RecensõesMmCAPA
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OsmusikéCadernos
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2.ª PARTE
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FICHA TÉCNICA Título: OsmusikéCadernos 5 Diretor: Jorge do Nascimento Silva Equipa Redatorial: Jorge do Nascimento Silva, Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes, João S. Pereira, J. Salgado Almeida Conceção gráfica: João Silva Pereira, J. Salgado Almeida, Jorge do Nascimento Silva, Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes Capa: J. Salgado Almeida Revisão: Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes, Jorge do Nascimento Silva, João Silva Pereira Ilustrações: J. Salgado Almeida, Local de edição: Guimarães Propriedade e edição: Osmusiké, osmusike@gmail.com - www.osmusike.pt Escola Secundária Francisco de Holanda, Alameda Dr. Alfredo Pimenta, 4814 528 Guimarães Ano e mês: 2023, dezembro Páginas: 772 ISSN: 2975-8041 Coprodução: Município de Guimarães Notas:
1 - Todos os artigos que integram OsmusikéCadernos 5 são da responsabilidade dos respetivos autores; 2 - Respeitando a opção individual de cada um, apresenta-se a ortografia portuguesa com ou sem o acordo ortográfico; 3 - Quando os textos estão assinados com afiliação profissional, os cargos referem-se à data em que os mesmos textos foram escritos.
Notas para a versão e-book - Por razões técnicas, a revista está dividida em 2 partes. A segunda, com 431 páginas, dedica um capítulo à nossa língua e aos nossos escritores, com recensões de algumas obras que por cá se publicaram recentemente; apresenta um espaço criativo dedicado às artes e letras. Termina com um balanço das atividades desenvolvidas pelos OSMUSIKÉ ao longo de 2023, nas suas principais valências: música; teatro; poesia; …
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ÍNDICE V.
A NOSSA LÍNGUA E OS NOSSOS ESCRITORES ------------------------------------------------------------------------------------------------------- 343 Coordenação de Álvaro Nunes
Teatro e Os Pescadores: duas obras centenárias brandonianas ---------------------------------------------------------------------------345 Eugénio de Andrade ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------348 Natália Correia -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------356 Guerra Junqueiro – No centenário do seu falecimento --------------------------------------------------------------------------------------361 Recordando Pablo Neruda --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------365 Manuel António Pina ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------368 Manuel da Fonseca – Um alentejano dos quatro costados ---------------------------------------------------------------------------------374 Urbano Tavares Rodrigues – No centenário do seu nascimento --------------------------------------------------------------------------377 Eduardo Lourenço – Uma vida a pensar Portugal ---------------------------------------------------------------------------------------------384 António Oliveira
Teixeira de Pascoaes ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------389 Poetas da Minha Terra: Guilherme de Faria ----------------------------------------------------------------------------------------------------397 Uma farsa com 500 anos! ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------403 40 Anos de Aventuras --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------407 O principezinho faz 80 anos-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------409 José Mattoso, o historiador que propôs uma nova visão da História --------------------------------------------------------------------411 Alberto Lameiras
IN MEMORIAM de Milan Kundera ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------413
VI.
FIGURAS E CURIOSIDADES DE GUIMARÃES --------------------------------------------------------------------------------------------------------- 417 Padre Ferreira Caldas: 180 anos depois do seu nascimento --------------------------------------------------------------------------------419 Barroso da Fonte
Virgínia Moura -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------426 Maria de Jesus Carvalho
Fernando Távora – Cem anos feitos sinal de esperança -------------------------------------------------------------------------------------428 Filipe Fontes
Homenagem ao Dr. Fernando Conceição, nos 100 anos do seu nascimento -----------------------------------------------------------435 Hermenigildo Moreira da Encarnação
Alberto Martins, um nicolino de (e que começou) Abril -------------------------------------------------------------------------------------438 Paulo César Gonçalves
Mesteres de Guimarães -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------440 Joaquim Piairo Pantaleão
OS CAFÉS COMO ESPAÇO SOCIAL ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 441 CAFÉ MILENÁRIO, memento e celebração de Guimarães -----------------------------------------------------------------------------------441 Salomé Duarte
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O Café Vitória, um ícone a recordar --------------------------------------------------------------------------------------------------------------446 Victorino Costa
O Café Óscar--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------450 César Machado
GUIMARÃES À MESA ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 459 Confraria Terras de Vimaranes --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------459 Mário Moreira
O melhor restaurante do mundo ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------462 Equipa Redatorial
Camilo à mesa -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------463 Álvaro Nunes
VII.
OUTRAS EFEMÉRIDES ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 469 Guimarães há cem anos -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------471 Equipa Redatorial
Penha histórica 2023 – Tripla comemoração de 130 anos ----------------------------------------------------------------------------------480 Manuel Roriz Mendes
Como a Universidade do Minho qualificou a região ------------------------------------------------------------------------------------------482 Raul Rocha
Universidade do Minho e os seus 50 anos ------------------------------------------------------------------------------------------------------485 Álvaro Nunes
Universidade do Minho - Cinquentenário mais silencioso do que o quarentenário --------------------------------------------------490 Barroso da Fonte
A importância do terceiro setor na promoção dos direitos humanos--------------------------------------------------------------------505 Tânia Salgado
Lar de Santa Estefânia – 160 anos de serviço ao próximo: Notas sobre a sua história -----------------------------------------------511 José Fernando Rodrigues Alves Pinto
Rotary Club de Guimarães --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------515 Américo Correia
A Placa aos Mortos da 1.ª Guerra Mundial no Paço dos Duques de Bragança ---------------------------------------------------------519 Carlos Manuel Leite Ribeiro de Sousa
Guimarães no Congresso da Oposição Democrática de 1973 ------------------------------------------------------------------------------527 Raul Rocha
De que são feitas as coisas? Preito e homenagem a José Mariano Gago ---------------------------------------------------------------530 Fernando Capela Miguel
Condecorações honoríficas de 24 de Junho – Dia Um de Portugal -----------------------------------------------------------------------534 Equipa Redatorial
Jornada Mundial da Juventude (JMJ) – O Milagre do Amor --------------------------------------------------------------------------------536 Camila Gabriela Sousa
VIII.
RECENSÕES/SINOPSES ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 543 Os Segredos da Casa Abandonada ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------545
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Teresa Portal
Bruxas Bruxinhas --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------547 Teresa Portal
Projecto Coral da Poesia Portuguesa – Volume Um ------------------------------------------------------------------------------------------548 Sob o Signo de S. Nicolau----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------549 O Anjo da Lágrima ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------550 Os Zés Pereiras: uma cultura musical do Entre-Douro-e-Minho---------------------------------------------------------------------------552 João Salgado
O dia em que a morte nasceu ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------554 Eva Machado
Saltar fronteiras ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------557 Eva Machado
Iras e Amores em Tempos de Desassossego ---------------------------------------------------------------------------------------------------559 Linhal da Corredoura ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------560 Alberto Sampaio e o centenário de “Estudos Históricos e Económicos” ----------------------------------------------------------------561 A Música nas coleções do Paço dos Duques de Bragança -----------------------------------------------------------------------------------563 Os poemas da minha Vida. Uma antologia de poemas --------------------------------------------------------------------------------------565 António Carlos Cortez
Como nasce um livro ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------569 José Manuel Teixeira
Borboletas ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------571 Rui Viana
Os Três Desejos ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------572 D. Afonso Henriques – Do sonho ao nascimento de uma nação --------------------------------------------------------------------------573 O Bastardo ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------574 Carlos Guimarães
Vidas Sofridas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------575 Teresa Portal
Vamos destruir esta Escola? ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------576 O concelho de Guimarães: estudo de demografia e nosografia ---------------------------------------------------------------------------578 Claustros de Guimarães – Arquitetura e Simbolismo ----------------------------------------------------------------------------------------579 Hermenigildo Moreira da Encarnação
São Torcato: história, devoção e património ---------------------------------------------------------------------------------------------------582 António José de Oliveira
A Praça do Mercado de Caldas das Taipas: 110 anos de História (1911-2021) --------------------------------------------------------583 António José de Oliveira
A história da vida de um menino que quis ser pintor de arte ------------------------------------------------------------------------------584 Silêncio, Solidão e Sombra --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------585 Historietas ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------587
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Contos e lendas de Guimarães ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------589 Histórias da Resistência e da Liberdade ---------------------------------------------------------------------------------------------------------590 Guilherme de Faria reeditado ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------592 Revista ELO ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------595 Lucinda Palhares
Veduta ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------597 Boletim de trabalhos históricos--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------599 Revista de Guimarães Júnior -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------601 Revista de Guimarães. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 1884 ----------------------------------------------------------------602 Salomé Duarte
Guimarães C Visível, nº 3 ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------604
IX.
PORTA ABERTA - ESPAÇO CRIATIVO ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 607 ARTES ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 609 Coordenação de J. Salgado de Almeida
O maravilhoso mundo Disney ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------609 Equipa Redatorial
Mário Cesariny – No centenário do nascimento do poeta-pintor -------------------------------------------------------------------------612 Equipa Redatorial
ABEL CARDOSO – Pintor vimaranense -----------------------------------------------------------------------------------------------------------616 Equipa Redatorial
José Ruy – O Mestre da Banda Desenhada -----------------------------------------------------------------------------------------------------620 Fernando C. Miguel
Parabéns Mafalda -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------622 Equipa Redatorial
Mestre Delirante de Guimarães -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------624 J. Salgado de Almeida
A condição do Homem na escultura de Aberto Giacometti --------------------------------------------------------------------------------632 Amadeu Santos
Picasso, O SOPRO DA VIDA -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------636 Filomena Bento
1923 – A Exposição de Abel Cardoso no Átrio da Misericórdia do Porto ----------------------------------------------------------------642 Abel Cardoso
Galeria de Arte Francisco de Holanda ------------------------------------------------------------------------------------------------------------646 Equipa Redatorial
RUA DE SANTA MARIA, desenho s/ papel. Propriedade da Câmara Municipal de Guimarães -------------------------------------649 Américo Taborda (1918-1986)
EM CADA TRAÇO QUE FAÇO, DE GUIMARÃES É UM PEDAÇO, carvão s/ papel – s/d ------------------------------------------------650 Piairo Pantaleão
BATALHA DE S. MAMEDE, aguarela s/ papel: 50x70 cm, 2019-----------------------------------------------------------------------------651 João Soares
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OS HABITANTES DA MENTE, acrílico s/ tela: 81x116 cm, 2019 ----------------------------------------------------------------------------652 Salgado Almeida
DE PROFUNDIS, guache s/ cartolina colada em kline: 50x70 cm, 2022 ------------------------------------------------------------------653 Filomena Bento
SOM DO VENTO, acrílico s/ tela: 150x100 cm, 2023 -----------------------------------------------------------------------------------------654 Ana Stingl
TRAJETÓRIAS NO PERCURSO DO IMAGINÁRIO SUBCONSCIENTE DA CORRENTE MARÍTIMA 002, patê de verre luminescente, 2009 -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------655 Teresa Almeida
SEM TÍTULO, Acrílico sobre tela: 130x170 cm - 2019 ----------------------------------------------------------------------------------------656 Victor Costa
AVES MIGRATÓRIAS, 6.30 m, bronze - Oeiras, 1993------------------------------------------------------------------------------------------657 Óscar Guimarães
HOMENAGEM A ANTÓNIO GUTERRES, escultura em bronze: Vizela, 2023-------------------------------------------------------------658 Viana Paredes
HOMENAGEM A D. AFONSO HENRIQUES, escultura em pedra – Zamora, Espanha, 2023 ------------------------------------------659 Diniz Ribeiro
“BIDA POR BIDA” MEMORIAL A BOMBEIROS DE MIRANDA DO DOURO, Painel em ferro de 375x250, 2023 ------------------660 Pedro Almeida
MÚSICA---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 661 Coordenação de António José Castro
Manuel d’Oliveira – “Ibéria” (2002) --------------------------------------------------------------------------------------------------------------661 PINK FLOYD – “The Dark Side Of The Moon” (1973) -----------------------------------------------------------------------------------------665 TINA TURNER – a Artista, a Mulher, a Diva… ---------------------------------------------------------------------------------------------------668 O festival com eles no sítio -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------670 Diana Marques
ESCRITA CRIATIVA -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 673 Coordenação de Jorge Nascimento Silva
Manifesto mínimo ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------673 Carlos Poças Falcão
Os amigos -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------674 Firmino Mendes
Poemas --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------676 M. Branco de Matos
2 Poemas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------678 Álvaro Nunes
3 Poemas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------679 José Matos
De renda-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------682 Fátima Guimarães
Salmo de Kiev ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------683
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João Aguiar Campos
Encontros de 1.º grau --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------684 Miguel do Sul
O poema irritado --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------685 Teresa Portal
2 Poemas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------686 Damianus Paskalis Lelo
Solidário (Ode aos Cantautores) -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------688 Luís Almeida
A Batalha de São Mamede --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------689 José Manuel Teixeira
3 Poemas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------692 Angelino Pereira
O nevoeiro que hoje nos envolve -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------694 Ricardo Guimarães
A melhor prenda de Natal --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------695 Angelino Pereira
ABISMO --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------699 Maria Teresa Macedo
Uma tarde de porquês -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------711 Teresa Portal
Era medonha a noite ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------713 J. A. Salgado Almeida
A Cigarra e a Formiga --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------717 Álvaro Nunes
O frango do padre ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------719 Miguel do Sul
Mãos que falam… Liberdade -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------721 Rui Galiano
X.
GUIMARÃES NO CORAÇÃO ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 725 Guimarães – Os seus filhos e os seus enteados------------------------------------------------------------------------------------------------727 Equipa Redatorial
Crónicas de viver Guimarães pela mão de Conceição Campos ----------------------------------------------------------------------------730 Isabel C. Viana
Vimaranenses que saíram Vimaranenses que vieram ---------------------------------------------------------------------------------------739 M. Branco de Matos
XI.
ESPAÇO OSMUSIKÉ --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 745 Jorge do Nascimento Silva; Emília Ribeiro; Manuela Ribeiro
Osmusiké no Teatro: Teatro é Vida! --------------------------------------------------------------------------------------------------------------747 Osmusiké nas Tradições -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------753
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Osmusiké na Poesia ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------756 Osmusiké nos Projetos Multidisciplinares ------------------------------------------------------------------------------------------------------760 Memórias da nossa terra – O Mercado à Moda Antiga -------------------------------------------------------------------------------------763 Concerto Sons de Outono 2023 -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------765 OsmusikéCadernos – Projeto editorial -----------------------------------------------------------------------------------------------------------768 Osmusiké na Feira Afonsina ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------769 Osmusiké em festa: 21.º aniversário -------------------------------------------------------------------------------------------------------------772
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A NOSSA LÍNGUA E OS NOSSOS ESCRITORES Coordenação de Álvaro Nunes
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A nossa língua e os nossos escritores Coordenação de Álvaro Nunes
Como habitualmente, a nossa língua e os nossos escritores mantêm-se vivos, uma vez que continuam entre nós, tendo apenas mudado de morada. Deste modo e à colação de algumas efemérides emblemáticas, (re)visitamos alguns deles como Eugénio de Andrade, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Eduardo Lourenço, a propósito do centenário dos seus nascimentos. Igualmente, evocamos Guerra Junqueiro, a propósito do centenário da sua morte e Pablo Neruda, falecido há 50 anos. Evocamos ainda aqueles que partiram fisicamente e/ou mudaram de morada, mas que continuam vivos entre nós, pelo seu legado. Evocações centenárias às quais se aditam os 500 anos da “Farsa de Inês Pereira”, de mestre Gil Vicente e/ou 100 anos de “Teatro” do “nosso” Raul Brandão, no âmbito da dramaturgia; e, claro, outras publicações inesquecíveis como “O Principezinho”, sempre novo, apesar dos 80 anos, assim como os livros da coleção infantojuvenil “Uma Aventura” de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, que se mantêm há 40 anos no prelo. Outrossim, um poeta da nossa terra, de nome Guilherme de Faria, cuja evocação do centenário da sua morte se iniciou desde já, no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. prolongando-se até 2029.
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Teatro e Os Pescadores: duas obras centenárias brandonianas No ano em curso, celebra-se o centenário da publicação de duas obras centenárias, ambas de Raul Brandão, editadas em 1923: “Teatro” e “Os Pescadores”. “Teatro” engloba três peças de Raul Brandão que o autor dedica “à memória de meu pai e de minha mãe”: “O Gebo e a Sombra”, peça em 4 atos; o monólogo “O Rei Imaginário”; e a farsa em um ato “O Doido e a Morte”. Peças que, como descreve Urbano Tavares Rodrigues, são um “documento flagrante do existencialismo avant la lettre” e testemunho antecipado do teatro pirandelliano em Portugal pela sua temática das inquietações e fraturas interiores, que, como acrescenta e sublinha Luís Francisco Rebelo oscila entre os polos do grotesco e do trágico e entre a interrogação metafísica e a reivindicação social de inspiração cristã e socialismo anárquico. Um teatro não apenas de adesão emocional ao sofrimento dos injuriados e das vítimas de uma defeituosa organização social, mas também como “consciência dolorosa (…) da ineficácia dessa adesão”. De facto, na dramaturgia do autor reflete-se o conflito permanente entre o indivíduo e o mundo adverso e a fragilidade da condição humana, como se constata no “Gebo e a Sombra” na qual assistimos confrangidos ao esmagamento irremediável de uma família, incapaz de atingir o direito à felicidade. Como oportunamente escrevi em “Raul Brandão e(m) Guimarães”, gente estática (…) movendo-se somente dentro de si, em rodopio. De facto, a gente de Raul Brandão não faz conquistas – dá gritos desgarrados – e chama à meditação, mostrando os quadros indignos da sociedade. Mas não mostra soluções – mostra – como o bairro de lata se mostra à cidade. A miséria continua a ser o fulcro da farsa “O Doido e a Morte”; não propriamente a miséria-fome, mas a miséria-espírito. Assim, nesta farsa, o dramaturgo apresenta-nos a tragédia de um homem importante que vê chegado o fim dos seus dias, revelando a imundice da sua vida e do seu espírito. Uma peça em que notavelmente se verifica a acumulação da tensão e o pânico que se desfaz somente no seu final, quando se revela que o conteúdo da bomba de peróxido, transportada pelos Sr. Milhões: 345
“UM ENFERMEIRO, destapando a caixa e tirando para fora algodão. - É algodão em rama … Agarram o Sr. Milhões que os afasta, saindo depois de pôr e tirar o chapéu lustroso e de cumprimentar cerimoniosamente. SR. MILHÕES - Tragam a caixa. GOVERNADOR CIVIL, com os cabelos em pé. - Ai o grande filho da puta!” Por seu turno, no monólogo “O Rei Imaginário” especula-se sobre a dualidade do Homem: o Homem propriamente dito e o réptil que navega nas águas turvas do seu interior. Uma peça que aborda também a eterna questão da justiça quando aplicada ao Homem, como a personagem Teles dilucida, logo na fala inicial, proferida no Calabouço do Governo Civil: “Abram a porta! Sou eu, o Teles! Canalhas! Canalhas! A mim! Ao Teles! Canalhas!... (sucumbido) Ao que eu cheguei! … Um magistrado! Um antigo magistrado no calabouço! Ah! ... Ah! …Que trambolhão! (Suspira fundo. Pausa) Eu sou o Teles. Toda a gente me conhece. Algumas porcarias, o jogo… uma vergonha maio, e atiram comigo para fora do quadro- Mas fui juiz, deviam ter por mim alguma consideração. Sou de uma família ilustre (…)” Quanto à obra “Os Pescadores” trata-se de uma das mais belas obras brandonianas, que retrata a vida difícil dos pescadores portugueses. Assim, tendo como porto de partida preparatório a Foz do Douro – a Cantareira -, onde o escritor nasceu em 12 de Março de 1867, “filho e neto de pescadores”, o livro é, como expressa na dedicatória, uma homenagem “à memória de meu avô, morto no mar”, que retrata a navegação terrena e marítima de algumas comunidades piscatórias. Deste modo, do Minho ao Algarve, Raul Brandão navega através da sua memória afetiva e ondas de impressionismo, revelandonos neste livro as paisagens e as gentes marítimas portuguesas, como é o caso 346
destas mulheres nazarenas: “Tive sempre a ideia que quem manda em todo o país é a mulher. Na lavoura às vezes, o bruto bate-lhes, mas é ela que o guia e lhe dá os mais atilados conselhos. É ela em toda a parte que nos salva, parindo filhos sobre filhos para a emigração, para a desgraça e para a dor. Creio que só assim parindo e gemendo, tecendo e lavrando, mas principalmente parindo, é que se equilibra a nossa balança comercial, o que nos tem permitido viver como nação independente. Valem mais do que o homem, sacrificam-se mais que o homem, mas aqui o seu trabalho é tão palpável que toda a gente afirma que a mulher da Nazaré é a alma desta terra. Os pescadores obedecem-lhes- a bem ou a mal, dizem …”
Uma obra de navegação de vento em popa, mareada ao longo do litoral, pincelada com soberbas descrições poéticas de grande beleza, em estilo impressionista e pictural, que desde Caminha à Póvoa, na costa nortenha, passando pela Ria de Aveiro e Palheiros de Mira, ora aportando às Berlengas e Nazaré, aponta rumo a sul. Uma navegação de cabotagem que viaja país fora e mar dentro até Lisboa, Setúbal, Sesimbra e Caparica, apenas se sustendo em Olhão e Sagres. Uma viagem que aborda ainda a pesca da sardinha e do atum, toma pequenas notas sinestésicas do que vê, ouve e inala, captando nas telas de suas páginas todas as gradações de uma paleta de cores dos pores do sol e de luzes, entrecruzando vivências e memórias. De facto, um fresco do mar, que o autor impressionista, assim pintou e sentiu no introito da obra: “Quando repouso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos – seis linhas – um tipo – uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadradinhos do ar livre, são melhores quando ficam por acabar. Estas linhas de saudade aquecem –me e reanimam-me nos dias de Inverno friorentos. Torno a ver o azul e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado…. Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente grande voz do mar. Criou-se com ele e guardou-a para sempre. – Eu também nunca esqueci”.
Duas obras com cem anos, mas perenemente atuais …
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Eugénio de Andrade No prato da balança um verso basta Para pesar no outro a minha vida
Eugénio de Andrade (1923-2005), pseudónimo de José Fontinhas, nasceu na Póvoa de Atalaia, no concelho do Fundão, perfazendo, no atual ano de 2023, 100 anos do seu nascimento. Funcionário dos quadros de Inspeção dos ex-Serviços Médico Sociais em Lisboa e posteriormente no Porto, Eugénio de Andrade deixou-nos uma assinalável produção literária, que, além da tradução, designadamente de Garcia Lorca, se saldaria ainda em duas obras em prosa (“Os Afluentes do Silêncio”, 1968, e “Rosto Precário”, 1979) e organizaria várias antologias, entre as quais uma alusiva ao Porto (“Daqui In poesia. Net 286 houve Nome Portugal”- 1968), uma acerca de Luís de Camões (“Versos e alguma prosa de Luís de Camões”) e outra intitulada “Variações sobre um Corpo”, centrada na poesia erótica contemporânea, estas duas últimas datadas de 1972. Ademais, as crianças merecem também um “lugarzinho” na poética Eugeniana. Deste modo, para além da “História da Égua Branca” (1977), o poeta lega-nos ainda belos poemas infantis compilados na obra “Aquela Nuvem e Outras” (2013), dedicada “ao Miguel, para quem escrevi estes poemas à medida que foi crescendo”. Um livro de leitura recomendada para o 1.º ano de escolaridade, do qual respigamos, nesse tempo de faz de conta, o poema que tem exatamente esse título, “Faz de conta”: “- Faz de conta que sou abelha. - Eu serei a flor mais bela. - Faz de conta que sou cardo. - Eu serei somente orvalho. - Faz de conta que eu sou potro. - Eu serei sombra em agosto. - Faz de conta que sou choupo - Eu serei pássaro louco, pássaro voando e voando
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sobre ti vezes sem conta. - Faz de conta, faz de conta.”
Miguel, afilhado do poeta, ao tempo com quatro anos, seria ainda o destinatário (primeiro) do poema “Ao Miguel, no seu aniversário, e contra o nuclear, naturalmente”. Um poema que homenageia os 60 candidatos eleitos pelos diferentes partidos Verdes Europeus e que, nas palavras entusiastas do professor Viriato Soromenho Marques, representa “o renascer da esperança”: “Vais crescendo, meu filho, com a difícil luz do mundo. Não foi o paraíso, que não é a medida humana, o que para ti sonhei. Só quis que a terra fosse limpa, nela pudesses respirar desperto e aprender que todo o homem, todo, tem direito a sê-lo inteiramente até ao fim. Terra de sol maduro, redonda terra de cavalos e maçãs terra generosa, agora atormentada no próprio coração, terra onde teu pai e tua mãe amaram para que fosses o pulsar da vida, tornada inferno vivo onde nos vão encurralando o medo, a ambição, a estupidez, se não for demência apenas razão; terra inocente, terra atraiçoada, em que nem sequer é já possível pousar num rio os olhos de alegria e partilhar o pão, ou a palavra; terra onde o ódio a tanta e tão vil besta fardada é tudo o que nos resta, esses chacais, que do saber fizeram comércio tão contrário à natureza que só crimes e crimes e crimes pariam. Que faremos nós, filho, para que a vida seja mais que cegueira e cobardia?”
De facto, é sobretudo a sua obra poética, iniciada com “Adolescente” (1942), que mais tarde renegaria, por corresponder a uma “produção excessivamente juvenil”, que Eugénio se estreia, e que agora completa 80 anos de atividade literária. Produção poética que ao longo dos tempos soube sempre manter uma postura 349
de independência relativamente aos vários movimentos literários, bem como uma linhagem de lirismo depurado e apego umbilical à terra, que desde a sua infância o marcaria indelevelmente: “Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga da minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitetura absolutamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em refletir: o amor pela brancura da cal, a que se misturam invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico – o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz cindida, o bem e o mal compartimentados; e, ainda, uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada”.
Com efeito, é na sua obra poética, garante da aura prestigiante de “Poeta da intensidade”, assim a denominou Vergílio Ferreira, que o vate lusitano, com leveza e pureza, sabe escolher as palavras e as imagens que nos transmitem com musicalidade o sentido do maravilhoso, da esperança e da plenitude. Neste sentido, “As Mãos e os Frutos” (1948) marca o início da sua poesia “esteticamente lograda”, após a qual cerca de duas dezenas de títulos vêm a lume. Contam-se assim, entre outros, “Os Amantes sem Dinheiro” (1950), “As Palavras Interditas” (1951), ou “Ostinato Rigore” (1972), que sublinha o obstinado rigor da expressão, elíptica e incisiva, como se sugere na metáfora metapoética do poema “Os Frutos”: “assim eu queria o poema:/fremente de luz, áspero de terra/rumoroso de águas e de vento”. Posteriormente, “Véspera da Água” ´ (1973) é ainda um livro do fogo, de um fogo diluído em água, enquanto as obras seguintes, a partir de “Matéria Solar” (1980) até “O Sal da Língua” (1995) são retomados os grandes motivos, tópicos e problemas do autor. Várias outras produções poéticas se seguem ao longo das décadas seguintes, nas quais são evidentes originais ressonâncias de Rimbaud a Pessanha, de Pessoa a Lorca e de Rilke a Éluard, cuja poesia constrói um lugar onde o corpo e a natureza se fundem, deliberadamente aberta a um mundo que preserve os valores culturais e civilizacionais do homem. 350
Além disso, perpassam nas composições poéticas Eugenianas uma espécie de poesia-música que lembram a estética simbolista, rica em ritmos e sugestões interpretativas. Efetivamente, num processo produtivo e criativo de depuradíssimo trabalho da língua, Eugénio mostra o seu génio, em que a sedução musical e imagística se associa ao cristal das palavras, como o belo poema “As Palavras” bem dilucida, atinente à reflexão sobre o seu valor polissémico e sua ambiguidade: “São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. (…)”
Palavras que, tal como a vida humana, são boas ou más, alegres e tristes, belas e feias, polissémicas e ambíguas, mas que em Eugénio de Andrade, como poeta apolíneo, assumem sobretudo uma postura de euforia e um discurso transparente e sincero, de luz, claridade e transparência em que “o homem é a medida de todas as coisas”, e “o mundo é um jogo de luzes e sombras”. Palavras que suscitam sensações sinestésicas a partir de um universo concreto, que são transfiguradas por uma perceção sensorial: “Gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do Verão. Aos barcos no vento. Gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro, a limão, a resina e a Sol”…
Outra faceta relevante deste poeta solar é o carácter predominantemente eufórico da sua poesia. Eugénio é um poeta apolíneo, da luz, da claridade e da transparência. O poema “Retrato” é um exemplo desse límpido apelo dos sentidos e de celebração de momentos de plenitude, por efémeros que possam ser: “No teu rosto começa a madrugada. Luz abrindo, de rosa em rosa, transparente e molhada. Melodia distante mas segura; irrompendo da terra, quente, redonda, madura.
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Mar imenso, praia deserta, horizontal e calma. Sabor agreste, Rosto da minha alma!”
Igualmente, Eugénio é “o grande poeta do amor da poesia portuguesa do século XX”, segundo António José Saraiva. Amor individual, que o poema “Improviso na madrugada” canta: “Húmido de beijos e lágrimas, / ardor da terra com sabor a mar, /o teu corpo perdia-se no meu// (Vontade de ser barco ou de cantar) “. Amor que também se expressa à escala universal como o poema “Urgentemente” explicita expressivamente, numa mensagem de urgente construção do amor, particularmente no conturbado mundo atual. Um poema de apelo dramático que estridentemente difunde um S.O.S. pungente, mas simultaneamente esperançoso na permanência na luta pela sua conquista: “É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rodas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luz Impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer.”
A adolescência e a imagem nostálgica da terra natal e da mãe é outra das tónicas e linhas temáticas eugenianas, como claramente evoca no poema “Canção Breve”, cujos versos são bem expressivos: “ tudo me prende à terra onde me dei:/o rio subitamente adolescente,/a luz tropeçando nas esquinas/as areias onde ardi impaciente” (…). Porém, o “Poema à Mãe” é plausivelmente aquele que mais emocionalmente exprime a divisão do poeta entre a necessidade de cortar o cordão umbilical que o prendia à proteção materna e a vida adulta: 352
“No mais fundo de ti, eu sei que te traí, mãe! Tudo porque já não sou o menino adormecido no fundo dos teus olhos! Tudo porque ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais! Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz! Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura! Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos. Mas tu esqueceste muita coisa: esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe! Olha – queres ouvir-me? – às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos; ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura; ainda oiço a tua voz: Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal… Mas – tu sabes – a noite é enorme, e todo o meu corpo cresceu. Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber. Não me esqueci de nada, mãe.
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Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas… Boa noite. Eu vou com as aves.”
Com efeito, perpassa no poema uma (aparente) traição filial e é evidente o desfasamento entre passado/presente, amor feliz/amor infeliz, ainda que o poeta conserve o passado dentro de si, presente como a chama de Vesta. Porém, não obstante ter saído da moldura do retrato infantil e haver deixado as rosas brancas da inocência e ter partido com as aves, o sujeito poético guarda saudosamente no seu interior a voz materna e do seu passado. Uma fixação materna que Joel Serrão interpreta como “um Édipo cujas armas parricidas seriam as palavras (…) que era tão-só uma fixação, passou a ser uma sublimação de teor estético”. Outra matriz da obra do poeta, como afirma Óscar Lopes, é “o seu mundo pode dizer-se elementar (…) porque quase se diria estruturado em imagens, à base das metamorfoses dos quatro elementos míticos tradicionais: o fogo (ou a luz, ardor), a água (ou rio, mar), o ar (ou vento), a terra e seus frutos em maturação”. Realmente, estes quatro elementos míticos são uma constante na sua poesia e refletem a busca da pureza inicial, servindo para cantar o amor e exprimir musicalmente a beleza sensual, bem como para evocar a reconciliação e a inteireza do Homem. O poema “Despertar” descreve os quatro elementos da natureza, quer enunciando-os quer sugerindoos: “É um pássaro, é uma rosa, é o mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, Canto na ave, água no mar.”
Abundantemente premiado, entre os quais com a atribuição do Prémio Camões (2001), o Grande Prémio da Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (2000) e o Prémio de Poesia da revista Poesia e Homem, Cantão, China, em 2004, Eugénio de Andrade viu ainda muitos das suas obras premiadas como “Branco no Branco” (1985) com o Prémio da Critica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários e o Prémio D. Diniz pela sua obra “Vertentes do Olhar” (1987). Igualmente, homenageado no 2.º Encontro de Professores de Português, em Maio de 1997, Eugénio de 354
Andrade é, pela voz de Duarte Manuel Correia, presidente da Fundação Eugénio de Andrade, “um homem íntegro, coerente e verdadeiro. É uma pessoa inequivocamente do lado da fraternidade e da justiça; é inequivocamente contra a exploração e a humilhação do ser humano. (…) É um criador excecional que todos reconhecemos original, inventivo e fecundo, e simultaneamente um espírito ordenado, um homem de rigor e da exatidão (…) É com este mesmo rigor, ele próprio o diz, que constrói os seus poemas, gostando de se comparar ao artesão que com paciência, dedicação e mão certeira faz os seus objectos”.
Terminamos com palavras suas, sobre o seu desiderato poético: “O futuro do homem é o homem, estamos de acordo. Mas o homem no nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração – acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se revela (…) De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bai a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: “Ecce Homo, parece dizer cada poema”. (…)
De facto, uma densidade poética na qual dois versos, ou pouco mais, são capazes de conter todo o universo, onde o poeta dá conta de ter visto poesia nas coisas mais simples do mundo: “Gosto de pombos, destas crianças. A eternidade não pode ser senão assim: pombos e crianças a fazerem da luz incomparável amanhã o lugar inocente do poema.” In, “Escrita da Terra” (Praça de Malá Strana)
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Natália Correia Neste ano em curso, a poetisa, ficcionista, ensaísta e dramaturga Natália (de Oliveira) Correia (19231993) perfaz 100 anos de nascimento e 30 anos do seu falecimento. Nascida na Fajã de Baixo, na Ilha de S. Miguel (Açores), a jovem Natália viveria desde os 11 anos, em companhia da mãe, em Lisboa, cidade onde estudou no Liceu Filipa de Lencastre e vivenciaria a maior parte da sua vida. Mulher de personalidade livre e vigorosa, embora romântica, cuja vida se reflete na sua escrita talentosa, genuína e combativa, Natália teve uma vida cheia e interventiva, cuja ação cívica se centrou nas causas humanitárias como a defesa da liberdade, a denúncia dos regimes autoritários e a emancipação feminina. Uma existencialista e rebelde que combateu ousadamente o preconceito, quer na escrita quer na vida pessoal. De facto, pessoalmente, Natália casaria quatro vezes, entre elas com o viúvo Alfredo Machado (1904-1989), gerente e dono do Hotel do Império, que seria a sua grande paixão; e já com 67 anos com Dórdio Guimarães, seu admirador de sempre. Afetividade que transparece também nas famosas tertúlias em sua casa com inúme- Natália Correia, in portal da Literatura ras figuras das artes, das letras e da política oposicionista, local onde, inclusive, receberia como anfitriã grandes nomes como Henry Miller, Graham Green e Ionesco, entre outros. Reuniões de amizade e intelectuais, que, posteriormente passariam para o bar Botequim, que fundaria com a sua amiga Isabel Meireles. Efetivamente, amante do convívio e das tertúlias artísticas, Natália seria ainda grande entusiasta do café concerto, que impulsionaria em Portugal e da confraternização intelectual e artística. Porém, polifacetada e dinâmica, Natália passaria ainda pela televisão, nos anos 80, protagonizando o programa “Mátria”, que abordaria de forma especial o feminismo; e dedicar-se-ia ainda às lides editoriais na Arcádia. Seria, aliás, no setor editorial, que sofreria alguns processos judiciais. Entre outros, a responsabilidade pela publicação das “Novas Cartas Portuguesas” das conhecidas “Três Marias” (Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta) e a sua edição da “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” (1966), que, considerada ofensiva aos costumes, lhe valeria a condenação de três anos de prisão com pena suspensa. Politicamente reformista, a sua ação interventiva seria também intensa. Realmente, comprometida 356
desde o início à oposição democrática, em especial no apoio às candidaturas presidenciais de Norton de Matos (1945) e Humberto Delgado (1958) e, posteriormente, na Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD), liderada por Mário Soares, desde cedo a jovem Natália calcorrearia os trilhos da cidadania ativa. Mais tarde, após o 25 de Abril, seria ainda deputada da Assembleia da República, com adesão ao PPD/ PSD, devido à sua perspetiva reformista e amizade a Sá Carneiro e Snu Abecassis, partido que viria, posteriormente, a abandonar, considerando o seu conservadorismo em matéria de costumes. Ingressaria depois no Partido Regenerador Democrático de Ramalho Eanes (1987-1991), que vinha apoiando desde 1985. Recorde-se a propósito desses tempos parlamentares, em 1982, a polémica com o deputado do CDS João Morgado, no decurso do debate sobre a despenalização do aborto. De facto, após este asseverar que “o ato sexual é para ter filhos”, Natália, irreverente e sarcástica, responderia mordazmente com este poema: “Já que o coito – diz Morgado – tem como fim cristalino, preciso e imaculado fazer menina ou menino; e cada vez que o varão sexual petisco manduca, temos na procriação prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento, lógica é a conclusão de que o viril instrumento só usou – parca ração! – uma vez. E se a função faz o órgão – diz o ditado – consumada esta exceção, ficou capado o morgado.”
Quanto à sua obra, na qual é evidente um polimorfismo singular, cuja audácia lhe valeu a proscrição pela censura, Natália mantém ainda uma atitude de independência relativamente aos modelos e movimentos literários, ainda que por vezes evidencie “uma aproximação da sua parte a procedimentos estilísticos típicos dos surrealistas (…) pela defesa de um estatuto de altiva insubmissão para o poeta, pela identificação das tradições culturais marginalizadas pelos poderes instituídos ao longo dos tempos e pela acentuação da dimensão mágica da poesia”. Paralelamente, coexiste na sua poesia a busca privilegiada de um diálogo intertextual com a tradição literária, em especial com Camões e Pessoa, na busca de um sentido para o devir português: “Ó Pátria amada minha misteriosa/que da Europa és esfinge/És o rebate/de uma última pedra preciosa/ ou és cedo demais num tempo acre?” Feiticeira Cotovia, como por vezes a denominavam por antonomásia, “condenada às chamas por práticas de uma magia maior e estranha a que ela dava o nome de Poesia”, Natália entende “a poesia como a substância mágica (…) que o poeta desespera por restituir à sua natureza orgânica primordial, a fim de a 357
tornar eficaz na recriação do mundo”. Poesia que se assume como revolução permanente que o sujeito poético impõe a si mesmo: (…) “Dão-nos a honra de manequim Para dar corda à nossa ausência. Dão-nos o prémio de ser assim Sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu Para tirarmos o retrato Dão-nos bilhetes para o céu Levado à cena num teatro.” (…)
Com efeito, nestas quadras de indignação perante o homem transformado em autómato e imitador da felicidade para inglês ver, versos retirados da obra “Dimensão Encontrada” (1957) e, concretamente, do poema/canção “Queixa das almas censuradas”, cantado por José Mário Branco, torna-se bem elucidativa a força do espartilho e do grito de libertação consequente., ainda que metaforicamente plasmados. Uma atitude de inconvencionalidade que é ainda capaz de quebrar tabus e romper pudores, como o dilucida o poema “Cosmocópula”, extraído da coletânea “Eros de passagem – Poesia erótica contemporânea” (1966): (…) “O corpo é praia, a boca é nascente e é na vulva que a areia é mais sedenta poro a poro vou sendo o curso da água da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas de carnívoras plantas te é meu ventre abro-te as coxas e deixo-te crescer duro e cheiroso como o aloendro.”
Porém e afora a poesia “revolucionária” e erótica, Natália assume também uma dimensão romântica, em especial nos “Sonetos Românticos” (1990). Curiosamente, uma obra que, aquando da morte da poetisa, o prestigiado jornal “New York Times”, na sua nota de homenagem, consideraria “a mais bonita da literatura portuguesa”. O soneto “O Espírito” fala por si: “Nada a fazer, amor, eu sou do bando Impermanente das aves friorentas; E nos galhos dos anos desbotando Já as folhas me ofuscam macilentas;
Pensa-me eterna que o eterno gera Quem na amada o conjura. Além, mais alto, Em ileso beiral, aí espera: Andorinha indemne ao sobressalto Do tempo, núncia de perene primavera Confia. Eu sou romântica. Não falto.”
Eu vou com as andorinhas. Até quando? À vida breve não me perguntes; cruentas Rugas me humilham. Não mais em estilo brando Ave estroina serei em mãos sedentas
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Todavia, apesar da sua obra poética ser fundamental na sua criação literária, Natália Correia mostraria todo o seu ecletismo, cultivando uma diversidade de géneros, da poesia ao teatro, do ensaio ao romance, da literatura de viagens ao diário e inclusive no guionismo e na tradução de autores conceituados, entre os quais Lope de Vega, (“Fuentevejuma”), René Obaldia (“O vento nas ramas do Sassafraz”), Ésquilo (“Os Persas”) e Anton Tchekov (“Platanov”), entre outros. Igualmente seria notória a sua presença vigorosa no jornalismo, em especial nos tempos do PREC, entre julho de 1974/1975, trabalhos compilados no volume “Não percas a rosa/Ó liberdade brancura de relâmpago”, que reúne textos de diários e crónicas. Textos jornalísticos que a sua frase “não, a minha revolução não é esta”, expressivamente condensa a sua oposição e a sua visão disfórica, inerente aos primeiros tempos do 25 de Abril. Recorde-se que em julho de 1974 os trabalhadores do periódico” A Capital” chegaram a proibir a publicação de crónicas suas … Enfim, uma obra plurifacetada de voz pessoal e postura irreverente que se iniciaria com o romance infantojuvenil “Grandes Aventuras de um pequeno herói” (1945), passaria ainda pela letra do Hino dos Açores, sua terra natal, e particularmente pelo teatro. De facto, na arte de Talma, Natália distinguir-se-ia também pela sua produção corrosiva e vigorosa. Uma dramaturgia de poderosa desmistificação de alguns mitos nacionais, onde o lirismo e a sátira se entrecruzam sabiamente, quer nas palavras quer nos temas. Com efeito, n’ “O Homúnculo”, tragédia jocosa de 1965, mas sobretudo n’ “A Pécora” (1967) e n’ “O Encoberto” (1969), impedidas de serem publicadas durante o regime salazarista, são evidentes e concretas a sua irreverência e rebeldia. De facto, “A Pécora” somente seria encenada em 1983 pela Comuna – Teatro de Pesquisa. Um texto de cariz provocatório e ousado de denúncia dos poderes da Igreja e do comércio religioso, estruturado em três atos antecedidos dum prólogo, que marcaria presença no I Festival da Convenção Teatral Europeia e seria levado a palco na França e Irlanda. “O Encoberto” (1969), por sua vez, que segundo o relatório da censura seria uma “paródia de assunto histórico com alusões ao povo português ou figuras históricas, com expressões de chacota e clara intenção de ridicularizar”, seria outra peça perseguida. Um texto que conta a história de Bonami-rei, que se faz passar por D. Sebastião, que urde várias críticas ao povo crente e iludido, que não quer ver a realidade, bem como à falsa nobreza interesseira que só pensa em dinheiro.
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Outra peça importante da dramaturgia da autora é “Erros meus, má fortuna, amor ardente” cujo teor fundamental é a figura humana de Camões e a imortalidade do seu génio, tendo como base o percurso bibliográfico do poeta e o contexto histórico e cultural do seu tempo, bem como o homónimo soneto camoniano. Uma peça em três atos (18 quadros), com grande número de personagens, que Natália Correia escreveria por encomenda do Teatro Nacional D. Maria II para celebrar o 4.º Centenário da morte de Camões, em 1980. Natália Correia, pela sua obra e ação cívica, seria (ainda) galardoada como Grande-Oficial da Ordem de Santiago e Espada e Grande-Oficial da Ordem da Liberdade e receberia o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelos seus “Poemas Românticos”. Atualmente, os seus bens encontram-se à guarda da Região Autónoma dos Açores, que lhe dedica uma exposição permanente na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, cidade para onde seria também transladado o seu corpo, em 2015. A nós, e a todos os crentes em dias melhores, Natália lega-nos esta oração de credo e esperança, renovada pelo sonho, palavra e Amor, para um futuro pacificamente invadido pelas rosas (e não pelas armas): “Creio nos anjos que andam pelo mundo Creio no Deus com olhos de diamantes Creio em amores lunares com piano ao fundo Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes.
Creio nos deuses de um astral mais puro, Na flor humilde que se encosta ao muro, Creio na carne que enfeitiça o além, Creio no incrível, nas coisas assombrosas, Na ocupação do mundo pelas rosas, Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.”
Creio num engenho que falta mais fecundo De humanizar as partes dissonantes Creio que tudo eterno num segundo, Creio no céu futuro que houve dantes,
Oxalá a sua prece seja ouvida e possamos dizer amen…
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Guerra Junqueiro – No centenário do seu falecimento O poeta e escritor Abílio Manuel da Guerra Junqueiro (1850-1923) nasceu em Freixo de Espada à Cinta, em 17 de setembro, perfazendo este ano 100 anos do seu falecimento. Filho de um negociante e abastado lavrador e precocemente órfão de mãe, quando apenas tinha três anos, Guerra Junqueiro faria então os estudos preparatórios no Porto, rumando seguidamente a Coimbra para cursar Teologia, que por falta de vocação religiosa trocaria pelo Direito. Deste modo, licenciado em Direito em 1873, passaria em Coimbra a sua juventude e vivenciaria de perto o período do movimento ideológico em que eclodiu a Questão Coimbrã”. Seguidamente, a sua vida (profissional) passaria depois pelo funcionalismo público, assumindo funções de secretário do Governo Civil de Angra do Heroísmo e, depois In Portal da literatura de Viana de Castelo, onde conheceria Filomena Neves, com quem viria casar-se em 1880. Ademais, seria também jornalista e corresponsável pelo jornal literário “A Folha” e dedicar-se-ia ainda à carreira política, tendo sido eleito deputado quer pelo Partido Progressista por Macedo de Cavaleiros em 1879, quer posteriormente pelo círculo de Quelimane e Viana do Castelo. Mais tarde, entre 1911 e 1914, as suas convicções republicanas indigitá-lo-iam ainda para o exercício do cargo de embaixador português na Suíça, entre 1911 e 1914. Porém, Guerra Junqueiro é indubitavelmente e acima de tudo conhecido como um dos mais vivos representantes da literatura social panfletária e da sátira social e política portuguesa, despoletada a partir da poesia de agitação social iniciada com as “Odes Modernas” de Antero de Quental. Com efeito em sua obra, após um início de matriz romântica, em que se destaca “Mysticae Nuptiae”, envereda depois pelo satanismo baudelairiano de que “A Morte de D. João” é exemplo. Uma fase literária que, como diria, se atém fundamentalmente à intenção de arejar a poesia, fazendo-a mergulhar na ciência e tentar a morigeração dos costumes. Todavia, é com “A Velhice do Padre Eterno” (1885), formada por 28 poesias, que assume uma acrescida e violenta sátira social, de cariz anticlerical, por vezes tocando as raias do exagero, quer atacando a educação do seminário, quer a caridade cristã e a justiça divina. Críticas de tal forma demolidoras que, anos mais tarde, 361
levam o poeta a autorretratar-se: “Eu tenho sido, devo declará-lo, muito injusto com a Igreja. A Velhice do Padre Eterno é um livro da mocidade. Não o escreveria já aos quarenta anos (…) No catolicismo existem absurdos, mas no âmago da sua doutrina resplandecem verdades fundamentais, verdades eternas, as verdades de Deus (…)”.
Todavia, polemista inveterado que sempre foi, fincou-se também na sátira política. Assim, em “Finis Patriae” (1890), insurge-se contra o Ultimato Inglês e torna-se novo Velho do Restelo, atacando violentamente os britânicos. Na mesma esteira se situa também o poema dramático “A Pátria” (1894), numa visão do momento histórico português de inspiração nacionalista, cheio de saudosismo e patriotismo elegíaco, que claramente afirma o protesto veemente do republicanismo ao comportamento da monarquia, perante o vexame do Ultimato Inglês. Um poema carregado de ecos de subjetivismo camoniano e ressonâncias do ideal cavalheiresco, que Fernando Pessoa colocaria num patamar superior, e que, como é notório nestes versos, expressam claramente a angústia e esperança sentidas: “E a Pátria! o meu amor! A Pátria bela!... Em que míngua eu a vejo!… Quem a abraça, Quem vai lidar até morrer por ela?!… Quase liberto já… não tarda a hora… Sorri-me a Virgem!... Como vem brilhante!...”
Mas, era também implacável, veraz e verrinoso do ponto de vista sociopolítico, como é evidente neste trecho de “Pátria”: “Um povo imbecil e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que nem já com as orelhas, é capaz de sacudir as moscas”.
No entanto, GJ não se ficou pela sátira e denúncia social. Deste modo, em 1892 surgiria o volume “Os Simples”, um hino à terra e uma sentida evocação da infância, indiciadores de um novo rumo e puro lirismo, como ele próprio justifica: “de uma visão mais íntima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções e, portanto, uma nova arte”. Assim, o poeta consubstancia-se com os humildes e o mundo das misérias e injustiças, encarnando o pastor asceta, a moleirinha e o cavador trágico, obra na qual se sente a ternura pela paisagem, com tendências panteístas e notas de franciscanismo. 362
Recordamos desta fase os poemas “Regresso ao lar” ou “A Moleirinha”, presente nos manuais da nossa memória estudantil: “Pela estrada plana, toc, toc, toc Guia o jumentinho uma velhinha errante Como vão ligeiros, ambos a reboque, Antes que anoiteça, toc, toc, toc A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...
Toc, Toc, a velha vai para o moinho, Tem oitenta anos, bem bonito rol!... E, contudo, alegre como um passarinho, Toc, toc, e fresca como o branco linho, De manhã nas relvas a corar ao sol.” (…)
Todavia, para além dos elogios de Pessoa, Guerra Junqueiro é também um dos nomes que Raul Brandão mais venera e recorda em muitas páginas das suas Memórias, como o ilustra esta passagem do volume II (1925), intitulada “Os últimos dias de Guerra Junqueiro”: “Tenho conhecido em toda a minha vida dois ou três santos e alguns homens superiores. Nunca vi mágico da força de Junqueiro. Homem extraordinário! Engenheiro extraordinário! Às vezes Deus fala pela sua boca; outras – quando menos se espera – é o Diabo fosforescente e sarcástico”.
De facto, a amizade entre ambos seria marcante, bem evidente na correspondência trocada, que a carta-prefácio que Junqueiro escreveu sobre o livro brandoniano “Os Pobres” (1906) claramente dilucida. Relações amistosas e literárias que já anteriormente se encontravam cimentadas, como a dedicatória da obra “A Farsa (1903), “ao Grande Poeta Guerra Junqueiro” corrobora indelevelmente. Adrede desta efeméride dos 100 anos da morte de Guerra Junqueiro, seria por isso recomendável (re)ler o autor, um pouco esquecido. E também de visitar alguns dos seus espaços emblemáticos, quer no Porto, quer em Freixo de Espada à Cinta. Assim, no que concerne à Cidade Invicta, sugere-se uma deslocação ao palacete onde se instala a CasaMuseu Guerra Junqueiro, edifício setecentista de estilo barroco atribuído a Nicolau Nasoni, recentemente remodelado pelo arquiteto Alcino Soutinho., que se situa junto à Sé do Porto. Aí, expõe-se uma panóplia de objetos das coleções pessoais do poeta e escritor, quer de arte sacra, ourivesaria, vidros e cristais quer tapeçarias, arte do metal e cerâmica, salientando-se ainda as faianças de Viana do Castelo e os pratos de Nuremberga. Por sua vez, no edifício defronte, no qual funciona complementarmente o Museu da Fundação, além de várias outras coleções artísticas, com destaque para a pintura renascentista e louça Ming, situa-se também o escritório e a biblioteca de Guerra Junqueiro que permitirão uma mais íntima aproximação ao poeta. Porém, o autor está também evocado na sua terra natal, na Quinta da Batoca, na freguesia de Ligares, na fundação criada pela filha, que se estende por cerca de trezentos hectares de vinha, olival e amendoal, 363
donde se avista o Douro e Barca d’Alva: “Uma manhã, Júpiter apareceu em Barca d’Alva e disse-me, pondo a mão familiarmente no ombro: - Queres fazer um poema homérico? - Vês esta terra selvagem? Rasga-a, ergue-a de socalco, planta-a de vinha. Dar-te-ei o sol para casar com ela! Ingénuo e deslumbrado, lancei-me ao trabalho. Um dia, anos mais tarde, Júpiter voltou. - Belas cepas, Abílio! - Cem mil, senhor Júpiter… - Cem mil versos de ouro. Fizeste o teu melhor livro!”
De facto, nesta casa altaneira, que o poeta amava, sentados na sua cadeira de vime, poderemos, para além da contemplação da bela paisagem, fruir muitas das vivências deste ilustre, que integrou o grupo “Vencidos da Vida”, cujos desabafos e cansaços expressos lucidamente na obra “Os Simples”: “Quanta vida me consome Quanta quimera perdida Quanto sonho, quanta lida, Tudo em vão. Quantos caminhos trilhados Quantos passos mal andados. Quantos ais e quantos brados Tudo em vão…”
Em vão, não, pois ficam para sempre os seus versos e escritos nos socalcos, que redigia por fatalidade orgânica: “Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira peras, e a macieira maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim”.
Livros que constituem uma ponte que balança entre o parnasismo e o simbolismo, mas que, infelizmente e inexplicavelmente, se mantêm no “purgatório do esquecimento”, do qual urge retirar…
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Recordando Pablo Neruda Ricardo Eliécer Neftail Reyes Basoalto, o conhecido poeta-diplomata chileno de pseudónimo PABLO NERUDA, que mais tarde seria o seu nome legal, faleceu em 23 de setembro de 1973, há 50 anos, ao que consta, segundo notícias recentes, vitimado por envenenamento, no decurso de um internamento na Clínica Santa Maria, em Santiago do Chile, motivado por cancro da próstata. De facto, de acordo com um painel internacional de cientistas, divulgado este fevereiro último, a sua morte terá resultado do envenenamento bacteriano e não propriamente, como suposto, do cancro da próstata. Uma morte que, por coincidência, ocorreria apenas 12 dias após o golpe de estado de Augusto Pinochet no Chile, que derrubou o governo socialista de Salvador Allende, do qual Neruda era apoiante… Ora, Pablo Neruda, nascido em 12 de julho de 1904, foi um dos mais ilustres poetas mundiais, distinguido com o Prémio Nacional de Literatura do Chile (1945), o Prémio Lenine da Paz (1953) e o Prémio Nobel da Literatura, em 1971, pelo que esta evocação sumária não poderia deixar de se assinalar, neste cinquentenário da sua morte. De facto, um poeta que, como ele próprio afirmaria, “nasci para a vida, para a terra, para a poesia, para a chuva”, especificamente em terras de Parral, no centro do Chile. Terra na qual, como acrescentaria, “crescem os vinhedos e abunda o vinho (…) e a vida era dura para os pequenos agricultores “. Com efeito, como consta no seu livro “Confesso que vivi”, publicado postumamente em 1974, Neruda confidencia, nesta obra, de cariz autobiográfica, escrita ao longo de vários anos, o seu trajeto de vida da infância à adolescência, os seus tempos universitários, a carreira diplomática um pouco por todo o mundo, especialmente como cônsul chileno em Barcelona. Aí, Neruda criaria uma grande amizade com Garcia Lorca e apoiaria muitos republicanos no decurso da Guerra Civil Espanhola, que o livro “Espanha no Coração” (1937) assinalaria. Mas traça também o relato autobiográfico das suas vivências no México e as suas impressões sobre a II Grande Guerra Mundial, o seu retorno ao Chile e posterior desterro, bem como as suas viagens e visitas à União Soviética, China, Cuba e Estados Unidos, e as suas vivências pelo mundo, quer em viagem quer no exercício da carreira diplomática, que assim recorda:
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“Vivi na desordem de pátrias não nascidas em colónias que ainda não sabiam nascer, com bandeiras inéditas que se ensanguentariam. Vivi na fogueira de povos malferidos Comendo pão estranho meu padecimento.”
Com efeito, vivências pelo mundo que o haviam de marcar politicamente como marxista e também como poeta revolucionário, autor de poemas dedicados a Porto Rico, Augusto Andino e a Fidel Castro, concomitantemente com as suas experiências de leitura. Efetivamente, quanto à sua apetência para a escrita, tudo começaria ainda jovem sob a influência de Gabriela Mistral, famosa poetisa chilena e Prémio Nobel, em 1945, que lhe deu a conhecer os escritores clássicos, que moldariam os seus inícios anarquistas. Aliás, Pablo Neruda traduziria o trabalho de Jean Grave, ativista do movimento anarquista francês, que divulgaria as ideias anarco-comunistas do russo Piotr Kropotkin, livro que certamente o influenciou intensamente. Datam, porém, dos anos 20 do século XX os primeiros livros: “La Cancion de la festa”, premiado pela federação chilena de estudantes de poesia e “Crepusculário”, que conseguiria editar após a venda do relógio que seu pai lhe oferecera. Neste período sai também do prelo “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” (1924) um dos seus livros mais emblemáticos e provavelmente mais lidos, repleto de pronunciado erotismo, que exaltaria valores e práticas condenadas na época, que o poema “Corpo de Mulher” dilucida: “Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega. O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti e faz saltar o filho do mais fundo da terra. Fui só como um túnel! De mim fugiam os pássaros, e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa. Para sobreviver forjei-te como uma arma, como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.
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Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te. Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme. Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência! Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste! Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça. Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso! Escuros regos onde a sede eterna continua, e a fadiga continua, e a dor infinita.”
Sua poesia é, contudo, de constante mudança, relacionada intrinsecamente com as suas experiências de vida, os factos históricos que a marcaram, bem como o sentimento telúrico que o norteiam, bem presente na obra “Canto Geral” (1950). Realmente, nesta epopeia latino-americana em 15 partes, Neruda conta em verso a história e a geografia do continente, denunciando as injustiças, abordando vilões e heróis e evocando as suas múltiplas gentes como colonizadores, reis indígenas, libertadores, ditadores … No fundo, uma criação poética bastante plural em géneros, tipos e formas, que não obstante indícios surrealistas, escapa às escolas literárias vigentes, mas que soube beber q.b. nas fontes de Hipocrene o estro inspirador do seu nerudismo: “Eu mudei tantas vezes de sol e de arte poética que ainda estava servindo de exemplos nos cadernos de melancolia quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas, e apenas me haviam declarado obscuro como boca de lobo ou de cão, denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto”
Eis Pablo Neruda, em termos sumários, nome literário inspirado no escritor checo Jan Neruda, um pseudónimo que escolheria para escapar à repressão paterna e poder escrever, sem pressões e às escondidas, os seus versos que lhe corriam no sangue. Um poeta que, para além da obra, é ainda recordado no cinema, no filme “Neruda” (2016) e na longametragem ficcionada “O Carteiro de Pablo Neruda”, bem como na instituição do Prémio Iberoamericano da Poesia Pablo Neruda, criado em 2004, aquando do centenário do seu nascimento.
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Manuel António Pina Manuel António Pina (1943-2012), escritor, poeta e cronista, celebraria 80 anos em 18 de novembro de 2023, se ainda estivesse entre nós, no mundo dos vivos. No entanto, falecido há cerca de 10 anos atrás, deixar-nos-ia um precioso legado que o mantém vivo entre os vivos, quer pela sua obra infantojuvenil, quer pela sua produção poética e jornalística. Com efeito, apesar de Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1971, e ter exercido por algum tempo a profissão de advogado e técnico de publicidade, seria sobretudo na carreira jornalística, em especial no Jornal de Notícias, que Manuel António Pina exerceria funções profissionais. Jornalismo que se estenderia a outros media como a rádio e a televisão e a outras colaborações dispersas como nos periódicos República, Diário de Lisboa, Expresso e Jornal de Retrato de Manuel António Pina, Letras, Artes e Ideias e ainda como colunista da revista Visão. Outrossim, como in Poetria – poesia e teatro professor da Escola Superior de Jornalismo e membro do Conselho de Imprensa. Mas, de facto, Manuel António Pina é certamente um daqueles “que por obras valorosas/se vão da lei da morte libertando”, sobretudo pela sua produção literária. De facto, deixar-nos-ia uma obra bastante apreciada e premiada, que inclusive conta com o Prémio Camões (2011), o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, um galardão que lhe seria atribuído pela “inventividade e originalidade” da sua produção poética e obra infantojuvenil, traduzida em várias línguas. O mundo infantojuvenil O mundo infantojuvenil é efetivamente uma das indeléveis pedras preciosas da sua produção literária, que pelo legado de valores transmitidos faz parte integrante de muitos manuais escolares e das obras recomendadas de educação literária, no âmbito da escolaridade obrigatória. Com efeito, quem é que não conhece “O Têpluquê e outras histórias” (1976), a narrativa do menino que trocava o tê pelo quê?! E as outras histórias da obra, como as do escaravelho Bocage contador de estórias, ou da revolução das letras contra a ordem alfabética: “Até que um dia, o dono do alfabeto, que era quem escrevia com ele, reuniu os seus gramáticos e disse:
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- Façam qualquer coisa, senão as letras revoltam-se. Ainda fazem alguma cooperativa e começam a escrever sozinhas!” (…)
Bem, mas a revolução que aconteceria de facto seria outra e ocorreria historicamente em 25 de Abril de 1974! Aliás, sabem bem da História (esta com um “agá” grande) que assim foi! De tal forma que o nosso Manuel António Pina (MAP) também escreveria uma história sobre estas páginas da História. Intitulada “O Tesouro” (1983), que seria escrita a pedido da Associação 25 de Abril. Sim, aquela história da História do “país que agora já não se chama País das Pessoas Tristes”, pois conquistou o tesouro da liberdade … Um tesouro que não se pode esbanjar: (…) “Há muitos anos, no tempo em que o teu pai andava na escola, num país muito distante vivia um povo infeliz e solitário, vergado sob o peso de uma misteriosa tristeza. (…) Esse país agora já não se chama País das Pessoas Tristes, chama-se Portugal e é o teu país. E o tesouro pertence a ti, és tu que agora tens que cuidar dele. (…) Porque esta história não é uma história inventada. É uma história verdadeira, aconteceu mesmo. Pergunta os teus pais ou aos teus professores e eles contar-te-ão mais coisas sobre o País da Pessoas Tristes e sobre o Dia da Liberdade”.
Inventividade e originalidade que está também presente em “O Inventão” (1987) que reúne vários textos escritos para a RTP, que foram apresentados no programa de 12 episódios intitulado “Histórias com pés e cabeça”; ou na obra “A história do Capuchinho Vermelho contada às crianças e nem por isso”, por Manuel António Pina, segundo desenhos de Paula Rego, que a partir de desenhos desta artista plástica recria o conto tradicional, explorando questões como a insegurança nas cidades, o medo, a pedofilia e a desagregação familiar. No entanto, estou certo que, quer o caro leitor quer alguém da sua família e amigos, também já ouviram falar da obra “Pequeno livro de desmatemática” (2001). Mas, calma, pois neste caso a (des) matemática não é nenhum bicho papão (como aliás nunca o foi!), mas antes uma “disciplina” mega divertida e desconcertante, de fazer pôr os neurónios a “neuro-sonhar”. Porém, este livro de MAP, mais que contas, conta outras contas do rosário! Jogos com palavras e brincadeiras com elas, sempre a brincar, porque, como diz o escritor, “brincar é coisa muito séria”! 369
Por isso, “aqui, as personagens da matemática, os números, os sinais, as contas são tratadas como gente, têm sentimentos, sonhos. Até fraquezas e defeitos. Como tu e como eu”. Mas sempre com problemas resolúveis, com o poder da imaginação, mesmo em casos de difíceis operações, como a arte de dividir: “A divisão é a arte De ficar com a melhor parte Se duvidas não dividas! Ou divide só as dívidas!”
Todavia, caso o caro leitor prefira o teatro a estas complexas operações (des)matemáticas, MAP pode também oferecer-lhe muitas outras opções de leitura e representação, com ou sem desconto! Por exemplo, a peça “O beco dos Gambozinos”, que em sua homenagem esteve em cena, no Porto, com música de Susana Ralha. Mas também poderá ler “Os Piratas”, adaptação teatral da novela homónima, que dramatiza a estória vivida por uma rapariga de 9 anos, envolvida na tragédia de um naufrágio e num ataque pirata. Ou ainda a peça “O Adamastor”, cuja ação é narrada por Mestre João, físico e astrólogo, que a bordo da frota de Pedro Álvares de Cabral, em 1501 rumou ao Brasil e depois à Índia. Uma história fantástica e terrível sobre um náufrago de nome Manuel, jovem artilheiro na caravela de Bartolomeu Dias, e Ex-ajudante de carpinteiro de naus, na Ribeira, que, no seguimento dos ventos paternos, busca nos caminhos marítimos uma vida melhor: “MÃE – Não vás, Manuel, não vás, que nunca mais voltas! MANUEL (Afastando-a docemente) - Tenho que ir, minha mãe – Mete mais medo a pobreza que metem o mar e as tormentas. Dê-me a sua bênção, que já me esperam (…) Não teremos mais fome, minha mãe, hei de trazer ouro e prata que bastem para não termos mais fome em casa! MÃE (chorosa) – Com a fome que temos nos bastámos nós, filho … contigo e teu pai em casa, passamos bem sem ouro e sem prata! Vê teu pai: que ouro e prata tem trazido ele do mar senão doenças e inquietações? (…) MANUEL – É tempo de me ir. A sua bênção, minha mãe. A MÃE estreita MANUEL, chorando. MÃE – Adeus, meu filho. Deus te abençoe!”
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Porém, uma outra ótima sugestão de leitura da obra de MAP passa também pelos contos natalícios, nos quais o escritor é também exímio contista. Por conseguinte, recomendamos “O Cavalinho de pau do Menino Jesus e outras histórias” (2009). Três narrativas reunidas neste livro de deliciosos contos natalícios, que inclui além d’ “O Cavalinho de Pau do Menino Jesus”, no qual o Pai Natal e o Menino Jesus convivem entre si, bem como “O Sorriso”, ainda com o Menino Jesus na barriga da mãe; e a bem-humorada narrativa “Mais depressa, Reis Magos, mais depressa”, que apesar da pressa, como é sabido, acabariam por chegar atrasados à adoração do Menino, merecendo por isso um ralhete da Virgem Maria: “Nossa Senhora fitou-os com severidade: já estamos a 6 de janeiro, viestes muito atrasados. Temos estado à vossa espera desde o Dia de Natal, pois estava escrito que viríeis nesse dia. Por pouco já não teríamos tempo de fugir para o Egipto”. Bem, não sabemos qual o motivo do atraso dos três Reis Magos, mas desconfiamos que certamente não será alheio um qualquer capricho das Rainhas Magas … O POETA E O CRONISTA Bem, mas a poesia é também uma excelente opção! Então, entre vários títulos, sugeríamos, por exemplo, para os mais novos, “O Pássaro da Cabeça” (1983), do qual transcrevemos esta pequena passagem, para voar e adoçar o bico: “Sou o pássaro que canta dentro da tua cabeça que canta na tua garganta canta onde lhe apeteça. (…) Sou o pássaro da imaginação que voa até na prisão e canta por tudo e por nada mesmo com a boca fechada.” (…)
Porém, a sua dimensão de poeta ultrapassa de longe a esfera infantojuvenil. De facto, na sua expressão 371
lírica mais elaborada, sente-se sobretudo a força das palavras e a originalidade da sua voz, caldeada na sua expressão pós-pessoana de fragmentação do eu e na tendência para a exploração das possibilidades filosóficas da poesia. “Amor como em casa” é um dos seus muitos poemas, extraído da edição de “Poesia Reunida” (2001), da qual respigamos este poema: “Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho família da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo às vezes depressa, meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no amor como em casa.”
Bem, mas MAP, um beirão nascido no Sabugal e residente no Porto, não foi, porém, e apenas um escritor e poeta distinto. De facto, seria ainda um ilustre jornalista e excelente cronista, cujas crónicas se encontram reunidas em duas antologias: “Por outras palavras & mais crónicas de jornal” (2010), com textos editados entre 1984-1997 e “Crónica, saudade da literatura” (2014). Coletâneas de crónicas que selecionam e compilam várias das cerca de duas mil crónicas publicadas no Jornal de Notícias, Notícias Magazine, Visão e Tempos Livres (revista do Inatel). Crónicas consideradas entre as melhores publicadas em Portugal nos últimos tempos, que conciliam substância e finura com aguçada ironia, bem como uma feição poética criativa, assentes numa “prosa limpa e inteira, capaz de em escassas palavras traduzir com rigor as subtilezas, os humores e as misérias do quotidiano (…). Pina burila cada texto com a paciência do artesão e rigor cirúrgico” – assim sintetiza Valdemar Cruz, no semanário Expresso, a sua opinião sobre a prosa jornalística de MAP. Antologias que, porém, mereceriam algum desconforto por parte de MAP, uma vez que considera as suas crónicas “muito presas ao momento em que foram escritas. Por isso, acrescenta, “tal como o jornal, que no dia seguinte só serve para embrulhar peixe, as crónicas também têm uma relação com o tempo. Estão ancoradas na realidade”. 372
Não o será propriamente assim, como é o caso desta crónica intitulada “Onde se fala de gatos e de homens” (ele que tanto adorava os felinos domésticos), cujo teor se mantém atual, ainda que possa parecer ressequido: “Os meus gatos dormem e sonham durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas. Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida coletiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido. E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo. Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo “não sabia nada de finanças, /nem consta que tivesse biblioteca”, e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo”.
(Re)ler Manuel António Pina, na poesia, crónicas, contos (e não só contos infantojuvenis) será certamente o melhor preito que lhe podemos prestar, quer sejam estas ou outras escolhas de leitura. Esperamos ter aberto o apetite sobre este escritor, cronista e poeta, que certamente suscitará a fruição da leitura em toda a família …
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Manuel da Fonseca – Um alentejano dos quatro costados Passam este ano 30 anos da morte do escritor neorrealista MANUEL (Lopes) DA FONSECA, nascido a 15 de outubro de 1911, em Santigo do Cacém. Alentejano dos quatro costados, que “pintou” com palavras as suas obras, não obstante a sua formação em Belas-Artes, Manuel da Fonseca deixa-nos um legado literário carregado de forte intervenção social e política, arraigada à sua militância comunista e à dura vida do seu Alentejo e dos alentejanos. De facto, quer na prosa, em especial como contista, quer com mais fôlego no romance, entre os quais se sobrelevam particularmente Cerromaior (1943) e Seara de Vento (1958), mas também na poesia, ora com “Rosa dos Ventos” (1940) ora com “Poemas Dispersos” (1958), Manuel da Fonseca seria um dos mais destacados representantes do neorrealismo português e do grupo do Novo Cancioneiro, cuja obra poética apresenta ressonâncias de um gongorismo próximo de Frederico Garcia Lorca e mesmo dos poetas surrealistas. Recorde-se ainda, na sua produção poética, “Poemas para Adriano”, conjunto de 9 poemas escritos especialmente para o álbum “Que nunca mais”, lançado por Adriano Correia Manuel da Fonseca - Bertrand Livreiros – Livraria online de Oliveira, que permitiu ao músico ser eleito Artista do Ano pela revista Música Week. O poema “Saíram todos em Montemaior” é um exemplo dessa poesia de intervenção social: (…) “Vida que ganhei nunca foi por esmola pois criança ainda apascentar o gado da encosta ao vale da planície à serra era o meu livro de eu andar à escola. Anos depois, já homem feito, o arado era o meu jeito de escrever na terra. E o gesto franco de lançar da semente
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era distribuir pão por toda a gente que é esta a lei que deus fez. E o não querer que assim não fosse foi a causa que me trouxe Onde me vês.” (…)
Poesia de intervenção, por vezes musicada e cantada, que o refrão de “Tejo que levas as águas” bem elucida: “Tejo que levas as águas Correndo de par em par Lava a cidade de mágoas Leva as mágoas para o mar”
Efetivamente, perpassa na obra de Manuel da Fonseca uma literatura de intervenção contra as forças no poder na qual o poeta e o narrador se identificam, a tal ponto que se torna impossível encontrar uma separação essencial entre a sua poesia e a sua prosa de ficção. Produção literária que indissociavelmente se liga ao seu Alentejo, a despeito dos citadinos contos de “Um Anjo no Trapézio (1968) e “Tempo de Solidão” (1973) e “Crónicas Algarvias” (1986). Com efeito é sobretudo de salientar a sua capacidade de recriar um painel de figuras e terras tocadas pelo dramatismo do seu Alentejo, nos seus domínios sociais, económicos e até geográficos, por vezes dotados da grandeza do mito, que alguns críticos consideram a verdadeira personagem da sua obra, em especial os humilhados e ofendidos, que o poema “Solidão” dilucida: “Que venham todos os pobres da Terra os ofendidos humilhados os torturados os loucos: meu abraço é cada vez mais largo envolve-os a todos.” (…)
Com efeito, como nota Mário Dionísio, “ela traz-nos a poeira que o carro de canudo vai levantando à passagem, a solidão e o mistério dos montes no meio da planície imensa, a angústia dos homens perdidos na noite”. Mas também os ódios ocultos e a denúncia de tudo aquilo que faz dos personagens seres dominados pela miséria, pela loucura, pela revolta. De facto, como acrescenta Mário Dionísio, um “homem inteiro que fala sem rodeios”, em toda sua obra, a qual documenta uma realidade onde perpassa um sopro épico. 375
Porém, afora a sua obra, na qual sobressaem as obras de contos “Aldeia Nova” (1942), “O Fogo e as Cinzas” ( 1953) e “Tempo de Solidão” (1973), Manuel da Fonseca marcou ainda presença ativa do ponto de vista cívico e social. Cite-se, a talho de foice, a sua participação e ação como membro da Sociedade Portuguesa de Escritores, instituição responsável pela atribuição do Grande Prémio da Novelística à obra “Luuanda” do luso-angolano José Luandino Vieira (1965), decisão que suscitaria grande polémica política e a detenção dos membros da SPE, assim como a sua luta pela justiça social e contra a censura. Paralelamente, o escritor colaboraria ainda em diversos jornais e revistas, designadamente a “Seara Nova” e “A Capital” e seria agraciado com o grau de comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada (1983). Atualmente, o escritor encontra-se ainda recordado na Escola Secundária Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém e na biblioteca local, bem como no Prémio Nacional do Conto atribuído anualmente pela edilidade da sua terra natal. No entanto, lembrar Manuel da Fonseca só será pleno se complementado por leituras da sua lavra…
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Urbano Tavares Rodrigues – No centenário do seu nascimento O ano de 2023 é úbere em centenários de homens e mulheres das letras e URBANO (Augusto) TAVARES RODRIGUES é um desses escritores natos há 100 anos, precisamente em 6 de dezembro de 1923, em terras alentejanas. Uma efeméride que, porém, coincide também com os 10 anos da sua morte, em 19 de agosto de 2013, e os 70 anos de vida literária. Com efeito, filho de uma família de proprietários agrícolas e de pai escritor, precocemente rodeado de livros, Urbano Tavares Rodrigues acabaria por seguir os passos paternos. Uma infância feliz, curiosamente passada no Monte da Esperança, assim se chamava a herdade dos pais, sobre a qual diria, em entrevista ao Jornal de Letras, em 2007, ser “um paraíso, depois perdido, a que sempre quis voltar. E a descoberta ainda da miséria, do povo”. Multifacetado na sua produção literária, legando-nos uma obra extensa, profunda e variada, que passaria pelos mais diversos géneros e pela crítica literária, profissional ativo como jornalista e crítico, Urbano Tavares Rodrigues dedicar-se-ia sobretudo à docência que exerceria como professor liceal e universitário, no âmbito da Literatura Francesa e Portuguesa. De facto, inicialmente colocado no Liceu Camões (1956/1957), onde estudara na adolescência, e, posteriormente lecionando na Faculdade de Letras (1957/1959), em Lisboa, a convite de Vitorino Nemésio, atividade docente que desempenharia por força da sua licenciatura em Filologia Românica, Tavares Rodrigues acabaria, porém, por ser empurrado para a prisão e interdição de trabalhar como professor nos estabelecimentos de ensino do estado. É aliás na prisão que escreve “Contos de Solidão” (1968), usando papel higiénico e um aparo de mina, por lhe serem negados outros meios de escrita. Efetivamente, pelas suas simpatias republicanas, convicções democráticas e ações cívicas antecedentes, nomeadamente a sua participação na greve académica de 1947, ligação à Revolta da Sé (1959) e ao assalto ao Quartel de Beja (1961) bem como, posteriormente, pelo seu apoio à candidatura presidencial de 377
Humberto Delgado (1958) e posterior adesão ao Partido Comunista (1969), o escritor e professor conheceria ainda o amargor de ser oposicionista ao regime e poder salazarista e ser forçado ao exílio, em França, entre 1949 e 1955, situação que, na altura, lhe permitiu exercer funções de leitor de português nas universidades de Montpellier, Aix-en-Provence e Sorbonne, em Paris. É aliás em Paris que conhece figuras intelectuais locais como André Malraux (1901-1976) e o franco-argelino Albert Camus (1913-1960), seu amigo, que o conduz pelos caminhos do existencialismo francês, bem como a primeira esposa e escritora Maria Judite de Carvalho (1921-1996). De regresso a Portugal, exerceria ainda funções docentes no Colégio Moderno (1961/1963) e Liceu Francês (1965/1974) e trabalharia na publicidade e jornalismo, em especial nas revistas Colóquio Letras, Jornal de Letras, Vértice e Diário de Lisboa cujas crónicas seriam compiladas nos volumes “Santiago de Compostela” (1949) e “Jornadas na Europa” (1958). Homem de temperamento impetuoso, mas gentil, segundo os que o conheceram, mas também generoso e corajoso, com uma “costela comunista e outra franciscana” como uma vez dissera, idiossincrasia que transparece na sua obra, Tavares Rodrigues assume-se plenamente como uma pessoa cheia de energia criativa e grandeza ética, traços individuais que transporta para a sua vida e obra, tanto na literatura como na docência, tanto no jornalismo como na intervenção cívica e política. Mas também um desportista que praticou boxe e natação (consta que fazia 20 piscinas aos 70 anos) e um homem solidário, que transportava no seu próprio carro emigrantes clandestinos, pelas bandas raianas. Outrossim, um homem perseverante e determinado, como acabaria por comprovar no seu doutoramento em 1984, já com idade avançada, com a defesa da tese sobre o Presidente da República e escritor Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), que consideraria um dos seus mestres. Doutoramento que culminaria com a sua jubilação em 1993. Como diria na citada entrevista ao Jornal de Letras, um homem do iluminismo e livre pensador que, apesar da educação católica, abandonaria a religião durante a adolescência: “Não tenho qualquer fé religiosa, sou um homem do iluminismo, um livre pensador. Sinto, porém, a Natureza como divina numa renovação permanente de que fazemos parte, como os animais e as plantas”.
O escritor Data de 1952 a obra “A Porta dos Limites”, coletânea de contos e novelas e a sua primeira publicação de um conjunto de quase uma centena de livros editados, que se espraiam pelas viagens, ensaios, romances, 378
contos e novelas, bem como pelas crónicas, antologias poéticas e inclusive uma incursão pelo teatro. Uma obra cujos temas fundamentais se centram em três pilares fundamentais como o amor, a morte e a solidariedade social, que entre os trilhos do existencialismo e do neorrealismo fariam caminho e, por vezes, se (entre)cruzariam por atalhos diversos. Como afirmaria e confirmaria: “Enfim, eu sou tudo isso: existencialista, até surrealista e realista social … E onírico. Mas, além de tudo isso, sou eu próprio: um escritor que tentou sempre escrever o seu livro, o seu grande livro, e achando que ainda que não era aquele. Fui sempre, escrevendo mais, com a preocupação de não me repetir”.
Efetivamente, a obra romanesca e ensaística de Urbano Tavares Rodrigues erige-se a partir do cruzamento ou fusão de duas tendências essenciais (o existencialismo e o neorrealismo), que, por vezes, o revelam (paradoxalmente) como um existencialista com preocupações sociais e/ou um neorrealista com preocupações individuais. De facto, inicialmente focado no romance de tendência moralista postulando uma mensagem de orientação social existencialista, de cariz individualista, predominante na década de 50, Urbano Tavares Rodrigues enveredaria, na década seguinte, pelos caminhos da denúncia do regime do Estado Novo, aproximando-se do neorrealismo marxista e militante, de que são exemplos marcantes “Bastardos do Sol” (1959) e “Insubmissos” (1961). Curiosamente, “Insubmissos”, provavelmente o romance mais insubmisso deste escritor insubmisso, que Júlio Conrado considera de “páginas notáveis, algumas até verdadeiramente inesquecíveis”, corroborativas da afirmação de um grande ficcionista, a personagem Lício parece profetizar premonitoriamente, no diálogo com Manuel, o advento do 25 de abril: “(…) Quando é que encontramos, lado a lado, a eficiência e a dignidade, o futuro e o presente, limpos e lisos, à espera do nosso abraço ou do nosso sangue? Porque então … - Mas, se calhar- disse Lício, já lá não chegaremos, a menos que tudo se precipite no mundo, durante estes próximos quinze anos. E quinze anos, para mim, é muito (…)”
De facto, nesses quinze anos, antecipados por prolepse, muitas coisas mudariam que Urbano Tavares ainda vivenciaria, ainda que nem sempre a seu jeito … Efetivamente, na década de 70 do século XX, após a decadência de 40 anos do Estado Novo, guerra 379
colonial e repressão, a que acresceria a emigração para a Europa, a Revolução dos Cravos sofreria inflexões várias que nem sempre vão de encontro aos anseios dos escritor, levando-o a radicalizar a sua escrita de combate, que empenhado civicamente na sociedade socialista se faria sentir de sobremaneira nos seus textos ficcionais, não obstante a sua abertura a outras visões e práticas estéticas. Datam desta fase “Dissolução” (1974), Viamoriência (1976) e “As Pombas são Vermelhas” (1977), entre outros. Perspetiva que, porém, se altera de novo nos anos 80 e 90, uma vez falhado o sentido socialista da Revolução dos Cravos, premissas que levam a ressuscitar, na escrita do autor, “a antiga harmonia romanesca entre a descrição da situação existencial e a narração da intriga social, avivadas, agora, de um modo muito contundente, por um efeito de denúncia”. Realmente, o ato de escrita tornou-se para Urbano Tavares Rodrigues um ato de denúncia das novas mazelas do capitalismo e de (nova) resistência ao canto de sereia dos ideólogos neoliberalistas. As obras “Eterno Efémero” (2005) e “Ao Contrário das Ondas” (2006) serão porventura as mais elucidativas desse período, que se prolongaria à crise de valores, de que a obra “O Supremo Interdito” (2000) é exemplo. Urbano Tavares Rodrigues é, de facto, um dos melhores ficcionistas de posição empenhada, reflexiva e protestativa da nossa literatura, que sapientemente alia o drama do homem perante a existência (existencialismo) e o drama do homem perante as circunstâncias ou a sua situação (realismo). Teve ainda uma curta incursão pelo cinema e uma expressão pela poesia, porventura bastante menos conhecida do que a sua prosa narrativa e ensaística. Realmente, participaria, como ator (fazendo o papel de si próprio), no filme “Visita – Memórias e Confissões” (1982) de Manoel de Oliveira, que aborda a sua prisão em 1963 e legar-nos-ia ainda alguma poesia plena de sonhos, telurismo e intimismo ideológico, de que é exemplo mais marcante “Horas de Vidro”. Com efeito, há, neste livro, dividido em quatro partes (Primeiros Poemas, Poemas dos anos 60, Poemas do novo século e Poemas com endereço), variadas temáticas que vão do amor (sensual), à solidão, até à resistência política, sentimental e ideológica. São o caso de “Não te rendas a Castela” em que declara a ideologia humanista da esperança, num outro amanhã para o Alentejo (“entre a vontade de ser/e os cravos de amanhã/Não te rendas a Castela/sorrirá outro amanhã), ou ainda “Viagem”: “há de haver porém – ou rasgamo-lo nós/uma janela qualquer/toda branca ou de fogo/Que se abre inesperadamente /Para outro futuro (…) Mostrem-nos de longe/quando muito/a raiva de criaturas/dos bairros mais 380
escuros/Gente sem pão nem trabalho/ou com horas de sofrimento em excesso/Sabemos que há muitas”. Poesia que bebe influências universais em Baudelaire, Rimbaud e Lorca, mas também Octávio Paz e Pablo Neruda e no brasileiro Manuel Bandeira, entre outros, aos quais se acrescentam os poetas portugueses. Como diz no prefácio da antologia “Poemas da Minha Vida” “profundamente me marcaram a lírica de Camões, a profundidade e a militância de Antero de Quental, o prosaísmo artístico de Cesário Verde, a coloquialidade hipersensível e irónica de António Nobre, o cerebralismo e a harmonia de Pessoa, a atualidade de Vitorino Nemésio e de Jorge de Sena, a pureza verbal de Sophia, o ofício incomparável de Carlos de Oliveira, a descida de Herberto Helder aos abismos do homem, o fluir da existência em Ruy Belo , o sensualismo e a perfeição de David Mourão-Ferreira, as trovas de resistência e a aproximação da morte em Manuel Alegre (…) Certos poemas são como folhas de lume a aquecerem-nos o espírito e o corpo (…)” . Ou seja, inferimos, (quase) toda a poesia portuguesa. “Margem Sul”, canção sobre o poema de Urbano Tavares Rodrigues, cantado por Adriano Correia de Oliveira, pertencente ao disco “Rosa de sangue”, editado em 1968, é um dos exemplos paradigmáticos do seu Alentejo e suas gentes: Ó Alentejo dos pobres, Reino da desolação, não sirvas quem te despreza, é tua a tua nação. Não vás a terras alheias lançar sementes de morte. É na terra do teu pão que se joga a tua sorte. Terra sangrenta de Serpa Terra morena de Moura vilas de angústia em botão, Dor cerrada em Baleizão. Ó margem esquerda do Verão Mais quente de Portugal Margem esquerda deste amor Feito de fome e de sal. A foice dos teus ceifeiros trago no peito gravada, ó minha terra morena como bandeira sonhada.
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Terra sangrenta de Serpa, terra morena de Moura, vilas de angústia em botão Dor cerrada em Baleizão.
Igualmente, “Dois poemas de amor e vida”, que nos dão uma perspetiva da temática do amor: I Rosa vibrante dos subterrâneos de uma nova resistência desabrochas com a luz do dia sempre ao meu lado o rosto e o seio irradiando o fogo jovem da paixão dá-me essa água da felicidade que nos teus olhos brilha Quero o sumo dos teus lábios Entrar no jardim do teu corpo é o esplendor da vida.
II Nas folhagens do azul mais luminoso encontro a música silenciosa do teu primeiro sorriso e lembro depois o automóvel cortando a noite a tua boca fremente a tua mão na minha Lisboa a madrugar no renascer do mundo
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Porém, para além da ficção (traduzida em várias línguas) e da poesia, Urbano Tavares Rodrigues cultivaria com mestria o ensaio, produzindo inúmeras obras neste domínio, entre as quais se destacam “Um novo olhar sobre o neorrealismo” (1981) e “A Horas e Desoras” (1983), que receberia o Prémio Jacinto Prado Coelho. Urbano Tavares Rodrigues seria ainda distinguido, como o Prémio Ricardo Malheiro (1958), pela sua obra “Uma Pedrada no Charco”, bem como o Prémio de Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1968), distinções que após o 25 de Abril se sucederiam. Entre outros, o prémio Fernando Namora (1993), o Prémio do Conto Camilo Castelo Branco (2003), bem como o Prémio de Consagração da Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (2000) e o Grande Prémio da Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (2002), instituição de cuja direção faria parte e presidiria (1982-1984). Paralelamente, o escritor seria galardoado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1994) e a Ordem Militar de Santiago e Espada (2008), encontrando-se atualmente memoriado no denominado Prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues, criado em 2012, pela FENPROF e a SABSEG e também no nome da Biblioteca de Moura, sua terra natal. Seguramente um escritor a (re)ler, não só para melhor conhecer os nossos tempos mais recentes como também saborear, como diz Óscar Lopes “gradações inteiramente novas da experiência humana…”
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Eduardo Lourenço – Uma vida a pensar Portugal António Oliveira Professor do AE Francisco de Holanda
Este ano de 2023, o país celebra o centenário do nascimento de Eduardo Lourenço. Quem é Eduardo Lourenço? Será redutor dizer que este escritor é o maior ensaísta português dos últimos cinquenta anos. Ao longo dos seus 97 anos de vida, quer em colóquios e conferências, quer através da escrita dos seus inúmeros ensaios pensou Portugal, a nossa identidade cultural e nunca deixou de nos desafiar a pensar com ele e a fazer uma longa viagem pela História de Portugal, pela sua cultura, pela sua literatura, desvendando os seus mitos e a nossa relação connosco próprios e com a Europa. Nascido em São Pedro de Rio Seco, distrito da Guarda, a 23 de maio de 1923, o jovem Eduardo Lourenço passou boa parte da sua adolescência no Colégio Militar. Como não gostou desta fase da sua vida e não quis seguir a carreira militar, em 1940 começa a frequentar a Universidade de Coimbra, vindo a licenciar-se em Ciências Histórico-Filosóficas, em 1946. Rapidamente se torna assistente do professor Joaquim de Carvalho. Em 1949 publica a sua primeira obra, Heterodoxia, que reúne uma parte da sua tese de licenciatura, O Sentido da Dialética no Idealismo Absoluto. Em Coimbra, torna-se amigo do poeta Eugénio de Andrade e do escritor Miguel Torga que lhe oferecia os seus livros. Aproxima-se dos escritores neorrealistas, mas sem deixar de marcar a sua independência. Nutriu uma relação mais próxima com o escritor neorrealista, Carlos de Oliveira, que foi seu colega de curso. Em 1949, beneficiando de uma bolsa do Programa Fullbrigt, faz um estágio na Universidade de Bordéus2. De 1953 a 1954, foi leitor de Cultura Portuguesa nas universidades de Hamburgo e Heidelberg e, de 1956 a 1958, foi leitor na Universidade de Montpellier (França). Na década de 60, depois de ter passado pelo Brasil, onde foi professor convidado de Filosofia na Universidade da Bahia, fixa residência em França e casa com a professora, Annie Salomon, de nacionalidade francesa. Quando a sua esposa faleceu, escreve “A Annie acaba de morrer. Eram quatro horas deste 1º de dezembro, de 2013 […] A longa agonia silenciosa de Annie […] restitui à vida uma espécie de esplendor póstumo, o da ausência tornada enfim sensível. De fora fica apenas um lençol branco da minha inexistência sem 384
ela”. (Citado por José Tolentino Mendonça no prefácio à obra de Eduardo Lourenço, Ver é Ser Visto, Fragmentos Essenciais. Na introdução a esta obra, Guilherme Oliveira Martins, que lhe dá o título de Ver é ser visto, ou o mistério da ausência, escreve sobre o ensaísta: “Os textos que constituem a presente escolha procuram abranger momentos importantes do percurso do seu autor, começando pela definição da atitude independente e heterodoxa e pela referência fundadora da relação com a Europa e com o diálogo que então nos faltava (1949), colocando essa reflexão na continuidade de quantos portugueses recusaram fechar-se dentro das fronteiras, desde os renascentistas aos românticos, como Garrett e Herculano, até à complexa atitude de Antero de Quental e da sua geração, de quem se sentiu tão próximo sempre. E nesta linha repensa Portugal (num contexto existencial), glosa a conferência de Antero sobre as «Causas da Decadência››, interroga Oliveira Martins, analisa criticamente o papel dos mitos, desconstrói a saudade e o sebastianismo, encontra-se com o Camões histórico enquanto referência cultural perene e diversa, e mergulha numa reflexão sobre Fernando Pessoa, rei da nossa Baviera, aprofundando, à medida que mais se ia conhecendo a obra do poeta, a significação do seu lugar no tempo, para além da sua consideração portuguesa. A existência mítica e os caminhos vários que abre foram uma preocupação permanente do ensaísta, em busca da diversidade, da porta aberta, do melting pot português, do significado da nossa nau de Ícaro (de um quadro de Breughel, o Velho), das aventuras e desventuras migrantes, do País entre a realidade e o sonho, da língua projetada universalmente. Mas o sentido crítico, sempre muito agudo, levaria à reflexão sobre a Europa desencantada, labirinto de uma realidade necessária e frágil. E, por fim, nesta recolha, encontramos a relação pessoalíssima com a poesia porque o ensaísmo de Lourenço procura insistentemente as intuições poéticas para deslindar o significado das ideias no mundo. Hölderlin diria «o que permanece / os poetas o fundam››. A amizade com Carlos de Oliveira obriga a explicações sobre «o sentido e a forma da poesia neorrealista», a crítica e a metacrítica aprofundam a atitude criadora do autor, Camões é símbolo da nossa cultura e Antero revela a tensão essencial (bem presente neste ensaísmo) entre o pensamento e a utopia”.
Sobre Fernando Pessoa, Eduardo Lourenço escreveu a oba Pessoa Revisitado, de 1973, onde não só contempla uma análise do Pessoa de Casais Monteiro, como recupera críticas que este poeta da Presença fez aos estudos de João Gaspar Simões e Jacinto do Prado Coelho. Procede, então, à análise crítica da poesia dos heterónimos, refletindo sobre a sua génese. Eduardo Lourenço, português emigrado, no sentido físico, nunca o foi em sentido cultural e até sociopolítico. Sempre pensou Portugal, a sua cultura, a sua identidade, a sua poesia, os seus problemas socioeconómicos e políticos, apesar de, em 1975, ter recusado assumir a pasta de ministro da cultura no VI Governo Provisório. No entanto, em 1980 apoia a candidatura de Ramalho Eanes à Presidência da República. Apoia, também, em 1985, a de Maria de Lurdes Pintassilgo (na 1ª volta) e a de Mário Soares (na 2ª volta). Ainda na 385
década de 80, subscreve, com mais doze intelectuais a formação do Partido Renovador Democrático (PRD), de inspiração eanista. Estas ligações, no domínio da política, nunca condicionaram a sua liberdade de pensamento, já revelada nos livros que publicara: Os Militares e o Poder, em 1975; O Fascismo nunca Existiu, em 1976; Situação Africana e Consciência Nacional, em 1976. Mas o livro que o tornou mais conhecido foi, sem dúvida, O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português, onde reflete sobre a nossa identidade nacional, como dá a entender na introdução desta obra: “Se a História, no sentido restrito de “conhecimento do historiável”, é o horizonte próprio onde melhor se apercebe o que é ou não é a realidade nacional, a mais sumária autópsia da nossa historiografia revela o irrealismo prodigioso da imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos. Não nos referimos às simples deformações de carácter subjetivo ou de natureza ideológica, não só por serem inevitáveis, como por não arrastar com elas uma fatal transfiguração no sentido desse irrealismo. O que visamos é mais largo e profundo, pois afeta na raiz a possibilidade mesma de nos compreendermos enquanto realidade histórica. Em lugar da autognose de uma realidade movente, mas perfeitamente definida à qual nos referimos com o nome “Portugal”, nós historiamos um ser perdido de antemão e que milagre algum de dialética poderá reencontrar ao fim de uma análise que começou sem ele. As “Histórias de Portugal”, todas, se excetuarmos o limitado, mas radical e grandioso trabalho de Herculano, são modelos de “robinsonadas”: contam as aventuras celestes de um herói isolado num universo previamente deserto. Tudo se passa como se não tivéssemos interlocutor. (E esta famosa forma mentis reflete-se na nossa criação literária, toda encharcada de monólogos, o que explica, ao mesmo tempo, a nossa antiga carência de fundo em matéria teatral e romanesca.) Esta situação não pode ser objeto de uma simples referência de passagem. Reflete a estrutura de um comportamento nacional que a obra dos historiadores apenas generaliza e amplia. O que é necessário é uma autêntica psicanálise do nosso comportamento global, um exame sem complacências que nos devolva ao nosso ser profundo ou para ele nos encaminhe ao arrancar-nos as máscaras que nós confundimos com o rosto verdadeiro”.
Em Labirinto da Saudade deparámo-nos com 180 páginas de reflexão sobre Portugal ou sobre a identidade de Portugal e dos Portugueses. Valerá a pena ler o ensaio “Somos um povo de pobres com mentalidade de ricos”, onde, logo no início, Eduardo Lourenço escreve: “Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de nãotrabalho e parasitária dessa atroz e maciça “morte de trabalho” dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal e eleição, nós descobrimos coletivamente a maneira de refinar uma herança ancestral
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transferindo para o preto essa penosa obrigação. É mesmo essa a autêntica essência dos Descobrimentos, o resto, embora imenso, são adjacências. Hoje, com o suspeito “illitchismo” a servir de farol progressista, esta coletiva fuga ao trabalho tem ares de profecia à rebours, serve de conforto aos herdeiros da fabulosa exploração do suor do próximo que tão lírica e contemplativa disposição lusa supunha e supôs, e sob outras formas, continua a supor. Na realidade, constituiu e constitui a trama da coletiva existência pícara que por necessidade inventámos tomando-nos esses pobres com mentalidade de ricos […]. Dos caldos de portaria ao burocratismo apoplético do século XX corre um fio que, por escondido, não é menos grosso e grávido de consequências. Coletiva e individualmente, os Portugueses habituaram-se a um estatuto de privilégio sem relação alguma com a capacidade de trabalho e inovação que o possa justificar, não porque não disponham de qualidades de inteligência ou habilidade técnica análoga à de outra gente por esse mundo, mas porque durante séculos estiveram inseridos numa estrutura em que não só o privilégio não tinha relação alguma com o mundo do trabalho, mas era a consagração do afastamento dele”.
Da escrita de Eduardo Lourenço pode-se dizer que ela norteia o seu pensamento. É imensa a obra que produziu sobre nós, sobre os nossos poetas, como é imensa a diversidade temática que os seus ensaios refletem. Dos muitos livros que escreveu destacam-se Fernando Pessoa Revisitado, Leitura estruturante do Drama em Gente, Tempo e Poesia – À Volta da Literatura, Situação Africana e Consciência Nacional, O Complexo de Marx ou o Fim do Desafio Português, Poesia e Metafísica – Camões, Antero, Pessoa, Fernando, Rei da Nossa Baviera; Nós e a Europa ou as duas Razões; O Canto do Signo – Existência e Literatura (1957-1993), A Europa Desencantada – uma Mitologia Europeia; O Esplendor do Caos – Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade; O Lugar do Anjo – Ensaios Pessoanos; A Morte de Colombo – Metamorfose e Fim do Ocidente como Mito; A Esquerda na Encruzilhada ou fora da História? – Ensaios Políticos; Do Colonialismo como Nosso Impensado; Do Brasil, Fascínio e Miragem ou Crónicas Quase Marcianas. Curiosos são os ensaios que Eduardo Lourenço escreveu sobre pintura, reunidos no livro “O Espelho Imaginário – Pintura, Antipintura, Não-Pintura”, onde faz a leitura crítica das obras de pintores como Velasquez, Maria Helena Vieira da Silva, Amadeo de Sousa Cardoso, Picasso, Paul Klee, confrontando-os com muitos outros e fazendo uma viagem pela arte desde os artistas do Renascimento Italiano até à Pop Arte. Sobre a arte, no ensaio Pintura, antipintura, não-pintura ou a nudez do rei, escreve: “O ângulo sociológico, o ângulo psicológico são insuficientes para explicar o processo e a essência da arte contemporânea e certamente de todas as épocas. Só quando se vê nela um espelho do combate total da realidade humana pela sua essência acedemos, na medida em que não no-lo veda a obscuridade desse mesmo combate que a Arte exemplifica e clarifica, ao horizonte de uma compreensão possível do mais enigmático fazer humano, o que merece ser dito realmente humano, pois é triunfo da liberdade sobre a necessidade. Nem por outro motivo buscamos na Arte a nossa face desfeita pelo tempo, mas
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sobrenadando nele por causa desse misterioso voo do homem fora de si mesmo. O que torna única a arte contemporânea é que essa leitura nos devolve um rosto que não nos é familiar, ou só familiar a uns poucos e que tal rosto forma efetivamente um contraste alucinante com a antiga face do homem e da Natureza”.
A vida de Eduardo Lourenço não foi só dedicação à escrita e ao ensino universitário. De 1989 a 1991 foi conselheiro cultural na Embaixada Portuguesa em Roma. De 2002 a 2012 foi administrador não executivo da Fundação Gulbenkian, sendo seu colaborador desde há muitos anos. O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa designou-o Conselheiro de Estado, tendo tomado posse no dia 7 de abril de 2016. Recebeu prémios: Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (1988), Prémio Camões (1996), Prémio Pessoa (2011) e Prémio da Academia Francesa (2016). Também recebeu condecoração da Grã-Cruz da Ordem de San’Tiago da Espada da Ordem do Infante D. Henrique e da Ordem da Liberdade. Foi consagrado Officier de la Légion d’Honneur, Doutor Honnoris Causa pela Universidade do Rio de Janeiro (1995), Universidade de Coimbra (1996), Universidade Nova de Lisboa (1998) e Universidade de Bolonha (2006). Faleceu, com 97 anos de idade, no dia 1 de dezembro de 2020. Faleceu o pensador que rasgou janelas para ver mais claro Portugal, as suas gentes, a sua História, a sua Cultura, a sua Literatura e a sua relação com o mundo, entre “Nós e a Europa”.
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Teixeira de Pascoaes “Os poetas nasceram para os poetas. São uma família à parte. Deveriam meter-se todos num convento, edificado no cerro mais alto do Marão”.
Joaquim José Teixeira de Vasconcelos (1877-1952), o verdadeiro nome de Teixeira de Pascoaes (TP), poeta e ensaísta do saudosismo, nasceu em Amarante em 2 de novembro, numa casa alugada contígua à dos seus avós. Oriundo de uma família aristocrática, filho do juiz e deputado às Cortes João Teixeira Vasconcelos e de Carlota Guedes Monteiro, TP é o autor das palavras em epigrafe, extraídas da carta de 4 de junho de 1924, dirigida a Anrique Paço d’Arcos. Ora, seria ali, nas fraldas do Marão, que esta criança solitária, introvertida, sensível, muito propensa à contemplação nostálgica da natureza, viveria os seus primeiros tempos de infância, até aos seus estudos em Coimbra, a partir dos 17 anos, cidade de boémia estudantil onde vivenciaria uma vida recatada e se licenciaria em Direito, em 1901. A advocacia no Porto e Amarante, bem como o exercício das funções de juiz substituto, em Amarante, por um período de escassos dois anos, seriam efetivamente as atividades profissionais iniciais da sua curta carreira, cuja atividade conciliaria com a literatura. Porém, ainda no início do século, Pascoaes retirar-se-ia Imagem retirada do PGL. gal definitivamente para o solar oitocentista da família, em S. João de Gatão (Amarante), vivendo dos proventos das suas propriedades, dedicando-se à literatura e abandonando a carreira judicial, que exercera durante cerca de 10 anos: “Entre o poeta natural e o bacharel à força, ia começar um duelo que durou dez anos, tanto como o cerco de Troia e a formatura de João de Deus. Vivi dez anos, num escritório, a lidar com almas deste mundo, o mais deste mundo que é possível – eu que nascera para outras convivências”.
E assim seria até à data da sua morte por bacilosa pulmonar, ainda naquele solar de Gatão, em 14 de dezembro de 1952, há 70 anos atrás. E ali seria sepultado em campa rasa, na Igreja de S. João Baptista, na qual seriam inscritos os seus próprios versos: “Apagado de tanta luz que deu Frio de tanto calor que derramou”.
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Porém, a morte que o poeta crê ser uma viagem para “outro mundo transcendente”, no qual encontrará, como expressa no soneto “Depois da Vida”, “contigo, amor, eternamente”: “Quando meu coração parar desfeito, Em sombra, na profunda sepultura, E o meu corpo, espectral e já desfeito, Divagar entre o Olimpo e a terra dura;
Ah, quando, em mim, eu for minha esperança! Meu próprio ser, divino e redimido; E minha sombra apenas for lembrança, Bem longe, em outro mundo transcendente, À luz dum sol jamais anoitecido, Serei contigo, amor, eternamente”.
Quando sentir, enfim, todo o meu peito A converter-se em luminosa altura; Eu, aquele fantasma, o claro eleito, O enviado de vida à morte escura;
De facto, passados 70 anos do falecimento de Teixeira Pascoaes, poeta-filósofo que, entre nós, acenderia a luz do saudosismo e derramaria o calor da sua obra poética, ele continua vivo, provavelmente noutra morada. Com efeito, integrado no movimento cívico e cultural portuense ”Renascença Portuguesa” e cofundador da revista “Águia”, em 1911, Pascoaes foi um dos principais teorizadores e poetas do Saudosismo, movimento literário, religioso e filosófico de autoconhecimento e reconstrução nacional, que, na esteira da revolução política e social decorrente da instauração da República, em 1910, marcaria a poesia não modernista no primeiro quartel do século XX. Realmente, congregando uma plêiade de intelectuais da época como Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Sant’Anna Dionísio, Hernâni Cidade, Adolfo Casais Monteiro, Afonso Lopes Vieira, Raul Proença e António Sérgio, entre outros, o grupo constituiria um projeto de promoção da cultura nacional, cujas ações passariam pela fundação de universidades populares, a realização de cursos e colóquios formativos, a criação de bibliotecas e a edição da revista “Águia” , enquanto órgão de divulgação do seu ideário: “(…) quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria de uma nova religião, tomando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da Vida…. Ora, a alma portuguesa sente esta ansiedade duma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os contos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e, sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça – a Saudade!”
Saudade que o poeta amarantino define como “o próprio sangue espiritual da Raça, o seu estigma 390
divino, o seu perfil eterno”. Assim, na prossecução da herança do neogarrettismo e do neorromantismo, a estética saudosista influencia vários poetas, cujos traços poéticos, como escreve Fernando Guimarães, na obra “Poética do Saudosismo” (1988), se manifestam com as “alegorias referidas à Pátria-Saudade ou uma transfiguração messiânica”, com a tendência para a fusão entre a contemplação e a paisagem, sugestões de um clima profético e visionário, “alegorias referidas à Pátria-Saudade ou uma transfiguração messiânica”. Adicionalmente, imbuída ainda pelo culto da tradição, misticismo, panteísmo e génio da Raça, a que acrescenta a valorização da “fisionomia das palavras”, isto é, o valor expressivo das próprias formas gráficas. Nacionalista e profetizador de um ressurgimento lusitano, Pascoaes encontra, assim, na “Saudade”, o carácter definidor da especificidade do ser português, que põe em prática nas suas produções literárias iniciais como “Sempre” (1898), em boa parte prolongada por “Terra Proibida” (1899) e se expressaria posteriormente por inúmeras obras poéticas. Deste modo, simultaneamente movimento literário de cariz neorromântico e de propensão metafísica, o Saudosismo concorre, nas primeiras décadas do século XX, para o adensamento de um clima profético e visionário, de expectativa sebastianista e messiânica, que eivaria o Modernismo e particularmente a reflexão e a criação poética de Fernando Pessoa, estendendo ainda a sua aura paradigmática a autores como Eugénio de Andrade ou Agustina Bessa Luís, entre outros. A Obra Pascoaes trabalhava horas a fio e escrevia intensamente no seu escritório do seu solar “com a caneta na mão, essa pequena lança gramaticida. A escorrer tinta … que é o sangue das palavras”, enquanto fumava e bebia café. Essa casa, Deus, a Natureza e o Marão eram de facto o seu mundo, como o ilustra nestas passagens de “As Sombras”: “Eis-me, graças à vida, uma vez mais Na santa solidão da minha aldeia, À sombra destas árvores outonais, Minhas irmãs em Deus …” (…) “Ah, se não fosse a névoa da manhã E a velhinha janela, onde me vou Debruçar, para ouvir a voz das coisas, Eu não era o que sou.
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(…) Sem esta terra funda e fundo rio, Que ergue as asas e sobe, em claro voo, Sem estes ermos montes e arvoredos. Eu não era o que sou.”
No entanto, sendo um panteísta e contemplador, o poeta do Marão e do Tâmega não era um eremita. Com efeito, gostava até de viajar e várias vezes conduzia o seu carro (a que chamava “besoiro”), em especial até ao Porto. Além disso, fazia ocasionais visitas a Lisboa, onde chegaria a alugar uma casa, que Raul Brandão e a esposa também partilhariam e que, segundo consta, teria sido o espaço de escrita d’” As Ilhas Desconhecidas” brandonianas, do “Livro de Memórias” pascoalinas e local de refúgio do panfletário Raul Proença, fugido da polícia. “A Brasileira do Chiado” e esta casa seriam os pontos de convergência habituCasa familiar de Teixeira de Pascoaes em Gatão, in PGL.gal ais entre amigos, cujas refeições, em especial entre Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes eram animadíssimas; de tal forma que, como afirma a irmã de Padecoaes “ o calor da conversa dilatava a noite até à madrugada”. Conversas que ocasionalmente contavam com Columbano Bordalo Pinheiro e até Almada Negreiros, entre outros. Deste modo, como dissemos, poeta-filósofo, arreigadamente nacionalista e profetizador de um ressurgimento nacional, TP orientaria a sua vida para a continuação dos seus ideais, retirando-se em 1913 para o solar Pascoaes para se dedicar exclusivamente à meditação e à criação poética. Antes porém, já em 1911, havia publicado “Marânus”, longo poema de estrutura épico-dramática, considerada a obra emblemática do saudosismo. De facto, neste “romance em verso”, protagonizado por personagens de carácter mítico ou lendário, como narrativa alegórica de redenção humana, Pascoaes persegue o aperfeiçoamento espiritual, buscado quer através do amor quer do conhecimento. Uma busca em comunhão profunda com a mãe natureza e a pluralidade dos seres vivos, que como esta passagem do canto VII, intitulada “Marânus e a Saudade” elucida, alude a profecia da saudade lusíada: (…) 392
“A Saudade, inclinando a branca fronte, Ouvia, enternecida. E a luz bendita, Manando de abrasada e etérea fonte, Seus olhos florescia e saciava. Marânus, contemplando a sua face, Vira o seu coração! E, deslumbrado, Qual Poeta, afrontando o sol que nasce. Ao abrir as janelas, de manhã: És a Virgem cristã da minha terra, Estas árvores vivem da tua graça; E as searas dos campos reverdecem, Quando, sobre elas, teu sorriso passa … (…) Ó Saudade! Ó Saudade! Ó Virgem Mãe, Que sobre a terra santa portuguesa Conceberás, isenta de pecado, O Cristo da esperança e da beleza! Ó nova Divindade, eu quero erguer-te, No mais alto da Serra, um belo altar, Feito de saibro e rosa matutina, Alumiado do sol e do luar. Ali, será Belém. Os pastores Se hão de ajuntar, em grande romaria Na adoração do novo Deus menino, Rezado pela nova Profecia.”
Porém, o poeta de Marânus legar-nos-ia uma vasta obra poética que pela sua extensa produção e exiguidade de espaço destas páginas seria difícil abarcar. As obras “Sombras”(1900) e “Jesus e Pã” (1903) merecem, no entanto, uma referência especial. A primeira porque após a sua leitura por parte de Miguel Unamuno referenciaria Pascoaes como um ser “que dizia adeus ao sol, falava ao vento, saudava a aurora e lia no infinito”; a segunda porque revela afinidades literárias entre o saudosista lusitano Teixeira de Pascoaes e 393
o agonista espanhol Unamuno, em especial no sentimento poético-religioso dos dois. Efetivamente, ambos trocariam entre si várias cartas e há neles pontos comuns que o livro de Pascoaes “Jesus e Pã” claramente dilucida nessa capacidade germinativa da natureza: (…) “Sob os beijos da chuva, eu sinto a alvorada Dentre os lábios da terra, o riso da verdura, A cor verde que nasce é um sonho d’alma infinda, É um sentimento ideal do coração dos montes”.
Quanto ao seu coração propriamente dito, ao que se sabe, Pascoaes apaixonou-se por D. Fernanda de Magalhães e Menezes, a sua musa inspiradora, que viria a abandoná-lo; e por uma inglesinha que seguiu de um elétrico da Foz até Londres, que viria a falecer de tuberculose. O seu longo poema “Elegia ao Amor” é elucidativo desse sentimento a dois: “Lembras-te, meu amor, Das tardes outonais Em que íamos os dois, Sozinhos, passear, Para fora do povo Alegre e dos casais, Onde só Deus pudesse Ouvir-nos conversar? (…)
De igual modo é conhecido o seu amor pela criança e afilhada Adelaidinha, filha do seu criado José, a “pequena a quem quis mais que a si próprio, e deixou garantido o usufruto de várias propriedades”. A bibliografia de Teixeira de Pascoaes abrange ainda as memórias, de que é exemplo “Livro de Memórias” (1927) e as biografias romanceadas como “São Paulo” (1934), “S. Jerónimo e a Trovoada” (1936), “Napoleão” (1940), “Santo Agostinho” (1945) e “O Penitente”, sobre a vida de Camilo Castelo Branco (1942). Aditam-se ainda as novelas “O Empedecido”, alusivo à doutrina saudosista do poeta (1950) e ainda “Dois jornalistas” (1951), entre outros. Pascoaes e Raul Brandão Pascoaes, não obstante a sua vida isolada, tinha vários amigos que frequentemente visitavam o seu 394
solar, com vistas para o Marão, próximo do rio Tâmega. Uma casa que apesar de vetusta idade permaneceu na família e resistiu ao bárbaro incêndio de 1809, ateado pelas tropas napoleónicas comandadas por Loison (conhecido pelo “Maneta”), plausivelmente em retaliação pelo facto do bisavô paterno de Pascoaes ser comandante dos Dragões de Chaves. Ora, ali, por aquela casa, passaram António Correia de Oliveira, Leonardo Coimbra, José Régio, Sebastião da Gama, Sophia e Raul Brandão, entre muitos outros. Ali, naquela casa seria também abrigado durante nove anos, no decurso da década de 40, um casal de judeus holandeses perseguidos pelo nazismo Aliás, consta que no mirante ao fundo da propriedade, era costume a irmã de Pascoaes, Miquelina de Vasconcelos, pintar frequentemente, por vezes acompanhada de Raul Brandão e da sua esposa Maria Angelina Aqui pode ler-se a quadra escrita pelo punho de Pascoaes: “Aqui, neste mirante donde se avista o mundo Marânus, esse triste vagabundo Compôs em verso pobre a sua história andante”.
Pascoaes e Raul Brandão eram amigos íntimos que se visitavam assiduamente em Gatão (Amarante), ou na Casa do Alto, em Nespereira (Guimarães), que o poeta amarantino considerava “uma das maiores altitudes da Europa Contemporânea”; ou então trocavam correspondência sobre os mais variados temas. Cartas que se encontram compiladas no livro “Raul Brandão – Teixeira Pascoaes, Correspondência”, manancial epistolar de quase 240 missivas trocadas pelos dois amigos e irmãos espirituais, sob temas tão diversos como a agricultura (vinhos e pomares), a amizade, a arte e as doenças, mas também a literatura, a morte e Portugal, bem como a saudade e a solidão, o teatro e as viagens. Respigamos algumas passagens dessas inúmeras cartas: “Tenho muito prazer em o ter aqui comigo. Venha quando quiser. Demoro-me na quinta até Março. Depois vou para Lisboa procurar documentos para a minha História de Portugal” – carta de Raul Brandão a Pascoaes em 19 de fevereiro de 1910. Por sua vez, uma visita de Pascoaes à Casa do Alto em 1922, motiva a seguinte carta: “Muito e muito agradecido pela sua carta! Não lhe tenho escrito, mas não me esqueço do Alto nem da alma sublime que vive lá dentro (…)
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Tenciono ir ao Porto dentro em poucos dias. De lá iremos com o Leonardo (Leonardo Coimbra) a sua casa; depois regressaremos todos a Amarante. Sim?”
Raul Brandão dedica ainda a Pascoaes o volume II das Memórias (1925) e ambos escreveriam em parceria a tragicomédia em sete quadros, intitulada “Jesus Cristo em Lisboa” (1927), peça que surge como um Auto de Fé, de condenação do farisaísmo social e da cegueira política portuguesa. “Uma obra que deu muito que falar, que só foi bem aceite pelos franciscanos” – conta a irmã de Teixeira de Pascoaes, que acrescenta: “mexeu muito com a sensibilidade das pessoas mais católicas que cristãs. Católico não custa ser, mas cristão é um caso muito sério”. Uma peça polémica que na época somente seria aceite pelos franciscanos. A quadra jocosa que se segue, na altura deixada nas mesas do Café Brasileira, que ambos frequentavam, é bem elucidativa da perturbação que a obra provocou em certas sensibilidades religiosas: Jesus morreu na Judeia Entre o bom e o mau ladrão Agora morre em Lisboa Entre Pascoaes e Brandão.
Entrementes, poucos meses antes da morte de Raul Brandão, em 1930, o escritor “vimaranense” participaria ainda, numa homenagem a Pascoaes, em Viana do Castelo, que a 13 de julho lhe escreve: “Como hei de eu receber uma homenagem, enquanto a não prestarem à sua pessoa, que é o maior valor das nossas letras? Assim anda a justiça neste mundo”. Justo é, porém, acrescentar que ambos, em 23 de abril de 1923, seriam eleitos para a Academia de Ciências de Lisboa, em reconhecimento pelo seu valor intelectual. Todavia, embora estas palavras ajudem, conhecer melhor Pascoaes só lendo a sua obra e/ou visitando os seus espaços sagrados, pois, como diz: “Quero que conheça, o mais depressa possível, estes sítios da minha infância, esta paisagem dos meus versos, o Tâmega e o Marão. Enquanto os não conhecer, não me conhece …”. Depois, provavelmente “tudo passará …, mas a saudade/não passará jamais. Há de ficar/porque ela é o Infinito e a Eternidade” …
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Poetas da Minha Terra: Guilherme de Faria Nascido em Guimarães em 6 de outubro de 1907, filho do médico vimaranense António Baptista Leite de Faria e de Lúcia de Sequeira Braga, GUILHERME Augusto Pessanha de Sequeira Braga Leite de FARIA foi um notável poeta que nos legou uma obra lírica singular, a despeito da sua efémera vida. De facto, e após a mudança da sua família para Lisboa, em 1919, Guilherme de Faria (GF) poria prematuramente termo à sua vida, em 4 de janeiro de 1929, com apenas 21 anos, lançando-se ao mar no fatídico sítio rochoso da Boca do Inferno, em Cascais. Ele, que no “Soneto da minha ânsia” escrevera que “sentia o mar dentro do peito” … Porém, apesar da sua efémera vida, GF viveu-a intensamente e com uma precocidade perturbadora. Provam-no o facto de haver dirigido o pequeno jornal quinzenário “5 de Dezembro”, defensor da causa sidonista, quando tinha apenas 11 anos. De facto, a sua infância seria vivenciada em Guimarães. Sabe-se que foi o quinto filho dos dezanove gerados pelos seus progenitores, dos quais apenas dez terão sobrevivido. Aqui, também terá sido batizado em 13 de outubro de 1907, na Igreja Paroquial de S. Sebastião e terá aprendido as primeiras letras, que o seu professor e padre jesuíta José Simões recorda nestes termos: “Mexido e turbulento, de corpo franzino e olhos vivos e ardentes, ligeiramente estrábicos, que varavam através dos vidros de uns grandes óculos a alma das pessoas, procurando penetrar no íntimo de cada um”.
O ano de 1922, com apenas 15 anos, seria, porém, o ano de lançamento das suas obras iniciais: “Poemas” e “Mais Poemas”, este último dedicado ao historiador e poeta vimaranense Alfredo Pimenta (18821950) que de certa forma apadrinhou o seu lançamento literário. Contanos o citado:
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“Foi na redação do Correio da Manhã (…) que Guilherme de Faria me procurou para submeter ao meu juízo o original do primeiro livro. De calção e peúga, aquela criança maravilhava-me com a maneira como dizia os seus versos e com os versos que me lia. Perfeitos? Não. Aconselhei toques, supressões, demonstrando-lhe a razão do meu proceder, e acabei por lhe dizer: feito isso, publique (…) Passados tempos, voltou com novo original. Depois de algumas observações disse-lhe: e agora não precisa de consultar ninguém, tem asas magníficas – voe à sua vontade! E saiu o segundo livro – Mais Poemas, que me foi consagrado”.
Seguir-se-iam “Sombra” (1924) e ainda “Destino” e “Manhã de Nevoeiro”, ambos em 1927. Posteriormente, em 1929 e a título póstumo seriam publicados “Desencanto” e a antologia “Saudade Minha” (poesias escolhidas), bem como uma “Antologia de Poesias Religiosas” que deixaria organizada e seria editada por Teixeira de Pascoaes, em 1947. Efetivamente, em certas ocasiões, a sua poesia resvala para uma configuração de índole mais devocional, própria da religiosidade popular, como é exemplo o poema “Oração a Santo António de Lisboa” (1926). No entanto, uma poesia religiosa que em “Poema de súplica”, “Oração” e “Redenção”, entre outros, “amadurece” e que se vem a configurar com mais autenticidade e comoção, assente na ideia de redenção: (…) “Sonha! Vive do amor que pressentiste Sorrindo à imperfeição de que descende A dor do meu viver e, em mim, ascende A fé do eterno bem que em Deus existe. - Porque essa luz divina que entrevejo No céu que, para além desta amargura, Eu pressinto, e que surge ao meu desejo Com bênção de Deus – no seu esplendor Que é um sorriso de encanto e ternura, Só pode ser, Amor, o teu amor!”
Fundamentalmente, porém, uma obra que se integra na melhor tradição lírica e elegíaca da poesia portuguesa, que no contexto do neorromantismo lusitanista e saudosismo integralista, apresenta uma certa proximidade ideológica com o Integralismo Lusitano e o tradicionalismo monárquico, como é evidente no poema de elogio a Paiva Couceiro, o herói e estandarte de uma elite intelectual de oposição à Nova República
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e posteriormente ao Estado Novo. Todavia, é em Lisboa que Guilherme de Faria se afirma poeticamente. O escritor Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979) que o conhece no Liceu Pedro Nunes, retrata-o como “um rapaz extremamente precoce. De altura menos que meã, uma forte cabeleira negra, olhos muito negros e vivos por detrás de umas lentes fortes que não lhe ofuscavam, todavia, o brilho”. Porém, ao contrário da sua aplicação estudantil revelada na cidade berço, “não prestava a menor atenção à matéria dos estudos”, aquando da sua estada em Lisboa. Efetivamente, refugiando-se no Jardim da Estrela a recitar Antero de Quental, Gomes de Leal e poesias suas, e estabelecendo relações com escritores e vates da época, torna-se poeta, que seu amigo escritor e artista plástico António Pedro (1909-1966) assim descreve: “É um poeta de engenho peregrino E um homem singular: Sendo em tudo infantil como um menino Usa bigode para disfarçar”.
No entanto, a grande influência poética e figura tutelar deste “menino grande” encontra-se na obra “Só” de António Nobre, “o livro mais triste que há em Portugal”. Com efeito, embora António Nobre (18671900) tenha falecido cerca de 7 anos antes do seu nascimento, nenhum poeta e outro livro terá porventura exercido nele uma influência tão intensa e profunda: “Oh, meu pálido Irmão, tão pálido e doce” – escreveria Guilherme de Faria sobre António Nobre. Realmente, verifica-se uma partilha íntima perturbadora, em especial em temáticas como a morte e ambientes com paisagens outoniças e crepusculares, bem como a mesma idealização amorosa e a vertigem do mar. Em ambos, existe uma tensão entre a existência e a mitogenia, entre a realidade e o sonho, assim como o abatimento mútuo perante a decadência de Portugal e a visão pessimista da vida: - “Quero viver, eu sinto-o, mas não posso”, escreveu Nobre, ao qual Guilherme de Faria responde, corroborativo: “Apenas, saudoso, encaro/A noite imensa da morte”.
Realmente, Nobre e “Só” afetam e condicionam fatalmente este poeta, como é evidente em muitos momentos: “Ai do Lusíada, coitado, / Que vem de tão longe, coberto de pó/ Que não ama nem é amado, / Lúgubre Outono, no mês Abril!” – escreve A. Nobre e Guilherme de Faria replica: “Na minha alma precoce e complicada/ Que ainda hoje não posso compreender/ Passeia, dolorosa e magoada/ A sombra triste do meu próprio ser”.
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Claramente, identifica-se com este “Lusíada”, que em abril florescente é tragicamente outonal e lúgubre. Identificação que retoma também em “Mais Poemas”, ao evocar o poeta Eugénio de Castro (1869-1944) e o seu verso “A minha mocidade tem cabelos brancos”, nos quais reintroduz os seus habituais elementos, como o mar, noite e a saudade: “Oh Mar! meu irmão Foi a tua voz dolorosa! A voz magoada e primeira Que veio embalar, saudosa Na viuvez da minha infância Meu berço de mágoas, triste!”.
O poema “Não vale a pena”, do qual respigamos algumas passagens, é elucidativo desse pessimismo assumido: (…) Não vale a pena …. É vão todo o desejo - e para quê sonhar, nesta amargura, Cessa a luz da esperança, que não vejo, E ter sonhos, quimeras a sorrir, - Se, para além da humana desventura, Tenho o leito da eterna sepultura, Para fechar os olhos e dormir?…”
Este mesmo tom perpassa em muitos outros poemas como “Confissão” ou “Exaltação”: “Nestas horas de apática indolência Cansado de viver, esqueço a vida; Mas a minha alma vive, adormecida, Uma vida divina de inconsciência. (…) E altas horas de noite, quando cismo Longe de mim, na minha solidão, Vejo surgir, da sombra em que me abismo A tua graça ideal de Aparição. (…)
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Quem és, Visão de há tanto aparecida Na escura solidão, que é a minha sorte? - És, um sonho de amor, a eterna luza da vida, És a vida que vai sonhando, para a morte”.
Contudo, para além de Nobre, o poeta Antero de Quental (1842-1891) constituiria também uma referência tutelar para Guilherme de Faria, como é evidente nos seguintes tercetos de um soneto de sua autoria: (…) “Choram, dentro de mim, versos de Antero Emoção, Génio, Dor e Desespero, Tudo ajoelha, solene, pra rezar.” “Impassível, o Sol vai esmorecer … - Quem me dera, meu Deus, também morrer Para, amanhã, no azul – ressuscitar!”
Uma influência que para além da tristeza, mágoa e nostalgia, é ainda marcada impressivamente pelos tons crepusculares diante do mar, no qual fatidicamente acabaria por buscar a morte redentora, levando demasiadamente a sério aquilo que a todos pareceria ser um mero artifício literário. Outrossim e provavelmente o anátema de ser português e o réprobo “trovador de Portugal”, na glória e na desgraça: “Nasci em Portugal E, graças ao Senhor, Nasci bem português Assim, d’alma leal. É esta a minha glória E as causas do meu mal Eis toda a minha história Nasci em Portugal.”
Refira-se ainda que o poeta se encontra evocado na toponímia da sua cidade e na casa onde nasceu, na Alameda Sul, na qual consta uma placa alusiva. Guilherme de Faria seria ainda homenageado em 2014 pelo Arquivo Municipal Alfredo Pimenta (arquivo
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como o nome do homem que o apadrinhara), numa sessão pública que contou com a participação da Câmara Municipal de Guimarães e o apoio da Universidade Católica Porto. Um evento inserido no âmbito do processo de doação do seu espólio literário, no qual seriam ainda apresentados “O Livro de Guilherme de Faria – Saudade Minha (poesias escolhidas) e “Vida e Obra de Guilherme de Faria – Os Versos de luz por escrever”. É da antologia “Saudade Minha (poesias escolhidas) este “Soneto da Minha Ânsia”: Subir! Subir! Subir! - Eis o ideal Único desta vida de imperfeito! Quero subir, meu Deus, tenho o direito De subir! Que, em minha alma de imortal, Sinto, às vezes, dourada e triunfal, Uma luz singular! E sou perfeito Embora sinta o Mar dentro do peito! Sou divino, supremo e desigual! Então ulula o vento da loucura… E a voz eterna e clara da Aventura Chama por mim, gritando, sem cessar… Subir! Subir! Subir! Hei de subir! Que, em minha alma, Senhor! estou já a sentir Uma sombra de génio a perpassar!
Certamente, um poeta vimaranense, provavelmente pouco conhecido, mas obviamente a (re)ler…
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Uma farsa com 500 anos! Há 500 anos, concretamente em 1523, mestre Gil Vicente apresentou, no Convento de Tomar, ao rei D. João III, a “farsa de folgar”, para divertir, intitulada “Farsa de Inês Pereira”. Uma peça de carácter profano com texto breve e em verso, que, numa intriga simples de crítica social, retrata situações do quotidiano, de forma cómica e satírica. Ora, a “Farsa de Inês Pereira” resulta do mote “mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube”, que terá sido sugerido a Gil Vicente por alguns dos seus detratores, que duvidavam da sua criatividade literária e o desafiariam a responder a este repto. De facto, mestre Gil não se fez rogado e responderia ao desafio. Deste modo, apresenta-nos a moça e bela Inês Pereira, de olhos como os de “Santa Luzia” e “cabelos, de Madalena”, que aspira ao casamento para se livrar do “enfadamento” e da “canseira” da vida doméstica e de solteira, em casa da mãe. Assim, moça casadoira que sonha com um marido “tangedor de viola” e galante, Gil Vicente, Caricatura de Inês depara-se com o primeiro pretendente, Pêro Vaz, (o asno que a leva), que lhe é Miguel Salazar apresentado pela alcoviteira Lianor Vaz. Mas Pêro é um camponês rico, saloio e ingénuo, algo desajeitado e rústico, que não agrada a Inês: (…) “Inês: (Quão desviado este está! Todos andam por caçar suas damas sem casar e este, tomade-o lá!) Pêro: Vossa mãe é lá no muro? Inês: Minha mãe, eu vos seguro, Que ela venha cá dormir. Pêro: Pois, senhora, eu quero-me ir antes que venha o escuro.
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Inês: E não cureis mais de vir. Pêro: Virá cá Lianor Vaz, veremos que lhe dizeis. Inês: Homem, não aporfieis Que não quero, nem me praz. Ide casar a Cascais Pêro: Não vos anojarei mais, Ainda que saiba estalar; e prometo não casar até que vós não queirais.” (…)
Inês opta, então, por casar-se com o escudeiro Brás da Mata (o cavalo) proposto pelos judeus casamenteiros Latão e Vidal. Um escudeiro galanteador e bem-falante que convence e engana Inês, mas que não passa de um pelintra e hipócrita fidalgo da baixa nobreza, que se vem a revelar cruel e autoritário e a lançar a desilusão e frustração no seu casamento: Inês: Por que bradais vós comigo? Escudeiro: “Será bem que vos caleis. E mais, sereis avisada que não me respondais nada, em que ponha fogo a tudo, porque homem sesudo traz mulher sopeada. Vós não haveis de falar com homem nem mulher que seja; nem somente ir à igreja não vos quero eu leixar. Já vos preguei as janelas Por que não vos ponhais nelas. Estareis aqui encerrada
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nesta casa, tão fechada como freira d’Oudivelas.”
Porém, o escudeiro morre cobardemente em África “fugindo da batalha para a villa,/meia légua de Arzila/ o matou um Mouro pastor”) o que leva à (nova) libertação de Inês Pereira . Deste modo, a viúva que acaba por aceitar Pêro Vaz para seu marido, pois por ela tinha prometido esperar, pois, embora parvo, estava apaixonado: por isso, diz Inês: “Andar! Pêro Marques seja. Quero tomar por esposo quem se tenha por ditoso de cada vez que me veja. Por usar de siso mero asno que me leve quero e não cavalo folão … Antes lebre que leão, Antes lavrador que Nero,”
Todavia, Inês acaba por trair o ingénuo Pêro Marques, levando o bonacheirão e submisso marido a tornar-se um asno, que carrega com ela às costas para o encontro de adultério, enquanto canta: “Inês: “Marido cuco me levades E mais duas lousas. Pêro: Pois assi se fazem as coisas. Inês: Bem sabedes vós, marido, quanto vos amo. Sempre foste percebido pera gamo. Carregado ides, noss’amo, Com duas lousas. Pêro: Pois assi e fazem as cousas.”
Como sói, na obra vicentina e através das personagens-tipo, que representam um grupo e congregam em si os defeitos e vícios sociais, “assim se fazem as coisas”. Com efeito, mestre Gil critica e denuncia em 405
suas obras a sociedade do seu tempo, visando a sua moralização, prosseguindo como manda a velha máxima latina a prática do “Ridendo catigat mores”, isto é, a rir se castigam os costumes. De facto, nesta farsa, como em muitas outras da sua produção dramatúrgica, surge a moça do povo pretensiosa que procura a libertação através do casamento, a costumeira alcoviteira angariadora de favores e casamentos, o frade devasso, os judeus casamenteiros e gananciosos, o escudeiro fanfarão e pelintra, o eremita imoral, a esposa infiel e o asno (cuco/gamo), bem enganado pela mulher (sempre fostes percebido/pera gamo”). Presente, portanto, nesta peça, entre outros aspetos, a denúncia ao casamento por conveniência, a valorização das falsas aparências, a devassidão de clérigos e ermitões e a infidelidade conjugal, situações sociais, que através dos vários processos de cómico, e recorrendo sobretudo à ironia, caricatura e sarcasmo, tornam “A Farsa de Inês Pereira” numa rica sátira de costumes e à conjuntura socioeconómico da sociedade finissecular entre aos séculos quinhentistas e seiscentistas. Conclui-se, então, que Gil Vicente respondeu cabalmente ao desafio que lhe colocaram e legar-nos-ia (ainda) mais uma excelente peça, que oferece uma visão crítica e cenas marcantes da vida profana da sua época, fixando flagrantes da vida real, em especial o retrato do quotidiano e da psicologia feminina, bem como a subalternidade da mulher na sociedade de antanho. Todavia, 500 anos depois, uma peça que curiosamente se mantém ainda atual, de moldes a justificar um outro mote: desafiante: “mais vale Fiat que me leve que Mercedes que me derrube”… Alguém deseja glosar o mote?…
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40 Anos de Aventuras Em novembro de 1982, a dupla de professoras e escritoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada iniciaram a publicação da famosa coleção infantojuvenil “Uma Aventura”, lançada com a edição do título “Uma Aventura na Cidade”. Era o começo das suas próprias aventuras que ambas vivenciariam aquando da sua colocação como professoras do ensino básico de Português e História na Escola Fernando Pessoa, em Oeiras, o ponto de encontro de uma relação de parceria de escrita a quatro mãos e de uma amizade, prolongada até hoje. De facto, hoje, são já 65 os títulos desta coleção já publicados, que levaram as gémeas Teresa e Luísa, em companhia do Pedro, João e do Chico e dos cães Caracol e Faial a viajar pelos quatro cantos do mundo, através dos cerca de nove milhões de livros vendidos, que constam do Plano Nacional de Leitura, alguns dos quais adaptados a televisão pela SIC e/ou a cinema. Com efeito, um sucesso e um verdaFoto de Leonardo Negrão / Global Imagens deiro fenómeno da Editorial Caminho, cujas histórias de aventura e mistério (com ilustrações de Arlindo Fagundes) captaram os mais novos, intrinsecamente envolvidos nos perigos das suas aventuras superadas e nos seus finais felizes. Aventuras para jovens protagonizadas por jovens, que, à laia e inspiração nos populares livros de mistério britânicos de “Os Cinco” ou “Os Sete” de Enid Bllyton, despertaram o interesse dos mais novos para as terras, monumentos e histórias portuguesas. “Uma Aventura entre Douro e Minho”, cuja ação decorre parcialmente em Guimarães, na Colina Sagrada, é uma dessas aventuras: “- Ele foi o maior! Ele foi o maior! – gritou o Chico, saindo do carro, aos berros, direito à estátua de D. Afonso Henriques.
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Tinham acabado de chegar a Guimarães e o pai do João conduzia-os junto dos monumentos principais da cidade: o Castelo e o Palácio dos Duques de Bragança que ficam mesmo lado a lado”. (…) “Na manhã seguinte, assim que acordaram foram surpreendidos por uma notícia sensacional: o roubo da tapeçaria Gobelins. O João tinha aberto o rádio, logo que se sentara à mesa da cozinha, para tomar o pequeno-almoço. A Luísa deitava leite nas chávenas quando a voz suave do locutor anunciou: “Ontem, desapareceu uma valiosíssima tapearia Gobelins do Palácio dos Duques de Guimarães”. (…)
Seguramente obras a (re)ler a que se ajuntam outras publicações das autoras como os livros da coleção “Viagens no Tempo”, que incide sobre diferentes épocas da História, bem como a coleção “História de Portugal” e a coleção “Asa Delta”, três volumes centrada no artesanato português. Paralelamente, de destacar ainda a coleção “Histórias e Lendas” e vários ensaios sobre a problemática da leitura: “Ler ou não ler, eis a questão” e “Os Jovens e a leitura nas vésperas do século XXI”, referências indispensáveis sobre a literatura infantojuvenil e a questões da leitura a nível nacional. Porém e para além da literatura infantojuvenil ambas as escritoras exerceram ainda importantes outras funções quer a nível docente, quer no âmbito do Ministério da Educação, designadamente Isabel Alçada que foi Ministra da Educação entre 2009-2011 e é consultora da Casa Civil da Presidência da República para área da educação.
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O principezinho faz 80 anos Velho com 80 anos de vida, se tomarmos como medida a escala etária, mas novo e fresco como nunca, se nos ativermos à dimensão humana, o livro “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, publicado em Nova Iorque a 6 de abril de 1943, nos anos da II Grande Guerra, perfaz 80 anos de existência. Porém, aquele rapazinho de cabelos cor de ouro continua bem vivo e menino e moço, tal como o seu asteroide B 612, com os seus vulcões em miniatura e a sua bela rosa vermelha. Um rapazinho que acabaria por visitar o planeta Terra e encontraria no deserto um local de encontro, de conhecimento e separação com os seus interlocutores: o piloto, a raposa e a serpente. Encontros com a amizade e os valores humanos … De facto, considerado um dos grandes clássicos da literatura infantojuvenil, o livro é uma narrativa intemporal e uma viagem espacial para todas as idades, que numa linguagem de íntima emoção e sensibilidade poética, sobrevaloriza o mundo infantojuvenil pelas imagens de inocência, imaginação e espontaneidade, que por vezes escapam aos adultos. Deste modo, uma obra que se assume como uma perspetiva de reflexão sobre a condição humana (por vezes irónica): “as crianças têm de ser muito indulgentes para com as pessoas grandes”. Ademais, trata-se de uma obra das mais traduzidas e mais lidas em todo o mundo, editada em mais de 220 idiomas e dialetos que, mereceria ainda a realização de um filme musical (1974), uma série de Banda Desenhada, na década de 80, bem como uma animação cinematográfica com técnicas de computação gráfica e stop-motion (2015), uma adaptação teatral (2016) e um museu em Hakone (Japão), centrado no protagonista. Obra para todas as idades, em que o amor e a beleza da vida são as suas tónicas essenciais, que igualmente se encontra recomendada no Plano Nacional de Leitura e é geralmente abordada no 2.º ciclo de escolaridade. Mas, acima de tudo, um livro que bem justifica uma (re)leitura com outros olhos e especialmente com o coração:
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“Eis o meu segredo: só se vê com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esquecem-se dessa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu tomas-te eternamente responsável por aquilo que cativa”
Quanto a Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger de Saint-Exypéry, nascido em Lyon no dia 29 de junho de 1900, descendente de uma família antiga e nobre de França, seria também, além de autor de outros livros como “Correio do Sul” (1929), “Voo Noturno” (1931), “ Terra dos Homens” (1939) e “Piloto de Guerra” (1942), um audaz piloto-aviador. É nessa qualidade que viria a desaparecer nos céus em 31 de julho de 1944, sem responder aos apelos via rádio, nem ser detetado pelos radares, após levantar voo de Borgo, na Córsega.
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José Mattoso, o historiador que propôs uma nova visão da História Alberto Lameiras
No início do passado mês de Julho, morreu José Mattoso, um dos maiores nomes da historiografia portuguesa. A produção literária de José Mattoso, incidindo essencialmente sobre o período medieval, marcou de forma indelével a historiografia portuguesa. A abordagem crítica de Mattoso contribuiu para uma nova compreensão da História de Portugal, baseada na análise rigorosa e objetiva de fontes primárias que, segundo o autor, se deve à influência germânica da sua formação académica na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) onde se licenciou e doutorou-se depois, em História Medieval. À rigorosa pesquisa e uso de fontes primárias na produção historiográfica precisa, Mattoso combinou a metodologia dos seus estudos com a abordagem da Nova História, a denominada École des Annales, tendo como objetivo a História Total. Trata-se de uma reação deliberada contra o paradigma tradicional, muito em voga no período do Estado Novo, remetendo o estudo da História essencialmente para o domínio político. Mattoso rejeitou a história dos acontecimentos, histoire événementielle, cabendo ao historiador tradicional a narrativa dos factos, e afirmou a inovação metodológica da análise e reflexão no tempo. Rui Tavares, em artigo de opinião no jornal Público de 8 de Julho, referiu que “José Mattoso é talvez um dos historiadores que mais souberam dar tempo ao tempo. O tempo da reflexão de que o tempo precisa para que consiga escrever sobre ele”. No plano dos protagonistas, Mattoso recusa a visão da história tradicional, que refere a perspetiva das elites, das personalidades mais influentes. A sua formação humanista, monástica beneditina, dá voz a novos protagonistas, à opinião da pessoa comum. É ainda com Mattoso que o ideal da objetividade é posto frequentemente em causa e considerado irrealista; o relativismo cultural está sempre presente na escrita da história como nos objetos. Esta “grande inovação metodológica”, segundo José Ramos, em artigo de opinião no Observador de 14 de julho, afirma que “para falar sobre o país, há um antes e depois de José Mattoso. Além de grande historiador é um grande intelectual de reflexão sobre Portugal”. Na sua relação com Guimarães, José Mattoso teve duas importantes intervenções: o texto de candidatura a património mundial, em 1996, e a conferência proferida na Sociedade Martins Sarmento, em 1978, nas comemorações do 850º aniversário da batalha de S. Mamede. Naquele texto o historiador salientou a importância de Guimarães na formação embrionária do condado portucalense que se veio a confirmar com 411
a “ligação simbólica do nosso primeiro rei a Guimarães, dado que se situava aí a honra patrimonial de seus pais”, pelo que se torna “compreensível” e “de certo modo verdadeiro a expressão metafórica que consideram Guimarães como o berço da nacionalidade”. Em 1978, na Sociedade Martins Sarmento, para assinalar os oitocentos e cinquenta anos da batalha de S. Mamede, José Mattoso proferiu uma conferência onde o rigor, isenção e independência se afirmaram como características vincadas na intervenção deste historiador. Depois de Alexandre Herculano, no século XIX, que rompe com várias tradições que dominavam a cultura histórica portuguesa, (como sejam a negação da autenticidade do milagre de Ourique ou questionar a identidade entre Portugueses e Lusitanos), José Mattoso, ao longo da conferência, desconstruiu muitos dos mitos e lendas em torno da formação da nacionalidade, distanciando-se das narrativas ideológicas e apologéticas ao gosto de nacionalismos tacanhos. O “milagre Português”, é um dos temas que mereceu a atenção deste orador, procurando buscar uma abordagem crítica da proteção divina na formação da nação, a qual representa(va), para a perspetiva nacionalista, o cerne da origem da pátria, simbolizada pela batalha de Ourique, razão pela qual a batalha de S. Mamede é(foi) colocada numa posição subalterna. A formação da consciência nacional e o sentido de autonomia é concebida como um proJosé Mattoso em 2019 - Foto: DR in rr.sapo.pt cesso contínuo e dinâmico, e não de natural e eterno, como propõem os escritores nacionalistas, construído ao longo de gerações e se propaga aos diferentes estratos sociais até se construir um sentido de pertença, uma identidade nacional, de um movimento liderado por um poder político forte e centralizado, circunscrito à região do Minho, no sentido em que o definiu o geógrafo Orlando Ribeiro. Tal movimento independentista contou com as camadas dirigentes da região e os habitantes do burgo vimaranense. José Mattoso deixa uma marca definitiva na forma de produção da História, com uma independência que sempre soube preservar, de afirmação de ideais e a recusa de ideologias, dividido entre o fascínio pela produção dos factos e a fé, recusou o carácter ideológico e apologético e pugnou pela “História humana, História-vivida contemplativa, (...) que requer um olhar atento, global, pacífico, não interventivo. Um olhar que capta as relações do pequeno com o grande, do singular com o plural, do diferente com o semelhante, do mesmo com o contrário. Um olhar que coloca as coisas na sua ordem, que permite descobrir os géneros e as espécies, que classifica os conjuntos e lhes atribui qualidades. Um olhar que reconhece o movimento e as mutações, sem que a diferença de tempo altere a identidade. Um olhar que compreende os percursos e os destinos da Humanidade, a atração e a repulsa, o amor e o ódio".
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IN MEMORIAM de Milan Kundera Neste ano em curso mais um nome importante da literatura europeia partiu para sempre, aos 94 anos: Milan Kundera, o escritor checo naturalizado francês e nome cimeiro da ficção contemporânea, autor do conhecido romance “A Insustentável leveza do ser” (1983), por muitos considerada uma grande crónica acerca da liberdade humana, que posteriormente seria adaptado a cinema por Philip Kaufman. De facto, nascido na República Checa, em 1 de abril de 1929, filho de importante musicólogo e pianista Ludvik Kundera, o jovem Milan daria os seus primeiros passos na música, antes de enveredar pela literatura, na Universidade de Carolina de Praga, e, posteriormente, transferir-se para a Faculdade de Cinema da Academia Checa de Artes Cénicas. Porém, esta tendência artística seria interrompida em 1950, forçada por razões políticas. Com efeito e após a sua filiação no Partido Comunista em 1948, influenciado pela ocupação alemã e entusiasmado pela “democracia popular”, Kundera seria expulso por “atividades antipartidáMilan Kundera em 1980, in Wikipédia rias”, não obstante a sua readmissão em 1956 e nova expulsão, nos anos 70, no decurso da purga que atingiria e afastaria muitos outros intelectuais, entre os quais Václav Havel, personalidade da Revolução de Veludo (1989) e, mais tarde, Presidente da República do país. Efetivamente, devido ao seu envolvimento na Primavera de Praga, em janeiro de 1968, alternativa promovida pelo reformista Alexander Dubcek, que, como se sabe, claudicaria meses depois, em agosto, perante a invasão soviética, uma depuração política ocorreria por parte do poder comunista que o implicaria. Ora, destes tempos e situação, resultaria, anos mais tarde, a inspiração para a obra “Brincadeira” (1967), uma sátira à natureza do totalitarismo do período comunista, cujo protagonista seria banido do partido por ter escrito numa carta à namorada, com intuitos cómicos, alguns aforismos jocosos. Data também desse período “A Vida não é aqui“ (1973), romance em que exorciza a sua adesão juvenil ao comunismo e reflete sobre a condição e o papel do artista. Obviamente, esses anos conturbados levá-lo-iam a partir para o exílio em França, em 1975, em companhia da sua esposa Vera Hrabankova e ainda à proibição dos seus livros, entre os quais “A Insustentável leveza do ser” (que só em 2006 teria uma edição na língua checa). Nesses tempos e particularmente a partir
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de “Lentidão” (1995), Kundera optaria também por escrever os seus romances em língua francesa e a não permitir a tradução para checo dos seus livros, exceto por ele próprio. De facto, um trajeto pessoal que o destinaria ao exílio e o levaria a instalar-se em França, inicialmente em Rennes, em cuja universidade ensinaria Literatura Comparada e, mais tarde, em 1979, a mudar-se para a École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, que consideraria “a segunda cidade natal”. Quanto à sua obra, traduzida em 40 línguas, é predominantemente constituída por romances, ainda que o escritor tenha também algumas incursões pelos contos, compilados n’ “O Livro dos Risíveis Amores” (1969), o ensaio, como “A Arte do Romance” (1986), entre outros, e também a poesia, esta na fase inicial da sua produção literária. No entanto, a partir da “Insustentável leveza do ser”, Kundera passaria a abordar temas mais filosóficos, num estilo que entrecruza digressões e ensaios, inspirado em Heidegger e Nietzsche. Quiçá por isso, o escritor haja precisado e afirmado que “chamar minhas obras de políticas é simplificar demais e, assim, obscurecer o verdadeiro significado”. Na realidade, inserindo-se entre os grandes romancistas europeus do século XX e admirador de romancistas e pioneiros de um novo romance pós-proustiano como os compatriotas Kafka, Jaroslav Hasek, o polaco Witold Gombrowicz e os austríacos Herman Broch e Robert Musil, KunEditor: BIS, novembro de 2017, in Wook dera, procuraria reatar ligações com a tradição romanesca anterior, entre os quais sobressairiam nomes como Rabelais, Diderot e Sterne, o escritor legar-nos-ia uma importante obra literária ao longo de vários anos, a que “A Festa da Insignificância” (2014) colocaria termo. Romances exuberantemente livres, onde cabem todos os géneros e ideias, pois, como ele próprio afirmaria, “o romancista não precisa de prestar contas a ninguém, exceto a Cervantes”. Outrossim, narrativas pejadas de ironia e erotismo, diversidade de registos e apurado sentido crítico, que concilia com múltiplas variações, como na música que lhe era intrínseca desde a juventude, nas quais é evidente o confronto entre o indivíduo e o coletivo e sobressai o romance de ideias, aberto à filosofia, à anedota, ao humor, ao píncaro e à crítica. Entre nós, Kundera veria o seu trabalho literário a ser conhecido após o seu primeiro romance em português, “A Anedota” (1967). Um livro cuja tradução em francês rejeitaria e que contrariamente aos seus
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desígnios o procurava etiquetar como um “escritor dissidente”, epíteto que o escritor desdenharia, por entender que o principal critério de apreciação da sua obra se deveria fundamentar na questão estética. Homem de relações tensas com a celebridade e um tanto ou quanto avesso a entrevistas, que antipatizava com feiras literárias, Kundera inscreve-se no denominado modernismo “mitteleuropeu”, termo alemão cujo conceito se refere à Europa Central e denota uma política de união em torno de uma visão mais cética, cheia de consciência trágica e sem fé no progresso. Apesar de eterno e crónico candidato ao Nobel, o galardão passou-lhe ao lado. No entanto, entre outras distinções, arrecadaria o Prémio Jerusalém, pela Liberdade do Indivíduo (1985), o Prémio do Estado Austríaco para Literatura (1987) e o Grande Prémio de Literatura da Academia Francesa (2001), prerrogativas que atestam a sua insustentável leveza de ser grande.
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FIGURAS E CURIOSIDADES DE GUIMARÃES Inserir separador
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Figuras e curiosidades de Guimarães Figuras e Curiosidades de Guimarães tem enveredado sobre várias personalidades do nosso burgo, aqui nascidas ou aqui adotadas, bem como diversas coisas e loisas de Guimarães. Desta feita recordamos alguns nomes como o Padre Ferreira Caldas, Virgínia de Moura, Fernando Távora, que já não estão entre nós, e outros que felizmente nos continuam a fazer companhia como Alberto Martins ou Fernando da Conceição, na lucidez dos 100 anos. Sobre as coisas e loisas, acrescentamos uma nota sobre os Mesteres de Guimarães.
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Padre Ferreira Caldas: 180 anos depois do seu nascimento Barroso da Fonte
Se fosse vivo teria completado, no dia 3 de fevereiro último, 180 anos de idade. Viveu apenas 41 anos, mas legou-nos uma obra historiográfica vivíssima, pela sua autenticidade, clareza e facilidade de acesso e de compreensão. Obteve a formação secundária no liceu, em Braga, e formou-se padre, no Seminário do Porto, sendo ordenado em 11 de junho de 1870. Como Vimaranense de gema, cedo se integrou em tudo o que eram festas escolares, religiosas e profanas. Nomeadamente foi autor do texto dramático “Saudade, episódio de um reinado”, em parceria com Nicolau Máximo Felgueiras. Esta peça literária foi levada à cena em 1869, no Teatro D. Afonso Henriques. Em 1873, o Padre António José Ferreira Caldas escreveu e publicou um fascículo dedicado ao culto da Penha, a que chamou “Local e Gruta-Ermida de Nossa Senhora do Carmo”. A receita dessa venda reverteu a favor da criação de um relicário que foi colocado à mercê dos visitantes, em julho de 1880. Celebrizou-se como pregador. Juntamente com Francisco Martins Sarmento criaram uma Comissão para recolha de bens destinados ao restauro da Igreja de S. Miguel do Castelo, onde se diz que foi batizado D. Afonso Henriques. Em março de 1882, foi nomeado sócio efetivo da Real Associação dos Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses. E, dias depois, foi promovido a sócio correspondente da Real Associação de Geografia de Lisboa. O seu livro “Guimarães, apontamentos para a sua história” viera a público em 1881. Até esta obra chegar ao mercado, eram poucas as fontes escritas e publicadas. Foi o próprio Padre Caldas que confessou essa falha numa cidade carregada de História: “(…) pretendo manifestar à terra, que me foi berço, a dedicação que lhe consagro, determinaram-me a gastar algumas horas de ócio a colecionar estes apontamentos, que poderão servir um dia para a história de Guimarães”.
Neste parágrafo se resume a nobreza da investigação que Ferreira Caldas carreou para “Guimarães – Apontamentos para a sua História”. Esses apontamentos que coligiu e transformou em dois volumes, foram
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tratados e enriquecidos pelas poucas fontes que há 180 anos se conheciam e que serviram para ele próprio valorizar e auxiliar as novas gerações. «Eu desta glória só fico contente, que a minha terra amei e a minha gente». No prólogo da edição de 1996, da CMG e SMS, dos Apontamentos, o editor reproduz os intuitos do Padre Ferreira Caldas e reafirma: «Ofereço estes apontamentos aos meus conterrâneos, sem atavio nem galas, mas tais como os encontrei na história, na tradição e nos arquivos pulverulentos. Aos críticos ilustrados peço todas as correções necessárias e ampliações úteis, que terão cabimento, embora tardio, na continuação que prometo».
Os Apontamentos de Ferreira Caldas, as “Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães”, do também Padre Torcato Peixoto de Azevedo e a monumental obra de Barbosa Machado: “Biblioteca Lusitana. Histórica, crítica e cronológica”, abriram um ciclo que despoletou vários outros autores para tarefas mais consistentes e mais atrativas. Diogo Barbosa Machado (1682-1772) foi considerado o pai da bibliografia portuguesa por ter publicado a referida obra que é, segundo o próprio refere, “um dos raros monumentos tipográficos portugueses. Todos os bibliógrafos portugueses que se lhe seguiram – lê-se na sua biografia – trabalharam baseados na sua obra colossal”. Este mesmo trabalho é a principal fonte da historiografia portuguesa, que abrange um período de tempo que vai desde a invenção da imprensa até ao governo do Marquês de Pombal. “Sem esta obra – lê-se na mesma fonte – muitos nomes e factos importantes da nossa história teriam desaparecido irremediavelmente da nossa memória coletiva”. Também Diogo Barbosa Machado foi presbítero secular, abade da igreja paroquial de Santo Adrião e bispado do Porto. Foi, também, um dos primeiros cinquenta académicos da Academia Real da História Portuguesa, fundada por D. João V, em 8 de novembro de 1720. O diretor desta Revista incumbiu-me de abordar a obra do Padre António José Ferreira Caldas, que nasceu em 3 de fevereiro de 1843. Viveu apenas metade de uma vida humana normal. Mas foi bem aproveitada porque no século XVIII as sociedades humanas eram muito limitadas, a todos os níveis. Historicamente, Guimarães simbolizava a sede de um país a sair do medievalismo. Chegara das conquistas, do oriente e do ocidente. Dera novos mundos ao mundo. Civilizara, deixando a língua dispersa pelos 420
povos, com os quais travou relações. Mas interna e externamente tinha outras causas a promover. O relacionamento com esses povos começava pela cultura e esta construía-se através da língua e das convenções sociais. Há 180 anos o mundo era diferente e para pior. Guimarães apenas era exceção no simbolismo que a História lhe destinara, através da Batalha de S. Mamede, ocorrida em 24 de junho de 1128. Entre essa data e a Bula Manifestis Probatum, de 1179, Portugal consolidou, nesses 51 anos, o seu destino de Nação livre e independente. O percurso dos nove séculos da existência de Portugal completar-se-á em 2028. E Guimarães tem o direito e o dever de abrir-se ao mundo da Lusofonia, convocando todos os falantes da Língua Portuguesa, onde quer que vivam. A cidade berço impõe-se, por várias razões, para celebrar a sua História. E a esta basta recuar a Vímara Peres (868) para demonstrar o simbolismo do Condado Portucalense, mormente, dos seus condes até 1071. De entre eles sobressai Mumadona que, por razões estratégicas, se afastou da zona do Porto, para em Guimarães edificar o Mosteiro e o Castelo da Fundação. Falar do Padre António José Ferreira Caldas é recordar uma geração de notáveis Vimaranenses que ele próprio elenca: nas letras, nas artes, nas armas, nas virtudes. E aqui cita o ano de 304 para mencionar S. Dâmaso, como vindo ao mundo, no espaço que hoje é Guimarães. Cita também D. Afonso Henriques como “nascido em Guimarães”. É na página 151 destes “Apontamentos” que regista, como tendo vindo a público em 1728, o “Aparato Histórico” – livro do padre José Pinto Pereira, sobre a santidade de D. Afonso Henriques1. Escreve ele o seguinte:
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O “Aparato Histórico dos Argumentos de Santidade do Rei Afonso Henriques (...)” foi concluído em 1724, pelo Padre José Pinto Pereira Lusitano, nascido em Guimarães em 31 de março de 1659 e falecido em 1733. Foi padre e cavaleiro professo na Ordem de Cristo. Esteve cerca de 29 anos em Roma. Elaborou uma tese em que, em dez argumentos, demonstrou que D. Afonso Henriques foi Pio, Beato e Santo. Essa tese foi editada e, embora não circulasse por impedimento, alguns exemplares foram parar a sítios reservados, mas apenas em texto latino. Nunca se conheceu qualquer versão em português. Em 2009 Pinharanda Gomes alertou-nos para a existência dessa versão latina. Obtivemos uma cópia e apelámos, no Notícias de Guimarães, para ver se algum tradutor se prontificava a essa tarefa. Apareceu um bibliófilo que assumiu essa tarefa. Em 2014, a obra foi apresentada em sessão pública e com as duas versões. O trabalho ficou bem feito e o livro foi disponibilizado ao público, no Arquivo Alfredo Pimenta. Mas o tradutor queixa-se de incumprimentos.
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“este Aparato Histórico foi publicado em Roma, sendo então oferecido à santidade do Papa Benedito XIII e à majestade do nosso rei D. João V, ativaram-se, de novo, os trabalhos neste sentido. No entanto até hoje nada de definitivo”.
Graças a esta alusão, presumo ser das primeiras referências escritas a essa obra, em Guimarães, com esta clareza. Na página 152, Ferreira Caldas demonstra que sabia mais da vida e da obra do Padre José Pinto Pereira Lusitano, do que os Portugueses em geral, que ainda hoje ignoram. Ouçamos o que este autor escreveu acerca da santidade de D. Afonso Henriques, quando publicou o “Aparato Histórico”, em 1728: “Em 1752 tornaram-se a ativar, de novo, em Roma, alguns trabalhos análogos”. E, quanto aos trabalhos e preocupações com o processo da beatificação de D. Afonso Henriques, Ferreira Caldas esclarece que foram mencionados na “Gazeta de Lisboa” de 1753, nº 1 de 4 de janeiro. O mesmo autor deixou escrito que: “na vila de Guimarães se ajuntou a Academia Vimaranense, no dia 6 de Dezembro, aniversário do falecimento do venerável e santo D. Afonso Henriques, natural da mesma vila; e aplaudiu com eloquentes discursos e discretas poesias a notícia de se tratar em Roma da sua beatificação”.
Todos aqueles que cumpriram, ou venham a cumprir, a sua existência cívica, em nome desta comunidade lusófona, têm o direito e o dever de progredir em todos os ângulos do saber. Na apresentação da 2ª edição das “Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães”, os editores assinam mensagem que “o homem tem profundo desejo de conhecer as suas origens. Na idade média existia um modo caraterístico de ver o mundo e de explicar o passado. A Bíblia era considerada o livro sagrado que explicava tudo sobre as origens, sentido e destino humano. No século XV começa a olhar-se o mundo e o passado de maneira diferente e considera-se o Homem como a medida de todas as coisas. No século XVI os descobrimentos marítimos alargam os horizontes e o passado começa a preocupar-se com a história dos nossos antecessores. O ser humano passa a conhecer-se a si próprio e todos os viventes, através de vestígios, alguns em documentos escritos, outros em escavações de aldeamentos. No século XVII surge a curiosidade e estudam-se os achados, os museus e as línguas que movem e promovem o conhecimento pessoal, nacional e de todos os povos. Guimarães é um desses povos, onde surgem os primeiros monógrafos que se preocupam em caraterizar o tempo e o modo de cada salto evolutivo”.
A fonte que venho mencionando enuncia aqueles que foram mais citados: Torquato Peixoto d’Azevedo, com as “Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães”; António Ferreira Caldas, com “Guimarães – apontamentos para a sua História”; e Alberto Vieira Braga, com as “Curiosidades de Guimarães”. 422
Foi curta a vida do Padre António José Ferreira Caldas2 que nasceu na freguesia de S. Sebastião, em 3 de fevereiro de 1843. Em 1870, ordenou-se sacerdote tendo sido um aluno distinto, quer no liceu de Braga, quer no Seminário do Porto. Foi um orador brilhante e depressa se fez notar, quer na oratória, no púlpito, quer na escrita, nos periódicos locais, como “Religião e Pátria”, quer em “Fraternidade”. E não colaborou apenas nos órgãos da sua região minhota. Também no “Espectador” e outros do resto do país. Fez o mesmo, logo que se ordenou, numa peça dramática, em quatro atos, a que chamou: “Saudade – episódios de um reinado”. Em 1873, surpreendeu os seus leitores com mais um pequeno livro intitulado: “Local e Gruta-Ermida de N. Sª do Carmo da Penha”. Esse esforço indómito incutiu nele o atrevimento de escrever a sua obra monográfica a que chamou: “Guimarães, apontamentos para a sua História”, editada em dois volumes. Segundo se lê em “À Guisa de Esclarecimento” inserida na p. 11 da edição autenticada em 1996, pela Direção da SMS, lê-se: “sucessivas gerações têm-se reencontrado com Guimarães por amor do Padre António Caldas e também do Padre Torquato Peixoto de Azevedo. Estes “Apontamentos para a História de Guimarães”, cuja primeira edição, publicada em dois volumes, data de 1881, encontra-se esgotada há muitos anos. Compreendeu a Câmara Municipal a importância de uma reedição da obra e, assim, juntamente com esta Sociedade, foi viabilizada uma iniciativa cultural que os vimaranenses há muito reclamavam. Sai agora num só volume e enriquecida com expressivas ilustrações”.
Este esclarecimento vem demonstrar que a obra do Padre Ferreira Caldas, aparecendo no último quarteirão do século XIX e sabendo-se que foi ela das fontes mais privilegiadas, das várias gerações que lhe sucederam, até ao presente, devemos curvar-nos pelos altos serviços que Ferreira Caldas legou a Guimarães e à cultura Portuguesa. Conseguiu organizar e descrever, com os conhecimentos débeis que ao tempo existiam, reunindo, em dois volumes, com 432 páginas, uma síntese com cerca de quatrocentos itens que permitem, através da simples leitura, conhecer as ruas, os nomes delas, dos monumentos históricos da então vila, os becos, os nomes das freguesias, o número de templos, nomes e biografias dos 60 Priores da Colegiada da Oliveira, nomes de sítios com história, origens da vila, transformada em cidade, estruturas agrícolas e artesanais, oratórios, asilos, padrões, hospitais, rios, vias romanas e demais vestígios humanos.
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O signatário anota esta informação que tem o formato 11x18, 1ª edição, ano de 1881, vol. II. Foi impressa no Porto: 1882 - TYP. A.J. da Silva Teixeira 62, Cancela Velha, 62. Em 1996 saiu uma edição com chancela da Câmara M. de Guimarães/Sociedade Martins Sarmento. O formato é de 14,5x22, impressa na Gráfica Covense, com 432 páginas, englobando duas partes. À guisa de esclarecimento.
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O sentimento de amor a Guimarães Maria José Meireles, na sua obra de mestrado “O património urbano de Guimarães no contexto da idade contemporânea (Séc. XIX-XX): permanências e alterações”, incentivada por outra historiadora – Maria da Conceição Falcão Ferreira, que, anos antes, publicara “Uma Rua de Elite na Guimarães Medieval” e “Guimarães duas vilas um só povo” – exarou: “Possui Guimarães um conjunto de monumentos que exprimem a luta entre as duas correntes. São os chamados Monumentos da Fundação, pois na mentalidade colectiva estiveram ligados à Fundação de Portugal. São eles o Castelo, a Igreja de S. Miguel e o Paço dos Duques de Bragança. Desde o século XVIII, estes monumentos são ignorados por uns e idolatrados por outros; constatando-se que há uma lenta aprendizagem do seu significado, tornando-se cada vez mais simbólicos. O monumento mais importante para os vimaranenses é o Castelo, que com a perda de posição estratégica da vila, logo após a época medieval, passa a ter reduzida importância militar, deixando-se, por isso, de fazer a sua manutenção e começando as obras a ser raras. Durante o século XVII, e conforme nos diz Alberto Vieira Braga, teve pequenos consertos, geralmente relacionados com a cadeia, que aí existia há séculos. Não se olhava para o edifício como monumento, mas como uma prisão e uma grande reserva de pedra. De acordo com o espírito da época, ainda não se pretendia proteger um valor histórico; tratava-se, apenas da sua manutenção, porque assim o exigia o seu uso”.
Estas duas historiadoras são exemplos contemporâneos da mesma região que produziram historiografia urbana que se complementa e que aprofunda períodos, entre 1250-1389 e os séculos XIX-XX, respetivamente. As três dissertações (duas de mestrado e uma de doutoramento) tentam restaurar a História de Portugal, clarificando cientificidades que perduram desde há nove séculos. A história é uma área do saber que engrossa todos os dias e em toda a esfera do conhecimento humano. Cada um de nós faz parte dessa esfera cognitiva. Embora estejamos a chegar ao ano de 2028, em que Portugal assinalará nove séculos do seu nascimento, a sua verdadeira História ainda enferma de muitas deficiências, incertezas e hesitações. O Padre Ferreira Caldas, e outros do seu tempo, aprenderam uns com os outros. E, com as peneiras do tempo, foram-se depurando as impurezas, até que as universidades dessem passos científicos, rumo à verdade histórica. A cinco anos dos 9 séculos ainda existem poeiras que geram polémicas, discordâncias e inconveniências que irão perdurar para além de nós.
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Ferreira Caldas e o Labor da Grei Se o Padre Ferreira Caldas tivesse vivido a metade da vida que a morte o impediu de viver, a história de Guimarães, que deu saltos quantitativos e qualitativos, a partir da exposição industrial de 1884, teria enriquecido muito mais. Em 1882, foi oficialmente criada a Sociedade Martins Sarmento. Um ano antes, Ferreira Caldas publicara dois volumes sobre a sua cidade. Em 1883, Oliveira Martins traz a público “Quadro das Instituições Primitivas”. Em 1884, aparece a Revista de Guimarães. Em 1885, Alberto Sampaio inicia a sua colaboração na revista “Província”, dirigida por Oliveira Martins. E, o mesmo Alberto Sampaio publica o “Relatório sobre a Exposição Industrial de Guimarães”. Este Relatório marcou, imediatamente, um clima de euforia a todos os níveis. Francisco Martins, na antologia de autores célebres “Guimarães – O Labor da Grei”, que a SMS publicou como resultado da Exposição Industrial e Agrícola Concelhia, realizada em agosto de 1923, abre o “Romeiro do Passado” com estas palavras: “Brilhantes e canseirosos obreiros avivaram com tintas parceladas do mais puro sentimento a beleza suave e consoladora das velhas páginas da História de Guimarães...”. Ferreira Caldas foi um daqueles autores, aqui nascido, que amou sem medida a sua vila que, dez anos depois (em 1853), foi elevada à categoria de cidade. Essa elevação linguística de vila a cidade, para a época, terá sido um orgulho redobrado que adicionou a Guimarães o título que não mais esqueceu, nem esquecerá: “Cidade Berço”. Se, aos 41 anos, este Vimaranense já tinha tão copiosa e importante obra monográfica, caso tivesse atingido mais idade, até à média de vida, a História de Portugal estaria mais consolidada e mais desenvolvida. Mesmo assim, o Padre Ferreira Caldas deu passos de gigante para, em tão pouco tempo, escrever esta obra: “Guimarães – Apontamentos para a sua História”. Bem andou a direção desta Revista ao assinalar a data deste historiador Vimaranense que nos deixou em 22 de julho de 1884.
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Virgínia Moura Maria de Jesus Carvalho Diretora do Agrupamento de Escolas Virgínia Moura
Virgínia Moura nasceu em 19 de julho de 1915, em S. Martinho do Conde, freguesia do Concelho de Guimarães, tendo falecido, no Porto, a 19 de abril de 1998. O espaço da referida freguesia insere-se na área educativa do Agrupamento de Escolas de Moreira de Cónegos. Filha de uma professora primária de S. Martinho do Conde, Virgínia Moura fez a instrução primária nesta freguesia, onde vivia. Com dez anos, ingressou no liceu de Guimarães, prosseguindo os seus estudos na Póvoa de Varzim e, posteriormente, no Porto, onde começou uma intensa actividade política. Data de 1933 a sua ligação à atividade político-partidária, tendo nesse ano participado na organização da secção portuguesa do Socorro Vermelho (Organização de Socorro aos Presos Políticos Portugueses e Espanhóis). Foi a primeira mulher portuguesa a obter o título de engenheira civil, tendo-lhe sido negado o acesso à Função Pública, pois a ficha policial já então a assinalava como séria opositora da ditadura fascista. Cursou ainda matemáticas e frequentou a Faculdade de Letras de Coimbra. Desenvolveu uma intensa atividade cultural no Porto nos anos quarenta e cinquenta, tendo colaborado (sob o pseudónimo de Maria Selma) em vários jornais e revistas, promovido a edição da revista “Sol Nascente”, e realizado diversas conferências com a participação de Teixeira de Pascoais, Maria Isabel Aboim Inglês e Maria Lamas. A sua intensa, firme e corajosa atividade política contra o regime fascista levou-a, em 1949, à primeira prisão o que, até ao 25 de Abril, viria a repetir-se 15 vezes. A sua vida foi um constante confronto com o fascismo. Esteve nos combates do MUNAF, do MUD e do Movimento Nacional Democrático; nas batalhas políticas em torno das "presidenciais" com as candidaturas de Norton de Matos, de Ruy Luís Gomes e de Humberto Delgado; nos congressos da oposição democrática e nas campanhas políticas de massas desenvolvidas em torno das farsas eleitorais para a chamada Assembleia 426
Nacional, em 1969 e 1973; nas pequenas e grandes lutas pela paz, pela solidariedade com os presos políticos e contra a repressão, pela melhoria das condições de vida do povo, pela libertação dos povos colonizados, pela igualdade e afirmação dos direitos das mulheres e da sua participação na vida política, pela criação das condições que conduziram ao derrubamento do fascismo e à Revolução de Abril, de que foi igualmente participante e obreira entusiástica e empenhada. Depois do 25 de Abril e nas novas condições de liberdade, Virgínia Moura continuou a luta em defesa e consolidação do regime democrático, pelas transformações capazes de assegurar uma sociedade mais justa, por um Portugal de Abril rumo ao socialismo. Virgínia Moura foi distinguida com a Ordem da Liberdade e recebeu a Medalha de Honra da Câmara Municipal do Porto e do Movimento Democrático de Mulheres. Por ocasião do seu octogésimo aniversário, foi-lhe prestada, no Palácio de Cristal, uma expressiva homenagem, tendo sido então publicado, pelas edições “Avante!”, o livro “Virgínia Moura, mulher de abril – Álbum de memórias”. Busto da engenheira Virgínia Moura, no Largo Soares dos Reis - Porto Por tudo o que Virgínia Moura representa: mulher de fortes convicções, defensora da paz, dos direitos das mulheres e dos jovens, fiel aos seus ideais de liberdade, solidariedade, humanidade, sempre atenta aos problemas sociais e lutando para os melhorar, o Agrupamento de Escolas Virgínia Moura elegeu-a como seu patrono.
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Fernando Távora – Cem anos feitos sinal de esperança Filipe Fontes
Ousando recurso a letra de canção outrora recorrentemente ouvida e trauteada, “cem anos é muito tempo”! Verdadeiramente, é muito tempo, sendo esta quantificação e qualificação apenas e só em termos fisicamente temporais, já que a noção real e interessada destes cem anos resulta em tudo o que ele significa, seja perspectiva de futuro, seja legado e história, motivação e ousadia, conhecimento e ensinamento. Cem anos do nascimento de Fernando Távora merecem ser assinalados e reflectidos, julga-se ser por demais evidente. Cem anos do nascimento de Fernando Távora merecem ser analisados e perspectivados à luz do significado temporal que a soma sucessiva e massiva de dias (que se exige para atingir o “número redondo”) representa. E, acredita-se, representa muito, tanto que, porventura, será difícil, muito difícil, abarcar os seus reais e completos efeitos. Fernando Távora é um nome incontornável da arquitectura portuguesa, quer no seu campo disciplinar e conceptual, deontológico e ideológico, profissional e organizativo. Tão incontornável quanto consensual a relevância da sua acção para a afirmação da democraticidade e qualidade da arquitectura portuguesa, não tanto relativamente à sua forma singular e própria de “fazer arquitectura”, mas o modo livre, culto, solidário, partilhado, localmente contemporâneo, internacionalmente regional que defendia para a prática arquitectónica, independentemente do lugar e do tempo, antes da convicção e da circunstância, ou seja, da coerência. Este é o seu maior legado, este é o seu maior ensinamento, esta é a sua maior perspectiva de futuro, que nem cem anos passados, se mostra desactualizada ou sem pertinência. Antes pelo contrário! Muito já se estudou, analisou, reflectiu, escreveu e editou sobre a “obra arquitectónica” de Fernando Távora, englobando-se (de forma livre e generalista) nesta expressão (“obra arquitectónica”) toda a sua produção projectual e construtiva, gráfica e escrita, desenhada e fotográfica3. Já muito se expôs e partilhou, tendo Guimarães (no seu ano de capital europeia da cultura) promovido expressivo acontecimento 3 “Os escritos da estadia nos Estados Unidos revelam uma procura sobretudo orientada a métodos de ensino e à estruturação do trabalho do
arquitecto nas suas múltiplas facetas e na perspectiva do trabalho interdisciplinar…” (Álvaro Siza Vieira, “Fernando Távora, diário de bordo”, edição Associação casa da Arquitectura, âmbito Guimarães capital europeia da cultura 2012, 2012).
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expositivo e editorial sobre Fernando Távora e a sua permanente modernidade. Por isso, é percepção de que tudo o que aqui se possa escrever sobre a obra de Fernando Távora corre o duplo e grave risco: ficar muito aquém qualitativamente do trabalho já realizado por tantos de investigação e talento direccionado para esta figura cimeira da arquitectura portuguesa; pecar por nada acrescentar, repetindo afirmações, constatações, qualidades, críticas, palavras boas e conclusões há muito já alcançadas, conhecidas e partilhadas. Não querendo fazer eco daquilo que se conhece, não querendo dar corpo a mais um texto, por mais qualitativo que eventualmente conseguisse ser na sua escrita, a reboque da sua frase central (que se cita de forma livre) “a arquitectura é feita por homens e para homens”, opta-se pelo caminho singular da relação e da experiência de vida, da partilha do significado e da vivência pessoal do autor deste texto com Fernando Távora, ou seja, opta-se por tornar público a relação única e pessoal estabelecida entre duas pessoas, acrescentando mais um capítulo, por mais insignificante e pequeno que seja, a uma tão vasta e rica história de vida. Não se julga presunção nem vaidade, não se subentenda grandeza ou se especule importância. Antes, e tão só, se admita que, entre informação e reflexão que não se mostra nova nem tão qualitativa quanto aquela já produzida, se socorreu de uma história que, à escala de Fenando Távora, será seguramente residual, tão residual quanto anónima. Na escala da vida do autor deste texto, inversamente proporcional! E esta é a homenagem que este mesmo autor deixa a Fernando Távora nos seus cem anos de nascimento. Nascer é sinal de esperança e, ainda hoje, Fernando Távora é sinal de esperança4! Até à denominada entrada na faculdade, no caso, já faculdade de arquitectura da universidade do Porto (FAUP) emancipada e autonomizada da escola de belas artes, na vida de um aspirante a arquitecto que pouca cultura arquitectónica revelava, que pouco “mundo” ainda reflectia, Fernando Távora emergiu e afirmou-se como um mito (aquele venerado pela sua qualidade e sábio poder, distante e inacessível, ao qual acediam apenas alguns…), alguém ponderado no campo disciplinar da arquitectura, imensamente capaz na produção arquitectónica, fosse projecto ou pensamento crítico e escrito, que se estudava e se perseguia na leitura dos seus textos, nas visitas às suas obras, na visualização e escalpelização dos desenhos e fotografias publicadas. Fernando Távora apareceu como alguém distante, quase inatingível, em que obras como o bloco da Foz do Douro (ainda hoje referência tão grande…), o mercado de Santa Maria da Feira, Ramalde e o pavilhão de 4 “Quando Távora inventou a Arquitectura Portuguesa “não se deu conta do que tinha feito: pensou que se tinha limitado a descobri-la”. E
que dela se podia separar. Descuidou-se, “nós e o mundo exterior somos o mesmo”. “O Mundo é a nossa forma de estar no mundo e fomos nós quem inventou essa forma. Não há diferença entre nós e isso. Nós somos a coisa onde vamos chegar. A isso chama-se história”. (Eduardo Souto Moura, “Fernando Távora”, editorial Blau, lda, 1993, página 71).
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ténis da Quinta da Conceição, entre outros, emergiram repetidamente como exemplos de “boa arquitectura” merecedora de atenção e disponibilidade de estudo5. Para uma ambicionada formação em arquitectura, Fernando Távora surgiu como inalcançável na qualidade da sua produção arquitectónica, num nível superior, talvez (na altura, seguramente) no olimpo, esse lugar unicamente reservado aos deuses e aos melhores de todos eles. Todavia, já nesse tempo, recordo notar que, apesar dessa aura de inatingibilidade e de “ser superior” arquitectonicamente, algo de profundamente humano, próximo e entendível se identificava. E se acrescentava à compreensão e ensinamento da sua obra. “Já na faculdade” deu-se o privilégio de encontrar Fernando Távora como professor no primeiro ano do curso, na disciplina então nomeada de teoria geral da organização do espaço (TGOE), onde, meritoriamente, Fernando Távora reinava nas ditas “aulas teóricas” feitas tertúlias e conversas, muitas vezes deliciosos monólogos sobre viagens e edifícios, sobre escritos e circunstâncias da vida, sobre tudo e mais alguma coisa, numa mistura única e sábia de um conhecimento irrepetível, de um humor fino, de um prazer de partilha indisfarçável, de uma construção de momentos formativos, pedagógicos, de amizade e convívio há muito percebido como privilégio viver e usufruir6. Recordo o anfiteatro das Belas Artes e a sala invariavelmente preenchida e o “palco” ocupado densamente por uma só personagem de nome Fernando Távora, apenas ele e o seu cavalete de apoio onde folhas de desenho repousavam, avidamente expectantes dos desenhos explicativos ou de puro prazer de desenho de Fernando Távora. Rara era a explicação, a história, o discurso de Fernando Távora que não tivesse companhia constante do desenho! E nós, eu e todos os outros, alunos e aprendizes, assistíamos àquelas aulas embevecidos, confesso que não sei se com a atenção devida – tão inebriados estávamos perante tão grande e sábia figura – e suspirávamos por um dia, no final da aula, sermos bafejados pela sorte e, então “quem saberia”, sermos prendados por uma daquelas folhas cheias de desenhos e palavras, deliciosa e visualmente oferecidos a todos nós por aquele há muito tido já como mestre! Um ano de aulas assim destrói qualquer mitologia e a proximidade alcançada – que a distância curta 5 “Como sucede com muitos protagonistas conscientes do seu papel decisivo num mundo inevitavelmente “público”, também Távora se
converterá num hábil tecedor do seu mito”. (Manuel Mendes, “Fernando Távora, modernidade permanente”, edição Associação Casa da Arquitectura, Guimarães 2012, 2012), 6 “não se pode igualmente esquecer a sua importância pedagógica na escola que o formou, acabando por contribuir fortemente para a construção de um sentido de unidade e identidade. As suas aulas fixaram-se num modelo informal de conversa, longe do acto académico cristalizado, continuando assim o ambiente de tertúlia com o qual a Escola do Porto cimenta a sua celebridade, mas sempre versando centralmente um assunto: a Arquitectura (Michel Toussaint, “Fernando Távora”, editorial Blau, lda, 1993).
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entre as cadeiras do anfiteatro e o palco proporcionavam – deu lugar ao reconhecimento da genialidade do mestre, num sinal de humanização de Fernando Távora aos olhos daqueles alunos, confirmando aquela noção de que a genialidade do humano corresponde à mitologia dos deuses…7 Proximidade essa que, nesse mesmo ano, conheceu maior intensidade, numa avaliação do trabalho prático em que Fernando Távora e Tasso de Sousa (o professor da dita “aula prática”) percorreram as paredes da sala de aula preenchidas com os trabalhos dos alunos e, prazerosamente, se demoraram na análise crítica dos trabalhos e diálogo com os mesmos alunos. Confesso que já não me recordo do muito que disse Fernando Távora. Seguramente, não faltaram histórias, humor e crítica ao trabalho. Seguramente! Como também não duvido que tudo foi dito com elevação e interesse, cumplicidade e vontade genuína de ajudar e formar…. Posso não me recordar das suas palavras, mas recordo vivamente o prazer e o respeito temeroso de estar sentado lado a lado com aquele que tanto admirava. Se a admiração nunca desapareceu, ainda hoje se mantem e de forma reforçada, a proximidade experimentada não se repetiu nos anos posteriores do curso, regressando a uma espécie de híbrida satisfação e convívio com Fernando Távora entre a mitologia e a genialidade, (re) descobrindo-o no estudo e na visita das e às suas obras. Todavia, no quarto ano da faculdade, recebo como professor da cadeira de projecto o filho de Fernando Távora, informação que se julga relevante para compreensão do modo e local como uma visita de estudo organizada para conhecer e “vivenciar” um conjunto de obras de Fernando Távora – anfiteatro do instituto politécnico de Viana do castelo, escola agrária de Refoios de Lima, Pousada de Santa Marinha, entre outros – terminada na Casa da Covilhã, a residência e o abrigo vimaranenses de Fernando Távora8. Aí, novamente privilegiado, mesmo que residual e pontualmente, tomei conhecimento de uma parte nuclear do seu mundo e aquele ser (ainda) feito de mito e génio, ali, simples e definitivamente, humanizou-se e tornou-se completo! Já não era só o arquitecto que se estudava e perseguia (no bom sentido da palavra) para conhecer, já não era só o professor que se reverenciava e escutava para absorver e aprender, era também e fundamentalmente o homem e o seu quotidiano, o seu ambiente e os seus objectos, a sua estadia e os seus movimentos.
7 Reconhece-se nestas aulas um contributo indisfarçável para a aceitação do lido em “labirinto da Saudade”, Eduardo Lourenço, publicações
Dom Quixote, 1978: “é em função de um conhecimento do essencial, daquilo que não podemos abandonar sem mutilação próxima e futura, que as escolhas decisivas para o nosso destino deviam ser feitas”. 8 “Na Quinta da Covilhã fica a casa-morada de Fernando Távora, habitante, cidadão, português, autor-mestre…” (Manuel Mendes, “Fernando Távora, modernidade permanente”, edição Associação Casa da Arquitectura, Guimarães 2012, 2012).
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Não tenho noção de quanto tempo durou essa estadia na Casa da Covilhã, talvez pouco mais do que duas horas. Sei que foram plenas. E indício do que a vida reservaria… Dali, daquele lugar singular de Guimarães, avista-se a cidade de Guimarães à qual haveria de voltar e ficar. Entretanto, a vida prosseguiu e, já em trabalho profissional em gabinete de arquitectura, surge a oportunidade de trabalho e o cruzamento profissional com Fernando Távora, em colaboração com o próprio, o seu filho e a sua respectiva equipa de trabalho, para terminar proposta de suporte à participação em concurso de ideias para a “alta de Coimbra”. Mais uma vez, foi pontual e, temporalmente, reduzido o convívio – dois dias e uma noite – mas onde, privilegiada e honrosamente, trabalhei directamente com Fernando Távora, eu manuseando a ferramenta informática, ele desenhando manual e magistralmente, lado a lado, alimentando critica e constantemente o meu trabalho. Mesmo quando, já noite dentro e o tempo emergia como escasso, depois de uma pausa e durante alguns minutos, Fernando Távora se agitar e não se sentar para retomar o trabalho… “simplesmente” porque não sabia onde tinha deixado a sua caneta. E enquanto a mesma não apareceu – na verdade, não poderia estar longe nem invisível, reduEnunciado de trabalho da disciplina leccionada por Fernando Távora, zida era a área do gabinete, confinados ao trabalho onde o mesmo não deixa de expressar a sua constante atenção e preocupação pela formação, pela valorização do trabalho, pelo fim da estávamos… – Fernando Távora não reiniciou o traarquitectura feita usufruto generalizado da qualidade de que a arquitectura é capaz de oferecer. (fotografia: Filipe Fontes) balho, o que acrescentou (por muito singelo e “pito(documento: enunciado de trabalho, 1º ano da disciplina de Teoria Geral resco” que se afigure este “episódio”) ainda mais da Organização do Espaço, FAUP) acessibilidade e proximidade, qualidades tão próprias do humano e que se observavam em Fernando Távora, muito para lá da sua genialidade, independentemente da sua aura mitológica.
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“Quis a vida”, e as opções que nela vamos tomando e assumindo, que o meu mundo profissional se cruzasse com Guimarães e a esta cidade viesse pousar em 1996, nela permanecendo (até ao presente) vida fora. E, assim, fatal e (mesmo que) indirectamente, voltando-me a cruzar com Fernando Távora. Porventura, recorrendo a outro advérbio de modo para melhor retrato: inevitavelmente! Iniciado percurso profissional na Câmara Municipal de Guimarães, cidadão assiduamente presente no espaço público da cidade, errante e deambulante pelas ruas e vielas da urbe, forçosamente Fernando Távora e o seu legado impactaram e afirmaram-se, confirmando a densidade e qualidade da produção arquitectónica e urbana, não surpreendendo o autor destas palavras pela sua intensidade e expressão, antes e apenas porque, não se descobrindo o fim, cada dia passado era uma porta aberta para a identificação de mais uma particularidade, de mais um acaso, de mais uma palavra e referência a Fernando Távora (na verdade, um pouco como as suas aulas. Nestas, tantas vezes, julgamos que Fernando Távora tinha esgotado as histórias para contar, a capacidade de humor, tamanha era a intensidade, mas, depois, surgia sempre mais “alguma coisa” …. Deambulando pela cidade, o mesmo acontecia!). Indubitavelmente, Guimarães cruza-se com Fernando Távora e o legado que este foi capaz de deixar e a cidade foi capaz de absorver e guardar: o bairro habitacional de Creixomil (dita sua primeira obra) e a sua Casa da Covilhã, o posto duplo de abastecimento da Sacor (recentemente classificado patrimonialmente) e o edifício da Assembleia, o convento e pousada de Santa Marinha da Costa e a recuperação da casa da rua Nova, o edifício sede da polícia e a casa em Briteiros, a casa do engenheiro Domingos Manuel de Almeida (Moreira de Cónegos) e o plano geral de urbanização de Guimarães, a reabilitação do largo Condessa do Juncal e praça de Santiago, praça da Oliveira e praça do Município9. Inegavelmente, guardamos admiração e reconhecimento, respeito e afectividade, mérito e agradecimento. Admiração e reconhecimento pela capacidade e talento colocados ao serviço da cidade e que o edifício da Assembleia se julga o seu elemento mais densificador, edifício notável na imagem projectada e ambiente criado, propulsor de expansão urbana da cidade para lá do seu núcleo central. Respeito e afectividade pela dedicação e atenção que o conjunto da sua obra denota relativamente à génese e especificidade de Guimarães, à sua irrepetibilidade e singularidade. Mérito e agradecimento porque deixou legado bom, sabendo ensinar e transmitir para, depois, deixar a cidade seguir o seu percurso e a sua história.
9 “Há casos, como o de Guimarães, em que as praças e os lugares de intervenção são múltiplos e o projecto assume dimensão urbana … Tá-
vora insiste nas relações de consonância que se estabelecem com o carácter dos lugares” (Daniele Vitale “Fernando Távora, modernidade permanente”, edição Associação Casa da Arquitectura, Guimarães 2012, 2012).
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Na verdade, hoje a cidade é indissociável de Fernando Távora e o seu centro histórico é incontornável no reconhecimento da sua “arte e do seu engenho”. Fernando Távora deixou um legado que, acredita-se, hoje a cidade soube manter, preservar e valorizar, a ponto de ter feito “escola” e de se ter perenizado. Não sem dúvida ou polémica, mas com relativo consenso e reconhecimento. Para muitos, Esta obra e este legado são intocáveis. Para outros, esta obra e este legado devem ser interpretados à luz da respectiva concepção e concretização, merecendo ser reinterpretados e redesenhados à luz da contemporaneidade. Desde o projecto e obra até ao momento actual, muito mudou e nada ficou igual ao nível das exigências funcionais, infraestruturais e construtivas, opções políticas e urbanísticas se distinguiram, o turismo massificou-se, a esplanada, o automóvel e o seu aparcamento, o comércio local e tantos outros temas alteraramse, eliminaram-se ou reforçaram-se, foram e vieram. Outras permaneceram intactos e estáticos, intransponíveis ora como regras rígidas de preservação e valorização patrimonial, ora como opção atávica e castradora. No respeito e admiração que se guarda perante tamanha e significativa figura, talvez a melhor forma de homenagear e comemorar estas cem anos do nascimento de Fernando Távora seja partilhar a capacidade de reflexão, debate e reinterpretação do seu legado à luz dos seus princípios fundadores10. Afinal “tudo há que refazer, começando pelo princípio”, nunca esquecendo que “a arquitectura é feita por homens e para homens!”. (Fernando Távora)
10 “Perante a alternativa de seguir em frente ou estagnar no caos em que nos encontramos, Távora decide-se pela primeira posição com a
esperança firme de que ela é a única possível para aqueles que nasceram para aumentar ao passado algo do presente e algumas possibilidades do futuro” (Alexandre Alves Costa, “Fernando Távora”, editorial Blau, lda, 1993, página 18).
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Homenagem ao Dr. Fernando Conceição, nos 100 anos do seu nascimento Hermenigildo Moreira da Encarnação
Dentro das várias11 homenagens ocorridas pelo centésimo aniversário do Dr. Fernando Conceição falaremos de uma que se tornou emblemática, já que, na mesma foi apresentado o seu livro: Claustros de Guimarães – Arquitetura e Simbolismo. A efeméride ocorreu a 22 de abril, no Auditório da UNAGUI, instituição da qual foi um dos Fundadores e o primeiro Presidente da Direção. O pequeno livro (ínfima amostra do saber duma eclética personalidade) mostra o homem multifacetado, um sábio, um conciliador nato, com uma vida cheia, dedicada ao ensino e à causa pública. Isto mesmo foi referido vezes sem conta. Nesta cerimónia sentiu-se rodeado pelos familiares e amigos. Mas sobretudo, envolvido pelo calor do afeto, expressou o seu sentimento de alegria garantindo ser firme “no desejo e na ambição de continuar ativo”. Além de se sentir grato, segundo Fernando Conceição, os presentes deram-lhe “mais um motivo para continuar vivo, ativo e feliz”. Falar do homenageado é reconhecer uma grande e distinta personalidade, bem como de um insigne e distinto ser humano. A sua figura tem múltiplas facetas. Desde professor, reitor, político, homem de palavra e da palavra, pois foi um exímio orador e um conciliador nato. Dono de uma linguagem simples e direta no que concerne à erudição, bem como à precisão técnico-científica. Portanto, impõe-se elencar as várias facetas do seu percurso: biográfico, académico, 11 Homenageado por diferentes instituições, bem como pelo parlamento com voto de louvor.
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profissional e político-social. Elementos biográficos e familiares Nasceu em 18.04.1923, em Braga. Casado com Manuela de Alcântara Santos. Pai de três filhos: Cristina, Paulo e Miguel. Avô de seis netos. Habilitações Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa, em 1947. Frequentou e terminou ainda o Curso de Ciências Pedagógicas de 1954 a 1956. Atividade docente Iniciou a sua atividade como Professor eventual na Escola Comercial Veiga Beirão, em Lisboa, no ano de 1948/1949. Depois exerceu funções docentes, como professor do Ensino Particular, nos Colégios do Sagrado Coração de Maria e de S. Geraldo, em Braga, nos anos de 1950 a 54. De seguida, tornou-se Professor Efetivo do Ensino Secundário nos Liceus de Bragança e Guimarães. Foi nomeado Diretor da Escola do Magistério Primário de Bragança de 1956 a 1959. De 1960 a 1966 foi ViceReitor passando a exercer as funções de Reitor de 1966 a 1974, no Liceu Nacional de Guimarães, hoje Escola Secundária Martins Sarmento. Ainda foi presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária Martins Sarmento de 1980 a 1984. Em 1981, foi autor do programa nacional de História para o 12º ano e do manual de História do 7º ano de escolaridade. Palestras e publicações Proferiu inúmeras conferências sobre temas como: educação, história e cultura. Publicou artigos e
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estudos em obras coletivas. Membro da Comissão Política da Secção Concelhia e da Comissão Distrital do PSD, Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães de 1968 a 1974. Eleito Deputado à Assembleia Nacional de 1969 a 1974. Deputado à Assembleia da República entre 1985 e 1991, integrando, nessa condição, a subcomissão que elaborou a Lei de Bases do Sistema Educativo, em 1986, e a Comissão Interministerial da Família, em 1986. Presidiu à comissão Permanente da A. R. de 1987-1988. Foi ainda representante da Assembleia da República no Concelho Geral da Unesco (Lisboa), em 1987, bem como nas Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa, de 1988 a 1991, e da União da Europa Ocidental, em 1990 e 1991, e no Conselho Nacional da Educação entre 1988 e 1991. Finalmente, foi Vice-Governador do Distrito de Braga, em 1994 e 1995, assim como Deputado à Assembleia Municipal de Guimarães entre 1982 e 2007. Atividade associativa e cívica Foi Presidente da Assembleia Geral de 1983 a 1985 e membro do Conselho Consultivo da Sociedade Martins Sarmento. Cofundador e primeiro Presidente da Direção, Presidente da Assembleia Geral, de 1995 a 1997, bem como professor de História e Cultura de Guimarães de 1994 a 2004, na UNAGUI. Foi associado desde da fundação, em 1981, Vogal da Direção em 1999 e 2000. Foi Presidente da Direção, de 2009 a 2010 e Presidente da Assembleia Geral de 2001 a 2008; de 2011 a 2021 esteve ligado à MURALHA. Foi também Presidente do Conselho Fiscal do Vitória de Guimarães, bem como Presidente da Assembleia Geral da Casa dos Pobres. Desempenhou funções de Juiz substituto de Instrução Criminal do Círculo de Guimarães, tendo sido, ainda, coordenador da Comissão de Ética do Hospital Senhora da Oliveira de 1992 a 1999. Finalmente, foi membro do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães, em 2011-2012. Em conclusão, Fernando Conceição foi um homem multifacetado e sobretudo um conciliador nato. Sendo altruísta por natureza, era de uma extrema humildade e de uma humanidade sem limites. Defendeu e valorizou intransigentemente a sua terra, o seu património e a sua cultura. Foi uma personalidade ilustre como professor, pedagogo, diretor. Era, além de mais, dotado de uma rara oratória e de uma abrangente bagagem cultural que impressionava os seus alunos pelos quais nutria uma amizade e proximidade que se prolongou e sedimentou no tempo.
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Alberto Martins, um nicolino de (e que começou) Abril Paulo César Gonçalves
Alberto Martins nasceu em Guimarães, a 25 de Abril de 1945, e viveu no Largo do Carmo (duas características absolutamente premonitórias), junto ao Castelo. O jovem Alberto começou por embrenhar-se nas questiúnculas estudantis ainda em Guimarães, enquanto estudante do Liceu local. As Festas Nicolinas, regozijo único em Portugal, animaram-no para o envolvimento nos assuntos de capa e batina, tendo feito parte da organização das mesmas. Como confessaria, anos mais tarde, numa entrevista ao jornal “O Povo de Guimarães” (realizada pelo Professor Silvestre Barreira, seu companheiro de Liceu), “a vida de Nicolino, as Festas Nicolinas, da Guimarães do nosso tempo, foram muito marcantes para todos nós. Era um momento, naquela altura, num tempo relativamente obscuro, cinzento, difícil, de ditadura, de grande contenção de costumes, no qual as Festas Nicolinas serviam como momentos lúdicos de rebeldia e de libertação da juventude. A comunidade aceitava a rebeldia, o espírito crítico e a dimensão lúdica da vida dos estudantes. Eram pequenas ilhas de liberdade durante uma semana, quinze dias. Foi esse gosto pela rebeldia, pela liberdade, que fez com que tivesse a liberdade de me exprimir, já em Coimbra”.
Lá, Alberto Martins vai cursar Direito. Naturalmente, envolveu-se na forte dinâmica estudantil da “Lusa Atenas”. Em 1969, já depois do terramoto do Maio de 68, em França, a direcção-geral da Associação Académica de Coimbra foi ganha por uma lista afecta ao Conselho de Repúblicas, alma da contestação ao panorama estudantil e social que o Estado Novo patrocinava. O presidente, oriundo da República dos ‘Pyn Guyns’, era, agora, Alberto Martins. Para 17 de Abril de 1969, estava marcada a inauguração do novo edifício das Matemáticas, da Universidade de Coimbra. O momento era solene: vieram Presidente da República, Ministros e outras individualidades. A direcção-geral fez saber que queria falar no acto inaugural, mas viu a pretensão negada. No decurso da inauguração, já dentro do novo edifício, completamente lotado (tanto do lado de dentro 438
como de fora), Alberto Martins levantou-se e, em nome dos estudantes de Coimbra, ousou pedir a palavra ao Presidente da República, Américo Tomás. A pretensão foi-lhe negada, anunciando-se que iria falar o Ministro das Obras Públicas. A reacção estudantil revelou-se tremenda: a comitiva abandonou a sala, apupada, tendo a mesma sido inaugurada, entusiasticamente, pelos estudantes. Nessa mesma noite, como consequência do acto de coragem, Alberto Martins foi detido pela PIDE (Polícia Política) e houve confrontos entre a polícia e os estudantes. Seria decretado o luto académico, assim como a greve aos exames (com uma esmagadora maioria a revelar-se favorável, mesmo com o fantasma da guerra colonial a pairar sobre as suas cabeças). A Académica, a equipa de futebol, chegou à final da Taça de Portugal. O Estádio do Jamor viveu o maior comício contra a ditadura a que alguma vez se assistiu. À contestação nas bancadas juntaram-se os jogadores da Briosa, entrando a passo, de capa pelos ombros. Pela primeira vez, a final da taça não foi transmitida em directo pela RTP. Houve estudantes expulsos e incorporados, compulsivamente, na tropa, inundando a estação de Coimbra-B de lenços e de lágrimas. Foi em Coimbra, a 17 de Abril de 1969, que começou a ganhar forma o 25 de Abril de 1974, pelas palavras, como referiria o próprio, na mesma entrevista ao Professor Silvestre Barreira, “de um jovem de Guimarães que estava lá. Tive muito orgulho em ser Presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra nessa altura, nesse momento muito difícil. O maior combate, porventura, da geração universitária contra a ditadura, combate esse que tive a oportunidade de travar”.
Alberto Martins merece, por isto, mas não só, o mais sincero reconhecimento, tendo lutado, com risco pessoal elevado, por uma causa que não era apenas sua, mas de todos. Certo de que as homenagens são para enquanto se está vivo, urge que a sua terra-natal lhe preste a devida. Assim esperamos.
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Mesteres de Guimarães Joaquim Piairo Pantaleão
Cartonagem Marinho era uma fábrica que fazia caixas para sapatos e outras embalagens em cartão, sediada na Rua Nova ou Rua Egas Moniz, pertencente a José Pereira Marinho, fundador da atual Tabacaria Marinho. Esta cartonagem funcionou desde 1947 a 1974. Nos últimos anos trabalhavam em média doze operárias, maioria mulheres, homens no corte e mulheres nos acabamentos. A figura mostra uma operária nos anos 50, vestida à época. De salientar as meias em lã feitas manualmente às riscas coloridas dos restos de novelos ou camisolas velhas desmanchadas, as socas eram em madeira com borracha por baixo para galgar pelas calçadas das ruas levando a obra acabada às pequenas fábricas de calçado existentes nas ruas da Cidade. Feira semanal, no Campo de S. Mamede, que permaneceu desde março de 1997 a março de 2011.
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OS CAFÉS COMO ESPAÇO SOCIAL Dizem que a revolução francesa terá nascido numa cafetaria. Diz-se também que, nos finais do século XVII, os cafés londrinos ficariam conhecidos como seminários de rebelião, enquanto locais propícios à discussão política e à socialização. Entre nós os cafés, enquanto sucedâneos das tabernas, proliferaram também por toda a parte como locais de convívio social e fóruns de ditas conversas de café, bebericadas com o açúcar da política ou do futebol, ou como mero ponto de encontro para o namoro ou negócios. Recordamos por isso aqui e agora alguns desses espaços sociais e atuais vimaranenses, de cavaqueira de ideias ou conversa fiada. Não serão porventura tão famosos como outrora foram o famoso Botequim do Vagomestre, sito ao Toural, local de reunião da intelectualidade vimaranense do século XIX, ou o magnífico (e demolido) Oriental do século XX, mas são certamente memórias vivas do nosso tempo…
CAFÉ MILENÁRIO, memento e celebração de Guimarães Salomé Duarte
O Café Milenário foi inaugurado em novembro de 1953, no ano da celebração de Guimarães – da sua história e da sua identidade. O Milenário, como vulgarmente é conhecido o café, para além de elemento catalisador de sociabilidade, é hoje memória da efeméride e testemunho legitimador do passado celebrado e reafirmado nas comemorações que, no ano de 1953, assinalaram o centenário da elevação de Guimarães a Cidade e o milenário da sua Fundação12 (Fig. 1). Situado no local junto à antiga Torre da Alfândega, o edifício comunga da narrativa do passado e da
12 Livro de ouro da cidade de Guimarães: documentário das solenidades promovidas pela Câmara Municipal no ano de 1953, comemorando
o centenário da elevação de Guimarães à categoria de cidade e o Milenário da sua fundação. Guimarães: Câmara Municipal, 1954.
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história vimaranense, da linguagem das artes decorativas e das conceções da arquitetura da época e espelha o desenvolvimento do urbanismo em Guimarães. O Café Milenário13 nasceu num edifício oitocentista contíguo à Torre da Alfândega da antiga muralha medieval que protegia a Vila, concretamente na parte que ostenta a emblemática inscrição: “Aqui nasceu Portugal”. O exterior do café, nomeadamente a parte voltada para o Largo do Toural, encontra-se decorado com azulejos monocromáticos a azul e, no rés-do-chão, possui uma sucessão de portas de vidro, sobre as quais se abrem toldes. Ainda na fachada principal do café, existe um anúncio luminoso – “milenário” –, sob o qual surgia um reclame com a indicação “CAFÉ” / “SNACK-BAR” / Fig. 1 - Passagem no Toural do Cortejo, na chegada do Chefe de “BILHARES”, e uma placa evocativa do local de criação Estado, General Craveiro Lopes, vindo da Estação dos Caminhos-dedo centenário clube desportivo vimaranense, o Vitória ferro para as Comemorações de 1953. 14 Sport Clube . No interior, a presença da outrora muralha e os elementos decorativos que subsistem desde a inauguração do Milenário e que adornam o estabelecimento – “(…) um vistoso painel, em cerâmica, representa a fundação da Nacionalidade. Sobressai, com relevo, o Castelo da Fundação, as caravelas das Descobertas”15 – assinalam o valor do passado e da identidade da Cidade e constituem-se como vestígios materiais sinalizadores de memória. A “apropriação” urbana da construção da muralhada expressa, por um lado, as leituras que em Guimarães foram sendo dedicadas ao património e, por outro lado, os pressupostos urbanísticos subjacentes ao edificado vimaranense. A iniciativa e concretização do “modelar e luxuoso estabelecimento que embeleza a principal praça da Cidade16 [Toural]”, como na altura se noticiou a abertura do Café Milenário, foi promovida pelo comerciante 13 Idem. Na imagem, ao fundo, identifica-se o edifício onde, em novembro de 1953, abriu o histórico Café Milenário. 14
A constituição do Vitória Sport Clube, celebrado o centenário da sua criação em 2022, evoca-se no local da antiga Chapelaria Macedo, loja de António Macedo Guimarães, que existiu numa parte do edifício, onde três décadas mais tarde surgiu o Café Milenário. NEVES, António Amaro das – Primeira década: 1922-1932. In O Clube d’O Rei: 100 anos 100 cartoons. Caricaturas e cartoons Miguel Salazar; textos Alberto de Castro Abreu… [et al.]. Guimarães: Vitória Sport Clube, 2021. 15 O Café Milenário: uma realização vimaranense. O comércio de Guimarães. A. LXX, n.º 5855 (sexta-feira, 20 Nov. 1953) p. 1. 16 Idem.
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Manuel Fernandes Braga, da Empresa Braga & Carvalho. A relevância e modernidade do estabelecimento foram assaz reconhecidas e a intervenção artístico-decorativa de Fernando Doutel, da Escola das Belas Artes do Porto, sobejamente apreciada17. Os elementos decorativos, seguindo a gramática gráfica da época, enfatizavam a história local e nacional e espelhavam o momento político que se vivia em Portugal – o Estado Novo –, no qual os acontecimentos e as personagens históricas detinham uma manifesta importância ideológica. Apetrechado com equipamentos modernos para o serviço que se propunha oferecer a quem o frequentasse e mobiliário para acolhimento dos clientes, o Café Milenário, volvidos 70 anos sobre a sua inauguração, para além de alguns restauros e adaptações sofridas ao longo dos anos, conserva uma parte importante dos elementos que existiam desde a sua fundação18. A pintura na parede, atribuída a Francisco Maia, que surgia na zona do balcão – “a criação do mundo, com a sua fauna e flora, a necessidade de viver e, consequentemente, de caçar e (…) um pequeno pormenor alusivo à elegância da mulher, expressa no cisne”19. – causou, no entanto, alguns embaraços e reações na comunidade, tendo originado a sua ocultação pela colocação de um espelho20. O Café Milenário, para além do serviço de cafetaria que faculta, possuiu restaurante, bar e salão de jogos ou bilhares21. Na memória coletiva e individual de muitos vimaranenses subsistem vivências e dinâmicas sociais e culturais experienciadas pela comunidade e debatidas às mesas do Café Milenário. Os cafés, tão notabilizados no universo literário português, por figuras como Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, entre muitos outros, espelham as mudanças sociais e culturais da Modernidade, nomeadamente ao nível das conceções de espaço (público e privado) e da transformação dos hábitos e dos costumes das sociedades22. Almeida Garrett e Ramalho Ortigão acentuam as várias significações dos cafés, para além do valor comercial e económico que recorrentemente se atribui a estes estabelecimentos. Diz o 17 Ibidem; O novo Café Milenário. Notícias de Guimarães. A. 22.º, n.º 1140 (15 Nov. 1953) p. 1-2. 18 A atual proprietária do negócio, Dulce Oliveira, filha do anterior Gerente, Álvaro Fernandes Oliveira, que fora, também, funcionário do
Café desde a sua inauguração, nomeia o mobiliário de acolhimento para os clientes, assim como o painel de azulejos que evocam a história vimaranense e os descobrimentos portugueses, como alguns dos elementos participativos da vida do Milenário desde a sua inauguração. DIAS, Rui – Milenário, uma referência na cidade berço do Vitória. Jornal de notícias, 12 Fev. 2023. P. 30. 19 O novo Café Milenário. Notícias de Guimarães. A. 22.º, n.º 1140 (15 Nov. 1953) p. 1. 20 COSTA, Liliana – Café Milenário é o último resistente dos cafés históricos em Guimarães. 8 Abr. 2021. Em linha https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/cafe-milenario-e-o-ultimo-resistente-dos-cafes-historicos-de-guimaraes-13545730.html (Recuperado a 2 Abr. 2023); TEIXEIRA, Fernando José – Histórias à volta do Toural. Guimarães: F.J.T., 2008. (Guimarães: estudos de história local; 3). 21 Milenário. Notícias de Guimarães. A. 28, n.º 1431 (domingo, 31 Maio 1959) p. 5. 22 OLIVEIRA, Maria Alexandre Bacharel – Tipificação dos espaços privados de socialização mais elementares e a sua relação com o espaço urbano: doze casos de estudo de cafés em Lisboa. [S.l.]: [S.n.], 2007. Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Arquitectura; MENDES, Nuno Fernando Ferreira – Cafés históricos do Porto: na demanda de um património ignoto. [S.l.]: [S.n.], 2012. Dissertação 2.º ciclo de estudos em História da Arte Portuguesa.
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autor das “Viagens na minha terra”: “O café é uma das feições mais características de uma terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido o país em que está, o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião. Levem-me de olhos tapados onde quiserem, não me desvendem senão no café; e protesto-lhes que em menos de dez minutos lhes digo a terra em que estou se for país sublunar”23.
Locais agregadores de uma multiplicidade de possibilidades criadoras, os cafés, para além de espaços de lazer e de tertúlia, promovem e acolhem, com relativa frequência, eventos de natureza cultural, artística e associativa, de que não é exceção o Café Milenário24. A vida e a história da cidade e dos vimaranenses aconteceu, também, pelo Milenário, local onde se veiculam ideias, se transmite informação, se defendem posições e se concretizaram, no passado, variados negócios25. As memórias de Abril e do quotidiano que antecedeu a Revolução entrelaça-se com o Café Milenário26. Algumas figuras da vida cultural e política portuguesa passaram pelo Café Milenário, como são exemplo Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Teles, quando de uma iniciativa da Aliança Democrática, realizada no âmbito das eleições de 197927. A assinalável importância social, cultural e turística do Café Milenário é reconhecida na “Rota dos Cafés com História de Portugal”28, de que faz parte o café, e na iniciativa dos CTT de estampagem de um selo fiscal 23 GARRETT, Almeida – Viagens na minha terra. Lisboa: Livraria Civilização, imp. 1987. 24 O Café Milenário participa na vida da comunidade, acolhendo várias iniciativas artística e culturais, tais como lançamentos de livros (“Teo-
ria Geral do esquecimento” (2012), de José Eduardo Agualusa; “Guimarães – 50 anos de Pop-Rock” (2013), livro e DVD do filme, pelo Cineclube de Guimarães; Catálogo “Sombras” (2018), do escultor Dinis Ribeiro; “Elas estiveram nas prisões do Fascismo” (2023)); programas artísticos realizados pelo Laboratório das Artes (exposição “Exit’10” (2010)), tendo o coletivo informal de artistas, criado em 2001, estado a desenvolver as suas atividades no piso superior do Edifício do Milenário, entre 2010 e 2015; Comemoração dos 30 anos da Cooperativa A Oficina (conversa “A Oficina 30 anos” - “Teatro da memória”); iniciativas promovidas pela Comissão do Centenário do Vitória Sport Clube (“Café com histórias” (2022), contando com a presença dos jogadores Paulinho Cascavel, Costeado, Tozé e Carvalho), entre outros eventos e atividades associativas. 25 ALEMÃO, Samuel – Cafés portugueses: tertúlias e tradição = The cafés of Portugal: tradition and get-togethers. Lisboa: Clube de Colecionador dos CTT, 2017. 26 25 de Abril em Guimarães [Registo vídeo]. Guimarães: Cybercentro, 2004. (1 DVD) (ca 51min.); 25 Guimarães: daqui houve resistência. Recolha e org. César Machado. Guimarães: Cineclube de Guimarães, 2014. 27 Arruada dos líderes da Aliança Democrática (AD) em Guimarães. [Documento gráfico]. Em linha https://archeevo.amap.pt/details?id=572224 (Recuperado a 25 Mar. 2023). 28 MARQUES, Vítor – Rota dos cafés com história de Portugal. Lisboa: Caleidoscópio, 2016. A rota dos cafés com interesse histórico em Portugal foi constituída em 2014, tendo como objetivo contribuir para a preservação e divulgação dos Cafés com História, assinalando o importante papel cultural destes estabelecimentos, considerados elementos do património cultural das cidades. Em 2018, no âmbito da XX Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a Associação Europeia dos Cafés com História e a Associação Portuguesa dos Cafés com História
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(Fig. 2) – Emissão filatélica “Cafés Históricos”29 –, assim como pela atribuição da classificação “Lugares com história”30, pela Câmara Municipal de Guimarães. A investigação histórico-patrimonial das construções, o estudo da conceptualização do espaço, adotada em diferentes momentos da história da cidade, e dos aspetos sociais e culturais da comunidade, assim como os contributos da antropologia, seriam o corolário da importância patrimonial do Café Milenário, enquanto edifício e polo agregador de memórias e de identidade.
Fig. 2 - Selo fiscal dos CTT (Emissão Filatélica “Cafés Históricos”, 2017), dedicado ao Café Milenário.
(APCH) organizaram um Encontro – “Os cafés históricos como património cultural” – para debater o valor cultural destes estabelecimentos comerciais. Em 2020, o projeto para a constituição de uma Rota de Cafés Históricos da Península Ibérica, apresentado pela APCH, foi vencedor na categoria “Transnational thematic tourism products”, dos prémios atribuídos pela European Cultural Tourism Network, cuja edição era subordinada ao tema principal “Special interest tourism development and promotion based on cultural heritage”. 29 ALEMÃO, Samuel – Cafés portugueses: tertúlias e tradição = The cafés of Portugal: tradition and get-togethers. Lisboa: Clube de Colecionador dos CTT, 2017. A emissão dos selos para cada um dos cafés históricos que integram a “Rota dos Cafés com História de Portugal” foi valorizada com o estudo-introdução de Samuel Alemão. 30 No âmbito do Regulamento Municipal de atribuição da distinção “Lugares com História”, ao abrigo da Lei 42/2017, o Município de Guimarães reconheceu a relevância do estabelecimento comercial na vida económica, cultural e social da comunidade, assinalando-se a importância pela sua salvaguarda.
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O Café Vitória, um ícone a recordar Victorino Costa
Qualquer edifício, por si só, mais não é do que um conjunto de pedras ou betão, mais ou menos bem enquadrado na paisagem em que se integra. O que o humaniza e lhe confere significado são as ligações às vivências humanas que por eles perpassaram, que neles se plasmam, ou que representam, que fazem deles ícones referenciais, monumentos que não deixam que o peso do tempo os corroa, ou remeta em última análise para o esquecimento. Ícone da cidade no que respeita aos cafés e bares, o Café Vitória traz, no seu próprio nome, a união idiossincrática que une a vivência dos vimaranenses ao seu clube, num inequívoco espelhar do papel que durante anos vem representando na sociedade vimaranense, nos seus valores e anseios. Situado na confluência das alas viradas a NE e N do antigo Mercado Municipal, o café tem no seu teto um vigilante relógio, que durante anos a fio foi pautando as preocupações quotidianas dos afazeres de mercadores e vendedores, de estudantes e, mais tarde, de apressados viajantes que corriam para a estação de camionagem. Situado sobre a entrada do antigo Mercado Municipal, mais especificamente na sua ala NE, o Café Vitória pautou muitas das vivências de mercadores e compradores, muitas das referências de quem necessitava de ao Mercado recorrer. Recordamos em traços muito rápidos a vida daquele que durante décadas foi efetivo ´refúgio´ gastronómico de feirantes e mercadores vimaranenses, de toda uma população que diariamente recorria àquele local para se abastecer, mas que, sobretudo às Sextas-feiras, dia de mercado municipal, entulhavam de maneira única aquele espaço, num burburinho pleno de vida, de preocupações e de negócios, num contexto único, ímpar e dificilmente comparável, mesmo em nossos dias.
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Desde os primeiros alvores da manhã, onde vendedores tomavam o seu pequeno-almoço, quase sempre regado por meio bagaço, até ao meio-dia, o café era um vaivém de pessoas, um fervilhar de atividade e onde, por vezes, era difícil entrar. Ao balcão, sob os vapores do bagaço caseiro, talhantes, lavradores e outros comerciantes trocavam as suas impressões sobre a vida, discutiam sobre os problemas que perpassavam pelas ruas da cidade. Preços do gado e dos produtos agrícolas, política local, cultura, futebol, tudo se esfumava nos vapores do ‘café de saco’ e na bagaceira. Mas era sobretudo à hora do almoço que as duas salas se enchiam de comensais à procura das famosas ‘tripas à moda do Porto’ e da ‘vitela assada à moda de Fafe´ a par dos saborosos bolinhos de bacalhau e outros petiscos que ainda hoje fazem água na boca só de recordarmos os bons momentos gastronómicos vividos naquele café. Não era fácil arranjar lugar e várias foram as vezes que, com a barriga a ‘dar horas’ tivemos de esperar na fila pela vez, pois a qualidade gastronómica era de fazer inveja e os clientes não a regateavam. Que o digam as atuais classifiMarques da Silva - Projeto para a praça do mercado, alçado principal (1932) (Fonte: ‘Memórias de Araduca’) cações do Google a confirmar esta tradição de qualidade. Mas os tempos mudam, e nós, quer queiramos quer não, somos em grande parte fruto desse diálogo dialético entre as circunstâncias que nos rodeiam e onde plasmamos a nossa existência e a genética que nos acompanha. Mudaram o local do Mercado Municipal. Creio bem que haveria melhor solução, caso a imaginação e uma visão mais prospetiva tivessem estado presentes. Mas não discutimos a solução. Quem somos nós para nos colocarmos ao lado dos nossos responsáveis urbanísticos, pese embora podermos nem sempre concordar com as suas soluções! O mercado mudou e com ele todo aquele fervilhar de gente que perpassava pelo Café Vitória se esfumou num ápice. Hoje, e apesar de manter a mesma qualidade gastronómica, a afluência em nada se compara à daqueles tempos não muito distantes. Obra desenhada pelo arquiteto Marques da Silva, o mercado municipal, em cuja ala NE se situa o Café Vitória, acabaria por ser inaugurado sob a orientação da sua filha e genro, respetivamente Maria José
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Marques da Silva e David Moreira da Silva, que introduziram alterações, sobretudo nas coberturas do projeto inicial. Recorde-se, a propósito, que o arquiteto Marques da Silva é um dos principais arquitetos do Porto, mas que deixou relevante obra no nosso concelho. De facto, várias e relevante foram as obras da sua autoria, como é o caso do Mosteiro de S. Torcato, em que participou, a sede da Sociedade Martins Sarmento, situada da Rua Paio Galvão, bem como o projeto do Santuário da Penha. Já o Porto está cheio de obras da sua autoria, algumas delas verdadeiros ícones da cidade Invicta, como são o caso da estação de caminhos de ferro de S. Bento, do Teatro S. João, do Liceu Alexandre Herculano e do Liceu Rodrigues de Freitas, entre tantas e tantas outras. O espaço atualmente ocupado pelo café Vitória foi inicialmente uma pastelaria e cervejaria, já então com o mesmo nome, como se depreende de uma publicação, no Notícias de Guimarães de 11 de dezembro de 1938, onde os seus proprietários fazem reclame aos seus produtos, incitando os seus clientes ao respetivo consumo. Rezam as crónicas que a qualidade dos seus doces e pastéis se tornou então um verdadeiro exlibris, que deliciava a sua numerosa clientela. A cervejaria Vitória ou Pastelaria Vitória, como comummente era conhecida, passou para as mãos de Franklim Gonçalves, em 1954, assumindo então a designação que ainda hoje mantém. Cidadão fafense, Franklim Gonçalves explorava, naquela cidade, o Hotel de Fafe, assumindo em 1954 os comandos do Café Vitória, hoje propriedade dos seus filhos José Gonçalves e Dorlinda Saldanha. Franklim Gonçalves, democrata de gema, sempre teve uma visão humanista deste espaço, costumando mesmo afirmar que ali podia entrar-se como cliente, mas tinha necessariamente de se sair como amigo. Aliás, este clima de interação humanista espelha-se na permanência dos seus empregados, onde nenhum esteve menos de três décadas ao serviço, estando mesmo um dos últimos, o saudoso ‘Zé Barbas’, como carinhosamente lhe chamávamos, mais de 40 anos. É algo que nos parece digno de realce, esta procura de laços afetivos, de empatia. Hoje, muitos destes espaços apresentam-se emocionalmente acéfalos, meros locais de consumo de café ou cerveja, sem qualquer elo de humanismo, sem quaisquer rasgos de empatia.
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O Café Vitória mantém ainda, na sua proprietária, este traço de empatia, este carinho que nos atrai e nos faz querer ir lá, pelo menos de vez em quando. Ao olharmos para aquelas paredes, surgem em catadupa as recordações daqueles tempos áureos dos dias de mercado com os dois pisos a fervilhar de clientes à hora do almoço e onde se consumiam mais de 300 pães por dia, ainda quentinhos, vindos da Padaria Torres, ali mesmo em frente, do outro lado da Rua Paio Galvão. E aquelas ‘tripas à moda do Porto’ que me davam forças para, de seguida, ir até à Escola Industrial e Comercial de Guimarães dar ‘duas de cavaco’ com os colegas, à espera das minhas aulas. Quando estas lembranças se perpetuam ao longo do tempo é porque os ‘qualia’ que consubstanciam a nossa consciência eram efetiva e afetivamente fortes. Mas a verdadeira alma do Café Vitória foi a Dona Zulmira do Couto, esposa de Franklim Gonçalves, que acabou por falecer ainda bastante novo. A viúva, mulher de luta e sentimento, deitou as mãos à obra e não só não deixou soçobrar o Café, como o dinamizou de tal ordem que se tornou num dos pontos importantes do convívio dos vimaranenses. Mulher com perspetivas de futuro e não querendo que a sua obra viesse a passar por dificuldades, cedo trouxe para o pé de si a filha Dorlinda, hoje proprietária, para que se enfarinhasse no negócio, ganhasse gosto pelo café e fosse a garante da sua continuidade, o que veio efetivamente a acontecer. Ao falarmos com D. Dorlinda ela recordava esses tempos com os olhos marejados em tímidas lágrimas, feitas de saudade e carinho. Dizia, então, que o café Vitória se ainda hoje é, deve-o acima de tudo à sua extremosa mãe, a D. Zulmira Couto. Hoje o Café Vitória aí está, pleno de vivências e recordações dos seus frequentadores e dos vimaranenses em geral. Ao passar para a Rua Paio Galvão, ao subir a Gil Vicente, ele sempre foi um marco referencial, um local de vivências e cultura, uma referência de uma história que, a passos largos, se vai encaminhando para a secularidade. Se, como diz o povo, recordar é viver, vivamos então, nos escaninhos da recordação, os bons momentos, os contributos sociais e gastronómicos que o Café Vitória durante décadas nos proporcionou e que hoje continua ainda a proporcionar numa inequívoca afirmação do seu papel na sociedade e cultura vimaranenses.
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O Café Óscar César Machado
Não me é possível escrever um texto sobre o Café Óscar passando ao lado desta realidade muita clara de ter sido este Café a minha casa, a casa da minha família, desde a infância até à idade adulta. Falar sobre a nossa casa é diferente de falar sobre um estabelecimento. Mas, quanto mais não fosse, por respeito e em tributo à memória de Meus Pais, não podia recusar o muito simpático desafio colocado pela Associação Osmusiké. Feita esta “declaração de interesses”, de que resulta uma falta de isenção mais que óbvia, aqui fica um contributo, “não desapaixonado” de quem viveu no Café Óscar os melhores anos da sua vida, inserido numa família que, por sua vez, se enquadrava numa coHomenagem póstoma do Café Óscar aos seus funddores munidade muito mais vasta. Um raro privilégio. O Café Óscar foi inaugurado em 25 de julho de 1964 por Meu Pai, Óscar Machado, e tomou-lhe o nome. Porém, caberia a Minha Mãe, Isabel Ribeiro de Castro, assumir o leme, pegar o seu motor diário e infatigável que levava as coisas para a frente, assegurando todo o funcionamento da casa. Confirma-se que, nesta região, vigora um “patriarcado aparente”. O Comércio de Guimarães, de 31-07-1964, assinalava a inauguração do novo café com esta curiosa nota “Trata-se de um moderno estabelecimento, que reúne óptimas condições e que veio valorizar imenso as possibilidades turísticas da nossa terra”. E já antes se havia publicado o convite com os dizeres – Visite o Café Óscar, a partir das 21 horas de sábado, 25/7/64, como se pode ver. Curiosamente, aquele optimismo da “local”, como à época se designavam estas curtas notícias, estava longe de ser partilhado pelo maior número. Foram muitos os avisos dirigidos a Meu Pai:- “olhe que está longe 450
de tudo, longe do centro da cidade, isso não vai dar, não terá fregueses...”. Naquele tempo, a cidade era mais pequena. Felizmente para os meus Pais e para o Café, a cidade não seria tão pequena assim. E a verdade é que o Café Óscar conquistou, deste cedo, uma clientela sólida. Pessoas de todas os extractos ou origens sociais frequentavam o Café Óscar e nele conviviam, nas mais diversas horas do dia e da noite, nos diferentes fluxos de que é feito o dia a dia de um café. Ter trabalhado no Café Óscar, ao balcão e à mesa, com ou em vez dos empregados, ajudou claramente a perceber os “movimentos” da casa, os seus diferentes ciclos diários. Aqui se tentará deixar o retrato possível do que se recorda. Eram imensos os clientes da abertura, um fugaz café em passagem rápida e ao balcão; de entre estes, os homens da limpeza da rua eram dos primeiros, com o seu pontual café e bagaço logo ali, àquela hora – a confusão que me fazia, ainda ensonado, aquela aguardente; não valorizava devidamente as jornadas principiadas muito mais cedo que a minha...). E vinham os do pequeno almoço, pausado, o galão e a torrada, ou o café demorado na leitura do jornal, havia-os diversos, os jornais – O Jornal de Notícias, maioritário, O Comércio do Porto, de seguida, e o Primeiro de Janeiro, este menos presente. Um grupo de juízes e magistrados judiciais era igualmente assíduo logo no primeiro turno. O café demorava o tempo da leitura do jornal, num discreto convívio de início do dia. Como vinham outros, de profissões variadas, industriais, funcionários, profissionais liberais, naquela manhã que principiava sempre assim. Não havia mesas reservadas. Mas os mesmos clientes, os mesmos grupos, sentavam-se sempre às mesmas meNasceu o Café Óscar. In O Comércio de Guimarães, de 31-07-1964 sas. Uma geografia que o tempo moldava a muitos e muitos dias de presença sem falhas, ali, naquelas mesas. Não cairia bem um habitual chegar à sua mesa e dar com ela ocupada por outro habitual. Seria uma desfeita! Já com “gente de fora”... Mas era raro. E nisto chegavam os generais, o almirantado, de patente adquirida em atenção a que a idade é um posto e
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todos tinham já anos suficientes para ser bisavôs. E tempo era o que mais tinham. Estavam no café pelo dia todo. Mas alguns mais dados a ciclos próprios. A manhã era pródiga neste sector. Aposentados dos serviços, em geral, esta clientela mais idosa, habitual no longo cadeirão verde, almofadado, encostado à parede, contava com os que emparceiravam mais com um do que com outro, simpatias mútuas e o contrário também, disputas antigas de motivo já esquecido mas presentes, as disputas, a zanga, a frase seca e inclemente, o esgar ríspido, a tosse de protesto, as “partidas” mútuas, entre as várias “facções”, recheadas de um humor cáustico que os clássicos italianos não desdenhariam para povoar os seus mais inspirados filmes. Isto da idade avançada também trazia vantagens. E ali trazia. Um campo de acção onde estes “jogos florais” se manifestavam frequentemente rodava em torno do chamado “jornal da casa”, no caso o JN. Não se pleiteava pela sua posse através de sinais de fumo ou meros gestos de cortesia. O território não conhecia jogo amistoso, não havia cá “amigáveis” ... Os avisos eram bem visíveis e audíveis ainda mais. Por vezes, ferravam-se olhares censórios, de matador, sobre o “adversário” que prolongava a leitura por mais tempo que o desejável. Não raro ouvia-se “quando aquele acabar de ler os câmbios, a tabela das marés e as necrologias...traz-me o jornal”. O outro, “aquele”, ouvia, ensimesmado. Os da equipa riam, de caçoada. E, mais tarde ou mais cedo, ainda que contrafeito, o vagaroso leitor haveria de dobrar cuidadosamente o jornal em sinal de “está livre, podes levar”. O meio da manhã trazia estudantes adultos, "voluntários", vários da Faculdade de Direito da Universidade de CoVenha tomar um café ao Óscar imbra (entregando-se à laboriosa tarefa de sublinhar metodicamente a lápis “de carpinteiro”, da “Viarco”, azul e vermelho de traço largo, umas publicações que, soube mais tarde, se chamariam "sebentas" e iriam tornar difíceis os meus dias, se iam!!!; aquelas mesmas sebentas e aqueles mesmos lápis). Já manhã alta, e findo o serviço matinal, um grupo de médicos marcava presença sem falha num café calmo, a saborear o jornal. Um grupo muito silencioso que tinha por vizinho um outro de estilo oposto – o fogoso conjunto de caçadores, (gente da caça e pesca), frequentadores do vizinho
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estabelecimento do ramo “Humberto Pinheiro”, que disputava diariamente o café ao tradicional jogo da moedinha. E eram sempre uns doze ou mais, alegres, ruidosos, naquele limite em que só se ouvia o seu grupo, é certo, mas sem ninguém sobressair. Havia ali uma vozearia que quebrava o silêncio mas, ainda assim, com um certo sentido de conjunto. E não caía mal. Já era assim desde sempre, ou, pelo menos, parecia. A manhã alta também trazia os professores, claro, sempre muitos professores, colegas de Meu Pai, na sua maioria, presentes em todos os ciclos diários da casa. E vinha, obviamente, a malta mais jovem, estudantes liceais, que ali fazia os seus trabalhos, os seus estudos, uma presença assídua, que marcava o Café Óscar de modo inconfundível. A hora de almoço conhecia uma pausa breve na azáfama que regressaria logo de seguida e em força na chamada hora de ponta. Logo vinha uma leva de operários do Campeão Português, e com a saída destes chegavam os seus colegas do escritório. Vinham profissionais de todos os ramos, professores sempre, e houve um tempo em que numa mesa diária se reuniam em torno de Mário Wilson, o treinador do nosso Vitória, o Sr. António Peres, (Capitão Honorário), já então instalado no comércio, ali a dois passos, Custódio Pinto, o Capitão à época, morador nas proximidades, entre vários outros. O movimento posterior ao almoço era muito agitado, na verdade. E as mesas encontravam-se, no geral, todas ocupadas por uma clientela fixa naqueles lugares de sempre. Não sobravam lugares. Com o início da tarde ia-se o frenesim, acalmava-se o movimento. E o ritmo era bem mais repousado, até à hora de jantar, momentos mais calmos, de clientela variada, pais e mães com crianças, várias gerações com alguma predominância dos avós, e sempre professores e estudantes. À pausa para jantar seguia-se uma clientela própria, famílias que assistiam assiduamente ao programa da RTP (não havia outra), pessoas das mais diversas camadas sociais, e sempre os jovens estudantes. Sempre presente, igualmente, uma camada de jovens, menos jovens que os liceais, que vinha praticamente desde a abertura do Café Óscar. É inegável que a abertura do Cinema São Mamede, em 24 de junho de 1971, veio alterar alguns destes ciclos, fazendo aumentar fortemente a clientela do Café Óscar. Aqui, porém, tratava-se de cliente rápido, sem o hábito diário, sem a ligação tão forte à casa, gente de torna viagem, de ir e vir, tomar café e sair em muito pouco tempo, naquele curto intervalo permitido pela hora do cinema. As tardes passaram a ser calmas só quando os sucessos de bilheteria do Cinema São Mamede não ditassem o contrário. Aí, nada a fazer. Era muito movimento e num tempo bem curtinho, não havia mãos a medir que o filme estava para começar e o cliente não podia entrar com o espectáculo a decorrer. A partir de novembro de 1971, as sessões do cinema de Cineclube de Guimarães passaram a realizar-se
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no Cinema São Mamede. Eram novas caras a frequentar o café nas noites de terça-feira, e vinham também caras já bem familiares de outros horários. Estava longe de imaginar da importância que esta mudança me traria, desde que passei a assistir, desde jovem, muito jovem, e munido do cartão de associado de Meu Pai, àqueles filmes, com uma portentosa e inesquecível "primeira vez" – O Milagre de Milão, de Vittorio de Sicca. Como o cinema se tornou diferente com aquele cinema diferente, que me acompanharia pela vida fora... A partir de 1972 ou 1973, o Café Óscar funcionou como local de encontro das Comissões das Festas Nicolinas, que ali se encontravam antes de rumar às reuniões na Torre dos Almadas, à Rua da Rainha. Era possível conhecer todos os membros das comissões frequentando o Café Óscar. É inegável a enorme dinâmica que os estudantes trouxeram à casa, com os liceais à cabeça (hoje Escola Secundária Martins Sarmento), da Escola Comercial e Industrial, hoje Francisco de Holanda, Colégio Egas Moniz, do Magistério Primário, universitários de estudar fora que a Universidade do Minho viria muito depois, havia de tudo um pouco. Para além dos de "estar no café", à mesa, em convívio, havia um grande número de clientes diários que tomavam café ao balcão, conversavam com quem os servia, simpáticos, afáveis, e saíam, invocando amiúde a aclamada qualidade do café/bebida, um dos melhores “cimbalinos” da cidade. Também estes faziam parte da vida da casa e nela assumiam grande importância, obviamente. Apesar das pujantes e felizes mudanças trazidas pelo Cinema São Mamede, na verdade os clientes que compunham a comunidade do Café Óscar seriam a esmagadora maioria; e esses não se limitavam a ir ali esporadicamente tomar um café. Com mais ou menos vagar, conviviam naquele espaço de que faziam a sua segunda casa em muitas e muitas circunstâncias, enturmados em grupos muito diferentes entre si que, não raras vezes, se interligavam. Discutiam-se ideias, partilhavam-se preocupações, fruía-se o tempo de lazer. O café Óscar era aquele local onde se ia, sabendo que ali estavam amigos, pessoas com quem se queria estar. E foi, por isso, lugar de grandes amizades, de grandes cumplicidades, de grandes projetos, de namoros e casamentos ali iniciados, um lugar de encontro e desencontro de que é feita, afinal, a vida de todos nós. Os tempos que se seguiram ao 25 de Abril de 74 foram particularmente ricos e participados no Café Óscar. Não que tenha sido necessária a Revolução para que o café fosse um espaço democrático, plural, de tolerância – isso já era. Mas tudo mudou cá fora. E foi muito. A política era, agora, o assunto diário de todos os dias e de todas as mesas, em águas abertas, sem receios. A tradução mais poética da revolução terá ficado estampada na tela de Vieira da Silva, com legenda de Sofia, a garantir que "A poesia está na rua". Também no Café Óscar a poesia se tornou rua, e de um modo singular e superior. Frequentado por poetas, professores, artistas, pintores, contavam-se entre os clientes diários e amigos de Meus Pais, o casal de pintores Jaime Silva e Graça Morais, à época por colegas de Meu Pai, professores no ensino secundário. A cidade havia sido
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transformada num mundo de cor, desde os corredores das escolas, a murais de edifícios, tapumes de obras, tudo ganhou um colorido surpreendente. E foi, então que Graça Morais e Jaime Silva propuseram a Meus Pais transformar as paredes do Café Óscar numa enorme pintura colectiva, um imenso painel criado por jovens pintores, com idades entre os 10 e os 12 anos, alunos da Escola João de Meira. E foi assim que, em algumas semanas, uma dúzia de miúdos pintou, ali na presença dos clientes – ou seja, em casa -, as paredes daquele café, com os motivos que lhes povoavam os sonhos e em total liberdade. Para os clientes, sempre presentes, terá sido uma experiência curiosa. Para nós foram momentos inesquecíveis. Desde os preparativos, de vestir a roupa de trabalho, fazer as tintas, arrastar os sofás da parede para o meio do café com o auxílio dos mais idosos que antes se sentavam neles e iriam ficar a acompanhar os trabalhos, voltados do avesso, na verdade foi uma coisa empolgante. E com críticas e sugestões em tempo real, sobretudo do tal sector do almirantado, dos generais. Naquele tempo tudo era possível. Tudo estava ali à mão. Até a pintura integral de todas as paredes do Café Óscar, com a direção atenta e tolerante de Graça Morais e Jaime Silva. Aquele tempo só se viveu uma vez. Os diversos grupos que frequentavam o Café Óscar estavam muito longe de ser estanques, muito pelo contrário. O que tornava interessante a vivência naquele café era justamente o modo como se interligavam e como interagiam, e com eles os seus diferentes componentes. O Café era uma comunidade e essa comunidade funcionava em democracia, com todos à altura de todos e sem que a opinião de alguém fosse mais importante do que a de outrem. Acresceu ao factor de coesão da malta nova a criação de um clube de futebol que veio a denominar-se, um tanto britanicamente, de “Oscar’s Club”. Juntou várias camadas de juventude, ainda assim de faixas etárias bem diferentes; alguns que vinham da fundação do café e outros que começaram a frequentá-lo aquando da passagem pelo Liceu ou já na universidade, anos setenta bem entrados. Esse clube de futebol funcionou como factor de forte aproximação entre gerações de jovens do Café Óscar, de um espectro bem largo, com uma boa dúzia de anos de margens, criando um espaço de maior partilha, união e amizade. O “Óscar´s” disputou rijamente torneios de grande valor futebolístico com adversários categorizados como a temível equipa da Pastelaria Ribela, ou os fortes “Piratas de Creixomil”, equipas de maior fôlego como sucedia nos Torneios da Senhora da Aparecida (localidade afamada pelo futebol no pelado e cabrito no forno), ou a célebre final de 1978 do Grandioso Torneio dos Carvalhos, para as bandas de Tabuadelo, em que o “Óscar´s” Club ganhou o seu primeiro troféu digno desse nome, precisamente à respeitada equipa da “ARCOV”, e logo no dia da final do Campeonato do Mundo – Argentina /Holanda. Pois bem, nos Carvalhos meteu prolongamento. E muita boa gente ficou ali até ao fim, sem arredar pé, que o futebol praticado era de qualidade
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invejável, não desfazendo do que na TV passava em directo. No Café houve festa até às tantas. Um generosíssimo repasto com todos os participantes e amigos da rapaziada reunidos, valoroso grupo que, sob o respeitado comando respeitado do Sr. Dias, antigo praticante da modalidade ao serviço do nosso Vitória, começou ali a trazer taças atrás de taças que viriam a embelezar a estante entretanto colocada para o efeito. Da primeira geração de juventude do Café Óscar eram também os irmãos Machado, José e “Jota”, que frequentavam a casa com toda a sua família, integrando o largo grupo dessa geração que daria os mais veteranos da equipa de futebol, encontrando-se estes, já desde cedo, por terras de França. Mais tarde vim a perceber que nos grupos que ali se reuniam, no Café Óscar, se prepararam projectos de fuga para França, “a salto”, o "não à Guerra Colonial", que o João Machado tão bem descreveu no magnífico livro "Saltar Fronteiras". Já José Machado havia recordado esses tempos do Café Óscar e a elaboração daqueles planos no seu rico depoimento em “Guimarães, Daqui Houve Resistência”, Recolha e Organização de Textos de César Machado, Cineclube de Guimarães, 2014). Aliás, também o saudoso Luís Caldas, frequentador assíduo do Café Óscar, no seu depoimento, na mesma obra, dá testemunho da organização, ali à mesa, de viagens a Macieira da Lixa para ouvir as célebres homilias do Padre Mário de Oliveira, que a PIDE/DGS se encarregaria de interromper, prendendo o sacerdote. Meu Pai viria a criar um orfeão com amigos que nunca ousariam cantar. E dali partiriam para constituir vários Grupos de Reisadas que cantaram as Janeiras anos a fio, com assinaláveis jornadas de boa música, mesa farta e óptimo convívio em amiga companhia. De entre os vários funcionários que trabalharam no Café Óscar é justo recordar dois, até pelo tempo de casa – Armindo e Edgar. E é imprescindível deixar uma palavra de carinho para um homem de grande sabedoria, embora não letrado, com quem aprendi muito, muito – o Senhor Neca, o engraxador da casa, que trazia acumulada uma fonte inesgotável de um saber que só a experiência traz. Foi um amigo de todas as horas. Um devotado amigo de sempre. A nossa residência encontrava-se separada do espaço do café por uma porta sempre aberta. Não havia, por isso, uma real fronteira entre “a parte” de habitação e o café propriamente dito. Daí que a minha família, a nossa família, se tivesse diluído, em larga medida, na família mais vasta que era a comunidade do Café Óscar. Em 1 de Maio de 1981, Meus Pais deixaram de ser proprietários do café; escassos meses depois, rumei a Coimbra para estudar na velha Universidade, na Faculdade de Direito, com algumas daquelas velhas sebentas que via de catraio, e o poder do sublinhado pelos mesmos lápis. Aquilo não era novo, afinal. E, em boa
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verdade, ao partir de Guimarães, sabia – como sei hoje – que já levava comigo uma universidade, um bem precioso e irrepetível, um mundo inteiro que o Café Óscar me deu e nenhum outro lugar me daria. Foi a Universidade do Café Óscar a minha primeira grande Escola. Ter crescido no seio daquela comunidade, sentando à mesa deste e daquele cliente / amigo da casa em conversas dos mais variados temas, o que sucedia igualmente com os meus irmãos, representa um ganho absolutamente incalculável que me deixa uma dívida de gratidão impossível de pagar. Sem querer particularizar, citando nomes, como não recordar o senhor que me falava longamente de cinema, ou de história da ciência, ou o que me ensinava as capitais dos diversos países e no regresso me fazia sabatinas, exercitando-me a memó50 anos de bons serviços a Guimarães ria para ganhar músculo, ou os que falavam muito acertadamente de política do dia, ou os que sabiam tudo do Vitória e partilhavam com os demais, esses saberes aprendi-os com todos. Sem eles nunca teria sido possível crescer assim. Como já afirmei, Meus Pais foram proprietários do café Óscar até 1 de maio de 1981, data em que o café passou para as mãos do meu Tio Manuel Ribeiro de Castro e de minha Tia Joaquina Ribeiro da Silva. Viria a estar nestas boas mãos até Julho de 2017. Depois deles veio outra coisa. É justo referir que, durante 36 anos, Meus Tios prosseguiram o Café Óscar, mantiveram a sua essência, melhoraram-no em muitos aspectos. Acrescentaram ao que encontraram. Mantiveram o carácter e essência da casa, um local para se estar com os outros, um lugar de interacção desejada e respeitada, como antes. Criaram a biblioteca do café, asseguraram uma ligação muito importante aos jovens universitários que viriam a instalar-se em Guimarães e, em particular, à Tuna Afonsina que adoptou o Café Óscar como sede ou foi adoptada pelo Café Óscar como filha, como se preferir. Colocaram o Café Óscar por dentro da dinâmica cultural que a cidade viria a criar, integrando a casa no mapa de várias organizações com eventos ali realizados, da mais variada natureza, desde sessões, ao vivo, do Guimarães Jazz, noites de fado, encontros organizados de tertúlias sobre os mais variados
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temas, transformaram o Café Óscar numa galeria permanente de exposições de artes plásticas onde passaram dezenas e dezenas de artistas, sem qualquer custo, melhoraram, actualizando o seu serviço, em particular no snack-bar...é muito! É muito Café Óscar nos 36 anos que continuaram! Como lhes agradeço, sobretudo pela memória de Meus Pais. Como disse, no início, não me é possível escrever um texto enxuto e isento soTuna Afonsina “em casa” bre a minha casa. Mas julgo ser objetivo dizer que o Café Óscar foi um dos maiores e melhores espaços de encontro, socialização e cultura que existiram na cidade de Guimarães. Assumiu um papel de diversidade e riqueza singulares. Marcou sucessivas gerações de vimaranenses e tornou-se uma referência de Guimarães conhecida mesmo fora das nossas fronteiras. Hoje, fazem falta locais como o Café Óscar. Não os temos. Os tempos são outros. Mas, se pudéssemos ter um Café Óscar, os nossos dias seriam seguramente melhores. Este nosso pequeno mundo seria um pouco mais feliz. Devo ao Café Óscar muito do que sou. Se falhei na aprendizagem foi por minha exclusiva culpa. Mestres tinha-os ali para todas as áreas. A começar, naturalmente, pelo exemplo de Minha Mãe e de Meu Pai, pessoas muito diferentes e que verdadeiramente amo de modo igual. O seu exemplo de vida foi o que fizeram sempre no Café Óscar; o maior legado que deixaram aos filhos, provavelmente sem nunca o terem referido por estas exactas palavras; mas era simples e mais ou menos assim – não fazer, em nenhum dia, nada que desonre a memória de nossos pais ou que envergonhe os nossos filhos. Se for possível acrescentar algo ao que existe, de preferência para o colectivo, para o bem comum, então é perfeito. Devo-lhes isto para sempre. Foi assim que criaram e levaram a vida por diante e foi assim que criaram e estiveram no Café Óscar. Afinal com valores tão simples!!!
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GUIMARÃES À MESA Guimarães, das tortas e do toucinho do céu, continua gastronomicamente a meter os pés debaixo da mesa e a usar as mãos e os seus talheres por mesas nunca dantes degustadas. De facto, após os prémios Michelin do restaurante a Cozinha do Chef António Loureiro, sobressai, agora, em Lima, no Peru (país e não a ave galiforme), o vimaranense Diogo Miranda, cujo restaurante foi considerado o melhor do mundo na lista “The World’s 50 Best Restaurants”. Entrementes, por cá, escreveu-se o Primeiro Capítulo da Confraria das Terras de Vimaranes, que reúne empresários do setor, produtores, chefs de cozinha e enólogos, que certamente nos degustará com muitos outros episódios suculentos, a saborear. E já que estamos com a mão na massa, fomos ao passado evocar Camilo à Mesa…
Confraria Terras de Vimaranes Mário Moreira Presidente da Direção
Está cumprido o 1º de muitos capítulos da mui nobre Confraria Terras de Vimaranes com claros e intransigentes objetivos pela defesa do património cultural material, imaterial, gastronómico, enológico, memórias e tradições populares do concelho de Guimarães. Nesta magna e magnânima cerimónia, foram entronizados 75 membros que juraram sob compromisso de honra defender e honrar os grandes propósitos que alicerçaram a sua fundação. A Confraria, fundada a 13 de setembro de 2022, escolheu um conjunto de referências identitárias como símbolos para cumprir o exercício dos seus determinantes objetivos: a Cantarinha dos namorados, peça
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original e única das tradições de Olaria; os Curtumes, que faz indicação medieval à indústria com estruturas preservadas; os Couros, relevo físico na comenda do nosso escapulário; as Cutelarias, com enorme significado socioeconómico; os Bordados de Guimarães, panos de linho quase em extinção, desenham um sóbrio golão sumptuoso. Este significativo conjunto de símbolos são relevo visível na ostentação do nosso traje que tem as cores da cidade. Bem cedo se aglomerou gente vinda de vários pontos de Portugal e da Galiza, conferindo a esta solenidade um cariz internacional. À medida que chegavam as 36 confrarias que escolheram estar em Guimarães, os 4 clarinetes ecoavam. O bobo medievo, saltimbanco do povo, dava alertas cheias de graça, para uma equipa os receber, acolher e encaminhar ao átrio do Museu, que, ao som do saxofone ambulante, matavam o bicho do pequeno almoço na companhia dos vinhos e espumantes, com a preciosa ajuda da Escola Profissional Profitecla. Na magnitude da sala da Duquesa do Paço dos Duques de Bragança, em cenário medieval, a cerimónia conduzida magistralmente pelo sapiente mestre de cerimónias, foi o ponto mais alto deste 1º capítulo que serviu também para prestar homenagem de reconhecimento à” Virinha” – Casa Costinhas por preservar e divulgar segredos medievais da doçaria conventual vimaranense – o Toucinho do Céu e as Tortas de Guimarães. O cortejo pelas ruas estreitas da cidade fundada por Vímara Peres, com mais de 250 pessoas, acompanhado por Gaitas de Foles, emprestou à cidade uma beleza estética ímpar jamais vista em Guimarães, levando este povo a uma experiência única, para muitos, a subida de teleférico à montanha da Penha, onde se realizou o grande ponto de encontro numa combinação de confraternização na partilha à mesa, dos valores humanistas, dos testemunhos e experiências de todas as regiões, os afetos calorosos, estampados na alegria e felicidade visível nos rostos de 220 comensais, brindados no final com cantigas e músicas do rancho Folclórico de S. Torcato. Este dia perdurará na memória dos testemunhos e de muitas centenas que assistiram de uma forma ou d’outra a este grande evento, com diversas etapas, organizado pela Confraria. O dia 4 de junho, que seja bom prelúdio para um grande projeto.
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Viva a Confraria Terras de Vimaranes!
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O melhor restaurante do mundo Equipa Redatorial
Além do restaurante “A Cozinha”, do Chef vimaranense António Loureiro, conquistador de várias estrelas Michelin, um outro conterrâneo nosso degusta no reino de fazer crescer água na boca e chorar por mais. Chama-se Diogo Miranda e desde 21 de junho deste ano de 2023 é ”crème de la crème” da gastronomia internacional, ao comando do restaurante Central, em Lima, capital do Peru, eleito o melhor restaurante do mundo na lista “The World’s 50 Best Restaurants”. Iniciando-se a lavar pratos e estudando Gestão Hoteleira na Universidade Les Roches e posteriormente trabalhando na hotelaria um pouco por todo o mundo, com passagens pela China, África, Médio Oriente e Itália, Diogo Miranda dedicou metade dos 33 anos de vida In JN, edição de 21 de junho 2023 à cozinha e está atualmente na área de desenvolvimento da estratégia de projetos do restaurante, trabalhando ideias gastronómicas no seu espaço de restauração, em Lima, local onde se instalou há cerca de 6 anos, após uma viagem que o deixou fascinado pela cultura e gastronomia peruana. Um restaurante que assenta no conceito inovador de levar os clientes por “uma viagem através dos ecossistemas do Peru”, que, na sua diversidade, os conduz por aventuras marítimas do Oceano Pacífico às cordilheiras peruanas e ainda à selva amazónica. Com efeito, uma nova abordagem gastronómica, na qual os pratos são apreciados não só pelos ingredientes, mas também apresentados através da arte e cultura local, trazendo para a mesa o conhecimento científico e antropológico. Quanto aos preços dos quatro menus de degustação (dois de 12 pratos e dois de 14 variam entre os 1045 e os 1250 sóis peruanos), constando entre outros ingredientes o cacau e as piranhas. Uma experiência gastronómica de aspeto mais biológico e social, que só será possível voando até terras sul-americanas.
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Camilo à mesa Álvaro Nunes
Dificilmente se pode falar em gastronomia literária sem abordar as obras de Camilo Castelo Branco. De facto, como afirma José Leite de Vasconcelos na sua obra “Etnografia Portuguesa” (1934), “o conjunto de romances camilianos tem tanto valor para o conhecimento geral dos costumes populares, que quem os aproveitasse todas, classificando e comentando os extratos, formaria só com este rigorosíssimo manual de etnografia”. Efetivamente a vida quotidiana das gentes nortenhas está expressivamente retratada nas obras camilianas, em particular a gastronomia. Assim, em terras transmontanas, em Vilarinho de Samardã e Ribeira da Pena, onde passou a sua infância e juventude, saboreia os produtos do fumeiro (presunto, chouriços e salpicão), os produtos da terra e os animais de capoeira, em especial a galinha loura, assada ou a canja, que marcam presença à mesa local. Mas também a pesca como as famosas trutas do rio Beça, ou a caça (galinhola, perdizes e coelhos). Petiscos que por vezes se atêm simplesmente a gostosas azeitonas com broa de milho ou mistura e aos caldos bem adubados, tendo por base a batata ou a castanha (“caldo de castanhas piladas, bem adubadas de toucinho”). Posteriormente, no Porto, após 1849, enquanto frequentador assíduo de cafés e botequins citadinos como o Guichard e o Águia de Ouro, mas também hospedarias como a Estalagem da Pedra, famosa pelas enguias de caldeirada ou com colorau, Camilo referencia alguns dos comes e bebes habituais, entre os quais o peixe de cebolada, citado no “Cancioneiro Alegre” (1879). Aqui, nestas ambiências, o escritor e degustante concilia a boa mesa com a boa cavaqueira, especialmente nos jantares no Reimão, onde saboreava lampreia, tripas, peixe frito servido com salada e azeitonas e caldo verde. E não esquece a famosa cozinheira Gertrudes, que diz o haver salvo de uma anemia com mãos de boi guisadas, trouxas recheadas, bifes de presunto de Melgaço e melão. De facto, neste período portuense, Camilo faz jus a Eça, quando afirma que “a mesa constitui sempre uma das fontes, senão o mais forte alicerce das sociedades humanas. Já os gregos diziam, na sua linguagem pitoresca e livre, que a mesa é alcoviteira da amizade”. A mudança para Seide, em 15 de junho de 1866, leva a novos hábitos alimentares, mais consentâneos com os ares minhotos. Aqui onde tudo é verde, desde o vinho ao caldo, é Ana Plácido o esteio da casa, que 463
cuida de tudo, utilizando os produtos da terra e da criação, em especial os galináceos da capoeira da propriedade. Outrossim, é ali em Seide que ocorre a grande festa de receção a António Feliciano Castilho e Tomás Ribeiro, que visitaram Camilo nesse mesmo ano de 1866. Uma festa de arromba, à laia de arraial minhoto, com foguetes, a banda de Ruivães e um jantar de vários pratos, regado com verdasco de Seide e fechado à sobremesa com vinho do Porto. Camilo apreciava bastante as bebidas, que para além das citadas incluíam a genebra, a aguardente de cana legítima e o cognac, mas também o café e chá de Quassia. Porém, sempre que possível, Camilo fugia dos pratos caseiros que o enfastiam, em especial os pratos pesados e abundantes minhotos, que o seu estômago delicado (já) não suportava. Esgueirava-se então pelas redondezas à procura de comidas mais leves, refeições pausadas com conversa amiga e o jogo. Fugas esporádicas que o levavam a Guimarães, Póvoa de Varzim e Braga, geralmente ao Café Viana, por vezes com pernoita no Bom Jesus, entre várias outras localidades. As limitações impostas por contínuas dietas prescritas pelo seu médico e amigo, Dr. Ricardo Jorge (18581939) obrigam-no depois, a partir de 1884, a novos regimes alimentares, à base de carnes jovens, pós de carne e banho, complementados por licor de Fowler e pequenas doses de arsénico. Todavia, uma dieta alimentar que o seu carácter volúvel não lhe permitia cumprir até ao fim… Da mesa à obra Ao longo da obra camiliana, são várias as menções aos grandes nomes da gastronomia (Epicuro, Luculo, Apício) bem como de grandes cozinheiros como Vatel e Domingos Rodrigues, cozinheiro da Casa Real de Portugal e autor d’ “Arte da Cozinha”. Ademais, na sua biblioteca particular eram comuns livros diversos sobre o tema da alimentação e afins, que várias vezes alude nas sua próprias obras. Com efeito, a gastronomia assume-se como uma ferramenta literária válida que não só serve para caracterizar personagens como também distinguir grupos sociais e, por vezes, como recurso de um discurso em tons de ironia bem temperada, sentido humorístico bem condimentado e até de sedução. Ora, na obra camiliana, são múltiplas as referências gastronómicas servidas na melhor prosa. A famosa galinha mourisca, descrita em “O Santo da Montanha” (1886) é uma das iguarias aludidas: “Faz-se torresmos, vai-se a gente ao pingo, deita-o numa tigela, onde está a galinha entalida ou meia assada, por cima despeja-se um golpe de vinho branco, pouquito vinagre e água um quase nada, depois, louro, cravo, pimenta, gemas de ovo, fatias por baixo e rodelas de limão por cima. É de comer e gritar por mais! …”
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Uma receita cujas primeiras referências remontam ao século XVI através do “Livro de Cozinha da Infanta da Maria”, que, como muitas outras, ultrapassam os tempos e por isso, ainda hoje, pode ser saboreada no restaurante Oprato da Chef Lígia Santos, em Vila Nova de Famalicão. No entanto, para Camilo, o autor de “Coração, Cabeça e Estômago” (1862), “todo o estômago bem regulado produz um génio” e “ a poesia do estômago não se dá pelas cidades”, nem pelos ares da fidalguia. Dai que, como escreve em “Bem e Mal” (1863): “Ora eu, que nesta fidalguia e francesa Lisboa tenho sido espectáculo de riso, pedindo nos hotéis, recomendando aos meus amigos, o caldo verde, insisto contumazmente em me expor à mofa da gente culta, dando à estampa, neste lugar e para meu duradouro opróbrio, o panegírico do caldo verde de meus avós, e de padre João, e de sua irmã”.
Mas, de facto, os comes e bebes nortenhos e minhotos aparecem frequentemente em toda a obra camiliana, como nos dá conta no romance ”A Brazileira de Prazins” (1882): “- Sardinhas de escabeche? Se gosto! … Vamos a elas, que estão a dizer – comei-me. E atirou-se às sardinhas com uma sofreguidão pelintra. Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua Majestade gostava muito dessas comezainas nacionais. Já tinha comido tripas, e dizia que no exílio se lembrara muitas vezes dessas saborosa iguaria com feijão branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abade de Calvos sensibilizava-se até às lágrimas quando via El-Rei a esburgar uma unha de porco e a limpar as régias barbas oleosas das gorduras suínas. O terceiro prato era vitela assada. A senhorinha trazia-lhe no espeto porque sua majestade gostava de ir trinchando finas talhadas, enquanto a cozinheira, de cócoras ao pé do fogareiro, conservava o espeto sobre o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hóspede um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietário do Douro, que estava no segredo do ditoso Abade de Calvos, Capelão Mor de El Rei e D. Prior de Guimarães. A criada assistia muito jovial àquela deglutição formidável e dizia particularmente ao Abade: - Este senhor pelo que come parece que tem passado muitas fominhas! Ninguém há-de querer o que sua majestade atafulha naquele bandulho (…) Por fim vinha o café. As fatias eram torradas no fogareiro. Sua majestade barrava-as de manteiga nacional – preferia a manteiga do seu País, como a vitela, e o lombo de porco no salpicão Português e o pé de porco nas tripas, também, portuguesas, tudo do seu País. Que Rei, que patriota! - Meditava o Abade de Priscos, Bispo eleito de Coimbra, esmocando-se e aparando as lágrimas ternas no Alcobaça. No fim do copioso almoço, El Rei fumava charutos espanhóis de contrabando, desabetuava o colete, dava arrotos, repultriava-se na cadeira de sola um pouco desconfortável, evaporava grandes colunas de fumo que se espiralavam até ao tecto” (…).
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(Curiosamente, mais um almoço que pode ser replicado em V.N. de Famalicão, no restaurante Ferrugem, do Chef Renato Cunha, que aos sabores da boca alia a caminhada de um digestivo roteiro camiliano organizado pela Casa de Camilo ou, em caso de cansaço, uma pernoita na famalicense aprazível Quinta das Pirâmides, com dormida num dos vários quartos camilianos). Todavia, como consta no excerto transcrito e como sempre, mesa farta até à gula, com sua majestade real a dar exemplo patriótico aos súbditos dos “bons costumes” que tem este país à beira mar plantado. Obviamente, uma citação que é seguramente uma descrição de índole crítica e irónica às classes dominantes. O excerto transcrito da obra “Eusébio Macário” (1879) é um outro exemplo elucidativo: “… O Comendador Bento achou-se bem, bom enxergão de lã de carneiro, a mesa farta, o leitão, o capão, o peru, o chouriço, o lombo de porco de vinho e alhos, o pato, leite puro de cabra, frutas ricas (…) morcelas de Guimarães e pastéis da Joaninha, frigideiras de Braga, e o vinho verde de Basto que lhe refrigerava os ardores internos e desopilava o baço”.
Poder-se-iam multiplicar os exemplos, da gula à fome. E contar coisas espantosas como a alimentação de outrora dos mais pobres, que “Coisas Espantosas” (1862), assim se intitula a obra do ciclo do livro negro camiliano que descreve esta “sopa dos pobres”: “Entrou o filho de Inácio Botelho ao serviço dos meninos do Tio João Torto. Assim chamado porque era vesgo. Os meninos eram três, todos vesgos como o seu pai, e mais ou menos raquíticos como sua mãe. Logo pela manhã almoçavam os meninos, o seu café com leite, e Augusto ia à cozinha com o caixeiro almoçar caldo verde migado com pão centeio. Os primeiros dias, o menino vomitava as couves e o unto do caldo, logo que o comia e desistiu de almoçar como, porém, a fome o obrigasse, e os jejuns lhe custassem duras repreensões, foi-se afazendo às couves ao unto e ao pão centeio”.
Sopa dos pobres que por vezes passava só pelo cheiro, em contraste com a fartura de outros, como se constata nesta passagem de “A Filha do Acerdiago” (1854): “O salpicão fumegava na mesa, rodeado de ervilhas ensopadas. Ao lado, as tigelas do bem adubado caldo, opulento de gorda ôlha, ressumavam um cheiro apetitoso, que ludibriava o paladar dos rapazes da loja, aos quais era só permitido o cheiro. Angélica fora chamar Rosinha para a mesa, enquanto seu irmão espostejava as talhadas pingas do paio de Lamego (…). O negociante engatilhava a cara em ar de despeito, e ensaiava as pálpebras roliças numa postura sombria, que desse a sua dor a alta ideia, que os queixos desmentiam, cevando-se na carne de porco e nas ervilhas aromáticas”.
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Como disse, é praticamente impossível num curto texto enumerar todas as referências camilianas ao quotidiano culinário e recheio gastronómico das suas obras, que atravessam as mais diversas situações e classes sociais, por vezes com sentido crítico, ou como mera alusão a tradições. É o caso deste excerto da novela “A Viúva do Enforcado”, inserida na obra “Novelas do Minho”, cuja ação ocorre em Guimarães e que referencia o costume da oferta do pão-de-ló natalício: “Tinha passado o Natal de 1822 em Guimarães, e levava à sobrinha um grilão de ouro da sua viúva dentro de uma rosca de pão-de- ló”.
Aqui ficam algumas referências camilianas sobre a (boa) mesa, em especial (pequena) burguesa e popular. Porém, recomendamos também, a este propósito, degustar algumas páginas de leituras camilianas, complementadas com os prazeres gastronómicos sugeridos pelas suas obras, quer fora de portas quer em casa. Por isso, deixamos algumas receitas. Os livros encontram-se nas livrarias ou bibliotecas… Receitas caseiras Apresentam-se duas receitas apresentadas pela Sociedade de Escritores Portugueses, aquando da passagem dos 125 anos da morte de Camilo Castelo Branco (1825-1890), centradas nas suas obras “Eusébio Macário” (1879) e na novela “Maria Moisés” (1876-1877), esta última inserida na obra “Novelas do Minho”. 1 - Caldo à Eusébio Macário Ingredientes: - 250 gr de couve galega cortada em juliana - 0,5 kg de batatas - 1 cebola grande - 3 dentes de alho - 2 dl de azeite - 5 rodelas de chouriça de carne - Sal e pimenta q.b. Preparação: Numa panela com 2 litros de água, temperada com sal, pimenta e um fio de azeite, cozem-se as batatas, a cebola e os dentes de alho. Assim que estiveram cozidos, reduzes tudo a puré e adiciona-se a couve cortada em juliana e deixa-se ferver durante 45 minutos, em lume brando.
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2 - Pato à Maria Moisés Ingredientes: - 1 pato - 2 cebolas picadas - 2 dentes de alho picados - 4 laranjas pequenas - 1 dl de vinho branco - 1 cálice de vinho do Porto - 1 cravinho - Azeite, sal e pimenta q.b. Preparação: Depois de chamuscar o pato e de tirar as gorduras, marina-se com sumo de laranja e vinho branco e reserva-se. Ligar o forno a 180 graus. Barra-se o pato com manteiga, alho picado, sal e pimenta q.b. e deixase assar. A meio da assadura vira-se e rega-se com sumo de laranja e vinho do Porto. Deixa-se apurar durante 45 minutos.
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OUTRAS EFEMÉRIDES Inserir separador
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Outras efemérides Guimarães há 100 anos, no início do 4.º mandato de Mariano Felgueiras e da Exposição Industrial e Agrícola de 1923, entre outras ocorrências marcantes, constitui uma viagem ao passado que certamente vai surpreender os vimaranenses presentes. Ademais, a nível local e regional, perpassam também 50 anos da fundação da Universidade do Minho e 130 anos do início das peregrinações anuais à Penha, enquanto a nível nacional e às portas que Abril abriu há quase 50 anos, não podemos esquecer o III Congresso Democrático de Aveiro e o seu papel na abertura das vias da democracia. Efemérides marcantes, às quais, a nível mundial, importa aditar o 75.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, infelizmente muito vilipendiado nos tempos correntes. Já a nível nacional registamos 160 anos de serviço ao próximo a cargo do Lar de santa Estefânia, 75 anos de existência ao serviço dos mais desprotegidos por parte do Rotary Clube de Guimarães, a Placa aos mortos da 1ª Guerra Mundial colocada no Paço dos Duques de Bragança, a recente reabilitação do castro de Sabroso, um preito de Homenagem a Mariano Gago. Registamos também aqueles e aquelas que o Município distinguiu na cerimónia do 24 de junho de 2023 e um testemunho da JMJ – Milagre de Amor por uma coordenadora de uma paróquia vimaranense.
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Guimarães há cem anos Equipa Redatorial
Cem anos atrás, o burgo vimaranense encontrava-se sob a alçada camarária do republicano Mariano Felgueiras que havia vencido as conturbadas e contestadas eleições administrativas de 1922 e regressava ao poder, assumindo a presidência da Comissão Administrativa e Comissão Executiva da Câmara, não obstante a sua frequente ausência de Guimarães, decorrente das suas funções de deputado e conclusão do curso de Direito em Coimbra. Obviamente, na prática, e por isso, a gestão e liderança municipal seria geralmente assumida pelo vicepresidente António Portas e pelo presidente da Mesa do Senado da Câmara Alfredo Fernandes. Senado da Câmara que mercê do apuramento final dos resultados eleitorais acabaria por atribuir a maioria absoluta aos republicanos: 15 lugares contra 5 dos monárquicos. Ora, vários acontecimentos e situações ocorreriam nesse ano da graça republicana de 1923. De facto, logo no início de mandato seriam suspensos todos os projetos de obras e outros atos administrativos como ordens de pagamentos, entre outros, bem como seriam demitidos todos os funcionários sem contrato. Paralelamente, seria requerida ao Tribunal a devolução das verbas pagas por adjudicações sem hastas públicas; e seriam repetidos concursos para admissão de pessoal com a aprovação de candidatos antes preteridos. Com efeito, num ambiente político de mudança face à anterior gestão republicana de Francisco Moreira Sampaio e A.L. de Carvalho, ganhariam protagonismo novos rostos, entre os quais o vereador estreante Abílio Oliveira, das Caldas das Taipas, que assumiria o pelouro das obras. Deste modo, logo no início do mandato, o vereador taipense puxaria a brasa à sua sardinha e faria aprovar a execução da estrada Taipas/Falperra e o ajardinamento da Praça da República, bem como a abertura de novas ruas e o abastecimento de água que, no entanto, devido a incumprimentos de empreitadas e outras vicissitudes se arrastariam até 1925. Outrossim, rebenta nesta altura a “questão da luz”, acesa nas Taipas perante o aumento de preço da iluminação pública, solicitada pelo concessionário. Uma situação que mais tarde levaria a empresa de Bernardino Jordão a (ameaçar) interromper o fornecimento às Caldas das Taipas e a despoletar por parte da Câmara da promoção de uma ação judicial para a rescisão do contrato. Porém, uma disputa que acabaria dirimida, não obstante haver abalado a relação de amizade entre Mariano Felgueiras e Bernardino Jordão.
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Polémicas e melhoramentos Igualmente, duas outras polémicas despontariam nesse ano: um pedido de um empréstimo bancário e o “sanatório” na Penha. Realmente uma proposta apresentada pelo Presidente da Mesa do Senado Alfredo Fernandes propunha a contração de um empréstimo bancário de 5 000 contos, a pagar em 50 anos, para aplicar em obras diversas, em especial no Bairro Económico, novos Paços do Concelho e água e saneamento na cidade, Taipas e Vizela. Porém a proposta mereceria a oposição de Mariano Felgueiras e da maioria, acabando por ser rejeitada e apenas apoiada com dois votos favoráveis. Outra controvérsia teve a ver com o processo de instalação dum sanatório de tuberculose no Hotel da Penha, em 1922. Deste modo, em 1923, cresceria a repulsa por esta opção, de tal forma que ocorreria um comício público no Teatro D. Afonso Henriques para protestar contra o funcionamento do “sanatório” no alto da Penha, uma vez que a população defendia ser a montanha uma estância de turismo e não estância de cura. A disputa acabaria por ser resolvida com a intervenção da Comissão do Turismo, que intimidaria o arrendatário do Hotel da Penha a entregar o imóvel devoluto e com a publicação do decreto 8884/1923, de 5 de junho, emanado do Ministério do Comércio e Comunicação, que classificaria a Penha com estância termal. Entrementes, nesse mesmo mês, é constituída a Comissão de Iniciativa do Local da Penha, cuja primeira reunião ocorreria em 25 de junho, que levaria a água ao moinho sobre os novos rumos da Penha. Ademais, em matéria de melhoramentos, o Senado aprovaria ainda várias obras interrompidas na Câmara anterior. Constam, entre outras, as estradas, designadamente entre a cidade e a Penha (via Costa), interrompida no anterior mandato, bem como as vias Lordelo/Guardizela e Pevidém/Serzedelo. De igual modo, neste plano de investimentos aprovado pelo Senado no início do mandato, avançar-seia também na concretização da cadeia nova, que desde 1916 dispunha de terreno adquirido na Quinta de Lamelas, no Cano. Porém, um projeto que apenas seria concluído em pleno em 1925, altura em que os presos seriam transferidos da Cadeia Velha, sita no Largo da Misericórdia para as novas instalações, no Cano. Aliás, o ano abriria (aparentemente) sob bons auspícios, com a inauguração do Hospital de Vizela e Moreira de Cónegos, num edifício doado por um benfeitor moreirense, residente no Brasil há cerca de 60 anos. No entanto, face às dificuldades financeiras da época, Mariano Felgueiras estava tremendamente condicionado. Assim, tentaria ainda implementar algumas parcerias público-privadas para a prossecução de duas obras específicas. Concretamente, os projetos centravam-se na edificação de 23 casas do Bairro Económico, 472
a construir por privados, para o qual a edilidade adquiria terreno a vender pelo preço da compra inicial e executava as infraestruturas, permitindo-se, no entanto, a participar na definição das rendas. Outrossim, um projeto de ligação por elétrico entre a Penha e a cidade, para o qual a Câmara cedia a via e abria concurso para a exploração privada. Porém, ambos os projetos não teriam interessados, acabando por cair por terra. De facto, decorriam os anos difíceis do pós-guerra, agravados pela carestia da vida que os republicanos desejavam combater frontalmente, como se constata no Jornal “Razão” de 13 fevereiro, do qual transcrevemos esta passagem: “meta o governo na ordem, essa meia dúzia de potentados, verdadeiramente culpados da desvalorização e da carestia da vida que nos aflige”. Tempos de crise, de tal modo veemente que em 11 de julho sai em “A Razão”, um anúncio intitulado “Empréstimo Nacional”, cujo teor dilucida: “está aberta a subscrição para este empréstimo na Agência do Banco de Portugal em Guimarães onde se prestam rapidamente todos os esclarecimentos”. Tempos de crise Todavia os “esclarecimentos” críticos viriam mais acutilantes por parte da oposição monárquica que denunciava não só a carestia da vida, a falta de pão nas padarias da cidade, e a especulação do azeite, como também a crise monetária (“a indústria está paralisada e o comércio definha”), ou ainda a intensa emigração das gentes dos campos e os novos impostos. O “Comércio de Guimarães de 20 de abril é elucidativo: “Os lavradores do concelho, num legítimo direito de defesa, sua e nossa, reuniram na sede da sua Associação e estão tentando de, por todos os meios ao seu alcance, conseguirem que lhes tirem esses absurdos impostos, sem o que estão resolvidos a lançarem-se na greve, não trazendo a Guimarães, hortaliças, leite, batatas, lenha (…) e tudo da sua lavra”.
De facto, como se escreve em várias edições do “Comércio de Guimarães “não há pão à venda e o pouco que aparece já se vende a 18$00 réis, o alqueire”, de tal forma que os “industriais de padaria enviaram telegrama ao Ministério da Agricultura pedindo providências, urgentes e rigorosas (…) a fim de evitar a escandalosa especulação feitas pelas fábricas da Província”. Críticas que se estendem ainda à crise habitacional, como reporta o citado periódico de 12 de junho: “Em Guimarães, como em toda a parte, existe uma pavorosa crise de habitações (…) A população vimaranense tem crescido pavorosamente, daí haver mais dificuldades em conseguir-se um prédio aonde possa recolher-se uma família decente (…) Há tempos vimos anunciando que a actual Câmara ia construir bairros operários (…) mas até hoje não vimos nada que possa confirmar essas notícias”.
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As Gualterianas e a Exposição Industrial e Agrícola Em 1923, entre 4 e 31 de agosto, realizou-se também a Exposição Industrial e Agrícola de Guimarães, uma iniciativa da Associação Comercial, em cujo certame participaram cerca de 300 industriais. Uma exposição que teve o dedo particular de Eduardo Almeida, João Rodrigues Loureiro e Francisco Martins e José de Pina, entre outros, bem como o impulso da anterior edilidade, presidida por A. L. de Carvalho. A exposição que decorreria no Proposto, nas instalações da Escola Industrial, tinha o propósito de levar a cabo uma reposição da Exposição Industrial de 1884 (o ano de ouro de Guimarães) que permitiria mostrar ao país a força vimaranense e visava ser a grande Festa do Trabalho. Com efeito, inaugurada pelo Ministro do Comércio Queirós Vaz Guedes, a exposição apresentaria mostras das várias áreas industriais vimaranenses, em especial das indústrias tradicionais dos tecidos, curtumes, cutelarias e pentes, bem como da indústria do mobiliário e serralharia. Paralelamente, avultaria ainda uma secção de Lavores Femininos, destacando-se as rendas e os bordados, e espaços dedicados ao oiro e a prata de filigrana, barro modelado, produtos químicos e farmacêuticos, Edifício da Escola Industrial, onde se realizou a Exposição Industrial e Agrícola Concelhia de 1923 doçaria e calçado, onde certamente estaria presente a conhecida chinela de Guimarães, peça de verniz preto, bordada a retrós vermelho e azul, de fabrico manual e popular. Em complemento, não faltaria sequer a nova indústria dos chapéus e guarda-chuvas, as secções de tipografia, encadernação, fotografia e topografia e muitas outras áreas, bem como uma bem trabalhada planta da cidade do capitão Luís de Pina, um quadro de Abel Cardoso e trabalhos dos alunos das Escolas Centrais e da Escola Primária Superior, com a participação de 27 escolas. E claro, a componente agrícola, na qual constaria uma reprodução de uma casa de lavrador minhoto, onde se encontrariam expostas inúmeras indústrias caseiras, artefactos e produtos agrícolas. Uma exposição que seria bastante elogiada na imprensa local e nacional e que, concomitantemente, propiciaria ensejo a Alfredo Fernandes, em representação do município, no decurso da sua alocução formal, chamar a atenção do governo para outras necessidades da cidade, como a tração elétrica, os correios, a 474
urgência de um novo edifício telégrafo-postal, a instalação da rede telefónica e a construção de (condigno) edifício telégrafo-postal, obras que na generalidade ocorreriam em 1925.
Produtos agrícolas na Exposição Industrial e Agrícola de 1923 (Arquivo da Sociedade Martins Sarmento)
Página de abertura do Catálogo da Exposição Industrial e Agrícola de 1923 (Arquivo da Sociedade Martins Sarmento
O Pregão Nicolino, de autoria do “convertido” A. L. de Carvalho, aborda o evento: “– Sabem em quê? Na Exposição Industrial! …Isso sim, que foi grande e belo, a valer! Que até cá veio um Ministro, a correr (!!!)
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Glória ao trabalho! Glória ao povo obreiro! Glória Chico Martins e mais João Loureiro! - Para os quais propomos estátua de afecto É para que se não perca … mais um projecto!”
Além disso, a competência industrial da cidade vimaranense seria também reconhecida e distinguida no grandioso certame que foi a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, no Brasil, realizada por ocasião do centenário da independência, ao qual concorreram as indústrias vimaranenses. De facto, como noticia o jornal Gil Vicente de 21 de outubro de 1923, Guimarães conquistaria quatro medalhas de ouro: na fotografia artística por Domingos Alves Machado, proprietário da Foto-Eléctrica Moderna; José António de Castro Guimarães, nos couros e peles curtidas; e duas medalhas nas cutelarias, respetivamente por José Francisco da Silva, cutelaria 5, com fábrica no Miradouro e Joaquim Ribeiro Moura, cutelaria marca 35. Como é óbvio, no mês de agosto ocorreram também as Festas Gualterinas, nas quais a Exposição Industrial e Agrícola seria integrada. Deste modo, como de costume, houve animação musical com concertos pela Banda do Comando Geral da Guarda Republicana e pela Banda de Infantaria 20, bem como outras bandas de música, além de inúmeros concertos populares, descantes e festadas. Igualmente a feira franca de gado cavalar, um concurso hípico, o habitual fogo de artifício a cargo do pirotécnico José Castro e até um simulacro de incêndio pelos Bombeiros Voluntários, bem como uma visita de uma esquadrilha de Instalação da Companhia de Fiação e Tecidos de Guimarães, 1923 (Arquivo da aviação, provavelmente motivada pela Sociedade Martins Sarmento) travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922, proeza à qual os vimaranenses devotaram especial carinho. Aliás, digase, a talho de foice, em Guimarães seriam organizadas subscrições públicas para aquisição de um hidroavião, 476
que renderia 2.556$200, verba que seria entregue a Gago Coutinho pelo coronel Júlio Lage do RI 20, aquando da visita do aviador a Guimarães, em finais de junho, num ambiente de entusiasmo louco. E, claro, aconteceu também a deslumbrante Marcha Milanesa na qual desfilaram, entre outros, o carro caravela, com distribuição de poemas de Gaspar Roriz e os enormes carros do pato e do dragão, que teria o percalço de lhe ter ardido o fogo, logo à saída. Porém, a despeito do dragão sem chama, uma festa em que, consta, não houve desordens nem roubos de grande importância, lamentando-se, no entanto, a morte por eletrocussão de um operário. Paralelamente decorreria ainda uma exposição do tesouro da cidade, na Sociedade Martins Sarmento, que seria muito visitada. Outros eventos Também no jornalismo local registar-se-iam alterações, pois surgiria um novo projeto jornalístico com a publicação do periódico republicano independente “A Razão”, sob a direção do professor liceal David Oliveira. Com efeito, à data, havia apenas em Guimarães o jornal católico “Voz de Guimarães” e três periódicos de conotações e tendências monárquicas: o “Comércio de Guimarães”, o “Gil Vicente” e o “Ecos de Guimarães”. Deste modo, “A Razão” haveria de fazer jus às ideias republicanas e logicamente a travar fortes polémicas com alguns periódicos monárquicos, em especial com o “Ecos”, quer quanto à gestão e governo local e nacional, quer na abordagem de situações próprias da época de foro político e doutrinário, designadamente em aspetos como a carestia da vida e os pedidos de empréstimos nacionais, não obstante a consonância de ambos os periódicos quanto aos barulhos, impropérios e pancadaria ocasionais, nas noites de sábado, na Oliveira… A nível cultural há ainda a destacar, no início de abril, a primeira grande exposição individual do artista vimaranense Abel Cardoso (1877-1964), diretor da Escola Industrial Francisco de Holanda. Uma exposição que teve lugar no átrio da Misericórdia do Porto, digna dos maiores encómios, que surpreendeu e foi um sucesso, como o noticia o jornal “A Razão” de 9 de abril. Concomitantemente, uma exposição cujo opúsculo de apresentação incluiria ainda um texto do escritor Raul Brandão, sobre a vida e obra deste “pintor regionalista e poeta”, que, – acrescentaria – “pinta a província onde nasceu. Às vezes sonha-a”… Culturalmente, decorreriam também homenagens a Camões no Liceu Nacional Martins Sarmento e alusões na imprensa a Guerra Junqueiro, na decorrência da sua morte. Paralelamente, do ponto de vista sociopolítico, são evocados por parte dos republicanos os aniversários 477
históricos do 31 de janeiro de 1891, data do primeiro movimento revolucionário republicano e do 13 de fevereiro de 1919, que põe fim à insurreição militar liderada por Paiva Couceiro, denominada Monarquia do Norte; e, obviamente, o 5 de outubro, data de implantação da República. Igualmente, recorda-se também o 9 de abril de 1918, cuja Comissão Promotora evocaria os heroicos militares portugueses que participaram na Batalha de La Lys, em especial do RI 20. Uma evocação de cariz militar que contaria ainda com jogos desportivos na praça do RI 20 e um sarau, no Teatro D. Afonso Henriques a cargo dos sargentos da unidade militar. Acrescente-se que meses depois o RI 20 seria agraciado com a aposição do galardão da Torre e Espada na sua bandeira, pela sua heroicidade em La Lys. O ano fica ainda marcado, a nível associativo e desportivo, pela fundação em 23 de novembro do Clube Caçadores das Taipas, que se filiaria na Associação de Futebol de Braga em 30 de maio de 1925, instituindose como o segundo clube mais antigo do concelho de Guimarães e o terceiro da AF de Braga. Mas, ocorrem também nesse ano alguns dos primeiros pontapés na bola em que alinharia o Vitória. Com efeito, a 27 de maio de 1923, o Vitória golearia o Braga por 7-1, num jogo realizado em Guimarães, no qual os pretos e brancos alinharam com Mário, Pimentel, Pontes, Evaristo, Pereira, Artur Mendes, Adriano Mendes (capitão), Mendes Martins, Belmiro e Costa. Segundo o Comércio de Guimarães “os pretos e brancos, que desde o princípio do jogo dominaram sempre os vermelhos, deram-nos alguns momentos de regular association, notando-se bem a sua superioridade. Segundo o jornal Ecos de Guimarães, Artur Mendes foi, sem dúvida, o melhor da tarde. Neste mesmo ano seria ainda apresentada, em finais de dezembro, a lista dos corpos gerentes do Vitória para 1924, encabeçada por António Macedo. Como é obvio, decorreriam ainda a preceito as usuais tradições e festas concelhias e nacionais como o Carnaval, que seria considerado “pelintra, porco e indecente” e cada vez mais decadente, as Nicolinas sobre as quais houve referências a estragos em vários toldos de lojas comerciais e Santa Luzia, entre outras. De igual modo, não faltaria o 9 de março na Sociedade Martins Sarmento, cerimónia em que sobressairia a intervenção de Eduardo de Almeida alusiva à instalação provisória do arquivo da Colegiada na Câmara, a exigir com preocupação a urgente criação de um Arquivo Municipal, que só cerca de 10 anos depois se consumaria. Curiosamente, apenas a peregrinação da Penha, em setembro, não se realizaria, ao que consta devido a divergências entre o clero local. Em termos de preocupações, despoletaria ainda em finais de maio a ameaça de encerramento de alguns liceus, ou de alguns cursos complementares, facto que viria efetivamente a suceder em Guimarães no ano 478
seguinte, com a extinção dos cursos complementares de Letras, a despeito do Liceu de Guimarães ser o terceiro a nível nacional a nível de frequência e ser o único com receitas próprias, provenientes da extinta Colegiada. Nesse ano de 1923, ocorreriam ainda movimentações operárias, desatacando-se uma greve dos operários de marcenaria da firma Neves & Cª., que reclamavam 40% de aumentos salariais, mas cujas reivindicações seriam apenas satisfeitas em metade. Este desfecho motivaria poucos a retomarem o trabalho e a levar os descontentes a agredirem os seus companheiros. Em termos reivindicativos assinala-se também a apresentação de um manifesto dos Bombeiros Voluntários em prol da criação do Grémio Federal, como já acontecia em quase toda a Europa. Outrossim, em matéria sanitária, uma epidemia de sarampo, que grassaria com grande intensidade a partir do mês de julho. Assim ia Guimarães, há cem anos…
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Penha histórica 2023 – Tripla comemoração de 130 anos Manuel Roriz Mendes Juiz da Irmandade da Penha
A Grande Peregrinação à Senhora da Penha é das mais conhecidas e participadas celebrações religiosas que ocorrem no Norte do País. Trata-se de uma jornada religiosa que comemora 130 anos, neste ano de 2023. Muitos vimaranenses e fiéis de concelhos vizinhos aproveitam a ocasião para permanecer e confraternizar depois dos ofícios religiosos e do dispêndio do esforço físico da subida da Montanha da Penha. “(…)sobranceira à histórica e nobre cidade de Guimarães, ergue-se, altaneira e majestosa, a formosíssima e encantadora Montanha da Penha – esplêndida estância de turismo e de repouso (...), ascendê-la, a pedibus calcantibus, no dia da sua majestosa Peregrinação (...), acompanhando aquele acto de crença e fé, ou subindo mesmo a direito, pelos atalhos, formando bicha com outros peregrinos acompanhados dos seus farnéis, que lindo e interessante... e que admirável quadro festivo isso oferece àquele que já no alto da Montanha se encontra, aguardando a chegada daquele grandioso conjunto de Bandeiras resplandecentes, para seguidamente assistirem às imponentes solenidades que nesse dia ali têm lugar, por entre ensurdecedores cânticos e hosanas à Virgem – Padroeira de Portugal”. (ALEXANDRE TEIXEIRA, 1949:11-2).
Esta Grande Peregrinação teve origem na “estúrdia” dos artistas de Couros de Guimarães que se fazia, antes, para a Senhora de Porto de Ave e, depois de 8 de Setembro de 1893, se dirigiu à Senhora da Penha. Inicialmente denominou-se como “Romaria Pequena”, “Romaria Menor”, “Segunda Romaria da Penha” que recebeu crescente adesão popular. 480
Na mesma data foi inaugurada a estátua do Pio IX e a Peregrinação dirigida à Senhora de Lurdes, cuja imagem foi também inaugurada neste dia, oferecida por Fernando Castro Abreu Magalhães (emigrante no Brasil) e colocada na sua Gruta. “Às 4 horas da manhã, na basílica de São Pedro, no Toural, houve missa, e às 6 horas, de lá foi dado início à romagem para a Penha. O percurso foi pela Rua da Rainha, Senhora da Guia, Campo da Feira, Convento das Capuchas e montanha acima, pela Costa, até à Penha. À frente, seguiam diversas associações (Filhas de Maria, Apostolado do Coração, Congregação de Maria, Congregação de São Luís Gonzaga) e muitos povos. Na Penha, com a Peregrinação a caminho, foi celebrada missa às 7 horas, na gruta – Ermida da Senhora do Carmo, e às 8 horas, no Passo da Coroação. À chegada da Peregrinação à Penha, foi celebrada missa solene na Gruta da Senhora de Lurdes, com homilia pelo Padre Bento José Rodrigues”. (Dicionário da Penha, autoria de Lino Moreira da Silva).
Logo nessa ocasião foi cantado um hino, letra do padre Campo Santo, natural de Guimarães, música de Giusepi Gessi, italiano de nação. Dia 10 de Setembro de 2023, com solenidade, continuaremos a perpetuar as Grandes Peregrinações, que comemoram 130 anos deste importante e continuado acontecimento da nossa comunidade e do país.
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Como a Universidade do Minho qualificou a região Raul Rocha
No final do salazarismo/marcelismo, em 1974, Portugal era um país com um reduzidíssimo número de emprego qualificado. As universidades eram frequentadas por uma percentagem muito diminuta da juventude portuguesa e mesmo esta, com a mobilização para a guerra colonial em África, obrigando à interrupção dos cursos antes do seu termo, não valorizava como objetivo de vida a qualificação superior. As universidades estavam localizadas no Porto, Coimbra e Lisboa e, salvo exceção, só a classe média tinha condições financeiras para possibilitar prosseguir essa qualificação aos seus filhos, nomeadamente quando vivia fora das três cidades universitárias. O emprego era, assim, muito indiferenciado e não qualificado nem especializado. A empresa era a escola onde se adquiriam competências profissionais. Os cursos técnicos noturnos tinham alguma frequência e tiveram um papel importante na formação dos trabalhadores que se empregaram muito jovens e que procuraram saber mais para inovar e não funcionar apenas como máquinas reprodutivas não inteligentes. O regime tinha instalado, nos anos de 1960, universidades em Luanda e Lourenço Marques (hoje Maputo) por temer que os poucos estudantes brancos e negros, que vinham para Lisboa e Coimbra estudar, fossem “contaminados” pelo progressismo do movimento estudantil. Para Lourenço Marques foram jovens professores universitários, em início de carreira académica, que pretendiam uma progressão mais rápida que as universidades tradicionais não lhes facultavam. Entre eles contavam-se Veiga Simão, João de Deus Pinheiro, Sérgio Machado dos Santos e outros que, no pós 25 de abril ou mesmo um pouco antes, vão ter um papel decisivo na democratização do ensino superior em todo o país e no Baixo Minho. Veiga Simão, jovem catedrático de Física, filho de um GNR de Coimbra, ainda foi Ministro no final do marcelismo, vindo de Reitor da Universidade de Lourenço Marques, e é dele a proposta de criação das novas universidades no Minho, Aveiro, Beira Interior, Nova (Lisboa), Évora, Algarve. No que respeita à Universidade do Minho, que celebra meio século de história (foi criada pelo DL 402/73, de 11 de agosto), em 1974, havia uma comissão instaladora liderada por Lloyd Braga que tinha vindo de Lourenço Marques com Veiga Simão, e pouco mais. A revolução de Abril, retifica, naturalmente, a 482
composição da comissão instaladora, mantém Lloyd Braga, e dá-lhe força e estímulo para a concretização da nova universidade, integrando, nomeadamente, Santos Simões, mantendo Freitas do Amaral, mas este não exerce o cargo pelas novas atribuições políticas. A Reitoria tem nessa fase inicial vários titulares, entre outros protagonistas, professores da UM, no arranque, quase todos vindos da Universidade de Lourenço Marques. João de Deus Pinheiro, Sérgio Machado dos Santos, que, mais tarde, foram Reitores. Mas também Barbosa Romero, o já referido Lloyd Braga que é o primeiro Reitor. Há uma estabilidade, a partir de 1981 quando assume a reitoria o Professor Lúcio Craveiro, vindo da Faculdade de Filosofia e Teologia de Braga, com dois vice-reitores mais jovens João de Deus Pinheiro e Sérgio Machado dos Santos, que se inserem também na vida política de Braga e do país. A decisão da localização foi controversa em 1974/1975. O modelo de Veiga Simão para as novas universidades era anglo-saxónico, criando campus universitários fora do centro das cidades. É o modelo da Universidade Nova (Engenharias) no Monte da Caparica (Almada). Guimarães e Braga não estavam de acordo, pois queriam a universidade dentro das suas cidades, muito ao sabor do modelo coimbrão, onde as suas elites tinham estudado. Vítor Alves, um dos militares de Abril, foi Ministro dos governos provisórios e fez-lhes a vontade. A UM iria ter dois polos. Agora, vocês que querem a universidade nas vossas cidades, arranjem instalações. Braga, que vai ter como presidente da assembleia municipal Salgado Zenha, figura liderante do novo regime, instalou logo a reitoria no Largo do Paço, ganhou centralidade e começou a construir o polo de Gualtar. Guimarães ofereceu o Palácio Vila Flor, que o município comprou à família Jordão, para instalações provisórias dos cursos de engenharia, só a partir do 3º ano, o que implicava que os estudantes iniciassem a formação, em Braga, ficando lá a morar, e viessem a Guimarães apenas ter aulas em transporte universitário. Houve, assim, sempre uma desigualdade entre os dois polos, que se foi, porém, atenuando com a construção do polo de Azurém, mais tarde surgem as instalações do campus de Couros e dos laboratórios do Avepark, em Barco. A universidade é, hoje, uma realidade crescente em Guimarães, marca a cidade, começa a haver alguma participação das elites académicas na vida da comunidade. Nos últimos dez anos houve uma parceria muito assumida do município com a universidade, sendo os principais investimentos municipais para instalações do ensino superior – UM e IPCA – e outros estão na fase de iniciação de construção: Escola – Hotel, polo da Caldeiroa (antiga Fábrica do Arquinho), destinado ao curso de Engenharia Aerospacial, residências universitárias de Santa Luzia e AveparK, recuperação do Teatro Jordão, onde estão sedeados os cursos de Teatro da Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas e o curso de Artes Visuais da Escola de Arquitetura, Arte e Design 483
da Universidade do Minho. Mas mais que a presença, em Guimarães da UM, foi muito mais marcante a alteração radical na sociedade vimaranense que a localização de uma universidade na região provocou e a expansão, muito generalizada nas gerações nascidas a partir de 1970, com a possibilidade bem aproveitada de obter qualificações académicas de nível superior, praticamente a viver em casa dos pais. A grande maioria das gerações vimaranenses que têm, hoje, entre 25 e 50 anos, estudou na UM, mesmo alguns mais velhos que foram para a universidade numa fase em que já estavam na vida profissional. Estas gerações frequentaram as instalações, primeiro provisórias, depois definitivas, Braga, como nunca tinha sucedido antes, mas também frequentaram a UM, no Campus de Azurém, as mesmas gerações de Barcelos, Famalicão, Fafe, Vizela e de outras cidades próximas, alargando-se, depois, praticamente a nível nacional e onde hoje são quadros qualificados. Foi a UM que qualificou a região. Foi a UM que ligou gerações de diferentes concelhos numa convivência comum. Quando hoje se fala numa Área Metropolitana do Baixo Minho, a sua raiz está na UM. Quando se fala no “Quadrilátero Urbano”, a sua raiz está na UM. Quando se fala na urgência de uma rede de transportes que ligue Guimarães, Braga, Famalicão, Barcelos e, naturalmente se intersecte com o Grande Porto, a sua raiz está na UM. No início das comemorações dos 50 anos da UM, deve-se olhar para dentro dela, porque, hoje, os seus professores, investigadores, dirigentes já se formaram nela, mas também devemos olhar para as escolas básicas e secundárias, hospitais, unidades de saúde, empresas da indústria tradicional e tecnológicas, protagonistas das políticas municipais e até a nível nacional e do jornalismo, pois em todas as áreas a UM está lá. A Guimarães de hoje, entre outros concelhos, muito mais qualificada, tem a marca da UM.
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Universidade do Minho e os seus 50 anos Álvaro Nunes
No corrente ano, passa o cinquentenário da criação da Universidade do Minho (UM). Ora, são coisas como estas que nos fazem velhos! No entanto, ainda recordo com nostalgia esses tempos, nas aulas na rua D. Pedro V, onde até os cães entravam atrevidos! Recordo, por exemplo, a aula de Cultura Inglesa, na qual o curioso “dog” entraria, logo questionado pelo bem-humorado e saudoso Dr. Hélio Alves: “Yes, dog?” Não latiria nem rosnaria o dito cujo que, rabo entre as pernas, lá se foi à sua vida, desfazendo o sonho de um curso universitário. De facto, assim eram as aulas nos tempos iniciais, antes da construção do campus de Gualtar! Evocar esses tempos de estudante-trabalhador, em constante correria, leva-me ainda a lembrar alguns professores, entre os quais Vítor Aguiar e Silva, docente de Literatura Comparada, ou o professor de Literatura Portuguesa de Expressão Portuguesa, que me convidaria a ir lecionar para Luanda. Posteriormente a UM cruzar-se-ia novamente no meu caminho na orientação de estágios pedagógicos da universidade, na minha escola, sob a coordenação do meu amigo Lino Moreira da Silva. Como o tempo e a vida passam acelerados! … Bem, vamos ao que interessa e aos 50 anos de fundação da “minha” universidade. De facto, criada em 1973 pelo decreto-lei n.º 402/73 de 11 de agosto, que criaria quatro instituições universitárias (Universidade do Minho, Universidade de Aveiro, Universidade Nova e o Instituto Universitário de Évora), a UM seria uma das 4 novas instituições que se juntaria às outras quatro já existentes no Porto, Coimbra, Lisboa e Técnica. Novas universidades que desde 14 de Abril de1970 eram reivindicadas na Assembleia Nacional pelo deputado da ala liberal Miller Guerra. Nessa altura, no início da década de 70. Guimarães limitava-se, pela voz da Sociedade Martins Sarmento, a lutar pela criação de uma Faculdade Tecnológica e reivindicar a criação de Faculdade de Letras e Ciências Sociais, enquanto a Câmara Municipal exigia o cumprimento da promessa de uma escola de enfermagem. Porém, só no ano seguinte ao decreto da fundação, concretamente em 17 de fevereiro de 1974 (atual Dia da Universidade), seria empossado o reitor Carlos Lloyd Braga, vindo da Universidade de Lourenço 485
Marques, bem como a Comissão Instaladora da Universidade do Minho (CIUM), na qual teria assento Duarte do Amaral, que nesses tempos se confrontaria com o comendador Santos da Cunha. Ora, na altura e circunstância, ficaria desde logo expresso, que as “artes, letras, ciências sociais, organização e gestão, e algumas ciências puras em Braga, e (o) departamento de ciências aplicadas e de tecnologia em Guimarães, sem esquecer a possibilidade de (se) estudar construção naval em Viana do Castelo”. No entanto, o primeiro ano letivo viria a iniciar-se em 16 de dezembro de 1975, já no período conturbado do processo revolucionário em curso (PREC) do pós-25 de Abril. Como é óbvio, numa fase de forte instabilidade social e política, que, em paralelo com outros interesses de foro político e ideológico, causariam problemas diversos. Curiosamente, data também deste período a nomeação de Santos Simões para a CIUM, na sequência da exoneração solicitada por Freitas do Amaral e iniciar-se-iam as aulas com a oferta formativa autorizada pela tutela, centrada em três áreas privilegiadas: formação de professores; línguas vivas; e tecnologias, focadas em três ramos de especialização (Metalomecânica, Sistemas e Têxtil). Porém, cursos limitados ao bacharelato, com a duração de 6 a 8 semestres, ainda que futuramente se admitisse a sua extensão“ a curto prazo de cursos de licenciatura”, como viria a suceder nos finais dos anos 70, altura em que se acrescem os novos cursos de Relações Internacionais e Gestão de Empresas. Das disputas à bipolarização Porém, mesmo antes do início das atividades letivas muita tinta correria quanto à localização da Universidade do Minho, numa autêntica “bernarda” minhota, entre as hostes vimaranenses e bracarenses, a fazer lembrar os vários conflitos brácaro-vimaranenses de outrora, nomeadamente o de 11 de novembro de 1885 em que os procuradores Vimaranenses Conde de Margaride, Dr. José Joaquim de Meira e José Queirós (Minotes) seriam apedrejados em Braga por divergências de interesses. Com efeito, logo em dezembro de 1973 o jornal “Novo Rumo” abria as hostilidades com o sugestivo título “Universidade do Minho? Universidade de Braga? Ou falta de coragem para chamar as coisas pelo seu nome”. Rebentava assim a controvérsia quanto à localização da Universidade que a CIUM desde Fevereiro de 1974 definia como “difícil e delicado”, decidindo entregar o assunto a uma empresa especializada. De facto, a empresa Profabril acabaria por apresentar um estudo que apontava para a instalação da universidade nas Taipas, por se considerar a hipótese mais vantajosa. Porém, instâncias como o Gabinete do Plano da Região Porto e os jornais de Braga como o “Correio do Minho” e o “Diário do Minho”, logo se manifestariam contra a solução. 486
Efetivamente, por questões bairristas e técnicas, a Comissão Administrativa da Câmara de Braga desdenharia a proposta da Profabril, considerando essa opção uma “ofensa para a democracia e causa de divisionismos entre as populações”. Leitura dos factos que obviamente trariam água no bico, uma vez que apenas desejavam expressar que, geograficamente, as Caldas das Taipas pertenciam ao concelho de Guimarães! Seriam então apontadas opcionalmente vantagens para a implantação do edifício universitário junto a Braga (Quartel do Picoto) ou Guimarães (Urgeses), destacando-se desde logo (e sub-repticiamente) que os terrenos bracarenses seriam mais favoráveis, uma vez que pertenciam ao Ministério do Exército. E como o povo sói dizer que de “Braga nem bom tempo nem bom casamento”, soam então os alarmes em vimaranenses, vindo a terreiro os jornais como o Comércio de Guimarães e o Notícias de Guimarães, que chamam a atenção para as “ações subterrâneas” em curso, arrastando-se a situação com prós e contras políticos e técnicos de um lado e outro, cada qual em defesa da sua dama. Todavia, em 5 de dezembro de 1975, um despacho do ministro da Educação e Investigação Científica, Vítor Alves, coloca um ponto final na questão, optando pela bipolarização em desfavor do modelo de concentração defendido pela CIUM. Uma decisão que obviamente viabilizava a implantação em Guimarães dos cursos de Tecnologia (Engenharias) e concomitantemente imputaria à Câmara Municipal de Guimarães a apresentação de propostas concretas com vista à concretização de instalações definitivas da universidade, no decurso de 1976, tendo por objetivo a subsequente adjudicação em 1977. No fundo, uma decisão que trazia para Guimarães uma universidade (ou talvez apenas uma escola universitária), uma vez que se limitava a atribuir à cidade uma Escola de Engenharia, ou seja, como diria sapientemente Santos Simões anos mais tarde, a ter “apenas uma tabuleta, e uma Escola extremamente prestigiada, mas votada a um isolamento científico que em nada contribui para a sua afirmação universitária”. Como constatamos e como seria de esperar as polémicas não parariam e a (contra)argumentação de ambas as partes em confronto prosseguiriam nos jornais, folhetos e instituições das duas terras minhotas rivais, como a Unidade Vimaranense e a Associação Dinamizadora dos Interesses do Minho (leia-se Braga), a digladiarem-se em arena, em nome de ambas as cidades. Contestava-se ainda institucionalmente a opção pela bipolarização, que a própria CIUM rejeitaria, por defender a concentração, de tal forma que acabaria por colocar os seus lugares à disposição da tutela, sublinhando que seria uma “solução incompatível com o conceito que sempre defendeu de Universidade, a menos que o Governo considere possível (…) instalar duas universidades a 20 quilómetros de distância uma da outra”. A cessação de funções do VI Governo Provisório de Pinheiro de Azevedo e a subsequente assunção de funções de Mário Soares como primeiro-ministro do I Governo Constitucional leva a novas movimentações. 487
Porém, em setembro de 1976, uma resolução do Conselho de Ministros do Governo Constitucional definiria perentoriamente: “a criação de uma Universidade de tipo bipolar para o Minho, com um polo em Braga e outro em Guimarães, pode aproveitar, com utilidade, do ambiente humanista bracarense, e do pragmatismo industrial da zona de Guimarães”. Guimarães ofereceria então o Palácio de Vila Flor para instalações provisórias dos cursos tecnológicos nos inícios de 1977 e uma empresa especializada é contratualizada para proceder aos estudos de implantação da universidade em ambas as cidades, cujas cerimónias de lançamento das primeiras pedras ocorreriam respetivamente em Azurém a 24 de novembro de 1985 e em Gualtar, em 22 de março de 1986. Entrementes, em 1987, novo passo em frente se enceta nesta caminhada. Com efeito, o Senado Universitário de 24 de março determina o funcionamento de todos os cursos de Engenharia no campus de Azurém (pois antes apenas funcionavam em Guimarães os anos terminais), tendo como exceção dos cursos de Engenharia de Sistemas e Engenharia Biológica que se mantinham no campus de Gualtar. Simultaneamente, analisaria propostas de criação de novos cursos “em áreas não tecnológicas ma com afinidades com ramos de engenharia”, que mais tarde se viriam a consumar o curso de Geografia e Planeamento, bem como em Arquitetura, Era o ponto final nas contendas e o início do processo de maturação e crescimento. Novos ventos Deste modo, após o mestrado em História das Populações e a criação do curso e de Geografia e Planeamento e ainda a Escola de Arquitetura, Arte e Design e provas dadas no âmbito das Engenharias (civil, eletrónica industrial e computadores, gestão industrial, telecomunicações e informática, materiais, têxtil, engenharia aplicada e polímeros ), a que se juntam recentemente os cursos de Artes Performativas e Visuais instalados no requalificado Teatro Jordão/antiga Garagem Avenida, Guimarães afirmar-se-ia como uma universidade de facto, que atualmente conta com cerca de duas dezenas de cursos nos campi de Azurém e Couros e milhares de alunos. Atualmente projeta-se instalar na ex-fábrica do Arquinho o funcionamento do curso de Engenharia Aeroespacial que lançará a cidade para outros espaços. Todavia, a cidade oferece ainda cursos técnicos superiores profissionais no Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA) em concreto nas instalações do Avepark, onde se implanta a Escola Técnica Superior Profissional e funciona o grupo de investigação 3B’s, ligado à Universidade do Minho. Neste local prevê-se também instalar uma residência universitária com cerca de 160 camas 488
Outrossim e recentemente, foi lançada a Escola Superior de Hotelaria e Turismo, sob a alçada do IPCA, que decorrerá da refuncionalização da Casa do Costeado e espaços adjacentes, na emblemática Cruz da Pedra, bem como se projeta a construção de uma residência universitária da antiga escola primária de Santa Luzia, dotada com cerca de 350 camas. Guimarães retomava assim a tradição universitária que funcionara no Real Mosteiro da Costa no século XVI, sob alçada do prior Diogo de Murça, que seria criada pelo alvará do rei D. João III, em 1541.
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Universidade do Minho Cinquentenário mais silencioso do que o quarentenário Barroso da Fonte
Remorsos de um nascimento atribulado? Se não é, parece. A Universidade do Minho está a comemorar o meio século de atividade. Teve um nascimento com altos e baixos. Mais baixos do que altos. Veiga Simão foi um político certeiro, providencial e corajoso, quase messiânico, visão que esteve na origem da profunda reforma na Educação Nacional, ao criar 10 Politécnicos e 9 Escolas Normais Superiores. Um ano antes da revolução dos cravos, na qualidade de ministro da educação, visitou as universidades de Lourenço Marques e de Luanda, de onde regressou decidido a reestruturar o ensino em Portugal. Com essa decisão procurou reformular as estruturas físicas, os métodos e até as mentalidades. Sabia inclusive que, por exemplo, no distrito de Braga, os dinheiros públicos vinham, por tradição, ao cuidado do governo civil. Este representante distribuía aquilo que era de todos, apenas por alguns. E esses vícios chegavam, a conta gotas, cumprindo uma tradição, contra natura, que foi um dos maiores defeitos do regime, cuja duração se previa trémula e decadente. Veiga Simão, alertado para esses defeitos, evitou que se repetissem, em Braga, onde Santos da Cunha pontificava, desde há muitos anos, e se sentia de pedra e cal. Para evitar que esses vícios prevalecessem nesse distrito, o Decreto-Lei nº 402/73, que determinava as regras da implementação da Universidade do Minho, teve o cuidado de acometer essa tarefa à Profabril Consulplano Goupe: «o estudo de localização da Universidade do Minho, 1974». Aconteceu aquilo que se previa: o estudo elaborado pela Profabril Consulplano Goupe elegeu o campus universitário da zona das Taipas, situado entre Guimarães e Braga. Mas, entretanto, Veiga Simão perdeu a força política do Estado Novo que o golpe de Abril varreu do mapa. Braga caldeou «deus pagão e o diabo». Nunca essa (ou outra) universidade averiguou quem teve mais força: se o fascismo, se o Prec. O que se ficou a saber foi que, pela calada da noite, a Comissão instaladora da UM se instalou no Largo do Paço (em Braga) e nunca mais de lá saiu, no meio século que está a cumprir-se. Guimarães movimentou-se, saiu à rua, por diversas vezes, confiando à Unidade Vimaranense a coordenação das suas legítimas reivindicações. Quando o Prec tinha encostado à parede, surgiu o Grupo dos Amigos de Guimarães que não requereu estatuto jurídico, mas alentou a Unidade Vimaranense, dando força e argumentos fortes para que o jornal dessa Unidade e outros, como o Notícias e 490
o Comércio de Guimarães, e, mais tarde, O Povo de Guimarães e o Toural, mais os três diários do Porto: JN, Comércio e 1º de Janeiro, repercutissem a ira, o furor e o descontentamento do concelho de Guimarães. Deste ciclone provocado pela junção, quase simultânea, da reestruturação do ensino, com a revolução política, resultaram consequências nefastas para o historial da Universidade do Minho. A reestruturação de Veiga Simão foi oportuna e benéfica, vista à distância de meio século. Mas desastrosa para os dois concelhos mais importantes do Minho: Braga apropriou-se daquilo que foi criado para ser construído no concelho de Guimarães. Braga cantou vitória com a apropriação do campus universitário das Taipas. Guimarães lutou, honestamente, para recuperar a estrutura urbana mais importante do Minho. A justiça perdeu a favor da tradição. Os primeiros anos foram turbulentos, inseguros, rancorosos e persecutórios. Braga apenas não conseguiu que a Universidade fosse exclusivamente sua. Ela nasceu como Universidade do Minho porque, à partida, era para ter mais o polo náutico em Viana do Castelo. A democracia minhota criou muitas e graves lesões. Para levar a cruz ao calvário houve muitas falcatruas e injustiças que a história encomendada, paga e distribuída pela Fundação Carlos Lloyd Braga ignorou. Essas omissões, devidamente tratadas, como a história exige nas grandes causas, dariam um segundo volume. É a verdade histórica que o recomenda aos profissionais. Essa grave lacuna merecia um outro livro. Deveria ter saído, pelo menos aos 50 anos. Não tendo saído, tudo o que de mau se passou ficará omisso para sempre. E o papel científico das universidades consiste, acima de tudo, em apurar a veracidade de tudo aquilo que se pretende saber. As omissões que nunca serão averiguadas Em 2014 foi editado e distribuído um volume de 416 páginas, com capa dura, em formato 19x25, com sobrecapa, cor de vinho tinto, intitulado: História da Universidade do Minho 1973/1974 - 2014. A coordenação foi da responsabilidade de Fátima Moura Ferreira e, na ficha técnica, menciona os coautores: Fátima Moura Ferreira, Henrique Barreto Nunes, Márcia Oliveira, Maria Manuel Oliveira e Rita Ribeiro. A edição foi da Fundação Carlos Loyd Braga e a obra apareceu no mês de Junho de 2014. Relativamente à capa: «a partir de inventariação de manchas (das possíveis localizações da Universidade do Minho), Profabril, Estudo de Localização da Universidade do Minho, Junho de 1974». A impressão esteve a cargo da NORPRINT – a casa do livro. Graficamente bem estruturado, bem impresso, com mapas e gráficos enriquecedores e meia centena de fotografias que se justificam, mas que, ao leitor mais informado, geram alguma perturbação. Estando a UM dispersa por Braga e Guimarães e sendo Guimarães e Braga, à data da criação da Universidade, equivalentes em população e em orçamentos municipais, por que motivo a cidade dos arcebispos tem o dobro do 491
espaço e das fotografias? Tive o cuidado de contá-las e, daquelas que, mesmo não tendo legenda, são fáceis de identificar, Braga está representada por 16, contra 8 de Guimarães. Mas este é, dos desequilíbrios, o menos grave. Como cidadão que vive em Guimarães há cerca de 60, mas que estudou em Braga durante treze anos, nove dos quais na UM; como ex-vereador da Câmara de Guimarães, ao tempo em que o Polo de Azurém, em Guimarães, estava em construção, motivo pelo qual os primeiros anos funcionaram no edifício de Vila Flor; como jornalista que se radicou na cidade berço, ao tempo em que a UM foi fundada por Veiga Simão, em 1973, tive a sorte de acompanhar, de perto, a sua instalação. Pelas funções que exercia, fui sempre, uma espécie de vigilante de serviço. Nuns casos, como político autárquico, com o pelouro da Educação, participei em muitas e variadas decisões; noutras, como jornalista, quer na imprensa regional, quer no JN, de que fui correspondente concelhio, entre 1975 e 1982, escrevi e assinei muitas dezenas de artigos de Notícia saída no Jornal de Notícias de 14 de novembro de 1984. opinião, dos quais nunca me arrependi, embora tenha sido o único cidadão português alvo de um processo judicial, durante seis anos. Estão vivos os dois advogados que, em nome de Guimarães, me representaram, até que nesse processo, quando já estava marcado o julgamento, recaísse o despacho de «arquivado sine die» até que fossem julgados dois outros processos que se encontravam no JIC, em Braga, em segredo de Justiça, mas estes contra Lloyd Braga, movidos pela Judiciária e por denúncias que a imprensa fez. Estávamos em Março de 1981. Esperava que os 40 anos de História falassem disto tudo... 492
Enganei-me rotundamente. Esperei pelos 50 anos. A esmagadora maioria de quem já passou pela Universidade do Minho, apenas conhecerá 50% daquilo que se passou. Os outros 50% prescreveram. Os processos que a Judiciária moveu ficaram, para sempre, em segredo de Justiça? O signatário que os denunciou nunca chegou a saber de nada. Mas, ele próprio foi substituído. E os Vimaranenses que foram vilipendiados, o que ficaram a saber foi que o reitor Lloyd Braga, democraticamente, passou a ser o patrono da Fundação com o seu nome. E o livro dos 40 anos foi pago por essa Fundação para branquear todos os «pecadilhos» que os dois processos implicaram. Quando soube da existência do livro, que veio explicar aos PortuArtigo de O Cávado, edição de 30 de abril de 1981 gueses como nasceu a UM, procurei-o nas livrarias de Guimarães e de Braga. Em todas fui informado de que não o tinham. Acabei por ter acesso ao exemplar, através de um amigo, e somente anos depois. Logo o folheei e «farejei», à procura de «presa» que, pelo cheiro, se sabe existir. Como gato escaldado de água fria tem medo, desde logo percebi que «em casa de ferreiro, espeto de pau». Falando em português da minha geração, mal peguei no livro, logo me lembrei da parábola do
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evangelho, quando alude aos sepulcros caiados por fora e pútridos por dentro. Quem esta narrativa conta, passou este meio século à espera de conhecer os resultados do trabalho que empreendeu enquanto jornalista. Bateu-se, porfiadamente, por uma causa justa e de que seria cobarde e medroso, se não lutasse pela ética jornalística. Gostei do livro dos 40 anos, como documento gráfico. Nada a opor. Mas bastou uma primeira olhadela para concluir que, ao contrário do que se ensinava no meu tempo, quando se fazia uma tese académica, se construía uma maqueta e um esqueleto temático, com divisões e subdivisões, com bibliografia ativa e passiva, com sumário inicial e índice no fim, com notas de rodapé ou pés de página. Ou seja, praticava-se «a metodologia de um trabalho científico» que o autor do livro com esse título, saudoso Júlio Fragata, escrevera e exigia que se praticasse. Fui seu aluno e muito me ensinou. Depois dele, surgiram no mercado muitas obras, de diversos autores, nacionais e estrangeiros. De uma maneira geral, todos recomendam essa teoria. Mas na prática, sobretudo desde que chegaram ao mercado os programas informáticos, com a papinha feita, desde que se clic num tema, logo há páginas e páginas, de fontes, algumas duvidosas. Se, ao menos, houvesse o cuidado de selecionar, desse turbilhão, uma triagem criteriosa e se refizesse a digitalização, ainda se compreenderia. Mas alguns pretensos investigadores, nem a esse trabalho se Artigo de Henrique Robles no Diário do Minho, edição de 19 de abril de 1981. 494
dão. E é hoje um vício que se estampa em teses que se apresentam e que passa despercebido a alguns membros dos júris.
Notícia publicada no Jornal de Notícias de 7 de junho de 1981.
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Não trago à liça este vício que ganhou foros de oficialidade, a pretexto da citação das fontes neste volume concreto. O que aparece nas páginas 393/411 não me perturba. Acho-o até meritório. O que me desilude é a tendência para historiar quatro décadas de uma Instituição de Ensino Superior, omitindo as inconveniências. Que existem e não são poucas, nem insignificantes. Obra de uma das mais prestigiadas universidades Portuguesas, regularmente mencionada nos estudos comparativos, quer a nível nacional, quer internacional, como das mais qualificadas desse universo, esperava eu e quantos acompanharam a sua instalação, crescimento e valia científica, como foram esses 40 anos de atividade. Coetânea da democracia portuguesa, a Universidade do Minho nasceu do Decreto-Lei 402/73, da responsabilidade do Prof. Veiga Simão, cuja marca prevaleceu sobre essa nuvem de rancor contra os 48 anos de obscurantismo a que muitos intelectuais continuam a agarrar-se. Dessa corajosa decisão política estão hoje a colher-se os frutos. E é por isso que, sendo este livro a bíblia desta grande instituição científica, deverão refletir-se nele os méritos e deméritos, aquilo que correu bem e aquilo que poderia correr melhor. Só desta forma deve saudar-se um trabalho sério, coerente e, cientificamente, recomendável. Ao trazer à liça esta preocupação seletiva numa obra concebida, executada e encoberta numa capa da cientificidade, deveria respeitar os diferentes ângulos de visão que tal tarefa implica. As inconveniências ficaram no índex Quem, como o autor desta recensão, viu nascer e acompanhou, pari e passu, a evolução da UM e lê esta História dos seus 40 anos, fica defraudado. Talvez mais triste do que assim-assim. E por várias razões. Em primeiro lugar branqueia a irreparável injustiça cometida contra Guimarães. Por diversos motivos, a Profabril foi a empresa incumbida de estudar o terreno mais indicado para a instalação da UM. Veiga Simão pensou coerentemente: abrir uma Universidade para o Minho e outra (Instituto Politécnico, mais tarde universidade) para Trás-os-Montes e Alto Douro. A revolução de Abril chegou na hora crucial. Em vez de acabar com a tradição do predomínio político de Braga contra o resto do Minho, veio dar-lhe mais força. E os seguidores de Santos da Cunha tiveram engenho e arte para ignorar a resolução da Profabril que aconselhava o Campus das Taipas, como sede da universidade. Da noite para o dia, enquanto os capitães de Abril geriam o país, esses herdeiros bracarenses da tradição que vinha desde os tempos medievais marcaram terreno, instalando a sede, em Braga, no Largo do Paço, «que tudo encrava e nada resolve», como diria, mais tarde, um alto docente da UM, num documento interno que, pela nossa mão, chegou primeiro à opinião pública do que aos departamentos internos, aos quais se 496
destinava. Esse período obscuro nunca foi aclarado. E deveria sê-lo neste volume, onde continua a ser tabu. Em segundo lugar, o atrofiamento que Braga sofreu, instalando casebres de tábuas, ao longo da via circular nascente, mais parecendo sanzalas africanas do que salas do ensino superior público. A par desses pré-fabricados que – felizmente – desapareceram logo que construíram o «campus», a UM dispersou-se por vários edifícios urbanos, alguns dos quais ainda se mantêm. Este volume deveria falar disso, ilustrando essa fase com fotos reais, quer daqueles pré-fabricados, quer dos diferentes edifícios que foram importantes para dignificar a Cidade de Braga. Ao tempo, esta cidade tinha menos população do que Guimarães, quer a nível urbano quer concelhio. Nestes 40 anos, Braga ultrapassou Guimarães a todos os níveis, devendo-se muito ao polo universitário que catapultou a cidade para parâmetros inimagináveis. Qualquer cidade gostaria de receber, de mão beijada, uma dádiva dos deuses. E os Bracarenses, para tristeza dos Vimaranenses, souberam aproveitar a confusão da mudança de regime político para levarem a sua carta a Garcia. Guimarães fez das tripas coração Daí que tenha sido necessário, por parte da cidade que se orgulha de ter sido a Capital histórica de Portugal, movimentar-se para reclamar, pelo menos, metade da Universidade do Minho. Para tanto foi a Unidade Vimaranense, associação cívica que nascera em 1970, para neutralizar «guerrilhas de alecrim e manjerona», que teve de liderar contestações de rua, sempre ordeiras e democráticas, com os seus líderes carismáticos à frente. Fez-se o alarido suficiente que foi repercutido pela imprensa diária e regional. Dessa porfiada combatividade em que o signatário foi porta-voz, no Notícias de Guimarães e no Jornal de Notícias (do Porto), houve intimidações jurídicas de diversa ordem e um processo judicial que durou seis anos. No JN de 22/3/1981 leu-se essa notícia em subtítulo: «Julgamento por abuso de Liberdade de Imprensa. Terá amanhã lugar no Tribunal desta comarca, a partir das 14 horas, o julgamento do colaborador do semanário Notícias de Guimarães, Barroso da Fonte, e ainda o diretor do mesmo semanário Antonino Dias Pinto de Castro. O processo foi posto em 1978 pela Comissão Instaladora da Universidade do Minho, considerando-se essencialmente atingido o Prof. Lloyd Braga, na sua qualidade de reitor».
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Conservo centenas de recortes do JN, do Notícias de Guimarães, do Expresso e de revistas, cronologicamente ordenados, desde que o Largo do Paço começou a funcionar como sede da Comissão Instaladora da «Universidade de Braga». Inicialmente quiseram os mais acérrimos defensores de Braga que tivesse esse nome. Sabiam que Coimbra, Lisboa, Porto e Évora acolhiam, nos seus chãos, essas Instituições científicas.
Artigo saído no jornal Alto Tâmega, edição de 10 de Dezembro de 1981, que transcreve, na íntegra, a intervenção do deputado vimaranense Lemos Damião na Assembleia de República.
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Braga, nem de perto, nem de longe, aceitaria ver a Universidade criada pelo último governo do Estado Novo, instalada no concelho de Guimarães. Veiga Simão sabia, pelo Presidente da Câmara de Guimarães da época, Bernardino Araújo Abreu, que, se não fosse o legislador a fixar o local, o poder absoluto iria chamar-se «Universidade de Braga». Desde que a cidade dos arcebispos foi capital do distrito, os seus capatazes serviam-se dos benefícios distritais. Só depois de bem servidos, distribuíam pelos restantes concelhos. Já vinha, desde os tempos medievais, desde a guerrilha entre os arcebispos de Braga e os priores de Nossa Senhora da Oliveira. O arcebispo de Braga (1550-1558) Baltazar Limpo chegou a vir a Guimarães, devidamente armado, para obrigar os Priores da Colegiada de Guimarães a obedecerem-lhe. Mais próximo de nós, na tentativa de alterar essa subserviência imposta pelos comandos de Braga aos restantes cidadãos do distrito, Guimarães chegou a movimentar-se para que a capital história de Portugal pertencesse ao distrito do Porto. Em 1970, espontaneamente, surgiu outro movimento reivindicativo, no sentido de não aceitar mais subserviências a Braga. O então presidente da Câmara de Guimarães, em sintonia com essoutro movimento, formaram uma frente comum, no sentido de, de uma vez por todas, encontrarem consenso ideológico para libertar o mais rico e populoso concelho do distrito a negociar diretamente com Lisboa. Esse movimento chamou-se Unidade Vimaranense. O primeiro impacto partiu de Veiga Simão, ministro da educação, que apresentou ao país um novo e revolucionário programa de formação nacional que criava 10 institutos politécnicos e 9 escolas normais superiores. Em relação aos institutos, houve algumas escolas que foram reconvertidas e outras criadas. Os 10 Institutos foram: Covilhã, Faro, Leiria, Setúbal, Tomar, Vila Real, Coimbra, Porto, Lisboa e Santarém. As Escolas normais foram em: Beja, Bragança, Castelo Branco, Funchal, Guarda, Lisboa, Ponta Delgada, Portalegre e Viseu. Na qualidade de Ministro da Educação Nacional, José Veiga Simão, a convite dos Governadores de Angola e de Moçambique, visitou as Universidades de Luanda e de Lourenço Marques, em novembro de 1970. No regresso a Lisboa e logo no aeroporto, Veiga Simão comenta a viagem, transmite às entidades nacionais a satisfação que viu e sentiu, nessas duas universidades portuguesas e, por último, disponibiliza-se para retratar a política de educação que Portugal está a desenvolver na África Portuguesa. Veiga Simão aplaudido de pé, embora triste por subtração da sede Foi, pois, esse governante que, em 11 de agosto de 1973, criou a Universidade do Minho, reunindo, no Decreto-lei nº 402/1973, toda a influência dos altos quadros do regime, que conjugou, na véspera do golpe de estado de 25 de Abril de 1974. Essa viragem política era esperada. E Veiga Simão prenunciou-a quando regressou de Lourenço Marques 499
e de Luanda. Por um lado, não sentiu oposição em pôr em prática a filosofia daquele Decreto. Marcelo Caetano e toda a oposição do Estado Novo se rendeu ao ousado projeto desse Ministro que tinha ideias e plano aprovados, em Agosto de 1973. A revolução política mexeu mais com as pessoas do que com as atividades nacionais. Por um lado, o governo militar reconheceu que, relativamente à educação, não deveria sofrer alterações substanciais. Veiga Simão foi o único ministro que se manteve a trabalhar e que a imprensa da época elogiou. Cuidou – isso sim – de implementar o decreto reformador que criava os 10 Institutos Politécnicos e as 9 escolas normais. Não tinham ficado bem esclarecidos os graus superiores, entre os Institutos Politécnicos e as Escolas Normais. Este DL 482/79, de 14 de dezembro, veio determinar que a Universidade de Évora era extinta e passava a chamar-se Instituto Universitário de Évora. O Decreto Lei 482/79, de 14 de Dezembro, distingue dois tipos de estabelecimentos de ensino superior oficial: «os do ensino universitário, genericamente designados por Universidades, e os de ensino não universitário, designados por Institutos Politécnicos, Escolas Normais Superiores e outros equiparados, tendo aos primeiros sido dada a faculdade de conferirem os graus académicos de bacharel, licenciado e doutor e aos segundos a de conferirem unicamente o grau de bacharel».
Entre a publicação do Decreto-Lei 402/73, de Veiga Simão, e o despacho do seu substituto, Major Vítor Alves, que criou os dois polos, entre as duas cidades Minhotas e entre os «velhos» e «novos» políticos e técnicos dirigentes, viveram-se tempos para esquecer. Ainda hoje, meio século depois, não desapareceram, entre cidades, instituições e pessoas, os insultos, os ódios e as perseguições. Além da Unidade Vimaranense e dos jornais da região, gerou-se um movimento popular, liderado pelos Amigos de Guimarães. A sua política era «Guimarães»! Apartidário como sempre se manteve, só a sua cidade o preocupava e lhe preenchia os dias, os meses e os anos. Esse grupo tomou a iniciativa de convidar o ex-ministro Veiga Simão para vir ao norte, informar-se e informar o rumo que o bairrismo seguira. Há faturas de alguns encargos com essa visita de Veiga Simão, que veio reafirmar as razões pelas quais tanta movimentação acabou por levar o então ministro da Educação, Major Vítor Alves, a legislar três polos para a UM: Braga, Guimarães e Viana do Castelo. Em Viana ficaria a extensão náutica, em Guimarães as ciências tecnológicas e em Braga as Letras. Viana não resistiu a tanta confusão e desistiu. Guimarães teve de comprar o antigo edifício solarengo de Vila Flor, onde funcionaram as aulas, mais tarde iniciadas, até que foi concluído o Campus de Azurém.
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Braga resistiu ao feitiço estado-novista Braga foi o confessionário, a sacristia e o amplo adro, nesse período do PREC. Mesquita Machado, ao seu estilo, sempre vencedor, enquanto presidente da Câmara, falava pouco, gesticulava muito e, cortando a
Artigo de Ademar Ferreira do Santos no semanário Expresso, edição de 29 de agosto de 1981.
direito, sempre fez por Braga aquilo que o poder político central, por solidariedade política, ordenava. Até Guterres, Jorge Sampaio e António Magalhães retiraram a Guimarães o concelho de Vizela, para Guimarães 501
perder população a favor de Braga. Santos da Cunha, que fora uma espécie de grão-mestre distrital do Estado Novo, passou a ter uma estátua, ao nível dos prédios mais altos da cidade dos arcebispos. Até à substituição do Prof. Lloyd Braga, a UM viveu tempos conturbados. Foi nesse período de clarificação social e política que Braga se adiantou. De tal maneira que Viana do Castelo se desinteressou da extensão naval. E Guimarães, tendo direito a, pelo menos, metade da Universidade do Minho, foi relegada para polo secundário. Para exemplos basta recordar que os funcionários de Guimarães iam receber a Braga; as viaturas destinadas a Guimarães eram compradas em Braga; e a Braga tinham que ir fazer as revisões, reparar as avarias e até os alunos de Guimarães, para conhecerem as condições de acesso ou outras do género, tinham que ir a Braga informar-se. Enfim, um polo que deveria ter, desde a nascença, estatuto de maioridade, equidade e justiça e que, na prática, nunca tal sucedeu. Os primeiros anos foram dramáticos. E, na edição do Expresso de 17 de Outubro de 1981, a própria Comissão instaladora, tentando contestar artigos veementes de Ademar Ferreira dos Santos, concordam que essas anomalias «resultavam, antes, de deficiências de funcionamento dos órgãos de gestão e revelavam o propósito de conferir maior rapidez...». Ora nada disto aparece transposto no livro que pretendeu relatar os 40 anos de existência e de funcionamento da Universidade do Minho. Contra factos não há argumentos Nada me move contra a UM, contra qualquer docente ou funcionário administrativo. Pelo contrário. Paguei propinas oito anos, como cidadão discente, quer no mestrado, quer no doutoramento. Ainda paguei mais dois anos, já no pós-Bolonha. Digo isto para me congratular com a maneira desinibida, afável e eficaz como se trabalha na UM. Refiro-me ao Campus de Gualtar, que foi aquele que frequentei. Esperaria eu e muitos vimaranenses que esta obra registasse tudo: a cronologia e os factos mais sensíveis desta importante Instituição. E que relatasse o bom e o mau. Os nossos filhos, netos e bisnetos gostariam de saber a história verdadeira e completa das escolas que frequentámos, nós e eles. A UM já teve milhares de alunos nestes cinquenta anos que estão a decorrer. Se aos quarenta anos a UM já tinha matéria para gastar, no melhor livro da sua História, seria de esperar que aos cinquenta anos encomendasse – aos mesmos ou a outros autores – um segundo volume, do mesmo género gráfico daquele que foi distribuído aos amigos, pois procurei-o, mas livrarias de Guimarães e Braga, e em nenhuma o encontrei à venda. Mas com uma falha imperdoável: já em 2016, numa recensão que tornei pública, lamentei o que hoje 502
aqui repito: esse primeiro volume deveria ter o título da «História das conveniências». E, dez anos depois – uma vez que essas muitas e graves inconveniências não foram corrigidas, nem reparadas – a UM tinha obrigação jurídica, literária e moral, de aparecer um segundo volume, com as «inconveniências». Daí que lamente, publicamente, a ausência das entrevistas, dos artigos de opinião, das reportagens e de outros apartes que se passaram nesses decisivos primeiros anos, principalmente entre 1974 e 1982. Tenho pena que como jornalista, com 70 anos de tarimba, como ex-diretor da Delegação do Norte da Comunicação Social, como diretor de vários jornais e revistas, nomeadamente: do Comércio de Guimarães, da Revista Gil Vicente, da Voz de Guimarães e como representante do Jornal de Notícias (1975-1982) não veja documentados esses testemunhos. E não só os meus. Também e sobretudo os do Prof. Ademar Ferreira dos Santos, através de páginas e páginas do Expresso. Infelizmente já não está entre nós. Se ele estivesse vivo e analisasse este livro, cairiam o Carmo e a Trindade. Mas houve mais, muitos mais jornalistas, como Manuel Dias e Américo Diegues que, no JN de 53-1980, assinaram e ilustraram uma série de 9 longos artigos, dois dos quais intitulados: «Polo Universitário só atrai frustração» e «Problemas da Universidade prometem continuar por uns anos». Muitas outras pu- Capa do livro citado ao longo do texto: "História da Universidade do Minho 1973/1974-2014" blicações periódicas editaram notícias pouco abonatórias a esse período negro. Nenhum desses locais que faziam propostas, apontavam caminhos, enunciavam sugestões, mereceram figurar entre estes relatos que se leem religiosamente como as invocações dominicais. Será que as co-autoras desse primeiro volume não tiveram acesso às publicações impressas? Terão as co-autoras recebido instruções para prescindirem da imprensa da época, que nos primeiros anos publicitaram mais reparos do que elogios? 503
Os 50 anos31 da UM estão a decorrer. Será que a Universidade do Minho vai colmatar a ausência das «inconveniências» históricas, que não couberam no primeiro volume?
31 Como se fala, cada vez menos, do meio século da Universidade do Minho, sobretudo desde que, há dez anos, se publicou aquele livro (que
a capa supra da página anterior mostra), com um título excessivamente pretensioso, devo felicitar a direção desta revista pela oportuna ideia que teve de propor este tema: a UM, cuja criação, a seguir à revolução dos Cravos, foi das mais importantes efemérides que o Minho teve nestes cinquenta anos. Não se culpa o 25 de Abril pelo imbróglio que criou. Mas foi, sub-repticiamente, contrário à política que, nesse meio tempo, permitiu favorecer o invasor. Braga, em nome da metáfora que a Rússia usou para com a Ucrânia, apossou-se da traição para reverter o espírito do DecretoLei nº 402/73. Guimarães, que desde há séculos produzia riqueza, a todos os níveis, para Braga distribuir, sofreu mais um duro golpe. E, graças a essa metáfora, mais a mesma teoria de fazer a «lei à medida da conveniência», o então mais rico concelho do distrito, Guimarães, perdeu Vizela e perdeu, irremediavelmente, população, a favor do concelho de Braga.
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A importância do terceiro setor na promoção dos direitos humanos Tânia Salgado Presidente da ADDHG – Associação de Defesa dos Direitos Humanos de Guimarães
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) celebra, em 2023, no dia 10 de dezembro, 75 anos de existência. Assinada em 1948, este documento histórico é a base da dignidade, da liberdade e do respeito de toda a humanidade. A declaração foi adotada no contexto pós-guerra, num mundo abalado pelas atrocidades cometidas durante a II Guerra Mundial, num esforço para reafirmar os direitos fundamentais dos seres humanos e o comprometimento dos países para protegê-los. A DUDH é assim um documento de grande importância histórica e política, que proclama os direitos inaliáveis de todos e todas – independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), estes direitos constituem-se em leque alargado: “Os direitos Humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre muitos outros. Todos merecem estes direitos sem discriminação”. Decorrente da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), de 1948, a expressão “direitos humanos” tem sido frequentemente adotada, representando o paradigma máximo do respeito pela dignidade de cada ser humano, numa procura constante e fraterna de justiça e paz, liberdade e igualdade. Transcrevemos o celebrado art.º 1.º desta histórica declaração, tantas vezes mencionado nas mais diversas ocasiões solenes do quotidiano Internacional e Nacional: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Esta perspetiva ideal de contornos utópicos – uma “hegemonia global”, de acordo com Boaventura de Sousa Santos –, encontra-se em confronto, constantemente a nível global, com a realidade de tantos que se veem frequentemente privados das condições básicas de vida, são vítimas de violência, discriminação ou vivem em condições totalmente desumanas. Atualmente, de acordo com o líder das Nações Unidas, António Guterres, o mundo enfrenta desafios interligados e sem precedentes na área dos direitos humanos, citando o aumento da pobreza e da fome, que constituem “uma afronta aos direitos económicos e sociais de centenas de milhões de pessoas”. Ainda, no seu discurso, António Guterres referiu, como outros exemplos preocupantes de retrocessos nesta área, a 505
diminuição do espaço de atuação da sociedade civil, o aumento do racismo, da intolerância e da violência contra as mulheres e raparigas, e alertou para o facto de estarem a surgir novos desafios de direitos humanos ligados à “tripla crise mundial” – alterações climáticas, perda da biodiversidade e poluição. A comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos, em 2022, serviu para lembrar que os direitos humanos são universais, indivisíveis, inaliáveis, interdependentes e inter-relacionados. A ONU lançou, nessa altura, uma campanha de um ano, até ao dia 10 de dezembro de 2023, que tem por tema “Dignidade, Liberdade e Justiça para Todos/as”. Esta tem como objetivo aumentar o conhecimento da DUDH como um projeto fundamental para tomar ações concretas para defender os direitos humanos e enfrentar, hoje, as questões globais urgentes. A cada ser humano são inerentes determinados privilégios inaliáveis que derivam apenas da circunstância de partilhar das mesmas características da humanidade. Tal como refere Boaventura de Sousa Santos (2009), nunca é demais relembrar que “Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza (e) temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. Palestra “Igualdade de Género – A mulher na atualidade”, no Agrupamento de Escolas de Pevidém, no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher Muitas das graves violações aos direitos humanos, lamentavelmente, acontecem ao nosso lado, no nosso território. Neste sentido, é imperativo que se aposte na educação para os direitos humanos, reforçando o conhecimento (através da análise critica das situações), alterar atitudes (estimulando o diálogo e a empatia) e alterar comportamentos (promovendo a capacidade de agir e defender os direitos humanos). O Município de Guimarães, através da riqueza do Setor Social e Solidário que apresenta, é exímio na promoção dos direitos humanos. As diversas Instituições que constituem o tecido social no nosso Município têm realizado um trabalho coeso e em rede, promovendo a inclusão, a diversidade, a solidariedade e a proximidade, nas suas mais diversas valências. A ADDHG – Associação de Defesa dos Direitos Humanos de Guimarães, foi fundada em 2018 com a missão de promover a defesa dos direitos humanos nos seus mais diversos sentidos, centrando a sua visão na participação ativa junto da comunidade, focando a sua atenção para as temáticas do combate à violência 506
doméstica e de género, promoção de relações igualitárias e não violentas, promoção do respeito e igualdade de género, parentalidade positiva e conciliação da vida profissional, pessoal e familiar. Desde a sua constituição, a ADDHG tem vindo a defender os valores da democracia, liberdade, justiça, respeito, solidariedade, não-discriminação e igualdade social, tendo vindo a desenvolver um trabalho meritório e de destaque no Município de Guimarães. Para tal, dispõe de uma equipa multidisciplinar qualificada, em áreas de especialização como a educação, as ciências sociais, a psicologia, a mediação familiar e a advocacia. Contamos, também, com uma extensa rede de parceiros, que tem sido crucial para potenciar o impacto da nossa intervenção. Destacamos o trabalho extraordinário de parceria que temos vindo a realizar com o Município de Guimarães, nomeadamente com o Espaço Municipal Intervenção com famílias em risco psicossocial para a Igualdade, e com CPCJ de Guimarães. Nos últimos três anos, destacamos os seguintes âmbitos de intervenção: - Projeto de preservação com famílias em risco psicossocial A ADDHG tem como foco principal de intervenção o trabalho de preservação familiar, realizado com famílias sinalizadas pela CPCJ de Guimarães, onde estão crianças e jovens em risco/perigo. Esta intervenção tem como missão prestar apoio psicossocial e jurídico às famílias acompanhadas e caracterizase pela proximidade e cariz itinerante, uma vez que, na maioria das vezes, se intervém no contexto das residências das famílias. - Estrutura de atendimento a vítimas de violência doméstica – Gabinete Cuidar A associação tem também como foco central o seu gabinete de apoio à vítima de violência doméstica, sendo uma entidade de primeira linha nesta problemática. A este nível, o trabalho que desenvolvemos assenta no atendimento personalizado, gratuito e confidencial a vítimas de violência doméstica. O Gabinete Cuidar destina-se a atender as vítimas de violência doméstica e os seus familiares, assegurandolhes apoio social, psicológico e jurídico.
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- Projetos de prevenção da violência no namoro/violência de género Estes projetos têm vindo a ser implementados nas escolas do concelho de Guimarães e consiste na realização de um trabalho de formação e sensibilização junto das escolas, capacitando os jovens para a adoção de atitudes positivas para a promoção da igualdade de género e perante os conflitos nas relações de intimidade, melhorando os seus conhecimentos a nível da prevenção das situações de violência e promoção de relações saudáveis. - Projetos Erasmus
Projeto Erasmus+ Misson Equality – Training Course
Menção Honrosa pela Fundação Calouste Gulbenkian
Neste âmbito temos recebido diversas organizações europeias e temos debatido a igualdade de género e a violência doméstica no contexto europeu. A ADDHG tem visto o seu trabalho a ser reconhecido a nível nacional e a nível internacional. No ano de 2022, fomos selecionados para frequentar um estágio em Oslo, onde tivemos a oportunidade de trocar experiências com diversas organizações da sociedade civil, nacionais e internacionais, nas áreas da comunicação e advocacy. No mesmo ano, fomos contemplados com uma Menção Honrosa, na Fundação Calouste Gulbenkian, pelo trabalho de excelência desenvolvido no Município de Guimarães com famílias 508
em risco psicossocial. Recentemente, fomos também gratificados com apoio financeiro por parte da CIG, dos prémios BPI Fundação la Caixa, e pela EEA Grants, para que possamos, desta forma, dar continuidade ao nosso trabalho, no âmbito da prevenção em escolas, na intervenção na área da violência doméstica e no trabalho de preservação familiar com famílias, onde estão crianças e jovens em risco/perigo. Para além dos principais focos de intervenção mencionados, a ADDHG tem também, anualmente, diversas ações de sensibilização e capacitação, para profissionais que trabalhem no setor social, e para a comunidade em geral, nas temáticas da violência doméstica/género, igualdade de género e direitos humanos. À escala mundial, os defensores dos direitos humanos têm sido mais frequentemente cidadãos, não Ação de capacitação para Professores e Encarregados de Educação sobre Bullying e Cyberbullying representantes governamentais. Podemos encontrar os ingredientes essenciais para a transformação social, sobretudo, para o trabalho em prol do bem comum e defesa dos direitos humanos, através do ativismo. Do mesmo modo que a ADDHG, diversas organizações da sociedade civil têm chamado a atenção da comunidade, local, nacional e internacional, garantido a proteção e promoção dos direitos humanos. Posto isto, para que se possa construir com eficácia uma sociedade global e local, onde a dignidade humana seja respeitada, é necessário que essa mesma sociedade, constituída por cada um de nós, cultive a atitude empática, o que faz alargar a lógica do pensamento racional, que compreenda com o coração que tem poder para transformar o seu pequeno contexto, e que o impacto dessa pequena transformação na rede global é decisivo para que as relações se reconfigurem positivamente e para que o mundo se torne num lugar de tolerância e respeito. Assim, como Martin Luther King, “eu tenho um sonho”, o de ajudar a construir um mundo mais justo e equitativo, e de um dia olhar para o meu percurso e ver que o meu trabalho em prol dos direitos humanos ajudou a mudar e a melhorar vidas. Este é o meu sonho. 509
“O que eu faço é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor” (Madre Teresa de Calcutá).
Tertúlia “Os desafios da mulher no séc. XXI”, no âmbito do Dia Internacional da Mulher
Marcha pelo fim da violência, no âmbito do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres
Bibliografia: Santos, B. (2006), A reinvenção solidária e participativa do Estado, A Gramática do Tempo: para uma nova cultura política, Porto: Afrontamento, p. 317-349. Santos, B. S. (2009). Direitos Humanos: O desafio da interculturalidade. Revista Direitos Humanos, 02, 10-18. Consultado a 7 de abril de 2023. Disponível em: https://www.boaventuradesousasantos.pt/media/Direitos%20Humanos_Revista%20Direitos%20Humanos2009.pdf Organização Das Nações Unidas. (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948. Consultado a 7 de abril de 2023. Disponível em: https://www.unicef.org
Webgrafia: https://news.un.org/pt/tags/dia-dos-direitos-humanos
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Lar de Santa Estefânia – 160 anos de serviço ao próximo: Notas sobre a sua história32 José Fernando Rodrigues Alves Pinto Presidente da direção da Instituição
Até finais do século XVIII, a assistência social no nosso país foi propriedade de privados e da igreja. Para além da fundação da Casa Pia de Lisboa, em 1780, foi residual a intervenção do Estado na proteção social até 1835, altura em que foi decretada a criação do Conselho Geral de Beneficência, instrumento que viria a regulamentar e a desenvolver o aparecimento de diversas instituições vocacionadas a combater a mendicidade e a miséria e, por via disso, a proteger os mais desfavorecidos. A sociedade vimaranense, na altura muito ativa e empreendedora, aproveita os festejos da chegada a Lisboa de Sua Majestade a Rainha D. Leonor, para, no segundo dia das comemorações, em 25 de Maio de 1858, num baile organizado pela Sociedade Recreativa Vimaranense e realizado na Casa dos Pombais, pela voz do ilustre associado Francisco António de Almeida (professor primário, lisboeta, sargento de infantaria, falecido na nossa cidade em 17-01-1872 e sepultado na Igreja do Carmo), lançar e fazer aprovar o propósito da criação de um Asilo para a infância desvalida ou para a mendicidade que, de pronto, é designado de Asilo de Santa Estefânia do Amor de Deus e do Próximo. Não passou um mês (10-06-1858) para que as Comissões Promotoras se Convento e Igreja de S. José do Carmo 32 Texto elaborado por ocasião das comemorações dos 150 anos da instituição (16-07-2013).
Revisto e atualizado em 2018 e 2023.
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constituíssem e fossem participar ao Rei a criação do Asilo e pedir-lhe, a ele, à rainha e às cortes, para instalarem a Casa no complexo edifício e cerca do Convento de S. José do Carmo. No desfecho favorável de tal diligência, terá sido decisiva, ao que consta, a influência do Visconde de Pindela, João Machado Pinheiro Corrêa de Melo, Governador Civil de Braga e deputado às Cortes por Guimarães. No jornal Religião e Pátria, de 15 de Julho de 1863, consta: «É amanhã um dia de grande satisfação para esta terra. As portas da caridade já aqui abertas para o enfermo e para o inválido, vão sê-lo também para a infância desvalida (…)». «No dia 16 de Julho de 1863, ao romper da manhã, uma banda de música percorreu as ruas da cidade. (…) Às nove horas da manhã saíram da Casa de Vila Pouca em direção ao Asilo seis meninos. Entraram na Instituição por entre o mais vivo e manifesto júbilo de todos os circunstantes (…) Assistiram a uma cerimónia religiosa em ação de graças a Deus Nosso Senhor, em cerimónia capitulada pelo Reverendo Chantre da Insigne e Real Colegiada.» «Após a leitura e assinatura do Auto de Inauguração e Abertura do Asilo de Santa Estefânia do Amor de Deus e do Próximo, o Conde de Vila Pouca proferiu um lindo e elaborado discurso. A 31 de Julho de 1864, cerca de um ano após a sua inauguração e abertura, o Asilo, fruto das contribuições de Dona Maria da Conceição Vaz Nápoles, de Sua Majestade a Imperatriz do Brasil, Duquesa de Bragança e de outros beneméritos, acolhe seis meninas, num fresco e bem arranjado dormitório de oito camas. Em 1884 o Asilo abriga 50 crianças, sendo entre 15 a 20 externas e pobres. A qualidade do corpo docente do Asilo é reconhecida e pretende-se «bem apetrechado de conhecimentos», régua e palmatória».
Em inícios de 1890, começam a surgir reparos ao funcionamento do Asilo e sua administração interna, sobretudo tendo como termo de comparação o funcionamento do Asilo de D. Pedro V, em Braga. Não se estranha, por isso, que em 31 de Maio de 1890, a administração seja substituída e o internato confiado às Irmãs de S. José de Cluny, «estimadas em Lisboa por todos quantos as conhecem». Átrio de entrada no Lar de Santa Estefânia
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A partir de 2 de Agosto de 1891, o Asilo deixa de receber rapazes. O último foi José Afonso Pereira. Com a implantação da República (1910), a 28 de Outubro, as Irmãs de S. José de Cluny são obrigadas «a retirar-se», a largar tudo e, «enfarpeladas em roupas emprestadas à pressa», a embarcar no comboio das sete e meia da manhã. A gestão interna do Asilo fica entregue a direções particulares, constituídas por gente recrutada com critério pelas Comissões Administrativas, até que, a 2 de Agosto de 1934, tal função é atribuída à Congregação Espanhola do Amor de Deus, constituída então por um grupo de cinco religiosas. Tal Congregação, das Irmãs do Amor de Deus e do Próximo prolongou uma parceria fundamental no acolhimento e acompanhamento das crianças e jovens internadas até Junho de 2016. O Asilo, durante a II Guerra, com 61 bocas jovens para alimentar, subsiste graças à generosidade de inúmeros beneméritos, à ação de uma só professora na Escola Feminina Oficial e às freiras, sempre diligentes e silenciosas. Claro que alienam 855 metros quadrados de terra à Câmara Municipal para restauração do Paço dos Duques de Bragança, a 10 mil réis o metro quadrado. O Asilo sofre obras constantes de beneficiação. Algumas controversas. Sempre ao sabor dos parcos fundos que lhe são disponibilizados. Em 20 de Janeiro de 1969, extinguese a designação de Asilo, caída em desuso e a Instituição passa a ser chamada de Lar de Santa Estefânia. Coro alto – Convento e Igreja de S. José do Carmo
Com o 25 de Abril, o Lar de Santa Estefânia entrou em ebulição. Não financeiramente pois tinha depositado recentemente cerca de mil e quinhentos contos, fruto da alienação de doações generosas. Entretanto, as instalações são em parte ocupadas pelas Finanças, hospedam as primeiras mulheres polícias, as escuteiras da Ilha da Madeira, etc. Em 31 de Janeiro de 1975, cria-se uma segunda resposta social no Lar de Santa Estefânia – o Jardim de 513
Infância. De então para cá, o Lar de Santa Estefânia tem acompanhado a evolução que decorre da entrada em vigor das nossa leis de proteção de crianças e jovens, tem mantido e ampliado as suas respostas de creche e pré-escola, mantém a sua resposta de ATL, criou, no exterior, unidades de autonomia para rapazes e raparigas se prepararem para a aproximação à vida ativa, criou uma unidade de saúde, integra a rede de cantinas sociais, criou uma unidade de apoio a mais velhos e a doentes neurológicos, criou uma unidade de agricultura e lazer, criou a Ronda Usera/LSE com intervenção na área do emprego, dos mais velhos sós e abandonados, dos imigrantes e de outros carenciados e, mais recentemente, abriu a primeira Casa de Autonomia destinada a apoiar jovens entre os 17 e os 25 anos, etc. Apoiamos diariamente, na diversidade das nossas respostas, cerca de 1000 famílias. Muitas são as pessoas que, pelo seu empenho, pelo seu afeto, pela sua generosidade, mereceriam uma referência nesta síntese. Seria de todo impossível lista-las, sem o risco de sermos exaustivos e injustos. Que Deus a todas abençoe e agradeça.
Confreternização de ativos da Instituição
Nota: Em inícios de Julho de 2016, como atrás se relata, a Congregação das Religiosas do Amor de Deus e do Próximo, por escassez de vocações e por entender que as exigências do Lar de Infância e Juventude eram incompatíveis, por complexas, com a sua intervenção, decidiu abandonar o Lar de Santa Estefânia. Tal incumbência ficou à responsabilidade da direção em funções.
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Rotary Club de Guimarães Américo Correia
Fundado em 22 de Março de 1948, nesta cidade, o Rotary Club de Guimarães é um dos 34.000 clubes que, em 161 países e regiões geográficas, formam o Rotary Internacional, movimento mundial que tem como objectivo Estimular e Fomentar o Ideal de Servir, visando, em última instância, a Paz e Compreensão Mundial. Iniciado em 1905, nos estados Unidos, Rotary Internacional é a mais antiga organização de Clubes de Serviços, congregando actualmente um milhão e trezentos mil profissionais qualificados que, por toda a parte se aliam para servir terceiros e se impõem à consideração das suas comunidades pela ética que praticam e pelos contributos e serviços que, individual e colectivamente, fomentam e desenvolvem. Ao longo de setenta e cinco anos de existência o Rotary Club de Guimarães, para além das actuações cívicas individuais dos seus membros junto das mais variadas instituições vimaranenses, beneficiou a sua comunidade com o empreendimento das seguintes acções: - Oferta à obra do Padre Américo de uma casa construída no lugar de S. Roque (Património dos Pobres). - Homenagem ao Prof. Abel Salazar com descerramento de placa, na casa onde nasceu, no Largo do Toural. - Oferta de uma ambulância aos Bombeiros Voluntários de Guimarães. - Oferta de sistemas de rádios móveis para equipar as viaturas dos B.V.Guimarães. - Oferta de uma escada Magirus aos Bombeiros Voluntários de Guimarães. - Oferta de um veículo todo o terreno aos Bombeiros Voluntários de Guimarães. - Oferta de telefones sem fios para o Hospital Distrital de Guimarães. - Sensibilização da comunidade para a degradação e preservação do ambiente. - Participação na luta contra a droga, pela divulgação dos seus malefícios, junto das escolas do concelho. - Formação de clubes Juvenis Interact e Rotaract, com projectos de serviços e assistência próprios. - Participação activa no 1.º Congresso Nacional de Turismo (1964). Convite especial para representar 515
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Guimarães. Oferta de um parque infantil à cidade, completo, em local cedido pela Câmara Municipal de Guimarães (Junto ao pavilhão do Francisco de Holanda). Apoio diversificado às seguintes Instituições: - Lar do Comércio (Porto). - Oficinas de S. José. - Sociedade Portuguesa de Cardiologia. - Núcleo Regional do Norte da luta contra o Cancro. Oferta de equipamento SCAN ao Hospital Geral de Santo António (primeiro do país). Oferta de material escolar para Angola. Apoio material aos refugiados da Bósnia. Concessão de um prémio a atribuir anualmente pela Sociedade Martins de Sarmento na festa do “9 de Março”. Assistência e apoio a famílias mais carenciadas através do projecto Rotary Alimenta financiado pela Fundação Rotária Portuguesa e pelo Rotary Club de Guimarães. Atribuição de prémios escolares a alunos de todos os níveis de ensino de Guimarães. Nos últimos anos o nosso clube tem privilegiado a atribuição de bolsas de estudo nos ensinos secundários, superior e profissional tendo, no ano escolar 2022/2023, atribuído 12 bolsas a estudantes carenciados. Participação activa na angariação de fundos para a irradicação da poliomielite e outras doenças infantis, (campanha Pólio-Plus) em colaboração com a OMS. Participação regular e contínua nos grandes programas humanitários promovidos pelo Rotary Internacional, a nível mundial. Contribuinte efectivo da Fundação Rotária Internacional com vista aos grandes projectos assistenciais e educacionais, de nível mundial. O Rotary Club de Guimarães através das doações dos seus membros, tornando-se Companheiros Paul Harris pela contribuição de 900US$, já doou 162.043US$. Todos os membros do Rotary Club de Guimarães são companheiros Paul Harris pelo que o nosso clube é 100% Paul Harris. Títulos Paul Harris no clube são 106. Em colaboração com o Rotary Club de Leicester e Rotary International equipamos em 2009, duas 516
salas de Snoezelen na Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães que, ainda hoje, continuam a prestar relevantes serviços na recuperação e integração de jovens com deficiência. São equipamentos de terapia pela estimulação sensorial e resultaram de um esforço conjunto no valor de cerca de 50.000US$. - Em colaboração com a Fundação Rotaria Portuguesa e pela Liga dos Amigos de Cardiologia do Hospital Nª. Sr.ª da Oliveira, o Rotary Club de Guimarães tem desenvolvido, desde 2009, um programa de distribuição de D.A.E.’s (Desfibrilhadores Automáticos Externos) por diversas instituições do concelho de Guimarães das áreas sociais, educativas e desportivas, sendo já de 61 o número de equipamentos gratuitamente instalados bem assim como a formação dos seus utilizadores. - Este foi o primeiro programa de desfibrilhação automática externa a obter, em Portugal, a certificação pelo INEM. - Em 2017 em colaboração com o Rotary Club de Leicester, Rotary Club de Gondar Fasiledes (Etiópia) dotamos a unidade de Ortopedia do hospital de Gondar na Etiópia, com equipamento no valor de 197.405US$. - Em 2020 o Rotary Club de Guimarães em colaboração com os clubes de Libourne-Saint-Emilion, de Jonzac e de Leicester disponibilizamos equipamento hospitalar para tratamento de Acidentes Vasculares Cerebrais, no valor de 44.153US$ instalado no hospital de Libourne. - Em estreita colaboração com a Liga dos amigos de cardiologia do Hospital Nossa Senhora da Oliveira, o Rotary Club de Guimarães levou a cabo uma extensa e relevante sensibilização junto da comunidade industrial e comercial do concelho de Guimarães no sentido de 517
angariação de fundos para a concretização de um serviço de Hemodinâmica no nosso hospital. Tal desiderato, atingido em 2020 com a colocação física dos equipamentos em ambiente hospitalar, só em 2023, fruto de problemas políticos diversos, foi colocado ao serviço da imensa população abrangida pelo nosso hospital. - Em 2018, equipamos o serviço de Neonatologia do Hospital Nossa Senhora da Oliveira com equipamento essencial para a actividade deste serviço. Foi em colaboração com o Rotary International (distrito 1690 e 4420) e com um custo global de 107.900US$, que disponibilizamos uma incubadora de transporte, um ecógrafo e um sistema de monitorização da função cerebral através de E.E.G. - Em 2021, oferta de um desfibrilhador e ventilador automático para equipar uma nova ambulância de cuidados intensivos dos Bombeiros Voluntários de Guimarães. O Rotary Club de Guimarães está geminado, há cerca de 75 anos, com o Rotary Club de Jonzac (França), Alicante (Espanha), Landsdale (E.U.), Londrina (Brasil), Leicester (UK) e ainda com as cidades de Covilhã, Lagos e Porto Santo. Cidadãos de todas estas terras visitam com regularidade Guimarães convidados por este Rotary Club em regime de reciprocidade. Guimarães, através do seu Rotary Club e graças ao sistema informativo do Rotary International, encontra-se presente nos restantes 34.000 clubes de todas as regiões do globo. Destes, muitos dos seus membros por motivos profissionais ou turísticos, deslocam-se frequentemente a esta cidade e ao seu Rotary Club. Trazem curiosidade e simpatia e levam recordações indeléveis do valioso património que viram e da hospitalidade rotária com que foram recebidos. Orgulhosamente, desde há 75 anos, que continuamos, em Guimarães, a honrar o lema do nosso movimento “Dar de si antes de pensar em si”.
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A Placa aos Mortos da 1.ª Guerra Mundial no Paço dos Duques de Bragança Carlos Manuel Leite Ribeiro de Sousa Juiz da Irmandade de S. Nicolau
O Paço dos Duques de Bragança foi desde 1884 sede de vários Regimentos militares. De todos os que lá estiveram, o mais emblemático para Guimarães, foi sem dúvida o Regimento de Infantaria nº 20, tendo participado em vários eventos, destacando-se a sua participação na 1ª Guerra Mundial e nas revoltas contra o poder instituído, o que acabou por lhe ser prejudicial, ditando a sua extinção em 1927. Vários factos circundam a atuação deste Regimento e vários pormenores se vão desvendando com o tempo. A recusa dos oficiais do RI 20 para participar no 28 de Maio de 1926 é mencionada no diário do Capitão Silvestre Barreira. Este refere que apenas três oficiais aceitaram participar no “golpe”, citando seus nomes e referindo o seguinte: “9 de Fevereiro de 1926 – Neste dia parti para Braga, afim de tomar parte na instrução de recrutas, que neste ano foi concentrada (de toda a Divisão) em núcleo, na mesma cidade. Foram organizadas 8 companhias, sendo eu comandante da 5.ª 28 de Maio de 1926 – Dia em que teve inicio, às 6 ½ horas, um movimento revolucionário militar, chefeado pelo General Gomes da Costa, que para tal fim veio para Braga em 27. Fui convidado para entrar neste movimento, na noite de 27, recusei-me, bem como todos os mais oficiais de Infantaria 20, recusa que todos mantiveram até final, exceto Cap. Machado, tenente Matos e alferes M. Pinheiro, que por motivos da última hora foram levados a aderir. 2 de Junho de 1926 – Por não ter aderido ao movimento a que atrás me refiro, regressei neste dia a Guimarães”.
O nosso Regimento foi integrado na célebre Brigada do Minho, tendo como Comandantes os Generais Tamagnini de Abreu e Gomes da Costa. Esta Brigada era constituída pelos seguintes Regimentos, nas Flandres: 1 – Regimento de Infantaria nº 3, de Viana do Castelo, sede da Brigada; 2 – Regimento de Infantaria nº 8, de Braga; 3 – Regimento de Infantaria nº 20, de Guimarães, e 519
4 – Regimento de Infantaria nº 29, de Braga. O Regimento de Infantaria nº 20 partiu para França, em março de 1917 (Foto 1), levando consigo a esperança de cumprirem o seu dever para com a Pátria, tendo aí permanecido 2 anos, regressando em 1919. Entrou em várias batalhas, sendo a mais célebre e a mais fatídica, a Batalha de La Lys, em 9 de abril de 1918. Dos Regimentos que compunham a Brigada do Minho, bem como de unidades provenientes de outros locais do nosso Foto 1 - Batalhão do Regimento de Infantaria Nº 20 a caminho da estação ferroviária de Guimarães. In Ilustração País, houve mortos, mas o nosso “20” foi o mais martirizado, dado se encontrar situado no pior local, onde se travou a referida batalha. Segundo se sabe, só do nosso Regimento morreram nesse dia fatídico mais de 538 soldados e sargentos e 19 oficiais. Depois do final da guerra e do regresso dos poucos soldados que restaram, houve um movimento na nossa cidade para homenagear os briosos militares vimaranenses, mas como quando se quer fazer alguma coisa há sempre polémica, isso mesmo aconteceu para este facto. Pensaram então colocar uma placa na parada interior do Quartel (Foto 2), não se sabendo de quem foi a ideia. A Comissão das Festas Gualterianas do ano de 1924 incluiu no programa das mesmas, a condecoração do Estandarte de Infantaria 20 que nesse ano finalmente foi imposta, Foto 2 - Quartel do Regimento de Infantaria no edifício do antigo Paço dos Duques de mesmo passados mais dois anos do que os Bragança. Fonte: Direção outros três regimentos, imposição esta verificada na Praça do Toural, no dia 3 de agosto desse ano, sabendo520
se que, no ano de 1926, ela ainda se encontrava no antigo quartel (Foto 3). No final desta cerimónia, houve cortejo em direção ao Quartel, tendo igualmente neste dia sido descerrada a dita placa, onde constam o nome de alguns soldados mortos, quer em África quer em França. Conhece-se igualmente a colocação duma outra placa no Liceu Nacional de Martins Sarmento (antigo liceu de Santa Clara), segundo se vê numa notícia publicada no Jornal “O Comércio de Guimarães”, de 15/11/1927. Foi descerrada no dia 11.11.1927, data comemorativo da assinatura do Armistício, onde foram homeFoto 3 - Placa comemorativa colocada no quartel do Regimento de Infantaria Nº 20. nageados os antigos alunos daquele estaFonte: Direção Geral dos belecimento de ensino que faleceram na 1ª Grande Guerra. Eis os nomes e postos dos referidos alunos falecidos na 1.ª Guerra Mundial (Foto 4): Capitão de Infantaria – José Vieira de Faria; Capitão de Cavalaria – Alfredo Guimarães; e Tenente de Infantaria – Januário Augusto de Sousa Guerra. Desta lápide não há rasto, mas consegui uma fotografia, na qual se verifica o local da mesma. Quanto à placa que estava no Paço dos Duques parece que a mesma foi retirada na década de 40 do século pasFoto 4 - Porta da Reitoria do Liceu Martins Sarmento SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico sado, tendo a mesma sido guardada provavelmente na Subagência da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, delegação de Guimarães. 521
Em 23 de Dezembro de 1936 por deliberação da Câmara Municipal, foi atribuído um subsídio à Liga dos Combatentes da Grande Guerra, subsídio este que serviu para a compra de 30 m2 de terreno no canteiro 25 do Cemitério da Atouguia, a fim de poderem ser ali sepultados os combatentes que porventura viessem a falecer e que tivessem participado na 1ª guerra Mundial. Em 18 de Setembro de 1937 foram comprados mais 20 m 2 de terreno no mesmo canteiro, para os fins referidos, pela Subagência da Liga. Posteriormente foi erigido um monumento de que não há notícia da sua inauguração, e onde se encontra incorporada a referida placa que se encontrava no Paço dos Duques de Bragança, Antigo Quartel (Foto 5). Mas há um pormenor que estamos a tentar deslindar: na dita placa estão inscritos 121 nomes, entre soldados, sargentos e oficiais, mas só na Batalha de La Lys faleceram 557, do “nosso 20”. Porquê só foram inscritos 121? Foto 5 - Monumento aos mortos no cemitério da Atouguia. Fonte: fotografia do autor Após ter acesso ao livro da investigadora Maria José de Oliveira, cujo título é Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial – Frente Europeia – 1917-1918 verifica-se que 259 soldados portugueses morreram em campos de internamento e de trabalhos forçados na Alemanha, França, Bélgica e Polónia, tendo a maioria sido trasladados para o cemitério militar português de Richebourg-l Avoué, em França. Aquando da elaboração desta placa, segundo pude verificar, os nomes ali inscritos são os mesmos que se encontram no Livro de Ouro de Infantaria, pois na altura não autorizaram a inscrição de mais algum além daqueles. Na relação constante do livro acima indicado, estão inscritos 20 soldados do “nosso 20”, uns constam da placa, que são 14, e seis não foram incluídos. Em seguida, passamos a mencionar os nomes dos militares do RI 20 que morreram no cativeiro, com a indicação se foi ou não inscrito o seu nome, bem como outros elementos tidos por úteis.
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MILITARES DO RI 20 FALECIDOS EM CATIVEIRO E QUE NÃO FORAM INCLUÍDOS NA PLACA QUE SE ENCONTRA NO CEMITÉRIO DA ATOUGUIA, E QUE INICIALMENTE ESTEVE COLOCADA NO ANTIGO REGIMENTO – PAÇO DOS DUQUES DE BRAGANÇA33 ANTÓNIO ANDRADE Soldado da 1ª companhia, nº 58 001, nascido a 29 de novembro de 1895, em São Romão do Corgo, Celorico de Basto. Faleceu a 21 de abril de 1918 no lazareto do Campo de Altona, por ferimentos de combate. Está sepultado em Richebourg, talhão D, fila 16, coval 7; ANTÓNIO PIMENTA Soldado nº 58 081, nascido a 22 de maio de 1895, em Várzea, Celorico de Basto. Faleceu a 16 de outubro de 1918 no Campo de Gelsenkirchen, por catarro intestinal. Está sepultado em Richebourg, talhão C, fila 14, coval 20; JOSÉ ALBANO Soldado da 3ª Companhia, nascido a 8 de maio de 1894, no lugar da Vinha – Guimarães. Faleceu em data não indicada na enfermaria de Munster, por causa desconhecida, ignorando-se igualmente o local da sua sepultura; JOSÉ ALVES Soldado com o nº 59 052, nascido a 8 de abril de 1892, em Cavez – Cabeceiras de Basto. Faleceu a 26 de novembro de 1918 na enfermaria do campo de Gelsenkirchen, por doença nos pulmões e intestinos. Está sepultado em Richebourg, talhão C, fila 16, coval 12; JOSÉ DE FREITAS 1º Cabo com o nº 58 158, nascido a 13 de junho de 1895, em Cepães – Fafe e faleceu a 9 de Abril de 1918, por ferimentos em combate. Desconhece-se o local da sepultura; RAFAEL EXPOSTO Soldado com o nº 58471, nascido a 8 de março de 1895, em Britelo – Celorico de Basto, faleceu a 23 de Julho de 1918 no campo de Gelsenkirchen, por inflamação pulmonar. Está sepultado em Richebourg no talhão C, fila 14, coval 17.
33 Dados obtidos do livro de Maria José de Oliveira “Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial – Frente Europeia – 1917-1918.
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MILITARES DO RI 20 FALECIDOS EM CATIVEIRO E QUE FORAM INCLUÍDOS NA PLACA QUE SE ENCONTRA NO CEMITÉRIO DA ATOUGUIA, E QUE INICIALMENTE ESTEVE COLOCADA NO ANTIGO REGIMENTO – PAÇO DOS DUQUES DE BRAGANÇA34 ANTÓNIO LEITE Soldado nº 57 993, nascido a 20 de junho de 1893, em Guimarães e faleceu a 10 de Dezembro de 1918, no campo de Friedrichsfield por tuberculose pulmonar. Está sepultado em Richebourg no talhão C, fila 15, coval 2. ANTÓNIO RODRIGUES Soldado nº 58 831, nascido em 1892, em Sande S. Lourenço, concelho de Guimarães e faleceu a 17 de Novembro de 1918, no campo de Dusseldorf, por congestão pulmonar. Desconhecendo-se o local da sua sepultura. ANTÓNIO DA SILVA Soldado nº 58 863, nascido a 13 de Abril de 1894, em Celorico de Basto, faleceu a 4 de Julho de 1918, no campo de trabalhos forçados de Wattenscheid, por inflamação pulmonar. Desconhece-se o local da sepultura. ANTÓNIO DA SILVA MARINHO PINTO Alferes miliciano, nascido a 14 de Agosto de 1892, em Jesufrei, Vila Nova de Famalicão e faleceu a 1 de Maio de 1918, na enfermaria do campo de Stendal, com ferimentos de arma de fogo. Está sepultado em Richebourg, no talhão D, fila 15, coval 26. FRANCISCO DE ALMEIDA Soldado nº 57 934, nascido a 26 de Dezembro de 1892, em Creixomil – Guimarães. Faleceu a 14 de Abril de 1918, perto de Borgworm, Bélgica, por ferimento em combate. Está sepultado em Richebourg no talhão A, fila 9, coval 6. FRANCISCO DA COSTA PEIXOTO 34 Ibidem
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Soldado nº 58 837, nascido a 9 de Dezembro de 1892, na freguesia de Ermelo, Mondim de Basto e faleceu a 2 de Agosto de 1918, no campo de Friedrichsfeld, por tuberculose pulmonar. Está sepultado em Richebourg, no talhão C, fila 15, coval 6. INÁCIO MENDES DA CUNHA 1º Cabo nº 58 813, nascido a 8 de Janeiro de 1893, na freguesia de Pedreira, concelho de Felgueiras, tendo falecido a 9 de Abril de 1918, em local não identificado, por ferimentos em combate. Desconhecese o local de sepultura. JOÃO LUIS Soldado nº 58 236, nascido a 13 de Outubro de 1894, na freguesia de Azurém, concelho de Guimarães, faleceu a 7 de Junho de 1918 no lazareto de Tournai, Bélgica, por ferimento de arma de fogo. Está sepultado em Richebourg, talhão B, fila 7, coval 13. JOAQUIM DE SOUSA Soldado, nascido em Creixomil, concelho de Guimarães, a 6 de Agosto de 1892 e faleceu a 19 de Abril de 1918, próximo de Wangerie, França, por causa desconhecida. Está sepultado em Richebourg, talhão C, fila 19, coval 14. JOSÉ GONÇALVES Soldado nº 58 764, nascido a 23 de Setembro de 1893, na freguesia de Armil, concelho de Fafe, no Campo de Dusseldorf, por peritonite. Está sepultado em Richilebourg, talhão C, fila 16, coval 4. JOSÉ URBANO Soldado nº 58 744 nascido a 18 de Maio de 1895, no lugar das Corujeiras – Guimarães, e faleceu a 6 de Maio de 1918, no campo de Munster I, por tétano. Desconhece-se o local da sepultura. MANUEL JOAQUIM FERNANDES DA ROCHA Soldado nº 58 772, nascido a 28 de aneiro de 1895, em cimo de Vila, concelho de Fafe e faleceu a 17 de Abril de 1918 no lazareto de Tournai, Bélgica, por ferimentos em combate. Está sepultado em Richebourg, talhão B, fila5, coval 14. MANUEL DE SOUSA GUEDES 525
1º Sargento nº 58 674, nascido a 27 de Outubro de 1891, em Ribas, Celorico de Basto, faleceu a 11 de Abril de 1918, no lazareto museu de Tournai, Bélgica, por ferimentos no pulmão. Foi sepultado no cemitério da localidade e mais tarde trasladado para Richebourg, talhão B, fila 1, coval 9. RODRIGO GONÇALVES Soldado nº 58 079, nascido a 8 de Março de 1893 em S. Clemente de Basto – Celorico de Basto e faleceu a 19 de Abril de 1918 perto de Wangerie, por ferimentos em combate. Desconhece-se o local da sepultura. Neste momento é o que podemos informar. Contudo vamos continuar a nossa investigação. Nota: Correspondentes aos n.ºs 1, 2, 3 e 4, são fotografias alusivas a estes factos.
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Guimarães no Congresso da Oposição Democrática de 1973 Raul Rocha
A Oposição Democrática nunca teve existência legal no regime de Salazar/Caetano. Só lhe era permitida alguma organização em setembro/outubro de quatro em quatro anos, quando ocorriam “eleições” para a assembleia nacional. Após a 2ª guerra mundial, em 1945, com a vitória dos “aliados” que defendiam a democracia e a derrota dos “fascismos”, a oposição herdeira da1ª República, o PCP, e várias personalidades democratas, começaram a tentar organizar movimentos oposicionistas que concorriam a “eleições”, embora quase sempre desistissem à beira das urnas para não serem coniventes com as fraudes que se sabia irem ocorrer, aproveitando apenas as aberturas “eleitorais” para divulgarem os seus programas de democratização. Até à “eleição” presidencial a que concorreu Humberto Delgado, e que foi o momento mais alto, mais forte, das forças oposicionistas no período da ditadura (1926-1974), as oposições privilegiavam as “eleições” presidenciais. Foi assim com as candidaturas de Norton de Matos, Quintão Meireles, Rui Luís Gomes, Delgado, Arlindo Vicente. Após o susto para o regime da “eleição” de Delgado, Salazar mudou a Constituição e acabou com a eleição presidencial. A Oposição passou, então, a apresentar-se às legislativas. Assim sucedeu em Fonte: Revista Seara Nova 1957, 1961, 1965, 1969, 1973. Nestas duas últimas, com alguma abertura que ocorreu com a substituição de Salazar por Marcelo Caetano, a Oposição conseguiu mesmo realizar Congressos da Oposição Democrática em 1969 e 1973. Ambos tiveram lugar em Aveiro por o Governador Civil daquele distrito, Valle Guimarães, ser o único que autorizou a realização do Congresso. Todos os outros governadores civis recusaram ou sabia-se que recusariam. 527
Quando ocorre o Congresso de 1973, a Oposição Democrática estava organizada em todo o país, porque manteve, embora em semiclandestinidade, as estruturas locais que criara para as “eleições” de 1969. Em Guimarães, havia uma concelhia liderada por Santos Simões, com um papel fundamental na organização do aparelho de Eduardo Ribeiro, que reunia todas as semanas e procurava acompanhar a política, mais do país que a local, recolhia assinaturas para abaixo-assinados de protesto, organizava jantares do 5 de outubro e do 31 de janeiro, preparava mesmo documentos de programas setoriais para o País, que transmitia à distrital de Braga e à coordenadora nacional do MDP (Movimento Democrático Português). É neste contexto que Guimarães participa no Congresso da Oposição Democrática de 1973. Santos Simões elabora e apresenta a principal tese sobre Educação e, juntamente com Lindley Cintra (Lisboa) e Jofre Amaral Nogueira (Porto) coordena os trabalhos da secção de Educação que reúne durante todo o 1º dia do Congresso (sábado). Eduardo Ribeiro apresenta uma tese sobre habitação, defendendo mais construção de Habitação pública. São eles os dois, os vimaranenses com presença marcante no Congresso. Mas terão lá estado mais vimaranenses. Jaime Marques, então a trabalhar na Coelima à espera da incorporação militar, ainda com 21 anos, tinha sido dinamizador da lista vencedora das eleições para o Sindicato Têxtil, em 1973, poucos meses antes do Congresso. Foi um desses vimaranenses que O congresso democrático de Aveiro de 1973 – RTP Arquivos foi a Aveiro para participar. Conta que, antes do Congresso, foi contactado por Açucena Neves (esposa de Santos Simões) para indicação de mulheres operárias que testemunhassem para a elaboração de uma tese sobre a situação da mulher trabalhadora. Indicou Maria de Lurdes Faria da Silva (Lurdes Mesquita) de Urgezes. A Aveiro foi na companhia de João Dias (mais tarde Presidente da Junta de Freguesia de Gondar) e de João Ribeiro, já Presidente do Sindicato Têxtil, os dois com as respetivas esposas. No automóvel iam cinco. 528
Só foram no domingo. Todos entraram na cauda da manifestação que na manhã de domingo, dia do encerramento do Congresso, se preparava para desfilar, na Avenida Lourenço Peixinho (centro de Aveiro), para chegarem ao cemitério e homenagearem Mário Sacramento, médico democrata que falecera um ano antes e fora um dos organizadores do Congresso de 1969. A Polícia investiu, dispersou os manifestantes que se tiveram de esconder nas casas da avenida. Nesse domingo, à tarde, decorreu a sessão de encerramento do Congresso, presidida por Lindley Cintra, com o Teatro O Cineteatro Avenida, onde se realizou o Congresso (foto "Vida Mundial", nº 1531, de Avenida repleto. A organização deveu-se maio de 1973) muito a um grupo de democratas aveirenses como Álvaro Seiça Neves, António Neto Brandão, Carlos Candal, Flávio Sardo, João Sarabando. Aveiro não tinha universidade, mas era perto de Coimbra onde a vida académica criou gerações sucessivas de democratas que se espalharam pelo país, mas mais pela região centro. Também terá sido essa presença que justificou a escolha de Aveiro para o Congresso que juntou todos os quadrantes da oposição, embora muito liderado pelo PCP. Maria Barroso apresentou uma tese em nome de Mário Soares, exilado em França, e Maria Emília Brederode dos Santos outra, em nome de Medeiros Ferreira, exilado na Suíça. As esposas porta-vozes na impossibilidade da presença dos maridos. É esta tese de Medeiros Ferreira que defende a intervenção militar para o fim da ditadura em alternativa ao “levantamento popular” previsto por Álvaro Cunhal do PCP. No Congresso estiveram, embora em menor número, também presentes os “esquerdistas” como Pacheco Pereira ou Fernando Rosas. Um ano depois, ocorreria o 25 de abril com o “golpe militar” avançado por Medeiros Ferreira.
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De que são feitas as coisas? Preito e homenagem a José Mariano Gago Fernando Capela Miguel
José Mariano Gago (1948-2015) nasceu em 16 de maio, em Lisboa, há 75 anos e fez parte de vários governos constitucionais (XIII, XIV, XVII, XVIII), funções públicas que assumiu ainda como político, professor universitário e cientista, em especial no domínio da física experimental de partículas elementares, funções que exerceria em Paris e em Genebra na Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (CERN), bem como, em Lisboa, na criação do Laboratório de Física Experimental (LIP), à qual presidiu. De facto, aluno do Liceu Camões nos finais da década de 50, revelar-se-ia desde os estudos secundários um aluno brilhante, que o levaria a ingressar no Instituto Superior Técnico de Lisboa e a licenciar-se em Engenharia Eletrónica, que concluiria em 1971, instituição educativa de que também seria presidente da Associação de Estudantes. Efetivamente, a partir da licenciatura, o seu percurso científico foi galopante. Com efeito, seria bolseiro do Instituto de Alta Cultura, no Laboratório de Física Nuclear e de Altas Energias da Escola Polytechinique de Paris, entre 1971/1976, obtendo o grau de Docteur d’Etat ès Science, no domínio da Física, pela Université Paris VI, Pierre e Marie Curie. Distinguiu-se ainda como bolseiro da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, no decurso dos anos de 1976 a 1978. Ademais, em Portugal, Mariano Gago foi o primeiro titular de um cargo ministerial vocacionado exclusivamente para a área da ciência e tecnologia. Assim, entre muitas iniciativas inovadoras, dinamizou a promoção da cultura científica e tecnológica do país. Deste modo, entre várias ações, notabilizou-se o seu trabalho, na Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológico ente 1986-1989, no qual lançaria o Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia, sendo determinante, nesta vertente, o enquadramento legal suscitado pela Lei n.º 91/88 de 13 de 530
agosto, que define a investigação científica e o desenvolvimento tecnológico como prioridades nacionais, dinâmica que envolveria sapientemente a participação ativa dos setores público, privado e cooperativo. Como não bastasse, coordenou e dinamizou o programa de estratégia para a Sociedade da Informação que, entre outras ações, promoveu a ligação de todas as escolas à internet, a criação de Espaços Internet, lançando o programa Cidades e Regiões Digitais e a Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade (RCTS), bem como os centros Ciência Viva. Relevante foi, porém, e acima de tudo, o seu exercício como ministro responsável por amplas reformas no âmbito da ciência e tecnologia e no sistema de ensino superior em Portugal. Realmente, exercendo funções de Ministro da Ciência e Tecnologia, a que posteriormente acrescentaria a pasta do Ensino Superior, Mariano Gago foi um dos responsáveis pela ampla reforma do sistema de ensino superior, na transição entre os séculos XX e XXI. Como tal, e pela sua ação distinta no setor, recebeu homenagens e condecorações de Portugal, Brasil, Espanha e Alemanha, não só pelas suas iniciativas em prol da ciência, como também por muitas das suas publicações na matéria. Em 2015, concretamente em 17 de abril, uma doença súbita privar-nos-ia da sua dádiva sábia e magnânima, exemplo de cidadania e político ativo. Entrementes, passam já 33 anos desde a publicação do Manifesto para a Ciência em Portugal cujo pensamento e ação teve como protagonista um discreto cidadão e ilustre cientista português que ficou apelidado como o criador da ciência moderna em Portugal. Deste modo, na passagem dos 75 anos do seu nascimento não podia deixar de evocar José Mariano Gago que conheci na década de 80, como professor do ISCTE, com quem tive a honra e o privilégio de trabalhar na construção dessa magnífica Exposição Científica Nacional denominada “De que são feitas as coisas”. Recordo que, nessa altura, arribaram ao ISCTE dezenas, centenas, milhares de jovens estudantes das escolas secundárias deste país que levaram curiosidade e traziam a semente do espírito científico, ainda que instalado em pequenas experiências com simples aparelhos que, nesses tempos, existiam abandonados nas suas escolas. Mariano Gago tinha ganho aquele desafio nacional da Ciência Viva e o nosso país jamais seria o mesmo. Iniciativas congéneres nasceriam em muitos liceus e escolas secundárias e o seu mentor seria aliciado para pensar melhor e criar a “Ciência em Portugal”. Assim foi possível, de facto, durante toda a década de 80 e seguintes, em tantas e inovadoras atividades, entre as quais os Encontros Anuais de Prospetiva, realizados anualmente no Convento da Arrábida. 531
Relembro ainda que, depois da exposição em Lisboa, se realizou a Conferência Europeia de Física das Altas Energias, no qual estiveram presentes dois prémios Nobel da Física, Abdus Salam e Richard Feynman e que o INIC – Instituto Nacional de Investigação Científica assinou com o CERN um protocolo inovador, mediado por Mariano Gago, que garantia financiamento a um investigador por ano. Foi o início de uma realidade que ainda hoje se mantém para muitos investigadores portugueses. Efetivamente, desde maio de 86, quando Zé Mariano cria o LIP – Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de partículas e, nesse mês, ele mesmo assume a presidência da JNICT – Junta de Investigação Científica e Tecnológica, a ciência e a tecnologia passam a navegar nos novos mares dos descobrimentos. Na realidade, a partir do seu Manifesto para a Ciência em Portugal, em 1990, plano e base fundamental da ação científica e de combate ao atraso do país, tudo mudaria nesta matéria, no sentido da promoção da ciência no nosso país, em moldes de eficácia e qualidade. Efetivamente, como semente revolucionária, de repente tínhamos governo que acreditava e apoiava a ciência, na criação de cientistas e centros de investigação e ciência e erigia um Ministério da Ciência, com um cientista-ministro ao leme, de nome José Mariano Gago. Como é óbvio, as opiniões são elucidativas. Por exemplo, o cientista Carlos Fiolhais terá dito sobre Mariano Gago: “não há revoluções sem revolucionários”, preto no branco exarado num capítulo sobre ciência do livro 40 anos de Políticas de Educação em Portugal, sob a coordenação de Maria de Lurdes Rodrigues. E acrescentaria, alinhando-se com o principal problema elencado no novo prefácio da reedição do Manifesto: “o país formou numerosos investigadores, mas não foi capaz de lhes dar carreiras. Há anos que vivemos, na ciência e na tecnologia no reino da precariedade. Mariano Gago mobilizou dinheiro da EU para bolsas, mas o sistema montado não foi nem é sustentável”.
Como escrevia Mariano Gago, em 1990, no prefácio original do seu Manifesto para a Ciência em Portugal: “O desafio do desenvolvimento científico atinge o país inteiro e põe em jogo mecanismos que atravessam a sociedade toda. Sem cultura científica mínima são escassas as oportunidades de cidadania autêntica, de construir ou participar nas escolhas da Sociedade”.
Pensamentos que, numa entrevista à RTP em 1993, aditaria: “Se Portugal fosse um país cientificamente normal teríamos três a quatro vezes mais produção científica, três a quatro vezes mais investimento na ciência. Nós temos ciência para o país de três milhões de habitantes, mas os outros sete milhões merecem ciência também”.
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Esta declaração de Mariano Gago, dois anos antes de ser ministro, mostra bem a sua assertividade e clarividência da época, firmemente alicerçada na convicção de que “os atrasos científicos tal como os culturais e educacionais demoram muito tempo”. Porém, passados trinta anos todos temos consciência e convicção das mudanças operadas neste país que – relembre-se – só foram possíveis porque aconteceu Abril. Mas temos também a perceção de que precisamos de voltar a pôr na agenda política a ciência e a educação, como o afirmaram muitos dos atuais cientistas portugueses, no Dia Nacional dos Cientistas, em 16 de maio, dia do nascimento de José Mariano Gago. Mas, sintomaticamente, vejo hoje os pais e as escolas a levarem os seus filhotes e educandos aos Centros de Ciência Viva, uma rede nacional de ciência criados pelo meu amigo Zé Mariano, o que é um bom indício de que as coisas estão diferentes. Como ele dizia: “para que os miúdos levem para casa a curiosidade e a semente da ciência, para ajudarem os pais a pensar quando se confrontam com a questão – Pai, para que são feitas as coisas?”. Pessoalmente, evoco, pois, e ainda aquela década de 80 e aquela equipa multidisciplinar da Educação de Adultos que, na altura, foi única, não só pela diversidade técnico-científica dos seus 14 elementos, mas também por estarmos a construir um novo país, acabadinho de sair de uma revolução. Uma equipa que, ainda hoje, recordo pela fraternidade, pelo trabalho magnânimo, contributo fundamental para a democracia e com liberdade que desejávamos ver nascer neste país. De facto, graças a José Mariano Gago, acedemos a muitos contactos francófonos, pois ele tinha o apoio da embaixada francesa e da Escola Polytechinique de Paris, onde granjeara muitos amigos. Assim, as tertúlias e debates semanais eram sempre enriquecidos com técnicos que faziam preleções temáticas, inovadoras para todos nós, que avidamente consumíamos. Que saúde Mário Portugal, Lucília Salgado, Isabel Pinheiro, Alcina Claro, Olinda Torrinha, Alcina Lobo, lembram-se? O Zé Mariano era mesmo um grande cientista!!! O nosso preito de homenagem à sua memória!!! No entanto, o país também não o esquece entre aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Como tal, os prémios Ecsite Mariano Gago de Educação e Comunicação de Ciência mantêm o seu nome vivo e na toponímia da sua cidade, no Parque das Nações, escreve-se o seu contributo para o futuro, num espaço com a sua denominação.
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Condecorações honoríficas de 24 de Junho – Dia Um de Portugal Equipa Redatorial
Como habitualmente, em 24 de junho, Dia Um de Portugal, a Câmara Municipal de Guimarães laureou seis cidadãos radicados na nossa terra com medalhas de mérito municipal, distinções que premeiam ações e serviços relevantes em prol da comunidade vimaranense. Desta feita, a edilidade atribuiu duas medalhas de mérito cultural a António Amaro das Neves e Manuela Alcântara, duas personalidades respeitadas na cidade. Com efeito, Amaro das Neves, licenciado em História e mestre em História das Populações, atual professor da Escola Secundária Francisco de Holanda, tem sido uma figura ímpar na promoção cultural, em Guimarães, nomeadamente no exercício de funções na Sociedade Martins Sarmento e na orientação do prestigiado blogue “Memórias de Araduca”, que nos conduz historicamente a um burgo e concelho mais profundos, bem como no jornalismo local. Por sua vez, Manuela Alcântara, nascida em Tomar, mas vimaranense por adoção, que por cá vive há 60 anos, e lecionou disciplinas das áreas Históricas e Filosóficas a sucessivas gerações de vimaranenses, na Secundária Martins Sarmento, é também uma merecida galardoada, em especial pelo seu trabalho cultural no Museu Alberto Sampaio, do qual foi diretora, bem como a sua produção investigativa sobre a cidade. Entretanto, noutras áreas, as distinções honoríficas estender-se-iam a outros singulares cidadãos e domínios. Assim, no âmbito do mérito social seria distinguido o engenheiro António Monteiro de Castro, nascido em Guimarães, em 1952, na freguesia de Santa Eufémia de Prazins. Engenheiro civil por formação, deputado da Assembleia da República e vereador camarário pelo CDS-PP, Monteiro de Castro é um conceituado empresário ligado à construção civil e a projetos vimaranenses, mas acima de tudo um homem devotado às causas sociais, nomeadamente como Provedor da Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e Santos Passos e outras instituições, como a Santa Casa da Misericórdia e a Sociedade Martins Sarmento. Por seu turno. José Neves, empresário e líder do grupo José Neves Lda., seria laureado com a Medalha de Mérito Empresarial. Com efeito, a sua empresa, fundada em 1983 e sediada no parque industrial de Ponte, com cerca de uma centena de trabalhadores, é uma das empresas vimaranenses mais inovadoras, distinguindo-se na produção de um inovador cartão canelado, que permitiu formalizar um acordo com o grupo 534
italiano Grifal. No âmbito das condecorações, sobressairia ainda Maria de Jesus Carvalho, diretora do Agrupamento de Escolas Virgínia de Moura, sito em Moreira de Cónegos, e deputada da Assembleia Municipal de Guimarães, eleita nas listas do Partido Socialista, que receberia a medalha de Mérito Educativo.
António Monteiro de Castro; Manuela Alcântara; Maria de Jesus Carvalho; José Neves; Amaro das Neves
António Monteiro de Castro; Manuela Alcântara; António Costa Silva (Ministro da Economia e do Mar); Domingos Bragança (Presidente da CMG); José Torrinha Bastos (Presidente da AMG); Maria de Jesus Carvalho; José Neves; Amaro das Neves
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Jornada Mundial da Juventude (JMJ) – O Milagre do Amor Camila Gabriela Sousa Coordenadora da COP da paróquia de S. Martinho de Candoso
Por estes dias, Portugal e o mundo viveram momentos únicos de união, de esperança na humanidade e na paz. Uma história de pessoas que “calçaram as sapatilhas e quiseram ser felizes”, em que “os sonhos superaram os medos”, que, durante quatro anos, se prepararam para estas Jornadas, que atravessaram fronteiras e diferenças, na certeza de que estes dias chegariam. Quando nos propusemos abraçar este propósito, tenho, agora, a certeza, não estávamos conscientes, para que caminho nos levaria, nem que mudaria para sempre a nossa forma de ver o mundo e a humanidade. Resiliência, fé, amor, perseverança, paciência, cuidado ao outro, disponibilidade para escutar e se deixar envolver, associados a muita alegria, muito muito entoar de cânticos, foram as palavras de ordem nos dias da JMJ em Lisboa, bem como nos que os antecederam, nas pré-jornadas na Diocese. Na paróquia de São Martinho de Candoso desde há quatro anos que se vinham preparando estas Jornadas Mundiais da Juventude. Unidos num sentimento comum, naquilo que, a início, foi um sonho, assim, se foi preparando a receção dos que vinham e criando condições para os que rumaram para Lisboa. Catequese, formação, reuniões, vendas de bolos, festival de francesinha, peditórios, houve de tudo. O que permitiu o crescimento de partilhas e sentido de pertença e a nossa evolução, também, como comunidade paroquial. Grupo de Peregrinos de Nanterre e voluntários da Paróquia de Um longo caminho percorrido que culminou em duas Candoso S. Martinho junto à igreja Matriz de Candoso S. Martinho semanas absolutamente incríveis, onde jovens e menos jovens, experimentaram este sentido de pertença a 536
uma comunidade, que se fez jovem com os jovens. Logo no dia 26 de julho se percebeu a intensidade do que por cá se viveria, tal foi a diferença em relação a tudo o que já tínhamos vivido. Jovens que chegaram sem se conhecerem, a um local que não conheciam, recebidos por uma comunidade que desconheciam, que falava outra língua, mas que estava em festa e de braços abertos para os receber, que preparou bombos, músicas e visitas, refeições, estadias, com uma alegria e fé renovadas pelas mensagens que nos chegavam de Deus e dos Homens. Foi surpreendente ver como estas JMJ nos mostraram logo nesse primeiro dia o verdeiro espírito de peregrino. Semanas de preparação para a receção e a avaria de um autocarro obriga a reorganizações, várias vezes no mesmo dia. Dia que se revelou longo, mas que nos deu a oportunidade de fazermos o melhor acolhimento que alguma vez imaginávamos: nós, que os esperávamos, munimo-nos de meios e fomos buscá-los algures a lugar ainda incerto, nos arredores do concelho, no meio de um calor tórrido, onde se encontravam, com mais cerca de setenta outros jovens, onde a solidariedade dos locais os havia já confortado com água e pão. Há melhor acolhimento do que no meio das dificuldades sentir-se acolhido, apoiado e sentir que qualquer que seja a dificuldade, a boa vontade supera? Que os anfitriões nos procuram no deserto como se fossemos um deles? Assim se fez o primeiro acolhimento, todos estávamos de coração e braços abertos para a partilha. Em Guimarães, recebemos cerca de mil peregrinos que vieram de vários países, com um grande peso para os peregrinos franceses, vindos da diocese de Nanterre (cerca de 700), distribuídos pelas diferentes paróquias de acolhimento.
Peregrinos de Nanterre e voluntários de Candoso S. Martinho, no Centro Peregrinos de Nanterre e voluntários de Candoso São Martinho, junto ao Internacional das Artes de José de Guimarães Monumento ao Peregrino, na Penha
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Em São Martinho de Candoso, recebemos 10 peregrinos franceses dessa comunidade, que ficaram alojados em famílias de acolhimento onde pernoitavam e tomavam o pequeno almoço, passando os restantes momentos do dia em comunidade, com os paroquianos e especialmente com o grupo de jovens da paróquia e voluntários adultos, onde se encontravam alguns pais e outros elementos, que os acompanharam sempre e que viveram intensamente estas pré-jornadas experimentando o espírito das JMJ. Foi bonito ver as famílias organizarem-se para assegurarem as sobremesas, os lanches, os piqueniques, os legumes, as frutas, os voluntários que cozinhavam e que faziam as refeições connosco. Os transportes, sempre assegurados com carrinhas do Clube Recreativo e Centro Social, colocadas à nossa disposição e conduzidas por voluntários; as visitas, à Penha, onde participamos na construção do monumento ao peregrino e fizemos um piquenique, transportados pelo teleférico, aos museus, ao cento histórico, ao laboratório de paisagem, numa perfeita harmonia com a Câmara Municipal de Guimarães, que permitiu a gratuidade de todas estas ações; às industrias, aos equipamentos sociais e civis da freguesia; o acolhimento pela junta de freguesia constituiu momentos de verdadeira alegria, troca de culturas, saberes e experiências, e, sobretudo, a enchente de jovens que se viveu transformou-se rapidamente numa enchente de alegria, amor fraterno e amizade verdadeira, transportando o espírito JMJ para Guimarães e para as suas paróquias, mostrando que a igreja a que pertencemos nos congrega e faz irmãos, derruba barreiras e não tem nacionalidade, tal era a intensidade com que, pelas mais variadas formas, adultos, idosos, jovens e crianças, se comunicavam e expressavam a gratidão pelos momentos vividos. Momentos de oração partilhados em comunidade paroquial, missas celebradas em diferentes línguas, todos juntos, numa só linguagem. A Diocese de Nanterre organizou, na basílica de São Torcato, uma tarde e noite de encontro com todos os peregrinos de Nanterre e todos os que se quiseram associar. Viveram-se horas de muita alegria e de festa no terreiro do Santo e também momentos plenos de oração, adoração e agradecimento, nas cerimónias religiosas, como a missa ao fim da tarde e Adoração ao Santíssimo, no fim do jantar piquenique, organizado pelas paróquias de acolhimento dos jovens. Foi notável o silêncio e consagração que se viveram nos momentos eucarísticos, onde se pôde perceber a fé que moveu estes jovens para as JMJ, alternados com a grande algazarra, música e dança. Feito o envio na paróquia, feitas as despedidas e agradecimentos por tantas partilhas, era hora de partirmos para Braga, para nos juntarmos aos cerca de 7 mil peregrinos acolhidos na diocese, onde continuamos em crescendo para este sentimento de que eram muitos os que se puseram a caminho, eram muitos e estavam felizes. Na segunda feira, dia 31 de julho, era hora de os peregrinos acolhidos nas diversas paróquias e os jovens 538
que os acolheram se juntarem mais uma vez, numa só voz. Todos se fizeram peregrinos e rumaram a Lisboa, para as JMJ. Eram jovens das paróquias de Abação/Gémeos, Airão S. João, Barco, Brito, Candoso S. Martinho, Candoso S. Tiago/Mascotelos, Creixomil, Fermentões/Penselo, Gonça, Lordelo, Mesão Frio/Aldão, Moreira de Cónegos, Nespereira, Polvoreira/Tabuadelo, Ponte, Prazins Santa Eufémia, Prazins Santo Tirso/Corvite, Ronfe, Sande Vila Nova, São Torcato/Selho São Lourenço/Gominhães/Atães, Silvares, Vermil, além das paróquias de Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Oliveira. A CERCIGUI foi uma das instituições vimaranenses que marcou igualmente presença neste evento especial. Distribuídos pelas paróquias de acolhimento, fomos nós, também, acolhidos e agregados nessas comunidades, que se fizeram nossas. Alojados em escolas, pavilhões e outros equipamentos ou em famílias de acolhimento, o arciprestado Guimarães-Vizela ficou alojado na paróquia de Camarate, onde vivemos uma semana única e inesquecível para todos. A gestão do espaço, as dormidas comuns, os banhos, o carregamento dos telemóveis, as catequeses e eucaristia que abriam as nossas manhãs, foram um exemplo sentido de verdadeira partilha e doação ao outro, no amor, de que já falei, e que não se explica, mas que, por estes dias, se viveu intensamente e que terá sido o maior milagre destas JMJ: amor fraterno e verdadeiro. O dia do Acolhimento foi muito especial. Pela primeira vez caminhávamos para o mesmo espaço, numa alegria, que contagiou o metro, os autocarros, as ruas, que seguiam cheios de gente, que entoava cânticos e músicas num verdeiro hino de amor. A verdadeira e genuína alegria que enchia as ruas, com gente que empunhava bandeiras de diferentes nacionalidades e regiões, que gritava vivas, aos presentes e aos ausentes, que contagiava os residentes, as autoridades de segurança, os voluntários da saúde e outros, foram um hino ao amor, à juventude e à esperança na humanidade e eram uma só Grupo de Candoso São Martinho com jovens de diferentes nacionalidades, numa das voz: estamos aqui por amor. muitas fotografias de grupo que se tiraram durante as JMJ, esta na Colina do Acolhimento (Parque Eduardo Sétimo), As visitas às igrejas, museus, oceanário e ruas e demais locais emblemáticos de Lisboa, os concertos, os silêncios, foram sempre pautados por este sentimento de que “fomos todos chamados”. 539
Um dos pontos altos destas JMJ foi a Via Sacra, um momento muito real onde as dores e realidades dos jovens de hoje foram retratadas e vividas, mas também muito espiritual, onde a entrada no sepulcro apontou o caminho para a felicidade, deixando uma verdadeira mensagem de esperança. Os cerca de 700 mil jovens que estavam na Colina do Acolhimento e os muitos milhões que acompanharam as celebrações, sentiram envolvidas as suas dores e angústias e, ao mesmo tempo, perceberam que não estão sós neste caminho, que somos muitos e estamos com Aquele que nunca nos deixa sós. Os momentos que se seguiam às celebrações revelaram-se mágicos pelas partilhas, abraços, danças, fotos de grupos, que iam crescendo a cada clicar da câmara. Os pines, pulseiras, bandeiras, lenços, pagelas, livros de orações que todos trocavam não eram simples objetos, mas manifesta-
Grupo de Candoso S. Martinho na Colina do Encontro (Parque Eduardo Sétimo), Lisboa, no final da Via Sacra (dia 04/08)
Grupo da paróquia de Candoso S. Martinho no Campo da Graça (Parque Tejo), Lisboa, no final da Vigília, com a Ponte Vasco da Gama ao fundo (dia 5/08)
ções de amor fraterno, de amizade, de alegria verdadeira, de empatia, de solidariedade, de curiosidade, de aceitação da diferença, que ligaram para sempre os jovens que partilharam estes momentos. Os dias no Campo da Graça foram uma verdadeira graça, desde a dura caminhada, carregados e ao calor, até ao local destinado, à partilha do espaço, ao sentimento de que somos imensos, mas temos a mesma voz, mais uma vez o milagre do amor permitiu que todos se acomodassem e que ninguém estivesse só. A Vigília, ao final do dia, foi uma ode de paz e amor. Pela leveza, pureza, bondade e
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genuinidade do Papa Francisco, os jovens foram envolvidos, acolhidos ao colo, onde cada um foi “chamado pelo nome e tinha um rosto de que Deus conhece”, sentindo-se único e embalado por cânticos celestiais vindos de um coro, orquestra e artistas que fizeram render os seus talentos, que eternizaram aqueles momentos com as suas músicas, que nos elevaram à beleza do amor, num silêncio, nunca imaginado no meio de quase dois milhões de pessoas. A eucaristia de envio foi, mais uma vez, pautada pelo silêncio e sentimento de pertença, onde, no meio daquele milhão e meio, cada um ouviu a palavra de Deus, comungou do mesmo Pão e do mesmo Vinho e se sentiu acolhido, reforçado e saciado. O sonho da paz do Papa Francisco foi partilhado com os presentes, pedindo que trouxéssemos apenas o bem que colhemos e que as provações tenham apenas feito parte do caminho. Foi selado o compromisso de fazer o mundo melhor, de se deixar contagiar e contagiar por este amor. Grupo da Paróquia de Candoso S. Martinho no final da Missa com o Papa Francisco no Campo da Graça (Parque Tejo)
Todos ficamos mais unidos e viemos com a fé e a esperança renovadas na certeza de que a fé vem de Deus, mas só faz sentido se vivida em comunidade e na humanidade. Que cada um tenha trazido o que Deus tinha para lhe dizer, o que precisou de ouvir. Que as palavras, os cânticos, os silêncios, tenham ecoado em cada um, de acordo com o que necessitou e que o amor se propague, assim como o sonho da paz, que, sem medo, se torne em realidade. A porta está sempre aberta, Deus está sempre no meio de nós. Sigamos desprovidos de máscaras e com o coração aberto. Acreditar no amor e seguir sem medo de alcançar os sonhos é o caminho.
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RECENSÕES/SINOPSES Inserir separador
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Recensões/Sinopses A nossa gente continua ativa e empenhada. Assim, não espanta que o prelo não pare com muitas e boas publicações de vimaranenses por nascimento ou cá radicados, bem como associações locais. De facto, desde livros a revistas, Guimarães pulsa de iniciativas editoriais da mais diversa índole. Mas também de outras iniciativas criativas, como a música, de que o álbum “Ibéria” de Manuel de Oliveira é exemplo. Guimarães não para…
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Os Segredos da Casa Abandonada Teresa Portal
Os Segredos da Casa Abandonada é a 1ª história da coleção OS SEGREDOS e os aventureiros (o Zé, o Toino, o Luís e o Gabriel) fazem a sua entrada triunfal com características que fui buscar aos alunos que tive durante tantos anos. Não há retratos fiéis, apenas traços deste e daquele que fui juntando. Quase não há retrato físico para que os leitores se identifiquem com esta ou aquela personagem. Por acaso são todos rapazes. Porquê? O seu destino era serem pescadores, profissão que ainda hoje se mantém predominantemente masculina. Elas seriam peixeiras. Nesta primeira aventura aparece a Isabel, dona da casa abandonada, que a restaura e que usa roupas largueironas e tem um ar arrapazado. Sabes porquê? Há um trauma na sua vida que ela aborda muito levemente e que só vais conhecer numa das próximas aventuras. E o faroleiro Jaquim, avô do Luís, também tem muito que contar. Ainda não se sabe nem meia missa… Já viste a rapidez com que conseguiu a presença da Polícia Marítima e do FBI no caso do narcotráfico inicial e depois quando apareceram as arcas? Como é que o avô da Isabel foi um grande amigo do avô Jaquim, o faroleiro? Segredo! Pois é, esta aventura enceta o caminho para a segunda em que ficas a saber mais sobre esta aldeia piscatória tão procurada pelos turistas nas férias. Mas foi procurada em outra ocasião da história mundial. A arca que apareceu no canil fala em judeus e nos nazis. Então já sabes de que período negro da nossa História Mundial falo? Pergunta ao teu professor. Amante da fantasia, da magia e das ciências esotéricas do oculto, uma das personagens tem “poderes” de telepatia e vê em sonhos a tia da Isabel (e não só), ouve também sons do passado que traz para o presente. O Zé é um rapazinho espantoso. 545
A personagem que se impõe na história é feminina e vais conhecer mais na próxima aventura. E estes quatro rapazinhos, que tiveram esta aventura no final do 4.º ano, nas férias grandes, estão em pulgas para conhecerem a nova escola, na vila, e também um pouco ansiosos com a entrada num novo ciclo, o 2.º ciclo. Tu também sentiste isso? É realmente uma grande mudança. Espero que te tornes fã desta aventura. Divulga-a e, se a coleção for um sucesso, escreverei mais do que os quatro “segredos” escritos e um a ser escrito. Há muitos outros segredos a desvendar.
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Bruxas Bruxinhas Teresa Portal
As Bruxas fazem parte do imaginário das crianças, mas as bruxas destas histórias são únicas: A Bruxa Desempregada caiu da história e foi socorrida por uma humana para poder voltar; A Bruxa Rezinga e o Ambidestro perseguiram o João e entraram-lhe num sonho, levando-o a um tribunal de mãos só por ele ser ambidestro; A Bruxelinda sofre bullying no reino das bruxas, mas salva-as no castelo do Senhor das Trevas e do Mal graças à sua esperteza; Gema, a Bruxa Desatenta e Rebelde, optou por ser "moderna" e permitiu que a humana-escritora que a acompanha visse o que deveria permanecer oculto no Mundo da Magia; a Bruxa Errática, a bruxa dos erros ortográficos, é trapalhona e preguiçosa e só faz asneiras… Então, consegui despertar a tua curiosidade? Lê as histórias ou pede que tas leiam e vais conhecer bruxas diferentes que são castigadas (não sabias?) e divertir-te tanto com elas como eu me diverti a escrevê-las.
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Projecto Coral da Poesia Portuguesa – Volume Um “Projecto Coral da Poesia Portuguesa – Volume 1”, da autoria de Tiago Simães, é um livro acompanhado de um disco, que visa abordar e perpetuar na memória os mais belos poemas dos grandes poetas de língua portuguesa, através da música coral. Simultaneamente, pretende-se aumentar o repertório contemporâneo deste tipo de música (em português), que é escasso em Portugal. Foi elaborada uma abordagem consciente das peças, de forma a conseguir algum ecletismo e/ou variedade, a vários níveis. Assim, são abordados vários estilos musicais e vários graus de complexidade melódica e harmónica, bem como várias temáticas poéticas e variados autores. Além do disco, que foi gravado com a colaboração de aproximadamente 100 coralistas oriundos de 8 cidades do norte do país e que responderam à open-call. O livro tem também ligações QRcode para ligações no YouTube. Tiago Simães na apresentação da obra Projecto Coral da Poesia Portuguesa
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Sob o Signo de S. Nicolau Numa 2ª edição, revista e atualizada, deu de novo à estampa o livro “Sob o signo de S. Nicolau” de Manuela de Alcântara Santos, 28 anos depois da 1.ª edição, publicada aquando da assinatura do protocolo celebrado entre a Irmandade de S. Nicolau e o Instituto Português de Museus, em 1994, cujo teor confiava a guarda das peças mais significativas do património da Irmandade ao Museu Alberto Sampaio. Com efeito, a atual edição da Irmandade de S. Nicolau, revista e atualizada pela autora, fundamentalmente no que respeita à identificação e classificação das marcas de ourivesaria do património da Irmandade, surge, agora, em capa dura e com um novo arranjo gráfico e design de Alexandra Xavier, bem como fotografias de Miguel de Oliveira e Miguel Sousa, sob a égide da editora Norprint. Deste modo, preenchendo uma lacuna existente, uma vez que o livro estava esgotado há vários anos, a Irmandade de S. Nicolau presta um prestimoso serviço aos vimaranenses em geral e aos nicolinos em particular, reeditando o seu historial desde o século XVII. Efetivamente, data de 1661 que os “mordomos da Confraria de São Nicolau” assinaram contrato com o mestre de pedraria Domingos Lourenço, de Monte Largo, para a construção de “hua Capella pª. o ditto Santo” que ficaria concluída em 1663 e seria paga com dinheiros que os estudantes da vila ganharam em comédias e danças, feitas “por devoção ao Santo e para aumento da Capela”. Tal como na 1ª edição, numa escrita escorreita e rigorosa, a autora historia ao longo dos séculos os passos mais significativos da Irmandade e da capela do santo, bem como do seu tesouro que compreende quatro tipos de peças de prata: a cruz processional, as medalhas dos irmãos e do servo; as varas que serviam de insígnia aos principais mesários e o báculo da imagem do santo padroeiro. O livro apresenta ainda um apêndice documental, circunscrito ao “Livro de Termos da Meza” e às “Velharias de irmandades Vimaranenses” de João Lopes de Faria, bem como um roteiro da exposição documental sobre a Irmandade de S. Nicolau. Seguramente um livro que vale a pena (re)ler e conservar para os vindouros e novas gerações nicolinas. 549
O Anjo da Lágrima Ó Mãe, toma este livro no teu seio, pergaminho da nossa fidalguia. Não é só meu, bem sabes, plagiei-o a toda a gente humilde que sofria. J. Gomes Ferreira
A memória das palavras Quem porventura tenha lido O Anjo da Lágrima, dispensará justificação da epígrafe que serve de leitmotiv ao comentário que aqui vai como notícia e apresentação deste romance. O mundo diegético desta fábula nasce e move-se a partir duma lenda tão ingénua como qualquer outra. Ingénuas poderão ser as lendas e as fábulas, mas inócuas não: este romance não é inocente. O anjo Ariel, inquieto e curioso, saiu do céu e veio à terra, viu um mundo estranho, não gostou do que viu, regressou ao paraíso, contou a Deus algo do que viu e ouviu, intuiu rapidamente que Deus estava longe de saber da dolorosa condição humana: o Criador não quis acreditar no que o anjo lhe dissera. Obrigado a voltar à terra em busca de melhor prova do geral sofrimento humano, Ariel veio e tomou consciência de que tudo aqui era, por um lado, martírio para a maior parte dos seres e, por outro lado, tudo era fingimento, falácia e representação: tomou conhecimento de que os deuses, todos os deuses, tentavam sublimar e fazer esquecer os dramas da vida e a tragédia humana. Afinal, deus e o diabo, todos os deuses e todos os diabos, por si mesmos ou por interpostas criaturas, se incriminavam mutuamente – e mutuamente se absolviam. Ariel contracena com Farfarel durante quase toda a 1.ª parte do romance – 20 capítulos cerrados. Discordando sempre e sempre conflituando, mas confluindo no essencial, nada concluem: o anjo bom e o anjo mau questionam, mas as questões levantadas ou não têm solução ou subsistem porque são contornadas. Os diálogos entre os dois actantes principais desta 1.ª parte são quase sempre confusos ou esfrangalhados, por vezes displicentes, uma baralhação própria de quem não está a falar verdade. O diabinho-da-mão-furada 550
mostra-se contundente e mais sincero exatamente em momentos cruciais ou nos mais críticos em que, suspenso o habitual estilo irónico e atitudes displicentes, faz perguntas acintosas, politicamente indesejáveis, de resposta incómoda: «– Diz-me uma coisa, companheiro Ariel: de que Deus falas quando falas de Deus?», e é ele que diz aquilo que alguém teria de dizer: «– Deuses e tiranos são duas faces do mesmo demiurgo. Não há tirania sem uma divindade que a legitime». O anjo Ariel e a bruxa Leáh contracenam em um outro plano: a sim-patia, no legítimo sentido do termo, a simpatia e a conivência entre ambos nascem no momento em que tomam consciência de que um e outro se desviaram dos respetivos destinos, e traíram os planos demiúrgicos. Rumo a um futuro incerto, mas solidário, tal simpatia vai aflorar no amor sensual entre dois seres míticos em um espaço adâmico, edénico, cheio de vida, cor e beleza. Esta 1.ª parte acaba com um sketch ou cena teatral em que Leáh desfaz a farsa montada, desafiando a própria divindade e invetivando duramente os próceres ali presentes, todos os poderes constituídos e as hierarquias políticas, sociais e religiosas. Nos 15 capítulos seguintes, o narrador omnisciente deixa a narrativa por conta da personagem central desta 2.ª parte: André Peralta, soldado na Flandres, agora almocreve – narrador e actante, condutor da sua própria história. É uma das muitas personagens que vieram para esta narrativa trazidas dos respetivos contextos literários onde nasceram. Há neste romance nomes bem conhecidos da literatura universal – de O Paraíso Perdido de Milton, de A Divina Comédia de Dante, das narrativas bíblicas e de contos populares, há intertextualidades poéticas, mitológicas e cénicas, há ressonâncias e alusões a personagens da iconografia barroca, as quais, transliteradas e para aqui transpostas, adquirem nesta viagem uma nova função e um sentido específico de contestação. A 3.ª parte tem apenas 10 breves capítulos. O tempo contado obriga a que tudo vá mudando para que tudo subsista e não haja descalabro nos fundamentos do mundo. Por cima da tragédia e das ossadas soterradas ou ignoradas, o mundo continua a girar como se nada tivesse acontecido. Debaixo da Quinta dos Girassóis abrem-se cavernas secularmente ignoradas, mas atuantes e maléficas, abre-se finalmente uma nesga de luz que dá a conhecer parte do soterrado desconhecido e ajuda a desvendar mistérios antigos. Por sobre tudo isto, num espaço outrora mítico, esperançoso, mas cheio de segredos, gira o vulgar mundo real das vaidades superficiais em que o imprescindível fingimento que é arte, astúcia e condição de vida, aparece na substância ínsita nas pessoas, imprescindível no quotidiano efémero: as «caixeirinhas das lojas comerciais (do shopping) se perfilam como papoilas rosadas colhidas algumas por entre as verças universitárias». No Girassol, um par de lavagantes ergue as antenas, felizes, como se ali, num aquário de restaurante, a vida fosse eterna. 551
Os Zés Pereiras: uma cultura musical do Entre-Douro-e-Minho João Salgado
«Cada música melhor que a outra, ritmos incríveis, grooves brutais, caixas a rufar com uma técnica assombrosa, bombos a ribombar, gaiteiros espetaculares, instrumentário, fotografias inéditas...eu sei lá!»
A obra “Os Zés Pereiras: uma cultura musical do Entre-Douro-e-Minho”, de Nuno Dias, Tiago Manuel Soares e Napoleão Ribeiro, é um exemplo de como a arte e a cultura podem ser utilizadas para respeitar e preservar a tradição popular de um povo. O livro é um trabalho de pesquisa e registo sobre a cultura dos Zés Pereiras, tradição bastante presente na região norte de Portugal. A obra em causa busca explorar as diversas perspetivas que compõem essa tradição, incluindo depoimentos de músicos, festeiros e construtores de tambores e gaitas-de-fole. A partir desses testemunhos, é possível entender a riqueza e a complexidade dessa manifestação cultural. O uso de vídeos e QR Codes para acesso aos mesmos é uma inovação na forma de se produzir um livro, e permite que o leitor tenha uma experiência mais completa e imersiva, que não se limita apenas (sendo que este apenas já é muito, e bom) ao texto escrito. Isso faz com que a obra seja mais acessível e interessante, especialmente para o público mais jovem. Sublinhamos que muito do trabalho de campo passou por recolhas feitas no nosso concelho. Aliás, a iconografia mais antiga do fenómeno é de Guimarães assim como, por exemplo, muitas anotações históricas relatadas, nas "Curiosidades de Guimarães”, por Alberto Vieira Braga na “Revista de Guimarães”. Além do mais, foram registados toques únicos em São Martinho de Candoso, que possuem muitas relações com os toques das Novenas das Festas Nicolinas e que, por menos atenção seriam passíveis de esquecimento ou degradação.
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Tiago Manuel Soares, um dos construtores do livro, revela-nos de forma clara e concisa o porquê e os caminhos percorridos para construir o belíssimo livro que temos em mãos. Diz Tiago Soares que «ainda catraio, quando iniciei as minhas andanças pelo belo e misterioso mundo da música tradicional portuguesa (impulsionado pelo meu pai e meu tio avô, mestre Zé Pereira de Penafiel) tinha acesso a pouquíssima informação para aprofundar o meu conhecimento sobre os toques tradicionais (os ritmos), técnicas de tambor, grupos existentes, etc, etc... Quando me questionavam sobre: "...mas então os Zés Pereiras resumem-se a um ritmo apenas?" Eu encolhia os ombros e fustigava-me por não ter resposta a essa pergunta – apesar de ter uma nebulosa ideia que haveria muito mais!».
O arranque: «Com a evolução natural das coisas, em sucessivas conversas com o amigo de longa data Napoleão Ribeiro (já muito conhecedor desta matéria, com trabalho publicado e muitas exposições realizadas), picava-o no sentido de criarmos um livro onde se compilasse não só o que ele já sabia, mas também registar o máximo de toques possível. Assim, em 2020, com o pedido de apoio à Direção Geral das Artes - Ministério da Cultura, obteve-se o que faltava para poder revisitar velhos amigos, conhecer outros novos e registar, em áudio, vídeo e livro, os grupos dos diversos territórios onde esta cultura é fértil!»
Trás outro amigo também «No meio deste processo o Napoleão chamou outro amigo, o Nuno Dias que, por ser Zé Pereira há uns anos valentes, nos ajudou muito. Para os audiovisuais, convidámos o outro amigo Abel Andrade e pronto, estava criada a equipa que tornou isto possível. O resultado: 225 músicas registadas, 57 publicadas em partitura (mais 3 partituras do 1º regulamento geral dos serviços para os corpos do exército de 1866… logo vão perceber o porquê dessa curiosa ligação) e vídeo sobre os Zés Pereiras e a cultura do tambor cerimonial no Entre Douro e Minho. Cada música melhor que a outra, ritmos incríveis, grooves brutais, caixas a rufar com uma técnica assombrosa, bombos a ribombar, gaiteiros espetaculares, instrumentário, fotografias inéditas...eu sei lá!»
O trabalho inclui: – textos do antropólogo Napoleão Ribeiro; – partituras do percussionista Tiago Manuel Soares; – vídeos, fotografias e som do videógrafo Abel Andrade.
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O dia em que a morte nasceu Eva Machado
“Escrevo porque todos temos mundos dentro de nós querendo sair. Às vezes saem numa pintura, outras numa dança… às vezes saem na escrita” (Moncho Rodriguez)
Moncho Rodrigues era Mestre da celebração da vida e do sonho. Isso é incontestável. Nas suas mãos, à imagem do Rei Midas, qualquer texto se transformava em ouro, em sucesso. Tinha uma mente que fervilhava de ideias e projetos, e um sorriso franco e bom. Conversava como “forma de saciar a sede”35. E quando falava, naquele galaico-português com sotaque brasileiro, as palavras saíam assim tão redondas e melodiosas que nos faziam voar até ao Reino do Sonho. Nas suas mãos tudo “era uma provocação para mexer com as pessoas, uma provocação positiva para renovação da sua relação com a arte, com a cidade, com as pessoas36”. Assim é também o seu livro sobre o qual vou aqui alinhavar algumas palavras. Rodeado de muita gente amiga, no dia 15 de outubro de 2022, Moncho Rodrigues apresentou, na Associação Artística Vimaranense (ASMAV), o seu livro “O dia em que a morte nasceu ou o reino do sonho, lugar sem começo nem fim37”. Tal como nos habituou nas peças que criava e encenava, também este livro, o último38 que escreveria antes de nos deixar definitivamente39, fascina e inquieta pela profundidade das questões filosóficas e sociais que aborda. Esta reflexão sobre a vida e a morte, a velhice, o medo e a saudade é um questionamento
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Entrevista online concedida ao “Mais Guimarães” a 7 de maio de 2022
36 Entrevista concedida ao “Mais Guimarães” a 16 de novembro de 2022, na sede da ASMAV. 37 Rodriguez, Moncho (2022), O dia em que a morte nasceu ou o reino do sonho, lugar sem começo nem fim. Vila Nova de Famalicão: Edito-
rial novembro. 38 O seu primeiro livro, “Beatriz e o Peixe Palhaço”, foi editado, em 2017, pela Editorial Novembro. 39 Moncho Rodriguez faleceu a 28 de janeiro de 2023, em Salvador no Brasil.
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sobre o modo como nos relacionamos com os outros e com o mundo. Nas mensagens que transmite, e que abrangem um público de todas as idades, encontramos marcas da idiossincrasia identitária do povo com os seus saberes e valores, porque “não há contemporâneo sem o ancestral, não há contemporâneo sem a memória, sem a tradição40”. A estrutura do texto, “por onde passam os desusados, aqueles que já viveram vidas que ninguém pode imaginar”, assenta num jogo lúdico de questionamento, pela voz de uma criança, sobre temas incómodos, como a velhice e a morte, dos quais as sociedades, ditas modernas, buscam um distanciamento “higiénico”. É um convite ao leitor para entrar na narrativa sentindo a mesma inquietação e insatisfação das personagens porque “a insatisfação do agora é que nos vai fazer caminhar, caminhar, caminhar…”41 São sete os contos que compõem o livro. Sete que simboliza a passagem do conhecido para o desconhecido. Seria este número uma escolha casual do autor quando já estava muito doente, ou uma espécie de despedida? Não sei. Mas Moncho era assim… Mestre a criar e a lançar desafios. Vamos então a esta desinquietante narrativa… A primeira história, “Eu”, apresenta-nos Maria, uma menina que adora “viver lá em cima a caminhar nos fios dos arames do céu”, que não sabe muito bem dizer quem é, preferindo responder que é “a menina depósito de coisas desusadas”. É pela sua voz que conhecemos o tio Nomar, “pastor de palavras” e “fabricante de teatro que inventa personagens com outros mundos e vidas”, numa imagem que nos remete para a vida de Moncho, um gigante a criar encantamento. “Jeremias”, os suspensórios, “um grande herói abandonado num mercado de flores murchas”, é salvo pela mochila Catarina para, finalmente, poder descansar, porque “se os heróis forem pobres são logo esquecidos, os heróis ricos compram ou ganham uma página nos livros da história e passam logo a ser «Datas». E vem a “Saudade”, invisível e misteriosa, que esconde todos os segredos dos “desusados” e “sabe muitas histórias”, aqui comparada a uma frágil “Flor” presa “apenas por um “fiapinho de linha já no final da sua força”, demonstrando como a vida é frágil precisando sempre desse “ar vento” que só o amor “com as mãos assim, meio abertas” pode dar. “Hilário”, o despertador “já entrado na idade”, controla “todo o tempo que passou e todo o tempo que ainda vai passar” e lembra-nos que vida é como aquela flor, frágil e efémera, e quando menos esperamos o nosso tempo acaba. Sempre foi ele que despertou a avó e o Óscar, o armário carrancudo e grandalhão que dá doces em troca de perguntas. Mas, e “se um dia o Hilário não acorda a minha avó?” O que é que acontece se ele pára? E aí vem “A Dúvida”, a grande dúvida, que persistia na sua cabeça, “como posso saber se vou gostar de
40 Entrevista online de Moncho Rodriguez, concedida ao “Jornal de Guimarães”, em 7 de maio de 2022. 41
Idem.
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viver lá na morte?”. Fica invisível e pergunta à Saudade porque ela já tinha ido “a muitos velórios”. Ela contalhe a “história de como a Morte nasceu…”, confirmando que “também vive neste mundo”, de nada valendo afastarmos para longe da vista os “desusados” para não pensar nela. A menina olhava para a avó doentinha e frágil, “tão linda… tão avozinha”, desconfiando que ela “estava a preparar uma viagem”. Mas ninguém lhe dizia para onde ia ela sozinha. Naquela casa “ninguém queria nem tocar no assunto”. Até que um dia, a pergunta saiu-lhe disparada como uma bomba: “- A avó vai morrer e eu quero saber para onde é que ela vai!”. Mas ninguém respondeu porque “há perguntas que quando se fazem o mundo vira de pernas para o ar”. Recorreu de novo à invisibilidade e perguntou à Saudade. Ela conta-lhe a história de “O Relojoeiro” criador do tempo que tinha uma filha “a quem ele chamava Vida”. Tempo e Vida viviam felizes até ao dia em que o Tempo foi de urgência ao Reino dos Sonhos. Distraiu-se por lá e, num suspiro tinham passado dias, meses anos… e o tempo nunca volta atrás. “Lembrou-se da sua filha Vida, como estaria ela? A caixinha com ar e alento que lhe tinha deixado, devia estar já no final”. Podia ele salvar Vida? O Rei do Sonho, agradecendolhe por ter salvo o seu Reino, sossegou-o: “- Hoje mesmo, mandarei a minha filha, a Morte, ir buscar a tua filha Vida! Assim poderás tê-la a teu lado!”. Mas não há fim porque ali, “no firmamento, onde tantas estrelas estão a brilhar… ela continuará a viver… Enquanto brilham, as estrelas sonham…” Foi neste Reino de Sonho que Moncho Rodriguez viveu, fazendo o que sabia melhor: Arte. Sempre insatisfeito e provocador quis lembrar, neste livro, os “desusados” e os “heróis”, quantas vezes esquecidos ou ignorados tanto em vida como na morte. Foi para esses, e para nós, que ele criou universos mágicos onde as estrelas continuam a sonhar. Somos feitos de pó de estrelas e a elas regressamos. É lá que ele continua a viver. Até sempre Moncho!
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Saltar fronteiras Eva Machado
No dia 2 de dezembro de 2022, a Associação Artística Vimaranense (ASMAV), em Guimarães, encheuse de amigos e amigas para assistirem ao lançamento do livro de João Machado, “Saltar Fronteiras”. Esta história, inspirada em factos reais, decorre entre 1969 e 1975 e narra as vivências de quatro amigos, Zeca, Zé Torres, Toja e Beto, todos de Guimarães e na casa dos vinte anos, quando decidem recusar a Guerra Colonial e, sem outra opção, fugir para França, a salto. O autor, natural de Guimarães, mas longe da sua cidade durante décadas pelas razões que narra no seu livro, vai descrevendo página após página, até aos mais ínfimos pormenores, as ruelas, a vida e as gentes desta cidade, que tão bem conhece. Diz ele que “estamos em dezembro de 1969 e o velho burgo respirava prelúdios de festas natalícias”. Mas a mobilização para a guerra das colónias pesava como uma espada sobre a cabeça, destes e de milhares de outros jovens. “Tropa, guerra, dever, obrigação, Pátria, Angola, Guiné, Moçambique, foram palavras que eles ouviram vezes sem conta desde crianças. Mas agora, na João Machado hora de embarcar, outras palavras surgiam sorrateiras e clandestinas: desobedecer, fugir, desertar! Nunca fariam a guerra em África!”. Vivia-se em ditadura. Não havia liberdade política e a PIDE tinha olhos e ouvidos por todo o lado. Através das suas palavras, ora dolorosas ora irónicas, João Machado traça-nos uma imagem das personagens, do secretismo das reuniões, lugares, discussões e dos preparativos que culminam na elaboração do plano da fuga para França a “Salto”. Os riscos são imensos, mas uma certeza os move: não querem o futuro que o país lhes destinou. E, por “altura do Natal de 1969, a última peça do puzzle e a decisiva, tinha sido finalmente encontrada: o passador. Era de Chaves, cidade perto da fronteira. Visto o risco envolvido, dois desertores e dois refratários, o passador comprometia-se a passar os quatro para Espanha, só os quatro e ao mesmo tempo”. Mas o plano corre mal, e dois deles têm de regressar a Guimarães arriscando-se a serem presos ou enviados para a guerra. Nova fuga é planeada e, desta vez, concretizada. João Machado, move então a narrativa para França, e é na “Cidade das Luzes”, o reencontro dos quatro amigos. A partir desse reencontro, o 557
autor, com fluência, e uma permanente atenção a pormenores, descreve este confronto com Paris onde tudo se apresenta grandioso, novo e livre: as lutas políticas, as discussões filosóficas, a literatura, a música, o amor, mas também as dificuldades quotidianas com a língua, a exploração capitalista nas fábricas, o racismo, a descriminação, e as movimentações políticas de cada personagem, numa luta sempre presente, pelos ideais da liberdade e da democracia. É um mergulho intenso, mais real que ficcional, na década de 70, que nos vai prendendo a cada volteio de página. No último capítulo, a narrativa completa um círculo espacial, voltando a Guimarães, em Agosto de 1974, depois de um exílio que dura “quatro anos, sete meses e dois dias”, como refere o autor. Na apresentação do seu livro, na ASMAV, João Machado disse que com este “livro quis prestar uma homenagem aos cerca de 9000 desertores, aos 10 a 20000 refratários e aos cerca de 200 000 jovens que não se apresentaram à inspeção militar. Quase 50 anos passados após o 25 de Abril, a questão dos desertores e refratários do exército colonial continua sendo como Miguel Cardina, um estudioso nestes assuntos escreveu... «uma memória fraca, ainda observada, em múltiplas circunstâncias, como um gesto inadequado, e a sua recordação como uma espécie de desonroso desafio à memória da guerra e dos seus combatentes»”. No entanto, diz ainda o autor, “eles, os desertores e refratários, cada um à sua maneira, também foram obreiros no eclodir do 25 de Abril de 1974”. É isso que percebemos através das vivências de Zeca, Zé Torres, Toja e Beto, e da análise rigorosa das condições sociopolíticas do que aconteceu naquele tempo, e do drama pessoal de quem o viveu dentro e fora do seu país de origem. Esta é uma obra fascinante e corajosa, de tributo à nossa Memória Colectiva, e que se lê num bater de asas…
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Iras e Amores em Tempos de Desassossego O sétimo livro42 do médico vimaranense Carlos Salgado Guimarães, intitulado “Iras e Amores em Tempos de Desassossego”, está disponível nos escaparates, após a sua apresentação na Biblioteca Raul Brandão, já no decorrer de 2022, exatamente, no dia 21 de outubro. A nova obra, com quase cem páginas, em edição de autor, assume uma perspetiva introspetiva, centrada em reflexões pertinentes sobre os direitos humanos, a justiça e a educação, balizada num tempo anterior ao surto pandémico, abordando fundamentalmente memórias, pensamentos, uma homenagem e até alguma poesia. Definido, paradoxalmente, como “um manual de utilidade para os dias úteis” ou imagisticamente como “… a descoberta de um galho para não cair da árvore, de uma corda para sair do poço, um oásis perdido no meio das dunas do deserto”, a obra analisa subjetivamente uma certa anormalidade e relativismo que atravessam os direitos humanos, nestes tempos de instabilidade, tendo em vista incidir um outro olhar sobre a matéria em causa e, concomitantemente, resgatar esses conceitos no âmbito de uma perspetiva transformadora, de cariz mais humanista e libertadora. No fundo, uma obra de teor reflexivo de antagónicas iras e amores, como o título indicia, situado em tempos de incertezas e dúvidas. Porém, o autor acredita em milagres e “tem prova disso nos dois filhos que gerou” … Importa ler este livro, não esquecendo as anteriores publicações.
42 Antes, Carlos Guimarães lançou "O Trémulo da Carriça" (2015), reeditado em 2018, e ainda "As Borboletas Voam Sozinhas" (2016), "O
Sorriso é a Morte de Todos os Medos" (2017), "Palavras Soltas de um Escritor Falhado" (2018), “As Crónicas do Zequinha” (2019) e “Olhar o Mundo à nossa volta” (2020).
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Linhal da Corredoura Em Guimarães a tradição ainda é o que era. Por isso, o ciclo do linho é um desses usos e costumes que mantém raízes presas à terra e germina por força braçal de verbos de ação, ainda hoje conjugados para as bandas da Corredoura, que alinham esse calvário do linho até à arca de bragal: semear, arrancar, ripar, enriar, secar, maçar, espadelar, arrastelar, assedar, fiar, ensarilhar, branquear, dobar, urdir, tecer e bordar. Ora, diremos em boa hora, foi recentemente urdido e tecido no prelo um livro sobre o ciclo do linho, intitulado “Linhal da Corredoura”, de autoria de Armindo Cachada, numa edição da Câmara Municipal de Guimarães, cujo promotor é a Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais, que nos dá conta desses tormentos do linho da baganha até à colheita, celebrados no seu ato final com cantos e danças apropriados e um lanche tradicional, bem à minhota. De facto, a partir desta iniciativa etnográfica que revela o papel ativo do Grupo Folclórico da Corredoura, que preserva anualmente esta tradição da Festa do Linhal, nascida aquando das festividades da Romaria Grande de S. Torcato, o autor do livro regista com rigor fotográfico e histórico com profundidade hermenêutica essas fainas tormentosas, à laia de reportagem etnológica feita livro, acrescentando andanças, usanças e a memória oral e patrimonial do povo e folclore vimaranense. Um livro sobre Guimarães, digno dos maiores encómios, que conjuga saberes e sabores da terra, versos e modinhas: “O linho que vou arrincando
“Quem me dera ser, amor,
Aqui nasceu e cresceu
O linho que estás fiando
Também o hei de fiar
P’ra receber os beijinhos
Com a roca que o amor me deu.”
Com que o vais adelgaçando.”
Seguramente um livro a ler e a ter em casa, bem como uma exposição fotográfica a visitar, pois paralelamente está a decorrer uma amostra alusiva; e, sobretudo, uma festa a vivenciar oportunamente… 560
Alberto Sampaio e o centenário de “Estudos Históricos e Económicos” 2023 marca o centenário da publicação de “Estudos Históricos e Económicos” do historiador vimaranense Alberto Sampaio (1841-1908), dois volumes que reuniriam pela primeira vez um número significativo dos seus trabalhos sobre História e Economia, dispersos por várias publicações. Ora, cem anos depois, a obra seria reeditada pela Sociedade Martins Sarmento, no âmbito do Dia Mundial do Livro (22 de abril). “Estudos Históricos e Económicos” é, assim, como diz Luís de Magalhães, “uma obra de um dos mais autorizados, laboriosos e meticulosos pesquisadores das nossas origens (…) que concentra no seu trabalho um domínio próprio e, nele, concorreu para iluminar, de uma forma verdadeiramente reveladora, períodos históricos até então envoltos em penumbras várias”. Efetivamente, nesta obra, Sampaio passa em revista tudo o que constitui as bases da vida rural, desde a propriedade (reguengos ou dominus) aos privilégios, à fiscalidade, como os coutos e as honras, até às classes sociais, aos títulos honoríficos (os herdadores e os rendeiros). Porém, uma obra que centrada no seu Minho, ressuscitando o passado, visava acima de tudo consolidar um futuro assente na reflexão dos erros cometidos, de molde a repensar o país. A parte final do estudo, “O presente e o futuro da Viticultura no Minho”, é bem elucidativo desta visão e da relevância e atualidade dos seus textos: “Desgraçadamente, no nosso país todas as questões donde podem derivar a riqueza ou a miséria da nação correm à revelia, sem se ter estabelecido uma ação, que no meio do individualismo contemporâneo as discuta e dirija a sua resolução. Numa situação a primeira necessidade será a organização de uma sociedade vinícola, que se proponha fazer estudos necessários para melhorar e aperfeiçoar a cultura e a vinificação do concelho (…)”.
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“O estabelecimento primeiro de um horto experimental onde se cultivassem muitas castas finas, com diversos sistemas de poda e de cultura, o conhecimento da fertilidade de cada uma e do valor do vinho produtivo, o ensino prático da viticultura e vinificação aos vinhateiros da localidade, e o fornecimento aos proprietários das plantas consideradas melhores tanto sob o ponto de vista da produção como da boa qualidade do produto (…) Depois a sua ação poderá ir mais longe. Distribuída assim a viticultura em pequenas propriedades, é de ver que o produtor ver-se-ia arriscado a servir principalmente à especulação do negociante. Quem produz uma pequena quantidade de certos produtos não poderá nunca obter a firma comercial, que exige uma massa mais considerável. Mas a sociedade, recebendo o vinho imediatamente ao seu fabrico e pondo-lhe a sua marca, procurar-lhe-ia facilmente um mercado. Deduzidas as despesas emergentes, todo o produto passaria às mãos do produtor. Nesta seção do trabalho nacional, assim como em todas as outras, o isolamento é a fraqueza e a anarquia; sente-se que tudo vai mal, não se sabe o que deveria fazer-se (…)”.
Assim nos fala este bacharel em Direito, formado na rebelião de Coimbra, que trocaria a advocacia pela vida de agrónomo e enólogo na sua propriedade rural da Quinta de Boamense, em V. N. de Famalicão, local onde também escreveria muitas das suas obras como “Vilas do Norte de Portugal” e “As póvoas marítimas”, entre outras. Um homem que vivenciaria ativamente o seu tempo, na amizade de nomes amigos como Francisco Martins Sarmento e Antero de Quental, entre outros, cujas ações culturais e cívicas empreendidas, como na sua participação ativa no Ano de Ouro de Guimarães de 1884, em especial na organização da Exposição Industrial de Guimarães, nos deixaria também como legado.
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A Música nas coleções do Paço dos Duques de Bragança Este livro, do musicólogo Eduardo Magalhães, inicia uma colecção a que se deu o nome de “Modos de Ver”. A Música aparece na arte representada por instrumentos musicais, por livros de música (ou simples pautas) ou até somente na postura vocal de figuras representadas. No caso das colecções do Paço ducal está presente através de quinze instrumentos musicais dispersos por dezassete peças do acervo: tapeçarias (7), pintura (3), mobiliário (5), estante de altar (1) e um pote de porcelana (1). Para além destas representações, o Paço dos Duques guarda também um livro de cantochão (vulgo gregoriano) do século XVI. As tapeçarias são as conhecidas tapeçarias de Pastrana (três com instrumentos, uma de Cipião, o Africano, outra de Públio Décio Mus, uma da “Caça à Raposa” e um fragmento a representar dois trabalhos de Hércules). Nas pinturas, aparecem instrumentos na “Oferenda a Ceres”, na «Parábola das dez virgens» e numa pintura de S. Jerónimo. O mobiliário com representações musicais são três “contadores”, um “baú” e um “armário”. Para além destas peças, existe uma estante de missal (na capela) e um “pote” de porcelana. O Livro apresenta, no início, estas dezassete peças a que se segue a descrição pormenorizada dos instrumentos contextualizados em cada uma delas. Apresenta-se o instrumento com uma pequena descrição organológica e histórica, seguindo-se o instrumento na peça contextualizando-o na função que aí desempenha. O autor fez uma leitura das cenas representadas onde aparece o instrumento, socorrendo-se da história da arte, da história da música e da mitologia greco-romana, proporcionalmente abundante neste acervo. Os instrumentos são descritos ordenados pelas suas características no critério da produção sonora, ou seja: cordofones, aerofones, um membranofone e um idiofone. 563
Para uma melhor compreensão da música nestas colecções, foram buscar-se obras de outros artistas e, desta forma, enquadrá-las na história e na arte. A Iconografia Musical já é uma disciplina que aparece nos curricula dos estudos superiores de alguns cursos particularmente nos ligados à Musicologia. Numa definição simples, “iconografia” é a escrita por imagens ou que tem como objecto a descrição por imagens. Num sentido musical pode entender-se, então como o ramo da história da música que se relaciona com a análise e a interpretação de um objecto musical em trabalhos de arte. Assim, este trabalho sobre o Paço dos Duques mais não é que um «modo de ver» a iconografia das suas peças onde a música é um dos elementos integrantes. Esta publicação é a número 1 de uma Colecção a que se deu o nome “Modos de Ver”. Brevemente sairá o número 2.
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Os poemas da minha Vida. Uma antologia de poemas António Carlos Cortez
A responsabilidade de seleccionar cinquenta poemas que tenham marcado a nossa vida prende-se, para quem tenha uma noção pedagógica de uma antologia desta natureza, com um facto simples: não é em vão que, na infância ou na adolescência, na juventude ou na idade adulta, lemos poemas. Ler poesia (ler a grande literatura e não a falsificação de intrigas que passam por ser, hoje, romances; ou a versalhada que, hoje também, mais deve à má prosa do que a um verdadeiro saber do que seja trabalhar metáforas, imagens e sintaxe) é sempre arriscar prolongar o que da infância, da juventude e – nos casos em que haja paraísos ainda intocados – da idade adulta se manteve inviolado. A colecção que José da Cruz Santos, histórico editor de Eugénio de Andrade, o editor bibliófilo e bibliómano, fundou há praticamente vinte anos – a colecção Os Poemas da Minha Vida (Modo de Ler) – comprova essa fidelidade aos bons espíritos que animam, nos nossos primeiros anos, na nossa adolescência e, para alguns afortunados, a vida que depois se segue; fidelidade a Orfeu, ao sol da poesia, a esse astro que, nas palavras de António Ramos Rosa, justificava o aparecimento do poema: “O sol do poema é o sol que está para lá do sol”. Ricardo Guimarães, engenheiro de formação e de profissão foi o escolhido para, ao vigésimo sexto volume desta colecção, escolher os cinquenta poemas da sua vida. Curiosa escolha, ou nem tanto, já que, se percorrermos os livros deste singular catálogo encontraremos, a escolher os poemas das suas vidas, homens de ocupações tão diversas quanto Mário Soares, que é o primeiro dos escolhidos para aí elencar e comentar os seus poemas, ou António Lobo Xavier, Jerónimo de Sousa, Marcelo Rebelo de Sousa, Eunice Muñoz e Maria Barroso, Ramalho Eanes ou Jorge Pinheiro; Eduardo Lourenço ou Francisco Pinto Balsemão. Políticos, pintores, professores, actrizes, poetas – Maria Alzira Seixo, desde logo. No fundo, ao escolher agora o engenheiro Ricardo Guimarães, esta colecção como que firma um 565
desiderato que, em bom rigor, não escapou a Maria Alzira Seixo, com Cruz Santos a outra alma deste projecto de divulgação da poesia: dar a ler os poemas que, sendo escolhas de outros, poderiam ser também escolhas nossas, já pela relevância propriamente poética que têm na historicidade literária, já pela pessoalíssima escolha deste ou daquele que – no caso vertente, Ricardo Guimarães – revelam a sensibilidade e a visão de mundo do antologiador. Ricardo Guimarães, homem sensível, também ele poeta, dá-nos nesta sua escolha o convite para que o acompanhemos aos anos da sua meninice, da sua formação como homem e leitor. Entramos, com estes poemas da sua vida, nas câmaras e antecâmaras dum edifício pessoal literário que, por sê-lo, e por ser dum engenheiro, deverá merecer a nossa adesão, a nossa franca admiração. A razão é simples: vivemos num tempo adverso a que homens de formação técnico-científica na poesia encontrem o lenitivo para os seus dias, ou mesmo reconheçam que a arte verbal – a poesia, essa «doença da linguagem» como disse Ruy Belo – é essencial para que a vida ganhe certa magia, certa vibração. Ricardo Guimarães reconhece isso – esse sortilégio dos poemas. As suas escolhas revelam um ponderado critério: o antologiador não quis brindar-nos com poemas que avulsamente viessem à sua memória. Preferiu-se, antes, o “respigar da memória de um conjunto de poemas que ao longo da minha vida me feriram a atenção”. É este o verbo essencial: “ferir”. Por aqui se vê, por esta metáfora, a sensibilidade feita de memória, do poeta que também é Ricardo Guimarães: ser ferido pelos textos, ser como que contaminado, ou infectado pelos ritmos, as imagens, as sonoridades deste ou daquele poema, eis o que denota a abertura a esse mundo, hoje tão pouco frequentado (ou por vezes pouco compreendido), o da poesia. Terá sido sempre assim. São sempre poucos os que frequentam a hierarquia dos anjos, sabendo que Rilke os busca; são sempre poucos que têm a ousadia de querer demandar o duende de Lorca e perceber que o poema é uma caçada pelo sentido que sempre nos escapa; serão poucos – sobretudo nesta era digital e de computadorização da vida quotidiana – os que aceitam o pacto de lentidão que a poesia exige, para me servir das palavras de Lamberto Maffei. Ricardo Guimarães não esqueceu nunca que a deusa da poesia é Mnemósine. Com Cleo, a deusa da História, o engenheiro e poeta oferece aos seus leitores e aos leitores dos seus poemas, um diário poético – diário porque entramos, desde as primeiras páginas na intimidade dum relato (é ver os comentários aos poemas, sempre num registo de conversa íntima, como quem fala connosco) – que tem, a encimá-lo, as lições da Música e da Memória. Um dos elementos deste livro que logo surpreende é justamente o prefácio que tem epígrafe de Heidegger: “Se quereis respostas fazei ciência. Se quereis perguntas lede poesia”. É todo um programa, se quisermos, o que aqui se põe em jogo. Estes 50 poemas escolhidos são, não só os poemas de uma vida – a do nome 566
que comparece na capa -, são cinquenta formas de perguntar sobre o sentido de estarmos aqui. “Com o desenrolar das memórias acresci ao desígnio inicial outro objectivo: o de tentar ser o mais eclético possível nesta busca pessoal”, escreve no dito prefácio. De facto, pesa bem as palavras Ricardo Guimarães: esta antologia não é senão isso mesmo: busca pessoal. É imensa a tarefa! Por detrás da simplicidade com que se apresenta, o antologiador não descura a fidelidade à sua inicial promessa: mergulhar na memória, trazê-la, viva, nos versos de poetas que admira. Se um poema do próprio pode fazer crer que o projecto pedagógico é beliscado (mas uma dedicatória aos filhos não é senão a outra face do escudo forte que Ricardo quer que este livro seja – e para sê-lo é que redigiu um poema inicial de sua autoria, em jeito de testemunho), não demos por frustrada esta empresa. A questão é outra: Ricardo Guimarães, ao apresentar-se, apresenta-nos os seus poetas. Como qualquer antologia, muitos poderiam aqui figurar. Mas é o percurso da memória que está definitivamente em causa: poema de Santo Agostinho, que “tem acompanhado” Ricardo Guimarães “nos momentos mais difíceis da [sua] vida”; poemas de Sá de Miranda e de Camões onde o fado de ser-se quem se é promove como tema angustiante (de todos nós, no fundo) o não podermos fugir de nós, o não podermos viver connosco (Sá de Miranda), ou, a meditação sobre o destino (“Com que voz chorarei meu triste fado”); esse destino que, no fundo, é o da vida da poesia. Camões é um poeta central no cânone pessoal de Ricardo Guimarães. Quatro sonetos e a endecha célebre dedicada à ficcional Bárbara (é uma figura da escrita: “tão doce a figura”, diz o poeta), numa escolha que percorre diapasões vários: formas clássicas e formas modernas, poemas de poetas portugueses e poemas de poetas estrangeiros. Mas poemas sempre escolhidos em função de acontecimentos da vida de quem os escolhe: exemplo cimeiro é o texto de William Henley, “Invictus” que Ricardo Guimarães convoca para este seu livro sob o signo do exemplo de heroicidade e de resistência do grande lutador pela liberdade e igualdade, Nelson Mandela. Há, diga-se, nos comentários postos entre parêntesis-recto, um tom de conselho, uma vontade de fazer com que esta antologia possa ser útil aos mais novos (e aos mais velhos, já agora!). Ao comentar o grande poema de Kilpling, “If”, escreve Guimarães: “Com ele [este poema] aprendi a ‘encarar com indiferença igual o triunfo e a derrota, eternos impostores’. Devo-lhe, por isso, parte significativa daquilo que consegui realizar na minha vida”. De facto, se o comentário à poesia pode ser alguma coisa, pode ser isto: um testemunho de como um poema fez eco na existência de alguém e pode fazer eco na vida de outros. Adolescentes, jovens adultos, hoje entregues à competição desenfreada, obcecados pela ideia de sucesso e de triunfo a todo o custo podem encontrar, no testemunho de Ricardo Guimarães, uma boa maneira de relativizarem certas rotas e certas derrotas… Na vida da poesia, como na poesia que existe na vida, nem sempre seremos os 567
vencedores, nem sempre seremos os vencidos e há que compreender bem algo que, estou em crer, Ricardo Guimarães compreende de forma lúcida: a poesia, sendo técnica verbal, domínio do idioma, é o palco onde se gravam as cenas vivas daquilo a que chamamos existência. O poeta que é Ricardo Guimarães teve a sensibilidade de convocar derrotados e vencedores: Kipling e Camilo Pessanha, Augusto Gil e Fernando Pessoa, Sá de Miranda e Camões, Neruda e Manuel Alegre, José Duro (ah! haja a justiça de o lembrar!!) e Mário de Sá-Carneiro; Jorge de Sena – espécie de figura tutelar para o poeta que é Ricardo Guimarães – e Vasco Graça Moura… Vencedores uns, vencidos outros, mas vencedores quando vencidos, em todo o caso. Esta antologia é, por fim, um valioso livro de poesia porque, se chegado a escolas e universidades, desde o 1º ciclo ao Secundário, do 2º ciclo ao Superior, dá provas de algo que nem sempre é óbvio, mesmo para quem lê poesia. Refiro-me à extrema originalidade das formas que a poesia pode assumir e que Ricardo Guimarães quis, no fundo, revelar. Formas fixas – o soneto, a trova, o vilancete – e formas modernas. Dicções várias: do tom majestático, ou de clássica expressão que lemos em Camões ou João Roiz de Castel-Branco, à oralidade de Cesário; dos versos irónico-líricos de O’Neill à poesia especulativa de Sena na sua carta sobre os fuzilamentos de Goya; da austera geometria de Sophia à pujante (e musical) métrica de José Afonso. Em rigor, estes 50 poemas da vida de Ricardo Guimarães é uma viagem, de facto, à deusa Mnemósine que, quem sabe, desde criança, o futuro engenheiro conhecesse… Nesta antologia, por fim, porque me importa sublinhar bem esta ideia última, houve a preocupação por, comentando os poemas, não cair no jargão académico, por vezes hermético, que, no fundo, acaba por fechar os poemas a quantos os queiram ler. O estilo de escrita de Ricardo Guimarães é simples, directo, confessional, isto é, traz-nos para dentro da sua vida num gesto de partilha que, pelo menos para mim, me sensibilizou. Não posso deixar de transcrever justamente o que, sobre as razões de ter escolhido “Dorme meu menino a Estrela D’Alva”, do eterno Zeca, Ricardo Guimarães confidencia. É que é sob a égide da figura materna – e do universo familiar – que se recorda o impacto desse poema-música. Canção com que o pai de Ricardo o adormecia quando criança. Se essa revelação do mundo íntimo não toca os leitores, que mundo nos espera? Aqui fica, pois, o que Ricardo Guimarães, num dos seus saborosos comentários aos poemas (no caso vertente, ao poema do cantautor), escreve: “Estes devem ser os versos do meu subconsciente. A minha mãe sempre me disse que fui inúmeras vezes adormecido pelo meu pai, algo não muito comum naquele tempo, ao sabor desta balada de Zeca Afonso. A minha esposa sempre diz que esta canção lhe lembra eu a embalar o meu filho. Há coisas que por certo ficam gravadas no caminho (im)provável das estrelas […]” (p.95)
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Como nasce um livro José Manuel Teixeira
Como O Poeta se faz aos 10 anos, recordando deliberadamente o livro de Maria Alberta Meneres, permito-me escrever que também por essa idade refiz as minhas primeiras quadras e, mais tarde, outros versos me agraciaram com um prémio literário, quando frequentava a Escola Preparatória de Quibaxe (Angola). Seguiram-se distinções em concursos escolares, jogos florais e certames de poesia, enquanto estudava nas diferentes localidades onde vivi, nomeadamente, na cidade de Luanda, em Alijó, em Vila Real e Ponta Delgada (Açores). Entrementes, o contato com poetas propiciou-me integrar a coletânea Carrocel de nós, com a chancela da Universidade dos Açores. Paralelamente, saíram poesias, no diário Açoriano Oriental, no semanário A Voz de Trás-os-Montes e nos jornais dos estabelecimentos de ensino em que lecionei. A residir em Guimarães, apercebi-me ser impossível compilar os meus trabalhos premiados, devido à errância que a vida não proporcionou; já que o seu conjunto não daria mais que um pequeno livrinho, pelo que não sinto mais que uma corrosão de pouca monta no meu peito. Entretanto, a saudosa poetisa Maria da Conceição Campos, como ela não tinha tempo para participar no Certame Literário Galego-Português “Caminho Portugués” do Padrón de Ouro, Prémio Estraordinario do Ano Santo Xacobeu/93, fez-me chegar o respetivo regulamento. Apesar do prazo ser curto, aventurei-me, no junho cálido desse ano, a coligir preces e orações, com vocábulos sem artifícios, mas representativos da sua luz, para este ainda forasteiro de automóvel e assim oblíquo devoto de Compostela, tendo em conta as referências incisivas como se procurasse uma reconciliação com o divino nesta turbulenta peregrinação. Depois, julgo que, em meados de julho desse ano, o escritor Barroso da Fonte, conseguiu contactar-me para que me deslocasse à Pousada de Santa Marinha da Costa, a fim de receber o 2º Prémio, pelo original 569
Dezasseis Poemas de Circunstância, com Ramon Caride Ogando, vencedor do Prémio Estraordinario do Ano Santo Xacobeu/93, e de um poeta de Vila Garcia de Arousa que arrancou o prémio Accecit. Se isto se amostrar como um excesso dionisíaco, uma vez que não reflete uma sinopse de nenhuma das minhas obras inéditas agraciadas em certames literários (Estações Incompletas, Variações do Olhar, Extensões da Noite, Linha d´água) e publicadas (O Mosto e as Fragas, Rios do Interior, Penumbras da Memória), espero que o caríssimo leitor me redima por trazer a primeira e última poesias desta obra que, em 2000, teve edição de autor, como é sina ainda de muitos vates. PROMETO que levarei uma estrela para refletir o próprio rosto no colorido de julho.
Nesse instante era a fachada da catedral que agarrava o Sol através dos vitrais E imediatamente a escadaria quase deixava escorrer as imensas estrelas que só brilham em ocasiões muito especiais.
Prometo que todo o meu corpo se embebedará de luz debaixo do chapéu largo e castanho e com sabor a domingo.
Todo o Obradoiro respirava a Roncesvalles, a Lugo, a Astorga, a Candan-chu, a Braga e a todas as cidades onde também reina um misto de atração e luz.
Prometo que estas mãos deverão respirar a angústia e toda a peregrinação que percorre este sangue quente. Prometo que os meus olhos beberão os rios e as ribeiras os riachos e as fontes até a alma sossegar.
Muitos ainda puderam suster o incenso que ressumava também nos olhos.
ESTALOU a hora do deslumbramento e o corpo apercebeu-se que era domingo quando um cânone atravessava a alma que unia todos os peregrinos.
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Borboletas Rui Viana
Marta porque “matiza” como a Natureza, vai à terra calcada, puxa o arado, remove o pisado, volta a terra ao seu estado natural… e semeia palavras…
Marta Sónia Silva (Miss Coquete)
Um texto que destila palavras e palavras simples, descendo enleado de vida, arrastando o sol e a alegria, fazendo aparecer em nós aquela fantasia que tivemos em criança, de descobrir a vida no mais pequeno desejo como quem dança, sem hora de regressar à mesa e à janta. Miss Coquete é a mulher romântica, sonhadora e sensível, que partilha o que sente, sempre em busca da palavra perfeita. Borboletas é, assim, a continuidade do sonho, porque a vida se transforma a cada momento. Uma obra inspirada no amor. 571
Os Três Desejos Havia um homem muito pobre que casou com uma mulher formosa, mas tão pobre como ele. Uma noite de inverno, estavam os dois sentados à lareira e começaram a falar na felicidade dos seus vizinhos e conhecidos e no azar que persistia na sua vida quando algo surpreendente aconteceu. Uma história rimada que nos mostra que não devemos falar sem pensar, e que a força da mudança está na nossa capacidade de mudar e enfrentar as situações.
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D. Afonso Henriques – Do sonho ao nascimento de uma nação "D. Afonso Henriques – Do sonho ao nascimento de uma nação" é da autoria de Júlio Borges (texto) coleção de biografias dirigidas ao público juvenil da Editora Opera Omnia. "Preso entre Castela e Leão e o estado Al-Andalus, existia no séc. XII o Condado Portucalense. Condado de gente nobre e corajosa, destemida e sonhadora. Neste condado nasce, em 1109, Afonso Henriques, filho de um nobre borgonhês, D. Henrique, e da filha ilegítima do rei de Castela e Leão, D. Teresa, e com ele nasce a história de um país, a história do reino de Portugal". Um relato da vida de D. Afonso Henriques e de como o Condado Portucalense se tornou uma nação.
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O Bastardo Carlos Guimarães
Neste romance, Carlos Salgado Guimarães conduz-nos numa viagem de permanentes sobressaltos por algumas das mais perturbantes manifestações do que é ser humano, através de um incontornável apelo à memória de Martinho, que poderemos, por vezes, julgá-la aplacada no desejo mais imediato da vingança, mas que explodirá incontrolável quando o tempo certo se realizar. Assim, o leitor não parta ao encontro de “O bastardo” esperando uma narrativa suave que lhe embale a leitura onde “fluíam rios de água límpida”. Não! Esta brilhante escrita de Carlos Salgado Guimarães não nos afaga, antes nos interpela de forma violenta, como se cada palavra, cada frase, cada reflexão fosse um estilete que rasgasse algumas das nossas mais seguras certezas, porque “o homem foi sempre o maior predador de si próprio e as suas atitudes albergam tanto de incompreensível como de eloquente”. E a capacidade de desacomodar identifica-se em pormenores tão simples como a ausência de um esperado prefácio, como se o autor tivesse pressa em nos fazer participantes de uma perturbante viagem, escusando o esperado aval de alguém cuja notoriedade caucionasse a narrativa que se seguiria porque, atrevo-me eu a justificar, “o irreal desconhecido tem mais volume que a realidade”. E, neste processo de copaternidade reivindicada, acrescento ao título original o olhar de quem se deixou encandear pelos olhares de Martinho de Oliveira e que, provavelmente, resultou no escassamente inspirado batismo que aqui se propõe: “O bastardo. Um ensaio sobre o olhar”.
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Vidas Sofridas Teresa Portal
Dois conventos franciscanos, um de cada lado do rio tumultuoso, monumentos nacionais, albergam a escolarização obrigatória até ao 12ºano: o da Imaculada Educação, as raparigas e o pré-escolar; o de S. Salvador, os rapazes. Os dois serão o palco das “Vidas Sofridas”, um romance onde se emaranham histórias de vida martirizada de alunos, de freiras e de frades, de gentes de uma aldeia perdida no meio dos montes, de uma vila parcialmente destruída por uma tempestade selvática a que se vem juntar o suicídio de Adelaide, uma das alunas da Imaculada Conceição, na Ponte do Diabo. O Frei Inácio, superior de S. Salvador e confessor do Imaculada Conceição, aparece como elemento salvador até para o seu grande amigo Dom José Felisberto, cardeal, tendo ambos professado quando eram adultos: o primeiro, advogado, partira em busca de S. Francisco; o segundo, arquiteto, fora para o Tibete e estivera com o Dalai Lama, praticando ambos artes marciais. Ambos têm vidas passadas… Os dois juntos exterminam a corrupção que abunda por aquelas terras, melhoram a vida da vila e das aldeias, unem as gentes numa verdadeira comunidade. A tempestade inicial comanda o romance, que congrega vidas desgraçadas de homicídios involuntários, maus tratos, violência doméstica, pedofilia, homossexualidade… A irmã Joana e o seu gémeo Augusto, a irmã Paula, o médico “cenourinha”, o Agostinho e a Josefa, o André, o Toino, o Joaquim, frei Benjamim, o Zé da Venda, o “Manteiga” estão interligados. De que forma? Cabe-lhe a si descobrir. Leia o romance.
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Vamos destruir esta Escola? A obra em epígrafe, da autoria de Victorino Costa, é fruto de uma autorreflexão sobre um percurso de meio século que, iniciado na Escola Industrial e Comercial de Guimarães, em 1972, perpassou depois pelo Magistério Primário de Guimarães, pelo ensino Secundário e Preparatório e pelo Ensino Superior. Este último nível de ensino, onde esteve 30 anos, permitiu-lhe, na sua ligação à formação inicial de docentes e educadores de infância, consciencializar com alguma acuidade as fragilidades do sistema educativo português, com especial relevância para a escola. A escola que temos hoje, pesem embora alguns ‘remendos’ epidérmicos, alicerça-se ainda no paradigma de há 200 anos, sem que a formação dos professores, feita na sua maioria no século XX, tenha acompanhado o indispensável ‘aggiornamento’ exigido por uma geração de alunos do século XXI. A obra, prefaciada pelo professor catedrático de Psicologia da Universidade de Santiago de Compostela e membro numerário da Real Academia de Psicologia de Espanha, prof. Doutor Agustín Dosil, começa por delinear o percurso da escola desde os tempos imemoriais do ‘homo Sapiens’ até nossos dias, num percurso onde alegoricamente se comparam paradigmas, se questionam princípios educativos. A grande preocupação da obra é mostrar que é necessária uma radical transformação da escola. Se o nosso desenvolvimento é um processo dialético entre as sinergias genéticas e a influência do meio, então temos de equacionar a escola para os novos desafios que o meio apresenta e não continuar com um paradigma incapaz de lhes dar cabal resposta. Se é certo que não se consegue ensinar, se não se souber como se aprende, o autor propõe uma escola baseada na neuroeducação e na educação emocional. A escola cognitivista de nossos dias, preocupada com a aquisição de muitos conhecimentos, estereotipados e muitas vezes ineficazes para a vida, está indiscutivelmente obsoleta e tem de dar lugar a uma escola preocupada em 576
formar cidadãos felizes, solidários, cooperativos. É no fundo uma escola que as crianças se sintam felizes em frequentar, onde os alunos sintam a necessidade de nela permanecer, porque nela sentem a VIDA. Para que tal não se assuma como utopia, o autor dá exemplos de escolas, ainda hoje a funcionar, onde tais princípios são praticados, com resultados que atestam a sua importância e confirmam a hipótese da sua possibilidade. O livro apresenta desafios importantes, não só para quem leciona, mas sobretudo para quem gere os destinos da educação em Portugal, mais preocupados com narcisistas medidas de afirmação pessoal e partidocrática, do que propriamente com dar respostas aos desafios que diariamente se apresentam aos alunos, cujo desenvolvimento pessoal e social tem de ter em conta a devida estimulação das redes neurais, para um adequado desenvolvimento e sobrevida. O livro termina com o apelo a um dar de mãos para que, todos juntos, envidarmos as indispensáveis sinergias para dar corpo a esta nova escola, à escola da neuroeducação, das emoções, dos sentimentos e do Bem-Estar.
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O concelho de Guimarães: estudo de demografia e nosografia Graças a uma reedição da Sociedade Martins Sarmento encontra-se disponível a obra de João de Meira, “O Concelho de Guimarães – Estudo de Demografia e Nosografia”, cuja primeira edição data de 1907 e que, na época, foi tema de uma dissertação apresentada pelo autor na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, avaliada com 20 valores. A obra traça uma dimensão histórica original do concelho, fundamentada no estudo rigoroso dos documentos históricos, cujas conclusões se mantêm atuais sobre a forma como deve ser escrita a História de Portugal, que, em seu entender, não deve ser a “estéril e seca enumeração dos seus reis, mas a crónica do povo anónimo, até hoje quase esquecido dos historiadores, e, o que é pior, vastas vezes caluniado”. Porém, a obra apresenta uma segunda dimensão centrada no estudo nosográfico concelhio, isto é, o conjunto de doenças que mais afetavam os seus habitantes no dealbar do século XX, que cruzado com várias ciências e saberes como a geologia, climatologia, cultura, antropologia e a população, bem como em recursos estatísticos e inquéritos que promoveu, analisa profundamente as patologias mais comuns no concelho, particularmente na pelagra, doença muito comum no Minho, nessa época, devida e deficiências de vitamina B3, para a qual não se conhecia a etiologia nem o tratamento. No fundo, uma análise centrada nesta doença que, de certo modo, se cruza com a perspetiva de Meira enunciada sobre a História de Portugal, pois também aqui o que o move é tentar compreender e auxiliar os mais pobres e o grupo social mais atingido por esta doença. Recorde-se que o vimaranense João de Meira (1881-1913) foi, apesar da sua fugaz vida, um nome de destaque no âmbito da medicina e como professor universitário e simultaneamente singular jornalista, historiador e escritor, famoso pelas suas obras pessoais e em especial textos de pastiche de grandes autores nacionais como Camilo Castelo Branco, como é evidente na sua narrativa “Eusébio Macário em Guimarães”, ou no poema, “A Loira”, que durante vários anos fora indevidamente atribuído a Cesário Verde. 578
Claustros de Guimarães – Arquitetura e Simbolismo Hermenigildo Moreira da Encarnação
Este pequeno livro é e contém um dos muitos artigos publicados por Fernando Conceição, versando temáticas de história, na dimensão artística, arquitetónica e eclesiástica. É notório que o autor tem um dom de síntese, pois, na sua escrita, está a concisão, a precisão, o detalhe e a descrição do pormenor, inseridos no seu contexto descritivo e narrativo, no caso, sobre os claustros de Guimarães. Por outras palavras, os claustros são uma “crónica muda da cultura de quem os produziu”, parafraseando John Rusky. Mas, Fernando Conceição lêos na perfeição, decifrando com precaução as mensagens e a linguagem simbólica, pois, como diz: “os símbolos não são unívocos, nem são de ordem racional”. 1. Os claustros – Introdução geral A estrutura do artigo é tão simples e ilustrativa como significativa na sua assertividade intelectual e científica e na coerência sequencial. 1.1. Os claustros e nós No primeiro capítulo, introduzindo a temática, coloca-nos de relance perante o objeto de estudo: os claustros e nós. Segundo o autor, percorremo-los, vezes sem conta, para aceder a serviços públicos, a centros de repouso e de lazer, bem como a espaços museológicos. Familiarizados com eles, vemo-los, pragmaticamente, pela função utilitária. Prestamos atenção devido à sua solidez, acabando por contemplar as suas arcadas, colunas e capitéis, com maior ou menor profundidade. Desta forma parece que evocamos a aura do lugar, o caminhar dos monges em meditação. 1.2. Conceito de claustro De seguida, na sua caminhada temática, lê as palavras claustro e clausura. O professor elucida o leitor sustentando que provém do étimo e verbo latino claudere que significa fechar. Claustro, inicialmente, não 579
significava apenas um determinado lugar específico dele, mas sim todo o complexo em si. Assim, será apenas na transição do século VIII para o IX que o termo passou a designar um determinado lugar específico do mesmo. É verdade que havia diferentes divisões no mosteiro. Enunciaremos algumas: Igreja, Sala do Capítulo, Claustro, Dormitório, Refeitório, Cozinha, Celeiro. Estas dependências tinham regras de construção precisas e de posicionamento no terreno. 1.3. Origem dos claustros A origem dos claustros medievais tem uma visão tripartida, segundo o autor. A primeira greco-romana, procede do peristilo como elemento essencial da villa romana. A segunda tese considera o fórum romano, porticado. Finalmente, a terceira tese, segundo a qual o claustro terá sido “uma invenção românica", que chegou a Portugal no segundo quartel do século XII (ALMEIDA, 2001:82). 1.4. Funções dos claustros: um espaço de multifunções Era uma espécie de corredor ou via de circulação que permitia o acesso às diferentes divisões que o circundavam. Tinha, porém, outras funções tais como: era um local de silêncio e propício à meditação, bem como de leitura. Simultaneamente, era espaço de cerimónias litúrgicas, tais como procissões e outros rituais, como o lava-pés de Quinta Feira Santa. Era também zona de convívio, de conversação e lazer, em determinadas horas diárias. Poderia, muito bem, funcionar adicionalmente como espaço de atividades de higiene pessoal, bem como do enterramento dos religiosos. Por sua vez, o espaço interior tinha funções utilitárias para diversos fins. Era o caso das plantas medicinais, árvore de fruto, flores (horto e jardim). Era o espaço privativo dos monges, vedado a estranhos, no caso de ordens que seguiam a versão mais severa e restrita. O autor recorda uma das situações, entre muitas outras, que hoje nos parecem longínquas e caricatas. S. Teotónio, tido como o primeiro Santo Português, amigo e conselheiro de D. Afonso Henriques, não permitiu que a Condessa-Rainha D. Teresa entrasse no claustro do Mosteiro de Santa Cruz, como pretendia. Esta reclamou vigorosamente, mas nada lhe valeu, mesmo sendo ela Condessa e Rainha, pois era filha, embora bastarda de Rei e Imperador, Afonso VI de Castela e Leão. Porém, em certas ocasiões, o claustro podia ser percorrido por leigos, que se dirigiam à sala do capítulo para assinar cartas de doação ou outras de interesse para a comunidade. Também deveremos dizer que este espaço esteve sujeito a abusos de vária ordem e visitas nem sempre à altura da devoção e santidade contemplativa dos neles residentes. Em Guimarães, a situação não foi exceção. Há relatos bem caricatos.
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1.5. Elementos e simbolismo do claustro O autor demonstra o seu profundo conhecimento de todas as partes do claustro e sua localização e simbologia num mosteiro ou convento. A localização da Igreja, a forma quadrangular e simbologia da perfeição, o pátio a céu aberto, por outras palavras, Deus arquiteto desenha o cosmos entendido como céu e terra. Ruas em cruz, fonte e obelisco. No centro do pátio, centro do quadrado e do círculo, estava a “Fonte da Vida” que lançava a água em quatro direções, os quatro braços do Paraíso. Concluiremos que o claustro era uma Bíblia arquitetónica, isto é, o claustro era um espaço fechado, pretendendo simbolizar a imagem terrestre do Paraíso. Uma prefiguração da Jerusalém Celeste, paradigma da cidade utópica. O autor, quase nos coloca passo a passo a seguir o seu simbólico roteiro de um espaço concebido ao pormenor para a glorificação do Deus Transcendente, Místico e Pessoal do Monge ou Frade, Monja ou Freira, o protótipo do Homem/Mulher e Servo de Deus. Chegados aqui, o autor embarca numa tipificação de diferentes claustros: o medieval, do Convento de S. Domingos, e os da Idade Moderna, como o Claustro da Colegiada da Nossa Senhora da Oliveira. Refere, em seguida, os diferentes claustros Maneiristas do Convento de S. Francisco e do Mosteiro de Santa Marinha da Costa. E, por fim, finaliza com os Claustros Barrocos dos Conventos de Santa Clara, das Capuchinhas ou da Madre de Deus, do Carmo, de Santa Rosa de Lima ou das Domínicas e de Santo António dos Capuchos.
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São Torcato: história, devoção e património António José de Oliveira
No passado dia 17 de junho, no Terreiro de São Torcato, foi apresentada a monografia “São Torcato: história, devoção e património”, sob coordenação editorial de Raul Pereira e Francisco Brito. Trata-se de uma obra em capa dura, com mais de 500 páginas, editada pela Câmara Municipal de Guimarães, sob design de Pedro Simões. A obra inicia-se com os seguintes prefácios institucionais: Mesa Administrativa da Irmandade de São Torcato, dos coordenadores desta monografia, D. José Manuel Cordeiro e de Domingos Bragança. Seguidamente, esta importante obra para o estudo da vila de São Torcato e do seu orago, divide-se nos seguintes capítulos: História, devoção e património. Esta obra de referência contém 18 artigos científicos, dos seguintes investigadores: Aires Gomes Fernandes, António Amaro das Neves, António José de Oliveira, Armindo Cachada, Francisco Brito, Hugo Castro, João Durães, João Luís Marques, João Paulo Braga, Luís Fontes, Manuel Miranda Fernandes, Maria José Queirós Meireles, Nuno Vieira e Brito, Paulo Abreu, Raul Pereira, Rita Salgado, Rui Faria e Vítor Fernandes
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A Praça do Mercado de Caldas das Taipas: 110 anos de História (1911-2021) António José de Oliveira
No dia 24 de julho de 2021, no âmbito da reabilitação e requalificação da antiga praça do mercado de Caldas das Taipas, foi lançada a obra “A Praça do Mercado de Caldas das Taipas: 110 anos de História (19112021”, da autoria de António José de Oliveira. Esta monografia editada pela Junta de Freguesia de Caldelas, com 35 páginas, com uma tiragem de 600 exemplares, contou com o design de João Manuel Ribeiro. A obra inicia-se com o prefácio do Dr. Luís Soares, presidente da Junta de Freguesia de Caldelas, sendo ilustrada com fotografias, postais e plantas de vários arquivos e coleções privadas. Esta monografia está dividida nos seguintes capítulos: 1. Introdução; 2. A arrematação e a construção da Praça do Mercado (19061911); 3. A Praça do Mercado (1912-2010); 4. A reabilitação da Praça do Mercado: um espaço, novas funções (2018-2021).
Nesta obra é publicado o projeto da Praça do Mercado de Caldas das Taipas, da autoria do Eng. Inácio Teixeira de Meneses, datado de 15 de março de 1911. Nos alçados observa-se parte do gradeamento, o muro de suporte e o portão provenientes da Praça /Jardim do Toural, de Guimarães. A apresentação desta obra ao público realizou-se em plena pandemia, no antigo mercado da vila termal, sendo apresentada pela Doutora Isabel Fernandes, diretora do Castelo, Paço dos Duques de Bragança e do Museu de Alberto Sampaio, com a presença da Vice-Presidente da autarquia vimaranense, Dra. Adelina Paula, e do presidente da Junta de Freguesia.
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A história da vida de um menino que quis ser pintor de arte O vimaranense ARMÉNIO Anjos Ribeiro Airosa de SÁ, autor de vários trabalhos artísticos, bem como coautor de livros como “Os Senhores da Rua”, “Figuras Típicas” e “A Alma e a Graça das Nicolinas”, lançou recentemente uma nova obra com a “história da vida de um menino que quis ser pintor de arte”, ou seja, a sua própria bibliografia. Com efeito, o prestigiado artista vimaranense, premiado com a Medalha de Mérito Artístico da Câmara Municipal de Guimarães, em 7 de junho de 2018, apresenta-nos, agora, um livro de cariz autobiográfico que, além de se abrir e de se dar a conhecer, simultaneamente colige e apresenta imagens de cerca de 200 trabalhos seus, que vão da caricatura ao retrato a carvão e a óleo, bem como pela ilustração de livros infantojuvenis, a medalhística e a azulejaria, entre outras formas de expressão artística. Uma edição que conta ainda com testemunhos de várias personalidades locais, entre as quais Monsenhor José Maria Lima de Carvalho, André Coelho Lima, Jorge Cristino, Mota Prego, Barroso da Fonte, bem como Vítor Oliveira, Manuel Ferreira, Alcino Neto e Albertina Amaral, entre outros. De facto, com prefácio de Alves Pinto, a obra é, como este afirma: “um livro de vivências pessoais, de episódios marcantes da vida de escritor, autobiográfico, é uma exposição pública de emoções e avaliações pessoais, é a apresentação da realidade subjetiva do autor (…) No fundo, um livro que, como acrescenta, mostra que “a sua obra é um hino de amor à nossa terra e às nossas gentes, que Arménio Sá tão bem soube retratar, com traço de bisturi, nos seus milhares de trabalhos que constituem o acerbo artístico, merecedor de exposição permanente em sala apropriada de uma das nossas Casas da Cultura”. Mais um livro a ler e a apreciar…
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Silêncio, Solidão e Sombra Sob o título em epígrafe, José Fernandes de Matos publicou em junho de 2023 mais um livro de poesia, na esteira de muitos outros que vem editando desde há vários anos, como “O Limiar (ler “Mar de Sonhos” (1988), “A Madrugada dos Sonhos” (2000), “O Limiar dos Sonhos” (2014) ou “O Despertar da Alegria” (2018), todos eles distinguidos com menções honrosas ou premiados em várias iniciativas literárias. Ora, em “Silêncio, Solidão e Sombra” 42 poemas de amor parecem essencialmente reviver, na presença da natureza marinha, geralmente em setembro, mês de passagem entre o verão e o outono, um certo estado de espírito disfórico de perda, que desde o poema inicial “Mar de Setembro perpassa: “Tudo é estranho/neste mês de setembro/Os sonhos eclipsam-se/ nas sombras, /os olhares fundemse no horizonte, /uma desilusão prenuncia/a solidão do inverno”. Com efeito, o silêncio, a solidão e a sombra são os vocábulos que navegam estas águas poéticas, sob uma imagética sensível, bem conseguida e sinestésica de sabor a maresia e outras metáforas e imagens de sensações naturais. Um sentimento de perda que parece ainda crer numa réstia de um sol eufórico, ou quiçá apenas revivê-lo, como transparece em “Regresso ao sonho”: “Olho-te num súbito silêncio A noite veio mais cedo e os barcos abandonam o cais sem deixar rasto (…) A imagem de verão paira ainda na sombra fugaz que se dissipa na brisa que se acentua na paisagem de sombras”. Ou ainda em “Regresso”: “Em cada manhã uma nova imagem de ti
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Da tua solidão (…) Há um sorriso meigo no rosto sorridente, um silêncio quebrado pelo bater das ondas (…) Deste lado, na praia sem gaivotas, Num fim de setembro, Vencendo o tédio e a solidão, Espero e desespero por ti, Pela serenidade dos teus olhos de nuvem A perseguir os sonhos que inventamos Na loucura dos nossos vinte anos”.
De facto, para além de silêncio, solidão e sombra, uma outra palavra sibilante parece sussurrar dum búzio ao sujeito poético: o sonho, que o poema “Quero ir até ao fim do sonho” expressa: “Há uma nuvem de silêncio/ a envolver-te o corpo, / uma doce serenidade a pairar no teu olhar. / Espero-te na expetativa deste sonho, / neste desejo incontornável de ternura”. Uma viagem que prossegue em setembro no poema “Viagem pelo Sonho” ou “Aquele barco carregado de sonhos: “Era setembro/ O céu estava claro e límpido/ O Tejo nunca será um rio de sombras. / Num gesto de inconfundível ternura, / um barco atracara, / trazendo da guerra os últimos soldados/ No horizonte do teu olhar/ uma nova esperança renascia”. Efetivamente é o sonho que comanda a vida em vários matizes, ora mais coloridos ora a preto e branco, como se expressa nos poemas “Ao luar de setembro” ou “Em setembro junto ao cais”. O sonho que torna possível, na realidade ou em sonho, continuar a caminhada comum, como o poema “Caminhamos sozinhos na areia” exterioriza e “Sentados à beira-mar” complementa: “Num momento de euforia/ todo o teu corpo estremeceu. / A minha boca tocou a minha boca, / o meu olhar o teu olhar. / Um sonho difícil de imaginar/ incendiava o desejo/ de ali mesmo consumar, / esta incontrolada ousadia/ de querer-te por inteiro, / neste cenário que perpetua o sonho”. Como dissemos um livro de 42 poemas, geralmente longos, entre os quais o soneto” De ti, ó mar”, que em certos aspetos faz lembrar influências de Eugénio de Andrade e que termina com “Frívola desilusão”, manifestando momentos de questionamento e resistência.
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Historietas Historietas é mais um livro de Bernardino Pina que, na esteira de “Relatório de uma Vida”, vai ao baú das memórias rebuscar da poeira dos tempos, historietas diversas, arrumadas no sótão da vida. Desta feita, Bernardino Pina reconta-nos estórias dos seus ascendentes familiares mais próximos, em especial do seu pai, Domingos Pina e irmão e seu tio Manuel Pina, pertencentes a uma geração de “bons malandros”, que em são convívio coloriam e existência humana com “sadias” confraternizações e lúdicas brincadeiras e partidas entre amigos, deixando para os vindouros, entre os quais o autor Bernardino, as sementes da irreverência comedida que dão sentido ao percurso humano. E, de facto, como filho de peixe sabe nadar, Bernardino contanos também as suas historietas, desde a infância e meninice na rua de Santo António até à juventude estudantil na Escola Secundária Francisco de Holanda, durante os 21 anos vividos em Guimarães. Posteriormente, relata-nos romanescamente as navegações circunstanciais da guerra colonial e vida profissional como bancário, sempre em modo descontraído, exceto quando as abelhas atacam, mas sempre cultivando a amizade e a confraternização com a vida. Histórias (re)contadas em tom simples, mas elegante, de leitura acessível, agradável e fluída, que, em estilo coloquial e oral, como as velhas histórias ouvidas à lareira, nos facultam também nas entrelinhas, a atmosfera social da época e pintam retratos desses tempos, sempre com profundo humanismo. De facto, em várias histórias, como “As Meninas do Circo” ou “A Menina do liceu” sentimos de sobremaneira os tempos de galanteio de outrora, enquanto noutras, como “A Tertúlia do Cuecas”, no Largo de João Franco, sobressaem as “tainadas” destes monopolistas das virgens pipas. Mas, igualmente, nestas narrativas curtas, surgem os retratos das figuras típicas vimaranenses, como o “João, aperta a mama” ou o “Carneiro Mé”, ou o “Barrumas”, engraxador do Café Oriental, bem como outros tipos e gentes castiças do quotidiano juvenil e profissional, que se entrecruzam com o autor nos caminhos e 587
encruzilhadas da vida. Cenas do transcurso dos tempos que também abrem a cortina ao palco ao associativismo no Circulo de Arte e Recreio e obviamente a Santos Simões, bem como à Mocidade Portuguesa, que daria azo ao Comandante de Castelo Bernardino Pina a fazer jus dos seus poderes institucionais e consequentemente a aprisionar, nessa noite, os seus “lusitos” no castelo e fechar suas portas, acomodando-se na qualidade de chefe, a uma dormida no conforto de casa (ler ”Mocidade Portuguesa”). Historietas e patranhas que passam também pelas pelintrices nos fins de semana na Póvoa de Varzim, armados e dissimulados em desafogo e neo-riquismo perante as meninas, ou ainda nos quadros cénicos mais odorosos da vida familiar, como “A flatulência”. Outrossim, noutra dimensão – diremos mais inodora - histórias da guerra colonial em Angola, que, em especial, como nas demais narrativas, nos dão o outro lado da guerra colonial, especificamente nas situações de camaradagem e solidariedade, reencontro e partilha, desenrascanço à portuguesa e diversão ou convivência com as populações. Em aditamento, também as historietas da vida profissional e as viagens pessoais ou profissionais, que nos dão representações cénicas do mundo e as diligências na qualidade de representante e “embaixador” do Vitória em terras lisboetas, o clube de coração. No fundo, mais de cinco dezenas de estórias engraçadas e divertidas, curiosas e picarescas, por vezes caricatas, algo ridículas e trocistas, mas sempre carregadas de saudade e sentido de homenagem por todos aqueles que, anonimamente ou identificados, as protagonizaram ou testemunharam.
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Contos e lendas de Guimarães Entre os anos de 2004 e 2007, o semanário regional, “Povo de Guimarães”, publicou nas suas páginas cerca de uma centena de contos e lendas de Guimarães, recolhidos e escritos por Fernando Capela Miguel, que mais tarde dariam azo à sua edição parcial em publicações como “Contos e lendas de Urgezes” (2006), “Contos e Lendas de Creixomil” (2006) e “Contos e Lendas da fundação de Portugal” (2014). Desta feita, porém, em edição fac-similada e coligida, reúnemse todos esses contos e lendas publicados, que apresentam a especificidade das respetivas ilustrações de J. Salgado Almeida terem sido coloridas por António Pastor, que organizou esta coletânea. No fundo, uma compilação de textos do mundo real e/ou imaginário, religioso e profano, de histórias, estórias e historietas, que têm raízes profundas na sabedoria popular e nos tempos imemoriais ou intemporais de antanho, com génese na tradição oral portuguesa. Narrativas de cunho morigerador e/ou lúdico que geralmente trilham vivências reais ou míticas e estruturas antropológicas calcorreadas nas encruzilhadas da vida e arquétipos do inconsciente coletivo, que transformam o contador num portador privilegiado e intérprete de uma comunidade. Em súmula, um volume que colige e reúne cerca de uma centena de contos e lendas dispersas, recolhidas nos mais recônditos espaços vimaranenses e da região, a que se acrescenta uma mais-valia estética da sua ilustração colorida, para além do seu valor intrínseco de diversão, reflexão e criação de laços interculturais e intergeracionais que a sua leitura propicia. Efetivamente, um instrumento de imaginação coletiva e ação pedagógica, agora integralmente disponível, pois, como cita Schiller, “existe um sentido mais profundo nos contos de fadas que nos foram contadas em criança do que na verdade que a vida ensina”…
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Histórias da Resistência e da Liberdade A propósito do aniversário do nascimento de Joaquim dos Santos Simões e da homenagem que lhe é devida, Fernando Capela Miguel lançou mais uma publicação da sua lavra, sobre o título em epígrafe, que narra histórias da resistência e da liberdade, vivenciadas e temporalizadas no antes e pós-25 de Abril, que está prestes a celebrar 50 anos. Uma publicação com catorze histórias, com prefácio de José Silva Melo, que percorrem barricadas de resistência em companhia de nomes históricos como Humberto Delgado, iludem a vigilância dos bufos (os chamados “casos de gabardina”), vencem denúncias e perseguições e mostram os caminhos solidários da camaradagem comprometida. Outrossim, histórias que, além de ser imperativo ficarem registadas nos anais da vida democrática (projeto em boa hora abraçado), evocam espaços físicos e sociais de referência como o Círculo de Arte e Recreio (CAR) e o Cineclube, instituições de janelas abertas ao mundo, bem como nomes mais ou menos conhecidos que, sendo “sempre os mesmos”, eram porventura diferentes… Efetivamente, narrativas reais que recordam ainda nomes como Arlindo Vicente, os tratamentos político-termais de Ferreira de Castro pelas margens do Ave e até um torneio medieval que proporcionaria a fuga de um casal perseguido pela PIDE. De facto, histórias reais que retratam casos de solidariedade perante a perseguição das garras do salazarismo salazarento e dos seus sequazes, que abonam sobre a responsabilidade intergeracional dos guardiões da República e da Liberdade, e focalizam a força, envolvência e partilha dos combatentes, fixados para a posterioridade numa foto antiga, ou numa medalha de prata de mérito, recebida pelo CAR, aquando dos seus 50 anos de existência. Porém e acima de tudo, como exterioriza José de Melo no seu prefácio, uma homenagem merecidíssima a Santos Simões, o homem do leme, pois, como diria, “com ele aprendemos que existia a Democracia e os 590
Direitos Humanos (…). Estas são as histórias que envolvem Santos Simões cidadão incontornável em nossa casa – o CAR – e em Guimarães”. Ademais, como expressa o texto “A Memória”, à laia de dedicatória, um tributo a todos os cidadãos que se bateram contra o regime vigente (e vários são os nomes mencionados), bem como à memória dos professores com quem aprendemos o significado da palavra liberdade. Em conclusão, histórias que devem ser lidas como recordações e ensinamentos memoráveis do passado e sobre um período histórico marcante e recente, que Capela Miguel, emocionalmente e com sentido de oportunidade, narra e descreve com pertinência. E que, neste caso concreto, provam, sem margens para dúvidas, que afinal esteve lá… A ler…
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Guilherme de Faria reeditado GUILHERME Augusto Pessanha de Sequeira Braga Leite de FARIA (GF) é o quinto filho do casal António Batista Leite de Faria e Lúcia Eduarda Pessanha de Sequeira Braga, que teve 19 filhos, dos quais apenas 10 sobreviveram ao primeiro ano de vida. Nascido e batizado na paróquia de S. Sebastião, em Guimarães, aqui nasceu em 6 de outubro de 1907, concretamente naquela casa sita no início da Alameda de S. Dâmaso (parte sul), no imóvel onde atualmente se situa uma Loja Chinesa e a firma Almeida & Neves, em cujos azulejos amarelos sobressai a placa alusiva à ocorrência. Evocação do poeta que se encontra também presente na toponímia da cidade, na Praceta Guilherme de Faria (no conhecido Bairro do Tarrafal). De facto, GF passaria aqui, em Guimarães, a sua infância e pré-adolescência e aqui aprendeu as primeiras letras e iniciaria os seus estudos liceais, antes de mudar de residência para Lisboa, em 1919, na companhia de seus pais. Porém, na capital, onde viveria cerca de 10 anos, acabaria posteriormente por suicidar-se, na Boca do Inferno, em 4 de janeiro de 1929, quando tinha apenas 21 anos. Com efeito o mar o levaria, ele que premonitoriamente, no “Soneto ao Mar”, reafirmaria intrinsecamente que “sinto rolar dentro de mim! / (…) sinto uivar dentro de mim!”, como “irmã da minha mágoa!”. Efetivamente, uma vida efémera e magoada, assumidamente vivenciada como poeta “tão fatalisticamente que negou a si próprio a possibilidade de ter sido outra coisa”, como afirma José Rui Teixeira, professor da Universidade Católica, o orador convidado pelo Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, que, no passado 29 de setembro último, apresentou o primeiro volume de reedição de poesia do autor vimaranense, intitulado “Poesia (vol. 1: édita)”. Ora, nada melhor que José Rui Teixeira, profundo estudioso de GF, e o espaço do Arquivo MuniSessão de Lançamento, em 29/09/2023: Alexandra Marques, Diretora cipal Alfredo Pimenta para apresentá-lo. Com efeito, do Arquivo Municipal; Adelina Pinto, Vice-Presidente da Câmara Municipal; José Rui Teixeira, professor da Universidade Católica. apadrinhado por Alfredo Pimenta (1882-1950), na 592
altura residente na capital, enquanto Conservador no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, o jovem poeta consultaria o prestigiado conterrâneo que o impulsionaria a dar asas à imaginação e a publicar “Poemas” e “Mais Poemas”, ambos em 1922, o último dos quais seria consagrado ao insigne escritor e historiador vimaranense. De facto, após as duas obras poéticas iniciais, seguir-se-iam “Sombra” (1924) e ainda “Destino” e “Manhã de Nevoeiro”, ambos em 1927. Posteriormente, em 1929 e a título póstumo seriam publicados “Desencanto” e a antologia “Saudade Minha” (poesias escolhidas), bem como uma “Antologia de Poesias Religiosas”, que deixaria organizada e seria editada por Teixeira de Pascoaes, em 1947. No fundo, um legado que se integra na melhor tradição lírica e elegíaca da poesia portuguesa, no contexto do neorromantismo lusitanista e do saudosismo integralista, que, nas palavras de Alfredo Pimenta, foi “o último Poeta português, que aos 21 anos se deixou enfeitiçar pelo marulho das ondas e no seio destas de foi (a) cantar a sua última estrofe”. Quanto ao livro agora apresentado, que colige os poemas das obras citadas e publicadas em vida, é o primeiro de um conjunto de volumes da coleção “Guilherme de Faria Poesia” e insere-se no domínio do centenário da morte do poeta, que evocado nesta sessão pretende conceder ao aedo vimaranense o devido e merecido destaque no âmbito da literatura portuguesa. Deste modo, em 2024, prevê-se editar um 2.º volume do autor, de forma a revelar e aprofundar o conhecimento da sua produção poética e compreender a sua evolução lírica. Igualmente e nos anos subsequentes, até ao centenário da sua morte, está previsto dar continuidade ao projeto, pelo que o lançamento de um 3.º volume, intitulado “Guilherme de Faria – Testemunhos e Receção na Imprensa – Coletânea”, sairá do prelo em 2025. Aliás, se bem nos lembra, já anos atrás, com os mesmos protagonistas, foram lançados o “Livro de Guilherme de Faria I – Saudade Minha (versos escolhidos)” e “Vida e obra de Guilherme de Faria – os versos de luz por escrever”. Ademais, o poeta foi já alvo de algumas publicações na imprensa local, nomeadamente no n.º 42 da 593
Revista de Guimarães (ano de 1932), que sob a pena de A.L. de Carvalho alude a conferência/recital “Poetas Vimaranenses”, realizada nas Oficinas de S. José. Entretanto, nesta edição n.º 5 (2023) dos OsmusikéCadernos constará também o artigo “Poetas da Minha Terra: Guilherme de Faria”, que facultará aos nossos leitores uma visão alargada do autor, que o livro referenciado e outros citados complementarão. Para já, numa simples aproximação ao poeta, transcrevemos do livro agora editado, “Guilherme de Faria Poesia (vol. 1: édita)”, a composição poética que se segue, lida durante a sessão de sua apresentação: “Ó Morte escura, nesta ansiedade, Tão só no mundo, já sem o abrigo, Dum vago sonho, duma saudade, Sonho contigo. Cheio de mágoas, apenas vejo Mágoas e luto, por toda a parte… – Ah, vem, ó Morte, que assim desejo, Talvez, amar-te. Vem! – que o meu sonho de primavera, O amor, a graça que o céu me deu, Em fria cinza de vã quimera, Tudo morreu! Ai, vida minha, luz dos meus olhos, Não mais te quero sonhar, nem ver! E vem, ó Morte, fechar-me os olhos, Para esquecer.”
Mais uma leitura para não esquecer e que se recomenda…
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Revista ELO Lucinda Palhares Diretora do Centro de Formação Francisco de Holanda
Em janeiro de 1994, foi publicado o primeiro número da revista Elo do Centro de Formação Francisco de Holanda (CFFH), sob direção de João Silva Pereira. Nascia, assim, um projeto editorial que nem parou de crescer nem de inquietar. Nessa edição podia ler-se “… inauguramos um espaço de encontro de professores, onde com total abertura poderemos trocar saberes, experiências, dúvidas e tentar encontrar vias de resposta às nossas preocupações”.
Dez anos depois, Jorge do Nascimento, então Diretor do CFFH, escrevia “Pretendemos que esta revista continue a ser portadora de uma lógica de abertura, de diversidade, de cooperação e de parceria entre todos 595
aqueles que pretendem mudanças significativas na educação em Portugal”. Na edição prata (25ª), a atual Diretora, Lucinda Palhares, reiterava que “… este projeto foi-se fortalecendo com muitos elos de carinho, de amizade, de abnegação e de solidariedade! Ao longo deste quarto de século, muitos professores e investigadores contribuíram com os seus ideais, conceitos e opiniões para o debate, para a reflexão, para a troca de saberes e de experiências, para desvanecer dúvidas e ultrapassar preocupações! Mas também defenderam convicções, marcaram diferenças, permitiram escolhas e partilharam o conhecimento”. Atualmente, a ELO continua a ligar docentes e investigadores em torno de temas atuais, geradores de desafios e preocupações que dominam a escola pública. É uma herança de 30 anos e que ousamos continuar, pois trata-se de um projeto que gera esperança e dá sentido profissional à comunidade educativa. Em setembro foi lançada a 30ª edição, na qual se reforça a necessidade e a responsabilidade de prosseguir com os ideais traçados desde o início: - Divulgar conhecimento preferencialmente junto dos docentes que lecionam nas escolas associadas ao Centro de Formação Francisco de Holanda, tornando visível o trabalho de investigação teórico-pedagógico…. - Divulgar a qualidade das práticas realizadas nas escolas associadas junto dos restantes membros da comunidade educativa….
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Veduta Veduta é a revista de difusão de pesquisas, projetos e ideias sobre Património Cultural, publicada anualmente sob a alçada da Casa da Memória de Guimarães (CDMG). Já com 16 números editados, os três últimos em suporte digital, foi recentemente lançada a edição do ano de 2022. Uma revista que, segundo Catarina Pereira, diretora Artística da CDMG “se destaca na oferta editorial pelo cuidado com que observa o mundo a partir de Guimarães (…) que se dedica a olhar o horizonte do património nas suas múltiplas dimensões”. Ora, o número 16, referente a 2022, não foge à regra. Com efeito, nesta edição, para além do projeto “Pergunta ao Tempo”, iniciativa de educação patrimonial conduzido por Helena Pinto, que decorre há cerca de cinco anos, a revista focaliza-se fundamentalmente em quatro outros projetos: “O Colecionador de Sons”, “Catálogo Poético”, “Velha Infância” e “Entardecer com Contos”, que passamos a especificar. Com efeito, “O Colecionador de Sons”, por intercessão de Daniel Pereira Cristo e Marta Silva, é um projeto de recolha de sons e tradições de foro oral da comunidade e território vimaranense, que fez caminho no encontro com as pessoas em vertentes diversas como cantigas e dizeres. Um projeto que nos proporciona um acervo polifónico sobre a paisagem sonora de Guimarães, preservado e gravado. Por sua vez, “Catálogo Poético”, um texto de Marina Plácido, centra-se sobretudo numa abordagem do comércio tradicional de Guimarães, em particular em lojas emblemáticas. São exemplos a Casa do Júlio (loja que nos ajuda a “ler” melhor), o Manuel Joaquim (loja-oficina que nos ajuda a pensar no ambiente, a Barbearia Londres (a loja mais musical de Guimarães), a Sapataria Vimar (a loja que nos ajuda a “descobrir e pensar”), bem como na Casa Ferreira da Cunha (ferragens, utilidades e tradições) e a Frutaria Lisboa (a loja do tempo). “Velha Infância”, um texto de Vera Alvelos, por seu turno, conduz-nos à ligação com a comunidade, através do grupo do Centro Social de Nossa Senhora do Carmo e de atividades, entrevistas e uma performance de um grupo jovem, que juntaria duas gerações em torno de histórias de cinco velhas senhoras, partilhadas com os mais novos. Uma iniciativa assente em testemunhos que trabalharia memórias individuais e coletivas, de quem viveu a infância em meados do século XX e que culminaria com uma exposição de objetos diversos alusivos à escola, às brincadeiras, à casa e ao trabalho, entre outros. Finalmente, o texto de António Fontinha e Marta Silva, sob o título “Entardecer com contos” faculta597
nos uma radiografia do conto tradicional e as memórias de ouvir e contar histórias de outrora. Contos narrados ao entardecer do mundo rural, que contaria como contador especial Joaquim Mendes Teixeira, o anfitrião do Serão dos Contos de Prazins – Santa Eufémia. Veduta (que significa gravura, pintura ou desenho rico que apresenta a perspetiva de uma paisagem urbana ou de outros panoramas) é assim uma revista panorâmica dimensionada para as artes tradicionais e patrimoniais da comunidade vimaranense, a merecer uma atenta olhada.
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Boletim de trabalhos históricos Foi publicado o volume XI-2022 do Boletim de Trabalhos Históricos (Série III), uma edição anual do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. O boletim apresenta um editorial de abertura de autoria da vereadora Adelina Paula Pinto, que resume sucintamente os conteúdos essenciais desta publicação, cujas origens remontam a Alfredo Pimenta, em 1933. Assim, desta feita, quatro artigos fundamentais compreendem o boletim, que seriam apresentados por alguns dos seus autores presentes na sessão apresentativa. “Um palco de teatro nacional em Guimarães – a primeira década de funcionamento do Teatro D. Afonso Henriques – 1855-1865” constitui o primeiro artigo de autoria de Inês Lago, que toma como ponto de partida o mapeamento dos artistas e companhias de teatro profissional Sala do Teatro D. Afonso Henriques 1919, quando ali funcionou o Guimarães-Cine. portuguesas que atuaram no novo teatro. Reprodução fotográfica de desenho, da coleção de J. M. Torcato Ribeiro Um trabalho que revela a importância deste teatro na vida sociocultural vimaranense, a sua relevância na democratização do acesso à cultura e na afirmação de Guimarães enquanto centro de fruição cultural nessa época. Por sua vez, os arquitetos Hélder Casal Ribeiro e Sílvia Ramos apresentariam o trabalho intitulado “Mário Bonito: Estádio de 1958 para Guimarães. Génese de um Projeto-conceito”. Um artigo que aborda a proposta arquitetónica singular de 1958/1959 do arquiteto Mário Bonito (1921-1976) sobre a génese do Estádio Municipal inserida no “Anteplano da Urbanização da Cidade de Guimarães” de 1949-1953 que integra o desejo de uma renovada ideia urbana para a cidade-berço, no âmbito da arquitetura moderna. 599
Ainda no contexto arquitetónico-desportivo, Miguel Fernandes apresentaria o estudo “O campo de jogos: narrativas socio-espaciais do futebol amador no território difuso de Guimarães”. Um artigo que propõe revelar e refletir sobre o papel do campo de futebol no território difuso contemporâneo do Vale do Ave, no qual o campo é o mote para uma leitura das dinâmicas socio-espaciais dos lugares e territórios, pretendendose reconhecer as múltiplas formas e funções do campo e traduzir as relações e processos de transformação entre campo e território ao longo do tempo. Por fim, Maria Adelaide Pereira de Moraes escreveria “Dom Manuel Afonso da Guerra”, retratando a vida deste ilustre vimaranense no tempo dos Reis Filipe, que foi membro do Conselho do Rei, e Governador Capitão, Provedor Geral da Fazenda em Cabo Verde, cargos exercidos conjuntamente com a sua função de Bispo de Cabo Verde. Como diria a vereadora Adelina Paula Pinto no seu editorial “assim se marca a vida da nossa cidade, do seu contexto e se deixam reflexões e conhecimentos que nos formam e informam! A História continua a permitir-nos um outro olhar sobre o mundo”…
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Revista de Guimarães Júnior Nove de Março, data do nascimento de Francisco Martins Sarmento, marcou a data da apresentação da revista infantojuvenil citada em título, uma publicação editada pela Sociedade Martins Sarmento, financiada pela Câmara Municipal no âmbito do Impacta, que visa sensibilizar os mais jovens para a valorização e preservação do património material e imaterial. A nova revista, lançada e distribuída na Festa Escolar de 9 de Março, pensada como complemento à centenária Revista de Guimarães, centra-se neste seu primeiro número na história, espaços, coleções e atividades da própria Sociedade Martins Sarmento e na homenagem à personalidade Joaquim dos Santos Simões, abordado na perspetiva da sua infância, enquanto insigne dirigente da instituição que este ano comemora o centenário do seu nascimento. Deste modo, entre muitas outras coisas, a revista permite conhecer melhor a famosa Pedra Formosa e os balneários utilizados pelos antigos habitantes da Citânia de Briteiros, bem como o próprio Martins Sarmento, patrono da instituição, e Santos Simões. Neste primeiro número publicam-se ainda as participações dos alunos da comunidade escolar vimaranense, alusivas aos concursos promovidos nas vertentes da crónica e da ilustração, cuja temática se focalizou no património, tendo em vista fomentar e refletir sobre a sua pertinência e interesse entre as gerações mais jovens. Assim, nesta primeira edição, consta ainda a lista de participantes dos concursos de crónica e ilustração, assim como a publicação dos trabalhos premiados. A encerrar um noticiário júnior e a lista dos premiados na Festa Escolar de 9 de Março, completam o seu articulado. A revista, de periocidade anual, com mais de 70 páginas, encontra-se à venda na Sociedade Martins Sarmento pelo módico preço de cinco euros. Na nossa opinião, constitui uma feliz e agradável iniciativa da entidade editora, que vem a preencher uma lacuna existente para este grupo etário, após a extinção da revista Bairro Afonsino. Obviamente uma revista a merecer a melhor atenção, a ser lida nas escolas e em casa. 601
Revista de Guimarães. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 1884 Salomé Duarte
A Sociedade Martins Sarmento (SMS) editou mais um volume da centenária Revista de Guimarães, o volume 131, referente ao ano 2021. Órgão cultural e científico da SMS, desde 1884, a Revista de Guimarães apresenta, nesta recente edição, sete textos de investigação, noticia sobre os resultados da última campanha de escavações na Citânia de Briteiros, pelos arqueólogos da Instituição, e, como vem sendo habitual, dá nota das publicações catalogadas na Biblioteca da Instituição no respetivo ano, terminando com a identificação dos premiados da Festa Escolar do 9 de Março, referente a 2020. A edição principia com o último trabalho de investigação distinguido com o Prémio de História Alberto Sampaio, atribuído pela primeira vez em 1995, – Moedas, monarcas e mercados. O primeiro sistema monetário português, 1190-1250, de António Castro Henriques. O autor-investigador debruçou-se sobre a problemática do sistema monetário português, nos finais do século XII e primeira metade do século XIII, trazendo importantes informações para a compreensão da moeda em Portugal, especialmente do morabitino. A Revista de Guimarães. Vol. 131 (2021). partir de fontes documentais, o investigador explorou significativos aspetos, no domínio da história económica, financeira, fiscal e militar, que contribuem para a atualização de determinados postulados sobre a emissão e circulação monetária no país. Os trabalhos científicos que se seguem versam sobre variadas temáticas, nomeadamente sobre a problemática dos incêndios florestais, a pelagra e o âmbito dos estudos de João de Meira relativamente a esta condição patológica, e sobre a relevância da documentação e dos arquivos pessoais. Tânia Sofia Ribeiro, no artigo João de Meira e o estudo da pelagra no concelho de Guimarães, revisita os estudos do jovem médico vimaranense e analisa o seu contributo para o conhecimento da pelagra em Portugal, especialmente em Guimarães. Num período em que os incêndios, nomeadamente florestais/ rurais, têm deixado profundas marcas no 602
território português, com severas consequências na paisagem humana, António Bento-Gonçalves traça a realidade histórica e presente dos incêndios em Portugal, frisando a necessidade de adoção de novos comportamentos e a criação de estratégias que possibilitem perspetivar um futuro melhor. Na sequência das 1.as Jornadas Interdisciplinares Documentação de uns para todos, que tiveram lugar na Sociedade Martins Sarmento, em 2021, a Revista de Guimarães apresenta os textos de três comunicações. Os estudos para além do acréscimo de conhecimento nas áreas temáticas que versam, assinalam o importante papel da documentação para a investigação, assim como indiciam a incontornável função do Arquivo em benefício da identidade e da memória coletiva das comunidades – preservando, tratando, gerindo e divulgando o património documental –, para além de serem lugares facilitadores da produção do conhecimento, entre outros aspetos. Neste sentido, Eduarda Dionísio partindo do Arquivo de Mário Dionísio da Casa da Achada aborda o conceito de memória e as perceções do pintor e escritor sobre figuras e acontecimentos da sua época. Manuela de Alcântara em coautoria com Fátima Silva destacam os livros de contas manuscritos do ourives feirante vimaranense José Moreira Pinto de Carvalho, integrados no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento, frisando a importância destes documentos para a compreensão da atividade e da vida dos ourives feirantes no século XIX, alertando para a possibilidade que se abre com o estudo desta documentação, especialmente a perceção da rede de relações de âmbito comercial, económica e social que o ofício permitia estabelecer. Ernesto Português partilha a sua experiência dedicada a dois arquivos particulares do Concelho de Monção – um de um barbeiro (séculos XIX-XX), outro da Família da Casa de Sende (séculos XVII-XIX), com ligações ao Brasil. Para além da caracterização genérica dos fundos, das leituras possíveis que sobre eles se podem estabelecer, do ponto de vista histórico, social e político, da vida pública e privada da comunidade, o autor sublinha a necessidade imperiosa de assegurar a preservação e tratamento dos Arquivos Particulares. Por seu lado, Rodrigo Manuel Pia Vilas-Boas de Meireles, assinalando a doação de uma coleção de O azemel vimaranense, em volume fac-similado, que fez à Biblioteca da Sociedade Martins, deixa algumas notas sobre a publicação. O autor apresenta as principais características do jornal, os intervenientes na edição, fazendo, também, referências à natureza do conteúdo e ao respetivo enquadramento político. Os vários números conhecidos do periódico, considerado até ao momento o mais antigo editado em Guimarães, encontram-se compilados em volume disponível para consulta na Biblioteca da Instituição, valorizando deste modo a coleção existente, da qual fazem parte alguns números do ano de 1822 e de 1823. A Revista de Guimarães, nas suas várias edições, tem vindo a assegurar os propósitos dos seus criadores, para os quais e nas palavras dos iniciadores, deixadas no fascículo I (1884) da Revista, A investigação miúda e perseverante é a base de todo o progresso científico. 603
Guimarães C Visível, nº 3 Foi lançada, em finais de setembro (29/09/2023), mais uma edição da revista “Guimarães C’ Visível”, desta feita a n.º 3, uma publicação anual do projeto Bairro C, focada na transformação de Guimarães nos caminhos da cultura, da criatividade, do conhecimento e da neutralidade carbónica. Com efeito, a revista que tem vindo a desempenhar um papel vital na disseminação do conhecimento e que, nesta terceira edição, se revela ainda mais impactante, oferece uma visão mais aprofundada das realizações e aspirações do projeto Bairro C, uma área confinada à zona dos Couros, Caldeiroa e Cruz da Pedra. Deste modo, nesta edição, patrocinada pelo Município de Guimarães, sob a coordenação de João Costa, a revista conta, na abertura, com um editorial do vereador Paulo Lopes Silva, seu diretor, que, à laia de balanço, refere os inúmeros projetos desenvolvidos pelas entidades parceiras e pelos diferentes intervenientes no Bairro C. Entre outros, as estruturas mais emblemáticas como as Escolas de Artes Visuais e Performativas e o Conservatório de Música, assim como algumas atividades tão diversas como a Bienal de Ilustração de Guimarães e a Contextile. Iniciativas que, na mesma zona, passarão ainda a breve prazo pela Escola Hotel do IPCA e pela recuperação dos Fornos de Olaria da Cruz de Pedra. Como é óbvio, participam na revista um leque significativo de colaboradores que enformam o seu conteúdo em domínios tão diversos como o conhecimento, a criatividade e a comunidade. Para além do excelente design gráfico, apresenta-se numa versão bilingue, nas línguas portuguesa e inglesa, ao longo de mais 604
de 220 páginas. Assim, entre os vários artigos publicados, destacam-se, no âmbito do conhecimento, os títulos mais locais como o “Plano Estratégico Municipal Cultura Guimarães 2032”, bem como a abordagem sobre cozer e coser, ou seja, o têxtil e a cerâmica, a que se aditam algumas leituras artísticas do Bairro de Couros. Por sua vez, no contexto da criatividade, sobressaem, entre outros, os artigos sobre “Cortiça § Couros”, “Sonoplastia do Território” e “Práticas compartilhadas para abraçar o Bairro C”. Outrossim, no domínio da comunidade, o “Projeto Triangular”, que aborda a ocupação artística de espaços expositivos pelos estudantes de LAV, no decurso das denominadas “Jornadas Indisciplinadas”, bem como o “Corredor Biocultural”, que ao Bairro C ajunta outros “C” de ciência, cultura, criatividade e carbono “em mais uma transformação de um Laboratório Vivo dentro de um outro que é mais amplo – O corredor Biocultural”. A fechar, João Costa versa o tema da “Complex-(C)idade Criativa”, a importância da criatividade nas cidades e a missão e objetivos do Balcão de Apoio à Criação, uma plataforma aberta aos agentes culturais e criativos do território concelhio. No fundo, um bairro em ação, ainda em reflexão, que continua em construção, mas que veio para ficar…
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PORTA ABERTA - Espaço Criativo Inserir separador
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PORTA ABERTA – Espaço Criativo A nossa gente continua ativa e empenhada. Assim, não espanta que o prelo não pare com muitas e boas publicações de vimaranenses por nascimento ou cá radicados, bem como associações locais. De facto, desde livros a revistas, Guimarães pulsa de iniciativas editoriais diversas da mais diversa índole. Mas também de outras iniciativas criativas, como a música, de que o álbum “Ibéria” de Manuel de Oliveira é exemplo. Guimarães não para…
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ARTES Coordenação de J. Salgado de Almeida
Artistas e exposições pintam as páginas que se seguem em tons policromos e texturas de encher os olhos, cientes que uma imagem vale por mim palavras, embora pena e pincel se entrecruzem complementarmente. Pintam assim este espaço dissertações e imagens sobre o pintor vimaranense Abel Cardoso, Picasso, a propósito dos 50 anos da sua morte, o Mestre Delirante, Mário Cesariny de Vasconcelos, entre outros, bem como vários trabalhos individuais e algumas exposições, recordamos o mestre da Banda Desenhada José Ruy, recentemente falecido, ou a sempre irreverente e jovem Mafalda. Contributos artísticos aos quais se ajunta o Mundo Disney, no decurso do centenário do seu admirável mundo mágico.
O maravilhoso mundo Disney Equipa Redatorial
“Se consegues sonhar, consegues fazê-lo. Lembre-se sempre de que tudo isso começou com um sonho e um rato” (Walt Disney)
De facto, como diz o poeta, “o sonho comanda a vida”. Neste caso, comanda a vida da animação, que em 1928 fez saltar da toca os ratos Mickey Mouse e sua namorada Minnie Mouse, que mais tarde teriam por companhia o famoso Pato Donald, Pateta, Pluto e o vilão João Bafo de Onça, entre outros. Um par de ratos que dariam origem a uma “ninhada” de várias outras personagens e ao admirável mundo novo da animação, erigido sob a alçada dos irmãos Walt e Roy Disney, fundadores da legendária Disney Brothers Cartoon Studios, sediada em Hollywood. Uma empresa 609
Walt Disney, em 1946, in Wikipédia
cujos inícios despontariam a partir de 16 de outubro de 1923, em Kansas City, no Missouri, com a curtametragem “Alice Wonderland” e Oswald – o Coelho Sortudo, que desde a animação manual à animação digital jamais pararia. Ora, cem anos decorridos, muito deste maravilhoso mundo Disney passou também pela nossa vida animada de entretenimento que, em 1937, nos deliciaria com a estreia “A Branca de Neve e os Sete Anões” a que se seguiriam produções como Cinderela, Mary Poppins, Pinóquio, Bambi, Dumbo, entre muitas outras, como “A Ilha do Tesouro” (1950), já com atores, ou “2000 léguas submarinas “, baseado na obra de Júlio Verne. Um mundo de sonho, criatividade e imaginação que, em 1955, avançaria tamPoster de Silly Symphony de 1935, in Póster original do filme, in Wikipédia bém com a inauguração da Disneyland, Wikipédia na Califórnia, e, mais tarde, em Orlando, na Flórida, em 1971, num total de 14 parques temáticos que atualmente se estendem a todo o mundo como Tóquio, Paris, Hong Kong e Xangai, entre outras paragens. Locais que além do maravilhoso mundo Disney permitiram juntar no mesmo espaço adultos e crianças, pois, como diria Walt Disney, “afinal de contas, os adultos são apenas crianças crescidas”. Porém, atualmente, a empresa trabalha e opera com redes de televisão Carrossel da seção Silly Symphony, na Disneylândia, in Wikipédia como a APC, a Disney Channel, a ESPN e 610
também divisões de teatro, tendo adquirido a Pixar e a Marvel, a Lucas Film e a 21st Century Fox, expandindo a sua marca aos colecionáveis e mesmo a linhas de roupa. Mais recentemente, a sua única filha, Diane Disney, criaria, em 2009, o Walt Disney Family Museum, em S. Francisco. Uma saga de sucessos para avós, pais, filhos e netos, que se traduziu em 22 óscares, 7 Emmy Awards e um século de êxitos que se prolongam aos dias de hoje com “Frozen”, “Rei Leão” “Toy Story” e uma infinidade de outros títulos mais recentes como “Mandalorian” (Stars Wars), “O Homem-formiga e a Vespa: Quantunia”, entre muitos e variadas iniciativas desta fábrica de entretenimento e sonho, que a tecnologia moderna inova e recria. Obrigado, por estes 100 anos de magia…
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Mário Cesariny – No centenário do nascimento do poeta-pintor Equipa Redatorial
Mário Cesariny de Vasconcelos foi poeta e pintor surrealista, nascido em 9 de agosto de 1923, já lá vão cem anos. Filho da parisiense Maria Mercedes Cesariny e do português Viriato Vasconcelos, um empresário de ourivesaria na baixa lisboeta, que posteriormente abandonaria a família e rumaria ao Brasil, Mário é o quarto filho deste casal e mais novo do que as três irmãs do agregado familiar, que, mais tarde, particularmente Henriette, partilharia(m) com ele os últimos momentos de vida, ocorridos em 26 de novembro de 2006. Estudante na Escola de Artes Decorativas António Arroio, após o ensino básico, com o objetivo de frequentar um curso de cinzelagem e de dar continuidade ao negócio familiar, cedo, o jovem Mário manifesta tendências para outros voos artísticos, não obstante a oposição de seu pai. Porém, ali conheceria Cruzeiro Seixas e Fernando José Francisco que, de certa forma, influenciam as suas opções futuras. De facto, posteriormente, acabaria por frequentar um curso de habilitação à Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que não chegaria a frequentar, e estudaria música com Fernando Lopes Graça, revelando-se um talentoso pianista. O ano de 1947 marca, contudo, uma viragem na sua vida quando viaja para Paris e frequenta a Académie de la Grande Chaumière, graças a uma bolsa de estudo. Aí conhece e visita o escritor francês e teórico do surrealismo André Breton (1896-1966) que, certamente, o influencia e impulsiona, após o seu regresso a Portugal, onde fundaria o Grupo Surrealista de Lisboa. Um grupo que, habitualmente, reunia na Pastelaria Mexicana, do qual faziam parte António Pedro, José Augusto França e Alexandre O’Neill, entre outros, que surgiria no mundo artístico como arautos de uma forma de protesto contra o movimento neorrealista, dominado pelo PCP. Todavia, este grupo viria, posteriormente, a cindir-se no grupo dissidente “Os Surrealistas” 612
do qual Mário Cesariny seria a referência fundamental. Com efeito, Cesariny passa, nos anos subsequentes, a dedicar-se à pintura e à poesia e afirma-se como colaborador, na revista “Pirâmide”, editada por Luiz Pacheco (com quem mais tarde se incompatibilizaria). Vive, porém, com dificuldades financeiras, sob a vigilância das autoridades policiais, por “suspeita de vagabundagem”, situação que, na época, paralelamente com a sua homossexualidade assumida, o obrigaria a humilhantes apresentações e interrogatórios regulares. Em meados dos anos 60, mercê de uma bolsa recebida da Fundação Calouste Gulbenkian seria convidado para escrever um livro sobre a pintora Vieira da Silva. Paralelamente, com a posterior reedição da sua obra poética e a decorrente (re)descoberta do autor por uma nova geração de leitores, Cesariny começa a impor-se no meio literário e artístico. Uma poesia animada por um sentido de contestação aos comportamentos e princípios institucionalizados que, no âmbito dos processos surrealistas, recorre às enumerações caóticas, uso do humor negro e formas paródicas, com"A Póvoa em 1935" - 1970
plementadas por frequentes trocadilhos e outros jogos
verbais. Uma poesia bastante influenciada por Cesário Verde e pelo futurismo de Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa, que, não obstante a sua postura subversiva, nos legaria também poemas intimistas, em que o amor marca presença: “Em todas as ruas te procuro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessa a cintura tanto tão perto tão real
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que o meu corpo se transfigura e toca o seu próprio elemento num corpo que já não é seu num rio que desapareceu onde um braço teu me procura. Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco”.
Mas Cesariny foi também tradutor de Arthur Rimbaud (1854-1891) e Henri Michaux (1899-1984), entre outros ditos malditos. Ademais, escreveu um texto de índole teatral intitulado “Um Auto para Jerusalém” (1964) e renuiu, no livro “As Mãos na Água a Cabeça no Mar” (1972), um conjunto de artigos sobre vários escritores, pintores e movimentos artísticos. Porém, notabilizado poeta antes de ser reconhecido como pintor “é na pintura que o poeta vai buscar o formato da sua imaginação audaciosa”. Com efeito, como acrescentaria Eurico Gonçalves, no seu artigo “Mário Cesariny – o picto-poeta surrealista”: “A viscosidade orgânica da pintura lacerada e informal de Cesariny explora a intervenção do acaso no alastramento de tintas, vernizes e colas na sobreposição de texturas, transparentes e opacas, na fusão dos pigmentos, estridentes e neutros, e na incisão de grafismos elementares, abstratos e neofigurativos. A sua poesia funde-se na pintura-despintura com uma autenticidade rara, e a sua pintura-despintura reverte para a poesia um admirável sentido de liberdade (…) Descontraída e desregrada, a sua pintura-despintura manifesta-se à margem do saber instituído, seguramente mais próximo da Arte Bruta do homem comum”.
Assim, “rebelde a se integrar em qualquer sistema
"Este o meu testamento de poeta" - 1994
normativo, a sua despintura evidencia sinais de ruptura contra todas as convenções (…) e a sua pintura-poesia 614
está cheia de fantasmas, seres incorpóreos (…), trazendo para a sua obra o “absurdo”, o “insólito” e o “inverosímil”. Ele próprio assevera: “Desde a minha adesão ao surrealismo, em 1947, e ao contrário do que a alguns pode parecer, foi a despintura que me ajudou a desregrar e a desmembrar a linguagem que, a partir daí, pratiquei nos meus versos”.
Uma técnica de escrita e despintura à imagem da sua personalidade inquieta, marcada pela experimentação, de que a colagem foi exemplo e que inventaria técnicas inovadoras como a soprofiguração, que consiste em lançar sobre o suporte da obra jatos de tinta posteriormente sopradas. Sobre o poeta-pintor, diremos ainda que recebeu o Grande Prémio da Vida Literária da APE/CGD em 2005 e que doou em vida o seu espólio à Fundação Cupertino de Miranda, bem como deixou em testamento um milhão de euros à Casa Pia. Em 2004, seria (ainda) protagonista do documentário “Autografia”, realizado por Miguel Gonçalves Mendes, no qual Cesariny se expõe e revela, de modo total, o que permite conhecê-lo melhor …
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ABEL CARDOSO – Pintor vimaranense Equipa Redatorial
ABEL de Vasconcelos CARDOSO (1877-1964) realizou a primeira Exposição Individual em 1923, no Átrio da Misericórdia, no Porto, já lá vão 100 anos. Evocar esse evento, no qual Raul Brandão esteve envolvido na redação do catálogo respetivo, bem como recordar o pintor vimaranense, é o propósito deste artigo. O pintor vimaranense Abel Cardoso, nascido na rua de Santa Maria, freguesia da Oliveira, era filho do retratista António Augusto da Silva Cardoso, pelo que teria herdado do meio familiar os estímulos e a sensibilidade, os conhecimentos e as práticas artísticas que o levariam a rumar e a formar-se na Academia de Belas Artes do Porto (1889-1895). Uma vocação que no ano seguinte o impulsionaria a “emigrar” para Paris com o objetivo de frequentar a École Nationale de Beaux Artes, na qual se tornaria discípulo do mestre Jean Léon Gérôme e colega do pintor português António Carneiro. Assim e após a sua formação artística e uma breve estada no Brasil, Busto de Abel Cardoso - André Pereira, Abel Cardoso fixar-se-ia em Guimarães, a sua terra natal. Ora, aqui iniciaria 1938 (museu da Esc. Sec. Francisco de Holanda) então a sua atividade profissional na Escola Francisco de Holanda (19151931), da qual viria a ser diretor, curiosamente o mesmo estabelecimento de ensino que frequentara enquanto jovem aluno de Desenho, disciplina lecionada pelo seu próprio pai e que em 2018 evocaria o pintor no decurso da exposição denominada “Abel Cardoso – Percurso de um aluno”. Abel Cardoso exerceria ainda funções docentes, como efetivo, da Escola Industrial Afonso Domingues, em Lisboa, nas décadas de 30 e 40. No entanto, para além do ensino e sobretudo da pintura, Abel Cardoso destacar-se-ia ainda como cidadão ativo, nomeadamente nas Festas Gualterianas, salientando-se o seu belo cartaz de 1914. Colaboração que seria evocada nas Gualterianas de 1969, que na altura exibiria na Sociedade Martins Sarmento, inserido no programa das festas, uma exposição das suas obras. Aliás, no edifício desta instituição vimaranense, da qual seria sócio honorário, constam, além das obras do pintor intituladas “Espuma Irisada” e “Bois no Pasto”, outras marcas identitárias da sua lavra como a decoração dos nichos 616
localizados no interior dos vãos resultantes das arcadas no andar nobre, na fachada principal do edifício, bem como no interior do Salão Nobre. Todavia, um pouco da sua obra encontra-se dispersa por várias instituições vimaranenses, em especial na Santa Casa da Misericórdia, Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e Santos Passos e Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, bem como no Museu Alberto Sampaio onde se encontra patente o seu trabalho “Barquinho de Pesca”. Mas, ademais, o pintor está presente no Museu de Arte Contemporânea (Chiado), em Lisboa, Museu José Malhoa (Caldas da Rainha), Museu Soares dos Reis (Porto) e Palácio de Mafra, assim como nos museus municiAbel Cardoso, “Bois no Pasto” pais de Lamego e Figueira da Foz, diversificação de presenças que abonam de sobremaneira a valia da sua obra. De facto, considerado um dos maiores pintores paisagistas da sua geração, Abel Cardoso é, na perspetiva de José Craveiro, seu colega de profissão na Secundária Francisco de Holanda, uma figura inconfundível, que pela “sua elevada estatura e as barbas brancas distinguem-no tão bem entre os demais professores como a posição de mentor em que frequentemente o colocavam”. De facto, hoAbel Cardoso, "Beira Lima", in Memórias de Araduca mem de espírito aberto, franco e compreensivo, de grande carácter e coração magnânimo, assim o caracterizam contemporâneos e amigos, Abel 617
Cardoso é acima de tudo, para além da sua postura e idiossincrasia, um paisagista e pintor consagrado de mérito, que Artur Portela no Diário de Lisboa qualifica como o “pintor do Minho desse Minho oftálmico de luz, com gerânios vermelhos e cravos sangrentos ao correr dos valados e vinhas esmeraldinas onde o sol se quebra em trapézios de luz”. Raul Brandão e a exposição de Abel Cardoso de 1923 Na sua primeira grande exposição individual, realizada no Porto, Abel Cardoso teve a honra de ser apresentado pelo escritor Rail Brandão, que o retrata como “um elegíaco e um tímido, um pintor regionalista e um poeta” e que na circunstância escreveria o catálogo da exposição. Escreve o escritor Raul Brandão, sobre a obra do pintor Abel Cardoso: “Percorro rapidamente a obra deste pintor: suas manchas, os seus quadradinhos de figuras e de género, as suas rápidas pochades de beira-rio ou beira-mar – e conheço-o como se lidasse com ele há muitos anos, é um elegíaco e um tímido, que me desvenda inteiramente a alma. Tradu-la em tintas, em cor, na maneira como interpreta um fio de água que reluz, uma mancha de sol amarela num campo, um caminho ignorado de aldeia. Mas conheço-o muito melhor se me deixo ficar diante durante uma hora em frente destas telas cheia de vida e de saúde, que contêm um fio de tristeza escondida, um nada, o bastante para molhar de poesia os pincéis ou a espátula com que Abel Cardoso às vezes nos dá os tons ásperos e violentos, necessários a certos quadros de movimento e vida. é quase nada, mas sinto-o. É o indispensável para que algumas das suas paisagens nos façam cismar… Árvores em fila, uma poça, um charco azul, e anda nestas águas translúcidas. Uma alma a boiar, tão pequenina que é quase um reflexo, um sonho que vai desaparecer se não falamos mais baixo. Adiante… Adiante é uma série de motivos, todos nossos conhecidos, todos nossos amigos: uma eira de sol, uma ermida muito branca, o monte esfarrapado e solitário, que no Inverno usa capa de remendos – manchas copiadas do natural, com a frescura das tintas passadas ao ar livre da vida para a tela. É o Minho com a sua cor, as suas estradas, as suas choupanas, as suas couves imóveis como bronzes, o seu ar e as suas águas, as suas figuras e os seus tipos. Detenhamo-nos um momento. Diante desses homens de varapau, destas velhas enrugadas, dos quadros de género, que acho interessantíssimos, e que tenho pena que Abel Cardoso não completasse: quem fez o lagar e a trave no dia da pisada, devia pintar também, para completar a série, o homem, a mulher, a moça e o boi na vessada, a malha no eirado quando a pojeira sobe ao céu e apanha a última lua, a vindima nos campos com os grupos de borrachos gritando. Deixem-me, porém, destacar de todos estes quadrinhos uma tela cheia de carácter: é a figura da velha pedinte, sentada numa igreja, à beira do altar. Não sei se pede esmola – mas esperaa. Tem a saia pelos ombros e os seus cabelos, a sua fisionomia, são admiráveis de expressão. É uma pobre
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mulher do povo. O que ela tem sofrido a carregar, a lidar, dizem-nos as mãos como cepo, acara retalhada de rugas, e a boca que não grita porque estres seres humildes se resignam sempre. Este quadro é de um pintor de grande talento. Depois noto a séria de telas de beira-mar, da beira-mar minhota, porque Abel Cardoso deitou de tal forma raízes na sua província que não pinta senão paisagens do Minho, figuras do Minho e do mar do Minho. Efetivamente é um pedaço maravilhoso da costa de Caminha a Viana que desfila diante de mim com os seus castelos, roídos pelo salitre e doirados pelo sol, as suas ondas de um verde que se trespassa de luz e a crista já cheia de espuma a desabar, as sua névoas que nos dão aos poentes uma amplidão e uma vida extraordinárias, as areias cor de oca molhada onde a tinta azul empoça, o farol de Montedor, e a larga paisagem, verde para sul, roxa e diáfana para o norte – o mil aspetos, enfim, da praia, do mar e da costa minhota.
Abel Cardoso, "Ermida de S. Roque", in Memórias de Araduca
Em conclusão: é Abel Cardoso um pintor regionalista e um poeta, apesar do seu vigor e da sua vida forte e saudável. Ama e pinta a província onde nasceu. Às vezes sonha-a. Não digo que o seu canto atinja grandes proporções e chegue às estrelas. Mas não é quando se fala mais alto que se é melhor escutado. Quantas vezes uma voz amiga, num tom sentido e justo, no penetra fundo na alma! É este ocaso do pintor que aparece hoje só e com uma grande parte da sua bela obra diante do público portuense. Como tripeiro que sou, tenho muito prazer em o apresentar aos meus patrícios”.
Abel Cardoso está também consagrado na toponímia concelhia, na freguesia de Gondomar, onde fixou residência a partir de 1947, após aposentação.
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José Ruy – O Mestre da Banda Desenhada Fernando C. Miguel
Foi no concelho da Amadora que nasceu, a 9 de maio de 1930, o nosso amigo José Ruy Matias Pinto e que uma adolescência carente e curiosa o levaria ao Jardim Zoológico para fazer dos animais os seus modelos de estudante da Escola António Arroio onde tirou o curso de desenhador litográfico. Publicou a sua primeira Banda Desenhada (BD) na revista “O Papagaio” e o tema era o presépio. Depois, nunca mais parou e foi publicando e trabalhando como ilustrador na revista “Mosquito”, onde publicou, em 1952, “O Reino Proibido”. Colaborou ainda nas revistas “Tintin”, “Spirou” e “Mundo de Aventuras” sendo reconhecido como o mais profícuo pintor, ilustrador e autor de Banda Desenhada português e assim considerado um dos autores da Idade de Ouro da Banda Desenhada portuguesa entre as décadas de 40 e 60. Com o 25 de Abril nasceu uma nova geração de autores de BD onde se destacou Isabel Lobinho e Zagalo e um grupo de jovens que hoje orgulham e valorizam o universo Bedéfilo. Em Guimarães e durante uma década (1982/92), um grupo de jovens com a BDomania criou a semana da Banda Desenhada que foi um espaço não só de divulgação desta dita nona Arte, mas também um espaço de oportunidade para jovens autores. Ora esta Semana da BD nascida e criada no seio do CAR - Círculo de Arte e Recreio com o Júlio Castro e Fernando C. Miguel e um grupo de vimaranenses de que temo olvidar alguns: O Armando Noélio e a Sílvia; a Irene e o Nelinho Francês; a Marisa Campos e o Fernando Ribeiro e o irmão Ângelo e alguns mais. O SAL – Salgado Almeida foi professor de educação visual de iniciação à BD com grupos de jovens em aprender a Arte. Esta década de acontecimentos Bedéfilos só foi José Ruy. Foto do espólio da Câmara Municipal da Amadora. 620
possível com o apoio e presença do grande artista da BD José Ruy e dos animadores do CPCA – Clube Português de Cinema e Animação. Durante esta década, as artes da Banda Desenhada e do Cinema de Animação foram amplamente divulgadas e ainda está na memória de muitos jovens as oficinas de BD com José Ruy, que desenhava no momento perante todos e a seu pedido o desenho que, logo de seguida, oferecia para gaudio de todos. José Ruy voltou várias vezes a Guimarães mesmo em férias para visitar os muitos amigos que por aqui conquistou nesta altura: Joaquim Fernandes; Emília Guise; Júlio de Castro; Fernando C. Miguel e J. Santos Simões. Este último viria a aproveitar uma destas vindas de férias do autor para o convidar a fazer a história e biografia de Martins Sarmento que viria apresentar no ano seguinte na Sociedade. Levou a cabo muitas outras biografias valorizando a nossa história da cidadania: Fernão Mendes Pinto; Aristides Sousa Mendes; Humberto Delgado; Carolina Beatriz Ângelo. José Ruy adaptou para a BD muitas obras clássicas da nossa literatura tornando mais fácil o seu estudo, entendimento e interpretação, como Os Lusíadas; a História da Aviação; A Barca do Inferno de Gil Vicente; Eça de Queiroz; Wenceslau de Morais. Valorizou substancialmente a História de Portugal com a História da Cruz Vermelha, As Aventuras de Porto Bom Vento, entre outras, que seria fastidioso referir, mas que será importante conhecer. Com uma rica formação no universo das Artes Visuais e Gráficas José Ruy desenvolveu um novo sistema para impressão dos seus álbuns de cores de forma a torná-la mais económica. José Ruy era um humanista e um cidadão preocupado com o mundo de que fazia parte e mostrou-se sempre disponível para ajudar a resolver problemas com que se confrontava no quotidiano. Foi fundador, no seu concelho, do Amadora BD criando um espaço convidativo a todos os jovens artistas e fez da sua cidade uma das capitais da Banda Desenhada do seu país. Viria a ser homenageado pelo CPBD Clube Português de BD com a Medalha de Mérito por uma carreira de 80 anos de dedicação à arte e ainda com a Medalha de Ouro de Mérito e Dedicação da Câmara Municipal da Amadora. A sua última obra publicada foi “O Heroísmo de uma Vitória” (2020) e assim soubemos pela imprensa que, no dia 23 de novembro de 2022, já com 92 anos, partiu para continuar a desenhar. Com o desaparecimento de José Ruy – “Morreu o último autor da idade do ouro da BD Portuguesa”. Os amigos de Guimarães também lhe prestam uma homenagem de saudade e gratidão.
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Parabéns Mafalda Equipa Redatorial
Mafalda, a inconformada rapariga de vermelho, criada por Joaquim Salvador Lavado Tejón (1932- 2020), mais conhecido por Quino, desenhador exímio e comunicador inato, nasceu em 1963, há 60 anos, com o objetivo de dar vida a uma campanha de promoção de eletrodomésticos, que acabaria por abortar. Porém, Mafalda salvar-se-ia e não morreria prematuramente, sobrevivendo nas tiras de Banda Desenhada de vários jornais argentinos, entre os quais o poderoso “El Mundo”. Depois, dos jornais aos livros e abertura ao mercado internacional, o êxito surgiria num ápice e Mafalda saltaria fronteiras como personagem adulta num corpo de menina. Uma figura cómica, com apurado sentido crítico e tiradas políticas criativas e inteligentes, que corajosa e revolucionária chamava as coisas pelos nomes, encantando jovens e adultos.
Efetivamente, contestatária por natureza a todos os acontecimentos sociais da época, desde a Inflação Argentina, à Guerra Fria, ao fantasma da China, à chegada do homem à lua, à Guerra do Vietname, ou ao Maio de 68, Mafalda estrear-se-ia em Portugal apenas no início da década de 70, num álbum da Dom Quixote, intitulado “A Contestatária”. Seguir-se-iam mais de 50 livros editados pela Bertrand e Teorema, que culminaria com o lançamento de “Toda a Mafalda”, uma edição de 2014, publicada pela Verbo, cujas cerca de 600 páginas seriam editadas a propósito das comemorações dos seus 50 anos. Publicações que registariam 55 entradas de livros de Mafalda na Base Nacional de Dados Bibliográficos, mas que desde a falência da Babel, que consigo arrastou a Verbo, deixaria de se editar há quase uma década. No entanto, Mafalda, a criança de 6 anos que gosta dos Beatles, detesta sopa (que simbolicamente representaria a ditadura), mas que adora panquecas, mantém-se imortalizada, apesar do falecimento de 622
Quino; e continua a marcar presença nas mais diversas paragens, graças a uma equipa de amigos fiéis que prometem cuidar dela, menina-idosa, que terá bebido o elixir da juventude, não aparentando celebrar 60 anos. Jovialidade que conserva com os seus amiguinhos de convívio: Susaninha, a rica; Manelinho, o merceeiro; Miguelito, o egocêntrico; Filipe, o sonhador; o pequeno Gui, e, mais tarde, a pequena Liberdade. A doçura filosófica de Mafalda, a menina dos “porquês” e em nome de quê”, vai, por isso, interrogativamente permanecer atual nos seus questionamentos desempoeirados e frontais, de ontem e de hoje: - Porque vai o pai trabalhar se regressa sempre exausto? - Porque fica a mãe em casa? - Somos todos iguais neste mundo? Mafalda prossegue assim a sua vida de fama. Ela que se tornou um ícone e dá nome a uma rua, em Angoulême (França), e que, apesar de ainda viva, tem já erigidas estátuas em S. Salvador de Jujuy e Mendonza, ambas na Argentina e esculturas em Caracas (Venezuela) e nas cidades espanholas de Oviedo e Santa Coloma de Gramanet. E como não bastasse, é tema de um imenso painel numa estação de metro de Buenos Aires … Mafalda conquistou, assim, ainda em vida, a imortalização, vencendo a vaticinada morte prematura fadada pela publicidade, renascendo e lutando pelo seu estatuto de predestinada e heroína única e singular da Banda Desenhada. Venham mais 60 anos, sempre jovens e irreverentes …. Faleceria na sua terra natal, com 88 anos, vítima de um AVC, deixando órfã a sua estimada filha preferida. Com efeito, nascido em 17 de julho de 1932, na cidade de Mendonza, na Argentina, JSL frequentaria a Academia de Belas Artes, que abandonaria após a morte do pai para se dedicar ao seu sonho de sempre: ser desenhador de humor na imprensa. Porém, só após alguns trabalhos em publicidade e a primeira exposição individual em 1962, a que se segue o primeiro livro “O Mundo Quino”, um ano mais tarde, o autor criaria a famosa Mafalda, que iria mudar a sua vida, abrindo caminho à BD de cariz satírico-político, com deliciosa ironia. De facto, Mafalda acabaria por aparecer em 29 de setembro de 1964, na revista “Primeira Plana”, todas as semanas, e cerca de seis meses depois, no jornal espanhol “El Mundo”, diariamente, acompanhando a atualidade de forma crítica e incisiva. Responda quem quiser e souber! Realmente, Mafalda permanece viva, ao lado de Che Guevara e Maradona, como um dos ícones mais famosos da América Latina … 623
Mestre Delirante de Guimarães J. Salgado de Almeida
Se queremos falar de pintores vimaranenses, entendo que devemos começar pelo menos conhecido. Sendo estranha esta opção, mais estranha é a obra do enigmático artista em questão. Enigmático em todo o sentido, pois, o facto de ser também o mais antigo, é motivo que adensa essa particularidade.
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Pergunto quem conhece o “Mestre Delirante de Guimarães”?!... Em rigor, ninguém… Os mais informados conhecem, isso sim, aquilo que se presume ser a sua obra. Obras não assinadas, mas que, pelas suas características singulares, as tornam diferentes das demais da sua época. Logo, este artista sendo estranho, é também um enigma. Desassombradas as suas pinturas e, por isso, designadas de delirantes. Artista ignorado por cerca de quinhentos anos e agora descoberto por estudiosos, que perante as obras analisadas, e face ao desconhecimento da sua pessoa, o designaram por “Mestre Delirante de Guimarães” Há anos atrás, fiquei deslumbrado pela força e originalidade das obras a ele atribuídas, patentes no Museu Alberto Sampaio de Guimarães. Entendi, por isso, fazer uma abordagem, ainda que curta e limitada ao artista e sua obra. Visualizei um vídeo da série “Visita Guiada”, de Paula Moura Pinheiro, que contou com a sábia colaboração de José Alberto Seabra Carvalho. Fui ao museu, frui as imagens … o tríptico da ”Lamentação”, pintura a óleo sobre madeira de castanho, era a obra dominante de todo aquele espaço. Magnífica! Logo ao lado, outra pintura a óleo sobre madeira de castanho, intitulada “S. Miguel e Santa Margarida”, desenvolvida na vertical, também atribuída ao nosso Mestre… Segundo a opinião dos estudiosos, é a semelhança entre as figuras e panejamentos desta pintura com um dos reversos das abas do tríptico, um anjo, que fazem supor serem ambos os trabalhos do mesmo autor. Sem dúvida que a semelhança é notável. Atrevo-me, porém, a acrescentar que, na parte inferior da aba do lado direito do tríptico e a pintura em questão, existem duas figuras que sendo diferentes são ambas estranhas, lembrando mesmo os 625
desconcertantes animais de Jerónimo Bosch. Numa é um dragão que mais parece gigante licranço com patas, na outra um felino pretensamente leão, que mais tem a ver com um gato enorme. Ambas as figuras mais parecem nascidas daquilo que o artista conhece, que das criaturas pretensamente evocadas. E se provavelmente o Mestre sabia da obra dos grandes mestres flamengos, essa mistura de um maravilhoso local com as fabulosas criaturas de Bosch, levaram a crer, penso, que o artista poderá ser o mesmo. Depois, detive-me no fresco. À primeira vista, nada nos diz ser obra do mesmo autor já que o efeito visual deste tipo de pintura é
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totalmente diferente de uma pintura a óleo. No entanto, olhando para a composição deparamos com personagens semelhantes às das outras pinturas, não só pelas fisionomias como pelo tratamento das roupagens, assim como a pavimentação do chão e edifícios constantes. Sem dúvida que, no fresco, as formas são mais lineares, mas tal resulta da imposição da técnica. Depois, encontramos elementos do quotidiano local, caso das regueifas e do frango no prato, o que também acontece com certos elementos das outras pinturas. O contraste entre um naturalismo naïf e certa violência expressa em algumas figuras, caso da cabeça decepada no fresco e as expressões de dor das personagens do tríptico, serão talvez alguns dos elos que os especialistas encontraram para atribuírem as obras ao mesmo mestre, penso. No entanto, creio que o facto de se encontrarem em Guimarães, deve ser outro fator de peso a ter em conta na argumentação. Registo as obras no telemóvel para as levar comigo e, com calma, na minha casa voltar a elas. Assim, já no meu espaço, introduzo as imagens no computador, e eis que as tenho de novo. Volto a contemplar cada uma e detenho-me no tríptico. O olhar agarra-se à composição no seu todo. A parte central é dominante, sendo que as abas laterais, pintadas de ambos os lados, não só conferem simetria à obra, como acrescentam informação, dando ao mesmo tempo maior centralidade ao grande painel. Num reverso das abas, um anjo, e, no outro, uma figura feminina transmitem espiritualidade e recolhimento. Já na parte frontal das mesmas, deparamos com duas figuras ocupando todo o tamanho das mesmas. Na do lado esquerdo, um bispo folheando um livro com uma pequena personagem submissa ajoelhada a seus pés. Na outra, um santo que se autoflagela. Numa, o poder eclesiástico, na outra, a dor de quem quer atingir a remissão, talvez…Penso que há nestas imagens uma mensagem que nos diz que a igreja é poder e sabedoria e que, por outro lado, só pela penitência atingimos a salvação. Agora vou entrar no grande painel… Quase que tropeço no Cristo a ser repousado. Embora sendo a figura mais próxima, não é a mais visível, pois a luz incide nas figuras centrais que o rodeiam. Cristo está morto, por isso, no silêncio da sombra. Contrariamente às pinturas com o tema da Lamentação da época, esta possui como que uma multidão de pessoas à volta de Cristo. É expressiva a lamentação, com personagens chorando, até homens. Nunca tal se houvera visto!!! 627
Logo de uma assentada, duas coisas inéditas. As personagens saídas da época do Mestre, apresentam aspetos variados. Senhoras bem trajadas e outras com aspeto de freiras. Os homens ostentam vestes ricas, sendo que, entre eles, há um homem negro, tratado na tela como os demais. Será uma evocação dos Reis Magos, ou retrato da época?!... A figura central da composição abre as mãos num ato de resignação, como quem diz: Cumpriu-se a vontade divina!... Dizem que a pintura das personagens do primeiro plano é um pouco tosca. Sem dúvida, mas é esse fator que incute uma força expressiva como em nenhuma outra obra de então. Atrevo-me a dizer que as pinceladas empastadas de alguns rostos me lembram Goya que, séculos
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depois, foi entendido como percussor de movimentos expressionistas. Depois, é o plano de fundo, distante e medonho. Entre os dois planos, é discretamente notória uma personagem de aspeto sinistro, surgindo por detrás de um arbusto. Parece saída de Bosch. E, lá longe, temos como que uma mistura de Bosch e Bruguel. Sim, lá longe, pois que, nestes mestres, quase tudo se confinava a planos gerais, quando muito de conjunto. Ora, o nosso Mestre é inovador, conjugando planos, colocando personagens fulcrais num primeiro plano reforçado pela luz e pincelada expressiva, tendo como fundo paisagens fantásticas. Voltando às referências, onde e como é que o Mestre as foi buscar?! Será que era oriundo dessas paragens?!... Volto a olhar para o alto da colina e detenho-me no Gólgota. Dizem que os dois ladrões se apresentam maiores que as personagens que estão junto às cruzes … para mim, isso não é erro, antes pelo contrário, pois que o artista deu as dimensões às personagens de acordo com a sua importância, o que também acontece com os cavaleiros e os peões junto da muralha do fundo direito. Há bosques, colinas e mar. Há casario e impressionantes castelos … incêndios e aves negras esvoaçando … é um mundo medonho. Quero ver melhor, quero entrar no casario fechado nas muralhas… Faço um zoom na imagem e, quando dou conta, estou dentro da urbe.
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Há casebres e ruas estreitas. Uma muralha contorna o casario. Há uma azáfama de gente à mistura com cães e gatos…ratos também. Uma névoa húmida cola-se às pessoas, dejetos e esgotos a céu aberto tornam o ar pestilento. Vale a fumarada das lareiras que se mistura com a névoa, atenuando frio e fedor. Deambula o intruso pela vila de aspeto medieval, à parte algumas edificações que lhe fazem lembrar a época seiscentista. Artífices trabalham em oficinas várias. Alfaiates, sapateiros, serralheiros…. Outros há que do ouro fazem joias. - São judeus!... boas pessoas … ricas também … dizem. Na ânsia de se situar no espaço e no tempo, pergunta ao transeunte que acabara de falar: - Bom dia caro amigo, pode dizer-me que terra é esta?!... - Ó meu caro senhor, esta é a Vila … a vila de Vimarenes… - Bem me parecia … e em que ano estamos?!... - Eu sei lá meu senhor!... Vivemos no tempo de El Rei D. João III. - Uauuu! estou no seculo XVI, a época do Mestre!... O intruso viajante do tempo, sabe bem que ali existem duas grandes igrejas pertencentes a importantes instituições religiosas. A igreja De Santa Maria da Oliveira, da Colegiada de Guimarães, e a de S. Francisco, do Convento da sua ordem. Sabe que a Sala do Capítulo da Igreja de S. Francisco fora recuperada, um fresco atribuído ao tal Mestre que ninguém sabe quem é… Provavelmente ali irá encontrar outros mais … é grande a expectativa. Também pensa que o magnífico tríptico e a pintura de “S. Miguel e Santa Margarida”, presentes no Museu Alberto Sampaio, terão sido encomendados por uma ordem religiosa com poderio na Villa. Sim, porque os mestres deste tempo, ou trabalhavam na capital para o rei, ou para as dioceses do reino. Guimarães não era nem capital nem sede de diocese. No entanto, tinha instituições religiosas de avultada envergadura, capazes de darem trabalho a qualquer mestre que para tal se mostrasse capaz. Provavelmente, seria o caso do nosso Mestre. Provavelmente, as duas pinturas a óleo estariam ou na igreja da Oliveira ou algures na Colegiada… O intruso quer tirar isso a limpo. Mas, antes, quer o viajante encontrar o Mestre. Assim, pergunta ao cidadão que, entretanto, se colou a ele: 630
- Meu Caro Amigo, por favor, é capaz de me dizer onde posso encontrar o Mestre?!... - Mestre ?!... Qual deles?!... - Como assim?!... - Meu Caro Senhor, temos mestres Alfaiates, mestres sapateiros, ferreiros… - Pois sim, mas aquele que eu quero é o Mestre que pinta… - Ah! Esse é muito esquisito, mas um grande Mestre! - Ai que bom!... e onde o posso encontrar?!... - É fácil, venha comigo que vou para onde ele está. - Como assim?! - Está na Igreja da Senhora da Oliveira… É já ali. Reparo, então, num corridinho de gente, dirigindo-se agitadamente para o templo, quando, de repente, sons estridentes ferem o ar… Repicam os sinos numa desinquietante lamúria…há gritos e choros…ladram e uivam os cães. Um enorme gato dormita no parapeito de uma janela, alheio a tudo. Subo as escadas do templo juntamente com a multidão. Homens e mulheres, ricos e pobres. Sinto já ter visto essas personagens. De repente, descubro que mais não são que as figuras do tríptico. No fundo, vejo o Mestre na cruz… - Morreu Jesus! Gritam… É Sexta Feira Santa, três da tarde. No meio da confusão, pergunto ao guia onde está o Mestre. - Está ali. Olho na direção apontada e, nesse instante, ouço uma voz vinda do outro lado do tempo. - Ó homem, acorda!...
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A condição do Homem na escultura de Aberto Giacometti Amadeu Santos
I Vivemos uma época aparentemente paradoxal: se, por um lado, andamos enfeitiçados pelas “maravilhas” dos magos tecnológicos, por outro lado, deparamo-nos com algumas das piores brutalidades, como guerras, crimes sexuais cometidos sobre crianças e tráfico de seres humanos, entre outras. Deste modo, todos os pretextos são bons para meditarmos sobre a condição humana. Não sem razão, pode argumentar-se que a civilização nunca deixou de conviver com a barbárie e que, nessa linha de conta, o homem de hoje não é pior nem melhor do que o de há séculos ou milénios. Contraargumentando, talvez também se possa dizer que, à medida que a História avança, com a Humanidade acumulando experiência, memória, conhecimento e recursos passíveis de prevenir ou atenuar o mal, a barbárie torna-se ainda mais injustificável e imperdoável. Cada nova época deve sentir-se ética e moralmente mais responsável que as anteriores. E, abordando a condição humana, vem-me à memória a enigmática escultura intitulada “L´homme qui marche”, criada em 1961 por um dos maiores artistas do século passado: Alberto Giacometti (1901-1966). É uma obra da sua fase mais madura e, observando-a, parece-me que ela intenta “falar-nos” da nossa humanidade (e da nossa desumanidade), do sofrimento, da solidão e dos desencontros que nos atravessam. Noutro texto que escrevi algures sobre este grande artista suíço, anotei existir um antes e um depois na sua obra, quer na sua formulação plástica, quer no seu ideário estético-filosófico. E se há dois momentos demarcáveis, deve também existir algo que produziu essa fractura. Falo de um intervalo, aí entre as décadas de 1920 e de 1930, em que se assistiu à ascensão dos fascismos, cujos programas nacionalistas, imperialistas e racistas iriam desencadear a II Guerra Mundial e o horror indescritível do Holocausto nazi. Antes destes momentos traumáticos, o jovem Giacometti fazia esculturas de pequeno formato numa poética mais próxima do surrealismo, tematicamente referida ao mundo dos sonhos, fantasias e outros episódios do inconsciente humano. Depois de 1935, o artista toma um novo rumo estético e plástico, criando esculturas esguias de maiores dimensões, tonalizadas por um expressionismo muito pessoal. 632
Da sua biografia, sabemos que, além de se notabilizar como extraordinário desenhador e escultor, também escrevia e participava em tertúlias parisienses próximas dos ambientes filosóficos do Existencialismo e da Fenomenologia. Nos anos do pós-guerra e até 1965, intensifica a sua pesquisa formal e conceptual, de que resultará o melhor conjunto de obras do seu extraordinário legado artístico. E, entre elas, “L’Homme qui marche”, uma escultura de bronze com 181,5 cm de altura. II Mas quem é esse caminhante, e por que caminha? Na leitura de muitos, que também é a minha, não se trata de um qualquer indivíduo concreto, identificável. Ao trabalhar o rosto, Giacometti fez questão de evitar traços identificáveis com esta ou aquela pessoa singular que pudéssemos conhecer. Deste modo, tal caminhante será mais uma representação genérica do Homem. Será qualquer um e será todos, nós que caminhamos nesta vida e por este mundo. Temos então aí um retrato universal e intemporal, que é o da Humanidade. Avançaria a hipótese de que talvez o artista pretendesse que nos reconhecêssemos como ao espelho diante desta escultura. Quem, diante do espelho, nunca interrogou, uma vez que fosse, a sua alma e a sua consciência? Esse que nunca o fez talvez tenha perdido a sua alma. E então vem de onde e que destino leva o caminhante? Terá Giacometti no seu atelier. Henri Cartier-Bresson destino certo ou simplesmente vai? Dir-se-á que, em se tratando da Humanidade nele personificada, este homem venha de onde e quando o homem começou a sê-lo e talvez vá para onde e quando o deixe de ser. O nosso historiador de arte, José-Augusto França (1922-2021), observando esta escultura, sugeriu que, apesar do ar determinado do caminhante, talvez esteja aí a presença da morte. Não como fim inexorável, talvez como na mitologia da Fénix ou do Eterno Retorno, o fim como hipótese de transmutação, de reinvenção do novo, de um recomeço. Cada um de nós é uma peça no fio da existência e da caminhada colectiva da Humanidade e esta não existiria sem essa peça que cada um de nós é. Nesse sentido, sendo continuadores e continuados, não morremos. A não ser que, agravando ao extremo o rol de ameaças que pesam sobre nós (alterações climáticas, esgotamento de recursos vitais e guerras com armas de destruição em massa) um dia a Humanidade seja riscada do Universo. 633
Talvez Giacometti mantenha em suspensão o significado desta sua escultura. As melhores obras de arte têm sempre algo de enigmático, resistindo à verbalização sobre elas, ainda que deixem uma abertura a diferentes interpretações, mesmo zeitgeist, para um mesmo. Em parte, e em certo sentido, podemos até admitir que “L’Homme qui marche” seja sempre reinterpretável pela luz própria que cada época é capaz de lançar sobre ela. Afinal, o artista criou uma obra para que a interrogássemos, ofereceu-a ao nosso olhar, à nossa inteligência, aos nossos sentidos e emoções. Mas não esqueçamos que, quando Giacometti a criou, ainda estava muito viva (e alguma vez deixará de estar?) a memória da ferida deixada pela guerra e pelo horror absoluto dos campos da morte nazis. Além disso, decorria a Guerra-Fria e a insana corrida aos armamentos nucleares. “Tudo está por um fio, estamos sempre em perigo”, disse então o artista, deixando clara a desoladora constatação de que o homem não sabe ou não quer aprender com os seus erros. Na sua dramática deformação formal, “L’Homme qui marche” tem muito de retrato do homem de uma época, mas quantas épocas igualmente trágicas, em que o mal reinou, viveu a Humanidade? De corpo inclinado para a frente, o homem da escultura sugere querer libertar-se do grande trauma colectivo, mas o chão espesso parece querer detê-lo. Uma tal travessia só se faz por meio de dificuldades e conflitos. Talvez este homem procure consolo ou redenção em algo mais transcendente e espiritual. Como num impulso neoplatóAlberto Giacometi (1901-1966) - L'Homme qui marche nico, o seu corpo delgado pode também sugerir que se quer elevar, ascender ao Alto, deixar o solo dorido e ensanguentado. Buscará ele uma redenção cósmica ou divina, um consolo espiritual no transcendente? Pura miragem, talvez, admitindo duas coisas: uma, o silêncio do Universo, que nos ignora e que pode passar muito bem sem nós; outra, o próprio silêncio de Deus, tornado mais ruidoso desde que Nietzsche nos avisou de que Ele “está morto”. Então, se o Alto é uma ilusão, resta dizer que o homem só pode contar consigo mesmo, na imanência da sua vida terrena. E apanhamos aqui outra pista interpretativa da obra de 634
Giacometti: o Existencialismo. Ora, sabe-se que o artista e Jean-Paul Sartre eram grandes amigos. E talvez o artista tenha recolhido do filósofo a ideia de que o Homem, na sua solidão, está “condenado à liberdade”, isto é, a viver responsável pelos seus actos diante de si mesmo, não já diante de Deus. No catálogo de uma exposição em Nova Iorque, o filósofo existencialista escreveu que as figuras criadas pelo artista, num primeiro olhar, parecem “mártires sem carne saídos do campo de concentração de Buchenwald”. Depois, vendo melhor, acrescenta: “aquelas naturezas finas e delgadas elevam-se para o céu”. Só que, na filosofia de Sartre, o céu é uma miragem. E Giacometti sabia-o, ao ponto de comentar que o Graal que perseguimos jamais será encontrado, não havendo caminho seguro que nos conduza à felicidade. E, se ela existe e enquanto existe, será o próprio caminho e o caminhar. Como diria Camus, “é preciso imaginar Sísifo feliz”. Do ponto de vista puramente plástico, a obra de Giacometti foi uma inovação, indo contra a ideia de que a escultura tem de ser algo corpóreo e denso, capaz de absorver o espaço que a envolve. Em contracorrente, criou figuras alongadas e filiformes, desmaterializadas ou corroídas pelo vazio. Algo, como diria Sartre, “a meio caminho entre o nada e o ser”. Será essa a condição existencial do homem moderno? Ainda assim, no seu corpo residual, este homem que caminha, na sua energia plástica, parece determinado em resistir ao desaparecimento e à morte. III Termino trazendo Giacometti para a actualidade do século XXI, acreditando que a sua obra ainda nos possa confrontar e interrogar sobre a nossa condição pós-moderna. É certo que nem tudo o que ocorre no mundo se reduz à desgraça repetida pelos telejornais e pela imprensa tabloide. A toda a hora que passa há gente boa no mundo a fazer o bem. Mas, na lógica dos poderes económicos e mediáticos, o mal “vende” muito melhor do que o bem. Não ignoremos, porém, que há muitas sombras pesadas a pairar sobre a Humanidade e todos devíamos abrir os olhos para esse mal que nos confronta. Mas esta é uma época de exacerbado individualismo e fragmentação social. Muitos de nós, também por falta de horizontes de esperança, reduzimos a vida à busca de prazeres imediatos, num eterno presente cheio de “gestos sem amanhã” (Milan Kundera). Nesta condição de miséria simbólica e pobreza ontológica, acabamos mergulhados num vazio depressivo. Enquanto isso, espertos dos algoritmos ensaiam apoderar-se dos nossos neurónios, querendo redesenhar-nos pelos critérios do mercado, fazendo-nos pensar que somos livres e que as escolhas são nossas. Sem querer arrolar outros males, mesmo que ainda maiores, estes chegam para interrogar “L’Homme qui marche” como se nele estivesse cada um de nós: afinal, quem somos, como somos e para onde vamos? 635
Picasso, O SOPRO DA VIDA Filomena Bento
"Então Javé Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente" (Génesis 2.7)
Cinquenta anos da morte de Picasso (esta coisa de comemorar a morte de alguém é um pouco estranha)... Falemos antes da vida – e da criação. Na vida pessoal, Picasso não terá sido a melhor pessoa do mundo: sedutor, egocêntrico, manipulador, eventualmente cretino. Mas o papel que desempenhou na Arte do século XX, e principalmente na Pintura, é incontestável e incomensurável, ainda que por vezes sobrevalorizado em detrimento de outros contributos igualmente importantes. Paradoxalmente, podemos encontrar na obra que nos legou as diversas fases da sua longa vida, plasmadas com uma sinceridade que por vezes arrepia. Não se espera que os santos sejam artistas; logo, porque haveríamos de esperar que os artistas fossem santos? A vida de um artista é uma permanente interrogação, uma constante procura de criar – fazer emergir, dar forma às ideias. Como criador, anseia transmitir o sopro da vida – animar a sua criatura. E Picasso foi mesmo um dos maiores criadores de sempre, um inquieto inventor de formas. A sua pintura (e as outras formas artísticas que praticou – escultura, cerâmica, gravura) interroga e equaciona permanentemente realidade, representação e vida. Filho de pintor académico e professor, cedo revelou grande Pablo Picasso, Estudo de um Gesso (cópia do antigo) talento e precocidade, que seu pai incentivou. Foi-lhe Corunha, 1893-1894, Carvão e lápis sobre papel, 49 X 31,5 cm Paris, Museu Picasso.
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proporcionado ensino artístico desde muito novo, onde essa precocidade e talento se revelaram: veja-se o desenho a carvão (na página anterior) a partir de um gesso, realizado quando tinha apenas 13 anos. Poderia ter enveredado facilmente por uma confortável carreira como pintor académico, que o seu grande talento garantiria. Mas um espírito inquieto e inquiridor rapidamente o levou a questionar o que é a Pintura, o que é a Arte; e essa interrogação, essa busca permanente iriam ser o cerne da sua obra. No entanto, o ensino académico que lhe foi proporcionado marcou os seus anos de aprendizagem e permaneceu subjacente para toda a vida. Baseava-se esse ensino no adestramento do aluno segundo "esquemas normatizados entre a forma natural e a sua representação"* onde as aprendizagens se sucediam segundo uma ordem hierarquizada: "começava-se por copiar modelos para se passar em Pablo Picasso, Las Meninas, 1957, Óleo sobre tela - 194 cm × 260 cm Em 1957, Picasso "enfrenta" a obra prima de Velasquez, que ele via como um modelo (a seguir ou a superar?). seguida a objetos concretos e, por fim, Durante esse ano, cria uma série de 58 trabalhos parafraseando o tema. Todo o conjunto dessas obras está no Museu de Picasso, de Barcelona. ao modelo vivo"43 . A cópia dos grandes mestres fazia também parte da aprendizagem, Picasso praticou-a enquanto aluno e revisitou numerosas vezes a Pintura antiga ao longo do tempo, procurando um confronto renovado, talvez um espelho que lhe devolvesse a sua imagem como artista. Picasso nunca foi um pintor abstrato – ao contrário de afirmações frequentes que denotam ignorância da sua obra, toda a temática, todas as recorrências que o acompanham ao longo da vida (tauromaquias, saltimbancos, cenas de atelier, retratos, evocações da Pintura clássica) têm sempre como referência a 43
Picasso - Carsten-Peter Warnke . Ingo F. Walker
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realidade visual e como base o desenho. O desenho, como suporte da pintura, nunca o irá abandonar e, sendo uma das suas bases mais sólidas (fruto da aprendizagem académica) é talvez a causa de nunca ter desenvolvido um domínio autónomo da cor – que sempre subordina ao traço, ao contorno. É mesmo no confronto com os seus modelos que desenvolve a maior ruptura com a Pintura antiga e com os sistemas de representação herdados do Renascimento: em Les Demoiselles D`Avignon as figuras de cinco mulheres surgem de
"Pablo Picasso, Mulher e Criança à Beira-mar, 1921, Óleo sobre tela, 143 X 162 cm
Pablo Picasso Guernica (pormenor) 1937, óleo sobre tela, 349,3 X 776, 6 cm
Pablo Picasso, Les Demoiselles d’Avignon, óleo sobre tela, 243,9 x 233,7 cm, 1907. MoMA, Nova Iorque, EUA. Esta grande Pintura, que demorou nove meses a realizar e foi antecedida por numerosos estudos preparatórios, está na origem do Cubismo e é considerada uma das mais importantes obras do sec. XX.
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forma completamente nova, sem qualquer traço naturalista. Por outro lado, denotam o contacto com culturas e formas de representação não europeias (nomeadamente de máscaras africanas e a escultura ibérica primitiva); e, contudo, estão na continuidade dos grandes temas da Pintura clássica (nus, cenas mitológicas, banhistas...) Em que ficamos, Picasso? Pablo Picasso, Retratos de Silvette David O QUÊ? QUEM? COMO? Mesmo quando parece espontânea, a Arte de Picasso é sempre fruto de reflexão, de confronto de ideias e formas de expressão, assumindo frequentemente o contraditório. O seu reportório constrói-se quase
Pablo Picasso, Retratos de Dora Maar (o da direita sob o título mulher a chorar)
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sempre a partir de modelos vivos, que aborda de forma inicialmente naturalista, para depois os ir reconstruindo e recriando, ora em retratos, ora integrando-os como personagens de grandes composições. Quase todas as figuras que pintou foram de pessoas com quem tinha grande proximidade: inicialmente, amigos e familiares; depois, os filhos, as várias amantes com quem conviveu ao longo da vida; e, desde sempre, a sua própria pessoa, talvez a sua maior interrogação. O PINTOR E O SEU MODELO, CRIADOR E CRIATURA Não é, então, de estranhar que essa relação Realidade/Representação, Vida/Arte percorram toda a carreira de Picasso sob a forma do tema "Pintor e Seu Modelo", que inúmeras vezes glosou. Metáfora de toda a sua atitude perante a Arte, desejo de posse que lhe permitisse transmitir à Obra o sopro da Vida – fazê-la Ser para além do Visível ao tornar visível todo o trabalho da mente. Desejo de Pigmaleão, que não conseguindo amar mulher alguma, esculpiu uma estátua de marfim tão bela que por ela se apaixonou e à qual, por intercessão de Afrodite, viria a comunicar o sopro da vida através de um beijo (e viveram felizes para sempre)... O tema do Pintor e seu Modelo, que acompanhou Picasso ao longo da carreira, atingiu particular expressão a partir dos anos sessenta, quando o artista estava já nos oitenta anos e a vida se aproximava do final. Viria a morrer Pablo Picasso, Auto-retrato enfrentando a Morte, Lápis de cera em 1973, com 92, e trabalhou até ao fim. Na véspera da sobre papel, 1972 (menos de um ano antes de morrer) sua morte, terá retocado ainda uma pintura que deixara inacabada em agosto do ano anterior, avivando as zonas brancas. A pintura, inacabada, presta-se a várias interpretações: o seu carácter erótico é evidente referindo-se a muitos outros trabalhos em que Picasso representou touros (o minotauro), mulheres e sátiros. Os enormes olhos (os seus próprios olhos arregalados) fitam-nos e interrogam-nos uma última vez. O criador despedia-se da criatura – afinal, era mortal.
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Pablo Picasso, O Pintor e o seu Modelo, 1963
Pablo Picasso, Mulher deitada e uma cabeça, 1972-1973
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1923 – A Exposição de Abel Cardoso no Átrio da Misericórdia do Porto Abel Cardoso Museu da Escola Francisco de Holanda
No primeiro de abril de 1923, Abel Cardoso, professor e Diretor da Escola Francisco de Holanda, inaugura a sua primeira Exposição individual de Pintura. Vimaranense, nascido em 1877, na R. Santa Maria, foi dos primeiros alunos a frequentar a aula de Desenho de seu pai, António Augusto da Silva Cardoso, no dia 15 de janeiro de 1855, data fundadora da Escola Industrial Francisco de Holanda em Guimarães. Completa a sua formação artística na Academia Portuenses de Belas Artes (1888-1895). Tem como professores José Geraldo Sardinha (Arquitetura) e Marques D`Oliveira (Desenho Histórico); Joaquim Marques Guimarães (Escultura) e João António Correia em Pintura Histórica. Em maio de 1896 parte para Paris para tentar a École Nationale des Beaux Arts (ENBA). Após frequentar a Academia Julian com os mestres Benjamin Costant e e Jean-Paul Lorens, em fevereiro de 1897, faz os exames de admissão à ENBA e, em Março é admitido no atelier do pintor e escultor academista e orientalista Jean-Leon Gérôme. Em 13 Julho de 1897, faz exame e é admitido na ENBA onde vai frequentar as aulas de Pintura, Perspetiva Rigorosa, Anatomia das Formas, História Geral das Artes e História Antiga. Por falta de meios – o tio, padrinho e patrono, a viver no Brasil, terá cortado a bolsa – não irá permanecer em Paris por muito mais tempo, regressando a Guimarães ainda no final desse ano. Após uma breve viagem ao Brasil, estabelece-se na sua terra natal em 1899, abrindo um atelier-escola de Pintura e, em 1904 ingressa, 642
Ilustração Portuguesa, 14 de abril de 1923
Catálogo da Exposição
como professor provisório, na Escola onde tinha iniciado o seu percurso académico. Em 1908 é nomeado professor efetivo e no ano de 1915, nomeado Diretor.
Abel Cardoso, “Na Eira”
A decisão de fazer a primeira exposição individual, não em Guimarães, mas no Porto, entende-se com a necessidade de o artista obter reconhecimento da sua obra no exterior para obter credibilidade na terra natal. Até então, os vimaranenses apenas conheciam os seus dotes como pintor-retratista de beneméritos e notáveis da cidade, representados nas irmandades religiosas e instituições públicas como a Sociedade Martins Sarmento, ou a sua participação como autor de ornamentações e cartazes das Festas Gualterianas. As suas incursões pela cidade e arredores Vale do Ave e suas margens junto a Gondomar, ou na costa do Alto-Minho até Caminha, permaneciam recolhidas no seu atelier da R. Gil Vicente. Recantos da cidade, paisagens rurais, tipos humanos e marinhas, procuram fixar em pinceladas fortes a alma minhota. O catálogo da Exposição conta com o contributo do escritor portuense, radicado em Guimarães Raúl Brandão, que na sua apreciação critica descreve o cenário natural do pintor: É o Minho com a sua cor, as suas estradas, as suas choupanas, as suas couves imóveis como bronzes, o seu ar e as suas águas, suas figuras e seus tipos”. E aprecia assim resultado do seu labor artístico: … telas cheias de vida e de saúde, que contém um fio de tristeza escondida, um nada, o bastante para molhar de poesia os pincéis ou a espátula com que Abel Cardozo às vezes nos dá os tons ásperos e violentos, necessários a certos quadros de movimento e vida
Abel Cardoso, “Meditação” (recorte)
Abel Cardoso leva à Exposição 115 telas, a maioria de pequenas dimensões, com preços de venda entre os 100 e os 2200 escudos, as de maior dimensão. 643
A Exposição está dividida por áreas temáticas: Figura – Género – Interiores (15 telas); Paisagem (Guimarães)- 34 telas; Marinha e Paisagem (Viana do Castelo) – 60 telas; Impressões (Gerêz)6 telas Raúl Brandão destaca “de entre todos aqueles quadrinhos uma tela cheia de caráter”: (…) é a figura da velha pedinte, sentada numa igreja à beira do altar. Não sei se pede esmola – mas espera-a. Tem a saia pelos ombros e os seus cabelos, a sua fisionomia, são admiráveis de expressão. É Abel Cardoso, “As Ondas” uma pobre mulher do povo. O que ela tem sofrido a carregar, a lidar, dizem-no as mãos como cepos, a cara retalhada de rugas, e a boca que não grita porque estes seres humildes se resignam sempre. Este quadro é de um pintor de grande talento. Igualmente as marinhas, série de telas à beira-mar da costa minhota impressionam o escritor Brandão: Depois noto a série de telas de beiramar, da beira-mar minhota, porque Abel Cardozo deitou de tal forma raízes na sua província que não pinta senão paisagens do Minho, figuras do Minho e o mar do Minho. Efetivamente é o pedaço maravilhoso da costa de Caminha a Viana que Abel Cardoso, “Tarde dourada”, (Museu da Sociedade Martins Sarmento, Guimarães) desfila diante de mim com os seus castelos, roídos pelo salitre e doirados pelo sol, as suas ondas dum verde 644
que se trespassa de luz e a crista já cheia de espuma a desabar, as suas névoas que dão aos poentes uma amplidão e uma vida extraordinárias, as areias cor d’oca molhada onde a tinta azul empoça, o farol de Montedor, e a larga paisagem, verde para o sul, roxa e diáfana para o Norte – os mil aspetos, enfim, da praia, do mar e da costa minhota. Raúl Brandão irá adquirir uma pequena tela na Exposição de 1926, realizada, finalmente, em Guimarães, na Sociedade Martins Sarmento. Considera o pintor um elegíaco e um tímido: Percorro rapidamente a obra deste pintor: as suas manchas, os seus quadrinhos de figura e de género, as suas rápidas pochades de beira-rio ou beira-mar — e conheço-o como se lidasse com ele há muitos anos. É um elegíaco e um tímido, que me desvenda inteiramente a sua alma. A encerrar a sua apreciação crítica, remata: “Em conclusão: é Abel Cardozo um pintor regionalista e um poeta, apesar do seu vigor e da sua vida forte e saudável. Ama e pinta a província onde nasceu. Às vezes sonha-a. Não digo que o seu canto atinja grandes proporções e chegue às estrelas. Mas não é quando se fala mais alto que se é melhor escutado. Quantas vezes uma voz amiga, num tom sentido e justo, nos penetra fundo na alma! E' este o caso do pintor que aparece hoje só e com uma pequena parte da sua bela obra diante do público portuense. Como tripeiro que sou, tenho muito prazer em o apresentar aos meus patrícios”.
A Exposição de Abel Cardoso vai ter repercussões na Imprensa nacional e local. A Ilustração Portuguesa de Abril de 1923 dedica-lhe uma página, com reproduções dos quadros, Auto-retrato, Barcos entre brumas e Cozinha rústica. O Jornal de Notícias do Porto, de 10 de abril de 1923, uma crítica, não assinada, muito elogiosa. Os jornais de Guimarães: Comércio de Guimarães, A Razão e Gil Vicente noticiam com orgulho o êxito da exposição do Pintor vimaranense. Com efeito, o êxito desta primeira exposição individual, nomeadamente em termos de vendas – cerca de 40 telas, permitiu que o pintor, já com 40 anos de idade, pudesse promover e custear, em 1924 a sua primeira exposição em Lisboa, no Salão Bobone.
Abel Cardoso, Auto-retrato
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Galeria de Arte Francisco de Holanda Equipa Redatorial
A Galeria de Arte Francisco de Holanda iniciou a sua atividade em 2017. A Escola Francisco de Holanda privilegiou desde a sua fundação as áreas das artes. Recorde-se que foi criada como “Escola de desenho industrial”. Em 5 de dezembro de 1884, e citando o diário do Governo desse dia, “Há por bem Sua Magestade El-Rei, conformando-se com a proposta do inspetor das escolas industriais e das de desenho industrial na circumscripção do norte, ordenar que estas tenham os nomes seguintes: «Infante D. Henrique» a de Villar (…) «Francisco de Holanda» a de Guimarães”. O nome “Francisco de Holanda”, embora não tenha ligação com as figuras de Guimarães nem com as tradições da cidade, foi confirmado pelo rei D. Luís. Parece consensual que esta confirmação real mostra o apreço deste rei pelas artes. Dar o nome de um grande artista do Renascimento à Escola constituiu uma espécie de orientação para as artes. E as sucessivas direções da Escola souberam, ao longo de 138 anos, manter esta linha de ligação com as artes, sobretudo com a pintura, o desenho e a escultura. Foi marcante o papel de diretores e professores com reconhecido mérito nestas áreas. Basta recordar nomes como António da Silva Cardoso, Abel Cardoso, António de Azevedo, Adelino Ângelo, Francisco Maia, etc. Atualmente continua a contar com um assinalável número de professores e outros funcionários que se dedicam à criação artística. E a Escola continua a oferecer cursos de artes no seu currículo. Nesta linha de ação, por proposta de docentes e funcionários, e com a total concordância da direção, foi criada a galeria de arte da escola Francisco de Holanda. Trata-se de um espaço aberto à comunidade onde os artistas poderão expor as suas criações. Destina-se apenas a artistas e não a experiências didáticas com alunos. Estes dispõem já de Vista parcial da exposição do artista Álvaro Macedo, 2018
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outros espaços para exposição dos seus trabalhos. É uma área reservada a artistas e constitui mais um meio de ligação da Escola com a comunidade. Ao contrário de outras galerias, esta tem ampla visibilidade, já que é um lugar muito frequentado por toda a comunidade educativa (professores, alunos, auxiliares de ação educativa, encarregados de educação, etc.) e por todos aqueles que a queiram visitar. Aberta de segunda e sexta feira das 8 às 22 horas, permite que todos os interessados ou curiosos pela criação artística possam apreciar as obras expostas. A galeria funciona como extensão do museu da escola, que é responsável por todo o acervo artístico e documental da instituição. Para além da abertura à comuVista parcial da exposição do artista Mário Rebelo de Sousa, 2019 nidade, a galeria proporciona aos alunos e ao público em geral uma permanentemente renovada amostragem de obras de arte, funcionando, assim, como um elemento estimulador e pedagógico para todos os que a visitam. De entre os objetivos que norteiam o funcionamento da Galeria de Arte Francisco de Holanda, salientamos: Ser um espaço de motivação para os alunos através da amostragem de obras de variados autores e estilos; proporcionar a participação de autores exteriores à escola; promover uma maior abertura da escola à comunidade envolvente; possibilitar aos criadores de artes plásticas a apresentação dos seus trabalhos à comunidade escolar e à comunidade envolvente; dar continuidade a uma tradição desde as origens da escola, no campo da realização e apresentação de obras de natureza artística; valorizar a criação artística em diversos ramos, sobretudo pintura, escultura, desenho e fotografia; sensibilizar os alunos para o valor estético e para o respeito pelas obras de arte; manter a tradição da escola de ser um eixo promotor das artes; ser um ponto de referência pedagógica em que os alunos aprendam a respeitar e preservar o património da escola.
A escola é herdeira de um património artístico relevante, designadamente em pintura, gravura, desenho, escultura artística e didática, património arquitetónico, património documental e património industrial/didático. 647
Ao longo destes sete anos, com exceção do período da pandemia em que a Escola funcionou com muitas restrições, o espaço esteve sempre aberto com renovadas exposições individuais ou coletivas. Realizaram-se vinte exposições que contaram com a participação de dezenas de artistas. Foram vinte e quatro os artistas que participaram em exposições, alguns deles com mais que uma participação. No campo da pintura, escultura e desenho, é já longa a lista de artistas. Deixamos aqui os seus nomes como justa homenagem: Agostinho Ferreira, Álvaro MaAbertura da exposição da artista Silvana Violante, 2021 cedo, António Cunha, Carlos Martins, Castro Mendes, Cristina Sales, Délia de Carvalho, Isabel Silva, Joaquim Castro, José Falcão, José Freitas, Madalena Macedo, Manuela Brochado, Mário rebelo de Sousa, Rosa Vaz, Salgado Almeida, Sandra Silva, Silvana Violante, Vasco Carneiro, Viana Paredes, Vítor Vilaça. No campo da fotografia, houve quatro excecionais exposições protagonizadas por Armindo Cachada, Carlos Guerra, FeliSandra Silva, 2023 ciano Valdemar Guimarães e Gonçalo Machado. Estão já agendadas exposições até 2024. Todos os artistas interessados em expor na galeria deverão apresentar um dossiê prévio com fotografias dos trabalhos.
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RUA DE SANTA MARIA, desenho s/ papel. Propriedade da Câmara Municipal de Guimarães Américo Taborda (1918-1986)
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EM CADA TRAÇO QUE FAÇO, DE GUIMARÃES É UM PEDAÇO, carvão s/ papel – s/d Piairo Pantaleão
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BATALHA DE S. MAMEDE, aguarela s/ papel: 50x70 cm, 2019 João Soares
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OS HABITANTES DA MENTE, acrílico s/ tela: 81x116 cm, 2019 Salgado Almeida
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DE PROFUNDIS, guache s/ cartolina colada em kline: 50x70 cm, 2022 Filomena Bento
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SOM DO VENTO, acrílico s/ tela: 150x100 cm, 2023 Ana Stingl
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TRAJETÓRIAS NO PERCURSO DO IMAGINÁRIO SUBCONSCIENTE DA CORRENTE MARÍTIMA 002, patê de verre luminescente, 2009 Teresa Almeida
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SEM TÍTULO, Acrílico sobre tela: 130x170 cm - 2019 Victor Costa
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AVES MIGRATÓRIAS, 6.30 m, bronze - Oeiras, 1993 Óscar Guimarães
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HOMENAGEM A ANTÓNIO GUTERRES, escultura em bronze: Vizela, 2023 Viana Paredes
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HOMENAGEM A D. AFONSO HENRIQUES, escultura em pedra – Zamora, Espanha, 2023 Diniz Ribeiro
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“BIDA POR BIDA” MEMORIAL A BOMBEIROS DE MIRANDA DO DOURO, Painel em ferro de 375x250, 2023 Pedro Almeida
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MÚSICA Coordenação de António José Castro
Além das artes plásticas e visuais, o mundo do sonho dá também asas à criatividade através de vários outros sentidos, numa sinestesia de sensações inesperadas. É o caso da conjugação melodiosa do som de vozes e instrumentos, a que vulgarmente chamamos música. Deste modo e partir desta edição, a música passa a fazer parte dos nossos ouvidos, fruída nas pautas que se seguem, interpretadas por Manuel de Oliveira, os Pink Floyd e a diva Tina Turner. Demos também um saltinho ao epifenómeno musical do Rock in Rio Febras (Já com o nome alterado) e mergulhamos refrescados no Festival com eles no sítio…
Manuel d’Oliveira – “Ibéria” (2002)
Vamos lá falar de música! Há quem ache que sou entendido na matéria, mas desenganem-se, porque nada percebo. Sei lá o que é uma clave de sol! Sei é que gosto de música como qualquer um de vocês e talvez gaste muito do meu tempo a ouvi-la. Uns gostam de bola, de farras, de passeios, de convívios, etc., e eu estou mais inclinado para a leitura, para a música e um apanhar de ar livre cá pelo burgo. Mas o importante é estar nesta vida numa onda positiva seja ela qual for, para a podermos “surfar” com prazer. Mas como eu gosto de música, vou falar-vos de dois discos que constituem efemérides pela sua intemporalidade (ambos já foram editados há décadas). Um, com 20 anos, o “Ibéria” do meu amigo Manuel d’Oliveira e o outro, o lendário “The Dark Side Of The Moon” que completou 50 anos neste março de 2023: 661
Consultando diversas fontes, nomeadamente o seu próprio site, os anos que temos vivido juntos e o conhecimento da sua obra musical permitem-me partilhar que Manuel de Oliveira nasceu a 7 de julho de 1978, em Guimarães. Aprendeu a tocar guitarra com o pai, Aprígio Oliveira. De percurso autodidata, procurou viajar e estar em contacto com outras culturas fortes na guitarra, como o Flamenco, a música sul americana e o fado. Consolidou, assim, um vasto percurso internacional, assumindo-se como um dos mais prolíficos guitarristas contemporâneos. Gravou o seu primeiro EP em 1997 – “Praça de Santiago”, em 2002, o seu primeiro álbum de originais “Ibéria” e, em 2007, a sua primeira edição internacional “Amarte”, que merece um destaque assinalável bem como a presença em alguns dos mais importantes festivais europeus como Emociona Jazz!! (Espanha) e Couleurs Jazz (França), ao lado de nomes como Brad Mehldau, Chick Corea, Mike Stern e Richard Galliano, entre muitos outros. Em 2012, concebeu “Os Nossos Afetos”, espetáculo de abertura da Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, com Cristina Branco, Chico César e Rão Kyao. Também, em 2012, celebrou em concerto, “Ibéria Live”, os 10 anos da obra que marca a sua identidade. “Ibéria Live” teve edição discográfica, em 2016, com lançamento no Centro Cultural de Belém (CCB) e na Casa da Música (CM), com os conceituados Jorge Pardo e Carles Benavent, músicos fundadores do Flamenco Jazz, tendo esgotado o CCB e a CM. Os últimos anos têm sido de criação para guitarra solo e de parcerias com a violoncelista Sandra Martins e o acordeonista João Frade. “Entre-Lugar” foi lanCapa do CD “Ibéria” çado no final de 2020 e é o álbum resultante desta colaboração e conta ainda com as participações especiais do fadista Marco Rodrigues e do baterista e percussionista Marito Marques, entre outros. 662
“Na música de Manuel de Oliveira, fronteira, território, comunidade e identidade serão sempre palavraschave. Se todo o artista procura a forma original de se expressar, em Oliveira – do primeiro Ibéria ao mais recente Entre-Lugar – a música é sempre a tentativa de reconstruir um território e uma identidade, a procura constante por algo sempre inacabado, como uma comunidade ou uma voz. Nessa constante metamorfose existencial, enquanto guitarrista, compositor e produtor, tem-nos revelado, ao longo de mais de 20 anos, uma obra de identidade singular, imediatamente reconhecível na sua constante mutação”.
Do seu percurso musical, destacam-se ainda “Muxima – Homenagem a Duo Ouro Negro”, projeto de sua autoria, a direção musical do espetáculo “Maldito Fado” de Hélder Moutinho, com encenação de Ricardo Pais e participações especiais em “Moda Impura”, com Janita Salomé e Vitorino e em várias digressões mundiais da cantora Dulce Pontes. Atualmente, Manuel de Oliveira encontra-se em digressão nacional de apresentação de “EntreLugar”, o seu quarto disco de originais. Para um apaixonado pela música e seguidor atento de Manuel de Oliveira, “Ibéria” será sempre o seu disco de referência, um trabalho maduro em que ele transporta do seu primeiro trabalho as emoções da juventude e regionais como Praça de Santiago e Nicolinas. Conheço o Manuel de Oliveira quase desde que nasceu (por isso, perdoem algum faciosismo), quem sabe se terei sido das primeiras pessoas a quem ele ouviu cantarolar quando eu com o seu pai Aprígio Oliveira acertávamos o tom para um espetáculo. Mais tarde, teria o Manel uns cinco anos, por vezes, encontrava-me com o Aprígio em sua casa e, no intervalo das suas conversas nos “macanuVerso do “CD Ibéria” dos”, entretínhamo-nos com as canções. O pai entregava-lhe uma viola maior do que ele e lá lhe dava os tópicos para nos acompanhar e, em vez de ter sido 663
embalado com canções infantis como o “Olha a Bola Manel”, começou com cinco aninhos a tocar cantigas de graúdos como Dylan, Leonard Cohen, Joan Baez, Patxi Andion, Geraldo Vandré e os “tugas” José Afonso, Adriano e Zé Mário Branco. Nesses encontros nasceu o “D’Improviso” com o Afonso Novais e, mais tarde, com o Carlos Jorge Pitada. O “D’improviso” é homenageado no disco “Ibéria”. Fomo-nos cruzando algumas vezes na música, mas também como vizinhos, vivemos lado a lado durante uns tempos, e pronto, acho que o “Ibéria” é um magnifico trabalho. Mas amizades à parte, o disco é mesmo uma autêntica obra de arte e pode ser colocado nos melhores trabalhos de sempre da música portuguesa. Há dois temas, “Praça de Santiago” e “Nicolinas / Brisa Mediterrânica” com novos arranjos e novos músicos do seu primeiro disco com os Mediterrâneo, “Praça de Santiago”, de 1997. O “Dimproviso” e “Obrigado Paco”, “dois temas que são uma espécie de agradecimento aos seus mestres, o pai Aprígio e o grande músico de flamenco Paco de Lucia. Têm também doces embalos em “Berço da Alma”, “Viagens” e “O Momento Azul”, não esquecendo a “Conversa da Braguesa”. Em 2012, dez anos depois da edição do disco, “Ibéria” tem o seu galardão ao ser um dos momentos maiores da CEC 2012 – Guimarães Capital Europeia da Cultura, com um espetáculo no Multiusos de Guimarães, a 21 de julho, tendo em palco grandes músicos como o Manuel de Oliveira, o Jorge Pardo (flauta e saxofone) e Carles Benavent (baixo), companheiros de Paco de Lúcia (o tal mestre do Manel) e do melhor que o flamenco e o jazz contemporâneo têm. Não posso esquecer também o João Frade e o Quiné. Manuel de Oliveira foi quem esteve na conceção e composição da abertura da capital europeia da cultura com o espetáculo “Nossos Afetos”, espetáculo multifaEsse espetáculo da CEC 2012 tem o seu registo discográfico, em 2015, como “Ibéria Live”. cetado e de grande qualidade, a confirmar o talento do Manuel de Oliveira não só como guitarrista, mas também como mentor de um evento tão 664
eclético e grandioso, como a abertura da CEC 2012. O “Ibéria” continua vivo e ao vivo em muitos palcos nacionais e internacionais, vinte anos depois da sua edição.
PINK FLOYD – “The Dark Side Of The Moon” (1973)
Quem nunca ouviu falar dos Pink Floyd? Mas ao falar dos Pink Floyd, tem de se fazer referência a “The Dark Side Of The Moon”, editado em março de 1973. Foi há 50 anos que os Pink Floyd deixaram de ser um grupo muitas vezes aproveitado para bandas sonoras de filmes mais ou menos psicadélicos para se tornar num grupo de massas. Há cinquenta anos tivemos a edição de alguns dos melhores discos de sempre, entre eles, “Venham Mais Cinco”, de José Afonso, Secos e Molhados (projeto de um português de Ponte de Lima, João Ricardo) com o seu primeiro álbum e que revelou a voz e o talento de Ney Matogrosso, “Tubular Bells”, de Mike Oldfield, e muitos outros discos de excelência… Mas foi o ano da edição do lendário “The Dark Side Of The Moon”, um disco que tive o privilégio de o ter por casa logo a seguir à sua edição, e como o dinheiro era escasso, o disco, tal como o gira-discos, foram comprados por quatro amigos que usufruíam, cada um durante uma semana, desses instrumentos de prazer para os ouvidos. Comecei a interessar-me pela música dos Pink Floyd logo no princípio do grupo, mais por curiosidade e abertura para as novas sonoridades, que iam aparecendo naqueles tempos de grandes mudanças no comportamento da juventude. Aqueles sons esquisitos e letras a dar-nos voltas ao cérebro fez-me gostar do que 665
ouvia, e tanta outra música estranha nesses anos de 66/67, como The Doors, The Moody Blues e até os Beatles apareceram completamente diferentes em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, criando o género conceptual álbum. Mas o excesso de químicos em especial LSD, para a inspiração psicadélica levou rapidamente o líder e mentor dos Pink Floyd, Syd Barrett à loucura e a ser excluído do grupo, mas a ideia original do ambiente psicadélico manteve-se sob a batuta de Roger Waters. Até ao “The Dark Side Of The Moon” alguns produtores e realizadores de cinema espreitavam e aproveitavam o som do grupo para bandas sonoras de filmes. Com a entrada de David Gilmour para o grupo e a saída de Barrett o ambiente psicadélico tornou-se mais soft. Gilmour era um músico melódico. Consegui acompanhar todo o percurso discográfico dos Floyd, através de gravações em cassetes, quase sempre com pouca qualidade. Mais tarde, adquiri todos os discos em vinil, que estão abandonados em estantes, junto com quase um milhar de álbuns. Depois passei a ouvir em CD. Falando, agora, de “The Dark Side Of The Moon”, o que parecia ser mais um álbum do grupo, tornou-se um fenómeno de popularidade, fazendo com que os Pink Floyd se tivessem tornado um dos grupos com mais fãs, exceção feita talvez a Bob Dylan e Rolling Stones. Sou tentado a dizer que um dos responsáveis por esse som se ter tornado tão abrangente foi Alan Parsons, que introduziu nas canções alguma sonoridade mais terrestre e em especial o tema “Time” que juntamente com “Money” teve edição em single. O álbum esteve quase 20 anos nas listas de vendas (937 semanas) tendo-se vendido mais de 50 milhões de cópias, sendo o terceiro álbum mais vendido da história da música depois de “Thriller” de Michael Jackson e “Back In Black” dos AC/DC, tornando-se um marco na música e na cultura popular. As canções do álbum eram mais curtas do que os longos temas instrumentais que, por vezes, faziam parte dos álbuns anteriores depois da saída de Barrett. Tem também uma temática diferente dos trabalhos anteriores já que teve como base problemas reais da humanidade como a ganância, o significado da vida com o medo do envelhecimento e da morte, mas também das doenças psíquicas, aqui inspirados no que aconteceu a Syd Barrett. Como já referi, Alan Parsons foi o responsável por alguns dos sons mais inovadores do álbum. 666
Roger Waters quis simplificar as letras das canções tornando-as mais entendíveis e menos ambíguas. Sendo um álbum conceptual concentrado num tema e em que quase não há espaço entre as canções, todas elas, no entanto, têm a sua história e com identidade na composição. O disco abre com um instrumental “Speak To Me”, composto pelo baterista Nick Mason, e aparece colado ao tema seguinte, “Breathe (In The Air)”, cantado por Gilmour e assinado por Waters, Gilmour e Richard Wright. Ideia original de Roger Waters em 1969 em que o corpo humano é uma metáfora da existência. “Breathe” (respira) é um convite a respirar e a refletir sobre o significado da vida. “On The Run” é um instrumental à base de sintetizadores, com a intenção de dar uma sensação de movimento. A seguir vem “Time”, um dos hits do álbum, baseado nas ideias de Waters sobre o tempo, e que tem a tal criatividade de sons bem terrestres de Alan Parsons e também um solo de guitarra maravilhoso de David Gilmour que, a partir daí, se achou no direito de dividir a liderança dos Pink Floyd com Roger Waters, e o álbum seguinte “Wish You Were Here” é muito mais Gilmour do que Waters. A seguir vem um tema celestial na composição de Clare Torry e Wright, “The Great Gig In The Sky” em que Clare tem uma interpretação vocal divinal, acompanhada pelo piano e voz de Richard Wright. O lado B abre com “Money”, tanta atualidade nesta canção, dinheiro, dinheiro e mais dinheiro, e a grande corrupção dos ideais da humanidade. Grande tema de Roger Waters com muito O meu primeiro giradiscos trabalho do seu baixo. Mas a grande canção do disco é “Us and Them”, o tema mais longo e tântrico, perfeito para uma cena de amor, em loop, que se pode ter a canção durante o tempo que se quiser como banda sonora desse estado de emoção e prazer. Magnifico trabalho de teclas de Rick Wright e composição de Roger Waters. Uma mistura de rock progressivo e jazz e a deixar de lado o psicadelismo que aparece um pouco na ponte do instrumental “Any Colour You Like” para o belíssimo “Brain Damage”, uma canção que Roger Waters dedicou a Syd Barrett. O disco finaliza com “Eclipse” que, na parte final da letra, diz "There's no dark side of the moon really. Matter of fact, it's all dark" (não há lado escuro da lua, porque na realidade toda a lua é escura) enquanto se ouvem batidas de coração num volume baixo. 667
“The Dark Side Of The Moon” é o grande trabalho dos Pink Floyd. O que fizeram a seguir teve “Wish You Were Here”, álbum dedicado a Syd Barrett, com dois temas muito agradáveis, “Shine On You Crazy With Diamonds” e “Wish You Were Here”. Já os discos seguintes passaram mais ou menos despercebidos, “Animals” e “The Final Cut”. Em “The Wall” parece haver mais uma grande ideia de Roger Waters, que, entretanto, se afasta do grupo, passando o grupo a ser mais David Gilmour que Pink Floyd, pelo menos muito longe da ideia original de Barrett, Waters, Wright e Mason. No final, uma sugestão. Continuem a ouvir estes dois excelentes discos “Ibéria”, de 2002, de Manuel de Oliveira, e “The Dark Side Of The Moon”, de 1973, dos Pink Floyd. Ainda uma nota para um projecto musical vimaranense, os Guimafloyd, um grupo de músicos profissionais baseado em covers dos Pink Floyd, tocadas de uma maneira quase perfeita, e com um destaque do reportório para as canções de “The Dark Side…”. O próprio logo do grupo é inspirado na capa do álbum.
TINA TURNER – a Artista, a Mulher, a Diva… Acaba-se a vida, fica a alma e histórias que alguém pode contar.
Tina Turner foi um misto de talento interpretativo e de performance em áudio, vídeo e palco. Ar simpático, modesto e as tais PERNAS que ajudaram e muito a que muitas mulheres maduras acreditassem que ainda valiam a pena. No espaço de duas semanas, partiram duas mulheres que foram dos maiores talentos do mundo da música nas últimas décadas, Rita Lee e Tina Turner. Posturas perante a vida completamente diferentes: uma, Rita Lee, caracterizada pela rebeldia e pela bandeira da emancipação da mulher nas canções, mas também na sua vida até aos últimos dias, a outra, Tina Turner, segundo o que foi dito, mais de submissão, mas nos dois casos dando um contributo para que o mundo fosse um pouco melhor. Mas vamos centrar-nos em Tina Turner, um dos nomes maiores do mundo da música. Rainha do rock? Claro que não! Até porque a primeira década e meia da sua história na música foi como uma lenda do rhythm'n'blues na companhia de Ike como Ike & Tina Turner. A partir de meados da década de 70, e eu costumo apontar como data da mudança e da emancipação a participação no filme "Tommy" de Ken Russell, de 668
1975, baseado no disco e ópera rock dos The Who de 1969, em que ela interpreta e faz o papel de Acid Queen, e, aí sim, com muito h(ar)d rock em que possivelmente acha que tem talento e pernas para outras caminhadas, quem sabe para outros amores musicais ou não, e, por isso, o Ike teve que arranjar companhia para tocar noutras freguesias. Mas rapidamente deixa de ser um produto de Ike Turner, para se tornar do mainstream com os vídeos clips e o trabalho de grandes produtores como Terry Britten que lhe faz as canções e produz o Private Dancer, em 1984, que nos mostra uma nova Tina Turner com quase 45 anos e que, nos 25 anos seguintes, se confirma como um dos melhores produtos do pop rock de sempre. Falando da mulher, e como referi na comparação com Rita Lee, que sempre foi interventiva em favor da igualdade de direitos e de comportamentos entre a mulher e o homem, desde os Mutantes, em 1968, até aos seus últimos dias. Já Tina Turner, segundo os seus biógrafos, foi muito maltratada pelo marido, pai dos filhos e parceiro na música, com muita pancada, traições e outas atrocidades, e sempre perdoado e, nesse caso, quase aceita essa violência e, por isso, foi muito pouco ativa naquilo que são os direitos das mulheres. Numa tentativa de suicídio o comentário do então marido, perante a esposa Tina Turner em estado grave, terá sido, "Queres matar-te? Então, Morre". Mais tarde, já como um dos nomes mais respeitados da música, para além das canções estava também o Sex-Symbol com as pernas de excelência de velhota. Em relação à diva há pouco a dizer, pois toda a gente ouviu falar dela, ouviu as suas canções, viu a sua energia nos espetáculos ao vivo ou nos écrans de cinema, de televisão e computadores. Assenta-lhe como uma luva o título do seu Best Of de 1991 "Simply The Best". Tina Turner, para mim, é um dos milhares de nomes que Tina Turner, “a verdadeira e eterna roqueira”, in OLIBERAL.com têm canções que gosto de ouvir, isto porque sou mais alguém que gosta de canções do que de artistas ou de grupos e, por isso, pode haver um ou outro de quem goste mais um pouco (Bob Dylan, Amália e Roberto Carlos), mas, de Tina Turner elegeria, na minha play-list, uma dezena de canções e algumas delas com o Ike Turner. 669
O festival com eles no sítio Diana Marques
Seis horas da manhã de Domingo. Cerca de uma dúzia de pessoas estão na esplanada do Café Ponte Nova, com vista para o Rio Febras. De sorriso exausto no rosto e brilho nos olhos, procuram processar o que aconteceu nas 15 horas anteriores. Não sabemos se o fino ajuda, mas àquela hora já se tenta qualquer coisa. Há quem diga que esta história começa umas semanas antes com a divulgação de um comunicado bem amanhado e bem-humorado, mas não. Começou bem antes, em 2022, ao sair duma pandemia, quando um grupo de jovens (vá … deixem-nos acreditar que ainda o somos), uma Instituição Particular de Solidariedade Social e um conjunto de homens que se reúne anualmente para comer rojões e ouvir Rock acharam que era boa ideia organizar um festival de música nas margens dum rio com um nome caricato. Na primeira edição do evento, esperava-se cerca de 300 a 400 pessoas. Passaram pelo recinto cerca de 1500. Já nessa altura se sentiu a fome que havia por um evento que dá palco ao talento local, tão abundante no norte do concelho de Guimarães que ninguém ficará chocado por se usar a palavra tradição. Como se tal não bastasse, este ainda tem o objetivo nobre de “ajudar a ajudar”, através das muitas valências de cariz solidário da Casa do Povo de Briteiros. Poder-se-ia aplicar a expressão “juntar o útil ao agradável”, mas neste caso é difícil dizer qual é qual. O boca-a-boca trouxe muita gente, e cada um arrastou mais um amigo. Foi um dia (e noite) de boa música, de boa energia, de amizade, de “ao tempo que não te via”, e de loucura do bem. Foi, a todos os níveis, um sucesso, com o público a dizer que queria voltar e muitos artistas a querer atuar nas edições seguintes. Diziam que havia ali muito potencial… 670
Este ano, preparava-se um evento para uma adesão levemente superior devido ao feedback positivo. Ainda assim, a 20 dias da segunda edição, foi necessário começar a organizar um festival completamente diferente. Não só em nome. Foi necessário adaptar infraestruturas, criar mais espaço, reunir com autoridades de segurança pública, reorganizar a logística, encomendar mais bebida, mais carne, mais copos… Talvez o Golias não fosse, afinal, um qualquer festival de Lisboa, mas sim esta tarefa impossível que teria de ser concluída em tempo record. E agora as figuras de estilo não iam valer de muito. O que valeu foi, isso sim, a dedicação, força e determinação duma força de trabalho que não se deixa vencer, com raízes numa comunidade que realmente o é. É preciso mais espaço? Usem o meu terreno. Faz falta mais eletricidade e água? Podem vir buscar à minha empresa. São necessárias mais duas pontes? Numa manhã isso constrói-se. Logo há reunião? Eu faço um bolo para o lanche. E a rodada no café já está paga. Tudo coisas essenciais! Houve também outros, desconhecidos, que se chegaram à frente quando mais eram necessários. Gente boa (como diziam as credenciais que traziam ao peito no Sábado, quando finalmente nos conhecemos pessoalmente) que se prontificou a partilhar recursos através de parcerias que respeitavam inequivocamente a identidade do “Febras” e daqueles que o fazem acontecer. Foi num ciclo permanente de problema/resolução, problema/resolução que, num piscar de olhos, o dia chegou. O 22 de Julho de 2023 ficará na História de Briteiros – S. Salvador. Provavelmente na de Caldas das Taipas e de Guimarães também. A pacata localidade foi invadida (no melhor dos sentidos) por jornalistas, fotógrafos, câmaras, microfones, agentes de autoridade, e mais de cinco milhares de festivaleiros. As margens do Rio mais falado do momento ganharam vida; em certos casos, acabaram por também dar vida ao rio propriamente dito. A base do público continua a mesma – e espera-se que não mude: amigos de todas as idades de Briteiros 671
e arredores, e Rojões (e Grelos) de todo o país e até de além-fronteiras. Houve reencontros, gargalhadas, abraços. Mas houve também muitas caras novas, com sotaques distintos e até algumas línguas diferentes. No meio desta amálgama de gente, algumas coisas em comum: o gosto pela música; o sentimento de bemestar; e a alegria descarada. Quarta às Nove, Segundo Minuto, Gaspea, Ledher Blue, Smartini, Pedro Conde, Berto, Gordilho e Crocky Girls brilharam, aparentemente indiferentes aos olhos de um país inteiro pousados neles através das lentes apontadas pelas dezenas de jornalistas presentes. Num ato contínuo, fizeram as delícias do público desde as 16 horas até de manhã do dia seguinte. Enquanto isso, os cerca de 80 voluntários serviam outras delícias ao público, estas em formato gastronómico – claro que não poderiam faltar as febras! O que aconteceu no passado Sábado (22 de Julho de 2023) foi um alinhamento de estrelas e de vontades, suportadas por uma força anímica imparável duma comunidade que se galvanizou frente a uma missão (supostamente) impossível. Briteiros agigantou-se e esteve à altura de receber, de braços abertos e sorriso orgulhoso no rosto, milhares de amantes de Rock e de dias bem passados. E fê-lo sem nunca perder o Norte. A palavra “surreal” continua a escapar pelos lábios daqueles que viveram este fenómeno, que ainda só é o segundo episódio da saga do Rock junto ao Rio Febras. Venha o próximo, em 2024. Pode ser que por essa altura já tenhamos conseguido processar isto tudo…
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ESCRITA CRIATIVA Coordenação de Jorge Nascimento Silva
A criatividade abriu as suas portas e muitos não se fizeram rogados em entrar… Assim, da poesia à narrativa, de forma mais lírica ou mais prosaica, o espaço que se segue é o produto do engenho e arte dos nossos amigos e colaboradores, embriagados na fonte de Hipocrene e inspirados pelas 9 musas.
Manifesto mínimo Carlos Poças Falcão
Neste humanismo abafa-se – e não sem um tremor armamo-nos dos verbos de um programa insubmisso: calar e apagar, desconectar, desaparecer. Manda a democracia que falemos? Nós calamos. Exige o espectáculo mais brilho? Apagamo-nos. Devemos estar em rede e ao serviço? Desligamo-nos. A Coisa Absurda chama-nos? Ah, não comparecemos! in Sombra Silêncio 673
Os amigos Firmino Mendes
Os meus amigos vão-se. Sobem as colinas e desaparecem numa nuvem. Depois condensam-se e caem sobre os rios, um modo fácil de chegarem ao mar. São assim os meus amigos, viajantes do ar e da terra, transportadores do fogo e das águas, sempre despertos para o silêncio grande do universo e para o segredo vivo dos estuários. Os meus amigos são ágeis. Inclinam-se sobre os livros e dão a volta ao mundo. Tocam os píncaros de todas as montanhas, entram nas grutas mais secretas e olham as planícies perfumadas pelo trabalho árduo dos homens. Os meus amigos aquecem as mãos com outras mãos, sempre ligados pelas veias. Conhecem a pele na pele, os nervos tensos, o olhar atento para a luz do tempo insubmisso. Os meus amigos percorrem os bosques em busca de musgos misteriosos e ocupam a memória com a infância colada no sangue. Vivem entre luz e água, íntegros e afáveis, capazes de percorrer a terra com uma folha de acácia no peito. E assim transmitem a alegria das longas viagens, aquelas que conduzem os viventes aos lugares onde os horizontes se apagam. Os meus amigos amam os detalhes, as fendas subtis do prazer, as sombras, só as sombras. São assim os meus amigos. Às vezes, sentem a memória perturbada por notícias vindas de longe, de países 674
onde as guerras se demoram. E é então que as lágrimas correm para amaciar os caminhos dos que chegam ao encontro da casa, da dignidade e da música que movimenta o ar. Os meus amigos vivem suspensos das maravilhas do mundo, de olhos bem abertos para a claridade dos objetos mínimos. Também eles visitam o interior da terra e, em trabalhos múltiplos, procuram a pedra oculta, a ciência viva dos obeliscos erigidos ao Sol. Os meus amigos usam analogias e metáforas para conhecerem a realidade mutável do mundo. Por vezes, enganam-se e, assim, descobrem diferenças e semelhanças nos pensamentos mais subtis. Os meus amigos trabalham para a intensificação do real. Conhecem algumas artes de aproximação e técnicas de afastamento. Por vezes, assombram-se e colidem com objetos invisíveis. São assim os meus amigos.
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Poemas M. Branco de Matos
Agora sei que é em ti que habita a insciência da flor do edelvaisse ácida alacridade de quem chega após a longa ausência. Falemos então da luminosa brancura das casas caiadas quando atrás do monte cresce o grande sol da fugacidade das destas nuvens ráfias que nova luz instauram porque tu chegaste do mágico sortilégio de muito estremecer nos teus cabelos loiros que eu contava um por um dos meus dedos que afagavam a fímbria secreta dos teus dois róseos seios de veludo dos cavalos brancos de cascos brilhantes velozes contra o vento na volúpia sedutora das vacas que olhavam na amplidão ovantes as tuas sete tranças fustigando a maresia da maturação dos frutos num dia almo pelas tardes tridentinamente findas ao toque das três ave-marias rezadas de olhos postos no teu vestido branco. 676
II. Perdulários dos dias das horas das árvores incendiemos os álamos visitemos os pássaros cada palmo deste arvoredo nos acolha os segredos adolescentes de outrora inscientes que somos. Perdulários dos sonhos dos fundibulários sonhos de outrora macerados por graves deflagrações contemos um ao outro companheiros outrora ínscios da Nau Catrineta os nossos mares transatos. Um dia disseste «Hoje pescaremos um grande peixe um peixe assim» e o gesto colorido que fizeste (tinhas então mãos livres como as asas das aves) lembrou-me o Velho e o Mar que Hemingway contou. Por cima do teu ombro largo agora lasso eu lanço meu braço amigo outrora florido esquisso breve estes pássaros incandescentes que por aqui se beijam saibam que nossas cabeças grisalhas intumescem ainda. E quando a tua face ganhar enfim a brancura do luar nevado e o brilho dos teus olhos fender a derradeira linha do horizonte meus lábios gretados pela estrénua erosão à voz do vento em um só gesto o pó da terra beijem e o pólen fecundante.
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2 Poemas Álvaro Nunes
LONGA ESPERA
SONETO DE NATAL
Doce dia de Natal inala do mel Doce no presépio sorri o Menino Doces melodias arrepiam a pele Salta e brinca todo o pequenino
Mais um Natal, com o meu lugar à mesa, Mais um presépio de musgo verdejante Mais esperanças de uma incerta certeza Que ritualizada nasce e morre distante…
Mas lá fora neva, neve preta, Num luto por uma avó falecida Enquanto entre ladainhas e treta Nasce um neto e uma nova vida
Mais uma consoada de vinho e rabanadas Mais um ritual de bacalhau e presentes Mais promessas de novas vidas almejadas Que renascidas incitam humanas mentes
Novo Cristo, entre o Natal e a morte, Entre a manjedoura e a urna insana, Surge entre os deserdados sem sorte!
Luzes multicolores festejam a festa Troam foguetes, que soam a guerra, Voam mísseis sob a terra que resta!
Mas não é ainda a voz do salvador Que fará jus à condição humana Que se assuma como libertador…
Assim vai andando a rotação da Terra O planeta de nascimento do salvador Neste dia de festa, anestesiando a dor!
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3 Poemas José Matos
A montanha abriu-se A montanha abriu-se, das suas entranhas nasceu o rio que os homens jamais poderão suster Outros rios vai encontrar pelo caminho Unir-se-ão para rasgar a terra, esventrar a serra, desbravar a floresta, e sem rodeios poderem encontrar o espaço maravilhoso dos sonhos, o mar.
que fez crescer florestas, searas, pastagens, fábricas, cidades, transformando-se numa dádiva, um hino salutar à vida. Nunca podia a montanha parir um rato, para que um gato o devorasse e mais tarde um cão repetisse o gesto com tão incisiva precisão, brindando-o com a mesma sorte, permanecendo assim na terra, a lei do mais forte.
Pelo caminho ficam ilhas verdes, projetos anónimos de ternura, marcas indeléveis e indestrutíveis de um trabalho árduo e contínuo. Nas margens, os verdes prados alimentam toda a espécie de vida selvagem. Os campos por ti irrigados vão produzir o pão.
A montanha abriu-se O rio nasceu, fruto de um acaso ou de um gesto de ternura, para que pudéssemos entender a dimensão exata dos sonhos, a grandeza insondável dos gestos, a alegria indescritível de sermos livres.
A montanha abriu-se. Das suas entranhas nasceu o rio
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O rio da minha aldeia “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia” (Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa)
O rio da minha aldeia é do tamanho de um sonho e a sua beleza natural lembra uma deusa que se faz reverenciar neste espaço aprazível. Quando desliza sorrateiro, encosta abaixo, com toda a irreverência que o poder lhe confere, torna-se dono e senhor desta infindável viagem para depois se esquivar entre as margens, dando a sensação de nunca mais voltar. No inverno, revolta-se com frequência e invade campos, casas e aldeias, deixando para trás um cenário de horror, depois, fixa-se tranquilamente no leito, retempera forças, segue o rumo já definido e com sua férrea vontade derruba fronteiras, destrói barreiras que estrategicamente se colocam à sua passagem.
é uma ave que fulge entre amieiros em busca de sonhos e ilusões, correndo no meio dos canaviais, agitando as suas águas puras e cristalinas rumo ao mar. O rio das minhas tropelias de criança torna-se por vezes estranho e cruel, rude, impertinente e excessivamente agressivo. Em plena primavera exala um perfume doce que o torna reconfortante e extasiante, um cheiro a urze, alfazema, giesta ou pinho, que se mistura ao chilrear dos pássaros, transmitindo-nos uma sensação de paz e bem-estar, levando-nos nas asas do desejo em busca do olhar que nos decifre o mistério insondável das sombras. No verão, quando o calor aperta e o corpo não reage as suas águas tornam-se aprazíveis e refrescantes, um refúgio doce que nos liberta da azáfama quotidiana. No inverno se a chuva e o vento não param, torna-se rude, selvagem, irreverente e incompreensivo destruindo tudo o que encontra na sua passagem.
Apesar da fama que granjeou, sua importância não foi devidamente reconhecida. É inquestionável a sua participação ativa no crescimento, no desenvolvimento económico e no bem-estar das gentes da minha aldeia. O seu nome não aparece na maioria dos roteiros, mas nem por isso deixa de ter o reconhecimento, o carinho e o afeto que sempre mereceu. O rio da minha aldeia
O rio da minha aldeia deve ser igual a muitos outros rios.
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Poema abstrato Quero que me reinventes num poema doce, límpido como a água, expressivo como a flor de brilho e perfume intensos. Que as asas te permitam voar pelo meio das palavras escritas no vento, no rio ou na beleza suave do teu corpo. Quero navegar no navio da tua alma, esquecer as mágoas no íntimo do desejo. Que o voo das gaivotas não ofusque a luz dos teus olhos, nem te impeça de sobrevoar as costas escarpadas das memórias antigas. Que o poema se reinvente na escrita e se deixe divagar pela página branca e fria, fazendo convergir todos os sonhos, todos os caminhos.
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De renda Fátima Guimarães
Se pudesse apagava a tristeza que mora nos teus olhos e guardaria alguma, aquosa embora, para recordar Se pudesse eliminava as sombras do teu rosto mas deixaria alguma, magoada ainda, para comparar Se pudesse cortava a tua angústia e ressalvaria alguma cujo vestido, embora negro, fosse de renda Se pudesse abria o teu sorriso e, se preciso fosse, destruiria a renda.
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Salmo de Kiev João Aguiar Campos
Não se ouve a minha voz, mas chamo. Apertam-me blocos e ferros retorcidos, asfixiam-me o fumo e o pó. Respiro devagar entre gemidos. Escutai-me, Senhor, ouvi a minha dor!… Presos, não estendo os braços nem o olhar e o peito mal me deixa perguntar: «Porquê? Porquê, Caim, Porquê?…» Ninguém sabe. Ninguém vê!… Escutai-me, Senhor, ouvi a minha dor!… Abri-me o Vosso colo, dai-me a Vossa paz, mostrai-me a Vossa verdade, dai-me o Vosso perdão e a eterna liberdade!…
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Encontros de 1.º grau Miguel do Sul
Não preciso de voltar a ler Bocage Para aprender a dizer “palavrões”, Ou compreender a força da sátira E descobrir o amor de Camões… Não preciso de subir ao palco Com o Gil Vicente “debaixo do braço” Pois já o fiz o tempo inteiro Durante 25 anos até ao cansaço!!! Não hesitarei em me encontrar Com Borges e Herculano Mergulhar na história até fartar Semanas e meses, ano a ano Encontrei-me muitas vezes, sem hesitar Com Simões e Guerreiro Com segredos da matemática a brincar Em bocados do tempo todo inteiro E Ary dos Santos, Eugénio e Virgílio Rosa, Bernardino, Nemésio, Trilhei caminhos de poesia Sem esquecer Gomes Ferreira e Régio, Com Florbela dos Amores Ou pelos caminhos de Sofia Português de gema, ótimos escritores! Encontrei carradas de sabedoria Muitos mais com esta “doença”
Vício criado chamado cultura Faria dos portugueses uma crença Com milagres com fartura Não precisarei de ler Antero Esse poeta gigante e fero Que com os amigos do Casino Puseram Portugal a pensar!!! Prefiro mergulhar na pobre República E dar consistência à Utopia trucidada Lutar contra os “velhos do Restelo” Que Camões nos avisou... Quero lembrar Ventura Terra Adelaide Cabete e Eduardo Cruz Cidadãos que a minha memória encerra Heróis quase anónimos De um tempo que passou, mas de truz. P.S. Enfim, quero mergulhar Nestes tempos de confinamento No tempo do esquecimento Das memórias atrozes Do meu país abandonado. Quero descobrir o caso, a razão Porque Portugal sendo pequeno Nunca morrerá como Nação.
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O poema irritado Teresa Portal
Era um poema irritado. Nascera da mão do poeta Assaz contrariado… Não queria ser simpático Antes o antónimo – antipático. Cansado da falsidade De centenas de palavras, Decidiu olhar as pessoas De maneira diferente Como realmente era a gente Sem equívoco sem compromisso… Não mais seria submisso Às convenções sociais E lançaria as verdades integrais
Sem procurar desculpar Nem a realidade ocultar Saiu mesmo irritado Talvez inesperado Mas desabafou As palavras falsas expulsou E as verdades exarou Sentiu-se leve Capaz de voar com as folhas Que dançam livres ao vento Cantar com abril libertado E esperar com calma o relento.
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2 Poemas Damianus Paskalis Lelo44
UM CÉU AZUL FUGIU DE MIM Solitário, as palmas das mãos na testa e os cotovelos no braço da penha, adormeci absorto Neste planisfério como um rio Um céu azul escorreu À minha frente Impávido, Abri os meus olhos como uma lente Para detetar. Não consegui socorrer e apreender aquela biosfera Perdi o augúrio Senti a ausência amarga deste farol Em prol do meu bem-estar, chamei pela esfera Bati à porta da alma do universo. Nada soou da litosfera. Demorei a depreender o escorregar do céu azul Foi muito depois Percebi-me que o essencial do invisível escapa sempre às mãos, se não lhe der a atenção cuidadosa e nele não permanecer passivamente Agora recordo-me Não sou dono do céu para o reter 44 Sou religioso-missionário da Congregação dos Missionários do Verbo Divino. Venho de Timor Ocidental – Indonésia. Estou em Portugal
desde 2009. Fiz estudos de Filosofia e Teologia na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Neste momento, vivo no Seminário do Verbo Divino, em Azurém.
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DIANTE DO OUTRO Cheio de si um homem De pé Juntou as mãos No peito Repleto de propósito Professou A fé eu creio Ergueu os olhos à cruz dolorida de sangue Caiu em si nada sou Inclinou-se Assinalou o sinal da cruz na testa Abanou a cabeça O amor é a dor: dar a vida
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Solidário (Ode aos Cantautores) Luís Almeida
Solidário é ser melhor ser humano É ter por missão valer a quem precisa Lançar um sorriso que vai com o vento Abraço apertado que vem com a brisa É ver o sossego e a calmaria Partilha de sonhos eterna paixão Saber da certeza com alegria De ver amparado o nosso irmão A palavra Solidário Tem caminho desbravado Se o mundo a tiver Estaremos lado a lado Acredito que amanhã Vai chegar mais um amigo Depois ficaremos três Se puder contar contigo Solidário é sentir que não estamos sós É vermos no outro um ser diferente É darmos valor a quem ama dez Querer o amor em toda a gente Um dia teremos um mundo novo Dizer lá do alto à humanidade Que somos os filhos da esperança E vamos viver a fraternidade 688
A Batalha de São Mamede José Manuel Teixeira
Estalou a madrugada de vinte e quatro de junho, do ano mil cento e vinte e oito, para que dois exércitos de corações perdidos se enfrentassem nas pontas das lanças afiadas: os homens da condessa D. Teresa e os das alabardas dos barões do seu filho. Era junho quente. Escorria uma longa contenda que fervia de raiva em quatro horizontes como fumarolas vulcânicas de sangue, como gritos de incêndios de matagais, como poços sem fundo que só ficam bem num relicário transparente. A hoste de Fernão Peres de Trava antecipa-se ao infinito do próprio nome, quando Soeiro da Maia de espada em riste o trava na ponte de Gondar, para que saboreie a derrota de joelhos numa tisana de ortigas! Afonso Henriques tem de encarar o exército de sua mãe, tem de beber a manhã no Selho, tem de inventar as palavras mais ásperas e que derretam os machados, 689
que estoirem os escudos de guerra, que abafem os piques e os nervos dos homens, para derrubar as tropas de Bermudo Peres de Trava antes de tomar o castelo das vilas de Guimarães. Nada dói mais do que ver o filho amado e a mãe a lutarem em lados contrários pelas mesmas pedras de granito, pelas mesmas águas dos regueiros, pelos mesmos ventos do Norte e do suão, pelos mesmo lobos agastados e pelo mesmo Sol consumido até à alma. Os guerreiros cresceram na colina, mas quando os de Afonso atravessaram as muralhas a condessa soube bem no interior do peito que jamais abraçaria o seu filho querido, que jamais lhe a acariciaria os seus cabelos, que jamais lhe beijaria o rosto e jamais lhe daria exortações e afeto. Antes do entardecer, os desvairados cavaleiros chegaram à planura do Aldão. As carnes voltaram a ser rasgadas, os cavalos correram viciados em todas os sentidos, os peões faziam fogo em todas as direções, quando não atingiam ninguém com as labaredas das foices, faziam-no com os insultos mais aguçados, até que o luar brilhou no metal dos elmos titânicos e nas bandeiras brancas da cruz azul.
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Os cavaleiros derrotados seguiram para norte, ainda com os músculos retesados como cedros, pela honra da palavra, protegeram a senhora princesa do seu próprio filho; e, lambendo as feridas que não fechavam, cavalgaram afastando os lagartos e as moscas, estrebuchando dos rogos e das imprecações, como acontece sempre no final das batalhas. (Em terras de Guimarães, 24 de junho de 1128)
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3 Poemas Angelino Pereira
Mulher
Mensagem no tempo
És a “máquina" mais complexa, tu és o ser mais perfeito que em todo o Universo existe. Tu és a mais bela criatura, dona de tamanha doçura que o homem a ti não resiste.
Mensagem no tempo no tempo que fica, em tempo de lamento de vida maldita. Conversa mais conversa, palavras que o tempo apaga promessa em promessa que conduz a nada! Alertas que alertam opiniões gerais para males que afetam classes sociais. E o mundo continua alheio à sua dor avança e recua inerte, há muito que promete, mas fá-lo sem amor! Mensagem no tempo, que o vento espalha no horizonte, não fiques suspensa no espaço vence montanhas, corta barreiras, cerra fileiras, mas leva pra longe o meu abraço. Mensagem no tempo em tempo constante, leva distante meu pensamento, rasga as entranhas para vencer e cala pra sempre meu triste lamento! Se minhas palavras o mundo mudar e morte causar à razão da pena feliz vou partir quando a hora chegar de minh’alma deixar a vida terrena!
Desde o teu rosto ao teu seio num longo beijo de encanto, meus lábios tocam teu corpo e quase como d’um sopro me sinto desfalecer quando em teu ventre penetro com algo de enlouquecer. No gozo maior do mundo Em teu corpo nu me fundo. Em ti, construo coisa mais forte do que a própria morte! E num êxtase longo d’amor eu já nem sinto a dor da pobreza ou da má sorte. Em ti, meu paraíso d’amor minha comunhão carnal. Em ti meu corpo aqueço do gelo da multidão, E num milagre divinal em meu sêmen te ofereço a semente da criação.
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Criança Escrava Eu vi Uma criança deitada no chão. Ora dormia, ora esmolava. Eu vi uma criança estendendo a mão. Ora sorria, ora chorava. Na sua frente um letreiro dizia: "Dai-me dinheiro, preciso de pão". Eu vi uma criança perdida na multidão... Sem esperança sem ilusão. Eu vi uma criança deitada no chão! Tratada como sucata, como farrapo no fio, deitada como cão vadio numa dor que "matava" o coração! Eu vi Uma criança deitada no chão! Gente passava, gente corria mas a criança ninguém via! Retrato da escravidão humana. Eu vi uma criança deitada no chão talvez cigana, ou não. Estava descalça, suja e maltratada Devido à forma como era usada. Usada porquê, e por que razão? Eu vi Uma criança deitada no chão!
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O nevoeiro que hoje nos envolve Ricardo Guimarães
o que mais me fascina no nevoeiro que hoje nos envolve é a certeza do sol que a espaços desvenda a beleza imaculada do mar como deus em busca dos olhos de uma mulher para amar
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A melhor prenda de Natal Angelino Pereira
Estava uma noite fria. Nevava em fragmentos dispersos pelo ar como estrelas incandescentes que flutuavam por todos os espaços daquela cidade meio adormecida. O ruido e a pressa de um dia de trabalho e a vontade de chegar ao acolhimento, em seus recantos junto à lareira, lembrava a paz que existe no silêncio em tudo que é belo. Nessa procura de estar bem, caminhava placidamente pelas ruas da cidade um homem esquecido do tempo e de si mesmo, porque ninguém o encontrava. Há muito tempo deambulava pelas ruas à procura do que nunca tivera. Algumas sensações havia experimentado. Tivera uma mulher que lhe dera dois filhos, mas quando parecia tudo perfeito chegou a exclusão social, porque a mulher o trocara por outros que lhe prometeram melhor vida e o homem refugiou-se na bebida. E, copo após copo, tornara-se uma vítima desse vício que nunca mais o largara até que chegou o dia em que perdeu o emprego e a família, porque a mulher ganhara, perante o juiz, direito de custódia sobre os menores e o homem, inventor do projeto de uma família, acabou por perder tudo e lançado na rua da amargura, por perda do seu emprego. A sua permanente procura do álcool lançara-o numa dependência total, vivendo da caridade na situação de uma residência sem-abrigo, em qualquer canto da cidade. Deitado sobre cartões e alguns farrapos que recolhia à noite quando os habitantes da cidade colocavam, junto das portas, o lixo à espera da equipa dos serviços da câmara municipal para recolha e encaminhamento para lixeiras de tratamento e aterros, depois de um processo de separação e possível encaminhamento para reciclagem. Depois de ingerido o alimento possível que conseguia reunir durante o dia o homem deita-se no chão sobre as cartolinas, na cama que conseguia, mas que fosse de arrumação simples, antes que a porta do estabelecimento comercial se abrisse. Procurava o melhor relacionamento entre vizinhança e o proprietário do imóvel que o abrigava da neve que caía na rua naquela noite tão gelada. E deitava-se e até sonhava, revia a sua infância em sonhos como tentando voltar ao princípio para poder corrigir a trajetória do que havia sido mau... E sonhava: exprimia a verdade e a vontade de ser com tranquilidade e clareza porque nada o impedia de o fazer. Era livre de pensamento e não tinha obrigações com ninguém. A rua é de todos e ninguém paga coisa alguma por caminhar. E ele até podia mudar de rua quando quisesse. Sem abrigo são todos os espaços da cidade onde se pode ficar o tempo que se quiser. Ele estava de bem com todos e escutava todos os que passavam à noite lamentando-se da vida. 695
Pessoas interessantes e incultas e tantas cultas sem interesse, mas todas tinham histórias para contar. Mas o melhor para todos é evitar gente conflituosa e agressiva que tanto mal fazem ao espírito de cada um, alimentadas por um egoísmo destruidor, como ele havia sido vítima de outros e de si mesmo. Ali, naquela noite gelada, dormitava como cão vadio sempre de olho aberto e ouvido atento aos movimentos da cidade, porque ninguém dorme completamente em meio desgovernado. Não se podia comparar com ninguém pelo perigo de se tornar azedo ou arrogante no azedume que o amargo da vida faz. Sempre admitia alguém em piores condições que as dele e, portanto, ainda tinha motivos para se regozijar e sonhar projetos, e dizia para ele mesmo: “homem mantem vivo o interesse pela tua vida, por mais humilde que seja; é um verdadeiro bem, nesta incerteza de estar no mundo. Muitos que nunca pensaram cair, caem, e outros que nunca pensaram chegar, chegam. O mundo está cheio de armadilhas. Todavia não feches os olhos à virtude que existe em teu redor, nem às pessoas que defendem os seus ideais e lutam por valores mais altos – a vida está cheia de heroísmo”. E o homem virava-se na enxerga que não enxerga coisa alguma além da miséria de gente que mostra este viver indigno da pessoa humana, mas que o mundo teima em construir para vergonha de todos, e tenta dormir. O cinismo em relação ao amor que, face a tanta aridez e desencanto, se mantem perene como uma haste de erva, fazia naquele homem um sem-abrigo sereno, sem mágoa, numa aceitação serena deixando passar o tempo, sabendo deixar graciosamente para trás as coisas da juventude e recordando a alegria que cultiva a força de espírito, para se proteger do ódio e azares inesperados. Chegara a semana que antecedia a noite de natal e das conversas que o homem ouvia, enquanto dormitava, ouviu duas jovens que passavam por aquela rua já há alguns dias. Aquelas vozes chegaram-lhe aos ouvidos doces, muito doces como que de um lugar da sua memória. E prestou atenção a todos os dias e todas as horas, nos breves minutos que passavam por ali. E escutava. A Natália, como uma chama à outra, recordava-lhe um nome que ele próprio havia escolhido para fazer parte da sua vida... E nessa noite apenas percebeu que ambas falavam de amores em idades da juventude. E ele ficou curioso e passou a programar um ponto de encontro, naquele lugar, com aquelas vozes que passavam naquele semiescuro da noite... Esperou ansioso, mas o pior aconteceu. Isto é, não aconteceu: as vozes não chegaram. E ele deitava-se à espera e pensava: “Não te atormentes a imaginar o pior. Muitos medos nascem do cansaço e da solidão”. Na realidade, o fantasma da solidão pode produzir sensações e comportamentos imprevisíveis e descontroláveis. E apesar da miséria do mundo ele mantinha aquela autodisciplina “saudável” talvez equilibrada e benevolente consigo mesmo. E tinha sempre aquele pensamento: “És um filho do Universo, como as árvores e as estrelas. Tens todo o direito ao teu lugar no mundo”. E ficou por ali como sempre, todas as noites. Chegou a antevéspera de natal e um grupo de voluntários visitou todas as ruas e lugares da cidade para
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fazerem o levantamento do número de pessoas sem-abrigo para os reunir numa noite de consoada. O homem ouviu vozes ao longe em sua direção e voltou a ouvir a doce voz de Natália que se aproximava com a amiga das conversas de passagem por aquela rua, e ouviu que ela chama por Soraia. Um jornalista que acompanhava o trabalho, que os jovens realizavam, de apoio aos sem-abrigo, perguntou: qual a razão de tal ato de solidariedade e caridade para com o próximo? Então a Natália, apresentou Soraia, sua irmã e explicou. - Há vários anos que este grupo se junta para fazer este trabalho, que achamos muito importante e nosso dever para que todos possam ter o melhor natal. E o jornalista voltou a questionar: - Mas não era melhor ficarem em casa como a maioria? - Se cada um der um pouco de si, todos podemos melhorar o mundo e, se os que podem derem um pouco mais, então podemos acabar definitivamente com este drama social, que tanto envergonha a humanidade. E perante outra questão acrescentou: - Além desta missão, eu tenho outro objetivo, procuro meu pai, que nos abandonou por desentendimento com minha mãe. E nesta procura que faço, na ajuda que vou fazendo, pode ser que encontre alguém que leve para casa e nos faça um natal mais feliz. O homem, que já estava perto, escondeu o rosto com as mãos quando o grupo de jovens se abeirava dele para o inscrever para a noite de consoada. Natália dirigiu-se ao homem e perguntou: - E o senhor, como se chama? E o homem gaguejou e não se conteve tomado por um chorar comovente. Natália e Soraia colocaram as mãos nos ombros do homem, quase num abraço, acariciaram-no para o sossegar e perguntaram, quase em uníssono, como se ambas quisessem em simultâneo saber a razão de tal desgosto para além do seu infortúnio. E Soraia continuou: - Pode dizer o seu nome e se quer cear connosco, na noite de natal, e nós vamos tentar transmitir-lhe a paz que precisa para acalmar a sua dor. Vai ver que vai melhorar. Quer dizer porque chora, quando nos viu chegar? E o homem contém o choro e responde: - Mas apesar de todos os enganos, dificuldades e desilusões, vivemos num mundo bonito. E Natália, admirada, fica curiosa. Como era possível de repente o homem sair de um chorar sofrido e falar tão bonito. E ele contou: - Faz tempo que mergulhei na desgraça da rua por incompreendido, marginalizado, como se eu tivesse que carregar todas as culpas. Abandonado por minha mulher, perdi a paternidade, o emprego e deram-me este sofrimento que recebi por castigo e merecimento dos males que fiz. Chamo-me Tiago e fui pai de duas
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filhas lindíssimas... Ou melhor são maravilhosas. Natália e Soraia, que continuavam semi-abraçadas no homem, entreolharam-se e perceberam que algo de maravilhoso estava ali a acontecer. Os olhos delas brilharam como se estrelas da noite se transformassem no sol da manhã para iluminar uma nova vida. E gritaram muito alto. - Tiago, sua mulher não se chama Luísa? E o homem quase embriagado de emoção disse: - SIM. E elas voltaram a gritar ainda mais alto. - Tiago, você é o nosso pai!? O homem abriu os olhos tão forte, tão forte que mostrou uns olhos grandes de espanto e alegria por voltar a encontrar a felicidade. E volta a dizer: Sim, mas sem certeza de querer. Então os três se abraçaram forte, forte e todos regressaram a casa com a melhor prenda de natal. O amor. Nota: Este pequeno conto poderá não ser claro para ti, mas a verdade é que o Universo está a evoluir como previsto. Isto é, uma nova ordem social vai acontecer onde o encontro seja permanente e nunca o resultado de desencontros do homem, na miséria que não existe mais, porque o importante é que estejas em paz com Deus, e isso, só é possível se estiveres em paz com os homens: justiça e respeito pela dignidade humana. E seja Sempre Natal.
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ABISMO45 Maria Teresa Macedo
Angelina caminhava apressada. A saca que levava numa das mãos tombava-lhe o corpo e fazia uma tensão dolorosa no pescoço, mas continuava de passo firme, olhar determinado em chegar à camioneta que a levaria a casa, em São Martinho de Além, lá para os lados de Vilar do Paraíso. E chegar a casa era muito mais que encontrar o lugar onde vivia. Era abraçar os filhos um a um, tê-los à sua volta, sentir-lhes as tropelias da inocência, as traquinices da descoberta e a ternura dos sorrisos que lhes veria quando abrisse o saco que pesava e dele pudesse sair o cheiro a pão, ainda com um odor a forno quente. - Quem quer os milhões que hoje andam à roda, quem quer? São milhões nestas cautelas, quem quer comprar? Angelina ouviu o pregão do vendedor de lotarias e viu-o a aproximar-se, vindo de sentido contrário. - Quer milhões, cavalheiro, quer milhões, menina, quer milhões minha senhora?... Era um homem com aspeto sebento e amarrotado. As roupas que trazia transpiravam a muitos dias de uso, mas algo havia nelas de elegante e cuidado. Angelina, de repente, estava defronte de alguém que a fitava e lhe dizia com modo persuasivo: - Compre-me esta cautela, minha senhora, garanto-lhe que fica milionária! - Não quero! – respondeu Angelina, desviando-se dele. - Acredite em mim. Esta cautela tem o prémio. Fica rica hoje, garanto-lhe. - Já lhe disse, homem, não insista. Não quero. - Não quer esta cautela? Vale milhões? A sorte está na sua mão, é para si. - Oh, homem, e por que não compra você o bilhete? Ficava você rico… – retorquiu Angelina, irónica, reduzindo o passo. - Não posso. Compre, compre, senhora! Tem aqui uma fortuna!
45 Esta história foi-me narrada pela “Rosa”, nome fictício, que assistiu à morte da Mãe junto à capela de Nossa Senhora da Pedra. Entre a
factualidade e o misticismo, fica este conto que, junto com outros, foi escrito para integrar uma coletânea de pensamentos natalícios de elevação da simplicidade perante a sedução pela materialidade da vida.
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- Se tivesse o prémio, até comprava um fato novo ao diabo! – advertiu a mulher, ganhando fôlego para não cair na tentação. - Fica combinado! Não se esqueça de dar o fato ao diabo! - E qual é o tamanho do fato? – questionou a mulher simples, dobrando o pescoço e deixando ver pela borda do lenço atado à cabeça um sorriso zombador e incrédulo. - O Diabo é de todos os tamanhos e de todas as medidas! De todas as medidas!... – Murmurava o homem, enquanto se aproximava da escolhida e lhe chegava o pedaço de papel onde se vendia a sorte. O vendedor de cautelas rasgou a fração da tira onde ainda estava colada e apresentou aquele pequeno retângulo colorido a Angelina. Esta debruçou-se sobre o saco, mexeu no que tinha dentro e tirou um portamoedas. Pouco dinheiro restara, depois de feitas as compras, o fim do mês ainda tardava uns largos dias, mas o homem insistente, ali especado à sua frente, já tinha espelhado no rosto a certeza de que a conseguira convencer a comprar a lotaria com a promessa de dinheiro certo. Afinal, se lhe saísse no jogo um maço de notas de valor elevado, que diferença faria dar o fato que acabara de negociar com ele!? E, de mais a mais, o Diabo é uma invenção dos tímidos! Observou as moedas que se encostavam no fundo bojudo do porta-moedas em napa, separou-as, sem as tirar do interior, e verificou que não chegariam para completar os cinco euros que estava quase a dar pela sorte grande. No mesmo instante, o vendedor rodou o corpo num gesto que parecia impaciente. Angelina fitou-o de relance e, antes que decidisse voltar com a sua decisão atrás, voltou a argumentar com uma voz carregada de convicção: - Vai ficar rica. Mas não esqueça de comprar o fato ao Diabo! Não lhe retorquiu. Decidida, colheu do recanto a pequena e única nota que aí se anichava como uma provisão para inesperada necessidade, desdobrou-a com rapidez e entregou-a ao vendedor de lotarias, que logo voltou costas, resmungando uma despedida que a aragem que lhe batia no rosto impediu de chegar aos ouvidos de Angelina. Nesse momento, dobrou o bilhete e colocou-o no mesmo lugar de onde tirara o dinheiro com que o pagara. Faltava apenas um dia para que o número fosse sorteado e, por isso, não revelaria a ninguém a sua participação no jogo milionário, muito menos considerando que se deixou enlear por uma extravagância irrefletida, persuadida por aquele homem de ar cansado que lhe metera na cabeça que aquele era o pedaço de papel, dizia ele, premiado. O certo é que, já nessa noite, o sono dissipara-se. Pensava na alegria de poder, de um instante para o outro, comprar uma casa que tivesse um quarto grande para cada um dos filhos, uma cozinha cheia de
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prateleiras com mercearias diversas, azeite, cereais, carne e peixe a ocupar um grande frigorífico, guloseimas à mão das crianças, passear-se num bom automóvel com o seu marido ao volante e ela, como uma verdadeira senhora, bem vestida, unhas arranjadas, chapéu fino a ligar com os sapatos… Ocorria-lhe o ar vitorioso com que diria a todos: – Ganhei a lotaria! Ganhei a lotaria! Ganhei a lotaria! Voltava-se, tentada a descobrir uma posição que lhe trouxesse o sono, mas ainda acrescentava ao desejo de vir a ser milionária, a imagem do vendedor maltrapilho, que se afastara dela a vociferar contra o vento e que, sabendo que ali estava a chave para viver com abundância, recusara ficar com a parcela de lotaria, vendendo-a a si. - Deve ser um charlatão como muitos que para aí andam! – pensou. De forma inexplicável, isso aborrecia-a bastante, pondo-a suspeita e algo nervosa. Mas logo concluía que o estado de vigília era quem lhe causava essa negatividade toda e, como podia, ia arranjando formas de descansar e de tirar do seu espírito a ideia do prémio. Porém, arrependera-se de assim ter concluído quando, no quiosque onde pedira para verificar os números sorteados, a sua cautela lhe trouxe a fortuna inacreditável, que a levou a concretizar todos os sonhos que nesse curto tempo pudera construir. Nos dias seguintes, a azáfama fora tanta a comprar tudo o que lhe fazia falta, que nunca mais se lembrara da promessa que fizera ao vendedor da lotaria. Corria a vida sossegada, os filhos pareciam outros com roupas novas, telemóveis com múltiplas funções entre os dedos ágeis, festas com muitos amigos em redor de uma grande mesa coberta com as melhores iguarias, viagens por sítios inacreditáveis… Ela, Angelina, mudara de penteado, tinha uma esteticista a cuidar-lhe da pele, massagens para rejuvenescer, extravagâncias que, contudo, não lhe conseguiam tirar os gestos de uma vida anterior, levada com trabalho e simplicidade, mas agora possuía uma fortuna que lhe possibilitava experimentar modos luxuosos e não negava a ninguém o quanto saboreava, com avidez, a vantagem de poder desfrutar da vida boa trazida pela abundância de dinheiro. Porém, uma certa manhã, ao levantar-se da cama, sentiu um certo torpor nas pernas, um formigueiro estranho que lhe sorvia a força muscular e a impedia de caminhar como lhe era habitual. Massajou-as bem, atribuindo aquela falta de sensibilidade às mudanças climatéricas, à chegada do outono ou a algum nervo ciático que tivesse dado de si. Mandou chamar o médico, fez radiografias, análises ao sangue, mas tudo trazia resultados inconclusivos para o problema que, dia após dia, prostrava mais Angelina, agudizando-se e tornando-a incapaz de se movimentar.
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- Que tens tu, minha mãe? – perguntavam-lhe os filhos, chegando-se à cama onde, cada dia que passava, Angelina permanecia mais tempo, com os olhos fixos no teto, pensando naquela zombaria que a vida lhe estava a pregar, agora que tinha pensado atingir o paraíso na terra. Uma empregada entrava a miúde no quarto, fitando o chão, e depois aproximava-se do leito onde a patroa permanecia, mudando-a de posição para lhe aliviar o cansaço e evitar ganhar escaras na pele. - Não merecia isto, D. Angelina! Agora que tinha tudo para ser feliz! E, ao fim de muito tempo, lá chegava uma pitada de sono, que a conduzia para algures, um espaço estranho, onde um sussurro se levantava e gemia: - Onde está o meu fato? Quando é que mo dás? Nas primeiras vezes acordava rapidamente. Não via nenhum rosto, nenhuma boca por onde pudesse sair aquele murmúrio, que a levava à lembrança da conversa com o vendedor de lotaria. Sentia a pele a encolher, um frio metálico a enrijecer-lhe os músculos e a trepidarem com uns tiques nervosos que chegavam aos olhos. Chorava de medo, sentindo que aquela entrada nos sonhos não anunciava bom augúrio. - Quando me dás o meu fato? – volveu, de novo, a voz noutro momento. Fitou o infinito escuro de onde soava aquele pedido trémulo, que ecoava pelo quarto e pela sua cabeça, ganhou coragem e foi capaz de perguntar bem alto: - E onde queres tu que to entregue? - Junto à capela do Senhor da Pedra, quando sentires o meu sinal. Angelina acordara estremunhada. Tinha o corpo todo transpirado, sentia-se nervosa, mas deu-se tempo e começou a analisar o timbre da voz que ouvira, a compará-la com os resquícios que o tempo lhe deixara da única vez que falara com o cauteleiro e a sentir a culpa por se ter esquecido completamente da promessa verbal que lhe fizera. Agora já sabia onde pagar tão inefável favor, mas não podia desvendar aquele encontro misterioso a ninguém sob pena de os outros poderem ver na origem do prémio, que lhe trouxera um vantajoso poder material, todo o mal que se abatera sobre a sua saúde, impedindo-a de levar uma vida ativa e saudável. Aos poucos, porém, começara a dar, de novo, uns passos pelo quarto. Primeiro muito devagarinho, aumentando depois o ritmo até adquirir a normalidade da marcha. Todos diziam que fora um milagre ter readquirido a força nas pernas. Angelina afirmava que sim, mas no íntimo sentia que era o tal sinal que lhe abria a oportunidade de saldar a sua infração e, por isso, tinha de cumprir aquele pagamento antes que a lembrança desse dia se lhe dissipasse da mente ou, por ventura, voltassem as pernas ao seu estado de letargia, que a podia proibir de ir entregar o fato ao lugar marcado.
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Esperou que, em casa, lhe dessem autonomia para sair sozinha. Dizem que a solidão é muito difícil de suportar, mas mais penoso é estar cercado por gente que vigia cada movimento e que, à mínima vacilação, atira com uma pergunta à qual não se quer responder. Por isso, aguardou o tempo necessário para que retomasse a sua circulação independente, livre da companhia dos filhos, do marido ou da empregada. Uma manhã, abeirou-se da loja Belmoda, rodando a montra envidraçada, de contorno redondo sobre o passeio. Via-se do outro lado do vidro, camuflando-se, por vezes, na imagem dos manequins, que expunham os modelos de fatos, casacos, sobretudos, camisas e camisolas com padrões a contrastar, na parte dedicada aos homens. Discretamente, por detrás do balcão, o vendedor observava aquela mulher ali parada, analisando ao pormenor cada peça de roupa exposta. Tinha um ar cansado, a pele muito branca, trajava de escuro e possuía uma vincada tristeza no rosto. – Deve ter perdido algum familiar! – pensou ele. - Bom dia! – disse Angelina logo que entrou na loja, deitando um olhar deslizante ao empregado, que logo se abeirou dela. - Muito bom dia, minha senhora… Em que posso ser útil? - Quero comprar um fato de homem, preto… - Ora… preto… – o funcionário largou o sítio próximo da montra e dirigiu-se a um expositor onde algumas dezenas de peças pendiam, guardadas meticulosamente nos sacos de plástico para não se engelharem. – O homem é jovem ou maduro? Sabe o número que veste? – indagou o balconista, levando uma vara com uma forquilha para baixar um dos fatos expostos. - Um homem médio… Um fato preto. Não importa o preço… Tem de ser preto… - Ora bem… Preto, tenho aqui este, mais este, este de cerimónia, aqui mais para inverno… este… – e ia cobrindo a tampa do balcão com imensos conjuntos de tecidos diferentes. - Não precisa de mostrar mais, por favor. – ordenou Angelina, resoluta. – Levo este, aqui! – e pegou na cruzeta, segurando-o. O balconista ia perguntar se queria escolher uma camisa, mas Angelina disse: - Não é preciso. Este homem tem imensas camisas por usar! Com modos suaves e muito delicados, o fato foi embalado pelo funcionário de modo a que a compradora o pudesse transportar sem dano. Em casa, escondeu a compra ao fundo de uma cómoda onde ninguém mexia, junto de lençóis bordados, xailes antigos e outras roupas guardadas como lembrança. Deitada ao lado do marido, porém, tinha a sensação que ele podia ir a qualquer momento abrir a gaveta e ver aquela indumentária de tamanho desadequado
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ao seu corpo, a cheirar a tecido nunca usado e massacrá-la com perguntas, que acabariam, por certo, de levar à desconfiança de um amor clandestino. O maldito do relógio tiquetaqueava mesmo por cima do móvel, com estridente som enervante, parecendo quedar-se a qualquer momento para chamar alguém para lhe dar corda. - Tu não dormes, mulher! – cortou o marido, voltando-se para o outro lado. - Deve ser dos remédios, mas tenho pouco sono! – disse ela, tentando dar à voz um tom cansado. - Parou o relógio! Vou dar-lhe corda… - Não, deixa estar! Eu vou beber um copo de água e faço isso! – respondeu Angelina mais voluntariosa. Abriu a torneira, encheu um copo, mas nem uma gota meteu à boca. Se sede tinha não era de água, mas de combinar a data de entrega do maldito presente com que saldaria a fortuna trazida pela lotaria. Dirigiu-se depois para junto da cómoda, levando consigo o copo cheio de água, que pousou sobre o tampo do móvel. Levantou o despertador, voltou as pequenas roldanas para si, rodando a chave que daria a corda necessária para o aparelho funcionar umas horas seguidas sem se esgotar. Olhou com a atenção para o mostrador, hesitando se o punha a despertar ou se não. Faltavam cinco minutos para a meia noite e, pensando bem, não tinha qualquer plano para o dia seguinte, por isso, o que precisava mesmo era de dormir um bom sono profundo, que a aliviasse da tensão das lembranças que a assustavam e daquela espera da mensagem. Se fosse alguém a quem se pudesse telefonar ou, noutra situação, tivesse uma morada! Mas agora começava a achar que o cauteleiro foi uma invenção sua, que se lhe tivesse tocado talvez as suas mãos não tivessem encontrado matéria física que as segurasse. No dia do encontro que levou à aquisição da cautela tudo lhe pareceu muito normal, exceto a persistência do homem cuja força a levou a gastar o pouco dinheiro que tinha consigo. Só agora começara a pensar que ele talvez nem fosse um homem, mas sim um espírito errante e persuasivo que a escolheu para um ofício bem difícil. Lembrava-se da sua expressão facial estática à qual não dera nenhuma relevância no momento em que se aproximaram. Viu, mas não fez qualquer reparo, que o bilhete se cortava do cartão onde estavam os restantes, sem que as falanges das mãos do indivíduo se tivessem dobrado. Agora as imagens do sucedido entravam-lhe na retina e, com elas, podia aferir que estava perante uma sucedânea de estranhezas que, ainda por cima, não podia revelar a quem quer que fosse, sob pena de a julgarem louca ou feiticeira, ela, Angelina, mulher temente a Deus, resignada e de poucas falas. Ali à volta do relógio, sentia uma espécie de calor vindo do gavetão, o último a contar desde o soalho. Imaginava duas mãos a saírem sorrateiramente pela frincha da gaveta, a tocarem-lhe as pernas, fazendo-a assustar-se, dando um grito medonho que alertaria o marido já meio aturdido com o sono, de pálpebras
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cerradas, à sua frente, na cama. - Leva-me o fato, junto ao Senhor da Pedra, durante a lua cheia de dezembro. – Sussurrou uma voz muito baixinho, tão subtilmente que Angelina pensou que tinha pousado dentro dos seus ouvidos para chegar mais rapidamente à sua mente. - Onde estás? Onde estás? – perguntou ela, nervosamente. - Junto à capelinha… Lua cheia de dezembro. Não te esqueças! – repetiu. Angelina olhou para o copo de água em linha reta, de cima para baixo, e uma pequena imagem do rosto do cauteleiro estava estampada na água como por encanto. Os dentes enormes, irregulares e afiados, tocavam as bordas do vidro com um sorriso sarcástico e desafiador. Arregalou os olhos perante o espanto do que via, limpava as mãos transpiradas nas ondas da camisa de dormir, passava-as pela testa para calcular se o estado febril era quem lhe provocava aquela terrível alucinação, mas a figura disforme lá estava, espreitandoa e derrubando toda a sua incredibilidade. Fixou-o bem, voltado para si, com o sorriso sádico e penetrante até aos limites do círculo modelado pelo recipiente. Fitava-o, embora toda a tremer. Ele tinha os olhos como precipícios fitos em si e, por mais que se desviasse, aquele olhar de posse e de domínio seguia-a como a sua sombra. - Não te esqueças! Não te esqueças! Não te esqueças!... Angelina estremeceu! Nunca os seus olhos viram semelhante coisa! Bem tinha pensado que aquele cauteleiro não era um homem vulgar, de carne e osso… Como pudera não ter visto logo a sua natureza? Como fora capaz de negociar com o ele? Agora queria a sua alma em troco do conforto material que lhe proporcionara. Queria o fato numa noite de Lua Cheia… O pavor invadiu-a, mas não podia gritar, não podia dizer que tinha um intruso a dominá-la dentro de um copo de água, a requerer que saldasse a sua dívida com aquela boca toda escangalhada, completamente dono da situação inegociável. Isso fê-la apressar-se e, devagarinho, voltou a meter-se na cama, achando algum conforto na presença do marido. Se estivesse sozinha acreditava que ficaria muito mais nervosa, gritaria, acordaria toda a família, mas assim emudeceu e, enroscando-se junto dele, esperou o sono que tardou em aparecer, mas acabou por lhe trazer alguma trégua no meio daquela aparição aterradora. II Nos dias seguintes, mal o sol desaparecia, Angelina vigiava, a partir da janela, a Lua. Primeiro parecia
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um pequeno filamento de luz que espreitava pelo meio do arvoredo, mas lá se ia erguendo, mostrando cada noite a sua face mais redonda em pleno Quarto Crescente avançado. Estava desejosa que o astro noturno se apresentasse cheio para se poder dirigir ao lugar combinado com o falso cauteleiro para lhe entregar o fato. Porém, aquele frio gélido que a cercava, quando nisso matutava, fazia-a recear. Era uma temperatura cortante, glaciar, que entrava em si sem pedir autorização, acelerando-lhe o ritmo cardíaco e descoordenando-lhe a respiração. Os olhos pareciam saltar-lhe das órbitas numa desorientação que a cegava e fazia perder-se pelas divisões da casa. Ele, o dono daquele semblante que lhe apareceu na água do copo, podia estar a vigiá-la a partir de qualquer fenda, atrás de qualquer móvel, entre os interstícios mínimos das coisas que a rodeavam e essa lembrança só por si provocava-lhe uma aflição, uma agonia, que não desejava aos os seus piores inimigos, se os tivesse. Sentava-se na cama, dobrada sobre si, cerrando as pálpebras para que a maldita imagem não pudesse voltar a entrar-lhe pela retina. Apetecia-lhe gritar por ajuda, mas todos viriam de sobressalto, parariam frente a si, cochichando, dizendo que adivinhavam que aquilo estava para acontecer, pois andava estranha, macambúzia, rondava as janelas como quem vai enlouquecendo à espera que a própria loucura aparecesse de corpo inteiro ao portão da casa e, depois, a arrastassem para o psiquiatra, que pararia ao seu lado de braços cruzados e havia de querer que lhe contasse o que jamais estaria permitida a dizer a alguém. Não, não gritaria, por isso. Vigiaria a chegada da Lua Cheia e, entretanto, arranjaria uma forma de sair de casa para levar o presente ao vigarista que a não deixava em paz. Podia pedir a alguém que a acompanhasse. Entregar um saco com qualquer coisa dentro não era nada que causasse grande suspeita, principalmente tendo sido ela uma mulher habituada a carregar pesos para casa e da casa para onde fosse preciso. O problema agora era o dinheiro que chegou e a transformou numa flor de estufa, com empregada em casa para fazer os serviços mais pesados e impróprios da senhora em que se tornara. À mesa, durante as refeições, sentia-se permanentemente vigiada. Havia um silêncio pesado, que acentuava o tilintar dos talheres a buscar a comida aos pratos. Por vezes, até a mastigação de qualquer um ressoava como um eco que se deixou escapar por uma divisão vazia. - Está tudo bem, mãe? – perguntava Rosa, a filha mais nova, parando para olhar a progenitora, trazendo muitas perguntas nessa questão única que lançava. - Sim. Por que não havia de estar? A sopa está demasiado quente e tenho de dar tempo a que arrefeça… - É que me parece muito pensativa… – acrescentou a filha. - Sim, perceberás quando, um dia, se avizinharem as festas de Natal e eu e o teu pai já cá não estivermos e cada um dos teus irmãos estiver distante, a cuidar das suas vidas…
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- Eu já entendo isso, mas acho que não devia pensar nos que já partiram… Toda a gente morre, tem de ser… - Isso é verdade… Mas esta época do ano não é boa para quem tem saudades. É o tempo da família toda e… - Ora, mãezinha. Tem-nos à sua volta. Agora nada nos falta – casa boa, comida, empregada, dinheiro… – enumerava a jovem, não descolando, nem por um instante, os olhos do seu rosto. - Tenho andado a pensar que gostaria de oferecer umas coisas a alguns vizinhos, agora que a vida nos corre melhor… - Acho uma excelente ideia! E eu posso ajudar-te… - Então está combinado. Mas só uma coisa: vamos apenas nós, não precisamos de dizer a todos cá de casa sobre este nosso propósito… O próprio Cristo aconselha a que a caridade seja discreta, de poucas falas, ao referir que não saiba a mão esquerda sobre o que leva a direita… - Percebo o que queres dizer. – Assentiu a filha, obediente. - Como os dias são curtos, aproveitaremos o fim da tarde, o lusco-fusco para sair. É a hora em que as pessoas regressam a casa dos trabalhos e poderemos encontrá-las com mais certeza. - Está bem, minha mãe. - Tratarei de tudo. Amanhã é a Lua Cheia de dezembro, é o dia ideal para começarmos, porque o Natal está já aí. Toda a noite Angelina velou. Em raros momentos, o espírito, deixando-se guiar nas subitâneas sensações do sono a que resistia, contrariada, perguntava a si mesma o que aconteceria depois de pagar a dívida ao cauteleiro e se este era alguém de carne e osso, tal como o vira no dia em que se encontraram na rua, ou se criara uma invenção provocada pelo peso da culpa. Fosse o que fosse, estava decidida. Tinha o fato escondido no mesmo sítio. Seria fácil metê-lo num saco, no dia seguinte, fingir, perante a filha, que era uma peça usada que ia fazer jeito a um vizinho e acabar com aquele martírio que a havia torturado e transformado a sua vida num grande pesadelo. A Lua resplandecia sobre a linha que separava o céu do arvoredo, prometendo dar boa claridade à noite que chegara cedo, vencendo a grandeza dos dias com o seu manto de negrume, ainda a meio da tarde. Essa vantagem de tempo e de cenário improvisado pela natureza traziam-lhe algum conforto, porque não teria de se confrontar com outras perguntas que pudessem gerar suspeitas sobre a sua saída para visitar os pobrezinhos. A distribuição correra como planeado e, neste momento, só restava um saco estreito, leve,
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meticulosamente composto e arranjado. - Onde vamos agora? – perguntou Rosa, lançando um olhar questionador também para o presente que restava na mão da mãe. - Vamos ali junto à Capela do Senhor da Pedra. Preciso de agradecer a generosidade que me foi dada pela sorte grande… - É noite, mãe. O mar é sempre perigoso… – advertiu Rosa. - Faz algum luar e ainda é cedo, apesar de escuro. Vamos. A certa altura, enquanto caminhavam pela Praia de Miramar, mãe e filha, abrandaram um pouco o passo, olhando com minúcia para a água abundante que batia contra as traseiras da capela, espumando-se toda, como se naquele encontro uma fúria perversa rebentasse nos muros e, em cascata, a água escorresse numa impaciência apressada e, em pequenos fios, lá descesse outra vez de encontro ao oceano. Angelina disse à filha que se quedasse um pouco pelo areal, que ali esperasse, pois o que ia fazer tinha de ser ela sozinha, sem companhia, sem voz avisadora que a impedisse de fazer a entrega do merecido presente. Assim foi. Rosa ficou como uma estátua vigilante a meia dúzia de passos da capela, enquanto a mãe se ia aproximando do lugar onde um pequeno lanço de escadas lhe ofereciam o miradouro de rebentamento das ondas. Observou, naquele momento, que o homem lá estava, encostado ao muro que circundava o edifício, erguido naquela solidão do areal, entre os uivos do mar e os silvos dos ventos. Surgiu-lhe à mente que devia ter caído do céu numa noite de temporal, estagnado ali quando se deparou com a indecisão de pertencer à água ou dar-se à terra. Assim, na linha de transição, oferecia-se às multidões como um umbigo maternal, ponto de salvação e de meditação nos momentos de tormenta. As ideias que a cabeça vai buscar para se desviar do perigo! Porém, via um vulto humano, atingido por alguma luminosidade do luar, que, entretanto, se erguera majestoso e nele se refletia, dando-lhe uma dureza semelhante a uma estátua de cobre, fria, circunspecta, sobretudo voltada para si, alheia a tudo o resto. Angelina começou a subir as escadas devagarinho, até ganhar força para balbuciar: - Estou aqui! Estou aqui! – dizia, tremendo, sentindo que a sua voz chegaria aos ouvidos do cauteleiro, que tudo costumava escutar e ser pronto nas suas respostas. E não se enganara. - Vem cá! Traz-me aqui o fato! – sussurrou numa estranhíssima voz o vulto, começando a deslizar para trás, ignorando as rochas e parando, de novo, quando já estava mergulhado, na água, até à cintura, a seguir ao morro de suporte da capelinha.
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Angelina estremeceu, mas sabendo que os momentos de batalha não são dados a planificações, cortou rapidamente a distância na sua direção, aproximando-se da tenebrosa figura de homem que a fitava no meio das ondas. - Está aqui o fato que pediste! Toma-o!... – Gritou a mulher, contando que a sua voz não fosse alterada pelo marulhar intenso da água. - Tens de mo trazer aqui. – ordenou o cauteleiro. - Não posso. Molho a minha roupa… Não posso! – argumentou Angelina. - É aqui que mo deves entregar! - Não quero ir, já te disse, não sei nadar. – justificava-se a mulher, ainda estática no mesmo lugar. - Vem! Traz-me o fato. O fato é meu e deves trazê-lo onde te ordeno. Angelina, num impulso, começou a entrar na água. O chão era muito irregular e viscoso. Havia calhaus redondos onde não encontrava equilíbrio e lhe era muito difícil dar novos passos. A água enroscava-se-lhe nas pernas com força, deixando-a com os pés sem poiso. Desequilibrava-se, mas prosseguia, obedecendo cegamente à voz: - Traz-me aqui o fato! – continuava a ordenar a figura negra que, à medida que Angelina se esforçava para o atingir, ia recuando contra a corrente, ganhando distância entre a mulher que sentia a água a cobrir o seu corpo, a força a diminuir e os dedos a desprenderem-se do saco onde levava o fato. - Traz-me aqui o fato… aqui… aqui… – repetia incessantemente o vulto. Angelina impôs algum balanço no braço e atirou-lhe o fato na sua direção. Rosa, na praia, gritava pela mãe. Num instante, esta não era mais que uma cabeça na tona da água e o mais que via era um saco de plástico a boiar ao lado dela, indiferente, em rodopios ao sabor da corrente que embatia na mulher completamente indefesa perante aquela força medonha que a aniquilava ao mesmo tempo que tentava esbracejar em movimentos aflitos, gritando, gorgolejando, emergindo na água e desaparecendo como um trapo desorientado ao sabor do vento. Uma onda fortíssima embateu contra a mulher e, por entre a perceção que estava a entrar no abismo, sentiu o tecido do fato a atingir-lhe as pernas com uma violência que a queimava e, envolta naquela impotência, sentiu-se arrastada pela corrente até ao areal. Rosa correu foi ao encontro da mãe, gritando por socorro, mas via apenas um imenso espelho prateado deixado pelo afastamento súbito da água, um fio de luar a servir de lamparina e o rosto desfalecido da progenitora. Ofegante, numa angústia que se debatia com a necessidade de a salvar, reparou que por dentro da
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roupa colada ao corpo, um coração ainda batia. Buscando num lugar que desconhecia toda a força que foi capaz de reunir, elevou o tronco do corpo da mãe até ao seu peito, chamando-a, abanando-a para que reagisse. Mas o que sobrou daquele incomensurável esforço, escorria no areal, em som lento, indiferente ao horror que abraçava ao seu pequeno corpo. Rosa não sabe como explicar. Outros braços devem ter chegado junto de ambas e moveram os de Angelina em seu redor, que não desviou um segundo que fosse o olhar para outro sítio senão o rosto sem vida daquela que lha dera. A morte chegara sem hesitar, cercando Rosa, que estava dentro da voragem, entre a rigidez da matéria que fora a sua mãe e o pavor da impotência que a assomava. Aqueles membros superiores tinham, porém, uma força exagerada, tornaram-se uma prisão que a impedia de sair daquele lugar e correr por ajuda no povoado, ali quieto, debaixo dos lampiões que iluminavam as ruas, as vozes soltas dos que tinham chegado a casa tocados pela noite. Ninguém pensaria, se visse, que as sombras que se debatiam no areal eram uma coisa só e não a divisão entre a vida e a morte, o repouso e o horror, a altura e o abismo. No dia seguinte, enquanto os sinos de São Martinho de Além badalavam o anúncio da partida de Angelina e as pessoas, incrédulas, iam dizendo umas às outras os pormenores em que a morte se deu, numa rua do Porto ouvia-se uma voz elevada no burburinho: - Quem quer os milhões que hoje andam à roda, quem quer? São milhões nestas cautelas, quem quer comprar?
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Uma tarde de porquês Teresa Portal
Lança os porquês. Espírito ávido de conhecimentos, incapaz de permanecer parado, aquele olhar azul passeava hesitante entre o pai que respondia ao questionário monossilabicamente e eu que escrevia num bloco de notas, na mesa de café ao lado. Um local bizarro para escrever sem ser a escola. Ouvia o diálogo que atingiria as proporções do absurdo, como sabia. Que saudades da época dos porquês! Deem-me crianças mais versáteis, mais meigas, mais birrentas, mais desobedientes… para quem somos deuses que podem e sabem tudo e bruxas horrorosas, capazes das piores atrocidades. E ora obedecem como anjinhos ora protestam com birras. Trovoada curta! Passa depressa o temporal e a alegria regressa. Quando crescem, personalidades formadas, o caso é diferente. Somos os “cotas”, com prazo de validade expirado. O conflito de gerações agudiza-se até nova época de bonança em que, avós, já tomamos conta dos netos. Distraída com as minhas reflexões, só o vi quando sem pruridos se sentou na cadeira. “Posso?” interrogou ansiosamente. A conversa começou com a escrita. “Que estás a fazer?” «Estou a escrever”. “Porquê?” “Porque detesto estar parada”. “Estás a tomar café!” “Já estive. Agora não faço nada, escrevo”. “Sobre quê?” “Tudo”. “Porquê?” “Uma forma de me ocupar”. “A escrever?” “Sim, tu não gostas de escrever?” “Não. É muito difícil. Mas adoro inventar histórias”. “Então, vais ser escritor”. “Talvez”. E perdeu-se num futuro que se lhe afigurava demasiado distante. “Que escreves?” “Histórias, crónicas”. “Que é isso?” “É um texto para um jornal e…” “Escreves para os jornais?” “Sim”. “Então és jornalista!” “Não. Sou cronista. Gosto de colaborar com os jornais com textos de opinião”. Lançou-me um olhar curioso. “Que fazes?” “Sou professora”. Estacou. De súbito, vislumbrei no seu olhar nova desconfiança. “De quê?” A curiosidade regressara àquele rosto. “Professora de Português”. “Oh!” A interjeição em tom pejorativo originou a minha provocação. “Oh, porquê?” De novo desconfiado. Preferia perguntar. Encolheu os ombros. “Gosto mais de Matemática”. A frase era uma granada; inesperado o resultado. Reagi com uma gargalhada, atitude insólita. “Ótimo! Eu também 711
gostava”. “Gostavas?” Estava sinceramente espantado. “Quem te disse que o Português e a Matemática têm de ser inimigos?” “Dizem que não se pode gostar das duas”. “E tu achas que é assim?” “Não. Eu sempre gostei de ambas…” Não acabou o pensamento... As ideias preconcebidas baralhavam-no. Por que razão amar a língua havia de significar o ódio à Matemática? “Ambas são linguagens, utilizam símbolos e procuram tornar o mundo percetível aos homens”. A frase saiu-me e observei o esforço que fazia para compreender. Catraio esperto. “Já viste que a Matemática e o Português estão presentes na tua vida? Eles são amigos inseparáveis”. Deu uma gargalhada luminosa. Sentia-se livre. Baixinho ajuntou: “O meu pai diz que as letras são tretas, a Matemática é que presta”. Fiquei furiosa; não era o único. Tantos seguiam Cursos de Ciências, pois as letras eram para os “burros”, passe a expressão. Esperava uma resposta forçosamente diplomática: “Quando o teu pai te falar assim, pergunta-lhe como é que adquiriu os conhecimentos que tem e que presumo que sejam…” Suspendi a frase e ele completou: “Engenharia Informática e a minha mãe é Obstetra”. Maravilha! Um pequeno cérebro minado desde bem cedo. Depois vinham os traumas! Não podiam crescer sem angústias pois envenenavam-lhes a vida desde e infância! As crianças têm de ser felizes e de se sentirem livres para estudar, para seguirem as suas inclinações sem terem uma bruxa a dizer-lhes que o caminho está minado. Os adultos fazem da juventude um bando de angustiados que se recusam a crescer. Cada jovem tem de lutar com as ferramentas que adquiriu, a sua garra, a sua força de vontade e a sua criatividade. A vida não é fácil para ninguém, muito menos para os que se recusam a enfrentá-la. Fala-se em destino; falta dizer que ele é traçado pela mão de cada um.
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Era medonha a noite46 J. A. Salgado Almeida
Era medonha a noite daquele tempo. O toque das trindades, tinha algo de sobrenatural. Era o aviso, que alertava para a chegada das trevas. A partir daí, as coisas medonhas ficavam à solta. Umas visíveis, outras, as piores, nem vê-las, mas que andavam por ali, ai isso andavam… Primeiro o crepúsculo, e logo, os morcegos com asas do demo, surgiam vindos do nada. No entanto, a catraiada até lhes achava piada. Apreciávamos a destreza com que os ratos voadores volteavam e se desviavam dos obstáculos. Quando tínhamos areia à mão, o arremesso dispersava e confundia as criaturas. Depois, o manto da noite calava as vozes ariscas e, no silêncio, o pio das corujas arrepiava. -Vai morrer alguém, que adivinham a morte! No estio, a cantinela estridente dos ralos entrava na noite, para depois dar lugar ao trinar dos sapinhos. Eram estes, sons estranhos, metálicos, mas não arrepiavam. Por vezes, um lúgubre chamamento ouvia-se no escuro. Vim a saber serem raposas. A cãozoada quando se lembrava, tomava conta da noite, ora ladrando, latindo, uivando. O uivo metia medo… era presságio. Mas o pior, era o silêncio, já que as coisas ruins, não tinham corpo. O silêncio, era o último a chegar. Era denso o silêncio, se calhar, feito de matéria negra. Quando tal acontecia, tudo se calava e encolhia, não fossem as coisas apossarem-se de nós. Sim, apossarem-se. É isso mesmo. Essas coisas do outro mundo, por isso, sem corpo, apoderavam-se de quem se arrepiava. Eram os possessos, as pobres vítimas. Uns, tinham o diabo, outros, por fatores que não o arrepio, corriam o fado, feitos bichos, conforme o último animal que se espolinhara no local onde se ia deitar a criatura amaldiçoada. Em noites de lua cheia, 46
Extrato do livro a publicar.
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corriam montes e vales, sete fontes, sete pontes, sete portelos de cão… As encruzilhadas eram local de defumadoiros, que serviam para quebrar o fado. Melhor que isso, só um ferimento que sangrasse o mutante. De todos os bichos, o que me metia pavor, era o cavalo, porque gatos, cães ou galinhas, nem por isso me apoquentavam. Aliás, encarnar em galinha, era o pior que poderia acontecer, já que a pequena criatura nunca mais terminava o longo calvário, com a agravante de não chegar ao termo, pois raposas não faltavam. Pelo que me contavam, até o meu bisavô, o Rodrigues, correu o fado. Era cavalo. Quanto a mim, ia mas é de cavalo paro fado. Tiros no Lobisomem A verdade é que de noite, tudo causava arrepio e a cada passo, o galope da medonha criatura era audível, diziam… Nunca ouvi nem avistei a coisa, mas nas noites de lua cheia, vi figuras estranhas projectadas que se agitavam, despoletando a inquieta imaginação de criança. O pavor das sombras era comum a todos, velhos e novos, finos e pataratas. O meu avô, antes de ter a benda, foi mestre de uma pequena empresa têxtil, para os lados de Covas. Nesse tempo, não havia estradas, apenas caminhos estreitos e sinuosos, que num sobe e desce, ligavam lugarejos, por entre campos e matagais. Na ocasião, falecera um familiar do patrão e por via disso, o Sr. Almeida ficou no velório, pelo que o regresso a casa foi a altas horas da noite. Carramão, ficava a mais de uma hora de estugada caminhada. O percurso era ermo e feio, muito mato e arvoredo. Sítio de bichos bravos e daquelas coisas que só aparecem de noite. A lua cheia, facilitou a caminhada, deixando ver melhor o caminho.
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No entanto, noite de lua cheia, era propícia a lobisomens e demais criaturas do demo. E o avô Almeida sabia disso… Até Santo Amaro, o caminho tinha casas, bairros e casebres. Depois, eram as sombras, os bichos e as outras coisas. Descia até à Devezinha do Pé, uma quinta erma como todas, para voltar a subir, passando perto da do João do Monte e, dali, era pinhal e mata, descendo e subindo até aos campos de Candoso do Meio e de Cima. A partir dali uns lugarejos tornavam menos solitário o caminho, que sempre a descer levava ao Carramão. Contudo, para atalhar distância, os mais corajosos cortavam caminho perto de Sezim e seguiam por mais altas cotas, meia encosta, passando pelas Fontaínhas, sítio isolado, metido na dobra do monte, e dali outra subida por péssimo caminho, de pedregulhos e córregos, até à Teixeira, o lugar cimeiro de S. Martinho de Candoso. Ali, estava a capela de S. Bartolomeu, que guardando o diabo, aliviava temores. Depois, era sempre a descer por matagais e caminhos de cabras até Cardido. Dali a Carramão era um instante, e plano o trilho. Já ia para lá do João do Monte o Sr. Almeida, alguns pios agoirentos e o ladrar dos cães do lavrador à passagem pela quinta ecoavam na escuridão. Das coisas da noite, felizmente nada, e o caminhante mantinha acelerado o passo. Ora, dado o adiantado da noite, o caminhante, meteu pelo caminho das Fontaínhas. Ainda ali não chegara, quando o homem estaca, cabelos arrepiados, olhos esbugalhados. Um vulto enorme barra-lhe o caminho. Não se deixa intimidar o Sr. Almeida. Primeiro estuda a coisa, que silenciosa se mexe à sua frente. Decididamente não é coisa de cá, pois aquilo não se parece com nada, mas que se mexe, ai isso mexe. Será lobisomem?!... Uns brados de intimação, ferem a noite, e a coisa não reage. Para trás é que não vai e para o lado também não dá, que o matagal não deixa. Mas o Mestre era homem prevenido. Resoluto, saca o pistolão do casaco, aponta e dispara, um, dois, três, todas as balas do tambor e, a criatura na mesma. Era mesmo coisa do outro mundo. Por isso, sem corpo, sendo apenas assombração. Benze-se o crente e num ímpeto irrompe, investindo contra a coisa. Miraculosamente, passa. Chegou bem mais depressa a casa o Sr. Almeida. No dia seguinte, à luz do sol, o corajoso voltou ao local e lá estava a impávida criatura. Realmente não tinha corpo a sombra do sobreiro projectada no caminho.
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Luta com a Bicha das Sete Cabeças Sambade ficava logo abaixo das Fontaínhas, na continuação da dobra do monte, no outro caminho, por onde o mato dava lugar a campos de cultivo. Esse era sem dúvida o caminho mais fácil, no entanto, se ainda agora é ermo, naquele tempo era tenebroso. Regressava o meu avô de mais um dia de trabalho. Tardou a saída por via de uma avaria num tear de pau. Não sendo adiantada a noite, a verdade é que o negrume era intenso e, lua nem vê-la. Por isso, o caminho foi por Sambade. Tinha acabado de curvar o terreno deixando o monte para trás. Pela frente eram campos e depois os casebres por onde tremeluziam foscas luzes de candeias… Mas Sambade era sítio escuro e mesmo de dia, sombrio, onde o sol de inverno não tinha cabimento. Contudo, de tantas vezes ali passar, o caminhante até de olhos fechados não tropeçaria. Tropeçou o Almeida. Algo se emaranhou nas pernas. Levanta-se o caminhante para logo tombar, que o chão estava repleto de coisas rasteiras. O homem mexia-se e as criaturas agarradas ao corpo acompanhavam os atabalhoados movimentos. Por mais que abrisse os olhos a escuridão era opaca e o homem rebolava, levantava-se e tombava. Quanto mais se debatia, mais as coisas o abraçavam, tolhendo-lhe os movimentos. Aquilo, devia ser uma bicha de sete cabeças, pensou atarantado. Até porque, Cabeças, é nome de quinta não longe dali. Num desespero, saca o pistolão e aí vai disso. Dispara às cegas, para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo. Fica parado. Um silêncio de morte enche a noite. - Já estás morta, bicha maldita!! Disse por fim. Calmamente, passa por cima do cadáver de sete tentáculos, e retoma caminho. O resto da viagem decorreu sem mais incidentes. Na manhã do dia seguinte, o Almeida voltou a passar por Sambade e lá estava a mortandade. Não era uma bicha, mas muitas as coisas ali prostradas. No meio do caminho, as videiras por plantar, aguardavam que o lavrador de Candoso do Meio, as metessem nas covas.
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A Cigarra e a Formiga Álvaro Nunes
Naquele dia de verão, a formiga estava mais danada do que nunca! Estava farta de ouvir a vizinha cigarra! Para ser franca, e ao contrário do que contam certas fábulas, até gostava dos fretenidos da vizinha, geralmente em estilo hard-rock da pesada. Uma música estridente, era verdade, mas que sempre ajudava a suportar melhor o seu formigar formigueiro, sem parança, dias e dias a fio… Todavia, já era de mais! Sempre a mesma música, sempre mais do mesmo! Mas, desta feita, em tom mais dolente, num ritmo de fado à laia de Amália Rodrigues: “Assim deveria ser eu E não esta cigarra Que se põe a cantar E me deita a perder”
Realmente, todos os anos, pelo inverno, a cigarra batia costumeiramente à porta da formiga, perdida de fome, a pedir qualquer coisinha para comer. E sempre a formiga lhe matava a fome, mostrando-se sempre solidária, pois nunca fora o que se costuma chamar uma unhas- de-fome (quer dizer avarenta). Esta generosidade da formiga despertava dores de cotovelo (quer dizer ciúmes e inveja) por parte de muitos outros animais: - Que fosse trabalhar em vez de cigarrear! – crocitava a coruja. - É preciso ter lata! – zumbia abelhuda a obreira abelha, sempre a abelhar entre as flores e o cortiço. - Nem sei como a comadre formiga atura isto! – “Borboletava” a bela e vaidosa borboleta multicolor. Bem, o que é certo é que entre arrulhos e chilreios à chucha calada, grasnidos das rãs e regonguices da raposa, (quase) todos criticavam a cigarra pela sua vida despreocupada e libertina. E, por isso, todos juravam a pés juntos (tal como os antigos condenados pela Inquisição, que também eram atados com pés juntos até dizer a “verdade” conveniente), que jamais ajudariam animais preguiçosos como a cigarra, nem que isso lhes custasse os olhos da cara!
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(Diga-se em abono da verdade que esta expressão “custar os olhos da cara” já vem dos tempos da colonização espanhola da América, vejam lá! De facto, o explorador espanhol Diogo de Almagro perdeu, de verdade, os olhos durante um conflito numa fortaleza inca, no século XVI; e, desde então, esta expressão ficou até hoje, como sinónimo de dar tudo para defender algo importante).
Mas voltemos à história: Porém, certo dia, mestre Grilo, o vaidoso empresário musical daquelas bandas (pois nunca largava o seu smoking negro), ouviu a cigarra a cantar e levou-a a um casting televisivo. Ora, para espanto de todos, a cigarra “acigarrar-se-ia” como uma superestrela hard-rock! Como facilmente deves supor muitos dos animais ficaram grilados e acabaram por engolir sapos vivos por tudo quanto disseram. (Sim, esta expressão engolir sapos também tem história. Já vem dos tempos bíblicos de Moisés, e teria sido uma das 10 pragas do Egito, que permaneceu como sinónimo de uma situação desagradável, a suportar sem hesitações nem reclamações) Mas voltemos à história: Outros, porém, soltaram lágrimas de crocodilo, como fingidamente faz este réptil anfíbio, quando engole as presas. Quanto à cigarra, acabou por aceitar voltar à floresta para um concerto único e intimista, à borla, a pedido da sua amiga formiga. Acompanhada do seu macho, a quem divertidamente e erradamente chamavam do seu cigarro, ela e a sua banda cigarrearam emocionadas várias canções do seu último reportório, entre as quais esta, com refrão dedicado à sua amiga formiga: Assim deverei eu cantar E agradecer à formiga Todo o trato d’encantar Desta querida amiga.
Foi um delírio de gritos histéricos e até desmaios de alguns animais mais impressionados, como as joaninhas. E muita luz, em especial dos pirilampos, que fizeram questão de “incendiar” a noite. Moral ou morais da história? Fica(m) a teu critério…
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O frango do padre Miguel do Sul
O padre António era bem conhecido por toda a cidade, sobretudo pela boa disposição que sempre transportava, mas também pela curiosidade permanente em saber a vida “espiolhada” quer dizer “bem informada” como devia de ser. Um pároco de uma paróquia do tamanho de uma cidade a isso obrigava no seu entendimento do que seria o serviço a prestar aos paroquianos, por qualquer pároco que se prezava. O padre António* assim era e por isso, calcorreava as ruas da cidade para ir encontrando os cidadãos e conversando, ouvindo ou dando conselhos a graúdos ou a fedelhos que o conheciam muito bem, sobretudo pelas guarda-soladas que lhes oferecia pelo costado abaixo, quando não tinham ou lhe confessavam atos, atitudes ou pensamentos menos próprios. O padre António tinha duas grandes paixões. Alguns velhos dizem que eram três desde que passou a estacionar a maior parte do tempo junto à frutaria da antiga rua do 31 de Janeiro, hoje Rua Nova de Santo António. Vamos às duas primeiras que serão mais verdadeiras porque públicas e testemunhadas. O padre António gostava de “ver a bola” ser jogada no campo do Benlhevai e que depois se passou para o Campo da Amorosa. Em domingos de futebol do Vitorinha, lá estava ele de umbrela na mão, nervoso a chamar medroso ao árbitro ou “valha-me nossa senhora” ao jogador Rola, Caiçara ou Edmur, quando falhavam a baliza porque a bola “não queria” ir lá para dentro. Então quando ouvia ao seu lado impropérios e palavrões, tratava logo de chegar-se para o pé do gritante e logo que acabasse de gritar a frase completa, desancava uma guarda-solada no lombo do autor. Ante a dor, espanto e admiração da vítima, tratava de declarar: - Não podes, melhor, não deves gritar dessa maneira impropérios e palavrões!!! Depois, continuando a mirar o jogo da bola, em momentos difíceis desancava no vizinho novo par de guarda-soladas, que eram logo, logo bem explicadas. - Pois chama-lhe tu “corno e filho da puta, paneleiro e cabrão” que eu não posso!!! Logo vens ter comigo 719
e serão todos perdoados!... O segundo prazer será mais luxuriante melhor dizendo, epicurista, quiçá menos conhecido... No fim dos jogos, quase sempre, mas em domingo de S. Gualter pela certa, o padre António dirigia-se à Rosinha da Ramada onde estava aprazada a comedoria. Sozinho, sem interrupções, sentava-se na mesa do canto, esperando a chegada do tacho que, se atrasava, ele gritava para a cozinha: - Então, esse pito já está pronto??!!! Num ápice, o tacho era logo pranteado na mesa dele e logo se agarrava ao “pito” deglutindo todo, todinho … até lambia os dedos e, ao chegar ao fim dava um grande arroto de prazer, para quem queria ouvir e ver aquele “santo” homúnculo, recostado na cadeira depois de praticar o tal pecado da Gula! * Nota Esta é a foto do padre António, figura de reconhecido vitorianismo e dedicação a este clube desportivo. Cidadão correto e honesto, como lhe era reconhecido, terá protagonizado um episódio inédito que lemos numa publicação de 23 de outubro do ano de 1966 do saudoso Notícias de Guimarães que aqui recordamos: Em Assembleia Geral do VSC, acontecida no Teatro Jordão e com a presença de Abraão Sorin, diretor do Sporting, onde se reconheceu o prejuízo causado por este senhor ao Vitorinha. O padre António sobe ao palco e pede ao seu acólito que coloque a estola no pescoço do dito cidadão e perante todo o público de sócios do Vitória vai fazer o ritual de Excomunhão do senhor que era judeu. A assembleia ficou espantada pela ingerência da religião num ato profano, mas alguém terá comentado: - Cada um usa a sua fé conforme aquilo em que acredita!!! Neste caso, a paixão futebolística do padre António.
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Mãos que falam… Liberdade Rui Galiano
Embora o desafio fosse sobreviver, iões, protões, mangustão, bífidus activos, calcitrin, ninguém pára a solução, para mais, não sei poesia nem se o motivo é válido: por um lado, é porque algo me estala no sangue, por outro é porque só me serve para isso. Só há uma coisa melhor que um ovo estrelado… e essa é aquilo que cada um quiser... Até quando digo: bom dia, isso, sei, vai carregado de poesia, creio... se a poesia for o que eu sinto. Ou até quando chamo: filho de uma mãe estragada... isso leva poesia... há uma certa beleza que se espalha só de falar em poesia. E todo o lugar é lugar dessa fantasia. Estou agora na cozinha, apeteceme algo e olho e olho o monumento que é a certeza de baixar à mesa, tanta presunção. Podemos comer, desenhar, pintar, escrever, a vida está aberta como uma melancia, talvez como um melão, porque a melancia traz muito ímpeto e nem tudo é coração. Nem coração torrado. Mas também pode olhar-se a um simples amendoim, se bem que... um amendoim não se faz assim.… não com um estalar de dedos... cultiva-se, colhese, torra-se, compra-se, come-se e em nenhum momento, alguém pode dizer, ou se ouviu dizer que fez um simples amendoim. Um passarinho quer comer e não vai ao Continente... nem me coma os amendoins... não me mexam nos amendoins, assim falava zaratrusta. Isto é prosa? E se lhe meter uma rosa? Ainda não? E um beijo? E um ai antes do desejo e outro no fim? Caiu-me um ao chão. Sem espanto. Já está lá um no canto… Eu gosto de amendoins. Ainda não o apanhei. Tenho amendoins na mesa da cozinha, mas também há amendoins no Café. Mas os meus... da cozinha... ahh... Até o estalar… o ovo estrelado… é diferente, preenche. Os do Café não sei, mas os da minha cozinha, fazem-me lembrar a minha avó e as artroses nas suas belas mãos. Outro que me caiu ao chão... Acabei de almoçar, dá-me a sensação que o frango desceu, mas os amendoins... chegados à epiglote, viram para cima. Não sei quantos me vão cair, mas vão cair mais.... Caem quase por vontade própria. Como nós... Eu, caio de cair. Não quero, ou quero, e caio... Às vezes, de tanto cair, de tanto estar no chão a notícia é levantar-me, ou estar em pé. Continuo a comer e eles continuam a ver-me... Eles caem porque a ordem natural é eles caírem, assim são semeados (claro que não, na minha cozinha). Apesar disso, estes rebeldes, estão a ensinar-me o caminho... quando eu pensava que era o Belmiro... o dono dos amendoins… afinal era a Liberdade. O sentido das coisas está algures quando elas caem. Mesmo aqui à mesa, uma tablete de chocolate... Ainda não 721
apanhei os amendoins e não sei se vou apanhá-los. Nem sei se eles querem. Há quem diga que exagero no respeito aos amendoins. Nem que eu dissesse tudo dos amendoins, nunca diria o amor que tenho por ver a minha avó nesses fins. Vai uma cevadinha? Desafio o tremoço... E um dia, era eu um moço, e uma tia, numa
Desenho com vinho verde, café, bic cristal preta, papel/toalhete. by rui viana
aldeia, ordenou-me que fosse ao quintal de um tio que estava em França e fosse a determinado local apanhar tremoços. Fiquei surpreso, mas fui. Chegado ao local não vi rigorosamente nada que se parecesse com um tremoço. Ora eu vinha da Cidade e apenas conhecia aqueles smartis amarelo torrado. Procurei incessante mente os ditos cujos, mas nada…. Voltei a casa e disse à minha tia que não havia tremoços no local. Ela um pouco furiosa disse “anda daí” e fomos os dois ao mesmo local e apontando para um campo cheio de ervas secas, sequíssimas, disse-me: então, não há tremoços? O que é isto? Apontando para as ervas e virou costas 722
indo-se embora. Fiquei atónito…. Fui para o meio das ervas observar a Natureza estranha. Ao fim de algum tempo vi umas pequenas marcas esbranquiçadas numas ervas e foquei no invólucro. Pensei que talvez fosse aquilo. Como vou levar os tremoços? Levo a erva ou apanho as coisinhas? Levei as ervas num braçado e pousei-as sobre a masseira na cozinha de fora onde se preparava a Páscoa. A minha tia meteu os tais tremoços numa bacia e mandou-me ir buscar muitos mais. Durante três dias volta e meia ia ver a metamorfose… até aprender como aparecem os tremoços na Páscoa… ficaram gordos e grandes… que bonitos os meus tremoços… No entanto, nunca ninguém me mandou ir apanhar amendoins… mas eu sei o que é um coração torrado e outro estrelado. O nosso vinho vinhão é exclusivo do Minho e obra da Criação. O café, além do gostinho, acompanha com o vinho e água-pé. Uma bic e um papel, alambique e mel, café e vinho, aguarelas do Minho, alma e alegria, não tenho a certeza, procuro a beleza, sinto poesia. E nada disto havia, não fora haver uma coisa melhor que o ovo estrelado…
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GUIMARÃES NO CORAÇÃO Inserir separador
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Guimarães no Coração Guimarães é boa mãe e boa madrasta. Por isso, entre nós, nomes como Raul Brandão ou Santos Simões deixaram nesta terra seu amor à cidade e às suas gentes. Outros, porém, foram-se daqui pelas mais variadas razões, mas jamais esqueceram as origens que lhe corre nas veias. Estas páginas são, pois, um espaço de saudade e alegria de uns e outros sobre esta “terra de bem querer”, que bombeia no coração dos vimaranenses por nascimento e adoção.
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Guimarães – Os seus filhos e os seus enteados Equipa Redatorial
Sobre o título “Guimarães”, a Revista Magazine, separata do Jornal de Notícias, publicou, no passado dia 4 de junho de 2023, um artigo do escritor Valter Hugo Mãe, que evoca os tempos da cidade onde viveu, a que, por vezes, regressa. Escreve o citado autor, agora residente na foz do Ave, rio que liga os concelhos de Guimarães e Vila do Conde: “Quando era pequeno, ia a Guimarães junto do castelo como se fosse ver a Disney. O aparato da estátua de Afonso Henriques conferia ao lugar um aspecto fantasista, cinematográfico que me causava a impressão de viver uma aventura. Que aquele rei estivesse ali para sempre, a criar e a defender um país com ferocidade, era-me igualmente fascinante e assustador. Diante de uma fantasia assim, eu, como criança, media-me com a dimensão imaginária de um interlocutor daqueles. E se ele se movesse? Eu pensava. E se eu tivesse de me explicar, sem armas, diante de um homem que guerreou impiedosamente a própria mãe? A minha família vivia, àquela época, numa aldeia de Guimarães, pelo que íamos ao centro mais raramente a passear entre os citadinos mais aperaltados e cheios de nove horas. O centro era uma espécie de granito à espera, não se sabia muito bem de quê. Talvez um pouco como por toda a parte as cidades portuguesas se punham. Envelhecidas, esvaziadas, erguidas pela força natural da pedra, mais nada. Hoje, vamos a Guimarães e a Disney está cada vez mais polida. Arranjaram-se as ruas, ocupam-se mais e mais as casas, subitamente, já toda a gente quer estar no coração medieval do pais, estendem-se as esplanadas, está lindo o Museu de Alberto Sampaio, a Igreja da Nossa Senhora da Oliveira, a Loja do Júlio parece que ainda tem livros melhores, os doces em toda a parte a fazer festa na gula, cintilam flores em canteiros, há o Centro de Artes do José de Guimarães e as valências culturais ali de Vila Flor. Guimarães esperou na pedra mas levantou-se nas pessoas. Está habitada com brio. Passo pelas ruas e lembro de como esta e aquela casa estavam devolutas, sem ninguém. Como tenho uma alma toda de deitar raízes, sempre pensei em como poderia ser lindo viver aqui e viver ali. Cuidar de uma pequena casa, pendurar- -lhe uns quadros, regar também umas flores, fazer o meu arroz manhoso e chamar amigos que comam. Há muitos anos escrevi um argumento para um filme e quis que se passasse ali, nas casas medievais, digo, com as personagens a vive- rem dentro das pedras. Era modo de sonhar um pouco com isso. Com ser um vimaranense dali, da Disney. Quando o Rodrigo Areias filmou brilhantemente o meu argumento, num filme chamado "Surdina", um pedaço de meus sonhos, feitos de fascínio e susto, habitaram, e julgo que habitarão para sempre, as casas
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antigas de Guimarães. Somos todos partes compostas de um mapa amplo. A minha família, paterna e materna, é toda das terras de Guimarães. Ainda que um certo acidente de regime me tenha feito ir nascer em Angola e depois viver em Paços de Ferreira e Vila do Conde, quando chego a Guimarães parece que vejo do que sou feito por todo o lado. As pessoas, afinal, tantas delas, assemelham-se a mim, têm os mesmos olhos, o mesmo semblante melancólico, o ar de quem também temeu que Afonso Henriques se movesse furioso com a nossa coragem de chegarmos perto do seu castelo”.
Ora, Guimarães deixa de facto marcas indeléveis nos seus filhos, quer naturais quer adotivos, ou simples residentes de circunstância. Efetivamente, e ao contrário do popular axioma “de má mãe e boa madrasta”, colhemos opinião que, além dos seus naturais, Guimarães acolhe de forma mais ou menos inclusiva todos aqueles que por estas bandas se instalam e muitos são os que realmente por cá assentam arraiais. Como também os que saíram por vicissitudes várias e cá regressam esporadicamente, mas que não esquecem a terra e com ela mantêm vínculos e raízes. Recordamos, por exemplo, as dezenas de amigos ausentes que, religiosamente, nos visitam aquando das Nicolinas, particularmente no Pinheiro, no decurso das Festas Gualterianas, ou durante o Linhal da Corredoura e outras tradições, quer ainda em confraternizações de ex-militares quer noutras efemérides associativas, como recentemente o centenário do Vitória. Visitas que, muitas vezes, arrastam orgulhosamente excursões de vizinhos ou colegas de profissão até à cidade-berço, mostrando-lhes o que de melhor temos. De facto, Guimarães deixa sinais identitários e indestrutíveis quer nos seus naturais quer nos seus “enteados” e em todos que com espírito aberto vêm por bem. Basta lembrar, neste ano de 2023, ano de centenário de nascimento de Santos Simões, esse ilustre beirão de Espinhal, concelho de Penela, que por cá foi acarinhado, elegendo a cidade como a terra do seu “bem querer”. Uma terra na qual semeou cultura e deixou frutos suculentos do seu trabalho. Bastaria também evocar o portuense Raul Brandão, que por cá casou, viveu na Casa do Alto e foi sepultado, que refere a urbe vimaranense como a terra da felicidade. Com efeito, como manuscreve na carta dirigida ao pintor e amigo Rafael Bordalo Pinheiro, datada de 1898, na qual afirma: “Guimarães é uma cidade perfeitamente Idade Média, com palácios, igrejas e casas minhotas curiosíssimas (…) Os arredores, a paisagem, até nos dias de chuva são admiráveis. Lindas raparigas e vinho verde magnífico a cinco mil réis a pipa; acrescentando isto fica você percebendo que esta terra basta para a minha felicidade. Estou, portanto, contente. Não vejo à minha volta senão gente feliz, corada e palreira – e a alegria é, como sabe, comunicativa …”
Aliás, muitos escritores consagrados (tal como Valter Hugo Mãe) por cá passaram e deixaram escritas as melhores impressões sobre esta terra que pisaram. Camilo Castelo Branco, que por cá andou escondido
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da justiça pelo amigo Francisco Martins Sarmento, por acusação de adultério, escreveria: “Guimarães é a melhor terra d’entre Doiro e Minho que tudo parecem pomares e jardins muito frescos e aprazíveis à vista (…) Depois, o ar fresco do Toural e o sol, que tem belezas desconhecidas (…), as fragâncias da frondejante Guimarães em Junho, que fazem lembrar as alcovas perfumadas das noivas …”
Mas também os filhos da terra e vimaranenses por nascimento, como o crítico cinematográfico Joaquim Novais Teixeira, não deixariam de fazer sentir por esse mundo fora o seu apego telúrico à sua terra. Ele próprio o afirmaria no Teatro Jordão, no decurso de sessão em sua homenagem: “Guimarães tem sido sempre também uma das constantes da minha vida. Em toda a parte me dou a conhecer como homem de Guimarães. E, em toda a parte, me conhecem como tal. Quando alguém me pergunta se sou português, é do meu hábito – e da minha verdade – responder: Não, não sou português, sou mais do que isso, sou de Guimarães! Com efeito, sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães (…) a minha Pátria autêntica e forte é a Pátria da minha infância, é Guimarães!”
Ora, muitos testemunhos poderíamos elencar em prol de Guimarães, quer do povo de dentro quer vindo de fora. Porém e curiosamente, para além dos testemunhos, até as lendas de Guimarães revelam a força identitária das gentes vimaranenses, em particular por parte daqueles que partem. Basta lembrar a lenda do cutileiro e da boa água. Nós contamos: Guimarães é terra de cutelarias. Ora, para moldar e fabricar os talheres os artesãos cutileiros necessitavam de água. Conta-se que em certa altura um cutileiro de Creixomil emigrou para o Brasil e como era bom artesão arranjou rapidamente emprego numa oficina. Porém, o trabalho nem sempre lhe corria bem, pois, segundo ele, faltava a (boa) água de Guimarães, que era a melhor para moldar ferramentas e utensílios e temperar metais. Então, farto de ouvir o seu empregado queixar-se, o patrão mandou vir em segredo um barril da tal água milagrosa de Guimarães. Ora, quando o artesão mergulhou o ferro e aço na água daquele barril sentiu logo a diferença e percebeu que aquela água era da sua terra: a boa água de Guimarães.
Guimarães no coração é, portanto, a manifestação comum dos vimaranenses em vários tempos e condições.
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Crónicas de viver Guimarães pela mão de Conceição Campos Isabel C. Viana CIEC, Instituto de Educação, Universidade do Minho
Nota de abertura Esta evocação de crónicas surge em formato de conteúdo de agradecimento e reconhecimento do valor que constitui o facto de espoletar tanto fascínio o convite de mais um desafio de Osmusiké, ainda, perspetivado pelo prisma de aprendizagem e crescimento significativo que me proporcionou em diversas dimensões de viver Guimarães. Com a especial particularidade deste convite, a de traçar a forma como vivo a mudança de Viana do Castelo para Guimarães há 22 anos, a fazer-me interpretá-la humana, aliás, também com entendimento do humano como moda intemporal. Se pensar, percebo que devo acatar o que as memórias e os lugares que habitam ditam, mas também percebo que será complexo. É complexo ser obediente ao que ditam, em particular, quando interpreto ser de misteriosa beleza aquilo que me acontece, por exemplo, acontece que aprendi que a melhor aula da vida está aos pés de quem com tanta serenidade a interpreta; aprendi que, mesmo com pouco tempo, consigo fazer tantas coisas; aprendi a ler a espetacularidade da vida nos pequenos gestos diários; aprendi que, mais do que o momento, a qualidade desse momento é que nos engrandece e eleva no elogio à vida com cultura que nos liga à cidade e às suas gentes; aprendi pela mão da escritora, da poetisa Conceição Campos a melhor viver Guimarães, quem aqui gostava de homenagear, pois, de forma muito especial, para mim, é património imaterial desta cidade e do mundo, sendo ela também originária do distrito de Viana do Castelo. Constitui substância de referência, uma referência valiosa que nos molda, quer pelo legado de poesia, de literatura infantojuvenil que partilhou, quer pela professora e pela mãe coragem que foi e pela pessoa que foi e sempre será. Faz-me acreditar, ainda mais e de forma confiante, que devemos agir de feição a podermos ser referência no que somos e fazemos, para o que necessitamos de saber interpretar e descobrir referências que nos moldam e temer que, convencer-me de não o poder fazer, significa perda de uma ilusão com misteriosa beleza. Com tal visão e exaltação não se desenha nada simples impor-me o impulso de escrever tais crónicas, uma vez que não se trata de um impulso qualquer, trata-se de algo que, pensá-lo imediatamente, faz-me 730
sentir início de movimento sadio de vida e, ao mesmo tempo, gera sensação de perda valiosa, comprometendo o exacerbar da sensibilidade. Não é fácil, mas terei de organizar forma de agarrar a vontade de o fazer, tanto mais quanto também sei que preservo a alma se souber que me deixa em sossego ser capaz de o fazer. Nestas crónicas talvez se evidenciem mais contradições do que coerências, quem sabe se à procura de saber mais das complexidades da vida, como Saramago (2000, p. 26), em A Caverna, nos adverte: “Saberíamos muito mais das complexidades da vida se nos aplicássemos a estudar com afinco as suas contradições em vez de perdermos tanto tempo com as identidades e as coerências, que essas têm obrigação de explicarse por si mesmas”. Turbulências do silêncio de quem sou na transição de Viana do Castelo para Guimarães Neste esforço de escrever para compreender o que me aconteceu, descubro uma vontade de ir e a espera da vez de agarrar as sonoridades de um macio chão de estrelas, aquelas que estão presas ao calor da vida por fios invisíveis. No entanto, talvez mais não alcance do que registos de folhas de diário cego, embora a ambicionar apropriar como elucidário, que, efetivamente, o que vence é o que parece, nunca o que é, o que faz crescer em nós um silêncio curioso. Sabemos que o silêncio surge tanto como metáfora dos medos como da coragem e também pode indiciar tratar-se do fim do belo incerto. Com base neste entendimento, do que interpreto ditarem os lugares de memória, dada a ambiguidade e incerteza que atravessa o silêncio, mesmo até como expressão de sageza no uso do tempo, é uma dimensão que se corporiza quando em presença dos interlocutores, dos protagonistas da nossa história, ou se esfuma quando na sua ausência. O fio do silêncio é desassossego da comunicação, da vontade de aproximação através das palavras. No fio do silêncio com que iniciei sentir Guimarães, sabê-lo deixa-me confortável e inquieta pela perplexidade que me gera percecionar este fio de silêncio como quebra de corrente. Talvez seja um fio de silêncio a anunciar cessar o posicionar-me como alguém que vem de fora. Realmente, é absolutamente efémero aquilo que valemos e vemos pelo lado de fora, aquilo que move a importância ou até mesmo aquilo que julgamos afirmar com tanta arrogância de certeza. A minha persistência morre na cidade onde desejava um guarda-sonhos que soubesse catalisar a energia que se pode agarrar das ondas que geram os sonhos, em manifesto do cosmopolitismo da imaginação. O fio de silêncio leva-me até terras que não sabia de quem, onde a coragem de usar o silêncio é cega, embora arrogante no afirmar a vida sem tempo para viver a cultura que liga os vimaranenses entre si e os conecta com o chão da cidade e outras gentes e lugares. Há estados de espírito que só a nós pertencem e ninguém tem o poder de os alterar, nem mesmo nós próprios. E aquilo que para nós é cego está em esplêndida condição de visibilidade para todos que nos
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rodeiam. O fio do silêncio também o pressinto na alegria da velhice pelo espírito da impossibilidade que seguimos, às vezes, a fazer com que todo o acontecimento mais não seja do que sombra de realidade inventada, a fazer-me desejar passear pelas margens dos lugares cujos nomes me descobri a ignorar. Vi e ouvi ontem, e sempre, uma grande mulher, a Conceição Campos, que traja Guimarães e elogia a cultura, tornando-a especial, desde o “Aqui Nasceu Portugal” às suas gentes, ofícios e curiosidades… E assim vai a procissão do fio do silêncio, a espalhar rosas pelo chão com aroma de incenso e vazios de conhecimento valioso, antes transborda conhecimento dos poderosos... E assim vai o fio do silêncio a arrastar-se pelo chão... O redemoinho na futilidade líquida da vida... A coragem de usar o silêncio é como o Facebook, tudo que lá se gravar fica para sempre... De onde venho, Viana do Castelo, construiu-me a infância, a adolescência e a confiança com nostalgia A imagem das coisas que nos agradam entra-nos desenfreada por todos os ângulos da vontade que sentimos, como inesperados que nos tocam e jamais nos abandonam os sentidos. As imagens são muitas e sempre mais, algumas a configurarem jogos de xadrez, como a desafiar-nos na linha do horizonte, onde avistamos a imensidão do mar, ou do grandioso rio Lima, capaz de nos serenar ou engolir. São imagens, umas, paradas, outras, agitadas, mas todas preenchidas de nostalgia, a verdade da vida que levamos e nos leva, com forte ligação à terra, onde a cultura constitui marca identitária possante. Os nomes que temos são personagens a quem confiamos a alegria da vida. São personagens que chamam ora o gato preto, que tinha medo do escuro, ora o gato branco que gostava de pintalgar, ora o mítico Caramuru [Poema Épico do Descobrimento da Baía (Durão, edição crítica de Torres, 2008)]. São nomes que espreitam a lua cheia e lhe emprestam a magia em ondas mansas de sonho a libertar o olhar que canta a história dos lugares com magia e poesia. As memórias são libertação do olhar, são viagens que acabam e começam onde a vontade nos levar, sem medos ou castrações, as memórias são estéticas dos sentidos e expressão do olhar, perverso ou não. Contam fios de seda, de algodão ou chita, são fios da trama da vida em diálogo com o fio azul com pesponto encarnado e verde, que destacam com nobreza a caravela, um ícone valioso de Viana, conjuntamente com os trajes tradicionais e o coração que une a cidade, as suas gentes e tradições, “Viana é amor”. O jornal da cidade evidencia alegorias de Smart Cities, trazidas pela mão do Eixo do Atlântico, que descobrem poesias no tempo, aquele que vai e não volta, volta? Não, só a nostalgia volta para solicitar que sejamos firmes a aguentar o tempo. Sim, eu quero tornar elástico o tempo com a magia da trama da vida e o fio azul com pesponto encarnado e mar e rio no horizonte que me leva e traz a infância, a adolescência e uma cidade com
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história e as suas gentes com muita tradição e identidade singular. O meu sentir está sempre a comunicar imenso carinho por ela ao meu pensamento, gera-me muita nostalgia e faz-me imaginar que sou poeta, que já posso imaginar que canto poesia, pois é tanta a alegria de lá ter nascido que o meu sentir comunica, ao meu pensamento, imensa estima por ela e um sentido de agradecimento muito sentido, muito gratificante ser vianesa. A nostalgia da satisfação que me gera criou o tema: SE UM DIA A VONTADE DE CADA UM SE REALIZASSE, é um tema a desenfrear-me a imaginação com emoção repleta de estima e admiração por ela, que a deseja emancipada. Esta magia especial com que a vida me brindou, ao proporcionar-me cruzar o caminho da sua história e gentes, ser parte dela, faz-me sentir singular através da singularidade que perceciono nela e faz-me pensar tratar-se de um efeito Avatar. Sim, é isto, surge com um sentido muito transcendental, a transportar-me para o título de um filme, por exemplo, o homem que vinha de longe, vinha para nos despertar a vontade com força de propósito de vencer medos e preconceitos e agarrar sonhos... Viana do Castelo ensinou-me a evitar o habitual corriqueiro de nos lamentarmos, empurrando-me para preferir, com confiança, socorrer-me do desejo de SE UM DIA A VONTADE DE CADA UM SE REALIZASSE será que voltávamos ao interesse que havia nesse desejo inicial? SE UM DIA A VONTADE DE CADA UM SE REALIZASSE ficávamos libertos da solidão. A vontade engendraria a amizade, emprestaria a guitarra e a harmónica para cantar a alma e encantar a vida. É bom viver, a vida faz-nos bem, faz-nos inventar poemas sempre que a sentimos descaracterizada ou emancipada. Viver e sentir Guimarães há 22 anos Iniciei a aventura por Guimarães em 2001, trazendo pela mão os meus filhos, Rebeca e Simão, e avancei pela mão de Conceição Campos, vivenciando lugares de poesia, de música, tertúlias, teatro e vida com magia de viver Guimarães. Agora, incidindo no assunto, começando pelos olhares que autorizam, penso que os nossos primeiros olhares vêm dos lugares a que pertencemos, o que nos permite aproximar com afinco, o que, por sua vez, nos emociona. São estes olhares que começam em nós e voam por múltiplos saberes e outros lugares, através de muitas pessoas que interpretamos e adotamos como referência, que nos colocam a adrenalina em alta velocidade e que geram olhares que autorizam uma infinidade de coisas, de forma particular, pelo prazer que nos proporcionam. Isto é o que olhar para Guimarães me autoriza, logo, como já referi uma infinidade de vezes, considero-a uma das referências que adotei como modelo de referência e que, enquanto tal, não gera qualquer espaço para ser mal-intencionada com ela. O que me gera é muita capacidade inventiva,
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exploratória, crítica. Depois, práticas que autorizam, há muitas mudanças que os contextos operam, há hábitos e culturas, formas de nos relacionarmos, mas todas marcadas pelo quanto percecionamos admirar esse contexto. Trata-se de algo que poderia apregoar como em nome do que acreditamos, em nome do que queremos aprender ou em nome daqueles que admiramos e nos permitem transformar com sentido e com ele pela participação, com a vontade que sentem a tinta que escreve a própria vontade. Afinal, qual é o papel das relações interpessoais que procuram acrescentar valor, desenvolver e aprofundar saberes multidisciplinares que nos fazem parte do lugar? Para quem bem mais velho do que a tinta da vontade que perguntou, sinto tratar-se de um território com nacionalidade dupla, a do pensa e a do tempo, desdobra-se em tempo que pensa e pensa com tempo, misturando-se numa espécie de história pessoal e história de um território e país. Quando revelo isto à vontade, em especial num encontro com o imaginário que habita na oralidade que o sente, o tempo é um detalhe, mas apresenta-se essencial a maturar vontade e, esta, autointitula-se capital glocal da tinta que a inventa. A tinta não acabou, não acaba. É arte glocal que faz acontecer muita coisa em harmonia de o ser, amplia-se em área e consubstancia-se em conteúdo. Batemos palmas e espalham-se vontades de cidades que se espalham e espelham manchas de tinta que escrevem o campo e tentam chamar a atenção ou, simplesmente, declamam poesia, no sentido dos ponteiros do relógio, que patético não é escrever, é escrever e não obter resposta. Patético é não chamar a atenção do imaginário para a arte glocal que a tinta da vontade escreve com talento, portanto, além da competência, antes com a singularidade da substância que só o que sente lhe dá em poesia. Guimarães, obrigada pela prosa, até porque se trata de uma prosa muita capacitada para instigar e desencadear poesia. Trata-se de uma prosa que se apresenta em tipologia de hardware, a infraestrutura preocupada em como dotar os espaços de conteúdo, em apoiar o individuo no caminho para ser pessoa, por outro lado, capaz de projetar e valorizar pessoas e conhecimento, o software da poesia. O tempo é um conceito tão fictício, que o digam as Nicolinas ou as Gualterianas, em tom de festa com alegria que nos embalam na viagem ao encontro de costumes ancestrais do lugar com memórias várias, onde, ao som dos tambores e das caixas, as cores e a luz, a alegria e a gastronomia se revelam sonoridades com a magia de conectar o território, a cidade e as suas gentes, independentemente do lugar onde nasceram. Neste traçado de viver Guimarães há ausências da vontade de a viver com a intensidade de contribuir para a valorização do território e das suas gentes, são ausências que me marcam até hoje e me empurram para as margens da vontade de viver Guimarães com a intensidade daquela época, a da entrada em Guimarães. A dinâmica e ativos de Guimarães fizeram crescer interesses que geraram sonhos muito instigadores, o CULTURis, envolvido num compromisso público e com a cultura. Na época, foi identificada a existência de
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valiosos recursos culturais relacionados com a ação económica no contexto Europeu, com localização estratégica – Guimarães é uma das zonas do património cultural da humanidade da UNESCO. O ano de 2012 foi particularmente importante, foi Capital Europeia da Cultura, juntamente com Maribor. O CULTURis ambicionava constituir um contributo para a reconhecida necessidade e oportunidade urgente de reestruturar a economia da Zona Euro e qualificar os seus cidadãos. Foi um projeto que, em ação interligada da Educação e dos Sistemas de Informação, perspetivava desenvolver e utilizar a tecnologia para dinamizar a atividade económica e a formação dos cidadãos, sustentada na interação e liderança sustentável entre criatividade, inovação, tecnologia, cultura e cidadania ativa. Sustentada numa persistente intenção de qualificar as pessoas, destacando o valor da ligação entre liderança da aprendizagem, cultura e atividade económica. Contudo, foi um sonho que, embora alicerçado num incomensurável acreditar, não vingou, os decisores políticos locais não o sentiram com propósito de vantagem, mesmo que, de forma muito clara e criativa, o fosse. Este estado de situação alienou a vontade de viver Guimarães com a intensidade com que, inicialmente, a agarrei, que mais tarde foi, de certa forma, reavivada pela mão de Conceição Campos. Nesta caminhada virada às avessas, ficou sempre a perplexidade de constatar e sentir muita ausência de participação das gentes que habitam o território na oferta cultural disponibilizada, afinal, onde estão as pessoas comuns, como são, ou não, convocadas a participar e viver Guimarães? Acreditei em Guimarães e no CULTURis, que me levou a melhor conhecê-la, no tema cidade e as pessoas que a habitam, não foi fácil lidar com o sucedido, foi um asfixiar de alma que passou a interpelar-me continuadamente, fazendo-me chorar compulsivamente, mas chorei de cabeça erguida, sem precisar de esconder as lágrimas... Procuro ficar estendida nas palavras, a pensar na melhor maneira de matar a lembrança, a mais cómoda, uma que não me exigisse grande esforço, pois, para esforço já chegou aquele que resultou em vão, que só fez agravar a queda e me desfigurou a alma. Estava eu tão vaidosa, tão belo achava o que o CULTURis alcançaria para Guimarães e as pessoas que a habitam. Enfim, apenas alcançou um destino impassível, trajado do horror da indiferença, um horror que me faz ter medo de mim e me transformou numa criatura estupidamente feia porque, durante muito tempo, passou a ter medo de sonhar... Gostaria de poder voltar a ouvir-me porque alguma coisa de bom aconteceu.... Mais recentemente, surgiu a oportunidade do Projeto Educativo da Cidade, onde, mais uma vez, as forças de poder, a racionalidade de quem coordenava não adequou, em tempo e lugar, o compromisso público de um Projeto Educativo da Cidade, Território, criativo e projetivo para pessoas de todas as idades e condição social. O que me fez retomar o sossego do comum, enfileirado em prateleiras de bondade regular, como cenário de ordem da vida e da calmaria do comum, em jeito de encontro com a valia do mundo. Foi o miradouro da vida que
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acabou a permitir-me avistar tanta coisa, umas curiosas, por exemplo, o sonho inibido, outras nem por isso, tal como o julgo ser a indiferença, onde a amplitude do avistar depende da capacidade de esticarmos a ternura até às lágrimas. O primeiro apontamento continua a dirigir-se para a viagem até aos lugares da confiança, que me proporcionou perspetivá-la com total seriedade. Confiei plenamente em Guimarães, no que propunha, daí estar sempre a redefinir a rota em função do que me anunciava para o momento seguinte. Com tudo isto, aprendi, com muita clareza, o quanto é importante, na definição e reconfiguração do traçado do nosso percurso, a resiliência. No seguimento deste entendimento, também começo a aprender o porquê da minha incapacidade para evitar ter caído em tristeza tão profunda e o quanto é complexo ir para além dela. Neste lugar de viagem, chateia-me o facto de saber que, quando fico doente, acabo a levar alguém a despender de tempo e paciência para tratar de mim. A bondade é uma virtude humana de alta definição, um eco de sensações múltiplas, uma aprendizagem essencial levada pela mão de Conceição Campos. Sim, confiei em Guimarães e sempre com muita seriedade, até quando a imaginação viajava pelos lugares da poesia, dos afetos, onde a amizade se projeta para além do mito urbano. E também aprendi a verdade compreendida na ideia de que viajar muito nos dá uma perspetiva do mundo e nos revela o quanto as pequenas narrativas estão ligadas às grandes narrativas. É fascinante percecionar o poder sinestésico que envolve os lugares da vida, da nossa vida. Nota final O último lugar na armadilha que pode constituir a outra margem do rio, e as formas de dar tempo ao tempo que o tempo não tem, em manifesto de desobediência da regra, mas sempre em plena confiança pela mão de Conceição Campos, por todos os lugares da seriedade e do pensamento mágico que se eleva a viver Guimarães. Estes também são lugares que me impelem a revisitar os lugares de Mia Couto (2011, p. 78), que também esteve em Guimarães, a convite da Biblioteca Raul Brandão, em 2012, para apresentar um novo romance, na altura, A confissão da Leoa, retomando o pensamento, no caso que anunciava, um apontamento de lugar que me parece oportuno: “E foi assim: o mais remoto deserto, a mais impenetrável floresta foram sendo povoados com os nossos fantasmas. E hoje todos os lugares começam por ser nomes, lendas, mitos, narrativas. Não existe geografia que nos seja exterior. Os lugares – por mais que nos sejam desconhecidos – já nos chegam vestidos com as nossas projeções imaginárias. O mundo já não vive fora de um mapa, não vive fora da nossa cartografia interior”.
Um apontamento do tudo de amanhã que é hoje, pejado de vivências projetadas pelas emoções que 736
me instigam o intelecto, porque em satisfação do exercício da imaginação. Não me é possível ser indiferente a cenários vivenciados com diferença, como os que vivi e vivo em Guimarães, hoje, muito presentes em atividades do Centro de Francisco de Holanda, Osmusiké e a Oficina. Com diferença de gestos que afirmam atitude autónoma e invejavelmente emancipada. Obrigada Conceição Campos pela oportunidade de aprendizagem singular que, mais uma vez, a posiciona num lugar e território com valor inegável. É um ser humano interessante, com muito valor, diria perfilado por uma pedagogia do encantamento, a instigar ao exercício da imaginação, e pela dimensão intelectual, de rigor e inovação prospetiva, que perceciono muito perfilada com criatividade e um grande potencial de visão holística e crítica. A dimensão emocional, reveladora de uma sensibilidade muito singular, muito mística, com fascínio de comunicar numa língua desconhecida, capaz de tornar consciente a importância das línguas que não sabemos que sabíamos para ressignificar e projetar sentidos e significados daquilo que talvez possamos apelidar de essência da vida, isto é, o sonho. Hoje, não percebo muito bem o meu papel, na continuidade, com quem comunico e quem comunica comigo. No entanto, estranhamente, talvez tenha descoberto uma língua que não sabia que sabia e aquilo que me parece um papel no lugar do tudo que pode ser nada, as coisas vivenciadas fazem brotar muitas outras coisas, mesmo que não saiba o que posso fazer com elas. Ao procurar ler este sentir turbulento, pensei poder tratar-se de uma forma de elogio da imperfeição, de dar voz à imperfeição que nos constitui, à vontade de tanto que há para fazer no âmbito das cidades humanas inteligentes, acho que me recomendo uma leitura do Elogio dell' imperfezione de Rita Levi Montalcini (1987), onde a autora alia a sua experiência, pessoal e científica, a quem conheceu e amou, sem esquecer os sucessos e fracassos profissionais. Nela, a célebre neurocientista, destaca que admitir o erro é sinal de maturidade e motor de progresso, intelectual e científico. Os desafios que escrever estas crónicas me proporcionam são mimos ao intelecto, a fazer com que sinta, agradavelmente, o tanto que me perco como o tanto que me encontro. Este entendimento faz-me pensar o quanto é importante a porta da nossa casa. O quanto ela detém curiosidades de vivências do espaço individual e do espaço social, com poderes singulares sobre estes dois universos, quer isoladamente, quer na interatividade de um com o outro. Afinal o que é que se embrulha comigo, a imagem do sem abrigo ou a força de imaginar? Não sei, talvez um e outro, quando choro ou quando rio, talvez. Acho que a porta da nossa casa nos oblitera a vida e impulsiona diálogos de proximidade com o sentimento de si. Obrigada Jorge do Nascimento, obrigada Osmusiké, porque ser instigada a pensar é bom, porém, ser instigada a pensar a sentir é muito melhor. No fio do caminho cruzei-me contigo e com a Conceição Campos e considerei tratar-se de um cruzamento abençoado, uma vez que me permitiram aprender o quanto é
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inteligente viajar em grupo, processando, de forma absolutamente honesta, um sentimento de amizade e reconhecimento de valor que vos projetaram, a cada um e à vossa equipa, para um lugar dos melhores entre os melhores, consubstanciado em tanto e projetivo enaltecimento de Guimarães, sem esquecer ou sonhar Viana do Castelo. Obrigada. Termino a desejar o bem-estar comum e despeço-me com um registo do pensamento de Miguel Torga (1947), Diário: “Como é Difícil Ser Natural. É curioso como é difícil ser natural. Como a gente está sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferença. Fiz agora um grande esforço para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da próxima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, não disse nada de novo, não fiquei mais do que sou, não mudei o curso da vida. Fui apenas ridículo. Se não aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda é mais penoso e mais trágico”.
O que se expõe diante dos nossos olhos transforma-nos a vida e projeta-nos para horas maiores de a viver. Referências Bibliográficas Couto, M. (2011). E se Obama fosse africano? E outras interinvenções. Caminho. Durão, J. S. R. (edição crítica de Amadeu Torres) (2008). Caramuru. Poema épico do descobrimento da Baía. Câmara Municipal de Viana do Castelo. Montalcini, R. L. (1987). Elogio dell' imperfezione. Garzanti Editore. Saramago, J. (2000). A caverna. Caminho. Torga, M. (1947). Diário. https://www.citador.pt/textos/como-e-dificil-ser-natural-miguel-torga
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Vimaranenses que saíram Vimaranenses que vieram Apontamento monográfico M. Branco de Matos
No verão daquele ano de 1754, chegava à Igreja de Vila Cova, concelho de Barcelos, um jovem clérigo vimaranense de trinta anos. Chamava-se João José Luís Portela e era o novo Reitor da freguesia. Vinha do centro histórico da mui nobre Villa de Guimarães. Era no tempo em que, por antigas e novas querelas com o Cabido metropolitano, D. José de Bragança, diminuído que fora pelo seu meio-irmão que era o rei João V, achou por bem deixar o sólio bracarense entregue aos Cónegos da Sé, e saiu fora. Escolheu para seu sossego a cidade-berço e, da Insigne e Real Colegiada de Nossa Senhora, fez Catedral. Cantaram Te Deum os cónegos da Senhora Oliveira e, com eles, os vimaranenses em peso.47 Sua Alteza Sereníssima hospedara-se no Terreiro da Misericórdia, no palacete de seu amigo Tadeu Luís António Lopes de Carvalho da Fonseca e Camões, fidalgo muito pio, muito culto e muito rico.48 Neste palacete primeiro e depois em casa própria, o arcebispo permaneceu aí desde 1746 até 1749. À morte do Rei, seu irmão consanguíneo, retraíram-se os brácaros capitulares, ressabiados ainda, e o primaz retomou o sólio pontifício na catedral bracarense. Tomando conhecimento dos muitos desmazelos e não poucos desmandos do clero,49 D. José de Bragança fez-se presente, agiu, providenciou e procedeu em conformidade: restaurou edifícios, visitou igrejas, promoveu dignidades, publicou Pastorais,50 reinstaurou a disciplina, reprimiu abusos, removeu e substituiu clérigos. Respeito a Vila Cova, o Arcebispo viu no conspícuo jovem vimaranense, 47 A. Vieira Braga, Curiosidades, pág. 454, diz: «Este venerando Pastor, um pouco severo, mas modelar, foi o mais estimado da gente de
Guimarães e o mais querido da nossa colegiada» […]. 48 Este fidalgo vimaranense dedicou a D. José de Bragança os dois volumes da sua obra Guimarães agradecido, publicada na cidade de Coimbra em 1747 e 1748 e, muito dado às coisas da Igreja, sustentou nos estudos dois seus filhos bastardos que destinou ao sacerdócio: Gonçalo Joaquim Lopes de Carvalho e Francisco Xavier Lopes de Carvalho – Processo conjunto, De Genere N.º 27704, de 1755, onde podemos ler os nomes dos progenitores: Tadeu Luís António Lopes Carvalho Fonseca Camões e Joana Antónia Rosa Freitas, solteira. 49 «O Arcebispo D. José de Bragança (1741-1756) foi pela tolerância, ficando célebres as suas Pastorais, sobretudo a de 20 de Maio de 1742. Mostrou-se, todavia, enérgico e altivo na luta, pois existia uma indisciplina pavorosa entre o clero, e em toda a sua Diocese uma enormidade de padres que não tinham instrução nem moralidade». – A. Vieira Braga, ib., pág. 453. 50 «Com as duas primeiras Pastorais, pôs os padres insuficientes e desonestos fora do serviço paroquial e do ministério do confessionário». – id. ibidem
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com quem certamente havia privado na Colegiada, a pessoa certa para a necessária reforma daquela remota Igreja, perto do mar. Com o jovem clérigo vimaranense, saíram a acompanhá-lo seus pais e uma sua irmã, Ana Maria da Conceição Portela. Nasceu Joam Joseph de família muito ligada às coisas da Igreja, quer por devoção, quer por vizinhança: «moradores na Praça de Nossa Senhora da freguesia de Oliveira do Castelo da Villa de Guimarães», seus pais habitavam uma das casas alpendradas do centro histórico da Vila, que, a sul e a poente, ladeavam a «prassa de nossa senhora»: um quadrado de chão estreme, frente ao pórtico da Colegiada, que se abria a sul para a Rua Sapateira, atual Rua da Rainha. Filho de Bento Luís Portela e de Violante Freitas de Oliveira, o reverendo João José Luís Portela nascera em 27 de janeiro de 1723 e fora batizado em 2 de fevereiro seguinte. Foi seu padrinho o P.e João Luís Portela, tio paterno, semente quiçá primeira da precoce vocação dos dois irmãos, João José e José António, que requereram ordens em Processos De Genere et moribus N.º 20762 e N.º 20998, respetivamente, ambos de 1732. João José saiu presbítero em plena década de 1740. Em Julho de 1754, o jovem sacerdote vimaranense é Reitor titular da Igreja de Vila Cova. Aqui o veio encontrar o terramoto de 1755: foi ele quem redigiu e assinou o texto constante nas Memórias Paroquiais de 1758. Assíduo e zeloso no cumprimento dos deveres eclesiásticos, este sacerdote vimaranense distancia-se da geral iliteracia clerical da época: é uma exceção, tanto na limpeza da frase quanto na caligrafia, legível e bem alinhada. Em 1760, Ana Maria da Conceição contraiu matrimónio com um vilacovense de 18 anos, «clérigo in minoribus», da Casa do Abrunheiro. Do conúbio houve prole capaz, e o mais novo dos filhos deste casal veio a matrimoniar-se com a herdeira sucessora na prestigiada Casa da Capela. Foi este o tronco genearca da «ínclita geração» dos Santos Portela e das nobres senhoras Ferreira e Lima de Linhares, a quem presta aqui singela homenagem o mais ínfimo dos descendentes da família vimaranense Luís Portela, na memória de Ana Maria da Conceição, minha 6.ª avó. Quis o Destino que em 1970, 217 anos depois, aportasse ao coração da Cidade-berço o vilacovense que eu era, anónimo descendente dessa geração. Do burgo, trazia na memória quase nada: pouco mais que o daguerreótipo com que no livro de História da 4.ª classe se mostrava o castelo fundador da nacionalidade, pelo que – aos costumes disse nada. Disfarçava mal a curiosidade do forasteiro relutante em se manifestar por receio de desafinar no coro misto que é qualquer comunidade. Tentava convencer-me de que estas pessoas pensariam certamente como eu, certamente sabiam mais do que eu porque eram daqui naturais: saberiam, por exemplo, que a cidade tinha sido o berço da nação. Isso também eu sabia, mas não suspeitava,
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nem imaginava ser possível imaginar, que a esta migração para a cidade do primeiro rei não fosse mais do que o retorno ao fim duma espécie de transumância sazonal, restituição talvez ou retribuição a favor da terra de quem da sua terra se afastou. Quanto ao trabalho, logo veria: tudo se aprende quando se ensina – e viceversa. Mas, disseram-me logo: «Quando fores para o liceu, vai de carro, não vás a pé». «Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso» – o ditado é antigo. Lá donde eu vinha, cada família tinha na mesa o que a casa fabricava: o dinheiro era escasso e a mercearia era cara – tudo é caro para quem não tem dinheiro. Ainda hoje, permanece na memória a vaga recordação das senhas do racionamento; mas façamos lembrar que a fome, na maior parte das famílias, não resultava da contenção oficial exercida através das senhas, mas da miséria real, pelo que o défice de víveres era sempre inferior ao haver disponível: o pouco a que tínhamos direito sobrava, ficava na mercearia: arroz ou massa, só aos domingos. O dia da estreia de camisa ou dumas calças de cotim era um dia luminoso. Sapatos, só quando chegasse o exame da 4.ª classe. Porque a lavoura era o que sempre foi: a mais sofrida arte de empobrecer honradamente. Aqui, não. Nesta cidade, onde as muralhas estão sempre abertas para quem chegue, a gente vivia do dinheiro que ganhava porque os operários tinham um salário: uns ganhavam à semana, outros recebiam no fim do mês, e todos tinham dinheiro. O povo podia comprar coisas de que precisasse, e comia, não apenas pão-milho de fabrico próprio, verduras e batatas quase sempre. Os homens das fábricas de chapéu à tirone tinham seu terno domingueiro de sarja brunida e calça vincada, camisa de popelina, gravata de laço alçado e sapato lustrado: uns senhores, de fazer inveja aos melhores proprietários de agras e montes da minha aldeia. Os “encarregados” fabris, prepotentes sempre com subordinados e fiéis como rafeiros face aos superiores, eram gente aparentemente respeitada, chefes de família cumpridores, escorreitos e tão obsequiosos como os comerciantes das lojas: na sua rua, na sua aldeia, eram eles as forças vivas da nação. As filhas dos patrões eram mais belas que as “fabricantas” mas estas moçoilas eram mais nutridas e mais rosadas que as lavradeiras magras de rosto marron. Entre patrões e operários havia uma respeitável distância e, paradoxalmente, uma estreita relação sentimental: era um privilégio para a família ter por padrinho o patrão, por madrinha a esposa do dono da fábrica. Na outra minha terra, os irmãos mais velhos eram os naturais padrinhos dos irmãos mais novos, pobres uns e outros, sem rosca nem outro folar. Mais tarde tomei consciência de que esse tradicional paternalismo na relação quase familiar entre pessoas de tão diferente estatuto social se respaldava sempre num gesto ritual ou procedimento que manifestasse, claramente e em público, submissão de uns para com outros. As tradições não se discutem: cumprem-se. Por exemplo: para que a criança, na páscoa, tivesse direito ao folar, era imprescindível que, no domingo de ramos, o afilhado prestasse
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vassalagem paranínfica indo a casa do padrinho, em Domingo de Ramos, levar-lhes o raminho bento. Era assim. E não era por mal. Pior foi quando ouvi pela primeira vez a ignóbil invetiva: «Pareces um lavrador». Quando um tipo qualquer, por indigência ou por desleixo, se esbodegava no comer, no vestir ou modo de falar, alguém gritava para gáudio dos circunstantes: «Pareces um lavrador». Não era por mim, que cedo aprendi a, liturgicamente, a trinchar como deve ser um frango frente a comensais de topo e a soprar a brasa no ferro de engomar para alisar a própria camisa e manter a dignidade no vinco das minhas calças. Mas aquela invetiva era um estigma, um labéu que me deixava triste. Porque eu era e sou filho, neto, bisneto, parente, vizinho e compatrício de respeitáveis e honestos lavradores da aldeia, que iam à missa de socos, descalços até, mas que é a melhor gente do mundo. Ser lavrador era ter terra para trabalhar, era poder produzir para si e sobreviver sem depender de ninguém, era ter casa própria, casebre fosse ela, até “cabaneiro” tinha a sua cabana, própria ou emprestada. Ali, onde o “senhorio” era entidade quase desconhecida, o proprietário mais abastado, merendava a meio da tarde com seus jornaleiros do que houvesse no taleigo ou na cesta da merenda, como qualquer outro, e da cabaça ou do copo comum bebia, ele e todos mais, a sua pinga de água-pé. Na decrua, na sacha ou na monda, cada qual vai seguindo eito fora, lado a lado, jornaleiro com patrão, patroa em conversa ao lado da sua jornaleira. Tirante Deus, ninguém tirava o chapéu a ninguém. Cada qual pensava ou não pensava, falava ou não falava, cantava ou não cantava, e não era por isso que ficaria no desemprego. O dia não era contado por horas e o trabalho ia-se fazendo ao ritmo da luz de cada dia ou das estações de cada ano: gente livre, como livre era a substância do tempo. Tempos de fome e de miséria. Salvava-se o ar puro nos pulmões e, na alma, o espírito da liberdade essencial, o sentido da nãosujeição, este sentido de liberdade, igualdade e fraternidade que nenhuma contrarrevolução ensina ou destrói. No entanto, não era essa a minha terra. Estranha coisa me segurava agora nesta minha nova pátria, na qual vivo há mais de cinquenta anos e onde nasceram os meus antepassados mais remotos e os meus descendentes mais próximos. Agradava-me ver aqui gente de mãos brancas, limpas, e pessoas aparentemente felizes e amigas. Havia gente culta com quem se podia falar sem receio, havia pessoas que apreciavam o saber dos outros, gente que me atraía por ser diferente dos mais, livrarias com livreiros cultos e amigos das letras. Havia também homens de quem se falava baixinho: eram os do contra, era o reviralho. Paradoxalmente, eram esses os que mais me atraíam. Na minha atitude insciente, porém, fosse por natural inclinação ou ínsito espírito de submissão, eu tinha o cuidado de respeitar os mais respeitáveis, os cavalheiros presuntivamente respeitadores também e as senhoras incapazes de uma nódoa. Muito me enganei porque rapidamente percebi que estas pessoas da alta-roda respeitavam, não a pessoa que é cada ser humano, mas a
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função ou instituição que garantia submissão e suposta cumplicidade com o status quo político e social: – a bem-dizer não poupavam ninguém, exceto o seu interesse. Nada mais desagradável que sentir o desplante destes sublimes escroques que, a seu tempo, se deram a conhecer publicamente como se fossem eles os criadores do mundo e donos da gente. – «Quando fores para o liceu vai de carro, não vás a pé».
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ESPAÇO OSMUSIKÉ Inserir separador
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Espaço Osmusiké Falar de nós próprios nem sempre é fácil, em especial quando, modéstia à parte, deixamos algumas pegadas culturais bem visíveis. Porém, já que subiu o pano e estamos em palco, aqui ficam as imagens e alguns textos dessa passagem pela nossa cidadeberço, do teatro à música e da poesia à produção editorial. Deste modo, nas páginas que se seguem perpassam as atividades como os Sons de Abril e da Liberdade, desta feita evocando Santos Simões, mas também entre outras iniciativas como o espetáculo de teatro e música alusivo ao “Trovador dos Couros”, memoriando o mester dos curtumes vimaranenses. Performances a que se ajuntam outras “Memórias da nossa terra” como o “Mercado à moda antiga” , no qual participam os vendedores do atual mercado, ou ainda a nossa habitual participação na Feira Afonsina, a evocação de Gil Vicente, a propósito dos 500 anos da “Farsa de Inês Pereira”, ou os costumeiros “Sons de Outono”. Mas também, ocorrências como o “Chá com Poesia”, ou o “Estendal de Poesia” que conciliam a doçura das palavras com o quotidiano da vida. Ou na participação na Marcha Gualteriana, como ficou evidente na orgulhosa encenação do carro alegórico dedicado ao Teatro Português. Atividades que passam também pelos balancetes e visões prospetivas das nossas valências para os tempos mais próximos.
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Jorge do Nascimento Silva; Emília Ribeiro; Manuela Ribeiro
Osmusiké no Teatro: Teatro é Vida! Osmusiké Teatro, grupo coordenado por Jandira Henriques e sob a direção artística de Emília Ribeiro, viu surgir peças especialmente vocacionadas para a infância com enredos originais, ou a partir de histórias tradicionais como “As aventuras e desventuras do gato das botas”, numa simbiose entre o ditado popular – “Guimarães esfola gatos e mata cães e o conto de Charles Perrault“. Igualmente, “O Capuchinho Vermelho”; “A Carochinha e o João Ratão”; “O Reflexo de Estátua” – cujas personagens principais eram as estátuas de D. Afonso Henriques (Soares dos Reis e João Cutileiro); “A Estrela e o Pequeno grão de areia”, adaptação da obra de Ricardo Filho, bem como “A derrota da Bruxa Poluição”, baseada na obra de Nivaldete Ferreira, “Cinderela Borralheira” ou “As Formigas e a Cigarra Cegarrega”, criada a partir da fábula de La Fontaine, “A Cigarra e a Formiga” e a história “A Cegarrega”, de Miguel Torga. Entretanto, dirigidas ao público maior de seis e/ou doze anos, subiram a palco “O Avejão“, de Raul Brandão, “Maria Parda”, de Gil Vicente, interpretada por sete personagens (6 femininas e uma masculina), assim como “Guimarães Tesouros Clandestinos”, de Teresa Macedo, ou ainda “(Re) Visitar Raul Brandão – Pintor Com Palavras”, com base em excertos de várias obras do autor (Memórias, O Avejão, Os Pescadores e Portugal pequenino), em Nespereira, nos dias 8 e 9 de março, na V Feira de Época – Ao Encontro de Raul Brandão, uma organização da Junta de Freguesia. Iniciativas que souberam sair de si mesmas para se transportarem às freguesias da periferia,
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posicionando-se, assim, na reflexão sobre como se pode ter um papel ativo e consciente e acerca do quanto a falta da diversidade fragiliza a cultura. Atividades que têm ainda passado ininterruptamente no Mercadinho da Duquesa – Paço dos Duques de Bragança, com a performance “Pêro do Paço e as Regateiras no Mercado da Duquesa – Dona Constança de Noronha”, bem como na Feira Afonsina. Como é óbvio, atividades teatrais cujo elenco inicial era formado pelos(as) artistas amadores: Madalena Antunes, Sofia Antunes, Alice Xavier, Ana Maria Moreira, Ana Maria Bastos, Ana Maria Oliveira, Adelaide Braga, Emília Ribeiro, Jandira Henriques, Ana Isabel Gomes, Bruno Simões, Francisco Simões e José Maria GoMaria Parda no Palco do CCVF mes. Peças levadas a cena que, inicialmente, tiveram cenários clássicos pintados em acrílico sobre tela por Ana Maria Oliveira. Hoje, opta-se, alternativamente, por um cenário minimalista, jogando mais com pequenos adereços e desenho de luz, quando apresentado em sala. Por sua vez, o trabalho de sonoplastia desenvolvido por Luís Almeida tem acrescentado e complementado os espetáculos no seu todo e enfatizado momentos chave da representação, enquanto signo, ligado, desde logo, a cada uma das personagens. A criação dos figurinos é de Emília Ribeiro e Milita Marinho, confecionados inicialmente por Joaquina Silva e, mais recentemente, por Dona Odete e Milita Marinho. Alguns figurinos foram pintados pelas artistas plásticas Ni Xavier e Maria Terra. Os adereços são criação de Miguel Ribeiro, Milita Marinho e Maria Terra. Entretanto e concretamente este ano, na data de comemoração do centenário do nascimento de Joaquim Santos Simões, professor e importante pedagogo ligado à cidade de Guimarães, bem como político que revolucionou o panorama associativo vimaranense e impulsionou o Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB), Osmusiké Teatro não podia ficar indiferente. Deste modo, para o celebrar nesta efeméride levou a cena, no dia 24 de abril, no Paço dos Duques de Bragança, a peça “No pequeno ninho quente”, uma adaptação da sua
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(Re)Visitar Raul Brandão – Raul Brandão e Maria Ângela
obra com o mesmo título, direcionada ao público infantojuvenil, de forma a que o seu legado seja reconhecido pelas camadas mais jovens que ele tanto estimava. Ademais, em outubro, levámos a cena “A Farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente, quando passam 500 anos da sua escrita, ainda que com um toque contemporâneo, aquando da realização do concerto “Sons de Outono”. Em súmula, diremos que o grupo tem crescido em maturidade e número, de tal forma que hoje é constituído por quinze elementos, com idades compreendidas entre os oito e os setenta e três anos, no qual pontuam nomes como Alice Xavier, Afonso Tadeu, José Pereira, Liliana Xavier, Celeste Pinto, Jandira Henriques, Rosa de Carvalho, Ricardo Faria, Luís Almeida, Olívia Freitas, Beatriz Roberto, Emília Ribeiro, Ana Maria Oliveira, Elvira Oliveira, Matilde Ferreira e Camélia Mota Cunha, e, ainda a artista convidada, Maria Terra. Um elenco e uma equipa cujos encontros e ensaios, semanais e regulares, tem possibilitado o amadurecimento das metodologias utilizadas e, em simultâneo, permitido que todo o trabalho que vai sendo realizado evolua de uma forma progressiva e consistente.
"No Pequeno Ninho Quente", de Santos Simões
Osmusiké Teatro na Marcha Gualteriana O início do mês de junho de 1502 marca o começo do teatro português, altura em que Gil Vicente apresentou o “Monólogo do Vaqueiro” e o “Auto da Visitação” à família real de D. Manuel I, aquando do nascimento do príncipe D. João (futuro rei D. João III). Esta data, como sabemos, está recordada no Monumento 749
ao Teatro Português, inaugurado na Alameda de S. Dâmaso, em 8 de junho de 2003, dia que, em Guimarães, era considerado feriado municipal, entre 1913 e 1951. Outrossim, neste ano de 2023 perfazem 500 anos que Gil Vicente (1465-1536) escreveu “A Farsa de Inês Pereira” e passam 100 anos que Raul Brandão (18671930) publicou “Teatro”, que engloba as peças “O Doido e a Morte”, “O Gebo e a Sombra” e “O Rei Imaginário”. Como sabemos, ambos os autores estão ligados à cidade-berço, por nascimento ou adoção, e são considerados filhos da terra, tendo sido ao longo da segunda metade do século XX encenados por Santos Simões, outro cidadão centenário e filho adotivo de Guimarães, que, no Teatro de Ensaio Raul Brandão, lhes deu vida. De facto, ambos os autores são anualmente evocados nos Festivais Gil Vicente Imagens do Carro do Teatro "Homenagem ao Teatro Português", com os atores dos Osmusiké , que abrilhantaram a Marcha Gualteriana 2023. e na iniciativa Húmus – Festival Literário de Guimarães e representam, respetivamente, momentos altos da nossa literatura e do nosso teatro. Memoriar ambos os dramaturgos, bem como duas casas emblemáticas do teatro vimaranense, como o fora o Teatro D. Afonso Henriques, inaugurado em 1855 e demolido na década de 30 do século XX, e o Teatro Jordão aberto desde 1938, constitui uma forma da cidade vimaranense homenagear o teatro português como evento cultural e social, que as gentes de Guimarães têm sabido preservar e acarinhar de forma institucional e popular, nomeadamente através de grupos de teatro amador e, recentemente, na licenciatura de Artes Performativas na Universidade do Minho, no campus de Couros. Ora, Osmusiké Teatro não podia ficar indiferente a este desafio. Deste modo e dando ação pragmática ao mote “mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube”, tal como mestre Gil Vicente, respondeu ao repto e montou uma cena da “Farsa Inês Pereira”, dando vida ao carro alegórico de homenagem ao teatro
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português. Resposta que passaria também pela animação dos números vivos, entre os quais se destacariam sarcásticas e mordazes figuras tipo vicentinas atualizadas aos tempos que decorrem, como o Padre Peidófilo, o Berardo Colecionador de Cromos ou o Salgado Amnésico, entre outros.
Dia Mundial do Teatro distingue artistas vimaranenses (Alice Xavier e António Pastor, os galardoados deste ano) Ator é o “veículo vivo entre o texto do autor, as diretivas de atuação do encenador e o olhar e audição do espectador”
Foi precisamente há 20 anos, no dia 8 de junho, Dia Mundial do Teatro, que Guimarães inaugurou o monumento de homenagem a Gil Vicente e aos 500 anos do Teatro Português. A escultura de autoria da portuense Irene Vilar, localizada na parte superior da Alameda de S. Dâmaso, homenageia o dramaturgo que terá nascido em Guimarães, em meados do século XV. Este monumento, que resultou de uma iniciativa da Sociedade Martins Sarmento, sendo seu presidente, à época, Joaquim Santos Simões, é constituído por sete máscaras evocativas da representação dramática, expostas em duas prateleiras que representam o imenso painel de personagens que, ao longo de 500 anos, foram criados pela dramaturgia portuguesa. A União de Freguesias de Oliveira, S. Paio e S. Sebastião, desde então, assinala a data evocando Gil Vicente, as suas obras, bem como de Raul Brandão e seus sucessores através do Bando do Gil, Grupo de Teatro. Há cinco anos a esta parte teve a feliz ideia de, nesse dia, também homenagear uma personalidade que se tenha destacado ao longo do seu percurso em prol da Artes de Talma. O primeiro homenageado foi Fernando Capela Miguel, seguindo-se Luís Almeida Júnior, mas a pandemia veio interromper a efeméride. Contudo, Gil Vicente não deixou de ser homenageado, ainda que à distância, como referiu, Rui Porfírio, presidente da edilidade autárquica. Em 2022, retomou-se a comemoração do Dia Mundial do Teatro com todo o seu esplendor e Emília Ribeiro foi a contemplada. Este ano, a homenagem coube à atriz Alice Xavier de Osmusiké Teatro e ao António Pastor
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ator António Pastor, do Bando do Gil, Grupo de Teatro. Ora, Alice Xavier é um nome da casa, que nasceu no palco, filha de João Xavier de Carvalho, dramaturgo e encenador, e de Mariazinha Xavier, atriz e criadora de figurinos para as peças que o marido criava e produzia, como o Grupo de Teatro dos Caixeiros de Guimarães e o Grupo de Teatro do Patronato Senhora da Oliveira. A Alice, desde cedo despertou para a arte dramática. Participava em todas as peças de teatro infantil, dirigidas pelo pai e apoiadas pela mãe, juntamente com as irmãs, no Patronato de Nossa Senhora da Oliveira. Uma vida ligada ao teatro que perdura até aos dias de hoje. Com efeito, Alice Xavier criou e dirigiu vários espetáculos, na década de 90, com base em roteiros do pai através do Teatro da Coelima, homenageando o seu progenitor. Criou e produziu o espetáculo “A Vizinha”, com o Grupo de Teatro Récita, em 2012, na Capital Europeia da Cultura, com atores maiores. Ao mesmo tempo desempenharia o papel tripartido de Bruxa/Lobo/Rato, na peça “As aventuras e desventuras do Gato das Botas”, com o Grupo de Teatro Osmusiké de que faz parte desde a sua criação em 2008, a convite de Madalena Antunes. Atualmente, tem interpretado papéis principais em várias peças que Osmusiké tem levado a cena, ao longo da sua existência, e foram muitas. Artista versátil, como o comprovam os muitos e excelentes papéis desempenhos. Provavelmente, porém, talvez possamos considerar como papel da sua vida a interpretação da “Velha,” na peça “O Avejão” de Raul Brandão. Mas com semelhante desempenho conta-se ainda “Maria Parda” de Gil Vicente e “O Pombo” de “O Reflexo da Estátua” de Emília Ribeiro. E como filho de peixe sabe nadar, as filhas dão continuidade ao talento da Família Xavier: Raquel Xavier a viver na Madeira é por lá que dá asas ao seu talento criando, produzindo e/ou colaborando com a Direção Educativa da Região da Madeira, em espetáculos dirigidos ao público infantil; Liliana Xavier iniciou o seu percurso artístico no TERB pela mão de Santos Simões com a peça “Dão Tão Parlapatão”. Hoje, faz parte do Grupo Osmusiké Teatro, distinguindo-se o seu talento nas belas interpretações que tem feito. Paralelamente trabalha com o
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companheiro, Nelson Xize, no projeto “FunnyToches” – Teatro de Fantoches e, ainda, ajuda a criar, produzir e apresentar trabalhos medievais no Grupo “Tropesei”, do qual faz parte. Alice Xavier orgulha-se do seu percurso artístico, mas sente um orgulho ainda maior ao ver o percurso das filhas, em especial da Liliana e, espera que os netos deem continuidade ao amor pelas artes. A neta, Marisa Martins, está no bom caminho, frequenta o 11.º ano no Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira. Parabéns Alice Xavier! E saúde-se o Dia do Teatro Português, pois como escreve Rui Porfírio, no opúsculo deste ano de 2023, “as memórias são substância do Património Imaterial”. Viva Gil Vicente e o Teatro em Guimarães.
Osmusiké nas Tradições Concerto de Reis Cantar ao Menino De facto, de vento em popa, continuamos a nossa navegação por mares e marés todos os anos sulcados, em demanda das rotas de tradição deste país à beira-mar plantado e desta cidade que foi seu berço. E, na Sala da Duquesa, do Paço dos Duques de Bragança, bem perto do berço do nosso Afonso, levamos a efeito o 8º Concerto de Reis cantar ao Menino com a participação de mais dois grupos – Chorus Anima Populi e Grupo de Cavaquinhos do Liberdade FC, que teve lugar no dia 21 de janeiro. Cantar os Reis ou cantar Janeiras constitui uma tradição ancestral do nosso povo, com incidência muito particular nas nossas aldeias, em especial no Minho, que não podemos deixar cair na penumbra dos dias tecnológicos. Recordemos que as Janeiras se cantavam normalmente entre os dias 1 e 6 de janeiro, enquanto os Reis se entoavam entre os dias 6 e 19 do mesmo mês.
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Com efeito, Cantar Janeiras radica no costume dos romanos se visitarem no primeiro dia de cada ano para trocar presentes, cuja origem inicial tem a ver com Janus, o deus de todos os inícios, dos meses, dias e anos. Assim, evocamos aqui, vestígios de velhíssimos ritos que o cristianismo adotou da civilização romana. Por seu turno, cantar os Reis evoca os Reis Magos que, segundo uma tradição, mais ou menos fantasiosa, se chamavam Baltazar, Gaspar e Belchior, sendo este negro. Vindos do Oriente, juntaram as suas comitivas para conjuntamente adorarem o Menino, oferecendolhe ouro, incenso e mirra. Ora, são estas tradições, a que se juntam as celebrações epifânicas e a ideia de dar a boa nova natalícia em termos festivos, em troca de alguma recompensa, que queremos manter vivas para além dos tempos. No fundo, momentos de confraternização de vozes e corações afinadas, que no final se selaram com uma distribuição de recordações alusivas e o convívio caloroso e degustativo entre os grupos e o público, sala esgotada com a presença da Vice-presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Dr.ª Adelina Pinto, que muito nos honrou. Em súmula, mais um trabalho em rede, de partilha, de serviço à comunidade, de enraizamento da cultura popular, com muitos a colaborar, partilhar e a conviver, tendo como denominador comum a união em prol da cultura.
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Queima do Judas “Julgamentos populares Vereditos com verdade Será JUDAS queimado No largo da comunidade?!”
A Queima do Judas como uma tradição em S. Roque, freguesia da Costa, que se assume uma marca cultural identificada pela população local, já reconhecida a nível concelhio, tem sido organizada pela Associação da Festa de Segunda Feira de Páscoa de S. Roque. É um espetáculo de rua multidisciplinar que funde teatro de rua, música, fogo de artifício, entre outras artes, interligando, assim, a tradição popular e a arte contemporânea. Este ano, para manterem a tradição viva, quiseram apresentar uma NOVIDADE ou melhor RECUPERAR uma tradição antiga que estava esquecida "O JULGAMENTO E A LEITURA DO TESTAMENTO DO JUDAS". Nesse sentido, solicitaram o apoio de Osmusiké Teatro. O grupo criou e apresentou a performance inspirada no tema: “É só ver televisão/ ler os jornais/ ou estar ligado às redes sociais…/ É tragédia atrás de tragédia! / Incêndios, inundações, / Falta de emprego, / Entre enormes desgraças, / Com todo o povo a sofrer, / Foram pandemias com mordaças E guerra na Europa a valer”. O resultado foi um espetáculo que procurou reforçar a importância da identidade cultural coletiva e as memórias da comunidade, visando vários elementos locais, regionais e nacionais no Testamento, e teve lugar no dia 8 de abril, sábado de Páscoa, perante centenas de pessoas que ocupavam o Largo da Capela de S. Roque e os espaços contíguos. 755
Osmusiké na Poesia “Como falar de poesia? Simplesmente estando na poesia, e dessa forma manifestando o seu eco (em registos diversificados, de acordo com as circunstâncias), e dando conta do efeito da sua convivência regular, prolongada e apreendida” Maria Alzira Seixo
A poesia e Osmusiké: presente e futuro A citação supracitada procura refletir sobre os caminhos da poesia e parece remeter-nos para a fruição pessoal e intuitiva do poema. De facto, em nossa opinião, mais importante do que abordar as técnicas poéticas e comentar poemas (embora não seja de rejeitar liminarmente), dever-se-á, no âmbito de um Clube de Leitura ou valência de poesia e no contexto de uma organização sociocultural, privilegiar o próprio texto poético na sua polissemia expressiva e impressiva, porquanto, como diz Ramos Rosa “a poesia é o ato de respirar pela linguagem o que o homem não sabe ou não pode dizer (…), o desconhecido inerente à existência humana”. Falar de poesia implica, assim, sensibilizar para a própria materialidade da palavra e para o desenvolvimento do imaginário e dos sentimentos, através do sabor da língua de que falava Barthes, mas também proporcionar a interação de aquisições de leitura e de escrita. Mas, afinal, para além do muito que já tem sido feito, o que se pode fazer ainda mais, numa associação como Osmusiké, na Valência da Poesia? Com efeito, será certamente acessível e lúdico promover, em futuro próximo, um Concurso de Quadras no decurso dos Santos Populares ou da expressão poética do amor, aquando do Dia dos Namorados, o que
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aliás já aconteceu no Dia dos Namorados (14 de fevereiro), no Espaço Criativo Osmusiké. Iniciativas que se poderão multiplicar em recitações e produções poéticas, na Poesia de Natal ou Pascal, bem como em efemérides e datas diversas como o Dia da Mãe, o Dia do Pai, o 25 de Abril, o Dia Mundial da Poesia, entre outras, ou simplesmente num dia muito prosaico para despertar o sentimento e a emoção. Por outro lado, a divulgação dos grandes poetas, em especial aqueles que são memoriados por este ou aquele motivo, poderia ser uma outra linha de ação. Recordamos, por exemplo, Natália Correia e Eugénio de Andrade, cujos centenários de nascimento perpassam este ano, ou até a poesia do também centenário José Saramago (menos conhecida), bem como Guerra Junqueiro neste centenário da sua morte; ou ainda Manuel António Pina, que este ano será certamente evocado aquando dos 80 anos do seu nascimento; ou outros poetas que nos toquem de perto pela carga emotiva e pela mensagem dos seus poemas. Poesia que bem pode igualmente ser articulada com a música, aliás como temos vindo a fazer, uma vez que alguns destes poetas foram (duplamente) cantados, e/ou complementada com visitas aos lugares emblemáticos e sagrados de vivência de alguns deles. Ou ainda um programa de abordagem que poderia passar também pela divulgação de Guimarães na Poesia e dos poetas vimaranenses (e porque não também o convite aos atuais poetas vivos para tertúlias ocasionais?) e/ou incluir lugares poéticos e eventualmente piquenicados, como “A Penha na poesia”. De facto, Guimarães oferece pano para mangas para incursões e investidas diversas pelos caminhos da poesia. Basta recordar o tesouro dos Pregões Nicolinos que poderá suscitar um Pregãozinho à nossa laia e maneira, ou as tradições seculares das romarias
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(que poderão dar ensejo a recolhas e compilações interessantes), assim como as festas e costumes como os Reis/Janeiras, o testamento do Pai das Orelheiras, no Carnaval, ou da Queima do Judas, na Páscoa. E por que não, também, na Feira Afonsina, acrescentar a declamação de poesia trovadoresca? Claro que há matéria para “verdadeiros cantos” e que nos ocuparão, alegremente, anos das nossas vidas, em espaços fechados ou ao ar livre, mais formatados ou mais desalinhados. O ano de 2024, que já se avizinha, será também fértil em ocorrências e efemérides poéticas. Basta lembrar os 500 anos do nascimento de Camões, os centenários de nascimento de Alexandre O’Neill e António Ramos Rosa e as evocações das mortes de Florbela Espanca (130 anos), Ary dos Santos (40 anos) e Sophia de Mello Breyner (20 anos), bem como dos 200 anos da poetisa vimaranense Catarina de Lencastre (1735-1824). Vale sempre a pena agradecer a quem trabalha em prole do bem comum. Queremos manifestar a todos a nossa gratidão pelo trabalho desenvolvido, mas em especial à Beatriz Roberto que pediu um ano de sabática, mas que voltará carregada de energia para novos voos poéticos. Dia 14 de fevereiro – Chá com Poesia Obviamente, parte destas sugestões programáticas devem coexistir com iniciativas já em curso, dignas dos maiores encómios, como foi o Chá com Poesia e/ou o Estendal de Poesia, entre outras, que a Valência Osmusiké Poesia tem organizado de forma exemplar, bem como em participações coletivas como nos Concertos “Sons e Vozes da Liberdade” e/ou “Sons de Outono”, ainda que por vezes de forma mitigada. O Concerto “Sons e Vozes da Liberdade”, realizado em 22 de abril, no Teatro Jordão, foi um desses exemplos cativantes de poesia sobre o 25 de Abril, que conciliou sabiamente poetas nacionais e locais e até jovens poetas, o que é de louvar e prosseguir. A poesia infanto-juvenil, julgamos nós, poderá ser também uma área a explorar em sintonias com as escolas concelhias, na qual os “Pequenos Poetas” visitarão outros potenciais pequenos poetas… Estas são ideias que vão amadurecendo ao longo do tempo a que, todos juntos, procuraremos dar asas poéticas…
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A Poesia Infantojuvenil – a voz aos “Pequenos Poetas” A poesia é a arte de condensar a alma em palavras, compreender o mundo e sentir a vida. Surge também aliada à descoberta, expressão e controlo das emoções e sentimentos do ser humano. Naturalmente, estes pressupostos intensificam-se e potenciam-se quando abraçados por crianças e jovens. Assim, pôr as gerações mais novas em contacto com esta arte de viver tem sido o intuito da valência Osmusiké Poesia, ao decidir criar uma secção de poesia infantojuvenil, denominada “Pequenos Poetas”. Destina-se a criar nos mais jovens o gosto pela poesia, apostando na exploração e declamação de poemas, e conhecer poesia de autores portugueses e estrangeiros, divulgando-os e homenageando-os. São objetivos principais os seguintes: Conhecer poesia portuguesa e estrangeira; homenagear poetas portugueses e estrangeiros; divulgar os poetas portugueses e estrangeiros; promover nos jovens o interesse e o gosto pela poesia; estimular a criatividade e a imaginação dos jovens; adquirir e desenvolver a sensibilidade estética e artística; ajudar os jovens Afonso Miguel, Vitória Sofia, Bia Ferreira e Sara Gonçalves a compreender o mundo e a vida; auxiliar os jovens a expressar e a controlar as suas emoções e sentimentos. Presentemente, os pequenos poetas (pequenos, só na idade, mas grandes na sua alma) têm sido Afonso Silva, Bia Ferreira, Sara Gonçalves e Vitória Silva, com idades compreendidas entre os 6 e 11 anos. Mas a ideia é alargar a muitos! Que bom seria que as avós de Osmusiké trouxessem os netos todos! Pretendeu-se oferecer aos ‘Pequenos Poetas’ sessões culturais e de convívio, centrando a sua participação em alguns eventos públicos da Associação Musical e Artística Osmusiké, em articulação com as suas diferentes valências. Assim aconteceu nos concertos “Sons de Outono” e “Sons e Vozes da Liberdade”, onde os nossos ‘poetas’, para deleite do público, se envolveram com a declamação de apontamentos poéticos de poetas consagrados como Almeida Garrett, Luísa Ducla Soares, Manuel Alegre, Cecília Meireles, José Jorge Letria entre outros. Também participaram em iniciativas mais informais como a comemoração do Dia de Reis e do
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Aniversário de Osmusiké, com poesia infantojuvenil de alguns poetas de tenra idade e menos conhecidos. Destaca-se a participação brilhante da ‘poetisa’ Vitória Sofia com apenas 6 anos de idade e, por isso, sem saber ler ainda, que tem declamado, de forma encantadora, lengalengas e ditados de índole popular para cada evento. Como conclusão, confirma-se que, como nos refere Fernando Pessoa, no famoso poema “Liberdade”, “Grande é a poesia, a bondade e as danças…/ Mas o melhor do mundo são as crianças”.
Osmusiké nos Projetos Multidisciplinares Sons e Vozes da Liberdade O quinto Concerto de música e poesia, denominado “Sons e Vozes da Liberdade”, seria realizado, no dia 22 abril de 2023, com início às 21H30, no Teatro Jordão, com a sala esgotada. Um espetáculo evocativo de Abril, dedicado a um homem de Abril, de nome Joaquim Santos Simões. De facto, nascido em Espinhal, Penela, Coimbra, a 12 de agosto de 1923, mas que, em 1957, veio para Guimarães onde se tornou professor de Matemática do ensino público, na então Escola Industrial e Comercial de Guimarães, Santos Simões ali lecionou até 1961, sendo, então, demitido do ensino oficial pelo Estado Novo salazarista e obrigado a enveredar pelo ensino secundário particular. Um concerto de Abril e da liberdade, no qual honrosamente marcaram presença os filhos e os netos do homenageado e os membros da edilidade, Adelina Paula Pinto e Paulo Silva. Uma homenagem merecidíssima, em tempo e condições apropriadas, por aquilo que Santos Simões representou como lutador pelas causas da liberdade e homem da cultura. Efetivamente, seria nesta cidade que Santos Simões começaria a intensificar o seu trabalho ligado à cultura, vindo a iniciar, em 1963, uma
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atividade política organizada. Paralelamente, notabiliza-se como um dos fundadores do Cineclube de Guimarães e do Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB), ligado ao Círculo de Arte e Recreio (CAR), três instituições onde ocupou cargos e desempenhou um papel importante até à sua morte. Com efeito, um espetáculo comemorativo da Revolução dos Cravos, porque a Democracia e a Liberdade não é um dado adquirido e que, concomitantemente, seria também um hino à liberdade com as palavras poéticas de Santos Simões e outros autores portugueses – Fausto, Zeca Afonso, José Mário Branco, Sophia de Mello Breyner -, declamadas e cantadas por intervenientes de todas as idades, acompanhados pelo som da viola ou piano e quarteto de cordas. Sons da liberdade que ecoaram em uníssono, em especial no final da sessão, com “Grândola, Vila Morena”, mas também nas vozes dos nossos pequenos declamadores como a Vitória, o Afonso, a Bia Ferreira e a Sara Gonçalves, com versos alusivos à efeméride, entre os quais o poema “Aqui estamos”, de autoria de Santos Simões, na voz de Manuela Ribeiro e com a família do homenageado na primeira fila da plateia: “Aqui estamos Nus e famintos aguardando firmes que o sol desponte em riso de criança Aqui estamos Sorvendo lágrimas salgadas de traições sobre um chão de frutos podres calculadamente semeados Aqui estamos Defendendo a esperança que vem logo Sabendo que Abril vive fascismo nunca mais Abril é fogo Aqui estamos nus e sedentos à porta da cidade onde a vida é Abril
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Aqui estamos Erguendo os punhos aos chacais que Abril é Abril fascismo nunca mais”
O Trovador de Couros Inserido no programa “ÀS Ruas! Por Três”, Osmusiké apresentou, em 13 de maio último, no Largo do Trovador, a performance “O Trovador de Couros”, um espetáculo centrado num dos mesteres mais tradicionais de Guimarães: os curtumes.
A ribeira da Costa/Couros funde-se com a história dos curtumes de Guimarães, que outrora acolheu cantares e estórias de quem usufruiu desta ribeira, enquanto fonte de sobrevivência. “O Trovador de Couros” foi (e é), assim, um interessante e bem construído espetáculo de Artes 762
Performativas, (teatro e música) em homenagem à vida dos curtidores e surradores de Couros, tendo como figura principal o primeiro trovador português, Manuel Gonçalves, um filho de Couros, que está perpetuado na toponímia de Guimarães desde 1880, por ocasião do tricentenário de Luís Vaz de Camões. Deste modo, o Grupo de Teatro Osmusiké juntamente com o Coro Osmusiké apresentaram um espetáculo onde a música se fundia com o texto de Emília Ribeiro, onde incluía dois poemas de Luís Almeida (Os curtidores e surradores e o Trovador de Couros) este último também musicado pelo autor, que interpretara a personagem de Manuel Gonçalves, o primeiro trovador português, e que contou ainda com Ricardo Faria, como seu escudeiro, e José Pereira, o arauto. Alice Xavier, Maria Terra, Jandira Henriques, Celeste Pinto, Rosa Silva, Olívia Freitas, Manuela Sousa e Emília Ribeiro dariam vida às mulheres de couros, que transportavam as peles em varas desde os tanques até ao Largo do Trovador, para aí as colocarem a secar. O Coro Osmusiké Cantar Guimarães, acompanhado pelos instrumentistas Luís Oliveira, José Leite, José Soares, Fernando Fernandes e Domingos Araújo abrilhantaram o momento com a sua música. Vozes e músicas do repertório de Osmusiké, que interpretariam baladas como “Gentes de Guimarães”, “Guimarães terra bonita”, “Guimarães Nobre cidade”. Luís Almeida, “O Trovador de Couros”, cantaria a solo, acompanhado por Luís Oliveira, na viola. O público aderiu em força e os residentes de Couros agradeceram a aprendizagem retirada do espetáculo. “Vivo há tantos anos aqui e só hoje fiquei a saber a razão do Largo ter o nome (toponímia) de Couro”, mencionavam!
Memórias da nossa terra – O Mercado à Moda Antiga “Memórias da nossa Terra – Mercado à moda antiga” procura recriar a vivência típica vimaranense dos finais do século XIX, inícios do seculo XX, mostrando como era o antigo mercado que se realizava na Praça do Mercado, atual Plataforma das Artes e da Criatividade. Hoje o edifício do Mercado Municipal, localizado no interior de um quarteirão central na cidade, no lugar das Lameiras, freguesia de Creixomil, na Rua do Montinho, é um espaço que precisa de ser
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reinventado, de forma a atrair visitantes e compradores. Neste sentido, Osmusiké candidataram ao Programa IMPACTA, o Projeto supracitado, que foi aprovado, sendo já a segunda edição. Assim, em colaboração com os vendedores e comerciantes do Mercado, e, contando com a participação do Grupo de Teatro da ADCL, Grupo Cultural Informal de Nespereira e o Grupo Folclórico de Tabuadelo levaram a efeito o evento, no dia 27 de maio de 2023, durante o horário de funcionamento do Mercado. Foi uma recriação viva, com venda de legumes e frutas, artesanato, especialidades de gastronomia e doçaria, e algazarra de gentes e pregões, trajes garridos, a rigor, com as cores, os sabores e a diversidade cultural do Mercado, com performances musicais e teatrais onde não faltaram: “o vendedor da banha da cobra”; “os ceguinhos”; “a vendedora de rendas, botões, de esticadores de camisas e gravatas…” A cantoria e o bailarico foram uma constante ao longo do evento. No final foi servido um almoço volante a todos os elementos dos grupos convidados, no piso superior do Mercado. Martinho Gomes, o Responsável do Mercado, agradeceu a colaboração solicitando que o evento fosse repetido no próximo ano.
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Concerto Sons de Outono 2023 Osmusiké, tem vindo, no decorrer da sua história, a contribuir de forma relevante na formação dos seus membros, assim como, a tornar-se um elo de cultura, de motivação, de convívio, de conhecimento, de investigação e de socialização entre professores, alunos e a comunidade vimaranense, de partilha entre associações diversas. Depois de completar vinte anos no ano anterior, 2023 marca o início de uma nova década, onde a apreciação do tempo rítmico e dos vários andamentos, ou movimentos, que definem a velocidade da música há vários séculos, propõe uma analogia com as nossas vidas. A sala do renovado e emblemático Teatro Jordão recebeu, no dia 28 de outubro, o VI Concerto “Sons de Outono”, que foi uma amostra de todos os envolvidos na formação, nas diferentes áreas artísticas – música, teatro, poesia, dança – e contou ainda com artistas convidados. Os grupos musicais tiveram como maestro, Júlio Dias, mas o coro de Osmusiké Cantar Guimarães foi dirigido pela jovem e promissora maestrina Ana Almeida. O Grupo Cantares Populares de Osmusiké teve como maestro Luís Manuel Oliveira (img. de baixo). Na circunstância, Osmusiké Teatro representaram a “Farsa de Inês Pereira” que, neste ano, fez 500 anos da sua criação, dando azo a evocar o Mestre Gil Vicente, o pai do teatro português, com acompanhamento musical de Osmusiké que sempre harmoniosos e afinados, desta feita, revisitaram Amália, Florbela Espanca e os temas da nossa cidade (ver pág. Seg. - quadro de IMG da esquerda).
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Igualmente, momentos preciosos para ouvir Osmusiké Poesia que, como sempre, trouxeram um cheirinho do perfume dos nossos poetas, a várias vozes (ver quadro de IMG da direita).
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Vozes que, como Osmusiké pretendem, reportam um trabalho em rede que nos proporcionou ouvir o Chorus Anima Populi (IMG da esquerda) e o Vima Chorus (IMG da direita), que fez uma das primeiras atuações, numa exibição liderada por jovens músicas, para quem o futuro é já uma certeza.
Sons de Outono aporta valor, evidencia cultura, acentua qualidade de vida e mostra Guimarães igual a si mesma, quanto popular, clássica, turística, cosmopolita, monumental.
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OsmusikéCadernos – Projeto editorial OsmusikéCadernos 5 Em dezembro, publicamos OsmusikéCadernos 5. É verdade! Já foi o número 5! De facto, como o diretor escreve, na nota de abertura, “E com esta, já vão cinco!” Efetivamente, desde junho de 2020 que OsmusikéCadernos saem do prelo e estão na rua, prosseguindo a sua caminhada pelos rumos da cultura, da tradição, do património vimaranense e da memória dos grandes eventos urbe e orbi. Ora, este é o número 5, similar aos anteriores na abordagem das nossas coisas e loisas, porém diferente nas temáticas em que a cidade e o concelho são úberes. Assim, nesta quinta edição de centenas de páginas e de dezenas de colaboradores, na pluralidade dos seus pontos de vista, o presente número lança, de novo, sementes à terra vimaranense para acolher a safra do futuro. Mas o melhor é voltar ao início e revisitar os autores, nas suas diversas temáticas. E até ao ano que vem… Ou então, como diria o poeta-cantor, “Venham mais cinco “… OsmusikéCadernos 6 Apresentados os OsmusikéCadernos n.º 5, neste ano de 2023, também já nesta matéria os Cadernos n.º 6 espreitam de forma latente as vazias páginas da impressão de 2024. Uma edição que pretendemos focalizar fundamentalmente nos 140 anos do Ano de Ouro de Guimarães, em 1884, mas também, no cinquentenário da Universidade do Minho e do histórico 25 de Abril de 1974. Temas que, a outros níveis, poderão também passar, pela vertente desportiva, nomeadamente pela recordação do Euro 2004, em Guimarães e a nível internacional, pelos 100 anos dos Jogos Olímpicos de Paris
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de 1924, nos quais participariam 3089 atletas de 44 países e apenas 135 mulheres. Participação que contaria com 29 portugueses, em 8 modalidades. Outrossim, abordaremos efemérides que, em 2024, estarão na ordem do dia: o 5.º centenário do nascimento de Camões, pretensamente em 1524, o centenário do nacimento dos poetas Alexandre O’Neill e António Ramos Rosa, bem como de outros nomes da nossa literatura como Bernardo Santareno e Teófilo Braga. A nível local, será de evocar os 200 anos de nascimento da poetisa Catarina de Lencastre e de outros vimaranenses como os centenários de nascimento do pintor Isabelino Coelho e do compositor Valentim Moreira de Sá. Panos para mangas não faltam, pelo que, como sempre, contamos com os prestimosos contributos dos nossos (habituais) colaboradores.
Osmusiké na Feira Afonsina Fruto de uma sólida memória cultural, instalada e refletida no imaginário coletivo da comunidade, realçando e valorizando a identidade histórico-cultural impressa no código genético da cidade, Guimarães apresenta-se como palco privilegiado para a realização da Feira Afonsina, como refere a organização num dos seus textos de divulgação. Na senda das edições anteriores, o Município de Guimarães, em 2023, deu continuidade ao evento “Feira Afonsina” – 11ª edição, proporcionando a todos os visitantes uma experiência inesquecível no tempo, através da construção de espaços temáticos que caracterizaram os quatro dias do evento. Mas não foi apenas a quem nos visitou. Foi também a quem participou com muita alegria, num clima de festa, de proximidade e de convívio. Osmusiké estiveram presentes em força! A nossa TENDA é sempre muito visitada e os nossos “AFONSINHOS” são sempre de comer e chorar por mais… Acreditamos que no período “Que antecedeu à Batalha de S. Mamede, em 1128”, com Afonso Henriques Político e Diplomata, ainda não havia doces com este sabor e com o saber daquelas que os
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confecionam, sobretudo da Ana Maria Oliveira, sem esquecer as amigas que a ajudam e de que maneira, na azáfama da cozinha. Já ávida de quem os comercializa é mais fácil dado o “gostinho especial” que têm.
Como a nossa cidade tem história nos doces conventuais, aquando da criação da Feira Afonsina, em 2011, Osmusiké pensaram pela cabeça de umas colegas e batizaram o doce com o nome de Afonsinhos, confecionado a partir de uma receita de família, encontrada num baú antigo da família da Ana Maria Oliveira. Os ingredientes eram muitos e estavam alinhados com a doçura conventual. E assim tem sido… ”Em forma de queque, com ovos, gila e amêndoa, uns pozinhos de magia, um sabor a mistério e muito carinho” têm sido um prazer para os “feirantes”. De tal forma as nossas doceiras se empenharam que se procedeu ao registo da marca, em nome de Osmusiké. Na última edição, o evento retratou o período “Que antecede à Batalha de S. Mamede, em 1128 Afonso: Político e Diplomata”. A máquina do tempo começara a funcionar em todo o centro histórico de Guimarães entre os dias 22 e 25 de junho do ano de 1128, mais concretamente em meados do dia de S. João. O infante Afonso Henriques
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apoiado pelo seu aio Egas Moniz, preparam-se para tomar conta do poder do pequeno Condado Portucalense, mal gerido, segundo eles, por D. Teresa. Foi a partir deste momento que Guimarães iria contar a história da Batalha de S. Mamede com recriações encenadas e muitos adereços colocados pelas “villas” para mostrar que as viagens do tempo são de facto possíveis.
A Atuação das Regateiras, do grupo de Teatro Osmusiké, tem um papel primordial no Mercado do Restolho, onde permaneceram durante todo o evento, como tem acontecido em edições anteriores. Foi notória a sua jovialidade, alegria e criatividade. Enquanto que nas edições iniciais, apresentavam performances em locais combinados, muita gente aparecera para acompanhar de perto este grupo animado com as suas rábulas sempre divertidas, arrancando imensos aplausos, hoje ficam restritas ao povoado onde recebem os visitantes e interagem com todos aqueles que aí vivem ou com os forasteiros que por aí aparecem, nas diversas atividades: venda de produtos, participação na missa, procissão e julgamento dos infiéis. 771
Osmusiké em festa: 21.º aniversário Como habitualmente, no dia 17 de junho, Osmusiké e os amigos rumaram a Pevidém, ao Restaurante Pança, local escolhido para o repasto de mais um aniversário…e vão 21 anos. Noite memorável de alegria, boa disposição e confraternização, com muita música a cargo de Osmusiké Cantares Populares, mas onde todos quiseram dar uma perninha e um pé de dança. Éramos mais de cem participantes e fruímos da nossa música coral e instrumental que percorreu parte da noite, intercalada com momentos de poesia, em ambiente de festa e de convívio, animados pelo prazer gastronómico de iguarias apetitosas, regadas com bom vinho. Foi mais uma noite de magia para mais tarde recordarmos… Deixamos algumas imagens que ilustram bem a animação de todos. Para o ano haverá mais…
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