UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Curso de Animação Sociocultural (1º ano)
MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO E ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL Docente: MARIA ISABEL BARROS MORAIS COSTA XOSÉ XERARDO PEREIRO PÉREZ
Alunos: Solange Cândida Nogueira Ribeiro (nº 34750) Mara Rita Rego Ferreira (nº 34740) Joan Mora Aro (nº 34735) António Eurico Esteves Borges (nº 900023) CHAVES, MAIO, 2010
ÍNDICE
. INTRODUÇÃO (pág.1); . ENTREVISTAS (pág.2 / 24); . INVENTÁRIO DE PROVÉRBIOS (pág.25/26); . CONCLUSÕES (pág.27)
INTRODUÇÃO
No âmbito da disciplina de Métodos de investigação e com o objectivo de fazer um levantamento de provérbios no território do conselho de Chaves e no contexto em que eles são ou eram utilizados, foi-nos atribuído a faixa etária da terceira idade. Nesse sentido seleccionamos o lar de terceira idade de Santa Marta em Chaves. Levantarem-se-nos algumas dúvidas sobre a metodologia a utilizar parar atingir os nossos objectivos, bem como das pessoas que devíamos seleccionar. Assim decidimos recorrer à Animadora Sociocultural (Liliana), do citado lar, como veículo de contacto e de selecção das pessoas a entrevistar. Aí nos dirigimos nos dias 13 (de manhã) e 14 (a tarde) de Maio a fim de realizar a nossa pesquisa. Por sugestão de Animadora Sociocultural e porque durante o decorrer das entrevistas nos demos conta das dificuldades de memória dos idosos que entrevistávamos, decidimos recorrer também a alguns dos funcionários da instituição, que trabalhavam directamente com os idosos. Entrevistamos 8 idosos, sendo 5 mulheres e 3 homens. Por outro lado forem entrevistados 4 funcionarias todas mulheres. As entrevistas foram feitas numa pequena sala onde se conseguia alguma intimidade e algum à vontade com os entrevistados.
ENTREVISTAS
Entrevista com Maria Matos. Entrevistador - Diga-me o seu nome. M.Regina- Maria Regina Ferreira de Matos. E- Tem alguma alcunha? M.R- Não, é Regina, toda gente me chama Regina. E- Onde nasceu? M.R.- Em Beça, Boticas. E- Há quantos anos, pode saber-se? M.R- Nasci em 1920, já tenho portanto (risos) 90 anos. E- Foi casada… M.R- Nada, nunca. E- Nem teve filhos? M.R- Credo! Nem nunca tive. E- Qual era a sua profissão? M.R- Era professora do ensino básico. E- Imigrou alguma vez? M.R- Não passei por o mundo todo mas nunca lá fiquei. E- O que é um provérbio para si? M.R- Olhe, francamente, não se dizer a definição. E- Lembra-se agora de algum? M.R- Ai!... Agora assim de repente não sei, não me lembro de nenhum. Diga-me você um. E- Por exemplo: ”Abril águas mil”. M.R- Sim, “Abril águas mil”. E-E Utilizava muito este provérbio?
M.R- Não, porque às vezes em Abril nem chove (risos). Só dizia quando estava a chover (Risos). E- Lembra-se de mais algum? (Continuam os risos) M.R.-“ Branco é , galinha o põe”.(Risos) E- Mas isso é uma adivinha. M.R- É, é uma adivinha. E- E os provérbios, para si o que significavam? M.R. – (Pausa) É um dizer do povo. O povo inventa umas frases, que tem relação… Porque o povo sofre… a consequência dos provérbios. Porque antigamente chovia muito e aproveitavam-se os provérbios…agora alteraram-se os tempos e os provérbios não condizem. E- E agora quem utiliza os provérbios? M.R- O povo, o povo todo. Toda a gente. E-E este por exemplo do “Abril águas mil”, quando é que o diziam? M.R- Diziam-no sempre em Abril quando chovia. E-E sem não chovesse? M.R- Si viesse “solinho” e tudo, não! (Risos). E- Acha que os provérbios tem importância na vida das pessoas? M.R- Olhe, para mim são desilusões, porque muitas coisas do que o mundo diz, para mim não me dizem nada. E- Então não acredita nos provérbios? M.R- (Rotunda) Não. E- Utilizava algum provérbio com os alunos, quando era professora e eles se portavam mal? M.R- Era mais com anedotas que com provérbios. As crianças gostavam mais de anedotas que de provérbios. Porque fazia rir mais as crianças. E. E as adivinhas, adivinhavam facilmente? M.R- Adivinhavam mais fácil que eu! E- Lembra-se de aquele, “Um burro carregado de livros é um doutor”? M.R- Lembro, lembro.
E- E aplicava-o muito? M.R- Às vezes, quando havia algum que se armava em esperto. Algum que se armava em esperto, eu aplica-lhe esse provérbio. E- Por tanto em algumas circunstâncias, aplicava provérbios para ensinar os alunos? M.R- Claro, porque a vida não era assim como agora, eles estavam lá para aprender. Agora brincam, batem uns nos outros e o professor não tem nada que fazer. E- Então pronto muito obrigado, pelas suas respostas. M.R- Não de nada, desculpe lá, não me lembrar de muitas coisas.
Entrevista com funcionária Rosa Santos. E- Diga-me o seu nome por favor? R.M- Rosa Maria dos Santos. E- Onde nasceu? R.M- Nascei em Calvão. E- E pode-se saber há quantos anos? R.M- Há 56 anos. E- A sua família, era conhecida por alguma alcunha? R.M- Os órfãos. E- E isso tinha alguma explicação? R.M- Não sei, só se perguntar à minha mãe. Mas deve ser, porque é mesmo o nosso nome. Há outras famílias, que lhes chamam os “Cucos” mas é de nomeada e o nosso é mesmo o nome. E- Então a vossa família não tem nenhuma nomeada? R.M- Acho que não, que eu saiba não. E- É casada? R.M- Sim sou casada. E- E tem filhos?
R.M- Tenho uma filha. E- E a sua profissão, qual é? R.M- Há 25, vai para 26 anos que trabalho com idosos E- Nunca imigrou? R.M- Não, só estive de férias na França. E-E gostou? R.M- Muito, caramba! Que vida larga (risos). E o tempo que lá estive, aproveitei para trabalhar. E-E para si, um provérbio um ditado, que significa? R.M- É uma comparação. E- Lembra-se de algum? R.M- “Quem muito quer saber nada se lhe diz” (Risos gerais) Mas a minha mãe dizia de outra maneira (silêncio). E- E como era? R.M (Meia envergonhada e falando baixo) …Dá-se-lhe o cú a lamber. E-E isso em que circunstâncias se diz? R.M- Isso é quando as pessoas são curiosas, quando querem saber tudo, então diz-se-lhe este provérbio. “Quem muito quer saber, nada se lhe diz”. E- Ou então da outra maneira? R.M- (Risos) Claro, da outra maneira que é mais arcaica. E- E lembra-se de mais algum? R.M- “Mais vale quem Deus ajuda, do que quem muito madruga”. E- E isso porquê? Porque às vezes, as pessoas madrugam muito e não fazem nada. Não lhes chega o tempo para nada. E outros levanta-se mais tarde e dá-lhe o tempo para tudo. E- Isso quer dizer que mais vale, que Deus nos ajude do que madrugar muito? R.M- Não! Deus não tem nada a ver aqui. É o aproveitar do tempo. Há pessoas que com pouco tempo fazem muito, outras com muito tempo não fazem nada. E- A sua mãe, quando você e os seus irmãos era pequenos, utilizava alguns provérbios par os educar?
R.M- Não! A minha mãe não era das que utilizava muito os provérbios. E- E na aldeia lembra-se de algum que fosse mais usual dizer-se? R.M- Não, eu agora vou lá só de férias. E-E aqui no seu trabalho com os idosos utiliza provérbios? Não geralmente são mais eles connosco. R.M –A gente não lhes ensina quase nada, somos nós a aprender mais com eles. E- E lembra-se de algum que eles lhe digam? R.M. Assim de repente… Mas ainda se usam muitos, em função de cada situação, aparece o provérbio. Por exemplo quando lhes estamos a dar de comer, elas acostumam dizer para comer tudo que: ”O que não mata engorda”. E- Pronto! Então já terminamos, muito obrigado. R.M- De nada.
Entrevista com funcionária Maria do Céu. E- Qual é seu nome? M.C- Maria do Céu de Roca dos Santos. E- E é de onde? M.C- Sou de Faiões. Nascida e criada lá. E- A quantos anos? M.C- Há 57 anos. E- Em que trabalhou? M.C- Agente rural. Também trabalhei num restaurante, e agora estou aqui a tomar conta de idosos há 15 anos. E-E gosta de estar aqui? M.C- Gosto! E- E é casada? M.C- Sou casada, e tenho dois filhos, e uma neta. E- Lembra-se de algum provérbio?
M.C- Eu sei muitos, mas de momento… Sei lá: “Muita parra e pouca uva”. E- E isso que significa? M.C- Quem fala muito faz pouco; quem fala muito, faz menos. O seja: “ Quem muito fala pouco acerta”. “Em Maio, comem-se as cerejas ao borralho” E- E isso que significa? M.C- Sei lá, significa que faz frio em Maio. Outro: “Janeiro geadeiro”; “Junho foi-se em punho”. E- Isso que significa? M.C – Significa que já esta pronto para as cegadas. O tempo agora mudou e já no há cegadas como antigamente. E -No seu entender os provérbios tem a ver com a realidade? M.C- Agora já não muito porquê o tempo anda muito mudado. E- Na sua aldeia, usavam-se muito os provérbios? M.C- Usavam, usavam. E- E em sua casa utilizavam-se? M.C- Não muito, era mais na rua. E- Recorda-se de alguns mais específicos: para os homens, para a saúde, paras as mulheres? M.C- Não! Era mais para agricultura, para as pessoas, para a saúde e para o tempo. E-E no seu entender, os provérbios ajudavam as pessoas a compreender as coisas? M.C- Eu acho que sim! Agora nem tanto, as pessoas já não ligam tanto, mais antigamente sim. As pessoas antes utilizavam para as sementeiras… Era para tudo. E- E Agora ouve os idosos, a utilizar os provérbios? M.C- Não muito. E- E você, utiliza-os com eles? M.C- Não muito, mas às vezes a brincar sim. Eu gosto muito de brincar com eles. Por exemplo: “Coma lá a açordinha, que põe a velhinha gordinha”. Antigamente, fazia-se muito a açorda agora não. Também se fazia farinha de mandioca mas os velhinhos, não gostavam nada desta comida; então nós dizíamos-lhe: ”Coma lá açordinha que põe a velhinha gordinha”. Há uns anos, era assim. Agora não me lembro de mais nenhum. E – Obrigado pela sua ajuda.
M.C.- De nada! É uma pena mas não me lembro de mais nenhum. De certeza que daqui a bocado já me lembro de muitos. E. - De certeza!
Entrevista com funcionária Carmelina Pereira. E- Qual é o seu nome? C.M- Carmelina Maria Mesquita Alves Pereira. E- De donde é? C.M- Sou de Faiões, onde nasci há 39 anos. E- E lembra-se de algum provérbio? C.M- Pois sim; “Quem vê caras não vê corações”. E-E na sua opinião o que significa? C.M- Pois às vezes para ver se o coração é bondoso o não. A cara pode enganar mas o coração não. E- E a senhora é casada? C.M- Sou. E- E tem filhos? C.M- Sim. Tenho uma menina. E- Ainda não tem netos, está claro. C.M- Mais logo tenho (risos). E- Alguma vez emigrou? C.M- Não estive sempre aqui. E- E em que trabalhou? C.M- Trabalhei na hotelaria e agora trabalho a cuidar idosos. E- Antes estava a lembrar-se de alguns provérbios, e agora ainda se lembra?
C.M- “Quem cedo deita, cedo ergue”…. Não é assim? Ah! Não: “Deitar cedo e cedo erguer, da saúde e faz crescer”. E- E na sua casa, com os seus pais, utilizava muitos provérbios? C.M- Sim e fui aprendendo muitos deles. E- E sobre a saúde, conhece algum? C.M- Ah! Estou-me a lembrar agora de um: “Mulher doente, mulher para sempre”. E- Explique-me lá isso. C.M- É, uma mulher doente, toma comprimidos, toma remédios. Mas na aldeia por exemplo às pessoas casadas… E a mulher é doente, mas fica viúva, olhe: passa-lhe os homens que não são doentes morrem e as mulher ficam. Mas, “ A pessoas tem mais manha que sete raposas”. E- Mas isso é mais as mulheres que homens. C.M- Também há homens, também há homens (risos). Mas realmente são mais as mulheres. Nos tínhamos aqui uma senhora, que era a Dona Juliana da Cruz, que era de Santo António de Monforte; aquela senhora estava sempre a ofegar ah….ah….ah…! Eu morro….eu morro…eu morro! E o médico era assim:” Esta senhora vai-se ficar, tem o coração muito mal”. Pois esta senhora durou até aos oitenta e tal anos. E- Portanto, “mulher doente, mulher para sempre”. Lembra-se de algum provérbio, que utilize mais frequentemente? C.M- Nos aqui é assim: entramos mais…ele há idosos que se lembram mais de antigamente… e nós entramos nos diálogos deles. E- Na sua opinião o provérbio traduz aquilo que é a vida e a realidade? C.M- Eu acho que sim. A maioria deles são certos. E-E agora, dizem-se menos provérbios que antigamente? C.M- Ai, dizem muito menos. E- E porque se dizem menos? C.M- As pessoas…anda tudo atarefado, a corre de um lado para outro e dantes as pessoas conversavam mais. Nas aldeias, ainda há tempo. Eu lembro-me quando antigamente, desgrenhava-mos o milho e juntávamo-nos todos, com as enchadas a desgrenhar o milho… e estava tudo sempre cheio de gente. Agora não! E- Quer dizer que os provérbios se comunicavam porque as pessoas se juntavam…?
C.M- Claro! Agora é totalmente diferente. Antigamente a gente via-se. Agora a garotada toda a correr ali pelas eiras e pelos caminhos… Agora não, agora não há ninguém. E- Então, assim acha que se vão perder os provérbios? C.M- Totalmente não, mas a maior parte, sim. E- Já não se utilizam com antigamente? C.M- Os mais novos já não querem saber. A não ser que sejam explicados nas escolas, os antigos acabam por desaparecer. A juventude, a maior parte nem os conhece. Eu se perguntar à minha filha, ela saberá algum ou outro, mas a maioria não. Isto fazia parte de tradição do nosso povo, mas agora as pessoas já nem se reúnem. Antigamente não havia “entre-tens” como agora. Agora é só novelas computadores e mais nada . Têm outras distracções e pronto, mais nada. Antigamente era cantar era brincar, era isto, era aquilo. Ainda fazíamos festas tradicionais, como eram o São João e no São Pedro. Íamos por as ruas… “Cerrar a velha”, enfeitávamos as ruas… É uma pena que se acabem com as tradições. Lembro-me, por exemplo, os três de Maio que nos vestíamos todos de anjinhos e íamos todos com fores pelas ruas a visitar as cruzes. Outro dia estava em casa na aldeia e ouvi muito barulho e fui à janela com a minha filha ver o que se passava e andavam a cantar e a fazer a ”Cerrada da Velha”. A minha filha perguntoume: “ Ó mãe, o que é aquilo?” E eu explique-lhe o que era a “Cerrada da Velha”. Para mim ver aquilo foi uma alegria. E- E que fazem na “Cerrada da velha”? C.M- É com umas latas a raspar. Antigamente ia-se a casa das velhas, mas agora é nas ruas. E- E isso fazia-se às velhas porquê? C.M- Era a qualquer velha, fosse casada, viúva o solteira. Era para as pessoas se rirem. Havia algumas que gostavam e havia outras que não gostavam. Mas era a tradição, era algo que unia as pessoas. E- Muito obrigado, pela sua ajuda. C.M – Não, de nada! É uma pena porque a gente de repente não se lembra de muitos.
(Mais tarde esta senhora, veio entregar-nos vários provérbios de que se tinha lembrado e que são os seguintes:
“Uma pessoa quando nasce é um anjo, depois cresce é pavão, casa é burro e depois de velho é um cão (pondão) ”. “Quem sai aos seus não regenera (degenera)“. “Quem torto nasce, tarde o nunca se endireita”.
“Filho és ,pai serás”. “Como fizeres, assim encontrarás”. “Vozes de burro não entram no céu”. “ Não rogues mal ao teu vizinho, que o mal vêm-te pelo caminho”. “Viúva rica, casada fica”.
Entrevista com Isabel Machado E- Qual é o seu nome? I.M- Chamo-me Isabel Machado E- E onde nasceu? I.M- Nasci em Faiões. E- Há muitos anos que nasceu? I.M- Há 50. E- É casada? I.M- Sou casada e não tenho filhos. E- Que profissões é que teve? I.M- Antigamente fui costureira. E agora cuido idosos. E- Emigrou? I.M- Não. E- Na sua opinião, que é um provérbio? I.M- São ditos antigos. Coisas que diziam antigamente e que às vezes batem certo (risos). E-E na sua opinião para que serviam? I.M- Serviam… Sei lá! Serviam para explicar, para justificar coisas. E- Porque se utilizavam para tudo: para agricultura, para homem , para a saúde , para a mulher… I.M- Há para tudo! E-E do seu trabalho de costureira lembra-se algum?
I.M- Lembro, lembro! “Costureira sem dedal cose pouco e mal”. Realmente ouvia muitos. Sei lá… E- E sobre o facto de roupa ficar mal o ficar bem as pessoas? I.M- “Faz-se roupa mas não se fazem corpos”. Esta não tem muito que ver, mas dizia-se muito. Não bate muito certo mas dizia-se muitas vezes. E- E aqui com os idosos, utiliza algum? I.M- Sim, muitos! Mas de repente, assim…. E- Mas acha que as pessoas continuam a utilizar os provérbios? I.M- Sim, sim utilizam: “Mais vale tarde que nunca!”, “Nunca é tarde para aprender!” e a verdade é que se aprende sempre com os idosos. Por isso “ Nunca é tarde para aprender”. E- Quer dizer que estamos sempre a aprender? I.M- Sim, sim estamos sempre a aprender. E- E da sua infância na aldeia, lembra-se dalgum? I.M- Sim, sim… E- Acha que se está a perder o hábito dos provérbios? I.M- Não! Acho que aqueles que a gente se lembra, vão-se dizendo! E- Se calhar ante diziam-se mais provérbios que agora, não? I.M- Sim, antes diziam-se mais do que agora. Aqui não, na cidade, onde eu já vivo há 30 anos. Mas na aldeia continuam-se a dizer muito. E- E isso acha que se deve a quê? I.M- A linguagem deles é diferente, a expressão é diferente. E-E agora acha que se comunicam menos os provérbios? Porque antigamente passavam-se dos mais velhos para os mais novos, a gente convivia mais? I.M- Nas aldeias, ainda convivem mais, mas há pouca gente e já não convivem tanto com antigamente. Agora a televisão, retirou muita gente daquele convívio de rua. Muita gente ia para as portas e conviviam um com os outros. Agora não! Mesmo os domingos as pessoas metem-se em casa a ver televisão, é diferente! E- E era desse convívio que se transmitiam os provérbios? I.M- Era, era! E agora que gente se quer lembrar dalgum…
E- Na sua opinião então, o facto dos mais novos não conviverem com os mais velhos, faz com que se estejam a perder os provérbios? I.M- Eu acho que sim! O convivo fazia muita falta, na aldeia. Antigamente havia muito, juntavam-se mais as pessoas. Agora não! Eu os s de semana vou até lá, cada qual faz a sua vida e já não se juntam assim as pessoas. Só nos dias de festa, mais isso é só para ouvir a música e isso é muito diferente do convívio. A minha infância foi toda lá, e agora é tudo muito diferente e esses provérbios que se ouviam das pessoas idosas, por exemplo, quando íamos vindimar, o na apanha da azeitona havia sempre alguém, esses idosos que diziam sempre algum. Aprendia-se muito com eles. E- Ou seja que para cada situação… I.M- Era, para cada situação, aplicava-se um. Era na altura, até nem se ligava muito. E- Por tanto agora, já não se utilizam, tanto os provérbios? I.M- Já não se utilizam tanto, acho eu! Nas aldeias ainda aplicam muito esses ditados antigos. Sobre o tempo, sobre agricultura, têm sempre provérbios aplicados a cada situação. E- E os idosos, aqui no lar ainda utilizam os provérbios nas situações quotidianas? I.M- Sim! Ainda há pessoas que se recordam. Temos a dona Laura, que está na enfermaria, mas essa senhora, é verdade… uma pessoa estava a prepará-la … uma conversa puxa outra… Essa senhora sabe muitos. Às vezes a gente começa, e ela termina. E- E num jovem já é difícil ouvir provérbios? I.M- Eu acho que sim (risos). Eles agora usam outra linguagem. E- Então, muito obrigado pela sua colaboração. I.M- De nada, eu vou a trabalhar que é tarde.
Entrevista com Acácio Rodrigues Entrevistador – Vamos começar por si. Já está? Está Joan? Diga-nos o seu nome primeiro, por favor… Acácio Rodrigues – Acácio Rodrigues. Sou do Couto de Ervededo. E- Há quantos anos é que nasceu?
A.R – Eu nasci em 23. Faço agora 88 anos dia 25 de Maio. E – 88 anos… Sim senhora… O senhor foi casado? A.R- Fui…Fui casado 60 anos…Casei com 20 e a minha mulher morreu com 80…Tive um ano sozinho e depois vim para aqui. De resto fui presidente 4 vezes… E- Presidente da Junta? A.R – Da junta e da juventude e de um clube. E- Portanto, o senhor era agricultor mas também foi presidente da junta…. A.R – Também. E- Ah… Muito bem. Olhe e quantos filhos é que teve? Teve filhos? A.R – Tive… Mas apenas três estão vivos. Eram cinco, mas morreram dois recémnascidos. Um deles era rapariga… E- Olhe e o senhor emigrou alguma vez? A.R – Fui…como se chama…Os Pirenéus. E- Os Pirenéus? Então foi á França! A.R- Fui á França… Léon… E- Oh senhor Acácio… Para si o que é um provérbio? A.R – Um provérbio…É uma lenda qualquer, uma história, uma pergunta, uma frase… hum …Frases bonitas. E- Muito bem… Lembra-se de algum provérbio? A.R- Lembra. E- Então diga-me lá. A.R- Quer um simples ou vermelho? E- Um de cada… A.R- Olhe, então vermelho é assim… É o mais vermelho que sei…Disse uma freira para mim: “ Você sabe muitas histórias…Conta-me lá uma…” e eu perguntei: “Queres simples ou vermelha?” e ela disse: “ Quanto mais vermelha melhor!” e eu disse: “Oh meu loirinho sem capas, ………….., eu tiro as calças e tu tiras as cuecas!”… Aí carago! Bem… Esta próxima não é vermelha. “ Joguei cartas contigo, perdi meu coração, agora brincas comigo, tens o trunfo na mão”.
E- Tens o trunfo na mão… Muito bem… Olhe uma coisa senhor Acácio e provérbios ditos por outras pessoas lá na aldeia? Coisa como essas de “Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer”… Lembra-se assim de algum que dissessem lá? A.R- Lembra… Lembra… Olhe… Havia lá um pobrezinho que vivia de fazer assim uns trabalhitos e dizia assim: “Não passo de um pobre coitado. Os meus amigos são o amor e o dinheiro...Depois dizia assim…Hum… Às vezes não me lembra…Já tenho 87 anos… Já quero ter as coisas e não consigo. E- É normal… É normal… A.R- Os cabelos brancos… Sabe o que são os cabelos brancos? E- Não…Não sei não… A.R- Sacrifício dos anos… E sabe o que são os cabelos pretos? São sardinhas em brasa! As minhas já não saltam. Um homem de setenta ainda se senta. Um homem de oitenta já não. Isso é que é pior! E- Está bem… Olhe e há mais algum provérbio que dissessem lá na aldeia? A.R- Não… Assim que me lembre não… E- Muito bem… E o senhor Acácio tinha alguma alcunha lá na aldeia? A.R- Tinha sim… Era o Bocage… E- Muito bem… Obrigada senhor Acácio… Muito obrigado… A.R- Eu sei mais histórias e ditos populares do que provérbios… E- Não tem mal… Muito obrigada…
Entrevista com Basílio Cabeleira
Entrevistador – Diga-nos o seu nome, por favor… Basílio Cabeleira – O meu nome é Basílio Cabeleira… E- É de onde senhor Basílio? B.C- Sou de Castelões… E- Ah… É daqui de perto… Olhe e quando é que nasceu? Há quantos anos?
B.C- Ora… Eu nasci em 32… E- 80? B.C- Não… Tenho 77. E- Muito bem… Olhe… O senhor Basílio foi casado? B.C- Ainda sou casado… Só não tenho a mulher aqui comigo… Está em França… E- Olhe… E teve filhos? B.C- Tenho dois… Uma rapariga e um rapaz… E- Trabalhava em castelões… Era agricultor? B.C- Fazia de tudo… Umas vezes com as ovelhas, outras vezes a lavrar, outras a cortar… Depois fui para França 40 anos… E- 40 anos em França que esteve… Onde é que esteve senhor Basílio? B.C- Estive em muitos sítios… Lille… Depois fui para a fronteira ibérica… Depois tive noutro patrão na fronteira da Alemanha e depois tive perto de Bordéus durante 30 anos… E- Muito bem… Olhe… O que é para si um provérbio? B.C- Diga? E- Um provérbio… O que é que significa para si? O que é que acha que é um provérbio? B.C- Eu não sei… Antigamente só diziam mentiras… E- Mentiras? B.C- Como agora… O que não falta são aldrabões… E- Você lembra-se de alguns ditados que se diziam antigamente? B.C- Não se contar… E- Não se lembra de alguns que se dissessem na aldeia? Alguns como “Grão a Grão, enche a galinha o papo!”… Lembra-se desse? B.C- Pois… “Devagar se vai ao longe”…hum…”não ponhas a carroça a frente dos bois”… “mais vale um pássaro na mão que dois a voar”…hum…não me lembro de mais nenhum…Sei mais histórias… E- Assim de repente não se lembra de mais nenhum que se dissesse na sua terra? Ou lá por França?
B.C- Era mais só trabalho… Trabalhávamos muito… E pouco falávamos… E- Pois… Bem… Muito obrigado…
Entrevista com Daniel Ramos Entrevistador - Vamos ouvir agora este senhor que ainda não falou e que parece envergonhado… Daniel Ramos – Eu não sei nada… E- Sabe, sabe… Diga-nos lá o seu nome… D.R- Daniel Ramos… E- Daniel Ramos… E de onde é o senhor Daniel? D.R- De sela… E- Da Sela? Então é daqui de perto… Do conselho de Chaves… Senhor Daniel, quantos anos tem? D.R- Nasci em 28…mil novecentos… Vou fazer 82 dia 21 de Agosto… E- E o senhor tinha alguma alcunha? Lá em Sela puseram alguma alcunha a si ou a sua família? D.R- Não… E- Era só Daniel e já está… Olhe e foi casado? D.R- Fui sim… E- Muitos anos? D.R- Durante 60 anos… E- Teve filhos? D.R- Cinco. E- Cinco filhos… Muito bem… Em Sela era agricultor? D.R- Era… E- Muito bem… Alguma vez emigrou? D.R- Emigrei sim…
E- Foi? Também emigrou… Para França? D.R Não… Estive na Suíça…Estive em muitos lados… E- Sim senhora… E teve muitas saudades da sua terra? D.R- Sim… Emigrei em 64… A ultima vez foi por 8 meses… Passei muita fome… A comida era muito má… Perdi 20 quilos… Nunca lá tinhas estado portugueses… Eu e mais 2 fomos os primeiros… E- Gostava mais de estar em Sela…Lá na Suíça também trabalhava na agricultura? D.R- Trabalhava… Era sempre a levantar cedo… E- Então “ Levantar cedo e cedo erguer….” D.R- “…dá saúde e faz crescer.” E- Muito bem… Lembra-se de mais algum que houvesse lá em Sela? Não há lá muita gente… Para aí 100 famílias não? 200 ou 300 pessoas? D.R- Menos… Para aí 80 famílias… E- Olhe, na sua terra em Sela, no seu trabalho e o seu dia-a-dia, o senhor utilizava alguns provérbios? D.R- Eram mais coisas de pessoas chateadas com a vida… E- Claro… Mas não se lembra de nenhum? D.R- Bem… Lembro-me deste: “Quem não tem cão, caça com gato”…hum… “Quem não deve não teme”…Não sei mais… Não usava muito… e os outros que sabia já disseram… E- Pronto… Muito obrigada então… Agradeço a todos a presença… Muito obrigada pelo vosso tempo… Bom apetite… Bom almoço…
Entrevista com Olinda Lopes
Entrevistador- Bom dia. Como se chama? Olinda Lopes- Chamo-me Olinda Lopes. E- E tinha alguma alcunha? Tinha na sua familia alguma alcunha, ou não?
O. L- Não, não tinha. E- E de onde era? O.L- Quintela. Valpaços, nasci em Quintela. E- E à quantos anos? Se se pode saber…. O.L- Há noventa anos. E- Olhe, e foi casada? O.L- Não, não fui. E- E qual era o seu trabalho? O que é que fazia? O.L- Olhe, o meu trabalho era fazer muitas coisas. Era da agricultura, da igreja, com as crianças porque eu dava catequese. Compunha os altares da missa algumas vezes, arranjava a roupa do padre…. E- Olhe, e emigrou alguma vez? O.L- Como? E- Se emigrou alguma vez? O.L- Emigrei sim. E- E onde é que esteve? O.L- Emigrei para Paris. E- E esteve lá muito tempo? O.L- Muitos, muitos não. Alguns três anos. E- Três anos… não gostou? O.L- Gostava, mas tinha deixado assim a minha terra depressa…. Olhe foi como se tivesse ido de férias e tivesse lá ficado. E- Muito bem… olhe e para si o que é um provérbio? O.L- Um provérbio? E- Sim, um provérbio, um ditado. Como aquele “quem muito madruga, deus ajuda”. Isso é um provérbio. Ou “deitar cedo e cedo e cedo erguer…” O.L- …”dá saúde e faz crescer”. E- E o que é para si um provérbio? O que significa para si? O.L- Eu sei lá… não sei o que dizer.
E- Dizia muitos provérbios? Na aldeia falava-se com muitos provérbios ou não? O.L- …. Parece-me que não. E- Não? Não utilizavam muito os provérbios? O.L- Acho que não. E- Não se lembra de nenhum? O.L- Não…. E- Não? Não se lembra de nenhum que se utilizasse ou tivesse significado no campo, na igreja. Que as pessoas utilizassem algum provérbio? O.L- Ai…. Não posso dizer…. E- Não se lembra? O.L- Não, não me lembro…. E- Muito bem… mas acha que os provérbios têm interesse, ou na sua vida nunca ao utilizou muito? O.L- Nunca os utilizei muito… E- Não os utilizou muito… mas lá na aldeia, as pessoas utilizavam ou não? O.L- Algumas, algumas… E- Este “deitar cedo e cedo erguer…” O.L-…”dá saude e faz crescer”… o povo tem razão. E- Tem? Acha que tem? O.L- ah…. E- Acha que sim? O.L- Eu acho que é bom levantar cedo, faz bem. E- E este “quem muito madruga deus ajuda”…. O.L- É verdade é… quem muito madruga deus ajuda… E- É verdade. E porque é que acha que é verdade? O.L- Acho que é verdade, porque a gente aproveita mais o tempo para aquilo que quer. E- E aquele”cada terra com seu uso….” O.L- …“cada roca com seu fuso.”
E- Mas entao lá na aldeia utilizavam os provérbios? O.L- Pois era…. E- Muito obrigada. O.L- De nada.
Entrevista com Judite da Conceição
Entrevistador- Diga-me então o seu nome. Judite da Conceição. E- E tinha alguma alcunha? J.C- Tinha, e até era bonita… desde a minha avó que somos chamadas de “a pasteleirinha”. Mas sem fazer pastéis! E- olhe e a senhora é de onde? J.C- sou de valpaços. E- Valpaços…. Há quantos anos é que lá nasceu? J.C- Eu à 77 anos… E- 77, muito bem… foi casada? Não ? J.C- Fui… infelizmente fui até á dois anos… E- E em que trabalhava? Era doméstica? J.C- Fui para Angola… trabalhei sempre em casa, nunca tive empregada. Depois vim de Angola, como aconteceu a centenas, a milhares. O meu marido pertencia á policia foi para o Porto e eu vim para aqui… comecei a trabalhar no hospital velho aqui de chaves, e de lá passei para o novo. Trabalhei 22 anos ainda, reformei-me e o meu marido morreu e eu não podia estar sozinha…. E- Muito bem… E quantos anos esteve em Angola? J.C- Vinte e dois anos… E- Teve filhos?
J.C- Tive filhos… Dois filhos… a minha filha formou-se cá, e o meu filho nasceu lá, mas formou-se cá.. E-E olhe, para si, o que significam os provérbios? J.C- Eu nem sei explicar bem… na minha opinião são palavras que antigamente explicavam que não eram bem assim…. E- Dê-nos um exemplo… um que se lembre. J.C- Sei lá… na aldeia até há palavras mesmo marotas… E- Como por exemplo? J.C- Eu sei lá agora…. E- E não se lembra assim de nenhum que se utilizasse mais… por exemplo havia um para cada mês… J.C- sim. Por exemplo “fevereiro quente traz o diabo no ventre”. E- E o que é que isso significava? J.C- Que era um mau tempo… E- E no seu trabalho? No hospital , não se lembra de alguns que utilizasse? J.C- Não me lembro assim de nenhum… E- Eu tenho aqui um que diz assim “depois dos baptizados feitos, não faltam padrinhos”… o que é que isso significava? J.C- Que depois do baptizado já estar feito e do dinheiro já estar gasto, muitas pessoas é que se vinham oferecer para ser padrinhos… E- Ou ”quem nasce torto…” J.C- … “tarde ou nunca se endireita”. E- E o que é que isso quer dizer? J.C- Quando uma pessoa nasce… como é que hei-de dizer… com uma má educação, ou mal de instintos, não se endireita… E- Portanto, quem nasce mal educado, nunca vai ser bem educado… J.C- Pois tá claro… eu penso que não… J.C- “quem quer o melhor cão de caça, procura-lhe a raça”. Diziam antigamente assim… por exemplo o pai era mau, e o filho podia não ser tão mau, mas diziam sempre “sai á raça”…
E- E então também se pode utilizar aquele “filho de peixe sabe nadar”. E aquele “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”… que qererá dizer? J.C- Eu sei lá… isso é pessoa teimosa que diz que há-de vencer ela… por exemplo um rapaz e uma rapariga. Ela sempre a dizer que não. Mas ele diz sempre que há-de conseguir… E- Então esse, utilizava-se quando um rapaz queria namorar com uma rapariga? J.C- E ela sempre a dizer que não, mas acabava sempre por querer…´ E- “quem casa, quer casa”? J.C- Pois esse… E- E esse era porquê? J.C- Porque não há nada melhor do que ter a nossa casinha… E- Pronto, muito obrigada.
Entrevista com o senhor Ventura
Entrevistador : Ora diga-nos então o seu nome… Ventura. E- E também tinha alguma alcunha ou não? V- tinha…. A minha mãe dizia “rapariga olha que onde vai o beijo, vai o desejo”… e eu nunca dei um beijo a ninguém, e mais namorei. E- Sim… e porque é que nunca deu? Por causa desse provérbio? V- Não, não sei… o primeiro beijo que lhe dei, quer dizer foi ele que me deu, foi roubado. Foi antes de ir para a tropa… E- Sim, olhe e onde é que nasceu? V- Ventoselos… E- Ventoselos, aqui do concelho de Chaves. Há quantos anos? V- Há quantos anos? Tenho 70 anos… E- Tem 70 anos. Nunca se casou?
V- Não… E-E trabalhva no campo, era doméstica? V- No campo, fazia de tudo… E- Emigrou alguma vez? V- Nunca, fui sempre doente… E- Nunca saiu de cá.. olhe e o que é um provérbio na sua opinião? V- Um provérbio…. E- Então e sempre teve problemas de saúde…. Conhece algum provérbio que lhe dissessem por causa disso? V- “muler doente, mulher para sempre”…. E- “casa onde não entra o sol, entra o médico”. Conhece esse? V- Não, não… E- E “dormir com a janela aberta é cosntipação quase certa”, já ouviu essa? V- Não, não conhecia… E- E “se és comilão prepara o teu caixão”… V- Também não ouvi… E- “de médico, engenheiro e louco, todos nós temos um pouco”… V-Também não conhecia… E- E esse “erros de médico, a terra os cobre”… V- Não, este não… E- E este “quem de uma má hora escapa, cem anos vive”… V- Sim, esse conheço, já ouvi… E- E esse mais ou menos o que significa? Eu não sei o que significa… V- Que quem de uma hora de aflição escapa, tem cem anos de vida… E-E “quem de novo não morre, de velho não escapa”…. V- Esse conheço. E- Pronto, muito bem… De uma forma geral era isto que queríamos….
INVENTÁRIO DE PROVÉRBIOS ( Este inventário de provérbios refere-se exclusivamente aos provérbios recolhidos nas entrevistas) Tempo e estações do ano: ”Abril águas mil” “Em Maio, comem-se as cerejas ao borralho” “Janeiro geadeiro” “Junho foi-se em punho” “Fevereiro quente trás o diabo no ventre” Alimentação ”O que não mata engorda” “Coma lá a açordinha, que põe a velhinha gordinha” Educação “Um burro carregado de livros é um doutor” “Nunca é tarde para aprender!” “Quem torto nasce, tarde o nunca se endireita” “Filho de peixe sabe nadar” “Vozes de burro não entram no céu” “De médico, engenheiro e louco todos nós temos um pouco” Saúde “Mulher doente, mulher para sempre” “Casa onde não entra o sol entra o médico” “Deitar cedo e cedo erguer, da saúde e faz crescer” “Se és comilão encomenda o teu caixão” “Erros de médico, a terra os cobre” “De médico, engenheiro e louco todos nós temos um pouco” Relações das pessoas “Quem muito quer saber nada se lhe diz”/ “Quem muito quer saber dá-se-lhe o cú a lamber” “ Quem muito fala pouco acerta”
“Muita parra e pouca uva” “Quem vê caras não vê corações” “ Não rogues mal ao teu vizinho, que o mal vem-te pelo caminho” Profissões “Costureira sem dedal cose pouco e mal” “Faz-se roupa mas não se fazem corpos” Varios “Uma pessoa quando nasce é um anjo, depois cresce é pavão, casa é burro e depois de velho é um cão (pondão) ” “Mais vale quem Deus ajuda, do que quem muito madruga” “Mais vale tarde que nunca!” “Quem sai aos seus não regenera (degenera) “ “Filho és, pai serás” “Como fizeres, assim encontrarás” “Viúva rica, casada fica” “Grão a grão enche a galinha o papo” “Devagar se vai ao longe” “Não ponhas a carroça à frente dos bois” “Mais vale um pássaro na mão que dois a voar” “Quem não tem cão caça com gato” “Quem não deve não teme” “Cada terra com seu uso cada roca com seu fuso” “Depois dos baptizados feitos não faltam padrinhos” “Quem quer o melhor cão de caça procura-lhe a raça” “Água mole em pedra dura tanto dá até que fura” “Quem casa quer casa” “De médico, engenheiro e louco todos nós temos um pouco”
CONCLUSÕES
Constatamos que o facto de os idosos terem menos memória supõe por si uma menor utilização de provérbios; também que, pelo facto de não se vivenciarem determinadas situações quotidianas não se propicia a utilização de provérbios. Também é verdade que o desaparecimento de um certo tipo de vida comunitária nas aldeias e nas cidades afectou a transmissão, sobretudo por via oral, de forma negativa fazendo com que esta seja quase inexistente (já que as pessoas actualmente ficam mais em casa e não convivem de forma tão activa na comunidade). Pudemos verificar que, num tempo anterior, a vida no campo e nas zonas urbanas fazia com que a circulação e transmissão de provérbios fossem mais propícias. Sem embargo, este trabalho permitiu-nos o contacto com uma cultura tradicional, infelizmente em desuso por razões infelizmente pouco interessantes e propícias ao bemestar do ser humano.