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OsmusikéCadernos 3 – PARTE II

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OsmusikéCadernos

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FICHA TÉCNICA Título: OsmusikéCadernos3 Diretor: Jorge Nascimento Equipa redatorial: Jorge Nascimento, Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes, João S. Pereira, J. Salgado Almeida Conceção gráfica: João Silva Pereira, J. Salgado Almeida, Jorge Nascimento, Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes Capa: J. Salgado Almeida Revisão: Agostinho Ferreira, Álvaro Nunes, Jorge Nascimento, João Silva Pereira Fotografias: Autores dos textos; Reinaldo Arnaud; Secundino Ferreira; Paulo Pacheco; Arquivo Osmusiké; CMG Ilustrações: J. Salgado Almeida, Vasco Carneiro Local de edição: Guimarães Propriedade e edição: Osmusiké, osmusike@gmail.com - www.osmusike.pt Escola Secundária Francisco de Holanda, Alameda Dr. Alfredo Pimenta, 4814 528 Guimarães Ano e mês: 2021, dezembro Páginas: 607 ISBN: 978-989-330694 Coprodução: Município de Guimarães Notas:

1 - Todos os artigos que integram OsmusikéCadernos3 são da responsabilidade dos autores; 2 - Respeitando a opção individual de cada um, apresenta-se a ortografia portuguesa com ou sem o acordo ortográfico; 3 - Quando os textos estão assinados com afiliação profissional, os cargos referem-se à data em que os mesmos textos foram escritos.

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ÍNDICE – PARTE II I.

PATRIMÓNIO ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 365

II.

ROTA DAS CASAS BRASONADAS DE GUIMARÃES ------------------------------------------------------------------------------------------------- 367 Célia Maria Vilela Pontes

III.

O PATRIMÓNIO CONVENTUAL DE GUIMARÃES --------------------------------------------------------------------------------------------------- 386 António José de Oliveira

IV.

PATRIMÓNIO DESPORTIVO ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 408 Multiusos de Guimarães - 20 anos no palco das grandes emoções ----------------------------------------------------------------------408 Amadeu Portilha

O Sagrado Vimaranense -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------413 Vasco Rodrigues

V.

PATRIMÓNIO NATURAL---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 420 Guimarães é um património natural para (re)descobrir -------------------------------------------------------------------------------------420 Carlos A. Ribeiro

O nosso maior património --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------426 Jorge Cristino

Penha - Património Natural de Guimarães e Mundial da Humanidade ------------------------------------------------------------------429 Manuel Roriz Mendes

VI.

PATRIMÓNIO SOCIAL ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 432 O Património Social de Guimarães - espaço de solidariedade intergeracional --------------------------------------------------------432 Paula Oliveira

Educação Patrimonial e o sentido de pertença ------------------------------------------------------------------------------------------------435 Patrícia Ferreira

VII.

PATRIMÓNIO INDUSTRIAL ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 441 V Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia ---------------------------------------------------------------441 Fátima Silva

Sobre o Museu da Indústria de Guimarães -----------------------------------------------------------------------------------------------------444 Manuel Martins

VIII.

PATRIMÓNIO GASTRONÓMICO------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 459 A Gastronomia portuguesa e a elevação de Guimarães a Património Mundial -------------------------------------------------------459 Mário Moreira

Tortas… um pouco de história! --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------462 Manuela Dias

Tortas de Guimarães candidatas às “7 Maravilhas Doces de Portugal” -----------------------------------------------------------------467 Osmusiké

IX.

PATRIMÓNIO IMATERIAL -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 468 As Festas Gualterianas: Património Cultural de Guimarães --------------------------------------------------------------------------------468

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Célia Fernandes

Gualterianas --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------479 Osmusiké

A Festa de Santa Luzia: passarinhas e sardões -------------------------------------------------------------------------------------------------480 Equipa redatorial

Santa Luzia ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------482 Poema de Manuel Branco de Matos

Os Pregões e as Alcunhas ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------483 F. Capela Miguel

Cultura Popular ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------496 F. Capela Miguel

A música popular --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------508 F. Capela Miguel

X.

NICOLINAS -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 511 A Torre dos Almadas ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------511 Miguel Bastos

A Senhora Aninhas ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------522 Equipa redatorial

O Nicolino-Mor ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------527 Equipa redatorial

Nicolinas -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------531 Osmusiké

XI.

ARTE: MEMÓRIAS E PRESENÇAS ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 533 Viagem ao meu tempo de menino e moço -----------------------------------------------------------------------------------------------------535 Joaquim António Salgado de Almeida

Memórias: Abel Cardoso ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------543 “Vista de fábricas da cidade” - Óleo s/ madeira 30x15 cm, sem data

Memórias: Francisco Maia --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------544 “Rua de Santa Maria” e “Rua Nova” - Óleo s/ tela, anos sessenta

Memórias: Eduardo Ribeiro ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------545 “Casas Pombalinas e Torre da Alfândega” - Acrílico s/ tela, 1984

Presenças - artistas colaboradores: Piairo Pantaleão ----------------------------------------------------------------------------------------546 Desenho a carvão alusivo à classificação de Guimarães como Património Cultural da Humanidade, 2001

Presenças - artistas colaboradores: Mário R. Sousa ------------------------------------------------------------------------------------------547 “A Dama e os Duques” - Óleo e acrílico s/ tela 80x100

Presenças - artistas colaboradores: Madalena Macedo -------------------------------------------------------------------------------------548 “Ego Regina Teresia” - Acrílico s/ cartão, 120x60, 2019

Presenças - artistas colaboradores: Vasco Carneiro ------------------------------------------------------------------------------------------549 “Torre da Igreja” - Aguarela s/ papel

Presenças - artistas colaboradores: Viana Paredes -------------------------------------------------------------------------------------------550 “Estação de Caminho de Ferro” - Óleo s/ tela, anos setenta

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Presenças - artistas colaboradores: Teresa Almeida -----------------------------------------------------------------------------------------551 “De Guimarães para o Mundo” - Obra em pâte de verre exposta na Suécia em 2016 e Finlândia em 2017

Presenças - artistas colaboradores: Victor Costa ----------------------------------------------------------------------------------------------552 Acrílico s/ tela, 95x143, 2019

Presenças - artistas colaboradores: Filomena Bento -----------------------------------------------------------------------------------------553 “Os arames que nos ligam” – Ecoline, caneta preta, caneta branca e toques de guache s/ papel Canson, 29x42, 2001

Presenças - artistas colaboradores: Salgado Almeida ----------------------------------------------------------------------------------------554 “Guardiões do Tempo”, Pintura reformulada e montagem digital, 2001/2021

Presenças - artistas colaboradores: Óscar Guimarães ---------------------------------------------------------------------------------------555 “Torso em pedra”, 80x40x30, 2006

XII.

HISTÓRIAS E CURIOSIDADES DE GUIMARÃES ------------------------------------------------------------------------------------------------------ 557 Equipa redatorial

O Feriado Municipal de 8 de junho ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------559 O Vitória -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------560 O Comboio Novo --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------561 O ano de ouro de 1884 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------563 A Estátua de D. Afonso Henriques ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------564 A Estátua de Pio IX ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------565 O Cinema ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------566 A Gripe Pneumónica ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------567 As Tábuas Vermelhas---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------567 A procissão do caga-ratos ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------568 Os alarmes do Centro Histórico -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------570 Bairrismo e Solidariedade vimaranense - O cortejo dos Mil Carros ----------------------------------------------------------------------571 Bairrismo e Solidariedade vimaranense - Gualterianas 1947: a reconstrução em 5 dias da Praça de Toiros totalmente destruída por violento incêndio. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------573 Silvestre Barreira

XIII.

A NOSSA LÍNGUA E OS NOSSOS ESCRITORES ------------------------------------------------------------------------------------------------------- 577 Álvaro Nunes

Raul Brandão em dezembro ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------579 No centenário do nascimento de Matilde Rosa Araújo --------------------------------------------------------------------------------------582 Minha Senhora de Mim------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------586 Novas Cartas Portuguesas --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------588 80 anos de esteiros -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------589 SEARA NOVA: uma revista centenária -----------------------------------------------------------------------------------------------------------591

XIV.

RECENSÕES E SINOPSES --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 597 Equipa redatorial

A “Casa Alberto Sampaio” --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------597

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A gripe espanhola de 1918--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------598 Os meus olhares ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------599 Contos e Lendas do Diabo em Guimarães ------------------------------------------------------------------------------------------------------601 O primeiro ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------602 Almas Condenadas------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------603 Edição ilustrada de Os Lusíadas -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------604 Boletim de trabalhos históricos--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------605 Na Oliveira Cresci – No Castelo Fiz Recreio -----------------------------------------------------------------------------------------------------605 Igreja de S. Miguel do Castelo----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------606 A força da Palavra -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------606 Nos 130 anos do Liceu de Guimarães ------------------------------------------------------------------------------------------------------------607 Ana Maria Silva, diretora da ESMS

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PATRIMÓNIO Inserir imagem do separador

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ROTA DAS CASAS BRASONADAS DE GUIMARÃES Célia Maria Vilela Pontes Mestre em Património e Turismo Cultural Museu de Alberto Sampaio

1. Enquadramento A diversidade e riqueza arquitetónica das casas nobres na urbe vimaranense são dignas de uma referência especial. São vários os exemplos que testemunham a história da cidade. Elas são testemunho da importância histórica, artística, religiosa, administrativa e económica que Guimarães teve ao longo dos séculos. Um dos critérios que se pode ler na Proposta de Candidatura de Guimarães a Património Mundial1, é mesmo a importância das “velhas” edificações na sua classificação. De facto, Guimarães conserva ainda hoje um riquíssimo património mercê dos acontecimentos históricos que testemunhou ao longo dos séculos, como podemos observar no seguinte extrato: “Aqui nasceu a Casa de Bragança, Reis, nobreza, clero e povo fizeram a cidade onde hoje habitamos, deixaram as suas marcas no granito dos edifícios, nas palavras dos documentos, na beleza das obras de arte, nos artefactos de trabalho, e, também, na memória e no devir do vimaranense atual” (FERNANDES, 2000: 10).

Dentro do conceito de casa nobre incidimos o olhar nas casas orgulhosamente marcadas com pedras de armas. Casas que ostentam na fachada uma pedra de armas, símbolo de nobreza ou fidalguia. Casas que de uma forma especial nos chamam a atenção, seja pela sua dimensão, beleza da fachada, ou simplesmente por ostentar um brasão e despertar em nós a curiosidade de decifrar os símbolos ali demarcados. É no conhecimento e compreensão dos motivos que ali estão representados que reside o seu valor simbólico2. Algumas destas Casas degradaram-se, foram restauradas e perderam a sua função original servindo hoje como sede de alguns serviços públicos. Mas todas elas continuam a enriquecer historicamente a cidade. O despertar da curiosidade na resolução do significado de uma pedra de armas, a quem pertenceu, como foi o percurso dessa família e da própria casa que a ostenta, foi o mote que serviu de base ao estudo realizado por nós, aquando da realização da nossa dissertação de mestrado (PONTES, 2013). 1 Proposta de Candidatura de Guimarães a Património Mundial apresentada pela Câmara Municipal de Guimarães pode lerse na alínea d) Critérios segundo os quais a inscrição é proposta (pág. 17-18). 2 “Não se enquadra ele na simbólica geral, mas origina-se de um dos seus variados setores, que dá pelo nome de heráldica, a qual é uma verdadeira ciência, tida em grande apreço como auxiliar da História” (MATTOS, S/D:27).

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Nesse trabalho académico identificamos, examinamos e estudamos as casas brasonadas do centro urbano de Guimarães, realçando o seu potencial como atrativo turístico. De facto, um bom meio para viabilizar a conservação de patrimónios culturais é o turismo. Este é um incentivo para a inovação de atividades e pode mesmo tornar-se uma força importante para a defesa da herança cultural3. Foi realizado o levantamento de 304 casas armoriadas. A escolha recaiu em primeiro lugar nas casas que ostentam uma pedra de armas, estas casas podiam ser pequenas ou grandes, simples ou com fachadas ornamentadas, mas deviam simbolizar a arquitetura civil e representar a heráldica de família. De seguida limitamos o espaço, o levantamento incidiu sobre a zona intramuros e arrabaldes5. Para a caracterização específica das Casas criamos uma ficha de inventário (PONTES, 2013: vol. II) por nos parecer a forma mais correta de analisar cada imóvel. Na elaboração de algumas fichas não nos foi possível preencher todos os campos devido à ausência de informações arquivísticas e bibliográficas, nomeadamente no que concerne ao arquiteto/construtor ou autor do edifício. Este facto explica-se pela quase ausência ao recurso da celebração de contratos de obra em notário obtendo-se normalmente pelo ajuste direto entre o encomendador e o artista. Por fim, foi proposto a criação da Rota das Casas Brasonadas de Guimarães. Vejamos o mapa que se segue. Este mostra-nos a localização das casas estudadas: a azul estão assinaladas as casas fora da zona intramuros e a amarelo as casas localizadas dentro do perímetro amuralhado.

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Ao longo desta dissertação foi demonstrado que estes imóveis constituem um património valioso capaz de enriquecer a oferta cultural da cidade de Guimarães e ficou reconhecida a atratividade que estas Casas Armoriadas provocam na população local e nos visitantes. 4 Não incluímos neste levantamento a casa do Cano, localizada na rua D. Teresa (zona extramuros) por se encontrar distante em termos espaciais das casas do 2º itinerário, referente aos arrabaldes. Também na rua Cães de Pedra encontramos um portal com brasão, no entanto a Casa já não existe. 5

Decidimos não nos limitar ao espaço intramuros por acharmos que estas casas se prolongam em termos arquitetónicos e cronológicos aos arruamentos limítrofes. Nos arrabaldes valorizou-se o fator deslocação, ao nível temporal e de acessibilidade.

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Localização das 30 Casas Brasonadas do centro urbano de Guimarães (mapa extraído no Google Earth): 1- Casa dos Peixoto; 2 - Casa do Arco; 3 - Casa de Francisco Duarte de Meireles; 4 - Casa dos Valadares de Carvalho; 5 -Casa dos Condes de Margaride; 6 - Paço dos Duques de Bragança; 7 - Casa dos Laranjais; 8 - Casa nº25 do largo dos Laranjais; 9 - Casa Navarros de Andrade; 10 Casa dos Valadares; 11 - Casa dos Almeida; 12 - Casa dos Lobo Machado; 13 - Casa dos Couto; 14 - Casa dos Carvalho; 15 - Casa dos Araújo e Abreu; 16 - Casa dos Freitas e Sampaio; 17 - Casa dos Freitas do Amaral; 18 - Casa do Fidalgo do Toural; 19 - Casa do Proposto; 20 - Casa dos Pombais; 21 - Casa da Granja; 22 - Casa dos Moreira do Vale; 23 - Casa dos Ribeiro de Carvalho; 24 - Casa dos Moreira de Sá; 25 - Casa de Simães; 26 - Casa dos Lobatos; 27 - Casa dos Borges Pais do Amaral; 28 - Palácio Vila Flor; 29 - Casa do Canto; 30 - Casa das Hortas .

2. Definição e descrição dos itinerários Esta Rota está dividida em dois itinerários diversificados geograficamente, mas complementares historicamente: centro histórico de Guimarães e arrabaldes. Estes espaços correspondem a períodos diferentes do desenvolvimento e expansão urbana da cidade ao longo do tempo. O centro histórico corresponde aos dois polos fundadores e aglutinadores da cidade, ou seja, o castelo e a Colegiada, que se fundiram por deliberação de D. João I. Os arrabaldes, espaço extramuros, coincidem com a abertura de novos 369


eixos viários de ligação a outras cidades do noroeste de Portugal e com a edificação de novos conventos fruto da expansão urbana. Estes itinerários encontram-se num ambiente urbano. Devido à sinuosidade das ruas de cariz medieval e à proximidade geográfica dos seus recursos turísticos, os percursos deverão ser pedestres, utilizando os passeios das praças, calçadas, ruas e outras artérias urbanas da cidade. Os nossos percursos levam-nos a percorrer todo o espaço classificado Património Mundial da Humanidade (corresponde ao nosso 1º itinerário) e arruamentos circundantes (corresponde ao 2º itinerário).

Itinerário do “centro histórico de Guimarães” com a localização das respetivas Casas Brasonadas (extraído do Google Earth): 1 - Casa dos Peixoto; 2 - Casa do Arco; 3 - Casa de Francisco Duarte de Meireles; 4 - Casa dos Valadares de Carvalho; 5 - Casa do Carmo; 6 Paço dos Duques de Bragança; 7 - Casa dos Laranjais; 8 - Casa nº 25 do Largo dos Laranjais; 9 - Casa dos Navarros de Andrade; 10 - Casa dos Valadares; 11 - Casa dos Almeidas; 12 - Casa dos Lobo Machado; 13 - Casa dos Couto; 14 - Casa dos Carvalho; 15 - Casa dos Araújo e Abreu; 16 - Casa dos Freitas e Sampaio.

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O 1º itinerário, ou seja, o do centro histórico, perfaz uma distância total de 1757 metros, sendo um percurso com grau de dificuldade fácil e com poucos desníveis: a altitude máxima é de 220 metros e a mínima de 181 metros. O 2º itinerário, denominado arrabaldes, totaliza uma distância de 4751 metros, sendo igualmente um percurso com grau de dificuldade fácil e com poucos desníveis: a altitude máxima é de 200 metros e a mínima de 175 metros. Estes percursos são aconselhados durante todo o ano.

Itinerário dos “arrabaldes” com a localização das respetivas Casas Brasonadas (extraído do Google Earth): 1 – Casa dos Freitas do Amaral; 2 – Casa do Fidalgo do Toural; 3 - Casa do Proposto; 4 – Casa dos Pombais; 5 – Casa das Granjas; 6 – Casa dos Moreira do Vale; 7 – Casa dos Ribeiro de Carvalho; 8 – Casa dos Moreira de Sá; 9 – Casa de Simães; 10 – Casa dos Lobatos; 11 – Casa dos Borges Pais do Amaral; 12 – Palácio Vila Flor; 13 – Casa do Canto; 14 – Casa das Hortas.

O ponto encontro para a realização dos dois principais itinerários (centro histórico e arrabaldes) sugerimos o Museu de Alberto Sampaio. 371


2.1. Itinerário do Centro histórico de Guimarães Deixado o Museu, iniciamos o nosso percurso dirigindo-nos à primeira casa brasonada: a Casa dos Peixoto. No caminho passamos pelo largo da Oliveira, uma escolha simbólica, pois foi em torno deste largo que nasceu a cidade de Guimarães. Aqui encontramos a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, local de visita obrigatória, inteiramente ligada à fidalguia vimaranense e do Reino. AparePinturas com motivos heráldicos, no travejamento do teto da Igreja de cem aqui também representadas algumas das arNossa Senhora da Oliveira (DGEMN). mas das famílias que se distinguiram na Batalha de Aljubarrota6 (ver figura ao lado). Defronte à Igreja está o Padrão do Salado7, comemorativo da Batalha do Salado travada em 1340, entre Cristãos e Mouros, junto da ribeira do Salado, na província de Cádis (sul de Espanha). Do lado Norte deste largo encontra-se o edifício dos antigos Paços do Concelho. Podemos ainda fazer uma pausa nas esplanadas existentes no largo da Oliveira e saborear o espaço e a gastronomia local. Deixamos o largo da Oliveira e dirigimo-nos à rua de Santa Maria, a mais antiga da cidade; aqui encontramos várias casas brasonadas, a nº 28 da

Padrão do Salado e antigos Paços do Concelho (Foto da Autora).

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Pinturas redescobertas aquando das obras de restauro efetuadas pela Direção dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Sobre estas pinturas veja-se: FERROS, 1981. 7

“D. Afonso IV mandou erguer este alpendre gótico, para comemorar a Batalha do salado, em que as forças portuguesas, conjuntamente com as castelhanas de Afonso XI, venceram o rei mouro de Granada e os Benimerines de Marrocos. No seu interior podemos admirar um riquíssimo cruzeiro em pedra calcária, executada em 1342, oferecido por Pero Esteves, negociante vimaranense residente em Lisboa” (AZEREDO, 2011: 44).

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rua é uma casa que pertenceu à família Peixoto de Carvalho8, tendo sido ampliada no século XVIII, quando Gonçalo Peixoto de Carvalho comprou uma das casas com quintal junto às casas que já tinha, dando-lhe o aspeto que hoje tem. A casa tem assim características do século XVIII, altura das obras. O símbolo heráldico da família está colocado numa das esquinas do edifício. Continuando a subir a rua de Santa Maria deparámo-nos com uma das casas mais características desta rua, conhecida como Casa do Arco, pois o passadiço que se sobrepõe à pitoresca rua assim o justifica. É a antiga Casa dos Cavaleiros, que os Almadas, da Casa da Azenha, adquiriram em princípios do século XIX, nela recebendo D. Miguel, então Infante. Atualmente pode-se dizer que este edifício é de estilo neoclássico, mas a antiguidade da casa é muito anterior a este período artístico. A Pedra de Armas, do século XIX, está colocada no passadiço que une os dois lados da casa. Este símbolo heráldico Casa do Arco (Foto da Autora). encima a janela com varanda de ferro voltada para Norte. Deixando a Casa do Arco para trás, passamos pelo antigo Convento de Santa Clara9, hoje edifício da Câmara Municipal de Guimarães. Mais à frente podemos saborear as típicas Tortas de Guimarães, na Casa Costinha. Chegamos num instante à Casa de Francisco Duarte de Meireles. A sua construção remonta ao segundo quartel do século XVIII. Foi pertença de Francisco Duarte de Meireles, a quem foi concedido em 1737 as armas dos Braganças. Foi nesta casa que nasceu o arqueólogo e historiador Mário Cardoso em 1889. Ao terminar esta rua chegamos à Casa dos Valadares de Carvalho, que foi pertença de Lucas Fernandes de Carvalho e de D. Benta Rosa Vieira Valadares. A carta de brasão de armas só foi passada em 1781, ao seu neto Tomás José de Carvalho Valadares Vieira. É uma casa do século XVIII com o valor de uma mansão urbana, tipo nortenho. Deixamos a rua de Santa Maria, em direção ao largo Martins Sarmento, também conhecido 8

Sobre as Casas destacadas a negrito neste subcapítulo, vejam-se as respetivas fichas de inventário publicadas na nossa dissertação de mestrado (PONTES, 2013: vol. II). 9

Sobre a origem, evolução e extinção desta Instituição monástica feminina, veja-se FERNANDES; OLIVEIRA, 2004.

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de largo do Carmo, no qual temos a igreja do antigo Convento do Carmo10. Continuamos o nosso percurso para Norte em direção ao monte Latito, e passamos pela magnífica Casa do Carmo/Casa dos Conde de Margaride. A sua construção remonta ao século XVIII; é uma casa armoriada com o brasão do Cardoso de Macedo (Condes de Margaride). A carta de brasão de armas foi passada a Domingos José de Cardoso Macedo, cavaleiro professo na ordem de Cristo, fidalgo de cota de armas Vista aérea do largo Martins Sarmento (CMG, 2001). e senhor da Casa de Margaride (Mesão Frio- Guimarães)11 e da Casa do Carmo. Deixando esta Casa deparámo-nos com o monte Latito; aqui encontramos o imponente Paço dos Duques de Bragança. Mandado construir pelo fundador da Casa de Bragança, D. Afonso, conde de Barcelos, pouco depois de se tornar senhor da Vila de Guimarães. Edificado junto a um dos monumentos mais carregados de simbolismo da independência de Portugal, o Castelo de Guimarães, e ao lado da Capela de S. Miguel, segundo a tradição, o local onde foi batizado o primeiro rei de Portugal. Nas proximidades destes monumentos encontramos o extinto Convento de Santo António dos Capuchos onde podemos visitar a Igreja, sacristia, claustro e o Museu, pertença da Santa Casa da Misericórdia. Prosseguimos o nosso caminho para o largo Martins Sarmento. Descemos este largo pelo lado direito, passamos pela casa do conceituado arqueólogo do século XIX, Martins Sarmento, e dirigimo-nos ao largo dos

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Sobre esta Instituição monástica feminina veja-se: OLIVEIRA, 2003; OLIVEIRA, 2011.

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Casa recentemente classificada como Monumento de Interesse Público (Portaria n.º 740-FI/2012, Diário da República,2ª série, Nº 252, de 31-12-2012).

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Laranjais, passando pela rua das Trinas. Chegando ao Largo dos Laranjais, deparámo-nos com mais duas casas brasonadas. O primeiro exemplar data do século XVIII, a Casa dos Laranjais; é composta por dois corpos distintos, sendo um deles uma bela torre de dois andares, construída cerca de 1720. O Brasão (atualmente picado) está colocado na fachada Sul e é de 1720, pertença da família Barros de Faria. De frente a esta casa, no nº25, temos mais um edifício do século XVIII no qual a pedra de armas também se encontra picada12. Deixamos o largo dos Laranjais e seguimos pela rua João Lopes de Faria. Aí encontramos um magnífico exemplar do séc. XVIII, a Casa da família dos Navarros de Andrade ou das Lamelas, hoje o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. Logo de seguida e já na rua Gravador Molarinho, encontramos a singela Casa seiscentista da família dos Valadares de Vasconcelos. Continuando a percorrer esta artéria encontramos a Casa do Morgado dos Almeidas; é uma casa do século XVII e pertenceu à família Carvalho e Almeida. Deixamos a rua Gravador Molarinho e entramos na rua da Rainha, uma das artérias mais comerciais do centro histórico de Guimarães. Aqui temos a Casa dos Lobo Machado,

Vista aérea sobre o Monte Latito (CMG, 2001).

Casa n.º 25 no largo dos Laranjais (Foto da Autora).

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Sobre a problemática da denominação desta casa, veja-se a respetiva ficha de inventário publicada em PONTES, 2013: vol.

II.

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moradia nobre típica do século XVIII, com frontaria de estilo rococó. Este edifício está classificado como Imóvel de Interesse Público e protegido pelo Decreto de lei nº 129/77, DR 226, de 28 de setembro de 1977. Defronte à casa dos Lobo Machado temos a Casa dos Couto, edifício imponente mandado construir por D. José de Bragança, Arcebispo de Braga entre 1746-49 para a sua residência em Guimarães. Foi pertença da família dos Coutos e aqui podemos ver os dois brasões da família, um na fachada que dá para a rua da Rainha e outro para o largo João Franco (antigo terreiro da Misericórdia). Ainda junto a estas casas temos a bela Igreja e casa do Despacho da Misericórdia. Viramo-nos para norte do largo e deparámo-nos com a notável casa senhorial, com torre merloada, a Casa dos Carvalho, que foi pertença da família dos Lopes de Carvalho Fonseca e Camões. A data da sua construção é imprecisa, considerando-se, no entanto, do século XVI. O brasão é da família dos Carvalhos e está colocado na fachada principal. Bem perto daqui, mas já na rua Vale de Donas, temos a Casa dos Araújo, edifício degradado durante alguns anos, atualmente alvo de restauro. Aqui podemos apreciar a bela Pedra de Armas que ostenta. Regressamos ao largo João Franco em direção à rua da Arrochela, uma rua estreita de cariz medieval, com alguns passadiços, que nos conduz ao largo Condessa do Juncal. Na parte norte deste largo, confrontando com o mesmo e com a rua Dr. Avelino Germano, temos a última casa do Vista aérea do Largo João Franco (CMG, 2001). nosso itinerário: Casa dos Freitas e Sampaio.

2.2. Itinerário dos Arrabaldes Após sairmos do Museu de Alberto Sampaio e deixarmos a zona classificada Património Cultural da Humanidade, seguimos o nosso itinerário para a zona extramuros, através da antiga porta da Senhora da Guia. Caminhamos ao longo da alameda de São Dâmaso até ao largo do Toural; aqui deparamo-nos com a antiga torre da Alfandega com a inscrição “Aqui nasceu Portugal”. No lado sul do largo do Toural, temos a nossa primeira casa, conhecida como a Casa dos Freitas do Amaral. Trata-se de uma casa nobre estreita e de pequenas dimensões, que pertenceu a João Pinto de

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Carvalho Teixeira de Sousa e Silva13, fidalgo de Cota d`Armas14, procurador por Guimarães às Cortes de 1828. Casou com uma senhora Freitas do Amaral descendente da Casa de Sezim (AZEREDO, 2011: 68). A designação Freitas do Amaral em detrimento do apelido Pinto de Carvalho, talvez se deva à importância social e económica que a família Freitas do Amaral tinha em Guimarães.

Itinerário do “centro histórico de Guimarães” com a localização das respetivas Casas Brasonadas (extraído do Google Earth): 1 – Casa dos Peixoto; 2- Casa do Arco; 3 – Casa de Francisco Duarte de Meireles; 4 – Casa dos Valadares de Carvalho; 5 – Casa do Carmo; 6 – Paço dos Duques de Bragança; 7 – Casa dos Laranjais; 8 – Casa nº 25 do Largo dos Laranjais; 9 – Casa dos Navarros de Andrade; 10 – Casa dos Valadares; 11 – Casa dos Almeidas; 12 – Casa dos Lobo Machado; 13 – Casa dos Couto; 14 – Casa dos Carvalho; 15 – Casa dos Araújo e Abreu; 16 – Casa dos Freitas e Sampaio.

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Nasceu em 1791 e faleceu em 1844. Obteve Carta de Brasão em 1817.

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Prosseguimos por este largo em direção à magnífica Basílica de São Pedro. No seguimento deste templo temos a Casa do Fidalgo do Toural, um imóvel setecentista, outrora uma grande casa senhorial pela riqueza e alianças familiares efetuadas (AZEREDO, 2011: 67). Deixamos a sala de visita de Guimarães, assim é designado o largo do Toural por muitos Vimaranenses, em direção à rua Paio Galvão. Nesta artéria encontramos o museu arqueológico da Sociedade Martins Sarmento15, um dos primeiros museus arqueológicos de Portugal. Mais à frente deparámo-nos com o antigo mercado municipal, hoje Plataforma das Artes, inaugurado a 24 de junho de 2012, podendo ver-se aqui a coleção do conceituado artista plástico José de Guimarães. Seguimos caminho, em direção a outra casa brasonada, desta vez situada na rua de São Gonçalo, antes do estádio do Vitória Sport Clube. Descemos a rua, e do lado esquerdo encontramos a Casa do Proposto, bela residência senhorial barroca do século XVIII. Deixamos para trás esta casa e continuamos o percurso para a Avenida de Londres; ao fundo, à direita, temos a Casa dos Pombais (também conhecida por Casa do Visconde de Viamonte da Silveira). Este imóvel de estilo maneirista e neoclássico foi adaptado para fins de Turismo Habitação. Como vizinha temos a Casa da Granja; esta casa e quinta remonta à época dos Descobrimentos, tendo sido, no entanto, enobrecida nos dois séculos seguintes com uma nova fachada e uma pedra de armas (AZEREDO, 2011:89). Prosseguimos pela rua D. João I, encontrando pelo caminho o Padrão de D. João I, construído para comemorar a vitória por si alcançada em Aljubarrota e pela conquista da Praça de Ceuta. Este Padrão, em estilo renascentista, situa-se em frente à capela de S. Lázaro. Dali partiu o rei descalço, pelas ruas da Vila até à Senhora da Oliveira, para agradecer a vitória alcançada (AZEREDO 2011:88). Ao cimo da rua, defronte à Igreja do extinto Convento de São Domingos16 temos mais duas casas armoriadas. A primeira é a Casa dos Moreira do Vale, logo a seguir temos a Casa da família Ribeiro de Carvalho. Deixamos a rua D. João I, antiga rua de Gatos, e entramos novamente no largo do Toural e caminhamos em direção à rua de Camões, não sem antes saborear as iguarias da Pastelaria Clarinha que fica no nosso trajeto. Descendo a rua, encontramos à direita a Casa dos Moreira de Sá, adquirida por compra no século

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A Sociedade Martins Sarmento é uma instituição cultural de utilidade pública sem fins lucrativos fundada em Guimarães, em 1881, em homenagem ao arqueólogo e etnógrafo vimaranense Francisco Martins Sarmento 16

O claustro foi classificado como Monumento Nacional pelo decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo nº136, de 23 de junho de 1910, enquanto que a igreja, apenas seria classificada de imóvel de interesse público pelo decreto nº 42 255, publicado pelo Diário do Governo nº 105, de 8 de maio 1959. No Claustro deste antigo convento encontra-se o Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, onde podemos encontrar diversas Pedras de Armas.

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XVIII, por Major Valentim Brandão Moreira de Sá Sottomayor (e Menezes)17.

Casa dos Ribeiros de Carvalho (Foto da Autora).

Casa dos Moreira do Vale (Foto da Autora).

Ao fim da rua deparámos com o antigo convento de Santa Rosa de Lima (ou das Domínicas), hoje igreja paroquial da freguesia de S. Sebastião. Seguimos à esquerda pela rua da Liberdade, e poucos metros à frente encontramos a Casa de Simães, alvo de uma recuperação ente 2011/2012, e, posteriormente, sofrido um incêndio, encontrando-se atualmente degradada. Deixamos esta casa, andamos poucos metros e entramos na viela à esquerda que nos leva à rua da Caldeiroa, onde nos deparamos com uma Casa Brasonada em mau estado de conservação: a Casa dos Lobatos.

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Informação cedida gentilmente pelo genealogista Manuel Fernando Moreira de Sá Monteiro.

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Subimos a rua da Caldeiroa e quase ao cimo encontramos, discretamente, a Casa dos Borges Pais do Amaral, de simples arquitetura, destacamos o material que constitui a pedra de Armas, único exemplar na nossa Rota, feito de metal. Chegámos ao largo Valentim Moreira de Sá, onde nos deparamos com uma avenida repleta de árvores de grande porte; é nela que existe a magnifica residência aristocrática, mandada construir por Tadeu Luís António Lopes de Carvalho de Fonseca e Camões, fidalgo da Casa Real: o Palácio de Vila Flor. Um local que merece ser apreciado, nomeadamente os seus jardins com magnificas camélias e rododendros. Deixámos este magnífico Palácio para trás e seguimos novamente pela avenida D. Afonso Henriques em direção ao largo Valentim Moreira de Sá. Chegados a este largo caminhamos à direita pela Alameda de São Dâmaso, vamos encontrando uma das mais belas igrejas de Guimarães, cujo patrono é São Francisco18. Aqui encontramos algumas capelas tumulares (por exemplo, a do antigo Morgadio dos Carvalhos) e pedras tumulares. Depois de visitarmos esta bela igreja, e porque está aqui tão perto, descemos a estreita rua denominada de Travessa de S. Francisco que nos leva à renovada Zona de Couros. Aqui seguimos pela rua de Vila Verde. No início desta artéria deparamonos com a Pousada da Juventude. Continuamos o nosso percurso ao longo da rua de Vila Verde até desembocarmos na avenida D. João IV, para conhecer a Casa do Canto, outrora Quinta do Campo, com um magnífico portão armoriado (com as armas 18

Viela de ligação entre a rua da Liberdade e a rua da Caldeiroa (Foto da Autora).

Casa dos Lobatos (Foto da Autora).

“… A Igreja de S. Francisco parece ter sido fundada por carta régia de D. João I, a sua origem, porém, é mais remota e corresponde à vinda para esta cidade dos primeiros frades seguidores do Povorello de Assis, por meados século XIII” (AZEREDO, 2011: 94).

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de Gonçalo André Lopes de Carvalho e Nápoles). Descemos a avenida em direção à Igreja de Nossa Senhora da Consolação e dos Santos Passos, também conhecida de São Gualter19. Prosseguimos pelo edifício da Vimágua (empresa criada pelos municípios de Guimarães e Vizela para a administração dos vários serviços de gestão de água) e seguimos pela rua Rei do Pegu, em direção à última casa do nosso itinerário, a Casa das Hortas. Magnifica residência aristocrata, construída no século XVIII e conhecida também por Palácio das Hortas. Durante as guerras liberais foi queimada e a Pedra de Armas picada. Fig. 1 - Casa das Hortas (Foto da Autora).

2.3. Itinerários curtos e temáticos Em complemento destes dois itinerários que constituem o percurso da Rota, são incluídos outros quatro de menor escala e temáticos20, a saber: - Casas Brasonadas numa rua de Elite; - Uma Casa, uma Peça; - Uma casa, uma Instituição; - Uma Casa, um Jardim; - Três Casas, um Arcebispo. Estes itinerários foram elaborados a partir do universo das casas incluídas nos dois principais itinerários da Rota. Contudo não abrangem mais que quatro casas, de forma a que possam ser mais facilmente utilizados em termos de distância/tempo. Em alguns casos, incluem casas dos dois principais itinerários da Rota.

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O projeto deste templo é da autoria do arquiteto Bracarense André Soares. As torres sineiras foram acrescentadas no século XIX. 20

Acerca destes cinco itinerários temáticos, veja-se: PONTES, 2013: vol. I; PONTES, 2015; PONTES, 2017; PONTES, 2017 A.

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Relativamente aos itinerários curtos e temáticos, estes poderão iniciar o percurso no Museu de Alberto Sampaio, com exceção do itinerário “Uma Casa, uma Instituição” e “Três Casas, um Arcebispo”, que terão como ponto de partida o Paço dos Duques de Bragança. Esta diferenciação deve-se ao fato do próprio Paço dos Duques integrar esses dois itinerários temáticos e o Museu de Alberto Sampaio se encontrar espacialmente distante destes percursos.

Itinerário dos “arrabaldes” com a localização das respetivas Casas Brasonadas (extraído do Google Earth): 1 – Casa dos Freitas do Amaral; 2 – Casa do Fidalgo do Toural; 3 - Casa do Proposto; 4 – Casa dos Pombais; 5 – Casa das Granjas; 6 – Casa dos Moreira do Vale; 7 – Casa dos Ribeiro de Carvalho; 8 – Casa dos Moreira de Sá; 9 – Casa de Simães; 10 – Casa dos Lobatos; 11 – Casa dos Borges Pais do Amaral; 12 – Palácio Vila Flor; 13 – Casa do Canto; 14 – Casa das Hortas.

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3. Conclusão Durante a nossa investigação verificamos que a criação de uma Rota de Casas Brasonadas é possível no centro urbano de Guimarães. Além do elevado número, riqueza arquitetónica e histórica, verificamos que uma grande parte destas casas pertencem a entidades públicas, o que possibilita a sua visita e fruição. Conseguimos também constatar que alguns particulares estão recetivos à visita, nomeadamente aqueles que utilizam estas casas como serviços ou comércio. Entretanto e após a defesa da nossa dissertação testamos no terreno alguns dos itinerários. O objetivo foi demonstrar que estes itinerários são viáveis e que a implementação de uma Rota de Casas Brasonadas é possível em Guimarães. Desta forma foram organizadas algumas visitas: - Entre outubro e dezembro de 2013 foi realizado uma iniciativa com a designação: “Á descoberta das Casas Brasonadas de Guimarães”. Esta iniciativa concretizou-se através da realização de três itinerários temáticos, a saber: “Uma Casa, uma Peça”; “Uma Casa, um Jardim”; “Três Casas, um Cartaz do ciclo de visitas às Casas Brasonadas de Guimarães. Arcebispo”. Foi organizada pela Associação “A Nossa Terra”, de Braga e com a nossa coordenação. - A 11 de Outubro de 2014 coordenamos novamente uma visita às casas Brasonadas de Guimarães com a organização da Muralha - Associação de Defesa do património de Guimarães na qual integrou também os participantes no I Encontro “O quotidiano no Paço: Paços no conhecimento”, organizado pelo Paço dos Duques de Bragança. Esta visita teve uma adesão acima da expectativa, com a participação de cerca de 70 pessoas, a sua grande maioria de Guimarães. As realizações destas visitas comprovaram a atratividade que as casas Brasonadas e as Casas Nobres, em geral, suscitam na população. E esta atratividade conjugada com as infraestruturas e potencialidades turísticas da cidade são a base necessária para implementar a Rota das Casas Brasonadas do centro urbano

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de Guimarães, dotando assim a cidade com um novo produto turístico, capaz de envolver entidades públicas e privadas. Temos vindo a estudar a possibilidade de novos itinerários tendo como objetivo criar uma maior oferta para o utilizador da Rota e são muitas as possibilidades. Por exemplo, destacámos o itinerário “Uma Casa, um Provedor”. Este itinerário pretende fazer a ligação de Casas Brasonadas do centro urbano de Guimarães à Santa Casa da Misericórdia de Guimarães. Ao longo dos seus 500 anos de existência, a Misericórdia de Guimarães teve vários Provedores. É sobre alguns destes Provedores e das suas casas que incide o mote para a criação deste itinerário.

Cartaz da visita às Casas Brasonadas de Guimarães.

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4. Referências Bibliográficas AZEREDO, António Carlos de (2011), Guimarães, Património Cultural da Humanidade, Capital Europeia da Cultura 2012. Porto: Caminhos Romanos, 3ª edição. FERNANDES, Isabel (2000), “Palavras prévias”, in Isabel Fernandes (Coord. de), Guimarães: Mil anos a construir Portugal. Guimarães: Câmara Municipal de Guimarães / Museu de Alberto Sampaio, p. 10. FERNANDES, Isabel; OLIVEIRA, António José de (2004), “O Convento de Santa Clara de Guimarães”, Boletim de Trabalhos Históricos. Guimarães: Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. 2ª Série, 5, pp. 11-179. FERRÃO, Bernardo; AFONSO, José Ferrão (1998), “O Património Habitacional de Guimarães”, Guimarães Cidade Património Mundial: Um objetivo estratégico. Guimarães: Câmara Municipal de Guimarães, pp. 37- 51. FERROS, Luís (1981), “A decoração heráldica do teto da Igreja da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira”, Congresso Histórico de Guimarães e sua Colegiada: atas. Guimarães, vol.4, pp. 383-401. MATTOS, Armando de (s/d), Pedras de Armas de Portugal. Porto: Edição de Fernando Machado & C.ª, Lda. OLIVEIRA, António José de (2003), “A Talha e o Cadeiral da Igreja do Carmo de Guimarães (1723/1754)”, Museu. Porto: Círculo Dr. José de Figueiredo. IV série, 12, pp. 93- 118. OLIVEIRA, António José de (2011), Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII. Texto policopiado. Porto: Faculdade de Letras. 3 vols. Dissertação de doutoramento em História de Arte Portuguesa. PONTES, Célia Maria Vilela Pontes (2013),” Casas Brasonadas de Guimarães: Um itinerário turístico-cultural”. Texto policopiado. Braga: Universidade do Minho. 2 vols. Dissertação de mestrado em Património e Turismo Cultural. PONTES, Célia Maria Vilela Pontes (2015), “Rota das Casas Brasonadas de Guimarães: uma nova forma de olhar o património”, Debater a História. Vila Nova de Gaia: Debater a História. Nº8, maio-junho de 2015, pp. 35-45. PONTES, Célia Maria Vilela Pontes (2017), “Rota das Casas Brasonadas de Guimarães: uma nova forma de olhar o património”, Veduta. Guimarães: Oficina. Nº11, pp.20-29. PONTES, Célia Maria Vilela Pontes (2017A), “Casas Brasonadas de Guimarães: um itinerário turístico-cultural”, IV Congresso Internacional: Casa Nobre-um património para o futuro: atas. Arcos de Valdevez: Município de Arcos de Valdevez. Tomo II: Património, Turismo e Desenvolvimento Regional. PP. 1238-1256.

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O PATRIMÓNIO CONVENTUAL DE GUIMARÃES António José de Oliveira Doutorado em História de Arte Portuguesa (FLUP) Investigador do CITCEM

1. Introdução O “sítio” e a “situação” do velho casario aglomerado em torno do espaço intramuros de Guimarães conservam um riquíssimo património mercê dos acontecimentos históricos ligados ao poderio real e eclesiástico, da posição privilegiada do cruzamento de estradas que, desde cedo, permitiu o aparecimento de uma próspera comunidade de mercadores e, enfim, não menos importante, o aspeto sociológico de ter uma “elite” com certo poder político e económico no noroeste de Portugal. Todos estes fatores contribuíram para que, desde muito cedo, mesmo antes da afirmação da Nacionalidade se desenvolvesse a urbe vimaranense, cuja importância se estendia muito para além do âmbito local, tornando-se mesmo um dos mais importantes aglomerados de Entre-Douro-e-Minho. Como não poderia deixar de ser, o próspero crescimento do aglomerado atraiu à vila um número crescente de habitantes dos mais diversos ofícios e estratos sociais que obviamente imprimiram uma fisionomia característica à estrutura urbana, cuja tipologia própria se reflete na existência de um dédalo de ruas medievais confinadas numa malha urbana estreita, que nos oferecem muitas vezes a surpresa de desembocar em praças monumentais ou em espaços valorizados com edifícios de mole imponente construídos em época posterior, já no século XVII e XVIII, em que as edificações de estilo Barroco e Rococó se destacam Vista área do centro Histórico de Guimarães (Câmara Municipal de Guimarães no meio do apinhado casario medieval. - 2001).

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O núcleo urbano do centro histórico de Guimarães, que desde cedo foi importante, não é de estranhar que tenha atraído uma diversidade de artesãos e mestres de diversos ofícios que, para além de contribuírem por iniciativa própria ou por outrem para a transformação e enriquecimento do património construído, deram uma feição peculiar à morfologia urbana do burgo, não apenas em relação à tipologia das construções, mas também a ruas inteiras, onde surgem ligados aos diversos mesteres. Vista área do Castelo de Guimarães (C.M.G. – 2001). O burgo vimaranense, nascido na centúria de Novecentos, quando a condessa Mumadona Dias aí decide construir um mosteiro, foi fortalecido, no final do século XI, quando D. Henrique e sua mulher D. Teresa aí se estabelecem como detentores do Condado Portucalense e o velho cenóbio dá, mais tarde, origem a uma Colegiada. Seu filho, D. Henrique, conquista em Guimarães o direito ao trono do condado e do reino que haveria de ser Portugal. O burgo, nascido no século X sobre o culto divino a O Salvador e a Santa Maria, cedo elege como sua protetora Santa Maria de Guimarães que, com o correr dos anos e a devoção dos homens, passa a designarse Nossa Senhora da Oliveira. A atual cidade de Guimarães, vila até 22 de junho de 1853, desenvolveu-se à volta de dois pólos geradores e aglutinadores, o castelo e a Colegiada (cuja origem se deteta no início da centúria de 1100), demonstrando vivacidade para ser autossuficiente, e se fundiram por ordem de D. João I, em 1389. É à sombra do castelo e do mosteiro que nascem os dois focos de povoamento organizados como resposta às solicitações de proteção religiosa e defensiva do burgo e das populações vizinhas. Nesta vila bipolar e policêntrica, começaram-se a organizar vários eixos de circulação, através da abertura de arruamentos e construção de edifícios, que se aí foram estruturando. No século XIV, D. João I manda construir uma nova igreja cujas obras no templo e no claustro ainda decorrem no primeiro quartel do século XV; também neste período, e por intercessão do mesmo rei, se inicia a edificação da casa da Câmara. No claustro da Colegiada constrói-se a capela de São Brás (1419-1421). Dáse início à construção da residência senhorial do 1º Duque de Bragança e a várias casas sobradadas no miolo do burgo. No século XVI, a Colegiada é ampliada com a construção de uma torre na sua fachada principal aí

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se instalando a capela tumular dos Pinheiros. Um filho destes, D. Prior da Colegiada no 1º quartel do século XVI, renova o claustro da Colegiada. A vila de Guimarães transformara-se na Idade Média, num grande centro religioso, aonde afluíam imensos romeiros e peregrinos. Todo este afluxo de gente teria provocado a construção de hospitais, albergarias e estalagens nas proximidades da igreja de Santa Maria, para o recolhimento e agasalho de todos aqueles que aí vinham em romagem. No século XVII e durante a centúria seguinte, a morfologia urbana da vila de Guimarães sofre alterações significativas, particularVista área Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira (C.M.G. – 2001). mente no levantamento e remodelação de edifícios religiosos e civis. As entidades que patrocinaram este surto construtivo foram: Cabido da Colegiada, mosteiros mendicantes, conventos femininos e masculinos, Ordens Terceiras (S. Francisco e S. Domingos), Misericórdia, irmandades, para além de uma clientela nobre. Destaca-se também o mecenato do arcebispo D. José de Bragança que aqui fixou residência (1746-1748). Todos estes encomendadores favoreceram a laboração de destacados mestres oriundos de Barcelos, Braga, Porto e da Galiza. A atividade arquitetónica nessa época em Guimarães desenvolveu-se em três grandes áreas: imóveis construídos de raiz; conclusão de programas construtivos anteriores; e acrescentamento de estruturas barrocas nos edifícios medievais. Ao longo de todo o século XVIII, assistimos, quer na fase barroca e posteriormente no período rococó, à liderança em termos artísticos, do Porto, Braga e Guimarães, na época os principais aglomerados populacionais e centros da atividade económica do noroeste português. Não admira, pois, que, em Guimarães e no seu termo, surgissem várias oficinas com uma intensa atividade num meio em constante animação. Neste contexto, a documentação conhecida aponta para o afluxo de mestres originários de outras localidades para a arrematação e concretização das empreitadas, facto que permitia manterem em laboração toda a sua vasta oficina que compreendia aprendizes, obreiros e oficiais. Além disso, é necessário ter presente, que muitos destes artistas arrematavam as obras de pedraria e talha em sociedade, originando assim que muitas das obras de pedraria e talha existentes em Guimarães fossem o resultado de um complexo trabalho de parceria entre mestres do mesmo ofício. Assim se compreende a grande quantidade de pedreiros, carpinteiros,

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escultores, entalhadores, ensambladores, pintores, ourives e oleiros residentes na vila e seu termo e os que para aí se deslocavam para a feitura de encomendas. Durante os séculos XVII e XVIII, e no que concerne à arquitetura, arte da talha e pintura, artistas como Pantaleão da Rocha, Luís Vieira da Cruz, António Gomes, Filipe da Silva, Manuel da Costa Andrade, Miguel Francisco da Silva, António Fernandes Palmeira, José Álvares de Araújo, António José Pereira de Santa Ana, João do Couto Teixeira, João Pereira Cardoso, Luís Pinto Leitão, Manuel Luís, Manuel da Costa, António Pereira, Domingos da Costa, João Moreira Bouça, Boaventura José da Silva, Manuel Fernandes da Silva, Domingos Francisco Vieira, Manuel Alves de Araújo, André Soares, Fr. José de Santo António Vilaça e Carlos Amarante exerceram a sua atividade em Guimarães e seu termo. Estas obras, por vezes executadas em parcerias criadas com mestres vimaranenses, permitiram desta forma às oficinas locais uma convivência com a obra de outros mestres e oficiais. Apesar dessa rivalidade, entre artistas locais e mestres oriundos do Entre-Douro-e-Minho e da Galiza, as inúmeras encomendas permitiram que em Guimarães e seu termo se desenvolvessem oficinas que respondiam a esses pedidos. Por exemplo, na obra de talha, várias famílias locais alcançaram uma notável projeção. É o caso de Pedro Coelho, escultor e entalhador juntamente com seu genro Miguel Correia na freguesia rural de S. João de Gondar. O mestre entalhador Ambrósio Coelho com oficina na freguesia de Santa Cristina de Serzedelo que executou vários trabalhos desde Viana de Castelo, passando pelo Bom Jesus de Matosinhos até ao mosteiro de Arouca. Através da segunda metade do século XVIII, os irmãos Correia Vale e sobrinho executaram várias obras de talha concebidas por reputados artistas. Na pedraria encontramos um mestre canteiro galego Vicente José de Carvalho radicado na freguesia de Fermentões (arrabaldes de Guimarães) onde mantém uma oficina, que se prolongará no tempo através do seu filho. Simultaneamente, entre os mestres, criavam-se estreitas e complexas redes de solidariedade relativas a sociedades e parcerias, trespasses de obras, fianças e ligações familiares, que vão desenvolver, no seu interior, posturas e orientações que são aceites pela maioria. A vila de Guimarães, desde os finais do século XIV até ao século XVIII, organizava-se a partir de um núcleo ordenador do espaço urbano, a Praça de Santa Maria da Oliveira, de onde irradiavam as principais artérias – rua de Santa Maria e rua dos Mercadores – que, por sua vez, geravam com as suas ramificações uma malha urbana extremamente interessante. Com as suas portas, as suas praças, os seus terreiros, e seus rocios, Guimarães apresenta-nos uma articulação intra e extramuros que, em grande parte, subsiste até à atualidade. Neste contexto urbano iremos encontrar disseminadas pelo casco histórico inúmeros e expressivos

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exemplares de arquitetura civil e religiosa, quer da fase gótica, quer da barroca e rococó. Mas outros testemunhos encontramos, nas suas diversas expressões: a arte da talha; a imaginária; a pintura; a azulejaria; a ourivesaria; a organaria; o mobiliário e a paramentaria. Do vasto número de encomendadores, apresentamos, neste artigo, os oito conventos vimaranenses. Estas instituições conventuais masculinas e femininas, deixaram-nos importantes obras artísticas, resultantes de encomendas pontuais ou integrados em vastos programas decorativos, traduzem a vitalidade económica, política, social e religiosa de Guimarães. Mas são igualmente vestígios de percursos artísticos das clientelas e dos artistas, e da forma como estes se articularam no espaço geográfico do noroeste peninsular. 2. Conventos masculinos 2.1. Convento de São Francisco Os franciscanos já teriam no século XIII, um modesto recolhimento. Por se localizar demasiado perto da Torre Velha, D. Dinis ordena a demolição desta primitiva construção. Efetivamente durante o cerco à vila de Guimarães pelos partidários de D. Afonso, futuro D. Afonso IV, Guimarães quase fora tomada por estes, que viram na localização junto às muralhas do convento de S. Francisco e de S. Domingos, um bom meio para penetrarem na vila sitiada. Os dois conventos mendicantes vão ser transferidos para os arrabaldes da vila, local onde ainda hoje se encontram. A construção do actual convento foi concedida por D. João I, em 3 de Novembro de 1400. A capela-mor foi edificada com o apoio da primeira duquesa de Bragança D. Constança de Noronha. Esta última foi sepultada neste templo. A Igreja de São Francisco, sacristia e claustro, são cedidos à Ordem Terceira, que deles Vista área do convento e da Ordem Terceira de São Francisco (C.M.G. 2001). toma posse a 6 de agosto de 1835. Após a extinção das ordens religiosas, a igreja do aludido convento foi entregue à Ordem Terceira por carta de lei de 28

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de fevereiro de 1835. No entanto, o convento ficou devoluto servindo de quartel e de tribunal da comarca. Posteriormente foi atribuído ao Ministério da Guerra que o converteu num hospital militar. Atualmente a igreja e restantes dependências conventuais pertencem à Venerável Ordem Terceira de S. Francisco através da Carta de Lei de 4 de março de 1875. A planta da igreja do convento de São Francisco é composta por nave única em cruz latina com transepto saliente, cabeceira tripla, contrafortada da abside poligonal e absidíolos quadrangulares. Possui uma torre e claustro quadrados e outros edifícios anexos desenvolvidos a Sul. Do templo primitivo apenas se manteve intacta a arquitetura da cabeceira. No altar-mor existe um retábulo joanino de talha dourada executado por artistas do Porto, sendo o espaço deixado livre decorado com azulejos historiados. A sacristia possui um belo tecto de caixotões, uma mesa de mármore, um magnífico arcaz, retábulo pintado e dourado que enquadra um crucifixo e várias pinturas. Atualmente enInterior da igreja de São Francisco. contram-se em exposição vários paramentos e objectos em madrepérola. O Claustro, obra do século XVI, é da autoria do mestre vimaranense Gonçalo Lopes. Aí se situa a antiga Sala do Capítulo conventual (séc. XV), mais tarde conhecida como capela de S. João Baptista que foi outrora coberta de pintura a fresco (no Museu de Alberto Sampaio existe uma pintura a fresco denominada “Degolação de S. João Baptista). 2.2. Convento de São Domingos Os dominicanos iniciaram as obras do seu primitivo convento em 1271, à entrada da rua Sapateira. Devido à sua proximidade com o pano de muralhas que o tornava, juntamente com o Convento dos franciscanos, um meio fácil de penetração na vila, D. Dinis tomou providências relacionadas com a melhoria da defesa militar da vila. Assim, em 1323, D. Dinis manda demolir a primeira fundação do convento de São Domingos, de modo a afastarem-se da muralha, tendo-o transferido para o local onde ainda hoje se encontra

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Muitas foram as encomendas efetuadas para este convento ao longo dos séculos XVII e XVIII. Trata-se de uma igreja conventual gótica, com planta de cruz latina, de três naves de quatro tramos, com cabeceira tripla. Recua ao ano de 1697, a construção da atual sacristia da igreja do Convento de S. Domingos. Gonçalo Peixoto da Silva de Macedo de Carvalho, fidalgo da Casa do rei D. Pedro II e donatário do concelho de Penafiel, morador em Guimarães, vai contratar os mestres de obras de pedraria João Moreira, morador na freguesia de Vila Nova da Telha (concelho da Maia) e Manuel Fernandes, morador em Braga, para levarem a cabo o projeto que saíra do punho de António de Andrade, imaginário, residente em Guimarães. Este projeto integrava-se numa verba testamentária de Gonçalo Lopes de Carvalho e Camões, já falecido, na qual mandava que, na mencionada sacristia, se fizesse uma capela para nela se colocarem os seus ossos e os da sua mulher, Dona Guiomar Bernarda da Silva, e toda a sua linhagem. Ao longo do século XVIII e XIX o templo sofreu grandes transformações. Em 1737, foi posta a lanços a feitura do pavimento e forro do claustro; três anos depois, efetuou-se a ampliação da capela-mor; logo em 1770, por voto de D. Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado fez-se a porta principal, conforme inscrição aí existente. A caixa do órgão, em estilo rococó, data de 1776 e foi executada por José António da Cunha, conceituado entalhador vimaranense. Em 1783, realiza igualmente o retábulo-mor de influência neoclássica, que substituiu o anterior de estilo joanino. O cadeiral setecentista é de transição do rocaille para o neoclássico. Em 1839, após a extinção das ordens religiosas serviu de quartel militar ao Regimento de Infantaria 18. Posteriormente, em 1851, a rainha D. Maria II cedeu a igreja e a sacristia à Ordem Terceira de S. Domingos; no ano de 1874, a Ordem Terceira e as irmandades, aí existentes, reformaram a igreja “com pinturas, douramentos e estuques”, reabrindo cinco anos depois ao culto. A Câmara Municipal de Guimarães apropriou-se do convento e respetiva cerca, em 1842. Por consentimento desta, em 1887, foi este imóvel cedido à Sociedade Martins Sarmento, fundada seis anos antes. Sobre a arcada do claustro, esta sociedade construiu, em 1889, a galeria que serve atualmente de museu arqueológico. O convento servia na época (1881) de tribunal judicial da comarca de Guimarães. A demolição da igreja de S. Paio (1914, fez com que a igreja de São Domingos assumisse funções de paroquial. Nos trabalhos executados durante o restauro da igreja de São Domingos (1940-1950), pela Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, foram desmontados os altares que se encontravam encaixados nas paredes das naves laterais e nas paredes testeiras do transepto, o que provocou o desaparecimento de vários retábulos em talha dourada.

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2.3. Convento de Santo António dos Capuchos Em 1662, D. Afonso VI dá licença para a fundação do Convento dos Capuchos em Guimarães. Dois anos depois, os religiosos de Santo António iniciaram a edificação do novo mosteiro “da banda de fora da porta da Garrida desta villa”. Como todos estes recursos não acudiam às necessidades desta nova instituição, os frades capuchos obtiveram mais uma provisão régia que lhes permitia utilizar na edificação do seu mosteiro a pedra que estava nos paços do castelo. O povo e a nobreza da vila de Guimarães, tendo notícia desta provisão, num assento da sessão camarária de 31 de janeiro de 1666, manifestam a sua discordância quanto à utilização do castelo como “pedreira” evocando que “da mesma obra [paços do castelo] se honrão”. Não sabemos as consequências que este protesto teve perante o rei. No entanto, na prática, os frades Capuchos continuaram a extrair pedra do castelo. A 9 de julho de 1742, em vereação do Senado, é decidido atender às súplicas dos religiosos Capuchos que solicitavam esmola, pois a sua igreja ameaçava ruína. Atendendo ao facto de os religiosos terem necessidade Postal da Igreja de São Domingos, anterior á da obra e por não terem rendas para a poderem suprir, o senado deu intervenção da DGEMN. Edição de Manuel 500$000 réis de esmola que resultavam das sobras dos bens de raiz. Carneiro (Braga). Relativamente a este imóvel, apenas encontramos nas nossas pesquisas arquivísticas no fundo notarial do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, um contrato de pedraria. Tratase de uma escritura datada de 20 de abril de 1763, na qual a Comunidade dos Religiosos Capuchos, na pessoa do síndico desta instituição, o Padre Francisco Mendes, morador na Praça da Oliveira, celebra a feitura do novo dormitório e a obra da frontaria da Igreja. Este documento podemos subdividi-lo em duas partes. Numa primeira parte, é ajustada a obra do dormitório novo a Bernardo José da Silva, mestre pedreiro, morador na cidade do Porto, à braça. A planta a seguir nesta empreitada era da autoria do Padre António Gomes, morador na rua Nova da Oliveira, da vila de Guimarães. O mestre portuense receberia os pagamentos “aos poucos”, apresentando como seu fiador Vicente Carvalho, mestre pedreiro, morador na freguesia de Santa Eulália de Fermentões. O prazo de execução era de um ano. Na segunda parte, é celebrado o contrato da obra da frontaria da Igreja com o mestre pedreiro Vicente Carvalho, morador na freguesia de Santa Eulália de Fermentões, e com o mestre entalhador António da

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Cunha Correia Vale, residente na rua de Santo António dos Capuchos (Guimarães). Por esta obra os dois mestres arrecadariam 448$400 réis. Os artistas comprometiam-se a findar a obra até ao mês de julho de 1764. Em 1842, o extinto Convento dos Capuchos é posto à venda sendo arrematado pela Santa Casa da Misericórdia para aí edificar um novo hospital. Para a adaptação a esta nova função, parte das dependências conventuais, como o dormitório construído por Bernardo José da Silva, são completamente arrasados. Apenas subsistem até à atualidade, a igreja, o claustro e a sacristia. Na frontaria da igreja construída por Vicente Carvalho e por António da Cunha Correia Vale entramos por três arcos, que sustentam em cima uma janela de sacada, rodeada por Santo António, patrono dos Capuchos, e por São Francisco. Mais acima, nos remates, entre as colunas e os pilares, vemos um nicho que alberga a estátua de Nossa Senhora.

Frontaria da Igreja do Convento de Santo António dos Capuchos.

2.4. Convento de Santa Marinha da Costa Durante a primeira dinastia, este convento recebeu várias vezes favores régios. Por exemplo, o cálice de prata dourada oferecido pelo rei D. Sancho I e pela rainha D. Dulce ao mosteiro da Costa, atualmente existente no espólio do Museu de Alberto Sampaio, é prova da estima que o casal real nutria pela instituição. Segundo a tradição, este mosteiro foi fundado pela rainha D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques e mais tarde entregue pela soberana aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e, em 1528, esta ordem foi substituída pelos monges de S. Jerônimo. No topo da ala Este do edifício conventual, podemos observar a varanda de Frei Jerónimo, assim denominada porque foi no priorado trienal de Frei Jerónimo dos Anjos, eleito em 1682, que se decidiu construir esta esbelta varanda de cantaria tendo alpendre apoiado em pilares com marcação de molduras sobre bases altas, que sustentam o teto de madeira formando caixotões. Frei Jerónimo dos Anjos, conhecendo a resistência dos monges à criação de um novo lanço de dormitórios, devido às dificuldades topográficas do terreno, optou por mandar construir esta varanda que remata a ala oriental. No centro da varanda, encontramos o chafariz de uma taça e tanque quadrifoliado, apenas aqui colocado, em 1707, no priorado de Frei Jerónimo de Santa Maria. Numa das faces da varanda encontra-se um banco de granito corrido com espaldar recortado tendo dois painéis de azulejos. Tratam-se dos únicos azulejos historiados que retratam

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acontecimentos ligados à história desta instituição monástica. Um dos painéis representa a entrega, por parte do Duque D. Jaime, a Frei António de Lisboa, Provincial da Ordem de S. Jerónimo, da Bula do Papa Clemente VII, que dá o mosteiro da Costa aos monges jerónimos. No outro painel, podemos observar Frei Jorge de Belém, mestre de teologia, ministrando uma aula aos infantes D. António e D. Duarte Após a extinção das ordens religiosas, o edifício conventual é comprado por particulares. Em simultâneo, o templo assume funções de igreja paroquial da freguesia da Costa. Em 1936, a igreja, o escadório e o mosteiro da Costa foram classificados como Imóvel de Interesse Público. Em 1951, este imóvel é devastado por um incêndio que destruiu o recheio e grande parte dos seus azulejos, nomeadamente os que decoravam a ala das celas. Em 1972, o convento situado na encosta do monte da Vista aérea do Convento da Costa (CMG – 2001). Penha, é comprado pelo Estado, que aí promove importantes obras de adaptação a pousada. Em 1985, é celebrado o auto de entrega da Pousada à Direção Geral do Turismo que, por sua vez, o entregou à Enatur. No decurso da longa existência do Convento de Santa Marinha da Costa realizaram-se inúmeras encomendas de pedraria, carpintaria, talha, organaria e ourivesaria, de que, e para períodos mais recuados, apenas nos resta uma memória documental. Esses espécimes, resultantes de encomendas pontuais ou integrados em profundos projetos decorativos, traduzem a evolução construtiva do Convento da Costa, bem como o espírito empreendedor e a robustez económica desta instituição conventual. Ainda hoje a igreja é precedida por um escadório formado por quatro lanços com dois braços, protegidos por uma balaustrada de Portaria do Convento da Costa.

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cantaria conduzindo a um pequeno adro, vedado por um muro de alvenaria. Ao centro deste, uma escada de perfil recortado aberto em leque dá acesso à igreja. A fachada da igreja tem uma escadaria que data de 1751. No interior podemos encontrar uma coleção de esculturas religiosas, altar-mor e o cadeiral em estilo neoclássico. Em 1703, os religiosos contratam com André Machado e António Pinto, mestres de pedraria fina, a obra da hospedaria e portaria do convento, segundo o projeto de António de Andrade. Igreja e escadaria da Igreja da Costa.

A primitiva sacristia da igreja do convento da Costa, foi totalmente reformada em 1734. Esta sacristia inclui um grupo de oito arcazes com espaldares de molduras de talha dourada, dois armários parietais com remate também de talha, retábulo de talha dourada, azulejos e o tecto de madeira com as quatro virtudes cardeais pintadas nos cantos e no meio as armas da Ordem de S. Jerónimo. A 31 de janeiro de 1778, Dom Francisco António Solha, mestre organeiro, morador na vila de Guimarães, compromete-se a construir um órgão de tubos no coro de cima, lateralmente, encostado à parede do lado esquerdo da igreja do convento. Pelos pormenores dos apontamentos ficamos a saber que o instrumento tinha dois teclados, 2200 tubos e quatro jogos de foles. Interessante é a descrição dos reAspeto geral da sacristia. gistos originais, quer do órgão principal, quer do de eco. Se o organeiro não finalizasse a obra “por algum incidente”, seria avaliado tudo o que já estivesse feito no órgão e o que faltasse seria retirado da quantia estabelecida. No ano seguinte, os mestres entalhadores vimaranenses José António da Cunha e Manuel Joaquim

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Proença comprometem-se a construir a caixa do órgão de tubos destinada a albergar o conjunto organológico, este último formado pelos foles, sistema mecânico e tubaria. Os mestres obrigavam-se a utilizar, na obra, madeira de castanho “boa liza e sem podridão nem carnas”. Os mestres receberiam pelo seu trabalho 150$000 réis. O desenho da caixa, balaustrada e mísulas está atribuído a Frei José de Santo António Vilaça, embora nenhum suporte documental apareceu que nos permita adiantar alguma informação. A caixa ostenta uma grande variedade de elementos decorativos em talha dourada. No remate encontram-se quatro anjos músicos pintados de branco e na base dois sátirosatlantes. Em 1784, é celebrado um novo contrato com José da Cunha. Neste documento este entalhador obriga-se a executar as cadeiras e respetivos espaldares em madeira de castanho “bom sem podridam” do coro alto da igreja, e a estante do coro em pau-preto “bom com huma ferraje de latam”, segundo o risco de Carlos Luís Ferreira da Cruz, arquiteto, da cidade de Braga. Atualmente esta Órgão da Igreja da Costa estante encontra-se no acervo do Museu de Alberto Sampaio. No contrato é feita referência a um anterior risco desenhado por Carlos Luís Amarante. A obra teria de ser executada até ao mês de junho e assentada no local durante o mês de agosto do ano seguinte, pelo preço de 540$000 réis, pagos em três prestações iguais. 3. Conventos femininos 3.1. Convento de Santa Clara Esta instituição teve a sua origem, em 1548, e foi fundada pelo mestre-escola da Colegiada de Guimarães, Baltazar de Andrade. A entrada das religiosas no convento deu-se a 12 de Agosto de 1562, sendo a primeira e segunda abadessas filhas do fundador. Na primeira metade do século XVIII o convento sofreu importantes obras de beneficiação e ampliação. O convento fecha as suas portas, em 1891, quando a última religiosa faleceu. Em 1893, o edifício é cedido à Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira que aí instala o seminário da Nossa Senhora da Oliveira. Em 1896 o seminário transforma-se em Liceu Nacional.

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Em 1968, este imóvel passa a albergar os principais serviços da Câmara Municipal de Guimarães. Toda a obra de talha da igreja foi deslocada, após a nacionalização do edifício e todo o espólio da igreja foi vendido em hasta pública. Do espólio deste antigo convento restam algumas peças, encontrando-se, umas nas coleções do Museu de Alberto Sampaio, outras, na Sociedade Martins Sarmento e na Igreja do Centro Juvenil de S. José. Sabemos que foi o cónego da Colegiada de Guimarães, Baltazar de Andrade, o fundador desta instituição monástica feminina, na 1.ª metade do séc. XVI. A primeira pedra foi lançada em 1549 e a bula de ereção foi conseguida a 11 de Outubro de 1559, ficando o padroado nas mãos do cónego Baltazar de Andrade e sua descendência. Tratase da única instituição conventual edificada no espaço intramuros de Guimarães. A entrada das religiosas no convento Vista aérea do Convento de Santa Clara (CMG- 2001). deu-se a 12 de agosto de 1562, sendo a primeira e a segunda abadessas, respetivamente Helena da Cruz e Francisca da Conceição, filhas do fundador. Em 1726, Francisco Craesbeek, na sua descrição da igreja de Santa Clara, informa que, na capela-mor fronteira à porta que dava acesso à sacristia, da parte do Evangelho, se encontrava o túmulo do seu instituidor Baltazar Andrade. Nos finais do século XIX, esta urna com os ossos do instituidor do Convento de Santa Clara encontrava-se ainda no local mencionado por Craesbeek. Esta urna, oferecida pela Câmara Municipal de Guimarães, em 1956, à Sociedade Martins Sarmento, encontra-se, hoje, exposta no antigo claustro do Convento de São Domingos, integrado no museu arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Ainda hoje se conserva na fachada principal construída, em 1741, o brasão dos Andrades na coluna que separa o corpo central da ala direita. O convento foi extinto pela lei de 1834, passando este imóvel para as mãos do Estado, em 1891, quando morre a última religiosa Antónia Amália da Ascensão, sendo o último capelão do convento José de Oliveira Guimarães. As clarissas vimaranenses eram exímias no fabrico de doces, o que, ao longo de várias décadas, lhes granjeou fama. Na exposição industrial de 1884, realizada em Guimarães, estiveram a concurso doces

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fabricados pelas duas últimas abadessas do convento de Santa Clara: doce de colondro, de laranja, de pera, marmelada e toucinho-do-céu. Por decreto de 19 de agosto de 1893, o edifício conventual é cedido à Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira que aí instala o Seminário de Nossa Senhora da Oliveira. A 27 de agosto de 1893, iniciam-se as obras de adaptação do convento a estabelecimento de ensino que prefiguram as diversas mutações que o edifício irá sofrer ao longo do século XX. A 16 de setembro de 1896, um novo decreto transforma o Seminário em Liceu Nacional. Na década de 50, o liceu muda de instalações. A 28 de maio de 1968, as antigas dependências conventuais de Santa Clara sofrem mais uma reutilização, quando os principais serviços da Câmara Municipal foram para aí transferidos, após terem sido cedidos à autarquia, pelo Estado. Em 1973, no local correspondente à igreja do convento, é instalado o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta transferido, em Junho de 2003, para a Casa dos Navarro de Andrade. Nesta altura, provisoriamente, o antigo templo serve de sede da Polícia Municipal. Por fim, em 2009, esta antiga dependência conventual é readaptada, segundo projeto do arquiteto Miguel Melo, a Balcão de Atendimento Único, no âmbito do Programa Simplex Autárquico. No ano de 1924, toda a obra de talha existente na igreja deste convento foi deslocada do seu primitivo local quando a Comissão Central da Execução da Lei da Separação resolveu vender em hasta pública todo o espólio da igreja. O templo foi então esvaziado e secularizado, dispersando-se muitos dos seus bens e perdendo-se a unidade de toda a talha aí existente. Nessa altura, um grupo de vimaranenses conseguiu ainda adquirir as ilhargas da capela-mor e o retábulo-mor - executados por Ambrósio Coelho e por Manuel Gomes de Andrade - que cedeu à Comissão de Melhoramentos da Penha para o seu novo santuário em construção. Atualmente, desse grandioso retábulo-mor apenas nos restam fotografias anteriores a 1924, pois esse altarmor desapareceu num incêndio ocorrido a 13 de Fevereiro de 1939, quando se encontrava recolhido na Penha para integrar o santuário em construção. Alguns dos bens móveis a que se atribuiu maior valor artístico foram entregues à Sociedade Martins Sarmento com o propósito de integrarem um futuro museu de arte sacra. Foram eles: 56 azulejos; dois baixos relevo representando o “Baptismo de Cristo” e a “Sagrada Família”, que se encontravam colocados respetivamente de cada lado do arco cruzeiro da igreja; o grupo escultórico designado de “Fuga para o Egipto”; um par de anjos-tocheiros que foram executados por Ambrósio Coelho e Manuel Gomes de Andrade; e seis pinturas a óleo sobre tela, da autoria de Manuel Gomes de Andrade. Os restantes bens foram arrematados e acabaram dispersos nas mãos de particulares. Todas estas peças entregues à Sociedade Martins Sarmento deram entrada, em 1937, no acervo do Museu de Alberto Sampaio, entretanto criado em 1928, no qual o seu primeiro diretor, o Sr. Alfredo Guimarães, tentou reconstituir o espaço sacro da igreja de Santa Clara. A 12 de Fevereiro de 1935, Alfredo Guimarães tinha já adquirido por verba

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atribuída pelo Ministério da Instrução Pública, os revestimentos parietais da capela-mor. Essa aquisição pelo Museu de Alberto Sampaio possibilitou que pelo menos as ilhargas da capela-mor fossem poupadas no incêndio de 1939. Para encerrarmos o ciclo aqui brevemente apresentado, apenas falta referir o paradeiro dos altares laterais dourados e pintados por António Luís e Luís Lopes Pimenta, em 1739. Após várias visitas realizadas ao património edificado de Guimarães, pudemos redescobrir esses dois altares que se encontram no interior da igreja do antigo convento da Madre Deus, de Guimarães. Este edifício de grande escala e criador de um novo terreiro (atual largo Cónego José Maria Gomes) possui uma frontaria principal majestosa, virada a Oeste, bastante decorada, do qual a praça proporciona a distância necessária à leitura cenográfica desta fachada barroca de falsa simetria. No extremo direito correspondendo ao pano da antiga nave do templo, mais baixo, encontra-se o portal de acesso à primitiva igreja, rematado por um frontão curvo, enquadrado por pilastras jónicas dominadas por pináculos, interrompido por um janelão em arco abatido, com remate em cornija encimada por pináculos e cruz partida. O outro pano, mais alto e longo, encontra-se dividido em três corpos, por pilastras sobrepostas, nos extremos coroadas por altos pináculos coroados por elemento fitomórfico. No pano central, observa-se o portal de entrada, em arco abatido, com a pedra de armas da Ordem, enquadrado por guerreiros e composição de cabeças humanas e conchas, e ao centro a figura da padroeira, num nicho, ladeada por pilastras cariátides, de ordem jónica encimadas por anjos que suportam o remate em cornija destacada nos extremos. Abaixo desta surge uma cartela com a data de 1741, amparada por anjos. 3.2. Convento do Carmo Os primórdios do Convento do Carmo remontam a um recolhimento de mulheres, sito na rua da Infesta. A primeira notícia deste recolhimento data de 13 de maio de 1684. A 26 de março de 1685 foi lançada a primeira pedra para a edificação deste convento sobre a invocação de Santa Teresa de Jesus. A primeira missa foi celebrada a 9 de abril de 1687, apesar do atraso da obra. Passados alguns anos chegou uma bula papal que autorizava as religiosas de Santa Teresa a 400

Grade e altar-mor da igreja do Carmo.


viverem debaixo da obediência do provincial dos carmelitas calçados, trocando esta instituição monástica a sua primeira evocação pela de S. José. Em 1692, esta instituição monástica já era habitada, estabelecendose fundos para a sustentação de doze ou treze religiosas. Entre 1718 e 1732, o complexo monástico sofre importantes obras de beneficiação e alargamento como o atestam vários contratos notariais. No episcopado de D. José de Bragança (1742-1756), este aceita a sujeição do convento à sua jurisdição, o que vai permitir que a instituição passe por nova fase construtiva patrocinada pelo arcebispo. Toda a obra de talha, que ainda hoje podemos admirar no interior da igreja (1746-1754), foi executada por José Álvares de Araújo, mestre entalhador bracarense, sendo posteriormente dourada e pintada por quatro mestres pintores portuenses. O convento foi extinto pela lei de 1834, ficando propriedade nacional com a morte da última freira, em 1854. A igreja foi doada à Irmandade do Carmo, enquanto que as restantes dependências conventuais foram concedidas ao Ministério da Guerra para aí estabelecer o hospital militar do batalhão de Caçadores 7. Tempo depois foi dado à praça de Valença. Em 1862, a Comissão Administrativa do Asilo de Santa Estefânia toma posse do edifício conventual, situação que se mantém até aos nossos dias.

Retábulo-mor da Igreja do Convento de Santa Rosa de Lima (2006)

3.3. Convento de Santa Rosa de Lima Em 1680, foi fundado o Convento de Santa Rosa de Religiosas Dominicanas, sito nas casas do hospital ou albergaria de S. Roque, com sua capela e hortas, administradas pela Confraria da Senhora da Graça. Dado que o antigo templo da confraria era demasiado pequeno para o crescente número de religiosas e pouco relevante para a importância da instituição, tornou-se necessário ampliá-lo. Com esse objetivo, as religiosas adquiriram as casas conjuntas à capela, a par de terem tomado posse, como administradoras, de tudo o que pertencia ao hospital de S. Roque e à Confraria da Senhora da Graça. Nesse contrato, celebrado com os confrades, em 1735, as freiras comprometem-se a aceitar todos os encargos e legados a que

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a confraria estava obrigada. No segundo quartel do século XVIII, esta instituição passou por um amplo processo de ampliação que abrangeu as principais dependências conventuais. Ao longo dessa fase construtiva aí trabalharam diversos mestres pedreiros, carpinteiros e entalhadores sendo Arquitetos responsáveis Manuel Fernandes da Silva (Braga) e António Pereira (Porto). Além de ingerir no espaço interno da igreja, o arcebispo Dom José de Bragança vai patrocinar a construção da porta principal conventual. Apesar de não termos nenhum suporte documental que nos permita adiantar alguma informação sobre a construção deste portal e respetivo muro, sabemos através da pedra de armas deste arcebispo inscrita no portal que apadrinhou igualmente esta obra. A primeira pedra do atual edifício foi lançada em 1727, no priorado da Madre Catarina das Chagas, que juntamente com as restantes religiosas, contrataram com Manuel Fernandes da Silva, mestre de pedraria, morador na cidade de Braga e com André Lopes também mestre de pedraria, residente no lugar do Vale na freguesia de Adaúfe termo de Braga, a realização da obra de pedraria do dormitório, refeitório e cozinha do convento Entre 1734-1735, para concretizar a ampliação da igreja e suas dependências foram chamados não só artistas locais, mas também se recorreu a mestres portuenses. A 9 de novembro de 1735, o convento firma novamente contrato com António Pereira e João Moreira Bouça. As religiosas pretendiam que estes mestres que já trabalhavam na obra da igreja, coro e capela-mor, fizessem o respetivo mirante e a sacristia segundo as plantas anteriormente apresentadas. Em 1741/42, sete anos após o início da intervenção dos mestres pedreiros na igreja do convento de Santa Rosa, é realizada a obra do retábulo e tribuna da capela-mor da igreja, pelo mestre entalhador António Fernandes Palmeira, da freguesia de Palmeira, termo de Braga, segundo a planta que lhe entregaram as religiosas. A 3 de fevereiro de 1745, as religiosas contrataram com Pormenor do retábulo-mor da igreja do Convento de Santa Rosa de Lima (imagem de Santa Rosa de Lima).

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os mestres entalhadores, António da Cunha Correia Vale, morador no lugar do Loureiro da freguesia de São Salvador de Delães e seu irmão Manuel da Cunha Correia, morador no lugar da Barca de Nuno, da freguesia de São Miguel de “Entre ambas as Aves”, ambos do termo da vila de Barcelos, a feitura de dois altares laterais da Igreja. O prazo de execução dos dois retábulos laterais era de um ano, recebendo os dois irmãos entalhadores a quantia de 500$000 réis. Por fim, a 30 de novembro de 1776, reencontramos o último contrato de obra referente a esta instituição. Trata-se de uma nota notarial estabelecida entre José António da Cunha, mestre entalhador, morador na rua Nova de Santo António (Guimarães) e a Madre Soror Lutgarda Josefa da Apresentação, prioresa juntamente com as restantes religiosas dominicas. Neste documento, o artista comprometeu-se a construir a caixa do órgão de tubos destinada a albergar o conjunto organológico, este último formado pelos foles, sistema mecânico e tubaria. Segundo os apontamentos, a caixa ostentaria uma grande variedade de elementos decorativos em talha dourada. Além da caixa, o mestre obrigava-se a fazer “a baranda e bacia do orgão (...) conforme os riscos que asignarão neste auto, e que ficam em poder do sobredito”. Na descrição dos apontamentos faz-se referência ao mestre organeiro: “no lugar donde se achão os instromentos musicos levara huma figura asentada conforme a determinação que deu o mestre organeiro”. A obra foi estabelecida por 116$000 réis, sendo pagos: 58$000 réis, no ato da escritura e o restante no Órgão do Convento de Santa Rosa do Lima. fim da obra, depois de vistoriada “por quem determinarem as mesmas religiozas”. O prazo de execução era até ao mês de junho de 1777. No decorrer dos tempos, as religiosas foram adquirindo novas casas com o intuito de alargarem o seu espaço conventual. No segundo quartel do século XVIII, esta instituição monástica feminina passava por um amplo processo de ampliação que abrangia as principais dependências conventuais. Ao longo dessa fase construtiva podemos encontrar disseminados pelas obras de pedraria, carpintaria e talha, um numeroso número de mestres que aí trabalharam oriundos dos atuais concelhos de Braga, da Maia, do Porto, Vila de

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Conde e de Vila Nova de Famalicão. Segundo as fontes arquivísticas por nós compulsadas, podemos afirmar que este convento se destaca como o imóvel vimaranense em que deparamos com o maior número de artistas provenientes de locais fora da vila e seu termo. O convento foi extinto a 9 de março de 1888 com o falecimento da última religiosa. Devido à destruição da igreja de S. Sebastião em 1892, o templo das Dominicas passou a assumir funções de igreja paroquial da freguesia de S. Sebastião. Nesse mesmo ano, o governo cedeu à Câmara Municipal o convento e a sua cerca para que aí fossem criadas repartições camarárias. 3.4. Convento da Madre de Deus Teve origem no Recolhimento de Santa Isabel, fundado em 1672. O Padre Caldas informa que este recolhimento se instalou na rua de Val de Donas, através do auxílio de Pedro Francisco, abastado proprietário de Atães, que nessa artéria compra uma morada de casas para a instalação das recolhidas. Em 1681 é fundado o Convento da Madre Deus, de religiosas Capuchas, por Catarina das Chagas, no lugar do Campo do Galego, denominado também o Rosal de Santa Isabel. Em 1690, vestida à homem, parte para Roma a fim de pedir ao Papa o breve para a clausura. Morre no regresso ao reino, tendo então já alcançado a sanção papal. Em 1717, o Arcebispo de Braga, D. Rodrigo de Moura Teles, Convento da Madre Deus. nomeia a sua irmã Soror Luísa Maria da Conceição, religiosa do convento da Madre de Deus em Lisboa, primeira abadessa. Em 1748, Luís António da Costa Pego, capelão do rei D. João V, oferece a este convento um grupo escultórico, constituído pelo Menino, pela Virgem e por S. José. Este grupo escultórico executado em Lisboa, por autor desconhecido, encontra-se atualmente na Igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, de Guimarães. Esta sagrada família foi muito venerada pela população vimaranense num dos altares laterais da igreja do Convento das Capuchinhas. O rei Magnânimo ofereceu à Senhora a coroa de prata, enquanto que D. José, seu filho e futuro rei, o resplendor de São José. A 19 de novembro de 1701, as religiosas pretendiam “acabar e aperfeiçoar toda a obra de pedraria que faltava por acabar neste convento”, tendo deste modo contratado André Machado, mestre de pedraria,

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morador na freguesia de São Romão de Arões, para este efetuar a empreitada em causa. Dois anos após a nomeação pelo Arcebispo de Braga, D. Rodrigo de Moura Teles, da sua irmã Soror Luísa Maria da Conceição, religiosa do convento da Madre de Deus em Lisboa, como primeira abadessa, encontramos esta religiosa a celebrar um contrato de obra com António de Oliveira, pedreiro, morador na freguesia de São Salvador de Joane e Manuel da Silva, carpinteiro, morador na freguesia de Ruivães (concelho de Vila Nova de Famalicão). Por parte da instituição conventual, encontrava-se a Madre Luísa da Conceição, abadessa e fundadora do convento, e Maria Juliana de S. Francisco, vigária, e Ana Micaela, mestra. António de Oliveira tinha arrematado a obra de pedraria de um dormitório. Por seu turno, Manuel da Silva arrematou a respetiva obra de carpintaria do dormitório. Estes dois artistas comprometiam-se a realizar a obra na forma de uns apontamentos e plantas que para isso as religiosas tinham feito. Hoje em dia, do edifício subsiste o claustro, respetivo chafariz, a igreja e a sacristia. No século XVIII, as paredes da capela-mor eram revestidas com seis painéis de azulejos figurativos, azuis e brancos, que ainda hoje podemos admirar, representando: a Sagrada Família, o Sonho de José, a Anunciação da Virgem, a Fuga para o Egipto, a Apresentação do Menino no Templo, a Adoração dos Pastores, o Casamento da Virgem e a Adoração dos Reis. Toda a obra de talha atualmente existente no interior da igreja não pertence originalmente a este templo. Por exemplo, os dois altares laterais dourados e pinClaustro do Convento da Madre Deus. tados por António Luís e Luís Lopes Pimenta (1739) foram oferecidos pela Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha em 1943, tendo sido deslocados em 1924, da igreja do Convento de Santa Clara, de Guimarães. O retábulo mor oitocentista é de proveniência desconhecida. O convento é extinto em 1834, ficando propriedade da Fazenda Nacional com a morte da última freira ocorrida em 1888. Em 1912, instala-se neste imóvel o Centro Juvenil de S. José e foi classificado como Imóvel de Interesse Público pelo decreto Nº 8/83, publicado no Diário da República de Nº 19 de 24 de janeiro de 1983.

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4. Conclusão Guimarães é uma referência pelo número de encomendas, pela contratação de artistas de nomeada e principalmente por aquilo que ainda nos nossos dias podemos admirar. Com este trabalho, quisemos chamar a atenção para o facto de os conventos masculinos e femininos constituírem um legado importantíssimo dos séculos, bem como o reflexo do dinamismo religioso, económico e artístico dos seus encomendadores, permitindo deste modo o afluxo de conceituados artistas. Ao longo de vários séculos assistimos ao evoluir de um importante burgo. Hoje, os seus espaços dão vida a outras vidas, alguns laicizaram-se, têm outras funções, mas o espírito do lugar ali permanece, protegido e recuperado. Este centro histórico conseguiu atravessar o tempo mantendo viva a mensagem do seu passado, possibilitando a todos aqueles que o percorrem atentamente, constatar o labor artístico de mestres locais, e de artistas oriundos de diferentes locais do noroeste português e da Galiza. Referências Bibliográficas BRANDÃO, D. Domingos de Pinho - Obra de talha dourada, ensamblagem e pintura na cidade do Porto e na diocese do Porto, vol. 3, Porto, 1986, pp. 401-406. BRANDÃO, D. Domingos de Pinho – “Retábulo Mor da Igreja de S. Francisco de Guimarães” in sep. Museu, 2ª série, Porto, 1962. CRAESBEECK, Francisco Xavier da Serra – Memórias ressuscitadas da província de Entre Douro e Minho no ano de 1726, vol. 1, Ponte de Lima, Edições Carvalhos de Basto, Lda., 1992. FERNANDES, Isabel Maria; OLIVEIRA, António José de – “O Convento de Santa Clara de Guimarães”, in Boletim de Trabalhos Históricos, 2ª Série, vol. 5, Guimarães Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, 2004, pp. 11-179. GONÇALVES, Flávio – “A talha na arte religiosa de Guimarães” in Congresso Histórico de Guimarães e sua Colegiada, Atas, vol. 4, Guimarães, 1981, p. 337-366. JORDAN, W. D. – “Dom Francisco António Solha, organeiro de Guimarães”, in Boletim de Trabalhos Históricos, 1ª série, Guimarães, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, vol. 34, 1984, pp. 116-136. OLIVEIRA, António José de – “A actividade de artistas portuenses em Guimarães (1685-1768)”, sep. Museu, nº 11, 4ª série, Porto, Círculo Dr. José Figueiredo, 2002. OLIVEIRA, António José de – “A actividade de entalhadores, douradores e pintores do Entre-Douro-e-Minho em Guimarães (1572-1798)”, in VII Colóquio Luso-Brasileiro de História de Arte: artistas e artífices e a sua mobilidade no Mundo de Expressão Portuguesa, Actas, Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2005, pp. 69-91. OLIVEIRA, António José de – “A atividade mecenática do Arcebispo D. José de Bragança nos conventos femininos vimaranenses”, in Boletim de Trabalhos Históricos, 3ª Série, vol. 2, Guimarães, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, 2012/2013, pp. 83-118.

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OLIVEIRA, António José de – Clientelas e artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII, dissertação de doutoramento em História de Arte Portuguesa apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2011, 3 vols. (texto policopiado). OLIVEIRA, António José de – “A construção de uma capela tumular no Convento de São Domingos de Guimarães (1687)”, in Boletim de Trabalhos Históricos, 3ª Série, vol. 6, Guimarães, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, 2017, pp. 5873. OLIVEIRA, António José de – A talha e o cadeiral da Igreja do Carmo de Guimarães (1723-1754), in Museu, Porto, Círculo Dr. José de Figueiredo, 4ª série, nº 12, 2003, p. 93-118.

OLIVEIRA, António José de – “O património artístico do centro histórico de Guimarães (sécs. XII-XVIII)”, in seminário centros históricos: passado e presente, Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011, pp. 26 a 38. OLIVEIRA, António José de; TOMÉ, Cristina – “Guimarães conventual”, in Percursos em Guimarães, Guimarães, Zona de Turismo de Guimarães / Centro de Formação de Francisco de Holanda, coord. por Alberto Lameiras, 2006, pp.2539, OLIVEIRA, António José de; OLIVEIRA, Lígia Márcia Cardoso Correia de Sousa – “A sacristia da igreja do convento de Santa Marinha da Costa de Guimarães (1734)”, in Museu, nº 9, 4 série, Porto, Círculo Dr. José Figueiredo, 2000, pp. 99-117. SANTOS, Manuela de Alcântara – Órgãos de tubos em Guimarães, Guimarães, Museu de Alberto Sampaio, 1995. TEIXEIRA, Fernando José – Convento de S. Francisco. Guimarães. Guimarães, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, 2000.

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PATRIMÓNIO DESPORTIVO

Multiusos de Guimarães - 20 anos no palco das grandes emoções Amadeu Portilha Presidente da Direção da Tempo Livre

Viajar no tempo, até 2001, e recordar as condições de contexto que determinaram a construção do Multiusos de Guimarães não é um ato de saudosismo. A saudade, essa palavra tão única e tão nossa, remete-nos à nostalgia provocada pela perda ou afastamento, o que neste caso não se verifica. Porque vinte anos depois, o Multiusos de Guimarães continua pujante de atividade e função, contribuindo decisivamente, ontem como hoje, para a notoriedade de Guimarães no país e no mundo.

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Foi numa tarde fria, a 12 de novembro de 2001, numa cerimónia presidida pelo então Primeiro-Ministro António Guterres, hoje Secretário-Geral da ONU, que se abriram ao público pela primeira vez as portas do novo, moderno e imponente Multiusos de Guimarães, numa cerimónia que contou com a presença de muita gente, curiosa por conhecer aquela que ainda é hoje uma das melhores salas de espetáculos do país. Pouco depois, à noite, a brasileira Gal Costa dava um concerto único e memorável numa sala completamente lotada. Guimarães oferecia ao norte do país uma sala de espetáculos de grandes dimensões e de enorme versatilidade, pela aposta arrojada e visionária de dotar o Multiusos com um conjunto de bancadas retráteis e amovíveis, que permitem construir na sua grande nave central doze layouts de utilização diferente. Com uma localização privilegiada numa das entradas principais da cidade de Guimarães, na Veiga de Creixomil, junto à Variante Urbana, o Multiusos de Guimarães foi construído com uma polivalência que lhe permite acolher congressos, feiras, exposições, concertos musicais, competições desportivas e outros espetáculos e eventos de pequena, média e grande dimensão, disponibilizando uma área expositiva útil de quase 4.000 m2 e uma lotação máxima próxima dos 10.000 lugares. Para além da sua nave central, o Multiusos de Guimarães está dotado, entre muitas outras valências, de um pavilhão desportivo com pavimento fixo de madeira flutuante, duas salas de conferências, gabinete médico e restaurante com serviço próprio. Ao seu redor, e para além de uma grande praça pedonal, disponibiliza mais de 1.000 lugares marcados de estacionamento. Cumprido este ciclo de 20 anos que agora se evoca, permanece intocável o sonho que o fez erigir. Num tempo de frenesim na governação política local, que na altura era campo fértil para a inovação e a coragem, Guimarães teve a ousadia de desenhar políticas de desenvolvimento transversais, onde a promoção da cultura, da educação e do desporto marcavam posição de charneira, aliando modernidade e contemporaneidade à preservação e recuperação do nosso vasto e riquíssimo património simbólico e edificado. De braço dado com a recuperação criteriosa e singular do Centro Histórico de Guimarães, que nos permitiu ser, também desde 2001, Património Cultural do Mundo, Guimarães investia em infraestruturas de grande alcance e interesse comunitário, que resultariam na criação da Cidade Desportiva, primeiro, ou no Centro Cultural Vila Flor, depois, sendo inequívoco que um e outra são os principais responsáveis por, mais tarde, sermos distinguidos com os títulos de Capital Europeia da Cultura (2012) e Cidade Europeia do Desporto (2013). Nesse longínquo tempo, palavras como cultura, entretenimento ou desporto quase não constavam do léxico político de base local. Eram “luxos” a que planos de atividades e orçamentos não davam grande

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importância, geralmente menorizados pela circunstância de outras necessidades básicas escassearem. Em Guimarães, a praxis política comprovou, inequivocamente, que era possível aliar necessidade imediata e visão de futuro. Que recuperar do atraso sistémico de muitos anos de empobrecimento e iliteracia cultural não impedia de ter coragem de ler o futuro e antecipá-lo com ideias, sonhos e ambições. O Multiusos de Guimarães nasceu dessa vontade de ser diferente, de dar singularidade ao nosso território e de abrir horizontes à nossa comunidade. E desde o primeiro dia até hoje, a excitação pela descoberta de um admirável mundo novo, onde cada evento ou serviço nos obriga à permanente superação, ficou a matriz que carateriza a “alma” de quem cá trabalha: tudo é possível, tudo pode ser feito, os problemas são oportunidades e as dificuldades só servem de teste às nossas capacidades. E a força do entusiasmo e da qualidade do trabalho desenvolvido no Multiusos de Guimarães está bem patente nos resultados alcançados. Duas décadas de intensa atividade depois, o Multiusos de Guimarães colocou-nos na rota dos grandes eventos nacionais e internacionais, permitiu que as gentes de Guimarães e do Norte passassem a ter acesso ao que de melhor se faz neste país ao nível de concertos musicais, competições desportivas ou grandes eventos. Deu-nos mundividência e futuro.

O concerto inaugural na noite de 16 de novembro de 2001, com Gal Costa, Dori Caymmi e Manel d’Oliveira já vai longe. E, dessa data primeira até hoje, o Multiusos de Guimarães já acolheu 825 eventos

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diferentes e quase 3,5 milhões de participantes/espetadores. A nave central esteve ocupada em 3.250 dias e daqui já foram transmitidas cerca de 320 horas de televisão para Portugal e para dezenas de outros países. O tempo voa, passa rápido, e a nossa memória não consegue assimilar tudo o que o Multiusos de Guimarães nos permitiu viver. Mas foi no Multiusos de Guimarães que assistimos a concertos memoráveis de Bryan Adams, Roberto Carlos, James, Scorpions, Anastacia, Bobby McFerrin, Pablo Alborán, José Carreras, Bonnie Tyler, Gipsy Kings ou Barclay James Harvest; ou a concertos dos maiores artistas brasileiros como Martinho da Vila, Daniela Mercury, Adriana Calcanhoto, Seu Jorge, Ivete Sangalo, Paula Fernandes ou Ana Carolina. E, muito provavelmente, de todos os nomes e bandas maiores da música portuguesa. Não esquecendo a honra de ter acolhido o primeiro Festival da Canção RTP fora de Lisboa, em 2018.

Festival da Canção RTP, em 2018.

O Multiusos de Guimarães permitiu também assistir às maiores competições desportivas internacionais que passaram pelo nosso país, como foram os casos da Final Four da Champions League de Hóquei em Patins, 411


a Liga Mundial de Voleibol, o Campeonato do Mundo de Andebol, o Supercross Freestyle Indoor, o Europeu de Basquetebol e o Mundial de Andebol Universitários, o Campeonato do Mundo de Ginástica Aeróbica, o EuroBoccia 2013, o Campeonato Europa Jovem de Ténis de Mesa ou o Campeonato Mundial Escolar.

Campeonato mundial de Andebol

Também foi no Multiusos de Guimarães que eventos de grande escala e relevância internacional aconteceram, como a 19ª edição do Concours Mondial de Bruxelles - Concurso Internacional de Vinhos ou O Mundo dos Dinossauros. E que o PS e o PSD organizaram os seus primeiros congressos nacionais fora da capital. De tudo isto se fez o palco das grandes emoções ao longo de vinte anos: sonhos, desafios, apostas e ambições. Inovando constantemente, num desassossego permanente para ajudar a construir um espaço diferente e diferenciador, que seja motivo de orgulho para Guimarães e para todos os vimaranenses. Foram 20 anos que passaram num ápice. As marcas desse tempo podem ser visíveis nas paredes do edifício que acolheu tantos e tão bons espetáculos e eventos, ou no rosto de tantos e tão bons colaboradores que trabalharam diariamente para que tudo isso fosse possível. Mas estamos sempre prontos para recomeçar tudo de novo. Uma e outra vez. Aceitando cada evento e cada espetáculo como um novo desafio. Principalmente agora, quando se vislumbra no horizonte o fim de uma pandemia que tudo colocou em causa, obrigando-nos a ter portas fechadas e a agenda suspensa por um tempo tão exagerado e tão difícil de suportar.

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O Sagrado Vimaranense Vasco Rodrigues

Somos nós... O Berço da Nação somos nós!

Passaram 20 anos, depois do centro histórico de Guimarães ter sido classificado como Património Mundial pela Unesco. Uma distinção marcante, que encheu de orgulho todos os vitorianos, mas, acima de tudo, todos os vimaranenses. Verdade seja dita, apesar de não ser condição, sine qua non, do ser natural desta cidade, também será indesmentível que mesmo quem não beba da fé do Clube do Rei não ficará indiferente a ele. Falamos do maior emblema representativo da cidade e somos imediatamente remetidos para talvez o veículo identitário do clube: o símbolo do Vitória Sport Clube. Fundado em 1922, vivemos, pois, na antecâmara do seu século. Um século de várias marcas distintivas, que num momento ou noutro se ligaram à equipa, mas acima de tudo, inconfundível pelo seu emblema. Um símbolo consagrado ao Primeiro Rei de Portugal: D. Afonso Henriques. Desde logo, essa imagem maior, distintiva das demais agremiações existentes no mundo, remete-nos para a ligação da história, do nosso inesgotável património material e imaterial com o clube. Bastará recorrer ao site “Memórias de Araduca”, em que é citado o Coronel Arqueólogo Mário Cardoso, ideólogo e autor do emblema por meados da década de 30 do século passado, a referir que “com a sugestão das palavras Vitória e Guimarães vinha logo ao pensamento o fundador da nacionalidade, Afonso Henriques, “ex-libris” de Guimarães, em atitude serena, mas destemida da imagem que o grande estatuário Soares dos Reis modelou. Acerca das cores preta e branca parece que os fundadores do clube já pressentiam o que essas cores simbólicas viriam a significar, a admissão no clube de todos sem distinção que nele se quisessem associar tanto africanos de cor como os brancos europeus."21 Assim percepcionamos, imediatamente, que sempre existiu uma indissociável ligação, e talvez única à

21

Cfr. http://araduca.blogspot.com/2015/10/os-emblemas-do-vitoria.html

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escala global, de história, clube e sociedade. Um vínculo que foi perdurando ao longo dos tempos e terá ajudado a moldar uma união quase umbilical, moldada pelo referido artista, erigida na Colina Sagrada, e que se transpôs para o emblema do clube. Uma originalidade, que servirá de contraponto ao que sucedeu em Espanha, em que os clubes, como o Real Madrid, Real Sociedade, Real Celta de Vigo, entre tantos outros, mereceram uma designação do epíteto “Real” por ordens monárquicas, de apego e de difusão dos valores propagados e queridos à monarquia. Em Guimarães, ao invés, foi a força de um povo em querer perpetuar um legado histórico, em querer tornar eterno um homem que foi determinante para o país que temos hoje. A história foi seduzida pela vontade popular, pela afirmação de um veio identitário através de um emblema, pela unicidade de um Rei entrar em campo em todos os jogos com onze homens, onze escolhidos, para vestir aquela camisola. E daí surgirá outro cântico dos vitorianos, na demonstração inelutável da existência dos caminhos que se entrecruzam entre o futebol e o dealbar da história de Portugal, a necessidade de honrar um Rei Conquistador, indiscutivelmente vencedor: “Com o Rei ao Peito, de Preto e Branco, És a Nossa Fé, Força Vitória Allez.” Tal será mais uma prova da confirmação da união entre o passado histórico e o presente, entre as pedras sagradas da nossa história e a mundanidade e imediatismo do futebol, numa aliança indissolúvel, indistinguível. Aliás, tal aliança https://gmrvisual.blogspot.com/2019/09/victoria-sportclube.html?spref=fb&m=1 poderá ser analisada de outro prisma, de outra vertente, como se aqueles onze escolhidos simbolizassem as tropas de El Rei e as bancadas cheias fossem os demais estratos sociais a incitar os seus insignes e nobres cavaleiros para a pugna, para a batalha, para a Conquista! Por isso, não causará surpresa, que muitos se refiram à tarde de 26 de Maio de 2013, aquela em que o Vitória conquistou a sua primeira, e até agora, única Taça de Portugal, como “ a mais bela tarde vitoriana” num saboroso e bem conseguido paralelismo entre esse inesquecível êxito vitoriano e as pedras tumulares da Batalha de São Mamede, de 24 de Junho de 1128, e que José Mattoso ousou definir da “primeira tarde portuguesa”, afirmando assim, de modo indiscutível, ter-se tratado do acto fundador da nacionalidade. Esta conclusão reforçará a ideia de que a história andará sempre de mãos dadas com o clube, que este

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será um veículo de valor inestimável na sua propagação, na sua definição. Bastará, também, recordar o que sucedeu quase de imediato após a nossa cidade ter merecido a honraria que é merecedora destas linhas. Assim, logo após a nossa cidade ter sido distinguida com o galardão de Património Mundial, o Vitória cedeu as suas camisolas para, numa feliz aposição na parte frontal do seu manto, aparecer o símbolo e o dístico de tal honraria. No fundo, uma verdadeira necessidade intrínseca de um clube honrar uma cidade que sempre o acarinhou, sempre o soube merecer e nunca o deixou caminhar só, numa adaptação bem conseguida, à portuguesa, à vimaranense, da fantástica canção dos Gerry and The Pacemakers, e que se tornou hino do Liverpool, “You’ll Never Walk Alone”. Tal não merecerá qualquer discussão, num ciclo que explica a implantação do clube do Rei: os adeptos acompanham o clube, que se assume como um lídimo representante da cidade e se orgulha dos seus feitos. E que maior aliança para um casamento feliz poderia existir na camisola branca com tais dizeres? Porém, não só nestas menções se configura a mais estrita relação que conhecemos do clube com a história de um país, como depositário de um património universal. Aludimos supra ao hino do Liverpool. Em boa verdade, se diga, que o Vitória, estatutariamente, não tem qualquer hino. Bastará analisar o artigo 3º das Leis Fundamentais do clube, para aferir da inexistência de qualquer menção a um hino oficial. Por essa razão, seremos remetidos para algumas canções que se tornaram traço identitário e de maior união dos adeptos em torno da equipa. Comecemos, pela primeira, o “Força Branquinhos”, interpretada por Dino Freitas e realcemos a estrofe “tens o emblema da glória, a espada de Afonso Henriques”. Prossigamos com a música de José Alberto Reis, que refere o povo sonhador que fez nascer o país nesta terra, para realizar um paralelismo com a formação e constituição do clube e concluir que o Vitória que é de Guimarães, que é o seu berço, mas também da nacionalidade. Por fim, a música mais recente, o “Sou Vitória”, de José Miguel, entoado a plenos pulmões por 15000 vitorianos no Jamor e que na sua letra faz A paixão vitoriana. Foto do Marco Jacobeu menção a “É a hora! Ergue as armas! Sol à vista! Segue Afonso! À vitória! À conquista!” Existirão, outros hinos, por esse mundo fora, em que as pedras da essência da formação da nacionalidade do país, de ligação ao passado, ao património, sejam material ou

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imaterial, estejam presentes? Este raciocínio será reforçado pelo nome de algumas claques que fizeram parte da história. Quem poderá esquecer os grupos denominados de “Os Fundadores”, “Os Conquistadores”, ou “Os Vimaranes”, num verdadeiro perpetuar histórico das raízes da nacionalidade? Mas nem só da relação entre adeptos e clubes se faz o vínculo com a inestimável valia histórica da cidade. Este subsiste e é reforçado por terceiros, pelos de fora. Na verdade, muitos de nós ainda meninos, quando os jogos eram seguidos pelos aparelhos de rádio, dada a ausência de transmissão televisiva, em emissoras nacionais, ouviam-se as expressões que, ainda hoje, nos enchem de orgulho, ou seja, do nascimento de uma nacionalidade que se expandiu das nossas muralhas para A festa na bancada. Foto de Marco Jacobeu. Sul. Porém, tal é recorrente, em qualquer publicação que aluda ao Vitória. Na verdade, as metáforas bélicas de Conquista, mas também de defesa do conquistado são habituais pelas publicações que se dedicam ao fenómeno desportivo. Bastará, por exemplo, citar algumas. Assim, o guardião do Vitória é várias vezes como a “muralha do castelo22”, chegando-se mesmo a considerar a própria equipa esse castelo23. Essa metáfora também servirá para incensar a inexpugnabilidade de uma equipa, tal como D. Afonso Henriques, difícil de vencer, mas que também poderá servir para realçar os feitos do conjunto adversário, quando, infelizmente, conseguem vencer a equipa da nossa cidade24. Além disso, está sempre presente a ideia de conquista numa equipa, cujo cognome é, simplesmente, “Conquistadores”. Na verdade, são incontáveis as alusões à necessidade de a equipa partir rumo à

22

Cfr. https://www.proscout.pt/bruno-varela-a-muralha-do-castelo/.

23

Cfr, a título de exemplo https://maisfutebol.iol.pt/vitoria-guimaraes/liga/v-guimaraes-santa-clara-1-0-cronica.

24

Cfr . https://www.noticiasaominuto.com/desporto/1622158/vitoria-sc-sporting-lideranca-leonina-com-teste-de-fogo-emguimaraes. Leão destrói castelo.

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conquista25, em alusão à necessidade, ao desejo de vencer. Porém, não podemos ficar-nos apenas nos patamares da imaterialidade, quase a roçar o metafísico. A história perscruta-se na secularidade das pedras, dos monumentos, dos locais. Não iremos recuar a uma célebre fotografia, que fará parte mais da mitologia de uma vetusta equipa vitoriana a jogar à sombra do Castelo e do Campo de São Mamede. Não ousaremos tomar por verídica uma imagem mitológica. Mas, à sombra do património, ter-se-á construído a história de um clube histórico e com histórias. Desde logo, o local da sua formação, na Chapelaria Macedo, ao lado da Torre da Alfândega, muralha emblemática de uma cidade, e talvez de um país, e que tem em si os dizeres de “Aqui Nasceu Portugal”. Será, talvez, o local mais premonitório para o nascimento do Vitória, quase a ponto de na célebre inscrição se poder acrescentar “Aqui Nasceu Portugal, MAS AQUI NASCEU MESMO UM CLUBE!” Aliás, a comprovar esta asserção referente à inscrição aposta a 22 de Setembro de 2018, no local e onde, nesse dia, o então presidente Júlio Mendes citou o blog “As Memórias de Araduca” ao referir que “as fontes e os testemunhos disponíveis não deixam margens para grandes dúvidas quanto ao local de nascimento do Vitória Sport Clube. O clube foi fundado na loja do seu primeiro presidente, António Macedo Guimarães, a Chapelaria Macedo, com porta aberta em parte do edifício actualmente ocupado pelo Café Milenário, ali bem perto da Torre da Alfândega, onde está afixada a inscrição “Aqui nasceu Portugal”26. Mas, além disso, destaquem-se outros pontos confluentes da história, do património com o clube. Acima de tudo, a antiga sede do clube na Rua D. João I, antigamente conhecida pela Rua dos Gatos. Local mítico, uma verdadeira universidade de vitorianismo até quase ao final do século passado, numa das ruas mais emblemáticas da cidade. Falamos de uma rua que, antigamente, era a porta de saída da cidade rumo a outras paragens, principalmente ao Porto. Inaugurada a 12 de Junho de 1948, terá sido o portal de muitos para a admissão no sagrado (ainda que profano) mundo vitoriano. Um edifício pleno de história, onde o soalho rangia a cada passo, como a lembrar o peso do passado que aquelas tábuas faziam por suportar. Terá sido, talvez, o local, pleno de história pela sua localização, onde o futuro mais vezes se entrecortou com o passado, onde o vitoriano que ansiava um futuro de apoio à equipa entrava e se sentia confrontado, esmagado pela austeridade das pedras, pela força poderosa, mas silenciosa, do edifício, na certeza que o peso do passado contou muito na formação do presente. Porém, nem só do peso das pedras vive esta ligação. Viajemos até ao Toural, local sagrado vitoriano. O 25

Cfr. https://www.ojogo.pt/futebol/1a-liga/vitoria-guimaraes/noticias/v-guimaraes-a-conquista-de-londres-mais-de-2000adeptos-esperados-no-emirates-11388621.html. 26

Cfr. https://maisguimaraes.pt/vitoria-pretende-assinalar-o-local-do-seu-nascimento/.

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local emblemático da cidade, ainda que com várias alterações ao longo dos tempos. Contudo, o símbolo maior da urbe, talvez seja a união de uma cidade aos feitos de um clube; o local predilecto de acolhimento e festejo dos nossos heróicos conquistadores, após o êxito da pugna; no fundo, o que dizíamos supra, se antigamente os demais estratos sociais recebiam a nobreza vitoriando-a pelas Conquistas, agora, no Toural, vitoriam-se os lutadores da contemporaneidade, ídolos de muitas vitórias. Assim foi em milhentas ocasiões, como depois de Jesus ter silenciado Madrid e os adeptos colchoneros, ou quando o clube retornou dos tugúrios lúgubres da Liga de Honra, ou, por fim - e quem poderá esquecê-lo? – no dia 26 de Maio, quando, pela primeira vez, conquistou um título nacional sénior. Mas, para além de ser o ponto de celebração dos momentos mais felizes, é, também, ponto de afirmação de vitorianismo, das infindáveis conversas sobre a actualidade do clube, de projecções sobre novos reforços, de hipotéticas vendas. Em suma, um local onde as “fontes” nunca secam e não só pelas existentes no local. Porém, não só no Toural se manifesta a ligação ao Vitória. Os mais jovens terão como locais sagrados as Praças da Oliveira e de Santiago, locais sagrados do Património Mundial, mas também de culto para um vitorianismo mais jovem, mais interventivo, onde a paixão, às vezes, descola da razão em nome de algo maior: o Vitória. Bastará lembrar o facto da claque mais antiga da actualidade do clube, os Insane Guys, ter sido fundada em 1994, na Praça da Oliveira. Uma claque que, apesar de ter fugido aos tradicionais nomes a relembrar a história, como já aqui referimos, sempre soube difundir, através dos cânticos e de coreografias, esse passado de que tanto nos orgulhamos. Além disso, quantas vezes nas praças históricas se ouviu o grito de Vitória bem alto? É lá que, em dia de jogo, os mais empedernidos se concentram. De onde, em cortejo, partem, rumo ao local de culto, onde os seus heróis irão, olhos nos olhos, enfrentar as tropas adversárias. Foi lá, também, que algumas vezes se festejaram triunfos vistos em écran gigante, como aquele, na Polónia, frente ao Wisla, onde o golo de Saganowski fez o Vitória triunfar, pela primeira vez, fora de portas, numa Ilustração SAL competição europeia.

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Mas, será lá, também, que se fará o processo de catarse após as derrotas mais dolorosas. Terá sido lá que a maioria chorou as amarguras de uma inesperada descida de divisão ou, naquela tórrida tarde de Agosto de 2008, após o clube do Rei ter sido vilipendiado em Basileia, muitos de nós afogamos as mágoas, numa bebida que ajudasse a suportar a atrocidade da injustiça de que tínhamos sido alvo. Na verdade, poderíamos terminar, quase como encetamos estas linhas. Em cada traço histórico de Guimarães há uma alusão a um momento, a uma memória, até a uma lágrima vitoriana. Numa cidade tão apegada às suas raízes, às suas tradições, com o surgimento do Vitória em 1922, apareceu um novo veículo da transmissão do, ousemos chamar-lhe assim, “sagrado vimaranense”. Aquele fio condutor que passa de geraComunhão entre equipa e adeptos. Foto de Marco Jacobeu. ção em geração e que, com ele, traz o nosso património, motivo de orgulho intemporal, as nossas associações e instituições e, indubitavelmente, um dos nossos maiores embaixadores: o Vitória Sport Clube, que no próximo mês entrará na celebração do seu centenário, quase de braço dado com as duas décadas de património mundial. Até ai, tudo se conjuga, tudo anda de mãos dadas, numa simbiose jamais finita e que durará enquanto houver um vimaranense...

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PATRIMÓNIO NATURAL

Guimarães é um património natural para (re)descobrir Carlos A. Ribeiro Laboratório da Paisagem, Diretor Executivo

Muitas vezes, o frenesim dos dias não nos permite olhar em volta. Ou até mesmo ter tempo para o fazer. No meio da azáfama diária, tornamo-nos prisioneiros do nosso tempo e do nosso espaço. Até um dia, ou até ao dia. Àquele que nos obrigue a parar e a pensar. Será sempre complexo encontrar pontos positivos num período recente que nos deteve compulsivamente. Mas será tentador perceber que foi esse tempo que nos fez olhar em volta e perceber o valor do que nos rodeia e, mais do que isso, da importância de um equilíbrio saudável entre nós e os diferentes ecossistemas. Hoje, ninguém negará o importante papel das cidades nesse equilíbrio, especialmente para evitar o ponto de viragem dos diferentes limites do planeta, a quem o cientista Johan Rockström tem dedicado os seus estudos. Guimarães é, à sua escala, uma cidade cujo potencial nos tem mostrado que pode ser um belíssimo exemplo de conservação e promoção do seu Património Natural. Nos últimos anos, esse esforço tem ficado evidente na forma como tem colocado o desenvolvimento sustentável na agenda, mas, mais do que isso, na forma como tem procurado proteger, valorizar e promover esse mesmo património. «O património cultural e natural faz parte dos bens inestimáveis e insubstituíveis de toda a humanidade. A perda, por degradação ou desaparecimento, desses bens preciosos constitui um empobrecimento do património de todos os povos do mundo» (UNESCO, Convenção do Património Mundial, 2014).

A mensagem é clara. Cabe, a cada um de nós, a proteção desse património, mormente o natural, que a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura descreve como os “monumentos naturais

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constituídos por formações físicas e biológicas (...) formações geológicas e fisiográficas, (...) zonas delimitadas que constituem habitat de espécies animais e vegetais ameaçadas, (...) locais naturais ou zonas naturais delimitadas, com valor universal excecional, (...) áreas de importância preservacionista e histórica, (...) áreas que transmitem à população a importância do ambiente natural”. Apesar de muitas vezes negligenciada e inúmeras vezes despromovida, para dar lugar ao crescimento desenfreado, a importância da proteção da natureza é hoje a única “tábua de salvação” para a inversão do caminho mundial, e para a mitigação das consequências das alterações climáticas. Retomemos agora os caminhos de Guimarães. Ousemos olhar em volta e perceber o potencial e a importância das infraestruturas verdes e azuis que o território detém. Comecemos, por exemplo, pela periferia do concelho, onde em Castelões tomamos o pulso à Natureza quase intocada, no Parque dos três Moinhos. As lagoas e charcas do rio Ave representam um dos paraísos quase desconhecidos do território e uma forma de comunhão com o meio natural que não deveFigura 1 - Lagoas e Charcas do rio Ave - Parque dos três moinhos (Fonte: Laborató- mos desperdiçar (Figura 1). rio da Paisagem).

Aliás, se há coisa que o rio Ave nos oferece, são motivos mais do que suficientes para acreditarmos que vale a pena criarmos condições para “devolvermos” o rio aos cidadãos, sem que este tenha necessidade de correr envergonhado, ao longo do seu percurso. Os cerca de 60 quilómetros de percursos pedestres nas margens dos rios Ave, Selho e Vizela serão uma boa oportunidade para voltarmos a ter acesso a paisagens privilegiadas, mas também, para aumentarmos a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos, permanecendo exigentes, mas também ativos na proteção e preservação dos nossos recursos naturais. O percurso pelas margens destas linhas de água (Figura 2) permitirá o contacto com um património natural que “escondemos”, mas que não perdeu grande parte do seu fulgor e, muito menos, da sua riqueza.

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De Serzedelo a Castelões, num total de catorze freguesias27, pela beleza do rio Ave, de Serzedelo a Gonça por outras tantas catorze freguesias28, pela paisagem surpreendente do rio Selho, ou até entre Lordelo e Moreira de Cónegos, onde o rio Vizela atravessa locais também de passagem obrigatória. O grande Parque Linear de Guimarães unirá as diferentes Ecovias e deixará a descoberto o nosso Património Natural. No entanto, e para que esta transformação no território seja consistente, será sempre fundamental o trabalho prévio de transformação do cidadão. A atuação nas diferentes dimensões: 1) recuperação da identidade, 2) reabilitação do Património Natural e 3) promoção e valorização, através da capitalização do potencial cultural, social e natural. Voltemos à “estrada”. Do rio à montanha, não faltam motivos para conhecermos Figura 2 - Ecovia do Ave (Fonte: Laboratório da Paisagem). aquilo que Guimarães nos oferece. Da excelência das áreas verdes, até aos percursos pela Natureza que atestam a beleza natural de Guimarães. Sim, aqui também somos Berço de espécies que escolheram cada um dos nossos recantos para abrigo. Tomemos, agora, o caminho do Parque da Cidade, apenas como exemplo da importância dos espaços verdes em contexto urbano, quer para usufruto da população, quer para incremento dos corredores ecológicos. Aqui, a novel Rota da Biodiversidade da Penha Figura 3 - A nova Rota da Biodiversidade que ligará o Parque da Cidade à Montanha da Penha (Fonte: Laboratório da Paisagem).

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Gondar, Serzedelo, Silvares, Ronfe, Selho S. Jorge, Brito, UF Sande Vila Nova e Sande S. Clemente, Ponte, Prazins Sta. Eufémia, Barco, Caldelas, UF Souto St. Maria, Souto S. Salvador e Gondomar, UF Briteiros Santo Estevão e Donim, UF Arosa e Castelões. 28

Serzedelo, Gondar, Selho S. Cristóvão, Selho S. Jorge, Candoso S. Martinho, Silvares, UF Candoso S. Tiago e Mascotelos, Creixomil, Fermentões, Pencelo, UF Selho S. Lourenço e Gominhães, Aldão, São Torcato e Gonça.

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(Figura 3) é a conexão por excelência para o principal “pulmão” verde do concelho. A existência de 10 habitats protegidos, entre os quais dois de conservação prioritária, será razão mais do que suficiente para continuarmos a implementar estratégias que mitiguem as pressões antropogénicas e protejam as diferentes espécies que aqui residem ou que escolhem este local nas suas rotas migratórias. De acordo com os mais recentes estudos de campo, a propósito da classificação da Montanha da Penha como Paisagem Protegida de âmbito local, esta acolhe mais de três centenas de táxones de flora vascular e mais de uma centena de espécies de vertebrados terrestes, dos quais cerca de duas dezenas apresentam algum tipo de estatuto de conservação em Portugal. Ora se acima falava da importância dos corredores azuis, entre a Penha e o Parque está também guardado o Berço de uma das linhas de água com maior importância histórica para Guimarães. Mais do que apenas património natural, a ribeira Costa/Couros é património cultural. Corre ainda virgem no Parque da Cidade, mas apresenta já cicatrizes da história na Zona de Couros. O seu destino é a Veiga, que abordarei um pouco mais à frente. Mas, apesar das referências até aqui ao Parque da Cidade, não ousemos quedar-nos nele, mesmo que em contexto citadino. Os jardins do Monte Latito ou do Palácio Vila-Flor são outros exemplos de como é possível o equilíbrio entre o património cultural e natural. Neles encontramos alguns dos exemplares das árvores classificadas de interesse público que Guimarães ostenta, com orgulho. Continuemos então, como prometido, o nosso caminho. Paremos na Veiga de Creixomil (Figura 4), uma das mais importantes zonas húmidas do concelho. É na Veiga que a ribeira Costa/Couros desagua a sua história no rio Selho. A planície fértil da Veiga guarda também um dos locais de repouso e de visita de inúmeras espécies e, às portas da cidade, um local onde o contacto com a natureza não se deve perder. O mais injusto será, estou certo, num pequeno texto, procurarmos fazer referências individuais a exemplos maiores da riqueza do nosso Património Natural. O que dizer de São Torcato e da riqueza faunística e florística que Figura 4 - Veiga de Creixomil (Fonte: Laboratório da Paisagem). 423


ali encontramos junto às margens do Selho, ou do Parque da Ínsua em Ponte, da Praia Seca em Caldelas, da Praia do Vaqueiro ou dos Moinhos em Donim, junto ao rio Ave, ou até do Monte da Falperra ou do Talegre ou das muitas dezenas de Parques de Lazer que Guimarães oferece, como um dos mais recentes, o deslumbrante Parque de S. Faustino. Apenas exemplos. E o nosso território oferece-nos tantos e tão bons. Muitos deles que desconhecemos. E será esse trabalho de valorização que está ao nosso alcance. Mas diria que, a juntar a este trabalho, será fundamental que continuemos o de educação e sensibilização da comunidade e, essencialmente, das novas gerações. É isso que o programa de Educação Ambiental PEGADAS (Figura 5) tem também procurado fazer. Entendendo o conhecimento como fator basilar para valorizarmos, protegermos e promovermos o que nos rodeia. É esse o desafio que devemos continuar a agarrar, fomentando a Figura 5 Atividade de Educação Ambiental (Guimarães mais Floresta) no âmbito consciência ecológica dos mais jovens. do programa PEGADAS (Fonte: Laboratório da Paisagem).

Porém, neste caminho têm de caber todos. E também por isso, o trabalho de proximidade será fundamental na transformação do “local para o global”, como desde sempre nos ensinou o emérito professor Mohan Munasinghe. Neste capítulo, ganham preponderância as Brigadas Verdes e todos quantos sejam capazes de atuar como vigilantes de um património que será, cada vez mais, essencial Figura 6 - Trabalhos de campo no âmbito dos projetos de Investigação e Desenvolpara aumentarmos a resiliência dos territó- vimento desenvolvidos pelo Laboratório da Paisagem (Fonte: Laboratório da Paisagem). rios. Ousemos continuar a pugnar por este equilíbrio, não abdicando da aposta na educação ambiental e na investigação (Figura 6). Será sempre esta a base para evoluirmos como território, quer através da mudança

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do cidadão, quer para aumentarmos a capacidade de respondermos aos principais desafios do território, com o suporte científico necessário. Como se constata, Guimarães guarda em si um Património Natural que importará (re)descobrir. Para lá do histórico e cultural que faz a nossa essência, há um capital natural que nos deverá orgulhar. Cientes de que há ainda um longo caminho para o podermos potenciar na plenitude, mas também certos de que este é um caminho sem retorno. Façamos a nossa parte. E comecemos já hoje a descobrir os segredos que o Património Natural de Guimarães tão bem guarda.

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O nosso maior património Jorge Cristino

Várias são as interpretações sobre a definição e a aplicação de conceitos sobre Património. Património é comumente aplicado na área cultural, dado que é nesta área científica que emerge a sua maior amplitude, isto é, vai do material ao imaterial, atravessando épocas, culturas, edificações, feitos, conquistas, arte, materiais, simbolismos, enigmas e tantos outros fatores mais ou menos deterministas. Se quisermos dar exemplos práticos, não seria necessário sair de Guimarães para conseguirmos encontrar exemplos concretos em cada uma das dimensões. O seu Castelo e o Paço dos Duques estão à cabeça, como exemplos concretos de Património Material que, por sua vez, facilmente nos levam a viajar até às simbólicas conquistas de Afonso Henriques e à fundação portuguesa como Património Identitário, cuja preservação até aos dias de hoje elevam o Centro Histórico como Património da Humanidade, a celebrar este ano o seu 20º aniversário de reconhecimento pela UNESCO. Por sua vez, as características que permanecem nas suas gentes levam-nos às tradições, aos hábitos, à gastronomia, ao associativismo e às artes como Património Imaterial. Mas não fiquemos por aqui, Guimarães é uma cidade completa, onde ainda conseguem caber muitas mais dimensões. A evolução dos tempos levou a que as gentes desta terra, de dedicação e trabalho, fossem burilando o território em mosaicos e, hoje, seja parte integrante de um território riquíssimo em Património Industrial, onde o conhecimento consegue ocupar um lugar claro de destaque, marcado pela mão de homens e mulheres, que, de sol a sol, contribuem, orgulhosamente, para a riqueza de um País fundado pelos seus antepassados. A par, foi-se construindo e tecendo toda uma rede de participação cívica e social, criando organizações que irremediavelmente foram cobrindo todas as valências socioculturais que de forma clara preencheram, ao longo de décadas, as necessidades literárias, artísticas, cinematográficas, musicais, teatrais e etnográficas. Chegados aqui, quase em 2022, 10 anos depois da Capital Europeia da Cultura 2012, julgo sermos já capazes de eleger esse momento como Património intemporal da nossa história contemporânea. Mas não é esta a dimensão que quero trazer aqui para captar a vossa atenção. Nem tão pouco a

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dimensão de Património simples e direto usado no Direito onde cabe uma definição ainda mais restrita e com uma aplicabilidade muito concreta, estando estabilizada e relacionada com a componente económica e de valorização mais material do que emocional. Há uma outra área científica onde o Património atinge hoje o seu arquétipo. O Património Natural. Esta é sem dúvida uma dimensão cuja herança não podemos reclamar como só nossa, porque não é um feito antropológico, mas antes porque a natureza foi generosa connosco e nos brindou com os recursos naturais que merecem a nossa contemplação e, acima de tudo, a nossa proteção e preservação. Neste capítulo, se Portugal por si só já é um clássico “cantinho no mundo”, Guimarães tem, no seu território, ex-líbris que devem ser elevados e reconhecidos como singulares, quer pela vida que traduzem, pela biodiversidade que concentram e pelos recursos que nos fornecem para viver, quer pela autenticidade e unicidade - a Montanha da Penha e o Rio Ave. Apesar deste último atravessar outros concelhos e dar um sentido mais coletivo e de partilha de responsabilidade na sua preservação, já a Penha, apesar de territorialmente localizada apenas no concelho, deve ser um património de todos. A natureza, os recursos naturais, as suas formas de viver e dar vida são, hoje, um Património que apesar do seu reconhecimento social e político, têm ainda um longo caminho pela frente, na componente global e jurídica para virem a ser mais protegidos. Ainda assim, a sociedade, no geral, já olha e age de maneira diferente para com a natureza – mais protecionista. Mas estas formas de Património Natural, genericamente aceites e reconhecidas, são essencialmente terrícolas, ainda que sejam extremamente positivas por inspirarem modelos ecosociais sustentáveis. Podíamos pensar ficar por aqui e acharmos que estão esgotadas todas as dimensões patrimoniais, mas não. Há um outro nível, que pode parecer demasiado exotérico, mas, na verdade, é hoje sustentado em evidências científicas. Se olharmos à nossa volta... pararmos... pensamos que realmente não encontramos mais elementos que pudéssemos perpetuar no planeta. Talvez o Amor, a Felicidade, a Saúde, os Afetos, a União, a Família fossem alguns sentimentos ou valores que pudéssemos querer perpetuar, e fossem também considerados uma espécie de Património Emocional, pois sem eles não conseguimos manter a cola da sociedade. Mas, na verdade, na esfera da natureza, há uma dimensão que não conseguimos ver, ouvir ou sentir, mas que sem ela nós não existiríamos. A dimensão climática que tem vindo expressar-se sob a sua forma de desastres naturais, cujos impactos podem ser devastadores e irremediáveis, é por ventura o Património Global e Planetário mais importante e

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evidente para a nossa sobrevivência. Sem a temperatura estável terrestre, sem os gases e matérias que compõem atmosfera, sem o ciclo da água, sem as estações do ano, sem a biologia, a física e a química existente entre átomos e partículas não seria possível a Vida. A época que agora finda é o Holoceno, o mais longo ciclo climático estável que o planeta conhece. O período que manteve uma biodiversidade de espécies impressionante e que manteve viva a Humanidade. Atualmente, vaticinado pelos cientistas, entramos na época do Antropoceno, o primeiro momento em que o sistema climático começa a sofrer alterações e é destabilizado por ação coletiva do Homem. Quer isto dizer que cada dia que passa, cada ano e cada década, estamos a esgotar os Recursos Naturais das próximas gerações e com isto encurtar a nossa estadia na Terra. Uma morte lenta, portanto. Uma destabilização que nos leva muito devagar para o abismo do aquecimento global, a subida da temperatura e do nível de água do mar, a acelerada erosão costeira, as ondas de calor, secas prolongadas em contraste com chuvas fortes e intensas, mais curtas e mais frequentes, provocando Foto: Nelson Garrido in Jornal Público. cheias, inundações e desabamentos, tempestades, ciclones e tantos outros desastres e riscos provocados pelas alterações climáticas. O Sistema Climático Terrestre é o chamado “software base operativo” do Planeta Terra e sem este Património Comum simplesmente desaparecem todas as outras dimensões de património, mas também da vida. Se entendermos que Património é, afinal de contas, aquilo que devemos proteger e preservar face ao risco de detioração ou perda, então é urgente elevar o nosso sistema Climático a Património.

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Penha - Património Natural de Guimarães e Mundial da Humanidade Manuel Roriz Mendes Juiz da Irmandade da Penha

PENHA, património natural e geológico, encerra uma geodiversidade com 300 milhões de anos e é de grande interesse pelo seu valor científico, didáctico, cultural, estético e turístico. (Augusta Pinto, 2012). O Monte da Penha pode considerar-se um lugar priveligiado ao permitir identificar um determinado número de acções de carácter deposicional desde, pelo menos, o segundo quartel do III milénio AC, ou seja, desde o Calcolítico, passando pela Idade do Bronze ou, eventualmente, durante a própria Idade do Ferro. Em termos históricos, o impacto do “acidente natural” da Penha enquanto ícone religioso está bem patente desde o séc. XVI com a construção da capela de Santa Catarina. (Ana M. S. Bettencourt e Lara Bacelar Alve – Dos Montes, das Pedras e das Águas, 2012). No início do séc. XVIII (1702), o planalto da Penha, cumeeira então apelidada de Serra de Santa Catarina, foi ocupada por um ermitão, italiano de origem, que escolheu este sítio para se fixar numa das várias grutas naturais existentes de características singulares. Encontrada a gruta, aplana a terra, encomenda uma imagem da virgem e requer à Câmara Municipal a concessão de porções de terreno e água para se alimentar e decedentar.

Montanha da Penha em 1839, vista da cidade.

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Estes atos constituem o momento fundador da Gruta-Ermida da Senhora do Carmo da Penha. Na morte do ermita, o Rei de Portugal D. João V emite uma provisão régia que ordena seja dada posse da Gruta-Ermida e mais pertences aos monges carmelitas calçados, na pessoa de Frei Joaquim de Santo Elias, cujo registo foi efectuado na Câmara de Guimarães. No séc. XIX (1867) iniciam-se as reuniões para a formação da Irmandade e elaboraram-se estatutos que foram aprovados somente em 1872, já depois de iniciados os trabalhos de recuperação, restauro e embelezamento da Penha. O Vaticano, através do Papa Pio IX, concede Indulgência Plenária aos fiéis que visitem a Gruta de Nossa Senhora do Carmo. A aprovação do Plano de Aformoseamento do gerente da Real Companhia Hortícolo-Agrícola Portuense, no início da construção do Templo da Imaculada Conceição e do Grande Hotel da Penha, para além das publicações do Reverendo Padre António José Ferreira Caldas e da Aurora da Penha, são o motor da construção do actual parque natural. No séc. XX (1906-08) inicia-se a arborização com plantação de árvores autóctones e a construção de dois reservatórios para receber e distribuir a água das nascentes. A Câmara Municipal manda abrir a estrada panorâmica da Costa(1916). Neste período, desenvolve-se mais a arqueologia, concretiza-se o parque natural arborizado, fazem-se os percursos labirínticos por entre a penedia e edifica-se o actual Hotel da Penha, depois de ter sido sanatório durante o período da febre espanhola . Em 1923 o Governo, pelo Dec.-Lei 8894, de 05 de Agosto, classifica a Estância de Turismo do Local da Penha, cuja Junta de Turismo é criada pelo Dec.-Lei 27424, em 31 de Dezembro de 1936. No início do ano de 1930 é aprovado o projecto do Monumental Santuário Eucarístico e Mariano da Penha projeto da autoria do Arqiteto José Marques da Silva, que afirmou: “Gostava de fazer qualquer coisa de próprio e adequado, de expressão e de moderno. Pensava num edifício de carácter particular e muito próprio da situação que ocupa e muito especial para que pudesse ser visitado com interesse igual ao que arrasta lá acima, à montanha, os que vão admirar e estranhar pela natureza”, objectivo plenamente conseguido e inaugurado em 1947. Em 1953 o Governo declara a Penha como Imóvel de Interesse Público.(Dec.-Lei 39175, de 17 de Abril). Em 1988 foi aprovado pela Câmara Municipal o “Plano de Pormenor da Penha (Arq. Carlos Prata) que alavancou a construção do Teleférico da Penha, aberto ao público em 11 de Março de 1995, projeto da autoria do Arq. Noé Diniz.

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A cidade e a serra, como quem diz, Guimarães e a Penha, são locais de vivência pontuados por uma poética dos espaços, tornada intíma pelos seus habitantes. O bucolismo da Penha é, todo ele, resultante de uma natureza construída, lenta e zelosamente, por essa relação mágica criada entre os homens e a geografia e que dá a ambos, ser social e montanha, o fulgor existencial, a que não faltam os apelos de religiosidade, lugar preenchido pela crença enquanto ponto divino eleito para expressão da fé . Subir à cumeada é aceder a uma limpidez de inteligência e de sensibilidade, a uma dilatação do conhecimento à proximidade do divino. (Esser Jorge Silva – Teleférico da Penha – imaginário e realidade, 2013). O processo de classificação de “Penha Paisagem Protegida” está em curso. Milhares de Vimaranenses, ao longo de mais de quatro séculos, com esforço e sacrifício abraçaram a causa “Penha”. Em face disso é chegado o momento de deixar um desafio aos responsáveis da nossa comunidade para, junto da UNESCO, obter a classificação de Património Mundial da Humanidade.

Vista panorâmica da Penha e da cidade em 2021.

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PATRIMÓNIO SOCIAL

O Património Social de Guimarães - espaço de solidariedade intergeracional Paula Oliveira Vereadora da Ação Social e Espaço Municipal para a Igualdade

Temos orgulho em Guimarães, no nosso Património, na nossa História. Mas temos ainda mais orgulho nas nossas gentes, nas nossas Instituições. São as pessoas que dão sentido à nossa existência. O Setor Social e Solidário em Guimarães, composto por Associações, Cooperativas, Casas do Povo, Centros Sociais Paroquiais e não Paroquiais, Misericórdias… constitui uma das nossas maiores riquezas e um verdadeiro Pilar do Estado Social. Prosseguindo a sua Missão e Visão, as instituições que lhe dão corpo promovem a diversidade, a inclusão, a participação, a proximidade, a solidariedade e a subsidiariedade. São estes valores humanistas, a utilidade social e económica e os espíritos empreendedores, e de inovação, que constituem o ADN das nossas Instituições. Quando nos referimos à relevância deste Setor Social e Solidário, referimo-nos ao sistema de proteção social garantido pelos múltiplos equipamentos e valências para crianças, jovens, adultos e pessoas idosas, bem como por todos aqueles que estão ao seu serviço, em todas as freguesias do nosso concelho. A relevância do Setor Social obteve a sua maior visibilidade durante o combate à pandemia de Covid-19. A sua ação mereceu, e merece, os mais altos agradecimentos e reconhecimentos. Um agradecimento e um reconhecimento mais do que justo, além de necessário, motivo pelo qual a Câmara Municipal de Guimarães lhe atribuiu a medalha de mérito social pelo serviço de excelência e proximidade prestado a todos: utentes das instituições, famílias e comunidade em geral. O Setor Social, conhecedor do terreno, soube preparar-se para garantir uma eficaz proteção dos mais vulneráveis. Um trabalho diário de superação, em que se destaca não apenas o espírito solidário no combate a este flagelo, mas também a partilha de responsabilidades que todas as instituições de Guimarães promovem durante estes tempos tão difíceis e exigentes. Uma responsabilidade partilhada com os serviços da 432


autarquia e com as associações, materializada através da utilização conjunta de recursos, espaços, viaturas e equipamentos, revelando capacidade de (re)adaptação e de (re)invenção. Um combate em que a maisvalia foi, indubitavelmente, a existência de uma permanente responsabilidade coletiva. Temos, em Guimarães, um Setor Social forte e consolidado. Temos uma grande rede de apoio social de proximidade, que todos os dias trabalha em nome, e por causa, das pessoas. Nada mais o move. Um Setor Social composto por homens e mulheres, dirigentes sociais, colaboradores, de grande competência e enorme dedicação, a quem toda a sociedade muito deve. Muitos são voluntários, com um coração do tamanho do mundo, que muitas vezes renunciam aos seus tempos livres, ao tempo que poderia ser destinado às suas famílias, para se dedicarem em absoluto, e de um modo solidário e abnegado, às famílias e, sobretudo, aos mais vulneráveis, aos “descartados”. Um trabalho realizado sem qualquer contrapartida financeira, mas apenas porque abraçaram ter como Missão o serviço aos outros. É esta a realidade e a força do Setor Social, um setor solidário na proteção às famílias que mais precisam e no desenvolvimento social, cultural e económico em Guimarães. É também importante referir o inestimável contributo que é dado pelas nossas IPSS para a coesão territorial, para a redução das assimetrias, para a promoção da equidade e para o desenvolvimento da economia local. São as IPSS que estão mais bem preparadas para atuar e responder socialmente, através de uma colaboração mútua, fazendo com que todos nelas confiem e acreditem. De entre os muitos desafios que se colocam às nossas instituições, opto por falar dos desafios sociais. Não podemos deixar “afundar” as gerações de hoje e as vindouras. Temos de atuar transversalmente e convocar todos para este desígnio: o combate à pobreza nas suas múltiplas vertentes. Além deste desafio, outros há que devem merecer a nossa atenção: o desafio demográfico, provocado pelo aumento da esperança média de vida da população e pela diminuição da taxa de natalidade, e os desafios da inovação, da transição digital, da capacitação e da autossustentabilidade. A importância das IPSS não se restringe ao tecido social puro e duro. Há uma dimensão económica que se pode encontrar em questões como a geração de emprego, direto e indireto. As IPSS são entidades empregadoras, dinamizadoras do desenvolvimento local e regional. Elas são também entidades parceiras na definição, planeamento e efetivação das políticas públicas no domínio da Ação Social. É através da cooperação e complementaridade entre o Governo, as autarquias e as IPSS que as políticas públicas produzem efeito. É através de um trabalho em Rede, e de um modelo de gestão social integrado, que se aumenta o bem-estar e a felicidade dos cidadãos, dos Vimaranenses. Ainda estamos em tempo de pandemia, mas vivemos agora tempos de maior esperança. Tempos de

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alegria, abraços, afetos e convívios. Precisamos de regressar à vida que tínhamos por normal, a fazer a festa e a celebrar a vida. Enquanto parceiro, e respeitando a autonomia e especificidades de cada instituição, o Município prestou e prestará todo o apoio necessário, a nível financeiro e logístico. Uma relação que se pauta pelo respeito mútuo. Uma relação próxima e de profundo reconhecimento, admiração e gratidão. Continuaremos a trabalhar com todos e para todos, para sermos um território amigo das pessoas, um concelho solidário e generoso, uma terra onde todos tenham condições para viver, para serem felizes. É o grande desafio que abraçamos.

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Educação Patrimonial e o sentido de pertença Patrícia Ferreira Psicóloga | Educação Câmara Municipal Guimarães

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo… Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque sou do tamanho que vejo E não do tamanho da minha altura… Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.”29

Qualquer aldeia, qualquer cidade ou País representa um conjunto infindável de memórias construídas pelas diferentes peças que integram a sua história. São as suas gentes, as suas pedras, as suas edificações e os contos que a compõem, que lhe atribuem sentido. Que (re)contam infinitamente os fragmentos de tudo que somos, de onde viemos. Saber da história não reflete o tanto que esta nos importa ou o que esta nos impacta. Aprendemos nos compêndios da escola as notas de referência da criação de um país e da sua evolução ao longo dos tempos. Aprendemos a reconhecer o território e as suas personagens; a evocar o percurso e as situações que pautam a criação de uma existência e da sua realidade construída, assente no saber de todos os que se dedicam a reunir factos e a traduzir os mesmos numa linguagem que possa ser aprendida e invocada por todos; a recordar e a enumerar os eventos significativos da história coletiva. Concomitantemente, e porque o conhecimento não se faz só através dos livros e aprendizagens formais, vamos aprendendo ao longo da vida partes de uma outra estória e de um outro caminho, pela convivência com os nossos; por ouvir recontar contos e lendas sobre sítios e pessoas em torno de gente mais concreta. Estes pedaços fazem-se de uma descoberta mais individualizada, mais personalizada e a partir de nós e da nossa experiência. 29

Alberto Caeiro | Pessoa, F. “O guardador de rebanhos”, In Poemas de Alberto Caeiro. Lisboa: Ática. 1946 (10ª ed. 1993). P.32.

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Esta educação de que falo, que se complementa significativamente por meio de ligações entre distintos interlocutores, com intencionalidades diversas, mais ou menos formais, impactam profundamente no sentido de construção de identidade a variados níveis. Saber quem somos, está também intrinsecamente ligado aos nossos lugares. As ligações afetivas e emocionais não se fazem só com pessoas, outrossim com os espaços a que julgamos pertencer. É assim que “somos do tamanho do que vemos”. A Educação Patrimonial assume, pois, um lugar preponderante para a nossa construção pessoal. Os referenciais educativos emanados ao longo destes últimos anos, bem como as novas políticas educativas que reportam à necessidade de assumir projetos educativos mais abrangentes, promotores de uma cidadania mais ativa, interventiva e que prepare os alunos para o desenvolvimento de novas competências para fazer face aos desafios da atualidade, encontram eco na efetividade positiva dos projetos desenvolvidos localmente. Em Guimarães, e após diagnóstico fundamentado num conjunto de apreciações dos intervenientes educativos locais, ressaltou a necessidade de promover uma resposta para algumas lacunas em termos da educação para a cultura e o património locais. Guimarães, cidade dotada de uma das mais significantes referências para o nosso País, a da fundação e do berço da nacionalidade, possui atrativos para quem gosta de formas vivas de aprendizagem. Cidade Património da Humanidade, distinção atribuída pela UNESCO,30 em 2001, detém monumentos de indubitada e elevada significância para visitantes de todos os quadrantes e idades. No seio da nossa comunidade escolar e na comunidade mais alargada, o Castelo de Guimarães é uma imagem presente e sedimentada no elenco da identidade local. Aprofundando mais esta exploração e noção de conhecimento, resultou na observação de que uma representativa parte da população escolar e comunitária reconhecia, mas não havia tido oportunidade, por fatores diversos, de visitar ou conhecer este ou outros monumentos e equipamentos locais. Se pensarmos que muito do que somos resulta das construções pessoais que referi anteriormente e que estas têm origem nas vivências, aprendizagens, experiências e apropriações individuais, racionais e emocionais das mesmas, sobressai, obviamente, a urgência de promover uma educação patrimonial mais ajustada. Assumir a importância da Educação Patrimonial implica a assunção da criação de respostas, em articulação com as escolas, que potenciem a formação de crianças e jovens sensibilizados para o conhecimento, valorização, preservação e divulgação do seu património. O património, nas suas diferentes vertentes,

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Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

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material e imaterial, natural ou construído, constitui um recurso extremamente rico e diverso para a exploração educativa e afim ao trabalho multidisciplinar, contribuindo para a consciencialização individual e coletiva de uma realidade próxima e fundamental à exploração da história. A educação, na sua dimensão formal ou informal, deve assumir um papel central no processo de desenvolvimento global, contribuindo para a construção de um saber mais consciente, mais crítico, mais proativo e interventivo sobre as dimensões da aprendizagem e sobre os contextos de vida e experienciais das crianças e jovens. A importância do saber histórico e patrimonial, que se quer alargado a todo o território, deve contribuir para a ativação da motivação para a preservação de um património que é comum. Uma criança que não conhece o seu território apropriadamente não será capaz de criar uma identidade forte com o mesmo. Um adulto que não explora o seu território, resultará num adulto que não cria raízes sólidas com o mesmo. Se as ligações que estabelecemos não são alimentadas pelo conhecimento, então não seremos tão capazes de defender, promover e proteger o nosso lugar, porque dele não temos o sentido da apropriação. Seremos tão menos intencionalmente exploradores do mundo, quanto menos tivermos sido exploradores do nosso meio. Assim nasce o projeto (Re)Conhecer Guimarães. Este projeto foi pensado para poder colmatar as lacunas observadas, para poder fomentar uma maior conexão entre as crianças e o território alargado em que vivem, para fomentar a igualdade de oportunidades e a inclusão; para alcançar uma efetiva equidade. Importa perceber que Guimarães possui um território com múltiplas realidades e contextos e que as oportunidades se vêm muitas vezes coartadas, não pela vontade, mas por circunstâncias naturais no acesso. E foi perante estas que se pretendeu agir, diminuindo lacunas, muitas vezes involuntárias e menos conscientes, na presunção de que pertencer a um território é o garante de que o conhecimento, o acesso e a informação estão inscritos no percurso dos seus cidadãos. A dimensão de tornar próximo de todas as crianças uma realidade patente a vários níveis e de diversa índole, foi mote da criação deste projeto, que introduziu nas escolas um conjunto de roteiros para cada ano letivo. Deste modo, revelou-se essencial criar as condições para que todas as crianças do concelho, independentemente da sua origem ou condição, pudessem aceder, em igualdade de circunstâncias, a um conjunto de lugares e equipamentos considerados relevantes ao nível cultural e patrimonial. Todo o projeto foi estruturado para que as escolas pudessem promover a atividade com todos os seus alunos, mormente ao nível da organização e cedência do transporte e, obviamente da informação prévia necessária ao seu enquadramento e organização das visitas escolares.

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O (Re)Conhecer Guimarães foi pensado para alunos do 1.º ao 6.º ano de escolaridade, para cada um dos quais foi decidido um local de visita, garantindo que cada aluno, no seu percurso escolar até ao 6.º ano, tivesse tido acesso a todos os lugares definidos. A estruturação dos locais para cada ano de escolaridade foi pensada da seguinte forma: 1.º ano – Castelo de Guimarães; 2.º ano – Paço dos Duques; 3.º ano – Centro Ciência Viva de Guimarães; 4.º ano – Museu Alberto Sampaio e Centro Fig. 3 - Visita ao Centro Internacional das Artes José de Guimarães (Fonte: CâHistórico; mara Municipal Guimarães). 5.º ano – Citânia de Briteiros e Museu da Cultura Castreja; 6.º ano – Casa da Memória de Guimarães e Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Os locais selecionados pretendiam abranger um (Re)Conhecimento do território alargado e de referências históricas e culturais significativas para o concelho, envolvendo não só a dimensão do património material, mas também a dimensão imaterial e do conhecimento científico, fomentando, deste modo, uma exploração proaFig. 3 - Visita ao Paço dos Duques (Fonte: Câmara Municipal Guimarães). tiva dos lugares e equipamentos culturais concelhios. Cada visita foi devidamente preparada e articulada com as Instituições reportadas, sendo que, para cada uma destas, se encontrava preparado um roteiro de visita e atividades de consolidação das aprendizagens realizadas e da experiência vivida, sempre na modalidade de visitas orientadas. Iniciado no ano letivo de 2014/2015, este projeto teve, no ano letivo de 2019/2020, o primeiro conjunto

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de crianças que no seu percurso escolar completaram o ciclo de visitas estruturadas, tendo alcançado o 6.º ano de escolaridade com um “passaporte” de exploração patrimonial mais rico e sustentado. Suspenso em 2020, devido à situação pandémica, constitui-se ainda assim como um projeto fundamental e de continuidade, com as necessárias adaptações que a cada momento devemos saber integrar para a sua melhoria sistemática. Aceder a esta diversidade de “pedaços” da história local, introduzir esta rotina na vida das escolas e dos nossos alunos, impactou de forma significativa na sua aprendizagem e na tradução destas aquisições e conhecimentos para o seio das suas próprias famílias. Efetivamente, estas visitas resultaram numa vontade adicional de exploração, num regresso aos locais na companhia dos pais e outros familiares. Da observação e análise do reflexo do projeto na comunidade escolar, traduzida também pelo maior reconhecimento e vontade de exploração intencional e motivada dos locais e da sua compreensão, da sua articulação com o curríFig. 4 - Visita ao Centro Ciência Viva de Guimarães (Fonte: Câmara Municipal Guimarães). culo, resulta numa avaliação extremamente positiva. Levar para fora de “portas”, para além dos muros da escola a aprendizagem tem um efeito transformador. A oportunidade de experienciar diretamente, de viva voz, o que se reconhece dos livros e compêndios escolares, de criar memórias reais e concretas, com significância pessoal e coletiva, de espicaçar a imaginação e gerar afetos com os sítios tem um valor inestimável para as crianças e jovens. Para os adultos também. É neste círculo que se cria o sentido de pertença, em que nos apropriamos dos locais e estes de nós. Se é verdade que o património é algo herdado, sobre o qual não tivemos influência direta, é igualmente verdade que cada comunidade deve refletir sobre ele e agir com propriedade, no sentido da sua manutenção, da sua preservação e da sua projeção local. Tal implica a assunção de direitos de usufruto, acesso e, de igual modo, de ações de proteção. É neste cômputo comunitário que comunicamos identidade e passamos a herança a futuras gerações. A memória patrimonial só se revela possível se todos reconhecerem a sua participação no bem comum,

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se todos agirem responsavelmente para a construção de uma cidadania coletiva. Assim, só o que entendemos como nosso se torna imprescindível e se revela essencial para a nossa experiência de vida individual e coletiva. Um trabalho sedimentado e bem fundamentado na articulação interinstitucional, em completa articulação com as escolas, agindo no sentido da complementaridade dos currículos escolares, reforçando as aprendizagens, deve ser uma aposta contínua de quem pode e deve assumir a responsabilidade da preservação da história local. Ao longo da vida vamos anexando camadas de saber aprendido e saber intuído, resultantes Fig. 5 - Visita à Casa da Memória de Guimarães (Fonte: Câmara Municipal das mais variadas circunstâncias a que a vida nos Guimarães). expõe, em diferentes contextos e com pessoas diversas. Criar inter-relações permite fazer conexões que nos ajudam a construir os seus significados e alocar a cada um de nós o lugar apropriado para a nossa história de vida. Neste processo, importa não olvidar qua a cada processo se adicionam emoções, que atribuem a todas as vivências o cariz de maior ou menor positividade, ou de maior ou menor duração na nossa memória. Cremos que as crianças que estiveram presentes em todas as fases deste projeto se tornaram crianças mais conhecedoras, com maior potencial de exercer uma cidadania mais consciente e, definitivamente, mais apaixonadas pelo seu território que, certamente, saberão difundir com qualidade e proteger com toda a garra que caracteriza os cidadãos de Guimarães.

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PATRIMÓNIO INDUSTRIAL

V Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia Fátima Silva Casa de Sarmento – Centro de Estudos do Património

No fim de semana de 10 e 11 de julho de 2021 realizou-se em Guimarães, nas instalações da Sociedade Martins Sarmento, o V Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia, no qual participaram mais de três dezenas de investigadores oriundos de Portugal, de Espanha e do Brasil. A organização deste encontro esteve a cargo da Sociedade Martins Sarmento, da Associação Portuguesa para o Património Industrial; da Casa de Sarmento – Centro de Estudos do Património; do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (UMinho); da Muralha - Associação de Guimarães para a Defesa do Património; do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta; do Agrupamento de Escolas Francisco de Holanda, assim como do Centro de Ciência Viva de Guimarães. Este encontro internacional organizou-se em sessões simultâneas, com a maior parte das intervenções em regime presencial e outras em modalidade virtual, através da plataforma ZOOM. Todas as intervenções foram transmitidas em direto no canal YouTube da Sociedade Martins Sarmento, onde podem ser visualizadas em https://www.youtube.com/channel/UC1-QxdSqC2wu5SZ1Z5Yav_A . As comunicações incidiram sobre os mais variados aspetos da indústria. Umas promoveram a divulgação da história e do espólio de diversas fábricas, como, por exemplo, da fábrica “Pátria” (Guimarães) ou até da Real Fábrica de Fundição de Sargadelos (Galiza). Outras abordaram a importância da preservação e difusão dos núcleos museológicos junto da população local, bem como a promoção de um turismo industrial, o qual se encontra em crescimento por toda a Europa. As consequências resultantes da existência dos núcleos industriais, tal como a poluição ou as transgressões, foram temas também debatidos pelos palestrantes. A análise arquitetónica e patrimonial de diferentes infraestruturas, das quais se pode fazer referência à comunicação relativa à piscina das Taipas, tal como àquela concernente ao Museu do Mar (Alcabre, Vigo), 441


complementou o panorama vivido durante todo o dia. A sessão de trabalhos foi acompanhada por diversos investigadores através das plataformas digitais, o que possibilitou uma difusão muito alargada deste encontro. Registamos várias participações do Reino Unido, da Bélgica e do Brasil. No final dos trabalhos foi aprovada, por unanimidade, uma Moção sobre a “Necessidade de um Plano Nacional para o Património Industrial”, que foi enviada ao Ministério da Cultura, Presidente da República, Primeiro Ministro, Grupos Parlamentares e Associação Nacional dos Municípios Portugueses, com o seguinte teor: “Moção aprovada no V Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia, organizado pela Associação Portuguesa para o Património Industrial / TICCIH Portugal e pela Sociedade Martins Sarmento. Guimarães, 10-11 de Julho de 2021. Da necessidade de um Plano Nacional para o Património Industrial Como é do conhecimento público em Portugal o património industrial encontra-se já há bastante tempo permanentemente sujeito a graves ameaças e destruições que se têm traduzido no desaparecimento de alguns dos exemplares mais significativos desta herança do processo de industrialização no nosso país. Esta situação é-nos transmitida regularmente pelos órgãos de comunicação social e, também, por outras entidades, como plataformas de cidadãos ou associações de defesa do património. Considerando: – que o património industrial nacional está a passar por um processo de graves ameaças que se podem traduzir na perda de alguns dos seus elementos mais importantes; – a necessidade de se proteger e conservar, nos casos em que se justifica, um património que assume uma importância fundamental para a compreensão histórica da actual sociedade; – que para além do património industrial imóvel se encontram igualmente ameaçados, e em muitos casos já inteiramente perdidos, equipamentos de interesse histórico e museológico, arquivos e outros bens moveis; – a importância que a salvaguarda do património industrial assume para os projectos em curso no

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âmbito do turismo industrial, uma das actuais apostas do Turismo de Portugal; – o interesse pedagógico que o património industrial encerra para os diferentes ciclos de ensino; – a inexistência de um Museu Nacional consagrado ao património industrial, como se verifica em todos os países da União Europeia; – que não tem existido, por parte das entidades oficiais responsáveis pelo património uma política consequente de estudo, salvaguarda, musealização e valorização do património industrial. Propõe-se a presente moção para que O Ministério da Cultura estude a possibilidade de, a curto prazo, se criar um Plano Nacional para o Património Industrial que, entre outros, tenha como objectivos: – a elaboração de um inventário sistemático do património industrial nacional; – a realização de estudos e acções com vista à conservação e valorização do património industrial; – a criação de uma Comissão Técnica para acompanhamento da concretização dos objectivos desse Plano Nacional.”

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Sobre o Museu da Indústria de Guimarães Manuel Martins

Guimarães é uma terra de indústria, verdade de hoje, bem antiga, porque é terra de indústria há centenas de anos. “É muito commercial; fabricam-se alli optimas obras de ferro, linha, doce seco, panno de linho, etc,etc. “em “Diccionario Geographico de...Portugal e Algarves”, Pedro José Marques, 1853 “… é commercial e laboriosa em obras de ferro e de linho; doce de ameixa e de figo...; cortumes, etc”em “Diccionario Geographico Abreviado de Portugal...”, Fr. Francisco dos Prazeres Maranhão,1862 “A sua maior importancia, porém, depois da sua história, consiste na indústria que a anima, e que é, principalmente, de cortumes, cutelaria e fiação. O linho de Guimarães é apreciado em todo o paiz e no estrangeiro. O seu commercio é, tambem, activissimo, realizando-se, aos sabbados, a mais importante das feiras semmanaes do Minho”, Em “Cidades de Portugal”, José Augusto Corrêa, 1907. Quando se realizou a Exposição Industrial de Guimarães de 1884, o seu grande objectivo, mais do que ser uma montra das indústrias de Guimarães e seu concelho, foi o de querer contribuir, chamar a atenção,

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para a necessidade de modernização face à concorrência, nomeadamente da Europa, que o processo acelerado da revolução industrial em curso, prenunciava. O principal responsável pela Exposição terá sido Alberto Sampaio, que conhecia o que a nível industrial estava a ocorrer na Europa. Por viagens efectuadas, conheceu as Exposições Universais de Paris e de Londres onde constatou o progresso industrial bem patente nessas e em outras (Berlim, Viena) grandes exposições que periodicamente se realizavam. Tal como nas Feiras de hoje, as Exposições Universais serviam para mostrar novos produtos e as novas máquinas e equipamentos que os produziam, em grandes quantidades e a preços tendencialmente mais baixos. Alberto Sampaio, com Antero Quental, nas visitas àquelas Exposições, constatara que a nossa produção artesanal não sobreviveria à concorrência das novas produções industriais europeias. A realização da Exposição de Guimarães, em 1884, não foi, assim, para acompanharmos as que já tinham sido realizadas em Portugal (Porto, Lisboa, Coimbra, Braga), mas contribuir para nos “prepararmos para o futuro”. Como dissemos, a qualidade do que se produzia em Guimarães, era da melhor e, desde há muito, reconhecida em todo o país; o que não era possível era concorrer com os preços de produção das “modernas máquinas a vapor”. Era, por isso, necessário investir em máquinas de produção mecanizada e, assim, era também preciso formação para os operários que iriam trabalhar com essas máquinas. Guimarães tinha consciência disso e a reivindicação de uma escola industrial já havia sido iniciada mais de vinte anos antes. A Exposição de 1884, como qualquer realização com ambição de objectivos, então como hoje, foi preparada com tempo: o Regulamento da Exposição foi aprovado pela Direcção da Sociedade Martins Sarmento, entidade promotora, em 1883. Assim, quando a Exposição foi inaugurada em Junho de 1884 houve tempo, competência e brio suficientes para apresentar produtos com a qualidade habitual mas, também, com esmero especial. O grande êxito da Exposição é conhecido: estiveram presentes cerca de 180 expositores de mais de 40 diferentes sectores. O Palácio de Vila Flor, onde o certame decorreu, recebeu “convidados ilustres”, muitos dos quais chegaram a Guimarães na, bem próxima, Estação dos Caminhos de Ferro, recém inaugurada.

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Estiveram presentes, ao longo dos dias da Exposição, representantes da imprensa local e regional, mas também de jornais de Lisboa e do Porto que deram notícia do acontecimento e do seu êxito.

Quadro estatístico da indústria de Guimarães em 1884 (parcial)

Sabemos com pormenor como tudo aconteceu porque, sobre a Exposição, foi elaborado um extenso Relatório (255 páginas) que nomeia cada expositor e os seus produtos, que inclui uma parte final, “Opinião da imprensa”, que reproduz, em 120 páginas, notícias sobre a Exposição. O objectivo da Exposição tinha um item suplementar: em 1881 tinha sido realizado um inquérito industrial de âmbito nacional cujos dados referentes a Guimarães, na opinião dos vimaranenses mais bem informados, não reflectiam a realidade da nossa indústria. Por isso, a Exposição serviu, de facto, para repor toda a importância, variedade e qualidade das indústrias de Guimarães. O êxito e os resultados da Exposição, para além do que a imprensa de imediato deu notícia, foi significativo: a) A reivindicada escola industrial foi finalmente satisfeita, tendo sido criada em outubro, e a sua actividade iniciada em Janeiro de 1885; b) O representante do Governo que visitou a exposição, elaborou um relatório que consolidou e fortaleceu, no seio do Governo, a importância da indústria vimaranense; 446


c)

A modernização da indústria de Guimarães acelerou com a compra e instalação de máquinas a vapor, que rapidamente contribuíram para melhorar a sua competitividade, o que as Exposições de 1910 e de 1923 vieram confirmar. A importância actual da indústria de Guimarães assentará, sem dúvida, em fundações que, em parte, remontam à realização da Exposição de 1884 e à visão precursora e estratégica como foi pensada e projectada. A Escola Francisco de Holanda e o Museu da Indústria de Guimarães A ligação da Escola Francisco de Holanda, casa dos Cadernos Osmusiké, e o património industrial, é forte, antiga e natural. Não serei exaustivo, mas junto alguns motivos que serão relevantes. 1. A sua designação inicial de “Escola Industrial “permite classificar essa ligação como, de facto, umbilical. Os museus de indústria em Portugal, nos finais do sec. XIX, foram pensados, e concretizados no Porto e em Lisboa, para serem de apoio pedagógico fundamental às escolas industriais. A Sociedade Martins Sarmento (SMS) aprovou, em Maio de 1899, a criação do Museu Industrial de Guimarães para apoio, também, da Escola Industrial de Guimarães. Ainda que o Museu acabasse por ter uma existência efémera, a ligação entre a Escola e a SMS era também, como sabemos, umbilical: a criação da Escola, após reivindicação empenhada e persistente, tinha partido das “forças vivas” da cidade, parte das quais iria fundar a Sociedade Martins Sarmento, com o objectivo de promover a “instrução em Guimarães”. Este desígnio, assentava em duas realidades que pesavam no futuro de Guimarães: a antiga e secular importância industrial de Guimarães corria graves riscos porque, em todos os sectores, a produção era exclusivamente manual e, por isso, definharia com a concorrência de produtos saídos de fábricas europeias com intensa mecanização. A indústria de Guimarães precisava de máquinas e precisava também de operários com (mais) escolarização – 80% da população era analfabeta. A indústria precisava de operários “com escola”,

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a SMS nasceu, também, com esse objectivo: as primeiras aulas da Escola Industrial tiveram lugar em instalações da SMS e o ensino nocturno foi, desde o início, criado para permitir o ensino a operários após a sua jornada de trabalho. 2. A realização da Exposição Industrial e Agrícola de Guimarães, em 1923, é outro momento fundamental dessa ligação: a Exposição, da responsabilidade da Associação Comercial de Guimarães, foi realizada na sequência das de 1884 e de 1910, para mostrar a crescente importância da nossa produção; teve lugar nas instalações da Escola Industrial, neste local que, ainda hoje, ocupa. 3. Mas, se a “Francisco de Holanda” perdeu, entretanto, as funções e designação de industrial mantém, de forma exemplar, um valioso espólio de memórias, documentos e equipamentos, parte dele desde a sua criação em 1884. O que torna esse espólio ainda mais extraordinário é o facto de ter mudado várias vezes de instalações, com uma remodelação já no presente século. O Museu da “Francisco de Holanda” é razão de justificado orgulho para a Edifício da Escola Industrial onde se realizou a Exposição, Idem. sua comunidade escolar, nomeadamente a que nele tem trabalhado e que o torna em excelente exemplo nacional. 4. Tem justificação que lembre, pela sua importância, mas também pelo seu extraordinário simbolismo, nesta ligação ao tema “património industrial”, que o Museu da “Francisco de Holanda” inclui, no seu espólio, as cutelarias que António Arroio comprou na Bélgica, em Namur, em 1888, para serem usadas no ensino do fabrico das cutelarias, em Guimarães. Além das cutelarias, o Museu tem ainda um Catálogo e a própria factura da compra efectuada. É desnecessário encarecer o que estas peças valem e representam para Guimarães que é, hoje, o único fabricante de cutelarias de mesa em Portugal e o maior e melhor produtor europeu de cutelarias. 5. Já neste ano de 2021 (11 de Julho) as dezenas de participantes do V Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia, tiveram oportunidade de visitar este Museu da Escola secundária FH, sobressaindo, assim, a estreita ligação entre o tema do Encontro internacional e parte substancial do espólio exposto; a Escola secundária FH integrou a organização do Encontro Internacional. Quer o convite a esta

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Escola, para participar na organização do Encontro, quer a visita ao Museu, constituíram, com certeza, uma homenagem aos obreiros do Museu da Escola Francisco de Holanda.

Actividades desenvolvidas em Guimarães no âmbito do património industrial I - Exposições 1. (1976/7) Exposição sobre a indústria de curtumes na zona de Couros (Museu de Alberto Sampaio) Local – Museu de Alberto Sampaio 2. (1984) Guimarães 1884 /1984 (Museu de Alberto Sampaio) Local – Museu de Alberto Sampaio 3. (1986) Mostra Bibliográfica sobre Arqueologia Industrial (Museu de Alberto Sampaio / Muralha – Associação de Guimarães para a Defesa do Património Local – Museu de Alberto Sampaio 4. (1989) Património Comercial de Guimarães (Associação Muralha) Local – Associação Comercial e Industrial de Guimarães 5. (1990) Património Comercial e Industrial de Guimarães (Associação Muralha) Local – Sociedade Martins Sarmento 6. (1991) Património Industrial de Guimarães (Museu de Alberto Sampaio / Associação Muralha) Local – Museu de Alberto Sampaio 7. (2013) Guimarães: A Tradição das Cutelarias (Associação Comercial e Industrial de

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Guimarães / Museu de Alberto Sampaio) Local – Associação Comercial e Industrial de Guimarães 8. (2013) Edifícios e Vestígios (C.E.C. 2012) Local – Fábrica ASA 9. (2017) Mostra de Património Industrial – Cutelaria e Plástico (Associação Comercial e Industrial de Guimarães) Local – Associação Comercial e Industrial de Guimarães 10. (2021) Mostra de Património Industrial – Antiga Fábrica Pátria (Sociedade Martins Sarmento) Local – Sociedade Martins Sarmento II – Visitas guiadas a património industrial 1. (1986) Fábrica de Curtumes da Madroa 2. (1986) Fábrica de Cutelarias Herdmar 3. (1986) Zona Industrial de Pevidém 4. (1991) Fábrica do Moinho do Buraco 5. (2015) Fábrica de Pentes de Chifre 6. (2015) Fábrica de Curtumes de Roldes 7. (2017) Chaminés Industriais no Concelho 8. (2021) Museu da Escola Francisco de Holanda 9. (2021) Zona de Couros 10. (2021) Fábrica de Curtumes Âncora / Centro de Ciência Viva de Guimarães III – Edições sobre património industrial 1. Técnicas de Construção Tradicional – Tintas, 1982, Museu de Alberto Sampaio/Muralha; 2. Os Moinhos, 1896, Sousa Viterbo. edição fac-similada, 1986, Associação. Muralha; 3. De Bougado a Guimarães 1874, Eduardo Moser, ed. fac-similada 1986, Associação. Muralha; 4. Relatório da Exposição Industrial de Guimarães em 1884, edição fac-similada 1991, 5. Muralha – Associação de Guimarães da a Defesa do Património; 6. Catálogo da Exposição” Guimarães: a Tradição das Cutelarias, 2013, A.C.I.G.; 7. Catálogo da Exposição “Edifícios e Vestígios “, 2012, C.E.C.2013; 8. Os Mesteres de Guimarães I, 1939, A.L.de Carvalho; edição fac-similada, 2013,

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9. Associação Comercial e Industrial de Guimarães; 10. Museu da Indústria de Guimarães - Disposições Regulamentares, 1900, Sociedade Martins Sarmento, 11. edição fac-similada 2015, Sociedade Martins Sarmento; 12. A Indústria Vimaranense, 1884, Sociedade Martins Sarmento; edição fac-similada 2015, 13. Sociedade Martins Sarmento; 14. 6 Fotografias do Espólio da Muralha, 1906/1940; impressão 2015, Sociedade Martins Sarmento; 15. Actas do III Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia, 16. 2017, Sociedade Martins Sarmento; 17. Actas do IV Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia, 2021, Sociedade Martins Sarmento. A Exposição “Guimarães: a tradição das cutelarias” Esta Exposição, enquadrada numa iniciativa que incluiu diferentes actividades complementares, foi realizada para abordar uma das mais tradicionais e importantes actividades industriais de Guimarães. A forma como foi concretizada, pelo menos em parte, justificará o bom acolhimento, até apreço, que mereceu de quem a visitou e, mais ainda, pelas muitas instituições e cidadãos que colaboraram. Sem entrar em detalhes dos aspectos cuidados como foi sendo concretizada, façamos breve síntese: - 18 Instituições colaborantes, na maioria de Guimarães; - 160 cidadãos que emprestaram peças/objectos (cutelarias, embalagens, folhetos, etc); - 2000 peças recolhidas e inventariadas; - 600 peças expostas; - 4000 visitantes; - 1 catálogo da exposição editado; - 1 catálogo de marcas de cutelarias de Guimarães; - edição fac-similada de Os Mesteres de Guimarães I. A.L.de Carvalho (cutelarias/).

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Factura de aquisição de peças de cutelaria, espólio da Escola Secundária Francisco de Holanda.

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De uma forma geral, cada uma das realizações foi bem sucedida, mas merece especial destaque o facto de, no total, ter havido cerca de 200 emprestantes, particulares e colectivos, o que permitiu realizar, com diversidade e com qualidade, a primeira grande exposição pública de cutelaria antiga de Guimarães. Um dos objetivos da iniciativa foi o de contribuir para nos aproximarmos da concretização do projecto do Museu da Indústria de Guimarães; foi com este enquadramento que todos os emprestantes foram contactados. Por isso, foi motivo de especial satisfação para as principais entidades envolvidas – A.C.I.G., Museu de Alberto Sampaio, Sociedade Martins Sarmento – poderem registar que mais de 120 emprestantes, instituições e particulares, converteram o seu empréstimo em doacção “para o Museu da Indústria de Guimarães – Núcleo de cutelaria”. O trabalho realizado sobre as cutelarias de Guimarães prolongou-se por muitos meses, antes e depois do tempo (6 meses) em que decorreu a Exposição: não ficou nenhuma “História da Cutelaria de Guimarães”, claro que não, mas ficou a saber-se muito mais sobre esta tão afamada indústria vimaranense. Sem pretender fazer nenhum balanço da iniciativa, sejam-me permitidas mais algumas linhas, para relatar dois aspectos relevantes: I. Há mais de 200 anos, no começo do século XIX, a Câmara de Guimarães decidiu proibir a venda, em lojas do concelho, de cutelaria de Braga. Embora a tradicional rivalidade seja bem mais antiga do que esta proibição pela Câmara de Guimarães, essa rivalidade não pesou da decisão. O que a Câmara quis defender, foi a boa fama das cutelarias locais, reconhecidas como as melhores do reino; por isso, comprar em Guimarães, cutelarias de outras origens significava “comprar gato por lebre”, com prejuízo para o comprador e dano para a fama da nossa cutelaria. II.

O outro aspecto a registar, tem a ver com os empresários locais, neste caso os das cutelarias. A concorrência entre fabricantes é natural em qualquer sector o que, na prática, transforma em dificuldade as convenientes situações de associação, colaboração ou mera conjugação; Alberto Sampaio, no Relatório da Exposição de 1884, registou essa dificuldade de cooperação. Pois, a realização desta exposição de cutelaria antiga, proporcionou que todos os (então) 12 fabricantes de cutelaria de Guimarães, se tivessem conjugado e, assim, participado, expondo em pé de igualdade, o melhor da sua produção actual.

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A antiga fábrica do Moinho do Buraco Esta antiga fábrica, em Pevidém, dos finais do século XIX, teve um caminho de sucesso de quase 100 anos, antes de ser integrada na Sociedade Têxtil Lopes Correia. Todavia cessaria a laboração em 1991. Foi nessa situação que foi organizada uma Visita Guiada às suas instalações. As características que as amplas instalações, divididas por diversos edifícios de diferentes tamanhos e épocas, eram invulgares, podendo ser resumidas, de forma aproximada, por: a) Uma área coberta superior a 9.000 m2; b) Com uma frente de rio (Selho) de 100 m; c) Uma Central Eléctrica, instalada em 1.906, em condições de perfeito funcionamento; d) Uma área de logradouro, com frente rio, com cerca de 10.000 m2; e) Escritórios, dos anos 1920/30, com a arquitectura e mobiliário originais; f) Oficinas de carpintaria e serralharia, bem equipadas; g) Habitação, do antigo proprietário, início sec. XX, em razoável estado de conservação. Este conjunto de instalações foi, então, considerado como reunindo boas condições, com algumas características não comuns, para ser convertido em Museu da Indústria de Guimarães. A Visita Guiada foi organizada pela Muralha – Associação de Guimarães para a Defesa do Património, já com a convicção de que reunia boas e adequadas condições de conversão em Museu da Indústria de Guimarães, nomeadamente: a) Área coberta suficiente para instalar núcleos das diversas indústrias que deverão ter representação no Museu (têxtil, confecção, curtumes, calçado, cutelarias, ourivesaria, plásticos); b) Área ainda bastante para dispôr de espaços para exposição/apresentação de artigos de produção actual; c) Idem para desfiles de moda; d) Idem para instalação de Escola de Design, especialidade de que carecia (e carece) toda a economia do concelho (e do país). O objectivo da Visita Guiada levou a que a Muralha a tivesse preparado com o cuidado que o seu objectivo estratégico justificava. Foram convidados representantes da Câmara Municipal de Guimarães, da Universidade do Minho, da Sociedade Martins Sarmento, da Associação Comercial e Industrial de Guimarães, da Junta de Freguesia de S. Lourenço de Selho; houve também empenho nos convites aos órgãos de comunicação social local, regional e nacional. Quase todos as entidades convidadas se fizeram representar. A

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visita contou com mais de 100 participantes, talvez a visita mais numerosa de todas as que, até então, tinham sido realizadas pela Associação Muralha. Em resultado da Visita, e do que no seu final foi aprovado, haveria de ser constituída, no âmbito do município, uma Comissão, integrando cada uma das instituições nomeadas, que tinha como objectivo procurar reunir as condições necessárias, nomeadamente as financeiras, para a compra da Fábrica do Moinho do Buraco e sua conversão do Museu da Indústria de Guimarães. O facto de todas as entidades terem aceitado o convite para a integrar significava, no mínimo, que o objectivo era credível e viável, podendo variar, naturalmente, o grau de envolvimento e empenho. Mas tudo, apesar das boas perspectivas iniciais, acabaria gorado, certamente com culpas principais para quem deveria assumir a responsabilidade central. O conjunto de todos os prédios e logradouro, acabaram vendidos por cerca de 400.000 euros. Trinta anos volvidos, o Museu da Indústria de Guimarães continua por concretizar, apesar de todas as insistências, formais e informais, por formas públicas e privadas, de eventos mais alargados ou restritos; nomeadamente, por parte da Sociedade Martins Sarmento, da Associação Muralha, da Associação Comercial de Guimarães, do Museu de Alberto Sampaio. Entretanto, todos os dias se vão perdendo, definitivamente, memórias relevantes, muitas insubstituíveis, cujo lugar deveria ser o de representar / testemunhar aquela era e continua a ser, há tantas gerações, o “ganha-pão” da maioria da população – a indústria de Guimarães. Guimarães importa-se com o seu museu da indústria? Se se quiser atender ao facto de não termos, ainda, nenhum museu industrial, daremos uma resposta; se quisermos atender ao número de vezes em que se importou, não haverá qualquer dúvida de que se importa, e muito! A listagem que se segue não tem a pretensão de ser exaustiva, pelo contrário, é sabido que não é. O que fica arrolado, tem a ver com memória pessoal e facilidade de acesso a formas de validação. 1. 2. 3. 4.

(1977) - Publicação, em Diário da República, do processo de Classificação das antigas fábricas de curtumes, como Imóvel de Interesse Público (Museu de Alberto Sampaio); (1978/9) - Exposição sobre a Indústria de Curtumes em Guimarães (Museu de Alberto Sampaio) (1982/4) - Compra de espólio fotográfico da Foto Moderna, c.7.000 negativos (Muralha – Associação de Guimarães para a Defesa do Património; (1984) - Exposição “Guimarães 1884/1984” (Museu de Alberto Sampaio);

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5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24.

(1986) - I Encontro Nacional sobre Património Industrial – Sessão Preparatória de Guimarães (Museu de Alberto Sampaio e Associação Muralha); (1989) - Exposição sobre Património Comercial de Guimarães (Associação Muralha); (1991) - Visita Guiada à Fábrica Do Moinho do Buraco (Associação Muralha); (1991) - Exposição Património Industrial de Guimarães (Museu de Aberto Sampaio e Associação Muralha; (1991) - Edição fac-similada de “Relatório da Exposição Industrial de Guimarães em 1884”, 1884 (Muralha – Associação de Guimarães para a Defesa do Património); (1991/2) - Constituição da Comissão Para o Museu da Indústria de Guimarães; (1992/3) - Compra de espólio da Fábrica do Moinho do Buraco (Associação Muralha e Câmara Municipal de Guimarães); (1994) - Exposição “Património Comercial e Industrial de Guimarães” (Associação Muralha e Associação Comercial e Industrial de Guimarães); (2002) - Edição “Património e Indústria no Vale do Ave, um Passado com Futuro” (Associação de Municípios do Vale do Ave); 14.(2012) - Exposição “Guimarães: a Tradição das Cutelarias” (Associação Comercial e Industrial de Guimarães /); (2012) - Edição do Catálogo “Guimarães: a Tradição das Cutelarias” (Associação Comercial e Industrial de Guimarães); (2012/13) - Recolha de doações de cutelarias, embalagens e documentos destinados ao Museu da Indústria de Guimarães – Núcleo de Cutelarias (Associação Comercial e Industrial de Guimarães); (2013) - Edição fac-similada de “Os Mesteres de Guimarães I”, A.L.de Carvalho, 1939 (Associação Comercial e Industrial de Guimarães); (2013/4) - Visita Guiada à antiga Fábrica de Pentes de Chifre (Junta de Freguesia de Caldelas); (2015) - III Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia (Associação Comercial e Industrial de Guimarães); (2015) - Edição fac-similada de “Museu Industrial de Guimarães – Disposições Regula- mentares (Sociedade Martins Sarmento); (2015) - Visita Guiada à Fábrica de Curtumes de Roldes (Associação Comercial e Industrial de Guimarães); (2017) - Solicitação de espaço/armazém para “recolha/salvaguarda de património industrial (A.C.I.G. / Sociedade Martins Sarmento / CICS.NOVA/U.M.); (2017) - IV Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia (Associação Comercial e Industrial de Guimarães /); (2017) - Edição das Actas do III Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia (Sociedade Martins Sarmento /);

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25. 26. 27. 28. 29. 30. 31. 32.

(2017) - Realização de Levantamento Topográfico a Chaminés Industriais de Guimarães (Associação Comercial e Industrial de Guimarães /); (2017) - Visita Guiada a Chaminés Industriais do Concelho de Guimarães (Associação Comercial e Industrial de Guimarães /); (2021) - V Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia (Sociedade Martins Sarmento /); (2021) - Edição das Actas do IV Encontro Internacional sobre Património Industrial e sua Museologia (Sociedade Martins Sarmento /); (2021) - Visita Guiada ao Museu da Escola Francisco de Holanda (Sociedade Martins Sarmento); (2021) - Visita Guiada à Zona de Couros (Sociedade Martins Sarmento); (2021) - Visita Guiada à Fábrica de Curtumes Âncora/Centro de Ciência Viva de Guimarães (Sociedade Martins Sarmento /); (2021) - Compra/obtenção de espólio industrial – peles curtidas – Fábrica de Curtumes de Roldes e Fabrica de Curtumes da Madroa (Sociedade Martins Sarmento /).

(Leitura da lista: Os primeiros números entre parenteses assinalam o ano de realização do descrito; mais do que uma data significa que o descrito se prolongou por mais do que um ano ou que não foi possível confirmar a data. No segundo parenteses de cada item identifica-se a Instituição responsável, ou principal responsável, pela realização. Quando a identificação termina com (/) significa que há outras instituições igualmente responsáveis, mas, por simplificação, não nomeadas).

O presente texto, não tem, claro, qualquer pretensão de academismo; teve apenas o objectivo de, compilando o que foi sendo feito, contribuir, indiretamente, para nos aproximarmos da concretização do Museu da Indústria de Guimarães. A situação do património industrial em Portugal não é, no geral, semelhante ao que temos no nosso concelho. É verdade que não há qualquer Museu Nacional, nem nenhuma rede nacional de Museus de Indústria; mas haverá mais de 100 Museus, na grande maioria de iniciativa municipal e, outros, de iniciativa empresarial. Esta realidade deixa-nos, pois, mal comparados, com a agravante de que, desde o

Um dos aspectos da Fábrica do Arquinho, idem

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início da industrialização, sempre termos pertencido a um pequeno grupo dos concelhos mais industrializados. Ainda hoje, Guimarães, em número total de postos de trabalho, é o concelho mais industrial do país. Enquanto não houver o Museu, estaremos em falta com as muitas gerações que dependeram da indústria; é a nossa memória colectiva que estará, para dizer o mínimo, incompleta. E esse Museu, como qualquer Museu, não interessa apenas como memória do passado, importa também pelo presente e pelo futuro. Contribuir, de alguma forma, para o conhecimento da indústria vimaranense, no passado ou no presente, é, pois, também, contribuir para a realização do Museu da Indústria. Fábrica e pessoal da Fábrica do Castanheiro, idem.

Assim, acrescento aos títulos atrás referidos, alguns outros, mantendo o critério de que terem relação directa com Guimarães: “Guimarães. O Labor da Grei – Publicação comemorativa da Exposição Industrial e Agrícola Concelhia, realizada em Agosto de 1923”, Francisco Martins, 1928; “A Exposição Industrial de 1884 e as suas repercussões”, Manuel Alves de Oliveira, 1984; “Representação de Guimarães na Exposição realizada no Palácio de Cristal Portuense em 1867”, Manuel Alves de Oliveira, 1988; “I Encontro Nacional Sobre Património Industrial – Actas e Comunicações”, Sessão Preparatória de Guimarães, 1989, volume I; ”Associação Comercial e Industrial de Guimarães, 125 Anos – Exposições”, 1990, A.C.I.G.; “Guimarães nas exposições nacionais e internacionais”, volume IV, Alberto Vieira Braga, 2015.

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PATRIMÓNIO GASTRONÓMICO

A Gastronomia portuguesa e a elevação de Guimarães a Património Mundial Mário Moreira Chefe de Cozinha e formador

A elevação de Guimarães a Património Mundial da UNESCO, em 2001, teve reflexos na "Gastronomia Portuguesa" e catapultou-a também para patamares de qualidade e diversidade - galardões universais de enorme responsabilidade que temos de preservar e defender com intransigência, onde se privilegiam as tradições e o consumo de produtos alimentares saudáveis, como Património Cultural, pilar da nossa memória e identidade. O XVI Congresso de Gastronomia do Minho, realizado já em 2005, na Pousada de Santa Marinha da Costa, subordinado à temática, " Guimarães - Berço da Tradição e do Desenvolvimento", definiu 5 grandes objetivos precisos e determinantes para o futuro da Gastronomia da região Vimaranense: "Conhecer, Valorizar, Dinamizar, Defender e Incentivar". A valorização das tradições gastronómicas de Guimarães, elevando-as a um estatuto de "Carta Gastronómica", selecionando o que de melhor se oferece em Guimarães, permite resgatar um receituário familiar, caseiro e tradicional. As matérias primas genuínas corporizam a memória e a identidade de uma cozinha tradicional simples, de emoções fortes, saudável, robusta, sólida, sóbria, de sabores intensos e rica de pessoas com conhecimento e fervor pela região. Legumes salteados.

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Defender as memórias, usos e costumes de todos quantos de uma forma ou de outra dão o seu contributo à imagem promissora de Guimarães, é assumir a herança secular numa relação com a história e com o Património Cultural, onde a gastronomia é rainha. Identificado que está o riquíssimo patrimonial do receituário tradicional de doçaria e doçaria conventual, o incentivar e divulgar o receituário de sustento não é fácil, até porque a história da alimentação Vimaranense está por fazer e, portanto, longe de ser um facto. A necessidade de acelerar o processo tão desejado de certificação do "Toucinho do Céu" e das "Tortas de Guimarães" configuram um enorme incentivo na dinamização da economia e crescimento do turismo local. As recordações dos receituários de emoções da cozinha popular, desde a caseira e familiar à cozinha tradicional e de autor, onde os produtos endógenos fazem parte das características muito próprias da sua sazonalidade, os seus métodos de produção integrante da diversidade e riqueza da nossa dieta alimentar, devem tornar-se produtos identitários desta nobre região minhota. Sabemos que uma das razões comuns dos cidadãos que nos visitam é também pelo nosso património gastronómico. Os Rojões, o Pica no Chão, a Chanfana de Cabrito ou Assado no Forno, as Papas de Sarrabulho, o Caldo de Nabos com Feijão Vermelho e Presunto, o Coelho Bravo e o Javali das Cercanias da Penha, o Bucho

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Tortas da Pastelaria Clarinha.

Toucinho do Céu à moda de Guimarães, Casa Costinha.


Recheado com Rojões, os Filetes de Pescada com Espargos da Casa de Sezim, o Bacalhau Recheado com Presunto, os Rins Laminados de Cebolada, as Feijoadas com Carnes de Porco, os Ovos Queimados, a Bochecha de Porco com Puré de Urtiga, a Massa à Lavrador, o Frango Estufado de Romaria, o Bolo de Pão com Sardinhas, o Caldo Verde, Coelho de Molho Verde (origem judia)...

Rojões

Buxo recheado

A tradição da ementa de comer e beber também anda associada às festas "Nicolinas": (bolinhos de bacalhau, caldo verde, papas de sarrabulho com Rojões, tripas com grelos, castanhas assadas) o pão saloio, o magusto, os pregões ao turismo e à falta de bacalhau. Os Rojões são claramente por diversas razões o prato que mais se destaca quer ao nível da matança do porco, quer da ementa das festas Nicolinas; é um prato que, na atualidade, identifica a gastronomia dos vimaranenses, fazendo parte do património cultural gastronómico como um dos mais significativos pratos de registo. Este riquíssimo receituário do nosso património gastronómico está associado à nossa história. Celebrar a elevação de Guimarães a cidade património da humanidade confere-nos a responsabilidade pelo registo de memórias, na defesa, preservação e divulgação da identidade da nossa região também, desde logo, ao nível da gastronomia

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Tortas… um pouco de história! Manuela Dias

Guimarães, cidade detentora inquestionável de um património cultural vastíssimo, é também berço de riquíssima gastronomia, nomeadamente em doçaria conventual, que tem sabido resistir aos ritmos apressados da realidade atual. É o caso das TORTAS DE GUIMARÃES! A história da doçaria de Guimarães mergulha nos longínquos anos de mil e quinhentos/ mil e seiscentos. É no ano de 1517 que surge o primeiro registo com referência à venda de biscoitos, queijadas e conservas de açúcar e mel. Mais tarde, no século XVII, aparece a primeira referência ao pão-de-ló em Guimarães. Da doçaria confecionada no convento de Santa Clara, fala-nos o Abade de Tagilde, cujos textos são documentados por João Guimarães (cit. por FERNANDES, Isabel - Doçaria Tradicional Vimaranense, p.15). Segundo o autor, as clarissas vimaranenses eram exímias na arte da doçaria, dado que confecionavam uma enorme variedade de doces. A partir de meados do século XIX, quando foi decretada a extinção das ordens religiosas em Portugal, as freiras que, outrora, se comprometeram a não divulgar os seus saberes, foram confrontadas com a necessidade de transmitir os segredos dos receituários e respetivos métodos de confeção aos membros mais próximos da família. Os cadernos de receitas manuscritas, que se encontram nas mãos de antigas famílias, revelam muitas das receitas que foram sendo perpetuadas, quer nos conventos femininos, quer nas mãos de várias gerações de mulheres para quem o fabrico de doces era, para além de um modo de sustento, uma forma de preservar os vínculos familiares. A doçaria conventual constitui, portanto, um modelo único e exclusivamente português, merecedor de ser reconhecido, preservado e divulgado pelos saberes e sabores locais.

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Desconhece-se documentação anterior ao século XIX que refira as tortas de Guimarães, tratando-se de um doce cuja proveniência de fabrico se atribui ao Convento de Santa Clara de Guimarães (atual Câmara Municipal), e que hoje, é apreciado como uma das especialidades da doçaria vimaranense, referência incontornável no património gastronómico de Guimarães. Os segredos da arte de confeção dos doces transpuseram a porta dos conventos e foram transmitidos oralmente às mulheres da família ou da comunidade. A fabricação de doces perpetuou-se, em confeitarias e casas particulares que, ainda hoje, continuam a preservar as tradições e os processos artesanais outrora utilizados nos conventos. Os segredos que envolvem o fabrico destas iguarias têm sido transmitidos de geração em geração, para manter viva a história da doçaria portuguesa e continuar a fazer as delícias dos verdadeiros apreciadores desta arte. A Casa Costinhas é considerada um desses “rostos” da doçaria tradicional vimaranense. A continuidade da sua estrutura familiar permitiu conservar memórias, receitas e saberes de gerações, Casa Costinhas, R. de Santa Maria herdadas da arte e das tradições gastronómicas das freiras do Convento de Santa Clara de Guimarães. Localizada no centro histórico da cidade de Guimarães, a Casa Costinhas faz parte das famílias vimaranenses que continuam a salvaguardar as práticas e tradições da doçaria conventual e tradicional, representando uma entidade de referência na doçaria de Guimarães. No seu receituário, as tortas de Guimarães são um dos seus exlíbris, cuja produção artesanal é conservada e valorizada há mais de 100 anos. Mais de 100 anos de história… Esta história dos doces começou há muitos anos atrás, no último decénio do século XIX, a poucos metros do Convento de Santa Clara, em Guimarães. Maria e Adelina Ribeiro Costa, naturais da freguesia de Gonça, no concelho de Guimarães, as primeiras donas da “Casa Costinhas”, são as protagonistas desta história já centenária. As duas irmãs, que de tenra idade ficaram órfãs, foram acolhidas no convento de Santa Clara por intermédio de uma tia freira, de seu nome Maria José Costa. Aqui receberam os ensinamentos divinos e aprenderam a fazer a doçaria, na qual as freiras clarissas eram especialistas. Em 1834, a lei da desamortização determina a saída das freiras do convento. As irmãs Maria e Adelina Ribeiro Costa, já sem a tia freira, que, entretanto, falecera, viram-se obrigadas

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a abandonar o convento (não se conhece o ano exato). Os primeiros tempos foram difíceis, na casa que arranjaram perto do convento (atual casa), pois eram novas e desconheciam o mundo cá fora. Depois, aos poucos, foram erguendo a cabeça e começaram a fazer os doces que tinham aprendido no Convento de Santa Clara: Cavacas, Papos de Anjo, Tortas de Guimarães, Toucinho do Céu, Queijadinhas, Raivas, Figo Cristalizado, doces brancos, damasco em calda e Sopa Dourada, feita com Pão-de-Ló e Ovos Moles. O saber das irmãs Maria e Adelina “era de experiência feito, de muito meter a mão na massa” (Fernandes, 2006, p.130). Na verdade, elas mal sabiam escrever o nome e todo o receituário o confecionavam de cor. Maria Costa e Adelina Ribeiro Costa tinham um irmão, Manuel Vicente Ribeiro, natural de Gonça. Manuel, depois de enviuvar, casou com Adélia Vicente Ribeiro, natural de Castelões. Tiveram muitos filhos… A filha mais velha Olívia (1921-2016), aos onze anos de idade, foi viver com as tias “Costas” (de onde vem o nome “Costinhas”) e cedo começou a aprender a arte da doçaria. Mais tarde, Elvira (1941), a irmã mais nova da Olívia, com apenas dois anos, foi levada pela irmã para a casa das tias Costinhas. Pela casa se mantiveram ambas, aprendendo todos os segredos da doçaria. Depois da morte da última tia, Adelina, em 1968, foi a elas que competiu continuar o fabrico artesanal dos afamados doces, entre os quais tem primazia as Tortas de Guimarães (e o Toucinho do Céu). Olívia faleceu sem deixar descendentes. Atualmente, Elvira refere que é em família que pretende deixar este legado artesanal, perpetuando assim a arte que aprendeu com as tias “Costinhas”. A originalidade na preparação da massa das tortas, o trabalho de confeção que lhe anda associado31, a simbiose entre os ingredientes, a cozedura no forno, o banho em calda de açúcar e o crocante característico que adquirem, tornam este doce um manjar divino, único entre a doçaria portuguesa. Nas Tortas de Guimarães o que melhor as identifica é a característica forma do doce, mas também os seus ingredientes, as suas qualidades organoléticas, a sua ligação à História da cidade de Guimarães, transformandoas numa referência quer para a orgulhosa população local, quer para os inúmeros visitantes que apreciam Património.

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As imagens da página seguinte retratam a evolução do trabalho de fabrico das tortas.

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Dar a conhecer, com a relevância e dignidade que merecem os doces regionais e conventuais, é uma forma de homenagear a memória de várias gerações de doceiras que dedicaram a sua vida à arte da doçaria, de reconhecer e identificar a doçaria tradicional vimaranense, bem como de defender a identidade do património cultural gastronómico local e nacional.

Referências bibliográficas: FERNANDES, I. M. et al. (2011) Doçaria Tradicional de Guimarães. Vila Nova de Famalicão: NPRINT - Artes Gráficas. GONÇALVES, Marta (2017) - Tese apresentada na Universidade de Aveiro para obtenção do grau de Mestre em Design - Projeto de Identidade Visual para a Casa Costinhas.

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Tortas de Guimarães candidatas às “7 Maravilhas Doces de Portugal” Osmusiké 15 de agosto de 2019

Refrão Guimarães terra bonita Onde manda a tradição Tanta história e sabores Tem o berço da nação. I As tortas de Guimarães Que esta cidade oferece É o mais doce dos tesouros Só neste burgo acontece. II Amêndoa, chila e ovos Na feitura primordial Desta Maravilha doce Iguaria conventual III Até D. Afonso Henriques Rei Primeiro de Portugal Proporia as doces tortas, Maravilha nacional. IV São de grande qualidade Têm um sabor singular As tortas de Guimarães Maravilha secular.

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PATRIMÓNIO IMATERIAL

As Festas Gualterianas: Património Cultural de Guimarães Célia Fernandes

In Memoriam,

Francisca Abreu

…culture, the historically accumulated artefacts of the group… Michael Cole (1993)

Festas Gualterianas de 1964. Coleção particular de Raimundo Fernandes

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Guimarães, património mundial (Inscrição no interior do Pavilhão Multiusos de Guimarães)

Ano de 2021. Oitocentos e noventa e três anos depois da Batalha de S. Mamede, igualmente o ano em que se assinalam os oitocentos e trinta e seis anos sobre a morte de D. Afonso Henriques, passam quinhentos anos sobre a morte de D. Manuel I (a 13 de Dezembro de 1521), se completam trezentos e oitenta e um anos sobre a Restauração da Independência de Portugal, se recordam (a 13 de dezembro de 2007) os catorze anos sobre a assinatura, pelos estados-membros da União Europeia, do Tratado de Lisboa, entre tantas outras efemérides, Guimarães comemora os cento e sessenta e oito anos de elevação a cidade, por carta da Rainha Dona Maria II (de 22 de Junho de 1853), celebra a passagem dos vinte anos sobre a elevação do seu Centro Histórico a Património da Humanidade, pela UNESCO, em 13 de Dezembro de 2001; e recorda, entre tantos outros acontecimentos, os quatrocentos e setenta e nove anos sobre a concessão da feira franca de agosto de 1452, outorgada por D. Afonso V, que “queremdo fazer graça e merecee ao conçelho e homens boons da nossa sempre leall villa de guimarãaes E avemdo por nosso serviço e bem na nossa terra teemos por bem e damos-lhe poder e lugar que eles ordenem e mandem fazer daqui em diamte em cada huum anno em a dita villa huuma feyra franqueada a qual se e começara aos sete dias dagosto e durara ataa XVII dias seguintes do dito mez.” A data de realização desta feira medieval de agosto foi sofrendo alterações ao longo dos anos e, em março de 1498, por requerimento da população vimaranense, terá sido transferida para quinze a vinte e cinco de agosto de modo a que esta decorresse em simultâneo com a romagem de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães e a festa da Ascensão da Virgem que nesta vila se realizavam no mesmo dia. Posteriormente, a transladação das relíquias de S. Gualter, realizada no primeiro domingo do mês de agosto de 1577, fixaria a festa religiosa, em honra deste frade franciscano, para este dia e, por tal motivo, a feira acabaria por obedecer, igualmente, a esta mudança. No século passado, em 1906, num período em que estas feiras francas se realizavam com alguma indiferença e se encontravam em “plena decadência” surgiu, por parte da direção da Associação Comercial de Guimarães, a vontade de conceder um novo brilho e uma nova ênfase à velha feira fazendo-a ressurgir com nova animação “para dar continuidade ao que se estava a fazer em todas as cidades do país e assim se desejar o desenvolvimento progressivo do comércio e da indústria de Guimarães”. (Comércio de Guimarães, 6 de agosto de 1906, Discurso de João de Melo). Renovou-se a velha feira de S. Gualter e projetou-se algo de 469


novo – as Festas da Cidade ou as Festas Gualterianas, como mais tarde se viriam a denominar.

Festas Gualterianas de 1906. Coleção particular do Centro Português de Fotografia, Coleção de Abel Paz.

Festas Gualterianas de 1906. Coleção particular do Centro Português de Fotografia, Coleção de Abel Paz.

Neste breve apontamento sobre as festas da cidade, relevamos o facto das Gualterianas, tendo já percorrido um longo caminho e vivido momentos distintos no seu percurso, continuarem a assumir-se como um espaço privilegiado da cultura popular vimaranense. O tempo fez a sua história e a lenda de uma das mais populares realizações festivas de todo o país, sobretudo a partir de meados das décadas de quarenta e sessenta do século passado em que os programas festivos eram chamariz para gentes de outras cidades e de outros países. Nestas, através dos anos, se fez valer e exteriorizar a vida da nossa cidade na sua vertente

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etnográfica, folclórica, histórica, económica e religiosa. Por isso, estas festas contam-nos uma história - a de uma cidade e a de um conjunto de homens notáveis de Guimarães que, na primeira década do século passado, decidiram dar à feira primitiva de agosto uma nova dinâmica e enquadrá-la numa montra da indústria vimaranense projetando, então, a economia da cidade. Por certo que, em 1906, vinte e dois anos depois da realização da Exposição Industrial de 1884, em Guimarães, a Associação Comercial e Industrial de Guimarães e os homens que a representavam foram visionários e auspiciaram um novo futuro e, ainda nesse ano inicial de revitalização das feiras francas de S. Gualter; o empenho de alguns indivíduos da cidade de Guimarães foi fundamental na medida em que procuraram dar-lhe um culto regional de modo a torná-las atrativas e de interesse. Capa da revista A Illustração Portugueza, Agosto de 1909.

Feira Franca de S. Gualter - Gado Bovino, no Largo República do Brasil (Campo da Feira), em Guimarães. Festas Gualterianas de 1913. Coleção particular de Raimundo Fernandes.

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Feira de Gado Suíno - Gualterianas de 1924. Coleção particular do Arquivo Fotográfico da Foto Beleza.

Festas Gualterianas (década de 1930). Coleção de Raimundo Fernandes

Assim, às ornamentações e iluminações deslumbrantes que decoravam a cidade, juntava-se a riqueza coreográfica do folclore regional e a realização dos cortejos inéditos do linho e dos cortejos históricos que contribuíram em muito para dar brilho e destaque às festividades. Ao longo do seu percurso as Festas Gualterianas foram missão de diferentes instituições culturais vimaranenses e, se de início foram da exclusiva 472


responsabilidade da Associação Comercial e Industrial de Guimarães ou do Grémio do Comércio, passariam depois para a mestria de associações culturais como O Convívio e a Unidade Vimaranense, tendo passado ainda pelas mãos do Movimento Democrático de Guimarães e da Irmandade de São Gualter. Desde 1988, a sua organização passou a ser exclusiva da Câmara Municipal de Guimarães e, atualmente, encontram-se sob a organização de A Oficina. Desde os seus primórdios, nomes como João de Melo, artistas como Luís de Pina, Abel Cardoso, José Pina, entre tantos outros, muito contribuíram para que os primeiros anos de renovação destas feiras se cimentassem enquanto evento particular da cultura local e Gaspar Roriz, enquanto autor da letra do Hino de Guimarães (música de Vasco Leão) foi também o fomentador de um dos mais elogiados números das Festas Gualterianas - a Marcha Milaneza. Numa das associações a que esteve ligado, afirmaria, num dos seus discursos, que “… foi a grande ideia, numa grande alma, contida num corpo pequenino, que as Gualterianas iniciaram. A ideia era a de fazer de Guimarães um grande foco de luz, uma harmonia vibrante de entusiasmo e alegria. Era fazer da nossa terra uma linda sala de visitas, onde os nossos visitantes se sentissem bem…era fundamental que Guimarães, ostentando as flores, numa policromia estonteante, rasgando a treva da noite numa orgia de luz, enviando às encostas dos nossos montes os ecos dos hinos e das canções populares, que de quebrada em quebrada anunciasse ao mundo que aqui havia alma, sentimento, patriotismo, um povo que queria viver e lutar para sair vitorioso no grande prélio em que se empenham os povos modernos – as lutas do trabalho. Tudo foi além de toda a expectativa e Guimarães, que havia entrado numa nova vida industrial e comercial, com o pretexto das Gualterinas, passou a receber os romeiros de todo o país.” Guimarães, desde os finais do século XIX e durante as primeiras décadas do século XX, sofreu uma série de transformações que levaram a que uma nova era se tivesse iniciado e a vida tivesse coCerimónia de Bênção da Bandeira de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães que esta meçado a processar-se a um ritmo difecidade ofereceu às tropas portuguesas, na Índia. Festejos incluídos nas Festas Gualterianas de 1956. Coleção particular de Carlos Sousa. rente. Começaram a surgir inegáveis

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sinais de alterações resultantes da resposta ao rápido processo de industrialização que o mundo ocidental começava a testemunhar e Guimarães, à semelhança de outras cidades, ao longo deste período, testemunhou também o engrandecer de novas tendências no campo das artes, das letras e do extraordinário avanço no âmbito da tecnologia, cujo impacto, tão profundo, marcaria o verdadeiro despontar do mundo moderno. Com estes novos estímulos - económico, comercial e industrial - a cidade desenvolveu um conjunto de novas sociabilidades; os vimaranenses gozavam de novos lazeres que a cidade, enquanto espaço social importante, começava a oferecer. Assim, e dentro deste processo, surgiram diversões diferentes das até então promovidas e os locais indicados para as práticas de descanso e de socialização, como os cafés e as praças, passaram a ser sítios frequentados por diferentes pessoas. (THOMPSON, 1998, p. 304) Mas, esta modernidade, que havia sido inaugurada em Guimarães, desde a chegada do comboio, em 1884, impulsionou também a vida intelectual neste espaço geográfico. Alguns vimaranenses proeminentes da altura justificavam, então, a necessidade da difusão da educação e da instrução enquanto polos proporcionadores do progresso, no desenvolvimento da razão e na formação de cidadãos. A questão da ideologia do progresso verificada no período da transição para o século XX, em consequência da evolução da ciência e das técnicas, acabaria por orientar todo o processo de urbanização de Guimarães. Esta tese da ideologia do progresso é claramente visível no momento inaugurativo das festas da cidade, em 1906, quando o musicólogo Júlio Neuparth, chamado a contribuir para esta festividade, elaborou, para o efeito, a peça musical Marcha Gualteriana - uma música sinfónica onde a ideia do progresso estava nitidamente subjacente. Depois, Gaspar Roriz, um ano mais tarde da composição desta marcha sinfónica, afirmaria uma vez mais este pensamento relativamente à ideologia do progresso ao compor o Hino da Cidade, cujos versos expressariam essa ideia e essa crença e onde a música poderia desempenhar um papel importante: «Oh! Guimarães, teu progresso, tua vida, /é toda a nossa aspiração;/Caminha avante, conquistando a glória / Que os filhos teus prende e seduz. /Exibe altiva, oh! Pátria a tua história/Que à mocidade dá amor, vida e luz…». Seria, pois, neste ano de 1907, que o nosso padre fazedor de versos, em estrita relação com os empregados do comércio da nossa cidade de então, se uniria a este grupo de vimaranenses com o objetivo de os apoiar na «construção de um número» exclusivo para que esta classe de trabalhadores se manifestasse e que acabaria por se perpetuar na memória como a Marcha Milaneza – aquela que, com o passar dos anos, acabaria por se designar por Marcha Gualteriana, a partir do ano de 1932. Incorporada no programa das Festas Gualterianas, em cada ano, seria esta a marcha que assinalaria a criatividade das gentes vimaranenses, que concederia o prestígio à cidade e que, em última instância, conferiria a identidade à nossa cidade e às festas Gualterianas que durante anos vincaram o espírito bairrista vimaranense. Esta marcha, do domínio da

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cultura popular, ao longo dos anos, conseguiu manter a memória dos desfiles doutros tempos, embora lhe tivesse alterado a substância. Passou a ser um desfile com carros alegóricos, grandes e complexas armações efémeras, vistosamente engalanadas, cedendo espaço à intervenção e à crítica jocosa, isto é, um cortejo com cenografias performativas invocando acontecimentos, artes e ofícios, com percursos engalanados com bandeirinhas e fogo-de-artifício, iluminações e música. Nesta marcha, a luz - componente insubstituível - teve um grande impacto junto das populações, dado que, nestas primeiras décadas da construção desta marcha, a luz elétrica era um fenómeno incomum, isto é, havia pouca iluminação e, por isso, a grandiosidade deste espetáculo, nos seus primeiros anos, apoiar-se-ia na construção de bonecos gigantes iluminados interiormente e que, ao serem transportados, davam um efeito reformador e revolucionário. O impacto e a importância da luz neste cortejo legitimaram o facto de, em alguns documentos encontrados, a expressão “Marcha Luminosa” aparecesse como sinónimo de Marcha Milaneza e, depois, Marcha Gualteriana. Além de que, nestas representações artísticas, a luz poderia ter conotações subjetivas mais elaboradas pela associação a um novo mundo em que a razão se opunha ao obscurantismo. Esta marcha, nesta festa, sempre teve a função primordial de reatualizar o tempo mítico, reversível e recuperável - o tempo festivo que não sendo um evento isolado quebra o ritmo regular do quotidiano, promove a sociabilidade, o sentimento de pertença e a identidade a um determinado espaço e lugar. O carácter inovador desta marcha, em Guimarães, pelos seus adornos, pelas iluminações exibidas, pela novidade, admitia, de algum modo, que a simbologia da luz representasse o progresso, numa eventual comparação a algumas cidades europeias onde as ruas já estavam iluminadas, os jardins públicos propiciavam passeios e a vida noturna se intensificava. O ideal de modernidade que se difundia em Guimarães, associado à tecnologia crescente onde a fábrica, enquanto espaço simbólico do progresso, passava a ser o local efetivo de concretização da potencialidade criadora do trabalho (MARINETTI,1980), auxiliada, em certa medida, pelas grandes exposições que se realizavam, acabaria por reforçar a imagem da máquina como paradigma da nova sociedade. A Marcha Gualteriana, enquanto elemento da memória coletiva vimaranense e enquanto rito comemorativo produzia um efeito feérico e deslumbrante. Desempenhava “funções instituintes de sociabilidades” e o seu efeito ritual aspirava traduzir uma mensagem de progresso e de mudança. A Marcha Milaneza, enquanto legitimadora da Marcha Gualteriana, durante décadas, institucionalizou-se como prática simbólica colocada ao serviço da transubstanciação cívica do tempo e do espaço vimaranenses, festejo este que promovia um novo lugar de memória. Será o próprio Gaspar Roriz que, num dos jornais locais, afirmaria que:

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“em 1906, João de Melo sonhou uma festa que tirasse Guimarães da sua apatia habitual e acordar este velho burgo pelas bandas de música e pelo estrondear de girândolas festivas e iluminações garridas e brilhantes…A mocidade do comércio entusiasmada com o esplendor das festas organizava, na noite de domingo, uma marcha luminosa com balões venezianos e os velhos copinhos das iluminações minhotas. Surge o ano de 1907 e a festa tornou-se maior. Os empregados do comércio dirigiram-se à casa de um obscuro vimaranense e pediramlhe uma ideia para contribuírem com um número para as Gualterianas. Esse tal vimaranense lembrou-lhes uma marcha luminosa semelhante a outra que se realizara em Milão, a linda e importante cidade italiana quando se encerrou a sua exposição internacional. Estava lançada a ideia.” (…) “Esta Marcha, que é uma homenagem dos empregados do comércio desta cidade à digna e benemérita Direcção da Associação Commercial de Guimarães, e uma saudação da nossa mocidade às damas vimaranenses – esta marcha, repetimos, deve ser um dos mais originais e mais belos números do programa das famosas festas gualterianas que se realiza neste anno. Basta saber que os diversos e formosíssimos grupos que figuram na Marcha Milaneza sam devidos ao lápis do distincto professor snr. José de Pina, para podermos affirmar que a Marcha será um cortejo deslumbrante de luz e um conjunto revelador dum fino gosto artístico. Entre os diferentes grupos iram engraçadíssimos carrancas, mariposas e abelhas iluminadas. Os fogos sam fornecidos pelo afamado pyrotechnico Devezas, do Porto.”

Assim, as ornamentações esplêndidas, as iluminações feéricas, o aproveitamento da riqueza coreográfica do folclore regional, dos costumes e usos, contribuíram para dar brilho e fazer destacar estas festividades. A importância da própria indústria concelhia serviu para aumentar esse interesse ao integrar na execução das mesmas festas exposições dos seus produtos e que então faziam sucesso no país. Registe-se, no entanto, que tal sucesso só teria sido possível porque, no ano de 1906, em Guimarães, se havia instalado uma Companhia Eléctrica que facilitaria a realização deste evento que atrairia, sem dúvida alguma, toda a população vimaranense. A esta iniciativa teriam aderido artistas plásticos, como Luís de Pina, que transformariam este cortejo, de uma composição com simples flores iluminadas como era inicialmente, num acontecimento singular de figuras articuladas, engenhosamente concebidas que enchiam de graça o decorrer do longo e maravilhoso cortejo equipado de carros deslumbrantes em que a arte, a fantasia, a luz e o som se consagravam em beleza, enquanto figurantes com certo humor faziam sorrir os assistentes e os grupos de folclore, com as suas danças e cantares populares, lhe davam vida e animação. As tradicionais Feiras Francas e as Festas Gualterianas foram celebradas com enorme vigor quando se associaram à celebração de datas importantes para a cidade e para o país. Em 1940, quando decorreram, no âmbito das comemorações do centenário da fundação da nacionalidade; em 1953, quando coincidiram com as celebrações do milenário da cidade; em 1956, nas celebrações do seu quinquagésimo aniversário e coincidiram com as cerimónias da Bênção da Bandeira de Nossa Senhora da Oliveira enviada pelos vimaranenses para a Índia portuguesa; em 1974, numa altura em que o nosso país vivia um clima de incerteza política e o 476


Movimento Democrático de Guimarães publicou o programa das Festas Gualterianas organizando debates e conferências sobre a situação do país; em 2006, pelo seu centenário.

Cerimónia de entrega da Bandeira oferecida por Guimarães às tropas portuguesas, na índia. Outubro de 1956. Coleção particular de Carlos Sousa.

O espaço desta festa sempre apresentou como referência o ar livre e a rua e elegeu o espetáculo como forma de promoção espacial. Associou formas de coletivismo que se expressaram nas esferas da ação social e que foram importantes na constituição da identidade local e na produção de significados que deram forma à vida da comunidade vimaranense. As Festas Gualterianas e a sua dinâmica, enquanto espaço público, determinaram a associação entre funções de lazer e de cultura popular onde sobressaíram as necessidades básicas de natureza religiosa e do quotidiano social vimaranense. Com efeito, foi pela sua dimensão, enquanto espaço de lazer e espaço cultural, que esta festa, em honra de S. Gualter, se converteu também, numa referência turística da cidade e se afigurou como objeto analítico de interesse acrescido neste âmbito. Decorre, desta múltipla funcionalidade, quer no que diz respeito aos espaços de sociabilidade e de lazer desenvolvidos, quer no que se refere enquanto agente de dinamização cultural, quer ainda no âmbito da contribuição para a imagem turística cultural da cidade vimaranense, o estabelecimento de um ambiente com uma riquíssima diversidade humana e onde o espaço lúdico e religioso se relacionam de modo a que o espaço propriamente sagrado - a igreja e o espaço sacralizado - as ruas por onde passa a procissão em honra a São Gualter, por umas horas, se converta numa prolongação de graças anteriores a uma cuidadosa preparação. Ornamenta-se o interior do templo (que se constitui em propriedade ao espaço sagrado da festa) e, também, a preparação do exterior sacralizado limpa-se, trata-se, põem-se flores, o andor é enfeitado e a procissão é um acontecimento relevante da jornada eucarística. O aspeto lúdico da festa, compreendido por aqueles espetáculos de caráter profano completam o programa festivo - o ritual festivo das festas da 477


cidade, nas suas dimensões principais, o simbólico, o socioeconómico, o político e o estético, permite o reproduzir da identidade da comunidade vimaranense e, nesta festa de São Gualter, os rituais de identificação produzem-se em torno de um ícone religioso que encara a semelhança de uma realidade concreta: As Gualterianas em honra do seu santo padroeiro.

As Gualterianas de 1964. Coleção particular da Associação Cultural e Recreativa Convívio.

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Gualterianas Osmusiké Integra o CD Cantar Guimarães, que também pode ser ouvido no SoundCloud, em https://soundcloud.com/osmusike/sets/cantar-guimaraes

Há bandas e há charangas Para a festa animar. Rataplão, rataplão, rataplão Trazem a festa no ar. Em julho tudo começa Com muita iluminação, Mas é nos primeiros de agosto Que as Gualterianas ganham emoção. Que dias tão lindos Se irão viver Com a batalha das flores E o cortejo do linho pra ver. A procissão vai saindo Imponente e majestosa. Anjinhos e S. Gualter, Imagem maravilhosa. Por coisa alguma trocamos Aquilo que a marcha nos dá. Nem palácios nem castelos, Nem minas de Ali-Babá.

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A Festa de Santa Luzia: passarinhas e sardões Equipa redatorial

A 13 de Dezembro, para além da consagração do Centro Histórico de Guimarães como Património Mundial da Humanidade, celebra-se também Santa Luzia, festa popular vimaranense que alia exemplarmente o religioso e o profano. De facto, nesta altura do ano, após a festa da Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro, e as festas Nicolinas, no início do mês, decorrem também as festividades em honra de Santa Luzia, a 13 de dezembro, pelo que a cidade de Guimarães está praticamente em festa até ao Natal e ao final do ano! Ora a tradicional festa de Santa Luzia, protetora dos olhos e da visão, que todos os anos se celebra na capela local, datada do ano de 1600, ocorre na Rua Francisco de Agra, ali bem perto da rotunda localizada entre a Rua de Santo António e Gil Vicente é fundamenFoto de Secundino Ferreira talmente conhecida pelas suas passarinhas e sardões! De facto, junto a esta capela que antes foi uma gafaria de mulheres, isto é, hospital de doentes leprosos, ano após ano, entre vários negócios como as castanhas assadas, diversas vendedeiras vendem as famosas passarinhas e os sardões, mantendo viva esta velha e doce tradição vimaranense. As passarinhas e sardões são guloseimas de centeio ou farinha de trigo cozido revestidas com uma cobertura branca de açúcar, enfeitados com pedacitos de papel colorido, fitas e laçarotes, que por vezes apresentam outras formas: relógios, cornetas, cruzes, cães, cavalos, etc.

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Mas, segundo a tradição, são acima de tudo símbolos sexuais do acasalamento entre homem e mulher e de um jogo figurado de amor e desejo, no qual os rapazes se esforçam por conquistar as raparigas. Deste modo, como é evidente, ambas as guloseimas remetem para os órgãos sexuais masculino (o sardão) e feminino (a passarinha), num contexto de um encontro e de sedução. Atualmente oferecem-se também os segredos. São caixinhas de cartão em cujo interior, numa almofada ou cama de algodão em rama, se recolhem miniaturas da passarinha e do sardão e ainda de um coração que guarda um segredo, ou seja, uma dedicatória amorosa e em verso que os rapazes oferecem às raparigas com um certo romantismo erótico: Nesta cama de fofo algodão Menina, não tenha medo, Dê-me o seu meigo coração Pr’a guardar o nosso segredo. E numa voz bem meiguinha Escuta Eva do seu Adão: Se me deres a passarinha Eu dou-te o meu sardão … No fundo, contudo, mais uma tradição romântica, tal como a Cantarinha dos Namorados ou o cortejo das Maçãzinhas, no decurso das Festas Nicolinas, que relevam a grandiosidade do acervo patrimonial e cultural vimaranense, a par de efemérides similares importadas, como o S. Valentim, não obstante o nosso Valentim (Bernardo Valentim Moreira de Sá), músico, concertista, maestro e consagrado violinista vimaranense, recordado na toponímia da cidade e academia de música local, ter nascido a 14 de Fevereiro, no Dia dos Namorados. Tradições que as escolas deveriam cultivar e ajudar à sua preservação …

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Santa Luzia Poema de Manuel Branco de Matos

Se de Barcelos é o estranho galo que da forca livrou o peregrino, se Murça tem a fêmea de um suíno e as Caldas faz as louças de Bordalo, se a gente de Amarante a São Gonçalo por ser casamenteiro canta um hino, se o Douro faz do vinho um dom divino e vem junto à Ribeira engarrafá-lo; é cá de Guimarães a namorada, famosa e bipartida cantarinha; e se é Santa Luzia festejada é de uso e deve dar-se outra prendinha: o homem, o sardão à sua amada e ela dar-lhe a passarinha.

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Os Pregões e as Alcunhas F. Capela Miguel

Há ainda um grande trabalho de recolha e investigação a realizar na região de Guimarães. A sua condição de cidade património cultural da Humanidade mereceria mais atenção por parte de instituições e entidades que têm responsabilidade neste sector. Este estatuto atribuído pela UNESCO já há mais de uma década é tempo mais que suficiente para se ter planeado um programa de investigação integrado e participado por diversas instituições de Guimarães. Digase, desde já, que 2012 foi uma enorme oportunidade perdida que denota o desconhecimento ou a ausência de discernimento político para investir na “alma do Berço”. O trabalho aqui realizado corresponde a dez anos de trabalho de audição e registo da informação e não foi exaustivo… Pretende ser, no entanto, e apresentado neste momento, um contributo para se perceber a evolução da cidade e como ela mudou em meio século. É um contributo sério para aqueles que têm responsabilidade e que ocupam lugares de decisão política também perceberem como podem ser prejudiciais ao desenvolvimento da sua cidade e região se não contribuírem para uma reflexão e planeamento da cidade que não é sua, mas de que todos devem usufruir com desejável qualidade de vida!!! Hoje a nossa cidade contém uma realidade que contradiz a realidade de há meio século – está deserta. Nada que não fosse anunciado!!! Sem mais delongar, fica aqui um pequeno contributo para os vindouros, agradecendo esta oportunidade de registo, ao bom trabalho desta Associação – Osmusiké!!! 1.ª parte – Os pregões populares de Guimarães 2.ª parte – Alcunhas das zonas populares da cidade na década de 50 e 60 3.ª parte – O Corpo da PSP nas décadas de 50 e 60

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Os pregões populares em Guimarães Deixo a terminar esta viagem ao património imaterial da minha cidade e região este registo que a minha memória guardou, da minha meninice e juventude: os pregões populares que ainda ouvi na minha cidade e que nunca vi registado em nenhum documento. Vamos a isto??!!! Morava eu com meus pais no Bairro Social construído em Guimarães na década de 50 – o Bairro das Hortas ou da Caixa de Previdência – mais conhecido pelo Tarrafal, por estar nos limites da cidade e por alguns dos presos que construíram o Palácio da Justiça terem dado uma pequena ajuda. Era costume, na época própria, por lá aparecerem vários vendilhões e vendedeiras em busca de alguns tostões e para tal faziam-se anunciar quando chegavam à praceta Guilherme Faria, toponímia central do Bairro, para chamar os residentes. – Há sardiiinha fresquinha!!! Chegadinhas do mar. Viajaram de noute para aqui estar!!! Eram as peixeiras da rua Nova e Praça de Santiago a fazer pela vidinha. Outras cantavam assim: – Peixe fresco a rabiar. Carapau para fritar. Pregoeiro, ilustração de SAL Fanecas!!... Fanecas frescas, amanhadas para serem fritadas. Olha o cachucho… freguesa!!! Trago cachucho!!! Era sempre a aviar peixe fresco até esgotar!!! No Verão corria a cidade o carrinho da venezinha a vender os gelados do Adrasto o dono da fábrica atrás dos correios. A sua mulher, Aninhas, é que fazia os gelados d’água e essências de morango, ananás, groselha,

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laranja. O rapaz que pedalava o carrinho com voz esganiçada anunciava os gelados d’água: – Fresquinhos e bonitinhos. Morango e ananás. Laranja ou limão. São sabores que o João traz. Derretem na boca refrescam o coração. Cinco tostões, só cinco tostões. A rapaziada corria de braço no ar para fazer parar o João e já traziam a moeda na mão. Em cada paragem o João acabava o lote que trazia e logo ia à fábrica carregar o carrinho. A fábrica ainda lá está a memória é minha. Na casa da Cooperativa todos os anos lá aparecia um velhote que, de porta entreaberta com canas rachadas e papel de seda e cola fazia habilidosamente ai uma dúzia e meia de papagaios em forma de losango que deixava pendurados no ar a secar três dias para depois encher um saco de pano amarelo e com ele ao ombro correr a cidade a vender. Ligeiro lá ia ele a apregoar com voz aflautada. – Papagaios de fio de todas as cores. Vendedor de sorvetes Chegam quase ao céu. Ó senhor, leve para um filho seu!!! São só 25 tostões. É barato e vai às nuvens. O Toural há cinquenta anos era a sala de visitas e, por isso, era lá que desaguava e se encontrava toda a vida da cidade. Eram dois gravateiros, o Reis e o Armando, que calcorreavam os passeios de vai e vem do Toural entrando e saindo nos cafés da praça, como o Oriental, o Toural, o Mourão e o Milenário onde só se entrava de gravata quase sempre apinhados de clientela barulhenta que era interrompida pelo chiar do pano dos engraxadores. Varina Pregoeira, ilustração de SAL 485


– São de seda fina… gravatas. Gravatas boas e baratas!!! O outro ouvia o pregão e não se calava… – São italianas estas gravatas. São francesas, boas e baratas!!! Quantas vezes quase que se batiam, mas viravam as costas e seguiam pelos passeios em busca dos clientes. O Correia chefe da legião tinha dois filhos que eram malandros e para os pôr a render pendurava-lhes ao pescoço dois cestos com uma longa tira de couro para venderem rebuçados de caramelo que faziam durante a noite e ainda torrão de amendoim a imitar o de Alicante. Os moços vinham para a rua, mas sempre juntos e então o pai sentado no Café Oriental sussurrava entre dentes: – Burgessos!!! Um para Norte outro para Sul. Vamos a gritar o pregão para vender… E eles coitados lá gritavam o pregão: – Torrão… torrão d’amendoim. Sem casca é do melhor – Caramelos pequeninos… São lambe, lambe, docinhos!!! Lá passavam o dia de baixo para cima, de norte para sul cansados, com o pai sempre a controlar, caíam na cama como pedras. Um outro cidadão “figura típica” de Guimarães quase que vivia no Toural onde passava a maior parte do dia – era o Armando cauteleiro – que encostado na porta do café Oriental fazia o seu pregão que se ouvia em toda a praça – É a última e tem prémio. É o treze e anda hoje à roda Em dia de sexta-feira era desta maneira o pregão. Mudava de pouso e lá arranjava uma nova última cautela para logo apregoar sonoramente: – É o treze da sorte. Tem vida não tem morte. É a última e tem prémio. Seja um génio com sorte… compre!!! Lá corria o Armando cauteleiro em busca de clientes e gostava bem do que fazia. Era feliz naquela forma de viver. Quando as barracas chegavam ao Campo da Feira, era sinal que as festas da cidade estavam a chegar. Por isso, o azeiteiro tinha que se despachar, pois durante as festas não podia atravessar o terreiro. Era o Sequeira que duas vezes por mês fazia, com a carroça puxada pela Bonita, que dava coices, e pela Amarela, os caminhos da Costa e de S. Roque, para vender mercearias e azeite e petróleo para os candeeiros. À sua chegada ouvia-se uma gaitada e as burras abanavam a carroça para barulhar as bilhas de metal.

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Elas já sabiam os locais de paragem, pois as clientes deixavam o candeio no caminho e debaixo dele o dinheiro. As burras lá iam no seu ritmo e em cada paragem de candeio esperavam que o dono fizesse o pregão pois esperavam o prémio em fava rica: – Azeiteiro já chegou. Trago tudo o que foi pedido. Venham, venham, já cá estou!!! Logo seguia-se uma gaitada e, enquanto esperava a clientela, lá ia dando o prémio da fava rica às burras companheiras. Lembro-me bem destes dias, pois saíamos em bando da escola de S. Francisco e íamos empurrar a carroça da Bonita e da Amarela para subirem a ladeira das Oficinas de S. José em grande algazarra. O Sequeira metia a mão num saco de pano que vinha cheio de paciências que se distribuíam por todos nós. Era um fartote para gáudio de todos!!! Muitos anos nesta vida de azeiteiro andou o Sequeira até pôr o tasco na rua de Santa Maria até se finar. Com o Agosto à porta, armavam-se os barracos das cutelarias no Campo da Feira, que abriam a partir das 18 horas até à meia noite e toda a cidade vinha passear para o terreiro. As famílias completas da cidade faziam questão de estar presentes e participavam nas suas festas. Era para elas que as Gualterianas aconteciam!! Muitas atracções apareciam e algumas só para a pequenada como a mulher da Árvore dos corrupios: – Corrupios, corrupios sem parar. Nunca se cansam. São amigos de quem os levar!! Dez tostões! Os pais perante a perrice dos filhos lá compravam o corrupio e a alegria de ver o corrupio a rodar sem parar era ajudada pelo sopro da pequena. Logo a seguir era bacia do algodão doce – Nuvens acabadas de chegar do céu. Dê ao seu filho que eu já dei ao meu!!! Dez tostões é barato e doce. Em menos de meia hora só se viam crianças agarradas ao pauzinho que segurava as nuvens de açúcar que até podiam ser às cores… Era a felicidade da criançada!!! De repente via-se atravessar o terreiro um homem ligeiro no andar, a apregoar: – Água doce para beber. Fresca, bem fresquinha. É pró menino e prá menina. Eram muitos os pretendentes que esticavam o braço à limonada bebida sempre no mesmo copo que era “enxaguado” com a mesma água doce. - Limonada feita de limões, Açúcar e água

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Mata bichos e morcões, Cura qualquer mágoa. E lá se estendiam os braços para o cântaro de metal coberto de folhas de cortiça para manter a frescura, pois neste tempo não se usava gelo. – Água, açúcar e limões. É bebida mágica. Põe o povo inteligente. Só dez tostões. E durante todo o dia lá se vendia a água doce no terreiro. Quando acabava lá ia à fonte da ramada encher o cântaro e roubar os limões ao quintal do coronel Malaquias para serem espremidos e dum cartuxo de papel grosso tirava o açúcar. Tudo era mexido e abanado antes de voltar a fazer nova rodada, nova viagem naquelas tardes das Gualterianas. Às vezes apareciam mulheres em sacos de pano ou tabuleiros a apregoar com vozes esganiçadas: – Pirolitos!!! Pirolitos doces. Docinhos para todos os meninos!!! – Rebuçados de mel!!! De mel e limão são bons para a constipação!!! E ainda quando avistava gente: – Fava rica, meu senhor, é boa e tem sabor!!! Cinco tostões a mão cheia. Acabavam as festas, chegava ao fim do mês de Agosto mas as férias iam por todo o Setembro pois a escola começava sempre no mesmo dia: 7 de Outubro. Outubro era o mês das castanhas e, como que por artes mágicas, apareciam, nos recantos da cidade, as vendedeiras de castanhas que na sua maior parte vinham também da Rua Nova e da Praça de Santiago. Fazer pela vida era preciso!!! O fumo da panela furada e o cheiro das castanhas assadas embrumavam a cidade velha e ouviam-se de quando em quando os pregões que se peguilhavam uns com os outros. – Castanhas boas, quentinhas. Chegaram agora fresquinhas!!! – Ó Maria, mas essas castanhas são quentes ou são frescas??! – Vai chatear a tua tia que tem castanhas e não vende nem de noute, nem de dia!

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– Ora, Maria, castanha minha bem se amanha. E é barata: cinco à coroa!! – Deixa lá, ó Emília, qu’esta castanha… é muito mais barata… Cada uma um tostão. Cinco coroas o quarteirão O tempo do S. Martinho era tempo de aventuras com outros amigos, parceiros de folestrias e brincadeiras, quando aconteciam os Magustos onde as castanhas nos enchiam a barriga logo seguidas de água fresquinha. Já às portas de Dezembro, um outro pregão tinha existência e fama nesta minha cidade. Era o anunciado pregão ao Santo, senhor S. Nicolau que os jovens nicolinos debitavam, nos sete locais da cidade, normalmente com pregoeiro mal escolhido, pois não tinha dicção e dava muitos pontapés na gramática. Mas se, para gáudio e prazer colectivo, nos saía pregoeiro a preceito aquilo era uma riqueza, um presente do Santo. (…) Quedas e silenciosas Andam, as gentes de Guimarães, Pois não sabem o que querem Nem são maliciosas… São muitos os cães Que por cá nos ferem Com acintes poderosos E não há quem os desterre Já não há quem dê luta A esses todos filhos da… Este pregão que não é popular é, no entanto, mui desejado pelo povo, pois traz no seu âmago verdades contidas que precisam de ser ouvidas… Voltemos aos pregões populares!!! A juventude do mundo rural desce à vila para venerar S. Luzia em busca de compromissos e aventuras amorosas. A brejeirice instala-se e a alegria colectiva é partilhada naquela romaria, às portas da cidade, na saída para Braga. – Ó menino, leve a minha passarinha! Que é branquinha e quer ser lambida! – Cala-te, ó Berta, tu precisas é do sardão. Pede ao rapaz, logo verás do que é capaz!!!

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As mulheres, os jovens são os verdadeiros protagonistas desta romaria e tornam-se mais atrevidos neste jogo ancestral da brejeirice. – Esse sardão ao pescoço É feio porque é grosso Se fosse mais elegante Quase que podia ser tua amante – Ó menina, como me espanta Será que pode mostrar a passarinha Será que ela me encanta?! É jeitosa e bem feitinha?! – Ora, seu atrevidote, A minha passarinha tem dono!!! Será de um belo rapazote Que me pegue ao colo E me leve ao altar, e me dê um trono!!! Lá continuavam elas e eles em ditos pregões, em conversas de rima e versejar jogos de namoro para manter viva a tradição. Elas esperavam o moço que lhes oferecesse a caixinha dos segredos!!! Eles desejavam encontrar parceira ou par para namorar… Quase no fim do ano, quando o vento e o frio se habituavam a ficar todos os dias e todas as noites a anunciar o Inverno, lá prós lados do meu bairro – o Tarrafal – aparecia um personagem curioso e único que trazia novidades dos Passarinhas e Sardões, Ilustração de SAL rios. Dele só se sabia que descia do comboio das 9 e meia, dois dias por semana, com aquela vara comprida com um cesto raso em cada ponta tapados com um pano de linho… peixes do rio:

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Sável, bogas, langaios, trutas, esqualos e, no outro, lampreias e enguias. Era um regalo ter aqueles espécimes de qualidade anunciados de forma brutal, pois o homem era grande e encorpado e com uma voz rouca e agreste fazia-se ouvir: – São do rio, são do rio. É peixe do melhor. É bom e barato. Ó senhor!!! Parava em três locais do bairro e ficava com os cestos vazios. No final comentava: – Correu bem. É gente boa!!! Tá na hora de viajar Amanhã, volto ao rio para pescar… E lá partia ufano, contente, satisfeito com a vida que levava. Outros tempos!!! Alcunhas das zonas populares da cidade na década de 50 e 60 Estas décadas citadas foram muito prolixas em dinâmicas socioculturais e as zonas que referimos eram zonas com muita população. Ficam por fazer o estudo e levantamento as ruas da Caldeiroa, Camões e D. João I e ainda toda a rua de Santa Luzia e escadas do Picoto. Seguem-se então centena e meia de alcunhas de zonas de grande concentração habitacional que os mais velhos, aquela geração de “cotas” com 70/80 que teve a paciência suficiente para me aturar e satisfazer a minha busca e curiosidade. Hoje, mais do que nunca, será preciso voltar a ter tempo para estar com os velhos, com os “cotas” e reaprender a respeitá-los na sua condição… Aqui se regista para os vindouros, sabendo, desde já, que, se a actual geração dos 70/80 anos e as suas memórias não forem registadas, com eles se finará um importante espólio daquilo que denominamos “património da memória” dito imaterial… Alcunhas dos residentes da Rua de Santa Maria, Praça de Santiago e Oliveira: Bolinhas – Chuta – Reportaria – Pêra – Barrigana – Bate Folhas – Beiçarola – Berto Mama – Benigno – Bino Malota – Borralha – Cachopa – Cadeiras – Caga – Braga – Caleiro – Camarista – Careca – Carramão – Carrapato – Cebola – Ceguinho – Chapú – Charuto – Checulateira – Chico Rato – Crôco – Diabo – A Moura – Fazardo – Fodelas – Funileiras – Galinheira – Gato – Granja – Lila – Inchadinha – O Piroco – John Choufer – Russo – Julinho – Kiki – Lameiras – Lapinhas – Lavadura – Lavadeira – Leiras – Limpopó – Maçã Pupu – Maçarico – Mãe Olhe Ela – Marquesa – Maria Menina – Marrequinha – Mateira – Matula-Meia – Foda – Melinha Ruça – Mila Xula – Minaua – Morena – Neca Fanado – Ninoca – Padeira – Pafuncio – Palavrinha – Pata Cheia – Pé de Chumbo – Pianha – Picona – Pinguim – Pita Milhoa – Pirata – Pito ao Léu – Polaina – Quicas – Quim

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Guita – Rei da Noite – Riquena – Rosa Cachena – Rosa Manca – Sabonzinho – Santeira – Seliom – Sericas – Serôdio – Tarau – Tecelona – Terrinha – Tónio Vizela – Tony Quim – Vara e Meia – Zarolho – Zarra – Zé Heleno – Zé Maluco – Zé Moca – Zé Peladinho – Zé Rei – Zica. Alcunhas dos residentes da Rua da Ramada, Couros e Vila Verde Os Reportórios – Neca Missas, Alberto Capacheiro – Tónio Cereja – Custódio Vitela – Piedade – Rasteiro – Os Pedras – O Pisco – os Vigários – Manel Batata – A Perra – Sapo Leve – Mariquinhas Sineira – Tónio Rato – Fala Baixinho – Os Lapas – Berto Pirolito – Camiseira – Os Salgados – Os Tadeus – Os Carneiros – Os Reis – Os Rolas – Os Mouras – Os Ciganos – A Careca. Eram famílias com a uma média de sete filhos!... No Bairro conhecido como comboio do Campo da Feira havia: o Piorro – Rosinha Pimenta – Penasol – Carés – Zé Rato – Biguinhos – Zaurinha Carda – As Ratas – Os Famas – Os Tadeus. Alcunhas dos residentes no Bairro das Hortas conhecido por Bairro do Tarrafal. Terá sido iniciado em meados da década de 50 para instalar funcionários públicos para o Tribunal, Notários e Município. Foi o primeiro Bairro Social com concurso aberto pela Segurança Social: Zé Monca - família dos Murçães - os Azelhas - o Tabinho, a Inglesa – Pelézinho – Catrefa – Cubilhas – Zé Comandos – Rosa Manca – Nando Preto – Miguel do Major – Algarvios – Cininha Maluca – Congros – o Peludo – Milhar – Pipimeialta – Bastinhos – Chefe dos Soldadinhos – 301 – Bolotas – filho do 28 – a Minorca – o Partilha – o Mosquitão – Fredo Fraldas – Carlos Gorila – o Pinto Merceeiro, Custódinho, o Cagão – Pinheirinho das parrecas – o Sanfona – Dona Lalá – o Sopeiras – o Rola – o Brasileiro – o Juiz Mudo – o Ervilheiro – o Catrolho – Machado do Pio IX – o Serôdio, o Pixa, a Vaidoca, gentes que viviam nas ruas do Cónego Gaspar Estaço, Rua Conde Arnoso, Praceta Guilherme Faria e Rua Dr. João Antunes. Ainda podiam ser muitos mais!!! A verdade é que esta é a recolha possível de três zonas residenciais da cidade de Guimarães: A Praça de Santiago, Rua Nova e Praça da Oliveira, ru da Ramada e Bairro do Tarrafal. Outras zonas da cidade mereciam também uma recolha tais como Rua de Camões, D. João I, Cruz de Pedra e muitas mais, mas ficará para quem se quiser dedicar a completar este trabalho de antropologia do universo do património imaterial. Nota: A lista dos moradores do Centro Histórico foi um feliz contributo de um antigo morador da zona que informou que parte desta lista já teria sido publicada nas redes sociais. Em nenhum grupo se referem os nomes próprios para salvaguardar a identidade e privacidade.

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O corpo da PSP nas décadas de 50/60 Nunca se pensou na avaliação e contributo das forças se segurança pública para o controlo, manutenção e equilíbrio social das nossas comunidades. Guimarães, há meio século atrás, tinha uma rede de vivências e de relações pessoais e urbanas que mereciam a atenção das ditas forças públicas. Era composta por diferentes concentrações de povo e bairros que se distribuíam pela malha urbana em aglomerados residenciais difíceis de controlar. A pobreza era extrema, as famílias numerosas em média com cinco/seis filhos e muitos deles órfãos, filhos de pais incógnitos e raros eram os dias em que não ocorriam confrontos e conflitos na rua em enormes, escandaleiras e aparatos que se finavam à chegada da polícia… O quartel da PSP (Polícia de Segurança Pública) situava-se na dita rua Dr. Alfredo Pimenta, antiga Rua Escura. Nele acontecia o quotidiano da vida desta trintena de homens que digamos co-habitavam a maior parte do dia neste espaço em corredor que acabava num quintal. Ao longo deste corredor em recantos se acantonavam Edifício do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Antiga Sede da PSP os oficiais de assistência da dupla profissão de muitos, a saber: O polícia Pinto era Rádio Telegrafista. O polícia Ennes era Enfermeiro. O polícia Martins era sapateiro e não lhe faltava trabalho já que tratava do calçado das famílias; Os polícias Hilário e Dias eram ambos alfaiates e consumiam-se a fazer vestes novas para os familiares da corporação. O polícia Correia era cozinheiro… O polícia João Martins era barbeiro e, logo de manhã bem cedo, era vê-lo a fazer as barbas aos chefes. O Hilário conhecido por “sete malgas”, porque se tinha abonado com elas na tasca do Conas para espanto dos presentes, tinha a sua oficina de torneiras de madeira na rua de Santa Luzia de onde saiam torneiras de madeira para os pipos, pés para os móveis, manetes para velocidades dos carros e piões, novinhos em

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folha que faziam ajuntamentos de canalha à porta, à espera do seu pião novo… Depois as ordens eram distribuídas pelos sub-chefes Bastos e Sá, porque os chefes eram muitos e estavam quase sempre ocupados… a jogar à sueca para saber quem pagaria a canecada da tarde: Chefes Serra, Fraga, Nunes, Alves da Silva, Afonso Pereira, Linhares, Campos. Todos eles tinham como comandante o conhecido – Patolas – da Madre de Deus. O comissário, investigador e detective era o Faria que era meio “coca bichinhos” … Vejamos, então, o corpo de agentes que calcorreavam as ruas, aos pares, pois nunca andavam sós e tinham locais certos de paragem para cumprir a roda. Um sítio obrigatório era a substituição da permanência à guarda do banco no Toural, noite e dia… Havia, então, como agentes do corpo da PSP cá do burgo, o Bastos, o Teixeira, o Rebelo, o Adolfo, o Hilário, o Ruvina, o Machado Réu, o Alvarinho, o Pinheiro cozinheiro, o Vilaça, o Ferreira, o Manel Barroca, o João Correia, o Raul de Lisboa, o Acácio, os irmãos Freitas, o Sá, o Joaquim Serra, o Barroso que tinha um filho bombeiro, o Macedo que era cunhado do chefe Campos e por isso nunca chegava a horas, o Aníbal que chegou em 1968 e era meio poeta e grande coleccionador e o Sampaio conhecido pelo “biscas”, sinaleiro e chofer do Governo Civil. Ainda tenho a memória do desempenho de um agente negro como polícia sinaleiro no Toural que provocava grandes ajuntamentos de povo a assistir ao monumental espectáculo de qualidade no seu desempenho. As mulheres só chegaram na década de 80, já depois do 25 de Abril. A primeira mulher era irmã do polícia Barroca, seguiram-se: A Idalina, a Fátima, a Fernanda, a Manuela e a Graça. Este corpo de agentes da PSP existiu entre as décadas de 40, 50 e até 65 do século XX. Na década de 40, comiam duas vezes por dia na tasca da Delfina e pagavam 10 escudos de diária. O “menino do arroz” neto da Delfina chegava a correr da escola de Santa Luzia, a dita universidade primária, para levar as marmitas aos agentes de serviço e plantão da PSP e GNR que era no lugar do município, num último piso da casa da taberna da Delfina. Conhecida pela caserna que tresandava a chulé amenizado pelo cheiro das cebolas que ornamentavam as paredes cobertas por cabos de cebolas. Pagavam, para dormir nesta casamata de 12 camas, mais 15 escudos por mês. Não tinha chuveiros e os agentes faziam a barba no lavatório e iam tomar banho completo ao posto. A Delfina não sabia ler nem escrever, mas até fechar as portas por velhice, em 1965, nunca se enganava nas contas e aguçava o bico do lápis com os dentes. Ainda hoje há gentio cá na cidade que se lembra dos dois tascos debaixo dos arcos do Largo da Oliveira:

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Aninhas Miranda e mesmo ao lado a Delfininha. Outros tempos que se finaram e não voltam jamais, mas que são memórias da cidade… Conclusão A 1.ª parte possui um interesse específico, pois contribui para o estudo das dinâmicas económicas da sobrevivência popular e de como se organizavam as gentes para encontrar pequenos pecúlios de subsistência. Ainda a forma dinâmica e criativa destes comportamentos. A 2.ª parte ajuda-nos a compreender a dinâmica da cidade pela quantidade de famílias no limiar da pobreza e que viviam num autêntico: “Salve-se quem puder”. No entanto é da memória de todos uma referência às relações de vizinhanças e verdadeira solidariedade da altura que não tem mesmo nada a ver com a dependência social destes dias de hoje. A existência de “alcunhas” podia ter razões de identidade e/ou identificação; castigo colectivo; amizade; humor; benevolência; profissão; tolerância; alegria… As “alcunhas” não punham em causa a identidade original dos cidadãos visados tal qual como constavam no bilhete de identidade que a maior parte não tinha. Finalmente a 3.ª parte visa registar um corpo militarizado da PSP, corporação da cidade de Guimarães de há 50/60 anos que desempenhava funções de proximidade e de equilíbrio da comunidade, contribuindo para a sua estabilidade e existência nas suas diferentes facetas da vida.

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Cultura Popular32 F. Capela Miguel

Durante vários anos ouvi de quem sabia e depois li que a minha terra, Guimarães, tinha artes e Mesteres que eram ofícios de orgulhosos artesãos cuja fama chegou a ultrapassar as fronteiras da região e até do país. Conheci ainda em vida alguns dos últimos artesãos que teimavam em mostrar obras-primas. Cumpriam o ciclo natural da vida sem deixar continuadores… Ouço falar em Património Imaterial e na vontade de promover o registo e a memória… Assisto à manifesta vontade de preservar resquícios de artes e ofícios que se finaram… Viajo, então, pelo património que as minhas recordações permitem.

Os oleiros de Guimarães As oficinas que existiam foram sempre de Olaria funcional e popular: cântaros, bilhas, canecas e bacias de barro para uso diário que, depois de feitos nas oficinas espalhadas por vários pontos do concelho, desciam às feiras para serem mercadas. Como nunca tivemos produção de peças finas para a burguesia ou casas senhoriais, a produção não resistiu às mudanças e o aparecimento dos plásticos terá sido o requiem desta indústria. Os fornos da Cruz de Pedra terão sido os mais conhecidos e usados no nosso burgo e até região. Eram vários os oleiros a trabalhar à sua volta para alimentar o fogo destes fornos que coziam as peças noite e dia sem parar. Ainda os conheci assim, quando saía da escola primária e íamos ver o velho Machado a encher os fornos para queimar!!! As mulheres chegavam com enormes resmas de restolho à cabeça. Depois seguiam-se os cavacos de madeira. Horas e horas Uma peça de olaria em processo de produção a queimar e, no final, dos fornos saíam as peças. Na década de 80, afirmou-se que estes fornos seriam recuperados porque todos acreditávamos que o

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In Tebaida de Vimara Peres, Miguel do Sul, Agosto.2021

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município e a vontade do povo eram suficientes para concretizar este desejo. Que desilusão!!! Passados mais de quarenta anos de sucessivas promessas e abandono, os “velhos fornos da Cruz de Pedra” teimam em existir como monumento vergonhoso à incúria e à falta de respeito ao património apregoado, mas sucessivamente abandonado pelo município!!! Mas, o espantoso desta incúria e falta de compromisso é que não se deixa morrer o ex-líbris da cultura popular e destes oleiros

A Cantarinha dos Namorados Embora com poucos seguidores e com muitas imitações e desvios a verdade é que esta Cantarinha perFornos de Olaria da Cruz de Pedra siste em afirmar a sua originalidade e compromisso com o amor. Carregada de um simbolismo único que suporta uma tradição original que é única na nossa região, a Cantarinha é hoje uma peça rara que existe na vontade de alguns e raros acasalamentos, mas costuma ser presente valioso, simbologia de uma cultura popular com substância, mas pouco preservada quiçá quase abandonada e em extinção. Foi o orgulho de gerações de casais jovens que iam no solstício de Inverno a Santa Luzia buscar a “caixinha Cantarinha dos namorados dos segredos ou compromisso” para, no ano seguinte, irem buscar a cantarinha à Cruz de Pedra para vaidade e prestígio dos velhos oleiros… Ainda me lembro do último oleiro da Cruz de Pedra – Senhor Joaquim Oliveira de Creixomil – que visitei no ofício e acompanhei em muitas feiras e escolas a vê-lo dar à roda para fazer aparecer, como que por magia, a cantarinha com a sua alegria… Paz à sua Alma, memória e dedicação!!!... 497


Outros tempos!!! Restos de hábitos e memórias!!! Se Guimarães fosse uma grande metrópole já há muito teria, numa das entradas da Cidade, uma Cantarinha gigante para ser admirada pelos visitantes com o dístico - Terras da Cantarinha. Fico-me por aqui!!!

Costura e bordados Falamos de cultura popular e como tal será preciso compreender as produções a que chamamos arte popular e a arte das elites. Trago isto, a propósito, para declarar e desmistificar um engano que o tempo e o desconhecimento degeneraram na denominação. O bordado que hoje existe em Guimarães é um produto que resultou de um investimento e opção política do presidente, na época, Manuel Ferreira, que incumbiu a senhora D. Emília Guise de pensar na preservação dos bordados do povo da região e ainda de organizar a representação do artesanato vimaranense nas feiras da especialidade, nomeadamente na de Vila do Conde. Sem mais delongas, diga-se, desde já, que, ao tomar conta deste projeto sem qualquer orientação, a Cooperativa Oficina limitou-se a produzir o produto – o Bordado – pelas senhoras que apareciam a fazer o dito e a estarem representadas nas feiras. Dito de outra forma, limitaram-se a produzir e minutar o projeto inicial que na sua prática de continuidade ficou truncado. A outra parte do projeto ficou por cumprir que seria pensar e criar novos produtos de arte popular associando os Bordados do linho, também com grandes tradições na região, nomeadamente na Corredoura – o Linhal – e convidando estilistas a criar novos produtos no universo da moda. Este projeto era original e como tal um grupo de vimaranenses deslocou-se ao Gerês e depois à Serra da Estrela onde aconteciam, nesta década de 80 do século passado, projetos similares. Várias foram as novas empresas têxteis que nasceram utilizando novas matérias primas com novas texturas como o pano de surrobeco e o linho criando produtos de enorme qualidade e estão aí a testemunhar o êxito de projetos pensados e planeados de raiz por quem sabe… Hoje em dia este segmento da moda portuguesa com novos estilistas e matérias primas vai de “vento em popa” e já ultrapassou fronteiras, onde esteve representado no Salão de Paris. Diga-se, então, por quem sabe, que o tal Bordado de Guimarães legítimo é hoje conhecido como Bordado de Felgueiras e podemos vê-lo decrépito em armações na beira da estrada de Guimarães a Felgueiras. A verdade é que as criadas quer de dentro quer de fora que vinham trabalhar até ao século XIX para as casas senhoriais de Guimarães eram oriundas deste território e quando eram dispensadas e despedidas 498


levavam o conhecimento aprendido e apreendido com as meninas de bem das casas de brasão. Os bordados ao longo dos caminhos seriam um modo de subsistência ou de sobrevivência pois sem outro suporte colocavam o produto em frente às residências na beira da estrada. Podemos declarar que com a morte destas “velhinhas” e de suas filhas se finou o legítimo Bordado de Guimarães. Então o que é aquilo que se denomina de Bordado de Guimarães?! Bom, este produto é encontrado em toda a região denominada – Minho. Ele é a expressão rural e a sua falta de instrução porque analfabetas, mulheres não escolarizadas que coziam a linha única com as palavras mal escritas, mas sentidas pelo coração. Se não souberem, perguntem à D. Emília Bordados de Guimarães que ainda é viva!!! A terminar uma nota sobre a arte da costura que ocupou muitas costureiras e alfaiates. Hoje, quase em vias de extinção, ocupam meia dúzia de idosos a fazerem o denominado “Artesanato Social” como atividades ocupacionais nos lares e centros da terceira idade. Produzem na sua criação livre: sacos e saquetas, almofadinhas e almofadas; bonecos de diferentes caras, personalidades e tamanhos… e peças afins. São os tempos do nosso Artesanato!!! Com a sua força de vontade bordam, como presentes únicos para os seus rapazes – o lenço dos namorados. Mais tarde, o ponto de cruz veio associar-se a estes ditos enriquecendo as peças e assim terão nascido os Bordados de hoje, ditos de Guimarães. Eram combinações de figuras e linhas geométricas, feitas a ponto cruz, onde os elementos de destaque eram a cruz, a âncora o coração. Era denominado Bordado Popular e seria somente a duas cores - o azul e o vermelho – que embelezava as camisas de linho dos rapazes ou os lençóis e fronhas do enxoval que ia enchendo a arca e fazendo até ao dia da festa do acasalamento, festa única do mundo rural, que durava um dia e onde eram sete pratos e onde nunca faltava a festada… As costureiras produziam as peças básicas do vestuário, sobretudo feminino: cuecas, vestidos, botas,

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aventais que utilizavam panos de chita. Além disso, eram remendadeiras: com retalhos punham cordas nas calças da rapaziada ou remendos tapando os buracos dos joelhos. Havia um espírito de preservação e poupança daquilo que eram as posses (dito património) de cada família.

Carpinteiros e Marceneiros Contava-me o velho Coutinho da rua da Liberdade que o velho burgo de Guimarães acolitava uma plêiade de artesãos de madeira que eram muito procurados e respeitados pelo seu trabalho… Procurava eu este velho artesão, marceneiro, para me restaurar peças que herdara da minha família e que gostava de possuir. O mestre era bom versejador também e tinha uma cultura acima da média, que despertava a minha curiosidade e, por isso, ia sempre com tempo para uma boa conversa… – Bons carpinteiros e bons marceneiros… – Comentava eu – em Guimarães??!!! – Sim senhor, menino!!! Dos melhores, no norte do país!!! – Conte lá mestre Coutinho, conte!!!... – As tradições dos velhos mestres das madeiras já são antigas e com tradição em Guimarães e até tínhamos confraria. Assim como que um sindicato dos mestres… – Não diga??!!! E faziam provas de mestria? – Sim senhor!!! Por altura da Primavera, no dia de S. José, todos os aprendizes, oficiais e mestres de madeiras se encontravam na Praça maior cá do burgo para assistir à eleição do Mestre perfeito ou grãomestre da Confraria dos carpinteiros e marceneiros de Guimarães que era eleito democraticamente e declarado perante todos os presentes e aclamado depois de receber com honras a vara do ofício, a capela e a boina do ofício ou mester. A ele lhe competia representar todos os trabalhadores de madeiras da região no conselho municipal, na casa dos 12 ou Casa do Município ou dos Arcos, no Largo da Oliveira. Fazia parte da gestão municipal conjuntamente com os restantes vereadores dos ofícios do burgo e era presidido pelo representante do rei. – Muito me conta mestre Coutinho, mas essa tradição já acabou há muito tempo??!!! – Olhe menino… As corporações de mestres ainda existiram no século XVIII, mas os ofícios ainda chegaram aos nossos dias. Eu cá tenho oitenta e oito anos, mas o Monteiro da Praça de Santiago tem menos onze anos que eu, tem setenta e sete e ainda cumpre a arte e tem loja de ofício com aprendiz e tudo!!!... Caramba!!! A tradição em Guimarães perpetuou-se por muito tempo cá no burgo! Com certeza que as 500


famílias de bons costumes possuíam património de cerejeira ou castanho, bons móveis, quer dizer boas mobílias que mereciam a atenção de bons mestres marceneiros que iam de casa em casa limpar, polir, encerar e envernizar este património único que ainda preenche os salões das famílias de nome, ou seja, da elite de brasão vimaranense… Os Saraivas, os Amarais, os Porto Carrero, os Sampaios, os Morais Sarmentos, os Martins de Aldão, os de Vila Pouca ou de Vila Flor, os Barbosas ou da Casa do Paço eram famílias de referência que chamavam os mestres de marcenaria e carpintaria para cuidar dos móveis e mobílias que eram um rico património de referência e que, hoje, muitos deles vamos encontrar em antiquários ou em leilões para Inglaterra. Estou convicto de que ainda teremos boas peças desta riqueza nos salões das casas das famílias, mas destes mestres que refiro já não haverá muitas pois a industrialização dos móveis veio terminar com esta produção artesanal que venho referindo. – Ó mestre Coutinho, a sua arte está-se finando, pois já não há artistas de móveis, não é verdade??!!! – Assim é, menino!!! Como disse, eu e o Monteiro somos os únicos cá na velha cidade de Guimarães que ainda sabemos os segredos da arte e não temos jovens para serem aprendizes!!! As fábricas de móveis mataram a arte!!! – Mestre Coutinho, não foi somente a industrialização, foi também o preço das peças. Cada peça que fazem, cada móvel custa uma pequena fortuna!!! – É verdade menino!!! É verdade!!! Nós também já somos velhos para estas coisas e as pessoas já não nos procuram!!! – Mas os nossos segredos e a arte, sendo tradição de Guimarães, devia ser registada e preservada para memória dos vindouros. – Ora, ninguém nos procura. Já não têm interesse por essas cousas!!! – Mas competia à Cooperativa Oficina fazer esse trabalho, esse registo. Foi para isso que eu ajudei a criar essa Cooperativa: registar e preservar a memória dos ofícios e Mesteres de Guimarães, conforme estão referidos por A. L. de Carvalho com os oficiais e Mestres que chegaram aos nossos dias… – Menino eu hei-de acabar e o Monteiro também sem isso acontecer!!! Infelizmente foi premonitório, a Cooperativa Oficina enleou-se numa teia de gestão de património mais do presente do que do passado que justificava a sua criação e perdeu-se… Sim, o passado da sua salvaguarda patrimonial perdeu-se!!!...

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Os segredos dos canteiros da região A paisagem da região onde vivo é única e maravilhosa. Porquê? Estarão a querer perguntar e antes que o façam eu dir-lhes-ei!!! Porque é verde de forma abundante e porque é segura na confiança que nos transmitem as pedras. A pedra denominada de granito!!!... Quartzo, feldspato e mica é a sua composição e pode ser mais mole ou mais dura conforme a proeminência de um destes componentes. O mais duro e fabuloso é o granito azul!!!... Trago a propósito isto porque reconheço na região como património de mais valia este produto e os ofícios que existiram para com ele fazerem pacientemente “obras-primas” que atravessaram o tempo e chegaram aos nossos dias… Um dia destes, que era sábado, cumpria eu a minha ronda pelo concelho, fazendo o passeio habitual para os lados de Gominhães, quando me deparei com um velho agarrado a um pico que castigava uma pedra de granito num estaleiro de construção de uma habitação familiar. Logo estaquei e meti conversa, pois havia muito tempo que já não me deparava com um canteiro conhecedor da “arte da pedra”. – Boa tarde meu senhor!!! Vejo que sabe “cantar” uma “pedra bruta” e fazê-la trabalhada!!! Posso assistir um pouco??!!! – Claro que pode ver, senhor!!! – Vejo que conhece bem a arte!!! – Aprendi muito novo sabe, comecei com 10 anos!!! – E já agora quantos tem??!!! – Ora senhor – sorrindo – já cheguei aos 93!!! – Como?!! E ainda com essa genica toda?!!! – Ora, só faço porque a casa é pra minha filha e assim ficará mais bonita e mais baratinha!!! – Está de parabéns!!! Isso é um rico presente!!! – Começou aos 10 anos, mas isso foi há muito tempo!!! – Fui aprendiz nas pedras do mosteiro do Santo e depois fiquei com os mestres da escola de cantaria de S. Torcato com quem aprendi a arte. Mais tarde também ensinei muitos jovens. Depois reformei-me com 66 anos e por aqui me tenho mantido a fazer umas leiritas que herdei dos meus pais. Agora faço isto porque é da minha filha esta obra. Fiz tantas pedras, tantas que a gente nunca esquece!!! Aprendi a bater a pedra, a quebrar, a partir, a picar, a esquinar, a dobrar, a acariciar, a riscar, a polir… pegar numa pedra bruta e fazê-la polida!!! São os segredos da arte. – Pois os meus parabéns!!! Gostei muito do que vi!!! 502


Fiz-me novamente ao caminho e ia pensando nos inúmeros canteiros que existiram na nossa região. O contributo da escola de cantaria de S. Torcato, que chegou ao fim, e dos “filhos” na partilha dos segredos da arte de dominar o granito, que aconteceu por vários séculos e que fizeram “obras-primas” de referência. As Catedrais e todas as obras onde pontifica o granito tiveram a mão destes ofícios e mesteres da pedra… Quando cheguei a Guimarães lembrei-me do Portal da Quinta da Cantonha e de um outro da Fábrica do Arquinho onde vai nascer o novo Curso Aeroespacial da nossa Universidade, obras desenhadas pelo “Freitinhas” de Santa Luzia e mestre na Escola Industrial, no tempo da República. Na cidade há memória do estaleiro da construção dos Paços do Concelho e depois do Palácio da Justiça com os presidiários como canteiros. Lembrei-me ainda desta altura da construção da Igreja da Penha com o risco do Arquiteto Marques da Silva e cujo estaleiro enorme juntou várias dezenas de canteiros da região de Guimarães, Fafe e Basto. A arte da pedra feita pelos artesãos canteiros há muito que se finou. Lembrei-me que o único registo que existe foi realizado por um estrangeiro Michel Giacometti… Ainda há na memória dos vimaranenses o registo do trabalho, dedicação e perfeição do trabalho da pedra granito que faz parte integrante da paisagem do norte de Portugal.

Latoeiros Aí pela década de 70 do século passado, ainda existiram artistas da tesoura grossa de cortar o latão ou a folha de flandres, fazedores de “latas” ou latoeiros. Salvavam louça colocando gatos de arame ou chumbo, “pingavam” os buracos de vasilhame furado e faziam peças únicas de função ou utilidade, tais como: funis e leiteiras, copos e jarras d’água, regadores e alguidares… Mas em Guimarães estes artesãos faziam ainda peças únicas onde investiam a sua criatividade para envaidecer os meninos do santo, conhecidos por Nicolinos. Estes homens de mesteres ou ofício da lata produziam as famigeradas louças das maçãzinhas que encimavam as canas que ofereciam o pomo da tentação – a maçãzinha, convidando a menina ao pecado ou ao compromisso ou ao namoro. A Festa Nicolina perdura ainda hoje, mas já não existem latoeiros fazedores de lanças para as maçãzinhas que também elas se arrastam em decrépita vontade de existir. A arte da latoaria já não existe e lembro-me de existirem latoeiros na viela dos açoutados, no Largo 503


Donães, no sítio da Pousada. O último latoeiro foi o velho Lobo. Ainda o conheci no canto em frente ao Gaspar ferreiro, os dois na treta, cada um empenhado no seu ofício. Nos últimos tempos, só fazia lanças para a festa do santo até se cansar… Arte registada somente pela tradição e sua memória. Com o património não houve esse cuidado.

Ourives e prateiros Um dos ofícios de grande tradição em Guimarães até com reconhecimento real foram os artesãos do ouro e da prata que atingiram mestria de superior qualidade tendo no mestre de balança e do teatro – Gil Vicente – talvez o expoente máximo conhecido sendo a Custódia de Belém a sua “obra prima”, segundo se julga. Há mais ou menos meio século ainda passei muito tempo do meu tempo de juventude a ver aparecer as obras das origens na rua da Rainha Dona Maria II que, num canto das muitas ourivesarias da rua, faziam, à força do sopro no tubo dobrado, a obra de ouro vestida sobre um pedaço de carvão de madeira que se ia enformando bocado a bocado, peça a peça até à obra final: um broche, um anel de fantasia, uma arrecada, uns brincos, umas argolas, uns botões de punho. Eram peças únicas que o ourives soprador criava ali à vista, para gáudio dos passantes que chegavam a marcar lugar até o artesão aparecer e, no entanto, eram tantos os artesãos que até tinham que levar a obra ali à Tulha, à casa do contraste, para ser firmados e registados no livro dos ourives de Guimarães. Outros tempos que a memória registou e lhes deu fama e proveito até terem que sair para norte, Póvoa de Lanhoso ou Porto, Gondomar, para escapar a algumas más intenções. A verdade é que estes artesãos eram muitos deles judeus e por razões de existência tinham que “mudar de ares” e de terra já que os cónegos da colegiada seriam pouco tolerantes à sua religião. Os prateiros para os acalmar terão oferecido um altar fabuloso na obra final que pode ser ainda hoje apreciado no altar lateral da direita da Igreja de Santa Maria de Guimarães vulgo de Nossa Senhora da Oliveira. Esta ainda é a memória de outros tempos e podem ser apreciados em peças de ouro e prata no tesouro delapidado do nosso Museu de Alberto Sampaio. Guimarães foi, no antanho, um fabuloso e importante burgo onde estes ofícios tiveram enorme importância nacional e que mesmo discretamente hoje continuam a ter já que foi anunciado para breve a criação novamente da Casa do Contraste na nossa cidade a pedido dos industriais actuais desta arte. 504


O ferro forjado De nariz levantado com olhos postos nos balcões e varandas do burgo procurava a sua originalidade ou espécimes especiais. Tinha ouvido falar dos balcões e varandas de Guimarães que justificariam o “mamarracho” que uma tal artista vinda de Lisboa tinha cravado como punhal traiçoeiro no coração transfigurado da Praça do Toural. Descobri alguns espécimes mais originais que outros, mas este terá sido o primeiro e único levantamento realizado por cá para justificar a tal aberração!!! É verdade que existia uma tradição antiga do ferro forjado em Guimarães, quiçá remontando aos tempos medievos das oficinas de fogo e forja onde os moços faziam os músculos aparecerem enquanto os pais malhavam o ferro em brasa para fazerem espadas e cutelos, grades de janelões ou gradeamentos de jardins ou propriedades. Claro, varandas também!!!... Nesta demanda dei de caras com o último ferreiro do burgo e naturalmente questionei-o: – Meu caro Gaspar, hoje ando em visita ao seu universo – o ferro forjado – trabalhou muitos anos na arte do ferro?? – Pois trabalhei mais do que devia!!! – Não diga!!! Porquê? – Comecei desde pequeno na oficina com meu pai que foi meu mestre e que depois herdei para continuar a arte. Hoje sou o último e não ganhei nada com isso!!!... – Lembro-me que atrás da CGD havia uma oficina e no alto do Picoto uma outra, mas já feOficina de ferreiro, largo de Donas, charam as lojas e apagaram a forja há muito In, Guimarães, minha terra, Nuno Saavedra tempo!!! – Atrás da CGD, hoje é uma grande empresa em Creixomil – Os Netos do Simão – e os outros já morreram de velhos!!! – O Senhor Gaspar como se sente enquanto artesão de um ofício em fim de vida??!!! – Olhe, professor, nos últimos anos já só tinha a oficina aberta por mero prazer pessoal e só fazia peças artísticas que estiveram em várias feiras a que os turistas davam mais importância do que as gentes da nossa 505


terra… – Que obras de ferro refere em Guimarães?! – Algumas varandas é verdade, mas as grades da torre da Igreja da Oliveira e as do Cruzeiro da Guia têm uma grade única muito bonita. – E a grade que havia no Museu de Alberto Sampaio?! – Essa foi o meu pai que fez e que fizeram desaparecer para substituir por uma parede de vidro a despropósito. – É verdade, uma parede de vidro que, há bem pouco tempo, também desapareceu para ser agora substituída por uma vulgar grade de ferro para anunciar o Adarve!!! Podiam ter reposto a velha grade que era muito mais interessante e magnificente no local!!! – Eu cá nem digo nada, professor!!! – Agora tem a porta fechada. O que vai acontecer à sua oficina?!!! Não foi contactado para registo de memória futura?!! – Não, não fui contactado por ninguém e fechei definitivamente a porta. O senhorio tomou conta da sua casa!!! – Ó Gaspar, mas a forja podia ter dado para a Casa da Memória para juntar uma tabuleta: A última forja de ferro forjado de Guimarães!!! – Quero lá saber!!! O Município ou a Cooperativa que trate disso que será a eles que compete zelar pelo património da região… Eu cá acho que a Associação Muralha podia dar uma ajudinha. Afinal não foi ela criada para a Defesa do Património de Guimarães??

Artes e ofícios dos curtumes Uma das artes fortemente presentes na memória dos vimaranenses é, sem sombra de dúvidas, a dos ofícios e mesteres ligados aos curtumes e afins. É talvez a única Confraria que abre a sua Capela de S. Crispim e S. Cipriano e que será difícil apagar da memória da cidade, pois hoje em dia tem um manancial de peças diversificadas de património existente e que poderá a curto prazo ser ainda reconhecida como património da Humanidade o seu bairro e quarteirão da cidade medieval. Há ainda alguns trabalhos universitários de mestrado e doutoramento, mas sobretudo persiste a 506


memória de muitos idosos ainda vivos, velhos operários dos tanques das fábricas dos curtumes, que existem como feridas vivas no desenho e na toponímia da cidade de Guimarães. Mesteres em memórias marcantes com sangue e suor nos corpos dos operários e que espero ver um dia reproduzidos num museu reconstruído numa velha fábrica de curtumes, uma dessas por aí abandonadas e que farão justiça aos sacrifícios da vida destes homens que lhes dedicaram a vida por séculos e que são verdadeiras, porque única atração turística do nosso burgo.

Doçaria e compotas Porque reconheço como património único a merecer atenção do registo a Doçaria profana e conventual, as compotas que ganharam forma, produzidas nas casas das famílias do burgo e pelas freiras do Convento de Santa Rosa do Lima. Os doces conventuais de Guimarães das Costinhas e da Clarinha, hoje, e que são heranças do velho Convento de Santa Clara ou das Clarissas: As tortas, o toucinho do céu, o coração dos anjos e outros mais profanos como as rochas e brisas da penha, as raivas das Taipas ou os ciprestes da colegiada. Mas as compotas que se faziam sobretudo de doces de frutas que eram apreciados nos Outonos e Invernos com uma boa fatia de pão e Tortas de Guimarães, casa Costinha também para conservar vegetais. Eram formas de preservar frutos e vegetais, que os nossos ancestrais avós usavam para salvar alimentos e aumentar a variedade da nossa alimentação. Técnicas e velhos hábitos que se finaram com os aromas meios de refrigeração e preservação de alimentos. Ainda há muita gente a fazer compotas e doces de família como os seus antepassados, mas, ainda ninguém se lembrou de registar e comercializar a marca: DOCES de GUIMARÃES Vimaranenses…. Ainda há tanto por fazer!!!!! Não chega SER, é preciso, é urgente produzir, fazer!!!...

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A música popular F. Capela Miguel

A memória que é possível conhecer na nossa região sobre a música popular, enquanto património imaterial a preservar, remonta a finais da década de 30 do século passado. O seu maior protagonista e grande embaixador de Guimarães em muitos eventos nacionais e internacionais foi orgulhosamente a denominada Festada de Guimarães expoente maior da cultura popular. Estava obrigatoriamente presente em quase todos os actos públicos do município e até terá ido a França, a convite de Jaime Martins, com o seu Ritmo Louco. As Festadas são os grupos antecessores daquilo que hoje denominamos Grupos e Ranchos Folclóricos, expoentes marcantes da etnografia das nossas regiões, dando-lhes identidade… As Festadas eram festejos espontâneos de música e dança de cantigas e comportamentos que eram o corolário das actividades laboriosas da nossa faina rural, ou seja, dos trabalhos que se cumpriam nas diferentes épocas e estações do ano. As músicas eram quase sempre livres e espontâneas e são hoje os nossos cantares ao desafio. Os cordofones estavam sempre presentes nos agrupamentos musicais: braguesas, cavaquinhos, violões, violinos, banjos, violas e violetas. Às vezes apareciam flautas e clarinetes que eram os sopros. No século XX, apareceram a juntarem-se as barulhentas concertinas de diferentes afinações e que conquistaram lugar definitivo nestes ranchos. O Toninho das Feiras foi o criador da festada e a Rosinha sua mulher a primeira cantadeira. O Miguel de Vilar sempre agarrado ao violão era a figura que mais se destacava porque era magro e alto e usava um bigodinho curto. Eram caseiros da Quinta do Fato e a Maria da Carrapatosa a mais famosa e linda cantadeira. Depois um dia entrou o João da Cadela e com a sua concertina animou eiradas, bailaricos e festarolas. Uma nova geração tomou as rédeas da festada. Só a família dos Novais tinha uma dúzia de elementos activos e outros como o António Guerra e o António Pereira trouxeram novas dinâmicas, mas, ao fim de um tempo prolixo, a festada finou-se e muita gente hoje ainda não sabe os porquês!!! Nesta época de 60 se iniciou a Guerra do Ultramar que veio interferir com os hábitos e compromissos destas gentes. Muitos foram os artistas que se fizeram como músicos nas Áfricas da Guerra Colonial. Por cá nasciam agrupamentos de música popular como os “Sombras do Ave” e, ou vindos de S. Clemente como, “As Estrelas do Ave”.

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O Mundo Novo nasceu em Fermentões e depois de aventuras e dissidências foi o Novo Mundo. Antes o conjunto Sol e Ritmo já mostrara a sua mais valia na promoção da música popular portuguesa. Com a criação da Federação Portuguesa de Folclore presidida pelo senhor Augusto Gomes dos Santos se viu acontecer uma evolução nos grupos e ranchos folclóricos em todo o país e nomeadamente em Guimarães que, entretanto, se juntam para a criação da sua Associação de Folclore Regional. Quase meia centena de grupos existem na região que empenhadamente promovem os seus festivais com visibilidade e promoção da genuína música e dança popular portuguesa. Hoje em dia é a concertina a rainha desta manifestação da cultura popular e está presente nos grupos que se conhecem: Cláudia Martins e os Minhotos Marotos, descendentes de uma grande família de tocadores de concertina e cantadores ao desafio, a Liliana e Coração Minhoto, o Dino Freitas e os Creiximir, Filhos da Nação, Foles de Atães, os Ás Negro das Caldas das Taipas, os Berço da Nação e o Grupo Kuringa de música medieval e tradicional Portuguesa. Na década de 60, desciam à cidade bandos de jovens que vindos da “inspecção” faziam arruadas de concertina como que com modo de despedida do continente. Nessa década, terão nasTocador de Concertina, ilustração de SAL cido os Trovadores do Cano. Hoje, as novas gerações e sobretudo as mulheres são exímias executantes de concertina em grupo ou a solo e são desta altura o grupo dos Bombeiros de Guimarães. Hoje, a música popular é um nicho normalizado de produção artística que merecia uma atenção especial

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por quem de direito, no sentido de criar desafios inovadores e modernos que levassem ao aparecimento de novos grupos com novas criações e experiências artísticas neste universo. Muito ainda estará por fazer, mas, na nossa região, não há entidade formal ou informal que pense estas realidades culturais do nosso Património Imaterial. Este texto é uma homenagem a dois cidadãos da nossa região, amantes apaixonados do nosso folclore e música popular: o senhor Azevedo das águas, etnólogo e autodidacta que na FNAT defendeu os Ranchos Folclóricos de Guimarães nomeadamente a Corredoura, e, ainda, o senhor Alberto Vieira, presidente e principal impulsionador do Rancho Folclórico de S. TorTocadores de instrumentos de música popular, Ilustração de SAL cato e do seu Festival Internacional.

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NICOLINAS

A Torre dos Almadas Miguel Bastos

Pedro Álvares de Almada, filho de D. Álvaro de Almada e neto de João Vaz de Almada (Senhor de Pereira), terá nascido na vila de Guimarães, no séc. XV (estima-se entre 1425 e 1459) e falecido após 1507. Cavaleiro e fidalgo partiu para Inglaterra, no início do séc. XVI, onde ofereceu os seus serviços militares ao rei Henrique VII. Este, em 1507, por reconhecimento, agraciou-o com a Ordem da Jarreteira e concedeu-lhe um acrescento heráldico às armas de cavaleiro fidalgo do rei português D. Manuel I. Pedro Álvares de Almada instituiu o Morgado da Azenha, igualmente, em 1507, com a capela do senhor Crucificado na igreja de S. Francisco, onde tinha jazigo e uma missa quotidiana. Guerreou em África e Inglaterra e viveu na Ilha da Madeira. Possuía casa no rossio da Tulha e foi administrador do dito Morgado, Miguel Leite de Almada, seu descendente. Segundo o Padre Torquato de Azevedo, na obra “Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães”, o rei Henrique VII de Inglaterra deu-lhe brasão de armas com um alvará deste teor: “[…Henrique por graça de Deus, senhor de Inglaterra, e de França, senhor de Hibernia, a todos e a cada hum dos fiéis christãos a que estas nossas presentes publicas lettras forem apresentadas, saude e prosperidade.

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Sabei que sempre foi uso, e bom costume nosso, que os que vemos mais avantajados em alguma virtude, e bondade, ou sejam nossos naturaes, ou entrangeiros, de nossa boa vontade com nossos favores, e graças os honramos, e os havemos por merecedores de nossa liberalidade, e real franqueza: pela qual cousa, como o nobre barão Pedro Alves de Almada, fidalgo da casa do illustrissimo e potentíssimo principe D. Manoel rei de Portugal, e dos Algarves, e senhor da Guiné, nosso parente e carissimo amigo, seja de nós assaz bem conhecido por varão na verdade prudente, e grave; e principalmente como somos certificados ser mui valoroso nas armas, e exercício militar, e que tem proposito, e por empreza fazer guerra aos Mouros infieis; desejando nós muito honra-lo com mercê nossa assim particular, por sua virtude, e grandeza de animo fique ainda mais claro, e resplandecente, lhe entregamos, e livremente damos parte de nossas armas, e insignias reaes, a saber: uma ametade de uma flor de liz de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e em duas côres, como é, em uma parte de verde, e da outra de prata para que elle, e todos seus descendentes, afines, conjunctos por sangue, ou afinidade, assim presentes, como futuros possam usar das mesmas armas, e insignias segura e livremente, aonde cada um, e como quizerem assim como se fossem suas proprias armas, e insígnias. Em fé, e testemunha da qual nossa entrega e livre doação mandamos ser feita esta nossa presente, e publica carta por nós assinada, e authorizada por nosso mandado, com nosso sello particular pendente. Dada em nossa corte de Ricomonte em 2 dias de Março do anno do Senhor de 1501. Rei - Pedro Cameliano a fez por mandado de S. Alteza…]”.

Segundo a publicação “Edificações do Centro Histórico e Sua Envolvente com Interesse Patrimonial”, da responsabilidade do Prof. Arq. Bernardo Ferrão e Dr. José Ferrão Afonso, «A existência de casas torre de origem medieval é comum em povoações portuguesas, algumas delas erguendo-se ainda hoje; muito raramente isoladas, na maior parte dos casos transformadas e/ou integradas em conjuntos residenciais posteriores. Eram geralmente habitação de nobres ou do alto clero e sinal distintivo da sua condição, mas, no século XVI, já surgem servindo de morada a burgueses e homens dos mesteres. Em Guimarães existiam várias, como a do Morgado dos Mirandas, de origem medieval e situada na antiga rua das Flores que marginava, a poente, o actual largo João Franco, destruída nos meados do século XVII para possibilitar a abertura do Terreiro da Misericórdia. A do morgadio dos Almadas, no largo da Tulha, existe ainda num gaveto da rua da Rainha. O casario envolvente, que a separava da antiga rua Sapateira (rua da Rainha) foi demolido, libertando uma fachada completamente reinventada pelo historiador, escritor e urbanista Luís de Pina. De facto, na primeira metade do século XVI, surge na área urbana de Guimarães um conjunto de casas nobres, frequentemente resultado de transformações e adaptações em construções pré-existentes, seguindo o novo

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gosto italiano que então se difundia no noroeste do país. Utilizam nas suas fachadas a cantaria de granito, material “distintivo da nobreza”, são casas de morgado, residências de nobreza e, em alguns casos, estão na origem de posteriores residências seiscentistas e setecentistas. Enquadráveis nessa tipologia são a habitação que foi de Pedro Álvares de Almada, no antigo largo da Tulha, hoje Dr. Avelino Germano, a Casa Valadares de Carvalho, ao cimo da rua de Santa Maria e a que, na margem direita da mesma rua, precede a Casa do Arco. […] Provavelmente em finais do primeiro quartel do séc. XVI, a antiga casa torre dos Almadas no largo da Tulha, hoje Dr. Avelino Germano foi alterada, e as obras incluíram o rasgar de uma bela janela de sacada renascentista, moldurada com colunelos e decoração de tipo lombardo que, ainda hoje se pode admirar, no primeiro piso, sobre o portal chanfrado e ligeiramente apontado de entrada.”

Avancemos quatro séculos. Quando se procedeu, por altura dos anos 30 do século passado, à abertura de ruas e alargamento de espaços para permitir uma maior salubridade da cidade, foi demolido parcialmente esse edificado, tendo daí resultado um espaço amplo, um pequeno largo de planta triangular, ainda hoje existente. Segundo reza a história, terá ficado exposta uma torre em granito, de três pisos, com uma cobertura de quatro águas e sem janelas para o largo. Essa “descoberta” trouxe desde logo, na esteira da boa tradição vimaranense, vasta polémica. Dizia-se numa notícia de jornal: “Continua por desencantar o famoso e feudal Castelo dos Almadas, ali em cima na velha feira do leite, dizendose, e com razão, que melhor fora nunca lhe terem mexido, pois, assim, como está, oferece um triste e deplorável espectáculo às pessoas que passam por aquele local, deixando de nós uma má reputação quanto a tino administrativo, não comentando já o aspecto horrendo que apresentam as suas pedras amontoadas como as paredes negras e sujas do velho pardieiro — que os modernos arqueólogos sonharam descobrir, no seu interior, mais um Castelo... a figurar ao lado de tantos outros que são a nossa vergonha”.

A mesma notícia diz, ainda, que era preferível colocar uma vedação e mais: “Por motivo contrário ao nosso génio fascinador e artístico não foi possível descobrir ainda as ameias deste Castelo, esperando nós que o dinheiro e Santa Engrácia nos perdoem... e os munícipes também”. Alguns diziam que aquilo era o Castelo dos Almadas. Porém, “outras diziam que o não descobrem e que o que ali se observa são, apenas, umas ruínas indecentes...”. Foi, igualmente noutra notícia local, dado como «crismado, passando, então, a denominar-se “O Castelo dos Desalmados”. Que o iluminem por meio de um holofote, que fica uma obra completa!”.

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PLANTA DA ENVOLVENTE - c. 1863

PLANTA DA ENVOLVENTE - c. 1569

PLANTA DA ENVOLVENTE - c. 1939

FOTO ÁEREA - ” GOOGLE EARTH” c. 2020

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Foram-lhe feitos uns versos intitulados “A Relíquia”, publicados em 24/06/1934 no jornal “Notícias de Guimarães”: “Que o Castelo dos Almadas Seja depressa curado, Porque de tripas furadas Cheira mal, o desalmado” Nos anos 30 do século XX, o chamado “Rossio da Tulha” (hoje o “bico” correspondente ao gaveto entre a Rua Avelino Germano, a Rua Rainha D. Maria II e a Viela de São Crispim) apresentava um conjunto de construções de várias épocas, incluindo restos do “paço” de Pedro Álvares de Almada, em mau estado de conservação. As Festas Nicolinas não podiam ficar indiferentes ao caso, como veremos a seguir… Entretanto, para os incautos, distraídos ou forasteiros, fazemos um parêntesis. As Festas Nicolinas ou Festejos a São Nicolau são uma manifestação secular dos estudantes vimaranenses e constituem marca indelével e matriz identitária da vivência cultural e popular da cidade. Há mais de três séculos que envolvem a população vimaranense que nelas se embrenha desde os finais de cada mês de Novembro até à primeira semana de Dezembro, revolvendo a cidade e projectando-a, até, fora de muros. As Festas englobam vários “números” que constituem actualmente a sua matriz: as Novenas, as Ceias, o Pinheiro, as Posses, o Magusto, as Roubalheiras, o Pregão, as Maçãzinhas e as Danças. As Novenas são celebrações religiosas em honra de Nossa Senhora da Conceição, realizadas na capelinha de Azurém à qual assistem os Estudantes animando-as com os seus bombos e caixas. O Pinheiro é erguido no fim de um cortejo, transportado em carros de bois, acompanhado pelos Estudantes que percutem incessantemente as peles dos seus bombos e caixas e constitui, esse mastro anunciador, um prelúdio, uma introdução às Festas. As Posses não são mais que ofertas que os Estudantes recolhem pelas várias casas da cidade e que servem para alimentar o Magusto que realizam a seguir e que partilham com o povo. As Roubalheiras têm origem num costume antigo desta região, da altura das Festas de São João (a “noite das fogueiras”). Os Estudantes espalham-se pela cidade e sorrateiramente faziam mudar de lugar as mais variadas coisas desde as mais prosaicas às mais bizarras, que apareciam, manhã cedo, junto ao Pinheiro e, hoje em dia, no Largo do Toural. O Pregão consiste na declamação de um texto satírico-retórico que serve, principalmente, de evocação 515


das donzelas amadas, de exaltação de símbolos da cidade e do país e de crítica social, recitado em vários pontos da cidade por onde se deslocam em cortejo os Estudantes acompanhados, mais uma vez, pelos seus tambores. As Maçãzinhas são colocadas na ponta de uma lança enfeitada de fitas e oferecidas, no fim de um cortejo de carros alegóricos, às donzelas que esperam nas sacadas e que retribuem com pequenas ofertas. As Danças são, no sentido lato, rábulas, pequenas representações e cantorias, de aguçada crítica social, levadas a cena numa sala de teatro, embora no passado se tenham executado, também, na rua ou em casas particulares. Retomemos o fio à meada. Como dizíamos, as Festas Nicolinas trataram o “Castelo dos Almadas” com ironia. Em 1935 um carro que representava o Castelo dos Almadas fazia parte, ao que parece, do Cortejo do Pregão Nicolino. Diz o Nicolino-mor, Eng. Hélder Rocha, numa entrevista ao jornal “O Povo de Guimarães”, dada em Novembro de 1993: “Lembro que o A. L. de Carvalho descobriu um pequeno Castelo que, para azar dele, não tinha frente. Eram as muralhas da Torre dos Almadas. Deitaram-se casas abaixo e depois a obra ficou parada dois ou três anos. No nosso ano, em função disso, e por ideia do nosso professor José Pina, que era uma pessoa excepcional, o carro ilustrava o Castelo dos Almadas com um indivíduo vestido de fantasma a sair de dentro e a dizer umas quadras. O Povo adorou aquilo...”. Note-se que Lino Moreira da Silva, na obra “Guimarães e as Festas Nicolinas”, refere que o tal carro do “Castelo dos Almadas” integrou o cortejo Pregão de 1935, enquanto que o Nicolino-mor, na entrevista, dá a entender que o carro integraria o cortejo do Pinheiro. Não conseguimos esclarecer a dúvida… Voltemos à Torre. Em 1935 foi publicado o seguinte: “Este misterioso Castelo, que tanto tem dado que falar, continua a fornecer elementos para a história das pieguices de Guimarães. Depois de desmantelado, estado em que permaneceu durante muito tempo, alguém se lembrou de dar uma solução àquilo, com o fim de fazer desaparecer tão horripilante vergonha. Para isto, foi ouvido o Sr. António Azevedo, abalizado Escultor, que fez um projecto compatível com a falta de recursos do Município, mas que resolvia o assunto de harmonia com a Estética e com o bom gosto. Porém, principiou a fervilhar a velha mania da consulta, e eis que é posto de parte o projecto referido, optando-se por uma outra opinião, cujo resultado é o que está à vista de toda a gente: - um Castelo e uma panela com… grilinhos à janela”.

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Assim continuava a história do “Castelo dos Desalmados”, pois segundo se dizia, «tinha-se de lhe por umas andas, a fim de dar dois passos para poder dar o seu abraça à elegante rua”. Foi posto de parte o projecto de António Azevedo para a recuperação da torre, tendo prevalecido o projecto elaborado pela Repartição de Obras da Câmara, onde pontificava o Capitão Luís de Pina. Deste projecto constaria a demolição completa da casa que albergava a Sapataria “Portugal” (onde funcionou, depois, a Ourivesaria Lopes). “Verifica-se que o Sr. António Azevedo não contrariou este projecto, salientando, somente, a circunstância de ficar mais caro”. Prossegue a notícia: “O arranjo do “Castelo do Almadas” principiou, mas o que é certo é que não havia a intenção de demolir a casa que dá para a rua da República, cuja demolição só agora se reconheceu imprescindível, depois de posta de parte a infeliz lembrança de desfazer o que está feito para puxar o castelo para mais à frente”. Desconhece-se o que restava da construção primeira, “paço” de Pedro Álvares de Almada, nem se sabe como seria a sua planta original, que constaria, muito provavelmente de um edifício mais amplo que incluiria a torre. Não temos conhecimento de nenhuma fotografia nem de qualquer desenho ou esboço daquilo que efectivamente existia nos anos 30 do século XX. Nem sequer se conhece o projecto de recuperação/reabilitação da Torre dos Almadas. Ainda assim, sabe-se que a fachada “principal”, ou seja, empena nascente, virada para o “Largo”, alberga dois janelões que são um “pastiche”, constituindo-se cópia do janelão ainda hoje existente, virado a norte e parcialmente entaipado. Existem, ainda, dois janelões da empena poente (traseiras) que não se sabe se são originais ou fruto da intervenção efectuada.

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Toda a empena nascente/fachada principal será uma reconstrução dos anos 30, incluindo a sua porta, com um arco idêntico à “porta falsa” do topo da muralha (junto ao Tribunal), um “pastiche” igualmente da mesma época. O autor da intervenção na Torre foi o já referido historiador, escritor e urbanista Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães.

A Torre possui uma planta trapezoidal, apresentando a fachada principal (poente) uma largura de cerca de 5m e uma altura de cerca de 11m. Tem 3 pisos, com pavimentos em soalho de madeira, escadas em madeira e paredes alvenaria de granito à vista, quer na face exterior quer na face interior. As caixilharias são em madeira com vitrais. A cobertura, de quatro águas, está executada em telha cerâmica assente em travejamento de madeira. O perímetro da cobertura é coroado por merlões (provavelmente apostos nos anos 30, a exemplo da Torre da Alfândega). A presença dos merlões induz a equívocos, tendo certas publicações em sites de internet indicando a Torre dos Almadas como uma das torres da muralha vimaranense… Santa ignorância! Por volta dos anos 50, a “Torre dos Almadas” terá sido habitação de um funcionário da Câmara e de sua família. Por sua vez, o Dr. Almeida Coelho, ao tempo Director do Paço dos Duques de Bragança, habitou provisoriamente a torre, enquanto se preparava a sua residência no referido Paço. 518


Após a saída deste, a referida torre serviu de atelier do pintor Jorge Maltieira, quando este manteve residência nesta cidade. Em 1959, “alguém se lembrou de propor a ceia desse ano, a criação duma coletividade com personalidade jurídica, que congregasse todos os antigos alunos do nosso velho Liceu. Aprovada a proposta, logo se nomeou comissão para proceder às necessárias diligências que concretizassem uma ideia que andava no subconsciente de todos: A Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães, que viu os seus Estatutos aprovados por despacho ministerial de 17 de Julho de 1961. “O que não foi” criou corpo porque alma já a tinha. E há muito!”. Esta informação é dada pelo próprio punho de António Faria Martins, ele próprio o “autor da ideia” e que viria a ser o primeiro Presidente da AAELG (então “Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães”, a que hoje acresce “Velhos Nicolinos”). Aqui se faz outro parêntesis: A função e os propósitos desta associação são os de aglutinar as sucessivas gerações de estudantes vimaranenses, favorecendo o seu convívio, promover prémios de mérito de aproveitamento escolar e servir de retaguarda às Festas Nicolinas, todos os anos levadas a cabo pelos novos estudantes. Organiza, nesse âmbito, as próprias Danças de São Nicolau. Nos últimos anos tem publicado diversas obras que se debruçaram sobre o fenómeno nicolino e sua história, teve um papel preponderante na reedificação da capela de São Nicolau e contribuiu para a prossecução do Monumento ao Nicolino. A AAELG-VN é uma instituição viva, interventiva e permanentemente actuante, integrando-se no tecido do dinâmico movimento associativo vimaranense. Voltemos à cronologia da Torre… Em 1964, o Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Eng.º

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Mendes Ribeiro, por proposta do vereador e, como dissemos, primeiro Presidente da AAELG, António Faria Martins, a Torre foi cedida à dita associação. Sede social da AAELG desde 29 de Novembro de 1968, o então denominado “Palácio dos Almadas”, foi inaugurado em cerimónia que precedeu a realização da sua 8ª. Assembleia Geral. Nessa Assembleia foi aprovado “voto de Louvor à excelentíssima Câmara Municipal de Guimarães e enaltecido o seu ilustre Presidente, Eng. João Mendes Ribeiro, pela cedência do “Palácio dos Almadas” para instalação da Sede Social da AAELG”. Chamado posteriormente também “Castelo dos Almadas”, foi finalmente denominada “Torre dos Almadas” por Fernando Lage Jordão na ata da 11ª. Assembleia de 29 de novembro de 1971. Nos mandatos dos Presidentes Alcino Machado, José Maria Mota Prego e Augusto Costa, foram efectuadas mais algumas intervenções na Torre com demolição de divisórias, execução de uma instalação sanitária no rés-do-chão e arranjo da cobertura e dos pavimentos, resultando nos espaços que hoje possui. Estão previstas agora, sob a égide da Direcção presidida por José Ribeiro, mais algumas intervenções que visam dotar o edifício, nomeadamente o piso térreo, de melhores condições funcionais, com vista a albergar um pequeno núcleo expositivo. A Torre dos Almadas é, hoje, a alma mater dos Nicolinos, acolitando os Velhos, a Irmandade de São Nicolau e recebendo as Comissões de Festas. Quis o destino que uma Torre mandada erigir por um Cavaleiro de notáveis feitos há mais de cinco séculos e, depois, ruína alvo de chacota académica pelos Nicolinos, novos e velhos, servisse de poiso à Associação destes últimos, constituindo um baluarte das suas Festas. Desígnios de São Nicolau…

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FOTOGRAFIAS ACTUAIS DO INTERIOR DA TORRE (POR CARLOS COUTUNHO).

Referências bibliográficas ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ESTUDANTES DO LICEU DE GUIMARÃES – VELHOS NICOLINOS (AAELG-VN) – site institucional: http://www.nicolinos.pt. D’ AZEVEDO, Pe. Torquato Peixoto, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães. Porto, 1691/1845. CALDAS, Pe. António José Ferreira, Guimarães, Apontamentos para a sua história. Guimarães, 1881. CARDOZO, Mário, A Propósito das Muralhas de Guimarães, in Revista de Guimarães, vol. 67, Guimarães, Sociedade Martins Sarmento, 1987. BRAGA, Alberto Vieira, Curiosidades de Guimarães. XVIII Ruas. Casas. Muralhas. Torres. Obras. Décimas camarárias. Direitos paroquiais in Revista de Guimarães, vol. 69, Guimarães, Sociedade Martins Sarmento, 1959. AMARO DAS NEVES, António, blog: Memórias de Araduca - http://araduca.blogspot.com. FERRÃO, Bernardo e AFONSO, José Ferrão, A Evolução da Forma Urbana de Guimarães e a Criação do seu Património Edificado", (Candidatura de Guimarães a Património Mundial), 2000. DA SILVA, Lino Moreira (1991), Guimarães e as Festas Nicolinas, A. A. E. L. G., Guimarães. SOUSA, Carlos Manuel Leite Ribeiro de A Torre dos Almadas, opúsculo dactilografado, A. A. E. L. G., Guimarães, 2013. AZEVEDO, Vítor Manuel Costa, Torre dos Almadas, Trabalho efectuado no âmbito do curso de Técnico Profissional de Construção Civil Especialista, Guimarães, 2008.

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A Senhora Aninhas Equipa redatorial

A senhora Aninhas, de nome completo Ana Joaquina de Magalhães Aguiar, nasceu no lugar de Pica, freguesia de Quinchães, em Fafe, em 14 de outubro de 1860 e faleceu a 2 de agosto de 1948. Ainda nova, rumou a Guimarães para servir como criada no solar dos Condes de Margaride. Aí terá tido os primeiros contatos com os estudantes e as festas nicolinas, pois por esses tempos ocorria nesse solar uma posse nicolina de boa e farta mesa. Ora, esta empatia pelas nicolinas teria ainda crescido após o seu casamento com António André, contínuo do Internato Municipal (depois Liceu de Guimarães), através do qual meteria algumas “cunhas” pelos estudantes mais expostos à reprovação. E acima de tudo, quando abriu uma loja no n.º 57, rés-dochão, da atual Rua de Santa Maria, que na altura se localizava junto ao Liceu de Guimarães (o atual edifício da Câmara Municipal). É nesta casa que em 1971 a boa senhora ficaria recordada, numa lápide colocada pelos estudantes, com a seguinte inscrição: Registo de casamento de António André e Ana Joaquina de Magalhães Aguiar, paróquia (e igreja) de Nossa Senhora da Oliveira (Santa Maria). Informação recolhida por Paulo César Gonçalves.

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“Aqui nos abriste o peito Aqui te quisemos bem Aqui foste, de estudantes Conselheira e santa mãe.” De facto, a senhora Aninhas, também conhecida por Aninhas Farinheira, por comercializar farinha, conquistou o coração dos estudantes, que frequentemente marcavam encontro na sua lojinha para a cavaqueira, comprar tabaco, ou para petiscar as suas rabanadas e moletes, uns modestos bolinhos de bacalhau malamanhados, ou ainda os bolos caseiros com sardinhas ou carne de porco. E às vezes um franguinho “abafado”, como se depreende desta passagem do Pregão de 1942: “Guardava e cozinhava um furto de galinhas, Com infinita paciência, a boa ser’Aninhas E às noites – quanta vez – se o bando reunia À volta da lareira – ó ceia consolada! Espírito e chalaça – a guitarra gemia Nas mãos do Zé Roriz, até de madrugada … Era assim, era assim … E como tudo passa! Sabia-se viver com arte e graça!” Recorde-se que nesses tempos o Liceu de Guimarães funcionava geralmente em regime de internato, pois só existiam escolas secundárias nas principais cidades e os transportes eram demorados ou quase inexistentes, pelo que muitos estudantes estavam longe ou afastados da família. Deste modo, a senhora Aninhas era um refúgio e quase uma mãe para muitos deles a quem fiava amiudadamente, “calos” ou calotes, que tinham “barbas” e nem sempre eram pagos em dinheiro, como se constata pelo Pregão de 1944, do qual transcrevemos este excerto: “Este Pregão dedico à nossa Senhora Aninhas Aquela que aturou as estroinices minhas E a quem pagarei “um calo” de almirantes - Mania assaz revelha em bolsa de estudantes. Meu calote atingiu o cume de um tostão 523

D. Aninhas


Com juros, hoje, pois liquido-o no Pregão, Pedindo-lhe clemência, aqui, de mãos erguidas, Pr’a meus distúrbios maus e minhas ruins partidas. Que a santa me perdoe a dívida barbada De há quase meio século e hoje “alfim” saldada.” De facto, presos pela treta, apanhados pelo estômago ou aliciados pelos fiados, os estudantes encontravam na loja da senhora Aninhas algum conforto, como o documentam estas transcrições dos pregões de 1931 e 1946, respetivamente: “Eu nunca gostei de dar nas vistas De quem vai ao Café Oriental! Antes quero comer duas sardinhas Dentro da loja da Senhora Aninhas” “Não podemos comer, como dantes, sardinhas Assadas a granel na boa Sôr’Aninhas Convençamo-nos, sim. Tenhamos paciência Pois sempre nos faz bem fazer abstinência.” Ora, este amor dos estudantes e da cidade pela Senhora Aninhas seria reconhecido pela estudantada. Prova-o a homenagem de que foi alvo no Teatro Jordão, em 1945, cerca de três anos antes do seu falecimento, ou ainda a atribuição do seu nome na toponímia vimaranense patente na Travessa Senhora Aninhas, antiga viela dos Laranjais, ali bem junto da sua antiga lojinha. Homenagem a que os jornais da época se associariam, como o corrobora este soneto de Delfim de Guimarães, publicado no Notícias de Guimarães de 1948: “O que ela nos sofreu! As nossas travessuras! As dívidas que a malta nunca liquidou! Os desgostos por nós, por nós as amarguras As noites que essa santa, e dias que passou! Para a malta fumar faziam-se mil juras Sem as acreditar o que ela nos fiou! Seus ralhos eram sempre um favo de ternuras E nunca um estudante a santa maltratou! 524


Quando nos via ao lombo a pérfida raposa, Ficava muito triste e, sempre carinhosa, Ralhava-nos com mel, que nos fazia bem … De rapaz, muito novo (os anos que lá vão) Eu trago o seu retrato, aqui, no coração. Estudantes, chorai! Morreu a nossa Mãe!” Uma mulher boa e doce, que até a ralhar era melíflua, mesmo quando a “raposa” (atual chumbo ou reprovação) batia à porta dos estudantes. Uma mulher que à hora da morte, como o soneto de Delfim Guimarães pressentiu (publicado no jornal Notícias de Guimarães de 1951), com reminiscências camonianas, foi solenemente recebida por Minerva, deusa da sabedoria como mãe e abraçada pelo seu e nosso conterrâneo, mestre Gil Vicente. “Voou a Alma Gentil desta velhada Ao reino da verdade omnipotente, E lá, no Assento Etéreo, aconchegada, A todos nos espera sorridente … Minerva, a nossa deusa tão amada, Deu-lhe um beijo na fronte docemente … Chamou-lhe Mãe Aninhas enlevada E levou-a a abraçar Gil Vicente. O Poeta dos Autos, indeciso Perguntou a Minerva num sorriso: Donde são estes olhos tão brilhantes? - Da tua terra foram … Lá choraram Os seus olhos de Amor iluminaram Os velhos e os novos estudantes.” Recorde-se que em 2010, aquando dos 150 anos do seu nascimento, a Senhora Aninhas foi homenageada no Agrupamento de Escolas Gil Vicente com a execução de um carro alegórico para o cortejo das Maçãzinhas e com a representação de uma pequena peça teatral original sobre a sua vida, a cargo do Clube de Teatro.

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Fotos do arquivo de Osmusiké

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O Nicolino-Mor Equipa redatorial

HÉLDER Raul de Lemos ROCHA (1916-2005), nasceu em Guimarães, na Rua Paio Galvão, em 15 de novembro de 1916. Licenciado em engenharia civil, regressaria ao burgo vimaranense após sua licenciatura, vindo a exercer a sua vida profissional como engenheiro consultor de várias empresas concelhias e da Câmara Municipal de Guimarães. É, porém, como cidadão ativo e comprometido, em especial nas suas facetas de NICOLINO, VITORIANO E VIMARANENSE, que Hélder Rocha (HR) se distinguiu e foi evocado no centenário do seu nascimento. Todavia, começaria atribulada a sua vida. De facto, com apenas 11 anos, uma grave doença impediu-o de prosseguir os estudos no Liceu de Guimarães, embora 6 anos depois venha a retomar o seu percurso estudantil, assumindo a liderança da Academia Vimaranense. Iniciar-se-ia assim o seu fervor nicolino e o seu amor à causa, que viria a prolongarse perenemente. Por isso, no dia dos seus 80 anos, vários companheiros de caminhada prestar-lhe-iam merecido preito num jantar comemorativo, no Restaurante Jordão, que coincidiria com o lançamento do livro de sua autoria intitulado “Efemérides ViIlustração de SAL maranenses”. Na essência desta homenagem, como se lê na convocatória alusiva, “a defesa intransigente das tradições de Guimarães, onde as Gualterianas e as Nicolinas são passagem obrigatória; a dedicação, de décadas, ao desporto local e nacional; o caminho na escrita feita no jornalismo de opinião; o discurso incisivo na tribuna dos políticos; as histórias contadas, em tom de sátira”. É dessa confraternização de 1996, que destacamos algumas passagens do denominado “Pregão por Homenagem”, da autoria de A. Meireles Graça, “prestada ao cidadão Hélder Rocha, engenheiro de profissão

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e Nicolino por devoção”: “E venho aqui trazer a Nicolino Velho O abraço tranquilo de muitas gerações Que iam às castanhas ali ao Rio Selho E enchiam de Esperança os bolsos dos calções: Ó Hélder, atenção! Vou passar adiante A muita malandragem de seu viver menino E as nódoas de tintol na capa de estudante Que o fizeram mor do Povo Nicolino!” (…) “Nos folguedos de então à Festa ele deu tudo E nela mesmo foi brilhante Pregoeiro … Mas sempre Nicolino (poupado no estudo) Acabaria a ser do betão engenheiro!” Efetivamente, enquanto jovem, HR viveu as festas em plenitude, tendo participado ativamente na sua direção, em particular como pregoeiro, na recitação dos Pregões de 1935 e 1936, ambos de autoria de Delfim Guimarães, que apregoaria com eterna e imortal paixão nicolina: “Ah! Não! Não morrerão as Festas deslumbrantes Da mocidade em flor enquanto houver estudantes Que vivam da beleza! Enquanto houver Poetas Que cantem, com ternura, as nossas Capas Pretas! Não morrerão jamais as Festas que o Pinheiro Bem alto as anuncia, ao burgo, num terreiro! Não morrerão jamais as Posses folgazãs, O Magusto, o Pregão, a Entrega das Maçãs Na ponta duma lança às Damas tão formosas! E não, não morrerão as Danças graciosas!” (in, Pregão de 1935)

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Realmente as Nicolinas não morreram, antes rejuvenesceram com o seu contributo. Com efeito, HR seria um dos fundadores da Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães, mais conhecida por AAELG/Velhos Nicolinos, tendo sido seu presidente nos anos 70; acompanhou ativamente a campanha de reedificação da Capela de S. Nicolau e da instalação do Monumento Nicolino, mas acima de tudo serviu e honrou a festa, suscitando em reconhecimento pelo seu desempenho e ardor a designação de Nicolino-Mor, nos anos 90. Ainda e dada a sua ligação a Urgezes, onde residiu vários anos, deve-se-lhe também a sugestão de restauro do Dízimo de Urgezes, aprovada em Assembleia de Freguesia de 30 de outubro de 1999, bem como a colaboração ativa na assinatura do Protocolo Nicolino, subscrito entre o Agrupamento de Escolas Gil Vicente e a AAELG/Velhos Nicolinos, em 2002. Assim, em 2016, aquando do centenário do seu nascimento, foi-lhe dedicado o “Auto do Dízimo de Urgezes”, declamado na sede da Junta de Freguesia, do qual transcrevemos uma simples quadra: “Património da Humanidade Tal como a nossa urbe querida Este engenheiro da amizade Fez da amizade a sua vida!” Outra sua paixão foi o seu Vitória que no próximo ano de 1922 comemora o centenário da sua fundação. Assim, como Vitoriano, viria a assumir a presidência do clube de seu coração em 1961, cargo que

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desempenha num só mandato, embora venha a integrar a sua direção durante quinze anos consecutivos; e seria ainda eleito seu Presidente Honorário, em 1981. Recorde-se que, nesses tempos gloriosos, entre as décadas 50/60, o Vitória havia subido à I divisão (57/58), conquistou a Bola de Prata, em 1959/1960, por Edmur, marcou presença na final da Taça de Portugal (62/63), procedeu-se à inauguração do Estádio Municipal (atual D. Afonso Henriques) em 1965, e conquistou-se o 3º. lugar no campeonato nacional em 68/69. Ademais e ainda no plano do dirigismo desportivo, seria também membro da Federação Portuguesa de Futebol entre 1967 e 1982, tendo sido distinguido com a Medalha de Ouro ao Mérito pelo exercício das suas funções. Uma outra dimensão da sua cidadania seria a paixão por Guimarães. Vimaranense por nascimento e convicção é também marcante a sua intervenção cívica no associativismo local, realçando-se a sua participação em Comissões Organizadoras das Festas Gualterianas e, por ligação à empresa têxtil de que era sócio, o seu apoio técnico à Exposição Industrial de Guimarães, realizada em 1953, no Parque do Castelo. Importante foi também a sua colaboração no jornalismo local, durante cerca de 50 anos, que inicialmente começaria no Notícias de Guimarães, entre os anos 50 a 75. De facto, neste hebdomadário, quer em temas desportivos quer como cronista, particularmente através da sua crónica semanal intitulada “Esquina do Toural”, assinada com o pseudónimo Pedro de Vimaranense, HR cronicaria sobre a sua cidade; posteriormente, no semanário “O Povo de Guimarães”, do qual foi fundador em 1978 e Chefe de Redação até 2002 manter-se-ia ativo e atento, com seus textos críticos e irónicos. Outrossim, a sua ação cívica e estatuto de republicano e democrata estender-se-iam ainda à intervenção política, em 1958, como apoiante da Campanha Eleitoral para a Presidência da República do General Humberto Delgado, postura de civismo que lhe valeu a prisão pela PIDE, durante 10 dias. Após o 25 de Abril, que vivenciou euforicamente, viria a aderir ao Partido Socialista, tendo presidido à Mesa da Assembleia Geral da Concelhia de Guimarães e sido eleito como deputado municipal entre 1980 e 1993. Democrata, republicano e socialista, mas também vimaranense, vitoriano e nicolino, Hélder Rocha soube sabiamente viver com as várias gerações do seu tempo e deixar um legado de amizade e saudade.

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Nicolinas Osmusiké Integra o CD Cantar Guimarães, que também pode ser ouvido no SoundCloud, em https://soundcloud.com/osmusike/sets/cantar-guimaraes

Nicolinas são viveiro de prazeres, recordações, Vamos levar a saudade p´ra sempre nos corações. O Pinheiro opulento puxado em carro de bois Vai do Cano a S. Gualter onde é enterrado depois. Já começou o Dezembro, há chuva neve e vento, Mas as Novenas começam qualquer que seja o tempo. É tempo de Roubalheira, é tempo de distração. Roubam-se vasos e roupa tudo o que se encontra à mão. Já partiram os estudantes pelas ruas de Guimarães Para levarem as Posses, bebidas doces e pães. Faz-se um grande magusto com castanhas a estalar Muitos bolos e bebida e pessoas a cantar. O ribombar dos tambores anuncia o Pregão. É entoado bem alto como manda a tradição. São aromas e sabores que despertam os sentidos. Lá vão todos aos magotes às Ceias dos Nicolinos. Maçãzinhas tentadoras, pequenas e coradinhas Oferecidas às donzelas em troca de umas prendinhas. As Danças dizem que têm ambiente de festival Rir, brincar e distrair só faz bem, nunca fez mal. Boa noite ó donzela! Apetece-te dançar? Quando começar o Baile vamos lá rodopiar. É de todos os estudantes, S. Nicolau padroeiro, Não só dos de Guimarães como do mundo inteiro. 531


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ARTE: MEMÓRIAS E PRESENÇAS Inserir imagem do separador

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Arte Memórias e presenças

Falar da Arte, mais concretamente artes plásticas, em Guimarães, mereceria um livro e não um capítulo. O texto, tendo mais a ver com memórias, não deixa, contudo, de se referir ao presente. Nas imagens, são mais as presenças que memórias. Destas, apenas três artistas. Artistas de diferentes tempos e estilos, que nos mostram a sua visão de Guimarães. Depois, os artistas colaboradores desta publicação, presenças distintas nas suas maneiras de ver e dizer... Artistas populares e eruditos, pluralidade, espaço aberto. Esta publicação é para continuar, com estes e muitos outros artistas… Assim desejamos.

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Viagem ao meu tempo de menino e moço Joaquim António Salgado de Almeida artista plástico

Comummente, a Arte é entendida como uma expressão estética e comunicativa, veiculada através de diferentes linguagens, tais como: arquitetura, desenho, pintura, escultura, música, dança, teatro, cinema, vídeo e fotografia. As Artes Plásticas e Performativas aglutinam muitas dessas linguagens… Temos ainda as Artes Decorativas e as Artes Aplicadas, que assim, acrescentam o utilitário às outras valências. Podemos ainda referir Arte Pública e Arte Sacra, que diferentes possuem afinidades. Quando me propus escrever sobre a Arte em Guimarães, seria apenas e só, para dissertar sobre as Artes Plásticas que por cá tínhamos aquando da atribuição do título que agora comemoramos. Mas, nem isso vai ser. Guimarães adquiriu o estatuto de Património Mundial da Humanidade pelo seu aspeto arquitetónico de cariz medieval, coerente e harmonioso. Obviamente que recuando vinte anos, encontramos nesta cidade manifestações de muitas outras linguagens estéticas, sendo que, hoje, é bem diferente. Temos mais obras nos locais públicos, escolas Artísticas e espaços abertos à cultura com oferta variada e de qualidade, tais como o CIAJG, o Centro Cultural Vila Flor, a Casa da Memória, a CAAA, entre outros mais…Logo, a Arte em Guimarães tem muito que se lhe diga. No entanto, como disse, não vou enveredar pela arte que hoje aqui temos, nem tão pouco pela análise da que por cá havia em 2001, ficando-me, apenas, por uma viagem ao meu tempo de menino e moço, onde as manifestações das Artes Plásticas então existentes, apesar de parcas, me marcaram e direcionaram para o que sou hoje. No princípio, o meu acesso às manifestações estéticas, ficava-se pela Arte Sacra e Arte Pública. Era nas igrejas onde mais se encontrava Arte Sacra. Numas, eram as paredes interiores revestidas de azulejos que me maravilhavam. Nelas, estavam narradas as vidas de santos, numa catequização que me seduzia… A igreja de S. Francisco era um livro ilustrado. Nesse tempo, os azulejos do Mosteiro da Costa, não estavam acessíveis assim como os da igreja de S. Dâmaso. Num caso, era o abandono, no outro a transladação 535


Santo António, pregando aos peixes. Painel de azulejo na igreja de S. Francisco.

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do edifício que decorreu durante a década de sessenta. Na maioria dos templos, eram os altares, que na sua exuberância barroca, mereciam a atenção do jovem curioso. Vitrais nem tanto, sendo os do António Lino na capela dos Paços dos Duques de Bragança os mais interessantes. No santuário da Penha, outros havia, e bem lindos, mas isso já era fora da cidade.

Imagem parcial da escultura da Condessa Mumadona de Álvaro Brée

Mas para ver Arte Sacra, o melhor era ir ao Museu Alberto Sampaio, sendo que isso já foi mais tarde, e mesmo assim, ainda lá não estavam os frescos medievais que tanto aprecio. Gostava de ver o conjunto de estátuas de granito frente à igreja dos Santos Passos e as capelas que 537


recriavam a Via Sacra que dali seguia para a parte velha da urbe. No entanto, era na Arte Pública que deparava com uma linguagem plástica mais apropriada e inovadora. Tinha a cidade estátuas e bustos de pessoas importantes e até alguns murais. Realço a escultura da Condessa Mumadona de Álvaro Brée, perto da qual duas outras integravam a fachada do Palácio da Justiça. Uma, a da Justiça, de Joaquim Correia, a outra, a da Lei, de António Duarte. Dentro do edifício, os mosaicos e fresco de António Lino evocando os tempos da Fundação, Foram, depois, deslumbramento para os olhos do então jovem sonhador.

Um dos painéis do mosaico de António Lino evocando os tempos da Fundação, patentes no Palácio da Justiça de Guimarães

No Toural, o chafariz da “Maria da Fonte” era para mim o maior do mundo. Na realidade, era uma obra de arte que muito apreciava, pelo movimento das águas que envolviam um obelisco e uma figura feminina, que num equilíbrio formal impeliam o olhar para as alturas. Na parte de trás do obelisco a inscrição” Mil gloriosos anos se passaram” evocava a Fundação de Portugal.

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“Menina à beira da água“, de António de Azevedo

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Afinal aquela arrojada figura não era nenhuma Maria, mas sim a Nacionalidade. No Jardim da Alameda, o “Fauno” e a “Menina à beira da água” de António de Azevedo, deliciavam-me o olhar. Deste escultor vimaranense, registo ainda o busto de Martins Sarmento no Largo do Carmo e o baixo relevo de Alberto Sampaio no Largo dos Laranjais. O Afonso Henriques de Soares dos Reis impunha respeito e admiração no sopé da Colina Sagrada. E quando queria ver pintura, ia à Sociedade Martins Sarmento, cujo edifício da autoria do arquiteto Marques da Silva, ostentava frescos de Abel Cardoso.

Edifício da Sociedade Martins Sarmento, fresco de Abel Cardoso

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Ali encontrava obras de artistas vimaranenses e outros mais, tais como: Abel Cardoso, Abel Salazar, Acácio Lino, António Carneiro, Roquemont, Columbano, Dórdio Gomes… Mas o meu primeiro deslumbramento, aconteceu no Café Oriental. Aquilo era um palácio!... Ia lá com o meu pai, quando vínhamos à cidade. Nesse tempo de menino e moço, Guimarães ficava distante, pese embora morasse em S. Martinho de Candoso, freguesia agora urbana. A pé era mais de uma hora e autocarro não havia, a não ser a partir de Pevidém, ou então indo a Mouril, sendo que, em ambos os casos, era meia hora de caminho. Por vezes, íamos por Covas, mas era mais longe… Mas voltemos à cidade de então. Que maravilha aquele café. Sim, gostava do cheirinho do café que sorvia com deleite. O ambiente era solene para mim…mesas com senhores de fato e chapéu a lerem o jornal ou em conversa, sentados em cadeiras estranhas como aquela onde com receio me sentava. Mas o mais estranho, o mais solene e maravilhoso, eram as colunas e paredes onde os meus olhos se perdiam…desertos, pirâmides, camelos, batalhas e figuras muito esquisitas… - São deuses egípcios! Dizia o meu pai. Foi ali que iniciei as minhas viagens. Anos volvidos, já homem feito, foi a esse Reino dos Faraós e junto da esfinge e pirâmides revi o encantamento de criança. Se Luís de Pina foi o autor das pinturas que me maravilharam na infância, Adelino Ângelo e Xico Maia, não sendo meus professores, alimentaram o meu desejo de pintura na adolescência. Mas o meu primeiro mestre foi o Lima do Castelo. Sempre que ia a Guimarães, era obrigatório ir até junto dos Paços dos Duques para ver o artista pintar castelos em pratos, que vendia aos turistas que por ali passavam. Dizia um amigo meu: - Gostavas de pintar assim… Respondi: - Quero é pintar melhor!... Puto pretensioso!...hoje, sou mais comedido. O “Mestre Caçoila” era mais uma curiosidade. Pintava ruas quase sempre sem gente. Mais tarde, no Convívio, tive duas revelações que me abriram os horizontes. Numa exposição, conheci a linguagem neorrealista do Guima, e deparei-me com a força expressiva

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das xilogravuras de José de Guimarães ali existentes. Termino estas minhas memórias com o encontro casual tido nos correios de Guimarães com uma jovem senhora. Já era crescido. À minha frente, junto do balcão, fiquei fascinado pelas linhas soltas e suaves de um desenho que ela tinha num bloco…não resisti e comentei: - Que desenho tão lindo!... Graça Morais sorriu e agradeceu.

Pintura a óleo de Guima, 103x90cm, Centro de trabalho do PCP de Guimarães.

E o tempo foi passando, o artista em construção foi para a tropa e vai daí, dá-se a Revolução dos Cravos. Então. tudo mudou. Agora, Guimarães é Património Mundial da Humanidade e cidade que se agiganta nas coisas da arte.

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Memórias: Abel Cardoso “Vista de fábricas da cidade” - Óleo s/ madeira 30x15 cm, sem data

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Memórias: Francisco Maia “Rua de Santa Maria” e “Rua Nova” - Óleo s/ tela, anos sessenta

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Memórias: Eduardo Ribeiro “Casas Pombalinas e Torre da Alfândega” - Acrílico s/ tela, 1984

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Presenças - artistas colaboradores: Piairo Pantaleão Desenho a carvão alusivo à classificação de Guimarães como Património Cultural da Humanidade, 2001

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Presenças - artistas colaboradores: Mário R. Sousa “A Dama e os Duques” - Óleo e acrílico s/ tela 80x100

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Presenças - artistas colaboradores: Madalena Macedo “Ego Regina Teresia” - Acrílico s/ cartão, 120x60, 2019

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Presenças - artistas colaboradores: Vasco Carneiro “Torre da Igreja” - Aguarela s/ papel

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Presenças - artistas colaboradores: Viana Paredes “Estação de Caminho de Ferro” - Óleo s/ tela, anos setenta

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Presenças - artistas colaboradores: Teresa Almeida “De Guimarães para o Mundo” - Obra em pâte de verre exposta na Suécia em 2016 e Finlândia em 2017

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Presenças - artistas colaboradores: Victor Costa Acrílico s/ tela, 95x143, 2019

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Presenças - artistas colaboradores: Filomena Bento “Os arames que nos ligam” – Ecoline, caneta preta, caneta branca e toques de guache s/ papel Canson, 29x42, 2001

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Presenças - artistas colaboradores: Salgado Almeida “Guardiões do Tempo”, Pintura reformulada e montagem digital, 2001/2021

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Presenças - artistas colaboradores: Óscar Guimarães “Torso em pedra”, 80x40x30, 2006

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HISTÓRIAS E CURIOSIDADES DE GUIMARÃES Equipa redatorial

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A propósito e à colação da consagração do Centro Histórico de Guimarães como Património Mundial da Humanidade, contamos aqui algumas histórias e curiosidades, entre as muitas que há para contar e recordar.

Talvez se lembre ainda de algumas delas!?

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O Feriado Municipal de 8 de junho Bem, mas o que talvez não saiba é que Mestre Gil Vicente já foi motivo para feriado municipal em Guimarães, a 8 de junho, como o documenta esta proposta aprovada em sessão camarária de 15 de janeiro de 1913, no tempo de Mariano Felgueiras: “Considerando que a cidade de Guimarães justamente se orgulha de ser a terra onde nasceu Gil Vicente, o insigne poeta dos Autos; Considerando que foi em 8 de Junho de 1502 que Gil Vicente recitou, pela vez primeira, o Monólogo de um Vaqueiro, fundando assim o teatro português. (…) Proponho que a municipalidade de Guimarães considere feriado, dentro da área do concelho, o dia 8 de Junho de cada ano, por nesse dia passar o aniversário da fundação do teatro português pelo vimaranense Gil Vicente.”

Escultura ao Teatro português, nos 500 anos da Peça vicentina “Monólogo do Vaqueiro” (8/06/2002)

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De facto, de acordo com o decreto republicado de 12 de outubro de 1910, que permitia a criação de feriados municipais, Guimarães assinalaria o dia 8 de junho como feriado municipal. Uma data que evocaria o 8 de junho de 1502, o dia em que Gil Vicente apresentou a D. Leonor, viúva de D. João II, o Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, escrito para comemorar o nascimento do príncipe João: o futuro rei D. João III. Assim, esta peça teatral passaria a considerar-se o início do teatro português e Gil Vicente “por ter sido um vimaranense” mereceria esta distinção, como “glorioso iniciador do Teatro Nacional”. E, efetivamente, este feriado municipal de 8 de junho vigoraria em Guimarães até 1951, em honra deste vimaranense ilustre de nome Gil Vicente. Todavia, seria substituído em 1974 pelo feriado municipal do dia 24 de junho, data da Batalha de S. Mamede e Dia Um de Portugal.

O Vitória 22 jogadores formam duas equipas de futebol, um número capicua, que na cidade se recorda como data histórica, em 22 de setembro de 1922, ou seja, duas vezes 22! Porém, a importância do dia 22 de setembro de 1922 é que constitui a data oficial da fundação do Vitória Sport Clube, que coincide com a filiação da coletividade na Associação de Futebol Braga, exatamente no primeiro ano do seu funcionamento, na Chapelaria Macedo, loja comercial situada na altura no Toural, no edifício atualmente ocupado pelo Café Milenário, onde atualmente existe uma placa evocativa da fundação do Clube. O jornal Ecos de Guimarães, datado de 17 de dezembro de 1922, anuncia um desses jogos de futebol iniciais por estas terras: “Realiza-se hoje, pelas 14 horas, no campo da Atouguia, um “match” entre o “Victoria Sport Club de Guimarães” e o “Maçarico Sport Club da Póvoa de Varzim” que, segundo se diz, promete ser interessante”. No entanto, sabe-se que desde 1913 um grupo de jovens estudantes teria constituído um Grupo de Foot-Ball Vimaranense, ao qual em 1918 dariam o nome Vitória. 560


Quanto ao emblema do Vitória, foi criado pelo capitão Mário Cardoso, que foi também presidente da Sociedade Martins Sarmento. Assim, com Afonso Henriques como figura central e em forma de escudo, tal como a forma do castelo visto de cima, o emblema é todo preto no branco! No fundo, as cores indicativas de que o clube seria de todos sem distinção, discriminação de raças ou estatuto social. Tudo preto no branco …

O Comboio Novo O comboio apitaria em Guimarães em 14 de abril de 1884, já lá vão 137 anos! De facto, 1884, foi o ano de ouro da cidade, que mudou Guimarães, pelo que difícil se torna selecionar um só evento ilustrativo desse período áureo. Efetivamente, nesse ano de 1884, realizou-se a I Feira Industrial de Guimarães, inaugurada no Palácio Vila Flor, em 15 de junho. Seria criada a Escola Industrial de Guimarães, no final do ano. Surgiriam dois novos títulos na comunicação (Revista de Guimarães e Comércio de Guimarães). Além disso, ganhava força o projeto da estátua a D. Afonso Henriques, que seria inaugurada três anos mais tarde. Mas, acima de tudo, chegava o comIlustração de SAL boio, como o relata Manuel Alves de Oliveira, no seu livro “Lá vem o Comboio Novo”: “De facto, o comboio chegou pela primeira vez a Guimarães, à estação de Vila Flor, em 14 de Abril de 1884, após longas reivindicações e lutas encetadas desde 1865. E nesse dia houve festa de arromba! De facto, nessa viagem inaugural, um comboio com 22 carruagens partiria da Trofa, rebocado pelas máquinas “Vizela” e “Negrelos”, com a Banda Filarmónica de Vizela e cerca de um milhar de convidados a bordo. (…)

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Às onze menos alguns minutos ouvia-se em Vila Flor a primeira girândola de foguetes e dali a pouco a locomotiva, toucada de flores e bandeiras, com a sua cauda majestosa de vinte e duas carruagens fazia a sua entrada triunfal na estação ao som de músicas, estrondo de numerosíssimos foguetes e de ferventes e ruidosos vivas e saudações. Mil pessoas aproximadamente vinham no comboio dominadas todas do mais vivo entusiasmo e uma multidão de dez a doze mil esperava de braços abertos e peitos comovidos”.

Uma festa prosseguiria ainda noite fora, como o referiria o periódico “O Espectador” na sua edição de 17 de abril: “O dia passou-se todo em festas as mais ruidosas e alegres até que a noite nos vem oferecer novas surpresas. A cidade geralmente iluminada rebrilhava em esplendorosas iluminações principalmente no jardim e Campo do Toural e no Largo da Oliveira, distinguindo-se aqui a Casa da Câmara e o edifício do Hotel de Guimarães, que ofereciam um aspeto fantástico e deslumbrantíssimo. Duas músicas tocavam em coretos no Campo do Toural, outra na Oliveira, e outras ainda percorriam as ruas da cidade. No Campo de S. Francisco, elegantemente ornado, apinhava-se a multidão para ver dali o fogo- de- artifício, que se queimava abundantemente no local da estação”.

Uma festa de arromba à qual não faltaria sequer um hino, intitulado “A Locomotiva em Guimarães”, do qual transcrevemos as duas quadras iniciais: “Já o silvo aqui ouvimos da veloz locomotiva, que mais brilho, mais riqueza nos vem dar triunfante e altiva (…)”

Celebremos ó patrícios o feliz melhoramento haja música e foguetes haja festa de espavento.

Todavia, desde esse dia, que seria antecedido pela ligação da Trofa a Vizela, em 31 de dezembro de 1883, muitos marcos importantes se passariam na Linha de Guimarães. Com efeito, posteriormente, em 21 de julho de 1907 a linha seria alargada até Fafe e mais tarde fechada em 1986, encontrando-se atualmente parte do seu trajeto ocupado pela ciclovia. Mais tarde e após o encerramento da via estreita em 2002, a linha de Guimarães seria ainda renovada e reaberta em via larga, em 19 de janeiro de 2004, antecedendo a realização do Euro-2004 em Guimarães. Mas, paralelamente, a chegada do comboio à estação de Vila Flor, que ainda hoje lá se mantém,

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proporcionaria também a construção da atual Avenida D. Afonso Henriques, outrora denominada Avenida do Comércio. De facto, no Relatório da Companhia do Caminho de Ferro de Guimarães de 1888, lamentavase que “a nossa estação principal em Guimarães, depois de 4 anos de abertura do seu caminho- de- ferro, liga a cidade por um péssimo caminho, antes carreiro, em condições tais, que dificulta extraordinariamente o trânsito, sobrecarregando o preço do transporte, apesar da estação estar a menos de 600 metros do largo do Toural”.

O ano de ouro de 1884 Bem, de facto, 1884 foi o ano que mudou Guimarães. Com efeito, nesse ano de viragem, abriram-se as portas para a modernidade, graças à perseverança e luta de ilustres figuras vimaranenses como Alberto Sampaio e toda uma geração de homens de pensamento e ação como Martins Sarmento, os padres António Caldas e o Abade de Tagilde, o Conde de Margaride e Joaquim José de Meira, entre muitos outros. Realmente, no ano de 1884, três acontecimentos relevantes ocorreriam na cidade: a realização da I Exposição Industrial de Guimarães; a chegada do comboio (ler texto específico) e a criação da Escola Industrial Francisco de Holanda. Com efeito, inaugurada pelas 11 horas da manhã do dia 15 de junho de 1884, a Exposição Industrial de Guimarães, ocorrida no Palácio de Vila Flor, seria na época um dos eventos mais marcantes do burgo vimaranense, após a sua elevação à categoria de cidade, através do decreto de 23 de junho de 1853, no reinado de D. Maria II (ler texto “Quando a vila virou cidade”). De facto, através desta exposição, Guimarães afirmaria a sua pujança económica e daria resposta à preterição que o poder central a devotara. Por sua vez, a Escola Industrial criada pelo decreto de 3 563

Exposição Industrial de Guimarães, Palácio de Villa-Flôr, Guimarães. Gravura de R. Christino para Ilustração Universal nº 21, 28 de Junho de 1884


de dezembro tinha por fim ministrar o ensino apropriado às indústrias predominantes do concelho, através de aulas eminentemente práticas. Deste modo, o seu currículo teria por base as disciplinas de aritmética, geometria elementar e contabilidade industrial, a que se juntariam a química e o desenho industrial. Efetivamente, uma escola direcionada para o saber-fazer, a que não será alheio o nome do seu patrono, Francisco de Holanda (1517-1585), grande figura de artística do Renascimento português. No entanto, nesse mesmo ano, também se dão por findas as obras da Igreja de S. Pedro, no Toural, que há vários anos se arrastavam e avançam alguns monumentos ansiados pelos vimaranenses, empurrados pela dinâmica progressista de 1884. Em súmula, vivia-se uma onda finissecular de progresso que levaria à criação em Guimarães da primeira fábrica nacional de teares Jacquart, à Fábrica do Castanheiro, de António da Costa Guimarães, em Urgezes e posteriormente à Companhia de Fiação e Tecidos de Guimarães (1890) e à Fábrica a Vapor de Tecidos de Guimarães (1897), entre outras.

A Estátua de D. Afonso Henriques Em 20 de outubro de 1887 o rei D. Luís presidiu em Guimarães à inauguração do monumento ao fundador da monarquia portuguesa, no Terreiro de S. Francisco, e participou na cerimónia de lançamento da primeira pedra do edifício da Escola Industrial Francisco de Holanda. A comitiva real, da qual fazia parte o Ministro das Obras Públicas Emídio Navarro, filho da vimaranense D. Carlota Joaquina Machado, seria recebida no palacete do Conde de Margaride, no Largo do Carmo, local onde se realizou um banquete alusivo. Porém a “dança” das estátuas e esculturas evocaEstátua de D. Afonso Henriques no (então) Terreiro de S. Frantivas tem sido costumeira na cidade, à qual D. Afonso cisco. Imagens da coleção Reinaldo Arnaud. Henriques não escaparia. Assim, quando Guimarães celebrava o oitavo nascimento do rei fundador, em 1911, a estátua do rei fundador, de autoria do escultor Soares dos Reis, seria transferida do terreiro de S. Francisco para o Toural. Todavia, a estátua do 1.º Rei (carinhosamente, chamado pelo povo, “Rei Negro”, devido à cor do bronze) 564


Estátua de D. Afonso Henriques no Toral. Imagem da coleção R. Arnaud.

Retirada da estátua de D. Afonso Henriques do largo do Toural, em 1940. Foto in Memórias de Araduca.

não ficaria por muito tempo no Toural. Assim, em de 21 de maio de 1940, a estátua de D. Afonso Henriques seria apeada e implantada no seu “ambiente próprio”, junto ao castelo, onde hoje ainda se encontra.

A Estátua de Pio IX A estátua de Pio IX, na Penha, de autoria de Pedro Afonso Pequito, foi inaugurada na Penha, em 8 de setembro de 1893. Uma escultura com cerca de 4.800 quilos, que chegaria à cidade em 22 de maio, puxado por 10 juntas de bois, cuja execução foi dirigida por Germano José Sales e Filhos, nas suas fábricas em Lisboa, a partir de um monólito de cerca de 10 toneladas. Um monumento cuja concretização duraria mais de uma década, desde o lançamento da sua primeira pedra, em junho de 1882, altura em que se organizaria uma peregrinação acompanhada com banda marcial e o canto de hino alusivo: “Glória a Pio IX, glória! Em duradouro padrão, Seja esta folha da história Escrita por nossa mão!” 565

Imagem cedida pela Irmandade de N.S.C. Penha


Com efeito, só em 28 de setembro de 1884 sairia o cortejo com o carregamento de pedra para o pedestal da estátua, transportada em 60 carros embandeirados, que apenas seria montada em setembro de 1893. Por sua vez, a estátua seria transportada para a Penha por 35 juntas de bois, apenas em 23 de agosto, no decurso de uma viagem atribulada, devido a um incidente ocorrido. Recorde-se que Pio IX, ou seja, Giovanni Mastai-Ferretti (1792-1878), nascido a 13 de maio, ficaria conhecido como um papa que severamente condenou as ideologias e o liberalismo religioso.

O Cinema Mas, no final do século XIX, em 1897, o cinema também chegaria a Guimarães. Eram curtas sessões de cerca de dois minutos, exibidas num barracão do Teatro Guiñol, no Campo da Feira, que praticamente se confinavam a acrescentar movimento a fotografias. Depois, já no início do século XX, estas sessões itinerantes passariam a ser exibidas na Associação Artística Vimaranense, na Rua Gil Vicente e no Teatro D. Afonso Henriques, na altura situado no atual Largo da República do Brasil. Aqui, nesta sala de espetáculos, em 1909, as sessões passariam a ter exibições permanentes e a conquistar a adesão dos vimaranenses, que em 1907 acabariam por incluir projeções cinematográficas na programação das Festas Gualterianas. Aliás, as primeiras imagens da cinematografia de Guimarães, datadas de 1912, seriam precisamente das Festas Gualterianas e da Romaria de S. Torcato. Teatro Jordão em outubro/2021 Contudo, ao longo dos anos, registar-se-iam ainda sessões de cinema ao ar livre no cinematógrafo da Praça de Touros da Quintã e nas paradas dos bombeiros, enquanto paralelamente, em especial no inverno, prosseguiam as exibições no Teatro D. Afonso Henriques, até próximo da sua demolição, em 1933. Todavia, o cinema em Guimarães acabaria por regressar em força apenas em 1938, com a abertura do Teatro Jordão e anos mais tarde, com a fundação do Cineclube de Guimarães, em 1958, sob a direção de J. Santos Simões. 566


A Gripe Pneumónica Em 12 de outubro de 1918 a imprensa da época dá conta da fatídica marcha da epidemia em Guimarães, um flagelo que infelizmente coincidiu com o final da I Grande Guerra Mundial. Assim se contava na imprensa da época: “Continuam-se dando bastantes casos de gripe bronco-pneumónica, havendo bastantes óbitos. Na cidade, mercê dos abalizados clínicos que temos, que têm sido incansáveis na extensão do terrível flagelo, há bastantes casos, mas parece que tendem a declinar, embora os óbitos tenham sido também numerosos. Nas freguesias rurais, o mal tem alastrado imenso, havendo freguesias que quase veem desaparecer os homens e mulheres relativamente vigorosos e fortes. A todo o momento vemos atravessar a cidade carros de bois conduzindo doentes aos hospitais, não falando daqueles que se tratam em sua casa. A autoridade determinou que no próximo domingo já possa haver missas e atos religiosos bem como que os cadáveres que sejam encerrados em caixão de chumbo possam ser depositados nas igrejas e tenham os responsos fúnebres”.

As Tábuas Vermelhas Corria o ano da graça de 1385 do dia 7 de novembro, quando o Alvará de El-Rei e Senhor D. João I passou a conceder à Insigne e Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, na vila de Guimarães, um conjunto de regalias que ficariam conhecidas como os Privilégios das Tábuas Vermelhas. Com efeito, por terem sido guardados num livro com capas de madeira forradas de marroquim vermelho, estes favores reais, atribuídos exclusivamente aos cónegos da Colegiada de Guimarães e aos seus protegidos e servidores, ficariam para sempre conhecidos como os Privilégios das Tábuas Vermelhas. Regalias e privilégios que isentaram os agricultores do direito de aposentadoria (obrigação de alojamento e pernoita graciosa de nobres em viagem), que abrangiam os caseiros e lavradores “escusados de ir servir na Guerra, nem a outras nenhumas partes, nem lhes tomassem seu pão, nem vinho, nem outra nenhuma coisa de seu contra suas vontades.” Privilégios que se estendiam ainda à dispensa de pagamento de alguns impostos e outras situações; “que não paguem em peitas, fintas, nem talhas, nem em outros nenhuns encargos (…) nem lhes tomem seus Filhos nem Filhas para servirem nenhumas pessoas, nem lhes tomassem os Bois, nem as Bestas”. 567


Porém, estes privilégios, através dos quais o rei quis agradecer a Santa Maria da Oliveira, a proteção seria contestada por muita gente que não gozava deles. Entre estes destacar-se-ia o advogado Pedro Oliveira, que junto do Padrão da Oliveira terá discursado publicamente, em favor da sua abolição. Conta-se então que, após o discurso e repreensão dos cónegos, o advogado terá repentinamente caído no chão com a língua de fora, morrendo horas depois.

A procissão do caga-ratos Praticamente desde o século XIV que a procissão do Corpo de Deus sai à rua em Guimarães, na segunda quinta-feira depois do domingo de Pentecostes, isto é, 60 dias depois da Páscoa. Antigamente, várias figuras da mitologia pagã e popular participavam na procissão, que incluía danças como as Judengas, que satirizavam os judeus e várias outras a cargo dos ofícios. Estas manifestações de carácter carnavalesco, acabariam mais tarde por ser abolidas na procissão do Corpo de Deus. Porém, a partir de 1797, apenas a imagem de S. Jorge, a cavalo, marcaria presença na procissão. Pois, a procissão do caga-ratos tem exatamente a ver com o andor de S. Jorge, que o coronel António de Quadros Flores narra, na década de 1950, no Notícias de Guimarães, e posteriormente em livro sobre Guimarães na viragem de oitocentos para novecentos. Com efeito, assim nos conta, no seu livro “Guimarães na última quadra do romantismo”: “Ora dizia-se, que eu não vi, e era da idade em que tapava os ouvidos, fechava os olhos e fugia da sacada da minha Avô nessas ocasiões de descargas, que de uma vez, depois, depois do estrondo da primeira descarga, o S. Jorge estremeceu, pareceu ter uns momentos de vida em cima do cavalo inquieto, apesar de seguro por

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dois valentes pulsos, e saíram de dentro dele umas ratazanas que aproveitaram a complacência do Santo, todo o ano guardado na capela do Tribunal, e que nós espreitávamos pelo buraco da fechadura, para lhe pedirem abrigo à prole e foram surpreendidas, sem tempo de escaparem, passaram revista à tropa, receberem homenagens, mas não puderam resistir à última manifestação marcial, e safarem-se pela garotada até ao primeiro bueiro onde se meteram!”

E foi assim, devido a uma descarga de saudação das armas de fogo feito pela tropa, que os ratos escondidos no andor fugiram assustados rua fora, perante o alarido e espanto do povo, que desde então passou a chamar-se a procissão do caga-ratos … S. JORGE “Num manhoso cavalo de batalha, de vagarosa e trôpega andadura vai S. Jorge vestido de armadura, empunhando a lança eu o temor espalha. Provocou sempre o riso da canalha sua guerreira e medieval figura, simulando uns vestígios de bravura a sua imagem de madeira e palha! Abrindo o seu processional cortejo, corria o povo para admirá-lo por essas ruas da cidade antiga; e parece que ainda hoje o vejo, quando, aos galões do seu cavalo, lhe fugiam os ratos da barriga! (…)” Jerónimo de Almeida

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Os alarmes do Centro Histórico No lado norte da torre da Igreja da Oliveira e de várias outras igrejas da cidade existem umas pequenas caixas de ferro fundido, de cor verde, afixadas na parte inferior do frontispício, ou lateralmente, nas quais se encontram gravados os nomes de algumas igrejas vimaranenses, todas elas assinaladas com um número que correspondia a um código de toques. Assim, consta: - Capuchos - 4 - Carmo - 5 - Oliveira - 6 - S. Paio - 7 - Misericórdia - 8 - S. Domingos - 9 - Dominicas - 10 - S. Pedro - 11 - S. Francisco - 12 - Campo da Feira - 13 - Santa Cruz - 14 - Signal de parar - 3

Ora, estas caixas funcionavam como um sistema de emergência da cidade. Assim, quando havia um incêndio ou outro acidente, estas caixas eram abertas e o sino era acionado, tocando o número de toques correspondentes ao código da zona da cidade correspondente ao estado de alerta. Três badaladas eram também o código para o sinal de parar, que descansava a população.

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Bairrismo e Solidariedade vimaranense O cortejo dos Mil Carros Na altura em que passam várias décadas do início da II Grande Guerra Mundial, evoca-se em 30 de outubro de 1943, quando na Europa se viviam tempos difíceis e conturbados e dificuldades diversas, a que Guimarães não estava imune, a solidariedade que a cidade fez alarde, nessa época. Com efeito, perante a fome que grassava, a carestia da vida que se impunha e o mercado negro que marcava regras, complementadas com o racionamento de alimentos e carências de toda a ordem, quer por parte das pessoas quer das instituições, Guimarães respondia à chamada da solidariedade. Tudo começaria com um texto da cronista Maria Eduarda, no jornal “O Comércio de Guimarães” de 30 de julho e o desafio lançado: “Porque não organizar, entre nós, o Cortejo de Oferendas?”

Deste modo, ao apelo, como que dito e feito, o movimento avançou e prontamente seria constituída uma comissão específica, formada pelo arcipreste e outras individualidades vimaranenses, que contaria com o apoio dos párocos de todas as freguesias. Assim, num crescendo de adesões, vontades e até despique entre freImagem retirada do Blog “Memórias de Araduca” guesias, decidiu-se avançar com o cortejo de oferendas, combinando-se desde logo que metade do produto angariado reverteria para a Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, enquanto a outra metade beneficiaria as instituições assistenciais, como o Asilo de Santa Estefânia, a Casa dos Pobres, o Asilo do Campo da Feira, as Oficinas de S. José e Creche da Ordem e a Terceira de S. Francisco. Ora, o cortejo superaria todas as expectativas. Efetivamente, em vez dos 500 carros previstos, cerca de mil carros desfilariam com as suas oferendas, entre a estação do caminho-de-ferro e o antigo Convento dos Capuchos, local onde se instalava na altura o Hospital da Misericórdia. 571


No fundo, foi sem dúvida uma prova e manifestação de solidariedade vimaranense, bem como de partilha bairrista, que nem as dificuldades dos tempos da guerra mundial dissuadiram, mas antes galvanizaram. Assim reporta o evento o Comércio de Guimarães de 5 de novembro de 1943: “CERCA DE MIL CARROS FORMARAM “O CORTEJO DAS OFERENDAS”, que no passado sábado escreveu uma página vibrante da nossa Terra. Escrevemos ainda sob a emoção grata da passagem da mais enternecedora Jornada de Caridade a que temos assistido. Não fora a nossa missão, que nos impõe o dever de gravar no papel o que sentimos e vimos, e preferiríamos esconder no coração o sentimento que nos invade a alma e fez humedecer os olhos! Há espetáculos que passam como uma visão! Vêem-se, mas não se descrevem!”. (…)

Porém, a necessidade de “transmitir aos vindouros a página doirada que o concelho de Guimarães lhes lega”, acaba por impulsionar o repórter a cumprir a sua missão e escrever: “Doze horas. A Tribuna de honra, erguida junto do Candeeiro monumental (atual Largo 25 de Abril, no topo o Toural voltado a sul) está quase repleta. (…) O povo comprime-se e contorna o largo central, e as ruas por onde tem que passar o desfile, estão embandeiradas, pendendo das janelas, repletas de senhoras, lindas colgaduras. (…) São perto de 13 horas. Repicam sinos; estralejam morteiros, e ao cimo da Avenida Cândido dos Reis, põe-se em marcha o Cortejo. O aspeto é surpreendente, de luz e emoção! (…)”

E começa então o repórter a descrever os sucessivos carros do desfile e as suas oferendas: tecidos, atoalhados e cobertores das nossas fábricas, lenha, vinho, géneros agrícolas e “gaiolas com coelhos de boa casta e galinhas, muitas galinhas, dizem-nos que na totalidade, mais de um milhar!”. E assim prossegue a descrição do cortejo e dos cerca de mil carros de oferendas, que, apesar da chuva aparecida, “o entusiasmo não esfria”. De facto, como afirma o repórter, “o cortejo levou cinco longas horas a passar”. Um cortejo que teve até honras para o desempenho, em entreato, do “Auto das Oferendas”, uma peça expressamente escrita para este fim pelo poeta J.M. Pinto de Almeida, que acompanharia o carro de Lordelo.

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Bairrismo e Solidariedade vimaranense Gualterianas 1947: a reconstrução em 5 dias da Praça de Toiros totalmente destruída por violento incêndio. Silvestre Barreira

Para além da Marcha Gualteriana que arrastava multidões, as Gualterianas tinham outro número que estava a gerar uma grande procura por parte de aficionados de todo o país: as duas Corridas de Toiros a realizar no Domingo 3 de Agosto e na Segunda-feira. Um terceiro e importante evento era a Procissão de S. Gualter que se esperava que fosse ainda mais sumptuosa. Tudo indicava que se alcançaria as melhores Festas de sempre Há já tantos pedidos de alojamento que a Comissão Executiva das Festas faz um apelo aos vimaranenses pedindo-lhes que “se tiverem aposentos disponíveis o comuniquem à sede da Junta de Turismo”. Mas o inesperado aconteceu e alterou as expectativas criadas. Às 2 horas da madrugada um violento incêndio desencadeou-se na Praça de Toiros e os bombeiros foram impotentes para o combater. A Praça ficou totalmente destruída. As Festas corriam o risco de ficar amputadas de um ponto alto do seu programa. A desolação deu lugar a uma raiva canalizada na vontade de contrariar o destino e produzir o impossível. Nunca houve nada assim a cidade mobilizou-se no seu orgulho ferido. E o impossível aconteceu. O desejo fez-se vontade assente no conhecimento da situação real, das necessidades e respostas possíveis para as satisfazer e na gestão dos meios para concluir uma tarefa tão exigente. Os mestres-de-obras confirmavam a garantia dada pelo empreiteiro da Praça de que era possível reconstruir este equipamento em tempo útil desde que houvesse madeira e mão-de-obra. A primeira dificuldade a superar era o abastecimento em madeiras dado que não havia quantidade suficiente em todos os fornecedores contactados. A situação altera-se quando A. Salgado, tendo conhecimento da situação, pôs à disposição a madeira necessária para a nova praça. Era preciso parar para pensar, analisar correctamente a situação e decidir rapidamente e com discernimento. Estes princípios foram a base de toda a organização e execução da obra.

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Considerando haver as condições para realizar a obra passou-se à fase de preparação e planeamento. Registam-se nomes, constituem-se comissões, estabelecem-se planos.

Imagen de "O Milagre" de Bairrismo Vimaranense - 1947 - 1997, liv. orpheu, 1997, fotografia de João Gualdino Pereira.

Desenvolve-se uma estrutura de produção para analisar o trabalho e distribuir funções. Assim são criadas: uma Comissão Principal, um grupo de Assistência Técnica (de que fazem parte empreiteiros, mestres de obras, um arquitecto e o encarregado da serração Alberto Pimenta Machado) e um grupo encarregado da Gestão de pessoal. E surge um factor novo que vai dar uma dinâmica superior a toda esta organização: a ampla comunicação e informação. Vários problemas foram resolvidos através da comunicação do problema e a informação que abre caminho à sua resolução. A cabine de som instalada no Toural e dirigida por José Abílio Gouveia apelava à colaboração dos vimaranenses, enquanto os sinos repicavam. Este meio de comunicação teve um papel fundamental na transmissão de mensagens, não só para rapidamente serem resolvidas as inúmeras situações que trabalho tão complexo colocava, mas também para dar indicações e noticiar acontecimentos. Os altifalantes trabalhavam todo o dia: “pedia-se um carro para um serviço e ele aparecia imediatamente; 574


pedia-se gasolina, ferramentas, um motor, qualquer coisa, enfim, e desnecessário seria pedir segunda vez”. A informação era contínua e imediata. A população era estimulada pelo fervor dos locutores e animada pela notícia do progresso das obras. Na Praça a Reconstrução prossegue, as necessidades revelam-se, a solução é encontrada e ultrapassada cada nova dificuldade. Assim aconteceu com a necessidade de trabalho dia e noite, resolvida com a instalação da iluminação pela Firma Jordão & Filhos que cede viaturas assim como os bombeiros voluntários. Para a rápida comunicação com as várias entidades intervenientes na execução da obra era necessário a instalação de um telefone que é instalado rapidamente graças ao apoio do Grémio do Comércio e do Governador Civil. Problemas de logística relacionados com o abate, serração da madeira, gestão de pessoal e iluminação são resolvidos, quer preparando no local as vigas e acelerando o transporte, quer na confecção de refeições para operários e voluntários, pela Casa dos Pobres, distribuídas por senhoras voluntárias. Ninguém na cidade, desde a mais humilde pessoa à de mais elevada posição, se Imagens de "O Milagre" de Bairrismo Vimaranense - 1947 - 1997, liv. orpheu, 1997, negou a prestar o seu concurso nesta emerfotografias de João Gualdino Pereira. gência. Os 500 operários, apoiados por centenas de outros trabalhadores, 20 mestres-de-obras e carpinteiros, prosseguem os trabalhos ininterruptamente e a bom ritmo. Às 5 horas da tarde de sábado é colocado o último prego. A Praça estava pronta – mais forte e bela que nunca. O facto é anunciado com uma girândola de fogo.

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A NOSSA LÍNGUA E OS NOSSOS ESCRITORES Álvaro Nunes

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Celebrar a língua portuguesa e homenagear os nossos insignes escritores e poetas é seguramente o objetivo deste espaço denominado “A nossa língua e os nossos escritores”. Como tal, pretendemos recordar efemérides literárias, em especial livros e autores; e concomitantemente homenagear vates e escritores que, por esta ou aquela razão existencial, fariam anos e/ou mudaram de morada. Assim, neste caso específico tencionávamos evocar nomes como Sá de Miranda, Antero de Quental, José Régio, Gomes Leal e Júlio Dinis, das gerações mais velhas”. Outrossim, autores mais atuais, em especial da outra metade do século, como Matilde Rosa Araújo, Maria Judite de Carvalho, Isabel da Nóbrega, que na escrita no feminino deixaram a sua marca. Paralelamente, gostaríamos também de lembrar e prestar preito a António Torrado, Pedro Tamen e Carlos de Oliveira entre outros. Porém, por limitações de espaço, houve que fazer opções. Por conseguinte, aqui ficam apenas alguns autores e obras, que desta feita daremos à estampa. Deste modo, optamos por Raul Brandão, à colação de dezembro e por trazer à lembrança os cerca de 90 anos da sua morte, que neste mês nos traz também as Nicolinas e o seu “Cucúsio”. E repescamos Matilde Rosa de Araújo e mais três livros: dois sobre a condição feminina, como são o caso dos 50 anos de “Minha senhora de Mim” e “As Novas Cartas Portuguesas”; e outro sobre “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, ou seja, “Esteiros” , saído do prelo há 80 anos, cuja mensagem continua presente. E ainda una revista centenária e emblemática: “Seara Nova”. Entretanto, um pouco à frente, na rubrica recensões e sinopses, complementaremos esta nossa intenção de dar à língua, enumerando alguns autores e produções vimaranenses.

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Raul Brandão em dezembro Neste último mês do calendário, evoca-se frequentemente Raul Brandão (1867-1930), falecido a 5 de dezembro de 1930, que em 3 de maio de 1934 seria transladado para o cemitério da Atouguia, em Guimarães. De facto, o senhor que teve dois enterros, como sói dizer entre o povo, é frequentemente recordado neste mês de dezembro pelo seu falecimento, mas também por outros motivos ocorridos neste último mês do ano: a Posse Nicolina do Cucúsio, e a sua obra “O Pobre de Pedir”, redigida em 1930, que seria (apenas) publicado postumamente em 1931, há 90 anos atrás. Ademais, Raul Brandão está também intimamente ligado à revista “Seara Nova” que atualmente comemora o seu centenário (ler artigo em Raúl Brandão – Imagem de SAL. separado), pelo que esta evocação é claramente oportuna e devida. Comecemos, por isso, por evocá-lo, através da voz de sua esposa Maria Angelina, no “prefácio” da obra “O Pobre de Pedir”: “Há precisamente um ano que Raul Brandão escreveu O Pobre de Pedir. Escreveu-o em três meses. Trabalhou durante este tempo com ardor, com todos os seus nervos, com toda a sensibilidade da sua alma, e com o seu coração sempre grande e generoso. A sua obra escreveu-a com ímpeto, em apontamentos, e compunha-a na ocasião em que, ditando-ma, eu a escrevia antes de ir para a tipografia. A morte, que mo roubou inesperadamente, não lhe deu tempo para fazer as alterações que decerto desejaria fazer porque nunca o seu trabalho o satisfazia, tinha sempre que emendar (…) Por isso hesitei muito, e não sei se o magoarei publicando “O Pobre de Pedir” tal qual o deixou, mas sei que não devo guardar numa gaveta este seu último livro em que há páginas para mim, mais belas em dor, em humanidade do que as de Dostoiévski. (…)” Realmente, cremos que agiu bem Maria Angelina em nos dar a conhecer este último livro do seu marido, redigido escassos meses antes da sua morte, no qual Raul Brandão deixa claramente transparecer uma certa premonição do seu próprio fim. Momentos finais, preparados e encarados frontalmente, num monólogo interior destemido e introspetivo diante essa “sombra desmedida que nos domina”. 579


As palavras finais da obra citada são claramente elucidativas: “E chego ao fim exausto, caindo e levantando-me - desesperado e vivo. Agora estou nu diante das estrelas.” Efetivamente, recorrendo à ficção para se confrontar com a própria mortalidade e fazer um honesto balanço à vida, a novela deixa transparecer todo o profundo humanismo e sensibilidade brandoniana, sempre caboucada numa intensa espiritualidade e poesia. De facto, dando voz a um anti-herói e um processo de revisão moral, nesta inquietante novela íntima revela-se, para além da ideia da morte, (“algo como a medida de todas as coisas da vida”), uma certa reivindicação de igualdade social de matriz cristã, pela qual o pobre se transforma numa encarnação de Cristo: “- Jesus há de voltar para nos dar a terra - Voltar?! Os pobres hão de sempre ser pobres! - Não, - teima o Manco, com o cigarro ao canto da boca – os ricos que fiquem com o dinheiro, mas a terra é dos pobres”. Com efeito, tendo como pano de fundo a defesa daqueles que nada possuem e a empatia pelo drama social da pobreza, uma outra recorrente matriz da sua obra, a voz íntima brandoniana proclama, não só a autoconsciência do confronto social, mas acima de tudo, e em certo sentido, um processo de autoacusação testamentária, que se inicia com a chegada de um pobre à aldeia. Há, porém, nesta narrativa um particular desalento sobre o sentido da vida “feita de hipocrisias, de mentiras, de convenções, de palavras …” e um desencanto com o mundo, por parte de uma personagem que não se apresenta com um nome, mas por uma existência interrogativa permanente sobre o sentido deste mundo e os seus valores. Uma personagem questionadora sobre as situações humanas como o amor, a sensualidade, o casamento, a paternidade, o arrependimento, o medo, a mentira, a velhice, a religião, ou seja, altercadora da vida e claro, da morte: “Talvez todos façam as mesmas interrogações e sintam o mesmo medo. Eu vivi ou não vivi? Eu vivi a verdadeira vida? Há os que falam alto, e há os que apertam cada vez mais a boca, e nem diante da morte deixam falar o seu fantasma” … No fundo, uma obra singular de pendor ético-social que conjuga o fascínio ambíguo pela rebelião, com um olhar crítico sobre a pobreza e acerca da ideia da morte, sempre tão omnipresente como a vida …

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Recorde-se que esta e outras obras do escritor foram (re)publicadas em edição fac-símile pela editora “A Bela e o Monstro”, numa parceria com o jornal Público e a Câmara Municipal de Guimarães, aquando do Festival Húmus e 150.º aniversário do nascimento de Raul Brandão. A Posse do Cucúsio relembra também Raul Brandão, uma vez que as Posses Nicolinas ocorrem também no início de dezembro. Com efeito, esta posse nicolina é relatada magistralmente no capítulo III da obra “A Farsa” (1903) e refere-se ao sapateiro António Teixeira, residente na Caldeiroa, que faleceria na rua Nova do Muro a 1 de agosto de 1825. Mais conhecido por João Cucúsio era efetivamente uma figura famosa na época, que João Lopes de Faria recorda nas suas” Efemérides Vimaranenses”: “Este era o célebre Cucúsio que na madrugada de 5 de dezembro, os estudantes andando em posses, visitavam, fazendo-lhe em frente de sua vivenda grande gritaria “ó Cucúsio mostra o cu” e ele os satisfazia, vindo à janela mostrando-lhe o olho do cu”. Ora, esta posse Nicolina, magistralmente contada por Raul Brandão é provavelmente um dos textos brandonianos mais “vimaranenses”. Aqui fica uma breve passagem: Cucúsio na noite húmida com archotes – Imagem de SAL.

“(…) - Cucúsio! Cucúsio! Cucúsio!

Nada. Ninguém responde, e um frémito percorre a turba que espera sempre, milhares de cabeças erguidas no ar, as bocas abertas como peixes diante da casa negra e cerrada. Para o fundo do negrume outros, e mais outros envoltos na escuridão, atendem também como quem espera um milagre. E ouve-se no silêncio a chuva cair, miúda, pegajosa, eterna. Pela fresta duma janela lá se escoa por fim ténue claridade – e ao fundo estremece, silenciosa e compacta, a canalha comovida e atenta, até que, avançando com imponência mais dois passos, o Testa, como quem invoca, implora, ordena, torna: - Cucúsio! … Sente-se abrir o postigo do prédio e uma voz comovida responde afinal ao apelo: - Pronto, meus senhores, cá está o Cucúsio! … E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro – como, desde os tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila. A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os

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urros estrugem, o pendão oscila levado pelo Testa, no alto daquela onda, e o Sr. Anacleto corre sem ver nem ouvir, desorientado”.

Curiosamente uma posse inesquecível, que provavelmente seria mantida por vários anos pelos descendentes do Cucúsio, e que nos anos 40/50 teria uma réplica similar: a conhecida posse do Barroca, na antiga Rua de S. Dâmaso. Recordações de Raul Brandão que poderão ser complementadas com a sua leitura, designadamente o seu “O Natal dos Pobres”.

No centenário do nascimento de Matilde Rosa Araújo Uma justa homenagem

Matilde Rosa Araújo (1921- 2010) nasceu em Lisboa no dia 21 de junho, tendo-se distinguido como escritora de obras infantojuvenis, quer na narrativa quer na poesia. Licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, exerceria funções docentes como professora de Português em várias escolas do país e como formadora na Escola do Magistério Primário da capital. Escritora dedicada às crianças, com mais de quatro dezenas de obras publicadas, algumas das quais destinadas aos leitores adultos, Matilde Rosa Araújo focaliza os matizes fundamentais da sua obra na “infância dourada”, centrada essencialmente na perspetiva do maravilhoso e do sonho poético, sem descurar as preocupações sociais do universo infantil. Matilde Rosa Araújo - ilustração de SAL Deste modo, na sua obra, cruzam-se três perspetivas base: a infância feliz, a infância agredida e a infância como projeto. Verifica-se, portanto, no conjunto da sua obra, um projeto pessoal de apelo ao entendimento do mundo infantojuvenil, quer nas suas necessidades e anseios quer nas suas carências, que, como afirmaria, pretendem exprimir um desejo de “amor, de justiça e de tolerância, e de poder aprender a poética da vida”.

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Com efeito, para além da função pedagógica, alicerçada numa linguagem musical e lúdica, a escritora assume também cuidadas preocupações éticas, que frequentemente mergulham na ligação primordial e recriadora com a natureza ou no reino animal. Preocupações que, na sua vida pessoal e cívica, passariam também pela sua defesa dos direitos da criança e intervenção ativa em organismos dedicados à criança como o Comité Português da UNICEF e o Instituto de Apoio à Criança que a obra “Os Direitos da Criança” corroboraria, glosando os 10 princípios proclamados na Declaração dos Diretos da Criança e a sua poesia confirmaria: “Menino Encosta a tua cabeça de seda No meu ombro Contigo, sei escutar A música mágica do Mundo” A escritora estaria também na primeira linha, no combate pelos valores democráticos. Com efeito, como dirigente da Sociedade Portuguesa de Escritores da qual fazia parte em 1965, enfrentaria como os demais companheiros a repressão do Estado Novo, quando a instituição premiou Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, situação que desencadearia reações prepotentes por parte da PIDE. Quanto à vida literária, Matilde inicia-se na escrita com a novela “A Garrana”, em 1943, uma história para adultos sobre a eutanásia, surgida no contexto de um concurso do jornal “O Século”, denominado “Procura-se um novelista”, em cujo júri participava Aquilino Ribeiro. Uma escrita para adultos a que se seguiriam, posteriormente, outros títulos como “Estrada sem nome”, “Praia Nova”, “Chão e a as estradas” e “Voz Nua”, entre outros. Outrossim, e concomitantemente, uma colaboração assídua na imprensa, quer em vários periódicos como “A Capital”, o “Diário de Notícias” ou o “Comércio do Porto”, quer em várias revistas, entre as quais a “Távola Redonda”,” Colóquio Letras” e a “Seara Nova”. Porém, entre as suas obras, destacam-se sobretudo os livros de registo infantojuvenil como “O Livro de Tila” (1957), o primeiro título para crianças, curiosamente escrito no decurso das viagens de comboio ente Lisboa e Portalegre, onde lecionava na altura. Um livro que desvela o universo eufórico da infância, cheio de deslumbramentos perante um mundo de comunhão franciscana com a natureza, e que, atualmente, faz parte do Plano Nacional de Leitura do 1.º ciclo do Ensino Básico, além de ter sido musicado por Lopes Graça. O poema “Amor”, que se transcreve, faz jus desse saber ler a vida, de que Matilde faz vida. 583


“Mãe, as flores adormecem. Quando se põe o Sol! Filha, para as adormecer Canta o rouxinol … Mãe, as flores acordam Quando nasce o dia! Filha, para as acordar Canta a cotovia … Mãe, gostava tanto de ser uma flor! Filha, eu então seria uma ave … Com efeito, o amor filial (não obstante Matilde não ter deixado descendência) que perene no sentido de criação natural está maternalmente omnipresente em todos os momentos da vida é aqui bem evidente: “Mãe, que verdade linda O nascer encerra, Eu nascido de ti Como a flor da terra” Uma mãe que se identifica com a natureza na sua grandeza criativa e protetora: “Minha mãe tem flores nos olhos nas mãos, nos braços. Luas brancas são seus seios de seda E é grande como o Mundo E eu chamo-lhe Mãe!” Ademais, entre as suas obras infantojuvenis destacam-se ainda obras como “O Palhaço Verde” (1984), que seria distinguido como o melhor livro estrangeiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte de S. Paulo; e o livro de poesia, “As fadas Verdes”, considerado pela Fundação Calouste Gulbenkian o melhor livro para infância do biénio 1994/1995. 584


Com efeito, a narrativa “O Palhaço Verde” é um conto intemporal, cheio de fantasia e de sonho, que conta a história de um menino que decide ser palhaço para dar alegria aos outros meninos: “Vou falar-lhes de um palhaço. Tinha um nariz muito grande e uns olhos que brilham como estrelas. E no peito um coração de oiro (…) O palhaço era bom. Sonhava muito. Sonhava que, no mundo, todos deveriam ser bons, alegres, bem-dispostos.”

Um palhaço que durante os espetáculos chora de alegria com a felicidade dos meninos, mas que também verte lágrimas pelo menino que vende moinhos de papel para vencer a pobreza. No fundo, uma mensagem de ternura e amor, em cujo desfecho o menino pobre oferece uma flor de papel ao palhaço, demonstrando que assim deveriam ser as relações humanas… Pela sua obra valiosa, a escritora recebeu ainda vários prémios e condecorações, como o Grande Prémio de Literatura para Crianças e o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores; e, em 1994, seria nomeada pela secção portuguesa do International Board on Books for Young People (IBBY), para edição desse ano do Prémio Andresen, uma espécie de Nobel da Literatura Infantil. Realmente um reconhecimento que passaria ainda pela homenagem de que seria alvo pela publicação da obra “Matilde Rosa Araújo – um olhar de menina”, uma biografia romanceada da escritora Adélia Carvalho, que esta autora fez questão de dedicar a “Matilde, por tudo o que nos tem dado e que não cabe neste livro”. E que, obviamente, muito menos cabe neste artigo … Paralelamente, em 8 de março de 2003 (Dia Internacional da Mulher), a escritora seria ainda galardoada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, com o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços prestados ao país. Serviços que Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura, reconheceria como prestados por “uma figura de referência da literatura para crianças e uma escritora de enorme talento, imaginação e sensibilidade (…) certamente uma das pessoas que mais contribuíram para o gosto da leitura entre os mais pequenos”. Elogio ao qual, na sua simplicidade, Matilde Rosa Araújo responderia: “É uma generosidade muito grande para uma carreira que me deu mais do que eu dei a ela (…)”.

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Minha Senhora de Mim Neste ano de 2021, perpassam 50 anos da publicação do livro de poesia “Minha Senhora de Mim”, de Maria Teresa Horta, obra que, tendo por base a releitura das cantigas de amigo, apresenta poeticamente a cosmovisão da mulher feminista dos anos 70, comprometida no combate em prol da condição feminina e humana, face às convenções morais e sociais castradoras da sociedade vigente. Com efeito, num desafio veemente ao moralismo da ditadura portuguesa, sem peias nem estremas, a linguagem da poetisa desnuda-se dos véus retóricos literários e despoja-se dos adornos metafóricos, sinedóquicos e metonímicos da maquilhagem insinuadora, para livremente e sem cosmética enlevadora, exaltar o corpo na sua sensualidade e erotismo, numa aberta assunção da expressão do desejo: nas “coxas entreabertas no início dos teus beijos”, ou na “raiva do punhal que enterras/no sol pastoso/do meu ventre”, assim se expressa em alguns poemas. De facto, em composições poéticas como “O Meu Desejo”, “Poema ao Desejo” ou “Entre nós e o tempo” e “Rosa”, entre outros, sente-se, como afirma António Ramos Rosa, que “cada poema seu é um ato de desnudação que põe em causa as convenções da vida social e está para além das barreiras protetoras da dignidade e do pudor”. “O Meu Desejo” é um bom exemplo dessa ardência vital e sensualidade arrebatadora e erótica do corpo, em toda a sua irracionalidade, libertadora e subversiva: “Afaga devagar as minhas pernas Entreabre devagar o que é Negado Bebe devagar o meu Desejo.”

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Realmente 59 poemas em que a voz feminina afirma corajosamente não ter medo de ser senhora de si, de seu corpo, de suas vontades e de seus desejos. Porém, uma obra que provocaria a sua apreensão pela PIDE; e, a título pessoal, os insultos, as cartas anónimas e até um espancamento. Sevícias a que se acrescentariam ameaças a Snu Abecassis, no sentido do seu encerramento da editora D. Quixote, caso voltasse a publicar esse livro ou qualquer outro da mesma autora. No entanto, como a escritora afirmaria tratar-se de “um livro determinante, quer na minha obra, quer na minha vida pessoal”. Efetivamente considerado pela autora como a “obra de viragem” na sua carreira, “Minha Senhora de Mim” desencadearia, contrariamente aos intentos e intimidações censórias, a continuidade da luta e a abertura a novos rumos literários, designadamente a edição das “Novas Cartas Portuguesas” (1972), que as três Marias (Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno) acabariam por lançar, em parte como reação à perseguição e apreensão anterior. Todavia, Maria Teresa Horta, nascida em Lisboa em 1937, distinguir-se-ia ainda como ativa amante do cineclubismo português, ficcionista, dramaturga e jornalista. Neste âmbito, colaboraria em vários periódicos nacionais, em especial na redação do jornal “A Capital” no qual liderou o suplemento Literatura e Artes, bem como na revista “Mulheres”, nascida em 1978, da qual seria chefe de redação até finais dos anos 80, que veicularia criticamente o pensamento feminino, particularmente o elogio da diferença e a apologia da cultura feminista. Na poesia, estreada com “Espelho Inicial” (1960) e, posteriormente, “Tatuagem” (1961), Maria Teresa de Mascarenhas Horta, revelar-se-ia sobretudo no âmbito do movimento literário “Poesia 61”, com várias obras publicadas ao longo de vários anos, entre as quais “Estranhezas” (2018), consagrada com o Prémio Literário do Festival Correntes de Escrita, na Póvoa de Varzim. Na dramaturgia destaca-se entre outras a peça “O Delator” (1965), incluída no volume “Novíssimo Teatro Português”, enquanto na ficção se realça “Luzes de Leonor” (2011), galardoado com o Prémio D. Dinis e Prémio Máxima da Literatura. Ademais, a autora seria ainda distinguida com o grau de Grande Oficial da Ordem Infante D. Henrique por Jorge Sampaio e a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e laureada com o Prémio Consagração da Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores e faz ainda parte do Cânone dos 50 escritores portugueses consagrados, organizado por três professores e ensaístas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa No fundo, um percurso assumido de escrita feminina voluptuosa e sensual que, na obra, “Minha Senhora de Mim”, claramente se expressa, bem evidente no poema “Cinto de Castidade”, ante o dilema querer

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e perder: “Como cinto-castidade tenho o medo de perder-te e o teu silêncio fundo onde crescem muitas pedras Como cinto-castidade este perder-me de ter-te meu cinto de castidade toda a sedenta vontade e todo o aço de querer-te.”

Novas Cartas Portuguesas Já lá vão 50 anos que as três Marias (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa) dariam à luz as “Novas Cartas Portuguesas”, um livro que afrontaria o regime e que marcaria o processo revolucionário em curso (PREC) feminino, de reivindicação do direito da mulher ao corpo e pensamento. Com efeito, na altura, o livro seria destruído pela censura três dias depois de estar em circulação, com o pretexto de ser “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”; e, inclusive, conduziria as autoras a um processo judicial, que seria badalado internacionalmente nos órgãos de comunicação social, entre os quais o Le Monde ou The New York Times, bem como motivaria manifestações junto de algumas embaixadas portuguesas. Hoje, “Novas Cartas Portuguesas” é uns dois livros nacionais mais traduzido e estudado em várias universidades estrangeiras; e em 1973, o seu caso seria mesmo votado numa conferência da National Organization for Woman, em Boston, como a primeira causa feminista internacional. Realmente, partindo das “Cartas Portuguesas” redigidas pela freira Mariana Alcoforado (1640-1723), dirigidas ao Marquês Noel de Chamilly, oficial francês participante na Guerra da Restauração, em solo 588


nacional, Mariana, que se encontrava enclausurada no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, serviu de inspiração para as autoras escreverem as “Novas Cartas Portuguesas”, enquanto obra literária de libertação feminina. Deste modo, desde poemas, ensaios, relatórios e até excertos do código penal, que colocam em causa o “status quo” da condição feminina na época e simultaneamente lançam críticas à ditadura, guerra colonial e ao sistema judicial, o livro representa sobretudo um gesto de resistência a um sistema opressivo e um ato desafiador. Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa - in jornal Público É, de facto, um livro que revolucionou a visão feminina do mundo e que se mantém atual, pois, como se escreve na penúltima carta “continuamos sós, mas menos desamparadas” … Novas Cartas que, apesar de já “velhas” de cinquenta anos, continuam jovens, tal como as velhas cartas de Mariana Alcoforado …

80 anos de esteiros Se hoje fossem vivos e reais, para além da verosimilhança da ficção, os protagonistas da obra “Esteiros” (1941) estariam atualmente, tal como há 80 anos, a receber míseras pensões de reforma, prolongando no tempo até à velhice a sua situação de pobreza da infância, não obstante algumas mudanças sociais entretanto ocorridas. Muitos desses jovens dos esteiros existiram na realidade e alguns deles estarão porventura (ainda) vivos para contar esses difíceis tempos do passado recente … Com efeito, “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes, uma das obras iniciais e emblemáticas do movimento neorrealista português e do realismo socialista, conta a história dos “filhos dos homens que nunca foram meninos”, uma personagem coletiva de jovens protagonizada pelos vagabundos Sagui, Maquineta, Guedelhas, Gineto e Gaitinhas, simples rapaz, que só queria umas botas para ir à escola. Meninos e moços que não tiveram tempo nem para ir à escola nem para serem crianças. Com efeito, enquanto filhos da pobreza, constituiriam a geração nem/nem desses tempos e sofreriam na pele as rudes condições de trabalho infantil e 589


exploração salarial, bem como, mais tarde, a concomitante e “ajustada” pensão de reforma, quase de sobrevivência. Ora “Esteiros”, nome dado aos braços estreitos e lamacentos do rio Tejo, na zona de Alhandra, são de facto o espaço da ação e o local de trabalho insalubre destas crianças, sazonalmente “empregadas/desempregadas” no fabrico penoso de telhas e tijolos, submissos a tiranetes como o Senhor Vicente, dono dos telhais, ele próprio também oprimido até à falência pelo Senhor Castro, proprietário dos terrenos adjacentes aos canais do Tejo. Uma história humana e verosímil que, marcada pela gradação crescente e disfórica da vida pobre, culmina com a morte de Malesso, numa inundação do campo, Madalena tuberculosa, a prisão de Gineto, a embriaguez e a loucura. Soeiro Pereira Gomes - ilustração de A luta contra a opressão e a exploração, bem como a denúncia das SAL injustiças sociais são, por conseguinte, os caboucos desta construção literária neorrealista, estruturado em consonância com a passagem das estações do ano. Uma tessitura narrativa que obviamente remete para a dependência desta atividade económica relativamente à Natureza, que impõe os seus ritmos diferenciados e alternados de emprego/desemprego ao longo do ano. Simultaneamente, constata-se na obra uma certa circularidade temporal do ciclo da miséria, que parcialmente impede a mudança, numa desesperança em que a pobreza gera pobreza. Efetivamente, apenas a solidariedade que une os jovens trabalhadores e a partida de Gaitinhas, no final do romance, parecem indiciar a mudança e as luzes libertadoras, na “busca dessa alvorada libertadora”. Partidas que ainda hoje se configuram e consubstanciam na emigração e nas lutas sociais que persistem e subsistem. “Esteiros” é, portanto, uma obra de reflexão sobre o passado do velho Estado Novo, mas também um livro do presente e futuro de reflexão sobre o nosso tempo e dos nossos vindoiros. Outrossim, como escreve e sintetiza Miguel Real no jornal de Letras de 19 de maio, um “romance de natureza simultaneamente social e interventivo, demonstrativo da exploração económica a todos os níveis, com linguagem popular, envolvido num manto lírico, perfeição sintática e sobriedade na adjetivação (…) Esteiros constitui, assim, uma metonímia do estado de Portugal nas décadas de 30 e 40 do passado século, em plena reorganização industrial pós-I República de onde emergem os monopólios económicos (…)”.

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Por sua vez, Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), militante do PCP, que dá nome à sede nacional do partido e à rua lisboeta em que se instalada, é efetivamente um dos nomes importantes desse novo realismo social do dealbar do século XX. De facto, o autor de “Esteiros” afirmar-se-ia como exímio escritor interventivo, na sequência de obras seguintes como “Engrenagens”, autêntico laboratório da vida sobre as lutas sociais, assim como nos livros de contos, em especial os seus “Contos Vermelhos” e crónicas diversas publicadas na imprensa. Nascido em Gestaçô, concelho de Baião, regente agrícola por formação e funcionário administrativo na fábrica “Cimento Tejo de Alhandra”, onde casaria e viveria com a compositora Manuela Câncio Reis, o escritor seria não só testemunha e narrador dessas deploráveis condições de vida que denunciou, mas também vítima da sua escrita e da sua ação política, que lhe valeriam a clandestinidade e a prisão da esposa, em 1945, em especial após a sua liderança grevista no seu local de trabalho. Com efeito, paralelamente à escrita, que passa também por colaborações no periódico progressista “Diabo”, o homem e o autor revelam-se coerentemente comprometidos na vida e na obra das causas sociais, impulsionando profícuas atividades culturais, criando bibliotecas particulares, ensinando ginástica aos filhos dos operários e empenhando-se na construção de uma piscina pública, numa envolvência engajada na realidade nos seus espaços de referência que durariam até à clandestinidade e à morte em condições dramáticas, vitimado por uma doença incurável. Capa do livro esteiros Seguramente, um autor a (re)ler e um livro a ler e refletir 80 anos depois, mesmo e inclusive nestes tempos que correm …

SEARA NOVA: uma revista centenária No passado dia 15 de outubro, perpassaram 100 anos que saiu para os escaparates a primeira edição da Seara Nova, fundada por nomes famosos da intelectualidade portuguesa como Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Azeredo Perdigão, Câmara Reis, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António 591


Correia, Jaime Cortesão, Raul Proença e Raul Brandão. De facto, nascida depois do colapso da República Nova, a revista constituir-se-ia como uma das mais notáveis realizações do pensamento português, propondo o alinhamento da inteligência nacional num grande movimento de reforma das mentalidades. Com efeito, Seara Nova parte do pressuposto evocativo da metáfora bíblica do bom semeador, crente na boa semente que vai germinar, independentemente do solo em que é lançada … Semear a reforma política e social de Portugal, tornando-o mais justo, instruído e moderno, seria, por conseguinte, o seu desígnio, consubstanciado no projeto editorial que a define como revista de “doutrina e crítica, claramente dilucidado desde o primeiro número”: “A Seara Nova representa o esforço de alguns intelectuais, alheados dos partidos políticos mas não da vida política, para que se erga, acima do miserável circo onde se debatem os interesses inconfessáveis das clientelas e das oligarquias plutocráticas, uma atmosfera mais pura em que se faça ouvir o protesto das mais altivas consciências, em que se formulem e imponham, por uma propaganda larga e profunda, as reformas necessárias à vida nacional”.

Porém, a despeito da sua exemplar intervenção e longevidade, com altos e baixos ao longo dos tempos, que apesar disso permitiriam a sua publicação até aos dias de hoje, a revista enfrentaria imensas vicissitudes, em especial no período subsequente à ditadura militar, após o 28 de maio de 1926 e posteriormente no decurso do Estado Novo. Assim, para além da censura e dificuldades financeiras, os seareiros padeceriam também da perseguição política, em especial após a revolta contra a ditadura, em 3 de fevereiro de 1927, no Porto, na qual Raul Proença e Jaime Cortesão, entre outros, teriam participação ativa. De facto, após esta revolta, cinco dos sete diretores da revista e Aquilino Ribeiro partiriam para o exílio em Paris, enquanto António Sérgio seria banido do país. Com efeito, Seara Nova, em particular em momentos conturbados como a II Guerra Mundial, ou a extinção de periódicos opositores como “O Diabo”, “Pensamento” e a “Presença”, incomodaria muitas vezes o “status quo” e seria a única voz da resistência cultural e política de dimensão nacional que os intelectuais portugueses e democratas dispunham para expressar os seus pontos de vista, ainda que o hajam feito em circunstâncias e fases diferenciadas. Realmente, cinco fases podem ser balizadas na vida da revista: uma fase inicial de definição doutrinária, que terminaria em 1927; uma fase de oposição à ditadura militar de cerca de 3 anos, que se estenderia até aos anos 30; um terceiro período de publicações mais irregulares, que grosso modo se prolongaria até 1959; uma quarta fase ocorrida entre a década de 60 e o 25 de Abril, que doutrinariamente aproxima a revista do marxismo; e, finalmente, uma quinta fase de desagregação que culmina em 1984. Hoje, a Seara Nova é uma 592


revista trimestral, propriedade da Intervenção Democrática, dirigida por João Luiz Madeira, mantendo a sua matriz fundamental, a despeito das alterações pontuais decorrentes dos tempos. Efetivamente, para além da vertente mais política, a revista Seara Nova evoluiria e passaria outrossim por uma dimensão mais literária e artística, como o comprovam a presença em suas páginas de vários escritores, a que se ajuntam mais tarde José Rodrigues Miguéis ou José Régio, bem como críticos e historiadores como Fernando Lopes-Graça, na música, ou José Augusto França, no cinema, entre outros. A Seara Nova foi também um espaço aberto de sadias polémicas. Destacam-se, por Capa do centenário da Seara Nova exemplo, a controvérsia entre Gago Coutinho e Rui Luís Gomes a propósito da Teoria da Relatividade, a discussão entre José Rodrigues Miguéis e Castelo Branco Chaves em torno do marxismo e de Eça de Queirós; ou a polémica entre José Régio e Álvaro Cunhal acerca da responsabilidade social do escritor e do artista. Paralelamente, é de realçar ainda a ação editorial da Seara Nova, que publicaria ainda centenas de livros e cadernos no âmbito dos seus propósitos pedagógicos. E, curiosamente, no decurso do governo de Álvaro de Castro, que negociou o apoio da revista cultural, seria até poder, durante dois escassos meses, ocupando estrategicamente as pastas da Educação (António Sérgio), da Agricultura (Azevedo Gomes) e da Guerra (major Ribeiro de Carvalho). RAUL BRANDÃO E A SEARA NOVA Raul Brandão (1867-1930) seria um dos colaboradores habituais da revista Seara Nova. Com efeito, aí publicou, antes da edição em livro, trechos de obras como “Os Pescadores”, ou “Portugal Pequenino” em parceria com Maria Angelina, bem como peças de teatro como “o Avejão”, ou “Eu sou um homem de bem”

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e ainda passagens das suas “Memórias” ou “A Morte do Palhaço”. Textos que se estendem também à crítica literária sobre o amigo Teixeira de Pascoaes, Fialho de Almeida ou António Nobre, assim como a outros dispersos em que a tónica fundamental, como era seu timbre, incidiria na consciência da justiça social, e nos excluídos da sociedade, problemáticas que o aproximam e filiam nos propósitos da Seara Nova. Citem-se, entre outros, “Sombras Humildes” sobre as carências do mundo rural, publicado na primeira edição da revista, “O Meu Caseiro”, ou “O homem que veio a Lisboa pregar Deus ao Dr. Afonso Costa”, editado na revista nº 3 e retomada nas suas Memórias II: “(…) O país está bem representado neste pobre António Lourenço que veio por aí abaixo da Guarda e que quer por força pregar ao Governo e não ao Sr. Afonso Costa a ideia de Deus (…) - É preciso demonstrar a esta gente que Deus existe. Não sou católico, não me importo com igrejas nem com padres. Entendo, porém, que o mal de que padece toda a nossa sociedade é a descrença em Deus e o progresso do materialismo (…) À noite surge inesperadamente Junqueiro (…) - O senhor que é na sua terra? - Cavador. - Então como é que Deus existe? - Porque foi ele que criou tudo isto. - Quem criou tudo isto não foi Deus, foi o Diabo. Deus não pode criar senão uma obra perfeita. Ora tudo no mundo é imperfeito e o homem é mau. O senhor na sua vida nunca encontrou anjos (…) No Paraíso o homem já era mau. Veja o senhor uma laranja. Em certo momento é uma obra perfeita tês dias depois está podre. Porquê? Porque já tinha dentro o gérmen mau (…) O António Lourenço balbucia: - Ora essa! Ora essa! - Vá para a sua terra e viva e morra na paz do Senhor, como eu quero morrer também. O senhor tem razão, eu é que não tenho. O senhor possui a verdade, mas aqui em Lisboa são tudo doutores (…)

E quando ele sai, conclui: - É um bloco de granito com uma centelha lá dentro.”

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Hoje correm os seguintes versos sobre o Grupo Democrático: “É um grupo de gente exótica, Que anda na faina patética De pôr em ordem caótica, Duma maneira sintética, A exaltação patriótica.”

Entrementes, no âmbito das comemorações do centenário, que decorrem desde setembro deste ano e se prolongam até junho de 2022, não obstante o facto de a maioria das sessões evocativas decorrerem a sul, a atual direção da Seara Nova vai programar a exposição histórica “Seara Nova – 100 Anos de Ação e Pensamento Crítico” que percorrerá várias cidades do país. Esperemos que Guimarães esteja entre as escolhidas (porque não em março, data de aniversário de Raul Brandão), uma vez que o escritor foi, um dos fundadores e assíduo colaborador da revista.

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RECENSÕES E SINOPSES Equipa redatorial

Neste espaço, ainda que incompleto por limitações de espaço (e Guimarães surpreende em matéria de produção literária), procuramos facultar algumas indicações sobre a ensaística e criatividade dos vimaranenses. Deste modo, selecionamos algumas obras de teor historiográfico e ensaísmo, narrativas diversas, inclusive da tradição popular, visões fotográficas e poesia, que nos dão uma perspetiva abrangente e sumária daquilo que andam a produzir os vimaranenses, quer sobre a sua terra e gentes, quer das suas visões da realidade ficcionada.

Seguramente a dar uma olhada e depois ler …

A “Casa Alberto Sampaio” A “Casa Alberto Sampaio – Uma saga de quatro gerações” é a (recente) obra de autoria de Emília Nóvoa Faria e António Martins, com design e ilustrações de Eduarda Fontes, editada sob a coordenação de Catarina Pereira, técnica superior dos quadros da Oficina, entidade responsável pela edição. É uma edição que, como cita Catarina Pereira, “consegue guiar-nos pela história da vida privada de quatro gerações e da gestão do seu património “, centrada nos ramos familiares dos Cunha Berrance e Barroso Pereira, que, desde o século XVIII, habitaram os números 124 a 130 da antiga Rua dos Mercadores (atual Rua da Rainha Dona Maria II), onde viveu a família Abreu Teixeira, da qual descendeu Alberto Sampaio, que hoje dá nome à casa. Um imóvel que atualmente é ocupado pela Oficina e propriedade municipal, que, como escreve Adelina Pinto, vereadora municipal e presidente da Direção da Oficina, perfaz um “casamento feliz entre a memória de um grande homem e uma cooperativa cultural”. Com efeito, nesta casa concreta, concilia-se não só o melhor do artesanato vimaranense, como os bordados e Cantarinhas dos Namorados, mas também uma pequena sala museu dedicada ao ilustre historiador Alberto Sampaio, sita no 3.º andar, espaços onde plausivelmente brincou, aprendeu as

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primeiras letras e certamente se fez homem. Quanto ao livro, que conta com um prólogo do jurista Paulo Vieira de Castro, presidente da direção da Sociedade Martins Sarmento, as suas palavras finais são eloquentes e dizem muito: “Alberto Sampaio gostaria certamente de ter escrito este livro. Se o pudesse ler, ficaria satisfeito por ver seguida a sua lição e também especialmente feliz por encontrar Emília, sua sobrinha trineta, impulsionadora e coautora da obra.”

Com efeito, o livro e estudo monográfico ora nos dá a conhecer os principais protagonistas e ocorrências da casa, rigorosamente acompanhados por um apêndice documental, caderno de ilustrações e até um glossário, ora nos dá conta das histórias da família do insigne historiador, evolução da casa, lugar e da rua. Mas, outrossim, das suas gentes e do pulsar das suas ocupações, anseios e receios, pois como sintetiza Catarina Pereira, “lembrá-los e lembrá-las é o tributo que se lhes deve para agora e para as gerações vindouras.” … Ademais, a obra contém ainda um capítulo intitulado a “Rua dos Mercadores”, da autoria de Antero Ferreira, investigador da Casa de Sarmento, que, além de nos fornecer acrescidas informações socioeconómicos sobre a comunidade, valoriza e complementa o livro.

A gripe espanhola de 1918 “A Gripe Espanhola de 1918” é o novo título editorial da Casa Sarmento – Centro de Estudos do Património /UMinho, uma Unidade Diferenciada da Universidade do Minho, com sede na cidade-berço, criada em 2017, com base num protocolo com a Sociedade Martins Sarmento e o Município de Guimarães, que visa promover a cooperação cultural. Deste modo, sob a coordenação de Antero Ferreira, uma vasta plêiade de autores dá à estampa um conjunto de artigos resultantes do encontro científico realizado na Sociedade Martins Sarmento, em 25 e 26 de outubro de 2018, em colaboração com a Associação de Demografia Histórica (ADEH), a Associação Portuguesa de Demografia (APD) e o Grupo de Populações e Saúde, jornadas que contaram com a participação de 35 investigadores, cujos 16 trabalhos são compilados nesta obra.

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De facto, equacionando três áreas, como as perspetivas globais sobre a gripe e outras pandemias, estudos de caráter regional e impactos socioculturais da pandemia, ”facultanos a leitura deste livro, nos seus diferentes artigos, ao refletir e aprofundar o conhecimento que temos da epidemia de 1918, quer em alguns aspetos mais gerais (demográficos, socioeconómicos), quer na reação dos média e dos poderes locais e regionais”, escreve Maria Luís Rocha Pinto, da Universidade de Aveiro. Ademais, acrescenta” mostra-nos, por um lado, quanto avançamos no controlo das epidemias e por outro o quanto as reações humanas permanecem idênticas.” Outrossim, faculta-nos uma perspetiva que percorre algumas das nossas regiões, não só no decurso e enquadramento situacional das dificuldades decorrentes da 1.ª guerra mundial, com a carestia da vida e a pobreza daí resultantes, como também, (pois um mal nunca vem só), num terrível contexto epidémico, coincidente com um surto de tifo exantemático e outro de varíola. Destaque-se, porém, entre os assuntos tratados, os artigos como “Os enterros também se fazem à noite: a pneumónica em Guimarães” de Antero Ferreira e Célia Oliveira ou “Impactos da gripe espanhola na região do Alto Minho”, porquanto são certamente textos mais próximos da nossa realidade concreta, aos quais se poderia ajuntar “O papel da administração local perante e gripe espanhola: as autoridades de Braga em ação” e, porventura, “Amadeo e a pneumónica: Requiem para um modernista”, que aborda a epidemia através da morte de uma das figuras maiores da cultura portuguesa: o pintor amarantino Amadeu de Souza Cardoso. Em súmula, um livro oportuno e um contributo relevante, quer para o conhecimento do país nessa época, quer para o presente, face à grave situação epidemiológica em que hoje vivemos.

Os meus olhares “Os Meus Olhares” é um livro-portefólio de Secundino Ferreira que, sob o pseudónimo de Dino Ferrer, reúne algumas dezenas de fotografias a cor e a preto e branco, centradas em diversos olhares ao acaso, expressões medievais de figurantes anónimos das Feiras Medievais e recortes de Guimarães. Fotografias que, como prefacia Álvaro Nunes, “deambulatoriamente e ao acaso nos fazem viajar no 599


espaço e no tempo pela ótica subjetiva de Dino Ferrer, em que a fotografia se faz poesia, que na sua polissemia visual nos transporta a vários cais”. Odisseia que, como acrescenta são “pontos de partida duma viagem de desvendamento de paisagens físicas e humanas, bem como de descobrimento que ilumina a escuridão e nos transpõe para outras dimensões, captando num instante a emoção e a realidade que está para além dos olhos.” De facto, “tudo depende de como vemos as coisas e não como elas são na realidade”, pelo que fotografar, como cita Henri Cartier - Bresson, “é colocar na mesma linha, a cabeça, o olho e o coração” … Assim, nesta viagem de viajante de corpo e alma, pois Secundino Ferreira foi de facto viajante de profissão, compilam-se no âmbito dos seus trabalhos de 50 anos de paixão, um espólio de imagens que também viajaram por centenas de galerias e espaços públicos, registando ionicamente o pictórico da natureza física e urbana, visões eufóricas e disfóricas do passado e presente, e/ou “pormenores e detalhes que só a observação microscópica do fotógrafo capta entre os lugares comuns e absorve com olhos de criança (…), ora saboreando a existência com intensidade em cada segundo, que a câmara degustou, ora visualizando impressivamente e sinestesicamente a realidade circundante, em todas as suas cambiantes agridoces e sentidas matizes”. Para além das fotografias, como cerne e “resistência da memória”, que só abrindo o baú ou cofre de segredos se sente e aprecia, um “Soneto Fotográfico” acompanha o prefácio, casando fotografia e poesia: Fotos, lugares icónicos de passagens, A ponto luz trabalhados e bordados Pausas nas paisagens, em tempos de viagens, Imagens nos baús dos linhos arrecadados … Cais de partida no mar das descobertas, Rostos medievos, olhares lentes da cidade, Cada foto é um farol de portas abertas Paragem de diafragma aberto à liberdade …

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Memórias do sótão dos brinquedos e ruínas Guardadas no instante efémero de pirilampo Cada foto é ouro puro de abandonadas minas … Tesouro sem mapa, de vasto e ótico campo. Cada foto é assim um canto digno de ser Dino Câmara escura, projeção sensível em voz de hino!

Contos e Lendas do Diabo em Guimarães Na esteira de “Diabos, Diabruras, Demónios e Diabretes”, publicado em 2018, e praticamente enquanto o diabo esfrega o olho, Fernando C. Miguel publica agora “Contos e Lendas do Diabo em Guimarães”. Cinquenta e cinco histórias sobre as quais J. Salgado Almeida pinta o diabo e, por artes do diabo, dá à estampa excelentes ilustrações sobre as narrativas, que com mil diabos, parecem provar não ser o diabo tão feio como o pintam! De facto, mais de meia centena de narrativas da vox populi que constituem uma viagem pelos hábitos e costumes da gente vimaranense e da antropologia do imaginário, recolhido nos bairros da Ramada, Rua D. João I, S. Francisco, Mesão Frio e por terras de Pevidém, entre outros lugares do concelho, que, em especial durante as Maias, mandavam para o diabo o dito cujo, na ribeira de Couros: “Tinhoso! Tinhoso Não te queremos por cá Vai-te com estas águas Leva todas as mágoas Vai-te embora já!!!” Estórias colhidas da sabedoria popular e ancestral que, no âmbito da tradição oral, constituem um tesouro de partilha inter-geracional, cuja investigação e recolha remonta à coleção “Contos e Lendas”, iniciadas na década 90 nas páginas do semanário “O Povo de Guimarães”, publicadas ao longo de mais de 100 edições,

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que, na altura, não lembrava ao diabo ser possível de concretizar. Porém, diabo a quatro, para além da dimensão literária e artística do livro, (oh, diabo!) uma interessante amostra de demoníacos modelos de barro complementou esteticamente, no Museu Alberto Sampaio, estas diabruras que fazem andar o diabo à solta …

O primeiro D. Afonso Henriques é o centro do novo livro de poesia de Paulo César Gonçalves, intitulado “O Primeiro”, que foi apresentado em 24 de junho, significativamente às 11,28 horas, tendo em conta a data da Batalha de S. Mamede, no ano de 1128. O livro que conta com 33 textos, divididos por 3 capítulos e ilustrado com aguarelas e pinturas do jovem pintor vimaranense André Marques, pretende ser uma visão alternativa do nosso primeiro rei, num retrato que vai além da História, evidenciando sobretudo a sua vertente mais espiritual e a dimensão humana, bem como situações menos conhecidas e estereotipadas da sua vida e ação governativa. Uma abordagem poética que revela sobretudo o pendor congregador e as facetas humanistas do nosso primeiro rei, evidentes, por exemplo, nos pactos celebrados com os vencidos, ou na sua visão inovadora de nomear mulheres para cargos públicos, aspetos que provam estar à frente do seu tempo. Deste modo, episódios históricos como a Batalha de S. Mamede, o torneio de Valdevez, o tratado de Zamora, figuras como Egas Moniz e Martim Moniz, ou as conquistas como Santarém, Lisboa, Alcácer do Sal, bem como a sua ligação à Ordem dos Templários, são algumas situações abordadas no livro que, não obstante a sua base histórica, acentuam a dimensão mitológica do nosso “Primeiro”. De facto, como escreveria Ana Lúcia Curado no seu posfácio, um livro que nos dá “uma visão pessoal da História” do nosso “Primeiro”, que o poeta alcunha de “Novo Artur da Lusa Excalibur”, que desde o início, no poema “Annuntiantio” é anunciado como o “Branco Cavaleiro”:

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“Alinham-se as Estrelas no longínquo e escuro céu; Ao de leve, vai o destino destapando o seu misterioso véu: escolhe o Uno, aquele a quem chamarão de Primeiro; à Vitória Íris anuncia a vinda do seu Branco Cavaleiro; (Em breve Ele virá fazer o que nenhum outro fará)”. Em súmula, como escreve Ana Maria Machado, que assina o prefácio da obra, uma visão pessoal da História, que “recorrendo a uma meticulosa pesquisa histórica e através de uma poesia criativa simbólica, transporta o leitor para o século XII”, ainda que com outros olhos … Ou dito de outro modo, um livro em cujo “centro da ação está D. Afonso Henriques, O Primeiro homem a sonhar Portugal e que tornou esse sonho realidade com golpes de espada, traições familiares, intrigas religiosas e muita determinação. Homem sem medo, vencedor de batalhas impossíveis, líder na frente de combate e na frente diplomática, astuto como poucos e sem escrúpulos sempre que necessário, de príncipe impulsivo a soberano ponderado, eis como o autor o perpetuou (…)”.

Almas Condenadas A jovem vimaranense Soraia Couto é a autora de “Almas Condenadas”, que além da escrita assegura também a capa, composição gráfica e revisão da publicação. De facto, Soraia, que desde os oito anos manifestou o seu interesse pela leitura e escrita e que no seu instagram @bookbysol dá a conhecer seus gostos, projetos e rubricas, um dos quais destinados a escritores portugueses, surpreendeu-nos, agora, com o seu primeiro livro, uma narrativa na qual a vingança e justiça são temas centrais. Amante da ficção científica e de autores de suspense e mistério, “AlRecorte de imagem publicada em “BIGGERmagazine” de agosto de 2021 mas Condenadas” é, portanto, uma história e uma narrativa que se insere nessa matriz, cujos protagonistas, Caleb e Katniss, juram vingança e procuram justiça, não obstante a justiça, dentro do possível, já haver sido feita. Outrossim, uma história cuja investigação acaba por tomar dimensões inesperadas que, apesar dos caminhos errados trilhados pelos protagonistas e vários obstáculos surgidos, enfrentam entre eles o seu 603


próprio amor, sob uma inexorável corrida contra o tempo e tentativa de fuga ao agente Coulson. Irão a verdade e o amor sair vencedores? Só lendo …

Edição ilustrada de Os Lusíadas No âmbito da 3ª. Bienal de Ilustração de Guimarães (BIG) foi lançada no passado dia 23 de outubro uma edição ilustrada da obra” Os Lusíadas”, de Luís de Camões, iniciativa inserida numa parceria da Câmara Municipal de Guimarães e da Universidade do Minho, que contou com a colaboração da editora Kalandraka. A publicação de cerca de 1200 exemplares, cerca dos quais 200 se destinam às escolas, encontra-se disponível ao público nas livrarias por cerca de 35 euros e faculta uma visão feminina da epopeia camoniana, numa edição ilustrada levada a cabo por 10 mulheres artistas, cujo desiderato visa relevar o papel da mulher na cultura nacional em geral e na ilustração em particular. Dez mulheres, tantas quantas os cantos da obra-prima camoniana, constituem assim o número perfeito deste projeto educativo de ilustração, que outrossim visa chegar a novos públicos através de novas linguagens comunicativas, cujas 10 ilustrações originais estão também patentes ao público na Sociedade Martins Sarmento até ao desfecho da BIG, em 31 de dezembro. Aliás, no contexto da BIG decorre ainda uma outra exposição no Centro Internacional de Artes José de Guimarães, denominada “Cristina Reis, uma vida no palco”, que culminou com a entrega do Prémio de Carreira BIG 2021 à referida artista, ligada de forma indissociável à companhia de Teatro Cornucópia, em especial como cenógrafa, figurinista e designer gráfica. A iniciativa que contou também com a direção literária e fixação no texto em português atual por parte da Drª. Rita Marnoto e a participação da designer Joana Pires, é, portanto, inteiramente feminina. Com efeito, nomes como Carolina Celas, Joana Rêgo, Joana Estrela, Madalena Matoso, Armanda Baeza, Inês Machado, Mariana Rio, Catarina Gomes, Marta Madureira e Marta Monteiro, dão substrato e forma à equipa de trabalho que assume o desafio desta produção artística inovadora.

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Boletim de trabalhos históricos No passado 15 de outubro, no decurso do encerramento dos 90 anos do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, foi apresentado mais um Boletim de Trabalhos Históricos, concretamente o volume X da série II, do ano de 2021, que visa conhecer a História, com o objetivo de “melhor compreender o passado e perspetivar o futuro”. Destacam-se, de entre os trabalhos incluídos nesta edição, temas como “Os homens da fundação da Associação Comercial e Industrial de Guimarães” de Manuela Alcântara Santos e “O Recolhimento das Trinas ou das beatas de Nossa Senhora de Mercês”, da autoria de Fernando Conceição. Sobressaem, igualmente, os artigos “A Igreja de São Dâmaso de Guimarães: artistas e obras (1691-1784)” de António José Oliveira e ainda “Imagens de Guimarães nos Arquivos da RTP (1957-1966)”, assumido por Paulo Cunha.

Na Oliveira Cresci – No Castelo Fiz Recreio Este livro, de Luís Almeida, nasce da necessidade do autor tentar descrever memórias com afetos vividos e partilhados na zona intramuros do centro histórico de Guimarães e zonas adjacentes. As raízes do autor estão na sua família materna, com apelidos Silva e Pereira de Lima, que habitam ou habitaram o burgo. Um impulso tornou as quadras que compõem este livro em crescendo e surgiram familiares, pessoas e amigos com os quais partilhou momentos da sua vida, cidade que ama. Uma torrente de imagens que lhe pareciam cruciais emergiu tornando as quadras numa espécie de memórias em série, desde uma simples telha até às pedras do chão. Lugares, lojas, pormenores das casas, até nomes de pessoas que se tornaram imagem no seu imaginário coletivo. O Castelo como uma espécie de miradouro central. Avistam-se os pormenores essenciais dos decisores da história dos vimaranenses que partem de uma imagem de uma Oliveira, num claustro. Uma árvore como símbolo de ramificação, que parte de cada um como seres individuais e vai pelos ramos da sua família, dos seus amigos, das suas relações, dos lugares que os marcaram, das coisas que fizeram e das imagens que guardaram. As cidades também vivem disto. É um pouco da história de um cidadão 605


anónimo que faz parte da história total. Todos os cidadãos têm a sua história. As suas ramificações. Os seus ancestrais também tiveram as suas ramificações próprias. Umas quadras fogem às rimas emparelhadas. São poemas feitos música, ao amor, à Cantarinha dos Namorados… A par dos bordados de linho, a Cantarinha é uma das marcas do artesanato de Guimarães. Água fresca para beber e um lenço para limpar. A história das cidades também se faz com as pessoas que se tornam na maior parte das vezes anónimas para todo o sempre.

Igreja de S. Miguel do Castelo O livro Igreja de S. Miguel do Castelo, da autoria de Isabel Maria Fernandes, foi apresentado no passado dia 1 de outubro, na sala da Duquesa do Paço dos Duques de Bragança. Com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, trata-se de um estudo sobre a Igreja de S. Miguel do Castelo que se situa no Monte Latito, na proximidade do Paço dos Duques de Bragança e do Castelo de Guimarães. Com uma qualidade gráfica excelente e um rigor documental intocável, aliás como nos habituou a sua autora, aborda a sua história, o seu edifício, a Confraria e hospital de santa Margarida ou do Anjo, a Procissão do Anjo Custódio, o Acervo da Igreja. O desenho da Capa é de Vasco Carneiro.

A força da Palavra O livro A força da Palavra, de Monsenhor José Maria Lima de Carvalho, foi apresentado no passado dia 15 de outubro, na sala da Duquesa do Paço dos Duques de Bragança. O livro recolhe textos do autor desde o ano 1991 até março de 2020, como diretor do jornal O Conquistador. Trata-se de textos muito diversos sobre a cidade de Guimarães, sobre entidades e personalidades várias, sobre a Igreja…

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Foi editado pela Associação dos Amiguinhos do Museu de Alberto Sampaio, com o apoio financeiro da Câmara Municipal de Guimarães, com coordenação da Doutora Isabel Maria Fernandes e foi prefaciado pelo Cardeal José Tolentino Mendonça.

Nos 130 anos do Liceu de Guimarães Ana Maria Silva, diretora da ESMS

A Escola Secundária Martins Sarmento celebra em 2021 o seu 130º aniversário. Para marcar a efeméride lançou o livro intitulado “Nos 130 anos do Liceu de Guimarães” onde se procura dar ênfase à história da escola através de testemunhos e reflexões, prestando, assim, homenagem ao contributo que esta instituição teve, e continua a ter, na sociedade vimaranense. Quase podemos afirmar que a história do Liceu se confunde com a história da cidade de Guimarães. “A escola Secundária Martins Sarmento acompanhou as mudanças políticas, sofreu com as crises sociais, experienciou crises sanitárias, mas sempre soube encontrar respostas para, no momento certo, continuar a trabalhar com os seus alunos, e, em conjunto, ultrapassar obstáculos" (in, Nos 130 anos do Liceu de Guimarães, pag.8). Ao adequar-se aos tempos, a Martins Sarmento colocou sempre nas suas prioridades a dimensão humana. “Todos trabalhamos, diz a sua atual Diretora, para que, para além do conhecimento, os alunos que a frequentam sejam capazes de assumir compromissos e sejam detentores de capacidades para tomar as melhores decisões ao assumirem cargos, contribuindo desta forma, para o elevar da nossa cidade, da região e do país”. O livro agora publicado é disso testemunho.

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