RecensõesMmCAPA
1
2
OsmusikéCadernos
5
1.ª PARTE
1
FICHA TÉCNICA Título: OsmusikéCadernos 5 Diretor: Jorge do Nascimento Silva Equipa Redatorial: Jorge do Nascimento Silva, Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes, João S. Pereira, J. Salgado Almeida Conceção gráfica: João Silva Pereira, J. Salgado Almeida, Jorge do Nascimento Silva, Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes Capa: J. Salgado Almeida Revisão: Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes, Jorge do Nascimento Silva, João Silva Pereira Ilustrações: J. Salgado Almeida, Local de edição: Guimarães Propriedade e edição: Osmusiké, osmusike@gmail.com - www.osmusike.pt Escola Secundária Francisco de Holanda, Alameda Dr. Alfredo Pimenta, 4814 528 Guimarães Ano e mês: 2023, dezembro Páginas: 772 ISSN: 2975-8041 Coprodução: Município de Guimarães Notas:
1 - Todos os artigos que integram OsmusikéCadernos 5 são da responsabilidade dos respetivos autores; 2 - Respeitando a opção individual de cada um, apresenta-se a ortografia portuguesa com ou sem o acordo ortográfico; 3 - Quando os textos estão assinados com afiliação profissional, os cargos referem-se à data em que os mesmos textos foram escritos.
Notas para a versão e-book - Por razões técnicas, a revista está dividida em 2 partes. A primeira, com 341 páginas, além dos textos de abertura, trata da celebração dos 10 anos da Capital Europeia do Desporto, cujo evento decorreu em 2013; do desenvolvimento da cidade de Guimarães e do centenário do nascimento de Santos Simões.
2
ÍNDICE I.
ABERTURA --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 13 O individual e o coletivo na construção da comunidade ------------------------------------------------------------------------------------- 15 Domingos Bragança
Sem Santos Simões este artigo não existiria ---------------------------------------------------------------------------------------------------- 17 Paulo Silva
Venham mais cinco ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 20 Jorge do Nascimento Silva
II.
GUIMARÃES, CIDADE EUROPEIA DO DESPORTO – 10 ANOS------------------------------------------------------------------------------------- 23 Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013 ------------------------------------------------------------------------------------------------ 25 Equipa Redatorial
TESTEMUNHOS --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 44 CED 2013 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 44 Alexandre Miguel Mestre
Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013 – Uma outra oportunidade de transformar Guimarães ----------------------- 45 Amadeu Portilha
10 anos de Guimarães, Cidade Europeia do desporto 2013 --------------------------------------------------------------------------------- 48 Emídio Guerreiro
Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013, 10 anos ------------------------------------------------------------------------------------ 50 Miguel Laranjeiro
COLETIVIDADES --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 52 Caldas das Taipas uma Vila Desportiva ----------------------------------------------------------------------------------------------------------- 52 Luís Soares
Clube Caçadores das Taipas nos seus primórdios ---------------------------------------------------------------------------------------------- 54 Carlos Marques
Clube Caçadores das Taipas – 100 anos, são isso mesmo: 100 anos! --------------------------------------------------------------------- 63 Manuel António Silva (Néné)
Piscinas das Caldas das Taipas: 73 anos de História (1950-2023) -------------------------------------------------------------------------- 67 António José de Oliveira
NAT - Núcleo de Atletismo das Taipas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 72 Pedro Regueiras
Clube de Ténis de Mesa das Taipas ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 74 A direção
Clube de Petanca das Taipas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 77 Direção da Associação
O Rope Skipping e a Vila das Taipas --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 80 Sandra Freitas
Clube Operário de Campelos – 70 anos de história -------------------------------------------------------------------------------------------- 83 Direção do Clube
3
Clube Industrial de Pevidém – Breve historial de 90 anos ----------------------------------------------------------------------------------- 86 A direção do Clube
Guimagym – Um clube de emoções! -------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 90 Luís Rodrigues
Guimarães Rugby Union Football Club - À memória do meu bom amigo Eduardo Raynoch ---------------------------------------- 95 José Couceiro da Costa
Do Desportivo Francisco de Holanda ao Clube Desportivo Xico Andebol – 1942-2023 - Breves “pingos” da sua História --105 José Carlos Correia; Paula Ferrão; Mauro Fernandes
Breve historial do Clube de Ténis Guimarães (CTG) ------------------------------------------------------------------------------------------113 Direção do Cube
O CAR e as modalidades desportivas amadoras em Guimarães - Anos 50 / 60 (uma experiência pessoal) --------------------117 Bernardino Pina
50 Anos da União Desportiva de Polvoreira ----------------------------------------------------------------------------------------------------125 Carlos Oliveira
OFERTA DESPORTIVA EM GUIMARÃES -------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 129 Breve resenha da história do desporto de competição em Guimarães ------------------------------------------------------------------129 Fernando Castro
A evolução da prática desportiva federada em Guimarães ---------------------------------------------------------------------------------135 José Fidalgo Martins
A importância do desporto informal em Guimarães -----------------------------------------------------------------------------------------142 Pedro Ferreira
A procura desportiva em Guimarães – 2022 ---------------------------------------------------------------------------------------------------147 Dimas Pinto
Os Espaços de prática desportiva em Guimarães ---------------------------------------------------------------------------------------------154 José Fidalgo Martins
OS NOSSOS CAMPEÕES ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 161 Os Nossos Campeões---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------161 Vasco Rodrigues
A taça é nossa – pela 1.ª vez! ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------174 Joaquim Azevedo
Entrevista ao tenista e conquistador João Sousa ----------------------------------------------------------------------------------------------176 Equipa Redatorial
III.
GUIMARÃES – UMA CIDADE SEMPRE EM CONSTRUÇÃO --------------------------------------------------------------------------------------- 181 Contributo para a Identidade Vimaranense no século XIX ----------------------------------------------------------------------------------183 Alberto Lameiras
Guimarães, um território diferenciador ---------------------------------------------------------------------------------------------------------191 Adelina Paula Pinto
Cidades Livres ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------193
4
Sílvia Lemos
Reabilitação do Castro de Sabroso ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------195 Gonçalo Cruz
Couros Património da Humanidade! -------------------------------------------------------------------------------------------------------------199 Gabriela Nunes
Inscrição da Zona de Couros na Lista do Património Mundial da UNESCO -------------------------------------------------------------202 Ricardo Rodrigues
IV.
SANTOS SIMÕES – 100 anos do seu nascimento -------------------------------------------------------------------------------------------------- 209 Memórias a cinco mãos -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------211 Francisca, Joaquim, Pedro, Isabel e António
Santos Simões, uma personalidade com carisma ---------------------------------------------------------------------------------------------217 António Gama Brandão
É inadiável tomar uma posição. Santos Simões nos caminhos da educação (Biografia e bibliografia, 1930-1992) -----------223 António Amaro das Neves
O meu Amigo J. Santos Simões – A propósito de um centenário -------------------------------------------------------------------------239 Fernando Capela Miguel
Santos Simões – Um interventor e criador cultural que quis ser político ---------------------------------------------------------------246 Raul Rocha
Santos Simões, escritor ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------252 Álvaro Nunes
Eu conheci Santos Simões---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------258 António Xavier
Santos Simões – O meu testemunho no centenário do seu nascimento ----------------------------------------------------------------261 Manuel Ferreira
Curta abordagem ao notável percurso de vida de um singular cidadão, o dr. Santos Simões -------------------------------------263 António Magalhães
Um cidadão irrepetível ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------264 António Mota-Prego
E tudo o vento levou ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------267 Paulo Cunha
Santos Simões – A arquitectura do devir --------------------------------------------------------------------------------------------------------270 José Manuel Mendes
Como conheci o Dr. Santos Simões ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------273 Henrique Barreto Nunes
O homem polifacetado e o cidadão militante e exemplar: Santos Simões, no Centenário do seu Nascimento ---------------280 Manuel Reis
Santos Simões: um esboço a lápis ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------283 Carlos Poças Falcão
Santos Simões – Um homem polémico, um homem bom ----------------------------------------------------------------------------------285 José Fernando Rodrigues Alves Pinto
A Santos Simões ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------287
5
Fernando Martins Fernandes
Santos Simões: “antes quebrar que torcer” ----------------------------------------------------------------------------------------------------288 Alfredo Magalhães
Uma espécie de vizinho------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------291 Rui Víctor Costa
Nótula breve acerca de Joaquim Santos Simões ----------------------------------------------------------------------------------------------293 Albino Baptista
Santos Simões e as Caldas das Taipas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------295 Carlos Marques
No decesso do saudoso amigo e colega ---------------------------------------------------------------------------------------------------------303 Branco de Matos
O Mestre na Matemática – Um pequeno episódio -------------------------------------------------------------------------------------------304 Mário Roque
No centenário do nascimento de Santos Simões – Por uma Escola Humanista -------------------------------------------------------309 Benjamim Sampaio
O colosso que dizia palavras firmes envoltas em veludo de sabedoria ------------------------------------------------------------------312 Esser Jorge Silva
Santos Simões e a Biblioteca Raul Brandão -----------------------------------------------------------------------------------------------------320 Maria José Nobre
Santos Simões – Um Homem do Renascimento -----------------------------------------------------------------------------------------------324 José Pinheiro
Joaquim dos Santos Simões e a sua pedagogia democrática -------------------------------------------------------------------------------329 Licínio C. Lima
Santos Simões Sempre -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------332 César Machado
6
ABERTURA Inserir separador
13
Abertura Estes OsmusikéCadernos n.º 5, do ano de 2023, têm como temas centrais os 10 anos de Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013, bem como os 170 anos da Elevação de Guimarães a Cidade e os 70 anos das Comemorações do Milénio do Burgo, ambos os eventos evocados em 1953. Paralelamente, entre vários outros centenários, sobressaem os 100 anos de nascimento de J. Santos Simões, filho adotivo desta terra de bem querer, que a cidade está a comemorar. Na abertura, portanto, algumas palavras oportunas dos representantes deste berço, como o Presidente da Câmara Municipal, Dr. Domingos Bragança, o atual Vereador da Cultura, Dr. Paulo Silva e o Presidente da Direção dos Osmusiké e diretor desta publicação, Dr. Jorge Nascimento.
14
O individual e o coletivo na construção da comunidade Domingos Bragança Presidente da Câmara Municipal de Guimarães
Vem este texto a propósito da rememoração de duas importantes datas na vida comunitária de Guimarães: o centenário do nascimento de Joaquim Santos Simões e os 10 anos de Guimarães – Cidade Europeia do Desporto. Neste caso, a ordem não será importante, uma vez que estamos perante duas efemérides de natureza distinta. Por um lado, comemoramos o nascimento de uma personalidade ímpar na vida social e cultural da cidade, Joaquim Santos Simões. Um cidadão que escolheu Guimarães como sua, e que deu tudo de si em prol da construção de uma partilha e diálogo livres, com tudo o que isso implicou durante os anos vividos em regime de ditadura, em Portugal. Por outro, evocamos um evento que distinguiu a cidade pelo seu investimento na área desportiva, que conferiu a Guimarães um grande prestígio internacional, fazendo do território vimaranense, durante um ano, um palco nacional e internacional para onde todas as atenções da Europa Desportiva estavam viradas. Mas o que existirá de comum entre o papel do indivíduo e do coletivo na construção de uma comunidade? Desde logo, uma comunidade unida e forte é o resultado das sinergias que se estabelecem entre os indivíduos que a compõem e o coletivo que deles emerge. Nesse contexto, tanto o indivíduo quanto o coletivo desempenham papéis essenciais na construção de uma comunidade coesa e próspera. O indivíduo, com as suas características que o distinguem e as suas potencialidades, contribui para um olhar distinto e diverso, para uma perspetiva única, porquanto sua, sobre as diversas dimensões da vida em sociedade. Quando o indivíduo se compromete ativamente e contribui com o seu talento e conhecimento, a comunidade passa a beneficiar de uma riqueza de perspetivas e ideias. Esta diversidade de pensamentos e experiências, trazida pelos indivíduos, promove a inovação e o crescimento, permitindo que a comunidade enfrente, mais bem preparada, os seus desafios. Além disso, o indivíduo é um agente de mudança dentro da comunidade. Cada pessoa tem a capacidade de influenciar o seu ambiente e as pessoas em seu redor. E quando a ação é positiva, torna-se um exemplo a ser seguido, motivando os pares para uma construção ativa de uma comunidade mais unida e forte. Ações individuais, como a de Joaquim Santos Simões, em domínios como o voluntariado, o empreendedorismo 15
social e a liderança comunitária, tiveram esse potencial, como é prova a longevidade das instituições por onde passou. No entanto, o indivíduo não pode atingir a sua plenitude sem o apoio e os recursos oferecidos pelo coletivo. O coletivo, por sua vez, cria um ambiente propício para que o indivíduo se desenvolva e possa contribuir de maneira significativa. A estrutura organizacional, as normas e os valores compartilhados pela comunidade fornecem-lhe um “chão sólido”. Foi esta estrutura organizacional que, na área desportiva, projetou Guimarães enquanto “Cidade de Desporto”. Uma aposta da autarquia, mas também associativa, que colheu os melhores frutos quando, em 2013, Guimarães foi a Cidade Europeia onde o Desporto liderou. Quando se cultiva um espírito e objetivo coletivos, e uma visão compartilhada, os indivíduos sentem que fazem parte de algo maior, de algo por que vale a pena lutar, dedicar tempo, investir. É este propósito, que funde indivíduo e coletivo, que fortalece o sentimento de pertença vimaranense e a sua forte identidade comunitária.
16
Sem Santos Simões este artigo não existiria Paulo Silva Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães
Na dimensão espaço-tempo, há uma infinidade de cenários que se dá como possibilidade, apenas pela ínfima alteração de uma simples variável. Quero com isto dizer que o que hoje somos é o resultado de um conjunto de situações, escolhas, percursos e caminhos. É ainda o resultado da influência que as pessoas com as quais nos cruzámos exerceram sobre nós, e do impacto dos que connosco vivem diariamente vão gerando. Se por um desses acasos, algures no espaço-tempo, Joaquim Santos Simões não tivesse chegado a Guimarães, poderia este artigo existir? A resposta é NÃO. É então seguro dizer-se que se uma viagem no tempo provocasse um desvio na trajetória de Joaquim Santos Simões e o fizesse não ter passado em Guimarães, este artigo não existiria. O presente cultural, educativo, social e político de Guimarães foi moldado, de forma indelével, pela ação exercida por Joaquim Santos Simões. A sua passagem por Guimarães, ainda que determinada por um conjunto de variáveis, deixou uma marca constante. Um facto que fará com que, nas próximas linhas, me dedique, por inerência do mandato e missão que me foram atribuídos, a refletir de forma especial na dimensão do legado cultural que Santos Simões deixa no concelho de Guimarães. Podemos afirmar, com grande dose de certeza, que sem Santos Simões o tecido associativo vimaranense não seria hoje o mesmo. Duas mãos cheias de associações culturais foram por ele fundadas e dirigidas, foi decisivo para a instalação de uma Biblioteca Municipal, esteve no processo que permitiu que a Universidade do Minho viesse a instalar-se em Guimarães. Ao exercer uma grande influência sobre o futuro cultural de Guimarães, Santos Simões exerceu também uma grande influência sobre as pessoas com as quais se cruzou, marcando e formando toda uma geração de novos dirigentes associativos. Não tendo tido com o Dr. Santos Simões relação direta, muito do meu percurso foi marcado por essa outra geração por ele formada, e pelas instituições que marcou. Sem Santos Simões, não haveria o Teatro de Ensaio Raul Brandão, a minha casa durante vários anos, nem o Círculo de Arte e Recreio. Sem Santos Simões, não haveria o Cineclube de Guimarães, onde me eduquei para o cinema. Sem Santos Simões, não haveria Biblioteca Municipal Raul Brandão, onde fui associado 17
desde cedo, li e estudei. Sem estes percursos, e outros, também o meu presente não seria o mesmo, e dificilmente este artigo existiria. E ainda que por outros caminhos eu aqui tivesse chegado, com a responsabilidade que me leva a escrever este artigo, ele seria muito mais pobre e um desafio menos interessante, por força de tudo quanto Santos Simões representou para o meu crescimento humano e cultural. Se uma viagem no tempo provocasse um desvio na trajetória de Joaquim Santos Simões e o fizesse não ter passado em Guimarães, poderíamos dar como possibilidade a não existência do Guimarães Jazz, dos Festivais de Gil Vicente ou do Cinema em Noites de Verão, e assim tomarmos consciência de quão importante foi a sua presença na nossa cidade. O pendor associativo fortemente enraizado nos vimaranenses dificilmente teria a força que revela, e vários projetos que hoje assumem um grande relevo poderiam nunca ter existido. Arrisco ir mais longe: sem as “casas” para que Santos Simões contribuiu, não teriam sido abertas as portas para que uma geração de músicos se pudesse encontrar nas salas de ensaio, e experimentar os seus primeiros palcos. O impacto da presença de Santos Simões em Guimarães perdura no tempo. Ainda que Santos Simões não tenha tido ligação com Osmusiké, deixou a sua marca na Escola de onde esta associação imanou, e provocou uma revolução no tecido associativo, com reflexos até aos dias de hoje. Tal revolução faz com que hoje, em 2023, o ímpeto individual seja capaz de coligir vontades coletivas no fomento de projetos associativos culturais, num território em que esta dimensão ocupa grande parte do calendário, e faz com que toda uma geração de novos dirigentes associativos, que deram seguimento ao seu legado, se envolvam em novos projetos coletivos. Tendo eu hoje a responsabilidade de pensar sobre o global, não posso, no particular, e nesta reflexão, deixar de pensar nas condições de base para que este artigo possa existir. De tanto que devemos a Santos Simões, fazer-lhe justiça parece algo inalcançável. No Centenário do seu nascimento, procuramos celebralhe a vida, respeitando o seu legado, que conhecemos e queremos cuidar, e dedicando-lhe um ano de atividade, entrecruzando as dezenas de instituições que transportam a sua marca. Muitos foram os momentos que já lhe dedicámos, mas não queremos ficar por aqui. Há muitos factos a registar, muitas memórias para fazer perdurar, muitos registos para compilar e mais história para publicar. Este artigo, que sem Santos Simões, não existiria, está perto do seu final. Mas este é apenas mais um artigo que estará junto a dezenas de outros, escritos por cronistas vimaranenses que se dedicam às questões da cultura, e que poderão ser lidos numa publicação de uma associação cultural com mais de 20 anos de 18
existência. Uma vitalidade que, pergunto, seria provável sem o legado de Santos Simões? Com a certeza da validade da premissa com que iniciei este artigo, termino com uma interrogação que, no contínuo espaço-tempo, nunca deixo de me colocar. Uma interrogação que gostaria que fosse estendida e objeto de uma reflexão conjunta. Sendo verdade que este artigo não existiria se Santos Simões por cá não tivesse passado, que Guimarães teríamos hoje se Santos Simões agora cá estivesse? Que Guimarães conheceríamos no futuro se pudéssemos contar com a sua sagacidade no espaço-tempo deste artigo, no espaçotempo em que vivemos?
19
Venham mais cinco Jorge do Nascimento Silva Diretor
E com esta, já vão cinco! Efetivamente, desde junho de 2020 que OsmusikéCadernos saem do prelo e estão na rua, prosseguindo a sua caminhada pelos rumos da cultura, da tradição, do património vimaranense e da memória dos grandes eventos desta Urbe. Ora, este é o número 5, similar aos anteriores na abordagem das nossas coisas e loisas, porém diferente nas temáticas em que a cidade e o concelho são úberes. Assim, nesta quinta edição de centenas de páginas e dezenas de colaboradores, na pluralidade dos seus pontos de vista, o presente número lança, de novo, sementes à terra vimaranense para acolher a safra do futuro. De facto, nesta edição, é a seiva do passado que (re)constrói este presente e projeta o devir, assente em raízes fortes e sólidas das quais somos ramos frondosos desta árvore que frutifica. Por conseguinte, é por esta razão que lembramos J. Santos Simões, no centenário do seu nascimento, ele que foi filho adotivo deste chão e arauto sociocultural desta terra do seu bem querer; e é também por isso que evocamos efemérides diversas, como as comemorações da elevação de Guimarães a cidade e o milénio do burgo. Ocorrências de antanho às quais se ajuntam outras conquistas recentes, como os 10 anos de Guimarães – Cidade Europeia do Desporto 2013, que proporcionará ensejo a uma viagem pelas nossas coletividades e oferta desportiva, bem como fazer memória e homenagear muitos dos nossos campeões de ontem e hoje. Como sempre, e habitualmente, acenderemos também as luzes da ribalta para as figuras vimaranenses e coisas e loisas de Guimarães, convocando ainda para palco e camarins os nossos escritores e a nossa língua, em especial aqueles que por obras valorosas se foram da lei da morte libertando. Falamos, como é óbvio, do centenário de nascimento dos poetas como Eugénio de Andrade e Natália Correia, assim como Eduardo Lourenço, bem como outras efemérides literárias entre as quais sobressaem os 500 anos da “Farsa de Inês Pereira” de Gil Vicente e 100 anos da publicação de “Teatro” de Raul Brandão. 20
Espaço literário que também abre portas às galerias artísticas de Abel Cardoso, ao pintor Delirante e nomes nacionais e internacionais como o poeta-pintor surrealista Mário Cesariny ou Picasso. Rubricas a que se aditam várias recensões/sinopses sobre o que se vai publicando por estas bandas, quer em matéria de livros e revistas, quer em produções avulsas e inéditas que, igualmente, no espaço criativo Porta Aberta, entreabrem o acesso à sua divulgação, fora das gavetas. Dar voz aos nossos criadores! Outrossim, efemérides que abordam os 50 anos da criação da Universidade do Minho, o 75.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre muitas outras ocorrências da cidade e do mundo. Igualmente, um ensejo para mostrar Osmusiké em ação em várias realizações da nossa lavra, no âmbito da animação social e cultural desta terra. Enumero em particular os habituais Concertos de Reis Cantar ao Menino, Sons e Vozes da Liberdade, Sons de Outono, a nossa participação ativa nas realizações da cidade, como a Feira Afonsina, bem como nas atividades levadas a cabo pelas nossas valências teatrais, musicais, poéticas e editoriais, cujos protagonistas têm estoicamente dado corpo e alma total à sua prossecução. Porém, não há cinco sem seis e os OsmusikéCadernos6, a sair no decorrer de 2024, está já na forja. De facto, no próximo ano, voltaremos a cantar os poetas e os artistas centenários como os 500 anos do nascimento de Camões e os centenários do nascimento de Alexandre O’Neill e Isabelino Coelho, entre outros. E voltaremos também aos acontecimentos do passado mais ou menos recente, como a evocação do Ano de Ouro da nossa cidade de 1884, as recordações do Euro 2004, em Guimarães e, claro, os Jogos Olímpicos de Paris de 2024 e o cinquentenário da Revolução de Abril. Novamente, estamos convictos, temos pano para mangas e alfaiates para coser estas linhas … Termino com uma palavra de apreço para com os nossos parceiros, em especial a Câmara Municipal de Guimarães, que lado a lado tem alinhado connosco nesta tarefa hercúlea e sempre gigantesca de falar de Guimarães. Reconhecimento e estima não só pela colaboração ativa, mas também e sobretudo pela confiança em nós depositada. Enche-nos a alma este serviço à comunidade reunindo vontades, pessoas e entidades tão díspares num coletivo constituído pelas gentes de Guimarães. Portanto, e em conclusão, a nossa gratidão a todos quantos deram o seu melhor para que o melhor de nós despertasse. Mas, como diria José Afonso: VENHAM MAIS CINCO…
21
22
GUIMARÃES, CIDADE EUROPEIA DO DESPORTO – 10 ANOS Inserir separador
23
Guimarães, Cidade Europeia do Desporto – 10 Anos Parece que ainda foi ontem, mas de facto já voou uma década, cheia de saltos mortais, pontapés em falso, golos falhados e duvidosas acrobacias… Recordar os principais eventos dessa “maratona” com base na imprensa local, iniciativa que foi um sucesso a vários níveis e culminaria com a atribuição à cidade de Guimarães do galardão de “Melhor Cidade Europeia do Desporto 2013”, bem como complementar essa resenha com depoimentos e testemunhos de alguns dos seus protagonistas, são as linhas de fundo deste espaço sócio desportivo. Linhas que, porém, não limitam, mas antes abrem espaço e dão azo a colocar em jogo o papel das coletividades e da oferta desportiva vimaranense, tal como os seus heróis principais e nossos campeões das várias modalidades.
24
Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013 Equipa Redatorial
O ano de 2013 marca a designação de Guimarães como Cidade Europeia do Desporto. Porém, como todos sabemos, particularmente no desporto, nada se conquista sem preparação prévia e esforço porfiado, antes da entrada em jogo. Ora, Guimarães preparou-se atempadamente. Deste modo, em fevereiro de 2012 uma delegação da Associação das Capitais Europeias do Desporto (ACES) constituída por Nuno Santos (delegado da ACES Portugal) e Alessandra Caligarif (Secretária Geral da ACES) dariam o primeiro pontapé de saída ao processo, com a comunicação da aceitação da candidatura, que a edilidade vimaranense elaborava laboriosamente, sob a tutela de Amadeu Portilha. Com efeito, Guimarães atingira o estatuto oficial de cidade candidata, cujo processo tinha já tramitado para ACES e presidência de Gian Francesco Lupattelli, como a placa ostentada na altura atestava inequivocamente. Na realidade, era o primeiro avanço no terreno, que deveria ser complementado com o envio do dossiê final até 30 de agosto de 2012, ainda que de permeio uma nova deslocação de uma delegação da ACES, bem como deputados do Parlamento Europeu, tivesse sido programada em meados de maio, para uma visita de análise e avaliação (técnica) às instalações desportivas do concelho. O Povo de Guimarães, 17 de fevereiro de 2012, p. 4 Maio de 2012 marcaria, de facto, e formalmente a apresentação e pré-formalização da candidatura de Guimarães a “Cidade Europeia do Desporto 2013”, cuja 25
decisão final ocorreria no Parlamento Europeu, em Bruxelas, em novembro próximo. Guimarães teria, assim, a honra de ser a primeira cidade portuguesa a obter a distinção de “Cidade Europeia do Desporto”, no âmbito das 12 cidades escolhidas na categoria dos concelhos entre os 100 e os 250 mil habitantes, uma vez que a atribuição de “Capital Europeia de Desporto” apenas era atribuída a cidades com mais de 250 mil habitantes, como era o caso de Antuérpia. Por conseguinte, como dizíamos, maio marcaria uma outra fase da candidatura. Com efeito, na circunstância, Amadeu Portilha, vereador do Turismo e Desporto, acompanhado pela responsável da comunicação Paula Nogueira, apresentaria nessa altura, em sessão pública, os pressupostos e motivos da candidatura, bem como os seus objetivos. Efetivamente, como justificariam, a cidade-berço disporia de mais de 300 instalações para a prática desportiva e possuiria uma alta taxa de participação desportiva à escala nacional, consubstanciada em cerca de 8 mil atletas federados em todos os clubes vimaranenses, em número superior a uma centena, e 42 modalidades desportivas. Obviamente, números lisonjeiros e justificativos do desiderato almejado, tanto mais que Guimarães incorporaria ainda uma prática significativa de desportistas fora dos não federados, que, informalmente, praticam desporto por recreação, manutenção da condição física e questões de saúde. De facto, como seria realçado, 4 em cada 10 vimaranenses praticariam desporto de forma regular pelo menos duas vezes por semana, saldando-se a taxa de participação desportiva, a nível concelhio, nos 36,7%, superior à média nacional que se cifraria nos 27%. Por outro lado, seria ainda realçada a qualidade das infraestruturas desportivas da cidade e a sua abertura à prática informal por parte dos cidadãos e grupos informais e amadores, designadamente nos pavilhões gimnodesportivos escolares. Ademais, Guimarães disporia de espaços adequados na Cidade Desportiva e um Pavilhão Multiusos e paralelamente de um Centro de Medicina Desportiva, que foi pioneiro no país. Além disso, números justificativos e trunfos à parte, a sessão pública serviria ainda para enunciar alguns objetivos da candidatura. Assim, para além do reforço da dimensão internacional da cidade e desenvolvimento sustentado do desporto e da atividade física, ressaltaria ainda objetivamente a atribuição ao desporto de um papel de mudança no paradigma económico-social, deixando-se para o futuro um legado promissor, que tornariam Guimarães uma cidade de referência em prol da vertente desportiva. Neste sentido, seria anunciada a realização de um acontecimento desportivo por semana ao longo de 2013, ou seja, 52 eventos ao longo do ano, salientando-se a prioridade e incidência fundamental e prioritária 26
no “Desporto para todos”, com metas centradas no fomento da prática desportiva, na promoção de valores decorrentes da fruição da atividade física e a na experiência comunitária e ética, nomeadamente fair-play e saúde, de acordo com o manifesto da ACES. Paralelamente, visar-se-ia uma aposta futura no empreendedorismo e na educação e formação desportivas, que entre outras propostas e sugestões passariam pela ampliação de cursos de dirigentes desportivos, a criação de um atlas com a rede de equipamentos desportivos concelhios e contactos com Instituições de Ensino Superior nortenhas no âmbito de estudos da especialidade. Aliás, como seria informado, estaria já em curso no terreno uma parceria com o Departamento de Geografia da Universidade do Minho, com vista a estudar-se o impacto das instalações desportivas no território concelhio, quer em situações de necessidades de saúde, quer de carências em matéria de infraestruturas. Na ocasião, seriam ainda apresentados o logótipo e um vídeo de apresentação da candidatura. Um logótipo que representa uma figura humana a correr com um elmo na cabeça e as cores nacionais, conjugando o simbolismo da cidade, o primeiro rei, Portugal e o sol. Um trabalho que seria criado pela empresa Popp Design e os designers Sandra Seixas, Paulo Pinheiro e Pedro Oliveira, que quer como vimaranenses quer como profissionais da área ficariam orgulhosos pela escolha do seu trabalho. Com efeito, tendo como base as cores da bandeira nacional, transmitindo um espírito guerreiro e de esperança próprias das competições, com o vermelho a conotar dor e sangue e o verde esperança de vencer, tons aos quais o sol acrescentaria o calor e o suor para a conRecorte do jornal Comércio de Guimarães, 23 de janeiro de 2013 cretização dos objetivos, o logótipo configura-se plenamente como um símbolo da alma da cidade e da sua sensibilidade. Paralelamente, seria ainda exibido um vídeo promocional que retrata as modalidades desportivas, documentário que contaria com o apoio dos desportistas como Pedro Mendes, Fernando Meira, Rui Silva, Rui Costa e Armindo Araújo, entre outros. Posteriormente, em novembro, selar-se-ia factualmente a candidatura, com a entrega oficial em Bruxelas da bandeira oficial do evento por parte da ACES, que Amadeu Portilha receberia com honra e a 27
responsabilidade, enfatizando a candidatura como um “grande objetivo o fomento do desporto e a generalização da prática desportiva”. Uma presença no Parlamento Europeu que contaria ainda com a presença de Ricardo Araújo, do Instituto Português do Desporto e Juventude e dos “embaixadores” Pedro Mendes e Neno, entre outros convidados. Simultaneamente, desde logo seriam ainda apresentadas as linhas gerais do programa do certame, cujo início estaria marcado para 19 de janeiro, adiantando-se desde já que estaria assegurado o Campeonato Europeu de Boccia e a festa nacional da ginástica, bem como os jogos de apuramento para competições internacionais de seleções nacionais de desportos coletivos. Entrementes, anunciava-se também que o evento passaria a integrar toda a sua atividade no Plano Nacional de Ética no Desporto e que seria alvo de apoio governamental, como se verificaria através da publicação do despacho 12918 da SecretaO Povo de Guimarães, 14 de novembro de 2012 ria de Estado dos Desportos e Juventude, que atribuiria à iniciativa o estatuto de Interesse Público, no âmbito da Lei das Bases da Atividade Física e do Desporto. Entretanto, em janeiro, dias antes da abertura oficial, a organização do evento divulgaria genericamente o programa da iniciativa, dividido em cinco áreas programáticas: Investigação e Conhecimento, Eventos Desportivos, Formação e Qualificação, Desporto e Cultura e Desporto para Todos. Simultaneamente, a CED 2013 informaria e estimaria que, presumivelmente, passariam pela cidade-berço cerca de 30 mil atletas, treinadores e dirigentes abarcando mais de 50 modalidades desportivas. Números que compreenderiam 35 clubes desportivos, 10 federações, 16 associações desportivas regionais, 6 universidades, 20 escolas e mais de 7 mil horas de voluntariado. Quanto às iniciativas, perspetiva-se um programa ambicioso de moldes a receber um evento semanal que, de acordo com o vereador municipal Amadeu Portilha, “vai muito além dos eventos desportivos e muito 28
além da circunstância. Queremos dar especial atenção à formação de agentes desportivos locais, queremos refletir sobre a realidade do território desportivo que temos, para deixar um legado para o futuro. Também queremos fazer uma ligação com a cultura, depois de um ano absolutamente excecional, e depois um enfoque muito especial no segmento do desporto para todos”. Para o efeito, o orçamento da CED 2013 ascenderia a um milhão de euros, tendo a Câmara Municipal assegurado a comparticipação de 500 mil euros e o Instituto Português de Desporto e Juventude 100 mil euros, esperando-se outros contributos das entidades comunitárias. Guimarães não para 2013 seria o ano de execução dos trabalhos programados no ano anterior, que curiosamente coincidiria também com um bom ano desportivo para Guimarães. Efetivamente, um ano em pleno do ponto de vista desportivo, como o constatariam as conquistas de duas Taças de Portugal pelo Vitória, ambas frente ao Benfica: uma em março, no Multiusos de Fafe, na modalidade de basquetebol; e outra Jamor, em maio, na modalidade de futebol. Porém, em 19 de janeiro, como previsto, a Cidade Europeia de Desportos (CED) abria as suas portas com o espetáculo de arranque “Guimarães não Para”, que lotaria o Multiusos. Deste modo, o programa de abertura, com a direção artística das professoras Ana Sofia Azevedo e Sandra Traquina, mobilizaria centenas de desportistas, que contaria com a colaboração vários responsáveis de clubes e de inúmeros atletas de diversas modalidades como ginástica, esgrima, boccia, andebol, polo aquático, ténis de mesa, capoeira, Kickboxing, karaté, boxe, trial bike, patinagem e skate, entre várias outras, que evoluiriam criativamente ao som do DJ de serviço e da sua música, adaptada às circunstâncias. Um espetáculo que cruzou o desempenho de várias modalidades com manifestações artísticas de acrobatas e bailarinos, conjugado com música, movimento, cor e brilhantismo. Outrossim, uma cerimónia inaugurativa na qual participaria o presidente da Comissão Executiva Amadeu Portilha e várias outras individualidades, desigComércio de Guimarães, 23 de nadamente o Secretário de Estado da Juventude e Desporto Alexandre Mestre, janeiro de 2013 (recorte) que na altura deixaria a garantia de interceder junto da Secretaria de Estado da 29
Economia no sentido do apoio à iniciativa, através de fundos comunitários. Mas, logo após o pontapé de saída e tiro de partida, os eventos suceder-se-iam. Destaquemos alguns, entre os vários ocorridos … Os primeiros eventos Logo a 20 de janeiro os eventos desportivos arrancariam com o Torneio de Judo CED 2013 “Um pódio para todos”; e, seguidamente, em 6 de fevereiro, duas novas ocorrências: o Corta-mato Escolar no Parque da Cidade Desportiva e o jogo amigável de futebol entre Portugal e o Equador, no estádio D. Afonso Henriques. Por seu turno, no mês de fevereiro e com dimensão internacional destacar-se-iam ainda, no dia 9, o “Festival Ibérico de Natação Sincronizada”, no Complexo de Piscinas de Guimarães, e os “Jogos Ibéricos de Abadá Capoeira”, entre 22 e 24. O Campeonato Nacional de Boccia, classes BC3, no Multiusos Recorte do jornal O Povo de Guimarães, 22 de fevereiro de 2013 de Guimarães, entre 16 e 17, seria um outro evento fulcral nesta fase de arranque, que juntaria os melhores da modalidade e serviria de antecipação ao Campeonato Europeu, a efetuar em meados de junho, sob a organização da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães (APCG) – Associação Nacional de Desporto. Um encontro que motivaria ainda alguns queixumes por parte dos dirigentes, uma vez que, à colação, seriam manifestadas algumas faltas de apoio à modalidade, designadamente em termos da sua divulgação por parte dos canais públicos, bem como nas ajudas financeiras, que não correspondem ao esforço dos atletas. De facto, como constatariam, muito poucos atletas recebem o salário mínimo, enquanto a maioria aufere verbas entre os 100 e os 300 euros, pelo que se sentem algo abandonados e apenas lembrados enquanto atletas de modalidade menor e aquando das jornadas Paralímpicas. Porém, paralelamente aos eventos desportivos, decorreriam vários momentos e espaços reflexivos e de cariz mais científico, como os “Debates Impensáveis no Desporto”, no CAR, com a participação de Adão Mendes, Padre José Antunes e o escritor vimaranenses Pedro Chagas Freitas, a sessão “Desporto e Ciência ” 30
sobre o treino da visão do atleta, com J. Jorge (UM) que teria lugar no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor, bem como o “Fórum Treinadores de Futebol/Futsal” e as “Conferências Motivacionais”, com João Correia. Em aditamento, a “Conferência de Jornalismo Desportivo” seria um outro dos acontecimentos iniciais da CED, que contaria com a parceria da Universidade do Minho e traria a Guimarães nomes sonantes do jornalismo desportivo como Joaquim Fidalgo e Francisco Pinheiro, entre outros, que abordariam questões da” Ética e História do Jornalismo Desportivo em Portugal”. Momentos de reflexão nos quais participaria também o vimaranense Daniel Barbosa, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), que traria a terreno o tema da influência dos media no rendimento e evolução dos atletas. Uma conferência que, noutro painel, com a participação de vários órgãos de comunicação social escrita e audiovisual nacionais, entre os quais Abel Sousa do Desportivo de Guimarães, debateria ainda a relação restrita com os clubes perante a comunicação e os problemas inerentes ao jornalismo desportivo. Mas também foi uma oportunidade para fazer deslocar a Guimarães convidados diversos do foro desportivo, entre os quais Vítor Baía, que falaria sobre as alterações de fundo no relacionamento entre jogadores e a imprensa, decorrente do aparecimento dos gabinetes de comunicação nos clubes e que partilharia ainda algumas histórias do seu passado. Nesta mesma altura decorreria ainda no CCVF a denominada Conferência dos Senadores alusiva ao tema “O Desporto tem futuro em Portugal?” que, sob a moderação de Hugo Gilberto, teve como convidados José Olimpo Bento, José Manuel Coutinho e Gustavo Pires e discutiria o papel do desporto no futuro do país. Como é óbvio, outras iniciativas decorreriam neste primeiro trimestre da CED 2013, em especial no final de março: é o caso da “Caminhada Flower Power”, o “Torneio Women’s de Bilhar” e o “Sarau de Dança e Fitness”, entre várias outras ocorrências. A investigação e o conhecimento Efetivamente, a área de “Investigação e Conhecimento” teve, também em março, um avanço significativo no terreno, com a assinatura de protocolos com diversas instituições, tendo como finalidade as investigações sobre o fenómeno desportivo em Guimarães. Na circunstância seriam assinados alguns estudos circunscritos à cidade, respeitantes às práticas desportivas que pretendiam levar a cabo um retrato rigoroso da situação com o objetivo de servir de base para a adoção de políticas e medidas desportivas concelhias. Deste modo, seriam subscritos com várias entidades do ensino superior estudos no âmbito da oferta e procura desportiva, bem como sobre a participação 31
desportiva dos alunos do 1.º ciclo de Guimarães. Os estudos abrangeriam ainda as infraestruturas desportivas e de lazer e a gestão do território, o estudo do perfil do gestor desportivo do concelho de Guimarães e o impacto económico do desporto em Guimarães. Noutra dimensão, os estudos centrar-se-iam também na perceção dos alunos de Guimarães sobre o Olimpismo, na obesidade infantil e prospectivamente na influência da medicação na condição da saúde do atleta. Por último, avançaria um estudo da atividade física da função respiratória, inflamação das vias aéreas e controlo da asma na criança, a cargo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Entretanto, em março, ocorreria também o “ Projeto Mega Desporto Escolar”, o “Torneio Internacional de Polo Aquático”, no Complexo das Piscinas de Guimarães, e, nos dias 9/10, a iniciativa “2013 Minutos a Nadar”. O Judo Adaptado e as miniolimpíadas infantis Em abril, por seu turno assumiria a pasta da Juventude e Desporto um vimaranense: Emídio Guerreiro; e, neste mês, seriam organizadas pelo médico e diretor do serviço de pediatria, Pedro Freitas, as V Jornadas de Pediatria do Centro Hospitalar do Alto Ave, em Guimarães, que não ficariam indiferentes à maré desportiva, pelo que sob o mote “Desporto em Pediatria: fazer para bem crescer”, surfariam esta onda médicodesportiva. No âmbito da CED registar-se-ia também a exposição sobre a história do desporto, em Guimarães, que reuniria na casa da Memória vários trabalhos de caricaturas do médico vimaranense Miguel Salazar, com destaque para as “Croonicas do Torneo da Todollos Campeones”, em parceria com José Rialto, que, inspiradas nas crónicas de Fernão Lopes e escritas em português medieval, retratariam a participação do Vitória na Indesit Champions League, em 2008. Entretanto sobem ao tapete no pavilhão Almor Vaz 60 atletas, que disputam o Campeonato Nacional de Judo Adaptado, com a presença de atletas portadores de deficiência mental e intelectual; e, em simultâneo, decorrem as 2ªs. Jornadas de Judo de Guimarães e o torneio de inclusão, no qual atletas de judo adaptado competiriam com outros de judo normal, reunindo de forma inclusiva cerca de 200 participantes de todo o país. O judo teria ainda ensejo a um “Mega Treino de Campeões” destinado a crianças do 1.º e 2.º ciclos, que congregaria praticantes e não praticantes da modalidade, que contaria com parcerias como a Academia Recreativa e Cultural dos Amigos de Ponte (ARCAP), Vitória Sport Clube, Desportivo de Ronfe, Clube Desportivo CERCIGUI e a Associação Nacional de Desporto para a Deficiência Intelectual (ANDDI). 32
Igualmente, no campo desportivo, centenas de crianças participariam ainda na Pista Gémeos Castro, nas Miniolimpíadas, cuja organização visava incentivar os mais pequenos para a prática desportiva e exercício físico regular, bem como para promover a importância do convívio e do companheirismo. Uma atividade que contaria com a presença de Rosa Mota e técnicos de educação física, que promoveriam diversas estafetas divertidas e corridas de velocidade e/ou com obstáculos, provocando o gáudio entre os participantes. Mas as iniciativas seriam muitas e variadas. De facto, em abril teria ainda lugar, na Plataforma de Artes e Criatividade, o “Ciclo de Cinema do Desporto”, as “Fases Finais Regionais do Desporto Escolar”, a “Liga de Judo de Guimarães”, entre outras ocorrências. Porém, entre finais de abril e inícios de maio, seria também a fase de um primeiro balanço. Assim, o saldo seria considerado bastante positivo, ainda que Amadeu Portilha tenha avisado que o melhor ainda estava para vir… Neste mês ocorreriam as fases finais regionais do Desporto Escolar e o Campeonato Nacional de Judo Adaptado. Do balanço ao desporto motorizado Ora, de facto, esta fase de transição iniciar-se-ia da melhor maneira, com o Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, Emídio Guerreiro, a assinar o protocolo que contemplaria a organização da CED com um apoio de cem mil euros às atividades em curso, que, não obstante ser insuficiente, seria considerado importante. Efetivamente, no âmbito da CED 2013, pretendia-se ainda implementar o projeto estrutural da Academia de Ginástica, infraestrutura que só seria exequível com mais apoios, designadamente de fundos comunitários. Ora, no decurso do balanço, Emídio Guerreiro teceria também reconhecidos elogios à filosofia em que a programação da CED estava a fundamentar-se e apelaria ao aproveitamento de sinergias, nomeadamente na articulação com o desporto escolar. Uma intervenção que na mesma tónica seria corroborada por Amadeu Portilha fundamentada nos números de adesão à iniciativa. De facto, e segundo o autarca, presidente da Comissão Executiva, teriam sido mobilizados cerca de 14.900 atletas e que aproximadamente 47 mil pessoas participaram nos diversos eventos. Números que contariam ainda com o apoio de mais de meio milhar de voluntários que contabilizariam um total superior a 5200 horas de voluntariado, num sinal que a cidade estava presente. Na circunstância anunciaria ainda que até ao final do ano estaria prevista a ocorrência de cerca de 90 33
eventos que iriam trazer a Guimarães milhares de atletas e espectadores. Entrementes e factualmente, neste mês de maio, realizar-se-ia também o “Rally Cidade de Guimarães/Targa Club”, a contar para o Campeonato de Portugal de Ralis, uma prova de 86 quilómetros e 10 etapas, cujo centro nevrálgico, em matéria de verificações técnicas e pontos de partida e chegada seria o Multiusos, compreendendo as seguintes rotas: Cutelarias, Briteiros, Serra da Penha e Parque da Cidade- Monchique. Recorte do jornal O Povo de Guimarães, 3 de maio de 2013 Uma competição cuja lista de participantes ultrapassaria a meia centena e a presença de grandes nomes do desporto automóvel nacional, entre os quais Ricardo Moura, Bernardo Sousa, Adruzilo Lopes, José Pedro Fontes, Ivo Nogueira e Miguel Barbosa. De registar ainda a presença de pilotos vimaranenses em várias provas, designadamente Pedro Meireles/Mário Castro, Carlos Oliveira /José Janela, que estreariam um Porsche, as duplas João Barros/Jorge Henriques e João Ruivo/Emídio Magalhães. Nas várias provas constariam ainda os vimaranenses Duarte e Armando Veiga, Pedro Silva/João Aguiar, Armando e Hélder Siva, Daniel e Pedro Silva, José Rodrigues/Nuno Lima e Rui Antunes/Márcio Martins. As provas seriam antecedidas de uma conferência de imprensa com os principais pilotos, que fariam a antevisão da competição. Em maio, seria ainda lançado o Centro de Deteção de Talentos Desportivos, projeto que visa a articulação entre os 14 agrupamentos escolares e 9 clubes, a saber: Vitória, Moreirense, Piratas de Creixomil, Xico Andebol, JUNI - Jovens Unidos num Ideal, Guimarães Rubgy Union Football Club, Unidos do Cano, Fermentões e CART. Um projeto que numa primeira fase abrangeria jovens dos 5 aos 14 anos, centrados nas modalidades de futebol, futsal, voleibol, basquetebol, andebol, atletismo, râguebi e desportos de combate e que desencadearia significativa adesão.
34
Paralelamente seriam retomadas algumas atividades como as “Conferências Motivacionais”, “Desporto e Ciência”, os “Debates Impensáveis no Desporto” e o “Ciclo de Cinema do Desporto” e promovidas novas iniciativas, entre as quais se destacam o Meo Tour “Agarra a Vida”, com a participação das escolas secundárias concelhias, os “Jogos de Cooperação e Convívio”. Ocorrem também os “Campeonatos Nacionais Universitários”, a “Final Four da Taça de Portugal de Futsal”, a “Maior Aula de Karaté de Sempre” e o “Congresso ACES Europe”. De facto, no Congresso da ACES EuRecorte do jornal O Povo de Guimarães, 3 de maio de 2013 rope seriam revelados os números do sucesso dos primeiros quatro meses, que agradariam particularmente ao presidente da instituição, o italiano Gian Lupatelli, que marcou presença no Centro Cultural Vila Flor e agradeceria a Guimarães a forma como estava a cumprir o projeto. Na circunstância debateu-se ainda a temática do papel do desporto na sociedade de hoje, culminando o certame com a atribuição ao eurodeputado José Manuel Fernandes da distinção de presidente honorário da ACES, pelo seu trabalho em prol da juventude e do desenvolvimento de políticas de desporto, na União Europeia. A festa nacional da ginástica Em junho, durante três dias, a cidade vimaranense seria a capital nacional da ginástica que ao longo de três dias reuniria mais de quatro mil participantes e atletas de topo na disputa das provas finais de nove disciplinas e onze eventos: campeonatos nacionais, Taças de Portugal, Encontro Nacional de Infantis (Ginástica Acrobática), Campeonatos Nacionais (Ginástica Aeróbica), opens e exibições variadas. Citem-se entre outras realizações o Portugal Gym (Ginástica para Todos), Ginástica de Trampolim, Encontro de Saltitões e Cangurus, Nacional de Elites (Ginástica Rítmica) e o Campeonato Nacional de Hip-hop. Uma iniciativa inédita que reuniu cerca de 4500 praticantes e 121 clubes que, a par das provas oficiais, compreendeu ainda mais uma edição do Portugal Gym que, partindo da Mumadona, rumou ao Multiusos e vários pavilhões concelhios, contagiando a cidade. Porém, um dos pontos altos deste grande evento de ginástica seria a Gala Professor Reis Pinto que se 35
realizaria no domingo à noite, que contou com a apresentação das seleções nacionais das disciplinas gímnicas e atletas de desporto adaptado, num espetáculo de cor, brilho e movimento de encher o olho. Como é óbvio, perante a vitalidade e os elogios do presidente da Federação de Ginástica de Portugal, João Paulo Rocha, os responsáveis pela CED aproveitariam o ensejo para reivindicar que o legado pudesse deixar marcas e ser o ponto de partida para novos voos, nomeadamente, a criação de uma Academia de Ginástica em Guimarães, que, como sabemos, acabaria por acontecer em 24 de junho de 2017. Em matéria desportiva registe-se ainda, em 24 de junho, o “Passeio de BiO Povo de Guimarães, 14 de junho 2013 cicleta Dia Um de Portugal”, da iniciativa da Associação de Ciclismo do Minho, que contaria com a presença de nomes consagrados da modalidade. Nesta edição, que atrairia pessoas das várias freguesias vimaranenses e de diversos pontos do país, dois percursos de dificuldade baixa (passeio e mini passeio), entre o estádio D. Afonso Henriques e o Centro Histórico de Guimarães incentivariam à participação de todos. Antes da partida, uma mensagem do presidente do Comité Olímpico Internacional seria lida por José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal, que pelo seu teor incentivaria ainda mais os participantes: “É uma celebração abrangente que atrai participantes independenteRecorte do jornal O Povo de Guimarães, 28 de junho de 2013 mente da idade, género ou aptidão para o Desporto. É um dia que oferece os valores do Olimpismo e alegria do Desporto às comunidades de
36
todo o Mundo. É, também, uma grande oportunidade para envolver a juventude no Desporto. Esta é a beleza do Dia Olímpico – não importa a forma como é celebrado desde que ajude as pessoas a moveremse, a aprenderem ou a descobrirem através do Desporto”.
Entretanto, aquando do passeio seria ainda promovida uma ação de recolha de bicicletas usadas no âmbito do projeto “Bicicleta Inclusiva” que visa formar jovens com deficiência mental e outras pessoas com baixas qualificações e/ou desempregadas de longa duração para a reutilização de bicicletas. Paralelamente, teriam ainda lugar em Guimarães os jogos das seleções nacionais de andebol e voleibol. O primeiro contra a Espanha, efetuado no Multiusos, a contar para a qualificação do Campeonato da Europa de Andebol de 2014, a disputar-se na Dinamarca; e o segundo da Liga Mundial de Voleibol, que teria como adversário o Japão. Como não bastasse, ocorreram ainda a “Festa do Futebol Distrital da AF de Braga”, o “Campeonato Nacional de Juvenis de Atletismo”, a “III Convenção Mundial de Capoeira”, e as “Caminhadas 4 Estações - Summertime”, entre vários outros eventos. Igualmente, o rugby marcaria presença com um encontro entre as seleções de Portugal e da Europa, bem como o “Guimarães Rubgy Festival”. A diversidade desportiva estender-se-ia à disputa do X Campeonato de Xadrez da Escola João de Meira, ao Campeonato Juvenil de Juvenis em Atletismo e ao Torneio Internacional de Futebol de Veteranos. Ademais, ocorreria a cerimónia anual da “Gala do Desporto” que permitiria distinguir e atribuir bolsas de formação desportiva aos atletas do ano e jovens revelações, assim como o “Prémio Carreira” e o “Prémio Homenagem” que, respetivamente, neste ano, premiariam o ex-atleta internacional de futebol Fernando Meira e Luís Lucas, treinador de voleibol. Outrossim, o Dia Mundial da Criança seria motivo a dedicar alguns momentos ao desporto, entre os quais um encontro com atletas do Vitória e Xico Andebol, que faria o gáudio dos mais novos; e, no âmbito do “Desporto e Ciência”, decorreria igualmente uma sessão dedicada ao “Trench”, um jogo de tabuleiro que junta Matemática, História e Ciência Militar. Do tabuleiro ao terreno, uma “Caminhada Saudável” de 6,5 quilómetros, junto ao Ave, promovida Recorte do jornal O Comércio de pelo Jumbo de Guimarães, faria ainda parte da programação da CED e contaria Guimarães, 3 de maio de 2013 com a participação das consagradas atletas vimaranenses Aurora Cunha e 37
Dulce Félix. Além disso, o vimaranense José Pereira seria eleito como presidente da Associação Nacional de Treinadores, prometendo atacar alguns dos problemas da classe, como os vencimentos em atraso e a formação de treinadores. Os jogos da comunidade e do eixo atlântico e o Guimarães open Os “Jogos da Comunidade”, em julho, seriam uma outra imagem da marca da CED 2013 do mês de junho. De facto, numa espécie de Jogos sem Fronteiras, a iniciativa congregaria as freguesias do concelho, cujo programa pretendia encaminhar crianças e jovens para as várias modalidades e estruturas desportivas locais. Uma final disputadíssima na Pista Gémeos Castro, com muito entusiasmo e bancadas lotadas, que compreenderia as oito equipas finalistas das fases de eliminatórias: Atães, Candoso, Santiago, Gonça, Nespereira, Penselo, Ponte, Prazins Santa Eufémia e Silvares. Mas, acima de tudo, foi uma iniciativa que mobilizaria 24 freguesias do concelho e 600 participantes de várias gerações e que se saldaria com a vitória de Atães, seguida no pódio de Ponte e Gonça, assumindo-se como uma verdadeira festa de desporto para todos, convívio e entretenimento. Mas, em julho, disputar-se-ia também, no Multiusos de Guimarães, uma outra partida da Liga Mundial de Voleibol, que oporia Portugal à Coreia do Sul e avançariam os X Jogos do Eixo Atlântico, que reuniria cerca de 1500 atletas de 23 cidades do noroeste peninsular. Uma iniciativa destinada a jovens até aos 16 anos, provenientes do Minho e da Galiza, que durante quatro dias disputariam provas de atletismo, andebol, basquetebol, futebol, voleibol e natação, entre si. Uns jogos galaico-portugueses que contariam no decurso da sua abertura com a presença de Emídio Guerreiro, Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, com o Presidente da Câmara de Guimarães, António Magalhães, e entidades do Eixo Atlântico, designadamente o Presidente e o Secretário Geral do Eixo Atlântico, respetivamente José Maria Costa e Xoan Vásquez Mao. O mês contaria ainda na primeira quinzena com o Ciclo de Cinema e Desporto ao Ar Livre em algumas noites no Largo da Oliveira e duas investigações em medicina de reabilitação e saúde desportiva, nomeadamente na temática do uso de medicamentos e suplementos alimentares pelos atletas, que decorreriam no Espaço Guimarães sob a orientação de Andrea Ribeiro e Rosa Pereira. Prosseguiriam ainda em julho os “Domingos Ativos” na Alameda do Desporto. Entrementes, algumas promessas do ténis mundial reúnem-se na cidade-berço para o Guimarães Open, que seria disputado nos courts do Open VillageSports, entre 20 e 28 de julho. O evento da categoria Challenger ATP World Tour, 38
considerado como o segundo maior acontecimento de ténis do país, teria como cabeça de cartaz o tenista vimaranense João Sousa, o segundo mais cotado de uma lista de participantes, após o alemão Benjamim Becker. Com efeito, o torneio incluiria cerca de três dezenas de jogadores de várias nacionalidades, entre os quais o japonês Go Soeda, que recentemente defrontaria o tenista vimaranense na primeira ronda de Roland Garros e a jovem promessa bielorussa Uladzimir Ignati. Um mês que coincidiria também com a homenagem aos campeões da CERCIGUI Susana Daniela e Nelson Silva pela sua participação no III Campeonato Europeu de Atletismo para portadores de Síndrome de Down; e que contaria, ainda, com um “Torneio de Pitch & Putt CED 2013” e a “Championship Footvolley”. A maratona BTT Em 4 de agosto arrancaria a Maratona de BTT de Guimarães que levaria muitos ciclistas aos trilhos mais fantásticos de Guimarães. Integrada na Taça Regional do Minho de BTT Maratonas a iniciativa alargar-se-ia a praticantes desportivos informais, pelo que, paralelamente, ocorreria um percurso alternativo de meia-maratona. Também, informalmente, os motards Abel Cardoso e Vítor Vilaça empreenderiam uma outra “maratona” Europa fora, visitando algumas outras cidades europeias do desporto. Uma viagem de cerca de 7.700 quilómetros, durante 23 dias, que levaria Guimarães às outras cidades parceiras da CED 2013. Entretanto, com a colaboração de CED e parceria entre a Muralha, o Cineclube de Guimarães e o Conselho Vitoriano ocorreria no Centro Cultural Vila Flor a exposição fotográfica “O Dia V”, um trabalho de Miguel Oliveira, Ricardo Leite e Ricardo Rodrigues, cuja temática se centraria no comportamento (eufórico) dos adeptos vitorianos aquando da conquista da Taça de Portugal, no Jamor, em 26 de maio. A meia maratona de Guimarães e o livro desporto em Guimarães Para além da realização do Grande Prémio de Atletismo do Cano, numa reedição de uma prova de 39
referência das décadas de 70/80, em setembro saiu para a rua a 1.ª edição da Meia Maratona de Guimarães/Corrida dos Conquistadores, inserida no Circuito Mundial das Meias Maratonas, designada Run Wonders, que teve como madrinha a vimaranense Dulce Félix, campeã da Europa em 2009 e 2012 e recordista da distância em Portugal. Uma prova com cerca de 21 quilómetros, que tendo como ponto de partida o Espaço Guimarães e final a Alameda Alfredo Pimenta, acabaria por ser vencida pelo transmontano Ricardo Ribas e Dulce Félix, respetivamente nas categorias de masculinos e femininos, que receberiam a Grande Espada dos Conquistadores, uma réplica da espada de D. Afonso Henriques. Uma iniciativa que mobilizaria cerca de dois mil atletas e bastante assistência ao longo do trajeto, pelas ruas do Centro Histórico e da cidade. Paralelamente, decorreria ainda a VII Caminhada Solidária da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães (APCG), numa extensão de 6 quilómetros, que teria uma forte adesão de participantes, cujo valor da inscrição reverteria como donativo para a instituição. Uma conferência intitulada, “Correr: riscos e benefícios”, decorreria, ainda, no Espaço Guimarães, com especialistas ibéricos convidados. Setembro ficaria ainda marcado pela apresentação do livro alusivo à História do Desporto em Guimarães, uma edição com 265 páginas de autoria de Isabel Fernandes e Fernando Castro, que sintetizaria o historial desportivo vimaranense, relatando marcos e conquistas fundamentais de 83 clubes, com base na imprensa nacional e regional, entrevistas, contactos diversos e que conteria cerca de 242 fotografias, que poderiam ser apreciadas na exposição paralela, ocorrida na Casa da Memória. O fenómeno João de Sousa e o desporto motorizado Como nos bons velhos tempos da Rampa da Penha, iniciada em 1930, setembro receberia ainda o Campeonato Nacional de Montanha, numa prova de desporto motorizado, que seria decisiva para a classificação final. Por outro lado, a Penha seria ainda palco da prova Rampa de Regularidade – Troféu ACAAN, destinada a antigos automóveis adaptados a competição, bem como a prova Penha II Ralisprint. Mas, como cereja em cima do bolo, o mês desportivo terminaria da melhor maneira! Com efeito, a 29 de setembro, o tenista vimaranense João de Sousa venceria o torneio de Kuala Lumpur, integrado no circuito 40
ATP. Uma vitória conquistada contra o francês Julien Benneteau, 33.º do ranking mundial, que permitiria ao tenista português passar do 77.º para 51.º lugar do ranking ATPA e tornar-se o melhor português de sempre. Obviamente um momento de festa rija que começaria no aeroporto Sá Carneiro e culminaria com a homenagem, na Câmara Municipal, e a atribuição ao tenista da estátua de D. Afonso Henriques e uma camisola do Vitória, oferecida pelo presidente Júlio Mendes. Mas em setembro, em termos de eventos desportivos, aconteceria ainda o Karaté Show e o Torneio Internacional de Andebol CED 2013, bem como o Grande Prémio do Concurso Nacional de Saltos e o Hóquei Patins Fest. A “Melhor Cidade Europeia do Desporto 2013” Outubro seria um outro mês de balanço. Como tal, contabilizar-se-iam já 101 eventos de 35 modalidades diferentes, que se traduziriam na atribuição de 3500 medalhas, 360 troféus, e a mobilização de cerca de 70 mil participantes. Números positivos a que se aditaria a divulgação de novas práticas desportivas como o corfebol, speedminton, rope skiping e alguns eventos emblemáticos como o Guimarães Open, a Meia Maratona de Guimarães e o Rally Cidade de Guimarães, entre outros. Neste mês, seria ainda apresentada a candidatura a “Melhor Cidade Europeia do Desporto 2013”, que efetivamente se viria a concretizar no final do mês. De facto, Guimarães seria distinguida como a “Melhor Cidade Europeia do Desporto 2013” entre um conjunto de cidades concorrentes como Cremona, Modena, Alba, Reggio, Calábria, Lorca, Castelldefelds, Estepona, Lisburn e Pitesti, situação para a qual teria contribuído a organização de mais de 100 eventos nos primeiros 10 meses e a mobilização de 70 mil participantes que envolveram 35 modalidades desportivas. Recorte do jornal O Comércio de Guimarães, 3 de maio de 2013 Com efeito, de acordo com a ACES, os números de Guimarães e subsequentes concretizações justificariam a atribuição do galardão da Bandeira de Ouro da CED 2013, que seria recebido em Bruxelas no início do mês seguinte. Em outubro decorreria ainda a Deportec, certame de tecnologia e desporto que além de palestras sob a temática e o espetáculo de dança “I am the future”, apresentaria experiências de equipamentos inovadores 41
e atividades experimentais, designadamente no âmbito do treino via Skype, foto finish, software e aparelhos de medição da condição física e sucederia ainda a Mratona Cycling, entre outros eventos desportivos. A Semana Olímpica A Semana Olímpica, no Pavilhão Multiusos, foi o evento mais emblemático do mês, entre 7 e 9 de novembro. Com efeito, cerca de um milhar de crianças dos vários ciclos de escolaridade contactariam com atletas e algumas modalidades olímpicas, entre os quais Beatriz Gomes e Emanuel Silva (canoagem), Simão Morgado (natação), Nuno Mendes e Pedro Fraga (remo), Marisa Barros e Rosa Mota (atletismo, Nuno Barreto (vela) e Nuno Salgado e João Neto (judo), cujos objetivos seriam promover as modalidades olímpicas, a atividade física, os estilos de vida saudáveis, bem como a ética desportiva Deste modo, sob o mote “Vive o olimpismo, inspira-te na vida”, a promoção dos desportos e espírito olímpicos seriam a pedra basilar do encontro, que possibilitariam a experiência de algumas modalidades e o contacto com os atletas conceituados. Uma cerimónia que inclusivamente recriaria o ambiente do arranque oficial dos Jogos Olímpicos com os simulacros do transporte do facho olímpico, hastear de bandeiras e entoação do Hino Olímpico. Paralelamente estaria ainda patente ao público uma exposição sobre a história olímpica portuguesa e seriam apresentados a debate os resultados do estudo “Perceção´ dos alunos vimaranenses sobre o olimpismo”, que a Academia Olímpica de Portugal levaria a cabo nas escolas de Guimarães. Novembro acolheria ainda as iniciativas Recorte do jornal O Comércio de Guimarães, 6 de novembro de 2013 Desporto e Ciência, um Ciclo de Cinema e Desporto, na Plataforma de Artes e Criatividade, as Jornadas Médico-Desportivas e a apresentação do livro “Mente de Combate”. Cerimónia de encerramento Em dezembro, aconteceriam os eventos desportivos “Guimarães Legends” e o Campeonato Nacional de Karaté, nos grupos etários de cadetes, juniores e Sub-21 e sucederia a cerimónia de encerramento da CED 42
2013. Efetivamente, o dia 22 de dezembro marcaria o encerramento de Guimarães CED 2013, com uma sessão solene que teve lugar no Centro Cultural Vila Flor, que contaria com discursos circunstanciais de vários representantes das entidades oficiais convidadas, como Emídio Guerreiro, Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, que a este propósito agradeceria a “coragem e audácia” de Guimarães, bem como “o exemplo de mobilização dado ao país e ao mundo”. Por seu turno, o Presidente da Câmara, realçaria a CED como “mais um movimento ímpar que fica registado na memória coletiva da Guimarães”, resultante duma política desportiva sustentada. Amadeu Portilha, por sua vez, evidenciaria o orgulho de Guimarães ter sido a primeira cidade portuguesa a receber o evento e a ser reconhecida como a melhor cidade europeia do desporto 2013, salientando que, depois deste evento, Guimarães “vai transformar-se para melhor”. Após os discursos, a organização homenageou ainda as pessoas e entidades que contribuíram para o êxito do evento, encerrando a cerimónia com a atuação da Orquestra Juvenil da Sociedade Musical de Pevidém, sob a direção do maestro Vasco Faria. Porém, no decurso do mês, ocorreria ainda uma “Caminhada de Natal”, o “III Congresso Nacional APOGESD” e a exposição “História do Desporto em Guimarães”, na Casa da Memória, para memória futura … Indubitavelmente, fechava-se mais uma página gloriosa da vida de Guimarães que mobilizaria as suas gentes e se saldaria pelo reconhecimento da ACES ao seu esforço Recorte do jornal O Comércio de Guimarães, 24 de dezembro de 2013 coletivo e organização conseguida.
43
TESTEMUNHOS Descrita e recordada a festa desportiva, sobre a qual o caro leitor tecerá as suas próprias considerações, seguem-se alguns testemunhos de decisores e protagonistas, que nos facultam a sua visão acerca do que esteve em jogo. Simultaneamente, aproveitamos o ensejo para tomar o pulso à atividade desportiva atual, recordando o seu passado e crescimento e o seu presente projetado no devir. Vivências e perspetivas globais que se centram sobretudo no presente do desporto vimaranense e também na evocação dos seus campeões, entre os quais o tenista e conquistador vimaranense João de Sousa, que nos concede uma entrevista exclusiva.
CED 2013 Alexandre Miguel Mestre Ex-secretário de Estado do Desporto e Juventude
Exerci funções públicas, como Secretário de Estado do Desporto e Juventude, em apenas 2 anos, no XIX Governo Constitucional. Mas guardo ótimas memórias, sendo uma delas o contacto que tive com a preparação e realização da Guimarães – Cidade Europeia do Desporto. Da memorável cerimónia de abertura até à marca de diferentes eventos a que pude assistir, recordo a enorme valia dos recursos humanos envolvidos, a qualidade das infraestruturas gizadas e/ou aproveitadas para o efeito e a dinâmica transformadora que foi inculcada na população, e não apenas a local. É consensual que ainda hoje se sente o legado do evento, a diversos níveis e há boas-práticas que ficaram e que não raras vezes partilho com amigos, colegas, clientes e alunos, de tal forma foi inesquecível. Reiterados parabéns! 44
Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013 – Uma outra oportunidade de transformar Guimarães Amadeu Portilha Vereador do Desporto da CMG, ao tempo, e atual Presidente da Direção da Tempo Livre
Guimarães tem demonstrado, ao longo das últimas décadas, que sabe aproveitar muito bem as oportunidades que lhe vão surgindo de se afirmar como um território diferente e diferenciador. Em 2001, com o estatuto conferido pela UNESCO de Património Cultural da Humanidade, depois em 2012, com o título de Capital Europeia da Cultura, Guimarães soube consolidar a sua afirmação de cidade extraordinária, gerindo com mestria e visão a sua condição de cidade fundadora da nacionalidade e de cidade cosmopolita e moderna. Ora reabilitando o seu vasto e riquíssimo património edificado, ora abrindo portas à programação e produção cultural consistentes, acolhendo e organizando grandes eventos nacionais e internacionais, Guimarães colocou-se no mapa europeu como uma cidade diferente, competitiva e afirmativa. Foi neste quadro que surgiu o título de Cidade Europeia do Desporto 2013, sendo a primeira cidade portuguesa a conquistar esta distinção. O trabalho que foi inerente a esse projeto coletivo ganhou distinção e visibilidade no conjunto de atividades que se organizaram e realizaram durante um ano inteiro, dando sentido, coerência e continuidade a uma dinâmica que a cidade assumiu e que a projetou. Ao manter este foco, Guimarães atraiu novos públicos e, com eles, a cidade continuou a crescer. Guimarães, enquanto Cidade Europeia do Desporto em 2013, foi palco de um conjunto vastíssimo de eventos, projetos, programas, competições e atividades que tiveram, obviamente, o desporto no centro de toda a estratégia. A programação definida contemplou, estrategicamente, cinco segmentos orientados para a competição e eventos desportivos, para o fomento do desporto para todos, para a formação e qualificação, para o desporto e a cultura e, ainda, para a investigação e o conhecimento. Esses cinco segmentos de atuação foram a base da sustentação de todo o trabalho que perseguiu os objetivos assumidos na candidatura, e que passavam por aumentar os índices de participação desportiva da comunidade, aumentar a prática de exercício físico regular, promover hábitos e estilos de vida mais 45
saudáveis, legar conhecimento e investigação sobre o fenómeno desportivo no concelho de Guimarães e potenciar o empreendedorismo no sentido de alterar os paradigmas existentes. A 19 de janeiro de 2013, tudo começou como tudo começa em Guimarães. A primeira grande manifestação de envolvimento e adesão da população a Guimarães CED2013 foi precisamente na Cerimónia de Abertura, com o espetáculo “Guimarães não pára!”, num Multiusos de Guimarães completamente lotado, representando muito bem a dimensão mais simbólica deste projeto: envolvimento, mobilização, divulgação das modalidades e mostrar o desporto numa outra perspetiva. O público aderiu positivamente à mensagem e percebeu, logo ali, qual era o objetivo principal da nossa programação. A aposta diferenciada em atividades que envolviam o desporto adaptado, o desporto para todos, o debate público de ideias e projetos, chamando, por exemplo, o mundo da ciência a mostrar o trabalho de investigação que estava a ser realizado no nosso país e que tinha o desporto como objeto de estudo, suscitou uma adesão surpreendente das pessoas. O arranque das conferências, por exemplo, com convidados que partilharam connosco a sua experiência no mundo do desporto – como atletas, dirigentes, investigadores, técnicos – demonstrou que os vimaranenses também estavam ávidos de conhecer mais sobre o fenómeno desportivo. Mas Guimarães CDE2013 foi um acontecimento extraordinário em vários domínios, com repercussões positivas que, uma década volvida, ainda se sentem no ecossistema desportivo vimaranense. Na programação do segmento “Desporto e Cultura”, realizamos um ciclo de cinema dedicado ao desporto, animando as noites quentes de Verão, no Centro Histórico, realizamos, na Casa da Memória, duas fantásticas exposições, uma de cartoons com figuras do desporto, da autoria do médico vimaranense Miguel Salazar, e uma outra que nos transportava pela história desportiva de Guimarães. Publicamos um pequeno tesouro, o livro “A História do Desporto em Guimarães – dos primórdios à atualidade”, que, agora, em finais de 2023, vamos reeditar com informação atualizada da última década, naquele que foi o primeiro momento de sistematização da história do desporto em Guimarães. No segmento “Investigação e Conhecimento”, desenvolvemos inúmeros projetos em parceria com as universidades do Porto e do Minho, e com vários institutos politécnicos, que resultaram num conjunto de estudos e relatórios sobre a realidade desportiva em Guimarães, em múltiplas dimensões. Ligamos o Desporto e a Ciência numa série de palestras que nos ajudaram a compreender melhor o futuro, e acolhemos seminários e conferências que nos deram uma dimensão contemporânea do fenómeno desportivo. No “Desporto para Todos”, naquela que será sempre a nossa principal missão, procuramos disseminar e generalizar o gosto pela prática desportiva, pelo exercício físico e pela adoção de estilos de vida saudáveis. 46
Fomos criativos e audazes, desenhando e construindo programas e projetos que suscitaram adesão e envolvimento, como foi o caso dos Jogos da Comunidade, as Caminhadas 4 Estações, as Mini Olimpíadas, o Sarau de Dança e Fitness ou os Domingos Ativos. No segmento da “Formação e Qualificação”, promovemos, organizamos e acolhemos dezenas de tertúlias, conferências, seminários, congressos e ações de formação, envolvendo temas, convidados e formadores de diferentes campos e áreas de especialização. Finalmente, e porque o desporto é competição, no segmento dos “Eventos Desportivos”, Guimarães foi, em 2013, palco privilegiado de competições de referência internacional, destacando-se o Campeonato da Europa de Boccia, a Festa Nacional de Ginástica, a Final Four da Taça de Portugal em Futsal, o jogo de qualificação para o europeu de andebol Portugal/Espanha, o Rally Cidade de Guimarães, os Jogos do Eixo Atlântico, a Liga Mundial de Voleibol, a Meia Maratona de Guimarães ou o Open de Ténis Guimarães. Hoje, dez anos depois, sinto que o objetivo de criar uma base crítica sobre o fenómeno desportivo em Guimarães foi conseguido. Temos, manifestamente, mais e melhor desporto. Com dirigentes qualificados e audazes que construíram clubes desportivos bem estruturados e altamente referenciados pelas entidades tutelares. Assumimos, definitivamente, o estatuto de cidade acolhedora de grandes eventos internacionais, impulsionando toda a economia local que à sua volta gravita. Demos consistência ao desporto de base formativa e chamamos à prática desportiva regular milhares de vimaranenses, permitindo que Guimarães tenha uma taxa de prática desportiva bem superior à média nacional e em linha com a média europeia. Com Guimarães, Cidade Europeia do Desporto em 2013, soubemos estar à altura dos nossos pergaminhos e honramos todos quantos, nos anos anteriores, não se resignaram e não sucumbiram a contextos socioeconómicos muito difíceis. Mostramos ambição, caminho e visão. O que nos permitiu ser considerada a Melhor Cidade Europeia desse ano, em confronto com nove outras cidades de vários países europeus. Hoje, dez anos depois, sinto orgulho e saudade. O orgulho de ter liderado uma equipa de pessoas extraordinárias que se entregaram apaixonadamente a este projeto coletivo. E a saudade de um tempo que, embora não regresse mais, deixou em mim marcas indeléveis e perenes, que me permitiram ser quem sou e entregar-me sem condições à cidade que amo incondicionalmente.
47
10 anos de Guimarães, Cidade Europeia do desporto 2013 Emídio Guerreiro SEDJ do XIX e XX Governo Constitucional
A ACES Portugal (Associação Portuguesa das Cidades Europeias do Desporto) é a entidade que, em articulação com a ACES Europa e os Municípios, determina quem é a Cidade Europeia do Desporto. O primeiro município português a sê-lo foi Guimarães em 2013. Quis a sorte e o destino que tendo tomado posse no cargo de Secretário de Estado do Desporto, no início de abril desse ano, acabei por acompanhar de perto as atividades e a programação de Guimarães, Cidade Europeia do Desporto. Não foram tempos fáceis porque os recursos eram parcos e eram criteriosamente destinados. Sendo a primeira vez que Portugal “entrava” neste campeonato havia muita expectativa, mas também muitas incertezas. Afinal o que era e o que se pretendia com um título tão pomposo e chamativo? A ACES Europa e por consequência a ACES Portugal têm como principal valor a promoção e o desenvolvimento do Desporto para Todos nos moldes estabelecidos na Carta Europeia do Desporto para Todos. Esta Carta, aprovada em 1992, diz no seu artigo primeiro: I. Dar a cada indivíduo a possibilidade de praticar desporto, nomeadamente: a) Assegurando a todos os jovens a possibilidade de beneficiar de programas de educação física para desenvolver as suas aptidões desportivas de base; b) Assegurando a cada um a possibilidade de praticar desporto e de participar em actividades físicas e recreativas num ambiente seguro e saudável; e em cooperação com os organismos desportivos apropriados, c) Assegurando a quem manifestar tal desejo e possuir as competências necessárias, a possibilidade de melhorar o seu nível de rendimento e de realizar o seu potencial de desenvolvimento pessoal e/ou de alcançar níveis de excelência publicamente reconhecidos. II. Proteger e desenvolver as bases morais e éticas do desporto, assim como a dignidade humana e a segurança daqueles que participam em actividades desportivas, protegendo o desporto e os desportistas de toda a exploração para fins políticos, comerciais e financeiros, e de práticas abusivas e aviltantes, incluindo o abuso de drogas.
48
Os estados europeus davam, finalmente, o devido papel que o Desporto tem no desenvolvimento humano bem como no modelo de desenvolvimento social onde tem de ocupar um papel cada vez mais determinante na promoção de um estilo saudável de vida. É, pois, com este enquadramento que decorre a primeira Cidade Europeia do Desporto e logo, em Guimarães. Assistimos a um programa rico de eventos, pois existiu a vontade de articular com diversas Federações a realização multidesportiva de jogos quer da seleção nacional ou de finais de competições nacionais. Com esta multiplicidade de eventos desportivos, a par de diversos eventos formativos e informativos, procurou-se despertar nos Vimaranenses a vontade de praticar desporto e criar novos públicos. Sou da opinião que estes objetivos foram conseguidos. Há, hoje, mais modalidades e mais atletas federados, em Guimarães, do que no passado. Existem também muitos mais desportistas ocasionais, não federados que vão ocupando, e bem, os espaços públicos na prática desportiva. Tendo começado em Guimarães, este evento tem tido ano após ano uma procura crescente por parte dos municípios que, desta forma, vão criando cada vez mais programas no âmbito do Desporto para Todos, o que vem beneficiando a população no geral. Os princípios vertidos na Carta Europeia de 1992 ainda estão longe de estarem concretizados. Em Portugal, o Programa Nacional de Desporto para Todos foi por mim lançado em 2014. Pela primeira vez existia um programa com financiamento público que não se destina ao desporto federado. Felizmente o programa ainda existe. Infelizmente mantem a mesma dotação de 2015. E são centenas de candidaturas que, ano após ano, não conseguem financiar-se e como tal não se realizam… Este programa nacional poderia ser o instrumento para que os objetivos das Cidades Europeias do Desporto perdurassem não apenas com o envolvimento das autarquias, mas também do estado central. Afinal, a competência do desenvolvimento desportivo ainda é do governo e não das autarquias, mas, pelos vistos, o Desporto para Todos não tem sido prioritário para o governo. Guimarães Cidade Europeia do Desporto 2013 foi pioneira no País e mobilizou a comunidade vimaranense para o desporto e não esqueçamos que Guimarães, em 2012, tinha sido Capital Europeia da Cultura! A Cultura primeiro e o Desporto de seguida tiveram o mérito de guindar o nome de Guimarães bem alto no país e na Europa. E nem que fosse apenas por isso, eu diria que valeu a pena!
49
Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013, 10 anos Miguel Laranjeiro Presidente da Federação de Andebol de Portugal
Estamos a comemorar o 10º aniversário de Guimarães – Cidade Europeia do Desporto. Parece que foi ontem, mas já passou uma década. Uma das razões para que esta sensação aconteça pode ser pela importância que teve no território, nas instituições e, sobretudo, nos vimaranenses. Essa é uma das vantagens de Guimarães: as suas gentes. Envolvem-se nos projetos quando são chamados a tal. Tinha já sido o caso de Guimarães – Cidade Europeia da Cultura, em 2012, e, no ano seguinte, aconteceu com Cidade Europeia do Desporto. Haverá quem, muito melhor do que eu, fale desse período importante para o desporto em Guimarães e na região, mas não posso deixar de dar um testemunho muito positivo desse momento. Pelas funções que ocupava na altura e pelas diversas visitas e contactos que mantive com todos os agentes políticos, sociais e sobretudo desportivos, foi fácil concluir que desde o primeiro momento estaríamos perante uma iniciativa de sucesso. Com a preparação – desde a nomeação como Cidade Europeia do Desporto – até ao último dia do evento, foi muito interessante assistir ao entusiasmo dos clubes, das associações, da estrutura da autarquia e o envolvimento de toda a comunidade local. As coisas novas que apareceram, as dinâmicas que se criaram e os novos agentes que emergiram. Foram realizados mais de 500 eventos desportivos ou ligados ao desporto, desenvolvidos ao longo de todo o ano, naquilo que foi a primeira Cidade Europeia Desportiva, em Portugal, no que foi mais uma demonstração do pioneirismo da cidade e das gentes de Guimarães. Não posso deixar de salientar duas pessoas fundamentais nesta CED: António Magalhães, então presidente da Câmara Municipal, que acreditou que era possível e Amadeu Portilha, vereador do Desporto, na altura, o grande obreiro no terreno, impulsionador e mobilizador de toda uma estrutura. Até tudo pode acontecer, mas não acredito na “geração espontânea” e, por isso, é essencial que haja líderes que indicam o caminho e mobilizam as suas equipas. Foi isso o que ocorreu. Considero que este tipo de eventos e de iniciativas valem não só pelo que desenvolvem no ano em que 50
ocorrem, mas sobretudo e mais importante, pelo que deixam de lastro, de caminho para o futuro. E Guimarães sempre soube aproveitar isso. Como tinha acontecido com a Cultura, no Desporto foi evidente a alteração de paradigma e de posição do concelho perante as questões da atividade física e desportiva. Muitas das atividades que nasceram fruto da CED continuaram e ganharam raízes, provando a importância destes eventos, da organização e do planeamento das mesmas. Foi possível uma maior diversificação das atividades desportivas, uma melhor formação e capacitação dos agentes desportivos. Guimarães tornou-se num dos concelhos de relevo para a realização de eventos desportivos nacionais e internacionais, em tudo o que isso implica para o desporto, mas também para todas as dinâmicas locais. Estão de parabéns os que imaginaram que era possível, aqueles que levaram o projeto a bom porto e todos os que no dia a dia vão usufruindo do que foi a Cidade Europeia do Desporto 2013. O futuro é o melhor prémio do que foi feito no passado.
51
COLETIVIDADES Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013, daria azo a deambularmos pelas coletividades desportivas vimaranenses, com especial incidência na área das Caldas das Taipas, à colação do centenário do Clube de Caçadores das Taipas. Deste modo, numa jornada bem desportiva, entramos na prática do ténis e atletismo da vila taipense e treinamos a petanca, entre outras modalidades. Prosseguimos depois a corrida por Campelos, até algumas coletividades mais citadinas.
Caldas das Taipas uma Vila Desportiva Luís Soares Presidente da Junta de Freguesia de Caldelas – Vila de Caldas das Taipas
Na Vila das Taipas respira-se Desporto. Desde há muitos anos, até ao dia de hoje. Das modalidades pioneiras no Concelho, no distrito e no Norte que, aqui, na Vila das Taipas, se iniciaram e de que são exemplo o ténis, o hóquei em patins, a natação até as modalidades mais massificadas como o futebol. Nas Caldas das Taipas cedo se manifestou esta vocação desportiva e de lazer, facto a que não é alheio o forte investimento público municipal, mas também o investimento privado no final da primeira metade do século XX. Desde então, a Vila das Taipas e o seu tecido associativo se foi desenvolvendo disponibilizando mais e novas respostas à comunidade. O ténis de mesa, o voleibol, as artes marciais, a corrida e, mais recentemente, a Patinagem artística, a Petanca, o Ropeskipping e o Judo são modalidades que encontramos na nossa comunidade. E esta diversidade é um motivo de satisfação e orgulho. Desde logo, porque demonstra a força das nossas gentes e a capacidade de auto-organização e, por outro lado, porque o Desporto é uma dimensão 52
fundamental da formação individual dos jovens e da vida adulta. Por isso, e paralelamente às modalidades enunciadas, desde 2017, a Junta de freguesia tem promovido atividade física gratuita a toda a população, instrumento ao serviço da promoção da saúde e do envelhecimento ativo. Em 2023, o Clube Caçadores das Taipas, associação desportiva mais antiga da Vila, na prática do futebol, a 2ª mais antiga do Concelho e a 3ª mais antiga da Associação de Futebol de Braga, completa o seu primeiro centenário. Esta marca expressa um duplo sentido. Responsabilidade pela história que o Clube carrega, mas felicidade para a comunidade pelos feitos alcançados. Que esta longevidade contamine todo o movimento associativo desportivo da Vila para que Caldas das Taipas não perca esta sua vocação.
53
Clube Caçadores das Taipas nos seus primórdios Carlos Marques
Foi-me pedido pelo Diretor de OsmusikéCadernos, Jorge do Nascimento Silva, que narrasse uma pequena história das origens do 2º clube desportivo mais antigo de Guimarães, que faz, agora, 100 anos de existência, apenas menos 1 ano do que o 1º clube vimaranense, que foi e é o Vitória SC. É o meu clube de sempre, desde que me conheço, de quem sou sócio há mais de 50 anos, e aceitei o repto também por ser importante a divulgação do clube mais representativo desta vila e das freguesias que a circundam, conforme ordenava o Senhor Governador Civil do Distrito de Braga, em 16 de maio de 1924, tutelando trinta freguesias ao Clube Caçadores das Taipas. Para o dinamismo desta terra, das diversas freguesias representativas de Grupos que a rodeiam, se narra a história do Clube Caçadores das Taipas (CCT), nas suas origens, gente dirigente com um enorme pulsar bairrista, alguns combativos republicanos com grande sentido de servir a terra e o vasto turismo, cientes de que a actividade desportiva defendia não só os interesses da juventude e das famílias residentes, mas também as actividades económicas e seus intervenientes desde empregadores e empregados na ajuda à divulgação do nome da sua terra, abrindo, por isso, horizontes mais vastos à sua economia através da venda dos seus artigos e usufruto das suas paisagens bucólicas e naturais, das suas águas termais e fluviais rumando, por isso, ao crescimento das Caldas das Taipas que é e orgulhosamente ostenta o título nacional de Capital da Cutelaria. No princípio dos anos 20 do século XX, o Clube Caçadores das Taipas era o mais ecléctico do concelho, pois agregava à sua volta e aos seus associados além do futebol. a actividade de tiro, da caça e da columbofilia. Nos anos trinta, época anterior à da elevação à categoria de Vila, continuava o clube numa demonstração múltipla das suas diversas actividades a mostrar ao concelho e a todo o norte do país a pujança das suas gentes. Faziam as suas despesas com receitas próprias, provenientes duma melhor distribuição do erário público, pois as Taipas já tinham Junta de Turismo com receitas directas, sendo as mesmas aplicadas no desenvolvimento das Caldas das Taipas. O clube estava ao nível do da cidade, tendo o nosso campo de jogos 54
até mais valências que o do Benlhevai-VSC, como é exemplo a modalidade de tiro que, nas Taipas, começa a 1924 e, em Guimarães, apenas no ano de 1938. Os dirigentes já possuíam visão alargada da indústria do turismo e sabiam que o Clube Caçadores das Taipas era um bom veículo para o efeito. Sem problemas partidários, dedicavam-se ao desenvolvimento da sua terra sem se preocuparem com o partido ou com a sombra de determinados políticos, trabalhavam em prole da terra, muitos republicanos em conjunto com figuras do regime político de então, o Estado Novo. Nos anos quarenta, já as Taipas com o estatuto de vila, o clube de futebol começa a evidenciar-se das outras actividades, constituem-se equipas mais competitivas e com mais ritmo de treinamento. Dá-se o alargamento e o taipado do campo de futebol. Não há dificuldades de dirigentes, embora se viva um período de crise económica, devido à guerra mundial e à fome. O município, embora com poucos recursos, não deixava de apoiar o clube através do pelouro que, ao tempo, tinha, o Vereador das Taipas. Agora, nos tempos de hoje, o poder autárquico com autonomia através de lei de finanças locais (conquista de Abril), sem a figura do Vereador das Taipas, deixa-o à sua sorte. O Clube Caçadores das Taipas destaca-se no panorama local por jogar entre os maiores do futebol, pois eram nesta data poucos os clubes. Assim, apenas algumas cidades e vilas tinham clubes a participar nos campeonatos, participávamos nos primeiros patamares do futebol nacional. A vila das Taipas com estatuto termal e turístico figurava entre as grandes localidades que partilhavam o futebol e ofereciam espectáculos aos seus residentes e a todos quantos visitavam a sua terra. Tudo começou no dia 19 de novembro de 1923, quando, no Estabelecimento Termal das Taipas, se reúne a primeira vez uma Assembleia com o propósito de fundar o clube. A ideia deve-se a José Ferreira Guimarães, um proprietário e jornalista das Taipas, e fortalece-se desde que José Ribeiro de Castro decide oferecer o terreno para o campo de jogos do clube. O benfeitor, casado com Maria da Costa Morais Castro, é um importante capitalista das Taipas, tendo ocupado cargos administrativos da maior relevância como a de Presidente da Junta de Freguesia e Presidente da Assembleia Geral do clube, bem como de PreCartão do Sócio N.º 1 do CCT sidente da Direcção da Associação Humanitária 55
dos dos Bombeiros Voluntários de Caldas das Taipas. Na Comissão Iniciadora para a fundação do clube estão os nomes de Abílio da Silva Oliveira, Dr. Alfredo Fernandes, Custódio da Costa Ferreira Pinto, Francisco Ferreira Guimarães e José Ferreira Guimarães. Custódio de Araújo Lemos, José Joaquim Chaves Braga e Celso Marino Leite Mendes eram os cidadãos que haveriam de ASSEMBLEIA GERAL Presidente:José Ribeiro de Castro tomar as rédeas desta primeira Assembleia, tomando os lugaVice Presidente: Bento Machado res de Presidente, Primeiro e Segundo Secretário, respectiva1.° Secretário: Francisco da Silva Oliveira 2.° Secretário: António Caetano da Silva mente. Como era objectivo, nessa primeira reunião, depois de Vice Secretários: Manuel de Freitas apresentados e discutidos, foram votados os Estatutos do Clube de Caçadores das Taipas, que ficaram redigidos em nú- CONSELHO FISCAL Efectivos: Augusto da Silva Machado mero de 12 artigos e que se resumem deste modo: João Campos da Silva Pereira O Artigo 1.°, indica que o clube tem a sua sede nas Caldas José Fernandes de Carvalha Substitutos: António Manoel Lourenço das Taipas. Joaquim Vieira Gonçalves O Artigo 2. indica-nos as modalidades e finalidades que o Secretário: Abílio da Silva Oliveira clube se propõe desenvolver. Tesoureiro: José Ferreira Guimarães Os Artigos 3.°, 4.°, 5.°, 6.°, 7.° falam-nos dos sócios, quem Vogais: Custódio da Costa Ferreira Pinto Eduardo Leite Faria são, quais as condições de admissão, direitos e deveres, etc. Francisco Ferreira Guimarães Os Artigos 8.°, 9.° e 10.° enumeram e resumem as compeSubstitutos: Celso Mendes tências dos corpos gerentes do clube. Os Artigos 11.º e 12.° referem, de uma maneira geral, a forma de como devem ser organizadas as reuniões, os recursos e subsídios, entre outras. Na mesma Assembleia Geral procedeu-se à eleição dos Corpos Gerentes que orientariam o clube até 1927, aprovando-se a proposta feita por José Joaquim Chaves Braga. No dia 23 de novembro de 1923, são presentes ao Senhor Governador Civil do Distrito de Braga os seus primeiros estatutos, iniciando-se, aqui, a vida oficial desta colectividade, tratando-se do terceiro clube da Associação de Futebol de Braga. A 15 de dezembro de 1923, numa sede provisória na Avenida da República N.º 37, que foi a casa do clube durante alguns anos, a Direcção escolheu para seu distintivo um emblema de prata com um javali e as iniciais C. C. T. gravadas a esmalte. Foram mandados fazer vinte emblemas, um dos quais em minha posse e nestas páginas reproduzido. De 15 de janeiro a 15 de fevereiro de 1924, são admitidos novos sócios contribuintes: António Lage 56
Jordão e António Francisco Ferreira de Castro e Francisco Pereira Silvério, Francisco da Silva Braga, António Coelho Maranhas, António de Souza Pereira, António Gonçalves da Cunha, José Machado Mendes, Silvino E de Magalhães Júnior, José Teixeira Machado Mendes, José Joaquim Baptista Sampaio, Arthur Gomes Ferreira da Costa, Manuel Saraiva de Carvalho, José Firmino de M. e Castro, António de Freitas Guimarães, Joaquim da Silva F. Monteiro, Victorino Correia Mesquita Diniz, Albertino Baptista Vieira, Luiz Virgolino Chaves e Dr. António Ramalho foram nomeados sócios honorários, devido à prestação de serviços e de carinho demonstrado em prol do Clube de Caçadores das Taipas. Em 15 de março 1924, deu-se início à preparação do campo de jogos para as modalidades de futebol e de tiro. No dia 15 de abril de 1924, foi aprovado um voto de louvor ao Senhor José Ribeiro de Castro, a Mário de Sampaio e à Senhora Dona Ana d'Abreu, pela oferta de terreno feita para as instalações do clube. Os dois últimos sócios foram nomeados como honorários e o primeiro ficou isento do pagamento de quotas. No entanto, ficou estabelecido que, para todos os efeitos legais, os terrenos acima descritos são propriedade dos respectivos donos a cuja posse têm de volta sem direito a qualquer indemnização desde que o Club deixe de funcionar, para o que será considerado motivo de cessar a autorização de ocupar o terreno, à falta de exercício ou festas desportivas durante três anos consecutivos. O Senhor Governador Civil tomou conhecimento da aprovação dos estatutos e resolveu reclamar para o Club a área ocupada pelas seguintes freguesias do concePrimeiros distintivos lho de Guimarães: Caldelas, Barco, Briteiros (S. Salvador, S.to Estêvão e S.ta Leocádia), Sande (S. Martinho, S. Lourenço, S. Clemente e Vila Nova), Balazar, Longos, Donim, Figueiredo, Oleiros, Leitões, Airão (S.ta Maria e S. João), S. Mamede, Ronfe, Brito, Prazins (S.to Tirso e S.ta Eufémia), Ponte, Corvite, Castelões, Gonça, Gondomar, Souto (S. Salvador e S.ta Maria) Arosa, num total de trinta freguesias. No dia 31 de outubro de 1924, a Direcção do Club de Caçadores das Taipas autoriza e delega no Sporting Club das Taipas a utilização do seu campo de jogos para os seus desportos nas seguintes condições: 1.° - O Sporting ampliará o Campo conforme a delimitação feita pela Direção do Club de Caçadores e sob a sua fiscalização, realizando à sua conta as obras de terraplanagem e nivelamento. 2.° - Estas obras deverão estar concluídas até ao dia 15 de abril do ano seguinte. 3.° - A entrada no Campo só é permitida aos sócios, jogadores do Sporting para os seus treinos e exercícios e às equipas de jogadores e respectivo júri nos desafios de Foot-Ball, que a Direcção do Sporting 57
comunicará ao Club de Caçadores das Taipas os nomes dos sócios e jogadores dos desafios e qual o crachá ou prova de identidade que devem apresentar aos empregados da fiscalização. 4.° - Sob nenhum pretexto pode qualquer outra pessoa entrar no campo em qualquer ocasião sem plena autorização da Direcção do Club de Caçadores das Taipas. 5.° - De qualquer festa ou desafio que o Sporting promova com entradas pagas, receberá o Club de Caçadores das Taipas 30% (trinta) da receita total arrecadada. 6.° - O Sporting não poderá distribuir convites nem facultar por qualquer meio a entrada no campo sem prévia autorização da Direcção do Club de Caçadores das Taipas, que autenticará os convites e cartões. 7.° - Os sócios do Club de Caçadores das Taipas, provada que seja a sua identidade, têm sempre livre-trânsito. No dia 10 de maio de 1925 realiza-se o jogo Alegria Sport Club de Guimarães, com o Grupo do Club de Caçadores das Taipas, no lugar do Montinho, nas Caldas das Taipas. Ao dia 3 de outubro de 1925 o Club Campo do Montinho com equipa de futebol dos anos 20 do CCT Foto de Carlos Marques Caçadores das Taipas filia-se na Associação de Futebol de Braga, e é admitido a concorrer ao Campeonato. Uma das condições para a admissão era que os grupos desportivos tinham de ter o campo de jogos na localidade onde tinham sede, e não podiam realizar jogos sem prévia autorização da Direção da A.F.B. A 8 novembro de 1925 é feito o jogo entre o Estrella Sport Club e o Club Caçadores das Taipas. Em 4 de maio de 1926, o Club Caçadores das Taipas inscreve, na associação, os seguintes jogadores: Afonso Pires, Joaquim Fernandes Sampaio, José Silva, Gaspar de Sousa, Augusto da Cunha e C. Pereira Mendes, José Fernandes Nunes, J. Gouveia e Francisco Martins pagando de inscrição a importância de dez escudos. No dia 13 de junho de 1926, realiza-se, no magnífico campo de jogos do Club de Caçadores das Taipas, o desafio de Foot-Ball entre o Sporting Clube de Braga e o Club de Caçadores das Taipas, para disputa do 58
Campeonato Distrital, tendo terminado com o resultado de 6-3 a favor do Sporting, resultado este que não está em relação ao jogo desenvolvido pelos nossos jogadores que teriam ganho se a arbitragem fosse imparcial como era de esperar. Mas não, a arbitragem foi deficientíssima, tendo prejudicado muitíssimo o nosso grupo, que desenvolveu Foot-Ball como poucas vezes. Dizem-nos que os nossos jogadores protestaram junto da Associação de Foot-Balll Club de Braga e esperamos que ela anule o desafio e, batendo-se os dois grupos novamente, com uma arbitragem imparcial, legará depois o título àquele grupo que legitimamente o conquistar. Estávamos convencidos que o Sporting não quereria usufruir de um título que o envergonharia pela forma como fora conquistado, esperávamos que a Associação fizesse justiça, mas tal não aconteceu. A 30 de Novembro de 1926 o Club Caçadores das Taipas é suspenso até 31 de Março de 1927 por ter realizado desafios particulares sem haver solicitado autorização à Direcção da Associação de Futebol de Braga. Apenas volto a encontrar registos mais tarde, embora sabendo-se da contínua prática oficial de jogos, quando no dia 19 de Agosto de 1928, se realiza, no campo do Club, um torneio de tiro aos pombos, revertendo o seu produto para a Casa dos Jornalistas do Porto. À noite, no Parque do Hotel das Termas, tocam duas bandas de música e há fogo de artifício. No dia 8 de Março de 1931, no Salão Cinematográfico das Taipas realiza-se uma Assembleia Ordinária do clube, presidida por Francisco Pereira Silvério, secretariado por Augusto de Sousa Machado e Cândido Ribeiro Capela, para a Revisão dos Estatutos e Eleição dos Corpos Gerentes, sendo aclamados os novos corpos gerentes que acabam de ser eleitos: É discutido e aprovado o Regulamento Interno, apresentado pelo Presidente da Direcção, Dr. Alfredo Fernandes: 1.° O Club explorará e porá em exercício todos os desportos tendentes, moral e fisicamente ao desenvolvimento e aperfeiçoamento da raça. E para isso estabelece as secções desportivas necessárias e convenientes; procurando estreitar a união com as agremiações congéneres; estabelecendo a possível assistência moral e física aos sócios. 2.° Em cada secção desportiva será estabelecido o respectivo regulamento que, depois de aprovado pela Direção, terá força de lei social. O Club manterá um campo de jogos devidamente equipado para os fins a que se destina e terá a sua sede com os bens móveis necessários e indispensáveis ao seu serviço. 3.º As entradas nos campos de jogos e sede são exclusivamente reservadas aos sócios no pleno gozo dos seus direitos e condicionadas ainda pelas conveniências financeiras do Club. A distribuição de entradas graciosas ou diminuídas na sua importância é sempre fixada pelas comissões desportivas das respectivas 59
secções. 4.° Em caso algum é permitido o uso do campo ou sede a elementos estranhos do Club ou a acção determinativa de quem quer que seja quando em cedência autorizada. Este regulamento interno foi apro- ASSEMBLEIA GERAL Presidente: Manuel José Pereira vado pela unanimidade dos sócios. Vice-Presidente: Dr. António Crespo 1.° Secretário: José Chaves Braga 5.° Comissão Desportiva: Dr. Alfredo Fernandes 2.° Secretário: Herculano Pinto Maia Silvéno justifica a existência da Comissão Desportiva dentro do Vice-Secretários: Francisco José Lopes Club, a fim de lhe poder ser dado o necessário increAdelino Ferreira Manso mento desportivo. Essa comissão será a parte execuCONSELHO FISCAL tiva da acção directiva e para ela serão escolhidos os Efectivos: Lourenço da Silva Braga elementos competentes cujo trabalho será distribuído João Baptista Sampaio José Crespo Substitutos: António Manoel Lourenço Júnior pelas várias secções. A Assembleia reconhece a utiliCândido Ribeiro Capela dade desta proposta e nomeia provisoriamente a seFlávio Ribeiro Marques guinte comissão, que oportunamente se fracionará e complementará pelas diversas secções: efetivos: Her- DIRECÇÃO Presidente: Dr. Alfredo Fernandes culano Pinto Maia Silvério, António Manuel Lourenço Vice-Presidente: Dr. Joaquim Teixeira de Araújo Secretário: Francisco da Silva Braga Júnior, José Teixeira Machado Mendes, Alberto Pereira Tesoureiro: José Ferreira Guimarães Mendes Martins, José Chaves Braga. Substitutos: FláII Vogais: Arnaldo Monteiro Borges de Araújo vio Ribeiro Marques, José Crespo, Guido Frederico, Francisco Ferreira Guimarães Eduardo Leite Faria Manuel Crespo de Sousa, Lourenço Braga Capela. Substitutos: António Ribeiro da Costa 6.° Vários: Procedeu-se à cobrança trimestral das José Teixeira Machado Mendes Roberto Pereira Martins cotas dos sócios, que no próximo ano será feita a revisão e modificação dos Estatutos de harmonia com as reconhecíveis conveniências do Club e execução das medidas resultantes da mesma. Depois de várias épocas desportivas, em 31 de julho de 1932, realizou-se, no cine-salão das Taipas, com Cândido Ribeiro Capela a secretariar mais uma assembleia geral do clube para nova actualização dos Estatutos do clube. No dia 4 de outubro do ano de 1932, o Clube faz a sua inscrição no campeonato para a época 1932/33 enviando as Cédulas de cada jogador, delegados e treinador, e pede à Associação de Futebol de Braga para fazer um jogo particular de preparação e realiza-o no campo do Montinho com o Conquistador Sport Club. No dia 11 de outubro do mesmo ano, o Clube indica ao Colégio Bracarense de Árbitros de Foot-Ball 60
para candidatos a juízes de futebol, os nossos conterrâneos, Francisco Pereira Júnior e José Chaves Braga, solicitando ao mesmo tempo autorização para fazer outro jogo de preparação do campeonato contra o Real Sport Club. Ao dia 1 de Novembro do ano de 1932, o Vitória Sport Clube de Guimarães protesta na A. F. Braga pelo facto de ter vindo jogar às Taipas contra o nosso Clube e de não termos provido o campo de policiamento. No período de 8 de Novembro e 20 de Dezembro, o nosso Clube realiza 3 jogos particulares, todos autorizados pela A. F. Braga, um dos quais contra o Sporting Club de Braga. Assim, no dia 1 de Janeiro do ano de 1933, o Clube pede à A. F. Braga, o pagamento em dinheiro das percentagens que nos cabem pela realização dos jogos oficiais realizados na ápoca transata para o campeonato. E, no dia 11 de Abril de 1933, o nosso clube contesta, na A. F. Braga, dum problema grave, um atleta jogador do Clube Caçadores das Taipas que se inscreveu na Federação pelo Vitória Sport Club e joga por este clube. No dia 1 de Junho de 1933, realiza-se um grande concurso de voo de pombos, com sede no campo do Montinho, promovido pelo Grupo Columbófilo das Taipas. Em 26 de Setembro de 1933, o Clube inscreve-se para nova época a par de, entre outros, do Foot-Ball Club de Famalicão, Sporting Clube de Braga, Gil Vicente Foot-Ball Club e o Vitória Sport Clube. No dia 4 de Novembro pede autorização na A. F. Braga para a realização de diversos jogos de preparação. Ao dia 14 do mesmo mês, o Taipas recebe a turma do Vitória Sport Clube, no seu Campo do Montinho, no jogo da 1.ª volta a contar para o campeonato concelhio de Honra, e perde o jogo por 0-3 bolas. Mas oferece muita resistência e perde com galhardia. A imprensa refere que a o keeper do Taipas foi o melhor jogador em campo, que a arbitragem foi correcta e imparcial; na semana seguinte, porque só há 2 clubes no concelho, vai jogar ao campo ao campo da cidade de Guimarães do Benlhevai a 2a volta do campeonato concelhio e o nosso clube volta a perder, por esta deslocação o Clube recebe a importância de 60$00. No dia 29 de Janeiro de 1934, perdemos, num jogo de passagem com o Atlético Sport Club, por 6-2, mas empatamos a uma bola no jogo da 2.ª volta. E, ao dia 29 de Março de 1934, são homologados entre outros os seguintes resultados de jogos do Clube Caçadores das Taipas: perdemos com o Futebol Clube de Fafe por 2-1, ganhámos ao Sporting de Famalicão por 2-1, vencemos o Operário por 4-1 e fomos derrotados pelo Maximinense por 2-0. Em 7 de Julho de 1936, é eleito Vice-Presidente da Associação de Futebol de Braga, o nosso Presidente 61
da Direcção, Dr. Alfredo Fernandes.
Campo do Montinho num Torneio Internacional de Tiro do CCT Foto de Carlos Marques
62
Clube Caçadores das Taipas – 100 anos, são isso mesmo: 100 anos! Manuel António Silva (Néné)
O Clube Caçadores das Taipas completou, a 23 de novembro de 2023, o seu centésimo aniversário. Convidado a escrever sobre o assunto, faço-o na qualidade de ex-atleta e ex-dirigente entre os anos de 1995 e 2005 e, como associado, há mais de 25 anos. Todo este tempo representa muito pouco da grandeza temporal que o clube taipense completa este ano. Trata-se do terceiro mais antigo filiado na Associação de Futebol de Braga e o segundo no concelho de Guimarães, logo atrás do Vitória SC. O Clube Caçadores das Taipas esteve inicialmente mais vocacionado para a caça e só mais tarde surge o futebol, modalidade que acabou por projetar o clube, sendo atualmente a única praticada. Em traços gerais, no seu palmarés, o Clube Caçadores das Taipas conta com a conquista de diversos títulos distritais, em diferentes escalões, bem como, com um título nacional da 3ª divisão (2000/2001), no escalão sénior. Foi por 3 vezes vencedor da Taça da Associação de Futebol de Braga (1981/1982, 2007/2008 e 2011/2012) e conta com 24 participações na Taça de Portugal onde conseguiu chegar, por duas vezes, aos oitavos de final da prova (1998/1999 e 2001/2002) tendo sido elimiSubida de Divisão, em 1998 nado no Campo do Montinho pelo Esposende (1-2) e Portimonense (0-2), respetivamente, quando ambas as formações disputavam a Divisão de Honra do futebol nacional. A primeira subida à 3ª divisão nacional registou-se em 1979/1980. Até à data, o 63
clube taipense conta com mais de duas dezenas de épocas de participação em provas de cariz nacional. A maior conquista desportiva dos taipenses verificou-se na época 1997/1998, com a sua primeira subida à 2ª divisão nacional “B”. A 31 de maio de 1998 (completa este ano 25 anos) a formação do Clube Caçadores das Taipas deslocouse a Montalegre para defrontar a equipa local, numa tarde de domingo chuvosa e de muito frio. Apesar disso, a formação da vila termal contou com o apoio de muito público que durante os 90 minutos passou por diferentes estados de espírito, dado que, para o desfecho que todos ansiavam, não bastaria apenas que o CC Taipas vencesse. Para tal, o Bragança, que jogava à mesma hora, em Amares, teria de perder o seu jogo. Ao intervalo, o Taipas perdia por 1-0 e os brigantinos venciam em Amares. O desalento e o desânimo instalavam-se na generalidade daqueles que acompanharam a equipa a Montalegre. Os primeiros momentos da segunda parte foram de algum nervosismo até que Neiva, avançado taipense, apontava o golo da igualdade. Campo do Montinho Para animar ainda mais as hostes taipenses, poucos minutos depois, o Amares fazia o golo do empate. Contudo, o Bragança marcaria praticamente de seguida, colocando-se novamente em vantagem e reforçando a contabilidade a seu favor. O Taipas, entretanto, por intermedio de David, colocou-se em vantagem na partida em Montalegre e o entusiamo foi crescendo com as atenções a virarem-se completamente para o jogo de Amares. A primeira explosão de alegria acontecia minutos depois com o Amares a voltar a empatar (2-2) a sua partida com o Bragança. Com esta conjugação de resultados o Taipas estava na 2ª divisão nacional. A partida terminava em Montalegre com o Taipas a vencer por 2-1. Em amares ainda se jogaram praticamente mais cinco minutos e o final da partida, com o resultado de 2-2, garantia a primeira subida dos taipenses à 2ª divisão nacional. Nova explosão de alegria, com os adeptos taipenses a invadirem o relvado para festejar o feito com os jogadores. Uma alegria imensa que vivi na primeira pessoa, como capitão de uma equipa que sempre funcionou como uma autêntica família, numa época em que conheceu 4 treinadores (Artur Correia, Carlos Neves, Jacinto João e 64
Fernando Faria) e que a três jornadas do final do campeonato se encontrava a 6 pontos dos lugares de subida de divisão. A festa continuou no balneário e prolongou-se até às Taipas.
CC Taipas, in Reflexo de 24/03/2023
Dezenas de automóveis acompanharam o autocarro taipense em caravana até à Póvoa de Lanhoso onde uma viatura dos bombeiros taipenses aguardava pela comitiva. Feito o transbordo dos atletas para a referida viatura, a caravana seguiu o seu caminho até à vila das Taipas, onde seria recebida por novo banho de multidão. O Campo do Montinho foi o destino final do convívio festivo entre atletas e associados e simpatizantes. Pelos escalões de formação, os taipenses também não deixam de ter um percurso interessante. Foram por diversas vezes campeões distritais nos diferentes escalões e conseguiram algumas presenças nos escalões nacionais. Em juniores contam-se cinco presenças nos campeonatos nacionais, nos juvenis, uma e, nos iniciados, duas presenças. Os últimos tempos não têm sido muito famosos em termos desportivos. As sucessivas crises financeiras que assolaram o país acabaram por se fazer refletir na falta de apoios e, por consequência, nos resultados desportivos. O Clube passa por uma fase menos boa tendo na presente temporada 2022/2023 descido para a Divisão de Honra da Associação de Futebol de Braga. Contudo, não são estes pequenos percalços que tiram todo o brilhantismo que o seu percurso e a celebração do seu ano centenário merece. O Clube Caçadores das Taipas é, desde há muitos anos, um clube de 65
referência e muito acarinhado, não só pelos taipenses, mas também pelas populações vizinhas que em tempos idos seguiam o clube como se o da sua terra se tratasse. Nos tempos mais recentes, com a proliferação de clubes nas freguesias vizinhas, esse sentimento bairrista e agregador esmoreceu significativamente. No entanto, a título de exemplo daquilo que o CC Taipas representa para muitos, ainda se vai ouvindo que “há 50 anos (numa altura em que a facilidade para se chegar a Guimarães ou Braga não era a mesma dos dias de hoje) quando queríamos ver futebol, íamos às Taipas”. Há ainda muitos testemunhos vivos desses tempos. Muitos parabéns, pois, ao Clube Caçadores das Taipas pela passagem do seu centésimo aniversário. Um bem-haja a todos os dirigentes, atletas, funcionários, associados e simpatizantes que, ao longo de todo este tempo contribuíram com o melhor que sabiam e podiam para o engrandecimento do Clube. Da minha parte, para além dos mais de 25 anos como associado, sinto um enorme orgulho em ter representado o CC Taipas enquanto atleta e, mais tarde, como dirigente.
66
Piscinas das Caldas das Taipas: 73 anos de História (1950-2023) António José de Oliveira1
No ano de 2023, comemoram-se 73 anos de existência do complexo de Piscinas da Cooperativa Taipas Turitermas. A 29 de junho de 1950, integrado no programa das festividades de São Pedro, era inaugurado o complexo de piscinas, constituído pelos seguintes equipamentos: piscina de 25 metros de comprimento, com duas pranchas; bar de apoio; esplanada de festas, balneário, piscina para crianças; parque infantil e mini ringue de patinagem. No final da inauguração, a Junta de Turismo das Taipas, ofereceu ao Governador Civil e às autoridades concelhias e locais um jantar no Hotel das Termas. Em reunião da Junta de Turismo, a 1 de junho de 1950, era aprovado, a título provisório, o regulamento da piscina do Parque de Turismo, constituído por 5 artiPiscina das Taipas, 1950 (Arquivo Particular José de Oliveira) gos proibitivos, senão vejamos: “É proibido: 1º - andar sobre a relva; 2º - Cuspir, deitar pontas de cigarros e papéis ou qualquer detrito na piscina ou seus anexos; 3º - Andar sobre o passeio de cimento destinado aos nadadores; 4º - Tomar banho na piscina sem previamente usar o banho de chuveiro; 5º - Usar fato de banho cujo modelo não seja o aprovado por lei”.
Este equipamento desportivo mandado edificar pela Junta de Turismo da Estância Termal das Taipas constitui a primeira piscina pública do distrito de Braga. Nos inícios da década de 50, no recinto de festas da piscina constituído por uma pérgula e um palco, eram realizados vários arraiais minhotos, com sessões de 1
Doutor em História de Arte em Portugal
67
fogo preso, cujos proveitos revertiam para o Turismo Hóquei Club das Taipas. Nesta piscina, também se realizavam, na época, festivais náuticos dinamizados pelo Sport Club do Porto e espetáculos com a orquestra João Calvário e com a cantora Amélia Canossa, do Porto. Consultando a imprensa regional da época, temos conhecimento de que dois anos após a inauguração desta piscina, esta seria local de competições desportivas promovidas pela Associação de NataPiscina das Taipas, 1950, (Coleção António de Pádua Peixoto de Oliveira) ção do Porto. Efetivamente, a 20 de julho de 1952, decorreu, num ambiente muito animado e desportivo, um festival de natação, realizado na piscina do Parque de Turismo das Taipas. Este festival de natação organizado pela Associação de Natação do Porto, em colaboração com a Junta de Turismo das Taipas, presidida pelo sr. Rosas Guimarães, realizou-se, nesse domingo, pelas 17 horas. Segundo a imprensa vimaranense, assistiram a esta competição um elevado número de pessoas do norte de Portugal, sendo as provas disputadas pelos nadadores do Futebol Clube do Porto, Clube Fluvial Portuense e Pejão Atlético Clube. Os nadadores receberam prolongadas ovações da numerosa assistência, que vibrou com as exibições feitas pelos nadadores dos Clubes Nortenhos. A imprensa realçava os resultados técnicos obtidos que deixaram a todos os dirigentes dos Clubes presentes excelente impressão. Na edição do jornal “Notícias de Guimarães”, de 20 de julho desse ano, era publicado um anúncio publicitário referente à realização deste festival de natação. Em agosto de 1969, seriam inaugurados os atuais balneários, projetados pelo Inauguração dos Balneários, agosto de 1969 (Arquivo Particular de José de Oliveira) 68
arquiteto José António Sequeira Braga, que permitiu integrar o desnível topográfico deste recinto, com a criação de uma nova esplanada, na parte superior dos mesmos. Através de um artigo, publicado no “Noticias de Guimarães”, de 14 de julho de 1973, por José de Oliveira, correspondente do referido semanário, temos notícia de que a piscina da Junta de Turismo das Taipas, continuava movimentada, havendo da parte da manhã cursos de natação para os alunos do Liceu, da Escola Técnica de Guimarães e dos ciclos Preparatórios da cidade de Guimarães e da vila das Taipas (Escola Preparatória Raúl Brandão). Em suma, esta piscina além de servir os aquistas e campistas que frequentavam esta vila termal, possibilitava que os alunos taipenses e vimaranenses usufruíssem de aulas de natação, no verão. Em 1976, é construída a atual piscina das crianças, sendo aumentada a área útil do complexo das piscinas. A 11 de dezembro de 1985, com a criação da Cooperativa Taipas Turitermas e com a extinção a nível nacional das Juntas de Turismo, este complexo de piscinas passa para a alçada desta Cooperativa. Quarenta anos após a criação deste equipamento inovador, a 29 de junho de 1990, integrado no programa das Festividades em honra de São Pedro e nos 50 anos de elevação de Caldas das Taipas à categoria de vila, é inaugurada uma nova piscina pela Cooperativa Taipas Turitermas. Esta última piscina permitiu ampliar consiPostal da Piscina de Caldas das Taipas, década de 60, do séc. XX (col. António José de Oliveira) deravelmente a área útil de recreio deste complexo, atualmente constituído por três piscinas. Este complexo de piscinas aberto ao público há 73 anos, que ao longo de décadas serviu a população das Taipas e de todos os turistas e aquistas, conseguiu atravessar o tempo, mantendo viva a funcionalidade do seu espaço, constituindo, ainda hoje, uma referência desportiva, turística e arquitetónica desta vila termal. Para comemorar os 70 anos deste complexo inovador para a época, integrado na programação cultural dos “Banhos Velhos”, da Cooperativa Taipas Turitermas, no dia 25 de junho de 2021, apresentámos uma 69
palestra/tertúlia “Piscinas das Taipas: 70 anos de história”, na pérgula do recinto das piscinas. Nesse mesmo ano, e dada a relevância deste equipamento, expusemos uma comunicação denominada “Piscinas das Taipas: 70 anos de História e Património (1950-2020)”, no V Encontro Internacional sobre “Património Industrial e sua Museologia”, que se realizou na Sociedade Martins Sarmento, nos dias 10 e 11 de julho de 2021. Os 75 anos da inauguração dos campos de ténis das Caldas das Taipas (1948-2023) A 18 de julho de 1948, a Junta de Turismo da Estância Termal de Caldas das Taipas inaugurava os primeiros campos de ténis do concelho de Guimarães. A inauguração integrou-se numa festa desportiva, que se realizou no Parque da Junta de Turismo da Estância Termal das Taipas. Segundo o periódico “Noticias de Guimarães”, do programa constou um jogo de Hóquei em Patins entre o Académico Futebol Club e o Estrela e Vigorosa Sport, ambos da cidade do Porto, e a inauguração dos dois campos de ténis, considerados pela imprensa regional da época, os melhores do norte de Portugal. Esta comitiva desportiva foi recebida na sede de Junta de Turismo pelo presidente da mesma, o Sr. José Francisco Rosas Guimarães e pelo Sr. Alfredo Leal, um dos organizadores do festival desportivo. De seguida, os desportistas visitaram os estabelecimentos termais, sendo recebidos pelo Sr. José de Oliveira, Presidente da Junta de freguesia de Caldelas e diretor da Empresa Termal das Taipas S.A.R.L., concessionária das águas termais. No Hotel das Termas, propriedade da Empresa Termal, foram acolhidos pelo Sr. Custódio de Oliveira, gerente desta unidade hoteleira. Pelas 17 horas, no ringue de patinagem do Parque (inaugurado em 1938), realizou-se o jogo de hóquei em patins pelas duas equipas da cidade do Porto, tendo o Académico Futebol Club vencido a “Taça Turismo” com o resultado de 6/3. Depois procedeu-se ao moCampos de ténis, 1950 (Arquivo Particular José Francisco Peixoto de Oliveira) mento alto do dia, com a inauguração dos dois campos de ténis. Os tenistas José Roquete, Norte e Costa, Francisco Matos e Manuel Nicolau de Almeida fizeram uma exibição em singulares e pares. O atleta José Roquete, campeão nacional na modalidade, venceu a Taça “Inauguração da Junta de Turismo”, e Vasco Norte e Costa e Manuel Nicolau de Almeida a Taça “Câmara Municipal de Guimarães”. 70
No final, no Hotel das Termas, foi servido um jantar a todas as entidades oficiais e aos desportistas. A série de brindes foi iniciada pelo Sr. Rosas Guimarães, Presidente da Junta de Turismo, que felicitou as duas equipas de hóquei em patins e os tenistas pelas suas magníficas exibições. O tenista Norte e Costa e os restantes desportistas agradeceram e puseram em destaque a Junta de Turismo das Taipas, por possuir um magnífico ringue de patinagem e dois campos de ténis em terra batida, que muito valorizam as Taipas como terra de turismo e centro desportivo. Em 1985, com a extinção da Junta de Turismo da Estância Termal das Taipas, os dois campos de ténis e respetivos balneários e sede passam para a propriedade da Cooperativa Taipas Turitermas, CIPRL, criada nesse mesmo ano. A 4 de março de 1994, é criado o Clube de Ténis das Taipas, por um grupo de taipenses dedicados a esta modalidade, que tem dinamizado e valorizado o ténis no aglomerado urbano de Caldas das Taipas e nas freguesias circunvizinhas. A 29 de abril de 2022, a Cooperativa Taipas Turitermas, celebrou um contrato de comodato dos courts de ténis com o Clube de Ténis das Taipas, válido para os próximos 15 anos, com o objetivo de garantir o desenvolvimento da prática desportiva do ténis, nos referidos equipamentos. Com a abertura destes dois campos de ténis, há 75 anos, a que podemos juntar o ringue de patinagem (palco dos jogos do “Turismo-Hoquei Clube de Caldas das Taipas”) e com a inaguração da piscina, em 1950, esta vila termal transformou-se, na década de 50 do século XX, num importante e dinâmico centro turístico e desportivo no norte de Portugal. Momento da celebração do contrato de comodato dos courts de ténis, 29-042022 (Facebook Taipas Termal)
71
NAT - Núcleo de Atletismo das Taipas Pedro Regueiras
O NAT, Núcleo de Atletismo das Taipas, é uma Associação Desportiva sem fins lucrativos, sediada nas Caldas das Taipas (Caldelas), dedicada à prática de Atletismo. Desde a sua origem, em 2002, esta coletividade dedica-se à prática do Atletismo, amador e de competição, sendo um clube federado da na Federação Portuguesa de Atletismo, desde 2012. O NAT começou com um pequeno grupo de amigos, que se juntava no final da tarde para dar umas voltas no Parque das Taipas. Esse grupo cresceu e, hoje, é uma das referências da região, em termos de associativismo, contando com mais de 150 atletas e sócios. Com o passar dos anos, o Clube foi ganhando visibilidade e reconhecimento na Vila, estando sediado no Parque da Vila das Taipas. Atualmente, o Clube expandiu as suas valências e, para além do Atletismo, dedica-se também à prática de Caminhadas – pedestrianismo ou trekking, neste caso sem caráter competitivo. O Clube, em colaboração com diversas entidades, dedicase ao incentivo da prática de exercício físico ao ar livre, incentivando toda a comunidade local a manter-se ativa e saudável, física e mentalmente. Da história do Clube constam inúmeras participações em competições nacionais e internacionais – maratonas, meiasmaratonas e provas diversas, participações estas que se mantêm com regularidade, bem como treinos 72
semanais e caminhadas organizadas, de caráter mensal, para além dos planos de treino dos diversos atletas. A direção do Clube tem, também, a seu cargo a organização da prova anual “Corrida de Caldas das Taipas”, que segue na 16ª edição. Com este evento, a vila de Caldas das Taipas será, tal como em anos anteriores, o palco da próxima edição do Campeonato Regional de Atletismo de Estrada. A competição organizada pela Associação de Atletismo de Braga estará integrada na 16.ª edição da Corrida de Caldas das Taipas, marcada para 04 de junho de 2023. Esta prova, organizada pelo Núcleo de Atletismo das Taipas, em parceria com a Junta de Freguesia de Caldas das Taipas e com a Câmara Municipal de Guimarães, pode assim receber os melhores corredores do distrito. Tendo por base a premissa da prática do Atletismo, o NAT tem como objetivo não só a conquista de títulos ou troféus, mas, principalmente, o de fazer da sua participação um motivo de festa e confraternização, assim como da constante divulgação da nossa Vila.
73
Clube de Ténis de Mesa das Taipas A direção
Caldas das Taipas, elevada a vila em 1940, com uma população eficaz e muito inteligente não podia deixar de acompanhar todos os desenvolvimentos desportivos, estando sediados, nesta Vila, a maioria dos desportos. Sendo o Ténis de Mesa um desporto olímpico e o segundo desporto com mais praticantes em todo o mundo, não poderia deixar de existir em Caldas das Taipas. Assim, este Clube dedica-se, exclusivamente, à prática desportiva do Ténis de Mesa e considerado o desporto mais saudável, o mais rápido do mundo de efeitos com bola, desenvolvimento da destreza física e mental, o que exige mais concentração e não podendo perder nunca de vista os movimentos, alheando-se do meio envolvente, segundo estudos científicos credenciados. A grande maioria dos atletas de Ténis de Mesa que conheço têm sucesso escolar e, pela vida fora, sucesso profissional, fruto desse desenvolvimento físico e mental. O Clube de Ténis de Mesa das Taipas teve a sua origem na Escola EB23 de Caldas das Taipas, fundado no ano de 1997, sendo os seus fundadores alguns dos representantes da mesma, nomeadamente o ex-Diretor do AE, Prof. Mário Rodrigues. A ideia de fundação do Clube foi do Sr. Adelino Freitas e mais alguns apaixonados pela modalidade e por ser habitual os alunos praticarem a nível não federado nos intervalos das aulas e nos tempos livres, tendo o Diretor Mário Rodrigues agregado um grupo de amantes do Ténis de Mesa para formar este Clube, disponibilizando as instalações para a sua prática. Bandeira do Clube de Ténis das Taipas Ainda hoje a morada oficial do CTM das Taipas é a Escola EB23 de Caldas das Taipas – Salão Polivalente. Teve uma permanente utilização, a título gracioso, do salão Polivalente durante cerca de 20 anos, onde treinávamos e jogávamos, só terminada com a execução da obra de remodelação da Escola, iniciada em julho de 2017, sendo-nos cedido, a partir dessa data, o ginásio da EB Pinheiral. No Salão Polivalente da EB23 das Taipas, realizaram-se várias edições do “Torneio 25 de Abril”,
74
Aspeto geral do “XIII Torneio de Ténis de Mesa das Taipas”, realizado no pavilhão da Escola Secundária de Caldas das Taipas.
Atletas e treinador do Clube de Ténis das Taipas sabem os nomes: Da esquerda para a direita: Domingos Marques, Edgar Freitas, Gabriel Freitas, Ricardo Mendes, Gonçalo Pires, Jaime Santos, Ivo Domingues, João Pedro, Hugo Garcia, Diogo Guimarães, Lucas Gui
75
organizados pela Câmara Municipal de Guimarães e coordenados pelo C.T.M. das Taipas. Realizaram-se, também dois campeonatos Distritais Individuais da A.T.M. de Braga, em cadetes e em juniores. Houve jogos intensíssimos entre o CTM Taipas defrontando as restantes equipas do distrito, nos diversos escalões, foram aqui conquistados e comemorados títulos coletivos, em juniores e seniores, em duas épocas consecutivas como visitantes no Campeonato Nacional da 2.ª Divisão, tendo os jogos sido disputados nesta Escola. Por aqui passaram diversos atletas que viriam a ser campeões distritais individuais nos escalões de formação, por exemplo: João Ribeiro, Fábio Taipas, Mariana Ferreira, Bruno Moreira e José Guimarães. A cedência das instalações da EB23 das Taipas foi condição necessária e indispensável para o surgimento do CTM das Taipas e para a sua continuidade ao longo do tempo. Estamos a desenvolver mais ainda que no passado atividades para o eventual recrutamento de atletas de formação, de forma a proporcionar-lhes um são convívio com os outros atletas do País e a amizade e educação que desenvolverão no futuro. O muito material do Clube de Ténis
de Mesa das Taipas sempre esteve e está à disposição de quem queira praticar. É claro que queremos ser campeões nacionais, partindo do princípio de que cada atleta sendo o melhor da sua rua, quer ser o melhor da sua terra, quer ser o melhor do seu concelho, quer ser o melhor do seu distrito e quer ser, no mínimo, o melhor do seu país. É também esse o intuito, o da ambição, que nos norteia. Obtivemos um título de Campeão distrital de Seniores e diversos campeões nos Escalões de Formação, tanto individual como coletivamente. Estamos a fomentar a modalidade com o programa “O Ténis de Mesa vai à Escola”. Esta época ambicionamos a subida de Divisão para os Campeonatos Nacionais, nos quais militamos já por diversas épocas, de forma consecutiva, estando muito prestes a alcançar o apuramento para a Fase de Qualificação (Liguilha) nacional que engloba todos os distritos da Zona Norte e que se disputou em 8 de julho de 2023. Realizamos o XIV Torneio de Ténis de Mesa Internacional das Taipas, no dia 1 de julho de 2023, que contou com cerca de 250 atletas, vindos de várias zonas do país e de outros países da Europa.
76
Clube de Petanca das Taipas Direção da Associação
O Clube O clube de Petanca das Taipas foi formalmente constituído como associação em 18 de dezembro de 2007. A organização como associação nasceu a partir da existência, já com muitos praticantes, do jogo da Petanca, no Parque de Lazer de Caldas das Taipas. A prática do jogo foi introduzida por emigrantes e ex-emigrantes da vila de Caldas das Taipas e das freguesias vizinhas. Essa prática, diária, motivou curiosidade e adesão pelos frequentadores do Parque de Lazer. E, rapidamente, o Clube cresceu em número de sócios e praticantes. O Clube tem cerca de 130 associados e a quase totalidade dos sócios são praticantes. A Modalidade A Petanca é jogada com bolas de aço que pesam entre 600 a 800 gramas, pelo que pode ser praticado, com sucesso, por todos os seres humanos, independentemente da idade, altura, envergadura, peso, força especial ou outra qualidade humana que não seja a percepção da distância e da adequação da força a imprimir na bola tendo em conta o estado do terreno de jogo. A Petanca é um desporto que pode ser praticado em todas as idades: desde a infância à 3.ª idade. Este desporto revela uma particularidade de poder ser disputado entre pessoas de escalões de idade com diferenças abissais. Essa possibilidade faz da Petanca um jogo de família e de gerações. É uma modalidade de desporto transgénero, pois não existe qualquer oposição a que a constituição das equipas seja constituída só por homens, ou só mulheres ou por elementos de ambos os sexos. 77
Pode ainda assumir as seguintes variantes: ser jogada um contra um (mano a mano); dois contra dois, ou três contra três. Os jogadores usam três bolas cada um, na variante um contra um, e em dois contra dois – (doublete, do francês); com duas bolas, na variante de três contra três (triplete). Em regra, a equipa que chegar primeiro aos treze pontos ganha o jogo. Quando se quer reduzir ao tempo dos jogos, é usual estabelecer-se que o jogo termine aos 11 pontos. Os pontos ganham-se quando as bolas de uma equipa terminam o lance mais perto de uma bola pequena – “o pequeno” que tem sensivelmente o diâmetro de uma bola de matrecos. Se a bola de uma equipa estiver mais próxima do “pequeno” e a seguir a mais próxima for da equipa adversária só se ganha um ponto uma vez que a bola mais próxima “corta” os pontos possíveis de bolas mais afastadas da bola pequena, “bouchon”, em francês. A Petanca é um jogo de estratégia e de planeamento pelo que, no doublete e no triplete necessita de coordenação e entendimento dos jogadores da mesma equipa. O lançamento das bolas é feito dentro de um círculo e não pode ser jogado a mais de 10 metros de distância. Neste jogo ressalta a lealdade e solidariedade entre os atletas, a maior parte das vezes, de idades e gerações muito distantes. 78
A Petanca está organizada numa federação nacional de que fazem parte as associações regionais, atualmente em número de quatro, e os clubes. O Clube de Petanca das Taipas faz parte da APZN, (Associação de Petanca da Zona Norte). Cabe aos clubes e às associações regionais, em articulação e coordenação com a Federação Portuguesa de Petanca, organizar os torneios e competições nacionais: Campeonato e Taça de Portugal. O Clube de Petanca das Taipas já organizou a fase final da Taça de Portugal, evento que teve lugar no Campo de S. Mamede, em Guimarães, com o Castelo de Guimarães como horizonte paisagístico de excelência. A par das competições federadas, organizam-se, com periodicidade semanal, na Primavera/Verão, torneios abertos em que podem ser inscritos atletas federados e não federados. Os torneios abertos proliferam por todo o país. Nos últimos anos, tem havido interação com torneios organizados na Galiza com deslocação do Clube à Galiza e dos jogadores galegos a Portugal para participarem nos nossos torneios. O Clube de Petanca das Taipas conquistou troféus, a nível coletivo, tendo sido inclusive campeão da APZN. A nível individual os seus atletas têm ganho muitos troféus. A Petanca, de forma natural, ganhou espaço aos jogos tradicionais portugueses que se lhe assemelham, a “malha” ou “Chincalhão”. Existem razões para tal: a inexistência de danos para os terrenos onde se disputa a Petanca; a necessidade de estratégia; a especialização dos jogadores a apontar ou a atirar. Diz-se atirar quando se acerta numa bola do adversário para a retirar do local onde se encontra, normalmente, quando se posiciona mais perto da bola, “pequena”. Mas o que diferencia a Petanca em relação aos jogos tradicionais portugueses é a existência de regras escritas, quer quanto ao jogo em si, como as relativas ao comportamento dos jogadores, no sentido do respeito intransigente pelo jogador que estiver no terreno de jogo e a executar o seu lançamento. E sendo um desporto transversal a toda a existência humana, na Petanca convergem todos os géneros, gerações e culturas, exigindo o jogo a necessidade imperativa de harmonia e de consolidação de amizade por via do convívio obrigatório. A Petanca como desporto, organizada em associação, realiza o objetivo primeiro e final do que deve ser o clube: a prática da petanca por todos os seus associados.
79
O Rope Skipping e a Vila das Taipas Sandra Freitas
Motivado por uma formação que tinha frequentado, o professor de Educação Física Nuno Dias começou a desafiar os seus alunos do grupo/equipa do Desporto Escolar de Multiatividades ao Ar Livre para algumas habilidades com a corda na mão. Quer se tratasse de saltos em velocidade (quem consegue o maior número de saltos em 30 segundos), quer se tratasse de saltos de potência (maior número de duplos/triplos consecutivos), ou mesmo se fossem truques de pés, habilidades gímnicas ou outras (saltos com condicionamento de uma das mãos ou uma das pernas), os desafios iam-se sucedendo e o grupo de alunos a encarar os desafios ia crescendo. Decorria o ano letivo de 2008/2009 e já se começava a ver alunos de corda na mão nos intervalos das aulas, motivados para completar mais um desafio, ou simplesmente para explorar novos truques. A modalidade de Rope Skipping (Rope=corda, skipping=salto) estava, nesta altura, sob a alçada da Federação de Ginástica de Portugal (FGP) e um grupo de alunos taipenses começou a participar nos encontros e competições da modalidade. As suas prestações destacaram-se nestes encontros, o que inflamou a motivação do grupo e de outros alunos da escola. Professores e alunos das Taipas começaram a encarar a modalidade com seriedade e cedo se percebeu que estes encontros careciam de um regulamento específico e de um ajuizamento mais sério. Após algumas interações mal sucedidas com a FGP, um grupo de professores, Clube Rope Skipping Taipas CN2023 no qual se incluem o professor Nuno Dias e as professoras Celeste Marques, Paula Silva e Elisabete Martinho avançou, em 2011, para a criação da 80
Associação Portuguesa de Rope Skipping, a entidade que, atualmente, rege as competições da modalidade. Sucede-se uma dinâmica de divulgação da modalidade às escolas dos concelhos vizinhos e o número de praticantes foi aumentando. A EB2,3 das Taipas muda o seu grupo de Desporto Escolar para Atividades Rítmicas Expressivas obtendo, assim, um enquadramento mais adequado ao contexto do Desporto Escolar. Com o crescimento da modalidade nasce, também na Vila das Taipas, a primeira entidade desportiva exclusivamente dedicada à modalidade, o Clube de Rope Campeonato Europeu 2017 Skipping das Taipas – Molinhas, com registo a 12 de fevereiro de 2015. A professora Sandra Freitas assume a presidência do Clube de Rope Skipping das Taipas e o professor Ângelo Santos o comando técnico deste clube que ao longo dos anos se tem imposto com resultados de destaque, não só a nível nacional como a nível internacional. No panorama nacional as medalhas acumulam-se, os campeões nacionais sucedem-se anualmente e, até à data, nenhum outro clube nacional tem conseguido rivalizar com os saltadores da vila termal. Mas este talento para as cordas não tem ficado só entre portas, principalmente no que às provas de velocidade diz respeito. Desde a primeira participação internacional, em 2011 – Paris, que os Molinhas nos têm orgulhado com resultados e medalhas verdadeiramente dignificantes, com vários Campeões Europeus e Mundiais em escalões de formação (sub 18). Campeonato Mundial 2018
81
Mas os feitos que tornam único este grupo de atletas são os records Europeus, no escalão de Masters, das provas de SR1x30 e SR4x30. Tratam-se de provas com uma corda individual (Single Rope) executada em 30 segundos, sendo que a prova de SR1x30 é executada apenas por um atleta, enquanto a prova de SR4x30 funciona como uma espécie de estafeta em que 4 atletas saltam, um de cada vez, acumulando os saltos para a sua equipa. Paulo Lima é o detentor do record europeu de SR1x30, tendo feito a corda passar por baixo das suas pernas em 30 segundos 211 vezes (105,5 contagem de perna direita, como habitualmente se conta em provas oficiais). Este saltador já se tinha sagrado Campeão da Europa em 2017, Campeonato Europa 2022 - 1º lugar nesta prova. Os Molinhas Gabriel Ferreira, João Vieira, Paulo Lima e Hugo Soares bateram também o record europeu de SR4x30 com 805 saltos (402,5 contagem perna direita). Estes records foram batidos em Bratislava – Eslováquia, no European Rope Skipping Championship 2022, onde os atletas Taipenses subiram ao pódio 2 vezes para o 1º lugar, 2 vezes para o 2º lugar e ainda 1 vez para a 3ª posição. Atualmente decorre o Campeonato do Mundo (World Jump Rope Champeionship 2023) em Colorado Springs, nos Estados Unidos da América, e Portugal faz-se representar por 3 atletas do Clube de Rope Skipping das Taipas, Paulo Lima, João Rodrigues e Hugo Soares. A forte concorrência dos países asiáticos faz estes atletas perspetivar uma participação modesta, sendo o objetivo principal obter uma presença nas finais da prova SR1x30.
82
Clube Operário de Campelos – 70 anos de história Direção do Clube
O Clube Operário de Campelos foi fundado a 1 de março de 1953 pelos operários da fábrica “Companhia de Fiação e Tecidos de Guimarães – Campelos”, fábrica de fiação e tecelagem, daí a designação de Clube Operário de Campelos. Luís Gonzaga da Silva Carneiro foi o primeiro presidente do clube, pois o seu pai era o mestre da fábrica. A gerência da fábrica ajudou financeiramente pagando o valor do campo que os operários construíram, pois tinham uma enorme vontade de jogar futebol e precisavam de um campo. Fez a sua inscrição na A. F. de Braga, apenas em 1958. Manteve-se ativo até 1965. De 1965 a 1975 o clube esteve inativo devido ao encerramento da fábrica de Campelos. Dado que, nesta altura, a equipa do Campelos era somente constituída pelos operários da fábrica, com o encerramento desta o clube viu-se obrigado a fechar portas durante dez longos anos. Durante o encerramento da fábrica e consequente inatividade do Campelos foi Luís Carneiro que ficou responsável pelo campo até ao Campelos retomar a atividade. Em março de 1975, deuse o renascimento do clube devido ao carinho e afeto que alguns sócios sentiam pelo clube, e também pela necessidade de conviver uns com os outros uma vez que partilhavam todos o amor ao desporto. Designado por "Os Restauradores", O Campelos foi um dos primeiros clubes pequenos a ser fundado na região e, por isso, acharam essencial não deixar o clube “ir abaixo”. Possui um campo de jogos em Vila Nova de Sande, denominado Campo José Maria Machado Vaz, Excampo S. José, pois foi este senhor que cedeu gratuitamente o terreno para a construção do campo. O campo tem a capacidade de 400 lugares, 200 dos quais sentados. Possui uma secretaria, lavandaria, 83
sala massagens, bar e três balneários, um para o Campelos, outro para os visitantes e ainda outro para a equipa de arbitragem. A massa associativa é composta por 420 sócios (lista atualizada), o que é bastante bom. Teve ainda, em tempos, a “Onda Negra”, claque organizada do Campelos. A Onda Negra foi criada em meados de agosto de 1999, no Café Caixeiro 2, em Campelos, quando alguns apoiantes do Clube Operário de Campelos decidiram que algo mais deveria ser feito para apoiar o Clube. Pensou-se numa claque e surgiu a “Onda Negra”. De um momento para o outro, aquilo que eram apenas alguns sócios e apoiantes do Campelos tornou-se num grande conjunto unido e forte! A claque era composta por 75 sócios. O Campelos começou o seu percurso desportivo, na 1ª Divisão Regional. Participou em alguns torneios internacionais dos quais se sagrou campeão por duas vezes. José Pimenta é o atual presidente. O Campelos é uma filial do Vitória Sport Clube e joga com o equipamento preto e branco. Possui apenas uma equipa sénior. Já possuiu camadas jovens, mas devido a dificuldades financeiras, e falta de condições (campo) tiveram de encerrar. Têm, no entanto, preocupação em, sempre que possível, integrar jogadores jovens. Atualmente, ao contrário do que acontecia na altura da fundação, os jogadores do plantel não são operários da fábrica (atualmente uma fábrica de componentes de automóveis), mas jogadores da região. O emblema do clube é preto 84
e branco, com uma fábrica (torre laranja) como plano de fundo numa clara homenagem aos operários que o fundaram. Este ano de 2023, no dia 1 de março, o Clube Operário de Campelos festejou o seu 70º aniversário.
85
Clube Industrial de Pevidém – Breve historial de 90 anos A direção do Clube
Nos anos que antecederam o nascimento do Clube Industrial de Pevidém, as “provas de tiro” com organizações muito rudimentares, disputavam-se em campos não completamente preparados para esse fim – no início dos anos 20, no lugar da Soalheira, a partir de 1923, no lugar do Agouro, no lado esquerdo da estrada Pevidém-Riba d´Ave. Mas, à medida que a sua realização se tornou mais regular, as condições foram sendo melhoradas, de tal forma que nasceu o Stand da Várzea, em Pevidém, tendo-se realizado, nestas instalações, em Junho de 1925 com a presença de 42 atiradores, a primeira prova de que há registo escrito. Os organizadores dessas primeiras provas foram Porfírio Mendes Ribeiro (tio do Eng.º João Mendes Ribeiro, um dos fundadores do Clube e que viria a ser Presidente da Câmara Municipal de Guimarães), António Correia Guimarães (que viria a ser um dos fundadores do Clube, anos mais tarde) e Alexandre Figueiredo (sogro de José Rodrigues Guimarães, também outro dos fundadores do Clube). Mais tarde, estas instalações foram Nos 90 anos do Clube legalizadas, através da fundação oficial do, então, Grémio Industrial de Pevidém, em 21 de Julho de 1933, através de alvará do Governo Civil de Braga da mesma data, designação que, anos depois, teve de ser alterada, conforme reza a acta nº 13 da Assembleia Geral de 15 de julho de 1939, por força da organização corporativa da época, para Clube Industrial de Pevidém, nome que perdurou até aos nossos dias. A primeira sede do Clube situava-se num edifício ainda existente, na actual Rua 25 de Abril, em frente 86
da entrada principal da antiga fábrica Augusto Pinto Lisboa. Posteriormente, transferiu-se para o rés-do-chão do edifício situado em frente da ex-Empresa Industrial de Pevidém e que viria a ser, muito mais tarde, a sede da agência, em Pevidém, do então Banco Totta & Açores. Em Assembleia Geral realizada em 27 de Janeiro de 1962, foi decidida a mudança das instalações para o Stand da Várzea, onde desde há várias dezenas de anos tinham lugar as provas de tiro. Mais tarde, em 23 de Maio de 1974, com a inauguração das actuais instalações no Stand da Belavista, a sede acompanhou esta mudança. Até 23 de Maio de 1974, dia em que se inauguraram as instalações do novo Stand da Bela Vista, isto é, durante mais de 40 anos, o Stand da Várzea foi o grande palco da realização e preparação de eventos desportivos ímpares, em que as cores do clube se elevaram ao mais alto nível. Depois daquela data, passou a ser na Bela Vista, com condições logísticas e instalações de nível internacional, que as provas organizadas pelo Clube se projectaram definitivamente para o exigente núcleo do tiro mundial. As actuais instalações e terrenos do Clube, que ocupam a área total de 10 hectares, são constituídas por um edifício principal – o pavilhão social – onde se encontram um restaurante dotado de duas salas climatizadas, com capacidade para 400 pessoas sentadas, um armeiro para 600 armas, um Salão Nobre, salas de reuniões, com armários expositores para os troféus do Clube, com várias diversões e Atuais instalações desportivas serviços de apoio às actividades do tiro – sala de formação de Caçadores e Atiradores, constituindo a Escola de Tiro, de iniciação para jovens e melhoria de performance para seniores e a Casa Forte para guarda de armas. Restaurante do Clube
87
No exterior, além de um complexo com 5 campos cobertos, para a prática de Padel, arrecadações e parque automóvel para 500 viaturas, possui 5 campos de tiro onde se desenvolvem as disciplinas de Tiro às Hélices, Fosso Universal, Fosso Olímpico, Trap Olímpico, Compak Sporting e Double Trap, que podem ser praticadas todos os dias, bem como uma chapa de testes de tiro, para comprovar a eficácia dos cartuchos e das armas e a Oficina de Mecânica e Carpintaria. No actual Stand da Belavista todos os anos se realizam provas dos Campeonatos de Portugal de Tiro com Armas de Caça, sob a égide da respectiva Federação Portuguesa, nas várias disciplinas, já atrás referidas. Para além destas provas nacionais, têm-se realizado provas internacionais da maior envergadura e integradas no calendário da Federação Internacional de Tiro, de que se destacam: 1980 - Campeonato dos Países Atlânticos, com a participação de 200 atiradores de 6 países;
Grupo de atiradores no stand da Várzea -1936, p110, Desporto em Guimarães
1992 - Campeonato da Europa, com 400 atiradores, sendo 240 estrangeiros, de 7 países europeus e 7 não europeus; 1996 - Campeonato do Mundo com 600 atiradores de 16 países, sendo 8 europeus e 8 não europeus; 1998 - Campeonato do Mundo com 300 atiradores de 7 países; 2006 - Campeonato da Europa com 200 atiradores de 6 países; 2011 - Campeonato do Mundo com 460 atiradores de 11 países; 2015 - Campeonato da Europa com 300 atiradores de 18 países, sendo 9 europeus e 9 não europeus; 2019 - Campeonato do Mundo com 485 atiradores de 17 países, sendo 8 europeus e 9 não europeus; 2020 - Campeonato da Europa com 151 atiradores de 6 países; 2021 - de novo, o Campeonato da Europa com 177 atiradores de 7 países.
Desde 1949 até à actualidade, o Clube conquistou nas várias modalidades do Tiro com Armas de Caça, 111 títulos absolutos, sendo 73 nacionais e 38 internacionais, a seguir descriminados, neste impressionante 88
e notável palmarés: 26 Campeões de Portugal individuais, 24 Campeões de Portugal por equipas, 23 vencedores da Taça de Portugal, 3 Campeões do Mundo individuais, 3 membros da Selecção Nacional Campeã do Mundo, 6 Campeões da Europa individuais, 12 membros da Selecção Nacional Campeã da Europa, 11 vencedores da Copa do Mundo e 3 Equipas do Clube Campeãs do Mundo. De 1933 até aos nossos dias – já lá vão 90 anos – têm passado pelo Clube milhares de atiradores de várias nacionalidades, desde os mais consagrados aos simples competidores, todos tratados com igual consideração e amizade, daqui levando um indelével laço de incomensurável reconhecimento e saudosos de breve regresso. Sempre que o Clube organiza eventos internacionais, o que ocorre durante largos dias e envolve centenas de atiradores e suas famílias, a cidade de Guimarães e todos os serviços desde a restauração, à hotelaria, ao artesanato, ao serviço de táxis, enfim, a todo o comércio local, benefiSessão comemorativa dos 90 anos do CIP ciam enormemente da presença dos visitantes, na maioria estrangeiros, por via de regra, dos estratos sociais mais elevados. Para todas as provas nacionais e internacionais são chamados a colaborar na sua organização dezenas de pessoas, normalmente vizinhos do Clube, que, imbuídos do espírito de evidenciar as melhores qualidades das gentes lusas perante quem nos visita de terras estranhas, se têm havido em termos de desempenho ao mais alto nível, atitude que tem sido reconhecida inúmeras vezes pelas entidades internacionais que tutelam este desporto, ao ponto de serem chamados com frequência a prestar igual serviço nos clubes estrangeiros.
89
Guimagym – Um clube de emoções! Luís Rodrigues Presidente da Guimagym
Fundado a 21 de julho de 2016, o GUIMAGYM – Clube de Ginástica de Guimarães – tornou-se no primeiro clube da modalidade a integrar o movimento associativo vimaranense. Preencher uma lacuna evidente na oferta desportiva de Guimarães foi a premissa que esteve na base para a criação deste projeto. A organização da Festa Nacional da Ginástica em 2013, ano em que Guimarães assumiu o estatuto de Cidade Europeia do Desporto, deixou uma semente que foi aproveitada, mais tarde, para inserir esta modalidade no tecido associativo. O GUIMAGYM aposta na promoção e desenvolvimento da ginástica como forma de potenciar as capacidades da comunidade vimaranense e, assim, aumentar a taxa de participação desportiva local que atinge um valor superior a 33%, de acordo com o último estudo realizado. Na verdade, em apenas seis anos, alcançámos mais de 1.000 praticantes, sendo que 96% pertencem ao género feminino, género esse que, tradicionalmente, é o que menos desporto pratica de acordo com os estudos conhecidos. A ginástica veio assim dar algum equilíbrio a esta racionalidade. Temos alunos com idades compreendidas entre os 18 meses e os 92 anos, uma oferta diversificada e abrangente ao nível da atividade gímnica que integra alunos para além das fronteiras do concelho. Vamos de encontro aos desejos dos praticantes e das suas famílias, preservando valores e princípios que nos definem e diferenciam. Mais do que um Clube, o GUIMAGYM pretende ser, de facto, uma referência desportiva na comunidade e contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Acompanhando o ritmo da difusão de informação e a necessidade premente de comunicar para chegar a todos, o nosso Clube tem ocupado o seu espaço nas incontornáveis redes sociais. Estamos presentes no Facebook, Instagram e YouTube para levarmos a diferentes públicos o nosso dia-a-dia. Queremos estar perto dos nossos alunos, das suas famílias e chegar junto daqueles que ainda não fazem parte deste Clube de Emoções.
90
Trabalhamos para sermos um exemplo no campo dos valores e do desporto. Unimos esforços para cumprir as metas a que nos propomos. E não podemos deixar de ficar orgulhosos quando esse trabalho é, de alguma forma, reconhecido: o GUIMAGYM foi o primeiro clube de ginástica a nível nacional e o primeiro clube desportivo da zona norte a receber a Bandeira da Ética. Trata-se de um processo de certificação dos valores éticos no desporto que reconhece o trabalho dos clubes, escolas ou projetos, no âmbito da promoção dos valores éticos através do desporto. Já fomos igualmente reconhecidos com o prémio reconhecimento e como clube do ano na Gala da Federação de Ginástica de Portugal, nos anos 2018 e 2021, respetivamente. Paulatinamente, conseguimos afirmar o GUIMAGYM como uma referência no campo dos valores e do desporto e não prescindimos de promover a ética, a qualidade, a inovação, a igualdade, a solidariedade e a cidadania. Estes são os princípios que norteiam a nossa atividade e que pretendemos transmitir a todos os que estão envolvidos.
Uma escola de vida Mas são também valores como os da educação e da cooperação que queremos incutir nos nossos alunos. Somos, por isso, no trabalho que desenvolvemos todos os dias com eles, sobretudo com os mais novos, um complemento ao que se faz não só nas escolas, mas também em casa, com os pais, ao nível da formação e educação. 91
No GUIMAGYM acreditamos que podemos desenvolver essas competências num todo articulado entre as várias vertentes da vida dos nossos alunos e atletas. Acreditamos que não somos só um espaço de lazer ou uma forma de praticar desporto, mas sim, e sobretudo, uma escola de vida que inclui todas estas vertentes. Um clube ao serviço da comunidade A responsabilidade social é uma das nossas principais linhas orientadoras. Neste sentido, temos estabelecido parcerias com instituições locais e nacionais de modo a trabalharmos em conjunto por um bem comum. São exemplo disto, entre outros, os Saraus Solidários que o GUIMAGYM já organizou, conseguindo angariar cerca de dez mil euros que foram doados na totalidade a instituições carenciadas de Guimarães. Queremos estar ativamente presentes na comunidade em que estamos inseridos, apoiar outros Clubes, fazer um trabalho de proximidade. Acreditamos nas sinergias que se podem estabelecer entre as organizações para combatermos em conjunto a inatividade física e a iliteracia motora. Estamos envolvidos em vários projetos comunitários e já liderámos um projeto Erasmus+ designado Sid Gym. Tivemos um papel ativo no acolhimento de refugiados ucranianos que encontraram em Guimarães o seu local de paz e tranquilidade. Em vários casos, a existência do GUIMAGYM foi determinante para esta escolha pois acolhemos várias ginastas no Clube. Fazemos parte de um conjunto de Clubes e instituições que, estando ao serviço da comunidade, se fortalecem na troca e partilha de experiências e contributos. Entendemos que as sinergias que resultam deste network são fundamentais para melhorar a realidade desportiva local. 92
Um clube de todos e para todos Desde o início que adotámos um modelo inclusivo que procura oferecer a prática desportiva e, nomeadamente, da ginástica para todos. Somos um clube de todos e para todos. E é, por isso, com enorme carinho que vemos crescer a performance da nossa turma de special gym – um projeto gratuito para alunos da CERCIGUI e APCG. A superação a cada movimento, a alegria em cada gesto, a felicidade de fazer parte. Serão sempre os nossos campeões. Trabalhamos num estrato alargado onde o nosso aluno mais novo tem 18 meses e o mais velho 82 anos. E é por tudo isto que o GUIMAGYM é um Clube de Emoções, de todos e para todos.
Um clube com potencial Desde o primeiro momento, o GUIMAGYM assumiu-se como um Clube vocacionado para a formação de alunos e atletas, encarando a componente competitiva como uma consequência do trabalho que se desenvolve diariamente. A competição é o resultado e a consequência do trabalho que se faz na formação e é neste prisma que assenta a nossa visão desportiva de um clube sustentável. Apostamos na valorização dos recursos humanos e temos vindo a contratar treinadores qualificados que nos dão muitas garantias de sucesso. Apesar de sermos ainda um Clube muito jovem, alcançámos já vários títulos distritais, nacionais e internacionais. Já conseguimos que 3 atletas integrassem as seleções nacionais de várias disciplinas e tivemos uma representação no Campeonato do Mundo de Aeróbica. Os resultados não são o nosso foco, mas são uma fonte de motivação e inspiração para continuarmos a percorrer este caminho. Temos a convicção de que os nossos ginastas continuarão a superar desafios e a colocar ao peito outras medalhas na vida. 93
Compromisso com o futuro Assente num trabalho organizado e devidamente estruturado, desenvolvemos um Plano de Inovação que está baseado em 3 dimensões (Sustentabilidade, Planeamento Estratégico e Saúde e Cidadania) que integra 17 compromissos que refletem estratégias de atuação que nos permitem definir a nossa identidade. Este plano representa o compromisso do GUIMAGYM com o futuro. É com base neste documento que orientamos a nossa atividade diária. Se o futuro assim o ditar e o trabalho seguir o rumo certo, o GUIMAGYM trilhará o seu caminho de sucesso e as melhores Emoções ainda estarão para chegar.
94
Guimarães Rugby Union Football Club À memória do meu bom amigo Eduardo Raynoch José Couceiro da Costa
Escrever sobre matérias e factos em que fomos voz activa encerra em si mesmo uma acrescida responsabilidade, mas é também um exercício de memória, um subsídio na construção da História. Vem este primeiro pensamento a propósito do repto que nos foi lançado, por Jorge do Nascimento Silva, para discorrer sobre a criação de um clube desportivo, uma década passada sobre “Guimarães – Cidade Europeia do Desporto 2013”, e publicar nos “Cadernos”, incontornável esteio na recolha e publicação da Memória. Estou ciente do importante desafio de apor uma pedra mais, mas uma pedra viva, no sempre inacabado edifício da História. Tratemos, então, do nascimento do Guimarães Rugby Union Football Club evocando o nome de Amadeu Portilha, obreiro maior e Presidente da Comissão Executiva de “Guimarães – Cidade Europeia do Desporto 2013”, pois foi por seu convite, em Setembro de 2008, que abraçamos a missão de criar o primeiro clube de Rugby em Guimarães. Recuemos então na linha do Tempo… Convêm aqui referir, para memória futura, que a génese do Guimarães Rugby Union Football Club (GRUFC) emerge das iniciativas da “Escolinha de Rugby”, promovida pela Régie-Cooperativa “Tempo Livre”, que, com o profissionalismo, dedicação e entusiasmo do seu director, Luís Rodrigues, em Outubro do ano de 2007, iniciou a sua actividade despoletando, assim, a prática do Rugby, de um modo organizado, em Guimarães. No, entretanto, o crescente número de inscritos na “Escolinha de Rugby” tornava evidente quer a adesão à modalidade quer ainda a necessidade de se evoluir para uma estrutura dedicada à prática e competição oficial. É assim que, em Setembro de 2008, nos é apresentada a situação e nesse mesmo momento estava gerado o GRUFC que viria a ter a sua certidão de nascimento datada de 3 de Novembro desse mesmo ano. Constituído que estava o Clube desde logo pretendemos criar uma filosofia muito própria, de acordo com o “Rugby way of life”, incutindo aos seus praticantes e atletas um profundo respeito pelos outros indo desse modo às raízes da modalidade e, por outro lado, alicerçado num intenso respeito e reflectido orgulho 95
por Guimarães, também aqui pretendemos deixar um cunho muito próprio. Para tal recorreu-se, como elemento principal da sua marca identitária, a uma marca de contraste de prata, do final do século XVIII, privativa do concelho de Guimarães. Estava assim criado o símbolo do GRUFC: um “G” encimado por uma coroa (marca vimaranense de contraste de prata, do final do século XVIII, comummente designada por “Guimarães Coroa”) sobreposto numa elipse representativa de bola de rugby, tendo ainda a inscrição do nome do clube, como memória à primeira bandeira nacional. Com tudo isto em mente, logo a 21 de Novembro, são eleitos os primeiros Corpos Sociais: Assembleia Geral Presidente – Óscar Jordão Pires 1º Secretário – Eládio Miguel Coelho Ribeiro. 2º Secretário – Rui César Freitas Lopes Conselho Fiscal Presidente – Alice Sofia de Freitas Soares Ferreira Fernandes Secretário – Maria Mafalda da Costa de Castro Ferreira Cabral Relator – Eva Maria Vieira Fernandes Novais Direção Presidente – José Cardoso de Menezes Couceiro da Costa Vice-presidente – Pedro Miguel Pereira dos Santos Alves Director Financeiro – Luís Filipe de Sousa Esteves Rodrigues Director Administrativo – Manuel Paulo Lopes Villalobos Machado Director Desportivo – Nuno Damasceno Moreira da Silva Director Adjunto – José Eduardo Raynoch Moura Cunha Guimarães Director Adjunto – Pedro Jorge Ribeiro de Castro Ferreira
96
A tarefa que tínhamos abraçado era forçosamente fácil pois, como nada tínhamos, pouco havia a perder. Contudo, logo se tratou de dar corpo e músculo ao clube sabendo de antemão que o mais importante era afirmar os valores subjacentes ao Rugby, construindo, assim, um edifício imaterial que serviria sempre como a verdadeira infraestrutura do GRUFC. Deste modo, pouco tempo depois, firmamos com a Tempo Livre um protocolo para nos sedearmos nas “Pistas de Atletismo Gémeos Castro” sendo-nos cedido, por contrapartida financeira, uma sala e acesso e utilização dos balneários e campo de jogo. Estando garantido o local para treinar e ter uma “Sede”, deixando para trás as preocupações com a gestão das instalações, avançamos de imediato para a construção da marca “Rugby”, em Guimarães, tendo em vista reforçar junto dos nossos atletas, e também da comunidade em geral, a Responsabilidade Social que o GRUFC pretendia assumir enquanto agente activo da Sociedade. Convidamos para Sócio Honorário, o então Presidente da Câmara Municipal, organizamos uma recolha de sangue em parceria com o Instituto Português de Sangue, firmamos com o Centro Juvenil de São José um protocolo para que os Jovens à sua guarda e sem o apoio familiar essencial ou em risco de exclusão social possam praticar a modalidade sem o pagamento de mensalidades e percorremos grande parte das Escolas de Guimarães em acções de apresentação e divulgação da modalidade. Paralelamente urgia revestir os “Bravos de Guimarães” – assim eram, e são, conhecidos os nossos jogadores – de equipamentos de jogo e de treino que, nos primeiros meses, eram camisola azul, tendo no lado esquerdo do peito a insígnia do GRUFC, que depois de firmado acordo de patrocínio com a Escola Profissional Cenatex passaram a ter um aspecto mais aguerrido e contemporâneo. Com o número de jogadores a crescer e o entusiasmo dos pais a acompanhar, começou bem cedo a preparação da época 2009/2010 com o intuito de captar ainda mais praticantes e apoios. Lançamos, então, em estreita coordenação com as respectivas direcções escolares, uma campanha de sistemáticas visitas a grande parte dos estabelecimentos de ensino de Guimarães numa iniciativa denominada “O Rugby vem à Escola”, tendo como objectivo a promoção da prática do desporto, tendo como ponto de partida e principal foco o Rugby, a promoção de diferentes estilos de vida que o desporto proporciona e a interacção dinâmica entre estruturas de ensino e desportivas. Para isso, delineou-se uma série de actividades com finalidades pedagógicas como Aulas teóricas com breves 97
resumos da história e evolução do desporto e visionamento de partes de jogos para compreensão do sistema de jogo e suas regras básicas, acções de formação para professores e alunos a ser ministradas por treinadores/jogadores do GRUFC e ainda a oferta de um pack de material para que possam leccionar as aulas. Já a nível interno, depois de analisadas as necessidades do Clube, foi estabelecida uma direção técnica por escalões ficando os Sub 14 e Sub 12 com o Professor Rui Freitas e Eduardo Equipamento de passeio e de representação Raynoch; Sub 18 e Sub 16 com Leonel Nunes e os Seniores e Sub 21 com Francisco Fragateiro e Pedro Alves, ficando o Director Desportivo, Nuno Damasceno, a superintender nas orientações técnicas dos diferentes escalões, sendo os treinos dos Sub 14 e Sub 12 – quartas e sextas-feiras das 18.30 às 19.30 horas e os demais escalões treinavam às segundas, quartas e sextas-feiras das 19.00 às 20.30 horas. Casa arrumada, iniciou-se a época com um jogo beneficente a favor da Cercigui, que teve grande sucesso, tendo sido recolhidos um pouco mais de 2.000 Kg. em produtos alimentares que foram entregues, no intervalo do jogo dos seniores, à Presidente da Direcção da Cercigui, Drª Jacinta Keller, estando a assistir nas bancadas cerca de 500 pessoas, tendo, no entanto, muitas outras dezenas dirigindo-se expressamente às Pistas Gémeos Castro apenas para entregar o seu contributo. Mas as preocupações em aprofundar o conceito de “Rugby Solidário” levou-nos também a firmar um protocolo de cooperação com a Fraterna através do qual jovens por ela apoiados passaram a fazer parte deste grupo, contudo isentos de qualquer mensalidade; importa, aqui, lembrar os resultados magníficos que foram alcançados quer na sua socialização quer ainda no plano escolar. O ano de 2009 terminou com o nosso blog “Bravos do Condado” http://grufc.blogspot.com/ a celebrar um ano de vida e com mais de 32.000 visitantes. Novo ano, novos desafios. Fomos acordados da nossa pacatez com as trágicas notícias do temporal na Ilha da Madeira, na madrugada de 20 de Janeiro de 2010. A comoção foi geral. Cerca de 50 mortos, centenas de desalojados e feridos. A par de muitas outras iniciativas por esse Portugal fora, associamo-nos à dos CTT que oferecia, para envio de ajuda humanitária, quer caixotes em cartão, quer a sua expedição para a Ilha da Madeira. Com a generosíssima ajuda da Comunidade organizamos uma acção intitulada “Marcamos um Ensaio pela Madeira” 98
para a qual contámos com a participação e ajuda da equipa sénior da A.A. Thomar bem como da equipa feminina do CDUP que defrontou a sua congénere da Agrária, sendo que os únicos resultados que ficaram para a história foram as cerca de três toneladas recolhidas esgotarem todos os caixotes que os CTT tinham disponíveis nos centros de distribuição postal de Guimarães, Braga, Famalicão e Vizela, e ter ficado este dia marcado pelo primeiro jogo oficial de Rugby com equipas femininas. No dia seguinte, o produto da generosidade de tantas e tantas pessoas seguiu para os armazéns da Cáritas Diocesana do Funchal. Terminada a época desportiva cumpriu-se o calendário associativo com a recondução dos Órgãos Sociais para mais um mandato. Se o primeiro foi marcado pela necessidade de organização administrativa, de implementação da marca GRUFC RUGBY e, paralelamente, da assunção dos valores do RUGBY, o segundo mandato tinha como principal vector estratégico a FORMAÇÃO. Para tal todo o quadro técnico foi habilitado pela Federação Portuguesa de Rugby com quem sempre mantivemos estreita parceria no reforço das nossas capacidades técnicas, pois só treinadores exigentes formarão joJogo Solidário a favor da Cercigui – 03.Out.2009 gadores competentes. Paralelamente, e resultado de uma cuidada política de treinos, bons frutos já colhíamos no seio dos diferentes escalões de formação e prova disso eram a cerca de uma dezena de jogadores que integravam selecções de excelência patrocinadas pela Federação. Era desta maneira como víamos o próximo biénio: não importam as nossas decisões futuras, mas sim o futuro das nossas presentes decisões. Se algo existia de que o GRUFC verdadeiramente se orgulhava era de ter criado uma nova keyword tool em Portugal – RUGBY SOLIDÁRIO – pois muito mais que um conceito, muito mais que uma marca figurativa é corporalização do verdadeiro pulsar do RUGBY. Indo à essência do binómio de valores Competitividade e Ética encontramos a solidariedade marcadamente pró-activa, pois RUGBY SOLIDÁRIO não se mede apenas pela envergadura pública das suas actividades, pois, muitas vezes, é no recato das mais simples atitudes que melhor se vive o RUGBY SOLIDÁRIO, dado 99
que ao trabalharmos a Consciência Social do GRUFC estamos a viver o “Rugby Way of Life”. Este era o nosso entusiasmo e também o termómetro que mediria o compromisso perante as metas e objectivos traçados. E as metas eram ousadas, tínhamos disso plena consciência, mas em todos nós pulsava o acto criativo e assim nasceu, numa noitada de Outubro, no Vira-Bar, a ideia da RAU. Naquela mesma noite definimos os objectivos, os convites, os prémios e o alinhamento geral da cerimónia; naquela mesma noite nasceu a 1ª Rugby Anual Union. Este evento teve como base um jantar convívio, onde foram distinguidos os atletas do clube, que na época transacta revelaram um desempenho acima da média, e também foram premiadas entidades e jogadores que se destacaram no âmbito do rugby nacional. Estiveram presentes um pouco mais de 300 pessoas e reuniu vários clubes do Norte, Centro e Sul, demonstrando assim o respeito, união e amizade que a modalidade incute nos seus praticantes, onde a maior parte dos quais, depois de a abandonarem, encaravam-na como um estilo de vida. Como a boa árvore é aquela que dá muitos e bons frutos, também a RAU frutificou em muitos ramos, mas num em especial – o de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura. De entre os convidados encontrava-se Cristina Azevedo, Presidente da Fundação Cidade de Guimarães, à qual foi lançado o repto de a CEC ter como embaixador todas as equipas do As equipas do GRUFC e do AA Thomar com parte dos donativos recolhidos GRUFC e nessa condição passariam a ostentar ao peito o coração de Guimarães, o coração da Capital Europeia da Cultura. Fruto do encontro de vontades, entre ambas as instituições, estavam assegurados, para todos os escalões, novos equipamentos 100
de jogo quer para a época 2011/2012 quer para 2012/2013; já o GRUFC, como cortesia aos seus adversários, passaria, a partir de então, a distribuir no início dos jogos um “Kit” da Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, levando assim ao mundo do desporto quer a nova realidade cultural portuguesa quer ainda os mais interessantes equipamentos de jogo, com o incomparável design de Eduardo Raynoch. Mais ainda poderia ter frutificado a parceria com a Fundação Cidade de Guimarães através da realização de um Torneio, no escalão de Sub 19, em Julho de 2012, que se designaria por “Guimarães 2012 – European Capital of Culture Rugby Cup U19” e teria os seguintes objectivos: 1. Afirmar o RUGBY enquanto manifestação cultural europeia, actualmente presente em todos os Continentes; 2. Aprofundar o conhecimento mútuo entre jovens da União Europeia; 3. Promoção do Rugby como plataforma de diálogo entre as diferentes culturas europeias, bem como com outras culturas mundiais; 4. Cimentar as relações entre Cidades Capitais Europeias da Cultura e assim consolidar o projecto europeu “Capital Europeia da Cultura”. O Guimarães 2012 – ECCR Cup seria composto pelas seguintes equipas: # 2 equipas das 2 Cidades "Capital Europeia da Cultura 2011" (Finlândia + Estónia) -- [Turku + Taillinn] -- Eagles Rugby Football Club + Taillinn Tigers Rugby Club # 2 equipas das 2 Cidades "Capital Europeia da Cultura 2012“(Portugal + Eslovénia) -- [Guimarães + Maribor] – GRUFC + RFC Maribor # 2 equipas das 2 Cidades "Capital Europeia da Cultura 2013” (França + Eslováquia) -- [Marselha + Kosice] -- Stade Phocéen Marseille Vitrolles + Ravens Kosice RC. Cristina Azevedo e Eduardo Raynoch ladeados por jogadores de diferentes escalões 101
Este peculiar Torneio tinha como propósito realizar-se, ano após ano, numa das cidades “Capital Europeia da Cultura” o que, por força das nomeações oficias por parte da Comissão Europeia, estava então já garantida a sua realização até ao ano 2016, uma vez que, em todas as cidades já nomeadas, existe Rugby organizado. Foi por nós apresentada a ideia ao Presidente da Federação Portuguesa de Rugby ao Presidente da CMG, ao Vereador Amadeu Portilha e todos eles demonstraram o seu apoio e adesão ao projecto; por outro lado, tínhamos também assegurado o nome do Prof. Tomaz Morais para director geral do Torneio, contudo, dado os constrangimentos orçamentais, faltava ainda assegurar cerca de 40.000 Euros de financiamento, valor esse que seria apoiado pela Fundação Cidade de Guimarães ao ser integrado na Programação Oficial da Guimarães 2012. Tudo isto se passou em Junho de 2011. Com a mudança da liderança na CEC, outros ventos sopraram, ficando o Guimarães 2012 – European Capital of Culture Rugby Cup U19 numa calmaria de morte … Novo ano, a um ano de “Guimarães – Cidade Europeia do Desporto 2013”. A linha do tempo a correr, o número de jogadores a crescer sem cessar, novos patrocínios a alegrar as nossas cores, uma sede sempre aberta, pais a opinar e muitos a ajudar, um clube que parecia uma família. E a linha do tempo a correr e nosso mandato a findar mas não sem antes, e fruto também da 2ª RAU, firmar nova parceria, desta vez com o Museu de Alberto Sampaio, a qual em conferência de imprensa apresentámos os novos “polos” e “sweatshirt” que todos os colaboradores do museu, da área do atendimento ao público, passariam a envergar e assim transmitir às dezenas de milhares de pessoas que visitam o museu, o conhecimento da existência de Rugby em Guimarães bem como afirmar os seus Valores na construção do Homem. Chegámos a Maio de 2012 e Guimarães é designada como “Cidade Europeia do Desporto 2013”. Desde logo fomos assaltados com a preocupação de o Rugby marcar forte presença na programação da CED 2013. Delineou-se, então, a promoção, em Junho ou Julho de 2013, de um fim-de-semana inteiramente dedicado ao RUGBY o qual incluiria torneios nacionais de sub 14 a sub 18, um jogo da Seleção Nacional contra uma outra Seleção Europeia no Estádio D. Afonso Henriques. Para tal encetamos contactos com a presidência da Câmara Municipal de Guimarães, da Federação Portuguesa de Rugby, do Vitória Sport Club e também 102
estabelecemos contactos com a administração do “Turismo do Porto e Norte de Portugal” tendo todos mostrado recetividade à ideia, contudo, sobre a mesma, pairava a espada de Dâmocles na sua versão financeira. Estávamos em final de mandato, antecâmera de um novo ciclo, mas sentíamos a necessidade de passar o testemunho em toda a sua plenitude. Queríamos transmitir, uma última vez, aos “Companheiros de Viagem” e a toda a sociedade, os Valores do Rugby Vimaranense e, para isso, ao longo de uma semana, o GRUFC visitou cerca de 10 escolas nas quais, e em parceria com as respetivas direções, apresentámos a modalidade e exemplificámos algumas das técnicas e jogadas mais características, para além de anunciarmos o 1º Rugby Open Day, para o dia 15 de Junho, que foi marcado por duas performances de “Street Rugby Flash Mob”, a primeira, às 16h00, que aconteceu no Largo do Toural, quando um grupo de 20 jogadores do GRUFC – que estavam disseminados em locais previamente definidos – ao apito de um árbitro, retiraram as suas roupas destapando assim os seus equipamentos de jogo para logo iniciarem um conjunto de movimentações previamente determinadas e com grande aparato cénico e sonoro. A novo apito do árbitro, tão depressa como entraram, abandonaram o Toural distribuindo convites para o Rugby Open Day; a segunda performance ocorreu, no Largo da Oliveira, cerca das 17h00, em que os mesmos jogadores de Rugby exercitaram os seus talentos e técnicas naquele centenário Largo sob o olhar atento do Presidente da Câmara, do Vereador Amadeu Portilha, e de Inácio Martins, o próximo responsável máximo do Rugby Vimaranense. No final, no meio de uma grande salva de palmas, os 20 “Bravos de Guimarães” eclipsaram-se por entre a multidão. O Rugby Open Day prosseguiu, mais tarde, nas Pistas Gémeos Castro, onde os muitos convidados puderam assistir e participar num muito animado concurso de “Chute aos Postes” e assim avaliar e sentir as dificuldades e subtilezas que resultam num pontapé com uma bola oval. Findo o concurso foi servido um aperitivo e distribuído um pequeno livro que, sinteticamente, apresentava os Valores do Rugby Vimaranense: Ética, Competitividade, Compromisso, Comunidade. Discorremos, assim, sobre os primeiros quatro anos de um clube desportivo: os sonhos, as derrotas e também as conquistas. Discorremos, portanto, sobre a criação e consolidação de um conjunto de valores e, ao assim fazê-lo, 103
refletimos, ainda que palidamente, sobre a enorme riqueza que é a diversidade de modalidades desportivas praticadas em Guimarães, sendo o Rugby apenas um pequeno exemplo, mas reflexo vivo dessa mesma realidade. A terminar, refiro que, propositadamente, nada escrevi sobre a importância e dimensão dos resultados humanos e desportivos, pois sobre os jogadores, treinadores e directores de equipa, valerosos homens nados e criados no GRUFC, nada melhor se pode dizer do que as páginas de glória por eles escritas, pois: Ser Bravo é fazer as coisas, e não encontrar razões para demonstrar que as coisas não se podem fazer; Ser Bravo é levantarmo-nos cada vez que fracassamos, com um espírito de aprendizagem e superação; Ser Bravo é saber dizer errei e propor-se a não cometer o mesmo erro; Ser Bravo é compreender que as ordens são de execução imediata; Ser Bravo é traçar um plano e concretizar os objectivos desejados apesar de todas as circunstâncias; Ser Bravo é jogar Rugby! Melhor! Ser Bravo é jogar Rugby em Guimarães!!!!
104
Do Desportivo Francisco de Holanda ao Clube Desportivo Xico Andebol – 1942-2023 Breves “pingos” da sua História José Carlos Correia; Paula Ferrão; Mauro Fernandes
1º Pingo José Carlos Correia
A data da fundação dos clubes é sempre discutível porque raramente existe a certeza do início da sua existência. Em relação ao Desportivo Francisco de Holanda, foi estabelecido o dia 8 de dezembro de 1942, que foi, desde sempre, aceite por todos como a data da sua fundação, o que significa que, no próximo dia 8 de dezembro, o clube completa a bonita idade de 80 anos. Mas, se em relação à data da sua fundação poderão ser levantadas algumas dúvidas, já sobre a sua génese não há qualquer discussão. Por essa altura, um grupo de alunos da então Escola Industrial e Comercial Francisco de Holanda (hoje Escola Secundária com o mesmo patrono), cansados de terem de suportar os “maus humores” do então Diretor, que, conforme “o vento soprava” emprestava ou não os equipamentos para poderem fazer jogos de futebol interescolar, resolveu formar um clube. E assim nasceu o DESPORTIVO FRANCISCO DE HOLANDA, de cujos fundadores penso só existirem 1 ou 2 vivos, um deles, António Xavier. Como é óbvio, nesse tempo, a única modalidade que se praticava com alguma regularidade era o futebol. Ora, o novel clube, por não ter instalações desportivas, usava o campo do Vitória Sport Clube, nesse tempo o Campo do Bem-Lhe-Vai, onde disputava os jogos do Campeonato Regional de Juniores. Tudo correu bem até ao dia em que o DFH se sagrou Campeão Regional de Juniores, com os mesmos pontos que o VSC, mas com melhor goal-average. Ora, essa situação veio “complicar” a situação e o Vitória, como retaliação, deixou de autorizar o Chico a utilizar as suas instalações... 105
Naquele tempo eram raras as instalações desportivas e o DFH ainda conseguiu durante cerca de 2 anos (creio) ir utilizando o campo do Clube Caçadores das Taipas. Mas, naquele tempo, as Taipas ficavam muito longe e a logística era muito complicada, pelo que o Futebol acabou no clube. Deu-se, depois, um período de alguma letargia, mas que, mesmo assim, permitiu que se desenvolvessem algumas modalidades, sem grande glória, diga-se, mas o clube foi-se apresentando em provas de Ciclismo, de Atletismo, de Automobilismo (o clube tem mesmo um alvará passado pelo Automóvel Clube de Portugal como organizador de provas), etc. Até que, no início dos anos 60, chega a Guimarães para jogar no Vitória um futebolista brasileiro, de seu nome Caiçara (um lateral direito que ficou famoso pelo seu potente remate). Ora o Caiçara era casado com uma senhora muito extrovertida, que jogava Voleibol no seu país. Não é que a mulher do Caiçara conseguiu convencer um grupo de jovens vimaranenses a jogar a sua modalidade e convenceu, igualmente, o DFH a recebê-las nas suas hostes? E, assim, o Chico começa a ter Voleibol Feminino cujos jogos arrastavam um grande número de vimaranenses, principalmente homens, para verem os seus jogos que se realizavam num terreno em terra batida, situado nas traseiras do então Grémio do Comércio de Guimarães, onde, hoje, funciona o parque de estacionamento do Hotel do Toural. Mais ao menos na mesma altura chega a Guimarães, colocado como Professor de Educação Física, um bracarense, Professor Pipa, que lança a modalidade naquele estabelecimento de ensino. Nessa altura já havia, na cidade, um recinto para outros jogos que não o futebol – o Rinque da Amorosa – que havia sido construído pelo Vitória Sport Clube para a sua modalidade de Hóquei em Patins e, curiosamente, o DFH volta a utilizar um recinto do Vitória e, ainda mais curiosamente, valendo-se, quase em exclusividade com atletas vindos do “rival Liceu de Guimarães”. A partir daí, o Chico nunca mais deixou de praticar a modalidade, mas já lá voltaremos. A construção do “novo” Liceu de Guimarães e da “nova” Escola Comercial e Industrial trouxeram consigo novos recintos, principalmente os seus ginásios que deram a possibilidade da criação de novas modalidades, casos do Basquetebol e do Voleibol, modalidades nas quais o DFH teve alguma relevância, tendo, no entanto, sido obrigado a acabar com a prática das mesmas, por dificuldades financeiras. Como atrás afirmei, o Andebol foi e é a modalidade de referência do DFH que, depois de ter sido obrigado durante muitos anos a andar “de casa às costas”, viu, em 1 de Dezembro de 1989, ser inaugurado o seu pavilhão, um dos melhores, senão o melhor do país, à época, que lhe deu possibilidades de começar a fazer um trabalho de formação desportiva com muito mais qualidade, e que lhe permitiu, mais tarde, “colher os 106
frutos” desse trabalho, alcançando títulos nacionais em grande quantidade. Aliás, o Desportivo Francisco de Holanda é de todos os clubes portugueses o único que, em Andebol Masculino, alcançou títulos nacionais em todos os escalões etários, desde Infantis a Veteranos. O Desportivo Francisco de Holanda nunca viveu com grande folga financeira, exceção feita à altura em que explorava um Bingo clandestino, em pleno Largo do Toural, nas instalações (que adquiriu) do antigo Café Mourão, e que lhe deu algum “folgo” para se lançar à construção do pavilhão. Nesse entretanto, o Governo Português, que até aí vinha “fechando os olhos” aos impostos a pagar pelos clubes, descobriu, em 1985, que era muito o dinheiro que os clubes lhe “deviam”. E, começa aí uma “guerrilha” entre clubes e governo que teria o seu términus em 1996, com a publicação de uma Lei que ficou conhecida como Totonegócio, que resolveu uma grande parte dos problemas dos clubes de futebol. Esqueceram-se, no entanto, dos outros clubes que não tinham futebol e assim estes ficaram “entregues” a si próprios e, o Chico foi um deles. Esta situação aconteceu com muitos e cada um lá foi conseguindo “desenrascar-se” como puderam: uns fecharam as portas, outros, caso do ABC de Braga, criaram SAD’s, outros como o Chico foram-se aguentando como puderam, porque a Câmara de Guimarães recusou integrar uma possível SAD. O tempo foi correndo e, no início do ano de 2009, as autoridades tributárias atacaram, tentando cobrar o que era devido e não devido (entretanto os juros proibitivos foram duplicando muitas vezes uma dívida que se tornou impagável) e o Chico foi obrigado a “inventar” outra solução, porque estava a ver serem penhoradas as poucas receitas com que podia contar Em junho de 2009, o DFH fez 3 Assembleias Gerais: numa foram aprovadas as contas; noutra foi aprovada a cedência dos seus Direitos Desportivos ao recém-criado Clube Desportivo Xico Andebol; na 3ª Assembleia procurou-se proceder à eleição de novos Corpos Sociais. Como não apareceram associados dispostos a assumir as responsabilidades, a sessão foi adiada sem nova data marcada, à espera que aparecesse essa possibilidade e que o DFH pudesse reaparecer. Sobre o passado, o presente e o futuro do C.D. Xico Andebol irá dar o seu testemunho, neste mesmo número, Paula Ferrão e o atual Presidente da direção, Mauro Fernandes.
107
2º Pingo Paula Ferrão Em 2009, após a obtenção do título de Campeão Nacional em seniores masculinos, com uma equipa essencialmente composta com atletas oriundos da formação, surgem vários problemas fiscais e não ficou nada fácil a continuidade do Desportivo Francisco de Holanda. Após várias movimentações e analisadas todas as hipóteses legais, por parte de alguns encarregados de educação de atletas da formação para que continuassem a praticar a modalidade, surge, então, a ideia do nascimento de um novo projeto a quem o Desportivo Francisco de Holanda transmitisse todos os seus direitos desportivos e a cedência do pavilhão. É então que um grupo de seis pais liderados pela mãe/antiga atleta/ coordenadora da formação do DFH, Paula Ferrão, decide andar para a frente e, com a anuência do então Presidente da Federação de Andebol, Henrique Torrinha, com o apoio da Associação de Andebol de Braga na pessoa de seu presidente, Augusto Silva, e com a colaboração/apoio da Câmara MuPaula Ferrão no torneio de andebol feminino com seu nome e em sua homenagem nicipal de Guimarães, na figura do então Presidente, António Magalhães, tentam todos os esforços para que houvesse uma continuidade da prática do andebol para aquelas 150 crianças que, no momento, frequentavam a formação e, algumas delas já jogavam nos seniores. A 24 de junho de 2009, nasce um novo clube, o Clube Desportivo Xico Andebol, a quem o extinto DFH, após uma Assembleia Geral, cede todos os direitos desportivos e a cedência da utilização do espaço e instalações desportivas que continuariam a chamar-se Pavilhão do Desportivo Francisco de Holanda. De 24 de junho de 2009 a junho de 2011 o CD Xico Andebol regulariza todas as situações de dívida herdadas do extinto DFH e normaliza toda a sua atividade competitiva conseguindo ser vencedor da Taça de Portugal e participando nas competições europeias chegando a estar nos ¼ de final da Taça Challenge. 108
3º Pingo Mauro Fernandes
Seguem-se tempos conturbados na vida do recém-criado Clube Desportivo Xico Andebol, após 2012, havendo alguns registos documentais que apontam para a possibilidade de uma dissolução. Os mesmos registos indiciam uma intervenção da Federação de Andebol de Portugal com intuito de apoiar o clube a manter a sua atividade. É então que surge uma direção encabeçada por José Fernando Alves Pinto, primo de um dos primeiros presidentes do DFH e presidente do Conselho Executivo da Escola Francisco de Holanda. Durante este mandato registaram-se algumas conquistas, nomeadamente dois títulos de campões nacionais de Veteranos 2013/2014 e 2014/2015, sustentados por um grupo de ex-atletas do DFH que resolvem juntar-se e, voluntariamente, representar este escalão. Regista-se ainda a conquista de um título da 2ª Divisão, na época 2013/2014. Este terá sido um dos períodos mais penosos para os escalões da formação do clube na perspetiva de crescimento e envolvimento com o clube. Em agosto de 2018, surge, a partir do grupo de atletas veteranos e ex-atletas, uma direção liderada por Diogo Leite Ribeiro. Viviam-se, uma vez mais, dificuldades, pois o clube acumulava do passado, junto da Federação de Andebol de Portugal, uma dívida muito elevada, assim como a alguns fornecedores de serviços e que limitava, de forma estrutural, o seu funcionamento normal. O primeiro ano de mandato foi extremamente complexo, ainda assim foi feito um esforço de recuperação da imagem, as dívidas foram renegociadas, foram estabelecidos planos de pagamento e começou a vislumbrar-se, pelo menos, uma linha de ação para o clube. Findo aproximadamente um ano de mandato (a 2019), já a direção sofria uma remodelação profunda, fruto do desgaste e da intensidade com que se viviam os problemas do clube, integrando, agora, novos membros. O vice-presidente Mauro Fernandes assumia, agora, o pelouro da formação (partilhado com Luís Castro). Inicia funções propondo-se a tomar um conjunto de medidas e a realizar projetos, com destaque para implementação um sistema de informação que respondesse às necessidades atuais e futuras do clube, a restruturação orgânica do clube, bem como um modelo de gestão que suportasse todas estas reformas e o desenvolvimento de um Plano de Sustentabilidade nas três componentes: social, financeira e ambiental. Como em todas as reformas estruturais, e relativamente profundas, os primeiros passos não foram fáceis, nem totalmente compreendidos por alguns membros do clube, sobretudo no que compete à renovação 109
de quadros e redefinição de objetivos para toda a formação. Foi preciso envolver os quadros considerados importantes para a mudança de paradigma, pois estavam-se a dar os primeiros passos, ainda que pequenos, para a aproximação a um modelo de gestão profissional. Na perspetiva desportiva, a evolução era consistente e sustentada, mas necessariamente lenta tendo em conta a escassez de recursos e dificuldades financeiras herdadas, mas sempre com a perspetiva de melhoria constante, ainda que realista. Estava-se a repor o bom nome e a credibilidade necessária para elevar uma vez mais o nome do clube. É neste espírito que somos todos avassalados por uma pandemia, que afeta estruturalmente todo o país e necessariamente o clube. Vemo-nos, outra vez, com a possibilidade de voltarmos a passar por extremas dificuldades financeiras causadas por uma paragem abrupta e não preparada da atividade desportiva na formação, aliás, até hoje, na nossa perspetiva, injustificada e sem fundamentação empírica. Mas é aqui que se notam já os resultados das reformas internas. Em conjunto com todas as estruturas internas, muitas horas de trabalho e reuniões levam-nos a desenvolver um plano para enfrentar este novo desafio. Não foram precisos muitos dias para estarmos a ser já reconhecidos por entidades nacionais e pela própria federação como um exemplo de “resistência” e combate à pandemia. Desenvolvemos um plano de recuperação e transformamos um mal maior numa oportunidade de nos redefinirmos e trabalharmos áreas até então por explorar. Aprimoramos os instrumentos de gestão, demos e recebemos muita formação, especializamo-nos e, acima de tudo, mantivemos todos os nossos atletas ligados, registando, de entre os pares, o clube com o menor nível de desistências ou paragens de atletas, ou seja, inovamos e superamo-nos. É durante este período da pandemia que um conjunto de decisões esdrúxulas e próprias do tempo em que vivíamos prejudicam o percurso da nossa equipa sénior, que demonstrava já uma grande capacidade e uma classificação muito competitiva na 2ª divisão, com indicadores muito positivos para disputar uma fase final. Esta situação leva à interrupção da competição muito antes do previsto, favorecendo outros atores e clubes, deixando uma vez mais adiada a possibilidade de avaliarmos até ao final o mérito desportivo da equipa. Entretanto, e como vai sendo costume no Xico, é nos momentos de dificuldades que nos reforçamos e crescemos enquanto instituição, e bastou retomar a competição com normalidade na época 2020/21 para demonstrarmos que o nível competitivo teria sido merecedor de mais, conseguindo fazer uma época brilhante. Entretanto, a 18 de Junho de 2021, realizam-se eleições e é eleito presidente Mauro Fernandes, até então Vice Presidente para Formação, com uma direção renovada e altamente especializada, sobretudo nas componentes de gestão que vinham sendo trabalhadas pelo até então Vice Presidente, na área da 110
sustentabilidade com a diretora Dalila Sepúlveda, na área financeira, com o diretor João Carlos Cunha e, na área de projetos e infraestruturas, com o diretor Jorge Araújo, todos eles profissionais reconhecidos nas respetivas áreas. Foi reforçada a aposta no andebol feminino com a integração da até então diretora de equipa feminina Sara Fernandes. Estava dado o mote para aquilo que seria a estratégia e áreas a reforçar no novo mandato. A direção assume uma situação complexa no que concerne à gestão desportiva/financeira da equipa sénior masculina, uma vez que os excelentes resultados desportivos levariam necessariamente a equipa, um mês depois de a direção ter assumido os destinos do Clube, a competir a fase final nacional, o que por si só representava um grande investimento para o clube, pois era disputada, no final de julho, em plena época balnear, na Nazaré e durante dois fins de semana. Confrontados com este novo desafio, os atletas não cederam desportivamente e garantiram não só o apuramento, como venceram, a 25 de julho, a final, voltando a Campeões Nacionais, na Nazaré, a 25 de julho de 2021 repetir o feito de (1984/85, 1986/87, 2013/14) consagrando-se como campeões da segunda divisão de 2020/21. A nova direção assumia, mesmo antes de competir a fase nacional, a garantia de um apoio excecional para que a equipa conseguisse competir na elite do andebol português, voltando a fazer história e reforçando o palmarés do clube, mas sobretudo possibilitando que atletas, em fase de formação, pudessem competir ao mais alto nível conjugando com jogadores mais experientes. Pese embora a pressão sobre todo o clube pelo facto de competir ao mais alto nível e com as consequências que acarretam, o clube não cedeu nos seus princípios e a direção não alterou o seu planeamento geral, mantendo o ímpeto renovador, inovador e profissional a que se tinha proposto no primeiro dia da eleição cumprindo escrupulosamente as suas promessas. Mantivemos o reforço e crescimento da modalidade, no feminino, no plano de sustentabilidade, criamos o plano estratégico do clube, fizemos a avaliação de serviços na perspetiva do utente, avaliamos a satisfação e motivação dos colaboradores, regularizamos a 111
situação laboral de todos os colaboradores, iniciamos projetos sociais e reconhecidos de interesse estratégico e nacional (Walking Handball), criamos uma equipa de andebol adaptado com o Centro Social de Brito, tornamo-nos o maior clube da Associação de Andebol de Braga e único certificado como entidade formadora no masculino e feminino. Implementamos serviços de apoio como a nutrição e a psicologia, reforçamos o serviço de fisioterapia, com profissionais qualificados e quadros do clube. Pela primeira vez, e fruto de todo este trabalho, o Clube é reconhecido pelo Município de Guimarães como o melhor projeto desportivo, em dezembro de 2022. Não terminaria o ano, sem antes comemorarmos o seu 80º aniversário com dois reconhecimentos inéditos na história do desporto em Guimarães, vencendo o prémio de melhores práticas de gestão regional pelo IPDJ, apurando-se para a final nacional onde venceu com uma classificação de 89% e recebeu o prémio de melhores práticas de gestão nacional, atribuído pelo Instituto Português do Desporto e Juventude. Terminaria deixando uma perplexidade em forma de questão. De que precisa Prémio de melhores práticas de gestão nacional, atribuído pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (os presidentes, do IPDJ Vitor Pataco e Xico Andebol Mauro mais a sociedade vimaranense para apoiar Fernandes) um clube com forte cariz social, realmente formador, com práticas de gestão premiadas, com títulos nacionais e regionais importantes obtidos ao nível da sua formação, com atletas vimaranenses e formados no próprio clube? Por que não gostamos do que é realmente nosso e nos caracteriza e diferencia de todos? Espero que o percebam a tempo, nós já percebemos. O Xico Andebol é património vimaranense. #SomosXico #Unidos Venceremos
112
Breve historial do Clube de Ténis Guimarães (CTG) Direção do Cube
O CTG e a sua criação Um grupo de amigos, uma paixão em comum, um desejo de tornar realidade um sonho… assim nasceu o Clube de Ténis de Guimarães, uma associação de fim ideal não lucrativo. Constituindo-se por escritura pública de 13/2/1976, no 2º Cartório Notarial de Guimarães, possuía uma sede, provisoriamente, no edifício dos Antigos Paços do Concelho, possuindo dois campos cedidos pela Unidade Vimaranense. Com a prosperidade do clube, uma vontade de evoluir e disseminar este desporto pela comunidade, em 30/9/1980, passa a ter sede na Quinta da Feijoeira, freguesia de S. Paio, na cidade de Guimarães, tendo sido constituído direito de superfície a favor do Clube de Ténis de Guimarães, através dessa escritura, outorgado pelo Fundo de Fomento e Habitação, o Clube de Ténis de Guimarães e a Câmara Municipal de Guimarães. O direito de superfície foi constituído sobre uma parcela de terreno, integrada no domínio privado do Fundo de Fomento e Habitação, com a área de 12 mil metros quadrados, a desmembrar a quinta da Feijoeira, sita no lugar do mesmo nome da freguesia de S. Paio, concelho de Guimarães. Tratava-se de uma casa agrícola com terrenos anexos, onde, com total
Evolução da estrutura do clube CTG
113
1º logotipo do CTG
2º logotipo do CTG
3º e atual logotipo do CTG
apoio e colaboração de todas as pessoas associadas que já na altura ambicionavam um clube de ténis dotado de condições para a prática desportiva e essencialmente para a vertente social e cultural, traduzida na escola de ténis, veio a ser instalado o Clube de Ténis de Guimarães, inicialmente apenas com 1 campo de ténis e, hoje, com 7 campos de ténis, 4 em piso rápido e descobertos e 3 deles em terra batida e cobertos, 3 campos de padel e um amplo parque de estacionamento privativo. O CTG e os seus jogadores O grande objetivo da associação incide na prática e fomento do ténis, podendo dedicar-se a qualquer outra atividade desportiva, em regime de amadorismo, mediante deliberação da Assembleia Geral. Para além do desporto base, o ténis, a atual direção implementou a recente modalidade de padel no ano de 2017. Todos os anos decorrem, nas instalações deste clube, variadíssimos torneios integrados no calendário nacional da Federação Portuguesa de Ténis, merecendo especial relevo o torneio internacional Ladies Open que, já desde 1993, tem lugar em Guimarães, nas instalações deste clube. Ao longo da sua existência o CTG formou vários campeões nacionais, destacando-se o melhor Francisca e Matilde Jorge, vencedoras da vertente pares do Kathartika Guimarães Ladies Open 2022 atleta português de sempre, na modalidade de ténis: João Sousa e as atuais campeãs nacionais, Francisca Jorge e Matilde Jorge. Orgulha-se também o CTG de ter jogadores que se destacaram pela qualidade do seu ténis e pela magia que espalham nos vários courts do país, dos quais destacamos: Pedro Sá, Rui Martins, Elói Reis, Nuno Mendes, Pedro Meireles, Alexandre Meireles, Paulo Fernandes, Hélder Carvalho, etc. E de tantos e tantos jogadores, para alem destes, que o clube formou, só pelo simples prazer de jogar, mesmo não sendo campeoníssimos. O ténis é uma modalidade que pode ser jogada dos 5 aos 100 anos, acompanhando vida fora todos os que pensam: “vamos lá bater umas bolas …” pelo usufruto de uma boa partida de ténis, sem a pressão da competitividade. O clube também está empenhado nesta vertente. 114
Para além dos expoentes máximos nacionais, o clube orgulha-se de ser uma instituição que contou com treinadores de alta categoria, dos quais destacamos Ferreira da Costa, consagrado 7 vezes campeão nacional em veteranos individual +35, +45, +55, +60, Luís Coutinho, vencedor de várias provas locais e campeão nacional de 3 categorias, assim como treinador do João Sousa, Ângela Cardoso, Joana Pangaio, Rafael Faria etc… Sempre com o objetivo de proporcionar aos amantes da modalidade as técnicas mais atualizadas, nos idos anos 90 contratou um treinador sueco Ken Stemberg que visava, na altura, a partilha de técnicas e conhecimento do ténis europeu e que muito contribuiu para a formação de um elevado número de atletas e da divulgação da modalidade. Da escola de ténis do clube saíram, também, jogadores que prosperaram na vertente de treinadores tanto internacionalmente, como é o caso do José Pedro Silva, atualmente a treinar na Dinamarca, Vítor Silva, a treinar em Singapura, como nacionalmente, destacando-se Luís Faria, atualmente treinador no Centro de alto rendimento em Lisboa, Ângela Cardoso, selecionadora nacional nos escalões juvenis, Ricardo Martins a lecionar no clube e alguns mais espalhados pelos clubes nacionais. O CTG deu cartas tanto ao nível individual, como por equipas. O clube sagrou-se campeão regional com equipa de SUB12, e campeão nacional, por 2 vezes, em equipas de veteranos +35 e Turma de ténis num campo interior +45, onde se destacaram nomes como, Luís Coutinho, Ferreira da Costa, Rui Fernandes, António Moura, Manuel Lage, Armando Sousa, Rogério Coutinho, Bernardino Silva, Júlio Gonçalves e António Costa. O CTG e os seus associados A vida do Clube de Ténis de Guimarães deve-se essencialmente à colaboração e empenho dos seus associados, quer na atividade desportiva, quer na manutenção, conservação e melhoramentos das suas instalações. Parte importante desta vida são as escolas de ténis frequentadas por jovens de todas as camadas sociais promovendo um convívio social criando laços para toda a vida. 115
Demonstrando não só o amor pelo ténis, mas também pelo clube, os sócios permanecem conectados tanto através de torneios sociais, que trazem grandes momentos de convívio, inclusive entre gerações distintas, tanto no decorrer dos jogos, mas também no após, onde se festeja, à volta da mesa, as peripécias, as vitórias, as derrotas, as rivalidades, os momentos engraçados. Um exemplo destes torneios é a Liga de Inverno, que ocorre durante um trimestre, dedicado aos veteranos do clube. Ao nível de formação, e sendo o ténis um desporto individual, é uma modalidade muito exigente, tanto a nível desportivo, como também pessoal. Desenvolvem-se capacidades como: concentração, autocontrole, combatividade, perseverança, capacidade de esforço, autoestima, coordenação e acima de tudo fairplay e desportivismo. O envolvimento das pessoas no clube é algo que gostamos de partilhar, pois o clube não só forma jovens, atletas, campeões, treinadores, mas forma, acima de tudo, homens e mulheres que mesmo não sendo referências desportivas, serão sempre referências, noutros campos do clube como, por exemplo, nos órgãos sociais. Assumem o cargo de diretores e tentam levar o CTG para os níveis mais atuais das exigências destes espaços, tanto melhorando as instalações como investindo no património humano. Atualmente o clube tem na sua Direção nomes de pessoas que se formaram no CTG e ainda contribuem para o mesmo, como é o caso de José Fernandes, atual Presidente da Direção. Finalmente, e ao nível do espaço físico, o Turma de ténis num campo exterior Clube disponibiliza à comunidade uma série de valências destinadas ao bem-estar e à saúde de cada um, como gabinetes de fisioterapia e um ginásio de treino personalizado. Ainda podem desfrutar de uma refeição no restaurante, de gastronomia de excelência, apreciando o oásis verde envolvente, localizado no coração da cidade berço, tornando-se um espaço de referência nacional, não só desportiva, mas também visual. O ténis é hoje, e cada vez menos, um desporto de “elite” e, neste clube, nunca o foi. Por isso convidamos todos os vimaranenses a visitar-nos …. 116
O CAR e as modalidades desportivas amadoras em Guimarães Anos 50 / 60 (uma experiência pessoal) Bernardino Pina
Pelos responsáveis de OSMUSIKÉ foi-me lançado o convite/desafio de escrever sobre o desporto amador em Guimarães, com realce para o Andebol de 7 e a sua iniciação. Senti-me muito honrado com o convite e entusiasmado em relembrar a minha passagem pelo CAR (Círculo de Arte e Recreio) e pelo meu envolvimento no lançamento das modalidades desportivas amadoras e, neste caso especial, o Andebol. Escrever sobre o “Passado” de memória tem riscos. A minha experiência e a minha verdade poderão não ser coincidentes com a memória de outros participantes/intervenientes, com campos de observação distintos do meu. O meu testemunho está limitado ao período que decorre entre 1959 e julho de 1963. Mistura sentimentos, observações, vivências e cunhos pessoais, com o historial desportivo desse período e dos Clubes então existentes. Nos finais da década de 50 do século passado, as únicas modalidades desportivas que se praticavam em Guimarães eram o Futebol, o Ténis de Mesa (na altura mais conhecido por Ping-Pong), o Xadrez, o Tiro, o Atletismo e o Ciclismo. Tinha havido Ginástica no Ginásio dos Bombeiros (onde hoje é o Centro Comercial Triângulo) e o Hóquei em Patins, ambas desenvolvidas sob a égide do Vitória. A Ginástica Infantil, que frequentei, impulsionada em 1953 pelo então treinador da equipa de futebol do Vitória, Cândido Tavares (foi quando ingressei como associado do Vitória), teve o seu auge com a realização de dois Saraus, no Teatro Jordão, com as lotações esgotadas, em dois anos sucessivos. Com a saída do treinador de futebol do clube, o projeto extinguiu-se. Outros elementos/ginastas mais velhos, entre os quais o saudoso e grande ginasta Herlander de Freitas, mantiveram a disciplina por mais algum tempo e no mesmo espaço. No Hóquei em Patins, o Vitória com a quase totalidade de jogadores vimaranenses, chegou a ter uma equipa muito competitiva a disputar o Campeonato Nacional. Numa célebre noite de receção à Sanjoanense, que presenciei, houve tumultos que levaram à sua irradiação e consequentemente, à sua extinção. Mas, no Concelho e concretamente nas Caldas das Taipas, havia outra equipa de Hóquei, também muito competitiva e com um 117
jogador muito popular entre os taipenses que era o Zequinha. O Ténis de Mesa era uma modalidade dita amadora com cariz competitivo mais popular, divulgada no Concelho através das equipas do Sindicato dos Caixeiros, Ritmo Louco (antes de ser CAR), 20 Arautos, Desportivo Francisco de Holanda (DFH) e, mais tarde, o Vitória. O Ritmo Louco era um dos principais organizadores dos torneios locais. O Xadrez e o Tiro tinham uma atividade mais restrita no âmbito do Grupo de Xadrez de Guimarães, do Clube Industrial de Pevidém e do Clube de Caçadores de Guimarães. O Atletismo era apenas praticado na vertente “Corridas da Légua” e realizavam-se com alguma regularidade com organizações do DFH. Este Clube teve também uma equipa de ciclismo muito competitiva nas provas regionais, com realce para dois ciclistas, Sebastião e Domingos. Em Guimarães, jogava-se Voleibol e Andebol no Liceu (hoje, Martins Sarmento) e na Escola Industrial (hoje, Francisco de Holanda). Não se praticaJornadas do desporto do CAR no ringue das Taipas vam estas modalidades ao nível de clubes. Nessa altura, “falar”, por exemplo, de Polo Aquático ou de Taekwondo, em Guimarães, modalidades que revelaram grandes campeões vimaranenses, era uma utopia. Jogava-se Bilhar Livre e Snooker como atividade recreativa. Não tem comparação possível a realidade dos anos 50/60 com a atualidade. O número de Clubes, no Concelho, a quantidade de recintos desportivos, incluindo pavilhões e piscinas, a diversidade de modalidades desportivas e o número de praticantes, revelam uma nova e excelente realidade. De realçar os grandes atletas vimaranenses que se notabilizaram a nível nacional e até internacional em modalidades distintas do futebol. Para além dos ginásios do Liceu e da Escola Industrial, só havia o pequeno ginásio nos Bombeiros. Por falta de clubes com iniciativas noutras modalidades, a minha geração não tinha possibilidades, nem oportunidades, nem espaços adequados, para atividades mais saudáveis designadamente as desportivas e ao ar livre. 118
Como todos os jovens de então, eu sentia a necessidade de fazer algo mais que permitisse dar continuidade à ginástica infantil que tinha frequentado no Vitória. Até 1959, frequentei com alguma regularidade, na Amorosa, os treinos de futebol da equipa de juniores do DFH, cuja Sede se situava no Toural e mais concretamente no 2º andar do edifício onde está instalada a Pastelaria Clarinha. Acompanhei durante alguns anos a sua excelente equipa júnior de futebol. Na ausência do “massagista”, nalguns jogos, fui eu “transportador” da mala para dentro do campo. Relembro aqui o saudoso Treinador Augusto Barreira que, para além de ser uma ótima pessoa, tinha um perfil extraordinário para as equipas de formação de futebol. Encontrei aí uma forma de fazer algum exercício físico, porque a habilidade para o futebol era limitada. Esta era a minha visão e experiência do desporto em Guimarães. Os espaços de convívio nos tempos livres dos Vimaranenses eram as Coletividades, sobretudo com jogos de cartas, os Cafés, as Pastelarias e as Tabernas. Até 1953, havia três Cafés no Toural (Oriental, Toural e Mourão), posteriormente desaparecidos. O Café Milenário, inaugurado em 1953 era então o principal e mais moderno espaço de convívio dos jovens da época, sobretudo porque proporcionava ocupação dos tempos de lazer no seu amplo Salão de Jogos do 1º andar, com Bilhar Livre, Snooker e Matraquilhos/pessebericos (nunca percebi a razão deste jogo só ser conhecido com este nome em Guimarães), mas num ambiente fechado e com muitos fumadores… Relembro, por curiosidade, que outro polo de atração deste Café era o “Snack Bar” situado na cave. Foi o primeiro espaço, com este conceito, que abriu em Guimarães. Quando, em 1959, terminei os estudos na Escola Industrial e Comercial e comecei a trabalhar, inicieime no consumo de café depois das refeições. O Milenário reunia as condições mais atrativas. Para além da frequência do Salão de Jogos e do Snack Bar, era a mesa do Café que nos ocupava a maioria do tempo. Jogava-se o “31”, via-se o único canal de televisão a preto e branco (RTP) que havia e conversava-se. Criaramse assim várias tertúlias de acordo com os perfis, afinidades e gostos dos seus membros. A nossa, a dos mais jovens, era maioritariamente constituída por antigos alunos da Escola Industrial. A falta de atividade desportiva e ao ar livre era um tema constante das nossas conversas e preocupavanos. Foi então que alguém teve a ideia de criar um grupo desportivo em Guimarães que se dedicasse apenas às modalidades ditas amadoras. Debatido e aprofundado o tema, deparavam-se vários problemas, sobretudo logísticos, designadamente a inexistência duma sede e recintos para praticar as modalidades, para não falar na “tradicional” falta de dinheiro… O Ritmo Louco (RL) tinha inaugurado uma nova sede na Rua de Stº António, (próxima da casa onde eu 119
morava), começava a desenvolver outras atividades para além do Ténis de Mesa e das “gaitas de beiços”, nomeadamente o Teatro e outras áreas da música ligeira. A grande dinâmica que o Clube estava a ter obrigou à sua “legalização” junto do SNI (Secretariado Nacional de Informação) com demorada e complexa alteração/adaptação dos Estatutos à legislação então vigente e exigente em Portugal e passou a designar-se de CAR-Círculo de Arte e Recreio. Neste processo esteve muito envolvido o Dr. Santos Simões, de quem celebramos, neste ano o centenário do seu nascimento (12 de agosto de 1923). O José Manuel Melo, que connosco convivia no Milenário, era sócio do RL e participava nas suas atividades nomeadamente no Teatro. Foi então que alguém teve e ideia luminosa de propor ao RL a criação de uma Secção Desportiva, resolvendo assim uma das lacunas da logística que era a Sede. O Melo foi incumbido dessa missão. A Direção do RL/CAR, superiormente dirigida pelo saudoso Amigo Jaime Ferreira Martins, abraçou a nossa sugestão com grande agrado e até entusiasmo e formalizou, em Ata de Direção do dia 26 de março de 1960, a nossa pretensão, que se transcreve: …” O Senhor Presidente comunicou que havia um grupo de jovens vimaranenses que se propunham fundar neste grupo uma secção desportiva, especialmente nas modalidades de Andebol, Basquetebol e Voleibol, as quais se inscreverão como sócios desta Coletividade, tendo sido aceite por toda a Direção a criação daquelas modalidades, dado que as mesmas poucas despesas acarretarão”
Na mesma Ata foram aprovadas as admissões dos jovens. Assim, no mesmo espaço físico do Toural, (Chapelaria Macedo) onde, em 1922, foi gerado o Vitória Sport Clube, nasceu, em 1960 (Café Milenário), o projeto da Secção Desportiva do CAR. Das dezenas de jovens que frequentavam o Milenário, 21 assumiram o desafio de criar e desenvolver modalidades amadoras no CAR. Alcino Coutinho, Alfredo Coutinho, Álvaro Costa (falecido), António Carneiro (falecido), António Macedo, António Joaquim Pinto Basto Pereira (falecido), Bernardino Pina, Delfim Guimarães (falecido), Domingos Macedo (falecido), Fernando Neves (falecido), Gaspar Oliveira (falecido), Joaquim Nobre, José Emílio Machado (falecido), José Henriques, José Manuel Melo, José Maria Rodrigues, José Nobre (falecido), Luís Caldas (falecido), Luís Laranjeiro (pai de Miguel Laranjeiro atual Presidente da Federação de Andebol), Manuel Joaquim de Freitas e Silva e Virgílio da Silva Martins.
Estes são os nomes dos pioneiros que o CAR homenageou, na Presidência de Fernando Capela Miguel, com a colocação de uma placa memorial no hall de entrada da sua Sede, na Rua Francisco Agra, com os seguintes dizeres: 120
57º Aniversário do C.A.R. Ao grupo dos 21 À memória daqueles jovens que com o desporto construíram no C.A.R. fraternais momentos de convívio e sã camaradagem em gerações sucessivas C.A.R. 16 novembro de 1996
A este grupo inicial, juntaram-se, depois, muitos outros sócios com desempenhos importantes no desenvolvimento das modalidades. Concluída a instalação da Secção, no 3º andar do edifício, passou-se à ação. Na Amorosa, havia um Rinque de Patinagem praticamente sem utilização desde o dia em que o Vitória foi irradiado do Hóquei Patins. A Direção do Vitória, presidida por António Faria Martins, perante o nosso pedido, autorizou a sua utilização, aos sábados e domingos de manhã, com utilização dos balneários, assumindo o CAR os custos dos banhos. Quem nos “ajudava/aturava”, no local, era o empregado do Vitória do Campo da Amorosa mais conhecido pelo “18” por ser o seu número de bombeiro voluntário na corporação da cidade. Do bolso dos 21 saiu o primeiro dinheiro para comprar duas bolas. Uma de Andebol e outra de Voleibol. Na ausência de tabelas de Basquetebol ou de uma alternativa passível de as substituir não nos foi possível, então, implementar esta modalidade. Todos os sábados e domingos de manhã íamos para a Amorosa. O António Carneiro, recém-chegado do Serviço Militar, ministrava uma sessão de ginástica coletiva. Depois dividiam-se os grupos. Uns jogavam Voleibol no rinque, colocando uma corda a servir de rede entre dois candeeiros (a rede veio depois) e os outros ocupavam o espaço de estacionamento existente entre a entrada do campo da Amorosa e o ringue, com a bola de andebol. Por vezes, o rinque da Amorosa tinha outras ocupações e tivemos de encontrar alternativas. A única que encontramos foi no rinque de patinagem do Parque das Taipas, que era utilizado pela sua equipa de Hóquei em Patins. Na evolução das atividades desportivas, foi o Andebol que teve a primazia. Para isso eram precisas balizas e jogávamos e treinávamos em dois espaços distintos e distantes entre si. Como a carência estimula a imaginação, mandamos fazer umas balizas na carpintaria do Pimenta Machado, na Rua de Gil Vicente (gerida pelo Sócio e Dirigente do CAR Laurentino Teixeira), com a particularidade 121
de se colocarem dobradiças nos cantos superiores e assim poderem ser desmontadas e transportadas para os dois rinques, nas bagageiras das camionetes situadas nos tejadilhos das mesmas. Incumbido desta missão, todos os meses recolhia os 100 escudos junto de Seccionistas e membros da Direção (5 escudos cada) e pagava a respetiva prestação/mensalidade na carpintaria. Nessa altura, lançamos também os projetos do Voleibol masculino e feminino com treinos e jogos também no Rinque da Amorosa. Organizamos inclusive um “Festival dos Desportos Pobres”, com a colaboração do DFH. Nesta modalidade, este clube conseguiu que, no atual parque de estacionamento do Hotel do Toural (traseiras da Associação Comercial), fosse criado um campo para a modalidade em alternativa ao rinque da Amorosa. Grande rivalidade havia, então, entre as equipas do Jogo de andebol entre o CAR e o DFH - Pelo CAR: Xico Dias, Bernardino Pina, Álvaro Costa, Casimiro Fonseca e Nunes; Pelo DFH: Almor Vaz e Fernandes (Fotografia - Foto CAR e DFH. Nesta altura, os Clubes não tiSimão) nham qualquer vínculo oficial de cariz associativo distrital porque …. não havia Associação! Com o Voleibol Feminino e com o Teatro deu-se uma verdadeira “revolução” na vivência das jovens/mulheres de Guimarães. Passe algum exagero, até aí, as jovens só faziam os trajetos escola/casa ou local de trabalho/casa. Não frequentavam espaços públicos, cafés ou tertúlias e muito menos bares ou discotecas (porque também não as havia) e se as queríamos ver mais vezes tínhamos de ir vê-las às saídas das missas ao domingo….
Hoje, a participação feminina no desporto é bem diferente! Foi nessa altura também que impulsionamos o Ténis de Mesa no CAR. Convidamos a equipa que jogava nos 20 Arautos e que já era a tradicional campeã em Guimarães. O João Leite, o Abílio Fernandes, o Eurico e o seu irmão Alberto continuaram na senda das vitórias e fomentaram a prática da modalidade no seio dos associados do CAR. Posteriormente representaram o Vitória. Nos Verões de 1961 e 1962 organizamos, no recinto do rinque das Caldas das Taipas, as I e II Jornadas Desportivas do CAR com desfile da modalidade e dos seus Atletas seguido de jogos com cariz exibicional. 122
Voltando ao andebol, no princípio até eu, péssimo jogador, tinha lugar na equipa “B” …. Depois, iniciamos um processo de recrutamento de jovens em quem reconhecíamos melhores aptidões. A Escola Industrial teve um professor de Educação Física (Prof. Bentes) que tinha sido jogador de andebol do F.C. Porto. Foi este professor que divulgou o andebol nos recreios da Escola e julgo que foi o primeiro divulgador do Andebol em Guimarães. Essa experiência permitiu que alguns alunos revelassem “jeito” para a modalidade e eu sabia quem eram. Participei no recrutamento/convite de ex-colegas da Escola Industrial para jogarem Andebol no CAR. Entre outros, relembro o João Pereira, o Murta, os irmãos Teixeira de Araújo (Carlos e António), o Júlio Mendes (pai do que foi presidente do VSC) e o Vítor Manuel Braga de Carvalho. Foi assim que fomos construindo uma melhor equipa de Andebol e mais competitiva que, gradualmente, foi melhorando os seus índices exibicionais com novos e melhores jogadores. De Fafe surgiu-nos um pedido/convite para lá irmos fazer uma demonstração e divulgação do Andebol. Por ausência de campo apropriado, foi no espaço existente no exterior nas antigas instalações do Colégio Nuno Álvares que fizemos a demonstração, levando connosco as balizas desmontadas. Calhou-me a mim, de megafone em punho, explicar as regras do jogo… Hoje, Fafe tem uma equipa de Andebol nos nacionais. Faltava a competição. Foi então que desafiamos o Vitória, o Desportivo Francisco de Holanda, a Escola Industrial e o Liceu Martins Sarmento para formarem equipas e entrarem numa competição vimaranense. No primeiro torneio de Andebol de 7, organizado em Guimarães, para além das equipas “A” e “B” do CAR, competiram a Escola Industrial e o DFH. O Vitória não participou e só nessa oportunidade iniciou um processo de recrutamento de jogadores. O Liceu cedeu os seus potenciais jogadores ao DFH e não participou. A equipa “A” do CAR foi a vencedora. Nos torneios seguintes, convidamos equipas de Braga, nomeadamente os Leões, o ABC, o Sporting de Braga. A equipa do CAR continuava a ganhar. Estes torneios não eram “oficiais” nem havia, no Distrito de Braga, Associação de Andebol. A evolução qualitativa da equipa do CAR levou-a para um patamar competitivo que as outras equipas da região já não acompanhavam. Foi então que surgiu a ideia de nos filiarmos na Associação de Andebol do Porto. Feito o pedido, fomos recebidos com agrado. Disputamos, então, o Campeonato Regional de Andebol da 3ª Divisão e…fomos Campeões! Passamos à 2ª Divisão que disputamos e…voltamos a ser Campeões! No ano seguinte íamos disputar a 1ª Divisão Regional, mas, nesse ano, foi criada a Associação das Modalidades Amadoras de Braga onde passamos a competir, a partir de 1963. Foi nesse ano que fui para o Serviço Militar. Depois de 4 anos de tropa (2 em Angola), passei a residir 123
na região de Lisboa e deixei de acompanhar com regularidade a vida desportiva do CAR. O Notícias de Guimarães era a única fonte noticiosa de que dispunha. Concluímos, assim, que o CAR, não tendo atualmente em atividade o Andebol e o Voleibol, foi um precursor fundamental na criação destas modalidades desportivas em Guimarães.
124
50 Anos da União Desportiva de Polvoreira Carlos Oliveira
A União Desportiva de Polvoreira (UDP) festejou, nos dias 7, 8 e 9 de Julho, os seus cinquenta anos de actividade desportiva, congregando os Polvoreirenses. Foram cinquenta anos intensos com momentos de alguma amargura, vencidos pela tenacidade, dedicação e mesmo sacrifício dos seus dirigentes, valores que permitiram àquela associação atingir os patamares de êxito que estes festejos comprovaram. Com efeito, estávamos em 1973, em finais do período de vigência do antigo regime, vencido pela fadiga de uma guerra colonial que durava já há uma dúzia de anos e que, de certa forma, teve o mérito de abrir os olhos à juventude que nela participou para a realidade social que se vivia na Europa e da qual estavam muito distanciados. Em Polvoreira, a necessidade de um associativismo ativo e competitivo estava no espírito de muitos que tinham regressado da guerra do Ultramar e desejavam organizar-se para competir, quer entre si, quer com gentes de localidades vizinhas com quem mantinham uma vigorosa rivalidade. Nos Carvalhos, um lugar multicentenário da freguesia situado na sua área territorial de maior altitude, lado a lado com a Igreja Paroquial, situava-se um café, o “Café do Bem Viver”, também conhecido como o Café do Aníbal, o nome do seu proprietário. Era ali que, no fim das missas domingueiras, se reuniam muitos Polvoreirenses lá residentes, depois da disputa de um jogo de futebol num terreno vizinho que não tinha as mínimas condições para a prática daquele desporto, mas que, apesar disso, era conhecido como o “Monte da Alegria”. Como confirmado por promotores da fundação da União Desportiva de Polvoreira, no Natal de 1971, depois do jogo, na tertúlia que se lhe seguiu, foi tomada a decisão de arrendar um terreno propício à prática desportiva. Para tal, foi criada uma pequena comissão composta por Domingos Coelho, Guilherme de Sousa e Aníbal Alves, o dono do referido café. Por essa altura existiria já um clube informalmente constituído, mas com emissão de cartões de associados, denominado, precisamente, “Carvalhos Futebol Clube”, assinando como seu presidente, 125
Manuel Mendes, que será, mais tarde, o sócio fundador número 1 da UDP e seu primeiro presidente. A Comissão não teve grande êxito não conseguindo concretizar o projeto. O objetivo veio, todavia, a ser alcançado, precisamente em Abril de 1973, quando Aníbal Alves, pertencente a uma outra comissão, arrendou em seu nome, mas para uso da Associação, que ainda não tinha denominação identitária – o terreno que hoje é da propriedade da UDP e onde se situa o seu Parque Desportivo. Rapidamente se procedeu à terraplanagem do terreno e a 23 de Abril daquele ano – segunda feira de páscoa – realizou-se ali o primeiro jogo. Como referido, a União Desportiva de Polvoreira ainda não tinha sido batizada. Seria-o na semana seguinte, a 30 de Abril de 1973, em assembleia geral convocada para o efeito, um mês antes, através de um cartaz que fora afixado no café do Aníbal a 1 de Abril. Iniciava-se aqui a actividade intensa da UDP. O terreno arrendado passará a ser, por escritura de Novembro de 1973, um campo de futebol, para utilização pela Associação. A formalização jurídica da Associação só terá lugar quatro anos depois, a 14 de Julho de 1977, mas a realização de torneios e a participação em outros organizados por outras associações fora efectiva durante todos aqueles quatro anos. Entra-se, a partir daí, num período de normalização jurídica da Associação sendo possível, através das leituras das actas elaboradas, conhecer a história do Clube. As atas assinalam que, em 1984, a UDP procurou organizar diversos torneios intersócios para recrutar atletas para participação em competições organizados pela Associação de Futebol Popular de Guimarães – da qual fora sócia fundadora – e, mais tarde, pela Associação de Futebol de Braga. De registar aqui que, numa carta lavrada a de 26 de Julho de 1989, se dá conta que a União Desportiva de Polvoreira foi declarada vencedora do Campeonato e da Supertaça de futebol organizados pela Associação de Futebol Popular de Guimarães. Carlos Oliveira, actual Presidente da Direcção, entra para sócio do Clube em 1983 – é sócio há 40 anos – e participa, desde logo, como atleta em vários torneios, mesmo equipado de maneira deveras informal, dada a falta então de recursos financeiros para a 126
aquisição de equipamentos contendo os emblemas identitários associativos. Em 14 de Março, de 1998, foi realizada uma Assembleia Geral extraordinária onde foi decidido atribuir ao recinto desportivo implantado no “Campo da Ninga de Cima”, no lugar da Enxertaria, da titularidade da União Desportiva de Polvoreira, o nome de Parque Desportivo dos Carvalhos. Tudo parecia correr de feição, mas a 4 Julho de 2003, com o Clube a perfazer trinta anos, as chaves da sede e uma relação descrevendo todo o património, são entregues na sede Junta, conforme estava previsto nos Estatutos, por falta de sócios que quisessem assumir a gestão da Associação. É, na altura, Presidente do Executivo o sócio do Clube, Carlos Oliveira, que não aceitando o fecho da União Desportiva, promove a constituição de uma Comissão que dirigirá a Associação durante algum tempo, com o apoio da autarquia.
Uns anos depois, Carlos Oliveira passa a integrar os corpos sociais, primeiro como presidente da Assembleia Geral, e a seguir como presidente da Direção. Os factos dão conta que, a partir daqui a União Desportiva segue um caminho ascensional atingindo patamares de grande relevo. Uma das áreas fundamentais em que foi, desde logo, assumido como prioritário intervir foi a criação de condições no Parque Desportivo dos Carvalhos para a concretização dos objetivos assumidos pela Associação. Inicialmente o Campo de Futebol tinha o aspeto que a fotografia ao lado assinala. Foi apresentado e concretizado um plano de requalificação dos balneários, de intervenção no recinto desportivo nomeadamente no seu saneamento e a demolição do muro lateral ao campo de Jogos que constituía um perigo de acidentes para os futebolistas e, mais tarde, foi decidido a aplicação ao terreno de jogo de um relvado sintético. Entretanto, existia um problema pendente referente à titularidade do Parque Desportivo. Tendo sido 127
celebrado um contrato promessa de aquisição que se retardava concretizar. Depois de várias disputas jurídicos. O processo foi ganho e a escritura celebrada. O relvado sintético foi inaugurado em Julho de 2016 e mereceu reportagem jornalística de vários meios de comunicação social. O “Correio do Minho” encimava a notícia com o cabeçalho: “Polvoreira com condições excepcionais “ Mas a continuidade na criação de condições que permitissem o exercício produtivo da actividade institucional do Clube persistia e, dois anos depois, a Direção do Clube aprovava o plano de obras de requalificação da sede do Clube. O projeto é apresentado, para aprovação à Câmara Municipal de Guimarães e merece dela não só parecer favorável, como lhe é atribuído um subsídio de vinte mil euros. As obras iniciam-se. É totalmente destruído o edifício antigo e sobre ele construído o novo projeto. Durante esse período a sede é substituída por um contentor ecológico onde são prestados os serviços mínimos aos sócios do Clube. Devido à pandemia, embora as obras se encontrassem concluídas em Novembro de 2021, só foram oficialmente inauguradas pelo Dr. Domingos Bragança, Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, em Maio de 2022. Mas também no aspeto desportivo a projeção da União Desportiva de Polvoreira foi significativa. A Associação foi campeã da Associação de Futebol Popular de Guimarães, em seniores, em 2013, e campeã, também em seniores, na Associação de Futebol de Braga, em 2019. Mais recentemente, foi reconhecida e certificada pela Federação Portuguesa de Futebol como Entidade Formadora de Futebol de três estrelas em três anos consecutivos. Não podemos terminar este apontamento sem assinalar que a União Desportiva de Polvoreira possui uma equipa de futebol feminino e ainda recentemente disputou com o Sporting Clube de Portugal a permanência na Taça de Portugal. 128
OFERTA DESPORTIVA EM GUIMARÃES A evolução da prática desportiva e a importância do desporto informal em Guimarães, bem como uma abordagem das infraestruturas disponíveis em matéria de desporto são outros aspetos temáticos e relevantes aqui tratados. Por fim, uma volta de homenagem e aplausos aos nossos campeões desportivos em várias modalidades desportivas e triunfos, que culminam com uma entrevista exclusiva ao nosso tenista e conquistador João de Sousa.
Breve resenha da história do desporto de competição em Guimarães Fernando Castro
Embora sendo relativamente recente, datando de pouco mais de um século, o desporto de competição em Guimarães possui já uma história de grande riqueza. Nos finais do século XIX, e principalmente na última década desse século, as atividades resumiam-se essencialmente ao tiro, caça e ciclismo, ainda com caráter informal. Já em 1893 se realizava uma prova de ciclismo organizada para comemorar o 10º aniversário do Clube Velocipedista do Porto, “...entre Guimarães e Porto (Carvalhido), na extensão de 55 kilómetros...”2. 2
O Comércio de Guimarães, 30.10.1893
129
Em 1904, surgiam notícias de movimentações no sentido de se introduzir o ténis de campo e o futebol, na cidade: "Sabemos que alguns cavalheiros distintos pela sua posição social, aficionados a tudo quanto seja ‘sport’, pensam em montar brevemente nesta cidade estes jogos, tratando atualmente de adquirir terreno para esse fim. Oxalá realizem em breve o seu intento, pois é a primeira tentativa que em Guimarães se faz de exercícios físicos. Em quase todas as cidades do reino se cultiva qualquer espécie de ‘sport’ que, pela sua moderação e aplicação, produza efeitos salutares ao organismo; aqui nada disso temos visto e é, por isso, que aplaudimos a iniciativa desse grupo e fazemos votos para que o exemplo frutifique" 3.
Julgamos que, em relação ao futebol, e a avaliar pelas notícias dos jornais da época, esse esforço apenas começaria a dar os primeiros frutos cerca de uma década depois. Em relação ao ténis, não surgem referências escritas, o que não prova, contudo, que este jogo se não praticasse, já por essa altura, em Guimarães. O que se praticava seguramente, neste início do século XX, conforme as notícias davam conta, era a caça, a ginástica, o esgrima, o hipismo e o ciclismo. No que se refere ao tiro e à caça, importa registar a criação, em 1901, do Clube de Caça e Atiradores Civis de Guimarães4, a mais antiga agremiação de caráter desportivo fundada em Guimarães.
Equipa de futebol do Desportivo Francisco da Holanda na época de 1945-46
3 O Comércio de Guimarães, 5.2.1904 4
O Progresso, 12.05.1901
130
No início da segunda década do século XX, começaram a aparecer as atividades automobilísticas e futebolísticas. Nesta década assistiu-se também a um número crescente de provas recreativas de ciclismo e de caça, mas ainda sem qualquer caráter competitivo. É na terceira década do século XX que surgem as primeiras atividades de desporto organizado em Guimarães. Com a constituição do Vitória Sport Clube, em 1922, dedicado então exclusivamente ao futebol, seria com esta modalidade que a competição desportiva começaria a despontar no concelho. Seguiu-se a criação de outros clubes dedicados ao futebol, quer na cidade quer nas Taipas. Até à década de 50 do séc. XX, o futebol foi o desporto dominante e o único em que os clubes de Guimarães participavam, no que toca às competições de modalidades coletivas. Para além do futebol, só tiro, caça, ciclismo, automobilismo, columbofilia, ginástica, ténis de mesa, corridas pedestres, bilhar e patinagem, animavam a atividade desportiva vimaranense. Merecem realce as provas de automobilismo, com a Rampa da Penha a realizar-se de forma regular, a partir de 1930. Também o ciclismo, com a chegada de algumas etapas da Volta a Portugal em Bicicleta a Guimarães, Ciclista no início do século XX se destacava no relativo marasmo do desporto concelhio, na primeira metade do século passado. Em 1942, a equipa de futebol do Vitória Sport Clube passou a integrar, pela primeira vez, o lote de equipas da divisão principal a nível nacional. O hóquei em patins foi a segunda modalidade coletiva a disputar-se em Guimarães. Tal ocorreu logo no início dos anos 50 do séc. XX, com as equipas do Turismo Óquei Clube das Taipas e do Vitória Sport Clube. Neste último, a epopeia durou menos de uma década, se bem que tenha sido recheada de emoções e alguns títulos. Nesta década de 50 intensificou-se ainda a atividade de ténis de mesa, movimentando várias dezenas 131
de atletas. Também o xadrez se passaria a disputar na cidade, congregando número razoável de praticantes. Ter-se-ia, contudo, de esperar pelo início dos anos 60 do séc. XX para se verificar a forte expansão do desporto em Guimarães. Modalidades como o andebol, voleibol e basquetebol, começaram a praticar-se em vários clubes da cidade. De registar também o surgimento da prática desportiva feminina, que se verificou na modalidade de voleibol. Desportivo Francisco de Holanda e Círculo de Arte e Recreio tiveram um papel determinante nesta expansão do desporto vimaranense, para além do futebol. Nesta década, assistir-se-ia a um forte incremento do ciJogo de voleibol feminino nos anos 60 do século XX clismo, principalmente por iniciativa da Coelima, que constituiu equipas profissionais de topo a nível nacional. O clube desta empresa teria um papel determinante na prática desportiva, não só no ciclismo, mas em muitas outras modalidades, dinamizando fortemente a atividade desportiva em Pevidém. No futebol, o Vitória Sport Clube consolidava a sua posição, alcançando, pela primeira vez, no final da década de 60 do séc. XX, direito a participar nas competições europeias. Também as infraestruturas desportivas se iam reforçando, com a construção do Estádio Municipal e dos pavilhões da Coelima, em Pevidém, e da FNAT, na cidade. Na década de 70, continuou a assistir-se a um bom desempenho das equipas ciclistas de Guimarães, sendo o concelho uma das referências nacionais da modalidade. No tiro, as boas condições de prática do Clube Industrial de Pevidém, melhoradas em 1974, potenciaram o aparecimento de resultados desportivos de grande relevo. O atletismo teve uma forte expansão, principalmente após o 25 de Abril, com numerosos clubes e atletas a praticar a modalidade. Surgiram os bons resultados, com Aurora Cunha a destacar-se como uma das melhores atletas a nível mundial. Ainda nesta década, há que assinalar o início da prática do ténis de campo na cidade. Judo e karaté começaram também, por essa altura, a sua atividade em Guimarães. As duas últimas décadas do século XX viram reforçar-se a generalidade da prática desportiva no 132
concelho. A criação de novas infraestruturas, principalmente campos de futebol, mas também pavilhões e piscinas, permitiu alargar a prática desportiva a todo o concelho. Os resultados desportivos de mérito surgiriam, assim, com naturalidade. Gémeos Castro e Aurora Cunha, no atletismo, Manuel Abreu, no ciclismo, Vitória Sport Clube no voleibol feminino e Desportivo Francisco de Holanda no andebol, merecem particular destaque. Também no futebol, a conquista da Supertaça Cândido de Oliveira pelo Vitória Sport Clube constituiu êxito de monta. Este período assistiu ainda ao ressurgir do basquetebol, com a criação do Basket Clube de Guimarães, clube dedicado exclusivamente a esta modalidade. Também o futebol de salão, a natação e o polo aquático começaram então a desenvolver-se no concelho. Seria, contudo, no início do presente século, que se assistiria a uma verdadeira explosão da prática desportiva vimaranense e dos consequentes resultados. A tal não será alheia a existência das infraestruturas já criadas no final do milénio, como o Complexo Desportivo do Vitória Sport Clube, e as que arrancaram alguns anos depois, como o Pavilhão Multiusos, a Pista de Atletismo Gémeos Castro e as Piscinas Municipais, entre muitas outras, públicas e privadas. Surgiram novas modalidades, como o kickboxing, o rugby e o rope-skipping. Surgiu também a prática desportiva pela população com deficiência. Reforçou-se a prática de várias outras modalidades, como foi o caso da natação, xadrez, ténis, judo, karaté e ciclismo. Os resultados desportivos atingiram níveis qualitativos e quantitativos nunca antes registados em Guimarães: vários títulos nacionais em modalidades coletivas, como futebol, voleibol, andebol, basquetebol, polo aquático e hóquei em patins; títulos mundiais e europeus em modalidades individuais, com destaque para os obtidos pelos praticantes de kickboxing, de tiro e de desporto adaptado. Realce ainda para as excelentes prestações individuais de Dulce Félix no atletismo e de João Sousa, no ténis. Ao nível de grandes eventos, desde o início do século XXI, Guimarães tem assistido, com regularidade, à realização de provas da mais alta categoria internacional. Foi ainda neste contexto de franco desenvolvimento do desporto vimaranense que ao Concelho foi outorgado o título de Cidade Europeia do Desporto em 20135, momento alto em que se implementou todo um plano de eventos desportivos e de atividades conexas com o desporto. No contexto das atividades da CED2013, tivemos oportunidade de colaborar na redação da obra “Desporto em Guimarães: dos primórdios à atualidade”, editada pela Tempo Livre, CIPRL, e em cuja introdução o presente texto se baseia, com alguns elementos adicionais. Estamos a preparar, para ser editada, ainda em 2023, uma versão atualizada dessa obra. 5
Tendo sido a primeira cidade portuguesa a receber tal reconhecimento
133
A última década assistiu a uma consolidação da atividade desportiva em Guimarães. Merecem especial destaque a Taça de Portugal em futebol ganha pelo Vitória Sport Clube em 2013, a Taça da Liga ganha pelo Moreirense FC também em futebol, em 2017, os 4 títulos nacionais obtidos pela equipa de polo aquático do Vitória Sport Clube e ainda vários desempenhos individuais de grande mérito, em várias modalidades: principalmente no ténis, com a afirmação das irmãs Francisca e Matilde Jorge, na natação com João Costa, recordista nacional, e no atletismo com Manuel Mendes que obteve a medalha de bronze na maratona T46 dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro. Surgiram ainda novas modalidades, como o padel, o golfe e o eSports, reforçando-se outras como a patinagem artística, a Boccia e diversas variantes de artes marciais. A ginástica tem-se também destacado com um forte incremento, sendo de registar um elevado número de praticantes e a inauguração, em 2018, da Academia de Ginástica de Guimarães. O número de modalidades e de praticantes tem vindo a crescer de forma consistente, registando-se, em 2022, 38 modalidades com prática desportiva federada num total de 8 088 praticantes, dos quais 1 470 do sexo feminino6. O futebol é o desporto que mais contribui para estes dados, com cerca de 50 % dos praticantes federados, seguido do ciclismo, futsal, ténis, andebol, karaté. Segundo elementos que conseguimos apurar, na atualidade, a prática desportiva federada decorre em cerca de 90 clubes do Concelho. É, por isso, muito rica, a história desportiva de Guimarães. Quer pela sua diversidade, cobrindo um grande número de modalidades desportivas, quer pela sua abrangência, com um número sempre crescente de praticantes e alargando-se, de forma consistente ao longo dos anos, a todo o território concelhio. Quer ainda pelos resultados de elevado nível nacional e internacional já alcançados pelos atletas e agremiações desportivas vimaranenses.
6 José Martins, Caraterização da prática desportiva federada no concelho de Guimarães (2017-2022), Tempo Livre/ Centro de Estudos do
Desporto de Guimarães, 2022
134
A evolução da prática desportiva federada em Guimarães José Fidalgo Martins Diretor do Centro de Estudos do Desporto da Tempo Livre
Guimarães é uma cidade com fortes tradições no desporto e com uma longa história nas mais diversas modalidades. Apesar de o futebol ter uma dimensão desportiva e social ímpar, bem demonstrativa no número de clubes, no número de praticantes e na forma como se estende por todo o concelho, também noutras modalidades Guimarães tem presença assinalável e apresenta pergaminhos de excelência a nível nacional e internacional. Antes de analisarmos a evolução recente da prática desportiva federada em Guimarães, é importante primeiro evocarmos as origens e os primeiros passos de um percurso com mais de 100 anos de história. Não só é uma forma de reconhecimento daqueles que iniciaram este longo percurso, mas, também nos ajuda a enquadrar e a perceber melhor as dinâmicas atuais das modalidades e dos clubes vimaranenses. Recuando aos inícios do século XX, constatamos que entre uma prática mais ou menos recreativa, modalidades como o tiro, a caça, a ginástica, a esgrima ou o ciclismo, já marcavam presença no espaço desportivo de Guimarães. O Clube de Caça e Atiradores Civis de Guimarães é mesmo considerada a mais antiga agremiação desportiva de Guimarães.7 Este facto é significativo, quando um século depois observamos que o Tiro com Armas de Caça é uma modalidade que ainda tem forte implementação em Guimarães, Futebol - Rádio Inquieta - GD Serzedelo/rádio Inquieta através do Clube Industrial de Pevidém. O futebol apresenta-se entre as décadas 30 e 50, como a modalidade desportiva dominante, integrada 7
CASTRO, F. & Fernandes, IM., 2013. “Desporto em Guimarães – Dos primórdios à atualidade”.
135
em competições desportivas de cariz regional e nacional. Uma preponderância que o futebol assumiu, não só em Guimarães, mas também no país, e que perdura até os dias de hoje. Nascem neste período clubes como o Vitória Sport Clube (VSC), o Clube Caçadores das Taipas e o Moreirense FC, que continuam a ser referências no concelho de Guimarães. Depois temos o ciclismo com uma forte tradição a nível nacional, mas, também com grande presença em Guimarães, sendo ainda hoje a segunda modalidade mais praticada no concelho. A modalidade atravessou todo o século XX, como palco de competições, onde as chegadas da Volta a Portugal sempre foram os eventos mais mediáticos, mas também se distinguiu através do excelente desempenho das suas equipas, Tiro – Clube Industrial de Pevidém como é exemplo a GD Coelima, que marcou uma era durante a década 60. Na década 70, é fundada a Associação de Ciclismo do Minho, que continua a ser uma referência na dinamização e desenvolvimento da modalidade. O atletismo tem uma história semelhante ao ciclismo, entre uma fase inicial de organização de provas em Guimarães, nos inícios do século XX, e depois a consolidação da modalidade com a criação de secções nos principais clubes da época como o VSC, o Desportivo Francisco de Holanda (DFH) e o Círculo Arte e Recreio (CAR). Ginástica - Tempo Livre - Guimagym A expansão do atletismo foi rápida, revelando-se como uma modalidade altamente descentralizadora da prática desportiva, chegando a freguesias como Candoso (S. Martinho), Fermentões, Gondar, Pevidém ou Ronfe, entre outras. Clubes como o Clube Recreativo de Candoso (CRC), o Núcleo de Atletismo das Taipas, a JUNI, o GD Unidos do Cano, o VSC e mais recentemente o Team El Comandante, são neste momento as 136
grandes referências da modalidade com um número muito significativo de praticantes. A nível individual, atletas vimaranenses como os gémeos Domingos e Dionísio Castro, Aurora Cunha e Dulce Félix, alcançaram, nas últimas décadas, níveis de excelência na modalidade. Relativamente a outras modalidades, destaque para o voleibol que, na década 60, assumia já alguma relevância em Guimarães, sendo importante mencionar o CAR e o DFH, a apresentarem não só equipas masculinas, mas também equipas femininas, o que foi um marco considerável no panorama desportivo vimaranense. Outros clubes se seguiram na criação de equipas de voleibol, dando sequência ao legado Ciclismo – Marcelo Lopes - WWW.acm.pt na modalidade ainda bem visível na atualidade. Também por esta altura, no andebol, CAR, DFH e VSC integravam o primeiro campeonato distrital organizado pela Associação de Desportos de Braga, dando expressão à modalidade no concelho. Alguns anos depois nasce o CCR Fermentões, que ainda hoje mantém bem viva a sua atividade, nomeadamente nos escalões de formação e, mais recentemente, o CD Xico Andebol, (fundando em 2009), que veio ocupar o espaço deixando pelo DFH, mantendo robusta a prática da modalidade em Guimarães. O basquetebol também desponta na década 60 através dos mesmos clubes, embora sem a consolidação verificada no andebol e no voleibol. Só na década 90 ganha nova força com o nascimento do Juventude Basquete de Guimarães, dedicado exclusivamente à prática feminina e o Basquetebol Clube de Guimarães, com prática masculina. Ambos os clubes são extintos entre 2004 e 2005, passando a sua atividade a Voleibol - VSC ser integrada na secção de basquetebol do VSC. Foi igualmente na década 90 que o futsal, inicialmente restrito à prática informal em torneios, ainda 137
com a denominação de “futebol de salão”, cresce e cimenta-se em Guimarães, coincidindo com a integração da modalidade na Federação Portuguesa de Futebol. Presentemente tem uma presença muito expressiva no contexto desportivo vimaranense, quer no masculino com clubes como CRC, Piratas de Creixomil, JUNI e ACR Lordelo, quer no feminino através da GTEAM Guimarães FC ou do ACRD Nespereira. Entre modalidades coletivas e individuais, a vila das Caldas das Taipas é desde há muitas décadas um dos motores da promoção da prática desportiva federada do concelho de Guimarães. Para além do futebol ou do ténis, por exemplo, é também aí que nasce na década 40 o primeiro ringue e o primeiro clube de hóquei em patins do concelho (Turismo Hóquei Clube das Taipas). O hóquei em patins, com uma história atribulada em Guimarães, é uma modalidade que apesar da diminuição progressiva de praticantes, ainda se mantém ativa no Centro de Atividades Recreativas Taipense (CART). Por outro lado, a patinagem artística no mesmo CART e ainda na Academia de Patinagem de Guimarães, é atualmente uma modalidade com forte expansão no concelho. É também nas Caldas das Taipas que modalidades como a natação, dão as primeiras “braçadas” durante a década 50. Só anos mais tarde, na década 80, com a construção da piscina da Unidade Vimaranense e da piscina dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, a natação chega ao centro urbano de Guimarães, onde atualmente através do VSC tem apresentado resultados de grande nível. O ténis segue as mesmas pisadas, dando a conhecer-se nas Taipas na década 60 e, depois, chegando à cidade, na década 70, com a fundação do Clube de Ténis de Guimarães. Ainda no ténis, já no século XXI, a abertura do Open Village Sports veio dar maior dimensão à modalidade. Hoje em dia, as irmãs Matilde e Francisca Jorge, e João Sousa, são como sabemos nomes incontornáveis do ténis nacional. A história do desporto federado em Guimarães não se esgota por aqui, sendo importante evidenciar uma forte tradição nos desportos motorizados, nomeadamente no automobilismo, onde a Rampa da Penha se apresenta desde há quase 100 anos uma das mais emblemáticas provas da região, celebrizando figuras como António Rodrigues, entre outras. Também no rali e no motociclismo, Guimarães apresenta pergaminhos no desporto motorizado, com o Motor Clube de Guimarães a assumir-se como o grande dinamizador da modalidade. Com várias décadas de história e com uma presença que ainda se mantém nos dias de hoje é indispensável mencionar o ténis de mesa e o xadrez. O ténis de mesa tem o seu período alto entre as décadas de 50 e 60, quando a modalidade era praticada em mais de uma dezena de clubes, sendo que ainda hoje se mantém em atividade no VSC e no Clube de Ténis de Mesa das Taipas. Já o xadrez é lançado no concelho pelo Grupo de Xadrez de Guimarães, na década 50, popularizando-se a partir daí. A modalidade mantém expressão 138
atualmente com prática em clubes como o Clube de Xadrez da EB 23 João de Meira, ou CX Afonsino ou o VSC. Mais recentemente, o século XXI viu nascer em Guimarães novas modalidades e clubes que rapidamente se afirmaram e ocuparam um espaço relevante na prática desportiva do concelho. São exemplos disso, o Pólo aquático, que não só tem crescido em número de praticantes, como também se tem afirmado a nível nacional, sendo a equipa do VSC atual campeã da I divisão, o râguebi, através do GRUFC, com atletas e equipas de todas as idades, ou a ginástica que, com a criação do Guimagym, consolidou a modalidade no concelho ao nível da prática desportiva federada, mas, também da prática desportiva informal. Temos ainda, o rope skipping, cujo clube sediado nas Taipas, “Os Molinhas”, tem formado, nos últimos 10 anos, diversos campeões europeus e mundiais. As artes marciais nas suas diversas variantes (boxe, jiu-jitsu, judo karaté, kempo, kickboxing, muaythai e taekwondo), merecem também uma referência especial. Não só têm uma presença assinalável em Guimarães, no que se refere ao número de praticantes, como trouxeram para a ribalta do desporto nacional nomes como Alberto Costa, Flávia Ribeiro, Rui Bragança e Ulisses Dias. A AJKP, ARCAP, Associação KTF, Casa do Povo de Ronfe, Escola Judo para Todos e o VSC são alguns dos clubes que se destacam na promoção destas modalidades. Referência ainda ao desporto adaptado federado onde a CERCIGUI e APCG continuam a realizar um trabalho notável no âmbito da promoção da prática desportiva para pessoas com deficiência. Se é possível fazer uma leitura geral sobre o fenómeno desportivo em Guimarães recorrendo à consulta de livros e jornais, e mais recentemente às “memórias digitais”, para se traçar um quadro mais detalhado e rigoroso do mesmo, tal só é conseguido com a elaboração de estudos periódicos. Desta forma, o Centro de Estudos do Desporto de Guimarães, unidade de investigação da Tempo Livre, recorrendo aos dados disponibilizados por federações, associações regionais e clubes, elabora, desde a época 2017/18, o relatório anual sobre a prática federada em Guimarães. Observando esses dados é interessante verificar que, embora algumas tendências de prática desportiva federada se mantêm, outras são profundamente alteradas num período de tempo relativamente curto. Em primeiro lugar, é particularmente relevante registar que, em Guimarães, existem atualmente 38 modalidades com prática federada e que o número de praticantes cresce desde 2017/18 de forma regular e sustentada. A exceção foi naturalmente a época desportiva 2020/21 fortemente afetada pela pandemia Covid-19. São, neste momento, 8.808 os praticantes federados no concelho de Guimarães, o que se traduz num
139
crescimento global de 21,02%, em apenas cinco épocas desportivas.8 Seguindo as tendências observadas a nível nacional nas mais diversas modalidades, 9 é especialmente significativo o crescimento de praticantes do género feminino. Em 2022, temos mais 606 praticantes femininos do que em 2017, representando um crescimento de 70,14%. Ainda assim continua a observar-se, em Guimarães, uma diferença considerável entre a prática masculina (81,82%) e a prática feminina (18,18%). Estes números também divergem da média nacional, onde a prática feminina é de 27,9%. A desigualdade no acesso à prática desportiva baseada no género reflete décadas de domínio masculino na sociedade onde a mulher esteve quase sempre remetida para tarefas sociais e domésticas. A promoção da Igualdade de Género no desporto deve ser, por isso, cada vez mais uma prioridade na definição de políticas desportivas e Guimarães não pode ficar indiferente a elas.10 Em relação às modalidades mais praticadas, o futebol continua a demonstrar uma excecional dimensão agregando quase 50% dos praticantes federados do concelho de Guimarães. Em 2022, eram 3.804 os praticantes de futebol, provenientes de mais de 30 clubes vimaranenses, o que representa um recorde na modalidade. Esta grandeza nos números do futebol converge com a perceção que temos de que a modalidade, em Guimarães, tem um impacto e um mediatismo incomparavelmente superior a qualquer outra. Já em comparação com os números nacionais, há uma desproporcionalidade evidente, pois, a essa escala “só” um em cada três praticantes está inscrito na Federação Portuguesa de Futebol (incluindo futsal e futebol de praia).11 No que se refere às outras modalidades, observamos que, nos últimos 5 anos, para além do futebol, apenas o ciclismo (419 praticantes), o futsal (370), o andebol (305) e o voleibol (216) se mantêm ininterruptamente no lote das dez modalidades mais praticadas em Guimarães, confirmando a estabilidade das mesmas. Completam este grupo das dez modalidades mais praticadas o ténis com 342 praticantes, o karaté (305), o atletismo (246), o tiro (215) e a ginástica (208). Segue-se ainda, com mais de 200 praticantes, o basquetebol (206) e o judo e o padel, cada qual com 201. Analisando este período de tempo, é possível observar oscilações significativas em algumas modalidades. Destaca-se a ginástica, com um crescimento exponencial de praticantes (+940%), o judo (+336%) e o 8 CEDG: “Praticantes federados no concelho de Guimarães – 2021/22” em: https://docs.tempolivre.pt/wl/?id=0ieIoAi-
fmH3vWJsk1iWcjTxNSWSwHSWr 9 Diário de Notícias: “Dar Prémios iguais a mulheres e homens ao serviço das seleções” (7-2-2023) em: https://www.dn.pt/desporto/darpremios-iguais-a-mulheres-e-homens-ao-servico-das-selecoes-15798372.html 10 Grupo de trabalho para políticas públicas em matérias de igualdade no desporto (2023): https://www.portugal.gov.pt/download-ficheiros/ficheiro.aspx?v=%3d%3dBQAAAB%2bLCAAAAAAABAAzNDa1sAAAehLApQUAAAA%3d 11 PORDATA / IPDJ (última atualização a 2-2-2022): https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&contecto=pi&indOcorrCod=0001122&selTab=tab0&xlang=pt
140
atletismo (+121%). O ténis (+78%), o tiro (+52%), o futsal (+38%) e o padel (+37%) também tiveram aumentos significativos de praticantes durante estes 5 anos. Em sentido contrário, modalidades como o golfe (-68%), o râguebi (-42%), o hóquei em patins (-62%) e a natação (-28%) viram o número de praticantes diminuir consideravelmente. Importa ainda registar, neste quadro, modalidades que neste momento têm uma prática muito reduzida no concelho de Guimarães: orientação com apenas um praticante federado, boccia (2), boxe, motociclismo e triatlo (3), pesca desportiva (9), golfe (10), bilhar (11), capoeira (12) e taekwondo (14) e aquelas modalidades que viram a sua atividade terminar, como o campismo e montanhismo, a esgrima e a natação sincronizada. Regressando à realidade feminina, observam-se mudanças relevantes nas tendências de prática desde 2017/18, onde o voleibol, patinagem, karatê e ciclismo se encontravam no topo das preferências. Cinco anos depois, para além do voleibol, são a ginástica, o futebol e o andebol que reúnem maior número de praticantes femininos no concelho de Guimarães. Demonstra-se, assim, que está desfeito por completo o tabu relativo à prática de futebol ou futsal pelas mulheres, e que esse trabalho de promoção da igualdade de género no desporto deve ser feito noutras modalidades, onde a prática feminina é inexistente ou residual: automobilismo, bilhar, boxe, capoeira, golfe, hóquei em patins, motociclismo, orientação, pesca desportiva, petanca, Pólo aquático, râguebi, taekwondo, ténis de mesa, tiro com armas de caça, triatlo e xadrez. Uma nota final e extremamente importante para a análise por escalão etário, onde se verifica uma diminuição progressiva no número de praticantes nos escalões de formação, desde os Sub-10/11 até ao escalão de juniores, sendo, em sentido contrário, nos escalões de seniores e veteranos que o número de praticantes tem subido. O futuro das próximas gerações pode estar seriamente comprometido se não se conseguir atrair e motivar os jovens para a prática desportiva. Mais importante do que formar atletas de elite, é ter um nível de participação desportiva elevado em todas as faixas etárias. E se o trabalho for bem feito, os campeões nascem naturalmente!
141
A importância do desporto informal em Guimarães Pedro Ferreira Coordenador dos Serviços Desportivos da Tempo Livre
No ano em que se assinala o 10º aniversário da Guimarães CED, é interessante aferir qual foi o impacto que esta iniciativa teve no panorama local. Tendo sido a Tempo Livre o grande braço operacional desta iniciativa, e tendo os Serviços Desportivos da Tempo Livre a seu cargo a área dos eventos relacionados com o “Desporto para Todos”, o legado foi imenso, e a marca continua a perdurar, não só em vários projetos que nasceram nessa altura, mas também na lógica de atuação deste departamento. Atualmente, os Serviços Desportivos da Tempo Livre desenvolvem vários projetos de âmbito comunitário, que visam o incremento da prática desportiva e a adoção de estilos de vida saudável. De forma gradativa, estes serviços têm uma ação transversal que se direciona para as várias faixas etárias da população. Assentes numa filosofia que pretende adequar a resposta, em função dos indicadores e das necessidades da população, no que à prática de atividade física diz respeito, os Serviços Desportivos desenvolvem um conjunto de projetos que vão sendo reajustados e enriquecidos, numa lógica de combate ao sedentarismo e à iliteracia motora. Neste particular, a designação de Guimarães como Cidade Europeia do Desporto em 2013 veio funcionar como veículo acelerador de muitas ideias e de muitos projetos que ainda vigoram e que foram, e são, impulsionadores da prática desportiva. Na sequência do impulso originado pela realização da Guimarães CED 2013, os Serviços Desportivos começaram a refletir sobre a intervenção direcionada para as crianças mais novas, em especial as que se integram no escalão etário compreendido entre os 3 e os 5 anos. Nesse âmbito, os Serviços Desportivos começaram por organizar as Miniolimpíadas, projeto esse que estaria, anos mais tarde, parcialmente na génese do Projeto Miúdos Ativos, que se iniciou em 2021 e que está em plena fase de consolidação. 142
Este projeto visa proporcionar aulas de atividade física, dinamizadas nas instituições aderentes, a organização de ações de sensibilização direcionadas para os agentes educativos e a promoção de ações de experimentação das várias modalidades desportivas. Este projeto, que conta com a adesão de sete instituições do concelho de Guimarães, e envolve um universo de 500 crianças, com idades compreendidas entre os 3 e os 5 anos de idade, surgiu na sequência da necessidade, cada vez mais premente, sentida pelas instituições de ensino de proporcionarem às crianças momentos potenciadores e estimuladores do desenvolvimento psicomotor. Atenta a essa necessidade, a Tempo Livre desenhou este projeto que, para além de levar uma equipa de profissionais qualificados às instituições de ensino, procura sensibilizar a comunidade para a importância que a prática regular de atividade física assume no desenvolvimento integral das crianças Numa sociedade dominada pelas ferramentas digitais, em que as crianças são sujeitas a um elevado número de atividades orientadas, e onde escasseiam os momentos e os espaços para o livre movimento e para o desenvolvimento psicomotor, este projeto assume um papel de especial relevância e está em clara e natural expansão. A organização da CED 2013 trouxe a debate a questão da obesidade infantil e da crescente sedentarização das crianças, provocando a discussão e uma reflexão profunda sobre projetos que pudessem contrariar esta tendência e que pudessem ser desenvolvidos nas escolas. Assim, no âmbito da coordenação das AEC/AAAF/CAF de AFD, os Serviços Desportivos da Tempo Livre acoplaram a estes projetos iniciativas distintivas e únicas no país, como os Recreios Ativos e o DESPORTO ESCOLAR, desenvolvidos em ampla parceria com a Câmara Municipal de Guimarães. O projeto Recreios Ativos consiste na criação, dentro do espaço escolar, de áreas de estímulo à atividade física, realizada de forma espontânea e não orientada. Este projeto surgiu com base numa análise conjunta, que permitiu concluir que os recreios das escolas não seriam desafiantes do ponto de vista motor, e que seria necessário incrementar ferramentas apelativas e com forte cariz lúdico, capazes de “arrastar” as crianças para a prática de exercício físico e para o movimento, indo de encontro às necessidades inerentes ao seu Recreios Activos, Tempo Livre 143
desenvolvimento pleno e integral. No ano letivo de 2021/2022, este projeto arrancou na EB de Santa Luzia, em forma de projeto-piloto e os resultados foram bastante animadores. Aferiu-se que os jogos criados no recreio das escolas, no âmbito deste projeto, funcionam como estímulo para que as crianças pratiquem exercício físico, de forma espontânea, lúdica e não orientada. Neste momento, o projeto está numa fase adiantada de implementação na EB do Salgueiral e na EB de Mascotelos, estando em estudo e análise a implementação noutras escolas do concelho. Por sua vez, o Desporto Escolar trata-se de um projeto desenvolvido numa lógica de incentivo aos valores da ética e do desportivismo, que culmina numa grande festa do desporto, com mais de 1.000 participantes, e com a envolvência das escolas, dos clubes e dos vários agentes educativos. Direcionado para as crianças que frequentam as escolas de 1º ciclo do concelho de Guimarães, o Desporto Escolar é desenvolvido numa primeira fase nas próprias escolas, no âmbito do Desporto Escolar, Tempo Livre desenvolvimento da área de Atividade Física e Desportiva, que está integrada nas Atividades de Enriquecimento Curricular. Desenvolvido desde 2016, este evento é organizado sob a égide de cinco mandamentos “Dou o Meu Melhor”, “Penso na Resposta para os Desafios”, “Respeito regras, juízes e adversários”, “Sou amigo dos meus colegas, mesmo quando falham” e “Tenho espírito de equipa”, pretendendo constituir-se, também, como uma forte e apelativa mensagem aos mais elementares valores do desporto. Em 2023, a final do Desporto Escolar será subordinada ao tema da Liberdade, e realizar-se-á no dia 25 de Abril, sendo parte integrante da programação municipal alusiva à efeméride, assim como do 10ª aniversário da Guimarães CED. Dentro desta faixa etária, os Serviços Desportivos da Tempo Livre desenvolvem ainda a Liga Neno, um torneio de futebol sem finalidade competitiva, destinado a crianças com idades compreendidas entre os 5 e os 9 anos, e que para além de prestar uma justa homenagem ao histórico atleta do Vitória SC, serve ainda de pretexto para a realização de várias iniciativas que visam a sensibilização para temáticas relevantes. 144
Esta iniciativa conta habitualmente com a participação de mais de 600 crianças, dos vários clubes do concelho, constituindo-se como uma verdadeira festa do desporto. No seguimento da realização da Guimarães CED 2013, foi identificada a necessidade de levar a atividade física às localidades mais periféricas do concelho. Este foi o pensamento que levou à criação dos Jogos da Comunidade, uma espécie de Jogos sem Fronteiras, levados a cabo por equipas, em representação das diversas Juntas de Freguesia, ou o Testemunho CED, que consistia em levar a bandeira CED a todas as freguesias, acompanhando essa cerimónia com a realização de ações de promoção da atividade física. Estes projetos deixaram de ter cabimento, na lógica de atuação dos Serviços Desportivos, mas ficou presente a necessidade de levar a atividade física às Juntas de Freguesia e às localidades mais periféricas do concelho. Nesse sentido, nasce mais tarde o Projeto A-GYM, desenvolvido nas várias Juntas de Freguesia do concelho de Guimarães, em horário pós-laboral, sendo constituído por aulas de ativiLiga NENO - Foto da Tempo Livre dade física e por iniciativas relacionadas com a adoção de estilos de vida saudável. Como consequência da realização da Guimarães CED 2013, tornou-se também evidente, que os seniores necessitariam de uma intervenção mais abrangente e qualificada nos anos que se seguiriam. Foi realizado um reforço do projeto Atividade Sénior, nascido em 2008, que viria, anos mais tarde, a dar lugar ao projeto Vida Feliz. Este projeto, direcionado para a população com mais de 55 anos, tem como missão, não só a promoção da prática desportiva, mas também, e de forma muito abrangente, a promoção de estados de satisfação e de felicidade. Apoiado numa equipa de profissionais qualificados, este projeto proporciona a 1300 participantes mais de 100 aulas semanais de atividade física, onde se incluem aulas de Dança, Ginástica, Walking Football e de Pilates, para além de um sem número de atividades pontuais, que promovem a convivialidade e a felicidade dos participantes
145
O legado da realização da CED Guimarães 2013 perdura nestes projetos, mas também está presente em todo o posicionamento e organização dos Serviços Desportivos da Tempo Livre, que desenvolvem ainda um conjunto significativo de iniciativas , onde se destacam o T-GYM (projeto de Ginástica Laboral), direcionado para o tecido empresarial do concelho, as Férias Desportivas de Verão, destinadas a proporcionar às crianças e jovens de concelho, a participação num programa constituído por atividades eminentemente desportivas, durante a interrupção letiva de Verão, e as Barriguinhas Desportistas, projeto direcionado para a promoção da saúde e da atividade física, no pré e pós parto. Em suma, decorridos dez anos, o lema da Guimarães CED 2013 continua atual e sempre presente no espírito de toda a equipa que compõe os Serviços Desportivos da Tempo Livre. Guimarães não para!
Projeto A-GYM, Tempo Livre
146
A procura desportiva em Guimarães – 2022 Dimas Pinto IEES - Fafe
O Instituto Europeu de Estudos Superiores – Portugal (IEES), em colaboração com a Câmara Municipal de Guimarães (CMG) e com apoio do Instituto Português da Juventude e Desporto (IPDJ), fez o estudo da participação desportiva dos adultos (maiores de 18 anos), em Guimarães, em 2022. Registar os motivos que levam à prática ou à não prática, conhecer os anseios da população relativamente a esta matéria, determinar as tendências de participação e procura desportiva num futuro próximo constitui o ponto fulcral deste estudo, uma vez que a sustentação da oferta desportiva implica um conhecimento profundo da procura. Tendo em conta estas premissas, constituiu objetivo deste estudo a Caracterização da Procura Desportiva do Concelho de Guimarães. Os dados analisados serão um instrumento determinante que permitirá que políticas e decisões para um Plano Estratégico de Desenvolvimento Desportivo sejam consistentes e se traduzam em projetos e programas que vão de encontro às necessidades e motivações da população. Assim, o questionário utilizado para este estudo foi dividido em diversas partes, segundo os temas abordados, e estruturado com perguntas fechadas e abertas por forma a abranger as distintas atitudes comportamentais da população a inquirir: Envolvência com atividades desportivas; caraterização da prática desportiva; caraterização da prática em período de confinamento covid-19; caraterização da inatividade desportiva; caraterização da potencial procura desportiva; notoriedade das instalações desportivas e participação em eventos desportivos; grau de satisfação com a oferta desportiva existente no concelho; caraterização sociodemográfica.
O procedimento de amostragem escolhido foi o de Quotas Proporcionais, tendo-se selecionado a Zona de Residência, Faixa Etária e Género do inquirido, como as variáveis diferenciadoras para a constituição dos estratos. O cenário considerado válido para a presente pesquisa foi o seguinte: O universo objeto do estudo é a população residente no Concelho de Guimarães com idade superior aos 18 anos. A informação disponível sobre o universo tem por base os censos da população, de 2011. O 147
estudo apresenta um Grau de confiança de 95%, erro amostral agregado de 3%, para uma amostra de 1282 indivíduos e uma população de 137. 262 habitantes (Indivíduos residentes no Concelho de Guimarães com idades superiores aos 18 anos). De seguida vamos apresentar os principais resultados desta investigação. A - Hábitos desportivos - procura desportiva no concelho de Guimarães - análise geral - população total Quando perguntamos ao vimaranense se ATUALMENTE PRATICA ALGUMA ATIVIDADE DESPORTIVA, as respostas mostraram que o Concelho de Guimarães apresenta 33% de participação desportiva, muito acima dos 23% que, de acordo com o Eurobarómetro do desporto Europeu publicado em 2022, praticam em Portugal. Dos 67% de vimaranenses que declararam nunca se exercitar ou praticar desporto, à pergunta: NO PASSADO, PRATICOU ALGUMA ATIVIDADE DESPORTIVA COM REGULARIDADE? Destes, 9% responderam, sim pratiquei e vou recomeçar. Por outro lado, 5% responderam não pratiquei, mas penso começar a praticar. O Concelho de Guimarães apresenta assim, 14% de potenciais praticantes. A maioria dos inquiridos considera satisfatória e até muito satisfatória a oferta de instalações desportivas no concelho. A maioria dos inquiridos (58% do total) não encontra problemas com a oferta de serviços desportivos por parte do município de Guimarães. Alguns que referiram problemas apresentaram com % pouco significativas, o custo, a pouca publicitação das instalações e a distância como alguns dos problemas. São uma maioria importante (65%) aqueles que concordam que a autarquia desenvolve programas adequados à sua população. Quando pretendemos conhecer a frequência com que os vimaranenses assistem a um evento desportivo, a maioria dos praticantes e potenciais praticantes afirmam assistir só ocasionalmente a espetáculos desportivos do concelho. Quando consideramos a população total, a maioria afirma assistir raramente a espetáculos desportivos do concelho. Quando consideramos a população total, a opinião dos inquiridos sobre as instalações do concelho reflete que as instalações são de fácil acesso, de qualidade, e em número suficiente. Quando apresentamos as áreas de desenvolvimento Desporto de Rendimento, Desporto para Todos, Desporto/Turismo e Desporto Escolar, a maioria dos inquiridos afirma que o Desporto e Turismo é a área de desenvolvimento desportivo mais importante para o concelho de Guimarães. 148
A maioria dos inquiridos (68,7%) não é sócio ou membro de um clube ou associação desportiva do concelho, dos que não são sócios a maioria dos inquiridos afirma não ser nada provável vir a pertencer a qualquer clube ou associação Tendo em conta as características do concelho de Guimarães, a maioria dos inquiridos considera que o futebol é a modalidade que deveria ser a aposta da autarquia. No gráfico ao lado, vemos o Top 5 das modalidades que a população acha que devem ser Futsal 16% uma aposta da autarquia. Ginástica
19%
Perante a questão: DIGA-ME PELO MENOS Atletismo 22% 2 INSTALAÇÕES DESPORTIVAS DO CONCELHO DE Natação 29% Guimarães QUE CONHECE. O Estádio D. Afonso Futebol 33% Henriques é a instalação mais conhecida no concelho pela população adulta de Guimarães. O TOP 5 das mais conhecidas – Somatório das respostas respondidas em 1º e 2º lugar pelos inquiridos, está representado no próximo gráfico.
Parque da Cidade - Câmara Municipal de Guimarães
7%
Pista de Atletismo Gémeos Castro - Câmara Municipal de Guimarães
8%
Academia Vitória SC - Vitória Sport Clube
10%
Pavilhão Multiusos - Câmara Municipal de Guimarães
11%
Estádio D. Afonso Henriques - Vitória Sport Clube
20%
O estudo mostra que a maioria dos inquiridos não sabe ou não conhece os eventos desportivos promovidos pela Autarquia. No gráfico seguinte estão apresentadas as respostas referentes ao conhecimento que os vimaranenses têm referente aos eventos promovidos pela autarquia. 149
Jogos das Comunidades
4%
Futebol Liga Mini/ Liga Neno
7%
Rally Cidade de Guimarães
2%
Eventos de Ginástica/ Sarau
2% 1%
Gala do Desporto Sarau de Dança e Fitness
2%
Festival Sénior/ Dança sénior
1%
Eventos Solidários
1%
Torneios de Futebol/ Futsal
8%
Meia Maratona
3%
Atividades Tempo Livre
2%
Caminhadas/ caminhadas solidárias
16%
Não sabe/ não conhece
35%
Quando questionados sobre que tipo de instalações propõe para o Concelho de Guimarães para fazer com que se torne um praticante mais regular de atividades físicas e desporto, as suas respostas foram: 13% Consideram não serem necessárias mais instalações; 6,1 %Propõem Piscinas Municipais; 5,9% Ginásios municipais e 5,7% o aumento do número de ciclovias Considerando a análise geral – população total, as principais conclusões são apresentadas na infografia que se segue:
C
C
E E
E P ATIC DE P
P ATIC DE P
T
E E T
T
33 45 296 habitantes
A PE
P ATICA DE P
A T
1 91 966 habitantes
19 217 habitantes
35
150
B – Hábitos desportivos - procura desportiva no concelho de Guimarães - análise dos praticantes Quando falamos exclusivamente de praticantes, 45 296 habitantes, temos como resposta predominante que a maioria é do género masculino, vive em Azurém e Creixomil e tem idade compreendida entre os 35 e os 44 anos. Apresentam como habilitação predominante o 12ºano e acima, pertencem essencialmente à classe média C2, mas também a C1 e A/B. O seu tipo de prática é regular (3 a 5 dias/semana) e espontânea (sem horário específico). Temos 13% que praticam de forma competitiva federada. Apresentam como principal motivo para a prática o divertimento. Na deslocação para o local de atividade a maioria dos vimaranenses partem da sua residência, vão de carro e fazem o percurso em menos de 10 minutos. Na infografia seguinte apresentamos as principais conclusões na análise dos praticantes desportivos em Guimarães:
C
C
E
P ATICA TE ATI IDADE F ICA AI P ATICADA
H
2
0 P EFE E P ATICA DE P T E P TA EA E TE
2 T
P P I CIPA TI DA P TICA DI E TI E T
D TE
E P ATICA TE 3 A A
I
0 CA I HADA
0
3
DE PE DE E T E 1 A2H A E ATI IDADE DE P TI A
P ATICA 3 A E E P E A A
ATI IDADE DE I
33
0
P ATICA TE
A TA DI HEI PA A P ATICA ATI IDADE F ICA
55
B.1 - Hábitos desportivos - procura desportiva no concelho de Guimarães - análise dos praticantes durante o confinamento Estudamos também o comportamento do praticante desportivo durante o confinamento, neste bloco a que chamamos COVID 19, verificamos que praticaram menos desporto (43%), o fizeram com alguma regularidade, pelo menos duas vezes por semana, o local predominante de prática foi o ar livre e 60% admitem que voltarão aos níveis de prática anteriores ao confinamento.
151
C - Hábitos desportivos - procura desportiva no concelho de Guimarães - análise dos não praticantes Quando analisámos os não praticantes de Guimarães, 91 966 habitantes, verificamos que a maioria é do sexo feminino, tem idade compreendida entre os 45 e os 54 anos, residem predominantemente em Creixomil, Oliveira, São Paio e São Sebastião (Guimarães). Apresentam habilitações académicas de 12.º ano e abaixo e pertencem às Classes sociais D (Classe baixa) e C2 (classe média baixa ´respetivamente com 20 e 19%). Na infografia seguinte apresentamos as principais conclusões referentes aos não praticantes desportivos de Guimarães:
C
C
E
P ATICA TE
3
HE E
3
P ATICA P FA TA DE TE P
3
1 TI
A A E TE A I TE A E PET C DE P TI TE
P ATICA TE
P ATICA P DE A DE
22 E T E A
E
64
D - Hábitos desportivos - procura desportiva no concelho de Guimarães - análise dos potenciais praticantes Analisando os potenciais praticantes, 19 217 Habitantes, o estudo mostrou-nos um grupo de vimaranenses do género feminino, 73%, com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos e a maioria residindo nas freguesias mais urbanas, em Creixomil, 10%, com habilitações académicas de 12.º ano e acima e da Classe C2 e acima. E 60% procuram uma prática desportiva espontânea (sem horário específico).
152
Resumimos as principais conclusões referentes aos potenciais praticantes na infografia que se segue:
C
C
E
P TE CIAI P ATICA TE
3
22
HE E
2
0 P ETE DE P ATICA DE P T E P TA EA E TE
0
PE A P ATICA E E C CI F IC 2 A3 E E P E A A
1
1
P ETE DE DE PE DE AT 1 H A E ATI IDADE DE P TI A
P ATICA 3 A E E P E A A
E H A A PET F IC APA CIA
P TE CIAI P ATICA TE TE 2 A 3 A
13
ATI IDADE F ICA AI P ETE DIDA
1
ATI IDADE DE I
I
1
P TE CIAI P ATICA TE
ATA 77
Ficaram aqui alguns dos principais resultados desta investigação que o Instituto Europeu de Estudos Superiores – Portugal (IEES), em colaboração com a Câmara Municipal de Guimarães (CMG) e com apoio do Instituto Português da Juventude e Desporto (IPDJ), concretizou sobre a participação desportiva dos adultos (maiores de 18 anos), em Guimarães, em 2022. Em breve será publicado o estudo na sua totalidade.
153
Os Espaços de prática desportiva em Guimarães José Fidalgo Martins Diretor do Centro de Estudos do Desporto da Tempo Livre
Em Guimarães, numa visão vanguardista, projetaram-se no início do século XXI diversas instalações que vieram revolucionar o panorama desportivo vimaranense. Fazendo a comparação com a Carta Desportiva Concelhia elaborada no ano 2000 é possível registar a enorme evolução a este nível, possibilitando à população de Guimarães e dos concelhos limítrofes ter uma oferta desportiva cada vez mais diversificada. Como é sabido, a prática de atividade desportiva está dependente da existência ou não de espaços desportivos adequados e do grau de acessibilidade aos mesmos por parte dos possíveis praticantes. Ao espaço desportivo poder-lhe-á assim ser conferido o título de “facilitador” ou, pelo contrário, poderá ser considerado um “inibidor”, quando o indivíduo encontra barreiras que não lhe permitam aceder às instalações desportivas. Esta é mesmo uma das principais razões apontadas para a não prática de atividade física e desportiva, segundo Marivoet (2001).12 Do ponto de vista do planeamento e implementação das políticas municipais de promoção do desporto é, por isso, fundamental, ter o conhecimento profundo do território, nomeadamente o tipo de instalações, recintos e espaços desportivos existentes e a forma como se relaciona o espaço público e privado. A prática desportiva poderá assumir um carácter formal (desporto federado) ou informal (desporto recreativo). É também possível agrupar as instalações desportivas de acordo com a respetiva dimensão e as atividades aí praticadas, de acordo com o Decreto-Lei n.º 141/2009, de 16 de junho que estabelece o regime jurídico das instalações desportivas.13 De forma simplificada, podemos dividir em: - Instalações de base recreativas, destinadas a atividades desportivas com caráter informal no âmbito das práticas recreativas, de manutenção e de lazer ativo. São exemplos, os pátios, minicampos, espaços e percursos permanentes ao ar livre ou piscinas com carácter recreativo;
12 Marivoet, S., (2001). Hábitos Desportivos da população portuguesa. Instituto Nacional de Formação e Estudos do Desporto. Lisboa. 13 Decreto-Lei n.º 141/2009, de 16 de junho, disponível em: https://dre.pt/dre/detalhe/decreto-lei/141-2009-494551
154
- Instalações de base formativas, destinadas à educação desportiva de base e atividades desportivas especializadas, ao aperfeiçoamento e treino desportivo. São exemplos, pistas de atletismo, os grandes campos de jogos de futebol ou râguebi, pavilhões desportivos, campos de ténis ou piscinas de aprendizagem; - Instalações desportivas especializadas, concebidas e organizadas para a prática de atividades desportivas monodisciplinares, em resultado da sua específica adaptação para a correspondente modalidade. São exemplos, piscinas olímpicas, instalações de prática equestre, de tiro e campos de golfe; - Instalações desportivas especiais para o espetáculo desportivo são instalações permanentes, concebidas e vocacionadas para acolher a realização de competições desportivas de alto nível e com existência de condições para receber público e albergar a comunicação social.
Regressando à realidade do concelho de Guimarães, é possível fazer uma análise em termos quantitativos, com referência ao número de instalações construídas nos últimos 20 anos, mas, fundamentalmente é pertinente fazermos a análise qualitativa, de acordo com as características e adequação dos novos espaços que surgiram ou que foram remodelados. Destaque, naturalmente, durante este período, para o nascimento de instalações estruturantes para a prática de novas modalidades ou para a realização de eventos desportivos de grande dimensão, de carácter nacional ou internacional. A Cidade Desportiva de Guimarães é, neste contexto, o grande projeto municipal que vem dotar o concelho de instalaCidade Desportiva de Guimarães ções de excelência, com as mais diversas tipologias e dirigidas aos vários tipos de prática (recreativa, formativa e especializada) e também ao espetáculo desportivo. Nasce, assim, primeiro o Multiusos de Guimarães, inaugurado em 2001, e pouco depois, o Complexo de Piscinas e a Pista de Atletismo Gémeos Castro (em 2002). Como elemento agregador dos espaços desportivos formais e especializados, é também criado o Parque da Cidade Desportiva, vocacionado para a prática de atividade física e desportiva de carácter recreativo e informal. Este conjunto de instalações vem, assim, 155
mudar o paradigma da oferta e dos hábitos de prática desportiva de Guimarães. É, neste contexto, que modalidades como a natação, o pólo aquático ou o atletismo, nomeadamente as disciplinas praticadas em pista, como os saltos, lançamentos ou corrida de velocidade, dão um salto significativo no seu desenvolvimento. Mais tarde, também o râguebi nasce e tem o seu espaço na Pista de Atletismo, que integra um campo relvado. Já o Multiusos de Guimarães, pelas suas características e dimensões, esteve sempre mais vocacionado para os grandes espetáculos desportivos, estando preparado para receber qualquer modalidade de pavilhão. Ainda assim, o denominado Pavilhão de Aquecimento, da mesma instalação, recebe regularmente treinos de equipas federadas de basquetebol e voleibol e ainda grupos informais de futsal. Por volta do ano 2000, os campos de futebol eram as instalações desportivas mais comuns em Guimarães, o que era bem demonstrativo da implementação do “desporto-rei” no concelho. Na altura, contabilizavam-se 58 campos de futebol distribuídos por 46 freguesias (considerando o número de 68 freguesias da anterior organização administrativa). Passados 20 anos, não é o número de campos de futebol que é relevante aferir, mas sim a qualidade dos mesmos. Se em 2000 se contabilizavam apenas 11 campos relvados e 47 campos de terra, vulgo pelados, hoje, a esmagadora maioria dos campos ou são de relva natural ou de relva sintética. Em alguns casos, os clubes dispõem mesmo de mais do que um campo de relva e/ou sintético. Esta revolução nas instalações dos clubes de futebol veio não só proporcionar melhores condições às equipas seniores, mas também foi um fator altamente preponderante no desenvolvimento dos escalões de formação. Os pavilhões desportivos também cresceram significativamente nos últimos anos, em grande parte devido à construção de novas escolas do 2.º e 3.º ciclo no concelho de Guimarães, como é exemplo, a EB 23 de Abação, em 2006. Também nas Caldas das Taipas, a construção das novas escolas (EB23 e Secundária) dotaram a freguesia de novos e modernos pavilhões, substituindo os anteriores já bastante degradados. Neste período, desaparece o Pavilhão da Escola da Veiga, que, no entanto, deu lugar ao pavilhão da Escola Santos Simões, inaugurado, em 2005. Referência ainda para o novo pavilhão da EB23 Fernando Távora, que abriu portas, em 2012, e que, para além de ser utilizado em contexto escolar, também é um espaço de excelência para a prática de andebol. Regista-se ainda a construção do Pavilhão da Universidade do Minho, em 2002, que tem servido não só os estudantes da instituição, mas também os clubes vimaranenses, e do Pavilhão do CART, um sonho antigo da coletividade, em 2005, onde é praticado o hóquei em patins, a patinagem artística e o voleibol. Em 2020, o CR Candoso inaugura as novas bancadas e camarotes, fechando um conjunto de renovações no seu pavilhão, que permite ao clube disputar o principal campeonato de futsal. Também o Pavilhão Almor Vaz – Inatel, um dos históricos pavilhões da cidade, que inclusivamente já foi palco de um 156
campeonato do mundo de andebol, recebeu várias obras de requalificação, as últimas em 2020, continua com grande atividade. Em sentido contrário, o pavilhão da Coelima, degradou-se consideravelmente nos últimos anos. Relativamente à construção de piscinas, a política desportiva municipal procurou, nos últimos anos, não só aumentar, mas principalmente descentralizar a oferta destes espaços. Se primeiro nasceu o Complexo de Piscinas de Guimarães, na freguesia de Candoso, próximo do centro urbano, poucos anos depois surgiram as Piscinas de Brito (2004) e, de seguida, as Piscinas de Pavilhão do INATEL Airão S. João (2010) e as Piscinas de Moreira de Cónegos (2012). Desta forma, foi possível cobrir uma área significativa do território do concelho e tornar mais acessível aos cidadãos estes equipamentos desportivos. Também o Scorpio, inaugurado em 2003, embora mais direcionado para o lazer em período veranil, veio acrescentar a oferta este nível. Há 20 anos as piscinas de referência do concelho de Guimarães, no que toca à prática desportiva formal, eram a Piscina dos Bombeiros Voluntários das Caldas das Taipas, que ainda se encontra em funcionamento, e a Piscina dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, que atualmente está encerrada, aguardando obras de reabilitação do espaço. A nível recreativo é possível destacar as Piscinas da JUNI, na freguesia de Costa, as Piscinas das Taipas Termal e as Piscinas do Clube Paraíso, em Selho de S. Jorge. Todas elas ativas até aos dias de hoje. Para além das piscinas, outros equipamentos desportivos podem ser Complexo de Piscinas de Guimarães 157
enquadrados como equipamentos de base formativa ou especializados, nomeadamente, o Campo de Tiro, os Campos de Golfe, os Complexos de Ténis e os Centros Equestres. O Campo de Tiro do Clube Industrial de Pevidém foi inaugurado em 1974, tornando-se no grande palco da prática de tiro, no concelho de Guimarães. Esta instalação veio consolidar a prática de uma modalidade centenária no concelho de Guimarães e integra diversas estruturas complementares. Relativamente aos Complexos de Ténis, em 2000, eram apenas dois (Clube de Ténis de Guimarães e Clube de Ténis das Taipas), representando em conjunto um total de 10 courts. Hoje em dia temos mais três instalações com courts de ténis, dos quais se destaca o Open Village Sports, localizado na freguesia de Mesão Frio. Uma estrutura criada de raiz com excelentes condições, especializada para a prática e desenvolvimento do ténis. Também em Guardizela e em Pevidém existem courts de ténis abertos ao público, inseridos noutras instalações desportivas. No que toca aos Campos de Golfe, Guimarães possui, neste momento, um campo em Guardizela, inaugurado em 2013, que permite a realização de prática desportiva recreativa e formal. O Campo de Golfe de Guardizela disponibiliza aos praticantes 15 Greens, 6 deles para Golfe, e 9 para Pitch & Putt. Para além deste campo, e numa perpsetiva meramente recreativa, regista-se o Campo de Mini-Golfe da Penha. A Universidade do Minho chegou também a ter, nas suas instalações, um campo de práticas de golfe, mas, entretanto, foi desativado. Ainda relativamente a instalações desportivas especializadas, podemos referenciar os Centros Equestres. Há 20 anos Guimarães tinha quatro centros em atividade. Neste momento estão apenas dois em funcionamento: o Centro Hípico da Pena Brava, fundando em 2014, que está localizado em Abação, e o Centro Equestre Loureiro Velho na freguesia de Fermentões. A estes complexos desportivos especializados podemos acrescentar o surgimento em massa de Campos de Padel na cidade de Guimarães, que permitem não só uma prática desportiva informal, mas também o desenvolvimento da modalidade ao nível federado. O crescimento do número de praticantes de padel confirma o sucesso da modalidade, para o qual contribuiu, e muito, a criação de novas instalações desportivas. De carácter mais informal e direcionado para a prática recreativa temos os ringues e os pátios, distribuídos um pouco por todo o concelho. Estes espaços, preferencialmente utilizados para futebol/futsal, podem também ser utilizados para basquetebol, andebol ou voleibol, entre outras modalidades. A sua localização é muito diversa, podendo estar integrada em parques de lazer, urbanizações, ou simplesmente espaços públicos das freguesias. Podem ser geridos pelo Município, por Juntas de Freguesias ou até por coletividades desportivas. Assumem-se em alguns casos como instalações próprias, noutros estão integrados em parque de lazer ou no seio de urbanizações. Em 2000, existiam 37 ringues no concelho de Guimarães e seis pátios 158
(estando prestes a serem inaugurados outros quatro). Neste momento, o número não é muito diferente. O que é importante destacar relativamente a estes equipamentos é a necessidade de conservação dos espaços e as condições de praticabilidade em segurança. Ainda sobre instalações de carácter recreativo, os parques de lazer revelam-se, cada vez mais, como espaços de excelência para a prática desportiva e de atividade física. Não só agregam espaços específicos direcionados para modalidades coletivas, como também estão concebidos para a evolução livre, prática de caminhada e corridas, uso de patins, uso de bicicletas ou exercícios de manutenção. Em Guimarães, as últimas duas décadas têm sido pródigas no nascimento de parques de lazer, proporcionando assim múltiplas oportunidades de prática de atividade física e desporto aos cidadãos. Nos últimos 20 anos, foram, pelo menos 30, os parques que foram construídos ou recuperados em Guimarães. Ao nível de espaços e equipamentos desportivos, os mais comuns são os circuitos e as máquinas de manutenção, existentes na maioria dos parques. Realce-se, nestes espaços, alguns equipamentos que permitem práticas de modalidades alternativas, como por exemplo, as instalações de Street Work-Out, existentes em sete parques do concelho e que mobilizam muitos praticantes. Temos ainda dois skates parques (Parque da Cidade e Parque de Lazer da Vila de Brito), campo de râguebi, campo de voleibol de praia e pista de trial bike (Parque da Cidade Desportiva), campo de futebol de praia (Parque de Lazer de Lordelo) e dois campos de petanca (Parques de Lazer das Taipas e de Moreira de Cónegos). É ainda, no Parque Desportivo de Souto Santa Maria, que está localizado o Centro de Ciclismo do Minho, integrando um Circuito de BTT-XCO, que é utilizado para provas desportivas federadas. Este espaço de referência foi inaugurado em 2017. Relativamente a instalações inseridas no contexto escolar, para além dos pavilhões já mencionados e que são de utilização diversa, incluindo prática federada, o polidesportivo é o espaço mais comum, sendo presença em todas as escolas básicas do 2.º e 3.º ciclo e escolas secundárias, e ainda em algumas do 1.º ciclo, nomeadamente nos novos centros escolares. Estes espaços assumem diversas configurações e permitem a prática de muitas modalidades desportivas no âmbito das Atividades de Enriquecimento Curricular, no caso das escolas do 1.º Ciclo, ou da disciplina de Educação Física nas EB23 e Secundárias. A nota mais saliente para estes equipamentos é o facto de não ser permitida a sua utilização aos fins de semana. Uma eventual abertura destes espaços à comunidade, como acontece em alguns países europeus, poderia aumentar significativamente a oferta de espaços desportivos no concelho de Guimarães. Referência ainda ao setor privado e à “explosão” na abertura de ginásios e estúdios de treino verificados na última década, na cidade de Guimarães. É inclusivamente difícil acompanhar o ritmo de abertura destes espaços, que estão a corresponder a uma procura intensa por parte dos praticantes de atividades de ginásio. Por fim, destaque-se duas recentes e fortes apostas do Município de Guimarães, que têm contribuído 159
para a transformação dos hábitos de prática desportiva. Por um lado, a Academia de Ginástica e por outro a Ecovia de Guimarães. A Academia de Ginástica, inaugurada em 2017, é um equipamento inovador e estruturante para a promoção da prática desportiva em Guimarães, permitindo a prática de ginástica, nas suas mais diversas especialidades (ginástica artística, ginástica acrobática e ginástica rítmica), entre outras variantes. Evidencia-se pelo facto de ser um edifício exemplar ao nível da sustentabilidade e da eficiência energética. A Ecovia de Guimarães, cuja primeira fase foi inaugurada em 2018, une a Pista de Cicloturismo, ao centro urbano Guimarães, tendo continuidade através do Parque da Cidade, fazendo depois ligação ao Parque da Cidade Desportiva e à Veiga de Creixomil, numa extensão de 16,5 km. A 2.ª fase, contempla a implementação de uma Rede de Percursos Cicláveis no centro da cidade, num total de 24 km. Pretende-se, assim, promover a prática desportiva ciclável e a mobi-
Zint - Ecovia – TL.jpg
Academia de Ginástica
lidade sustentável. Numa visão ecológica e de exploração dos espaços circundantes ao rio ave, está também a nascer a Ecovia do Ave, que ligará 14 freguesias de Guimarães num percurso de 34 km. Guimarães, com boas e diversificados espaços e instalações desportivas, projeta-se, assim, para um futuro mais sustentável e com maiores índices de prática de atividade física e desporto!
160
OS NOSSOS CAMPEÕES No desporto todos somos campeões. Porém alguns campeões destacam-se dos demais pelo seu exemplo, porfia e conquistas. É desses que atingem os pódios e nos fazem vibrar, que aqui evocamos, nas várias frentes e modalidades. Campeões, momentos gloriosos e testemunhos que fazem do desporto, quer competitivo quer amador, uma escola de vida…
Os Nossos Campeões Vasco Rodrigues
I - Uma cidade virada para o desporto Na passagem da década de “Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013”, o sentimento de que a cidade é algo mais do que futebol perpassa em nós. Será indesmentível que as modalidades coletivas desempenharão o papel mais relevante nos corações dos vimaranenses, com o futebol e o Vitória à cabeça. Porém, a verdade é que, para além das ditas equipas, existirão nos limites do nosso concelho inúmero campeões, que se destacaram e se afirmaram no panorama nacional, mas também, internacional, principalmente a partir da década de 50 do século passado. Eram os tempos das primeiras provas automobilísticas da Rampa da Penha, das primeiras passagens da Volta a Portugal pela cidade, do aparecimento dos primeiros courts de ténis que permitiriam ao surgimento 161
de ídolos em modalidades diversas do futebol. Seria, também, pelo aparecimento de diversas infraestruturas ligadas ao desporto, como pavilhões, ginásios, pistas ou piscinas que se potenciaria o surgimento de campeões nas mais diversas modalidades. Temos a certeza que gostarão de nos acompanhar nesta viagem revivalista destinada a recordar alguns daqueles que nos fizeram vibrar com os seus feitos e, como diria o poeta, “E aqueles que por obras valerosas/ Se vão da lei da morte libertando”. II – CICLISMO - a primeira modalidade a apaixonar os vimaranenses Comecemos, pois, esta nossa retrospetiva por uma das modalidades mais antigas da história do desporto e, já aqui, mencionada: o ciclismo que, para além das primeiras passagens e chegadas à cidade, teve a I Volta a Guimarães, disputada em 1942, tendo sido vencida por Fernando Baptista, natural da freguesia de Ronfe. Porém, seria na década de 60, após a criação da equipa da Coelima, que a modalidade conheceria êxito superlativo no nosso concelho. Assim, Serafim Dias haveria de, em 1968, vencer o Nacional de Perseguição, para José Florêncio conquistar o último lugar do pódio na Volta a Portugal de 1970. A década seguinte traria consigo, provavelmente, o maior nome vimaranense na história da modalidade: Manuel Abreu. Natural de Gondar e, subitamente falecido em 1996, com apenas 34 anos, durante um treino, ainda conseguiu ser campeão nacional de rampa em 1983 e em 1988 e vencer o Prémio da Montanha no ano seguinte na Volta a Portugal. Em 1995, um ano antes de desaparecer, sagrar-se-ia campeão nacional de estrada. O seu último triunfo seria no Grande Prémio do Minho de 1996. Seu contemporâneo, o seu irmão Joaquim Sampaio haveria de vencer um Grande Prémio do Minho e triunfado na geral absoluta da Volta ao Alentejo de 1987. Nesta lista de campeões, não poderia faltar o nome de Joaquim Salgado que, entre vários resultados de realce, foi campeão nacional de estrada em 1990, vencendo, ainda, a Volta ao Alentejo em 1987 e o Grande Prémio do Minho em 1989. Mais próximo dos nossos dias, destaque para as prestações de José Mendes. O corredor que, atualmente, corre pela Aviludo/Louletano sagrou-se por duas vezes campeão nacional de estrada, mais especificamente nos anos de 2016 e de 2019. Mas não só na especialidade de estrada, os ciclistas vimaranenses têm-se destacado. Assim, David Martins venceu o ouro nos Campeonatos Mundiais Universitários de 2018, ficando a medalha de bronze para João Pereira. No sector feminino, Marta Branco e Ilda Pereira têm conquistado vários títulos nacionais e internacionais, chegando a última a figurar no top ten mundial. 162
III – ATLETISMO – a medalha olímpica do nosso contentamento (entre muitos outros títulos) Façamos, agora, alusão, aos campeões vimaranenses de atletismo, uma modalidade que já no longínquo ano de 1914 tinha provas disputadas na cidade, organizadas pelo Reitor do Liceu. Contudo, o primeiro nome da nossa cidade, a destacar-se na modalidade, só surgiria na década de 50 desse século. Falamos de José Herlander Freitas, que em 1951, triunfou na prova de 100 metros no escalão de juniores. Porém, quase até ao início da década de 80, os resultados na modalidade seriam de pouca monta, sendo, por essa altura, que em Ronfe, proveniente de um grupo de treinos orientado por António Oliveira, surgiria um dos maiores nomes da história da modalidade em Portugal: Aurora Cunha. Nascida em 1959, seria campeã mundial de estrada por três anos consecutivos (1984,1985 e 1986), vencedora da Taça do Mundo em 10000 metros, triunfando, ainda, em diversas maratonas como as de Paris, Tóquio, Chicago ou de Roterdão. Para além de Aurora, destaque para Domingos e Dionísio Castro, os inesquecíveis gémeos. Nascidos em 1963, levariam longe o nome da cidade e do país, ainda com algum infortúnio pelo meio. O primeiro seria vice-campeão do mundo de 5000 metros em 1987, para perder, sob a meta, uma medalha nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, na distância de 5000 metros. Para além disso venceria 14 títulos nacionais. Quanto a DioGémeos Castro, in Desporto em Guimarães, p. 94 nísio, conquistaria um quarto posto no Europeu 163
de 5000 metros em 1990, sagrando-se por duas vezes campeão nacional. Tornar-se-iam tão importantes no panorama desportivo concelhio, mas também nacional, que haveriam de merecer a honra do estádio da Cidade Desportivo ser batizado como Campo da Pista Irmãos Gémeos Castro. Já em pleno século XXI, surgiria o nome de Dulce Félix. Nascida em 1982, em São Martinho do Conde, tocaria o céu em 2012, quando, em 2012, sagrou-se campeã europeia de 2012, em Helsínquia. Haveria, ainda, de luzir duas outras medalhas europeias ao peito: a de bronze nos Europeus de Corta-Mato de 2010 e a de prata na mesma especialidade no ano seguinte. O seu último grande título foi o campeonato nacional de cortamato de 2019. Porém, uma das maiores honras da história do desporto vimaranense, surgiria noutra forma de atletismo, o adaptado. Manuel Freitas Mendes, o atleta amputado que corre maratonas, para além de Dulce Félix, in Desporto em Guimarães, p. 96 muitos títulos nacionais e internacionais, haveria de entrar na eternidade em 2016, quando no Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, conquistou uma medalha de bronze. A confirmar esse histórico resultado, na prova paralímpica subsequente, em Pequim, em 2021 (por causa da pandemia) teria direito a diploma olímpico, graças ao seu brilhante oitavo posto. Falemos, agora, de um verdadeiro Super-Homem. Vítor Rodrigues tem sido o grande impulsionador das ultramaratonas, vencendo várias provas no país e no estrangeiro, tendo em 2020 batido o record de maior distância percorrida em 24 horas, que foi de 251,2 quilómetros. Também nas piscinas, Guimarães tem sabido combinar o coletivo com o individual. Ora, se a equipa de polo aquático do Vitória é tricampeã nacional, vencido Taças e Supertaças, participado e ultrapassado fases na Liga dos Campeões da modalidade, também a título individual, na natação, a nossa cidade tem atletas capazes de a orgulhar.
164
IV – NATAÇÃO – a formação dá campeões A despoletar tal sentimento, teremos de enunciar a construção da Piscina da Unidade Vimaranense, a primeira com dimensão olímpica no Norte de Portugal, seguidas pelas Piscinas dos Bombeiros, para, mais recentemente, serem erigidas as Piscinas do Pavilhão Multiusos. O primeiro nome a merecer destaque pelos seus feitos foi Albino Gonçalves, o primeiro nadador vimaranense a ser medalhado. Corria o ano de 1989 e conquistaria a medalha de bronze nos 400 metros do Campeonato Regional de Inverno Séniores. Porém, as novas infraestruturas começariam a fazer surgir diversos campeões. A primeira a destacar-se seria Marisa Freitas, vencedora de inúmeros títulos nacionais, capaz de bater diversos records nacionais e, como prova dessa excelência, selecionada para competir nos Europeus de junioMárcia Freitas, in Desporto em Guimarães, p.101 res de 2001, onde na especialidade de 200 metros estilos, obteria um honroso 14º posto. Já, após a extinção da secção de natação dos Bombeiros, que seria integrada no ecletismo do Vitória, seria a irmã de Marisa, Márcia Freitas, a dar nas vistas. Também seria capaz de obter diversos títulos nacionais, batendo o record nacional de 4 x 200 metros estilos, em representação da seleção do Norte de Portugal. Todavia, por essa altura, outros nomes destacavam-se. Daniela Pinto, que acalentava o sonho de participar nos Jogos Olímpicos, faria história ao classificar-se no sexto posto nos 25 quilómetros de Daniela Pinto, in Desporto em Guimarães, p.100 águas abertas em Eliat, em Israel, naquela que foi a melhor classificação de sempre de uma nadadora portuguesa em águas abertas. Por sua vez, Ana Félix seria tricampeã nacional nos 800 metros livres, na categoria de juvenil. 165
Falemos, agora, de dois dos maiores expoentes da modalidade no Berço da Nação: os irmãos Costa, Rui e João. Rui Costa seria capaz de sagrar-se campeão nacional nos 400 e 1500 metros livres em 2004, para na temporada de 2005/06 vencer oito títulos nacionais (4 títulos de campeão de Inverno e outros tantos de Verão) e em 2006/07 subir ao lugar mais alto do pódio nacional por cinco vezes. João Costa, por sua vez, tem brilhado ao estabelecer diversos records regionais e nacionais absolutos, bem como obtido uma série de títulos nacionais na disciplina de 100 metros costas, onde atualmente é recordista nacional absoluto. Fruto desse destaque participou no Campeonato da Europa de natação em Budapeste Rui Costa, in Desporto em Guimarães, p.102 em 2021. O nadador foi, recentemente, o único português a participar nos Mundiais de piscina curta, onde teve uma honrosa participação. Entretanto, o nadador vitoriano João Costa bateu o recorde dos 100 metros costas, com 53,71 segundos, na primeira eliminatória de Fukuoca, no japão, conseguindo os mínimos para os Jogos Olímpicos, em Paris. V – TIRO, os campeões que não cessam de surgir Façamos alusão, agora ao tiro, muito impulsionado pela fundação em 1933 do Grémio Industrial de Pevidém, que mais tarde seria o Clube Industrial de Pevidém. Tal potenciaria o aparecimento de verdadeiros talentos da modalidade, como José Marques Rodrigues, campeão nacional de tiro ao voo em 1949 e europeu em 1954, sendo parte integrante da seleção nacional portuguesa que foi campeã mundial da especialidade em 1957. Alguns anos depois, mais especificamente nos anos 70 do século XX, destacar-se-ia Eduardo Jordão, capaz de ser campeão nacional por duas vezes e Campeão do Mundo em 1971 numa 166
Eduardo Jordão, in Desporto em Guimarães, p.112
competição que teve lugar em Itália, em Milão. Já após a inauguração das atuais instalações do Clube Industrial e exponenciado por estas, surgiriam nomes como José Júlio Batalha (vencedor da Taça de Portugal em 1985 e 1992, Campeão de Portugal e do Mundo por seleções em 1986), Ricardo Queirós (vencedor da Taça do Mundo de Juniores e do Mundial de Fosso Universal em 1993). Porém, falando da modalidade que mais títulos trouxe para Guimarães, teremos de citar nomes que conquistaram títulos nacionais, europeus e mundiais como os de José Varela, Pedro Leite Pereira, Marino Machado, Ricardo André Vale, Manuel Vieira da Silva (que representou Portugal nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008) e de Daniel Teixeira. VI – TÉNIS – os melhores dos melhores... A nossa viagem, agora, levar-nos-á até ao ténis, uma modalidade que no concelho vimaranense abraça, neste momento três epicentros: primeiro no court de Turismo das Taipas, depois na tradicional Feijoeira e, por fim, em Mesão Frio. Os primeiros destaques surgiriam no início da década de 70 com Rogério Coutinho e o seu filho Luís Miguel Coutinho a darem cartas, com este último a conseguir triunfar no campeonato nacional de terceiras categorias. Outro nome, que mereceria destaque no virar do século seria o do antigo futebolista do Vitória, Ferreira da Costa, que seria por diversas vezes campeão nacional de Veteranos a título individual. Estes dois nomes forjariam os campeões do século XXI que entraram diretamente na história do ténis mundial. Desde logo, João Sousa. Nascido em João Sousa, in Desporto em Guimarães, p. 123 1989, o Conquistador, assim conhecido pela sua paixão pelo Vitória, é o melhor jogador português da história da modalidade, tendo tido como ranking mais alto o 28º posto mundial, ocupando desde 2013 sempre lugares entre os 100 melhores jogadores mundiais. Além disso, é o único jogador português a ter conseguido vencer torneios ATP: em Kuala Lumpur, 167
Valência, Estoril e, mais recentemente, em Pune. Como jogos memoráveis, teremos de lembrar o extraordinário triunfo frente ao espanhol David Ferrer, na altura, quarto posicionado no ranking, ou quando disputou os oitavos de final do torneio de Wimbledon frente ao lendário Rafael Nadal, sendo o primeiro português a chegar a esse patamar do torneio. Mas, se o melhor jogador português masculino é vimaranense, também no feminino a excelência provem do Berço da Nação. Com efeito, as irmãs Francisca Jorge e Matilde Jorge são porta-estandartes da modalidade na atualidade, merecendo todos os elogios e aplausos dos apaixonados da modalidade. Francisca, nascida em 2000, encontra-se a bater à porta das cem melhores joIrmãs Francisca e Matilde Jorge, in Mais Guimarães 04.01.2023 gadoras mundiais. Já foi capaz de vencer 4 torneios ITF, uma espécie de segundo escalão das competições tenísticas e 17 em pares, muitos deles ao lado da sua irmã Matilde. Esta, nascida em 2004, teve como ranking mais alto o número 134 no escalão júnior, augurando-se-lhe um futuro bastante promissor, sendo já a terceira melhor jogadora portuguesa da atualidade. Entretanto, Francisca Jorge participou, em julho, no Torneio da Figueira da Foz, tendo atingido as meias finais da competição. VII – TAEKWONDO – o olímpico que roçou a medalha O taekwondo, também, foi capaz de forjar campeões. Desde logo, Rui Bragança que participou nos Jogos Olímpicos de 2016, disputados no Rio de Janeiro, onde foi capaz de conquistar um meritório nono posto. Mas, o lutador, também, seria capaz de vencer diversos torneios internacionais como em Zagreb, ser campeão europeu da modalidade, ser medalha de ouro dos Jogos Europeus e tornar-se campeão europeu universitário, bem como várias medalhas nos quatro cantos do mundo. VIII – LUTA – GLÓRIA NOS QUATRO CANTOS DO MUNDO Nas modalidades de luta, como o kickboxing e o boxe, mereceram destaque os nomes de António Sousa, Fernando Zenga, Nuno Mendes, Diana Rosa, que treinados pelo Mestre Alberto Costa, conseguiram 168
conquistar títulos nacionais, mas também europeus e mundiais, sendo, inclusivamente, a modalidade capaz de preencher com maior abundância o museu do Vitória. Enumeremos os títulos destes campeões que levam o nome do Vitória, emblema que representam, aos quatro cantos do mundo. Assim, até hoje a secção conquistou 214 títulos nacionais individuais nas modalidade de Kickboxing e Muaythai, 363 títulos regionais individuais Kickboxing e Muaythai,7 títulos por equipas de campeã nacional kickboxing e Muaythai,um título equipa vencedora da taça de Portugal de Kickboxing , 44 títulos equipa campeã regional kickboxing, 6 títulos Mundiais de Kickboxing da World Association Kickboxing Organization, 1 título Mundial de Kickboxing da Internacional Sport Kickboxing Association, 1 título intercontinental de Kickboxing da World Association Kickboxing Organization, 2 títulos europeus de Kickboxing da World Association Kickboxing Organization, 1 medalha de prata no mundial Kickboxing da World Association Kickboxing Organization, uma medalha prata no europeu Kickboxing da World Association Kickboxing Organization 3 medalhas Bronze em europeus Kickboxing da World Association Kickboxing Organization. O último título, digno de nota, seria de Nuno Mendes que venceria o ISKA World Campionships de Kickboxing na categoria de +91 kgs, numa prova disputada na Turquia. No jiu-jitsu, realce para as prestações de Ulisses Dias, o verdadeiro percursor da modalidade. Além de se ter dedicado ao ensino, foi capaz de ser duas vezes campeão europeu da modalidade em 2015 em Roma e em 2016 em Lisboa, bem como duas vezes classificar-se no segundo posto do torneio nos anos subsequentes. Além disso, conseguiria ainda conquistar uma medalha de bronze no Mundial World-Pro de 2017 em Abud Dhabi. Por fim, o boxe olímpico, onde já foram ganhos 6 títulos nacionais individuais Boxe, 15 títulos regionais individuais, 1 título de campeão nacional por equipas e dois títulos por equipas de campeão regionais, graças aos desempenhos de Francisco Oliveira, Nuno Mendes e José Lima. IX – MMA – uma nova modalidade que leva vimaranenses além fronteiras... Nas Mixed Martial Arts, uma modalidade que vai florescendo e onde se misturam diversos estilos de luta, o nome de afael “The achine” ilva tem de ser destacado. O lutador vimaranense, nascido em 1978, conseguiria em 58 combates triunfar em 40, destacando-se nas provas de World Ultimate Full Contact.
169
-
Formado na escola de Rafael, Pedro “The ame” Carvalho haveria de conseguir chegar ao topo da modalidade. Depois de ter-se estreado com 17 anos na modalidade com resultados acima da média, em 2017, rumaria a Dublin para treinar com os melhores da modalidade, como Connor Mc Gregory. Quase de imediato, seria a estrela de um evento denominado de Legacy Fighting Championship, ao bater o russo Ibragim Kantaev. Tal seria o facto que lhe abriria as portas do topo, leia-se o convite para integrar o Bellator, a organização concorrente do UFC, a principal organizadora de eventos da modalidade. Neste tem-se batido a preceito, ocupando o terceiro posto do ranking de pesos plumas, depois de vencer diversos combates. MMA - Rafael The Machine Silva (Caricatura de João Soares)
X – TRIATLO O triatlo, também, tem sido um Berço de Campeões. Desde logo, Pedro Barreira, atleta vitoriano que se sagrou em 2022 Campeão Nacional de Triatlo Longo. Além disso, destaque para o segundo posto obtido no Estrela Extreme Triathlon. No feminino, também, há uma campeã proveniente da Cidade onde Nasceu Portugal. Apesar de correr com as cores do Boavista, Rita Maria Lopes, natural das Caldas das Taipas, tem sido uma das porta-estandartes vimaranenses. Assim, já se sagrou campeã nacional de duatlo cross na sua faixa etária de 25/29 anos, bem como vice-campeã ibérica. Além disso, já conseguiu apurar-se para participar nos Campeonatos do Mundo da modalidade em 2018, após triunfar no Half Iron-Man de Cascais. No triatlo triunfou em diversas competições, como o Campeonato do Norte e Campeonatos Nacionais. Rita tem como inspiração o seu pai João Carlos Lopes, também ele, campeão nacional, mas no escalão de 50/54 anos. 170
XI – 4 RODAS... Falemos, agora, das quatro rodas, uma verdadeira paixão para muitos vimaranenses. Assim, desde a realização da primeira edição da Rampa da Penha, ocorrida em Outubro de 1930, sendo vencido por Eduardo Ferreirinha. Depois de algumas intermitências, em 1984 a prova passaria a ser disputada todos os anos, destacando-se o vimaranense António Rodrigues, capaz de vencer a prova por 14 vezes. Venceria, também, o Campeonato Nacional de Velocidade, Grupo Turismo. Juntamente com ele, os seus irmãos Carlos Rodrigues, Manuel Rodrigues e Paulo Rodrigues, sobressaindo este último que venceu o Campeonato Nacional de Velocidade, Grupo Turismo em 1991, bem como a Rampa da Penha em 1999. Além destes, destaque para Armindo Araújo, que apesar de ser natural de Santo Maria Germano Neto, in www.jn.pt/desporto, 1.01.2023 Tirso, reside em Guimarães, tendo conquistado por duas vezes Campeão Mundial de Ralis no Grupo Produção em 2009 e 2010, para além de inúmeros títulos nacionais. Os últimos anos trouxe-nos o nome de Pedro Meireles, campeão nacional de rali em 2014, e um dos maiores valores da modalidade do nosso país. Porém, os últimos a destacarem-se com o volante nas mãos, seriam dois jovens. Assim, Luís Alves, que já triunfou em campeonatos e taças de Portugal de Karting e Maria Germano Neto que se tornou em 2019 campeã nacional de cadetes, sendo a segunda menina a vencer uma corrida da modalidade. Além disso, foi a primeira portuguesa a triunfar numa prova disputada em Espanha e a primeira menina a vencer outra em Itália. Atendendo à conquista desses títulos, seria seleccionada para o FIA Girls on Track – Rising Stars, prova que haveria de vencer a categoria júnior com, apenas, 11 anos. Por essa razão, seria seleccionada para disputar uma temporada com o apoio da Ferrari Driver Academy.
171
XII – XADREZ Desde meados do passado século que se joga xadrez em Guimarães, tendo tal prática tido um grande impulso com a criação do Grupo de Xadrez de Guimarães. Quase logo de seguida, o Desportivo Francisco de Holanda haveria de abraçar a modalidade. Os primeiros praticantes a destacarem-se seriam Fernando Xavier, Santos Pinto e João Sepúlveda que se sagrariam campeões do Norte, com este último a disputar um torneio para apurar os praticantes que disputariam as Olimpíadas do Xadrez em Telavive. Com o passar dos anos, a prática da modalidade seria incrementada pelo CAR – Círculo de Arte e Recreio, destacandose Francisco Macedo bicampeão distrital de juvenis e de juniores. O novo século traria um outro clube, os Amiguinhos do Museu Alberto Sampaio, que faria reluzir o talento de Ana Meireles, oito vezes campeã nacional no escalão etário em que competia e que fruto dessa excelência representou a seleção nacional por diversas vezes. Provenientes da mesma equipa, os irmãos Henrique Castro e Francisco Castro triunfaram em diversos campeoAna Meireles, in Desporto em Guimarães, p.131 natos distritais. Nos últimos anos, fruto de um protocolo com o CAR, o Vitória reforçaria o seu ecletismo com o xadrez. Na sua equipa, daria nas vistas, Pedro Gil, que se tornou aos 16 anos no mais jovem mestre xadrezista português e o décimo quarto da história da modalidade. Apesar da sua juventude, já ocupa o décimo segundo posto do ranking nacional. XIII – OS ESPORTS... uma nova realidade, um grande campeão O advento da tecnologia trouxe-nos uma realidade até, agora, desconhecido: os desportos virtuais, jogados através de uma consola e com um comando nas mãos. Guimarães conseguiu no seu seio gerar um dos mais campeões da modalidade, projetando-se, mesmo, a nível internacional. Falamos de icardo “Fox” Pacheco, que depois de ter-se deparado com a realidade dos ciberjogos, tornar-se-ia num dos mais especialistas do mundo num jogo chamado Counter-Strike. Evoluiria tanto que se 172
tornou o único português a conseguir participar numa prova Major, o topo da modalidade. Fá-lo-ia por seis vezes, conseguindo mesmo chegar às meias finais num destes eventos, projetando-se entre os melhores do mundo na sua prática. XIV – JUDO ADAPTADO As modalidades adaptadas, sob a camisola da Cercigui, também têm dado inúmeros títulos a Guimarães, uma verdadeira cidade do desporto. Assim, mencionemos o nome de Paulo Jorge Lemos que foi capaz de se sagrar campeão europeu por duas vezes bem como campeão do mundo na categoria afeta a atletas com Síndrome de Down numa competição disputada nas Caldas das Taipas. Além deste, Susana Sampaio em +78 kgs e Patrícia Oliveira conseguiram igual feito, merecendo reconhecido destaque. Quanto a provas europeias, nos Euro TriGames, um evento disputado em Ferrara, Itália, em 2021, e onde Paulo Lemos subiu ao lugar mais alto do pódio, Carlos Diogo Alves, também, sagrou-se campeão europeu no escalão referente a atletas com menos de 100 quilos. Para além destes, Elisabete e Carlos Manuel subiram ao pódio para receberem as medalhas de prata e bronze, respetivamente. Mais uma vez para que estes grandes feitos se tornassem possíveis, o mestre Mário Emídio Oliveira desempenhou papel preponderante, visto ser o selecionador nacional de judo adaptado. Guimarães, uma verdadeira cidade do desporto... e de campeões!
173
A taça é nossa – pela 1.ª vez! Joaquim Azevedo
Há 10 anos, o Vitória Sport Clube venceria a Taça de Portugal em futebol, numa espécie de (re)conquista épica de Lisboa.
De facto, como cereja em cima do bolo, a organização do Guimarães – Cidade Europeia do Desporto 2013 seria brindada com a conquista da Taça de Portugal de futebol por parte do Vitória Sport Clube, o que constitui um feito do clube e da cidade digna dos maiores encómios. Com efeito, em 26 de maio de 2013, na disputa da 73.ª edição da Taça de Portugal, disputada no Estádio Nacional do Jamor, o Vitória comandado pelo treinador Rui Vitória venceria o troféu, ao derrotar, na final, o Benfica por 2-1, liderado pelo treinador Jorge Jesus, com golos de Gaitán pelos benfiquistas, aos 30 minutos e de Soudani e Ricardo Pereira por parte dos vitorianos, respetivamente aos 79 e 81 minutos da segunda parte.
Euforia da Equipa do VSC
Uma reviravolta e uma vitória à Vitória, cujos heróis seriam recebidos euforicamente na cidade e posteriormente na Câmara Municipal de Guimarães, presidida por António Magalhães. De mãos dadas com os vitorianos
174
Efetivamente, não obstante os problemas financeiros e o recurso a alguns jovens jogadores provenientes da equipa B, o Vitória galvanizar-se-ia nesta final, da qual foram protagonistas: Douglas, Kanú, El Adoua, Paulo Oliveira e Addy; Leonel Olimpo, André e Tiago Rodrigues; Ricardo, Soudani e Baldé. Heróis aos quais se juntariam Marco Matias que substituiria Kanú aos 64 minutos, Crivellaro que ocuparia o posto de Leonel Olimpo aos 77 minutos e N’Diaye substituto de Baldé, aos 92 minutos. Paralelamente, uma temporada que além do sucesso desportivo se traduziria ainda no êxito económico e financeiro, com as transferências de Ricardo e Tiago Rodrigues para o Porto, a saída de Soudani para o Dínamo de Zabreg, Baldé para os escoceses do Celtic e El Adoua para o Levante espanhol.
Momentos únicos da equipa vitoriana
175
Entrevista ao tenista e conquistador João Sousa Equipa Redatorial
JOÃO Pedro Coelho Marinho de SOUSA (JS) nasceu em Guimarães a 30 de março de 1989, filho do juiz e tenista amador autodidata Armando Marinho de Sousa e da bancária Adelaide Sousa. Com raízes em Celorico de Basto, João de Sousa é um tenista consagrado a nível nacional e internacional, que compete no ATP World Tour desde julho de 2013, já se contam 10 anos. De facto, considerado o melhor tenista português, conhecido pela alcunha de Conquistador, JS começou cedo a apaixonar-se pela modalidade, paixão que reparte pela leitura, cinema, convívio com os amigos e o futebol, que, conjuntamente com a medicina, bem poderiam ter sido as suas alternativas de vida. No futebol, como é óbvio, é adepto e sócio do Vitória Sport Clube, os conquistadores branquinhos. Mas, para além do ténis, JS é também um poliglota exímio, falando fluentemente espanhol, catalão, Inglês, francês e italiJoão Sousa triunfante ano. Fomos ouvir o nosso campeão neste ano em que o atleta faz 10 anos de profissional e perpassa uma década de Guimarães, Cidade Europeia do Desporto 2013. - João, fale-nos um pouco sobre os seus inícios e sonhos de menino e moço. Como surgiu e cresceu o “bichinho” do ténis e que motivações, incentivos e apoios contribuíram para singrar na modalidade e atingir a excelência? A minha paixão pelo ténis nasceu através do meu pai que desde pequeno acompanhava ao Clube de Ténis de Guimarães, quando ele ia jogar com os amigos. 176
Na altura e no final dos jogos, era costume o meu pai jogar comigo e foi a partir daí que esta paixão surgiu. Depois, a partir dos sete anos, meus pais decidiram inscrever-me nas escolas do Clube de Ténis de Guimarães e foi aí que comecei a dar os primeiros passos para um dia ser profissional de ténis. Deste modo, para além da minha motivação pessoal, porque gostava de jogar ténis, acresce ainda a minha família, nomeadamente o meu pai que esteve por detrás dessa motivação. De facto, foi também graças aos muitos esforços da minha família que foi possível seguir o sonho João Sousa com os Pais (Armando e Adelaide Sousa) de ser profissional de ténis. Logo, a minha motivação surgiu da minha paixão e da minha família. - Qual o adversário mais difícil que defrontou? Bem, o adversário mais difícil que defrontei foi o Djokovic. É um tenista que quando está bem não tem pontos fracos e, portanto, é difícil de vencer. - Acha que o Torneio do Estoril simbolizou a consagração do maior jogador português de sempre? É claro que o título do Estoril constitui o auge da minha carreira. É um torneio especial para mim e para os portugueses e ter sido o primeiro português a conquistá-lo é um motivo de orgulho. Mas, na minha perspetiva, não quer dizer muito, não obstante e também não querer dizer pouco! Portanto, se nos critérios das pessoas eu sou o melhor tenista português, sinceramente não dou ao 177
assunto grande importância. - João, aos 33 anos, que projetos e objetivos ainda tem e mantém no ténis? Ainda é possível uma gracinha num Grand Slam? Bom, é claro que existem objetivos todos os anos, em especial numa época que começa. Pessoalmente sinto-me motivado para fazer uma boa época e obter bons resultados. Mas, só o tempo e o trabalho o dirão. De facto, tenho vindo a trabalhar bem, pelo que espero o melhor e ter alguma sorte, que também faz falta! Ademais, estar livre de lesões que é aquilo que mais espero. - Como foi jogar em Guimarães, em 2013? Foi o momento mais especial da carreira? Sim, obviamente jogar e competir em Guimarães é sempre especial, perante a minha família e amigos. João Sousa, acompanhado pelos pais e pelo irmão, no Torneio do Estoril Foi um torneio do qual se fez apenas uma edição e que consegui vencer. Portanto foi um torneio que ficou na memória, em particular pelo facto de jogar em casa e ter o público a favor, bem como as pessoas que mais gosto presentes na bancada. - Como surgiu a decisão de ir para Barcelona e arriscar tudo no ténis? Em 2004, quando decidi, conjuntamente com os meus pais e irmão, ir para Barcelona, foi porque cá não existiam condições necessárias para poder ser profissional de ténis. Na verdade, e na altura, não era fácil, pois não havia conhecimentos e infraestruturas para o profissionalismo. Atualmente, já é um bocadinho diferente. Mas foi uma opção que ponderamos e achamos correta, porque hoje em dia recolho frutos desse investimento e do esforço que eu e os meus pais fizemos. - Falemos do primeiro título ATP, numa verdadeira batalha. Que momentos guarda desse dia? Bom, o meu primeiro título ATP é muito especial porque envolve muitas recordações dessa semana e desses encontros. Com efeito, contra todas as expectativas consegui vencer esse torneio numa final em que 178
estive por baixo e consegui dar a volta a um encontro incrível da minha parte. Como é óbvio, fica o orgulho por aquilo que consegui alcançar, mas depois vieram mais alguns triunfos … Porém, o primeiro é sempre muito especial. Portanto fica sempre na memória … - Depois disso, surgiram muitos torneios. Ainda júnior, quando sentiu que houve o “clique” para chegar onde chegou? Bom, qualquer jogador de ténis ambiciosa ser “top” mundial e esse é o seu primeiro objetivo. Portanto, quando em 2007 ganhei o meu primeiro torneio ATP foi a altura em que realmente acreditei – aliás sempre acreditei – que podia ser profissional de ténis. Essa vitória deu-me motivação acrescida para continuar a querer ser profissional e a querer melhorar como jogador, para tentar ser profissional em plenitude.
179
180
GUIMARÃES – UMA CIDADE SEMPRE EM CONSTRUÇÃO Inserir separador
181
Guimarães – Uma cidade sempre em construção 1953 foi um ano de grandes comemorações em Guimarães. Perpassavam, na altura, 100 anos que a rainha D. Maria II elevara Guimarães de vila a cidade, em 1853, e celebrava-se o Milénio do Burgo Vimaranense, documentado pelo célebre Cartulário conhecido por Livro de Mumadona. Relembrar esses tempos de antanho e as comemorações subsequentes, dos quais ficou como memorial o Monumento da Vitória, implantado no Toural (agora colocado junto à Escola Secundária Francisco de Holanda) e o Café Milenário, são a tónica historicista dos nossos atuais cronistas. Mas também Guimarães enquanto território diferenciador e cidade livre e aberta. Registamos ainda com júbilo e orgulho novas conquistas recentes, que constroem a cidade com novas dinâmicas e sinergias. Falamos, como é óbvio, do alargamento à Zona da Couros do estatuto de Património Mundial da Humanidade, recentemente declarada pela UNESCO, que muito nos ensoberbece e responsabiliza.
182
Contributo para a Identidade Vimaranense no século XIX Alberto Lameiras
A identidade de uma região não é uma construção extratemporal, não é um dado objetivo que se perpetua ao longo de gerações. A identidade é um processo dinâmico que se cria e recria em cada geração, influenciada indubitavelmente pelas gerações anteriores, tendo sempre presente a influência e a reação que se opera ao longo da história de cada geração. A abordagem ao fundamento histórico da identidade colocou alguns desafios, nem sempre alcançados de forma cabal, que estiveram presentes ao longo deste exercício. Um dos desafios foi encontrar permanências que contribuem para a formação da consciência de um "nós", caracterizadoras do ethos vimaranense; outro, o de encontrar características diferenciais, até ao século xix, que permitam concebê-las como realidades culturais distintas. Cada região é um ser único, a resultante de combinações complexas que se não repetem integralmente noutro lugar. Certos traços de relevo, certa tonalidade de clima, certa fisionomia da vegetação, aproximam lugares distantes, fazem lembrar paisagens já vistas, mas a evolução humana tudo alterou, ou transpondo estruturas agrárias e estilos de povoamento para outros ambientes físicos (às vezes semelhantes, nunca, porém, idênticos) ou acrescentando a estas analogias naturais uma expressão que a desfigura. A região como síntese entre o homem e o meio tem, em Portugal, percursores de grande projeção, como Orlando Ribeiro, para quem a região se apresenta como "um espaço harmónico, dotado de personalidade, que provém de um longo ajustamento das gerações ao ambiente que elas em grande parte modelaram. Assim concebida, uma região não é qualquer espaço terrestre. Umas vezes será a natureza que as define; na maioria delas é, porém, o homem que, tomando esta matéria plástica, lhe dá figura e expressão. A região é também um produto da História ou da técnica”. (Ribeiro, 1986:38)
As condições naturais são um dos fatores que melhor contribuem para encontrar as raízes da identidade dos vimaranenses, dado que têm exercido grande influência nas formas de organização do trabalho, nas atividades predominantes, nos padrões de cultura, nas tradições... A região de Guimarães localiza-se num espaço definido por vales escavados pelos rios ave e Vizela e amplamente irrigada pelos rios Selho e Couros, adotando este várias designações de acordo com o lugar por onde corre. Esta riqueza hidrográfica é 183
alimentada, ao longo do ano, por períodos longos de chuva, disponibilizando abundância de água de fontes e ribeiras, que, “se as Câmaras tivessem prestado merecidas atenções a este ramo de utilidade pública, elas teriam encontrado bem perto – na serra da Penha e de Santa Catarina – torrentes inesgotáveis, que podiam alimentar uma fonte em cada uma das nossas habitações” (Caldas, 1996:137).
A importância da água e as condições do solo constituído pela decomposição da rocha granítica, proporcionando solos férteis e de grande produtividade, determinaram, em grande medida, as formas de povoamento e formas de exploração da terra, reafirmada por Alberto Sampaio (1885, 212 ): “A abundância de água não exerce menos influência na distribuição da população rural (...) só nos países graníticos com grande abundância de fontes é que os cultivadores se podem dispersar por toda a superfície e edificar as suas casa perto dos terrenos que cultivam”.
É destas condições naturais que propiciam uma agricultura intensiva de elevada produtividade, condição essencial ao sustento da população, onde reside, em grande medida, a elevada densidade populacional, quando comparada com os valores nacionais. Em 1801, a comarca de Guimarães registava 110 habitantes por quilómetro quadrado, a mais elevada do Minho, e três vezes superior à média do reino, que se cifrava em 32,8 hab/km2, de acordo com o estudo de Fernando Sousa, (1979:339). Na verdade, a região de Guimarães, e de um modo geral toda a região do Minho, com condições naturais semelhantes, observam-se taxas de fertilidade mais elevadas que no resto do país, que de forma mimética, se refletem em tudo o que é vivo – terra, plantas, animais, homens. Com efeito, o concelho de Guimarães caracteriza-se por uma densa profusão de casas, de gentes, de culturas, de atividades. Por todos os lados encontramos as mais diversas atividades, novas culturas, novas formas de subsistência. A adaptação a novos produtos e a novas culturas foi desde sempre uma característica do agricultor minhoto; ao longo do tempo, o agricultor foi incorporando práticas e culturas agrícolas dos diversos povos que ocuparam a região: a caça e a pesca do período castrejo, os cereais e a vinha com a ocupação romana, de características mediterrânicas, ajustadas às condições naturais da região (a vinha de enforcado e a latada como forma de contornar as dificuldades de humidade do solo e a exiguidade das terras cultivadas, ainda que dando origem a um vinho ácido e de baixa graduação), o milho grosso, vindo da América, a partir do século xvii; a estas culturas vem juntar-se a oliveira, introduzindo-se progressivamente o azeite na dieta alimentar, a cultura da batata, no século xviii. Esta diversidade de cultivos é engrandecida com outros produtos provenientes dos mais diversos cantos do mundo: os eucaliptos da Austrália, as laranjas do norte de África, a camélia do Japão. Contudo, a terra é, não raras vezes, insuficiente para sustentar a prol numerosa, e procuram-se outras atividades que complementem o orçamento familiar. 184
A.V. Braga, na administração seiscentista, enumera um rol enorme de atividades na vila e que se encontram disseminadas pelo concelho, constatação verificada nas respostas dadas pelos párocos das freguesias no inquérito paroquial de 1842, referindo a sua importância, umas vezes complementares das atividades agrícolas, outras vezes para consumo da casa e mesmo destinadas ao mercado. No mesmo sentido, A. Sampaio, sublinha a necessidade de os “caseiros procurarem n´uma indústria auxiliar os meios que os ajudem a viver” (1887:34). Nesta paisagem rural de propriedade retalhada, de agricultura promíscua e de pluriatividade, constatase uma criteriosa divisão de tarefas dentro do agregado familiar: os ofícios são muitas vezes conjugados no mesmo individuo que, além do mais é lavrador, com a atribuição de funções diferenciadas desempenhadas por todo o agregado familiar; todo o grupo funciona como uma pequena empresa informal destinando-se aos mais pequenos as tarefas mais leves controlada e dirigida pelo núcleo conjugal. É no núcleo familiar que é destacado o papel relevante da mulher, garantindo a subsistência e transmitindo a cultura e os valores para as gerações futuras, ao conjugar a função feminina de criar os filhos, às funções de produtora: à “patroa” destinam-se as tarefas de cuidar da horta, cozer, fiar e tecer o linho, ou fazer as suas rendas, para vender ou para juntar no bragal. 14 É sobretudo no período liberal que se verificam alterações na estrutura social, com a agudização das dificuldades de pequenos proprietários, rendeiros e estratos sociais mais desfavorecidos. A redistribuição da propriedade, em resultado da secularização das ordens religiosas e a reforma dos vínculos, vai beneficiar fundamentalmente os setores mais favorecidos: a aristocracia que aderiu ao regime liberal e a burguesia financeira e comerciante. A compra dos bens nacionais pelo fidalgo (o barão retratado por Almeida Garrett), que “prefere geralmente a cidade, as necessidades maiores da vida actual, (...) têm concorrido para saírem das freguesias rurais” (Sampaio, 1987: 32), contribuirá para a degradação das condições de vida dos estratos sociais mais desfavorecidos que, privados do acesso ao baldio, vão procurar outras formas de subsistência, designadamente a emigração e a fábrica. Esta situação de estagnação da agricultura e pobreza de uma parte significativa dos fregueses é referida pelos párocos no inquérito paroquial de 1842, dirigidos às 85 freguesias rurais que compunham o concelho de Guimarães lamentando-se que os proprietários “vivem fora da freguesia”. De qualquer modo, o período liberal assinala um aumento das transações e do valor da propriedade refletido no aumento das casas agrícolas, cujo sucesso é assinalado pela exuberância dos adereços em ouro 14 A função produtora da mulher na sociedade assemelha-se ao conceito proposto pelo Georges Dumézil. De acordo com este antropólogo
francês, a sociedade indo-europeia era dividida em três funções principais: a função soberana, a função guerreira e a função produtora, correspondendo estas às atividades relacionadas com a agricultura, a criação de animais e a manutenção da casa e da família.
185
das mulheres e filhas dos proprietários rurais. Guimarães não foi apenas um espaço de fixação de nobres e guerreiros, que desde o século x procuraram as terras férteis da região para se fixarem; é também uma região marcada pela influência de monges e clérigos que partilham a propriedade e, de forma mais acentuada, se estabelecem no burgo. A Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, cujas raízes remontam |à época da fundação do mosteiro de Santa Maria por Mumadona Dias, é uma instituição de importância incontornável, na economia e na sociedade de Guimarães e no seu termo. Os estudos dedicados a esta instituição, por diversos historiadores, destacam o avultado património e o elevado número de contratos de emprazamento de grupos sociais que, através dos seus membros, estavam ligados à Colegiada por contratos de emprazamento, um importante senhorio com marcada influência económica e social. 15 Não obstante as condições naturais favoráveis à produtividade dos solos e, em grande medida, propiciadoras de taxas elevadas de natalidade e de crescimento populacional, a vila de Guimarães apresenta valores estacionários ou de fraco crescimento entre os séculos xvii e meados do século xix: em 1527, o “Numeramento dos moradores ou vizinhos que vivem nas cidades, vilas e lugares”, ordenados por D. João III, refere a vila de Guimarães como a segunda maior da região norte, a seguir ao Porto; em 1801, a população urbana de Guimarães, com 6555 habitantes, era inferior à de Viana, Braga e Porto, com 7298, 16266 e 48889 habitantes, respetivamente. A diminuição da importância de Guimarães na região, face ao crescente aumento da importância de outros espaços urbanos é justificada, frequentemente, com o “facto de Guimarães estar "entalada" entre a primazia religiosa e simbólica da vizinha Braga e a força burguesa do Porto” (GASPAR, 1998:13). A atitude de Guimarães relativamente aos concelhos vizinhos, marcada por tensões territoriais negativas num caso, ou por tensões territoriais positivas noutros casos, tem sido uma constante histórica que deverá ser compreendida num contexto mais alargado de relacionamento e interdependência. Esta relação deverá ser compreendida num contexto histórico de afirmação de Guimarães como berço da nação pela assunção de uma centralidade fortemente associada ao mito da fundação e à indústria. Guimarães, e particularmente o espaço entre muralhas, é colocado, para os vimaranenses, como o centro de um espaço funcional cujos limites alargam virtualmente a toda a região norte, a todo o território nacional. A relação de Guimarães com o Porto é marcada pelo reconhecimento da sua força de atração e 15 Das contribuições dadas para o conhecimento da Colegiada, destacam-se, entre outros, os trabalhos publicados na Revista de Guimarães
por Eduardo de Almeida, João Lopes de Faria, João Gomes de Oliveira Guimarães, José Marques. De referir ainda os trabalhos publicados por Manuel Alves de Oliveira no Boletim de Trabalhos Históricos.
186
dependência funcional: as infraestruturas portuárias para a exportação dos produtos para a Inglaterra, colónias africanas e Brasil, principalmente, o mercado de abastecimento de materiais para as atividades industriais, e mesmo local de atração das famílias de níveis socioeconómicos superiores que procuram aí as vivências mais ajustadas ao seu estatuto privilegiado. Esta força centrípeta do Porto, território de atração dos mais abastados, acentuada a partir da segunda metade do século xviii, com o aumento do movimento de exportação do vinho para Inglaterra e a vinda de negociantes fugidos do terramoto de Lisboa, faz crescer uma burguesia dinâmica e empreendedora, que em breve irá liderar a revolução liberal de 1820, trará repercussões na economia das regiões periféricas, contribuindo para o imobilismo e estagnação das atividades económicas, nomeadamente a agricultura e indústria de Guimarães. Contudo, os fidalgos mantêm os solares e casas nobres na origem dos seus ascendentes, ainda que auferindo a maior parte dos rendimentos noutros lugares. Guimarães continua a ser o lugar prestigiante das origens (da família e da nação), o espaço mítico de referência, no sentido que lhe é atribuído por Barthes. 16 A relação de Guimarães com Braga, marcada por uma tensão territorial “tão velha como a Sé de Braga”, tem a sua maior expressão no final do século xix, com a tentativa gorada de adesão de Guimarães ao distrito do Porto: a não aceitação de Braga como capital de distrito é o culminar da secular rivalidade de duas cidades de relevante importância histórica na formação de Portugal. Guimarães recusa o papel de inferioridade simbólica e muito menos a dependência político-administrativa de Braga. Tendo como causa próxima desta recusa a “injustiça de uma grande contribuição e da nenhuma parte que nos tem tocado dessas avultadas quantias em obras públicas distritais no nosso concelho”, segundo o procurador de Guimarães, conde de Margaride, o pedido de adesão ao distrito vizinho exclui Braga da área de influência de Guimarães, colocando-a simbolicamente à distância e classificando os seus habitantes de diferentes. Mas é no domínio eclesiástico que radicam as raízes da conflitualidade: A Sé de Braga, sede episcopal da região, reivindicava sua jurisdição sobre a Colegiada da Oliveira a qual invocava autonomia face àquela. Por inúmeras vezes, os bispos de Roma e os monarcas portugueses foram chamados a intervir na disputa de influência daquelas duas instituições. Mas é essencialmente o capital simbólico de valorização do mito da fundação e o dinamismo das atividades industriais que melhor definem e afirmam o ethos da população do concelho. Os vimaranenses
16 Roland Barthes, na obra "Mitologias" analisa a cultura popular da França dos anos 50 do século passado, examinando as ideologias e os
mitos presentes nas mais diversas formas de expressão cultural. Uma das contribuições mais importantes de "Mitologias" é a ideia de que a cultura popular é um sistema de significados que produz mitos e ideologias que reforçam a dominação cultural e social.
187
colocam-se, no plano das representações, no centro de um espaço funcional e identitário cujos limites são a região e o território nacional. A importância destes dois elementos identitários, o passado histórico e a vitalidade da indústria, foi sublinhada no relatório da exposição industrial de 1884: “Se o concelho de Guimarães foi o ‘berço’ da monarchia, também o tem sido de muitas e variadas indústrias. (...) Todos conhecem a celebridade de Guimarães na fabricação de tecidos de linho, em curtumes e cutelaria” (Sampaio, 1884: 153).
O sentimento de orgulho em ser de Guimarães, projetado nas mais diversas realizações culturais, tem como centro da identidade o berço da nação. “Esta expressão metafórica, tão expressiva, que considera Guimarães como o berço da nacionalidade”, expressão usada por José Mattoso, uma das principais referências nos estudos sobre a história de Portugal e, em particular, sobre a formação da nacionalidade portuguesa, funda-se na importância simbólica e histórica dos seus monumentos. O castelo foi residência dos primeiros condes portucalenses e Guimarães o seu domínio patrimonial; o nascimento e batismo do D. Afonso Henriques terá sido em Guimarães, ainda que surjam vozes discordantes, mas com fraca fundamentação; a “primeira tarde portuguesa”, na expressão do historiador Damião Peres, verificou-se na batalha de S. Mamede, nos arredores do castelo, um marco determinante na formação de Portugal e de emancipação do reino de Leão e Castela, sob o domínio de Afonso VII. Neste processo de consolidação do Condado Portucalense foi fundamental o legado de Mumadona Dias, responsável pela construção das fortificações e pela construção do Mosteiro, que se tornaria importante centro religioso e cultural. O sentimento de centralidade de Guimarães no espaço regional e nacional não se limita apenas ao processo político de formação da nacionalidade; ele projeta-se nos mais diversos domínios da identidade. E a indústria é uma dessas reivindicações de centralidade. A “celebridade de Guimarães na fabricação de tecidos de linho, curtumes e cutelaria” surge na continuidade do artesanato fortemente disseminada pelas mais diversas casas agrícolas dispersas pelas freguesias do concelho. Na opinião de Alberto Sampaio (1877:29) era nos períodos de menor atividade agrícola e como forma complementar de rendimento que se desenvolveram as atividades de “fiação de linho e lã, a tecelagem, a carpintaria agrícola, que produz a maior parte dos instrumentos e utensílios da lavoura, e tantas outras, até à ferraria, d’onde deviam nascer as serralharias e cutelarias”17. Com o aperfeiçoamento do processo produtivo nas suas diferentes fases e o aumento da produção para o mercado, a procura dos cursos de água e as vias de comunicação, para instalação das unidades 17 De acordo com o Relatório da Exposição, (Sampaio, 1884:75) a indústria dos curtumes “é a mais importante pelo valor da producção e
pelos grandes capitães de que dispõe. Dentro da cidade está localizada n’um bairro, que se chama a rua de Couros: fóra encontra-se na freguezia de S. Torquato, no logar da Corredoura”.
188
fabris, tornam-se eixos estruturantes indispensáveis ao funcionamento deste setor produtivo. O tecido produtivo define uma forma de organização da produção articulando a produção da “indústria” doméstica com a indústria fabril. O trabalho ao domicílio das “indústrias” domésticas e oficinas, a maioria das vezes instalado nas próprias habitações, apresenta-se com uma configuração espacial difusa e uma dimensão muito significativa; “é preciso percorrer todo o concelho (...) para ver que é rara a cabana em que se não ouve o som seco e alternado do tear, ou o som constante e monótono da roda na dobagem do algodão ou enchimento de canelas” (Sampaio, 1884: 238). É sobretudo a partir da segunda metade do século xix, com a generalização do uso do algodão e o surgimento da “indústria mecânica”18, que mais se acentua a nova configuração do espaço de ocupação das habitações e das unidades fabris. A paisagem é moldada, portanto, a partir da terra, em articulação com a cidade, conciliando a agricultura e a indústria, a tradição e a modernidade, definindose um continuum de ocupação do espaço rural e urbano. O aumento do número de operários fabris estará na base de uma nova forma de diferenciação social, contrapondo-se ao trabalhador rural que vivia exclusivamente da terra. Ao trabalho na terra, visto como tradicional e muitas vezes associado à ideia de atraso e falta de desenvolvimento, contrapõe-se o trabalho na indústria que passou a ser visto como mais moderno e valorizado. Com o advento da industrialização, os operários eram vistos como símbolos de progresso e modernidade, e gozavam de maior prestígio social e os trabalhadores rurais foram relegados a um segundo plano na hierarquia social e, não raro, alvo de preconceito por parte da elite urbana. A atribuição do título de cidade à vila de Guimarães em 1853, pela rainha D. Maria II, é, de acordo com o texto do decreto, “um testemunho authentico do distincto apreço [dos habitantes de tão nobre Povoação] em que tenho a sua honrada e habitual dedicação à cultura das artes e trabalhos uteis”, reafirmando o mesmo propósito utilizado pelo Conde D. Henrique quando, no fim do século XI, outorgou o foral a Guimarães, posteriormente confirmado por D. Afonso Henriques, em 1128, e D. Afonso II, em 1217. “A vós, homens que viestes povoar Guimarães, e àqueles que ali quiserem viver até final”, expressão extraída do foral de Guimarães inscrita no pavimento granítico da Praça de S. Tiago, em frente ao edifício dos Paços do Concelho, representa uma justa homenagem a todos aqueles que ao longo dos séculos, através de uma construção dinâmica em permanente diálogo social, em processos de interpretação sobre os quais se criam e recriam as tradições, souberam afirmar a identidade vimaranense.
18 A mecanização tem, em 1884, uma expressão residual.
Os curtumes surgiam como setor dominante e não havia registo de qualquer indústria ou oficina que utilizasse a roda mecânica. Identificava-se uma única máquina a vapor, a funcionar numa oficina de fundição. Segundo os autores do relatório, “A indústria de Guimarães é em grande parte caseira ou a domicílio, d’ahi a deficiencia de material, de machinas, o atrazamento de processos, e a falta de aptidões technicas e especiaes no pessoal empregado”.
189
Obras citadas: CALDAS, A. J. Ferreira, 1996 - Guimarães, Apontamentos para a sua História, C.M.G./S.M.S., Guimarães. GASPAR, Jorge, 1998 - Cidade e Urbanidade, in Guimarães cidade património mundial. Um objectivo estratégico, C. M. Guimarães. Inquérito paroquial de 1842 -Interrogatório histórico-geográfico enviado a todos os párocos. Revista de Guimarães, 108 Jan.-Dez. 1998. MATTOSO, José, 1998 - Guimarães - A Origem de Portugal, in Guimarães cidade património mundial. Um objectivo estratégico, C. M. Guimarães. REIS, António Matos, 1996 - O foral de Guimarães - Primeiro foral português - O contributo dos burgueses para a fundação de Portugal. Revista de Guimarães, 106 jan. Dez., p. 55-77. RIBEIRO, Orlando, 1986 - Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico – Esboço de Relações Geográficas, Lisboa, Sá da Costa, 4ª edição. SAMPAIO, Alberto, 1887 - Estudos de economia rural do Minho. A apropriação da terra e as classes que constituem a população campestre. Revista de Guimarães, 4 (1) Jan- Mar., p. 21-38. SAMPAIO, Alberto, 1885 - Estudos de economia rural do Minho. A terra, os homens e a administração pública. Revista de Guimarães, 2 (4) Out- Dez. 1885, p. 203-231. SAMPAIO, A., MEIRA, J. J., 1884 – Relatório da Exposição Industrial em 1884. SOUSA, Fernando A.P., 1979 - A População Portuguesa nos Início do Século XIX, Porto, Universidade do Porto, policopiado.
190
Guimarães, um território diferenciador Adelina Paula Pinto Vice-Presidente da CMG e Coordenadora da Candidatura a Capital Verde Europeia
Guimarães é a cidade mais ligada à fundação do Reino de Portugal. Foi aqui, em 24 de junho de 1128, que D. Afonso Henriques combateu as tropas de sua mãe e do galego Fernão Peres de Trava, assumindo-se como rei. É aqui, segundo o historiador José Mattoso, que podemos falar da “primeira tarde portuguesa”. D. Afonso Henriques era um jovem destemido, corajoso, capaz de criar grandes objetivos e grandes feitos. É o nosso herói, a nossa inspiração, o alter ego de cada vimaranense. E o que é certo é que Guimarães, uma cidade média no Norte deste Portugal que se constrói e que localiza junto ao Tejo os seus espaços de decisão, foi sempre capaz de ser audaz, ambicionar e trabalhar para novos desígnios, inspirar-se e inspirar os outros. Concentrando-me só nas últimas décadas, Guimarães foi capaz de requalificar o seu Centro Histórico, criar o conceito de Regeneração Urbana e conseguir o selo de Património da Humanidade. Mas não se fica por aqui e está já na fase final a candidatura de Couros a Património da Humanidade, alargando assim, e muito, a zona classificada! E do Património da Humanidade para a Capital Europeia da Cultura foi um pequeno salto. Uma cidade, um concelho, que fizeram de Guimarães uma referência nacional e internacional, ao “fazerem parte”, com o bairrismo, o orgulho e a proatividade de cada vimaranense. Uma Cultura que se estendeu dos auditórios às praças, do centro à periferia, do espetáculo à criação, dos mais velhos às crianças, a todas as crianças. De 2012 para 2013 a cidade e o concelho continuaram a brilhar, a instigar, a desafiar, a movimentar-se e a movimentar toda uma comunidade. A Cidade Europeia do Desporto em 2013 foi mais um marco, com centenas de atividades, milhares de voluntários, aumentando exponencialmente a prática desportiva em Guimarães. E conseguiu ainda ser a Melhor Cidade Europeia do Desporto em 2013! Lembram-se do D. Afonso Henriques, da sua ousadia, da sua inquietação, da sua vontade de ir conquistando mais terras, de ir formando este país à beira mar plantado? Com avanços e recuos, ele foi seguindo na sua luta! Esta é certamente a nossa metáfora, esta inquietação constante, esta vontade de sair da zona de 191
conforto e acrescentar mais camadas. Tudo isto para chegarmos à candidatura a Capital Verde Europeia, entrgue em 30 de abril de 2023. Uma candidatura onde Guimarães se propõe ser Capital Verde Europeia em 2025. Apresentamos esta candidatura pela 2ª vez, acreditando que o caminho se faz com persistência, resiliência, honestidade e sentido de oportunidade e valor (tal como D. Afonso Henriques não desistiu quando as suas conquistas foram retomadas pelos mouros). A candidatura a Capital Verde Europeia simboliza um único objetivo: acrescentar bem-estar e condições de vida a todos quantos vivem em Guimarães. O trabalho feito a partir de 2013, na área da Sustentabilidade Ambiental, quer acrescentar valor: queremos continuar a ser uma cidade histórica, patrimonial, cultural, de educação, amiga das crianças, mas uma cidade SUSTENTÁVEL, onde é bom viver. Uma cidade e um concelho onde se diminuam as diferenças sociais, onde a qualidade do ar e do ruído sejam de conforto, onde as questões da água, do lixo ou da biodiversidade não sejam problemas vazios, mas problemas de todos e que se resolvem com a participação e o envolvimento de todos. Uma cidade e um concelho onde todos contam, onde todos podem e devem ser ouvidos, daí a elevada participação e envolvimento que vamos fazendo ao longo dos anos, quer nas escolas (Eco Parlamento, assembleias de crianças, orçamentos participativos, torneios de retórica), quer na Sociedade Civil (Brigadas Verdes, Inquérito de Perceção da UNU, reuniões de várias estruturas). Querer ser Capital Verde Europeia em 2025 não é o objetivo final, será apenas a marca que queremos deixar ao mundo. Mas o importante é conseguirmos deixar um mundo melhor para as novas gerações. As nossas crianças, do pré-escolar ao ensino secundário, estão fortemente sensibilizadas e com conhecimentos para terem atitudes diferentes, para serem agentes de mudança, mudando a sua forma de estar e a forma dos adultos estarem! São elas o nosso porta-voz para a reciclagem dos lixos, para a limpeza dos rios, para a utilização das áreas verdes, para a proteção da biodiversidade, para a necessidade de uma mobilidade suave! Estes nossos embaixadores, entusiasmados e entusiasmantes, vão fazer o mundo mudar! Mais uma vez, tal como em 1128, 2002 ou 2012, assumimos projetos coletivos, projetos de toda uma comunidade que, de mãos dadas, cumpre o seu desafio. Uma comunidade generosa, exigente, mais conhecedora e mais capaz de agir no sentido certo, olhando para si, mas também para o outro! Sermos ou não sermos Capital Verde Europeia em 2025 não mudará o trabalho feito, nem o trabalho a fazer! Continuaremos, com todos, a traçar o trabalho da Sustentabilidade Ambiental, porque só ela nos dá um mundo melhor!
192
Cidades Livres Sílvia Lemos
Escrevo estas linhas a poucos dias do 24 de junho, dia 1 de Portugal, feriado municipal de Guimarães. Só me ocorre escrever sobre uma experiência na qual estou implicada e que começou em plena pandemia, quando o Tiago Simães, músico e professor e outros mais ofícios que produzam beleza, desafiou amigos e todos quantos ouvissem o seu apelo, a integrar um grande coro de 100 vozes para cantar poetas portugueses. Na ocasião disse-lhe que sim, (à espera do dia em que pudéssemos respirar juntos, sem medo) não imaginando que aquele meu sim ia ser muito mais do que dar a minha voz. Com esse sim continuo a receber com emoção as vozes das minhas companheiras e companheiros do coro e sobretudo o trabalho do Tiago impregnado de amor. Ama a música, as palavras e as pessoas. Dessa atividade, que decorreu intensivamente no mês de maio de 2022, resultou um livro e um CD que é uma verdadeira obra de arte - Projeto Coral da Poesia Portuguesa - Volume Um - e que eu tive o prazer de apresentar no Teatro Jordão, no dia 9 de dezembro de 2022. Mas o Tiago não iria ficar por aqui. Aquele era o volume um…e mesmo sem anteciparmos o que nos espera o volume dois, eis que surge o convite para cantarmos, estes cem, batizados de Coro Espontâneo, com coros diversos da nossa região, no dia 24 de junho, junto ao Castelo de Guimarães. Nascerá neste dia o Coro de São Mamede composto por vozes do Orfeão de Guimarães, do Orfeão Coelima, do Chorus Anima Populi, do Grupo Coral de Ponte, do Grupo Coral de Pevidém, do Grupo Coral de Azurém e do Coro En’canto, com a Orquestra do Norte, sob regência do Maestro Jorge Leiria. Agitam-se as noites de ensaios com mais de 200 vozes. Sentimos a falta do outro, da voz que cantava ao nosso lado, porque o trabalho naquele dia o impediu. Sentimos a falta de ir, e a partir de onde estamos, 193
imaginamos os sons, a escuta, os silêncios. Sentimos falta uns dos outros. Somos já comunidade. Alegramo-nos todos com o rigor e a disciplina, o método e a muita sabedoria do Tiago Simães, mestre ao serviço de uma comunidade inteira alargada – Guimarães e todos quantos a visitam. A vida cultural das cidades livres, embora não dispense uma programação de departamentos de cultura de municípios, quando acontece porque é fruto da liberdade, do comprometimento e da criatividade dos seus cidadãos, assume desenhos coloridos, belos e de grande harmonia e por isso deve ser apoiada. Podemos usufruir da cultura de agendas culturais ricas, mas quando dizemos “Eu faço parte”, através de associações ou de movimentos espontâneos como este, construímos as cidades como verdadeiramente queremos e levamos à vida uns dos outros o que trazemos no quotidiano. Lemos com os olhos do outro porque somos cada vez mais próximos e é isso que traz verdadeira paz e justiça às comunidades. Sentimos bem cá dentro que ninguém pode ficar para trás, sustentamo-nos uns aos outros. Fazer cultura pode ser, ou melhor, é um modo de viver e esse modo é transformador de toda a nossa existência enquanto cidadão porque atravessa as mais diversas áreas de que são feitas as cidades. Fazemos cidades livres com o nosso modo de viver. Cidades livres do preconceito e da intolerância, cidades livres da poluição, cidades livres de pobreza, cidades livres porque todos têm habitação digna, cidades livres porque nos deixam viajar e regressar com novas geografias no coração, cidades livres porque acolhem, cidades que se juntam a outras cidades derrubando muros e Foto de Sara Salazar fronteiras. Creio que é disto que se podem fazer as cidades, de pessoas que seguem “o mais secreto bailar” dos seus sonhos (Sophia), que se movem porque não podem mais “adiar o amor” (António Ramos Rosa), porque querem visitar-se “hoje à tardinha” (Florbela Espanca), sem fingir que se vive (Manuel Alegre) e que as transformam em sítios que não estão “fora dos mapas”(Daniel Faria). 194
Reabilitação do Castro de Sabroso Gonçalo Cruz
Os vestígios de Sabroso, em São Lourenço de Sande, Guimarães, passaram vários séculos incógnitos para as populações do entorno. Quando, em 1758, no inquérito conhecido como memória paroquial, se perguntava se existia algum castelo ou antiga torre na área da freguesia, o vigário Miguel de Abreu Pereira respondeu que não, mas, noutra parte do inquérito, em que se indagava sobre a existência de pedreiras, menciona o topónimo Sabroso, como um local onde se ia buscar pedra para construção das casas, "por ser boa". Sabemos assim que, não existindo então qualquer noção sobre a antiguidade ou função dos vestígios, o Castro de Sabroso foi sendo desmantelado pelas populações locais, reutilizando os elementos pétreos ali existentes. Em setembro de 1877, o arqueólogo Francisco Martins Sarmento, à vista de alguns achados de superfície, entre pedras esculpidas, fragmentos cerâmicos e carvões, resolveu colocar ali uma equipa de trabalhadores das escavações da Citânia de Briteiros. Foi então que sucedeu a recolha de um considerável volume de achados e de elementos construídos, que impressiEstrutura circular do Castro de Sabroso, que preserva parte do lajeado de pedra interior. onaram Sarmento e outros estudiosos do século XIX, que ali foram de visita. Entre 1877 e 1878, Martins Sarmento colocou à vista praticamente todos os vestígios atualmente visíveis. Nem tudo foi escavado, e muitos vestígios foram destruídos, inclusive depois das campanhas de Sarmento, nomeadamente as depredações documentadas em 1919, mormente a 195
classificação do sítio arqueológico como Monumento Nacional, em 1910. Ali se veem os vestígios de um povoado da segunda metade do primeiro milénio a. C., que terá sido abandonado poucos anos antes da transição para a Era Cristã. Foi habitado durante alguns séculos por uma comunidade aparentemente empenhada na sua defesa, mas também na sua subsistência, valorizando a, talvez perigosa, proximidade às terras do vale, às quais se acede em poucos minutos. O aglomerado estava, assim, localizado a uma cota relativamente baixa, embora num monte destacado. As condições defensivas, facilitadas pelo relevo natural, foram asseguradas com a construção de uma espessa muralha, que é, ainda hoje, o elemento que mais se destaca no local. A espessura desta muralha ultrapassa os quatro metros em vários pontos, formando uma plataforma do lado de dentro, sobre a qual se construíram várias habitações. Do lado exterior, a muralha atingia os cinco metros de altura, sendo muito difícil de transpor. Também do lado de fora há vestígios da existência de fossos e taludes de terra, que dificultavam a aproximação à muralha pétrea. A porta de entrada tinha um muro de pedra em frente da passagem, que tinha que ser contornado para entrar ou sair e tornando praticamente impossí- Vestígios da porta Norte do Castro de Sabroso, que era protegida por uma cortina de pedra exterior. vel o arrombamento da porta. Tínhamos, assim, uma comunidade cuja preocupação defensiva parece, hoje, evidente. A dada altura, pelos finais do século II a. C., a área do povoado foi aumentada, construindo-se uma segunda muralha, para o lado Sul. Esta segunda linha, no entanto, era muito menos espessa, dando a entender que já não se vivia, então, a necessidade de segurança que parece ter orientado os primeiros habitantes do castro. Dentro das muralhas encontram-se os vestígios das habitações. Tinham paredes construídas em pedra, na sua maioria de forma circular, cobertas com uma estrutura de madeira e colmo. Cada família ocuparia mais do que uma construção, servindo algumas de habitação, outras de celeiro, estábulo ou oficina, formando assim pequenos conjuntos familiares. Em Sabroso, tal como noutros castros, o espaço interior dos 196
conjuntos familiares, um pequeno pátio para onde abriam as portas das construções, tinha um pavimento de pedra. Os objetos recolhidos nas escavações testemunham a vida quotidiana das pessoas que habitaram o povoado fortificado, sobretudo as louças de cozinha e de ir à mesa, em milhares de fragmentos cerâmicos, mas também restos de armas em bronze ou ferro. Apareceram também algumas ferramentas, como é o caso de uma característica enxada em ferro, e outras alfaias, como vários pesos de rede, em pedra, utilizados na pesca fluvial. Estes materiais permitem-nos perceber que os habitantes do Castro de Sabroso se dedicavam à agricultura e à utilização dos recursos naturais, mas provavelmente também à pastorícia. Com efeito, um fragmento de estátua de um porco doméstico, com provável função ritual, bem como algumas gravuras de cavalos, já perto do sopé do monte, sugerem que a criação de animais estava também entre as atividades destas populações. Além disto, os vestígios de escultura, de elementos arquitetónicos decorados e alguns objetos de prestígio, sobretudo adornos em metal ou vidro, indiciam também a presença de uma elite socioeconóAspeto das ruínas no interior das muralhas do castro, com a sinalética colocada mica, que poderá estar relacionada com a recentemente. monumentalidade das muralhas e o notável trabalho de cantaria do aparelho exterior, poligonal, da muralha. A integração do território no Império Romano, no final do século I a. C., parece ter determinado o abandono definitivo do castro, que não mostra indícios de ter sido habitado em época romana ou em períodos históricos posteriores. Em meados do século XX, o Castro de Sabroso foi alvo da atenção de uma equipa de especialistas britânicos, coordenados por Christopher Hawkes, que ali fizeram escavações em 1958. Também em 1981, arqueólogos da Universidade do Porto realizaram uma sondagem junto à primeira muralha, obtendo dados sobre a construção da mesma. 197
Verificou-se, ao fim de algumas décadas, a ocupação progressiva do espaço por uma população de acácias que, dificultando uma manutenção regular, acabou por provocar a degradação dos vestígios. Em 2015, voltaram a realizar-se escavações no Castro de Sabroso, numa colaboração entre a Sociedade Martins Sarmento, a Universidade do Minho e a Junta de Freguesia de Sande São Lourenço e Balazar. Elaborou-se um plano de reabilitação do sítio arqueológico, que orientou a intervenção realizada ao longo de grande parte do ano de 2022. Esta intervenção de recuperação, financiada pelo Município de Guimarães, e executada pela empresa Era, Arqueologia S.A., com o acompanhamento da Sociedade Martins Sarmento, permitiu a reabertura do monumento à visita pública. Foi, assim, feita a limpeza e manutenção da vegetação, privilegiando a floresta autóctone, foi vedado o espaço do monumento, fizeram-se intervenções de limpeza e conservação das ruínas arqueológicas e foi colocada sinalética no local, garantindo informação ao visitante. O Castro de Sabroso pode, hoje, ser visitado através de uma curta caminhada Face exterior da primeira muralha, revestida por um aparelho poligonal em granito. que promete uma viagem ao tempo dos castros e a observação de um território onde nos sentimos em casa, mas que podemos olhar de uma perspetiva diferente.
198
Couros Património da Humanidade!19 Gabriela Nunes
No dia 19 de setembro de 2023 ecoou o anúncio de uma distinção que encheu os corações dos vimaranenses de uma alegria e um orgulho que reverberou de Couros para todo o concelho. Eis mais uma data memorável no firmamento de Guimarães! A Zona de Couros, um pedaço de alma urbana que se estende como uma ode desde o Bairro Amadeu Miranda e a Rua de Vila Verde, passando por Couros até à Rua D. João I, viu-se coroada com o título de Património da Humanidade. Esta decisão, proferida na 45ª Sessão do Comité do Património Mundial, em Riad, na Arábia Saudita, é reconhecimento e celebração da riqueza patrimonial, social e histórica de Guimarães, e torna Couros numa referência no Panteão do Património Mundial da UNESCO. Recuperam-se e resgatam-se as memórias entrelaçadas nas pedras centenárias como um tesouro aberto a todos que habitam e visitam Guimarães. A nova extensão da área Património Mundial em Guimarães (19,4 hectares), duplica a área classificada de significado histórico, urbanístico e estético (38,4 hectares), num feito que engradece a cidade os vimaranenses e Portugal. E reforça o nosso compromisso cívico, a nossa identidade e patriotismo local, como o referiu outrora Jorge Sampaio. Proliferam as manifestações de contentamento individuais e coletivas, como na pauta do Paulo Rodrigues e na pena do Miguel Bastos: “Por recantos e ruelas rumo à ilha do sabão, vejo tanques, são janelas, que estão pregadas ao chão.” Em Couros, o presente e o passado dialogam num eterno dueto, recuperando a importância imensurável do valor social, histórico, político e económico de uma zona de Guimarães que foi, simultaneamente, durante vários séculos, de invisibilidade cultural e política, mas também suporte infraestrutural, social e económico de Guimarães. As ruas estreitas, ladeadas pelo casario antigo, guardam as memórias e os segredos das gerações que moldaram este lugar ao longo dos séculos. Os curtumes, vestígios de um ofício centenário, sussurram histórias de operários e mestres que instigam curiosos, locais ou forasteiros. Da Corredoura chegavam peles, de Tabuadelo cascas de carvalho e até os pombais tinham função. Contava-me o Sr. José “era uma hora e meia 19
- Intervenção na Assembleia Municipal de Guimarães, em 22 de setembro de 2023.
199
de manhã, outra ao fim do dia – de S. Torcato até Couros, de Couros a S. Torcato. Ia com o meu avô, trabalhar! Vínhamos de todos os lados!”. Eles foram os artesãos das texturas, os alquimistas do odor terroso que se mistura com o perfume da história e hoje se declamam aqui. As peles, mergulhadas nas águas que fluem nas veias das margens de Couros, e que ganham vida sob mãos hábeis. Marcas de trabalho árduo no socorro do Albergue de S. Crispim! Ainda na letra de Miguel Bastos: “E pisa de pés descalços. Lava os couros no lagar, surra as peles pros sapatos, que nunca há de calçar.” Zona baixa, pobre, degradada, exposta a cheias e às enxurradas da ribeira, gerações de anónimos. Comunitária e solidária. Ora esquecida! Outrora invisível. Como aqueles que descreve Eça de Queirós pelos seus contos: “A nós ninguém nos via e ninguém nos espreitava, a não ser, às vezes, a Lua, com o seu olhar velado e húmido como o olhar de uma viúva.” Hoje… é PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE: já sob o olhar do sol; por GUIMARÃES, por PORTUGAL e pelo MUNDO. Couros é um tributo que se eleva: - À arte dos curtumes, - Aos artesãos que lá laboraram e largaram seu suor, moldando o couro com amor e perícia, - Às gerações que saltavam entre os tanques e aos murmúrios da cidade, - Aos anónimos que lhe deram vida, - Ao património do povo, de beleza simples e plena de alma. - Às freguesias e à cidade que abraçam a sua herança com orgulho. - Aos vimaranenses, a todas as forças políticas, a técnicos, à ação coletiva e ao Município, que cuidam do legado de gerações.
Nas estrofes de alma corridas de Poças Falcão: “Correm também seu curso as palavras, que no tempo já se esquecem: abaldoar, atabicar, lavar, surrar, engordurar… Palavras, gestos e saberes de rios que passaram. Outro curso é o das vozes: gritos, chamamentos, ordens de trabalho, cantos esforçados, rudes impropérios. Parece que ainda se ouvem, mas passaram, correram, fluíram. Como as gerações, as inumeráveis gentes de trabalho, que aqui mergulharam os seus corpos, a sua pele, deixando marcas de vida, de luta e de labor.”
A forma como Guimarães cuida e acaricia as suas raízes e se dedica ao seu património e à sua cultura é a chave para a distinção sublime de Património da Humanidade, primeiro em 2001 e agora em 2023, e faz de Guimarães uma cidade referência no Património Mundial. Acreditamos e trabalhamos. A determinação e o compromisso, aliados a um longo esforço coletivo de 200
gerações de vimaranenses, de horizontes vastos, trouxeram-nos aqui. Cada detalhe, cada pedra colocada, cada edifício ou fábrica meticulosamente requalificada, com o empenho inabalável do município, gerou as condições para imortalizar Couros no rol dos tesouros mundiais. As águas foram domadas com bacias de retenção. O Teatro Jordão e a Garagem Avenida receberam uma nova vida, revelando-se como ícones culturais pulsantes. Foram reabilitadas as antigas fábricas dos curtumes e devolvidas à cidade, como a que instala a universidade das Nações Unidas, ou Centro de Ciência Viva ou a Fábrica da Ramada atual Instituto de Design. Sem esquecer a Fraterna, num enquadramento raro, que a tantos acolhe ou a Pousada da Juventude que recebe e abriga. Zona de Couros, in Guimarães Turismo Reconhecida, cuidada e amada em cada detalhe do seu poema, Guimarães, como referiu o nosso presidente, Dr. Domingos Bragança: “dá visibilidade ao seu valioso património, colocando-o à disposição de todos quantos habitam e visitam o território.” E, segundo a National Geografic: “Colhem os louros deste esforço os munícipes e ... a restante Humanidade.” Parabéns Guimarães! Com esta nova classificação, nasce também uma "zona tampão," um abraço protetor que se estende da encosta da Penha à veiga de Creixomil. É uma promessa feita às gerações que ainda não desabrocharam, um compromisso solene de preservar o nosso património, a nossa natureza e a nossa herança cultural. Guimarães celebra com orgulho este capítulo dourado da sua história, sob o olhar do sol, que ilumina as “janelas pregadas ao chão”, reforçando a nossa voz no palco nacional e internacional. Neste galardão onde reside o orgulho e a alegria reside a responsabilidade, um compromisso que permanece. Concluo com os versos de Luís Almeida, um grande amigo, um artista sem tamanho, devoto e apaixonado por Guimarães: “Saltar muros de granito, saltar tanques de alegria, a sentir o infinito condensado num só dia.” – Precisamente, o dia 19 de setembro de 2023. 201
Inscrição da Zona de Couros na Lista do Património Mundial da UNESCO Ricardo Rodrigues Arquiteto, responsável técnico pela candidatura à UNESCO
No passado dia 19 de setembro, na 45.ª Sessão Alargada do Comité do Património Mundial, a proposta de inscrição 45 COM 8B.48, referente à inscrição do Centro Histórico de Guimarães e Zona de Couros como Património Mundial, foi aprovada pelo Comité do Património Mundial da UNESCO, em Riade, Arábia Saudita. Foi o culminar de um processo que deu os primeiros passos em 2013, relevando a data de 12 de fevereiro de 2015 por marcar o envio da “proposta de inscrição da Zona de Couros na Lista Indicativa da UNESCO”. Embora tenha colaborado ativamente com a Arq. Alexandra Gesta, nesta fase inicial, foi-me acometida a responsabilidade de coordenação, redação e preparação da candidatura a partir de novembro de 2017. Seis anos passaram e são muitos e complexos os passos dados desde então. Desde logo, a progressiva transição de uma candidatura da Zona de Couros per se para uma candidatura de ampliação da área classificada, passando a envolver a Zona de Couros. Depois, a paulatina reflexão sobre o significado da Zona de Couros, e quais os seus limites “históricos” relevantes para o efeito do reconhecimento do Valor Universal Excecional, nos termos da Convenção do Património Mundial e das suas Orientações Técnicas. A candidatura foi elaborada em paralelo com o trabalho quotidiano que incide sobre o estudo da cidade, dos seus edifícios e espaços públicos, no sentido da sua valorização e transformação. Trata-se de um património histórico que é parte integrante da cidade e da sua urbanidade. Aqui habitam e trabalham muitas pessoas e, atendendo à sua relevância histórica, simbólica e cultural, atrai muitos, e cada vez mais, visitantes. A relevância ímpar de Guimarães nos antecedentes da História de Portugal, com vestígios materiais na Colegiada e no Castelo de Guimarães, embora sujeitos a sucessivas transformações, conferem a esta cidade histórica, de há muito, um estatuto excecional no âmbito nacional. Isso mesmo foi reconhecido pela UNESCO em 2001 pela indissociabilidade nas relações de Portugal com o Mundo, através da língua, das grandes viagens dos navegadores e, por essa via, da rede que se teceu, à escala global, com o Brasil, com África, com o Oriente; proliferando as relações e analogias entre estas mui distintas geografias. Particularmente no que respeita aos testemunhos arquitetónicos e urbanísticos, são reconhecidos, no âmbito do Valor Universal Excecional, os relevantes testemunhos que em Guimarães permanecem “vivos”: a organização espacial do 202
núcleo de raiz medieval, com as ruas, vielas, largos e praças; com as arquiteturas de diferentes estádios da evolução da arquitetura portuguesa (e europeia): para lá das igrejas, conventos e mosteiros, as arquiteturas apalaçadas, as casas-torre, as casas-pátio, ou as já mais urbanas e barrocas casas grandes dos séculos XVIII embora com exemplos significativos mais recentes, nos séculos XIX e XX. Guimarães é, no entanto, especialmente relevante nas arquiteturas “anónimas”, nas casas correntes: as do Largo da Oliveira (em especial as alpendradas, vestígio de uma lógica de ocupação que marcou a Guimarães medieval, e as suas congéneres), as da praça de Santiago, da Rua Nova (atual Egas Moniz), da Rua de Camões, entre muitas outras, por demais conhecidas.
Planta com a sobreposição das áreas de 2001, do dossier de candidatura e a área final aprovada (mais alargada) Créditos: Ricardo Rodrigues, CMG, 2023.
203
Na Arquitetura, a UNESCO sublinha um aspeto particularmente relevante em Guimarães: a existência de muitos exemplos de sistemas e matérias de construção “tradicionais”, em especial as taipas de rodízio e de fasquio. Embora comuns a muitas arquiteturas de todo o mundo, é apontada a relevância à relação entre este modo de construir e os pontos já anteriormente referidos, de replicação no Mundo Novo. Este aspeto é, porventura, dos mais relevantes na sustentação do Valor Universal Excecional, e dos mais difíceis de testemunhar ao olhar menos treinado porque se relaciona com sistemas e materiais muito antigos, embora correntes (madeira, cal, saibro, palha, tintas de óleo), são especialmente vulneráveis e estão em risco no âmbito dos processos (desejáveis) de constante reapropriação e reconversão dos edifícios. Com efeito, é um equilíbrio de difícil gestão, entre o que se preserva e como se moderniza e adequa às necessidades atuais.
Principais dossiers que compõem a candidatura Créditos: OOF design, 2022.
204
Não há, no entanto, dúvidas quanto à necessidade de assegurar mecanismos que assegurem a integridade (garantir que os testemunhos materiais perdurem) e a autenticidade patrimonial. No caso da autenticidade, ela é indissociável do modo como vivemos a cidade e, como tal, de uma função tradicional basilar das cidades: a função residir. Por isso tem sido tão relevante o trabalho de incentivo à reabilitação das casas do centro histórico, tanto no sentido de melhorar a qualidade de vida dos antigos moradores, como no sentido de atrair novos moradores. A autenticidade relaciona-se também com o modo como intervimos no património, como são respeitadas as tradições da arte de conservar, embora sejam altamente relevantes as demais tradições locais que evidenciam os vínculos e a identidade local. A Zona de Couros e a sua envolvente (alargada a parte da Caldeiroa, Camões, Dr. Bento Cardoso e D.
Vista sobre algumas das antigas fábricas de curtumes e seus pelames. Créditos: Luís Vaz, CMG, 2022.
205
João I, integrando a Alameda e Toural) estende, amplia a reforça os critérios anteriormente referidos na medida em que, por um lado amplia o “catálogo” de tipos arquitetónicos, passando a integrar, entre outros, as antigas fábricas (que, entre si, apresentam uma grande variabilidade de configuração e espectro cronológico), bem como habitações dos operários e dos “patrões”, os espaços públicos, especialmente peculiares atendendo à inter-relação com as linhas de água: recorde-se que, de um modo geral, as ruas dos Couros acompanham, sobrepõe-se ou desviam o rio de Couros e os seus afluentes, tributários das antigas manufaturas de curtumes. Também aqui, como é ainda bastante evidente, os desafios e vulnerabilidades são grandes: os riscos de cheias urbanas, o declínio da função industrial e a dificuldade de adequação das estruturas a novos usos, a precariedade das fábricas, algumas cercadas por água em todo o seu perímetro (ilhas), sem ligação a infraestruturas de eletricidade, saneamento ou abastecimento de água, ligações altamente sensíveis, não só do ponto de vista patrimonial, mas também atendendo às matérias relativas à utilização dos recursos hídricos. Embora um número muito significativo da área de alargamento englobe edifícios construídos com as técnicas tradicionais da taipa de rodízio e de fasquio e, como vimos já, constituem um atributo extremamente relevante para o estatuto de Guimarães enquanto referência patrimonial (e, também por essa via, referente para muitos outros aspetos que conferem prestígio e singularidade à nossa cidade); no caso da Zona de Couros, em especial das antigas fábricas, a sensibilidade dos tanques, pelames, lagares e lagaretas (e a sua “inutilidade” do ponto de vista da finalidade para a qual foram construídos), das linhas de água (que, como é sabido, vão sendo alteradas em função do desenvolvimento da envolvente, nomeadamente na bacia hidrográfica que verte sobre esta zona); mas também das próprias edificações: os secadouros, os lajeados de granito, os foulons, e muitas marcas que são já hoje reconhecidas, sabendo-se ainda assim que muitas não o são ainda. São muitos os desafios que resultam deste alargamento que resulta de um processo participado local, regional, nacional e internacionalmente. Não se trata de imposições, mas antes de negociações, de aprendizagens e de conquistas que, no final desta fase do processo, podem aportar a Guimarães um prestígio acrescido no panorama mundial não apenas pelo “galardão”, mas por tudo o que se adquiriu em termos de conhecimento científico e histórico, e do ponto de vista mais técnico: dos instrumentos de gestão, monitorização e valorização do Bem, entre muitos outros. Como disse, trata-se de uma cidade “viva” e, como tal, cheia de complexidades e de contradições. Temos uma tarefa facilitada porque antes de nós, muitos construíram, reconstruiram e protegeram um património e uma cultura que é nossa herança atual. O estatuto de 206
Património Mundial aumenta exponencialmente o número de “herdeiros”. Mas nunca será demais lembrar que compete a quem cá vive, trabalha e investe, assegurar que o futuro seja cada vez mais sensível, culto e, por essa via, permita a Guimarães e aos vimaranenses continuarem a orgulhar-se de ouvir recorrentemente: “Está bem, mas em Guimarães é diferente…”. Assim seja, para o bem de todos quantos gostamos desta cidade, e para todos aqueles que no mundo se juntarão a nós nesse sentimento.
207
208
SANTOS SIMÕES – 100 anos do seu nascimento Inserir separador
209
SANTOS SIMÕES – 100 anos do seu nascimento Para um homem de dimensão incomensurável, ousamos fazer o seu retrato sociocultural, sociopolítico e esboçá-lo nas suas dimensões cívica e educativa e até na sua dimensão literária. Convictos das dificuldades, ajuntamos vários depoimentos de amigos e familiares, admiradores e conhecidos, ou variadas pessoas que com ele conviveram pessoalmente, partilharam vivências e/ou altercaram frontalmente disputas e polémicas, quer culturais quer políticas. Deste somatório de opiniões e perspetivas é este o retrato possível…
210
Memórias a cinco mãos20 Francisca, Joaquim, Pedro, Isabel e António
Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Ricardo Reis, Poesia. Lisboa: Assírio e Alvim, 2000.
Escrever acerca do nosso pai, sem mencionar a nossa mãe, é uma impossibilidade. Somos os filhos desejados de um casal que desde e para sempre se amou. Presentes, rigorosos, disciplinadores, severo por vezes o nosso pai, sem nunca levantar a voz, a nossa mãe. Com eles corremos mundos reais e imaginários através das histórias que nos contavam, dos livros que forravam as paredes, ao alcance da mão ou do empoleirar num banco. Talvez não haja dias da nossa infância mais plenamente vividos que aqueles que passámos com um livro preferido, escreveu Proust. Com a biblioteca da família, a Livraria Raul Brandão, a Biblioteca Fixa nº 127 da Gulbenkian, os espectáculos do Teatro de Ensaio Raul Brandão, os filmes do Cineclube e demais actividades que promoveram ou colaboraram, conseguiram rasgar o manto cinzento e opressivo daquele Portugal da nossa infância. Para além das visitas regulares aos avós, maternos e paternos, à aldeia e vila respectivas, pois sempre foram fortes os laços familiares, com eles viajamos pelo nosso país, Espanha e depois França, naquele pequeno Anglia, num registo de viagem que seria hoje apelidado de low cost. Cultos, cidadãos do mundo, foram muitos os quilómetros percorridos pelas ruas e museus de Madrid, Paris e Londres, com dois guias de excepção. Fizeram-nos aguentar firme durante horas para vermos aquela maravilha, que é hoje considerada a
20
Aos Osmusiké – Associação Musical e Artística, agradecemos o convite para partilharmos memórias de um pai e avô, muitíssimo querido e especial. A nossa gratidão igualmente por todas as iniciativas que têm realizado em prol da sua memória.
211
primeira exposição blockbuster de sempre, Os Tesouros de Tutankhamon, no Museu Britânico. Com eles assistimos a concertos do mítico Sun Ra, de Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, só para mencionar alguns exemplos daquilo que seria altamente improvável acontecer a duas crianças portuguesas, filhas de professores, da província, naquele tempo, não fossemos nós filhos de quem somos. Fomos companheiros fiéis de muitos eventos culturais, homenagens e outros acontecimentos, decorrentes, principalmente, da intervenção cultural do nosso pai.
Santos Simões com a Esposa Açucena
Santos Simões com os filhos António e Isabel
Foram muitos os passeios e almoços de Domingo com amigos e companheiros da resistência à Ditadura, mas isso, sabíamos lá! Sabíamos sim, apesar de não compreendermos, que os nossos pais estavam do lado certo. Mesmo quando homens sinistros nos entraram pela casa para prender o nosso pai, ou para apreenderem livros, sabíamos. Pois se espelhado no olhar dos outros, só vislumbrávamos respeito e admiração! Medo? Nunca os nossos pais o deixaram transparecer. Momentos marcantes da nossa vida familiar, que jamais esqueceremos. Como nunca esqueceremos as lágrimas da nossa mãe quando soube da morte de Salvador Allende. E as de alegria, de ambos, no 25 de Abril de 1974! E no dia seguinte, quando nós, estudantes vindos do Liceu celebrando a Liberdade, vislumbramos, na varanda da Escola Francisco de Holanda, o mais resplandecente dos sorrisos, o da nossa mãe. E com a construção da democracia, multiplicaram-se as actividades dos nossos pais, a par com o crescimento da nossa autonomia, mas sempre sob os seus olhares atentos. Com a doença da nossa mãe vimos o nosso pai multiplicar-se entre a vida familiar, profissional, a intervenção cívica, política, cultural e o empenhamento total em salvar a vida da sua Açucena. Sim, porque se a 212
nossa mãe sobreviveu e conseguiu tornar-se autónoma, foi graças a ele, que a levou para uma instituição de saúde privada no Porto, onde permaneceu durante meses (a Lei que criou o Serviço Nacional de Saúde fora publicada poucos meses antes). Incansável, num vaivém constante entre os múltiplos compromissos e aquela cidade. E depois, na longa fase de recuperação, sempre do seu lado. Com os netos testemunhamos um relacionamento único, com cada um deles, um mar de ternura. Proporcionaram-nos uma infância feliz. Fizeram-nos acreditar que tudo é possível. Foram um exemplo que nos continua a inspirar. Respeitaram a nossa individualidade, apoiaram sempre as nossas escolhas. Amaram-nos, na única dimensão que este sentimento pode ter: incondicionalmente.
Quando penso no meu avô, por vezes é difícil distinguir entre as memórias que tenho dele e as muitas histórias e fotografias que me foram contadas e mostradas. Acho que o retrato que me vem à mente quando penso nele, é a imagem de chegar à casa dos meus avós, abrir a porta da sala de jantar e sem falta encontrá-lo sentado na sua cadeira, à mesa. Recordo a sua postura, de segurança e calma, mas ao mesmo tempo de atenção e percepção. Nessa mesma mesa, ele ensinou-me a fazer puzzles, quando as possibilidades avassaladoras das peças minúsculas ao meu redor pareciam uma tarefa demasiado grande e morosa para uma criança de quatro anos. À medida que virava cada peça para o seu lado correcto, ele lembrava-me: “Começa pelas arestas, encontrarás sempre quatro, independentemente do tamanho do puzzle”. Lembro-me de sentir que possuía um segredo que ninguém mais sabia (e que poderia finalmente ter a oportunidade de vencer o meu irmão num jogo). 213
Santos Simões com a neta Francisca
Quando me falam da sua vida e obra, das pessoas que ajudou e das lutas que superou ou suportou, lembro-me das palavras inocentes que ele me disse, e não posso deixar de me perguntar se, com a sua cuidadosa perspicácia, ele pensou na verdade reconfortante do conselho que me deu.
“O que é que aconteceu ao teu cabelo, avô?” Recordo-me de perguntar, abertamente, como só uma criança se atreve a fazer. “Estava muito vento e o cabelo voou todo, em direcção à lua” respondeu ele, sem hesitação. Não me surpreenderia se, antecipando a pergunta que um dia lhe seria colocada, tivesse engendrado a resposta que me deixou a magicar. Noutra ocasião lembro-me perfeitamente de, no que eu pensei ser um momento de genialidade espontânea, ter escrito num papel umas equações por mim inventadas, correr para ir ter com ele para lhe revelar a minha obra-prima e perguntar se estava correcta. O avô olhou para aquilo, e nem cinco segundos passaram anSantos Simões com o neto Pedro tes de ele me dizer, apesar do meu entusiasmo, que não. E da mesma forma que, com tanto carinho me ensinou e me fez realmente amar a matemática, disciplina infelizmente tão frequentemente desprezada, fez-me compreender que devemos ser rigorosos e não devemos ter receio de errar. Os desenhos que criei para ilustrar os seus contos, como tantos outros fi-los pelo prazer de desenhar. Só muitos anos mais tarde é que me apercebi do valor desta colaboração, pois posso afirmar que criamos algo que verdadeiramente foi nosso. A apresentação do livro, na Biblioteca, ao lado do meu avô, foi para mim um momento único! E nunca esquecerei o seu “passou bem” com uma inesperada pata de galinha! Gostaria que não nos tivesse deixado tão cedo, para poder usufruir, como adulto, de uma pessoa cujos princípios, cuja integridade tocaram gerações. Mas felizmente teve a preocupação de escrever livros, textos, artigos e não faltam amigos para me falarem dele. Contudo as memórias que guardo, e irei sempre manter comigo, são o que mais importa. 214
Até hoje sinto a sua forte presença e influência no que diz respeito à minha formação ética e política. Se ainda estivesse entre nós, sem dúvida teríamos um excelente relacionamento, e provavelmente concordaríamos em muitos tópicos, com excepção talvez no que diz respeito à viabilidade do lançamento espacial folicular.
Tenho sempre presente na memória a imagem do meu avô rodeado de livros e preocupado em transmitir conhecimentos aos netos. Lembro-me da imensa biblioteca que preenchia as paredes da casa de Guimarães e da importância que ele dava ao incutir a capacidade de abstracção, característica do pensamento matemático, na educação. Muitas vezes estive sentado à mesa a ouvir os seus ensinamentos e a tentar resolver problemas matemáticos que ele tinha criado. Para além da centralidade da matemática e da pedagogia no pensamento e na vida do meu avô, a escrita de ensaios, peças de teatro, poesia e prosa também ocupava um lugar determinante na sua obra. Tive a felicidade de participar na gravação de alguns dos seus poemas infantis, musicados pelo meu pai. Um deles, descreve um rouxinol, que é incapaz de cantar enquanto preso na gaiola, no entanto após a libertação, sempre retorna para demonstrar o seu canto rejubilante. Esta história enternecedora evidencia a preocupação do meu avô em incutir às crianças desde cedo um sentido de justiça social e desejo de liberdade. Tenho consciência da constante e enérgica actividade cultural que exerceu na fundação e desenvolvimento de importantes instituições, como a Universidade do Minho, o Cineclube de Guimarães e também da luta irreverente que travou contra a ditadura fascista desde o seu tempo de estudante até ao 25 de Abril. Posso, agora, através da leitura dos seus escritos, afirmar que o seu espírito crítico e edificante não desvaneceu de modo algum na realidade pós-revolucioSantos Simões com o neto Joaquim nária. Sempre manteve a actividade de resistência contra as 215
tendências que cada vez mais se intensificavam, da desigualdade entre classes sociais, do agravamento das contradições entre produtores e consumidores, do surgimento de novas formas de exploração, dominação e do esmagamento da liberdade que o capital financeiro exercia internacionalmente ao permear todas as esferas da actividade humana, esvaziando-a de conteúdo e pondo-a ao seu serviço como mera engrenagem de obtenção de lucros. Ao escrever - “A Universidade não pode correr o risco de ser transformada em objecto de uma política economicista, antes deve assumir-se no seu papel de sujeito cultural ao serviço do desenvolvimento do país “(1) - o meu avô põe em evidência o perigo da instituição Universidade se tornar um apêndice da economia na era neoliberal bem como a oposição que esta deve assumir face a esse grave ataque. Toda a sua obra, tanto teórica como prática e política, mantém-se actual e inspira as gerações futuras a desvelar tendências fascizantes que se escondem sob o véu de novas retóricas. As perguntas - “Qual é, de facto, a missão da Universidade? Para onde caminha a Universidade? Não será ela, como há 60 anos (1933), uma das responsáveis pela crise que avassala a Europa e o mundo?” (2) - revelam o seu credo de que, apenas pela instrução, pelo desenvolvimento da tomada de consciência por meio do conhecimento é que se torna possível a construção de uma sociedade justa. Tenho orgulho no legado do meu avô e reconheço que o âmago da cultura e do conhecimento se traduz na resistência contra a mecanização e uniformização do pensamento humano e na possibilidade revolucionária de estilhaçar a alienação conformante. A honestidade intelectual e a concordância entre os ideais e o fazer social que permearam a vida do meu avô deixam ficar uma marca indelével. Ao evidenciar que - “...na hora das decisões o poder do capital coloca-se sempre ao lado das forças mais reaccionárias”. (3) - delega-nos o desafio de construir uma realidade sócio-económica que permita o florescimento de uma humanidade livre. (1) - “Os Estudantes e a Universidade em meados deste século”, Coimbra 1991. (2) - “Desafio Irrecusável”, Braga 1994. (3) - “Braga, Grito de Liberdade” 1999.
216
Santos Simões, uma personalidade com carisma António Gama Brandão
Ao materializar o amável pedido que me foi formulado, para expressar alguns conceitos sobre o saudoso Dr. Santos Simões, sinto um frémito gerado pela emoção que me envolve, se bem que já tenha escrito vários artigos sobre esta individualidade. Tentarei divulgar aspectos primordiais da imensa obra realizada. Apenas receio que as palavras, por ineficácia minha, não sejam as mais consentâneas com o valimento do homenageado, apesar da veemente admiração que sempre lhe dediquei, da afeição que em mim despertou, da dolência sentida pelo seu falecimento. Anseio que essas descrições sejam lidas pelas gerações mais novas, que não o conheceram, para que fiquem com a percepção do seu mérito. Com o fluir dos anos, a espuma dos dias tende a minimizar a curiosidade e muitos factos são delidos. Por isso, é imperativo que, na mente de todos aqueles que ainda se lembram dele, floresça, como uma legenda, um pensamento de Ernest Renan, afamado académico e historiador francês: “O homem vale na medida da sua capacidade de admirar”. Santos Simões nasceu em 12 de Agosto de 1923, na vila de Espinhal, do distrito de Coimbra. Na convivência universitária, como aluno, em Coimbra, já demonstrou amplas características da sua multifacetada personalidade, como dinamismo e chefia. Dedicou-se zelosamente ao Teatro dos Estudantes dessa Universidade, onde desempenhou as funções de encenador e actor, tendo sido eleito Presidente dessa instituição. Na qualidade de discente, provou de modo evidente ser partidário de ideias progressistas. Revelava tendências altruístas, lutava pela equidade, interferência na sociedade e enobrecimento da cultura. Atingiu, igualmente, a Presidência da Associação Académica. Obteve as licenciaturas de “Ciência matemática” e de “Engenharia Geográfica”. Em 1957, veio para Guimarães, ingressando na Escola Secundária Francisco de Holanda. Leccionou 217
Matemática, disciplina aliciante e essencial no nosso ensino, que convida a meditar e a conferir lógica ao pensamento. Escassos anos após o desempenho de tal função, foi afastado pelo Governo do ensino oficial, nunca lhe sendo justificada a autocrática decisão. Em consequência, confinou-se, para sobreviver economicamente, a dar explicações privadas. Atendendo aos seus atributos pedagógicos, os alunos afluíam aos seus ensinamentos, com resultados positivos. Nunca o trabalho hauriu a sua força anímica. Os desaires exacerbavam-lhe a inflexível capacidade volitiva. Santos Simões era um paradigma de lucidez, coerência, hombridade e combatividade. Possuía invulgar compleição intelectiva. Segundo os depoimentos de milhares de alunos que recebiam lições de Santos Simões, este docente afirmava-se como um pedagogo de excelência. Transmitia o seu saber com profundidade e clareza. Rigoroso com os alunos, como o era consigo próprio, mantinha com eles nexos de simpatia. Motivava-os, criava um ambiente de acordo com as suas capacidades. Ajudava-os a valorizarem-se, infundindo-lhes referências básicas. Fruía uma visão moderna da educação, considerando várias diretrizes heterogéneas em vigor como obsoletas e erróneas. Possuindo uma vastíssima cultura geral, sublimava o seu ensino, abrindo aos discentes novos horizontes, tentava inculcar-lhes um espírito evoluído e autonomia mental. Santos Simões estava atento aos sinais de alarme emitidos pela juventude, pelo que impugnava a inércia e a rotina. Defendia ser racional existirem díspares maneiras de analisar os factos com rigor, de os elucidar e comentar, dentro dos equilibrados critérios de civilidade. É apanágio da juventude o crepitar de ideias inéditas, mesmo arrojadas, a adopção de outros estilos de vida, a recusa de algumas normas a vigorar no sistema existente. Desta feita, apercebe-se com maior nitidez a versatilidade e a liberdade humanas. Sublinho um judicioso pensamento de D. Hélder da Câmara, que foi um conceituado bispo brasileiro: “Que a nossa juventude obrigue a pensar e a tomar posição; que seja incómoda como a verdade, exigente 218
como a justiça”. Incentivava os alunos a concretizarem múltiplas acções circum-escolares, complemento harmonioso e benéfico dos programas oficiais. Esforçava-se em prepará-los para, no porvir, terem capacidade de enfrentarem os óbices surgidos. Infundia, com genuíno entusiasmo, essas concepções de forma a serem apreendidas facilmente. Aconselhava a frequência da ida à biblioteca, orientando-os pedagogicamente. Comunicava-lhes a noção que continuariam estudantes toda a vida, caso almejassem valorizar-se progressivamente, no exercício da profissão escolhida. O renomado poeta Garcia Lorca asseverou: “É preciso que os povos leiam para que aprendam não só o verdadeiro sentido da liberdade, mas também o sentido actual da compreensão mútua e da vida”. Santos Simões era um orador eloquente que se escutava com admiração. Escrevia com fluência, revelando riqueza de conteúdo e beleza formal. Num dos seus mais notáveis livros, bem elaborado, com o título “Engrenagens do Ensino”, estudou com perspicácia e profundidade todos os graus do ensino, emitindo críticas pertinentes e soluções possíveis, tendo assinalável repercussão no país, mesmo entre os mais exigentes cultores da matéria versada. Escreveu muitos livros sobre temas diversificados. Anoto alguns deles: “O Senhor da Cana Verde”, “Os meus contos para crianças”, “Mas o melhor do mundo são as crianças. Para uma compreensão da situação materno-infantil, no concelho de Guimarães”, “Ensino-Projecto de Reforma ou Reforma de Projecto”, “A Alimentação e a criança”, “Adeus a Ítaca”. Como médico-pediatra, senti-me sensibilizado por Santos Simões, sendo um cultor das ciências matemáticas, tomar a iniciativa de intervir num sector muito diferente, escrevendo sobre biologia, mais propriamente acerca do problema materno-infantil. Constituiu mais uma atividade comprovativa do seu humanismo, da sua amplitude de visão e de apreensão perante as gravosas situações que assolavam o país. Nesses distantes anos, a cifra da mortalidade infantil atingia um número demasiado elevado no país, nomeadamente no distrito de Braga, e ainda com pior índice no concelho de Guimarães. Considerava-se, igualmente, precário o acompanhamento das gravidezes e dos partos. Estes dados demonstravam, inequivocamente, o escasso desenvolvimento sócio-cultural da região. Santos Simões estudou esta matéria com grande penetração de espírito, emitindo acerbas críticas e propondo meios para a sua resolução, na tentativa de persuadir as entidades governativas a actuar com determinação e celeridade. Posteriormente, escreveu um livro bem estruturado e com abundante documentação comprovativa dos 219
factos citados. Como eu já tinha abordado, por escrito, esse tema, Santos Simões, antes de o publicar, convidou-me a comparecer em sua casa, onde, em sintonia, reavaliámos este candente assunto, num frutuoso diálogo. A primeira incisiva intervenção cultural de Santos Simões, nesta cidade, independentemente do seu desempenho profissional, projectou-se no Teatro de Ensaio Raul Brandão, no Círculo de Arte e Recreio, instituição essa que mereceu dum Presidente da República, que a visitou, efusivos encómios. Dedicando-se, nos momentos de lazer, ao teatro, com a experiência adquirida quando discente na Universidade de Coimbra, proporcionou à população cultura e diversão, rodeando-se de uma plêiade de colaboradores, muitos dos quais primaram pela competência, como actores. O teatro desempenha um efeito nodal na educação e no saber. No concernente à criança, oferece-lhe estabilidade, aumenta a auto-estima, reforça o companheirismo, constituindo um sustentáculo formativo, nos aspectos social, cívico e ético. Além de atender à sua faceta lúdica, propicia-lhe uma atmosfera de utopia e de aventura. Santos Simões participou no estabelecimento de variadíssimas associações, de divergente essência, como a Cooperativa editorial “O Povo de Guimarães”, que foi um semanário vimaranense, e a Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidade de Guimarães (CERCIGUI). Interferiu na fundação do Cine-Clube de Guimarães, sendo eleito vice-presidente. Mas, decorridos dois anos, por decisão do Secretariado Nacional de Informação, não foi homologado como membro dos corpos gerentes. Coordenou, no hebdomadário “Notícias de Guimarães”, durante cerca de três lustros, a secção de “Artes e Letras”. Organizou o II e o V Encontros dos Suplementos e Páginas Culturais de Jornais e os Jogos Florais Minho-Galaicos. Colaborou com o Círculo de Arte e Recreio na instalação de uma Biblioteca Fixa da Gulbenkian. Pertenceu à Comissão Instaladora do Jardim-Escola Nuno Simões, a convite deste benemérito. Presidiu à Sociedade Musical de Guimarães. O Centro de Actividades Ocupacionais de S. João de Ponte recebeu o nome de Santos Simões, em virtude de ele ter incentivado a sua fundação, que apoia jovens deficientes. Defendeu que o centenário do nascimento de Gil Vicente fosse comemorado a nível nacional. Idealizou e concretizou os Festivais do fundador do teatro nacional. No 5.º centenário do nascimento de Shakespeare, o Teatro de Ensaio Raúl Brandão representou excertos de algumas peças desse invulgar poeta dramático. A anteceder o espetáculo, a que assisti, Santos Simões explanou vários conceitos da sua obra literária. 220
Em 1974, após a Revolução de Abril, retomou o lugar na sua Escola tendo, ulteriormente, desempenhado as funções de Presidente do Conselho Directivo, onde demonstrou uma exemplar vitalidade e espírito inovador, valorizando a potencialidade humana. Em 1975, surgiu a indicação de Santos Simões para ocupar o lugar de Ministro da Educação. O Presidente da República, de então, vetou essa proposta. Indigitado para Governador do Distrito de Braga, o Governo não sancionou tal ideia. Em 1978, foi eleito pelos seus colegas para Director da Escola do Magistério Primário de Guimarães. O Ministro da Educação não autorizou a resolução dos professores. Em 1990, foi eleito Presidente da Direcção da Sociedade Martins Sarmento, cargo que exerceu até ao seu falecimento, em 2004. Tal desiderato constituiu a sua almejada coroa de glória. Rodeado de proficientes e laboriosos colaboradores, realizou uma obra de singular vastidão e real valimento, nomeadamente no edifício da sede, nas citânias e sítios arqueológicos. A ciência, a educação e a curiosidade estavam impregnadas no seu espírito. Procedeu-se à renovação da “Revista de Guimarães”, à contratação de técnicos especializados para a indagação e estudo dos documentos e da bibliografia existente. Imprimiu-se um esclarecido dinamismo à protecção do património, à realização de palestras, congressos, seminários, concertos, exposições. Criou-se um Centro de História Local, informatizou-se a biblioteca, a coleção de etnografia e a de gravura. Preparou-se com acutilância a organização do centenário de Martins Sarmento. Homenagearam-se variadíssimos e prestigiados vultos como, entre outros, Antero de Quental, Alberto Sampaio, Alberto Vieira Braga, António Silva Cardoso, Padre António Vieira, Vasco da Gama, Luís de Camões, Roberto de Carvalho, José da Cunha Sampaio, Nuno Simões, Abel Salazar, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Calouste Gulbenkian. Encetou-se um diálogo vigoroso, durante o qual se esboçou uma ironia mordaz com o Ministério da Cultura, em consequência da sua perseverante inércia e desinteresse em relação à sociedade Martins Sarmento. Santos Simões propugnava uma mentalidade crítica. Praticava a heterodoxia quando o seu julgamento aconselhava, combatendo o dogmatismo. Já Descartes, Erasmo de Roterdão e tantos outros pensadores asseveravam que a dúvida está na génese da criatividade. A possibilidade de permuta de ideias e de dirimir questões, no dia-a-dia, constitui a mola propulsora para se robustecer a capacidade de decisão e indiciar descobertas. 221
Santos Simões divulgava com transparência o seu ideário, em que pontificava uma sólida coerência entre os temas defendidos e a sua praxis. Consolidado nas suas convicções, era um cidadão incorruptível, com o carácter forjado nas lutas encetadas desde a juventude, após derruir implacáveis obstáculos. Nem as injustiças sofridas nem a prisão cercearam o seu ânimo ou a continuidade da sua linha de conduta. Embora tardiamente, nos dois últimos decénios da sua vida, irrompeu um ambiente diametralmente oposto, sendo a sua magistral actividade analisada com desvelo e objectividade. Vultos famosos, mesmo pertencentes a quadrantes políticos com ideação dissemelhante, endereçaram-lhe impressivos elogios. Recebeu a medalha de ouro da cidade de Guimarães. Um Presidente da República condecorou-o como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Enunciei uma súmula dos aspectos nucleares da operosa actividade exercida por Santos Simões, dignificando a sociedade e a urbe em que viveu, durante quase um quinquenário, e à qual para sempre fiHomenagem a Santos Simões na UM, tendo sido Gama Brandão um dos oradores cou vinculado pelo sentimento e por ser o centro em que se realizou em plenitude. Sonhou e venceu. O Dr. Santos Simões teve a indelével cooperação da sua esposa. A Dr.ª Maria Açucena, dotada de válidos atributos e com indefetíveis laços de afecto em relação ao seu marido, constituiu um genuíno bastião que o defendeu e reforçou, animicamente, nos momentos de desilusão, e o sublimou quando os galardões do triunfo o dignificaram. O Dr. Santos Simões foi, no suceder dos anos, sempre igual a si próprio. Concluo citando um pensamento de Albert Schweitzer, que se adapta primorosamente às atitudes assumidas por Santos Simões, durante a sua vivência: “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros – é a única”.
222
É inadiável tomar uma posição.21 Santos Simões nos caminhos da educação (Biografia e bibliografia, 1930-1992) António Amaro das Neves22
[…] preparava-se a encenação de uma peça, mais ou menos anódina, de Marcelino Mesquita, quando a Guimarães chegou, nutrido de saber e experiência adquiridos e desenvolvidos no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, um jovem professor de Matemática que, além do saber e do saber fazer, trazia de seu, para si e para repartir, um notável cabedal de capacidades para querer e ousar. Era o Dr. Santos Simões, meu colega na Escola Técnica. José Craveiro, “Vigésimo Aniversário do Teatro de Ensaio Raul Brandão”, Povo de Guimarães, 7 de junho de 1979
Há, na história contemporânea de Guimarães, o antes e o depois de 25 de outubro de 1957, o dia em que um casal de professores chega de Coimbra, carregando uma criança de poucos meses, para assumir funções docentes na Escola Industrial e Comercial de Guimarães (EICG): Maria Açucena Matias das Neves, docente de Línguas Germânicas, natural de Covelo, no município de Gondomar, e Joaquim António dos Santos Simões, professor de Matemática, nascido na vila do Espinhal, no concelho de Penela. Se, nas décadas que se seguiram, Maria Açucena, “mulher de corpo frágil, mas de temperamento de 23 aço” , deixou transparecer uma imagem discreta, que seria a que melhor se coadunava à sua personalidade, não foi, seguramente, por não ter feito uso de voz própria, corajosa e interventiva – o que, não fosse a sua discrição, a deveria ter destacado entre as mulheres que resistiram ao fascismo em Guimarães. Basta lembrar o papel relevante que desempenhou no lançamento da revista O Professor ou o ter sido, no distrito de Braga, o rosto dos hoje quase esquecidos Grupos de Estudos, que lançaram entre nós a semente do sindicalismo docente, e que o ministro da “democratização” do ensino, Veiga Simão, equiparou a associações secretas, ameaçando os seus participantes com a prisão e o afastamento do exercício de funções públicas. Já de J. Santos Simões, cujo centenário se assinala no dia 12 de agosto de 2023, ninguém ignora a 21 Título de um dos capítulos da obra de J. Santos Simões, publicada em 1970, Mas o Melhor do Mundo são as Crianças (Para uma compreensão
da situação materno-infantil no Concelho de Guimarães). 22 Com o apoio de Isabel Santos Simões, que o autor agradece. 23 Simões, J. Santos, Adeus a Ítaca, Ed. do Autor, Guimarães, 1992, p. vii
223
presença, nem o seu papel impulsionador e transformador na cultura, no movimento associativo, na vida cívica, na resistência à ditadura ou na sua intervenção no tempo da democracia. E também, talvez em primeiro lugar, a sua ligação ao ensino, enquanto docente, estudioso e observador social. Até porque foi a sua profissão de professor que, em boa hora, o conduziu a Guimarães naqueles dias de chumbo que tardavam a anunciar a primavera. 1. Percurso na educação Quase toda a vida de Santos Simões esteve ligada à escola, que começou a frequentar, em outubro de 1930, na velha escola de instrução primária do Espinhal, onde entrou já alfabetizado por seu pai, “que se entretinha a ensinar a ler”24. Em 1934, concluiu a escolaridade básica com a aprovação com distinção no exame da 4.ª classe, que realizou em Penela. Aos 11 anos, mudou-se para Coimbra, indo viver na Casa Novíssima do Seminário Maior, que irá frequentar até novembro de 1936. No ano letivo de 1937/38, sem sair de Coimbra, ingressou no Colégio Progresso. Em 1943, matriculou-se na Universidade de Coimbra, envolvendo-se desde logo na luta dos estudantes pela liberdade associativa. Em 1949, foi eleito, pela primeira vez, para os corpos diretivos da Associação Académica de Coimbra, de que viria a ser presidente no mandato de 1950/51, enquanto concluía as licenciaturas em Ciências Matemáticas e de Engenheiro Geógrafo. Em outubro de 1951, estreou-se em funções docentes como professor do ensino particular, no Externato D. João de Castro, onde trabalhou até 1954, ano em que passou para o Colégio Portugal, onde também exerceu funções de direção, até 1957. Entretanto, em 1956, casou com Maria Açucena e viu nascer, no ano seguinte, o primeiro filho, António. Em 1957, candidatou-se ao ensino público. Tendo sido colocado perante a necessidade de escolher entre ir viver para Silves ou para Guimarães, optou pela segunda cidade, motivado pelo “fator amizade” já que “nesta bela terra minhota viviam dois amigos muito caros”, companheiros dos tempos da Universidade, o médico José Emílio Vieira de Andrade e o advogado Eduardo José Salgado Lobo25. A colocação na EICG seria confirmada no dia 15 de outubro pela Direcção-Geral do Ensino Técnico Profissional e a entrada ao serviço aconteceu dez dias depois. Nos anos seguintes, iria lecionar Matemática, Cálculo Comercial e Físico-Química. À época, o diretor da escola era o escultor António de Azevedo, de quem Santos Simões se tornou amigo. Logo numa das primeiras conversas, Azevedo convidou o recém-chegado professor de Matemática
24 Simões, J. Santos, Memórias/Vila do Espinhal, Ed. Junta de Freguesia do Espinhal, 2003, p. 39 25
J. Santos Simões, “Recordação afectiva”, O Povo de Guimarães, 3/05/1996
224
para tomar a seu cargo a organização da biblioteca escolar, que reunia um acervo acumulado desde 1884, o ano da fundação da Escola Industrial Francisco de Holanda. Aceite o convite, Santos Simões cumpriu a tarefa de bibliotecário da escola, especialmente exigente após a inauguração das novas instalações, em 1959. Santos Simões não tardou a ambientar-se a Guimarães e em Guimarães não faltou quem percebesse as suas qualidades humanas, as suas capacidades de trabalho e de organização e o seu espírito de iniciativa. Respondendo a um desafio de José Craveiro, professor de História e Filosofia na Escola Técnica, encontrou espaço para uma das paixões da sua vida, e começou a ensaiar o grupo de teatro do Ritmo Louco, associação que, por sugestão sua, não tardaria a alterar o nome para Círculo de Arte e Recreio. Dali nasceria o Teatro de Ensaio Raul Brandão. Convidado pelo diretor do Notícias de Guimarães, Antonino Dias de Castro, iniciou a sua colaboração naquele jornal, no início de maio de 1958, com uma crítica à representação em Guimarães da peça Alguém terá que morrer, de Luiz Francisco Rebello, pela Companhia Rafael de Oliveira. A sua primeira intervenção pública em Guimarães sobre assuntos de Convite de António Azevedo para Santos Simões assumir a organização da Biblioteca da EICG. educação foi como orador convidado na sessão solene comemorativa do 93.º aniversário da Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense, onde fez uma conferência sobre mutualismo e educação. O espírito não-conformista e inquieto de Santos Simões não tardaria a ser reconhecido pelo seu colega Bernardo Sá Tinoco, professor de Técnicas Especiais — Ramo Têxtil, formado pela École Supérieure des Industries Textiles, de Épinal, França, que lhe lançou um desafio, em que se envolveriam os restantes professores e mestres do curso de tecelão mecânico, cujo programa era, na sua opinião, “um nada”. A ideia tinha algo de subversivo, já que passava por “ignorar o programa oficial (exceto no registo dos sumários!) e elaborar para cada disciplina um programa que contemplasse não só a formação de base, mas as exigências
225
decorrentes da interdisciplinaridade, incluindo a componente oficial”.26 Esta experiência de autogestão não autorizada do curso têxtil da EICG seria bem-sucedida. Ao fim de três anos, saíam da escola técnicos qualificados que não tiveram dificuldade em encontrar bons empregos na indústria têxtil do vale do Ave. Não obstante o sucesso, a experiência não teria continuidade, porque os seus mentores foram afastados da escola. No dia 8 de junho de 1961, o jornal O Conquistador, órgão do clero de Guimarães, publicou um escrito com o título “Atenção à frente interna! Nobre atitude da mocidade escolar”, de autor que não se identifica (assinava com o pseudónimo Paulo de Tarso), em que acusava um professor, sem dizer quem, de um estabelecimento de ensino, sem identificar qual, de proferir numa aula “umas afirmações graves, intoleráveis!”, sem informar quais, mas não tendo dúvidas em sustentar que, aquele que as proferira, tivera a “intenção bem manifesta” de ridicularizar a “crença dos alunos”27. Cidade pequena, onde todos eram próximos e conhecidos, cedo se percebeu em Guimarães que se apontava o dedo a Albano Monteiro Soares, professor de Francês da EICG, referindo-se a uma ocorrência que tinha sido reportada ao novo diretor da Escola, Daniel Nunes de Sá, por dois professores de Moral, portadores de um papel, supostamente escrito por alunos, onde se reproduziam as palavras que eram atribuídas ao professor Albano Soares. O responsável enviou um ofício ao visado, informando-o da situação e pedindo-lhe explicações, que seriam prestadas e aceites. No dia 5 de junho, num novo ofício, o diretor instava o professor a continuar “a ensinar com gosto, dentro do sacerdócio capaz de lhe proporcionar a tranquilidade do espírito e a certeza de que, ao findar, nada lhe perturbará a plena consciência do dever cumprido”. O Professores e alunos da EICG, em junho de 1961. De pé, da esquerda para a direita: José Craveiro, Virgínia Almeida, Daniel Nunes de Sá (diretor), Açucena Neves e J. assunto estaria encerrado, evitando o Santos Simões.
26 Simões, J. Santos, Adeus a Ítaca, p. XII. 27
Paulo de Tarso (pseud.), “Atenção à frente interna! Nobre atitude da mocidade escolar”, O Conquistador, Guimarães, 8/08/1961.
226
diretor a necessidade de o reportar superiormente, não fosse ter sido tornado público nas páginas de um jornal. O diretor viu-se então constrangido a informar o Diretor-Geral do Ensino Técnico e Profissional, através de um ofício em que justificava os seus procedimentos perante a denúncia que recebera, argumentando que o visado era “um professor competente, dedicado, assíduo e interessado em colaborar, não havendo quaisquer antecedentes que justificassem outras providências” e que o terceiro professor de Moral da escola, Padre Agostinho Campos de Carvalho, considerava que o assunto não tinha a gravidade que se lhe queria dar. Aparentemente, as explicações do diretor foram aceites pela tutela, mas a publicação de O Conquistador, ao atrair a atenção dos vigilantes da PIDE, terá desencadeado outros desenvolvimentos. Numa comunicação confidencial da PIDE, emitida em 10 de julho daquele ano, referente a “factos ocorridos na Escola Industrial de Guimarães”, eram dadas informações sobre quatro professores. O primeiro é Albano Soares, de quem se informa que “durante as aulas que dá, costuma fazer propaganda desfavorável à religião católica com afirmações como, por exemplo, de que ‘Fátima é uma vigarice e um negócio’; as procissões são paradas carnavalescas’, etc.”. Seguidamente, o informador trata de Sá Tinoco, revelando que, “quando dum peditório para as vítimas do terrorismo em Angola, respondeu que nada dava, que ainda não tinha um juízo formado sobre o problema de Angola e que por isso não lhe interessava”. O terceiro visado é Frederico Manuel Loureiro Flores Durão de Sá Ferreira, formado pela escola de Épinal, tal como Sá Tinoco, e que conciliava as funções de professor de debuxo (desenho têxtil) com o emprego na Fábrica de Tecidos de Campelos, e que é dado como “muito suspeito sob o ponto de vista político”, embora “cauteloso na sua maneira de se expandir”. O último do rol é Joaquim dos Santos Simões, descrito como “nitidamente desafeto à situação, mas que, aparentemente, a não hostiliza”, embora se suspeitasse que poderia ser, tal com o Sá Tinoco, o responsável pela “distribuição do jornal clandestino comunista ‘O Têxtil’”.28 Tanto quanto se sabe, dos quatro professores da EICG que eram objeto do interesse da polícia política, o único que, à época, tinha atividade política organizada era o engenheiro Sá Tinoco, que militava no Partido Comunista Português e de quem Salazar já dissera, em carta a Alfredo Pimenta, historiador vimaranense e diretor da Torre do Tombo, que “parece não ser só um leitor ou curioso de coisas comunistas, mas ter praça assente no partido e ser dele elemento ativo. Far-se-á o que se possa para o salvar. Devo, porém, dizer-lhe o
28 Informação n.º 119/61, de 10-7-61, da Secção Central de Delegação do Porto da PIDE, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
227
que a experiência nos ensina: poucos retrocedem; a maior parte vai até ao fim”29. Dos visados, apenas Albano Monteiro passaria, aparentemente, incólume à devassa da polícia política. No dia 21 de agosto de 1961, poucos meses depois do nascimento da sua filha Isabel, Santos Simões “foi mandado afastar do serviço por motivos de natureza política”, por despacho ministerial, sem especificar os factos que fundamentaram tal decisão, e sem que se lhe tivesse instaurado qualquer processo disciplinar (por ironia do destino, menos de um mês antes, um outro despacho do mesmo ministro, tinha elevado Santos Simões à categoria de professor extraordinário). Aquele mês de agosto não terminaria sem que Sá Tinoco também fosse afastado, do mesmo modo e pelos mesmos motivos, do ensino público. Por seu turno, Frederico Flores, que era professor provisório, o que o obrigava a submeter-se a concurso todos os anos, para poder assinar contrato, também seria afastado do ensino, não voltando a prestar serviço na EICG. Ainda naquele ano letivo, Santos Simões, foi também demitido das funções de professor do ensino particular, que exercia em regime de acumulação no Colégio de Nossa Senhora da Conceição, em Guimarães. Mas como, mesmo entre pessoas que lhe eram politicamente muito distantes, eram reconhecidas as suas qualidades, científicas, pedagógicas e humanas, não tardou a ser contratado para lecionar no Colégio Egas Moniz, onde começou a trabalhar no dia 1 de outubro daquele mesmo ano. Santos Simões regressaria à escola numa noite de março de 1962, a convite dos alunos dos cursos noturnos, para assistir a um espetáculo por eles concebido, organizado e protagonizado. Num artigo a propósito deste efémero retorno, que publicou no primeiro dia de abril no Notícias de Guimarães, não esconde o que sentiu ao regressar à sua escola, da qual fora cruelmente afastado: Depois de quatro anos de contínua e múltipla atividade com os alunos naquele estabelecimento de ensino — atividade toda ela tendente a prestigiar a Escola e a formar homens e mulheres, na plena aceção do termo, e não seres desmiolados e sem coluna vertebral — não foi como um estranho que de novo transpus as suas portas.30
Daqueles dias difíceis, Santos Simões não esqueceria que foi dos alunos que recebeu a maior e mais tocante prova de solidariedade. No dia 8 de abril de 1962, os estudantes puseram a correr um abaixo-assinado dirigido ao ministro da Educação Nacional, que era uma comovente declaração de respeito por um professor de que foram afastados: Não sabendo ainda concretamente a razão, ficamos, neste Ano Letivo, privados de um dos nossos melhores professores e amigos, de um Homem que nos era querido e se impôs à nossa consideração pela forma
29 Salazar e Alfredo Pimenta. Correspondência 1931-1950, Verbo, [Lisboa], 2008, p. 405. 30
Simões, J. Santos, “Afirmação de presença”, Notícias de Guimarães, 1/04/1962
228
como procurava resolver as nossas dificuldades, pela maneira como orientava as suas aulas e ainda pelo apoio moral que nos incutia, quando disso necessitávamos, e também pela sua bondade e generosidade, pela sempre e peculiar boa disposição, que era fruto do seu firme carácter, e o tornaram credor da nossa melhor estima, consideração e muito respeito: o Senhor Doutor Joaquim António Santos Simões. 31
Pediam ao ministro que permitisse que “alunos e o professor saudoso e competente, possam encontrarse, de novo, num amplexo fraterno e de inegável benefício para a nossa Escola”. Mas as cerca de seiscentas
Abaixo-assinado dos alunos da EICG ao Ministro da Educação, de 8 de abril de 1962.
assinaturas que subscreviam o abaixo-assinado não seriam suficientes para demover a autoridade injusta e brutal de quem mandava em Portugal. 31 Documento do acervo de J. Santos Simões, disponibilizado por Isabel Santos Simões.
229
Muitas vezes incompreendido pelos seus pares, Santos Simões sempre viu os alunos como “companheiros da aventura escolar”, não desistindo deles, nem os deixando desistir. Não faltando exemplos, fixemos um especialmente ilustrativo. Em 1963, o jovem José António Salgado Baptista inscreveu-se nos exames do ensino secundário no Liceu de Guimarães. Um par de anos depois, em outubro de 1965, o estudante partilhou, com os que escutaram a conferência que fez na associação Convívio, as dificuldades com que se deparou durante a preparação para aquelas provas, e agradeceu aos professores que o ajudaram, em especial a Santos Simões: Valeu-me nesse ano verdadeiramente aflitivo a presença do Sr. Dr. Santos Simões, cuja inteligência e confiança nas minhas próprias possibilidades ainda hoje recordo com admiração. Para cada obstáculo tinha sempre uma solução prática, desenhava em relevo figuras geométricas ou não, arranjava mapas, improvisava aparelhos de Física e fazia o que podia para me ajudar a aprender a Matemática. Mas as dificuldades não acabavam: a cada passo aparecia um assunto que eu não compreendia e me impedia de continuar com o estudo de determinada disciplina, obrigando-me a aguardar a hora da explicação, para consultar o Dr. Santos Simões. E a Matemática fazia-me ferver o sangue; cheguei a sonhar com problemas e a descobrir na cama a solução de alguns deles! No meio desta tempestade, o Dr. Santos Simões permanecia atento, enérgico, confiante. Não me deixava avançar de um assunto sem que eu dissesse que o compreendia bem, embora com prejuízo dos seus planos, pois às vezes tencionava ensinarme uma coisa e via-se obrigado a passar a aula explicando pormenores mal entendidos; mas não se esquecia do programa que ainda tinha que dar, e carregava no acelerador quando era preciso.32
O jovem estudante, confessou que chegou a temer não ter forças para superar as dificuldades com que se deparava, mas tinha consciência de que o seu mestre jamais lhe permitiria a desistência. Santos Simões, com infinita paciência, enquanto lhe amparava os passos no processo de aprendizagem, dava-lhe ânimo para seguir em frente. José António, concluídos os exames com sucesso, soube reconhecer que tinha “uma enorme dívida de gratidão” para com aquele professor que nunca desistiu dele, nem o deixou desistir. José António foi o primeiro invisual a concluir o curso liceal no Norte de Portugal. O afastamento de Santos Simões da sua escola prolongar-se-ia por longos 13 anos, tantos quantos os que o fascismo ainda durou em Portugal. No dia 1 de maio de 1974, quando nas ruas se celebrava a revolução que acabava de derrubar a ditadura, dirigiu ao Presidente da Junta da Salvação Nacional uma declaração em que comunicava a sua vontade de “ser integrado imediatamente como professor extraordinário da Escola
32
“Uma conferência na sede do ‘Convívio’”, Notícias de Guimarães, 10/10/1965
230
Industrial e Comercial de Guimarães de onde foi compulsivamente afastado pelo governo fascista em 21 de Agosto de 1961”. A reintegração chegaria através de um despacho do Secretário de Estado da Administração Escolar, com a data 16 de novembro de 1974 e efeitos retroativos a 1 de outubro. Passado quase um ano, por despacho ministerial de 8 de outubro de 1975, foi provido como professor efetivo do 1.º grupo da EICG, tendo-lhe sido mandado contar, para todos os efeitos profissionais, o tempo em que esteve afastado do ensino público por motivos políticos. O termo de posse que firmava o regresso pleno à carreira de que fora iniquamente afastado foi assinado no dia 3 de março de 1976. Entretanto, no dia 7 de fevereiro de 1975, Santos Simões foi empossado por Avelãs Nunes, Secretário de Estado do Ensino Superior e Investigação Científica, como membro da Comissão Instaladora da Universidade do Minho (não trataremos por agora, pela sua dimensão, do trabalho que desenvolveu na equipa que lançou os fundamentos da Universidade do Minho). Serviu nessas funções até ao último dia de 1981, data em que, cumprida a sua missão, a Comissão Instaladora foi extinta. Por essa altura também fazia parte, a convite do instituidor, da Comissão Instaladora do Jardim-Escola Dr. Nuno Simões, em Guimarães e participava ativamente nas reuniões que conduziriam à criação da CERCIGUI, a cuja Assembleia Geral presidiria ao longo de duas décadas. No ano letivo de 1975/76, passou a exercer funções docentes na Escola do Magistério Primário de Guimarães (EMPG), a convite do respetivo diretor, o seu colega e amigo José Craveiro. O seu destacamento seria renovado nos dois anos seguintes. No dia 2 de outubro de 1978, a eleição para o cargo de diretor da EMPG não produziu efeitos, por nenhum dos candidatos ter obtido mais de metade dos votos. A votação seria repetida alguns dias mais tarde. Da contagem de votos do Plenário de Professores, Santos Simões ficou em primeiro lugar, com 20 votos, contra 14 contados para o outro candidato. No entanto, apesar de escolhido pelos seus pares, seria injustificadamente preterido pelo ministro da Educação e Investigação Científica, Sottomayor Cardia, que designou para o cargo o candidato menos votado e com menos habilitações académicas. Na sequência desta decisão, solicitou a cessação do destacamento na EMPG. No ano letivo de 1979/80, regressa à EICG que, entretanto, recuperara o nome do seu primitivo patrono, passando a denominar-se Escola Secundária Francisco de Holanda (ESFH). Nos anos que se seguiram, além de professor de Matemática, foi delegado de grupo, orientador de estágios e presidente do Conselho Diretivo. Em 1983, o nome de Santos Simões conta-se entre os dos sócios fundadores do Sindicato dos Professores do Norte. A sua preocupação com o presente e o futuro do ensino profissionalizante esteve sempre no centro das causas pedagógicas e sociais em que se envolveu. Em 1983, liderou o processo exemplar que conduziu à 231
aprovação de uma proposta que apresentou ao plenário de professores da ESFH, que visava dotar a escola de ensino técnico-profissional têxtil capaz de responder às necessidades de mão-de-obra especializada da indústria de tecidos e vestuário da região. No ano letivo de 1984/85, começava a funcionar na escola o Curso Técnico Profissional Têxtil e Produção, um projeto pioneiro e inovador, inteiramente concebido e programado de raiz pelos docentes da ESFH. Quando assume as funções de presidente do Conselho diretivo da ESFH, em setembro de 1984, Santos Simões tem, entre as prioridades para o seu mandato, a comemoração do centenário da criação da Escola Industrial Francisco de Holanda. O extenso programa comemorativo, que ajudou a conceber e a organizar, incluiu duas sessões solenes. Na primeira, realizada no dia 12 de dezembro, Santos Simões faz um discurso em que repassa a longa história da escola, fazendo o seu elogio, com os olhos no futuro: Se a Escola procura hoje, através de uma renovação, que nem todos aceitam, acabar com discriminações chocantemente elitistas através de um cada vez mais prolongado tronco comum de escolaridade, se é igualmente certo que as discriminações sociais se mantêm por força de uma sociedade que, pese embora de cariz democrático, alimenta no seu ventre profundas e injustas distorções sociais, não queremos deixar de nos orgulhar na passagem deste I Centenário desta Escola pelo facto de ela ter sido ao longo da sua vida o lugar onde o proletariado, algum campesinato e principalmente a pequena burguesia encontraram resposta para a sua ânsia de promoção profissional, social, económica e cultural.33
Santos Simões, presidente do Conselho Diretivo da ESFH (1985).
No dia 12 de janeiro de 1985, na segunda sessão solene, que contou com a presença do ministro da 33
Simões, J. Santos, Adeus a Ítaca, p. 96
232
Educação, José Augusto Seabra, Santos Simões retomou a linha que sempre orientou o seu pensamento, em defesa de novos caminhos para o ensino profissionalizante: Esta Escola nunca deixou de prestar o inestimável serviço de formação profissional ao longo dos seus cem anos de existência, mas quando a extensão da escolaridade levou ao desaparecimento dos cursos profissionais, condenados de há muito por os jovens terem de fazer uma opção demasiado precoce e simultaneamente por estarem marcados por um ferrete de discriminação social, os cursos noturnos mantiveramse sempre em funcionamento a responder às expectativas possíveis dos trabalhadores-estudantes. O ensino técnico-profissional é hoje uma preocupação não só para o Governo como para determinados sectores da nossa atividade, principalmente da industrial.34
O mandato de Santos Simões à frente da direção da ESFH terminou em meados de setembro de 1985, com uma tomada de posição sobre a decisão de instalar o Centro Tecnológico Têxtil em Famalicão, defendendo a sua instalação em Guimarães, onde “complementaria, tanto a única Escola Secundária, com a única unidade universitária, com ensino apontado a esta grande região de monoindústria têxtil, fora da área metropolitana do Porto”. Nos anos que se seguiram, Santos Simões retomou as suas atividades docentes, ensinando Matemática, assumindo as funções de representação dos seus colegas no Conselho Pedagógico, a que presidiu, como delegado de grupo, e de formador de professores, orientando estágios de profissionalização em serviço. Em 1988, num texto em que correspondia a um pedido para que escrevesse sobre “a Escola, a nossa Escola”, onde tinha entrado pela primeira vez em outubro de 1957, Santos Simões reflete sobre a escola enquanto lugar onde os professores não apenas ensinam, mas também aprendem: Um sistema de ensino. Mas o que tem sido mais significante para mim é o que ao longo da vida aprendi com os alunos, embora eles possam porventura julgar que não exercem qualquer influência sobre os professores. Embora não tenha que me penitenciar por injustiças deliberadas ou por comportamentos hostis para com os milhares de alunos com que convivi e embora mantenha uma mesma preocupação de exigência no aproveitamento escolar, o facto é que não me revejo, hoje, no professor que começou a sua carreira há 37 anos e que trabalha no ensino há 45 anos! E, se a preocupação de mudança é devida à minha própria reflexão sobre o binómio ensino-aprendizagem e às transformações sociopolíticas, não é menos verdade que grande parte do meu aperfeiçoamento a devo aos alunos.35
Em 25 de maio de 1993, Santos Simões foi homenageado pelos antigos alunos da Escola Industrial, que 34 Id., Ibid., pp. 99-100 35
Documento datilografado do acervo de Santos Simões, facultado por Isabel Santos Simões.
233
o elogiaram como “professor de Matemática para alguns e homem de cultura para todos”. Santos Simões aposentou-se do ensino, em 1992, por atingir o limite de idade. Mas nunca deixou a escola, a sua Escola. Ao chegar ao fim do seu percurso na Escola, publicou um livro onde faz o balanço da sua caminhada enquanto professor momento em que deixava as funções docentes, com o significativo título Adeus a Ítaca, que abre assim, como quem se despede:
ADEUS A ÍTACA Penélope eterna, teces o fio frágil, dúctil, sedoso e belo de gerações que acalentas ao seio, repetidas por fluxos amorosos que Ítaca miticamente suscita. A essas revoadas de gerações corresponde(u) sempre um amante (mil vezes renascido), viajante insatisfeito, marcado pelos deuses com um inapelável adeus a Ítaca, suavizado pelo amor de Penélope. A cultura é desejo constante de cada um se descobrir no universo dos saberes. O ensino-aprendizagem é a relha que abre sulco à descoberta do mundo e nos impele a estar vivos no meio dos vivos.36 Capa de Adeus a Ítaca.
36
Simões, J. Santos, Adeus a Ítaca, p. 5
234
2. Obra publicada O afastamento da sua escola, por motivos políticos, marca um momento de viragem na intervenção pública de Santos Simões enquanto cidadão e dinamizador cultural que usava o poder da sua voz e a eloquência da sua escrita para partilhar, com coragem e desassombro, o seu pensamento sobre quase tudo – e também, naturalmente, sobre questões pedagógicas e políticas educativas. Se a sua ação pública tocou os mais variados domínios da sociedade contemporânea, as questões de educação e de política educativa ocuparam um lugar de destaque na intervenção cívica e no combate político que Santos Simões protagonizou na última década da ditadura. A sua intervenção sobre temas de educação e ensino passou pela participação em colóquios, mesas-redondas e congressos, nomeadamente os da oposição democrática, onde apresentou comunicações sobre políticas educativas, e pelas suas intervenções escritas, em livros, revistas e jornais. O momento em que começou a publicar as suas reflexões sobre a situação do ensino em Portugal, logo após o seu afastamento do ensino público, coincide, no tempo, com o início da sua atividade política organizada na oposição democrática no distrito de Braga, em 1963. Acontece, pela primeira vez, num texto intitulado “Ensino e dignidade”, que saiu no Notícias Informação da PIDE sobre quatro professores da EICG (8-07-1961). de Guimarães de 4 de agosto de 1963, em que homenageia o seu colega Albano Monteiro, que, após oito anos de serviço na EICG, acabava de ser 235
transferido para uma escola do Porto. Nesse artigo, exprime a preocupação que marcará a sua intervenção na área educativa, a necessidade de se proceder a “uma profunda reforma na estrutura da Escola portuguesa”: Efetivamente, não se trata deste ou daquele aspeto, é toda a Escola que está a pedir um arejamento total, do baixo ao alto, das primeiras letras — e ouvimos falar no ensino infantil — à investigação científica, sem descurar nenhum ponto, sem esquecer que o ensino, como qualquer outro corpo com cabeça, tronco e membros, não tolera soluções de continuidade, e, muito menos, reformas parciais, ou enxertos aplicados sem critério.37
Em 1968, Santos Simões publicou Engrenagens do Ensino, ensaio que seria premiado no V Encontro da Imprensa Cultural38. Neste livro, o autor revela o seu modelo de escola: uma escola cidadã e democrática, onde se pratique a educação para a autonomia, assente na consciência de que “as principais atividades duma comunidade humana dependem quase exclusivamente do grau de autonomia e desenvolvimento intelectual dos seus filhos”39. Um sistema de ensino: Aberto à mais franca e leal cooperação entre alunos e professores. Para isso torna-se indispensável integrar os escolares nas atividades correntes da comunidade escolar, dando-lhes liberdade e exigindo-lhes responsabilidade, por forma a fazê-los sentir que o liceu ou a escola não são pertença dos reitores, diretores ou professores, mas um local de estudo, formação, convivência e compreensão humana, onde se forjam os homens do futuro.40
Esta conceção da escola está presente em toda a obra de Santos Simões sobre o ensino, e passa por toda a sua intensa intervenção, em 1971, na discussão do projeto de lei de reforma do ensino (a Reforma Veiga Simão), que leva Santos Simões a participar em dezenas de debates, colóquios e mesas-redondas e a publicar diversos artigos em jornais e um livro, Ensino — Projeto de Reforma ou Reforma do Projecto?, onde afirma que os problemas do ensino em Portugal só se resolvem com mudanças políticas profundas: A reforma do ensino em Portugal, nos termos inadiáveis que o país exige e atendendo aos parâmetros impostos pelo nosso atraso e por um mundo em vertiginoso processo de desenvolvimento científico e técnico, pressupõe a urgente reforma das estruturas políticas, sociais e económicas.41
A participação de Santos Simões no debate da Reforma Veiga Simão reflete o seu pensamento crítico 37
Simões, J. Santos, “Ensino e dignidade, Notícias de Guimarães, 4 de agosto de 1963
38 Foram estas as obras premiadas no V Encontro da Imprensa Cultural: romance, O Delfim, de José Cardoso Pires; poesia, Micropaisagem, de
Carlos de Oliveira; ensaio, Engrenagens do Ensino, de Santos Simões; teatro, As Mãos de Abraão Zacut, de Luís Stau Monteiro. 39 Simões, J. Santos, Engrenagens do Ensino, Nova Realidade, 1968, p. 71 40 Id., ibid., p. 152 41 Simões, J. Santos, Ensino. Projecto de Reforma ou Reforma do Projecto?, Razão Actual, Porto, 1971, p. 31.
236
sobre políticas educativas, que ainda hoje, no essencial, se mantém plenamente atual, e que Licínio Lima resumiu com acuidade: Santos Simões é veemente na defesa de uma educação geral e humanística, de uma educação para a cidadania democrática, acusando já (também com grande visão do futuro) a tendência para uma formação profissional de tipo tecnicista e pragmático, e de resto desconectada da política educativa global e das responsabilidades do ministério da educação, para ser entregue à responsabilidade e aos interesses de instituições e empresas.42
Porque, como Santos Simões escreve, com uma atualidade que ainda permanece, na dedicatória que faz a “Maria Açucena, companheira e colega”, no livro com que encerrou quase meio século dedicado à educação, Adeus a Ítaca, a escola, “em vez de charco onde a Sociedade se espelha, devia ser epicentro de sismo que inquietasse a cada instante essa mesma Sociedade”43. Bibliografia Obras de Santos Simões sobre educação e políticas educativas: Publicações em livro 1968 — Engrenagens do Ensino, Nova Realidade. 1969 — Duas Intervenções sobre Ensino, Guimarães. 1970 — Mas o Melhor do Mundo são as Crianças (Para uma compreensão da situação materno-infantil no Concelho de Guimarães), Guimarães. 1971 — Ensino. Projecto de Reforma ou Reforma do Projecto?, Razão Actual, Porto. 1974 — A Igualdade de Oportunidades para as Crianças Exige a Igualdade Social dos Adultos (Tese apresentada no III Congresso da Oposição Democrática, Aveiro, Abril de 1973). 1974 — A Alimentação e a Criança, Braga, Cooperativa Novos Pioneiros. 1977 — “A Profissão Docente”, in I Encontro Nacional de Professores (Teses e Comunicações), Figueira da Foz, pp. 194-198. 1979 — Mas tu, exílio, persistes (Carta-aberta ao Ministro da Educação e Investigação Científica). Guimarães. 1979 — Pequeno Guia para um jovem professor de Matemática do Ensino Primário, (edição restrita em fotocópias).
42 Lima, C. Licínio, “Política educativa e democratização do ensino nas intervenções cívicas de Santos Simões”, Forum, n.º 26, Jul/Dez 1999,
Conselho Cultural da Universidade do Minho, p. 54. 43 Simões, J. Santos, Adeus a Ítaca, p. VI (dedicatória a “Maria Açucena, companheira e colega”)
237
1984 — “Ensino secundário”, in Dicionário Enciclopédico de História de Portugal, Publicações Alfa, Lisboa, 1985. 1985 — Centenário da Escola Secundária Francisco de Holanda, (coord.), Escola Secundária Francisco de Holanda. 1987 — Contribuição para a História da Associação Académica de Coimbra — 1936 a 1951, Ano do Centenário, (edição restrita em fotocópias). 1991 — Os estudantes e a Universidade em meados deste século, (separata do Vol. 3.° das Actas do Congresso 'História da Universidade (no 7.° centenário da sua Fundação, 5 a 9 de Março de 1990, Coimbra. 1992 — Adeus a Ítaca, Guimarães, Ed. do Autor. 1994 — “Desafio Irrecusável”, in V. Aguiar e Silva (Coord ). 20 Anos de História da Universidade do Minho. Depoimentos e Testemunhos. Braga: Universidade do Minho, pp. 75-98. 2002 — Da Fala à Escrita — Achegas para a introdução à linguagem simbólica. Edição do Grupo de Matemática da Escola Secundária Francisco de Holanda.
Publicações no Notícias de Guimarães (1962-1974) 4.08.1961 —
“Ensino e dignidade”.
1.04.1962 —
“Afirmação de presença”.
16.02. 1964 —
“Educação e Ensino I —Programas escolares”.
23.02. 1964 —
“Educação e Ensino II —Professores”.
1.03. 1964 —
“Educação e Ensino III — Alunos”.
8.03. 1964 —
“Educação e Ensino IV — Conclusões”.
3.04. 1966 —
“Problemas pedagógicos”.
10.09.1967 —
“Postal de várias vistas – 2”.
9.12.1967 — rector)”.
“O problema do Ensino Industrial-Têxtil e Agrícola no Concelho de Guimarães (carta ao di-
30.05.1970 —
“Os investimentos intelectuais como fautores de progresso”.
12.09.1970 —
“Lendo dois recortes de jornais —Espírito são em corpo são”.
30.01.1971 —
O Sr. Joaquim deixa a Escola Técnica”.
1.05.1971 — jecto I”.
VI Congresso do Ensino Liceal — O Ensino Liceal e a sua prospectivação no contexto do Pro-
8.05.1971 — jecto II”.
VI Congresso do Ensino Liceal — O Ensino Liceal e a sua prospectivação no contexto do Pro-
238
O meu Amigo J. Santos Simões – A propósito de um centenário Fernando Capela Miguel
Pela mão de meu pai e sobretudo aos sábados e domingos pelo corredor escuro do clube do Ritmo Louco, lá prós lados da rua de Santo António, que desaguava num pátio de trás onde encontrava os jogos do sapo, do burro e dos dardos do lado direito e o bar, com o Sr. Sousa, pai do meu colega da escola primária, com muitos senhores bem-dispostos encostados e colegas do meu pai. Passava lá o dia e, aos sábados de tarde, via entrar um grupo de homens e mulheres sempre bemdispostos para o fundo do quintal onde havia um palco para onde subiam e iam declamando e comentando ditos e textos que fui percebendo que era aquilo a que chamavam teatro… Logo aparecia um senhor bem constituído e austero de perinha e que, quando falava, toda a gente ficava muda e atenta. Naquele grupo reconhecia quase todos pois apenas não conhecia quatro pessoas. Eram: o Sr. Quim Fernandes, que me tirava os retratos; a dona Cecília, colega de trabalho do meu pai; o Paulo Dias, o Machado do Grémio, pai do meu amigo Tó, também eles moradores, como eu, no Bairro do Tarrafal. O Sr. Machado vinha sempre com duas filhas – a Ny e a Milita - pois era assim que as conhecia; o Sr. Jaime, que era o presidente do clube; o Mário, que me fazia desenhos engraçados, e o Melo, que tinha a voz mais grossa que conheci. Todos eles constituíam o denominado grupo de teatro do Ritmo Louco e que, nesse ano de 1959, passaria a ser o TERB e o clube o CAR – Círculo de Arte e Recreio. Sentado na primeira fila estava um senhor que todos tratavam por professor Craveiro e que, quando eu chegava me convidava para me sentar ao lado dele e viria mais tarde a cruzar-me com ele na Escola do Magistério Primário de Guimarães. Foi o professor Craveiro que me falou pela primeira vez em Santos Simões que, à nossa frente e em cima do palco, liderava a construção dos ensaios teatrais que me divertiam tanto e que por serem engraçados despertavam a minha atenção de miúdo com 5, 6, 7 anos. Assim me “esbarrei” com Gil Vicente e com a sua obra e assim conheci estes dois cidadãos amigos, 239
muito importantes para Guimarães, e que jamais deveriam ser olvidados pela sua dádiva à cidade, às suas associações, à região – José Craveiro da Costa e Joaquim António dos Santos Simões. No meu entender é justo que os faça citar ao mesmo tempo pois tiveram uma vida próxima e comum, durante mais de meio século, como colegas de ensino na Escola Francisco de Holanda, na escola do Magistério Primário de Guimarães, no colégio Egas Moniz; em muitos projetos culturais e políticos acontecidos em Guimarães que só foram possíveis porque existindo um, existia o outro, como dois irmãos que se respeitavam e eram cúmplices nas suas vidas. Sei do que falo, pois, servi de confidente e intermediário de ambos pois acabaram por ser fundamentais na minha existência e compromisso com a cidade e projetos culturais que realizei ao longo dos tempos. Por isso, posso declarar que J. Santos Simões foi a face visível de uma revolução sócio cultural que aconteceu na cidade e na região de Guimarães e o cidadão J. Craveiro da Costa foi a face invisível desta revolução acontecida e, de alguma forma, a mão invisível protetora do seu amigo J. Santos Simões. Foi J. Craveiro que o recebeu na Escola Industrial e o levou para o Ritmo Louco pois conhecia Jaime Martins. Foi J. Craveiro que o propôs ao município para dirigir e coordenar os Festivais de Gil Vicente pois fazia parte da comissão de Gil Vicente. Foi J. Craveiro que o propôs, já em 1976, para a Escola do Magistério e depois para seu diretor e o defendeu na polémica instalada. Foi J. Craveiro que o apoiou, na década de 90, na lograda candidatura do seu amigo a presidente da Câmara e que foi atraiçoado por muitos ditos “amigos democratas” que, até aí quase inimigos, vieram a aliarse para inviabilizar esta candidatura magnífica, com gente magnífica, num projeto de verdadeira democracia pois era factualmente dirigida aos interesses de Guimarães, contributo para o seu desenvolvimento e que tinha sido desenhado pelo amigo J. Santos Simões e o seu grupo de verdadeiros democratas de Abril. Quando J. Craveiro partiu para o Oriente Eterno aquele grupo do TERB de que fazia parte e que ensaiava todas as segundas e quintas feiras da semana e por proposta do Sr. Nobre fez um minuto de silêncio ao seu companheiro e antigo caracterizador e a sua apologia de memória foi feita pelo nosso diretor e ensaiador J. Santos Simões que ainda registo sem querer atraiçoar a memória e que ainda há gente que poderá testemunhar: “Companheiros, é verdade que partiu um dos nossos que soube ser sempre correto e leal na sua condição de membro deste grupo e que nos ajudou a consolidar este projeto eminentemente cultural bem difícil e de luta(s) contra a mediocridade…
240
Acreditem que o amigo Craveiro foi um verdadeiro guerreiro nesta luta contra a ignorância quer como cidadão quer como professor e cidadão!!! Amigos, como sabeis, tenho o Craveiro como um irmão pois, ao longo de meio século, foi um baluarte discreto ao meu lado nos projetos, quer culturais quer políticos, que fomos realizando!!!”
Como ele, Jaime Martins, aqui na coletividade, o pode atestar pelas vezes que lhe solicitei sala para reuniões discretas… É justo e verdade aquilo que afirma o Dr. Santos Simões. Era assim o verdadeiro J. Santos Simões que eu conheci com quem partilhei também mais de meio século da minha existência como seu “braço esquerdo”, confidente, colaborador e cúmplice!!! Era assim o meu saudoso amigo! Magnânimo e justo mesmo que soubesse que tinha muitos detratores e pseudo-inimigos mais com gente com “defeito de fabrico” do que com adversários pois a esses foi sempre respeitador e tolerante das diferenças de ideologias. Perdoem este possível desvario, mas, ainda hoje é difícil para mim falar do meu amigo J. Santos Simões sem alguma emoção. Perdoem-me, mas nestes centenários e justas comemorações não aguento ver hipocrisias de gente pôrse em “bicos de pés” e tecer (ao meu amigo) a Santos Simões elogios e, quando era vivo, fugiam dele como o “diabo da cruz”. Haja vergonha! Perdoem-me, mas falo em nome da verdade e da frontalidade dos factos que aprendi com ele, como meu mestre de matemática, de política e de cidadania cultural. Santos Simões foi meu professor de matemática no colégio Egas Moniz e lembro-me bem daquele dia fabuloso a que chamamos o Dia da Liberdade… Na sala comentávamos com voz baixa a sua ausência pois nunca chegava atrasado a uma aula e, de repente, fez-se silêncio. Santos Simões entrava claramente alterado à nossa frente e, em silêncio, olhou-nos excitante, para logo declarar convictamente: - “Caros alunos, vivo um sentimento quase alterado pois ainda não sei bem o que aconteceu hoje! É por isso que peço a vossa tolerância e me dispensem desta aula que mais tarde compensarei… Tenho que buscar informações e se forem aquelas que penso rejubilarei de alegria pois o dia de hoje será o princípio de um bem maior: - Será o primeiro dia da Democracia”.
Todos nós, incrédulos, quedamo-nos expectantes olhando uns para os outros e só reagimos quando o funcionário chegado à porta declarou: - O professor Santos Simões disse-me para vos mandar sair e irem para a rua gritar bem alto: “Viva a 241
Liberdade!” – E nós fomos. Há bem pouco tempo confirmamos este episódio numa confraternização de antigos alunos do colégio Egas Moniz. Em setembro de 1976 fiz exame ao Magistério de Guimarães e para minha surpresa voltei a reencontrar J. Santos Simões como professor de matemática e onde demos mais substância à amizade que fomos construindo. Este homem era justo e solidário na sua forma de ser e eu abri a minha condição de aprendizagem também às suas reflexões pessoais e conversas partilhadas com os muitos colegas daquela escola que foi exemplar, não só na formação de professores, mas também no assinalar de carências óbvias para a Educação e para a Democracia que eram ali promovidas por professores para além de Santos Simões, José Craveiro da Costa, Alda Dias, Manuel Reis, Isabel Pinheiro, Olinda Torrinha, Alcina Lobo e muitos mais. Mas também assistimos ao confronto de outros rostos do regime do Estado Novo que, entre outras coisas, combateram a candidatura de Santos Simões para diretor daquela Novel Escola já completamente olvidada pela memória dos vimaranenses. E aqui se recomenda a consulta do trabalho do Professor Licínio Lima da Universidade do Minho, apresentado a 23 de outubro de 1999, “Política Educativa e democratização do ensino nas intervenções cívicas de Santos Simões”. Deste modo se perceberá como foi importante como pedagogo neste começo da Democracia para a formação de professores. 1976 é ainda o ano internacional da criança e o presidente Melo do CAR convida-me para ingressar no TERB de forma permanente depois das aventuras revolucionárias dos dois anos pós 25 de Abril. As Jornadas Sócio Culturais foram um corolário de trabalho cultural de base junto das comunidades e um real contributo para o desenvolvimento que se desejava da novel Democracia que era tão jovem e precisava de ser semeada. Nessa altura estava em comissão de serviço no FAOJ da Secretaria de Estado da Educação, que irá apoiar a iniciativa. Joaquim Fernandes era o coordenador, a face visível de um projeto, que levamos a cabo com um grupo intergeracional de voluntários que quero aqui recordar com muito orgulho, satisfação e gratidão: 1. Joaquim Fernandes, a D. Aninhas e a Helena e ainda o João Melro da Biblioteca 127 da Fundação Calouste Gulbenkian; 2. O Círculo de Arte e Recreio nas pessoas do Zé Nobre, do Luís Almeida, do Domingos Fernandes e de Azenha Pires; 3. O TERB – Teatro de Ensaio Raul Brandão com a Fernanda Macedo, o Zé Rocha, o Delfim Lobo, a Lúcia 242
Abreu e a Ju Ramos, o Zé Nobre júnior, o Fernando Fernandes, a Cristina Guimarães, o Casimiro Ribeiro e o Ricardo, o Tobé Rocha, a Teresa Melo e a Lili davam corpo às peças de Teatro Infantil escritas por Santos Simões, D. Tão Parlapatão e O Nascimento do Mundo; 4. Ainda um grupo de amigos e leitores da Biblioteca que o Joaquim Fernandes convidara: a Emília Guise, o marido e os filhos, o Jorge e a Lúcia; o Noélio e a Silvia Miranda, o Júlio Castro e a mulher Irene; o Nelinho francês e a Esmeralda. Este enorme grupo deu corpo durante cinco anos a um trabalho de animação sociocultural realizado nas freguesias deste concelho de Guimarães. São memoráveis as prelações deste amigo Santos Simões nas reuniões preparatórias, na Biblioteca Gulbenkian, cuja existência também era devida ao CAR – Círculo de Arte e Recreio e a J. Santos Simões, na década de60, fundamental para muitos jovens, como eu, chegarem à Universidade. Durante os meses de junho e julho destes anos fomos voluntários neste projeto fabuloso de que ainda hoje falamos quando nos encontramos. Santos Simões era a substância cultural e a motivação ideológica que nos levava a partilhar aquelas atividades de Animação do Livro e da Leitura, do Cinema, do Teatro Infantil, da Música, do estar com as pessoas e do lanche que, no final, nos permitia perceber os malefícios herdados do velho regime desde a pobreza moral à miséria social e cultural e que o meu amigo J. Santos Simões já tinha escrito e declarado como manifesto no opúsculo “Mas o melhor do Mundo são as crianças” e tinha ofertado a cada um de nós… Do meu amigo J. Santos Simões tenho memórias de factos e vivências inimagináveis e que só por si poderei incluir nas minhas memórias. Deixo somente alguns momentos mais raros e apagados da memória coletiva: Em 1989, quando a uma quinta-feira de março não nos deixou ensaiar o Raul Brandão para nos ler e ofertar um exemplar do seu manifesto “Acuso, contribuições para uma reflexão sobre as eleições autárquicas”, e que seria suporte, na década seguinte, para a candidatura à presidência do município de J. Santos Simões. Em 1995, quando, ao teu lado amigo, sentados no Café Vitória, apresentaste o opúsculo “Futebol Vimaranense das origens aos estádios” que consensualmente dizíamos: - A ver se estes “doentes da bola” aprendem alguma coisa pelo menos a respeitar as pessoas e as origens! Em 1999, perante uma magna e ilustre assembleia apresentaste o teu fabuloso “testamento de vida” para surpresa de todos “Tenho muito que fazer!”. Onde mostras como foi a tua vida sempre rica de factos, acontecimentos e contributos essenciais para 243
os cidadãos do mundo que te rodeavam e, naquela homenagem que te queriam fazer, lhes dás uma lição de desprendimento, de gratidão pelo companheirismo e camaradagem acabando por lhes dizeres que ainda “tenho muito que fazer”. Tinhas setenta e seis anos e ainda cinco anos de vida e, nessa altura, alguns de nós percebemos que precisavas de tempo para fazer algumas obras importantes. Lembro-me daquela noite de segunda-feira em que descemos a rua de Gil Vicente, no fim daquele último ensaio em que anunciaste que tinhas aceitado a direção para salvares a SMS – Sociedade Martins Sarmento, a convite do teu velho amigo e companheiro Antonino Dias Pinto de Castro. Foi o último ensaio do TERB… Foi nessa noite que cada um de nós seguiu um novo caminho e uma nova direção da sua vida!!! Lembro-me do dia em que levei o professor Emídio Guerreiro à SMS, a alegria que ele manifestou quando aceitaste a sua proposta de seres o seu conselheiro e testamenteiro e, malgrado teres-te finado primeiro, tivemos que te substituir pelo amigo Meireles Graça! Lembro-me de ter aceite o teu convite para te visitar já como presidente da SMS pois gostavas de discutir comigo as dinâmicas associativas da nossa cidade! Lembro-me de a D. Eduarda me informar que precisavas de mim para te levar a Oliveira de Azeméis para te despedires dos Amigos e companheiros de Ferreira de Castro! Lembro-me, meu amigo, dessa noite tão difícil e das tuas confidências que senti que te querias despedir e como te sentias grato pela nossa amizade e eu ouvia-te e chorava silenciosamente… Lembro-me como falavas de alguns amigos que foram referência na tua vida agitada: o Joaquim Fernandes, o Arnaldo Garcia, o Amílcar, o Mário Dias, o Jaime Martins…e das mulheres: a Edite, a D. Angelina Brandão, a Firmina e, sobretudo, a tua mulher – a Açucena, companheira de todas as horas, e os teus filhos e a importância que davas à família. O médico amigo, António Gama Brandão, pediatra distintíssimo ou de todo o grupo da Universidade do Minho, Professor Lúcio Craveiro da Silva, Doutor João Evangelista Loureiro, o nosso companheiro Licínio Lima e muitos outros que a memória não reteve… Lembro-me daquilo que dizias: “E se na juventude vivi em alfobres de entusiasmo que com o transplante deram origens a novos entusiasmos em Guimarães (…) vim encontrar chão ubérrimo onde nem sequer era necessário lançar sementes, mas apenas dizer o nome delas”.
O CAR era o teu alfobre de companheiros e oficina de trabalho e de fraternidade, vivo e seguro. 244
“Gente generosa de meia idade e gente nova a explodir em avidez de aventuras, em dez anos saíram do século XIX e galgaram meio século do XX para se encontrarem consigo próprios no seu tempo. Não falo em nomes, mas tanto os vivos como os mortos estão hoje aqui comigo”.
E ainda escrever neste documento que guardo como peça única do meu património: “A todas as minhas Amigas e Amigos que, contra vontade minha, obriguei a sair de casa nesta tarde de invernia, o meu reconhecimento a quantos com quem colaborei e colaboro nas várias frentes de batalha cultural na certeza de que podem sempre contar comigo”.
E sou testemunha desta sua postura verdadeira e fraternal e quado disse: “A essa legião (já é uma legião!) de amigos que debruçados na varanda do Éden nos acompanham emocionados por não os esquecermos, os desejos de que instiguem os deuses a combater o egoísmo e o individualismo”.
Partiu em 2004 e sei que, esteja onde estiver, já está rodeado de novos amigos a combater as perfídias e injustiças que encontrar. O meu amigo Santos Simões foi cidadão único, protagonista de um tempo de mudança que aconteceu em Guimarães. Ele deverá ser património nosso!!! Guimarães tem de gravar a fogo o seu nome na toponímia da nossa cidade!!!
245
Santos Simões – Um interventor e criador cultural que quis ser político Raul Rocha
Joaquim António dos Santos Simões completaria neste ano de 2023, cem anos de vida. Foi uma figura profundamente influenciadora da sociedade vimaranense durante mais de 50 anos (desde os finais da década de 1950 (25 de outubro de 1957), quando chegou a Guimarães, colocado como professor da Escola Industrial e Comercial de Guimarães, até aos finais da primeira década do corrente século XXI, quando faleceu, e era Presidente da Sociedade Martins Sarmento). Serei, possivelmente, o vimaranense vivo que durante mais tempo contactou com Santos Simões ao longo desses 50 anos. Com proximidade e grande admiração, mas também com muitos debates e discordâncias. Quando Santos Simões chegou a Guimarães, eu era uma criança muito pequena, mas ele era já amigo do meu pai de Coimbra e foi logo colega da minha mãe no grupo de professores de matemática da Escola Industrial. As referências a ele começaram desde aí a entrar em minha casa em conversas à mesa quase quotidianas. Santos Simões nasceu em Penela, um pequeno concelho rural e montanhoso próximo de Coimbra. Como todos os jovens rurais que se distinguiam na escola, foi para o Seminário até romper com a Igreja e com a opção de ser padre. Fez o secundário e a universidade em Coimbra. Inicia uma intervenção associativa no TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra) dirigido pela grande figura do Professor da Faculdade de Letras e democrata, Paulo Quintela, que privilegiava o teatro vicentino (autos de Gil Vicente). Santos Simões é uma “estrela” no TEUC na viragem dos anos 1940 para 1950 e esse protagonismo é decisivo no prestígio estudantil que o leva a Presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC). É Presidente do TEUC (1948 - 1952) e Presidente da AAC (1950 - 1951). Já aqui é a intervenção cultural que o leva à intervenção política, o cargo de Presidente da AAC é, nessas épocas, claramente uma escolha entre as lideranças da direita e da esquerda na juventude estudantil portuguesa, pelo menos a coimbrã. Terminada essa intensa atividade estudantil, cultural (é fundador do Clube de Cinema de Coimbra), e 246
política, que fica registada nos ficheiros da PIDE, Santos Simões é colocado como professor da Escola Industrial e Comercial de Guimarães. Tem pouco mais de 30 anos. Contacta os meios oposicionistas, mas não assume protagonismo. Esse assume-o na vida cultural. José Craveiro, seu colega na Escola, convida-o a dirigir o grupo de teatro do “Ritmo Louco”. Altera imediatamente o nome para Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB) e tem também uma influência decisiva na alteração do nome de “Ritmo Louco” para “Círculo de Arte e Recreio (CAR)”. A programação do teatro é muito baseada em Raul Brandão e Gil Vicente, embora o TERB tenha representado Molière e Shakespeare. A chegada de Santos Simões como figura cultural é bem recebida pelos políticos locais do regime. O Presidente da Câmara, Castro Ferreira, tinha iniciado pouco antes iniciativas culturais para as poucas “elites” culturais da terra, como a criação dos Festivais Gil Vicente, e Daniel Nunes de Sá, Diretor da Escola e Vereador, nutriu uma verdadeira admiração pelo seu novo professor. Santos Simões também está a iniciar a vida profissional, como funcionário do Estado, a nascerem os seus dois filhos, e sabe que o regime persegue duramente as atividades políticas. Apesar de apoiante de Humberto Delgado (1958), não aparece nas comissões concelhias que, em Guimarães, se formaram no apoio ao General. Só integra os “Democratas de Braga” a partir de 1961. Mas é intensa a sua atividade como encenador de teatro que enchia em representações, ao ar livre, no Verão, a Praça da Oliveira, e com espetáculos em freguesias. Também ganha um grande prestígio como professor pela sua facilidade de comunicação mesmo sobre a “aérea” matemática onde distribuía aos alunos folhas impressas com o essencial do programa, recorrendo pouco aos manuais. Em 1961, um professor de português da Escola Industrial tem uma intervenção equívoca numa aula sobre o “Milagre de Fátima”. Os professores de Religião e Moral desencadeiam uma campanha para o seu afastamento. Ainda sem que o Ministério tivesse tomado uma decisão, outro grupo de professores, incluindo Santos Simões, solidariza-se com o professor acusado. O governo determina o afastamento da função pública de todos, o acusado e os solidários. Foi um rude golpe na Escola, na sociedade, na política. O Presidente da Câmara testemunhou que Santos Simões tinha “bom comportamento moral e político”. Daniel Nunes de Sá, de 1961 a 1974, nunca deixou de elaborar um horário com as iniciais “SS” na esperança do regresso, que não sucedia, e o horário era entregue a um novo professor contratado. Nos arquivos da PIDE sustenta-se que o afastamento terá a ver também com a sua ligação a um outro professor afastado, Sá Tinoco, que era acusado de elaborar um jornal clandestino “O Têxtil”. Sá Tinoco era quadro técnico superior da Têxtil Manuel Gonçalves (TMG) que acumulava com as aulas. 247
Ainda antes destes acontecimentos que provocaram abaixo-assinados, espetáculos do TERB de solidariedade, Santos Simões tinha sido fundador, em 1958, do Cine Clube de Guimarães, mas até ao 25 de Abril reservou-se quase sempre em assumir funções diretivas para que as listas eleitas fossem sancionadas pelo regime. Em alguns mandatos foi a sua esposa, Açucena Neves, também professora da Escola Industrial, que assumiu a direção. Santos Simões foi, porém, o grande divulgador do cinema em Guimarães, pelo menos de autor e do neorrealismo. É, no meu entendimento, a repressão política que o leva a juntar à intensa atividade cultural – sempre para ele a mais apaixonante – a vida de oposicionista. Eduardo Ribeiro, seu grande companheiro desde o início da década de 1960, situa em 1961 (ano de “eleições” para a assembleia nacional) a primeira aproximação de Santos Simões aos “Democratas de Braga”. Mas, nesse ano, não surge nas listas, nem em 1965 (“eleições” seguintes), embora, nesse ano, tenha sido o autor de textos e do programa distribuído pela oposição democrática. Durante os anos de 1961 a 1974, Santos Simões viveu de explicações de matemática com crescente procura e de professor no Colégio Egas Moniz (privado). Publicou também livros de literatura infantil e sobre a condição de vida da infância. Em maio de 1969 foi preso pela PIDE. Foi o alarme nos seus explicandos e alunos à porta do exame de matemática final do secundário. Muitos deles, filhos de figuras do regime. Terão ocorrido diligências de pais pela sua libertação. Não foi longa a detenção. Nas “eleições” de 1969, já com Marcelo Caetano no poder, Santos Simões assume com Lino Lima (Famalicão) e Vítor Sá (Braga) a liderança da CDE (Comissão Democrática Eleitoral). No primeiro manifesto divulgador dos apoiantes é apresentado como Joaquim Santos Simões, publicista. No comício de encerramento da campanha no Teatro Circo, em Braga, é o mais aplaudido quando de braços abertos inicia no palco a sua intervenção: “Eis perante vós um ignorado professor de Guimarães impedido de ensinar há oito anos”. Nas dezenas de sessões de esclarecimento, todas com salas cheias, a maioria não eleitores porque o recenseamento era seletivo, Santos Simões brilhava com a sua arte de comunicar e denunciar a pobreza, o analfabetismo, a falta de liberdade. Marcante foi também o seu texto “A Nova Cartilha do Povo”, escrito em linguagem simples e popular, distribuído aos milhares em todo o distrito. O apoio popular parecia tão crescente que os “Democratas” acreditaram ganhar e entrar no parlamento de Marcelo Caetano. Mesmo que tivesse concorrido outra lista oposicionista, muito constituída por 248
advogados de Braga que não queriam estar ao lado de membros do PCP como Humberto Soeiro, Lino Lima, Vítor de Sá. Em Guimarães essa lista não conseguiu encontrar candidato. Mas a realidade foi outra. Marcelo ganhou, ainda estava em estado de graça após ter prometido abrir o regime de Salazar, e só estavam recenseados, na sua grande maioria, não oposicionistas. A CDE, de Santos Simões, obteve, porém, milhares de votos, enquanto a CEUD se ficou pelas centenas. No período (1969 – 1974) Santos Simões vive para a política. Reúne a comissão concelhia do MDP/CDE semanalmente. Anda à procura de operários para se juntarem ao seu grupo urbano, fechado, de intelectuais, professores, profissionais liberais. Sente um alento com a vitória de uma lista de oposição no Sindicato Têxtil, em 1973. Afinal havia operários contra o regime. Mas Santos Simões não os conhecia. É neste período que Santos Simões emerge como figura nacional da oposição, porta-voz de uma nova política de Educação. Publica livros, intervém em colóquios do regime contestando, apresenta, no Congresso Republicano de Aveiro de 1973, uma tese com o programa da “Democratização do Ensino”, aliás já iniciada pelo Ministro Veiga Simão. Tem um grande reconhecimento nacional. Ainda, antes de abril, deve salientar-se a criação em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian da primeira Biblioteca Pública, instalada no CAR, a criação da página “Artes e Letras” do “Notícias de Guimarães”, a organização do FICAG (Festival Internacional de Cinema de Amadores de Guimarães) e dos Jogos Minho-Galaicos, promoções da Associação “Convívio”. Em 25 de abril de 1974, Santos Simões tem 51 anos, é a figura liderante da oposição democrática em Guimarães e uma das duas/três liderantes do distrito, é a figura nacional de referência na Educação da Oposição. Tem assim um enorme capital político e tudo indicava que seria um dos primeiros dirigentes nacionais, distritais ou concelhios, do novo poder político. Não sucedeu assim. Porquê? É uma tese controversa. Demasiada ligação ao PCP? Ciúmes regionais e locais? Ou Santos Simões era um homem da cultura que tinha estado na política, mas não era um político? A verdade é que Santos Simões, logo a seguir ao 25 de Abril, foi indicado para Governador Civil de Braga, para Ministro da Educação e não foi nomeado. Mesmo para a CA da Câmara de Guimarães, sendo certo que não se terá empenhado, a lista avançada pelo MDP/CDE foi de clara convergência com a UV (Unidade Vimaranense), associação que viria a dar origem ao PSD e não incluiu membros fraturantes como Santos Simões 249
seria. Regressou como professor à sua escola, mas mesmo aí, tem um dissabor. Na primeira eleição para o Conselho Diretivo, a sua lista que incluía com os seus amigos José Craveiro, Álvaro Cohen, Hélio Alves, Jorge Peixoto, Manuela Miranda, perdeu para uma outra de jovens professores como Vitorino Costa, Carneiro Soares, Vítor Guimarães. Só anos mais tarde, viria a ser eleito Presidente do Conselho Diretivo. No novo regime, só assumiu lugar na Comissão Instaladora da nova Universidade do Minho. Há ainda a candidatura à Constituinte de 1975 pelo MDP/CDE, onde é cabeça de lista distrital, e não consegue ser eleito. São várias desilusões políticas. Neste final da década de 1970 tem um papel relevante na criação da CERCIGUI, onde é o primeiro Presidente da Assembleia Geral. Esta cooperativa surge em Guimarães por iniciativa do psicólogo Romeu Barroso que mobilizou um conjunto de fundadores com preocupações sociais, nomeadamente no apoio à deficiência na infância. Na CERCIGUI vai ter, ao longo de muitos anos, relevância e o seu nome ficou registado no Lar residencial de S. João de Ponte. A sua última presença política é como cabeça de lista da FEPU (aliança do MDP/CDE com o PCP) na primeira eleição para a Assembleia Municipal de Guimarães. É o nº 1 dos 8 eleitos da FEPU e lidera a bancada com Ana Maria Lopes do PCP. É aqui que tenho uma colaboração mais intensa porque integrei com ele a Comissão de Educação, Ensino, Cultura e Recreio, onde, na segunda parte do mandato, Santos Simões foi Presidente e eu, Raul Rocha, secretário. Guardo o livro de atas de 16 páginas escritas na sua letra miudinha como documento de memória. Sumario só alguns temas que são referidos nessas atas, retratos de reuniões com membros do PS, PSD, CDS, FEPU, GDUP’s, Independentes. Logo na primeira, o apoio à compra do Palácio Vila Flor para instalação dos Cursos Suplementares de Engenharia da UM, mas também a urgência na construção de instalações definitivas de raiz. Nas seguintes, as propostas dos nomes de Alexandre Herculano e Teixeira de Pascoais para ruas, a aquisição do espólio de António de Azevedo, a insistência em que o Estádio Municipal fosse da comunidade, a instalação da Escola Preparatória de Pevidém, o problema dos horários do ensino primário concentrados, a instalação da Casa-Museu Raul Brandão, a contratação de um técnico superior para o Arquivo, a localização da Cruz de Tagilde, a criação do Museu de Briteiros. Santos Simões ainda permaneceu na Assembleia Municipal até finais da década de 1980. Foi sempre muito ouvido até mais pelos executivos de António Xavier que pelos do PS dada a maior fricção PS/CDU. 250
Pertenceu a comissões de aconselhamento cultural e lutou muito pela instalação da Casa da Cultura. Recebeu uma homenagem concelhia que encheu o Restaurante Jordão com oradores de todas as cores políticas, recordo o ex-Ministro da Saúde António Arnault, seu velho companheiro do MDP/CDE e de Coimbra. Um dos projetos principais da esquerda vimaranense no pós 25 de abril e que durou mais de 30 anos (1978-2013) foi o jornal “O Povo de Guimarães”. Santos Simões foi cooperante fundador, mas sem grande protagonismo. O seu primeiro Diretor foi o seu amigo José Craveiro, considerado então pelos fundadores de perfil mais abrangente. Mas, desde o primeiro número até ao último, Santos Simões, com o seu nome e pseudónimos, escreveu no jornal. Fê-lo sempre de forma livre, mas individualizada. Foi Presidente da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal, mas não da Direção. Os seus amigos mais diretos queriam a sua colaboração, mas temiam a sua liderança, muitas vezes demasiado centralizadora. Este é um dos exemplos que mais me justificam que Santos Simões não era político – na aceção que a gestão política tem de ter de conciliação – mas sim um líder que se impunha pela sua superioridade intelectual, ampla cultura, com pouca paciência para aqueles que não o acompanhavam. Santos Simões terminou a sua vida na instituição que, como homem da cultura, sempre sonhou: a Sociedade Martins Sarmento (SMS). Quer antes de abril, quer nos anos 1980, integrou listas candidatas à SMS sem assumir a liderança, a última foi encabeçada pelo advogado Pinto dos Santos, porque queria intervir numa instituição que considerava chave para a cultura em Guimarães. A direita que sempre considerou a SMS propriedade sua, mobilizou-se para o impedir. Centenas de sócios que nunca entravam na instituição apareciam para travar que a esquerda fosse dirigente, mesmo quando as listas que Santos Simões integrava eram muito abrangentes. Estas perdiam por larga margem. Mas há um momento de forte crise na SMS. Os seus dirigentes acusam-se na praça pública. Alberto Costa Guimarães que tinha sido deputado no regime anterior e vivia em Lisboa, vem a Guimarães para salvar a instituição. Conversa com amigos que lhe dizem que é o momento de chamar Santos Simões. Numa Assembleia Geral é eleita uma comissão administrativa liderada por Alberto Costa Guimarães, mas que inclui Santos Simões. O enlace entre os dois e também com Francisco Ramos Martins Fernandes foi perfeito. Pouco tempo depois houve eleições e Santos Simões foi eleito Presidente, chamou amigos da esquerda como António Ribeiro Martins, mas também Alves Pinto que conhecia bem da Secundária Francisco de Holanda onde lhe tinha sucedido como presidente do Conselho Diretivo. Foram os seus últimos quinze anos de vida. Na cultura. Na sua “praia”. Santos Simões quis ser político, mas foi muito mais um homem da cultura e do associativismo. 251
Santos Simões, escritor Álvaro Nunes
Quiçá a faceta de escritor seja a menos abordada relativamente a esta personalidade tão multifacetada como o foi J. Santos Simões. Porém, para além do jornalismo, ele legar-nos-ia uma produção literária diversificada, digna dos maiores encómios, desde os contos à dramaturgia, até ao ensaio e à narrativa de ficção e/ou polemista e inclusive à poesia e às memórias. De facto, Santos Simões deixar-nos-ia em herança um significativo acervo que vai desde a intervenção cívica e política até à escrita sobre Guimarães, sua terra de adoção, e, obviamente, à vivência da vimaranensidade. Efetivamente, desde a “Breve História do Teatro de Ensaio Raul Brandão” (36 anos a lutar contra moinhos de vento), de 1995, ao “Cineclube de Guimarães – História Breve” (1996), associações em que esteve intimamente envolvido, Santos Simões esteve praticamente em todas, delas dando testemunho. Com efeito, entre várias outras produções da sua lavra, conta-se o “Futebol Vimaranense: das origens aos estádios” (1995), o “V Centenário do Teatro Português e Gil Vicente” (2001) e, entre outros, no bosquejo histórico 1966-1992, “Guimarães – Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian – 1966-1992”, datado de 1993, emérita instituição de sua intervenção, pioneira da Biblioteca Raul Brandão. Neste âmbito, ainda, de registar “Da Utopia à Realidade: do grupo Musical Ritmo Louco ao Círculo de Arte e Recreio” (1994) e outras de história local, de tempos mais recentes, focadas fundamentalmente no associativismo da cidade, não obstante e, por vezes, algumas delas remontarem à História mais antiga da urbe, como são exemplos concretos “Guimarães, a vila de D. João I - Mas Portugal, Portugal ao estilo de Fernão Lopes” (2004). Mas, para além desta vasta produção ativa sobre as coisas e loisas da cidade-berço, que ele ajudou a embalar, Santos Simões coordenaria ainda o suplemento cultural do “Notícias de Guimarães” Artes e Letras, desde 1961, que frequentemente abordaria nas suas quatro páginas assuntos como a 252
literatura e o cinema, mas também teatro, fotografia, banda desenhada, escultura e educação. Suplementos culturais que não só publicariam textos de diversas figuras nacionais, como também artigos de referência de figuras internacionais e do próprio Santos Simões, abordando as mais diversas temáticas. Suplementos culturais, editados entre 1961 e 1975, entre os quais são de destacar as edições n.º 135/6/7 dos meses de março, abril e maio e a de 17 de julho de 1971, alusiva a Ferreira de Castro, após a inauguração do seu busto nas Caldas das Taipas, em 17 de abril desse ano, iniciativa da qual o próprio Santos Simões seria promotor, bem como outros números especiais dedicados a Aquilino Ribeiro (1963), ao escultor António de Azevedo (1965) e a Raul Brandão (1967), entre vários publicados. Aliás, seria também nas páginas deste suplemento cultural que Santos Simões lançaria a ideia de comemorar o quinto centenário do nascimento de Gil Vicente e seria a propósito desta publicação que acabaria por se realizar nas Caldas das Taipas, em 1965, o III Encontro dos Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional, sob a vigilância da PIDE. Porém, no que concerne à escrita, Santos Simões colaboraria assiduamente, ao longo da sua vida, em vários jornais, nomeadamente no semanário O Povo de Guimarães do qual seria assíduo colaborador e fundador da cooperativa editorial, assim com na Revista de Guimarães, abordando os mais diversos temas. Igualmente, em 1968, após a saída da prisão, Santos Simões inicia também, mais intensamente, a sua produção literária no âmbito da intervenção cívica e política, que, já antes da vinda para Guimarães, em 1957, iniciara em Coimbra. Sobressai nesta vertente, o ensaio “Engrenagens do Ensino”, que tem por base algumas conferências proibidas pela censura da época. Um livro que acabaria por receber o Prémio Ensaio da Imprensa Cultural, recheado de comprometida intervenção democrática, deliberadamente centrado na política educativa e nas problemáticas da educação e ensino, que, na esteira de António Sérgio, avançaria como novas ideias de “autogoverno escolar” e “autogestão pedagógica”. Uma obra que seria bastante debatida, na qual emergem, segundo Licínio Lima, conceitos como o “espírito crítico”, a “consciência cívica” e “uma educação “para a autonomia, isto é, uma educação democrática”. De facto, como acrescenta o citado autor, um texto que deixa “claramente enunciado, o mote de toda uma vida – democratização do ensino, igualdade de oportunidades, educação para a cidadania democrática, aliando necessariamente formação 253
intelectual e formação profissional, instrução e educação cívica”. Entrementes, Santos Simões corre o país em colóquios, mesas redondas e congressos, ainda que muitos deles proibidos, acabando por reunir estas intervenções no livro intitulado “Ensino – Projecto de Reforma ou Reforma do Projecto”, que sairia do prelo em junho de 1971. Quase paralelamente, surge, ainda, “Mas o melhor do mundo são as crianças – para uma compreensão da situação materno-infantil no concelho de Guimarães” (1976). Um retrato socioeconómico do concelho vimaranense no qual apresenta “algumas sugestões esquemáticas para a atenuação das diferenças e superação das carências assistenciais materno-infantis no concelho de Guimarães”. Com efeito, na sua luta pela justiça social, inseparável da sua vida e escrita, Santos Simões pugnaria incansavelmente em prol da educação, que, na sua perspetiva, seria uma das alavancas do futuro melhor. Assim, mesmo após a reforma do ensino de Veiga Simão, aprovada na Assembleia Nacional (Lei 5/73 de 25 de julho), à qual demonstra a sua oposição, a luta continua, não obstante reconhecer alguns aspetos positivos à lei emanada: “(…) a oficialização do ensino pré-primário, o acompanhamento da evolução psicopedagógica dos alunos no 1.º ciclo do ensino secundário, a garantia de uma formação humanista qualquer que fosse o ramo de ensino escolhido, vem como garantia de qualidade do ensino (…)”
Mas o Estado Novo não lhe dá descanso. Deste modo, vem novamente a sentir na pele mais uma proibição censória, aquando da abordagem no Convívio do tema “Abordagem de alguns problemas da criança”, a propósito de Dia Internacional da Criança. Uma situação que motivaria como resposta a publicação da carta aberta ao Governador Civil de Braga intitulada “E, contudo, move-se” (1973). Aliás, a intervenção cívica e política é uma marca indelével da sua coerência enquanto homem comprometido com a sociedade que pretende sinceramente melhorar e tornar mais justa. Daí, que na sua escrita ecoem gritos, como “Braga, grito de liberdade. História possível de meio século de resistência” (1999), erga muralhas “Em defesa da cidade” (2000), ora agite a memória coletiva como na publicação “90.º Aniversário da República – para que Guimarães não esqueça” (2001), ora n’ “Uma Reflexão sobre a Monarquia do Norte ou o Reino da Traulitânia” (2004). Porém, as crianças são, como vimos, uma preocupação constante de Santos Simões, que se assume como uma espécie de imanente paladino dos mais novos. Como tal, inicia também a publicação de contos 254
infantis como “a Juba do Leão” (1962), “A Cadelinha Pipocas e o Finório cão-de-todos” (1963), bem como, entre outros, “A Galinha Gertrudes e o Galo Fraldiqueiro” (1971). Contos que, mais recentemente, em 2001, foram reunidos numa edição da Câmara Municipal de Guimarães intitulada “Os meus contos para crianças”. Mas, na narrativa, escreveria ainda os contos “Água de Vivos” e “Contos Escolhidos”, que manifestam um pendor popular e anedótico de cariz galhofeiro, mas especialmente “O Senhor da Cana Verde” (2003), este último sobre a expressão sensível da vivência da doença, que constituiu uma lúcida reflexão e desabafo, e/ou como se escreve no prefácio da obra, “um grito silencioso no meio do barulho provocado pela passividade”. “Silêncio”, texto de abertura desta narrativa, que é tida como a sua obra-prima, assim começa: “A voz procedia de longe como um ecoo … Interna-se, interna-se … Sou levado sobre flocos de lã ou na asa duma nuvem. Vivos, só os olhos parados que interrogam e não têm resposta. O corpo é lançado sobre uma cama. A coluna vertebral, agredida por uma deposição violenta, dá um segundo sinal (doloroso) de vida. Passageiro. Um outro eu (o real) não presente que entra no lameiro dos soros, de todas as dependências físicas, de uma noite de duração imprevisível … Sinto que desço a um poço profundo onde de todo se esvai a consciência”.
Paralelamente, Santos Simões cultivaria ainda a dramaturgia. Deste modo, publicaria ainda peças de teatro infantojuvenis como “A Bruxa, a Fada e Eu”, “Dom Tão Parlapatão”, ou “Um rei sem coroa”. Teatro a que junta ainda a peça “O Cerco”, encenada pelo Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB), aquando da homenagem pública ocorrida em 1979“, “A crónica de uma longa jornada” peça escrita e encenada em comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa, ou “O Auto da Rainha Santa”. Entretanto, no decurso em 2014 e dez anos volvidos após o passamento de J. Santos Simões, ocorrido 255
em 2004, alguns amigos seus decidiram prestar-lhe uma homenagem póstuma, editando o opúsculo “Rapsódia das Peças Teatrais de Mestre Gil – Da vida e da morte em Gil Vicente”, tendo por base a compilação de textos vicentinos selecionados e arrolados por ele próprio e o seu grupo de trabalho, cuja edição coube ao Centro de Estudos do Humanismo Crítico. Mas, Santos Simões também escreveria poesia, como se constata na sua “Terra do meu bem querer!”, que dedica “aos operários e sua Região que, à custa do seu trabalho e das mais-valias roubadas ao seu salário de miséria, contribuíram, decisivamente, para a prosperidade da terra vimaranense”. Respigamos dessa obra poética o poema “Guimarães”, dedicado a Antonino Dias, datado de dezembro 2001, aquando da classificação do Centro Histórico pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, bem como a composição lírica “Terra que eu não tive”: “Minha terra é ondulada cabelo encaracolado sobe desce, desce sobe é o nosso fado falado sempre ao ritmo da festada.
Minha terra é este berço onde nasceu Portugal! O casco urbano bem terso espraia-se em ruas telhados em seu cofre medieval a todos deixa espantados! Mas o que a mim mais encanta é o povo que aqui vive aqui sofre, trabalha, canta na terra que eu não tive
No centro o coração escrínio de herança sagrada! Se cá temos o Castelo não falta a Colegiada. foi rumor de uma nação foi o nosso mais forte elo
Mas que é minha … pois então”. Aos nossos olhos é assim um tesouro a resguardar como terra sem idade como madre que outrossim é espelho a conservar pra espanto da Humanidade.
256
Em síntese, como escreve M. Branco de Matos, no semanário “O Povo de Guimarães”, em 19 de novembro de 2004, uma obra de “sensibilidade e adesão a tudo quanto é humano que brota do seu empenhamento cívico, a inquestionável e sistemática intervenção política que desempenha quase sempre em contra-poder como consciência lúcida de cidadão atenritorto”.
De facto, como o próprio Santos Simões escreveria “não há literaturas descomprometidas” e Santos Simões é efetivamente um escritor compromissivo, quer com as causas quer com o seu povo, que, na esteira de seu amigo e escritor Ferreira de Castro, durante o 1.º de maio de 1974, gritaria: “escrever é lutar!” …
257
Eu conheci Santos Simões António Xavier Ex-presidente da Câmara Municipal de Guimarães (mandatos de 1980-1982 e 1986-1989)
Na década de 40 do século passado, a nossa Escola Industrial foi importante e fundamental para permitir o acesso à escola e aos cursos de formação profissional, fossem da indústria fossem do comércio de tantos jovens que à escola afluíram. Claro que a enorme quantidade de alunos também trazia problemas ocupacionais… Os jogos que se jogavam eram à bola, ao trincolé mas, pouco depois, começou a aparecer um grupo que se juntava no jardim do Toural em dias de sol e que vai ser uma referência criativa, inovadora e original – surge o Ritmo Louco com a sua música frenética com gaitas de beiços. Dois dos jovens cidadãos vinham da Escola Industrial: Jaime Martins e Alberto Ferreira, o batata; dois eram irmãos que se juntaram no início para ouvir e, logo depois, para fazer parte…os irmãos Machado: O João e o Miguel; e, ainda, o Bastinhos e o comandante dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, o Damião Braga; finalmente, relembro o João Ribeiro, o alfaiate da rua Bento Cardoso – o pitada como era conhecido, com a guitarra portuguesa. Criado nos finais do ano de 1939 vai tornar-se um agrupamento musical de referência com convites para a animação de festas, verbenas, romarias e bailes com grande êxito que vão convencer-me a aderir a esta sua vivência e folia dos meus anos de adolescente. Muitas vezes gaitei com eles com muito prazer acompanhando o Jaime Xavier de Carvalho e o Luís Almeida que chegaram também comigo. Nos finais da década de 50, já estávamos a ensaiar, na sede do Ritmo Louco da Rua de Santo António, onde nos encontrávamos fraternalmente com outros jovens que, na sua diversidade de interesses, gastávamos os nossos tempos livres e de ócio. Jogávamos o sapo, o cavalo, as argolas e o pe(r)ceb(e)rico. Fazíamos tombolas, 31, pesca, passeios e até havia um grupo de fados e um grupo de teatro onde eu aprendi a subir ao palco até ser o “filho do senhor Ventura” que levamos à cena com outros companheiros dirigidos pelo ASA da Póvoa de Lanhoso, o António Soares de Abreu. 258
Ora, numa noite de 1957, o nosso caracterizador, professor José Craveiro, chega ao ensaio acompanhado do seu colega da Escola Industrial que já tinha sido anunciado pelo Jaime Martins… - Hoje vamos receber a visita de um professor de matemática que chegou na semana passada à nossa cidade vindo de Coimbra e que sabe muito de Teatro, preciso da vossa atenção!!! Quando vimos chegar o professor José Craveiro ficamos logo animados e expectantes. Sem mais delongas tomou a palavra: - Apresento-vos o meu recente colega de matemática que sabendo da existência do nosso grupo de teatro ficou curioso e manifestou logo vontade de vos conhecer. - É verdade!!! Sou apaixonado pela Arte de Talma e gostaria de saber o que ensaiam – disse o professor de matemática. O nosso diretor artístico Asa respondeu: - Pois estamos com data marcada, para a estreia e apresentação do “Senhor Ventura”, de que é autor, no Teatro Jordão. Jaime Martins, pragmático, como era, logo atalhou: - Queremos convidar o professor pois sabemos que sabe muito mais do que nós desta arte… O professor não o deixou acabar e logo declarou: - Chamo-me Joaquim dos Santos Simões e decidi com minha esposa vir viver para Guimarães e, sim, teria gosto em fazer parte do vosso grupo. Decidirei de facto depois da apresentação pública anunciada para o Jordão onde estarei… Foi assim que conheci J. Santos Simões e, a partir deste dia, a nossa condição de jovens atores, a vida da nossa coletividade e o quotidiano desta cidade que é nossa, vai receber um contributo criativo que será uma autêntica revolução cultural cuja dinâmica irá germinar nesta coletividade – o Grupo Cultural e Recreativo “Ritmo Louco”. Nos anos seguintes, 1958 e 1959, e na sequência de uma assembleia geral extraordinária será aprovada por maioria a nova denominação da associação e da sua secção de Teatro. A partir desta data, o CAR – Círculo de Arte e Recreio e a sua secção de teatro – O TERB – Teatro de Ensaio Raul Brandão vão dinamizar durante toda a década de 60 a região de Guimarães e as suas comunidades. Nascerão os Festivais de Gil Vicente de forma permanente. A liderança única de Santos Simões foi fundamental e foram reconhecidas as suas qualidades. A força da sua personalidade, lealdade e capacidade de partilha vão ser motivação para o grupo de jovens que, nesta época, vai fazer da sede do Círculo de Arte e Recreio o palácio da amizade.
259
Entretanto, a vida prossegue e vou afastar-me naturalmente destas vivências por razões profissionais e familiares, mas sempre acompanhando à distância as intervenções dinâmicas e até polémicas, no tempo do Estado Novo. Em 1974, dá-se a Revolução dos Cravos que nos vai trazer a Liberdade e a Democracia, valores com os quais também andei comprometido nestes novos tempos, e será na política que vou encontrar, como adversário, este homem fabuloso com H grande. Cruzei-me Com Santos Simões na construção da nossa Universidade do Minho, a sua instalação e, depois, acompanhei as suas intervenções no conselho cultural desta Universidade. Foi sempre frontal e com reservas contra a radicalização dos vimaranenses. Foi sempre leal, dialogante e sem agressividades e defensor das opções mais justas … Mas ai de quem pusesse em causa valores fundamentais ou fizesse intervenções desajustadas ou praticasse atos medíocres! Era cáustico e implacável!... Durante a década de oitenta, como se sabe, fui um cidadão ligado ao município e aí lidei de perto com Santos Simões que, enquanto deputado municipal, fez sempre intervenções e deu contributos para o benefício das populações, na defesa dos interesses municipais e comigo foi sempre disponível, correto e delicado embora, no exercício da sua condição de munícipe e deputado, também o vi violento, duro e implacável enquanto político da Assembleia Municipal. Deliberei com ele a denominação de Raul Brandão para a nossa Biblioteca Pública e acompanhei com ele a importante obra do infantário Nuno Simões. Posso afirmar, sem peias, que este cidadão de Coimbra que quis ser vimaranense foi uma luz sábia que iluminou Guimarães e ajudou a combater a mediocridade da época, evidente em termos culturais e até políticos. Eu conheci Santos Simões e dele tenho as melhores memórias e recordações. Santos Simões jamais deverá ser olvidado na nossa terra – Guimarães.
260
Santos Simões – O meu testemunho no centenário do seu nascimento Manuel Ferreira Ex-Presidente da Câmara Municipal de Guimarães (mandato de 1983/1985)
Conheci e convivi com o Dr. Santos Simões, ainda nos tempos em que estávamos na Comunidade de Fermentões, com o Grupo Popular de Teatro de Fermentões, aí por 1968 ou 1969, já no, então designado, Centro Cultural e Recreativo de Fermentões. Já nesses tempos, o Dr. Santos Simões era bem conhecido, nomeadamente, com o trabalho que desenvolvia, no CAR – Círculo de Arte e Recreio, designadamente com o Grupo de Teatro que tinha em grande e intensa atividade. E costumávamos colaborar. Na verdade, o Dr. Santos Simões veio a Fermentões, por várias vezes, cooperar connosco, no nosso Grupo de Teatro. E tivemos a oportunidade de muito aprender com ele, e com o trabalho que desenvolvia no CAR, designadamente em alguns Encontros de Teatro, em que o Centro Cultural e Recreativo de Fermentões, também, costumava participar. Mais tarde, já depois da Revolução de Abril de 1974, tive a oportunidade de me encontrar, também, com o Dr. Santos Simões, na Assembleia Municipal de Guimarães, depois das Eleições Autárquicas realizadas em 1976. Percebi, então, que todos os Membros da Assembleia Municipal sabiam escutar as intervenções do Dr. Santos Simões, com um enorme respeito, mesmo discordando, por vezes, do que ele dizia. Em 1979, nas Eleições Autárquicas, fui Candidato a Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, na Lista do Partido Socialista. Como perdi a eleição, fiquei como Vereador da Câmara Presidida pelo Amigo António Xavier. E, nessas circunstâncias, tive, também, a oportunidade de conviver com o Dr. Santos Simões, Deputado Municipal eleito, segundo creio, pelo MDP/CDE. Em 1982, fui candidato, novamente, pelo Partido Socialista, a Presidente da Câmara Municipal de Guimarães. Tendo sido eleito Presidente da Câmara, nesse Mandato Autárquico 1983/1985, tive, então, muitas oportunidades de me encontrar com o Dr. Santos Simões, nomeadamente na Assembleia Municipal de Guimarães. Devo dizer que muito aprendi, em termos de Atividade Política, com o Dr. Santos Simões, com quem, muitas vezes, me encontrava, na Câmara Municipal, previamente às Sessões da Assembleia Municipal, e com quem , por vezes, em assuntos sensíveis me encontrava, no Gabinete da Presidência, para preparar 261
alguns assuntos, como aconteceu, nomeadamente, aquando da aprovação da Proposta para a Municipalização da Concessão de Energia de Baixa Tensão, que estava, indevidamente, a cargo da Empresa Bernardino Jordão e decidimos passar para a EDP, de acordo com a legislação, então, existente. O mesmo aconteceu, também, aquando da proposta da criação de Régie Cooperativa Taipas Turi-Termas, que, depois de aprovada pela Assembleia Municipal, assumiu a recuperação do Estabelecimento Termal das Caldas das Taipas, bem como a gestão dos Equipamentos Turísticos da Vila que, com a extinção da então Junta de Turismo, ficaram a cargo do Município, e que, também, foram integrados no âmbito da Régie Cooperativa Taipas Turi-Termas. Por outro lado, sendo o Dr. Santos Simões Presidente da Sociedade Martins Sarmento, fui por ele convidado, também, para colaborar em algumas iniciativas daquela Associação. Foram tempos interessantes, na verdade, os que pude viver, e conviver, com o Dr. Santos Simões, com quem, felizmente muito pude aprender. Deixo aqui, assim, o meu testemunho de homenagem a um Homem que, designadamente, no domínio da Cultura, muito fez pela Cultura no Município de Guimarães.
262
Curta abordagem ao notável percurso de vida de um singular cidadão, o dr. Santos Simões António Magalhães Ex-presidente da Câmara Municipal de Guimarães (mandatos de 1989 a 2013)
Guimarães teve a honra de acolher no seu seio, durante vários anos, o Dr. Santos Simões, senhor de uma sólida dimensão cultural que veio a contribuir para rejuvenescer o tecido humano que, então, veio encontrar na cidade berço. Na sua Coimbra natal, desde muito jovem, incentivou e liderou outros seus colegas para assumirem atividades (até reivindicativas), tentando agitar a modorra política de então, da qual era assumido adversário. Em Guimarães, o Dr. Santos Simões assumiu-se colaborador das instituições culturais já existentes, propondo conceitos de dimensão inovadora e, liderando mesmo algumas, introduzindo-lhes outra dimensão participativa que a sua iniciativa original não conseguira manter. Santos Simões chega a Guimarães em 1957. Logo no ano seguinte, envolve-se e dinamiza várias associações de índole cultural existentes. Ao cidadão comum a acção interventiva do Dr. Santos Simões, nas múltiplas participações de cariz cultural ao longo de algumas décadas, em prol da cidade e dos seus cidadãos, não teve o reconhecimento que devia e merecia. Todavia as associações culturais de Guimarães, no programa associativo “Tempos Cruzados de Guimarães 2012”, Capital Europeia da Cultura, não esqueceu e incentivou os nossos jovens a conhecer as múltiplas intervenções de índole associativa e cultural, a que o Dr. Santos Simões, ao longo de décadas, deu vida em prol da cidade e sobretudo dos seus cidadãos. Onde quer que esteja, um sentido obrigado por tudo quanto fez a favor desta também sua cidade.
263
Um cidadão irrepetível António Mota-Prego
Não é coisa pouca, mas é comum, a existência de bons cidadãos. Raro é o surgimento de cidadão exemplar que, como disse António Amaro da Neves44 de Santos Simões, porventura não será insubstituível – porque seguramente nenhum ser humano o é – mas que é certamente “irrepetível”. Seria, e a meu ver será difícil dizer melhor sobre quanto Santos Simões deixou de si nesta cidade de Guimarães, a que aportou por mero acaso e influência de um par de amigos nela residentes, e da qual se tornou, mais que filho, património. Não será excessivo dizer, e no que me toca seria mesmo injusto calá-lo, que em Guimarães há um antes e um depois de Santos Simões. Homem de corpo inteiro e indefetíveis princípios éticos, de tão sólido quanto aguerrido apego à Liberdade, supremo bem do ser humano, hábil e perseverantemente usou tais atributos em prol da integridade cidadã que, até que a Democracia e a Liberdade irromperam num dia de primavera como jamais outro existira, se encontrava cativa de interesses egoístas de uns tantos, muito poucos, liderados e protegidos por um só homem que, apesar de ente humano, não se poupou em aspergir desumanidade. Sabemos quanto Santos Simões lutou, física e intelectualmente, contra tal estado de coisas, e sabemos quanto de sacrifício pessoal, moral, familiar e económico tal lhe acarretou. Mas igualmente não ignoramos a coragem, abnegação, resistência, resiliência com que afrontou a adversidade que lhe trouxeram a liberdade de fazer e de dizer, em que nunca fraquejou. No plano cultural, foram enormes, em qualidade e amplitude, os passos que, sob o seu impulso, Guimarães deu. Pessoal e diretamente dele colhi exemplos que integram, desde que ocorreram e mesmo que de modesta capacidade de exercício, o acervo do meu modo de ser e de estar. Em tempos de luta contra a ditadura, fui militante na hoste que lhe reconheceu o generalato; não 44
in “Santos Simões, ed Sociedade Martins Sarmento, 2013, pp 94
264
porque a tal liderança Santos Simões aspirasse, pois, lutar e não propriamente comandar era a sua vocação, mas porque dos seus atributos e capacidades brotou o reconhecimento de que seria sob a sua liderança que a causa da Liberdade ficava melhor servida. Os caminhos diferentes – o que não significa opostos, pois nunca senti que o fossem – que, uma vez ganha a causa, nos foi permitido democraticamente trilhar, não fizeram esmorecer, bem pelo contrário, o respeito, a admiração e o reconhecimento que sempre lhe devotei. Paradoxalmente, a memória de Santos Simões, ele que era um orador tremendo, traz-me à lembrança o silêncio. Não o seu silêncio, pois, ideólogo, militante e lutador, não era homem para se calar, mas o silêncio que imediata e espontaneamente se fazia ao tomar ele a palavra. Porque, merecendo o que diria, depois de dito, a concordância ou a discordância, era por antecipação adquirido que seria judicioso e carregado de valia o que tinha para dizer. Isso foi-me dado ver desde que, em tempos ainda sombrios e amargos, iniciei os meus contactos com ele, mas de modo muito visível, já em Democracia, nas sessões da Assembleia Municipal em que ambos participámos. Desde que que o Deputado Municipal Santos Simões se levantava para uso da palavra, fosse como orador ou como ocasional interveniente, era imediato, total, profundo, direi mesmo, diferente, o silêncio que se fazia. Ouvia-se a inspiração intensa que normalmente precedia o desencadear da sua intervenção, como se aspirasse todo o ar da sala deixando apenas o indispensável para que respirassem os seus pares, que o faziam como se nem respirar quisessem, para que nada perturbasse o que iria ouvir-se. Isto era assim não só pelo que de respeito cívico, intelectual e político, lhe era devido, mas também porque era nítida a perceção de que fora ele quem melhor, mais profunda e cuidadosamente estudara as matérias submetidas ao plenário em que se integrava, havendo, mesmo, uma espécie de consenso de deixar para ele os reparos que porventura merecessem as atas que em cada sessão deveriam ser votadas, pois era ele o único que, sem falha, tinha o cuidado de as ler e analisar, de fio a pavio, propondo-lhes correções que me não recordo terem deixado de ser acolhidas. As discordâncias de Santos Simões eram, frequentemente, expostas com veemência, por vezes com contundência, mas nunca eivadas do mais leve resquício de falta de respeito por aquilo ou para quem era objeto da sua discordância. Como adversário era temível, mas não menos leal. Foi polémico, como é próprio das pessoas cuja grandeza tem por alicerce uma intensa ação militantemente cívica. Mas, nem por isso, tal com o muitos outros homens e mulheres com vidas em que a polémica não
265
venceu a grandeza, é hoje menos consensual a consciência de quanto Guimarães e os vimaranenses devem a Santos Simões. Bem merece, pois, que Guimarães lhe perpetue a memória, de modo físico, com adequada dimensão e em local nobre desta terra que, sem dúvida, ele amou.
266
E tudo o vento levou Paulo Cunha Cineclube de Guimarães
Lançado em 1939, como um dos filmes mais aguardados da década em curso, E tudo o vento levou adapta ao cinema o romance homónimo de Margareth Mitchell, que se centra na história de Scarlett O’Hara, ambientada no sul dos Estados Unidos durante a Guerra Civil norte-americana (1861-1865). Realizado por Victor Fleming e produzido por David O. Selznick, este drama histórico pretendia retratar uma fase de radical transformação na sociedade e história norte-americana no final do séc. XIX, acompanhando o fim da escravatura e o início da luta pelo reconhecimento dos direitos civis para as populações negras. Com o desenrolar da guerra, Scarlett O’Hara vê seu mundo desabar, que é varrido pelos ventos de mudança da história. A meu ver, a chegada de Joaquim Santos Simões a Guimarães também provocou uma série de alterações estruturais que, nas décadas seguintes, alterariam significativamente a paisagem cultural, artística e cívica da cidade. Em poucos anos, com uma intensa actividade associativa e cívica, Joaquim Santos Simões foi, sem qualquer dúvida, esse importante vento da mudança da história que contribuiu para a falência de uma sociedade adormecida e instrumentalizada pelo aparelho propagandístico e repressivo do Estado Novo e para o surgimento de uma sociedade norteada por novos valores, da emancipação democrática. Celebrar a democratização da sociedade portuguesa é sobretudo reconhecer que esse processo histórico começou muito antes de 1974, e começou por pequenas mudanças que se foram consolidando em redes de solidariedade e de cumplicidade. Em Guimarães, essa mudança estrutural também passou pelo movimento associativo, que criou ou consolidou redes e dinâmicas sociais e culturais em vários sectores da vida vimaranense. A cronologia da actividade pública de Joaquim Santos Simões, em Guimarães, é esmagadora: chega a Guimarães em outubro de 1957, para leccionar Matemática na então Escola Industrial e Comercial de Guimarães, e dois meses depois já estabeleceu contactos com o Grupo Musical Ritmo Louco para encenar duas peças de teatro, propondo a criação do Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB); em maio de 1958, é o principal dinamizador do grupo fundador do Cineclube de Guimarães e envolve-se no apoio à candidatura presidencial do General Humberto Delgado; em 1959 é eleito Sócio Honorário da Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense e é um dos mentores da reconfiguração do Ritmo Louco em Círculo de Arte e Recreio (CAR); 267
em 1959-60, a convite da Câmara Municipal, organiza os Festivais Gil Vicente; em 1960, é eleito Presidente da Sociedade Musical de Guimarães. A bagagem associativa que traz de Espinhal, pequena vila do concelho de Penela onde nasceu e viveu até aos 11 anos, e de Coimbra, onde também frequentou estudos secundários e superiores e iniciou a sua vida adulta, ajuda a compreender melhor o espírito irrequieto deste jovem então com 34 anos que acabara de se tornar pai. No seu curriculum, somava colaborações com a Filarmónica do Espinhal e com Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC), mas foi com o Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) que viajou pela Europa (Espanha, Alemanha, Itália, Grécia), por África (Cabo Verde, GuinéBissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique) e pelo Brasil. Também iniciou uma intervenção cívica com o envolvimento no Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD Juvenil, 1946) e no apoio à candidatura presidencial do General Norton de Matos (1948). No ano lectivo de 1950-51 Santos Simões acaba por ser eleito presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC). Alvo de sistemática vigilância por parte das forças repressivas da ditadura, foi afastado do ensino público e impedido de assumir cargos associativos, nomeadamente enquanto dirigente do Cineclube de Guimarães, por ser um “elemento declaradamente desafecto ao actual Regime”. A este propósito, importa lembrar aqui um episódio ocorrido em 1964, quando a sua esposa, Maria Açucena Matias das Neves seria eleita Presidente da Direção do Cineclube de Guimarães em protesto contra o boicote da ditadura em relação ao nome de Joaquim Santos Simões. A perseguição a que foi sujeito durante anos culminaria com a sua prisão, no dia 4 de abril de 1968. Nas horas seguintes à sua captura, o Ministério do Interior recebeu diversos telegramas de Guimarães, Braga, Famalicão e Penela exigindo a sua libertação, algo que só aconteceria a 23 de abril seguinte. Muito se tem escrito e dito ao longo das décadas acerca de Joaquim Santos Simões. Na impossibilidade de resumir a sua actividade em cerca de 1500 palavras, resolvi falar aqui apenas da sua relação com o cinema, uma paixão em comum. Depois do ciclo inaugural, em maio de 1958, com filme do circuito comercial da época, as primeiras sessões regulares do Cineclube de Guimarães foram preenchidas por dois filmes muito singulares: Ladrões de Bicicletas (1948), de Vittorio De Sica, um filme charneira do movimento neo-realista italiano, que pretendia destacar os elementos sociais e humanos das narrativas cinematográficas; e Tempos Modernos (1936), o clássico intemporal de Charlie Chaplin que nos dá um retrato muito desolador do progresso tecnológico que desumanizava a sociedade de então no início do modelo de produção capitalista. Outro dos primeiros filmes exibidos foi Douro, Faina Fluvial (1931), a curta-metragem de estreia de Manoel de Oliveira, sobre a faina
268
laboral dos trabalhadores da ribeira do Porto. Três filmes de nacionalidades e cronologias distintas que destacavam a precaridade das condições laborais e da exploração dos mais frágeis. Esta linha de programação socialmente mais consciente seria uma constante ao longo das primeiras décadas de actividade do Cineclube de Guimarães. Contornado a censura ditada pelo regime, que proibia muitos filmes de serem exibidos nas salas portuguesas, Mas Joaquim Santos Simões não procurou “apenas” mostrar filmes, também os pensou de raiz. Em 1962, entre fevereiro e março, Santos Simões participou na rodagem da curta-metragem “Altar de prata da Santa Maria de Guimarães”. Infelizmente não existe hoje nenhuma cópia da curta rodada em formato 8mm, a preto-e-branco, com 8 minutos e 14 segundos de duração. Co-produzida pelo Cineclube de Guimarães e o Museu Alberto Sampaio, a planificação foi feita por Santos Simões e a câmara foi operada por Fausto Araújo. Entre 1978 e 1980, estaria activamente envolvido na produção do projecto cinematográfico Rio de Couros. Autor do guião, Santos Simões também co-realizou um filme em 16mm, uma iniciativa do Cineclube de Guimarães e da Biblioteca Gulbenkian local, com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães e da Fundação Calouste Gulbenkian, e com a colaboração técnica do Instituto de Tecnologia Educativa. A narração do filme ficou a cargo do realizador e jornalista Luís Filipe Costa, mas outros vimaranenses também desempenharam um papel importante na produção, nomeadamente Joaquim Fernandes e Fernando Fernandes. A rodagem começou em julho de 1978, mas as imagens rodadas nos três primeiros dias desapareceram de forma inexplicável. Em 1979, iniciam-se os contactos para retomar a produção, algo que só seria possível entre maio de julho de 1980. O propósito da produção seria alertar e sensibilizar a população e as autoridades locais para a importância histórica e para a acelerada degradação e poluição do curso de água, que começava a apresentar níveis alarmantes de insalubridade. A curta-metragem abordava a tradição local da indústria de curtumes através de uma viagem pela ribeira de Couros, desde a sua nascente até à ao seu encontro, depois de atravessar a cidade, com o rio Selho. Esta obra foi reconhecida como um importante documento histórico e social para a cidade e tem sido frequentemente utilizada em sessões públicas e em escolas. Se considerarmos um sinalizador simbólico para essa mudança estrutural da cultura e do associativismo em Guimarães na metade do século XX, teremos que reconhecer que foi a chegada de Joaquim Santos Simões. É óbvio que não foi ele que “inventou” a cultura e o associativismo vimaranenses, mas é justo dizer que foi graças à sua impactante acção que os ventos de mudança da história se anteciparam e promoveram uma verdadeira revolução nos modos como os vimaranenses se relacionavam com a cultura.
269
Santos Simões – A arquitectura do devir José Manuel Mendes Presidente da Direção da Associação de Escritores Portugueses
Regresso aos livros, páginas à mercê de um olhar que busca contexto e permanência, se recorta decerto num ocaso meu por ravinas de difusão, achamento, imprescritibilidade. Mas neles, casas em que habitam momentos essenciais, não estão todos os apelos do vivido, sequer os que em mim inscreveram uma luz singular: a obra de Santos Simões, que frequento, não pode manter-se silenciada pela ausência de reedição criteriosa. Conhecemos o percurso do cidadão, dos lugares da origem – ali no termo de Penela, do António Arnaut também – a uma Coimbra em que, Presidente da Associação Académica, quis uma juventude emancipadora, e, adiante, até ao fim, Guimarães, terra dos dias pujantes de realizações cuja pluriforme irrigação nunca deixou de impressionar. Professor, intérprete-agente de cultura viva, sem fadiga promotora da difusão literária e das artes cénicas, mestre na defesa do património, na arquitectura do devir tanto como no convívio diário, foi o combatente, avesso a quaisquer tréguas, aos decénios de regime fascista. Teve intervenção preponderante, desde a juventude (diria mesmo, se biógrafo fosse, a partir da meia adolescência), nestes e noutros domínios. Basta rastrear-lhe a partilha do MUD Juvenil, o timbre agregador no conspecto estudantil da cidade do Mondego, uma presença peculiar no Teatro académico, na Praça da República, nas tertúlias que descobriam os textos da insubmissão e do renovamento estético, de Karl Marx aos neo-realistas – dos quais foi companheiro -, para aferir o vigor, a lucidez, as cintilações da personalidade com destaque na organização a que, após 1965, pertenci e era designada, segundo prestígio incomum, Democratas de Braga. Uma notícia assim, acrescida de factos, trajectos, incisões que relevam, tem sido elaborada por companheiros e estudiosos. Eduardo Ribeiro, de Santos Simões tão próximo, está entre os que acentuaram os testemunhos, nascidos aquém e já no decurso do Centenário, fundamentais para uma jornada não exaurida nos contornos retóricos, susceptível de germinar num humanismo metamorfoseador do quotidiano cujo sobressalto atravessamos. Importa, todavia, inscrevê-la no arco memorial, olhando a Resistência no Distrito sob influxo dos feixes vimaranenses, de Braga, Grito da Liberdade (1999), depoimento panorâmico em que 270
informação, documento e análise historiográfica se fundem num registo dictivo admirável cujos reptos e convocações por inteiro subsistem. Pressupondo empreendimentos congéneres a que Lino Lima, Victor de Sá – ou Artur Sá da Costa e Henrique Barreto Nunes, de maneira diferenciada, corresponderam (eu não, até ver, não obstante a “intimação” - 1991? - de quem evoco), é contributo instigador do caminho por haver – deveras apelativo nas celebrações dos 50 anos da Revolução. Não creio devam quedar-se nas periferias facetas pouco investigadas de Joaquim Santos Simões: homem de cena, desde o TEUC (dedicou-lhe uma monografia reveladora em 2001) às práticas de palco no meio feito seu e à dramaturgia em escrita, designadamente para crianças (A Bruxa, a Fada e Eu, 1976, por exemplo); pensador de um sistema educativo à margem das obsolescências, da manipulação, dos privilégios de casta, ao invés e sem limites inclusivos (não esqueci, não esquecerei o fulgor de uma interpelação, em Braga, a certo Ministro da Ditadura ou, no II Congresso de Aveiro, os delineamentos da alternativa aplaudida pelos participantes de maneira vigorosa); ficcionista peculiar, tudo nele agilidade, inventiva, clareza, sentido das formas (veja-se, ao acaso, Suavemente Grande Avança, 1965); membro da Comissão Instaladora da Universidade do Minho, diligência e visão ousadas (acompanhei-o, sei do que falo); editor de Raul Brandão (Atlântida, Coimbra), nome cimeiro das nossas Letras por si doado a sucessivas gerações; epicentro de uma construção cultural notável, do Círculo de Arte e Recreio à Sociedade Martins Sarmento, da Cercigui aos jornais, em particular O Povo de Guimarães onde colaborei; autor primeiro de documentos marcados pela acutilância (Nova Cartilha do Povo, adaptando José Falcão) no âmbito da luta antifascista. A pertença a uma acção colectiva trazia o selo da singularidade: livre reflectir e discorrer, estudo, problematização, racionalismo crítico, o avesso dos borborigmos ou especulações septadas do conhecimento da vida político-social. Esse molde revestia em cada um feições próprias e Santos Simões exprimia-o com agudeza, pertinência, lealdade, disposição executiva. A nada se furtava, sequer ao risco, aos inumeráveis sacrifícios. Preso, impedido de leccionar no Ensino Secundário, perseguido, não fez das adversidades galões nem entraves, porfiou e robusteceu a energia da esperança triunfante. E só as vicissitudes do processo transformador, os conflitos na esfera governamental (falarei disto porventura um dia?) impediram, no imediato pósAbril, tivesse desempenhado funções de Estado em inequívoco benefício das populações e do país. Abnegação, justeza, eloquência e infatigabilidade não elidiam no seu modo traços quiçá menos identificados: a bonomia, o finíssimo humor, os dotes organizativos – que eram matemática e poesia -, a coragem física, os rasgos da afeição e primordial apego aos pobres (brandonianos ou não, dentro ou fora do labirinto das alienações), extorquidos nas relações laborais, entes de um drama a remitir. Do amigo me ocuparia agora, viagem pela cara, tão cara lembrança, páginas de saudade e gratitude. Teria, porém, que colocar-me
271
amiúde na ordem do discurso. E isso, sobretudo em marés comemorativas, rasuro até como hipótese. Fique, pois, nas breves linhas chegadas ao termo, com as inevitáveis insuficiências assumidas, o tributo possível a uma das figuras mais fascinantes, grandiosa e simples em simultâneo, do mudo que, sendo memória, de novo principia.
272
Como conheci o Dr. Santos Simões45 Henrique Barreto Nunes Bibliotecário da Universidade do Minho
Comecei a ouvir falar do Dr. Joaquim Santos Simões em Coimbra, em Junho de 1969, quando em plena crise académica tivemos conhecimento da carta que os Democratas de Braga dirigiram ao presidente do Conselho de Ministros, na qual se mostravam solidários com os estudantes em greve e pediam urgentes medidas para solucionar o grave problema que então se vivia. De entre as centenas de subscritores da carta, os meus colegas bracarenses mais politizados chamaram-me a atenção para os nomes de Eduardo Ribeiro, Humberto Soeiro, Lino Lima, Santos Simões e Victor de Sá (Capela e Nunes, 2019). Em Outubro, voltei a encontrar os mesmos nomes subscrevendo a “Nova Cartilha do Povo”, utilizada como documento de esclarecimento para as eleições para a Assembleia Nacional, só ficando a saber mais tarde que o texto base era da autoria de Santos Simões (Nunes, 2022). Este nome, sobre cuja intervenção cívica irei depois conhecendo mais pormenores, surgiu-me nos anos seguintes como colaborador em antologias poéticas dedicadas a Hiroxima e ao Vietnam. Com o 25 de Abril, passando eu a viver permanentemente em Braga a partir de Outubro de 1974, tomo efectivo conhecimento da dimensão cívica e cultural desta figura e da sua importância no Movimento Democrático do distrito, não tendo sido nomeado Governador Civil do Distrito de Braga devido ao facto de o seu nome ter sido liminarmente rejeitado pelo general A. Spínola, sob a acusação de ser comunista. Reportando-me à minha vida pessoal posso informar que, logo a seguir a ter concluído o meu curso de Bibliotecário-Arquivista em Coimbra, em 6 de Dezembro de 1974, tomei posse como técnico dos Serviços de Documentação da recém-criada Universidade do Minho. Dois meses depois, em 7 de Fevereiro de 1975, o Dr. Santos Simões tomou posse como membro da Comissão Instaladora da Universidade do Minho (substituindo o doutor Freitas do Amaral, mas não por motivos políticos), conferida pelo Secretário de Estado do Ensino Superior (Doutor Avelãs Nunes) e pelo Reitor da Universidade do Minho (Professor Carlos Lloyd Braga), na presença do Governador Civil, Dr. José Sampaio, 45 Este texto serviu de base à intervenção que fiz na Biblioteca Municipal Raul Brandão no dia 11 de Março de 2023, no âmbito de “Húmus:
Festival Literário de Guimarães”. Agradeço aos doutores Márcia Oliveira e Francisco Sande Lemos as informações prestadas e a M. Francisca Barroso o processamento de texto.
273
seu velho amigo e companheiro no grupo dos Democratas de Braga A cerimónia realizou-se no Salão Medieval da Biblioteca Pública de Braga, perante centenas de pessoas e, segundo o “Correio do Minho” de 8 Fevereiro, Santos Simões “recordou que naquele mesmo salão, há alguns anos [1969], denunciara as estruturas do ensino fascista de então, na presença do demagogo J. Hermano Saraiva [ministro da Educação Nacional] e do prepotente Santos da Cunha [Governador Civil] . No seu discurso, Santos Simões “combateu os bairrismos estéreis, advogando uma universidade nacional, com incidência regional, e um ensino vivo, crítico e dinâmico, grudado aos interesses populares” Foi no final desta cerimónia que conheci pessoalmente o Dr. Santos Simões ao qual, sendo eu então um dos poucos funcionários da universidade, entendi deComissão Instaladora U. Minho, visita ao campo arqueológico, jul 1977 ver cumprimentar. Nos meses seguintes, tivemos encontros esporádicos (ele deslocava-se a Braga para participar nas reuniões da Comissão Instaladora), nos corredores do palácio tutelado pela Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, onde a Universidade do Minho tinha as suas primitivas instalações e eu, naturalmente, trabalhava como bibliotecário dos Serviços de Documentação. Em Agosto de 1975, o Dr. Santos Simões, acompanhado de um representante do Conselho da Revolução, visitou o Conselho de Paz da Roménia em Bucareste. Calculo que tenha estabelecido boas relações com a Embaixada da Roménia em Portugal, tanto que conseguiu obter a oferta de um apreciável conjunto de livros editados naquele país à Universidade do Minho, que entendeu fazer uma pequena exposição com esse acervo, nas suas instalações. O director dos Serviços de Documentação encarregou-me de a organizar. Foi a primeira exposição de livros que montei – e foi então que, pela primeira vez, tive oportunidade de conversar com a figura que este
274
ano estamos a recordar. Assim, foram os livros que inicialmente nos aproximaram, e essa foi uma das marcas que mais perdurou até ao fim dos seus dias. Fiquei logo cativado pela sua energia, pela sua vontade de ultrapassar as pequenas dificuldades que surgiram neste breve episódio, ideia que reforcei nos anos que se seguiram e se cimentaram durante o tempo em que tive o privilégio de com ele colaborar, praticamente até ao final da sua vida. Como se poderá verificar, consultando os 7 volumes das actas das reuniões da Comissão Instaladora, Santos Simões teve uma participação intensa nesses encontros, a que só faltou, muito raramente, por motivos ponderosos (Universidade do Minho, 1974-1981). Foram muitas as solicitações que teve, os documentos que elaborou, os contactos que estabeleceu, os problemas que resolveu. Não vou aqui referir o problema das instalações definitivas da Universidade do Minho, a que se entregou apaixonadamente e cuja solução final muito o desgostou, conforme se pode ver no seu texto “Desafio irrecusável”, que escreveu para o volume que celebrou o 20º aniversário da criação da universidade (Simões, 1994) ou no discurso que proferiu na homenagem que o Conselho Cultural aqui lhe prestou em 1999, intitulado “Tenho muito que fazer!” (Simões, 1999). Retomando o fio à meada, em 1976, a Biblioteca Pública e o Arquivo Distrital de Braga (BPADB) passaram a fazer parte efectivamente da Universidade do Minho, tendo ficado dependentes dos seus Serviços de Documentação (SD). A transição não se revelou nada fácil e a integração da BPADB processou-se com muitos sobressaltos e equívocos. A forma muito peculiar como o director dos S D procurou articular aquelas três unidades orgânicas causou inúmeros problemas, diversos conflitos com a Comissão Instaladora e mesmo com os funcionários, conforme as referidas actas revelam e que, como é evidente, não vou aqui referir. Acontece que eu, sendo bibliotecário, mas tendo uma preparação académica com grande incidência na Arqueologia, me tinha empenhado fortemente no projecto de Salvamento de Bracara Augusta (em cuja
275
génese estive) e assim, não aguentando o ambiente que se vivia nos SD, em Julho de 1977, pedi transferência para o Campo Arqueológico da Universidade do Minho, onde organizei a biblioteca e fui coordenador da equipa da carta arqueológica do Minho. Um ano depois, mantendo-se a situação insustentável nos Serviços de Documentação, a Comissão Instaladora decidiu, em boa hora, reorganizar aquela unidade orgânica, cindindo-a em três: os Serviços de Documentação da U.M. propriamente ditos, a Biblioteca Pública de Braga e o Arquivo Distrital de Braga, ganhando cada uma delas identidade própria, prosseguindo a sua missão original. Foi então nomeado um Conselho de Gestão para a Biblioteca Pública, que seria presidido pelo Dr. Santos Simões, do qual faziam parte a minha colega bibliotecária Dra. Maria Helena Ribeiro Laranjeiro (por sinal vimaranense), que viria a organizar de forma notável a secção de publicações periódicas da biblioteca, e um outro professor da U. Minho. Para o Arquivo Distrital foi igualmente nomeado um conselho de gestão também por ele presidido, do qual fazia parte o dr. Egídio Xavier Guimarães. Na sequência desta decisão, o Professor Barbosa Romero, elemento preponderante da CIUM, que até então tinha sob a sua tutela os SD, entendeu convidar-me para assumir funções na Biblioteca Pública. Nessa altura, decidi pedir uma reunião com o Dr. Santos Simões, com quem tive uma longa conversa sobre a BPB, na qual foram analisados os graves problemas com que se debatia, os desafios que a aguardavam, os projectos para o futuro que se podiam delinear. O Dr. Santos Simões entendia que, mesmo integrada na universidade, a biblioteca devia manter intacta a sua condição de serviço público, aberto a toda a comunidade, nunca esquecendo a necessidade de preservar o valioso património bibliográfico e documental que tinha à sua guarda. E falou-me, a propósito, da sua biblioteca Gulbenkian de Guimarães e das actividades que nela promovia (Simões, 1993). Eu era então um jovem bibliotecário, ainda pouco experiente, mas aquelas palavras calaram-me fundo e foram de grande importância para a decisão que iria tomar. Foi assim que me tornei efectivamente bibliotecário, primeiro dividindo ainda o meu tempo entre a BPB e o Campo Arqueológico, mas passando a sê-lo integralmente a partir de Janeiro de 1979, tendo integrado, então, o seu Conselho de Gestão, a convite de Santos Simões. O antigo Paço do Arcebispo D. José de Bragança, onde a biblioteca tinha as suas instalações, estava então a entrar em obras, uma das quais muito importante, que era a da renovação da instalação eléctrica e ainda a montagem de um extremamente necessário sistema de detecção de incêndios, obras que Santos Simões acompanhou empenhadamente, ao pormenor, como era seu timbre.
276
Uma das primeiras tarefas que o Conselho de Gestão levou a cabo foi a da instalação da biblioteca especializada em educação e psicologia escolar e infantil que tinha sido doada à BPB, em 1964, pelos filhos do Dr. Carrington da Costa, antigo professor do Liceu de Braga, com a condição de lhe ser atribuída uma sala própria, condigna, o que até então não tinha sido conseguido. Percorri com Santos Simões o vasto edifício até ser escolhida uma sala (magnífica, aliás) na ala medieval, para a qual foram mandadas fazer estantes respeitando o desenho de outras que existiam no edifício. A sala Carrington da Costa acabou por ser inaugurada em Junho de 1981, na presença da família do homenageado – um dos filhos, o Doutor Rui Carrington da Costa, professor catedrático da Universidade de Coimbra, tinha sido aliás colega de Santos Simões, na Lusa Atenas, sendo seu amigo próximo. Foi também por sua iniciativa que a biblioteca comemorou, em Abril / Maio de 1979, o Ano Internacional da Criança, que trouxe a Braga Matilde Rosa Araújo, conhecida autora de livros infantis e o Teatro de Ensaio Raul Brandão, o qual representou, no Largo do Paço, a peça infantil “D. Tãoparlapatão”, aliás da sua autoria e encenação. Na altura foi apresentada no Salão Medieval uma grande exposição de literatura infantil, com livros cedidos por diversas entidades, em cuja inauBiblioteca Pública de Braga, Sala Carrington guração o dr. Santos Simões usou da palavra, apelando aos pais para que criassem hábitos de leitura nas crianças desde muito cedo. Celebrando-se, em 1979, o 1º centenário do nascimento do Dr. Manuel Monteiro, grande figura do republicanismo, em Braga, e reconhecido historiador e crítico de arte (tendo aliás colaborado com a Sociedade Martins Sarmento e na “Revista de Guimarães”, dadas as relações de amizade que tinha com o coronel Mário Cardozo), cuja livraria e parte do espólio pertenciam à BPB, apresentei ao Dr. Santos Simões uma proposta de comemoração de tal efeméride. O presidente do Conselho de Gestão da BPB levou a peito a tarefa, defendeu-a na CIUM, tendo conseguido os meios necessários para a realização de uma exposição bibliográfica e documental, de uma conferência (pelo doutor Victor de Sá) e de duas publicações sobre Manuel Monteiro, o que viria a acontecer em 1980. Do mesmo modo defendeu, na CI, a proposta que a BPB lhe apresentou para a publicação (embora
277
artesanal) de um boletim bibliográfico relativo às obras entradas através do Depósito Legal e ainda de um boletim de sumários de revistas, tendo conseguido as verbas necessárias para o efeito – coisa que então, como agora, não era nada fácil. Mas a atenção e o cuidado de Santos Simões também se dirigiram para outros desafios culturais que a CIUM enfrentou, participando ativamente na sua discussão, apresentando propostas, defendendo soluções. Acompanhou, por exemplo, todo o processo do legado do comendador Nogueira da Silva à Universidade do Minho, a adaptação dos espaços à criação de uma casa-museu, apoiando a proposta de instalação de um Centro de Documentação Fotográfica / Fototeca. Em relação ao Arquivo Distrital de Braga, para além da sua gestão, preocupou-se com a preservação de alguns dos seus documentos mais preciosos, conseguindo a reprodução de imagens e tentando que no edifício fosse instalada uma espécie de cofre-forte onde esses documentos, bem como os livros mais raros da Biblioteca fossem guardados – o que infelizmente nunca chegou a ser concretizado. Empenhou-se ainda na transferência do espólio do Museu D. Diogo de Sousa que, embora não estando aberto ao público, ocupava espaços no Largo do Paço de que a Universidade do Minho necessitava, para compartimentos cedidos pelo Seminário de Santa Margarida. Acompanhava igualmente com entusiasmo a actuação do Campo Arqueológico no complexo processo de preservação e estudo das ruínas romanas, interessando-se pelo levantamento da Carta Arqueológica do Minho, que esperava se estendesse a Guimarães. Como em tudo que fez na vida, Santos Simões deixou uma marca impressiva na CIUM, o que justifica o agradecimento especial que, na sua despedida, o reitor Carlos Lloyd Braga fez, em 1980, considerando-o “um conhecedor profundo da região em que a Universidade do Minho se insere e que, com o seu espírito esclarecido, muito nos auxiliou a encontrar soluções justas e equilibradas para tantos problemas”. Também o Professor Lúcio Craveiro da Silva, membro da CIUM e, em 1982, o primeiro reitor eleito nas universidades portuguesas, na homenagem que o Conselho Cultural da UM lhe fez em 1999, em Azurém, escreveu que “o dr. Santos Simões se evidenciou na C. I, pelo diálogo oportuno e esclarecido, pela dedicação constante e pela tenacidade de execução que vencia obstáculos e prosseguia superiormente indiferente à mediocridade dos homens. Nesta tarefa difícil soube ocupar o seu lugar com brilho, o que é raro, soube dignificalo, o que é ainda maus raro e soube levá-lo até ao fim com êxito e sacrifício, o que é raríssimo” (Silva, 1999).
Voltando à Biblioteca Pública de Braga acho que devo deixar aqui registadas as palavras que lhe dedicou, no seu testemunho “Desafio irrecusável”: 278
“Finalmente algumas palavras de agradecimento e louvor para um grupo de colaboradores com quem tive a sorte e a satisfação de trabalhar mais de perto. Trata-se de uma homenagem justa à dedicação dos drs. Henrique Barreto Nunes e Maria Helena Laranjeiro da Cunha que, com o empenhamento do seu diminuto grupo de trabalho e a compreensão possível da CI (o drama da falta de verbas), realizaram milagres numa (então) degradada e indefesa instituição prestigiada de Biblioteca Pública de Braga e que havia sido integrada, com o Arquivo Distrital, na U.M. não cabe fazer aqui a história desses tempos heroicos, mas não posso calar o esforço realizado. Importa também referir que um pouco à semelhança do que aconteceu com Bracara Augusta, a UM contribuiu decididamente para “salvar” a Biblioteca Pública e o Arquivo…” (Simões, 1994).
Para terminar gostava de recordar que, a partir de 1979, o Dr. Santos Simões me honrou com a oferta, com dedicatórias quase sempre personalizadas, de muitas das publicações de que foi autor. É por isso que, estando numa biblioteca em cuja criação tanto se empenhou e a que deu o nome, entendo dever aqui reproduzir o que escreveu no exemplar que me ofereceu do seu livro “Guimarães: Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian”: “Para o meu querido amigo Henrique Barreto Nunes este livrinho que com certeza lhe dará grande prazer lê-lo e, mais ainda, saber que, nestas paragens inóspitas, se fez animação cultural com o livro a servir de bandeira! E tudo isto em tempos de raiva e depois em tempos de esperança que a noite escureceu, aguardando-se que a aurora não tarde”. 29 Dezembro de 1993.
Bibliografia: CAPELA, José Viriato; NUNES, Henrique Barreto (2019) – Bracarenses na crise académica de 1969. Braga: UMinho Ed. p. 90-93. NUNES, Henrique Barreto (2022) – “Em jeito de contextualização”, in Nova cartilha do povo. Ed. facs. Braga: Fundação Bracara Augusta, p. 31-36. SILVA, Lúcio Craveiro da (1999) – “O Dr. Santos Simões na Comissão Instaladora da Universidade do Minho”. Forum. Braga. 26, Ju-Dez 1999, p. 29-31. SIMÕES, Joaquim Santos (1994) – “Desafio irrecusável”, in 20 anos de história da Universidade do Minho. Braga: Univ. do Minho, p. 75-98. SIMÕES, Joaquim Santos (1999) – “Tenho muito que fazer!”. Forum. Braga. 26, Jul-Dez 1999, p. 61-69. SIMÕES, Joaquim Santos (2003) – Registo bio-bibliográfico (e não só). 2ª ed. Guimarães, JSS. UNIVERSIDADE DO MINHO (1974-1981) – Actas das reuniões da Comissão Instaladora. Braga: Univ. Minho. 7 v.
279
O homem polifacetado e o cidadão militante e exemplar: Santos Simões, no Centenário do seu Nascimento Manuel Reis
Nunca será demais prestar toda a atenção aos nossos Companheiros de existência, essas Figuras Humanizadas, que nos inspiram e ajudam a carrear a Vida, com gosto e dignidade. O Professor Joaquim António foi, sem dúvida, uma dessas Figuras raras! Tersando sempre as 'armas' da Verdade e da Convicção pela Democracia. Efectivou-se como Professor de Matemática (na Escola Secundária Técnica, em Guimarães, que ostentava como patrono o pintor e arquitecto Francisco de Holanda (1517- 1584), que fora Amigo de Miguel Ângelo. Aí passou uma boa parte da sua vida docente, até à sua aposentação, interrompida por dois pares de anos na Escola Egas Moniz. Foi, igualmente, nessa sua primeira Escola, que exerceu a Direcção, pelo menos, por um Mandato. Além de Professor oficial de Matemática, a sua docência e postura pedagógica eram bastante conhecidas e elogiadas, a tal ponto que a sua Casa (sita na Rua Conde de Margaride) era frequentemente 'invadida' por Alunos, que ao Professor acorriam, na esperança das explicações suplementares, com o intento de melhor progredirem nos seus estudos escolares!... Esta faceta das suas funções e docência era superabundantemente conhecida em toda a Cidade Berço. Homem de carácter (a quem não faltava a ousadia), democrata integérrimo, era conhecido, na sua Cidade, como crítico acerbo do 'fascismo' luso-salazarento, e uma tal reputação (que o tornara leader político dos grupos anti-regime de Braga e Famalicão), perante a sanha dos esbirros da Pide-Dgs, levou-o a ser detido, durante algum tempo e a provar o fel da prisão, como era prática corrente do 'falsamente' chamado 'Estado Novo salazarento'... Após o glorioso 25 de Abril de 1974, logo que o Poder constituído tornou às mãos do Povo, as Escolas do Magistério Primário eram, sem dúvida, as primeiras Instituições públicas a carecer, urgentemente, de renovação e substituição dos velhos mestres. Santo Simões foi um dos primeiros Professores a serem 280
cooptados para o efeito. Aí ensinou, pacificamente e sem atropelos, o 1º quadriénio (de 1974 a 1978), até que as antigas Escolas do Magistério Primário foram transformadas, com novo estatuto, em Politécnicos da Educação e do Ensino. Acabadas as lides do Magistério Primário de Guimarães, o Prof. Santos Simões, em boa hora, dividiu a sua actividade cívica e educativa/artística, em 'hortas' distintas: A) A Direcção da Sociedade Martins Sarmento à rua Paio Galvão, com o intuito de preservar o espólio, divulgá-lo e alargá-lo, segundo o melhor espírito do famoso Arqueólogo vimaranense do Novecentos; B) O Exercício de funções no Senado da U.M., na sua Comissão de 'Instalação; C) aprofundar e alargar as Artes de Palco, com a nova mocidade, que estava a despontar para a vida. Como fundador e ensaiador do Teatro de Ensaio 'Raúl Brandão' (1867-1930), o nosso Militante sóciopolítico e artista de artes cénicas levou, entre outras obras, ao palco, 'O Doido e a Morte' de Raúl Brandão, bem como algumas peças de Bertold Brecht (1898-1956). B.B., para escapar ao nazismo alemão, percorreu quase toda a Europa, tendo-se fixado mais tempo nos USA, em 1946. Além de várias peças de teatro, ele escreveu um manual para as artes cénicas, que foi muito bem acolhido. As suas teorias teatrais deixou-as, assim, registadas em dois livrinhos: 'Breviário do Teatro/Theaterarbeit, e 'Cinco Dificuldades para Escrever a Ver- dade'. Depois da saga do Magistério Primário de Guimarães, o Prof. foi eleito Presidente da Sociedade Martins Sarmento, onde exerceu (até à sua morte em 2004) uma liderança notável, que nunca fora contestada. Entre outros eventos, que tiveram lugar na Sede da Sociedade (à rua Paio Galvão), o Prof. Santos Simões convidou o Autor destas linhas para proferir uma Conferência criticista em torno do famigerada 'Acordo Ortográfico do Rio', sob a presidência do Dr. Óscar Lopes, o qual, tal como S.S., também era adversário jurado do 'A.O.' em cursol... Deve, aqui, dizer-se que a Conferência foi muito concorrida e ouvida atentamente!... N.B.: Como fundador do C.E.H.C., em 1995, o Prof. Manuel Reis ganhou o hábito de oferecer, sistemicamente, ao seu muito Querido Amigo, um exemplar dos Livros que ia publicando. Acto contínuo, o Prof. S.S. nunca se esquecera de me enviar uma cartinha de agradecimento e de rasgados elogios da minha escrita. Dispondo nós, hoje, de mais de 200 amigos/militantes/leitores, a partir de São Paulo, e dispersos pelos 5 continentes – todos eles professando a sua Fé no 'Centro de Estudos do Humanismo Crítico’, não será estranho considerar o nosso muito Querido Amigo, Santos Simões, como um dos tantos Amigos primevos, 'Sócios activos' do C.E.H.C. N.B.: Este naco de texto encontra-se polarizado no desejo dos Amigos em celebrar o CENTENÁRIO do nascimento de Joaquim António dos Santos Simões, o qual ocorre em 12 de agosto de 1923, como terminus
281
a quo. N.B.: Sobre o T.E.R.B. (Teatro de Ensaio Raúl Brandão). Esta foi, de facto, a 'quinta alma' do Professor S.S… Habitante da chamada 'Casa do Alto (próxima de Guimarães), Raúl Brandão (1867- 1930) foi um escritor humanista da melhor estirpe, muito admirado e seguido na área da Boa Literatiura. No campo do romance, inspirando-se em Dostoievsky e Tolstoi, são dignas de destaque, obras como 'Os Pescadores', 'A Farsa', 'Os Pobres', 'Húmus'. 'O Pobre de Pedir. No campo do Teatro, onde aborda problemas sociais e psicológicos, ele escreveu peças teatrais como 'O Maior Castigo', 'O Rei Imaginário', 'O Doido e a Morte'. Um óptimo Patrono para um bom grupo de Teatro: Raúl Brandão! Com a designação acertada de TERB (Teatro de Ensaio Raúl Brandão), S.S. fundou o grupo em 1964-65, com a sua sede operatória, no C.A.R. de Guimarães, a meio da Praça João Franco. O TERB era constituído, sobretudo, por estudantes das Escolas Secundárias da Cidade Berço, "Foi protagonizado, ao longo de ca. de três décadas, por esse Homem/Cidadão de Cultura substantiva, que foi o Professor J.A. dos Santos Simões, que, aí, desempenhava as funções de ensaiador, director cénico e, por vezes, de artista em palco. O Director do Grupo de Teatro teve, desde cedo, como seu assessor imediato, Fernando Martins Fernandes" (cf. 'Rapsódia de Gil Vicente da Vida e da Morte/Gil Vicente por Santos Simões', edição do Centro de Estudos do Humanismo Critico (CEHC), Guimarães, 2014, p.5). Nos inícios, quando surgiu a ideia de conjuntar os textos mais salientes das peças teatrais de Gil Vicente (1465-1536), à boa maneira de uma Rapsódia das Peças Teatrais de Mestre Gil, Santos Simões formulara o título como segue: 'Da Vida e da Morte em Gil Vicente'. Havia, aí, extractos do 'Auto da Visitação' ou 'Monólogo do Vaqueiro', 'Autos das três Barcas', 'Auto da Lusitania', 'Auto de Mofina Mendes', 'Farsa do Juiz da Beira' e 'Pranto da Maria Parda'. Como se dá conta, trata-se – e bem – de um elenco bem mais alongado do que o adoptado pelos peritos da opera omnia!... (o qual se circunscreve às famosas Três Barcas...). A edição, já referenciada, é do C.E.H.C. e foi dada à estampa, justamente para celebrar os 10 anos da Morte de Santos Simões. Na capa exterior esquerda, figura o título 'Rapsodia de Gil Vicente: Da Vida e da Morte'; autores da perquisição: Gil Vivente e Santos Simões (com as suas Figurações respectivas). A paleta dos textos seleccionados é salpicada por cerca de de uma dezena de figurações correspondentes, que são da autoria do nosso Amigo Artista, Salgado Almeida. "A música de antifonas e refrões é de Fernando M. Fernandes e de Santos Simões. (Foi, posteriormente, ouvida e transcrita para notação musical pelo Maestro Manuel Reis)" (cf. ibidem, p.101).
282
Santos Simões: um esboço a lápis Carlos Poças Falcão
Pelos finais dos anos sessenta do século XX, debutávamos nós na leitura política do mundo, balbuciando as primeiras palavras marcadoras de território e cosendo uns primeiros trapos de etiqueta ideológica. Para os jovens que éramos, não chegados ainda aos vinte anos, mas já dotados de maduro atrevimento, fruto da ignorância, o caminho das escolhas e dos seguimentos apresentava-se extraordinariamente facilitado: de um lado, o cinzentismo de uma sociedade provinciana, bem acomodada às mansas desistências; do outro, o fulgor dos que ousavam dizer não, corajosos, lúcidos e probos. Este último era o lado da escolha imediata e evidente. E não se tratava, de modo nenhum, de uma opção em abstracto, mas corporizada em alguns homens e mulheres exemplares, desde logo o meu pai, porque era o meu pai (mas não é dele que aqui vamos falar), e o Dr. Santos Simões (o agora, justamente, relembrado e homenageado). Para nós, os da minha geração vimaranense, Santos Simões significa o homem digno. É verdade que, na deriva crítica dos anos, deixamos de partilhar muitos dos seus horizontes, que nos parecem de sombra e de enganos. Mas isso pouco importa quando nos concentramos no essencial: o homem íntegro, o cidadão incansável, o amigo que não falha. Santos Simões foi figura destacada da oposição à ditadura, um dos mais activos e esclarecidos membros desse ilustre grupo que ficou conhecido como o dos Democratas de Braga. Todavia, indo muito além da já em si notável actividade estritamente política da Oposição, Santos Simões teve a intuição de um outro combate, com certeza menos urgente, mas seguramente mais profundo e «subversivo»: o da cultura. Homem culto e homem de acção, não tardou que, mal chegado a Guimarães na segunda metade dos anos cinquenta, logo se envolvesse e desdobrasse em múltiplas iniciativas de cariz cultural, através, sobretudo, do movimento associativo que começava então a despontar na cidade e que ele ajudou a ganhar força, orientação e substância. Assim, desde o Teatro de Ensaio Raúl Brandão até ao Cineclube de Guimarães, desde a “Página Cultural”, no Notícias de Guimarães, até aos Jogos Florais Minho-Galaicos, desde os Festivais Gil Vicente até ao Festival de Cinema Amador, Santos Simões foi deixando a sua marca nas múltiplas iniciativas do associativismo na cidade, como colaborador ou, na maior parte das vezes, como seu inspirador e mentor. Publicou livros 283
(ensaios, teses políticas, memórias, teatro, contos, poesia, livros para crianças); resgatou Raúl Brandão de um esquecimento que já pesava, encenando peças suas e cuidando, exemplarmente, de preservar o seu espólio; reinventou em palco a vivacidade e truculência de Gil Vicente, divulgou os nomes de romancistas, poetas, artistas plásticos e cineastas “malvistos” pela ditadura, sobretudo os neo-realistas. E dedicou-se ao ensino, não só como professor de matemática, mas também como investigador e pensador, diagnosticando os males de que enfermava (e enferma!) a escola e propondo soluções de democratização e de ensino centrado no aluno, muitas delas avant la lettre. Todas estas actividades (de que aqui se deixou apenas a pincelada de um apontamento) foram assumidas apaixonadamente por Santos Simões e com o ethos cívico de um combate. Na verdade, sendo visceralmente um homem de cultura, era, ainda mais entranhadamente, um homem político. Compreende-se assim que a sua intervenção cultural não fosse nunca “inocente”, mas sempre “contaminada” por um imperativo político de resistência à ditadura, promoção de valores humanistas e luta anti-capitalista segundo o enquadramento próprio de tempos de acesa guerra fria. Nessa medida, Santos Simões, com ou sem consciência ideológica desse facto, assumiu exemplarmente o papel que Gramsci consignava ao “intelectual orgânico” no combate pela “hegemonia cultural” (outro conceito gramsciano) que, sobretudo nas últimas três ou quatro décadas, tem recrudescido de sofisticação e virulência por parte das “novas” esquerdas nos contextos culturais, universitários e mediáticos. Mas pouco nos importa agora isso. Fica-nos o Santos Simões, homem inteiro e bom, cujo exemplo em si não mente. E que, apaixonadamente, foi, sem dúvida, a personalidade mais influente de Guimarães na segunda metade do século XX, até à sua morte em 2004. Bem-haja.
284
Santos Simões – Um homem polémico, um homem bom José Fernando Rodrigues Alves Pinto Ex-presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária Francisco de Holanda Ex-membro da Direção da Sociedade Martins Sarmento
Quando nos é proposto testemunhar sobre uma pessoa, sobretudo se já falecida, temos tendência a apagar as apreciações negativas e a sobrevalorizar as avaliações positivas. No caso do nosso amigo Santos Simões, homem de raça, de revolta e de intransigência perante a hipocrisia, o totalitarismo, a presunção, a vaidade, a indiferença e outros mais distintivos que os seus detratores colocam na lista dos seus defeitos, tomou-os, afinal, ao longo da sua vida, como qualidades que o tornaram conhecido e querido pelos que com ele privaram e pelos muitos que usufruíram do resultado dos seus diversificados trabalhos. Santos Simões era pessoa que não originava indiferença: alguns, muitos, admiravam-no; outros, uma minoria, detestavam-no. Com os grandes homens acontece assim, invariavelmente. Repudiavam-no os que pintavam as paredes com calúnias como «Santos Simões, o gatuno das explicações», ou os que inventavam histórias de «incapacidade de diálogo» para o impedirem de ascender ao cargo de Ministro da Educação. Adoravam-no os que com ele brilhavam no Teatro de Ensaio Raul Brandão, os que tinham o privilégio de ser seus alunos de Matemática, os que usufruíam da sua companhia na Escola Francisco de Holanda, na Sociedade Martins Sarmento, no Senado da Universidade do Minho, na Assembleia Municipal de Guimarães, no imenso rol de Instituições e Grupos por onde passou. Em todo o lado deixou o timbre do seu saber e da sua cooperação desinteressada. Recordo Santos Simões a viver euforicamente a liberdade que o 25 de Abril nos trouxe, interventivo, irreverente, a criticar a atuação dos que detinham o poder e o exerciam com despotismo. Fazia-o com frontalidade, com vigor, mas sempre com um resto de humanismo que lhe era genético e que sempre o acompanhou. Culto, muito para além da média, acrescentava a essa qualidade uma outra, que nem sempre a acompanha, a capacidade de iniciativa e de ação. Era um homem de fazer, de muito fazer, sabendo bem o que
285
fazia. Conheci-o como pessoa determinada e forte, capaz de enfrentar os desafios mais cruéis; mas conhecio também, no segredo de gabinetes, como homem que se angustiava perante a possibilidade de ser afrontado infundadamente e de ter que reagir com irritação e severidade. Ele, ao contrário do que alguns propagandeavam, preferia a tolerância, a concórdia, o humanismo, em qualquer situação e contexto. Santos Simões faz falta à nossa terra. Trouxe-nos muito. Deu-nos imenso. É credor da nossa mais sentida gratidão. Sem reservas. Santos Simões foi um homem de alegria e de fé. Com que prazer ele vivia o teatro e com que esperança olhou sempre o amanhã!... Com que alegria acolhia as crianças que, no dia 9 de Março, enchiam os salões da Sociedade Martins Sarmento para receberem o «prémio»!... Com que sentimento conversava com a desgraçada da peixeira da Praça, como a consolava e lhe passava a ideia de que «Isto agora vai melhorar… temos que ajudar… vocês vão ver!...». Com que à vontade ele mandava iniciar o concerto, no salão nobre da Sociedade Martins Sarmento, em dia de inverno chuvoso, com o público reduzido a quatro pessoas (ele, eu e mais dois magníficos...)! Santos Simões foi um homem de paz e de perdão. Nas suas privações, compreendia os humildes que apenas cumpriam ordens e condenava os maiorais que ditavam leis dos gabinetes, longe do povo e do sentir e pensar do povo. Quando o ofendiam com os chavões de «comunista» e de «ditador», reagia, sentido, com emoção e revolta, mas, de seguida, apelava à razão e voltava as costas aos provocadores. Embora possa ser entendimento não consensual, a verdade é que sempre agiu a favor da concórdia, sempre perdoou aos seus detratores. Que privilégio nós tivemos de privar com este grande senhor, amante das crianças, amigo do seu amigo, trabalhador incansável, pensador profundo e de horizontes abertos, avesso ao centralismo, amante da autodeterminação e da ousadia de quem atuava bem e por bem, rompendo com o espartilho da lei crua que impedia a sociedade de ser, de fazer e de crescer. Teria muito mais a acrescentar ao que fica dito sobre Santos Simões, mas reservá-lo-ei para altura mais oportuna em que tenciono elaborar um livrinho semelhante às várias dezenas dos que ele me ofereceu, com as dedicatórias carinhosas com que brindava a minha família.
286
A Santos Simões Fernando Martins Fernandes
Humano desde que nasceste Rico na mente da natura herdada Humilde com cada Humano semelhante Presente na hora certa da mão necessária. Guerreiro firme em tempo de guerra Sentido real do dever cumprido Vontade de ferro face a injustiça Palavra clara onde é carecida. Cada minuto sempre de trabalho Meticulosamente repartido pelo dia Cada dia é o grão duma vitória Duma vida que desejamos vivida Amigo leal de quem leal for Palavra amiga que conforta sempre Quando a vida é choro ou látego de escoria Teus inimigos olham-te severamente Como diante dum gigante de granito Impotentes ante tal verdade nua Inclinam a cabeça de abalado respeito. És o homem certo para toda a hora Do humilde convívio a frieza da luta Nas horas felizes, nas horas amargas Sempre e apenas homem.
287
antos imões: “antes quebrar que torcer” Alfredo Magalhães
Pediram-me um testemunho, neste ano do Centenário do nascimento deste grande vulto da nossa sociedade, e faço-o com muito orgulho e satisfação, não só pela amizade e companheirismo que nutríamos um pelo outro, mas também pela contribuição decisiva que teve na definição do meu percurso de vida. Não me limitarei a relatar aspetos da nossa vida pessoal, sairei do quarto, como dizia Garrett na sua obra Viagens na Minha Terra, citando Xavier de Maistre, para ir pelo menos até ao quintal. Santos Simões “entrou” em mim, em 1969, tinha eu 15 anos de idade, por altura do célebre II Congresso Republicano de Aveiro. Nesse tempo, e por necessidade de “recrutar” gente jovem, convidou-me a participar em reuniões, absolutamente clandestinas, na casa do senhor Eduardo Ribeiro, da Cari, ali perto do Bairro Leão XIII. Foi o tempo do meu batismo político e, consequentemente, da construção da minha personalidade. Mas foi também o tempo de perceber a grandeza daquele HOMEM que, a troco de nada, ou melhor, a troco de prisões pela Pide, nos elucidava da importância do BEM COMUM. Foi neste ambiente, em plena ditadura, que conheci Santos Simões! Um homem rigoroso a todos os níveis, do tipo “ame-o ou deixe-o”, e com uma personalidade “à prova de bala”! Sendo da matemática, escrevia e falava como poucos! Um grande amante do teatro e do cinema, onde se movia com um à vontade impressionante! Nunca deixava de dizer, fosse a quem fosse, aquilo que pensava! Dizia-me muitas vezes: “Fredinho, (era com este mimo que me tratava), sou assim, não há nada a fazer, ou é desta forma ou é nada”! Não posso nunca esquecer este homem! Desde muito novinho que “bebia” as suas palavras e, depois, também foi crucial na mudança de rumo da minha vida universitária. Iniciei os meus estudos superiores na FEUP (faculdade de Economia do Porto), diziam-me que eu dava um bom economista. Mas foi um ano perdido! Fiz duas ou três cadeiras… o ambiente à volta era muito aliciante… jovem, com dinheiro no bolso e com carro, o puzzle ficava construído. No final do ano tive que prestar contas, em casa, e não correu nada bem – acabou-se o dinheiro e acabou o carro – tive de regressar a Guimarães. Bons tempos que duraram pouco! Depois deste ano perdido, tinha que arranjar soluções. Não podendo contar com o meu pai, fui procurar o homem que sempre me acarinhou – Santos Simões, de seu nome! Como sempre lá estava, pronto para me apontar uma via alternativa. Não era bem o que queria, mas, perante o cenário, tinha que aceitar. No dia 288
marcado, lá estava eu numa fila, no Largo do Paço em Braga, para a inscrição no primeiro ano de existência da Universidade do Minho, onde acabei por fazer um curso especializado para ensinar. Esta viragem brusca para o ensino, permitiu que as nossas relações pessoais e profissionais continuassem, na nossa ESCOLA, a Francisco de Holanda, A ESCOLA DOS AFETOS, epíteto que Santos Simões tantas vezes usava. E foi aqui, no ano de 1984, ano do Centenário da Escola em que, quis o destino ou não, este homem foi presidente da Direção Executiva e eu presidente da Direção da escola da Veiga, hoje denominada Escola Secundária Santos Simões. Foi esta similitude de funções, cada um de nós na sua escola, que fez com que não seguisse fisicamente a Comemoração do Centenário da Escola Secundária Francisco de Holanda. Contudo, assisti às duas sessões solenes deste evento – a da abertura das Comemorações e a do encerramento. Tanto numa como noutra, Santos Simões foi igual a si próprio, nomeadamente na Sessão Solene de abertura das Comemorações. Num estilo corrosivo e de rigor, disse a determinada altura do seu discurso “…é talvez o nosso maior motivo de orgulho o saber-se que os estratos da população mais desfavorecidos só puderam ver satisfeitas as suas mais caras expectativas por terem encontrado nesta Escola os meios de enriquecimento cultural e profissional que tantos e tantos milhares de portugueses não puderam ver satisfeitos por não terem igual oportunidade. Por aqui passaram, desde a primeira hora, marceneiros, pintores, sapateiros, tecelões, funileiros, pedreiros, alfaiates, caixeiros, cutileiros, que sabemos nós, toda a arraia-miúda que fervilhava nesta cidade de múltiplos mesteres”.
Note-se o alinhamento desta semântica, que evidencia, como sempre, um ideário político de esquerda de uma constância impressionante – o tal homem de “antes quebrar que torcer”! Na mesma linha do discurso da Sessão de abertura, na do encerramento, Santos Simões, na presença do Ministro da Educação da altura, José Augusto Seabra, apontou carências e manifestou alguns anseios. Num momento do discurso, e depois de desenvolver vários aspetos da atividade escolar, disse que “para o êxito dos Cursos Técnico-Profissionais diurnos muito contribuiria a rápida implementação dos Institutos Superiores Politécnicos porque, embora muitos dos alunos que concluem os Cursos TécnicoProfissionais se não venham a matricular nesses Institutos, não podemos ignorar que a sociedade portuguesa (e principalmente os pais dos jovens) ainda se preocupa com o prestígio que acarreta o título de engenheiro ou doutor”.
No mesmo tom enfatizou “que a criação de um Instituto Politécnico Superior em Guimarães seria a melhor forma de comemorar o Centenário desta Escola a quem a região e o País devem um século de atividade marcadamente voltada para a formação profissional”. Para concluir, Santos Simões fez questão de agradecer a presença do Professor Lloyd Braga, primeiro reitor da Universidade do Minho, para felicitá-lo por, entre muitas outras coisas, “fazer o milagre de pôr a funcionar, em dezembro de 1975, uma Universidade
289
nova (que não apenas uma nova Universidade), quando todas as outras estavam paralisadas”. Saliente-se o facto de, nos inícios dos anos 70, Santos Simões ter sido uma das personalidades que veio a integrar a Comissão Instaladora e, mais tarde, o Senado dessa Universidade. A par da sua atividade como professor, Santos Simões destacou-se no plano social e cívico em vários domínios, muito particularmente no domínio da Educação. Como disse Licínio Lima, em 1999, numa homenagem promovida em 23 de outubro de 1999 pelo Conselho Cultural da UM, “trata-se de uma intervenção na política educativa do seu país, realizada por um professor que insiste em assumir-se como cidadão de pleno direito, jamais aceitando separar dicotomicamente educação e política, pedagogia e cidadania, democratização do ensino e democratização política e social”.
A propósito disto, Santos Simões num dos seus primeiros textos sobre Educação, inserido no livro Engrenagens do Ensino de 1968, escreveu: “Não é novidade para ninguém que as principais atividades duma comunidade dependem quase exclusivamente do grau de autonomia e desenvolvimento intelectual dos seus filhos. Este estádio só pode ser atingido através dum processo educativo e cultural e o primeiro só é verdadeiramente significativo se atingir toda a população e em termos da mais completa igualdade de oportunidades e completo aproveitamento de aptidões”.
Como disse Licínio Lima “estava encontrado o mote de toda uma vida – democratização do ensino, igualdade de oportunidades e educação para a cidadania”. Daí ter sido, pela sua tenacidade e resiliência, um dos “construtores” da denominada Reforma Veiga Simão. Foi assim Santos Simões! Um homem firme, dotado de superior inteligência e de grande sensibilidade! Um HOMEM assim vale a pena! Foi um grande orgulho ter sido seu amigo até ao fim!
290
Uma espécie de vizinho Rui Víctor Costa
Lembro-me vagamente de ter trocado umas palavras de circunstância com Santos Simões, quando era adolescente, em rodas de alunos que eram dele, mas que eram igualmente meus amigos. Geralmente, na Avenida Conde de Margaride, enquanto deambulávamos sem propósito, sem o telemóvel que nos estragasse essa liberdade de nada fazer, mesmo fazendo. Não me lembro de nada de especial dessas curtas conversas, além de que eram geralmente bem dispostas. Tinha, já na altura, alguma curiosidade sobre aquele vulto bem conhecido da cidade. Tentava perceber uma chave qualquer que me decifrasse como a matemática se liga à cultura ou à política. Nunca a consegui decifrar, provavelmente porque não existe, nem faz sentido que exista. Olhava aquele homem com curiosidade, mas não me atrevia a ir mais longe do que um sorriso, uma exclamação bem-disposta, um sublinhado naquilo que tinha sido já dito. Não estaria, por esses dias, muito distante de uma manifestação a que assisti, no Toural, sobre qualquer coisa como a Universidade e Guimarães. Aí não era sequer adolescente e o Toural estava cheio de gente, e ele discursou de uma varanda, com uma imensa certeza no que dizia. Isto numa altura em que a população de Guimarães se importava imenso pelas suas causas, pela justiça dos seus propósitos e ambições. Está tão longe dos dias de hoje essa realidade que me questiono se a terra é realmente a mesma, ou se todo esse fervor e disponibilidade dos vimaranenses não passará de uma divagação fantasiosa da minha memória, ou da memória de outros. Mais tarde – não sei quando, nem me importará quando, neste pequeno texto em que as recordações não terão data – falei com ele de forma mais próxima. Foi na edição de um livro do Cine-Clube (assim, com hífen!), escrito por ele, em que colaborei com um texto e na edição e revisão desse mesmo livro. Era eu então dirigente do Cineclube e as horas em que diligentemente trabalhámos a sua edição e apresentação permitiram-me conhecê-lo melhor. E gostei de o conhecer. Cruzei-me, por iniciativa própria, de forma ainda mais longa, aquando da decisão da Câmara em retirar o Mercado Municipal do sítio onde estava, na Rua Paio Galvão, a minha rua, mas também a rua dele, a rua da Sociedade. Aquela decisão irritava-me imenso. Achavaa inútil e perigosa, deslocada no tempo, incompreensível. Para sustentar aquilo que então escrevia nos jornais e dizia na Assembleia Municipal, socorri-me de Santos Simões. Ele ainda estava mais furioso do que eu e pude verificar, in loco, o propalado mau feitio que muitos lhe atribuíam, as imprecações atiradas no meio 291
da conversa quando a dialética era já inaplicável. Só que aquilo não era, em bom rigor, defeito de índole, mas, pelo contrário, a afirmação feérica de uma convicção. E uma convicção certa, ainda hoje firmemente o creio. Mas realmente foi a altura de conhecer o homem combativo, o homem determinado, que não se amedronta com ameaças, com eventuais retaliações às instituições que então servia. Afinei com ele, com particular prazer intelectual, a argumentação do património funcional e não apenas do património edificado de Marques da Silva. Horas tristes pelo resultado não alcançado, mas estimulantes para mim que o conhecia melhor e de forma mais completa. Essa conivência ficou em mim. Creio que, nele, tão somente uma curiosidade pelo exotismo das minhas convicções ideológicas. Mas – já o conhecia doutras pessoas que admirava – a certeza de que a defesa da cultura, do património, da liberdade, não é tributária de uma ideologia, pois, se o fosse, já não seria verdadeiramente cultura, património, liberdade, mas uma construção imaginada desses valores universais. Assim, quando em determinados dias, ia comer a casa da minha tia, na Paio Galvão, cruzava-me quando ele saía da Sociedade para ir, suponho, igualmente almoçar. E naquele degrau perdiam-se minutos que me valeriam o raspanete pelo inevitável atraso que aquelas conversas impunham. Por isso comecei a ir mais cedo. Visitava-o no seu gabinete logo à entrada da Sociedade, que, provavelmente, o pouparia a esforços físicos mais violentos e inadequados para a sua saúde. Entrava naquele bunker de madeira, alcatifado por livros e papelada vária, para, em meia-hora, responder a perguntas e fazer perguntas, cruzando perspetivas e convicções. Essas conversas não tinham a periodicidade da deferência, mas a periodicidade do necessário. Ouvia-o sempre com especial atenção. Descobria sempre qualquer coisa nova, encaixava reparos, seguia conselhos. Encarava esses minutos como os minutos que se roubam a um vizinho a quem se pede uma mangueira, uma chave de parafusos, e, em dias mais lentos, um parecer sobre o tipo de rede adequada à construção de um galinheiro. E sentia esse conforto de uma vizinhança saudável e extremamente útil, pelo menos para mim. O impedimento de repetir a deferência que se tem para com aquele vizinho em particular, de retomar diálogos, de devolver mangueiras e chaves de parafusos, entretanto já por mim utilizadas, não tem, hoje, a crueza da impossibilidade. O conforto da memória sobrepõe-se a isso. E vence.
292
Nótula breve acerca de Joaquim Santos Simões Albino Baptista
Breve, a priori, porque Santos Simões é um nome que percorre este País, de fio a pavio, logo a seguir, dada a sua humilde, mas grandíloqua pessoa, que, em si própria, consubstancia vastas áreas na Cultura Portuguesa. Desde muito jovem, em Coimbra, na sua atitude assumida de Teatro, militantemente desempenhada, a qual veio a ser alicerçada nesta cidade de Guimarães, muito sua, no desenrolar rigoroso de Docente, na Escola Secundária Francisco Holanda, onde tive a honra e o ensejo de com ele privar, também, concluindo, desde logo, quem era o Dr. Santos Simões. Adivinha-se que, dedicar-lhe breves palavras, que ficarão aquém das que ele, por mérito e dignidade, merece, para mim, é extremamente fácil, apenas e, às vezes, com ligeiras pausas para desanuviar e sacudir a emoção, que me percorre e a vontade que me enche a alma de o abraçar e ouvir o eco – bastaria: “Então pá, fizeste boa viagem de Braga até esta Capital? Olha que temos assuntos sérios a tratar esta noite…” Assim se tecia, semanalmente, nos nossos encontros, a nível do MDP/CDE, década de 80 do século passado, um conjunto de homens que, com o seu exemplo, a maioria bem mais jovens, serviam os ideais, atentos ao seu dinamismo, à sua responsabilidade, à sua facilidade resolutiva, sagacidade empreendedora e nível elevado de retórica. Uma voz altaneira num Homem de coração puro, amigo do seu amigo. Mais o demonstrava, quando nos deslocávamos a Lisboa aos Congressos do Partido. Foi, exactamente, nestas circunstâncias, que melhor e mais correctamente me foi dada a possibilidade de conhecer bastante bem o Homem, o Político, o Pedagogo, o Docente e, principalmente, o Humanista. Trabalhador incansável nos vários quadrantes da sua vida, deixou a sua Palavra, o seu Labor, o seu Entusiasmo em cada degrau que subiu e desceu na vida, que lhe foi dada preencher, sendo, ao resto, aquele Cidadão, não paliativo ou promitente à simpatia, mas às causas, às razões, ao cerne dos assuntos, que não tinha tempo a perder com conversas da treta tão ao gosto de muita gentinha, que se vicia a fazer sala, em qualquer local… Guimarães, cidade que conheço bastante bem e, por isso, me confere o direito de a apreciar e gostar dela, já prestou a vénia mais do que merecida a Joaquim Santos Simões, por várias circunstâncias, a que, à sua maneira, não deixava de se sentir grato e, neste 2023, nascem atitudes conducentes a Homenageá-lo e 293
aos seus 100 anos de nascimento. Relevo, a talhe de foice, a atitude assumida na Revista de Guimarães Júnior, um complemento à centenária Revista de Guimarães, órgão Científico da Sociedade Martins Sarmento, numa área, em que Santos Simões muito se distinguiu e a que era muito sensível, a Infantojuvenil, tentando um leit–motiv de inspiração das novas gerações.
294
Santos Simões e as Caldas das Taipas Carlos Marques
Foi no dia dezassete de Abril do ano de mil novecentos e setenta e um que tive o primeiro contacto pessoal com a imponente figura de Joaquim António dos Santos Simões, engenheiro geógrafo e licenciado em matemática, jornalista, polemista, escritor e político, quando liderou a homenagem que o povo taipense prestou ao seu escritor Ferreira de Castro no descerramento de um busto num triângulo ajardinado e arborizado a meio caminho entre o Parque e as Termas das Caldas das Taipas que o escritor frequentou em todos os verões da década de sessenta do século passado, tendo deixado de cá vir porque não queria passar por ele mesmo, pelo busto. Já antes ouvira falar no seu nome por intermédio do meu irmão mais velho, que tinha sido seu aluno no final dos anos cinquenta num curso nocturno da Escola Comercial e Industrial da cidade de Guimarães, para mais tarde, passado uma década, já com Santos Simões saneado do ensino oficial, sua esposa, a Dr.ª Açucena, ter sido minha professora na mesma escola. Ao tempo tolhia-nos sabermos que era mulher dum comunista, que, quando em vez, víamos entre a Avenida Conde Margaride, onde morava, e a escola que lhe fica contígua. Joaquim Santos Simões teve sempre para com CalCarta da PIDE denunciando Santos Simões nas Caldas das Taipas das das Taipas um apreço especial, não só pelas encantadoras paisagens que aqui encontrava como pelas pessoas com quem falava. Teve aqui também, na sua luta política contra o regime fascista, bons aliados e 295
colaboradores como o Dr. José Augusto Silva, de São Martinho de Sande, que viria a ser o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Guimarães pós revolução de Abril, o vizinho de frente deste, o Artur Baptista Sampaio, o Zé Custódio Freitas, e o Zé Adélio Maia Gomes, que viria a ser o primeiro Presidente da Assembleia da Freguesia principal de Caldas das Taipas, a de Caldelas, escolhido em eleições livres. Refiram-se, além destas, os que o acompanharam na campanha da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República no ano de mil novecentos e cinquenta e oito, bem como na campanha das Eleições Legislativas do ano de mil novecentos e sessenta e nove nas listas da CDE - Comissão Democrática Eleitoral pelo distrito de Braga, contrária ao regime político do Estado Novo. Santos Simões, na qualidade de jornalista e responsável pelo suplemento ”Artes e Letras” publicado mensalmente no jornal considerado de tendências oposicionistas, o “Notícias de Guimarães”, tem o arrojo de organizar, aqui, em Caldas das Taipas, no dia sete e oito de Agosto do ano de mil novecentos e sessenta e cinco, o “III Encontro Nacional dos Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional”, com a presença de mais de vinte jornalistas de todo o país e tem o desassombro de convidar para a presidência do “Encontro” José Maria Ferreira de Castro a quem quis homenagear como manifestação de desagravo pela perseguição que o regime político movia ao escritor e à Sociedade Portuguesa de Escritores de que era presidente. O “Encontro” realizou-se, mas a polícia política, a PIDE-Polícia , descobriu e infestou as imediações do Hotel das Termas das Taipas de agentes que elaboraram o seu relatório, donde saíram ordens de prisão para aqueles que o regime considerava de conspiradores, com Santos Simões à cabeça, que a PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado dizia vincadamente hostil às Instituições vigentes, declarando-o desafeto ao regime vigente, o do Estado Novo, e notoriamente com tendência para a ideologia marxista. No dia seguinte, a nove de Agosto, Santos Simões escreve uma carta afecEdital candidatura FEPU à Assembleia Constituinte, listagem de tuosa ao escritor que começa com “Meu muito querido candidatos amigo: Não me esqueci de si, melhor, minha mulher e eu não nos esquecemos dos breves e inesquecíveis momentos que os Encontros possibilitaram e guardamos bem dentro do coração …”, carta que não chegou ao destino e que fui encontrar quando compulsei os arquivos da Pide. Das Taipas, onde se encontra em descanso Ferreira de Castro, em vinte e dois de Agosto do ano de mil
296
novecentos e sessenta e seis, é levado pela mão de Santos Simões à sede do CAR - Círculo de Arte e Recreio em Guimarães, para, ali, o escritor apresentar a sua obra e divulgar os seus livros aos da cidade. Santos Simões era um indefectível admirador do humanista e da obra do escritor Ferreira de Castro e, no ano de mil novecentos e sessenta e oito, manifesta-lhe o seu apoio junto da Academia Real da Suécia e da Comissão do Prémio Nobel, aquando da candidatura conjunta do escritor Ferreira de Castro e Jorge Amado a Prémio Nobel da Literatura ao arrepio da vontade da força política de então, a do Estado Novo, com António Salazar ainda na presidência do Conselho de Ministros. Joaquim Santos Simões, em dezanove de Outubro do ano de mil novecentos e sessenta e nove, realiza, no Hotel das Termas das Taipas, com numerosa assistência, um comício de candidatura da CDE, contrária ao regime vigente, uma acção de consciencialização da população, onde esclarece a numerosa assistência das suas angústias, manifesta-se contras a guerra colonial e contra o colonialismo. Também para esta organização contou com os indefectíveis das Taipas. Em onze de Agosto de mil novecentos e setenta e três, é criada a Universidade do Minho pelo ministro da Educação Nacional, Dr. Veiga Simão. Depois da apresentação governamental do profundo estudo dos diversos sítios para a sua instalação unipolar, a decisão veio a recair definitivamente na colocação de todo o Campo Universitário em Caldas das Taipas. O Dr. Diogo Freitas do Amaral, que fez parte da Comissão de Acompanhamento até ao vinte e cinco de abril do ano de mil novecentos e setenta e quatro, foi saneado em pleno PREC - Período Revolucionário em Curso e substituído precisamente pelo Dr. Santos Simões, que, assim, foi investido na Comissão Instaladora da Universidade. Santos Simões em sede de reuniões, ainda tenta e propõe a manutenção da solução unipolar do Campus definitivo na vila das Taipas. Todavia vê vencida a sua solução, e a Universidade é mesmo dividida em dois polos, por Braga e Guimarães/cidade. Foi um erro fatal para a despesa do Estado e, muito mais, uma perda irreparável para a nossa terra, que é Caldas das Taipas, pois o governo revolucionário, pela mão do ministro socialista Sottomayor Cardia, seguiu a opinião pública ao invés da decisão técnica, o que Santos Simões muito lamentava. Quando, já em plena democracia, se candidata como cabeça de lista do seu partido, o MDP-Movimento Democrático Português, pelo distrito de Braga às primeiras eleições livres, no dia vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e cinco, para deputado à Assembleia Constituinte, leva consigo na lista o seu amigo e correligionário taipense, o Zé Custódio. Nas primeiras eleições autárquicas livres, em dois de Dezembro de mil novecentos e setenta e seis, Joaquim Santos Simões é o cabeça de lista pela FEPU - Frente Eleitoral Povo Unido à Assembleia Municipal de Guimarães, onde é eleito, e assume a liderança da bancada, lá desenvolvendo profundos debates políticos
297
do interesse local nos três anos de mandato e no igual mandato seguinte, também eleito nas listas afectas ao PCP - Partido Comunista Português, agora sob a coligação APU - Aliança Povo Unido
Edital Contagem de votos - 1.as Eleições Autárquicas para a Assembleia Municipal.
Carta à Junta de Freguesia de Caldelas, sede de Caldas das Taipas
No dia catorze de Agosto do ano de mil novecentos e noventa, Santos Simões, ciente da importância que o eminente escritor Camilo Castelo Branco teve nas Taipas, escreve ao Presidente da Junta de Freguesia da vila pedindo que este lhe disponibilize um bloco granítico em configuração de mamoa para o colocar num dos muitos jardins da vila, com o objetivo de nele colocar uma memória alusiva ao escritor que tanto e tão bem cantou e descreveu em diversas das suas obras literárias o bom nome da nossa terra, que é Caldas das Taipas, não obtendo resposta, e, assim, mais uma vez, se perdeu uma oportunidade de elevação cultural do 298
nome do maior romancista da língua portuguesa. Mais tarde, pelo meu pulso Camilo Castelo Branco é eternizado no ano de dois mil e quatro quando coloco o seu nome na toponímia local. Depois, em sede do Grupo de Missão de Guimarães Capital Europeia da Cultura dois mil e doze, na qualidade de seu membro, na reunião de dezasseis de Maio do ano de dois mil e sete, expus e pedi que fosse integrado no programa cultural de literatura a homenagem a Camilo, designadamente que a comemoração dos cento e cinquenta anos da sua obra prima – “Amor de Perdição” – fosse realizada, na terra onde Camilo fora feliz e pela qual tinha um grande encanto, Caldas das Taipas. Mas a Câmara Municipal de Guimarães rejeitou e optou Casa de Camilo nas Caldas das Taipas pela cidade. Eu, na qualidade de membro do Centro de Estudos Ferreira de Castro, com sede em Ossela, e na de presidente da direcção do CART - Centro de Actividades Recreativas Taipense, no âmbito do vasto plano de acções culturais que, ao tempo, desenvolvíamos, trouxemos à nossa terra, integrando as comemorações do centenário do nascimento do escritor Ferreira de Castro, a exposição “Centenária”, conferencistas e toda a sua obra publicada, para divulgação da mesma junto dos taipenses, durante todo o mês de Fevereiro do ano de mil novecentos e noventa e nove, onde acorreram muitas centenas de visitantes. No dia seis do mesmo ano, o da inauguração dos trabalhos, cá apareceu Joaquim Santos Simões a quem convidei para descerrar a placa alusiva às cerimónias no pedestal do busto do escritor, que Santos Simões, vinte e oito anos antes inaugurara, para, de seguida, no auditório dos bombeiros locais, perante muitas dezenas de participantes, o mesmo, no painel dos palestrantes, ter contado a proximidade que teve com o escritor, de que se destacaram as peripécias acerca da realização dos ditos “III Encontros” e doutros que manteve com o escritor na nossa vila. Depois do nosso encontro, em Caldas das Taipas, do ano de mil novecentos e noventa e nove, prometi ao Dr. Santos Simões que o visitaria na SMS - Sociedade Martins Sarmento da qual era presidente da direcção,
299
e, assim o fiz, tornando-me sócio e membro da Sociedade. Depois de mais uma das muito longas conversas que com ele mantive, lhe ter perguntado porque é que a sua instituição marginalizava as Caldas das Taipas ao atribuir o Prémio ao melhor aluno das Escolas Secundárias da cidade e à de Vizela, não o fazendo da mesma forma à nossa Secundária, tendo-me peremptoriamente respondido que era por falta de patrocinador, imediatamente selamos ali um acordo, que ainda hoje perdura, tornando-me o padrinho dos Prémios atribuídos aos melhores alunos da Escola Secundária de Caldas das Taipas do Curso Humanístico-Científico e do Curso Profissional, entronizando-os com o nome do grande Santos Simões no colóquio “escritor FERREIRA DE CASTRO” republicano, o Dr. Alfredo Fernandes, considerado a nossa figura política mais importante da primeira metade do século XX. Quando descobri que a regulamentação permite ao IEP - Instituto das Estradas de Portugal a colocação de dois outdoors de Informação Turística à saída das duas auto-estradas, dei-lhe disso nota e ele, entusiasmado, desde logo oficiou ao IEP e me pediu para corroborar com o mesmo, escrevendo também a título particular e, assim, ambos obtivemos resposta positiva em vinte e dois de Novembro de dois mil e dois, conseguindo, desta forma, a fixação das placas alusivas, na chegada à cidade proveniente das duas estradas principais que a servem, à visita à Citânia de Briteiros, fazendo passar os interessados pelas Caldas das Taipas, já que o
300
Presidente da Câmara de então, António Magalhães da Silva, numa decisão singular conseguiu aniquilar o desenvolvimento da nossa vila, coarctando a projectada criação do nó, em Brito, que eu requerera ao governo de então liderado por Durão Barroso e que este me afiançara construir, que permitiria encurtar a distância às Taipas, à Citânia de Briteiros e ao Castro de Sabroso para menos de metade do tempo e dos quilómetros. Quando da inauguração, em vinte de Novembro de dois mil e três, do Museu da Cultura Castreja, em São Salvador de Briteiros, dei nota ao Dr. Santos Simões de que iria colocar uma lona no centro da vila, que ali ficaria dia e noite convidando os Lona colocada por Carlos Marques no centro da vila das Taipas nossos residentes e todos quantos por aqui passassem a visitar o novo museu. No dia nove de Março do ano de dois mil e quatro, ajudei Santos Simões numa empreitada há muito ansiada por ele, a de homenagear os antigos e mais velhos dos melhores e premiados alunos ainda vivos das escolas primárias concelhias. Levei à sua presença, no salão nobre da Sociedade Martins Sarmento, diversos laureados taipenses, tendo-o surpreendido com alguns dos seus amigos políticos, designadamente o Zé Custódio e o Zé Adélio. Santos Simões na homenagem ao Zé Adélio, melhor aluno primário do seu tempo São conhecidas as tertúlias que Joaquim Santos Simões realizava no tasco taipense “Candidinha da Ponte”, assim como o enfoque que dava, nos
301
seus estudos, ao polo industrial das Caldas das Taipas-capital da cutelaria, aos seus cutileiros e às dificuldades que estes passavam, às casas sem cozinhas e sem retretes, chegando a pedir, muito antes da revolução de Abril a instalação duma creche para a nossa localidade. Joaquim Santos Simões na qualidade de dirigente associativo do RITMO LOUCO, depois CAR, do seu TERB - Teatro de Ensaio Raúl Brandão, bem como do Cineclube e da SMS, muitas foram as vezes que escolheu as Taipas para aqui desenvolverem actividade desportiva, designadamente de provas de natação no rio e na piscina, de ténis de campo e de mesa. Mas foi mais na componente cultural que nos visitou: no parque de turismo, no rink, na pérgula da piscina, no salão dos bombeiros e no dos hotéis, com as artes cénicas, do cinema, da música e dança, passando por Campelos, São João de Ponte, Santo Estêvão e São Salvador de Briteiros, Santa Eufémia de Prazins, entre outras freguesias próximas de Caldas das Taipas.
302
No decesso do saudoso amigo e colega Branco de Matos
Dr. Joaquim dos Santos Simões46 Não mais a clara voz serena, austera e atenta À crua insensatez que os ventos move ou susta: Já quando a noite cai a madrugada ajusta E molda o novo dia e um outro mundo inventa. Não mais o solidário gesto com que enfrenta O pérfido raiado olhar que nos assusta: Emerge o bravo edil, a pouco e pouco incrusta Tal como o incêndio amaina uma chuvinha lenta. Não mais na prevenção de um súbdito perigo Em tempo de tramoia ou treva ou luz nefasta; Não mais o teu conselho certo e braço amigo Em noites de granizo e sal que entulho arrasta Se cresce (e como cresce) a voz de um tempo antigo. Mas o teu nome é vivo – e só teu nome basta. Dr. Santos Simões, escultura da autoria de Viana Paredes
46
IN, Matos, M. Branco (2008). Este Cão Esta Cidade – Guimarães – um roteiro poético, Guimarães, Editora Cidade Berço.
303
O Mestre na Matemática – Um pequeno episódio Mário Roque
O Professor de Matemática, Santos Simões, lecionou na Escola Industrial e Comercial de Guimarães/Escola Secundária Francisco de Holanda, de 1957 a 1992, com apenas duas interrupções. Uma, voluntária, por uma missão superior, num destacamento no Magistério Primário. Outra, involuntária, por uma demissão superior… Na sua vida, afinal, até o pensar pela sua própria cabeça teve algo de matemático, no sentido que lhe dá a investigadora Eugenia Cheng: “A matemática ajuda-nos a pensar mais claramente, mas não nos diz o que pensar”. O que foi Santos Simões, como Professor de Matemática, foi já profusamente descrito em testemunhos eloquentes de quem com ele trabalhou ou de quem teve a sorte de o ter como Mestre. Seria pois, decerto, redundante, acrescentar algo ao que, por exemplo, sobre ele testemunhou Fernando Capela Miguel: “Era óbvio que gostava de ensinar e não precisava de dar gritos para expor a matéria, bastava sermos capazes de lhe seguir o raciocínio…” Ou então à forma como António Gama Brandão o descreveu, na sua atividade docente, utilizando um adjetivo cabal: pujante! “Dominando com mestria a matemática, disciplina de que era cultor, sabia transmitir com lucidez, clarividência e pragmatismo […]. Afirmava-se como um arquétipo de professor”. O pequeno episódio que partilharei aqui, neste texto, pretende apenas dar conta, de forma singela, da marca indelével deixada por esse Mestre, na nossa Escola, em todos os que tivemos a sorte de ter podido contar com a sua companhia… no trabalho! Creio ser meu dever começar por enquadrar esse episódio, realçando desde já o seguinte: o Professor Santos Simões era, com os colegas de grupo, tão generoso na partilha, quanto exigente na reflexão. As questões que levantava envolviam, frequentemente, aspetos teóricos sobre o que se ensinava, mas também sobre os fundamentos do que se ensinava e sobre a forma como se ensinava. Tinha, claramente, visões muito bem definidas sobre estes assuntos e sobre o modo integrado como os mesmos deveriam ser 304
considerados. E sempre a abrir caminhos… No seu livro “Da fala à escrita” deixou esta citação do pedagogo Francis J. Mueller, bem clarificadora das suas ideias: “A ideia-chave metodológica no ensino atual da matemática é a descoberta”. Se me convidassem a sintetizar o que creio ter sido a sua conceção de um bom trabalho, enquanto professor de Matemática, talvez arriscasse considerar dois eixos fundamentais: - a compreensão profunda dos conceitos; - a estruturação dos raciocínios. Feito este breve enquadramento, penso que podemos ir então ao tal episódio. Um dia, numa reunião de grupo, o Professor Santos Simões levantou uma questão que o deixara particularmente irritado: o ter-se apercebido que, de um modo geral, alunos do Secundário, apesar de trabalharem tanto, na trigonometria, com radianos… não tivessem a ideia clara do que era, afinal, um radiano!... Talvez seja bom recordar aqui que se trata de uma unidade de medida de amplitude de ângulos. Poderemos definir essa unidade, de forma sucinta, como sendo a amplitude de um ângulo ao centro cujos lados contenham um arco de circunferência, de comprimento exatamente igual ao respetivo raio. Na figura ao lado, podemos observar isso mesmo: o arco 𝐶𝐵 foi construído medindo exatamente o mesmo que o raio da circunferência, de centro 𝑂; assim sendo, a amplitude do ângulo 𝐶𝑂𝐵 é 1 radiano. Como consequência desta definição, teremos então que, por exemplo, 180 graus (semicircunferência…) correspondem a 𝜋 radi𝜋
anos. Dito de outro modo, 1 grau corresponde a 180 radianos. As coisas, nesse dia, não ficariam por ali… O Professor Santos Simões não se terá, eventualmente, sentido devidamente acompanhado por nós, seus colegas de grupo, na sua irritação. E procurou então dirigir a discussão para a importância de tal unidade de medida, no estudo das funções trigonométricas. Disse que alguns dos resultados que utilizávamos, nomeadamente no cálculo diferencial, cairiam pela base, se trabalhássemos em graus… “Em alguns manuais, isso leva mesmo a um chorrilho de asneiras.”, provocou… Na altura, confesso, não fiquei lá muito convencido da sua razão. Mas já sabia que o que ele dizia era, sempre, pensado. E já me habituara, também, à forma, rica, como o Mestre gostava de fomentar as 305
discussões, não querendo, nunca, que lhe dessem a razão, devido ao seu estatuto… Coisa que, diga-se de passagem, poderia, de facto, fazer… Voltei por isso à carga, uns dias depois… Deu-me como exemplo o limite de
𝑠𝑒𝑛𝑥 , quando 𝑥 tende para 𝑥
zero. Bom… esse limite é profusamente estudado no secundário e o seu valor é bem conhecido: 1. Mas, diziame ele, que isso se verificava apenas quando estávamos a trabalhar em radianos… Perante a minha insistência, atirou-me com algo do tipo: meu caro, a demonstração desse resultado é feita com a amplitude dos ângulos em radianos. Traduzindo: “vai estudar”! Teria sido mais fácil hoje, com todas as ajudas tecnológicas existentes, “ver” o alcance do problema. Nas figuras seguintes está representada graficamente, em radianos e em graus, respetivamente, a função definida, para 𝑥 ≠ 0, por 𝑦 =
𝑠𝑒𝑛𝑥 . 𝑥
A semelhança das formas é inequívoca. Mas uma análise atenta aos eixos das ordenadas leva-nos a perceber que: - no primeiro caso, os valores das imagens, para objetos muito próximos de zero, parecem de facto tender para 1; - mas já no segundo caso… bom, aí a calculadora indica-nos qualquer coisa como 0,0174532952…! Sigamos então a “sugestão” do Mestre e analisemos, trabalhando com graus e não com radianos, a demonstração habitual do tal “limite notável”.
306
Na figura ao lado está representada, num referencial o.n. 𝑥𝑂𝑦, a circunferência trigonométrica (de centro na origem e raio 1). Sem perda de generalidade, para facilidade de escrita, trabalhemos no primeiro quadrante. Sendo 𝑥 a amplitude do ângulo 𝐴𝑂𝐵, sabemos que 𝑠𝑒𝑛𝑥 = 𝐴𝐵 e que 𝑡𝑔𝑥 = 𝐶𝐷. Sabemos também que, caso tal amplitude seja dada em graus, 𝜋
o comprimento do arco 𝐶𝐵 é igual a 180 𝑥 e não será difícil aceitar, reparando na figura, que esse comprimento seja superior a 𝐴𝐵 e inferior a 𝐶𝐷. Temos então que, para valores positivos de 𝑥, próximos de 𝜋 𝑥 < 𝑡𝑔𝑥 ou equivalentemente, dividindo “tudo” por 𝑠𝑒𝑛𝑥: 180 𝜋 𝑥 1 1 < 180 × 𝑠𝑒𝑛𝑥 < 𝑐𝑜𝑠𝑥. 1 Como 𝑙𝑖𝑚 1 = 𝑙𝑖𝑚 𝑐𝑜𝑠𝑥 = 1, daqui decorrerá que, quando 𝑥 tender (em graus), por valores positivos, 𝑥→0 𝑥→0 𝜋 𝑥 𝑠𝑒𝑛𝑥 𝜋 para zero, × vá tender também para 1 e, consequentemente, que vá tender para… . 180 𝑠𝑒𝑛𝑥 𝑥 180 𝜋 Ora, como podemos confirmar… é aproximadamente igual a 0,0174532952 (mas onde é que vimos 180
zero, 𝑠𝑒𝑛𝑥 <
nós já este número?...). Não podemos esquecer, neste ponto, um pormenor muito importante: a questão das unidades! Como o seno é “adimensional”, o que a calculadora nos está a apresentar, no gráfico da direita, para valores positivos muito próximos de zero, corresponde, realmente, a uma aproximação do valor daquela 𝜋
𝜋
função… na unidade pedida: 180 … por grau. Se recordarmos que 1 grau corresponde a 180 radianos… isto faz todo o sentido… Aquilo que, eventualmente, esperaríamos obter, quando pedimos tal limite (1), ocorrerá… quando utilizarmos a unidade “natural” de medida de amplitudes de ângulos, para o cálculo diferencial: o radiano. O Mestre tinha (desta vez como de outras…) razão! No quê e no porquê, no conteúdo e na sua essência… E nas implicações que isto tem – bastará recordar que estamos a falar de um limite que está na base da dedução das fórmulas para as derivadas das funções trigonométricas… Perguntemos, por exemplo, à mesma máquina de calcular, pelo valor da derivada da função 𝑦 = 𝑠𝑒𝑛𝑥, em zero. Primeiro com a variável em radianos e, depois, em graus…
307
Se refletirmos sobre as respostas obtidas e sobre o que está na base daquelas diferenças, seremos certamente gratificados com algo que não tem preço: o vermos a matemática a funcionar!...
Em jeito de conclusão: a necessidade de uma reflexão permanente sobre os fundamentos da matemática e da consequente realização de um trabalho estruturado com os nossos alunos, foi o que, na minha opinião, de mais marcante nos deixou, no grupo da Matemática, o Professor Santos Simões. Mesmo depois de aposentado, continuou a brindar-nos com a sua presença e, ainda que normalmente em momentos mais descontraídos (e que bons que eles eram…), nunca se furtou a ouvir-nos, a incentivarnos, a aconselhar-nos. A lembrar-nos da importância de nos mantermos unidos e focados num objetivo que, no que à Matemática dizia respeito, deveria ter sempre em vista um acréscimo de qualidade. Sempre! Sobre isto, aliás, desde muito cedo que o Professor “anunciara” ao que vinha. No final da década de 60, perante uma previsível reforma de alguns dos programas de Matemática, deixara bem vincada a sua opinião no livro “Engrenagens do Ensino”: que tal teria que ser feito “[…] acautelando sempre a linha de evolução do ensino, que se tem de caracterizar por uma constante subida de nível”. Era talvez por isso que acompanhava, sempre, com um brilhozinho nos olhos, os relatos de atividades feitas com os nossos alunos, na sala de aula ou fora dela e que observava materiais didáticos que os (ex) colegas construíam, para trabalharem nas suas aulas. Atrevo-me mesmo a dizer que era com algum orgulho, que dava conta de tudo isso… Talvez, quem sabe, pela satisfação do dever cumprido. Ainda que, se porventura o questionassem sobre esse legado, acabasse, também aqui, por dizer que, afinal, não fizera “outra coisa senão o meu dever”. Obrigado Professor Santos Simões.
308
No centenário do nascimento de Santos Simões – Por uma Escola Humanista Benjamim Sampaio Diretor do Agrupamento de Escolas Santos Simões
A Ideia de uma nova escola, destinada à comunidade educativa da Escola Secundária da Veiga, concretizou-se em 2005 com a mudança para novas instalações. Pretendia-se não só a renovação do espaço físico, mas também a implementação de novas ideias, de novos valores e a construção de um projeto constituído por vontades e caminhos inovadores. A Assembleia da Escola Secundária da Veiga decidiu, em reunião plenária, no início do ano de 2004, desenvolver um conjunto de procedimentos com vista à atribuição de uma nova designação à escola e, nesse sentido, envolveu toda a comunidade educativa na escolha e adoção de um patrono para a designação da futura escola. Surgiram várias sugestões e possibilidades, mas a escolha recaiu, por larga maioria, no nome de Joaquim António dos Santos Simões, atendendo ao facto de este ser uma figura incontornável a nível da cultura e educação na sociedade vimaranense. Esta escolha foi submetida a apreciação da autarquia, tendo obtido parecer positivo, e, posteriormente, à validação pelos serviços do Ministério da Educação, tendo sido aceite, passando a nova escola, com início de atividade no ano letivo de 2005/2006, a designar-se Escola Básica 2,3/S Santos Simões, e, posteriormente renomeada, Escola Básica e Secundária Santos Simões. No início do ano letivo 2007/2008, a Escola Básica 2,3/S Santos Simões agregou-se ao Agrupamento Horizontal de Belos Ares e deu origem ao Agrupamento de Escolas Santos Simões, constituído, atualmente, por seis escolas, cerca de 1700 alunos, e tendo como oferta educativa desde a Educação Pré-Escolar até ao Ensino Secundário. Após a conclusão deste processo, constituiu-se uma Comissão da Assembleia de Escola, constituída por professores, pais e alunos, com o intuito de procederem ao convite formal e presencial ao Dr. Santos Simões para usarem o seu nome como patrono da nova escola. Como presidente da Assembleia de Escola, solicitei um pedido de agendamento de uma reunião a realizar-se na Sociedade Martins Sarmento, onde este era presidente da direção.
309
O Dr. Joaquim Santos Simões rececionou os membros da Comissão, pouco tempo antes do seu falecimento, mostrando surpresa e alguma curiosidade pela razão que motivou o pedido de agendamento da reunião. Mediante o convite que lhe foi endereçado, ficou bastante emocionado e em lágrimas, aceitou e referiu que a maior honra que se pode dar a um professor é dar o seu nome a uma escola. Em resposta, endereçou uma carta de agradecimento, a qual serve de preâmbulo ao Projeto Educativo do Agrupamento de Escolas Santos Simões, e que segue: Ao longo dos anos, estabeleceu-se uma relação de colaboração com a Dra. Isabel Santos Simões que, após a morte do seu pai, sempre demonstrou disponibilidade para colaborar com a escola nas diferentes atividades que foram sendo desenvolvidas. De ressalvar o grande apoio através da gentil cedência de diferentes objetos pessoais, fotografias e filmes que farão parte de uma exposição comemorativa do Centenário do nascimento do seu pai. No âmbito da referida comemoração do Centenário do nascimento do Dr. Santos Simões, ficaram inscritas no Plano Anual, referente a 2023, uma série de atividades que visam assinalar esta data e também reavivar a memória do patrono nos alunos do Agrupamento. Para além da realização de palestras, exposições e partilhas de testemunhos, procedeu-se também à alteração do Regulamento Interno do Agrupamento de Escolas, no sentido de criar o Prémio de Mérito Santos Simões, a atribuir ao melhor aluno do 12.º ano de cada um dos sete cursos científico-humanístico e profissionais existentes no Agrupamento. Este prémio de mérito foi atribuído, pela primeira vez, aos alunos que se destacaram pelo seu aproveitamento no ano escolar 2021/2022, e materializou-se numa árvore dos valores que representa uma cultura
310
da escola e que encoraja os alunos a desenvolver e a aplicar os valores da Responsabilidade, Integridade, Excelência, Exigência, Curiosidade, Reflexão, Inovação, Cidadania, Participação e Liberdade. Esta iniciativa procura cumprir com a visão do Agrupamento de Escolas Santos Simões, que pretende assumir-se como uma escola de referência pela qualidade das aprendizagens, pela inovação, pelo sucesso educativo dos alunos e pela promoção dos princípios e valores referenciados no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. A “Árvore dos Valores”, instalada numa das paredes do átrio principal da escola sede, é um ícone alusivo ao perfil do aluno, de base humanista, centrado na pessoa e na dignidade humana como valores fundamentais. Esta ideia de escola está definitivamente alinhada com os princípios defendidos desde sempre e ao longo da sua vida pelo Dr. Joaquim António Santos Simões, patrono do Agrupamento de Escolas Santos Simões, como refere na carta endereçada à escola “…. nunca aspirei a outra coisa que não fosse lutar (e de que maneira) por uma escola democrática pautada por valores democráticos, isto é, uma Escola que pudesse propiciar a todos os portugueses todos os conhecimentos ao alcance das suas capacidades e um acompanhamento constante pela vida fora”.
311
O colosso que dizia palavras firmes envoltas em veludo de sabedoria Esser Jorge Silva Sociólogo
1. Pincelagens da mudança na Xicolanda Naqueles tempos, ali pelos inícios da década de 1980, a Xicolanda atravessava uma efervescente dinâmica, fruto da entrada de um quadro de professores muito jovens. Eram tão jovens ao ponto de, muitas vezes, se confundirem os rostos com os dos alunos. Alguns ainda nem tinham acabado as suas licenciaturas, mas eram notórios a vontade e o entusiasmo. Além do rejuvenescimento, também ajudado pelo fim do ensino prático ensinado por mestres instrutores, essa gente nova representou, ao tempo, a entrada de uma nova energia criativa com métodos e processos alternativos de ensino que se orientavam para a compreensão e se afastavam do decalque, em voga durante os anos de instrução do Estado Novo. Viviam-se tempos de transformação encetados meia dúzia de anos antes, na tal madrugada esperada que redundara no “dia inicial inteiro e limpo” de Sophia. A ideia de Escola Aberta vigorava por ali. Há muitos exemplos dessa abertura. Uma delas o sentir ridículo ao funcionário que, treinado nos anos da outra senhora na função de vigia, se sentia impotente no vigiar de tanta expressão do amor na forma de demorado e muito removido ósculo. Professores a pousar no mesmo espaço dos alunos durante o intervalo também não vaticinava gente com muito respeitinho resguardado na exclusividade da sala de professores. A melhor e mais proveitosa – pode-se revelar hoje, era a possibilidade dada de, aos domingos de manhã, um grupo de alunos, professores e empregados, usarem o rinque da instituição para jogarem futebol, a que não faltava o acesso aos balneários para o refastelador banho quente no final. Esse hábito daria lugar ao aparecimento de uma equipa que participava nos torneios internos organizados pela Associação de Estudantes, mas que tinha a particularidade de não ter nomes inscritos. O grupo “Proalem”, assim se chamava, constituía um acrónimo baseado nas expressões “professores, alunos e empregados”. Funcionava como a equipa de todos e de ninguém. Jogava quem estivesse presente. Não consta que algum dia houvesse falta de comparência, mas, à distância de quatro décadas, revela bem a ideia de espaço aberto e participativo em que se tornara a “Xico”. Um dia, talvez em 1982, ali por volta das 19 horas, minutos antes de começar as aulas noturnas, o 312
escrevedor deste texto sorvia lentamente uma meia de leite enquanto mastigava o energético pão com manteiga. Jantaria mais logo, às onze, quando terminassem as aulas. Ali, ao seu lado, uma professora da disciplina de Sociologia, que era coisa nova no ensino secundário e universitário em Portugal, observava, estranha, o cenário com aquele ar de quem não vê. Até que resolveu partilhar: “é a primeira vez que estou numa escola que tem cerveja ao dispor dos alunos e, contudo, até agora, nunca vi um aluno a beber cerveja”. Sim, havia “minis” no bar, mas era raro o aluno que pedia. Professores sim, bebiam, mas nem era tanto assim. E, completando a sua sociologia da cerveja, rematou a professora: “se fosse em Lisboa estava tudo bêbado!”, afirmou. (Parêntesis para referir que, apesar do escriba não se recordar do nome da professora, jamais se esquecerá da sua insistência na leitura do pequeno livro de Adérito Sedas Nunes, “Questões preliminares das Ciências Sociais”. Leitura feita a tempo, saiu sociólogo uns anos depois). Era uma escola em mudança. Por essa altura, fruto da animada existência, a Xicolanda começou a realizar a Semana Aberta, um espaço em que implicava a envolvência de todas as partes na construção do espaço escolar. Ali para o final do terceiro trimestre expunham-se os trabalhos realizados pelos alunos durante o ano. E eram imensos. É provável que, por essa altura, houvesse menos Ministério da Educação a ocupar as cabeças, o que libertava espaço para a criatividade e tempo para levar à prática as ideias que, no final, por mais estranhas, se revelavam com interesse além do pedagógico. Com o passar de anos, a Semana Aberta, já de si um projeto orientado para o ambiente externo da organização escolar, passou também a integrar, em simultâneo e cada vez em maior quantidade, empresas e instituições de diversa ordem. Todo o espaço escolar constituía-se num ânimo de acontecimentos. As salas dos pisos um e dois passavam a ser áreas de exposição. Além das organizações vimaranenses, começaram a chegar empresas e marcas de outras geografias. Ali, pelos primeiros anos da década de 1980 a Xicolanda ostentava um raro e orgulhoso epítome: “Escola Modelo do País”, coisa que engrandecia todos os que por ali andavam. 2. O gigante imaginário Além de tanta conversa à volta de George Orwel, 1984 terá sido o ano central do superlativo existencial da Xico. Por essa altura já este escrevedor tinha abandonado a frequência do espaço escolar. Mas visitava-a a espaços. No mês de junho desse ano dois eventos concorriam entre si: o Campeonato da Europa das Nações, vulgo Europeu de Futebol, e a Semana Aberta da Francisco de Holanda. Um dos pisos oferecia algumas salas com mostra de computadores, suprema novidade. Não era para mexer. Era só para olhar. De repente estava ali o futuro em ecrãs verdadeiros não propriamente para emitir imagens de televisão. A sala da Next,
313
então líder em máquinas pensantes, era a melhor. Além de que tinha também o mais afoito e despreocupado comercial. Ele teve a coragem e o desplante de responder “sim, claro!” à pergunta “podemos mexer?”. Nos dias seguintes um grupo liderado por um estudante chamado Carlos Faria, o “Lito” de cognome, instalou-se naquela sala, não mais dali saindo, nem para refeições. Já viciados em Zx-Spectrum, aqueles computadores permitiram uma aventura em linguagem basic. Um mês antes nascera, nos EUA, um tal de Zuckerberg que, anos depois, ficaria conhecido por ganhar dinheiro com um programa de engates. A história não regista um facto: já nessa altura se concebeu ali um programa para escolha do tipo de namorada preferida. O grupo divertia-se e, aos poucos, muitos colegas iam ali submeter-se às perguntas cujo resultado, por vezes, podia fazer incomodar espíritos menos atrevidos. Não se contava, contudo, com um inusitado. Naquele dia, o Ministro da Educação Augusto Seabra visitava a Escola. A certa altura, caminhando em comitiva, entrou por aquela sala adentro e, como não houvesse ali mais ninguém, vendo um grupo animado à volta de um monitor, dirigiu-se-nos, “mas então o que estão a fazer?”. Posto um ar circunspecto e de gente responsável a beber silêncio, alguém explicou. Dada a explanação, o ministro da voz fininha, quis submeter-se ao questionário. Deste lado um incómodo perpassava o interior. “Se o tipo escolhe certas respostas, isto vai dar um escândalo”, pensava este escrevedor. Ao levantar a cabeça dava-se com o olhar de Santos Simões caído sobre o grupo alinhado à volta de um monitor como se fosse um imperativo ponto de exclamação. Visto de baixo para cima parecia o Citizen Kane e o grupo a seus pés. Ao seu lado tanto Silva Pereira como Alves Pinto mantinham-se serenos. Felizmente, o ministro escolheu hipóteses muito conservadoras de namorada e, por isso, no final, o perfil de mulher para si estava em consonância com uma fada do lar, espécie de mulher santificada pelos costumes. Santos Simões apercebeu-se do alívio e, deixando para trás, perguntou com voz secreta, “vocês tinham aí malandrices, não tinham?” Tínhamos! Os cinco ou seis anos de estudante não tinham dado hipóteses a este escriba de se relacionar com Santos Simões na qualidade de aluno. As únicas hipóteses de contacto surgiram por razões um tanto à margem da relação pedagógica. Ou, talvez, a propósito da relação numa vertente geralmente menos apreciada da pedagogia. O cenário do computador e da espécie de quiz aplicado ao Ministro da Educação não fora o primeiro encontro. Uns anos antes, em data já levada pelas brumas da memória, mas seguramente nos primeiros anos de frequência da Secundária Francisco de Holanda – que, ao tempo recebia o sétimo ano, a imagem de Santos Simões chegara ao então aluno como um gigante daqueles que a juventude estudantil apresenta não como figura posta à nossa frente, mas com a descrição sob imaginação de um colega que o colocava muito próximo de uma pessoa austera. Perguntou, então, o colega, se tinha “o Santos Simões”, assim mesmo, um tu-cá-tu-lá sob forma absolutamente definida, sem hierarquia na linguagem à mistura.
314
Que não, não tinha, recebeu de resposta. Na lista de professores do jovem aprendiz não contava ninguém com tal nome. Ao modo da juvenilidade o colega atestou uma espécie de sortilégio; afinal, um gigante não surgiria pela frente do imberbe principiante, pelo que o seu futuro, pelo menos de um ano, estava resolvido. 3. Introdução do espírito independente na Cidade A imagem do gigante continuou ausente das vistas e das salas. Ano após ano, após verdadeiros confrontos com professores que os tempos permitiam, nunca a figura do tal colosso aparecera pela frente do iniciante. Aqui e ali as lamúrias escutavam-se. “Exigente, muito exigente”. “Obriga a trabalhar”. “Manda cada boca!”. É certo que havia sempre o complemento nada circunstancial: “mas ficas a aprender matemática”. No caso deste aprendiz, nunca foi possível experimentar Santos Simões em sala de aulas. É certo que já sabia quem era. Das bocas ouviram-se-lhe várias. Tinha jeito para a interjeição assertiva na hora do exaspero. Nos ouvidos ficou uma alojada, escutada assim de passagem, qualquer coisa como “ó fulano, olha que até os burros forçam a natureza”. (Abre-se aqui parêntesis para deixar explicado que, nesses tempos, a aprendizagem mandava trabalhar a capacidade de resistência ao argumento demasiado assertivo. Denominava-se “capacidade de encaixe”. Podia ser levado na conta dos “princípios elementares das técnicas parlamentares”. Aquilo não só ensinava como fortalecia. Fecha parêntesis). O aprendiz conhecê-lo-ia certo dia, apesar de que, em acontecimento pouco edificante. Não foi bem frente a frente, mas lado a lado. Aliás, é provável que o gigante nem tenha olhado para as duas figuras tristes ali presentes: um futuro escriba e um colega sentados e ele, Santos Simões, de pé. A pose era altiva e o seu silêncio soava pesado com aquele particular altamente repreensivo dos silêncios censórios. Acontecera um daqueles acasos que um jogo de futebol pode proporcionar. E, a certa altura, estava ali, no Conselho Diretivo, suprema vergonha, porque as hormonas tomaram forma viva e libertaram-se do controlo do seu dono. Imaginava um raspanete e uma voz de trovão. Segundo a biografia falada da pessoa havia ali hipótese para, finalmente, o Adamastor imaginário se manifestar com vida. Afinal, ao contrário do que se esperava a conversa foi franca e simples. Antes, porém, tanto o escrevedor como o colega foram sentados numas cadeiras, um ao lado do outro, com a recomendação de espera, tática muito a propósito do adocicar do corpo, função mais do que evidente de uma cadeira. E, por estratégia ou acaso, a verdade é que uma hora depois, tanto o escriba como o colega contra objeto da contenda ainda ali estavam sentados com toda a gente a circular, os telefones a tocar, as funcionárias a perguntar, os professores a sorrir, a campainha a soar, os alunos a estudar, o tempo a correr, a vida a passar. Quando todo o sangue do jogo esfriara e a superfície das cadeiras ameaçaram desgastar-se pelo roçar do traseiro, o gigante
315
resolvera dirigir-se aos protos energúmenos num tom calmo e cordato: “se já estão mais calmos é melhor cumprimentarem-se e podem ir embora”. Quase sem se olharem as duas figuras cumprimentaram-se apressadamente e, desencantados, zarparam num percurso silencioso e dominado pela vergonha. A partir desse momento, por qualquer razão ainda hoje desconhecida, Santos Simões passou a cumprimentar este guerreiro sempre que com ele se cruzava nos corredores da antiga Escola Industrial e Comercial. Nos anos que este rabiscador por lá andou, a Xicolanda expressava essa energia nos vários domínios que configuram um espaço de ensino-aprendizagem. Santos Simões era grandemente responsável por essa dinâmica. Por onde passava contagiava agregando criatividade com mudança pautada pela coragem. Numa entrevista ao jornal “Conquistador”, António Emílio, antigo professor, guarda as memórias desse tempo quando, no final da década de 1950, chegou à Francisco de Holanda onde encontrou “um grupo de primeira com o Santos Simões à cabeça. Preocupámo-nos com a criação de um Cineclube. Precisávamos de cinema, assim como de cultura de qualidade e decidimos trabalhar nisso”. Esse era um tempo difícil de explicar à juventude de hoje. Pensar, criar, manifestar, enfim, pautar por mudança da vivência círculo de giz e das leis de pedra então em vigor, estava proibido. “Claro que tínhamos a polícia política e não há dúvidas que aquilo era um contrapeso brutal. Depois de muitos problemas no licenciamento do Cineclube, apareceu um polícia. Apresentou-se como funcionário qualificado da Pide para ver a contabilidade do Cineclube. E, eu aí, cometi uma asneira monumental. Disse-lhe: ‘Olhe, vamos fazer o seguinte, senhor, vai ver o que quer, mas não vou lá ficar ao seu lado porque eu tenho que trabalhar… Faz o favor leva a chave e veja o que quiser…’”. Mas Santos Simões era habitado por um espírito de opugnação ao quadro político dominante. Essa faceta intolerante à ditadura esteve bem presente no que se seguiu a esta investida da Pide. Explica António Emílio: “liguei ao Santos Simões a contar o que tinha feito e ele desancou-me: ‘Então você confia num homem desses?’ Então não hei-de confiar num polícia?’ perguntei-lhe. ‘Não pode ser! Eu vou lá!’. E foi à sede do Cineclube e, claro, estragou tudo…”. Como é público, a intransigência ao regime, associada à coragem levaria Santos Simões à prisão. Os seus atos de resistência não se limitavam à manifestação passiva. Era ação de todo, corajosa e com a firmeza das palavras envoltas em veludo de sabedoria. O pediatra António Gama Lobo, amigo mais de quarenta anos, notou como Santos Simões “perante a angustiosa realidade (…), tecia com frontalidade cáusticas e impressivas críticas, orais e escritas, ao Governo, jamais se intimidando”. Agia como modelo porque intuía que o seu exemplo não só ensinava a resistir como fazia escola e ajudava à multiplicação de resistentes. Assim o admite António Emílio: “aprendi a tratar com essa gente. Não se podia confiar realmente? O Santos Simões tinha razão”.
316
Uma síntese de António Gama Lobo47 traçou-lhe um perfil revelador de um carácter cultivado segundo princípios difíceis de encontrar num indivíduo só: “Jamais se resigna, cultiva a inquietude de espírito, impugna o imobilismo, provoca mutações expressivas. Sempre coerente, actua por palavras, pela escrita e pelo exemplo. Nunca se extasia diante dos triunfos conseguidos, nem sucumbe aos revezes ou desilusões. Ao enunciar uma ideia sabe defendê-la com acutilância, sendo capaz de a concretizar, mediante a sua poderosa capacidade organizativa”. Mas as qualidades de Santos Simões não residiam apenas no que dizia ou fazia. Era também no que inspirava. “(…) A parte primacial não é o que anuncia, mas a esperança que incute”, uma atitude orientada para a frente no qual o progresso não é um fim, mas uma etapa. 4. O pedagogo ao serviço da rebeldia pirata A certa altura da vida Santos Simões foi muito útil a este escrevedor. Era absolutamente sabido que a sua condição de gigante acumulara muito conhecimento e sabedoria, matéria prima amplamente necessária a jovens ainda envoltos na utopia de quem se julga(va) putativos futuros decisores do país. Assim, a modo de pessoa travestida de político decidiu, certa vez, o grupo de uma juventude partidária a que este escriba pertencia, opor-se à instalação do Centro Tecnológico Têxtil em Famalicão. Têxtil era com Guimarães. Nem se percebiam as movimentações famalicenses. Era necessário marcar posição antes da decisão governamental, nas mãos de um governo do primeiro mistro Cavaco Silva. A intervenção passava por um abaixo assinado a entregar ao Governador Civil do Distrito de Braga, Fernando Alberto Ribeiro da Silva. Escrito à máquina com todos os cuidados, como então se usava, decidiu-se que tal documento carecia, não propriamente de uma revisão, mas da certificação de uma autoridade. Tinha de ser visto nas dimensões técnico-linguístico-científica. Para coisa dessa monta teria de ser Santos Simões, disse alguém. Fazia sentido: se a coisa era importante só um gigante para resolver. Calhou ao escriba a missão de o contactar. A reunião ocorreu, ao fim do dia, na Escola Francisco de Holanda, na sala de reuniões da direção de então designada por Conselho Diretivo. Objetivamente interessado no assunto, embrenhou-se. E, ali, na mesma sala onde uns anos antes o imberbe estudante desgastara o tampo de uma cadeira, a promessa política reunia-se, agora, com o colosso que nem o olhar lhe pousara. Apesar de que a memória já não dite pormenores, o espírito guarda a saída dali de um praticamente novo documento, revisto de todas as impurezas e revertido em linguagem enxuta, livre de adjetivos. Pertence à história a circunstância do Centro Tecnológico Têxtil ter sido instalado em Famalicão. Com Santos Simões o espírito buliçoso pousara na cidade e, como um vírus, contaminara as mentes e 47
Publicado na Revista Forum, n.º 26, ed. jul-dez 1999, pp.33-42, Conselho Cultural da Universidade do Minho, Braga.
317
as vontades. Afirmam muitas memórias que a transformação se dava em várias dimensões, sendo a cultura a mais evidente, porquanto a terra, mais do que problemas da escassez no alimento do corpo, sabia da necessidade do cultivo pela manifestação sensível fornecida pelas artes, independentemente da sua forma de expressão. O buliçar de Santos Simões inspirara associações e estas consolidavam-se ao mesmo tempo que formavam alterações no centro dos indivíduos. Ainda que não planeada esta atitude tinha por objeto o efeito multiplicador no espírito independente da terra. A cidade reconhecia-o sem qualquer problema. Um exemplo concreto foi o da preparação da manifestação do dia de dezembro de 1970, no largo da Câmara, promovido pela elite económica. Recentemente ao investigar o fenómeno que daria lugar à Unidade Vimaranense, este escriba encontrou vários comprovativos da preocupação dessa elite em manter Santos Simões informado sobre o desenrolar dos acontecimentos. Esse ato demonstra como a existência de vasos comunicantes entre a elite industrial e a elite da cultura foram, quiçá, a melhor das alianças formadas na cidade de Guimarães, com vista à construção de pilares de sustentação da vida social. Quando aqui se fala em indústria e cultura não se deve confundir com a diluição das estruturas concretas que, no passado, revigoraram a cidade e o seu espírito independente tendo sido desarticulados e transformadas no pão e circo das indústrias culturais e criativas que animam sem envolver e ocupam o espírito numa subserviência envolta no acriticismo como modo de (não) existir. Santos Simões era eclético. Estava em estado de renascimento permanente. A inquietação constituía um modo de vida intelectual, como se fora uma espécie de guia para a existência. Renascia a cada momento com propostas para todo o campo artístico, principalmente o teatro, aquele a que se havia dedicado desde Coimbra. É provável que a sua necessidade de viver papeis alimentasse a dramaturgia criativa da vida. Talvez. Essa faceta fazia de si um homem possuído por aquela qualidade desaparecida em favor do “especialista”, a que Edgar Morin designou de “paradigma perdido”. A diferença entre querer saber “muito de muito” ou cingir-se à limitação de se “saber muito de pouco” ajudou a consolidar esse espírito independente que, do concreto que era, se foi evaporando, como que se desfazendo no ar. Talvez por isso o colosso tivesse, também, sido um dos fundadores do jornal “O Povo de Guimarães” – como podia ser de outro modo? publicação que ao longo dos anos não só recebeu o seu pensar como se constituiu também num dos espaços de pensamento da terra. O dirimir constante em várias dimensões fez do gigante uma espécie de enciclopédia, sempre aberta a quem dela necessitasse. O efeito multiplicador de que aqui se alude pode ser visto nesta relação: No Círculo Arte e Recreio (CAR), associação a que se liga, nasce, pela sua mão, o Teatro de Ensaio Raul Brandão, em 1959, e com ele os Festivais de Gil Vicente. Além do concreto de cada organização são também lançadas sob o húmus associativo
318
sementes de imaginação que brotarão através de outras mentes, esperando-se que estas últimas cumpram o papel de incentivar vontades com novos desígnios. É neste clima inventivo que, anos mais tarde, em 1983, nasce ali mesmo, no interior do mesmo CAR a segunda rádio local em Portugal: a Rádio Fundação. Não, Santos Simões não foi fundador de tal rádio. Mas o seu aparecimento dá-se debaixo do tal clima fecundo num éter inventivo, tão necessário a todo o espaço de criação e cultura. Com a instalação de outras rádios no território vimaranense surgidas no intermédio dos tais anos de 1980, deu-se um novo paradigma manifesto na necessidade permanente do saber dizer. Distinguir o importante do acessório, escolher entre o mais e o menos importante, e abordar o imediato em constante mudança obrigava gente muito jovem a grande atenção. Não errar era condição de afirmação e do ganho de respeito. Não passava pela cabeça de ninguém proferir uma falsidade, ainda que fosse, desse modo, atingir certo fim. Falsear era asneira a evitar porquanto o seu difusor acobertava-se de vergonha. Ademais um erro colava-se à memória da história pessoal como uma lapa. Mesmo que inadvertido, cabia a todo o radialista pirata a obrigação de cuidar antecipadamente da hipótese do erro. Sem o saber, Santos Simões tornou-se numa espécie de consultor informal de radialista pirata. Em tempo de telefones fixos, os números e a agenda do professor, associativista e pai de família, estava anotada na lista telefónica de cada redação. O fantástico é que nunca deixava de atender o telefone. Ou mesmo de receber o visitante ocasional trazido pela necessidade de saber como abordar o acontecimento surgido das intermitências dos dias. De se demorar numa explicação. De aprofundar o tema. De sugerir assuntos para trabalhar. E fazia-o sem qualquer dor. Despreocupadamente. Oferecia tudo o que sabia sem nada esperar. Todos estes anos passados pode o colega, agora feito gente grande e madura, perguntar: “tens o Santos Simões?” Tenho!
319
Santos Simões e a Biblioteca Raul Brandão Maria José Nobre
Traz um amigo… os livros também
Neste ano – 2023 – em que se comemora o centenário de nascimento de Joaquim António dos Santos Simões, a Biblioteca Municipal Raul Brandão aliou-se a todas as instituições culturais de Guimarães, para homenagear e lembrar uma figura ímpar para a história da cidade. A exposição bibliográfica, patente na Biblioteca Municipal Raul Brandão, é uma mostra da biblioteca particular de Joaquim António dos Santos Simões, doada pelos filhos à Biblioteca Municipal, que, agora, honrosamente se assume, como fiel depositária. Os documentos estão todos autografados pelos autores, testemunhos inabaláveis da dimensão cultural, cívica e humana do Homem que se tornou uma referência incontornável do concelho de Guimarães. Santos Simões esteve, desde a primeira hora, ligado à história desta Biblioteca: ▪ Foi Santos Simões quem sugeriu ao executivo municipal a atribuição do nome de Raul Brandão à Biblioteca, aceite em reunião de Câmara de 19 de abril de 1991; ▪ Teve intervenção direta na elaboração da exposição de inauguração da Visita às obras do edifício da Biblioteca Municipal Raul Brandão Biblioteca Municipal Raul Brandão, a 7 de março de 1992, emprestando inúmeros documentos originais de Raul Brandão; ▪ Colaborou na realização do programa de atividades culturais da semana em que decorreram as comemorações relativas à inauguração da Biblioteca e aniversário de nascimento de Raul Brandão (12 março).
320
Ata da reunião de Câmara de 19 de abril de 1991
Notícia da inauguração da Biblioteca
Nesta singela homenagem que a Biblioteca prestou a Joaquim dos Santos Simões, no mês de março de 2023, e integrado na programação do Húmus (Festival Literário de Guimarães), decorreu uma oficina plástica com vista à construção Exposição de inauguração de um painel de azulejos, sob orientação de Nuno Machado e de Clara Rego, e com a participação do público em geral e dos leitores desta biblioteca em particular, em honra de Santos Simões e Raul
321
Brandão, eternizando, assim, o forte vínculo que Santos Simões sempre dispensou a este escritor, bem como uma forma de nunca mais serem esquecidos e para que as suas memórias sejam eternizadas para todo o sempre, como sempre foi seu desejo: Não me esqueçam. Forget me Not. Este painel está exposto numa das paredes do edifício da Biblioteca. Terminamos este pequeno texto com uma frase da autoria de Santos Simões e que muito nos diz sobre o seu caráter: “Sejam sempre solidários, e se não puderem sejam humanos”.
Programa de atividades culturais
Achamos oportuno transcrever aqui o pensamento de santos Simões exarado na publicação Neflibatas, de 7 de março de 1992: Raul Brandão deve ter sido o responsável do texto-base com a colaboração de Justino de Montalvão; Júlio Brandão terá sido um outro colaborador. E tudo congeminado num barco no Rio Doce, no velho café Camanho, ponto de reunião dos intelectuais do Porto, e no atelier do pintor Inácio Pinho. Guilherme de Castilho, na mais importante obra que até hoje se escreveu sobre o autor de “Os Pobres”, - “Vida e Obra de Raul Brandão” -, dedica um capítulo a “Os Nefelibatas” para que
Painel de azulejos comunitário exposto numa das paredes do edifício da Biblioteca
322
remetemos os interessados. A corroborar documentalmente o que G. C. justifica, posso asseverar que Raul Brandão foi um dos autores do opúsculo já que aquele que possuo o ofereceu ele a um amigo que vivia também na Foz do Douro. Julgo, porém, que, à data da publicação de “Os Nefelibatas”, já Raul Brandão estava a seguir os seus próprios passos, como António Nobre que publica em Paris o “Só”, de cuja edição se comemora, também este ano, um século. A decisão de a Sociedade Martins Sarmento editar em fac-símile esta raridade bibliográfica constitui, de algum modo, o começo de um conjunto de atos de homenagem e divulgação da obra de um escritor notável que legou a sua preciosa biblioteca a esta Sociedade. Esforça-se, também, esta Casa de Sarmento, e a Família de Raul Brandão, para que ao espólio autógrafo, e outro, do autor de Memórias, se venha juntar o que abusivamente foi depositado na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Também na passagem destes 125 anos do nascimento de Raul Brandão, a Família do Escritor e esta Sociedade estão profundamente empenhadas na recuperação da Casa do Alto. E como se tudo isto não bastasse (e nunca basta), o Município vimaranense (finalmente!) decidiu homenagear de forma viva o autor de “O Gebo e a Sombra” dando o nome de Raul Brandão à Biblioteca Pública Municipal. Era tempo de ser tempo de Raul Brandão.
323
Santos Simões – Um Homem do Renascimento José Pinheiro
Santos Simões é, inquestionavelmente, a personalidade mais marcante e incontornável da vida cultural e associativa, cívica e política da sociedade vimaranense ao longo da segunda metade do século XX. Falar de Santos Simões é falar de um homem de formação humanista que se dedicou a uma cidade que não era a dele. Mas era a cidade dos seus filhos, cidade por quem se bateu toda uma vida dotando-a de futuro e urbanidade, criando espaços de cultura, de ciência e arte. Era assim que entendia a cidade: como um sistema vivo e dinâmico, com equipamentos e espaços de criação artística e cultural, não só como forma de entretenimento, mas também como meio de educação e conhecimento. Santos Simões era uma figura por todos conhecida quer pela sua profissão de professor, intelectual e humanista, quer pela sua atividade cultural e social que promoveu e desenvolveu, quer ainda, pela sua envolvência e intervenção política, dimensões que marcaram indelevelmente a cidade de Guimarães, pela personalidade forte e de caráter íntegro que todos reconheciam nesta notável figura pública. Foram vários os momentos e atividades em que participei e convivi com o Dr. Santos Simões. Em finais dos anos sessenta, a Livraria Raul Brandão era, então, um espaço de encontro e de difusão do livro e de cultura, acolhedor e simpático, por onde passaram várias gerações de jovens leitores buscando edições de livros raros, romances neorrealistas e ensaios marcadamente políticos e de pendor ideológico: eram os mais procurados, normalmente os censurados e proibidos. É neste período que, convidado pelo Dr. Santos Simões, entro para sócio do cineclube (1967). Foi, também, por esta altura que comecei a trabalhar na Livraria Império em Felgueiras à espera de ingressar no serviço militar. Daqui passei a ter a consciência da grandeza do universo através do livro, pelo olhar dos escritores e dos meus “patrões” e amigos, Paulo Dias de Castro e Francisco Melo, também meus mentores políticos e ideológicos. Foi a trabalhar neste mundo cheio de livros, autêntica biblioteca universal do conhecimento e saber que iniciei a minha “conceção mundo”. As Livrarias Raul Brandão, em Guimarães, a Império, em Felgueiras, a Altamira, em Fafe, a Júlio Brandão, em Famalicão e a Victor Sá, em Braga, eram, na época, uma espécie de Rede de Livrarias, que se comunicavam entre si, com a missão de difundir o livro e criar centros de formação de leitores críticos e cheios de 324
esperança, em resposta ao tempo que se vivia. Santos Simões era uma figura central e inspiradora, agregando todos à sua volta, os livreiros e outras figuras de relevo da cultura e da oposição, sendo o movimento do livro o difusor principal de cultura e do pensamento crítico como arma para a mudança política do regime. Foi neste ambiente efervescente de informação e cultura que tomei consciência política, pois sopravam os ventos do “Maio de 68”, decorria a “Primavera Marcelista” (1968), criando-se expectativas de reformas que não aconteceram, a “Crise Académica de 69”, a agitação através das músicas de intervenção de Zeca Afonso, de Adriano Correia de Oliveira, de Francisco Fanhais, de Manuel Freire, etc., as eleições para a Assembleia Nacional e a Oposição Democrática no Distrito de Braga (outubro 1969). Santos Simões era um líder natural e carismático que inspirou e influenciou gerações e, seguramente, moldou o pensamento político de muita gente, o meu de certeza. O cinema era uma das grandes paixões de Santos Simões, que o demonstrava, de forma entusiástica, nas sessões do cineclube. A programação era criteriosa, com a exibição de filmes temáticos e de ciclos de cinema de autor, que marcaram a história do cinema mundial. Santos Simões, no final das sessões, conversava com os sócios e amigos sobre o filme projetado, incentivando à conversa, trocando impressões sobre cinema, revelando ser um cinéfilo com um sentido crítico apurado e com um profundo conhecimento da cultura cinematográfica. Era um prazer ouvir Santos Simões falar dos filmes que conhecia, era uma aula sobre cinema. O Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB), fundado em 1959 no seio do Circulo de Arte e Recreio (CAR), outra das paixões de Santos Simões como autor e encenador de teatro, confirma a capacidade de trabalho e dinamismo, cultura e arte de um homem ao apresentar um reportório e produzir espetáculos com peças de teatro de autores como Raul Brandão (O Doido e a Morte e O Rei Imaginário), (O Médico à Força) de Molière, no Teatro Jordão, e outros autores como Anton Tchekov, Gil Vicente e William Shakespeare levados à cena pelo TERB, em vários locais da cidade, nas freguesias do concelho e em várias cidades da região norte que colocam Guimarães, na época, cidade de província e nada cosmopolita, ao nível de cidades universitárias (com teatro amador), como Coimbra, Porto ou Braga. A instalação da Biblioteca Calouste Gulbenkian em 1966, em Guimarães, a cargo do CAR, foi um dos espaços de cultura mais envolventes a que Guimarães assistiu, mobilizando para a leitura crianças, jovens e adultos de todas as freguesias (dizia-me o saudoso Joaquim Fernandes), através de um sistema impressionante de empréstimo de livros, resultando uma difusão do livro nunca vista. Santos Simões teve um papel muito relevante na animação cultural da biblioteca, promovendo pequenos sketches e performances de
325
teatro e de cinema de animação para crianças e jovens, aos fins-de-semana, com sessões e conferências com convidados para falarem sobre os mais diversos temas. Mas Santos Simões foi, também, um homem da educação, um professor. Não fui aluno dele, mas fiz parte como cidadão do movimento solidário que se criou para a fundação da CERCIGUI, mais tarde convidado a trabalhar na instituição. Deste movimento solidário emergente na segunda metade da década de setenta, faziam parte os pais, professores, psicólogos, terapeutas e cidadãos empenhados, sensibilizados e identificados com a causa do direito à educação das crianças com deficiência intelectual e cognitiva do concelho de Guimarães. O movimento CERCI-Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas foi uma boa e superior causa humana porquanto representou o direito à educação das crianças e jovens com deficiência que, até aqui, discriminados, viviam “escondidos “na família e excluídos socialmente sem qualquer apoio social e escolar. Significou, igualmente, serem crianças no seu próprio tempo de criança, com o direito à escola e a serem iguais e felizes entre as crianças e respeitadas na diferença. Foi, talvez, a instituição mais acarinhada pela sociedade vimaranense. Todos foram muitos e bons para o sucesso da CERCIGUI. Santos Simões foi o primeiro presidente da Assembleia Geral, pela sua experiência como professor, e, conhecedor das instituições do Estado, foi, seguramente, um elemento fundamental para estruturar, edificar e organizar uma escola e instalar dezenas de alunos e os respetivos docentes, funcionários e técnicos especializados com dignidade e conforto. E assim nasceu uma cooperativa de educação e ensino especial, que formou gerações de jovens, hoje adultos, seguramente mais felizes e integrados socialmente. Com a criação, em 1978, da Cooperativa Editorial O Povo de Guimarães, jornal regional, conquista um espaço de informação e formação comprometido com a construção da democracia “ainda na sua infância”, com a cidade e o concelho de Guimarães e o seu desenvolvimento. Reunia distintas figuras da cidade, da cultura e da política. Na época, eu acompanhava de perto as dinâmicas e o trabalho do jornal, pois trabalhava na administração da cooperativa. Santos Simões, também fundador deste jornal, foi um dos dinamizadores e colaboradores permanentes com artigos de opinião sobre a cidade e o concelho e suas instituições, assuntos de atualidade política e ensaios sobre diversos temas que muito bem dominava e que geravam interesse entre os leitores como um bom polemista que era. Em 1990, Santos Simões é eleito para presidente da Sociedade Martins Sarmento, instituição prestigiada que vivia, então, fechada sobre si própria, afastada dos seus associados e da cidade, descurando os deveres estatutários, valores e princípios da insigne instituição. Com a mudança, tudo melhorou: procedeu-se ao registo de Utilidade Pública, à proteção do sítio arqueológico do Monte da Citânia, à instalação do Museu
326
Monográfico da Cultura Castreja em Briteiros e à renovação da centenária e científica Revista de Guimarães (1884). Hoje, a SMS e o seu Museu Arqueológico têm uma projeção nacional e internacional, pelo seu valor patrimonial e histórico e pelo seu acervo museológico e importante museu arqueológico para o estudo da Proto-História Europeia. Santos Simões era um intelectual e um político contra a ditadura que combatia e um resistente lutador pela democracia. Nunca desistiu ou baixou os braços perante o desalento e as contrariedades do percurso que escolheu, nem vacilou diante daqueles que o perseguiam, ameaçavam e intimidavam. Manteve a sua integridade como homem em toda a sua ação, os valores da cultura, as causas humanas: as suas convicções políticas e ideológicas eram visíveis. Nunca foi um homem só, isolado, antes pelo contrário, foi um homem de coletivos, de espírito colaborativo e solidário, deixando a sua marca em todas as associações por onde passou. A presença e participação de Santos Simões na vida das associações eram das características mais visíveis da sua personalidade, estavam no seu ADN. As associações, sociedades e clubes, para Santos Simões, eram vitais para a cidade e para a vida das pessoas. Era uma forma de habitar a cidade e a comunidade era o seu centro. Mas é justo reconhecer que a cidade soube acolher este distinto professor de matemática, prova-o os sucessivos reconhecimentos: a homenagem que o CAR lhe prestou; o reconhecimento das associações vimaranenses; a nomeação pela Câmara Municipal de Guimarães, para Santos Simões integrar a comissão organizadora do Festival de Gil Vicente, como gesto público de reconhecimento ao enorme e valioso trabalho cultural e artístico desenvolvido; a atribuição da Medalha de Ouro da Cidade pela Câmara e Assembleia Municipal (em 1991); também pelo Presidente da República em 1996 será agraciado com o GrandeOficialato da Ordem do Infante D. Henrique; a homenagem pelo Conselho Cultural da Universidade do Minho, em 1999, pela sua participação na fundação desta importantíssima instituição de ensino superior. Estes reconhecimentos mostram bem o legado de intervenção que esta figura extraordinária e eloquente deixou impregnado na memória coletiva, no tecido cultural e social dos vimaranenses e na cidade que o acolheu, fazendo dele um ilustre vimaranense. A escrita foi para Santos Simões uma ocupação intelectual que lhe movia o espírito de reflexão e crítica, que não deixava de fazer como exercício de memória ou melhor dito, para registo de memória coletiva, que o tempo sabe guardar. Usou várias linguagens e dirigiu-se a públicos diversos, em publicações de livros desde contos para crianças, poesia, ensaios, peças de teatro e colaborou em dezenas de obras coletivas e coordenou, organizou, prefaciou outras tantas obras de diversos temas importantes e outras que o inquietavam. Era o seu espírito que exigia que escrevesse as suas inquietações e preocupações, mas sobretudo os seus
327
compromissos. Era um homem comprometido com a transformação da cidade e do país, como homem do mundo que era. O livro, a palavra e a cultura eram os meios para chegar a todos, nos múltiplos espaços de encontro e reunião, as modernas ágoras, no debate de ideias e na fruição da cultura e arte. E isso valeu-lhe muitos incómodos com prejuízos profundos, quer profissionais, quer pessoais e familiares. Escreveu Santos Simões: “Não há literaturas descomprometidas. As que se dizem asséticas e/ou neutrais, em relação à sociedade capitalista ou neocapitalista onde manifestam, estão efectivamente ao serviço dessa mesma sociedade que as aplaude, estimula e promove…” 48. O percurso pessoal e profissional de Santos Simões cruza-se, assim, de forma evidente, com Guimarães e as suas instituições, as associações culturais e cívicas, comprometendo a sua vida naquilo que considerava ser a sua visão do mundo – centrado nas pessoas, na liberdade e na democracia. Retenho na minha memória a presença permanente de Santos Simões, quer física, quer o seu espírito, em todas as atividades culturais, artísticas e recreativas, sociais e políticas a que assisti até ao final dos anos 90. Foi a referência cultural e política mais marcante na sociedade vimaranense. Evocar Santos Simões no centenário do seu nascimento em plena celebração do 25 de Abril, dia da Liberdade, é a mais bela e justa homenagem que se pode fazer a um homem que lutou por ideais de liberdade e democracia, pelo dia inicial inteiro e limpo de que fala Sofia de Mello Breyner, e que escolheu a cidade de Guimarães para sua terra. Honra-nos muito! Foi um distinto professor e pedagogo que formou gerações e gerações de alunos, hoje cidadãos, que vivem em democracia.
48
SIMÕES, Joaquim Santos (1974), Água de Vivos. Guimarães. Ed. Autor
328
Joaquim dos Santos Simões e a sua pedagogia democrática Licínio C. Lima49
No centenário do nascimento de Joaquim António dos Santos Simões – professor, metodólogo, dinamizador cultural, como gostava de realçar, personalidade polifacetada da educação e da cultura – evoco, em breves palavras, a sua ação infatigável e a sua obra pedagógica. No final da vida, quando lhe recomendavam que descansasse, ouvi-o dizer, convictamente, que ainda tinha muito para fazer e que, afinal, para descansar teria a eternidade. Conheci-o quando ele era membro da Comissão Instaladora da Universidade do Minho, em finais da década de 1970 e início da década de 1980. Mais tarde, encontrei-o como membro do Conselho Cultural da Universidade, órgão de que fui vice-presidente, sob a liderança do Prof. Lúcio Craveiro da Silva. Aí nos conhecemos melhor, tendo aceitado o seu convite para integrar o Conselho Científico da Sociedade Martins Sarmento, por ele então presidida, bem como da Revista de Guimarães. Recordo as reuniões realizadas em Guimarães, naquela prestigiada Sociedade, e os debates em torno da sua atividade cultural, em ambiente semelhante ao de uma tertúlia. Em 1999, quando o Conselho Cultural da Universidade do Minho lhe prestou pública homenagem, em Guimarães, proferi uma conferência sobre “Política educativa e democratização do ensino nas intervenções cívicas de Santos Simões”, que viria a ser publicada no número 26 (1999) da Revista Forum. Dele recebi um gentil agradecimento, escrito pelo seu punho, sensibilizado pela “partida” que o Conselho Cultural lhe fizera (a homenagem) e pelo meu simples e introdutório texto, que acabara de ler, chegado de Coimbra, de uma “detenção” hospitalar de cerca de um mês. A pedagogia democrática defendida por Santos Simões, pelo menos desde a década de 1960, em diversos escritos, com destaque para o seu livro de 1968 intitulado Engrenagens do Ensino e, em 1971, para outro livro de análise crítica das propostas reformistas do ministro Veiga Simão (Ensino. Projecto de Reforma ou Reforma do Projecto?), baseia-se na ideia central de que não é possível despolitizar a educação, separar a pedagogia da democracia, prometer a democratização do ensino numa sociedade não democrática. Escreveu, sobre este assunto, uma frase emblemática, no livro de 1968: “Um ensino livre, numa escola livre/um 49
Professor Catedrático no Instituto de Educação da Universidade do Minho.
329
ensino para todos/numa escola para todos/só numa nação de todos/só num país livre”. Este ideário político e pedagógico é crucial para compreender as duras críticas a que submeterá a reforma do ministro da Educação Nacional, não obstante elogiar “a coragem do idealista Prof. Veiga Simão”. Para ele, a democratização do ensino não seria atingível numa sociedade antidemocrática, classista, altamente seletiva e socialmente discriminatória. Para mais, uma sociedade marcada pela pobreza, com crianças mal alimentadas, com uma elevada taxa de mortalidade infantil, com falta de professores formados. A expansão do ensino era uma condição necessária, mas não suficiente, para uma democratização da educação. Critica, por isso, as derivas tecnicistas e instrumentais, de mera produção de mão-de-obra qualificada, tal como uma conceção de escola como “lugar onde apenas se adquire um determinado tipo de adestramento intelectual ou manual visando só e apenas a atividade profissional”. Ao invés, a pedagogia democrática que propõe baseia-se na ideia de autogoverno, de autonomia, único processo que poderá conduzir à aprendizagem da democracia, resultante de práticas de participação na escola. Nas suas palavras, resultando de “convivência, solidariedade e mútua confiança entre docentes e discentes”. Era, segundo ela, na esteira de António Sérgio, necessário formar “cidadãos inteiros”, no contexto de uma escola democrática, entendida esta como lugar de promoção de “um mesmo ensino para todos”, como defendeu em comunicação apresentada ao II Congresso Republicano de Aveiro, em 1969. Tratava-se de construir a sonhada “cidade escolar”, de novo com ressonâncias sergianas, que deixaria de ser “apenas e só local de encontro sujeito a horário e a tema, para oferecer a professores e alunos o convívio que cimenta o companheirismo e o trabalho que estimula aptidões”, aqui podendo invocar-se, a propósito, o conceito de “convivialidade” de Ivan Illich. Propunha, congruentemente, a realização de debates e mesas redondas de caráter pedagógico, conferências e colóquios com a participação de alunos, reuniões de trabalho com pais e alunos, a criação de “comissões de pais”, grupos de estudantes que organizariam atividades culturais, turmas mistas, atividades extraescolares. O contrário daquilo que a escola que considerava desatualizada e autoritária fazia, incapaz de garantir a participação indispensável da juventude na discussão dos problemas do país. De resto, o texto da Lei de Bases do Sistema Educativo, aprovado pela Assembleia Nacional em 1973, ignorava toda a possibilidade de participação de docentes e discentes no governo de escolas e universidades. E quanto ao lema que durante quase três anos fora repetido de forma incessante – o da democratização do ensino –, nem uma referência merecia no texto da lei. Notável a coragem cívica e o sentido crítico, a combatividade política e intelectual de Santos Simões, especialmente num contexto tão adverso como foi o do regime autoritário. É igualmente assinalável a sua
330
capacidade, bem informada, teórica e concetualmente alicerçada, para compreender as relações entre educação e política (a “politicidade da educação”, nas palavras de Paulo Freire) e para propor uma pedagogia democrática, da liberdade, da cidadania e da autonomia.
331
Santos Simões Sempre César Machado
“O esforço realizado, tantas vezes de forma penosa, só pode ser avaliado por quem o viveu. E se o TERB pode vencer porque a sua vida depende do querer dos que o constituem, outro tanto não posso eu dizer porque tenho que confessar que fui derrotado pela indiferença e estupidez de um poder por cuja configuração democrática tanto me bati”, escreve Santos Simões, em 1995, em Breve História do Teatro de Ensaio Raul Brandão (36 anos a lutar contra moinhos de vento), pg. 6. Em simultâneo, na edição n.º 23 do jornal “O Povo de Guimarães”, de junho desse ano, de que foi cofundador, pode ler-se: “Foi um homem desiludido e revoltado aquele que esteve no CAR na sexta-feira passada, um homem que apesar de consciente de ter cumprido a sua missão, se retira na esperança de que, agora, se deixe de poder "argumentar que o TERB não recebe subsídios" por sua causa. No ano em que muito justamente se celebra o Centenário do Nascimento de Joaquim António dos Santos Simões (12 de Agosto de 1923 - 23 Junho de 2004), importa recordar o Homem e Cidadão Joaquim Santos Simões, o percurso de alguém que sempre soube o que queria, que, como poucos, transformou em realizações concretas muito do que projetou, com isso ganhando novos amigos e novos companheiros de todas as gerações, mas, também, adversários ou inimigos que não o pouparam e o impediram de fazer mais em muitas ocasiões. Como sucedeu com Fernando Salgueiro Maia que amargamente afirmava: “Ainda um dia hei-de ser julgado por ter estado implicado no 25 de Abril”, também Santos Simões acabou por se considerar “derrotado pela indiferença e estupidez de um poder por cuja configuração democrática tanto me bati”. Infelizmente também uma figura com a grandeza de Santos Simões se viu confrontado com a mesquinhez de uns tantos, não apenas dos poderes políticos instalados – que não o pouparam – mas, também, de pequenos poderes fácticos, por exemplo, os que resultam de se ter um jornal à mão onde se pode escrever aleivosias e torpes ataques, com nome por baixo ou sem ele, num tempo em que esta malvadez não tinha, ainda, esse meio privilegiado de se propalar, hoje desgraçadamente assegurado pelas “redes sociais”. Santos Simões não foi governador civil ou Ministro da Educação porque Spínola o considerava um perigoso comunista, é sabido. Quanto a poder local, bom, a introdução é clara e o livro indicado, entre outros do próprio Santos Simões, mais claro ainda. Paga-se por ser grande. E Santos Simões pagou. Paga-se um elevado preço que Santos 332
Simões não se dispensou de arrostar, quando lhe seria “apenas” necessário ter um feitio mais “acomodado” e menos afirmativo com os lídimos representantes da mediocridade e mesquinhez instalados em variados sectores. A mesquinhez lida mal com a grandeza. Por lidar muito, muito mal com essas coisas, teve contrariedades que não merecia, obviamente. E para que se não fale em uníssono, num tom encantatório de discurso oficial, apenas com rasgados elogios, alguns de genuinidade assaz duvidosa, se tivermos em conta momentos e episódios que causaram grande dor e mágoa a Santos Simões, e que ocorreram em tempos de democracia, fale-se também desse outro lado. Que se não deixe o registo incompleto e seja permitido representar – tornar presente – esta verdade que Santos Simões tantas vezes recordava: o que não fica escrito não existe. Ora, o contrário também é verdade: o que ficou escrito existe, não pode deixar de existir. Santos Simões escreveu sobre tudo. Melhor – Santos Simões escreveu, sobretudo. Mas também houve imensos escritos sobre Santos Simões, desde logo os da PIDE, que sempre o acompanhou de perto. Haja em vista o caso singular do Informador Inácio, que nutria por Santos Simões uma particular preocupação, já nos tempos de Coimbra (ver “A PIDE e os Seus Informadores – O caso de Inácio”, Paulo Marques da Silva, Palimage, 2019). Infelizmente, Santos Simões não seria visado, apenas pela PIDE e seus servidores. Alguns escritos de que Santos Simões foi alvo, surgiram já bem depois do 25 de Abril e bem poderiam funcionar como superiores contributos para um manual da infâmia. Como é sabido, a mentira na História não tem de passar pela afirmação de falsidades; a ocultação de uma parte da verdade é outro modo de mentir. Mais perigoso, por vezes. Haja em vista o branqueamento que desde há muito vem merecendo alguns dos horrores da ditadura, coisa que o resistente e democrata Santos Simões largamente combateu. Não permitamos que o mesmo se faça em relação a ele. Seguramente não gostaria, até pelo respeito demonstrado pelo que fica escrito. Recordemos esta figura que tornou Guimarães diferente, maior e melhor, principiando por esta pergunta – Porquê Guimarães? A escolha de Guimarães por Santos Simões é explicada pelo próprio, por ocasião do falecimento de Salgado Lobo, em “O Povo de Guimarães”, edição de 3 de maio de 1996: “Estou prestes a completar 40 anos de vida vivida nesta Cidade. De facto, em 1957, tive que optar entre Silves e Guimarães para o exercício da minha atividade profissional e de minha mulher. A escolha dependeu exclusivamente do factor amizade já que nesta bela terra minhota viviam dois amigos muito caros, José Emílio Vieira de Andrade e Eduardo Salgado Lobo. De facto, há cerca de cinquenta anos, a amizade começou a caldear-se no seio da Academia de Coimbra, quer nas lutas académicas quer nas lutas políticas. As batalhas travaram-se, por um lado à volta da aprovação de estatutos para a Associação Académica de Coimbra e por outro nas frentes políticas do MUD Juvenil e da movimentada campanha eleitoral do General Norton de Matos”.
O Jornal “O Povo de Guimarães” foi criado e publicado pela Cooperativa Editorial com o mesmo nome 333
de que Santos Simões foi cofundador e dos mais prestigiados e assíduos colaboradores. Ora, do depoimento do saudoso Luís Caldas, em “Guimarães Daqui Houve Resistência”, Recolha e Organização de Textos de César Machado, (Cineclube de Guimarães, 2014), pode ler-se a folhas 311: “A certa altura, 1988, 1989, passaram a publicar-se coisas lamentáveis, umas vezes com nomes e fotografias, era assumido, outras debaixo da capa de "secções" manhosas, de autores incógnitos e com largadas de péssimo gosto dirigidas a alvos determinados sobre o confortável manto da hipócrita ausência de nome por baixo do texto. Uns tipos cujo nome a história se encarregará de não recordar, mas que obviamente faziam mossa nas pessoas visadas. E o mais visado era sempre Santos Simões, ele que ajudara a fundar o jornal e que tanto o enriquecera com os seus inúmeros escritos. Aquilo não era coisa que se aceitasse, até pela persistência dos desmandos. E é essa circunstância que vai funcionar como motivo próximo da realização da grande homenagem a Santos Simões prestada em Maio de 1989. Um dia, no Convívio, um grupo de cidadãos desta terra, todos ligados a "O Povo de Guimarães", por sinal, diz um claro "basta". O Dr. Santos Simões não merece o ataque cerrado, sistemático, destes rapazes nem merece que fiquemos em silêncio, que se transformaria em ausência cúmplice. É hora de fazer uma homenagem a sério ao cidadão Santos Simões por tudo o que fez por Guimarães. A proposta foi apresentada por José Faria Martins Bastos e logo ali sufragada pelos demais, alguns que viriam a constituir a comissão criada para organizar a homenagem. Participaram centenas de pessoas que encheram completamente o Restaurante Jordão. Também participei nessa homenagem. Para além de cidadãos de Guimarães que sempre estariam, vieram distintas figuras dos "Democratas de Braga", oposicionistas de longa data, como Humberto Soeiro, Lino Lima, José Sampaio, José Salgado, Joaquim Loureiro, da Galiza veio o Prof. Xesus Alonso, das velhas ligações Minho Galaicas, estiveram cidadãos mais jovens, amigos de todas as origens, foi uma grandiosa homenagem, como Santos Simões merecia (...)”.
Ou de como a infâmia dá lugar a um acto justo e necessário sem que nenhum perca a sua natureza – o acto justo e a infâmia, que muitos cuidarão encontrar-se prescrita com o tempo, por via do esquecimento… Não prescreve. A falta de carácter não prescreve. As injúrias, infâmias e atoardas para todos os gostos que muitos publicaram estão lá, nos locais de estilo. É só ler. E deve ler-se. Para que não nos tomem por alegres patetas, de comprovada insanidade, e para que se não esqueça o que não pode ser esquecido. Seria uma afronta ao Homem reto e escrupuloso que foi Santos Simões. Por vezes seria bom recordar o episódio do funeral de Abel Salazar, como faz Eduardo Ribeiro, companheiro de sempre de Santos Simões nas lutas políticas travadas no nosso distrito e fora dele. Ainda da obra citada, “Guimarães Daqui Houve Resistência”, pp 159 e 160 – “Como bem dizia a minha amiga Virgínia de Moura, também cidadã vimaranense, num lindíssimo texto publicado com seu marido, António Lobão Vital,
334
“Este homem era tão extraordinário que mesmo depois de morto, foi preso”. (...). Depois de explicar como foi “raptado” o corpo de Abel Salazar e proibido o seu velório na Casa da Imprensa e do Livro, do Porto, recorda assim o sucedido no Cemitério do Prado do Repouso: “(...) No funeral deu-se um caso insólito. Junto dos coveiros, perfilavam-se os professores da Faculdade de Medicina e, entre eles, alguns dos piores inimigos de Abel Salazar que haviam sido autores ou cúmplices da sua expulsão da Universidade. Uma senhora levantou a sua voz e dirigindo-se ao grupo perguntou: são os senhores os professores de Medicina? Então intimo-os a não tocarem no caixão. O director da Faculdade de Medicina, bem guardado pela polícia, perguntou: Como? A senhora aproximou-se do director, desferiu-lhe uma bofetada na cara e disse: Sou eu quem o proíbe. Era Dulce Salazar, irmã de Abel Salazar. (...)”.
O que é que isto tem a ver com o assunto do texto? – Bom, isto anda tudo ligado. Digamos, para simplificar, que Abel Salazar nasceu em Guimarães, por acaso no Hotel Toural, em cuja varanda Santos Simões discursou aos vimaranenses saudando o 25 de Abril, justamente no dia 26 de Abril de 1974. É só por isso. E porque, como se disse em tantas ocasiões, “a vitória do esquecimento é a derrota da liberdade”. E aqui também vale. Vale, igualmente, deixar testemunhada uma declaração de interesses. Em 2004, na celebração dos 30 anos do 25 de Abril levada a cabo pela concelhia de Guimarães do Partido Socialista, coube-me a honra de organizar e moderar um debate, com carta Comemorações dos 30 anos do 25 de Abril. Debate organizado pela concelhia de branca para convidar para a Mesa quem Guimarães do Partido Socialista, com (da esquerda para a direita) Alberto Martins, Eduardo Ribeiro, Santos Simões, César Machado (moderador), Casimiro Ribeiro e João achasse bem. O debate realizou-se a pouRibeiro cos dias do 25 de Abril de 2004, no Salão Nobre da saudosa Associação Comercial e Industrial de Guimarães, e contou com a presença de Alberto Martins, Casimiro Ribeiro, Eduardo Ribeiro, João Ribeiro e Santos Simões, como a foto documenta. Teve como tema: “30 Anos, A Memória Presente”. Foi o último acto político em que Santos Simões participou. A sua saúde encontrava-se já muito fragilizada e viria a falecer um mês depois. Nesse debate foi patente a amargura 335
que Santos Simões carregava quanto ao curso do processo democrático, como foi arrasadora a força daquelas experiências ali contadas, vividas na primeira pessoa e em conjunto pelos cinco intervenientes. Dei comigo a pensar, durante o debate, que se tratava de memórias demasiado ricas para deixarem de ser registadas. E foi nesse debate que nasceu a ideia de realizar o livro que viria a ser lançado naquele mesmo espaço, dez anos depois – “Guimarães, Daqui Houve Resistência”, editado pelo Cineclube de Guimarães. Todos os intervenientes viriam a deixar o seu depoimento nesse livro. O de Santos Simões foi prestado por sua filha, Isabel Santos Simões. Era imprescindível. Já depois de lançado o livro, viria a falecer Eduardo Ribeiro, o companheiro de todas as lutas. Devo a estes homens ter partido para a elaboração daquele livro que reuniria 25 depoimentos de gente que lutou, cada um à sua maneira, pelo 25 de Abril. Fiquei a dever-lhes a obrigação de organizar esse testemunho. Criou-se ali essa obrigação ética e cívica de dar corpo à ideia. Projectou-se e fez-se. Os próximos capítulos seguirão dentro de momentos. Isto posto, prossigamos, e com uma pergunta: como seria a “situação”, em Guimarães, como era a cidade com que se deparou Santos Simões quando aqui chegou em 1957? Nada como ser o próprio a contarnos. É o que faz em “Severo Castigo”, texto que publicou em “Cine-clube de Guimarães, história breve”, de sua autoria, publicado por esta associação, em 1996, fls. 144: “Quem há 40 anos vivia fora dos (poucos) grandes centros urbanos portugueses e tinha a preocupação de se manter em dia com o pulsar de sociedade do seu tempo não tinha outra alternativa senão criar os seus próprios meios de atualização. A televisão era a possível, moldada como his master voice. Biblioteca atualizada não havia. O teatro era raro. O cinema debatia-se entre o meloso e os westerns. As alternativas não eram muitas e estavam naturalmente condicionadas. Para suprir a falta da tal biblioteca cada um investia na sua. Mas até isto não era fácil, mesmo com o esforço da “Lemos” e do Sr. Manuel. Daí a constituição de uma sociedade que fundou uma livraria. Quanto ao teatro, havia a paixão do grupo do “Ritmo Louco” e isso possibilitou a constituição de um grupo amador que animou os Festivais de Gil Vicente e justificou a frequente vinda a Guimarães do Teatro Experimental do Porto e de Companhias de Lisboa. Também com a colaboração interessada do Teatro Jordão. E de cinema? Havia a excelente sala do Jordão. E a partir daí, o que aconteceu é a razão de ser deste livro. Aqui fica o registo de uma das muitas histórias que poderão ser contadas um pouco por todas as terras deste país, onde as pessoas se negam a aceitar que viver fora dos grandes centros tem de ser entendido como severo castigo. (...)”.
O modo de contornar este severo castigo passaria por um devotado conjunto de acções cívicas, culturais 336
e associativas que fariam de Santos Simões “a figura”, a mais destacada e importante referência da vida de Guimarães desde a segunda metade do século passado até ao seu falecimento. Sim, há um antes e um depois de Santos Simões na vida vimaranense e desta nossa região. O cidadão, o político, o pedagogo, o dinamizador cultural, o artista, o poeta, o escritor, o mobilizador de causas e de casas, Santos Simões foi tudo em Guimarães. Em tudo teve a presença inseparável da sua amada mulher, Drª. Açucena Neves, uma presença marcante de terno e tenaz companheirismo, uma comovente ligação de toda a vida e por toda a vida. São dela as palavras escritas na obra vinda de citar, a fls. 127, sob o título FOI MUITO? FOI POUCO? “De Coimbra trouxe comigo a paixão pelo cinema e pelo cineclubismo. Também por isso, estou com o CCG desde a sua fundação. A ele devo a satisfação de ver em Guimarães bom cinema. E quando foi necessário...pertenci ao grupo de devoção das sessões dominicais de formato reduzido destinadas às crianças, no que tivemos o apoio entusiasta da Helena Alves Costa; aconteceu durante alguns anos! até o projector de 16 m/m colaborar... E também colaborei na Direcção, em tempos difíceis para o Cine-Clube e para cada um de nós, mas não enjeitei as minhas responsabilidades de sócia e de cidadã. Foi muito? Foi pouco? Foi o que me pediram e eu pude dar. Sublinhe-se o mais importante: a minha fidelidade como sócia. (...)”.
Como é sabido, a influência e importância de Santos Simões, em Guimarães, desde 1957, rapidamente se alargariam à resistência antifascista na região. De como se integrou e da sua relevância no designado grupo dos Democratas de Braga, conta o seu companheiro Lino Lima, em “Romanceiro do Povo Miúdo, Memórias e Confissões”, escrito sobre o pseudónimo de José Ricardo. “Homem de temperamento afirmativo e resoluto, as suas posições políticas antifascistas eram conhecidas desde os tempos de estudante da Universidade de Coimbra onde foi presidente da Associação Académica e do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, o célebre TEUC, e participou destacadamente em todas as atividades académicas, culturais e desportivas. Pessoa generosa, dá sempre à sua acção, em qualquer sector, um sentido social. Não faz nada por pura distração. Visa sempre um objetivo útil para os seus concidadãos. Integrou-se, por isso, sem dificuldade no grupo dos "democratas de Braga", onde foi um elemento destacado, que se deu com afinco ao combate pelo esclarecimento dos males causados pelo fascismo ao povo português. Dedicou especial atenção às questões de criança e do ensino e sobre elas escreveu livros, fez conferências e sessões de esclarecimento por vários lugares do País. Tornou-se, assim, no distrito de Braga, um dos adversários mais temidos pelos salazaristas, que também o prenderam em
337
Caxias. Isso não quebrou minimamente a sua determinação, que é um dos traços mais característicos da sua personalidade. (...) As autoridades fascistas por pouco tempo deixaram Santos Simões gozar o direito que conquistara de ser professor do ensino oficial ao licenciar-se em Ciências Matemáticas e como engenheiro geógrafo. Em 1961 demitiram-no, quando lecionava na Escola Técnica de Guimarães. Mas a sua competência já alcançara tal fama que não foi difícil viver ensinando no ensino particular e na sua casa, que muitos alunos procuravam. Mais uma vez, como sucedeu em outros casos, quem ficou prejudicado foi o ensino oficial e o País”.
Uma palavra para Lino Lima – aquando da prisão de Santos Simões, o companheiro de luta e advogado Lino Lima, de V.N. de Famalicão, logo se apresentou na PIDE, no Porto, na Rua do Heroísmo. Não foi lá para ser mandatário forense do seu amigo mas para protestar pela sua prisão, alegando que o manuscrito que motivara a prisão do seu companheiro era da sua autoria, apenas pedira a Santos Simões para o datilografar, tarefa para a qual não se encontrava dotado. O que na verdade pretendia Lino Lima era prestar declarações, e assim o exigiu. Consegui. Prestadas as declarações, ficou imediatamente preso. Como pretendia. Quando o fizeram subir ao calabouço do primeiro andar ia repetindo a história, aos berros, para que Santos Simões ouvisse. “Então eu peço ao meu amigo para escrever o meu texto à máquina e ele é que vai preso? Olha que esta!!!”. Santos Simões ouviu. A defesa começou a ser preparada logo ali. Foram ambos para Caxias pouco depois. Continuariam acertando a defesa no lugar próprio. Que se saiba, terá sido a única vez que um antifascista se dirigiu à PIDE, voluntariamente e pelo seu pé, para lá ficar preso. Era Abril de 1968 e Portugal tinha a Presidente do Conselho a sinistra figura de António Oliveira Salazar. Do valiosíssimo testemunho prestado por Isabel Santos Simões na já citada obra “Guimarães Daqui Houve Resistência”, recorda-se: “Quem não tem memória não pode testemunhar. Eu tenho memória e quero testemunhar. Devo isso aos meus pais.... Era um homem muito determinado, muito corajoso, destemido. Nunca virou a cara para o lado quando se tratava de lutar. Quando olho para as fotos tiradas da entrada na prisão de dois perfis e uma frente, vejo o meu pai, era assim que ele era, um homem sem medo, como que a desafiá-los. Vi-o sempre assim. Há um episódio de uma ida a Espanha numas férias de verão que passamos no Algarve que nunca esqueci. Estava um calor brutal. O meu pai estava de calções de praia e foi à alfândega mostrar os documentos. Nós esperámos no carro e ele saiu danado porque lhe disseram que não podia entrar assim, só de calções. Então, como forma de protesto, ele foi mostrar os documentos com o polo vestido do avesso e com os botões para trás. Quando isso aconteceu eu devia ter 5 anos. A PIDE refere, em documento de 22 de dezembro de 1955, que ‘as atitudes conhecidas do Dr Joaquim António Santos Simões são por si só suficientes para não podermos acreditar na sua regeneração política’. Tinham razão.
338
Esteve na fundação do Cineclube em 1958. A primeira sede da Associação foi na casa dos meus pais, antes de eu nascer, ainda moravam na Rua de São Dâmaso. No Cineclube o meu pai teve uma influência decisiva. Também a minha mãe veio a ser Presidente da Direcção do Cineclube. E foi alvo de investigação e acção policial. Dela dizia a PIDE que quanto à D. Maria Açucena Neves Simões ‘moralmente nada há a desabonar a referenciada. Politicamente, apenas por ser casada com o Dr. Joaquim António Santos Simões, se deduz que siga fielmente a ideologia política do marido que é contrária ao regime vigente, porque, de resto, mais nada se conclui’. Termina com um parágrafo absolutamente invulgar. Diz a PIDE que ‘Consta em Guimarães que o Dr. Santos Simões é o mentor político daquela cidade e serve-se da mulher, que ainda não é conhecida politicamente, para atingir os seus desígnios ideológicos que são, como já se disse, hostis às instituições vigentes. (...)’. Em 1957, integrou o Grupo Musical Ritmo Louco, uma associação que existia desde 1939, dedicada à prática cultural, designadamente musical e teatral. Entendeu-se, e o meu pai foi muito importante nessa decisão, que a designação, anteriormente emblemática, estaria esgotada e seria mais conforme aos propósitos que se propunham abraçar, adotar a designação de Círculo de Arte e Recreio, C.A.R. Esta transformação aconteceu em Maio de 1959. Nesse mesmo mês nascia igualmente o Teatro de Ensaio Raul Brandão, fundado pelo meu pai, que viria a dirigi-lo durante trinta e seis anos. Em 1958 e 1959 organizou os Festivais de Gil Vicente. Participou em várias atividades da Associação Convívio, onde criou os Jogos Florais e os encontros Minho-Galaicos, com a estreita colaboração do lado galego do seu grande amigo professor Xesus Alonso Montero. Teve intervenção na Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense, nos finais de cinquenta, e foi Presidente da Sociedade Musical de Guimarães em 1960. Foi como representante do CAR – e fora do quadro da iniciativa Municipal, como era normal à época – que pessoalmente se dedicou à tarefa de fazer instalar em Guimarães uma Biblioteca Fixa da Fundação Gulbenkian, de leitura domiciliária. Foi bem sucedido e a Biblioteca número 127 da Fundação viria a ser inaugurada em outubro de 1966, depois de dois anos de inúmeros esforços e diligências. Ficou instalada na sede do Círculo de Arte e Recreio, onde hoje está o Cineclube. Esta biblioteca funcionou durante vinte e seis anos com intensa atividade e só viria a encerrar com a abertura da Biblioteca Municipal Raul Brandão, para onde foi parte do seu acervo. Era também um marco incontornável na atividade cultural de Guimarães e de que o meu pai foi o mentor e impulsionador, que foi a Livraria Raul Brandão. A livraria veio a ser um importante centro de difusão de ideias da resistência, de distribuição de livros que outras livrarias não arriscavam vender. Havia muito essa necessidade de disponibilizar um conjunto de livros incómodos, levá-los a muitos cidadãos de Guimarães, que não tinham qualquer hipótese de acederem à maior parte dessas obras. A livraria foi fundada por um grupo de várias pessoas que se reuniram para permitir a abertura e instalação da casa. (...). Nenhum dos sócios esperava lucros da livraria. Desde que não desse prejuízo, o que era fundamental era a sua atividade.
339
Foi um homem de desafios. Lembro-me bem de ele referir o prazer que teve, apesar das dificuldades da tarefa, em dar explicações de matemática ao José António Vieira, invisual. No início não foi fácil para o meu pai encontrar um modo de explicar os conceitos abstratos da matemática sem a demonstração normalmente utilizada. Mas conseguiu e isso encheu-o de satisfação. (...) O meu pai tinha uma paleta de interesses culturais muito diversa. Sobretudo a partir de três associações Cine-Clube, C.A.R., e Convívio, fomentou diversas atividades. Os Festivais de Cinema Amador com ligação ao Convívio, a ligação à literatura através dos Encontros Minho-Galaicos, a música brasileira e até o jazz. (...). Tinha uma abertura de espírito muito grande. E trouxe essa abertura para as instituições em que trabalhou e onde teve responsabilidade diretivas. (...) O meu pai tinha uma outra qualidade que hoje, à distância, me surge mais nítida – a enorme facilidade com que lidava e sempre lidou com gente de todas as gerações. Ele dizia isso muitas vezes, reforçava sempre a importância da presença dos jovens. Os mais velhos igualmente. Os casos de Mariano Felgueiras, Nuno Simões, Emídio Guerreiro, numa fase mais tardia, são disso exemplo. Teve boas e longas amizades ao longo de toda a sua vida com pessoas de gerações anteriores. E os mais novos, bom, os mais novos aprenderam seguramente muito com o meu pai e com pessoas como ele. Não sou eu que digo, são eles. Outra distinção que não era para ele muito relevante no que respeitava a avaliação das pessoas era o posicionamento político. Claro que tinha mais cumplicidades com as pessoas do seu quadrante de pensamento, muito mais proximidade, particularmente antes do 25 de Abril. Seria impensável ter laços de amizade com um fascista! Mas cresci a ouvi-lo falar na importância do caráter, da integridade. E reconhecia essas qualidades em pessoas que não pensavam como ele. (...) Também esteve ligado à fundação do infantário Nuno Simões e da Cercigui. (...) A Cooperativa Editorial O Povo de Guimarães, que tinha o jornal com o mesmo nome, foi outro projeto a que esteve ligado desde a primeira hora. O posicionamento político, os valores que sempre defendeu, sempre tiveram a expressão em todas as intervenções do meu pai, em todas as suas escolhas. Em toda a atividade cívica e cultural, sempre esteve subjacente uma mensagem política. No teatro, por exemplo, na escolha dos dramaturgos, na elaboração da biblioteca pessoal, em suma, nas causas que defendeu. Tinha um modo de elaboração do pensamento e ação muito característico. Os vínculos que cultivava com os companheiros em todas as suas atividades eram também uma marca incontornável da sua personalidade. (...) Hoje, posso afirmar que no panorama político do distrito de Braga e em Guimarães, não só no político como no associativo, cívico e cultural, houve um antes e um depois da chegada do meu pai. Na altura era impossível avaliar. Hoje penso que é incontornável. (...) Mas julgo que tudo se pode resumir numa ideia – tudo o que fez foi em prol de uma sociedade mais justa. Uma sociedade em que as pessoas vivam com dignidade, na sua acepção mais abrangente. (...)
340
Entretanto chegou o 25 de Abril. Penso que foi a primeira vez que vi o meu pai chorar. De alegria, uma enorme alegria. Aos abraços com imensas pessoas que foram lá a casa. Parecia que tinha chegado finalmente "O Dia"! Por nomeação governamental fez parte da Comissão Instaladora da Universidade do Minho cujo Senado veio a integrar. Integrando o MDP/CDE, o meu pai foi eleito deputado da Assembleia Municipal de Guimarães pela Aliança Povo Unido, APU, e em 1978 pela de Frente Eleitoral Povo Unido, FEPU. Foi eleito Presidente da Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Assembleia Municipal por unanimidade de todos os partidos. As frentes eleitorais tinham o PCP como principal força, é óbvio; mas o meu pai não era comunista. As suas opiniões tinham sempre como ponto de partida a sua reflexão, não eram formadas por qualquer disciplina partidária ou qualquer outro tipo de imposição. Ensinou-nos sempre a formular os nossos próprios juízos e a defendê-los. Era um livre pensador, foi sempre. (...). Mas havia ali, um potencial, alguma dissonância que vinha, desde logo, do modo de construir o posicionamento de cada um. Aliás, depois acabou por se desligar mesmo do MDP/CDE. (...) Nesta cidade, nas associações que ajudou a criar, nas que colaborou, muitos jovens conviveram com o meu pai. Os que tiveram esse privilégio, palavras deles, dizem que foi uma enorme escola cívica (...). Não só a sua presença como dirigente. Mas pelas muitas coisas que ensinava. A dimensão humana foi muito superior e muito mais rica do que a dimensão política. E acho que esse será o aspecto mais importante. A pessoa que ele era na vida pública, era na vida privada. Os valores eram os mesmos, e não há dúvida, era um homem de família. Conseguiu conciliar tudo isto. (...)”.
Guimarães teve a felicidade de ser a cidade escolhida por Santos Simões em 1957. Mais do que qualquer outra pessoa, mudou Guimarães. Foi reconhecido pela imensa maioria. Os outros não deixam nome para a história, embora a história se faça com tudo. Melhor – a história faz-se, contudo... Da preservação da memória de seu Pai, tem cabido a Isabel Santos Simões um incansável e insubstituível papel, movido de amor e devoção, disciplina e critério na acção. Todas as homenagens são poucas para registar a grandeza de Santos Simões. Como são igualmente poucas todas as que servem de tributo à Isabel. Que este texto seja também esse tributo – “para ti, Isabel, com um beijo sempre terno e amigo”.
341
Contracapa
342