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OsmusikéCadernos 7 - PARTE I

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CAPA

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OsmusikéCadernos

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1.ª PARTE

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FICHA TÉCNICA Título: OsmusikéCadernos 7 Diretor: Jorge do Nascimento Silva Equipa Redatorial: Jorge do Nascimento Silva; Agostinho Ferreira; Álvaro Nunes; João S. Pereira; J. Salgado Almeida Conceção gráfica: João Silva Pereira; J. Salgado Almeida; Jorge do Nascimento Silva; Agostinho Ferreira; Álvaro Nunes Capa: J. Salgado Almeida Revisão: Agostinho Ferreira; Álvaro Nunes; Jorge do Nascimento Silva; João Silva Pereira Ilustrações: J. Salgado Almeida Local de edição: Guimarães Propriedade e edição: Osmusiké (osmusike@gmail.com - https://osmusike.pt) Escola Secundária Francisco de Holanda; Alameda Dr. Alfredo Pimenta; 4814-528 Guimarães Ano e mês: 2025, dezembro Páginas: 566 ISSN: 2975-8041 Depósito legal: 479669/21 Execução Gráfica: Gráfica Diário do Minho Coprodução: Município de Guimarães Notas:

1 - Todos os artigos que integram OsmusikéCadernos 7 são da responsabilidade dos respetivos autores; 2 - Respeitando a opção de cada um, apresenta-se a ortografia portuguesa com ou sem o acordo ortográfico; 3 - Quando os textos estão assinados com afiliação profissional, os cargos referem-se à data em que os mesmos foram escritos. 4 - A numeração das notas de rodapé é sequencial.

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ÍNDICE

I.

ABERTURA ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 11 Uma cidade que nunca deixa de se (re)construir ---------------------------------------------------------------------------------------------- 13 Domingos Bragança, presidente da Câmara Municipal de Guimarães

Nota de abertura --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 15 Júlio Dias, Presidente da Direção de Osmusiké

Na esteira das edições anteriores ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 16 Jorge do Nascimento Silva, Diretor da Revista

II.

GUIMARÃES – 50 ANOS DE PODER LOCAL------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 19 50 anos entre o Poder Local e a Assembleia da República ----------------------------------------------------------------------------------- 21 Paulo Lopes Silva, Ex-Vereador do Município de Guimarães Deputado à Assembleia da República

Impressões autárquicas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 24 Rui Victor Costa

Democracia e Poder Local --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 31 Raul Rocha

Abril e a conquista do Poder Local Democrático ----------------------------------------------------------------------------------------------- 34 Mariana Silva

Breves notas sobre o poder local em Guimarães em 25 de abril de 1974 --------------------------------------------------------------- 38 José Ferreira Lopes

25 de Abril de 1975, dia das primeiras eleições livres, quando o povo aprendeu a votar em Caldas das Taipas --------------- 54 Carlos Marques

O papel das mulheres na política, no pós-Abril de 1974 ------------------------------------------------------------------------------------- 59 Adelaide Silva

O PODER LOCAL – Um olhar ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 61 António Monteiro de Castro

LORDELO – Impacto da elevação à categoria de Vila: 30 anos de transformação------------------------------------------------------ 64 Junta de Freguesia de Lordelo

PONTE – Impacto da elevação a Vila: Aspetos da sua Identidade -------------------------------------------------------------------------- 68 Junta de Freguesia de Ponte

SÃO TORCATO – 30 anos de Vila e 850 anos de História! ------------------------------------------------------------------------------------ 73 Junta de Freguesia de São Torcato

S. Torcato – Tempos Cruzados ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 76 Teresa Macedo

SERZEDELO – 30 anos da elevação a Vila --------------------------------------------------------------------------------------------------------- 79 Junta de freguesia de Serzedelo

BRITO – 24 anos de Vila ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 82 Junta de Freguesia de Brito

MOREIRA DE CÓNEGOS – 30 anos de elevação a Vila: O que mudou? ------------------------------------------------------------------- 87 Junta de Freguesia de Moreira de Cónegos

PEVIDÉM – Os Pevidenses e os 30 Anos de Vila ------------------------------------------------------------------------------------------------ 93 Junta de Freguesia de Selho São Jorge

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RONFE – 26 anos de Vila ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 99 Junta de Freguesia de Ronfe

A Evolução de Ronfe em Meados do Século XX -----------------------------------------------------------------------------------------------103 António Machado

TAIPAS – 85 anos de Vila ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------106 Junta de Freguesia de Caldas das Taipas

III.

GUIMARÃES – CAPITAL VERDE EUROPEIA 2026---------------------------------------------------------------------------------------------------- 111 Rumo à Capital Verde Europeia 2026 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------113 Adelina Paula Pinto, coordenadora da Candidatura a Capital Verde Europeia e membro da Direção Executiva da CVE 2026.

Guimarães – A jornada Climática rumo à Capital Verde Europeia 2026 -----------------------------------------------------------------116 Carlos A. Ribeiro, Diretor Executivo Laboratório da Paisagem; Dalila Sepúlveda, Diretora de Departamento Ambiente e Sustentabilidade; Isabel Loureiro – Coordenadora Estrutura de Missão Guimarães 2030

PENHA rumo à CVE2026 – O verde mais verde de Guimarães -----------------------------------------------------------------------------120 Roriz Mendes, Juiz da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha

PEGADAS: Uma década de Educação Ambiental nas escolas de Guimarães -----------------------------------------------------------123 Susana Poças Falcão Coordenadora de Educação para a Sustentabilidade do Laboratório da Paisagem

IV.

GUIMARÃES – HISTÓRIAS E MEMÓRIAS ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 127 Guimarães há 100 anos ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------129 Álvaro Nunes

A Identidade Vimaranense: Construção, Evolução e Manifestações ---------------------------------------------------------------------140 Alberto Lameiras

Vicissitudes dos “bairros económicos” na evolução urbana vimaranense --------------------------------------------------------------147 Helena Pinto (CITCEM)

Guimarães – Tradições, Festas e Identidade Cultural ----------------------------------------------------------------------------------------152 Cláudia Martins & Minhotos Marotos

Banda Musical das Caldas das Taipas – 1834-2024 -------------------------------------------------------------------------------------------164 João Ribeiro

Os 150 anos da inauguração do edifício dodecagonal dos “Banhos Velhos” de Caldas das Taipas (1875-2025) --------------172 António José de Oliveira

Mesteres Vimaranenses – Velhas artes que vão desaparecendo -------------------------------------------------------------------------188 Isabel Maria Fernandes

Antes quebrar que torcer! --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------192 Francisco Vieira da Silva

O conflito Guimarães – Braga ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------217 Fernando Capela Miguel

EDUARDO JORDÃO – Um confronto dialéctico em que a glória sobressaiu ------------------------------------------------------------224 Vasco Rodrigues

António da Rocha e Costa (1951-2025) – In memoriam -------------------------------------------------------------------------------------227 Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos

SIMPLESMENTE, NUNO PORTAS, Agosto ‘25 ---------------------------------------------------------------------------------------------------230 Filipe Fontes

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Condecorações do 24 DE JUNHO ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------233 Equipa redatorial

Gala do Desporto 2025 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------235 Equipa redatorial

V.

GUIMARÃES – UMA CIDADE SEMPRE EM CONSTRUÇÃO ---------------------------------------------------------------------------------------- 237 A Inteligência Artificial: Transformação Digital e Perspetivas para Guimarães --------------------------------------------------------239 Dalila Durães

A Inteligência Artificial na Administração Pública ---------------------------------------------------------------------------------------------248 Mariana Queirós Almeida, Jurista (Departamento Jurídico – Câmara Municipal de Guimarães)

Os desafios da Inteligência Artificial na Educação e na Literacia Ambiental dos Cidadãos -----------------------------------------251 Nuno Paula Santos

Bolsa Europeia de Investigação --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------256 Equipa redatorial

Débora Ferreira recebe prémio EMBO Poster Prize na Bélgica ----------------------------------------------------------------------------257 Equipa redatorial

Médico vimaranense vence Prémio BIAL por estudo inovador sobre Alzheimer------------------------------------------------------259 Equipa redatorial

Maria Germano Neto – Uma vimaranense no mundo do Karting -------------------------------------------------------------------------260 Entrevista conduzida por Jorge do Nascimento Silva

Entrevista à Chefe Margarida Carneiro, no centenário do seu nascimento ------------------------------------------------------------266 Entrevista conduzida por Jorge do Nascimento Silva e Chefe Ernesto Machado

25 anos e muitas histórias da Fraterna ----------------------------------------------------------------------------------------------------------274 Manuela Costa e Silva, diretora executiva

20 anos de um realismo intenso e sonhador - CCVF------------------------------------------------------------------------------------------279 Rui Torrinha

CART – Centro de Atividades Recreativas Taipense: Nos 50 anos da sua fundação --------------------------------------------------282 António Lima Pereira, presidente da direção

ARCOV – Uma história escrita a muitas mãos, ao longo de meio século: 50 Anos de Paixão, Comunidade e Transformação -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------290 Daniel Pinto, Presidente da Direção

IPCA – 30 anos a servir a região e a transformar o país--------------------------------------------------------------------------------------294 Maria José Fernandes, Presidente do IPCA

O sucesso do Andebol português também passa por Guimarães -------------------------------------------------------------------------298 Miguel Laranjeiro, presidente da Federação Portuguesa de Andebol

10 anos da Inauguração do Centro de Ciência Viva de Guimarães -----------------------------------------------------------------------302 Júlio Borges

Nos 30 anos do Teleférico da Penha -------------------------------------------------------------------------------------------------------------307 Esser Jorge Silva

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ABERTURA Inserir separador

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Abertura Nesta sétima edição, apresentamos, caro leitor, mais de quinhentas páginas de boa leitura. Temas como como “O Poder Local” e “Guimarães, Capital Verde Europeia” apresentam-se como eixos aglutinadores. Mantêm-se as habituais rubricas sobre o nosso território, sempre em construção, centrado nas nossas coletividades e nas nossas gentes. Do mesmo modo, é dada continuidade ao espaço de Artes e Letras, assim como à rubrica sobre as publicações de obras de autores naturais ou residentes no concelho. Sendo esta revista uma das valências de Osmusiké, foi reservado um espaço para as atividades desenvolvidas por esta associação. Esta não é uma obra narrativa. É antes um significativo número de textos onde prevalece a variedade e a diversidade. Se, por um lado, reflete memórias, por outro, procura projetar-se no futuro. E tem sempre, como principais referências, a terra, as gentes e a cultura local.

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Uma cidade que nunca deixa de se (re)construir Domingos Bragança, presidente da Câmara Municipal de Guimarães

O presente volume dos Cadernos, já na sua sétima edição, representa mais do que um exercício de memória ou de registo documental. É, antes de tudo, um testemunho vivo da contínua construção identitária, cultural, cívica e ambiental do concelho de Guimarães, numa época marcada tanto pela celebração de efemérides significativas como pelo olhar atento e crítico sobre o presente e o futuro. Este volume propõe um percurso que cruza os domínios da política local, da história, do ambiente, das artes e da cidadania ativa.

Revisita os 50 anos do Poder Local Democrático, com depoimentos plurais de figuras marcantes da vida política vimaranense, ao mesmo tempo que recorda os marcos de elevação a vila de diversas freguesias, destacando a evolução territorial e administrativa do município. 13


Antecipa um momento de grande relevância para o concelho: a distinção de Guimarães como Capital Verde Europeia, em 2026. Esta secção articula história, política ambiental e práticas de educação ecológica, revelando como a herança patrimonial e natural se projeta num compromisso com a sustentabilidade. Mergulha nas memórias e histórias locais, resgatando episódios marcantes, como as festas populares, as bandas musicais ou os conflitos históricos, sempre com o cuidado de valorizar a identidade vimaranense em todas as suas expressões. Lança um olhar sobre a cidade em movimento: os projetos atuais, as personalidades em destaque, os feitos associativos, os núcleos culturais, científicos e educativos que constroem diariamente a vitalidade comunitária. As artes e as letras também encontram aqui o seu espaço. Da pintura à literatura, passando pela música e pela poesia, numa secção que espelha a riqueza criativa de Guimarães, abrindo ainda uma janela para o diálogo entre gerações de artistas e escritores. São evocadas figuras maiores da cultura portuguesa, celebrados centenários literários e dadas a conhecer novas vozes emergentes. Por fim, o Espaço Osmusiké dá nota das atividades mais recentes que dinamizam o tecido cultural vimaranense, encerrando o volume com um registo contemporâneo e vivencial. Os Cadernos 7 afirmam-se, desta forma, como uma obra plural e profundamente enraizada na realidade vimaranense, mas sempre com os olhos postos num horizonte mais distante. Esta é mais uma edição que honra a memória, promove o pensamento crítico e celebra a ação cívica e cultural como pilares fundamentais de uma cidade que nunca deixa de se (re)construir.

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Nota de abertura Júlio Dias, Presidente da Direção de Osmusiké

Fundada em 2002 para dar formação na área da música, Osmusiké – Associação Musical e Artística do Centro de Formação Francisco de Holanda – foi expandindo a sua intervenção cultural ao longo dos anos. Atualmente, conta já com valências muito ativas, para além de Osmusiké Cantar Guimarães, como também Osmusiké Cantares Populares, Osmusiké Teatro, Osmusiké Poesia e Osmusiké Cadernos, que concebem e trabalham num espaço criativo cedido pelo Município, nas instalações do Mercado Municipal. Desde há seis anos, Osmusiké tem publicado também conjuntos temáticos de textos e trabalhos sob a denominação de Cadernos. Cada um deles destaca-se por reunir significativas colaborações de autores diretamente envolvidos em acontecimentos de grande relevo para Guimarães. Neste número em particular, o foco recai sobre “GUIMARÃES E O PODER LOCAL” e “GUIMARÃES, CAPITAL VERDE EUROPEIA 2026”, entre outros tópicos, testemunhos e efemérides relacionados com o território e com as suas gentes. Temas que, pela sua grande relevância pública, suscitam reflexões e debates que os Cadernos visam estimular, ao mesmo tempo que se convertem num instrumento de registo para memória futura. É nosso anseio que o sétimo número de Osmusiké Cadernos seja ávida fonte de consulta, tanto para o público em geral como para especialistas, professores, investigadores e alunos, estando assim à altura do apoio financeiro concedido pela Câmara Municipal. Osmusiké Cadernos 7 encarna o desígnio original da equipa de redação, chefiada por Jorge do Nascimento Silva, a quem gostaria de expressar a minha sincera gratidão pelo apoio incansável e sabedoria, sem os quais este projeto não ganharia vida. Por último, agradecemos ainda aos nossos prestimosos colaboradores por toda a dedicação, empenho e saber colocados ao serviço de Osmusiké Cadernos.

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Na esteira das edições anteriores Jorge do Nascimento Silva, Diretor da Revista

Na esteira das edições anteriores, OsmusikéCadernos 7 mantém, como seria de esperar, Guimarães no centro – ainda que para além do Toural. De facto, já contamos sete edições que, longe de ser um produto perfeito dos dias da criação, com descanso ao sétimo dia dos sete dias da semana, contém, todavia, muitas das sete virtudes cardeais e, estou em crer, poucos dos sete pecados capitais. Embora não enjeite o orgulho positivo de manter esta iniciativa, lamento a gula das muitas páginas, que esta edição pretende aliviar com temperança. Assim, neste emblemático número sete, símbolo de alguma renovação e conclusão cíclica, continuamos, porém, polícromos como as sete cores do arco-íris e como as sete notas musicais que dão tom ao nosso trabalho. Ora, desta feita, recordamos algumas Histórias e Memórias Vimaranenses, quer no âmbito da cultura popular, como festas e romarias, quer no âmbito das bandas musicais e do artesanato. Recordaremos ainda o conflito brácaro-vimaranense revisitado por autores das duas cidades. À colação, revisitaremos Guimarães há 100 anos e as nossas vilas, que cresceram e amadureceram sob o sol primaveril do 25 de Abril. São cinquenta anos do poder local autárquico que importa recordar. Guimarães, como cidade sempre em construção, é outra vertente em destaque nesta edição, com especial incidência em mais uma conquista: Guimarães, Capital Verde Europeia 2026. De facto, como cereja em cima do bolo e após várias batalhas travadas com algumas vitórias – como a classificação do Centro Histórico e zona de Couros como Património Mundial da Humanidade, a dinâmica da Capital Europeia da Cultura e a bandeira da Melhor Cidade Europeia do Desporto – a urbe vimaranense alcandora-se no seu castelo, em defesa dos seus valores patrimoniais e do desenvolvimento sustentável, que esta atribuição, agora,

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reconhece. Porém, como é óbvio e useiro, para além do passado, não omitiremos também o presente e a atualidade, quer as ocorrências e os acontecimentos significativos, quer ilustres figuras e protagonistas que, nos mais variados setores, vão construindo o burgo com caboucos seguros. Logicamente, manteremos também as nossas rubricas habituais, particularmente os espaços dedicados à nossa língua e aos nossos escritores, destacando o bicentenário de nascimento de Camilo Castelo Branco – que por cá rompeu solas – e o centenário de nascimento de nomes como José Cardoso Pires Isabel Nóbrega. Outrossim, obras centenárias como “Camões” de Almeida Garrett que introduz o romantismo em Portugal, “Memórias II” do “nosso” Raul Brandão, bem como “Sonetos” e “Poemas de Deus e do Diabo” dos consagrados poetas do saudosismo e do movimento “Presença”, como foram Teixeira de Pascoaes e José Régio. Mas, em matéria cultural – em particular nas artes e letras – contaremos também entre nós com a evocação de Carlos Paredes e a presença do pintor vimaranense Victor Costa, a propósito da sua exposição no Centro Cultural Vila Flor, bem como outros criativos da nossa terra. Igualmente divulgamos e apresentamos alguns trabalhos inéditos de artistas e autores do nosso concelho e continuaremos com as recensões e sinopses das publicações da nossa gente, que, ao longo do ano em curso, vão produzindo. A fechar, como sempre, uma resenha das atividades de Osmusiké ao longo de 2025, em particular das valências teatrais e performativas, musicais e da poesia. Em súmula, mais um trabalho intenso da Equipa Redatorial que conta com uma prestimosa gama de comprometidos colaboradores e a relevante cooperação da Câmara Municipal de Guimarães.

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GUIMARÃES – 50 ANOS DE PODER LOCAL Inserir separador

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Guimarães e o poder local Neste ano de 2025, houve eleições autárquicas e perpassam 50 anos do Poder Local, um dos pontos mais marcantes da democracia e do desenvolvimento, enquanto desideratos e desígnios do 25 de Abril. O desenvolvimento aos vários níveis, demográfico, industrial, cultural, levou não só ao crescimento das antigas vilas como à elevação de várias freguesias a vilas. Justifica-se, por isso, dar a voz a alguns protagonistas desta saga e auscultar as vilas, dando-lhes a visibilidade que merecem nesta construção coletiva. Obviamente, verificaram-se impactos nas coletividades particulares e na estrutura mais ampla que é o concelho.

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50 anos entre o Poder Local e a Assembleia da República Paulo Lopes Silva, Ex-Vereador do Município de Guimarães Deputado à Assembleia da República

O desafio que me é lançado pela Direção desta publicação é que reflita sobre duas marcas muito significativas da construção da democracia portuguesa: os 50 anos do Poder Local e os 50 anos das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte. Esta reflexão, além de ser particularmente interessante pelo que representa para o País e para o seu sistema político, surge num momento simbólico para mim, do ponto de vista político e pessoal. Este ano, no meio caminho entre a tomada de posse das primeiras Comissões Administrativas Provisórias e as primeiras eleições Autárquicas de 1976, e precisamente 50 anos depois das Primeiras Eleições Legislativas, em 25 de abril de 1975, dá-se a feliz coincidência de estar também no meio caminho entre o mandato como Vereador, no Município de Guimarães, e a eleição enquanto Deputado à Assembleia da República. Esta coincidência não acrescenta nada de substantivo à reflexão partilhada, mas acrescenta responsabilidade e honra ao relembrar aqueles que instauraram o poder autárquico em Guimarães e os primeiros eleitos ao Parlamento onde hoje me sento. Por isso, ao recordar José Augusto da Silva, António Emílio Ribeiro, António Ribeiro Martins, José Lopes, Carlos Nave, Aristóteles Nascimento, José Martins Bastos, António Mota Prego ou Joaquim Rodrigues, persiste a responsabilidade pela assunção de funções de serviço público aos vimaranenses. Essa responsabilidade é tanto maior quanto maiores são as conquistas que os sucessivos eleitos, nestes e noutros órgãos do poder autárquico e nacional, foram atingindo ao longo dos mandatos que se sucederam até à data de hoje. E este é o ponto central da reflexão. Começando pelo Poder Local. A constituição das Comissões Administrativas e, dois anos depois, a eleição das Câmaras Municipais, Assembleias Municipais e Juntas de Freguesia foram, seguramente, um aspeto maior da construção democrática iniciada a 25 de abril de 1974, com a revolução. Desde logo, pela representatividade local do poder democrático e pela possibilidade de, de forma livre, escolhermos quem o faz. Não há eleição em que a opção, na hora do voto, esteja tão moldada ao perfil daqueles que iremos 21


eleger – à sua proximidade, ao seu reconhecimento da realidade local e à sua atenção à resolução dos problemas da comunidade. Assim, a possibilidade de os podermos eleger – hoje, aparentemente simples e dada como garantida – foi uma das conquistas mais relevantes de Abril. O mesmo se aplica às eleições para a Assembleia Constituinte, com uma carga menos intensa da dimensão da proximidade, mas igualmente fundamental no que à democracia diz respeito, porque destas resulta a constituição de um Governo livre e democrático. Se o poder democrático da eleição dos representantes é um bem em si mesmo, aquilo que fomos capazes de construir, enquanto sociedade, através desses eleitos não deve ser desmerecido ou dado por ultrapassado. É, aliás, bastante popular, hoje, que se coloquem em causa essas conquistas, se menospreze a construção coletiva destas cinco décadas e se chegue mesmo a colar a imagem destes 50 anos a um retrocesso no nosso País. Saudosistas do tempo da ditadura, sempre soubemos que os tínhamos. Mas hoje esse discurso é acolhido por outros que, ou por distância temporal à época, ou por na realidade não terem vivido esse tempo – nem sobre ele se terem informado –, entendem que os aspetos negativos do tempo em democracia superam a transformação democrática que aqueles anos trouxeram a Portugal. É, pois, urgente que recordemos que é este o tempo do poder das Juntas de Freguesia junto das populações, na resolução dos problemas do dia a dia e na construção de projetos e infraestruturas de resposta à comunidade, de forma ímpar. É este o período do poder das Câmaras Municipais, na crescente resposta, hoje da Educação à Saúde, da Cultura à Economia, do Ambiente às Obras. Foram estes os anos de Governos livres e democráticos que constituíram a Escola Pública, o Serviço Nacional de Saúde universal, a Segurança Social para os pensionistas, a adesão à União Europeia – com os seus fundos de coesão e fronteiras livres –, uma justiça mais transparente, a liberdade de imprensa, os direitos de parentalidade, os subsídios de férias e de Natal, os horários semanais justos ou os salários dignos. É, também, do processo democrático e da Revolução que resulta o fim da Guerra Colonial e a devolução da esperança a tantos jovens que viviam no medo, ou voltavam com marcas psicológicas e físicas para a vida. Se todas estas áreas continuam ainda a ter imperfeições, falhas e faltas, é óbvio e próprio da natureza da construção das sociedades. E é sobre essas imperfeições, falhas e faltas que devemos continuar a operar, a construir e a trabalhar por melhores condições de vida para todos os Portugueses – sem hesitar um segundo sobre o projeto Democrático e as suas virtudes. 22


Foi esse o legado que nos deixaram. E é esse legado que não podemos permitir que os saudosistas do tempo “da outra senhora” e aqueles que querem acabar com o atual sistema democrático destruam. É nessa carga simbólica que ancoro a minha ação nas funções que agora exerço na Assembleia da República e naquelas que tive a honra de exercer no Município de Guimarães, procurando honrar aqueles que há 50 anos foram eleitos pela primeira vez.

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Impressões autárquicas Rui Victor Costa

Após o 25 de Abril de 1974 e até 25 de novembro de 1975, realizaram-se as primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, a 25 de abril de 1975, revelando aquelas que seriam as personagens centrais da política portuguesa durante muito tempo: Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Diogo Freitas do Amaral. Seguir-se-iam, em 1976, um conjunto de eleições que afirmaram, de forma definitiva, a instauração e a força de um regime democrático em Portugal: as eleições para a Assembleia da República (25 de abril), as eleições para a Presidência da República e as eleições regionais na Madeira e nos Açores (27 de junho) e, para completar o edifício democrático, as eleições autárquicas de 12 de dezembro. Completaram-se, assim, no complexo e exigente processo de afirmação e conso-

Eleições para a Assembleia Constituinte, a 25 de abril de 1975. Foto: Alfredo Cunha.

lidação democrática, os alicerces do poder político em Portugal. Sempre gostei de política. Tendo nove anos na altura do 25 de Abril de 1974, cresci e acompanhei através das conversas familiares, mas, sobretudo através dos órgãos de comunicação social, especialmente os jornais, todas as mudanças, contradições e cambiantes da interessante vida política no pós-25 de Abril. Acompanhei com particular interesse as eleições legislativas que deram a vitória à Aliança Democrática, quer a 2 de dezembro de 1979 (eleições intercalares), quer a 5 de outubro de 1980, mostrando-se o país e a democracia capazes de estabelecerem alternâncias e mostrarem uma pluralidade saudável e livre. 24


Sá Carneiro morre em Camarate, dois meses após a sua segunda vitória. Recordo uma discussão com a minha professora de Francês, que não gostou nada, mesmo nada, que eu tivesse sugerido (e insistido) que, no dia 5 de dezembro de 1980, não deveria haver aulas, apesar de não existir qualquer determinação governamental nesse sentido. Nesse meu 11.º ano, em que dispensei, com muito trabalho, dos exames nas disciplinas mais difíceis e nucleares do meu curso, penei até à última, pois essa professora não estava muito disposta a dar-me a merecida nota para eu não ter de fazer o exame de Francês. Divergências políticas, creio. Safei-me graças às diligências incansáveis da minha jovem e estimada professora de Matemática (assim o entendi) do que pelo sentido de justiça da professora com a qual discuti. Ainda por cima, o verão de 1981 foi quente, muito quente mesmo, e eu pude gozar a Póvoa bem mais cedo do que os meus colegas. Em Coimbra, envolvi-me quer através do Conselho de Repúblicas, representando muitas vezes a minha República coimbrã, quer através das listas em que participei para os órgãos de gestão da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), na política. Não propriamente na política partidária, diga-se. Mas a organização de uma ideia e/ou de um conjunto de pessoas e vontades em torno de um objetivo, que passa pelo crivo e pela apreciação de uma votação, só se faz com envolvimento político, mesmo sem que haja uma marca partidária. Na FCTUC, a maior das faculdades coimbrãs, criei uma lista fora das juventudes partidárias que, mesmo não tendo ganho, teve uma votação substancial, o que permitiu servir de charneira em relação às outras listas. Nesse interessante e saudoso equilíbrio, acabei por ser votado, durante dois anos consecutivos, para representar os alunos na Direção da FCTUC. O gosto ficou-me pela conversa, pela negociação, pela responsabilidade da representação. Em Guimarães, por via da candidatura do (muito) jovem Emídio Guerreiro, meu amigo de adolescência e ex-presidente da Associação Académica de Coimbra, entrei nas listas do PSD logo em 1993 e iniciei uma fase de envolvimento político 25

Cartaz do PPD-PSD, desenhado por Augusto Cid, para as primeiras eleições autárquicas.


direto nas eleições autárquicas, que só terminou em 2009 quando acabou o meu último mandato enquanto vereador da Câmara, que iniciei em 2001, tendo cumprido dois mandatos consecutivos, após me ter candidatado à Câmara Municipal, em 2005. Entre 1993 e 2009 foram 16 anos intensos. Exigentes, mas dos quais guardo grata memória. Retenho dessa longa (pelo menos para mim) participação política, sempre contra um PS centralizado na popular (apesar de polémica) figura do Dr. António Magalhães, boas recordações, mas, acima de tudo, a noção do compromisso, esforço e exemplo de cidadania de muitos dos autarcas com os quais me cruzei, alguns dos quais conheci particularmente bem. Aprendi, e sempre o segui, creio, que o exercício da oposição tem tantas responsabilidades como o exercício do poder. Dá um trabalho enorme pois na oposição, não se pode dispor da máquina das autarquias, não se pode executar, mas o exercício responsável do trabalho de oposição controla os desmandos do poder, obriga o poder a contrapor e a tornar-se, por via do diálogo democrático, melhor. A vigilância feita dentro dos órgãos políticos, a existência de novas ideias, contraditório e caminhos distintos, enobrece quem o faz e melhora o exercício do poder. Vivemos, por agora, dias particularmente negros e injustos ao nível político. Não basta existirem partidos que corroem a substância essencial da democracia, desmerecendo-a e pegando aos partidos do sistema uma sanha justicialista amplificada por uma comunicação sem critério, como existe uma hipocrisia generalizada sobre o exercício da atividade política. Eu estive lá, no núcleo da atividade política que as eleições autárquicas representam, vi gente má e sem escrúpulos (como existe noutras áreas da atividade e vida em sociedade, nem mais, nem menos), mas vi muita mais gente boa e dedicada, pessoas que gastam o seu tempo no serviço aos outros, descurando a sua própria família, por amor a uma causa, a uma freguesia, a um concelho. Por vaidade, certamente muitas vezes, mas, fundamentalmente, por acharem que conseguem dar um contributo para melhorar a vida em comum.

Cartazes do PCP para a campanha de 1975. Foto: Giorgio Piredda.

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A vida de um autarca não é propriamente uma festa. É algo que, a maioria daqueles que vociferam contra os autarcas, não aguentaria uma semana da intensa atividade que lhes é própria. E nem sequer falo dos autarcas proficientes, falo de qualquer autarca que, mesmo incompetente, deixa de ter vida própria para atender, de forma contínua, às questões que se levantam, seja ela um toiro desgovernado na freguesia, ou o delinear de políticas económicas ou de integração social. Tudo exige uma disponibilidade ímpar que, só muito poucos, têm capacidade e paciência para dar. O melhor da política são as pessoas. Por muitas desilusões que se tenha, o contacto direto e contínuo com os outros pode ser motivador e inebriante. Às vezes até viciante. Nas freguesias conheci casos exemplares. Desde as filhas de Joaquim Alves de Matos – homem que não cheguei a conhecer –, o pai dos pobres, cuja derrota nas autárquicas de 1985, por um voto, o marcou para sempre, acabando por falecer passados poucos anos depois. A memória e trabalho desse homem foi resgatado, mais tarde, pela filha, Deolinda, que conheço e conheci bem, e que acabou por ganhar a Junta de Santo Estevão de Briteiros em três mandatos consecutivos. Até à Dininha, ali ao lado, em S. Salvador, uma PPD desde sempre, que concorreu várias vezes contra a família, que perdeu e lutou, até se tornar Presidente de Junta (igualmente) em três mandatos consecutivos. Mulheres simpáticas, dedicadas à freguesia, trabalhadoras e determinadas, cuja amizade e exemplo para mim ficaram. E tantos outros, cuja vida profissional e familiar foi sendo prejudicada pela empatia e serviço que devotaram aos seus concidadãos. Quando se reduz a vida política aos desmandos de uns quantos, esquecendo o trabalho de milhares de pessoas em prol do bem comum, é não perceber, ou, pior, não querer perceber, o exemplo que tanta gente dá para a consolidação e afirmação da democracia portuguesa. Muitos dos que desmerecem a política, nomeadamente a política autárquica, seriam incapazes de prestar um centésimo do serviço que aqueles que criticam o fazem. A minha ligação ao PSD tem a ver,

Vista geral do Teatro Jordão com apoiantes do PPD em comício. 27 de janeiro de 1975. Arquivo Municipal Alfredo Pimenta.

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naturalmente, com o meu posicionamento ideológico, mas, fundamentalmente com as pessoas que o representaram ao nível autárquico. Ter a sorte de conhecer e lidar com pessoas como António Xavier, um vimaranense notável, um homem de causas cujo tempo foi tomado no serviço aos outros, apesar de nem sempre devidamente reconhecido por isso, foi e é um privilégio. Pouca gente, em Guimarães, deu tanto do seu tempo a instituições várias como o C.A.R., a Assembleia de Guimarães, o Lar de Santo António, o Vitória, a Muralha, a Oficina, e tantas outras, como António Xavier o fez. Um homem do associativismo, numa altura em que parece já ficção toda esta tão completa dedicação. Um homem divertido e bem-disposto a quem eu, numa ação de campanha, provavelmente em Penselo, já não me recordo bem, ouviu, como eu ouvi, uma desconsideração gratuita atirada por um homem boçal e estúpido. Relembro que entre a desvalorização forçada sobre o que ouviu e a força em querer estar perto dos seus, ele quebrou, retirando-se da ação de campanha, sem azedume. A política tem também isto. Está-se não apenas sujeito à crítica normal e democrática, como ao insulto fácil e mordaz. Nunca o ouvi, no entanto, queixar-se. Aceitava as contrariedades com elevação própria do grande homem que sempre foi. Presidiu à Câmara Municipal de Guimarães por duas ocasiões: de 1979 a 1982 (quando os mandatos eram ainda de três anos) e de 1985 a 1989. Dessas últimas eleições, que ganhou por 102 votos ao PS, dizia-me, com a humildade e boa disposição que sempre o caracterizou, que só ganhou pelos votos da família, precisamente aquela que mais sofria com as suas ausências e preocupações. Outro homem central para a minha ligação ao PSD em Guimarães, foi Fernando Alberto Ribeiro da Silva. Conheci-o muito bem e dei por bem empregues todas as horas em que com ele conversei e debati política e outros assuntos, que ele fazia sempre com superior inteligência. De uma correção e postura ética irrepreensível – às vezes até a raiar o exagero – Fernando

Fernando Alberto em sessão de esclarecimento para as eleições para a Assembleia Constituinte (1975). Na sessão com Eurico de Melo e Amândio de Azevedo (no uso da palavra).

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Alberto foi a pessoa que eu conheci, em Guimarães, mais brilhante e empenhada politicamente. Um homem também do associativismo e de uma total ligação a Guimarães, num orgulho vimaranense que sempre alardeou fora da sua terra. Fernando Alberto não nasceu para a política a 25 de abril de 1974, como muitos outros que do dia para a noite se reclamaram, pomposamente, de antifascistas. Formado em Direito, em Coimbra, em 1954, com apenas 23 anos, participou ativamente na política, então com imensos riscos pela afirmação das suas posições. A vontade de Fernando Alberto em ser um ator da realidade, bem como as longas discussões que manteve com o seu patrono, Francisco Pinto Rodrigues, um advogado com ligações ao PCP, do qual discorda, mas com quem se apercebe da resistência comunista ao regime, forjam um homem atento e interventivo. É neste contexto que, em 1958, se envolve nas eleições à Presidência da República, como apoiante e ativista na campanha do General Humberto Delgado. Conhecerá por isso alguns dissabores e acabará por ter de fugir, após as eleições, para a quinta de uns amigos da família para escapar à polícia política. No entanto, poucos anos depois, é ele a alma e o rosto mais visível da Unidade Vimaranense que, no quadro de um regime não democrático, juntou em frente à Câmara Municipal de Guimarães, em dezembro de 1970, cerca de 20.000 pessoas para reclamarem os seus direitos. Algo de profundamente corajoso e temerário na altura. Funda o PPD em Guimarães, é eleito deputado, logo em 1976, é candidato à Câmara Municipal nas primeiras eleições autárquicas que perde para o PS, tendo, no entanto, alcançado o mesmo número de representantes (3) do que o partido vencedor que levou Edmundo Campos a ser o primeiro presidente de Câmara eleito no pós-25 de abril. Com ele entraram pelo PPD/PSD para a vereação Eurico de Melo e António Faria Martins. A vida cívica e política de Fernando Alberto é rica e prestigiante para si próprio para a terra que sempre assumiu com particular orgulho. Teve vários cargos e nunca chegou a ser ministro porque não o quis. Ser Governador Civil de Braga permitia-lhe, amiúde, ouvir os sinos da Torre de S. Pedro como frequentemente referia, assumindo o seu desprendimento por cargos políticos com maior relevância. Permaneceu um homem inquieto até à sua morte, a 8 de outubro de 2020. Uma inquietação própria de quem acha que a democracia é um instrumento fundamental para a melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos e não, propriamente, um meio de promoção individual. É um exemplo que retive e ainda hoje retenho. Antes da adesão à CEE ser autarca em Portugal era um verdadeiro serviço à causa pública, pois os fundos disponíveis eram exíguos face às necessidades de desenvolvimento e progresso das populações. É neste panorama de tremenda falta de recursos que os homens se entendem e câmaras municipais como a de 29


Guimarães forjam entendimentos mais focados no interesse geral do que em questões partidárias, que permitem, por exemplo, o golpe de asa de se convidar Fernando Távora para desenvolver o Plano Geral de Urbanização da Cidade, entre 1979 e 1982, contra tudo aquilo que então se fazia. Na altura, na febre autárquica que então havia, o crescimento confundia-se com desenvolvimento, e muitas asneiras se fizeram com esse entendimento espúrio. O Plano que, em contracorrente com outras autarquias se fez, marcaria indelevelmente Guimarães e permitiria, também com muita arte e visão política, classificar parte da cidade como Património Cultural da Humanidade. Mais do que as questões partidárias, as questões autárquicas levam a entendimentos de política geral, de bem comum, que, em alguns casos, enobrecem de forma franca e especial o exercício de funções autárquicas. Procurei, na modesta medida das minhas possibilidades, seguir esses exemplos. E tenho, apesar do tempo e preocupações com que inundei a minha liberdade individual, o grato prazer de o ter feito. Respeitar o exercício do poder autárquico é, na primeira linha da sua mais visível utilidade, respeitar a democracia e a comunidade a que pertencemos.

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Capa do Jornal de Notícias no dia seguinte às primeiras eleições autárquicas.


Democracia e Poder Local Raul Rocha

À hora que escrevo esta colaboração para “OsmusikéCadernos 7”, desconheço totalmente se, quando for lida, ela terá qualquer correspondência com a realidade. Nunca como hoje tive tantas incertezas. Fui convidado a escrever sobre o poder local e a democracia, ontem e hoje. Inverto as duas ordens. Primeiro a democracia e depois o poder local; primeiro o hoje que o ontem. Porque são mais importantes. Mas preciso de conhecer o voto dos portugueses nas eleições que terão decorrido, há cerca de três meses, para resolver a minha incerteza. Saber se o voto que pretende “revolucionar”, quero ser “meigo”, a democracia que vivemos há 50 anos e que teve forte expressão em 18 de maio, se confirmou ou não, na sua expressão territorial, nas eleições autárquicas de setembro/outubro passado. Estou seguro do meu pensamento, mas inseguro da correspondência dele com o pensamento global, particularmente com o ideal das novas gerações entre os 18 e os 45 anos, cerca de 30% do povo eleitor. A Revista “Osmusikécadernos” é um espelho muito global do pensamento da comunidade vimaranense. Diversificado nas temáticas, nas ideias, nos alinhamentos. Na sua heterogeneidade ideológica. Mas é menos na heterogeneidade geracional. É pena que assim seja. Porque nunca, neste século XXI, onde estamos, houve tanta diferença, como hoje, nos ideais das diferentes gerações. Um extremar muito significativo de ideias. Como sou “velho”, já vivi uma época semelhante, os anos 60/70 do século XX, onde a juventude acreditava e lutava radicalmente por uma sociedade da igualdade. As outras gerações classificavam esse ideal de “loucura juvenil”. Hoje é ao contrário. As gerações mais novas acreditam, e podem estar certas, que é o sucesso individual, rápido, sem limites, sem preocupação com o outro, que conduz ao máximo desenvolvimento e à criação de maior riqueza. Se, depois, essa riqueza deve ser ou não distribuída, já é outra discussão, e não é preocupação. Superar o outro, sim, é o desafio. Deveria parar aqui nesta introdução, mas não resisto em deixar outra reflexão. Sou do tempo em que as escolas discutiam se as classificações deviam ser por patamares de 1 a 5 e abandonar a clássica 31


classificação de 0 a 20, em todos os escalões académicos. Era inimaginável que a escala classificativa fosse feita por décimas ou milésimas no acesso ao emprego público e à entrada para as faculdades. Quanto é que esta classificação por décimas terá contribuído para a competição de hoje entre os jovens e para a sua formação ideológica do sucesso individual, de superar o outro, e o menosprezo pelo desenvolvimento e sucesso coletivo? Quando, hoje, se verifica o avançar e o sucesso de determinadas ideologias e das suas expressões partidárias, seria bom que não se encontrassem explicações simplistas, como se o partido A escolheu o melhor líder ou se ele foi menos empático nas comunicações televisivas. A raiz das mudanças eleitorais desde América à Europa e a Portugal são, no meu entendimento, bem mais profundas. O Poder local é o território onde a democracia é mais igual e o único onde o comum dos cidadãos tem real acesso. Nos outros patamares políticos, tenho reais dúvidas que o direito democrático de ser eleito seja igual para todos os cidadãos. Vivemos num sistema muito mais de partidocracia que de democracia. Quando os constituintes de 1975 criaram o poder local democrático, não faziam a menor ideia do que poderia ser a democracia local. Por isso, aprovaram uma arquitetura confusa em que nos municípios há um duplo parlamento – a câmara (1.º parlamento), a assembleia (2.º parlamento). Na câmara municipal há diferentes partidos, o que caracteriza os parlamentos, e é onde tem lugar o principal debate entre as diferentes opções. A assembleia repete os argumentos com uma maior diversidade, dado que na sua composição entram pequenos partidos que não conseguem eleger mandatos para a câmara municipal. Há outro aspeto positivo da assembleia municipal, talvez o mais importante. É que nela participam os presidentes de junta de freguesia, o que proporciona que a totalidade do território, da mais pequena aldeia à cidade, esteja lá e os eleitos das freguesias ouvem de viva-voz os argumentos e contra-argumentos, podendo questionar, das políticas prosseguidas, e levam para as suas comunidades o conhecimento da política local que, de outra forma, ficaria fechada a um debate entre as elites da cidade. Se a democracia em Portugal se sustentou até hoje, apesar da completa mediocridade e indigência da classe política no seu topo, foi porque a implantação partidária se fez em todo o território por força da decisão constituinte de reconhecer às freguesias o direito de ser um patamar autónomo do poder autárquico e de lhe garantir presença e voto num órgão municipal. 32


Foi um acaso. Os constituintes até valorizaram mais no texto inicial da Constituição de 1976 as “organizações populares de base” que depressa desapareceram e que hoje são as juntas de freguesias. As principais eleições em voto esclarecido e motivado do povo são as autárquicas. A instituição do estado, que mais confiança popular tem, é a junta de freguesia. Diria, por isso, que devia receber mais competências, mais orçamento, mais recursos humanos, mesmo que para tal fosse necessário criar “associações de freguesias”, consórcios de juntas, quando a pequena dimensão não justificasse funções e encargos. 50 anos passados sobre o poder local, posso escrever que ele está mais sustentado e forte que a democracia de partidos, muito abalada pelos últimos resultados eleitorais. Será que, quando este texto for lido em dezembro de 2025, três meses depois das autárquicas, essa sustentação ficou confirmada? Acredito e desejo que sim.

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Abril e a conquista do Poder Local Democrático Mariana Silva1

O 25 de Abril fez 50 anos e o povo escolheu celebrar enchendo as ruas de sorrisos, de esperança, de gratidão e de apoio à Liberdade. A Revolução que, a 25 de Abril de 1974, culminou a luta do povo português, trouxe-nos a Liberdade nos gestos, nas palavras, nas acções, na construção da sociedade. Trouxe-nos também o Poder Local Democrático, que aproximou as pessoas de uma verdadeira participação cívica. Nesta dinamização do país, dos municípios e das freguesias, tiveram papel de destaque os movimentos associativos e culturais, que impulsionaram a acção cultural, desportiva, recreativa e reivindicativa. Quando somos chamados a celebrar os 50 anos do Poder Local ocorrem-nos três ideias centrais: Em primeiro lugar, a alegria com que foram vividos aqueles dias de grandes mudanças, de esperança renovada, da transformação a acontecer mais depressa que a própria vida. Mulheres e homens a decidirem quem queriam e quem não queriam a governar os seus destinos, mas também a construir uma vida melhor. Poucos dias antes de se celebrar os 51 anos do 25 de Abril, num programa de rádio falavam de dias de incerteza. Nada mais errado. Para lá dos primeiros dias, o que marcou foi a certeza e a confiança num futuro melhor. O primeiro 1.º de Maio em Liberdade, essa extraordinária explosão de afirmação de vontade de um rumo diferente que o levantamento militar iniciara, mas que o povo queria levar mais longe, muito mais longe, foi, ele mesmo, o sinal dessa certeza. Uma certeza e uma esperança dos que nunca ficaram à espera na longa noite fascista e que ali levaram tudo à sua frente. Em segundo lugar, a obra realizada, tantas vezes pelas mãos das populações. Foi preciso, antes disso, pela força e unidade das populações, afastar os regedores que, até ali, eram indicados pelos Governos Civis e que eram, em primeiro lugar, representantes do regime caduco, para, a partir daí, arregaçar as mangas e dar respostas a problemas que tinham atrasos de décadas. Acesso ao saneamento, garantia do direito a um

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Professora e ex-Deputada; membro do Conselho Nacional (CN) e da Comissão Executiva do PEV.

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tecto com dignidade a vastas camadas populares. Abertura de espaços de convívio, de parques infantis, estradas alcatroadas, recolha de resíduos, acesso e promoção do desporto. O Poder Local foi, igualmente, criação cultural, no teatro, na música, na literatura e até no cinema ambulante ou no circo no largo das aldeias. Em terceiro lugar, a participação que ia muito para lá do voto, revelando uma força colectiva desconhecida, com a exigência de mais condições de vida para todos. Uma força colectiva determinante para que se atingissem níveis de progresso tão fundamentais como o abastecimento de água às populações e o saneamento básico. Essa força que obrigou o poder político a assumir certas respostas. Quando a lei afirmou o direito à Saúde, já os médicos à periferia estavam no terreno, quando se decidiu do direito às creches, já as populações erguiam paredes para criar espaços com esse objectivo. Quando a lei criou o Salário Mínimo Nacional já, em muitas empresas, esse direito tinha sido conquistado. Surgiram as respostas para as preocupações mais relevantes para a comunidades locais, como o urbanismo, e o ordenamento do território, a gestão da água, os acessos, a requalificação dos espaços e os equipamentos de interesse local. A proximidade dos órgãos de decisão aos alvos da decisão é determinante, com vista a um processo de desenvolvimento mais harmonioso e consistente. Porém, não só se têm acentuado as políticas contra o Poder Local, de que o processo de transferência de competências ou a recente devolução à ERSAR (Entidade Reguladora dos Serviços da Água e Resíduos) da competência para a fixação de tarifas de água e saneamento são exemplos, como continuam por instituir as Regiões Administrativas para completar o quadro do Poder Local previsto na Constituição da República Portuguesa. Nem tudo foram rosas ao longo destas cinco décadas e foi possível assistirmos a momentos e a decisões políticas que colocaram o papel do Poder Local Democrático em causa. Colocando limitações na sua autonomia ou quando não é respeitada a concretização da Regionalização. O roubo das freguesias em 2013 foi um duro golpe no Poder Local, nas populações, sem as ouvir, sem respeitar a sua vontade e a sua identidade. Decisão política que não abalou aquele que é o pilar da Revolução de Abril e do Poder Local a participação popular, e por isso, as populações não desistiram de lutar pelas suas freguesias, não baixaram os braços e mantiveram-se firmes na luta pela desagregação das freguesias mesmo passando uma década. A devolução, neste início de 2025 de algumas freguesias, foi uma vitória dos que lutaram pelo seu 35


território, pela sua história, recusando, sobretudo, o esquecimento a que muitas freguesias ficaram votadas em detrimento de outras. Relembro a dificuldade que muitas Freguesias enfrentam por não terem as estruturas, nem os meios humanos e financeiros, para fazerem frente à atribuição de competências por parte dos Municípios, em diversas áreas, que surge no processo da chamada descentralização de poderes em que são atribuídas as responsabilidades do Poder Central aos Municípios em áreas essenciais para o desenvolvimento do País. Este é um processo que vai enfraquecer o Poder Local, que vai afundar muitos municípios em dívidas ou aprofundar as desigualdades territoriais. Responsabilizar os Municípios da gestão da Educação, do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social e até da gestão dos Parques Naturais sem o devido envelope financeiro, é condenar os serviços públicos à fragilização e desvalorização. Neste processo de descentralização de poder condenam-se, igualmente, os direitos dos trabalhadores do Poder Local que são essenciais para o seu funcionamento, para o seu desenvolvimento, trabalhadores que conseguem manter a proximidade com as populações sendo o elo entre o trabalho e o poder político. O Poder Local democrático é o caminho para a promoção dos direitos das populações, o progresso das localidades e das regiões a todos os níveis, com uma intervenção orientada pela gestão democrática e participada. Que significa uma ligação às populações, com processos transparentes e com a devida prestação da informação, como um direito. Significa a defesa dos serviços públicos, a valorização dos trabalhadores, das suas condições de trabalho e do seu papel na gestão, tal como o cumprimento dos compromissos assumidos. Promovendo a participação nas lutas grandes e pequenas que se travam no dia a dia em prol de uma vida melhor e pela promoção do progresso. E não nos venham com a conversa de que há eleitos a mais. Alguns, mais saudosos dos tempos da autoridade vazia de conteúdo, usam esse argumento. Que é muita despesa. E que são demasiadas cabeças a pensar. Antes pelo contrário. Foi exatamente essa riqueza de diversidade, essa heterogeneidade no debate e na discussão, que levou a que se encontrassem as melhores soluções. Riqueza, diversidade e heterogeneidade que constitui uma particularidade da dimensão democrática do Poder Local. A colegialidade dos órgãos autárquicos, ao longo destes 50 anos, não apenas tem a virtualidade de garantir que centenas ou milhares de eleitos de forças que ficam em minoria nas Câmaras, assumem responsabilidades e trabalham para o bem comum, como são poucas dezenas as situações de eleições antecipadas por desentendimento entre as forças políticas. 36


O Futuro tem de ser dignificante destas décadas, não permitindo retrocessos e mais ataques ao Poder Local, permitindo que seja possível devolver a participação cívica sem o desencanto que hoje se sente. A falta de informação, a falta de respostas aos problemas das pessoas, a ausência de um envolvimento claro de todos nos processos de desenvolvimento local levou ao descrédito. Devolver ao coletivo não só a força do voto, dar-lhe voz nas questões do ambiente, do desporto, do urbanismo, da mobilidade é garantir que os territórios respondem aos problemas das populações. É urgente que o Poder Local esteja representado com responsáveis políticos que o saibam defender, que sejam a voz do seu território, que não aceitem que há regiões de primeira ou de segunda. As questões ambientais terão também o seu lugar naquilo que serão as políticas locais, as políticas de sensibilização para que a evolução nesta área não se faça apenas nos relatórios, nas medalhas no peito, nos prémios e títulos que são um passo importante, mas que não são representativos da mudança que se pretende. A força do coletivo a que assistimos há 50 anos pode ressurgir nessa mudança essencial para o Futuro do Planeta. Não podemos exigir mudança de comportamentos sem que as pessoas percebam para que servem, não podemos exigir que as pessoas se preocupem com os comportamentos de proteção ambiental, se apesar de trabalharem não conseguem colocar comida na mesa, não conseguem pagar um teto. Cabe ao Poder Local exigir do Poder Central que se garanta a justiça social para que se possa atingir a justiça ambiental. Cada vez mais sentimos as consequências das alterações climáticas, os fenómenos climáticos extremos são uma constante com consequências devastadoras e também, por isso, é essencial que o Poder Local se saiba proteger e prevenir para que as pessoas e os seus bens possam ser preservados. A Revolução de Abril de 1974 foi responsável pelo surgimento da democracia e da Paz que trouxeram consigo uma capacidade de desenvolvimento que se repercutiu no crescimento dos índices de escolaridade da população, na diminuição da pobreza, na melhoria da saúde materno-infantil, da criação do Serviço Nacional de Saúde, da construção de planos ambientais, no acesso ao desporto e à cultura, na conquista de direitos laborais, entre tantas outras questões. De todos e para todos, o 25 de Abril conquistou a Liberdade, consagrou direitos e desenhou-os no plano da igualdade, universalizando-os a toda a população. O futuro exige de nós a continuação deste caminho democrático e de proclamação da Paz que é cada vez mais essencial e não deve ser esquecido. 37


Breves notas sobre o poder local em Guimarães em 25 de abril de 1974 José Ferreira Lopes

No ano passado comemoramos 50 anos do 25 de Abril! Foram “só” 50 anos, mas infelizmente temos já vários milhares de cidadãos portugueses que têm pouca memória do que era o nosso Portugal nesse tempo, designadamente na área do Poder Local. Tomemos o simples exemplo de Guimarães. Será que temos ideia de que a simples distribuição de água potável nas nossas casas não passava além da linha de caminho de ferro que atravessa a estrada em Covas? E que o mesmo se pode e deve dizer nas outras partes de Guimarães? E que mesmo nessas pequenas áreas, mais ou menos urbanas, o tempo de verão era já marcado por sucessivas faltas de água? E tudo o mesmo se passava nas outras áreas essenciais à vida, como eram os esgotos, as recolhas de lixo, a distribuição de luz elétrica, os transportes coletivos, etc., etc. Não pode ser esquecido que nessa data havia mesmo duas freguesias do concelho de Guimarães (Gominhães e Leitões que não tinham uma ÚNICA lâmpada, vivendo de candeias e velas) e que, já depois do 25 de Abril, a população de Leitões veio à cidade de Guimarães numa manifestação de carros de bois, candeias, velas, candeeiros e archotes exigir, em frente à Camara Municipal, o direito a disporem desse bem essencial como era a luz elétrica e a satisfação de outras carências essenciais. O 25 de Abril não foi só a porta a Liberdade para Portugal, mas também, e principalmente, o princípio do desenvolvimento mais elementar. Foi assim que logo em 15 de maio de 1974 a Junta de Salvação Nacional, com a assinatura do General António de Spínola, fez publicar em Diário da República a nomeação da Comissão Administrativa para a Câmara Municipal de Guimarães, presidida pelo Dr. José Augusto da Silva, ilustre advogado, e que era igualmente constituída pelo Dr. António Emílio de Abreu Ribeiro, economista, o Dr. António Ribeiro Martins, formado em Sociologia, o José Faria Martins Bastos, empresário, (pai do atual Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães, Dr. José João Torrinha) o professor do ensino primário Aristóteles do Nascimento, de 38


Vizela, o funcionário bancário do Banco de Portugal em Guimarães Carlos Alberto Nave e o Técnico Oficial de Contas José Ferreira Lopes. Dessa Comissão Administrativa já faleceu a maioria dos seus membros, restando vivos somente três desses elementos: o Dr. António Emílio de Abreu Ribeiro, hoje com 92 anos, o Carlos Alberto Nave, com 88 anos e o autor destas breves linhas José Ferreira Lopes, com 78 anos. A tomada de posse realizou-se nesse mesmo dia, em Braga, no Governo Civil, com as instalações repletas de cidadãos maioritariamente de Guimarães, entre os quais o próprio Presidente do Município até aquela data, o Dr. Bernardino Abreu, que sugeriu mesmo a realização de um encontro na Câmara de Guimarães, que se realizou nessa mesma manhã, para entrega formal das chaves do Município ao novo Poder Instituído, tudo isto perante a presença de todos os funcionários do Município, previamente convidados.

1.ª CA da CMG Da esquerda para a direita: Alcino Machado e Antonino Dias (Testemunhas Oficiais da Comissão Administrativa); Senhora sem identificação; José Lopes; António Ribeiro; Aristóteles do Nascimento; António Emílio; José Faria Martins; José Augusto da Silva

Seguiram-se as nomeações das Comissões Administrativas para as 73 Juntas de Freguesia do concelho, que na altura ainda abrangia Vizela, e arrancou um trabalho fantástico das populações na busca da satisfação das necessidades mais primárias, como simples caminhos, esgotos, abastecimento de água e luz, transportes públicos, etc. Por decisão da Comissão Administrativa da Câmara Municipal (a partir de agora simplesmente CA) nenhum dos seus membros teria qualquer vencimento, mas todos trabalhavam diariamente no Município, 39

António Emílio, Carlos Nave, José Lopes (vivos e de boa saúde)


alguns deles depois de cumprirem os seus horários de trabalho nas suas empresas, reunindo o executivo municipal semanalmente nas tardes das Quartas-Feiras, em sessões públicas, muitas vezes com a presença de cidadãos interessados. Os fins de semana (Sábados e Domingos) eram normalmente utilizados em reuniões com as populações nas freguesias, com cada um dos membros da CA a deslocar-se nas suas próprias viaturas, quase sempre realizadas nos edifícios das escolas primárias, onde se avaliavam as necessidades mais urgentes e se definiam as formas do Município poder ajudar, tanto ao nível de equipamentos como de pessoal técnico. Abriram-se ruas, caminhos, simples acessos que garantissem o socorro em casos de maior necessidade. Foi uma fase fantástica, onde a população em geral se mobilizava com entusiasmo e alegria, muitas vezes mesmo constituindo Comissões de Moradores, na resolução dos seus principais problemas, sempre com o apoio possível do Município. De toda a actividade desenvolvida pela CA merece destaque especial o facto de ter avançado, de forma clara e concreta, para a melhoria da gravíssima situação da habitação, dando início à construção de 2 blocos com 32 habitações na Rua Carlos Malheiro Dias, junto ao antigo Liceu de Guimarães e 16 habitações em Vizela.

Blocos habitacionais (32 habitações) construídos a custos controlados pela CA, na rua Carlos Malheiro Dias

habitações construídas em Vizela pela 1.ª Comissão Administrativa do Município de Guimarães

Os 2 Blocos com as 32 habitações foram construídos a preços REALMENTE CONTROLADOS, e as habitações foram vendidas aos respetivos beneficiários ao preço de custo, tendo sido a seleção de todos realizada 40


por concurso público.

Largo do Toural, em 1974, e as camionetas de carreira que por lá passavam

Quem se lembra ainda dos transportes públicos, designadamente as camionetas de carreira, que estavam todas concentradas na área do Toural ou locais adjacentes, de onde se faziam as partidas e chegadas, designadamente a antiga Empresa de Camionagem João Ferreira das Neves & Filhos, Lda., que tinha o próprio escritório na Travessa junto aos Edifícios da Caixa Geral de Depósitos / Banco Santander? Os autocarros da Empresa João Carlos Soares & Filhos que tinha os escritórios na Rua Paio Galvão (por cima do antigo Mercado), e passavam igualmente pelo Toural, muitas das vezes para prolongar o seu percurso até à Estação da 41


CP. A Empresa Viação Automotora, de/para Braga, e a Esteves, Braga & Andreia, Lda. tinham as sua paragens e partidas junto do Café Milenário. A Cabanelas & Irmão, Lda., a Empresa Amândio de Oliveira e a Mondinense tinham escritórios também em áreas próximas do Toural, mais exatamente no hoje Largo Valentim Moreira de Sá. Ou seja, o Largo do Toural e áreas adjacentes eram totalmente ocupadas com movimentos permanentes de camionetas de carreira, com os consequentes barulhos, quando não mesmo com imensas nuvens de fumo cinzento ou mesmo preto, saídas dos seus antigos motores. A Rua de Santo António, por onde passavam obrigatoriamente uma grande parte dessas camionetas, era sucessivamente inundada de gases e fumos, que entravam mesmo para o interior dos estabelecimentos aí instalados (e a rua era simplesmente a mais comercial de Guimarães). Pois bem! Foi possível aqui realizar uma pequena ou mini revolução, retirando todas as camionetas de carreira desse martirizado Toural e áreas adjacentes, construindo uma Provisória Central de Camionagem na área hoje conhecida como Alameda Alfredo Pimenta, logo a seguir às instalações da Escola Secundária Francisco de Holanda (antiga Escola Comercial e Industrial de Guimarães). Foi um longo trabalho de grande diálogo e colaboração entre todos os operadores de transportes e o Município, totalmente empenhados na melhoria das condições disponibilizadas aos passageiros e à população em geral. O Município assegurou a realização de todas as infra-estruturas desse vasto terreno, pavimentando-o, dotando-o de água, luz, saneamento e abrindo ruas de acesso, enquanto às empresas coube a construção dos escritórios e salas de espera para os passageiros em edifício pré-fabricado. Foi mais um momento de grande união entre todos os empresários enImagem da implantação do projeto na avenida Dr. Alfredo Pimenta

volvidos e a Câmara Municipal de Guimarães.

Esse espaço terminou muitos anos depois com a construção definitiva da actual Central de Camionagem. 42


E vieram as primeiras eleições livres em 25 de Abril de 1975 para eleger os representantes das populações para discutirem aprovar a Lei Fundamental (Constituição da República) que definirá as grandes e estruturantes linhas políticas do Portugal que ainda temos hoje. O primeiro ato eleitoral a que os portugueses foram realmente chamados, onde, também pela primeira vez na Vida as Mulheres passaram a ter direito a votar! Essas primeiras eleições aconteceram no dia 25 de Abril de 1975 e tiveram uma participação fantástica de eleitores! Registou-se mesmo a participação record de 91,6%! Logo de manhã cedo formaram-se longas filas de voto em todas as freguesias, estando todos os membros da CA da Câmara mobilizados para acudirem a todos os locais onde surgissem dúvidas sobre o direito de voto ou outros assuntos relacionados, sempre com a preocupação que tudo corresse com normalidade, como efetivamente aconteceu. Era uma experiência ÚNICA! Para a larga maioria das pessoas era mesmo a primeira vez que estavam a votar, e em Liberdade Absoluta. Estas primeiras eleições livres após o 25 de Abril já indiciavam o sentido de escolha política dos portugueses, mesmo numa perspectiva mais alargada, e por isso a CA da Camara Municipal de Guimarães decidiu poucos meses depois apresentar a sua demissão ao Poder Central para que pudesse ser constituída uma nova Comissão Administrativa, que reflectisse ainda melhor as legítimas opções políticas dos Vimaranenses na área do Poder Local, pois as primeiras eleições Autárquicas só viriam a realizar-se no final do ano seguinte. Mas antes de terminar o seu Mandato a CA cessante fez publicar na imprensa local um Relatório detalhado de toda a actividade por si realizada, prestando assim contas à população em geral, e que aqui se transcreve, para melhor e mais útil apreciação. Mas merece a pena ler com atenção o conteúdo do seu ponto 8 (Freguesias) pois aí é justamente prestada uma grande Homenagem ao Povo de Guimarães, de todo o concelho, que se mobilizou de forma fantástica no novo ambiente de liberdade e ânsia de progresso da sua terra, proporcionados pelo 25 de Abril, e que merece ser justamente aqui recordado (ver relatório anexo a este texto). Surgiu naturalmente a 2.ª e nova CA da Câmara, agora presidida por Edmundo Campos, funcionário bancário, também já falecido, por mim próprio (José Ferreira Lopes) único membro que transitou da CA anterior, por Abílio Costa, estudante, também já falecido, por Joaquim Alves da Costa, empregado de armazém, de Vizela, todos em representação do Partido Socialista, e por Carlos Alberto Sousa Pinto, subgerente 43


bancário e Agostinho Filipe de Sousa, Técnico oficial de Contas, em representação do PPD , e Joaquim Silva, carteiro, na qualidade de Independente com a concordância dos dois partidos. Nas primeiras eleições para o Poder Local, realizadas em 12/12/1976, o Presidente da Câmara eleito foi o Edmundo Campos, em representação do PS, tendo eu próprio, também sido eleito, em representação do PS para a Assembleia Municipal, e como o primeiro eleito com o maior número de votos, presidi à Comissão Instaladora desse Órgão Deliberativo Munici-

2.ª e nova CA da CMG Da esquerda para a direita: Joaquim Silva; Joaquim Costa; Carlos Pinto; Agostinho Filipe de Sousa; José Lopes; Abílio Costa; Edmundo Campos. Créditos: Comissão CMG Arquivo Municipal Alfredo Pimenta; Espólio Simão Freitas 10-2

pal. E tive mesmo a honra, já em Janeiro de 1977, depois das segundas eleições para o Poder Local, de dar posse ao segundo Presidente da Câmara Municipal eleito, o António Xavier, em representação do PPD. Nestes 50 anos depois do 25 de Abril, o desenvolvimento de Portugal foi fantástico, tal o atraso que tínhamos em relação aos outros países da Europa, em todas as dimensões. Mas a grande imagem de marca dessa transformação é particularmente visível ao nível do Poder Local, onde milhares e milhares de autarcas, homens e mulheres, seja ao nível das freguesias ou municípios, criaram um Portugal substancialmente diferente, de muito maior progresso. A terminar, permito-me mesmo recomendar a todos e cada um dos Vimaranenses para dar um pequeno passeio pelas nossas freguesias, mesmo nas mais afastadas do centro urbano de Guimarães, e aí poderão apreciar os seus espaços centrais urbanizados, os equipamentos de uso coletivo, os estabelecimentos de ensino para os nossos jovens, os parques de recreio e lazer, vários aproveitamentos das linhas de água em interessantes locais de praia, etc., etc. Então está tudo feito? Obviamente que Não! Há ainda um mundo de coisas a construir e a realizar, porque felizmente houve uma verdadeira 44


revolução nas condições gerais de ensino dos nossos jovens, e por isso, justamente, o nível de exigência dos cidadãos em geral é claramente superior, e sempre em evolução. ANEXO RELATÓRIO DAS ATIVIDADES DA 1.ª COMISSÃO ADMINISTRATIVA DA C. M. DE GUIMARÃES EM 1974 / 1975

INTRODUÇÃO No dia 15 de Maio de 1974, esta Comissão Administrativa assumiu a responsabilidade da Administração Municipal no exercício de um mandato conferido pelo Movimento das Forças Armadas, como corolário inelutável da urgência em desmantelar o aparelho administrativo fascista. Conscientes de que a lógica do processo desencadeado impunha que a nossa permanência fosse de carácter transitório e de curta duração, logo em comunicado tornado público definimos como objetivos fundamentais a prosseguir: - inventariar as carências básicas do concelho, por freguesias e com a participação das respetivas populações; e - contribuir revolucionariamente para a preparação da democratização da administração municipal. Passamos então a trabalhar em termos de abertura total, quer em relação aos servidores do município, quer em relação a todos os munícipes e instituições e pessoas que nos contactarem. E se definimos e quisemos uma atuação política, fizemo-lo em termos de absoluta isenção partidária. Ainda como Comissão Administrativa, adotamos e conseguimos que funcionasse sempre como órgão colegial: todos e cada um dos seus membros atuaram com iguais poderes, obrigações e responsabilidades e todos renunciaram a qualquer espécie de remuneração, incluindo o vogal que formalmente foi designado como Presidente. Goradas as espectativas da necessária e ansiada descentralização administrativa, pelo menos a curto prazo: esgotadas, no nosso entender, as condições que legitimaram a Comissão Administrativa na administração municipal, no dia 9 de Setembro do corrente ano de 1975, formalizamos o nosso pedido de demissão imediata. Comprometemo-nos, porém, a assegurar o funcionamento da Administração Municipal até ao dia 30 daquele mês de Setembro, se entretanto o nosso pedido de demissão não fosse aceite. O Senhor Ministro da Administração Interna não se pronunciou sobre o pedido de demissão dentro do prazo que havíamos fixado: não se ofereceu, pois, outra alternativa que a de continuar em exercício de funções: por uma razão fundamental: não consideramos correto o abandono puro e simples de funções, e isto esquecendo deliberadamente as implicações de ordem legal que o contrário poderia acarretar. Porém, logo diligenciamos no sentido de que o Senhor Ministro da Administração Interna apreciasse e tomasse posição sobre o formulado pedido de demissão: entre outras entidades, contactamos pessoalmente o Senhor Secretário de Estado da Administração Regional e Local que nos assegurou que a resolução do problema seria rápida. O que é certo, e não podemos deixar de o salientar, até hoje nada nos foi dito oficialmente. Em meados de Novembro último, tivemos conhecimento de que havia sido iniciado o processo de constituição de nova Comissão Administrativa. E estamos certos que o mesmo se concretizará imediatamente. A não ser assim, aliás, então esta Comissão Administrativa teria de rever a sua posição, quanto ao abandono de funções: por não ser justo, correto, legítimo e curial que as circunstâncias impusessem a esta Comissão Administrativa a responsabilidade pela elaboração do Orçamento Ordinário, com a consequente vinculação da Administração Municipal para o ano de 1976 a critérios que eventualmente poderiam não coincidir com os da nova Comissão Administrativa.

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Justifica-se, assim, este Relatório, apenas como elemento informativo dos factos considerados mais significativos e ocorridos desde o dia 15 de Maio de 1974 até à presente data: para os munícipes, que nos julgarão e para a nova Comissão Administrativa, como elemento de análise do que foi conseguido em condições particularmente difíceis e como pretexto para reflecção sobre o muito que não foi possível realizar.

1 – SERVIÇOS INTERNOS Ao iniciarmos o nosso mandato, constatamos a insuficiência do quadro de pessoal a todos os níveis, o que só é explicável pelo facto do concelho de Guimarães continuar, na lógica do regime fascista, classificado como “rural de 1ª”. Mas, para além dessa insuficiência, deparamos também com o desfalcamento desses quadros, designadamente nos C.T.P., cujo não preenchimento se revelava “inexplicável”. Uma das preocupações desta C.A. foi o preenchimento das vagas existentes, quer através de concursos públicos, quer através do recurso ao Quadro de Adidos. Não obstante a necessidade de responder às solicitações de vária ordem por parte dos munícipes, e que em relação a igual período da administração anterior se cifra no aumento de 1.548 processos, não foi possível, por imposição legal, aumentar os quadros que as necessidades impunham. Subordinamos o preenchimento das vagas existentes a um critério pelo qual fossem atendidos os requisitos necessários para o desempenho do lugar mediante formulário oportunamente solicitado aos interessados, embora ultrapassando as exigências de ordem legal, nomeadamente o exame da 4ª. Classe, para os servidores do Município em situação de eventuais, alguns deles com mais de 20 anos de serviço. REMUNERAÇÕES DO PESSOAL Apesar de se reconhecer que os ordenados pagos aos trabalhadores da Camara eram manifestamente baixos, verificamos ainda que grande parte dos mesmos estavam com vencimentos inferior aos máximos permitido por Lei. Na impossibilidade de resolvermos o problema em termos estruturais, limitamo-nos a elevar para aqueles máximos todos os que poderiam ser contemplados. COMISSÃO DE TRABALHADORES A C.A. encarou como realização altamente positiva a constituição duma Comissão de Trabalhadores com a qual sempre procurou manter as melhores e mais estreitas relações de trabalho. REFORMADOS Mereceu-nos particular e cuidadosa atenção o problema dos reformados para estudo do para o qual utilizamos os serviços duma Assistente Social para análise de cada caso. Os resultados obtidos levaram-nos a considerar que a situação económica da quase totalidade dos trabalhadores era extremamente precária, pelo que se nos afigurou desumano prescindir da sua colaboração. Para além do mais, parte deles haviam sido recrutados há longos anos para serviços penosos e recusados pela generalidade de possíveis interessados e com a agravante do próprio salário ser verdadeiramente um salário de fome. Face ao problema do desemprego existente neste concelho, aquela situação foi superiormente exposta ás instâncias competentes que até à data ainda não se pronunciaram. ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA Foi extremamente difícil a situação financeira herdada da anterior Administração, não só pelo montante das dívidas passivas existentes à data da tomada de posse da C.A., como também do montante de facturas em carteira por pagar e não registadas, muitas delas datadas de há vários anos. Para avolumar as dificuldades de gestão financeira, acresce o facto de os Ministérios não terem dotado o Município com

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subsídios de que este carecia, muito embora se tenha consciência que a verdadeira solução do problema está na autonomia financeira, que se impõem seja efectivada com urgência, sob pena de não ser possível responder aos inúmeros e graves problemas que afectam todo o vasto concelho. Foi no entanto preocupação desta C.A. a recuperação do crédito junto dos fornecedores, tendo para o efeito procedido ao rápido pagamento de todos os débitos existentes, com manifesto prejuízo de realizações de maior acuidade, nomeadamente nos meios rurais. Também nos mereceu a melhor atenção a definição de critérios em política de subsídios. De facto norteou sempre esta C.A. a nova política social em que passamos a viver. Paralelamente, a C.A. impôs a si própria uma retracção nos gastos expressa na importância com despesas de representação ao longo de 18 meses, que se cifrou em cerca de 15.000$00, considerando ainda que não se procedeu ao levantamento da remuneração inerente às funções da Presidência e que totalizam no referido período 165.374$00. Apraz-nos dar conhecimento de que a situação financeira do Município é presentemente bastante favorável, reflexo duma administração que procuramos fosse realista e nada demagógica. SERVIÇOS TÉCNICOS DE OBRAS Verificando-se que, pela análise feita, o funcionamento destes Serviços pecava por insuficiências de vária ordem, foram os mesmos objecto de mudanças para local com melhores condições de trabalho, remodelando-se o seu equipamento e procedendo-se ao preenchimento de vagas do Quadro de Pessoal e adquirindo máquinas e demais ferramentas que o Município não possuía e eram indispensáveis para a execução dos trabalhos a cargo destes Serviços.

2 – ENSINO PRIMÁRIO Podemos dizer que a nossa primeira grande preocupação foi a de atender à situação so ensino primário oficial, para o que foi organizado e realizado um inquérito a todas as escolas do concelho. Os resultados obtidos foram de tal modo alarmantes, que, após a sua divulgação e o simultâneo conhecimento das fracas disponibilidades financeiras do Município, se gerou um Movimento de Solidariedade: -

pela iniciativa do Sindicato dos Professores, constitui-se o “FUNDO DE AUXÍLIO ÁS ESCOLAS”, tendo sido angariada a verba de 232.413$10; - pela iniciativa das populações, foram reparadas várias salas de aulas, exclusivamente a expensas daquelas; - ainda pela iniciativa das populações, foram reparadas várias salas de aulas, dando aquelas a mão de obra e o Município os materiais necessários. Mas, para além das dificuldades de ordem financeira, também elas existiam por razões de ordem burocrática, traduzidas na insuficiência de verbas orçamentais e de pessoal para realizar os trabalhos que se impunham com urgência. Recorreu-se, por isso, à constituição de brigadas de trabalhadores desempregados, com os quais se despendeu a importância de 146.733$00, verba esta que saiu na sua totalidade do citado “FUNDO DE AUXÍLIO”. A quantia restante, ou seja, 83.645$10 foi aplicada na aquisição de materiais diversos. Além daquelas importâncias, foi gasta mais de 992.508$70 em obras de conservação e reparação; 66.098$00 na aquisição de material didáctico, e 1.183.651$10 no equipamento do mobiliário. Entendemos dever salientar: -- das 343 salas de aula do concelho, 158 foram objecto de reparação e beneficiação; -- foram electrificadas 78 salas; -- foram abastecidas de água 39 salas;

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-- foram abertas 28 novas salas de aula, com a correspondente criação de 40 novos postos de trabalho. PREPARATÓRIO Apesar de não ser da responsabilidade formal do Município a resolução dos problemas do ensino preparatório, a dimensão das respectivas carências obrigou-nos a dispensar-lhe a melhor das atenções, destacando-se: -

comparticipação financeira para permitir a instalação provisória e funcionamento da Escola Preparatória de S. Torcato; fornecimento de materiais para a construção da cantina na mesma escola; diligências efectuadas para a aquisição de terrenos para a construção das instalações definitivas das Escolas Preparatórias de Pevidém e S. Torcato; diligências para a concretização da construção das novas instalações para a Escola do Ciclo Preparatório da cidade, tendo-se verificado já a adjudicação da respectiva empreitada; trabalhos diversos de beneficiação das instalações das Escolas dos Ciclos Preparatórios de Vizela e Taipas; colaboração de vária ordem prestada a Escolas do Ciclo Preparatório da cidade, sempre que solicitada e em termos de soluções de recurso, determinadas sobretudo pela notória precaridade e insuficiência das instalações.

SECUNDÁRIO E MAGISTÉRIO PRIMÁRIO Foram executadas as obras de infraestruturas da área da Quinta da Veiga em que foram instalados os Pavilhões com os quais se despendeu cerca de 1.000 contos: e obras de beneficiação e adaptação na Escola do Magistério Primário, com vista à criação de mais salas de aulas. SUPERIOR Criada a Universidade do Minho, estivemos permanentemente atentos ao evoluir do problema: numa primeira fase, fornecemos soluções para a instalação provisória dos Cursos de Engenharia, as quais foram perfiladas pela respectiva Comissão Instaladora: e numa segunda fase, defendemos a construção da Universidade do Minho, realizada em “Campus Universitário”, a instalar na zona das Taipas, com base no estudo especializado da “PROFABRIL” e da aludida Comissão Instaladora. Neste momento, a resolução do problema encontra-se numa posição que julgamos irreversível e de interesse para Guimarães e para a Universidade do Minho; os Cursos de Engenharia vão mesmo funcionar em Guimarães.

3 – APOIO ÀS INSTITUIÇÕES E ATIVIDADES DIVERSAS CULTURA Na emergência da Biblioteca Pública da Fundação Caloustre Gulbenkian deixar de funcionar em Guimarães, a Comissão Administrativa assumiu o encargo de garantir a sua continuidade, instalando-a no edifício dos Antigos Paços do Concelho, aqui e agora com possibilidades de prosseguir um conjunto de actividades culturais, já programadas e iniciadas. Para além disto e da realização de exposições de pintura e de gravura, a actividade cultural do Município esteve dependente de iniciativas particulares, ao nível de Associações e Bandas Musicais, que esta Comissão Administrativa subsidiou, na medida das disponibilidades financeiras e do interesse das realizações propostas. DESPORTO Houve a preocupação de, na medida do possível, fomentar o desporto de massas. E, assim, subsidiaram-se todas as Associações Desportivas que recorreram ou solicitaram o apoio do Município, com particular incidência para as pequenas associações ou clubes populares; facultou-se a livre utilização do estádio municipal, sempre que possível e solicitada; apoiou-se monetariamente o ensino gratuito de natação, para as crianças do ensino primário do concelho, numa iniciativa da “Unidade – Sociedade de Empreendimentos, SARL”.

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ASSISTÊNCIA E CORPORAÇÕES DOS BOMBEIROS Em termos de assistência, entendemos dever realçar o substancial aumento dos subsídios concedidos ao Lar de Santo António e Centro Juvenil de S. José. Quanto às Corporações de Bombeiros, por um elementar sentido de justiça e de reconhecimento das carências com que se debatem, entendeu-se dever actualizar os subsídios habitualmente concedidos. Assim, e por comparação: em 1974 foram orçamentados e concedidos subsídios no montante global de 233.000$00; em 1975 foram orçamentados e estão ou vão ser pagos subsídios no montante global de 682.000$00. Houve também a séria e justa preocupação de actualizar os montantes por que estão seguros os Bombeiros do Corpo Activo das três Corporações do concelho: solicitadas e obtidas dos respectivos Comandos as propostas de actualização, aguardando-se apenas que as Seguradoras se pronunciem sobre elas.

4 – SANEAMENTO – SERVIÇOS DE LIMPEZA E SANIDADE É conhecida de todos os munícipes a situação deplorável em que se encontram, desde sempre, as áreas da cidade não servidas ainda pela rede de esgotos, com particular incidência em zonas degradadas e onde habitam populações economicamente mais desfavorecidas. Incompreensivelmente, foi-se desenvolvendo a instalação da rede de esgotos por prolongamento de troços, sem que fossem criadas as condições de recepção e escoamento, podendo afirmar-se, como consequência de tão estranha medida, que as duas linhas de água denominadas Ribeiro de Couros e de Santa Luzia, que deveriam constituir elementos aprazíveis e de valia a integrar em planos de renovação há muito tempo reclamados, sempre funcionaram e funcionam como autênticas valas de esgoto, correndo a céu aberto pelo interior da cidade. Crê-se que um problema de tamanha acuidade e que desde a primeira hora mereceu séria preocupação da C.A., só pode ter solução satisfatória e definitiva quando se concretizar finalmente o Projecto Geral do Saneamento da cidade. Assim, conseguiu a C.A. desbloquear o processo em que se encontrava o referido Projecto Geral, tendo remetido para aprovação superior os Estudos Prévios do referido Plano e no qual se prevê a “recuperação” do Ribeiro de Couros e duas estações de tratamento de esgotos em locais previstos na zona da Pisca e Pevidém. Trata-se de uma obra complexa e de grande volume financeiro, mas que poderá concretizar-se por fases. Igualmente foram remetidos para as entidades competentes, para o efeito de comparticipação imediata, os projectos de saneamento a executar a curto prazo das zonas de Covas, Monte Largo, Salgueiral e Trás-Gaia. Entretanto, prosseguiu-se com obras de prolongamento da rede já existente e com as quais se despenderam cerca de 1.600.000$00. SERVIÇOS DE LIMPEZA Melhorou-se sensivelmente a situação a todos os títulos deplorável que se vivia na cidade quanto à recolha dos lixos. Analisadas as causas, deparou-se à C.A. uma grande insuficiência de equipamento, quer em veículos de recolha, quer em dispositivos de contenção e outros. Procedeu-se à aquisição imediata de mais um camião usado e mais tarde, mercê da comparticipação oficial para o efeito solicitada, conseguiu-se outra viatura extraordinariamente mais eficaz e algumas dezenas de contentores que se localizaram em pontos em que se impunha uma maior cobertura de depósito e recolha. Prevê-se ainda no início do próximo ano um segundo escalão de comparticipação de mais unidades e que, uma vez operacionais, resolverão satisfatoriamente o problema dos lixos da cidade e outras áreas urbanas e suburbanas, já alargadas e a continuar a sê-lo com tal benefício.

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Evidencia-se, porém, o facto de que os resultados desejados e que tais medidas procuram atingir, não serão conseguidos se, por parte das populações, não houver realmente o propósito de uma consciente colaboração na resolução de um problema que tão directamente lhes diz respeito. SANIDADE Incluída num plano de prevenção e ataque a situações potenciais de doença que, na generalidade afecta determinados aglomerados urbanos e onde as condições sanitárias são das mais precárias, procedeu-se, durante o Verão de 1975, por uma firma da especialidade, a uma eficiente operação de desratização da cidade e das vilas das Taipas e Vizela e com a qual se despendeu cerca de duas centenas de contos. Paralelamente e perante muitas centenas de pedidos de vistorias sanitárias por parte dos munícipes, deu-se seguimento à execução de obras necessárias por parte de proprietários particulares, relativamente a fogos arrendados e cujas condições sanitárias e de habitabilidade impunham tais medidas.

5 – TRÂNSITO Os graves problemas de trânsito que afectam a cidade de Guimarães, designadamente na sua parte mais central, só poderão ser resolvidos com a construção de vias de cintura, tais como a ligação das estradas nacionais de Braga e de Famalicão à Rodovia e de Fafe a Braga. Nesse sentido, apresentou já esta C.A. às entidades competentes um projecto para resolução do problema da ligação à Rodovia que se espera seja aprovado durante o ano de 1976. De qualquer modo, a urgência em encontrar soluções imediatas levou a encarar uma solução provisória para a Central de Camionagem, a fim de minorar os graves congestionamentos de transito nas zonas centrais da cidade, para o que contou com apoio e compreensão das empresas de camionagem. Com vista a facilitar a articulação de transito na cidade, está a ser efectuado estudo para a sinalização luminosa (semáforos) nos cruzamentos das Ruas Gil Vicente e Paio Galvão e que se poderá concretizar dentro dos próximos dois meses. Com o objectivo de servir outras áreas populacionais, procedeu-se ao prolongamento da rede dos transportes urbanos.

6 – HABITAÇÃO E URBANISMO HABITAÇÃO SOCIAL O problema da habitação, no que se refere à população economicamente mais desfavorecida e a exemplo do que sempre se verificou em todo o país, revelava-se também em grave agressão social, não só na cidade, como também em todo o concelho. Embora neste momento a situação continue sem alterações concretizadas, apraz à C.A. evidenciar os seguintes projectos de construção já em curso, e que uma vez concluídas, minimizarão substancialmente a falta de habitações sociais: -

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Após adjudicações feitas pelo Fundo de Fomento da Habitação, está sendo dado início às obras de construção do Plano Integrado da Conceição, que comportará cerca de 1.000 fogos e outros edifícios de apoio e cujo processo se arrastava havia já vários anos; Com empréstimo contraído para o efeito junto do Ministério das Finanças e por intermédio do Fundo de Fomento da Habitação, encontra-se já em curso a construção de 32 fogos em Guimarães e 16 fogos em Vizela; Em seguimento de múltiplas diligências com o Fundo do Fomento da Habitação aguarda-se para muito breve a construção do chamado “Bairro da Coelima” a levar a efeito por aquele F.F.H. em terrenos oferecidos por esta firma.

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URBANISMO Neste aspecto a cidade está extremamente carecida de planos pelos quais se possibilite o “rasgamento” da cidade, de modo a oferecer as mais benéficas implicações no campo da expansão da construção e circulação diária. Algumas medidas tinham sido já tomadas pela anterior Administração, tendo sido possível a esta C.A. dar seguimento a estas e promover outras, a saber: -

Foi remetido para aprovação superior o Plano de Urbanização da zona compreendida entre as Avenidas D. Afonso Henriques e D. João IV: Idem, idem, o Plano Rodoviário de ligação da Rodovia /Castanheiro) à estrada de Braga (Atouguia) com nó de ligação e variante da inserção na Estrada para Pevidém; Encontra-se em fase adiantada a elaboração do processo relacionado com a aquisição e arranjo dos terrenos destinados à feira semanal e outros fins, localizado a Nascente do Largo da República do Brasil; Estão em curso as obras de prolongamento da Rua Dr. Carlos Malheiro Dias com ligação à Rua Calouste Gulbenkian; Solicitados por entidades particulares, foram cedidos terrenos no Município para a construção de dois parques infantis, localizados um na zona envolvente do Estádio e outro a Poente da Igreja dos Santos Passos. A sua construção não constitui encargo para o Município e serão de utilização pública. Por parte da Direcção de Estradas, assistiu-se, finalmente, à adjudicação e execução das obras de alteração e beneficiação da zona da Estrada junto à Atouguia.

7 – ELETRIFICAÇÃO Dada a vastidão e categoria “Rural” deste concelho, verificam-se grandes manchas populacionais que não usufruem ainda os benefícios da luz eléctrica. Não obstante, vários trabalhos de instalação de energia foram concluídos, estão em curso e também em fase de adjudicação, todos concretizados em zonas urbanas e rurais, Urbanas: -

Está em curso a electrificação e execução de obras complementares em loteamentos promovidos por entidades particulares e por constituírem encargos do Município assumido pela Administração anterior; O valor de tal encargo é de cerca de 1.200 contos; Executadas algumas instalações em arruamentos da cidade, com as quais se despendeu cerca de 200 contos; Rurais, O maior volume de gastos neste sector teve aplicação nos meios rurais, facto que muito apraz à C.A. evidenciar. Assim, em iluminação de caminhos, lugares e escolas em diversas freguesias do concelho, fizemos instalações no valor global de 4.500.000$00. De salientar que para além das comparticipações oficiais, de modo geral, as populações contribuíram monetariamente de maneira substancial, possibilitando assim a execução de obras de tão elevado valor. Paralelamente sempre se diligenciou no sentido de serem concretizados outros projectos que aguardam aprovação e comparticipação oficiais e que se prevêem para o início do próximo ano.

8 – FREGUESIAS Recolhidos os resultados do inquérito realizado a todas as Comissões Administrativas das Juntas de Freguesia após a sua tomada de posse, deparou-se-nos uma panorâmica de carências verdadeiramente confrangedora. Na verdade, grandes áreas do concelho ofereciam uma situação de completo abandono e algumas delas reclamavam há muitos anos a beneficiação de um caminho, uma escola, um fontanário, ou um simples lavadouro público, mas sem qualquer resultado. As impossibilidades de respostas imediatas por parte do Município, foram logo reconhecidas e confessadas com o maior

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realismo às populações que, com o início de uma nova era oferecida pelo 25 de Abril, acreditaram ou pelo menos pensaram que, finalmente, todos os graves problemas que os flagelaram ao longo dos anos iriam realmente ser solucionados. Houve que utilizar todos os recursos disponíveis, financeiros, técnicos e humanos e também muita imaginação para encontrar, pelo menos, soluções de recurso. Estas só poderiam pôr-se em prática com a colaboração das populações. Consciencializadas de que a herança do fascismo possibilitou a denúncia de toda a sorte de carências e injustiças gritantes, as populações cedo compreenderam e aceitaram que a solução dos problemas de todos só poderia encontrar-se na colaboração de todos. E foi assim que, numa formidável vontade de ajudar e perante o reconhecimento da impossibilidade do Município para poder responder, só por si, em termos que pudessem dispensar a colaboração das populações, foram estas a tomar a iniciativa do arranque das soluções para os casos considerados muito urgentes e em que a C.A. colaborou essencialmente com o fornecimento de materiais, máquinas e um outro subsídio possível. Alguns subsídios oficiais permanente e firmemente reclamados e finalmente recebidos para o efeito, permitiu igualmente a execução de obras, algumas por administração directa e outras por adjudicação após concurso público. Como estimativa, poderá apresentar-se que o valor dos trabalhos executados e em curso e relativos a beneficiação de caminhos, pontões, construção, ampliação e elaboração de projectos de cemitérios, troços de saneamento, exploração e condução de fontanários, lavadouros, etc., orça pelos 23.500.000$00.

9 – DIVERSOS Gabinete do Vale do Ave: Visando a descentralização de Serviços e a solução mais abreviada de problemas que individual ou colectivamente, afectam os concelhos de Guimarães, Santo Tirso e Vila Nova de Famalicão, foi solicitada e superiormente decretada a criação do Gabinete do Vale do Ave, o qual se encontra já em funcionamento e localizado em Riba d’Ave. Construção do Novo Hospital: -

Solicitada ao Município a indicação de terrenos destinados à construção do Novo Hospital Distrital, remeteu-se para aprovação superior a indicação de parte do terreno da Quinta dos Pombais, propriedade do Município, e inicialmente destinado para o quartel. Pelas informações colhidas, aguarda-se para breve, e no caso do referido terreno merecer aprovação, que a obra será objecto de inclusão em próximo Plano. Valorização da Zona da Oliveira: -

Prosseguiu-se a execução das “Obras de Reintegração, Adaptação e Valorização do Conjunto Residencial do Largo da Oliveira, Viela dos Açoutados e Rua de Santa Maria”. Polícia de Segurança Pública: Procedeu-se à remodelação das instalações onde se encontra a PSP com obras que continuam em curso e com consequente fornecimento de material de equipamento exigido pelo exercício de natureza judicial que competem agora à referida Corporação.

Guarda Nacional Republicana: -

Concederam-se novas instalações à GNR em prédio do Município, as quais, ao contrário das anteriores, oferecem agora um mínimo de segurança, higiene e condições de trabalho.

Fazenda Nacional: -

Reinstalaram-se os Serviços da Fazenda Pública e Tesouraria das Finanças após o incêndio no edifício onde funcionavam anteriormente, com grandes encargos para o Município na parte que respeita ao preço de ocupação

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cobrada pela Direcção do Lar de Santa Estefânia Parque Industrial de Briteiros -

Por Decreto nº 682/74, de 30 de Novembro de 1974, foi finalmente concretizada a localização do Parque Industrial.

Esta C.A., entidade a quem estava confiada a administração e defesa dos verdadeiros interesses do Município, deu, em devido tempo, conhecimento público quanto à posição tomada na oportunidade e pelo qual os munícipes ficaram esclarecidos com a posição firme e isenta demonstrada por esta C.A. nas várias diligências efectuadas junto dos vários Departamentos que intervinham no processo. Decretada a localização do Parque Industrial, fez-se apelo à constituição de uma Comissão com a finalidade de dinamizar as populações e possíveis investidores, tendo em vista, para tal, o lançamento de uma Associação Industrial, sugerindo-se, inclusive, a realização da Feira das Indústrias da Região.

Apraz-nos aqui expressar o nosso mais vivo reconhecimento aos trabalhadores do Município que desde a primeira hora connosco colaboraram franca e lealmente e sem os quais não teria sido possível alcançar os resultados de algum modo conseguidos. Cumpre-nos também endereçar a todas as Entidades que ao longo do nosso mandato nos prestaram colaboração, quer de críticas, a nossa profunda gratidão, solicitando-lhes a melhor compreensão para tudo aquilo que não pôde ser feito. Guimarães. 4 de Dezembro de 1975.

A Comissão Administrativa2, António Emílio de Abreu Ribeiro António Ribeiro Martins Aristóteles Soeiro de Nascimento Carlos Alberto da Nave José Augusto da Silva José Faria Martins Basto José Leite Ferreira Lopes

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Esteve em exercício até 8 de Abril de 1975

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25 de Abril de 1975, dia das primeiras eleições livres, quando o povo aprendeu a votar em Caldas das Taipas Carlos Marques

Estas eleições tinham como objetivo, precisamente, escolher em cada distrito eleitoral os cidadãos que melhor serviriam para debater, na Assembleia da República, os textos da lei principal do nosso país: a Constituição. Desde logo os eleitos só poderiam ser pessoas integrantes de Partidos Políticos, como ainda hoje é para a Assembleia Legislativa, e a Lei eleitoral publicada em 15/11/1974 proibia a candidatura de certos serventuários do regime anterior (1926 a 1974). A liberdade apenas tinha acontecido um ano antes, não impedindo, em tão pouco tempo, de surgirem 14 forças partidárias, das quais 10 se candidataram ao nosso distrito de Braga, com o processo constituído e legalizados, com militantes de base, donde escolheram para as listas os seus melhores. Estávamos em pleno PREC (Período Revolucionário em Curso) e o povo, ávido de liberdade, manifestavase na rua, nos cafés, nas fábricas, nas oficinas, nas escolas, em qualquer sítio onde as pessoas se encontravam. Os muros, as paredes, e, até as estradas eram pintadas com as mais variadas frases políticas, e as lapelas de cada um serviam para propagandear os partidos políticos que saíam da clandestinidade, como o PCP, o MDP/CDE e o MRPP. O suporte mais barato veio a ser o Autocolante, para dar a conhecer um partido político, que se colocava também nos carros e nos cadernos escolares. O autocolante servia também para cada partido divulgar as suas iniciativas, comícios, congressos, seus ídolos, lutas sindicais, comissões de trabalhadores, cooperativas, bem como suas células e grupos de base No tempo de uma liberdade acabada de inaugurar, construir uma democracia era tarefa complexa. Era difícil o entendimento global sobre as bases em que ela se deveria fundar e, havendo muito a fazer e muita pressa, o Autocolante revelou um papel essencial. Foram muitas as sessões de esclarecimento e os comícios que os políticos levavam a cabo em todas as freguesias para, a 25 de Abril de 1975, podermos ter escolhido os deputados à Assembleia Constituinte, que viriam a ter os seguintes resultados eleitorais no Concelho de Guimarães, então ainda com Vizela: 54


PS - Partido Socialista

27.962

PPD - Partido Popular Democrático

18.144

CDS - Partido do Centro Democrático Social

9.899

MDP - Movimento Democrático Português / CDE

2.914

PCP - Partido Comunista Português

2.555

FSP - Frente Socialista Popular

765

MES - Movimento de Esquerda Socialista

626

FEC - Frente Eleitoral de Comunistas (Marxistas-Leninistas)

494

PPM - Partido Popular Monárquico

480

PUP - Partido de Unidade Popular

656

De realçar que é das listas de Braga que sairia um dos mais distintos constitucionalistas portugueses, Jorge Miranda, eleito pelo PPD, que viria a colaborar na lei fundamental de mais 4 países. Também daqui saiu o destacadíssimo político de âmbito nacional do CDS, Adelino Amaro da Costa. Da mesma forma integraram as listas figuras muito importantes no panorama político nacional, como Armando Bacelar, do PS, Carlos Costa, do PCP, e o vimaranense Joaquim Santos Simões, pelo MPD/CDE. O processo revolucionário lá continuava, mas foi perdendo força quando a 25 de Abril de 1976 elegíamos os nossos representantes, agora já para a Assembleia Legislativa, para passados apenas 2 meses termos

Edital da CNE com 1,5 metros de alto por 0,8 de largura, afixado nas sedes das juntas ou nos adros das igrejas. Na imagem apenas a parte superior

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sufragado o 1.º Presidente da República, a 27 de Junho de 1976, eleito pelo volto popular. Não passaram sequer 6 meses, fomos novamente às urnas, a 12 de Dezembro de 1976, para escolhermos os nossos representantes locais para a Junta e Assembleia de Freguesia, para a Câmara Municipal e para a Assembleia Municipal.

Imagens dos editais com os resultados eleitorais obtidos na freguesia de Caldelas, para a Assembleia de Freguesia, a Assembleia Municipal e a Câmara Municipal

De realçar que os poderes da Junta de Freguesia ficaram os mesmos das Juntas Paroquiais do anterior regime, ou seja, confinavam-se à gestão do cemitério e dos caminhos vicinais, além da emissão de Declarações e Atestados e da Emissão d Licenças para cães de caça e de luxo. A Lei das Finanças Locais, publicada no ano de 1976, beneficiou e muito a Gestão dos Municípios alocando-lhes recursos financeiros muito significativos, mas deixando as Juntas de Freguesia pior do que estavam antes. O aqui autor teve uma profusa intervenção cívica nos dois primeiros anos da Revolução dos Cravos, de que guarda algumas imagens. Ex.: quando em 29 de Abril de 1974 recebeu no centro da vila a coluna militar do R8 a caminho de Braga, empunhando um Cartaz feito em cartão com os dizeres “ABAIXO O FASCISMO”.

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29 de Abril de 1974 - o autor recebeu, no centro da vila das Taipas, a coluna militar do R8 a caminho de Braga, empunhando um Cartaz feito em cartão com os dizeres “ABAIXO O FASCISMO”

O 1.º Ministro dos Governos Provisórios (II a V) no período de 18/Julho de 1974 até 19/Setembro de 1975, Vasco Gonçalves, considerava que: “Hoje põe-se este problema, sem dúvida nenhuma. Só há 2 vias alternativas: Ou se está com a Revolução ou se está com a reacção; Não há 3.as vias, nem há neutros aqui, não pode haver neutros!”

Na qualidade de Animador Cultural e Desportivo e das actividades que coordenava localmente nos anos 70 ao serviço do Grupo CAJAS, mais tarde integrado no CART-Centro de Actividades Recreativas Taipense, no âmbito da DGD e do FAOJ, como, entre muitas, são reflexo a IMAGEM 1 (Caldas das Taipas) + IMAGEM 2 (Chafé numa brigada de Trabalho e Alfabetização: de manhã com os miúdos da escola primária; de tarde 57


como trolha na construção do cemitério local que levou à independência de Chafé desagregada de Anha, e à noite com adultos na Campanha de Alfabetização.

IMAGEM 1: O autor na qualidade de Animador Cultural e Desportivo + IMAGEM 2: numa brigada de Trabalho e Alfabetização

As imagens que se seguem são de originais que desses tempos fui guardando. Da minha colecção de Autocolante, de quando todos andávamos com um Autocolante ao Peito, e do cdCT - Centro de Documentação de Caldas das Taipas.

Autocolantes dos Partidos e Forças Políticas candidatas em Braga às 1.as Autocolantes de Candidatos à 1.ª eleição livre do Presidente da República Portuguesa eleições livres

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O papel das mulheres na política, no pós-Abril de 1974 Adelaide Silva

A evolução do papel das mulheres na política, desde o 25 de Abril de 1974, data da Revolução dos Cravos em Portugal, é uma história de avanços e conquistas importantes. Após a revolução, que marcou o fim do regime ditatorial e a instalação da democracia, as mulheres passaram a ter mais espaço e voz na política e na sociedade. Ao longo dos tempos, houve uma crescente participação feminina em cargos políticos, com a implementação de leis que promoviam a igualdade de género e a representação feminina. A presença de mulheres em órgãos legislativos, como o Parlamento, aumentou significativamente ao longo do tempo, refletindo uma sociedade mais inclusiva e democrática. Durante demasiado tempo, a política foi pensada e exercida como um território predominantemente masculino, onde as mulheres eram, na melhor das hipóteses, convidadas — raramente protagonistas. Mas o tempo da exceção terminou. Vivemos uma era em que a igualdade de género não pode continuar a ser um ideal adiado. As mulheres têm não só o direito, mas a legitimidade e a responsabilidade de ocupar lugares de decisão. Porque onde não estão representadas, as suas necessidades e visões tendem a ser esquecidas ou desvalorizadas. Além disso, movimentos femininos e organizações da sociedade civil desempenharam um papel fundamental na luta por direitos iguais, igualdade salarial, combate à violência de género e participação política. Hoje, as mulheres continuam a conquistar espaços e a lutar por uma representação mais equilibrada e justa em todos os níveis de poder. Numa junta de freguesia, ser Presidente não é apenas uma função administrativa. É um lugar de escuta, de proximidade, de liderança comprometida com quem vive e sente o território todos os dias. E quem melhor do que as mulheres, que historicamente têm sustentado redes de cuidado, organização e solidariedade, para assumir esse papel com coragem, inteligência e visão. É uma responsabilidade que envolve liderar, ouvir a comunidade, tomar decisões que beneficiem toda 59


a população e promover o bem-estar de todos. O exercício da função de presidente exige que atue como um facilitador, procurando soluções para os problemas, que incentive à participação, que garanta transparência e que trabalhe pelo desenvolvimento sustentável da sua comunidade. As obras são importantes, sim, mas o papel de um líder também inclui fortalecer a convivência, promover a inclusão e criar um ambiente onde todos possam crescer e prosperar. Ser presidente de junta, por exemplo, é assumir um papel central na vida de uma comunidade. É liderar com proximidade, gerir recursos, mediar conflitos, planear o futuro. É, também, representar simbolicamente um povo — e quando essa representação inclui mulheres, ela torna-se mais completa, mais justa, mais fiel à realidade da sociedade. A participação feminina neste nível da política é criar condições reais para que as mulheres possam decidir, agir e liderar. Envolve garantir igualdade de oportunidades, combater os estereótipos de género que ainda associam liderança ao masculino e promover modelos inspiradores que mostrem que é possível — e necessário — que as mulheres estejam na linha da frente das decisões políticas. Envolve também escutar as mulheres que já estão no terreno, reconhecendo o seu valor, legitimando a sua experiência e dando visibilidade ao seu trabalho. Devemos, por isso, lutar por uma cultura política que reconheça e valorize a liderança de uma cultura onde as meninas cresçam a saber que podem ser tudo o que quiserem — inclusive presidentes de junta, vereadoras, deputadas, primeiras-ministras. Uma cultura onde os obstáculos à participação política dos cidadãos sejam enfrentados com determinação coletiva e políticas públicas eficazes. Uma cultura onde acreditamos que a política é, verdadeiramente, um lugar para todos.

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O PODER LOCAL – Um olhar António Monteiro de Castro

1. A revolução do 25 de Abril de 1974, também conhecida pela “Revolução dos Cravos” pelo facto de nesse dia os militares revoltosos terem sido presenteados com cravos que colocaram nos canos das espingardas simbolizando a ausência de violência, veio promover, depois de um período de muita agitação social, os primeiros passos para a instauração da Democracia, um dos três objetivos da revolução dos três dês – Democracia, Desenvolvimento e Descolonização. Com a instauração do regime democrático, sistema político baseado na participação dos cidadãos, na protecção dos direitos fundamentais e na separação de poderes, foi instituída a organização do sistema administrativo com base nacional, regional e local. 2. A administração pública descentralizada com base local actua ao nível do Município e ao nível da Freguesia garantindo a gestão dos interesses das comunidades locais e é baseada na sua autonomia administrativa, financeira e patrimonial, permitindo que os cidadãos participem na governação das suas localidades. Ao nível do Município, os seus órgãos são a Câmara Municipal, órgão executivo responsável pela gestão diária, serviços públicos e desenvolvimento local presidida pelo Presidente da Câmara eleito pelo partido ou coligação mais votada, e a Assembleia Municipal, órgão deliberativo que aprova orçamentos e fiscaliza a Câmara Municipal. Ao nível da Freguesia, os órgãos são a Junta de Freguesia, órgão executivo que trata de serviços locais como registos, apoio social e espaços públicos e a Assembleia de Freguesia, órgão deliberativo que aprova as decisões da Junta e que elege o Presidente da Junta escolhido pelo partido mais votado na Assembleia de Freguesia. As eleições destes órgãos, designadas por eleições autárquicas ocorrem, tal como as legislativas, de quatro em quatro anos. 61


3. A importância do Poder Local destaca-se, desde logo, pela forma como aproxima a governação dos cidadãos, promovendo, deste modo, a sua participação e o exercício salutar dos seus direitos e deveres cívicos na governação geral do país. Na verdade, a este nível, dada a proximidade entre eleitores e eleitos desenvolve-se um escrutínio permanente e sistemático, essencial no desenvolvimento e execução de serviços como o abastecimento de água e o saneamento, a educação, os transportes, a segurança, o urbanismo e a cultura, fomentando a democracia participativa e o desenvolvimento regional. O Poder Local é, assim, um pilar essencial da democracia, garantindo que as decisões políticas tenham um impacto directo e positivo na vida das populações. 4. Depois de instaurada a democracia, tem vindo o Poder Local a assumir, progressivamente, um aumento significativo de um conjunto alargado de competências, tendo começado, logo nos primeiros tempos, pela disponibilização das infraestruturas básicas a todo o território municipal, como o abastecimento de água e mais tarde o saneamento das águas residuais, passando depois a outras áreas como a habitação, os transportes, a saúde, o ensino, a cultura, o desporto e o tratamento dos espaços públicos, situação, de resto, facilmente constatável com a análise do crescimento exponencial dos seus orçamentos confirmando assim a validade e a importância do princípio da subsidiariedade que a ele está associado. Se o salto qualitativo das competências e respectivos orçamentos dos órgãos do Poder Local é bem visível na fase do regime democrático, torna-se completamente incomparável quando comparadas com as dos tempos do antigo regime em que, seja presidentes de Junta, seja presidentes de Câmara, eram nomeados pelo regime, não tendo qualquer força institucional, política, e logo orçamental, limitando-se a pouco mais do que à emissão de certidões, e de pedidos às instâncias imediatamente superiores - as Juntas às Câmaras e estas aos Governos Civis de então - para a execução das infra-estruturas básicas de água e saneamento, de escolas, fontanários, pavimentações de estradas, de iluminações públicas, etc. 5. Imediatamente após a revolução de Abril de 1974, a 15 de Maio, passou o nosso Município de Guimarães a ser governado por uma Comissão Administrativa indicada pelo MDP/CDE e presidida pelo falecido ilustre advogado vimaranense Dr. José Augusto Silva acompanhado na vereação por António Ribeiro Martins, António Emílio Ribeiro, José Faria Martins Bastos, José Ferreira Lopes, Carlos Nave e Aristóteles Nascimento. 62


Mais tarde, em 1976, por indicação do Partido Socialista e do Partido Popular Democrático, viria a ser governado por uma nova Comissão Administrativa presidida por Edmundo Marques Campos (PS), José Ferreira Lopes (PS), Abílio Costa (PS), Joaquim Alves Santos (PS – Vizela), Joaquim Martins (independente), Agostinho Filipe Sousa (PPD) e António Pinto (PPD). No final do ano, a 12 de Dezembro de 1976, eram realizadas as primeiras eleições autárquicas ganhas em Guimarães pelo Partido Socialista que contou com Edmundo Campos como Presidente e António Mota Prego (PS), Abílio Costa (PS), Fernando Alberto (PSD), Eurico Melo (PSD), António Faria Martins (PSD), Joaquim Marques (JOSIM) – CDS, Albano Coelho Lima (CDS), Óscar Jordão Pires (FEPU) como vereadores. Poder-se-á, pois, dizer, que se dentro do edifício democrático há estrutura que solidifica o sistema e o regime, o Poder Local constitui, sem dúvida alguma, uma dessas estruturas, manifestando uma saúde exuberante, seja pela qualidade e variedade dos serviços prestados às comunidades, seja sobretudo pela eficácia com que os concretiza.

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LORDELO – Impacto da elevação à categoria de Vila: 30 anos de transformação Junta de Freguesia de Lordelo

Em 1995, a freguesia de Lordelo, situada no concelho de Guimarães, foi elevada à categoria de vila, marcando o início de uma nova era de desenvolvimento e transformação. Ao longo destes 30 anos, Lordelo passou por um processo significativo de evolução em diversas áreas, desde as infraestruturas básicas, até à cultura e ao ambiente, refletindo um crescimento notável que beneficiou a comunidade local. Infraestruturas Básicas e Mobilidade Um dos principais impactos da elevação de Lordelo à categoria de vila foi o avanço nas infraestruturas básicas. A rede de água e saneamento cobre 98% do território, garantindo condições de saúde e higiene para a população. A rede viária também sofreu um forte melhoramento, com a pavimentação e repavimentação de quase todas as ruas, a eliminação de troços em terra e a abertura de uma via intermunicipal que liga Lordelo aos concelhos vizinhos, facilitando o acesso e a mobilidade. Adicionalmente, a mobilidade interna foi reforçada com a introdução de novas operadoras de transporte público, como a GUIMABUS e a AVEMOBILIDADE, que servem o interior da freguesia. A modernização nas infraestruturas ferroviárias, com a nova estação de Lordelo e o apeadeiro da Giesteira, também contribuíram ETAR de Lordelo

para a melhoria do transporte e da acessibilidade. 64


Desenvolvimento Económico e Comércio A elevação de Lordelo à categoria de vila também impulsionou o desenvolvimento económico da região. A fixação de empresas, tanto pequenas como grandes, foi facilitada pela construção de um parque industrial que se tornou um polo de emprego, empregando milhares de pessoas. A abertura de uma grande superfície comercial atraiu o comércio local e possibilitou a criação de uma galeria comercial, onde pequenos negócios encontraram espaço para se estabelecer e prosperar. Apeadeiro da Giesteira – Lordelo – Fonte JFL

Segurança e Equipamentos Sociais Com a construção de um novo quartel da GNR, as forças de segurança passaram a dispor de melhores condições para desempenharem as suas funções, promovendo uma maior proximidade com a comunidade e contribuindo para a segurança das populações, reforçando a confiança da população nas suas instituições. Além disso, a criação de equipamentos sociais, como a Associação de Reformados de Lordelo e a oferta de creches e infantários demonstra um compromisso com o bem-estar da população.

Inauguração do novo Quartel da GNR – dia 20/03/2025 – concretização de uma ambição com mais de duas décadas. Foto Mais Guimarães

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Cultura, Educação, Desporto e Lazer Lordelo também se destacou no campo cultural. A transformação de uma escola primária num polo de biblioteca municipal, um exemplo claro do investimento na cultura local, permitindo que poetas e escritores lordelenses possam preservar e partilhar o seu vasto espólio literário. Com a transformação de uma casa de “ferreiro” em CASA das ARTES, surgiu um novo espaço dedicado à cultura, onde a dança, o canto, a música e o cinema podem ali florescer. Requalificação e Ampliação das Escolas com infantários, dotando-as de ótimas condições para albergar as nossas crianças e podermos ter um ensino de excelência. A Construção do Pavilhão Gimnodesportivo dotou a freguesia de ótimas condições para albergar modali-

Polo Biblioteca de Lordelo

dades desportivas e a prática de exercício físico. Freguesia com inúmeras associações e coletividades a levarem bem longe o nome de sua terra. Terra de grandes talentos culturais, quer na música, dança, canto ou artes performativas. Terra com grande carinho pelo desporto e com muitos talentos a emergir. Os espaços de lazer também foram ampliados, com a criação do Parque Fitness Júlio Carvalho a norte da vila e mais no centro, o Parque de Lazer de Lordelo, que inclui campo de voleibol/futebol de praia, campo de mini-basket, churrasqueiras, auditório para espetáculos, equipamentos de manutenção física, Bar e WC de

Casa das Artes - Lordelo

apoio ao parque. Estes locais não só incentivam e promovem a prática desportiva, mas também incentivam a convivência e a interação social.

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Sustentabilidade e Meio Ambiente A preocupação com o meio ambiente é visível na requalificação dos espaços públicos e na criação de novas áreas de lazer. Criação de pontos de recolha seletiva dos resíduos. A implementação de iluminação pública com sistema LED e a requalificação de fontanários públicos refletem o compromisso da vila com a sustentabilidade e a qualidade de vida dos seus habitantes. Modernização Administrativa Por fim, a modernização administrativa em Lordelo trouxe mais serviços de proximidade, como o Espaço de Cidadão, postos de atendimento dos CTT e serviços de apoio social. Essa evolução permitiu uma maior eficiência na prestação de serviços à população, facilitando o acesso a recursos essenciais. Conclusão Em suma, a elevação de Lordelo à categoria de vila, em 1995, e após estes 30 anos, poderá dizer-se que tem sido uma oportunidade e um exemplo de transformação e resiliência. Foram desencadeadas uma série de transformações significativas que impactaram positivamente a vida dos seus habitantes, com um forte foco em infraestruturas, desenvolvimento económico, segurança, cultura e meio ambiente. Lordelo consolidou-se como uma vila dinâmica e ativa. Olhando para o futuro, a comunidade continua a trabalhar para manter e expandir esses avanços, mantendo sempre viva a sua rica história e identidade, e em busca de um ambiente mais próspero e inclusivo para todos.

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PONTE – Impacto da elevação a Vila: Aspetos da sua Identidade Junta de Freguesia de Ponte

A Freguesia de Ponte, uma das maiores e mais extensas do município de Guimarães, foi elevada a vila pela Lei n.º 71/95, de 30 de agosto de 1995. Este reconhecimento refletiu não apenas o crescimento populacional e económico da localidade, mas também a sua crescente importância dentro do concelho. Localizada na Estrada Nacional 101, entre Guimarães e Braga, a Vila de Ponte tornou-se um ponto estratégico de ligação entre estas cidades, consolidando a sua relevância regional. Este reconhecimento foi visto como uma validação do crescimento e desenvolvimento que a freguesia vinha apresentando, especialmente no setor industrial, com destaque para o Parque Industrial. A população de Ponte interpretou esta elevação como uma oportunidade para reforçar a identidade local e promover ainda mais o progresso da região, tal como se veio a verificar, em particular na última década. A comunidade tem celebrado este marco com diversas iniciativas, evidenciando o orgulho e a valorização desta conquista. A Junta de Freguesia de Ponte, aliás, tem vindo a consolidar uma tradição singular de reconhecimento e valorização dos seus cidadãos e entidades locais na data da celebração da comemoração da elevação a vila. Ao longo dos anos, a Junta de Freguesia distinguiu personalidades que contribuíram para o desenvolvimento social, cultural, económico e desportivo da localidade, fortalecendo os laços de identidade e pertencimento da população. Foram atribuídos os títulos de Embaixadores Nobres a personalidades como Domingos Bragança, Presidente da Câmara Municipal de Guimarães (2017); Paulo Teixeira, Presidente do Centro Social Recreativo e Cultural de Campelos (2018); Júlio Mendes, ex-Presidente do 68

Sede da Junta de freguesia de Ponte


Vitória Sport Clube (2018) e Paula Oliveira, Vereadora da Câmara Municipal de Guimarães (2020). As homenagens promovidas pela Junta de Freguesia da Vila de Ponte representam um gesto de gratidão e reconhecimento público pelo impacto positivo de indivíduos e coletividades na comunidade. A distinção de cidadãos ilustres e organizações locais tem como objetivo preservar a memória coletiva, incentivar boas práticas e inspirar futuras gerações a contribuírem para o progresso da vila. Ponte sobre o Rio Ave

Ponte A toponímia de Ponte deriva de uma estrutura pétrea3 erguida sobre o rio Ave, conhecida como "Ponte sobre o Rio Ave". Esta construção, referenciada desde 1059, estava próxima do cenóbio de S. João Baptista, fundado pela Condessa Mumadona. O nome alternativo, São João de Ponte, encontra a sua origem num documento de abril de 911, que menciona a ‘villa’ e ‘ecclesia’ de "Sancti Johannis in ripa de Ave". Estes registos demonstram a longevidade histórica da freguesia e a sua ligação às es-

Igreja Matriz de Ponte

truturas eclesiásticas e administrativas da região. O crescimento económico foi um dos fatores determinantes para a elevação de Ponte a vila, com 3 Em contexto arquitetónico ou arqueológico, "estrutura pétrea" refere-se a uma estrutura construída ou esculpida em pedra ou rocha, como

as construções de Petra ou a Mamoa do Monte dos Condes. (Wikipédia)

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destaque para o Parque Industrial, um centro vital para a indústria local, especialmente no setor têxtil. Este desenvolvimento promoveu não só a expansão empresarial, mas também a criação de infraestruturas que melhoraram a qualidade de vida dos habitantes. Atualmente, o Parque Industrial da Vila de Ponte destacase como um dos maiores do concelho de Guimarães, albergando diversas empresas de setores variados, contribuindo significativamente para a empregabilidade local e para a exportação económica da região. Nos últimos anos, Ponte tem registado um forte crescimento, não apenas no setor económico, mas também a nível social e cultural. O dinamismo do associativismo tem vindo a reforçar a identidade da vila, com diversas coletividades e grupos locais a desempenharem um papel fundamental na coesão da comunidade. Além disso, a Junta de Freguesia tem assumido um papel ativo na resposta às necessidades da população, implementando projetos na vertente social, cultural e desportiva, criando novas oportunidades para os residentes. Outro marco relevante na identidade de Ponte é o Parque da Ínsua4, inaugurado em 2008 e vencedor do Prémio Nacional de Arquitetura Paisagística em 2009. Projetado pela arquiteta Rita Salgado, este espaço verde representa um equilíbrio entre a urbanidade e a natureza, revitalizando uma área antes degradada e promovendo um ambiente de lazer e bem-estar. Com 4,3 hectares, o parque inclui equipamentos de atividade física, um parque infantil e está integrado num ecossistema sensível próximo do rio Ave. Além disso, prevê-se a construção de uma mini-hídrica para a produção de energia elétrica a partir das infraestruturas existentes, reforçando o compromisso com a

Aspeto geral do Parque (foto de Rita Silva)

sustentabilidade.

4 Em 2009, arrecadou o Prémio Nacional de Arquitetura Paisagística, na categoria de Espaços Públicos Urbanos. Este parque, projetado pela

arquiteta Rita Salgado, representa uma bela ligação entre a urbanidade que ali se vive e a margem do rio Ave.

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Um elemento distintivo na paisagem de Ponte é o Obelisco de Ponte5, inaugurado a 9 de junho de 2017. Criado pelo escultor vimaranense Dinis Ribeiro, este monumento em granito, com mais de seis metros de altura, presta homenagem à comunidade educativa da vila. Situado numa rotunda estratégica, exibe símbolos gravados representando as turmas da EB 2,3 Arqueólogo Mário Cardoso, acompanhados pela inscrição “Ediscere, Scire, Agere, Vincere” (“Estudar ou Aprender, Saber, Agir e Vencer”), reforçando o valor do conhecimento na identidade local. Desde a elevação a vila, Ponte tem sido gerida por vários mandatos autárquicos, cada um deixando a sua marca no desenvolvimento da freguesia. A modernização de infraestruturas, o investimento em equipamentos públicos e a promoção de iniciativas comunitárias têm sido prioridades ao longo das décadas. Os diversos executivos da Junta de Freguesia têm procurado responder às necessidades dos habitantes, promovendo serviços de apoio social, incentivos à educação e ao desporto, bem como projetos que preservam e valorizam o património histórico e ambiental. A elevação de Ponte a vila não foi apenas um reconhecimento administrativo, mas um reflexo da evolução da sua identidade, enraizada na história, no património e na capacidade de crescimento e inovação. O seu percurso demonstra um equilíbrio entre tradição e modernidade, onde a valorização do património histórico e cultural coexiste com o dinamismo económico e ambiental.

Obelisco de Ponte

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Este monumento, único no concelho de Guimarães, foi inaugurado a 09 de junho de 2017, no âmbito das Festividades do Dia do Agrupamento Arqueólogo Mário Cardoso, de Ponte. Da autoria do escultor vimaranense, Dinis Ribeiro, o monumento em granito, com mais de 6 metros de altura, foi erigido na recém-construída rotunda, localizada no cruzamento da Travessa Monte da Ínsua, com a Rua Monte da Ínsua, em homenagem à nossa comunidade educativa de Ponte. Todas as turmas da EB 2,3 Arqueólogo Mário Cardoso de Ponte estão representadas com símbolos gravados (alfabeto fenício) no monumento, a par das palavras “Ediscere, Scire, Agere, Vincere” (Estudar ou Aprender, Saber, Agir e Vencer). (Wiki Loeves)

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O Papel do Associativismo Na Vila de Ponte, o associativismo assume um papel central na promoção do bem-estar da comunidade, na preservação das tradições locais e na dinamização da vida cultural, desportiva e social. As associações6 desta freguesia vimaranense são verdadeiras embaixadoras da participação cívica e do espírito de entreajuda, contribuindo ativamente para o reforço dos laços entre gerações e para o sentimento de pertença à terra. Exemplos notáveis deste dinamismo associativo são o Academia Recreativa e Cultural Amigos de Ponte, que mantém viva a expressão artística e cultural da vila, a Associação Juvenil Ponte em Movimento, que tem dado voz aos mais jovens através de projetos de cidadania ativa e de intervenção comunitária, o Grupo Folclórico da Vila de Ponte, preservando as tradições e danças populares da região. No desporto, o Clube Desportivo de Ponte destaca-se pela promoção da prática desportiva entre os mais novos, contribuindo para estilos de vida saudáveis e para o espírito de equipa, enquanto o Clube Operário de Campelos desempenha um papel fundamental na coesão da comunidade, através da organização de eventos culturais, recreativos e desportivos que envolvem todas as idades. A colaboração entre estas associações e as instituições locais — como a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal de Guimarães — tem permitido desenvolver projetos de grande impacto, valorizando o património material e imaterial da vila, fomentando o voluntariado e promovendo a cidadania ativa. Valorizar o associativismo é reconhecer o trabalho diário de tantas pessoas que, de forma altruísta e dedicada, contribuem para o progresso coletivo. Em Ponte, essa força continua bem viva e merece ser celebrada e apoiada.

6Clube Desportivo de Ponte; Clube Operário de Campelos; Associação Juvenil Ponte em Movimento; Corpo Nacional de Escutas – Agrupa-

mento N.º 307; Grupo Folclórico da Vila de Ponte; Amigos do Tacho; ARCAP - Academia Recreativa e Cultural “Amigos de Ponte”; Capella Jubilemus de Ponte; Centro Popular dos Trabalhadores de Ponte; Centro Social, Recreativo e Cultural de Campelos; Grupo Coral Litúrgico de Campelos; Grupo Coral de Ponte; Mini Coral.

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SÃO TORCATO – 30 anos de Vila e 850 anos de História! Junta de Freguesia de São Torcato

No dia 21 de junho de 2025, São Torcato comemorou o seu 30.º aniversário, da elevação à categoria de vila. 30 anos de vila, mas séculos de história, gravados em património edificado e cultural. São Torcato configura-se no panorama concelhio e até nacional, como um caso especial e extremamente raro. A vila, de cariz iminentemente rural e periférica no concelho, conseguiu ao longo de séculos afirmar a sua importância na região e trazer até aos dias de hoje todo o seu património, material e imaterial. Esta periferia era já testemunhada pelo corregedor de Guimarães, Francisco Xavier da Serra Crashbeeck, que enviou a 02/12/1723, memórias de entre Douro e Minho, à Academia Real de História e que se conservam na biblioteca Nacional de Lisboa, onde referia “O Couto de S. Torquato fica situado dentro dos limites do termo desta Vila de Guimarães, uma légua de distância, d'ella para nascente”. Contudo a distância para o centro de Guimarães, a ruralidade e a escassez de população não foram impeditivos de fazer esta terra especial e grandiosa. Nas mesmas memórias, são descritas as ações encetadas por D. Afonso Henriques, que levaram à atribuição da carta de couto ao prior do mosteiro de São Torcato, em 26 de abril de 1173. Este ato, fundamental para a terra como hoje a conhecemos, permitiu ainda perceber a grandeza de São Torcato, pois para além de perfazer mais de 850 anos de história e ir praticamente à raiz da nacionalidade portuguesa, deu a conhecer lugares anteriores a essa data, como Vilar, Poveiras ou Segade. Por estes caminhos, lugares e ladeiras, passaram séculos de história Basílica de S. Torcato

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que se perpetuam até aos dias de hoje e que se revestem de significados extraordinários. A Capela de São Torcato Se pararmos para refletir sobre o que atrás foi mencionado é excecional, congregar numa terra só, tanta riqueza, história e património. O nosso património edificado, com particular destaque para o mosteiro de São Torcato e que hoje, parte dele é património nacional, passando pelo mais contemporâneo como é o caso da Basílica, alicerçada no culto ao Santo do Povo. Não podemos, no entanto, deixar de mencionar lugares com história pouco conhecida, como a casa de Agra ou a famosa Capela da Fonte do Santo. Mas da nossa história ficaram ainda outras riquezas, como a referência mais antiga que se conhece à confraria dos azeites de São Torcato, hoje Irmandade de São Torcato, com cerca de 750 anos de existência e que se tem revelado crucial na preservação do culto a São Torcato e de todo o património em torno dessa fé. As riquezas e diversidades culturais, ligadas sobretudo às raízes do mundo rural, com especial enfoque nessas recriações, como as colheitas, o linhal ou os curtumes, devidamente entrelaçadas com o folclore e outras tradições populares, como os bombos, os cantares ao desafio ou as concertinas espontâneas e improvisadas. Muito mais poderia ser dito, a força associativa, o bairrismo, as expressões populares, mas o mais importante é salientar uma terra e um povo que de pequenos se fizeram gigantes. Uma terra, que num vale perdido entre serras, se tornou a capital das tradições e cultura popular, com um património material único e com uma fé inabalável no nosso guia, São Torcato. Por fim, em forma de poesia, fica o retrato pelos olhos de um Torcatense, do pulsar e sentir desta terra 74


tão especial: “Sentir São Torcato… A vida entranha-se nos recantos desta terra, com um travo de dureza da latuda diária. Estranha-se no passar dos dias, na parede verde que reveste todos os cenários, onde a vista alcança. Rouba-se a beleza de um olhar, tão profundo como o azul do granito e a subtileza da água milagrosa, que percorre como sangue, as ladeiras e recortes deste vale. Contamos memórias das festas e romarias, da fé inabalável no Santo do povo e da alegria contagiante que se confunde com bairrismo, numa perfeita harmonia com som celestial do carrilhão da Basílica. Entrelaçamo-nos no trabalho laborioso do linho, na cor e cheiro do folclore e recordamos os calos das mulheres dos curtumes. Aqui, sente-se a terra como em mais nenhum lado, aqui sente-se o orgulho do nosso passado, das nossas gentes, cultura e património. Na complexidade das palavras e na dificuldade em nos definir, somos assim tão-somente, Torcatenses…“

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S. Torcato – Tempos Cruzados Teresa Macedo

Há dias foi a inauguração da requalificação da Escola Básica de S. Torcato e, enquanto escutava as diversas intervenções proferidas pelas entidades implicadas, com maior ou menor emoção, com redobrado enfoque discursivo no dinheiro que tirou a argamassa velha e colocou a nova, mais do que nas décadas que demorou a abrir as portas à remodelação da escola, que os habitantes deste vale reivindicavam, há muito, senti o confronto de sentimentos que um cruzar de mundos traz na interseção de tempos e espaços. Por isso, puxei da prateleira o livro que Augusto Santos Silva escreveu, quando por cá andou a questionar as pessoas com o fim de organizar as matérias de que fez o excelente estudo sociológico sobre a freguesia de S. Torcato. Nele percorre, aprofunda e contextualiza diversos vetores que, devido ao acontecimento do 25 de Abril de 1974, começaram a distorcer-se, positivamente, procurando novas direções, entre impulsos de instabilidade e conflitos na interação entre grupos, pondo em causa lógicas por entre a nebulosa das classes sociais, que se agitavam na procura de outras interpretações. Porém, parece ter encontrado no seu trabalho de campo um ponto onde tudo convergia: S. Torcato tem vários mundos num só local e esse locus possui o seu ponto energético na fé popular em torno do Santo do Povo. De facto, é na incorruptibilidade do corpo de S. Torcato aparecido numa bouça, que se edificou uma devoção popular multissecular expressa em culto que se foi formando e, hoje, é uma realidade compósita criada entre a construção camponesa e a construção clerical, assumindose um facto religioso a partir de um corpo conservado. Segundo o autor, há, em S. Torcato, um espaço e tempo voltados para a preservação da natureza, a 76


tradição e o seu enraizamento expressas nas danças e cantares dos seus ranchos folclóricos, cuja relação se apimenta com uma inimizade que nunca deixou de ser fraterna, a meu ver, porque a coabitação no mesmo território tornou ambos referências reconhecidas da identidade popular; a religiosidade, na relação com o Santo do Povo, cuja fé faz irromper a arte de ser nas múltiplas romarias que emergem, anualmente, no adro da recentemente denominada Basílica de S. Torcato; a casa, a terra, a obediência dos animais em rituais sagrados na feira franca, onde a comunidade participa na ténue linha que separa o sagrado do profano; as pessoas que estendem os braços entre as máquinas que cosem calçado para os pés do mundo inteiro e o naco de terra onde se preserva o campesinato puro e incorporam novos padrões urbanos que se mesclam em classes populares, que coabitam pacificamente. Nas mais de seis centenas de páginas que fazem este livro, avançando a componente teórica que um trabalho desta natureza sempre comporta como sustentação dos prismas que o autor vai dissecando, emergem quadros onde a religião assume o fulgor de barómetro da vida social. Os mundos da cultura não se afastam das diferentes expressões da religiosidade, consubstanciando-se na sociabilidade e relação entre os pares, a festa enquanto gestão da tradição e o trabalho, esforço, arte e voluntariado como base e valores comuns. No entanto, o que para mim, enquanto leitora, mais significou foi a articulação de momentos que se instalaram na minha memória, oriundos da minhas primeiras participações enquanto “habitante de uma aldeia da periferia”, com novas reflexões amadurecidas sobre o tempo longo das instituições e da comunidade, que pressupunham, nessa ocasião, a existência de uma espécie de elasticidade que abrangesse as freguesias circundantes e, através dessa interação social e cultural se dinamizasse a troca de saberes de cada lugar e se abolisse a subalternidade das freguesias vizinhas em relação a S. Torcato. Posso concluir que foi uma teoria que se expandiu pragmaticamente, alcançando os seus fins, e que, por isso, “a vida quotidiana no espaço da vizinhança (…) enraizou na memória partilhada e incorporada”, novas comunidades em formação que “cruzam e reforçam, em processos de influência recíproca, absorventes tradições culturais de comunidade. Casa e terra, a casa e a terra que mudaram, com as pessoas, as suas oportunidades e as suas referências”7. Permanece como bandeira desse esforço e partilha a Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL)8, criada em 1994, com o objetivo de cooperar com as comunidades locais no sentido 7 In “Uma Nova Experiência em Comunidade”, pág. 34 8 Em resultado do desenvolvimento da última fase do Projeto de Educação para o Desenvolvimento, em janeiro de 1994, nasceu a ADCL, com

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de melhorar as condições de vida das populações, nos planos individual e coletivo, promovendo a cidadania e a inclusão social. Este livro, enquanto unidade de ensaio, desafia o leitor a partir dos padrões e modelos culturais dos atores locais para pensar nos modos como eles atualizam e interpretam as suas práticas e como constroem uma nova experiência de comunidade, na encruzilhada que separa as diversas condições, projetos e tempos, da ação transformadora da sua própria história.

sede na freguesia de S. Torcato, concelho de Guimarães, tendo por fim a cooperação com as comunidades locais na realização dos seus objetivos de desenvolvimento social e cultural. Em 14 de maio de 1996, esta Associação adquire o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social.

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SERZEDELO – 30 anos da elevação a Vila Junta de freguesia de Serzedelo

Serzedelo é uma Freguesia do concelho de Guimarães com 5,14 km² de área e 3418 habitantes (segundo censo de 2021) tendo, assim, uma densidade populacional de 665 hab./km². Foi elevada à categoria de vila a 21 de junho de 1995, comemorando este ano o 30.º aniversário de elevação a vila. Serzedelo dista cerca de 12 km da sede do município, sendo uma vila com bons acessos (autoestrada). Confina a norte com os rios Ave e o seu afluente Selho, a sul confronta com Guardizela, a este com São Cristóvão de Selho e a Oeste com Riba D´Ave e o rio Ave. É uma vila com um extenso território, predominantemente rural, e tem na sua população a sua maior riqueza. Ainda com alguma agricultura, mas o passar dos tempos trouxe mudanças e, hoje, Serzedelo tem também alguma indústria e comércio (cafés, supermercados e outras lojas...). Em relação à educação, Serzedelo tem a valência de creche, pré-escolar e Apoio Ao Estudo/ATL) a funcionar na Casa do Povo, tem uma escola de 1.º ciclo, que tem Associação de Pais. O Centro Social e Paroquial possui a valência de Centro de Dia e Apoio Domiciliário. Conta também com a Unidade de Saúde Familiar e farmácia. O Grupo Desportivo assume relevância no campo do desporto promovendo também a formação dos mais jovens. O CNE tem a sua sede, numa antiga escola primária, e trazem dinamismo à vila com as suas atividades que Adro da Igreja

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promovem também a ocupação dos tempos livres das crianças e jovens. Na sede da Junta de Freguesia, funciona o grupo Animarte com Animus (fazendo parte o Grupo de Cavaquinhos e o Grupo de Cantares da Nossa Terra), o Grupo de Bordados e os serviços de CTT e Espaço Cidadão. A Casa do Povo possui um grupo folclórico, que realiza o seu Festival Internacional e tem atuações a nível nacional. Da sua história Serzedelo aparece mencionada em documentos de 1038. Foi também mencionada nas Inquirições Serzedelo aos nossos olhos

desde 1220, nas quais se refere a eclésia de Cerzedelo. O topónimo passou pelas formas Zersedelo, Zercerdello e Cerzedelo. Sobre este último étimo latino, foi do nome Querqus (carvalho) que provieram as outras formas neutras querquetum ou quercetum (carvalhal), as quais deram origem a Cerzedo e ao diminutivo Cerzedelo. No século XIII o território da vila de Serzedelo estava dividido em três freguesias – São Bartolomeu de Niscra, São Pedro do Monte e Santa Cristina. Era no território de Santa Cristina que se encontrava o Mosteiro, que tinha jurisdição nas freguesias

Feira Medieval

de São Jorge de Selho, Gandarela, Guardizela e Gondar. No século XIV estava dependente do Julgado de Vermoim, também termo do concelho de Barcelos. 80


Em 1840, a freguesia pertenceu ao concelho de Vila Nova de Famalicão, sendo incluída no termo do concelho de Guimarães, por decreto de 30 de dezembro de 1853. O seu ex-libris, a Igreja Românica, património nacional, data do século XII, é um belo exemplar de estilo românico. A ponte de Soeiro, uma ponte romana, recuperada recentemente, é outro dos monumentos desta vila, tal como as suas capelas (Senhora do Monte e S. João, Capela Senhor do Calvário, São Bartolomeu e São Pedro). A Freguesia de Serzedelo tem na sua Festa das Cruzes o mais rico património cultural. As festas acontecem no dia 3 de maio ou fim de semana seguinte. No sábado de Cruzes, são asseadas com flores naturais 16 Cruzes em madeira, num cerimonial próprio e que passa de geração em geração. E no Domingo, a procissão do Senhor aos Entrevados, percorre a vila, que a população alegra com os belíssimos tapetes ao longo de todo o percurso. De tarde, as 16 Cruzes são expostas e acontece a Via Lucis. De realçar também a peregrinação às Senhoras do Monte, no último domingo de maio e a festa de Santa Cristina (em julho). As instituições desenvolvem diferentes atividades ao longo do ano, mas destas destacamos pelo seu envolvimento a Feira Medieval, uma organização da Casa do Povo (em setembro, com mais de 10 edições desta feira) e a Vila Natal (em dezembro), com a organização da Associação de Pais. Ao longo destes trinta anos de vila, Serzedelo não vivenciou o dinamismo esperado por muitos, mas a vila cresceu e transformou-se. Surgiu habitação, mais indústria, que traz mais emprego. Uma vila ainda rural, mas com qualidade de vida. Caraterizada pelo seu fácil acesso a outras zonas, pela proximidade com a autoestrada. Uma vila que preserva o seu património cultural, histórico, mas que tem nas suas gentes a sua maior riqueza! “Oh Vila de Serzedelo terra de tanta grandeza podes contar com tua povoação gente de tanta nobreza” (In Hino de Serzedelo)

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BRITO – 24 anos de Vila Junta de Freguesia de Brito

Elevação de Brito a Vila Brito é uma vila com cerca de 6000 habitantes, situada no concelho de Guimarães. Rica em património histórico, cultural e natural, destaca-se pela sua Igreja Matriz (construída em 1762), pela Capela de Santa Helena e pelos moinhos que ladeiam o rio Ave. Vila de forte componente industrial, especialmente nos setores têxtil e construção, convive harmoniosamente com um associativismo vibrante e tradições religiosas enraizadas, como as festas de São João Baptista (24 de junho) e de Nossa Senhora do Rosário (15 de agosto). De facto, a freguesia de Brito foi elevada à categoria de vila em outubro de 1997, num processo iniciado por João Pereira Vidal9, eleito presidente da Junta de Freguesia em outubro desse ano. No início de 1998, iniciaram-se os procedimentos formais, incluindo a recolha de informações históricas essenciais, que levaram João Vidal a deslocar-se à Torre do Tombo, em Lisboa, com o objetivo de reunir dados e documentação necessária à criação do brasão e da bandeira da freguesia. Infelizmente, em maio de 1999, João Vidal sofreu um grave acidente de trabalho de que resultou no seu falecimento. Face a este infortúnio, Mateus Teixeira Marques, então secretário da Junta e número dois da lista autárquica, assumiu a presidência, assegurando a continuidade do processo. Assim, na circunstância, o

9 Composição da Junta de Freguesia de Brito (Mandato 1997–2001)

Antes do falecimento de João Vidal: Presidente: João Pereira Vidal; Secretário: Mateus Teixeira Marques; Tesoureiro: José Castro Dias; Presidente da Assembleia: Lino Alberto Pereira da Silva; Secretário da Assembleia: Carlos Andrade; Segundo Secretário: João Eduardo Teixeira de Oliveira. Deputados da Assembleia de Freguesia: José Campos; Virgílio Mendes (PSD); Américo Oliveira; Benjamim Rodrigues; Luís Ribeiro (PS); Abílio Cardoso (CDU) Após o falecimento de João Vidal: Presidente: Mateus Teixeira Marques; Secretário: Lino Silva; Tesoureiro: José Castro Dias; Presidente da Assembleia: João Eduardo Teixeira de Oliveira; Secretário: Carlos Andrade; Segundo Secretário: António Maria da Silva Pereira.

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dossiê respetivo foi entregue ao deputado do PSD, Luís Cirilo Carvalho, para avançar na Assembleia da República. Deste modo, a elevação da freguesia de Brito à categoria de vila, ocorreria em 19 de abril de 2001, quando a Assembleia da República aprovou favoravelmente a proposta em causa, ao abrigo da alínea c) do artigo 161.º da Constituição da República Portuguesa, na altura presidida por António de Almeida Santos. Uma aprovação que passaria posteriormente pelos trâmites formais, designadamente pela pro-

Sede da Junta de Freguesia

mulgação da Lei n.º 37/2001 de 12 de julho de 2001. Assim, desde essa data, Brito celebra anualmente, no dia 19 de abril, as comemorações da sua elevação a vila, num testemunho de orgulho coletivo e de valorização consequente. Impacto da elevação a vila Deste modo, Brito assinala 24 anos com o estatuto de vila, consolidando o seu percurso de crescimento e afirmação no contexto concelhio e regional. Igreja Matriz de Brito, construída em 1762

Obviamente, uma elevação que re-

presenta um marco de enorme significado para a comunidade. Com efeito, este reconhecimento reforçou a identidade coletiva da freguesia, prestando homenagem ao seu passado e impulsionando-a para um novo ciclo de desenvolvimento. Efetivamente, desde então, registar-se-ia um progresso notável em áreas essenciais. Citaria, entre 83


outras: -

a melhoria e modernização das infraestruturas rodoviárias e sociais; o reforço do investimento em serviços públicos; a criação e valorização de espaços de lazer e convívio; a proteção e promoção do património natural e cultural.

Realmente, mais do que obras materiais, a elevação a vila inspirou uma renovada ambição coletiva, ancorada no progresso sustentável, na preservação das tradições e no fortalecimento do associativismo. Por isso, hoje, Brito prossegue, com determinação, o caminho de uma vila moderna, inclusiva e vibrante, fiel às suas raízes e voltada para o futuro. Como é óbvio, este progresso sustentável não se pode dissociar da Revolução

Sessão Solene Comemorativa dos 24 Anos da Elevação de Brito a Vila

de 25 de Abril de 1974, que desenvolveu o Poder Local democrático, devolvendo a palavra ao povo e promovendo a proximidade com os cidadãos. Na verdade, Brito conheceu um crescimento notável após Abril, que é de destacar. Recorde-se, entre várias outras conquistas: -

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a modernização das redes viárias (EN 206 e acessos à autoestrada); a expansão da rede de abastecimento de água, atualmente a cobrir cerca de 90% da freguesia; o desenvolvimento da rede de saneamento básico; a criação e modernização de equipamentos educativos e sociais (escolas, IPSS, creches, centro de dia); o fortalecimento do associativismo (Brito Sport Clube, agrupamento de escuteiros, Austronauta 10, ACERVB11, MoveBrito12);

A ASTRONAUTA está sediada nos Espaços Criativos em Brito, Guimarães. Reúne um grupo de artistas e outros atores culturais.

11 Acervb - Associação Cultural e Recreativa da Vila de Brito 12 O projeto social MoveBrito é promovido pela Junta de Freguesia de Brito com o apoio do Município de Guimarães. As diversas Atividades

do Movebrito ocorrem nos Espaços Criativos em Brito

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O Brito Sport Clube foi fundado nos anos 50 (1956). O primeiro campo de futebol foi construído no lugar do alto, com esforço de muita gente. Como teve desde início uma sede social também se envolveu no teatro e em atividades culturais. Está filiado na Associação de Futebol de Braga. Teve passagens e conquistas nas várias divisões da Associação. Em 2005 subida à 3.ª Divisão Nacional, mas desceu 3 épocas depois para a Distrital de Braga. Recentemente foi Campeão da Série B da divisão Pro-Nacional (2021/22), e conquistou da Taça A.F. Braga (2021/22). No ano de 2019, criou a primeira Equipa de Futebol 11 Feminino Sénior, Sub-13 e Sub-15. -

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valorização dos espaços públicos, como o Parque de Lazer e os Espaços Criativos. a expansão e modernização da rede de saneamento básico para toda a vila; a expansão e modernização da rede de gás, com cobertura em cerca de 80 % da vila; a conclusão do projeto da Ecovia do Ave, incluindo a requalificação O primeiro símbolo criado do Brito Sport Clube de moinhos, pontilhões e pontes pedonais entre Brito e Silvares (Parque de Ardão), bem como a criação de infraestruturas de desporto ou lazer, junto ao rio, aproveitando terrenos municipais; a criação de uma nova centralidade junto à Igreja Matriz, com a construção de uma nova sede para a Junta de Freguesia e espaços para associações sem sede própria, como a ACERVB e o MoveBrito; a requalificação das piscinas existentes, revitalizando este importante espaço comunitário; a melhoria da mobilidade e dos transportes públicos; a aposta na reabilitação urbana e criação de soluções de habitação acessível; o apoio reforçado à população idosa e às famílias mais vulneráveis; o estímulo à inovação empresarial e cultural, diversificando ainda mais a economia local.

O compromisso da Junta de Freguesia é claro: dar continuidade ao trabalho iniciado há décadas, com renovado empenho e visão estratégica, para construir e tornar Brito cada vez mais próspera, inclusiva e sustentável. Estas conquistas refletem claramente uma comunidade dinâmica, mais coesa e com melhores condições 85


de vida, mas ainda sedenta de novos desafios e anseios futuros. Na realidade, apesar do progresso, persistem desafios importantes e desideratos fundamentais, pois Abril continua a fazer caminho.

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MOREIRA DE CÓNEGOS – 30 anos de elevação a Vila: O que mudou? Junta de Freguesia de Moreira de Cónegos

O nome da Freguesia “São Paio de Moreira de Cónegos” remonta à época romana e tem, por isso, a sua origem em três épocas totalmente distintas da vida dos Moreirenses, mas que fazem parte integrante da sua gloriosa história. De seguida, vamos referir-nos aos acontecimentos que ocorreram nessas épocas. Documentos históricos datados de 961 mencionam doações de terras à Colegiada de Guimarães, o que originou o nome atual da freguesia. A vila foi palco de diversos conflitos históricos, incluindo batalhas contra invasores castelhanos e episódios marcantes durante as Invasões Francesas. Moreira de Cónegos é uma terra mais antiga do que Portugal, um povo acolhedor e uma paisagem de sonho. A partir do século XI, as palavras dos “Cónegos “começam a aparecer no nome das duas freguesias – “Villa Cova” e “Villa Moraria” ou Moreira –, como forma de identificar o seu senhorio. A partir deste século, quase todas as herdades do Couto de Moreira estavam em poder dos Cónegos da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, legítimos herdeiros do Mosteiro de Guimarães. Nas Cortes de Montemor, D. Dinis mandou povoar S. Paio de Vila Cova, hoje São Paio de Moreira de Cónegos. Ao longo dos séculos, na história do nosso Reino, registamos factos que elevam Moreira de Cónegos, mas as suas GENTES são o nosso maior património. Antoine Jardon, general do exército de Napoleão, foi morto em Guimarães (Moreira de Cónegos) e o seu nome está inscrito na oitava coluna, entre os mártires de França. Ao longo do século XX, temos um património construído ao abrigo do mutualismo, que fez atrair famílias para viverem no nosso território e dar vivência às nossas fábricas e instituições. Hoje, sentimo-nos diferentes, apenas diferentes, e, então, refletimos no ser da nossa Gente e nas nossas Instituições. No dia 1 de novembro de 1938, nasce o Moreirense Futebol Clube, ficando sublinhado que, em caso de 87


extinção, todos os troféus serão entregues na Sociedade Martins Sarmento. Em 2019, a camisola do Moreirense foi eleita, em Londres, a mais bonita do Mundo. O Moreirense Futebol Clube é o principal clube desportivo da vila. Atualmente compete na Primeira Liga, a principal divisão do futebol português, e disputa os seus jogos no Estádio Comendador Joaquim de Almeida Freitas, com capacidade para 6.150 espectadores. O Moinho de Moreira de Cónegos é um testemunho vivo das tradições rurais da freguesia e da importância dos recursos hídricos na economia local de outros tem-

Estádio Comendador Joaquim de Almeida Freitas - Imagem da RTP

pos. Situado junto ao rio Vizela, este moinho de água representa uma herança cultural ligada à agricultura, à moagem de cereais e ao modo de vida das comunidades que habitavam esta região do concelho de Guimarães. Trata-se de um moinho tradicional, movido pela força da água, que em tempos foi essencial para a produção de farinha e, por consequência, para a alimentação das famílias locais. Muitos habitantes mais antigos ainda se recordam da sua atividade, do som rítmico das mós e da azáfama dos moleiros. Embora já não esteja em funcionamento regular, o moinho continua a ser um marco identitário do património local e uma oportunidade para refletir sobre o valor da memória coletiva. A Ponte de Negrelos é um elemento patrimonial de cariz histórico localizado na

O Moinho de Moreira de Cónegos

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freguesia de Moreira de Cónegos, no concelho de Guimarães. Situada sobre o rio Vizela, esta ponte é um testemunho da engenharia tradicional e da importância das antigas vias de comunicação na região do Minho. De traçado simples, a Ponte de Negrelos apresenta características típicas da engenharia romana, como três arcos de volta quase perfeita e um tabuleiro plano. As aduelas almofadadas nos arcos e os talhamares a montante são elementos distintivos da sua construção. Durante séculos, foi um ponto de passagem essencial para as populações locais, ligando Moreira de Cónegos a freguesias vizinhas como São Martinho do Campo e Lordelo. A ponte integrava uma antiga via romana que ligava Braga ao Porto, passando pela Ponte de Campelos (São João de Ponte). Durante a Idade Média, continuou a ser uma importante via de ligação entre o Porto e Guimarães, sendo referida em documentos medievais como "ponte lapídea". Além da sua importância arquitetónica, a Ponte de Negrelos tem relevância histórica. Em 25 de março de 1809, durante as Invasões Francesas, ocorreu uma batalha nas suas imediações, onde camponeses locais tentaram resistir ao avanço das tropas napoleónicas. Apesar de não terem conseguido impedir a passagem das tropas, infligiram uma baixa significativa ao eliminar o general francês Henri-Antoine Jardon. Nos últimos anos, têm sido feitas tentativas de valorização e preservação deste património, reforçando a sua importância como símbolo da identidade local e ponto Ponte Romana de Negrelos

de interesse para caminhadas, percursos pedestres e atividades de lazer. Igreja Paroquial de Moreira de Cónegos

A Igreja Paroquial de Moreira de Cónegos é um importante marco religioso e patrimonial da região. Dedicada a São Tiago, esta igreja possui raízes históricas profundas e desempenha um papel central na vida 89


espiritual e comunitária da freguesia. Embora o edifício atual tenha sofrido várias remodelações ao longo dos séculos, conserva traços de diferentes épocas, refletindo a evolução arquitetónica e artística da região. A sua fachada, simples, mas harmoniosa, é marcada por elementos neoclássicos, com uma torre sineira imponente que se destaca na paisagem envolvente. No interior, a igreja apresenta uma nave ampla com altares laterais ricamente decorados, talha dourada e imagens de Santos Populares, sendo o altar-mor especialmente dedicado a São Tiago. A decoração, embora modesta, revela o cuidado e devoção da comunidade ao longo do tempo. A Igreja Paroquial de Moreira de Cónegos não é apenas um espaço de culto, mas também um ponto de encontro para momentos importantes da vida local, como festas religiosas, procissões e celebrações comunitárias. A Festa de São Tiago, realizada em julho, é um dos eventos mais marcantes da freguesia, atraindo muitos fiéis e visitantes. Este templo continua a ser símbolo da identidade local, refletindo a fé, a história e a cultura de uma comunidade fortemente enraizada nas suas tradições. O Parque de Lazer de Moreira de Cónegos O Parque de Lazer de Moreira de Cónegos é uma agradável área verde localizada na periferia do concelho de Guimarães, junto ao rio Vizela. Este espaço oferece aos visitantes a oportunidade de desfrutar da natureza e de atividades ao ar livre, sendo ideal para passeios em família, piqueniques e momentos de lazer. O parque está inserido numa paisagem tranquila, com vegetação abundante, conta com Infraestruturas de apoio e é de fácil acesso para os residentes locais e visitantes da região. Mas o que verdadeiramente, hoje, nos preenche de contentamento são as

Parque de Lazer

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nossas Escolas, que estão a formar o nosso Povo e temos este extraordinário sentido de gratidão, e que muito intimamente nos preenche, que são as Pessoas de Moreira de Cónegos. As Piscinas de Moreira de Cónegos As Piscinas de Moreira de Cónegos são geridas pela cooperativa Tempo Livre, são uma excelente opção para quem procura atividades aquáticas e de fitness na vila e arredores pois oferecem uma variedade de serviços e modalidades para todas as idades.

Centro Cultural e Recreativo de Moreira de Cónegos Esta associação, fundada em 1983, tem desempenhado um papel fundamental na preservação e promoção das tradições culturais da região. O seu rancho folclórico (adulto e infantil) é reconhecido pelo trabalho de divulgação do folclore do Baixo Minho, representando a vila em vários festivais e encontros culturais dentro e fora do país. Centro Paroquial de Moreira de Cónegos O Centro Paroquial de Moreira de Cónegos é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) localizada na freguesia de Moreira de Cónegos, no concelho de Guimarães, distrito de Braga. Fundada em fevereiro de 1995, a instituição iniciou com serviços direcionados à infância e, ao longo dos anos, expandiu as suas atividades para atender também à população idosa. A instituição oferece serviços de Creche e Educação Pré-escolar. Para a população idosa, o Centro Paroquial disponibiliza: Centro de Dia, Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) e Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI).

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O Centro de Saúde de Moreira de Cónegos O Centro de Saúde de Moreira de Cónegos, localizado na Rua do Bacelo, em Guimarães, é uma moderna infraestrutura de saúde inaugurada a 22 de novembro de 2024. Projetado pelo gabinete StudioCAN, o edifício destaca-se pela sua arquitetura inovadora em forma de "estrela da vida", símbolo internacional dos serviços de

Centro de Saúde de Moreira de Cónegos

emergência médica. Agrupamento de Escolas Virgínia Moura (AEVM) Missão do AEVM “Educar para o futuro e para a valorização das diferenças de cada um, no sentido de estruturar, de forma consistente, os nossos alunos, tornando-os cidadãos esclarecidos, interventivos e críticos, perpetuando os valores democráticos e humanistas e indo de encontro ao Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória e às Aprendizagens essenciais emanadas pelo Ministério da Educação.” Em 2025, celebramos 30 anos de elevação, à condição de vila, da nossa vila, que, como se refere, não é só futebol. As pessoas e as nossas instituições são o grande pulsar da nossa Gente.

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PEVIDÉM – Os Pevidenses e os 30 Anos de Vila Junta de Freguesia de Selho São Jorge

Pevidém é uma vila situada na freguesia de Selho São Jorge, no concelho de Guimarães, distrito de Braga. Elevada à categoria de vila em 21 de junho de 1995, Pevidém é conhecida pela sua forte tradição industrial, especialmente no setor têxtil, sendo considerada o "coração da indústria têxtil do concelho”. Localização e História Localizada entre os rios Ave e Selho, a cerca de 6 km a oeste da cidade de Guimarães, Pevidém possui uma área predominantemente urbana intercalada por espaços verdes que se estendem por montes e vales. A história da freguesia remonta ao século XIII, com vestígios arqueológicos de um castro no monte da Santa, indicando povoamento desde o Neolítico Património e Cultura Pevidém abriga diversos patrimónios históricos e culturais, como a Igreja de São Miguel do Paraíso, a Capela de São Brás e a Igreja Matriz de São Jorge. A vila é também conhecida pelas suas festividades, destacando-se o Carnaval de Pevidém, considerado um dos mais animados da região, organizado pela Associação Cultural Sol no Miral. Economia e Desenvolvimento Com uma população de aproximadamente 5.927 habitantes, Pevidém é um centro industrial significativo, com várias fábricas e empresas no setor têxtil. E começo por reformular a eloquência de Joaquim Novais Teixeira: “Quando alguém me pergunta se sou português, é do meu hábito – e da minha verdade- responder: não, não sou português, sou mais que isso, sou de Pevidém! Com efeito sou de uma pátria pequenina sólida chamada Pevidém, coração da indústria têxtil, onde correm os rios Ave e Selho. O resto, meus amigos, é a fronteira de um outro mundo”.

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Perspetiva da Vila de Pevidém, in Jornal de Guimarães (14/10/2024)

O mundo da têxtil é aqui Pevidém é um tear. Fez-se sempre entrelaçando os fios do têxtil com a vida da comunidade. Pevidém foi o coração da indústria têxtil do concelho e da região. Teve uma empresa que foi um colosso e que nos tempos áureos chegou a empregar 3500 trabalhadores. A Coelima da minha infância foi e é um marco na história industrial portuguesa, que chegou a ser a maior empresa têxtil do mundo. A Coelima da minha infância foi e será sempre, antes de tudo o resto, gratidão eterna, porque para além de sustento significou horizontes de esperança, acesso a formação e a novos mundos. Coelima – 100 anos de história e de saber fazer A fábrica foi o território da humanização, da socialização e do amor. E havia tanta fábrica, e tanto amor e tanta socialização humanista. As conquistas eram de todos e era a humanidade e humildade que prevaleciam. Hoje, pode ser difícil imaginar, mas tempos houve em que não era só Pevidém, mas uma região inteira a trabalhar para aquela que, como disse, chegou a ser a maior empresa têxtil do mundo, a Coelima – empresa que detinha habitação social, posto médico, supermercado próprio, unidades de manutenção com formação

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em engenharia, pavilhão desportivo, infantário, atividades culturais e até equipas de ciclismo e de futebol, masculino e feminino, pouco depois de 1974. Mas não pretendo ser redutor ou injusto, no Pevidém da minha infância também cabem outras empresas têxteis como a Lameirinho, a Lopes Correia, a TARF, a Fábrica do Alto, a Jota S, a J. Pereira Fernandes, o Saganhal, a Machado da Feira, a Pinto Lisboa – enfim, todas as empresas têxteis da minha infância cabem neste chão de fábrica-família. Como bem dizem muitos empresários e eu subscrevo, “as empresas são os seus trabalhadores”. E em Pevidém há uma ligação emotiva e afetiva das pessoas às empresas, que sempre permitiu ter das operárias e operários o melhor. Ao contrário do que se pensa dos trabalhadores, que são isto e aquilo, os trabalhadores da produção ganham amor à fábrica. Eles são os únicos que choram quando uma empresa vai à falência, como ilustrou bem o arquiteto Fernando Ferreira, na sua tese de doutoramento, e replicou numa exposição alusiva aos 100 anos da Coelima.13 A Vila de Pevidém ostenta, numa das suas principais entradas – a que serve a ligação à cidade –, um pequeno ícone do seu orgulho coletivo: a representação gráfica da sua indústria têxtil. Este simbólico cartão de visitas representa o nosso ADN: um território que sempre entrelaçou os fios do têxtil com a vida da comunidade e de centenas ou milhares de famílias. Fomos e somos o coração da indústria têxtil do concelho. Pulsamos a este ritmo, com alegrias e tristezas; com sucessos e adversidades; com chão de fábrica e horizontes de esperança; com raízes e asas para sonhar; com lar e novos mundos. Nós somos o chão desta “fábricafamília”, em que tantas vezes, ao longo de gerações, a família foi tantas vezes a fábrica e a fábrica foi e é tantas vezes a família. Temos perante todos nós vários e excelentes exemplos disto: a empresa Lameirinho, a J. Pereira Fernandes, entre outras. Esta é a terceira geração envolvida no negócio fundado pelo avô, com um efetivo de centenas de trabalhadores, que têm vencido e superado os desafios dos tempos, que tem apostado na automatização dos processos e realizado notáveis investimentos. Tudo para nunca esmorecer,

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“Desde que Albano Martins Coelho Lima começou a sua empresa “quase como um espaço produtivo doméstico”, há 100 anos de trabalho, de palavras, de afetos, de crises que cabem nas paredes do Centro para os Assuntos de Arte e Arquitetura. O projeto de doutoramento na Bartlett School of Architecture, em Londres, foi o veículo para, em 2019, Fernando P. Ferreira iniciar uma viagem prestes a materializar-se numa exposição que se entrelaça na história da Coelima, “vasta, riquíssima, com múltiplas camadas”, evitando, contudo, a tentação “nostálgica”, bem viva em antigos trabalhadores que contactou.”( Tiago Mendes Dias, in, jornal de Guimarães, Cultura \ sexta-feira, maio 06, 2022)

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para saber reagir e ultrapassar dificuldades, com olhos postos na evolução, na inovação e em novos mercados. Em Pevidém, estes são exemplos que se multiplicam por muitos outros, pelo que me atrevo a dizer que esta é uma vila e uma população exemplar e de referência na Economia sempre e permanentemente focados na inovação, na criatividade e no papel que os diferentes agentes económicos devem assumir num mundo mais sustentável e consciente. Sim, Pevidém teve e tem a sua atividade industrial e económica no centro e orgulhamo-nos coletivamente muito disso. Mas, Pevidém é muito mais que um território industrial, criador de emprego e riqueza; é um território de gente dinâmica, empreendedora e envolvida nas mais diversas causas sociais e culturais. A nossa dimensão também se reflete nas nossas instituições e associações pelo seu dinamismo, juventude e representatividade como vila âncora desta região do concelho, como polo agregador nas áreas da Cultura, do Desporto e Economia, atraindo e congregando gentes de todas as freguesias circundantes do concelho e também de fora dele. Considero, por tudo isto, absolutamente estratégico para o concelho investir mais em Pevidém, alargando mais a malha urbana, fazendo-nos mais próximos da cidade, do desenvolvimento e do progresso coletivos. Claro os legítimos e justos interesses e aspirações da população de Pevidém precisam de ver materializados no seu território efetivos contributos de investimento público para a inovação, criatividade e sustentabilidade. Está na nossa génese o trabalho dedicado, incansável, persistente e sem nunca esmorecer. Somos herdeiros deste valioso património coletivo, mas é imperativo reafirmar Pevidém como o “coração têxtil” e industrial do concelho, de olhos postos no futuro, dando novos horizontes de esperança às nossas crianças e jovens. Citando Italo Calvino (escritor e jornalista italiano) dizia: “que um clássico é aquele autor que nós nunca acabamos de ler”. É isso que Pevidém nos mostra: um território clássico do nosso concelho, inspirador, que não para de nos dar lições e ensinar, e que não nos disse ainda tudo aquilo que tem para nos dizer e ensinar. Trata-se de uma conquista da persistência, do trabalho em prol da ecologia, da sustentabilidade e que terá um grande impacto na projeção internacional da cidade, no desenvolvimento futuro. A nossa vila tem vindo a demonstrar um crescente interesse também por questões ecológicas e de 96


sustentabilidade ambiental. Inserida num território que integra a candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia (European Green Capital), Pevidém tem beneficiado de algumas das políticas e iniciativas promovidas nesse âmbito. Por isso, assume-se, hoje, como um território de grandes desafios e oportunidades no domínio da sustentabilidade ecológica. Com uma forte herança industrial, especialmente ligada ao setor têxtil, Pevidém procura, progressivamente, integrar práticas ambientais mais conscientes, num esforço coletivo de reconciliação entre o desenvolvimento económico e a preservação dos recursos naturais. A proximidade da ribeira de Selho — um curso de água historicamente afetado por descargas poluentes — tem despertado uma crescente preocupação entre a população, instituições locais e movimentos ambientalistas. Neste contexto, têm surgido iniciativas de mobilização comunitária, desde ações de limpeza e reflorestação até projetos de educação ambiental junto das escolas e das associações locais. A articulação entre os estabelecimentos de ensino, associações culturais e desportivas, entidades públicas e o tecido industrial é essencial para a construção de um futuro ambientalmente equilibrado. A integração de hortas pedagógicas, projetos de reciclagem e iniciativas de mobilidade sustentável nas práticas quotidianas da comunidade são exemplos concretos de como Pevidém se encontra no caminho para um modelo de desenvolvimento mais verde e responsável. O futuro da Vila de Pevidém passa, assim, por um compromisso coletivo com a ecologia — um compromisso que valorize o território, promova a saúde ambiental e incentive a cidadania ativa e consciente. Pevidém tem uma forte tradição desportiva, com destaque para o futebol, mas também com envolvimento noutras modalidades e práticas de lazer desportivo. O Pevidém Sport Club (Pevidém S.C.) foi fundado em 1968, sendo um dos clubes mais emblemáticos da vila. A equipa principal compete nos campeonatos nacionais (recentemente no Campeonato de Portugal, Complexo desportivo de Pevidém

o 3.º escalão do futebol português). Tem

uma estrutura sólida de formação, com escalões jovens que envolvem grande parte da juventude local.

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Mas Pevidém também tem uma tradição musical que se perde no tempo. A sociedade Musical de Pevidém, uma instituição de reconhecido mérito cultural e artístico, foi fundada em outubro de 1894. Esta teve como Diretores Artísticos: Manuel Martins Coelho Lima (1894-1928), Albano Martins Coelho Lima (1929-1931), Arnaldo Ferreira do Vale (1932-1948), António Ribeiro de Castro (1949-1959), Joaquim Martins Coelho Lima (1960-1969), Francisco Ribeiro (1970-2000), Maciel Matos (2001-2007) e Vasco Silva de Faria (desde 2007). É desde fevereiro de 2009 Instituição de Utilidade Pública, “pelos relevantes serviços prestados à comunidade ao fomentar a cultura, através da Escola de Música, da Orquestra Juvenil e da Banda Musical, contribuindo com tudo isto, para a elevação intelectual e artística dos seus sócios e da população em geral”.

Formulo o desejo de que todos saibamos dar o nosso melhor e mais válido contributo a esta história sempre inacabada e em permanente construção.

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RONFE – 26 anos de Vila Junta de Freguesia de Ronfe

Ronfe14, desde a elevação a vila15, mas com maior visibilidade desde 2013, tem passado por várias transformações e melhorias, promovendo o bem-estar de seus moradores e o desenvolvimento da comunidade. Ao longo desses anos, a vila tem mantido as suas tradições e, ao mesmo tempo, modernizando-se, promovendo melhorias nas infraestruturas, na qualidade de vida e na valorização do seu património cultural. Ronfe é hoje uma vila com identidade própria, dinâmica, com serviços, infraestruturas e um tecido associativo vivo que honra o passado e projeta com confiança o seu futuro. E é esse futuro que continuamos a construir — juntos. Nos últimos anos, temos concretizado importantes obras estruturantes para a melhoria da qualidade de vida da nossa população. Destaco a construção da Escola EB1/JI de Ronfe, oferecendo, hoje, melhores condições a alunos e professores e acrescentando uma resposta de Jardim de Infância público. Saliento, com enorme orgulho, a sede da nova Junta de Freguesia, que permitirá um melhor acolhimento e resposta a todos os cidadãos e que foi inaugurada no passado dia 24 de junho.

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Foi sede de concelho (Couto de Ronfe ou Couto de Vermil) até 1834. O pequeno município era constituído pelas freguesias de Ronfe, Vermil, parte de Mogege, e tinha, em 1801, 853 habitantes. Foi seu último juiz-presidente Juliano Ribeiro Bernardes, e último presidente eleito Bento Custodio Machado. 15

Elevação da povoação de Ronfe, no concelho de Guimarães, à categoria de vila, em 13 de maio de 1999. (Lei n.º 78/99, de 30 de junho)

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Destaco também a melhoria de acessos e pavimentações em diversas ruas da freguesia, reforçando a mobilidade e segurança, nomeadamente, na Rua da Barroca, na Rua da Lourinha, na Rua Delfina Vasconcelos, na Rua da Gandra e na rua Agra da Polé. Esta última com a requalificação da estrutura das águas pluviais e passeios pedonais. Investimos também na criação e requalificação de espaços verdes e de lazer, conscientes de que o espaço público é o lugar onde a comunidade se encontra e se reconhece, mais concretamente o Parque da Lourinha, o parque da Cooperativa Vimaranense e outros pequenos espaços verdes distribuídos pela freguesia. Mas Ronfe não cresce apenas em cimento e alcatrão. Ronfe cresce em cultura, em criatividade e em participação cívica. É com particular entusiasmo que temos apoiado e dinamizado projetos culturais que promovem o talento local e o envolvimento intergeracional da nossa comunidade. A título de exemplo, realço as residências artísticas que culminam em espetáculos anuais, nomeadamente, “Portugalidade”, “Inserir: O Submundo”, “Ser aqui”, “Quem Tem Medo da Flor do Campo”, tendo estado, nos últimos tempos, em construção, um novo espetáculo apresentado no dia 13 de junho; no mesmo auditório A Feira de Saberes e Sabores – Mercado de Artes e Tradições trouxe também uma nova vida à nossa vila, valorizando o artesanato, os produtos locais e os nossos criadores e artistas, reforçando a vida cultural e social, dando visibilidade ao que de bom temos em Ronfe. Acreditamos que a cultura deve ser uma casa aberta a todos e que o acesso à cultura é, também, um exercício pleno de cidadania. Continuamos também a apostar em atividades diversificadas para a infância e juventude, em colaboração com associações, escolas e parceiros locais. Destacamos a dinamização de atividades 100


referentes à semana da leitura, ao Dia Mundial da criança, ao embelezamento da Avenida Prof. Abel Salazar, no âmbito do Dia da Primavera e da Páscoa, entre outros. Cidadania é mais do que votar ou reivindicar. É cuidar do espaço público, é participar na vida da comunidade, é construir juntos respostas aos desafios de hoje e de amanhã. E Ronfe tem dado provas de uma cidadania ativa e solidária, sobretudo nos momentos mais exigentes — como foi durante a pandemia — e também no apoio aos mais frágeis, através das redes de proximidade e das respostas sociais que temos vindo a reforçar, nomeadamente a Academia da Razão que surgiu, inicialmente, como um projeto da junta de freguesia, no combate à solidão e isolamento dos mais velhos e que, hoje, é uma resposta efetiva. Prova desta dedicação é a atribuição, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, do “Selo de Comunidade Pró-Envelhecimento”. Apostámos também no apoio às instituições sociais e desportivas, valorizando o trabalho extraordinário que fazem diariamente junto das nossas crianças, jovens, idosos e famílias. Não posso deixar de destacar o Espaço Cidadão que representa uma importante mais-valia para a nossa comunidade, ao aproximar os serviços da Administração Pública dos cidadãos, de forma mais simples, eficiente e acessível. Neste balcão único, os ronfenses podem tratar de diversos assuntos do dia a dia sem necessidade de se deslocarem a vários locais ou a serviços centrais. Aurora Cunha – Lenda do Atletismo Aurora Cunha, nascida em Ronfe a 31 de maio de 1959, é uma das nossas glórias pois foi uma das mais notáveis atletas portuguesas. Especialista em provas de fundo e corta-mato, foi campeã mundial de estrada por três vezes consecutivas (1984, 1985 e 1986) e venceu maratonas prestigiadas como as de Paris, Tóquio, Chicago e Roterdão. Representou Portugal em três Jogos Olímpicos e é considerada uma referência no desporto nacional. 101


Em conclusão Ronfe é, hoje, uma vila que se orgulha da sua história, das suas tradições, mas que não tem medo de inovar. Uma vila que valoriza as pessoas, que constrói pontes entre gerações e que não deixa ninguém para trás. Ao celebrar o caminho feito, renovamos o nosso compromisso com o futuro. Um futuro sustentável, inclusivo, participativo e mais justo para todos os ronfenses.

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A Evolução de Ronfe em Meados do Século XX António Machado

As três décadas de meados do século XX, ou seja, entre a década de trinta e a década de sessenta foram décadas de autêntica revolução em Ronfe quer a nível de infraestruturas quer a nível social e económico. Senão vejamos: Em 1934, por intermedio de “grandes” figuras com poder de decisão junto do poder político, como o Engenheiro Pesado, Narciso de Sousa Lobo, Pinto de Oliveira, mas principalmente António Teixeira de Melo, que fazia Parte da Assembleia Constituinte de então, conseguiram “trazer” para Ronfe a Construção de várias infraestruturas sociais, a começar pela Casa do Povo na época de 1934. Em 1936, é construída a primeira escola pública, ou seja, em terrenos cedidos pela direção da Casa do Povo, junto à estrada Nacional 206. Só que, para construir o Posto Médico em local visível, ou seja, com fácil acesso, foi preciso transferir a escola para as traseiras da Casa do Povo para aí dar lugar à construção do Posto Médico. Não esquecendo que, na década de quarenta, é montada uma das primeiras bombas de gasolina em Ronfe, tal era a influência que tinham os decisores políticos e não só. Em 1948, é fundado o clube desportivo com o nome de Juventude de Ronfe, sendo um dos “grandes” responsáveis por esse feito o Padre Horácio Pároco da Freguesia. Também foi fundada a empresa Somelos, em 1958, pela” mão” de António Teixeira de Melo, empresa essa que deu uma dimensão a nível industrial, que ainda hoje é considerada uma das grandes empresas têxteis do país. Em 1960, nas Bodas de Prata sacerdotais do Padre Horácio, este é nomeado Monsenhor, sob proposta do Arcebispo de Braga. Não esquecer que este Padre foi considerado um dos maiores pregadores da região e não só; tal era o seu prestígio que chegou a pregar pela europa, nomeadamente em França, chegando, inclusive ao Brasil. Mas, além desse talento oratório, era um padre muito interventivo na paróquia a todos os níveis, conseguindo que o empresário Manuel Gonçalves oferecesse o terreno para a construção do Centro Paroquial e para a construção do campo de Futebol. A sua influência era de tal maneira que conseguiu os 103


apoios financeiros, por parte do Comendador António Teixeira de Melo, para a ampliação da Igreja na década de setenta. Como aqui se demonstra, desde os anos trinta do século XX, Ronfe teve um desenvolvimento de registo de que ainda hoje “colhemos” os frutos. Isso não quer dizer que, nos anos subsequentes e principalmente após a elevação da freguesia a vila, em 13 de maio de 1999, não tivéssemos investido em novas infraestruturas. É o caso da construção do parque escolar, do parque desportivo, do centro social, do parque de lazer, etc. Na década de oitenta, a “nossa” Atleta Aurora Cunha tornou-se um marco histórico para Ronfe pois levou o nome de Ronfe além-Fronteiras. O seu palmarés é invejável: No Campeonato do Mundo de Estrada -

1984, Medalha de Ouro 1985, Medalha de Ouro 1986, Medalha de Ouro 1989, Medalha de Bronze

Na Taça do Mundo de Pista -

1985, Medalha de Ouro - 10000 metros

Nas Maratonas -

Paris, 1988 Tóquio, 1988 Chicago, 1990 Roterdão, 1992

No Campeonatos Nacionais -

6 Títulos - 1500 metros 8 Títulos - 3000 metros 4 Títulos - 5000 metros 4 Títulos - corta-mato

No Campeonato do Mundo de Estrada (Nível CoAurora Cunha uma mulher de Ronfe – in, Revista de Atletismo

letivo) -

1987, Medalha de Ouro

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-

1990, Medalha de Ouro 1984, Medalha de Prata 1986, Medalha de Prata 1989, Medalha de Prata

No Campeonato do Mundo de Estafetas (Nível Coletivo) -

1992, Medalha de Ouro

No Campeonato do Mundo de Corta-Mato (Nível Coletivo) -

1990, Medalha de Bronze

Nos Jogos Olímpicos -

Los Angeles 1984 - 3000 metros (6.º lugar)

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TAIPAS – 85 anos de Vila Junta de Freguesia de Caldas das Taipas

As Caldas das Taipas, oficialmente elevadas a vila em 19 de junho de 1940, são uma localidade do concelho de Guimarães com uma história rica e enraizada na tradição termal e nas cutelarias. A exploração das suas águas minerais remonta ao século XIX, sendo as Termas das Taipas um ponto de referência nacional no turismo de saúde e bemestar. Com uma atividade em franco crescimento, as Termas das Taipas estão entre as 4 mais visitadas no país, o que demonstra a sua importância para a economia e a dinamização turística da vila. A afluência ao edifício dos Banhos Novos, inaugurado em 1908, segundo projeto de Francisco Xavier Esteves, foi apenas superada pelas termas de São Pedro do Sul, pelas termas da Piedade, no concelho de Alcobaça, e pelas de Chaves. No seu papel de dinamizador turístico da vila, que esteve também na génese da sua fundação, a Taipas Turitermas tem-se afirmado também nos últimos 10 anos com a produção cultural dos Banhos Velhos. Um projeto que já ultrapassou largamente a projeção local e nacional, sendo já uma marca internacional. Durante os meses de verão, a exploração do parque de campismo e das piscinas de verão atraem à nossa vila milhares de pessoas. Caldas das Taipas é também a Capital das Cutelarias. Com uma implementação industrial na nossa vila que remonta aos inícios do século XX, tem desde essa data uma importância fulcral para o desenvolvimento da nossa vila,

Recorte do Diário do Governo de 19 de junho de 1940

tanto pela sua importância como empregador, reforçando a sua importância social, como pela projeção do

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nome de Caldas das Taipas pelo mundo. Todos os Taipenses têm o hábito de, por todo o mundo, em hotéis e restaurantes, virar o talher para aferir se foi produzido nas Taipas. E, quase sempre, confirmamos que sim! Com muitas marcas de cutelarias que, entretanto, se foram extinguindo, à data, nas Caldas das Taipas afirmam-se marcas das mais prestigiadas a nível mundial como a Herdmar, Cutipol, Belo Inox e Cristema. Desde a sua elevação a vila, Caldas das Taipas teve um crescimento que a torna, hoje, num polo urbano agregador de serviços que mais do que a população da vila servem as populações em seu redor. Com um parque escolar de excelência, com duas escolas EB1 e as nossas escolas EB 2,3 e secundária que servem todas as freguesias da zona norte do concelho. De acordo com os Censos 2021, a freguesia conta com aproximadamente 7.500 habitantes, face aos 6.800 registados em 2001. Este crescimento foi acompanhado por investimentos em infraestruturas, como saneamento básico, redes viárias e equipamentos públicos. A proximidade a Guimarães permitiu também uma articulação positiva entre o ambiente urbano e a qualidade de vida local. A par da indústria, o Parque de Ciência e Tecnologia, recentemente instalado próximo da vila, na freguesia de Barco (inaugurado em 2008), agregou conhecimento e investigação ao nível internacional, desempenhando um papel relevante no desenvolvimento de 107


Guimarães, nas vertentes educacional, científica, tecnológica e empresarial, potenciadoras de um clima favorável à inovação de base tecnológica, tirando partido das sinergias e complementaridades entre as comunidades científico-tecnológica e empresarial. O associativismo desempenha um papel central no desenvolvimento cultural e social das Taipas. A vila é marcada por uma forte tradição associativa, que se reflete num número significativo de coletividades ativas nas áreas do desporto, cultura, recreação e intervenção social. Estas associações são verdadeiros motores de cidadania e dinamismo comunitário. Realce-se a Imagem das Taipas. In, https://Guimarãesagora.pt

Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários das Taipas, um exemplo do espírito solidário da vila, prestando serviços essenciais à população. No plano desportivo e cultural, desenvolvem as suas atividades diversas associações como: CARTCentro de Atividades Recreativas Taipense16; Clube Caçadores das Taipas; Clube de Ténis de Mesa das Taipas; APTB – Academia de Percussão Taibombar; Clube de Rope Skipping das Taipas – Molinhas; Clube de Ténis das Taipas; Moto Clube das Taipas; Escola de Judo para Todos; NAT –

Parque de Ciência e Tecnologia

Núcleo de atletismo das Taipas; CNE – Agrupamento 666 e a Banda Musical das Caldas das Taipas.

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Consultar o trabalho desenvolvido pelo presidente da Associação inserido neste número dos Cadernos.

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Essas associações contribuem ativamente para a coesão social e para a afirmação identitária da vila, mormente o associativismo juvenil e educativo que também tem vindo a crescer, com projetos que envolvem as escolas locais e que promovem a educação para a cidadania, a inclusão e a valorização das tradições. A articulação entre associações, junta de freguesia e escolas tem sido fundamental para manter viva a cultura local e garantir o envolvimento das novas gerações. Socialmente, as Taipas destacam-se por uma comunidade participativa e orgulhosa da sua identidade. As Festas de São Pedro, celebradas anualmente, são um momento de expressão máxima da cultura

Arraial das Festas em honra de S. Pedro

popular, reunindo milhares de visitantes e mobilizando quase todas as associações da vila. Estas festividades reforçam o sentimento de pertença e geram impacto económico positivo no comércio local. Em síntese, as Taipas são hoje um exemplo de vila que soube crescer com base na sua história, aproveitando os seus recursos naturais e fortalecendo uma rede associativa ativa que é pilar da sua identidade cultural e social. Com o Rio Ave como

Parque de Lazer da Praia Seca

âncora, a vila desenvolveu muito também as suas áreas de lazer que permitiram reforçar a nossa responsabilidade ambiental, tendo obtido inclusive o 1.º Lugar Eco-Freguesias. Com uma Ecovia que percorre toda a extensão do Ave na nossa freguesia e que liga o Parque de Lazer da Praia Seca, o Parque de Lazer das Taipas, o recentemente inaugurado Parque das Levadas e termina nas 109


Levadas do Arquinho. Neste ano de 2025, em que comemoramos os 85 anos de elevação a vila, a freguesia apresenta-se com uma forte dinamização social, cultural, associativa e desportiva, mas debate-se com outros desafios que decorrem principalmente com o crescimento que a vila tem apresentado necessitando assim de um acréscimo de condições que dê apoio ao crescimento urbanístico das Taipas.

Comemoração dos 85 anos de elevação das Taipas a Vila - 19 de junho de 2025

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GUIMARÃES – CAPITAL VERDE EUROPEIA 2026 Inserir separador

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Guimarães – Capital Verde Europeia 2026 Como cereja em cima do bolo e após o Centro Histórico da cidade ser reconhecido pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade, em 2001, e alargado à Zona de Couros, em 2023, bem como ser distinguida com os galardões de Capital Europeia da Cultura, em 2012, e Cidade Europeia do Desporto, em 2013, a cidade-berço vai, agora, consagrar-se, em 2026, como Capital Verde Europeia. Uma nova conquista que acarreta novos desafios, sobre os quais recolhemos depoimentos e testemunhos desta persistente luta e reptos futuros.

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Rumo à Capital Verde Europeia 2026 Adelina Paula Pinto, coordenadora da Candidatura a Capital Verde Europeia e membro da Direção Executiva da CVE 2026.

A 29 de setembro de 2013 era eleito um novo executivo liderado por Domingos Bragança. Recebia de António Magalhães e de todos os que o antecederam uma cidade e um concelho desenvolvidos e com marcas muito fortes. Guimarães tinha sido reconhecida como Património da Humanidade em 2001, como Capital Europeia da Cultura em 2012 e como Cidade Europeia do Desporto em 2013. Tinham sido anos de ouro em que Guimarães se destacou nas mais variadas áreas e se afirmava como um grande território pleno de identidade, de cultura e de património. Ao novo executivo competia acrescentar valor a toda esta herança recebida. E a visão de Domingos Bragança fez-se sentir logo ao definir a sustentabilidade ambiental como a prioridade, o desígnio dos seus mandatos! E se hoje isto nos parece natural, não o era de todo em 2013. Aliás havia alguma estranheza sempre que se ouviam estas palavras, pensando se este não devia ser um desígnio nacional ou internacional. Todos se questionavam sobre o que é que Guimarães, uma cidade de dimensão média, podia fazer pelo planeta, pela sua saúde ambiental. Mas, na cabeça de Domingos Bragança e, depois, na de toda a sua equipa, pairava a ideia de como podíamos cuidar do nosso património, da nossa cultura, da nossa história, se não cuidávamos da nossa casa comum? Por isso, este desígnio não desmerecia nenhum dos selos alcançados, mais os valorizava, acrescentando-lhe o cuidar, o zelar, o proporcionar melhor qualidade de vida aos nossos munícipes. Este foi um princípio de um longo caminho que ainda não terminou e nunca vai terminar. Todos sabemos, hoje, que a sustentabilidade ambiental tem de ser uma prioridade de todos: governos, autarquias, instituições, pessoas. E hoje, doze anos depois, não há governo nem município que não tenha o seu plano de sustentabilidade ambiental. E Guimarães tem servido de inspiração e de ajuda a quantos nos procuram. Mas se o objetivo era conseguirmos esta marca - sermos Capital Verde Europeia –, Domingos Bragança colocou mais uma inovação nesta causa de todos nós. Afirmou sempre que mais importante do que o objetivo era o caminho a percorrer, as aprendizagens que íamos fazer com o envolvimento de todos os 113


vimaranenses. É que este desafio assenta essencialmente na mudança de atitude de todos, dos que governam e dos que são governados, dos habitantes da cidade e dos habitantes das freguesias, das instituições, nomeadamente as escolas, as associações, os clubes. Este processo foi mesmo de grande importância para todos. Domingos Bragança percebeu logo que este era um tempo que tinha de unir todos, que não podia ficar ao sabor dos tempos políticos, que precisava de ser prioridade, rumo, fosse quem quer que fosse que governasse o município. E foi assinado um consenso político com todos os partidos que constituíam a câmara municipal e a assembleia municipal. Foi um processo de diálogo fácil pois todos entenderam a prioridade e o quanto íamos à frente neste processo irreversível. Depois do consenso era preciso ter um modelo de governança, que envolvesse todos, que se disseminasse pelo território, que envolvesse instituições, órgãos autárquicos, associações e cidadãos e sempre num processo participativo, de auscultação, de dar voz a todos, de explicar uma e outra vez os nossos projetos de reciclagem, de limpeza dos rios, de aumento das áreas verdes, de aposta na mobilidade suave, entre outros. O Laboratório da Paisagem (LP) foi um passo significativo neste tempo de construção desta identidade verde. Juntando o município de Guimarães com as Universidades do Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro, assumiu-se como o polo, a sede de uma política verde, assente na investigação, no conhecimento e na educação ambiental. Aqui foi e é de grande importância o programa PEGADAS, um programa de educação ambiental do município de Guimarães, ativado e desenvolvido pelo LP que chega a todos os alunos de todas as escolas de Guimarães, públicas, privadas, profissionais, de todas as idades, com dezenas e dezenas de projetos diferenciados que envolvem a mudança de atitudes e de paradigma! E este projeto saiu das escolas e foi também para o espaço público, para as associações, para os clubes, estabelecendo uma rede incrível e que muito ajudou a conseguirmos o título de Capital Verde Europeia. De 2013 a 2024, ano em que ganhamos o título, em Valência, muito trabalho foi feito. As três candidaturas feitas (2017, 2023 e 2024) foram essenciais para a mudança de paradigma e para entendermos bem a dimensão do nosso trabalho. Se no início falávamos de qualidade do ar, qualidade da água, áreas verdes e ecovias, hoje falamos de cultura carbono zero, de impactos do verde na saúde mental, do planeamento do território com fortes critérios ambientais. Se em 2013 este parecia um tema da área do Ambiente, hoje é um tema que abrange todas as áreas de governação: da educação à habitação, da coesão social e territorial ao urbanismo, da cultura ao desporto, da economia à energia! Porque todos contam. 114


As candidaturas, de uma enorme exigência, obrigaram-nos a um trabalho de recolha de dados, de comparação dos mesmos, de análise cuidada para a definição das políticas públicas, sempre numa perspetiva de transparência e de divulgação dos mesmos. Todo este processo empoderou os decisores políticos, mas também cada cidadão, hoje mais conhecedor, mais consciente e mais capaz de entender e de mudar as suas práticas. Neste ano de preparação da CVE, num ano em que também terminam os mandatos de Domingos Bragança, fica este selo. Um selo que demonstra a ousadia de Guimarães, a capacidade de se colocar sempre ao lado dos melhores, das melhores práticas, não desistindo e demonstrando capacidade de se ir adaptando e de redefinir os seus objetivos, cada vez maiores e cada vez mais envolventes. Das bacias de retenção que terminaram com as cheias na zona de Couros (o que permitiu integrar este território na zona reconhecida como Património da Humanidade), à construção da Academia de Ginástica carbono zero, à seleção de Guimarães como uma das 100 Cidades para a Descarbonização em 2030, ao Bairro C, ao Pacto Climático, ao aumento exponencial das áreas verdes, ao reforço da biodiversidade, muito e muito foi feito. E muito há que continuar a fazer (processo), para a mitigação das alterações climáticas, para a saúde de todos, para a qualidade de vida de cada vimaranense ou de cada cidadão que nos visita. E tudo isto numa lógica de coesão territorial, envolvendo todo o concelho, todas as freguesias, todos os lugares. A responsabilidade desta história de sucesso é de Domingos Bragança que teve a visão, a resiliência e a inspiração para todos contaminar. E a todos os vimaranenses que contribuíram para que tivéssemos dados que mostram que temos cada vez mais eco em cidadãos esclarecidos e defensores do ambiente. Que esta história continue, com outras inspirações, mas no mesmo caminho!

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Guimarães – A jornada Climática rumo à Capital Verde Europeia 2026 Carlos A. Ribeiro, Diretor Executivo Laboratório da Paisagem; Dalila Sepúlveda, Diretora de Departamento Ambiente e Sustentabilidade; Isabel Loureiro – Coordenadora Estrutura de Missão Guimarães 2030

Desde 2013, Guimarães tem percorrido uma notável trajetória no campo da sustentabilidade ambiental, afirmando-se como uma cidade pioneira na transição verde em Portugal e na Europa. Nascida de um profundo compromisso político e cívico, a sua jornada climática foi tecida com base em princípios de governança colaborativa, inovação, ciência cidadã e ação concreta no território. O reconhecimento mais recente — a nomeação como Capital Verde Europeia 2026 — é muito mais do que um prémio: é a celebração de uma década de trabalho contínuo, transversal e determinado. É a celebração de um percurso resiliente, de convicção que a preservação e valorização do Ambiente é uma causa de todos. Celebramos a conquista em Valência aquando da atribuição do galardão, celebraremos em 2026 em comunidade! Tudo começou com a ambição de colocar o ambiente no centro das políticas públicas. Em 2013, Guimarães já refletia sobre o futuro do seu território, compreendendo que o desenvolvimento urbano e económico só seria sustentável se alinhado com a proteção dos seus recursos naturais. Assim nasceu um novo paradigma de governança ambiental – Ecossistema de Governança 2030 –, assente na criação de um ecossistema colaborativo que articula o município, as universidades, as empresas, as escolas, as associações e os cidadãos. A Estrutura de Missão Guimarães 2030, constituída de forma voluntária em 2015, facilita a articulação entre todas as partes deste modelo de Governança multinível. Este modelo ganhou ainda mais expressão concreta com a criação do Laboratório da Paisagem, em 2014 — 116

Laboratório da Paisagem / Município de Guimarães (Candidatura Capital Verde Europeia 2026)


uma instituição de interface entre a ciência, investigação, educação e comunidade, que se tornou o centro nevrálgico da sustentabilidade no concelho. Com um enfoque em soluções inovadoras que procuram o envolvimento de toda a comunidade, o Laboratório da Paisagem tem sido protagonista em projetos de monitorização ambiental, aumento da literacia climática e envolvimento e empoderamento da população nos processos de decisão e intervenção. Guimarães tem investido fortemente na criação de conhecimento e na promoção da ciência cidadã. Através do programa Ambiental PEGADAS, por exemplo, milhares de alunos das escolas de Guimarães têm vindo a aumentar o seu conhecimento sobre alterações climáticas, gestão da água, biodiversidade e economia circular, contribuindo ativamente para o mapeamento de espécies ou a monitorização da qualidade dos cursos de água. Como disse Nelson Mandela, “a educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo” — e Guimarães tem provado isso com ações concretas e mensuráveis.

Laboratório da Paisagem / Município de Guimarães (Candidatura Capital Verde Europeia 2025)

A jornada rumo à neutralidade climática até 2030 constitui um dos compromissos mais ousados assumidos pela cidade. Guimarães é uma das cem cidades europeias selecionadas pela Comissão Europeia para 117


liderar esta transformação, no âmbito da Missão para as Cidades Inteligentes e Neutras Climaticamente. Para isso, elaborou e submeteu à Comissão Europeia o seu Climate City Contract, um documento estratégico que estabelece metas claras de redução de emissões, melhoria da eficiência energética, mobilidade sustentável, transição digital, gestão de resíduos, aumento do capital natural, e envolvimento dos cidadãos. Alcançar a neutralidade climática em menos de uma década exige mais do que metas técnicas — requer uma profunda mudança de mentalidades, hábitos e práticas, e Guimarães está a mostrar como isso se faz, com persistência e visão de futuro. Um dos projetos mais emblemáticos deste percurso é o projeto da criação de um Parque Linear de Guimarães, através da reabilitação das margens dos rios Ave, Selho e Vizela, através da criação de corredores verdes pedonais e cicláveis que percorrem os principais rios do concelho, interligando zonas urbanas, rurais e naturais. Estas Ecovias representam uma solução integrada que alia a mobilidade suave à valorização dos ecossistemas ribeirinhos, promovendo simultaneamente o lazer, e a biodiversidade. Ao caminhar ou pedalar por estas ecovias, é possível compreender como a cidade se está a regenerar a partir da sua relação com a natureza, recuperando muito da relação entre os cidadãos e os recursos naturais, que outrora esteve perdida. Também a gestão de resíduos tem merecido atenção especial, com programas como o programa PAYT, a estratéfica de Economia Circular RRRCICLO, que mobilizam cidadãos, empresas e escolas na promoção da redução e separação. Guimarães tem ainda reforçado o trabalho de promoção em sistemas de recolha de resíduos orgânicos, compostagem doméstica e comunitária, incentivando a economia circular e apostando em soluções para melhorar a recolha e valorização dos resíduos urbanos. A candidatura a Capital Verde Europeia — apresentada duas vezes, em 2017 e 2023, antes da vitória em 2024 — foi mais do que uma ambição simbólica. Representou um exercício profundo de avaliação, planeamento e envolvimento. O processo permitiu consolidar dados, rever políticas, ouvir as partes interessadas e reforçar a articulação entre áreas como a mobilidade, a energia, a água, a biodiversidade, os resíduos, ou até o desporto e a cultura. O júri europeu reconheceu o ecossistema de governança como um dos pontos fortes da candidatura, valorizando a participação ativa da comunidade e a coerência das estratégias de longo prazo. Talvez a frase atribuída à filósofa Hannah Arendt, “o milagre que salva o mundo, o domínio das questões humanas, é finalmente o facto de que os homens podem agir”, se possa aplicar ao caso de Guimarães. Aqui, a ação não é um slogan — é uma prática enraizada no quotidiano dos cidadãos e das instituições. Guimarães 118


entende que a sustentabilidade não é apenas uma meta ambiental, mas uma transformação cultural, social e económica. É, acima de tudo, um compromisso ético com as gerações futuras. Em 2026, quando Guimarães acolher os holofotes da Europa como Capital Verde Europeia, mostrará ao mundo o que construiu com coragem, ciência, participação e amor pelo território. Mas, mais importante do que a celebração será a continuidade. Porque a verdadeira capital verde não é aquela que vence um título — é a que mantém, dia após dia, a determinação de fazer mais e melhor, com todos e para todos. Como se repete vezes sem conta no seio da Rede das Capitais Verdes Europeias “Capital uma vez, Capital para sempre”. Na ambição e na responsabilidade.

Laboratório da Paisagem / Município de Guimarães (Candidatura Capital Verde Europeia 2026)

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PENHA rumo à CVE2026 – O verde mais verde de Guimarães Roriz Mendes, Juiz da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha

O encanto dos vimaranenses pela Penha é secular, nasce com a pessoa, entranha-se com o crescimento e abraça-se com a idade mais adulta. Esta paixão motivou-me a colaborar com a minha terra no Teleférico da Penha e, de seguida, com a Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha. Estudei e entendi a evolução histórica e a grandeza do sítio, compreendi todo o trabalho que os nossos antepassados dedicaram à nossa bela, encantadora e sagrada montanha. É uma tarefa agradável, porque cuidar da natureza e projetar o desenvolvimento sustentável é, também, acrescentar qualidade de vida tão importante ao futuro da humanidade. As maiores riquezas naturais deste espaço começaram por ser as rochas e a água. Mais tarde, as árvores, inicialmente como flores, aformosearam o conjunto que hoje compõem uma ecologia saudável sustentada nas melhores práticas ambientais necessárias à vida do ser humano e de todos os seres vivos animais e vegetais, que alimenta toda a biodiversidade do sítio. Hoje é local de acolhimento, pulmão verde que dá qualidade ao ar que se respira e que captura o carbono das emissões poluentes. É catedral da natureza onde as pedras falam, a água borbulha, as aves cantam, o silêncio se ouve, a fé fala às consciências e impressiona pela sua beleza e 120


harmonia. Na actualidade, é um pólo de enorme atracção turística motivada pela qualidade do sítio resultante da identificação, por nós efectuada desde 1996, quando foram definidos os principais objectivos com vista à implementação da conservação e melhoramentos a implementar, que deram origem ao Plano de Requalificação da centenária Estância Turística da Penha, então aprovado pela Câmara Municipal de Guimarães e pelo IPPAR e que nos permite, hoje, desfrutar de tão aprazível sitio do Local da Penha, onde a religiosidade e o verde são as marcas evidentes e perfeitamente incontornáveis. Todos sabemos que a Penha foi determinante para a atribuição do título de Capital Verde Europeia (CVE2026) à nossa cidade de Guimarães de que todos nós, vimaranenses, muito nos orgulhamos.

Teleférico da Penha, in CMG

Na primeira sessão da Comissão da Comunidade, no âmbito da preparação da CVE2026, que a Irmandade integra, lancei uma sugestão/revindicação que é a instalação na Penha de um Centro do Conhecimento Histórico, Cultural e Ambiental em homenagem a todos quantos, ao longo dos séculos, contribuíram para o aformoseamento daquele icónico local que bate cada vez mais forte no coração dos vimaranenses. 121


Se as anteriores candidaturas já trouxeram à Penha a água da rede de abastecimento público, a completa cobertura da rede de saneamento básico e uma rede de bocas e marcos com água para combate rápido em caso de incêndio, foi por nós também solicitada a instalação de câmaras de videovigilância alarmista de incêndio para melhor evitar que o mais qualificado parque arbóreo do nosso concelho seja vítima do flagelo dos incêndios. O rumo da CVE2026 vai valer a pena e deixará uma marca que nunca se apagará e que prestará a merecida homenagem a todos os vimaranenses que nos antecederam. Assim o Município o queira porque a Irmandade que tenho a honra de presidir está disponível para oferecer o terreno necessário.

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PEGADAS: Uma década de Educação Ambiental nas escolas de Guimarães Susana Poças Falcão Coordenadora de Educação para a Sustentabilidade do Laboratório da Paisagem

“Guimarães, um passo em frente Um gesto na educação Como olhar o ambiente Casa, escola, uma missão. (…)” Estrofe do hino PEGADAS

Há 10 anos, quando Guimarães lançou a primeira semente do Programa Ecológico de Guimarães para a Aprendizagem do Desenvolvimento Ambiental Sustentável – PEGADAS, deu um passo em frente rumo à missão de se tornar um território de referência ao nível da sustentabilidade ambiental, assegurando que todos, sem exceção, fizessem parte dessa jornada de transformação. O programa PEGADAS rapidamente se disseminou, ganhou raízes revelando-se uma estratégia fundamental, eficaz e verdadeiramente transformadora no que concerne à promoção da literacia ambiental da comunidade educativa de Guimarães. Com o foco assente na capacitação, envolvimento e na promoção da ação comunitária, o PEGADAS germinou, cresceu e hoje é uma presença diária em todas as escolas e IPSS do concelho. De forma integrada e holística, cada professor, aluno, encarregado de educação, assistentes

Os alunos em investigação

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técnicos, assistentes operacionais, psicólogos, avós, famílias, toda a comunidade foi instigada a observar atentamente o território, a aproximar-se da natureza, dos rios, das florestas, da biodiversidade, a (re)conhecer o património natural e a (re)conectar-se com o território, através de uma viagem entre o passado, o presente e o futuro, desenvolvendo um verdadeiro sentimento de identidade e de pertença, gerando um real compromisso com o desenvolvimento sustentável. Cada escola e IPSS tornou-se num agente polinizador assegurando uma verdadeira transformação, de dentro para fora, do cidadão para o território. Com mais de 100 atividades em diferentes áreas temáticas e dezenas de parceiros envolvidos, o PEGADAS mobilizou, ao longo desta década, milhares de alunos e realizou centenas de atividades, permitindo deixar sementes em várias gerações que hoje estão, seguramente, mais despertas, conscientes e preocupadas com as questões ambientais. Desde a infância aos mais velhos, o PEGADAS reforçou o diálogo sobre os problemas ambientais, através da transdisciplinaridade dos seus conteúdos e da transgeracionalidade das suas ações. Cada criança, jovem, adulto ou sénior tornou-se num embaixador da transformação através do reconhecimento e compreensão da necessidade de adoção de novos hábitos e comportamentos para a criação de um terTrabalhos dos alunos

ritório mais sustentável e resiliente aos desafios ambientais do futuro.

Hoje, o PEGADAS é um programa credível, reconhecido pela sua Educação de Qualidade, que vai muito além da transmissão de conceitos e ideias, mas que convoca verdadeiramente todos para um olhar crítico e atento sobre a ciência e a investigação ambiental, apostando na inclusão de estratégias de ciência-cidadã e da experimentação como forma de envolver e capacitar, sempre através de uma comunicação simples e clara, acessível a todos, garantindo respostas céleres aos desafios lançados pelas escolas, alunos e 124


comunidade. Todos assumem o papel de atores principais e todos colaboram e contribuem para a transformação territorial. Apesar da sua juventude, o PEGADAS já produziu bons frutos, sendo atualmente uma realidade replicada no outro lado do oceano atlântico, na cidade Brasileira de Chapada dos Guimarães, e também obteve reconhecimento e premiação por algumas das suas atividades nas esferas nacionais e internacionais, como por exemplo o Eco Parlamento, enquanto iniciativa inovadora de promoção da cidadania participativa jovem. Este é o resultado do sucesso de uma sementeira que vingou, cresceu e deu frutos, sempre acompanhada de perto por um trabalho consistente, persistente e de total dedicação pelos técnicos e investigaO despertar da curiosidade

dores do Laboratório da Paisagem que fo-

ram, são e continuarão a ser os motores basilares desta revolução, através da marca incomensurável que deixam nas diferentes gerações que passam por este programa. Como dizia Nelson Mandela “A educação é a arma mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo” e o programa PEGADAS foi, e é, a “arma” que permitiu impulsionar o caminho de Guimarães como cidade exemplo de sustentabilidade, a futura Capital Verde Europeia 2026.

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GUIMARÃES – HISTÓRIAS E MEMÓRIAS Inserir separador

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GUIMARÃES – Histórias e Memórias Guimarães, todos o sabem, é uma terra de história(s) e memórias com cerca de 900 anos de vida. Berço de usanças e costumes, tradições, lendas e momentos históricos e singulares, Guimarães tem, portanto, muito que recordar e contar. Neste espaço, por isso, apresentam-se algumas dessas narrativas sobre a identidade vimaranense, efemérides e vivências, nomeadamente o conflito brácaro-vimaranense de 28 de novembro de 1885, ocorrido há 140 anos, e visto pluralmente pelas duas partes do pleito.

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Guimarães há 100 anos Álvaro Nunes

Em 1925, há cem anos, ocorrerem eleições em Portugal, em consequência da renúncia ao cargo presidencial de Manuel Teixeira Gomes. Umas eleições marcadas por um forte absentismo, que deram a maioria ao Partido Democrático, quer na Câmara dos Deputados quer no Senado, órgãos constitucionais do governo que por sufrágio indireto propiciariam o regresso à Presidência da República de Bernardino Machado. De facto, 1925 seria um ano cheio de instabilidade política, que passaria por cinco governos republicanos. Com efeito, iniciando-se com a equipa governamental liderada por José Domingos dos Santos, que ficaria conhecido como o Governo Canhoto, pela sua proximidade às fações mais à esquerda do Partido Democrático, um novo governo seria nomeado em 15 de fevereiro, chefiado por Vitorino Guimarães, que duraria escassos meses. Realmente em 1 de julho tomava posse do poder a equipa governamental conduzida por António Maria Silva, que apenas estaria em funções cerca de um mês e que ficaria conhecido como o Governo Bonzo ou dos bonzos, a ala do Partido Democrático de alternativa aos canhotos. O ano passaria ainda pelo governo sob a liderança de Domingos Pereira que assumiria funções até 15 de dezembro; e prosseguiria com o regresso ao poder, pela 4ª. vez, de António Maria Silva, na chefia do 45º. Governo da I República. Porém, um ano que, além da inconstância governa-

Opúsculo editado pela Câmara Municipal de Guimarães, em 1987, sobre o centenário do nascimento de Mariano Felgueira, assinalado em 1984

mental, ficaria ainda marcado pelas dissidências. Recorde-se, entre outras ocorrências, a fundação do Partido

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Republicano de Esquerda Democrática, a tentativa de golpe militar em 18 de abril por parte da guarnição de Lisboa e o discurso do general Gomes da Costa perante o Ministro da Justiça, que causaria diversos comentários a nível nacional, recordado a nível local na edição do “Ecos de Guimarães” de 25 de agosto, que o glosa e transcreve parcialmente: “organize V. Exª., como é seu dever, os serviços militares (…), influa como também é seu dever para que o governo de que faz parte ponha em ordem a administração civil e financeira, cortando as cabeças a todos os chefes da quadrilha (…)”. Quiçá um aviso para a “nova ordem” que acabaria por se instituir com o 28 de Maio de 1926. Marcante e badalada seria ainda, neste ano, a conhecida burla de Alves dos Reis (1898-1955), administrador do Banco de Angola e Metrópole, que falsificou cerca de 200 mil notas de 500 escudos (modelo com esfinge de Vasco da Gama), que encomendara à empresa britânica responsável pela impressão das notas do Banco de Portugal. Um escândalo financeiro que levaria o burlão à prisão, em junho de 1930 e a fortes contendas político-partidárias, nas quais o Partido Socialista Português proporia um inquérito parlamentar, chumbado pelas restantes forças políticas, sob a argumentação que a competência do assunto pertenceria à esfera e poder judicial. Guimarães em 1925 Ora, é neste contexto de instabilidade política nacional que a cidade-berço mantém o poder municipal estável, confirmado após as eleições de novembro, no qual o PRP fez um acordo com os católicos e integrou membros da dissidência. Assim, no órgão executivo camarário, Mariano Felgueiras (re)assume a presidência, enquanto António Portas se mantém na vice-presidência. Igualmente, na Mesa do Senado da Câmara, Eduardo Pinto de Almeida, o anterior vice-presidente, ascende à presidência, enquanto Alberto Teixeira Carneiro se encarrega da vice-presidência, em substituição do anterior titular. De facto, em 1925, decorreram dois atos eleitorais: em outubro, para deputados, e no mês seguinte para a Câmara Municipal, ambos vencidos pelos republicanos. Sufrágios eleitorais que levariam o Jornal “A Razão” a rejubilar com os resultados: “as urnas provaram que a Nação é republicana”. E, concomitantemente, a expressar regozijo pela vitória nas eleições locais, pois “precisamos de uma Câmara que dê continuidade ao impulso forte dado ao desenvolvimento da cidade pela atual vereação”. Obviamente, uma opinião não partilhada pelo periódico monárquico “Ecos de Guimarães”, que 130


considera “a eleição do Sr. Mariano Felgueiras está assegurada pelo Ministro do Interior e pelo roubo e falsificação das actas (…)”, aditando mordazmente que “vai ser a continuação daquela rotunda com a muralha enterrada”, numa referência às obras em curso dos novos Paços do Concelho. Um ponto de vista que seria secundado pelo jornal monárquico “Comércio de Guimarães” que, em título da sua edição de 18 de dezembro perspetivava esta eleição como “A última vitória republicana”. De facto, umas eleições que os monárquicos contestariam no “Ecos” de 26 de novembro: “Apesar da declaração do chefe do governo de que as eleições seriam livres, o resultado está bem conhecido de todos. Nunca a roubalheira atingiu tal grau (…). Mas as eleições municipais sofreram o mesmo mal de serem em muitas partes livremente … republicanizadas.”

Efetivamente, na época eram constantes as insinuações e os remoques agressivos na imprensa local entre os jornais monárquicos como o “Ecos” e o “Comércio de Guimarães” e o republicano “A Razão”, que amiudadamente se travavam de razões e faziam eco das suas linhas ideológicas. Ademais, eram frequentes os artigos de cariz dogmático e ideológico, em detrimento da vertente informativa, não obstante a crítica a situações concretas e frequentes acerca da carestia da vida, em especial sobre o preço do pão e do peixe, que a edição do periódico “A Razão” de 1 de agosto assim perspetiva e refere: “Guimarães, o decantado berço, é uma das terras do país em que mais caro se come. Um bando de abutres cravou as garras no desgraçado populacho e vai arrancar-lhe a camisa e o couro. Insaciáveis, não se contentam com os lucros formidáveis auferidos durante e após a guerra (…) Lembramos a necessidade imediata de impor a esses senhores um tabelamento em harmonia com o custo actual da matéria”.

Uma situação que mereceria inclusive a intervenção do Diretor da Missão Agrícola de Guimarães, o engenheiro agrónomo João de Mota Prego, que em comunicado publicado em 12 de agosto, na “Razão”, escreve que “Braga e Guimarães sob o ponto de vista do custo da matéria prima se encontram em condições semelhantes”. Concluiria, deste modo, que “os números que apresento demonstram bem o lucro excessivo que os industriais desta cidade auferem com o sacrifício dos consumidores”. De facto, como o citado jornal defende e escreve na sua edição de 17 de setembro “Rouba-se e descaradamente.” Denúncias especuladoras que atingem também os lavradores, que na edição de 22 de abril do jornal “A 131


Razão” são tratados como varões de má-fé comercial: “Estes ilustres varões que pedem por um magro olho de couve duas ou três coroas e preferem dar aos porcos os seus produtos a vendê-los por quantia inferior aquele que lhes dá na gana exigir, estes ilustres varões que vendem o milho e outros cereais indispensáveis à alimentação por preços fabulosos, resolveram ir para a greve por causa dos novos impostos camarários, a meu ver justos e necessários.”

No fundo, casos que continuamente são denunciadas noutras edições jornalísticas e que leva, na esteira da entrevista do republicano unionista Brito Camacho, concedida a um jornal da capital, a ser extrapolada e corroborada localmente, quando afirma que “era necessário republicanizar a República”. Com efeito, a ideia de que a República está longe de ser o que deve ser e os brados contra os aventureiros e traficantes que se tornaram políticos é o sentimento que perpassa em muitos, inclusive entre os republicanos. Curiosamente, uma ideia que os monárquicos acolheriam ironicamente, como se lê nos “Ecos de Guimarães” de 8 de março: “O regime republicanizou os livros de registo paroquiais (…) republicanizou os bens da Igreja (…) Pela decretação de novos tributos e pela multiplicação dos que já existiam, o regime vai republicanizando os bens dos particulares com toda a sem cerimónia. Republicanizar é um eufemismo dum verbo que agora está fora de moda.”

De facto, perspetivas ideológicas que acerrimamente eram defendidas pela oposição monárquica nos seus periódicos, que, de forma interrogativa e retórica, questionava à laia de propaganda eleitoral, a governação republicana, como se constata neste excerto do “Ecos” de 18 de julho: “Onde estão as garantias de liberdade individual? Capturas sem culpa formada e fora de flagrante delito (…) Nunca os cárceres estiveram tão cheios de prisioneiros como nesta era de redenção. Da liberdade de imprensa nem falem. É uma burla. Quem é capaz de enumerar os jornais que desde 5 de Outubro foram assaltados, suspensos ou suprimidos? Quanto à economia é de ver quantos milhares aumentou o número de empregados públicos (…) o grande aumento de impostos (…) a justiça, que agora nem é mais expedita, nem mais barata, nem mais segura.”

Mas, em Guimarães, além dos problemas nacionais e da carestia da vida, bem como outros decorrentes da gestão global, eram ainda evidentes outras carências básicas, nomeadamente no ensino, uma das bandeiras republicanas. Realmente, como o expressaria o reitor do Liceu, Soares Oliveira, na entrevista, na “Razão”, de 13 de agosto, em que lamenta a perda do curso complementar de Letras, apesar de ser o terceiro 132


em frequência (aspeto já desenvolvido na edição anterior de OsmusikéCadernos3 (2021: pp 349-351), mostram-se difíceis as condições do liceu, instalado no antigo edifício do seminário. De facto, como asseveraria “não recebemos um centavo para melhoramentos das condições pedagógicas desta casa (…). Além disso, acrescentaria, “carecemos de 15 salas de aulas e 3 laboratórios (Química, Física e Ciências Naturais), gabinete de Geografia e Topografia sala de Desenho e de Línguas. Carecemos de reitoria, uma secretaria, sala de professores e alunos, biblioteca, gabinete dos contínuos, e WC’s que são uma vergonha. Atualmente temos 10 salas de aula, algumas em fracas condições.”

Uma situação que se “agravaria” pela nova reforma de ensino, que (e bem), em vez das turmas formadas por 50 alunos, estabeleceria o máximo de 30 alunos por turma nas aulas teóricas e 15 alunos em trabalhos práticos. No entanto, um caso que também se agravaria com a publicação do decreto nº. 10352, de 11 de fevereiro, que passaria para as Câmaras o pagamento das despesas com rendas, reparações em edifícios próprios, expediente e limpeza e fornecimento de mobiliário, onerando os municípios. (Curiosamente, nesta mesma edição são publicados os resultados da frequência do ano letivo de 1924/1925 na Escola Industrial Francisco de Holanda, apesar de ainda não existirem rankings). As obras (públicas e privadas) Quanto à carência e obras em curso, a entrevista de 11 de fevereiro de Mariano Felgueiras, concedida ao jornal republicano “A Razão” é elucidativa, quer como relatório e propostas, quer como recados à oposição. Destacam-se assim as reparações e alargamento de caminhos rurais nos quais se gastaram cerca de 120 contos e a conclusão da estrada à Penha, que custou perto de 85 contos, mas cuja intervenção a oposição monárquica desvalorizaria e criticaria no “Ecos”, por entender que foi feita para servir o Presidente da Câmara que ali tem um rico chalet. Paralelamente, na cidade, sobressaem as obras destinadas à nova cadeia, que segundo o entrevistado se estima concluída no final do ano e o alargamento do cemitério, considerado uma necessidade premente, na qual se “enterraram” 12 contos.

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Antiga cadeia de Guimarães

Atual estabelecimento prisional de Guimarães - imagem proveniente do Wikimedia Commons, um acervo de conteúdo livre da Wikimedia Foundation.

Porém, na altura, o abastecimento de água às Taipas e Vizela constituiria a carência mais ansiada, empreendimentos com investimentos já em curso, que levaram a gastar 24 contos em Vizela e 40 contos nas Taipas. Um projeto que, nas Taipas, se estima ascender aos 200 contos e que se supõe brevemente satisfazer por completo as aspirações taipenses. Sobressai ainda neste ano, a compra do palacete de Minotes, sito à atual Rua de Santo António, para instalação dos Correios e Telégrafos. O telegrama de Alberto Teixeira Carneiro, presidente do Senado vimaranense, dirigido a Mariano Felgueiras é elucidativo do júbilo e urgência: “Fechei contrato por cento e quinze contos. Mandem já procuração por pessoa de confiança para assinar a escritura que será feita aqui”.

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PALACETE DE MINOTES. Foto cedida pelo Arquivo Alfredo Pimenta.


Uma boa notícia que a edição de 10 de julho do “Comércio de Guimarães” dá devido relevo, não obstante o reparo posteriormente publicado, em 14 de agosto, sob o título “Coisas da nossa terra”, sublinhando a resposta tardia deste anseio. Críticas que à colação seriam ainda extensíveis à situação na Penha, pois “não há iniciativa de arranjar um elevador, ou qualquer meio que ali facilite a subida”, assim como à falta de alojamento na cidade (“não há hotel em condições”), obrigando ao recurso hoteleiro nas Taipas e Vizela. Todavia, como positivo, apenas a SMS: “o que nos salva é a Sociedade Martins Sarmento”. Além disso, a rede telefónica seria outra importante conquista, avançando-se prioritariamente para as ligações a Braga, Pevidém, Vizela, Taipa e Santo Tirso. Contudo, a prossecução do Projeto do edifício para a Câmara Municipal de Guimarães e outros serviços, bem como do Plano Geral de Alargamento da Cidade, (na atual Praça da Mumadona), eram a menina dos olhos da edilidade. Basta ler “A Razão” de 1 de agosto, em especial os artigos assinados pelo arquiteto Marques da Silva e o capitão Luís de Pina, autores dos projetos, que descrevem minuciosamente os novos planos para a cidade-berço. Obras que permitiriam abrir três avenidas de 18 a 20 metros de largura, donde irradiariam ou-

Mapa do Alargamento da Cidade, foto cedida pelo Arquivo Alfredo Pimenta

tras ruas que iriam constituir a nova urbe vimaranense, para as quais já teriam sido investidos 120 contos em 135


obras e compras de terrenos. Projetos emblemáticos que décadas mais tarde, a despeito do projeto do edifício para a Câmara ter ficado pelo caminho, mereceriam por parte do arquiteto Fernando Távora veementes elogios: “Não é nossa intenção descrever em pormenor a solução preconizada pela Gerência Municipal de 19231925 para a expansão de Guimarães, mas simplesmente sublinhar o arrojo e a dimensão de uma iniciativa que marcou definitivamente a forma da cidade. Era preciso inovar e os homens de 23-25 foram realmente inovadores eles caminharam com visão e sabedoria entre o sonho e a realidade”.

Porém, projetos também contestados pela oposição monárquica, que jocosamente considerava a obra da “Rotunda do Mariano” – assim lhe chamava sarcasticamente - e entendia ser um projeto esbanjador: “A nossa Câmara há de ficar na História pela sua administração e pelos mirabolantes projectos, descurando por completo a limpeza da cidade e os reparos que algumas ruas precisam” – Lê-se no “Ecos de Guimarães” de 21 de março. Uma obra que motivaria ainda alguma polémica por implicar o derrube de 30 metros da muralha medieval, já em ruína, na sua extremidade; e pelo facto de serem projetos caros, para os quais seriam lançadas onerosas derramas, especiais e contributivas. Outro dos acontecimentos altos seria a inauguração do Café Oriental, no Toural, em 19 de dezembro, que 42 anos depois (em má hora) seria demolido para dar lugar a uma dependência bancária do BPA. Ademais, como noticiava o “Notícias de Guimarães” de 16 e julho de 1967, “o conhecido Café Oriental passa a partir de hoje a constituir saudade”. Contudo, um acontecimento que em 1925 seria também anunciado pelo monárquico “Comércio de Guimarães” de 18 de dezembro de 1925, sob o título “Um estabelecimento que honra e engrandece a nossa terra!”, que mereceria honras em toda a primeira página do periódico ao evento da inauguração: “Vai ser solenemente inaugurado, ali no Toural, na antiga Casa Magalhães, o mais distinto estabelecimento em concepção artística, em apuro inteligente de gosto, moldado em feição e em costumes à maneira egípcia (…) Ali dentro, está-se perfeitamente em ambiente Oriental. (…) Prestamos hoje justa homenagem aos nossos sympáthicos amigos e srs. José e Francisco da Costa Magalhães, Eugénio Leite Basto e José Fernandes da Costa Abreu, societários do novo café (…) que não tem parceiro, em gosto, nem em elegância em terras de Portugal (…), que tiveram a ajudá-los, e deu-lhes a alma toda de beleza e bom gosto, o devotado vimaranense sr. Capitão Pina”.

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Uma ocorrência que o “Ecos de Guimarães”, dias depois, já em 2 de janeiro de 1926, também abordaria num artigo do escritor e publicista vimaranenses A. L. de Carvalho, que, numa prosa soberba, a três colunas de leitura saborosa e pícara, testemunharia e nos convidaria a entrar: “É entrar, senhores! É entrar! Na certeza de consciência de uma casa de Café, como o Café Oriental, não é um lugar de perdição, mas de resgate, pois não só restitue os créditos à nossa boa terra, como até nos dá, a todos, esse verniz de civilização que tanto andávamos precisados. Vamos, pois: coragem, caro leitor! É deixar a bisonhice. A Dona Opinião Pública tomará assento ao nosso lado, lembremo-nos que já Bocage frequentou o Nicola, Ramalho o Martinho e Camilo o Águia d’Oiro, o que prova que a atmosfera de um Café, embora carregada de fantasmas microbicidas, constitue um meio admirável para caldear a inteligência e forjar opiniões (…)”

Infelizmente, já não podemos entrar… De facto, além das querelas locais eram frequentes as divergências a nível político e social, e o constante clima de

[1925/1967] Café Oriental, Painel da Batalha de Ramsés IIRef: PT/AMAP/PSS/JF/0002/6-66-9-8

guerrilha e troca de motejos ostensivos pelas mais diversas ocorrências, desde as mais comezinhas como o matadouro sem veterinário, ou a nomeação do médico municipal Alfredo Fernandes, por ser simultaneamente vereador. Obviamente afloravam-se também questões de fundo e nacionais, muitas vezes e convenientemente extrapoladas para o nível local. Entre outras, por exemplo, ganharia foros de discussão a legislação do horário de trabalho com base nas 8 horas diárias, com 2 horas de folga, promulgada pelo governo central republicano, no mês de maio. Efetivamente, segundo os monárquicos o horário de trabalho “precisa de ser moldado, de moldes a equilibrá-lo conforme as exigências e os misteres de cada um”, alvitrando que

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“o descanso é preciso, mas é preciso a quem trabalha e não àquele que do trabalho só conhece o nome” – lêse no Ecos de Guimarães de 16 de junho. Guerrilhas que de facto se estenderiam a outros problemas nacionais e governamentais como a não autorização do governo da continuação do monopólio dos fósforos, ou ao contrato com a radiotelegrafia e telefonia com a Marconi, que a oposição monárquica entenderia favorecer e proteger os interesses estrangeiros. Mas, não obstante pontos de vista diferenciados, como sempre as festas congregavam e saíram à rua, ainda que nem sempre com o brilho de outrora. Por exemplo, as Festas Gualterianas realizar-se-iam apenas com as Feiras Francas, complementadas com outros atrativos festivos, designadamente o animatógrafo ao ar livre e um concerto pela banda da Regimento de Infantaria 20. Porém, uma programação que contaria com um inédito número de acrobacia de enorme sucesso popular. Uma exibição a cargo de um casal de acrobatas portugueses Verimon e Lita que escalaria a torre da Igreja dos Santos Passos e que, pelo seu sucesso popular seria repetida em anos seguintes. Quanto às Festas Nicolinas, decorreram com habitual entusiasmo, com os seus costumeiros números e um espetáculo no Teatro D. Afonso Henriques, no 1.º De Dezembro. E, ainda, com mais um Pregão do Padre Gaspar Roriz, cujo sentido crítico se centrou sobretudo na moda vigente, em especial no abandono da velha trança em detrimento do corte de cabelo à garçonne, importado de França: “Filhas de Guimarães, Senhoras tão gentis, perdoai, perdoai por vir meter nariz nessa magna questão a que não sou chamado eu quero-vos falar, Senhoras, do toucado. A França é bem cruel! Maldita seja a França! Que mal lhe faria a nossa linda trança?! (…) Cabelo à garçonne! É isto o que nos vem da pátria de Cambronne! Senhoras, não quereis obedecer à Moda, ela é quem assassina a beleza toda que Deus vos concedeu: - ‘Meninas, andai nuas’ … E agora o que é que diz, altiva, erguendo o braço? - ‘Os cabelos cortai, rapai-me o cachaço’ … E usais, sem repontar, cabelo à garçonne.”

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A nível cultural e no ano de centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, a imprensa local referiria algumas conferências sobre a efeméride e a publicação do livro “Camilo em San Miguel de Seide”, de Alberto Veloso Araújo. Outrossim, a Exposição de sucesso de Abel Cardoso, no Porto e a continuidade da publicação periódica da Revista Gil Vicente. Badaladas seriam ainda as comemorações do 25.º aniversário da Associação dos Empregados do Comércio de Guimarães, com representações teatrais no Teatro D. Afonso Henriques, que culminaria com um jantar no Grande Hotel do Toural, abrilhantado pelo Sexteto, sob a regência de José Guise e preleção do Padre Gaspar Roriz, que apelaria à contribuição de todos para a conclusão do Monumentos aos Aviadores, na Penha. Obviamente ocorreria como habitualmente o 9 de Março na Sociedade Martins Sarmento, que contaria com uma conferência do reitor da Universidade do Porto, Francisco Gomes Teixeira, instituição vimaranense que estaria na linha da frente na organização de outras palestras brilhantes, nomeadamente por parte de Jaime Cortesão que dissertou sobre” Santo António e as origens do Renascimento em Portugal”. De igual modo, não faltou a Peregrinação à Penha e a Ronda da Lapinha, num dia de sol abrasador. Uma ronda que a despeito de ter ficado pela frescas Penha, deixaria a promessa de no ano seguinte descer à cidade. Até porque a descer todos os santos empurram… Entrementes, realizar-se-ia ainda a Festa da Padroeira e comemorações da Batalha de Aljubarrota em 14 e 15 de agosto, os festejos nas Caldas das Taipas, com um inédito derby de futebol Vitória-Braga, uma gincana automóvel e um concerto pela banda do RI 20. E, logicamente, para gáudio dos republicanos, as comemorações do 5 de Outubro de 1910. Afora estas festas, registar-se-iam ainda vários banquetes de homenagem ocorridos, destacando-se o de Abílio Torres, em Vizela, o de Mariano Felgueiras e de Eduardo de Almeida, este último com a presença praticamente de todos os quadrantes políticos, entre os quais Joaquim de Meira, líder monárquico, A. L. de Carvalho, Azevedo Machado, diretor do Comércio de Guimarães, entre outros. Com efeito, nesta época uma forma de reconhecer e distinguir os ilustres eram os jantares de homenagem. Deste modo, seria ainda prestado tributo a David Oliveira, professor do Liceu e diretor do jornal “A Razão”, que era considerado o jornal da Câmara, em cujo repasto estariam presentes os três partidos republicanos: o Partido Republicano Português, o Partido Republicano Nacionalista e o Partido Radical. Assim eram os tempos no ano da (des)graça de 1925. Quaisquer semelhanças ou diferenças com os dias atuais é pura coincidência… 139


A Identidade Vimaranense: Construção, Evolução e Manifestações Alberto Lameiras

Ao definirmos o conceito de identidade, teremos dificuldade em fazê-lo assentar em critérios justificativos de validade universal, mesmo quando o situamos face aos seus níveis mais extremos, como são o da identidade territorial, étnica ou nacional. Contudo, há um dado tão permanente e fundamental como intrínseco e essencial de que é necessário partir quando pretendemos caracterizar antropologicamente todo e qualquer povo: o facto de que o que realmente nos separa tanto dos animais como dos outros grupos étnicos é a cultura. A cultura que deve ser entendida não como substância inerte, mas como um conjunto de processos dinâmicos, que se constrói a partir de referências com significado, em permanente diálogo social, em processos de interpretação sobre os quais se cria e recria uma tradição. A identidade dos vimaranenses é uma construção complexa e dinâmica, ainda que seja sentida por muitos como uma representação singular. Guimarães, cidade berço da nacionalidade portuguesa, é marcada por um legado histórico singular que, até meados do século XX, moldou profundamente a identidade dos vimaranenses. Esta identidade, porém, não se construiu apenas sobre os pilares da história medieval ou, mesmo neste século, sobre o património material reconhecido pela UNESCO. As festividades e realizações culturais, o tecido associativo, o Vitória Sport Clube, representam importantes contribuições para a preservação e renovação dos traços identitários dos vimaranenses. Indubitavelmente, o passado histórico representa o principal acumulador simbólico da identidade vimaranense. A forte ligação entre a cidade e a fundação do país, reforçada tanto pela origem da nação quanto pelo seu bem preservado centro histórico, contribui significativamente para o sentimento de pertença da população vimaranense. Esse sentimento de pertença manifesta-se na forma como a comunidade local valoriza e perpetua a sua herança cultural e histórica. A fundação de Portugal é uma herança histórica amplamente valorizada em Guimarães. O nascimento de Afonso Henriques e a batalha de S. Mamede são dois marcos relevantes que assinalam, de forma indelével, a afirmação da autonomia do Condado Portucalense face ao Reino de Leão e Castela, traduzindo-se num 140


forte sentimento de identificação de Guimarães com o nascimento da nação17. “Aqui nasceu Portugal”, inscrição colocada no pano da muralha medieval, traduz o sentimento da coletividade vimaranense. Paralelamente, o centro histórico desempenha um papel crucial na preservação dessa identidade. Classificado como Património Mundial da UNESCO, o seu conjunto arquitetónico medieval, com maior relevância para o Castelo, o Paço dos Duques de Bragança e as suas praças e ruas de traçado antigo, permite um contacto direto e autêntico com o passado. A conservação desses espaços históricos, quer através da ação dos moradores, quer através da realização de eventos culturais, impulsionada pela dinâmica do associativismo, contribui para a continuidade das tradições e da memória coletiva, fortalecendo a identidade local. A fusão entre a fundação e o património material de Guimarães cria uma identidade vimaranense sólida, alicerçada na valorização da sua história e na preservação do património. O associativismo em Guimarães tem raízes que remontam ao período medieval, com as corporações de ofícios e confrarias religiosas que organizavam a vida social e económica da cidade. No entanto, foi durante o século XIX, com o advento do liberalismo e da industrialização, que surgiram as primeiras associações modernas, como resposta às transformações sociais e económicas.18 O associativismo vimaranense tem funcionado, ao longo de gerações, como um mecanismo essencial de produção e reprodução identitária, oferecendo espaços onde a memória coletiva é preservada, contestada e reinventada. As associações não são

17 A comemoração da batalha de S. Mamede em 24 de Junho de 1128, considerada o primeiro passo na construção da identidade e soberania

de Portugal, é um acontecimento amplamente valorizado em Guimarães, feriado municipal, que reclama um reconhecimento oficial mais alargado – a data de celebração da identidade nacional. 18 O portal da Câmara Municipal de Guimarães, https://associativismo.guimaraes.pt/, enumera cerca de cinco centenas de associações com intervenção nas mais diversas áreas, com maior relevância na cultura e no desporto, sendo um dos acumuladores simbólicos de relevância decisiva para a afirmação da identidade vimaranense.

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apenas repositórios de tradições, mas verdadeiros laboratórios onde a identidade vimaranense é continuamente negociada face às transformações sociais e culturais. As associações, com realizações ritualmente assinalados no tempo, são, para além disso, instituições que afirmam a sua intervenção em ações que procuram definir uma continuidade em tradição e inovação, de renovação do passando integrando-o no presente. As práticas associativas foram e continuam a ser determinantes no sucesso dos mais diversos acontecimentos que acontecem em Guimarães; é com elas que se estabelece a renovação e a mudança, se faz a articulação entre o passado histórico, fundado no estatuto do nascimento da nação e o medievalismo do património construído, com a adesão a novas perspectivas e horizontes culturais, sociais e económicos, com expressão na elevação da cidade a património mundial, a capital europeia da cultura e, em 2026, a Capital Verde Europeia. Num mundo cada vez mais globalizado e homogeneizado, o associativismo vimaranense representa um contraponto significativo, afirmando a importância das identidades locais não como refúgios nostálgicos, mas como plataformas de cidadania ativa e criativa, capazes de reconciliar o sentido de pertença com a abertura ao mundo. As festas nicolinas, um acontecimento festivo fortemente mobilizador da população vimaranense, têm como característica mais relevante serem promovidas e organizadas por estudantes, com grande impacto na construção da identidade coletiva. Os estudiosos que se têm debruçado sobre este tema manifestam dificuldades em situar cronologicamente a origem das festividades, invocando falta de documentação. Na verdade, o nome "Festas Nicolinas" surge documentado apenas em 1904, apesar de ser tentador, para alguns, relacionar as festividades com S. Nicolau, atribuindo esta relação com a existência de um documento notarial de 1646, menciona uma ocorrência de vandalismo estudantil durante a noite de São Nicolau, que indica a já estabelecida tradição festiva. Esta tese é sustentada ainda pela criação da Irmandade de S. Nicolau com a função de regulamentar os festejos e equilibrar o aspeto religioso e profano. Uma abordagem estrutural das festividades remete-nos para a ocorrência de celebrações marcadamente profanas características dos rituais festivos europeus do ciclo outono-inverno e as festas de rapazes, onde são permitidos momentos de transgressão e inversão dos papéis sociais, podendo indiciar que as festas são anteriores ao cristianismo19. A transferência das festas pagãs para a celebração cristã é um processo

19 Ao longo da história das civilizações, os rituais ligados à reprodução e subsistência, foram aqueles que, por razões óbvias, se revestiram da

maior importância, designadamente os rituais de puberdade. A perspicácia com que, no início do século XX, Van Gennep estruturou os rituais

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recorrentemente utilizado em toda a Europa à medida que o cristianismo se consolidava, um processo sincrético de cristianização do paganismo. Assim se explica a ocorrência da generalidade dos acontecimentos não cristãos nas festividades dos estudantes. Ao longo deste processo de transformação das festas num acontecimento popular, vivenciado a partir da democratização do ensino, depois da revolução de Abril, merece a nossa reflexão o processo de apropriação das nicolinas por uma elite identificada com os alunos do então liceu, em afirmação de um estatuto de distinção social de exclusividade na sua realização20. Embora a elitização das festas nicolinas tenha dominado, sobretudo desde o século XVII, essa característica foi-se diluindo no tempo. A democratização do ensino e a abertura política trazida pelo 25 de Abril, contribuíram para a afirmação de um símbolo de identidade e tradição vividas intensamente por todos os estudantes, antigos estudantes e extensivas a toda a população, tornando-se um pilar fundamental da identidade vimaranense. As Festas da cidade e Gualterianas celebradas em honra de São Gualter, o momento mais importante do ciclo festivo, realizam-se em Guimarães, desde 1906, altura em que a Associação Comercial de Guimarães tomou a seu cargo a missão de fazer renascer as Feiras Francas de São Gualter. Surgiram da necessidade de estabelecer uma celebração coletiva que envolvesse toda a comunidade e atraísse visitantes, fortalecendo o sentimento de pertença e orgulho local, tornando-se a cidade o espaço da centralidade e unicidade do concelho com o movimento centrípeto e de inclusão dos vimaranenses.21 Ao longo dos anos, as Festas

de passagem, possibilita que tal exercício etnológico possa a ser aplicado às festas nicolinas. Em todos os rituais é possível observar-se a constituição de sequências encaixadas umas nas outras, possuindo no essencial, a mesma estrutura trifásica. A primeira fase compreende o comportamento simbólico pelo qual se expressa a separação do indivíduo ou do grupo, quer do ponto de vista anterior que desfrutava na estrutura social e/ou de um conjunto de condições culturais; é uma fase em que os jovens se afastam simbolicamente da sua posição anterior no grupo social, investidos através de eleição para a comissão de festas e adoptando um novo vestuário – o lenço à tabaqueiro e a mitra nicolina, o fato preto e a capa; o número do pinheiro assinala esta fase, cabendo aos velhos o papel de indicar aos novos o caminho a seguir. A fase intermédia é um período de tabu, ou liminaridade. O indivíduo é considerado como se estivesse fora do tempo, não desempenhando qualquer papel normal na sociedade. Corresponde a uma fase ambígua, na medida em que o “passageiro” está fora da classificação normalmente definida para o espaço cultural, estando completamente desajustados dos padrões sociais e morais da comunidade; as posses, a roubalheira, o magusto, o pregão, as danças, noutros tempos as cavalhadas, são números que se enquadram nesta fase, já que aos “novos” são permitidos atos de transgressão, de licenciosidade, de desestruturação social, constituindo a máscara o elemento recorrente desta anomia. A terceira fase, característica de um novo período do tempo social, é marcada pela vinculação do iniciado ao desempenho de um novo papel, esperando-se que se comporte de acordo com as normas determinadas pelos costumes e os princípios éticos característicos da fase em que ingressou; as maçazinhas e o baile marcam a fase da reintegração, o regresso dos jovens à sociedade transformados, com novo estatuto. 20 O processo de elitização das festas nicolinas é testemunhado por inúmeros testemunhos e referências escritas, assinalando ações de exclusão das festas de todos aqueles que não frequentam o liceu. 21 Cachada (2006) faz o levantamento pormenorizado do programa das festas da cidade e gualterianas ao longo da sua existência, com destaque para “a original e inimitável marcha gualteriana”.

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Gualterianas têm conciliado tradição e modernidade, preservando costumes ancestrais e incorporando novas formas de celebração; são uma manifestação vibrante da identidade vimaranense, celebrando a história, a cultura e as tradições da cidade. Estas festividades fortalecem o sentimento de pertença entre os habitantes e promovem Guimarães como um centro cultural dinâmico, onde o passado e o presente se entrelaçam harmoniosamente. O Vitória Sport Clube configura-se como um verdadeiro fenómeno social e cultural que transcende o âmbito meramente desportivo. Fundado em 1922, o Vitória tem uma longa história que se articula com a da cidade, assumido por muitos como o seu símbolo; está fortemente associado às raízes históricas, evidenciadas no emblema do clube e nos rituais vividos, nos jogos realizados no estádio, revelando-se como um representante moderno do espírito de independência e luta que caracterizou a fundação do país22. O Vitória, sobretudo nos confrontos desportivos com os maiores clubes nacionais, e de forma mais acentuada nos confrontos com o Sporting de Braga, mais do que um jogo, representa a afirmação dos valores identitários da resistência, do espírito combativo, da determinação, do orgulho bairrista, que se renova e recria, funcionando como um elemento unificador e culturalmente significativo na construção da identidade vitoriana e vimaranense. A par da importância dada a estes acumuladores identitários, importa destacar a representação do espaço económico-social do território vimaranense. Desde o princípio da nacionalidade que a indústria de fiação e tecelagem do linho, pontuadas pela dispersão e trabalho ao domicílio, são relevantes na economia local e nacional. É só no final do século XIX e início do século XX que ganha expressão a utilização do tear mecânico, acompanhado pela generalização do uso do algodão, e introduzindo uma nova forma de localização das unidades fabris ao longo das margens dos rios Selho, Vizela e Ave, e nas proximidades do caminho de ferro e rede rodoviária. A verticalização da indústria, segundo Marques (1988), verifica-se nos anos 50 e 60 e com ela a formação das “dinastias industriais”23. A desverticalização produtiva tem lugar nos anos oitenta e identifica-se com o período da multiplicação das unidades fabris, o dinamismo da confeção, viabilizando uma mobilidade espacial cada vez maior de pequena produção e do trabalho ao domicílio.

22 De entre as várias manifestações rituais de apoio e incentivo, destaca-se, no hino, o lema "Vamos lá, Vitória até morrer", que reflete a

paixão e o compromisso dos adeptos, que veem no clube uma extensão de sua própria história e valores. 23 Nas décadas de 50 e 60 do século passado as empresas industriais então constituídas foram transmitidas entre gerações, a que a autora designou de “dinastias industriais”.

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As famílias empresariais criadas em meados do século xx, com a verticalização, tornam-se, não apenas pilares fundamentais da economia, mas também como símbolos de prestígio social, funcionando como referentes da ascensão social a que aspira a generalidade dos trabalhadores e empreendedores. É, deste modo, característico das pessoas, a procura da imitação destes estratos sociais e, não raro, a aproximação do seu círculo de influência para ganhar status e oportunidades. A imitação das dinastias industriais pela população manifesta-se quer no comportamento empresarial quer na adoção de certos valores e estilos de vida, reproduzindo modos de vestir e estilos de vida para serem vistos como parte de um grupo superior. A imitação das dinastias industriais ocorre nos diferentes estratos da sociedade vimaranense sempre pautada pela admiração, respeito, dependência, mas também pela crítica e até contestação, não obstante as relações daquelas com o poder político, de cariz repressivo, que dominou o país durante meio século. O século xx definese, pois, por uma identidade marcada pela relação entre as dinastias empresariais, a classe trabalhadora e a cultura local. O crescimento da indústria têxtil criou um forte sentido de orgulho e pertença entre os vimaranenses, consolidando a ideia de Guimarães como uma cidade trabalhadora e inovadora; a identidade constrói-se ainda em torno da cultura e do património influenciado pelas elites industriais, patrocinando atividades culturais e religiosas, moldando a arquitetura e o urbanismo com a construção de fábricas, bairros operários, o apoio de figuras da elite industrial no fortalecimento do Vitória, parte essencial da identidade vimaranense. A identidade vimaranense foi moldada por um equilíbrio entre o orgulho no desenvolvimento industrial, a influência das famílias empresariais e a forte tradição do trabalho e resiliência da população. As elites ajudaram a definir valores de prestígio, inovação e comunidade, mas a identidade local também se fortaleceu através da cultura operária e do associativismo. A identidade vimaranense, longe de ser uma realidade estática, é um processo dinâmico e dialético. É uma construção social constantemente renovada, uma construção contínua, de diálogo constante entre o passado e o presente, que encontra os seus fundamentos na vivência económica e ecológica, na delimitação administrativa e histórica do território, e na conservação e recriação de um importante conjunto de tradições culturais. A perceção da identidade em Guimarães é, portanto, multifacetada e, em grande medida, dependente do estatuto social de pertença. Dependendo do estatuto sociocultural em que se situam, os vimaranenses enfatizam o valor histórico e patrimonial, destacam as tradições populares, o futebol ou a importância económica e industrial da cidade. Além disso, a globalização e as mudanças sociais também estão a reformular 145


constantemente a identidade vimaranense, tornando-a um conceito dinâmico e em permanente evolução. As inúmeras realizações, levadas a cabo nos mais diversos contextos, são demonstração cabal deste dinamismo, que mantém a essência histórica, na procura da adaptação aos novos tempos.

Bibliografia consultada CABRAL, João de Pina, 1991 - Os Contextos da Antropologia, Difel, Cap. IV, pp. 91-108 TOLOSANA, C. Lison, 1986 - Antropología Social: Reflexiones incidentales, CIS - Siglo XXI, Madrid CACHADA, Armindo da Costa de Sá, 2006 – Cem Anos da Marcha Gualteriana nas Festas da Cidade, ed. AAMG CARDOSO, António, 2018 - Sociedade Martins Sarmento: Tradição e Renovação, Revista de Guimarães, 120/121, pp. 169-205. FERREIRA, António Gomes, 2018 - Associativismo e Identidade Regional: O Caso do Minho, Porto, Edições Afrontamento. HTTPS://chat.openai.com/chat PINTO, José Madureira, 2007 - Indústria e Associativismo em Guimarães: Das Confrarias às Associações de Classe, Análise Social, XLII (182), pp. 183-205. MARQUES, Teresa Sá, 1988 – Sistema Produtivo Industrial e Território: um Estudo da Têxtil em Guimarães. Geografia: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Geografia, I série, vol. IV. SILVA, Augusto Santos, 2012 - Guimarães 2012: Cidade, Cultura e Globalização, In: Guimarães 2012: Cidade Europeia da Cultura - Impactos Económicos e Sociais, Guimarães, UMinho Press. SILVANO, Filomena, 2010 - Antropologia do Espaço: Uma Introdução, Lisboa, Celta Editora. DURAND, Jean-Yves, As Festas Nicolinas, em Guimarães: tempo, solenidade e riso. Disponível em https://www.cm-guimaraes.pt/ cmguimaraes/ uploads/ writer_file/ document/6952/ estudo_nicolinas.pdf. Consultado em 12 de março de 2025.

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Vicissitudes dos “bairros económicos” na evolução urbana vimaranense Helena Pinto (CITCEM)

O presente texto constitui uma breve reflexão suscitada pela visualização, na página web do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, de um conjunto de imagens referentes a plantas de bairros operários e de casas económicas nas primeiras décadas do século XX, entre muitos que nunca terão saído do papel. A contextualização desta problemática tem sido já abordada em textos historiográficos e de urbanismo, entre os quais destaco a obra de Mª José Q. Meireles (2021) que veicula uma ampla dissertação sobre a evolução urbana de Guimarães. É necessário recuar a inícios do século XIX, num contexto de crescimento populacional, em que constata, logo em janeiro de 1807, a decisão de numeração das casas e a indicação dos nomes das ruas. Guimarães seria elevada à categoria de cidade em 1853 e, dez anos depois, em 1863, era elaborado um Plano Geral de Melhoramentos, um projeto para orientar o crescimento e embelezamento da cidade, intenções que não se concretizariam totalmente. O Eng. Manuel Almeida Ribeiro, encarregado de fazer este plano, embora reconhecesse as dificuldades financeiras da Câmara para implementar as suas propostas, salientava que os melhoramentos exigiriam expropriações, esperando que a realização se desse gradualmente, como ocorria na Inglaterra. No Plano Geral de Melhoramentos, o Eng. Almeida Ribeiro propõe a criação de bairros novos para classes desfavorecidas, especialmente nas zonas das Hortas e Fonte do Abade, com a abertura de novas ruas e regularização de áreas como a Travessa e Largo da Fraga. O Eng. Almeida Ribeiro considerava a zona adequada à construção de um novo bairro para as classes mais desfavorecidas. Pretendia-se estabelecer o alinhamento pelo Hospital da Ordem Terceira, continuando pela Rua da Fonte do Abade, (onde se vieram a construir os lavadouros públicos), abrindo-se uma nova rua que ligaria o Campo da Feira ao Largo da Fraga. Fala-se, pela primeira vez, da construção de um “bairro operário” (Meireles, 2021). Ao longo da década de oitenta do século XIX, na imprensa e nas sessões da Câmara, surge a preocupação com o crescimento desorganizado da cidade e destaca-se a necessidade de criar bairros mais saudáveis e higiénicos, referindo já bairros para famílias pobres como solução desejável para uma cidade, que se debatia 147


com uma forte densidade populacional e a abundância de mão de obra operária de baixos recursos. O problema não se resolve e, em 1905, insiste-se, dando como exemplo a construção dos bairros operários do Porto. Esta realidade, pelos seus efeitos nefastos no âmbito da saúde pública e da «moralização dos costumes», foi abordada em muitos dos discursos políticos de matriz progressista, por reformadores sociais e foi igualmente objeto de denúncia na imprensa da época (Tiago, 2010) e em Guimarães não foge à regra. Logo no início da República surge a proposta concreta, enviada ao Governo Provisório, de construção de um bairro operário no Campo do Proposto, reconhecendo a extrema carência de habitação, mas o projeto não se concretiza por razões financeiras. Em janeiro de 1914, Mariano Felgueiras, Presidente da Comissão Executiva, propõe a construção de um Bairro Operário, salientando ser o assunto que mais cuidado lhe mereceu e apresenta, mesmo, um projeto de bairro operário, de “ligação da Rua do Dr. José Sampaio com a Rua

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de Serpa Pinto” (cit. por Meireles, 2021). Posteriormente, também o projeto de 1916 de um bairro de casas baratas, a edificar junto da Estrada de Fafe, fica por concretizar. A localização apontada para o bairro seria a de um arruamento entre a rua José Sampaio e a rua Serpa Pinto, que substituiria a Travessa da Fraga (Figura 1), onde seriam construídas cinquenta e oito casas, uma escola e um balneário, com desenho do arquiteto José Luís Ferreira, discípulo de Marques da Silva (AMAP, s/d)24. Ao longo da década de 1920 agrava-se a falta de habitações em Guimarães, devido a demolições e à não reedificação de imóveis habitacionais. Até 1926, diversas demolições na cidade, para novos melhoramentos, deixam famílias desalojadas e volta-se a insistir na construção de bairros operários para os pobres (Figura 2), salientando as más condições de vida da classe operária.

Figura 2. Projeto para a construção de 23 casas entre o Largo dos Trigais e a avenida a construir, entre as ruas José Sampaio e Serpa Pinto. Planta assinada por José Luís Ferreira. Janeiro de 1924.

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Informação disponível em: https://www.amap.pt/p/hist-republica-na-cidade-7#i4

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A proposta de construção dos Paços do Concelho, na Praça de Santiago, foi abandonada, em boa parte devido a novas perspetivas sobre a conservação da malha urbana antiga assumidas por Mariano Felgueiras e a Câmara buscou financiamento para um novo edifício numa nova praça. Diversos “melhoramentos” são transferidos para os limites da cidade. Em 1925 é demolida parte da muralha junto da Estrada de Fafe e tem início a construção dos Paços do Concelho (Meireles, 2021). No entanto, em 1926 o projeto estava num impasse e, embora muitos defendessem a sua continuidade, nunca seria concluído. Além disso, embora projetassem remodelar o miolo urbano, tal não foi possível devido à incapacidade para alojar as famílias de áreas densamente habitadas e às dificuldades financeiras que a participação na Primeira Guerra Mundial fez recrudescer. Os governos da Europa industrializada, cujas cidades sofreram os efeitos destruidores da I Grande Guerra, e o dos Estados Unidos da América legislam e implementam práticas sociais anteriormente desenvolvidas mais por iniciativa do patronato sensível às questões humanitárias, pela filantropia oitocentista e o cooperativismo (Tiago, 2010). Apesar de tudo, a Primeira República suscitou importantes intervenções urbanas, em ruas e construções, aproveitando, igualmente, antigas instalações conventuais para serviços públicos. Ainda em 1921, lançou um edital para finalizar a nova cadeia, que seria inaugurada em agosto de 1925. Muitos dos projetos, pensados na Primeira República, seriam concretizados, mais tarde, pelo Estado Novo. Será o caso dos bairros operários: em 1932, tem início a construção de um bairro operário na antiga Estrada de Fafe; em 1939, são projetados dois bairros económicos, localizados a nascente do Largo do Salvador e a poente da Rua dos Palheiros / Av. Capitão Alfredo Guimarães, com comparticipação do Estado (Meireles, 2021). Em 1945, a Câmara Municipal delibera aprovar as condições de elaboração do Plano Geral de Urbanização de Guimarães, apresentadas pelo Arq. David Moreira da Silva. Nos anos seguintes, o plano de urbanização incluiu a reconstrução e demolição de imóveis nas áreas circundantes do castelo, reforçando a importância de revitalizar essas regiões históricas. Seguem-se diversas expropriações e procedimentos para realojar moradores no Bairro da Arcela, que será inaugurado, em 1956, com 36 moradias. Em 30 de Abril de 1952 é publicada, no Diário do Governo, 2.ª série, n.º 103, a zona de proteção do Castelo de Guimarães. A Câmara Municipal recebeu da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais o plano de expropriação para a zona de proteção do Castelo da Fundação, Igreja de S. Miguel e Paço dos Duques de Bragança, a que se daria imediata execução, tendo os moradores das casas ali situadas preferência 150


para alojamento no novo Bairro da Arcela (Meireles, 2021). Entretanto, na sequência das demolições realizadas nas ruas de S. Dâmaso e da Rua Padre Gaspar Roriz, concretiza-se, entre 1956 e 1959, a urbanização do bairro de famílias pobres e de renda económica, realojando as famílias desalojadas em bairros como o de Leão XIII, na Arcela. Na década de 1960, prosseguem os planos de expansão da cidade, desta vez para nordeste (zona do liceu). Em 1963, a imprensa insistia na necessidade de melhorar os jardins e outros locais públicos e, em 1964, a Câmara aprovava novos empréstimos para a reconstrução de zonas degradadas e a construção de habitação social. Procede-se a expropriações dos prédios a reconstruir na Rua de Santa Maria e propõe-se a construção de um bairro tipo “património dos pobres” para realojamento das famílias que habitavam as casas a demolir. São de salientar, ainda, investimentos privados em equipamentos de âmbito social, como o Teatro Jordão, construído por Bernardino Jordão e inaugurado em 1938, e um bairro operário na periferia da cidade, em Azurém, edificado pelo Comendador Pimenta Machado. Planearam-se praças, jardins, avenidas e bairros económicos, com foco em garantir habitação e urbanizar zonas carentes. Houve também investimentos em zonas históricas da cidade, visando revitalizar áreas antigas e dignificar a habitação de quem nelas residia. O processo assumiu características e dinâmicas novas após o 25 de Abril, quer a nível nacional quer no âmbito local. Referências MEIRELES, M.ª José Queirós (2021). O Património Urbano de Guimarães nos séculos XIX e XX. Guimarães: Casa da Memória, Muralha-Associação de Guimarães para a defesa do património. TIAGO, M.ª Conceição (2010). Bairros Sociais da I República: projetos e realizações. Ler História [Online], 59. DOI: https://doi.org/10.4000/lerhistoria.1413

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Guimarães – Tradições, Festas e Identidade Cultural Cláudia Martins & Minhotos Marotos

Guimarães, com a sua rica história e cultura vibrante, é uma cidade que preserva e tem vindo a celebrar as suas tradições ao longo dos séculos. Reconhecida como o berço da nação portuguesa, a cidade mantém vivas práticas e costumes que refletem o orgulho e a identidade do seu povo. Desde as festividades religiosas até às expressões musicais e gastronómicas, esta cidade é um verdadeiro testemunho da resistência e da valorização das suas raízes. Neste texto, exploraremos os costumes que moldam a cultura vimaranense e como esses elementos continuam a influenciar a vida da cidade e dos seus habitantes.

Guimarães é uma cidade repleta de tradições e costumes que refletem séculos de história e identidade cultural. A cidade conserva hábitos que foram passados de geração em geração, tornando-se um símbolo do orgulho e da resistência do povo vimaranense. Entre esses costumes, destacam-se as festas populares, as manifestações religiosas e as práticas do dia a dia, que demonstram o caráter acolhedor e resiliente dos seus habitantes. Um dos traços mais marcantes da tradição vimaranense é a forte ligação à história e ao património. A cidade possui um centro histórico bem preservado, onde se podem observar construções medievais, praças pitorescas e edifícios religiosos que testemunham o passado glorioso da região. Além disso, as festividades tradicionais desempenham um papel central na preservação dessa identidade, permitindo que as novas gerações conheçam e perpetuem as práticas culturais da cidade. A hospitalidade também é um elemento distintivo de Guimarães. O povo da cidade orgulha-se de receber visitantes com simpatia e de partilhar com eles as suas tradições. A gastronomia local, com pratos como o bacalhau à moda de Guimarães, o arroz de frango (“pica no chão”) e as sobremesas conventuais, fazem parte desse acolhimento caloroso. Comer e beber em convívio são práticas comuns que reforçam os laços comunitários e perpetuam o espírito de união que caracteriza os vimaranenses. As romarias são um dos aspetos mais vibrantes da cultura popular da cidade de Guimarães, refletindo a forte religiosidade e devoção do povo. Ao longo do ano, esta cidade é palco de diversas festividades religiosas 152


que atraem milhares de fiéis e turistas, combinando fé, tradição e convívio social. As Festas Gualterianas, celebradas anualmente em Guimarães, são uma das tradições mais importantes da cidade, com origem no século XII. Estas festividades homenageiam São Gualter, um santo venerado como protetor da cidade. Inicialmente de caráter religioso, as festividades evoluíram para incluir manifestações culturais e sociais, refletindo a identidade da cidade.

Cartaz das festas Gualterianas - 1952

Festas Gualterianas - 1950

A festa acontece tradicionalmente em agosto, com destaque para a procissão em honra de São Gualter, que percorre as ruas centrais de Guimarães. Este evento é acompanhado por grupos culturais, músicos e devotos, com celebrações litúrgicas e manifestações populares que atraem milhares de visitantes. No primeiro fim de semana de agosto, realiza-se o grande desfile, com grupos folclóricos, fanfarras e 153


apresentações musicais, celebrando a cultura local e a gastronomia típica. A festa fortalece o sentido de união entre os vimaranenses, promovendo a coletividade e o orgulho pelas tradições. Ao longo dos anos, as Festas Gualterianas tornaram-se um ponto de encontro para os habitantes e emigrantes da cidade, além de ajudar a preservar e divulgar o património cultural de Guimarães. Hoje, é uma das principais celebrações da cidade, combinando fé, cultura e convivência, é um reflexo da essência do povo vimaranense. A Peregrinação a Nossa Senhora da Penha, celebrada em setembro, é a principal e mais emblemática romaria da cidade. Esta festa religiosa leva milhares de devotos ao alto da montanha da Penha, onde se encontra o santuário dedicado à padroeira da cidade. Durante a peregrinação, os fiéis caminham desde o centro histórico até ao cume da montanha, rezando e participando nos vários atos litúrgicos. A festa culmina com uma grandiosa procissão e com a realização de espetáculos musicais e eventos culturais.

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Outra romaria relevante é a Romaria Grande de São Torcato, que decorre em julho. Esta festividade celebra a vida e os milagres do santo padroeiro da Vila de São Torcato, atraindo milhares de peregrinos. As festividades incluem a procissão das velas, missas solenes e diversas atividades recreativas, como feiras, concertos e provas gastronómicas. A romaria é famosa pela sua grandiosidade e pela forte devoção popular, com as ruas decoradas e com a presença de muitas famílias que se reúnem para celebrar a tradição.

Além destas, há várias outras festividades e romarias em Guimarães, como a Festa das Cruzes de Serzedelo, que acontece em maio, na freguesia de Serzedelo. Esta festa tradicional é marcada por procissões e atividades culturais que envolvem a comunidade, celebrando as raízes religiosas e culturais do povo. Uma das atrações mais destacadas dessa festa é a "Cruz de Serzedelo", uma cruz de flores que é levada em procissão, simbolizando a fé e a devoção do povo. A festa também é uma oportunidade para os jovens de Serzedelo mostrarem a sua arte em danças e cantares. 155


A Romaria de S. Pedro, nas Taipas, celebrada em junho, é outra manifestação de fé em Guimarães. A festividade inclui procissões religiosas, celebrações litúrgicas e eventos culturais que atraem peregrinos e turistas. O São Pedro, uma das figuras religiosas mais veneradas no país, é homenageado com grande devoção durante este evento, sendo uma oportunidade de vivenciar as tradições religiosas e culturais da cidade. A festa é marcada também pelas tradicionais "mecas", doces típicos da região.

Andor de S. Pedro, na Procissão

Ainda se destacam as Festas de Santo Amaro de Mascotelos, que têm lugar no mês de janeiro, na União das Freguesias de Candoso S. Tiago e Mascotelos. As festas de Santo Amaro são celebradas com uma série de eventos litúrgicos, como missas solenes e procissões, mas também com momentos de lazer e diversão, incluindo feiras e animação musical, proporcionando um ambiente de celebração comunitária. As festas de Santo Amaro estão entre as mais antigas da região e são uma referência para todos os habitantes das freguesias vizinhas. Concurso pecuário e bênção do gado

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Outra importante romaria é a Romaria de São Brás de Pevidém, que ocorre em fevereiro. Esta festa religiosa, centrada na devoção a São Brás, conta com procissões, celebrações e manifestações culturais, além de eventos que envolvem a comunidade local. Como em muitas outras festividades religiosas de Guimarães, a participação popular é um dos principais destaques, com os habitantes da região a expressar a sua fé e orgulho nas tradições. O mesmo acontece em Pevidém com as Festas de S. Jorge.

A Romaria de Santa Apolónia, realizada em março, na freguesia de Silvares, é um evento que mistura a devoção religiosa com a animação social. As celebrações incluem missas solenes e procissões, mas também atividades recreativas e culturais, como concertos e danças, tornando-se um ponto de encontro da comunidade. Um dos momentos mais Cartaz das festas de S. Jorge, em 2025

aguardados é a tradicional "dança de Santa Apoló-

nia", em que os habitantes da freguesia se juntam para dançar ao som da música tradicional. A Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, que ocorre em abril na freguesia de Barco, é uma festa tradicional que celebra a fé e os costumes da região. A festividade inclui celebrações religiosas, como missas e procissões, além de atividades sociais e culturais que reforçam os laços de união e convivência entre os habitantes. Durante a romaria, destaca-se a devoção à Senhora dos Remédios, padroeira da freguesia, e a presença de várias manifestações culturais que envolvem a dança e a música tradicional.

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Estas festividades, que acontecem ao longo do ano em diferentes freguesias de Guimarães, são apenas alguns exemplos de como a cidade mantém viva a sua identidade cultural e religiosa. Cada uma delas, com as suas particularidades, contribui para a preservação das tradições e para o fortalecimento dos laços comunitários. A música popular tem um papel fundamental na identidade cultural de Guimarães, sendo uma forma de expressão enraizada na vivência do povo. Entre as várias manifestações musicais, os cantares ao desafio destacam-se como uma das mais tradicionais e emblemáticas. São uma forma de improvisação cantada, em que dois ou mais cantadores se desafiam através de versos rimados. Este tipo de canto, muitas vezes acompanhado pela concertina, é uma tradição profundamente enraizada no Minho e continua a ser praticada em festas, romarias e eventos culturais. Os cantadores demonstram a sua criatividade e destreza verbal, respondendo uns aos outros em tempo real e criando versos humorísticos, satíricos ou até mesmo elogiosos. Durante as festas e romarias, essas apresentações são momentos de grande animação e interação entre os participantes. As desgarradas podem ser ouvidas em todo o território nacional, apesar das tradições remontarem às regiões de Trás-os-Montes, Minho, Douro Litoral e Beira Alta. O património cultural está longe de se apresentar perante uma visão estática e inalterável. É primordial considerar os recursos culturais ligados à tradição como um “conjunto de recursos herdados do passado, testemunha e expressa valores, crenças, saberes e tradições em contínua evolução e mudança. (Martins, 2020:7) Segundo um estudo do professor Carlos Nogueira, do Centro de Tradições Populares Portuguesas ‘’Professor Manuel Viegas Guerreiro”, da Universidade de Lisboa, o ato de cantar ao desafio é por si só um exercício “lúdico-inventivo com muito de antropológico e sociológico, poesia em ação, o desafio concretiza-se como macropoema dialógico constituído por dois poemas orais individuais que se cruzam numa alternância de forças, tensões e distensões variáveis”. (Nogueira, 2003:12) Carlos Nogueira refere ainda que “a dimensão textual é a materialidade mais visível de uma orgânica que obedece a leis de improvisação em que participam elementos linguístico-literários (arte poética, gramática, retórica, estilística, temas e remas), mas também fatores extratextuais com os quais os contendores interagem de forma muito estreita (a audiência e o aparato tecnológico que envolve algumas atuações, com vista à sua mediatização)”. (Nogueira, 2003:12) Em 2005, os cantares ao desafio ou as galegas regueifas fizeram parte da candidatura da “Tradição oral 158


galaico-portuguesa” a Património Imaterial da Humanidade, junto da UNESCO. A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura rejeitou esta candidatura considerando que era demasiado abrangente. Os cantares ao desafio são uma tradição popular muito enraizada no norte de Portugal, especialmente nas regiões do Minho e Trás-os-Montes. São formas de improviso oral em verso, muitas vezes com humor, picardia e rima, cantadas geralmente entre dois cantadores acompanhadas por concertinas. Estas quadras podem ser sérias, amorosas, filosóficas ou brincalhonas. Aqui ficam alguns exemplos típicos de quadras populares e versos de cantares ao desafio: Ó amieiro do rio Deixa passar os peixinhos Quem namora às escondidas Quer abraços e beijinhos

Quem me dera ser a água Pelas fontes a correr Para beijar os teus lábios Quando la fores beber

Se tu visses o que eu vi No buraco da parede A cobra a dançar a chula O sardão a cana verde

Pedrinhas que estas calçadas Levantai-vos e dizei Quem vos passeia de noite Que de dia bem eu sei

Não chores por mim não chores Que eu não sou o teu amor Eu não sou como a figueira Que dá frutos sem flor

Ó luar da meia-noite Alumeia cá para baixo Eu perdi o meu amor Às escuras não o acho

O meu amor é baixinho Mas eu grande também não sou É um par arranjadinho Que Deus ao mundo deitou

Debaixo da oliveira Não se pode namorar Tem a folha miudinha Não deixa passar o ar

Quem quiser uma mulher boa Não a mande trabalhar Ponha-a na torre da igreja Com o cu virado por ar

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Além dos cantares ao desafio, Guimarães tem uma rica tradição musical ligada ao folclore. Os ranchos folclóricos desempenham um papel essencial na preservação das danças e músicas tradicionais da região. Com trajes típicos e coreografias tradicionais, estes grupos percorrem festivais nacionais e internacionais, promovendo a cultura vimaranense e minhota. A participação nos festivais de folclore, como o Festival Internacional de Folclore de Guimarães, é uma forma de mostrar ao mundo a riqueza cultural da cidade e manter vivas as tradições da região. Os instrumentos musicais tradicionais, como a concertina, o cavaquinho e o bombo, continuam a ser utilizados em festas populares e em grupos de música tradicional. Estes instrumentos, juntamente com a voz dos cantadores, criam um ambiente festivo que anima as celebrações e reforça o sentimento de identidade e pertença do povo de Guimarães. No final da Grande Peregrinação à Penha (que decorre no segundo domingo de setembro), por exemplo, a presença de grupos musicais tocando os tradicionais cavaquinhos e bombos é uma característica marcante da festividade. O povo de Guimarães caracteriza-se pelo seu forte sentido de identidade e orgulho na sua história e tradições. A ligação às raízes e à cultura local é visível na forma como os vimaranenses preservam os seus costumes, transmitindo-os de geração em geração. Além disso, a cidade tem-se destacado no cenário nacional, especialmente com eventos que atraem turistas de todo o mundo, como a Capital Europeia da Cultura 2012, que trouxe ainda mais visibilidade à cidade e suas tradições. A religiosidade tem um impacto significativo na forma como as pessoas vivem o seu dia a dia, refletindose na participação ativa nas festividades religiosas e na manutenção de tradições como as romarias e procissões. A devoção e o respeito pelos santos padroeiros são aspetos que continuam a moldar a mentalidade coletiva, reforçando o espírito comunitário e a entreajuda entre os habitantes. O convívio e a sociabilidade são outras características marcantes dos vimaranenses. A tradição dos cantares ao desafio e das festas populares fortalece a união da comunidade, promovendo momentos de descontração e alegria. A música, a dança e a gastronomia25 são elementos centrais na vida social da cidade, proporcionando oportunidades para encontros e celebrações. A cada ano, a cidade vê centenas de famílias reunidas, celebrando as festas e tradições, mantendo viva a memória coletiva.

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Gastronomia e Doçaria de Guimarães

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A arte de bem cozinhar e de bem comer está profundamente enraizada na cultura do Minho, e Guimarães é um exemplo vivo dessa tradição. Ao longo de gerações, receitas e saberes passaram de pais para filhos, preservando uma identidade culinária autêntica e profundamente ligada aos produtos da terra. As sopas tradicionais são caldosas, nutritivas e feitas com legumes e leguminosas da época. Entre as mais apreciadas estão a sopa de nabos ou de nabiças, a sopa de feijão com couve e o famoso caldo verde, com couve-galega finamente cortada e rodelas de chouriça. O pão tradicional assume a forma robusta da broa de milho, presença constante à mesa minhota. Nas entradas, brilham sabores intensos e reconfortantes: a orelheira de porco, a chouriça assada, os bolinhos de bacalhau, a punheta de bacalhau (bacalhau cru desfiado temperado com azeite e cebola), as moelas de frango estufadas e o polvo são apenas alguns exemplos da generosidade dos petiscos vimaranenses. Nos pratos principais, destaca-se a intensidade da tradição minhota, com os rojões à minhota, servidos com papas de sarrabulho, são um verdadeiro ex-libris local. O arroz de pica-no-chão, feito com frango caseiro, miúdos e sangue, é outro prato típico que representa bem o espírito da cozinha de Guimarães. Não faltam também o bucho recheado, o cabrito assado no forno, o bacalhau recheado, o bacalhau com broa e o polvo à lagareiro — pratos que enchem as mesas em dias de festa e em momentos de convívio. A doçaria de Guimarães é um capítulo à parte. Rica em tradição conventual e em expressões populares, oferece sabores delicados. A Torta de Guimarães e o Toucinho-do-Céu são dois doces conventuais representativos, feitos com gemas, açúcar e amêndoas, e podem ser saboreados no centro histórico da cidade. Destacam-se ainda os Charutos dos Arcos, provenientes de São Torcato, e as Fatias do Freixo, uma variedade de pão-de-ló húmido e fofo, típica da freguesia do Freixo. Durante a quadra natalícia, a mesa minhota enche-se de rabanadas, aletria, filhós, sonhos e bolo-rei — doces que combinam tradição familiar com espírito festivo. Mas a doçaria vimaranense também sabe ser irreverente. Em festas populares como as Feiras Afonsinas ou as Gualterianas, é comum encontrar bancas com dois doces muito peculiares: os sardões, de formato fálico, e as passarinhas, em forma de vulva. Estes doces, mais do que provocadores, fazem parte de uma tradição popular antiga, ligada ao espírito livre das celebrações comunitárias. A acompanhar toda esta riqueza gastronómica, está o inevitável vinho verde — branco ou tinto — fresco, leve e frutado, servido frequentemente em malgas de barro, como dita a tradição. Guimarães é, assim, muito mais do que berço da nação: é também berço de sabores, de memórias e de 161


afetos partilhados à volta da mesa. Pessoalmente, tenho 25 anos de carreira na música, 16 dos quais enquanto vocalista e mentora da banda Minhotos Marotos. O nome Minhotos Marotos nasceu fruto da fusão de dois aspetos essenciais: primeiro como homenagem à região que nos viu nascer e, segundo, o duplo sentido das palavras com que compúnhamos as nossas canções. Segundo Guilherme d’Oliveira Martins, “o património na convergência dinâmica entre a herança material e imaterial, representado pelos monumentos e pelas tradições, pelos costumes e pelas mentalidades, de um lado, e a criação cultural contemporânea, a inovação e a modernidade de outro”. As tradições que gostamos de cantar nas letras que escrevemos são, por um lado, um eternizar de uma tradição, mas por outro são o caminho para dar a conhecer essa tradição que tem em si tanto de história como de identidade. A música aproxima os indivíduos e dá a conhecer de forma simples, divertida e dinâmica estes conceitos, que valorizam o nosso repertório, aproximam-nos da cultura e de quem dela usufrui. Quando abordamos uma tradição, não o fazemos de forma leviana; é fundamental estudar para conceber de forma rigorosa uma narrativa que honre não só o conceito que estamos a abordar, mas também orgulhe o povo ali representado. A cultura enquanto criação do Homem exige a compreensão do tempo, da história, e da sociedade. O Minho é conhecido pela diversidade de arraiais e romarias, com tradições seculares, música, alegria e um sentido de pertença muito forte. Guilherme D’Oliveira Martins afirma que a noção de património cultural, enquanto realidade viva, exige preservar a herança cultural e a criação contemporânea. Uma cultura, designada aberta, impõe um respeito exímio pelas diferenças, a pluralidade de pertenças, para que a cultura seja livre. Esta ação é muito visível na cultura minhota pois, há tradições, tantas vezes materializadas em arraiais e romarias, que mesmo com origens centenárias, hoje permanecem atuais porque quem os vai vivenciando, vai de certo modo tornando contemporâneos sem que estes percam de forma alguma os seus traços característicos e a sua essência. A cultura vimaranense também se reflete na maneira como o povo encara os desafios do presente e do futuro. A forte ligação às tradições não impede a modernização e a adaptação às novas realidades, mas, pelo contrário, serve de base para o desenvolvimento e inovação. Assim, Guimarães continua a ser um símbolo vivo da história e da tradição de Portugal, mantendo-se fiel às suas raízes enquanto abraça o futuro com determinação e paixão. 162


bibliografia JÚDICE, Nuno (Org.), D. Dinis – Cancioneiro, Lisboa, Editorial Teorema, 1998 MARTINS, Guilherme d’Oliveira, Portugal, Identidade e Diferença - Aberturas da Memória, Lisboa, Gradiva, 2007 MARTINS, Guilherme d’Oliveira, Património Cultural – Realidade Viva, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020 NOGUEIRA, Carlos, Cantiga ao desafio e estetização da fala: natureza, modalidades, funções, Centro de Estudos Ataíde Oliveira, 2003, in Sapientia – Repositório da Universidade do Algarve/ (Consultado 18/02/2025) SARDINHA, José Alberto, Enciclopédia das Tradições Populares, Tradisom, in https://terramater.pt/ (Consultado 18/02/2025) VASCONCELOS, José Leite de Tradições Populares de Portugal, INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986

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Banda Musical das Caldas das Taipas – 1834-2024 João Ribeiro

Introdução As Bandas Filarmónicas nasceram na Idade Média, mas só no século XIX é que se tornaram verdadeiras escolas de música para as comunidades. Elas eram mais do que apenas um grupo musical; nestas associações, os jovens, muitas vezes provenientes de zonas rurais, encontraram a oportunidade de aprender música e participar gratuitamente em algo maior. Lideradas por maestros de diversas formações, essas bandas enfrentaram as dificuldades com coragem e entusiasmo, levando a sua arte para igrejas, festas e eventos. Hoje reinventaram-se, com maestros mais jovens, músicos com uma sólida formação técnica e palcos que vão desde auditórios até aos grandes eventos. Apesar do reconhecimento crescente e de repertórios mais diversos e complexos, continuam a ser o coração das suas comunidades, mantendo vivas as suas histórias e tradições distintas. Início da sua história No livro Notas da Velha História Pátria, Camilo Castelo Branco e Francisco Martins Sarmento relatam a existência de um grupo de músicos no ano de 1336, na região de S. Tomé de Caldelas, posteriormente Caldas das Taipas, cuja música servia de motivação em contextos militares. Segundo a narrativa, em 1834 foi fundada uma filarmónica na mesma localidade, conforme os documentos históricos (uns velhos canhenhos), que se encontram no Paço Episcopal de Braga. Apesar da escassez das fontes, encontramos uma referência nas Ephemérides Vimaranenses26, datada de 21 de julho do ano de 1839, que comprova também a sua existência nesta altura. Ao longo do tempo, e sobretudo a partir do início do século XX, a Banda Musical das Caldas das Taipas consolidou a sua posição e distinguiu-se pela atividade ininterrupta e pela formação de novos músicos. No

26

Ephemérides Vimaranenses de João Lopes de Faria, I.º Volume, p. 60

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início do século XX, desempenhou um importante papel nas comemorações e nos eventos regionais, promovendo a inclusão de jovens executantes através de professores internos. Documentos históricos apontam que, na segunda metade do século XIX e início do século XX, coexistiram outras bandas locais, nesta parte do concelho, como a Banda dos Bombeiros Voluntários das Caldas das Taipas e a Banda Musical de Sande, resultando em formações alternativas, como "Os Quatro Ir-

Banda Musical das Caldas das Taipas no ano de 1933. (Arquivo Jorge Ribeiro)

mãos" e "Os Calhaus". Estas referências reforçam a importância histórica da Banda Musical das Caldas das Taipas no contexto sociocultural da região. Histórias e Desafios da Banda Musical das Caldas das Taipas Maestros e as suas contribuições27 A liderança musical da banda foi marcada por maestros dedicados, cada um trazendo contribuições únicas: 1. 2.

3.

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João Ribeiro (O Rabata) - A Banda Musical das Caldas das Taipas teve como maestro, nos finais do século XIX, João Ribeiro (O Rabata), que impulsionou o fortalecimento e rejuvenescimento da associação; Joaquim Baptista de Matos - O seu sucessor, Joaquim Baptista de Matos, destacou-se entre 1900 e 1923 pela continuidade e aprimoramento do nível musical da banda, transmitindo conhecimentos musicais aos jovens da época. Este maestro também fundou uma tuna com a predominância de instrumentos de cordas; Bento Ribeiro Salgado (Bento Barreto) - Na década de 1920, Bento Ribeiro Salgado (Bento Barreto) assumiu a regência, entre 1923 e 1937, e destacou-se pela sua dedicação, ao disponibilizar a sua própria casa para os ensaios da Banda Musical e transmitir o gosto pela música à sua família. Bento enfrentou alguns desafios internos na banda, que culminaram na sua saída no ano de 1968, acentuando o conflito entre as famílias

Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p. 197-198).

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4.

5. 6. 7. 8.

Barreto e Matos, que perdurou durante vários anos; José de Sousa - José de Sousa, foi maestro a partir do ano de 1937 e trouxe muito prestígio à banda pela sua experiência adquirida nas bandas militares. Apesar disso, enfrentou desentendimentos internos que culminaram na sua demissão no ano de 1965, motivada pela falta de respeito de alguns elementos executantes e de conflitos internos. Estes episódios evidenciam os desafios e as transformações que acontecem nas dinâmicas internas da banda, que se manteve mesmo assim como um marco cultural ao longo do tempo; Ilídio Lopes de Matos - Regente desde o ano de 1965 até ao ano de 1987. Modernizou a banda e introduziu reformas pedagógicas, enfrentando desafios significativos nos anos de 1980; Fernando Lopes de Matos - Maestro entre o ano de 1987 e 1998. Dedicado à renovação instrumental e à formação de jovens músicos; Paulo Jorge Silva Lopes de Matos - Regente desde o ano de 1998 até ao ano de 2017. Continuou o trabalho de modernização e inovação iniciado pelos seus antecessores; Charles Adrien Piairo Gomes - Maestro desde 2017. Conduz a banda com uma abordagem moderna, promovendo a formação musical e a excelência artística.

Presidentes da Banda Musical das Caldas das Taipas28 A direção administrativa da banda também foi marcada por lideranças que contribuíram para o seu crescimento: 1. Professor Manuel José Pereira – Década de 1930/40. 2. António Batista de Matos – Presidente na década de 1950, com registos em ata entre o ano de 1955 e 1956. 3. José de Oliveira – Presidente desde 1957 até ao ano de 1959. 4. Manuel Gomes – Presidente desde 1959 até 1962. 5. José Teixeira Mendes Guimarães – Presidente desde 1962 até ao ano de 1964. 6. Padre Manuel Joaquim de Sousa – Presidente desde 1964 até ao ano de 1974. 7. José Maia Gomes (apelido “Vieira”) – Presidente desde 1980 até ao ano de 1988. 8. João Batista Ribeiro – Iniciou o seu primeiro mandato em 1988 e manteve-se até ao ano de 1995. 9. Armando Magalhães Marques – Presidente desde 1995 até ao ano de 1998. 10. Fernando Lopes de Matos – Presidente em vários mandatos, desde 2002 até 2016 11. Henrique Freitas de Azevedo – Presidente desde 2016 até ao momento.

O desconhecimento sobre os regentes e presidentes da Banda Musical das Caldas das Taipas desde a sua criação deve-se em grande parte à falta de registos sistemáticos da época, bem como ao carácter

28

Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p.199-201).

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informal de muitas associações culturais no século XIX. Sem práticas de registo estruturadas, as memórias destas figuras assentam sobretudo nas tradições orais, que se perdem ao longo das gerações. Além disso, fatores como a instabilidade política e social da época e a prioridade dada à sustentação da atividade musical desencorajaram a preservação dos arquivos, fazendo com que esta informação se tornasse inacessível ou perdida ao longo do tempo. A Odisseia do Hino das Caldas das Taipas: de 1939 a 2022 O Hino das Caldas das Taipas, com letra composta em 1939 pelo Padre António da Silva Gonçalves e música de José Francisco Gomes da Silva Paranhos, foi concebido para celebrar a elevação da localidade a vila, ocorrida em 1940. Redescoberta décadas mais tarde, a partitura foi formalmente entregue à Junta de Freguesia no ano de 2020. Em 2019, a obra foi interpretada publicamente pela Banda Musical das Caldas das Taipas, destacando-se como símbolo cultural. Em 2022, na comemoração dos 82º anos da elevação a vila, os documentos históricos foram apresentados, e a Junta manifestou o compromisso de formalizar o hino como emblema oficial da identidade local29. A Contribuição do Padre Abílio No-

Capa do hino dedicado às Caldas das Taipas, datado de 04 de setembro de 1940. (Arquivo Ângelo de Freitas)

vais Fernandes para a Sede da Banda Musical das Caldas das Taipas O Padre Abílio Novais Fernandes, pároco de S. Salvador de Briteiros, desempenhou um papel fundamental na história da Banda Musical das Caldas das Taipas. Em 1959, graças a um pedido de Firmino da Silva

29

Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p.23).

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Ribeiro, pai de Jorge Ribeiro e alfaiate do padre, foi construída uma sala de ensaios num terreno pertencente ao Padre Abílio, localizado nas traseiras do Hotel Braga. Ele custeou todas as despesas, permitindo que a banda tivesse um espaço dedicado para ensaiar. A sala, foi inaugurada no ano de 1959, resultando numa melhoria significativa das condições de ensaio, embora simples, com paredes de pedra e um telhado sem forro. No entanto, este espaço nunca pertenceu oficialmente à Banda Musical das Caldas das Taipas. No dia 16 de abril de 1971, o Padre Abílio vendeu o imóvel à Fábrica da Igreja Paroquial de São Tomé de Caldelas, mas garantiu o uso da sala pela banda, conforme um acordo paralelo assinado a 20 de abril de 1971. O apoio do Padre Abílio e o espaço oferecido foram essenciais para a continuidade da banda, que utilizou a sala como sede até ser substituída por um novo local de ensaios. Este episódio reflete a importância de parcerias comunitárias no desenvolvimento da Banda Musical das Caldas das Taipas30. A Institucionalização da Banda Musical das Caldas das Taipas em 1959 A Banda Musical das Caldas das Taipas foi oficialmente institucionalizada no dia 16 de julho de 1959, onde foram elaborados e aprovados os primeiros Estatutos da banda em Assembleia Geral, marcando um momento crucial na sua história. Estes estatutos foram ratificados pela Inspeção do Ensino Particular no dia 10 de novembro de 1959 e, posteriormente, aprovados por Despacho Ministerial, publicado no Diário do Governo de 14 de novembro de 1959, na III Série. Embora a oficialização dos estatutos tenha ocorrido no ano de 1959, o registo formal da constituição da Associação Banda Musical das Caldas das Taipas foi

30

Inauguração da sede da Banda Musical da Caldas das Taipas, no ano de 1959. (Arquivo BMCT)

Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p. 41).

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efetuado anteriormente, no dia 5 de dezembro de 1958, pelo Governador Civil da época. Este processo consolidou a banda como uma entidade jurídica e cultural, garantindo a sua continuidade e organização no panorama musical da região31. Manuela Cristina Araújo Gomes, nascida a 22 de abril de 1974, ingressou na Banda Musical das Caldas das Taipas no ano de 1989, aos 15 anos, tornando-se a primeira mulher a integrar a coletividade. Influenciada pelo irmão saxofonista e pelo professor Luís Matos, iniciou a sua formação musical com tenra idade, destacando-se como clarinetista sob a orientação do maestro Fernando Matos. A sua entrada na banda desafiou as normas estabelecidas na época, exigindo adaptações no ambiente até então exclusivamente masculino, como ajustes comportamentais e estruturais. Apesar de obstáculos sociais e culturais, Cristina conquistou respeito entre os colegas, pavimentando o caminho para a inclusão de mais mulheres na banda32. A partir de 1997, a Banda Musical das Caldas das Taipas entrou numa fase marcada pela modernização e consolidação institucional, que reforçou a sua relevância cultural e musical no panorama local e nacional. Entre os marcos mais significativos desse período, destacam-se as mudanças estruturais, os eventos comemorativos e um esforço constante para equilibrar a preservação do seu legado com a adaptação às exigências contemporâneas. A implementação de novos estatutos, no ano de 1997, simbolizou um momento de reorganização interna e administrativa da Banda Musical das Caldas das Taipas, permitindo-lhe enfrentar os desafios do século XXI com maior eficiência e clareza nas suas estruturas organizacionais. Este passo foi essencial para garantir a sustentabilidade da instituição e assegurar a continuidade do seu trabalho cultural e educativo. No início do milénio, em 2000, a Banda consolidou a sua projeção artística com o lançamento do seu primeiro CD, evidenciando o seu compromisso com a inovação e a qualidade musical. Este registo fonográfico marcou um ponto alto na sua capacidade de divulgar o seu trabalho e de se posicionar no contexto musical 31 Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p. 49). 32

Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p. 97)

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regional e nacional. A inauguração da nova sede da Banda, em 2002, foi novamente um marco importante. Este espaço moderno e funcional proporcionou melhores condições para ensaios, formação musical e outras atividades culturais, reforçando o seu papel como um centro de referência musical na comunidade. A nova infraestrutura também facilitou a realização de iniciativas de envolvimento com a população local, promovendo uma maior integração e visibilidade da instituição. Um dos momentos mais marcantes desta fase de renovação foi a criação da Academia de Música Fernando Matos, oficialmente inaugurada em 2014. Este espaço educativo tornou-se central na formação de novos músicos, perpetuando a tradição de ensino musical da Banda e garantindo a transmissão do seu legado para as gerações futuras33. Da Adversidade à Renovação na Banda das Caldas das Taipas sob a Liderança de Henrique Azevedo A Banda Musical de Caldas das Taipas, apesar do prestígio conquistado em décadas anteriores, enfrentou um período de declínio, caracterizado pela redução de atuações, desorganização administrativa e perda de músicos. A estagnação gerou descontentamento entre os jovens, que começaram a abandonar a banda ou a procurar alternativas nos concelhos vizinhos. Em 2016, após um período de impasses e divisões internas, uma nova direção liderada por Henrique Azevedo assumiu o desafio de revitalizar a instituição. O plano estratégico incluiu a reorganização administrativa, a criação de equipas para gestão de recursos e o fortalecimento da formação musical. A Academia de Música Fernando Matos desempenhou um papel central, promovendo atividades como musicais e a criação da Orquestra Juvenil, estabelecendo uma ligação entre a formação e a integração na banda. Atualmente, sob a liderança do Maestro Charles Piairo Gomes, a Banda Musical das Caldas das Taipas celebra 190 anos, rejuvenescida e consolidada como uma referência cultural no concelho, evidenciando um crescimento sustentável e uma renovada vitalidade artística e institucional34. A Banda Musical das Caldas das Taipas, celebrou o seu 190.º aniversário, nos finais do ano de 2024, uma efeméride que enalteceu a sua longevidade e impacto cultural. As celebrações incluíram vários eventos, nomeadamente a publicação de um livro que retrata a sua história, “Banda Musical das Caldas das Taipas. 183433 Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p. 121-150) 34

Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho (p.151).

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2024.”, através do autor João Ribeiro, que destacou a sua importância como um símbolo da identidade local, reafirmando o papel da música na coesão social e na preservação das tradições culturais. Bibliografia Ephemérides Vimaranenses de João Lopes de Faria, I.º Volume, p- 60. Ribeiro, J. (2024). Banda Musical das Caldas das Taipas. 1834-2024. Diário do Minho.

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Os 150 anos da inauguração do edifício dodecagonal dos “Banhos Velhos” de Caldas das Taipas (1875-2025) António José de Oliveira35

1.

Introdução

A grande afluência de aquistas obrigava a que o estabelecimento termal de Caldas das Taipas estivesse aberto durante um horário contínuo de 16 horas, tendo mesmo, em 1867, sido alargado o seu funcionamento para 24 horas diárias, provocando uma saturação da capacidade de resposta às necessidades. Simultaneamente, o complexo termal edificado de forma faseada, entre 1818-1851, apresentava já sinais de necessidade da sua modernização e de melhoramentos. Não esqueçamos de que o estabelecimento termal contemplava piscinas com capacidade para três a quatro aquistas e não existiam banheiras individuais. Deste modo, em 1868, surge oficialmente pela mão da autarquia a necessidade de se criar um novo e moderno edifício, que complementasse e alargasse as valências existentes, que remontavam à primeira metade da centúria de novecentos. A edilidade pretendia edificar um novo edifício de dez banheiras e respetivas casas, deliberando para isso que se fizesse uma “representação ao poder legislativo pedindo uma ley” que autorizasse a Câmara a um empréstimo,

Fig. 1 - Arquivo Pitoresco, 1865

no valor de 1200$000 réis36. A Câmara afirmava a necessidade desta obra apresentando o seguinte argumento: “visto não haver nas ditas Caldas das Taipas banheiras como as que se projectam fazer e que cada banheira comporte uma só 35 Doutorado em História de Arte em Portugal (FLUP); Investigador do CITCEM; Tesoureiro da Direção da Cooperativa Taipas Turitermas 36

A.M.A.P.= Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, livro de sessões da vereação da CMG., 10-6-1, fls. 166v-167. Sessão de 3 de

junho de 1868.

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pessoa”37. Esta necessidade de tinas individuais já é referida, no ano anterior, pela mão do diretor do estabelecimento Manuel Joaquim da Silva38. O mesmo diretor reafirma a grande taxa de ocupação e lista de espera do estabelecimento termal: “Cada anno concorrerão a estes banhos duas mil pessoas com demora de 15 dias”39. Poucos meses depois, pelo Vice-Presidente da Câmara, Avelino da Silva Guimarães, foi apresentada uma proposta à vereação,

se-

Fig. 2 - Banhos Velhos, Vista aérea, 2021, Cooperativa Taipas Turitermas

gundo a qual deveria avançar-se com a constituição de uma Companhia com o intuito de realizar a construção de um novo estabelecimento termal40. Esta proposta da concessão das águas termais à iniciativa privada, tinha sido debatida, meses antes, na sessão anterior para as Caldas de Vizela41. Efetivamente, nas Caldas de Vizela, poucos anos depois, irá concretizar-se a criação de uma empresa denominada “Companhia dos Banhos de Vizela”, que irá ser a concessionária das águas termais de Caldas de Vizela até à atualidade. Na proposta apresentada pelo Vice-Presidente da Câmara solicitava-se que se pedisse ao Parlamento autorização para se conceder a adjudicação do novo balneário constituído por 10 banheiras, a Fig. 3 – “Banhos Velhos”, Poço n.º 9, 2020 37

uma Companhia, reservando a autarquia o rendimento de 40 réis por

A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG., 10-6-1, fl.167. Sessão de 3 de junho de 1868.

38 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-1 (20), 5 de outubro de 1867, fl.5. 39 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-1 (20), 5 de outubro de 1867, fl.5. 40 A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG., 10-10-6-2, fls.64v-65v Sessão camarária de 21 de outubro de 1868 41

A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG., 10-10-6-2, fls.49v-62v. Sessão camararia de 14 de outubro de 1868.

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banho das piscinas então existentes. Como contrapartida financeira, a Câmara concederia à Companhia todos os rendimentos dos banhos “antigos e novos” durante o prazo contratado, com a ressalva de que a companhia não pudesse alterar quer o preço, quer os regulamentos municipais dos banhos antigos42. Ao mesmo tempo, a Câmara comprometia-se a solicitar ao Parlamento, o seguinte: “a isenção de direitos d’alfandega para as maquinas, utensílios e aparelhos que à Companhia for indispensável importar do estrangeiro” 43. Esta proposta apresentada pelo Vice-Presidente foi aprovada, mas a discussão sobre as suas condições seria adiada para a sessão seguinte44. No entanto, apenas na sessão de 27 de janeiro de 186945, seriam apresentadas as condições dessa concessão, segundo proposta de Avelino da Silva Guimarães, em oito pontos, que foram aprovadas por unanimidade. No entanto, apesar desta proposta ter sido aprovada por unanimidade pelo senado da Câmara, apenas em 1895 se irão concessionar as águas a um privado de forma experimental. Em 1906, a autarquia irá concessionar definitivamente as águas a um privado, José Antunes Machado, que depressa cede os direitos de exploração a um consórcio denominado Empresa Termal das Taipas S.A.R.L. criado por escritura pública de 4 de maio de 1910 com todos os direitos e obrigações constantes do contrato celebrado em 1906. Em 1984, a Câmara Municipal de Guimarães rescindia o contrato que outorgava a

Fig. 4 – “Banhos Velhos”, finais séc. XIX, Muralha – Associação de Guimarães Defesa Património

concessão da exploração das águas termais à Empresa Termal. No ano seguinte, a autarquia forma a Cooperativa Taipas Turitermas com o propósito de assumir a gestão e a modernização do estabelecimento termal e dos equipamentos turísticos existentes, estes

42

A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG., 10-10-6-2, fls.64v-65v. Sessão camarária de 21 de outubro de 1868 A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-2, fl. 65v. Sessão camarária de 21 de outubro de 1868. Documento mencionado por CACHADA, Armindo, obra cit., p. 123. 44 A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-2, fl.65v. Sessão camarária de 21 de outubro de 1868. Documento mencionado por Cachada, 2006: 123. 45 A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-2, fls.111v-112. 43

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últimos até então dependentes da extinta Junta de Turismo das Taipas. 2. A construção do novo edifício dodecagonal Relativamente à edificação do novo estabelecimento termal contíguo ao já existente, encontrámos no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta (AMAP), uma pasta intitulada “Memoria descriptiva do novo edifício termal das Caldas das Taipas elaborada em 9 de março de 1870”, redigida em Braga, pelo 1.º engenheiro José Taveira de Carvalho Pinho de Meneses46, que nos fornece várias informações sobre o processo de edificação desse imóvel. Nesse processo de obras, é transcrita pelo eng. José Taveira de Carvalho Pinho de Meneses, uma cópia da descrição do estabelecimento termal a ser construído nas Taipas, da autoria do Engenheiro Civil Bartolomeu Achiles Dejante, datada de 15 de outubro de 1868, e redigida exm Belém (Lisboa)47. Nessa memória descrição, o eng. Dejante opta pela forma dodecagonal do edifício48, afirmando que era “aquella que mais se prestava, tanto para a regularidade do serviço interno como para o conforto dos banhistas”49. Segundo a mesma descrição, é feita referência às plantas da autoria de Dejante, que reproduzimos a seguir50.

46 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20. “Memoria descriptiva do novo edifício termal das Caldas das Taipas elaborada em 9 de Março de 1870”. Docu-

mento constituído por 7 fólios. 47 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro Dejante”, fls. 2-4v. 48 Esta forma geométrica foi efetivamente respeitada no edifício que seria inaugurada em 1875. 49A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro Dejante”, fl. 2. 50 Estas plantas existentes no A.M.A.P., com a cota 10-9-5-5-1-18.

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Fig. 5 - Projeto de Bartolomeu Aquiles Dejande: alçado, 1868, (AMAP)

Fig. 6 - Projeto de Bartolomeu Aquiles Dejande: corte AB, 1868, (AMAP)

Fig. 7 - Projeto de Bartolomeu Aquiles Dejande, 1868, (AMAP)

Fig. 8 - Projeto de Bartolomeu Aquiles Dejande, 1868, (AMAP)

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Segundo a planta e o traslado da descrição de Dejante, podemos observar que o vestíbulo de entrada do edifício projetado permitiria que os banhistas ou as pessoas que os acompanhassem pudessem aguardar comodamente e garantida do sol e da chuva, em melhores condições que a alpendrada então existente. Desse vestíbulo entrar-se-ia num pequeno escritório, unicamente destinado à venda de bilhetes, e que daria acesso a uma sala de espera onde o banhista aguardaria a sua vez para tomar o banho de imersão, ou então descansar do banho e resfriar-se antes de passar para o ar livre. No meio dessa sala era proposta a construção de uma fonte com quatro torneiras em comunicação com um depósito de águas sulfurosas. Segundo

Fig. 9 - Projeto de Bartolomeu Aquiles Dejande, 1868, (AMAP)

Dejante esta “fonte he destinada para os banhistas fazer uzo interno das aguas; mas em vista da economia pode suprir por ora; em todo o cazo enformar-me-ei do preço do melhor aparelho”51. Em redor dessa sala de espera abrir-se-iam todas as portas e os vestiários em comunicação por uma porta envidraçada com o quarto de banho. Nesta descrição vemos por parte deste engenheiro preocupações práticas e de ordem medicinal no projeto deste edifício. Vejamos: “o vestuário é um quarto que todos os médicos recomendam e serve para ali se deixar ficar a roupa, evitando-se assim que esta se humedeça encommodando o banhista que facilmente se poderia constipar vestindo a roupa húmida” 52. Em cada um dos 10 quartos53 estava prevista a existência de uma latrina e lavatório, em comunicação com os canos do despejo, por um sifão, que, segundo o engenheiro, impediria a inalação de maus cheiros no quarto54. Infelizmente, na construção do edifício não foram colocadas quer as latrinas e lavatórios, usandose as cloacas edificadas em 1851, existentes no edifício anexo. A não construção destas latrinas obrigava o

51 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro

Dejante”, fl. 2. Na realidade, essa fonte referida nesta descrição e desenhada na planta, nunca seria construída. Mantendo-se unicamente para uso a então existente no exterior. 52 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro Dejante”, fl. 2v. Na realidade, essa fonte referida nesta descrição e desenhada na planta, nunca seria construída. Mantendo-se unicamente para uso a então existente no exterior. 53 Atualmente, podemos observar na bandeira de cada quarto, a numeração de cada um dos quartos, numa cartela em mármore. 54 Na planta é dado destaque em pormenor às latrinas e lavatórios. Veja-se o corte C/D das plantas.

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banhista a sair do edifício até ao imóvel adjacente, o que causaria transtorno aos mesmos. Continuando a leitura desta memória descritiva, sabemos que as janelas deveriam ser basculantes, devido ao facto de estarem colocadas numa altura “onde mal se chega sem o auxílio d’um banco”. Esta colocação das janelas num patamar elevado justificava-se por motivos arquitetónicos e para impedir que se pudesse devassar o interior dos quartos das banheiras, pela parte do exterior. O engenheiro tinha preocupações com a ventilação e o arejamento das cabines das piscinas, aconse-

Fig. 10 – “Banhos Velhos”, edifício dodecagonal, cartela em mármore da numeração do quarto, (Alexandre Delmar, Cooperativa Taipas Turitermas)

lhando o seguinte: “por cima de cada banheira acha-se uma chaminé em comunicação com uma trapeira tapada com persianas; nas chaminés deverá colocar-se um registro basculante, de maneira que abrindo-se a janella e o á colocar-se um registro basculante, de maneira que abrindo-se a janella e o registro se possa arejar num instante o quarto de banho, dando-lhe sahida às evaporações, e emanações das aguas, conforme as indicações dos médicos” 55.

No que respeita a preocupações com a iluminação natural, é dito que a sala de espera receberia a luz pela parte superior através de uma espécie de claraboia56. Frente ao escritório estava prevista a existência de outro quarto para a distribuição de roupas aquentadas. Segundo a mesma descrição, esta era uma exigência por parte dos médicos, justificada pelo seguinte: “concebe-se perfeitamente porque as pessoas ao sahirem dos banhos quentes, ressentem

Fig.11 – Claraboia edifício dodecagonal “Banhos Velhos”, (Alexandre Delmar, Cooperativa Taipas Turitermas)

uma impressão muito desagradável ao enxugarem-se num

55 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro

Dejante”, fl. 2v. 56 Ainda hoje esta claraboia, apesar de ter sofrido várias modificações, permite a iluminação natural de todo o edifício.

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lençol frio, o que aumenta parte do efeito benéfico do banho”57. Contíguo a este compartimento para distribuição de roupa quente, estava previsto o local destinado à caldeira a vapor, com o intuito de aquecer a água dos banhos a vapor58. No entanto, apesar de estar representada a caldeira no alçado da planta, bem como a sua chaminé para o exterior59, esta máquina a vapor nunca foi concretizada na prática. Apenas, mais tarde, nos denominados “Banhos Novos”, inaugurados em 1908, iremos encontrar a primeira caldeira a vapor, bem como os respetivos geradores a vapor. A água sulfurosa entraria em cada banheira pelo fundo, como hoje ainda podemos observar60, evitando este modo de entrada da água termal o mais possível o contato imediato com o ar atmosférico. Na descrição é dito que os encanamentos para cada umas das 10 banheiras deveriam ser de chumbo estanhado.

Fig. 12 – Interior edifício dodecagonal “Banhos Velhos”, (Alexandre Delmar, Cooperativa Taipas Turitermas)

Relativamente às banheiras, o engenheiro colocava a hipótese de serem de zinco ou de mármore. Se fosse de mármore, como, na realidade, a autarquia optou, Dejante alertava que era “precizo tomar todas as percauzões indicadas pela sciencia para que não resfrie demasiadamente a agua do banho”. O engenheiro justificava a grande grossura das paredes exteriores deste edifício dodecagonal, pelo razão de assim ser possível, no interior de cada um dos quartos, se manter a temperatura certa e ideal, facto que não se poderia alcançar com paredes delgadas. No que concerne às divisórias do edifício é dito que seriam de perpianho, com exceção das divisões internas dos vestuários que seriam de tabique. A utilização de perpianho nas divisões dos quartos é justificada pelo facto de a humidade proveniente dos banhos poder causar danos irreversíveis no tabique e, além disso, segundo a mesma descrição, eram reprovados neste género de estabelecimento. No que concerne às paredes em redor do local destinado para a caldeira, estas deveriam 57 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro

Dejante”, fl.s 3. Na planta podemos observar o quarto de distribuição de roupa quente. 58 Segundo a memória descritiva esta deveria ser tubular e móvel tendo todos os aparelhos necessários de segurança. 59 Segundo a planta a chaminé teria 2,40 cm de diâmetro e 5.40 cm de altura, a partir da cota do telhado. 60 Cada uma das 10 banheiras, que ainda hoje observamos são de mármore, e estão numa cota inferior ao piso térreo, com o intuito de proceder ao seu enchimento através da canalização pela força da gravidade, pois não existia qualquer forma de bombeamento da água das nascentes até às mesmas.

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ser grossas, com o intuito de “evitar quanto possivel, alguma desgraça no cazo de explozão da caldeira” 61. Relativamente ao piso de todas as salas, este deveria ser de asfalto, pois era mais quente que qualquer outro piso e mais durável que a madeira. No entanto, sobre a posição e altura em que deveria estar colocado este piso, o engenheiro afirmava que não lhe era possível determiná-los por falta de dados necessários sobre o próprio terreno. No final da sua memória descritiva, Dejante recomendava que, essencialmente nos alicerces, canos, rebocos interiores e nos quartos de banho, se empregasse sempre arga-

Fig.13 – Uma das banheiras edifício dodecagonal “Banhos Velhos”, (Alexandre Delmar, Cooperativa Taipas Turitermas)

massa hidráulica; e argamaria ordinária de cal e areia, para as paredes e rebocos exteriores e interiores, devendo-se evitar qualquer argamassa feita com saibro, por ser uma das principais causas da ruína de edifícios. José Taveira de Carvalho Pinho de Meneses, responsável da elaboração da cópia da memória descritiva do Engenheiro Dejante, apresenta igualmente uma memória descritiva da sua autoria62. Nesta sua memória descritiva refere que a Câmara Municipal de Guimarães, desejando edificar um estabelecimento suplementar ao então existente, encarregara deste estudo o Engenheiro Dejante, que remetera à mesma, uma memória descritiva63, embora sem orçamentos. Por esse motivo, o eng. José Taveira Meneses elaborou os orçamentos, que acompanham a sua memória descritiva. No que concerne à memória descritiva da autoria do Engenheiro José Taveira Meneses, este propõe as seguintes alterações ao projeto de Dejante:

61 A.M.A.P.,10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro

Dejante”, fl. 4. 62 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro Dejante”, fls. 1-1v. 63 O engenheiro refere que se trata da memória descritiva “que segue”.

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Não admitir tabique no interior do edifício, por este não estar livre de inundações do rio, na altura das cheias; Forrar a sala de espera e o interior do edifício a azulejo64; Não incluir, no atual orçamento, a caldeira “que o dito engenheiro na sua memoria refere” 65; Substituir as banheiras de zinco por banheiras de mármore.

Fig.14 – Uma das banheiras edifício dodecagonal “Banhos Velhos”, (Alexandre Delmar, Cooperativa Taipas Turitermas)

O eng. José Taveira Meneses, na sua exposição, faz menção que o local escolhido para o novo edifício apresentava o grave inconveniente de ficar inferior ao nível das águas do rio e, consequentemente, sujeito às inundações. No entanto, acrescenta que qualquer obra que se projetasse para impedir essas inundações tornariam o orçamento muito superior ao desejado pela autarquia66. Nesta sua apreciação sobre o projeto de Dejane, José Taveira Meneses chama a atenção para as pequenas dimensões do edifício, declarando que os diversos aposentos eram acanhadíssimos. No entanto, faz a ressalva afirmando que sempre ofereciam maiores comodidades que as do edifício então existente, podendo-se tomar diariamente 240 banhos, “numero superior ao essencial atendendo a que os actuaes estabelecimentos se conservam e quazi com as mesmas aguas, por isso que as destinadas para alimentar estes banhos são pella maior parte aguas deprezadas” 67. Em suma, o engenheiro termina dando o parecer de que a autarquia fazia neste novo empreendimento

64 Atualmente ainda se encontram vestígios de azulejos datados do seculo XIX em alguns compartimentos do edifício. Nas escavações realiza-

das em 2010 encontram-se vários fragmentos de azulejo. Pensamos que nas obras realizadas em 1939, teriam sido retirados esses azulejos. 65 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro Dejante”, fls. 1-1v. 66 A solução apresentada seria colocar o novo edifício sobre uma plataforma, ou circundar os edifícios de muros altos que se prolongariam até encontrar o terreno livre das cheias. 67 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro Dejante”, fl.1v.

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uma boa obra, cujo rendimento deveria chegar para pagar o juro e a amortização inerentes à sua edificação. No dia seguinte, junto à cópia da memória descritiva de Dejante e à proposta de alteração do engenheiro Taveira, este apresenta o caderno de encargos, que não fora apresentado por Dejante, bem como as condições de arrematação da obra68. O caderno de encargos da autoria do 1.º engenheiro José Taveira de Carvalho Pinto Menezes consta de 20 artigos, subdivididos em três capítulos, a saber: materiais; cláusulas e condições diversas; e condições gerais e particulares. Após a exaustiva enumeração deste caderno de encargos, o mesmo engenheiro apresenta as condições de arrematação da obra 69. Observemos as mesmas: 1ª O empreiteiro é obrigado a dar começo aos trabalhos dentro de oito dias depois de lhe ser comunicada a aprovação da arrematação; 2ª Concluirá a obra no prazo de 6 meses, sendo-lhe aplicada a multa de mil reis diários no prazo de um mês, se não satisfazer a esta condição, sejam quais forem as circunstâncias que obstem ao seu cumprimento; 3ª Se ainda não for concluída no prazo de sete meses a que se refere a condição acima, no oitavo mês sujeitar-seá à multa de dois mil reis diários. Findo este prazo ser-lhe-ão aplicáveis imediatamente as disposições do artigo vinte e três das cláusulas e condições gerais para as empreitadas de oito de março de 1861. 4ª A força maior não poderá servir de pretexto para o não pagamento das multas a que se referem as condições segunda e terceira.

No ano seguinte, inicia-se a construção deste novo edifício. Na sessão camarária de 6 de dezembro de 187170, é arrematada a empreitada dos alicerces, canalização, repartição de águas, canos de despejo, pavimentos e tubos para o estabelecimento termal, sob a fiscalização do Engenheiro Distrital José Taveira de Carvalho Pinto Meneses e do Engenheiro Municipal Francisco Magalhães. A obra foi posta em pregão pelo pregoeiro municipal, tendo sido arrematada pelo menor lanço de dois contos setecentos e oitenta e nove mil reis, por José Sobral, natural de Famalicão. A obra teria de ser concluída num prazo de seis meses.

68 A.M.A.P, 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro

Dejante”, fls. 5-7, 10 de março de 1870. 69 A.M.A.P, 10-9-5-5-1-20, “Copia da descripção do estabelecimento termal para ser construído em São Thomé de Caldellas pelo Engenheiro Dejante”, fl.7. Estas condições são assinadas no final pelo Engenheiro Distrital José Taveira de Carvalho Pinto Meneses. 70 A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-4, fls. 168v-169v.

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Entretanto, no mês de agosto de 1873, enquanto se edificava o novo edifício dodecagonal, o eng. Manuel do Couto Guimarães propõe um conjunto de alterações ao projeto do engenheiro Dejante71, apresentando uma descrição dessa alteração e o respetivo orçamento resultante dessas alterações. O eng. Manuel Guimarães afirma que essas alterações “que apresento, ao Projecto do Engenheiro Dejant não hé com idea de corrigir n’elle irregularidades, ou mãos efeitos de prespectivas exterior, por que não as tem: mas sim por conveniencias, que o local permite, e a pratica mostra”72. As alterações propostas são as seguintes: -

Substituição e supressão da cornija e platibanda, com o intuito de fazer correr a continuação da cobertura dois metros fora do prumo das paredes. Como consequência desta alteração, toda a passagem em redor do edifício ficaria coberta. O engenheiro continuava afirmando: “mudando-lhe o caracter d’arcichetura que tinha mais severo; para aquelle de hum pavilhão campestre. Não digo quaes das duas formas seja preferível á vista; mas considerando eu na concorrência que por certo terá este estabelecimento, o que a salla de espera, ou recinto interior, allem da sua pequena dimensão, está rodeado com doze portas, ficando apenas o centro livre para colocar huma conversadeira de seis assentos; e por isso, sem comodidade para os banhistas esperarem”.

O mesmo técnico justificava esta alteração ao projeto inicial de Dejante, considerando que os aquistas prefeririam esperar a hora de entrada dos banhos, ao ar livre, “gozando a vista do campo”. Deste modo, propunha a colocação de dez assentos em volta do edifício, os quais ficariam cobertos pelos avoamentos da cobertura, que avança meio metro fora do prumo do passeio73, que, segundo a mesma descrição, se “torna hum bom comodo, para os banhistas, esperarem, assentados, ou passeando em volta, sem embargo d’aquelles, que preferirem esperar dentro do recinto”. Outro motivo que levou o eng. Manuel do Couto Guimarães a dar a este pavilhão a forma campestre foi o facto do edifício em construção estar rodeado de árvores e por estas, não só no outono, deixarem cair as folhas sob a cobertura, o que provocava, segundo o mesmo, “com qualquer chuveiro correrá descendo contra o interior da platibanda, e intupindo os canos de esgoto, interiores das paredes, será motivo para que as aguas, cahião do tecto ao interior do edeficio”. Por fim, para esta alteração, o engenheiro propunha que toda a cobertura do telhado fosse em lousa, 71

A.M.A.P., 10-9-5-5-1-15.

72 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-15. 73 Se observarmos o conjunto de postais ilustrados da época podemos verificar, de que esta alteração foi concretizada, vendo-se um conjunto

de bancos em madeira em redor do edifício resguardados pela cobertura do telhado.

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em lugar da telha. Os motivos apresentados para esta opção eram os seguintes: “não só por que esta cobertura, se torna muito mais leve, e segura, mas tambem por que hé mais própria a este género de edeficio, sem que a diferença de custo, seja grande”. Segundo a descrição do engenheiro, estas alterações apresentavam uma pequena diferença entre o custo inicial da obra, à qual sem receio se poderia submeter o empreiteiro, segundo o contrato. Para esse efeito, apresentava o orçamento retificativo, que ostentava uma diferença muito pequena ao orçamento inicialmente contratado com o empreiteiro74. Temos conhecimento, através de um apontamento assinado pelo Engenheiro Manuel Couto Guimarães,75 de que a empreitada do edifício dodecagonal ficou pela quantia de três contos novecentos e oitenta e três mil, e setenta e três réis, sendo dois contos setecentos oitenta e oito mil réis o preço da arrematação, e um conto cento e noventa e cinco mil, e setenta e três, a importância das alterações resultando de tudo num saldo a favor do empreiteiro de oitocentos mil, cento e oito réis, a cuja quantia tinha direito por haver cumprido o seu contracto. Poucas semanas antes da inauguração do edifício, António Martins Ferreira, na qualidade de condutor de obras públicas, certificava a conclusão da empreitada76, para que a Câmara pudesse liquidar as contas com o empreiteiro. Para a construção deste edifício a Câmara requereu a fiscalização superior da engenharia distrital77. A 28 de maio de 1875, já com o edifício na fase final de conclusão, é deliberado, em sessão de Câmara, que os banhos desse novo estabelecimento termal fossem fornecidos ao público por 120 réis cada um, sendo nomeado para banheiro Domingos António da Silva, da freguesia de Santa Maria de Souto, o qual ficava encarregado da venda dos bilhetes ao público, recebendo uma percentagem “igual à que recebem os indivíduos encarregados de taes serviços no antigo estabelecimento” 78. Para conclusão do edifício, a 1 de julho de 1875, é arrematada a obra da construção do zimbório por João José de Carvalho, da cidade de Braga, por 10$500 réis79. Nessa sessão de Câmara, José da Silva Martins,

74 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-15. 75 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-19 (180), datado de 29 de julho de 1874. 76 A.M.A.P., 10-9-5-5-1-19 (181). 77 A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-6, sessão de 20 de março de 1872, fl.12v. 78 79

A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG,10-10-6-7, fl. 81. A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-7, fls. 93-93v.

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da freguesia de Santiago de Ronfe, arremata a empreitada da construção de dez portas para os quartos dos banhos e de vestir, por 95$640 réis80. Finalmente, a 11 de julho de 1875, este novo edifício termal era inaugurado, prefigurando os banhos de 1ª classe.

Fig.15 - Postal Banhos Velhos, anos 30 séc. XX (col. António José Oliveira)

Fig.16 – Complexo termal dos “Banhos Velhos”, (Alexandre Delmar, Cooperativa Taipas Turitermas)

Nesse mesmo ano, ainda em plena época balnear, procedia-se a obras exteriores no estabelecimento termal, com a feitura de um passeio de cantaria e valeta de calcetaria à volta do novo edifício81. Com a inauguração, em 1875, do novo e moderno edifício de 1.ª classe, os banhos aí tomados estavam apreçados em 120 réis, mantendo-se os 40 réis nos restantes edifícios contíguos82.

80

A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-7, fls. 93-93v. A.M.A.P., livro de sessões da vereação da CMG, 10-10-6-7, fl. 110. Sessão camarária de 16 de setembro de 1875. Esta empreitada foi arrematada por Francisco Pinto Costa, pelo lanço de 200$000 réis. 82 No regulamento de 1884, este preçário ainda se mantinha. 81

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3. Conclusão Em 1908, com a inauguração dos “Banhos Novos”, ainda hoje em funcionamento, o edifício dodecagonal, bem como os restantes corpos termais adjacentes passarão a designar-se de “Banhos Velhos”, sendo considerados de 2.ª e 3.ª classe.

Fig. 17 – “Banhos Novos”, cerca 1910 (col. Muralha – Associação de Guimarães para Defesa do Património)

Em 1926, todo o complexo dos “Banhos Velhos” se encontrava remetido para segundo plano e a necessitar de obras de remodelação. Estas obras de grande vulto, apenas seriam iniciadas no ano de 1937. Durante esse período 1926-1939, o edifício encontrava-se em mau estado de conservação apresentando deficiências estruturais. Na intervenção de 1937-1939, as oito piscinas seriam substituídas e modernizadas por oito banheiras de mármore, que correspondiam a oito cabines individuais, tal como sucedia no edifício dodecagonal. Apenas o denominado poço nº 9 (antigo “Banho Novo ou do Governador”) iria permanecer uma pequena piscina, até à atualidade. Nestas obras, vai-se construir uma pérgula com colunas de granito, servindo de ligação entre o edifício dodecagonal e o poço nº 983. O complexo termal dos “Banhos Velhos”, com uma forma geométrica singular e original, funcionaria como estabelecimento termal até aos inícios da década de 70, do século XX. A intervenção de reabilitação deste complexo termal realizada em 2010 propiciou trabalhos

83

Arquivo Particular José de Oliveira, livro de atas da Direção da Empresa Termal das Taipas (1938-1945), reunião extraordinária de 28 de dezembro de 1938, fl. 3v.

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arqueológicos, coordenados pelo arqueólogo Ricardo Erasun Cortés, permitindo a redescoberta de vestígios da época romana. Posteriormente a esta intervenção, as sucessivas direções da Cooperativa Taipas Turitermas, considerando que a recuperação do edifício visava não só travar a forte degradação a que esteve sujeito, mas também converter a ruína num local de dinamização cultural das Caldas das Taipas, tiveram como objetivo, a execução de uma programação cultural anual denominada de “Banhos Velhos”, entre os meses de maio a setembro. BIBLIOGRAFIA CACHADA, Armindo – Caldelas: Caldas das Taipas: Monografia e Roteiro Turístico, Caldas das Taipas: Junta de freguesia de Caldelas, 2006. CUNHA, Maria Manuela Ferreira da – “As Termas de Vizela: o destino turístico da elite portuguesa”, in Jornadas de património local, atas, Caldas de Vizela, Avicella-Associação cultural, 2016, pp. 71-102. FERNANDES, Alfredo – Estancia hidro-mineral das Taipas, Porto, Tipografia da Enciclopédia Portuguesa, 1912. LEITÃO, Joaquim – “Caldas das Taipas: a obra do Carmelita”, in Brasil-Portugal, nº 261, 1 de dezembro de 1909, Lisboa, pp. 332-334. OLIVEIRA, António José de – “A construção do edifício dodecagonal dos “Banhos Velhos” de Caldas das Taipas (1868-1875)”, in III Congresso Histórico de Guimarães: as cidades na História, Guimarães: Câmara Municipal de Guimarães, 2023 (no prelo). OLIVEIRA, António José de – “As águas termais das Taipas e a Exposição Industrial de Guimarães (1884)”, in Osmusiké Cadernos 6, Guimarães, Osmusiké/Escola Francisco de Holanda, 2024, pp. 61-63. VIANNA, Manoel da Terra Pereira – Caldas das Taipas: relatório d’uma visita às Caldas das Taipas, Guimarães, Câmara Municipal de Guimarães, 1896.

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Mesteres Vimaranenses – Velhas artes que vão desaparecendo Isabel Maria Fernandes84

Nascida no séc. X pelas mãos de uma mulher, a condessa Mumadona Dias, cedo a urbe de Guimarães necessitou de homens e mulheres habilitados para os muitos afazeres de uma vida em comunidade. A urbe precisou de homens e mulheres que soubessem fazer e talhar os panos que cobriam o corpo e aconchegavam na cama; que construíssem as casas e dominassem a arte de trabalhar a pedra e a madeira; que soubessem fazer os recipientes de barro usados quer na conservação, preparação e serviço dos alimentos quer na higiene do corpo; que dominassem o fogo e trabalhassem os metais, executando as facas para as matanças, as foices para os trabalhos de campo, as colheres com que se alimenta o corpo, os utensílios usados no trabalho da pedra, da madeira e do couro; que soubessem trabalhar o couro e fazer alforges, selas, estojos, borzeguins (sapatos) e tantos outros utensílios e objetos imprescindíveis ao quotidiano das gentes. Houve, também necessidade de regulamentar as atividades dos mesteres, ou seja, dos profissionais que trabalhavam em diferentes áreas e de tabelar os seus preços. Estes dados podem ser encontrados num documento datado de 1552, intitulado «Taxas para a Vila de Guimarães» e que se encontra no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento. Através dele ficamos a conhecer uma panóplia muito lata de profissões da época e também o que se produzia e comercializava, aí se encontrando referência85: -

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aos que exercem o seu ofício, vendendo o que fabricam com preços tabelados: albardeiro, alfaiate, atafoneiro, ataqueiro, bainheiro, barbeiro, besteiro, cabouqueiro, carpinteiro de casas, carpinteiro de caixas, cerieiro, coronheiro, correeiro, curtidor, cutileiro, ferrador, ferreiro, oleiro, pedreiro, picheleiro, sapateiro, serrador, serralheiro, surrador, tanoeiro, tecelão, telheiro, tintureiro, torneiro, tosador; aos que prestam serviços a terceiros e que por tal são remunerados: almocreve, aluguer de bois, aluguer de odres e trebolhas, barqueiro, guias de bois;

84 Investigadora. Lab2pt / Universidade do Minho e In2past 85 Estes dados relativos às «Taxas para a Vila de Guimarães», foram retirados na íntegra de Isabel Maria Fernandes; António José de Oliveira –

Ofícios e mesteres vimaranenses nos séculos XV e XVI. Revista de Guimarães. 113-114 (2003-2004). P. 43-209.

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aos que trabalham por conta de outrem exercendo trabalho não especializado: jornaleiro, trabalhador; a produtos alimentares: pão, carne, bois, cabritos, coelhos, codornizes, carneiros, cabras, gado vacum, galinhas, leitões, lebres, manteiga, marrãs, mel, ovos, ovelhas, perdizes, pombos, patos, queijos, rolas, sal, tordos, toucinho; a produtos diversos: burel, casca para curtir, cal, sumagre, carvão, cilhas, cabrestos, cabos de cabrestos, linhas, lenhas, louça vidrada, lã, linhaça, pergaminhos, sebo, vidro.

Os anos continuaram a correr e profissões houve que se mantiveram ao longo de séculos continuando a marcar a paisagem concelhia: o têxtil, as cutelarias, os curtumes, a olaria, a ferraria… No séc. XVIII, mas principalmente no séc. XIX, algumas das profissões exercidas pelos antigos mesteres, deixaram de ser, como eram nos séculos anteriores, pequenas oficinas de carácter quase familiar para se constituírem como indústrias, detentoras de capital significativo, maquinaria mais avançada, e um número já elevado de operários. Entre estas indústrias podemos incluir a indústria têxtil, as cutelarias, os curtumes e o calçado. Mas, ao mesmo tempo que a paisagem concelhia ia sendo aqui e ali, principalmente junto às linhas de água, enriquecida com estas fábricas nascentes, ao seu lado continuava a existir a pequena indústria de outros tempos – os oleiros, os ferreiros, os pedreiros, os carpinteiros, os funileiros, os latoeiros, os canteiros, os penteeiros, os tecelões, as bordadeiras do bordado de Guimarães. E aquilo que antigamente se designava como mesteres e correspondia a artes imprescindíveis ao quotidiano das gentes passou, na segunda metade do séc. XX, a designar-se como «artesanato», perdendo relevância de uso, mas ganhando outros mercados (feiras e mostras d artesanato) e outras formas de organizar a profissão. Em Guimarães, em 2006, foi editado um livro intitulado «As artes e as mãos da história: o artesanato vimaranense»86 onde se dava conta de alguns desses mesteres que passaram a ser designados como artesãos, apesar de me parecer que alguns deles não se poderão incluir nesta categoria: -

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Nos curtumes: Manuel Oliveira, António Augusto Ribeiro da Silva, Alberto José Correia; Nas cutelarias: António Gonçalves; Nas ferrarias: Gaspar Pinto Carreira;

As artes e as mãos da história: o artesanato vimaranense. Guimarães: Oficina: centro de artes e mesteres tradicionais, 2006.

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Na latoaria: Eduardo Castro Lobo; Na olaria: Artur Joaquim de Oliveira; Artur Alves Machado (já falecido nessa data) Na cantaria: Alberto Oliveira Araújo; Na construção civil: José Teixeira Pereira Na carpintaria: Jerónimo Ferreira Nos penteeiros: Jorge e João Teixeira Na tecelagem: Paulo Manuel Almeida Pereira No bordado de Guimarães: Maria da Conceição Pereira Ribeiro; Na doçaria: Elvira e Palmira «Costinhas». Maria Elvira da Silva Ribeiro (Casa Costinhas) preparando as tortas de Guimarães e o toucinho do céu. Fotografia de Paulo Pacheco.

Sobre esta publicação passaram dezanove anos e vemos que algum deste artesanato já deixou de existir – ou pelo abandono da arte e por não haver continuadores ou por morte dos últimos artesãos. Assim, neste momento já não há trabalho de curtumes em Guimarães, já não há ferreiros como o Sr. Gaspar Carreira, já não há latoeiros, já não há canteiros, já não há mestres de obras como o Sr. José Teixeira Pereira, já não há carpinteiros como o Sr. Jerónimo Ferreira e deixaram de fazer pentes os penteiros Jorge e João Teixeira. Paulatinamente, estas velhas profissões vão desaparecendo, são outros os tempos e as necessidades das gentes. O mundo continua a girar, mas não com as profissões de antanho. Há, no entanto, algumas artes que se vão perpetuando em Guimarães, como a doçaria, por exemplo. De facto, ainda continuamos a poder degustar as tortas de Guimarães e o toucinho do céu confecionado pelas mãos prendadas das doceiras de Guimarães. Desapareceu o fabrico de loiça vermelha fosca utilitária, mas a arte de trabalhar o barro continua a perpetuar-se agora em mãos femininas (E muito se pasmariam os velhos oleiros por ver mulheres a trabalhar à Conceição Ferreira a bordar um lenço com bordado de Guimarães. Fotografia de Paulo Pacheco

roda!). Estas teimam em continuar a fazer a conhecida cantarinha das prendas de Guimarães e muitas outras peças.

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Também continua a ser possível apreciar e adquirir os bordados de Guimarães, que mãos de mulheres prendadas continuam a executar com qualidade e beleza. É bem certo o que há muitos anos deixou escrito Luís de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Luís de Camões87 (CAMÕES, 1980, II:257)

Fernanda Braga a trabalhar à roda. Fotografia de Paulo Pacheco

87

Luís de Camões – Lírica completa. 3 vol. Lisboa: Imprensa Nacional. Casa da Moeda, 1980. (Biblioteca de Autores Portugueses).

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Antes quebrar que torcer! Francisco Vieira da Silva

1. Discordâncias Históricas As divergências entre Guimarães e Braga, ou vice-versa, que distam entre si pouco mais de duas dúzias de quilómetros, já têm barbas brancas. Não se consegue apontar uma data em que se iniciaram (será do tempo dos dois primeiros habitantes do Éden?), nem quando acabarão (seguindo a mesma lógica será quando o terceiro calhau a contar do sol desaparecer em consequência das alterações atmosféricas?). Podemos dizer com humor que se trata de uma herança recebida e passada aos vindouros ad aeternum… Em todos os momentos de discórdia o povo simples e trabalhador interpreta o papel secundário da força ou turbulência induzido ou acicatado pelas vozes de comando da igreja, nobreza, burguesia e política. É nesses instantes que o povo – essa massa humana que trabalha para alimentar o ego e os estômagos de todos e pouco recebe por isso – que não quer saber de política, que pouco lhe importa se o papa, o arcebispo, ou o prior do convento da sua terra andam de candeias às avessas, mas é na hora de as palavras passarem a actos que são empurrados, obrigados ou comprados por meia dúzia de trocos para defender os interesses pessoais de pessoas que nunca quiseram saber delas. Durante séculos, estas discordâncias tiveram a ver com questões de jurisdição religiosa. Os arrufos clericais eram o prato do dia. Recuemos a 23 de Outubro de 1216 para lermos na Bula do Papa Honório III, a primeira concordata entre a Sé de Braga e o Cabido da Colegiada de Guimarães, que até aí não pertencia a nenhuma diocese, ficando a partir desta data sujeita a algumas ordens do Arcebispo e Senhor de Braga. Por vaidade, ou por não quererem vergar-se ao Senhor de Braga, nunca acataram aquilo com que concordaram e sempre fizeram a vida difícil ao Arcebispo D. Estêvão Soares da Silva e seus sucessores. Já anteriormente, início do século XIII, foi necessária a intervenção do Papa Inocêncio III para arbitrar uma disputa entre o Arcebispo Bracarense D. Martinho Pires e os priores dos mosteiros da Costa e de S. 192


Torcato que mostravam idêntica disposição afetiva para com o prelado. Ainda o século XVI começa a dar os primeiros passos e em Guimarães acontece algo impensável, quando o povo sereno e trabalhador não acata uma missiva, com tiques de imposição, vinda de El-Rei D. Manuel para ser executada pelos cónegos da Colegiada: «Cónegos da Igreja de Guimarães, eu El-Rei vos envio muito saudar. Fazemos-vos saber que nós havemos por bem que o corpo do Bem-Aventurado S. Torcato seja trasladado à Igreja Colegiada da dita Vila, em lugar onde o Prior parecer bem, o qual levará o Breve para se a dita trasladação fazer, e por tanto havemos por escusadas as despesas, onde até ora houve. E, porém, nós mandamos que deis ordens como se logo assim faça. Feita em Lisboa a 28 de Fevereiro de 1501».

E tudo porque Sua Majestade teve a piedosa ideia de ordenar que fossem recolhidas para as cidades ou vilas os corpos dos santos que jaziam nas aldeias. O São Torcato (ou o santo quatro, como já ouvi dizer…) estava no rol desta brilhante intenção. Os cónegos não a refutam e no dia aprazado apresentam-se todos com a jactanciosidade que o momento exigia. Não contavam era com a receção do povo que com armas e com palavras nada meigas mostram os dentes aos clérigos que não esperavam tal resistência, “O santo é nosso e daqui não sai” – deve ter sido o grito de guerra. O povo sereno e trabalhador também sabe fazer guerra com quem os desafia…. Seja cónego, seja rei… Por incrível que pareça esta situação vai repetir-se, mas com outro interveniente. Corria o ano de 1597 quando o Arcebispo Bracarense D. Frei Agostinho de Jesus teve a feliz ideia de aumentar a santaria da sua catedral – dizem as más-línguas bracarenses que convenceu o pároco da freguesia de S. Torcato a colaborar no desvio do corpo do santo para Braga pela calada da madrugada. Tudo em segredo! Quiçá por remorsos futuros o pobre pároco confidencia a alguns homens bons e a outros menos bons o que se iria passar… Agora imaginem a cara de surpresa do arcebispo quando espera silêncio e depara-se com uma turba enfurecida sob o toque de rebate do sino da igreja. “Fizemos frente ao rei, também fazemos frente ao arcebispo! O santo é nosso e daqui não sai” – palavras que devem ter ecoado como um trovão e que levaram o prelado a dar meia volta… O povo sereno e trabalhador também sabe fazer guerra com quem os desafia…. Seja arcebispo, seja rei… A partir do séc. XIX, às querelas religiosas juntam-se as civis. Os ventos políticos e os seus intérpretes – deputados, conselheiros, advogados e outros que tais, mas todos pessoas bem-falantes e com uma honestidade acima de qualquer dúvida(?), vão ter um papel preponderante sobre o povo e, sobretudo, vão 193


transformar divergências em rivalidade. É com assinatura da rainha D. Maria II do decreto que se estabelece a reorganização administrativa de Portugal, corria o dia 18 do mês de Julho do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo 1835, e com isso a introdução dos distritos. A província do Minho é dividida em dois distritos, Viana do Castelo e Braga. Nesta organização os distritos são dirigidos por personalidades nomeadas pelo rei: governador civil, administrador do concelho e o comissário de paróquia. Além destes funcionava um corpo de cidadãos eleitos pelo povo: Junta Geral do Distrito, Câmara Municipal e Junta de Paróquia. Guimarães fica incluída no distrito de Braga. É a partir desta altura que se estabelece uma relação de dependência administrativa de Guimarães em relação a Braga e causadora do crescimento da rivalidade entre estas cidades, porquanto o concelho que era elevado a cabeça de distrito assumia o direito de tutela sobre todos os outros. Para uns se rirem debaixo do bigode, outros, obviamente, não ficam satisfeitos… Através dos seus políticos, Guimarães nunca deixa de mostrar desconforto com esta situação e insatisfação por perceber que contribuía para o orçamento distrital mais do que recebia do distrito. Prosperam as queixas e as tomadas de posição contra certas despesas que iam aumentando com frequência. E os brindes ofertados por Braga complementam os queixumes. Eis alguns exemplos: -

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1873: Em Abril, é levado à Câmara de Deputados um projecto para elevar a Biblioteca Pública de Braga à condição de Biblioteca Distrital, passando a ser suportada por todo o distrito. 1877: Em Maio, a Junta Distrital decide criar um corpo policial em Braga pago por todos os concelhos; a câmara de Guimarães – a quem cabe uma quota de 3 contos – reclama contra os novos encargos criados, pois o concelho não obtém qualquer proveito disso, e opõe-se a tal decisão. Posição partilhada por alguns cidadãos que não viam com bons olhos o desenvolvimento de Braga às suas custas. Não admira que, no ano seguinte, foi com festa rija que os vimaranenses celebraram nas ruas, acompanhados por duas bandas de música, a supressão da polícia civil. Para abrilhantar os festejos foram homenageados os delegados à Junta Distrital: Rodrigo de Meneses e o Barão de Pombeiro. 1880: Luís Cardoso Martins da Costa, Conde de Margaride, ex-Governador Civil de Braga entre 1871 e 1877 – no ano seguinte exerce o mesmo cargo no Porto – é das personagens políticas mais influentes de Guimarães e defensora da emancipação vimaranense da custosa tutela do distrito de Braga. Tudo porque, no dia 31 de Outubro deste ano e numa assembleia da Associação Comercial de Guimarães, eram pedidas sugestões aos sócios de como se poderia equilibrar o orçamento da câmara municipal para o ano seguinte, pois este já apresentava um défice de perto de sete contos de reis. É afirmado por um dos presentes que as dificuldades financeiras do município resultavam dos encargos distritais que Guimarães era chamada a assumir. Solução? Seguir

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o projecto da reforma administrativa de 1867 que contemplava a extinção do distrito de Braga. Escusado será dizer que a proposta anunciada foi aprovada por unanimidade pelos presentes. Só que tal projecto de reforma nunca foi concretizado…. É nesta altura que o Conde de Margaride aventa a hipótese da pretensa emancipação. Assume esta ideia num discurso: «O concelho de Guimarães não pode aumentar-se, repetimo-lo, e Braga é o principal estorvo que ele encontra, por serem enormes as somas com que temos de ir ajudar-lhe a sua prosperidade. […] sobre os embaraços que nos causam as repetidas reclamações de dinheiro para a capital do distrito, lembrou a conveniência de se trabalhar na nossa emancipação da custosa tutela do distrito de Braga, […]» O Formigueiro, 19.12.1880 -

1881: Projecto para uma cadeia distrital, edifício para o Governo Civil e uma quinta regional. Guimarães manifesta-se contra a aprovação pois tais empreendimentos iriam sobrecarregar os contribuintes com mais impostos. Neste mesmo ano vem à baila O Pedantismo de Braga, tudo por causa da companhia do teatro Príncipe Real, do Porto, que na digressão pela província do Minho decidiu principiar por Guimarães, depois Braga e finalmente Viana. «Foi o mesmo que passar à bofetada todos os habitantes da cidade augusta, […] E vingaram-se […] deixando o teatro vazio no dia da récita, e obrigando os poucos espectadores a patear! […] Será porque a terra é mais civilizada? […] É asneira tentar amesquinhar-nos. Quem precisa do vizinho não pode nem deve indispor-se com ele, e Braga precisa de Guimarães mais do que Guimarães precisa de Braga.» O Formigueiro, 22.5.1881

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1884: A Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e Santos Passos e o Asilo Santa Estefânia, que tinham asilos de infância a seu cargo, deram mostras de preocupação ao projecto do governador civil do distrito de instalar um asilo distrital em Braga, por perceberem que iriam ser desviados para lá parte dos recursos que recebiam para manter em actividade as suas acções sociais a crianças desvalidas.

Na sequência dos acontecimentos, no ano seguinte, a rivalidade ultrapassa os limites do bom senso.Mais uma vez os interesses de alguns não são aceites por outros. Deflagra uma autêntica bomba, não mata, mas os seus estilhaços vão fazer mossa… 2. Conflito Brácaro-Vimarenense despoletado em 28 de novembro de 1885 Neste dia, a estupefação assaltou as ruas de Braga… Nada fazia prever o arraial fora de época a que se iria assistir num pacato sábado.

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Fora apresentado para votação, à Junta Geral do Distrito, a proposta de criação das cadeiras complementares do curso de ciências no liceu de Braga – mais uma prerrogativa por ser capital de distrito. No relatório anexo à proposta estava a informação, que ninguém queria ler, da despesa que isso acarretava: pouco mais de onze mil réis que os concelhos teriam de suportar. Os procuradores eleitos por Guimarães, Conde de Margaride, José Martins Queirós Montenegro (José Minotes) e Joaquim José Meira, reunidos para analisarem esta proposta fizeram logo questão de indagar quais as condições da sua criação: se seriam permitidos os exames de saída do liceu, se haveria necessidade de criar museus e laboratórios, entre outras dúvidas. Não estava em causa a impugnação, mas de imediato um pormenor se levantou mais alto, o aumento de uma despesa quantiosa verdadeiramente inútil. A expressão popular do diz que disse entra logo em cena: «[…] Cremos até poder afiançar que um dos procuradores por Guimarães, o sr. Conde de Margaride, dissera que votaria incondicionalmente a proposta, acrescentando-se dez vezes o encargo que nela se dizia ficar onerando o distrito, se lhe garantissem que o distrito nada mais teria a pagar senão esse encargo assim multiplicado […]» Religião e Pátria, n.º 45

Como aperitivo para o que iria suceder na reunião do dia 28, na noite anterior, em Braga, foram promovidas várias manifestações para a Junta aprovar a proposta em causa de forma rápida e sem restrições. No edifício paredes-meias com a igreja dos Congregados e numa sala repleta de público, na sua grande maioria estudantes do liceu, alguns de Guimarães, e os mais interessados no assunto (queriam eles lá saber dos custos?...), à hora aprazada dá-se início aos trabalhos com a leitura da acta da sessão anterior. Ainda o último parágrafo não tinha sido lido e já o Conde de Margaride pedia a palavra para chamar a atenção de terem sido mencionados como resolvidos assuntos que nem sequer haviam sido tratados, o que foi corroborado pelos outros dois procuradores de Guimarães. Pumba! Primeiro foguete… e burburinho quanto baste. A resposta veio do procurador de Vila Verde, Luís do Vale. Objurgando-o e os demais companheiros diz: “Se Suas Excelências ignoram que aqueles negócios estão resolvidos, como se diz na acta, é porque, em lugar de assistir à sessão, andam concitando os ânimos e a criar embaraços contra a aprovação da proposta relativa à criação do curso”. Mal termina dirige-se para os presentes e aponta-os “como fautores da relutância criada contra esta aprovação”.

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Segunda carga do foguetório… Como seria de esperar, o Conde de Margaride refutou as palavras e as afrontas do energúmeno – assim foi apodado. Tinha razão o procurador de Guimarães, pois, para além dos seus conterrâneos, outros procuradores confirmaram o mesmo. Entrou-se, então, no jogo de palavras nada amigáveis; Luís do Vale invectivaos de dedo em riste e, tal como Herodes, expõe-nos ao furor da populaça. Saem alguns procuradores como manifestação da sua não concordância com as tristes cenas, a sessão é suspensa por falta de quórum e, pouco depois, é dada como encerrada. Terceira carga da foguetada… O populacho aos magotes na sala, nos corredores e no largo fronteiriço ao edifício, em vez de apreciarem com olhos de ver o magnífico trabalho de André Soares na fachada da igreja dos Congregados, espera com impaciência o final da festarola, pois para muitos não passava disso mesmo e permanecem ali para ver os outros…. Acicatados pelos agitadores encomendados, um grito ecoa: “Ahi vem o homem! Ahi vem o homem!” Os olhares cercam Joaquim José Meira logo que ultrapassa a porta de saída enquanto que é presenteado com um impiedoso coro de assobios e ameaças. Apesar do perigo de congestão de tanto barulho saiu ileso corporalmente, já a audição aguentou os fortes decibéis do alvoroço popular. Em passo acelerado foi para o Hotel Dois Amigos, situado ao lado da igreja dos Congregados. Os últimos cartuchos das canas… Os outros dois quando tomam conhecimento da perigosa situação, querem juntar-se ao companheiro de infortúnio, mas são dissuadidos por amigos particulares. Quase uma hora depois saem com calma e, sem serem reconhecidos, vão para o Hotel Dois amigos, onde os esperava o Joaquim Meira. O poviléu, esse, continua a barafustar! Quatro horas de berraria, dizem alguns, e polícia para acalmar ou impedir exaltação dos ânimos nem vê-la… Pelas 16H30 metem-se no carro em direcção à rua das Águas. Por azar, são reconhecidos por alguns (estudantes?) barafustadores, já que os demais nunca os tinham visto ao vivo e a cores; a multidão desconhecedora alia-se à outra e juntas fazem um escarcéu medonho. Correm atrás do carro, pois sentemse provocados por um deles que de chicote em punho (à falta de uma espada para lembrar o feito de D. Afonso Henriques quando se aventurou a espadeirar os espanhóis e os sarracenos) os incitava a aproximar 197


e, já dentro do carro, acenou com o dedo do meio, no que foi considerado um gesto provocatório. Aos gritos, assobios, impropérios – Morra Guimarães!, talvez o mais audível, junta-se um chuveiro infernal de tudo o que tinham à mão: calhaus, lama, ovos, martelos, sapatos e panelas velhas sobre o carro. Viram-se cercados por alguns grupos que correram a todo o gás pela rua do Raio e no cruzamento desta com a rua das Águas; sorte diferente tiveram aqueles que correram pela rua dos Pelames e subiram ao Pinheiro da Gregória com o intuito de rodear o carro com os procuradores Vimaranenses, esfalfados conseguem saber que o alvo da correria já tinha desaparecido a toda a brida… Com o ritmo cardíaco normalizado chegam sãos e salvos a Guimarães. Esta a versão da imprensa vimaranense. ****** Mas, como quem conta um conto, acrescenta um ponto (ou tira, conforme os interesses), vejamos o que dizem os colegas de profissão, mas dos lados de Braga. O espectáculo de pirotecnia continua quase no mesmo ritmo! Ninguém esperava a festança que iria acontecer nesse famoso dia 28 de Novembro de 1885. Mas todos sabiam do melindre do assunto que iria, mais uma vez, ser discutido. No dia anterior já a população académica se havia manifestado pelas ruas, acompanhada por bandas de música, a exigir de uma vez por todas que ficasse resolvida a questão da criação das cadeiras complementares de ciências no liceu da capital do distrito que estava pendente na Junta Geral do Distrito desde a primeira sessão da época e fora sempre desprezada por alguns procuradores, esquecidos que foram eleitos pelo povo, cujos interesses deviam zelar, mas que se deixam arrebatar pelas (suas) mesquinhas paixões políticas. Iniciada a sessão com a leitura da acta da reunião anterior, logo um procurador de Guimarães contrário ao projecto começa a falar dizendo que havia assuntos descritos na referida acta que não estavam certos e outras coisas de somenos importância. De imediato o desagrado por alguns procuradores presentes foi manifestado. O conflito estava instalado na sua máxima potência! O diálogo entre os defensores do projecto ripostaram e é nesta altura que o referido procurador patenteia todo o seu ódio contra tudo que seja melhoramentos em Braga. Os ânimos aquecem e a sessão é interrompida; logo que é reatada, a discussão sobe de tom e para evitar mais dissabores foi, de imediato, encerrada. À saída do edifício os procuradores de Guimarães e um de Braga (?), contrários aos interesses do liceu são recebidos com apupos que a autoridade tenta suster. 198


Cerca das 4H da tarde, aos diversos grupos dispersos aqui e ali no largo da Lapa e no campo de Sant’Ana chega, de boca em boca, o grito: Ahi vem o homem! Ahi vem o homem! Era um dos mais acérrimos procuradores contrários que acabava de tomar lugar na sua carruagem, a fim de se dirigir para casa, em Guimarães. A distância entre o hotel Dois Amigos e a entrada da rua de Águas é curta, mas mesmo assim foi percorrida a uma velocidade estonteante. À chicotada, o cocheiro desanca nos pobres cavalos e os equídeos para não levarem muito nem olham para o lado e sabem na perfeição o que lhes é exigido… O denodo dos animais é escoltado por apupos e assobios, de um lado roncam buzinas, de outro silvam gritos subversivos, de outro nascem pedradas, batatas e tremoços. Ao longo da rua os artistas assumem à porta e partilham na algazarra com os seus instrumentos de trabalho: formas de sapatos, martelos, ferros e até panelas velhas. «Com mil diabos! – diziam depois os ferreiros da rua da Ponte, se soubéssemos que eram os de Guimarães nem a alma lhes deixávamos!» A Província, 4.12.1885

Agora, imagine-se o que diriam e fariam os talhantes, arremessavam um bom naco de carne da melhor por desossar para ter mais consistência?! 3. Movimentação pós 28 de novembro de 1885 Em Guimarães – Eis o primeiro rastilho!

CONVITE ____ Os abaixo assignados convidam todos os habitantes de Guimarães para um meeting, hoje, pelas 3 horas da tarde, no Salão da Associação Artística, para se protestar perante o paiz e o governo contra a agressão selvagem e brutal de que foram victimas hontem em Braga os procuradores à Junta Geral por esta cidade, aos gritos de – morra Guimarães! Guimarães, 29 de Novembro de 1885

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Visconde de Lindoso Visconde de Santa Luzia Barão de Pombeiro Gaspar Lobo de Souza Machado Francisco Ribeiro Martins da Costa

O tom acalorado usado pelos oradores, entre os quais o Conde de Margaride, para expor os acontecimentos do dia anterior foi o suficiente para sair um grito retumbante e uníssono: “Tirem-nos daqui!” E aquilo que se dizia em surdina foi aclamado alto e em bom som: “que se cortassem as relações oficiais com o distrito de Braga enquanto não fossem dadas satisfações devidas.” É proposta e eleita uma Comissão de Vigilância e Resistência e daqui também nasce o jornal com o título condizente bem perceptível: “28 de Novembro” – que será o órgão oficial desta comissão. Tendo em conta o prestígio dos seus procuradores e o ultraje feito à cidade que viu nascer Portugal – através de processos nada democráticos pela manipulação da multidão bracarense, que causaram a maior indignação – a imprensa vimaranense reage e milhares de pessoas manifestam-se nas ruas, «O covarde e vil atentado dos selvagens de Braga, ao ominoso crime que, em pleno dia, se tentou perpetrar nas pessoas dos nossos procuradores na capital do distrito, responde a cidade de Guimarães com o mais veemente desforço de que há memória nas páginas da história portuguesa. A municipalidade de Guimarães, depois de interpretar a vontade unânime dos seus munícipes, interrompem as relações oficiais com a capital do distrito. […]» Commércio de Guimarães, 3.12.1885

Os políticos locais sorridentes com o desenrolar dos acontecimentos, apesar de três deles ainda terem bem vivas as memórias dos factos em territórios dos inimigos figadais…, mas o que é certo é que todos os políticos, deixando de parte o que os desunia, aliaram-se para lutar pela mesma causa: a separação de Guimarães ao distrito de Braga e a anexação ao distrito do Porto com a explicação plausível, no seu ponto de vista, de “a pretensão não só exequível, visto que estamos em continuação com o mesmo distrito por Santo Tirso, Felgueiras e Lousada e ligados por um caminho de ferro, mas também inteiramente justa, porque seria uma iniquidade obrigar um concelho a continuar junto a um distrito em cuja capital não permite aos seus representantes a manifestação do seu livre pensamento, sob pena do risco de vida” – ofício do Presidente da Câmara de Guimarães enviado à Junta Geral do Distrito do Porto. E com isso é dado o primeiro passo oficial 200


para o que viria a seguir: a apresentação no parlamento de uma proposta de lei tendente a separar o concelho de Guimarães do distrito de Braga e anexá-lo ao distrito vizinho. Entretanto com arrojo e valentia o Conde de Margaride remete uma carta de protesto ao Governador Civil de Braga, nela dá a sua versão dos acontecimentos e “Tudo isto sem a menor intervenção da polícia.” A ardência dada a esta causa estende-se a toda (?) a população, mas tem o seu expoente máximo na atitude das damas de bem vimaranenses da Sociedade Martins Sarmento, inspiradas pelo sentimento de amor pátrio resolvem executar por suas próprias mãos uma bandeira em seda azul e branca, bordada a ouro; numa das faces o lema “Antes quebrar que torcer”, no reverso são pintadas as armas de Guimarães e a haste é encimada por uma coroa de folhas de carvalho; a dedicatória e a data do oferecimento são em prata. É pedida a intercessão divina através de procissões e outras cerimónias religiosas.88 A imprensa nacional dá cobertura de todas as ocorrências, reescreve-as e extravasa mesmo a realidade ao noticiar como aspiração máxima o DISTRITO DE GUIMARÃES. «Há ideia de propor às camaras não a junção de Guimarães ao districto do Porto, mas a creação d’um novo districto administrativo em Guimarães formado das terras que circuitam a cidade a partir com o districto do Porto. Guimarães está muito no caso de se constituir um dos melhores districtos do reino.» Correspondência de Portugal, 13.12.1885

Este fervor encomendado é rebatido pelo próprio 28 de Novembro que, deitando água na fervura, rebate: “Ontem, como hoje e amanhã, não temos, nem teremos outro desejo senão a anexação deste concelho

88 Esta bandeira, de grande valor sentimental para Guimarães, foi oferecida à Sociedade Martins Sarmento, fazendo parte do seu espólio do-

cumental.

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ao distrito do Porto” – uma recomendação bem-mandada a quem gosta de se mostrar mais papista que o papa. A orquestração política encontra na imprensa o transmissor dos seus ideais e das suas aspirações, são muitas as provas e, melhor, são muitas as queixas e provocações à capital do distrito: «Será possível que Guimarães, a quem a capital do distrito deu morras, com a conivência, se não por instigação das suas autoridades, e a quem ultrajou infamemente na pessoa dos seus digníssimos procuradores, será possível que Guimarães continue a fazer parte do distrito de Braga?» Religião e Pátria, nº 45 «[…] não havendo nenhuma razão de ordem pública ou particular em contrário do desejo de toda a população deste concelho […], é fora de dúvida que a persistência mostrará aos poderes públicos a única solução possível, a anexação de Guimarães ao distrito do Porto.» A Província, nº 51

O ambiente cálido, apesar do tempo invernoso, é aproveitado também pelos membros anónimos da política reles, os chamados politiqueiros. Por querer protagonismo, ou por politicalha, o jornal “O Tirocínio de Barcelos” – de 5 de Dezembro de 1885 e sobre a hipótese de esta se concretizar – escreve: «Se isto se realizar, o que não será difícil, Barcelos deve seguir o exemplo.» Deus nos livre de Braga! – É o clamor mais ouvido e súplicas a rogar os bons ofícios divinos não faltaram. ****** E em Braga? – Em Braga apaga-se o fogo com gasolina… Depois da perseguição desenfreada aos procuradores de Guimarães até à ponte de S. João, os manifestantes (académicos, artistas, comerciantes e o poviléu), como uma onda pacífica a desmaiar no areal, fazem o caminho inverso e enchem, de uma ponta à outra, a estreita rua das Águas com a pose de actores de uma marcha triunfal. O rosto de cada um mostra «uma indignação justa e um pouco enthusiasmo pela vingança de uma causa santa», na opinião de um jornalista. O mesmo escreve: «Não se culpe a cidade de Braga de algumas manifestações, em que acaso possa ter-se um poucochinho de excesso. A culpa não é d’ella, mas sim d’aquelles que fizeram a provocação e que com o seu conhecido odio, e com a sua mesquinhez revoltante, deram rasão ao povo para manifestações, cujas consequências fossem ainda mais lamentáveis do que felizmente se presencearam.» O Commercio do Minho, 1.12.1885

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No dia seguinte (domingo) e porque a chama da revolta ainda não havia esmorecido realiza-se um comício na Associação Comercial, na rua do Souto, com os mesmos ou mais intervenientes da refrega (a imprensa fala em 4.000 pessoas) com uma única ordem de trabalhos: o que fazer para levar a Junta Geral do Distrito a aprovar a questão do liceu. O tempo urgia, pois na segunda-feira seria o último dia, antes do final do ano, para legalmente se reunirem. Um dado curioso, no meio da multidão surge o autor do projecto da criação dos cursos complementares, Vicente Pinheiro (Pindela), que é recebido com uma ovação estrondosa. Dali sai uma comissão para falar com o Presidente da Junta Geral do Distrito, Dr. Jerónimo Pacheco Pereira Leite, que estava hospedado no Hotel Real, na rua de S. João – Vicente Pinheiro faz parte dessa comissão. Do encontro saiu a confirmação de que tudo seria feito para a sessão se efectuar com o número necessário de procuradores e resolver finalmente a questão. O que aconteceu! Sem espanto a proposta foi aprovada por unanimidade. O que espanta é que a mesma unanimidade aprovou uma proposta condenatória dos factos violentos e arbitrários de sexta-feira. Chegado a este ponto, o povo entra em fase de hibernação… Os conflitos não trazem comida na mesa… O que não faltaram foram as reuniões de cavalheiros, meetings (palavra chique!) e de tácticas a seguir… A tarefa de não deixar esmorecer a causa é política, aqui também os diferentes partidos se unem e a imprensa tomará, também, o lugar que lhe pertence: informar o que lhe convém, como convém e quando convém, apesar de se dizerem isentos a queda política, local e regional é notória, cada um interpreta à sua maneira. O diz que disse entra em cena: «Em Guimarães foram queimados – dizem – uns chapéus que se achavam à venda, e isto pelo simples facto de serem fabricados em Braga. E depois dizem que Braga os insulta». Commércio do Minho, 3.12.1885 «Para este fim, consta-nos que se verificou há dias em Guimarães o parto estupendo d’uma ideia mais estupenda ainda. Foi, nada mais nada menos, do que o projecto de organisar ali um regimento, um regimento numeroso e valente. Parece que para esta plêiade de bravos estão já recrutados 2:600 saltões, 500 sardões, outros tantos grilos, e cerca de 90 lacraus de unha envenenada. Estabeleceu-se já um arsenal e uma fábrica de pólvora de pó de bogalho, e andam-se preparando numerosas peças com maçãs de escaravelho.» Commercio do Minho, 19.12.1885

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Mas para além desta e doutras notícias a saberem a oco permitem-se a esclarecer que não apoiam a arruaça acontecida no último sábado de Novembro, mas encontram justificação para tal, porquanto ela foi instantânea e imprevista, «filha da provocação que um dos procuradores, de chicote em punho e em pleno Jardim Público, dirigiu ao povo e de umas “figas” que o mesmo ofereceu da carruagem à população indignada». Reafirmam, imensas vezes, que se se quer culpabilizar alguém pelos insultos aos procuradores, são eles próprios!... Como não se compreende «a atitude severa e cómica de Guimarães, que injustamente se julga ofendida pelo povo de Braga». E dão a opinião pessoal: «Urge ainda ponderar que não há nenhumas desinteligências entre o concelho de Guimarães e o districto de Braga; o que há verdadeiramente é uma troupe de políticos de Guimarães, excessivamente orgulhosos, e despeitados […]» Commercio do Minho, 25.1.1986

Quando veio a lume a notícia (falsa) de que Guimarães pretendia ser distrito, veio bem escarrapachado no jornal uma frase que traduz o que ia nas mentes bracarenses: «Pode até constituir um estado, com o seu Paço sem bispo, palácio sem rei, ponte sem rio, e gente sem lei.» Commercio do Minho, 17.12.1885

Mas também colocam um tom jocoso com muita pimenta à mistura. O Folhetim Braga-Guimarães, uma peça satírica é o melhor exemplo…: «Scena primeira: o snr Braga e a snra Guimarães. Ares amuados, prenúncios de grande tempestade doméstica…» E permitem-se a dar palpites: «Se Guimarães nos quer ingratamente deixar, faça-o; mude de ares.» O Constituinte, nº 539 «Querem ir para o Porto? Pois vão com Deus. Ninguém de Braga os vai esperar ao caminho. Boa viagem, senhores, e por lá muitos anos. Podiam ter principiado por dizer isso.» A Voz dos Distrito, nº 13

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«E então nós os bracarenses estamos tão contristados com os desejos daquela santa gentinha, que nos é completamente indiferente que ela continue, ou não, a fazer parte do nosso distrito. Para o Japão é que eles deviam ir […] Que marchem para lá com a ponte, e com a sé, e com o palácio, e que nos deixem.» A Folha de Braga, nº 496 «A intriga vimaranense, mercê das potências monetárias, vai ganhando terreno. Diz-se que o governo está disposto a fazer seu o absurdo projecto… Vá Guimarães para onde lhe aprouver, que não deixa saudades. […] Braga não deve dar um passo que manifeste o mais leve pesar» O Amigo do Povo, nº 801

«Vão com Deus, irmãozinhos. Não fazem cá falta nenhuma» – é o conselho ofertado em modo benévolo. Apoios também chegam a Braga. Representações contra o projecto da desanexação de Guimarães chegam de várias câmaras municipais, Barcelos, Fafe, Vieira, Vila Verde, Amares, Lanhoso, e outras mais. Também aqui as preces divinas tiveram lugar. Falta saber a quem o Altíssimo dará ouvidos, Braga ou Guimarães?... O jornal portuense Maria Rita relata com ironia o momento: «Braga, a “fiel”, na pessoa do snr. Valada, agrediu Guimarães, o glorioso Berço da Monarquia, na pessoa do snr de Margaride. A batalha travou-se renhida e violenta, e as duas cidades batem-se furiosas. Braga armada dos pés à cabeça, ergue os seus tamancos; Guimarães armada até aos dentes… dos seus garfos, resiste corajosa ao ataque, esperando que o snr. Valada volte as costas! E o Porto, de braços cruzados, jura aos seus deuses que não entre na questão, porque lá diz o ditado: entre pais e irmãos não metas as mãos. Quer dizer, o Porto tem os olhos na Travessa… da Espera.» Maria Rita, 10.12.1885

Ambas as cidades passam o Santo Natal na melhor das calmas. Parece que nada se havia passado…. Aqui se dá razão àqueles que apregoam que a época natalícia é para ser vivida em paz! Mas a pacatez das urbes minhotas vai ser interrompida…

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4. 13 de janeiro de 1886 Rebenta a bomba!... A ideia da desanexação de Guimarães – aquecida em fogo lento durante sessenta e poucos dias (desconta-se a época natalícia…) – atinge o ponto de ebulição nesta data quando o deputado pelo círculo de Guimarães, João Ferreira Franco Pinto Castelo Branco, na sessão da Câmara dos Deputados e no exercício para que foi mandatado, defende perante os seus congéneres a desanexação do distrito de Braga e a sua integração no distrito do Porto. A ideia que tomou força de projecto de lei fora admitida e dois dias depois é defendida: Projecto de lei Artigo 1.º - O concelho de Guimarães é desanexado do distrito administrativo de Braga, e fica pertencendo ao do Porto para todos os efeitos administrativos e políticos. § único - As juntas gerais dos distritos do Porto e de Braga serão convocadas extraordinariamente logo que este projecto seja lei do país, a fim de procederem a uma nova distribuição dos procuradores às juntas pelos respectivos concelhos, tendo em atenção a remodelação operada por este artigo 1.º Artigo 2.º - Fica revogada toda a legislação em contrário. Sala das sessões da câmara dos deputados, 13 de Janeiro de 1886 O deputado pelo círculo de Guimarães, João Ferreira Franco Pinto de Castelo Branco

A retórica usada para enternecer os corações empedernidos dos representantes do povo foi mais uma prova de lealdade partidária – “Senhores! A aprovação deste projecto de lei será finalmente mais uma consagração dos princípios liberais.” Engraçado que refere a abertura do caminho de ferro de Bougado, pondo, em comunicação directa e rápida Guimarães com o Porto; e o desenvolvimento das relações comerciais entre as duas cidades, de certo as mais industriais de todo o Norte, fizeram brotar espontaneamente, e de há muito (?), o desejo de apertar cada vez mais os estreitos laços que já as prendiam… É que nos comícios que em

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Guimarães se realizaram logo depois do 28 de Novembro, o pedido da anexação ao Porto explodiu, não como um desforço sentimental e apaixonado, mas como a afirmação de um facto há muito latente no espírito público… E o concelho de Guimarães é limítrofe numa grande extensão do Porto pelos concelhos de Santo Tirso, Lousada e Felgueiras… De certeza que os deputados que estavam atentos à sonoridade arregalaram os olhos: Por essa ordem de ideias Braga também é limítrofe ao Porto!... – Pensaram para os seus botões. Não se esquece de informar que “Uma representação contando mais de quatro mil assinaturas, quase tudo o que de população masculina e maior no concelho saberá ler e escrever, acaba de ser entregue ao poder executivo.” E termina: “Em face, pois, de uma tão eloquente unanimidade de sentir e querer, o espírito liberal desta câmara, a mais genuína representação popular, há-de por certo acolher benevolamente e conceder a sua aprovação ao projecto de lei, que tenho a honra de submeter à sua sabedoria.” De certeza que esta proposta não iria acolher a unanimidade. Os deputados por Braga fazem valer a sua posição contrária, junta-se o coro dos aliados e dos não aliados. Foi o bom e o bonito!... Ao ponto de um jornal narrar e classificar o hemiciclo como O Mercado do peixe em S. Bento: «Em vista da sessão parlamentar de sábado último toda a gente ficou convencida de que há mais discórdia no parlamento a propósito da rivalidade entre Braga e Guimarães do que nas próprias cidade que estão prontas a zurzir o marmeleiro. Neste empenho de impingir o peixe, Braga e Guimarães, que não são nenhum peixe podre, estão em vésperas de proporcionar ao governo uma pitada tão agradável como as fábricas de sebo que por aí existem espalhadas pela cidade. Tinha graça se a pancadaria rebentava primeiro no parlamento.» Maria Rita, 28.1.1886

Eis a prova-provada de que os interesses estão circunscritos às ambições políticas. O povo já não era chamado! ****** A ameaça de bomba torna-se realidade! Na terra dos arcebispos logo que é conhecida a notícia do que se passa em Lisboa reúne-se de emergência a vereação municipal, nos Paços do Concelho, para resolver qual a atitude a tomar. A imprensa é 207


convidada a juntar esforços para ridicularizar a situação: «[…] julgávamos que um homem que foi levado pelo povo às cadeiras de S. Bento, jamais desceria ao extremo da comedia que lhe pretendiam fazer desempenhar perante o mesmo povo. Agora sabemos que o projecto foi apresentado […] e que o governo, apesar do absurdo que praticava, está resolvido em converter em lei a desanexação do concelho de Guimarães do districto de Braga. […] Miseráveis e corruptos, não recuam em curvar a cervis ao brilho do ouro com que os deslumbram, e com que fazem tilitar de contentamento as suas bolsas esvaziadas pela batota e pela orgia! […] Ha-de roubar-se-nos o Sameiro, que tanto e tanto dinheiro nos tem custado, e entrega-lo ao Porto, aos secularisadores das egrejas e das casas religiosas? Nunca, porque aqui ainda há gente de pulso e de animo». Commercio do Minho, 19.1.1886

Nestas coisas quando se malha, malha-se a torto e a direito!... Da reunião camarária seguem directrizes: nomeação de uma Comissão Distrital (Comissão Popular de Defesa) que irá fazer o papel da defesa intransigente e é pedido o apoio solidário da Associação Comercial e demais associações. Cerram-se as fileiras, marca-se um meeting – diz a imprensa que seriam à volta de 8.000 pessoas (???) – e de lá sai um clamor bem timbrado: “Mostremos que não somos escravos a quem se chicoteie o rosto e calque o peito, onde arde um santo amor pela pátria.” Os discutidores vão-se entretendo no seu papel, mas de um orador sai esta confidência: “Se Braga for vencida, restar-lhe-á nas páginas da sua história um capítulo em que se conheça que ela não caiu desonrada”. Nada como prevenir qualquer dissabor… As expressões públicas passam a ser quase diárias. Locais não faltavam. Os bracarenses, que por motivo de trabalho, estudo ou por razões familiares moram fora de Braga, são chamados a lutar pela causa. Numa dessas reuniões sai um comunicado subscrito por várias personalidades influentes: «Tendo os abaixo assinados, membros da commissão popular de defeza do districto de Braga, lido no número 10 da “Religião e Pátria” um artigo no qual essa ilustre redacção attribue aos oradores que fallaram por ocasião da imponente manifestação que em 27 do mesmo mez teve logar n’esta cidade, um discurso em que diz terem-se levantado «morras» contra Guimarães e pessoas d’essa cidade, julga esta comissão do seu dever restabelecer a verdade, afirmando sob a solidariedade da sua palavra de honra, que tal imputação é inteiramente destituída da verdade, pois que se alguma alusão n’essa ocasião houve

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a Guimarães, foi ella, como podia e devia de ser , honrosa e conforme à muita consideração que esta comissão consagra a essa nobre cidade e seus habitantes. Esperamos, portanto, do cavalheirismo de v. exc.ª que se dignará fazer a rectificação que a justiça e a verdade lhe exigem. Braga, 5 de Fevereiro de 1886 José Ferreira de Magalhães Bernardino José Senna de Freitas José Fernandes Valença Joaquim da Silva Gonçalves José Borges Pacheco de Faria Fernando Castiço Manoel Joaquim Gomes João Barbosa de Magalhães Mendonça»

Quando a Comissão Distrital vai de armas e bagagens a Lisboa para falar, quer com os deputados de Braga, quer com as figuras gradas do governo, tem uma multidão – uma Babilónia de pessoas – a acompanhála até à estação ao som do hino da Maria da Fonte. Uma bandeira serve de farol… No caminho até Lisboa são encorajados em várias estações por conterrâneos, amigos da causa, e - claro! por políticos contrários à causa (a política no seu melhor…) e com direito a incentivo: A’vante rapaziada! Por Deus e por Braga O sangue daremos, Por gloria só temos Vencer ou morrer. A’vante

Se as damas de bem vimaranenses fizeram uma bandeira alusiva à sua luta, as damas de bem bracarenses não lhes ficam atrás. Expressamente encomendada à Ex.ma Sr.a D. Henriqueta Melo, uma das senhoras 209


mais ilustradas da cidade, é confeccionada uma bandeira que servirá de símbolo a tão nobre causa. É essa bandeira que acompanha a comissão a Lisboa e servirá de estandarte para manifestações futuras e que no final será oferecida à Associação Comercial.89 Neste vaivém de manifestações e reuniões, assiste-se a um empolgante jogo de ping-pong na imprensa. Se um acusa, o outro defende! Usam-se vocabulários (por vezes agressivos) e a resposta é (quase) sempre irónica…. Vale a pena ler os jornais da época! Nesse campo, Guimarães ganha por largo – como se diz na gíria, através da pena de Francisco Martins Sarmento e de Alberto Sampaio, a artilharia pesada como alguém baptizou. E como se comporta o Porto? … A esfregar as mãos de contentamento! Não se quer dar mal com o vizinho distrito de Braga, com quem manteve sempre boas relações, mas também não deixa de ver com bons olhos os seus cofres ficarem mais bem constituídos… Porque se Guimarães não queria dar mais dinheiro a Braga, forçosamente teria de o entregar ao Porto. Usou a táctica do deixa andar. O governo que resolva…

5. 1 de janeiro de 1887 O governo resolveu!... O nosso conhecido deputado João Franco, depois da sua famosa intervenção no início do ano estranha o silêncio do governo sobre o assunto. Se no princípio a vitória era mais que certa para as pretensões de Guimarães, corria agora nos corredores ministeriais uns zuns-zuns de que a situação não estava tão certa como isso. É que as manifestações em Braga, as reuniões da Comissão bracarense com alguns deputados afectos à causa por eles defendida e, sobretudo, a grande influência de certos políticos nos meandros do poder, começa a ter peso na decisão a tomar pelo Presidente do Conselho de Ministros, José Luciano de Castro que, aos olhos vimaranenses estava a virar o bico ao prego.

89 No dia 8.10.1905 deflagrou um violento incêndio no edifício onde estava instalada a Associação Comercial (na actual rua dos Capelistas) e

perdeu-se toda a documentação, mobiliário e demais utensílios – praticamente só se salvou o que estava no cofre. Esta bandeira, seria hoje de um grande valor histórico para a cidade, também se perdeu.

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Na sessão parlamentar de 22 de Março de 1886, sem mais delongas, João Franco aviva o caso: “Pedi a palavra para mandar para a mesa uma representação dos povos do concelho de Guimarães, instando pela discussão imediata do projecto de lei que tive a honra de apresentar nesta câmara. É uma nova manifestação e poderosa da vontade, que pelo visto não se acobarda nem entibia com as contrariedades e desilusões que nós, os defensores de Guimarães, temos experimentado nestes três meses.” A sua arte de falar bem prossegue e depois de umas centenas de palavras, eleva a voz: “Eu estou hoje nesta questão como estava ontem. Disposto a guerrear qualquer governo que nos seja hostil, ou apoiar o que que nos favorecer…” Perante uma plateia tri-dividida, uns ouvem com atenção e apoiam, outros não deixam de demonstrar a opinião negativa, e finalmente estão aqueles que nem tugem nem mugem, levanta a ponta do véu sobre o que se diz na imprensa nortenha “que o governo pensa em resolver o conflito entre Braga e Guimarães, concedendo a estes dois concelhos uma autonomia municipal, moldada por aquela que actualmente goza o município de Lisboa.” Eleva o tom de voz e questiona: “Desejo saber o que pensa o governo a tal respeito, ou se nada pensa… Espero as explicações do governo…” Quando termina tem direito a palmas e pateadas. A resposta governamental só se ouve em Outubro através do próprio José Luciano de Castro. Após os cumprimentos da praxe e o reconhecimento do direito que assistia ao deputado por Guimarães, passa ao ataque: “Nessa ocasião, o Sr. Deputado Franco Castelo Branco supôs que as minhas palavras se referiam a quaisquer projectos com que eu intentasse seduzir a cidade de Guimarães, e proferiu algumas palavras censurando as intenções políticas que me atribuía. Sua excelência foi muito injusto comigo”. Não hesita em responder franca e categoricamente à pergunta: “É propósito do governo inserir na reforma administrativa, de que tem de ocupar-se, uma providência que não só aplique o actual regime municipal de Lisboa com as modificações necessárias à cidade do Porto, mas a qualquer concelho importante. E, neste caso, está o concelho de Guimarães. Desta maneira mantenho também a minha ideia com respeito à integridade do distrito de Braga… Este distrito fica inteiro, não sofre na sua circunscrição a menor modificação. Mas Guimarães recebe por uma providência geral, não tomada «ad hoc», a satisfação a que porventura se julgava com direito.”90 «A autonomia desliga-nos, é verdade, da Junta Geral do Distrito, e isto é o principal, mas deixa-nos presos

90 Estas afirmações (de João Franco e de José Luciano Castro) podem ser consultadas no jornal de 28 de Novembro de 8 de Janeiro de 1886 e

de 11 de Abril do mesmo ano

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por muitos laços aos nossos rancorosas inimigos.» Religião e Pátria, 24.7.1886

Com esta medida é seguida a táctica da sueca. No embaralha, parte e dá, as cartas são sempre as mesmas, só o trunfo é que pode variar… e aqui o trunfo chama-se governo. Ponto final! Guimarães exprime o sorriso natural de meia derrota por não ter conseguido tudo o que ambicionara; por sua vez Braga acolhe a outra meia derrota com o sorriso trocista por ver que o adversário ficou a ver navios. A vitória pertence por inteiro à matreirice política do governo. O Porto, esse fica como se nada se tenha passado… Somente a 1 de Janeiro de 1887 é que Guimarães começa a ser autónomo. ****** Não se pense que as rivalidades se quedaram por aqui. A história agora envolve a preciosa e cobiçada contrastaria, um episódio quase esquecido na eterna rivalidade entre as cidades vizinhas. Guimarães é terra de ourives, havendo mesmo quem afirme que a ourivesaria portuguesa tem a sua origem aqui. Em 1879, quando se começa a falar na reforma do serviço de contrastaria, (até aí existiam apenas duas repartições dependentes da Casa da Moeda, Lisboa e Porto), em Janeiro desse ano, os ourives de Guimarães, Fafe, Cabeceiras de Basto e Póvoa de Lanhoso reunidos em assembleia, resolvem apresentar aos poderes públicos um requerimento para que seja criado um serviço de contraste em Guimarães. Em Julho de 1886, sai a lei da reorganização deste serviço em Portugal. Aos dois já existentes é introduzida uma nova contrastaria, não em Guimarães – como era desejado, mas em Braga. Mais uma desconsideração para Guimarães. Mais uma prisão distrital incómoda, dispendiosa e – pior de tudo! – vexatória. Contesta-se! Por carta, lamenta-se junto de Sua Majestade, D. Luís I. Baseada na perfeição a que a ourivesaria vimaranense já tinha atingido invocam que a contrastaria deve ser em Guimarães e não em Braga. 212


No início de 1887 o referido serviço começa a funcionar. Não demoram muito as queixas e reclamações dos ourives e comerciantes de ourivesaria de Guimarães da extorsiva contravenção da nova lei das contrastarias praticada na repartição de Braga. A questão é levada à Câmara dos Deputados. No dia 2 de Abril de 1888, o nosso já conhecido João Franco confronta Mariano de Carvalho, Ministro da Fazenda. O truculento deputado, armado com as queixas da classe de ourives de Guimarães, usa uma linguagem tal que quase leva o referido ministro a reconhecer a injustiça imposta. Só não o faz porque – e lá está a habilidade governativa – “os ourives de Guimarães podiam, querendo, ir ao Porto contrastar as suas manufacturas.” Mais uma vitória governamental! Quanto a Braga? Silêncio absoluto… Os sorrisos de satisfação dispensam quaisquer palavras. ****** São muitos os acontecimentos que levaram ao surgimento desta rivalidade histórica entra Braga e Guimarães. Uns mais mortíferos que outros, mas que quase sempre foram fomentados por ambições políticas e, ou, pessoais; a população? Essa era arrastada para a contenda e, com isso, é criado um ódio exacerbado. «A Justiça e a História impunham Guimarães como capital distrital. E, nós, […] ajoelhamos e fomos, quais “meninos” à cidade dos arcebispos. […] como foi possível as nossas elites se atreverem a enviar uma representação a Braga, aceitando esta como sede da Junta Geral do Distrito?” Jornal de Guimarães, 11.10.2024 «No tempo dos Governadores Civis de Alem Morreira, Braga, a pacata, a pacientíssima, tinha um cancro de mau caracter que lhe devorava os tecidos que lhe exauria as forças – era Guimarãis!” Correio do Minho, 14.7.1938

6. Apaziguamento e… boa disposição 3 de Julho de 1938. Na sequência da deliberação do Aero Club de Braga em dar o nome de “Guimarãis” ao seu novo aparelho 213


foi o que muitos apelidaram de “um acto de bôa política local.” A cerimónia do baptismo teve lugar em pleno campo de aviação, em Palmeira, com a presença de convidados de representação do povo e das autoridades civis de Braga e Guimarães. Terminado o acto litúrgico e os discursos da praxe brinda-se pela concordância entre dois povos vizinhos. Logo de seguida o novo aparelho, pilotado por Roberto Sameiro, «adejando no espaço, pairou, voou no céu de Guimarãis, deixando cair sobre a terra do seu nome batismal um ramo de flôres, com linda dedicatória.» E com isto é praticado um nobilíssimo gesto de elegância, segundo a imprensa bracarense. Pensamento semelhante tiveram as duas povoações e, quiçá, merecedor dos maiores encómios. «[…] Ninguém, de espírito esclarecido, já hoje alimenta más vontades contra os nossos visinhos da porta. Se, por vezes, algum abencerragem do pernicioso e esturrado bairrismo de outrora, revolve cinzas mortas, nota-se, com satisfação, que tal degladiador, esgrimindo contra moinhos de vento, não encontra ambiente. […] O amor à terra, o velho amor ao torrão natal, nutre-se hoje de filamentos mais temperados de raciocínio e bom senso […]» Correio do Minho, 6.7.1938 «[…] Braga e Guimarãis têm títulos foraleiros que muita honra fazem reciprocamente, às duas cidades. A própria investigação histórica, ligeiramente narrada, a propósito das arcaicas e passadas rixas das duas povoações, são um testemunho disso. […] Tal é o que nos quis afirmar o avião” Guimarãis”, deixando cair sobre a terra Afonsina o seu ramo de flores.» Correio do Minho, 17.7.1938

Uma ideia belíssima, a todos os tipos louvável, que serve para enterrar o machado de guerra e findar com as guerrilhas verbais. ***** 12 de Novembro de 1975. O arquitecto-chefe da Direcção-Geral do Ensino Superior emite um parecer sobre a Universidade do

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Minho – instituição criada por Decreto-Lei n.º 402/73 de 11 de Agosto, em conjunto com a de Aveiro, Nova de Lisboa e o Instituto Universitário de Évora – e sugere a criação de dois pólos universitários: um em Braga e outro em Guimarães. Esta a primeira vez que tal solução é apontada. A partir daqui foi uma autêntica roda-viva de pareceres. Uns porque sim!… Outros porque não!... Como estávamos no auge da folia revolucionária onde todos opinavam mesmo sem razão e sem conhecimento, toca a juntar aos pareceres dos arquitectos, engenheiros, doutores, técnicos disto e técnicos daquilo, a opinião da União dos Sindicatos de Braga e das câmaras municipais de um e outro concelho foram tidas em consideração (engraçado que a opinião dos próprios trabalhadores da UM vai no sentido de não haver bipolaridade). Uns porque sim!… Outros porque não!... Nesta amálgama de ditos e contraditos, as opiniões políticas tiveram, como não poderia deixar de ser, um peso muito importante na decisão do governo (a única entidade que tem a faca e o queijo na mão) Ponderadas as razões de uns e de outros, em 1976, opta pela solução dos dois pólos universitários.91 Nesta questão os sorrisos de Braga e Guimarães ficaram ao mesmo nível… Hoje a UM é reconhecida nacional e internacionalmente pela competência e qualidade dos seus professores, pela excelência da investigação, pela ampla oferta formativa graduada e pós-graduada e pelo seu alto nível de interacção com outras instituições. Um orgulho para as duas cidades terem dentro de si esta instituição. Para além do orgulho é, sem sombra de dúvidas, o maior elo aglutinador de laços de amizade e fraternidade entre Braga e Guimarães. Que assim continue! Ámen. ****** Mas numa amizade que se preze cabe a rivalidade sadia. Nos dias que correm ela existe apenas (?) no desporto, mais especificamente no futebol. É bom recordar que desporto é desporto e ninguém gosta de perder.

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O Problema da Universidade do Minho, Dados fundamentais - Documentos da A.D.I.M (1), Agosto/1976

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Colocando de parte os extremismos radicais que alguns teimam, com um prazer inadmissível, levar para os recintos o seu mau comportamento, julgo que todos os adeptos do Sporting Clube de Braga e do Vitória Sport Clube devem vibrar e viver as incidências do jogo com o verdadeiro espírito desportivo. Se no início é a expectativa que existe, no final é a certeza do resultado. Nessa altura todos, com as bocas sequiosas de tanto gritar e barafustar, têm um dever sacrossanto: sentarem-se numa qualquer mesa, num qualquer bar e beber. Beber para saborear a vitória. Beber para esquecer a derrota. Em caso de empate, beber… porque a sede é muita. Tudo tem de ser, obrigatoriamente, acompanhado de uma alegria contagiante, com anedotas (quanto mais picantes, melhor!), mas em que a boa disposição e civismo sejam demonstrados. ****** E, finalmente, numa amizade sã também cabem picardias inocentes… Se Guimarães ostenta com orgulho em letras garrafais, aos olhares de todos, na torre da Alfândega, a belíssima frase AQUI NASCEU PORTUGAL não pode deixar de esquecer que para isso acontecer, necessitou da ajuda de Braga. Para isso aconselho a ler – de Alberto Feio, Director da Biblioteca Pública de Braga – a Oração dita na Sala de Conferências da Biblioteca Pública de Braga, no dia 4 de Junho de 1940, em sessão solene comemorativa do 8.º Centenário da Fundação de Portugal, sob o título DAQUI NASCEU PORTUGAL Os vizinhos precisam uns dos outros!

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O conflito Guimarães – Braga Fernando Capela Miguel

Muito se tem falado sobre este assunto muitas vezes de forma apaixonada e quase sempre incompleta ou deformada, sobretudo pela curiosidade que desperta (ver figura92).

Uma Bernarda...Minhota

Atravessou tempos e épocas e muitos dos acontecimentos se esfumaram ou diluíram na memória da própria história até serem convenientemente esquecidos…

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Braga, a Fiel, na pessoa dos snr. Valada, agrediu Guimarães, o glorioso Berço da Monarquia, na pessoa do snr. de Margaride. A batalha travou-se renhida e violenta, e as duas cidades batem-se furiosas. Braga armada dos pés à cabeça, ergue os seus tamancos; Guimarães armada até aos dentes... dos seus garfos, resiste corajosa ao ataque, esperando que o snr. Valada volte costas! E o Porto, de braços cruzados, jura aos seus deuses que não entra na questão, porque lá diz o ditado: "Entre pais e irmãos, não metas as mãos". Quer dizer, o Porto tem os olhos na Travessa... da Espera."[in Maria Rita, n.º 22, 2.º ano, Porto, 10 de Dezembro de 1885]; Apud, Memórias de Araduca, Humor e peixeirada, António Amaro das Neves-janeiro 29, 2008.

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Afinal quais são as razões fundamentais que sustentam este conflito até aos nossos dias? Quais os protagonistas principais responsáveis por tais disfunções e realidades? Que vestígios de factos restam na memória dos cidadãos e que sustentam este conflito, este confronto, esta realidade? Neste texto vamos tentar responder a estas questões e para tal fomos ouvir pacientemente, sobretudo os mais velhos, os anciãos que foram protagonistas de alguns factos ou que tomaram partido em várias situações para dirimir tal confronto ou desaguisado. Juntei à mesa da esplanada, conhecida por meu escritório, três velhos anciãos de 88, 92 e 98 anos respetivamente a quem coloquei as perguntas que seguem: Qual a memória mais antiga deste conflito? A resposta veio célere depois de uma troca de olhos de aquiescência… – Pois é, no auto de coroação do jovem Afonso Henriques, na Catedral de Zamora, onde esperava pelo bispo de Braga, que estava atrasado, o jovem quando percebeu que os seus soldados derretiam dentro das armaduras, naquele dia de sol, chegou ao altar, tomou a coroa e… – Sois Rex! Sois Rex! Sois Rex! Gritou o povo. Entretanto, chegou o Bispo, demasiado atrasado, que ficou muito zangado por a cerimónia já ter acontecido. “Já acabou!” - terá respondido o, agora, jovem Rei… Este acto terá tido consequências e como sabemos o rei esperou muitos anos pelo reconhecimento do papa traduzido na Bula Manifestis Probatum, que só a recebeu depois de pagar, como quem diz: depois de a “comprar”. “Amigo não se esqueça que foi preciso que Afonso substituísse o bispo de Braga pelo seu amigo D. João Peculiar como bispo de Braga e mandá-lo para Roma, como embaixador, para dirimir a contenda” … Comentou o mais velho de todos os cidadãos… Esperem lá, mas será que a história oficial confirma isso que estão a declarar? Eu acho que sim, mas não será muito diferente desta versão dos factos… “Ora, esta será a versão que existe na memória do povo anónimo vimaranense e que sustenta a primeira e principal fase do conflito que depois se traduziu no confronto de poder entre os cónegos da colegiada de Santa Maria de Guimarães e os cónegos da Sé de Braga até ao século XIV.” – Declarou um dos anciãos…

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Mas quais eram as razões para durar tanto tempo? Bem sabemos a importância da Colegiada, fundada por Mumadona Dias, e depois pelos pais de Afonso primeiro na criação do Mosteiro, bem como o culto Mariano ensombrava os interesses e os desígnios da igreja Bracarensis que prestava vassalagem a Santiago de Compostela. Guimarães vivia, nestes tempos, um poder imenso traduzido num fervor religioso que tinha um apoio enorme no povo anónimo que era traduzido pela “propriedade popular” dos verdadeiros religiosos que existiam nesta região e que, como sabem, são a “alma” da Igreja Católica, Apostólica, Romana. Roma para existir, ou melhor, para alimentar aquilo a que chamam “fé” e que enche os seus cofres como igreja tem que ter relíquias. Falemos, então, desse poder denominado RE-LÍ-QUI-AS. Desde o século IX que o povo anónimo venerava o nosso velho Santo Torquatus e o premiava com doações para inveja dos cónegos de Braga e que obrigavam o Bispo a assinar “visitassons” a Guimarães para exigir a deslocação das relíquias do Santo para Braga. O povo saía à rua e presenteava os cónegos visitadores com “alombadas dolorosas” pelo atrevimento de quererem as relíquias e até das tentativas de roubo. Terá sido por essa razão que o povo de S. Torcato iniciou a construção do novo Templo que hoje já é Santuário. A partir de 1318 a coisa complicou-se com a chegada a Guimarães do franciscano S. Gualter que, logo desde o início, aliciou o povo da região que se lhe dedicou de forma apaixonada e que levou ao seu reconhecimento pelos seus guardiões e soldados no velho conflito para não lhe dar “guerra” entre a ordem franciscana, guardiã do féretro, e dos correligionários e cónegos da Colegiada de Guimarães que, acicatados pelo cónegos de Braga, quereriam, agora, esta “relíquia nova” mundial – S. Francisco – para em Braga “pô-la ao serviço da Humanidade” como diriam os Bispos, enquanto enchiam os cofres! O povo anónimo, as ditas gentes de Guimarães, não permitiu tal atrevimento e, agora, neste século XIV, conseguiu ter à sua guarda duas relíquias completas para sua devoção. Quando se pacificou a região? Quando o povo magnânimo de S. Torcato enviou uma oliveira como presente a Santa Maria de Guimarães que passava assim a denominar-se Santa Maria da Oliveira, protectora dos vimaranenses contra os “espanhóis” de Braga, roídos de “dor de cotovelo”, mal vazia, e dores de barriga de ares “fétidos” pela sua menorização de poder religioso. 219


Afinal Braga é ou não a Roma portuguesa? Assim pensamos e assim se reconhecem os Bracarensis como todos os seus defeitos e virtudes - A Roma Portuguesa! Muitos episódios perduram desta fase do conflito com Braga até à extinção da Collegiata. Ainda se fala das esperas dos cónegos ali na ponte romana das Caldas das Taipas pelos caseiros das Hortas do Priorado vimaranense para receber com “pompa e martelança” os ditos “senhores cónegos da Sé, embaixadores, dizia-se encaixa - dores do Bispo”. Também se fala das iras e azias dos Bispos de Braga ao tomarem conhecimento que os cónegos da colegiada vimaranense passavam mais tempo a “ganhar” ofertas e doações pelos “esconjuros dos demónios” aos possuídos desgraçados do povo o que levará ao fim do culto mariano e peregrinação à linda Senhora da Oliveira cujos frutos dariam óleo para a sua iluminação. Ah! Lembrei-me, agora, do Bispo que fugiu para cá, para a nossa cidade, para desgraça dos Bracarenses e que veio viver ali para o Campo da Misericórdia – Comentou um dos velhos amigos. Terá entrado em conflito com o Povo de lá e como não lhe faziam as vontades vai apropriar-se de uma propriedade doada à Igreja e foge para casa de um amigo da Casa dos Carvalhos. Era o Sr. D. José de Bragança, filho bastardo de D. Pedro II, Irmão do nosso rei D. João V, dando origem à Casa da família dos Coutos, o actual Tribunal da Relação de Guimarães. Desta desavença resulta a vontade do Arcebispo querer transferir o prelado e instalar o seu paço Episcopal em Guimarães, cidade vizinha, rival de Braga. Acabou por ficar pouco tempo em Guimarães (de 1746 a janeiro de 1749) voltando para a sua residência após a resolução do diferendo não antes de provocar cenas, atritos e provocações durante estes três anos. Foi assim que, durante alguns anos, na nossa Villa, a “assorreavam” os ditos bracarenses que ressabiados vomitavam um chorrilho de epítetos cá aos vimaranenses sobretudo quando pranteavam nas beiras dos caminhos panos escritos com sangue de boi: “O BISPO É NOSSO! VIVA GUIMARÃES!” Depois deste caso mais bombástico é preciso não esquecer um outro protagonizado pelas mulheres de hábito – as freiras – que numa anunciada visita do Bispo de Braga ao convento de Guimarães, o receberam todas de facas afiadas nas mãos que acalmou os ímpetos bracarensis. A igreja Bracarense nunca sossegou com este atrevimento das gentes do Berço da Nação: espoliando as melhores relíquias para encher os cofres; a não “obediência cega” da fé aos abusos e pressões vaticanistas… 220


Braga sentiu-se sempre menosprezada pelos vimaranenses, mas, com a chegada da República as coisas iam piorar. Assim tinha já acontecido com os governos do Marquês do Pombal que levou ao encerramento de mosteiros e expulsão de ordens. Com a República teremos um ex-seminarista anticlerical João Soares, como Governador Civil, como Ministro, Manuel Monteiro, e como chefe de gabinete, o vimaranense Eduardo d’Almeida. No município, Mariano Felgueiras. Nesta altura, o confronto acontece na Penha por causa do PIO IX que esteve quase para voar com uma bomba dos carbonários da choça do “Berço da Pátria”. Chegamos a 1900, novo século se inicia e novo confronto acontece que ficou conhecido pela União ao Porto protagonizada pelos procuradores de Guimarães, a saber: Conde de Margaride, Luís Cardoso de Meneses; José Minotes; José Martins de Queirós Montenegro; Joaquim José de Meira, Médico. No dia 28 de novembro, cidadãos muito apreciados e respeitados nesta cidade foram humilhados e acintados na cidade dos arcebispos ao serem recebidos com “merda às mãos cheias”. Quando chegaram à sua Guimarães o povo preparou um desagravo organizando um cortejo em direção ao Porto com o intuito de exigir a desanexação do concelho de Guimarães do distrito de Braga e integrar este concelho no Porto. Uma concorrida assembleia popular acontece à época na importante associação dos fenianos, caixeiros na porta da vila… Foi a promessa e compromisso de João Franco Castelo Branco que terá demovido as hostes, mas a “ronha”, “o ressabiado”, a “peçonha bracarante” terá ficado colada na pele do povo… Estas coisas não se esquecem facilmente e, por isso, o povo não esqueceu que o 28 de Maio se fez com o apoio do regimento de Braga e que o 20 de Guimarães tentou travar este movimento mas foi impedido para não sofrer consequências, dizia-se, mas sofreu-as da pior maneira: O Regimento 20 de Guimarães foi extinto. Melhor, foi transferido para Tavira onde se criou novo Regimento para desgosto de muitas famílias de Guimarães. Quase que passou ao esquecimento não fora a memória e compromisso dos magalas com as meninas do burgo. Com o Estado Novo vai aparecer uma figura que vai incomodar os Vimaranenses, o Dr. Santos da Cunha, conhecido como o sebo, o gordo, “o Dr. Cunha”, que, embora muito popular, vai despertar “novos amores e ódios” e Guimarães vai sofrer uma grande transformação sobretudo a partir das comemorações centenárias na década de 40 ficando muito afeta ao regime e bem conservadora. 221


Nas décadas de 50 e 60 surgem dois fenómenos entre os cidadãos das duas urbes. O primeiro foi o aparecimento das modalidades amadoras e sobretudo o andebol que vai por em confronto a rapaziada das duas cidades. O CAR e Guimarães será o primeiro campeão distrital na década de 60 e vai contribuir para a divulgação da modalidade que transporta confrontos, rivalidades, mas também amizades. Era o tempo dos “brilhas” de Guimarães e os “comóstias” de Braga, como se tratavam amistosamente entre eles. Os rapazes de Guimarães vão namorar e depois casar com as raparigas de Braga e vice-versa e, ainda hoje, há casais que podem contar essas histórias. Mas um movimento nasce nesta época que vai provocar grandes manifestações públicas - A Unidade Vimaranense. Os empresários e industriais chegam a fechar as fábricas para os operários participarem nas manifestações que aconteceram em Guimarães. Guimarães quer afirmar-se politicamente e “vem para a rua” com toda a força empresarial! A pujança económica do Vale do Ave queria afirmar-se. Pretendia ser a prova maior da força pública e política de Guimarães perante Braga. Acabou por se assumir como associação de desenvolvimento local e esfumar-se num dia de esquecimento quase total…Fez investimentos perdulários para satisfazer o ego de elites… Entretanto chegava outro conflito – A Universidade. Guimarães defende as Taipas como local para a dita Universidade, mas Braga é mais célere e instala o corpo de professores da Universidade de Moçambique em Braga e dá início a uma nova Universidade para insatisfação dos vimaranenses. O conflito só será mais ou menos sanado quando é acordada uma Universidade com dois polos; Braga e Guimarães. No século XX, para diluir os azedumes políticos existentes, vai-se desviar para os clubes da bola as rivalidades e a coisa não foi pouca. Por paus e por pedras se fizeram esperas e manifestações públicas com palavreado pouco recomendado e que não abona nada à língua portuguesa. Mas esta rivalidade não ficaria por aqui, pois o “Poder” na sua forma de existir encontra sempre solução para os seus diferendos e como “dividir para reinar” é uma prática já conhecida na década de 90 da democracia vamos assistir ao famigerado “caso de Vizela” onde se retiram freguesias a Guimarães para diminuir a sua força neste conflito com Braga. Esta é, sem dúvida, a rivalidade mais antiga de Portugal. Braga e Guimarães já andam de “candeias às avessas” há mais de mil anos. São razões religiosas, culturais e políticas. Razões sobretudo de inveja e de poder. Razões sem razão de ser… 222


Se os de Braga, hoje, são “espanhóis”, os de Guimarães são “marroquinos”. “A verdade é que há muita gente que não se importa com as alcunhas e até já se promoveram iniciativas culturais e desportivas entre as duas cidades” – disse António, o mais velho. “Durante muito tempo estes comportamentos agressivos de confronto alimentaram uma forma de ser e estar denominada Bairrismo que se tornou doentio e sem razão por ser demasiado fundamentalista. Os presidentes dos dois municípios até já deram provas de grande cordialidade para declarar que tal “conflito não é bonito”, nem tem razão de ser” – declarou Manuel com a aquiescência silenciosa de todos… Hoje, Braga e Guimarães são duas cidades com identidade própria que consolidam o projeto sociocultural denominado Quadrilátero e só aguardam a ligação do futuro que tarda. O TGV ou outro, seja ele qual for. Em jeito de conclusão: Se alguém estiver interessado em aprofundar este assunto poderá recorrer aos jornais locais Povo de Guimarães, Comércio e Notícias e ainda ao Mais Guimarães. Terá bons textos da autoria de Amaro das Neves no blog da Casa de Sarmento ou nos relatórios dos cónegos da Sé do Bispado de Braga, no Arquivo Distrital.

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EDUARDO JORDÃO – Um confronto dialéctico em que a glória sobressaiu Vasco Rodrigues

Falar de Eduardo Jordão, que recentemente nos deixou, é aludir a dois mundos em constante confronto, num constante cotejar da glória com a desgraça, o glamour com a descrição com que foi pautando a sua vida até aos seus últimos dias de vida. Porém, acima de tudo, será lembrar alguém que entrou na eternidade, que será sempre associado à maior glória que alguém pode ter naquilo que ama, naquilo que faz: o melhor do mundo, o campeão do mundo, e, convenhamos, que na cidade Berço não existirão tantos quanto isso. Desde o início da sua vida, sentiu esse contraponto, esse confronto quase dialéctico entre o bem e o mal. Ainda que, proveniente de uma família desafogada financeiramente em que, ao contrário da maioria, nessa altura, não precisava de fazer contas de cabeça, viveria um dos dramas da sua vida, pois, ainda, menino, ficou órfão de pai aos três anos de vida. Aliás, as tragédias pessoais, capazes de destroçarem completamente qualquer ser humano, acompanhá-lo-iam sempre, pois, também, haveria de perder um filho, curiosamente baptizado com o seu nome, em idade jovem num acidente numa barragem. Não obstante esses dramas procurou sempre viver bem, ainda que combatendo as teses epicuristas que buscam a felicidade, inexistindo a dor, as desilusões... algo que como vimos o acompanharam sempre. Mas, como, também, já escrevemos namorou a glória, enquanto se sentava na mesa da alta sociedade portuguesa e espanhola. 224

Com o título de campeão do mundo, conquistado em Milão, em 1971


Descendente de D. Sancho I, pelo seu amor transcendental pela caça, teve aproximações com a realeza espanhola, chegando a serem frequentes as caçadas com o Rei de Espanha. Aliás, a caça seria uma das suas grandes paixões, fruto da sua destreza e capacidade superlativa para o tiro. Desenvolvida no ambiente dandístico do Clube Industrial de Pevidém, quando este ainda funcionava no Stand da Várzea, num claro sinal do seu desafogo financeiro que fazia com que não tivesse necessidade de trabalhar, já que lá apenas paravam os industriais com quem praticava... e facilmente os vencia. Vitórias essas que teriam o seu apogeu em Itália, na cidade de Milão, em 1971, quando foi o melhor do mundo entre 494 participantes na especialidade de de tiro ao voo. Aliás, na primeira fase acertaria 25 tiros em outras tantas possibilidades, algo, apenas, igualado por dois atiradores da casa. Após esse momento, no desempate estaria irrepreensível, batendo os seus rivais, tornando-se no primeiro português a ser campeão de mundo de tiro fora da nossa fronteira, já que os dois títulos anteriores conquistados por José Corado e Orlando de Carvalho haviam sido conquistados no Estoril. Bon vivant, apreciador de uma mesa farta e de superlativos

Eduardo Jordão com a Taça Indústria, que venceu em 1974

néctares, a poder viver dos rendimentos que as muitas empresas familiares existentes na cidade lhe concediam, bem como o que a EDP, ainda uma empresa privada lhe proporcionava, pôde dedicar-se a passar a sua arte para quem mais amava, ensinando filhos e sobrinhos a usar a arma. Todos aprenderam a disparar, em ensinamentos que guardam com carinho. Porém, a sua vida não se extinguiu no tiro, nem nos prazeres materiais terrenos. Eduardo Jordão teve tempo para se cultivar. Teve tempo para ler, conhecer museus e evoluir como pessoa. Por isso, as conversas com ele eram viagens infindas de uma miríade de temas que facilmente discorria e conhecia... um homem culto, capaz de prender-nos à conversa por horas e horas e com uma paixão indisfarçada pelo cinema, muito, 225


também, pela propriedade do Teatro Jordão. Aliás, seria por aí que faria os mais jovens elementos da família apaixonarem-se pela sétima arte. Apesar disso, sempre foi capaz de se manter discreto. As iniciativas públicas não o atraíam, não gostando de aparecer. Mas no confronto dialéctico com que começamos estas linhas, era incapaz de dizer não a quem lhe pedia ajuda, estando sempre disponível a apoiar quem queria dar um passo em frente, quem dele precisava. Por isso, incentivava jovens praticantes da modalidade que sempre amou, fazendo-o através do apoio a diversos clubes de tiro do país, do qual também era sócio. Eduardo Jordão deixou-nos no passado dia 31 de Março de 2025. O seu legado, esse, não merecerá qualquer controvérsia, já que poucos terão sido os vimaranenses a alcançar os píncaros do mundo, ainda que não tenha recebido o derradeiro reconhecimento que esperava. A medalha de Mérito Desportivo prometida pela Presidência da República Portuguesa, mas que nunca foi efectivada. Ao seu jeito, um campeão do mundo, não se preocupou, nunca a reclamou e continuou a viver intensamente!

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50 Anos de Associativismo no Clube Industrial de Pevidém com o seu cunhado ao centro


António da Rocha e Costa (1951-2025) – In memoriam Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos

António da Rocha e Costa (1951-2025-07-09), um dos mais ilustres e reconhecidos Farmacêuticos da Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos, deixou-nos. Homem culto, solidário e interventivo, António da Rocha e Costa foi um exemplo de dedicação à profissão e à comunidade. Foi um Farmacêutico reconhecido pela Ordem dos Farmacêuticos e recebeu a Medalha de Honra, a maior distinção concedida pela Ordem dos Farmacêuticos, nas comemorações do Dia Nacional do Farmacêutico, em 2023. A Cerimónia de Homenagem aos (ex) Presidentes da Secção Regional Do Norte, realizada em junho de 2024, teve como objetivo primordial, o reconhecimento do trabalho desenvolvido em prol dos farmacêuticos da Secção Regional do Norte, da Direção Nacional da Ordem dos Farmacêuticos e da profissão farmacêutica. A seis de janeiro, data em que se comemora o dia de Reis no calendário litúrgico, nascia do ano de 1951, na cidade de Guimarães, António da Rocha e Costa. Apesar de ter nascido numa família sem qualquer vínculo à profissão farmacêutica, ingressou por opção na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, onde iniciou os seus estudos farmacêuticos Rocha e Costa, a meio do seu percurso académico universitário, teve de cumprir o serviço militar obrigatório, entre 1972 e 1974, em Mafra, Elvas e Espinho, onde foi oficial do Exército Português. O 25 de Abril de 74 desviou-o do natural destino da guerra colonial, mas despertou a sua consciência cívica, intervenção política e capacidade associativa, num reavivar do pensamento critico e criativo desenvolvido no Liceu de Guimarães, que frequentou e onde concluiu os seus estudos do ensino secundário, alguns

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anos antes. Após terminar o serviço militar obrigatório, Rocha e Costa regressou à faculdade de farmácia da Universidade do Porto, onde concluiu a licenciatura em Farmácia, no ano de 1977. As análises clínicas e o diagnóstico laboratorial foram a sua primeira e mais prolifera área de atuação profissional, como farmacêutico. A sua carreira profissional iniciou-se na Quilaban, tendo efetuado um estágio, na Boheringer, na área de reagentes para Análises Clínicas, em Munique, na Alemanha. Em 1978 tornou-se especialista em Análises Clínicas pela Ordem dos Farmacêuticos. Em 1980, fundou em parceria com a Dra Maria La Salete Robles, uma unidade laboratorial, em Famalicão, instalando mais tarde uma outra unidade laboratorial, na cidade de Guimarães, onde assumiu a função de diretor técnico. As duas unidades laboratoriais constituíram uma referência em Guimarães e no Norte de Portugal, pela confiança e fiabilidade, pela eficiência e pelos elevados padrões de qualidade que balizavam o trabalho aí realizado, mas também pela singularidade da sua identificação com as suas gentes, pelo ambiente de familiaridade e o natural empenhamento no serviço prestado por todos os seus colaboradores. Mais tarde alargaram a área de influência aos Conselhos de Vizela, Fafe e Felgueiras. Todos estes factos, aliás, associados ainda ao respeito e à deferência com que António da Rocha e Costa é considerado por todos os seus concidadãos, puderam mesmo ser comprovados pelos farmacêuticos que com ele privaram, no âmbito dos vários cargos que desempenhou, ao longo da sua vida profissional, na Ordem dos Farmacêuticos. A intervenção de Rocha e Costa na atividade associativa foi igualOrdem dos Farmacêuticos Norte - OFNorte

mente única e considerável.

Pela mão do Prof. Doutor Alfredo Albuquerque integrou, ainda muito jovem, a Direção da Secção 228


Regional do Norte, tendo sido eleito Presidente num segundo mandato, em simultâneo com a eleição do Prof. Albuquerque para o cargo de bastonário da Ordem dos Farmacêuticos. Anos mais tarde (2007), foi eleito presidente da Assembleia Geral da Secção Regional do Porto da Ordem dos Farmacêuticos, cargo que manteve até ao ano de 2013. Entre 2013 e 2016, foi novamente eleito presidente da Direção Regional, e, por inerência, membro da DN da Ordem dos Farmacêuticos. Foi membro do Conselho Jurisdicional Nacional. Como especialista reconhecido, Rocha e Costa foi membro de vários Conselhos do Colégio da Especialidade em Análises Clínicas da Ordem dos Farmacêuticos, desde 1996 e fez parte de inúmeros Júris do Exame para Atribuição do Título de Especialista em análises Clínicas pela OF. Pertenceu ainda às associações representativas do setor das análises clínicas, em Portugal, tendo sido membro da Direção da Associação Portuguesa de Analistas Clínicos (APAC) e da Associação Nacional de Laboratórios (ANL). Em 1999, Rocha e Costa faz uma breve incursão nos domínios da farmácia comunitária, tendo adquirido, em sociedade com a colega e amiga, La Salete Robles, a Farmácia de Santo António, em Guimarães, que manteve até ao ano de 2016. A sua linhagem como farmacêutico tem continuidade com o seu filho José Costa que, juntamente com a sua mulher, também ela farmacêutica, Helena Freitas, e a sua filha Ana Costa, formaram uma família unida e coesa. A vida do Dr. António da Rocha e Costa é indissociável da história da Ordem dos Farmacêuticos e da profissão farmacêutica, mas por elas não foi limitado. Homem culto e de grande capacidade interventiva, foi diretor do Jornal “O Povo de Guimarães” de 1993 a 1999, presidente, durante dois mandatos, da direção da Associação Muralha (Associação de Guimarães para a defesa do património), diretor do Centro Equestre de Guimarães e, também, exerceu funções de direção e presidente da AG da Associação Familiar Vimaranense, uma associação mutualista com mais de 100 anos de existência. Estes são alguns episódios que não chegam para retratar em plenitude a grandeza deste farmacêutico ativo, interventivo e solidário, da sua dedicação em prol do doente e da sociedade. Mas seguramente, o exemplo de tudo o que tem sido, e de tudo o que tem dado aos outros ao longo deste tempo, é notável e é merecedor de ser assinalado. Quem o conheceu aprendeu que “há amigos por quem tudo se dá, mesmo a camisa”. 229


SIMPLESMENTE, NUNO PORTAS, Agosto ‘25 Filipe Fontes

Escrever sobre Nuno Portas é difícil, mais ainda no momento presente, em que uma sensação de perda nos invade (e, escreve-se “sensação” intencionalmente, já que, tal como se espera mais à frente demonstrar, em função da densidade e intensidade da sabedoria e relação de Nuno Portas, é tanto o que fica e permanecerá, que a perda é apenas física e sensorial93… nada mais).

Nuno Rodrigo Martins Portas nasceu em Vila Viçosa, no ano de 1934, irmão mais novo, pai de três filhos (Miguel, Paulo e Catarina), casado duas vezes, tido como “católico progressista” e um “amador de cinema”, cursa arquitectura entre as escolas de belas-artes de Lisboa e Porto. Ainda antes de terminar a sua formação, inicia colaboração com Nuno Teotónio Pereira, correspondendo a sua vida profissional a compartimentação diluída e cruzada entre a investigação (com maior expressão no laboratório nacional de engenharia civil, no campo mais específico da habitação), o ensino (foi professor com o grau máximo de cátedra, no Porto, Lisboa, Barcelona, Ferrara, Milão, Paris e Rio de Janeiro), a política (foi secretário de estado da habitação e urbanismo em três governos sucessivos e vereador do pelouro do urbanismo da câmara municipal de Gaia – cidade onde viria a residir durante um longo período de tempo), o exercício da arquitectura e urbanismo enquanto projecto e consultadoria (“sempre” em coautoria e em equipa, entre os quais, casa em Vila Viçosa e casa em Sesimbra, Olivais norte e igreja do sagrado coração de Jesus, expansão do campus universitário da universidade de Aveiro, reabilitação do centro histórico de Guimarães e plano geral da Expo’98), a crítica (escrevendo

93 O que já é muito, tamanha e sincera era a sua gargalhada, errático e aliciante era o seu deambular com a lapiseira, repetido e cíclico era o

seu manuseamento da agenda, único era o seu andar aparentemente frágil, artístico e fervoroso o seu gesticular e tanto mais… saudades desta figura física única, ligeiramente curvada, cabelos grisalhos e um olhar penetrante e sempre convocador de uma boa conversa e de um desafio maior…

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múltiplos textos, artigos, programas de televisão), a teorização (com destaque dado pelo autor destas palavras ao Vale do Ave e ao denominado difuso), trabalhando mundo fora e sendo reconhecido em múltiplos prémios e distinções (prémio crítico de arte, doutor honoris causa pelas universidades de Aveiro e do Minho e instituto politécnico de Milão, grã-cruz da ordem do Infante D. Henrique, prémio sir Patrick Abercrombie), no reflexo de uma vida cheia, intensa e plena de convicção, acreditando que “todos os dias são oportunidades que se abrem…” Nesta sua vida tão densa e intensa, Nuno Portas revela-se um personagem tão fascinante quanto complexo, tão linear e previsível quanto poliédrico e multifactorial, técnico especializado ou homem dos “sete instrumentos”, polemizador ou conciliador, sempre reformista e comprometido com o equilíbrio e a razoabilidade, aceitando que o consenso é difícil, a unanimidade impossível (acrescentaria eu, indesejável) e que tudo deve ser feito para aproveitar e acrescentar. Para muitos, arquitecto feito urbanista, para outros, urbanista com formação arquitectónica, para tantos outros, distinto professor ou crítico assertivo, teori-

Porquê esta fotografia? pelo interesse e atenção que todos demonstram na escuta, pela disponibilidade e vontade de Nuno Portas em partilhar e explicar, pelo momento retratado (a exposição "o ser urbano nos caminhos de Nuno Portas", tão celebrativo quanto convocador de reflexão e discussão), por retratar Nuno Portas na sua dimensão maior: aquele que sabe e disponibiliza o seu saber!

zador e pensador do urbano e das cidades, para ele, talvez, uma palavra pouco comum, mas de maior acerto: arruador (numa bela síntese do seu foco no espaço público, no chão que perdura nas cidades e que estrutura tudo o que acontece)... Aceitando a multidisciplinaridade e o trabalho de equipa como parte inata da sua atividade – de tal forma que o próprio a fomentava e praticava, tão forte e quotidianamente, que tudo nele é partilhado; fazendo do compromisso e equilíbrio dois elementos fundacionais nas relações entre os actores e os interesses 231


que interagem e presidem à transformação das cidades; alimentando a teorização e o pensamento sem abdicar da prática e da experimentação, Nuno Portas foi um pouco de tudo e em tudo corpo inteiro e presente! Na verdade, Nuno Portas é figura ímpar e indescritível, aqui e “lá fora”, antes, agora e, acredita-se, sempre. No burgo vimaranense, Nuno Portas deixou ficar a sua presença e o seu sinal, acrescentando valor, visão e mundividência, associando-se de forma indelével e incontornável ao estudo e entendimento do vale do Ave e sua transformação territorial, conquistando reconhecimento na defesa do difuso enquanto modelo territorial tão merecedor de estudo e compreensão quanto todos os restantes. A ele deve-se forte impulso à reabilitação do centro histórico (hoje, património cultural da humanidade) e participação na construção, robustecimento e qualificação do plano director municipal, nas duas versões até hoje concretizadas, aprovadas e aplicadas. E também em Guimarães capital europeia da cultura 2012 (CEC12), nesse momento único de celebração da cidade e onde os percursos profissionais e a relação pessoal entre Nuno Portas e o autor destas palavras mais se acentuaram e aprofundaram, numa amizade e numa cumplicidade talvez só pelos dois compreendidas. A CEC12 foi o último palco de actuação de Nuno Portas na cidade, deixando um rasto de “tantas coisas boas” que torna difícil seleccionar e destacar alguma parte. À maior universidade da região (Minho) e sua escola de arquitectura deixou ficar um espólio temático de arquitectura e urbanismo único e irrepetível, oferecendo o seu nome a biblioteca própria. Ao vale do Ave deixou ficar a identificação de um modelo territorial, o direito à sua existência e um esforço incomensurável de entendimento e qualificação. A Guimarães deixou ficar a síntese que, acredita-se, deve ser o seu propósito perene: aproveitar e acrescentar! Ao autor destas palavras, deixou ficar a admiração pelo seu saber, o privilégio do seu contacto, a honra da sua amizade, a solidariedade do seu trabalho. De forma subtil, adicionou sinal evidente de que, por muito que saibamos, muito mais falta saber! Por muito mais que saibamos, o compromisso será sempre sinal maior de sabedoria! Sábia foi a sua vida. Sábio é o seu legado. Assim o saibamos honrar!

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Condecorações do 24 DE JUNHO Equipa redatorial

Neste ano de 2025, no âmbito das habituais condecorações concelhias do 24 de Junho, dia em que se assinala o aniversário da Batalha de S. Mamede (1128), a Câmara Municipal de Guimarães distinguiu com Medalhas de Honra do Município as seguintes personalidades: -

Alberto Martins, advogado e figura marcante da luta antifascista, particularmente na Crise Académica de 1969, que no pós 25 de Abril exerceu funções políticas como ministro da Reforma do Estado e da Admiração Pública e da Justiça, bem como de líder da bancada do Partido Socialista na Assembleia da República;

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Maria José Fernandes, presidente do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave e responsável pela instalação do núcleo daquele instituto no Ave Park, bem como na criação da Escola Hotel, em execução;

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Mohan Munasinghe, economista, ambientalista de renome internacional e professor emérito, galardoado com o Prémio Nobel da Paz e Prémio Planeta Azul, colaborou com Guimarães nos desígnios da sustentabilidade ambiental, enquanto presidente do Comité Externo da Estrutura de Missão 2030;

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Rui Vieira de Castro, reitor da Universidade Minho, com quem a Câmara Municipal colaborou na afirmação da estrutura académica e dos seus interfaces e laboratórios associados.

Ainda, e atendendo aos relevantes contributos prestados à comunidade, foram agraciados com Medalhas de Mérito Municipal: - Medalha de Mérito Social, a António Lourenço, médico do Hospital de Nª. Sª. da Oliveira com ligações ao Centro de Medicina Desportiva e ao dirigismo desportivo no âmbito do basquetebol (BCG e Vitória); - Medalha de Mérito Cultural, a Fernando Capela Miguel, professor, autor de vários livros e animador cultural e dirigente do movimento associativo; - Medalha de Mérito Cultural, a Luís Mendes Almeida, figura multifacetada da cultura popular,

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intérprete e criador artístico e musical, em especial no âmbito do cavaquinho; - Medalha de Mérito Profissional, a Noé Diniz, arquiteto e colaborador da Irmandade da Penha, no âmbito da defesa da sustentabilidade ambiental do pulmão verde da cidade.

DA ESQUERDA PARA A DIREITA: Alberto Martins - Figura marcante antifascista; Rui Vieira de Castro - Reitor da UM; F. Capela Miguel - Medalhado por mérito cultural; Mohan Munasinghe - professor emérito, galardoado com o Prémio Nobel da Paz e Prémio Planeta Azul, colaborou com Guimarães nos desígnios da sustentabilidade ambiental; Maria José Fernandes - Presidente do IPCA; Domingos Bragança - Presidente da CMG; Carlos Abreu Amorim - Ministro dos Assuntos Parlamentares, representou o Governo na Sessão Solene de Guimarães; José João Torrinha - Presidente da AMG; António Lourenço Médico do Hospital de NS da Oliveira; Luís Almeida - Medalhado por Mérito cultural; Noé Diniz - Arquiteto e colaborador da Irmandade de NSC Penha; António Cunha - Presidente da CCDR Norte Foto de Paulo Pacheco

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Gala do Desporto 2025 Equipa redatorial

Como acontece todos os anos, a Câmara Municipal de Guimarães e a Tempo Livre promoveram, na noite do dia 12 de julho, na sua sala de visitas – Largo do Toural –, uma homenagem ao talento desportivo dos atletas e clubes concelhios que se distinguiram na temporada de 2024/2025. Uma iniciativa que, além do reconhecimento público, impulsiona e fomenta o apoio no percurso de formação desportiva, através da atribuição de Bolsas de Formação Desportiva com valores entre dois mil e dois mil e quintos euros. Este ano os galardoados foram os seguintes: Atletas do Ano: - Uisma Lima, pugilismo - Vitória Sport Clube; - Sara Ferreira, atletismo - Vitória Sport Clube; Jovens Revelações: - Rodrigo Ribeiro, Clube de Roleskipping das Taipas - Molinhas; - Ailara Stadnyk, ginástica rítmica - Guimagym; Paralelamente foram ainda concedidas as seguintes distinções: Desporto para todos: Nélson Silva - CERCIGUI; Carreira: Dulce Félix (atletismo), José Mendes (ciclismo), Manuel Freitas Mendes (desporto adaptado) e Vieirinha (futebol); Homenagem: José Novais de Carvalho (médico), pelo seu trabalho no âmbito da Medicina Desportiva; Projeto Desportivo do Ano: equipa de futsal - GTeam Dirigente Desportivo do Ano: Ana Rita Ribeiro - futebol feminino do VSC.

José Novais de Carvalho (médico), homenageado pelo seu trabalho no âmbito da Medicina Desportiva

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GUIMARÃES – UMA CIDADE SEMPRE EM CONSTRUÇÃO Inserir separador

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Guimarães, uma cidade sempre em construção Guimarães não para, como o comprovam as suas instituições, o movimento associativo e o protagonismo das suas gentes. Deste modo, para além da atualidade vimaranense nos mais variados setores de atividade profissional, desportiva e sociocultural, a cidade honra e preserva o seu passado, evidente em efemérides diversas comemoradas e projeta o futuro no seu presente, patente em inúmeras conquistas de mérito em curso. Uma viagem pelo transcurso do tempo que revela Guimarães de ontem, de hoje e do amanhã que já raia.

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A Inteligência Artificial: Transformação Digital e Perspetivas para Guimarães Dalila Durães94

Introdução No horizonte da terceira década do século XXI, a Inteligência Artificial (IA) emerge não apenas como tecnologia disruptiva, mas como uma força transformadora que redefine os paradigmas sociais, económicos e culturais à escala global (Russell, 2019); (Schwab, 2016). Guimarães, como cidade berço da nacionalidade portuguesa e reconhecida pelo seu património histórico e cultural, encontra-se numa posição privilegiada para integrar as potencialidades da IA no seu presente e futuro desenvolvimento, harmonizando a tradição e a inovação. Este contributo propõe-se analisar o fenómeno da IA na sua dimensão concetual e evolutiva, bem como explorar as suas aplicações práticas e potenciais implicações para o município. Da indústria têxtil às políticas de sustentabilidade ambiental, da preservação patrimonial à modernização da administração local, a IA oferece um vasto leque de oportunidades, desafios e responsabilidades que merecem reflexão aprofundada por parte da comunidade (OCDE, 2023) (Melo, Correia, Cardoso, & Marques, 2019). Numa época em que Guimarães se prepara para comemorar marcos significativos do poder local e reafirmar o seu compromisso com a sustentabilidade enquanto Capital Verde Europeia, torna-se particularmente relevante compreender como a IA pode contribuir para a concretização destes objetivos coletivos, sem comprometer a identidade e os valores que definem o espírito vimaranense (Comissão Europeia, 2020). A Evolução da IA A IA, enquanto disciplina científica, tem origens que remontam a meados do século XX, quando pioneiros como Alan Turing, John McCarthy e Marvin Minsky lançaram as bases conceptuais que permitiriam criar sistemas capazes de simular processos cognitivos humanos (Turing, 1950). A célebre questão de Turing – 94 Professora Auxiliar da Universidade do Minho - Escola de Engenharia - Departamento de Informática - Centro ALGORITMI /LASI ISLab -

Synthetic Intelligence Lab

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"Podem as máquinas pensar?"95 – inaugurou um percurso de investigação que se estende até aos nossos dias, marcado por períodos de grande entusiasmo e outros de relativo desencanto, os chamados "invernos da IA" (Mulgan, 2016) (Russell, 2019).

História da IA.

Na década de 50, o termo "Inteligência Artificial" foi formalmente criado durante a conferência de Dartmouth (1956), definindo-se então como o estudo e desenvolvimento de máquinas capazes de realizar tarefas que, quando executadas por humanos, requerem inteligência (Kaufman, 2020) (Crawford, 2021). Nas décadas seguintes, assistimos à evolução de diferentes abordagens e paradigmas técnicos, desde os sistemas especialistas, baseados em regras até às redes neuronais artificiais que imitam o funcionamento do cérebro humano (Mitchell, 2019). O verdadeiro ponto de viragem ocorreu já no século XXI, impulsionado pela junção de três fatores

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Turing, A. (1950). Computing Machinery and Intelligence. Mind, LIX, 433-460. https://doi.org/10.1093/MIND/LIX.236.433.

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determinantes: a disponibilidade exponencial de dados digitais, o desenvolvimento de algoritmos de aprendizagem mais sofisticados e o aumento massivo da capacidade computacional (Crawford, 2021). Esta junção permitiu o desenvolvimento da aprendizagem profunda (deep learning), culminando em avanços impressionantes em áreas como o processamento de linguagem natural, a visão por computador, o reconhecimento de padrões e a tomada de decisão automatizada (Crawford, 2021); (Floridi, 2021). Em 2011, o sistema Watson da IBM derrotava campeões humanos no concurso televisivo Jeopardy (Martin, 2023)! Em 2016, o programa AlphaGo da DeepMind superava o campeão mundial do jogo Go, considerado um dos desafios mais complexos para a IA, devido às suas inúmeras possibilidades de jogadas (Mulgan, 2016); (Russell, 2019). Recentemente, temos assistido à emergência de modelos de linguagem de grande escala, como o GPT (Generative Pre-trained Transformer), capazes de gerar texto igual ao produzido pelos seres humanos, de responder a perguntas complexas e até de criar conteúdo artístico (Demszky, et al., 2023). Hoje, a IA não é apenas uma tecnologia promissora, mas uma realidade quotidiana que permeia praticamente todos os setores de atividade, desde a saúde à educação, da indústria à administração pública, da arte ao desporto. Não se trata apenas de algoritmos e de computadores, trata-se de uma nova forma de conceber a relação entre os seres humanos e as máquinas, com profundas implicações filosóficas, éticas, socioeconómicas e culturais (Ramos, 2022); (CCDRN, 2023). Áreas da IA Para compreender a complexidade da IA, é fundamental distinguir algumas das suas principais áreas (Mitchell, 2019); (Russell, 2019). A Aprendizagem Automática (Machine Learning) refere-se a técnicas que permitem aos sistemas aprender a partir de dados, identificar padrões e tomar decisões com o mínimo de intervenção humana (Crawford, 2021); (Floridi, 2021). A Aprendizagem Profunda (Deep Learning), um subconjunto da aprendizagem automática, baseia-se em redes neuronais artificiais com múltiplas camadas, sendo especialmente eficaz no tratamento de dados não estruturados, como imagens, sons e textos (Mulgan, 2016); (Mitchell, 2019). O Processamento de Linguagem Natural (PLN) permite às máquinas compreenderem, interpretarem e gerarem linguagem humana, o que viabiliza aplicações como assistentes virtuais, tradução automática e análise de sentimentos (Russell, 2019); (Crawford, 2021). Já a Visão por Computador fornece aos sistemas a 241


capacidade de interpretar informação visual, sendo utilizados em áreas como a segurança, a medicina ou a condução autónoma (Floridi, 2021); (Mitchell, 2019).

Áreas da IA

Por fim, a Robótica Inteligente integra algoritmos de IA em sistemas físicos, permitindo que estes interajam com o ambiente de forma autónoma, sendo aplicáveis em contextos industriais, domésticos e médicos. Estas áreas demonstram a diversidade e o alcance da IA, refletindo o seu papel crescente na transformação tecnológica e social (Ramos, 2022); (Mulgan, 2016). Aplicações da IA A IA tem vindo a assumir um papel transformador em diversos setores da sociedade (Russell, 2019); (Ramos, 2022). Na saúde, permite diagnósticos mais precisos, descoberta acelerada de fármacos, medicina personalizada e monitorização remota (Floridi, 2021); (Mitchell, 2019). No setor educativo, contribui com tutores inteligentes, automatização de avaliações, personalização do ensino e deteção precoce de 242


dificuldades (Crawford, 2021); (Ramos, 2022). Na indústria, melhora a eficiência através de manutenção preditiva, otimização de processos, controlo de qualidade e logística avançada (Schwab, 2016); (OCDE, 2023). Na administração pública, potencia políticas baseadas em dados, combate a fraudes e apoia o planeamento urbano (Melo, Correia, Cardoso, & Marques, 2019); (Comissão Europeia, 2020). Em termos de sustentabilidade, favorece a eficiência energética, o controlo ambiental, a agricultura de precisão e a gestão de resíduos (CCDRN, 2023); (Ramos, 2022). No campo cultural e patrimonial, facilita a preservação digital, o restauro, experiências imersivas e a interpretação intercultural (Mitchell, 2019); (Crawford, 2021). Estas aplicações revelam que a IA vai muito além de uma simples inovação tecnológica, constituindo um fenómeno multidimensional com capacidade para transformar profundamente os métodos, os processos e as relações em todas as esferas da atividade humana (Mulgan, 2016); (Russell, 2019). Guimarães e a Transformação Digital Para compreender o potencial da IA no contexto específico de Guimarães, importa caracterizar brevemente o perfil socioeconómico e cultural do município. Guimarães apresenta uma economia diversificada, embora ainda com forte presença da indústria tradicional, particularmente no setor têxtil e no do vestuário. Nas últimas décadas, contudo, tem-se verificado uma progressiva transição para setores de maior valor acrescentado, incluindo o calçado, os curtumes, a metalomecânica e, mais recentemente, as tecnologias de informação e comunicação (cm-guimaraes, 2025); (Pereira, 2021). O município tem demonstrado particular dinamismo no domínio da inovação e do conhecimento, em grande medida potenciado pela presença da Universidade do Minho e do seu ecossistema de investigação aplicada com infraestruturas de conhecimento que posicionam Guimarães na vanguarda da investigação aplicada em diversas áreas (cm-guimaraes, 2025); (CCDRN, 2023). No plano cultural e patrimonial, o Centro Histórico classificado como Património da Humanidade pela UNESCO, em 2001, a vivacidade das tradições populares e a atividade de instituições como o Centro Cultural Vila Flor, a Plataforma das Artes e Criatividade e o Laboratório da Paisagem conferem à cidade uma identidade cultural forte e distinta. A transformação digital de Guimarães através da IA apresenta múltiplas dimensões de potencial impacto. Na reindustrialização inteligente, a IA pode revolucionar setores tradicionais como o têxtil, otimizando 243


processos produtivos, personalizando produtos e melhorando a sustentabilidade. Paralelamente, a administração local pode tornar-se mais eficiente e centrada no cidadão, com aplicações que vão desde a gestão de resíduos à manutenção preditiva de infraestruturas e atendimento personalizado. Como Capital Verde Europeia, Guimarães tem a oportunidade de implementar soluções de IA para monitorização ambiental em tempo-real, mobilidade otimizada e gestão inteligente de recursos. No âmbito patrimonial e cultural, a tecnologia pode enriquecer a experiência dos visitantes com guias virtuais e reconstruções digitais, além de contribuir para a preservação do património através de técnicas avançadas de digitalização e análise. Na área da saúde, sistemas inteligentes podem apoiar o envelhecimento ativo, facilitar os diagnósticos e tratamentos e personalizar programas de prevenção. Finalmente, no setor educativo, a IA pode oferecer ferramentas para personalizar a aprendizagem, identificar riscos de insucesso escolar e preparar os jovens para um futuro profissional em constante transformação. Estas dimensões interconectadas formam a base para um ecossistema digital integrado que pode transformar Guimarães

Capital Verde Europeia

numa verdadeira cidade inteligente. A nível internacional, identificam-se várias cidades de dimensão comparável à de Guimarães que têm implementado com sucesso estratégias de IA e cujas experiências podem oferecer importantes lições, nomeadamente (OCDE, 2023): Linz (Áustria): Esta cidade industrial reconverteu-se num hub de artes digitais e tecnologia criativa, onde a IA é aplicada tanto na modernização industrial como na criação artística e cultural, demonstrando como tradição e inovação podem coexistir. 244


Leuven (Bélgica): Exemplo de colaboração eficaz entre universidade, empresas e administração local para criar um ecossistema de inovação focado em saúde digital e tecnologias sustentáveis. Jyväskylä (Finlândia): Referência na aplicação de IA à educação e formação ao longo da vida, com resultados notáveis na adaptação da força de trabalho a novos requisitos profissionais. Vitoria-Gasteiz (Espanha): Pioneira na integração de soluções de IA para monitorização e gestão ambiental urbana, no contexto da sua própria designação como Capital Verde Europeia. Estas experiências sugerem que o sucesso na implementação de estratégias de IA a nível local depende de vários fatores críticos: - Colaboração efetiva entre múltiplos agentes, por exemplo, a administração pública, as empresas, a academia e a sociedade civil. - Foco nos problemas concretos e relevantes para a comunidade, evitando a "tecnologia pela tecnologia". - Desenvolvimento de competências digitais avançadas na população e nas organizações locais. - Atenção às questões éticas, legais e sociais associadas à implementação de IA. - Abordagem inclusiva, que assegure que os benefícios da IA são acessíveis a todos os segmentos da população. Desafios, Riscos e Considerações Éticas A implementação da IA em Guimarães (e não só) enfrenta múltiplos desafios que requerem atenção cuidadosa. No plano técnico-infraestrutural, destacam-se a necessidade de infraestruturas digitais robustas, a integração com sistemas existentes, a qualidade dos dados para treino de algoritmos e a cibersegurança. Os desafios socioeconómicos incluem a potencial eliminação ou transformação de empregos tradicionais, a necessidade de requalificação profissional, o risco de aprofundamento de desigualdades digitais e o impacto nas dinâmicas comunitárias (Schwab, 2016). Questões éticas e legais envolvem a privacidade e proteção dos dados, a transparência algorítmica, a responsabilidade das decisões automatizadas, os potenciais vieses discriminatórios e o equilíbrio entre a autonomia humana e a automação (Floridi, 2021); (Ramos, 2022). Para Guimarães, cinco desafios específicos merecem especial atenção: a transição laboral na indústria tradicional (têxtil, calçado, metalomecânica), que exige planeamento socialmente responsável e requalificação; a inclusão digital da população envelhecida, que necessita de interfaces acessíveis e programas de 245


literacia digital; a preservação da identidade cultural face à digitalização de processos tradicionalmente humanos; a mobilidade exige tomadas de decisões disruptivas para resolver os problemas existentes; e o desenvolvimento de modelos adequados de governança algorítmica local. Para enfrentar estes desafios, é essencial desenvolver um quadro ético-normativo baseado em princípios como a supervisão humana, a segurança, a privacidade, a transparência, a equidade, o bem-estar social e a responsabilização. Complementarmente, mecanismos de participação cívica como laboratórios de inovação cidadã, conselhos consultivos multissetoriais e orçamentos participativos podem assegurar uma implementação tecnológica democrática e alinhada com os valores da comunidade vimaranense. Conclusão A IA representa simultaneamente um desafio significativo e uma oportunidade transformadora para o desenvolvimento futuro de Guimarães (Melo, Correia, Cardoso, & Marques, 2019). Implementada de forma estratégica, inclusiva e eticamente responsável, a IA pode potenciar as forças existentes do município, desde a sua dinâmica industrial e riqueza patrimonial até ao conhecimento científico-tecnológico e compromisso ambiental, promovendo um modelo de desenvolvimento equilibrado que harmoniza tradição com inovação, crescimento económico com coesão social, e competitividade global com identidade local. Para concretizar este potencial positivamente, é fundamental que a implementação da IA, em Guimarães, seja orientada por princípios humanistas, colocando as pessoas e o seu bem-estar no centro das decisões tecnológicas. Nesta perspetiva, deve seguir-se uma abordagem que respeite a identidade histórico-cultural única da cidade, promova a inclusão digital e o acesso equitativo, priorize as aplicações que respondam a desafios sociais e ambientais concretos, mormente a participação cidadã nas decisões tecnológicas, preserve a autonomia humana face à automação e o investimento no desenvolvimento de competências digitais essenciais. A orientação da IA por caminhos que honrem o legado vimaranense permitirá abrir horizontes promissores para as gerações futuras. Referências Bibliográficas CCDRN. (2023). Estratégia de Especialização Inteligente da Região do Norte 2021-27. CCDR-NORTE. Disponível em: https://www.ccdr-n.pt/storage/app/media/uploaded-files/S3%20NORTE%202027_Bo. Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte S3 NORTE 2027.

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cm-guimaraes. (05 de 05 de 2025). https://www.cm-guimaraes.pt/municipio/viver-guimaraes. Obtido de Viver Guimarães: https://www.cm-guimaraes.pt/municipio/viver-guimaraes Comissão Europeia. (Bruxelas de 2020). Obtido de Livro Branco sobre a Inteligência Artificial: Uma abordagem europeia virada para a excelência e a confiança.: https://commission.europa.eu/document/download/d2ec4039c5be-423a-81ef-b9e44e79825b_pt?filename=commissio Crawford, K. (2021). The atlas of AI: Power, politics, and the planetary costs of artificial intelligence. Yale University Press. Demszky, D., Yang, D., Yeager, D., Bryan, C., Clapper, M., Chandhok, S., . . . Pennebaker, J. (2023). Gross, J., & Pennebaker, J. (2023). Using large lan. Using large language models in psychology. Nature Reviews Psychology, 2, , 688 - 701. https://doi.org/10.1038/s44159-023-00241-5. Floridi, L. (2021). Establishing the rules for building trustworthy AI. Ethics, Governance, and Policies in. Artificial Intelligence, 41-45. Kaufman, D. (2020). INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: REPENSANDO A MEDIAÇÃO / ARTIFICIAL INTELLIGENCE: RETHINKING MEDIATION. Brazilian Journal of Development., https://doi.org/10.34117/bjdv6n9-264.

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A Inteligência Artificial na Administração Pública Mariana Queirós Almeida, Jurista (Departamento Jurídico – Câmara Municipal de Guimarães)

Já há muito se vem falando na Inteligência Artificial (IA) e na relação entre ela e a Administração Pública (AP). De facto, a IA pode aportar diversos benefícios na formulação de políticas públicas e na disponibilização dos serviços públicos. Entre muitas outras vantagens, destacamos a redução do tempo necessário para executar tarefas pelo ser humano, disponibilizando-o para a realização de trabalho de alto valor/mais complexo, assim como o aumento da produtividade e da eficiência dos serviços, a interpretação e o processamento de grandes quantidades de dados que permite a identificação de padrões e, bem assim, a simplificação da comunicação e o envolvimento dos cidadãos. Neste sentido, foi publicada, em 10 de setembro de 2021, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 131/2021 que aprovou a Estratégia para a Transformação Digital da Administração Pública 2021-2026, na sua Linha Estratégica 2. Neste diploma é ressaltada a competência da AP para garantir que utiliza todo o potencial do enorme volume de dados a que tem acesso para prestar serviços públicos, gerir e tomar decisões com base em dados fidedignos e confiáveis, desenvolver serviços com base em tecnologias emergentes, ser mais transparente e potenciar o desenvolvimento de estudos e soluções inovadoras pela sociedade e pelo setor privado, em alinhamento com a Estratégia Europeia para os Dados. Sendo que, para concretizar tamanho objetivo, aquele diploma contempla a possibilidade de se implementarem sistemas de IA. Nesta sequência foi disponibilizado pela Agência para a Modernização Administrativa (AMA) o Guia para a Inteligência Artificial Ética, Transparente e Responsável na Administração Pública. Na sua estrutura, o Guia procura definir o que é a IA e o seu funcionamento, mostrar como está presente na sociedade e identificar alguns dos efeitos decorrentes da sua utilização. Procura, ainda, informar sobre o enquadramento da IA no Mundo e em Portugal, fazendo também referência ao ecossistema de dados na AP e aos princípios que lhe devem estar subjacentes. Encontramo-nos, assim, num momento de expansão da utilização de técnicas de IA na AP, sendo já conhecidas várias aplicações na maioria das suas áreas de atuação, como na contratação pública, na recolha de 248


resíduos, na rede de transportes, na habitação, entre muitas outras, já que as possibilidades são quase infinitas. Ao nível da contratação pública, por exemplo, uma vez que esta enverga procedimentos complexos e demorados, a incorporação de tecnologias de IA pode beneficiá-la significativamente. Aliás, uma das aplicações mais promissoras da IA, neste domínio, é a autonomização da análise de propostas de contratação. De acordo com o artigo publicado por Manuel Monteiro na sua rede social Linkedin em 17/05/2023 (“A Inteligência Artificial e a Administração Local: Como a IA está a transformar a Gestão Pública”), a cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, adotou um sistema de IA para ajudar na análise de propostas de contratação. O sistema, desenvolvido por uma startup local, utiliza o Natural Language Processing (NLP) para analisar propostas e identificar aquelas que melhor se adequam aos critérios estabelecidos pela cidade. Com isso, a avaliação de cada proposta é agora significativamente mais rápida e eficiente, minimizando-se o risco de erro humano. Já na Dinamarca, na cidade de Copenhaga, foi implementado um sistema de IA chamado "VendorAI" para ajudar na avaliação de fornecedores, ajudando os trabalhadores a analisar uma vasta gama de dados, incluindo preços de propostas, históricos de desempenho, prazos de entrega, entre outros. Ao nível da Proteção Civil, a IA pode igualmente revelar-se uma ferramenta valiosa. De acordo com o citado artigo, a cidade de Helsínquia, na Finlândia, implementou um projeto chamado "Climate Watch", que utiliza a IA para monitorizar e prever as ocorrências climatéricas na cidade, o que lhe permite uma melhor organização dos meios necessários e o planeamento dos impactos dessas ocorrências, mitigando os seus efeitos. No domínio da rede de transportes, Barcelona, em Espanha, está a utilizar a IA através de um sistema denominado "SynchroNet" que permite analisar dados em tempo real sobre o tráfego, a utilização dos transportes públicos, as condições meteorológicas e outros fatores. Este sistema permite àquela cidade fazer recomendações para ajustar as rotas e os horários dos autocarros, reduzir o congestionamento e as emissões de gases de efeitos de estufa. Outra área que também beneficia da IA é a recolha de resíduos. Um exemplo disso, de acordo com aquele artigo, é a aposta pelas empresas tecnológicas no desenvolvimento e utilização de sensores e IA para melhorar a recolha de resíduos. Estes sensores são colocados em contentores de lixo e transmitem informações sobre o nível de enchimento dos contentores, podendo-se prever quando é que os contentores ficarão 249


cheios e otimizar as rotas de recolha de resíduos para os camiões de lixo. No nosso território nacional são várias as autarquias locais que já aplicam métodos de IA. Segundo a notícia publicada no site da ECO, em 10/07/2021, por Flávio Nunes (“Inteligência artificial põe estas cidades portuguesas a um passo do futuro”), a autarquia de Lisboa já teve um veículo adaptado, ao abrigo de uma parceria, a percorrer as ruas da cidade à procura de resíduos, sendo que o mesmo era capaz de detetar beatas, cigarros, vidros e folhas de árvore. Por seu turno, a Câmara Municipal de Matosinhos já testou um sistema de IA aplicada ao controlo e gestão de edifícios, orientado para a respetiva eficiência energética, com várias funcionalidades, como uma aplicação móvel para os utilizadores que recolhe informações sobre a sua sensação de conforto com o espaço, nomeadamente no que respeita a luminosidade, temperatura, conforto, posição no edifício, perfil de consumo, entre outros, e que permitirá uma adaptação automática do espaço às preferências do habitante. Também a Câmara Municipal do Porto, no seu relatório de atividades de 2019, deu conta de um “projeto de inteligência artificial” aplicado à área financeira, designado Robotics Process Automation. O projeto consistiu “na robotização de processos de negócio através da utilização, em larga escala, de um software específico que possibilita simular a execução humana de tarefas repetitivas”. Ainda, a Câmara de Cascais tem apostado em centros de controlo que permitem gerir em tempo real as diferentes componentes da vida urbana, desde a segurança, mobilidade, tráfego, limpeza urbana e ambiente. The last but not the least, a Câmara Municipal de Guimarães encontra-se na vanguarda da utilização de aplicações de IA em várias áreas. Na verdade, já se encontram implementadas ferramentas que permitem monitorizar, ao nível da mobilidade, o transporte público, os parques de estacionamento subterrâneo e de superfície, o trânsito e os carregadores de viaturas elétricas; no domínio da micromobilidade, bicicletas e trotinetes elétricas, pessoas e viaturas, nas principais vias da cidade e ecovia; e ao nível do ambiente, a qualidade do ar, linhas de água, o ruído, a meteorologia e as bacias de retenção do Parque das Hortas. Como vimos, a lista de vantagens é extensa e os exemplos citados permitem-nos ter uma ideia do potencial transformador da IA no contexto municipal. Estamos certos de que, à medida que a tecnologia avança, veremos mais sistemas de IA na administração local, capazes de tornar os municípios e as respetivas cidades mais eficientes, seguros e habitáveis, não obstante os vários riscos e desafios que se colocam ao nível do respetivo desenvolvimento e da sua utilização.

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Os desafios da Inteligência Artificial na Educação e na Literacia Ambiental dos Cidadãos Nuno Paula Santos96

Declaração de interesses: O autor deste artigo não tem qualquer tipo de afiliação com as entidades promotoras ou de desenvolvimento das apps mencionadas. Este artigo traduz uma visão das duas faces da mesma moeda que é a IA (potencialidades e riscos). Reflete o seu desejo de despertar o público para as questões ambientais, pensamento crítico, utilidade da IA em processos de autoaprendizagem e estabelecimento de pontes intergeracionais. E como nota final... este artigo foi escrito por um Humano, (ainda) sem recurso à IA!

A interação com o mundo digital – computadores, tablets, smartphones, consolas de jogos, tornou-se ubíqua, não só nas camadas mais jovens (crianças e adolescentes), mas igualmente nos adultos. Sobre o mundo digital, e particularmente sobre os smartphones, o neurocientista Michel Desmurget refere que: O Smartphone segue-nos, aliás, para todo o lado, sem dó nem piedade. É o Santo Graal dos sugadores de cérebro, o derradeiro cavalo de Troia da nossa descerebração. Quanto mais «inteligentes» se tornam as aplicações, mais substituem o nosso pensamento e mais nos permitem tornarmo-nos idiotas.97

Acresce a esta omnipresença tecnológica nas atividades humanas o crescimento exponencial da inteligência artificial, com potenciais riscos e benefícios em todas as esferas das atividades humanas, incluindo a educação. Como exemplos, podemos apresentar o recurso aos chatbots no desenvolvimento de competências de comunicação e aprendizagem de línguas estrangeiras98, a gamificação, a alteração dos curricula com

96 Professor do Ensino Secundário - Biologia e Geologia e membro integrado do CITeD CENTRO INVESTIGAÇÃO TRANSDISCIPLINAR EM

EDUCAÇAO E DESENVOLVIMENTO – Instituto Politécnico de Bragança. 97 Desmurget, M. (2021). A fábrica de cretinos digitais - Os perigos dos ecrãs para os nossos filhos. (1ª Ed.). Contraponto. 98 Khang, A., Muthmainnah, M., Seraj, P. M. I., Al Yakin, A., & Obaid, A. J. (2023). AI-aided teaching model in education 5.0. In Handbook of Research on AI-Based Technologies and Applications in the Era of the Metaverse (pp. 83–104). IGI Global. https://doi.org/10.4018/978-16684-8851-5.ch004

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ênfase na gestão de dados, algoritmia e sistemas de informação99, ou o uso de aplicações baseadas em redes neuronais convolucionais, capazes de realizar aprendizagem de máquina (machine learning), recorrendo a algoritmos para reconhecer padrões e aprender, dispensando a sua programação explícita, utilizando dados como som e imagem100,101. Os exemplos mencionados constituem uma visão muito restrita desse colossal Admirável Mundo Novo102 que é a Inteligência Artificial (IA). Numa altura em que muito se discute relativamente à limitação ou proibição do uso de smartphones nas nossas escolas, (por razões que vão do cyberbullying103 às perturbações do sono, irritabilidade, redução da autoestima e da capacidade de concentração, impactando negativamente no sucesso escolar), torna-se imperiosa uma avaliação de riscos/benefícios. Como tirar partido das potencialidades da IA e do smartphone, sem comprometer o desenvolvimento do espírito crítico, potenciando um uso equilibrado deste tipo de tecnologias omnipresentes? Como podem estas ferramentas contribuir para a formação e literacia ambiental dos cidadãos? Confesso que a minha escolha do tema literacia ambiental não foi isenta, uma vez que a nossa espécie está, de facto, a mudar o planeta como um todo, e chegou a altura de começar a assumir responsabilidades por este evento Antropocénico104. Neste contexto de grandes transformações ambientais causadas pela atividade Humana105, destaca-se o facto de seis dos nove limites planetários terem sido transgredidos, ultrapassando o espaço seguro para a Humanidade. Alterações climáticas e a Biodiversidade são consideradas

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Yang, X. (2019). Accelerated Move for AI Education in China. In ECNU Review of Education (Vol. 2, Issue 3, pp. 347–352). SAGE Publications Ltd. https://doi.org/10.1177/2096531119878590 100 Wood, C. M., Kahl, S., Chaon, P., Peery, M. Z., & Klinck, H. (2021). Survey coverage, recording duration and community composition affect observed species richness in passive acoustic surveys. Methods in Ecology and Evolution, 12(5), 885–896. https://doi.org/10.1111/2041210X.13571 101 Pérez-Granados, C. (2023). BirdNET: applications, performance, pitfalls and future opportunities. Ibis, 165(3), 1068–1075. https://doi.org/10.1111/ibi.13193 102 Referência à obra de Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo – onde o Homem é subjugado pelas suas invenções, conduzindo a uma desumanização dos seres humanos. 103 Utilização da tecnologia para assediar, intimidar, de forma propositada e reiterada, uma pessoa. O cyberbullying é crime. 104 O termo Antropocénico tornou-se popular após a utilização por Paul Crutzen (Nobel de Química, 1995) numa conferência no ano 2000 ao referir-se à época atual. Crutzen expressou a sua visão, salientando que a humanidade está, de facto, a mudar o planeta como um todo, devendo assumir a responsabilidade pelas transformações que está a causar. Müller, R., Pöschl, U., Koop, T., Peter, T., and Carslaw, K.: Paul J. Crutzen – a pioneer in Earth system science and a founding member of the journal Atmospheric Chemistry and Physics, Atmos. Chem. Phys., 23, 15445–15453, https://doi.org/10.5194/acp-23-15445-2023, 2023. 105 Richardson, K., Steffen, W., Lucht, W., Bendtsen, J., Cornell, S. E., Donges, J. F., Drüke, M., Fetzer, I., Bala, G., Von Bloh, W., Feulner, G., Fiedler, S., Gerten, D., Gleeson, T., Hofmann, M., Huiskamp, W., Kummu, M., Mohan, C., Nogués-Bravo, D., … Rockström, J. (2023). Earth beyond six of nine planetary boundaries. https://www.science.org

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limites chave, que mais afetam os demais limites planetários106. Mas como pode o cidadão comum aumentar a sua literacia ambiental para se iniciar na complexidade dos sistemas biogeofísicos que governam o Ambiente? Ora, é aqui que entram as aplicações de IA! Apps como BirdNET, Merlin Bird ID, PlantNet e Flora Incognita, constituem alguns exemplos que usam a IA e que podem ser usados para registo de dados sobre a evolução da biodiversidade das aves e das plantas, a nível local, potenciando atividades na natureza, de estímulo ao diálogo intergeracional, contribuindo para a monitorização e conhecimento da biodiversidade, podendo ser partilhados em comunidades como a BioDiversity4All que integram a rede iNaturalist. Confuso?! Deixe-me tentar clarificar... Imagine que num relaxante passeio pelos campos ou parques Vimaranenses, é surpreendido por uma miríade de sons da natureza como, por exemplo, o canto de aves. Para alguns de nós, a identificação da espécie a partir do canto até poderá ser algo familiar..., mas nem sempre fácil. O recurso a uma app de IA no smartphone permite a captação do canto das aves, o processamento desses sons com recurso a algoritmos personalizados e utilização de filtros específicos de ocorrência em função da georreferenciação e, após o cruzamento de metadados, a devolução de uma previsão de identificação da espécie, com o respetivo grau de probabilidade, i.e., Quase certo, Altamente provável ou Incerto107. A app testada (BidNET), apresenta uma precisão de 72% a 85%108. Agora imagine poder fazer esta atividade com os filhos, netos, sobrinhos, alunos, população sénior... a tecnologia pode potenciar atividades ao ar livre, ser integradora e estimular o diálogo intergeracional (basta querermos usá-la com esse intuito!). Então e as plantas que vamos encontrando pelo caminho, também podemos usar a IA para ficarmos a conhecer um pouco mais sobre esse fascinante mundo da Flora? Obviamente... Sim! Basta instalar uma app específica, como a Flora Incognita109, PlantNet, Arbolapp, entre outras. Neste caso, a câmara do smartphone será muito útil, pois teremos de tirar fotografias detalhadas de diferentes partes da planta para que a IA analise e processe as imagens, cruzando

106 Rockström, J., Steffen, W., Noone, K., Persson, Å., Chapin, F. S., Lambin, E. F., Lenton, T. M., Scheffer, M., Folke, C., Schellnhuber, H. J.,

Nykvist, B., de Wit, C. A., Hughes, T., van der Leeuw, S., Rodhe, H., Sörlin, S., Snyder, P. K., Costanza, R., Svedin, U., … Foley, J. A. (2009). A safe operating space for humanity. Nature, 461(7263), 472–475. https://doi.org/10.1038/461472a 107 BirdNET foi uma das aplicações testada. Para saber mais, recomendamos que visite o Centro de Bioacústica para a Conservação - Cornell Lab of Ornithology (https://birdnet.cornell.edu/) 108 Pérez-Granados, C. (2023). BirdNET: applications, performance, pitfalls and future opportunities. Ibis, 165(3), 1068–1075. https://doi.org/10.1111/ibi.13193 109 Mäder, P., Boho, D., Rzanny, M., Seeland, M., Wittich, H. C., Deggelmann, A., & Wäldchen, J. (2021). The Flora Incognita app – Interactive plant species identification. Methods in Ecology and Evolution, 12(7), 1335–1342. https://doi.org/10.1111/2041-210X.13611

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informações como georreferenciação, habitats e milhões de imagens armazenadas nos diversos servidores espalhados pelo globo, devolvendo uma probabilidade de identificação da espécie de planta que encontrou na sua caminhada. Como é possível tamanho volume de informação ser processado e fornecer resultados com um crescente grau de fiabilidade e de forma quase imediata? É aqui que entra a Inteligência Artificial (IA). Trata-se da combinação de algoritmos projetados para que máquinas desenvolvam capacidades cognitivas, até agora, “exclusivas” da nossa espécie; uma tecnologia que ainda nos parece distante e misteriosa, mas que está presente no quotidiano, há muitos anos. Os sons, imagens, dados de georreferenciação vão servir de material de aprendizagem para a IA. Tal como uma criança, ao vivenciar o mundo em redor vai aprendendo e moldando a neuroplasticidade, reforçando o estabelecimento das ligações entre os diferentes neurónios, determinando rotas de comunicação diversificadas e alternadas, também a IA vai aprendendo e evoluindo. O conhecimento de imagens e sons com que alimentamos a IA vão permitir a aprendizagem profunda (deep learning), partindo de uma grande quantidade de dados e após inúmeras camadas de processamento com algoritmos, permitindo que um computador aprenda por si mesmo e execute tarefas semelhantes às dos seres humanos, tais como a identificação de imagens, o reconhecimento de sons e o estabelecimento de padrões e previsões, de forma progressiva. Resumidamente, a aprendizagem profunda funciona como uma rede neuronal artificial que procura mimetizar o cérebro humano, aprendendo de forma autónoma, tomando decisões e resolvendo problemas mais complexos. Esta é uma ínfima parte da Tecnologia e da Ciência nos bastidores de apps que permitem aumentar, por exemplo, a sua literacia ambiental. Os exemplos de apps de IA mencionados neste artigo abordam a avifauna e a flora, não tendo sido uma escolha ao acaso... ... Sabia que as aves são usadas na avaliação da saúde dos ecossistemas em virtude de ocuparem quase todos os ambientes e nichos ecológicos conhecidos? Contudo, dados recentes revelam que no continente europeu, 34% das espécies estão numa situação de declínio, estimando-se que 13% em risco de extinção, numa avaliação a 544 espécies de aves na Europa realizada em 2021110. Acresce o facto de um terço das interações aves/dispersão de sementes dever ser observada com elevada preocupação, dada a potencial ameaça à persistência das espécies vegetais por redução da biodiversidade das aves promotoras da 110 Andrade, J., Teodósio Alexandra Lopes Conteúdos Afonso Rocha, J., Vill, Fernandes, P., Lourenço, P. M., Pereira, P., Martins, R. C., Jorge

Lopes, R., Tomé, R., Lourenço, R., Pardal, S., Heber, S., Catry, T., Encarnação, V., Paiva Design Paginação Rita Silva Mendes Fotografia da capa Rui Pereira Fotografias Afonso Rocha, V., Almeida, A., Amaral, A., Silva, A., Gonçalves, A., … Cohen, T. (2022). Título O estado das aves em Portugal, 2022. www.spea.pt

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disseminação das sementes 111,112. Como pode o cidadão comum ajudar na monitorização da biodiversidade e partilhar a informação com uma rede de investigadores a nível mundial? Por exemplo, por via da utilização de apps de IA, como as mencionadas, desenvolvendo projetos de Ciência Cidadã, estimulando a partilha de informação e mapeamento do estado de saúde ambiental. Obviamente que a utilização dos smartphones e da IA não pode ser feita de forma acrítica. Devemos aproveitar os aspetos positivos inerentes à identificação de bioindicadores de qualidade ambiental, como a biodiversidade de aves e da flora; potenciar a elaboração de atividades ao ar livre, com a elaboração de roteiros ecológicos (ou de descoberta da natureza); reconhecer o incentivo da IA e destas apps à autoaprendizagem, ao despertar da curiosidade pela biodiversidade local, com acesso a informações com linguagem acessível e visual... Em suma, estimular a literacia ambiental dos cidadãos, recentrando o Ser Humano numa perspetiva Ecocêntrica, para uma melhor compreensão e preservação da biodiversidade113. Termino, citando Aldous Huxley, “O preço da liberdade, e até da simples humanidade, é a vigilância eterna”; saibamos aproveitar e estarmos atentos à evolução da tecnologia e da IA nas nossas vidas, mantendo uma perspetiva independente e crítica, não esquecendo que todas as gerações aprendem e interagem com um mundo que os rodeia, em constante mutação. Há que saber capitalizar o que melhor existe, minimizar os potenciais riscos e manter um pensamento crítico aguçado.

111 Stokstad, E. (2024). Seed disperser declines threaten Europe’s plants. Science, 386(6718), 136. https://www.sci-

ence.org/doi/epdf/10.1126/science.adt7206 112 Mendes, S. B., Olesen, J. M., Memmott, J., Costa, J. M., Timóteo, S., Dengucho, A. L., Craveiro, L., & Heleno, R. (2024). Evidence of a European seed dispersal crisis. Science, 386(6718), 206–211. https://doi.org/10.1126/science.ado1464 113 Moreno, M., & Mafra, P. (2020). Do antropocentrismo ao ecocentrismo: o projeto rios na mudança de atitudes ambientais. Technology and Society (BRAJETS) Br. J. Ed., Tech. Soc, 13(1), 66–78. https://doi.org/10.14571/brajets.v13.n1

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Bolsa Europeia de Investigação Equipa redatorial

A vimaranense Helena Machado, professora catedrática do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (UM)) e investigadora do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) recebeu do Conselho Europeu de Investigação (ERC) uma bolsa de 2,46 milhões de euros para analisar, nos próximos cinco anos, os impactos globais das tecnologias de reconhecimento facial, denominado “Facial Recognition Techonologies Etho – Assemblages and Alternative Futures (falces)”. Um estudo de análise dos impactos políticos, éticos e sociais que as tecnologias de reconhecimento facial exercem sobre o cidadão e a privacidade, que a cientista vimaranense pretende alargar a uma equipa interdisciplinar de referência na sociologia da inteligência artificial e antropologia, com o cruzamento extensivo às humanidades digitais e visão com-

Helena Machado, foto in Mais Guimarães, nº 137, p. 34

putacional. Refira-se ainda que esta é a 14ª. bolsa ERC atribuída à Universidade do Minho desde 2013 em áreas tão diversas como os biomateriais, a engenharia civil, a sociologia e a medicina, mas também constitui mais uma distinção desta docente e investigadora vimaranense, que é detentora do Prémio de Mérito Científico da UM e outras bolsas ERC, designadamente com o projeto “Exchange: geneticistas forenses e partilha transnacional da informação genética na EU” financiada com 18 milhões de euros, no período de 2015-2021. Ademais, para além da atividade docente na UM, Pernambuco e Rio de Janeiro (Brasil) e Durhem e Essex (Reino Unido), Helena Machado liderou, presidiu e coordenou ainda, ao longo dos seus 54 anos de idade, diversas instituições nacionais e internacionais e é (co) autora de mais de 200 publicações científicas designadamente os livros “Genética e Cidadania” e Tracing techonologies: prisioners’ views in the era of CSI”. Os vimaranenses e a UMinho continuam a marcar o futuro…

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Débora Ferreira recebe prémio EMBO Poster Prize na Bélgica114 Equipa redatorial

A investigadora do Centro de Engenharia Biológica, da Universidade do Minho, a Moreirense Débora Ferreira, foi distinguida com o prémio EMBO Poster Prize, na 5.ª Conferência Next-Generation Synthetic Biology, realizada na cidade de Gent, na Bélgica. A apresentação efetuada surge no âmbito da investigação que visa encontrar novos tratamentos para o cancro da mama, em particular o triplo negativo, um dos tipos de cancro mais agressivos: “Este reconhecimento veio no sentido da investigação que temos vindo a desenvolver ao longo dos anos, no Centro de Engenharia Biológica, na Universidade do Minho. O nosso objetivo é tentar arranjar novas formas de tratamento para o cancro da mama, em particular o cancro de mama triplo negativo, que é extremamente agressivo e não responde muito bem aos tratamentos convencionais. É no seguimento desta investigação que fomos apresentar parte do nosso trabalho a uma conferência na Bélgica, em Gent, e fui surpreendida pelo facto de o meu poster ter sido eleito o melhor daquela conferência”. Para Débora Ferreira, esta distinção “tem um enorme significado”, porque é sinal de que a comunidade científica está atenta ao seu trabalho e “valoriza aquilo que tem vindo a ser feito no laboratório, valoriza a investigação portuguesa, particularmente nesta área, na área da biologia molecular aplicada ao tratamento do cancro da mama”. A investigadora de Moreira de Cónegos conseguiu, em 2023, um contrato ao abrigo da Fundação para a Ciência e Tecnologia, no concurso estímulo ao emprego científico individual. O contrato tem a duração de seis anos estando a investigação ainda na fase inicial. “Estamos no início do trabalho, mas temos tido 114

In rádio Vizela, 08 de janeiro de 2025 | 11:44

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resultados muito promissores, alguns dos quais apresentámos nesta conferência.” Em declarações à Rádio Vizela, Débora Ferreira explica que a investigação tem estado a utilizar “um tipo de nanopartícula biológica”. “Os tratamentos convencionais que todos conhecemos, a quimioterapia e a radioterapia, que têm efeitos incríveis em muitos pacientes, mas por outro lado, têm também efeitos secundários que todos conhecemos como perda de apetite, queda de cabelo, etc. Estas nanopartículas biológicas que nós trabalhamos, nós modificamo-las de forma que tenham maior afinidade para as células do cancro de mama. O que nós verificámos é que a modificação que conferimos em laboratório faz com que elas consigam não atingir as células chamadas saudáveis e, além disso, conseguem ter um efeito terapêutico, que é o que nós queremos, que é levar à morte destas células cancerígenas”. Os resultados têm sido “muito promissores” o que é importante para passar para a próxima etapa da investigação. “Já fizemos todos os ensaios laboratoriais necessários para garantir que estas partículas são seguras e promissoras. Com estes resultados positivos, estamos prontos para começar os testes em modelos animais, que são essenciais antes de qualquer aplicação em humano. A nossa expectativa é que esta nova etapa traga informações importantes sobre como estas partículas se comportam em modelos superiores, aproximando-nos de possíveis aplicações futuras em tratamentos médicos”.

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Médico vimaranense vence Prémio BIAL por estudo inovador sobre Alzheimer Equipa redatorial

Por boas razões, Guimarães continua nas parangonas e manchetes jornalísticas. Desta feita, porque a Tiago Gil Oliveira, médico e investigador da Universidade do Minho, foi atribuído o Prémio BIAL de Medicina Clínica 2024, por um trabalho que permite identificar as regiões do cérebro mais afetadas pela doença de Alzheimer. Um estudo que abre novos horizontes para inovadoras formas de diagnóstico e tratamento, que não só prestigia o investigador como também as instituições locais e nacionais, uma vez que constitui um dos mais importantes prémios no âmbito das ciências de saúde, cujo valor é de 100 mil euros e que simultaneamente e acima de tudo propicia o avanço científico. Com efeito, o estudo intitulado “Desvendando os mistérios da suscetibilidade regional do cérebro à neurodegeneração na doença de Alzheimer: da neuropatologia à ressonância magnética cerebral”, permite abrir novos caminhos para um diagnóstico mais preciso e precoce e melhores tratamentos para aquela patologia degenerativa, atualmente uma das mais prevalentes em Portugal e no mundo. Acrescente-se que o vimaranense Tiago Gil Oliveira é professor associado na Escola de Medicina da Universidade do Minho, neurorradiologista no Hospital de Braga e investigador principal no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS). Com efeito, nascido há 41 anos em Guimarães, completou o mestrado/doutoramento em Medicina pelas Universidades do Minho e de Columbia, nos EUA, e já antes havia vencido o Prémio Pfizer 2022, atribuído por esta farmacêutica e pela Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Ademais, preside ainda à Sociedade Portuguesa de Neurociências e tem coordenado projetos científicos financiados por entidades como a Brain & Behavior Research Foundation, nos EUA. Obviamente um esforço pessoal e de equipa, cujo reconhecimento público alerta, como realçaria o premiado, para a necessidade de manter acesa a investigação a um alto nível, a nível institucional, quer criando melhores condições de trabalho, quer franqueando portas à carreira de médico-investigador como instrumento potenciador do progresso científico. 259


Maria Germano Neto – Uma vimaranense no mundo do Karting Entrevista conduzida por Jorge do Nascimento Silva

A jovem vimaranense Maria Germano Neto, com apenas 14 anos, frequenta o 9.º ano do Colégio de Nossa Senhora da Conceição, em regime presencial e, por vezes, à distância; aos cinco anos, ganhou a Taça de Portugal; foi o piloto mais novo de sempre a conseguilo e, com oito e nove, venceu o Open de Portugal, a Taça Bridgestone e o Campeonato de Portugal. Maria tem contrato com a Ferrari depois de ter vencido o Girls on Track Rising Stars, uma competição de deteção de talentos promovida pela Federação Internacional do Automóvel, em 2021. Está considerada pela Federação Internacional do Automóvel (FIA) a melhor piloto do mundo de Karting do sexo feminino e reputada pela Forbes como uma das 40 mulheres mais influentes do mundo. É piloto da Tony Kart, academia da Ferrari, desde 2022. Vamos ouvi-la. P - Olá, Maria. Olá. P - Muito boa tarde, é um prazer enorme reencontrar-te. Conheci-te em pequenina e já estás uma mulher crescida. Pões toda a gente a parar na rua para te ver passar. Queres explicar-nos como começou esta aventura e como é que tu chegaste a uma mulher de sucesso? Foi uma coisa muito inesperada, de que ninguém estava à espera, porque eu comecei desde muito cedo, com apenas quatro anos, a dedicar-me ao Karting. P - Quatro anos? Sim. O meu pai tinha uma reunião com um cliente e a reunião acabou por ser no cartódromo de Fafe, que é perto da minha casa. Como era um sábado, eu acabei por acompanhar o meu pai e vi algumas pessoas a andar de karting e pedi ao meu pai para experimentar. Ele autorizou e foi a partir daí que nunca mais parei.

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P - Parabéns! Fantástico! Mas foi tudo fácil, não encontraste dificuldades na adaptação a um novo país, aos treinos entre as corridas, à tua vida de estudante, ainda muito jovem? No início, foi tudo mais fácil porque eu era muito pequena. Depois, claro, tornou-se cada vez mais difícil, mas consigo conciliar. P - Frequentar as aulas, não é? Sim, às vezes é difícil, mas eu sempre que estou cá, em Guimarães, empenho-me muito nas aulas e mesmo quando estou lá, em Itália, estudo e tenho algumas aulas online. P - Pois, temos essa facilidade, agora, não é? Sim, atualmente é melhor. Consigo aceder ao que está a ser ensinado no meu colégio e isso ajuda-me a adquirir os conteúdos das diversas disciplinas e mantém-me em contacto com os colegas e com a realidade do Colégio. P - Ao longo da tua carreira, são imensos os títulos que já conquistaste, embora tu tenhas ainda uma tenra idade, não é? 14 anos apenas? Sim, eu cá em Portugal já ganhei tudo o que havia para ganhar. A partir de 2019 não corri mais em Portugal, mas durante os anos que corri cá, em Portugal, ganhei o Campeonato Nacional, a Taça de Portugal, o Open Karting de Portugal e também tantas outras corridas em que participei…. Fui a piloto mais nova a ganhar uma prova de karting em Espanha e, depois, em Itália. Agora corro, no Campeonato da Europa e no Campeonato do Mundo, onde ainda não ganhei nenhuma corrida, mas é o meu grande objetivo para este ano. P - Claro, é isso mesmo, é preciso ter sempre muita ambição, muita esperança, não é? E atualmente, então, como encaras o presente mais imediato? É exatamente esse, seres campeã da Europa e quem sabe do mundo? Sim, este ano é o meu principal objetivo porque eu vou fazer as mesmas corridas que já tenho feito desde há 3 anos, só que eu no ano passado, a meio do ano, mudei de categoria. Agora estou na categoria dos mais velhos, o que se torna mais exigente para mim. Vai ser mais difícil, sei bem, mas é o que eu quero 261


e o que eu estou decidida a fazer. P - Claro, claro. Olha lá, diz-me como é que tu lidas com este sucesso tão rápido? Como é que tu, sendo ainda tão jovem, consegues dominar este sucesso? És uma mulher de sucesso? Sim, é bom, é cada vez melhor porque cada vez mais pessoas me conhecem, conhecem as minhas competências, o meu caráter, a minha ambição e eu gosto. Dá-me gozo e faz com que eu acredite mais em mim e leva-me a definir como o meu grande objetivo de vida ser piloto de fórmula 1. P - É o que tu gostavas de ser, não é? Seria a concretização do sonho, de um sonho, não é? Sim, sim. P - Ora bem, mas para além das alegrias, claro, já tiveste momentos menos bons, não é? E alguns contratempos que apareceram pelo caminho. Que aspetos mais negativos destacarias nestes anos de atividade e que tiveste de ultrapassar? Claro que nem sempre as coisas correm como estamos à espera e houve corridas que me correram mal. Por exemplo, o ano de 2024 foi um ano muito difícil… As corridas não foram como eu estava à espera, mas o objetivo é estar sempre a dar o meu melhor e estar sempre a lutar para conseguir melhores resultados. P - Muito bem. Olha, já referiste um bocadinho isso até, mas na tua idade não é nada fácil conciliar o

In, RTP, ensina

karting com a formação escolar. Já nos disseste que, de facto, vais conseguindo conciliar através das aulas online e com a tua presença muito devotada quando podes estar cá, não é? Sim, eu normalmente frequento um terço das aulas previstas, normalmente comparado com o resto dos meus colegas. Mas eu, sempre que estou cá, estudo sempre, vou sempre às aulas e, mesmo quando estou lá (em Itália), tento sempre estudar um bocadinho ou mesmo, como já referi, aceder às aulas online. P - E, portanto, como é que vai o teu rendimento escolar? Em que ano é que tu já estás? Qual é o teu nível de desempenho? Eu, este ano, estou no nono ano. Estou no último ano no colégio. P – E as tuas médias em avaliação sumativa, na escala de 1 a 5? As minhas notas têm sido sempre excelentes. Tenho conseguido conciliar a minha atividade de piloto 262


com os meus estudos. Claro que exige uma planificação e articulação rigorosa e atenta pois estudo em Portugal e corro em Itália e noutros países. P- Não é o karting que te tem impedido de seres uma excelente aluna? Não, não. As minhas notas têm sido excelentes, como já referi. P - Como também sabes, o karting é um desporto caro, não é? É um desporto onde é preciso investir muito dinheiro. Para além do apoio da tua família que tem muito orgulho em ti, tens tido alguns apoios financeiros? Sim. Eu, nos últimos anos, desde que entrei para a Ferrari, claro, tem sido tudo muito mais fácil. Mas, apesar disso, também é preciso ter noção das despesas com viagens, com os hotéis e com a alimentação. Isso é tudo gerido pelo meu pai, que apesar de conseguir alguns patrocínios, principalmente de alguns amigos do meu pai, quem me ajuda verdadeiramente é o meu pai. P - O teu pai é teu grande admirador, é o teu primeiro grande admirador, não é? Sim, sim. O meu pai tem feito tudo por mim. Ele tem-me ajudado sempre e muito. Por isso, tento recompensá-lo com o meu desempenho nas provas. P - Também és a menina lá de casa, não é? Toda a gente quer fazer tudo por ti para atingires os teus sonhos, não é? Sim, sim. Sou muito acarinhada por toda a família. P - Ora bem, o karting é também um desporto de risco, não é? Como é que tu geres as situações de perigo, de stress competitivo? Como é que tu consegues fazer isso? Eu, por acaso, já tive alguns acidentes. Já tive dois ou três acidentes que foram mais graves, em que tive de ir para o hospital. Mas, apesar disso, passado o tempo da convalescença da lesão, passado o tempo de recuperação, tudo volta ao normal e não tenho medo de enfrentar a minha atividade competitiva. P - Portanto, preparas-te bem fisicamente? Frequentas o ginásio assiduamente? Sim, eu sempre que estou cá, em Guimarães, frequento o ginásio em média quatro ou cinco vezes por semana. Quando estou em Itália, ou noutro país, numa corrida, por norma não vou ao ginásio, embora o desporto que faço seja tão exigente, que nem sinto necessidade de ir ao ginásio. P - Claro, sim. Preparaste bem, és uma jovem com um objetivo bem definido e lutas por atingi-lo. Portanto, tens um futuro grande à tua frente, como é óbvio. Como é que encaras o teu futuro na vida e na 263


modalidade? O que é que tu pretendes fazer? E para além do karting, tens outros objetivos ainda? O meu objetivo é continuar a minha carreira desportiva, continuar sempre ligada ao automobilismo. O meu maior objetivo é conseguir chegar à Fórmula 1, como já referi. Por agora, tenho que continuar a conseguir bons resultados e a trabalhar para tentar chegar ao meu objetivo. P - Além do karting feminino, também a nível masculino, o nosso país investe na modalidade. Qual é a situação do karting masculino em Portugal? Tens uma ideia de qual é o nível do karting em Portugal? Eu corria cá, em Portugal, até 2019, pois as competições, no Karting, são mistas. Nos outros países as competições também são mistas. Mas cá, em Portugal, nota-se que existem muito menos pilotos masculinos do que lá fora. O karting cá em Portugal não é um desporto muito conhecido, como por exemplo o futebol e outras modalidades coletivas. Mas o karting tem evoluído cada vez mais em termos de pilotos, mesmo cá, em Portugal. A questão financeira é difícil porque não é um desporto barato. P - Não é fácil. O grande apoio, a grande motivação para quem tiver competências começa na família, não é? Sim, concordo e sinto. P - Para além do desporto automóvel, digamos, quais são os teus principais interesses e preocupações? És uma jovem, de 14 anos, tens alguns interesses, algumas preocupações que tu gostarias de ter? O que é que tu pensas, para além do desporto em si, quais são os teus interesses propriamente? Neste momento o meu principal objetivo é mesmo o desporto, é mesmo conseguir alcançar o meu objetivo. Coloco à frente de tudo o desporto automóvel. Para mim é o mais determinante. É dar o máximo. P - Em termos de respostas muito rápidas, o que é que tu me dirias? Qual é o teu desporto preferido, para além do karting? Possivelmente o futebol. P - E qual é o teu emblema desportivo, qual é o teu clube desportivo, a nível do karting? No karting é a Ferrari. É uma paixão. P - E a nível do futebol? Ao nível do futebol, perdoem-me os vitorianos, mas é o Porto. P - Qual foi o melhor filme que tu viste? Lembras-te de algum em específico? Ou não te lembras? Não me lembro de nenhum em particular, mas gosto de bastantes filmes. 264


P - Estás fora muitas vezes, estás sozinha, não é? Que programas de televisão preferes? Vês algum? Ocupo o meu tempo mais ver filmes e séries. P - E as tuas referências musicais? Eu, no geral, ouço muitos cantores, mas gosto de muitos. P - Costumas ler algum livro? Como é que tu fazes? Ou lês aqueles que são obrigatórios na escola? Na escola sim, claro, sou obrigada em algumas ocasiões. Mas eu gosto de ler muitos livros de desportistas e de atletas. Marcou-me o do David Goggins, que já não é atleta neste momento, mas gostei muito do livro. P - E a importância dos amigos para ti? Sim, os amigos são importantes e procuro estar muito perto deles durante as aulas, quando estou cá. P - Claro que sim! E quando estás em Itália, sozinha, também tens um grupo de amigos ligados à tua área de desporto? Lá tenho, de facto, alguns pilotos, dou-me bem com alguns deles; com outros nem tanto, mas lá estou mais focada nos treinos de karting. P - Em termos de valores, numa sociedade como a nossa, que valores é que tu mais admiras? Quais são os valores que te orientam? Digamos que a amizade é importante, admiras algumas pessoas pelo seu caráter? Solidariedade, como é que tu encaras esta sociedade onde já começas a viver, és uma menina ainda, mas jovem, começas a viver. Este mundo, como é que o vês, é um mundo competitivo, não é? Como tu também tens que ser, não é? No karting. Sim, acho que tudo na vida é um bocado competitivo. As pessoas querem dar o melhor, não é? Mas claro, que admiro muito a solidariedade e o humanismo… P - Pronto, o que é que tu gostarias de deixar expresso aos jovens da tua idade? O que é que tu podes dizer aos jovens da tua idade neste momento difícil da humanidade? Qual é a tua mensagem para os jovens? Que lutem sempre pelos seus ideais, pelos seus sonhos, pelo que têm como objetivo de vida e tentem sempre dar o seu melhor. P - Muito obrigado, Maria. Os maiores sucessos para ti. És um orgulho para os vimaranenses. Esperamos ver-te ao volante de um Fórmula 1! Que é esse o teu grande sonho já nesta altura. Felicidades. Obrigada. 265


Entrevista à Chefe Margarida Carneiro, no centenário do seu nascimento Entrevista conduzida por Jorge do Nascimento Silva e Chefe Ernesto Machado

Olá, Chefe Margarida, o Chefe Ernesto Machado e eu próprio vamos conversar consigo! Obrigado por nos receber na sua casa. Mas prometemos que não vamos fatigá-la até porque o tempo é dinheiro, não acha? E começava logo por uma questão gira. A D. Margarida, a eterna Chefe Margarida, está quase a celebrar 100 anos de vida, não é? É verdade, 100 anos. É um número bonito, não acha? Se lá chegar, ainda faltam uns meses! A Chefe Margarida entrou para o Corpo Nacional de Escutas -

Escutismo Católico Português, em 1957, e desempenhou as funções de Chefe de Alcateia, no Agrupamento 307 de Ponte durante muitos anos, depois de ter estado ligada à JOC mais de uma década; em 1967 foi aprovada no Curso de Insígnia de Madeira, passando a ser formadora de novos Dirigentes. Durante o seu percurso foi ainda coordenadora pedagógica da I Secção do Núcleo de Guimarães; participação em várias equipas pedagógicas do Núcleo de Guimarães; foi Membro de várias equipas da região de Braga para a formação escutista. Atualmente, com 100 anos de vida, é Dirigente Honorária do Agrupamento 307 de Ponte.

Chefe Margarida em 1969

Claro que chega, ui meu Deus! E os que mais virão. E muitos destes anos contados ao serviço do movimento Escutista, uma das suas grandes paixões. É verdade, muitas décadas.

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D. Margarida, qual o segredo desta vitalidade física e associativa? Qual é o segredo para esta entrega ao serviço destas causas. O segredo é ter fé e ter um espírito forte, uma alimentação saudável e não cometer excessos. Depois é trabalhar muito, não estar parada nenhum tempo e amar toda a gente. Amar toda a gente… O fundador do escutismo, Baden-Powell, fez isso mesmo.

Chefe Margarida, em 2025

Foi isso que fez ao longo da sua vida toda… mas sobretudo esteve ao serviço das crianças. Servi o escutismo e antes disso a Juventude Operária Católica (JOC). Mas o Escutismo, que foi fundado, em 1907, e que é um movimento mundial, educacional, de voluntariado, apartidário, sem fins lucrativos, foi onde me realizei imenso e durante muito tempo. E nessas atividades todas em que se envolveu ao serviço dos pequenitos e jovens a sua função era qual? Eu era chefe da Alcateia, ÁQUELA. Presumimos, então, que ainda se recorda como é que começou esta sua longa caminhada escutista? Olhe, havia aqui, na paróquia, um chefe na Alcateia, mas casou, e, então, ficaram sem apoio nenhum. Os miúdos estavam sem ninguém a orientá-los. E o chefe dos escuteiros foi falar com o assistente que lhe disse: “bem, temos de arranjar alguém”, e lembraramse de mim. Então, um dia apareceu-me o Assistente, a convidar-me para ir para o agrupamento e eu disse-lhe,

Chefe Margarida e uma das suas alcateias

“Olhe, dê-me oito dias para eu pensar” - mas ele não deu, só me deu dois. Apareceu-me, de novo, e disse: “eu venho saber a resposta”. Respondi-lhe que tinham sido acordados oito dias, mas já que estava com tanta pressa, o melhor era 267


não pensar, porque se pensasse acabava por não querer. Pois…e o assistente quem era? O reitor Joaquim Torres. O Padre Joaquim…sabe que o Padre Joaquim Torres era natural da minha aldeia, de Mujães? Ai era? Que engraçado. É de onde eu sou natural, só que vim para Guimarães, em 1969 e por cá fiquei. Como vê, entrei sem querer. Nem pude pensar! Pedi um ano para me preparar, para estudar, para frequentar cursos e arranjar gente para colaborar comigo. Muito bem e o ano foi suficiente. Chegou ou não. Para começar sim, porque eu já tinha muita coisa na cabeça, eu tinha 5 irmãos escuteiros. Olhe, Chefe Margarida, e que aspetos desta caminhada acha mais relevantes. O que é que achou de mais positivo neste tempo que passou ao serviço dos escuteiros? Tudo o que envolve o escutismo, começando nos princípios, isto é, aquilo que dá força ao homem no seu todo, porque a gente, às vezes, vê o homem só assim, mas tem de ser visto no seu todo, no seu corpo e na sua alma. É isto essencialmente que a gente mete nos miúdos, no escutismo. Homem são num corpo são. Portanto, desde pequeninos ensinam-nos a ser homens… a tratar do espírito e do corpo. Você sabe, quando eu comecei, meteram-me na mão um livro: “Aprende a ser homem”. E o autor acabava por dizer que não devemos dizer a um miúdo “Ai és um homenzinho”, “Pareces um homenzinho”. Devem ser homens, mais nada. Os homenzinhos são: infância, adolescentes, jovens e adultos. Homens… é só homens, completos. Quer dizer que não são homens em ponto pequeno, são assumidamente pessoas. Devemos vê-los no seu todo – corpo e valores. Incutir-lhes o respeito pelas pessoas, praticar atos solidários. Pensar primeiro no semelhante! Era assim que eu ensinava aos miúdos. O lobito pensa sempre primeiro no seu semelhante e só depois nele Portanto, para si o que é que representa esta caminhada escutista que fez? O que é que representa para mim? A dádiva de uma vida inteira a estes jovens. Eu vinha habituada da JOC, embora fosse diferente. Ah já pertenceu à JOC? Durante 30 anos… outra grande organização. Por isso é que eu já vinha um pouco preparada pois esse 268


movimento era muito importante, mesmo antes da chegada, digamos, do 25 de Abril, mesmo antes, pois desde os anos trinta que estava implantado em Portugal. Assim, esta minha caminhada foi muito feliz porque convivia com as crianças e as crianças dão-nos muito, embora pareça que não. Deste modo, o meu pensamento era melhorar sempre as reuniões, os jogos, as brincadeiras, os passeios, as pistas. A minha caminhada eram eles. Fazê-los evoluir, fazê-los crescer, fazêlos desenvolverem-se. Ajudá-los a viver o ideal escutista que tinham. Claro. Olhe, considerando a sua experiência, quer na JOC, quer no Escutismo, o que é que recomendaria hoje aos mais jovens que ingressam neste movimento? Eu diria que ficava muito bem nas universidades abordarem temas ligados ao humanismo. Haver disciplinas que os ensinassem mais. Mas olhe que hoje o ensino está a tentar apostar no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, estruturado em princípios, valores e áreas de competências. Partilhe connosco aquilo que foi mais marcante para si nesta caminhada tão longa ao serviço de Escutismo. Olhe, o que mais me marcava era a pobreza daquele tempo, a pobreza em que se vivia. Era quase de pé descalço. Uma vez um miúdo… ia ser o Natal ou a Páscoa, nem sei. Apareceu à sede a mancar, a mancar a mancar e eu… E eu disse, tu que tens, magoaste-te? Não. Não sei. Diz um outro muito depressa: “ó chefe, sabe o que é? Ele estreou estes sapatos e calçou-os ao contrário. Nunca tinha tido uns sapatos. E isto metiame pena! Depois do Natal, tivemos a festa de Natal. Foi muito boa. E eles começaram, “Ai eu tive esta prenda, tive aquela, tive aquela outra”. E um muito pobrezinho, encostou-se à parede triste e eu disse, “Ó Zé tu que tens?”. “Eu não tive nada”. “Olha, não tiveste nem eles tiveram, o menino Jesus não deu nada a ninguém, deu saúde para os pais poderem trabalhar e ganhar e comprar as coisas para dar. Os pais é que dão. O menino Jesus é amigo de todos. Eu vou-te arranjar uma prenda para ti, não te aflijas e assim foi. A pobreza metia-me pena. Mas aquele facto, aquela história que relatou dos sapatos é que normalmente os sapatos compravamse, estreavam-se os sapatos apenas quando se ia fazer o exame da quarta classe. Então seria nessa altura. Mas, como referi antes, até aos 30 foi a JOC. Dei a minha Juventude. Aos 30, foram-me buscar. Até aos 60 foi uma vida ativa, muito cheia. A partir de então, aliviou um bocadinho a pressão, não é? Mas aos 59 anos vieram-me buscar para os cursos de cristandade. Acabei de encher, cheia, satisfeita, 269


não cabe mais nada em mim. Agora, já não cabe mais nada. Não, nem é preciso, agora estou para ir, mas é para Deus. E referindo-se ao Dr. Ernesto, ex-chefe dos escuteiros, que me acompanhou nesta visita à casa da D. Margarida, disse: O Ernesto é um chefe e um homem, e como homem deve ser muito amigo da esposa e bom pai e foi bom filho. E trabalha na área social da CMG, a apoiar os que mais precisam, como sabe. Ele tem feito milagres por esses agrupamentos. Isto, hoje, é preciso fazer milagres. Eu conheço-o bem. Muito bem, D. Margarida. Durante estes anos todos, há muita coisa na minha vida. Muito boas ações coletivas. Coisas maravilhosas que o senhor me ajudou a fazer. O Espírito Santo está sempre comigo, tenho muita devoção. Tive sempre devoção ao Espírito Santo. E a Chefe Margarida, ainda não referiu, mas além de ter sido dirigente foi formadora. Chefe Ernesto Machado - A chefe Margarida tirou o curso de formação aqui no Campus Escola em Fraião, tem um lenço cor-de-rosa que se chama o lenço de Gilwell e é da geração de muitos formadores deste núcleo de Guimarães, que são de referência. A Chefe Margarida, o chefe Machado Abreu, o chefe Dias, o Chefe Zeca de Vizela, um conjunto de pessoas que contribuíram para que este Núcleo tivesse mais agrupamentos. Estas pessoas andaram de freguesia em freguesia, de terra em terra, e sempre que havia vontade de fundar um agrupamento esta gente ajudava a dar formação aos mais novos. Também se deve ao incentivo de uma

Certificado de formadora da Chefe da Alcateia Margarida

visita pastoral do Monsenhor Avelino Gonçalves, que andava por estas terras, e criou aqui as equipas de expansão e esta gente foi formadora durante anos a fio. Não era Chefe Margarida? Queria divulgar por outras terras, por outras paróquias, para que todos os jovens tivessem oportunidade, claro. Era este o espírito. Chegava a um sítio e perguntava: Aqui não há escuteiros? Não. Mas tem que haver. 270


Eu tenho um irmão padre, que é escuteiro… foi escuteiro aqui também muitos anos. Está em Lisboa, mas vem cá de 3 em 3 semanas e quando eu estou a fazer qualquer coisa, como por exemplo pegar num saca-rolhas e abrir uma garrafa, se não for logo, aí vem ele. “Oh Guida nem parece que foste escuteira!”. O Escuteiro sabe fazer tudo, não é? Sabe fazer tudo, tudo e todos os dias tem que fazer uma boa ação. Todos os dias. O fundador. O Baden-Powell dizia aos rapazes que o questionavam: “ó chefe, isto é impossível”. Ele dizia aos rapazes, “tira o im”. “Ó chefe eu sou incapaz”. “Tira o in e verás que és capaz”. Isto ajuda muito as pessoas. É preciso ter força e ter determinação. E havia outra coisa do fundador que ele dizia, não há desgosto nenhum na vida. O desgosto maior na vida, não é quando a mulher morre. Não é quando um pai morre ou uma mãe, é quando morre um filho. Esse é uma parte de nós. Olhe, a Margarida nasceu cá? Eu nasci em Arcozelo, Vila Nova da Gaia, Porto, no dia 5 de dezembro, às 11:30 da manhã, do ano de 1925. Sim, Senhor, e depois veio para cá. E fui batizada no dia 13 de dezembro. As crianças eram batizadas logo que nasciam com o medo de que falecessem, não era? E vim para aqui. E vim para aqui por uma coisa muito importante. Os meus pais casaram, foram para Arcozelo, Vila Nova da Gaia. O meu pai era de Negrelos. O meu pai era técnico de fiação. Naquele tempo, era como um engenheiro agora. E então quando os filhos mais velhos começaram a

Grupo de AKELAS - Margarida é a 2ª da direita para a esquerda

crescer e começou a chegar a idade da Catequese, os meus pais começaram a pensar em pôr-se a mexer. Lá, 271


em Gaia, não havia religião nenhuma. E então, quando o meu irmão mais velho fez 6 anos resolveram deixar aquilo, sem emprego à vista. E quando o meu pai se foi despedir do engenheiro principal, disse ao senhor engenheiro assim: “estou a pensar em deixar ficar o meu lugar para outro. Ah, nem me diga isso. Digo, porque a minha mulher não se dá aqui.” Não? Mas, quer mais dinheiro, diz ele?” Não é questão de dinheiro. A minha mulher não se dá aqui.” “Também a minha não se dava aqui, mas não teve outro remédio, retorquiu.” E o meu pai respondeu, “o senhor engenheiro quis sacrificar a sua mulher. Eu não sacrifico a minha. No fim do mês, acabou.” E deixou ficar. Deixou ficar aquilo em paz. Móveis para aqui, móveis para ali, as casas dos antigos eram muito grandes e cabia tudo. Veio e sem emprego nenhum à vista. Passadas 3 semanas, foram buscá-lo para aqui, para esta fábrica, aqui ao lado. E aqui ficamos. Depois, os meus irmãos já nasceram aqui. Nós somos 8. Sim, senhor, é um bom grupinho, é um bom grupo, não é? 5 rapazes 3 meninas. Sim senhor. E aqui tem vivido, não é? E, continua feliz, não é? Sim, posso dizer. Vive com a sua família cá. Feliz, feliz. E depois um dia perguntaram me? Por que é que não casou? E eu disse: olhe, para falar com franqueza, foi a única coisa na minha vida que eu não tive coragem, e acabou. Acabou…rapazes daqui… dali… de acolá, melhores do que eu. Pronto, ficou assim e sou feliz. Mas fui bem procurada. Sim, melhores do que eu. Mas sou muito feliz. Não me falta nada. Tenho tudo o que quero. Saúde, tenho tido. A Graça de Deus também acabei por ter. Mas olhe, isto é, de facto, um caso bom, não é? Ter saúde, ser feliz. Tive muitas coisas bonitas ao longo da minha vida com os miúdos. Tudo uma maravilha, coisas bonitas. Olhe, fiquei muito contente em conhecê-la. Fizemos um esforço para isso. Desejar-lhe muitas felicidades, saúde, mas até tem, até nem de saúde precisa, não é? Porque de momento tem. Aparente…Deus é que sabe. Olhe, os meus irmãos todos estão acolá (e apontou para uma foto). Estão todos ali perfilados para você poder olhar para eles. E toca também piano? 272


A minha irmã é que era organista aqui da capela e tocava. Olhe chefe Ernesto Machado, está ali uma coisa de licor, que eu fiz e vamos brindar. Sim, senhor, vamos provar o licor. Muito obrigado. Foi um prazer muito grande. Vamos lá ao licor? Vamos lá ao licor. E a Chefe Margarida não bebe? Não quero nada. Só tenho aqui 2 copos. Tem que beber. E bebeu!!! À nossa saúde e ao desenvolvimento do escutismo.

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25 anos e muitas histórias da Fraterna Manuela Costa e Silva, diretora executiva

Foi-me dado o privilégio de escrever sobre a Fraterna. No entanto, volvidos 25 anos da sua constituição, passaram e contribuíram para o crescimento desta cooperativa, pessoas que, pela sua nobreza de ação e conhecimento de causa, teriam muito mais legitimidade para o fazer. A Fraterna, constituída aos treze dias do mês de janeiro do ano mil novecentos e noventa e nove, “nasce”, como uma régie cooperativa, pela mão do Presidente de Camara, à época, Dr. António Magalhães, e um grupo fundador de cooperantes, com a Missão de contribuir para a equidade e desenvolvimento social da comunidade local, garantindo que, de uma forma integrada, fosse prestado um serviço adequado e inclusivo, numa atitude determinada, solidária e justa. Na pesquisa confirma-se a importância da Fraterna na vida de tantas pessoas. Foram tantas as histórias relatadas, as propostas apresentadas, os compromissos declarados e, acima de tudo, as responsabilidades desde sempre assumidas pela construção de um papel ativo na comunidade, contribuindo assim para uma sociedade mais justa e solidária e reconhecidamente Sede da Fraterna - Créditos: Paulo Pacheco (CMG)

de qualidade e excelência, conforme a meta traçada pelos seus fundadores. Construir uma história dá de facto muito trabalho!

É necessário dedicação, empenho e total entrega à causa em que se acredita e se defende diariamente. Não se pense, por isso, que a história e o património imaterial desta estrutura foram construídos única e exclusivamente com o contributo dos dirigentes que por esta cooperativa passaram. Foram bem mais as 274


pessoas que deram o seu contributo. Cada dirigente deu o seu planeamento estratégico e o seu humanismo; cada colaborador(a) o seu profissionalismo e dedicação; cada parceiro(a) os seus contributos valiosos; cada voluntário(a) os seus gestos de empatia e solidariedade; e, no fim da lista, mas no topo das prioridades, cada criança, cada jovem, cada adulto, cada idoso e cada família, em suma, todas as pessoas para quem e com quem a Fraterna trabalha deram a razão de ser deste projeto. E afinal o que foi feito ao longo destes 25 anos? Ao longo dos seus 25 anos de atividade, a Fraterna tem tido, de forma transversal, como um dos seus eixos de atuação, o desenvolvimento de estratégias integradas para a inserção social de pessoas vulneráveis com trajetórias de exclusão social, sempre com o objetivo de garantir a valorização de toda a vida humana.

Comemoração dos 25 anos da Fraterna

No ano seguinte à sua constituição, foi iniciado o processo de requalificação do edifício sede, mas, entretanto, a valência de Serviço de Apoio Domiciliário e o Banco Social desenvolveram estas valências e funções desempenhadas a partir das instalações da Câmara Municipal de Guimarães. Em 2004, já nas instalações da Sede, a Fraterna, sempre em crescendo, focou a sua de intervenção, num conjunto de serviços que vão da infância, aos idosos e às comunidades mais desfavorecidas do concelho, com a dinamização de um Banco Social e Alimentar, Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social Integrado. Dos Passeios Sénior e o Convívio de Reis em parceira com a Câmara Municipal de Guimarães, até ao desenvolvimento de vários projetos de intervenção social e comunitária, com destaque para os projetos

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implementados nos Bairros Sociais da Atouguia e Gondar, entre outros: -

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Entidade Promotora e Executora do Projeto Espaços de Vida, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, desenvolvida no âmbito do Programa Ser Criança; Entidade Promotora do Projeto Bússola, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 2ª Geração; Entidade Parceira do Projeto “DESPERTAR”, promovido pela Câmara Municipal de Guimarães, e financiado pelo PROGRIDE – Medida 1; Colaboração na organização do dia Internacional da Luta Contra a Droga, numa ação dirigida à população infantojuvenil do concelho, promovida pela Autarquia que contou com a participação ativa de diversas Instituições da Cidade; Entidade promotora do Projeto CSI, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 3ª Geração; Apoio na organização do Projeto GIRO, na maior iniciativa de voluntariado empresarial implementada a nível nacional promovida pela GRACE – Grupo de Apoio à Cidadania Empresarial; Coorganização da comemoração do Dia Mundial do Coração, numa iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Guimarães que contou com a participação ativa de diversas Instituições da Cidade, apoiadas pela Fundação Portuguesa de Cardiologia e o Instituto do Desporto de Portugal; Promoção durante cinco dias da iniciativa “Escolhas Portas Abertas”, onde se deu a conhecer à comunidade e às Entidades de Responsabilidade Social do Concelho, a intervenção perpetuada pelo Projecto C.S.I. – Crescer Solidário e Integrado, financiado pelo Programa Escolhas, nas áreas da dança, música e educação; Abertura do Gabinete de Atendimento e Acompanhamento Social, no âmbito do protocolo com o Instituto da Segurança Social para a gestão de processos do Rendimento Social de Inserção; Organização da Feira de Mostras Educativas e Formativas “Orienta-te”, promovida pela Rede Social de Guimarães; Sede da Fraterna – Creche - Créditos: Paulo Pacheco (CMG) Integração do Projecto SIQ - Sistemas de Informação com Qualidade, desenvolvido no âmbito do Programa Operacional Potencial Humano, promovido pela Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal;

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Entidade promotora do Gabinete de Inserção Profissional, em parceria com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, sedeado na Urbanização da Atouguia; Entidade promotora do Projeto CSI 4.ª geração, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 4.ª Geração; Entidade Promotora do Projeto “Estudo Multidisciplinar Centro Histórico de Guimarães”, operação da Parceria para a Regeneração Urbana - Centro Histórico de Guimarães; Entidade Promotora do Projeto Couros - Campurbis: Envolvimento da População Local, operação imaterial inscrita na “Parceria para a Regeneração Urbana de Couros - Projeto CampUrbis”, Políticas de Cidade, Polis XXI, promovida pela Câmara Municipal de Guimarães.- Entidade Coordenadora e Executora do Projeto Arca Social, no Concelho de Guimarães, em parceria com o Sol do Ave e a Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais, no âmbito do Programa Contratos Locais de Desenvolvimento Social 2.ª Geração; Participação na primeira Feira Afonsina, promovida pela Câmara Municipal de Guimarães; Entidade Promotora do Projeto “Estudo Multidisciplinar Centro Histórico de Guimarães”, promovido pela Fraterna, operação da Parceria para a Regeneração Urbana - Centro Histórico de Guimarães; Entidade Promotora do Projeto Couros - Campurbis: Envolvimento da População Local, operação imaterial inscrita na “Parceria para a Regeneração Urbana de Couros - Projeto CampUrbis”, Políticas de Cidade, Polis XXI, promovida pela Câmara Municipal de Guimarães; Lançamento do livro sobre o estudo realizado durante 2011 e 2012, sobre o Centro Histórico de Guimarães, com o título “Paisagem com Cidade e Maçãs Vermelhas. Estudo Multidisciplinar Centro Histórico de Guimarães”, em colaboração com a empresa Setepés; Lançamento do livro “Uma experiência singular - Couros. CampUrbis. Envolvimento da População Local”, em colaboração com a empresa Setepés; Participação na Feira Afonsina, promovida pela Câmara Municipal de Guimarães, assumindo a responsabilidade pela dinamização de todas as atividades do Largo dos Duques; Entidade promotora do Projeto CSI 5.ª Geração, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 5.ª Geração; Entidade Executora dos Eixos Capacitação da Comunidade e das Instituições, do Projeto Guimarães Inclusivo, no Concelho de Guimarães, em parceria com o Sol do Ave e a Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais, no âmbito do Programa Contratos Locais de Desenvolvimento Social – 3.ª Geração; Entidade promotora do Projeto Plano A E6G, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 6.ª Geração; Promotor local do Projeto RISEWISE (Women with disabilities In Social Engagement), financiado pela Comissão Europeia no âmbito do Programa Horizon 2020, em parceria com a Universidade do Minho; Entidade mediadora do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas;

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Entidade Coordenadora e executora do Projeto Genrem - Gender Remembrance, cofinanciado pelo Programa Europa para os cidadãos da Comissão Europeia; Entidade Coordenadora e Executora do Projeto “Estação Guimarães Norte”, no Concelho de Guimarães, em parceria com a Associação para o desenvolvimento das Comunidades Locais, no âmbito do Programa Operacional Inclusão Social e Emprego – 4.ª Geração; Entidade promotora do Projeto Porta 7 E7G, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 7.ª Geração; Promotora local do Projeto "NOW - Connecting the Dots", financiado pela Comissão Europeia, no âmbito do Pograma ERASMUS+2020; Entidade executora do Projeto “Alquimia”, no Concelho de Guimarães, coordenado pela Câmara Municipal de Guimarães, em parceria com a Fraterna e a Sol do Ave, enquadrado no Programa Operacional Regional do Norte 2014-2020; Entidade promotora do Projeto Porta 7 E8G, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 8.ª Geração; Entidade promotora do Projeto “Palácio da Imaginação”, no Bairro de Habitação Social de Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Bairros Saudáveis; Entidade parceira do Projeto Worth, projeto que pretendeu valorizar e reforçar o valor das mulheres que estiveram na vanguarda de várias formas de resistência durante o século XX na Europa, reforçando a transição para o regime democrático; Entidade promotora do Projeto Porta 7 E9G, nos Bairros de Habitação Social da Atouguia e Gondar, em Guimarães, no âmbito do Programa Escolhas 9.ª Geração; Conclusão do Projeto “Estação Guimarães Norte” no âmbito do Programa Operacional Inclusão Social e Emprego – 4.ª Geração; Entidade Coordenadora e Executora do Projeto “Estação Emprego II”, no Concelho de Guimarães, no âmbito do Programa Operacional Inclusão Social e Emprego – 5.ª Geração.

A Fraterna tem, como compromisso futuro, a continuidade da dinamização das respostas sociais e projetos; a reflexão em novas respostas adequadas às problemáticas atuais; a aposta na qualidade dos serviços de apoio social; o investimento contínuo da formação dos profissionais, entre tantos outros desafios. Não esquecendo a sustentabilidade financeira e ambiental, alinhada com o desígnio do Município e o Plano Estratégico para Capital Verde Europeia 2026. Com toda a certeza que as novas gerações continuarão a elevar a sua trajetória, dignificando os seus fundadores, mas sempre com o olhar no horizonte, na inovação e conhecimento, para o cumprimento de mais 25 anos. 278


20 anos de um realismo intenso e sonhador - CCVF Rui Torrinha115

Encontrar um discurso para a materialização de uma história de 20 anos que, arrisco, começou muito antes do que os números a possam assinalar, parece afigurar-se um exercício de impossibilidade. Contudo, essa ideia de impossibilidade parece ser o que mais tem agitado, no bom sentido, os espíritos criativos, ancestrais e atuais, deste lugar único chamado Guimarães. Talvez por isso a consumação de um projeto tão grandioso como o Centro Cultural Vila Flor - imaginemos os milhares e milhares de pessoas positivamente afetadas por ele na última vintena de anos - possa hoje parecer-nos como um feito normal, numa cidade que nunca se rende, nem mesmo às suas contradições. Mesmo dentro deste quadro de superação permanente em que parece formar-se a vitalidade da comunidade vimaranense, será importante demonstrarmos reconhecimento e valorização na celebração de tal marco, para que nunca possamos esquecer quem foi capaz de arquitetar tal ideal coletivo e transformador para todos nós. Porque sem ele não seríamos a mesmo comunidade que hoje se vira ao mundo e com ele dialoga, contribuindo de forma ativa para a construção de uma nova sociedade mais justa, diversa e interligada pelas suas diferenças. Centro Cultural Vila Flor ajudou a colocar Guimarães na linha da frente da arte contemporânea e amplificou uma ideia de relação com a criação,

Centro Cultural Vila Flor, imagem da CMG

115 Diretor Artístico do Centro Cultural Vila Flor e Artes Performativas

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que a converte numa das mais importantes cidades culturais do país, com projeção internacional. Tem sido possível atualizar a missão deste potente projeto, através de um olhar atento e investigador das alterações das paisagens artística, sociológica e económica. Um estudo que nos tem informado sobre os ajustes de pensamento e de caminho futuro que norteiam as grandes ambições instaladas desde o primeiro momento nesta instituição. É um feito notável dos que antes de nós assim o sentiram, dos que lhe sucederam na concretização das várias etapas e de todos nós que herdamos esta responsabilidade de pensar e agir, ainda que de forma cada vez mais rápida, nos modos de expressão que mantêm a tradição e o van-

Grande Auditório Francisca Abreu, no CCVF, imagem da CMG

guardismo vivos, enquanto eixo de especulação do futuro. Será relevante constatar que o Centro Cultural Vila Flor é um importante ponto de encontro e um lugar para a realização de um imaginário vasto, profundo e empoderador de convicções comunitárias diversas. Um corredor de circulação de diferentes visões originais do mundo que, como sabemos, se transforma a todo o momento. Assim, a discursividade sobre este apaixonante projeto materializado por uma comunidade cada vez mais empolgada em entender o mundo e o modo como ele se constrói, é apenas um pretexto para lembrar que, mais importante do que aquilo que está feito, é o que vem a caminho e a forma como nos preparamos para estar à altura desse futuro arquitetado a partir da sensação de impossibilidade que lhe abriu caminho. O Centro Cultural Vila Flor é hoje uma constelação de saberes, alicerçada num complexo, orgânico e ambicioso ecossistema de relações que promove o questionamento e impacta o processo de cidadania, conferindo-lhe ferramentas de análise crítica e de avanço civilizacional, que o mesmo é dizer: criar mundo a partir de Guimarães.

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14 anos do GUIDANCE Depois de a OFICINA116 ter proposto na edição anterior, enquanto celebração necessária, a condição de “humanidade” na dança, o GUIdance 2025 apresentou um programa que assentou, conceptualmente, no neologismo ‘outralidade’, uma ideia básica, mas simultaneamente complexa de que já não chega reconhecer o lugar da diferença, sendo preciso incorporá-la na forma como nos descobrimos a nós mesmos, renovando os significados a partir de um interior que vem da "parte outra". Uma ‘outralidade’ constituída por toda a humanidade que nos caracteriza na sua mais imponente diversidade, mas também pelo cosmos (desconhecido) e por todas as forças vivas e inertes alinhadas pela força misteriosa da vida. Foram duas semanas de espetáculos, com várias estreias nacionais e absolutas, conversas, masterclasses, debates, sessões de cinema, visitas às escolas, ensaios abertos, performances no museu e encontros com a comunidade. Um programa diverso e abrangente, onde couberam grandes criadores, conceituados e emergentes, como Rocío Molina, María del Mar Suárez La Chachi, Vera Mantero & Susana Santos Silva, Silvia Gribaudi, Marta Cerqueira, Clara Andermatt, Habib Ben Tanfous, Benjamin Kahn, e Israel Galván”. Uma forma merecida de celebrar 14 anos do Festival Internacional de Dança Contemporânea. (Em Guimarães, 6/02/2025). “Dias no Pátio” é um programa diversificado e plural que contempla a realização de uma série de eventos mensais na CDMG, inspirados e, sempre que possível, levados a cabo num dos seus espaços mais belos: o Pátio.” 116 “Nascida em 1989, A Oficina gere e programa o Centro Internacional das Artes José de Guimarães, o Centro Cultural Vila Flor com o seu

Palácio do século XVIII, a Casa da Memória de Guimarães, o Centro de Criação de Candoso e a Black Box na Fábrica ASA, o Teatro Oficina e um serviço de Educação e Mediação Cultural. É responsável pela organização dos festivais GUIdance, Westway Lab, Festivais Gil Vicente, Manta e Guimarães Jazz. Na cidade faz a Feira de Artesanato e as Festas da Cidade e Gualterianas. A salvaguarda do Património e Artesanato manifesta-se ainda na Loja Oficina, e, desde há 30 anos, no seu nome social: Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães. Este conjunto de equipamentos e projetos de programação e mediação cultural permite pensar A Oficina, mais do que um projeto de gestão e programação de eventos, como um verdadeiro instrumento de desenvolvimento cultural do território e, pela sua capacidade de intervenção, um parceiro das mais múltiplas dinâmicas artísticas e culturais locais, regionais, nacionais e internacionais, o círculo de uma nova centralidade cultural. Este novo ciclo assume-se assim como um momento de esclarecimento e aprofundamento dessa visão integrada e modificadora do projeto”. (In, A Oficina)

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CART – Centro de Atividades Recreativas Taipense: Nos 50 anos da sua fundação António Lima Pereira, presidente da direção

A data de 22 de dezembro de 1974 é tida como a data de fundação do Centro de Atividades Recreativas Taipense (CART). Há relatos que atestam a realização da primeira reunião nessa data. Esses primeiros encontros realizaram-se na rua Trajano Augusto, no rés-do-chão da casa de um dos elementos. A origem da coletividade terá estado, num primeiro momento, na criação de uma equipa de futebol para participar num torneio, a que chamaram “Chafaricas”, nome que não terá reunido consenso tendo-se formado, depois, uma outra equipa com o nome de “CAJAS”. O nascimento do CART deu-se ainda em período quente do pós-25 de Abril de 1974, altura em que começaram a surgir maiores apoios à prática de atividades físicas e desportivas através de Direção Geral do Desporto (DGD) e do Fundo de Apoio às Organizações Juvenis (FAOJ). Abel Marques (Belita) é o sócio número um do CART e um dos seus fundadores. Valeu a pena chamarse “Abel”, dado que o grupo de fundadores foi da opinião de que se ordenassem os primeiros associados, por ordem alfabética. Apesar de toda a turbulência da época, naqueles anos, há a registar a formação de equipas de atletismo, voleibol e de futebol, com que participaram em diversas provas, na região. Durante o ano de 1975 o grupo de teatro tentou alguns ensaios. Com a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários organizaram campanhas de angariação de fundos e um sarau com o Orfeão Universitário do Porto, em 12 de julho de 1975. Dinamizaram com as escolas diversas modalidades desportivas como o hóquei em patins, o andebol, o atletismo e o badminton. Em 1977 organizou-se a primeira perícia automóvel em homenagem a Rosas Guimarães. A vila das Taipas foi desde muito cedo uma terra de forte tradição no hóquei em patins, pelo Turismo Hóquei Clube, criado em 1951, pela Junta de Turismo da Estância termal das Taipas. Atendendo aos elevados custos que a modalidade acarretava na aquisição do material necessário à sua prática, a opção do CART foi começar pela 282


formação de uma equipa de hóquei em campo contando, para isso, com o apoio da Direção Geral do Desporto. Por altura do S. Pedro de 1985, o CART organizava a sua primeira prova de atletismo. Entre as suas atividades, o CART também chegou a ter uma secção de campismo e caravanismo. Hóquei em patins, voleibol e patinagem artística são outras das modalidades que se praticam no CART. O CART funcionou até 1979 de forma informal. Só nesse ano é que é realizada a escritura pública. Das assinaturas que lá constam, umas são, efetivamente, de sócios fundadores, outras de elementos que eram necessários na altura para preencher os órgãos sociais. Apesar de todas as diferenças existentes entre as suas origens, no tempo do CAJAS, e a atualidade, não restarão dúvidas de que o CART se transformou numa coletividade consolidada, continuando a desempenhar o seu papel, sobretudo social, junto da comunidade taipense. Tem sede própria e um pavilhão desportivo que já não serve as exigências atuais. Alguns registos da sua longa história: 1993 – Voleibol: Primeira atleta internacional e subida à 1ª divisão nacional Guilhermina Rodrigues, atleta da formação sénior de voleibol do CART, foi convocada para um estágio da seleção nacional feminina que viria a disputar, no Pavilhão Rosa Mota, no Porto, a poul de apuramento para o campeonato do mundo da modalidade. Na mesma altura, a equipa sénior de voleibol feminina do CART era repescada para disputar a 1ª divisão nacional da modalidade. Após conquistar o terceiro posto na liguilha de acesso à divisão maior do voleibol nacional, a equipa do CART acabou por ser repescada, beneficiando da desistência da prova da formação do Volei Club de S. Miguel (Açores). O CART partiu para esta nova e inédita aventura com um orçamento de 2.500 contos (1.250,00 euros). Foi também em 1993 que o CART participou, pela primeira vez, numa prova de hóquei em patins com uma equipa do escalão sénior. 2000 – Estatuto de Utilidade Pública O Primeiro Ministro, António Guterres, conferia ao CART o Estatuto de Utilidade Púbica, num diploma 283


assinado a 11 de julho do ano 2000 (despacho publicado no Diário da República, II série, nº 157, de 10 de julho de 2000). Um reconhecimento público, no decurso do mandato em que Carlos Marques presidia à Direção da coletividade, pelos serviços prestados à comunidade e que foi apoiado e confirmado por diversas entidades desde a Junta de Freguesia de Caldelas, Câmara Municipal Guimarães e Governo Civil de Braga, entre outras. 2005 – O pavilhão A 12 de fevereiro de 2005 foi inaugurado o pavilhão do CART que culminou um sonho que se arrastou durante 15 anos num percurso nem sempre fácil de percorrer. Uma casa própria que abria ao CART novos horizontes na prática da atividade desportiva. O projeto foi financiado em grande parte pela Câmara Municipal de Guimarães (500 mil euros), num custo total da obra a rondar os 750 mil euros. Entre muitas personalidades da sociedade civil e desportiva, estiveram presentes o então presidente de Câmara Municipal de Guimarães, António Magalhães, o presidente da Junta de Freguesia de Caldelas, Remísio Castro, o presidente da Direção do CART, Avelino Marques e o responsável pela empresa construtora da obra, José Salgado Leite. 2006 – Primeira subida à 2.ª divisão nacional, na modalidade de hóquei em patins Primeira subida à 2.ª divisão nacional A equipa sénior de hóquei em patins conseguia um feito inédito a 25 de Abril de 2006 ao assegurar a subida à 2ª divisão nacional da modalidade, num ano de 284


regresso à competição com a equipa sénior e com oito atletas da formação do clube nas suas fileiras. Sem que nada tivesse sido planeado nesse sentido, a equipa foi dando resposta positiva de jogo para jogo, conseguindo assumir uma posição na tabela classificativa que resultou na subida de divisão. A confirmação deste registo aconteceu frente à Juventude Pacense, em jogo que havia ficado em atraso, referente à 7ª jornada do campeonato. O CART venceu essa partida, no seu pavilhão, por 7-0. Na altura era treinador José Maia e o capitão de equipa era Eduardo Marques. 2013 – Regresso à 2.ª divisão Com o pavilhão em ambiente de festa, com a participação massiva de aficionados do hóquei em patins, o CART, orientado por Orlando Ribeiro, batia o Fão por 4-2 e garantia o regresso, de novo, à 2ª divisão nacional da modalidade. A partida realizou-se a 19 de janeiro de 2013, com arbitragem de Cláudia Rego e os golos taipenses foram apontados por Alberto Martinho, Luís Martins (2) e Tiago Barbosa. Ricardo Mota, presidente da Direção naquela altura, considerava a “missão cumprida” ao mesmo tempo que Alberto Martinho, autor do primeiro golo da partida, afirmava sentir uma “alegria enorme” pelo resultado alcançado. 2014 – A estreia da Academia de Patinagem

O Pavilhão Multiusos de Fafe recebeu, a 22 de novembro de 2014, a estreia absoluta da secção de Patinagem do CART, em provas oficiais. Os 16 atletas taipenses participaram no XIV Festival de Patinagem de Grupo, promovido pelo Grupo 285


Nun’Álvares, que celebrava, à altura, o seu 82º aniversário. A treinadora Joana Magalhães preparou ao detalhe o esquema de grupo a apresentar, num evento que teve como tema central “O Circo”. 2016 – O regresso do voleibol sénior feminino Dez anos após ter tido uma equipa sénior feminina a disputar um campeonato oficial de voleibol, a Direção do CART, presidida por António Lima Pereira, volta a inscrever-se neste escalão em provas oficiais. Uma época preparada para participar na 3ª divisão nacional e, mais tarde, na segunda fase do Torneio da Associação de Voleibol do Porto. O escolhido para a liderança técnica deste ano zero foi Pedro Pereira que contou com o auxílio de Nelson Vasconcelos e Alice Matos. 2019 – Vice-campeão nacional voleibol A formação sénior de voleibol feminina do CART sagrou-se vice-campeã nacional da 3ª divisão. O título nacional foi arrebatado pela formação do SL Benfica. Uma final a quatro, disputada no pavilhão do CART, entre 23 e 26 de maio, consagrou a equipa taipense no segundo posto tendo apenas perdido com a formação lisboeta, por 3-1. Juventude Pacence e as madeirenses da ACD S. João foram as outras equipas participantes.

2024 CART com dois títulos distritais e quinto lugar por clubes Nas instalações da Escola Desportiva de Viana, a 20 e 21 de abril de 2024, o CART arrecadava duas medalhas de ouro individuais e o quinto lugar por clubes no campeonato de patinagem livre da Associação de Patinagem do Minho, onde participou com sete patinadores. Hugo Vieira venceu a prova de juniores masculinos e Alexandre Mendes sagrou-se campeão distrital em juvenis masculinos. 286


2024 - Iniciadas do CART conseguem a dobradinha: juntam a Taça ao campeonato Depois de conquistado o campeonato distrital, as iniciadas do CART venceram a Taça da Associação de Voleibol de Braga batendo, na final, a formação do SC Braga por três sets a zero, com os parciais de 25-15, 25-12 e 25-6. A partida realizou-se a 26 de maio, em Fafe, no Pavilhão do Colégio de Fornelos, com as jovens taipenses, orientadas por Paulo Pereira, a terminar a época com a dobradinha, ao conquistarem o campeonato distrital e a taça da Associação de Voleibol de Braga, no escalão de iniciadas. 2024 Uma história de superação O dia 6 de julho de 2024 ficará gravado a letras de ouro na história do CART por ter proporcionado a Margarida, uma menina que nasceu prematura, tendo sido diagnosticada com Leucomalácia Periventricular, uma forma de paralisia cerebral, a estreia numa prova de patinagem artística. Aconteceu no Torneio de Verão da AP Minho, num momento emocionante que resultou numa demonstração de força de vontade e de superação dos obstáculos inerentes à condição da Margarida.

7 outubro 2024 - Alexandre Mendes sagra-se Campeão da Taça da Europa Zurique, recebeu, no início do mês de outubro de 2024, o Campeonato da Europa de Dança, Patinagem Livre, Pares de Dança e Pares Artísticos. No dia 7, o atleta do CART, Alexandre Mendes, viria a sagrar-se campeão da europa na disciplina de Patinagem Livre. O jovem atleta taipense fez parte da comitiva portuguesa constituída por um total de 85 atletas, em representação de 29 clubes, que integraram a Federação Portuguesa de Patinagem. 287


Modalidades: Patinagem Artística Uma época de renovação da escola de patinagem artística, disciplina exigente, desafiadora e emocionante para as/os atletas, onde conseguimos vários títulos nunca conseguidos em termos regionais, nacionais e internacionais!

Karaté A prática do karaté promove o desafio físico: a alternância entre movimentos rápidos e lentos com explosividade, força e precisão. O domínio da técnica é difícil e é através dele que o praticante cresce no desafio interior, onde a autoestima, amor próprio e controlo mental são nutridos. Wado-Ryu, estilo de karaté que praticamos no CART, significa "Caminho da Paz e da Harmonia". Era convicção do seu criador, Hironori Otsuka, que a arte marcial é um espaço de crescimento. Assim, o karaté, através do seu código de honra, não forma apenas atletas, forma Homens capazes de uma atuação social positiva, com respeito por si, por quem os rodeia e pelo espaço onde se encontram. Voleibol A modalidade de voleibol feminino foi reativada, depois de um interregno, no ano de 2008, com a ajuda de ex-atletas, a Prof. Paula, a Prof. Sandra e a Prof. Elisabete. Desde este ano que a modalidade tem vindo a crescer e gradualmente foi conquistando o seu espaço desportivo no que a equipas de formação diz respeito, com vários títulos regionais e presenças nas finais dos campeonatos nacionais. Esta época, 2024-2025, contamos com os escalões de minis, infantis, cadetes, juvenis e seniores femininas. 288


Equipa de voleibol infantil

Equipa de voleibol juvenil

Equipa de voleibol mins

Equipa de voleibol cadetes

Hóquei em Patins A modalidade de hóquei em patins é aquela que mais identifica o CART, pelo simples facto da coletividade ser o único clube no concelho de Guimarães onde a mesma se pratica e uma modalidade que já viveu melhores dias no que a número de atletas diz respeito. Durante a “época” covid, muitos atletas novos deixaram de praticar a modalidade o que levou a um revés forte nas nossas captações. Estamos a trabalhar para inverter a situação e já contamos com alguns atletas bem novi-

Equipa de hóquei formação

nhos para dar continuidade a esta bonita modalidade. Na presente época, 2024-2025, contamos apenas com a equipa sénior em competição, composta maioritariamente por atletas do CART, e estamos a preparar uma equipa de escolares para o regresso às competições associativas o mais breve possível.

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ARCOV – Uma história escrita a muitas mãos, ao longo de meio século: 50 Anos de Paixão, Comunidade e Transformação Daniel Pinto, Presidente da Direção117

Há exatamente cinquenta anos, uma semente foi plantada em solo fértil. O que começou como a união de dois grupos distintos transformou-se numa força cultural, desportiva e social que transcendeu o tempo e as expectativas. A ARCOV não é apenas uma associação – é um testemunho vivo do poder de uma comunidade unida por objetivos comuns e valores partilhados. Ao celebrarmos este marco histórico, não comemoramos simplesmente a longevidade de uma instituição. Celebramos cinco décadas de resistência, inovação, superação e, acima de tudo, de profunda ligação com as pessoas que dão sentido a esta casa. Cada pedra no caminho, cada vitória alcançada, cada desafio ultrapassado tem rosto e nome – são as histórias entrelaçadas de todos aqueles que contribuíram para este legado coletivo. A 8 de janeiro de 1975, nasceu oficialmente a ARCOV – Associação Recreativa, Cultural e Desportiva de Covas – da fusão visionária entre o Grupo Desportivo de Covas e a Comissão de Festas de São João de Covas. Não foi uma simples junção de estruturas: foi o encontro entre desporto, festa popular e vontade coletiva de criar algo maior. Em 1978, são publicados os estatutos da associação, oficializando, assim, o seu compromisso institucional. A década de 80, com a entrada na Associação de Futebol de Braga, marcou o início de uma era desportiva mais ambiciosa, assim como a organização do I Encontro de Coros da Cidade de Guimarães, demonstrando o seu interesse crescente pelas expressões culturais. 117 Daniel Pinto, licenciado em Gestão de Empresas, é Presidente da Direção e assumiu pela primeira vez esta função em 2002, tendo desem-

penhado diversas funções ao longo dos últimos 23 anos.

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No futebol, a subida à 2.ª Divisão Distrital na época 1982/1983 confirmou a sua competitividade desportiva. As festas de São João de Covas tornaram-se rapidamente num dos eventos mais emblemáticos da região, catapultando a ARCOV para o centro da vida cultural vimaranense. Com o tempo, a ARCOV afirmou-se como mais do que um clube ou promotor de eventos: era já um pilar comunitário. Em 15 de abril de 1988, adquiriu o edifício, que passaria a ser a sua sede social até março de 2007. O investimento físico simbolizou a sua consolidação estrutural. Em janeiro de 1990, organizou o 1.º aniversário do Instituto Português da Juventude e, em maio do mesmo ano, foi distinguida como Instituição de Utilidade Pública – um marco que atestava a relevância do seu trabalho para além dos limites da freguesia. A década de 1990 foi fértil em novas iniciativas: a filiação na Associação de Futebol Salão do Minho (1991), a criação do Centro de Apoio à Juventude da ARCOV (inaugurado a 4 de março de 1991), e a chegada à final da Taça de Portugal de Futebol de Salão (1997), culminando com a conquista do Troféu Regional Júnior, na época 1998/1999. As Bodas de Prata, comemoradas a 8 de janeiro de 2000, marcaram 25 anos de uma caminhada onde cultura, recreio e desporto seguiam de mãos dadas. Em 2001, uma crise diretiva ameaçou o percurso da associação, mas foi também o ponto de viragem: uma nova geração, consciente da importância do legado recebido, assumiu a liderança e iniciou um ciclo de renovação. Com uma nova visão, a partir de 2002, iniciou-se a revitalização da ARCOV. A associação investiu em equipamentos, dinamizou novas modalidades e apostou na modernização dos espaços físicos e da sua imagem pública. A fusão entre juventude e experiência tornou-se a fórmula do sucesso. Um dos momentos mais marcantes deste período aconteceu em março de 2007, com a inauguração da sua nova sede social. Este foi um salto gigante em termos de qualidade e conforto das instalações, 291


proporcionando melhores condições aos seus associados e visitantes. Mais do que uma obra física, tratou-se de uma afirmação inequívoca do valor da associação, que passou a dispor de um espaço moderno, acolhedor e funcional, tornando-se uma referência a nível associativo local e regional. As comemorações dos 40 anos, em 2015, foram um momento de balanço e projeção. A ARCOV já não era apenas uma referência local: participava em iniciativas regionais, promovia atividades solidárias, eventos desportivos e culturais para todas as idades, e era reconhecida como uma instituição com capacidade de mobilização ímpar. Ao longo desta última década, o espírito associativo foi reforçado com eventos marcantes, tais como: Comemoração do Aniversário, Festa de São João, Convívio das Velhas-Guardas, Magusto de São Martinho, Festas Temáticas, Torneios de Bilhar, Sueca, Chincalhão e projetos sociais que aproximaram ainda mais a ARCOV da comunidade, sendo a celebração do 50.º aniversário, em 2025, o culminar desta trajetória extraordinária. Hoje, a ARCOV permanece como testemunho vivo do poder da união comunitária e da força do espírito associativo. O que começou como a fusão de dois grupos tornou-se uma força transformadora que moldou gerações inteiras, em Covas. O verdadeiro património da nossa associação não está apenas nos edifícios ou nas taças conquistadas. Está nas vidas que tocámos, nas famílias que aproximámos, nos talentos que revelámos e na comunidade que fortalecemos ao longo destas cinco décadas. São histórias de pessoas reais, cujas vidas se entrelaçaram com a ARCOV em momentos de celebração, superação e crescimento. A jornada continua. Os desafios do presente e futuro exigem de nós a mesma resiliência e capacidade de adaptação que sempre nos caracterizaram. O futuro exige uma ARCOV ainda mais conectada, atenta às mudanças sociais, tecnológicas e culturais. Pretendemos expandir a nossa presença, criar novas formas de participação, diversificar a oferta de atividades e aprofundar parcerias estratégicas que nos permitam continuar a crescer com sustentabilidade e propósito. A nossa missão continua a ser proporcionar momentos de encontro, aprendizagem e celebração, onde tradição e inovação coexistem, e onde cada pessoa sente que pertence a algo maior. Como atual Presidente da Direção, tenho o privilégio e a responsabilidade de liderar esta associação num momento tão simbólico. Este cargo representa mais do que uma função: é um compromisso com um 292


legado coletivo, feito de sonhos realizados e de sonhos por realizar. A todos os que contribuíram para esta jornada – fundadores, dirigentes, associados, atletas, artistas, voluntários, parceiros e entidades oficiais – o mais profundo agradecimento. Obrigado à comunidade de Covas por nunca nos deixar sozinhos. Vocês foram, são e continuarão a ser a nossa maior força. A ARCOV é, e continuará a ser, uma casa feita de pessoas e para pessoas. Que os próximos cinquenta anos sejam tão inspiradores como os primeiros. Como sempre dizemos: a ARCOV somos todos nós, mas será sempre aquilo que quisermos que seja – ontem, hoje e sempre.

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IPCA118 – 30 anos a servir a região e a transformar o país Maria José Fernandes, Presidente do IPCA

Quando, há três décadas, nasceu o Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), traçámos uma missão clara: ser uma instituição de ensino superior de referência, profundamente enraizada no território, com uma aposta firme na inovação, na tecnologia e no impacto social. Hoje, revejo com orgulho o caminho que percorremos e a forma como temos contribuído para o desenvolvimento da região e do país, através da formação de profissionais qualificados, preparados para liderar o presente e moldar o futuro. Com cerca de 7.700 estudantes e uma oferta formativa que se estende por várias áreas — da gestão à tecnologia, do design ao turismo, da hotelaria ao desporto — o IPCA tem procurado sempre estar onde faz sentido estar: junto das pessoas, das empresas, das comunidades, nos Campus do IPCA - Localizado na zona oeste da cidade de Barcelos, mais precisamente na União de Freguesias de Barcelos, Vila Boa e Vila Frescaínha (São Martinho). Desde a inauguração do primeiro edifício em setembro de 2008, o património edificado do Campus

municípios da região. A nossa sede está em Barcelos, mas a nossa presença alarga-se por todo o perí-

metro urbano do Minho. No Vale do Ave, temos vindo a consolidar uma presença particularmente expressiva, com duas escolas superiores sediadas em Guimarães: a Escola Superior de Desporto, Bem-Estar e Sistemas Biomédicos, já em funcionamento no Campus de Couros, e a Escola Superior de Hotelaria e Turismo. A ESHT, que incluirá um Hotel Escola fica localizada na Quinta do Costeado, zona central da cidade de

118

Instituto Politécnico do Cávado e do Ave

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Guimarães, entrando em funcionamento pleno no ano letivo 25/26, num espaço emblemático cedido pelo município. A ESHT está orientada para o ensino superior e a investigação aplicada nas áreas da hotelaria, turismo e inovação alimentar, atenta à evolução das necessidades de formação num setor em expansão, oferecendo Cursos de 1.º e 2.º ciclo. A ESDBESB pretende afirmar-se como uma referência no cruzamento entre a atividade física, a saúde e a inovação. Esta aposta reforça não só a nossa oferta formativa, mas também o nosso compromisso com a valorização do território, atra-

Está para breve a abertura da Escola-Hotel, futura sede da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do IPCA, na Quinta do Costeado, em Guimarães, infraestrutura essa que se diferencia pelas soluções técnicas e construtivas adotadas assentes na economia circular, sustentabilidade e ambiente em sentido lato.

vés de áreas estratégicas para o bem-estar e a qualidade de vida. Foi já adquirido o terreno para a instalação definitiva da escola. A estas escolas somam-se ainda os Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP), já a funcionar no polo do IPCA no Ave Park, abrangendo várias áreas da formação tecnológica e profissional. Gostaria de deixar uma palavra de reconhecimento ao Município de Guima-

O IPCA abriu no ano letivo 2015/2016 um novo polo em Guimarães, em instalações cedidas pela Câmara de Guimarães, sitas no Avepark, nas Caldas das Taipas.

rães, que tem sido um parceiro incansável nesta caminhada. O apoio dos municípios da região tem sido determinante para que o IPCA possa crescer de forma sustentável e alinhada com os desafios locais e globais. No IPCA, acreditamos no ensino e investigação aplicados, próximos da realidade e das necessidades do mercado de trabalho. Os nossos estudantes aprendem em contexto real, com acesso a laboratórios de 295


robótica, inteligência artificial, eletrónica, design, jogos digitais, simulação empresarial e jurídica, entre muitos outros recursos que aproximam a formação da prática. A par da qualificação avançada, temos vindo a fortalecer a nossa ligação ao tecido económico, promovendo estágios, intercâmbios e projetos em parceria com empresas e entidades públicas. Somos também uma instituição aberta ao mundo, integrando redes internacionais como a universidade europeia RUN-EU, que proporcionam, aos nossos estudantes, experiências de mobilidade, partilha e crescimento num contexto global. O IPCA não se limita a formar para o emprego: forma para a cidadania. Criámos condições para uma vivência académica

O Polo de Braga está instalado, desde outubro de 2014, na freguesia de São José de S. Lázaro, concelho de Braga. Com a criação da Escola Técnica Superior Profissional, em julho de 2019, o edifício passou a ser a sede desta nova unidade orgânica.

enriquecedora, com salas de estudo abertas 24 horas, bicicletas híbridas, um pomar comunitário e múltiplas iniciativas de responsabilidade social que promovem o bem-estar e o envolvimento ativo da comunidade académica. O futuro está já a acontecer. Com a aprovação da lei que permite aos politécnicos atribuírem o grau de doutor e adotarem a designação de Universidades Politécnicas, o IPCA iniciou uma nova etapa. Através dos nossos centros de investiga-

Instalações do IPCA, em São Cosme, nas antigas instalações da Didáxis – em Vila Nova de Famalicão, com os Cursos Técnicos Superiores Profissionais, nas áreas da Gestão, do Design, da Tecnologia e da Hotelaria e Turismo.

ção, já outorgamos doutoramentos em parceria e preparamo-nos para assumir esse desafio com autonomia e responsabilidade. Ainda este ano ficará concluído o B-CRIC — o novo centro de investigação e inovação em Barcelos — que incluirá também uma residência de estudantes com mais de 130 camas e um grande auditório. Este é mais um passo na concretização da nossa visão: ser uma instituição cada vez mais dinâmica, 296


sustentável, e com impacto real na vida das pessoas. No Politécnico do Cávado e do Ave, continuaremos a trabalhar com determinação, paixão e sentido de missão. Porque acreditamos que o ensino superior deve ser motor de desenvolvimento, de coesão e de esperança. E porque sabemos que o futuro se constrói, hoje, com conhecimento, com visão e com comunidade. Um futuro que será tanto melhor quantos mais jovens e adultos tiverem uma formação de nível superior que atente a todos os domínios: conhecimento e investigação, cultura e cidadania. Uma formação que enaltece e valoriza o saber, o saber fazer e o saber ser! Uma formação que prepara os jovens e adultos para os desafios atuais e futuros para que sejam cidadãos ativos, comprometidos e empenhados num presente e fu-

Em agosto de 2024, foi inaugurado o Laboratório de Inovação e Sustentabilidade Alimentar (LISA) do IPCA, onde passou a funcionar o Polo de Esposende do IPCA.

turo mais prósperos, mais humanista e igual! O ano de 2022 foi ainda marcado pela entrada em funcionamento do Polo do IPCA em Vila Verde, polo esse que funciona nas antigas instalações do IEMinho – Instituto Empresarial do Minho, localizada na rua do Conhecimento n.º 10, sitas na freguesia de Soutelo, Vila Verde, cedidas pelo Município de Vila Verde.

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O sucesso do Andebol português também passa por Guimarães Miguel Laranjeiro, presidente da Federação Portuguesa de Andebol

Há muitos concelhos que têm no andebol uma modalidade de referência, mas Guimarães está certamente no topo dessa lista. Uma tradição que remonta de há muitos anos e que passa por clubes como o Desportivo Francisco de Holanda (agora Xico Andebol), o Vitória Sport Clube, o Fermentões ou o Académico de Guimarães, entre outros. Mas também no próprio distrito de Braga, onde o ABC teve e tem uma história de enorme valor. Milhares de crianças e jovens, ao longo das últimas décadas, praticaram nas escolas e nos clubes esta modalidade. O pavilhão do Inatel, ali junto ao estádio do Vitória, foi para muitos de nós um começo que não esqueceremos. Uma cidade com uma escala humana e de proximidade, em que podíamos ir a pé a qualquer lugar, em que ir para o treino era uma facilidade, uma felicidade e não um problema. Há um outro campo onde as pessoas de Guimarães são muito especiais. A identidade com o seu território (para alguns uma híper-identidade), com as pessoas e as instituições. Uma lógica local, mas com visão, uma defesa intransigente dos “nossos”, mas um saber receber e acolher como poucos. Uma capacidade de trabalho e de esforço que é intrínseco. É aqui que surgem os dirigentes voluntários com uma força e uma vontade que só quem está por perto consegue entender. Compreendo por vezes amigos meus que, não sendo de Guimarães, muitas vezes não entendem esta forma particular de viver e de partilhar momentos – o acompanhamento dos clubes é um deles, mas podíamos colocar a festas das Nicolinas ou as Gualterianas, no rol de momentos que dependem sobretudo dos voluntários. É numa cidade como a nossa, que numa Escola que me diz muito nasce em 2002 a Associação OSMUSIKÉ, no Centro de Formação Francisco de Holanda. Pois é esta força, este desejo de fazer algo pela terra, de desenvolver capacidades e dar empoderamento aos jovens, que certamente reside o objetivo de criar a Associação. Pois é essa força que levou e leva muitos a continuar a trabalhar diariamente pelo desporto e pelo Andebol em Guimarães. Um país é mais rico se tiver diversidade cultural, territorial ou desportiva. É na junção da diferença, das diferenças, que conseguimos construir uma sociedade mais justa e equitativa. Um objetivo que nem sempre é fácil, e que nos dias que correm parecem ainda mais difíceis, mas é exatamente por essa dificuldade e os 298


riscos associados, que devemos todos, com as nossas diferenças, lutar por uma sociedade melhor. Já vamos à Seleção Nacional Masculina, mas antes queira contar um pouco o trajeto dos últimos anos. Em 2016 começamos a definir uma estratégia a que chamamos – “RUMO 2028”, na lógica de uma década, de dois ciclos olímpicos. Envolvemos a comunidade, a começar por pessoas de Guimarães e de áreas diferenciadas, muitas fora do andebol, promovendo um debate interno sobre as prioridades a determinar. Definimos objetivos claros, escolhemos as pessoas certas para aquele momento, demos a nossa confiança e uma autonomia técnica para atingirmos o nosso desiderato. Foi dado tempo para que o trabalho pudesse ser desenvolvido, com responsabilização individual e coletiva, sempre com o objetivo de elevar o grau de exigência e com processos permanentes de avaliação. Desenvolvemos os centros de treinos regionais, em articulação com os selecionadores nacionais e regionais, sempre com grande proximidade aos Clubes, desde a base até

WC25_CRO-DEN-NOR_Portugal vs Chile_SP7_5817_SPS

ao topo. Apostamos nas seleções jovens, primeiro no processo de treino e depois com as participações nas fases finais de europeus e mundiais, e a sua capacitação com jogos internacionais particulares, de modo que cada atleta que chegue à seleção principal teve já largas dezenas de jogos internacionais com as melhores equipas internacionais, nomeadamente as europeias. Não é por acaso que estamos, nos últimos anos, entre os 3 ou 4 primeiros lugares no ranking da EHF das seleções jovens, englobando os masculinos e femininos. Não é por acaso. Promovemos um diálogo permanente, através dos Diretores Técnicos Nacionais, entre os selecionadores nacionais e os treinadores dos clubes. Apostamos na formação de treinadores da base até ao nível de master coach, numa formação de referência a nível europeu. No final destes processos avançamos e promovemos processos de avaliação alargada, sempre com o objetivo de melhorar processos de trabalho e de planeamento, de interligação entre todos os agentes para um melhor modelo final. Os sucessos atingidos pelas seleções nacionais e pelos clubes portugueses têm necessariamente várias razões e é o seu conjunto que permite chegar onde hoje estamos. O trabalho, aliado ao talento de muitos atletas, as pessoas envolvidas com a sua paixão e a organização implementada, tem dado os seus frutos. 299


Os Clubes são fundamentais nesta trajetória. Desde os clubes de base, muitos dos quais só querem participar na formação dos jovens, até aos clubes que competem ao mais alto nível internacional, todos são essenciais neste caminho. Tem havido uma aposta na formação que quero realçar e que resulta essencialmente do trabalho de muitos dirigentes voluntários. Crescer em número de atletas e aumentar a visibilidade do Andebol são objetivos que estão a ser também cumpridos. Os últimos jogos da Seleção A Masculina no Mundial de janeiro, tiveram mais de 2 milhões de espectadores. Temos programas de proximidade com as escolas, com as autarquias e com os clubes locais, para promo-

WC25_CRO-DEN-NOR_Spain vs Portugal_SP7_6575_SPS

ver o Andebol logo nos primeiros anos escolares. É algo que está a crescer, integrando também as atividades no desporto escolar. Finalmente, há uma forma muito portuguesa que tem dado os seus resultados. Mesmo sem os equipamentos desportivos necessários, sem os investimentos e a aposta da sociedade no desporto, é possível fazer o que está a ser feito pela força intrínseca de ser português. Há um orgulho enorme de todos em vestir a camisola, em fazer das fraquezas forças e ultrapassar dificuldades que pareciam inatingíveis. Permitam-me dizer que no final do dia, de todos os dias, o que contam são as pessoas. E essa é a maior riqueza do Andebol em Guimarães e a nível nacional. Guimarães tem uma paixão pela modalidade que leva a que todos os anos centenas de crianças e jovens pratiquem a modalidade. Só assim é possível que vários desses protagonistas estejam hoje na primeira linha da modalidade. Só na Seleção Nacional A masculina está o nosso capitão Rui Silva, atleta de exceção e que fez a sua formação inicial no DFH, ele que lidera de forma irrepreensível a equipa nacional e que leva longe o nome de Guimarães. Ainda hoje me arrepio quando vejo o seu 300

Rui Silva, Capitão da Seleção portuguesa de Andebol A, 2025


golo, nos últimos segundos, que nos levou aos Jogos Olímpicos de Tóquio, a primeira equipa coletiva de pavilhão a representar Portugal nuns JO. Temos o treinador-adjunto Paulo Fidalgo (ex-atleta com formação no DFH), atualmente treinador do Marítimo SAD, com um percurso notável, e que cumpre uma função determinante na nossa Seleção, conhecendo todos os jogadores como poucos e controlando os momentos mais tensos do jogo. A função médica é essencial e o Mário Soares (exatleta do FCP e ABC), revela-se um dos melhores a nível europeu, conseguindo garantir a confiança de todos os atletas e equipa técnica, que é essencial, sobretudo nas fases finais dos Europeus e Mundiais. Quero aqui realçar o trabalho do Augusto Silva,

Treinador adjunto, Paulo Fidalgo WC25_CRO-DEN-NOR_Sweden vs Portugal_SP7_1110_SPS.JPG,

que deixou em 2024 a vice-presidência da FAP, por limite de mandatos, atualmente diretor para o desenvolvimento desportivo e que ao longo de muitos anos tem dado um contributo, com a sua visão, estratégia e envolvimento de muitos, essencial para chegarmos aqui. O treinador Nuno Santos, treinador das seleções jovens e atualmente também do VSC, cumpre na Federação um papel determinante no acompanhamento dos mais jovens e o Tiago Soares da Direção da FAP, que nos desafia a irmos sempre mais longe. Ao nível de jogadores que são ou passaram por Guimarães, poderia ter aqui uma lista interminável, mas, esperando que todos os outros não me levem a mal, não posso deixar de dar uma nota para o Carlos Carneiro, ex-atleta da Seleção Nacional, hoje diretor do andebol do Sporting Clube de Portugal, com um percurso notável, e que começou no Vitória Sport Clube e no DFH. São dezenas de atletas, treinadores, dirigentes que, nascendo ou passando por Guimarães, dão ou deram cartas nesta que é uma modalidade espetacular. Não sei se há algum território com tantos nomes importantes para a mesma modalidade. Não só em Portugal, como na restante Europa. É de facto um espaço de paixão, um concelho único que vive o desporto de uma maneira especial e, felizmente, não só no futebol. Deixo para o fim um agradecimento à Associação OSMUSIKÉ pelo convite para dar este modesto contributo, desejando os maiores sucessos para o trabalho. À maneira de Guimarães. 301


10 anos da Inauguração do Centro de Ciência Viva de Guimarães Júlio Borges

Couros representou o coração industrial da cidade de Guimarães durante décadas. Desde o século XIX que esta indústria era uma das mais importantes atividades industriais e económicas da região. Já referida em documentos de 1151, ainda antes da bula Manifestis Probatum reconhecer, pela mão do papa Alexandre III, D. Afonso Henriques como Rei de Portugal.

Fonte: PAM – Património, Artes e Museus

Fonte: Arquivo Municipal Alfredo Pimenta

É nesta área protegida e reconhecida como Património da Humanidade, pela UNESCO, em 19 de setembro de 2023, que no ano 2015 abre portas à cidade o CUTIR CIÊNCIA – Centro Ciência Viva de Guimarães. A Câmara Municipal de Guimarães, no final da década de setenta do século passado, adquiriu o edifício o qual sofreu, já no início do século XXI, obras de reabilitação que conservaram a sua identidade arquitetónica singular, deixando intacto o legado associado à transformação das peles dos diferentes animais em couros. A 17 de dezembro de 2015 abriu assim portas à cidade o emblemático centro de divulgação da cultura científica, parceria estabelecida entre Município de Guimarães, Universidade do Minho e a Rede Nacional Ciência Viva, o Centro de Ciência Viva de Guimarães (CCVG). A missão deste espaço de divulgação de Cultura Científica é, sem dúvida, a transmissão de saber, de 302


conhecimento, a construção de uma cidadania ativa apoiada no conhecimento científico.

Fonte: Município de Guimarães

Fonte: CURTIR CIÊNCIA – CCVG

Fonte: CURTIR CIÊNCIA | Blogue do Minho

Possuindo, inicialmente, 17 módulos interativos que abrangem várias áreas do conhecimento – Eletrónica e Instrumentação, Robótica, Reciclagem, História ou Comunicações. A par da sua exposição permanente, o Curtir Ciência possuía uma Oferta Formativa eclética, dinâmica, e frequentada por um público-alvo dos três aos noventa e nove anos. Ao longo dos seus nove anos de existência, o Curtir Ciência promoveu a Cultura e a Literacia Científicas na e para a cidade, mas também fora das fronteiras do concelho, como Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto, Fafe, Vizela, Santo Tirso, Vila Nova de Famalicão, Póvoa de Lanhoso, Braga, Vinhais, Figueira Castelo Rodrigo, Paços de Ferreira, Felgueiras, entre tantos outros, com diferentes projetos: -

Ciência Viva no Verão em Rede, projeto desenvolvida em parceria com a Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva; CURTIR CIÊNCIA, projeto desenvolvido tendo como entidade promotora a Comunidade Intermunicipal do

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AVE, nos anos 2017, 2021 e 2022; Clubes Ciência Viva na Escola (CCVnE) – desde o ano letivo 2018/2019, até à atualidade, contribui para a criação/instalação e apoio aos Clubes de Ciência de mais de 40 CCVnE em Agrupamentos de Escolas (AE) e Escolas Não Agrupadas (ENA) de mais de 11 concelhos do norte do país; Conversas Fora da Caixa – iniciado no ano de 2020. Este projeto visava a divulgação de investigadores e suas investigações na comunidade local e educativa, abrangendo mais de 1000 alunos e mais de 30 investigadores, ao longo dos últimos quatro anos; Leitura com Ciência, que em parceria com a Livraria Rimas e Tabuadas, abordou obras literárias promotoras de saber científico, durante o ano de 2022 e 2023; Escola Curtir Ciência, apoiado inicialmente pela Ciência Viva, em que os alunos de diversas turmas do 3º ano de escolaridade, de AE e ENA do concelho, visitam o CURTIR CIÊNCIA e aí permanecem durante uma semana, fazendo deste espaço a sua Escola e abordando temáticas variadas, nomeadamente, da história dos curtumes, à programação e robótica, passando pela matemática, química e física. Este projeto teve início no ano de 2022, abrangendo mais de três centenas de alunos dos Agrupamentos de Escolas limítrofes do concelho de Guimarães e permitindo que todas as crianças de Guimarães visitem este espaço de cultura e ludicidade e aí aprendam mais, de forma mais divertida, com metodologias Hands On, e onde a diversão não termina.

Mas o CURTIR CIÊNCIA também se faz de trabalho com as escolas e para as escolas, pois sem o maravilhamento da ciência, o incentivo à curiosidade e à descoberta associadas ao quotidiano a ciência torna-se um mundo de poucos para poucos. Com esta visão e este pressuposto, o Curtir Ciência desenvolveu e desenvolve parcerias com as entidades externas para promover a cultura, seja ela baseada nas ciências exatas, seja no património material e imaterial. Assim, ao longo dos nove anos de existência o Curtir Ciência recebeu e cedeu exposições de parceiros tão próximos quanto o espólio museológico do Agrupamento de Escolas Francisco de Holanda, quando ainda era a Escola Industrial de Guimarães, trabalhos de diversos alunos sobre liberdade, organizado pelo Núcleo de Estudos Vinte e Cinco de Abril, a exposição fotográfica “Territórios e memórias quilombolas – os Guardiões Históricos”, de Fausto Roim, produzida pelo Instituto de Estudos Socioculturais de Chapada de Guimarães e apresentação do livro “Leis Abolicionistas” de Amélia Alves, diretora deste instituto, a celebração do Dia Mundial da Liberdade e Imprensa, como imagens das capas dos jornais Notícias de Guimarães e O Povo de Guimarães cedidas pelo Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Chemistry Everywhere, Escola de Ciências da Universidade do Minho, Morcegos às claras, do Centro Ciência Viva de Alviela, e a exposição fotográfica sobre fungos, da autoria de Albino Costa. Cedeu Exposição Ilustrativas sobre a Proporção Áurea e a Sequência de Fibonacci e Exposição e manuais sobre Charcos com Vida, cedida a todos os AE 304


e ENA parceiros.

Charcos com vida

Museu de Couros

História

Robótica

Túnel interativo

Comunicações espaciais

Instrumentação

Eletrónica

Reciclagem

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A parceria com outras instituições na organização e logística de atividades externas fazem, desde a sua génese, parte da função do Curtir Ciência. Assim, atividades como Festa da Primavera e Green Week, Laboratório da Paisagem, atividades de Radio Amadorismo organizado pela QRX Norte, o Concurso Soletrar C – dinamizado pela Biblioteca Municipal Raul Brandão e pela Rede de Bibliotecas Escolares, Picto_Ciência, em parceria com o Centro de Formação Francisco de Holanda, 5º Encontro Internacional sobre Património Industrial e Sua Museologia, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Observação Astronómica, em parceria com a ES Caldas das Taipas, Em busca da Vaca Loura, em parceria com o Município de Guimarães, a Uminho, Ciência Viva e Vaca Loura (projeto de ciência cidadã), Sábados Mágicos, em parceria com a Biblioteca Municipal Raul Brandão e com a Biblioteca Municipal de Fafe, e publicações nos jornais regionais O conquistador, Lordelo Jornal e na Revista Mais Guimarães, são referência local e regional.

Ao longo de nove anos o Curtir Ciência recebeu ou visitou dezenas de milhares de crianças e adultos, alunos de todas as faixas etárias e desenvolveu a sua atividade num local repleto de história, de histórias de vida, de memórias. A sua pegada na região indelével, sustentada e validada por entidades científicas e empíricas, repletas de saber ou de curiosidade, construtoras de uma sociedade voltada para o futuro, para o conhecimento e para a razão de ser de uma agência que pretende divulgar o saber científico, a transmissão de conhecimento. Sem amarras, como a cultura e a liberdade devem ser!

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Nos 30 anos do Teleférico da Penha119 Esser Jorge Silva

No dia 24 de junho de 1995 realizou-se a primeira viagem oficial do Teleférico da Penha-Guimarães. Terminou assim uma espécie de aventura imaginária nascida em 1884 que se propunha ligar a cidade e a serra. Trinta anos depois, num dia chuvoso e cinzento, relembra-se aqui as sensações sentidas nesse dia inicial de subidas e descidas da montanha.

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Texto adaptado do livro “Teleférico da Penha: imaginário e realidade”, Edições Húmus, 2013.

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1.

O primeiro ano do Teleférico

À entrada do ano de 1995 já é certo que o teleférico será uma realidade a inaugurar brevemente. Os técnicos da Pomagalsky, empresa construtora do vaivém, ultimam os derradeiros encaixes assim como as ligações elétricas. Com sacos de cimento a simular a presença humana testam a resistência do artefacto voador. Os trabalhos de construção das estações terminais do teleférico avançam a olhos vistos. Apesar da escassez, a entrada nos retoques finais aguça o espírito crítico fazendo surgir novas necessidades. É assim que à última da hora se decide fazer um túnel a atravessar a estrada da Penha para proporcionar maior comodidade e segurança aos passageiros depois de acederem à estação superior. Com o artefacto tecnológico já em condição circulante, coloca-se o problema da legalização. Um teleférico em suspensão ligando uma montanha e uma cidade é, em 1995, uma novidade em Portugal. Não há legislação definida para o quadro que se apresenta. Receia-se o retardar da situação e o aparecimento de dificuldades. Há muito que, na ausência de qualquer histórico ou de um quadro tecno-legal em Portugal, os técnicos da Pomagalsky optam por seguir as diretrizes da legislação francesa esperando que os fiscais portugueses aceitem este referencial. Felizmente impera o bom senso e a vistoria da Direção-Geral de Energia acaba por seguir os mesmos critérios da legislação normalmente usada em equipamentos semelhantes a funcionar em barragens e minas, mas para o transporte de cargas não humanas.

Teleférico em construção (Foto: José Bastos)

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Enquanto decorre o tempo dos pormenores, fazem-se contas e pensa-se a inauguração lá para finais de fevereiro ou inícios de março. Algumas vozes da política vêm com bons olhos esperar pelo dia 24 de junho, dia comemorativo da batalha de S. Mamede – para muitos o ato fundador do país e por isso, o dia primeiro de Portugal, feriado municipal. O marco permite contar com a presença de Mário Soares, presidente da república: “um sonho de tantas décadas deve ter na inauguração o máximo magistrado da nação”, concede o presidente da Câmara António Magalhães. A data é, contudo, demasiado longa uma vez que as previsões para o fim das obras apontam para finais de fevereiro. Convenciona-se assim abrir o teleférico ao público logo que as obras estejam terminadas ficando a inauguração agendada para o dia 24 de junho de 1995. No final de janeiro, os vimaranenses deparam com um estranho movimento em forma de fluxo permanente subindo e descendo a montanha. Visto de longe, o senso comum dará conta de umas cestinhas em movimento gracioso. Um cabo segura as cabines brancas penduradas numa espécie de gancho. Seguem o seu percurso, suspensas no espaço, transportando uma fragilidade incompreensivelmente segura e tentadora. Têm uma estética harmoniosa, praticamente sem ângulos retos e com uma ampla vidragem à sua frente e traseira. O seu percurso e a sua graça, silenciosamente deslizante, apelam à memória das naves dos filmes de ficção científica. O movimento constante das quarenta cabines andando num constante sobe e desce da montanha pontuam uma novidade cuja elegância não passa despercebida. O articulista Alves Pinto, no jornal Notícias de

Roriz Mendes, o tesoureiro da Turipenha, um dos rostos da construção (DR)

Guimarães, refere-se à engrenagem cujo aspeto é agradável e bem enquadrada na paisagem. Vencendo as suas desconfianças versadas no pregão por si redigido em 1990, Carlos Poças Falcão escreve “a propósito da Penha e do seu engraçado teleférico”, um texto de análise semiótica. O teleférico sugere o fim da visão vertical e a expressão de uma visão horizontal da montanha: “as elevações rebaixaram-se e as profundezas

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ascenderam: a geometria do espírito foi espalhada”120. A Penha terá no futuro mais movimento e o vaivém dos corpos far-se-á através da conquista dos ares, sem qualquer sofrimento. 2.

A primeira viagem oficial

No sábado, 4 de março de 1995, o dia não era o mais promissor para se fazer uma viagem de teleférico à Penha. Chovia amiúde e a montanha escondia-se da cidade atrás do nevoeiro. Mas esse foi o dia escolhido pela direção da Turipenha para convidar jornalistas, políticos e acionistas para efetuarem aquela que seria a primeira viagem oficial do teleférico. “Ninguém falhou”, relata Teresa Ferreira121. O ponto de encontro é na estação inferior no Parque das Hortas onde todos se aglomeram. As cabines vão circulando, chegando ao cais e partindo vazias. O cenário é um misto de encanto e ajuste ao espaço. Todos observam a engrenagem tentando apreender a tecnologia que fornece segurança ao sistema. Parece não haver pressa em entrar nas cabines, notará a jornalista, não se sabendo se tal resulta do medo ou do entendimento geral da obrigatória primazia do Presidente da Câmara. António Magalhães acabará por ser o primeiro a entrar levando consigo D. Eurico Dias Nogueira, Arcebispo de Braga. Alguns percebem este gesto do responsável da edilidade como uma tentativa de proximidade ao divino, não vá o diabo tecê-las. Atrás de si, nas cabinas seguintes, outros seguirão o exemplo apesar da desconfiança geral. Pelo 120 121

O Povo de Guimarães, 24.03.1995, p.7. Notícias de Guimarães, 10.3.1994.

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Manuel Ferreira, um dos responsáveis pela construção do Teleférico, acompanhado de Albano Coelho Lima


meio o artefacto voador irá parar para os fotojornalistas obterem imagens de um ângulo até aí inexistente e para os convivas experimentarem não só sensações, mas também visões novas. Ao chegar à estação superior, alguns aliviados, deixam-se ir no coro dominante, fazendo parecer que todos estão de acordo: “a viagem é uma maravilha!”122. Apesar das palavras, persiste por ali uma sensação de aventura e alívio. Impõe-se, todavia, a noção de “coragem” e as possíveis palavras maldispostas ficam silenciadas no âmago de cada qual. Lá em cima, na montanha, o momento é vivido com grande entusiasmo. Os agentes que personificam o público e o privado deixam fluir os seus sentimentos. Joaquim Cosme, juiz da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha, adiciona a emoção de ter carregado o sonho insistindo num equipamento desejado durante mais de uma centena de anos. Ali mesmo não se coíbe de considerar o objetivo dos seus antecessores, na gestão da montanha, concluído e “sem necessidade de revirar na sua tumba”123. De certa forma é ele o centro das atenções. António Castro está ali na qualidade de presidente da direção da Turipenha, mas toda a imprensa da altura trata-o pela sua condição de “vereador”. Quando chamado a usar da palavra, não deixa de lembrar a concretização de “mais um dos sonhos pensados para a cidade” agradecendo “todo o empenho desde o início” depositado no projeto pela Irmandade da Penha, nas pessoas de Joaquim Cosme e Manuel Roriz Mendes”. No meio da satisfação, António Magalhães, presidente da Câmara de Guimarães, admite que durante muito tempo torceu o nariz à existência de capacidade para levar “a bom porto este empreendimento”, acabando por confessar o seu ceticismo por ser pessoa dotada de “incapacidade de sonhar alto”, o que muitas vezes o levou a torcer “o nariz ao empreendimento”. Muitos presentes concordarão, sorridentes, com um ligeiro aceno de cabeça. Um murmúrio lembrará um acontecimento numa reunião de Câmara com mais de 10 anos, em que Magalhães dizia a Cosme que “à Penha, iremos lá os dois montados nas asas de um passarinho”, uma inegável posição de descrença. Mas agora, neste momento gracioso, Magalhães desejava ter sonhado um dia. E, prometendo uma devida homenagem a Joaquim Cosme no dia 24 de junho, data da inauguração oficial do teleférico, rematou com ênfase e entusiasmo dos triunfadores: “mas houve quem nunca desistisse, por isso bato palmas aos sonhadores e investidores”, nomeadamente estes, por se disporem a investir num projeto que inicialmente será tudo, mas “não pode ser rendível”.

122 123

Idem Ibidem

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3.

Abertura do Teleférico ao público

Uma semana depois, a 11 de março, o artefacto voador abriu ao público. A cidade e a montanha ficaram ligadas por um teleférico semelhante aos usados nas estâncias de inverno europeias. É uma viagem de 1629 metros com um desnível de 362 metros que se faz em cinco minutos e meio. Ao todo são quarenta cabines com dupla entrada, frente e trás, e capacidade individual para seis pessoas, o que possibilita um fluxo de mil viajantes por hora à velocidade máxima de exploração de dezoito quilómetros horários. O passageiro chega a viajar a uma altura, em relação ao solo, de trinta metros. A viagem é suave e serena, proporcionando vistas originais da cidade, do Castelo e Paço dos Duques de Bragança. Porém, os primeiros metros em suspensão são suscetíveis de provocar tonturas a quem sofre de vertigens. Mesmo os mais afoitos e audazes não deixam de enfrentar alguns desconcertos na barriga sentindo-se num momento de aventura quando o cabo da estação “entrega” a cabine ao cabo do teleférico. A locomoção começa na zona das Hortas onde se situa a estação inferior, a que apresenta maior potência instalada, onde se localiza a área de oficina para as cabines, para além do sistema de gestão eletrónico do sistema. O viajante acomoda-se num momento de aparente paragem da cabina que lhe calha em sorte. Os sentidos marcam uma fronteira e a perceção de segurança vai abandonando os corpos. Gradualmente, enquanto o artefacto se move dentro da estação em direção ao aparente precipício até entrar no vácuo, a estranheza física liberta uma seiva amarga até que a certeza da suspensão se-

A cidade vista de uma cabine (Foto José Bastos)

gura dá lugar a uma incerta serenidade interior. Mesmo assim, por momentos, quando do outro lado do cabo uma cabina se cruza em sentido contrário, surge a interrogação sobre a segurança em tanta fragilidade aparente. 312


O início do percurso faz-se a uma distância de uns cinco a oito metros do solo. Dá-se aí uma subida gradual, mas em ângulo não muito acentuado. Ao deslocar-se, logo no início da partida, percebe-se a área em urbanização numa zona há poucos anos ruralizada e da qual ainda se entrevê alguma presença agrícola. Vencidas as primeiras casas, segue-se alguns campos trabalhados e uma exploração agrícola bastante ordenada. Lá em baixo é possível vislumbrar casas de construção recente e que vieram tornar a paisagem mesclada entre arvoredo e habitações, algumas de luxo. Logo a seguir, começa-se a vislumbrar grandes penedos, característica geomorfológica da montanha da Penha. A chegada à estação superior faz-se num ambiente florestal, a prometer o bucolismo da crista montanhosa. Depois do desembarque, o acesso à montanha é feito através de caminhos num percurso de cerca de cinquenta metros. Antes de sair da estação, podese dar um salto ao piso de cobertura da estação, propositadamente construído para ser um miradouro da cidade. A distância entre a montanha e a cidade é encurtada com este cabo em permanente circulação, um vaivém que transporta corpos permanentemente e proporciona perspetivas diversas do olhar. São cerca de cinco minutos para cima e outro tanto para baixo, num deslizar silencioso numa espécie de estrada suspensa. A panorâmica através da cabine é dada através de uma janela em forma de ecrã, como se à frente se desenrolasse um filme. Para cima a imagem começa por ser ampla, fe-

Primeira viagem do teleférico (Foto: José Bastos)

chando lentamente com a chegada à cumieira da montanha. No percurso descendente o viajante deixa de ter os apelos da montanha porque é a mancha urbana que 313


atrai o olhar. A cidade é um ponto que captura todos os sentidos. Mal o teleférico inicia o seu percurso de descida, o viajante fixa-se na mancha espraiada do burgo e nos seus atributos diversos. Ali o Castelo e o Paço dos Duques de Bragança, acolá o estádio onde joga o Vitória Sport Club. No intermeio o Centro Histórico assemelha-se a uma mancha de telhados avermelhados, cheia de recortes e linhas definidas. As novas urbanizações nascidas a norte esticam a cidade unindo pontos suburbanos. Lá em baixo, uma cintura deixa perceber um recorte entre rural e urbano que marca o sopé da montanha e os níveis de uso da cidade. O momento da primeira experiência pública da viagem do teleférico é tão intenso que proporciona tiradas de satisfação: “quem sabe, sobe”, afirmará Joaquim Cosme durante o dia da euforia mágica. Nasce ali o primeiro lema do teleférico. Será esta a “assinatura” que acompanhará o artefacto durante alguns anos. Inclusive resistirá a todas as clivagens entre as duas partes que reivindicarão para si o papel mais importante para o aparecimento do teleférico. Bairristas sonhadores e céticos utilitaristas, personificados entre os dois maiores acionistas, Irmandade Nossa Senhora do Carmo da Penha e Câmara Municipal de Guimarães, tentarão imputar as anomalias do projeto ao parceiro, revindicando os méritos para o seu lado. As clivagens entre as partes tornar-se-ão, praticamente, na história do teleférico depois deste construído. 4.

Inauguração oficial do Teleférico

Vale a pena determo-nos no dia 24 de junho de 1995, data da inauguração oficial do teleférico. Na Estação das Hortas é colocada uma placa alusiva à data. É uma placa sem autoria da qual não se sabe se da Câmara Municipal ou da Turipenha. O agente do ato inaugurador não existe. Poderia ser o presidente da direção da Turipenha a fazê-lo, mas aí, seria um vereador – António Castro, a tomar o lugar cimeiro. Desta forma toda a alusão do momento centra-se no estatuto da mais alta presença, o Presidente da Câmara António Magalhães, e na bênção do Arcebispo Primaz de Braga, D. Eurico Dias Nogueira. Os cuidados com a redação desta placa inauguradora estão relacionados com as dificuldades em se admitir publicamente que se trata de uma aliança contingencial entre público e privado. Entre sonhadores e céticos, tornados concretizadores. Ou entre bairristas e utilitaristas. Desde o eufórico dia 4 de março, data da primeira inauguração, que estava prometida pelo Presidente da Câmara de Guimarães uma homenagem a Joaquim Cosme, um dos promotores do teleférico da linha privada e representante dos sonhadores. Mas a 24 de junho de 1995, data admitida para essa homenagem, os utilitaristas não cedem aos bairristas e a homenagem é esquecida. Uma tensão permanente instala-se a propósito da paternidade e dos créditos do artefacto voador. 314


Os sonhadores percebem-se colocados fora da memória futura desta inauguração. A sua ausência não é substantivamente manifesta, mas há uma certa latência no ar. Numa resposta subtil, exatamente na data da inauguração, surge na outra extremidade do percurso, após a Estação da montanha, uma placa alusiva ao momento. Nela a Irmandade da Penha recorda os que “sonharam, que se sacrificaram” e lembra a presença de “todos”. Na produção dos símbolos, concretizadores e sonhadores, aqui corporizados entre público e privado, tentam marcar os dados da memória futura do teleférico. E é assim que surge a religião a unificar as partes: na estação inferior D. Eurico Dias Nogueira, Arcebispo Primaz de Braga, benze a placa dos utilitaristas. Segue-se uma viagem até à outra extremidade e, 1700 metros acima, o mesmo Arcebispo benze a placa dos sonhadores. Quem foi mais importante no pro-

Joaquim Cosme, juiz da Irmandade da Penha e António Magalhães, presidente da Câmara Municipal de Guimarães.

cesso de edificação do teleférico, os que sonharam e imaginaram ou os que tiveram o dinheiro para realizar e concretizar? Esta questão estará sempre presente na dialética do teleférico vimaranense. Quando discursa na bênção da placa dos bairristas, Joaquim Cosme lê uma lista de nomes “dos que verdadeiramente se empenharam no sonho”. Nessa lista não consta nenhum nome dos utilitaristas céticos, ou seja, ninguém da Câmara Municipal de Guimarães. Durante a primeira viagem do teleférico, a 4 de março, posto perante esta dicotomia, António Magalhães explica o pragmatismo dos utilitaristas: “o sonho, só por si, não leva a lado nenhum”. Firmados na reivindicação de créditos, sonhadores iniciadores e consequencialistas utilitários, não se dão conta que a sua aliança contingencial acaba de dar frutos.

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