CAPA
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OsmusikéCadernos
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2.ª PARTE
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FICHA TÉCNICA Título: OsmusikéCadernos 7 Diretor: Jorge do Nascimento Silva Equipa Redatorial: Jorge do Nascimento Silva; Agostinho Ferreira; Álvaro Nunes; João S. Pereira; J. Salgado Almeida Conceção gráfica: João Silva Pereira; J. Salgado Almeida; Jorge do Nascimento Silva; Agostinho Ferreira; Álvaro Nunes Capa: J. Salgado Almeida Revisão: Agostinho Ferreira; Álvaro Nunes; Jorge do Nascimento Silva; João Silva Pereira Ilustrações: J. Salgado Almeida Local de edição: Guimarães Propriedade e edição: Osmusiké (osmusike@gmail.com - https://osmusike.pt) Escola Secundária Francisco de Holanda; Alameda Dr. Alfredo Pimenta; 4814-528 Guimarães Ano e mês: 2025, dezembro Páginas: 566 ISSN: 2975-8041 Depósito legal: 479669/21 Execução Gráfica: Gráfica Diário do Minho Coprodução: Município de Guimarães Notas:
1 - Todos os artigos que integram OsmusikéCadernos 7 são da responsabilidade dos respetivos autores; 2 - Respeitando a opção de cada um, apresenta-se a ortografia portuguesa com ou sem o acordo ortográfico; 3 - Quando os textos estão assinados com afiliação profissional, os cargos referem-se à data em que os mesmos foram escritos. 4 - A numeração das notas de rodapé é sequencial.
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ÍNDICE
I.
ARTES E LETRAS -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 317 Victor Costa---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------319 Entrevista conduzida por Álvaro Nunes
SEM TÍTULO - Acrílico sobre papel Arches 640 gr, 101x152 cm, 2024 -------------------------------------------------------------------325 Víctor Costa
CASA DO PENEDO — Óleo sobre tela, 80x60 cm, 2024 --------------------------------------------------------------------------------------326 Agostinho Ferreira
ENCENAÇÕES — Acrílico sobre tela, 100x150cm, 2024--------------------------------------------------------------------------------------327 Madalena Macedo
JOÃO PAULO SEM POMBA — Óleo sobre tela, 1997 -----------------------------------------------------------------------------------------328 Arménio Sá
50 ANOS DE ABRIL — Técnica mista, esferográfica BIC, vinho verde, café e lápis de pastel sobre toalha de papel de restaurante, 60x60 cm, 2024 -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------329 Rui Viana
MEMÓRIA DOS VENTOS — Acrílico sobre tela, 60x70 cm, 2023 --------------------------------------------------------------------------330 Ana Stingl
SEM TÍTULO — Acrílico sobre tela, 100x100 cm, 2024---------------------------------------------------------------------------------------331 Délia Carvalho
AFONSO EM ZAMORA — Aguarela sobre papel de 300 gr, 70x50 cm, 2024 -----------------------------------------------------------332 João Soares
O JARDIM DO JARDINEIRO SILENCIOSO — Guache s/ cartão preto de maquete, 50x70 cm, 2024 -------------------------------333 Filomena Bento
DESENHO — Papel reciclado e azeitona, 70x50 cm, 2015 ----------------------------------------------------------------------------------334 Óscar Guimarães
PILAR DA FUNDAÇÃO — Memorial da Batalha de S. Mamede – granito e ferro – 320x100x50 cm, Rotunda do Reboto, S. Martinho de Candoso, Guimarães, 2025 --------------------------------------------------------------------------------------------------------335 Salgado Almeida - SAL
AMORFISMOS METAFÓRICOS - Casting 27x36 cm, 2008 (Exposição Húmus 2025 – Espaço das Artes ECA USP, S. Paulo, Brasil) ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------336 Teresa Almeida
POESIA — Caneta BIC sobre papel de aguarela, 2025----------------------------------------------------------------------------------------337 Alexandra Jordão
CUMPLICIDADES — Óleo sobre tela, 95x75 cm, 2014----------------------------------------------------------------------------------------338 Viana Paredes
A propósito de CARLOS PAREDES -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------339 Eduardo Magalhães, Musicólogo
GUIMARÃES ROCK REVIVAL – Passeio com a música Rock e Pop feita em Guimarães desde a década de 1960. -------------346 António José Castro
MURMÚRIOS À SOMBRA DA PENHA – A música em Guimarães nos alvores do rock ------------------------------------------------355 Paulo Coimbra Martins
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OS MATOS DE BARCELOS na Ficção de Camilo Castelo-Branco ----------------------------------------------------------------------------396 M. Branco de Matos
Centenário do nascimento do escritor José Cardoso Pires – Um anjo ancorado no universo dos livros ------------------------406 António José Oliveira
Talvez não chova – Evocação de Isabel da Nóbrega nos 100 anos do seu nascimento ----------------------------------------------413 José Manuel Mendes
200 anos da publicação do poema Camões de Almeida Garrett --------------------------------------------------------------------------416 Rosário Ferreira
RAUL BRANDÃO – 100 anos de memórias II ----------------------------------------------------------------------------------------------------419 Álvaro Nunes
Guilherme de Faria e Teixeira de Pascoaes -----------------------------------------------------------------------------------------------------424 José Rui Teixeira
JOSÉ RÉGIO – a propósito do centenário de “Poemas de Deus e do Diabo!” ----------------------------------------------------------438 Álvaro Nunes
Maria Teresa Horta – In memoriam --------------------------------------------------------------------------------------------------------------444 Equipa redatorial
Morte em Guernica -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------448 José Matos
Aguarela -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------450 M. Branco de Matos
Zé do Martelo ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------452 rui galiano
Poema a Camilo ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------453 Álvaro Nunes
[Desaparecer-me-á da face o vento] -------------------------------------------------------------------------------------------------------------454 Carlos Poças Falcão
Amor é… -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------455 Maria Teresa Portal Oliveira
Mesmo a sangrar, eu vou!... ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------456 Maria Amélia F. Fernandes - Poetisa de Arosa
Insanidade ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------457 Carlindo Ribeiro
Poema----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------458 Sónia Marta Silva
Mensagem no tempo --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------459 Angelino Pereira
A Alma Penada -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------460 Joaquim António Salgado Almeida
Do Imaginário ao Infinito (A propósito da arte) -----------------------------------------------------------------------------------------------462 Carlos Guimarães
Caminho sem retorno --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------463 Paulo Moreira
Umas coisas acerca do amor -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------464
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Fátima Marinho
As Póvoas Marítimas do Norte de Portugal e O Norte Marítimo, de Alberto Sampaio ----------------------------------------------466 Salomé Duarte
II.
PUBLICAÇÕES ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 471 Coordenação da equipa redatorial
Grande Prémio Gil Vicente--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------471 Boletim de Trabalhos Históricos (2024) ---------------------------------------------------------------------------------------------------------473 Boletim de Trabalhos Históricos (2025) ---------------------------------------------------------------------------------------------------------474 REVISTA DE GUIMARÃES ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------476 REVISTA DE GUIMARÃES júnior -vol. 3-------------------------------------------------------------------------------------------------------------477 ELO 32 – Novas Escolas/Novos Públicos ---------------------------------------------------------------------------------------------------------479 O segredo das asas de borboleta ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------480 (SOBRE)TUDO SOBRE CAOS-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------481 MAMÍFEROS ATO DE AMAMENTAR --------------------------------------------------------------------------------------------------------------482 Guilherme de Faria – Poesia inédita --------------------------------------------------------------------------------------------------------------483 Guilherme de Faria – Cartas a Manuel de Castro ---------------------------------------------------------------------------------------------485 HISTÓRIA DA BANDA MUSICAL DE CALDAS DAS TAIPAS 1834 – 2024: Mais do que um registo histórico ----------------------486 Os Amigos de Urgeses – 40 ANOS DE TODOS --------------------------------------------------------------------------------------------------487 NOS 50 ANOS DO 25 DE ABRIL, Memórias e reflexões sobre as mudanças da sociedade portuguesa ---------------------------488 85 anos de Associativismo – Educação e Animação Comunitária -------------------------------------------------------------------------489 TEMPO LIVRE – 25 ANOS ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------490 Guimarães – 200.º aniversário do nascimento de Camilo ----------------------------------------------------------------------------------492 Urdir a Distância ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------494 O Fidalgo da Minha Aldeia --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------495 De GIL VICENTE a CAMILO CASTELO BRANCO--------------------------------------------------------------------------------------------------496 Roteiro da arte pública vimaranense -------------------------------------------------------------------------------------------------------------497 O LIVRO DE ÉNIO: Uma narrativa de contemplação ------------------------------------------------------------------------------------------498 A Brasinha Aventureira ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------499 (DES)ENCONTROS À BEIRA-MAR ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------500 Ser um dotado no século XXII ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------501 O MEU AMIGO DOG e outras narrativas --------------------------------------------------------------------------------------------------------502 COISAS RUINS ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------504 Conheces o teu cérebro? Não? Então vamos a isso! -----------------------------------------------------------------------------------------505 O HOSPITAL DE ALFACES ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------506 AFIRMAR GUIMARÃES – UMA VONTADE COLECTIVA ----------------------------------------------------------------------------------------507 D. Maria II em Guimarães ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------508
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Quem Ri com Gosto para Longe Manda o Desgosto -----------------------------------------------------------------------------------------509 O CAPELÃO MILITAR NA GUERRA COLONIAL ---------------------------------------------------------------------------------------------------510 Fernando Távora em Guimarães ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------511 O Céu sobre a Montanha ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------512 Carlos Poças Falcão
Versos Inquietos ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------513 José Queiroga
A Bruxa de Santa Leocádia – A herança ---------------------------------------------------------------------------------------------------------514 F. Capela Miguel
Roquemont, Fragmentos para uma novela -----------------------------------------------------------------------------------------------------515 Salomé Duarte
Laboratório da Paisagem: Um livro que celebra o passado e semeia o futuro ---------------------------------------------------------516 Carlos Ribeiro, Diretor Executivo
Estrada Perdida—Sobre o rasto desenhado pela pintura de Victor Costa --------------------------------------------------------------517 O Longo Caminho até Auschwitz ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------521 Nuno Alves Pinto
A Escolha do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro de 2025: Avanços para a Lusofonia e a Democratização Cultural -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------529 Juliana Fernandes, Diretora da Biblioteca Municipal Raul Brandão
Papa Francisco – Encarnação do Evangelho ----------------------------------------------------------------------------------------------------534 Monsenhor José Maria Lima Carvalho Gonçalves
III.
ESPAÇO OSMUSIKÉ ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 539 Textos da responsabilidade da equipa redatorial, com a colaboração dos coordenadores das diversas valências e de Emília Ribeiro, supervisora de Osmusiké Teatro
Obrigado, Jorge do Nascimento -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------541 Novos Corpos Sociais de Osmusiké (2025/2029) ----------------------------------------------------------------------------------------------545 Tomada de posse dos novos corpos sociais ----------------------------------------------------------------------------------------------------546 Osmusiké 2025 – Fragmentos de Arte: Música, Teatro e Poesia numa Só Voz --------------------------------------------------------548 CANTAR A LIBERDADE: Na comemoração dos 50 anos das Primeiras Eleições Livres ------------------------------------------------554 MEMÓRIAS DA NOSSA TERRA: Mercado à moda antiga (4.ª edição) --------------------------------------------------------------------557 III Feira do Livro de Creixomil ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------559 Comemoração do 23.º aniversário de Osmusiké ----------------------------------------------------------------------------------------------560 Osmusiké na Feira Afonsina 2025 -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------561 Viver as Gualterianas ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------563 Concerto Sons de Outono ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------565
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ARTES E LETRAS Inserir separador
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Artes e Letras Neste espaço, como é habitual, daremos o devido destaque à nossa língua, aos escritores e obras da sua lavra, bem como à prestação do nosso preito a alguns nomes das artes e letras que já partiram, mas que “da lei da morte se vão libertando” e outros que por cá vão passando. Páginas que igualmente abrem portas à criatividade e divulgam recentes publicações e trabalhos da nossa gente.
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Victor Costa Entrevista conduzida por Álvaro Nunes
No passado mês de junho, o pintor vimaranense Victor Costa regressou a Guimarães, sua cidade-berço, e apresentou uma exposição de Pintura e Desenho no Centro Cultural Vila Flor, no âmbito dos seus 80 anos (octogésimo aniversário). Assim, esta exposição constituiu a motivação para esta entrevista e consequente preito ao seu trabalho e carreira, reconhecida a nível nacional e internacional, que o artista fez questão em mostrar à sua terra natal, o que, obviamente, justifica a primeira pergunta. Victor Manuel da Costa
Desta feita, quais foram as tuas apostas preferenciais e opções para este retorno e esta exposição em Guimarães? Desde o tempo da vereadora Francisca Abreu que se colocava a hipótese de fazer uma exposição em Guimarães. O tempo foi passando e, ao atingir os 80 anos, senti a necessidade de regressar às origens. Surgiu, então, o convite, por parte da Câmara Municipal, através do Vereador da Cultura, Paulo Lopes Silva, que acolhi com entusiasmo. Tenho consciência de que a minha obra não é muito conhecida em Guimarães. Esta exposição surge, por isso, como uma oportunidade para colmatar essa lacuna. A mostra integra, sobretudo, trabalhos recentes (2024 e 2025), mas inclui também algumas obras de 2006, que estabelecem um diálogo entre passado e presente e ilustram o percurso que a exposição pretende documentar. No conjunto das obras apresentadas, a escala e a cor assumem um papel dominante. A dimensão ampla dos suportes e a força cromática são elementos que sempre privilegiaram o meu trabalho.
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Na tua cidade tens exígua obra pública, contrariamente a S. João da Madeira, onde resides, e a outras localidades nacionais. Que razões apontas para esta situação específica? A minha formação académica decorreu fora de Guimarães e, mesmo durante o período em que lecionei na Faculdade de Belas Artes do Porto, os contactos institucionais com a cidade foram escassos. Tive também a oportunidade de expor, nos anos 80, no Convívio, na Galeria Gomes Alves, e, posteriormente, na própria Sociedade Martins Sarmento. Esta última exposição teve, aliás, um significado especial, pois foi nessa instituição que, em criança, recebi o meu primeiro prémio artístico. Tive igualmente uma intervenção artística no Estádio D. Afonso Henriques aquando da sua remodelação com os desenhos em cor nas cadeiras e bancadas do estádio. Penso que estão reunidas as condições para deixar a minha marca, com uma obra pública na minha cidade... Achas que a cidade deveria apostar mais nos seus artistas e conterrâneos no que respeita ao embelezamento dos espa-
Nota Biográfica Victor Manuel da Costa nasceu em 1944, no Lugar dos Remédios, freguesia de Urgezes, concelho de Guimarães. Filho de Adão Peixoto da Costa (Alfaiataria Costa) e de Aldezira da Conceição Ferreira, fez a instrução primária na escola da Vaca Negra. Frequentou os seminários diocesanos de Braga e foi ordenado sacerdote em 1968. Exerceu funções pastorais na paróquia de Santa Eulália de Fafe e no hospital local, como capelão, até 1975, ano em que solicitou a redução ao estado laical. Entre 1972 e 1977 frequentou a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde viria a lecionar durante mais de 30 anos. Aí desempenhou diversos cargos de direção, incluindo a presidência do Departamento de Desenho, como Professor Associado. Em 1974, foi um dos dez fundadores da Associação de Estudantes da ESBAP e, em 1977, recebeu o Prémio Fundação Eng.º António de Almeida (melhor aluno do curso de Pintura). Foi Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em 1971. Foi fundador e administrador do Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, tendo presidido às comemorações do centenário do nascimento do artista, no biénio 2017-2019, anos em que assumiu a Presidência da Instituição Em 1986, criou o Centro de Arte de São João da Madeira, que dirigiu durante 28 anos. Fundou também a Associação Cultural Alão de Morais e participou na criação do atual Centro de Arte da Oliva Creative Factory, sendo seu primeiro diretor. Coordenou a criação do Curso de Design de Calçado em São João da Madeira, introduzindo novas competências no domínio do design disciplinas ligadas á formação artística, como Desenho, Ilustração, Fotografia e Serigrafia, em colaboração e sob o patrocínio da Direção do Centro de Formação da Indústria do Calçado. Participou ainda na conceção da revista Orientações, dedicada à moda e ao design de calçado. Expôs no país e no estrangeiro. Nos anos 80 e 90 trabalhou com a Galeria Módulo no Porto e Lisboa. Expôs em diferentes espaços Institucionais durante a sua carreira. No estrangeiro expôs em Nova Iorque (World Trade Center), no contexto da Semana Luso-Americana, e em diversas feiras internacionais, como a ARCO (Madrid) e Basel (Suíça). Apresentou obras em cidades como Coventry (Reino Unido), Wiesloch, Bona, Estugarda, Heidelberg (Alemanha), Luxemburgo, Goa, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Belém do Pará, Niterói, Santiago do Chile, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Macau e Egipto. É autor de várias obras públicas em cerâmica e vitral, em igrejas de Ribeirão, Barcelinhos, São Lázaro (Braga), Penafiel, São João da Madeira e Valenciennes (França), bem como da intervenção artística no Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, e uma serigrafia alusiva ao Centro Histórico vimaranense como Património Mundial da Humanidade (2002).
ços urbanos vimaranenses? 320
Defendo uma política pública para a arte urbana que privilegie a qualidade. Devem ser convidados os melhores, independentemente da sua origem. O bairrismo não pode ser critério de seleção e, pior ainda, o compadrio ou a ignorância. A excelência artística deve ser o único princípio orientador. Embora a qualidade deva ser sempre o critério determinante, entendo também que as políticas públicas de arte urbana em Portugal devem privilegiar, em primeira instância, os artistas portugueses. Esta valorização não se confunde com protecionismo, mas representa um compromisso com a afirmação da criação nacional no espaço público, promovendo o reconhecimento e a projeção dos seus autores. Num país onde, por vezes, se sobrevaloriza o que vem de fora em detrimento do que é feito cá dentro, importa reforçar a presença de artistas portugueses nos projetos que intervêm e qualificam os contextos urbanos, sem prejuízo de uma abertura pontual a contributos internacionais que se revelem pertinentes. Certamente tens acompanhado algumas iniciativas artísticas vimaranenses. Como tens vivenciado essas realizações? Certamente que, ao longo dos últimos anos, Guimarães registou avanços significativos no campo das práticas artísticas e culturais. A Capital Europeia da Cultura, em particular, representou um momento determinante, traduzido na criação de estruturas como o CIAJG, o Centro Cultural Vila Flor, a Oficina, a Casa da Memória ou o CITEVE/CINTEXTIL. Estes equipamentos introduziram a cidade na linguagem da contemporaneidade e contribuíram para uma maior diversificação da oferta cultural e para o alargamento e fidelização de públicos. A cidade soube, nesse momento, abrir-se à inovação, esta-
Victor Manuel da Costa no seu ateliê
belecendo pontes com novos discursos ar-
tísticos e ganhando com isso uma nova centralidade cultural, no país. 321
No entanto, nem todas as iniciativas anteriores se revelaram estruturantes. Recordo, em particular, uma exposição internacional de arte contemporânea realizada nos anos 90 que, apesar da ambição inicial, não teve continuidade nem impacto duradouro. Faltou-lhe profissionalismo, visão estratégica e um verdadeiro enraizamento no tecido cultural local. A proposta, surgida na sequência do evento, de criação de um Museu de Arte Naif, como chegou a ser pensada nos bastidores, é reveladora dessa ausência de critério e de orientação conceptual. Neste contexto, não posso deixar de estabelecer uma comparação com o trabalho desenvolvido em São João da Madeira, onde, à mesma época, iniciei um projeto consistente com o lançamento do Centro de Arte local. Ali, definiu-se uma política expositiva e formativa articulada com um programa pedagógico estruturado, que incluiu a participação ativa de artistas de referência. Essa aposta deu frutos. A cidade conta, hoje, com dois centros de arte, vários museus e um público culturalmente informado e participativo. É precisamente este investimento contínuo, metódico e silencioso que considero essencial para o desenvolvimento cultural sustentável, e que Guimarães, tendo já dado passos importantes, deve continuar a aprofundar, sobretudo apoiando o seu riquíssimo tecido associativo. Como caracterizas o teu processo criativo? Trata-se de um processo de reflexão contínua sobre a forma como o mundo se revela através do olhar. A pintura é, para mim, uma intersecção entre a materialidade da pintura e a ilusão da imagem. A minha obra evoluiu de representações de paisagens globais, inspiradas pelas viagens, para temas ancorados no quotidiano: periferias urbanas, estaleiros, contextos industriais. Na última década e meia, surgem, no meu trabalho, formas geométricas que aludem a estruturas como contentores e empilhamentos de madeira, elementos que traduzo plasticamente através de sobreposições, transparências e ritmos visuais. É um trabalho que se constrói tanto pela acumulação como pela ocultação. Que ritos pessoais são imprescindíveis no teu processo criativo? A atenção ao mundo e aos fenómenos sociais é essencial. É fundamental saber ver e saber olhar, manter uma atitude informada, ler, refletir. Desde jovem tive essa preocupação. Lembro-me de, na minha juventude, ter lido obras de André Malraux, Edgar Morin, Lipovetsky, e outros autores que marcaram a minha formação humana e artística. 322
Participar em feiras de arte internacionais também tem sido importante. Proporciona contacto com outras realidades e linguagens. No entanto, é no silêncio do ateliê, no dia-a-dia, que tudo se transforma em pintura. Ao que julgamos saber, também algumas viagens influenciaram de sobremaneira alguns dos teus trabalhos artísticos. Queres falar dessas viagens artísticas? Durante os anos 80 e até ao final da primeira década deste século, as minhas composições foram fortemente marcadas pelas viagens: Índia, Macau, Singapura, Malásia, Egipto, Brasil, Cabo Verde, Nova Iorque, Chile, Argentina, entre outros. Nos últimos vinte anos, o foco mudou. Passei a trabalhar com referentes visuais mais próximos — estaleiros, áreas industriais, portos como Leixões, etc. Empilhamentos de madeira, armazéns, sinalética grá-
Exposições recentes e próximas Percursos Urbanos, Cooperativa Árvore, Porto (Julho–Agosto 2024); Viagens do Olhar, Fundação Júlio Resende (Setembro 2024– Janeiro 2025);
fica: tudo isto foi sendo transposto para a pintura, com
Exposição no Centro Cultural Vila Flor, Guimarães (Junho–Setembro 2025);
uma linguagem mais controlada onde o espaço pictó-
Exposição individual, Centro de Arte da Oliva, São João da Madeira 2026;
rico se apresenta com outra organização formal. A geometria passou a ser o suporte da minha pin-
Exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, em 2027.
tura, não como fim em si mesma, mas como grelha que organiza o espaço e a composição bem como o cromatismo. Como assinala Luísa Soares de Oliveira, no texto crítico que escreveu sobre a minha exposição, intitulado Geometrias Abertas, “já não é o limite da forma o elemento central, mas sim a função que essa estrutura geométrica impõe à cor e à própria materialidade da pintura”. A pintura torna-se, assim, um campo de dualidades: informal/geométrico, figurativo/abstrato, visível/oculto. A técnica revela-se nos processos de construção e desconstrução: camadas, adições, transparências, decapagens. A série “Underpainting”, resume bem esta ideia — aquilo que está por baixo ou por detrás, é sempre pintura. Na tua atividade profissional, exerceste durante 30 anos funções docentes na Escola Superior de Belas 323
Artes, agora faculdade de Belas Artes do Porto, mas também no ensino básico. Em tua perspetiva, como vai o ensino artístico em Portugal? Ao longo da minha atividade docente, estive envolvido na preparação de provas de acesso ao ensino superior artístico e mantive contacto regular com instituições de ensino nacionais e estrangeiras. Essa experiência permite-me afirmar que Portugal possui escolas de arte de grande qualidade, muitas delas comparáveis, em exigência e inovação, às melhores a nível internacional. Apesar disso, persiste entre nós uma tendência para valorizar desmedidamente o que vem de fora, muitas vezes em detrimento do que é produzido e ensinado internamente. Essa atitude revela, em certa medida, uma insegurança cultural ainda enraizada. Acredito que o ensino artístico em Portugal precisa de continuar a afirmar-se com confiança, apostando na solidez pedagógica, na investigação e na ligação ativa ao meio artístico contemporâneo. As bases existem; o desafio está em consolidar uma cultura de valorização crítica do que se faz no país. *** O artista plástico Victor Costa voltou ao berço onde nascera, em 1944, como filho pródigo da cidade, desta feita para estar presente, como sempre desejara, na exposição "Estrada Perdida ─ sob o rasto desenhado pela pintura", que seria inaugurada no Centro Cultural Vila Flor em 28 de Junho e esteve patente ao público até 20 de Setembro. Uma exposição com 53 trabalhos, em-
Sessão Solene de inauguração da exposição
bora não especificamente de retrospetiva, sob a curadoria de Ivo Martins, que ocupa praticamente todo o espaço expositivo do CCVF e que contou com a inúmera presença de amigos e admiradores, bem como da Câmara Municipal, em particular Adelina Paula Pinto, Miguel Oliveira e Domingos Bragança, que usaria da palavra para tecer elogiosas referências ao trabalho do pintor, um velho conhecido dos tempos de antanho, na rota afetiva e estrada de reencontro para Guimarães, a partir do eixo Pinheiro a Urgezes, onde residiam. 324
SEM TÍTULO - Acrílico sobre papel Arches 640 gr, 101x152 cm, 2024 Víctor Costa
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CASA DO PENEDO — Óleo sobre tela, 80x60 cm, 2024 Agostinho Ferreira
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ENCENAÇÕES — Acrílico sobre tela, 100x150cm, 2024 Madalena Macedo
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JOÃO PAULO SEM POMBA — Óleo sobre tela, 1997 Arménio Sá
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50 ANOS DE ABRIL — Técnica mista, esferográfica BIC, vinho verde, café e lápis de pastel sobre toalha de papel de restaurante, 60x60 cm, 2024 Rui Viana
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MEMÓRIA DOS VENTOS — Acrílico sobre tela, 60x70 cm, 2023 Ana Stingl
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SEM TÍTULO — Acrílico sobre tela, 100x100 cm, 2024 Délia Carvalho
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AFONSO EM ZAMORA — Aguarela sobre papel de 300 gr, 70x50 cm, 2024 João Soares
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O JARDIM DO JARDINEIRO SILENCIOSO — Guache s/ cartão preto de maquete, 50x70 cm, 2024 Filomena Bento
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DESENHO — Papel reciclado e azeitona, 70x50 cm, 2015 Óscar Guimarães
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PILAR DA FUNDAÇÃO — Memorial da Batalha de S. Mamede – granito e ferro – 320x100x50 cm, Rotunda do Reboto, S. Martinho de Candoso, Guimarães, 2025 Salgado Almeida - SAL
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AMORFISMOS METAFÓRICOS - Casting 27x36 cm, 2008 (Exposição Húmus 2025 – Espaço das Artes ECA USP, S. Paulo, Brasil) Teresa Almeida
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POESIA — Caneta BIC sobre papel de aguarela, 2025 Alexandra Jordão
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CUMPLICIDADES — Óleo sobre tela, 95x75 cm, 2014 Viana Paredes
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A propósito de CARLOS PAREDES Eduardo Magalhães, Musicólogo
A Guitarra, dita portuguesa Não é preciso conhecer muito sobre etimologia para reparar que «guitarra» deriva do termo grego «kithárα» (κιθαρα) que, praticamente por via erudita, evoluiu para a portuguesíssima palavra «guitarra». A antiguinha «Cítara», palavra aportuguesada do mesmo étimo da «guitarra», só modificou na fonética: de proparoxítona passou a paroxítona. Não me quero perder muito em questões de investigação musicológica sobre o instrumento, mas obrigo-me a lembrar que a utilização frequente de qualquer objecto, musical ou não, quase que o força a uma evolução natural, uma tendência para a sua melhoria, em paralelo com a sua utilidade. O conceito do aperfeiçoamento tem implícita a ideia de maior adequação ao seu manuseio. Estas poucas palavras impõem-se por causa da origem da conhecida como «guitarra portuguesa». O adjectivo «portuguesa» é absolutamente necessário para a distinguir da simplesmente «guitarra», a que umas vezes se acrescenta «espanhola» e outras vezes «clássica». «Espanhola» é um termo inadequado, sendo o mais apropriado, o termo «hispânica», já que o instrumento teve grande divulgação desde a Idade Média aqui na península ibérica, a antiga Hispânia. Coexistiu com um outro instrumento semelhante, com muito poucas diferenças, conhecido como «vihuela», onde se pode perfeitamente ver a origem do nosso termo «Viola». Andrés, o autor da obra «Diccionario de Instrumentos Musicales» desde a antiguidade até ao século XVIII, ensina que os cordofones se dividiam entre os de corda friccionada e os de corda dedilhada, podendo ser o mesmo instrumento tocado das duas maneiras (2009: p. 455). Esta «vihuela de mão» converteu-se numa alternativa ao «alaúde» nos finais do século XV, o instrumento da moda renascentista. Continuando neste autor, ele afirma que enquanto a «guitarra» era utilizada mais na música popular, a «vihuela» era-o na música artística. Pode ver-se aqui, talvez, o porquê do uso da denominação «guitarra clássica», ou seja, adequada à interpretação da música dita «clássica». Num artigo publicado em 2019, no número nove da Revista Portuguesa de Educação Artística, Isabel Rei 339
Samartim, professora na Universidade de Santiago de Compostela, apresenta um resumo histórico sobre as «violas/guitarras» insulares e peninsulares. Escreve que a primeira referência ao termo guitarra se encontra no século XIV, no Libro del Buen Amor, de Juan Ruiz, provavelmente arcipreste de Hita, em castelhano medieval, próximo ainda do galaico-português. Este poema, em três manuscritos, é de 1330 e o autor menciona dois tipos de guitarra: a latina e a mourisca. Filipe Pedrell, musicólogo espanhol dos finais do século XIX e inícios do XX, apresenta-as assim: «nome dado antiguamente a la guitarra española para non confundirla com la morisca que tenia gran semejanza com el Laud» (in Magalhães, 2023: 84 a 88). Regredindo até ao tempo destas duas «guitarras», a «espanhola tinha a configuração de um oito, enquanto a «mourisca» era em forma ovalada. Historicamente, não custa nada admitir uma possível origem da «guitarra portuguesa» nesta longínqua «guitarra mourisca», pelo menos na forma, enquanto a outra evoluiu para a actual «viola» (ou guitarra) que se aparentava com a «Cítara» renascentista. O musicólogo José Alberto Sardinha defende esta origem histórica para a «guitarra portuguesa» (Sardinha, 2010: 316). Mas há quem prefira aceitar uma origem mais recente num instrumento inglês da segunda metade do século XVIII, a «guitarra inglesa», introduzida em Portugal por colónias de ingleses residentes especialmente em Lisboa e no Porto. Uma voz autorizada da musicologia nacional que aposta nesta versão é Rui Vieira Nery na sua obra «Para uma história do Fado» (2017: 96). Por oposição, o guitarrista, compositor e construtor Pedro Caldeira Cabral coloca a sua origem no instrumento medieval «cítara». Tanto é assim que, quando escreve sobre o instrumento, mantém o nome original de cítara, de que é exemplo o recente artigo sobre Carlos Paredes, do Jornal de Letras, da semana de 5 a 18 de Fevereiro deste ano, onde não menciona uma única vez o termo guitarra. As guitarras de Coimbra e de Lisboa Coimbra foi a primeira cidade portuguesa com estudos universitários, aí instituídos nos finais do século XIII pelo rei D. Dinis. Deixando de lado a história do ensino universitário, mas avançando para uns séculos mais tarde, o século XIX, a vida universitária tinha colada a si uma aura de boémia. Isso até se reflectiu na literatura portuguesa. Lembremos Trindade Coelho e o seu livro de praxe coimbrã, In illo tempore, ou, mais recente, Fernando Namora, com a sua obra Fogo na noite escura, entre algumas outras mais. À juventude estudantil, como noutros jovens, está ligada, de uma forma natural, a vida romântica dos primeiros amores, o que acabou por resultar em demonstrações públicas desses amores traduzidas em 340
serenatas às damas dos seus arroubos. Para acompanhamento das canções amatórias, houve que recorrer aos instrumentos de uso popular como o era a guitarra e a viola, em conjunto ou em separado. A guitarra, como instrumento popular e de construção artesanal, variava um pouco consoante o fabricante a que podemos chamar «guitarreiro» ou «violeiro» ou, de uma forma mais abrangente a outros instrumentos, o termo francês de «luthier» (de luth, alaúde). Em Coimbra, nasceu uma família de guitarristas que se prolongou por quatro gerações. O mais velho deles é António Paredes, pai de dois filhos guitarristas: Gonçalo e Manuel Paredes, ambos excelentes músicos e compositores. Gonçalo Paredes, infelizmente, acabaria de uma forma dramática a cometer suicídio depois de ter tentado assassinar sua mulher. Foi pai de Artur Paredes e, por conseguinte, avô de Carlos Paredes. Coube a Artur Paredes, exímio guitarrista e também ele excelente compositor, introduzir importantes transformações na guitarra portuguesa diferenciando-a da guitarra de Lisboa. Para além de outras transformações que introduziu em conjunto com o fabricante João Pedro Grácio Júnior, aumentaram o tamanho do braço, elevaram a distância das cordas à madeira, através de trastes mais altos, e afinaram-na um tom mais grave que a correspondente guitarra lisboeta. Artur Paredes tocava-a baixando ainda mais meio tom. Carlos Paredes chegou a afinar a sua guitarra dois tons abaixo da afinação normal que é a de Ré, Lá, Si, Mi, Lá, Si. Ou seja, a afinação de Coimbra tem como nota mais grave o Dó (sol, lá, ré, sol, lá). Citando Octávio Fonseca (2025: 24), «(…) Artur Paredes arquitectou o novo som de Coimbra, radicalmente inovador, eruditamente popular e de inquestionável natureza coimbrã. (…) Os doutores da música bem podiam ter aprendido com Artur Paredes a perceber a importância cultural e a qualidade musical da boa música popular urbana». Não resisto o estabelecer um paralelismo entre esta família Grácio, de construtores de guitarras, e a de Carlos Paredes, a dos tocadores do instrumento. João Pedro Grácio, dos 12 filhos que teve, conseguiu dois que lhe herdaram a arte, João Pedro Grácio Júnior e Joaquim Grácio (Kim). Gilberto Grácio, filho de João Pedro Grácio Júnior, foi o último construtor da família Grácio. Nenhum dos seus filhos lhe quis aprender o ofício. Ou seja, Carlos Paredes foi o último guitarrista de quatro gerações e Gilberto Grácio foi o último construtor de três gerações. O Fado e a Serenata em Coimbra Já muito se tem escrito sobre Fado. E quando se fala em Fado, o termo remete-nos imediatamente para as tasquinhas lisboetas onde este género musical se enraizou e desenvolveu. Obras de autores conceituados 341
explicam-nos as origens do Fado lisboeta, concordando que teria a sua origem nas modinhas e no lundum brasileiros. Um destes autores e defensor desta origem chega do início do século XX, mais propriamente de 1903, José Pinto Ribeiro de Carvalho (que assinava «Tinop»), com a sua História do Fado. Mas não precisamos de recuar tanto para encontrarmos a obra do conhecido musicólogo Rui Vieira Nery, para uma história do Fado. Com interesses musicológicos nos mais variados géneros, o Fado praticamente cresceu com ele, já que seu pai, o guitarrista Raul Nery, foi acompanhador dos mais conhecidos fadistas portugueses, como Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues ou Carlos do Carmo, entre muitos outros. Abreviando, o fado lisboeta ganha o estatuto de canção urbana. Pinto de Carvalho (1903: 38) descreveo assim: «canta as contingências da sorte voltária, a negregada sina dos infelizes, as ironias do destino, as dores lancinantes do amor, as crises dolorosas da ausência ou do afastamento, os soluços profundos da desesperança, a tristeza dolente da saudade, os caprichos do coração, os momentos inefáveis em que as almas dos amantes descem sobre seus lábios e, antes de remontarem ao céu, detêm o voo num beijo dulcíssimo». Mas esta fatia social dos bairros populares de Lisboa arrasta através da boémia nocturna outro tipo de juventude pertencente à burguesia e mesmo à aristocracia, onde se pode incluir a quase totalidade da população estudantil. E esta boémia viciante vai contribuir para que esta canção da predilecção da noite entre nos hábitos e nos gostos dos estudantes que a transportam consigo para as suas instituições de ensino. Ora o grande polo do ensino superior reside na cidade de Coimbra para onde convergem jovens com origem nas elites especialmente urbanas de todo o país. É nesta migração académica que se vai desenvolver a canção coimbrã à qual alguns acham que, impropriamente, se chama fado de Coimbra. O hábito do estudante universitário cantar à noite, nos tais vagueios em bandos de amigos, já vem de muito atrás. O musicólogo Francisco Faria1, embora minhoto, mas a viver em Coimbra desde 1949, cita uma carta que D. João III escreveu ao reitor [D. Agostinho Ribeiro, da Ordem de S. João Evangelista], já que lhe tinham chegado queixas sobre esse «escandaloso procedimento». O monarca dirigiu ao Reitor uma carta, em 20 de Junho de 1539, na qual ordenava que o meirinho da Universidade fosse rigoroso para os estudantes dessa Universidade que, «não guardando o que cumpre ao serviço de Deus e meu, e à honestidade de suas pessoas, andam de noite com armas fazendo músicas e outros autos não muito honestos por essa cidade, do que se segue escândalo aos cidadãos e moradores, e pouca autoridade e honra à Universidade»2. Tenha-se 1 Irmão do grande compositor do século XX padre Manuel Faria. 2
In https://guitarradecoimbra.blogspot.com/2005/09/fado-de-coimbra-ou-serenata-coimbr.html
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em conta que a repreensão é quase contemporânea do estabelecimento definitivo dos estudos universitários em Coimbra. Este hábito artístico-boémio prolongou-se pelos séculos seguintes readaptando-se aos hábitos quer melódicos quer de textos e bem assim aos instrumentos acompanhadores. O termo Fado não é o mais apropriado para classificar a canção coimbrã. Este hábito estudantil, dos convívios musicais nocturnos, sugere o termo mais apropriado de serenata, se considerarmos o que o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António Morais (1949-1959, vol. X: 100) entende, como definição: Concerto vocal ou instrumental que se dá de noite em passeio nocturno ou debaixo de janelas de mulher. E é explícito o seu conceito interpretativo, quer de convívio quer de declaração de amor. A canção urbana lisboeta das tabernas e das casas de má fama trazidas pelos estudantes para Coimbra tiveram logo uma grande diferença na sua adaptação e desenvolvimento: enquanto o fado lisboeta era cantado pelas tais mulheres «da vida», o que trouxeram para Coimbra começou a ser cantado pelas vozes masculinas dos estudantes. E porque cresceu neste grupo social de elite, naturalmente que as suas letras acabaram por deixar de cantar a desgraça do «destino» (fado) e passaram a direcionar-se especialmente para a vida amorosa estudantil. Deste modo, a má conotação social atribuída ao fado lisboeta deixou de a ser na canção coimbrã. Carlos Paredes, um pouco de biografia Estas curtas linhas em torno do Fado e da guitarra vieram, naturalmente, a propósito do centenário do nascimento desta grande figura da música portuguesa, Carlos Paredes. Particularmente neste ano comemorativo, já apareceram textos escritos por quem conviveu e tocou com ele, sendo testemunhas privilegiadas do seu génio artístico. Destaco em especial a sua última companheira de música e de vida, a guitarrista Luísa Amaro, esta, sim, uma testemunha que pode falar com propriedade de conhecimento de Carlos Paredes e da sua música nos vinte anos em que se acompanharam um ao outro. Uma espreitadela à sua biografia, diz-nos que foi bisneto, neto e filho de guitarristas de Coimbra, António Paredes, Gonçalo Paredes e Artur Paredes, respectivamente. Também teve um tio-avô guitarrista, Manuel Rodrigues Paredes, ou seja, nasceu praticamente com o destino traçado. Nasceu em Coimbra onde viveu até aos 6 anos e mudou-se para Lisboa quando o pai para aí foi transferido. A mãe ainda o matriculou em violino e piano, mas a sua vocação era outra: acabou por desistir. 343
Em 1949, nascia eu em Mondim de Basto e Carlos Paredes começava a trabalhar como administrativo no Hospital de S. José, em Lisboa. No seu percurso de vida está registada uma prisão às mãos da polícia política, a PIDE, em 1958, pela sua militância no Partido Comunista Português. Esteve em Caxias ano e meio e, por essa razão, um ano após ser libertado, seria expulso da função pública, onde apenas seria readmitido após o 25 de Abril. São escusadas muitas palavras sobre a genialidade de Carlos Paredes. Continua a ser um expoente máximo da guitarra portuguesa, dificilmente ultrapassável. A par de músico que chamaríamos de profissional, nunca abandonou o emprego no Hospital de S. José: talvez por uma questão de segurança económica. É dele esta frase: «amo demasiado a música para viver dela». De dois casamentos que teve, resultaram seis filhos, nenhum deles músico. Por isso, um dia em que o transportei do Porto para Viana do Castelo, na conversa que mantivemos na viagem, lamentava esse facto de não ter continuidade em nenhum dos filhos. A postura de Carlos Paredes a tocar guitarra impressionava. Ao assistir-se, era difícil saber onde acabava o músico e começava o instrumento. Como que se enrolava em si mesmo com a guitarra no meio: eram um só; impressionava. À semelhança de Zeca Afonso, que definhou nos últimos anos com a doença conhecida como «esclerose lateral amiotrófica» que, lentamente o derrubou até à morte, também a Carlos Paredes lhe coube uma doença degenerativa, a «mielopatia», uma doença na coluna cervical que lhe calou a guitarra nos últimos onze anos de vida, nove deles internado. Luísa Amaro, a sua terceira companheira, de vida e de arte, foi o derradeiro amparo que teve nos seus últimos anos: visitou-o diariamente e devotadamente nesta sua doença prolongada. Bibliografia Carvalho, José Pinto Ribeiro, 1994 – História do Fado. Lisboa: Publicações D. Quixote (colecção «Portugal de Perto»). Correia, Avelino Rodrigues, 2014 – “Do Choupal até à Lapa” Etnografia do constructo da canção de Coimbra. Coimbra: Tese de Doutoramento em Ciências Musicais – Etnomusicologia apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Faria, Francisco – “Fado de Coimbra” ou Serenata Coimbrã? Tentativa duma definição in https://guitarradecoimbra.blogspot.com/2005/09/fado-de-coimbra-ou-serenata-coimbr.html Fonseca, Otávio, 2025 – Carlos Paredes, A Guitarra de um Povo. Vila Verde: Tradisom Produções Culturais, Lda.
Magalhães, Eduardo, 2023 - A Música nas Coleções do Paço dos Duques de Bragança 344
Nery, Rui Vieira, 2017 – Para uma História do Fado. Lisboa: Corda Seca & Público Oliveira, Ernesto Veiga, 2000 – Instrumentos Musicais Populares Portugueses. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Sardinha, José Alberto, 2010 – A Origem do Fado. Vila Verde: Tradisom Produções Culturais, Lda. Silva, António Morais, 1949-1959 – Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Confluência (12 volumes)
Bibliografia online http://capasnegras.com/historia_fado.html https://accessibleportugal.com/wp-content/uploads/2022/02/brochura-coimbra_web.pdf https://guitarradecoimbra4.blogspot.com/2014/04/goncalo-paredes.html https://guitarradecoimbra4.blogspot.com/2015/03/cancao-de-coimbra-um-mero-conceito.html https://www.salaomusical.com/pt/blog-instrumentos-musicais/431_fado-de-lisboa-vs-fado-de-coimbra-guitarras-diferencas-e-semelhancas.html https://www.museudofado.pt/noticias/oficina-de-construcao-de-guitarras https://www.jose-lucio.com/Pagina3/Guitarreiros.htm https://observador.pt/especiais/construir-uma-guitarra-portuguesa-a-arte-que-passa-de-mao-em-mao/
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GUIMARÃES ROCK REVIVAL – Passeio com a música Rock e Pop feita em Guimarães desde a década de 1960. António José Castro
“o passado é um sítio muito giro para visitarmos, mas não para vivermos” (Júlio Isidro)
Nos anos 50 e mais para trás a música era feita em tertúlias, serenatas, tabernas e bares, mas também em convívios de rua. Mas num âmbito mais “pop”ular, havia o que ouvia e vi chamar de rifas, que eram bailaricos de rua ou terreiros, organizados pelas tabernas, com a música transmitida através de cornetas dependuradas em postes de madeira, e em que havia as tais rifas em que os números sorteados tinham direito a prémio, tudo apresentado por um pregoeiro. E assim se faziam muitos engates nos tempos dos nossos avós e bisavós. POP, tal como a música passou a ser titulada a partir dos anos 50 e 60. Como grupo musical, a mais antiga referência em Guimarães terá sido O Ritmo Louco, que também deu um ar de mudança na passagem dos anos 50 para os anos 60 e para os novos sons que iam chegando de fora, No CAR houve sempre abertura para a criatividade. Década de 60 Há uns meses publiquei numa rede social uma foto partilhada por um dos músicos mais antigos em atividade, em Guimarães, Aníbal Leite. Foi uma publicação que teve algumas reações de quem também anda a pisar palcos há muitos anos, cá pelo burgo, e isso levou-me a escrever este texto. Isto não é um artigo enciclopédico, mas aborda a música pop/rock vimaranense que me roçou de perto, ou até em que eu me esfreguei. O pop/rock/ié-ié dessa década, foi influenciado pelos circuitos internacionais mais musicais e as listas de vendas de singles e ep’s, como os Estados Unidos (Billboard) e a Inglaterra (New Musical Express), assim como a França (Tubes e Salut les Copains), a Itália (festival Sanremo) e o Brasil (Jovem Guarda). Estes movimentos musicais e de comportamentos criaram nos jovens portugueses alguma apetência pelo ser Ié-Ié, não só na música, mas também na moda de vestuário, penteados e maquilhagem. As Associações Recreativas, as 346
atividades juvenis nas paróquias, os Comerciantes de instrumentos, as Escolas de Música, assim como alguns amigos com algum poder económico e que não tiveram que entrar no mundo laboral com 12 anos – no meu caso iniciei a atividade laboral em julho de 1965, com essa idade. Pop, Fado, Conjuntos Típicos passam a ser uma forma de convívio para a malta nova, não só para quem tocava, mas também para os amigos que assistiam aos ensaios e espetáculos. Claro que ainda havia os que preferiam dar uns chutos na bola, beber a malguinha ou a Cristal com os tremoços ou amendoins, na taberna, ou então ir às moças, que desempenhavam o papel de musas para as suas habilidades. A maior contrariedade era a ida para a tropa e a quase certa ida para a guerra deixando
António José Castro, Rock Revival 70’s, em Convívio Associação, 25/2/2017
ficar tudo na mala entre três a 4 quatro anos. O meu primeiro contacto com a música ao vivo foi em 1963, tinha então 10 anos, e foi no ginásio da Escola Industrial; o grupo residente acho que terá sido Os Rockers. Na Escola Industrial faziam-se umas festas com música ao vivo, e a malta divertia-se com os novos ritmos chegados lá de fora como o twist, o rockabilly, guitarradas à Shadows e o rock’n’roll e tudo misturado com os sons mais nacionais como o “Cuquinho da Ribeira” da Maria Albina, e toca a abanar o capacete. Na escola tinham lá instrumentos musicais e havia a tal animação que não existia no Liceu, não sei se os músicos eram de grupo regular ou avulso. O CAR, na Rua de Santo António, era o espaço público para a malta nova começar a dar uns toques nos instrumentos elétricos, como as guitarras, os órgãos e as baterias, mas também existia a FNAT, na Rua de Santa Maria, de âmbito mais popular, em que havia lugar para todas as músicas e todos os candidatos a músicos. Afinal era por lá (Rua de Santa Maria e Praça de Santiago) que existia a cultura de rua, numa mistura de tascos, de conversas ao pé da porta, putos agandulados, fadistas e guitarristas e até flamenco, ou música pop africana à Duo Ouro Negro, com miúdos na idade escolar, conjuntos típicos como O Sol Dourado e tudo bulia, à mistura com os matraquilhos e bilhares, sueca, orelhas e bisca ou damas. 347
Era na FNAT que os putos da Costa como eu passavam algum do tempo aos domingos. Lembro-me da minha primeira vez em palco, tinha então de 16 anos. Foi na FNAT, na Rua de Santa Maria, que alguém se lembra de que eu também podia colaborar como vocalista. Estávamos no início de 1969, eu tinha na altura 15/16 anos, e foi a tremer que subi ao palco em Urgezes, com a sala lotada. Começaram os instrumentos a tocar, os músicos já com traquejo e eu fui-me acal-
(Staga, na Fnat. Foi aqui que eu comecei em 1969. Este grupo vinha de 67 ou 68 – esta foto apesar de legendada em publicações nas redes sociais como de 68 será já de muito mais tarde (talvez 75), porque o Zecas já está crescido atrás do teclado)
mando e lá fiz a minha estreia como vocalista rock a cantar os Beatles, Roberto Carlos, Adamo, Moody Blues, “Monia” de Peter Holm, Animals e outras canções que “estavam a dar” para uma sala totalmente lotada. No fim, com toda a assistência a aplaudir e até com direito ao raminho de flores, percebi que tinha passado no teste. Entre os músicos estavam o Aníbal Leite (atualmente um dos animadores dos bailes da Associação dos Reformados), e o grande guitarrista e saudoso Santana. Mas subir aos palcos, ser cantor, receber aplausos não era coisa que me emocionasse demais e limitavame outras vontades que tinha! O horário de trabalho não dava jeito nenhum; trabalhava das duas às dez, incluindo sábados, o que retirava tempo para qualquer outra coisa, até para participar nos ensaios. Em 1970, e fruto dessa minha “experiência”, um grupo de amigos resolve fazer um conjunto de rock, na Costa, com a particularidade de nenhum saber tocar o que quer que fosse (eu, o Armando, o Berto, o Abel). Organizamos uma festa de S. João com venda de rifas para arranjar uns trocos para adquirir os instrumentos, o que deve ter rendido muito pouco e do pouco que rendeu, como na residência paroquial havia um espaço de convívio para jovens, cedemos o pouco provento à paróquia e talvez o Padre Adelino tivesse pensado em comprar os tais instrumentos. E assim se cria o conjunto da Juni. O Guilherme Ribeiro tinha alguma formação musical aprendida no seminário, o Zé Maria tocava umas coisas, o Sidónio passou a cantar porque eu desisti mesmo 348
antes de aquilo começar. A Rosinha, a Lúcia e a Mimi também cantavam. A Juni passou a ter muitas atividades recreativas, culturais e desportivas (este aparte sobre a Juni foi para aproveitar para dizer que Osmusiké tem algo desse início da Juni, Jorge do Nascimento, Emília Ribeiro, Rosa Carvalho tiveram lá o seu berço associativo e de ação cultural). Mas passemos à frente ou atrás porque há coisas mais relevantes no rock e pop vimaranense, nessa década de 60. Na segunda metade dos anos 60, começam a aparecer músicos e grupos com jeito para a coisa como os Kings e os Bramas, assim como o SO4H2. A ação dos músicos era baseada em covers do movimento pop internacional e com as canções dos tops. Algumas referências nos anos 60: CAR, FNAT, 20 Arautos, Bramas (Arménio Vale e José Alberto Rodrigues), Kings (de Vizela), Skaters, (Francisco Teixeira, Djalme Silva, Rocker’s, Santana (guitarrista), SO4H2 (Domingos Guimarães e Eduardo Ferreira), Filipe Rodrigues (SO4H2, Atomium e Apocalipsis), José Ferreira, (SO4H2 e Delta 4), entre muita juventude. Década de 70 Uma década de mudança, com mais emoção, informação, formação musical e com uns trocos já mais democráticos para a aquisição de material ou então com as associações recreativas a não serem só desporto, mas também outras atividades. O Eduardo Ferreira terá sido o grande responsável pela dinamização do pop rock em Guimarães, pela sua qualidade como músico, primeiro no SO4H2 e, mais tarde, nos Atomium, mas também pelo seu negócio na comercialização e aluguer de instrumentos. Dava a possibilidade a qualquer um de experimentar os instrumentos que estavam por ali e, se tinham jeito para aquilo, podia-se pagar a pronto ou a prestações ou então, dizia ele, tocais num grupo meu. Uma garagem, uma loja, um quintal, tudo seriam espaços úteis para a malta nova fazer barulho e irem lá buscar os instrumentos do Eduardo. Fui a alguns desses sítios até porque iam surgindo convites para fazer parte de alguns projetos e porque andavam por lá alguns conhecidos, mas a que nunca aderi muito por falta de tempo e também por não ter muita vontade de andar nos palcos e muito menos em ensaios e porque também chegou para mim o tal serviço militar. Outro gestor musical foi Gaspar Vilas, na organização de eventos, como a Feira Popular no Campo de Mamede. 349
Afonso Costa era mais dedicado aos fados, mas, na sua casa, surgiu o rock em finais dos anos 70 princípio dos 80, em que apareceram músicos que, ainda hoje, continuam ativos e com bastante qualidade. Ainda há muitos músicos dos anos 70 a fazer bons momentos de convívio e espetáculos, sendo até aqueles que são mais ativos, mais seguros, alguns até são profissionais desde há muitas décadas e são garantia de um bom espetáculo, tocando temas que são os grandes hinos do rock, fazendo desses encontros e espetáculos recordação e emoção. Alguns ainda sobraram da década de 60. Há poucos anos participei num rock revival, no Convívio, e a malta que tocou era de bastante qualidade, apesar dos cabelos brancos, continuam a tocar os anos 60’s e 70’s. Entre os músicos que já vieram dos anos 60 e que se mantém bem ativos destaco o Filipe, excelente voz, apesar dos 70 e… muito bem em qualquer área musical, que tem feito performances com os Guimafloyd, espetáculos revivalistas ou ligados ao cinema com o Cineclube, e haverá outros que se vão entretendo por aí em convívios, bares e festas de amigos. Falando então da tal década de 70, no princípio de 71, sou convidado a fazer testes pelo Zé Ferreira e Maurício, na Rua de Camões, para um novo grupo, Delta 24; não sei que avaliação fizeram de mim, mas eles procuravam uma voz meio rouca (à John Fogerty dos Creedence), e eu era mais para o soft rock, mas a coisa nunca seria para valer pela minha indisponibilidade (e falta de vontade) e também pouca idade e ainda para não atrapalhar outras coisas próprias da idade da adolescência. Mas a música, rock ou até folk, estava bem cá dentro. O Afonso Novais, meu vizinho, uma espécie de irmão mais velho, chegou da tropa, em Moçambique, e na beira da estrada, na Costa, tínhamos um reportório na base dos cantores de protesto nacionais, José Afonso, Adriano, Fanhais, Freire, Zé Mário e Sérgio Godinho (isto ainda antes do 25 de Abril), dos espanhóis Paco Ibañez e Patxi Andion e dos folks americanos Dylan, Joan Baez, Cat Stevens, Leonard Cohen, Simon & Garfunkel e outros, do escocês Donovan para além de alguns rocks acústicos. Entretanto junta-se o Aprígio e fomo-nos entretendo como amigos e músicos de ar livre. Voltamos a estar ativos na passagem dos anos 70 para os anos 80 com um grupo a que chamamos Improviso com o género musical acústico de canções de protesto e folque music (foi o berço musical de Manuel de Oliveira que com quatro anitos lá pegava na viola para nos acompanhar nos intervalos das conversas do pai Aprígio, nos macanudos, ou na casa do Afonso, acompanhados por umas febras e uma malguinha de tinto verde, no Vilar, na Costa, bem perto da Penha). Passamos a estar sempre juntos, na rua, no parque do castelo ou nalgum tasco, mais o Carlos Jorge Pitada, mas a coisa acabou, pelo menos para mim, com a entrada para a Rádio, em 1986, e o Improviso passa a Dimproviso e foi referenciado na capa de um álbum que chegou ao 350
primeiro lugar das listas de vendas em Portugal, “Muxima”. Voltando a histórias do rock cá pelo burgo, na primeira metade dos anos 70, surge na zona do parque da cidade, então denominado piscinas, um ou dois festivais num insuflável, em que participaram algumas bandas, umas emergentes, outras vindas de fora e credenciadas. Estiveram presentes nomes já conhecidos à escala nacional. Num desses festivais estou a lembrarme dos anárquicos Ex-Maga em que acho que ninguém sabia tocar, mas que se divertiram a fazer ruído. Ponto positivo foi o
Foi montado um Insuflado na antiga zona das piscinas onde se realizavam festivais de Música Pop sob a organização da Casa da Marcha
aparecimento de um grupo vimaranense que criou bases para um interesse popular na música rock que se fazia por cá, que foram os Rock Demons Group em que tinha entre os músicos alguns amigos, como o Celestino (o brasileiro, como o conhecíamos na Costa), o Albano Pitada, que abalou para Espanha, e de quem perdi o rasto, o Morais, o Agostinho, o Bino e outros de que não me recordo o nome. Recordo um episódio, em 1975, numa ida Porto-Lisboa, eu, o Morais e o Agostinho (que esteve mais tarde no Apocalipsis). Resolvemos rockalhar no comboio com as canções dos pesados Uriah Heep, Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin e instalou-se a confusão, primeiro na carruagem, e depois no comboio todo a ponto de, no Entroncamento, nos terem dado ordem de silêncio com a ameaça de o comboio ficar mesmo ali até as autoridades tomarem uma decisão. Voltando a falar de grupos, em Guimarães, alguns sobraram dos anos 60 e ainda baseados nas covers das canções dos Beatles, Stones, Creedence, Bee Gees e outros hits de ocasião, mas nesse final dos anos 60 e princípios dos anos 70 dá-se o maior movimento de música rock e com uma multiplicidade de géneros como o beat que tinha sobrado dos anos 60, mas também o hard rock, jazz rock, rock progressivo e sinfónico, rock alemão, glam rock, funky soul e muitos outros. Então, os novos músicos que vão aparecendo por cá mais do 351
que fazer um “greatest hits” para o seu reportório já optavam por um estilo, em particular. O Abílio Vilaça teve os Shame que vi em Creixomil, em 1975. Em 1978, o Vilaça esteve em minha casa, mais o Zecas (que tinha tocado comigo em Fermentões), e outros para me convidarem para um novo grupo a que iriam chamar Banda do Sarilho. Eu, acabado de casar, como sempre, não tive vagar nem vontade para me meter em músicas a não ser a que ouvia em casa através da rádio, gira-discos ou cassetes. Ainda em meados dos anos 70, o Xico Mineiro, meu vizinho da Costa e tocador de órgão na Igreja dos Santos Passos, que adaptava o rock progressivo dos Emerson, Lake & Palmer ou dos Yes às letras religiosas e aos coros dos cantores da missa, convida-me para fazer parte de um grupo, Cyprus, que ensaiava e utilizava os instrumentos da casa do povo de Fermentões. Eu já era casado e alguns dos outros miúdos teriam 15 ou 16 anos. O Zecas, um dos maiores valores na música em Guimarães, com uma carreira musical e profissional de várias décadas, repartidas entre televisão, música popular, jazz e blues e todo o género de rock, César Machado, um erudito em música enquanto executante, mas também estudioso, diretor associativo, cultural e até a escrever argumentos que deram uma série de televisão, neste ano de 2025, sobre o 25 de Abril3. Estes dois mocitos estiveram comigo para além do Porfírio, mais o Manel Novais e os saudosos Barreto e Mineiro. O reportório era temático, o tal rock progressivo com Barclay James Harvest, Genesis, Pink Floyd, Yes, Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, até Beatles e Stones etc., alguns blues e outras coisas. Fizeram-se alguns espetáculos e, meses depois, fui tratar de outras prioridades na minha vida, até porque casado de fresco e, segundo a minha avaliação, apenas cantava bonito. Os outros companheiros lá se foram entretendo com a música, até porque eram bastante mais novos do que eu e tinham muito mais jeito para a coisa, o que nalguns casos se veio a comprovar depois (eu nem sabia como pegar na viola). Ainda na década de 70, surgem os Apocalipsis, um projeto ousado, variando entre o jazzrock e 3 A expressão "Daqui Houve Resistência" refere-se à série televisiva da RTP que retrata a resistência antifascista em Portugal, especialmente
na região de Guimarães, antes do 25 de Abril de 1974, baseada no livro organizado por César Machado e editado pelo Cineclube de Guimarães, publicado em 2014, onde participaram muitos homens e mulheres de Guimarães com testemunhos marcantes. A série destaca a vida de pessoas reais e movimentos menos conhecidos que contribuíram para a revolução. A série "Daqui Houve Resistência" foi exibida na RTP em abril de 2025 e explorou os sacrifícios e a coragem de operários, estudantes, militares e ativistas políticos que desafiaram a repressão do regime de Salazar. A série destacou também a importância da luta sindical e da mobilização popular na resistência antifascista. A série é baseada em fatos e personalidades reais e pretende mostrar que a mudança não surgiu apenas de um ponto central, mas de vários locais do país, onde pessoas ousaram resistir. A produção da série teve o apoio de várias entidades, incluindo o Ministério da Cultura, o Turismo de Portugal e a Associação 25 de Abril. Em suma, "Daqui Houve Resistência" é uma série que busca dar voz aos esquecidos da história e que contribui para a compreensão de um período importante da história de Portugal.
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aventurando-se nos sintetizadores, tiveram até a edição de um single. Foram os tempos do tal movimento do Rock Português, muito popular, e uma quantidade de grupos e músicos, mas que, em Guimarães, não teve grande impacto, dando apenas continuidade ao que se fazia no final dos anos 70, com os Consumo a serem uma espécie de Top Of The Pops. Salientaram-se nesta década: CAR, FNAT, Associação Artística, Transmontanos, Eduardo Ferreira, António Santos Simões, Atomium, Jorge Barros, Quim Pastel, Vilaça (Sarilho, Consumo, Guima Floyd), Zé Silva (Zecas), César Machado, e tantos outros, dezenas mesmo. Décadas de 80 e 90 Com o aparecimento das rádios locais começa a haver um conhecimento maior do que se passava por cá, quer no desporto, no conhecimento de festas e romarias e notícias do que de bom ou mau se fazia por cá. Alguns dos músicos foram destaque no movimento jovem que, desde muito novinhos, tinham estado comigo na abertura da Rádio Guimarães de que tinham sido fundadores, sob a direção da Rosa Guimarães, Zé Paredes, Luís Coutinho, Zé Guedes e outros que ainda na puberdade se meteram nas aventuras musicais, quer em rádio quer a tocar música. Só mais tarde é que vi os seus nomes na imprensa local ou em livros. Guimarães começou a estar muito ativa com projetos culturais e recreativos, na passagem dos anos 80 para os 90. Para além do Movimento Jovem, houve a Euro Arte e também as Quartas-Feiras Culturais no Teatro Jordão. Recordo a minha participação a 8 de março de 1989 com cerca de mil pessoas no velho Jordão. A Praça de Santiago e todo o centro histórico ganha vida com a abertura do El Rock e outros bares que, entretanto, passam a ser espaços musicais e de convívio entre os jovens. O movimento Jovem faz criar uma dinâmica rock juvenil muito intensa e com alguns músicos e grupos a ter um reconhecimento nacional. 353
António José Castro, nas quartas-feiras culturais, no Teatro Jordão - 08/03/1989)
Cio Soon (coletanea da revista Pro-Musica), Blue Orange Juice (participação no Festival Paredes de Coura), Barca do Inferno (Rock Rendez-Vous), Fragmentos e outros tiveram talvez o período mais participativo da música feita em Guimarães, com músicos locais ou nacionais e até internacionais, com o centro histórico na moda e com animação permanente, fosse em bares, fosse nos Encontros de Música Tradicional Europeia e em muitos outros eventos culturais e recreativos como cinema, Jazz, fados, teatro, danças, Nicolinas (Maçazinhas) e até as varandas floridas que embelezaram definitivamente as fachadas do centro histórico. Muitos espetáculos divertidos e de muita participação popular, para além da animação dos bares El Rock, Tás-
José Silva (Zecas), Abílio Vilaça, Zé Manel e António José Castro (25/2/2017 – Rock Revival 70’s, em Convívio Associação)
quilhado, etc. A Casa do Arco abre-se para espetáculos musicais na sua horta ou jardim. Lembremos, desta época: Rodrigo Areias (mais tarde cineasta), Ricardo Ferreira – Formiga (Cio Soon, Blue Orange Juice), Luís Almeida – Lilly Beat (a Barca do Inferno), Rui Afonso, Luís Lisboa, Miguel Ribeiro (Cio Soon), Luís Coutinho, Zé Paredes, João Guedes, Rosa Guimarães, Casa do Arco, Pavilhão Xico Holanda, São Mamede Cae, Multiusos, Jorge Haendel (Submarino e espetáculos), Velosos (Carlos / Jorge / Marco). No período próximo da capital europeia da cultura (CEC), mas sem nada ter a ver com o evento, há um movimento musical pop rock e até folque intenso em Guimarães com bastantes bandas com sons e performances bem distintas e com músicos que se distinguiram pela sua qualidade e com um reconhecimento amplo. Entre eles, Let The Jam Roll, Virar de Esquina, Xicara, Gnomon (da vizinha Joane), etc. O Projeto Associações ao Coreto deu vida ao Jardim da Alameda. Por fim, destaque ainda para projetos mais ou menos recentes e com atividade internacional de Captain Boy (Pedro Ribeiro) e Gobi Bear (Diogo Alves Pinto), sem esquecer o Manel Oliveira, que posso com alguma vaidade dizer que, com apenas quatro anos e uma viola maior do que ele, acompanhava-me a mim e ao pai Aprígio. Refiro também: barco rock fest, rock in rio febras, manta (ccvf), plataforma das artes. 354
MURMÚRIOS À SOMBRA DA PENHA4 – A música em Guimarães nos alvores do rock Paulo Coimbra Martins Acho que nos inícios dos anos 60, todos os jovens queriam tocar, porque apareceram na altura os Shadows, os Beatles e outros grupos, embora a informação que cá se recebia fosse reduzida e, sobretudo, atrasada. (...) Eu diria que era a vontade de tocar Rock. As guitarras eléctricas vieram proporcionar essa possibilidade. (Os Kings, em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 227)
A centralização da vida política, económica, social, cultural e artística do país na actual sede de governo5, é um estigma que tem assolado e atrasado o desenvolvimento do território nacional no seu todo, atravancando-o ou anulando-o, facto que, além de ainda hoje perdurar, demonstra sinais preocupantes de só muito recentemente ter abrandado, embora não demonstre sinais de ter terminado. Este fenómeno ter-se-á desenvolvido, agravado e acentuado aquando da epopeia dos Descobrimentos, altura em que Lisboa, além de
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A epígrafe outorgada a este artigo, baseia-se na de uma gravação d’Os Três do Ritmo, trio de guitarras ligado ao Círculo de Arte e Recreio. Efectuada em 1961, intitulava-se «Murmúrios da Penha», e de quem falaremos mais adiante. A esta, juntou-se o título da seminal colectânea «À Sombra de Deus - Braga 88», editada em 1989 pela Câmara Municipal de Braga. Reflectindo um pouco da atmosfera que se vivia nessa cidade na altura - e até mesmo mitificando-a e impulsionando-a -, viria a revelar-se de grande importância para o desenvolvimento e afirmar da cena musical vimaranense, imediatamente após o seu lançamento, quer pelas sonoridades nela divulgadas, quer pela idéia que lhe esteve subjacente, quer - e acima de tudo - pelas esperanças que acalentou no movimento local contemporâneo, que viu neste acto a possibilidade de os participantes nos Movimentos Jovens (que iam de vento-em-popa nesse mesmo período temporal) poderem vir a ter essa mesma oportunidade. 5 É pouco conhecido (e até mesmo divulgado ou promovido) o facto de que Lisboa - e ao contrário da maioria das capitais mundiais - não ser possuidora de um único pergaminho ou documento que a oficialize como capital de Portugal. Apesar de a côrte nela se ter estabelecido em 1255, no reinado de D. Afonso III, nunca nenhum édito ou legislação foram promulgados no sentido de a declarar como sede do poder do país. O crescimento exponencial nela verificado, após a sua Reconquista em 1147, deveu-se, em grande parte, às condições excepcionais do porto erigido no seu estuário (o que a converteu num centro de comércio importante, numa rota de passagem obrigatória entre o norte e sul da Europa, o que, por sua vez, a tornou num foco de atracção populacional cada vez mais significativo), assim como ao facto de estar localizada - grosso modo - no centro do território adquirido até ao fim desse processo de expulsão dos muçulmanos, em 1249. Contudo, e tal como o anteriormente sucedido com Guimarães e Coimbra, a deslocalização do rei e da sua comitiva (bem como de todo o aparelho burocrático-administrativo que o acompanhava) para essa urbe, será o factor catalisador de aí se concentrar e centralizar o poder. Como curiosidade, refira-se que, no tempo do Estado Novo, estava-se a pensar transferir a sede do governo para a Cidade Berço, num regresso às origens que fecharia o círculo do Renascer pátrio...
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centro administrativo do país, também assumiu o papel de principal porto nacional e até mesmo europeu6. As próprias doutrinas absolutistas, desenvolvidas nos séculos subsequentes, em nada ajudaram no alterar da situação, aliadas que se encontravam ao permanente fluxo das riquezas que provinham das colónias, e que não levavam ao criar de políticas que visassem o interesse no desenvolvimento dos mais variados aspectos da vida económica (e não só) nacional. As acções culturais resultavam mais de arrojos e iniciativas pessoais do que de outra coisa qualquer, ou, então, de formas de entretenimento criadas para os grandes salões da família real, nobreza e clero. A estas, juntaram-se as patrocinadas pela emergente burguesia urbana, que tentava assim recriar os saraus das outras classes privilegiadas. Embora as diferenças entre os diversos estratos sociais fossem notórias – e, na maior parte dos casos, intransponíveis –, a maior parte dos considerandos culturais visava a ostentação que, tanto o ouro, como o dinheiro, permitiam que se usufruísse7. Acresça-se, a estes factores e mentalidades, o facto de Portugal ter entrado na órbita da Inglaterra, experienciando uma submissão política, militar e económica8, especialmente após a Restauração da Independência (em 1640), dependência essa que destruiu qualquer tipo de possibilidade de desenvolvimento das economias e oficinas locais e regionais. Esta subordinação a outros interesses, contribuiu, não apenas para o contínuo atrasar da nação, como, e ao mesmo tempo, para o desinteresse e laxismo que passou a fazer parte do quotidiano nacional, uma vez que tudo se focalizava apenas num centro, em torno do qual gravitava todo um conjunto de periferias. Tendo tudo isto em conta, a cultura, nas suas mais diversificadas manifestações, nunca se tornou numa verdadeira prioridade, excepto como passatempo das elites, onde também funcionava como uma espécie de demonstração da superioridade do seu estatuto social. Com isto não se quer dizer que não existisse uma
6 Não obstante, funcionava mais como uma mera escala para os produtos provenientes das terras recentemente adquiridas, do que como um
pólo concentrador de riqueza, uma vez que a práctica daquilo que se convencionou chamar de Política de Transporte, tornava a cidade em apenas mais um ponto de escala para os outros portos europeus, uma vez que a quase totalidade dos ganhos da África e Oriente servirem apenas para comprar e pagar artigos de luxo, produtos manufacturados ou bens de primeira necessidade que por cá não eram produzidos. 7 Aliás, qualquer esforço para desenvolver as indústrias manufactureiras (como as do Conde de Ericeira ou do Marquês de Pombal) só se verificava em períodos de crise, alturas em que os produtos coloniais escasseavam ou baixavam de preço nos mercados internacionais, até porque outros estados europeus desenvolveram, entretanto, os seus próprios impérios coloniais. Mal terminavam esses desequilíbrios na balança comercial, retornava-se às importações (o que, aliás, em muito provocou ou acelerou o desenvolvimento de outras nações, que vieram a se tornar em concorrentes), preterindo-se aos artigos por cá feitos os que lá de fora vinham, como se pode conferir e complementar com a informação da nota-de-rodapé anterior. 8 À qual viria a ser acrescentada a cultural, mais para a segunda metade do século XIX, pese embora a França permanecer, até bem dentro da centúria seguinte, como a luminária orientadora dos factores civilizacionais e artísticos por cá manifestados.
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cultura popular, baseada na preservação e manutenção empíricas de tradições milenares. Contudo, a iliteracia imperante ajudava a que outras formas de expressão artísticas, menos telúricas e mais arredadas das vivências do dia-a-dia, não fossem abraçadas ou mesmo dadas a conhecer. Tal situação encontrou profundos reflexos durante o Estado Novo, que tentou monopolizar as expressões artísticas e centralizar as formas da sua difusão, ao mesmo tempo que pretendia criar, em Lisboa, uma metrópole que fosse o reflexo das Glórias do Império e da História da Nação. Resumindo, as políticas absolutistas, desenvolvidas nos séculos subsequentes à Era das Descobertas (especialmente após 1640, e aliadas ao fluxo de riquezas das colónias), o centralismo ditatorial do Estado Novo e a submissão económica (e político-militar) à Inglaterra, tornaram Portugal numa mera paisagem bucólicopastoril que ornamentava os arredores da capital, e na qual quaisquer impulsos de desenvolvimento e industrialização (mesmo que manufactureiros) eram nados-mortos, desde a sua incepção. Todos estes condicionalismos, que temos vindo a mencionar, não constituem aspectos de somenos importância, uma vez que se inculcaram e perpetuaram nas mentalidades, gestos e atitudes (conscientes, inconscientes ou subconscientes)9 do povo que constituía, naqueles tempos, a massa humana portuguesa, experienciando-se, ainda hoje, os profundos reflexos destas situações que moldariam o carácter da nação e o seu tecido social. Pese embora a existência de mais quatro focos capitalizadores de uma certa importância (o Porto – a nível económico, Coimbra – a nível cultural, Guimarães – a nível histórico, e Braga – a nível religioso), estes viam as suas funções ofuscadas pelo brilho e glória da capital. Foi, então, no seio deste síndrome terceiro-mundista de macrocefalia do centro governativo, que nasceu o Rock português. Sendo uma música urbana por excelência, irá, então, emergir em várias localidades espalhadas um pouco por todo o país, com especial incidência – e como não poderia deixar de o ser – em Lisboa. No entanto, e pese embora o centralismo político ditatorial que por cá se vivia na altura, outras povoações da “província” irão experimentar esse fenómeno, embora de uma forma mais contida e menos expressiva que na sede do Império. Será, portanto, nesse contexto, que os grupos vimaranenses irão eclodir... Neste burgo, e graças à existência de dois pólos prévios, um de carácter educativo, e outro eminentemente cultural (mas que se encontravam indissociavelmente interligados sob uma forma de mutualismo 9 “Consciente”, é o acto psíquico pelo qual uma pessoa se apercebe de si própria e do mundo que a rodeia, enquanto o “inconsciente” já se
refere a acções mentais que não são percepcionadas pelo próprio consciente. Por sua vez, o “subconsciente” liga-se a tudo o que temos guardado e armazenado sob a nossa consciência, e que pode vir a constituir as verdadeiras causas profundas de como agimos ou interpretamos algo.
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simbiótico) – a Escola Industrial e Comercial de Guimarães (E.I.C.G.)10 e o Círculo de Arte e Recreio (C.A.R.)11, respectivamente – criaram-se as condições que demonstraram serem as facilitadoras para a empresa de se ousarem na contemporaneidade e na modernidade. A este tipo de liberdade “apadrinhada”, não esteve alheio um certo tipo de desafio ao sistema, que – e tal como o proclama o velho adágio da “água mole em pedra dura...” – acabará por se ir “suavizando” – embora muito lentamente. Com a promoção de toda uma série de actividades culturais e recreativas, as rígidas convenções do meio onde se integravam estes dois cenáculos virão a sofrer matizações de um menor “amuralhamento” das suas convenções milenares...12 Contudo, terá sido a segunda instituição a conseguir reunir, primeiramente, as condições que possibilitariam – bem como os meios que facultariam – a origem de um Rock local13. Sendo um núcleo com uma vida muito própria e independente da primeira, as suas personagens serão encarnadas por estudantes do referido ateneu14. Esta combinação manter-se-á ao longo dos anos seguintes, uma vez que muito do material humano que irá construir o C.A.R. continuará a ser fornecido pela Escola, e dentro das mais diversificadas esferas da Cultura humana, nomeadamente o musical (que é o que interessa para o presente escrito), incluindo – claro está – o incipiente Pop/Rock vimaranense. “O Início do Rock em Guimarães, é uma forma explícita de pôr a questão, porque, realmente, é uma realidade.” (Djalme Silva, em entrevista publicada no livro «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 168).
O Verbo criador do C.A.R. seria proferido, então, aos 15 de Novembro de 1939, sob o epíteto de Grupo
10 Criada, em 1864, por decreto do ministro João Crisóstomo de Abreu e Sousa, só vinte anos depois, em 1884, é que irá beneficiar dos seus
estatutos, passando, ao mesmo tempo, a denominar-se como Escola Industrial de Francisco de Holanda, tendo estabelecido residência, ao longo dos anos, em muitos locais distintos: em 1885, ocupa uma sala da Sociedade Martins Sarmento, como Escola de Desenho Industrial; em 1886, muda-se para a Casa dos Laranjais; em 1887, instala os pavilhões das suas oficinas na Quinta do Proposto, onde se vem a instalar, provisoriamente, em 1901, já que, em 1910, volta a deslocar-se, desta feita para a Casa do Barão de Pombeiro, seguindo, daí, para o Convento de Santa Clara; em 1924, regressa à Quinta do Proposto, após o Regimento de Infantaria 20 - que entretanto a havia ocupado - ter-lhe devolvido as instalações. Nos inícios da década 50 começa-se a construir, então, o actual edifício, na Alameda Dr. Alfredo Pimenta, obras estas que se dão por terminadas em 1959, sendo a inauguração oficial levada a cabo em 1961, bem a tempo para acompanhar o nascimento do Rock vimaranense e, depois, acompanhá-lo nos seus primeiros passos. 11 Entidade sobre a qual, e à medida que este artigo for avançando, ficaremos a saber um pouco da sua História e desenvolvimento. 12 Embora, e como se irá ver, sempre dentro de certas e determinadas limitações e restrições morais, legais e consuetudinárias... 13 Ainda está aberto para debate se o Rock emergiria por cá, de qualquer forma, no caso de estas condições facilitadoras não se terem reunido, tal como ocorreu noutras localidades e regiões periféricas do país... 14 Aliás, é de notar que os próprios fundadores do Ritmo Louco, Jaime Martins e Miguel Machado, quando se decidiram a iniciar um dueto de gaitas-de-beiço eram estudantes - precisamente - da Escola Industrial...
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Musical Ritmo Louco (G.M.R.L.), nomenclatura que ostentaria durante os próximos vinte anos. Resultando, então, da conjugação de vontades de um conjunto de alunos da E.I.C.G.15, este agrupamento, seivado de juventude, centrar-se-ia, primariamente, na execução de temas conhecidos da época, mormente os que fizessem parte das bandas sonoras dos filmes em voga na altura, mas com a peculiaridade de serem reinterpretados com o recurso a gaitas-de-beiço16, acompanhadas por uma viola e, por vezes, alguma percussão. Dentro do acervo disponibilizado pela Sétima Arte, a preferência recairia sobre aqueles que incluíssem uma componente ligada a um novo tipo de música, o Swing, estilo contemporâneo que fazia vibrar as camadas mais novas da população, e se tornaria na base do reportório do agrupamento, por esta altura. É, aliás, de um desses filmes – «Swing Time – Ritmo Louco»17 – que este colectivo musical irá tomar o seu nome. Há que fazer aqui um pequeno parêntesis para referir, não apenas a ousadia que este acto pioneiro representou na altura, como, também – e principalmente –, o carácter de quase subversão com que foi visto pela sociedade conservadora e imobilista da altura, especialmente numa comunidade pequena e de periferia, como Guimarães o era por esses tempos. Não só se atreveram a criar, de raiz, um grupo musical – apesar das suas “tenras” idades – sem a orientação de um qualquer “adulto”, como, além disso, o fizeram de moto proprio, abalando, assim, a inércia que imperava um pouco por todo o lado. Mais ainda, o próprio género que optam por tocar, o Swing18, conseguiria ter o efeito de uma “pedrada no charco” no estagnado meio musical vimaranense, não só porque, por estas paragens, imperarem apenas as Bandas Filarmónicas, as orquestras de Música Clássica ou os Ranchos Folclóricos, como, e do mesmo modo, por ser um subgénero derivado do Jazz e estar associado a ritmos novos que eram vistos como degeneradores da moral,
15 Como já o foi referido na nota anterior... 16 Nome popular para o instrumento conhecido, de forma mais técnica, como harmónica-de-boca. 17 Filme norte-americano, de 1936, que era protagonizado por Fred Astaire e Ginger Rogers. Dirigido por George Stevens, foi uma comédia
musical e de dança muito popular, tendo-se tornado num clássico. 18 Estilo musical que surgiu nos Estados Unidos, pelos finais dos anos 20, início dos anos 30 do século XX, e que irá beber as suas raízes no Jazz e nas grandes orquestras, tendo-se tornado extremamente popular ao longo dos anos. Para além da banda, que incluía uma forte componente de instrumentos de sopro, havia - geralmente - um solista, músico este que improvisava melodias sob o fundo musical providenciado pela referida. O termo aplicado para designar este género, é retirado, directamente, de um verbo inglês que quer implicar balanço, movimento, ritmo e, portanto, passível de ser aplicado a uma conotação de dança (e com um subentendido sexual timidamente implícito - tais eram os tempos), que era uma forte componente - e um dos maiores atractivos - na interpretação das suas composições. Nomes como Glenn Miller, Benny Goodman ou Django Reinhardt podem ser destacados como marcantes para a sua índole e estilização.
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desintegradores da sociedade e corruptores da juventude19. Passado o seu estágio inicial, a este núcleo original de pessoas que, acima de tudo, tinham um gosto pela música e por interpretar temas da sua preferência, vão-se juntando e associando outros cúmplices entusiastas. Para tal, em muito contribuiu o facto de o Café Mourão – situado no Largo do Toural, junto à igreja de São Pedro – ter cedido um pequeno recanto, no seu interior, para poderem actuar. Desta Cabine de Som, difundia-se – para a citada praça e jardins limítrofes – o som das suas performances, facto inaudito na altura.20 Este estabelecimento servirá como sua sede permanente até 1944, ano em que se mudam para umas
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Junte-se a isto, a novidade dos instrumentos escolhidos para recriar uma escolha de repertório em nada usual na altura, muito menos por estes lados. Por um lado, a gaita-de-beiços não era, de maneira nenhuma, considerada como sendo um instrumento nobre ou de prestígio, que levasse alguém a querer aprender a dominá-la, sendo mesmo tido como estando associado a um certo tipo de marginalidade ou ligado às classes mais populares (e isto mesmo em relação aos fabricados pela mais que ilustre companhia alemã Hohner, embora esta fosse, talvez, mais reconhecida pelos seus acordeões ou teclados do que por qualquer outro tipo de instrumento), estando ausente de qualquer tipo de orquestra ou banda filarmónica (e sendo, muito menos, relacionado com qualquer solista que se prezasse). Não sendo usada, nem mesmo, por ranchos folclóricos, não havia, sequer, escolas que ministrassem o seu ensino (pelo menos em Portugal), sendo o acto de tocá-la uma aprendizagem que se fazia sozinho ou, quando muito, com a ajuda de amigos, mas sempre com um auto-didactismo militante. Além disso, e especialmente através do cinema americano, era muitas vezes identificada com o velho oeste norte-americano e os seus cowboys, personagens estas que encorpavam uma certa aura de liberdade, de rebeldia e de marginalidade, quando não de fora-da-lei... Por outro, a escolha das canções não se regia pelos trâmites geralmente seguidos por qualquer músico, filarmónica, fanfarra ou agremiação musical... Fugia dos cancioneiros estabelecidos, das tradições musicais reconhecidas, dos cânones que tinham vindo a ser estruturados - especialmente - desde o século XIX, com o emergir de uma classe burguesa forte e com gostos e pretensões muito próprias... Mesmo assim - e talvez por isso mesmo , os Ritmo Louco parecem ter começado a fazer escola logo na altura, com jovens mancebos a pegarem no mesmo tipo de instrumento para darem azo às suas divagações musicais, em vez de se dedicarem às tradicionais violas, guitarras ou um qualquer instrumento de sopro. Os ecos desta coragem, parecem ainda ecoar na contemporaneidade, como se pode verificar, por exemplo, através do Mendes Harmónica Trio, ou outros congéneres similares... 20 Os Ritmo Louco, quando tinham as bocas de som viradas para o Toural, eram acompanhados por João Abreu (representante de uma marca de rádios americana), que servia de locutor de serviço, fazendo publicidade à mercearia tal, ao café tal, à casa tal... Portanto, funcionando em moldes muito parecidos com qualquer tipo de emissora de rádio, em que havia música e anúncios. Nisto, virá a antecipar, de certa forma, a futura Rádio Foguete, que - aquando da mudança de sede para a Rua de Santo António - viria, do mesmo modo, a transmitir e difundir, para os passeios dessa mesma via, e que se lhe encontravam fronteiros, programas radiofónicos variados. Constituindo mais uma das iniciativas dos seus associados, e antecipando, de uma certa forma (e segundo palavras de Fernando Miguel), aquilo que - muitos anos mais tarde viriam a ser as rádios locais (vide o seu artigo «Associativismo e Desenvolvimento Local», pág. 13 da colectânea de textos «Do Ritmo Louco ao Círculo de Arte e Recreio»). Quase como num prodígio feito profecia visionária e antevendo o que, em meados dos anos 80, se viria a tornar numa realidade com a criação de uma rádio pirata (agora chamadas de “locais”, dada a sua “legalização”): a Rádio Fundação, que, ainda hoje, se encontra no ar. Além de cativar e alegrar o ambiente da sede, e os passantes daquela tão movimentada artéria urbana, a Foguete também animava os bailes e festas locadas no recinto do grémio, assim como - e talvez num dos mais délficos oráculos proferidos até então - produzia conteúdos similares aos transmitidos pelos programas das emissoras radiofónicas nacionais, embora estivesse, por força das circunstâncias, restritos aos espaços físicos já mencionados. Nomes como António Miguel, Luís Almeida, Sebastião Félix e Tobé Rocha, a ela sempre estarão ligados, quer como sendo os seus principais co-conspiradores, quer como partilhando as responsabilidades de mais esta iniciativa e de toda a sua dinâmica. Aliás, a semente de tal feito ficaria ainda - e durante cerca de uma vintena de anos - a hibernar na mente de Sebastião Félix que, nos (na altura) ainda distantes anos 80, viria a dar início - também na sede do C.A.R. - à Rádio Fundação, emissora esta que, embora não estivesse ligada à instituição, teve lá a sua primeira sede: “Funcionou lá, mas fui eu (Félix) que pedi - pois fazia parte da direcção (...) - para lá montar a rádio com custos meus.” (Sebastião Félix em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 308)
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instalações cedidas pelo Vitória Sport Club (V.S.C.)21. Esta aura de modernismo, pese embora apenas se recorrer ao uso de gaitas-de-beiços e a uma viola acústica, fará com que muita da juventude gravite em seu redor, conseguindo-lhes concertos por várias regiões do Norte do país. Incluindo elementos que eram músicos, e muitos outros que o não eram, o Grupo Musical Ritmo Louco não constituía, ainda, qualquer tipo de associação formal, sendo apenas um congregar de vontades. Contudo, e ainda durante os seus anos formativos, passará a incluir, também, uma secção mais dedicada aos Fados e Guitarradas. Esta expansão fará com que, e muito naturalmente, aumente o número de colaboradores e interessados em geral, bem como a sua exposição pública. Como que a comprovar isso, a imprensa local digna-se, finalmente, a citá-los, num artigo do «Notícias de Guimarães», datado de 1 de Julho de 1945. Mil novecentos e quarenta e seis, assiste a uma nova mudança de casa, desta feita para a Pastelaria Docélia, onde irá decorrer a primeira Assembleia Geral do colectivo. Esta primeira acção, que constituirá um passo fecundo e essencial na direcção de uma desejada institucionalização, bem como as constantes alterações de localização da sede (1951, regresso ao V.S.C.; 1954, Café Oriental; 1955, Rua de Santo António), demonstram, não apenas o crescimento de um corpo que dará origem a uma entidade, mas, e acima de tudo, o aumento do conjunto de actividades nele desempenhadas, bem como o âmbito da sua expressão social, cultural e territorial daí resultantes. Quatro anos depois, os Ritmo Louco ultrapassam, pela primeira vez, as fronteiras políticas nacionais, indo actuar à Galiza. Ainda durante esse mesmo ano de 1950, a unidade móvel da Rádio Renascença deslocase à Cidade Berço, tendo como uma das incumbências da sua missão o transmitir de uma actuação do grupo em directo, conseguindo, desta forma, fazê-los chegar a uma audiência de âmbito nacional. Mais tarde, já em 1954, dá-se a criação de uma secção desportiva, enquanto, no ano seguinte, se consegue obter, finalmente, uma amplificação própria e um gira-discos, ao mesmo tempo que novas secções vêm enriquecer as actividades da colectividade: a rádio22, a biblioteca, o ensino de harmónica e a criação de
21 A sede do Vitória, ficava localizada - na altura - na Rua D. João I. 22
À qual aludimos na décima-sétima nota-de-rodapé...
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um agrupamento baseado nos moldes dos conjuntos típicos23. O próprio conceito que presidiu à formação dos Ritmo Louco foi sofrendo alterações. Assim, não só ocorre uma mudança e adaptação do repertório (que passa a incluir modinhas e outras canções brasileiras, tão em voga naqueles tempos), como se verifica um aumento do espólio de instrumentos utilizados para dar azo às suas “extravagâncias”, tais como percussões variadas e, inclusive – mais tarde –, a guitarra eléctrica24 e a bateria. A mudança de sede para a Rua de Santo António, ao n.º 117, mostrar-se-á fulcral para o desenrolar de todo o porvir desta associação. Desde logo, o aumento do espaço disponível irá permitir o desenvolvimento de um maior número de actividades, incluindo, logo à partida, um espaço para a realização de vários tipos de jogos. À aprovação dos Estatutos, ainda nesse ano de 1955, seguir-se-ão, no ano seguinte, a inauguração de um bar próprio e o baptizar da secção de teatro. Paralelamente, a divisão musical é enriquecida com a inclusão, no seu âmbito, de trios de acordeão, de viola solo (Os Três do Ritmo)25 e da – em breve famosa – Festada
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Agrupamentos musicais que recorrem a um repertório de raiz popular e tradicional, embora as suas estruturas musicais e composicionais (bem como a própria dinâmica de grupo) revelem já certas inclinações e declinações Pop, algo que se revia na indumentária utilizada pelos elementos dos conjuntos, que eram as roupas da moda e, muitas das vezes, em tudo similares às das bandas de Ié-Ié, não havendo recurso aos trajes de cariz mais rural e popular. Sendo uma adaptação, evolução e actualização dos Ranchos/Grupos Folclóricos e, em última análise, das Festadas, recorrem a instrumentos melódicos e de percussão de cariz tradicional, tendo a generalização do recurso ao acordeão (considerado, em si mesmo, como sendo uma pequena orquestra - e que levará ao declínio do uso das gaitas-de-fole) expandido o âmbito destes colectivos, que já durante a segunda metade do século passado se irão tornar extremamente populares, como o provam os muitos registos editados, quer aqui em Portugal, quer na França (onde havia uma grande comunidade emigrante nacional). Nomes de relevo incluem o Conjunto Típico Maria Albertina, o Conjunto Pai e Filhos, o Conjunto António Mafra, o Conjunto Típico de Resende Dias (que viria a acompanhar a cantora local Maria Albina, que terá direito a menção própria mais para a frente) ou o Conjunto Típico Rio Ave. Este último, sediado nas Taipas, estreou-se em disco com o EP «Cidades do Minho», em 1968 (e ao qual se seguiriam os EPs «Valsa do Rio Ave» e «Portugal», ambos em 1970, «Esquece o Passado», em 1971, «Porto, Linda Cidade», em 1973, «Baiões a S. João» e «Recordações ao Luar», ambos em 1977, e «A Vida do Pescador», em 1978, todos eles pela Alvorada - no entrementes, sairia um álbum homónimo que coligiria as suas gravações até 1976, e pelo mesmo selo). Acrescente-se aqui que, mesmo em Guimarães, muitos dos elementos dos conjuntos típicos tocavam e partilhavam as suas habilidades em grupos Rock, embora muito raramente houvesse algum tipo de fusão de estilos. Tal é o caso do Conjunto Típico Berço da Pátria que, formado em finais dos anos 60, viria a vencer o Festival de Música Típica realizado no dia 1 de Janeiro de 1970, e organizado pela Associação Artística Vimaranense. Os géneros musicais (o Ié-Ié e o dos conjuntos típicos) até se poderiam revelar estanques, contudo, o facto de os músicos pertencerem a grupos mais virados para o Rock e para a Pop, fará com que se venham a introduzir instrumentos eléctricos nos colectivos mais tradicionais, como foi o caso deste aqui referenciado. Os próprios Rio Ave, também viriam a recorrer a material sonoro electrificado, mas não conseguimos averiguar se algum dos seus elementos teria feito parte de algum grupo mais Pop/Rock... 24 Guitarra essa que, como veremos, foi adquirida pelo C.A.R., tornando-se na primeira a aparecer na cidade, sendo partilhada entre diversos agrupamentos ligados à entidade. 25 Constituídos por Jaime Martins, numa das guitarras, Bráulio Caldas, na voz e guitarra, e por um outro guitarrista que ainda não conseguimos descortinar.
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de Guimarães26, ao mesmo tempo que, a 25 de Agosto, irá decorrer o primeiro festival de música organizado e realizado pela instituição. E isto não esquecendo a já mencionada experiência de emissões radiofónicas, pese embora o espaço restrito do âmbito da sua difusão. O ano de 1957 revelar-se-á fulcral para o amadurecimento e estruturação da já referida secção musical, que passa a estar dividida nas subsecções de gaita-de-beiços (Quarteto de Gaita-de-Beiços), acordeão, canções e conjunto regional, mais conhecido por Festada de Guimarães27, ao qual já aludimos. No ano seguinte, os Ritmo Louco são convidados para integrar o alinhamento de um programa de
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Outro colectivo concelhio de cariz folclórico, formado pela mesma altura, é o da Corredoura, em S. Torcato. Contudo, e pouco após a sua formação, conseguiram editar, ainda em 1956, um 7’’ EP, o «Cana Verde», pela Radertz, enquanto a Festada teria de esperar cinco anos, após o seu estabelecimento, para consecutar esse desiderato. Ao longo da sua existência, irão lançar, pelo menos, outros três, todos em 1967: «Desgarrada do Malhão» e «Amélia», pela Rapsódia, e «Vareira Desgarrada», através da Ofir e com edição simultânea pela francesa Prèsident. Poderá haver mais, mas, como veremos ao longo de todo este trabalho, os dados relativos a edições são escassos e falhos, quando nãoexistentes, factor que poderá ser agravado pelo facto de os registos saírem, quer como Grupo Folclórico, quer como Rancho Folclórico da Corredoura, podendo a alternância de epíteto gerar, por vezes, alguma confusão entre alguns coleccionadores mais distraídos. Como curiosidade adicional, refira-se que o próprio grupo Coral de Azurém viria a editar, pelo menos, dois 7’’EP: o «Cânticos Para Missa Per Annum», pela multinacional Parlophone, em 1968, e o «Cânticos Eucarísticos», em 1974 e pela portuguesa Roda (a mesma que viria a lançar o primeiro registo Rock vimaranense, o single dos Apocalipsis, como referenciaremos mais para diante). 27 Uma Festada, nada mais é que um parente directo, embora já erigido vetustez, dos grupos e ranchos folclóricos actuais, espelhando, de uma forma mais pura e espontânea, aquilo que os seus descendentes tornaram em rigidez formal e normativa, com regras de conduta bem definidas e uma linguagem codificada que rege todos os seus princípios de acção e actuação. Embora ambas tenham em comum o usufruto e partilha de música, danças e cantigas de cariz popular, a exteriorização feita numa Festada é mais directa, natural, simples e instintiva, enquanto num Rancho, essa manifestação é moldada por preceitos, directrizes e protocolos convencionados. Paralelamente, enquanto os comportamentos da primeira revelam uma ligação íntima e telúrica ao amanho dos campos, aos rituais milenares dos lavores que a terra exige como fruto dos seus ciclos, os do segundo são constructos independentes mais ou menos artificiais, visões citadinas estilizadas, quase cerimoniais, que reflectem uma formalização e uniformização daquilo de onde se entendeu poder capitalizar, através do recurso a um determinado apelo sonoro e visual, expedientes esses que lograriam captar atenções mais massificadas, precisamente através dessa suavização comportamental e do recurso ao deslumbre das vestes e trajes feitos típicos (que nunca seriam os que se seguiriam a uma jorna de labuta, mas sim os de festa ou o equivalente ao traje domingueiro tão ao gosto burguês e em voga a partir da segunda metade do século XIX), e de toda uma sequência estilizada de passos de dança, que quase parece transladada dos salões palacianos e da côrte... Com o passar dos tempos - e com o próprio regime político instituído pelo Estado Novo -, este verdadeiro espectáculo de côr, som e movimentos, será (es)partilhado, nas suas espectativas, pelos próprios espectadores, quer nacionais, quer estrangeiros, tornando-se num verdadeiro cartão de visita das terras e localidades de onde fossem oriundos os agrupamentos folclóricos, que passaram a ser entendidos como porta-estandartes das imorredouras tradições seculares portuguesas, e confundidos com essas mesmas. Criou-se, por assim dizer, uma relação simbiótica entre o espectador, a organização política e o próprio Rancho Folclórico, em que as espectativas de quem assistia eram alimentadas pelo uniformizar dos grupos que, por sua vez, estavam sob a batuta dos poderes locais e nacionais. Por outras palavras, era dado ao público aquilo que se pretendia demonstrar, enquanto este, assim educado, passou a esperar, nada mais, nada menos, que os espectáculos que lhe eram apresentados, que acabavam por corresponder à imagem que as governanças pretendiam que espelhasse o país (e que nem sequer visavam corresponder a revivalismos saudosistas), por mais exógenos e alheios que os compósitos pudessem ser, no que à verdadeira vida no campo diz respeito... Convém aqui salientar que, para quem sempre viveu num meio urbano, estas poderão, de facto, parecer algo de puro, de verdadeiramente genuíno, mas isso só demonstra o corte entre a cidade e o campo, e até que ponto as pessoas estão desligadas das suas verdadeiras raízes. E, de facto, estão-no, de tal forma que chegam a confundir mudanças climatéricas normalíssimas com “alterações climáticas”, sem pararem para pensar um pouco que seja sobre a desinformação que lhes é “vomitada” pelos meios de comunicação social massificados...
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televisão emitido pela delegação do Porto (com os estúdios no Monte da Virgem, em Gaia)28, que resultará em importantes desenvolvimentos para a colectividade. De facto, o consultor técnico residente para os conteúdos musicais, era, nada mais, nada menos, que José Neves, professor do Conservatório do Porto. Este, de tão entusiasmado que ficou com o grupo e o seu total auto-didactismo, ofereceu-se para prestar o mais sincero auxílio pedagógico na formação técnica e musical dos possíveis interessados que estivessem agregados a este círculo de amigos e associados, ou a quaisquer outros possíveis amantes da Primeira Arte na área circunvizinha de Guimarães. Inicia-se, aqui e então, a Escola de Música do C.A.R.29, bem como as aulas de piano e solfejo30. Ainda durante esse ano de 1958, Os Três do Ritmo efectuam algumas gravações experimentais, tendo estas em vista a gravação de um registo fonográfico, enquanto, no ano seguinte, surgem os conjuntos Madeirense e de Música Variada. Mil novecentos e cinquenta e nove será um ano charneira para a associação, sendo nessa altura que passa a assumir o designação de Círculo de Arte e Recreio31, escolha essa que pretende, não só, atribuir, à entidade, um denominação mais coadunante com as funções que exercia, possibilitando, assim, que fosse mais seriamente tida em conta pelas instituições oficiais (com quem cada vez mais se relacionava no dia-adia), como, também, visava explanar – com maior precisão – o âmbito de todas as funções e actividades em que se multiplicava. 28
Podendo-se dizer que virá a causar o mesmo impacto - quer para o conjunto, quer para a associação - que o obtido aquando da transmissão em directo dos Ritmo Louco, em Agosto de 1950, pela Rádio Renascença, num tempo em que a rádio era, ainda, a senhora absoluta das ondas vagantes no éter... 29 A instituição actualmente conhecida como Sociedade Musical de Guimarães, adoptaria esse nome pouco tempo depois desse acto inaugurativo levado a cabo pelo Círculo. Contudo, isso nada mais foi que uma mudança institucional de nome de um colectivo que existia já desde 1903, a Banda dos Guises. Assim denominada pelo facto de todos os elementos fundadores pertencerem a essa mesma família, desempenhava, ao mesmo tempo, as funções de banda e de instituição de ensino musical, assim como prestava os seus serviços como local de ensaio de outros executores da Arte Primeira (quanto mais não fosse, o da banda homónima), incorporando inclusivamente, hoje-em-dia, o Conservatório de Guimarães. Do seio desta família, iriam sair dois pioneiros do Rock vimaranense: Alberto e Albano Guise, mas, enquanto o primeiro enquadraria apenas a formação dos Los Bicos, o segundo ainda transitaria para o Conjunto de Tóny Carlos, sendo ambos agrupamentos dos inícios dos anos 60 do século XX. Note-se que a cidade não era assim tão vazia em instituições que ministravam algum tipo de ensino musical, uma vez que, além dos Guises, também a Banda Musical de Guimarães o fazia, bem como os 20 Arautos de D. Afonso Henriques, estes através da sua tuna de instrumentos de corda. 30 Acto de ler, em pauta, as notas musicais nela transcritas, utilizando sílabas para as representar. Pretende-se, com este exercício, a familiarização - por parte do aprendiz - com as partituras, as notas e os tempos musicais. A palavra terá chegado ao português através do francês (solfège) que, por sua vez, a tinha tomado de empréstimo à língua italiana (solfeggieto), e cuja designação consiste, apenas e somente, de uma simples junção dos nomes pelos quais são reconhecidas as notas sol e fá. 31 À nova nomenclatura, também acresce o preencher de toda uma tramitação legal que oficializou e deu existência jurídica a esta instituição, sancionada que foi pelo Secretariado Nacional de Informação (S.N.I.).
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Coincidindo com essa institucionalização, a secção de teatro transforma-se no T.E.R.B. – Teatro de Ensaio Raul Brandão, ao mesmo tempo que o Cine-Clube de Guimarães passa a ocupar uma divisão do seu edifício. Por tudo isto, o velho epíteto de Grupo Musical Ritmo Louco não fazia já sentido para designar tamanho grémio. Importante referir ainda que, paralelamente, e pela mesma altura, é formado em Guimarães o Duo M. Fruto da conjugação das vontades de dois estudantes da E.I.C.G., Artur Mota e Rogério Murta (ambos nas vozes e guitarras acústicas), o par irá dedicar-se a tocar versões de temas Rock da altura, embora em formato ainda não electrificado. Por mais básico que este acto incipiente nos possa parecer hoje, é nele que residem as raízes de todo o futuro movimento R'n'R vimaranense! E já iremos apercebermo-nos do porquê, através do envolvimento dos seus intervenientes na formação dos Rocker’s... No entanto, fica já aqui este dado, o de que, por esta altura, também por cá já se ouviam estas novas sonoridades, havendo mesmo uma vontade emergente de tocar e partilhar o que por lá fora se fazia, e isto apenas quatro anos após o surgir do primeiro colectivo Rock português, os Babies, e pela mesma altura da gravação e difusão radiofónica do trabalho daquele que é considerado como sendo o primeiro rocker nacional, Joaquim Costa (ambos a serem objecto de referenciação já nas próximas linhas). Enquanto tudo isto ocorre, já os primeiros ventos de uma nova sonoridade, o Rock And Roll (R’n’R)32, tinham começado a desbravar terreno em Portugal. Os primeiros a aventurarem-se neste novo território foram Os Babies (de José Cid), já em 1955, e que, pese embora tocarem apenas versões (facto que vai ser, também, comum às primeiras bandas de Guimarães), irão demonstrar uma precocidade, um acompanhamento e uma compreensão dos novos tempos que
32 Também comummente grafitado como Rock’n’Roll, terá emergido - tal como o Swing - nos Estados Unidos, resultando, basicamente, de
uma fusão da música Country com os Blues Eléctricos. Tendo adquirido o seu nome definitivo por volta de 1954, foi buscá-lo à colorida terminologia náutica, descrevendo rocking and rolling o movimento de uma embarcação ao quebrar as ondas de um mar, tendo ganho, por isso, e desde muito cedo, uma conotação sexual muito forte. Este linguajar cifrado, revela-se como sendo um factor de grande importância, especialmente num país extremamente influenciado pela moral católica dos irlandeses e polacos (que tinham a religião como uma forma identitária e de rebelião face a forças ocupantes - os anglicanos britânicos, no primeiro caso, e os ortodoxos russos, no segundo), ou a não menos conservadora e radical dos colonos protestantes puritanos, foragidos do Reino Unido. Tais subtilezas linguísticas, enquadram-se perfeitamente com o som de rebelião e linguajar próprio de uma juventude do pós-Segunda Guerra Mundial, revendo-se os adolescentes nos acordes descarregados por artistas como Elvis Presley, Bill Halley And His Comets, Chuck Berry ou Gene Vincent.
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se viviam, muito pouco usual para o que era normal no país33. Um pouco como os Ritmo Louco, nos seus inícios, o haviam ousado ser, nos idos de 1939 e em relação ao Swing... Pouco tempo depois destas manobras coimbrãs, surge, em 1957, o Conjunto de Pedro Osório (que, embora tocasse mais canções italianas e francesas – outras das grandes referências dos primeiros conjuntos vimaranenses –, também já se deixava seduzir pelo Rock), ao qual se seguiu, em 1960, o Quinteto Académico. Estavam lançados os princípios de uma bola de neve que se viria a demonstrar imparável! Esta precocidade, mais importância assume quando se tem em conta que Bill Haley And His Comets tinha lançado o seu primeiro registo apenas em 195034, e Elvis Presley – o Rei do Rock – se tinha estreado em disco um mero ano antes da aventura dos Babies, em 1954 (e isto para citar, apenas, os nomes mais conhecidos e sonantes do género)! Mais ainda, não se pode esquecer todo o impacto que tamanha ousadia assumiu num país como o nosso, imerso numa estagnação cultural, social e política, fruto de uma ditadura ultraconservadora que, em aliança com a Igreja, receava qualquer nova manifestação cultural que pudesse abalar ou pôr em dúvida o status quo35. Precisamente no ano em que o G.M.R.L. se metamorfoseia no C.A.R. (1959), outro passo é dado na implantação do Rock em Portugal. Por essa altura, o programa radiofónico “23ª Hora” inicia as suas emissões regulares na antena da Rádio Renascença, dedicando-se à divulgação do R’n’R nas suas mais diversas
33 A tal facto, não é alheia, de forma alguma, a ambiência universitária dessa cidade, “acaso” esse que criou um ambiente favorável à sua
ocorrência, uma vez que era - precisamente - a essas idades (e liceais também) de estudante que estes novos sons, chegados do eixo anglosaxónico, mais apelavam. Além disso, e mais do que a propensão cultural que se poderá inferir pelo envolvimento dos seus intérpretes nos estudos académicos, o factor económico encontra-se omnipresente, relacionando-se com quem tinha oportunidade de ir estudar para a Universidade. De um modo geral, estes universitários tinham maiores possibilidades financeiras, situação essa que se facilitava o acesso, quer a instrumentos, quer a todo o resto da parafernália necessária para formar uma banda, além de usufruírem, inclusivamente, de uma certa ociosidade, de tempos livres para dedicar à construção da sua Arte. Ou seja, e resumindo, o Rock começou nas altas esferas da sociedade, nas classes mais abastadas, e assim teria que o ser, quanto mais não fosse, pelo preço quase proibitivo dos equipamentos musicais e do peso que a sua aquisição poderia exercer na economia de um Lar ou agregado familiar. Embora, e mesmo dentro da estrutura ditatorial do regime, as possibilidades de criação de uma banda de Rock’n’Roll se vão democratizando, este será, na imensa maioria dos casos, obra de elementos mais folgados da nossa sociedade, e isto até bem dentro dos anos oitenta do século passado, em que os artefactos com a música relacionados ainda eram considerados como sendo um produto de luxo, mesmo os obtidos em segunda mão. 34 Embora com uma sonoridade ainda não assumidamente Rock and Roll, mas sim mais inclinada para o Country e o Hillbilly, géneros de música tradicionais norte-americanos possuidores de notórias e marcadas raízes europeias. Espelhando, particularmente, a veia musical irlandesa, o R’n’R ficará sempre em perpétua dívida para com esta cultura, uma civilização que se encontra quase totalmente imersa numa aura mágica de lendas, poesia e eufonia, peculiaridades estas que funcionam como fontes do carácter muito próprio do povo da Ilha Esmeralda, ajudando a dar sentido à sua existência e modos de ser e viver... 35 Locução latina que quer referir-se ao estado actual das coisas, especialmente no concernente a situações políticas ou sociais. A forma mais correcta é statu quo, mas a mais utilizada - e inclusive popularizada por um grupo Rock inglês que a assumiu como nome de baptismo - é a que foi aqui utilizada.
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vertentes. Paralelamente, e ainda durante esse ciclo solar, Joaquim Costa grava um acetato36 com dois temas de puro Rock And Roll, com o objectivo de ser transmitido na rádio. Quase ao mesmo tempo, também Zeca do Rock seria objecto de uma transmissão radiofónica em directo. No entanto – e ao contrário de Joaquim Costa37 –, este viria a gravar um disco com prensagem comercial (pela Alvorada), embora já só em 1961 (o 7'' EP «Menina»). Ainda nesse mesmo ano, o Conjunto Nova Onda dá, também, os seus primeiros passos, vindo, mais tarde (em 1963), a transformar-se no Conjunto Mistério38. Decorria o ano de 1960, quando Os Três do Ritmo são convidados a actuar na televisão39, renovando, assim, a exposição nacional do grémio vimaranense, ao repetir a façanha que – e precisamente através do recurso a este recente meio de comunicação social – os Ritmo Louco haviam ousado em 1958, e que tão bons frutos havia dado. No ano seguinte, este mesmo trio iria consecutar a gravação de um disco, que viria a ser intitulado de «Murmúrios da Penha»40, conseguindo levar desta forma, e a bom termo, as experiências efectuadas três anos antes. “Era um grupo do C.A.R. Todos os instrumentos eram do C.A.R. Mais uma vez o C.A.R. sempre na origem e no seio de tudo isto. Era a nossa segunda casa, onde passávamos o nosso tempo.” (Djalme Silva, em entrevista publicada no livro «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 171) 41
Contudo, este ano de 1961 virá a ser recheado de todo um conjunto de peripécias, contingências essas que o irão tornar no mais relevante e emblemático para o desenrolar da história da música local, até à data. 36
Grosso-modo, acetato é o nome dado a um tipo de gravação analógica mecânica, que também é a utilizada no vinil. Contudo, e ao contrário desta última, a primeira possibilita o registo instantâneo, sem recurso a factores intermediários, enquanto a segunda necessita de uma fita master previamente gravada para se poder efectuar o registo definitivo. 37 Essas sessões, em conjunto com mais três de 1978, viriam a ser coligidas, já em 2007, num 7’’ EP, lançado através do selo Groovie Records. 38 Do qual, e mais para a frente, José Cid viria também a fazer parte. 39 Cujas emissões experimentais se tinham iniciado a 4 de Setembro de 1956 e as regulares a partir de 7 de Março de 1957. 40 Que, ao que tudo indica, será o resultado de novas sessões de gravação, e não dos experimentos efectuados poucos anos antes desta nova intimidade com o acto de efectuar um registo. Ao que consta, parece ter chegado a sair em formato físico, mas, infelizmente, nunca nos deparamos com uma cópia dele no mercado... Que as gravações foram, de facto, consumadas, isso é confirmado por diferentes autores. Quanto ao vinil em si, infere-se a sua edição pelo que se lê nessas fontes, mas não havendo uma confirmação inequívoca do facto... O tema, esse terá surgido de uma inspiração de Jaime Martins (um dos dois fundadores dos Ritmo Louco), tendo sido transposto para pauta pelo já referenciado professor José Neves, e recorrendo a uma poesia de Bráulio Caldas, cântico esse que se encontra gravado num dos penedos da Penha, feito ara votiva a este poeta vizelense. 41 Será que, também por isso, às Variedades da Escola foi dado um novo impulso, para que os seus alunos passassem menos tempo numa associação que não era, propriamente, tida como sendo fiel à linha politicamente dominante, pese embora fosse extremamente estimada e respeitada?
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Não pretendendo desvalorizar a ida a França – ao festival folclórico de Chazay-d'Azergues (no departamento do Rhône) –, quer da Festada de Guimarães42, quer das outras componentes da secção musical – num reconhecimento da qualidade do trabalho desenvolvido pelos elementos desta instituição –, salienta-se o facto de a divisão musical do C.A.R. ter sido enriquecida com o estabelecimento dos Ritmo Louco como conjunto de baile autónomo, provando, desta forma, a sua evolução sonora, instrumental e de repertório. Todavia, nenhum acontecimento suplantará a importância da formação, no interior do seu espaço físico, do primeiro grupo assumidamente Rock de Guimarães: Os Rocker's. Também conhecidos, vulgarmente, como Conjunto Académico Rocker's (quer devido à idade dos seus integrantes, quer ao facto de ainda prosseguirem os seus estudos)43, eram constituídos por Artur Mota (voz e guitarra), Rogério Murta (guitarra), Humberto Faria (piano), Nelo Seara (acordeão e, depois, contrabaixo e baixo eléctrico) e Ricardo Mendonça (bateria). Sendo os dois primeiros elementos os mesmos que tinham constituído o já citado Duo M, em 1959, tanto eles, como os restantes, eram sócios da agremiação, sendo alguns deles, inclusive, alunos na sua escola de música44. Outro Conjunto que lhes é contemporâneo é o Académico Os Cinco Rocas, que teria atuado com os Ritmo Louco, a 10 de Dezembro do ano em análise, no Baile do Livro, mas estes parecem ter disfrutado de
42 A provar a qualidade deste grupo regional (formado, como já o vimos, em 1956) está o facto de, em 1961, terem sido convidados a parti-
lhar um registo fonográfico (um 7’’ EP - que, aliás, era o formato mais comum a ser lançado pelas editoras, e isto até bem perto de finais dos anos 60) com outro grupo congénere, a Xula de Barqueiros (de Barqueiros, Mesão Frio, no distrito de Vila Real), pela editora Alvorada, cabendo dois temas a cada um dos participantes. Em 1968, sai o primeiro exercício de gravação sob nome próprio, desta feita através da Rapsódia, o 7’’ EP «Folclore», e três anos depois, o 7’’ EP «Malhão da Rua», pelo mesmo selo. A este, segue-se, em 1974, o «Vareira Xula», embora, e desta feita, pela Melodia. Como sempre, nestes casos de discos mais antigos (e até mesmo mais recentes, diga-se de passagem), não há catalogações definitivas, não se encontrando, nem na bibliografia disponível, nem na internet, listagens completas de muitos dos artistas e registos editados em Portugal, fenómeno que, contudo, não é exclusivo do nosso país. 43 Não temos como provar tal, mas nas pesquisas que efectuamos, não encontramos nenhuma banda Rock estrangeira em cuja nomenclatura apareça o termo de “Académico” associado, quer à forma de “Conjunto” (tão tipicamente portuguesa), quer à de “Grupo”. No geral, quando esse tipo de epíteto é utilizado, esses ensembles parecem estar ligados a música coral, tradicional ou outras áreas que não a do Rock (no Brasil, por exemplo, a palavra aparece associada a grémios de Samba, embora sob a forma de “Acadêmico”), além de encontrarem integrados em algum tipo de instituição de ensino. Poderá esta situação ser um particularismo português, apenas, onde esse prefixo - ligado ao nome próprio do grupo - se referia unicamente ao facto de os seus componentes serem todos - ou na sua maioria - estudantes? O uso de tal qualificação, funcionaria como que um tipo de nota justificativa da existência desse tipo de conjuntos, reforçando a ideia da idade e “profissão” dos seus integrantes, além de explicitar o porquê de se poderem dedicar à formação desse tipo de ensembles musicais... 44 Ficando selada, assim, a interligação entre os dois pólos supra-citados, o C.A.R. e a Escola Industrial, junção esta que viria a demonstrar-se fulcral para o decorrer de todo o processo de desenvolvimento musical concelhio. Se, por um lado, ao primeiro caberia o encargo de fornecer - principalmente - os meios logísticos possíveis (instrumentos, local de ensaio...), seria no segundo que se encontraria a matéria-prima humana que daria corpo e voz a esta nova expressão artística. Aliás, e durante cerca de uma década, o fomento e a produção destes “ritmos da juventude” estaria a cargo destas duas instituições.
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uma existência bastante mais efémera45. “Gostava de salientar o facto de eu entender que o C.A.R. foi, de facto, o ponto de partida para a parte musical em Guimarães. Estou convencido que se ele não existisse na ocasião, (tal) atrasaria, em muitos anos, o desenvolvimento musical (de) cá. Houve ali uma fase em que Guimarães era música, completamente musical..”. (Sebastião Félix, em entrevista publicada no livro «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 309)
Talvez por tudo isto, e aos 27 de Setembro de 1961 (data histórica para qualquer um que pretenda embrenhar-se no estudo da música eléctrica da região), a Direcção do C.A.R. toma a importante decisão de proceder à aquisição de duas peças fundamentais para qualquer conjunto de Ié-Ié (como o Rock era, então, designado por estas terras do ocidente europeu)46 que se prezasse: uma bateria e, quiçá mais importante ainda, uma guitarra eléctrica!47 Segundo a própria, estes eram “instrumentos cuja falta se fazia sentir”48,
45
Podendo tratar-se de um conjunto constituído ad hoc apenas para esse evento, uma vez que, não apenas são referidos unicamente no âmbito desta ocasião, como, além disso, e quando estávamos a investigar e a entrevistar os músicos intervenientes desta altura (para o «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock»), nunca tal nome foi citado uma única vez... Talvez se deva ter em atenção que tais situações eram deveras comuns, na altura. Porém, o facto de terem um nome de baptismo leva-nos a pensar que possam ter sido algo mais que isso, tendo é experienciado um tempo de vida muito curto... Contudo, nunca nos esqueçamos que mesmo estes aglomerados efémeros (como aconteceu muitas vezes nos anos 70), eram dotados de um apelido qualquer, também ele criado no momento e para aquela situação apenas... 46 Yé-Yé, ou Ié-Ié, foi um termo genérico atribuído a este tipo de sonoridades Pop/Rock da altura, que - e segundo rezam as lendas urbanas terá recebido esse corolário baptismal devido ao facto de muitos dos grupos estrangeiros, mesmo os sediados fora da esfera anglo-saxónica, utilizarem, com bastante frequência, o vocábulo inglês Yeah (embora, nessa língua, a forma oficial seja Yes, esta palavra constitui uma das apropriações populares para anuir e consentir - o equivalente ao nosso simples Sim). No entanto, a fama deste termo deve-se, sobretudo, à enorme popularidade da canção dos Beatles «She Loves You» (editada, em 1963, pela Parlophone), em cujo refrão eram acrescentados três “Yeah, Yeah, Yeah”... Encontrámos, de igual forma, o uso desta mesma expressão - e em situações análogas - no Brasil (ainda que sob a forma de Iê-Iê), na França, em Itália e em Espanha, embora seja quase certo que poderia estar muito mais difundida, especialmente nos países da América Latina. Entre nós, a sua utilização viria a prolongar-se até bem dentro dos anos 80, especialmente entre as faixas etárias mais velhas, num período em que os mais jovens preferiam recorrer a toda uma multiplicidade de termos diversificados, até porque - e desde a altura da emergência dessa designação - a música Pop/Rock havia evoluído imenso, dividindo-se em toda uma série de géneros e sub-géneros, muito para além do que alguma vez poderia ter sido sonhado aquando da incipiência deste tipo de música popular. Já agora, note-se que o mesmo sucederia com a denominação pela qual eram apelados os agrupamentos musicais, os famosos Conjuntos, que também caíra em desuso entre os mais novos, que passaram a preferir banda ou grupo para exercer essa função, em parte, quiçá, devido à sua colagem a tempos d’antanho, mas, talvez - e mais precisamente - porque essa alcunha era um aplicativo muito concorrido em quase tudo que era grupo de baile animador de festas com personalidade vincadamente popular, de norte a sul do país. Estas duas situações mencionadas criaram um certo tipo de barreira demarcatória, um fosso entre as gerações, pois que as novas linguagens consideravam essas expressões foleiras, parolas e muito mais que ultrapassadas. Mas, não acontecerá isso a cada nova estirpe que sucede a uma anterior, como que para se afirmar, demarcar o seu próprio território e implantar o seu padrão num novo mundo que, agora, lhe pertence por herança, redefinindo formas de perpetuação do Mito do Eterno Retorno? 47 Esta, “foi um sucesso, apesar de não ser o que muitos estariam a pensar. Era sim, uma guitarra portuguesa normal, com adaptador eléctrico (julgo chamar-se «pastilha»), que era colocado na caixa-de-ressonância. Quem executou o ensaio foi o meu amigo e saudoso Rogério Murta” (citação de Domingos José Azenha Pires, incluída em «Jaime Martins», pág. 77). 48 Joaquim dos Santos Simões, “Da Utopia à Realidade”, página 65.
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demonstrando, assim – e num gesto totalmente peregrino –, uma abertura e uma lucidez de espírito muito incomuns, na época. Além de tudo isto, esta instituição escorava as deslocações dos seus agrupamentos a outros locais, mesmo que situados fora do concelho, o que em muito apoiava o desenvolvimento das capacidades e habilidades destes. Aliás, convém aqui referir que, embora as pessoas tolerassem essas actividades lúdicas por parte das camadas mais juvenis, este novo tipo de sonoridades só era parcialmente aceite49, uma vez que os músicos não só eram oriundos de boas e respeitáveis famílias (agregados esses que eram as pedras basilares nas quais assentavam os sistemas político, social e moral vigentes), como, também, e para as suas actuações (bailes, verbenas, festas), preparavam o seu repertório por forma a que este incluísse outros estilos mais ligeiros, condição sine qua non50 para lograrem obter contratos (conseguindo, assim, agradar um pouco a gregos e a troianos). Contudo, todas estas considerações mais ainda servem para se reconhecer o devido valor do acto visionário que constituiu a compra de tais instrumentos, ao mesmo tempo que se poderá ver nisto uma certa postura de combate às políticas vigentes, dentro de um dos poucos moldes passíveis de serem tolerados pelo regime. Num breve parêntesis, e verdade seja dita, convém clarificar que o Estado não via com bons olhos este surto de novos grupos que começaram a surgir com força durante a década de sessenta51. Não só os via como potenciadores de uma certa rebeldia ou, pior, de revolta aberta contra as políticas estatais, como, e ao
49 O que não obstava a que, “naquele tempo, quem tivesse um grupo (fosse) admirado por toda a gente. Era quase idolatrado. Éramos conhe-
cidos na cidade inteira e as pessoas apontavam-nos por tocarmos num conjunto! Éramos referenciados...” (Os Rocker’s, em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 298). Este destaque, em tudo era ajudado pelo facto de que “todos os grupos tinham um uniforme, naquele tempo (anos 60-70 - até os Beatles).” (...) “Era obrigatório, até para nos distinguirmos de toda a gente. Mesmo fora do palco éramos visíveis.” (idem, pág. 299) “Há muitos grupos (hoje) por isso a raridade perdeu-se. Na altura não.” (...) “Éramos quase únicos, aqui por esta zona” (ibidem, pág. 299). 50 Locução latina que quer significar uma ação ou condição que é indispensável, imprescindível ou até mesmo essencial para o desenrolar da mesma. 51 Embora o regime político que governava Portugal fosse uma ditadura ultra-conservadora, que tinha por esteios basilares o Exército e a Igreja, mesmo assim, nunca viveria situações - no que ao Rock diz respeito - como as que ocorreriam em países que gostavam de se autodenominar como sendo os faróis da Liberdade, os sustentáculos da Democracia e os porta-estandartes dos Direitos dos Cidadãos. Estamos a referir-nos, claro está, aos Estados Unidos da América do Norte, onde - e mais concretamente, no estado do Arkansas - por pouco que não foi aprovada uma Lei que proibia o Rock, embora através do recurso a eufemismos e uso de uma terminologia que o não mencionava directamente. Esta proposta de Decreto pretendia, então, que se proibissem todas as músicas que fossem consideradas como sendo ensurdecedoras, ao mesmo tempo que se apresentassem como sendo estruturadas com base num esquema de composição repetitivo e possuidor de um compasso de quatro tempos... Por tal definição terminológica ser por demais abrangente, podendo incluir, sob a sua alçada, vários outros estilos de música, e pelo facto de a apreciação do que poderia ser considerado, ou não, como sendo demasiado barulhento estar totalmente dependente de uma avaliação subjectiva, estamos em crer que tal legislação não terá sido aprovada, pese embora o próprio Governo Federal (e os da maior parte dos estados) considerar este novo género de música como sendo extremamente perigoso e subversivo.
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mesmo tempo, os tinha como difusores de modos e práticas de vida corruptoras daquela que deveria ser a moral da juventude (curiosos paralelismos com as mentalidades vigentes na época em que os próprios Ritmo Louco decidiram tomar corpo)52. O facto de as letras das canções serem em Inglês, que quase ninguém percebia (o francês era, então, e por excelência, a língua estrangeira de opção, de referência, de cultura e de aprendizagem), e de se considerar a formação de conjuntos como apenas uma folia própria da idade53, aliado à circunstância de os seus membros pertencerem, em grande parte, a famílias tidas em consideração e estima (situação à qual já anteriormente aludimos), terá facilitado esse beneplácito estatal e social54, uma vez que limitava temporal (idade) e espacialmente (grupo social), o acesso e, mais importante ainda, a compreensão
52 “O artista não tem rendimento certo, o que dava logo o estatuto de marginal. Daí a expressão «aquele é que é um artista!»” (Os Rockers,
em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág.300). 53 Aliás, e no clássico «A Canção de Lisboa», de 1933 (uma mera meia-dúzia de anos antes da formação dos Ritmo Louco), nota-se nos dizeres de Vasco Leitão (a personagem principal, magistralmente encarnada por Vasco Santana, e em torno da qual volteia todo o enredo), já mais para o fim do filme, que agora que já era doutor, os dias de fadista dele tinham terminado. Concluía-se, assim, a carreira do Vasquinho da Anatomia e iniciava-se a do Dr. Vasco Leitão, não sendo alheio a isto o facto de se ter casado com a sua namorada, Alice Costa (papel imortalizado por Beatriz Costa). Nem o rogo, por parte do seu patrono cessante, o Alexandrino (Manuel Santos Carvalho), de cantar, pelo menos - e em jeito de despedida - o «Fado do Mastoideu» (o Esternocleidomastoideu é um dos músculos do pescoço, tendo-se celebrizado e imortalizado através desta película, e muito mais do que pela sua importante função exercida nessa parte do corpo, uma vez que passou a fazer parte dos ditos e larachas corriqueiras da língua portuguesa), o faz demover de seus intentos. Ora aqui se encontram já duas constantes que se vão encontrar nas atitudes tomadas perante a juventude e o Rock: por um lado, o facto de terem acabado os tempos de estudante, de académico, leva as pessoas a renunciarem a essas veleidades próprias da mocidade; segundo, o acto de contrair matrimónio e, assim, começar uma família, tornava impróprio a dedicação a esse tipo de passatempos... Isto é o que era esperado, e por isso é que era tolerado, quando não encorajado, pois era algo tipo um contrato a termo certo, uma festa de despedida de solteiro... Como curiosidade, refira-se que o filme, escrito e realizado por José Cottinelli Telmo, foi a segunda película portuguesa a ser sonorizada (tendo cabido a «A Severa», de 1931, o acto inaugural) e a primeira, nessa qualidade, a ser totalmente produzida em Portugal. Contendo, ainda, o grande António Silva no seu elenco (no papel de Caetano Costa, o pai de Alice), também verá a participação de Manoel de Oliveira (como Carlos, o melhor amigo de Vasco), aquele que viria a tornar-se no realizador português que mais tempo viveu para dedicar à sua Arte. Além deste acervo de personalidades, tanto o pintor Carlos Botelho (na função de director assistente), como o poeta José Gomes Ferreira (que ocuparia o posto de editor assistente) ou o multifacetado artista Almada Negreiros (que seria o criador dos cartazes promocionais), encontrar-se-ão ligados a esta obra. 54 Aliás, a própria forma de apresentar as bandas era feita de uma forma muito polida, suave, mostrando os músicos como sendo pessoas totalmente normais e que em nada diferiam de um outro qualquer jovem estudante. Veja-se, por exemplo, o caso da descrição de cada um dos membros dos Sheiks, relatada na contra-capa do 7’’ EP «Tell Me Bird» (editado pela Parlophone em 1966), onde se faz questão de notar que o leite era a bebida favorita de todos os integrantes, algo que estava totalmente arredado dos estereótipos daquilo que poderá designar como cultura Pop/Rock. Eram todos bons rapazes (não estamos aqui a dizer que o não fossem, nem que, de facto, preferissem esse produto lácteo a uma outra qualquer bebida, pretendendo apenas demarcar um ponto de vista), ao contrário do que sucedia noutros países, onde a vertente rebelde era aquela sob a qual incidiam a imprensa e os meios de comunicação social. Publicitar provocações, e até mesmo exagerar o seu contexto e conteúdo, vendia os artigos e fornecia um chamariz para publicidade e patrocínios, através da manipulação do medo do desconhecido e do apelo ao lado selvagem que a sociedade de consumo, maioritariamente constituída por elementos das classes média e média-alta (que eram as que tinham possibilidades de comprar revistas e discos despreocupadamente), sentia-se atraída e fascinada pelo culto do “mau rapaz”, do “rebelde sem causa e sem pausa”, talvez em muito pela estabilidade, segurança e conforto com que podiam levar as suas vidas, em que não tinham que enfrentar situações de perigo e medo no seu quotidiano monótono (que estas situações a roçar o marginal ajudavam a quebrar), ou carências materiais de uma forma contínua ou permanente.
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das letras, músicas, atitudes e possível impacto social que o Rock poderia vir a ter55. Nos inícios dos anos 60, vivia-se já um outro clima, a nível musical, um pouco por todo o país. Logo em 1960, é editado (pela Columbia) um split-EP56, o «Caloiros da Canção», em que estão incluídos dois temas de Daniel Bacelar e outros dois dos Conchas, o primeiro registo fonográfico Rock/Ié-Ié português. Aparecem, também, outras novas bandas, tais como o Conjunto Sousa Pinto e os Demónios Negros. Já no ano de formação dos Rocker's (1961), surgem muitas outras propostas, tais como Armindo Rock e Conjunto Tony Araújo (que viria a dar lugar aos Blusões Negros), os Guitarras de Fogo, os Scoubidous, os Electrónicos ou o Conjunto Académico João Paulo. Simultaneamente, também as províncias ultramarinas – com especial incidência em Angola e Moçambique (até porque eram as que possuíam uma maior percentagem de colonos portugueses, sendo as mais desenvolvidas de todas) – irão assistir à formação de grupos musicais que tinham o Rock a arder nas suas veias. A proximidade, quer da África do Sul (que fazia fronteira directa com a segunda das províncias referidas, e indirecta com a primeira, através do Mandato da Sociedade das Nações no Sudoeste Africano – actual Namíbia), quer da Rodésia (actual Zimbabwe), assim como o facto de a P.I.D.E. (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) efectivar, nesses territórios, uma repressão e controlo mais brandos, exercendo uma censura menos penalizadora, darão azo a que a juventude local tenha o à-vontade de formar os seus próprios conjuntos57. Assim, Moçambique será o local de nascimento do Conjunto de Oliveira Muge, bem como verá Victor Gomes (que, em 1963, e já na Metrópole, formará os lendários Gatos Negros) dar os primeiros passos no R'n'R, sendo mesmo aclamado, e já em 1957, como “supremo roqueiro” pela Rádio Clube de Moçambique. Aliás, a vicinalidade de Lourenço Marques (actual Maputo) da fronteira com a África do Sul fará com que
55 A sua existência e sobrevivência, irão ser ajudadas, ao mesmo tempo, quer pelo factor de o público não compreender os textos, quer pelo
facto de o próprio nível de domínio do idioma britânico, pelos próprios músicos, não se encontrar ao nível da excelência, sendo as letras adaptadas às limitações de cada tradutor e intérprete. 56 De split, partilhado (neste caso, por pelo menos dois agrupamentos), e EP, Extended Play, um single com mais canções e maior duração que o normal 7’’ Single, que incluía apenas duas canções. Quando esse formato foi aumentado para o tamanho de 12’’ - o tamanho de um Long Play, um Álbum -, foi considerado como sendo um Mini-LP, apesar de ter a mesma quantidade de canções e usufruir de uma duração aproximada (à do 7’’ EP), tocando, na mesma, a 45 rotações por minuto (RPM). Dada a influência dos mercados anglo-saxónicos, geralmente utilizase o termo 7’’ - sete polegadas - pois está relacionado com o sistema de medidas inglês, embora em certos países, como a França, se use o sistema métrico comum ao nosso, medindo-se em centímetros os objectos em análise (correspondendo, por isso, o 7’’ single a 18 centímetros, o 10’’ a 25 e o LP a 30). 57 Portugal, pelo seu lado, fazia fronteira com a Espanha que, na altura, experienciava ainda a ditadura franquista, ao mesmo tempo que sofria uma repressão mais apertada por parte da polícia política.
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muitos dos agrupamentos moçambicanos se possam deslocar a esse país para actuar e, inclusive, gravar. Quanto a Angola, esta já tinha visto os Ouro Negro (um pouco mais tarde conhecidos como Duo Ouro Negro, e que terão um papel fundamental na cena musical portuguesa ao longo dos anos 60 e 70, Guimarães incluída) darem os primeiros passos em 1957 (tendo gravado os primeiros singles já em 1959), fundindo sonoridades de cariz tradicional com sensibilidades e interpretações próximas do Ié-Ié. Contudo, caberá aos Rocks (criados em 1961), a honra de serem o primeiro conjunto assumidamente Rock da colónia, tendo mesmo conseguido alcançar o segundo lugar no Concurso de Ié-Ié realizado no Cinema Monumental (em Lisboa), em 1965. Tudo isto prova – mais uma vez – que Guimarães, ao assistir ao nascimento dos Rocker's, não estava minimamente atrasada face aos ventos que percorriam o país de lés-a-lés, e isto apesar de todos os condicionalismos geográficos, sociais, culturais e políticos. Outro passo notável, que o C.A.R. irá dar no âmbito musical, é o de, durante 1962, proceder à gravação (em fita magnética) do conjunto de gaitas-de-beiço, embora sem nenhum propósito comercial, segundo o que se pode apurar. Entretanto, e durante esse ano, a P.S.P. (Polícia de Segurança Pública) ordena o encerramento do bar da instituição, sob pretextos dúbios...58 Nesse ano ainda, a associação vê nascer um outro projecto influenciado pela nova música que por lá fora se fazia: Los Bicos. Pese embora a forte presença de composições italianas e francesas no seu repertório, este grupo [formado por Sebastião Félix (guitarra), Carlos Leite (piano), Alberto Guise (contrabaixo), Manuel Monteiro (bateria) e Albano Guise (voz e, depois, também bateria)] namoraria, ao mesmo tempo, temas Rock, especialmente os mais conhecidos do público em geral. Esta aventura seria, contudo, de pouca dura, desintegrando-se logo no ano seguinte, indo dois dos seus elementos (Sebastião Félix – desta feita para o baixo – e Albano Guise) integrar o Conjunto de Tóny Carlos.
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O que serve para demonstrar que todo e qualquer tipo de aparente “abertura” e “tolerância”, para com estes movimentos artísticos, era, de facto, muito limitada, vigiada e controlada. Outro caso que demonstra a perpétua vigilância das entidades oficiais, políticas e policiais de todo o tipo, deu-se a 30 de Abril de 1963, altura em que a sede do C.A.R. teve a P.I.D.E. à porta, com a finalidade de impedir uma conferência sobre os «Significados da Obra de Aquilino Ribeiro», que iria ser levada a cabo por Óscar Lopes. Esta, depois de já ter sido forçada a um adiamento, acabou por ser remarcada para a data mencionada, que, por triste coincidência, calhou uns meros dois dias após a morte do autor que iria ser homenageado... No ar, fica a pergunta de se a intervenção da P.S.P., efectuada apenas cerca de um ano antes, e independentemente dos pretextos, não terá tido como corolário esta demonstração de excesso de zelo... Não descuremos, contudo, outros motivos de política de bastidores, para este avolumar de intervenções, pois certo é que a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.), já há muito tempo pressionava o R.L./C.A.R. - assim como todas as outras associações congéneres existentes -, por forma a que este ficasse sob o seu jugo e alçada, podendo, por isso, ter metido a sua mão no assunto... Mas isto são apenas especulações...
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Este agrupamento, tinha sido formado no Porto por Tóny Carlos (baixo), nos inícios dos anos 60, acto após o qual se deslocará para Famalicão, onde viria a incorporar uma vocalista feminina (Teresa). Por fim, e já durante 1963, acaba por se instalar em Guimarães (no Convívio59), altura pela qual incorpora os referidos membros dos Bicos (Félix, inclusive, vai substituir o próprio Tóny Carlos), bem como João Mendes (no saxofone)60. Tal como os Bicos, o conjunto interpretava uma mescla de canções italianas e francesas, com Rock à mistura, sobretudo temas dos Shadows61. A vivacidade e vigor deste círculo (que, de facto, fazia jus aos seus epítetos, quer de arte, quer de recreio) vem-se a provar, mais uma vez, durante o ano de 1963, com a formação dos Skaters. Fazendo parte do seu elenco Francisco Teixeira (piano e, depois, também voz), Hélder Rocha (bateria), José António (voz), Manuel Mendes (guitarra) e José Rodrigues (contrabaixo), irão, ainda antes do seu término (em 1966), sofrer alterações na formação (sendo o primeiro grupo vimaranense a sofrer de tal maleita), saindo o Hélder Rocha, o José António e o Manuel Mendes e entrando o Domingos Guimarães (para a bateria), o Santana e o Jack (para as guitarras). Tendo, como os anteriores grupos, um vasto reportório – que abrangia desde as sempiternas canções italianas e francesas até ao R'n'R –, verá surgir das suas cinzas um dos mais conhecidos grupos de Guimarães, os SO4H262, embora este já venha a estar sediado na E.I.C.G.63 59 Associação fundada em 1961, também de cariz cultural e recreativo, e que viria a estar ligada, formal e directamente, à organização das
Gualterianas, as festas da cidade, realizadas a cada primeiro fim-de-semana de Agosto. Além de, no próprio espaço, desenvolver diversas actividades de índole artística, música incluída, a sua conexão com as celebrações de São Gualter fará com que o cartaz destas venha a integrar o Thilo’s Combo (em 1964), os Sheiks (em 1966), ou os Pentágono, Pop Five Music Incorporated e Paulo de Carvalho (todos estes em 1971), além dos vimaranenses Atracção, neste último referido... 60 Que, depois, virá a partilhar andanças com os Rocker's e os Bramas. 61 Tóny Carlos, “era um conjunto considerado como um dos mais famosos, principalmente no Norte, mas mesmo a nível do país.” (Sebastião Félix, em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 308). Os Rocker’s, seus contemporâneos, também calcorreariam as estradas da região Norte, assim como o viriam a fazer - um pouco mais tarde - os Kings e os SO4H2, entre outros. Guimarães fornecia, generosa e abundantemente, e muito particularmente ao Norte em geral (Antre-Douro-e-Minho e Trás-os-Montes), toda uma série de grupos musicais, parecendo mesmo ser um viveiro de grupos e de músicos, a providenciadora das bandas sonoras que abrilhantavam todo um conjunto díspar de festas, polvilhadas por uma miríade de povoações que, de outra forma, raramente poderiam usufruir deste tipo de beneplácitos... 62 Que foram o primeiro grupo em Guimarães a possuir, quer aparelhagem, quer veículo próprios (um Chevrolet, em 1966). A tal, não é alheia a participação de Eduardo Ferreira no colectivo, embora estes privilégios só fossem possibilitados, por enquanto, através do seu pai. Também terão sido a primeira banda Rock vimaranense a tocar fora do país, mais concretamente em Vigo. 63 Deste grupo, emergirá a figura pioneira do acima referido Eduardo Ferreira, empresário que venderia instrumentos para todo o Norte, numa altura em que só o Porto tinha algumas lojas que negociavam nessa área, não havendo sequer uma em Braga (lojas como a Vimúsica, em Guimarães, ou o Salão Mozart, em Braga, só abrirão portas muito mais tarde, já nos anos 80). Ele será o motor que levará à formação de muitos conjuntos ad hoc na cidade, apenas para suprir a necessidade de um evento único a realizar num sítio qualquer (outorgando-se ao agrupamento um nome criado de raiz, apenas para esse mesmo acontecimento), convocando músicos do burgo para poder preencher os contratos que ia arranjando. Aliás, os grupos de Guimarães levavam música Rock a sítios onde esta nunca tinha passado - ou muito
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A própria Marcha Gualteriana irá, em 1963, incluir um carro alegórico – no seu corso – alusivo aos chamados “ritmos modernos”, intitulado de «Mundo do Twist»64, e do qual a imprensa local fará eco como sendo uma “música do povo, dos salões, dança da juventude inconformista, sonhadora, rebelde e ávida. Embriaguez de cadências estranhas, gingalhar absurdo do físico, contusões e requebros, como se um corpo inteiro ficasse desengonçado, histericamente desengonçado, ao ritmo de clamores loucos como se viessem de lá da selva onde rugem os leões. O Twist tem a música modernista que empolga os jovens, que, mercê dela, afirma a força inaudita que ultrapassa os formalismos e os limites concebíveis da lógica e da harmonia dos gestos, quando toca a dançar a autêntica música que credencia o séc. XX.”65 “Há grandes músicos que têm a mania que tocar é velocidade, tocar muito alto... Isso não é música, é exercitar! É o que se aprende nos conservatórios e nas faculdades. É fazer escalas, vomitar escalas!” (...) “As pessoas com formação musical vêm preparadíssimas para vomitar escalas. São grandes vomitadores de escalas, mas música em si aparece pouca.” (...) “Aquilo parece mecânico, parecem robots!... O que interessa é dar espectáculo.” (...) “A música é interpretar uma coisa, e interpretá-la à nossa maneira.” (Domingos Guimarães, em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/rock», pág. 175) 66
raramente apenas... De citar aqui os Kings ou, uns anos mais tarde, a Banda do Sarilho, que se deslocaram a Trás-os-Montes, por exemplo. Os próprios Rocker’s palmilharam muitos quilómetros de estrada por este Minho fora, factos aos quais já aludimos.... Aliás, até os famosos UHF (e já estamos aqui a falar da década de 80) se irão queixar, ainda, da inexistência de qualquer tipo de requisitos mínimos fundamentais aquando do seu percurso pelas terras e povoados do Norte profundo, quer de equipamentos, quer de vias de comunicação, quer de outros apetrechos e requisitos básicos variados. Não foi à toa que os Xutos & Pontapés se referiram à lentidão das “nove horas de distância”, de Lisboa a Bragança, no tema «Maria», do álbum «88» (editado, em 1988, pela Polydor). Apesar de tudo, há uma concordância estre os músicos dos anos 60 e 70, que afirmam terem sido mais bem tratados lá fora que por cá, coisa que, aliás, se manteve como uma constante quase inalterada nos tempos actuais, tornando verdadeira a profecia vaticinada pelo velho adágio que prega que “santos da casa não fazem milagres”. Além disso, pagava-se melhor nesses tempos, quando hoje, os músicos quase têm que pagar para tocar, no caso de se tratar de banda de originais... 64 O Twist, mais que um sub-género de música, foi um dos muitos tipos de modas e loucuras de dança que povoaram o universo do Rock’n’Roll, a partir dos anos 50. Prolongando-se pelos anos 60, virá a inspirar todo um acervo de coreografias similares, que viriam a constituir a sua descendência. Nesta categoria, incluem-se o Pony, o Jerk ou o Watusi, entre tantas outras que não conseguiram alcançar o mesmo sucesso que a raiz de onde haviam brotado (especialmente devido a nada mais serem do que aproveitamentos comerciais, por parte das editoras, dos estilhaços da primeira provocadora de tamanhas folias, debitados numa sucessão demasiado rápida para poderem ser assimilados). O termo twist, significando “torcer”, em inglês, terá começado a ser aplicado já no término do século XIX, incidindo sobre um forte movimento das ancas, dinâmica esta que era acompanhada pelos braços e pernas. Hank Ballard And The Midnighters e, sobretudo, Chubby Checker, terão sido os artistas que lhe estiveram na origem, além de terem sido os que mais impacto causaram. 65 Em texto não assinado de «O Comércio de Guimarães», de 21/09/63 (transcrito no «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pelo autor, na pág. 69). Atentar ao uso de vocabulário “inconformista” e “rebelde” como atributos da música que a juventude ouvia, numa altura em que tal era o que precisamente se não pretendia. No entanto, mais relevante ainda é o facto de se considerar que esta é “a autêntica música que credencia o séc. XX!” 66 Ou, como diz um amigo nosso, o André Carneiro, da editora Pós-80’s, nada mais são que “atletas da música”, ou, como o dizemos nós, por outras vias travessas (e desde já há um ror de anos), intérpretes que se limitam a “debitar escalas”, e isto antes desta entrevista ter sido realizada - curioso estes paralelismos e percepções análogas, uma geração depois...
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De referir que, por aqui, imperava o auto-didactismo67, situação essa que se irá prolongar até aos inícios dos anos 90. No entanto, não se pense que não haveria algumas pessoas com estudos musicais, mas poucos eram os casos e muito raramente sucedia que viessem a prosseguir qualquer tipo de estudos superiores, ou de conservatório, especialmente se estivessem na área do Rock. O próprio método de conseguir apanhar as canções e letras passava por se pôr a tocar os discos repetidamente, andando para trás e para a frente, com a agulha, até se conseguir obter os acordes para se poder tocar os temas ao vivo68. No respeitante às líricas, o que acontecia era quase como que um processo de adaptação dos textos para o português, quando havia as letras69, ou, então, tirava-se tudo de ouvido, aquilo que se alcançava perceber (embora sempre limitado pelos conhecimentos do inglês ou de outra língua qualquer, sendo aqueles que melhor dominassem essa língua quem ficava encarregado dessa penosa tarefa70), o mesmo se passando com os acordes e arranjos das canções. Em alguns casos, quando havia essa possibilidade, gravava-se da rádio para fita, mas recorrendo à mesma técnica de andar para a frente e para trás, até
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“Na altura era tudo auto-didacta puro.” (os Rockers, em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 300) “Tudo o que eu tocava, aprendia através dos discos. Eu podia tocar qualquer coisa imediatamente, sem ter que passar pelas terríveis restrições da música escrita, a prisão das regras e das cinco linhas (da pauta - nota do escritor). A música gravada libertou todo um conjunto de músicos que não podia pagar, por força das circunstâncias, cursos de solfejo/teoria musical, como eu. Antes de 1900, havia o Mozart, o Beethoven, o Bach, o Chopin e todos esses. A música gravada foi uma libertação! Se não fosses tu, então seria algum conhecido teu que teria uma aparelhagem, e isso permitia-nos ouvir música tocada por outros, assim como outras cenas além de orquestras sinfónicas e coisas escritas. Podíamos mesmo entender o que as pessoas diziam, como se estivéssemos com elas! Havia muita porcaria, mas também havia coisas muito boas. Foi a emancipação da música! Por outro lado, também havia concertos, mas quem os podia pagar? (...) As gravações permitiram o acesso à expressão, ao sentimento da música. (...) Tocar (...), para mim, era como fugir de uma prisão, para longe daquelas linhas meticulosas onde as notas eram atulhadas como prisioneiras de rostos tristes.” (citação retirada da auto-biografia de Keith Richards, págs. 99 e 100); “Pegávamos num disco novo (...), eu aprendia as partes de guitarra, ele (o Mick Jagger) apanhava as letras.” (idem, pág. 112) Portanto, e como se pode verificar por estes testemunhos partilhados pelo guitarrista dos Rolling Stones, o mesmo fenómeno experienciado pelos nossos pioneiros do Rock, não era nada de novo nem resultante de uma pobreza de espírito, aliada à monetária, mas sim algo que também se vivia lá fora, inclusive em países mais avançados, democráticos, com um maior nível de vida e com fortes tradições musicais e editoriais muito fortes e vincadas, como o era a Inglaterra dos meados do século XX (pese embora ainda viver numa economia que se tentava recuperar e erguer dos escombros e cinzas da II Guerra Mundial. As mesmas vivências e dificuldades por cá sentidas eram, de facto, partilhadas além-fronteiras... 69 Aliás, houve mesmo alguma polémica relativamente a isto, que teve algum eco na imprensa local, no que às traduções literais dizia respeito, afirmando-se que estas retiravam o sentido aos textos originais ou, no mínimo, os tornavam em algo de caricato. Além disso, o próprio uso do inglês sofria ataques, embora esta pareça ter sido a única língua a sofrer este tipo de críticas acérrimas, não se pronunciando os amanuenses acerca das tentativas de colagem aos cantores brasileiros e à sua peculiar apropriação da língua de Camões... No entanto, frise-se aqui que, e em defesa dos conjuntos anglófonos, na maior parte dos casos, eram as próprias editoras que pediam aos músicos para comporem em inglês, por questões de estilo e comércio, claro... 70 Mas, se já muitas vezes, a percepção dos textos em português nos prega truques a nós, que o temos como língua-mãe, o que tal pode provocar nos outros idiomas torna-se num dilema acrescido, quer seja o inglês, o francês, o italiano ou o castelhano... 68
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se conseguir apanhar o máximo e o melhor possível, da música que se pretendia tocar71. As versões surgiam como um reflexo da sociedade e uma necessidade prática, uma vez que os originais não tinham tanto impacto nos bailes ou concertos, já que a grande maioria das pessoas não os reconheceria, e o que se pretendia ali eram temas para dançar e sociabilizar, já que esses acontecimentos eram, praticamente, os únicos sítios onde se tolerava um pouco de contacto físico entre os casais de potenciais namorados. Já mais para os finais dos anos 60, durante os 70 e mesmo durante a primeira metade dos 80, nos poucos concertos de bandas de fora que por cá se realizavam, cumpria-se a tradição de haver primeiras partes de abertura aos cabeças de cartaz, muitas das vezes efectuadas por grupos vimaranenses, havendo um certo consenso – por parte das locais – que tal servia mais para evidenciar os grupos principais do que para divulgar os regionais...72 “Tocava-se de forma muito inocente, em Portugal. Mesmo os conjuntos que tinham discos gravados, a forma de tocarem era um bocado primária. Era saber os acordes e pouco mais” (Os Kings, em entrevista ao «Guimarães: 50 Anos de Pop/ Rock, pág. 229).
Infelizmente, não se pode dizer que tal ímpeto e entusiasmo extravasassem os limites da cidade de Guimarães, pelo menos em número de grupos a emergirem. Aliás, tal nem é muito de estranhar, uma vez que, se já o meio local era modesto – embora muito dinâmico –, as outras povoações em redor, e com alguma expressão populacional (Vizela e Taipas), ainda mais pequenas o eram, em tamanho e população. No entanto, e em muitos aspectos, as pessoas da cidade aparentavam ser mais fechadas às novidades que as das referidas povoações. Mesmo dentro do perímetro urbano, os polos aglutinadores centravam-se em torno da já referida Escola Industrial e Comercial de Guimarães e do Círculo de Arte e Recreio, encontrando-se a Escola Secundária Martins Sarmento (E.S.M.S. – o Liceu), arredada de tais lides nos inícios destas manobras e movimentações mais rockeiras, aparentando (mas apenas a uma primeira vista) centrar os seus interesses exclusivamente nas Festas Nicolinas e nos Bailes de Finalistas (panorama em que se já não reveria em finais dos anos 80, cerca
71 “Havia uma casa que nos concedia as instalações, para ouvirmos discos nas suas instalações de venda ao público - o Sr. Fernandes, na Rua
da Rainha -, e aí sim, caçávamos mais as músicas, tudo de ouvido” (Djalme Silva, em entrevista publicada no livro «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 168). 72 Aliás, esse tipo de situações parece ter-se verificado pelo país inteiro, embora os factores de exposição e divulgação das bandas locais também se fizessem sentir presentes, e fossem manifestamente importantes.
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de um quarto de século depois)73. Contudo, e como que a provar que, de facto, “não há regra sem excepção” e “onde há fumo, há fogo”, dois casos existem que irão fugir a esta aparente norma de um maniqueísmo74 experienciado entre a Escola/C.A.R. e o Liceu. Por um lado (e isto se exceptuarmos uns “misteriosos” Apollo 10, dos quais não conseguimos obter mais informações, para além do seu nome), teremos Os Incríveis, conjunto associado às Oficinas de São José e
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Em abono da verdade, diga-se que, por sua vez, os alunos da Escola se encontravam interditados de participar nas Festas Nicolinas e actividades conexas. Porém, estamos em crer que a alegada inexistência de agrupamentos musicais ligados ao Liceu seja mais um mito do que uma realidade com verdadeiro fundamento, fruto, talvez, da rivalidade existente entre os dois focos de ensino citadinos, em que os da E.I.C.G. consideravam os da E.S.M.S. como sendo elitistas e estando mais aburguesadamente acomodados ao regime... Além do mais, os primeiros sempre tiveram mais meios para dar voz e relevância às suas pretensões (vide o C.A.R. e as Variedades da Escola Industrial). Claro que, e objectivamente falando, pode-se afirmar que a grande maioria dos possíveis conjuntos emergidos do Liceu teria obtido menos impacto e menor relevo social, considerando o manancial humano e todo o conjunto de actividades que a Escola providenciava de uma forma concreta, coerente, constante, arrojada e, talvez mesmo, emblemática, inclusive devido à sua ligação ao C.A.R., quer por intermédio dos seus alunos, quer até mesmo de professores (basta nomear, como exemplo, Joaquim dos Santos Simões, professor no mais que referido estabelecimento de ensino e que fazia parte - já desde a segunda metade dos anos 50 - dos corpos gerentes do Círculo). Todavia, tal não obstou a que alunos do Liceu formassem os seus próprios conjuntos, tais como os Five Foxer Show, Les Copins ou os Opus, sendo destes últimos que viriam a emergir os Bramas, de quem iremos falar mais à frente, e que, de facto, tiveram um grande impacto na música feita cá no burgo (estes últimos nomes de conjuntos citados, e ao contrário dos que referimos até agora no texto principal, não ensaiavam em nenhum estabelecimento de ensino ou numa qualquer associação de carácter cultural e recreativo). Mais ainda, o próprio filho de Joaquim dos Santos Simões, António dos Santos Simões, veio a ser estudante nesse mesmo Liceu, embora já nos anos 70, tendo feito parte dos Washleather e Atomium, além de se multiplicar em colaborações com os Apocalipsis (que também citaremos mais adiante), ou de outros agrupamentos durante e após a frequência da Universidade, nomeadamente a Brigada Victor Jara (já em finais dos anos 80). As próprias Nicolinas incluíam, no seu programa, concertos, tendo cá trazido o Quinteto Académico, por exemplo. Uma coisa é certa: antes da mudança de regime, em 1974, pouco se sabe sobre que tipo de agrupamentos musicais animariam os Bailes de Finalistas do Liceu. Contudo, há escritos que apontam para participação dos Kama Sutra e dos Stratus nesses eventos, assim como dos SO4H2, já durante o rescaldo dessa alternância política... Também se pode dar o caso de que, de facto, só mais perto dos anos 70, o Liceu se tenha demonstrado mais dinâmico neste aspecto, daí parecer estar tão apagado aquando do emergir do Rock. Há, no entanto, informações de que, já pelos idos anos de 1963, se ia verificando alguma movimentação nesse sentido, embora careçamos de exemplos concretos. Só já em 1965, com os Five Foxer Show, é que há certezas de tal. Refirase, ainda, que os próprios Rocker’s, sendo um grupo da Escola, chegaram a tocar 4 ou 5 anos consecutivos nos bailes do Liceu! Nota à nota-de-rodapé: não confundir os Stratus mencionados com os da década de 1980, que lançarão o single «Um Chuto No Quarto» em 1982, pela Musa. Enquanto estes últimos eram de Santarém, os referenciados relativamente ao Liceu eram originários da Cidade Berço, e resultavam do fim e remodelação dos Rock Diamonds Group, em finais dos anos 70, e incluíam, no seu elenco, Albano Pitada, na voz e órgão, Agostinho, na guitarra solo, Manuel Moreira, na guitarra ritmo, Celestino, no baixo e Zé Martins, na bateria. 74 O Maniqueísmo, é mais uma das religiões que, tal como o petróleo e o gás natural, brotaram do infindável manancial que é o Médio Oriente. Fundada na Pérsia, no século III, pelo profeta e sábio parto (os partos, eram um povo Indo-Europeu do nordeste do Irão e que viria a constituir a base do Império Parto, ou Arsácida, potência iraniana que se impôs na região da Pérsia Antiga, durante o período temporal compreendido entre 247 a.C. e 224 d.C.) Mani (Manichaeus, em Latim, daí o termo Maniqueísmo atribuído à sua filosofia), tem como postulado principal da sua crença o dualismo, ou seja, o da eterna luta entre dois princípios opostos e irreconciliáveis, o Bem e o Mal, em que o espírito humano a Deus (Zurván) pertence, enquanto o corpo é uma possessão do Demónio (Ahrimán), encontrando-se a alma aprisionada pela forma física que a envolve. Na senda do Gnosticismo ou do Zoroastrismo, considera que Manes (outra forma do nome do seu iniciador) é o último dos profetas enviados por Deus à terra, na senda Zoroastro, Buda e Jesus. Dada essa dualidade que defende, o termo passou a significar, em linguagem comum, a existência de duas facções ou pólos opostos, ou de uma simples dicotomia baseada na presença de apenas um par de situações de origem diversa.
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que, segundo as crónicas da época, embora actuassem, basicamente, apenas no recinto dessa instituição, já tocariam as canções mais em voga da altura. Tendo sido formados – provavelmente – em 1962, será a eles que, quer o Conjunto de Tóny Carlos, quer Os Rocker's, irão buscar o saxofonista João Mendes. Por outro, teremos Os Dallas. Formados como conjunto instrumental, em Vizela, decorria o ano de 1963, por Silvino Pedrosa, Augusto Amaral, Alberto Couto, Luís Couto e Miguel Couto, virão a acolher, no seu seio, José Luís Freitas (na voz), no ano seguinte. Mudando de formação em 1965, começaram por tocar sob a influência dos Shadows, embora também vagueassem pelas canções italianas e francesas. A sua última formação, que incluirá Alberto Couto (guitarra-solo), Luís Faria (voz e guitarra-ritmo), Miguel Couto (baixo e voz) e Flávio Faria (bateria e voz), optará por uma abordagem mais Rock, mais influenciada pelos Beatles, facto que (aliado à saída de Luís Faria e à sua substituição por Ângelo Costa) levará ao formar dos Kings, em 196675. Isto não quer dizer que não pudessem existir outros agrupamentos espalhados pelo concelho. Todavia, se tal foi o caso, ou não se deram a conhecer, ou foram completamente ignorados, ou perderam-se nos meandros da memória e do tempo, sendo escassas as notícias ou informações que conseguimos coligir sobre a sua existência76. Como já se pôde notar, o R'n'R aparece – nestas primeiras bandas – associado, principalmente, a canções
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Seriam, precisamente, estes Kings que sairiam vencedores do «1.º Festival de Conjuntos Ligeiros Amadores do Minho», ficando os - também vimaranenses - Bramas em segundo lugar, enquanto a terceira posição caberia aos Clipers, de Viana de Castelo (que, não muito depois se tornariam em mais um grupo de baile, sendo dessa altura os sete LPs que registaram para a Edisco, entre 1979 e 1985, todos eles com as suas interpretações dos mais distintos sucessos do momento). Organizado pela Comissão Central do Vitória Sport Club de Guimarães, em 1969, e funcionando por eliminatórias (que se iniciaram no mês Setembro), destinava-se, apenas e somente, a conjuntos minhotos, embora o seu júri tivesse sido constituído por músicos do Porto (do Grupo 5 - que nada mais era que o Conjunto Sousa Pinto, mas sob um outro apodo , formado por Alberto António Mendes de Souza Pinto, e Roger Sarbib - pai de André Sarbib), sendo o único elemento de Guimarães o professor de canto coral do Liceu (onde eram estudantes os Brama, não sendo alheio a isso ter sido ele o único a votar nos pupilos da sua escola, pese embora estes terem partilhado palco com o Grupo 5, nas suas andanças pelo Minho). O facto de terem ficado em primeiro lugar, levará a que os Kings tenham sido a primeira banda Rock do concelho de Guimarães a aparecer na televisão. O evento teve lugar no Teatro Jordão, sala de espectáculos multi-usos que iria acolher uma série de concertos Rock até ao raiar dos anos 90 do século passado. 76 Desse acervo, ganha relevância o colectivo Flor de Lis, intrinsecamente ligado aos escuteiros de Ronfe. Nesse embrião, iriam, não apenas florescer os homónimos Flor de Lis (formados em 1966 e que, pese embora fossem um conjunto típico, durante os anos 70 passam a recorrer ao uso de guitarra e baixo eléctricos e bateria, ao mesmo tempo que incorporaram, no seu repertório, temas recolhidos do cancioneiro Pop/Rock contemporâneo), como, e além deles, os Estrelas de Alvar (formados em 1967, por Manuel Andrade e Francisco Ilídio, ambos nas guitarras acústicas e vozes, vogariam pelas ondas da Canção Ligeira, embora não fossem avessos a tocar canções inseridas mais no âmbito do Pop/Rock, com especial incidência para os sons produzidos pelo Duo Ouro Negro), ou, mais tarde, já em 1975, os Fratres (formados por Jonel, na voz, Nelson, na bateria, Ricardo, no baixo, e Paula, na voz e coros, vagueariam por entre os originais e as versões, que adaptavam, ao mesmo tempo que convertiam os textos para português), que durariam até 1990. De igual forma, também nos chegaram às mãos notícias sobre os Mundo Novo, de Fermentões, que, tendo sido formados nos inícios da década de 70, se prolongariam pelos anos 80 adentro.
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italianas e francesas (de intérpretes como Mario Marini, Peppino di Capri ou Françoise Hardy)77, sendo o repertório dos grupos muito heterogéneo e variado78. Tal advinha de uma necessidade prática de corresponder às solicitações do público dos concertos – também ele muito diversificado –, pois que essas eram as suas preferências. De outra forma, o mais provável seria não conseguirem arranjar eventos que os contratassem. Na maior parte dos casos, contudo, justificava-se a sua presença por uma questão de gosto, “juntando-se o útil ao agradável”. Ao nível do Rock, a maior influência eram, sem sombra para a menor dúvida, os Shadows, banda inglesa que norteava as opções sonoras da imensa maioria dos agrupamentos. Esta preponderância, só começará a esbater-se aquando do emergir de uns outros ingleses, os Beatles, como força motriz das opções sonoras da juventude da altura. Este passo não é de desdenhar, uma vez que acarretou consigo toda uma série de alterações na orgânica das bandas. Assim, além de se “injectar” um maior “peso” na música tocada, acaba-se por abandonar o recurso às tais canções italo-francesas, havendo mesmo, em certos casos, uma cisão entre os projectos que as integravam no seu acervo e os que as abandonaram... Não se julgue, porém, que os casos vimaranenses seriam únicos perante o resto do país. Embora, a nível nacional, o panorama fosse mais diversificado – no que às influências diz respeito –, os Shadows constituíram, também, a chama que incendiou muitas paixões e que incentivou muitos noviços a ordenarem-se músicos e a seguirem as regras do Rock and Roll. Contudo, e tal como aqui pelo Burgo sucedeu, a entrada dos Beatles em cena alterou, definitiva e indelevelmente, o espectro sonoro português. Por esta altura, os sons americanos, pareciam não ter cativado, ainda, muitos seguidores no nosso país, pelo menos ao ponto de exercerem um grande papel como influenciadores, de referências norteadores dos escultores sonoros que, por cá, iam emergindo... Ao mesmo tempo que o cenário vimaranense se expandia, o mesmo sucedia no resto do território nacional. Assim, e já em 1962, assiste-se ao nascimento dos Jets, Nelson Martins e seu Conjunto, Os Leopardos, os Telstars ou mesmo os Night Stars (de Moçambique)79. Pelo ano de 1963, o número de projectos aumenta 77 Que, embora não fossem propriamente Rock, nele bebiam muitas das suas influências e estructuras composicionais, absorvendo-as de uma
forma mais Pop, menos agressiva e com uma forte ênfase na melodia. 78 O repertório, incluía certos temas obrigatórios, especialmente em determinadas alturas do ano (Passagem de Ano, Carnaval...), tais como Sambas, Canções brasileiras, Tangos... “Aquilo não era Pimba mas sim o tipo de músicas que facilitavam o convívio.” (os Kings, em entrevista os «Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock», pág. 232) 79 Que viriam a alcançar o terceiro lugar no «Concurso Ié-Ié» do Monumental, realizado entre 1965 e 1966, e a que iremos aludir um pouco mais à frente.
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exponencialmente, surgindo, entre muitos outros, os Álamos, o Nelo do Twist e seus Diabos, Eddye Gonzalez e Seus Ekos (que depois encurtariam o nome para Ekos, apenas), o Conjunto Académico Orfeu, os Diamantes Negros, Os Espaciais (que teriam como baterista o Manuel Monteiro, dos vimaranenses Los Bicos), Os Windsors (que se metamorfoseariam nos Sheiks), Os Tártaros, Os Titãs ou Os Tubarões80. Como que a provar toda esta vitalidade, são organizados, em Lisboa, os primeiros certames musicais dedicados ao Ié-Ié: os concursos do «Rei do Twist» e o de «Conjuntos Portugueses tipo do “The Shadows”», ambos em 1963. Este último chegou a ter mesmo já 21 propostas musicais inscritas, oriundas de vários pontos do país! Os dois anos seguintes, ainda mais elevarão a popularidade deste género musical, que já estava a fincar raízes bem profundas no fecundo solo nacional. Bandas como os Boys, Chinchilas, Hooks, Incríveis, Gatos Mansos ou os Dinâmicos emergem em 1964, ao mesmo tempo que duas novas propostas surgem em Angola: os Kriptons e os Rebeldes (nos quais Fausto dava os seus primeiros passos). Esse ano verá, ainda, a realização do «Festival de Ritmos Modernos» (em Lisboa) e do concurso «Caravana em Férias» (no Funchal) – este, organizado por uma banda, os Electrónicos, e não por um promotor. Desde já, três dados importantes a reter aqui: por um lado, a descentralização de Lisboa deste tipo de eventos; por outro, o Rock havia-se mesmo espalhado por toda a nação, tendo chegado às ilhas (os conjuntos que actuaram no «Caravana em Férias» eram todos madeirenses – excepção feita aos organizadores81), por fim, os agrupamentos começavam já a ganhar alguma confiança e uma certa maturidade, ao ponto de serem eles a assumirem a coordenação de um acontecimento de tal cariz. Este crescimento – rápido, forte e seguro – da quantidade de bandas emergentes, continuará ao longo do ano de 1965, com a eclosão de uma miríade de novas propostas que incluíam os Bábulas, os Beatniks, os
80 Não confundir estes com uns outros Tubarões, cabo-verdianos, que se formariam por meados dos anos 70, e que chegaram a ter alguma
exposição cá, por alturas do álbum «Bôte Bróce e Linha», de 1989, numa edição conjunta da sua editora própria, homónima, e da EMI. 81 Que eram de Algés. Formados em 1961, e resultando do término de uma formação prévia, Os Celtas, nunca chegarão, contudo, a gravar. Aliás, tal situação era extremamente comum à maior parte dos colectivos portugueses, não escapando Guimarães a essa síndrome nacional. O registo dos Kings, «Memórias», já se faria apenas neste novo milénio, em 2002, sendo resultado de gravações actuais; quanto a um outro agrupamento, Os Arietes, também veria o lançamento, em número limitado, e já muito recentemente, de um registo, sendo este o resultado do trabalho de melhoramento sonoro e montagem de fitas gravadas durante os anos 60. Este último grupo foi formado em Angola aquando da colocação de Sebastião Félix nessa província, no âmbito da prestação do Serviço Militar Obrigatório, sob a égide da Guerra Colonial - antes disso, e não custa nada relembrar, tinha já feito parte de Los Bicos e do Conjunto de Tóny Carlos, e, na década de 1980, seria um dos fundadores da Rádio Fundação, como já o referimos.
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Saints82 e as Pops. O surgir deste último grupo é deveras importante, pois tratava-se de um colectivo constituído apenas por raparigas. Este facto é extremamente relevante, pois numa sociedade imbuída de valores machistas, conservadores e até mesmo misóginos (em que o lugar da mulher era em casa), tal acto demonstra uma coragem e força de vontade sem par. Se, para os elementos do sexo masculino, já era difícil formar um grupo, maiores dificuldades enfrentavam os do sexo feminino, a começar por uma maior reprovação social. Ao mesmo tempo, contudo, demonstra o carácter de uma certa liberdade que o Ié-Ié representava e de que usufruía. Paralelamente, nas Províncias Ultramarinas, o R'n'R continua a dar que falar, vendo nascer os Rebeldes (em Moçambique83), os Lordes (na Guiné-Bissau)84 e os Ritmos Cabo-Verdianos (em Cabo Verde)85. Nesse mesmo ano, uma luso-descendente, Catherine Ribeiro (que chegaria a gravar com os Sheiks), estreia-se em vinil, com o single «C'est Fini Entre Nous» ... Dada toda esta efervescência, não é de estranhar que 1965 veja o maior dos concursos de música até aí realizados, o «Grande Concurso Ié-Ié» no Teatro Monumental86. Tendo contado com 7487 agrupamentos inscritos, foi a prova definitiva de que o Rock era já uma força a ter em conta, mostrando que havia, de facto, uma cultura juvenil embrionária, que começava a ousar manifestar-se aos poucos e a perder, em certa medida, o pudor de se afirmar. Aliás, as publicações da altura começam já a incluir artigos sobre o fenómeno e a fazer eco das suas idiossincrasias, divulgando, também, aspectos sobre o que por lá fora se passava. Nesta vertente da divulgação, contudo, o papel chave caberá ao recentemente criado programa radiofónico «Em
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Que, ainda antes do término do «Concurso de Ié-Ié» do Monumental (que viriam a ganhar), irão mudar o seu nome para Os Claves.
83 Não os confundir com os seus homónimos angolanos... 84
Francisco Teixeira, dos Skaters e SO4H2, aquando da sua comissão militar na Guiné, chegou a tocar num grupo, que dava concertos na área de Bissau, mas não conseguimos saber mais detalhes acerca dessa sua ventura, nem sequer o determinar o nome sob o qual actuavam... 85 Um outro artista cabo-verdiano, Dany Silva, também viria a engrossar as fileiras dos militantes do Ié-Ié feito um pouco por todo o Império. Tendo nascido na província de Cabo Verde, imigraria para a Metrópole em 1961, vindo a ser o baixista dos Charruas, de Santarém. Estes, alcançariam o terceiro posto no «Festival CITU (I Concurso Académico de Música Moderna», que se realizou no Cinema Império em 1968, conseguindo lançar um 7’’ EP, «Povo», ainda durante esse ano e através da Alvorada. Já durante os anos 80, e em pleno Boom do Rock Português (que, também, referenciaremos mais para diante), conseguirá ter alguns êxitos por cá, nomeadamente com os 7’’ singles «Branco, Tinto e Jeropiga» (em 1981) e «Já Estou Farto» (em 1982), e do 12’’ EP «Crioula de S. Bento» (também em 1982), todos eles pelas mãos da Valentim de Carvalho. 86 Organizado pelo jornal «O Século», os seus proventos reverteriam a favor das Forças Armadas que combatiam no Ultramar, tendo o Movimento Nacional Feminino como benfeitor intermediário. Decorrendo entre 1965 e 1966 (sendo a final realizada a 30 de Abril), contaria com a colaboração da R.T.P., da Emissora Nacional, do Rádio Clube Português (que viria a dar origem à Rádio Comercial) e do empresário Vasco Morgado. 87 Na verdade, apenas 73 conjuntos foram a concurso, tendo o septuagésimo-quarto, os Deltones, actuado na final e extra-concurso.
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Órbita», que, embora pouca ou nenhuma música portuguesa revelasse nas suas emissões (nos primeiros tempos de existência, pelo menos), promovia e popularizava as sonoridades Rock que lá fora se faziam, exercendo um forte papel pedagógico sobre os seus ouvintes e acelerando o crescimento e expansão das novas tendências musicais por todo o país. Em certa medida, poderá ver-se no Ié-Ié um acto de rebelião contra o sistema, pois estas sonoridades fugiam ao cinzentismo e monotonia repetitiva dos estilos musicais tidos como aceitáveis, especialmente daquilo que viria a ser denominado de Nacional-Cançonetismo, uma música ao serviço dos interesses do Estado e o pano-de-fundo das vidas imutáveis dos cidadãos portugueses88. O facto de o sistema tolerar (como já antes o referimos) o R'nR – embora vigiando-o, sempre –, permitirá a sua difusão e o estabelecimento de alguns códigos próprios, perceptíveis pela juventude. Não o reprimindo, tornava-o numa válvula de escape que permitia melhor controlar os seus fãs, impedindo, assim, consequências mais nefandas para o regime político. Contudo, embora o Rock tenha sido inúmeras vezes apelidado de “música burguesa” pelos autoproclamados “revolucionários” do 25 de Abril, não há a mínima dúvida que contribuiu, e em muito, para o minar dos alicerces do Estado Novo e para o seu desmoronar, ao fazer com que muita gente se apercebesse de outros estilos de vida, de outras formas de estar e de outros ideários que não o omnipresente “DeusPátria-Família”. O conhecimento dessas outras realidades fará com que a elas se aspirasse e que se almejasse ter uma forma de vida diferente, sob a égide de um outro regime político89.
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Um estilo de canção nacional (conforme o nome o deixa revelar) que acompanhou o crescimento do Estado Novo e se tornou na sua banda-sonora, e que resultava de uma suavização de outros géneros musicais estrangeiros, tais como o já referido Swing, ou até mesmo algumas formas de Jazz e Tango, ao mesmo tempo que integrava elementos de músicas tradicionais portuguesas. Paralelamente, as temáticas centravam-se em motivos campestres, nos hábitos e tradições galaico-lusitanas, na exaltação da Pátria e na terna poesia dos amores impossíveis, entre outros versejares correlacionados. Este tipo de canção, perfeitamente adaptado para programas radiofónicos e orquestras, encontrará congéneres em muitos outros países, nomeadamente no Brasil ou em Espanha (que, “curiosamente”, também se encontravam sob o governo de regimes políticos ditatoriais), e a cujos repertórios se irão buscar, não apenas temas originais (muitas vezes interpretados nas línguas das suas pátrias de origem ou com a forma de falar das Terras de Vera Cruz), mas, e ao mesmo tempo, ascendências e influências. Conjuntamente com o Fado (que acabará por se enquadrar, também, no seu formato composicional), irá tornar-se no emblema das sonoridades confortáveis para o sistema (mesmo tendo em conta que, nos primeiros anos da nova governação, esta forma fadista de carpir as guitarras - mormente a de Lisboa - ter sido o objecto de uma perseguição velada ou, mais precisamente, de um desprezar por parte das entidades políticas dominantes). António Calvário, Milú, Simone de Oliveira ou Tristão da Silva, serão alguns dos seus máximos expoentes, tendo o termo sido cunhado apenas em 1966, por João Paulo Guerra, no suplemento «Mosca» do «Diário de Lisboa». 89 Aliás, é nesta senda de abertura enclaustrada que se pode incluir um curioso 7’’ EP da Hermínia Silva. Intitulado de «A Hermínia Canta YéYé», que seria lançado em 1970, pela Decca, e contaria com o Quarteto 1111 como banda de suporte. Tocado no estilo musical anunciado pelas parangonas da capa (e não esquecendo que os 1111 eram um dos expoentes máximos desse género de música, cá em Portugal), e recheado de letras bem-humoradas (as quais não escondem, contudo, uma certa sátira, bem ao jeito do popularíssimo Teatro de Revista), não deixa de demonstrar que, sem sombra para dúvidas, o Ié-Ié fazia parte do universo cultural nacional, tendo sido absorvido pelos mais
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Ao mesmo tempo que, em 1965, se verifica este grande desenvolvimento e avanço na cena musical portuguesa, importantes acontecimentos vão-se verificar em Guimarães. Por um lado, há o terminar – quase em simultâneo – das duas bandas Rock ligadas ao C.A.R.: os pioneiros Rocker's e os Skaters (que, na altura – e tanto quanto o sabemos –, eram as únicas a ensaiar por lá). Por outro, dá-se o transferir do centro gravitacional da música dessa instituição para a Escola Industrial. Vários factores concorrerão para a ocorrência de tal mudança e deslocalização. Primeiro, há o cumprimento do omnipresente Serviço Militar Obrigatório – em comissões de três ou mais anos (desenrolava-se, na altura, a Guerra do Ultramar) –, condicionante que levava, invariavelmente, ao término de todo e qualquer projecto musical que tivesse mancebos em idade de ir combater. Os Rocker's irão ser vítimas dessa situação, assim como – embora um pouco mais tarde – os Skaters (estes, numa altura em que, de qualquer forma, os seus elementos já estavam mais ligados à E.I.C.G.). Segundo, verifica-se uma cada vez maior concentração das energias da Instituição na Secção de Teatro, mais especificamente no T.E.R.B., que passa a ter relevância e preponderância sobre as outras actividades culturais. Aliás, apenas o grupo Ritmo Louco sobreviveu a esta desertificação musical, continuando activo nas décadas seguintes. Terceiro – e um factor que não é, minimamente, de desprezar –, dá-se um grande impulso aos actos de
diversos sectores da sociedade e, até mesmo, reconhecido pelos meios políticos. Sendo a artista uma afamada e popular cantadeira de fados, não deixa de ser curioso o estabelecimento de um paralelismo entre dois géneros de música que, até há pouco, eram tidos como persona non grata pelo regime, o Fado e o Rock, e que uma fadista venha a dar voz, precisamente, a estas (já não tão) novas sonoridades... Mais curiosa ainda, não deixa de ser a ligação entre Frei Hermano da Câmara e estes mesmos 1111, qua apelou a ajuda destes para a feitura do seu segundo álbum, «A Bruma Azul do Desejado», publicado em 1973 pela EMI (e do qual seriam retirados dois singles: «Hino da Esperança» e «Bruma Azul do Desejado»), que seria objecto de uma edição sul-africana durante esse mesmo ano, via Columbia Records. Outros exemplos há, contudo, e anteriores a estes exercícios aqui descriminados, que já demonstravam estes elos de promiscuidade com géneros fora do Pop/Rock, mas que lhe foram buscar repertório para interpretação, como foi o caso da já citada Simone de Oliveira, um dos epitomas do Nacional-Cançonetismo, que, em 1967, lançaria, pela Decca, o 7’’ EP «Marionette», uma adaptação do tema «Puppet On A String», tema que tinha laureado a Sandie Shaw o primeiro lugar no Festival Eurovisão da Canção, façanha nunca antes conseguida pela Grã-Bretanha. Este disco da Simone, foi também ele lançado na África do Sul (pela Continental Records), mas tais edições em nada serão de admirar, dada a grande comunidade emigrante portuguesa por essas terras austrais e a proximidade fronteiriça com Moçambique (e, até certo ponto, de Angola - que já mencionamos anteriormente). Com estes três exemplos que acabámos de destacar, não queremos, de forma alguma, afirmar que terão sido os únicos casos prensados na discografia nacional, pois temos a certeza de que existem mais intérpretes que estabeleceram pontes entre o Pop/Rock e outros estilos musicais. No entanto, a memória falha, e não poucas vezes, prega-nos destas partidas... Relativamente aos dois primeiros exemplos nomeados, embora sejam produto de um período mais tardio na evolução do Ié-Ié português (viragem da década de 60 para a de 70), cremos que provam o suavizar das atitudes da sociedade face a este género musical (e, consequentemente, para com os seus actores) e o seu enquadramento e absorção na sociedade portuguesa. Contudo, e mais que isso, pensamos que demonstram que, de facto, estes novos ritmos ajudaram ao amenizar de algumas das nuances do regime, quanto mais não fosse pelo facto de os pioneiros do Rock em Portugal terem crescido e se tornado adultos, passando a ser eles os intervenientes e agentes sociais que substituíram as hierarquias e quadros que os haviam antecedido.
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Variedades na Escola90, nos quais constavam, sempre, interlúdios musicais91. Realizadas todos os fins-desemana, estas sessões terão como objectivo primário o fazer gravitar, em torno do estabelecimento de ensino, os seus alunos, pretendendo-se, com este acervo de actividades, que eles passassem a maior parte dos seus tempos livres nas suas instalações, preparando, desenvolvendo e apresentando esse tipo de eventos92. Para a consecução de tal desiderato, não só eram fornecidas as condições e materiais necessários para as diversas actividades, como, e ao mesmo tempo, os espaços para ensaios e performances. Além disso, e como era usual no ensino secundário da altura, procedia-se à promoção anual dos famosos Bailes de Finalistas, além de toda uma série de outras festividades e espectáculos, ao longo do decorrer do ano lectivo, onde as actuações ao vivo eram sempre uma constante, ofertando ocasiões e palco para os agrupamentos locais se poderem apresentar. Ora, esta última premissa é extremamente pertinente, não só porque quem constituía os grupos do C.A.R. era – na sua maioria – aluno do referido estabelecimento, mas, porque, assim o sendo, deixavam de sentir a necessidade de praticar a sua arte num espaço exógeno ao do meio escolar. Aliás, estas actividades eram toleradas, em muito, pelo facto de que quem nelas participava era estudante (como já o referimos em relação aos Conjuntos Académicos em geral) e, por isso mesmo, os alunos poderiam envolver-se na música, coisa que já não aconteceria se fosse alguém que já trabalhasse ou estivesse casado. Eram tropelias consideradas como sendo próprias da juventude... Outro aspecto importante a relatar, é o de ter havido sucessivas gerações de estudantes ligadas, quer à Escola, quer ao C.A.R., em cuja transição e passagem de testemunho foi sempre importante o facto de os mais velhos se prestarem a ensinar aos mais novos como tocar um instrumento, perpetuando, assim, o desenrolar de tão rica e fervilhante actividade (pelo menos para a época e localidade). Os grupos mais importantes, e com maior impacto, a surgirem desta nova contextualização, serão os já 90
Pela batuta do seu director, Daniel Moreira de Sá.
91 As Variedades da Escola incluíam, no seu cartaz, cinema ou teatro, sendo o intervalo musical - de cerca de 20 minutos - preenchido com as
actuações dos agrupamentos dos alunos. 92 De notar aqui que a realização de espectáculos de Variedades, na Escola, não era novidade nenhuma (como, aliás, devia ser corriqueiro em todos os estabelecimentos de ensino, pelo menos nos Secundários, quanto mais não fosse nas festas próprias do estabelecimento de ensino, ou nas ocasiões em que se celebrava uma efeméride ou acontecimento especial). Pelo contrário, já vinham de muito antes, como se pode depreender pelo facto de os Ritmo Louco terem sido formados, por Jaime Martins e Miguel Machado, nos idos anos de 1939, com o objectivo de poderem participar num desses eventos aí realizados. O que pode ter acontecido, foi este tipo de espectáculos se ter tornado numa constante, em algo incluído na sua programação semanal.
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anteriormente mencionados SO4H2 (que até à data tinham estado ligados ao C.A.R.)93, e os emergentes Delta 4, sendo os restantes agrupamentos que actuavam nas Variedades resultantes de formações ad hoc94 efémeras, criadas apenas para aquela ocasião específica e que, na maior parte das vezes, não tinham sequer um nome de trabalho. No respeitante aos SO4H2, estes verão a luz do dia já em 1966, tendo, no início, uma certa ligação aos já supracitados Skaters, quer através de Francisco Teixeira (nas teclas, e que, depois, acaba por sair para ir para a tropa), quer através do Domingos Guimarães (bateria), que terá congeminado a ideia de os fundar. A eles juntar-se-ão Filipe Rodrigues (voz), Eduardo Ferreira (guitarra solo e, depois, baixo), Zé Rodrigues (baixo), Victor Carneiro (guitarra ritmo) e o Sr. Baptista (saxofone). Quanto aos Delta 4, estes serão formados, pouco tempo após os anteriores, por José Ferreira, José Teixeira, Carlos Melo e Maurício, não tendo tido, contudo, uma vida muito longa... Entretanto, e enquanto o C.A.R. se demarcava ainda como sendo o principal viveiro de músicos da região, dá-se o nascimento da associação Convívio, durante o ano de 1961. Além de ser lá que viria a ensaiar o Conjunto de Tóny Carlos, a sua fundação levará ao surgir de novas possibilidades para o público assistir a concertos de Ié-Ié. Assim, e dada a sua ligação com a organização das Festas Gualterianas, irá cá trazer alguns dos mais importantes nomes da cena musical da altura. É neste contexto, então, que actuarão, nas festas da cidade, o Thilo’s Combo (em 1964) ou os Sheiks (em 1966)95. Se porventura actuaram, como primeira parte, bandas da região, as notícias são omissas. Mais para o final da década (em 1967), vai assistir-se à passagem do Quinteto Académico e do Conjunto de Jorge Biscaia pelo Stand de Tiro do Clube Industrial de Pevidém. Definitivamente, já não eram apenas o C.A.R. ou a E.I.C.G. a ter o seu nome associado ao R'n'R... Os tempos, de facto, estavam a mudar e a evoluir. Ou seja, por um lado, o Círculo de Arte e Recreio centra-se mais em torno das artes representativas, por
93 A este grupo, e, de facto, a todo um conjunto de Actos de Variedades e festas realizadas na Escola, deve-se associar, também, o nome da
cantadeira - termo que se utilizava na altura - vizelense Maria Albina. Tendo-se iniciado no agrupamento Vizela a Cantar e, logo de seguida, acompanhando a Orquestra da F.N.A.T., viria a lançar um conjunto de 7’’ EP («Cuquinho da Ribeira», em 1965, e «O Carro do Papá», «Aldeia Sem Luz» e «Rosa do Mar», em 1966, todos sob a égide da Rapsódia), já sob nome próprio. Oscilando, a sua sonoridade, entre a Música Popular e o Nacional Cançonetismo, isso não a impedirá de se envolver, ao mesmo tempo, com o embrionário núcleo Rock vimaranense, acompanhando, quer os SO4H2 (principalmente), quer as colecções dispersas de músicos que se juntavam de propósito - e apenas - para esses eventos. Infelizmente, não nos chegou ao conhecimento que qualquer uma dessas junções temporárias de músicos se tivesse transformado em algo de mais duradouro ou sério. 94 Locução latina que quer significar algo criado apenas para uma finalidade ou para um efeito específico e temporário. 95 Que tinham actuado, também, no Desportivo da Póvoa (de Varzim), com o Conjunto de Tóny Carlos...
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outro, a componente humana que integrava os grupos que lá ensaiavam deixa de ter necessidade de usufruir quer do seu espaço, quer do seu material. Paralelamente, Guimarães parecia estar polvilhada de associações ou colectividades que organizavam bailes e festas, especialmente durante o Verão, quase sempre abrilhantadas por actuações ao vivo96. Esta situação de animação e convívio, levava a que, de facto, se encarasse o emergente Pop/Rock com bons olhos, pois que era um serviço público o que os conjuntos estavam a proporcionar à população em geral. Além do C.A.R., da Escola Industrial e – em certa medida – o Liceu, estas verbenas e funções de dança também se proporcionavam noutros locais, mormente nos 20 Arautos de D. Afonso Henriques, na sede da F.N.A.T.97, na Associação Artística Vimaranense, nos Bombeiros Voluntários, no Teatro98 e Restaurante Jordão, no Convívio... Os próprios grupos de Guimarães, proporcionavam este tipo de situações um pouco por todo o Norte, tocando em hotéis, boîtes, casinos (inclusive para performances de streaptease), todo o tipo de associações
96 Dado o clima estival ser a isso mais propício, especialmente quando se tratava de espaços ao ar livre, mas também porque o próprio clima
convidava mais sair e a presenciar ou participar em actividades extra-muros. A esta dinâmica, também não será alheio o “acaso” de essa estação do ano coincidir com a ocasião do período das Férias Grandes dos estudantes, que, além de constituírem grande parte do público, eram os principais intérpretes das canções tocadas. 97 Criada em 1935, e visando a ocupação dos tempos livres dos trabalhadores portugueses, a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho foi uma tentativa de centralização das suas actividades culturais desportivas e de lazer, que, até aí, se encontravam dispersas pelos mais diversos tipos de associações ou sociedades recreativas, todas elas independentes umas das outras e sem outra forma de controlo que não fosse o das disposições legais e posturas municipais da área onde se enquadravam (além, claro, dos seus próprios estatutos internos, quando os tinham). Esse desiderato, de ter sob a sua alçada todas as outras entidades, pré e pós-existentes à sua criação, que se dedicassem aos mesmos fins, levaria a um sem número de “guerras surdas” (ou, por vezes, não tão silenciosas quanto isso) um pouco por todo lado, nessa sua tentativa de unificar, sob uma mesma bandeira, todos os outros corpúsculos (até aí) independentes do seu jugo, situação que viria a afectar o C.A.R... Dedicando-se, também, a uma certa forma daquilo que se designou como “turismo social” (ou seja, o direito de todos os trabalhadores usufruírem de férias ou saídas organizadas para fora das regiões onde viviam, independentemente da sua ocupação ou proventos, benefícios esses que se estendiam aos seus agregados familiares), organizará um sem número de viagens, excursões e passeios, assim como virá a estabelecer colónias de férias, facilidades estas que serão postas à disposição dos seus associados. A partir de 1975, passará a designar-se como INATEL - Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores, continuando a desempenhar a sua anterior missão. 98 Inaugurado como Teatro Martins Sarmento, em Novembro de 1938, constituiu uma iniciativa do empresário Bernardino Jordão, o então concessionário do fornecimento da electricidade em Guimarães. Visando colmatar a lacuna que se fazia sentir, no respeitante a uma sala que oferecesse condições de excepção para a realização de peças de teatro, concertos e projecção de filmes, na cidade (até porque o Theatro Afonso Henriques se encontrava, temporariamente, encerrado). Mudando de nome, para o actual, em 1940, como forma de homenagear o seu patrono (que havia, precisamente, falecido durante esse ano), verá as suas portas encerradas em Dezembro de 1993. Contudo, e passados anos, o imóvel viria a parar às mãos da Câmara Municipal (em 2010, não sem antes, e ainda durante os anos 90, ter havido uma controvérsia que envolveria o possível estabelecimento de uma seita religiosa no edifício, a Igreja Universal do Reino de Deus), abrindo-se de novo ao público em 2022 (num complexo onde, além do antigo Teatro e Restaurante Jordão, também foi enquadrada a velha Garagem Avenida), embora, agora, como Escola de Artes Visuais, Artes Cénicas e Música, contendo ainda, no mesmo espaço, uma galeria de exposições e salas de ensaios para o que a própria casa designa como sendo “bandas de garagem”...
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(mesmo as mais reputadas, como o Ateneu e os Fenianos do Porto) ou até mesmo termas...99 A concentração – e até, de uma certa forma, monopolização – das experiências musicais na E.I.C.G. não se manterá por muito tempo, dissipando-se à medida que outras novas bandas foram aparecendo. Logo em 1966, surgem os Bramas, que, embora tenham dois elementos dos “finados” Rocker's (Manuel Seara – contrabaixo e baixo – e João Mendes – saxofone), não irão ensaiar em nenhuma das duas referidas instituições, mas sim numa casa particular. O próprio Domingos (dos Skaters e SO4H2) virá, mais para a frente, a integrar o colectivo (que incluía, além dos nomes atrás referidos, Jorge Areias, José Alberto Rodrigues, Vilela Couto, Arménio Vale e Duarte Nuno)100. Aliás, e a partir desta segunda metade da década de 60, a maior parte dos agrupamentos que vão emergir, irá ensaiar em espaços alheios aos dois anteriores pólos catalisadores da actividade musical em Guimarães, desde a F.N.A.T.101 até à Associação Artística Vimaranense102, os 20 Arautos103 ou mesmo casas particulares104. 99 Tal foi o caso de Tóny Carlos, nas de Vidago ou Caldelas. Os próprios Kings, viriam a ganhar grande impulso graças às suas actuações durante
a época alta da ocupação das termas de Vizela, durante o Verão... 100 Como curiosidade, refira-se que os Bramas chegaram a ser expulsos de alguns locais de ensaio pelo barulho que faziam e ruído que a secção de metais provocava... Estridências vividas, de corpo e alma, por muitas das bandas de finais dos anos 80, uma vintena de anos depois... 101 Esta instituição, também tinha os seus agrupamentos residentes, sendo um deles o Trio Flamengo que, tendo sido formado em 1968, incluía Aprígio de Oliveira, Fernando Ribeiro e Jorge, todos eles nas guitarras e vozes. Estes, tocavam os sucessos da altura, mormente composições do Duo Ouro Negro (aliás, como seria bastante comum na altura, dado a popularidade e peso que este dueto angolano tinha na música que em Portugal se fazia - outro caso a que já aludimos, e em situação de repertório semelhante, eram os Estrelas de Alvar, formados em Ronfe apenas um ano antes). Aprígio, viria a ser o futuro pai de Manuel D’Oliveira (que foi dos Bispos - uma banda dos finais dos anos 80 e, depois, já neste novo milénio, construiu uma profícua carreira a solo), a quem ensinaria os rudimentos básicos da guitarra. Mais ainda, apegar-lhe-ia o gosto pelos Ouro Negro, que culminaria com o envolvimento do filho na feitura do projecto de tributo aos referidos. Hasteando Muxima como seu nom de plume (e retirado do nome de um original do par, lançado em 1960, pela Columbia), o colectivo (que também incluía, entre outros, Janita Salomé, Filipa Pais e Joaquim "Quiné" Teles - sendo este da Brigada Victor Jara, o que perfaz a segunda colaboração, pelo menos, de um vimaranense com elementos desse núcleo musical, cabendo as honras de ter sido o primeiro a António dos Santos Simões, como já o vimos) editará dois álbuns (um deles ao vivo) pela Farol, em 2010, ambos intitulados «Homenagem ao Duo Ouro Negro». 102 Oficialmente denominada Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense (A.S.M.A.V.), fundou-se sob os princípios de uma associação mutualista em 1866, visando prestar apoio na doença e na morte aos seus associados e familiares, ao mesmo tempo que prosseguiria fins com um carácter mais social, cultural e pedagógico. Sendo a mais antiga associação civil de Guimarães, a partir dos anos 60, começou a vivenciar um período de acentuado declínio, tendo recuperado um novo vigor já neste milénio. Contudo, esse lento decair não obstou a que, em plena década de 70, viesse a albergar, pelo menos, os Washleather. Projecto de curta duração, seriam formados no decorrer de 1973, apenas para darem findas as suas actividades no ano seguinte. Deles, faziam parte António dos Santos Simões, na guitarra, Manuel Sampaio, nas teclas, Duarte Luder, no baixo, Fernando, na voz, e Carlos Martins, na bateria. 103 Fundado em 1926, este grupo cultural e recreativo parece, ao que tudo indica, ter albergado os seus próprios conjuntos Rock, os Sétima Dimensão e os Woodpeckers, agrupamentos esses que viriam a actuar nas celebrações do 40º Aniversário da instituição, celebrados apenas em 1969 (por algum motivo, que desconhecemos). 104 Dando início, assim, a toda uma movimentação que levaria à formação de bandas de garagem, que se viria a tornar no denominador comum dos projectos musicais que emergiriam a partir dos finais dos anos 80.
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Aliás, o Rock foi assumindo uma importância progressiva, cada vez mais notória, na vida municipal, ao ponto de se organizar, em 1969, o «1.º Festival de Conjuntos Ligeiros Amadores do Minho»105, destinado, apenas e somente, a bandas diletantes do Minho, o como o seu título designativo muito bem o deixa antever... Realizado no Theatro Jordão, teria como vencedores os já citados Kings (de Vizela), cabendo o segundo lugar aos Bramas (enquanto o terceiro iria para os Clipers, de Viana do Castelo), como já anteriormente o referimos. Neste concurso, que foi filmado pela televisão, participaram, ainda, os SO4H2. Após este evento, as bandas continuam a viver uma existência fugaz, formando-se e desintegrando-se rapidamente, em muito devido à incorporação forçada dos jovens nas fileiras do exército, embora os estudos universitários, muitas vezes, tenham dado o seu contributo para esse facto106. Em 1976, organizar-se-á um novo concurso de Pop/Rock, mostrando que ainda havia vitalidade e sangue novo a pulsar na música concelhia107. No entanto, nenhuma das bandas locais viria a conseguir dar o tão emblemático e importante salto de gravar um registo fonográfico. O mais próximo que se havia chegado disso, tinha sido com os Bramas, que haviam encetado negociações com Arnaldo Trindade (ainda em 1969 ou já nos inícios do ano seguinte, no rescaldo do Festival realizado no Jordão) para a gravação de um EP108. Contudo, e devido à banda ter terminado (mais uma vez, por motivos
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Não havemos novas de se se teria realizado um outro no seu seguimento. Contudo, este não seria o único festival a agitar a pacata vida dos melómanos vimaranenses, uma vez que - e durante os anos 60 -, quer o C.A.R., quer a Associação Artística Vimaranense, viriam a organizar outro tipo de eventos realizados nos mesmos moldes, cabendo ao primeiro o «Festival de Música Celta Minho-Galaica», e ao segundo o «Festival de Música Típica». De referir ainda que, em 1966, Guimarães recebeu uma delegação do «10.º Festival Gulbenkian de Música». Os espectáculos, que decorreram entre os dias 14 de Maio e 5 de Junho, incluíram uma embaixada enviada à Cidade Berço. Esta delegação virá representar diversos bailados, levados a cena pelo Berliner Ballett no dia 27 de Maio, tendo como palco o Paço dos Duques de Bragança. Curioso notar ter sido apenas Guimarães, conjuntamente com a Covilhã e Mafra, as únicas localidades que não eram sedes de distrito, a serem agraciadas com alguns espectáculos do programa. Contudo, recordemo-nos que a ligação da Gulbenkian a esta cidade já se fazia sentir através do Círculo de Arte e Recreio, quer através do apoio à sua Escola de Música, a funcionar desde 1958, quer - e durante esse mesmo ano de 1966 - pela instalação da Biblioteca Fixa n.º 127 da Fundação Calouste Gulbenkian na sede desse mesmo C.A.R. Já nos anos 70, o C.A.R. organizaria os «Festivais da Canção do C.A.R.», nos anos de 1971, 1972 e 1973. Estes, tinham como propósito o seleccionar das canções portuguesas concorrentes ao «Festival da Canção do Mundo Celta», cujas finais se viriam sempre a realizar em Orense, Galiza, e onde, além de Portugal e Espanha, participavam a Irlanda, a Escócia, o País de Gales e a Bretanha (a antiga Armórica gaulesa). E isto para já não falar dos muy famosos e concorridos «Reis dos Caixeiros», que, anualmente, enchiam sempre o Jordão, apresentando vários espectáculos de variedades. 106 O que não obstou a que alguns deles ainda viessem a participar e/ou fundar agrupamentos nos locais dos seus poisos académicos, nomeadamente o já citado António de Santos Simões. 107 Festival esse realizado na zona das piscinas, num insuflado, e em que participaram os Atomium, Cid, Scarpa, Carrapa e Nabo, e cremos que também os Apocalipsis, entre outros a apurar.... Tanto os Atomium como os Apocalipsis, como já vimos, estavam ligados a alunos do Liceu, não da Escola. 108 De igual forma, e pela mesma altura, viriam a ser contactados pelo Valentim de Carvalho, mas as negociações com Arnaldo Trindade
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militares), tal projecto acabou por não se concretizar109. No entanto, esta intenção de publicação de um trabalho por uma banda vimaranense, ainda por cima pelo selo Orfeu (dos mais estabelecidos e conceituados no mercado português da altura), vem provar, inequivocamente, que o que por cá se fazia estava, no mínimo, ao mesmo nível dos outros projectos com trabalhos lançados no resto do país, nomeadamente nas áreas da Grande Lisboa e do Porto. Segundo os próprios Bramas, “fomos contactados pelo Arnaldo Trindade. Ele disse que nós éramos mais importantes que os Pop Five Music Incorporated, na altura”110. Por ironia do destino, a primeira notícia de um disco lançado por um correligionário vimaranense, e ligado a um sub-género – do sempre em evolução – Pop/Rock, remontará, precisamente, a essa mesma altura da proposta feita aos Bramas, embora o não seja por nenhum dos intervenientes até agora mencionados. Esse registo, ficará a cargo de Tino Flores, cantor revolucionário111 que, ainda em 1971, lançará o seu single de estreia, o 7’’ EP «Viva A Revolução». Este abrirá caminho para um outro, «Organizado, O Povo É Invencível», já no ano seguinte. Mas será 1973 que verá uma série de edições em catadupa, em formato de single normal: «O Povo em Armas Esmagará a Burguesia», «Quem Não Teme o Mar, Não Teme os Patrões», «Ó Senhor Guida, Veja a Sua Vida» e «O Meu Amigo Está Preso». Todos estes registos verão a luz do dia através do selo Colecção Revolta, propriedade do autor, que, na altura se encontrava radicado em França112. No entanto, será preciso esperar por 1982 para que, finalmente, uma banda de Rock vimaranense editasse um registo. Tal feito caberá aos Apocalipsis, com o single «Acabem Com o Ruído/C.B. Flash», editado
parecem ter estado mais bem encaminhadas. A este propósito, deixamos aqui uma nota curiosa: parece que, durante estes tempos vetustos, embrulhados em brumas e mitos, os próprios patrões das grandes editoras se deslocavam ao sítio onde as bandas ensaiavam ou contactavam-nas pessoalmente, caso as achassem uma mais-valia para o seu catálogo... Como diria o saudoso Fernando Pessa, “E esta, hein?”. 109 Para o efeito, os Bramas terão preparado entre 4 a 6 canções (ou pelo menos ensaiado a fundo quatro delas), para o disco da Orfeu, editora essa que queria que eles fossem gravar a Londres, isto em 1971. 110 Arménio Vale e José Alberto Rodrigues, dos Bramas, em entrevista ao «Guimarães - 50 Anos de Pop Rock», página 156. E frise-se que, desse agrupamento, os Pop 5 Music Incorporated, faziam parte Tozé Brito, Miguel Graça Moura ou Paulo Godinho, irmão de Sérgio Godinho... 111 Embora com uma raiz fincada nas cantigas de tradição popular, as composições, quer dos Baladeiros (como José Afonso), quer da sua descendência, os Cantores Revolucionários (como é este o caso), têm as suas origens no género Folk, uma recuperação - precisamente - de estilos tradicionais, com recurso, principalmente, a uma guitarra acústica e voz, mas com uma estructura pop (ou será a Pop que tem uma estrutura Folk?) e um carácter de intervenção política e social muito acentuada. Dos nomes mais popularmente associados a este género, encontram-se Joan Baez, Bob Dylan, Leonard Cohen, Donovan, Fairport Convention ou Neil Young. De notar que a definição do estilo musical é controversa, sendo a única constante comum mantida pelos investigadores a sua ligação às músicas populares e tradicionais das Ilhas Britânicas e Estados Unidos. Aliás folk quer dizer isso mesmo, povo. 112 Como tantos outros do mesmo género musical, que se refugiaram, principalmente, em Paris, por motivos políticos, como foi o Caso de José Mário Branco, Sérgio Godinho ou José Afonso.
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pela Roda durante o período que se viria a designar como Boom do Rock Português113. Dois anos depois, os Coniorquestra, das Caldas das Taipas lançariam, também eles, um single, «Gino/Will You?»114, mas ter-se-ia que esperar mais quatro anos para que tal feito se repetisse. Decorria 1988, quando os vizelenses MLJ4 lançam o 7'' «Aventurei-me», pela Discantus. Por esta altura, contudo, o panorama vimaranense sofreria uma reviravolta de 180°, com a entrada em cena dos Movimentos Jovens, mas isso é uma outra história... Enquanto Guimarães vivia, então, as mudanças de paradigmas, que ocorreram a partir da segunda metade da década de sessenta, Portugal movimentava-se e dava alguns passos para a implementação e
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Um período temporal que, grosso modo, compreendeu os anos situados entre 1980 e 1983 (mas cujas raízes tinham começado a frutificar nos anos imediatamente anteriores), em que todas as editoras portuguesas fizeram questão de integrar projectos nacionais nos seus catálogos, incluindo nomes que produziam sonoridades menos convencionais (Telectu, Anar Band - estes últimos com um LP lançado já em 1977), mais ligadas ao Punk (Xutos & Pontapés, UHF, Aqui d’El Rock), à New Wave (GNR, António Variações), ao Neo-Romântico (Heróis do Mar, Popeline Beije), ao Pós-Punk (Sétima Legião, Rococó/Bramassaji, Sub-Verso), ao Synth Pop (Ópera Nova, Frodo), ao Rock (Rui Veloso, Trabalhadores do Comércio), ao Rock Progressivo (Tantra ou os já citados vimaranenses Apocalipsis), entre muitos outros géneros e sub-géneros de Pop/Rock. O efeito e o impacto foram tão massivos e maciços - para o país da altura -, que parecia que estava mesmo a eclodir uma revolução, uma explosão que parecia brotar do nada, especialmente aos olhos do público em geral (mas, claro, com uma “mãozinha” dada pelos jornalistas, sempre ansiosos por emprestarem o seu cunho pessoal aos fenómenos que são objecto dos seus artigos)... Graças às suas ondas de choque, até mesmo grupos de baile (Grupo de Baile, Albatroz), conjuntos típicos (CTT - Conjunto Típico Torreense) ou, inclusive, bandas ligadas a instituições (Bombeiros Voluntários de Barcarena), reconverteram-se para tirar proveito da maré alta que se vivia. É provável que haja uma focalização muito grande, e até reducionista mesmo (basta ver o título “Pai do Rock Português”, atribuído a Rui Veloso - e isto quando já desde a segunda metade dos anos 50, que este género de música começara a ser praticado em solo Pátrio), neste período do Boom... Esta exacerbação, contudo, deverá ser perdoada, podendo ser explicada, talvez, pelo facto de que, e ao contrário do que havia acontecido até então, toda uma série de discos (quer em single, quer em álbum) foram lançados, assim como muitos grupos, autores e projectos tiveram os seus registos à venda nos circuitos comerciais, formando-se muitos deles - ou adaptando-se (como o vimos) - porque sabiam que poderiam ter um fonograma editado, e podendo, quiçá, sonhar em viver os seus “quinze minutos de fama”, banhados pelas luzes da ribalta... Nisto, quer a rádio (António Sérgio, com o «Rolls Rock» e, depois, o mais que emblemático «Som da Frente», Luís Filipe Barros, e o seu visceral «Rock Em Stock», ou o Júlio Isidro, na sua sempre escaldante «Febre de Sábado de Manhã»), quer a televisão (alô! de novo, Júlio Isidro, nosso estimado guia para o tradicional «Passeio dos Alegres» dominical...), tanto ou mais que a imprensa escrita (através das revistas «Música & Som» e «Mundo da Canção», ou do jornal semanário «Se7e»), exerceriam um papel preponderante como meios de promoção privilegiados para o promover de toda esta movimentação e energia: as editoras apostavam em mais edições porque sabiam que haveria quem as difundisse e promovesse, o que levaria a um consequente acréscimo de vendas e lucros, que as faria investir mais dinheiro em novas edições, num “efeito de bola-de-neve” dinâmico e contínuo... Acresça-se, a tudo isto, o facto da Língua Portuguesa passar a destacar-se como opção prioritária como veículo de transmissão das mensagens das canções. Como já anteriormente vimos, eram as próprias editoras que “aconselhavam” os seus pupilos a adoptarem o inglês para dar voz às suas composições. Contudo, e por esta altura, a Língua de Camões passou a ser a opção primária dos agrupamentos (com algumas excepções, claro está, tais como as que se encontram nos primeiros registos dos Jáfu’Mega - que depois se voltariam para a língua pátria -, ou na discografia do Grupo Novo Rock, que utilizaria vários idiomas ao longo da sua carreira), o que em muito poderá ter contribuído para a popularização das bandas, pois facilitava o cantarolar dos refrões e levaria certos temas a tornarem-se em verdadeiros hinos. Nisto, talvez se possa ver o peso da influência exercida pelo período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, em que se valorizaram os baladeiros e cantores de intervenção (que, até aí, se encontravam em semi-clandestinidade ou no exílio), que usavam (quase) sempre o português como arma de combate. Como curiosidade, diga-se que o próprio Rui Velos cantava, inicialmente, em inglês, tendo sido a própria fonográfica que o “convidou” a arrepiar caminho para o seio do nosso idioma... 114 Editado pela Ensaio, incluirá, no lado B, uma versão de um tema da ícone do Pós-Punk inglês Hazel O’Connor. Como curiosidade, e de acordo com a página do Discogs, refira-se que essa editora só os terá editado a eles e, anteriormente, em 1977, ao Trio Juventude.
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integração do Rock na vida quotidiana. Ao mesmo tempo que uns viviam o pesadelo das convocatórias militares, com a ida da juventude para as diversas frentes de combate, também se iam formando e desfazendo bandas, ao sabor dos caprichos da vida, umas com maior sucesso que outras, algumas delas conseguindo gravar o tão almejado registo (quase sempre no formato de 7'' EP) antes de se evaporarem no éter (precisamente quando começavam a ver os frutos do seu trabalho). Assim, e na senda de uma maior abertura e desenvolvimento musical e sócio-cultural, a RTP vai abrir, finalmente, um espaço para o Ié-Ié, o programa «Reis do Ritmo», que, embora seja transmitido apenas entre 1965-1966, demonstrará, inequivocamente, que já não havia volta a dar e que a música Rock, também aqui, apelava às massas115. Paralelamente, e também em 1965, a revista «Radio & Televisão» e os programas de rádio «Enquanto For Bom Dia» e «23ª Hora» organizam o «Grande Prémio do Disco», um top de popularidade baseado no voto dos leitores e ouvintes, prémio esse que levaria à organização, no ano seguinte de um concerto com bandas nacionais. O ano de 1966 veria, ainda, a realização do «Festival Guitarra de Ouro Yé-Yé», desta feita em Coimbra, demonstrando, mais uma vez, a descentralização das actividades rockeiras, e que a popularidade do género se alastrava, de facto, pelo país inteiro. Mil novecentos e sessenta e oito verá a realização de mais um evento desse tipo, o «Festival CITU (I Concurso Académico de Música Moderna116)», levado a cabo pelo Centro de Intercâmbio e Turismo Universitário, bem como o ciclo de conferências «Popologia – Mitologias do Mundo Contemporâneo», pela mão da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa. Este último evento, em particular, parece-nos extremamente relevante, no que concerne às mudanças que estavam a ocorrer, à sua “aceitação” por parte regime e à permeabilidade das mentalidades face a elas, tendo conseguido chegar ao patamar do mundo
115 Não esquecendo que também viria a fazer a cobertura do certame realizado no Jordão, embora mais para diante (como já o referimos). O
interessante aqui é notar que a R.T.P. se deslocou, propositadamente, a uma cidade de periferia para fazer a cobertura de um evento deste tipo... novos ares, de facto, que se iam, aos poucos, respirando... 116 Talvez a primeira vez em que esta terminologia é utilizada para designar o Pop/Rock por cá feito... “Música Moderna Portuguesa”, viria a tornar-se num estandarte, mas já em plenos anos 80, estando - muito especialmente - associado ao icónico Rock Rendez-Vous, sala de concertos lisboeta que viria a receber a condecoração de “Catedral do Rock Português”, dada a sua importância...
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académico universitário117, quando – e não muito tempo antes – havia sido considerado como sendo um factor cultural de menor importância... Mais dois festivais se seguiram: o «Festival da Costa do Sol» (em 1969) e o «Festival dos Salesianos» (em 1970). Este último reveste-se de um carácter de maior importância por, precisamente, ter sido proibido pelas autoridades, como que para relembrar aos mais incautos que ainda se estava, de jure et de facto118, numa ditadura conservadora e que havia um limite para o até onde poderia ir a tolerância face a estas manifestações juvenis... Esta “lição” e revés não impediram que, no ano seguinte, se realizasse o «Festival de Vilar de Mouros», na povoação minhota com o mesmo nome. Incluindo muitos dos principais agrupamentos nacionais (Quarteto 1111, Pop Five Music Incorporated...) no seu cartaz, irá trazer cá Elton John e Manfred Mann, além de também ter facultado a oportunidade de participação a algumas bandas menos conhecidas e, inclusive, locais (como os Celos, de Barcelos). Além de tudo isto, o final da década irá assistir à prensagem da primeira publicação inteiramente dedicada a esta nova música portuguesa, a «MC – Mundo da Canção», que se irá prolongar de 1969 até 1985. Após este pontapé inicial, estará aberto o campo para outras publicações entrarem em jogo, como é o caso da «Memória de Elefante», já em 1971. Tendo uma periodicidade mensal, ambas se encontrarão sediadas do Porto. Fugindo, então à típica centralização em Lisboa, a sua existência (que chegou a ser contemporânea), irá provar, de facto, a evolução que se havia verificado durante uma década de existência de Rock Made in Portugal119. Não só o mercado conseguia suportar a coexistência sincrónica de duas publicações mensais, como já se podia dar ao luxo de ter produções cujo foco era uma cultura específica e centrada no universo musical, e não – como até aí sucedia – relegar esse tipo de temáticas para páginas avulsas de revistas ou outras publicações mais generalistas. Resumindo, o Ritmo Louco foi, em Guimarães, um pioneiro da modernidade, ostentando-se – já como C.A.R. – como o porta-bandeira de uma incipiente cultura Pop/Rock, através de grupos como os Rocker's, Skaters ou Los Bicos.
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Cerca de quarenta anos depois, estudos, trabalhos e publicações sobre a cultura Pop e Rock, bem como dos seus múltiplos géneros e subgéneros, têm vindo a marcar presença em vários âmbitos universitários, especialmente nos departamentos relacionados com a sociologia... 118 Locuções latinas significando, a primeira, por lei, e a segunda, por feitos, mesmo que a legislação o não contemple. 119 Rock Feito em Portugal...
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Malgrado o seu envolvimento directo com o Rock termine aquando do fim desses projectos, por volta de 1965 (embora os outros agrupamentos e secções musicais – especialmente os Ritmo Louco – se tenham mantido activos), a sua função de charneira não poderá nunca ser menosprezada ou relegada para o esquecimento. Mais ainda, a instituição continuará a albergar concertos e, inclusive, a funcionar como local de ensaio (Os Bispos120, Barca do Inferno, Complexos Narcisus, Lua d'Oiro...) ou de gravação de registos “caseiros” em cassete (As Flores da Náusea, Barca do Inferno...). Contudo, o centro aglutinador muda-se, definitivamente, para a Escola Industrial, antes de se dispersar por vários outros pólos do concelho. O serviço militar terá sido, sem margem para dúvidas, a causa maior do término das bandas. No entanto, há notícias de alguns dos antigos elementos desses conjuntos pioneiros continuarem a tocar, mesmo enquanto enquadrados nas fileiras do exército (como é o caso dos Arietes, de Sebastião Félix121, ou da actividade musical de Francisco Teixeira enquanto estacionado na Guiné, entre outros). Porém, aquando do seu regresso à terra natal, o Pop/Rock que haviam tocado, não figurará na lista das suas prioridades, enveredando, quer por outros caminhos, quer por outras actividades lúdicas e profissionais. Apesar disto tudo, o facto é que, na altura, estas duas importantes instâncias culturais da cidade de Guimarães tomaram sob sua protecção o incipiente meio Rock local, permitindo o seu desenvolvimento e expansão, uma vez que ambas eram portadoras de um prestígio e credibilidade inabaláveis, no seio da comunidade. Nunca esquecendo que, e apesar disso, ambas não deixavam de actuar como elementos efectivadores de um certo controlo social (algo que era mais notório no caso da Escola, até por esta estar dependente dos ministérios que tutelavam a Educação), vigiando e monitorizando possíveis acções ou comportamentos que os elementos constituintes dos agrupamentos pudessem – no seu entusiasmo e ímpetos de juventude – revelar, e que se desviassem demasiado do que era socialmente aceite como convenção. Afinal, ser-se jovem, nada mais era do que ser um adulto em ponto pequeno... Bibliografia: Ho, Alexandra - “José Cid: «Não Sou Uma Celebridade, Sou Um Mito»”, in jornal “Sol”, de 13/11/2014;
120 Do já citado Manuel D’Oliveira. 121 Cujo nome era o mesmo do batalhão em que ele estava a fazer a sua comissão, em Angola, chegando mesmo a tocar lá com o Conjunto
Académico João Paulo, como acto de abertura.
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Duarte, Aristides (2011) - “Memórias do Rock Português (3ª Edição, Revista)”, 2011, Edição de Autor, Soito; Duarte, Aristides (2010) - “Memórias do Rock Português, 2º Volume”, Edição de Autor, Soito; Miguel, Fernando Capela (Coordenador) (1999) - “Do Ritmo Louco ao Círculo de Arte e Recreio - 60º Aniversário do Círculo de Arte e Recreio (1939-1999)”, Círculo de Arte e Recreio, Guimarães; Miguel, Fernando Capela (Produção) (2005) - “Jaime Martins, «Exemplo de Participação Cívica e Cultural» - Homenagem do Círculo de Arte e Recreio”, Círculo de Arte e Recreio, Guimarães; Miguel, Fernando Capela (Coordenador) (2024). - “CAR - Círculo de Arte e Recreio: 85 Anos de Associativismo, Educação e Animação Comunitária”, Círculo de Arte e Recreio, Guimarães; Fundação Calouste Gulbenkian (1966). - “10.º Festival Gulbenkian de Música - Catálogo”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Callixto, João Carlos (2014) - “Canta, Amigo, Canta: Nova Canção Portuguesa (1960-1974)”, Âncora Editora, Lisboa; Santos Simões, Joaquim dos (1994) - “Da Utopia à Realidade: Do Grupo Musical «Ritmo Louco» ao Círculo de Arte e Recreio”, Círculo de Arte e Recreio, Guimarães; Santos Simões, Joaquim dos (1996) - “Cine-Clube de Guimarães: História Breve”, Cine-Clube de Guimarães, Guimarães; Richards, Keith; Fox, James (2010) - “Life”, Éditions Robert Laffont, Paris; Pinheiro de Almeida, Luís (2014) - “Biografia do Ié-Ié”, Documenta, Lisboa; Martins, Paulo Coimbra (2013) - “Guimarães: 50 Anos de Pop/Rock”, Cine-Clube de Guimarães, Guimarães; Paulo Coimbra, Martins (2014) - “Algumas Considerações Gerais Sobre os Inícios do Rock em Guimarães”, in “O Carola – Especial 75 Anos”, Guimarães, Círculo de Arte e Recreio, Novembro de 2014; republicado na colecção de textos “CAR - Círculo de Arte e Recreio: 85 Anos de Associativismo Educação e Animação Comunitária”; Martins, Paulo Coimbra (2024) - “Círculo de Arte e Recreio - A Música Como Estranho Moto de Vida”, in “CAR Círculo de Arte e Recreio: 85 Anos de Associativismo Educação e Animação Comunitária”, Círculo de Arte e Recreio, Guimarães.
NOTA: Este artigo resulta da fusão de dois anteriormente publicados na compilação de textos “CAR – Círculo de Arte e Recreio: 85 Anos de Associativismo Educação e Animação Comunitária”: “Algumas Considerações Gerais Sobre os Inícios do Rock em Guimarães” e “Círculo de Arte e Recreio – A Música como Estranho Moto de Vida”, tendo estes sido revistos, corrigidos, adaptados e aumentados para o presente efeito.
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OS MATOS DE BARCELOS na Ficção de Camilo Castelo-Branco M. Branco de Matos
«Ao princípio, lia manuscritos genealógicos para adormecer; depois, entrei-me do gozo de saber das vidas alheias; finalmente, paguei cara a curiosidade, convertida em paixão viciosa […]» Camilo Castelo-Branco – Cavar em Ruínas
I O SOLAR DO BENFEITO Apontamento genealógico O Solar do Benfeito sito em Vila Frescainha – São Martinho, cidade de Barcelos, foi reconhecido como Monumento de Interesse Público pela Portaria n.º 204/2013 – DR 2.ª Série, N.º 71-11 de abril, que eleva a zona da sua implantação à categoria de ZEP – Zona Especial de Proteção. Diz-se no proémio do diploma que «A Casa do Benfeito resulta da reedificação oitocentista de uma habitação anterior, constituindo um exemplar tradicional da arquitetura civil nortenha do período barroco, com casa e capela voltadas para um terreiro murado com portão monumental, jardins e anexos agrícolas». Desta esplendorosa edificação setecentista do Largo do Bonfim, com descrição respaldada no arquiteto Carlos Azevedo (AZEVEDO, 1969), diz Rosário Carvalho: «Integrada na quinta que a envolve, a Casa do Benfeito é uma construção do século XVIII. É possível que existisse um solar anterior, mas que foi reedificado cerca de 1742, pelo então proprietário António de Matos Faria Barbosa». A data de 1742, porém, refere-se à edificação iniciada, não por António de Matos Barbosa, mas por seu avô Manuel de Matos, Tabelião de Notas, que comprou o Campo do Bonfim e que, obtido do Município o necessário reconhecimento do ius aedificandi no Campo do Bonfim, iniciou aí uma edificação destinada à sua futura residência. Depois de mais detalhada descrição da estrutura arquitetónica do Solar do Benfeito, Rosário Carvalho conclui: «O brasão não se encontra, como acontece em tantos outros exemplos, neste (referido) eixo, mas sim no cunhal Este/Norte, projetando o prestígio da família através dos símbolos heráldicos que o compõem,
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referentes aos Matos, Almeidas, Barbosas e Farias». A respeito da árvore genealógica dos Matos de Barcelos e seus descendentes, nomeadamente dos proprietários do Campo do Bonfim e dos Senhores do magnífico Solar do Benfeito, nenhuma divergência ou dúvida poderá haver: contrariamente ao que durante anos se foi dizendo, a linhagem desta estirpe é de origem rústica. O mais antigo genearca conhecido dos Matos que, pelo menos desde fins de 1500, habitaram e habitam em Vila Cova e daqui se estenderam para a Villa de Barcelos e outras terras, é André de Matos, que nasceu e viveu em Vila Cova, no lugar de Samo122, e aí faleceu, em 25 de novembro de 1673, na casa de seu filho António de Matos. Lavrador modesto, André de Matos «Não fez testamento nem doação por não ter muito de seu»123. António de Matos, único filho conhecido de André de Matos, teve, além de 6 filhos legítimos que houve de sua esposa, 2 filhos extraconjugais: Francisca, filha natural de Helena João, e Manuel de Matos, filho natural de Justa Francisca, solteira, também de Samo. Deste conúbio brotou o ramo dos fidalgos barcelenses. Manuel de Matos, filho natural de António de Matos e Justa Francisca124, foi barbeiro em Barcelos, morador na Rua da Calçada. De sua mulher teve, além dos mais, Manuel de Matos, Tabelião de Notas, que por sua vez foi pai do Dr. António José de Matos e Silva, alto quadro das estruturas políticas e administrativas do Reino, O Desembargador Dr. António de Matos e Silva embarcou para o Brasil onde casou, enviuvou e regressou rico, sem filhos. Nobilitou-se então por seu 2.º casamento em 31 de janeiro de 1761 com Rosa Maria Clara de Azevedo e Vasconcelos de Magalhães Borges de Castro e Faria, filha dos fidalgos do Solar do Paço Velho de S. Pedro – Vila Frescainha. Voltou à Baía, onde lhe nasceram alguns dos filhos, e regressou definitivamente a Portugal, mais rico e fidalgo nobilitado. Dos vários filhos do Desembargador Dr. Matos e Silva destacaram-se dois: o herdeiro e primeiro Senhor do Solar do Benfeito, que foi o poderoso Coronel das Milícias Miguelistas de Barcelos, António de Matos de Faria Barbosa, obreiro do Solar, obra idealizada e iniciada por seu pai; e o Dr. João de Matos Barbosa de Magalhães, eminente jurista e Ministro de Estado, homem bom a quem elevam aos píncaros da nobreza e honradez de caráter dois exímios romancistas: Silva Gaio, no seu Mário, e Camilo Castelo-Branco no Romance 122 Desconhecemos a origem do topónimo Samo. Aparentemente relacionados com este, estarão os topónimos Samão (lugar da freguesia
Vilar de Cunhas, Cabeceiras de Basto), Sameiro, em Braga, e Samil, na Galiza. 123 Assento de Óbito PT-UM-ADB-PRQ-PBCL86-003-0030_00477.tif, digitalizado em UM-29. 124 Manuel de Matos foi também o nome do primogénito legítimo de António de Matos, que faleceu aos 24 anos, casado e com descendência.
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dum Homem Rico. De um dos ramos da estirpe barcelense, ficou a memória do enforcado Delfino António de Miranda e Matos, de quem Camilo fala com alguma benevolência. II O ENFORCADO DELFINO DE MATOS Dos Anais dos Matos de Barcelos, a par de nobres personalidades que se destacaram no desempenho de altos cargos na administração pública do país e em altas funções jurídicas e judiciárias do Reino, como foram os suprarreferidos Senhores do Bonfim, consta a história da trágica sina de Delfino António – «o Matos de Barcelos» – assim o denomina Camilo Castelo-Branco. Delfino António de Miranda e Matos, filho do advogado Manuel António de Miranda Maciel e Sebastiana Maria de Sousa e Matos, trineto materno de «Manuel de Matos Barbeiro», nasceu na Rua Direita da então Villa de Barcelos, no dia 16 de janeiro de 1800. Herdou de seu pai o apego ao liberalismo e combateu ativamente o absolutismo atávico e trauliteiro dos carcundas. Membro do Clube Republicano Escolástico de Coimbra, protagoniza a tresloucada emboscada que os estudantes fizeram aos lentes em 18 de março de 1828, levada a cabo em Condeixa, no lugar do Cartaxinho, por 13 estudantes sorteados dentre os divodignos – ou, como diziam, “dignos dos divino”, estudantes liberais ativamente contrários a D. Miguel. Liberal e boémio por sua índole e rebeldia, Delfino de Matos, depois de vários anos em Coimbra, apesar da veterania académica continuava sem rumo certo, sem matrícula na universidade e sem aproveitamento no Colégio das Artes, ludibriando com falsidades o seu progenitor que acabou por lhe subtrair a mesada. Acabou por entrar na aventura daquele fatídico dia, na qual foi elemento ativo e um dos líderes no trágico episódio, donde saiu condenado e enforcado. Joaquim Martins de Carvalho, historiador coetâneo de tais acontecimentos, conta em seus Apontamentos para a História Contemporânea que, chegado a Lisboa o infante D. Miguel em 22 de fevereiro de 1828 para definitivamente instaurar em Portugal o Absolutismo Régio, a Universidade de Coimbra fez como fizeram outros municípios e muitas corporações e agremiações: movimentou-se no apoio à futura nomeação do Rei absoluto e, combinando com o Cabido, a Academia universitária deliberou e aprovou que uma deputação conjunta de lentes, clérigos e outras personalidades se deslocasse à capital do Reino para em Lisboa representar a D. Miguel condignas felicitações pelo seu regresso, e apoio declarado à aclamação esperada. Era voz 398
corrente que os lentes da comitiva levariam ao Infante a lista de réprobos a expurgar da Universidade – à semelhança do que tinha acontecido com a junta expurgatória que na sessão de 21 de junho de 1824 reprovara a «lista de lentes, professores, opositores e empregados da universidade, que no seu parecer deviam ser excluídos desta corporação»125. Não se conformou com tal deliberação o Clube Republicano Escolástico dos 200 divodignos e, neles, os liberais da cidade do Mondego. Imperioso era impedir a viagem que a reacionária comitiva académica se preparava para fazer até à capital em apoio ao absolutismo régio, e com a lista dos réprobos. Reuniram em grande número os divódis do Clube Republicano Escolástico de Coimbra para deliberar o que fazer para contrariar o reacionário surto miguelista. A assembleia fez sorteio e saíram treze nomes, 13 elementos tidos por necessários e suficientes, que levassem a cabo uma emboscada, impedindo que a famigerada lista chegasse às mãos dos esbirros. Martins de Carvalho escreve: A deputação da universidade era composta dos drs. Matheus de Sousa Coutinho, Jerónymo Joaquim de Figueiredo e António José das Neves e Mello; e a do cabido, do deão António de Brito e do cónego Pedro Falcão Cotta e Menezes. Partiram de Coimbra na tarde de 17 de março de 1828, e foram dormir na mesma noite a Condeixa, levando o dr. Matheus em sua companhia seu sobrinho José Cândido de Sá Pereira e Castro; o dr. Neves e Mello, seu filho António Augusto das Neves e Mello; e o cónego Pedro Falcão, seus sobrinhos Estêvão Falcão Cotta e Menezes e Manuel Falcão Cotta e Menezes 126.
A emboscada aconteceu na madrugada do dia 18 de março de 1828 e a chacina deu-se no lugar do Cartaxinho, uma légua depois de Condeixa. Além dos dois lentes assassinados a sangue-frio, foram outros gravemente molestados: No dia 18 de madrugada continuaram os estudantes a sua jornada, e no sítio do Cartaxinho aguardaram a chegada dos membros das deputações. Com efeito das 7 para as 8 horas da manhã apareceram estes, sendo surpreendidos pelos estudantes, que os obrigaram a apear-se e desviar-se da estrada para o lado esquerdo. Ahi foram mortos os lentes Jerónymo Joaquim de Figueiredo e Matheus de Sousa Coutinho, e feridos o deão António de Brito e o deão Pedro Falcão Cotta e Menezes, e José Cândido de Sá Pereira e Castro, sobrinho do dr. Matheu127.
Rocha Martins, na sua obra notável sobre os antepassados românticos de Eça de Queirós, não deixa passar em branco o famigerado acontecimento:
125 CARVALHO, J. Martins de – Apontamentos para a História Contemporânea, 1868, Cap. IX, pág. 78 126 CARVALHO, J. Martins de – Op. cit. 127
CARVALHO, J. Martins de – id. ibidem.
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Marcharam os treze de noite, embuçados nas capas, alguns alegres, outros meditativos, e foram pernoitar numa quinta vizinha de Condeixa, pertencente ao negociante Manuel José de Freitas. Largaram ao arrebol da manhã de terça-feira, 18 de março, para o Cartaxinho, onde deviam passar os viajantes128. Da desgraçada aventura resultou feroz perseguição popular e prisão imediata de nove dos implicados, logo condenados à forca sem moratória nem recurso. Foram executados no dia 20 de junho desse mesmo ano de 1828. Três destes nove foram rebaixados a posterior decapitação e amputação de mãos, com exibição pública no local do patíbulo erguido no Cais do Tojo. Um deles foi Delfino António de Miranda e Matos. O Acórdão da Relação tem data de 17 de junho de 1828: […] condenam os ditos réus […] a que, com baraço e pregão, sejam conduzidos pelas ruas públicas desta capital ao lugar da forca, onde morrerão de morte natural para sempre e pela mesma ordem com que vão nomeados no final desta sentença, sendo depois decepadas as cabeças e mãos aos réus António Correia Megre, Delfino António de Miranda e Matos, e Bento Adjuto Soares Carneiro, que se prova terem tomado parte mais ativa e cruel na agressão, assassínios e ferimentos; serão colocadas nos ângulos da mesma forca aonde se conservarão expostas até que o tempo de todo as consuma […] 129
Delfino António de Miranda e Matos tinha 28 anos quando foi enforcado no Cais do Tojo, em 20 de junho de 1828, com exposição pública de sua cabeça e mãos decepadas e expostas no local do suplício130. Ironia do destino foi que a instauração e instrução do competente Processo-Crime coube ao Dr. João de Matos, Desembargador do Paço e da Suplicação, primo em 2.º grau da mãe do enforcado. Dos quatro que nesse dia escaparam à prisão, três seguiram seus destinos, de que pouco se sabe, mas um – António Maria das Neves Carneiro, aquele que apontavam como sendo o homem das calças brancas e chapéu alto, escapuliu-se para Espanha na manhã daquele fatídico dia 18 de março, e de lá veio remetido dois anos depois. Preso de imediato e sentenciado, foi enforcado em 9 de julho de 1830, também com exposição pública da cabeça e mãos decepadas. Camilo Castelo-Branco fez deste Neves Carneiro o protagonista da novela A Viúva do Enforcado, onde se contam as aventuras deste divodigno e de sua mulher – Teresa de Jesus Pereira, vimaranense, filha do surrador Joaquim dos Coiros.
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ROCHA MARTINS – Os Românticos Antepassados de Eça de Queiroz. Edições Inquérito, págs.27-29
129 Martins de Carvalho – Apontamentos para a HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA, Cap. XII 130 Alguns dados biográficos relativos à vida académica de Delfim de Matos são colhidos em Penteado Neira – Diário do Minho -
SUPLEMENTO CULTURAL de 31 de dezembro de 2019
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III O RETRATO DE RICARDINA E O ENFORCADO DELFINO DE MATOS Camilo Castelo-Branco viu no contexto da trágica peripécia de Condeixa, que o próprio denominou a «hedionda carnificina do Cartaxinho», matéria diegética capaz de dois romances de boa nota literária: A viúva do Enforcado, supra, de que aqui não curamos, e O Retrato de Ricardina, na qual não entra Delfino de Matos em pessoa, romântico arrebatado, mas que, de herói tipicamente camiliano, pouco mais teria, cujo contexto, porém é a façanha estudantil da má memória. Em O Retrato de Ricardina, Camilo ficciona um divodigno que escapou à forca, Bernardo Moniz, cujo nome que não consta da lista dos que atracaram e atacaram a comitiva dos lentes. Bernardo Moniz, estudante da universidade, não caiu nas boas graças do vingativo Abade de Espinho que o perseguiu de morte por o estudante lhe ter requestado a mais bela das duas filhas que o eclesiástico tinha. Não estava nos planos do Rev.º Leonardo Botelho de Queirós, casar Ricardina com este “divodigno”. O romancista entrosou neste seu romance o cruento episódio de Condeixa: À mesma hora, uma légua além de Condeixa, no sítio chamado do Cartaxinho, saíram de súbito à comitiva da deputação treze homens armados, com os rostos mascarados ou cobertos de lenços. Pararam as caleças em frente das clavinas abocadas aos peitos dos condutores. O agressor que parecia acaudilhar a jolda aproximou-se das caleças, com a arma inclinada sob o antebraço esquerdo, cotovelo levantado e o dedo no gatilho: – Saltem cá fora! – bradou ele.
Por informação colhida pessoalmente do seu amigo José Gomes Monteiro, Camilo diz, em nota de rodapé, acerca do seu Matos de Barcelos: Este moço vivera alguns anos em Coimbra, desamparado do pai, advogado de Barcelos. O motivo do desamor paterno dera-o a negligência de Delfino, recusando-se a estudar sequer preparatórios, não lhe faltando, aliás, entendimento. […] Delfino era um bom e estimável moço, pospondo a rebeldia permanente em que estava com a ciência. […]. O pai que abrira mão dele, assim que o viu na lista dos inimigos dos déspotas, escreveu-lhe abençoando-o e ordenando que fosse para Barcelos gozar carícias e bens paternos. […].
O romancista conclui a narrativa do episódio pondo em evidência a gravidade da situação e a crueldade dos estudantes que não pouparam os inocentes: Os treze formaram filas ao lado dos deputados, dos três inocentes meninos parentes deles, e dos caleceiros e criados. Dados alguns passos manietaram os arneiros e criados, com a ameaça de os arcabuzarem
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se bosquejassem um gemido. Em seguida, emboscaram-se com os outros na espessura das árvores mal folhadas ainda.
Neste romance, a marcha do enredo, centrado nos protagonistas, caminha por meandros afastados da peripécia dos divodignos, porque o protagonista fora um dos foragidos. O romance termina em mar de lágrimas felizes porque o acaso fez com que, muitos anos depois, se encontrassem em Lisboa pai e filho, quando o criminoso Bernardo Pimentel, acobertado sob o pseudónimo Paulo de Campos, se cruza com seu filho incógnito Alexandre Pimentel, advogados ambos, acamaradados pelo destino que os juntou no mesmo trabalho jurídico, e tem seu desfecho no momento em que o protagonista se dá a conhecer. Acabou por, aos quarenta e sete anos, se consorciar canonicamente com a filha do soberbo Abade de Espinho, dona Ricardina Pimentel que, afinal, também não tinha morrido. IV O DEPORTADO DR. JOÃO DE MATOS E O ROMANCE DE UM HOMEM RICO Fora deste contexto romanesco dos divodignos, mas atinente ainda aos Matos de Barcelos na pessoa do Ministro de Estado Dr. João de Matos Barbosa de Magalhães, escreveu Camilo Castelo-Branco O Romance de um Homem Rico, aquele que o autor confessou ter sido «o mais querido dos meus romances». Além de ser efetivamente um dos mais perfeitos romances da ficção camiliana, O Romance de um Homem Rico confina dalgum modo, neste particular, com o Mário, de Silva Gaio: um e outro dão testemunho notável, não só do estado do país em tempo de guerra-civil, mas também da nobre personalidade e homem de caráter que foi o Dr. João de Matos, nos quais romances este Ministro de Estado de D. Miguel sai penalizado, mas altamente prestigiado pela nobreza de caráter. O Dr. João de Matos Vasconcelos Barbosa de Magalhães, que foi Ministro da Justiça no Governo de Cadaval, desde abril de 1828 até julho de 1831, é personagem ímpar na história pátria e na literatura portuguesa: notável não só pelas múltiplas altas funções que desempenhou, mas também por seu caráter de homem superior, íntegro e liberal. Intendente Geral da Polícia e Ministro da Justiça de D. Miguel, foi Comendador da Ordem de Cristo, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Desembargador do Paço e da Casa da Suplicação, Juiz do Supremo Tribunal da Justiça, membro do Conselho de Sua Majestade e Sócio da Real Academia das Ciências. A história do romance conta-se em duas linhas: em viagem de Lisboa para os Olivais, do casual encontro
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do autor Camilo Castelo-Branco com seu companheiro de viagem que é o P.e Álvaro Teixeira que conhece de nome o escritor, resulta o essencial conhecimento do enredo: por um ato temerário seu, viu-se o Dr. João de Matos arredado da mulher que ama, a qual só por fidelidade marital o rejeitou, sempre atormentado no acrisolado cadinho do celibato que a si mesmo impôs pelo remorso de ter sido ele o responsável da desgraça conventual da sua amada: Defrontava com a sua casa um cavalheiro de anos adiantados, quarenta teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser prezado. Umas dava-lhas a figura, outras a posição e os créditos. Era um magistrado e chamava-se João de Matos e Vasconcelos Barbosa de Magalhães.
A história é-nos dada a conhecer, quase toda em analepse, pela voz do autor, narrador extradiegético, ou de Álvaro Teixeira, filho de Manuel Teixeira e de sua mulher, a enclausurada D.ª Maria da Glória, personagem ausente, mas presente desde o primeiro ao último momento da narrativa. Na parte final do romance, a voz do narrador é a voz do próprio autor que, olhos postos no retrato que do barcelense ilustre ali está pendurado, descreve as ruínas da velha Casa dos Olivais, cujas sombras eram agora muito apreciadas por Álvaro Teixeira. O tempo passou, a casa é uma ruína, ruínas são também as personagens, nomeadamente este filho do autoritário Manuel Teixeira e Maria da Glória, senhora de bem que o Dr. João de Matos não requestara, mas em má hora assediara, dando aso à sua clausura no Mosteiro de Vairão. Neste romance, João de Matos, personagem aparentemente apagada, não é o ousado herói camiliano em raptos de mulher casada e cenas lancinantes: é o herói romântico puro, racional e platónico, que sacrifica a sua paixão para que não seja escarvoada a mulher casada que fatídica e platonicamente assediou. No entanto é ele a entidade que exerce a função actancial da trama, aquela entidade que motiva toda a narrativa. Não sendo cruciante personagem em cenas lancinantes típicas do último romantismo e aparentemente ausente, sentimo-lo presente: é por sua ação que toda a intriga nasce, se move, se desenvolve e com ele termina. Se na galeria de personagens do romance Mário, de Silva Gaio, e do respetivo entrecho, o Dr. João de Matos é o magistrado íntegro, homem leal à sua consciência bem-formada, estadista com visão de futuro ao defender a pacificação social e política por ampla amnistia, posição que a Convenção de Évora-Monte veio confirmar ser a única viável, também Camilo enaltece o mesmo magistrado barcelense: Nome do cavalheiro que foi depois intendente geral da polícia, ministro d’Estado, e holocausto de suas
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ideias liberais no desterro, se bem que exilado pelo ilegítimo soberano a quem honradamente servira 131.
No plano profissional e na intervenção pública, o Dr. João de Matos serviu D. Miguel em tempos conturbados, mas, como sugere o romancista de Seide, não era bastantemente carcunda: No entanto, João de Matos, suspeito de liberal por este e semelhantes atos de consciência honrada, atraía sobre si acusações, que mais tarde lhe sortiram a deportação 132.
No plano pessoal e afetivo, fosse por ter sido vítima do amor impossível, fosse por opção de vida, viveu solteiro e solteiro faleceu. Na sua última intervenção junto do filho da sua amada no Romance dum Homem Rico, o Ex-Ministro de Estado João de Matos de Magalhães, pela pena de Camilo, deixa claro o seu desgosto: Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de amanhã deportado para Abrantes, à ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de desgostos, e vaticino que toda a força da minha alma e a muita energia que me dá a consciência pura me não sustenham na queda133.
E o romancista conclui: Deste probo e desditoso estadista não falaremos mais. Logrou ser profeta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro.
Efetivamente, em 12 de maio de 1834, pouco tempo depois de ser deportado e pouco antes da Convenção de Évora Monte, outorgada em 26 de maio de 1834, falecia em S. João de Abrantes o barcelense Doutor João de Matos e Vasconcelos Barbosa de Magalhães. Tinha 62 anos. Óbito – PT-TT-PRQ-PABT11-00300005m0138.tif. Aos doze dias do mês de maio do ano de mil oitocentos e trinta e quatro, faleceu da vida presente, sem sacramentos por nos ter chegado sua notícia às seis horas da tarde, o Excelentíssimo João de Matos e Vasconcelos Barbosa de Magalhães, Ex-Ministro de Estado, faleceu com testamento, foi sepultado na Igreja do Convento de S. Domingos desta Villa de Abrantes; ali se lhe celebrou por sua Alma Ofício e Missa de Corpo presente. Para constar fiz este termo que assino. Abrantes, dia, mês e ano ut supra. O Vigário João António de Sequeira e Azevedo.
João de Matos e Vasconcelos de Faria Barbosa de Magalhães, fidalgo barcelense, entidade imprescindível em um dos mais belos e bem arquitetados romances do grande romancista de Seide, se não foi feliz nos amores, também o não foi na política: magistrado competente e honesto, estadista contido mas com dimensão humana e clara visão política, conservador por tradição e liberal por convicção, foi humanista e talvez 131 CAMILO CASTELO BRANCO – Romance dum Homem Rico, Cap. III. 132 Id. ibidem 133
Id. ibidem.
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mais convictamente liberal que muitos liberais – a contrastar nesta matéria com seu irmão, o ambicioso e todo-poderoso António de Matos de Faria Barbosa, o poderoso cacique local, Senhor do Solar do Benfeito, Superintendente das Coudelarias de Barcelos e Coronel dos Voluntários Realistas do Município, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Fidalgo Cavaleiro da Casa Real. Trágica tanto não foi a vida do Ministro de Estado Dr. João de Matos nem tão cruel foi a sua morte como a de seu parente Delfino António; dramática, porém, foi ela e mui sofrida porque amargurado viveu, injustiçado sofreu e morreu no degredo. Singela homenagem seja este modesto apontamento de quem se crê o mais ínfimo de seus parentes póstumos.
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Centenário do nascimento do escritor José Cardoso Pires – Um anjo ancorado no universo dos livros António José Oliveira
José Augusto Neves Cardoso Pires nasceu no dia 2 de outubro de 1925, na aldeia de Peso, no distrito de Castelo Branco. Apesar de não ter a projeção internacional de José Saramago ou de Lobo Antunes, há quem o considere o maior escritor da segunda metade do século XX. Na contracapa do livro “Integrado marginal, biografia de José Cardoso Pires” elaborada pelo escritor Bruno Vieira Amaral lê-se: “Notívago, boémio, brigão. Receoso de que a imagem pública lhe ensombrasse os méritos literários. (…) Bem relacionado. Obcecado com a própria independência. (…) Um espírito insubmisso. Um casamento duradouro. A convicção e crença no próprio trabalho. Momentos de dúvida e angústia. (…) E um espírito que, apesar de amarrado a diversos ódios (ao campo, ao regime, à pequena burguesia da qual era originário, à literatura sentimental e demagógica, à polícia, à Igreja), nunca desistiu de Portugal e de ser escritor.”
De acordo com Eunice Cabral, “A característica mais evidente da sua não muito vasta obra (são ao todo dezoito os seus livros publicados em quase cinquenta anos de vida literária) é o facto de cada livro seu inaugurar e completar um ciclo de criação literária. Nenhuma das suas obras se tornou uma fórmula que viesse a repetir, apesar de ser possível reconhecer linhas de evolução da sua escrita literária. O seu primeiro livro foi publicado em 1949 e o último em 1997.”
Escreveu contos, romances, peças de teatro. Publicou as seguintes obras: Os Caminheiros e Outros Contos (1949); Histórias de Amor (1952); O Anjo Ancorado (1958); O Render dos Heróis (1960); Cartilha do Marialva (1960); Jogos de Azar (1963); O Hóspede de Job (1963); O Delfim (1968); Dinossauro Excelentíssimo (1972); E agora, José? (1977); O Burro-em-Pé (1979); Corpo; Delito na Sala de Espelhos (1980); Balada da Praia dos Cães (1982); Alexandra Alpha (1987); A República dos Corvos (1988); A cavalo no Diabo (1994); De profundis, Valsa Lenta (1997); Lisboa – Livro de Bordo (1997).
Ao longo da sua vida literária teve sempre a preocupação de inovar, evitando repetir o mesmo modelo de romance ou de conto. Mas é inegável que até ao 25 de Abril de 1974 teve uma estrita relação com o movimento neorrealista português, sendo até amigo dos escritores Alves Redol, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca e tendo uma grande admiração por Carlos de Oliveira. Fez também amizade, com os poetas 406
surrealistas, dos quais se destacam Mário Cesariny e Alexandre O’Neill. Aliás é por influência de Mário Cesariny que se tornou militante do Partido Comunista Português, por ser a melhor organização antifascista, onde muito trabalhou, sob o pseudónimo de «Nunes”, mas que abandonaria em maio de 1952, pois precisava de todo o seu tempo para se dedicar à vida de escritor. Mas, em 1958 viria a empenhar-se ativamente na campanha eleitoral do general Humberto Delgado, o general sem medo, que desafiando o regime salazarista se candidatou a Presidente da República. O regime fascista tremeu e teve que adulterar resultados eleitorais para que Salazar se mantivesse no poder. Bruno Vieira Amaral, biógrafo de Cardoso Pires, relata: “A equipa de campanha do general (…) instruíra-o para que, às esperadas perguntas dos jornalistas, respondesse com firmeza diplomática. Quando um jornalista da France-Presse, Lindorf Pinto Basto, lhe preguntou o que faria com Salazar caso fosse eleito, a resposta saiu-lhe improvisada: «Demito-o». O impacto foi tremendo.”
Cardoso Pires estava lá, na conferência de imprensa de apresentação da candidatura de Humberto Delgado realizada no dia 10 de maio de 1958, no salão de chã Chave de Ouro, no Rossio. Tinha que estar porque sempre lutou pela liberdade, detestava o regime salazarista, a polícia. Teve dissabores com a Pide que vigiava todos os seus passos. Teve obras censuradas e apreendidas. Teve, também, uma vida difícil, como escritor, pois as suas primeiras obras nem sempre foram bem acolhidas pela crítica, sobretudo os contos. A vida de escritor foi-lhe muito dura – para escrever tinha que se isolar. Foi, muitas vezes, um marido e um pai ausente. Valia-lhe a compreensão e a paciência da esposa Edite, que, apesar do seu mau humor, sempre o apoiou, dactilografava-lhe as obras e até recebia em casa os amigos para quem cozinhava umas “petiscadas”. Foi sempre longa a lista de amigos de Cardoso Pires (homens e mulheres das letras e das artes e, também, da política, com sensibilidades diferentes, mas todos da oposição ao regime salazarista: Maria Lamas, Alves Redol, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, Castro Soromenho, Aquilino Ribeiro, Hélder Macedo, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, Alçada Batista, Luís Sttau Monteiro, Salgado Zenha, António Lobo Antunes, João Lobo Antunes (neurocirurgião) e, mais tarde, José Carlos de Vasconcelos, diretor de “O Jornal”. Conviveu até com escritores estrangeiros como, por exemplo, Jorge Amado. Foram-lhe atribuídos vários prémios literários: Prémio Camilo Castelo Branco, pela Sociedade Portuguesa de Escritores, com o livro O Hóspede de Job (1963); Grande Prémio de Romance e Novela, pela Associação Portuguesa de Escritores, com o livro Balada da Praia dos Cães (1982); Prémio Especial da Associação Paulista de Críticos de Artes (São Paulo, Brasil), com o livro Alexandra Alpha (1988); Prémio União Latina de Literaturas Românicas (Roma – 1991); Astrolábio de Ouro do Prémio Internacional Último Novecento (Pisa, 407
Itália – 1992); Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa (1994); Prémio D. Diniz, da Fundação Casa de Mateus, com o livro De Profundis, Valsa Lenta (1997); Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, com o livro De Profundis, Valsa Lenta (1997); Prémio Pessoa (1997) e Grande Prémio Vida Literária APE/CGD (1998). Teve duas honrosas distinções: Comendador da Ordem da Liberdade (1985) – atribuída pelo Presidente da República Ramalho Eanes e a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1988) que se destina a galardoar atos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da coletividade. José Cardoso Pires recebeu as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Mérito no dia 10 de junho de 1989, em cerimónia pública na cidade da Covilhã, das mãos do Presidente da República Mário Soares. Destacamos, de entre todas as suas obras, O Anjo Ancorado, O Hóspede de Job, O Delfim, O Render dos Heróis, Balada da Praia dos Cães e De Profundis - Valsa Lenta. O Anjo Ancorado é, nas palavras do próprio autor, uma fábula. É uma história simples cuja ação se desenrola numa tarde. João, um homem da cidade, resolve ir fazer pesca submarina numa pequena aldeia nos arredores de Peniche, acompanhado por Guida, uma jovem com metade da sua idade, que ainda mal conhece. Mal chegam à falésia são abordados por um rapazinho da aldeia que tenta logo fazer negócio com os forasteiros, propondo a venda de uma renda que a irmã terminara à pressa. Também um velhote que tenta caçar um pequeno perdigoto faz parte desta história, uma história repleta de contrastes. De um lado a despreocupação de João e Guida, claramente abastados, do outro lado os habitantes da pequena aldeia, vivendo à beira da miséria, dependentes dos humores do mar. Este contraste está também presente no próprio ritmo da narrativa: lento na de João e Guida, simbolizando as despreocupações, e mais acelerado na da população local, denotando a dificuldade de vida e a luta pela subsistência. É uma história em que sobretudo se destacam as diferenças sociais e o desprezo dos abastados por aqueles que vivem privados de quase tudo. O Hóspede de Job (Prémio Camilo Castelo Branco) evoca o Alentejo feudal dos anos 50, que corta com o neorrealismo dominante na literatura portuguesa da época. Foi escrita entre 1953 e 1954, "um romance destinado unicamente a ilustrar uma legenda, uma moral ou um clima humano, para lá de qualquer imediatismo de tempo e de lugar histórico". José Cardoso Pires dedicou a obra a seu irmão, que morreu num acidente de aviação em cumprimento do serviço militar, como protesto contra a guerra fria e a colonização militar. 408
A ação do romance O Delfim desenrola-se na década de sessenta (Séc. XX), em período de guerra colonial, revela o universo da família Palma Bravo na Gafeira. Uma localidade provinciana, conservadora, características que poderiam ser atribuídas a parte da sociedade portuguesa da época. Recorrendo a uma escrita realista, o autor faz um retrato cáustico de uma sociedade em que é possível encontrar homens como o engenheiro Tomás Palma Bravo (o Infante), profundamente machista, racista, e incapaz de aceitar qualquer mudança. Num período em que a censura intervém de forma ativa, Cardoso Pires não deixa de abordar temas tabu do Portugal da época, como a homossexualidade, a traição e o incesto. O Render dos Heróis é um drama épico de inspiração brechtiana, inspirado na revolta popular de Maria da Fonte (1846). Com cenários de Octávio Clérigo e música de Carlos Paredes, a peça estreou no dia 1 de fevereiro de 1965, no Cinema Império. O conhecidíssimo ator Rui de Carvalho interpretou o papel do cego da história. “Rui de Carvalho diria que este, um dos muitos cegos na obra de Cardoso Pires, foi um dos papéis que mais gostou de fazer em toda a sua carreira: «Era o povo português, que é cego quando quer».”
Balada da Praia dos Cães foi publicado em Portugal em 1982. Este romance situa a ação no princípio dos anos 60, retratando alguns aspetos da sociedade portuguesa em plena época da ditadura salazarista. Relata a investigação dum assassínio. A história começa com o relatório da descoberta dum cadáver enterrado na praia do Mastro, graças a alguns cães que, casualmente, dão com o morto sepultado na areia. Mais tarde, a polícia descobre tratar-se do major Luís Dantas Castro, um militar preso por tentativa de sedição militar contra o regime político vigente, e que escapara da prisão, indo recolher-se, juntamente com três cúmplices: Mena, uma jovem mulher com quem o major tinha uma violenta e obsessiva relação antes do seu encarceramento, o arquiteto Fonte Nova, outro prisioneiro detido pelo seu envolvimento na revolta militar e membro do mesmo movimento de resistência antissalazarista do Major, e o cabo Barroca, um guarda do campo a cumprir o seu serviço militar. O livro recebeu em 1987 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Nesse mesmo ano, com base na obra, foi realizado por José Fonseca e Costa um filme com o mesmo título. A ação da obra desenrola-se em dois planos: por um lado, o sucedido antes do crime, contado pela perspetiva de Mena; por outro, o próprio inquérito policial e a vida de Elias Santana. Neste último plano, o livro retrata a realidade e os métodos da polícia em pleno regime do Estado Novo, bem como a vida triste, rotineira e apagada de Elias Santana. Curiosamente, no filme, o papel de Elias Santana é desempenhado pelo ator humorista Raul Solnado que foi amigo de Cardoso Pires.
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“Segundo Bruno Vieira Amaral, a história Balada da Praia dos Cães inspira-se em fatos verídicos: «A 31 de março de 1960, a imprensa tinha noticiado a descoberta macabra de um corpo, em avançado estado de decomposição e parcialmente devorado por cães na Praia do Guincho. O cadáver, veio a apurar-se, era do capitão Almeida Santos, um dos participantes do Golpe da Sé que, meses antes, em novembro de 1959, conseguira evadir-se, juntamente com o aspirante a médico Jean-Jacques Valente, e com o auxílio de um cabo da GNR, António Gil, do forte de Elvas. A descoberta do corpo, com indícios claros de se tratar de um assassínio, fez soar os alarmes junto daqueles que tinham estado envolvidos na conspiração pois estavam convictos de que tinha sido a PIDE a executar o capitão Almeida Santos. Tendo sido agente de ligação no Golpe da Sé, Castro Soromenho pensou que estaria em perigo e, a 5 de abril, partiu para Paris. Nos dias seguintes, o país acompanhou as revelações sobre o caso do homicídio do capitão Almeida Santos. O que, a princípio, julgava ser um crime político, ganhava contornos passionais. A 15 de abril, a imprensa adiantava mais pormenores: a Polícia Judiciária já sabia em que automóvel o corpo da vítima tinha sido levado, as circunstâncias em que a deslocação se realizara e conhecia a identidade de todos os ocupantes do veículo. Nessa madrugada, a mãe de Jean-Jacques Valente foi detida. Uma semana depois, a 23 de abril, Valente, António e Gil eram presos numa casa abarracada perto do Cacém».”
De Profundis, Valsa Lenta é um livro comovente que narra a experiência do seu autor durante uma doença grave que quase o arrancou à vida. É discutível que possa ser encarado como um romance, mas é decerto uma narrativa onde a elaboração de tipo ficcional que assenta num percurso de degradação e recuperação referenciais, aliando o intimismo da reflexão sobre sentimentos e sensações que a perceção do doente reconstitui. O prefácio da obra foi elaborado por João Lobo Antunes (neurocirurgião). Sobre esta obra, Eunice Cabral escreveu: “De profundis, Valsa Lenta (1997), relato do acidente vascular cerebral que o atingiu em 1995 e que é apresentado pelo autor como uma «viagem à desmemória». É a única narrativa da sua obra que pode ser considerada autobiográfica. A vertente autobiográfica é, no entanto, peculiar na medida em que é um relato obviamente posterior ao acidente que dele fixa pormenores aleatórios, desconexos de quem veio das trevas de uma doença muito grave para a luz da memória. O principal interesse desta narrativa reside na figuração de um eu como «o outro de mim», feito de traços desarticulados aos quais é impossível atribuir uma caracterização completa, aspeto que é igualmente reconhecível na fragmentação de muitas das suas vozes narrativas dos romances.”
José Cardoso Pires colaborou em várias publicações periódicas, como Vértice, Gazeta Musical e de Todas as Artes (em cuja reestruturação colaborou, na segunda série, com João José Cochofel), Diário de Lisboa, revista Eva, revista Almanaque de que foi diretor (cuja redação integrou figuras como Luís Sttau Monteiro, 410
Alexandre O'Neill, Vasco Pulido Valente, Augusto Abelaira e José Cutileiro) e, ainda, o jornal. Foi, também, colaborador de editoras, destacando-se a Editora Ulisseia e assumiu a direção das Edições Artísticas Fólio, onde Aquilino Ribeiro publicou O Retrato de Camilo, e onde lançou a coleção Teatro de Vanguarda, que contribuirá para a revelação em língua portuguesa de obras de Samuel Beckett, William Faulkner e Vladimir Maiakovski. Quer a sua atividade como jornalista, quer as atividades literárias, obrigaram a fazer grandes viagens: Inglaterra, Suécia, Polónia, França, Alemanha, Itália, Canadá, Estados Unidos e Brasil. Entre 1969 e 1971, foi docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College de Londres, a convite do grande professor e camonista, Hélder Macedo. Foi, ainda, tradutor de escritores famosos da Europa e da América. A produção literária de Cardoso Pires foi sempre dolorosa, pois facilmente caía em depressão face às críticas menos favoráveis. Mesmo nos momentos de sucesso ficava apreensivo relativamente ao futuro. Tinha dificuldades em harmonizar o seu temperamento nervoso. Talvez, por isso, à noite, procurava o convívio com os amigos nos bares da baixa de Lisboa, fumando e bebendo whisky em excesso. A 21 de abril de 1998, nas vésperas da inauguração da Expo, sofreu um AVC e esteve internado durante um mês no Santa Maria. A 8 de julho sofreu uma paragem cardiorrespiratória que o deixou em estado vegetativo e sem possibilidade de recuperação. A 26 de outubro, poucas semanas após o anúncio do prémio Nobel da Literatura para José Saramago, morria um dos mais marcantes escritores da literatura portuguesa do século XX. No JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias), de 4 de novembro de 1998, a escritora Lídia Jorge deu testemunho da grandeza de José Cardoso Pires: “José Cardoso Pires é um dos maiores escritores do mundo. Superlativo? Não importa. Pode ler-se à vontade de uma outra forma. José Cardoso Pires é um dos maiores escritores do meu mundo. Ele sabia que eu pensava assim e algumas vezes lho escrevi. Aliás, a palavra mundo para ele era importante, porque a escrita do José era feita para um horizonte vasto. Fosse o que fosse que escrevesse, sempre se dirigia para um destinatário amplo. Tinha necessidade de não estar aqui, a sua escrita necessitava de não se confinar nem a esta língua nem a este lugar, desejava ser daqui e não ser daqui ser de outra parte, longínqua e aberta, ser livre. Talvez o momento em que o vi mais feliz tivesse sido, certa vez, a caminho de Nova Iorque. Estávamos no Canadá e, de repente, chamaram-no para ir até ao outro lado para visitar amigos e fazer uma ronda por universidades. Sim, iria imediatamente. A sua ideia era de que em Nova Iorque batia o coração do mundo criativo. Nessa cidade, que em tempos lhe recusara a entrada, desaguavam os rios mais imaginativos do seu futuro. Tinha de partir rápido. Era como se houvesse nele um Arthur Miller ou um Norman Mailer com quem dialogasse no mundo do seu afeto e da sua dimensão literária. Por isso ele
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odiava o francês, que confundia com o perto, o agricultor, a aldeia, o monte, a província, a escrita que vinha de perto, porque ele quereria ter tido um campo vasto como o de Faulkner, mais límpido, menos cruel, mais feliz também. Sempre o vi assim. Desde o primeiro encontro que tive com ele, na Gulbenkian, no início dos anos oitenta, em que me falou dessas raízes mentais longínquas, essas raízes urbanas onde ele, por uma segunda vez, havia nascido para sempre. Percebi isso depois, fui percebendo, que a sua tragédia era essa, a de existir num país pequeno, numa sociedade pequena, num bar que ficava logo ali, a ausência duma geografia vasta e duma guerra real como a que o Hemingway teve. Tragédia que afinal se transformou na matéria viva dos seus melhores livros – O Anjo Ancorado, O Hóspede de Job, O Delfim. O mundo português, autopunitivo e mesquinho, enrolado sobre si mesmo, em Balada da Praia dos Cães. O mundo lusitano que ao mesmo tempo o repelia e o atraía, oferecendo-lhe a sua saga. Sim, não fui demasiado próxima de José Cardoso Pires, apenas quase de longe, fui sua amiga e admirei-o muitíssimo. Aliás, não me interessava espreitar a sua alma quotidiana, sempre tive vergonha de o fazer, fosse junto de quem fosse. Quando admiro a obra de alguém, tenho pudor de captar esse outro ser real, o que toma um copo na mão e veste certa roupa de braceleiras para andar por casa. Mas era impossível não estar perto dele assim, rebelde como era. Corajoso, risonho, irreverente. Uma asa de rebelde sempre levantada, estivesse onde estivesse. Também a prosa dele, na sua síntese seca e abrupta, nascia assim. Uma rebeldia com pudor. Parca por receio de deixar franjas à vista. O medo de que alguma coisa de enfeite sobejasse e no sobejo houvesse uma revelação traidora. O medo de um erro, um desperdício. O que sempre de melhor se amará na sua escrita será isso – um esforço para ser limpo, sóbrio, transparente como um vidro, cortante como o gume que nele se esconde. Cortar, cortar, cortar. Era a forma de exercer na escrita a sua liberdade, e usou-a até à última página. Silêncios que fez na escrita, sempre os interpretei como esse exercício de liberdade que consiste, por vezes, em não escrever. Não gostava de se ver preso. Também sempre interpretei a sua fala feita às mesas como esse desejo de se libertar de alguma coisa que o prendia. O próprio país prendia-o. A Literatura portuguesa prendia-o. O próprio mundo o prendia. Num filme recente onde entrava, José Cardoso Pires, sentado à janela, numa carruagem do metropolitano, corria, sério, aprisionado debaixo do chão, corria, metido consigo, a olhar para as plataformas, como se ninguém o filmasse nem o visse. A imagem dum aprisionado que corre no espaço possível. Mas da última vez que falámos, por contraste, José Cardoso Pires parecia liberto. Fui vê-lo. Nesse sábado recente, falou durante quatro horas da sua vida e dos seus autores. Falou do futebol, da política, dos amigos, deu conselhos, fez avisos, marcou-me um encontro para dali a uns dias. Ria e falava, às tantas ria tanto, ao lado da tisana, que eu mesma nem sabia porque ria. Ri com ele. A Edite [a esposa] estava por perto e não sei se soube porque ríamos. É verdade que ele estava ancorado à cadeira. Mas não estava. Ficámos de nos ver. Agora não sei se me vê. É assim que o vejo, como à sua escrita, um anjo ancorado à espera da fuga. É esse anjo ancorado que está livre, no universo dos livros onde fica como um dos maiores do mundo. Do mundo que me foi dado a ler.”
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Talvez não chova – Evocação de Isabel da Nóbrega nos 100 anos do seu nascimento José Manuel Mendes134
Regresso a Camões e àqueles “que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando”. Não dou ao esquecimento, extenso e poderoso ele se afigure, o ceptro ou a voz com que apagar as linhas rizomáticas do vivido. Numa luz assim, enquanto a primavera tartamudeia além da janela, evoco Isabel: escritora, mulher, amiga desde antes da Revolução de 74. Isabel da Nóbrega (Maria Isabel Guerra Bastos Gonçalves), cujos livros e realizações inscreveram um lugar próprio no acervo literário da segunda metade do século XX. Romances, novelas e contos da estirpe de Os Anjos e Os Homens (1952), Viver com os Outros (1964, Prémio Camilo Castelo Branco da SPE), Já Não Há Salomão (1966), Solo para Gravador (1973), As Magas (2010), a par da deveras peculiar cronística, acima de três mil peças em vários órgãos da comunicação social, seleccionada em Quadratim (1976), exprimem a constância de um percurso insubmisso à reiteração temático-formal ou a olhares e mecanismos na lógica do adquirido e da convencionalidade. Muito pelo contrário. A sua escrita, afluente de quanto renovava noutras latitudes a paisagem cultural, tanto em função da ruptura com tradições perimidas como dos caminhos através da síntese entre realismo, introspecção e fantasia, afeiçoava, de obra em obra, a agilidade dictiva, os mecanismos efabulatórios, as notações de ambiente, o recorte das personagens – inúmeras vezes emergindo e movendo-se sem o bastão de um narrador –, em si mesmas universos em águas sócio-representativas e conflituais. Basta recordá-las, no fruir do quotidiano como nas crepitações dos labirintos interiores, ao longo das narrativas que, também enquanto prosa de imprensa, dramaturgia, criação para a infância e adolescência, constituem o legado. O Filho Pródigo ou O Amor Difícil (1954), peça levada à cena no Teatro D. Maria II (outras estiveram no cartaz de Companhias como A
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Natural de Luanda, 1948. Vive no país desde 1959. Licenciado em Direito, Universidade de Coimbra. Professor do Ensino Secundário e, desde os anos 90, da Universidade do Minho (Visiting Scholar em Medicina), onde desempenha diversos cargos. Foi deputado à Assembleia da República entre 1980-1991. Escritor (livros de poesia, romances, coletâneas de contos, crónicas e dispersos) e Presidente, desde 1992, da Associação Portuguesa de Escritores. Sócio Efetivo da Academia das Ciências de Lisboa. Conferencista, recitador de poesia e membro de numerosos júris literários. Distinguido pelos Presidentes Mário Soares (Grande Oficial da Ordem do Mérito) e Jorge Sampaio (Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique), recebeu, das mãos do Ministro Pedro Roseta, a Medalha de Mérito Cultural.
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Barraca), e, na área dos mais jovens, Rama, o Elefante Azul ou, com ilustrações de Manuela Bacelar, História de Bubu, ambos de 1971, subsistem momentos estimulantes para os destinatários (bom seria que não apenas circunstanciais) dos tempos em devir. Jornalista, integrou o núcleo fundador de A Capital remodelada e manteve colaboração em diversos periódicos – Diário de Notícias, Diário de Lisboa, O Primeiro de Janeiro, Jornal do Fundão, designadamente –, na Rádio e na Televisão (RTP), com programas de timbre pessoal: O Prazer de Ler, um exemplo, proporcionou aos interessados, durante períodos conviviais, informação, novidade, crítica, planos multidisciplinares do conhecimento e renovo de apetências. A autora, afecta a diferentes gerações de clássicos, quis para si uma via toda ela fusionalidade, experimentação, autonomia, não imune aos temperos da época em que se estruturou – das estéticas interferentes, existencialismo incluído, à busca do desvendar da matéria subjectiva: tumulto e silêncio amiúde. Daí o nervo, tecendo imaginários, o inesperado, linhas de fuga e ino-
Maria Isabel Guerra Bastos Gonçalves nasceu, em Lisboa, no dia 26 de junho de 1925, adotou o pseudónimo Isabel da Nóbrega, com que assinava os seus trabalhos. Foto, In Centro Nacional de Cultura
vação, ritmos, distensões, sínteses, avessos de quaisquer fábulas – como em A Cigarra e As Formigas (1972) ou modismos, do processo compositivo-textual que a distinguiu. Será ainda de rigor, engenho, perspicácia e energia na escolha de correspondências que falaremos quando, analisadas, referenciarmos traduções por si empreendidas, de Lev Tolstoi (A Guerra e A Paz) e Erich Maria Remarque (Tempo para Amar, Tempo para Morrer) a Graham Greene (Pago para Matar). Bem importaria, num retorno hermenêutico ao corpus fixado (e incompleto, sabe-se), ir além da epiderme e das manipulações biográficas que detecto estandardizadas nos artigos, reportagens e ensaios (?) a propósito do centenário do seu “dia inicial”, 26 de junho, 1925. Isabel da Nóbrega, nascida no interior de uma família burguesa, foi o oposto da intelectual de palacete e alta roda. Assumiu posições e projectos gregarizadores, um estatuto feminino imune a tutelas, dependências, tibiezas, a responsabilização no seio de entidades como a Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), 414
vandalizada, extinta pelo regime fascista, a Associação Portuguesa de Escritores (APE), surgida em 1973 para prosseguir-lhe os objectivos, e a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), sobretudo nos anos sob direcção de Luiz Francisco Rebello, tendo partilhado iniciativas do maior impacto. Uma delas: o I Congresso de Escritores Portugueses, após o 25 de Abril de 1974, na Biblioteca Nacional, que co-organizou (José Gomes Ferreira e Maria Velho da Costa, num colectivo memorável, avultavam como os rostos principais da Instituição promotora). Sou testemunha de parte significativa destas acções a partir da data longínqua em que nos conhecemos. Livre, intensa de curiosidade, entusiasmo, convicções, minuciosa na colheita dos saberes, espontânea e elaborada (raramente em molde contraditório), frontal, elegante no trato, solidária, viu-se reconhecida com as Ordens do Mérito, Grande Oficial (2000 / Jorge Sampaio) e da Liberdade, Grande Oficial (2011 / Cavaco Silva), ao lado das consagrações ocorridas nos meios da Literatura. Isabel da Nóbrega, esmero e cordialidade até ao extremo. Serena no percutir de lembranças, ideias, reptos, uma melancolia velada, o sabor das horas na maresia frente ao Cabo de Finisterra. Ficamos, agora, proponho eu, na Lapa, Rua de S. Domingos, 17, moradia antiga que lhe é grata, a conversar: os trilhos da ficção emergente, as transmutações dos mundos, um lied de Schubert a ser difundido na Antena 2 – estância profissional de outrora, jamais apagada. Talvez não chova. Sorri, observa as glicínias que sobram das grades do palacete a dois passos. O carro tarda. Ignora o relógio. Fez-se extenso e amodorrado o estuário da manhã.
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200 anos da publicação do poema Camões de Almeida Garrett Rosário Ferreira
Se pegarmos no computador e pusermos na barra de pesquisa “Camões Almeida Garrett”, o mais provável é que nos apareça, logo nos primeiros lugares, a referência ao artigo da Infopédia onde se pode ler: Poema lírico-narrativo, datado do primeiro exílio de Garrett, considerado a primeira obra romântica da literatura portuguesa, que aborda episódios da vida do poeta Luís de Camões relacionados com a composição e a publicação da epopeia Os Lusíadas. No prefácio, Garrett afirma não ter obedecido "a regras nem a princípios", não ter consultado "Horácio nem Aristóteles" e, demarcando-se de qualquer escola literária ("não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia"), confessa ter seguido apenas "o coração e os sentimentos da natureza". O Romantismo Criado em Inglaterra, país tradicionalista e menos permeável ao Classicismo, especialmente com Sir Walter Scott, lord Byron e Percy Shelley, é com Jean Jacques Rousseau, a publicação das suas “Confissões” e a criação do mito do Bom Selvagem, que este movimento mais influência tem na Europa continental. Ora, foi nestes dois países onde Garrett se exilou (1823 em Inglaterra, 1824 em França) que o liberal Almeida Garrett contacta com esta nova forma de fazer poesia, tão de acordo com o seu espírito livre e revolucionário. Portanto, não será de estranhar que em 1825 publique aquele que seria – a crer em muitos investigadores – o poema introdutor do romantismo em Portugal. E, de facto, ao percorrermos este extenso poema, facilmente verificamos que as marcas desta corrente literária abundam. 416
Camões e as marcas românticas Desde logo a escolha da figura de Camões e da sua epopeia (embora haja breves citações de poemas da sua lírica) deixam bem clara a intenção de exaltação dos valores nacionais, tão do gosto dos seguidores do Romantismo. No entanto, não se esgotam aqui as marcas nacionalistas. Ao longo do poema há a exaltação dos feitos da guerra, da coragem do povo português («(…) Deixai-o repoisar: sono propício/ Já lhe acalmou o sangue; e mais tranquilo/ D’ânimo acordará.» – Submissas vozes/ Murmuravam assim em baixo acento/ Junto do leito em que prostrado e plácido/ Por benigno Morfeu jaz o guerreiro. Canto III) e, claro, a referência a esta palavra tão portuguesa que é a saudade (Saudade! gosto amargo de infelizes, / Delicioso pungir de acerbo espinho, / Que me estás repassando o íntimo peito/ Com dor que os seios d’alma dilacera, / - Mas dor que tem prazeres – Saudade! Canto I) Nos Cantos II e III campeiam as referências ao lúgubre, à morte, ao vocabulário funesto, que vamos encontrar em tantas outras obras futuras de Garrett (quem não se lembra de Frei Luís de Sousa e dessa linguagem tão soturna, a roçar mesmo, por vezes, o macabro?) Se em Viagens na Minha Terra, Garrett faz – ao jeito romântico – das cartas uma forma de Carlos dar paz à sua alma com a longa confissão a Joaninha, e se na lírica o tom teatral e oralizante dá aos seus textos uma lufada de ar fresco (recordemos o tom estático e padronizado dos poemas neoclássicos), essas técnicas tinham sido já usadas em Camões, em especial no Canto III. Mas talvez seja a referência a D. Sebastião, e o iniciar desta presença recorrente do sebastianismo na obra garrettiana, que mais distingue o romantismo de Garrett do dos seus mestres franceses ou ingleses. Walter Scott fez renascer o mito de Robin Hood, mas Garrett trouxe à cena um D. Sebastião frágil, jovem, mas que sabe reconhecer o mérito dos outros («Folguei muito» / Dizia o rei, e o gesto abraseado/ A verdade do dito afiançava: / «Folguei de ouvir-vos; nunca tal virtude/ Em versos cri para exaltar o ânimo/ Ao sublime entusiasmo da virtude, / Aos feitos grandes. Sinto que me bate/ Com mais vigor o coração no peito. / Alma terá pequena e bem mesquinha/ O português que não mover tal canto.» (…) / - «Voltai a ver-me, / E vos farei mercê, como é devido.» Canto IX) 417
Mas não podia, o nosso vate do século XIX, deixar de igualar o seu inspirador Camões no lamento à inércia e desprezo dos portugueses que refere no Canto X. Concluindo, não é só no título, onde numa palavra só condensa o espírito de dor e de conquista, nem na forma usada para dividir o seu poema em dez cantos (embora escritos de forma livre, com versos brancos e métrica irregular, como os românticos tanto advogavam) nem na transcrição de excertos de Os Lusíadas com que abre cada Canto do seu poema, que Garrett exalta Portugal quando exilado e, portanto, fora do país, mas também relembrando os valores que Camões apontava e que, a seu ver, urgiam fazer relembrar. E, diria eu, passados 200 anos da sua publicação, não faria mal nenhum que o relêssemos e que, quem tem responsabilidades neste país “à beira-mar plantado”, nele pusesse os olhinhos.
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RAUL BRANDÃO – 100 anos de memórias II Álvaro Nunes
MEMÓRIAS de Raul Brandão, edição em volume único da Quetzal/Câmara Municipal de Guimarães (2017) reúne os três tomos da obra, editada respetivamente nos anos 1919, 1925 e 1933, que evocam episódios, figuras, chistes políticos e sociais, bem como testemunhos diretos sobre acontecimentos históricos. Ora, neste ano de 2025 contam-se 100 anos de Memórias II, que, na esteira da ficção, como também no memorialismo brandoniano, entrecruzam as vertentes reflexivas e filosóficas, num estilo literário expressionista que dá primazia ao sentimento em relação à simples descrição objetiva da realidade. Deste modo, em Memórias II registam-se textos memorialistas e pessoais do agitado tempo político do escritor, bem como recordações culturais e de amizade. Obviamente, Memórias que não só são testemunhos vivos para compreender a obra do autor, mas também o seu país, em especial nos tempos conturbados da implantação da República. Memórias, cuja (re)leitura sugerimos que seja iniciada previamente pelo seu notável “Prefácio”:
Capa do livro “Raul Brandão e(m) Guimarães”, ilustrada por SAL
“Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra. Não sei – nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espetáculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche; levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos, até ao juízo final.”
De facto, Memórias II não é um registo de contrição, mas de vida vivida na sua plenitude. Efetivamente, compreende praticamente vários “capítulos” de vida: “O Silêncio e o Lume”, de cariz mais intimista, “O meu diário” e “Ainda o Regicídio”, mais focalizados nos acontecimentos políticos dos primórdios da implantação 419
da República, bem como “Vivos e mortos”, que tece críticas diversas e evoca figuras e amigos, em especial Guerra Junqueiro. O poeta é ainda tratado em separado no capítulo final sob o título “Os últimos dias de Junqueiro”. Com efeito, Memórias II abre com um belo texto autobiográfico, intitulado “O Silêncio e o Lume”. Um texto significativamente datado de Dezembro de 1924, que relembra o silêncio e o lume da Casa do Alto, a tebaida de Nespereira, vivenciada na companhia da esposa e amada Maria Angelina e comunhão com aqueles que já partiram: “QUERIDA ESTAMOS SOZINHOS À MESA nesta noite infinita em que a chuva cai lá fora com um ruído monótono de choro. Estamos sós nesta noite de saudade e nunca foi maior a nossa companhia, porque cada vez me sinto mais perto dos mortos. Rodeiam-nos, chegam-se para mim e sentam-se ao nosso lume (…) Dá-me as tuas mãos, querida, e deixa arder o lume, enquanto eu falo baixinho diante da legião que nos escuta, acompanhado pelo ruído de lágrimas que se ouve lá fora.” (…)
Um silêncio de palavras de amor que recorda ainda Nespereira e a Casa do Alto, os desfavorecidos, a força da outra metade do céu: “Fugimos para a aldeia. A nossa casa fica a meia encosta da colina. Por trás o mar dos pinheiros, em frente os montes solitários. Este cantinho rústico criei-o eu palmo a palmo (...) Construí a casa, plantei as árvores, minei as águas (…) Tenho apanhado sol em todas as eiras. Nunca me farto de ver as grandes pedras veneráveis, nem de falar com os jornaleiros, cavadores e pedreiros, que não ganham para comer, porque as suas mulheres têm filhos às ninhadas como ratos. Refiro-me principalmente aos pedreiros – geração formidável que há séculos vem rachando a alvenaria para edificar a casa, erguer os socalcos e lajear as eiras. São homens só ossatura e pele, que a mesma cantilena – ou pedra – ou – oupa lá – têm erguido as cabanas de todos os arredores. (…) Qual a força extraordinária que possuis? (…) A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os pássaros aquecem o ninho (…) Nas mãos das mulheres até as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o pão, lançar a teia – assumem um carácter sagrado. Elas passam desconhecidas e dispõem de um poder extraordinário. Mantêm a vida ordenada com um sorriso tímido. A mulher está mais perto que nós da natureza e de Deus.”
Na realidade, um momento de comunhão coletivo, mas também de um amor vivenciado a dois, que desde os tempos vetustos se prolonga perenemente aos tempos coevos: “cada ano que passa é um laço que nos prende e quanto melhor conheço a tua alma, mais me purifico ao seu contacto. Não só fazes parte do meu ser, mas da minha consciência. Chego às vezes a supor que és tu a minha consciência”. 420
Outrossim, um texto em que perpassa, para além do seu teor confessional, um certo tom panteísta e de empatia pelos humildes, como é timbre do autor, que o excerto dilucida. Porém, neste volume de Memórias II, para além dos aspetos de maior ou menor foro intrínseco, sobressaem ainda impressões sobre os primórdios da revolução republicana, que sob o título “O meu diário” abordam factos, informações históricas e ideias marcantes, balizados de forma diarística a partir de Outubro de 1910. Deste modo, num compromisso híbrido entre o testemunho, a crónica e as meditações e juízos do escritor, perpassam fontes documentais diversas como entrevistas, depoimentos, as vozes dos outros, relatos, reproduções de opúsculos, bem como artigos de imprensa, editais e comunicados, que segundo o escritor “ajudam a reconstituir a atmosfera de uma época” e a perspetivar os acontecimentos dramáticos da coisa pública, nesse período conturbado dos primeiros tempos do regime republicano, como é o caso evidente neste comunicado intitulado “Pelo Governo Provisório – O presidente, Teófilo Braga”, datado de 6 de Outubro: “Andam bandos pelas ruas. Alguns esfarrapados guardam os bancos de clavina ao ombro. Toda a gente aceita o facto consumado. O Comandante da Guarda Municipal submeteu-se. Aderiu a polícia. Ressano Garcia aderiu. Já há Governo provisório: Presidência, Dr. Teófilo Braga; Interior, Dr. António José de Almeida; Justiça, Dr. Afonso Costa; Fazenda, Dr. Basílio Teles; Guerra, António Xavier Correia Barreto; Marinha, Amaro Justiniano de Azevedo Gomes; Estrangeiros, Dr. Bernardino Luís Machado Guimarães; Obras Públicas, Dr. António Luís Gomes.”
Um período histórico que merece ainda um tratamento próprio no “capítulo” intitulado “Ainda o regicídio”, centrado nas figuras e peripécias ligadas ao assassínio do rei. Todavia, em Memórias II, para além do seu valor histórico e autobiográfico, passam também páginas de admiração e amizade, que o “capítulo” denominado “Vivos e Mortos” documenta. Assim, evoca-se “A Visita a Seide”, em novembro de 1914 e a vida trágica de Camilo, que, como escreve “está de tal maneira entranhada na sua obra que não há separá-las”. Recordações que passam ainda pelo suicídio de Mouzinho de Albuquerque “um soldado com o sonho de uma pátria a realizar” e outras figuras da época como Teófilo Braga e a sua inseparável arma do guarda-chuva, entre outros nomes das suas relações. 421
Igualmente, evocações que passam também pela crítica ao ensino da época, em particular ao “terrível” colégio de S. Carlos, no Porto, que o autor frequentou, em especial sobre os seus métodos de aprender a tabuada à palmatoada, acerca dos quais o memorialista diz que “tudo fora encasquetado à força de berros na memória”. Mas também críticas que se estendem ao ensino subsequente, uma vez que, como escreveria, “na Escola do Exército ensinavam no meu tempo coisas inúteis que me deram mais trabalho a esquecer que aprender”. Criticismo que se estende ainda aos costumes, mas que também conta histórias singelas e comoventes de tipos como o senhor Custódio, o relojoeiro Girôd e o senhor Domingos, das bandas de Nespereira, conhecido pelo Ai-Jesus. Por seu turno, “Os últimos anos de Junqueiro” fecham Memórias II e retratam este “homem extraordinário! Engenheiro extraordinário!”, que, como afirma, “às vezes Deus fala pela sua boca; outras – quando menos se espera – é o Diabo fosforescente e sarcástico!” Junqueiro, o amigo de longa data de Raul Brandão, sempre crítico e irreverente, “que depois da república foi para a Suíça, e mais tarde, deixou a embaixada porque, como ele dizia: – Eu não sou galo para a capoeira de França Borges! Logo um homem que assim apresentado revela a sua integridade e livre pensamento para além das circunstâncias: “o Junqueiro que sobe as escadas dos ministérios e exerce a sua influência nos destinos da república, apesar de sublinhar para o lado: – os piores bandidos não estão na cadeia, estão na política”. Junqueiro, o amigo que escreveria a carta-prefácio da obra brandoniana “Os Pobres”, a quem RB, por seu turno, dedicaria “A Farsa” é, assim, um exemplo de amizade mútua e sintonia filosofal. Deste modo e em súmula, o volume “Memórias II” é, portanto, um tomo memorialístico de referência nacional neste género literário, que não só recorda memórias pessoais, como também relembra ocorrências sociopolíticas e culturais acerca de um tempo confinado à I República. Memórias dos amigos, que além de Junqueiro recordam Teixeira de Pascoaes, a quem RB dedicou Memórias II. Recorde-se que Raul Brandão e Pascoaes privaram intimamente, visitando-se mutuamente na Casa do Alto e Solar do Gatão e trocaram correspondência sobre os mais diversos assuntos, cartas coligidas na obra “Raul Brandão – Teixeira de Pascoaes, Correspondência”. Uma amizade sólida, de tal forma irmanada que Raul Brandão e Pascoaes escreveriam em parceria a tragicomédia em sete quadros, intitulada “Jesus Cristo em Lisboa” (1927), peça que surge como um Auto de Fé de condenação do farisaísmo social e da cegueira política portuguesa, que na época provocaria polémica”. 422
Efetivamente, “uma obra que deu muito que falar, que só foi bem aceite pelos franciscanos“ – conta a irmã de Teixeira de Pascoaes. E uma peça que, segundo acrescenta, “mexeu muito com a sensibilidade das pessoas mais católicas que cristãs. Católico não custa ser, mas cristão é um caso muito sério”. Ademais, ambos faziam ocasionais visitas a Lisboa, onde Pascoaes chegaria a alugar uma casa, que Raul Brandão e esposa também partilhariam. Um espaço que segundo consta, teria sido o espaço de escrita de “As Ilhas Desconhecidas” brandonianas, do “Livro de Memórias” pascoalinas, bem como local de refúgio do panfletário Raul Proença, fugido da polícia. Um poiso de tertúlia e amizade no qual amiudadamente compareciam outros amigos como Rafael Bordalo Pinheiro e até Almada Negreiros. Memórias II é, pois, uma obra que nos transporta e convoca, com toda a sua sensibilidade e talento, a viajar com asas e pés bem assentes na terra sobre o país que fomos, os amigos relevantes e a vida desse tempo. Um hino à amizade, à mulher, ao amor, à construção da sua tebaida e à vida...
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Raul Brandão e Maria Angelina, na Casa do Alto, foto extraída da capa do livro “Raul Brandão íntimo”, de Vitorino Nemésio
Guilherme de Faria e Teixeira de Pascoaes José Rui Teixeira
Foi há mais de vinte anos, num exemplar de O Génio Português na sua expressão filosófica, poética e religiosa, que Teixeira de Pascoaes publicou em 1913, que li pela primeira vez o nome de Guilherme de Faria: «Ao jovem e querido poeta Guilherme de Faria, lembrança de Teixeira de Pascoaes». Ali estava, na caligrafia do poeta de Amarante, o nome desse outro poeta, acerca do qual não sabia nada. Desde então que me dedico à recuperação da sua memória histórico-literária: duas décadas de estudo e edição da sua obra poética e de documentação biobibliográfica, um doutoramento, dezenas de conferências e publicações, centenas de documentos do seu espólio recuperados. Ainda com o referido livro de Pascoaes na mão, pude ler na última página estas palavras manuscritas: «Nota: Pascoaes ofereceu-me este livro em 19 de março de 1924. G. de F». Depois da morte do seu pai, em 1922, Pascoaes decide passar em Lisboa, com a família, longas temporadas, entre meados de outubro e o fim de maio. Maria José Teixeira de Vasconcelos recorda esse período: «Nos primeiros anos, alugámos uma casa na Calçada da Estrela […]. Passámos um inverno numa pensão na Rua Alexandre Herculano e, depois, instalámo-nos numa simpática e romântica estalagem na Rua das Janelas Verdes, 31 – a York House»135. E descreve o quotidiano de Pascoaes em Lisboa: «de manhã, escrevia. À tarde descia e subia o Chiado com dois amigos e não faltava às tertúlias d’A Brasileira e às reuniões à porta da Bertrand, onde apareciam Raul Brandão, Mário Beirão, Câmara Reis, o extraordinário pintor Columbano Bordalo Pinheiro e outros»136. Na mesa do fundo d’A Brasileira do Chiado, com Pascoaes, sentavam-se Vitoriano Braga e Gualdino Gomes; «apareciam sempre, à tarde, Raul Brandão, João Correia d’Oliveira, Francisco Lage, Alfredo Cortês,
135 Maria José Teixeira de Vasconcelos, Na sombra de Pascoaes, Lisboa: Vega, 1993, pp. 62-63. 136
Ibid., p. 62.
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Mário Beirão»137. Foi neste contexto que Guilherme de Faria conheceu Teixeira de Pascoaes. Guilherme de Faria – que tinha nascido em Guimarães, em 1907 – chegara a Lisboa no outono de 1919. A família instala-se no n.º 11 da Rua da Horta Seca, junto ao Largo de Camões, de cuja porta quase se vê A Brasileira do Chiado. Inscrito primeiro no Liceu Passos Manuel e, depois, no Liceu Pedro Nunes, o jovem poeta – apadrinhado por Alfredo Pimenta – estreia-se com Poemas, em maio de 1922, e – em novembro, pouco depois de celebrar o seu 14.º aniversário – publica Mais Poemas. O seu crescente interesse pela poesia contrastava com a falta de empenho nos estudos liceais. A condição de poeta, as leituras a que dedica os seus dias e os contactos que vai estabelecendo no meio literário, permitem-lhe aventurar-se – com o amigo Manuel de Castro – num projeto editorial. Desde o princípio de 1924 que Guilherme de Faria – com apenas 16 anos – frequenta a mesa de Pascoaes n’A Brasileira do Chiado, que tinha então 46 anos. Foi nesse contexto que o jovem poeta e o amigo – Manuel de Castro – se ofereceram para editar as obras de Pascoaes. Joaquim Paço d’Arcos recorda que o consagrado poeta de Amarante, «que tivera até aí e continuaria a ter editores responsáveis, aceitou a oferta do rapazito de dezasseis anos. Enganaram-se ambos a si próprios»138. Com efeito, Guilherme supôs, na sua falta de experiência, que a grandeza literária de Pascoaes lhe asseguraria o êxito editorial; por seu lado, Pascoaes acreditou, «na ingenuidade de artista que os anos não lhe haviam tirado, que os jovens editores dariam à sua obra, com o entusiasmo que demonstravam, expansão à altura do seu génio. Em breve se desiludiram e desentenderam»139. Seja como for, até meados de agosto de 1924, a relação entre Guilherme de Faria e Teixeira de Pascoaes foi de confessada admiração mútua. Apesar de Manuel de Castro ter adoecido e, por isso, se ter retirado para a Quinta de Santo António, em Vila Franca de Xira, Guilherme prossegue com algum entusiasmo os trabalhos relativos à edição da Elegia do amor e dos Sonetos de Pascoaes, do seu terceiro livro – Sombra – e da História de Jesus de Gomes Leal. Encontramos nas cartas de Guilherme de Faria momentos de otimismo como este: «Uma conversa que acabo de ter com o meu Pai autoriza-me a assegurar-te que a situação da nossa empresa é muito melhor do que vínhamos supondo. […] Devemos publicar muito em breve o livro do Gomes Leal, a História de Jesus. Estou
137
Joaquim Paço d’Arcos, «Destino e obra do poeta Guilherme de Faria», em Pedras à beira da estrada (vol. II), Lisboa: Guimarães Editores, 1971, p. 334 138 Ibid., p. 346. 139 Ibid.
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deveras contente»140. Poucos dias depois, escreve: «Apesar de tudo, as nossas coisas têm corrido admiravelmente bem. O que tive de pagar ao Lucas 141 foi muito menos do que supúnhamos. Paguei somente cento e tal mil reis»142. Guilherme de Faria revela, neste período, uma grande dedicação ao trabalho editorial, procurando tipografias com mais qualidade e melhores preços. Apesar da sua inexperiência e da ausência de Manuel de Castro, percebe-se pelas cartas que o jovem editor estava empenhado e reagia às dificuldades próprias da atividade. No dia 26 de julho, escreve a Pascoaes: «Tenho continuado, e com o maior entusiasmo, os trabalhos relativos à publicação dos Sonetos e da Elegia do amor. Felizmente tem corrido tudo muito bem».143 Nessa mesma carta lamenta a doença de Manuel de Castro: «Apenas o querido Manuel de Castro adoeceu. A reincidência daquela maldita doença tem-me desgostado muito. Ele lá está, em Vila Franca, numa quinta de família, cheio de febre e horrivelmente abatido». Na resposta a esta carta, Pascoaes, satisfeito com o evidente empenho de Guilherme de Faria na edição dos seus livros, comunica-lhe a intenção de compor uma «poesia sobre Londres». Guilherme responde-lhe: «Fico esperando-a com a maior e a mais justificada ansiedade»144. Nesta fase, o jovem poeta e editor era ainda o «amigo e admirador devotado e agradecido»145 e tratava Pascoaes como «querido e divino Poeta, e meu Amigo»146. As cartas que neste período escreve a Manuel de Castro não desmentem esta afeição. É a ausência do amigo que nos permite conhecer o quotidiano de Guilherme de Faria de um modo próximo e detalhado: As primeiras 16 páginas da Elegia estão impressas e, louvores a Deus, bem impressas! Na Tipografia todos estão na melhor vontade de trabalhar o melhor possível. E este facto alegra-me, como a ti, por certo, te alegra também. Hoje, ou o mais tardar amanhã, a Elegia ficará concluída. Depois o Arlindo [Vicente] vai desenhar a fonte do Pascoaes e ponto final no nosso primeiro ensaio editorial. Recebi agora uma carta muito amável do Pascoaes. O grande Poeta, exilado em Amarante, entre a sombra
140 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 19 de julho de 1924. 141 A Imprensa Lucas funcionava no n.º 59-61 da Rua do Diário de Notícias, em Lisboa. 142 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 23 de julho de 1924. 143 Carta de Guilherme de Faria a Teixeira de Pascoaes, 26 de julho de 1924. 144 Carta de Guilherme de Faria a Teixeira de Pascoaes, 1 de agosto de 1924. 145 Carta de Guilherme de Faria a Teixeira de Pascoaes, 26 de julho de 1924. 146
Carta de Guilherme de Faria a Teixeira de Pascoaes, 1 de agosto de 1924.
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formidável do Marão e a névoa etérea que dimana das águas límpidas do Tâmega, prodigaliza amabilidades para nós os dois. Transcrevo a parte da carta referente a ti e à tua doença: «Estou com muito cuidado na saúde do nosso bom Amigo Manuel de Castro. Deus o melhore o mais depressa possível! Quando houver boas notícias a seu respeito, peço que mas envie num bilhete-postal». Depois fala com grande entusiasmo das nossas edições e diz que vai compor a poesia sobre Londres. Tudo ótimo! 147
E no dia seguinte, 31 de julho, fica concluída a Elegia do amor: «Não está uma maravilha. Tem meia dúzia de pequenos defeitos que eu não pude corrigir porque, em verdade, não reparei neles quando vi as provas de máquina. Felizmente que o conjunto parece bom»148. Insatisfeito com o trabalho da Imprensa Lucas, no dia 2 de agosto, na companhia do poeta José Bruges, Guilherme de Faria visita uma tipografia que lhe parece boa e acessível. No dia seguinte escreve a Manuel de Castro: A Elegia do amor está já a brochar. Não me parece mal. […] Peço a Deus que tudo corra muito bem! Fui ontem à tipografia que fez o último livro do José Bruges. Pediram-me 300 a 320 mil reis por cada folha de 16 páginas (composição e impressão). Um desaforo! Na tipografia da Biblioteca Nacional, levam 240 por cada folha. É também caríssimo. Estive lá e vim triste por não poder entregar-lhes os nossos trabalhos porque, realmente, têm ótimo material e trabalham muito bem. Contrastando com tudo isto, o nosso Lucas levou-me 156 por toda a Elegia, afora as capas! É certo que não trabalha como eu muito desejava; é certo que o seu material não é de primeira ordem e que os tipógrafos são, em grande parte, maus. Muito embora! Vamos nós lutando naquela casa, certamente secular e extraordinariamente confusa e desleixada! Deus queira que vençamos. Vitória sem combate e sem grandes sacrifícios, não é vitória! Adeus. Muitas saudades. […] Vou procurar informar-me sobre os preços e facilidades que teremos em Coimbra, na Imprensa da Universidade.149
No dia seguinte, impõe-se – como quase sempre na vida de Guilherme de Faria – uma dolorosa lucidez que umas vezes parece simplesmente uma manifestação de bom senso, outras vezes um doentio mecanismo de autopunição: Esperava hoje notícias daí. […] Preciso muito de falar contigo. Tenho pensado todos os dias e, a bem dizer, todas as horas e minutos, no grave problema tipográfico. Ainda ontem, com espantosa inconsciência, te dizia que havíamos de lutar com a confusão e desleixo que caracterizam a casa Lucas. Esquecia-me, porém, de dizer uma coisa que, de resto, tu já sabias: é que, na casa do Lucas, não há só confusão e desleixo, há também material tipográfico velho e gasto. E isso é tremendo! Serão vãs todas as lutas que travemos. 147 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 30 de julho de 1924. 148 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 31 de julho de 1924. 149
Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 3 de agosto de 1924.
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É uma tristeza. Mas espero conversar contigo e, de comum acordo, temos de solucionar a questão. 150
No dia 11 de agosto, foi impressa a capa da Elegia do amor e principiou a composição de Sombra, na tipografia da Biblioteca Nacional. Guilherme de Faria refere-se a Sombra como o seu «mal-aventurado livro»151 e o processo de edição no qual se empenha é marcado pelos mesmos momentos de entusiasmo, repentinamente substituídos pelo pessimismo, pela consciência das dificuldades e pelo sentimento de que está só diante de desafios que o seu temperamento deforma quixotescamente. Desse modo, a ausência de Manuel de Castro é dramaticamente enfatizada: «Crê que lastimo sinceramente que não estejas aqui. Precisava falar contigo»152; «Assusta-me, mais do que nunca, a tua ausência. Não sei trabalhar sem o teu convívio e o teu auxílio. Não sei reagir sem o teu incitamento. É um horror!»153. No mesmo dia 11 de agosto, percebemos que o pai – António Baptista Leite de Faria – continua a ser o grande protetor da empresa editorial154: Está a imprimir-se a capa da Elegia do amor. Aí vai, para que a vejas, uma prova de máquina, isto é, um dos primeiros exemplares impressos. Parece-me bem. Amanhã deve principiar a composição do livro. Preciso imenso falar contigo. Tenho trabalhado no sentido de arranjar dinheiro. […] Vou esforçar-me o mais possível por conseguir de meu Pai dinheiro suficiente para os Sonetos e para a poesia sobre Londres.155
Frequentemente sente-se, na leitura destas cartas, a consternação de um monólogo. Guilherme de Faria tem, por vezes, consciência de que Manuel de Castro não partilha nem os seus momentos de entusiasmo, nem os de abatimento. E, no entanto, nesse quente verão de 1924, continuam a chegar cartas à Quinta de Santo António, páginas e páginas com a narrativa do prosaico quotidiano de um jovem aspirante a editor que circula entre Jaime Cortesão e Raul Proença, que por esses dias escreve a Teixeira de Pascoaes e conversa com Afonso Lopes Vieira: Venho alvoroçadamente trazer-te uma notícia de sensação: a composição, impressão e capa do meu livro custam 358$00, na tipografia da Biblioteca Nacional. Em dez dias deve ficar concluído. O Sr. Gualdino Gomes tem sido, como sempre, excessivamente amável. É uma pessoa encantadora. […] Estou felicíssimo. Não saio estas férias de Lisboa, porque quero publicar o mais breve possível os Sonetos do Pascoaes. No 150 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 4 de agosto de 1924. 151 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 10 de agosto de 1924. 152 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 19 de julho de 1924. 153 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 31 de julho de 1924. 154 Cf. Joaquim Paço d’Arcos, «Destino e obra do poeta Guilherme de Faria», p. 351. 155
Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 11 de agosto de 1924.
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caso de ele mandar a poesia sobre Londres, publicámo-la também.156 Paguei 358$00 pela composição, impressão e capa do meu livro. Devo ler, no próximo sábado, as primeiras provas. O facto de a Imprensa da Biblioteca se encarregar da publicação da Sombra, representa em parte uma exceção. Foi o Gualdino, sempre encantador e amável, que nos proporcionou um tão bom negócio. Falei com o Sr. Jaime Cortesão e com o Sr. Raul Proença e ficou entre nós combinado pagar adiantadamente. Estou muito esperançado nesta tipografia que, ultimamente, tem feito obras admiráveis. […] Falei com o Afonso Lopes Vieira que me assegurou ser a tipografia da Biblioteca a melhor e a mais acessível de todas as tipografias de Lisboa. Segundo o que ficou assente, o meu livro será todo composto em tipo Elzevir que é, por muitas e muito boas razões, o nosso preferido. 157
Mas o mais comovente é o fundo humano de Guilherme de Faria que aflora nestas cartas. Percebe-se que Joaquim Paço d’Arcos tenha manifestado a vontade de publicá-las, «dado o seu extraordinário valor humano»158. Nelas se encontram passagens como esta: «os meus sonhos dão-me alento e atividade para trabalhar, procurando realizá-los; e as minhas saudades são, decerto, filhas daquela deusa que inspira o Pascoaes a dizer-nos que a renascença de Portugal só dela depende – da estranha e tutelar influência da saudade…»159. Nessas cartas descobrimos parágrafos de uma esperança comovente: Como eu seria feliz se, no próximo inverno, te visse inteiramente bem! Como seria bom continuar, serenamente e sem sombra de esmorecimento, nas nossas tentativas editoriais! Como seria ótimo conversar, sonhar e viver, sem excessos e sem botequins, lendo e estudando a um tempo e, pelas tardes doiradas e brumosas de inverno, rever atentamente as provas tipográficas de qualquer obra genial que porventura editemos! Adeus. Lembra-te sempre de mim.160
É em meados de Agosto de 1924 que a afeição de Guilherme de Faria por Teixeira de Pascoaes muda radicalmente. Os «cantos nebulosos e metafísicos do nosso bom Pascoaes»161, assim como o «querido e divino Poeta»162, terão – a partir de 16 de agosto – um tratamento profundamente depreciativo. Cremos que esta mudança de atitude, tão repentina e radical, possa dever-se ao contacto com Mário Beirão, que
156 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 12 de agosto de 1924. 157 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 13 de agosto de 1924. 158 Cf. Joaquim Paço d’Arcos, «Destino e obra do poeta Guilherme de Faria», p. 338. 159 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 13 de agosto de 1924. 160 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 11 de agosto de 1924. 161 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 1 de agosto de 1924. 162
Carta de Guilherme de Faria a Teixeira de Pascoaes, 1 de agosto de 1924.
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Guilherme de Faria conheceu no dia 14 de agosto. O que Mário Beirão ter-lhe-á contado sobre Pascoaes, António Correia d’Oliveira e Raul Brandão condicionou definitivamente o modo como o jovem poeta passou a considerar estes escritores. No dia 16 de agosto, Guilherme de Faria escreve a Manuel de Castro: «Duas palavras apenas: estou com muita pressa, porque o Mário Beirão acaba de chamar-me pelo telefone. Conheci há dois dias este grande poeta, muito mais poeta do que todos os Pascoaes, e já uma grande simpatia me prende à sua alma. Parece meu amigo. Conversámos ontem até altas horas».163 Passados três dias, escreve este desabafo: «Lisboa todos os dias está mais desagradável. A vida é mil vezes pior que os versos do Pascoaes e as prosas do Brandão, os dois grandes jacarés! […] E perdoa, uma vez mais, ao teu muito amigo que, neste momento, tem a cabeça mais nebulosa e confusa do que o espantalho de Amarante, bloco de trampa e literatura que canta dores etéreas, sapos com almas de Mar e lágrimas com portas e janelas».164 A simpatia por Mário Beirão e a antipatia por Pascoaes crescem proporcionalmente. Uma carta de 20 de Agosto testemunha-o: É um grande poeta, este Mário Beirão. Tenho conversado com ele e, em verdade, merece-me grande simpatia. Tem muito mais merecimento do que o Pascoaes e nunca recorreu aos torpes expedientes de que este se serve para fazer reclamo do seu nome e da sua obra, muito pior do que supúnhamos. Apesar de até hoje só ter recebido atenções do jacaré de Amarante, tenho por ele o maior desprezo. É uma criatura vil. O que tenho sabido a seu respeito é suficiente razão para um completo desprezo, para um desprezo em que predomina a repugnância. E a sua obra, a sua decantada obra, constituída por dislates e vergonhosos plágios, é profundamente estúpida, confusa e contraditória, sendo também literariamente literária (dêmos à palavra «literária» o sentido deprimente que o Joaquim pobre tolo costuma dar-lhe). […] O Pascoaes é muito vil. Estou com sérios receios acerca das suas edições. Podemos amanhã ser vítimas duma perfídia desse réptil. Todavia, já temos concluída a Elegia. Vamos fazer os Sonetos, quando houver dinheiro. E depois esperemos o D. Carlos. Tenho a impressão de que ele, covarde como é, não tem
163 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 16 de agosto de 1924. 164 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 19 de agosto de 1924. Outros exemplos de referências depreciativas a Teixeira de Pascoaes
e a Raul Brandão: «Isto não é literatura de almanaque ou botequim: não vejas por detrás destas palavras, a figura literalmente caricata e sórdida dum Pascoaes, com a sua alma de trapo e a sua “dor etérea” … em letra redonda. Não sejas injusto para comigo. Estou aqui, junto dos meus e cada vez mais só! Tenho passado os meus dias a vagabundear por essas ruas infectas, entre caras facínoras e almas que, à força de vis, já nem são almas» (20 de agosto de 1924); «Se porventura tivesse mais facilidades de expressão e especulação seria o que o pobre tolo pretende ser: o Camões dos nossos dias, o intérprete deste povo… meão de estatura, a quem tenho ouvido chamar Povo de Pedro-Sem» (21 de agosto de 1924); «Quando me falas da tua incapacidade ou negação para escrever, procuras enganar-te e enganar-me, porque, tanto tu como eu, conhecemos muito bem as tuas faculdades, não direi de grande escritor ou jacaré à Raul Brandão ou à pobre tolo de Amarante, mas de simples prosador de bilhete-postal à Guilherme de Faria» (1 de outubro de 1924).
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coragem para o publicar. Muito embora! Esperemos confiadamente… saberás que o Sr. Teixeira de Pascoaes me convidou, há dias, para uma visita às suas propriedades. Não vou porque o conheço. O pobre Alves Martins andou a encherse de ridículo, assoprando a tuba da fama e chamando as atenções sobre o réptil de que venho falando: pois, hoje, o monstro abocanha e achincalha o pobre Alves Martins e diz que lhe matou a fome em Pascoaes. É ainda e sempre o mesmo trapaceiro que afirma em público que um Correia d’Oliveira qualquer tem génio e logo diz, em particular, que o mesmo litera não passa de um cretino. É, como quase todos, um escarro.165
É curioso que a tendência de Guilherme de Faria para referir-se a Pascoaes em tom depreciativo aumenta significativamente sempre que escreve a Manuel de Castro acerca de Mário Beirão. Numa carta de 5 de setembro lê-se: «Fui há bocado despedir-me do Mário Beirão, que vai para o norte. Gosto imenso dele. É um grande poeta, sem dúvida o maior poeta contemporâneo e é, ao mesmo tempo, um dos mais nobres caracteres que eu conheço». E esta afirmação constitui pretexto para escrever: «Rareiam cada vez mais os bons caracteres. E então nesse lameiro da literatura só encontramos bilontras da pior espécie: são os pobres tolos, os putos tarimbeiros, em suma, todos os grandes jacarés. São todos muito vis, muito falsos, muito pérfidos! Este Mário Beirão é, em todo o sentido, uma exceção: por isso as alimárias o invejam e os biltres o anavalham».166 Na verdade, Guilherme de Faria estava duplamente enganado: nem Teixeira de Pascoaes seria tão mau como Guilherme de Faria afirmava – influenciado certamente por Mário Beirão –, nem Mário Beirão seria tão bom como ingenuamente o jovem poeta supunha. Aparentemente, Guilherme de Faria ainda não tinha percebido que A Brasileira era a «Câmara dos Deputados» e a «Academia» desse «estado livre» que era o Chiado, presidido pelo «erudito e boémio Gualdino Gomes, esteio septuagenário da má-língua local»167. Um interessante testemunho de José Gomes Ferreira – «Quase um relatório do convívio com um grande poeta nos cafés de Lisboa nos anos 30» – ajuda-nos a contextualizar esta questão: O nosso culto por Pascoaes talvez acendrasse em Beirão uma natural hostilidade ciumenta […]. Teixeira de Pascoaes fingia não reparar nesta pequenina tempestade em copo de água. Ou – quem sabe? – talvez ela lhe agradasse. Mas ficaria com certeza forrado de picadela de alfinetes se assistisse à cena a que o Carlos Queirós assistiu e logo correu a contar-nos, a ferver de fúria: «Querem saber como o tipo se referiu
165 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 20 de agosto de 1924. 166 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 5 de setembro de 1924. 167
José-Augusto França Os Anos Vinte em Portugal, Lisboa: Presença, 1992, p. 83.
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ao Pascoaes, quando o viu entrar n’A Brasileira? Desta maneira infame: Lá vem o homenzinho de Amarante…. Ora o…!» Não, não me afoito a escrever como o Carlos Queirós classificou o Mário Beirão. 168
É o mesmo meio literário em que Teixeira de Pascoaes desprezava a poesia de Fernando Pessoa e este afirmava que o poeta de Amarante sofria de «pouca arte»169, um meio particularmente afetado por invejas, intrigas e maledicência, em que a sensibilidade apura egocentrismos cruéis. Por temperamento, Guilherme de Faria lidava muito mal com este tipo de situações e, progressivamente, distancia-se do meio literário. O fim do Verão prolonga as mesmas expectativas, as mesmas questões concretas relacionadas com a impressão de Sombra170, as mesmas dificuldades económicas e o mesmo sentimento de solidão agravado pela prolongada ausência de Manuel de Castro171. O pai de Guilherme continuava a proteger a sua atividade de editor: Meu Pai, que leu com delirante entusiasmo a História de Jesus, quer fatalmente publicá-la. A edição do meu livro deixou-lhe uma ótima impressão a meu respeito: em seu entender eu sou, no campo das artes gráficas, um autêntico jacaré. Daí ele confia em mim para a edição da História de Jesus. E quer entrar para a nossa empresa: entra com o dinheiro! É uma ideia sublime! E a distribuição dos lucros será: 30% para meu Pai, 30% para ti, 30% para mim e 10% para o José Faria. No princípio de Outubro devemos iniciar os nossos trabalhos para a publicação da História de Jesus. É conveniente que estejas cá. Depois falaremos com mais vagar.172
A última carta de 1924 data de 2 de outubro, pouco antes do regresso de Manuel de Castro a Lisboa. Nela pode ler-se: Preciso muito de conversar contigo. O Anrique Paço d’Arcos, que hoje mesmo regressou de Pascoaes, veio procurar-me e, depois de nos felicitar pelas nossas edições, disse-me que o pobre tolo delirou com a Elegia e aguarda em ânsias os Sonetos. Mais, o mesmo pobre tolo promete-nos a edição dum livro novo que tenciona publicar brevemente e, segundo o mesmo Arcos, é caso assente, a publicação do livro sobre
168 José Gomes Ferreira, «Quase um relatório do convívio com um grande poeta nos cafés de Lisboa nos anos 30», em Pascoaes, Lisboa: Secre-
taria do Estado da Cultura / Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1979, p. 157. 169 Cf. ibid., p. 158. 170 «Começou hoje (sexta-feira) a impressão do meu livro. Estou muito satisfeito com ela. O tipo é ótimo, novíssimo, mas com aquele papel é impossível que o livro não fique com um pouco de pressão ou cravação. Essa cravação, segundo afirma o Afonso Lopes Vieira, dá uma certa beleza ao livro; e, segundo declara o Sr. Pais (impressor), desaparece com o tempo» (carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 29 de agosto de 1924). 171 «Tenho grande desejo e maior necessidade de falar contigo acerca dos Sonetos de Pascoaes. Parece-me muito conveniente que publiquemos antes de outubro e estou na disposição de contrair um empréstimo com meu Pai. Todavia, antes de tomar qualquer resolução, preciso de conversar com o Ex.mo sócio D. Manuel de Castro» (carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 29 de agosto de 1924). 172 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 7 de setembro de 1924.
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D. Carlos feita por nós. Como deves compreender, fazes-me imensa falta neste momento. Conheces suficientemente o meu feitio para poder calcular que estou cheio de hesitações e dúvidas horríveis. Precisaria de conversar durante largas horas contigo, para solucionarmos da melhor forma este grave e complicado problema. Ao que parece, Pascoaes supõe-nos dois fervorosos e entusiásticos admiradores das suas almôndegas literárias, vivendo absorvidos na constante adoração do seu lirismo etéreo e inatingível, e na disposição de lançar no mercado livresco todas as possíveis e imaginárias obras de sua excelência. É desnecessário dizer que esta convicção de poeta provinciano é fundamentalmente errada. Mas é também indispensável acentuar que o nosso dever consiste em tirar dela o máximo de proveito. Por isto e por muitas coisas mais preciso de conversar contigo. Manda dizer quando voltas daí.173
No fim desse intenso verão de 1924, Guilherme de Faria era editor de Teixeira de Pascoaes. Em livreiros antiquários e alfarrabistas, ainda se encontram exemplares da Elegia do amor, livro que, como se lê na última página, «acabou de se imprimir aos 28 de julho de 1924, na Imprensa Lucas & C.ª». Percebemos que a participação de Manuel de Castro neste trabalho resume-se à leitura das notícias que lhe chegavam de Lisboa, manuscritas por Guilherme de Faria174. Percebemos ainda que quem acorre às despesas, «generoso e dedicadíssimo ao filho, cujo génio poético o maravilhava, é o Dr. Leite de Faria, que na dura labuta de médico sustentava a numerosa família»175. Em fevereiro de 1925, Manuel de Castro e Guilherme de Faria apresentam três livros de Teixeira de Pascoaes: Sonetos, impresso nas oficinas gráficas da Biblioteca Nacional, Londres e D. Carlos, impressos na tipografia da Empresa do Anuário Comercial. De D. Carlos fez-se uma tiragem de 155 exemplares em papel Japão, encadernados por Alexandrino, com ferros especiais, numerados e rubricados por Teixeira de Pascoaes. Como vimos, desde meados de agosto de 1924 que Guilherme de Faria, na intimidade das cartas que escrevia a Manuel de Castro, desconsiderava frequentemente Teixeira de Pascoaes. No entanto, publicamente, mantinha uma relação cordial com o poeta de Amarante. No dia 24 de fevereiro de 1925, já Pascoaes tinha regressado a Gatão, Guilherme de Faria comunica-lhe
173 Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 2 de outubro de 1924. 174 «Tenho imensas coisas para te dizer. Mas, dado o facto bem lamentável da tua ausência, só escrevendo te posso dar conhecimento do
que se tem passado com a nossa empresa editorial e com muitas outras coisas, algumas de grande interesse e importância» (carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 7 de setembro de 1924). 175 Joaquim Paço d’Arcos, «Destino e obra do poeta Guilherme de Faria», p. 345.
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que os livros já estavam impressos e que faltava apenas a brochura. Particularmente arrependido por se ter comprometido com a edição desses livros176, Guilherme de Faria consegue – naturalmente com o dinheiro do pai – imprimi-los e colocá-los nas livrarias em meados de março. O esforço deste investimento, que certamente nunca terá sido compensado, acabará por sacrificar a edição da História de Jesus de Gomes Leal, assim como as aspirações do jovem editor, que frequentemente acusava o desgaste causado por uma atividade mais prosaica do que poética. Nos primeiros dias de junho, Guilherme de Faria encontra numa carta de Pascoaes o motivo para a rutura. A sua resposta, numa extensa carta datada de 9 de junho de 1925, explica a situação: Em Fevereiro ou Março do ano passado, falámos-lhe, pela primeira vez, do desejo que tínhamos de fundar uma casa editora; V. Ex.ª louvou os nossos propósitos […] e com tal sinceridade e entusiasmo o fez que, nessa mesma ocasião, teve a gentileza, que jamais pude esquecer, de nos oferecer, para a nossa futura editora, toda a sua obra literária. […] Como não podia deixar de ser, aceitámos com o maior alvoroço e reconhecimento a sua generosa oferta […]. Falámos a V. Ex.ª na melhor forma de salvaguardar os seus direitos e perguntámos-lhe, lealmente, as condições que exigia. V. Ex.ª respondeu-nos simplesmente não desejar dinheiro algum, mas apenas que fôssemos felizes na nossa empresa, que classificou de admirável e benemerente. […] Sem dúvida que esta sua resposta nos comoveu e muito nos impulsionou a realizar cabalmente os nossos projetos. […] Compreendemos, sem grande dificuldade, a renúncia de um homem rico e poeta de afamado valor, mas limitado público, aos míseros vinténs dos seus direitos de autor. […] Tudo isto estava admiravelmente bem e, sendo muito agradável para nós, creia V. Ex.ª que não nos era menos prejudicial. Porque a sua atitude, que a sua carta de hoje veio modificar completamente, levavanos ao cumprimento integral da nossa palavra, à publicação de todas as suas obras. Tenha V. Ex.ª a certeza de que os dois rapazes a quem hoje revelou, da forma mais evidente e mais grosseira, a desconfiança que a sua honestidade lhe inspira, estavam firmemente dispostos aos máximos sacrifícios, para assim corresponderem à nobreza da atitude de V. Ex.ª, agora tão desairosamente desmentida! Os editores a quem agora, da sua longínqua propriedade de Gatão e só daí, porque em Lisboa não o ousou fazer, vem magoar e ferir com exigências que envolvem o maior dos agravos, os seus editores, repito, estavam firmemente dispostos a levar a cabo a edição completa das suas obras que, por divinas em excesso, não interessam de forma alguma ao público de Portugal, que não as lê e muito menos as compra. E a nós que, por gentileza, lhe não comunicamos o estrondoso fracasso do seu livro de maiores possibilidades de venda – o D. Carlos – de que ainda não conseguimos vender, em todo o país, oitocentos 176 Como se lê no post-scriptum da carta de 2 de outubro de 1924, a Manuel de Castro: «Foi um grande erro dizermos ao pobre tolo que
dispúnhamos de avultados capitais. Não te parece?».
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exemplares; a nós que lhe ocultamos também o estupendo insucesso dos Sonetos e de Londres, de que vendemos, ao fim de meses, muito menos de duzentos exemplares; […] é a nós, Sr. Teixeira de Pascoaes […], que V. Ex.ª vem exigir, como direitos de autor, 20 por cento sobre o preço dos seus livros! Fique pois sabendo, Sr. Teixeira de Pascoaes, que os dois rapazes que, em má hora, se dispuseram a publicar os livros de V. Ex.ª, saberão cumprir os seus deveres até ao fim e, por hoje, perdoam e esquecem os ultrajes que lhes dirigiu, prevenindo-o, contudo, de que será melhor não lhes lembrar outra vez que foi o primeiro a pôr em dúvida, e duma forma tão grosseira, a integridade dos seus caracteres. Sem mais, subscrevo-me, em nome dos seus ex-editores, Guilherme de Faria177
Assim termina a relação entre Guilherme de Faria e Teixeira de Pascoaes. Esta carta é suficientemente explícita. Os dois poetas conheceram-se n’A Brasileira do Chiado, em fevereiro ou março de 1924; Guilherme de Faria introduz alguns amigos no séquito de Pascoaes e apresenta-lhe o seu projeto editorial. Pascoaes, que tinha 46 anos e era já um dos mais reconhecidos poetas portugueses, com uma certa ingenuidade, oferece a sua obra literária a dois jovens editores com 16 anos; numa atitude própria de um poeta sem preocupações mundanas, renuncia aos direitos de autor e confia no entusiasmo dos dois rapazes. Guilherme de Faria, com apenas 16 anos, inicia-se como editor com um dos mais importantes autores da história da literatura portuguesa e sente que os livros de Pascoaes trariam prestígio e sucesso comercial. Estavam ambos enganados. Nem Guilherme de Faria era, então, o editor que a obra literária de Pascoaes merecia, nem Pascoaes era o poeta que garantiria o sucesso comercial da editora. Estou convencido de que existe uma relação entre o modo como Guilherme de Faria passou a desconsiderar Pascoaes, em meados de agosto de 1924, e a sua amizade com Mário Beirão. Com efeito, Guilherme de Faria admirava profundamente Teixeira de Pascoaes e, dois dias depois de ter conhecido Mário Beirão, passou a referir-se ao poeta de Amarante de modo depreciativo, muitas vezes insultuoso. Curiosamente, Guilherme de Faria tinha de certo modo previsto, um ano antes, esta situação de rutura: «O Pascoaes é muito vil. Estou com sérios receios acerca das suas edições. Podemos amanhã ser vítimas duma perfídia desse réptil»178. Por outro lado, a reação de Pascoaes pode ter sido motivada pela desconsideração de Guilherme de Faria, ou seja, Pascoaes pode ter tido conhecimento da opinião tão depreciativa que Guilherme de Faria tinha de si e, numa atitude de autodefesa, escreve ao jovem editor exigindo-lhe 177 Carta de Guilherme de Faria a Teixeira de Pascoaes, 9 de junho de 1925. 178
Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 20 de agosto de 1924.
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direitos de autor a que antes tinha renunciado. Uma discussão entre Guilherme de Faria e Anrique Paço d’Arcos, no dia 8 de maio de 1925, documentada numa carta pouco explícita, pode explicar esta situação. Com efeito, Guilherme de Faria escreve a Anrique: «Tive, de facto, razões para ficar sentido e desgostoso […]. Por isso não sei nem posso desculpar-me de lhe haver revelado o meu desgosto, vindo apenas, com esta minha carta, pedir-lhe que me desculpe a rudeza excessiva com que lho revelei»179. Independentemente da relação provável, para Guilherme de Faria o seu desentendimento com Anrique Paço d’Arcos deve-se a Pascoaes. Num bilhete-postal escrito na Ericeira, no dia 8 de novembro de 1928, e enviado ao seu irmão Miguel, Guilherme de Faria afirma: «Deu-me muito gosto a notícia que me dás do Anrique Paço d’Arcos se querer reconciliar comigo. […] De resto, eu nunca fui seu inimigo e as duas ou três partidas que ele me fez, sempre as atribuí a Teixeira de Pascoaes»180. De certo modo, a carta de Pascoaes apenas precipitou a rutura entre os dois poetas e deu um pretexto a Guilherme de Faria, que aproveitou para descartar-se duma responsabilidade que lhe pesava excessivamente. Depois da rutura, em junho de 1925, os dois poetas encontrar-se-ão uma última vez no dia 2 de janeiro de 1926, num episódio de algum modo caricato, narrado assim por Guilherme de Faria: Ontem aconteceu-me uma coisa bem engraçada e inesperada: estive a tarde inteira de cavaco com o Bandarra de Amarante. O Costa Pinto convidara-me para aparecer em sua casa e falarmos aí de poesias e literaturas […]. E eu fui; e qual a minha surpresa ao encontrar lá os líricos Américo Durão e Pascoaes. Ao primeiro, falei como conhecido que sou; ao segundo apresentou-me o Costa Pinto, que ignorava por completo o que entre nós se passou. O que é facto é que eu desempenhei lindamente o meu divertido papel: conversei com o pobre tolo como com pessoa que, pela primeira vez, tivesse conhecido. Ele sempre embaraçadíssimo e perplexo em assumir uma atitude definitiva. A certa altura, porém, o pobre Pascoaes aludiu, de qualquer forma, a cenas entre nós passadas; e eu fui então divino, fazendo-lhe saber, abertamente, que não era o Guilherme de Faria, ex-editor e poeta, que estava conversando na sua presença, mas tão-somente o Guilherme de Faria amigo do amável dono da casa, que a ambos nos convidara e apresentara. O homem ficou simplesmente passado depois desta minha explicação, dada num tom naturalíssimo e, ao mesmo tempo, categórico. 181
179 Carta de Guilherme de Faria a Anrique Paço d’Arcos, 8 de maio de 1925. 180 Bilhete-postal de Guilherme de Faria a Miguel Leite de Faria, 8 de novembro de 1928. 181
Carta de Guilherme de Faria a Manuel de Castro, 3 de janeiro de 1926.
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Na correspondência entre Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes182, encontrámos duas referências a Guilherme de Faria, ambas de carácter depreciativo. A primeira data de julho de 1928. Raul Brandão escreve: «Ainda hoje me chegou às mãos um livro de versos – que não li nem lerei – Distância do António Pedro, com um prefácio onde o Coelho de Carvalho chama “grande poeta” ao Guilherme de Faria»183. A segunda foi escrita por Pascoaes apenas seis dias depois do suicídio de Guilherme, a 10 de janeiro de 1929: «O Guilherme de Faria parece que se suicidou. O Pimenta faz-lhe um enorme elogio, na Voz – a ele e ao Visconde de Ameal! Sim, para aquele Camões só aquele Camilo! […] Está tudo muito certo, neste País de navegadores do mar das Índias que demudaram em pescadores de águas turvas! Que pouca vergonha!»184. O epílogo da relação entre Teixeira de Pascoaes e Guilherme de Faria é, passados quase cem anos, evidentemente lamentável. Ocorre-me uma carta que Cecília Meireles escreve a Armando Côrtes-Rodrigues, no dia 19 de maio de 1952, aquando da morte de José Bruges: «O que muito me doeu foi ter-se o Bruges suicidado em Tânger. Eu não o conhecia, mas queria-lhe imenso bem: o bem que os poetas deviam querer uns aos outros»185. O bem que os poetas deviam querer uns aos outros… Seja como for, a redescoberta de Guilherme de Faria, da sua vida e obra poética, só foi possível graças à caligrafia de Pascoaes, na dedicatória de um dos seus livros que habitava a biblioteca do jovem poeta vimaranense que, nas palavras comovidas de Alfredo Pimenta, foi “o último Poeta português, que aos 21 anos se deixou enfeitiçar pelo marulho das ondas e no seio destas se foi cantar a sua última estrofe»186.
182 Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, Correspondência, Lisboa: Quetzal Editores, 1994. 183 Raul Brandão, Correspondência, p. 184. 184 Teixeira de Pascoaes, Correspondência, p. 197. Nesta alusão mordaz está implícita a ideia de que Alfredo Pimenta, numa atitude caricata,
comparara Guilherme de Faria a Camões e atribuíra à obra do Visconde de Ameal um fulgor semelhante à do novelista de Seide. 185 Cecília Meireles, A Lição do Poema. Cartas de Cecília Meireles a Armando Côrtes-Rodrigues, Ponta Delgada: Instituto Cultural, 1998, p. 209. 186 Alfredo Pimenta, dedicatória manuscrita na página de rosto do exemplar de Saudade Minha (poesias escolhidas) oferecido a Ricardo Jorge, 18 de junho de 1935.
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JOSÉ RÉGIO – a propósito do centenário de “Poemas de Deus e do Diabo!” Álvaro Nunes
JOSÉ RÉGIO (1901-1969) é o pseudónimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nascido em Vila do Conde, em 17 de setembro de 1901, prestigiado poeta, autor dramático e ficcionista, que foi fundador e colaborador da Presença – Folha de Arte e Crítica, a ilustre revista quinzenal editada em Coimbra, em março de 1927, com o objetivo de difundir o Modernismo. Com efeito, licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Filologia Românica, com a tese de licenciatura subordinada ao tema “As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa”, José Régio (vamos tratá-lo pelo pseudónimo), ousaria com este trabalho e num período de menor reconhecimento de Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro, apresentá-los como nomes cimeiros da poesia contemporânea. Porém, ainda em Coimbra, Régio colaboraria ainda na publicação das revistas “Bysancio” e “Tríptico” e conviveria com um grupo de escritores e amigos no Café Central, entre os quais Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, seus parceiros na redação da revista Presença, que visa uma literatura viva. De facto, o texto “Literatura Viva”, publicado na primeira edição da Presença, assume-se como uma espécie de manifesto programático do grupo. Aí, defende-se que “em arte, é vivo tudo que é original (…)
José Régio, in Viajar com... José Régio, p. 5, editora Opera Omnia
tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística”. Deste modo, a literatura viva definir-se-ia como “aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria”.
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Esta cosmovisão artística que reclama para a obra artística o carácter de “documento humano” com autenticidade e originalidade, dará posteriormente azo a outros textos doutrinários, entre os quais “Em torno da Expressão Artística” (1940) e “Três Ensaios sobre Arte” (1980). Textos doutrinários que desencadeariam algumas polémicas, em especial nas décadas de 30 e 40, particularmente entre este paradigma mais subjetivista e idealista e a literatura comprometida com a história e com os homens da escola neorrealista. No entanto, para além da teorização artística, Régio empreende incursões que se estendem a outras dimensões ensaísticas, como se constata com a edição de “Ensaios de Interpretação Critica” (1964), que se centram em estudos sobre Camões, Camilo, Florbela e Sá-Carneiro. Postumamente, seriam ainda editadas as memórias sob o título “Confissão de um Homem Religioso” (1971). Professor por mais de 30 anos no Liceu de Portalegre, Régio passaria praticamente toda a sua vida nesta cidade alentejana, à qual dedicaria o longo poema “Toada de Portalegre”: “Em Portalegre, cidade/ Do Alto Alentejo, cercada/ De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros/ Morei numa casa velha. / Velha, grande, tosca e bela/ À qual quis como se fosse/ Feita para eu morar nela (…)”
De facto, Régio ali viveria cerca de 30 anos e apenas regressaria a Vila do Conde em 1966, onde faleceria, em 22 de dezembro de 1969. E seria na cidade da foz do Ave, na qual também se iniciaria na escrita nos jornais locais “A República” e o “Democrático”, dirigidos por seu tio e padrinho, que Régio também escreveria o 6º. e último volume de “A Velha Casa”, como que fechando o ciclo da sua vida e obra. Mas, incansável e ativo como sempre, manteria os hábitos das tertúlias, agora transferidas para o chamado “grupo dos sábados”, habitualmente reunido no Diana-Bar, na Póvoa de Varzim, ou no restaurante marisqueira A-Ver-o-Mar. Hábito que já vivenciara em Coimbra e também em Portalegre, cidade onde conheceria os milicianos (e escritores) David Mourão Ferreira e Eugénio Lisboa, no decurso da década de 50. Com efeito, Vila do Conde significaria o regresso às origens. Realmente, seria na foz do Ave que Régio passaria a sua infância em companhia de seus irmãos, em especial Júlio Maria (mais tarde conhecido pelo pseudónimo poético Saúl Dias), autor de vários desenhos e gravuras de suas obras; e aí, em Vila do Conde, viveria também parte da sua juventude, não obstante a infeliz passagem por um semi-internato, no Porto, no final do ensino secundário, que iria servir de matéria romanesca para “Uma gota de sangue” (1945).
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Régio é ainda conhecido pela sua paixão colecionista de arte sacra e popular, cujo espólio se encontra à guarda das suas casas-museu, em Vila do Conde e Portalegre, que merecem uma visita. Homem solteiro, embora não celibatário, pois chegaria a ter uma filha que faleceria, resultante de um relacionamento falhado, Régio deixar-nos-ia, porém, prole significativa da sua lavra na sua ficção e poesia, de forte pendor confessional e conflitualidade permanente. Uma obra de dolorida interrogação, em busca de caminhos do espírito humano. Uma busca que, por vezes, se alarga às denúncias sociais e também à evasão poética e amorosa, como este belo e erótico “Soneto de Amor”, comprova: “Não me peças palavras, nem baladas, Nem expressões, nem alma … Abre-me o seio, Deixa cair as pálpebras pesadas, E entre os seios me apertes sem receio. Na tua boca sob a minha, ao meio, Nossas línguas se busquem, desvairadas … E que os meus flancos vibrem no enleio Das tuas pernas ágeis e delgadas. E em duas bocas uma língua… – unidas, Nós trocaremos beijos e gemidos, Sentindo o nosso sangue misturar-se. Depois… – abre os teus olhos, minha amada! Enterra-os bem nos meus, não digas nada … Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!”
O poeta Régio inicia, assim, o chamado 2º. Modernismo, no qual colaborariam ainda Miguel Torga e Adolfo Casais Monteiro, ainda que, mais tarde, o poeta de S. Martinho de Anta e Branquinho da Fonseca hajam 440
abandonado o grupo e cessado a sua colaboração. Ora, na sua poesia, particularmente nos “Poemas de Deus e do Diabo” (1925), que agora perfazem 100 anos de publicação, Régio inicia a sua criação lírica, marcada por um certo narcisismo egolátrico e humanismo reivindicativo, na qual se evidencia uma clara expressão dramática do conflito íntimo da condição humana. Perpassa, assim, na sua poesia, um lirismo confessional que, com recurso a efeitos dramáticos, explora as inquietações humanas, cujos motivos, problemas e obsessões se centram sobretudo nos conflitos eu/outro, humano/divino, corpo/alma e anjo/demónio. O poema “Cântico Negro”, da citada obra, “Poemas de Deus e do Diabo”, é elucidativo dessas linhas de força: “Vem por aqui – dizem-me alguns olhos com olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando dizem: vem por aqui! Eu olho-os com olhos lassos. (Há, nos meus olhos ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali … A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre da minha Mãe. Não, não vou poa aí! Só vou por onde Me levarem meus próprios passos… (…) Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições!
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Ninguém me diga: vem por aqui! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou… Não sei por onde vou. Não sei para onde vou, - Sei que não vou por aí”
De facto, como é evidente neste poema, sente-se a obstinação do individualismo modernista, apostado em “não acompanhar ninguém” e “criar desumanidade” (leia-se socialização) preferindo a pedagogia do erro (“becos lamacentos e ventos”) a perder o norte do percurso individual e da liberdade. Assim, de forma maniqueísta (“Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo”), limita-se a recusar a orientação alheia e proclama a fé no mito da Liberdade e da construção pessoal de um percurso próprio, ainda que esta obstinação individualista e não-dialogante lhe possa dificultar ou inviabilizar a felicidade. Avultam, porém, na poética regiana uma diversidade de linhas temáticas que apontam para a busca do transcendente, os problemas metafísicos, o pensamento obsessivo da morte, a ilusão com o seu desencanto e consequente frustração, que se expressam em obras como “Biografia” (1927) “As Encruzilhadas de Deus” (1935), “Fado” (1941) entre muitas outras. “Fado Português”, um poema de José Régio musicado e cantado por Amália, que dá nome ao álbum de 1965, editado no âmbito do denominado “novo fado”, é outra faceta provavelmente menos conhecida da polifacetada poesia: “O fado nasceu um dia, / quando o vento mal bulia/ e o céu o mar prolongava, / na amurada dum veleiro/ no peito dum marinheiro/ que, estando triste, cantava/ (…)”
Ficcionista e dramaturgo Na narrativa, admirador de Raul Brandão e Proust, são de destacar os seus romances “Jogo da Cabra Cega” (1934) e o ciclo “A velha Casa” (1945-1966), a que adita as novelas “Davam grandes passeios ao domingo” (1941), bem como “Histórias de Mulheres” (1946). Todavia, Régio, escreveria ainda “Há mais mundos” (1962) ou os contos reunidos sob o título “O Vestido cor-de-rosa e outras histórias”; e, no âmbito infantil, “O Príncipe com orelhas de burro” (1942). Uma história infantil, à laia dos contos tradicionais e fantásticos, na qual Régio mostra o seu ecletismo e narra, nesta “história para crianças grandes”, a maldição do herdeiro
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ao trono da Traslândia, que, à nascença, é condenado pelo Génio da Floresta a ser um príncipe perfeito, mas com orelhas de burro. Contudo, curioso na sua tessitura narrativa é ainda a sábia exploração das potencialidades das personagens. Recorde-se, por exemplo, a sinistra e sedutora personagem Jaime Franco (o “arcanjo da noite”), da proscrita obra de influência dostoievskyana, “Jogo da Cabra Cega” (1934), que mais tarde seria recuperado em “A Velha Casa”, funcionando como alter-ego ou duplo de José Régio. De facto, cabe a esta personagem, enquanto voz da consciência crítica, as intervenções mais cáusticas, irónicas e lúcidas, cheias de frontalidade e sinceridade, projetando o autor na obra. Projeções que ocorrem ainda noutras personagens como Pedro Serra, Manuel Trigueiros (Lelito), Dr. Ricardo Abrantes entre outros, que na visão feminina se projetam na Madrinha Libânia, a Menina Olimpia e a criada Belarmina. Por sua vez, na dramaturgia, que estabelece uma certa continuidade da problemática religiosa, humana e metafísica, já anteriormente abordada na obra poética, Régio colige, no volume “Primeiro Volume de Teatro” (1940), textos dramáticos como “Três Máscaras” e “Jacob e o Anjo” e publica o drama realista “Benilde ou a Virgem Mãe” (1947), provavelmente o seu trabalho mais conhecido, que foca os limites da fé dos homens. De facto, contrariamente ao senso comum, a jovem Benilde jura diante da família, padre e médico, que havia concebido um filho sem pecado, pondo em confronto as visões racionalistas dos que acusam Benilde de hipocrisia e os que acreditam nela. Régio escreveria ainda as peças “El-rei D. Sebastião” (1949), a tragicomédia “A Salvação do Mundo” (1954) e “O Meu Caso” (1957), entre outras. Como nota final, de relevar ainda a colaboração de Régio na imprensa local. Realmente, o escritor cooperou ativamente nos jornais alentejanos “Alto do Alentejo” e “A Rabeca” no qual publica textos de teor político e cívico de cariz oposicionista ao Estado Novo. Por isso, muitos temiam que, tal como acontecera em casos similares, mais dia menos dia, estas suas atitudes o levassem à expulsão da função pública. Todavia, a despeito da proscrição de algumas obras suas, Régio manter-se-ia como professor e funcionário público até à aposentação e enfrentaria ousadamente os tempos difíceis da censura e da opressão salazarista. Obviamente, um autor Régio, eventualmente a (re)ler com outros olhos…
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Maria Teresa Horta – In memoriam Equipa redatorial
Neste ano de 2025, partiu do reino dos vivos terráqueos a poetisa e escritora MARIA TERESA do Nascimento Horta BARROS (1937-2025), a última das três Marias, que, em parceria com Maria Isabel Barreno (1939-2016) e Maria Velho da Costa (1939-2020) escreveriam as famosas “Novas Cartas Portuguesas” (1972) e abalariam o marcelismo, marcando o processo revolucionário em curso (PREC) do feminismo português. De facto, em consequência da sua postura rebelde e inconformada perante o regime marcelista, quer na literatura quer no exercício da cidadania, Maria Teresa Horta (MTH) acabaria por sofrer na pele a perseguição dos espúrios da sociedade autoritária e marialva, que em nome da subalternidade feminina chegaria às ameaças e à violência: “Uma vez deram-me uma tareia na rua, daquelas tareias em que não morri por acaso (…) Atiraram-me ao chão, bateram com a minha cabeça no chão e disseram-me: isto é para aprenderes a não fazer aquilo que fazes”. “As Novas Cartas Portuguesas” são, portanto, uma resposta corajosa em prol da luta pela igualdade, que editadas pelos Estúdios Cor, dirigidos por Natália Correia e inspirados nas “Lettres Portugaises”, têm como referência a freira Mariana Alcoforado (1640-1723). Uma obra que suscitaria também a fúria censória da ditadura, que levaria à sua destruição pela censura três dias depois de estar em circulação, In Expresso, 04/02/2025 com o pretexto de ser “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”. Igualmente, uma obra que conduziria as autoras a um processo judicial, que seria badalado internacionalmente nos órgãos de comunicação social internacionais, entre os quais o “Le Monde” ou “The New York Times”, bem como motivaria manifestações junto de algumas
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embaixadas portuguesas. Porém, um processo judicial que, iniciado em 25 de novembro de 1973 acabaria com a absolvição das acusadas em 7 de maio de 1974, já após o 25 de Abril, ousadamente terminado à porta do Tribunal da Boa Hora com o anúncio da criação do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM). Ademais e curiosamente, “As Novas Cartas Portuguesas” seriam um dos livros nacionais mais traduzidos e estudados em várias universidades estrangeiras, que em 1973 seria mesmo votado numa conferência da National Organization for Woman, em Boston, como a primeira causa feminista internacional. Realmente, partindo das “Cartas Portuguesas” redigidas pela freira Mariana Alcoforado e dirigidas ao Marquês Noel de Chamilly, oficial francês participante na Guerra da Restauração, em solo nacional, Mariana, que se encontrava enclausurada no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, serviu de inspiração para as autoras escreverem estas “Novas Cartas Portuguesas”, enquanto obra literária de libertação feminina. Deste modo, desde poemas, ensaios, relatórios e até excertos do código penal, que colocam em causa o status quo da condição feminina na época e simultaneamente lançam críticas à ditadura, guerra colonial e ao sistema judicial, o livro representa sobretudo um gesto de resistência a um sistema opressivo e um ato desafiador considerado subversivo. De facto, um livro que revolucionou a visão feminina do mundo e que se mantém atual, pois, como se escreve na penúltima carta, “continuamos sós, mas menos desamparadas” …
Mas Maria Teresa Horta legou-nos algo mais que as “Novas Cartas Portuguesas”. Com efeito, nascida em Lisboa e oriunda de uma família aristocrática, a “Teresinha”, precoce, curiosa e inteligente, herdaria da avó paterna, sufragista, os genes militantes, subversivos e cívicos, que conciliaria com uma linguagem rica, apaixonada e fluída, assente numa ampla cultura humanista. Porém, MTH estaria ainda noutras frentes. Deste modo, mulher de ação e comprometida, dedicar-se-ia durante alguns anos ao movimento cineclubista português, de que resultaria a curta metragem “Verão Coincidente”, em parceria com António Macedo, baseada num poema seu. Seria, contudo, como escritora e poetisa que se desatacaria, inicialmente inserida no movimento literário “Poesia 61”. No entanto, MTH publicaria ainda a peça de teatro “O Delator”, incluída no “Novíssimo Teatro Português”, vários contos e o romance “Ambas as mãos sobre o corpo”, bem como “As Luzes de Leonor” (2011), uma biografia de memórias, poesia e cartas, centrada na sua antepassada Leonor de Almeida, a poetisa Marquesa de Alorna (1750-1839), obra na qual se cruzam figuras históricas e a tensão entre contrários própria da época, nomeadamente os conflitos entre a razão e o sentimento. Paralelamente, licenciada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, seria também vasta a sua colaboração no jornalismo, designadamente na direção do suplemento “Literatura & Arte” do jornal “A 445
Capital” e da revista “Mulheres”, um projeto feminista ligado ao PCP, partido em que militaria durante 14 anos. Um trabalho jornalístico que lhe daria azo a entrevistar figuras destacadas como Lourdes Pintassilgo, Marguerite Yourcenar e Marguerite Duras, entre outras; e ainda a colaborar ativamente em vários periódicos como o “Diário de Lisboa”, “República”, “O Século” e o “Jornal de Letras” e conviver com inúmeros protagonistas da cultura portuguesa como Natália Correia, Saramago, Ary dos Santos, António Gedeão e Alexandre O´Neill, bem como homens do jornalismo, entre os quais Luís de Barros, com quem casaria em segundas núpcias. Porém, como dissemos, é na poesia, na chamada “poesia do desejo”, que MTH se evidencia mais plenamente. Assim, após “Espelho Inicial” (1960) e “Cidades Submersas” (1961), da sua obra emerge sobretudo uma dimensão erótica, como é evidente em “Minha Senhora de Mim” (1967), que o poema “O meu desejo” claramente dilucida claramente: “Afaga devagar as minhas pernas Entreabre devagar os meus joelhos Morde devagar o que é negado Bebe devagar o meu desejo.”
Na mesma esteira, entre muitas outras produções poéticas, surgiria mais tarde “Só de Amor” (1999), “Inquietude” (2006) e “Palavras do Corpo” (2012), entre várias outras criações poéticas diversificadas, como “As Palavras do Corpo – Antologia de Poesia Erótica” (2016). Efetivamente, com ecos de versos de Safo e de Ovídio, “mestre do amor”, bem como vestígios do “Cântico dos Cânticos” do Antigo Testamento, assim como influências das cantigas de amigo medievais, antes da Inquisição e da repressão religiosa, MTH assume as rédeas do amor carnal e erotismo feminino, escrevendo sobre os tabus indizíveis e os incómodos conservadores. 446
Uma obra que, porém, pela sua singularidade, deixa marcas literárias e cívicas, que se traduziria em alguns prémios recebidos como o Prémio de Consagração da Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (2014) ou a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura (2021), mas que ficaria também marcada por recusas, nomeadamente a receção do Prémio D. Dinis da Fundação Casa Mateus (2011), que seria entregue pelo Primeiro-Ministro Passos Coelho. Prémios e reconhecimento em que se salientam ainda a atribuição do galardão de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República Jorge Sampaio (2004) e o grau de Grande-oficial da Ordem da Liberdade, em 2022. Maria Teresa Horta partiu e deixou-nos sem o seu convívio. Todavia, doou-nos uma vasta herança. Resta-nos, portanto, prestar-lhe o nosso preito e fruir dos seus bens culturais, bem como aquilo que os vivos vão produzindo sobre o seu legado. Citem-se, como exemplo, a biografia íntima “A Desobediente” de Patrícia Reis, ou o documentário “O que podem as palavras” (2022), diálogo entre as três Marias sobre o impacto do seu trabalho literário e de cidadania, quer nas sua vidas quer no movimento feminista. De facto, a melhor evocação e homenagem que lhe devotamos é (re)ler a sua obra, nas mais diversas opções…
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Morte em Guernica José Matos
Um odor de fumo e pólvora invade a cidade. O silêncio e o pão escasseiam na boca. A fome alastra impiedosa, assustadora, como qualquer outra epidemia que ninguém consegue controlar. Às ruas desertas Regressa, sorrateiro, o medo. O sangue nas mãos arrefece. Os olhos cerram-se enquanto os algozes passeiam impunes na cidade. O grito, a guerra, a indignação, uma vez mais o medo, o sangue. Os nervos regelam à flor da pele. Lorca foi calado a ferro e fogo numa rua deserta às tantas da madrugada. As ruas mudam de nome, de configuração e de sentido ou simplesmente desaparecem sem deixar rasto como se fossem vítimas anónimas de um cruel linchamento. Suspensas, sangram as palavras,
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letra a letra, sílaba a sílaba como se fossem dissecadas por um bisturi. Às vezes entoam-se canções de revolta que o vento por inadmissível afinidade recusa divulgar. Morrer não é adiar a esperança ou aliviar a angústia. A terra regressa fria ao seu caudal de dúvida. As palavras sangram na boca.
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Aguarela M. Branco de Matos
Na tarde quieta poderosa e mansa à hora singular do entardecer à luz de um grande sol rosicler a conversa cansa. Na esplanada ociosa a cerveja espuma loira e caprichosa à flor da escuma. Mais a leste numa azinheira agreste dedilha uma guitarra a última cigarra. Na orla da praia à luz do sol poente quando a areia desmaia sob a lua mais que o mar marulha gente e o mar estua se inflama e se derrama na placidez soberana do grande oceano que longe da praia rumoreja a si mesmo se beija. Na linha do horizonte iridescente tão longe que o mais longe não se alcança tranquilamente solitário romântico em seu vagar avança
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imponentemente um transatlântico. E dói-me este passo de dança que me interpela entre o barco que balança e a cor desta aguarela. Olhar de frente o mar é ir na paisagem desaparecer e só regressar da viagem quando é preciso morrer.
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Zé do Martelo rui galiano
Certo dia, num país diletante, à falta de um recipiente para dar de comer aos porcos, uma peça, suja e arrumada numa arrecadação servia à necessidade e foi cumprir uso de pia a suínos. Acontece, porém, que a taça tinha umas asas e não passava na porta. A alma que a havia resgatado ao esquecimento e ao pó parte as asas à taça e quando ela lá passa ele é o senhor contente, a arreganhar o dente. Porém, quando vai a ajustá-la ao lugar final, e isto é Portugal... o pé da taça promete desgraça. Zé do Martelo, como o próprio se diz, e duas marteladas, nuvens afastadas e, de novo, o Zé feliz. A taça assentou, pois, na estrumeira, mesmo à maneira… aplacada pela porcaria, muito melhor que a velha banheira. E... o Zé tinha ganho o dia. Já no retorno da pocilga, o Zé olhava-se e não conseguia esconder tanta alegria. Acontece, porém, que a taça era uma peça valiosíssima, em ouro, muito antiga, bizantina e o ouro escuro não fala, nem o Zé desconfia. E agora pergunto: - Qual é o valor da factura? Do que estamos a falar? Quanto custa a cultura? A culpa é da literatura ou da porcaria? E a Liberdade, ainda vai voltar? Talvez pérolas?... The end
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Poema a Camilo Álvaro Nunes
Foi Amor de Perdição Tua obra e a tua vida O pulsar do coração A razão de tua lida… Cegueira, o desespero, Da tua vida e tua morte O jogo, o teu exagero, Jogado sempre sem sorte… Na sátira ou novela passional, Em estilo mordaz e elaborado. Foste arauto, voz nacional! Camilo viveu o seu duro fado Contou amores de tragédia Encenou a humana comédia…
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[Desaparecer-me-á da face o vento] Carlos Poças Falcão
Desaparecer-me-á da face o vento e aquela temperatura que me erguia ligeiramente fácil e fluía pelo corpo, o desejo, o pensamento. Já perderei a sombra. E o intento de me compor espelhos dia a dia acabará. De súbito sem via a memória igual a esquecimento não poderei dizer até amanhã contar quanto perdi no que ganhei. A voz dos mais amados cessará. Estarei só perante a estranha lei de toda a minha vida me ser vã. E então é só um passo – e passarei.
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Amor é… Maria Teresa Portal Oliveira
Amor é anular o eu e pensar em nós É fazer minha a tua amada voz É sentir pulsar em mim o teu coração É viver lado a lado mão na mão Amor é colocar o outro primeiro É dar ternura compreensão não dinheiro É estar sem precisar de ser chamado É nunca esquecer o outro – ignorá-lo Amor é o sentimento mais nobre e puro Que suporta o esteio do outro no duro Que não esmorece com dificuldades Antes se fortalece com as necessidades Amor é ceder ao outro o meu espaço É acompanhá-lo passo a passo É sentir que ambos caminhamos Rumo ao futuro que ambos projetamos Amor é unir os dois e sermos um só E nunca desafinarmos no mi ou no dó É levar a sinfonia em harmonia até ao fim Sem que haja desacordos em ti ou em mim Amor é um “nós” sempre permanente Que nunca esmorece… não é carente E dia a dia está constantemente presente Nos gestos, nos atos, nos pensamentos, na mente
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Mesmo a sangrar, eu vou!... Maria Amélia F. Fernandes - Poetisa de Arosa
Viajo na espuma da vida Abraço o espaço em movimento E contrita, de alma ferida Esvoaço e parto no vento! Se dou asas à minha dor Esvoaço nas abas do tempo Se no tempo eu canto o amor Nem a dor, nem traição, eu lamento! Sigo em frente de cabeça erguida! De sandálias nos pés vou caminhar Sem mágoa, sem queixumes da vida Mesmo que o corpo vá a sangrar! Levanto a proa, sozinha, e vou! Embarco a viagem de outrora No caminho que o peito traçou E dispo o cansaço de tanta demora
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Insanidade Carlindo Ribeiro
Vê este Mundo Senhor Em crescendo de loucura Tua ordem de amor Será que ainda perdura
Não teremos glaciares Para aos turistas mostrar Há sinais na natureza Ela sempre nos avisa Grito agudo ou subtileza Em esgares de pitonisa
Talvez não seja a descrença O que nos está a mudar Receamos ser pertença Já não sabemos rezar
Mas Senhor aquela mãe As multidões de famintos Buscando a Jerusalém Em escuros labirintos
O mundo que povoamos Azul visto do espaço Quantos de nós reparamos Que dá mostras de cansaço
Vê a força desmedida Que dizima povoados Até da Terra Prometida Os pobres são escorraçados
Esta única morada Está em grande desarrumo Será que vemos a pegada Escondida pelo fumo
Tão longe que só os vemos Em rodapé televisivo E lendo será que cremos Num futuro alternativo
Um dia a brisa refrescante Será aviso assustador Do vendaval arrasante Que só soprará pavor
Será que a humanidade Sentirá algum rebate Se maior insanidade Provocar fatal remate
Vão desaparecer cidades Engolidas pelo mar
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Poema Sónia Marta Silva
É no eco de um passado Que encontramos um futuro a desenhar Muralhas ao alto que falam Apenas para quem sabe escutar Guimarães terra de heróis e de luta Verde bandeira que todos levantam Um legado de vida que escuta A cidade onde os sonhos se plantam E foi nesta terra de sonhos que nasci Porque aqui sou mais feliz Também por teres nascido aqui Ah que maior verdade abençoada Esta de ser filha do Berço E não precisar de ser mais nada!
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Mensagem no tempo Angelino Pereira
Mensagem no tempo no tempo que fica, em tempo de lamento de vida maldita. Conversa mais conversa, palavras que o tempo apaga promessa em promessa que conduz a nada! Alertas que alertam opiniões gerais para males que afetam classes sociais. E o mundo continua alheio à sua dor avança e recua inerte, há muito que promete, mas fá-lo sem amor! Mensagem no tempo, que o vento espalha no horizonte, não fiques suspensa no espaço vence montanhas, corta barreiras, cerra fileiras, mas leva pra longe o meu abraço. Mensagem no tempo em tempo constante, leva distante meu pensamento, rasga as entranhas para vencer e cala pra sempre meu triste lamento! Se minhas palavras o mundo mudar e morte causar à razão da pena feliz vou partir quando a hora chegar de minh’alma deixar a vida terrena!
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A Alma Penada Joaquim António Salgado Almeida
“Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”
Esta é mais uma estória que me contaram. Conheci a personagem, ficcionei o nome. Contar destas coisas nos tempos que correm, já está em desuso. Mas como não sou de modas, preso a cavaqueira, adoro ouvir e depois reescrever a meu modo… é um prazer. Em Guimarães, as pessoas mais idosas, agarradas às tradições, nada querem com Monchique, cemitério é Atouguia. Mais que tudo, é lá encontrarem os seus entes queridos. Vai com frequência a Mariquinhas à Atouguia, onde repousa o marido e saudosas pessoas. Como sempre, sai de casa e não diz para onde vai. No cemitério fica a Mariquinhas horas a fio, que lá tem muitos amigos. Fala com eles, reza por eles, e quando pode, põe flores. Numa das vezes, a conversa foi tal que, de tão entretida, se esqueceu da hora de saída. Encontrou o portão do cemitério fechado. - Ai Nossa Senhora que estou presa aqui! Roda a fechadura, abana o portão, chama por socorro, mas é tudo em vão. Os anjinhos de mármore, na sua pose estática, não atendem o apelo. Hirtos, os ciprestes, observam a criatura, mas não lhe acodem. Silêncio e indiferença. Lentamente, o sol vai descaindo no horizonte. Crescem as sombras no cemitério. A Dona Mariquinhas corre de um lado para o outro. Agora é tudo sombra, no sítio da assombração. Dona Mariquinhas, corre, corre, quase morre. Vai em direção às grades voltadas para a rua do Pinheiro. Rua sem casas, entalada entre muros. Vislumbra uns vultos na rua. São pequenos, mas são gente. Três crianças como os pastorinhos de Fátima, e ela ali, feita Nossa Senhora, numa aparição. Vão lestos os catraios, pois a noite aproxima-se e não se avista vivalma. Alminhas há muitas ali no cemitério, nunca se sabendo, se há alguma penada. Dizem que essas gostam de aparecer ao anoitecer. 460
De repente, vindo de cima, um grito estridente feriu o crepúsculo. Estarrecidos, os catraios, estacam e olham para o cemitério. Lá no alto, em contraluz, agarrado às grades, um espectro horripilante clama por eles. Era a alma penada. Espavoridos, fogem em tresloucada correria. Desconsolada, Dona Mariquinhas vê a salvação em fuga. - Porque será que os anjinhos fugiram de mim?!... estes aqui, feitos estátuas, não me ligam nenhuma… com os anjinhos não posso contar… só Nossa Senhora me pode valer. Dona Mariquinhas é crente, acredita em milagres… Corre para aqui, corre para ali, pára e olha, não desiste. Repara na casa do guarda, desse tratante que a trancou… A fé move montanhas… E Dona Mariquinhas move a fechadura da porta, que miraculosamente se abre. - Se mais não for, já tenho onde ficar. Entretanto, já os filhos, genros e noras, andavam numa roda-viva, em busca da desaparecida. Como galinha tonta, Dona Mariquinhas corre de lado para lado, junto do portão do cemitério. Mas não é galinha, e muito menos tonta, a Dona Mariquinhas. Começa a testar a rede por cima do muro. Puxa num sítio, puxa no outro, até que ali, a rede cede. Com uma agilidade surpreendente para a sua idade, Dona Mariquinhas trepa o muro e enfia-se no buraco da rede. É estreito o buraco, é magrinha a senhora. É rija a rede, é teimosa a velhinha. Quem insiste sempre alcança, e ao cabo de uma luta danada, Dona Mariquinhas saiu vencedora. Nem um arranhão, apenas a roupa rasgada e um susto de lição. Já em liberdade, avista os três pastorinhos, vai ter com eles e diz: - Seus malandros, fugistes de mim, mas agora estou aqui! Desgrenhada, esfarrapada, a alma penada voltara, e desta feita, bem junto deles. Nova gritaria, nova correria, fugindo da assombração. Em silêncio e passada rápida, Dona Mariquinhas seguiu para casa, lá para as bandas de Santos Passos. 461
Do Imaginário ao Infinito (A propósito da arte) Carlos Guimarães
O imaginário pode comparar-se ao infinito, mas o infinito por vezes é tão curto e finda tão rápido como as gotas de chuva que se dissolvem nas areias secas do deserto. A criatividade contém a mais vasta palete de cores com que se pode pintar o infinito. Criar sem limites quebra a finitude das coisas que são obviamente finitas. Entre os nossos olhos e o objeto mora um espaço físico, um nano Espaço do universo que cresce e se amplia quando o objeto é obra de artista, aqui o espaço expande-se, atinge a dimensão que nos transporta dentro dele, por vezes grande, outras vezes gigante e outras vezes tacanho e miudinho. Coartar a criatividade atrofia a mente e subjuga-nos ao óbvio, às evidências que nos aproximam da finitude. Há metáforas que não conseguimos decifrar, como os amores imperfeitos nascidos na imperfeição cuja metamorfose os pode converter em amores quase perfeitos. Na verdade, todos os amores são imperfeitos como imperfeita é a natureza, o mundo e a humanidade (talvez a maior das imperfeições). Toda a obra, como o ser humano, é imperfeita e inacabada e essa característica talvez seja a sua mais perfeita aptidão. Vivemos na sombra de mantos emprestados, sob máscaras que desejamos belas, mas que mostram faces de diâmetros opostos na perfeição, tal como a vida. Quase nada é simétrico no universo, só as pequenas coisas, as mais insignificantes. A assimetria vive em nós, no corpo, na cor, na vida, nas fissuras que não queremos e aceitamos e que crescem até se tornarem brechas que podem abrir até quebrar, como as impurezas de que somos feitos, dos barulhos que nos atormentam e dos silêncios que desejamos na penumbra porque a luz faz muito barulho. Por vezes o silêncio traz-nos a paz e a cor e a música que nos chega do mar, das areias embrulhadas nas ondas e a brisa que nos massaja a pele e nos eriça os pelos. Não podemos parar, temos de seguir, devagar, passo a passo com pausas curtas e demoradas, sem corridas nem atropelos, e invadir o espaço quase infinito das imagens que nos assustam e nos encantam para que no final todas as metáforas se convertam em adjetivos.
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Caminho sem retorno Paulo Moreira
Procurei a direção da lua, E caminhei exposto ao interior do caos. Na memória, levava comigo A suave loucura Das noites e dos tempos de pousio, Do branco legítimo, Das batidas do coração nas sombras Da florescência vermelha do fogo. Os sinais dos eus antigos Iam e vinham Como êmbolos que moviam pensamentos E vidas que não se repetiram. O Verão esquecia-se das partidas perdidas O Inverno, aconchegava chegadas ainda por saber, As rosas escolhiam a noite E o branco pleno Não voltava com o dia. Apenas ficou a entropia Dos caminhos que já não me levam Ao interior do delírio suspenso No calor sussurrado das vozes, Deixando apenas silhuetas E rios que corriam abertos no bico das aves. O poeta Demorou-se demais na sua utopia E menos no interior das flores Que seriam raízes sem serem só sombras.
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Umas coisas acerca do amor Fátima Marinho
A razão é simples, agora que parecem abertas todas as guerras com vista à aniquilação do “outro” e por todo o lado se levantam muros. Lembrei-me dos tempos em que aprendi grandes lições. Não foi na universidade, sosseguem. Foi mesmo com jovens portadores de deficiência, seja lá isso o que for. Sobre o texto que partilho já passaram mais de trinta anos. A protagonista, também vencedora de vários prémios paralímpicos, tem hoje quarenta e sete anos. Se o tempo me deixar, sobre ela escreverei um compêndio de boas maneiras, resignação, superação e amor. Ela sabe umas coisas acerca do amor, acreditem. Se não acreditam, leiam esta história verídica: “Não me lembro de alguma vez ter surpreendido a Dolores [nome fictício] de cabeça baixa. Era uma moça encorpada, de gestos mecânicos e bruscos. Ensinou-me que não temos de gostar de todas as pessoas e muito menos as devemos suportar. - A quem gosto dou cerejas da minha terra. À professora Matilde é todos os anos, a si este ano também trago. Às outras, p*** que as p***. Não gosto delas, vou dar-lhes cerejas para quê?”
Colérica, quando a vida era a doer, cruzava, num ápice, os corredores da escola e só parava no limite do portão das traseiras, perto do campo do futebol, onde a amplitude do espaço nos confundia ainda mais os círculos concêntricos da vida. Naquele dia segui-lhe a fúria. A alguns metros de distância ainda pude ouvir, porque a Dolores falava alto, a mais emblemática das questões humanas. As lágrimas rompiam-lhe generosas, o vento confundia-lhe a cabeleira crespa e a Dolores, de braços abertos, perguntava a um deus insustentavelmente oculto: – O que é que eu fiz c******? De atitudes extremadas, nunca a via navegar na angústia das meias tintas. Era de amores fortes e ódios irrevogáveis. Em tempos, num intercâmbio com uma escola francesa, apaixonou-se por um colega que falava uma língua diferente e irreconhecível. Mas a paixão instalou-se, sorrateira, como todas. Ela olhava-o e fazia uns trejeitos com os olhos a que ele respondia com uns sinais de mãos e sorrisos. - Aquilo quer dizer que gosta de mim, não é? 464
- Deve ser, Dolores! Por várias vezes os vi sentados num dos bancos do recreio, em amena cavaqueira. Penso que inventaram um novo idioma. Dias depois, o intercâmbio acabou e lá se foi o príncipe francês. Por cá ficou, chorosa, a robusta Dolores. Numa manhã de frio, quando o grupo de jovens da pré-profissionalização entrou na sala, a Dolores adiantou-se ao plano da aula. - Por favor, professora, leia-me esta carta. Eles podem ouvir. - Calados! – ordenou. Estava escrita em francês, pelo que, prontamente, fui traduzindo, em voz alta, a missiva. A Dolores ouviu orgulhosa. Era uma carta que falava de amor e nostalgia. Quando o ponto final soou, fez um novo pedido. - Agora, por favor, leia em francês. - Mas tu não compreendes. - Eu já sei o que a carta diz. Só quero ouvir os sons das palavras com que ele pensa em mim!
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As Póvoas Marítimas do Norte de Portugal e O Norte Marítimo, de Alberto Sampaio Salomé Duarte
A Imprensa da Universidade de Lisboa apresentou, em 2024, no âmbito da coleção “Textos fundamentais. Artes & humanidades. História económica”, uma monografia que apresenta os textos de Alberto Sampaio187, “As póvoas marítimas do norte de Portugal” e “O norte marítimo (notas para uma história)”, numa edição revista e aumentada, pelo contributo de Emília Nóvoa Faria e António Martins. Esta recente publicação foi antecedida por uma outra dedicada ao autor de Guimarães, concretamente “As vilas do norte de Portugal” (2019), trabalho considerado pioneiro no domínio da investigação sobre a temática das origens e organização da propriedade. A nova edição apresenta-se como a mais fiel ao projeto do autor, por comparação com a primeira edição da Obra de Alberto Sampaio, organizada por Luís de Magalhães, em 1923, cujos textos foram insertos no volume I dos “Estudos históricos e económicos”188, título sob o qual foram reunidos vários dos trabalhos do autor. As publicações que sucederam esta primeira edição, tiveram-na como referência. A recente edição, ilustrada com reproduções de curiosidades documentais, tem como base os manuscritos do autor, inclui as suas notas de investigação, também sobre obras consultadas, atualiza os textos com as correções que o próprio fez à margem nos capítulos que foi publicando, pela primeira vez nos periódicos da época, entre outras revisões e adições existentes nos manuscritos de Alberto Sampaio. “O norte marítimo”, texto lido na Sociedade de Instrução do Porto, em 1889, quando da homenagem ao Infante D. Henrique, nas vésperas das comemorações do V centenário do seu nascimento, e mais tarde 187 Alberto da Cunha Sampaio nasceu em Guimarães, no dia 15 de novembro de 1841. Estudou Direito em Coimbra, numa época de fulgor
intelectual que lhe permitiu conviver com importantes figuras da cultura, da política e da literatura portuguesa, como Teófilo Braga, Manuel de Arriaga e Antero de Quental, entre outros. Foi amigo de Francisco Martins Sarmento e fiel promotor dos desígnios da Sociedade Martins Sarmento. Amigo de Antero de Quental e colaborador de Camilo Castelo Branco, de que é exemplo o trabalho que dedicou à tradução da “Formosa Lusitânia”, de Catherine Lady Jackson, desafio proposto pelo escritor da Casa de Seide. Foram várias as áreas de interesse que explorou (história, indústria, agricultura, política), sendo, contudo, considerado pelos investigadores como pioneiro nos estudos da história económica, em Portugal. São centrais, neste âmbito, os trabalhos que dedicou à propriedade e ao mar, “As vilas do norte de Portugal” e “As póvoas marítimas do norte de Portugal”, respetivamente. Faleceu, na sua casa de Boamense, Vila Nova de Famalicão, em dezembro de 1908. 188 SAMPAIO, Alberto – Estudos históricos e económicos. Porto: Chardron de Lello Irmão, 1923. Vol. I-II.
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publicado na “Revista de Portugal” 189, fundada e dirigida por Eça de Queirós, é uma espécie de esboço do que viriam a ser “As póvoas marítimas”. Nele lança as ideias que desenvolverá com maior profundidade e amplitude no ensaio que tematicamente o seguiria. Alberto Sampaio publicou em vida os três primeiros capítulos de “As póvoas marítimas”, na revista “Portvgalia”190, dirigida por Ricardo Severo, sendo na edição de 1923 completada com a parte final do texto (capítulo IV e V) que ainda não tinha sido dado à estampa pelo autor. Alberto Sampaio dedica-se neste trabalho ao estudo do litoral português191, especialmente a costa entre o rio Minho e o Vouga. O autor reconhece que o estudo da temática do mar/ da navegação carecia de testemunhos. No entanto, e apesar desta circunstância, Alberto Sampaio defendia que deveriam ser coligidos todos os elementos, pois que “Sementes muito enterradas germinarão com vigor, se um acidente as trouxer mais à superfície do terreno, de antemão preparado”192. O autor vimaranense procurou, a partir de variadas fontes – como por exemplo bibliográficas, documentais, vestígios materiais, costumes e elementos toponímicos –, dar a conhecer a dinâmica do litoral português, desde a proto-história até ao tempo de D. Afonso III, concorrendo, deste modo, para a compreensão da história da ocupação do território costeiro e da vida marítima das populações.
189 SAMPAIO, Alberto – O norte marítimo (notas para uma história). Revista de Portugal. Vol. II (1890). P. 581-603; 713-738. 190
SAMPAIO, Alberto – As Póvoas marítimas do norte de Portugal. Portvgalia: materiaes para o estudo do povo portuguez. T. II, fasc. 1 a 4 (1905 – 1908). P. 213-232; 390-401 e 580-601. 191 Em correspondência com Luís de Magalhães, Alberto Sampaio escreve: “Eu cá estou botado aos calhamaços. A minha nova coisa já está batizada: ora veja, se lhe agrada – «As póvoas marítimas do norte de Portugal». Parece-me exprimir o meu pensamento: ao trabalho da terra segue-se o do mar; às «vilas» rústicas as povoações costeiras (…) tenho divertimento para largos anos, se houver de os viver” (Revista de Guimarães. Vol. 51 (1941). P. 258). 192 SAMPAIO, Alberto – As póvoas marítimas do norte de Portugal e o norte marítimo: (notas para uma história). Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2024. (Textos fundamentais. Artes & humanidades. História económica). P. 3.
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Nos cinco193 capítulos que compõem “As póvoas marítimas”, Alberto Sampaio tratou, nomeadamente, o contexto histórico-geográfico da costa portuguesa, evidenciou a importância e as potencialidades do mar, as relações da população com o meio físico – a exploração dos recursos (pesca e a extração do sal), a navegação e o comércio marítimo, nacional e internacional –, estudou o acontecimento histórico da conquista de Lisboa, no século XII, e as suas repercussões na ocupação e exploração do território costeiro, o movimento migratório da população para costa e, na abordagem ao comércio marítimo, olhou com pormenor o decreto de 1253. O autor de “As póvoas marítimas do norte de Portugal” lançou um olhar sobre a história, o meio físico, as personagens e os momentos históricos, assim como as circunstâncias políticas e económicas, que concorreram para a constituição e desenvolvimento das “póvoas”194 no litoral português. “As póvoas marítimas”, juntamente com “As vilas do norte de Portugal”, constituem o importante corpus da investigação de Alberto Sampaio, cujo valor tem sido reconhecido, ao longo do tempo, por vários académicos que o consideram como um dos grandes nomes da historiografia portuguesa, especialmente tido como precursor dos estudos de história económica195. Guilherme d’Oliveira Martins, em 2012, escreveu que “Se quisermos compreender as origens do Portugal moderno, se procurarmos entender a importância crucial da cidade do Porto e de Entre Douro e Minho na economia e na vida política, temos de ler ainda hoje Alberto Sampaio”196. Por seu lado, Luís de Magalhães, em 1923, considerou que “Entre a obra arqueológica de Martins Sarmento e a obra histórica de Herculano, a de Alberto Sampaio interpõe-se como um nexo, uma ligação que as conjuga, as une e lhes dá continuidade, fazendo desaparecer um grande hiato de treva, de incerteza e de ignorância”197. Em Guimarães, para além de variadas evocações que têm sido realizadas ao longo tempo, o
193 A obra, nesta última edição, apresenta um prólogo e um epílogo, e cinco capítulos, nomeados da seguinte forma: capítulo I – Desde os
tempos proto-históricos até aos novigodos; capítulo II – O mar fechado: a tomada de Lisboa; capítulo III – O mar livre; capítulo IV – A emigração do interior para a costa; capítulo V – O comércio marítimo. 194 Sobre como deve ser entendida a designação “póvoas”, diz-nos Alberto Sampaio, no prólogo da obra, que “Chamaram-se então «Póvoas» os grupos urbanos, nascidos em geral à sombra dos forais, outorgados pelos reis da dinastia borgonhesa, ou por entidades sucedâneas da coroa. Houve-as no interior e na costa; nestas, as que nos preocupam agora, brotaram e progrediram a pesca e navegação do alto-mar: não obstante excluir-se a narração detalhada da vida de cada uma, esse nome ajustava-se melhor que qualquer outro a ser o termo determinante no título do presente opúsculo, por exprimir com assaz transparência onde e quando a nova energia se revelou”. 195 MENDES, José Amado – Introdução. In SAMPAIO, Alberto – Obras. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 2008. P. 11-27. 196 MARTINS, Guilherme d’Oliveira – Um caso especial. In FARIA, Emília Nóvoa, MARTINS, António – Fotobiografia de Alberto Sampaio: a paixão pelas origens. Guimarães: Capital Europeia da Cultura, 2012. P. 15. 197 MAGALHÃES, Luís de – Alberto Sampaio e a sua obra. In SAMPAIO, Alberto – Estudos históricos e económicos. Porto: Chardron de Lello Irmão, 1923. P. XXVI.
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reconhecimento da figura do historiador vimaranense espelha-se em diversas manifestações, simbólicas e materiais, tais como no monumento erguido em sua memória198 (da autoria de António de Azevedo), no atual Largo dos Laranjais, num Museu199 (de Alberto Sampaio) com o seu nome, num núcleo expositivo permanente, patente na casa onde nasceu, e na reedição dos seus trabalhos. Em 2008, assinalando-se o centenário da sua morte, pela Sociedade Martins Sarmento, foi apresentado o volume “Obras”, de Alberto Sampaio, que reúne parte dos seus ensaios, artigos, recensões bibliográficas, entre outros textos.
198 A cidade de Guimarães saldou uma dívida prestando vibrante homenagem ao ínclito vimaranense Alberto Sampaio. Notícias de Guima-
rães. A. 25, n.º 1276 (17 jun. 1956), p. 1 e 3; pela distinção e personalidade de que se revestiu, a homenagem que Guimarães prestou a Alberto Sampaio marcou no meio cultural citadino. O comércio de Guimarães. A. LXXIII, n.º 5989 (15 jun. 1956), p. 1 e 2. 199 Em Guimarães – O Muzeu Alberto Sampaio. O commercio de Guimarães. A. XLIV, n.º 4159 (13 abr. 1928), p. 1.
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PUBLICAÇÕES Coordenação da equipa redatorial
A criatividade e a comunicação estão de portas abertas em Guimarães. Deste modo, das revistas aos livros, até aos opúsculos ocasionais, diversas recensões dão-nos conta das principais publicações deste ano, da prosa à poesia e do ensaio às memórias. Edições produzidas pelos vimaranenses, por naturalidade ou adoção, que nos falam das coletividades, instituições e efemérides, ou ainda romanceiam e contam a vida, bem como a poetizam, ora (re)criando-a ora ensaiando-a em novos moldes...
Grande Prémio Gil Vicente Numa parceria assumida entre a Associação Portuguesa de Escritores e a Câmara Municipal de Guimarães foi criado o Prémio Gil Vicente, que, na sua 1.ª EDIÇÃO e após análise do Júri para o efeito constituído, foi atribuído ao poeta Amadeu Batista, no valor de 12.500 euros. Com efeito, o prémio concedido ao citado poeta, tendo por base a antologia pessoal intitulada “Danos Patrimoniais”, reúne nas suas 940 páginas cerca de 40 anos de poesia, coligindo poemas selecionados dos seus mais de 30 títulos publicados, balizados entre o lançamento do seu
José Manuel Mendes (APE), Domingos Bragança (Presidente da CMG) e Amadeu Batista (premiado). Foto de Paulo Pacheco
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primeiro livro “Passagens Secretas” (1982) até ao ano de 2022, incluindo ainda poemas dispersos dados à estampa em jornais, revistas, livros coletivos e antologias. Uma antologia que, de acordo com o júri, “constitui-se em testemunho de invulgar fidelidade à poesia com presença ao modo e apelo à vida de relação, busca do conhecimento e anseio de ressonância; e cumpre-se na autenticidade singular da vocação lírica, afeta ao diálogo intertextual de afinidades coletivas com o legado de outros poetas”.
Uma poesia que, acrescenta Luís Adriano Carlos, “exprime a dilaceração tumultuosa da consciência face à contradição quotidiana de quem habita níveis existenciais não comunicantes”, que à laia camoniana apontam para o desconcerto do mundo. Poeta consagrado, traduzido em várias línguas, nascido no Porto em 1953, Amadeu Batista soma assim mais um galardão entre os muitos já recebidos, entre os quais o Prémio Literário Florbela Espanca pelo livro “Outros Domínios” (2007), o Prémio Nacional da Poesia Sebastião da Gama, com “Bosque Cintilante” (2007), o Prémio Literário Bettencourt tendo por base a obra “Selos da Lituânia” (2008) e Prémio Teixeira de Pascoaes, com “Paixão” (2003).
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Boletim de Trabalhos Históricos (2024) Mais uma edição do Boletim de Trabalhos Históricos, editado pelo Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, saiu do prelo, sob a direção de Alexandra Marques, tendo em vista a divulgação da História, Arte e tradições vimaranenses. A presente edição (Série III – Vol. XIII – 2024), que conta com um editorial da vereadora Adelina Paula Pinto, apresenta como tema de abertura a abordagem e o título “A Basílica de S. Pedro do Toural: apontamentos para um percurso iconográfico”, um trabalho da especialista em História de Arte, Marisa Santos, que nos faculta uma perspetiva global acerca da valiosa coleção e espólio de arte sacra à guarda da instituição. Por seu turno, Sílvia Nunes, traz a terreiro as Festas das Cruzes de Serzedelo, celebradas no domingo subsequente a 3 de maio. De facto, inciAltar-mor da Basílica de São Pedro do Toural, 2024. Fotografia de Paulo Alexandre Silva (Direitos: CMG)
dindo o seu trabalho sobre a temática das “Cruzes Floridas: da tradição à inovação”, a autora elabora, ao
abrigo de uma bolsa de investigação no âmbito do programa IMPACTA, uma investigação que revela o património cultural e tradicional da comunidade, recorrendo a entrevistas para aferir as adaptações às mudanças sociais e culturais ao longo do tempo, num trabalho de pesquisa que destaca a participação jovem, o uso de novas tecnologias e a documentação sistematizada. Fecha a colaboração da revista o professor historiador
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António José Oliveira, que aborda “As Capelas dos Passos da Paixão de Cristo de Guimarães (1727)”. Um estudo que, além de aludir ao processo de construção e localização das capelas, apresenta manuscritos inéditos do ano de 1727, bem como detalhada informação referente aos contratos das obras de pedraria, arrematados aos mestres de pedreiros da época. Como é óbvio, mais uma edição a ter em conta para a preservação da memória coletiva vimaranense, não só a sugerir a leitura como também visitas oportunas aos locais referidos.
Capela dos Passos da Paixão do largo da Misericórdia: 2024, foto de António Oliveira
Boletim de Trabalhos Históricos (2025) Saiu do prelo a edição de 2025 do Boletim de Trabalhos Históricos (BTH), correspondente à série III do volume XIV da revista, uma periódica e prestigiosa publicação do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. Deste modo e mantendo os seus pergaminhos e tradição de cidade histórica de referência, o BTH faculta-nos desta feita três estudos de história local, de interesse coletivo, que, inicialmente focados nos séculos XIV-XV, se alongam posteriormente aos períodos compreendidos entre 1853 e 1937. Assim, neste número, o conceituado casal de historiadores Fernando da Conceição e Manuela Alcântara abordam, neste último trabalho entre ambos, o percurso do “Mestre de Pedraria João Garcia”, esboçando a
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biografia e obras deste mestre artístico e vedor do reino, que dirigiu e nos legou significativos exemplares estéticos de foro escultórico e arquitetónico, designadamente a reconstrução joanina da Colegiada de Guimarães e plausivelmente a Igreja de S. Francisco de Guimarães. Por seu turno, Fátima Dias faz-nos recuar a 1877-1937, apresentando o artigo “Fardas da Polícia nas ruas de Guimarães: de força contestada a segurança desejada”. Uma análise de evolução histórica e organizacional sobre a criação do Corpo de Polícia Civil em Guimarães, devidamente documentada, que nos conduz aos avanços recuos desta força de segurança e à sua ambivalência de aceitação e resistência no seio da população no transcurso dos tempos, fundamentalmente no decurso da monarquia constitucional e período republicano. Curiosamente, uma situação que, como várias outras, se entrecruza com as rivalidades Guimarães-Braga. Por sua vez, “Crimes contra o Sa-
Sessão solene de lançamento do BTH
grado: os assaltos a espaços religiosos no concelho de Guimarães entre 1853 e 1926” é o fulcro do contributo de Vítor Emanuel Oliveira, que se debruça sobre os assaltos a igrejas e alguns espaços sagrados, entre outros o Oratório da Senhora do Amparo (1914) ou o cemitério da Atouguia (1918). Uma pesquisa que além da focalização inerente às características dos assaltos, falta de meios e eficácia das forças da ordem, abarca outras situações decorrentes das profundas transformações políticas, económicas e sociais da época, desde os meados do século XX até ao final da I República. Em síntese, mais um contributo sobre o nosso passado e temas de reflexão com incidências presentes e futuras, tendo em conta um devir de melhores dias, que as lições do pretérito podem ensinar...
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REVISTA DE GUIMARÃES Desde 1884, o ano de ouro de Guimarães, que a Revista de Guimarães é editada pela Sociedade Martins Sarmento (SMS), que desta feita publicou o volume 133, relativo ao ano de 2023. Como sempre, mais um meritório número, com excelência, rigor e cuidado aspeto gráfico, devidamente ilustrado, que deambula tematicamente sobre a história, a arqueologia, a etnografia e as atividades da instituição. Com efeito, abarcando 8 temáticas e mais de 340 páginas, precedidas pela apresentação do seu diretor, Antero Ferreira, e complementados por assuntos da casa, como as coleções e as publicações catalogadas na Biblioteca da SMS, textos assinados respetivamente por Patrícia Aguiar e Ana Maria Fernandes, bem como a divulgação da lista dos premiados na festa do 9 de Março de 2023, a revista abarca uma diversificada panóplia de artigos de insigne valia, aos quais se adita o texto do arqueólogo Gonçalo Cruz alusivo à atividade da SMS. Concretamente um texto sobre os trabalhos arqueológicos levados a cabo no Castelo dos Mouros (Cidadelha de Jales, em Vila Pouca de Aguiar). De facto, numa estrutura circular, a revista abre exatamente com o assunto do desfecho, especificamente com a conferência proferida por Rodrigo Azevedo, no decurso da sessão solene de Festa Escolar do 9 de Março. Efetivamente, uma reflexão que a partir da festa tradicional daria azo a abordar o papel da SMS no desenvolvimento da instrução em Guimarães, nos finais do século XIX. Seguem-se abordagens de pesquisa etnográfica sobre a tradicional Cantarinha dos Namorados de
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Guimarães, assinada por Catarina Pereira, e um trabalho de parceria de Manuel Nunes e Paulo André Lemos sobre as marcas mágico-religiosas identificadas nas moagens hidráulicas de Lousada, no decurso dos séculos XVIII a XX. Um tema que similarmente é tratado por Juan António Ruiz que se debruça sobre a magia, concretamente os feitiços mágicos da civilização fenícia. Por seu turno, Armando Coelho Silva traz à liça um outro artigo resultante de uma outra conferência proferida na SMS, em julho de 2023. Um texto que recorda o Coronel Mário Cardozo, antigo presidente da instituição, que focaliza sobretudo a obra do arqueólogo, em especial na Citânia de Briteiros e seus estudos nortenhos sobre a cultura castreja e investigações no âmbito da ourivesaria proto-histórica. Como habitualmente, a revista incide ainda no trabalho vencedor do Prémio Alberto Sampaio 2022. Concretamente, uma investigação que mergulha no tema “Do vinho de Deus ao vinho dos Homens: o Vinho, os Mosteiros e o Entre Douro e Minho” e bebe nas casas monásticas o conhecimento das páticas e técnicas de viticultura e saberes acerca de demais estruturas inerentes à produção, armazenamento, consumos e gostos dos beneditinos, bem como circuitos comerciais do vinho verde e maduro. Nas temáticas finais duas mulheres. Assim, a técnica de restauro Symonee Martins assina o artigo “Atrás do que o olho não vê – Limpeza de uma peça em exposição permanente”, que descreve a intervenção sobre a peça conhecida como “Estante do Coro”, um leitoril ou atril, da SMS, que se supõe oriundo do Convento de Santa Clara, enquanto Luísa Martins, por sua vez, também no âmbito do restauro, apresenta a intervenção realizada na réplica da “Fonte do Ídolo”, uma peça do século XIX executada a pedido de Francisco Martins Sarmento. Guimarães mantém-se assim na senda de cidade de cultura que o movimento associativo e a SMS em particular mantêm orgulhosamente vivos no transcurso do tempo.
REVISTA DE GUIMARÃES júnior -vol. 3 Em sintonia com a Festa Escolar do 9 de Março, data de nascimento de Francisco Martins Sarmento, a instituição homónima editou o terceiro volume da revista supracitada, deste ano de 2025, dando sequência a publicações lançadas nos dois anos anteriores. A revista juvenil, que complementa a Revista de Guimarães, órgão científico da SMS, apresenta nesta 477
edição um leque diversificado de temas, com especial incidência nos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-1890) e a obra “Óbolo às Crianças”, que Camilo escreveu em parceria com o seu amigo Francisco Martins Sarmento. Com efeito, num espaço dirigido a algumas personalidades juniores, ajunta-se ainda a poetisa vimaranense Catarina de Lencastre (1749-1824), trazida à colação na sequência do ciclo de conferências “Um quarto para escrever e um salão para falar”, realizadas no ano transato. Paralelamente, e no âmbito da temática “Democracia e Futuro”, destaca-se ainda uma entrevista a Alberto Martins, democrata vimaranense ligado à crise académica de 1969, em tempos eleito deputado e nomeado ministro de ex-governos socialistas. Um tema que também motivaria vários concursos alusivos, nos domínios da crónica e ilustração, que visa dar a “conhecer a visão sobre o futuro das jovens gerações” sobre a democracia, cujos vencedores e alguns dos seus trabalhos são divulgados nas páginas desta revista. Efetivamente, uma participação ativa dos alunos de vários níveis de escolaridade, que contaria com a colaboração de professores de vários agrupamentos escolares, colégios e escolas profissionais, que obviamente assinala as comemorações dos 50 anos das primeiras eleições livres do país. Como sempre, a edição publica ainda os nomes dos premiados na Festa Escolar de 9 de Março, bem como textos sobre o historial da instituição, designadamente sobre o seu nascimento, patrono, coleções e outras notícias, bem como um artigo centrado na arqueologia júnior e algumas descobertas de curiosidades alusivas a espaços locais, em especial em torno da Casa do Conselho, na Citânia de Briteiros. Sumariamente, uma revista recheada de interesse, na qual não faltam sequer os jogos e os passatempos lúdicos. 478
ELO 32 – Novas Escolas/Novos Públicos A revista ELO, enquanto projeto editorial, procurou sempre ir de encontro às preocupações e desafios com que a educação se tem deparado ao longo dos tempos. Continuamos a fazer o caminho de forma segura e atentos às novas exigências e aos novos desafios que são lançados à escola, à nossa sociedade e ao mundo. Este é o espírito da ELO! A crescente e enorme diversidade étnica da sociedade portuguesa tem vindo a refletir-se, nos últimos anos e de modo muito significativo, em tudo o que possamos pensar no nosso país e, por conseguinte, na constituição dos públicos escolares. Esta realidade, bem realçada em textos presentes na nova edição da ELO, verifica-se com novas culturas, novas línguas, novas realidades que entram por um espaço que muitas vezes faz da sua rigidez organizacional e mental, um ponto de honra.
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O segredo das asas de borboleta A psicóloga vimaranense Carla Maia apresentou na biblioteca do AE Santos Simões o livro infantil “O Segredo das Asas de Borboleta”. Um livro sobre a temática do bullying, que aproveita a experiência profissional da autora com alunos do 1.º ciclo e que nos faculta uma visão do mundo cada vez mais ciente das dificuldades de aceitação dos outros. Ao longo do livro acompanhamos uma menina que sofre de bullying e anseia encaixar-se no grupo das amigas. Com o apoio incondicional da mãe, ela descobre que a sua singularidade é a sua maior força. O seu público-alvo é o Infantojuvenil (6 a 10 anos), mas com grande apelo também para os pais e professores. A linguagem é clara, acessível e emocional refletindo a formação da autora como psicóloga e facilitadora emocional. Tem como ponto forte o Empoderamento infantil resultando num ótimo estímulo para construir autoestima e encarar o bullying com resiliência. É uma obra sensível e bem-intencionada, especialmente eficaz enquanto ferramenta reconfortante contra o bullying e reforçadora da autoestima infantil, ideal para pais, educadores e psicólogos que procuram estimular discussões sobre a singularidade, a empatia e a força interior com crianças dos 6 aos 10 anos. É a hora de, como a menina, abrir as asas e partir à descoberta de assumir a diferença e caminhar para a autoaceitação.
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(SOBRE)TUDO SOBRE CAOS A taipense Cátia Sousa, estudante do curso de Mestrado em Ciências Farmacêuticas, lançou aos 22 anos o livro de poesia com o título em epígrafe que expressa uma introspeção pessoal, observações do mundo, crises existenciais e os amores que na vida pessoal da autora vacilam entre a escrita e a ciência. Um livro maturado ao longo de 6 anos, que foi crescendo entre contrastes balizados pela profundidade e simplicidade das emoções, que obviamente refletem a passagem do tempo de desenvolvimento pessoal. Emoções em que o caos é protagonista com poderes desorganizadores da vida e da morte. Porém, um negativismo caótico que é encarado como um ponto de viragem para o positivismo do caos… Como é referido no site da Oficina de Escrita, este livro contém “Poemas sobre tudo em geral e nada em concreto. Sobre crises existenciais. Sobre dúvidas. Sobre amor. Sobre sonhos. Sobre a Vida, mas sobretudo sobre caos. Palavras escritas na tentativa de decifrar sentimentos momentaneamente incompreendidos, parte de um caminho percorrido numa introspeção à alma”.
Vale a pena descobrir a linguagem poética desta poetisa que nos convida a uma introspeção capaz de fazer ecoar no leitor a complexidade das emoções humanas.
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MAMÍFEROS ATO DE AMAMENTAR
A vimaranense Raquel Silva, enfermeira especializada em Saúde Materna e Obstetrícia, é a autora do livro “Mamíferos: Ato de Amamentar”, cuja experiência profissional partilha nesta obra. Um livro resultante da paixão da autora sobre a temática no âmbito da puericultura e aleitamento materno, que tem por pretensão o resgate duma prática tida por inata e saudável, que simultaneamente cria laços de afetividade entre a mãe e a criança. Outrossim, um projeto que visa aproximar esta causa às crianças e às gerações futuras, para quem o livro é direcionado, cuja linguagem simples, acessível e lúdica visa captar os mais novos para a sua leitura, mormente através de uma analogia ao fascinante mundo dos mamíferos. De facto, na perspetiva de que a educação sobre a amamentação é crucial para a sensibilização do público infantil, a autora pretende valorizar o ato de amamentar desde tenra idade e criar uma cultura positiva e prospetiva em torno desta temática, no sentido de formar futuros adultos mais conscientes e saudáveis. Em súmula, um livro leve e educativo que a autora faz questão em complementar com conversas ou esclarecimento de dúvidas, concretamente através das redes sociais e especificamente na página “Parto Com Paixão”.
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Guilherme de Faria – Poesia inédita Cerca de um ano depois da edição de “Guilherme de Faria – Poesia (vol. 1: édita)”, o professor universitário José Rui Teixeira voltou ao Arquivo Municipal para apresentar o “vol. 2: inédita” do poeta vimaranense, que reúne dois conjuntos inéditos de poesia que integram o espólio do autor. Uma edição de José Rui Teixeira, que conta com o apoio do Município de Guimarães e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, integrada no centenário do nascimento de Guilherme de Faria, que desta feita reúne poemas escritos na década de 20 do século passado com referências a pessoas e situações concretas, alguns dos quais a tocar a raia da ironia, carácter chistoso e maledicente, bem como quatro cartas-poema. Poemas que numa perspetiva psicográfica e historiográfica deixam vestígios, quer da vida do poeta quer do seu quotidiano, assim como, como se lê na introdução do editor, veiculam “elementos muito importantes para a hermenêutica da sua poesia”. De facto, enquadra-se na estética neorromântica lusitanista, ora na intimidade com a lírica renascentista de toada popular, ora na expressão do nacionalismo monárquico. Integralista, assim como “no rumor elegíaco, noturno e doce dos seus poemas de amor”, mormente a Emília Castro, Guilherme de Faria lega-nos versos singulares, que esta esparsa dilucida:
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“Tu não existes tal como existes; És sempre a mesma que eu só criei; A que, em meus versos, vós outros vistes, A que, em meus sonhos, sempre verei!”
Uma poética na esteira de António Nobre, em especial em temáticas como a idealização do amor e a morte, nas quais são evidentes tensões veementes entre a existência e a mitogenia e a realidade e o sonho, sentidos com sensibilidade pessimista: “Cala a voz que me tortura, Ónio amigo, Que, na eterna desventura, Eu vivo e sofro contigo! E a ouvir o mar soluçando Também ergo as mãos ao céu. Ansiosamente gritando: - Quem sou eu? Serei acaso um capricho Dum deus eterno e boçal Que, um dia, sem dar por isso, Me exilou em Portugal? (…) Longe do mundo, no fim Do mundo, que foi pra mim tão cruel que ainda o maldigo, a voz de Deus soará! E hei de erguer-me do jazigo para conversar contigo no Vale de Josafá!”
No fundo, um poeta a (re)ler, pois como cita o editor, “um património não apenas poético, mas também humano, sem o qual seríamos mais pobres (…)” Um poeta que, recordamos, já foi lembrado nos nossos Cadernos 5 (páginas 397 a 402 e 592 a 594), cuja releitura sugerimos. 484
Guilherme de Faria – Cartas a Manuel de Castro Numa edição com apoio da Câmara Municipal de Guimarães e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, o professor da Universidade Católica, José Rui Teixeira, coordenou e apresentou o livro “Guilherme de Faria — Cartas a Manuel de Castro”, recentemente lançada no Arquivo Municipal de Guimarães. Esta publicação, na esteira de outras lançadas sobre o poeta vimaranense Guilherme de Faria (1907-2029), nos anos de 2023-2024, foi editada sob a chancela das edições Officium Lectionis, que, além das cartas dirigidas pelo poeta ao amigo Manuel de Castro, compreende um texto introdutório de José Rui Teixeira, bem como o teor da conferência “Destino da Obra do poeta Guilherme de Faria”, proferida em Guimarães por Joaquim Paço d’Arcos, em 25 de setembro de 1970, no Paço dos Duques de Bragança, “depois de ter sido descerrada uma lápide na fachada da casa onde o poeta nasceu, na Alameda Salazar”, atual Alameda de S. Dâmaso. Com efeito, quer Manuel de Castro quer Joaquim Paço d’Arcos foram amigos e companheiros do poeta vimaranense no 5.º ano do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, cidade onde Guilherme de Faria passaria a residir com os seus pais, no decurso da adolescência, durante os anos 20 e até 1929, data do seu suicídio. Deste modo, uma obra de compilação epistolográfica e intimista do poeta vimaranense com o seu amigo, confidente e interlocutor literário Manuel de Castro, irmão da sua desejada Emília Castro. Ademais, um livro revelador de outras e inovadoras perspetivas e facetas sobre a sua personalidade e processo criativo deste vate nobriano, nascido na cidade-berço, que se insere no contexto do programa dedicado à sua redescoberta, no âmbito duma iniciativa local que se estenderá até 2029, data do centenário da sua morte.
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HISTÓRIA DA BANDA MUSICAL DE CALDAS DAS TAIPAS 1834 – 2024: Mais do que um registo histórico Este livro, de João Ribeiro, que é músico, professor e ex-membro da Banda, para além de investigador, nesta área da música e do ensino da música, é uma viagem de quase dois séculos pela história da Banda Musical das Caldas das Taipas, uma das mais antigas e emblemáticas instituições culturais do concelho de Guimarães. Mais do que um simples registo cronológico, esta obra propõe-se como uma memória viva, feita de sons, rostos, dedicação e paixão pela música. Ao longo das suas páginas, o leitor é convidado a conhecer os marcos fundamentais da banda — desde a sua fundação em 1834, passando pelas transformações sociais e culturais que atravessou, até à contemporaneidade. Através de documentos inéditos, fotografias de arquivo, testemunhos pessoais e uma análise cuidada do contexto histórico, o livro revela o impacto da banda na vida comunitária, educativa e artística da vila das Taipas. “Este livro é muito mais do que um registo histórico – é uma homenagem a todos os músicos, maestros, e amigos da banda que, ao longo de quase dois séculos, fizeram parte desta incrível jornada. Uma leitura imperdível para quem deseja conhecer de perto o legado da nossa banda”, dá conta a Banda das Taipas, aquando do seu lançamento.
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Os Amigos de Urgeses – 40 ANOS DE TODOS No âmbito das comemorações dos 40 anos dos “Amigos de Urgeses”, esta coletividade desportiva, social e recreativa, nascida em 4 de fevereiro de 1984, editou o livro com o título em epígrafe, que evoca a caminhada da associação nas quatro últimas décadas e, complementarmente, apresenta, em jeito duma minienciclopédia, algumas Histórias e Curiosidades de Urgezes. Uma edição de boa qualidade e formatação agradável, de capa dura, com cerca de 200 páginas profusamente ilustradas, que conta, como autores, os jornalistas Bruno Ferreira e Tiago Dias, no que concerne ao historial da associação, e ainda do professor aposentado Álvaro Nunes, no âmbito das Histórias e Curiosidades de Urgezes. Com efeito, sob a coordenação editorial de Francisco Lamas, Estevão Abreu, Daniel Ribeiro e Rodrigo Alberto Pereira e desenho gráfico de Paulo Dumas, a edição insere, na abertura, mensagens introdutórias de diversas entidades como do Presidente da Câmara Municipal, Domingos Bragança, do Presidente da Junta de freguesia de Urgezes, Luís Abreu, bem como do Presidente dos “Amigos de Urgeses”. Quanto ao livro propriamente dito, são apresentados depoimentos genéricos e evocativos de vários intervenientes da história da coletividade, que posteriormente é narrada por capítulos, compreendidos entre os tempos da fundação, expansão, crise e superação (1984-2009) e, posteriormente, até 2024, abrangendo os aspetos da formação de topo e resultados … com amor à camisola. Encerra a edição a citada minienciclopédia de Urgezes que, de A a Z, começa, como não podia deixar de ser, pelos “Amigos de Urgezes”, abarcando, posteriormente, de forma abreviada, cerca de 80 verbetes ou entradas, com dados toponímicos, associações, figuras locais e obviamente tradições e costumes e fundamentalmente histórias e curiosidades da freguesia, a conhecer ou rever.
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NOS 50 ANOS DO 25 DE ABRIL, Memórias e reflexões sobre as mudanças da sociedade portuguesa
Como o título e o subtítulo sugerem, o livro em epígrafe é uma edição de memórias de alguns dos participantes do 25 de Abril e simultaneamente uma análise de natureza académica das transformações ocorridas decorrentes da Revolução dos Cravos. Deste modo, para além de testemunhos e memórias deste período de 50 anos, que compreendem a sua primeira parte, a obra acrescenta textos de divulgação científica e ensaios sobre a temática em causa, na sua segunda parte, elencando muito do que foi feito e do que ficou por fazer. De facto, numa edição de mais de 400 páginas da UMinho Editora, sob a alçada de Eloy Rodrigues, Manuel Martins e J. Cadima Ribeiro, que também assina a introdução, bem como apresentação de Rui Vieira de Castro, reitor da Universidade do Minho, vários testemunhos, memórias e documentos são registados, dando voz a vários docentes universitários, lutadores contra o Estado Novo, o sindicalista Manuel Carvalho da Silva, militares de Abril, como Mário Tomé, figuras da cultura e da vida política da região e do país, entre os quais José Manuel Mendes e Pedro Bacelar. Entretanto, na parte de artigos e ensaios, num total de 12 ilustres colaborações, destacam-se abordagens temáticas centradas no Poder Local e finanças municipais, no caminho da igualdade feminina, nas mudanças democráticas na educação, por Licínio Lima, e os 50 anos do ensino superior, ciência e tecnologia, por Carlos Fiolhais, entre outros nomes de nomeada. A finalizar, um balanço e desafios dos primeiros 50 anos da Democracia em Portugal e um trabalho focalizado na Revolução de Abril no distrito de Braga. Seguramente, muito para ler e refletir sobre a liberdade e a democracia, numa obra que deseja contribuir para a promoção da ciência e da cidadania informada.
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85 anos de Associativismo – Educação e Animação Comunitária O título em epígrafe refere-se a um livro, mas acima de tudo a uma coletividade, cuja denominação se conhece por Círculo de Arte e Recreio (CAR), que celebra 85 anos de existência. De facto, trata-se de uma publicação que não só compila e regista histórias, recolhas de testemunhos e contributos, mas também divulga revelações, que constituem relíquias e património desta associação vimaranense que, desde 15 de novembro de 1939, numa viagem no tempo, tem andado de mãos dadas com a cidade em prol da cultura e do desporto. Obviamente, um trabalho aturado, pacientemente coordenado por FCM (também ele ex-presidente da coletividade), que outrossim aborda o âmago do CAR, a partir das suas fontes escritas e arquivos, do seu espólio e do acervo memorial, num afã de pesquisa que nos faculta os anais do pulsar da associação e suas personalidades e figuras proeminentes, com especial referência a Jaime Martins, entre outros nomes familiares da história da coletividade. Ora, de facto, este livro regista de tudo um pouco nas suas mais de 330 páginas, profusamente ilustradas com imagens interessantes dos 85 anos de existência do CAR. Deste modo, memórias fotográficas e escritas que recuam ao Ritmo Louco e à escola de música, ao Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB), sob a orientação de J. Santos Simões, às verbenas, festivais e visitas guiadas, bem como lançam a vista pelas exposições, lembram os concursos e o colecionismo, projetam as artes de imagem como a Banda Desenhada e o Cinema. No fundo, vários capítulos da vida da coletividade historiados e consignados, numa abrangência que vai da cultura popular ao desporto e às atividades ao ar livre, nomeadamente o campismo na Penha, como também ao radioamadorismo.
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TEMPO LIVRE – 25 ANOS No âmbito dos 25 anos da régie cooperativa Tempo Livre (1999-2024), a instituição editou o título em epígrafe, cuja constituição teve passo determinante numa “segunda-feira à noite, 30 de novembro de 1998”. De facto, uma iniciativa lançada “numa cidade ainda a levantar-se de mais uma noite de Pinheiro, as portas da Câmara abrem-se a meia centena de dirigentes políticos e desportivos locais, representativas de várias geografias do concelho” e marcam a “hora de subscrever o capital de uma régie cooperativa idealizada para democratizar o acesso dos vimaranenses à atividade física”. De facto, estava dado o pontapé de saída a 25 anos de desporto massificado, agora historiados neste livro. Com efeito, com prefácio do Presidente da Câmara Municipal, Domingos Bragança, e uma nota de abertura de António de Magalhães, que assumiu a presidência camarária entre 1989/2013 e iniciou a maratona das infraestruturas desportivas fundamentais da cidade, com o apoio do governo de Guterres, este livro, como escreve Amadeu Portilha, atual presidente da direção da régie cooperativa, no posfácio da publicação, evoca o jubileu da “Tempo Livre”, focalizado em 25 mo-
Tempo Livre – 25 Anos Tempo Livre – novo livro da cooperativa reúne a história em 25 momentos
mentos da sua história. Um historial e uma dinâmica cujos objetivos visaram a gestão das instalações desportivas e a oferta à comunidade vimaranense de atividades, projetos e programas, especificamente direcionados para um estilo de vida ativo e saudável. Vinte e cinco momentos em 25 anos de vida, que seriam postos à prova em 2013 no decurso de Guimarães, Cidade Europeia do Desporto, cujo saldo se distinguiria na consagração de Guimarães como a melhor
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Cidade Europeia do Desporto. Outrossim, ao longo destes 25 anos de desenvolvimento sustentável, é feito um relato em vários capítulos, desde os tempos livres e as férias desportivas para todos, até à estratégia do futuro. Um devir que passaria por um passado de alicerces sólidos, consubstanciado na criação de infraestruturas como o Multiusos, as infraestruturas municipais de Moreira de Cónegos e de Brito, a pista de atletismo, o Scorpio e o Centro de Medicina Desportiva, entre outras “dores” de crescimento. Passos significativos que semeariam posteriormente a diversidade desportiva, o renascer do INATEL, a digitalização e o desfibrilhador, o Centro de Estudos de Desporto e muitas outras conquistas que apenas o Covid-19 levou a travar a fundo para voltar a crescer. Em suma, citando António Magalhães, “conseguimos demonstrar que Guimarães é capaz de assumir um projeto de dimensão europeia” e que nesta hercúlea competição a Tempo Livre foi a equipa que vestiu a camisola de abertura a novos horizontes. Obviamente e, por conseguinte, um livro que dá bola a 25 jogadores desta longa jornada por etapas, que sugerimos ler evocativamente e a vivenciar nostalgicamente nas suas imagens mais emblemáticas…
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Guimarães – 200.º aniversário do nascimento de Camilo Numa edição da União da Freguesias da Cidade, (UFC), no âmbito dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-1890), ocorrido em 16 de março, foi publicado o opúsculo “Guimarães – 200.º Aniversário do nascimento de Camilo Castelo Branco”, escritor que “por estas bandas rompeu solas e nos legou um património literário indelével de valor incalculável” – assim se lê no prefácio da publicação, assinado por Rui Porfírio, Presidente da Junta da UFC. Com efeito, prestar preito e reconhecimento ao emérito autor português, evocado na toponímia da urbe vimaranense, constitui, pois, “uma homenagem da Junta de Freguesia e dos Fregueses que são as gentes de Guimarães”, bem como dos autores do opúsculo, que, tanto quanto é possível, numa produção desta dimensão, visam acima de tudo “ressuscitar” a vida e obra do escritor e suscitar a (re)leitura da sua vasta obra. A publicação que conta com cerca de 70 páginas, ilustrada com gravuras e imagens diversas, abrange um conjunto de textos centrados sobretudo na “Vida e Obra de Camilo” e “Camilo e(m) Guimarães”, que sucintamente esboçam aspetos essenciais da biografia do autor e da sua produção literária, em especial na novelística e romance, mas também outros géneros literários. Concomitantemente, um trabalho de parceria de Álvaro Nunes e F. Capela Miguel – tal como o anterior nos 500 anos de nascimento de Camões – que aborda episódios e peripécias marcantes das experiências
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camilianas no concelho vimaranense, em particular o seu refúgio nas Taipas e Solar de Ponte (Briteiros), sob a proteção amigável de Francisco Martins Sarmento, aquando da sua fuga à justiça por acusação de adultério. Igualmente, um opúsculo que se focaliza em algumas das suas obras, em particular “Memórias do Cárcere” e “Novelas do Minho”, especificamente a narrativa “A Viúva do Enforcado”, cuja ação se centra em Guimarães. No entanto, alusões que se alongam ainda à novela “Eusébio Macário em Guimarães”, de autoria do vimaranense João de Meira, que constitui um excelente pastiche deste seu admirador camiliano, cuja tessitura narrativa, à laia de novela passional, remonta às memórias da transladação de S. Torcato da Capela do Santo para o seu atual destino. Em súmula, um breve, mas rico opúsculo que abarca (ainda) outros curtos textos sobre outras vivências e curiosidades camilianas, como “Camilo e as mulheres” e “Camilo à mesa”, assim como outras facetas e memórias, acrescidas de dados sumários e genéricos sobre o teatro, poesia, polémicas e epistolografia do insigne escritor.
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Urdir a Distância “Urdir a Distância”, livro de poesia de Damianus Paskalis Lelo, cidadão indonésio a viver em Portugal desde 2009, pároco em S. Torcato, pretende ser uma viagem interior e exprimir “a coragem criativa e a disposição poética de captar sinais, tecer o fio fragmentário da existência (…) unir aquilo que nos separa, que nos afasta e distancia”. Deste modo, numa edição da Oficina da Escrita, uma busca vivencial e poética da “forma audaz de fazer a distância mais curta entre o patente e o latente”, ou como expressa no poema “À Procura da Voz” a bravura de “habitar a interioridade e cultivá-la”. De facto, sente-se neste religioso-missionário da Congregação do Verbo Divino e estudioso filosófico e teológico da Universidade Católica Portuguesa, na poética que ele próprio chama de “versos humildes feitos de migalhas”, um convite à confraternização, que “faz solidificar a relação fraterna”. Concomitantemente, um sentido para o “incessante itinerário/ Da existência”, que o sujeito poético afirma metaforicamente, no poema “As sandálias de minha mãe”, é um sacrifício e uma dádiva de infinita dívida”. Efetivamente, como na tessitura de uma “Antiga Gramática da Amizade” cujos versos traduzem esse “Urdir a Distância”, é bem explícita essa mensagem de fraternidade que se vai tecendo: “Lembras-te ainda da nossa antiga regra na terra da missão? / Eu mando em ti, e tu em mim/ Do rosto de ambos/ Emergiu o brilho/ Do riso”. No fundo, uma “Disposição”, assim se intitula o último poema, que proclama uma postura de abertura a “Tudo o que dos ouvidos dispostos e atentos/ e dos olhos dispostos e abertos vem/ no verso germina/ e prolonga o horizonte”, na urdidura da existência humana.
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O Fidalgo da Minha Aldeia “O Fidalgo da Minha Aldeia”, um romance de António Machado, situa-se no Minho, mas também se estende até à capital, onde a personagem principal, o fidalgo, republicano fanático, Vasconcelos, possui uma companhia de navegação, que abrange Angola, país onde possui também fazendas de exploração de café. Trata-se de um espaço de ação muito diversificado, englobando realidades sociais, culturais e políticas muito diferenciadas, no qual sobressai a policromia da paisagem minhota, numa zona atravessada pelo rio Ave que vai ziguezagueando por entre aldeias pacatas, mas de beleza incalculável, povoadas de casas senhoriais pertencentes à alta burguesia, onde se respira um clima de tranquilidade e de paz interior, que dá vida a quem lá habita. Estamos a falar de um político muito prestigiado na aldeia, mas também de alguém que tem interesses a defender nas ex-colónias e que as opções políticas nacionais em confronto no país podem afetar profundamente. Deste modo, no contexto epocal, os debates assentam sobretudo no confronto entre duas correntes (Republicanos e Monárquicos) que se digladiavam, entre muitas formas de dirigir o país, a propósito da presença de Portugal nas ex-colónias, onde ele tinha fazendas de exploração de café muito invejadas pelos ingleses. Por isso, Vasconcelos desloca-se a Angola para ver de perto como funcionavam as coisas, nomeadamente com os trabalhadores das suas fazendas, tratados muitas vezes como escravos, cujas repercussões eram tema de debate na Imprensa lisboeta da época, o que o preocupava profundamente. As relações entre as personagens impactam, de sobremaneira, toda a obra, em particular aquelas que se entrecruzam com o protagonista. Peripécias que estão na origem de histórias e de traições passionais, que prendem o leitor até ao desfecho da narrativa.
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De GIL VICENTE a CAMILO CASTELO BRANCO Realmente de Gil Vicente a Camilo Castelo Branco, título do opúsculo editado e apresentado pela União de Freguesias da Cidade, a propósito do Dia Mundial do Teatro (27 de março) vão cerca de 300 anos de distância, tantos quantos separam o pioneirismo do teatro português de mestre Gil da dramaturgia romântica camiliana. Não obstante, nesta brochura alusiva à efeméride, com textos de Álvaro Nunes e F. Capela Miguel, homenageiam-se estes dois vultos da Arte de Talma nacional, que embora separados no tempo, comungam no tablado artístico a visão da vida nas suas épocas. Deste modo, com proémio de Rui Porfírio, Presidente da Junta de Freguesia, o opúsculo acende as luzes da ribalta à celebração da ocorrência, pelo que, a propósito do Dia Mundial do Teatro, historia momentos significativos desta arte, quer a nível global quer particularmente no âmbito local. Assim, para além duma abordagem do teatro de Gil Vicente em Guimarães e citação dos atores protagonistas destas subidas ao palco nos últimos 100 anos, assume ainda particular realce neste folheto, a focalização dos holofotes no teatro de Camilo, à colação dos 200 anos do seu nascimento. Outrossim, uma sessão de lançamento que seria aproveitada para, à laia de gratidão e reconhecimento, atribuir o “Troféu Gil Vicente a Francisco António Leite Oliveira e Silva (Ass. Astronauta) e ao casal Liliana Xavier e Nelson Xize (Teatro Infantil – “Funny Toches”) e prestar preito a Camilo, patente neste poema, porque também no teatro há poesia: No drama, ou na comédia, De morgados ou condenados, Teu teatro é riso e tragédia Fado de amores desterrados! (…)
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Roteiro da arte pública vimaranense Em resposta a situações de abordagem do foro teórico-filosófico, em especial no âmbito da estética relacional, que valoriza a experiência direta e subjetiva, a Oficina editou “Arte Pública, Guimarães”, cujo autor e responsável pela fotografia é José Pastor. Uma arte que, em Guimarães, como adita, funciona como “memória da identidade da cidade, da sua gente, dos seus feitos”. José Pastor, porém, embrenha-se por esta “Cidade dos Vivos”, que é Guimarães, com o propósito de “entender e mostrar cada Elemento Escultórico ou Artístico que coabita sobretudo com os vivos”, focando os seus olhos “como se fosse uma teleobjetiva com uma profundidade de campo exígua”. Assim, abrindo com a foto da estátua do fundador, D. Afonso Henriques, o livro calcorreia a urbe e o concelho de lés a lés, com passagens e paragens pela estátua de Mumadona Dias e pelas esculturas da Lei e da Justiça, situadas na entrada do Palácio da Justiça. E prossegue, em frente, desfilando seguidamente pelas imagens do busto de Martins Sarmento e do monumento escultório a Gil Vicente e aos 500 anos do Teatro Português. Outrossim, os santos como S. Francisco e S. Gualter, o Gravador Molarinho e o Conde de Arnoso. A exposição fotográfica expõe ainda os Monumento ao Nicolino e a escultura “Devorador de Automóveis”, ambas de José de Guimarães, bem como o Monumento à Paz. Além disso, permite-nos apreciar os bustos de Abel Salazar, de João Franco, da República e de Ferreira de Castro, nas Caldas das Taipas. Outrossim, a escultura de D. Afonso Henriques, de João Cutileiro, os Afonsinhos do Campo da Ataca e outras personalidades da terra, como o baixo-relevo de Alberto Sampaio. De facto e em súmula, é este o cerne do “Roteiro de Arte Pública pela cidade que cada um de nós recria continuamente”.
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O LIVRO DE ÉNIO: Uma narrativa de contemplação Em O Livro de Énio (275 páginas), Edição da Officium Lectionis, Porto, Março 2025, Carlos Poças Falcão convida o leitor a seguir a peregrinação interior de Renato, sua personagem central, através dos caminhos e processos não lineares de perplexidade, conversão e encontro, sempre na inquietação espiritual da demanda de uma resposta à pergunta essencial e persistente: quem poderá salvar-se? Assim, ao longo de uma narrativa cadenciada em versos de catorze sílabas, o leitor, numa Primeira Parte, acompanhará Renato numa noite em que, regressando a casa, é surpreendido numa rotunda por uma batalha entre dois gangues e aí quase perde a vida; vê-lo-á, depois, já em casa de Marta e de João, que o recolheram e salvaram; escutará, a seguir, a visão da «fábrica de infernos», descrita por Renato aos seus amigos. Numa Segunda Parte, o leitor será apresentado a um «Resto», um pequeno grupo que acolherá e guiará Renato durante nove “Noites de Novembro” e, depois, através dos “Meses Ascendentes”, do solstício de Inverno ao de Verão. Por último, já na Terceira Parte, o leitor é convidado a ler e meditar sobre as palavras de Énio, palavras de contemplação do Rosto, esse Rosto que é resposta última e encontro definitivo: o Rosto de Jesus Cristo. Assim, em três partes, desdobradas em seis painéis, este livro de Carlos Poças Falcão propõe uma demorada e mística contemplação poética, desconforme a este mundo. Como se todo o livro fosse um grande políptico, um «retábulo para ruínas».
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A Brasinha Aventureira A Brasinha nasceu num incêndio, mas ansiava ficar para a História como praticando o bem e não num fogo causado acidentalmente ou num incêndio florestal ateado por mão criminosa. O seu esconderijo já estava a ficar chamuscado, quando um ser transparente apareceu e a levou pelos ares a conhecer a Terra e o Universo. Não ficou com boas recordações nem de Mercúrio nem de Marte e, de regresso à Terra, viu muita miséria e também gente boa que auxiliava os desprotegidos. Quem eram? Terás de ler a obra para saber! Na Ásia, estavam a decorrer os Jogos Olímpicos de Inverno em 2022, em Tóquio. Foi aí que viu uma saída. Qual? Tens de ler o livro… Só te digo que já esteve em Paris 2024. Curioso/a? Pede ao teu pai que te compre o livro da «Brasinha Aventureira» e vais ficar a saber tudo o que lhe aconteceu. E, nas páginas finais, ficam algumas informações que poderás explorar com a tua professora ou os teus pais. Diverte-te a ler esta história. Eu gostei muito de a escrever.
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(DES)ENCONTROS À BEIRA-MAR David Williams Teixeira e Ana Luísa de Vasconcelos encontram-se num dia tempestuoso, em Mindelo, onde ambos têm apartamentos. Ele é anglo-lusófono, divorciado e arquiteto da Williams & Sousa com escritórios no Porto e em Londres. Ela é professora, divorciada e mora em Viana do Castelo para onde foi viver quando casou. Ambos vivem dois dias de paixão desenfreada no apartamento dele, após o que ela foge, deixando-o destroçado. Henrique de Sousa, seu sócio e detetive nas horas vagas, cruza-se com Ana numa receção de apresentação do projeto “Arquitetura, Urbanismo e Educação” em que vão estar envolvidos, sendo a escola dela a primeira a ser envolvida como fica a saber na reunião com os Serviços Regionais de Educação onde reencontra David. Em Mindelo, discutem e acabam por ter uma recaída. Cinco meses depois, Ana é confrontada com uma gravidez e vai a Cambridge mostrar-lhe a sua maldita esterilidade idiopática. A diferença etária era o problema que a impedia de aceitar o seu amor, mas tem de dar um pai ao filho/filha e aceita viver com ele, casando apenas dez anos depois. Para o desenrolar do romance é importante a intervenção de Henrique de Sousa, o seu sócio; da mãe Jane Williams; do pai Teixeira (professor em Cambridge que divide as mulheres em Janes, não Janes e as outras); da filha Ana Rosa e do mordomo James. 25 anos depois festejam-se as Bodas de Prata de Henrique e Ana Rosa. Passam-se mais uns anos. Com 82 anos, Ana Luísa vive com o mordomo. Antes das novas tecnologias se imporem, um acidente roubou-lhe David, um pintor de nomeada como a mãe, e ela é uma escritora de literatura infantojuvenil que adora e uma romancista L.Williams que a faz sofrer, sofrimento que só os braços de David apaziguavam. Agora vive com os seus retratos, a sua escrita e uma Terra a entrar no caos.
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Ser um dotado no século XXII A Terra está inabitável. Todos os desastres anunciados no século XX (tsunamis, terramotos, maremotos, cismos, incêndios, erupções vulcânicas) se tinham concretizado. Algumas pessoas tinham conseguido formar colónias (as das grandes metrópoles), cidades subterrâneas, onde tudo era artificial: o ar, a água, o dia, a noite… Rui era um «dotado». Deixo para ti a leitura que te leve a descobrir o que isso é. Uma das diversões das gentes era viajarem ao passado, no TimeMachLab, um local onde podiam praticar atividades do século XX, desde a fantasia à realidade, passando pela História (visitar museus, por exemplo) … Enfim, sentados numa cadeira, com uns óculos especiais viajavam no tempo. Rui já viajara sozinho e tinha experienciado situações terríveis, tendo escolhido o tema Fantasia. Naquele dia, foram em grande grupo. Iam praticar um desporto radical: descer um rio bravio em canoa. E correu mal… Acaba por ser ele que, dentro da máquina, no tamanho de uma formiga, consegue resolver o problema e salvar os jovens todos. Como fez? O que aconteceu? Vais ter de ler para ficar a saber. Entra na ficção científica e lê. É um conto relativamente pequeno que te prende da primeira à última linha. Faz chegar a tua opinião para o email: teresa.portal@gmail.com
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O MEU AMIGO DOG e outras narrativas Por alturas da Páscoa deste ano de 2025, veio a lume um volumezinho publicado na Editora Cidade Berço intitulado O MEU AMIGO DOG & OUTRAS NARRATIVAS. São três simpáticas historiazinhas: O MEU AMIGO DOG, YEOSHUA DE NAHATZARETH, O FIDALGO DE MATA DIABOS. É seu autor M. Branco de Matos. Precede a 1.ª narrativa um texto prefacial – Epistula ad Canes: «da canídea gente do Norte à canídea gente do sul» – onde, a propósito de um incunábulo que fala da existência dum antepassado comum à espécie canina que, chegando aos páramos da sabedoria, antecipou o que milhões de anos depois viria a acontecer, o autor imagina a débacle da espécie humana cuja administração do planeta é substituída pela espécie canina: Quanto ao indivíduo de que aqui se fala e que este incunábulo documenta, ele fora com certeza uma espevitada e feliz deriva excecional da natureza canina, exemplar raro de cão falante, talvez o primeiro exemplar do super-canis, espécie superior a que sempre aspiramos, distinto, porém em sua essência do canis-lupus primitivo de quem vós e nós felizmente descendemos e a quem superámos para glória da criação e da condição animal.
Depois dum pequeno historial acerca de tipos e raças da espécie, o emissor prossegue nas suas considerações, recomendando que não devem os cães proceder tão irracionalmente como procederam os humanos, apesar do alto grau de civilização que parece terem conseguido. Dos estudos levados a cabo pelos nossos sábios, resulta o que já se vai tendo por certo: que os tais seres humanos atingiram um grau de perfeição assaz interessante e tão alta civilização que não há conhecimento doutra igual. […]. Há mesmo quem diga que alguns desses animais se deslocavam a altíssimas velocidades por terra, por mar e pelo ar. Alguns alvitraram mesmo que viajavam pelo espaço, mais velozes que os pássaros. Neste particular, porém, não podemos nós consentir, não tanto pela impossibilidade
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técnica do feito, antes pela evidência de não ser aceitável que um animal tão esperto e engenhoso fosse capaz de atingir as esferas celestes, quiçá o solo dalguns planetas como rezam as lendas dos nossos mais antigos, e que, em contraponto, não fosse ele capaz de prever a sua própria destruição ou, prevendo-a, a não tivesse prevenido eficazmente e se, prevenindo, a não tivesse evitado.
O aparato crítico da epístola marca o pendor satírico da obra nas diferentes matérias do livro. A 1.ª história inicia-se com o aparecimento dum canídeo infante abandonado à porta do narrador que veio a ser seu pai-adotivo e fez dele gente. A degradação e a inevitável extinção do género humano projetamse na decadência mental de John Berkeley, o sábio filósofo, e no desaparecimento do seu mundo. A história acaba com a sublimação da criatura para sempre brilhante no topo da montanha, reminiscências talvez de Nietzsche: Assim Falava Zaratustra. A 2.ª história intitula-se Yeoshua de Nahatzareth. É uma incursão bíblica a colmatar o silêncio misterioso que há entre dois momentos públicos da respeitável personagem que nunca escreveu nem uma linha, nem das sagradas escrituras nem das escrituras profanas, e que tanto ensinou daquilo que realmente interessa ainda hoje à vida da humanidade. Segundo esta narrativa, Zahamuel, epígono do profeta Isaías, é por assim dizer o mentor e o mais notável predecessor do misterioso jovem de Nahatzareth. O Fidalgo de Mata Diabos remata a obra: é um short story que não deve ser considerada mero apontamento ou apostilha de repórter regional: lembra um personagem que conhecemos a deambular pela cidade, que não era fidalgo nem morava na antiga Rua de Mata Diabos: – Obrigado a V.ª Ex.ª pela gentileza. Sou descendente, é verdade, duma honrada família desta Cidade, família notável que foi, mas há muito que perdeu pergaminhos e posses. Chamo-me Eleutério: Eleutério de Mello e Alvim Nápoles de Freitas […]. Ao chegar a este ponto da exposição, como que iluminado interiormente por um relâmpago repentino, senti-me impotente porque me vi frente a alguém que havia perdido a noção da dinâmica do tempo e das suas circunstâncias. Ao falar, o Homem ia-se fazendo mais pálido e perdeu um pouco a habitual serenidade. Mexeu-se inquieto, senti que me queria transmitir algo de muito doloroso. – Continue, senhor Alvim. Estou aqui para o ouvir. – Senhor doutor: a minha situação financeira está por um fio. Economicamente, estou perto do abismo.
Este é um conto que se lê em minutos e dá conta da existência de mundos interiores complicados e vidas desconhecidas. O livrinho tem 158 páginas e termina com a lista dos 11 livros do autor já publicados e com um rol de inéditos – prosa e poesia, ensaios e genealogias, ficção e fábulas esópicas e outras.
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COISAS RUINS O vimaranense João Zamith lançou este ano o primeiro livro da sua lavra, que entrelaça folk horror com mística religiosa, numa edição sob a chancela da Penguin Random House. Uma obra que tem como espaço da ação e ponto de partida Guimarães, em 2017/2018 e que mergulha na decadência de uma família burguesa industrial do norte do país, cuja intriga se desenrola em torno do seu patriarca Henrique Viaforte, homem amado e reverenciado, que após a sua morte repentina deixa o seu império familiar e empresarial ao desgoverno. Uma perda física que traria a revelação de segredos antigos e consequências infernais, numa história de trauma, fé e redenção, na qual as crenças portuguesas emergem em manifestações aterradoras. João Zamith, mestre em Literatura Portuguesa e Contemporânea pela Universidade do Porto, e em exercício de funções numa curta carreira académica, em Coimbra, dedicada aos romancistas do período contemporâneo, lega-nos e revela deste modo, aos 36 anos, neste seu primeiro romance, como escreve João Tordo, “uma voz que irá certamente surpreender os leitores do thriller e do terror com o nosso folclore”. Um romance a que obviamente não será alheia a sua experiência profissional, nomeadamente o trabalho editorial em Lisboa, em torno de histórias de horror, designadamente de conceituados autores como Zbigniew Herbert, Ray Bredbury e Adolpho Bioy Casas, bem como o seu exercício de crítico literário no jornal “Setenta e Quatro”. Seguramente um livro a ler, quer pela sua temática peculiar quer pelo seu estilo escorreito e fluído que revela uma nova geração de escritores da nossa terra e sobre a nossa terra.
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Conheces o teu cérebro? Não? Então vamos a isso! Nesta obra, editada pela Atlantic Books, em meados de fevereiro deste ano, Victorino Costa conduz-nos para uma viagem sobre alguns dos insondáveis mistérios do nosso cérebro. Lembrando Kaku, que refere que conhecemos melhor os segredos das galáxias do que as do nosso cérebro, o autor, numa linguagem acessível e voltada para as pessoas que pouco ou nada conhecem do cérebro, vai-nos conduzindo através dos seus meandros. Começando por essa saga maravilhosa que foi o processo evolutivo do nosso cérebro, Victorino Costa convida-nos, depois, a uma viagem pelo seu interior, até nos levar aos segredos da mente e das emoções. Nós somos o nosso cérebro e tudo o que fazemos, sentimos ou conhecemos é com ele que o fazemos. Por isso, conhecer alguns dos seus meandros é conhecer as razões das nossas atitudes, é compreender o que somos e porque somos. Assim, e como referia a doutora Fátima Santos, “vale a pena ler. A simplicidade que envolve esta viagem é algo que faltava”. Esta obra apresenta-se assim, e acima de tudo, como um desafio para conhecermos a nossa mente, para compreendermos o processo da nossa consciência e do nosso conhecimento. Ao aceitar tal repto, e como refere o autor ao terminar o seu livro, acabaremos inevitavelmente por consolidar as nossas redes neurais, acabaremos, com a sua capacidade de plasticidade, por nos enriquecer pessoal, social e, sobretudo, neuronalmente. Nós somos o nosso cérebro, por isso conhecê-lo é conhecermo-nos!
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O HOSPITAL DE ALFACES Desde março que se encontra disponível nas livrarias o romance “O Hospital de Alfaces” de autoria do vimaranense Pedro Chagas Freitas, um nome já conceituado na literatura contemporânea nacional. Um romance que o autor considera “um livro devastadoramente bonito, que nos cura e faz olhar para o que realmente interessa”. De facto, um livro interessante que durante muito tempo ocupou o top nacional de preferências e que acompanha a história de três gerações – avô, pai e filho –, conduzindo o leitor a refletir sobre “o efémero da vida e como o amor nos salva em todos os momentos”. Com efeito, o amor é o tema central do romance: “o amor que cura, como anestesia, como diagnóstico. Amor que não cabe nas paredes de um quarto do hospital, nem nas palavras que tentam explicá-lo.”, refere o autor, de 45 anos. Recorde-se que este livro surge após o lançamento de “Rei Tigão” nos finais de 2024, obra infantil de homenagem a Benjamim, filho do autor, que enfrentou uma doença rara e o internamento prolongado enquanto aguardava um dador de fígado, que acabaria por aparecer. Relembre-se ainda que Pedro Chagas Freitas deu alguns dos seus passos iniciais como cronista do semanário “O Povo de Guimarães”, no início deste século, já lá vão cerca de 25 anos. Um autor e um livro que se recomendam...
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AFIRMAR GUIMARÃES – UMA VONTADE COLECTIVA Apresentado pela socialista Alexandra Leitão, que também assina o prefácio, o candidato do PS à Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Costa, apresentou o livro com o título em epígrafe, que conta também com posfácio de Domingos Bragança, atual presidente do município vimaranense. O livro, que certamente se insere no âmbito da campanha autárquica, dá conta do percurso político e do projeto político de Ricardo Costa, em especial em matérias temáticas como a Mobilidade, Sustentabilidade e Economia, e em geral nas mais diversas dimensões dos anseios e carências do território vimaranense. Paralelamente, o livro colige vários artigos de opinião publicados pelo autor nos media locais e nacionais, bem como algumas entrevistas, vinculativas de experiências e vivências pessoais, que obviamente permitem, na sua globalidade, plasmar a visão do seu autor e vimaranense de gema em matérias políticas e autárquicas.
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D. Maria II em Guimarães No âmbito do Dia da Cidade, a União de Freguesias da Cidade (UFC), lançou um opúsculo interessante que recorda a elevação da ex-vila de Guimarães a cidade, concedida por carta-régia da rainha D. Maria II, datada de 22 de junho de 1853. Deste modo, tendo como ponto de partida a visita da rainha a Guimarães, entre 15 e 17 de Maio de 1852, o opúsculo relata esta sua presença entre nós e subsequentemente dá conta dos dois reinados da soberana (1826-1828 e 1834-1853) bem como de aspetos fundamentais da vida de Maria da Glória Joana Carlota Lepoldina da Cruz Francisca Xavier Isidora Micaela Gabriel Rafaela Gonzaga de Bragança, conhecida por D. Maria II, de cognome “Boa Mãe “ e “Boa Educadora”, que, nascida no Rio de Janeiro (Brasil), em 4 de janeiro de 1919, faleceria no decurso do parto do seu 11º. filho. Dois reinados marcados por conturbados tempos de instabilidade sociopolítica, da Revolução Liberal despoletada, em 1820, posteriormente empolados pelas disputas entre irmãos liberais e absolutistas e consequentes conflitos como a guerra civil portuguesa, a Revolução de Maria da Fonte, em 1846, bem como frequentes querelas políticas, a despeito de um certo progresso social e político, prosseguido no período da Regeneração. Em conclusão, uma edição de pouco mais de 30 páginas, bem ilustrada, que à colação aborda ainda algumas estórias da História, que objetivados no proémio do Presidente da UFC, Rui Porfírio, seriam explicitados e documentados nos textos de autoria de Álvaro Nunes, com a colaboração de F. Capela Miguel.
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Quem Ri com Gosto para Longe Manda o Desgosto A literacia emocional apresenta-se hoje como um dos fatores fundamentais para o ‘saber ser’, para a felicidade e bem-estar. As neurociências comprovam a importância do bem-estar, da boa disposição e alegre convívio, na saúde e longevidade existencial de cada um. Uma boa gargalhada afeta os nossos neurotransmissores GABA, Serotonina e Dopamina, elementos cruciais no bem-estar e felicidade do organismo. Por isso, e doa a quem doer, rir faz bem, dá saúde (e não sei se faz crescer)!... Na cátedra de educação emocional que o autor, Victorino Costa, leciona na UNAGUI, cimentou a consciência da importância do bem-estar, da boa disposição e do entretenimento, enquanto fatores vitais de uma maior longevidade, de uma maior empatia e interpessoalidade. Ao ministrar os conhecimentos para a literacia emocional, tem tido sempre o cuidado de os enroupar em trajes emocionalmente ricos, advindos de pequenos chistes e anedotas! A felicidade transparente nos rostos dos seus alunos/colegas tem sido, por si só, o sinal mais evidente da terapia do riso, da terapia do bem-estar, de modo a ir ao encontro dos saberes, de uma forma agradável, prazerosa e fonte de bem-estar. Ao fim de dois anos, os seus alunos/colegas, pediram-lhe o registo escrito desses ‘chistes e anedotas’, para assim mais facilmente recorrerem aos ‘trabalhos de casa’ em harmonia e equilíbrio emocional, na companhia dos seus. Não foi uma decisão fácil, até porque estas anedotas foram retiradas de ‘sites’ mais ou menos público, posteriormente personalizados pelo autor. Segundo o autor, “a ideia é que sejamos felizes sem constrangimentos e, se para tal servir esta publicação, já se dará por feliz”. Leiam e descubram este ar de felicidade e, acima de tudo, partilhem-na com os vossos, pois é na partilha que reside a fonte da felicidade.
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O CAPELÃO MILITAR NA GUERRA COLONIAL Com a capa da autoria de Joaquim Salgado Almeida, o Livro, de 120 páginas, aborda de forma sentida e crítica uma realidade da qual pouco ou nada se escreveu. Transcrevemos, na íntegra, a Nota de Abertura, retirada de um escrito redigido aquando da sua 1.ª mobilização para Angola: “A ação pastoral desenvolvida nas Forças Armadas denominase Pastoral Castrense, uma expressão que aparece em 1944. Castrense, do latim, castra, acampamento. Nas Concordatas entre a Santa Sé e os Estados fala-se de “Assistência Religiosa às Forças Armadas”.
A família militar, em qualquer País, constitui um grupo social importante, relacionado com a paz, com a guerra, com a segurança e, também, uma certa interligação dos Países na comunidade internacional. A passagem de uma sociedade militar, autoritária, para uma sociedade industrial, democrática, fez com que o corpo castrense ficasse sujeito ao poder político dos civis. Assim é, nas sociedades modernas, no mundo livre. Porém, há culturas que correspondem a modos diferentes de ver, ou valorizar o sentido de Pátria, de Autoridade, da Ordem. O militarismo é sempre uma desordem, mental e sentimental, contra os valores nobres, acima referidos. A pastoral castrense em Portugal é um serviço de evangelização, prestado à família das Forças Armadas e Segurança, sem arquétipos heróicos, ou nacionalistas. “O nosso Capelão”, assim nos tratam os militares, é modo carinhoso, revelador dum caráter familiar de muita proximidade e estima entre a classe militar. Eu, como centenas de colegas, aceitei ser esse “nosso Capelão”, durante a guerra colonial, sem o Cinismo da Heroicidade, o que permitiu às ideias não resvalarem idiotices”. Uma realidade não muito distante, mas que vale sempre a pena recordar.
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Fernando Távora em Guimarães "Fernando Távora em Guimarães" é o título do livro coordenado por Eduardo Fernandes & João Cabeleira, publicado à colação do programa "Távora 100”, numa iniciativa integrada num conjunto de atividades promovidas no âmbito do centenário do seu nascimento. Um repositório memorável do homem e da obra, oportunamente coligido pelos citados coordenadores e materializado pela cooperação da Secção Regional da Ordem dos Arquitetos, Fundação Marques Soares e as universidades do Minho, Porto e Coimbra. Deste modo, uma edição que conta com a colaboração de diversos autores e instituições vimaranenses, designadamente a Câmara Municipal de Guimarães, a Muralha e o Laboratório da Paisagem, Património e Território que, como é óbvio, retrata a ligação profissional e afetiva do arquiteto Vimaranenses à sua cidade-berço, ao longo da sua prestigiada carreira. Uma obra que passa em retrospetiva o seu trabalho desde o projeto do Posto Duplo de Abastecimento de Combustível, na rodovia de Covas, até ao Plano Geral de Urbanização da Cidade e praças de Guimarães, assim como a intervenção no Convento de Santa Marinha da Costa e o edifício da Escola de Arquitetura da Universidade do Minho, no campus de Azurém. De facto, a compilação dum trabalho dum arquiteto que marcou Guimarães, que nas cerca de 130 páginas do livro, profusamente ilustrado, revela as suas facetas diversas, nomeadamente em intervenções e construções de edifícios como a Casa da Rua Nova, a Esquadra da PSP de Guimarães, bem como na Casa da Cavada, em S. Salvador de Briteiros, a Casa da Capela da Quinta da Várzea, em Moreira de Cónegos, a Quinta da Covilhã, em Fermentões, ou o imóvel da Assembleia de Guimarães. No fundo, um livro de memórias sobre a cidade-berço, que reúne uma vida de trabalho construtivo deste emérito arquiteto na “sua” urbe, no contexto comemorativo dos seus 100 anos de nascimento.
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O Céu sobre a Montanha Carlos Poças Falcão
“Montanha da Penha, promontório a entrar no céu. Subamos lá acima, até à ponta – e mergulhemos”
Uma edição de registo expressivamente lírico, que acasala em comunhão a fotografia de Ana Paula Meneses, com a prosa poética de Carlos Poças Falcão, que nos permite ascender às alturas, sem necessidade do “Sísifo mecânico” (leia-se teleférico), e faz sentir os “versos ainda a murmurar” do poeta Bráulio Caldas, na Fonte de Santa Catarina. De igual modo, evocar o tempo intemporal, quando “pelo Natal, subíamos a rapar placas de musgo para o Presépio”, como crianças adultas que fomos e somos. Facetas da Penha, recordadas e sentidas nas suas dimensões mais sinestésicas, reflexivas e íntimas, ou mais desfrutadas ludicamente nos “´sóbrios restaurantes e boa comida” ou nas pedaladas Penha acima, entre penhas e falperras, onde “corre o velho rio, não de águas, mas de gentes, as gerações em fim de um povo quase imortal”. De facto, como canta o poeta, dissimulado num penedo esconso e aparentemente prosaico, “na montanha, tudo parece acima da escala humana”, pelo que “subir ao Santuário não é uma questão de pernas, mas de alma”. Realmente, presente uma cosmovisão metafísica do alto da montanha, auscultado no “clamor garrido entre festões do milho e alegria de videiras”, no decurso da descida à cidade da Senhora da Lapinha, ou na Grande Peregrinação, sinais de elevação deste Penha, enquanto plataforma terrena a tocar o céu. No fundo, mais uma obra de imanente sentimento telúrico e humano, que liricamente parte do real para subir ao mais alto do ser, ora rompendo ora afagando as nuvens. 512
Versos Inquietos José Queiroga
A poesia de Madalena Pinheiro é caracterizada, ao mesmo tempo, por um lirismo simples e profundo e pela inata capacidade de transformar o quotidiano em poesia. É uma poesia pura que fala diretamente ao coração; com a nossa intrínseca humanidade e com a natureza que nos rodeia. São os pássaros ao amanhecer e o vento ao crepúsculo agitando os ramos da avenida. Esta poesia é uma chuva de pétalas que inunda a palavra suspensa na folhagem dos versos inquietos. A voz pulsa e canta é, quem sabe, um tesouro de sonho aberto. Um suspiro solar na verde frescura. Depois de A Voz Silenciosa, editado em 2019, este novo livro de Madalena Pinheiro, que tem o título de Versos Inquietos, não deixará nenhum leitor indiferente, tal a força e delicadeza da sua poesia.
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A Bruxa de Santa Leocádia – A herança F. Capela Miguel
A Bruxa de Santa Leocádia é uma nova edição da saga das Bruxas de Maria Eva Machado. Autora persistente e segura no tema, que investiga e promove com perfeita premeditação cultural, pretende, sobretudo, combater as injustiças que ao longo da história da Humanidade perseguiram injustamente as mulheres. A Bruxa de Santa Leocádia é um verdadeiro trabalho antropológico suportado em factos da história e das lendas tendo como substância a herança desta personagem que foi mártir do cristianismo primitivo e que está muito bem descrito, estudado e ilustrado. De facto, a ilustradora Marguerete Barbosa é autora e artista com provas dadas em trabalhos anteriores e que contribui para a compreensão profunda desta obra ora apresentada e que reputo como a mais conseguida da trilogia editada e que se recomenda vivamente. Uma edição que acontece nos vales do território de Guimarães que vai com certeza permitir a sua divulgação pelos alunos das escolas da Região. É, por isso, uma obra cuja leitura se recomenda, sobretudo porque faz apologia ao Conhecimento e Sabedoria, a sua importância e a sua necessidade e como o seu legado será fundamental para defender valores fundamentais da Democracia e Liberdade.
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Roquemont, Fragmentos para uma novela Salomé Duarte
Viale Moutinho publicou, em 2024, a obra “Roquemont, fragmentos para uma novela”, dedicada à vida e obra do artista suíço, que viveu grande parte da sua vida em Portugal, nomeadamente no Minho oitocentista. A edição é da Teodolito, com a chancela das Edições Afrontamento. O livro do jornalista e escritor madeirense convoca o leitor a conhecer vários aspetos da vida e do trabalho artístico de Roquemont (1804-1852), que, como as impressões da época ilustram, “nem mesmo que o quisera, pintaria mal”200. Os “fragmentos para uma novela” de Viale Moutinho, conectam-nos com os ambientes e personagens que caracterizaram o quotidiano do pintor suíço, que ainda jovem, e por indicação do seu pai, o príncipe de Hesse Darmstadt, veio viver para Portugal. Residiu vários anos em Guimarães, na casa do Conde de Azenha, a Casa do Arco, tendo trabalhado também em Lisboa e no Porto. O pintor – de paisagens, de costumes populares e de retratos –, veio influir uma inequívoca expressão técnica e temática no domínio da Arte, características que viriam a influenciar um grande número de pintores românticos, em Portugal. Fixou nos seus trabalhos figuras e temas vimaranenses, existindo em Guimarães, em vários locais, grande número de obras da sua autoria, como é o caso da Sociedade Martins Sarmento. Muito mais do que foi dito emerge do “Roquemont”, de José Viale Moutinho, pois o escritor, não esqueceu o grande escritor, Camilo Castelo Branco, que fora amigo do pintor e também ele retratado pela mão do artista suíço. Os “fragmentos para uma novela”, sobre Auguste Roquemont, são também, como Viale Moutinho aponta, um jogo no qual as “falas do escritor e do pintor […] poderão ser-lhes acertadamente (ou não) atribuídas”. 200
Folhetim: a Exposição das Bellas Artes no Porto. O chronista. N.º 104 (11 dez. 1851). P. 1.
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Laboratório da Paisagem: Um livro que celebra o passado e semeia o futuro Carlos Ribeiro, Diretor Executivo
O recém-lançado Livro dos 10 anos do Laboratório da Paisagem assinala uma década de compromisso ambiental e científico com Guimarães. Uma história de resiliência de quem acreditou que apostar na investigação, na educação e na ciência podia fazer a diferença na história de um território. É a história de uma equipa dedicada, profissional, jovem, que ao longo destes dez anos foi construindo, passo a passo, o que hoje vemos aqui narrado. Quisemos que este fosse um livro de história. Um livro escrito a várias mãos, com muitas vozes, mas com uma narrativa comum: a do Laboratório da Paisagem, e a da jornada ambiental e climática de Guimarães. Mas este é também um livro de imagens. Imagens extraordinárias que nos oferecem um olhar verdadeiro sobre a paisagem. A paisagem
Créditos da Foto: Lais Pereira
imperfeita, do quotidiano, com marcas, feridas, e com uma beleza por vezes escondida, mas sempre presente. De uma leitura transversal da paisagem vimaranense, revelando lugares menos óbvios e desafiando o nosso imaginário visual, a uma segunda parte focada na envolvente do Laboratório, no rio Selho, na veiga de Creixomil — e, por opção gráfica, pontuada por páginas em branco, deixando espaço, simbolicamente, ao que ainda está por vir. O Laboratório da Paisagem é mais do que um lugar. É uma ponte entre o que somos e a paisagem que ainda queremos construir. E nela cabem todos os nossos sonhos. Este livro é um marco, mas é sobretudo uma porta aberta, que nos permite olhar o futuro com confiança, com ambição, e com a mesma coragem com que tudo começou. É também uma homenagem a todos os que fizeram parte desta caminhada, e a quem teve a visão de, em 2014, lançar a primeira semente e de dar todas as condições para que se cumprisse a primeira década com a consciência do dever cumprido. O seu edifício do Laboratório da Paisagem nasceu com a Capital Europeia da Cultura. Hoje, com a Guimarães Capital Verde Europeia, atinge uma nova maturidade. Foi uma criança. Está a tornar-se adulto. O que este livro celebra, mais do que os dez anos passados, é o caminho que ainda temos pela frente. 516
Estrada Perdida—Sobre o rasto desenhado pela pintura de Victor Costa201 Quando preparava este texto, lembrando conversas com o artista e reflectindo no silêncio da noite, veio à mente aquele espantoso e desconcertante plano-sequência que abre o filme de David Lynch, Lost Highway (Estrada Perdida, na versão portuguesa). Acto contínuo, procurei no YouTube a sequência-genérico do filme e via-a/ouvia uma mão-cheia de vezes, em loop. Ao mesmo tempo que se ouvem os primeiros versos, cantados pela inconfundível voz de David Bowie, os espectadores são conduzidos numa viagem aparentemente sem fim e sem destino, uma espécie de sessão de psicanálise colectiva, que no começo é inquietante e depois viciante, que se estranha e se entranha em partes iguais. O plano, sobejamente conhecido e jamais esquecido, induz o espectador a uma estranha viagem que vai insinuando a dúvida como forma de construir um conhecimento que não pode deixar de evocar a técnica cut-up que os surrealistas popularizaram, quer no cinema, quer na poesia, quer na pintura ou desenho. Disjuntiva, é genericamente como técnica narrativa aleatória em que um texto escrito é cortado e reorganizado para criar um novo texto. A exposição, que este livro documenta, lança um olhar retrospectivo a um tempo idiossincrático e íntimo sobre uma obra voraz, generosa, rigorosa, desejante da realidade, que se constitui como uma constelação de geometria imperfeita de arcanos múltiplos e inventa um léxico próprio. Entre a coerência e a dúvida, o artista escolheu a segunda. O caminho, no percurso de Victor Costa, é sempre em frente, sem olhar para trás, numa procura sem fim, sem limites. A obra de Victor Costa nasce do contacto com o visível que reinventa... 201
Texto do curador Nuno Faria, extraído do catálogo "Estrada Perdida”
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LINHAS SOLTAS Inserir separador
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Linhas Soltas Nestas breves linhas soltas, dois acontecimentos díspares de consternação de que a vida também é feita: a morte do Papa Francisco, homem de encarnação do evangelho e sinal de esperança num mundo melhor, e a horrorosa recordação do extermínio de Auschwitz, nestes 80 anos de libertação, a fazer refletir sobre as novas faces do nazismo. Mas também um motivo de júbilo com a escolha do Rio de Janeiro como Capital do Livro 2025, primeira cidade de um país de língua portuguesa e da lusofonia a receber esta distinção por parte da UNESCO.
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O Longo Caminho até Auschwitz Nuno Alves Pinto
Introdução A matriz racista da ideologia Nacional Socialista não pode ser encarada como uma criação inteiramente da autoria de Adolf Hitler, no entanto, as soluções práticas consubstanciadas na Solução Final, essas sim são da criação dos nazis. Primeiro é necessário compreender as influências de Hitler: o que ele ouvia; o que ele lia; o que ele observava. Primeiramente temos de analisar a génese de Hitler como figura pública alemã. Tudo começa nas trincheiras da 1.ª Guerra Mundial, e logo o facto de Hitler ser um austríaco a combater no Exército Imperial Alemão, como voluntário, já indicia que há uma forte motivação. A capitulação alemã, e posteriormente Versalhes, terão impacto em Hitler como um ato de humilhação coletivo, assim como em centenas de militares e de civis alemães. Convém ter em conta, que com a abdicação do Imperador alemão Guilherme II, a Alemanha está em profunda convulsão social e económica decorrente da guerra, e isto naturalmente influencia a política dos primeiros anos da República de Weimar. Até à ascensão ao poder de Hitler, Weimar terá uma tensão quase constante entre nacionalistas e socialistas, em que o equilíbrio político tecnicamente é moderado apenas pelos sociais-democratas, que jogam um arriscado jogo de equilíbrio de poder, balanceado pela repressão, e alianças estratégicas ocasionais à esquerda e à direita. É deste clima que Hitler surge como líder da Alemanha. Não irei abordar essa questão, per se, pois não é o propósito do artigo, mas sim a génese do racismo no Nacional Socialismo, que gerou a Solução Final, e o extermínio em massa de pessoas em campos como Auschwitz. Erich Ludendorff, a nemesis de Hidenburg A República de Weimar surgiria então no pós-guerra como um construto político criado na sua essência pela elite militar alemã, como uma forma de preservar a unidade territorial alemã, como forma de impedir a desagregação da Alemanha. Já anteriormente, no comando alemão da 1ª Guerra Mundial, havia rivalidades entre generais, quanto mais nos últimos anos do Império, em que este funcionava de facto como uma 521
ditadura militar, apesar de não o ser de jure. Ludendorff é um desses generais de prestígio alemão, um proeminente comandante militar, com vasta participação na 1ª Guerra Mundial, contudo com visões políticas vincadamente nacionalistas, que é afastado do comando da frente ocidental em 1918. A derrota era já percetível aos alemães, no entanto, com esse afastamento torna-se claro que o comando militar alemão estava a correr atrás do prejuízo e a tentar salvar a sua reputação pessoal e militar, culpando tacitamente, perante o público, Ludendorff, que, já conhecido pelo seu mau feitio, aceitará seu afastamento de mau grado… passando os primeiros anos do pós-guerra a produzir artigos de opinião e obras onde tece duras críticas à situação alemã bem como à capitulação. Neste seu, digamos, exílio público, que se converteu mais num exílio intelectual, Ludendorff constrói a tese do Dolchstosslegende, a doutrina da “Facada nas Costas”. Esta tese tem bastante impacto nos nacionalistas alemães, na medida em que Ludendorff alega basicamente que a Alemanha não perdeu a guerra nas trincheiras, mas sim por fatores internos, dando alento aos nacionalistas na causa de que a Alemanha poderia vencer a 1ª Guerra Mundial. É neste ponto que Ludendorff aponta, por exemplo, o dedo aos marxistas pela agitação social, que afetava a coesão nacional, e aos judeus, que por uma questão de avareza não contribuíram para o esforço de guerra, acusando-os de ausência total de espírito nacional. A este rol de críticas, é inevitavelmente associado Hindenburg, um dos criadores da República de Weimar, a quem Ludendorff insere na lista dos “Criminosos de Novembro”, em alusão à capitulação da Alemanha. Não querendo delongar muito, atendendo ao prestígio militar e público de Ludendorff, as suas teses e artigos de opinião tinham um amplo espectro de público, conseguindo moldar as opiniões de uma boa franja da sociedade alemã descontente com a situação. O Caos de Weimar A situação da República de Weimar, do espectro temporal da sua existência, foi marcada por profundas convulsões económicas, sociais e políticas. A nível da economia, a República de Weimar é herdeira do passivo da participação alemã na 1ª Guerra Mundial, agravado pelas reparações de guerra estipuladas em Versalhes. Com uma economia em colapso, o fator social ressente-se, passando os alemães por privações diversas, que levam a revoltas constantes de operários e a uma agitação social bastante ativa. Versalhes também impõe limites às forças alemãs, focando também os efetivos de polícia, pelo que não são suficientes para reprimir as rebeliões. Neste ponto surgem milícias nacionalistas, compostas por veteranos da 1ª Guerra Mundial, claramente de inspiração nacionalista, como por exemplo os “Freikorps” ou o “Stahlhelm”, a que as autoridades 522
alemãs frequentemente recorrem para suprir necessidades de controlo interno, e que conseguem ser um bom bypass às restrições de Versalhes. Há uma tónica dominante, mas, entretanto, não há per se um grande bloco político nacionalista no espectro político da direita; contudo, no espectro político da esquerda, há um grande bloco político: o Partido Comunista Alemão, entretanto empoderado por influência da recém-criada União Soviética. Adolf Hitler irá observar atentamente isso e pretenderá ser ele o líder desse bloco. A primeira grande tentativa nacionalista de tomada de poder será o Kapp Putsch, em 1920, em que há um joint venture de militares e nacionalistas com vontade de derrubar o governo e instaurar uma ditadura militar. Apesar de não ter estado presente, Hitler apoiou efusivamente esta tentativa de golpe de estado e, por seu turno, Ludendorff esteve altamente envolvido. O Kapp Putsch pode, portanto, ser assumido como o primeiro efeito da tese Dolchstosslegende. O golpe de estado acabaria gorado nos seus intentos, no entanto seria premonitório da futura atividade dos nacionalistas. No entanto, o fiasco deste golpe de estado aparenta ter quebrado um pouco o espírito de Ludendorff, pelo que, mais tarde, acabaria por se reconciliar com a sua Némesis, Hindenburg, acabando o ciclo da sua participação direta em ações políticas. Entretanto, neste ciclo de reconciliação com os seus anteriores colegas generais, Ludendorff conhece Hitler, de quem, por seu turno, já era seu admirador. A segunda grande tentativa de golpe de estado nacionalista é protagonizada por Hitler, desta vez com Ludendorff nos bastidores, e é o Putsch de Munique. Aqui, Hitler assume já uma clara postura de liderança dos nacionalistas, com o Partido Nacional Socialista já criado, e pretende com este golpe assumir a liderança da Alemanha. O golpe falhou, Hitler foi detido, e então é, neste momento, que Hitler, encarcerado, passa o seu tempo de cela a escrever a sua famosa obra Mein Kampf, que incorpora imensos elementos do pensamento de Ludendorff, nomeadamente a tese do Dolchstosslegende, entretanto já maturada e consolidada como universal no seio dos nacionalistas alemães. O cárcere de Hitler e o transe nacionalista Este ponto também marca ainda mais a radicalização de Hitler, afastando-o de um nacionalismo de pendor mais conservador como o de Ludendorff. Os dois acabariam desde então por se separar progressivamente, quer a nível pessoal, quer a nível político. No entanto os princípios de Darwinismo Social, que o ideário de Ludendorff transparecia, exaltando a guerra como meio de seleção natural, foram claramente refletidos em Hitler, desenvolvendo-os a extremos, como a tese da Raça Superior, que seria a órbita para toda a ação nacional-socialista. Ludendorff, mesmo afastado dos Nacionais Socialistas, acabaria por continuar a 523
produzir obras que seriam seminais no pensamento nacional socialista, moldando o futuro regime como por exemplo, com teses contra o cristianismo, que Ludendorff considerava uma força de bloqueio moral do Ocidente, e que passaria também, inevitavelmente, por mais escritos contra os judeus e o judaísmo, ajudando a alimentar ainda mais o crescente clima anti semitista da Alemanha e a validar ainda mais Hitler, bem como a fornecer argumentos aos nazis. No entanto, o ponto de rutura final entre nazis e Ludendorff seria mesmo o facto de Ludendorff ter-se voltado para o misticismo, e acabando por defender teorias da conspiração excêntricas, a que nem os próprios nazis dariam crédito. Hitler nem compareceria no seu funeral, em 1937. Influências externas em Hitler Hitler não era um homem inculto, bem pelo contrário, era um ávido leitor. Mas a leitura pode ser interpretada como aquele velho adágio popular português “Diz-me com quem andas e eu dir-te-ei quem és.”. Hitler observava o mundo através das notícias que chegavam da Alemanha, desde os Estados Unidos, passando pelo Império Britânico, chegando mesmo à Rússia, e desses sítios retinha e adaptava ideias que achava de bom proveito para si. Um dos argumentos que sustentava o antissemitismo nacional-socialista era um documento forjado pelas autoridades czaristas: “O Protocolo dos Sábios de Sião”, e de ampla divulgação internacional, sendo reeditado, e até mesmo alterado várias vezes. A tónica geral de todas as versões é uma estratégia por parte dos judeus em dominar e subjugar o mundo. Apesar de, desde cedo, ser denunciado como uma fraude, continuaria a ser considerado pelos nacionais socialistas e Hitler. Os judeus, na Rússia dos Czares, eram frequentemente usados como bode expiatório em diversas ocasiões, especialmente durante o século XIX, altura em que o Império Russo ocupa áreas da Polónia e Ucrânia, por exemplo. As motivações para estas perseguições aos judeus são latas e essencialmente circunscritas a rebeliões populares, com apoio tácito das autoridades russas, essencialmente motivadas por antissemitismo básico temperado por fundamentalismo religioso, que por pura conveniência das autoridades russas, serviam para fazer divergir a atenção pública de questões de maior importância. Entretanto, igualmente por pura conveniência para Hitler, acabariam por figurar na propaganda antissemita do nazismo. Os Estados Unidos e o modelo de segregação racial, bem como respetivo suporte jurídico, também eram fonte de inspiração para Hitler, tendo várias menções honrosas nas suas ilações políticas. Aliás a questão da presença de negros em solo alemão não era totalmente indiferente a Hitler, basta recordar o caso dos “Bastardos do Reno”. A região do Reno-Ruhr foi ocupada militarmente pelos franceses após a 1ª Guerra Mundial, 524
e grande parte das forças militares francesas presentes neste território eram destacamentos militares coloniais, com grande número de militares da África Subsaariana francesa, que atendendo à comissão prolongada de serviço, acabariam por recomeçar a vida naquela região, constituindo famílias, e estabelecendo laços de amizade e familiares com os alemães. Naturalmente é facilmente deduzível o destino destas pessoas que acabariam perseguidas e vítimas de campanhas eugénicas, por parte dos nazis num misto de racismo e raiva aos militares franceses. Ideias e ideais eugénicos, nomeadamente o Darwinismo Social, decorrentes do Positivismo oitocentista, também mantinham os seus ecos no século XX. Apesar de decorrente dos estudos de Darwin, sobre a evolução das espécies, o Darwinismo Social em nada deve a quem figura em seu nome, tanto que Darwin nem teve qualquer enfoque nessa questão eugénica, simplesmente decorre de uma transposição errónea de princípios das ciências naturais para as ciências humanas. A inconsistência das teses darwinistas sociais é proporcional às suas inúmeras interpretações, que vão desde o domínio social, passando pelo domínio militar, até ao domínio do racismo; contudo, a tónica dominante é o princípio de Darwin de que algo vinga porque está mais bem-adaptado. Conforme mencionado anteriormente, decorrente do ambiente positivista, o Darwinismo Social tinha eco em muitos meios políticos ocidentais. Isso refletiu-se, por exemplo, no Império Britânico e na dialética entre a metrópole, domínios e colónias. Um exemplo simples, o rival de Hitler durante a 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill era um claro Darwinista Social, acreditando numa hierarquia racial, em que no topo estavam os brancos protestantes, a meio os brancos católicos e por fim, na base, todos os restantes não-brancos. Contudo, convém mencionar que isto não significa perfilhar a necessidade de uma limpeza racial, como preconizou Hitler, mas, contudo, pressupõe um sentimento de superioridade, ainda que moral, sobre os demais não-brancos, e isso refletia-se nas práticas coloniais britânicas, que encaravam as populações das colónias não como pessoas, mas como recursos humanos, levando muitas vezes à desumanização dessas pessoas. A França, embora de forma mais atenuada, mas fruto da época, também possuía uma certa permeabilidade a conceitos de Darwinismo Social. Conclusão Em janeiro, relembramos os 80 anos da libertação de Auschwitz, recordamos o extermínio em massa de pessoas simplesmente baseado na sua natureza, natureza essa que o nazismo considerava contranatura, e, 525
portanto, não passível de existir.
A chegada a Auschwitz por via ferroviária - Heike Mund – Publicado 27/01/2020. Publicado 27 de janeiro de 2020 Última atualização 26/01/2025. Última atualização 26 de janeiro de 2025
Convém relembrar a célebre frase de Lavoisier, desta vez uma transposição correta das ciências naturais para as ciências humanas, “Nada se perde, tudo se transforma.”, em que as ideias do homem não surgem do nada, mas são sim uma transformação continua de ideias já passadas, dependendo apenas da importância ou do sentido que lhe damos. Hitler, teve “tutores”, mais do que os que anteriormente mencionei; portanto podemos assumir que a responsabilidade moral das atrocidades não é exclusivamente sua, mas também dos seus “tutores”, estes porque o “instruíram” e ele porque “realizou”. Despeço-me do leitor com uma passagem de Antonio Gramsci: “História ensina, mas não tem pupilos”, para refletirem sobre os tempos que correm. Referências Bibliográficas por Tema: 1. A Influência de Ludendorff e o Dolchstosslegende Mommsen, H. (1996). The Rise and Fall of Weimar Democracy. University of North Carolina Press.
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(Capítulos sobre Ludendorff, o golpe de Kapp e o mito da "facada nas costas"). Kershaw, I. (2008). Hitler: A Biography. W.W. Norton & Company. (Fala bastante do papel do Dolchstosslegende e como Hitler adotou essa narrativa). Münkler, H. (2015). The Germans and their Myths. Polity Press. (Aborda os mitos fundadores da extrema-direita alemã, incluindo o Dolchstoss).
2. A República de Weimar, as Crises e as Milícias Nacionalistas (Freikorps, Stahlhelm, etc.) Peukert, D. J. K. (1991). The Weimar Republic: The Crisis of Classical Modernity. Hill and Wang. Evans, R. J. (2003). The Coming of the Third Reich. Penguin Press. (Explica o contexto de Weimar, os Freikorps e as raízes do nazismo). Waite, R. G. L. (1952). Vanguard of Nazism: The Free Corps Movement in Postwar Germany, 1918-1923. Harvard University Press. (Clássico sobre o papel dos Freikorps e o nacionalismo radical).
3. Mein Kampf, Hitler e a Consolidação das Ideias Racistas e Antissemitas Hitler, A. (1925/1999). Mein Kampf. Houghton Mifflin Harcourt. Kershaw, I. (1999). Hitler: 1889-1936 Hubris. Penguin Press. (Análise profunda sobre a radicalização do Hitler antes e durante Mein Kampf).
4. O Protocolo dos Sábios de Sião e o Antissemitismo Russo Cohn, N. (1967). Warrant for Genocide: The Myth of the Jewish World-Conspiracy and the Protocols of the Elders of Zion. Eyre & Spottiswoode. (Clássico absoluto sobre a origem e o impacto do texto falso). Pipes, R. (1995). Russia under the Old Regime. Penguin Books. (Contextualiza o antissemitismo russo e o ambiente político do Império Russo).
5. A Influência Americana: Eugenia e Segregação Black, E. (2003). War Against the Weak: Eugenics and America's Campaign to Create a Master Race. Four Walls Eight Windows. (Fala diretamente sobre a inspiração que os EUA forneceram aos nazis). Kühl, S. (1994). The Nazi Connection: Eugenics, American Racism, and German National Socialism. Oxford University Press. (Explora como as leis de segregação racial americanas influenciaram as Leis de Nuremberga).
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6. Darwinismo Social e o Positivismo no Pensamento Ocidental Hawkins, M. (1997). Social Darwinism in European and American Thought, 1860–1945: Nature as Model and Nature as Threat. Cambridge University Press. (Bastante completo sobre o Darwinismo Social e suas distorções). Weikart, R. (2004). From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany. Palgrave Macmillan. (Bem contextualizado na linha entre Darwinismo Social e o pensamento nazi).
7. Churchill, Racismo e Colonialismo Britânico Toye, R. (2010). Churchill's Empire: The World That Made Him and the World He Made. Pan Macmillan. (Trata das visões raciais de Churchill e sua política colonial). Mukerjee, M. (2010). Churchill's Secret War: The British Empire and the Ravaging of India during World War II. Basic Books. (Revela o lado mais sombrio das políticas coloniais britânicas sob Churchill).
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A Escolha do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro de 2025: Avanços para a Lusofonia e a Democratização Cultural Juliana Fernandes, Diretora da Biblioteca Municipal Raul Brandão Em 2025, o Rio de Janeiro é a primeira cidade de um país de língua portuguesa a receber o título de Capital Mundial do Livro, concedido pela UNESCO. A análise, que aqui se apresenta, procura refletir sobre a importância desta escolha no contexto da valorização da língua portuguesa, do reconhecimento da produção literária brasileira e do fortalecimento da cooperação entre os países lusófonos. Considera-se, ainda, o impacto social e cultural que a nomeação pode gerar em termos de acesso à leitura, inclusão cultural e social.
Museu do Amanhã – Rio de Janeiro
Importância do Livro O livro permanece como um dos instrumentos mais poderosos de transmissão de conhecimento, preservação da memória histórica e promoção do pensamento crítico. A leitura fomenta o pensamento reflexivo, a empatia e a capacidade argumentativa, sendo um pilar essencial na consolidação de sociedades democráticas. Historicamente, os livros foram instrumentos de resistência em contextos de censura, opressão e ditaduras. A obra O Diário de Anne Frank é exemplo do potencial transformador e mobilizador da palavra escrita. O livro não é apenas um suporte material de conteúdo; é um agente de transformação individual e coletiva. Ao colocar o livro no centro das políticas públicas, como propõe a iniciativa da UNESCO, reafirma-se o seu papel na construção de um mundo mais justo, educado e consciente.
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O que é a Capital Mundial do Livro? A Capital Mundial do Livro é uma iniciativa da UNESCO que visa promover a leitura, a publicação e a proteção dos direitos de autor. A cidade escolhida como Capital Mundial do Livro recebe este título por um período de um ano e é convidada a organizar atividades e eventos que celebrem o livro e a literatura. Esta iniciativa procura destacar a importância dos livros e da leitura na sociedade e promover o intercâmbio cultural entre diferentes nações. Cada ano, uma nova cidade é nomeada, contribuindo para a promoção da literatura no mundo. A programação teve início a 23 de abril de “2025”, data que marca o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. Ao longo de um ano, a cidade é palco de feiras, saraus, exposições, oficinas e outras atividades que vão convidar a população a descobrir (redescobrir) o poder transformador da leitura. O porquê de uma Capital Mundial do Livro A nomeação anual de uma cidade como Capital Mundial do Livro pela UNESCO, tem como objetivo promover a leitura, a literatura e o acesso ao conhecimento numa escala mundial, procurando aumentar o interesse e o acesso aos livros, principalmente em comunidades onde a leitura não é uma prática comum. Esta iniciativa destaca a importância da literatura e da cultura do livro, reconhecendo o seu papel vital na formação de sociedades e na preservação da história e das tradições, valorizando autores, editores e todos os envolvidos na cadeia do livro. Fomenta o diálogo cultural, promovendo o intercâmbio e troca de conhecimentos, permitindo que diferentes culturas partilhem histórias e tradições literárias, enriquecendo a experiência cultural tanto para os habitantes da cidade como para os visitantes das outras partes do mundo. Ser Capital Mundial do Livro estimula as cidades a desenvolverem programas e eventos que incentivem à leitura, com impacto positivo na comunidade local, promovendo a educação e a inclusão social. Para além disso, traz visibilidade internacional para a cidade, atraindo turistas, escritores e amantes da literatura, beneficiando a economia local e promovendo a cidade como um destino cultural. É uma forma eficaz de efetivar a literatura, a leitura e a cultura, contribuindo para o desenvolvimento social, educacional e cultural das comunidades. Sobre as capitais mundiais do livro As cidades nomeadas Capital Mundial do Livro comprometem-se a promover o livro e a leitura para 530
todas as faixas etárias e grupos sociais, dentro e fora das suas fronteiras e organizar um programa de atividades para 12 meses. Como a 25.ª cidade a ostentar o título desde 2001, o Rio de Janeiro segue: Ano
Cidade
País
2001
Madrid
Espanha
2002
Alexandria
Egito
2003
Nova Deli
Índia
2004
Antuérpia
Bélgica
2005
Montreal
Canadá
2006
Turim
Itália
2007
Bogotá
Colômbia
2008
Amesterdão
Países Baixos
2009
Beirute
Líbano
2010
Liubliana
Eslovênia
2011
Buenos Aires
Argentina
2012
Erevan
Armênia
2013
Banguecoque
Tailândia
2014
Port Harcourt
Nigéria
2015
Incheon
Coreia do Sul
2016
Breslávia
Polónia
2017
Conacri
Guiné
2018
Atenas
Grécia
2019
Xarja
Emirados Árabes Unidos
2020
Kuala Lumpur
Malásia
2021
Tbilisi
Geórgia 531
2022
Guadalajara
México
2023
Acra
Gana
2024
Estrasburgo
França
2025
Rio de Janeiro
Brasil
Pela primeira vez, a escolha de uma Capital Mundial do Livro com língua oficial portuguesa Desde a sua criação, em 2001, diversas cidades foram congratuladas com o título de Capital Mundial do Livro, mas, até 2025, nenhuma de um país lusófono tinha sido escolhida. A decisão de nomear o Rio de Janeiro representa um marco cultural e político significativo para o universo da língua portuguesa, destacando também a importância da literatura e da leitura no Brasil. Esta escolha representa muito mais do que um reconhecimento simbólico: projeta a língua portuguesa no cenário literário mundial e valoriza a diversidade cultural dos países lusófonos. A Representatividade da Língua Portuguesa A língua portuguesa é falada por mais de 250 milhões de pessoas em todos os continentes, ocupando um lugar de destaque entre os idiomas mais falados no mundo. Apesar desta ampla presença, observa-se uma sub-representação da lusofonia em circuitos culturais internacionais. As iniciativas culturais internacionais nem sempre contemplam com a devida representatividade os países de língua portuguesa. A escolha do Rio de Janeiro rompe com essa tendência e dá visibilidade à riqueza literária e linguística da lusofonia. Fortalecimento da Comunidade Lusófona A nomeação representa um passo significativo para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e
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Timor-Leste – ao fortalecer os laços culturais e estimular colaborações na área da literatura, da tradução, da educação e das políticas linguísticas. A visibilidade proporcionada por este título pode favorecer o intercâmbio de boas práticas e a valorização de autores e obras de países lusófonos ainda pouco conhecidos internacionalmente. Inclusão Cultural e Democratização da Leitura O plano de ação das Capitais contempla iniciativas voltadas para o alargamento do acesso à leitura, especialmente em comunidades vulneráveis. Tais medidas alinham-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente à meta de educação inclusiva e equitativa de qualidade. A candidatura do Rio de Janeiro apresentou um plano de ação robusto, focado na promoção da leitura e na democratização do acesso ao livro. Entre as propostas está a modernização da rede de bibliotecas públicas, como o projeto “Bibliotecas do Amanhã” que contempla ações nas periferias e favelas com programas voltados para a juventude. A cidade propõe-se a fazer da leitura uma ferramenta de transformação social e inclusão. Conclusão A escolha do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro em 2025 é um acontecimento inédito e carregado de simbolismo para o mundo lusófono. Ao reconhecer a produção literária brasileira, promover a inclusão cultural e valorizar a língua portuguesa, a UNESCO destaca a importância da cultura como instrumento de transformação social e desenvolvimento sustentável. Espera-se que essa conquista incentive a formulação de políticas públicas duradouras voltadas ao estímulo à leitura, investimento em infraestrutura educacional, bem como a integração cultural entre os países de língua portuguesa. A nomeação do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro é um marco para o Brasil, para a literatura lusófona e para todos os que acreditam na cultura como pilar de desenvolvimento. Que este reconhecimento sirva de estímulo para que mais cidades lusófonas ocupem o seu espaço no mapa mundial da cultura e do conhecimento.
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Papa Francisco – Encarnação do Evangelho Monsenhor José Maria Lima Carvalho Gonçalves
Na manhã do dia 21 de abril, segunda-feira da Páscoa de 2025, Kevin Farrel, cardeal camerlengo da Santa Sé, anunciou que, às 7,35 horas daquele dia, o Papa Francisco partira para o Pai. Uma notícia que naturalmente despertou o coração dos fiéis para a oração, ao mesmo tempo que alterou os planos editoriais dos grandes meios de comunicação social. Os dias seguintes, primeiro na capela da sua Casa de Santa Marta e depois na basílica de S. Pedro, constituíram momentos inesquecíveis para centenas de milhares de pessoas se despedirem e de preparação das exéquias solenes. O cardeal decano Giovanni Battista Re presidiu às cerimónias, na manhã do dia 26, na praça de S. Pedro, com a participação do colégio cardinalício, milhares de bispos, sacerdotes e diáconos e cerca de 250.000 fiéis a que se juntaram mais de 150.000 ao longo do trajeto até à basílica de Santa Maria Maior onde, conforme decisão expressa da sua vontade, o Papa Francisco ficou sepultado. Em lugar de destaque na celebração, estiveram 40 pessoas vulneráveis, das muitas que o Papa sempre acompanhou e 143 Chefes de Estado e de Governo de todo o mundo. Para trás, fica a história dum sucessor de Pedro, eleito pelo colégio dos cardeais, em 13 de março de 2013. Lê-se nas orelhas da capa da autobiografia de Francisco, sob a designação Esperança (1ª edição: janeiro de 2025) o seguinte: PAPA FRANCISCO, Jorge Mário Bergoglio. Nasceu em Buenos Aires a 17 de dezembro de 1936. Filho de migrantes italianos, o mais velho de cinco irmãos de uma família do popular bairro das Flores, formou-se como técnico químico, licenciou-se em filosofia em 1963, é sacerdote desde 1969, provincial dos jesuítas da Argentina em 1973, bispo auxiliar em 1992 e arcebispo de Buenos Aires em 1998. Nomeado cardeal em 2001, é bispo de Roma desde 13 de março de 2013 e 266.º papa da Igreja Católica. Para 2025, décimo segundo ano do seu pontificado, anunciou um novo Jubileu, com o lema “Peregrinos de Esperança”. Este resumo biográfico é, digamos assim, o fato deste homem de Deus que, segundo palavras suas, em março de 2013, os cardeais foram descobrir “ao fim do mundo” para o colocar ao leme da barca de Pedro.
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Santa Catarina de Sena (1347-1380), declarada co-padroeira da Europa por S. João Paulo ll, na época difícil da vida da Igreja do seu tempo, chamava ao romano pontífice o “doce Cristo na terra”. O Papa Francisco, nas mais diversas circunstâncias do seu pontificado, demonstrou que aquela afirmação é imensamente mais que uma simples metáfora. Por isso, na incapacidade de reproduzir, por escrito e em palavras, a rota de luz que foram os seus doze anos de pontificado e magistério, diremos apenas que ele cumpriu o programa da atividade de Jesus, conforme se lê no evangelho: “ O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4, 18-19). Não se cansou ele de manifestar este desígnio, que podemos ver repetidamente lembrado sobretudo a partir das JMJ Lisboa 2023, no campo da Graça, perante uma assembleia de milhão e meio de participantes e de um número incontável de pessoas que, pelo mundo todo, recebiam a mensagem através da comunicação social, a exprimir, no plural, numa palavra bem portuguesa, a caraterística essencial da Igreja de Cristo: Casa do Pai de portas escancaradas para todos, todos, todos. Nos seus gestos e ensinamentos, retidos em tantas memórias vivas, nós sentimo-lo a encarregar-nos daquela missão do senhor da parábola do evangelho para a festa do casamento de seu filho: “Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes…maus e bons” (Mat 22,9-10). Neste contexto, sentimos o Papa Francisco na bula de Proclamação do grande Jubileu ordinário do ano 2025 – a Esperança não engana –, a interpelar-nos para a visão dos sinais dos tempos na perspetiva da esperança. E aponta concretamente alguns desses sinais: a paz para o mundo, mais uma vez imerso na tragédia da guerra; incutir aos jovens o desejo de gerar novos filhos, face à queda da natalidade. Deveremos também, diz ele, ser “sinais palpáveis de Esperança para muitos irmãos e irmãs que vivem em condições de dificuldade”. Entre estes, o papa dá prioridade aos presos, pedindo atenção e sinais de humanidade e clemência. Sinais de esperança, diz também, são devidos aos doentes apanhados nas mais variadas contingências de sofrimento e dor; aos jovens que necessitam de compreensão e solidariedade, pois que “são eles que representam a própria esperança”. Para com os 535
migrantes, que procuram melhores condições de vida e aos exilados, deslocados e refugiados o papa acentua o dever de acolhimento digno e fraterno, assim como aos idosos que “muitas vezes experimentam a solidão e o sentimento de abandono”. Uma referência particular é dirigida aos avôs e avós: “que sejam amparados pela gratidão dos filhos e pelo amor dos netos, que neles encontram as suas raízes, compreensão e estímulo”. Nesta mesma linha, o papa invoca a esperança para os milhares de milhões de pobres, a quem, muitas vezes, falta o necessário para viver. Merecem atenções de todos e a todos os níveis porque, diz ainda o Papa, “os po-
Audiência geral em 01 de dezembro de 2021, Monsenhor José Maria, ao centro, ladeado pelos padres José A. Antunes (à direita) e Miguel Paulo Simões (à esquerda), com o Papa Francisco.
bres são quase sempre vítimas, não os culpados”. “Igreja em saída”, isto é, ir até às realidades existenciais do homem rompendo todas as barreiras para sentir, iluminar e responder ativamente aos problemas, foi mais que um grito lançado por Francisco no início do seu ministério petrino. Comprovam-no quatro encíclicas, sete exortações apostólicas, 39 constituições apostólicas e ainda o exercício constante do seu zelo pastoral em inúmeras audiências e homilias. E que dizer das suas 47 viagens apostólicas fora de Itália, visitando 65 países? O Papa Francisco foi exemplo acabado do lema orientador de toda a sua ação e que tanto procla-
In, JN, 26/04/2025
mou: agir com “proximidade, ternura e compaixão”, ao jeito de Jesus. Nas duas bulas Misericordiae vultus e Spes non confundit pelas quais proclamou o Jubileu da Misericórdia e da Esperança, 2016 e 2025 respetivamente, fica o retrato de vigário de Cristo com as cores bem avivadas pela encarnação do Evangelho. O eco e ressonância de toda a sua vida têm origem no lema que ele escolhera quando foi nomeado bispo auxiliar de Buenos Aires: Miserando atque eligendo (olhando com misericórdia Ele o escolheu) numa alusão ao chamamento do apóstolo e evangelista Mateus. A encíclica Laudato Si (Louvado sejas…), em defesa desta casa comum, que é o planeta que habitamos, vem dar razão plena à escolha do nome Francisco, certamente 536
inspirada no imortal S. Francisco de Assis. Como este, “o papa que veio do fim do mundo” desafia toda a humanidade a compreender que Deus é Pai de misericórdia e nos proveu de todas condições para vivermos em alegria e fraternidade. Na homilia da missa exequial, o presidente da celebração, cardeal Giovanni Battista Re recordou o pedido de Francisco, lançado da varanda da basílica de S. Pedro, em 13 de março de 2013, na sua apresentação como papa “rezai por mim” e acrescentou que seja ele agora a rezar por nós. E, na verdade, nós ficamos convencidos de que, com o Papa Francisco, a Igreja e o mundo ganharam um valioso intercessor e sinal perene e luminoso de esperança.
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ESPAÇO OSMUSIKÉ Textos da responsabilidade da equipa redatorial, com a colaboração dos coordenadores das diversas valências e de Emília Ribeiro, supervisora de Osmusiké Teatro
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Espaço Osmusiké Textos da responsabilidade da equipa redatorial, com a colaboração dos coordenadores das diversas valências e de Emília Ribeiro, supervisora de Osmusiké Teatro Como sempre, a reportagem e as notícias das nossas próprias atividades, das quais este Cadernos n.º 7 (2025) é exemplo, constituem um registo das nossas digressões e deambulações pelas ruas, espaços públicos, instituições e associações, consagrando a nossa presença na cultura e na tradição local. Esta presença manifesta-se de forma eclética e versátil, indo do Cantar os Reis ao Mercado à Moda Antiga, aos concertos Cantar a Liberdade e Sons de Outono, passando pela participação no Festival Húmus, dedicado a Raul Brandão, à Feira Afonsina e, recentemente, à presença no cortejo da Marcha Gualteriana. Um rol de atividades de música, teatro, poesia e diversas atividades criativas, que congregam vários colaboradores, amigos e instituições públicas e privadas, perfazendo já mais de duas décadas de trabalho sob o leme de Jorge do Nascimento, agora substituído na presidência, nas recentes eleições, por Júlio Dias
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Obrigado, Jorge do Nascimento Muitas foram e árduas as batalhas As derrotas, vitórias e sorrisos Muitas as quimeras, lutas e falhas As conquistas, revezes e avisos… Mas, enquanto guerreiro já cansado É tempo de despir a armadura! Tempo do vento em popa e enfunado Virar velas à terra bem segura! Agora um simples e humilde grumete D’outras viagens, paisagens, aragens Que na gávea vela, se compromete! Sobre ondas de tormenta ou de bonança, Vou navegar, agora, em cabotagens, Porque estar sempre ao leme, também cansa!… Álvaro Nunes
Já lá vão 23 anos ao leme dos Osmusiké. Por isso, como diz o poeta José Gomes Ferreira “Viver sempre também cansa!”, pelo que se tornou imperioso um descanso pontual, ainda que não definitivo e, por extensão, um aligeiramento das tarefas e preocupações de liderança. Escrevo e falo, como é óbvio e percetível, sobre Jorge do Nascimento, que, “farto” de lançar os foguetes e apanhar as canas, meteu licença sabática na presidência da Associação Osmusiké, atendo-se, agora, e tão-somente às lides de membro ativo do coro Cantar Guimarães e diretor de OsmusikéCadernos. Ademais, como sói nos regimes democráticos, é sempre saudável alternar as lideranças e dar voz a outras perspetivas e visões, ainda que a matriz se mantenha no essencial. E assim aconteceu de facto, em 18 de março de 2025, quando foram empossados os novos corpos gerentes da associação. Inicia-se um novo reinado sobre a batuta de Júlio Dias que herda não só o trono como também todo o séquito de cortesãos e colaboradores, que, estamos certos, manterão o rumo a portos de abrigo seguros e a novas descobertas quer por parte de trovadores do reino quer de dramaturgos, atores e aedos. 541
No entanto, nesta hora de temporária despedida ou pausa ocasional, chamemos-lhes assim, não podemos deixar de enfatizar o trabalho e o legado de Jorge Nascimento, não só enquanto fundador da Associação Osmusiké como também líder, animador e visionário, que deixou marcas indeléveis da sua presença ativa e dinâmica no historial da coletividade. De facto, para além das inúmeras e valiosas atividades promovidas em prol da animação cultural vimaranense, o Jorge criou um grupo de amizade e convivialidade que soube coordenar com pluralidade, cujo labor lhe granjeou merecidamente a atribuição da Medalha de Ouro da Cidade, em 2023.
Dia 24 de junho de 2023 – Sessão solene – Jorge Nascimento recebe a Medalha Municipal de Mérito Cultural
Efetivamente, difícil é separar Jorge do Nascimento do historial da coletividade, nascida no espaço reduzido da Escola Secundária Francisco de Holanda em 10 de junho de 2002, estabelecimento de ensino no qual exercera funções docentes e posteriormente diretor do Centro de Formação Francisco de Holanda (CFFH), durante quase 20 anos, espaço que seria o embrião desta odisseia do louva-deus, enquanto emblema de Osmusiké. Curiosamente, como é costumeiro nesta cidade, mais um nome que vem de fora, concretamente de Mujães – Viana do Castelo, que aqui se encosta na freguesia da Costa e cá se cruza com gente vimaranense e constitui prole em Guimarães, como o faz constatar claramente o nome dos seus netos Afonso
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e Vitória, habituais declamadores de poesia infantojuvenil nos Concertos “Cantar a Liberdade” e “Sons de Outono”. Sinais marcantes de que Guimarães é boa mãe e boa madrasta, acolhendo com igualdade os seus filhos de sangue e adoção. Dissemos já que é complicado separar o longo relatório de atividades de Osmusiké da liderança de Jorge do Nascimento, que, além de diligente empreendedor e congregador de vontades, soube também fazer pontes com as autoridades locais, em especial a Câmara Municipal de Guimarães e outras associações e entidades congéneres. Com efeito, engenheiro de pontes para outras margens, o Jorge é uma voz singular neste cantar Guimarães plural de um coral polifónico de mais de duas décadas e o impulsionador desses cantos por vários cantos da cidade. Um canto de encantar que chegou à TV e à gravação de CDs e muitos outros momentos de alegria e diversão que podem ser visualizados em muitos vídeos no Google, no facebook, no Instagram ou na plataforma ISSUU, onde se encontram alojados os Cadernos Osmusiké. Com efeito, os OsmusikéCadernos iniciados em junho de 2020, são o mais recente lançamento da associação que edita e faz emergir o melhor do vimaranensismo e do mundo cultural nos seus “tijolos de sólidas páginas”. Na realidade, como diz o povo, há, por vezes, males que vêm por bem, uma vez que os Cadernos nasceram de um mal maior que foi o Covid 19, constituindo uma eficaz vacina contra o isolamento. Vários cantos e loas poderíamos elen-
Jorge do Nascimento Silva, no Concerto Cantar a Liberdade (27/04/2024 - Teatro Jordão), no decorrer da Homenagem de Osmusiké ao Coronel Rui Guimarães, com o presidente da CMG, Domingos Bragança, e com a apresentadora Gabriela Nunes
car sobre o timoneiro e seus marinheiros que sulcaram praças e ruas, instituições e espaços públicos no âmbito da afirmação e animação cultural, que se estenderam ao teatro, à poesia, a atividades diversas e à presença ativa em muitas das coisas e loisas desta cidade-berço. Citem-se, entre muitas que exaustivamente poderíamos enumerar, as participações na Feira Afonsina, desde a primeira hora, em 2011, no Festival Húmus, no Mercado à Moda Antiga e mais recentemente no cortejo da Marcha Gualteriana. Atividades e iniciativas a que outrossim têm promovido os costumes e as usanças como as tortas vimaranenses e o tradicional 543
Cantar dos Reis. Mas que dizer dos concertos Cantar a Liberdade e Sons de Outono e de tantas outras atividades que acontecem sempre com casa cheia. Ao Jorge do Nascimento, fica assim um préstimo de gratidão e o preito de todos nós por estes anos de promoção da educação e da cultura, do convívio e da amizade, da ousadia de ver sempre à frente e mais longe. Um reconhecimento que este poema da Manuela Ribeiro pretende assinalar: O HOMEM E O SONHO202 Era uma vez um Homem. Era uma vez um Sonho. O Homem acreditava na bondade, solidariedade e justiça. O Sonho oferecia música, teatro e alegria. Encontraram-se, pela primeira vez, numa noite fria e escura. Era inverno e estava a chover. Mas não chovia no Sonho do Homem. Era primavera: havia sol, luz e calor. Então o Homem e o Sonho caminharam juntos. Era o Sonho do Homem e o Homem do Sonho. E mais se lhes juntaram! E o Sonho cresceu e espalhou bem-querer, animação e magia, oferecendo gargalhadas. E o Homem pensou e ofereceu saber, cultura e tradição, entregando-se por inteiro. O Homem espelhou o seu amor no Sonho mais bonito. E sorriram… e amaram… e sonharam… São amigos inseparáveis. São obra feita! O Homem és tu!... O Sonho somos nós!...
202 Texto escrito por Manuela Ribeiro, declamado por Amélia Faria, aprovado em AG de Osmusiké em 13-02-2025, dedicado a Jorge do Nasci-
mento Silva, que será para sempre O Nosso Presidente.
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Novos Corpos Sociais de Osmusiké (2025/2029) Vivam todos Osmusiké Viva o nosso fundador Bem-haja Jorge Nascimento Foste sempre um vencedor
Este Novo Presidente olhem bem pro que lhe deu aturar Osmusiké E, em troca, ganhar o céu Fátima Silva
Na sequência do processo eleitoral, foram eleitos e tomaram posse os novos corpos sociais da Associação, no dia 18 de março de 2025, para um mandato de quatro anos. Para a história, fica o ORGANOGRAMA dos Corpos Sociais de Osmusiké – Associação Musical e Artística do Centro de Formação Francisco de Holanda, com os novos responsáveis, que passou a ser o seguinte:
Mesa da Assembleia Geral
Direção
Conselho Fiscal
Presidente
Presidente
Presidente
[Filipe Guimarães]
Vice-presidente [Maria de Jesus Carvalho]
[Manuel Barbosa]
[Júlio Dias]
Secretário [Júlio Borges]
Vice-presidente [Maria Emília Teixeira]
Vice-presidente [Jandira Henriques]
Vogal [Fátima Silva]
Tesoureiro [Luís Oliveira]
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Secretário [Mário Macieira]
Vogal [Maria Adelaide]
Relator [Ricardo Faria]
Secretária [Maria da Luz Carvalho]
Tomada de posse dos novos corpos sociais
Filipe Guimarães, Presidente da Assembleia Geral
Júlio Dias, Presidente da Direção
Manuel Barbosa, Presidente do Conselho Fiscal
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Assembleia Geral: Maria de Jesus, Filipe Guimarães e Júlio Borges
Direção: Fátima Silva, Adelaide Pacheco, Luís Oliveira, Mário Macieira, Jandira Henriques, Maria Emília Teixeira, Júlio Dias
Órgãos sociais: Imagem com todos os empossados
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Conselho Fiscal: Ricardo Faria, Manuel Barbosa e Maria da Luz Carvalho
Osmusiké 2025 – Fragmentos de Arte: Música, Teatro e Poesia numa Só Voz “É na arte que o Homem se ultrapassa definitivamente.” Simone de Beauvoir
Osmusiké – Associação Musical e Artística do Centro de Formação Francisco de Holanda tem escrito uma bonita história desde a sua fundação. No decorrer do ano de 2025, o Plano Anual de Atividades tem sido desenvolvido partindo de projetos dinamizados desde a génese da associação, bem como a implementação de novas ações, concretizando os objetivos e atividades delineados nesse documento, de forma a atingir as metas estabelecidas, definindo as atividades, os momentos de implementação e os recursos humanos, financeiros e físicos necessários, que têm enriquecido a intervenção de Osmusiké no território local e regional.
Cantar os Reis no Mercado Municipal de Guimarães, 11 de janeiro 2025
Manter vivas as tradições regionais e locais, designadamente o Cantar dos Reis e as Janeiras, são propósitos de Osmusiké, que, no dia 11 de janeiro, atuaram no Mercado Municipal de Guimarães, para alegria de regatões, comerciantes e visitantes e da Vereadora Sofia Ferreira, responsável pelo Mercado. No dia 18 de janeiro, no Auditório da Universidade do Minho, Campus de Azurém, teve lugar o 10.º Concerto de Reis – Cantar ao Menino, cujo auditório se tornou pequeno para a quantidade de público interessado. 548
Imagens do 10.º Concerto de Reis – Cantar ao Menino. Atuaram cinco grupos: Chorus Anima Populi; Grupo Coral do Marinhão FC, de Moreira do Rei (Fafe); Tuna Feminina da Universidade do Minho (GATUNA); Osmusiké Cantares Populares e Cantar Guimarães
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O evento contou com o apoio do Município de Guimarães, através do IMPACTA, que foi representado pela vice-presidente da Câmara Municipal, Dr.ª Adelina Pinto. Osmusiké Cantares Populares cantaram os Reis durante o mês de janeiro em várias instituições: - Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro; - Prazins e Santa Maria de Souto; - Lar de S. Domingos e ADCL. O Grupo de Teatro repôs em cena a peça “Camões – O Príncipe dos Poetas”, no dia 24 de fevereiro 2025, para 600 alunos da Escola Secundária Martins Sarmento. Foi muito gratificante sentir uma plateia atenta e entusiasmada. Continuámos com Camões no dia 21 de março, para celebrarmos o Dia Mundial da Árvore, o Dia Mundial da Poesia e o Dia Internacional da Floresta. Uma viagem no tempo ao encontro de Luís Vaz de Camões, o "𝗣𝗿𝗶́𝗻𝗰𝗶𝗽𝗲 𝗱𝗼𝘀 𝗣𝗼𝗲𝘁𝗮𝘀"! 500 anos após o seu nascimento, Camões reapareceu e… entre prosa e poesia, foi contando excertos da sua vida… Num primeiro momento (inspirado no filme “Camões” de José Leitão de Barros, 1946), falou sobre aventuras amorosas enquanto estudante em Coimbra; num segundo momento, focou a escrita de “Os Lusíadas”, com algumas certezas e muitas 550
interrogações, para cerca de uma centena de espectadores (lotação máxima do espaço). A convite da Câmara Municipal de Guimarães, criámos “A Dama das Camélias e seus amores”. Rosalinda, apelidada de “A dama das camélias” pela sua adoração à flor, vive rodeada por aqueles que também amam a camélia. Para que a flor se materialize em todo o seu potencial, não basta deixar a natureza seguir o seu rumo. Existem mãos e saberes que entram na equação, pois é preciso mimar, cuidar, nutrir, podar e orientar o seu crescimento. Esta performance foi apresentada em contexto de rua para divulgar a XII Exposição das Camélias, no Convento de Santa Clara – Câmara Municipal de Guimarães.
Celebrámos o S. Valentim com “Chá com Poesia” organizado por Fátima Silva e Manuela Ribeiro, dia também agendado para Assembleia Geral de Osmusiké. Viveram-se momentos de alegria e consternação, pois Jorge do Nascimento, criador e Presidente da Direção de Osmusiké desde a sua fundação, pediu a demissão do cargo por motivos pessoais inadiáveis. 551
Recordamos Raul Brandão – O Escritor da luz e da sombra na VII Feira da Época de Nespereira nos dias 8 e 9 de março. Um grupo de atores e atrizes interpretaram em conjunto personagens e narraram momentos marcantes de algumas obras de Raul Brandão: Memórias, Húmus, Ilhas desconhecidas, O pobre de pedir… que foi apresentado em vários momentos e diferentes espaços, nomeadamente no largo da feira, na eira e no adro da igreja, ao longo dos dois dias do evento.
“Há dias tão bonitos que até temos medo de lhe tocar” in, Ilhas desconhecidas
Elenco: Ricardo Faria (Raul Brandão), Alice Xavier (Maria Angelina), Luís Almeida (Manco), Celeste Pinto (Isabel e Pasquela), Jandira Fernanda (Mulher das Eiras e Charlatona) José Pereira (Charlatão) e Emília Ribeiro (Charlatã.)
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Continuamos com a reposição da peça "Os Saltimbancos à descoberta da árvore mágica", cujo texto sofreu algumas adaptações, tendo em conta a época do ano. Foi apresentada no dia 1 de abril na EB1/JI de Barco e, no dia 5 do mesmo mês, no Salão Paroquial de S. Martinho de Candoso, inserido na semana cultural da Associação NCULTURAS. Esta peça engloba música e dança, e foi inspirada no texto de Carlos Goldoni. O espetáculo acompanha as personagens da Commedia dell’Arte, encantadas com a história da “Árvore mágica”. Dela exaltam a sua força poderosa que protege a Natureza. Uma magia que cuida de animais e plantas e que as personagens procuram aplicar nas suas relações de grande e verdadeira amizade. Osmusiké Teatro levou novamente a cena a peça “A Cigarra Cegarrega e as Formigas” que narra a história de dona Formigalha e suas formiguinhas que trabalham imenso e de dona Cigarra Cegarrega que sonha com a sua carreira de artista. Após ser enganada pelo Agente Besouro, a cigarra fica sem teto... A peça teatral trabalha conceitos como a amizade, o respeito e a compreensão mútua, além de focar o trabalho árduo dos artistas. O texto foi elaborado a partir da fábula “A Formiga e a Cigarra” de La Fontaine e com referências à “Cigarra Cegarrega” de Migue Torga. A música é de Osmusiké com sonoplastia de Luís Almeida; cenários e figurinos de Emília Ribeiro e Milita Marinho.
Momento captado pela objetiva de Luís Almeida, de "A Cigarra Cegarrega e as Formigas" na EB de Ponte que apresentamos no dia 4 de abril 2025, para encerramento das atividades do 2.º Período
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Participámos no espetáculo Queima do Judas – Judas será culpado ou Inocente? - “JULGAMENTO, LEITURA DE TESTAMENTO E QUEIMA”. Uma atividade realizada no âmbito do programa “Da Quaresma à Páscoa”, com o apoio do Município de Guimarães e a organização da Comissão de Festas da Segunda Feira de Páscoa, de S. Roque. Uma das tradições mais antigas e divertidas desta localidade. Judas foi julgado com toda a parcimónia. Após o julgamento, Judas foi considerado culpado, foi lido o testamento, com crítica bem-humorada, que contemplou desde o Presidente do Município, Dr. Domingos Bragança até à Mila Farrabina, habitante do Bairro de S. Roque entre muitos
Elenco: Juíza – Alice Xavier; Advogada de acusação – Maria Terra; Advogado de defesa e Arauto – José Pereira; Tabelião – Luís Almeida; Carpideira 1 – Manuela Sousa; Carpideira 2 – Emília Ribeiro; Carpideira 3 – Celeste Pinto; Dramaturgia: Emília Ribeiro; Texto: Emília Ribeiro e Álvaro Nunes.
outros. Retirado do tribunal popular pelos seus organizadores dirigiu-se para o local onde seria queimado acompanhado por mais de uma centena de pessoas que cantavam e gritavam pelo traidor.
CANTAR A LIBERDADE: Na comemoração dos 50 anos das Primeiras Eleições Livres O 25 de Abril é um momento de evocação coletiva do momento (re)fundador da nossa democracia. Celebrar esta data é um contributo muito relevante para evocar o passado e refletir sobre o futuro, numa interação entre gerações, motivando a partilha das memórias daqueles que viveram em ditadura, num cruzamento disciplinar: Música, teatro e poesia, onde se evocam palavras poéticas de Zeca Afonso, José Mário Branco, Manuel Alegre, José Gomes Ferreira... e onde foi lembrado Mário Soares, no centenário do seu
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nascimento. Música, poesia e performances teatrais foram a tónica do Concerto Cantar a Liberdade, que Osmusiké levaram a palco no Teatro Jordão, no passado dia 25 de abril. Um concerto agradável e participado, com casa cheia, recheado de pujança democrática, que se conta já como o sexto com a marca da coletividade ao longo dos últimos anos, sob a égide colaborativa do município vimaranense, no âmbito do IMPACTA. Com efeito, fazendo jus ao programa, Cantar a Liberdade teve como ponto fulcral o canto e a música, sob a coordenação de Júlio Dias e Filipe Guimarães. Assim, com a locução dos jovens Afonso e Maria e direção artística do maestro Júlio Dias, da maestrina Ana Almeida e de Luís Oliveira, as luzes da ribalta iluminariam o primeiro ato sob o signo do despertar, ao som de “Grândola Vila Morena”. Canções de liberdade, cantadas por Osmusiké Cantar Guimarães, acompanhado pelo seu grupo instrumental e pelos solistas José Maria Gomes, Luís Oliveira e Manuel Pereira, a que se seguiria “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, “Cantar de Emigração” de Adriano Correia de Oliveira e duas cantigas de Zeca Afonso: “Balada de Outono” e “Menina dos Olhos tristes”. Após o despertar de muitos anos de adormecimento, seguir-se-ia a marcha que seria o andamento do segundo ato. Na circunstância, a poesia sairia à rua e marcharia rumo à liberdade, declamada pela geração mais jovem, com palavras de ordem, proferidas pelas vozes de Sara Gonçalves, Leonor Oliveira, e dos irmãos Afonso e Vitória Silva que, sob a coordenação da professora Manuela Ribeiro, recitariam “25 de Abril”, “O Elefante de Abril”, “O Dia da Liberdade” e “As Minhas Mãos”, culminando a sua atuação em grupo com “Todas as Crianças da Terra. Na realidade, quatro jovens que, na sua proclamação, representariam toda uma geração que há de continuar Abril e a Liberdade… E como a liberdade estava a passar por ali, de novo voltaria a música com Osmusiké Cantares Populares que, a propósito e por coincidência, interpretariam “Liberdade”, de Pedro Barroso, e novamente os cantautores como Zeca Afonso, com “Tenho barcos, tenho remos” e “Balada do Sino”. E novamente Adriano Correia de Oliveira com a “Fala do homem nascido”, do poeta António Gedeão. O pano desceria então (imaginariamente) neste segundo ato com a poesia de Álvaro de Campos “Não! Só quero a liberdade!”, declamada por Maria José Silva. O terceiro ato só poderia ser a vitória, pois “Só é vencido quem desiste de lutar”, como declamaria Beatriz Roberto, que recitaria ainda Ary dos Santos e leria um excerto do livro “Portugal Amordaçado”, de Mário Soares, à colação do centenário do seu nascimento que passou recentemente. Obviamente, a vitória traria de novo a festa e a música pelo Coro Cantar Guimarães e o Grupo Instrumental. 555
Quadro de imagens recolhidas no espetáculo Cantar a Liberdade, no Teatro Jordão, em 25 de abril de 2025
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O espetáculo continuou com as canções “Liberdade”, um original de Osmusiké, depois “Venham mais cinco”, de Zeca Afonso, e um Medley, sobre Abril, com elaboração e arranjos do maestro Júlio Dias. Um canto à liberdade que rapidamente passaria do despertar à marcha e à vitória, que contaria ainda com algumas projeções evocativas e alusivas aos eventos ocorridos, bem como performances teatrais devidamente enquadradas, designadamente a cena final do simulacro e evocação das eleições de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte, ocorridas há 50 anos. Após a festa da vitória e agradecimentos devidos, subiriam a palco os protagonistas fundamentais deste triunfo coletivo, com o consequente uso da palavra da praxe pelo Presidente de Osmusiké, Júlio Dias, que recentemente fora empossado no cargo diretivo em substituição de Jorge do Nascimento, que, no contexto de festa final, se ajuntaria aos demais e seria alvo de significativa e merecida homenagem no decurso da sessão, enquanto homem do leme, durante mais de vinte anos. Encerraria a festa de Abril a vereadora Adelina Paula Pinto que vincaria os valores da Revolução dos Cravos e alertaria para os novos perigos que espreitam a coberto da liberdade. A entoação uníssona de “Grândola Vila Morena”, já cantada no início, fecharia a festa da liberdade.
MEMÓRIAS DA NOSSA TERRA: Mercado à moda antiga (4.ª edição) Esta foi uma recriação onde a alma das gentes de Guimarães partilhava memórias com todos aqueles com quem se encontrava no Mercado Municipal. Bancas decoradas à antiga, trajes de época, produtos tradicionais e muita animação surpreenderam quem por lá passou. A algazarra dos pregões dos vendedores, os sabores, a diversidade cultural, a cantoria, o bailarico, etc. Além do ambiente recriado, o dia foi animado com performances teatrais e musicais, evocando os costumes e sons de outros tempos. O ceguinho das feiras com o seu folhetim, o engraxador, a cigana, a doceira contadora de histórias, o vendedor de gravatas e colarinhos, com as suas performances, arrancaram muitos sorrisos a compradores e vendedores.
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Júlio Dias, presidente de Osmusiké, sublinhou que o objetivo foi “proporcionar uma viagem ao passado sem sair do Mercado”, reforçando o valor da memória coletiva e da identidade local. “Memórias da Nossa Terra – Mercado à Moda Antiga” é mais do que um evento cultural. É um convite à comunidade para redescobrir as suas raízes e celebrar a história viva da cidade num espaço que continua a ser ponto de encontro de gerações. Para além de vendedores e comerciantes participaram: Osmusiké Música e Osmusiké Teatro; Grupo Folclórico e Recreativo de Tabuadelo; Grupo Cultural de Nespereira. Contámos com a presença do Sr. Presidente da Câmara, Dr. Domingos Bragança, da Vereadora Sofia Ferreira e do Vereador Paulo Silva que muito nos honraram. Como não poderia deixar de ser, com o humor que lhes conhecemos, interagiram connosco.
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No final foi servido um almoço volante a todos os participantes no Piso Superior do Mercado. O evento contou com o apoio do programa IMPACTA – Município de Guimarães.
III Feira do Livro de Creixomil Nos dias 24 e 25 de maio, o Multiusos de Guimarães transformou-se num palco para a literatura, a cultura e a criatividade. Uma organização da Junta de Freguesia de Creixomil, com o apoio do Município de Guimarães. O encerramento do primeiro dia contou com um Sarau Cultural, especialmente dedicado à celebração da Língua Portuguesa – um verdadeiro património comum que une povos, histórias e culturas. Foi uma viagem desde os trovadores da idade média até aos dias atuais. Osmusiké foram convidados a participar com uma performance sobre o poeta
Zé Pereira interpretando Bocage
Bocage e um momento musical sobre os poetas de Abril. Bocage, interpretado por José Pereira, contou com a companhia de duas Damas (Alice Xavier e Celeste Pinto), suas admiradoras, para quem contou duas das suas anedotas e declamou dois dos seus poemas: “A Rosa” e “A Água”. Tivemos, também, outras atuações: - E Depois do Adeus (Paulo de Carvalho), solista, José Maria Gomes;
Maria José e Beatriz Roberto lendo poesia acompanhadas pelos Osmusiké Cantar Guimarães
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- Trova do Vento que Passa (Adriano Correia de Oliveira); - Poesia com base musical – Portugal Ressuscitado, de Manuel Alegre; - Liberdade (Osmusiké); - Menina dos olhos tristes (Zeca Afonso), solista José Maria Gomes; - Medley de Abril (elaboração e arranjos de Júlio Esteves Dias; arranjos corais e instrumentais de Júlio Esteves Dias; dirigidos pela Maestrina Ana Almeida).
Comemoração do 23.º aniversário de Osmusiké Osmusiké celebrou, no passado dia 7 de junho, o seu 23.º aniversário com um almoço convívio. Acostumados a animar festas e eventos por todo o concelho de Guimarães, os membros da associação dedicaram este dia a si próprios, numa celebração marcada pela música e o espírito de grupo. Concentraram-se, desta feita, no Restaurante Albino, em S. Martinho de Sande, para confraternizar e assinalar mais um aniversário, dos muitos que ainda têm à sua frente. Como sempre, muita alegria e música, bem como alguns pezinhos de dança e meneios sensuais para desgastar as calorias do gostoso almoço, assim como demonstrar que as entorses e afins são maleitas dos mais velhos. Outrossim, um convívio de identidade e espírito de pertença do grupo, brindado com bom verde e partilhado em uníssono com o canto da praxe dos parabéns a todos os vocês que vivenciaram estes sadios anos.
Júlio Dias, Presidente de Osmusiké, no uso da palavra, com Miguel Oliveira, vereador da cultura da CMG
Uma sessão de convivialidade que igualmente deu azo ao novo presidente de Osmusiké, Júlio Dias, a intervir com um breve improviso e a apresentar os recém-eleitos corpos gerentes da associação e responsáveis pelas valências da coletividade. Concomitantemente, agradeceu a todos a colaboração prestada ao longo destes 23 anos de amizade, em especial ao Jorge do Nascimento que recentemente deixou de exercer 560
funções diretivas. Uma data comemorativa que contou com a presença do atual vereador da Cultura da Câmara Municipal, Miguel Oliveira, que sucedeu a Paulo Lopes Silva, atual deputado na Assembleia da República. Obviamente, uma presença que simbolicamente marca a ligação continuada do poder executivo e do pelouro da Cultura com a associação, em prol de Guimarães, como bem vincaria o vereador no uso da palavra, que se identificaria com as causas que Osmusiké representam. Em tudo pomos empenho seja qual for a valência Cantar, declamar, teatrar Somos uma referência
Amigos há que nos chegam, amigos há que se vão; os que nos deixam, não o eram os que ficam, firmes são… Fátima Silva
Osmusiké na Feira Afonsina 2025 A Feira Afonsina teve este ano como tema central “A Investidura de D. Afonso Henriques”, evocando um dos momentos fundadores da monarquia portuguesa. Ao longo de cinco dias, o centro histórico transformou-se num autêntico cenário medieval, com recriações históricas, mercados de época, animações de rua e um espetáculo diário, às 22h15, entre o Largo da Oliveira e o Largo da Misericórdia, que deu vida ao momento simbólico da investidura do primeiro rei de Portugal. Osmusiké Teatro, sediado na Praça de Ofícios durante os cinco dias de mercado, tinha como missão a venda de produtos que a terra dava, a ida à igreja e ainda alegrar os visitantes. Foi colocado um pequeno A Investidura de Afonso Henriques no Largo da Misericórdia
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palco na arcada dos antigos paços do concelho onde tentaram divertir o público. Objetivo conseguido como se pôde constatar com os aplausos. Apresentamos algumas imagens do evento: Na Zona das Iguarias, área dedicada ao repasto de toda a população, Osmusiké partilharam os
Osmusiké Teatro in performance de Casamento inusitado
A Trupe Osmusiké com o Mestre Edgar Silva
A Trupe de Saltimbancos de Osmusiké, nos antigos paços do concelho
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“Afonsinhos” confecionados segundo as técnicas antigas. Esgotaram, mas fica a promessa de que para o ano haverá mais.
Osmusiké na tenda dos Afonsinhos
Viver as Gualterianas Viver, sentir e fazer parte das nossas Festas, que são uma referência por conciliarem a tradição com a modernidade é o que Osmusiké tem vindo a fazer desde 2016, com a participação nos números vivos. Em 2023, apresentámos uma proposta à Direção da Marcha, baseada na ideia de Álvaro Nunes e que Osmusiké Teatro estruturara, para a apresentação de um carro alegórico de homenagem ao Teatro Português, que foi aceite. Em 2024, foi feita nova proposta, desta vez, alusiva à comemoração dos 500 anos de nascimento de Luís de Camões, com a colaboração da artista plástica, Madalena Macedo, que, sob a mestria do Senhor Salvador, e de vários obreiros emprestaram o seu engenho e a sua arte a uma tradição secular, na nossa cidade. No ano corrente de 2025 trabalhamos o projeto a comemoração do centenário da inauguração do Café Oriental, que foi inaugurado em dezembro de 1925 e apresentava uma decoração inspirada na civilização
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egípcia tão opulenta e extraordinária que foi celebrado, na altura, pela imprensa local, como um “arrojado empreendimento sem parceiro em terras portuguesas”.
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Concerto Sons de Outono Sons de Outono 2025, em 25 de Outubro, numa data em que a alteração da hora convencional proporcionou que o tempo cronológico retrocedesse 60 minutos e retardasse a retirada a casa, graças à bonomia do deus Cronos e à benevolência da deusa Clio, bem como (indiretamente) registasse no calendário local a mudança no poder autárquico, Osmusiké proporcionaram mais um espetáculo multifacetado de música, poesia e teatro, como só eles sabem fazer, a despeito da “trovoada” momentânea do sistema sonoro, a merecer a intervenção do supremo Zeus. No entanto, um espetáculo no sentido pleno do termo, que homenageou Camilo Castelo Branco no bicentenário do seu nascimento (16 de Março de 1825), com a montagem e encenação conseguida da sua comédia “O Morgado de Fafe em Lisboa”, numa crítica social ao ultrarromantismo e ao convencionalismo amoroso e romântico, que, muito eficazmente seria complementada com a adaptação musical do poema camiliano “Os Meus Amigos” e o esquisso do retrato do escritor, esboçado em simultâneo. Um arranque que nestes Sons de Outono, em crescendo, daria ainda voz a outras vozes, entre a poesia e o canto. Efetivamente, um evento com muita música, quer por parte do Chorus Anima Populi, quer dos Osmusiké Cantares Populares e dos Osmusiké Cantar Guimarães, que a sonoridade rítmica da poesia acrescentaria, ora pelas vozes declamatórias dos mais jovens ora dos adultos.
Imagem referente a um dos espetáculos Sons de Outono, realizados em anos anteriores
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Quadro de imagens recolhidas no Sons de Outono 2025, realizado no Auditórioo Nobre da Universidade do Minho - polo de Guimarães. Vemos uma imagem do encerramento do espetáculo, com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Dr. Ricardo Araújo, e fotos de todos os grupos que participaram no evento. No centro, vemos uma imagem de Salgado Almeida que, ao vivo, executou um retrato de Camilo
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