas à sua frente a ver se ela, por imitação, também o fazia! Aconteciam-lhe coisas mesmo muito estranhas. Coisas que

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ninguém imagina!

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Como a Senhora Clap aproveita todas as situações para

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tomar notas, numa dessas vezes, escreveu:

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· As pessoas nã o batem palma s por estar muit a gente.

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· As pessoas qu eb imitação podem atem palmas por ir-se embora.

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· As pessoas qu e batem palma sa olhar para o la do não sentem muito.

· As palmas qu e não se sente m perdem o som.

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Depois, fechou o seu caderno de notas, meteu-o na mochi-

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la e partiu, sem bater uma única palma. Nessa noite dormiu

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muito pouco, pois estava agitada. Apesar de, no dia seguinte,

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ter pela frente uma longa viagem, não descansou como devia.

Iria visitar, a convite dos seus habitantes, uma ilha muito

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a primeira vez.

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especial. E estava tão contente e entusiasmada como se fosse


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A ILHA

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Na manhã seguinte, chegou cedo ao aeroporto e foi logo

para o avião. Pôs-se a rever os tópicos da sua próxima con-

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ferência, enquanto os outros passageiros entravam. Depois, dormitou durante toda a viagem. Mas o seu descanso não foi muito. Quando aterrou na ilha, o avião deslizou pela pista como sorvete na boca e, por ter sido uma aterragem suave, as pessoas começaram todas a bater palmas. Mais uma vez, as da Senhora Clap distinguiam-se das outras. Tinham um som de

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cristal, é certo, mas, como sempre, o mais curioso é que o seu lado esquerdo estava completamente transparente, como

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o fundo do mar, quando se vê a cor dos peixes.

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Da mesma forma, podia ver-se o quanto as suas palmas

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eram sinceras. A Senhora Clap estava aliviada e contente por

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ter aterrado tão bem. É que ela tem um bocadinho de medo

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de andar de avião e a viagem, afinal, tinha sido maravilhosa do princípio ao fim.

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A Senhora Clap é apaixonada por esta pequena ilha, longínqua, onde só vivem artistas: cantores, atores, palhaços, músicos, realizadores, poetas, ilustradores, malabaristas, pintores e outras pessoas com talentos especiais.

No decorrer da sua investigação, tinha constatado que naquela terra, há muitos, muitos anos, tantos que não tinham

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conta, sempre que alguém morria, as pessoas batiam palmas. Batiam muitas palmas, tantas palmas que até parecia um

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espetáculo. A diferença é que não havia nem cortinas, nem bis. As pessoas batiam palmas com muita dedicação, muito concentradas e tristes. Ninguém olhava para o lado. Batiam

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palmas pela última vez.

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Já há muitos anos que a Senhora Clap ouvira falar desta ilha

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e dos seus habitantes que, apesar de tristes, se despedem dos

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seus artistas com uma salva de palmas, como se eles tives-

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sem terminado a sua atuação e voltassem dentro de instanrodeado de mar, disse:

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tes. E no dia da sua conferência, naquele local deslumbrante, — A essência das palmas está na admiração.

— As pessoas batem palmas porque estão atentas. — É muito importante receber palmas em vida.

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— É muito bom sair de cena sob uma salva de palmas.

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