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A Queda do Muro: 30 Anos que Mudaram o Mundo

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SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019

O Muro de Berlim foi a imagem concreta de uma divisão ideológica cuja opressão foi sentida in loco por vários brasileiros, como mostra este especial de O TEMPO. Três décadas após a queda, a sociedade ainda se lembra dos temores daquela época, enfrenta outros obstáculos e busca um novo salto.

ARQUIVO HISTÓRICO PETER LEIBING - 15.8.1961

Belo Horizonte


2 | O TEMPO Belo Horizonte | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 Conferência de Potsdam. Ao fim da Segunda Guerra, os Aliados dividem a Alemanha em zonas de influência

1945

24.6. Os soviéticos iniciam o bloqueio de Berlim. Por 11 meses, uma ponte aérea abasteceu a cidade de comida

1948

Setembro. O governo comunista expulsa a administração municipal de Berlim e cria sua própria gestão

1948

12.5. A União Soviética suspende o bloqueio de Berlim e libera acesso de mercadorias por terra

1949

FIM DOS BLOCOS

O brasileiro que pulou o Muro Filho de exilados da ditadura militar, Miguel Carmo viveu em Berlim Oriental até críticas ao regime socialista o levarem à expulsão – o que ele ousou contrariar ¬ FÁBIO CORRÊA

ACIR GALVÃO

Era madrugada de 5 de novembro de 1971 quando Miguel Carmo saltou da cadeira do bar em Berlim Ocidental e saiu em direção ao muro que o separava da capital da República Democrática Alemã (RDA). Com o sangue inflamado por cerca de sete litros de cerveja e dez doses de vodca, o carioca de 19 anos queria se livrar do isolamento imposto pelo regime socialista, que cerca de um

ano antes o banira de Berlim Oriental por “calúnia”, privando-o do contato com a família, que seguia do outro lado do Muro, onde vivia desde 1964. Ao chegar à rua Adalbertstrasse, no trecho da divisão entre as duas Alemanhas, o jovem fez o que, segundo o historiador Martin Schaad, 410 pessoas ousariam entre os anos de 1969 e 1989 – das quais sete foram mortas. Miguel pulou o muro do lado ocidental e chegou a Berlim Oriental sem ser notado. Dois dias depois, pego ao tentar retornar fingindo ter se confundido, seria preso por dez meses na RDA. Os embates entre o regime socialista e o filho de Ana Montenegro e de Alberto Carmo, dois militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), foram objeto de dossiês e processos da Stasi, a polícia secreta da RDA. Os documentos, que contêm até mesmo notas sobre a quantidade de álcool consumida por Miguel

naquela madrugada, integram o livro “Die Auflehnung des Miguel C.” (inédito no Brasil), escrito pela pastora evangélica Johanna Vogel, que o adotou oficialmente na Alemanha Ocidental após a expulsão do brasileiro pela RDA e o acompanhou até a morte dele, em 1982, aos 30 anos. Os documentos foram obtidos pela autora nos arquivos da Stasi, abertos após a Queda do Muro, fato que completa 30 anos em 9 de novembro. Dos dois lados da Alemanha, exilados brasileiros durante a ditadura militar viveram na pele as fraturas físicas e ideológicas do símbolo maior da Guerra Fria. Hoje residente em Salvador, a irmã de Miguel, Sonia, na época com 17 anos, se recorda daquele 5 de novembro de 1971. “Miguel chegou, do nada, e minha ficha não caiu. Mas a dele, sim, e ficou desesperado, porque sabia que não tinha como voltar para a Alemanha Ocidental”, conta ela, que diz que a saudade que levou o irmão a pular era, na verdade, por uma estudante de medicina. “Foi coisa de paixão”, diz. Ela lembra ter passado por um interrogatório de várias horas. “Teve aquelas luzes fortes, aqueles caras perguntando: ‘Como Miguel entrou?’ Mas eu não sabia”. De acordo com Schaad, que escreveu um livro sobre os alemães

que pularam o Muro do Oeste para o Leste (“Dann Geh Doch Rüber”, sem edição no Brasil), o caso de Miguel não é único. “Um grande número de ex-cidadãos da RDA saltaram alcoolizados para o lado oriental, algumas vezes por amor”, explica a O TEMPO. Mas Miguel já era “persona non grata” na RDA havia pelo menos dois anos, mesmo com a alta posição dos pais junto ao Partido Socialista Unificado da Alemanha – em especial a mãe, Ana Montenegro, uma das principais expoentes do movimento feminista internacional. Em 1969, aos 17 anos, o brasileiro foi preso pela primeira vez, após criticar a RDA numa discussão com outros jovens na frente de um bar. “Stálin está morto”, gritou, segundo a Stasi, que o considerava subversivo por inclinações trotskistas e maoistas e passou a espioná-lo com uma investigação oficial. Era suspeito do regime socialista pelo visual “decadente” – cabelos grandes, roupas largas e barba por fazer. Com o passaporte brasileiro, Miguel podia, até então, transitar entre as duas Berlins, até 1970, quando foi proibido de retornar para o lado oriental. Na parte ocidental, encontrava parceiros de militância, que seguiam uma vertente da esquerda que rejeitava o stalinismo, regra na Alemanha Oriental e na União Soviética. “O Miguel era de esquerda, mas de outro tipo de esquerda. Nunca foi reacionário. Era anarquista. Ele tinha ideias muito claras e muito definidas. E aquilo, na Alemanha Oriental, não se encaixava”, resume Sonia Carmo.

FOTOS: REPROD UÇÃO

Perfil. Última foto do passaporte do brasileiro, que morreu em 1982, aos 30 anos de idade

Detenção. Registro do crime: a tentativa de retornar o Ocidente pela zona de controle normal

Fronteira. Local do pulo, na rua Adalberstrasse, em dossiê da polícia da Alemanha Oriental


JEAN MANZON/AFP - 1.12.1949

23.5. Criação da República Federal da Alemanha. Depois, surge a República Democrática Alemã

O TEMPO BELO HORIZONTE | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 | 3

17.6. Revolta dos trabalhadores no setor oriental é brutalmente sufocada com a ajuda de tropas soviéticas

1949

1953

5.5. Os ocidentais proclamam a Alemanha um Estado soberano e encerram a ocupação do país

1955

FIM DOS BLOCOS DIVULGAÇÃO / REFINARIA FILMES

Uma prisão do outro lado do oceano ¬ FÁBIO CORRÊA

Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, chegou a Berlim Ocidental em 1974, depois de ter sido expulsa do Chile após o golpe militar naquele país. Militante da Ação Nacional Libertadora (ANP), a mineira nascida em Antonio Dias, no Vale do Aço, encontrou na cidade europeia uma ilha cercada por concreto e pelas autoridades da Alemanha Ocidental, que seguiram ela e o companheiro, o carioca e também exilado Reinaldo Guarany Simões. O isolamento, somado ao trauma psicológico fruto da perseguição no Brasil, acabou levando-a ao suicídio. Em 11 de junho de 1976, aos 31 anos, a mineira se jogou nos trilhos do metrô na estação de Neu-Westend. Guarany Simões e Dora haviam entrado como apátridas

no país. Eram seguidos de perto pela polícia da República Federal da Alemanha (RFA) mesmo financiados por bolsas de organizações humanitárias e estudando – ela, medicina na Universidade Livre de Berlim, e ele, economia na Universidade Técnica. Segundo o documentário “Quando Chegar o Momento (Dôra)”, lançado em 1978 por Luis Alberto Sanz e Lars Säfström, os dois exilados foram denunciados, em 1974, por entrada ilegal ao país, mas a Anistia Internacional conseguiu a revogação do processo. Até então, podiam passar os fins de semana em Berlim Oriental. “O clima humano era muito mais agradável. Tinha restaurantes baratos, pessoas na rua declamando poesia, tocando jazz”, lembra o artista plástico Guarany Simões em entrevista a O TEMPO.

Guarany Simões

Militante planejou a própria expulsão Segundo Reinaldo Guarany Simões, o pulo de Miguel Carmo sobre o Muro circulava como uma lenda entre os brasileiros de Berlim Ocidental. Na verdade, para sair do território alemão, o carioca, hoje artista plástico, bolou um plano parecido – ser preso pela polícia da Alemanha Oriental. Mas, diferentemente de Miguel, que ficou detido na República Democrática Alemã (RDA), Guarany Simões conseguiu ser expulso para a Suécia, onde recebeu asilo. “Um mês depois do suicídio de Dora, peguei uma mala, entrei no metrô e des-

ci na fronteira. Lá me pediram o documento, que eu não tinha, e fui preso”, conta ele. “Veio a polícia da Alemanha Oriental, e pedi que me expulsassem em direção ao mar Báltico, e não em direção a Berlim Ocidental”, explica o carioca. Os oficiais argumentaram que Guarany teria que ser escoltado e que isso custaria a passagem e a alimentação dos agentes. “‘Eu pago’, falei. Entramos num trem, o trem entrou num navio no mar Báltico. Na metade, os policiais alemães chamaram os suecos e fui entregue”, recorda. (FC)

Em 1975, no entanto, foram proibidos de passar para o outro lado pela polícia de estrangeiros. A medida agravou o sofrimento mental dos dois brasileiros. “Confesso que fiquei absolutamente estressado e neurotizado quando percebi que estava cercado, que não podia sair de Berlim. Era uma cidade sufocante”, afirma Guarany Simões, que atribui as dificuldades do visto à participação no sequestro do embaixador alemão no Brasil, em 1970. O também carioca Luiz Ramalho, que até hoje vive na Alemanha, conviveu com ambos na época. Ele havia chegado, aos 18 anos, em Berlim Ocidental após ter se exilado do Brasil em 1969, por participação no movimento estudantil. O sociólogo tampouco tinha documentos que assegurassem o status de refugiado político no lado ocidental do país europeu. Por se opor publicamente ao regime militar, Ramalho foi

convocado pela embaixada brasileira. Segundo ele, o objetivo era enviá-lo de volta ao Brasil, onde seria preso. “Quem mandava na embaixada era o adido militar”, diz. Do lado de fora do prédio, um grupo de ativistas fez uma demonstração de apoio – e Ramalho foi libertado. A comoção pública gerada pelo suicídio de Dora, porém, acabou levando a uma regularização dos brasileiros exilados em Berlim. “Simbolicamente, acabou sendo uma espécie de sacrifício. Depois da morte de Dora, qua-

se todos exilados do Brasil começaram a receber papéis”, afirma Ramalho. Diretor do documentário “Alma Clandestina” (2018), sobre Dora, o português José Barahona reforça a tese de que Berlim contribuiu para o suicídio: “Tornou-se uma cidade muito agressiva, quase uma prisão para ela, que tinha ficado marcada pela tortura, o que agravou a depressão de Dora”, pondera Barahona.

Exílio. Sem permissão oficial para viver na cidade, Dora teve o acesso a Berlim Oriental barrado, onde passava os fins de semana ACIR GALVÃO

Nascida em Minas, Dora Lara Barcelos se refugiou como apátrida do lado ocidental até que o isolamento a levou à morte


4 | O TEMPO Belo Horizonte | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 12.9. Walter Ulbricht se torna líder da República Democrática Alemã e secretário do Partido Socialista Único

1960

15.6. Ulbricht afirma: “Ninguém pretende construir um muro”, o que acelera a fuga de cidadãos orientais

1961

13.8. O governo determina a construção do Muro de Berlim, e tropas estendem arame farpado e barreiras

1961

15.8. Em foto que se tornou icônica, o soldado Conrad Schumann é flagrado saltando para o lado ocidental

1961

FIM DOS BLOCOS

Quatorze anos por trás da Cortina de Ferro Casada com o sindicalista Sinval Bambirra, a mineira Maria Auxiliadora viveu exilada com a família em Berlim Oriental ¬ FÁBIO CORRÊA

A mineira Maria Auxiliadora Bambirra, mais conhecida como Dora, chegou a Berlim Oriental em 1965, um ano após o golpe que cassou o mandato do marido, o sindicalista e deputado estadual Sinval Bambirra. Grávida do terceiro filho e à época com 26 anos, Dora Bambirra aportou na capital da República Democrática Alemã (RDA) com Sinval (1933-2003) e as duas crianças após uma longa viagem de navio desde Cuba. Da residência berlinense, eles só retornariam para Belo Horizonte em 1979, com a Anistia. Com um coágulo no cérebro causado pela repressão política no Brasil, Sinval precisava passar por uma delicada cirurgia. Por meio de contatos no Partido Comunista, em especial do também sindicalista mineiro Arnaldo Ziller, que vivia na Tchecoslováquia, os Bambirras conseguiram a transferência para Berlim Oriental, onde havia hospitais de excelência. Era lá que vivia outra família de exila-

dos da ditadura militar e ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Vindos do Rio de Janeiro, os Carmos haviam chegado logo após o golpe, em 1964, também exilados. Faziam parte dela a militante feminista Ana Montenegro, o

jornalista Alberto Carmo e os filhos, Sonia e Miguel – este acabaria expulso da Alemanha Oriental por desavenças com o regime socialista. “Almoçávamos na casa deles, eles iam à nossa casa. Miguel cuidava dos meus filhos quando a gente estava fora. No primeiro verão, eu me lembro de estar fazendo 20°C e ele chegar, do jeito bem expansivo dele, gritando: ‘Dora, vamos levar os meninos pro

parque!”, lembra a mineira, que trabalhou na rádio Berlim Internacional durante grande parte dos 14 anos de exílio. Ela recorda que, à época, não viviam mais de meia dúzia de brasileiros na cidade. A passagem para o lado Ocidental, onde estava o consulado brasileiro, era dificultosa. Era necessário um pedido de visto de pelo menos 15 dias. “Era lá que eu conseguia comprar, por exemplo, meia

de nylon e a cachaça do meu marido”, conta Dora. Numa das idas ao Ocidente, a jornalista percebeu que estava sendo seguida por um espião da polícia secreta da RDA, a Stasi. “Fui ao banco trocar alguns dólares. Quando cheguei ao guichê, o caixa não queria trocar. Mas um homem que estava ali disse que, sim, eu tinha direito. Foi então que percebi”, narra ela. “Mesmo sabendo da vigilância, não tínhaDORA BAMBIRRA / ARQUIVO PESSOAL

Pioneiros. Dora Bambirra (primeira à esquerda), Alberto Carmo (segundo da esquerda para a direita), Ana Montenegro (terceira da esquerda para a direita) e Sinval Bambirra (primeiro à direita) em Berlim Oriental, em fotografia tirada nos anos 1960 JOÃO LEUS

mos medo. Afinal, eu sabia que eles estavam do meu lado, me protegendo. Por isso, me sentia segura”, completa. Sonia Carmo, que viveu dos 10 aos 18 anos na Alemanha Oriental, lembra que os brasileiros que conseguiram asilo na capital da RDA tinham status diferenciado. “Nós éramos de uma elite, não podíamos ser comparados ao cidadão alemão. Eu frequentava a escola e tinha direito a tudo, mas não precisava ir às demonstrações da revolução, por exemplo”, recorda. “Eu tinha liberdade, era uma cidade segura, ótima para criança, e muito menos militarizada que Moscou, por exemplo”, acrescenta ela. “Era rígido”, complementa Dora. “Se fosse mau estudante, eles mandavam embora. Tinha que ter trabalho, endereço fixo”, explica. Segundo ela, a leva de brasileiros que chegaram a partir de 1973, após o golpe militar do Chile, não teve a mesma sorte. “A maioria dos empregos que tinha para essas pessoas era em fábricas, no interior da Alemanha Oriental. Os brasileiros que chegavam eram intelectuais e tinham dificuldade, pois o proletariado havia ficado no Brasil”, resume. DORA BAMBIRRA / ARQUIVO PESSOAL

Muro de Berlim

‘Era uma dor que compartilhávamos’

Arquivo. Dora Bambirra hoje, em sua residência, em Belo Horizonte – para onde retornou após a Lei da Anistia, em 1979

Em 2008, Dora Bambirra retornou a Berlim para visitar o neto e o filho – e ver a cidade sem a divisão que, por 14 anos, fez parte do seu dia a dia. “Isso me deu uma sensação de felicidade, era uma coisa que todos os meus amigos queriam. O Muro era uma dor que nós compartilhávamos com os alemães”, descreve Dora Bambirra. Para ela, o Muro de Berlim foi colocado não só para impedir a fuga de cérebros para o Ocidente, mas por questões econômicas –

já que os alemães ocidentais podiam comprar produtos bem mais baratos do lado oriental e que, até então, eram subsidiados pelo regime socialista. A barreira, no entanto, ficou insustentável no longo prazo. Ao sair de Berlim para o Brasil, em 1979, Dora ouviu do chefe no trabalho que a divisão não duraria mais dez anos – e assim aconteceu: “O Muro era o que ficava entalado na garganta de todo mundo. Não tinha ninguém que gostava, que era favorável”. diz. (FC)

Juventude no exílio. Hoje em Salvador, Sonia Carmo viveu dos 10 aos 18 anos na capital da República Democrática Alemã


DPA / AFP - 26.6.1963

24.8. Günter Liftin, 24, se torna a primeira pessoa a ser morta a tiros tentando cruzar o Muro de Berlim

O TEMPO BELO HORIZONTE | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 | 5

26.6. O presidente dos EUA, John Kennedy, em Berlim, discursa: “Ich bin ein berliner (Eu sou um berlinense)”

1961

1963

Setembro. Em visita história às Alemanhas, Martin Luther King cruza a fronteira de Berlim Oriental

1964

FIM DOS BLOCOS ANA LÚCIA CAMPOS / ARQUIVO PESSOAL

ANA LÚCIA CAMPOS / ARQUIVO PESSOAL

Filho mais velho de Ana Lúcia, Felipe Campos von Sperling, 33, até urinava no muro. “Me orgulha ter estado lá na época”, diz.

Ana Lúcia fotografou quem atravessava o Muro em 1989. Segundo ela, a mulher da foto não parava de chorar.

“A minha relação com o Muro de Berlim era diária” Mineira que viveu na cidade na época da Queda do Muro fala da rotina de morar perto da fronteira no fim dos anos 80 ¬ GABRIEL RODRIGUES

No começo de novembro de 1989, a TV ficava ligada o dia inteiro na casa de Ana Lúcia Campos, 60. Enquanto lavava a louça ou cuidava dos dois filhos pequenos, ela não tirava os olhos da tela, pois um muro próximo à sua casa estava na iminência de cair. Não era qualquer estrutura, mas o Muro de Berlim, que ela praticamente via da janela do apartamento durante os três anos em que viveu na cidade, no lado ocidental. Quando os tijolos foram abaixo, em 9 de novembro de 1989, Ana Lúcia não hesitou em correr para a rua e se juntar à multidão que acompanhava a queda de perto. “Meu marido viu pela minha cara que eu precisava ir. Eu estava amamentando, mas passei o neném para ele e o deixei também com o outro menino, que tinha 3 anos”, lembra. Ela passou a noite sozinha, ouvindo de penetra as histórias de quem passava pelo Muro, chegando da Alemanha Oriental, e fotografando as pessoas entre as luzes dos holofotes das emissoras de TV. “Eu ouvia o pedaço de um caso, passava para o outro, co-

mo o de gente cuja mãe morreu e a pessoa não conseguiu ir ao enterro porque era do outro lado do Muro, em Berlim Ocidental”. “Fiz algumas fotos de qualidade mais ou menos. Era muita emoção, e estava tudo muito cheio, as pessoas trombavam umas nas outras. Não lembro quanto tempo fiquei na rua, mas fiquei horas e horas, porque o movimento não parava. Não parava de sair gente do buraco no Muro, e eu não queria sair dali nunca mais”, diz. Ela guarda fotos de estranhos, flagrados naquela noite com expressões emocionadas enquanto cruzavam a fronteira de carro. Nos álbuns de Ana Lúcia, as imagens dividem espaço com as fotografias da família reunida com amigos no dia seguinte para pegar pedacinhos do Muro. Tiros na noite. Quase todo álbum de família tem fotos de crianças usando o banheiro sozinhas pela primeira vez. Mas poucos exibem os pequenos urinando no Muro de Berlim. É uma das fotos que Ana Lúcia guarda do filho mais velho, Felipe, que em 1989 tinha 3 anos. O Muro era parte da rotina da família, que vivia na Alemanha desde 1983,

acompanhando o então marido de Ana Lúcia, também brasileiro, enquanto ele fazia doutorado no país. “A minha relação com o Muro era diária”, rememora ela. O colorido do lado ocidental, que exibia pinturas e cartazes de shows, não amenizava o medo dos vizinhos da estrutura quando ouviam sons altos vindos da direção dele tarde da noite. “Acontecia de ouvir sons de tiro e depois ter notícia de que houve tentativa de fuga para o lado ocidental. A sensação nunca era boa, mas havia a dúvida se tinham sido tiros mesmo. Seria uma sensação ainda pior se tivéssemos certeza”. Entre 1961 e 1989, 99 pessoas foram mortas a tiros ao tentarem cruzar

“A gente esperava o Muro cair a qualquer momento. Quando caiu, fui para a rua.” Ana Lúcia EMPREENDEDORA

a fronteira ilegalmente, segundo o Memorial do Muro. Ana Lúcia a ultrapassava com frequência para o lado oriental, onde o pai de uma amiga argentina tinha um cargo diplomático. A passagem era permitida desde que a pessoa retornasse até a meia-noite, pelo mesmo trecho de onde havia partido. A mineira recorda com alegria a vez em que ela e o marido foram surpreendidos por uma chuva forte depois de uma noite com amigos no lado oriental e precisaram correr para retornar a tempo. “Foi cena de filme. Imagine a situação, na década de 80, em que a gente não tinha nem como se comunicar com a família com tanta facilidade... A gente correndo, rindo e pensando que, se fôssemos presos, estaríamos perdidos, a família ficaria sem saber o que aconteceu”. Retorno. Ana Lúcia voltou à Alemanha entre 2013 e 2014 e retomou o gosto por ouvir histórias de quem vive no país. Ela passou o ano gravando depoimentos, principalmente de quem morava na Alemanha Oriental. “Encontrei muita gente satisfeita de ter vivido lá”. Quando ela perguntava se não os incomodava ficar presos de um lado da fronteira, alguns replicavam que, enquanto os ocidentais conheceram todo o lado oeste do mundo, eles tinham o leste inteiro para ver.

ANA LÚCIA CAMPOS / ARQUIVO PESSOAL

Naquela noite, ela também registrou o chanceler alemão Helmut Kohl, peça-chave no processo de reunificação do país. FLÁVIO TAVARES

Ana Lúcia guarda pedaços do muro e dos cartazes que eram colados do lado ocidental. De volta a BH, deu quase todos.


6 | O TEMPO Belo Horizonte | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019

POR DENTRO DO MURO

EVOLU

Veja alguns detalhes de como funcionava a barreira entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental

196

Feito d tijolos co aram farpado co 30 cm d largu

TORRE DE VIGILÂNCIA Ocupada por dois a cinco soldados, 24 horas por dia

LARGURA Variava entre

30 m e 500 m CERCA DE

300

TORRES DE VIGILÂNCIA

ALTURA

3,5 m

FAIXA DE AREIA DE 6 M PARA REVELAR PEGADAS EXTENSÃO

PISTA DE CONC PARA MOVIMEN DOS GUARD

156,4 km 43,7 km DIVIDINDO BERLIM FRANCESA

112,7 km CONTORNANDO A CIDADE

Berlim Oriental

CHARLIE

SOVIÉTICA

BRITÂNICA

Zonas de ocupação

Berlim Ocidental NORTE-AMERICANA

BRAVO CHECKPOINT (PONTOS DE TRAVESSIA)

Passagens

Fugas*: Pelo menos

Bornholmer Strasse

para cidadãos alemães ocidentais

Chausseestrasse

para berlinenses ocidentais com passe

Invalidenstrasse

para berlineneses ocidentais com passe

Estação Friedrichstrasse

para alemães ocidentais, estrangeiros e berlinenses com passe

Checkpoint Charlie

para o corpo diplomático, tropas ocidentais e estrangeiros

Pelo menos 140

Heinrich-Heine-strasse

para alemães ocidentais e estrangeiros em viagem

*entre 1961 e 1989

5.0OO Mortes*:

FONTE: BERLIM WALL MEMORIAL, AFP, AGÊNCIA O GLOBO, FOLHAPRESS, AGÊNCIAS INTERNACIONAIS E “GUERRA NA PAZ” (ED. RIO GRÁFICA)

MURO COM TUBO DE CONCRETO NO ALTO (PARA IMPEDIR QUE FUGITIVOS SE APOIASSEM NELE)


O TEMPO BELO HORIZONTE | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 | 7 HÉLVIO / EDITORIA DE ARTE / OTEMPO

UÇÃO DO MURO

61

1963

1968

1975

de om me om de ura

Reforçado com placas de concreto de até 1 m de largura

Placas de concreto empilhadas na horizontal, com 10 cm de largura

“Quarta geração” do muro, com 45 mil segmentos pré-fabricados mais resistentes, (pesando 2.750 kg cada um) e um tubo na parte superior

MURO COM ARAME FARPADO NO TOPO (BERLIM ORIENTAL)

EQUIPAMENTOS

Guardas (Grenztruppen)

BINÓCULOS

14 mil

FUZIS AK 47

Tinham autorização para atirar para matar a fim de evitar fugas HOLOFOTES

CÂMERAS 35 MM

RÁDIOS

BOLSAS DE MUNIÇÃO

CRETO NTAÇÃO DAS

CERCA ELETRIFICADA OBSTÁCULOS ANTITANQUES

SISTEMA DE ALARME

20

BUNKERS “GRAMADOS DE STÁLIN”: TAPETES DE FINCOS METÁLICOS DE 14 CM PARA FERIR QUEM PISASSE NELES

CERCA DE

250

CÃES DE GUARDA

FOSSOS PARA VEÍCULOS

(95 km)

CUSTO DO MURO DA QUARTA GERAÇÃO Armadilhas de arame: lançavam sinais luminosos quando pisados para alertar sobre tentativas de fuga

16 milhões DE MARCOS ALEMÃES ORIENTAIS

(CERCA DE US$ 3,7 milhões)


8 | O TEMPO Belo Horizonte | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 17.12. Acordo entre os governos dos dois países estabelece condições para a travessia da fronteira

1971

1.8. Walter Ulbricht morre e é sucedido por Willi Stoph e, depois, por Erich Honecker, que conclui o Muro

1973

1982

11.6. Ronald Reagan, então presidente dos EUA, visita Berlim pela primeira vez

11.3. Mikhail Gorbachev se torna líder da União Soviética e inicia as reformas política e econômica

1985

FIM DOS BLOCOS

Anja Czymmeck Diretora da Fundação Konrad Adenauer no Brasil

E

m 2019, a Alemanha celebra 30 anos da Queda do Muro de Berlim. No verão de 1989, teve início um processo chamado de Revolução Pacífica, que atingiu seu apogeu em 9 de novembro, com a derrubada do Muro, e foi definitivamente concluído em 3 de outubro de 1990, com a reunificação da Alemanha. A afortunada Queda do Muro não teria sido possível se não tivesse havido coragem. A coragem dos poloneses que se levantaram contra a ditadura comunista. A coragem dos húngaros que abriram a fronteira verde. A coragem dos cidadãos da República Democrática Alemã (RDA) que não se deixaram intimidar pelo arame farpado, pela ordem de atirar, pela arbitrariedade e pela “reeducação” socialista. Os cidadãos da antiga RDA eram movidos pelo desejo de liberdade e autodeterminação. Por isso iam às ruas e, com suas ações, causaram a abertura das fronteiras e a Queda do Muro, fazendo com que hoje os alemães possam viver em um país unificado. É importante evocar, especialmente neste ano, a coragem dos cidadãos e conhecer mais sobre esse evento, pois, mesmo nos dias de hoje, é um bom exemplo de participação ativa dos cidadãos na sociedade, engajando-se, assumindo responsabilidades e apostando no que é comum a todos, e não no que os separa. A Revolução Pacífica na ex-RDA aconteceu porque cidadãos, homens e mulheres, mostraram coragem, superaram seu medo e conseguiram derrubar as regras do jogo em um “Estado sem direito”, como era a RDA. Tinham medo, pois, na fronteira entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental, muitas pessoas foram mortas a tiros ou presas ao tentarem fugir para o lado ocidental. O regime da RDA espionava seus cidadãos por meio da Stasi, o serviço de segurança nacional, a fim de descobrir quem tinha atitudes contrárias ao regime ou tentava levantar-se contra os governantes. Considerando tais condições, é ainda mais admirável que, 30 anos atrás, milhares de pessoas na antiga RDA conseguissem vencer seus piores temores e se reunissem em igrejas para fazer orações pela

paz e reivindicar a separação de poderes, a do Dia da Unidade Alemã, em 3 de outubro liberdade de imprensa e as eleições demo- deste ano, a chanceler Angela Merkel mencráticas. Muitos deixavam para trás seus cionou que a maioria dos cidadãos do Leste meios de subsistência na RDA e arriscavam alemão ainda se sentem cidadãos de sefugir para o Ocidente pela Hungria ou gunda categoria, pois, em muitos caTchecoslováquia. Centenas de milhasos, suas biografias sofreram res de cidadãos da Alemanha grandes rupturas, que se faOriental foram às ruas e fizezem sentir até hoje em ram manifestações pacífisuas vidas. A chanceler cas por democracia e lidestacou que tanto O processo de berdade e acabaos cidadãos reunificação ainda ram derrubanquanto a esfedo o Muro ra política continua, mesmo que, desde precisam 30 anos 13 de agosto de aprender e 1961, dividia a Alecompreender após a Queda manha em duas. A que não somente a do Muro queda da cortina de ferro melhora da situação abriu, com a assinatura do econômica promove a Tratado Dois Mais Quatro, camiidentificação da população nho para o fim da Guerra Fria e lecom a democracia. Os últivou à expansão da União Europeia para mos 30 anos também o Leste a partir de 2004. Esses dois exemnos mostram que as plos mostram claramente suas consequênpromessas (não cias sobre as relações internacionais contemcumpridas), que porâneas. Essa virada pacífica pôde aconteforam e são comcer porque muitas pessoas não toleravam ter preensíveis sua autonomia intelectual e liberdade usurem tempos padas pelo regime por mais tempo. marcados Finalmente, e com um esforço por eucolossal no âmbito econômico e social, foi possível concluir, em 3 de outubro de 1990, a reunificação dos Berlinense estende antigos Estados do labandeira alemã logo do ocidental com os após a Queda do Muro novos Estados do lado oriental. É admirável o que se conquistou nos últimos anos. As condições de vida de ambos os lados se igualaram bastante, embora ainda persista muita desigualdade em algumas regiões. O que sucedeu na Alemanha é um acontecimento muito feliz, mas o processo de reunificação ainda continua, mesmo 30 anos após a Queda do Muro. Por ocasião da comemoração

A Fundação Konrad Adenauer é uma entidade alemã baseada nos valores da União Democrata-Cristã, partido da chanceler Angela Merkel

GERARD MALIE / AFP - 11.11.1989

30 anos da Queda do Muro e a Revolução Pacífica

foria e desejo de reunificação, podem gerar expectativas exageradas e terminar em decepção em todos os lados. São principalmente as expectativas frustradas de muitos cidadãos do Leste que contribuem para o forte crescimento do partido populista de direita, a Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), o que representa um novo desafio para a democracia liberal 30 anos após a Revolução Pacífica. Por essa razão, é importante compreender que a reunificação é um processo contínuo, que a cada dia desafia a liberdade como essência da democracia liberal e, sem o engajamento de cada um para assumir responsabilidade na sociedade, esta não poderá funcionar. A ação política não pode promover a exclusão por motivos como cor da pele, origem, orientação sexual ou religião, mas deve mostrar abertura. Isso é fundamental para a continuidade do processo de união na Alemanha e também no resto do mundo. Neste mundo em que nenhum país sozinho é capaz de dar conta dos desafios contemporâneos, como a mudança climática, o terrorismo, os êxodos em massa e os deslocamentos forçados, a digitalização e outros, o pensamento e a ação multilaterais terão importância cada vez maior. O aniversário da Queda do Muro, esse evento afortunado da história alemã, a cada ano relembra os cidadãos da Alemanha de que a liberdade individual, os direitos fundamentais democráticos, o Estado de direito e uma economia social de mercado não acontecem espontaneamente por si sós, mas são interligados e, para preservá-los, é necessária a atuação de cidadãos conscientes de sua responsabilidade e a convivência em sociedade.

EXPEDIENTE. Diretor executivo: Heron Guimarães - Editores executivos: Murilo Rocha e Renata Nunes - Coordenação de jornalismo: Flaviane Paixão - Edição: Aline Reskalla, Fábio Corrêa e Frederico Duboc Reportagem: Litza Matos e Gabriel Rodrigues - Edição de foto: Daniel de Cerqueira - Design: Reinaldo Dias - Arte: Rose Braga, Andrea Viana, Helvio Avelar e Acir Galvão - Revisão: Luciara Oliveira


MIKE SARGENT/AFP - 1987

5.4. Atentado a bomba na boate La Belle mata três pessoas e fere 230. Líbios e Stasi, a polícia secreta, são acusados

1986

O TEMPO BELO HORIZONTE | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 | 9

12.6. Na segunda viagem a Berlim, o presidente Ronald Reagan pede: “Sr. Gorbachev, derrube este muro!”

1987

Abril. Guardas da fronteira são orientados a usar força letal contra tentativas de violação do Muro

1989

FIM DOS BLOCOS

Em crise, Brasil vivia a volta das eleições diretas JOSÉ CALORS/OGLOBO - 14.12.1989

Primeiro pleito presidencial com voto popular desde a ditadura dava esperança a um país dominado pela inflação ¬ GABRIEL RODRIGUES ¬ Enquanto em Berlim o mu-

ro ruía, o Brasil também vivia um período emblemático naquele novembro de 1989. Aos exatos cem anos de Proclamação da República, os brasileiros iam às urnas nas primeiras eleições presidenciais diretas desde a década de 60, após 21 anos de ditadura militar – e um ano depois da promulgação da Constituição de 1988. Apesar do entusiasmo pela retomada da democracia, nem tudo era festa; a hiperinflação alcançava patamares históricos – chegava a quase 48% ao mês –, e o governo de José Sarney parecia incapaz de controlá-la. O cruzado novo passou a ser a moeda do país em janeiro e trouxe esperança por algum tempo, mas ela logo foi frustrada. O historiador econômico Vinícius Müller tinha 14 anos em 1989 e lembra-se da dificuldade para adquirir discos, livros e outros itens “importantes” para um adolescente. Dar um telefonema também não era simples: a família precisava alugar uma linha telefônica, já que eram poucos os que detinham uma. Pelo menos na perspectiva econômica, os anos 80 foram mesmo uma “década perdida” no Brasil, segundo Müller. “Foi ruim para a geração que se formou e para o mercado de trabalho ao longo da década. Havia muita dificuldade no acesso ao crédito e para quem quisesse empreender ou investir no começo da carreira”, diz. O pai de Müller fantasiava abrir uma agência de comunicação, mas a falta de crédito barrou o sonho. Em meio ao caos monetário, as eleições acenderam os ânimos: “Eu me lembro do meu pai falando que era um momento importante e que eu herdaria essa transformação. Ele me disse que nunca havia votado para presidente”, recorda Müller.

Também era a primeira vez que a historiadora e cientista política Heloísa Starling votaria para presidente. Mesmo com a euforia, ele elege a “frustração” uma das palavras-chave para entender o período no Brasil. “Desde as Diretas (entre 1983 e 1984) a população vinha perdendo sistematicamente. Ela foi uma mobilização grande e foi derrotada. Depois, há uma aposta grande no Tancredo Neves, e ele morre. O governo Sarney é um desastre, do ponto de vista econômico”, diz a historiadora. COLLOR VERSUS LULA. Esse desapontamento, segundo Heloísa, é uma das explicações para a derrota de nomes tradicionais da política no pleito — entre quem não chegou ao segundo turno, que aconteceu menos de uma semana depois da queda do Muro, estavam Brizola (PDT) e Ulysses Guimarães (PMDB). Na lista de candidatos, também aparecia Mario Covas, do PSDB, fundado no ano anterior. O segundo turno foi entre opostos: de um lado, Fernando Collor (PRN), que replicava o discurso neoliberal mundial com o enfraquecimento da União Soviética (URSS). Do outro, Lula (PT), na primeira de suas quatro candidaturas à Presidência, com discurso popular. O historiador Rodrigo Patto nota que a queda do Muro de Berlim trouxe apuros à esquerda nas eleições: “Teve impacto, porque foi símbolo da crise na esquerda tradicional, mais ligada ao modelo soviético da Revolução Russa. Os candidatos de esquerda foram acusados de associação com o socialismo em crise no bloco oriental”. Na visão dele, isso respingou especialmente nas candidaturas de Roberto Freire (então PCB) e Lula, mesmo que o PT se dissesse uma “nova esquerda” e se distanciasse do modelo soviético. Patto finalizava a graduação em história na época.

Cultura

Cazuza revelava que tinha Aids

REPRODUÇÃO

O QUE MARCOU 1989 A novela das oito “Tieta” estreia após “O Salvador da Pátria”, com trilha sonora marcante que incluía Caetano Veloso. Pimenta da Veiga é o prefeito de BH (PSDB), e Newton Cardoso (PMDB), governador de Minas. O Vasco vence o Brasileirão, enquanto o Atlético conquista o Campeonato Mineiro. REPRODUÇÃO TV GLOBO

Metallica faz o primeiro show no Brasil. Dois dias antes da queda do Muro, a cantora pop Cyndi Lauper apresenta-se pela primeira vez no país. Estreava na Globo a inovadora e provocativa novela “Que Rei Sou Eu”, que unia temas como feminismo e bruxaria com sátira à política brasileira. “As Areias do Tempo”, de Sidney Sheldon, é o livro mais vendido no Brasil.

REPRODUÇÃO

Morrem Raul Seixas, Salvador Dalí, Nara Leão e Betty Davis. “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” estreia nos cinemas. “Batman”, dirigido por Tim Burton e estrelando Michael Keaton como o herói e Jack Nicholson como Coringa, é o filme mais assistido do ano. Fausto Silva estreia no programa “Domingão do Faustão”. É fundada Palmas, capital do Tocantins.

A televisão abriu 1989 com uma “banana” para o Brasil, mostrada pelo vilão Marco Aurélio, interpretado por Reginaldo Faria no folhetim “Vale Tudo”, cujos episódios finais foram exibidos no começo daquele ano. O gosto amargo do final da novela continuou pelos meses seguintes: em abril, Cazuza revelou ter sido diagnosticado com Aids – doença que o levaria à morte no ano seguinte. “Havia essa frustração pelo fato de a liberdade sexual ser, de certo modo, barrada pela ascensão da doença. E frustração também pela corrupção e pela inflação gigantesca”, pontua Guilherme Bryan, autor do livro “Quem Tem um Sonho Não Dança: Cultura Jovem Brasileira nos Anos 80”. Ainda assim, para ele, 89 foi um ano “muito rico” – com 14 anos na época, lembra que deixava de comprar lanche no colégio a fim de juntar dinheiro para os discos de vinil de novelas como “O Salvador da Pátria”. A música nacional mais tocada do ano foi “Bem que Se Quis”, de Marisa Monte, tema, justamente, de uma personagem da novela. Ao mesmo tempo, o BRock, rock brasileiro dos anos 80, fervia: expoentes como Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii alcançavam maturidade nos palcos. Em Berlim, o escritor Rubem Fonseca viu a queda do Muro de perto e foi entrevistado como um brasileiro qualquer, pois o jornalista de TV não o reconheceu. Para a historiadora Heloísa Starling, é a imagem que ficou: “O muro se desmanchando foi uma coisa muito forte, com o detalhe de um dos nossos maiores romancistas o olhando”. (GR)


10 | O TEMPO Belo Horizonte | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 10.9. Hungria rompe oficialmente com o Pacto de Varsóvia, na primeira brecha da Cortina de Ferro

1989

19.8. Budapeste libera viagens ao Ocidente, e mais de 700 alemães orientais cruzam a fronteira austro-húngara

4.10. Manifestações em massa pedindo reformas reformas tomam Dresden, Leipzig e Berlim Oriental

1989

1989

18.10. O presidente Erich Honecker renuncia aos comandos da Alemanha Oriental e do partido

1989

FIM DOS BLOCOS

Muros da atualidade tentam barrar imigrantes Desde a virada do século XXI, a política internacional tem sido caracterizada, paradoxalmente, pela globalização e pela elevada demanda por controle de fronteiras, de forma que a tensão entre princípios realistas e liberais na política de migração se tornou mais aguda do que nunca. Com isso, nas últimas décadas, os muros entre países se proliferaram como formas extremas de controle de fronteiras. Especialistas avaliam que, se por um lado a globalização aumentou exponencialmente os fluxos migratórios e comerciais, por outro esse conflito entre a abertura e a contenção nacional gerou projetos contraditórios de políticas de migração. Somente em 2016, o número total de refugiados e requerentes de asilo foi estimado em 25,9 milhões. Diante do aumento de migrantes, que chegaram a atingir 258 milhões em 2017, ante 173 milhões nos anos 2000, a construção de muros se tornou mais frequente em todo o mundo: de menos de dez, em 1970, para 59, e m

2018, conforme levantamento feito pelo professor de assuntos internacionais e segurança da Hertie School, em Berlim, Julian Wucherpfennig. Os dados estão no artigo recém-publicado “Border Walls, Refugees, and Terrorism”. “Sem dúvida a motivação contemporânea para a construção desses novos muros é diferente daquela que levou à construção do Muro de Berlim”, analisa o professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes. “Em Berlim, a motivação era geopolítica. Contemporaneamente, os muros são erguidos como parte de uma estratégia relacionada às políticas migratórias, ou seja, para a contenção das migrações. Hoje, os muros são parte da tática para conter migrantes indesejáveis. Não são migrantes qualificados, que trazem algum aporte evidente, como

muros entre países como uma das formas mais extremas de controle de fronteiras e migração. “As preocupações recentes sobre a presença de terroristas entre os refugiados levam a uma ênfase renovada nos muros como instrumentos políticos para superar ou mitigar o suposto nexo entre refugiados e terrorismo”, afirma. Essa narrativa, diz o professor da Hertie School, trouxe uma dimensão de segurança ao debate sobre o objetivo e a eficácia dos muros atualmente, assim como a dissuasão do crime, o contrabando e o rastreamento de drogas foram destacados como justificativas para as construções. No entanto, seus efeitos são desconhecidos. Pesquisas recentes já mostraram, inclusive, que algumas barreiras físicas contemporâneas podem ser ine-

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ficazes, como o caso dos 12,5 km que separam Grécia e Turquia. O entreposto simplesmente desviou os imigrantes para rotas alternativas, mais perigosas e caras. Além disso, Wucherpfennig ressalta que os muros dificilmente são uma decisão bilateral e, provavelmente, geram custos simbólicos e financeiros consideráveis. “Eles podem ser interpretados pelos cidadãos do país contíguo como uma política de exclusão agravante, que pode ativar e reforçar preconceitos preexistentes e sentimentos dentro e fora do grupo de ambos os lados, aumentando conflitos”, diz o professor.

AR IA S/

¬ LITZA MATTOS

cientistas ou investidores, por exemplo. Estes, certamente, continuam sendo bem-vindos e não têm que enfrentar muros”, garante. Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Kai Enno Lehmann cita os muros na fronteira da Hungria como um dos mais emblemáticos. “Em 1989, a Hungria foi o primeiro país da Europa comunista a abrir as suas fronteiras com o Ocidente, por iniciativa do próprio governo. Por muitos anos, a Hungria foi vista como o exemplo de uma transição bem-sucedida do comunismo para uma democracia e um sistema econômico capitalista. Hoje, esse mesmo país é um dos exemplos mais claros do populismo que está se espalhando pelo mundo, virulentamente anti-imigração e, em consequência, fechando as suas fronteiras. A transformação é profunda e foi rápida”, afirma. Wucherpfennig caracteriza a construção de

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Construções nas fronteiras, que não passavam de dez em 1970, em 2018 eram nada menos que 59, segundo levantamento feito por professor alemão

59

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GERARD MALIE/AFP - 21.11.1989

23.10. As Demonstrações de Segunda Feira, em Leipzig, cobram reformas radicais e a troca do governo

O TEMPO BELO HORIZONTE | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 | 11

4.11. Meio milhão de pessoas se reúnem em Berlim Oriental exigindo eleições livres na Alemanha Oriental

1989

1989

9.11. Por engano, o porta-voz do governo anuncia fim de restrição a viagens, e milhares de cidadãos derrubam o muro

1989

FIM DOS BLOCOS Entrevista

EUA e México

Rigidez na fronteira é ineficiente ¬ LITZA MATTOS

A pesquisa sobre as razões por trás da proliferação de muros em todo o mundo está dividida entre explicações econômicas e aquelas relacionadas à segurança. A primeira vertente acredita que as disparidades econômicas entre países vizinhos têm um impacto substancial na presença de um muro físico, transformando-o, portanto, em dispositivo político para evitar ameaças em um contexto de desigualdade econômica. Já a segunda abordagem, relacionada à segurança, aponta as disputas territoriais, os conflitos militares interestaduais e guerras civis como os princi-

pais fatores relacionados à construção dessas barreiras. Um dos mais comentados da atualidade é o muro entre os Estados Unidos e o México, mote da campanha eleitoral de Donald Trump. O professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes diz que o presidente norte-americano tem agora dificuldade de trazer esse projeto para a realidade por ser uma fronteira com uma extensão muito conside-

rável e que tem um fluxo de pessoas absurdamente grande. “Arrisco dizer que é a fronteira mais viva do mundo. Conforme o ex-presidente mexicano Peña Nieto, passam todos os dias 1 milhão de pessoas pela divisa desses países”, explica. Pesquisadores já descobriram que o aumento de rigidez na fronteira dos

EUA com o México tornou a imigração mais cara e arriscada. “Não é eficiente, porque vai usar muito dinheiro público, mas isso não consegue barrar as pessoas”, PO TEM /O RTE diz Lopes. DE A A I R O EDIT

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Kai Enno Lehmann “Os novos muros representam medo, incerteza e insegurança, não somente em relação à segurança física de um país ou de uma pessoa” O que esses muros de hoje representam? Acho há uma sensação geral de medo, de incerteza e de insegurança, não somente em relação à segurança física de um país ou de uma pessoa, mas de mudanças econômicas, de pessoas diferentes e de novidades. Se olharmos os discursos de Donald Trump ou de Viktor Órban (Hungria), podemos ver referências constantes ao medo do “outro”.

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Qual o principal motivo para a criação desses muros? Preservar o status quo. Deixar as coisas como elas estão ou uma tentativa de voltar a um passado (muitas vezes imaginário) quando “tudo era melhor”. Porém, os muros não resolvem os problemas migratórios. A construção deles faz diferença no curto prazo, mas tanto imigrantes quanto os grupos criminais que muitas vezes organizam a chegada de imigrantes se adaptam. Qual paralelo você faz com o Muro de Berlim? Obviamente as circunstâncias de hoje são bem diferentes das de 1961. Porém, na época, a Alemanha Oriental também tentava manter um status quo e impedir que mudanças se espalhassem pelo país. No fundo, o Muro de Berlim, todavia, era necessário (de ponto de vista da Alemanha Oriental) para impedir o colapso do país. Se não tivesse sido construído, a Alemanha Oriental simplesmente teria perdido a sua população e, sem cidadãos, não há como sustentar um país. Obviamente, esse perigo não existe nos EUA, por exemplo. (LM)


RETRATOS NA PAREDE

GÜNTER BRATKE/AFP - 26.8.1961

12 | O TEMPO Belo Horizonte | SEGUNDA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2019 Tão longe, tão perto. Cercas dividiram famílias alemãs em 1961.

GERARD MALIE / AFP - 21.11.1989

A noite de 9 de novembro de 1989 deu vazão à alegria e ao alívio após quase três décadas cinzentas em que famílias foram separadas pela ideologia, pelo medo e pelo famigerado “muro da vergonha”.

GERARD MALIE / AFP - 11.11.1989

Parede humana.A barreira de concreto sumiu sob a multidão de alemães ocidentais e orientais.

GERARD MALIE / AFP - 15.11.1989

Poder da alegria. Por vários dias, os berlinenses festejaram junto aos restos do Muro.

Mãos dadas. Após quase 30 anos de separação, alemães se uniram para construir uma nova história.

STRINGER/DPA/AFP - 22.12.1989

Fresta de liberdade. Soldado alemão oriental olha o Ocidente por buraco aberto no Muro.


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