Jardim de Infância de Calvário Calheiros – Ponte de Lima Recolha Oral Popular Maio 2010
A Cultura do Linho fazia parte das culturas tradicionais na nossa região há alguns anos atrás. O Linho era utilizado principalmente no vestuário da família até às lindas toalhas com rendas que são verdadeiras obras de arte. A cultura do linho é exigente, com um vasto conjunto de fases e instrumentos característicos. Em Calheiros ainda se cultiva o linho, não em grandes quantidades mas o suficiente para despertar a curiosidade de ir à procura dos vestígios que ainda perduram. Na freguesia de Calheiros ainda é semeado na Quinta de Martin que fazem também toda a transformação até ao tecido.
Maio e Junho 2010
(Maio de 2010)
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São vários os processos pelos quais passa o linho estar pronto e ser tecido. Base da economia familiar, a ele estão ligados muitos costumes. Existem dois tipos de linho: linho galego e linho mourisco. O linho galego era semeado com o milho na primavera e era arrancado na altura do sacho; o linho mourisco era semeado em meados de Novembro e por isso se dizia:
“Pelo S. Martinho nem nascido nem no folinho.”
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Quando os lavradores iam para o campo, para a sementeira, o homem tirava o chapéu, benzia-se e no fim dizia: “Que Deus abençoe esta sementeira e lhe ponha as suas virtudes”.
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E cantava-se assim… “Este linho é galego, A folha dele namora, Quem aqui não tem amores, Tira o chapéu e vai-se embora.”
Calheiros, Maio de 2010
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Semeado o linho eram necessĂĄrios todos os cuidados com as plantas ainda pequenas e pouco resistentes pois as chuvas e principalmente os enxurros, podiam estragar a sementeira. Quando o linho ficava com a gorja (erva daninha), tinha que ser mondado. Nas mondadas cantava-se desde o princĂpio ao fim; neste trabalho, os vizinhos entreajudavam-se. Depois eram as regas.
Este linho é mourisco e a fita dele namora quem daqui não tem amores pega o chapéu vá-se embora. Ai-a-li-o-lai-o-lai-lalolé lai-a-ró meu bem regala-te o meu amor regala-te e passa bem.
O minha mãe dos trabalhos para quem trabalho eu trabalho mato meu corpo não tenho nada de meu. Mondadeiras lá de baixo mondai o meu linho bem não olheis para a portela que a merenda logo vem.
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Em Maio o linho era arrancado para que o milho fosse semeado. As arrancadas, como todos os trabalhos do linho, eram acompanhadas pela música e pelas vozes das raparigas e dos rapazes que acorriam a estes trabalhos. “Oh! Minha Rosinha, Eu hei-de ir, hei-de ir, Jurar a verdade Eu não sei mentir!
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Oh! Minha Rosinha, Do meu coração Tu vais para Lisboa Não deixas paixão1” (Rosa Alves)
O linho é arrancado pela raíz, sacode-se a terra e fazem-se pequenos molhos.
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Depois de arrancado, o linho é ripado: também nestes momentos havia alegria e diz-se que muitos namoros eram combinados nestas reais festas do linho. É aqui que é feita a separação da baganha do resto da planta. O ripo era colocado na eira e dois ripavam o linho. Depois de ripado, fazem-se molhos que são levados para um poço ou tanque para curtir. Fica no poço nove dias aproximadamente para depois ser retirado e posto até ficar clarinho.
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Ripo
Ó linho, Ó linho Se o meu amorzinho, vier ao linhar, Digo-lhe baixinho, muito segredinho, lhe quero falar. Quem me dera ser o linho, que vós na roca fiais. Quem me dera tantos beijos, como vós ao linho dais. Ó linho, Ó linho, Que belo destino tens para nos dar. Amor e carinho, beleza do Minho, toalha de altar. O linho vai acabado, na derradeira manada, Rapazes do ripadoiro, vinde dar a camisada. Ó linho, Ó linho Se o meu amorzinho, vier ao linhar, Digo-lhe baixinho, muito segredinho, lhe quero falar. Quem me dera ser o linho, quando ele bota a chore, Quem me dera que tu fosses, o meu primeiro amor. Ó linho, Ó linho, Que belo destino tens para nos dar. Amor e carinho, beleza do Minho, toalha de altar. Venho vos mostrar Senhor, este trabalho do linho, Para cobrir o nosso pão, que vêm a ai pelo caminho.
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Quando o linho está corado, é apanhado em feixes que são transportados em carros de bois até ao engenho do linho, que ficava situado em S. Martinha porque em Calheiros não havia engenho. No engenho, o trabalho era fatigante; de lá saía o linho em peças, que depois de juntas em feixes, eram novamente transportados em carros de bois de volta a casa.
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O engenho do Linho
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O linho era repartido e feitas manadas. Eram chamadas as moças das redondezas para as espadeladas; comiam um “caldinho de couves” e umas sardinhas ou um prato de arroz com feijão; havia alegria e ânimo, pois no fim da ceia começava o baile. Enquanto trabalhavam as modas das espadeladas, cantavam. No final do trabalho, já lá estavam os rapazes, a concertina e a animação: dançavam até ao nascer do dia.
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Espadela
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Depois de espadelado, o linho é
cedado no cedeiro e separava-se a estopa. O linho é fiado e a estopa é penteada no restelo. As fiadas eram o ponto ou momento mais alto da festa do linho: serões animados juntavam as mulheres e as raparigas do lugar; a ceia era pobre, como nas espadeladas, mas o que contava era o espírito das “borgas”. Houve fiadas que chegaram a contar com quase cem mulheres. Como nas espadeladas, também aqui se combinavam namoros, se dançava até ao nascer do dia, se faziam brincadeiras, como o marrão, o jogo da palmada, o jogo do carneirinho, o monta três e os mascarados que também faziam a sua aparição.
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Cedeiro
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Com a roca e o fuso, as maçarocas vão ser transformadas em fio. “Quem me dera ser o linho Que vós na roca fiais Que me dáveis tantos beijos Como vós no linho dais”
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(Eulália Alves)
Visita de duas fiadeiras ao Jardim de Infância
(Maio de 2010)
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Depois de fiado o linho em maçarocas, ensarilha-se para o sarilho para se fazerem as meadas, que são cozidas em água com cinza ao lume; depois são lavadas.
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Quando estiverem secas sĂŁo dobadas na dobadoura.
Doba, doba dobadoira doba, Não me enrices a meada; O novelo “inda” está pequeno, “inda” cabe em mão fechada!
Doba, doba, dobadoura Não enrices a meada Deixa passar o novelo Tenho a minha mão cansada! Tenho a minha mão cansada De certo é de dobar Doba, doba dobadoura Nunca pares de dobar! Na minha aldeia, Ainda mal se via Só eu cantava Tudo dormia! Tudo dormia Só eu cantava E a dobadoura Sempre dobava!”
(Maria Angelina)
Caneleiro ▸
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Alguns novelos vão para o caneleiro para se fazerem as canelas que são para tapar a teia, outros vão para a urdideira; depois de ser urdida a teia é carregada no tear, é enfiada.
Caneleiro
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Depois começa a tecelagem de que as mulheres se ocupavam nos serões frios de inverno, quase toda a noite, para ajudar o marido na economia doméstica. Depois de pronto, o tecido é escaldado e posto a corar; com ele se fazem desde o vestuário da família até às lindas toalhas com rendas que são verdadeiras obras de arte. “Mariquinhas tecedeira Vai para o tear não tece, Quando vai para tecer, Já o tear não lhe abece”.
Recolha baseada na tradição oral Freguesia de Calheiros – Ponte de Lima Jardim de Infância Calheiros Maio de 2010