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Marta Duque Vaz ILUSTRAÇÕES Cátia Vidinhas TEXTO
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Para os meus sobrinhos:
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Francisca, Miguel, Guilherme, António, José e Maria, por mais que cresçam...
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João Maria, com quem jogo à bola e aprendo o nome dos jogadores e outras mil coisas; brinco aos piratas, aos berlindes, à paciência e aos leitores atentos e distraídos...
Francisco, afilhado do coração e à sua mana, Maria Miguel.
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TÍTULO HISTÓRIA INTERMINÁVEL AUTORA Marta Duque Vaz
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ILUSTRAÇÕES, DESIGN E PAGINAÇÃO Cátia Vidinhas COLEÇÃO E depois?
1.ª edição Agosto 2022
IMPRESSÃO E ACABAMENTO Norprint – Artes Gráficas, S.A. – Santo Tirso DEPÓSITO LEGAL n.º 503923/22
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ISBN 978-989-673-850-1 Todos os direitos reservados
© Agosto 2022, Inst. Miss. Filhas de São Paulo Rua Francisco Salgado Zenha, 11 – 2685-332 Prior Velho Tel. 219 405 640 – Fax 219 405 649 E-mail: editora@paulinas.pt www.paulinas.pt
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Marta Duque Vaz ILUSTRAÇÕES
Cátia Vidinhas
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Cid quer escrever uma história, mas não quer escrever uma história o coração do seu conto.
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bonita. Quer dizer: pode ser bonita, claro, mas a beleza não seria
O menino ruivo e mais sardento do bairro quer escrever uma história
inclusiva, em que apareçam muitas coisas, pessoas e situações diferentes. Naquela manhã, quando chegou à escola, perguntou aos amigos:
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– Quem quer escrever uma história comigo?
– Eu! – disse Cidália, sem pestanejar. Mas, de imediato, colocou uma condição: tem de ser uma história interminável.
– Isso é mesmo uma aventura sem fim! – disse Cid. – Vamos escrevê-la juntos. Será, fica assente, uma história inclusiva e interminável.
– Inclusiva? – perguntou Cidália. – E o que é uma história inclusiva? – É uma história que não exclui – disse Cid. – Aprendi essa palavra, fica de fora.
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há poucos dias, e gostei muito. Significa que nada nem ninguém – Isso parece-me perfeito para uma história sem fim à vista – comentou Cidália, muito animada, com a sua cabeça de tranças mínimas e
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negras a ondular de tantas ideias.
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Nos intervalos das aulas, em casa, no parque
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do bairro, nos tempos livres, sempre que se podiam encontrar, registavam tudo que lhes vinha à memória e lhes parecia interessante. Como nunca tinham experimentado escrever um conto, primeiro tentaram arranjar um método. Cid sugeriu: – E se começássemos por anotar palavras e ideias
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que nos parecessem boas para este desafio?
Cidália começou de imediato a escrever: um macaco, uma catatua, um sapo e uma perua; um rinoceronte,
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uma zebra e um bisonte; um salmão, uma girafa e um leão. Um cavalo e um pinguim, uma borboleta
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e um anequim.
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– Isto está a ficar um jardim zoológico – disse Cid,
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brincando. – Temos de fazer outras escolhas… – Tu disseste que, numa história inclusiva, nada nem ninguém fica de fora – protestou Cidália.
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– Sim, mas convém optar por outras palavras, outros sentidos, outros personagens… e esses personagens vão mostrar que ninguém fica de fora. E, depois, inventamos cenários e enredos e prosseguimos.
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Então escreveram: um professor, uma engenheira, um agrónomo e uma peixeira. Também um camionista,
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uma maestrina e um ceramista. Uma astronauta, um cozinheiro, uma arquiteta e um costureiro. Uma taxista, um gestor, uma pianista e um canalizador.
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– Pode ser! Mas depois, entre tantas profissões,
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temos mesmo de escolher os protagonistas – disse Cid. Perante a animação de Cidália, continuaram aquele exercício de envolvimento de palavras que, mais tarde, dariam corpo à
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história conjunta. E anotaram:
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Uma muçulmana, uma hindu, um cristão e um guru.
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Um judeu, um sacerdote, uma indígena e uma mascote. Um cigano, um imigrante, um ameríndio e uma viajante. Uma budista, uma protestante, um dalai-lama e uma migrante. Um sunita,
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um refugiado, um ateu e um ermita.
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Desportistas, uma campeã, crianças diferentes e uma anciã. Um jovem poeta, muitas árvores, uma bicicleta. Umas chuteiras, um par de muletas
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e umas caneleiras. Uma cadeira de rodas, uma trotinete, dois patins e um capacete.
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– Se a regra é incluir, não há qualquer segredo –
observou Cidália, divertindo-se com aquela espécie de jogo de palavras atabalhoadas.
– Depois escolhemos como fazer, se contamos a história
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em verso ou em prosa, acrescentou Cid. – Ou nem prosa, nem poesia… outra coisa. Agora, o mais importante é arranjarmos ideias para construir o nosso enredo.
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E continuaram, animados: um rio, um penedo, avatares e até monstros com medo. Incluir pais e mães; o anónimo e o
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desconhecido, e até um bom amigo. Incluir tímidos, tagarelas,
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avenidas e ruelas; um museu novo e outro antigo.
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Logo de seguida, Cidália escreveu: um jogo, muitas danças, até uma menina – como eu – de tranças; negra, branca ou
vermelha; alguém ousado, com abertura ao diferente, que,
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em cada rosto, encontre a humanidade de toda a gente.
– Isto é um imenso desafio – reiterou Cid. – Temos mesmo de ser criativos para dar conta desta multiplicidade e da sua importância, para que o mundo seja um lugar bem mais acolhedor e interessante. – Se o mundo é naturalmente diverso – observou Cidália – porque é que ainda há tantas pessoas a resistirem às diferenças, como se magoassem?!
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– Sabes que concordo contigo, Cidália? Porque será tão difícil compreender e aceitar toda a diversidade como uma mais-valia,
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uma coisa boa, que nos ensina a olhar e a pensar de outro modo?
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E lá continuavam a saga, ininterruptamente, com muito ânimo: Uma centenária, um bebé chorão e uma quinquagenária. Uma angolana, um inglês, uma brasileira e um japonês. Um arquipélago distante, um mar sem fim, um país longínquo e outro, aqui, próximo de mim.
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– Achas que, com tudo isto, já conseguimos construir uma perguntou Cidália.
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narrativa multicultural, livre de preconceitos e estereótipos? – – Creio que sim! Temos aqui palavras e ideias inspiradoras para dar rumo à nossa história inclusiva e interminável, mas não resisto a mais estes apontamentos: músicas do
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mundo inteiro; alegrias, algumas dores, arte de todas
as nações; filosofias de muitos pensadores. Direitos humanos e outros que tais, como por exemplo os dos animais. Incluir omnívoros, vegetarianos também; culturas diferentes,
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daqui e de além.
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– Assim, também não consigo parar de ter ideias – disse Cidália,
escrevendo: perceber, sentindo que somos iguais, que ninguém, nesta história, é superior aos demais. Que diferentes etnias nos enriquecem, revelam diferenças que nos engrandecem. voltar a ver e a rever.
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Vamos lá experimentar, basta aprender, ser abrangente,
– Isso é ter um olhar verdadeiramente inclusivo. É não ficar preso no próprio umbigo! Mas agora, Cidália, temos de começar a contar a nossa história, não te parece? Depois, se nos apetecer, até podemos voltar a este exercício de palavras e ideias.
No entanto, para que as coisas aconteçam, é preciso dar o
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pontapé de saída.
– Sim, é verdade! Vamos lá começar:
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Era uma vez…
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Era uma vez uma história sempre disponível para acolher e incluir. Uma história atentíssima ao que a rodeia e muito respeitadora. Tem as suas ideias, é certo, mas está sempre disposta a abrir os braços ao novo e ao diferente. Trata-se de uma história que está sempre a começar. Que teima em não chegar ao fim, para que todos possam entrar…