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Balneário Camboriú, 25 de junho de 2011

Especial

Quem conhece Fernando de Noronha? Por Enéas Athanázio

Fotos Reprodução

Onde é que fica Apesar do crescente afluxo de turistas, Fernando de Noronha ainda é pouco conhecido. Esse Distrito de Pernambuco está situado num arquipélago composto pela ilha principal, sua sede, por cinco ilhas maiores (Rata, do Meio, Lucena, Santa Gineta e Rasa) e quatorze rochedos praticamente inacessíveis. Só a ilha principal é habitada por humanos, contando hoje com uma população aproximada de 4100 pessoas. Está localizado no Oceano Atlântico, distando cerca de 450km do Recife e 360 de Natal. Entre o arquipélago e o continente fica o chamado Mar de Dentro, assim denominado para diferenciá-lo do Mar de Fora, ou seja, do mar aberto. Em virtude do fuso horário, os relógios são adiantados em uma hora em relação ao conti-

nente. Durante muitos anos o arquipélago foi um território federal e agora está integrado ao Estado de Pernambuco. Foi usado como prisão política e lá estiveram presos, entre outros, o militar revolucionário Agildo Barata, o ex-governador Miguel Arraes e o escritor Graciliano Ramos. Hoje constitui o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, instituído por lei, com a área de 112,7km2. Muitos são os rochedos existentes, destacando-se o Morro do Pico, ponto mais elevado da ilha. No alto existia um farol hoje desativado. Numa comparação grosseira, semelha um enorme dedo apontando para o céu. A variedade e a exuberância do verde são impressionantes em toda a ilha e os cuidados para mantêlo são intensos.

O Centro Histórico É surpreendente a quantidade de lagartixas que correm soltas em toda parte. Chamadas de mabuias, são escuras e têm um olfato muito apurado, sendo atraídas pelo odor dos alimentos. Inofensivas. Em compensação, não existem cobras. Segundo dizem, o Ibama teria levado algumas para combater os ratos que chegam nos navios, mas não se adaptaram e morreram. Certa espécie de preás, lá designados como mocós, também existem em profusão. Não se assustam com a presença humana e não vão às casas, mantendo-se nas matas, segundo afirmam os moradores. Os pássaros são numerosos e muito variados. Diz o povo que Noronha é o lugar mais seguro do mundo. Não acontecem assaltos, furtos ou crimes violentos.

Em grande parte de sua extensão, a ilha é cortada pela BR 363. Só ela e algumas transversais são asfaltadas; outras ruas têm calçamento de pedras, em estilo pé-de-moleque, e as demais vias e estradas não contam com qualquer revestimento, são mesmo de chão batido e pedras. Aliás, pedra é o que não falta, como ilha vulcânica e rochosa que é. Essas vias são mantidas assim para não descaracterizar a rusticidade do ambiente. Ao longo dessas vias se estende o centro urbano. Existem vários povoados, chamados de vilas, como a dos Remédios, da Floresta, da Quixaba etc. Funciona apenas uma agência bancária, além de uma dos correios, um hospital e um posto de combustível. Bem no centro está situado o Bosque do Flamboyant, espécie de praça, amplo e sombreado. Funcionam pelo menos

dois bons restaurantes e várias lanchonetes, com a curiosidade de que só abrem para o almoço e, à noite, a partir das 19h. Fora desses horários a alimentação é problemática. Ai de quem estiver com fome! Segundo informantes, funcionam na ilha cerca de 60 pousadas. Não existem fontes de água, de sorte que todo o líquido utilizado provém das chuvas, mantido em um açude, complementado com água do mar, dessalinizada, quando necessário. Os riachos existentes, inclusive os três maiores (Boldró, Maceió e Molungu), costumam secar todos os anos em períodos de estiagem. A economia de água é permanente. A energia elétrica e o lixo também são objeto de constante atenção e cuidado. Quase tudo na ilha é levado do continente por navio ou avião.


Especial

Atrações urbanas Afora as excursões e passeios, que constituem as maiores atrações, existem na ilha locais que merecem uma visita. Assim acontece, por exemplo, com o edifício onde funciona a sede do Distrito (Palácio São Miguel), a igreja matriz de N. S. dos Remédios, em estilo colonial, construída em 1722, o Centro de Artesanato, o Museu do Tubarão e o porto com sua feirinha, onde são vendidos objetos variados, trajes de praia e artesanato popular. Na praia contígua é realizada a medição e o tratamento das tartarugas marinhas pelos técnicos do Projeto Tamar, sempre cercados por pequena multidão de curiosos. Eles dão aos animais uma atenção maternal merecedora de todos os aplausos. O Shopping Noronha Surf, na parte alta, também merece uma visita. Oferece todos os apetrechos para mergulho e natação, artesanato e souvenirs. Ao entrar, o visitante é convidado a tirar o calçado para preservar o

delicado carpê. Funciona na ilha a Escola Arquipélago, ampla e bem instalada, com elevada frequência de alunos. Mantém boa e organizada biblioteca. A ilha é dotada de emissora de televisão, uma de rádio e um jornal semanário. O aeroporto, no centro da ilha, é bem aparelhado mas pousos e decolagens só podem ser realizados com a luz do dia. Na chegada o turista deve preencher um formulário, aliás muito complicado, e recolher uma taxa de R$ 40,00 por cabeça e por dia de estada. O comprovante do recolhimento é exigido no check-out. São exigências que provocam geral irritação. O aeroporto é servido pela TRIP com avião Embraer 190, muito confortável e novo em folha, na linha do Recife, e turbo-hélice na rota de Natal.

As excursões Tão logo chega, o visitante é conduzido ao auditório do Projeto Tamar. Ali é exibido um vídeo com informes gerais sobre o arquipélago e a ilha. Um guia fornece outros esclarecimentos solicitados. No mesmo local as pessoas escolhem e contratam as excursões que desejarem. Elas podem ser feitas de barco, em caminhonetes picapes 4x4, em buggys ou a pé, dependendo do gosto de cada um. Existem excursões mais suaves e mais puxadas. As trilhas mais percorridas, conforme dados locais, são a Trilha dos Golfinhos, a Trilha do Sancho, a Trilha CapimAço (só aberta em parte do ano), a Trilha do Farol e a Trilha da Pontinha-Pedra Alta. É recomendável conversar com

os guias sobre as peculiaridades de cada uma para evitar surpresas. Os passeios de barco são feitos com muito cuidado em embarcações com boa manutenção, observando a quantidade correta de passageiros. Dentre as muitas opções existentes, escolhemos a Excursão do Contorno, feita em picape e com muitas paradas nos locais de interesse para uma visão mais ou menos geral da ilha. Nesse trajeto, chamam atenção o rochedo Buraco da Raquel, os fortes, os mirantes e as diversas praias para banhos, mergulho e surf. Em algumas delas as ondas são gigantescas. Os mergulhadores podem apreciar in loco o habitat de muitas espécies marinhas.

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Especial

Balneário Camboriú, 25 de junho de 2011

O Desafio

Pousada da Morena Fotos Reprodução

Recomendados pela Marjotur Turismo, fomos hospedados na Pousada da Morena, em local calmo mas próximo ao centro (Floresta Nova). Coube-nos o chalé Sancho, que leva o nome da praia que fica em frente, e dotado de todo conforto. Bem na frente de nossa porta, impoluto, está o Morro do Pico, o ponto mais elevado, apontando para o céu. O café da manhã é excelente e variado, servido no próprio chalé.

Emocionante, porém, foi a excursão à chamada Cacimba do Padre. É uma “puxada” para pessoas em boas condições físicas e confesso que foi deveras difícil. Um desafio! Por volta das 8h fomos levados de picape até certa altura do caminho. Dali, caminhamos por uma vereda de lama e pedras até um mirante de onde se descortina um panorama deslumbrante. Naquele local se abre uma fenda na rocha com cerca de 50cm de largura pela qual descemos por uma escadinha de ferro com 14 degraus. Em seguida caminhamos um trecho dentro da fenda com a aguda sensação de emparedamento até a segunda etapa da descida. Outra escadinha de ferro com mais 14 degraus nos leva até o início de uma escadaria de pedras. Este segundo trecho é molhado, água respinga lá de cima sobre a cabeça e as costas de quem desce. Pessoa com claustrofobia não suporta essa experiência. Com cerca de 300 degraus e algumas curvas, a escadaria de pedras nos leva até

uma belíssima praia de areias muito amareladas e que parecem ser monazíticas. Os corrimões são simples cabos de aço distendidos ao longo da escadaria. É um tremendo alívio chegar lá embaixo! Em seguida, caminhando uns 600m pela areia fofa, deparamos com um riacho de águas escuras. Por ele prosseguimos, andando dentro do próprio leito, com água pelos joelhos. Nada haveria de mais, não fosse o fato de que o fundo do riacho também é revestido de pedras e mais pedras, lisas e irregulares. Vencido, afinal, o tal riacho, o aventureiro se depara com uma trilha que é só de pedras, pedras e mais pedras. Não há um centímetro sequer de chão, só pedras e mais pedras. Até que enfim, coroando tanto esforço, surge em meio à mata a belíssima cachoeira sob a qual os caminhantes se recuperam do esforço antes de reiniciar a marcha de retorno. Apesar do cansaço, das dores nas pernas e de algumas escoriações, Jandira e eu acompanhamos firmes a garotada que compunha o grupo. Uf! que aventura!

A Pousada é cercada de jardins, com muita grama verde, e logo abaixo existe um bosque através do qual uma trilha desce até a praia. A proprietária é artista plástica e mantém o ateliê em prédio ao lado. Ali permanecemos por três dias inesquecíveis e repletos de boas sensações. Noronha é excelente destino para quem possui espírito de aventura. Valeu!

Você conhece Fernando de Noronha?  

Especial por Enéas Athanazio para o jornal Página3.

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