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Escola Profissional EPRAMI (Melgaço) - Lendas do Alto Minho

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Introdução Falar de tradição oral é falar, em primeiro lugar, da linguagem como instrumento graças ao qual o homem transmite conhecimentos, forma o seu pensamento, os seus sentimentos e as suas emoções, a sua vontade e os seus actos. É um meio graças ao qual ele influencia e é influenciado, o último e o mais profundo fundamento da sociedade humana. Assim a palavra constitui a marca da personalidade, do país natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. É neste sentido que a tradição oral se revela importante pois foi, através dela, que o ser humano evoluiu enquanto tal, transmitindo novos conhecimentos e expressando os seus estados de alma. O contar histórias verdadeiras ou falsas, maravilhosas ou reais, prendeu ou atraiu o Homem de todos os tempos. A narração oral é um costume tão antigo como o ser humano e que abrange uma série de subgéneros narrativos, tais como o conto, a fábula, a lenda, o mito, os provérbios, as adivinhas, etc, que constituem a literatura tradicional de transmissão oral pois circulam oralmente de geração em geração, assegurando a manutenção de um património cultural que escapa à sanção dos mecanismos institucionais. Devido ao facto de a tradição oral ser uma área tão abrangente, este trabalho debruçar-se-á sobre as lendas, que existem em grande quantidade, embora se comece por fazer uma caracterização do concelho de Melgaço, através de quadras alusivas às diferentes freguesias que o compõe e que datam dos anos cinquenta.


Vila

Eu sou Melgaço, a Vila Lusitana Sentada em trono d’Oiro qual rainha De todas a mais bela e mais humana; Que seus vassalos, ama e acarinha. Ei-los que chegam, junto ao trono meu Alguns com queixas outros com Louvores Todos estrelas a brilhar no céu E todos eles para nós amores.


Castro Laboreiro

Eu sou Castro Laboreiro De Portugal o mais belo Dizem que foi o primeiro De todos o meu castelo.


Lamas de Mouro

E eu sou Lamas de Mouro E adoro o meu Manel E tenho lรก um tesouro De batatas e mel


Cubalhão

O meu nome é Cubalhão Terra serrana e bravia Mas tenho no coração Requintes de fidalguia


Parada do Monte

A minha igreja branquinha A minha escola e a fonte Fizeram de mim limpinha Eu sou Parada do Monte


Gave

Eram todos Criminosos Os meus filhos, mas DEUS sabe Que são bons e generosos Os Corações dos da Gave


Cousso

Sou Cousso, vivo contente Trabalho de sol a sol Quando canta a minha gente Faz inveja ao rouxinol


Fi찾es

Eu sou Fi찾es a falada Na romaria de S.Bento E tenho hist처ria gravada Nas pedras do meu convento


Crist贸val

Eis Crist贸val, a dos cadetes Conheci-a sem camisa Agora tem palacetes Aben莽oada Galiza


Paços

Eu sou Paços Colossal Isto aqui é céu aberto O terror de Portugal Só por ter o rio perto


Chavi達es

Sou Chavi達es, altaneira E freguesia de lei De todas fui a primeira A pagar tributo ao rei


Prado

Se o Mundo um dia acabar Ou mesmo for arrasado Tem por for莽a de ficar A freguesia de Prado Falam todos do meu povo E de mim, mas com inveja Por ter um rel贸gio novo Na torre da minha Igreja


S.Paio

S.Paio de gente boa Do trabalho, do carinho Do vinho verde, da broa Posta em toalha de linho


Paderne

Sou Paderne e sou modesta A melhor de Portugal Tenho um convento que atesta A gl贸ria nacional


Remo達es

Sou pequeno e pobrezinho N達o tenho inveja aos demais Lembram aves em seus ninhos Os filhos de Remo達es


Alvaredo

Dizei, rapazes, dizei, Pois dizê-lo sem medo Não há moças que eu bem sei Que valham as de Alvaredo


Rio Minho Tu és nascido, ó Minho, nessa Espanha Que foi pátria de três Filipes!... Tua beleza é tanta e tamanha, Que faz lembrar Valverdes e Ouriques! Corres aqui, tão manso e ordenado, Corres além, tão mau e traiçoeiro, Que pareces lembrar esse reinado Do refalso Filipe, rei primeiro. Regas campinas, veigas e devezas, És como tantos, rio bem fecundo; Que, banhando as terras portuguesas, Nos recordas esse Filipe, mais pequeno, Que se foi em mil seiscentois e quarenta Ficaste sendo um rio com divisa, A separar duas nações irmãs. Mas a província tua e a Gliza, Que as separe alguém, se for capaz.


InĂŞs Negra


Inês Negra Esta história teve lugar em 1388, no início do reinado de D. João I, em que se travou uma guerra contra Castela pela independência de Portugal. Esta contenda, em que sobressaíram os feitos do Condestável Nuno Álvares Pereira e de muitos nobres portugueses, dividiu a aristocracia e o povo português, tomando muitas terras o partido de Castela. Foi durante esta guerra civil que a Inês Negra, uma mulher do povo fiel à causa portuguesa, abandonou Melgaço quando esta cidade se pôs ao lado do rei de Castela. Quando D. João I decidiu reconquistar Melgaço, Inês Negra juntou-se ao seu exército, mas as duas facções nunca chegaram a defrontar-se. A batalha travou-se entre Inês Negra e uma sua inimiga de longa data, a "Arrenegada", que tinha optado por apoiar os castelhanos. A lenda diz que a "Arrenegada" desafiou Inês Negra do alto das muralhas, propondo que a contenda fosse resolvida entre ambas com o acordo do exército castelhano. D. João I assistiu espantado à resposta de Inês Negra que dizia aceitar o desafio. Ambos os exércitos concordaram com este duelo e a Inês Negra, de espada na mão, defrontou a sua inimiga apoiada pelos gritos de incitamento dos homens de D. João I. O silêncio instalou-se quando a "Arrenegada" fez saltar com um golpe a espada das mãos de Inês, mas esta tirou uma forquilha da mão de um camponês e fez-se à luta, procurando atingir a "Arrenegada" nas pernas.


Inês Negra

Sentindo-se em desvantagem, esta atirou fora a espada e pegou num varapau que quebrou com fúria nas costas de Inês. Louca de fúria e de dor, Inês Negra largou a forquilha e atirou-se com unhas e dentes à sua oponente, rolando ambas no chão empoeirado. Um grito de dor gelou a assistência, que não conseguia perceber qual das duas vencera. Foi então que a "Arrenegada" se levantou e fugiu para o castelo, tapando as nódoas e o sangue do rosto com as mãos. Os castelhanos abandonaram Melgaço no dia seguinte e D. João I quis recompensar a heroína, mas esta respondeu que estava plenamente recompensada pela sova que tinha dado à sua inimiga.


História em Poesia

CerCo Melgaço foi o conto ...Era uma vez... na guerra entre Castela e Portugal: Tomada, ao castelhano era leal, embora fosse chão bem português! E p'rà reconquistar, cerco lhe fez El-Rei, D. João, Primeiro, em arraial: Mas antes do ataque crucial ouviu-se algum clamor, com nitidez... Do alto da muralha alguém bramiu lançando ao arraial, em desafio, palavras de afrontosa rispidez: Pois era a voz da vil "Arrenegada", traidora, ao castelhano devotada, bradando p'la rival chamada Inês!...


repto Bradando pela rival chamada Inês (Que foi por Inês Negra baptizada!), propunha-se a virago "Arrenegada" o cerco alevantar duma só vez... Um repto então lançou, em tom soez, à Negra, que a a El-Rei era apegada: As duas, num duelo pela espada, trariam, a Melgaço, a pacatez... El-Rei, que tudo ouviu boquiaberto, tão prestes inquiriu se estava certo o quanto essa machão disse a Inês. E esta, que virago também era, de pronto aceitou, feita uma fera! De modo que o combate assim se fez.


Luta De modo que o combate assim se fez: Dum lado, a traidora tagarela erguendo a sua espada por Castela, do outro, por El-Rei, a Negra Inês!... As duas esgrimindo com rudez, golpeiam com ardor nessa procela, batendo agora esta e logo aquela, em luta de renhida solidez… Porém, a Inês Negra, sem apelo, agarra a traidora pelo cabelo e dá vitória ao povo português!... Ganhou a Inês Negra esta contenda! De briga tão feroz nasceu a lenda: Melgaço foi o conto ...Era uma vez!...


Senhora da Orada


Senhora da Orada Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1569, e pelas terras do Vale do Minho espalhava-se a peste. Em todas as freguesias as pessoas estavam apavoradas com o terrível flagelo. Ricos e pobres eram atacados por um grande febrão, e ninguém parecia escapar a esta desgraça. Cheios de pavor e de fé, todos se voltavam para os santos, pois só a eles parecia restar o poder de debelar tão grande infortúnio. Por essa altura, morava no lugar da Assadura, junto da Senhora da Orada, Tomé Anes, mais conhecido por “Vira-Pipas”, pois andava sempre com uma malguinha a mais. Tomé Anes era uma figura alegre, mas um pouco desbocada, quando importunado com a alcunha. Para além de pequenas leiras que animava, Tomé limpava e arrumava a capela da Senhora da Orada, trabalho que fazia com muito desvelo e devoção. Numa certa manhã, como de costume, Tomé foi arranjar a capela. Como ainda era cedo, só tinha tomado o seu “mata-bicho”, lá em casa, e uma pequena malga de vinho na tasca da Mirandolina. Chegado à capela, o “Vira-Pipas” quase morreu de susto, pois a imagem da Senhora da Orada não estava no seu lugar, nem em qualquer outro! Às vezes acontecia que chegava a ver duas ou três imagens da Senhora, quando a borracheira passava do normal. Não ver nenhuma assustava-o seriamente. Cego não estava! Ainda perguntou à imagem do Senhor S. Brás pela ausente, mas como este não respondeu, pensou que teriam sido os galegos os autores de tão vil afronta. Furioso saiu o “Vira-Pipas” em direcção à Vila para comunicar o sucedido ao Alcaide, e disposto a juntar o povo para enfrentar tal desfeita.


Senhora da Orada Ia o Tomé nestes propósitos pela via romana, quando o chamaram da casa do Arrocheiro para dar uma ajuda na trafega do vinho. Este era trabalho a que nunca se negava o Tomé, já que entre o passar dos cabaços de vinho lá ia bebendo uma pequena malga do apreciado líquido. Depois de muito bebido e comido, o “Vira-Pipas” deixou-se levar pelo sono, de modo que só noite dentro acordou e contou o sucedido para os lados da Orada ao seu amigo. Conhecendo os hábitos do Tomé, este só se riu, não acreditando em tão fantasiosa história. Mas como o Tomé insistia tanto, concordou em confirmar o acontecido com uma visita à Igreja. Ao entrarem, verificaram que a imagem da virgem estava no seu lugar. O único surpreendido era o “Vira-Pipas”! No dia seguinte, muito envergonhado, Tomé decidiu ir à Senhora da Orada mais cedo do que era costume. Para testar as suas capacidades, num grande esforço, não bebeu a sua malguinha de vinho, nem o imprescíndivel “mata-bicho”! Chegou até a meter a cabeça debaixo da fonte para dissipar os possíveis vapores alcoólicos do dia anterior.


Senhora da Orada Na capela verificou que só estava o menino Jesus, sentado com aquela cara de choro que toda a criança tem quando a mãe não o leva ao colo. Tomé ficou abismado, sem saber o que fazer. Com medo que se rissem dele, não contou a ninguém, preferindo entregar-se ao trabalho, ao ponto dos conhecidos ficarem admirados com tal dedicação. De manhã e à noite ia à capela, e verificou que a Senhora da Orada voltava à noitinha. Umas vezes levava o menino, outras não. Só o Tomé sabia destas fugas, e pressentiu naquele mistério uma grande responsabilidade. Não lhe passava da ideia o que lhe acontecera, julgando-se destinatário de uma mensagem da Senhora para que abandonasse o consumo do álcool. Por isso, começou a diminuir no vinho, o que a todos surpreendeu! Enquanto isto sucedia ao pobre do Tomé, em Riba de Mouro, no concelho de Monção, os habitantes viraram-se para a milagrosa Senhora da Orada a fim de se livrarem da mortífera peste, que por aqueles anos assolava toda a região. Para agradar à Senhora, prometeram uma romagem anual à capela. Depois de aparecerem os primeiros casos, surgiu na dita freguesia uma senhora, muito bonita e educada, que dizia como saber tratar aquela doença. Ninguém sabia donde ela viera. Entrava na casa das pessoas doentes, mandava fazer um chá com uma planta que trazia no alforge, e juntando outras ervas, mandava preparar um banho que ela própria passava no corpo do doente, fosse mulher, criança ou homem. Recomendava às pessoas que se lavassem com ervas de Santa Maria e folhas de sabugueiro, que defumassem as casas com alecrim e lavassem as roupas amiúde.


Senhora da Orada A bondosa dama não tinha mãos a medir! De manhã até à noite, não parava de atender doentes. Não comia nem aceitava convite para ficar à noite com eles. Quando trazia um menino, que dizia ser seu filho, este ajudava a descobrir a erva de Santa Maria e os sabugueiros que o povo não sabia onde mais encontrar. Entretanto passaram-se quarenta dias, e a peste abrandou. Poucas pessoas sobreviveram ao flagelo, mas em Riba de Mouro ninguém morreu! A Senhora que tinha ajudado a população desapareceu tal como havia surgido. Todos se perguntavam agora sobre a identidade daquela misteriosa Senhora. Alguém se lembrou, então, que a roupa, e até a fisionomia, eram iguais à da Senhora da Orada! Nesta certeza, logo partiram em romaria ao seu santuário, agradecendo a protecção. Vendo tal devoção e escutando o sucedido, o Tomé entendeu rapidamente o que lhe tinha sucedido e resolveu contar a todos o desaparecimento da Senhora naqueles dias anteriores. Agora, todos acreditaram! Os romeiros partiram, espalhando o relato do milagre por todas as freguesias.


Aparição da Senhora da Peneda


Aparição da Senhora da Peneda Conta-se que a Senhora da Peneda apareceu em cinco de Agosto de 1220 a uma serraninha que pastoreava por entre aquelas penedias, algumas cabras. A Senhora apareceu-lhe em forma de uma pomba branca voando ao redor dela e, pediu-lhe que dissesse aos do seu lugar da Gavieira para lhe edificarem naquele lugar uma ermida; a pastorinha falou aos seus pais, da Senhora, mas sem efeito, porque não lhe deu crédito. Noutro dia, voltando a pastorinha com as suas cabras por aquelas mesmas paragens, lhe tornou a aparecer a mesma Senhora na mesma lapa, não como na primeira vez, em forma de pomba (como ela referia) mas na forma em que hoje se vê, e lhe disse: filha, já que te não querem dar crédito ao que eu mando, vai ao lugar de Roussas (que fica na mesma freguesia de Gavieira, no mesmo termo do concelho de Soajo) onde está uma mulher entrevada há dezoito anos e diz aos moradores do lugar que tragam à minha presença, para que ela fique de perfeita saúde, e assim te darão crédito ao que eu te ordeno. Assim o fez a venturosa pastorinha, e trouxe a mulher que se chamava Domingas Gregório. Tanto que esta chegou à vista daquela Sagrada Imagem da Rainha dos Anjos, logo alcançou uma perfeita saúde e ficou livre e sã de todos os males que padecia, louvando a Virgem Senhora pelo singular benefício que lhe havia feito.


O Lagarto


O Lagarto O Lagarto , a moura e Nossa Senhora confundem-se na «Lenda do Penedo do Lagarto» (Lamas de Mouro). Esta «confusão» marca os processos de apropriação do mundo religioso arcaico, de onde as «Grandes Deusas» são recebidas, para as transformar ora em cultos à Virgem Mãe de Jesus – continuando a tradição religiosa – ora em figuras femininas de fertilidade e despenseiras de fortuna, na versão “secularizada” das «mouras encantadas». Umas vezes está uma presente e a outra ausente, outras as duas disputam o lugar de personagem principal. “Em tempos que lá vão, nas imediações da chã de Lamas de Mouro, existia um monstruoso lagarto que afligia toda a população. O enorme réptil postava-se sobranceiro ao caminho que levava à Senhora da Peneda, e todos os que ali passavam eram engolidos pelo seu apetite voraz. Todos os anos, alguns pastores, perdigueiros, e romeiros, que por ali passavam com destino ao Santuário da Senhora, eram vítimas do feroz lagarto. Ora ali perto, no Coto da Meadinha, morava uma mulher que passava o tempo a fiar na roca e a assoalhar as suas meadas, aproveitando tão arrumado lugar ao sol. Acontece que um dia esta mulher, em andanças de devota ou de pegureira, passou por perto do lagarto. Ao ver a figura que se aproximava, o terrível sáurio acometeu-a para a devorar. Num supremo e insuspeito esforço a mulher arrancou da cintura uma arma de defesa, que não era outra coisa senão a sua roca! Com extraordinária habilidade desferiu um poderoso golpe no até então invencível réptil, transformando-o em pedra!


O Lagarto Crê-se que a mulher era Nossa Senhora, e a prova do seu feito pode-se ainda hoje ver no lugar dito de Portela do lagarto, nome que advém da forma rochosa que encima o penhasco, pois se assemelha ao repugnante réptil”.


Coto da Moura Há muitos anos, no lugar onde hoje existe uma fonte que enche um regato e rega muitos campos, havia uma Moura encantada que todos os dias, ao nascer do sol, saía para estender o seu tesouro no cimo de um penedo, a que chamaram Coto da Moura. Este penedo servia de soalheiro ao tesouro da Moura. Depois de estender o seu tesouro, a moura sentava-se no cimo do penedo e enquanto cantava, ia penteando os seus belíssimos cabelos louros com um maravilhoso pente de ouro. Refulgia ao longe tal conjunto. Pensava-se que a Moura assim fazia para atrair, com o deslumbramento das jóias, alguém que a pudesse desencantar. Os que por ali passavam contavam tal visão, mas a maior parte do povo, ou se mostrava incrédulo, ou temia aproximar-se. Então, um certo dia, um dos homens mais corajosos da aldeia foi ver se o que contavam era verdade. Quando chegou junto da fonte, viu uma Moura com o cabelo e um pente de ouro. Estava ela sentada sobre o penedo a pentear-se. Aproximando-se lentamente, para a surpreender, de forma a que ela não pudesse escapar. Então ela, pressentindo a presença do homem, disse-lhe: -Meu caro senhor, tenho um pente e uma «peina». Qual deles queres?


Coto da Moura O homem não esperava tal oferta! Até porque diziam que a Moura guardava com grande cuidado o seu tesouro. Restabelecido da surpresa, mas julgando pouco provável serem de ouro os cabelos da Moura, apesar de brilharem como esse metal, respondeu depois de breves momentos: - Quero o pente! -Ai homem, que me acabaste de dobrar a «fada»! A Moura, depois de o fixar com um triste olhar, atirou o pente para o regato. E enquanto o homem o foi apanhar, motivado pela ganância, a Moura desapareceu. Em vão o homem procurou o pente. E ainda hoje se julga que o som das águas a cair no regato se parecem com o choro de uma donzela. Por isso se diz que o fado da Moura ainda continua, já que o encanto só seria quebrado se o homem tivesse pedido a «peina» da Moura, que era a sua bela cabeleira.


Convento de Fi達es


Convento de Fiães

Reza a lenda que em tempos muito remotos, quando ainda havia frades no Convento de Fiães, que estes tinham cavado um túnel cuja saída se situava junto à capela da Senhora da Orada na Assadura, perto da vila de Melgaço. As pessoas mais velhas desta localidade diziam que se pusessem um galo à entrada do túnel este viria sair à capela. Supostamente este túnel servia para os frades virem celebrar a missa à Nossa Senhora da Orada. Esta lenda terá provavelmente origem na existência de câmaras subterrâneas aquando da exploração de volfrâmio nos montes da Aguieira, localizados entre Fiães e a Assadura e, talvez devido ao facto desta capela pertencer ao Convento de Fiães.


Sant’Ana


Sant’Ana Andava um casal a trabalhar numas leiras situadas junto ao rio Minho e quando levantaram a cabeça avistaram num barco que descia o rio a imagem de uma santa em pedra e um sino que reluzia como ouro. Cheios de curiosidade dirigiram-se para a margem e reparam que o barco tinha encalhado junto a um coto. Pegaram na imagem e no sino e voltaram para a aldeia onde decidiram o destino a dar àquilo que encontraram. Depois de conversarem as pessoas pensaram em colocar a imagem de pedra na igreja, mas não tardou muito tempo em que esta se voltasse para Espanha. Após várias tentativas continuava voltada para Espanha e então tomaram a decisão de fazer uma capela onde ficaria na posição por ela desejada. Dali em diante nunca mais a imagem de pedra mudou de posição. Quanto ao sino os espanhóis que reclamavam ser deles foi levado para uma fundição de Braga para ser tratado, mas quando regressou os habitantes da aldeia repararam que ele tinha sido trocado. Uma pessoa de origem espanhola tinha feito a troca e tinha-o levado para Espanha, para um lugar que fica situado em frente a Paços. Supõe-se que é o sino existente na capela de Santa Marinha, na Ribeira em Espanha.


Empresa das Mulheres No tempo em que os portugueses disputavam com os castelhanos as terras do AltoMinho, um exército lusitano, composto por quinze mil homens, batalha os galegos nas margens do Minho. De tal forma era bem sucedido o seu empenho, que chegam a provar o delicioso sabor da vitória. Ébrios deste prazer, julgam-se senhores do mundo. Com entusiasmo desmesurado, aventuram-se por terras de Galiza, alucinados de bravura, dispostos a bater o inimigo em sua própria casa. Mas tal esforço não lhes corre de feição, já que, depois de curtíssimas vitórias, os lusos são obrigados a retroceder. ante o vigor do adversário, espicaçado pela vaidade nacional ferida, e supridos de tropas frescas. Vindo os galegos no encalço, os portugueses, desorientados recuam lá para os lados de Castro Laboreiro. Acossados pelo enfurecido inimigo, pronto a corrigir a desfeita sofrida, as tropas portuguesas não encontram forma de o enfrentar, temendo-se uma ultrajante derrota e o risco de perda da soberania pelos próprios territórios! É então que as mulheres daquele lugar, ao verem os seus desnorteados, e perante a afronta desmesurada dos galegos. corajosas e determinadas, resolvem intervir. E se os homens fogem desorganizados e abandonando as armas, elas, depois de se armarem como os guerreiros, cerram, fileiras e avançam sem medo, prontas a salvar o país da ignomínia de uma humilhante derrota. Perante tal atitude e coragem ficam extasiados e confusos por sua parte, os castelhanos. É então que os homens lusitanos, provocados pelo exemplo de suas mulheres, resolvem voltar para a luta, envergonhados das suas momentâneas pusilanimidade e defecção. Recuperada a energia e a Fé indispensáveis, organizam-se e batem os espanhóis, ainda perplexos pela coragem e força das mulheres de Castro Laboreiro. Esta batalha ficou conhecida por ‘Empresa das Mulheres”.


O Tear de ouro Em tempos que lá vão, junto do regato do Martingo, onde existe um penedo com uma grande brecha que ninguém fora, até então, capaz de abrir, ouvia-se um barulho familiar. Parecia o bater de um tear em pleno trabalho. Sempre que ali passavam os transeuntes, ouviam uma labuta ininterrupta, o que levou o povo a acreditar que naquele local morava uma moura encantada! Era tal forma contínuo o trabalho, que o povo decidiu quebrar o encanto para salvar a pobre da moura de tão pesado fado. Se assim pensaram, logo se reuniram junto do penedo com um entendido livro de S. Cipriano, para dar início ao desencantamento. À medida que a leitura ia avançando, o penedo, lentamente, ia-se abrindo, deixando descoberto aos olhares do povo a beleza estonteante de um fantástico tesouro! Maravilhados, fixaram os objectos que eram familiares no seu dia-a-dia, mas que refulgiam na cor do ouro: tear, lançadeiras, canelas, pentes, etc. Da moura não havia rasto! Perante tal visão, resolveu-se deitar mão a tão grande fortuna. O entendido no Livro de S. Cipriano havia dito que não poderia parar a leitura, pois caso tal sucedesse, o penedo fechar-se-ia imediatamente. Assim, um outro homem, que tinha tanto de coragem como de ambição, aventurou-se dentro do penedo, e entregava as peças do tesouro aos de fora. Estavam eles nestes trabalhos, e depois de muita riqueza ter saída do misterioso penedo, quando o leitor, distraído pelo esforço e impaciente na sorte, perguntou: -Já está tudo fora? Nesse mesmo momento o rochedo fechou-se, prendendo no seu interior o desgraçado do homem que entrara para resgatar o tesouro! Ouviu-se então uma voz do interior que dizia: - Só libertarei o homem depois de restituírem ao penedo o tesouro! Apavorados, prometeram fazer tudo o que a voz pedira. Assim fizeram, e nunca mais tentaram conquistar o tesouro.


O Tomás das Guingostas Em tempos que já lá vão, no reinado de D. Isabel, viveu no lugar de Sante, um homem chamado Tomás Joaquim Codeço, mais conhecido por Tomás das Guingostas. Este homem tinha uma quadrilha, da qual era o líder. O povo dizia que o Tomás das Guingostas, com a sua quadrilha, roubava aos senhores e comerciantes ricos para depois distribuir pelos pobres. Tomás era um homem destemido e forte, que enfrentava qualquer pessoa sem medo. Caso o número dos perseguidores impusesse mais respeito, como acontecia frequentemente com as perseguições da Guarda Real, o Tomás refugiava-se numa mina que tinha no lugar de Sante, que era um verdadeiro labirinto, indo desde este lugar até ao cruzeiro de S. Paio. Como prova da sua valentia, conta-se que um dia, em Castro Laboreiro, enquanto andava nas suas deambulações predatórias, teve uma refrega com os castelhanos, vindo a sua quadrilha a ser desbaratada. A ver-se no perigo da derrota, o Tomás só pensou em fugir. Na urgência da fuga, prendeu-se o catão ao rabo do cavalo, afirmando, quem o viu, que as patas do cavalo deitavam lume enquanto corria para Pomares. Encorajado pela sorte e pela força, Tomás das Guingostas continuava os seus feitos pelas aldeias da vizinhança, ora porque de dia se refugiava dos soldados da rainha nas minas, ora porque durante noite estes, temerosos do que lhes poderia suceder, não se aventuravam na perseguição do bandoleiro. Acontece que um dia, 30 de Janeiro de 1839, encontrava-se o nosso herói a cavaquear na tasca do seu vizinho e amigo Policarpo, quando foi cercado por uma escolta militar que ali ia para o prender. À surpresa respondeu com uma rápida fuga pelo alçapão, mas foi frustrado o seu intento quando os militares o agarraram pelas pernas, chegando a cortar-lhe os suspensórios para melhor resgatarem do buraco da liberdade almejada. Assim o levaram, perante a consternação de todos presentes.


O Tomás das Guingostas Ao chegar a escolta à ponte D’Alote, o prisioneiro, apontando o outro lado da margem, exclamou: -Foi ali que pratiquei o meu primeiro crime! A sua fama impeliu os olhares curiosos dos jovens militares para o dito lugar, distraindo-os dos seus propósitos. Logo Tomás das Guingostas se virou para os praças que o prendiam, e pisou os calos de um deles, com o intuito da fuga, como tantas vezes fizera antes. Foi de tal maneira encarniçada a refrega entre Tomás e os soldados, que da violência dos seus arremessos ficou a marca dos seus dedos numa das pedras da ponte. O comandante, vendo quão manhoso e ardiloso era o ladrão, mandou-o logo ali fuzilar, num ignominioso assassínio à queima-roupa. E, depois de o mandar decapitar, enviou a cabeça como troféu à rainha, vindo o seu corpo a ser sepultado nas traseiras da capela de S. Bento de Barata. Quando a rainha viu o rosto sem vida de Tomás, repreendeu fortemente os guardas. Depois de informada dos feitos de Tomás, lamentou que tal injustiça tenha sido cometida com tão bondoso e corajoso homem. Ainda hoje o povo recorda Tomás com muito carinho e respeito.


Os Lobos No tempo em que de noite não havia luz em lado nenhum, os lobos vinham com frequência visitar as casas. Nas noites escuras de Inverno, quando certos barulhos circundavam as casas, todos se arrepiavam, pensando no lobo esfomeado. As histórias de pessoas e rebanhos devorados pelos lobos ouviam-se com frequência junto à lareira. Naquele dia o Agostinho tinha ido a Castro Laboreiro com o seu carro de bois. Ganhava a vida carregando feno, vinho ou lenha dos montes. Camiões e camionetas era coisa que não existia. Nesse dia carregara o carro com uma pipa de vinho para Laboreiro e, no regresso, para aproveitar o frete, trazia um carro de feno, abundante lá por Castro Laboreiro. Já que tinha de fazer o caminho, assim ganhava duas vezes, ocupando sempre o carro. Quando regressou, como a viagem era longa e o caminho difícil para a segurança da carga, já fazia noite. Vinha sozinho com os bois entrepostos pela ladeira abaixo, com um aguilhão pr’a picar o gado. No meio da escuridão, o gado parecia conhecer melhor o caminho do que tio Agostinho, que ora seguia à frente dos animais, ora se colocava ao lado, conforme os locais e a disposição. Havia passado Lamas de Mouro e estava perto de Cubalhão, num sítio a que chamam «As Grandes Botas de Cubalhão». Num raio de 4 ou 5 Km não se vê viva alma ou casa habitada. Ali não existe nada! As pessoas diziam que aquelas «botas» eram muito medrosas por ali ter sucedido há muito tempo acontecimentos estranhos com lobos. Conta-se que ali, numa encruzilhada, aparecia um lobo que comia as pessoas. Todo o que por aquele local passava, a uma certa hora, era comido! É verdade que alguns diziam terem visto no dito lugar botas, bocados de pés...


Os Lobos Acontece que uma vez um homem muito valente, quando soube que tinha aparecido mais umas botas e pernas disse: -Eu vou desafiar o lobo! Vou matar esse lobo maldito!” Ninguém queria acreditar no que estava a ouvir. Os outros homens bem tentaram dizer-lhe que o que pretendia era uma loucura, e que iria morrer como os outros, que ele sozinho não conseguia matar o lobo. Mas ele fez ouvidos de mercador e, depois de se apanhar com uma boa caneca de vinho, foi para a encruzilhada esperar o lobo, levando consigo um valente pau com que estava habituado a lutar nas festas e nas feiras da região. A dado momento apareceu o lobo. Assim que o viu, o homem levantou o pau, em posição de espera, ora rodando à direita, ora à esquerda, na tentativa de não ser surpreendido pelo lobo. O lobo foi-se aproximando, confiante, mas sem grande entusiasmo, como querendo estudar os golpes do seu adversário. O homem bem tentava «botar-lhe» o pau, mas o lobo, de tão manhoso e inteligente, apanhava o pau ao homem com o rabo! O pobre do homem por mais ágil que fosse, não conseguia acertar nem na cabeça nem no corpo do lobo, porque este desviava sempre o pau com o rabo. Durante a noite o homem foi lutando sempre, na expectativa de acertar na cabeça, mas sem sucesso. Começava a ficar cansado e a baixar cada vez mais a vara. Parecia que o lobo sabia o que estava a fazer: levar o pobre do homem a tal fadiga que, não conseguindo depois defender-se, o poderia comer a seu belo prazer.


Os Lobos Na aldeia a espera já angustiava os mais hesitantes. Então, um dos amigos, foi atrás dele: -“Esse desgraçado vai-se fazer comer! Deixa-me ir acudi-lo”. Pegou num outro pau e lá foi, não sem antes deixar de levar consigo lume, para assustar o lobo. Quando chegou junto do amigo, estava ele ainda a lutar com o lobo, e o lobo a deitar-lhe o rabo... Resolveu atacar o lobo pelo outro lado, a ver se lhe acertava na cabeça, pois ele não se podia defender dos dois ao mesmo tempo. Desta forma conseguiram dominar o lobo e matar a fera que a todos assustava. Estava o tio Agostinho a pensar nesta luta, quando viu aproximar-se dele um grande cão, que logo viu ser um lobo! Perante tal visão, sentiu um arrepio pelo corpo todo. Segurou com força o aguilhão do gado, e colocou-se na frente dos bois, sem nunca tirar os olhos daquele animal que não deixava, agora, de o seguir. Durante 2 km o lobo acompanhou-o, sem mostrar qualquer receio, nem esboçar qualquer ar de ferocidade. Não teria ele fome? Estaria ele ali só para lhe lembrar que aquele era o seu território, exigindo o respeito que lhe era devido? A resposta era difícil de encontrar, mas o certo é que, já perto de Cubalhão, às primeiras casas, o latir dos cães ao barulho dos rodados do carro fez parar o lobo. Tio Agostinho sentiu que o sangue voltava, na certeza de que dali para baixo já não era terra de lobos.


Frei João da Cruz Há muitos anos vivia perto de Melgaço um jovem nobre mas de fraca fortuna. Chamava-se Mendo de Azevedo, era valente, belo e doido pela aventura. Tendo sofrido um desaire político, passou a Espanha. E aí encontrou, certa tarde, numa das belas casas solarengas de ‘La Marina’, uma jovem muito bela, muito rica e muito nobre. Chamavase a donzela Sol e pertencia à família dos senhores de Yepes. D. Mendo arranjou meio de a ver muitas vezes. E porque era também jovem, belo e nobre, fácil lhe foi conquistar aquela que era para ele já toda a razão da sua existência. Tentou D. Mendo consertar a sua vida em Portugal. O amor fizera dele um outro homem, mais crente, mais sensato. Apesar de lhe terem sido confiscados os bens, conseguiu um perdão para voltar à pátria. Porém, o seu desespero foi enorme quando, ao pedir-lhe a mão de sua filha D. Sol, ouviu da boca do senhor de Yepes um tremendo «não»! Desorientado, D. Mendo fez o que nunca fizera: suplicou. Foi, porém, escarnecido e alcunhado de querer caçar fortunas! Ferido gravemente no seu amor próprio, D. Mendo encheu-se de coragem e resolveu abandonar para sempre o que fora o seu grande sonho de amor. Para isso conseguiu uma pequena entrevista com a jovem D. Sol. Ela surgiu-lhe a medo, por entre a folhagem do jardim, quando a lua começava a pratear toda a avenida dos lilases. Ele beijou-lhe a mão gelada. - Querida, será esta a última vez que vos procurarei!


Frei João da Cruz Ela levou ao rosto o seu lencinho de rendas. Balbuciou: - Amo-vos, D. Mendo! Serei incapaz de amar outro qualquer! - Mas se vosso pai me insultou, como poderei permanecer aqui sem manchar o meu nome? - Levai-me convosco! - Impossível! - Porquê? Colocais o vosso nome acima da nossa afeição? D. Mendo suspirou. - Minha querida Sol, tentai compreender. Se eu vos raptasse, então sim... então poderiam chamar-me aventureiro ou caçador de fortunas. Eu quero-vos, mas com o consentimento de vosso pai. - Nunca o dará! - Talvez dê. - Achais? Como? - Se eu me alistar, se fizer a guerra no estrangeiro... se ganhar fama e fortuna... talvez ele ceda! D. Sol deixou de chorar. - E se a sorte vos for adversa? Se morrerdes ou ficardes prisioneiro? - Será porque Deus assim o quis! Ela deixou-se atrair ao abraço do bem-amado. - Ide, então... mas voltai breve!... Eu esperarei por vós! E o luar escondeu-se para não ver o beijo que trocaram...


Frei João da Cruz D. Mendo de Azevedo cumpriu o que dissera. Seguiu para África a combater os infiéis. Entretanto, o senhor de Yepes formou logo um rápido plano: casar D. Sol com o filho de um amigo seu, oriundo da Toscana, o capitão D. Rodrigo Rocatti y Alvear. A jovem chorou amargamente. Pediu mil vezes a morte antes que chegasse o dia aprazado para o casamento. Olhava em volta, tentando encontrar um amigo que a ajudasse a cumprir a promessa que fizera a D. Mendo. Tudo em vão. O dia chegou, implacável. Sem remédio. De índole branda, D. Sol deixou-se conduzir pelo braço de D. Rodrigo. Ele bem a notara distante. Compreendera que não era amado! Aliás, o sogro contara-lhe o «simples episódio» de D. Mendo, agora longe e afastado para sempre. Mas no orgulho do capitão espanhol sangrava a ferida aberta pela permanente ausência espiritual da que fizera sua mulher. O tempo passou. Talvez três.., talvez quatro anos. As coisas não haviam mudado. Apenas D. Sol se mostrava cada vez mais triste, cada vez mais distante. E um dia chegou ao castelo onde habitavam os senhores de Rocatti y Alvear um cativo resgatado de Orão. Este cativo contou a D. Sol que estivera com um nobre português, D. Mendo de Azevedo, também cativo. Que esse português lhe falara saudosamente da sua pátria e de uma terra de Espanha onde deixara o seu coração. Sobressaltou-se D. Sol e quis saber mais desse português. Nunca ela fora tão viva na conversa, no interesse pelos outros... O ex - cativo contou então qual era a vida de D. Mendo, remando numa galera mourisca e exposto a todos os escárnios.


Frei João da Cruz Consumida pelo remorso, pois só por ela D. Mendo partira, D. Sol perguntou ao ex-cativo se não haveria forma de resgatar D. Mendo. Disse-lhe ele, então, que descobrira o quanto se tinham amado. E sabendo que o seu companheiro não teria forma de arranjar dinheiro para o resgate, viera ele procurá-la para que salvasse D. Mendo. D. Sol perguntou ainda: - Mas.., foi ele quem vos mandou? - Oh, não! Ele é demasiado soberbo! Acabará morrendo, porque se impõe, mesmo cativo, e os mouros hão-de matá-lo! - E mais ninguém pensa em resgatá-lo? Ele não tem família em Portugal? - A família está arruinada. Por isso me lembrei de vir procurar-vos. D. Sol tapou o rosto com as mãos. Suspirou: - Oh, meu Deus! Como hei-de arranjar tanto dinheiro? - Eu esperarei. Só voltarei aqui quando me chamardes. - E quem entregará o resgate? - Eu próprio. - Sem que se saiba que fui eu? - Assim o juro! - Nem mesmo a D. Mendo o direis? - A ninguém, senhora! - Pois aguardai alguns dias. Tenho muitas jóias e pode ser que consiga a quantia necessária. Depois vos mandarei chamar. E agora, ide! Receio que meu marido vos encontre.


Frei João da Cruz Saiu o ex-cativo do castelo dos senhores de Rocatti, para dias depois lá voltar a receber uma enorme quantia em dinheiro, jóias e roupas. Porém, quando saiu, foi direito ao dono do castelo, dizendo, triunfante: - Aqui tendes, senhor, do que vossa esposa é capaz! D. Rodrigo empalideceu. - O quê? Pois ela conseguiu... ela ousou entregar-vos tudo isso.., para que o libertassem? -Eis a prova, senhor! D. Rodrigo encheu o peito de ar. -Não há dúvida: ela será capaz de tudo! E tendes a certeza que ele foi já resgatado? -Sim! Fomos ambos resgatados quase ao mesmo tempo. Um grande de Portugal intercedeu por ele. - E porque viestes aqui dizer-me isso? - Porque o odeio! Ele é um soberbo! Ousou bater-me! - Porquê? - Porque ... porque duvidei da lealdade da sua bem-amada! D. Rodrigo atirou ao chão um saco de moedas. - Pois levai isso depressa e desaparecei da minha vista, se não quiserdes acompanhar minha esposa na lição que lhe vou dar!


Frei João da Cruz O ex-cativo pegou na bolsa de dinheiro e desapareceu. Só, D. Rodrigo rangeu os dentes de desespero e sibilou com ódio: - Vou matá-la! Vou matá-la! Mas dar-lhe-ei uma morte lenta! Encarcerada no subterrâneo do castelo, D. Sol esperava calmamente a morte anunciada. Na tarde do seu último dia, pediu ao carcereiro a esmola de um padre para a confessar. Correu o homem a satisfazer o pedido da mulher de seu amo. Foi a um convento próximo, contou o sucedido e pediu um frade. Logo um, entre os outros, pediu humildemente ao superior que o deixasse sair. Foi o padre com o carcereiro. Caminharam silenciosos. Chegados lá, D. Sol caiu de joelhos, proclamando a sua inocência. Contou o seu amor perdido e a sua fraqueza em ter consentido num casamento sem amor, o seu remorso por saber longe e sofrendo torturas sem nome o único homem que havia amado. Gritou o seu propósito de apenas desejar salvá-lo. Jamais pensara num gesto menos puro. Mas morria sem pena, porque a vida era para ela um fardo demasiadamente pesado. Nem notou D. Sol como chorava o frade ao dar-lhe a absolvição. Por fim levantou--se. Olhou a dama por uns momentos e não pôde conter-se. Murmurou: - Ambos morremos para o mundo para ressuscitar para Deus! D. Sol, ouvindo-o assim, encarou-o melhor. Soluçou: - Pois será possível? Será possível? O frade segurou-lhe uma das mãos, - Sim, é possível. Sou eu, o que foi Mendo de Azevedo e agora é apenas Frei João da Cruz! - Mas como?... Como?


Frei João da Cruz

- Fui feito prisioneiro pelos mouros e resgatado por ordem do meu rei. Porém, quando já vinha perto, soube da vossa boda com D. Rodrigo. Então... julguei morrer de dor... Só o convento dominicano me recebeu e confortou! Ela continuava soluçando. - Senhor! Graças vos dou por me terdes acarinhado à hora da minha morte! Sabei vós, D.Mendo... O frade interrompeu-a: - Dizei antes Frei João da Cruz... - Pois seja. Frei João, sabei que morro feliz! A nossa consciência fica limpa perante Deus! E se o não ficar perante os homens, que o mesmo Deus lhes perdoe! Dizeilhes, Frei João... que estou pronta! O frade limpou as lágrimas que lhe inundavam o rosto. Revoltou-se. - Não, não poderei consentir! A vossa morte é uma violência. É necessário que D. Rodrigo reconheça que estais inocente. Vou falar com ele! Ela gritou: - Não o façais! Para ele basta o meu desejo de resgatar-vos como prova de que sempre vos amei! No pensamento nem sempre mandamos. Nos actos, sim. E de obras más estais inocente. Vou falar com D. Rodrigo!


Frei João da Cruz E saindo apressado, sem qualquer despedida, Frei João da Cruz foi falar com o senhor do castelo. Quando o monge pediu a D. Rodrigo o indulto de D. Sol, por saber da sua inocência, D. Rodrigo gracejou: - Que sabeis, padre, das mentiras das mulheres? São capazes de tudo, mesmo à hora da morte! O frade ripostou: - Senhor! Juro-vos pela cruz que trago comigo, pelas minhas vestes de frade, que ela está inocente! - E eu garanto-vos que ela é perjura! Que ela espera o homem que sempre amou para me atraiçoar! E que, para maior afronta, é português! - E eu juro-vos que isso não acontecerá! - Como o provais? - Dizendo-vos que antes de ser Frei João da Cruz fui D. Mendo de Azevedo.


A Lenda do sino de ouro da Feira do Gado (Paderne)


A Lenda do sino de ouro da Feira do Gado (Paderne) Dantes, a maior parte da Península Ibérica era ocupada pelos Mouros, um povo muito rico e sabedor. Andou em luta com os romanos mais de cem anos. Então os romanos ganharam-lhe e deitaram fora os mouros. Antes de saírem da Península deixaram-nos muitas coisas: algumas palavras, os algarismos e alguns monumentos. Devido a terem existido muitos povos na Península Ibérica, o povo começou a criar as lendas que são narrações fantásticas com um cunho de verdade. Então, para dizer que os Mouros eram um povo rico e sabedor há uma lenda para contar: a lenda do sino de ouro da feira do gado. Conta a lenda que há muitos anos, nesse local da feira sempre que passavam os carros de bois por ali, sentia-se o sino tocar: ‘tlintlim’. Toda a gente ficava admirada e não sabia como isso era causado. Passaram anos, lustros, décadas e até séculos, até que um dia, a terra tinha sido desgastada pela chuva, pelos carros de bois que por ali passavam e começou-se a ver um bocado do sino. Então o povo reuniu-se e começou a escavar e encontrou um grande e lindo sino de ouro. Este foi levado para um museu enriquecendo o país. Esta é uma das lendas que fazem crer que os mouros eram ricos.


Conclusão

Este trabalho permitiu perceber que, tal como outros concelhos do Alto Minho, Melgaço tem uma tradição oral muito rica, apesar de nos debruçarmos apenas sobre as lendas existentes nas diferentes freguesias que o compõe. Também deu a possibilidade de compreender até que ponto os povos recorriam ao fantástico e imaginário na hora de explicar e entender certos aspectos da realidade circundante. Poder-se-ia desenvolver mais esta apresentação da tradição oral se o tempo disponível para a pesquisa o permitisse, pois é cada vez mais difícil encontrar pessoas idosas que conservem na memória este património cultural que tanto marcou as gerações anteriores.


Trabalho Realizado por: 

Alunos do curso Técnico de Gestão de Equipamentos Informáticos - Delegação de Melgaço.


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Escola Profissional EPRAMI (Melgaço) - Lendas do Alto Minho by Patrimonio de Futuro - Issuu