Histórias e legados para a refundação da diversidade
Fortaleza - Ceará, 15 de Junho de 2026
Revista Bárbaras - 3ª Edição
Todas as sextas-feiras, minha avó passava em casa rumo à feira. Morávamos na Rua José Carvalho, nº 234, a um quarteirão do Largo do Mercado Municipal do Crato. Talvez por isso faça parte da minha memória afetiva a saudação anônima dos populares: “Viva Dona Bárbara!”.
Aquela evocação espontânea era um grito secular à revolucionária que, nos primeiros anos do século XIX, liderou hostes caririenses em defesa da República e da independência do Brasil. Desde sempre, convivi com essa imagem feminina. Uma imagem com nome próprio, substantivo, que se entrelaçava ao adjetivo da luta: bárbara.
Passaram-se décadas. Trabalhando aqui no Grupo O POVO e desenhando um projeto que abordasse a luta feminina, tive uma epifania: elaborar uma iniciativa que tivesse a Heroína do Crato como símbolo das heroínas do nosso dia a dia. Heroínas que enfrentam preconceitos e obstáculos; que lutam por direitos e melhores condições de trabalho; que pleiteiam espaços e, principalmente, respeito. Mulheres bárbaras. Mulheres Mônicas, Doras, Lucianas, Valérias, Zelmas, Marias, Dodoras e Dianas.
Aqui, celebramos a terceira edição do Bárbaras, por meio de reportagens especiais, entrevistas e artigos escritos por 64 articulistas, tudo ilustrado pelos traços da artista visual Alice Dote.
Celebramos convictos de que somos mais uma ferramenta de provocação social. Uma provocação que clama por mudanças sociais, culturais e políticas. Uma provocação em forma de celebração da força das bárbaras ancestrais e das bárbaras contemporâneas.
Viva Dona Bárbara!
Vivam as mulheres bárbaras!
Boa leitura.
viva bárbara!
Cliff Villar, Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO
expediente opovo
Presidente Institucional e Publisher
Luciana Dummar
Presidente-executivo
João Dummar Neto
Vice-presidente de Tecnologia e Negócios Digitais
André Filipe Dummar
Diretor de Negócios
Alexandre Medina
Diretora de Gente e Gestão
Cecília Eurides
Diretor Institucional
Cliff Villar
Diretores de Jornalismo
Ana Naddaf
Erick Guimarães
Diretor de Jornalismo das Rádios
Jocélio Leal
Diretor de Opinião
Gualter George
Editorialista-chefe
Plínio Bortolotti
expediente bárbaras
Concepção e Coordenação Geral
Cliff Villar
Coordenação e Relacionamentos
Gabriel Jereissati
Gerência de Projetos
Jimmy Lucas
Produção Editorial
Sergio Falcão
Estratégia e Relacionamento
Adryana Joca
Dayvison Álvares
Lela Pinheiro
Assessora de comunicação
Daniela Nogueira
Analista de Projetos
Adriana Bernardi
Analista de Operação
Janaína Gadelha
Coordenador de criação
Jansen Lucas
Designer
Reni Pinheiro
Estagiária de Design
Raquel Cassiano
Redação Publicitária
Sofia Constance
Analista de Marketing
Daniele Andrade
Gerente de tráfego digital
Natércia Melo
Analista de perfomance
Mariana Marques
Motion designer
Roberto Santos
Estagiária
Luana Araujo
Identidade Visual
Jansen Lucas
REVISTA BÁRBARAS
Editor
Daniel Oiticica
Repórter
Caroliny Braga
Fotógrafos
Lia de Paula, Aurélio Alves e Fernanda Barros
Projeto Gráfico
Renata Paiva, Reni Pinheiro e Jansen Lucas
Diagramação
Rení Pinheiro e Jansen Lucas
Analista de Marketing
Daniele Andrade
segunda vez um segundo turno 2022-2023
sobre tela 19 x 36,5 cm
óleo
ALICE DOTE
O corpo que devolve o olhar
p. 104
DA PENHA
Todas as mulheres em uma
p. 136
ANA CANOSA
Autoras de suas próprias vidas
p. 162
CLAUDIA ROQUETTE-PINTO
Sobre poemas e granadas
p. 185
MARIA
Bárbaras, Vênus, Medusas e Alices 2026
óleo sobre tela 70 x 60 cm
Onde elas quiserem meter a colher
O projeto Bárbaras nasceu inspirado na coragem de Bárbara de Alencar, uma mulher que, em seu tempo, ousou desafiar convenções e enfrentar estruturas de poder quando isso parecia impossível. Seu legado continua vivo em cada mulher que se recusa a aceitar limites impostos por outros e escolhe ocupar o lugar da ação.
Durante muito tempo, disseram às mulheres onde elas poderiam estar. Mais do que isso: disseram onde deveriam permanecer. Delimitaram territórios, estabeleceram fronteiras invisíveis e criaram regras sobre o que era ou não assunto para elas.
Mas a história avança justamente quando alguém decide atravessar essas fronteiras.
A expressão popular costuma dizer para não meter a colher. Talvez porque meter a colher seja, no fundo, um gesto transformador. Quem mete a colher interfere. Opina. Participa. Questiona. Propõe. Muda o rumo da conversa. E, muitas vezes, muda o rumo da própria história.
Esta edição da Revista Bárbaras celebra mulheres que fizeram exatamente isso.
Mulheres que meteram a colher na política, na educação, na ciência, na cultura, na justiça, no empreendedorismo e nas causas sociais. Mulheres que recusaram o papel de espectadoras para assumir o protagonismo de suas trajetórias. Mulheres que compreenderam que o mundo não é uma obra pronta, mas uma construção permanente — e que elas têm todo o direito de participar dessa construção.
As homenageadas desta edição possuem histórias diferentes, origens distintas e percursos singulares. O que as aproxima é a disposição de não assistir à vida da arquibancada. Elas decidiram entrar em campo. Decidiram participar. Decidiram influenciar.
E talvez seja essa a grande lição destas páginas.
As transformações mais importantes raramente acontecem quando todos permanecem em silêncio. Elas acontecem quando alguém levanta a mão, apresenta uma ideia, faz uma pergunta incômoda, propõe uma solução ou desafia uma certeza antiga.
Em outras palavras: quando alguém resolve meter a colher.
Que estas histórias inspirem outras mulheres a fazerem o mesmo. Na carreira, na comunidade, na família, na arte, nos negócios, na política ou onde mais desejarem.
Porque o futuro se constrói justamente assim: quando elas decidem meter a colher.
Onde elas quiserem meter a colher.
Chegou a primeira linha criada pela Vegetal do Brasil em parceria com o Vida&Arte. Um kit que une cultura e natureza, inspirado na arte de cuidar. Porque seu corpo é uma obra-prima que merece um toque especial todos os dias.
FORMANDO CAMINHOS, TRANSFORMANDO VIDAS
Com mais de quatro décadas de atuação, a Fundação Demócrito Rocha é agente de transformação social, promovendo educação, cultura e desenvolvimento com propósito.
Por meio de cursos acessíveis, iniciativas de capacitação profissional e projetos que valorizam a arte e a diversidade cultural, ampliamos oportunidades e fortalecemos trajetórias.
Nossas ações integram conhecimento, inclusão e impacto social, contribuindo para o desenvolvimento sustentável de indivíduos, comunidades e territórios. Seguimos impulsionados pelas histórias que ajudamos a construir: de superação, descobertas e novos caminhos.
Educação. É o que fica. fdr.org.br
Herdeiras e construtoras de mudanças, as homenageadas do Troféu Bárbaras integram uma corrente de mulheres que, ao longo dos anos, vêm ampliando espaços de participação, reconhecimento e liberdade.
contínua Travessia
Toda geração herda caminhos já abertos. Mas algumas mulheres vivem uma experiência diferente: precisam abrir a própria estrada enquanto caminham.
Ao longo destas páginas, aparecem trajetórias marcadas por essa condição rara. Mulheres que chegaram a lugares onde antes não havia referências femininas, que ocuparam espaços historicamente reservados aos homens, que transformaram a ausência em presença e que, ao fazê-lo, ampliaram as possibilidades de futuro para muitas outras pessoas.
Desde sua criação, o Troféu Bárbaras reconhece exatamente esse tipo de percurso. Não apenas histórias de sucesso, mas histórias de transformação. Mulheres que alteraram realidades, desafiaram estruturas e deixaram marcas que ultrapassam suas biografias.
Foi assim com Maria da Penha, cuja história se tornou símbolo internacional da luta contra a violência de gênero; com Cacique Pequena, liderança fundamental na afirmação dos povos indígenas; com Maria Luiza Fontenele, pioneira na política brasileira; com Adisia Sá, cuja vida se confunde com a história do jornalismo cearense; com Socorro França, Izolda Cela, Tarcila Sousa e Daciane Barreto, mulheres que deixaram contribuições decisivas para a justiça, a educação, a gestão pública e a transformação social.
As homenageadas desta edição 2026 chegam de universos igualmente diversos. Diana Azevedo transformou a ciência e a universidade em instrumentos de inclusão e produção de conhecimento. Dodora
Guimarães dedicou décadas à preservação da arte e da memória cultural. Dora Andrade fez da dança uma ferramenta de cidadania capaz de alterar destinos. Zelma Madeira construiu sua trajetória na luta coletiva contra o racismo e pela igualdade racial. Valéria Mendonça transformou autenticidade e militância em força mobilizadora pela saúde e pelos direitos humanos. Mônica Barroso fez do Direito e da palavra instrumentos permanentes de liberdade e emancipação feminina.
Embora percorram caminhos distintos, todas compartilham algo essencial: a compreensão de que nenhuma conquista individual se sustenta sozinha. Em suas entrevistas, surgem temas recorrentes que atravessam gerações de mulheres brasileiras — a educação como ferramenta de transformação, a recusa em aceitar limites impostos pelo machismo, a força das redes de apoio, a importância da coletividade e o compromisso de abrir portas para quem vem depois.
As conversas reunidas nas próximas páginas revelam mais do que histórias pessoais. Revelam diferentes formas de construir futuro. E talvez seja justamente isso que una todas as mulheres homenageadas pelo Troféu Bárbaras ao longo dos anos: a capacidade de transformar a própria trajetória em caminho para outras pessoas.
existir A coragem de
foto : lia de paula
foto: arquivo pessoal | ação do movimento outubro rosa
Entre a política do afeto, a luta coletiva e a recusa em se esconder, Valéria Mendonça construiu uma trajetória em que a autenticidade virou ferramenta de transformação social.
“Eu nunca consegui ser quem eu não era”. A frase surge no meio da conversa quase como um detalhe, mas talvez seja a chave para compreender toda a trajetória de Valéria Mendonça. Aos 64 anos, a coordenadora do Movimento Outubro Rosa Ceará fala sobre saúde pública, feminismo, militância LGBTQIAP+, gestão hospitalar, espiritualidade, desigualdade social e direitos humanos como quem costura diferentes fios de uma mesma existência. Nada aparece separado. Na vida dela, política nunca foi apenas disputa institucional. Política é também o direito de ocupar espaços sem pedir desculpas pela própria identidade.
Servidora pública, especialista em administração hospitalar, ativista social, militante histórica de causas ligadas à equidade e à inclusão, Valéria se tornou uma das vozes mais respeitadas da luta pela democratização do acesso à saúde no Ceará. À frente do Outubro Rosa Ceará, ajudou a transformar um movimento de conscientização sobre o câncer de mama em uma ampla rede de mobilização social permanente, que ultrapassa o calendário simbólico de outubro e atua diretamente em advocacy, políticas públicas e participação popular.
Mas sua história começa muito antes das campanhas, das caminhadas e dos microfones. Começa numa menina que aprendeu cedo a não se dobrar. Uma menina criada por mulheres fortes, atravessada por referências femininas que talvez ainda nem usassem a palavra “feminismo”, mas que já praticavam resistência diariamente.
Ao longo desta conversa com a revista Bárbaras, Valéria fala sobre preconceito, sobre a escolha radical da autenticidade, sobre o preço de não se esconder e sobre a importância de continuar dizendo, em voz alta, quem se é — especialmente para que outras pessoas não desistam de existir.
Revista Bárbaras: Você lembra quando percebeu que a sua vida jamais caberia dentro das expectativas que tentavam impor para você?
Valéria Mendonça: Desde muito cedo. Na escola, na sala de aula, eu já tinha essa característica de liderança, de questionar, de me posicionar. Eu sempre gostei de falar, de participar, de dizer o que pensava. E isso, obviamente, incomoda muita gente. Mas eu percebi cedo que eu precisava me posicionar não só para me libertar do preconceito, mas também para ajudar a sociedade a ser menos preconceituosa. Quando fui crescendo, principalmente ali pelos 16 anos, comecei a assumir de forma mais clara minha orientação sexual como mulher lésbica. E isso foi muito importante porque eu tive uma família que acolheu essa verdade. Nunca precisei fazer uma declaração formal dentro de casa, mas também nunca precisei esconder quem eu era. Isso me deu muita força. Eu transformei isso numa bandeira de vida. Sempre me coloquei nos espaços sociais, profissionais e políticos exatamente como eu sou. Porque eu acredito que quando você se esconde, você ajuda a manter a lógica do preconceito viva.
RB: Você sofreu preconceito ao longo dessa trajetória?
VM: Claro que sim. A sociedade continua preconceituosa, continua homofóbica. Talvez hoje existam leis, mais debate, mais visibilidade, mas o preconceito ainda está muito presente. Agora, eu acho que tive uma espécie de antídoto: a autenticidade. Eu sempre fui muito firme. As pessoas percebiam rapidamente que não adiantava tentar me moldar. Eu nunca consegui fazer personagem para caber em lugar nenhum. Quando ocupei cargos de gestão hospitalar, por exemplo, muita gente esperava uma postura mais caricata, mais encaixada em determinados padrões. Mas eu nunca precisei vestir uma fantasia para exercer autoridade. Eu chegava do meu jeito, elegantemente, adequadamente, mas sendo eu mesma. E acho que isso acabou criando uma blindagem. Porque quando você sustenta sua verdade com firmeza, as pessoas entendem que não vão conseguir te desmontar facilmente.
Eu precisava dizer quem eu era para que outras meninas não morressem caladas
foto: lia de paula
RB: Por que ainda hoje você faz questão de afirmar publicamente sua orientação sexual?
M: Porque isso ainda salva vidas. Às vezes as pessoas perguntam: “Mas ainda precisa falar isso?” Precisa. Porque eu não quero mais ver uma menina sair da sala de aula hoje e amanhã cometer suicídio porque não conseguiu suportar a pressão de esconder quem é. Eu sou administradora hospitalar, ativista, especialista em terceiro setor, especialista em marketing político, coordenadora do Outubro Rosa, criadora de movimentos sociais… e também sou uma mulher lésbica. E isso não diminui absolutamente nada na minha competência. Então eu continuo dizendo porque isso é político. Como é que eu vou defender diversidade, equidade e inclusão se eu mesma me escondo? Como vou lutar pelo direito das pessoas existirem plenamente se eu não existir plenamente também?
RB: Quando a sua luta passou a ser também política?
VM: Desde cedo. Eu venho de uma família de classe média baixa, mas muito voltada para cultura, leitura e formação crítica. Minha mãe lia muito. Era uma mulher fortíssima. Aos 62 anos resolveu aprender piano porque era um sonho antigo dela. Ao mesmo tempo, eu cresci vendo desigualdades muito fortes. E comecei a perceber que eu não queria aceitar aquilo como algo natural. Passei a lutar pelo direito das pessoas ao acesso à saúde, educação, moradia, cultura. Eu estudava, lia muito e fui entendendo que essas lutas coletivas me moviam profundamente. Via uma manifestação de trabalhadores e sentia vontade de estar junto, mesmo que aquilo não me atingisse diretamente. Porque eu achava injusto alguém não ter direitos básicos. Foi assim que fui me aproximando da esquerda, do pensamento socialista, da ideia de justiça social.
RB: O feminismo teve papel importante na mulher que você se tornou?
VM: Totalmente. Mesmo antes de eu entender teoricamente o feminismo, eu já vivia cercada de mulheres fortes. Vi minha mãe enfrentando o mundo. Vi minha irmã abrir mão de um emprego federal porque o marido não queria que ela trabalhasse. Vi mulheres brilhantes se rendendo ao machismo por falta de alternativa emocional ou social. Tudo isso me atravessou profundamente. Minha avó italiana chegou ao Brasil em 1922 e já tinha uma postura muito forte sobre igualdade. Falava sobre divisão justa do trabalho, sobre dignidade para as mulheres. Então eu fui formada por essas referências. O feminismo, para mim, nunca foi moda. Foi sobrevivência. Foi consciência. Foi entender que mulheres não nasceram para obedecer silenciosamente.
RB: O que o Movimento Outubro Rosa fez em você como mulher?
VM: Foi um divisor de águas absoluto. Em 2009, eu trabalhava no CRIO e via diariamente o drama das mulheres em tratamento contra o câncer de mama. Ao mesmo tempo, eu observava que o movimento Outubro Rosa crescia em várias partes do Brasil, mas ainda não tinha chegado ao Ceará. Aquilo começou a me inquietar profundamente. Eu pensava: “Por que o Ceará ainda não participa disso?” Então comecei a buscar contato com instituições nacionais, participei de formações, fui para eventos, conheci iniciativas em outros estados e voltei decidida a construir o movimento aqui. E foi uma ousadia enorme. A primeira edição reuniu cerca de mil pessoas na Beira-Mar. Parecia impossível naquele momento. Mas eu sempre fui movida por uma ideia do Paulo Freire que levo para a vida: o inédito viável. Fazer aquilo que ainda não existe, mas pode existir.
RB: O Outubro Rosa Ceará acabou se tornando muito maior do que uma campanha de conscientização…
VM: Sem dúvida. O movimento cresceu porque ele nunca se resumiu ao “close” de outubro. Nós criamos uma atuação permanente. Desenvolvemos dezenas de tecnologias sociais, ampliamos o diálogo com municípios, fortalecemos redes de apoio e começamos a fazer advocacy de verdade. A gente brigou pela efetivação da lei da mamografia a partir dos 40 anos. Lutou pelo acesso igualitário a medicamentos. Denunciou desigualdades entre quem dependia do SUS e quem tinha plano de saúde. Hoje, o Outubro Rosa Ceará atua diretamente no controle social e na participação popular. Porque saúde não pode ser privilégio. Saúde é direito humano, social e constitucional. E eu continuo dizendo isso mesmo quando estou dentro da gestão pública. Inclusive, principalmente, quando estou dentro dela.
RB: Você sempre buscou unir ativismo e formação técnica. Isso foi intencional?
VM: Totalmente. Eu sempre entendi que, para sustentar determinadas lutas, eu precisava ser muito boa tecnicamente naquilo que fazia. Por isso fui estudar administração hospitalar. Depois marketing político. Depois terceiro setor. Eu nunca quis fazer militância vazia. Queria entender gestão, financiamento, estratégia, comunicação, políticas públicas. Porque quando você domina conhecimento, você amplia sua capacidade de transformação. E acho que isso também ajudou a quebrar muitos preconceitos. Porque as pessoas tentam reduzir mulheres, pessoas LGBT, ativistas… mas quando você apresenta resultado, competência e preparo, você desorganiza essas narrativas.
RB: Ao receber o Troféu Bárbaras, qual mensagem você gostaria de deixar para mulheres que ainda estão tentando encontrar a própria voz?
VM: Que a luta vale a pena. Eu digo isso todos os dias para mim mesma. Porque não é fácil. A gente cansa. A gente se frustra. A gente sente medo. Às vezes parece que o mundo anda para trás. Mas eu quero dizer para as mulheres — e para todas as pessoas — que nós avançamos. E reconhecer esse avanço é importante para que a gente continue acesa. A luta vale a pena porque ela transforma vidas. Porque ela impede silenciamentos. Porque ela cria caminhos para quem vem depois. E também porque ninguém deveria passar pela vida escondendo quem é. Eu acredito profundamente nisso: a autenticidade é revolucionária. E quando uma mulher encontra a própria voz, ela não transforma só a si mesma. Ela transforma o mundo ao redor dela.
A luta vale a pena
Diana Azevedo delas A ciência
foto: lia de paula
Entre a pesquisa
científica e os corredores de poder
da universidade,
Diana Cristina da Silva
Azevedo fala sobre as marcas invisíveis da excelência feminina e o desafio de abrir caminhos para outras mulheres.
Há mulheres que transformam instituições pela força do conhecimento. Outras, pela coragem de ocupar lugares historicamente negados a elas. Diana Cristina da Silva Azevedo reúne as duas dimensões. Engenheira química, pesquisadora de excelência internacional, professora titular da Universidade Federal do Ceará (UFC) e atual vice-reitora da UFC, ela construiu uma trajetória acadêmica rara em um ambiente ainda marcado por desigualdades de gênero, hierarquias rígidas e silenciamentos históricos.
Ao longo de mais de três décadas, Diana participou da transformação da Engenharia Química da UFC em um programa de padrão internacional, ajudou a consolidar a pesquisa científica no Ceará e passou a ocupar espaços de liderança que, durante décadas, haviam sido reservados quase exclusivamente aos homens. Primeira mulher a assumir a vice-diretoria do Centro de Tecnologia da UFC, ela fala sem rodeios sobre os mecanismos sutis — e muitas vezes naturalizados — do machismo dentro da universidade e das carreiras STEM.
Mas sua fala não nasce do ressentimento. Nasce da observação crítica, da experiência e da convicção de que diversidade não é apenas uma pauta social: é uma condição para produzir ciência melhor, universidades mais humanas e soluções mais inteligentes para a sociedade.
Nesta entrevista à revista Bárbaras, uma das homenageadas do Troféu Bárbaras fala sobre liderança feminina, interiorização da universidade, maternidade, ciência, desigualdade de gênero e o peso emocional que muitas mulheres carregam ao acreditar que precisam ser impecáveis para serem respeitadas. E talvez esteja justamente aí uma das frases mais poderosas desta conversa: “As mulheres não precisam ser tão excelentes para merecer ocupar espaços.”
Revista Bárbaras: Como foi assumir a vice-reitoria de uma das maiores universidades do país depois de uma trajetória tão ligada à pesquisa e à sala de aula?
Diana Azevedo: Tem sido uma experiência extremamente desafiadora e transformadora. Durante mais de 30 anos da minha carreira, eu estive muito ligada às pautas clássicas da vida docente: ensino, pesquisa, formação de grupos de pesquisa, pós-graduação, diálogo acadêmico nacional e internacional. Era uma atuação muito focada nesse universo. Quando começo a assumir funções de gestão mais amplas, especialmente a partir de 2015, como vice-diretora do Centro de Tecnologia, há uma mudança de chave muito forte. Ali eu me tornei a primeira mulher a ocupar aquele cargo e comecei a perceber comportamentos e estruturas que antes pareciam naturalizados. A pergunta que eu me fazia era: por que demoramos mais de 60 anos para ter uma mulher naquela posição? Claro que existe o fato histórico de sermos minoria nas engenharias, mas existe também uma cultura muito consolidada de liderança masculina. E quando você cresce vendo homens ocupando esses lugares, muitas mulheres passam a acreditar, mesmo sem perceber, que talvez aquele espaço não lhes pertença.
RB: O que mais mudou na sua visão de universidade depois que você passou a ocupar a administração superior?
DA: Acho que nós conseguimos aproximar a universidade das pessoas. A universidade pública não pode ser um castelo inacessível. Eu me lembro de receber servidores aposentados dizendo: “Professora, trabalhei 35 anos na UFC e nunca tinha entrado no prédio da reitoria.” Isso me impactou profundamente. Quando você entra naquele prédio histórico, sobe a escadaria, vê retratos de inúmeros reitores homens em poses extremamente solenes, existe uma simbologia de poder muito forte. Aquilo cria distanciamento. E eu acho que nossa gestão tentou romper um pouco isso. A universidade precisa ser um espaço vivo, aberto, acolhedor, próximo da população. Porque ela pertence à sociedade.
A ciência precisa da diversidade para produzir melhores soluções
foto: lia de paula
RB: A interiorização da UFC trouxe novos desafios para a presença feminina nas áreas STEM?
DA: Sem dúvida. E eu gosto muito de falar sobre isso porque existe um imaginário equivocado sobre o interior do Nordeste, como se fosse um espaço incapaz de produzir transformação social. O que vimos foi justamente o contrário. Nos campi do interior, surgiram, espontaneamente, coletivos femininos extremamente organizados dentro das engenharias e da computação. Em Russas, por exemplo, praticamente cada curso de engenharia possui um coletivo criado pelas próprias alunas. Temos grupos como Mulheres de Aço, Filhas de Edviges, Meninas Digitais do Vale. Essas meninas vão às escolas, fazem ações de divulgação científica, criam redes de apoio e ajudam outras adolescentes a enxergarem que aquele espaço também pode ser delas. Isso é muito poderoso porque rompe duas barreiras ao mesmo tempo: a de gênero e a territorial. O interior passa a produzir referências femininas altamente qualificadas.
RB: Em que momento você percebeu que precisaria provar mais do que os homens ao seu redor?
DA: Acho que desde muito cedo. Desde o colégio. Essa sensação acompanha muitas mulheres que chegam a certos espaços. Existe uma cobrança permanente por excelência. Você sente que precisa ser sempre extremamente preparada, extremamente competente, extremamente correta, para ser vista como legítima. Eu era aquela menina considerada “a boa aluna”, muito tímida, muito estudiosa. E, de certa forma, estudar virou um mecanismo de validação. Como se eu precisasse compensar outras inseguranças sendo impecável academicamente. Depois, na engenharia, isso ficou ainda mais evidente. Apesar de a Engenharia Química ser uma área relativamente mais equilibrada em gênero do que outras engenharias, ainda existe uma cultura muito masculina no ambiente acadêmico e científico. E você aprende rapidamente que será constantemente testada.
foto: arquivo pessoal
RB: Houve algum episódio marcante de preconceito que tenha ficado na sua memória?
DA: Houve um episódio no meu mestrado que ficou muito marcado em mim porque misturava machismo e preconceito regional. Depois de uma prova muito difícil, um professor chamou os alunos individualmente para comentar os resultados. Quando chegou minha vez, ele elogiou minha prova e perguntou de onde eu era. Eu disse que era do Ceará. E ele respondeu: “Você realmente não é uma amostra representativa do Nordeste.” Na época, eu fiquei em silêncio. Hoje entendo o peso estrutural daquela fala. Não era necessariamente maldade deliberada. Era um preconceito tão naturalizado que ele provavelmente nem percebia o que estava dizendo. Mas aquilo revela muito sobre como o Nordeste historicamente foi visto em determinados ambientes acadêmicos do país.
RB: Por que ainda é tão importante incentivar meninas a seguirem carreiras científicas?
DA: Porque profissão não tem gênero. E porque a ausência de mulheres em determinadas áreas empobrece a própria ciência. Quando você produz soluções apenas a partir de um único olhar, você deixa de enxergar necessidades importantes da sociedade. Existe um exemplo clássico: durante muito tempo, equipamentos de segurança foram projetados tomando o corpo masculino como padrão. Isso significa que mulheres tinham equipamentos menos adequados, menos seguros.
Quando você inclui mulheres, mulheres negras, indígenas, pessoas com diferentes experiências de vida, você amplia a capacidade da ciência de compreender o mundo real. Diversidade não é apenas representatividade. É inteligência coletiva.
RB: Como foi conciliar maternidade, carreira científica e gestão universitária?
DA: Não romantizo isso. Foi extremamente difícil. E só foi possível porque eu tive uma rede de apoio muito sólida. Tenho três filhas e vivi todas aquelas tensões que muitas mulheres vivem: culpa, ausência, cansaço, sensação de insuficiência. Existe uma tendência de olhar para mulheres que chegaram a determinados lugares como se fossem heroínas individuais. Mas ninguém faz isso sozinho. E eu tive privilégios importantes: uma família que valorizava educação, apoio do meu marido, pessoas ao redor que me ajudaram a sustentar essa trajetória. Por isso eu sempre digo que políticas públicas de apoio às mulheres são fundamentais. Não basta dizer “as mulheres podem”. Elas precisam de condições concretas para conseguir permanecer nesses espaços.
RB: Que legado você gostaria de deixar para as próximas gerações de mulheres cearenses?
DA: Eu gostaria que as mulheres entendessem que não precisam ser perfeitas para ocupar espaços de liderança. Acho que muitas de nós crescemos acreditando que só poderíamos assumir certos lugares se fôssemos extraordinárias o tempo inteiro. As mulheres frequentemente recebem um convite e imediatamente pensam: “Será que eu sou capaz? Será que estou pronta? Será que não sou uma fraude?” Os homens, muitas vezes, não carregam esse peso da mesma maneira. Então, o que eu diria para as mulheres é: não esperem sentir ausência total de medo para aceitar desafios. Não esperem dominar tudo para ocupar espaços. Não se sabotem. A competência também se constrói no caminho. E talvez esse seja um dos maiores aprendizados da minha trajetória: a gente não precisa ser impecável para merecer estar onde está.
Não precisamos ser perfeitas para ocupar espaços de poder
O que insiste em
Dodora Guimarães permanecer
foto: lia de paula
Curadora, galerista e gestora cultural, Dodora Guimarães fala sobre machismo, memória, arte contemporânea e o papel das mulheres na preservação da cultura brasileira
Durante décadas, o nome de Dodora Guimarães esteve associado à construção silenciosa — mas decisiva — da arte contemporânea no Ceará. Pioneira na criação de espaços voltados à arte contemporânea no Estado, ela dirigiu a histórica Arte Galeria, esteve à frente do Centro de Artes Visuais Raimundo Cela, atuou como curadora do Sobrado Dr. José Lourenço e, desde 2013, conduz o trabalho do Instituto Sérvulo Esmeraldo, instituição responsável pela preservação e difusão da obra de Sérvulo Esmeraldo.
Mas sua trajetória vai muito além da gestão cultural. Nascida no Acre, criada em uma estrutura familiar profundamente machista e inserida desde cedo em ambientes predominantemente masculinos, Dodora construiu uma carreira marcada pela resistência, pela coragem e pela consciência histórica de quem entende que cultura também é construção de futuro.
Nesta entrevista à revista Bárbaras, ela revisita episódios dolorosos da infância e juventude, fala sobre violência simbólica, machismo, invisibilidade feminina na arte e a força das mulheres na preservação da memória cultural brasileira. Com lucidez e firmeza, Dodora também reflete sobre legado, permanência e o papel das mulheres que decidiram não aceitar os lugares historicamente impostos a elas.
Revista Bárbaras: Você construiu sua trajetória em ambientes historicamente dominados por homens. O machismo foi um obstáculo constante?
Dodora Guimarães: As barreiras existem. Sempre existiram. Mas depende muito de como você encara essas barreiras. Eu nunca quis permitir que elas me ferissem profundamente ou me definissem. Sempre procurei ultrapassá-las de um modo em que elas acabassem servindo como força para mim. Aquilo que poderia virar uma ferida acabou se transformando em superação. Foi uma maneira de perceber que eu era maior do que aquelas circunstâncias. Eu nunca trabalhei a partir de uma posição de fragilidade. Sempre procurei encontrar meios de ocupar os espaços e construir meu caminho.
RB: Essa percepção começou ainda muito cedo?
DG: Sim. Eu nasci no Acre e cresci dentro de uma estrutura extremamente machista. Minha mãe tinha uma preferência declarada pelos filhos homens. Ela dizia abertamente que gostaria que todos os filhos tivessem nascido homens. Isso marca uma menina profundamente. Porque você cresce tentando entender o que existe de errado em ser mulher quando a própria mãe verbaliza isso de maneira tão direta. Meu pai não fazia distinção, mas minha mãe carregava muitas dores pessoais relacionadas à condição feminina. Ela nasceu em condições extremamente difíceis, praticamente na selva amazônica, e certamente sofreu muito por ser mulher naquele contexto. Ela não conseguiu superar isso. Eu consegui transformar aquilo em força. No fim das contas, aquela dureza acabou me dando uma espécie de casca grossa. Me fortaleceu.
RB: E como foi a sua infância?
DG: Apesar desse contexto familiar, minha infância teve também um lado muito acolhedor. Estudei inicialmente em escola pública mista no Acre e nunca me senti diminuída por ser mulher. Depois fui para internatos femininos, tanto no Acre quanto em Fortaleza. Eu sempre gostei muito de estudar. Era extremamente aplicada. Então me sentia acolhida pelas professoras e pelas colegas. O primeiro grande choque aconteceu quando fui estudar em uma escola mista maior, no terceiro ano científico. Cheguei a ser ameaçada porque estudava muito.
RB: Foi aí que você sentiu o machismo de forma mais agressiva?
DG: Foi. E foi muito duro. Eu fui estudar no Colégio Lourenço Filho, aqui em Fortaleza, e aquilo me assustou profundamente. Era uma turma enorme, um ambiente completamente diferente do que eu conhecia. Como eu era muito estudiosa, comecei a sofrer hostilidade. O mais doloroso era perceber que algumas meninas reforçavam aquilo. Elas estimulavam os rapazes a me atacarem. Existia uma espécie de perseguição porque eu era uma boa aluna. Em determinado momento, alguns rapazes chegaram a me ameaçar fisicamente. Tudo isso porque eu era “sabida”, porque gostava de estudar. Isso me marcou muito.
RB: Como você reagiu?
DG: Eu precisei mudar para o turno da noite. E foi uma mudança importante porque as pessoas que estudavam à noite tinham outro perfil. Eram alunos que trabalhavam, que queriam realmente passar no vestibular. O ambiente mudou completamente. Hoje, olhando para trás, percebo que aquilo era uma forma muito cruel de violência simbólica. Existe uma tentativa de punir mulheres que ocupam espaços de inteligência, de destaque, de liderança. E isso infelizmente ainda existe.
Preservar memória também é construir futuro
foto: arquivo pessoal
RB: E no mercado profissional? Como foi entrar nesse universo?
DG: Curiosamente, tive experiências muito positivas. Comecei a trabalhar na agência Escala, que foi minha grande escola. Era uma agência extremamente criativa e muito importante naquele momento. Mas era um ambiente quase totalmente masculino. Na criação publicitária praticamente só existiam homens. As mulheres estavam geralmente nas funções administrativas. E eu estava ali como redatora, trabalhando diretamente com criação. Aquilo foi muito importante para mim porque me deu confiança.
RB: Você precisou provar constantemente sua capacidade?
DG: Sim. Mas eu nunca recuei. Eu fazia produção, participava de gravações, acompanhava equipes técnicas numa época em que tudo era extremamente pesado fisicamente. As câmeras eram enormes, os equipamentos eram difíceis de operar e existia uma cultura muito masculina naquele ambiente. Mas eu nunca me intimidei. Acho que sempre tive muita coragem. E também uma certa confiança natural de que eu podia ocupar aqueles espaços. Com o tempo, fui conquistando respeito dentro daquele universo.
RB: Houve mulheres importantes na sua formação?
DG: Muitas. Na universidade, por exemplo, tive professoras extraordinárias. Ivonete Maia foi uma referência muito forte para mim. Era uma mulher de pulso, inteligente, extremamente corajosa. Depois, quando entrei mais profundamente no universo das artes visuais, comecei a perceber a força feminina nesse campo. A gestão cultural e o mercado de arte sempre tiveram mulheres muito importantes. Raquel Arnaud, Luisa Strina, entre tantas outras, tiveram papéis fundamentais na consolidação da arte contemporânea no Brasil.
RB: Apesar disso, as mulheres artistas permaneceram invisibilizadas por muito tempo?
DG: Sem dúvida. As mulheres sempre estiveram presentes na arte, mas muitas vezes ficaram invisíveis. Principalmente aquelas que eram casadas com artistas homens. Em muitos casos, o homem aparecia como grande gênio e a mulher permanecia nos bastidores, mesmo produzindo também. Hoje existe um movimento muito importante de revisão histórica. E isso tem relação direta com o feminismo e com a própria arte contemporânea. O feminismo é um dos pilares da arte contemporânea.
RB: Quais nomes femininos no Ceará você considera fundamentais?
DG: Nice Firmeza foi uma figura extremamente importante. Ela conseguiu garantir seu espaço na história mesmo sendo casada com outro artista. Também penso muito em Eloísa Colares, uma mulher que teve papel fundamental no incentivo à arte no Ceará. São mulheres que ajudaram a construir uma história cultural muito sólida.
RB: O trabalho do Instituto Sérvulo Esmeraldo também é um trabalho de preservação de memória. Existe uma relação feminina com esse cuidado?
DG: Existe profundamente. As mulheres têm um papel central na preservação da memória cultural brasileira. E isso não acontece por acaso. Existe na mulher uma dimensão muito ligada ao cuidado, ao zelo, à continuidade. Talvez por essa experiência ancestral da maternidade, da proteção, da construção de vínculos. No meu caso, eu cuido do legado do Sérvulo Esmeraldo, mas isso vai muito além da relação afetiva. É um compromisso histórico. O Instituto Sérvulo Esmeraldo preserva obras, documentos, arquivos, recebe pesquisadores, realiza exposições, publicações e mantém esse acervo vivo. Porque preservar não é apenas guardar. É dinamizar a memória.
RB: Você sente falta de apoio institucional para esse trabalho?
DG: Muito.Nós fazemos um trabalho de enorme importância para a memória artística do Ceará, mas com poucas condições. Deveria existir um apoio muito maior. Afinal, estamos preservando parte da história cultural brasileira. Mesmo assim, seguimos fazendo.
RB: Você acredita que seu trabalho pode servir de inspiração?
DG: Esse é meu maior desejo. Gostaria muito que outras famílias de artistas compreendessem a importância de preservar seus acervos e legados. No Brasil existem experiências belíssimas conduzidas por mulheres. O Projeto Leonilson, por exemplo, é liderado pela irmã do artista. Há inúmeros institutos importantes conduzidos por mulheres. Se fizermos um mapeamento, provavelmente veremos que grande parte desse trabalho de preservação cultural no Brasil está nas mãos femininas.
RB: O Troféu Bárbaras homenageia mulheres que deixam marcas profundas em suas áreas. Que legado você gostaria de deixar?
DG: O legado do compromisso. Sempre tive consciência de que estava construindo uma história. Nem todas as pessoas têm essa percepção. Muitas vivem apenas o presente imediato. Eu sempre trabalhei acreditando na história. Acreditando na permanência das coisas. Quando tive a Arte Galeria, fui pioneira na arte contemporânea no Ceará. Naquela época, lembro de ter dito em uma entrevista que trabalhava com perspectiva histórica. E fui muito criticada por isso. Achavam que era pretensão. Mas não era. Era consciência.
RB: O que significa trabalhar com perspectiva histórica?
DG: Significa entender que aquilo que fazemos hoje terá consequências amanhã. Quando você acredita que existe um amanhã, que existe continuidade, isso lhe dá coragem para enfrentar as dificuldades do presente. Você entende que está construindo algo que permanecerá. Essa consciência muda tudo.
RB: Como está hoje o Instituto Sérvulo Esmeraldo?
DG: O Instituto é minha grande paixão. Seguimos trabalhando intensamente com pesquisa, preservação e difusão do acervo. Temos realizado exposições, publicações e projetos voltados tanto à preservação da obra do Sérvulo quanto à reflexão sobre memória e arte contemporânea. Recebemos pesquisadores, estudantes, visitantes. Mantemos o acervo vivo.
RB: E o que ainda deseja realizar?
DG: Continuar fazendo esse trabalho crescer. Quero que o Instituto siga sendo um espaço de referência para a arte contemporânea brasileira e também um exemplo de preservação de memória. Porque preservar memória não é olhar apenas para trás. É construir futuro.
foto
Acreditando na permanência das coisas
A coreografia do Dora
foto: lia de paula
Durante mais de três décadas, Dora
Andrade transformou a dança em uma poderosa ferramenta de cidadania. À frente da Edisca, ela ajudou meninas e meninos das periferias a ocuparem palcos, universidades e espaços historicamente negados aos filhos dos mais pobres. Nesta conversa com a revista Bárbaras, a coreógrafa, educadora e empreendedora social fala sobre arte, desigualdade, resistência, envelhecimento, esperança e a convicção de que nenhuma transformação coletiva acontece sem afeto, disciplina e coragem.
Há pessoas que constroem carreiras. Há pessoas que constroem instituições. E há aquelas raras figuras que constroem futuros. Dora Andrade pertence a essa última categoria. Quando fundou a Edisca, em 1991, o Brasil atravessava um período de profundas desigualdades sociais, mas talvez nem ela imaginasse a dimensão do caminho que começava a trilhar. Mais de três décadas depois, a organização tornouse referência internacional ao provar algo que ainda hoje muitos insistem em duvidar: crianças pobres não precisam de piedade. Precisam de oportunidade. Ao longo desses anos, milhares de jovens passaram pelos corredores da Edisca. Muitos chegaram sem acesso adequado à alimentação, à saúde, à cultura ou mesmo à perspectiva de um futuro possível. Encontraram dança. Mas encontraram também algo maior: pertencimento, autoestima, educação e cidadania.
Dora fala pouco de si. Prefere falar das crianças. Dos talentos descobertos. Das universidades conquistadas. Dos sonhos que pareciam improváveis e que se tornaram realidade. Talvez porque sua própria história esteja profundamente misturada à história daqueles que ajudou a transformar.
Nesta entrevista à revista Bárbaras, ela reflete sobre o Brasil, sobre a condição feminina, sobre arte e desigualdade social, sobre culpa, envelhecimento e esperança. E revela por que continua acreditando, depois de mais de 30 anos de trabalho, que a única luta que realmente vale a pena é aquela travada em favor da dignidade humana.
Revista Bárbaras: A Edisca nasceu em um Brasil muito diferente do atual. O que permanece igual na realidade das crianças e meninas periféricas — e o que mais mudou nesses mais de 30 anos?
Dora Andrade: O que mais me preocupa hoje é que algumas questões se agravaram. Há trinta anos, minha grande preocupação era o desemprego. Hoje, minha preocupação é com os inempregáveis. São pessoas que não conseguem acessar o mundo produtivo porque não tiveram acesso à escolaridade adequada nem desenvolveram habilidades mínimas para competir por oportunidades. Também não convivíamos com fenômenos que hoje impactam profundamente as comunidades mais vulneráveis, como a presença das facções criminosas e a disseminação do crack. São problemas que tornam ainda mais difícil a vida daqueles que já enfrentam enormes desafios.
RB: Em que momento você entendeu que a dança poderia ser mais do que arte e se tornar uma ferramenta de transformação social?
DA: Sinceramente, não consigo identificar um momento específico. Acredito que a própria dança me mostrou isso ao longo da vida. Ela me ensinou sobre disciplina, autossuperação, exigência, sensibilidade e percepção do corpo. Essas experiências foram funcionando como uma bússola. Aos poucos fui compreendendo que aquilo que a dança fazia comigo poderia também transformar a vida de outras pessoas.
RB: Existe alguma criança ou adolescente que tenha mudado sua maneira de enxergar o mundo?
DA: Não foi uma pessoa apenas. Foram milhares. Conviver diariamente com crianças e adolescentes ao longo de todos esses anos transformou profundamente meu olhar. Vi de perto níveis impressionantes de resiliência. Vi talentos extraordinários florescerem quando surgiu uma oportunidade concreta. Vi sensibilidade, generosidade e força em pessoas que enfrentam condições extremamente difíceis. Mas também descobri o tamanho da minha ignorância sobre o que significa viver na pobreza. Hoje tenho certeza de que estou lutando a boa luta. Talvez a única luta que realmente mereça ser travada.
RB: O corpo feminino sempre foi alvo de controle e julgamento. O que a dança ensinou às meninas da Edisca sobre liberdade?
DA: A dança é uma ferramenta importante, mas ela não faz tudo sozinha. Existe uma palavra que às vezes parece desgastada, mas que continua sendo fundamental: autoestima. Quando uma menina passa a se perceber valiosa, capaz, possível, merecedora de direitos e capaz de acessar esses direitos, algo muda definitivamente. Ela deixa de ser apenas uma sobrevivente para se tornar uma cidadã plena. E isso transforma destinos.
Hoje, minha preocupação é com os inempregáveis
foto: lia de paula
RB: Você sempre recusou a ideia de que um projeto social devesse abrir mão da excelência. Por quê?
DA: Porque excelência não pode ser privilégio. Mas também porque não existe excelência artística sem condições mínimas de existência. Na Edisca, nossos educandos recebem diariamente alimentação de qualidade. Temos acompanhamento de saúde física e emocional, atendimento médico, odontológico, acompanhamento vacinal. Isso não é acessório. É fundamental. Quando uma criança sente fome, absolutamente nada pode vir antes da fome. Não seria ético exigir desempenho artístico ou escolar sem enfrentar as ausências básicas que fazem parte da vida de muitos desses jovens. Nossa excelência nasce justamente da compreensão dessas necessidades.
RB: O que significa ver meninas periféricas ocupando palcos que historicamente nunca foram pensados para elas?
DA: É a utopia acontecendo na vida real. Mas não falo apenas dos palcos. Temos ex-alunos concluindo mestrados, doutorados, aprovados em concursos públicos, ocupando espaços que durante muito tempo pareceram inacessíveis. Muitos foram os primeiros de suas famílias a entrar na universidade. Isso é uma revolução. Uma revolução silenciosa, mas profunda.
RB: A arte ainda é tratada como privilégio no Brasil?
DA: Sem dúvida. Houve avanços importantes nas últimas décadas, mas acessar uma formação artística de qualidade ou frequentar espaços culturais qualificados ainda é algo restrito para grande parte da população. A arte continua sendo muito menos democrática do que deveria.
RB: Em algum momento você precisou ser mais forte do que gostaria para sustentar a Edisca?
DA: Muitas vezes. Ser mulher já não é simples. Trabalhar com arte também não. Trabalhar com os mais pobres menos ainda. Quando você reúne essas três dimensões, os desafios se multiplicam.
RB: Qual foi o maior preconceito que enfrentou?
DA: Por incrível que pareça, foi por ser nordestina.
RB: O que acontece quando uma menina vê alguém parecida com ela ocupando lugares antes considerados impossíveis?
DA: Acontece algo extremamente poderoso. Lembro da emoção que senti quando as primeiras meninas da Edisca entraram na universidade. Eu falava sobre isso para todo mundo. Até que um jornalista me perguntou quantas eram. Respondi orgulhosamente: sete. Percebi uma certa decepção na reação dele. Mas ele não entendeu o que realmente importava. O número era secundário. O que importava era a quebra de paradigma. Quando uma criança conquista algo considerado improvável, ela não transforma apenas a própria vida. Ela transforma o imaginário de toda uma comunidade. Passa a existir uma prova concreta de que é possível. E isso tem um poder imenso.
RB: O que mais emociona você hoje: o espetáculo ou as transformações invisíveis?
DA: Os dois. Ainda sinto frio na barriga antes de cada apresentação. Mas também me emociono quando vejo uma criança que chegou sem reconhecer números tornar-se leitora apaixonada e recordista de empréstimos na biblioteca. Existem espetáculos que acontecem fora do palco. E talvez sejam os mais importantes.
RB: Em um país cada vez mais polarizado, a arte ainda consegue criar empatia?
DA: Se não for a arte, o que será?
foto: arquivo pessoal
RB: As mulheres educam emocionalmente o mundo?
DA: Acredito que sim. Mas o papel das mulheres continua sendo insuficientemente reconhecido e valorizado. Muitas vezes, inclusive, pelas próprias mulheres.
RB: O que você aprendeu sobre esperança convivendo com juventudes vulnerabilizadas?
DA: Aprendi que esperança sozinha não resolve muita coisa. Mas quando a esperança encontra oportunidade real, e quando essa oportunidade encontra a força, a garra e a resiliência dessas juventudes, o milagre acontece. E eu vi muitos milagres acontecerem.
RB: O que a dança lhe ensinou sobre envelhecer?
DA: Tenho 67 anos. Para alguém que trabalhou a vida inteira com o corpo, lidar com a diminuição da vitalidade física é um desafio. Mas existe uma boa notícia. Nós não somos apenas corpo. Este ano vamos montar um espetáculo inédito. E, intimamente, sinto que será o melhor espetáculo da minha vida. Nunca estive tão pronta. Nunca estive tão inspirada. Nunca tive tanto repertório. O tempo pode diminuir algumas capacidades. Mas também amplia a profundidade.
RB: Houve algum momento em que pensou em desistir?
DA: Não. Continuar sempre foi a única possibilidade.
RB: Você já sentiu culpa por dedicar tanto tempo ao coletivo?
DA: Muita culpa. Arrastei correntes de culpa durante muitos anos. Mas algumas certezas foram maiores do que ela. Depois de tudo o que vi, era impossível simplesmente não fazer nada. Nunca fui negligente com minha família. Dei o melhor que tinha. Mas também sabia que não poderia virar as costas para aquilo que testemunhava todos os dias.
RB: O que ainda falta para que a cultura seja compreendida como investimento estratégico?
DA: Educação. Somente uma sociedade mais educada será capaz de compreender plenamente o valor da cultura. Uma população mais consciente escolhe governantes melhores. Governantes melhores constroem políticas mais sensíveis e comprometidas com o desenvolvimento humano. Ainda temos um longo caminho pela frente.
RB: O que diria às mulheres anônimas que acordam cedo, pegam ônibus, cuidam da família e seguem lutando sem reconhecimento?
DA: Diria que eu as vejo. Que as respeito profundamente. Que sou grata pelos ensinamentos que recebi delas. E que permanecerei ao lado delas, de seus filhos e de suas filhas, até o último dia da minha vida.
O papel das mulheres continua sendo insuficientemente reconhecido e valorizado
licença Sem pedir
foto: lia de paula
foto: arquivo pessoal
Entre tribunais, botequins, ameaças e movimentos políticos, Mônica Barroso construiu uma trajetória marcada pela recusa em aceitar o silêncio imposto às mulheres. Nesta entrevista, a defensora pública revisita a ditadura, o machismo da esquerda e da direita, a luta pela Lei Maria da Penha, os bastidores do poder e as muitas batalhas travadas para transformar o Direito em instrumento de liberdade.
Há mulheres que entram na história pelas portas oficiais. Outras atravessam frestas. Mônica Barroso pertence a uma geração que precisou fazer das frestas um método de sobrevivência. Antes de se tornar referência nacional na luta pelos direitos das mulheres, antes da Defensoria Pública, da OAB, dos conselhos, das políticas públicas e das batalhas jurídicas que ajudaram a moldar a proteção feminina no Brasil, ela foi uma menina criada dentro de uma casa profundamente conservadora, em uma sociedade onde o silêncio feminino era considerado virtude.
Sua trajetória não nasce de uma teoria acadêmica sobre feminismo. Nasce da experiência concreta. Das mesas de bar onde aprendeu democracia. Das mulheres pobres espancadas que ninguém queria defender. Das ameaças. Dos enfrentamentos. Dos homens progressistas que continuavam machistas. Das amigas brilhantes que abandonavam a profissão para servir aos maridos. Das estruturas sociais que exigiam das mulheres obediência, delicadeza e submissão.
Ao longo de décadas, Mônica construiu uma figura rara: uma mulher capaz de circular entre o universo intelectual, jurídico e político sem abandonar a linguagem popular, a ironia, a boemia, a paixão pela arte e pela conversa. Uma mulher que aprendeu a dialogar com homens “de igual para igual”, sem jamais abrir mão da própria identidade. E talvez justamente por isso tenha se tornado tão incômoda.
Homenageada com o Troféu Bárbaras 2026, nesta entrevista, ela fala sobre infância, ditadura, movimento estudantil, machismo, amor, direito, política, feminismo, violência, liberdade e envelhecimento. Mais do que recordar a própria história, Mônica revisita a formação de um país que ainda luta para enxergar mulheres como sujeitos plenos de voz e poder.
Revista Bárbaras: Você lembra do momento em que percebeu que o Direito podia ser mais do que uma profissão?
Mônica Barroso: Muito cedo. Eu era uma menina muito valente. Pegava a briga dos meus irmãos, enfrentava quem fosse. Cresci numa família extremamente machista, preconceituosa, homofóbica, como era praticamente toda a sociedade cearense daquela época. E eu achava aquilo estranho. Nem sabia ainda elaborar teoricamente. Só sentia que tinha algo errado. Meu pai era muito autoritário com as filhas. Existia aquela coisa da “moça”. E “moça”, naquele tempo, significava ser virgem, obediente, vigiada. A vida feminina era toda controlada. Mas eu tive uma tia comunista, Esther Barroso, que influenciou muito a minha formação. Foi ela quem ajudou a me colocar em escolas menos conservadoras. Foi no colégio que eu comecei a descobrir o mundo. A gente lia literatura brasileira, discutia política, música, história. Depois veio o movimento estudantil. E aquilo foi um despertar político gigantesco.
RB: Como era viver a juventude durante a ditadura?
MB: Hoje os pais têm medo da droga, das facções, dos assaltos. Na minha época, o medo era da polícia. O Estado era uma ameaça. O Brasil sempre foi forjado no autoritarismo. A gente cresceu entendendo isso. Eu participei intensamente do movimento estudantil. Aprendi a fazer discurso, aprendi política, aprendi a falar em praça pública. A sensação era de que estávamos ajudando a construir um novo país. Isso era muito forte para a gente. Meu pai queimou livros meus dentro de casa por medo. Minha tia foi presa e torturada. Todo mundo vivia assustado. Mas havia também uma enorme esperança. A gente acreditava profundamente que podia mudar as coisas.
RB: Existia machismo dentro dos movimentos progressistas?
MB: Muito. Muito mesmo. As pessoas romantizam aquilo hoje, mas os homens da esquerda também eram extremamente machistas. A diferença é que eles tinham um discurso progressista. Mas quem mandava eram eles. As mulheres precisavam lutar muito para ocupar espaço. Quando a gente diz que a sociedade é machista, não estamos falando apenas dos homens conservadores. Mulheres também são machistas. Jovens também. Gente de esquerda também. O machismo atravessa a cultura inteira.
RB: Quando o Direito entrou definitivamente na sua vida?
MB: Eu não era aquela pessoa que nasceu sabendo o que queria ser. Eu só sabia que queria participar de alguma transformação. O Direito apareceu quando comecei a acompanhar júris e julgamentos com um um tio meu, Padua Barroso, que advogava para presos políticos. Eu via a força da palavra. E aquilo me impressionava profundamente. Percebi que o Direito tinha como instrumento central a palavra. E que a palavra podia mudar destinos. Ali nasceu o desejo de seguir esse caminho.
RB: Você costuma dizer que aprendeu democracia em botequim. Como foi isso?
MB: Foi no Bar do Anísio, na Beira-Mar. Uns amigos me levaram para lá ainda jovem. E pela primeira vez sentei numa mesa cheia de pessoas discutindo política, arte, cultura, ideias — e ninguém brigava. As pessoas discordavam sem se odiar. Aquilo foi revolucionário para mim. Não foi na faculdade que eu aprendi democracia. Foi ali. Aprendi que é possível discordar e continuar se respeitando. Hoje isso parece impossível em muitos ambientes. Naquela época, os bares começaram a ser também um espaço de liberdade feminina. As mulheres passaram a ocupar lugares que antes eram masculinos. E aquilo mudou muito a minha formação.
Quando eu chegava, o machismo tirava férias
foto: lia de paula
RB: Quando a questão feminina começou a se tornar central para você?
MB: Na convivência prática. Não foi lendo Simone de Beauvoir. Foi observando a vida. A primeira mulher que eu vi beber bebida alcoólica foi na faculdade. A primeira mulher que eu conheci assumindo vida sexual ativa também. As mulheres da geração da minha mãe casavam virgens, de branco, obedecendo regras rígidas. E eu comecei a perceber que aquilo não fazia sentido. Muitas amigas abandonavam carreira depois do casamento porque o marido mandava. E isso começou a me revoltar. Depois, trabalhando na Defensoria Pública, convivendo com mulheres pobres, negras, vítimas de violência, fui entendendo que existiam várias camadas de opressão. A mulher pobre sofria mais. A mulher negra sofria mais ainda. A mulher lésbica também. Foi aí que o feminismo começou a ganhar profundidade concreta na minha vida.
RB: Sua independência financeira sempre foi uma questão importante?
MB: Sempre. Meu avô dizia uma frase extraordinária: “O melhor casamento é um emprego, depois vem o marido”. Isso ficou gravado em mim. Eu entendia que, para ser livre, precisava pagar minhas próprias contas. Precisava ter autonomia financeira. E isso foi decisivo na minha trajetória.
RB: O que a experiência da USP trouxe para você?
MB: Quando fui fazer mestrado em Direito na USP, tomei um choque. O conservadorismo era imenso. Uma das maiores processualistas do Brasil não pôde disputar a direção da faculdade porque era mulher. Aquilo me indignava profundamente. Comecei a perceber que o problema não era localizado. Era estrutural. O Direito brasileiro inteiro era atravessado por uma lógica masculina. Ao mesmo tempo, São Paulo me abriu outras portas culturais. A música, os bares, os debates, a convivência intelectual. E depois veio Florença.
RB: Qual foi o impacto da Itália na sua vida?
MB: Enorme. Em Florença eu mergulhei na história da arte. Fiz cursos, vivi museus, me apaixonei por Rembrandt, por Goya, por toda aquela tradição artística europeia. Aquilo ampliou minha visão de mundo. Entendi que arte também é política. Também é liberdade. Também é forma de resistência.
RB: Sua vida afetiva também foi atravessada por essas questões?
MB: Totalmente. Eu me recusava a casar no civil porque, naquela época, isso significava obrigatoriamente assumir o sobrenome do marido. E para mim aquilo era uma marca de posse. Acabei vivendo um grande amor com um homem desquitado — o que, naquele momento, era um escândalo. Tivemos um filho e nunca coloquei o nome do meu marido no meu. Nunca aceitei perder minha identidade.
RB: Como começou sua atuação institucional em defesa das mulheres?
MB: Quando voltei para Fortaleza, fui me aproximando das políticas públicas para mulheres. Os conselhos estavam começando a surgir no Brasil. Fui convidada para integrar o Conselho dos Direitos da Mulher e comecei a atuar diretamente nisso. Depois participei da criação da primeira Comissão da Mulher Advogada da OAB-CE. Também atuei na Comissão de Direitos Humanos. Era uma construção muito inicial ainda. O próprio conceito de “direitos das mulheres” mal existia socialmente.
RB: O que mais chocava você nos atendimentos?
MB: Perceber como a violência estava naturalizada em todas as classes sociais. A sociedade inteira acreditava naquela frase horrorosa: “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Eu metia a colher, o garfo e a faca. A gente começou a descobrir casos gravíssimos de violência doméstica entre famílias ricas, intelectuais, pessoas influentes. Homens extremamente respeitados batiam em mulheres dentro de casa. E ninguém falava sobre isso.
RB: Qual foi sua participação no processo de construção da Lei Maria da Penha?
A Maria da Penha procurou nossa ajuda através do Conselho da Mulher. Nós começamos a estruturar juridicamente muitas discussões sobre violência doméstica no Ceará. Foi um processo muito duro. Porque a sociedade resistia violentamente à ideia de que a mulher tinha direito à proteção. Havia um esforço coletivo para esconder o problema.
RB: Você se tornou uma figura muito singular dentro dos ambientes masculinos. Como isso aconteceu?
MB: Eu aprendi a falar a linguagem masculina. Não porque queria ser homem, mas porque entendi como eles funcionavam. Passei anos observando homens e mulheres nas relações sociais, nos bares, nos tribunais, na política. Eu sentei em mesas só de homens, conversei de igual para igual, contei piadas, falei de arte, política, poesia. E eles começaram a me enxergar como alguém capaz de ocupar aquele espaço sem pedir licença. O Juarez Leitão dizia que “quando eu chegava, o machismo tirava férias”. Acho bonita essa frase.
RB: Existe um limite para a admiração masculina quando a mulher ocupa poder?
MB: Existe. Muitos homens me admiravam profundamente. Achavam maravilhosa minha inteligência, minha coragem, minha independência. Mas jamais queriam uma mulher como eu ao lado deles socialmente. Porque uma mulher que fala de igual para igual incomoda. Ela desmonta a hierarquia tradicional.
RB: Você teve medo em algum momento?
MB: Hoje eu percebo o tamanho do risco que corri. Na época, jovem, eu achava tudo natural. Fui ameaçada várias vezes. Por maridos violentos, por redes de exploração, durante a CPI da prostituição infantil juvenil. Também participei das lutas contra adoções ilegais em Fortaleza. Eram temas muito pesados. Eu e a Luizianne Lins fomos ameaçadas durante investigações. Mas eu nunca consegui recuar.
RB: Você acredita que o Brasil avançou?
MB: Avançou, mas muito lentamente. Ainda temos atitudes medievais. Ainda existe gente que não aceita filho gay, mulher independente, relacionamento interracial. A transformação cultural é lenta porque mexe em estruturas profundas de poder.
RB: Como você enxerga o avanço contemporâneo da extrema direita?
MB: Essas pessoas sempre existiram. O conservadorismo profundo sempre esteve aí. A diferença é que agora elas perderam a vergonha de falar. E eu acho até importante que tenham saído do esgoto. Porque agora conseguimos enxergar claramente contra o que estamos lutando. Antes o preconceito era silencioso. Hoje ele se expõe. Mas é importante dizer: a esquerda também erra. Não existe santidade política. O problema é quando o ódio vira projeto de sociedade.
RB: O que ainda move você hoje?
MB: A mesma coisa que sempre me moveu: a ideia de que o mundo pode ser melhor. Eu não quero eliminar quem pensa diferente. Quero debater. Quero convencer. Quero construir. Passei a vida inteira militando — na Defensoria, na OAB, nos bares, nos tribunais, nos movimentos sociais. Nunca consegui viver de outra maneira. E continuo acreditando que a política, a arte, a conversa e o Direito ainda podem transformar as pessoas. Mesmo que lentamente. Mesmo que doa. Mesmo que a luta nunca termine.
Descobri cedo que a palavra tinha força
A travessia de
Zelma
foto
Zelma Madeira
fala sobre infância, racismo, poder, coletividade e o desafio de abrir caminhos para que outras mulheres negras não precisem começar sempre do zero
Existe uma mulher cuja trajetória não cabe na palavra carreira. Porque não se trata apenas de ocupar cargos, acumular títulos ou vencer etapas sucessivas de uma vida profissional. Zelma Madeira, secret á ria da Igualdade Racial do Ceará, é professora, pesquisadora, militante e gestora p ú blica, mas sua caminhada é tamb é m territ ó rio, mem ó ria, enfrentamento e construção coletiva.
Nascida no Piauí, filha de uma costureira e de um trabalhador da construção civil, Zelma aprendeu cedo que a educação podia ser uma saída, mas também descobriu, ainda criança, que a escola podia ser um lugar de dor. O que hoje se chama bullying, ela nomeia sem rodeios: racismo. Foi ali, entre o sofrimento e a inteligência que chamava atenção das professoras, que começou a se perceber como uma menina negra em uma sociedade que naturaliza hierarquias, silêncios e exclusões.
Mas Zelma não fala de si como quem reivindica uma epopeia individual. Ao contrário: sua narrativa é atravessada pelo “nós”. A família, a comunidade, as vizinhas para quem escrevia cartas ainda menina, as associações de moradores, as mulheres negras, os quilombos, os povos de terreiro, os ciganos, os jovens da universidade, os movimentos sociais. Em sua fala, a vida pessoal e a vida pública não se separam. Uma alimenta a outra.
Primeira secretária da Igualdade Racial do Ceará, Zelma sabe o peso do pioneirismo. “Não tenho anterioridade”, diz. Não havia uma mulher negra antes dela naquele lugar para explicar o caminho. Por isso, sua presença na gestão pública carrega a força e a solidão de quem abre picadas em terreno árido. Ainda assim, ela insiste que sua maior conquista talvez seja chegar até aqui sem perder a ternura, a generosidade e a aposta na humanização.
Homenageada este ano com o Troféu Bárbaras, Zelma recebe o reconhecimento como algo maior do que uma honraria pessoal. Para ela, ser vista é também abrir roda. É dizer a outras mulheres negras que é possível entrar, falar, decidir, formular políticas, disputar orçamento, ocupar poder. Nesta entrevista, ela fala sobre infância, família, racismo estrutural, política pública, juventude, ancestralidade, autocuidado e liderança. Uma conversa sobre luta, mas também sobre beleza, pertencimento e futuro.
Uma mulher negra com consciência da sua negritude não chega sozinha, Quando ela sobe, puxa outra
Revista Bárbaras: Sua trajetória é marcada pela defesa dos direitos humanos e da igualdade racial. Que experiências da sua infância e juventude foram determinantes para essa escolha?
Zelma Madeira: Eu sou uma mulher negra e fui uma criança negra numa sociedade racista. Então, desde muito cedo, eu sofri os impactos do racismo. A escola, para mim, era sinônimo de sofrimento. Eu não queria ir. O que hoje as pessoas chamam de bullying, na minha infância era racismo. Nasci em Aroazes, no Piauí, e depois fui para Teresina com minha família. Sou filha de trabalhadores: minha mãe era costureira e meu pai, pedreiro. Eles foram para a capital buscando melhores condições de vida para os filhos e sempre acreditaram que a educação era a salvação. Para desgosto deles, eu era a filha que dava trabalho, a que não queria ir para a escola. Mas eu também era uma menina muito inteligente. Isso fazia com que algumas professoras apostassem em mim. Desde criança eu me envolvia com liderança. Nunca me candidatei a miss, a rainha, porque eu sabia que não estava dentro daqueles critérios. Mas para representante de turma, para organizar a classe, eu ia. Tinha facilidade de conversar, de convencer, de mobilizar. Meu pai foi uma grande referência. Ele reafirmava a nossa negritude. Dizia que eu era negra e que deveria ter orgulho do sobrenome Madeira. Ele era um homem negro, com muita consciência, e me ensinava coisas que, para uma criança, às vezes pareciam exigências grandes demais. Ele dizia: “Quando você marcar um compromisso, chegue antes da hora. Porque nós somos negros”. Na época eu não entendia completamente, mas aquilo foi ficando em mim. Na adolescência, comecei a me envolver com a vida comunitária. Morava em bairro periférico, participava de associação de moradores, ajudava nas atas, na organização, na distribuição de leite. Depois fiz Serviço Social na Universidade Federal do Piauí, uma formação que lida diretamente com a questão social, com desigualdades, com direitos. Isso consolidou uma preocupação que já existia em mim: estar com quem habita as margens.
RB: Houve um momento em que você percebeu que sua luta não seria individual, mas coletiva?
ZM: Nós, negros, sempre temos uma dimensão coletiva. Não houve um instante exato em que eu despertei para o coletivo. Isso já estava na família, na criação, na comunidade. Quando eu aprendi a escrever, ainda criança, fazia cartas para as vizinhas. Elas me chamavam porque eu sabia escrever. Então,
desde cedo, eu já estava colocada nesse lugar de ajudar, de traduzir, de garantir que outras pessoas também pudessem dizer o que queriam. Claro que depois, com a formação acadêmica, com o Serviço Social, com a pós-graduação e a vida universitária, essa dimensão coletiva ganha uma forma mais política. Mas ela já estava instaurada em mim. A minha carreira também nunca foi apenas individual. Quando chego à Universidade Estadual do Ceará, não vou apenas para melhorar minha vida ou ter um salário mais digno. Vou criando espaços, formando gente, organizando pesquisa, fortalecendo juventudes. Foi assim que nasceu o nosso núcleo de estudos afro-brasileiros, o Nuafro. Eu sempre me preocupei com a juventude negra que entrava na universidade e precisava encontrar um lugar para chamar de seu. Um lugar onde pudesse pensar como a subjetividade é impactada pelo racismo, pelo sexismo, pelo patriarcado, pelas desigualdades. Minha pesquisa sempre foi engajada.
RB: Quando essa luta passa a ocupar também o lugar da gestão pública?
ZM: Em 2015, faço um giro importante na minha trajetória. Saio de uma atuação mais acadêmica e passo a ocupar um lugar de gestão dentro da máquina pública, na Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial. Eu já era servidora pública, professora, mas ali eu emprestava minha competência teórica, metodológica, ética e política para o Estado. Foi um movimento desafiador. O acadêmico, muitas vezes, tem a crítica, pensa, formula, mas nem sempre vai para a execução. Eu fui por insistência de um amigo. E fiquei de 2015 a 2020. Depois, com a campanha Ceará sem Racismo, Respeite Minha História, Respeite Minha Diversidade, ganhamos reconhecimento nacional. Em seguida, fui para a Assessoria Especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais, na Casa Civil. Quando Elmano de Freitas foi eleito governador, ele me disse que criaria a Secretaria da Igualdade Racial e me colocou o desafio de ser a primeira secretária. Para mim, foi uma surpresa e uma responsabilidade enorme. A pauta racial é complexa, especialmente em um país que nem sequer admite plenamente que é racista. Muitas pessoas só enxergam o racismo na esfera interpessoal. Não compreendem o racismo como estrutural, como algo que organiza relações econômicas, sociais, institucionais e políticas públicas.
RB: Quais foram os maiores desafios de ocupar esse lugar de liderança institucional?
ZM: O primeiro desafio é trabalhar com um tema que não tem unanimidade. Muita gente pergunta:
foto: lia de paula
“Para que política de igualdade racial? Para que isso?”. Há um não entendimento da questão racial como estrutural e, portanto, como algo que exige política pública. O segundo desafio é que eu sou uma mulher negra. E, como mulher negra, faço parte de um grupo racializado de forma subalterna. Nós temos poucas oportunidades de ocupar lugares de poder. Quando chegamos, nossa competência é sempre colocada em dúvida. Será que ela sabe? Será que ela tem capacidade? Eu cheguei com um ativo, porque sou professora universitária, e esse lugar ainda carrega certo reconhecimento social. Mas, mesmo assim, há um campo árido, cheio de ausências. Meu grande desafio é que não tenho anterioridade. Não havia uma secretária de Igualdade Racial antes de mim no Ceará para eu procurar e perguntar como foi, como fez, por onde começou. Estou sempre nesse pioneirismo. E isso dói, porque há muita solidão. Por isso, quando a gente chega, chega carregando outras pessoas. Uma mulher negra com consciência da sua negritude não chega sozinha. Quando ela sobe, puxa outra. Esse é um princípio de ancestralidade. Na secretaria, mesmo pequena, levo pessoas racializadas de forma subalterna para dentro da máquina pública, para que exista um olhar de diversidade.
RB: O que sustenta sua capacidade de continuar lutando?
ZM: O senso de coletividade e o senso de responsabilidade. O que estou fazendo hoje, outras pessoas fizeram antes de mim em condições ainda mais adversas. Elas não desistiram. Então, eu também não posso desistir. O que posso e preciso fazer é me cuidar. Porque permanecer nesse lugar é feroz, é violento. O que me sustenta é olhar para trás e ver quem veio antes de mim. E olhar para frente, para as gerações futuras. Quando vou a um quilombo e vejo as crianças, penso nelas. Eu também fui aquela criança: do interior do Piauí, filha de trabalhadores, que não queria ir para a escola. Essas crianças precisam de oportunidade. Nós, adultos, temos que criar essas oportunidades. É muito desumano ser sempre a primeira. Primeira da família, primeira secretária, primeira a ocupar determinado lugar. Somos maioria no Brasil e no Ceará, mas ainda decidimos pouco. Como pode uma população majoritária seguir à margem da riqueza, das decisões, do poder? Essa luta tem a ver com a minha subjetividade, com a minha individualidade, mas também com o grupo ao qual pertenço. Por isso o autocuidado é fundamental. O racismo adoece. É todo dia, o dia todo. Não é todo dia que recebo um prêmio, que sou reconhecida. No cotidiano, eu e os meus somos racializados de forma subalterna.
RB: Como secretária, quais ações mais lhe deram orgulho?
ZM: Antes da secretaria, a campanha Ceará sem Racismo me deu muito orgulho. Foi uma campanha original, que falava do Ceará, da nossa história, dos povos indígenas, do Dragão do Mar, da Preta Tia Simoa, de referências nossas. Não era uma campanha falando de algo distante, estrangeiro. Era sobre nós. Na secretaria, uma ação muito importante é a interiorização da política de igualdade racial. Esse é um grande desafio no Brasil. Muitas vezes, quando existe política, ela fica restrita à capital. Criamos o Selo Município Sem Racismo como estratégia para levar essa agenda ao interior. Para aderir, o município precisa estruturar o que chamo de CPF da política: um órgão gestor, um conselho municipal para garantir controle social e um fundo ou mecanismos de financiamento e sistematização das ações. Também me orgulho do projeto Quilombo Vivo. O Ceará tem mais de 120 comunidades quilombolas. A luta entre a certificação e a titulação da terra é longa e árdua. Hoje já temos terras tituladas, e isso é muito importante. Outro avanço é colocar a igualdade racial como tema transversal dentro da máquina do Estado. Não pode ser algo lembrado apenas no 13 de maio ou no 20 de novembro. Cada secretaria precisa dizer qual é sua meta, qual é seu recurso, o que fará concretamente. Também estamos trabalhando com orçamento sensível a gênero e raça. Além disso, fazemos o monitoramento das políticas de cotas no Estado, tanto para universidades estaduais quanto para concursos públicos. Acompanhamos, cobramos, ouvimos os cotistas. Fortalecemos o controle social, o Conselho de Igualdade Racial, o programa Juventude Negra Viva e ações de proteção aos povos de terreiro, inclusive com mapeamento e diálogo com a segurança pública.
RB: Quem são as mulheres que ajudaram a moldar sua visão de mundo?
ZM: A primeira mulher foi minha mãe. Ela não tinha conhecimento acadêmico, mas tinha sabedoria ancestral. Era uma mulher forte, que dizia que a gente precisava estudar, passar em concurso, prosperar. Todos os filhos foram para o serviço público. Meu irmão virou auditor fiscal, minha irmã professora universitária, eu professora da Uece. Minha mãe dizia que os filhos eram doutores porque tinham doutorado. Ela entendia o valor disso. Depois, encontrei mulheres brancas antirracistas que apostaram em mim. Isso também precisa ser dito. Mulheres que não apenas diziam “você é boa”, mas abriam espaço
real para eu ocupar. Porque às vezes a pessoa reconhece, mas quer que você permaneça no seu lugar. Essas mulheres disseram: “Esse lugar aqui você vai ocupar”. Também fui muito formada pelas intelectuais negras. As norte-americanas, as brasileiras, as ativistas, as acadêmicas. Muitas vezes, ao ler essas mulheres, eu pensava: “Ela está dizendo exatamente o que eu sinto”. Como sou acadêmica, muitas das minhas maternidades simbólicas vêm pela leitura, pela pesquisa, pelo estudo. Na gestão pública, tive referências importantes como Matilde Ribeiro, Nilma Lino Gomes, Joselina da Silva. Mas, no lugar específico de ser a primeira gestora da política de igualdade racial no Ceará, não havia uma mulher negra anterior a mim. Então fui me ancorando em várias pessoas, em redes, em referências múltiplas.
RB: Como você vê o papel das novas gerações nessa luta?
ZM: Vejo muita coisa boa. A política de cotas, os núcleos de estudos afro-brasileiros e indígenas nas universidades, tudo isso forma novas juventudes. Como professora, eu olho muito por esse caminho da universidade. Mas também me preocupo. Nossa trajetória nunca é reta. Antes havia muitas ausências. Hoje, às vezes, há presenças muito marcadas por uma lógica liberal, oportunista, de puro identitarismo. As redes sociais podem estimular a lacração, o chavão, a aparência de engajamento sem profundidade. Isso esvazia a pauta. A política de cotas é fundamental, mas é preciso perguntar: que profissional você será? Que advogado, assistente social, jornalista, professor ou gestor você será? Vai estar comprometido com a luta coletiva que permitiu que você chegasse ali?
Ou vai transformar tudo em projeto individual?
A juventude me impulsiona muito. Os jovens têm energia, coragem, não têm medo. Eles dizem: “Vamos fazer”. E eu, com mais experiência, também chamo atenção, digo para esperar, para aprofundar, para estudar. É uma troca. Eles têm força, eu tenho experiência. A universidade é um lugar muito potente para isso.
RB: O que significa receber o Troféu Bárbaras?
Zm: Significa reconhecimento. E nós, mulheres negras, precisamos muito de reconhecimento. Quando recebi a notícia, fiquei alegre, feliz, grata. Sou piauiense, estou no Ceará há mais de 30 anos, já sou cidadã fortalezense, mas receber esse prêmio é também sentir que faço parte. O nome Bárbaras tem uma força. Remete a uma mulher que lutou por transformação, por dias melhores. Ser reconhecida nesse contexto é como se a roda se abrisse e eu pudesse entrar. Para nós, mulheres negras, entrar na roda já é muita coisa. Claro que dentro da roda os lugares não são iguais, mas há reciprocidade, há possibilidade de fala, de presença, de construção. Como profissional, o prêmio diz: valeu a pena. Tem gente vendo o seu trabalho. Tem gente reconhecendo a importância disso. E outras meninas podem olhar e pensar: é possível.
RB: Que mensagem você deixaria para mulheres que ainda não se sentem autorizadas a ocupar posições de liderança?
ZM: A primeira forma de nos fortalecermos é agir em rede. Estar em conexão. Tudo que pudermos fazer no sentido da conexão nos deixará mais fortes, com mais visibilidade e mais reconhecimento. Sozinha, a caminhada é mais dura. Em rede, vamos mais longe. É preciso saber quem somos e para onde queremos ir. Não podemos remar sem destino. A caminhada terá oscilações, dificuldades, desvios. Por isso, também é preciso cuidar da travessia. Às vezes, a gente olha apenas para o ponto de chegada, mas existe um caminho entre o início e o destino. E essa travessia precisa ser feita com cuidado, fortalecimento e conexão. Para mim, liderança não é uma posição solitária. É compromisso com projetos coletivos, com reconhecimento, com redistribuição econômica e com a construção de outro projeto de nação. Uma mulher que se fortalece em rede não caminha apenas por si. Ela abre passagem.
A primeira forma de nos fortalecermos é agir em rede
Bárbaras 2023 e 2024
JOÃO FILHO | BÁRBARAS 2023: VOZES QUE CONSTROEM.
escuta e construção
Entre debates, homenagens e encontros transformadores, o Bárbaras consolidou-se como um espaço permanente de escuta, reconhecimento e protagonismo feminino. As edições de 2023 e 2024 reuniram mulheres de diferentes trajetórias para discutir direitos, diversidade, mercado de trabalho, política, saúde mental e representatividade, reafirmando a força coletiva das vozes femininas na construção de uma sociedade mais justa e plural.
O Bárbaras nasceu com um propósito de permanência. Desde sua primeira edição, nunca foi pensado como um encontro isolado ou uma celebração passageira, mas como um espaço contínuo de escuta, reflexão e reconhecimento da força feminina em suas múltiplas formas. Inspirado no legado histórico de Bárbara de Alencar — símbolo de coragem, resistência e transformação social — o projeto se consolidou como um território de diálogo sobre os desafios, conquistas e urgências que atravessam a vida das mulheres brasileiras.
Entre 2023 e 2024, o Bárbaras ampliou esse papel ao reunir mulheres de diferentes gerações, profissões, trajetórias, corpos, crenças e visões de mundo em torno de debates fundamentais sobre representatividade, direitos, saúde mental, mercado de trabalho, política, diversidade e violência de gênero. Mais do que um evento, tornou-se um movimento de valorização da voz feminina e de construção coletiva de novos caminhos.
Ao longo de suas duas primeiras edições, o Bárbaras mostrou que discutir o protagonismo das mulheres não significa apenas olhar para trajetórias individuais de sucesso, mas compreender como cada conquista feminina ajuda a abrir espaço para outras mulheres ocuparem lugares historicamente negados. Em um tempo marcado por discursos extremados, intolerância e silenciamentos, o projeto escolheu outro caminho: o da conversa, da escuta e da presença.
Em dezembro de 2023, no Hotel Gran Marquise, em Fortaleza, o Bárbaras realizou sua primeira edição. Logo na estreia, deixou claro que não seria apenas mais um evento corporativo ou institucional. A proposta era reunir pensamento crítico, escuta ativa e experiências reais em torno das questões que atravessam o cotidiano das mulheres brasileiras.
O primeiro painel, “Políticas Públicas de Gênero”, reuniu a vice-governadora do Ceará, Jade Romero, a secretária dos Direitos Humanos do Ceará, Socorro França, e Rita von Hunty, persona do professor e arteeducador Guilherme Terreri. O debate colocou em pauta democracia, extremismo, participação política feminina, educação e os impactos da desigualdade estrutural no cotidiano das mulheres.
Rita von Hunty trouxe uma reflexão contundente sobre o papel da comunicação em tempos de polarização e intolerância. Ao discutir o crescimento das extremasdireitas e a dificuldade de diálogo nas redes sociais, ela alertou para o risco de uma sociedade que substitui o debate pelo bloqueio, a escuta pelo cancelamento e a diferença pela eliminação simbólica do outro. A crítica encontrou eco em um público atento, que via no Bárbaras justamente o contrário: um território de convivência entre diferenças.
Jade Romero falou sobre a necessidade de ampliar a presença feminina nos espaços de decisão política, especialmente dentro dos partidos, ainda marcados por estruturas predominantemente masculinas. Já Socorro França trouxe para o debate a experiência de décadas dedicadas ao serviço público e à defesa dos direitos humanos, reforçando a importância da democracia, da participação social e das políticas públicas inclusivas.
O segundo painel, “Sou mulher sim, e daí?”, ampliou ainda mais o tom de intimidade e identificação com o público. A escritora Tati Bernardi, a psicóloga Sabrina Matos e a professora Juçara Mapurunga discutiram temas como machismo, saúde mental, sexualidade, desejo, padrões de comportamento e os desafios da experiência feminina contemporânea.
Tati Bernardi emocionou ao compartilhar memórias da própria mãe e relatar como cresceu observando as violências psicológicas sofridas dentro de um casamento abusivo. Ao revisitar também sua trajetória profissional em ambientes dominados por homens, como o mercado publicitário, falou sobre a pressão para adotar comportamentos masculinizados como mecanismo de sobrevivência profissional. Seu relato sintetizou algo comum a muitas mulheres: a necessidade constante de adaptação para existir em espaços historicamente desenhados por homens.
Já Sabrina Matos conduziu reflexões sobre saúde mental e afetividade feminina, enquanto Juçara Mapurunga aprofundou questões ligadas ao desejo, à subjetividade e aos tabus que ainda cercam temas como menopausa, sexualidade e envelhecimento feminino. O debate mostrou como o feminismo contemporâneo não trata apenas de direitos formais, mas também da liberdade emocional, psicológica e subjetiva das mulheres.
Ao olhar para as duas primeiras edições, fica evidente que o Bárbaras tornou-se um movimento simbólico de reconhecimento, escuta e construção de futuro.
JOÃO FILHO | AS HOMENAGEADAS DE 2023: ABRINDO CAMINHOS PARA OUTRAS MULHERES.
JOÃO FILHO | BÁRBARAS 2024: CINCO HOMENAGEADAS E APRENDIZADOS ETERNOS.
Mas talvez o momento mais simbólico daquela primeira edição tenha sido a criação do Troféu Bárbaras, concebido para homenagear mulheres que ampliaram o papel feminino em seus respectivos campos de atuação. As primeiras homenageadas sintetizavam diferentes dimensões da luta feminina no Brasil: a liderança indígena, a política institucional e o combate à violência contra a mulher.
A primeira a subir ao palco foi Maria Luiza Fontenele, primeira mulher eleita prefeita de uma capital brasileira. Sua trajetória mistura resistência à ditadura militar, militância feminista e luta pelos direitos humanos. Depois veio Cacica Pequena, liderança indígena do povo Jenipapo-Kanindé e considerada a primeira mulher cacica do Brasil. Sua atuação foi decisiva para a demarcação das terras indígenas de seu povo e para o fortalecimento da presença feminina dentro dos movimentos indígenas. Encerrando as homenagens, Maria da Penha recebeu o troféu sob forte emoção. Símbolo internacional do enfrentamento à violência doméstica, ela transformou uma tragédia pessoal em uma das mais importantes legislações de proteção às mulheres no mundo.
Se 2023 marcou o nascimento do Bárbaras, 2024 consolidou sua maturidade. A segunda edição ampliou o alcance dos debates e aprofundou discussões sobre diversidade, mercado de trabalho, autoestima, racismo, gordofobia, saúde mental e representatividade.
O evento reuniu mulheres de diferentes corpos, profissões, orientações sexuais e áreas do conhecimento em um mesmo espaço de diálogo. O painel “A mulher e o mercado de trabalho”, mediado pela jornalista Carol Kossling, trouxe para o centro da discussão uma questão fundamental: as desigualdades femininas não são homogêneas. Elas atravessam raça, classe social, corpo, identidade de gênero e território.
Jaqueline Queiroz, embaixadora do Movimento Plus Size do Ceará, falou sobre a gordofobia estrutural no mercado de trabalho e sobre como mulheres gordas enfrentam barreiras adicionais em processos seletivos, ascensão profissional e reconhecimento social. Sua fala trouxe visibilidade para um preconceito muitas vezes naturalizado e invisibilizado.
A empresária Eliziane Alencar destacou outro desafio persistente: o autoboicote feminino. Para ela, muitas mulheres ainda são ensinadas a duvidar da própria capacidade, enquanto homens historicamente foram
incentivados a ocupar espaços com mais segurança e menos culpa. Sua fala tocou em uma dimensão silenciosa das desigualdades de gênero: a construção psicológica da confiança.
A psicanalista Irvina Sampaio aprofundou o debate ao defender uma leitura interseccional das relações sociais. Ao lembrar que mulheres negras, indígenas, trans e travestis enfrentam obstáculos ainda mais profundos no mercado de trabalho, ela chamou atenção para a necessidade de compreender as múltiplas camadas das desigualdades femininas.
Outro momento marcante de 2024 foi a homenagem a mulheres que ajudaram a pavimentar caminhos para as gerações seguintes. Entre elas, a jornalista Adísia Sá, pioneira do jornalismo cearense e protagonista da criação do curso de Jornalismo da UFC; a empresária Tarcila Sousa, fundadora da Cajuína São Geraldo; a ativista Daciane Barreto; a ex-governadora Izolda Cela; e Socorro França, novamente reverenciada por sua trajetória no serviço público e na defesa dos direitos humanos.
Encerrando a noite, a atriz e escritora Elisa Lucinda transformou o palco em um espaço de emoção e inquietação. Em sua palestra “Palavra é Poder”, falou sobre racismo, liberdade feminina, memória, poesia e o peso que as palavras carregam na construção das relações humanas. Sua presença sintetizou um dos maiores méritos do Bárbaras: transformar debates em experiências humanas profundas.
Ao olhar para as duas primeiras edições, fica evidente que o Bárbaras deixou de ser apenas um evento. Tornou-se um movimento simbólico de reconhecimento, escuta e construção de futuro. Um espaço onde mulheres diferentes podem existir juntas sem precisar reduzir suas complexidades para caber em narrativas simplificadas.
Em tempos de discursos extremados, superficialidade digital e tentativas constantes de silenciamento, o Bárbaras escolheu outro caminho: o da conversa, da reflexão e da presença. Porque, no fim, talvez seja justamente isso que o torne tão necessário. Não apenas falar sobre mulheres, mas permitir que elas falem por si mesmas — com toda a potência, contradição, inteligência, dor, humor e humanidade que carregam.
Ler faz a gente viajar sem sair do nosso lugar, e isso vale para os pequenos e para os grandes. Nossos livros não só ensinam, mas também emocionam: tem paradidáticos de qualidade, histórias de prender o fôlego e o melhor da nossa história.
A gente acredita que o mundo fica gigante quando entendemos a força da nossa cultura nordestina. É conhecendo o nosso jeito, o nosso chão e a nossa gente que aprendemos quem somos de verdade e ganhamos fôlego para ir cada vez mais longe.
Entre a ancestralidade e a modernidade: um caminho indígena
CACIKA DO POVO JENIPAPO-KANINDÉ, EM AQUIRAZ, É SECRETÁRIA DOS POVOS INDÍGENAS DO ESTADO DO CEARÁ. ANTROPÓLOGA, PROFESSORA INDÍGENA, LICENCIADA EM EDUCAÇÃO INDÍGENA E MESTRA EM ANTROPOLOGIA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC). FOI DIRETORA DA ESCOLA INDÍGENA DO POVO JENIPAPO-KANINDÉ E É COFUNDADORA DA ANMIGA.
Fui a primeira, entre os filhos da minha mãe, a saber ler e escrever. Assumi, desde cedo, a missão de acompanhála em assembleias estaduais e nacionais dos povos indígenas. Eu era a responsável por anotar tudo para, depois, repassar ao nosso povo. Antes mesmo de compreender a dimensão política daquele gesto, entendi que a palavra escrita também podia servir à memória coletiva. Fui uma jovem indígena invisibilizada pelo preconceito e pelo início da retomada da luta indígena, na década de 1990. Minha juventude foi marcada pela luta indígena e por uma gravidez que me trouxe muitas responsabilidades e desafios.
Amadureci rápido, estudei muito e batalhei por cada espaço. Representei meu povo diversas vezes, sou cofundadora da Articulação das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, um movimento nacional de mulheres, formei-me em Antropologia, sou mestra na mesma área e fui escolhida pelo movimento indígena do Ceará para ser a primeira secretária dos Povos Indígenas do Ceará. Cada passo desse caminho foi construído entre a escuta dos mais velhos, a força das mulheres indígenas e a responsabilidade de abrir caminhos sem esquecer de onde vim.
Hoje, em 2026, a juventude indígena assume um novo desafio: continuar a luta, ressignificar seus sonhos e atuar em rede. No Ceará, essa juventude é representada pela Coordenação de Jovens Indígenas do Ceará, com uma diretoria que tem o desafio de assumir o protagonismo nas discussões, levando sempre as questões da geração atual, relacionadas à internet, à profusão de informações, aos vícios e
ao amadurecimento próprio da idade. De todos os desafios, o que considero mais relevante é manter viva a tradição dos nossos povos para as futuras gerações, em um contexto de tanta dispersão e excesso de informação imposto pelas mídias.
Não quero dizer, de modo algum, que as novas tecnologias sejam ruins. Pelo contrário, elas são ferramentas importantes para a luta e também para a divulgação da nossa cultura. Falo apenas que o papel do jovem indígena hoje será o de, sempre que puder, voltar a si, às suas raízes e à sua ancestralidade, força motriz da nossa existência enquanto indígenas.
Como representante de uma geração, assumo o compromisso de fortalecer nossos espaços de diálogo, valorizar a sabedoria dos mais velhos e incentivar a participação ativa da juventude em todos os processos de decisão. É assim que garantimos continuidade, resistência e futuro para os nossos povos.
Juliana Alves – Cacika Irê
Mente e coração
Neuma Figueredo
EMPRESÁRIA E DIRETORA DA CASACOR CEARÁ E DA CASACOR
PIAUÍ, REFERÊNCIA EM DECORAÇÃO, ARTE E CULTURA. CONECTA
ARQUITETURA, DESIGN E ARTESANATO COM OLHAR EMPREENDEDOR, LIDERANDO PROJETOS QUE VALORIZAM TALENTOS LOCAIS, GERAM OPORTUNIDADES E DEIXAM LEGADO PARA AS CIDADES.
Nunca precisei que me explicassem o significado dessas palavras — aprendi o que elas representam bem antes de entender que era isso que eu já fazia. Toda mulher que empreende sabe: não basta decidir com a cabeça. É preciso ter coragem no peito para sustentar a decisão quando quase ninguém ainda acredita que vai funcionar.
Comecei aos 17 anos, em um mercado que não tinha sido desenhado para mim. Não havia espaço reservado, nem protocolo de entrada. Havia, sim, a observação atenta de quem aprende olhando — e a certeza, herdada de uma família de artistas, de que beleza e trabalho não são coisas separadas. Foi com esse entendimento que, ainda jovem, ajudei a construir um negócio do zero, unindo criação artesanal e visão de mercado, levando a arte cearense — a cerâmica, o tear, o móvel feito à mão — até arquitetos e decoradores de todo o Brasil. Mais de dois mil artesãos do interior do Ceará passaram por esse ciclo. Não era só vender peças. Era dar nome, lugar e valor a um fazer cuja potência o mercado ignorava.
Gerir como mulher é isso: enxergar o que ainda não tem visibilidade e acreditar antes que o resultado apareça. É uma inteligência que mistura intuição e estratégia, afeto e disciplina — e que o mundo corporativo demorou muito a reconhecer como método. Aprendi que liderança feminina não é suavizar o poder. É exercê-lo com plenitude, sem precisar escolher entre ser sensível e ser firme.
Quando assumi a direção de uma das maiores mostras de arquitetura e design do Brasil, carregava tudo isso comigo. Cada edição foi também um exercício de gestão: de times, de talentos, de expectativas, de crise, de crescimento. E, a cada ano, crescia a convicção de que um evento cultural também é um negócio — e de que um negócio pode ser, também, cultura. Quando decidi levar esse projeto para outro estado, não foi impulsividade. Foi escuta. Foi método. Foi mente e coração operando juntos, como sempre fizeram.
Vivemos um tempo que exige das mulheres que lideram uma resposta diferente ao caos. Não a resposta da dissociação — separar o que se sente do que se decide —, mas a da plenitude. A casa que habitamos, física ou internamente, é o lugar onde tudo começa. É onde recarregamos para continuar. É onde mente e coração se encontram antes de qualquer reunião, antes de qualquer escolha. Empreender com essa consciência não é privilégio. É o único caminho que, para mim, sempre fez sentido.
Cada corpo, uma história viva
Jaqueline Queiroz
EMBAIXADORA DA DIVERSIDADE CORPORAL, IDEALIZADORA DO MISS PLUS SIZE CEARÁ. ATUA NO EMPODERAMENTO FEMININO, PROMOVENDO AUTOESTIMA E AUTENTICIDADE. DESENVOLVE PROJETOS QUE INCENTIVAM MULHERES A RECONHECEREM SEU VALOR E OCUPAREM SEU ESPAÇO COM CONFIANÇA.
Cada corpo carrega uma história que vai muito além do que os olhos conseguem ver. Por muito tempo, vivemos sob padrões rígidos que tentaram definir o que é belo, aceitável e digno de reconhecimento. Esses padrões, muitas vezes inalcançáveis, silenciaram vozes, limitaram expressões e fizeram com que inúmeras mulheres se sentissem inadequadas em seus próprios corpos. Mas, aos poucos, uma nova consciência vem ganhando espaço: a de que não existe um único tipo de beleza — existem histórias, vivências e trajetórias únicas que se manifestam através de cada corpo.
Há corpos que já foram julgados, comparados e até invisibilizados. Corpos que carregam inseguranças, marcas e lembranças de momentos difíceis. Marcas que não são apenas físicas, mas emocionais, resultado de experiências que moldaram quem essas mulheres são hoje. Mas, também, são esses mesmos corpos que revelam histórias de superação, de resistência silenciosa, de força e de recomeços.
Falar sobre corpo é, antes de tudo, falar sobre identidade. É compreender que cada detalhe, cada curva, cada linha e cada marca representam experiências vividas. Nada é aleatório. Tudo faz parte de uma construção que merece ser respeitada, acolhida e valorizada.
Quando uma mulher começa a se enxergar com mais amor, algo profundo se transforma dentro dela. Ela deixa de buscar validação externa e passa a reconhecer o próprio valor. Ela ocupa o seu espaço com mais segurança, se posiciona com mais firmeza e se permite existir sem pedir permissão. Essa mudança não é apenas estética, é emocional, é interna, é libertadora.
E quando uma mulher se liberta, ela se torna referência. Inspira outras mulheres a iniciarem o mesmo processo de reconexão consigo mesmas.
Projetos, movimentos e iniciativas que valorizam essa diversidade cumprem um papel essencial na sociedade: dar visibilidade a histórias reais. Mostrar que a beleza não está na perfeição, mas na autenticidade. Que não existe um padrão ideal, mas sim múltiplas formas de ser, de existir e de se expressar.
Mais do que falar sobre aparência, estamos falando sobre pertencimento. Estamos falando sobre liberdade de ser quem se é, sem máscaras e sem limitações impostas.
Porque, no fim, não se trata apenas de como um corpo é visto, mas de como ele se sente, se reconhece e se permite viver.
E quando existe aceitação, existe força.
Quando existe amor próprio, existe transformação.
E quando existe coragem de ser quem se é, existe liberdade.
Cada corpo é único.
Cada corpo tem uma história.
E toda história merece ser vista, respeitada e celebrada.
O direito de ser criança no Brasil
Onélia Leite Santana
CONSELHEIRA DO TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO CEARÁ (TCE-CE), ESPECIALISTA POR HARVARD, MBA EM GESTÃO PÚBLICA (PUC-MG), DOUTORA EM CIÊNCIAS DA SAÚDE (FMABC), IDEALIZOU O PROGRAMA MAIS INFÂNCIA
CEARÁ E FOI SECRETÁRIA DA PROTEÇÃO SOCIAL DO CEARÁ.
Compreendo que o protagonismo feminino na gestão pública é indissociável da responsabilidade com a primeira infância. O olhar sensível e resolutivo das mulheres é vital para humanizar e efetivar essas políticas, garantindo que os direitos das múltiplas infâncias fortaleçam a democracia e o futuro do nosso País.
A formulação de políticas públicas para a primeira infância no Brasil exige reconhecer que o país é segmentado por desigualdades socioeconômicas, étnicoraciais, de gênero e territoriais. Diante deste cenário complexo, o desafio central da gestão pública é o de assegurar, de forma equitativa, os direitos fundamentais para 18,1 milhões de crianças (Censo Demográfico 2022, IBGE), aproximadamente, 9% da população. Para atender esse objetivo é necessário abandonar a visão universalista de infância, reconhecendo que as infâncias são, em essência, múltiplas e atravessadas por marcadores de vulnerabilidade que determinam o acesso à cidadania.
Especificamente no caso da infância negra, observase que a maioria das crianças de zero a seis anos no Brasil é composta por crianças negras (54,05%), em contraste com a população de brancos, que é de 44,65%. Nesse contexto, os dados referentes à mortalidade infantil, com índices de 53,29% entre negros frente a 38,06% entre brancos, somados à
mortalidade por causas evitáveis, que atinge 55,67% no recorte racial negro (Sistema de Informações sobre Mortalidade, 2023. Ministério da Saúde), podem ser considerados evidências do racismo estrutural que a nossa sociedade ainda atravessa. Cientificamente, tal fenômeno é classificado como uma das variáveis que compõe as Experiências Adversas na Infância (ACE). Afinal, o racismo no Brasil impõe às crianças negras uma realidade de adversidades que podem resultar em uma maior exposição ao estresse tóxico que pode, consequentemente, comprometer seu desenvolvimento.
No campo da educação, embora o acesso à creche registre 40,18% para meninos e meninas negros (Censo Escolar da Educação Básica 2023, Inep), o desafio central reside na qualidade e na superação do racismo. A política pública não pode ser neutra; ela deve promover a equidade racial para prevenir e mitigar danos ao desenvolvimento infantil. Por isso, investir na infância negra, assegurando direitos e combatendo o racismo, é medida urgente. Nesse contexto, cabe ao controle externo atuar com rigor na fiscalização desses indicadores.
Empreender para transformar a saúde
Patriciana Rodrigues
PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA PAGUE MENOS, SEGUNDA
MAIOR REDE DO VAREJO FARMACÊUTICO DO PAÍS. ENGENHEIRA CIVIL, COM MBA PELO CEDEPE BUSINESS SCHOOL E PÓS-GRADUAÇÃO EM MARKETING PELO
CETREDE/UFC, ATUA HÁ MAIS DE 25 ANOS NA COMPANHIA, ONDE OCUPOU CARGOS ESTRATÉGICOS EM MARKETING, COMPRAS E ÁREA COMERCIAL.
Empreender em saúde no Brasil é assumir um compromisso com o futuro. É encarar uma realidade desafiadora. Mais de 70% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS, enquanto uma parcela significativa sequer acessa regularmente o sistema de saúde. Há uma lacuna clara entre necessidade e acesso, e é justamente aí que surgem as maiores oportunidades de transformação. É acreditar em um país de dimensões continentais e decidir, na prática, levá-lo a sério para chegar onde muitos ainda não chegaram.
Em um movimento, com raízes nordestinas, que carrega a essência do Ceará, de coragem, resiliência e a convicção de que crescer é incluir, a Pague Menos construiu uma presença em mais de 400 municípios.
E com essa capilaridade, a companhia auxiliou na transformação do cenário de saúde no país. As farmácias deixaram de ser apenas pontos de venda para se tornarem verdadeiros hubs, com potencial de atuar desde a prevenção até o acompanhamento contínuo do paciente.
Esse avanço ganha força quando combinado à tecnologia. A visão de um cuidado “fidigital” — físico com o farmacêutico, digital com o médico — já é realidade. Telemedicina, uso de dados e personalização da jornada permitem atendimento mais ágil e próximo. Além dos medicamentos, esses hubs oferecem serviços clínicos que, por meio da atenção primária, podem contribuir com o cenário nacional, desafogando o SUS e atuando como aliados. Esse modelo só se sustenta com colaboração: a integração entre o público e o privado é essencial para uma jornada eficiente e centrada no paciente.
O foco dessa transformação está no cuidado contínuo: monitorar doenças crônicas, ampliar a cobertura vacinal, especialmente entre adultos, e fortalecer o diagnóstico precoce. Hoje, exames simples já podem ser feitos nas farmácias, ampliando o acesso e antecipando intervenções. Empreender em saúde é, no fundo, empreender em gente. É levar cuidado aonde ele não chega, encurtar distâncias e transformar estruturas. Tudo isso é realizado por um time construído com representatividade e valorização humana.
Mas há um elemento que torna essa transformação ainda mais potente: a liderança feminina. Na saúde, as mulheres têm ocupado espaços estratégicos e, com sua capacidade de cuidado e execução, vêm redesenhando a forma de servir. Essa força se reflete na base e na liderança: farmacêuticas, gerentes e executivas que fazem diferença na vida de milhões de brasileiros. Ao olhar para o futuro, transformar a saúde do país passa por seguir investindo em inovação, colaboração e representatividade, abrindo caminhos para que mais pessoas cuidem, liderem e transformem realidades.
Cadê as mulheres?
Mona Gadelha
CANTORA, COMPOSITORA, JORNALISTA E PESQUISADORA, FORMADA EM COMUNICAÇÃO SOCIAL PELA UFC, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PELO PPGCOM/UFC E ESPECIALISTA EM GLOBALIZAÇÃO E CULTURA. LANÇOU SETE ÁLBUNS, COORDENOU POR DEZ ANOS O LABORATÓRIO DE MÚSICA DA ESCOLA PORTO IRACEMA DAS ARTES E PUBLICOU LIVROS DE CONTOS, ENSAIO E PERFIS BIOGRÁFICOS.
Quando Rita Lee escreveu “mulher é bicho esquisito / todo mês sangra”, em 1982, a década se abria como uma ampliação do espaço das mulheres na música, indo além do canto e avançando sobre as restritas áreas da composição e dos instrumentos. Não que elas não existissem: a própria Rita (1947-2023) assinava as canções de “Fruto Proibido”, lançado em 1975; Joyce Moreno já havia feito “Encontro Marcado” (1969) com músicas próprias. Mas o fato é que as mulheres, invariavelmente, não apareciam nas listas mais propagadas de compositores e instrumentistas da música brasileira, de domínio masculino.
Enquanto isso, seguíamos como exceções: Rosinha de Valença (1941-2004), violonista; Maysa (1936-1977), autora de “Meu Mundo Caiu”; Dolores Duran (19301959), de “A Noite do Meu Bem”; Fátima Guedes, gravada por Elis Regina; Sueli Costa (1943-2023), autora de “Jura Secreta”, em parceria com Abel Silva, entre outras joias. Hoje, podemos dizer: já não somos exceções. Embora a arrecadação de direitos autorais ainda aponte que apenas 10% dos valores se destinam às compositoras, segundo dados 2026 do Ecad/UBC. Entre as músicas mais tocadas em 2025, as autoras representariam 10%.
A geração dos anos 1980 viria com tudo, encabeçada por Marina Lima e Angela Ro Ro (1949-2025). Programas de televisão sobre questões femininas mostravam o aceno da indústria cultural para essa virada. Foram muitos anos de invisibilidade, que
ocultou pioneirismos, apagou personagens e relegou trajetórias ao esquecimento. No refrão-manifesto de Rita, havia provocação, humor e enfrentamento. Mais tarde, em 2000, a mesma Rita, munida de ironia e deboche, ao lado de Zélia Duncan, escreveu “Pagu”, hino feminista dos últimos anos, cantado por grupos de mulheres no 8 de março e em atos de protesto. A canção remexia símbolos de perseguição, fogueira e resistência para dizer o que tantas mulheres viveram.
Não resta dúvida de que, dos anos 1980 até onde chegamos, no século XXI, as mulheres alcançaram — sim, com muita luta! — mais espaço em áreas de predomínio masculino. Mulheres tocando guitarra, baixo e bateria? Temos. Mulheres compositoras?
Muitas. Regentes, produtoras, técnicas. Ainda estamos longe do ideal de equidade, mas a presença feminina na música se consolidou como conquista sem chance de retrocesso, sem os antigos limites que separavam “coisa de homem” e “coisa de mulher”. Não se admite mais evento artístico — seja show, festival ou seminário — sem a nossa presença. Pergunte sempre: cadê as mulheres?
TAMBÉM NO O POVO IMPRESSO, NA RÁDIO O POVO CBN 95.5 FM E NA TV O POVO CANAL 48.1
Claro/NET: 523 (HD) 23 (SD), Brisanet 138 e Alares 23)
Entre violência, silêncio e reconstrução, mulheres transformam dor em resistência, acolhimento e potência coletiva.
“Minha voz não pede espaço, ela ocupa, constrói e transforma”. Há frases, como esta, que contêm marcas profundas. Profundas e transformadoras. Há frases construídas após reconstruções. Que viram máximas capazes de reconstruir outras vidas. Frases como esta de Manu Rocha, que marca a rocha que Manu compreendeu ser depois de sofrer violência doméstica. Violência doméstica de mãe e pai.
Mulher lésbica, natural de Fortaleza, Manu nasceu em berço evangélico, ancoragem e espinhal que a fez crer que, ao mentir, perderia a sua liberdade. Manu tinha 16 anos de idade quando ganhou um prazo de uma de suas irmãs, a do meio, para contar à mãe e ao pai sobre sua sexualidade. Cordeira que era, Manu procurou seus pastores. E, ao honrar com a verdade, não conquistou libertação, foi considerada ovelha subversiva! Enfileirados em marcha ministerial, a mãe e o pai de Manu bateram nela pela primeira vez. Na cara. Por ela ser lésbica. Mulher lésbica.
“Eu sempre soube que era lésbica. O que eu não conseguia era definir isso, dar um nome. Aos 13 anos de idade, tive, escondida, minha primeira namorada. O medo, que me cercou por anos, de ir para o inferno, me fez, inclusive, namorar meninos. Só adulta, entendi que tinham me apresentado uma versão de Deus punitivo”, expõe Manu.
Ao passo que ela ia entregando sua máxima verdade, ela ia sendo encaminhada a “retiro de cura”, arrancada da escola, do futebol e do estágio, ia sendo trancada em casa, tinha suas roupas queimadas e seus quereres recalcados. Mas nenhum dos episódios junto à mãe e ao pai foi capaz de remover Manu dela mesma. Nem mesmo o que estava por vir, o mais extremo até hoje, o que, por pouco, não foi terminante.
Já mulher-feita, pagadora de suas contas, Manu dormiu, por uma noite, fora de casa - com uma namorada. E, no dia seguinte, sua verdade e liberdade foram violentadas outra vez. Enquanto liam trechos de Romanos 1:26-27 e Levítico 20:13, sua mãe e seu pai bateram em seu corpo. Manu teve o ombro quase deslocado, copo de vidro estraçalhado em suas costas, enquanto, ajoelhada, pedia perdão por ser quem é.
“No trabalho, enquanto eu trocava de roupa no vestiário, minha chefe viu minhas costas e perguntou o que havia acontecido. Ao narrar, fui me dando conta de que havia ódio marcado no meu corpo, de que aquilo era uma violência e de que eu não era culpada. Eu estava sendo tratada como uma abominação”, manifesta Manu.
quando a coragem encontra acolhida
Manu conta que as marcas passaram meses em seu corpo. Era 2004 e, ao procurar uma delegacia para registrar a violência, foi ignorada, chegou a ouvir da escrivã que sua mãe e seu pai estavam certos. “Por isso, hoje, entendo a importância da presença da Decrin (Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual, inaugurada há seis anos pela Polícia Civil do Estado do Ceará)”, festeja Manu.
Essa sua reflexão coincide com testemunho destacado pela delegada Giselle Martins, titular da 1ª Delegacia da Defesa da Mulher (DDM) de Fortaleza, unidade da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE). Para a delegada, “espaços especializados em assuntos tão delicados devem garantir que seus servidores tenham condutas sensíveis, com capacidade maior de escuta, de equilíbrio emocional, e que, em paralelo, ajam com firmeza na condução de investigações e na punição de agressores”.
E foi exatamente por ter se deparado, à época, com recepção oposta à descrita por Giselle que Manu murchou. E, um mês depois da ocorrência que mais marcou negativamente seu corpo e da ocorrência que não acolheu suas marcas, uma irmã de Manu, outra, a mais velha, percebeu nela uma profunda tristeza, e intermediou sua saída de casa. “Ela me notou. Eu estava entre meu trabalho, a mudez, a infelicidade e a minha cama. Eu era só sofrimento”, declara Manu.
se destrói, deve ser destruído
Manu conta que é devastador crescer sem se ver representada, sem ouvir que aquilo que você sente é válido. Ela diz ser cortante ter que esconder partes de si para caber em espaços que nunca foram pensados para você.
A solidão da mulher lésbica é vasta. E ela ainda existe em mim. Só que, agora, existe de outra forma, transformada em resistência, uma vez que a entendo como construção social, e não natural.
Manu Rocha
foto: lia de paula | manu rocha
Sólida, mas não solitária, a compreensão de Manu se avizinha a uma postura que foi determinante para a vida de Vanja Fontenele, desembargadora do Poder Judiciário cearense. Há pouco mais de 30 anos, Vanja recebeu um diagnóstico de Lúpus, logo após uma prima ter falecido por causa da doença.
“O momento do diagnóstico foi o mais perturbador da minha vida”, lembra, acrescentando: “simplesmente, desabei, minha filha mais nova tinha apenas cinco anos de idade”. Vanja recorda de ter minguado, por uns dias. E de, logo em seguida, olhar para a realidade e pensar: “se isso foi posto sem que eu tivesse escolha, o que farei com isso terá um comando meu”.
Para Vanja, conseguir conduzir aquela passagem de sua vida com objetividade, pensamento e vibração positivos foi determinante para seu processo de cura. “A minha decisão de que eu não iria amofinar transformou o que estava posto. Esse foi um raciocínio que, simplesmente, inundou minha cabeça, meu corpo inteiro, minha vida. E foi a partir disso que meu tratamento engrenou, que as taxas do Lúpus começaram a regredir. E, hoje, ele está remido”, conta Vanja, decisiva e emocionada.
Vanja entende que sua cura foi trazida pela firmeza e a compreensão lógica com as quais encarou aquilo, junto à vasta vontade de ver seus filhos crescidos. Hoje, aos 67 anos, não só testemunha a vida dos três filhos, como se vê eternizada pelos quatro netos e pelas seguintes aspas que, segunda ela, também regem seus passos profissionais: “ser alegre, forte, fazer o que deve ser feito e tentar manter a mente o quanto menos tomada por aquilo que não é seu é transformador e nos mantém vivos”.
“ ocupar espaços sem pedir licença é libertador ”
Amor e acolhimento reconstroem e preenchem ao ponto de conseguirem tanger mágoas que, por tempos, transbordavam esvaziamentos. É o que garante Manu. “Minha reconstrução é iniciada, de fato, quando eu conheci meu primeiro amor. E eu sorrio sempre que falo sobre isso. Esse amor me deu um lar. Um lar com sogra, tias, cachorrinho e gatos. Esse amor me deu um lugar de pertencimento, me propiciou acessos e me ensinou que para termos direitos precisávamos ir às ruas lutar por isso”, enumera Manu, de fato, sorrindo.
Manu foi retirada da escola por algumas vezes e, só mais tarde, com amor e acolhimento, caiu em si: “preciso voltar a estudar!” Voltou. Fez sua primeira graduação: Administração. Ampliou horizontes e, principalmente, reconheceu-se como mulher inteligente, capaz e também entendeu que era possível construir uma família dentro do seu padrão”, esboça Manu.
Ela foi tirada da miséria intelectual e financeira e foi reconhecendo a rocha que nunca havia enxergado nela. Manu conta que passou a viver inteira, e não à mercê de autodefesa. Permitiu-se viver, desejar e sonhar. Sua identidade deixou de ser marcada só pela dor ou pela luta, e passou também a ser atravessada pelo prazer, pelo afeto e pela liberdade de ser quem se é. “Passei a ser sem precisar me justificar o tempo todo. Passei a ocupar espaços sem pedir licença…É libertador”.
a nós pertence até que se vá
Depois de 13 anos atuando como delegada, no Interior do Ceará, fazendo gestão, operacional e investigando crimes das mais diversas naturezas, Giselle Martins foi convidada, há três anos, para assumir sua atual missão profissional. A delegada Giselle está à frente de uma das maiores delegacias do Estado, a que tem o maior registro de ocorrências e inquéritos de investigação, responsável por apurar crimes de violência sexual sofridos por todas as cearenses, fora e dentro do contexto doméstico. Ao ser abordada sobre como reage, emocionalmente, diante da constante proximidade de tantos casos de violência, Giselle atesta: “Não podemos nos abalar nem deixarmos de nos sensibilizar… Esta é uma das orientações mais constantes que repasso à minha equipe. O volume de vítimas que nos procura é alto. Os casos são devastadores, mas não nos podem devastar”.
Giselle observa que grande parte das mulheres chega às delegacias sem conseguir identificar todas as violências sofridas. “Muitas procuram ajuda pela violência física, mas, ao começarem a narrar suas histórias, percebemos humilhações, isolamento, controle, ameaças e manipulações que já configuravam violência psicológica”, explica. Segundo ela, quando a agressão física acontece, geralmente outras formas de violência já atravessaram aquela relação há muito tempo.
Segundo ela, estar bem, com saúde mental estabilizada é conduta decisiva para o bom desempenho das atividades de sua equipe. E faz questão de acrescentar: “inclusive, a Academia Estadual da Segurança Pública realiza constantes qualificações junto aos servidores que atuam com violência contra a mulher. Além disso, temos um órgão específico que trata da saúde mental dos policiais”.
Raciocínio aparentado ao de Giselle salta da desembargadora Vanja: “no momento em que eu estou lidando de perto com o caso, às vezes, eu preciso parar e fazer uma meditação, uma respiração, uma oração. Mas… Passado o julgamento, o caso deixa de pertencer a mim. Consigo não o acomodar mais em mim. Coletivamente, judicialmente, socialmente, por um período, ele é meu. Encaminhado o caso, sigo pra frente, sem o caso, em absoluto. Talvez, como diz meu marido, este meu funcionamento se deva a um sentimento de missão integralmente cumprida”.
Mesmo assim, Vanja admite que algumas histórias permanecem. Entre elas, a de uma mulher que matou o marido após sofrer agressões constantes dentro de casa. A desembargadora recorda o caso sem romantizar a tragédia, mas reconhecendo a dimensão humana presente em processos atravessados pela violência doméstica. “Lembro como um fato, um forte e marcante fato, sem que o fato me incida uma dor capaz de paralisar”, pontua.
E o trabalho de terapia ressaltado pela delegada Giselle como fundamental em espaços tocados pela complexidade de violências cometidas contra a mulher aparece, vibrante, na vida de Manu, quando, alavancada pelo amor, também se forma em Psicologia. A área em que ela atua hoje deixa de ser só uma escolha profissional quando começa a atravessar sua própria história. “Comecei a perceber teorias atravessando meus silêncios e tudo o que eu havia vivido. Daí, passei a conseguir dar nome às minhas dores. E foi quando a Psicologia virou também instrumento para minha própria reconstrução”, explica.
reconstrução em rede
À Manu, a Psicologia ofereceu coragem, além de linguagem. A coragem para encarar o que foi difícil, para reconhecer os impactos das vivências que a
PARA ALÉM DA DENÚNCIA, MULHERES DEFENDEM REDES CAPAZES DE RECONSTRUIR AUTONOMIA, SENTIDO E PERTENCIMENTO.
acometeram e, principalmente, para ressignificar o que, por muito tempo, ficou guardado, moendo sua existência. Manu conta que, hoje, consegue olhar para as experiências não só como marcas, mas como parte de quem ela é. “E isso muda tudo, porque, quando a gente nomeia, a gente também se liberta um pouco do peso de carregar tudo sozinha”, arremata.
No TJCE, Tribunal de Justiça do Ceará, Vanja Fontenele também preside a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar. Uma gestão que, segundo Vanja explica, tem movimento em rede, com frentes múltiplas, com os mais variados órgãos públicos e da camada civil. Mas, sobretudo, é uma gestão que envolve os homens, chamando-os às mudanças, focando na conversão de atos machistas.
Para Vanja, a abordagem do caso em si, do processo em si é fundamental, “óbvio, mas não vai resolver a criminalidade”. As falas e atuações de Vanja explicitam, muito firmemente, que condenar uma pessoa por homicídio, por feminicídio não resolve, por si só, o problema social, por ser essa uma mazela que só caminha para resoluções reais quando a sociedade inteira é instigada a não violência.
“Minha atual área de atuação segue muito o fluxo do social. E me preocupa ver, por exemplo, jovens crescidos com espírito de dominação da mulher. Isso me preocupa ao mesmo tempo que me instiga. Situações desse porte precisam ser combatidas na coletividade, pensando, criando projetos, juntando pessoas e instituições”, reforça Vanja.
Para ela, enfrentar a violência contra mulheres sem envolver os homens é insuficiente. “Nenhum menino nasce agressor. Mas todos podem se tornar agressores”, reflete. Ela acredita que padrões de dominação masculina continuam sendo reproduzidos culturalmente e que romper esse ciclo exige participação coletiva, educação e transformação social contínua. “Eu trabalho para que os filhos dos meus filhos possam viver uma realidade diferente”, afirma a desembargadora.
E acrescenta que, neste sentido, a coordenadoria já fomenta algumas ações, a exemplo do “Arte para Transformar”, “Respeito é o Melhor Exercício”, “Respeito é um Gol de Placa” e do “Entre Linhas”. Todas são ações educativas, formativas, que propõem pactos transformadores e que, de mãos dadas com a arte, com o empreendedorismo, com a busca pela autonomia financeira, têm entrado em comunidades vulneráveis, unidades educativas, núcleos esportivos, numa contribuição ao fim das tantas formas de abuso e controle das mulheres.
Dos registros apurados, um de Giselle Martins conta que ações assim em rede já vêm desarranjando, consideravelmente, armadilhas sociais montadas pela estrutura patriarcal, aquela que massacra e marginaliza a mulher.
“Tudo bem, tá, eu concluí o inquérito policial, o agressor foi condenado, e aí? Aí que, como bem pontuou a
desembargadora, sem uma rede não dá pra combater a violência doméstica. Essa é uma complexidade que precisa ser combatida em rede. E isso é muito bem apontado pela Lei Maria da Penha. Ver movimentações assim tem me animado. Cada vez mais, tenho visto os mais diversos órgãos entendendo que não há outro caminho possível, só há esse”, registra a delegada.
E, após tal registro, pensamos sobre a trajetória de Manu Rocha. E como o percurso de uma só pessoa pode ter elementos que incentivem multidões. Manu inicia formação política ao entender que era necessário ocupar espaços para que sua voz fosse ouvida. Compreender, por exemplo, o quanto o corpo lésbico é reduzido a estereótipos como o da mulher que não terá filhos fez Manu enxergar o quanto mulheres feito ela não eram vantagem para o patriarcado.
“Sapatonas são colocadas à margem de um sistema que nos apaga, mesmo estando vivas. E, quando eu entendi que minha voz tinha potência para ocupar e tencionar espaços, decidi fazer um uso consciente e comprometido dela”, proclama Manu. Para ela, o que faz diferença real é aquilo que tira a mulher da solidão, porque a reconstrução não é um projeto individual.
violência em novos espaços
Giselle Martins fez questão de destacar que o campo de atuação do agressor foi ampliado, não se restringindo mais ao contato direto entre ele e a vítima. “Manipulações, perseguições, chantagens, comportamentos obsessivos chegam, hoje, a vítimas também via aplicativos, mensagens, redes sociais”, narra a delegada.
Mas, junto a isso, a medida protetiva também se renovou, foi ampliada, visando, exatamente, contemplar essa possibilidade. “E, duas coisas, acho bom que se liguem: stalk passou a ser crime e muita gente se engana ao achar que é mais difícil de a gente detectar o crime digital, por ele não ter cara, mas não! A tecnologia tem nos dado vastas possibilidades, e agressores digitais, hoje, são mais facilmente detectados”, amedronta Giselle.
Nenhum menino nasce agressor. Mas todos podem se tornar agressores.
Vanja Fontenele
foto: lia de paula | vanja fontenele
A delegada conta que, às vezes, o que dificulta o trabalho de investigação é o apagamento de provas por parte da vítima. Ela quer tanto se ver livre daquela importunação, que finda, por muitas vezes, não preservando provas, apaga mensagens, exclui contatos. “Além disso, a criação, no Ceará, de uma delegacia especializada no combate a crimes cibernéticos é outro ponto muito positivo pras nossas investigações”, avisa Giselle.
As mulheres que tramam esse entrelaçado concordam que, como os espaços de violência contra a mulher também se reinventaram, ter uma rede potente não é só ter gente por perto: é ter suporte que se sustente na prática e no afeto ao mesmo tempo; é ser ouvida sem julgamento; é ter estrutura institucional que acolhe sem revitimizar; é ter ações concretas não só para lidar com o que aconteceu, mas para reorganizar sentido, autonomia e autoestima; é quando a responsabilidade deixa de cair toda sobre as mulheres, e passa a ser compartilhada.
quando o corpo tem voz própria, até o improvável é possível
Manu Rocha, sua mãe e seu pai se reaproximaram, durante a pandemia por Coronavírus. Antes disso, se falavam, mas sem proximidades. Mãe e pai, hoje, são pastores. Nunca conversaram sobre a violência dirigida à Manu.
Manipulações, perseguições, chantagens, comportamentos obsessivos chegam, hoje, a vítimas também via aplicativos, mensagens, redes sociais.
Giselle Martins
“No final do ano passado, escutei do meu pai: ‘eu odeio esse tipo de gente’, referindo-se às pessoas com quem eu ando, minha militância, ou seja, eu sou o que ele chamou de ‘tipo de gente que odeia’”, narra Manu.
De todo modo, Manu conta que têm conseguido manter boa relação e ajuda diária mútua. “Nós nos amamos”, descreve ela. Mas existe um silêncio sobre a sexualidade de Manu. “E está tudo bem… Eu sou uma pessoa pública, todos sabem quem eu sou. E, principalmente, eu sei quem me tornei e quem sou”, atesta.
Ao longo desses anos, desde que Manu Rocha se posicionou enquanto lésbica, sua rede afetiva vasta se tornou sua família, a família que ela escolheu. E é com essa rede que Manu se despedaça sem medo.
Na trama costurada por elas, Vanja Fontenele ajuíza que “nenhuma mulher precisa ter todas as respostas para abandonar aquilo que já a destrói”, enquanto Giselle Martins delega que “romper é um ato corajoso, mesmo quando as mãos tremem”, ao passo que Manu sapateia, por aí, em monstros, “até porque, ficando distante um pouco, se percebe a grandeza de se ver de fora”.
Cuidar de quem cuida transforma vidas
Lia de Freitas
PRIMEIRA-DAMA DO CEARÁ, PRESIDENTE DO COMITÊ DO CEARÁ
SEM FOME. ADMINISTRADORA, MESTRE EM POLÍTICAS PÚBLICAS (UECE), ESTUDANTE DE MEDICINA (UNIFOR), SERVIDORA PÚBLICA
HÁ MAIS DE 20 ANOS E COORDENA UMA DAS MAIORES AÇÕES DE COMBATE À FOME DO PAÍS, COM RECONHECIMENTO NACIONAL
A fome no Brasil tem gênero, raça e território. Dados do IBGE, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e na PNAD Contínua, mostram que a insegurança alimentar atinge com mais força os lares chefiados por mulheres, especialmente mulheres negras e com menor escolaridade. No Ceará, essa realidade também se apresenta. São essas mulheres que enfrentam, no dia a dia, os maiores desafios — mas são também protagonistas das soluções. A experiência das políticas públicas demonstra que ações de transferência de renda e segurança alimentar são mais efetivas quando direcionadas a elas, que transformam recursos em alimento, cuidado e proteção para suas famílias.
É a partir desse entendimento que se estrutura o Programa Ceará Sem Fome, política permanente do Governo do Estado voltada ao enfrentamento da insegurança alimentar. Mais do que garantir comida na mesa, o programa reconhece e fortalece o papel de quem sustenta e organiza a vida dentro dos lares: as mulheres.
Atualmente, o Ceará Sem Fome conta com mais de 1.300 cozinhas distribuídas em todo o estado, responsáveis por cerca de 130 mil refeições diárias. A maioria dessas cozinhas é liderada por mulheres, que atuam não só na produção dos alimentos, mas também na construção das redes de solidariedade em seus territórios. O programa apoia cerca de 2.600 agentes populares de segurança alimentar, em sua maioria mulheres. Entre o público atendido, 57,4% são mulheres, evidenciando como elas estão no centro tanto das vulnerabilidades quanto das respostas.
O Cartão Ceará Sem Fome, que assegura R$ 300 mensais para a compra de alimentos, beneficia cerca de 50 mil famílias, sendo 95% chefiadas por mulheres. É uma estratégia que reforça o que já apontam as evidências: investir nas mulheres amplia o alcance e a efetividade das políticas públicas.
No eixo +Qualificação e Renda, mais de 32 mil pessoas já foram capacitadas, sendo 83,5% mulheres. Esse dado revela a força de quem busca autonomia e novas oportunidades, impactando diretamente suas famílias e comunidades.
Fortalecer políticas públicas com foco nas mulheres é uma estratégia concreta de enfrentamento da fome e da pobreza. O Ceará Sem Fome reafirma esse compromisso: cuidar de quem cuida, promovendo dignidade e construindo caminhos reais de transformação social.
Liderança feminina: força que potencializa resultados
SUPERINTENDENTE DO RIOMAR KENNEDY, ADMINISTRADORA COM MAIS DE 25 ANOS DE EXPERIÊNCIA EM MARKETING. ATUOU NOS SHOPPINGS JARDINS, SALVADOR NORTE E RIOMAR FORTALEZA. É PÓS-GRADUADA EM INTELIGÊNCIA DE MERCADO PELA SAINT PAUL, TEM CERTIFICAÇÃO INTERNACIONAL PELA ESPM E CURSA PSICOLOGIA NA UNIFOR.
Há muito tempo vemos o avanço das mulheres em espaços de liderança, ainda que em passos mais lentos do que deveriam. Ter mais mulheres em cargos de poder é uma questão de justiça moral e econômica. Acredito que mulheres em cargos de gestão contribuem diretamente para resultados mais eficientes e para a melhor performance das empresas.
Eu, particularmente, tenho um compromisso grande com os resultados nas empresas em que atuo. Busco constantemente conhecimento para alcançar metas, analisar indicadores e transformar números em estratégias eficientes.
A presença feminina no ambiente corporativo contribui tanto para potencializar resultados quanto para fortalecer um modelo de gestão mais sensível às relações. Diante disso, penso que três características são fundamentais para o sucesso de uma liderança: inteligência emocional, empatia e capacidade de fazer com que todos caminhem em direção ao mesmo propósito.
A inteligência emocional é indispensável para lidar com diferentes perfis, opiniões e desafios do cotidiano. O papel da liderança não é determinar exatamente como alguém deve trabalhar, mas entender como potencializar seus pontos fortes e ajudar cada pessoa a sair do ponto A para o ponto B, elevando seu nível de entrega e desenvolvimento.
A empatia do líder também ocupa lugar central nesse processo. Durante muito tempo, o mercado corporativo repetiu a máxima: “trate as pessoas como você gostaria de ser tratado”. Hoje, a meu ver, o correto é tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas. Isso exige interesse genuíno pelo outro, escuta ativa e habilidade para se comunicar com pessoas de diferentes níveis sociais e culturais.
Nesse caminho, o líder tem o poder de estimular o crescimento, incentivar a educação e promover o desenvolvimento humano e profissional. Tenho investido muito na formação da minha equipe, hoje composta por mais de 200 pessoas. A semente está sendo plantada para que, em breve, possamos colher os frutos por meio do Programa Educa, que idealizei.
Minha intenção é, sobretudo, deixar um legado, porque acredito que todas as pessoas que passam pela minha equipe devem sair mais preparadas. Tenho orgulho de ver inúmeras delas alcançando voos mais altos e ocupando cargos de destaque.
Por fim, como líder, estou em constante transformação. Aprendo diariamente com as vivências e com cada experiência construída com o outro. Liderar é compreender que ninguém cresce sozinho e que o propósito só se concretiza quando todos caminham juntos.
Michele Ribeiro
A Justiça está pronta para o protagonismo feminino?
Ana Vládia Gadelha Mota
PROMOTORA DE JUSTIÇA DO ESTADO CEARÁ, MESTRE EM PLANEJAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PELA UECE E PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO
CEARENSE DO MINISTÉRIO PÚBLICO (ACMP).
A consolidação do Estado Democrático de Direito exige instituições não apenas sólidas, mas plurais e representativas. Nesse contexto, a presença feminina nos espaços de liderança do sistema de Justiça revelase não só uma conquista histórica, mas um fator determinante para o aprimoramento das instituições.
Durante muito tempo, o ingresso das mulheres nas carreiras jurídicas foi tratado como exceção e sua atuação frequentemente acompanhada de adjetivos que, embora elogiosos, carregavam um subtexto limitador: Sensibilidade, delicadeza, vocação para o cuidado. Essa narrativa, ainda presente, não mais reflete o impacto real da presença feminina no sistema de Justiça.
O debate atual já não se restringe ao número de mulheres nos cargos, mas ao que efetivamente muda quando elas ocupam esses espaços. A presença feminina não pode ser analisada apenas sob a ótica quantitativa, mas uma mudança qualitativa, que desafia modelos tradicionais de poder e introduz novas dinâmicas institucionais. Mulheres não apenas chegam. Elas reorganizam prioridades, ampliam agendas e reposicionam o próprio sentido da atuação jurídica.
Essa transformação não se resume a uma atuação supostamente mais humanizada. A presença feminina questiona o formalismo excessivo, reduz distâncias historicamente naturalizadas e impõe uma Justiça mais conectada às complexidades contemporâneas.
Ainda assim, a ocupação dos espaços de liderança por mulheres ainda é tratada como resultado de concessões, quando, na realidade, decorre de trajetória e preparo. Naturalizar a presença feminina nesses espaços, talvez seja um dos maiores desafios culturais do sistema de Justiça.
A provocação é inevitável: o sistema de Justiça está preparado para ser transformado por essas presenças? Não se trata apenas de garantir acesso, mas de reconhecer que as mulheres, uma vez nesses espaços, não reproduzem necessariamente os mesmos modelos históricos de poder e gestão.
A força feminina no sistema de Justiça reside na capacidade de redefinir caminhos. Essa transformação não admite retrocessos, nem pode ser tratada como pauta secundária. Trata-se do aperfeiçoamento das instituições e do respeito aos valores constitucionais que devem orientar a atuação estatal.
Liderança Feminina que Gera Resultado
Ana Paula Falcão
DIRETORA DE DESENVOLVIMENTO HUMANO E ORGANIZACIONAL DO GRUPO MSLZ, COM MAIS DE 30 ANOS DE ATUAÇÃO EM GESTÃO DE PESSOAS. LIDERA AS ÁREAS DE RH, ESG E COMUNICAÇÃO, COM FOCO EM CULTURA ORGANIZACIONAL, DESENVOLVIMENTO DE LIDERANÇAS E CONEXÃO ENTRE PESSOAS E RESULTADOS.
Nunca se falou tanto sobre liderança feminina. Mas ainda falamos pouco sobre onde ela transforma o negócio — e essa transformação já acontece há muito tempo no Recursos Humanos.
Historicamente ocupado por mulheres, o RH sempre foi associado ao cuidado, à escuta e ao desenvolvimento de pessoas. São características fundamentais, mas que, por muito tempo, foram interpretadas como sinais de menor impacto estratégico. O resultado foi uma área relevante, porém subestimada, e uma liderança feminina presente, mas nem sempre reconhecida como protagonista nas decisões de negócio.
Ao mesmo tempo, os dados mostram um cenário desigual. No Brasil e no mundo, as mulheres avançaram na força de trabalho, mas seguem sub-representadas nos cargos de liderança. Ou seja, presença não significa, necessariamente, poder de decisão.
Quando olhamos para a realidade das empresas, no entanto, já é possível perceber movimentos concretos de mudança. Em nossa organização, as mulheres representam 42% do quadro total, ocupam 28% das posições de liderança e já são 50% na liderança estratégica. Estão presentes, inclusive, em áreas historicamente consideradas masculinas, como logística, comercial, prevenção de perdas e operações de loja, além de controladoria, marketing, qualidade e RH.
Esse avanço não é apenas simbólico. Ele está ligado à forma como as organizações vêm evoluindo. A complexidade dos negócios exige líderes capazes
de integrar pessoas, cultura, dados e resultados. É nesse ponto que a liderança feminina no RH ganha força, ao conectar experiência do colaborador com produtividade, cultura com performance e decisões com impacto sustentável.
O que antes era visto como “cuidado” passa a ser entendido como inteligência de gestão.
Ainda assim, persiste um desafio. O RH, assim como a liderança feminina, ainda luta para consolidar seu espaço como eixo central das decisões estratégicas. Romper essa barreira exige mais do que ampliar presença: exige intencionalidade na ocupação de espaços de poder e clareza sobre sua contribuição para o resultado do negócio.
O futuro das organizações passa por essa integração. Empresas mais competitivas serão aquelas capazes de transformar diversidade em capacidade de execução. Nesse cenário, a liderança feminina no RH deixa de ser apenas uma pauta de equidade para se afirmar como vantagem estratégica.
Porque, no fim, quando mulheres lideram pessoas com visão de negócio, não estamos apenas ampliando vozes femininas. Estamos ampliando resultados.
Liderar também é abrir passagem
Ana Hilda Randal
EXECUTIVA DE MARKETING DA ZENIR MÓVEIS COM ATUAÇÃO EM TECNOLOGIA, VAREJO E MEIOS DE PAGAMENTO. ESPECIALISTA EM ESTRATÉGIAS INTEGRADAS, BRANDING E CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL, LIDERA EQUIPES MULTIDISCIPLINARES COM FOCO EM INOVAÇÃO, PERFORMANCE E TRANSFORMAÇÃO DIGITAL.
Aos quinze anos, decidi que seria publicitária. Em casa, a reação dos meus pais foi dizer que eu “morreria de fome". Mas, em vez de voltar atrás, enchi-me de determinação para superar barreiras e crescer. Comecei cedo, assim que entrei na faculdade, aos 18 anos. Construí minha trajetória em agências de publicidade e em setores de marketing entre Fortaleza e São Paulo, aprendendo, na prática, que comunicar nunca foi apenas fazer campanha ou exercitar a criatividade, mas mover crescimento para negócios, posicionamento e impacto real.
A correria e as inúmeras demandas da publicidade foram, talvez, a parte mais fácil da jornada. Afinal, sou apaixonada pelo que faço. O maior desafio foi ocupar espaços de liderança em um mercado que, por muito tempo, naturalizou homens no centro das decisões e mulheres na execução. Não digo isso com amargura, mas com lucidez, porque essa ainda é uma experiência comum para muitas mulheres.
Existe um desafio silencioso nessa trajetória: ser firme sem ser lida como arrogante. Defender uma visão com segurança e, ao mesmo tempo, escolher milimetricamente as palavras. A maioria das mulheres em posição de liderança ainda convive com essa régua desigual. Precisamos entregar resultado, construir credibilidade e administrar percepções com um cuidado que raramente é exigido dos homens da mesma forma.
Também houve o desafio de conciliar carreira e maternidade. Por muito tempo, vivi a ponte aérea Fortaleza–São Paulo por causa do trabalho, equilibrando agenda, entregas, cansaço, saudade e culpa. Ser mãe e executiva exige uma inteligência emocional que não aparece no currículo, mas molda profundamente nossa força, resiliência, empatia e liderança.
Hoje, olho para a minha jornada com gratidão e alegria. Cada experiência, cada esforço para mostrar que o marketing não é acessório, mas motor de crescimento; cada sala em que fui a única mulher na mesa; cada vez que precisei me posicionar. Tudo isso me preparou para a cadeira que ocupo hoje. Sou muito realizada por estar em uma empresa onde tenho espaço para inovar, realizar e ser ouvida.
Sigo com a certeza de que ainda há muito por vir. Mas também com a segurança de que, agora, o mais importante é transformar caminho em passagem. Abrir espaço para tornar a jornada de outras mulheres um pouco menos dura do que foi para tantas de nós. Que saibamos fortalecer pontes para que muitas outras mulheres tenham espaço de fala, poder de decisão e oportunidade de brilhar.
Quando políticas mudam vidas de mulheres
Jade Romero
VICE-GOVERNADORA DO CEARÁ. ATUA NA PROMOÇÃO DE POLÍTICAS
PÚBLICAS VOLTADAS À PROTEÇÃO SOCIAL, COM FOCO EM MULHERES, JUVENTUDE E INCLUSÃO, TRABALHANDO PARA AMPLIAR DIREITOS E OPORTUNIDADES PARA A POPULAÇÃO CEARENSE.
Falar de políticas públicas para mulheres é falar de realidade. É olhar para o dia a dia de quem trabalha, cuida, empreende, estuda e, muitas vezes, acumula funções sem o devido reconhecimento. É também reconhecer que ainda existem desigualdades que precisam ser enfrentadas com seriedade, responsabilidade e ação contínua.
As mulheres são protagonistas em diversas áreas, mas ainda convivem com desafios que vão desde a sobrecarga do cuidado até a violência de gênero e a desigualdade no mercado de trabalho. Por isso, políticas públicas voltadas para as mulheres não são apenas necessárias, são urgentes.
Quando investimos em proteção e ampliamos redes de atendimento, fortalecendo mecanismos de enfrentamento à violência, estamos salvando vidas. Garantir acesso à qualificação profissional, ao crédito e à autonomia econômica abre caminhos para que mais mulheres possam decidir sobre seus próprios futuros. Ampliar o acesso à educação, à saúde e ao cuidado é promover dignidade.
No Ceará, temos avançado com ações que integram diferentes áreas, porque entendemos que o cuidado precisa ser visto de forma ampla. Equipamentos de acolhimento, programas de geração de renda, iniciativas de prevenção à violência e políticas de proteção social caminham juntos para garantir mais segurança e qualidade de vida.
Além disso, é fundamental garantir que essas políticas cheguem a todas as mulheres, respeitando suas diferentes realidades. Olhar para quem vive nas periferias, no campo ou em situação de maior vulnerabilidade é essencial para construir soluções mais eficazes e inclusivas.
Esse é um desafio coletivo. Construir uma sociedade mais justa passa por reconhecer o papel das mulheres e garantir acesso a direitos e proteção. É um compromisso que precisa envolver o poder público, instituições e toda a sociedade.
Fortalecer políticas públicas para as mulheres é fortalecer famílias, comunidades e o futuro do nosso estado. É também construir um desenvolvimento que chegue a todas, com equidade, respeito e dignidade. Porque não existe sociedade justa enquanto mulheres ainda precisarem lutar pelo básico: viver com segurança, autonomia e respeito.
E isso passa por escolhas consistentes, continuidade das ações e compromisso permanente com quem mais precisa. Políticas públicas bem construídas não são apenas respostas imediatas, mas caminhos duradouros para transformar realidades e garantir que mais mulheres possam viver com dignidade.
Dança que projeta futuros
BAILARINA, COREÓGRAFA E DIRETORA GERAL DO INSTITUTO KATIANA PENA (IKP).
A dança é uma linguagem que ultrapassa palavras. É gesto, presença e narrativa viva. Em cada movimento, existe uma história sendo contada, uma história que não encontraria espaço em outros meios. Por isso, quando chega às periferias, a dança não é apenas arte: torna-se uma possibilidade concreta de transformação social e pessoal.
Para jovens em contextos de vulnerabilidade, o acesso à dança pode representar o primeiro contato com um universo de expressão, disciplina e pertencimento. Em ambientes onde as oportunidades são frequentemente limitadas, o corpo em movimento abre caminhos, reorganiza perspectivas e amplia horizontes. A prática ensina sobre escuta, respeito ao coletivo, responsabilidade e, sobretudo, sobre reconhecer o próprio valor.
A dança transforma a forma como esses jovens se percebem no mundo. Ao ocupar um palco, passam a experimentar visibilidade e protagonismo. Nesse sentido, a arte não apenas revela talentos, mas fortalece identidades e reposiciona expectativas. Ela mostra que é possível sonhar, planejar e construir trajetórias que antes pareciam inalcançáveis.
Nesse processo, o papel dos projetos sociais e instituições é essencial. São eles que garantem acesso, continuidade e estrutura para que a dança deixe de ser uma experiência pontual e se torne uma jornada consistente. Com orientação, esses espaços potencializam habilidades e oferecem suporte para que os jovens permaneçam engajados, ampliando suas possibilidades dentro e fora do universo artístico.
Quando olhamos para as meninas, esse impacto ganha ainda mais profundidade. Em muitos contextos periféricos, onde famílias são majoritariamente chefiadas por mulheres e mães que encontram no trabalho doméstico uma das poucas alternativas, a dança e a arte surgem como caminhos para romper essa lógica. Elas ampliam horizontes e oferecem novas possibilidades de futuro, além do papel historicamente imposto de cuidadoras do lar.
Investir na dança é investir em desenvolvimento humano e social. É reconhecer que a arte desempenha um papel essencial na formação de cidadãos mais sensíveis, críticos e conscientes do seu lugar no mundo. Levar a dança às comunidades não apenas democratiza o acesso à cultura, mas também cria redes de apoio e pertencimento que impactam diretamente na construção de novas realidades.
Porque, no fim, dançar também é um ato de resistência. É afirmar a própria existência, ocupar espaços historicamente negados e transformar histórias. Um passo de cada vez, com ritmo e coragem.
Katiana Pena
O protagonismo feminino na sociedade da perfomance
Anna Carolina Vazzoler
PSICÓLOGA E ADMINISTRADORA, MESTRE EM ADMINISTRAÇÃO, PÓSGRADUADA EM PSICANÁLISE
O conceito de protagonismo feminino, quando analisado à luz da sociedade da performance, revela uma tensão estrutural que merece ser examinada com cuidado.
A sociedade contemporânea, conforme descrita por Byung-Chul Han em sua obra “A sociedade do cansaço”, desloca o eixo da disciplina para o desempenho: o sujeito já não é apenas controlado por normas externas, mas passa a se autoexplorar em nome de produtividade, visibilidade e reconhecimento. Nesse contexto, o protagonismo feminino emerge, à primeira vista, como um avanço — uma ampliação do espaço de fala, ação e poder das mulheres em diversas esferas sociais.
No entanto, essa emergência num contexto que tem uma lógica que transforma toda conquista em exigência. O que antes era reivindicação política — ocupar espaços, romper barreiras, ter independência — pode ser capturado pelo olhar da performance e convertido em imperativo: a mulher deve não apenas participar, mas se destacar continuamente, performar excelência, conciliar múltiplos papéis e ainda sustentar uma narrativa de realização plena. Ah, e claro que, acima de tudo, manter o corpo dentro dos padrões de beleza esperados (“deixa de preguiça e vai malhar, mulher!”). O protagonismo, assim, corre o risco de deixar de ser uma possibilidade emancipatória para se tornar mais uma camada de cobrança.
Desta forma, se, por um lado, o protagonismo feminino é condição necessária para enfrentar desigualdades estruturais históricas; por outro, ao ser absorvido pela lógica da performance, pode reproduzir formas mais
sutis de opressão, agora internalizadas. A figura da “mulher que dá conta de tudo” — profissional bemsucedida, emocionalmente equilibrada, socialmente engajada — funciona como ideal normativo que, embora pareça empoderador, opera como dispositivo de intensificação da autoexigência.
Portanto, a relação entre protagonismo feminino e sociedade da performance não é linear nem exclusivamente positiva. Trata-se de uma relação ambígua: o mesmo movimento que amplia possibilidades, também pode estreitar o campo da experiência ao impor novos padrões de sucesso. Um protagonismo verdadeiramente crítico exigiria, então, não apenas ocupar espaços, mas questionar as próprias regras do jogo — recusando a equivalência entre valor e desempenho e abrindo margem para formas de existência que não estejam subordinadas à lógica exaustiva da produtividade.
a alma
Entre filtros, protocolos estéticos e violências antigas, mulheres seguem negociando o direito de existir nos próprios corpos. Aos 64 anos de idade, Marta Aurélia insiste em permanecer visível. E transforma o envelhecimento em gesto político.
EU NÃO
MORRI!
se aposenta
Diz Marta Aurélia. Diz, e não cansa de protestar: “eu não morri!”. Diz a atriz, cantora, compositora, pesquisadora da voz e do corpo, performer cearense de 64 anos de idade. Em uma sociedade que transforma juventude em valor moral, envelhecer, especialmente sendo mulher, ainda parece um ato de desobediência.
O cabelo branco começou a aparecer primeiro nas laterais. Marta Aurélia decidiu deixá-lo crescer assim mesmo. Não houve manifesto, anúncio público ou ritual de aceitação diante do espelho. Apenas deixou que os fios viessem.
Um dia, caminhando pela Beira-Mar de Fortaleza, ouviu de um homem:
- Já está bom de pintar, né?
Sem hesitar, Marta respondeu:
- Só se for o seu!
Ela ri, ao lembrar da cena. Mas a memória não carrega exatamente humor. Carrega exaustão. Marta parece ter desenvolvido uma espécie de radar para pequenas violências cotidianas. Ela nota que frases assim aparecem em frases ditas como conselho, em olhares que atravessam o corpo feminino depois dos 50, nas roupas que esperam que ela vista, na surpresa que percebe nas pessoas quando entendem que ela continua desejando, trabalhando, criando e existindo.
“Eu não morri”, repete Marta, como quem precisa reafirmar o que diz. Mas, de repente, talvez essa repetição seja o centro de sua disputa por viver sendo exatamente o que ela é. O corpo feminino envelhece em público. E envelhece sendo observado. O corpo da mulher nunca pertence apenas a ela.
Há sempre alguém opinando sobre o peso, a pele, o cabelo, a fertilidade, as rugas, a roupa, o tom da voz, o tamanho da saia, a idade “adequada” para determinados desejos. O envelhecimento apenas torna essa vigilância mais explícita. Quando Marta fala sobre corpo, raramente fala apenas de aparência. Fala de território, de sobrevivência e de memória.
Desde criança, aprendeu que o corpo precisava ser protegido. Cresceu numa casa de quintais conectados, em Banabuiú, no interior do Ceará, perseguida por um homem mais velho que atravessava os espaços da infância como ameaça silenciosa. “Eu entendi cedo que precisava proteger meu corpo”, diz. Mais tarde, imaginou que a idade lhe traria algum tipo de trégua. Não trouxe. “Eu pensava: talvez quando eu ficar mais velha isso pare. Mas não para.” A disputa muda apenas de linguagem.
sofrimento nasce da pele ou da comparação?
A dermatologista Isabela Carvalho conhece bem essa fronteira borrada entre cuidado e pressão estética. Aos 43 anos de idade, médica do Hospital Universitário Walter Cantídio e também de consultório privado especializado em dermatologia clínica e estética, ela ocupa um lugar delicado: o de quem cuida da saúde da pele enquanto atende pacientes atravessadas por padrões impossíveis.
A DERMATOLOGIA
É o que afirma Isabela. No consultório, as queixas se repetem: flacidez, rugas perioculares, manchas, perda de contorno facial, ressecamento. Mas, muitas vezes, o sofrimento não nasce exatamente da pele. Nasce da comparação. “As redes sociais normalizaram rostos filtrados e padronizados como referência estética real”, atesta a médica.
Isabela observa um aumento significativo da ansiedade e da distorção de autoimagem, especialmente em mulheres acima dos 50 anos. Algumas chegam querendo apagar completamente os sinais do tempo. Outras apenas desejam continuar se reconhecendo diante do espelho. “Existe uma diferença importante entre envelhecer com saúde e negar o envelhecimento como fenômeno humano inevitável”, diz.
A frase parece simples, mas desmonta uma indústria inteira. Porque o mercado da beleza não vende exatamente cremes ou procedimentos. Vende permanência. Vende a promessa de continuidade num mundo que transformou juventude em capital social. Envelhecer virou quase uma falha de desempenho. Mas existe também outra camada menos visível dessa disputa: a fronteira confusa entre cuidado e correção.
foto: lia de paula | marta aurélia
cuidado e correção
No consultório, Isabela percebe que nem sempre é simples diferenciar uma demanda legítima de saúde de uma insatisfação construída pela pressão estética. Há doenças reais - rosácea, melasma severo, dermatites, acne persistente, câncer de pele - que interferem diretamente na qualidade de vida. Mas há também sofrimentos produzidos por comparação constante, filtros digitais e expectativas irreais sobre juventude.
É o que afirma a médica. Nem toda marca do tempo pede intervenção. Nem toda angústia encontra solução num procedimento. Segundo Isabela, uma das tarefas éticas da dermatologia contemporânea é justamente resistir à tentação de transformar características humanas naturais em defeitos clínicos.
“Quando existe sofrimento intenso diante de alterações mínimas ou necessidade compulsiva de procedimentos, às vezes o mais responsável é contraindicar”, registra Isabela. Marta menciona a velhice como quem fala numa travessia cheia de ruídos. Há mais de 30 anos, depois de um show que fez na Praia de Iracema, ouviu de um homem “um elogio” que nunca esqueceu: ‘você é uma coroa muito enxuta!’. “Eu tinha 30 anos… Imagina o que essa pessoa, me vendo hoje, diria pra mim.”
Ela percebeu cedo que o etarismo não começa na velhice. Começa no medo da velhice. A mulher aprende rapidamente que existe um prazo silencioso para permanecer desejável, visível e socialmente válida. Depois disso, espera-se uma espécie de apagamento elegante, pelo menos. Uma roupa específica. Um comportamento específico. Um corpo discreto. Uma feminilidade domesticada. Marta nunca coube muito bem nisso.
Ainda assim, nem toda mulher reage ao envelhecimento do mesmo modo. Segundo Isabela relata, chegam mulheres ao consultório que não desejam apagar completamente suas marcas do tempo: “algumas querem conforto, saúde, vitalidade. Não necessariamente transformação.”
E existe algo da experiência de Marta em gesto assim. Não exatamente ausência de vaidade, mas uma recusa em transformar o próprio rosto numa batalha permanente contra o tempo. A médica chama atenção para uma escolha frequentemente invisibilizada, a de não intervir. E sustenta o seguinte:
Uma
mulher que decide não realizar procedimentos estéticos precisa ser acolhida com o mesmo respeito dado àquela que deseja intervir. Não tratar o envelhecimento também é uma decisão legítima.
Isabela Carvalho
foto: lia de paula | isabela carvalho
a menina que ensaiava existir
Existe uma imagem da infância que Marta Aurélia parece guardar como quem protege um segredo antigo. Enquanto a casa seguia o ritmo dos afazeres domésticos e dos muitos irmãos chegando um a um, ela inventava pequenas fugas. Lia escondida de madrugada, quando quase todos dormiam. E passava longos minutos, às vezes horas, dentro do banheiro, diante do espelho, fazendo expressões que ainda não tinham nome.
“Eu ficava treinando caras e bocas”, lembra, rindo da própria memória. “Nem sabia para que era, por que estava fazendo aquilo, mas aquilo me fazia feliz.” Hoje, suspeita que talvez já estivesse ali a atriz, a mulher que aprenderia a transformar presença em linguagem. Marta conta que, dentro de casa, nem sempre havia espaço para aquilo que ela queria ser.
“Na minha família, eu sou a única artista. Eu era a que gostava de ler, a que passava a madrugada acordada”, relata Marta. Não havia exatamente oposição aberta, mas uma espécie de desencontro. Como se seu desejo de existir escapasse do repertório disponível ao redor.
Ela aprendeu cedo a improvisar espaço onde não havia cabimento. Se não existia tempo, inventava horários. Se não havia escuta, inventava silêncio. Se não havia lugar para livros, lia furtivamente. “Para eu ser quem eu sou, tive que trilhar sombras”, diz.
Quando fala sobre autonomia, é raro Marta falar em liberdade como estado permanente. Fala mais de negociação. De insistência. Da tentativa diária de não desaparecer dentro das expectativas alheias. O corpo, para ela, nunca foi apenas matéria biológica. Sempre foi território de invenção. E também de resistência.
“Se eu estou viva, eu existo neste mundo.” Esta frase de Marta vai atravessando toda a entrevista, como um manifesto involuntário. Ela fala da dificuldade de encontrar outras mulheres mais velhas ocupando os seus mesmos espaços artísticos, culturais e afetivos. “Cadê as outras?”, ela diz que é o que mais se pergunta, ao estar na maioria dos espaços ela frequenta.
HÁ ALGO MUITO POLÍTICO
EM CONTINUAR EXISTINDO
DA FORMA COMO SE
DESEJA, QUANDO, DESDE
CEDO, O MUNDO PARECE SUGERIR OUTRO ROTEIRO.
cadê as outras?
O incômodo não nasce apenas da passagem do tempo. Marta diz que envelhecer também tem algo de silenciosamente solitário. Em muitos espaços da cidade, bares, shows, rodas de conversa, apresentações artísticas, ela percebe uma ausência que insiste em reaparecer diante de seus olhos.
A pergunta parece simples, mas carrega uma espécie de desconforto coletivo. Onde estão as mulheres da sua idade? Por que tantas parecem desaparecer dos espaços de convivência, da noite, da circulação cultural, do desejo, da experimentação?
Marta não faz a pergunta como acusação individual. Sabe que há muitas razões atravessando esse afastamento: cansaço, trabalho, cuidado com a família, dificuldades financeiras, saúde, medos acumulados, solidão, violência. Mas suspeita também de algo mais profundo, uma espécie de pedagogia silenciosa ensinando mulheres a diminuírem de tamanho à medida que envelhecem.
Como se houvesse uma idade em que se espera menos presença, menos ousadia, menos movimento. “Eu estou viva. Eu existo nesse mundo”, insiste Marta, como em reivindicação. Não exatamente porque ela se sinta livre das pressões do envelhecimento, mas porque recusa a ideia de que existir socialmente tenha prazo de validade.
A atriz fala do assunto sem romantizar a velhice. Há dias de insegurança. Há conflitos diante do espelho. Há dúvidas sobre o corpo que muda. Mas existe também uma recusa em aceitar que a idade funcione como autorização para o próprio apagamento.
Ela gosta de sair, de trabalhar, de ocupar espaços de arte, de desejar e continuar desejável, ainda que a sociedade frequentemente trate o desejo feminino maduro como algo fora de lugar. “Tenho sonhos, projetos, vontade de fazer coisas”, enumera. “Eu não morri.”
desaparecimento simbólico
A socióloga Mirla Cisne chama isso de coisificação do corpo feminino. Pesquisadora das relações entre corpo, feminilidade, mídia e estrutura social, ela lembra que o controle sobre os corpos das mulheres acompanha a própria história da organização social patriarcal.
“Nosso corpo permanece como território de dominação”, frisa a socióloga. Antes, o controle vinha diretamente ligado à reprodução e à herança. Hoje, ganhou novas formas. Mais sofisticadas. Mais tecnológicas e lucrativas.
Para Mirla:
Há uma predominância da cobrança para correspondermos ao padrão da ditadura da beleza.
Mirla Cisne
Mesmo os discursos contemporâneos de diversidade frequentemente acabam absorvidos pelo mercado. Corpos diferentes “dos corpos permitidos” passam a ser aceitos desde que continuem consumíveis. O capitalismo aprendeu rapidamente a monetizar a autoestima feminina.
Existe uma cena curiosa quando Marta fala sobre feminilidade. Ela hesita. Demora. Parece procurar uma resposta que nunca precisou formular. “Eu nunca fui muito boa de ficar pensando se sou feminina ou não.”
A dificuldade talvez revele justamente uma recusa. Para ela, o feminino nunca coube completamente nos códigos tradicionais.
Há dias de batom vermelho. Há dias sem nenhum batom. Há roupas extravagantes. Há roupas simples. Há performance. Há cansaço. Há desejo. Há contradição. “Eu tenho questões com meu corpo, claro que tenho”, admite. “A primeira pessoa com quem eu debato sou eu mesma.”
A autonomia feminina talvez more exatamente aí: não na ausência de conflito, mas no direito de negociar consigo mesma antes que o mundo negocie por ela. Só que essa autonomia nunca acontece em vazio social. Mirla insiste nisso. Nenhuma escolha estética é totalmente individual, porque nenhuma mulher existe fora das estruturas de poder.
Isabela concorda, ainda que partindo de outro lugar. Para ela, autonomia estética raramente é absoluta. Nenhuma escolha acontece completamente fora da cultura. Existe diferença, explica, entre uma paciente que busca um cuidado coerente com seus valores e bemestar e outra movida por inadequação permanente, comparação excessiva ou pressão externa.
“A autonomia verdadeira pressupõe informação adequada”, diz. Parte importante da consulta, hoje, envolve educação em saúde: explicar evidências científicas, discutir riscos, separar marketing de medicina e desfazer promessas irreais. Nem tudo o que viraliza é seguro. Nem tudo o que parece milagre resiste ao tempo ou à ciência.
Classe, raça, idade e gênero atravessam diretamente a forma como os corpos femininos são julgados. “Numa sociedade patriarcal, racista e etarista, nossa autonomia será sempre relativa”, afirma Mirla. E a frase ecoa o que Marta já havia dito de maneira intuitiva, horas antes: “todos os territórios estão em disputa.” Inclusive o próprio corpo.
Mas o envelhecimento não acontece apenas no espelho. Acontece no metabolismo, no sono interrompido, nas ondas de calor, na libido que muda, na pele que afina, nos músculos que respondem de outra forma ao tempo. Em muitas mulheres, a menopausa chega acompanhada não apenas de sintomas físicos, mas de um sentimento difuso de deslocamento. É como se o próprio corpo, de repente, passasse a falar uma língua desconhecida.
No consultório, Isabela costuma perceber esse estranhamento antes mesmo que ele seja nomeado. E ela conta que, “às vezes a paciente chega dizendo que quer tratar uma mancha ou uma flacidez, mas, na verdade, ela está tentando entender uma transformação maior.
Segundo a médica narra, “o corpo feminino passa por mudanças hormonais importantes e isso impacta pele, cabelo, disposição e autoestima. O problema é quando toda essa experiência é reduzida a uma obrigação de continuar jovem.” Isabela fala sem demonizar os procedimentos: “não se trata de condenar botox, bioestimuladores, lasers ou cremes.” O ponto, insiste ela, é outro: quem está decidindo que a mulher deve fazer ou não fazer? E lança reflexão:
Fazer um procedimento porque aquilo melhora sua relação consigo mesma é diferente de fazer porque você sente que desapareceu socialmente.
A diferença parece sutil. Nem sempre é. Porque existe uma pedagogia silenciosa ensinando mulheres a desaparecerem aos poucos. Primeiro, deixam de ser chamadas de “meninas”. Depois, passam a ouvir comentários sobre “não parecer ter a idade que têm”, como se envelhecer fosse uma falha moral.
Em seguida, surgem os conselhos involuntários: roupa mais discreta, cabelo mais comportado, maquiagem mais leve, menos decote, menos ousadia, menos presença. É como que uma espécie de aposentadoria informal do próprio corpo. Marta Aurélia recusa esse acordo. Não por se considerar livre das inseguranças. Não por ter alcançado algum estágio superior de aceitação.
Mas porque aprendeu que existir também exige insistência. Marta fala do desejo sem constrangimento. Da vaidade sem culpa. Das dúvidas sem vergonha. Diz que ainda debate consigo mesma diante do espelho. Há dias bons. Há dias difíceis. Há dias em que o corpo pesa. Há dias em que dança.
Repete Marta em outro momento da conversa. Muito provavelmente, envelhecer, para ela, tenha algo de profundamente político justamente por isso: continuar ocupando espaço, ao passo que o mundo sugere retração.
Mirla lembra que nenhum avanço feminino veio sem disputa. O direito ao trabalho, ao voto, à sexualidade, à autonomia reprodutiva, ao prazer, à voz pública… Tudo precisou ser arrancado de alguma estrutura de poder. Com o corpo não seria diferente, e garante:
Nosso corpo segue sendo um território em disputa. E disputa não significa derrota inevitável.
No fim da tarde, Marta atravessa a cidade para um ensaio. O cabelo branco está longe de ser anúncio de renúncia, é um indicativo de permanência. Não há heroísmo na cena. Há uma mulher ajeitando a bolsa no ombro, organizando partituras, falas e movimentos honestos (sobretudo com ela mesma).
Há um dia de trabalho, enquanto o corpo - esse mesmo corpo tantas vezes vigiado, corrigido, interpretado pelos outros - continua em indo. O tempo mudou a pele de Marta. Mudou sua velocidade e seus silêncios. Mas não mudou sua presença. O corpo não se aposenta.
foto
O centro é onde estamos
arth3mis
GESTORA DA CASAVOA, NO CURIÓ, É LICENCIADA EM ARTES VISUAIS PELO IFCE. PARTICIPOU DO LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO EM ARTES VISUAIS DA ESCOLA PORTO IRACEMA DAS ARTES (CE, 2022), DA RESIDÊNCIA SERTÃO NEGRO (GO, 2024) E DO PRIS, DO HUB CULTURAL PORTO DRAGÃO (CE, 2025).
A produção artística atual, no que diz respeito a pessoas negras racializadas no Brasil, parte de um lugar de boa representação, de criação de narrativas que fujam dos estereótipos violentos presentes em toda a história da arte. Concordo com o que pontua a professora e autora estadunidense bell hooks, em seu livro Arte na minha mente (1995), quando analisa que, para nós, pessoas negras, a arte é imposta pelo grupo social e economicamente dominante como algo em segundo plano, que não é “necessário para o nosso bem-estar coletivo”. Isso faz com que não sejamos estimulados a refletir, criticar e analisar nossa própria produção e/ ou a produção de terceiros.
A arte, para além da apreciação e de lugar de transmutação para quem a produz, é um espaço de disputa social de imaginários. Ao observar que precisamos dedicar anos de produção à construção de boas imagens para os nossos corpos, percebe-se como o racismo se esgueira pelas mínimas brechas, a ponto de, inconscientemente, cercear as narrativas possíveis para artistas negros e indígenas, minando a nossa subjetividade.
Agora, imagine-se dentro de sua casa, seja ela com poucos ou muitos cômodos, mas com imagens. Suas fotos e quadros pendurados nas paredes, alguns poucos ou muitos álbuns guardados nas gavetas, objetos espalhados pelos móveis, mas que saltam aos olhos ao remeter a alguma memória. Você está em um museu.
Há uma frase do artista visual Mulambö (RJ) que diz: “Não tem museu no mundo como a casa da nossa vó”. Poderia iniciar este artigo comentando as presenças e ausências dentro desse mercado, ou os nomes relevantes, em diferentes territórios, que promovem mudanças significativas na arte contemporânea no Brasil e no mundo. Mas me interessa perpetuar a representação do ordinário. Daquilo que está presente nos nossos museus pessoais. Em tudo aquilo que se faz casa para nós.
O ordinário manifestado no cotidiano da periferia, lugar de onde escrevo. Na cultura das batalhas de rap e dos reggaes nas pracinhas; nos festivais de quadrilha que colorem as madrugadas alegres pelo Estado no mês de junho; nas artesanias que moldam o barro, o couro e a linha; na transmutação do alimento que perpetua a nossa culinária; nos saberes das nossas rezas e benzimentos; em tudo que, de tão comum, esconde algum mistério. É desse lugar de deslumbre pelo que pode parecer banal que elaboro sobre representação.
Direitos humanos das mulheres
Socorro França
SECRETÁRIA DOS DIREITOS HUMANOS DO CEARÁ, MESTRA EM DIREITO
PÚBLICO, GRADUAÇÃO EM DIREITO, ADMINISTRAÇÃO E ECONOMIA.
SOMA QUASE 60 ANOS DE ATUAÇÃO NO SERVIÇO PÚBLICO, DOS QUAIS
48 ANOS FORAM DEDICADOS AO MINISTÉRIO PÚBLICO DO CEARÁ, ONDE FOI PROCURADORA-GERAL DE JUSTIÇA POR CINCO MANDATOS.
O direito ao voto, a liberdade de ir e vir e a autonomia para tomar as próprias decisões sem a interferência do pai ou do cônjuge são conquistas que hoje parecem naturais na vida das mulheres. No entanto, até há pouco tempo faziam parte de uma realidade distante, alcançada apenas por meio de muita luta para que fossem reconhecidas e incorporadas ao ordenamento jurídico.
A legislação progrediu na perspectiva da defesa desses direitos. No Código Civil de 1916, as mulheres eram legalmente colocadas em posição de tutela, dependentes do pai ou do marido para tomarem decisões importantes em suas vidas. Esse quadro começou a mudar de maneira mais efetiva com a criação do Estatuto da Mulher Casada, sancionado em 27 de agosto de 1962.
O Estatuto contribuiu fortemente para a emancipação feminina e, desde então, muitas foram as conquistas legais para as mulheres no Brasil. A Constituição Federal de 1988, inclusive, trouxe princípios fundamentais que contribuem nesse sentido, como a igualdade assegurada e a proibição de diferenças salariais entre homens e mulheres. O compromisso com a garantia de direitos das mulheres inicia-se na legislação e se efetiva com políticas públicas assertivas.
O Governo do Estado vem desenvolvendo um trabalho de extrema relevância nesse sentido, com avanços recentes, como o Programa Ceará por Elas, a ampliação das Salas Lilás e da Casa da Mulher em diferentes
regiões, e o fortalecimento da Patrulha Maria da Penha. Conduzidas pela Secretaria das Mulheres, essas políticas possibilitam o fortalecimento das mulheres cearenses e consideram as reais necessidades da população.
Os desafios que encontramos ainda hoje são muitos. Enfrentamos uma série de casos de violência contra a mulher, frutos do machismo estrutural ainda presente em nosso cotidiano, e nos deparamos com a necessidade de proteger as mulheres nos mais diversos sentidos. Essa é uma luta constante e coletiva.
Reconhecer essa trajetória é também compreender que os direitos conquistados são fruto de muitas lutas. O caminho trilhado até a realidade vivida hoje foi árduo, e ainda há muito a se fazer para termos uma sociedade mais segura e igualitária para as mulheres. Fortalecer as políticas públicas, o pensamento social coletivo voltado à igualdade de gênero e garantir espaços para as mulheres são deveres de todos nós.
ONDE NASCE O EMPREENDER FEMININO
Marina Bitu
DESIGNER DE MODA FORTALEZENSE, GRADUADA EM DESIGN DE MODA PELA UFC E PÓS-GRADUANDA EM NEGÓCIOS DA MODA PELA UNIFOR. ATUA DESDE 2009 NO MERCADO NACIONAL E É COFUNDADORA DA MARCA MARINA BITU, COM PRESENÇA EM CAPITAIS BRASILEIRAS E ALCANCE INTERNACIONAL.
Sempre me perguntam de onde veio meu desejo de empreender, de onde vem o sobrenome, quais são os negócios da família. A resposta costuma frustrar expectativas: meu pai é dentista; minha mãe, dona de casa.
Minha mãe tem, nas mãos, um dos maiores talentos que já vi na cozinha. Talvez, em outros tempos e com outras oportunidades, tivesse se tornado uma chef renomada. Mas o fato é que, mesmo sem nunca ter tido carteira assinada, trabalhou — e ainda trabalha — com a disciplina de uma executiva. Sua rotina sempre exigiu autorresponsabilidade, entrega e resultado, ainda que ninguém tenha dado esse nome a esse esforço.
Cresci vendo minha mãe gerir recursos: o cereal do mês, a carne da semana, o pão do dia. Mas não só isso. Vi gerir pessoas, emoções, urgências. O filho que cresce, o marido que chama, a mãe que adoece. Nunca bateu ponto, nunca tirou folga, nunca teve férias nem décimo terceiro. O abrir dos olhos sempre foi como cruzar a catraca de uma empresa: uma empresa que nunca fecha e onde só ela trabalha. Uma empresa da qual nunca pôde sair.
Ter crescido nesse contexto e escolhido empreender me faz, hoje, enxergar com mais clareza quantas carreiras femininas foram historicamente invisibilizadas. Histórias inteiras de trabalho, gestão e criação que
nunca couberam nas definições formais de profissão. Porque, embora eu seja a primeira da família a ter um CNPJ, definitivamente não sou — nem de longe — a primeira empreendedora. Há inúmeras histórias: da minha mãe, das minhas tias, das minhas avós. Mulheres que cozinharam, costuraram, geriram, cuidaram, dentro e fora de casa. Empreendedoras invisíveis. Protagonistas que, por muito tempo, foram colocadas no papel de coadjuvantes.
Criar um negócio é difícil, mas a entrega diária da vida doméstica é um empreendimento igualmente complexo, cujas habilidades não cabem em um currículo ou portfólio. Há estratégia, renúncia, improviso e uma inteligência prática que quase nunca recebe esse nome.
A entrega do amor não entra em planilha. No fim, ser dona de casa é empreender sem métricas claras, sem previsão de lucro e sem validação externa. E talvez a pergunta que falte fazer não seja sobre resultados, mas sobre por que, até hoje, seguimos sem reconhecê-los.
Este texto é, antes de tudo, um agradecimento. Uma homenagem e uma exaltação às mulheres que me antecederam — sobretudo à minha mãe, Gracinha, que me ensinou, na prática, o verdadeiro sentido de empreender.
Fotografia como linguagem artística
Flávia Almeida
FOTÓGRAFA, ESCRITORA E CINEASTA, SUA OBRA SE ENRAÍZA EM VIVÊNCIAS PERIFÉRICAS E MACUMBEIRAS, ATRAVESSANDO DIFERENTES
LINGUAGENS. FORMADA EM CIÊNCIAS SOCIAIS E AUDIOVISUAL, ATUA HÁ MAIS DE UMA DÉCADA EM ARTE E PESQUISA, COM TRABALHOS EXPOSTOS EM ESPAÇOS COMO O SALÃO DE ABRIL, MIS-CE E CCBNB.
Escreviver no mundo através da luz é tomar de assalto o controle da sua imagem. É tecer sua própria subjetividade, rompendo com imagens de controle que foram impostas às existências dissidentes.
Gosto de pensar na câmera como ferramenta poderosa, capaz de mudar a forma como a gente se vê e é visto. Existem muitas formas de olhar para si, mas, ao longo dos anos, fui tomando um gosto particular de me ver através da fabulação crítica. Na escritora Saidiya Hartman, esse gesto aparece quando ela encara um documento não pelo que está visível, mas pelas lacunas do que não foi dito.
Dessa forma, fotografar, para mim, é também recontar de forma criteriosa a história que foi ficcionada sobre nós, nossos territórios e nossas famílias. É o contragolpe de um trauma antigo, olhando o mundo através das lentes caóticas de Exu para reorganizar nossa própria existência, assim como pelo reflexo generoso de Oxum, para que possamos colher imagens generosas de fartura dentro de nós.
Ao longo dos últimos anos, pude presenciar uma transformação na forma como o bairro de onde venho é visto na cidade, através da fotografia que passamos a produzir. O Grande Bom Jardim, por muito tempo atravessado pelo estigma da violência, hoje é visto
enquanto potência criativa e território de produção artística. Essa mesma transformação aconteceu em várias periferias, como Pirambu e Messejana, onde coletivos de fotografia e audiovisual vem produzindo incansavelmente outras narrativas de si. Fotógrafos como Ka Araújo, Sabrina Nascimento, Léo Silva, Gustavo Costa, San Cruz, Beatriz Souza e tantos outros fazem parte desse mesmo movimento.
Em minha fotografia, procuro me distanciar dos cliques apressados. Me demoro em pesquisa, escrita, pensar e repensar de que forma a imagem que produzo, hoje, preenche lacunas que ficaram pelo apagamento do ontem. É um exercício contínuo de reparação que vejo em trabalhos de grandes referências, como o da fotógrafa Jane Batista, que através do autorretrato, se vê fractal em diferentes perspectivas e desfaz todos os nós históricos da sua própria ancestralidade.
Penso também que, fotografar é cuidar com carinho da nossa memória, cuidar dos nossos álbuns de família enquanto documentos preciosos, criar uma fotografia que ajude futuras gerações a entender que sempre estivemos aqui, vivendo e criando com complexidade. Por isso, quando fotografo não me interesso especificamente por capturar um momento “real”, mas sim, por criar as ramificações de um novo mundo.
A construção do protagonismo feminino na cultura
Natasha Faria
DIRETORA DO MIS CE, GRADUADA EM DRAMATURGIA, MESTRA EM ESTUDOS
TEATRAIS E DOUTORANDA EM HISTÓRIA COM FOCO EM POLÍTICAS PÚBLICAS
PARA AS ARTES. FOI SUPERINTENDENTE DO CENTRO DRAGÃO DO MAR DE ARTE E CULTURA E COORDENADORA NA ESCOLA PORTO IRACEMA DAS ARTES.
A cultura do Ceará foi fortalecida e ganhou destaque sobre os alicerces da atuação de mulheres na gestão. Ressalto a trajetória de Violeta Arraes, primeira secretária estadual de Cultura no Brasil (1988-1991), e de Cláudia Leitão, que também ocupou o cargo no âmbito estadual (2003-2006) e, hoje, está à frente da Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura.
Em 2026, ano que marca o centenário de nascimento de Violeta Arraes, o Ceará também comemora 60 anos da primeira Secretaria Estadual da Cultura (Secult) criada no Brasil. Nos últimos três anos o estado também contou com nomes femininos à frente da Secult. Primeiramente com Luisa Cela (2023-2026) e, desde abril de 2026, com Gecíola Fonseca.
Em comum nesses caminhos, está o fortalecimento da cultura e a valorização das pessoas trabalhadoras. Juntas, mulheres cearenses desbravam rotas numa construção coletiva e diversa na gestão cultural, inclusive na Rede Pública de Espaços e Equipamentos Culturais do Estado do Ceará.
As mulheres estão presentes, ainda, na formulação dessas políticas. Gostaria de destacar a atuação da jornalista Bete Jaguaribe, diretora da Escola Porto Iracema das Artes, referência em políticas de formação artística. Assim como a da professora Beatriz Furtado, uma das criadoras da Vila das Artes, complexo de formação e difusão artística da Prefeitura de Fortaleza.
É preciso falar também das nossas artistas, pensadoras e produtoras, tais como Rachel Gadelha, uma das pessoas à frente do Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga e diretora do Instituto Dragão do Mar; Mona Gadelha, compositora, cantora e jornalista; Socorro Acioli, escritora e sucesso editorial no Brasil, e a atriz e cantora Marta Aurélia, confirmada na série televisiva Cangaço Novo.
Hoje, tenho a grande responsabilidade de dirigir o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE), com várias outras mulheres na equipe. O Museu vem sendo reconhecido em âmbito local, nacional e internacional. Fomos, inclusive, confirmados no evento Curators Network, iniciativa realizada em maio de 2026 pelo Festival de Cannes.
Ao comemorar quatro anos de reabertura, o MIS CE adotou o conceito “Somos feitos de Ceará”, pois somos uma instituição que olha para o futuro sem esquecer as próprias raízes, assim como as fortes mulheres do nosso Estado. Em tempos sombrios de “redpill”, no qual nos damos conta de que as mulheres tendem a votar mais em pautas progressistas, digo e repito: por mais mulheres em cargos de gestão no Brasil e no mundo todo.
Afroempreendedorismo em Fortaleza
Aliciane Barros
AFROEMPREENDEDORA, TURISMÓLOGA, PROPRIETÁRIA DA CEARAFRO, COFUNDADORA E COORDENADORA DE LOJAS DA FEIRA NEGRA DE FORTALEZA, ATIVISTA DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO CEARÁ.
Desde a colonização, a população negra investe nas mais diversas formas de sobrevivência, destacando-se os quilombos como principal modelo de organização. Esse "jeito de fazer" negro, que vem se estruturando a partir da economia, encontra-se presente hoje no afroempreendedorismo. O afroempreendedorismo é um movimento empreendedor realizado por negros e negras e, em sentido amplo, não se restringe a trabalhar exclusivamente com a temática racial.
Venho de uma família que tem uma história com mais de 70 anos comercializando no Centro de Fortaleza. Inicialmente, empreendiam com malas artesanais de madeira. Meus avós fabricavam as malas nas periferias e as vendiam nas ruas do Centro da capital cearense. Eles relatam que nossa família foi uma das principais fornecedoras desse tipo de mercadoria no Estado do Ceará e que, em 1964, fundaram a loja chamada “Casa Barros”, situada na rua General Bezerril, com porta aberta para os corredores do antigo Mercado Central — talvez a primeira loja de comerciantes negros no Centro da capital. Uma família negra que atuou no comércio e se manteve durante muito tempo através do seu trabalho diário para subsistência.
Em 2018, nesse mesmo espaço onde era a “Casa Barros”, fundei a Cearafro, a primeira loja afrorreferenciada no Centro de Fortaleza, dando continuidade ao legado comercial da família. Assim como meus avós, de forma independente, a população negra no Ceará seguiu empreendendo nas mais diversas frentes, em um
Estado onde era forte a narrativa de que não existiam negros. No entanto, desde o final do último milênio, a população negra vem afirmando a sua existência nas terras cearenses. No campo da economia, experiências como a Loja Cearafro, Rede Kilofé, Rmoda Africana, Casa de Cultura Preta Simoa e Feira Negra de Fortaleza constituíram um movimento compreendido como economia negra cearense.
Em especial, destaco a Feira Negra de Fortaleza, que nos últimos sete anos impactou financeiramente e de forma direta mais de 300 afroempreendedores. Essas organizações têm como grupo majoritário as mulheres, que também ocupam papéis de liderança: são mulheres negras, mães solo, mães atípicas, mulheres trans, PCDs, idosas e estrangeiras. Essas lideranças revelam que somos potência. Mesmo quando impossibilitadas de ocupar postos no mercado formal, nos encontramos afroempreendendo na perspectiva de nos mantermos ativas e gerando renda.
2026
óleo sobre tela 70 x 60 cm
É um autorretrato. Mas, como muitos autorretratos de pintoras, é uma alegoria da autoria feminina.
Só tens que olhar a Medusa de frente para vê-la. E ela não é mortal. Ela é linda e está rindo. (Hélène Cixous)
A pintora aparece pintando a si mesma, mas olhando diretamente para quem observa a imagem. Vemos tanto a mulher, como a tela que ela pinta, olhando não para si mesma, mas para nós, para o espectador, ou seja, sabendo que há um outro que olha, e que ela decide encarar. Sustentar o olhar.
A tela se confunde com um espelho. Mas não simplesmente me represento pintando, mas represento o próprio ato de se constituir como imagem através da pintura. O fato de a tela se confundir com um espelho é decisivo. Edifico-me perante o espelho / meu corpo é uma construção latente, diz a poeta cearense Mika Andrade. Historicamente, o espelho é um dispositivo ambíguo para as mulheres na arte: ele aparece como símbolo de vaidade, de beleza, de contemplação passiva. Aqui, porém, ele é apropriado para outro uso: se torna superfície de trabalho. O autorretrato não é o resultado da pintura, mas o próprio processo de invenção de si. Como uma mulher produz a própria imagem sem reproduzir os regimes de visibilidade que historicamente a transformaram em objeto?
A referência a uma genealogia de mulheres artistas (especialmente, pintoras) na história da arte é declarada. Desde as primeiras pintoras a que temos acesso, seus autorretratos (com paleta e pincéis na mão, frente ao cavalete, ou nos reflexos dos objetos que pintavam) eram táticas para afirmar seu ofício. Penso em Artemisia Gentileschi, Paula Modersohn-Becker e Frida Kahlo.
Os pincéis, cobrindo parcialmente o rosto, são simbólicos nesse sentido. Eles não apenas produzem a imagem: parecem disputar o espaço da visão, como se a artista enxergasse através da própria prática. O olhar não é anterior à pintura, é a pintura que organiza o olhar. Nas pontas das suas cerdas, tons usados na construção da pele da figura da artista.
Além da paleta e do pincel, instrumentos de trabalho, a mulher traz colheres no bolso do avental. Elas aparecem discretamente, mas organizam uma camada inteira de sentido, fazendo referência a um elemento e um discurso já presentes na minha pesquisa. A colher é um utensílio doméstico, portanto historicamente associado ao feminino, símbolo tanto do banal cotidiano como do trabalho de cuidado e manutenção da vida. Porém, aqui, em par. “Deitadas, duas colheres”, escreve Anne
Sexton. Também falam de fome, de apetite, de desejo –não apenas de comida, mas afetivo, erótico e intelectual. Trazer as colheres no avental é uma maneira de reafirmar essa retroalimentação entre o mundo e o meu trabalho: o corpo que (se) alimenta e o corpo que cria tornam-se inseparáveis, como se o trabalho da pintura também fosse uma maneira de se servir do mundo e também de se oferecer ao banquete.
Os cabelos ocupam um lugar central nessa imagem. Eles evocam simultaneamente a tradição da musa — a feminilidade idealizada, associada à figura de Vênus — e sua recusa. À medida que se expandem pela composição, aproximam-se das serpentes da Medusa. cada serpente que lhe adorna a cabeça / fala em uma língua, como a Medusa de Ana Martins Marques. Essa ambiguidade me interessa porque tensiona duas posições historicamente atribuídas às mulheres na representação: a de musa, objeto passivo do olhar, e a de sujeito que devolve o olhar (tornando-se, por isso mesmo, monstro). Aqui, trata-se não exatamente de se despedir da musa, Cristina Peri Rossi, mas liberar a musa para confundir e confundirse. Em línguas.
A referência a Medusa se reforça pela presença do espelho. Se, na tradição ocidental, o espelho frequentemente serviu para confirmar a beleza da musa, ou questionar a beleza das mortais, aqui ele se torna um espaço de contato com o espetactador, que é confrontado nesse olhar que desvia e sustenta. E, na mitologia, a Medusa sempre foi uma figura ligada ao problema do olhar. Ela é o monstro que devolve o olhar, e aquele que a contempla torna-se pedra, de modo que a Medusa interrompe a lógica de um olhar masculino soberano que observa sem ser afetado. Então, aqui, a figura feminina, mesmo carregando traços da musa, não é apenas aquela que aparece, mas também é aquela que olha de volta. Aqui também reside seu sutil perigo.
Bárbaras, Vênus, Medusas, Alices. O que está em jogo é a reivindicação da primeira pessoa. É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre a mulher, e que faça outras mulheres virem à escrita, da qual elas foram afastadas tão violentamente quanto o foram de seus corpos; pelas mesmas razões, pela mesma lei, com o mesmo objetivo mortal. É preciso que a mulher se coloque no texto – como no mundo, e na história –, por seu próprio movimento, diz Hélène Cixous, em O Riso da Medusa.
A passagem entre ser tema e tomar a palavra, entre objeto passivo de contemplação e sujeito da produção de imagem, de discurso, de pensamento. Olhar novamente. Olhar de perto. Descobrir que o monstro sorri. Entre aparecer como imagem e construir a própria imagem e a própria autoria.
Alice Dote
Alice Dote
O corpo que devolve o olhar
entre memória, erotismo e autobiografia, a artista cearense alice dote constrói uma obra que transforma intimidade em linguagem política e faz da pintura um território de investigação sobre desejo, vulnerabilidade e presença.
foto: lia de paula
Existe um instante raro em que uma imagem deixa de ser apenas imagem e passa a nos encarar de volta. Não como reflexo, mas como confronto. É nesse território delicado — entre o íntimo e o político, entre o desejo e a memória, entre o corpo visto e o corpo que devolve o olhar — que a obra de Alice Dote vem se tornando uma das produções mais instigantes da arte contemporânea brasileira recente.
Sua pintura não procura conforto. Também não busca a explicação imediata. Há algo de silenciosamente perturbador em suas figuras, em seus autorretratos, na maneira como o erotismo aparece sem jamais se oferecer ao consumo fácil. O corpo, em sua obra, nunca é apenas corpo. É linguagem. Arquivo. Vestígio. Campo de disputa.
E talvez seja justamente por isso que sua produção provoque tanto interesse: porque ela desloca o olhar de um lugar historicamente acostumado a possuir imagens femininas. Em vez de se deixar capturar, suas pinturas parecem perguntar quem observa, por que observa e de que maneira o desejo foi construído ao longo da história das imagens.
Nesta entrevista à revista Bárbaras, Alice fala sobre infância, desenho, literatura, cidade, memória e sobre o momento em que o espaço doméstico passou a reorganizar completamente sua produção artística. O resultado é um mergulho numa trajetória que mistura autobiografia e investigação estética com uma honestidade rara.
Desde cedo, a artista percebeu que havia uma espécie de pensamento visual organizando sua relação com o mundo. Antes mesmo da formação acadêmica, existia o gesto. O desenho vinha antes da linguagem racionalizada. Antes da palavra organizada socialmente. Antes da utilidade. Ela recorda uma infância silenciosa, marcada pela leitura e pelo desenho como formas de presença no mundo. “Eu sempre fui uma criança quieta. Acho que a minha inquietação se dava principalmente na leitura e no desenho”, afirma.
Não é uma lembrança banal. Há artistas que aprendem técnica antes de aprender sensibilidade. No caso de Alice, parece ter acontecido o contrário: a sensibilidade veio primeiro, como uma espécie de estado permanente de observação.
A leitura e o desenho funcionavam quase como formas paralelas de alfabetização emocional. “Essas foram as práticas que primeiro formaram a sensibilidade para o mundo”, diz a artista ao falar da infância.
Essa relação com a literatura continua atravessando sua obra até hoje. “Até hoje a literatura é um dos meus principais campos de interesse e referência”, conta. Isso ajuda a compreender por que suas pinturas possuem algo narrativo sem necessariamente contar histórias de maneira explícita. Há nelas uma atmosfera de fragmento literário — como se cada tela fosse um capítulo interrompido de uma memória maior.
Sua trajetória acadêmica também revela um percurso incomum. Como tantas jovens inclinadas ao desenho, Alice foi encaminhada para a arquitetura, caminho tradicionalmente oferecido a quem demonstrava interesse pelas artes, sobretudo em gerações nas quais a ideia de cursar artes visuais ainda parecia distante ou pouco concreta. “Era meio que um destino possível para pessoas mais inclinadas ao desenho e às artes de modo geral”, relembra.
Mas havia um desencaixe. Embora dominasse determinadas técnicas, o que a interessava não era exatamente o projeto arquitetônico em si. Seu olhar gravitava em direção ao urbanismo, à sociologia urbana, ao desenho de observação, às relações humanas produzidas pelos espaços. “O que mais me interessava na arquitetura eram as disciplinas voltadas ao urbanismo, ao pensamento urbano, à sociologia urbana”, afirma.
Esse detalhe é importante porque ajuda a entender algo central em sua produção atual: mesmo quando o corpo ocupa o centro da imagem, existe sempre uma
je ne te laisserai pas de mots 2025, óleo sobre tela, 5 x 100 cm
é raiva ou tristeza não é só mania de gravidade melancolia seriedade
concentração em não se sabe o que mas deve ser importante pra que ela corra assim feito
o coelho de alice é tarde é tarde tão tarde até que arde ai ai meu deus alô adeus é tarde é tarde é tarde
sem titulo 2025, óleo sobre tela, 55 x 100 cm
convidadas
dimensão espacial silenciosa organizando a cena. Seus interiores, seus enquadramentos e suas atmosferas carregam uma arquitetura emocional.
Ao longo da conversa, Alice formula uma ideia particularmente reveladora: “O que fica nítido para mim hoje é que sempre foi um pensamento por imagens”, resume.
A frase parece simples, mas contém uma chave poderosa para compreender sua obra. Porque pintar, em Alice Dote, não parece ser apenas representar algo visualmente. Parece ser uma maneira de pensar. Uma forma de elaborar experiência. Como se certas emoções, tensões ou memórias só pudessem existir plenamente depois de atravessar a imagem.
Esse processo ganha outra camada durante o mestrado em Sociologia, quando ela desenvolve uma pesquisa sobre o centro de Fortaleza, trabalhando com fotografia, caminhadas urbanas e registros de pichações e escritas da cidade.
“Eu pesquisava o centro de Fortaleza. Era uma pesquisa pautada em caminhar, encontrar e fotografar escritas urbanas”, conta.
Nesse período, o desenho reaparece como método de permanência. Enquanto a antropologia tradicionalmente privilegia o diário escrito, Alice passa a desenhar como forma de observação. Sentava em praças como a Praça dos Leões e a Praça do Ferreira e rabiscava cenas urbanas. “Eu simplesmente sentava numa praça e rabiscava alguma coisa”, lembra.
O gesto do desenho deixa então de ser apenas expressão artística e passa a funcionar como ferramenta de atenção. Desenhar para ver.
A expressão utilizada por ela é reveladora. Porque pressupõe que olhar não basta. É preciso desacelerar o olhar até que ele se torne presença. Talvez venha daí a intensidade silenciosa de suas pinturas atuais. Elas parecem produzidas por alguém que aprendeu a observar demoradamente.
Durante muito tempo, porém, seu olhar estava voltado para fora: para a cidade, para a rua, para o espaço urbano. Foi a pandemia que deslocou radicalmente essa direção. Com o isolamento social, o mundo exterior desaparece e o espaço doméstico se torna inevitável. “Foi com a pandemia e o isolamento social em que a gente fica em
casa que esse olhar, que estava muito voltado para a cena urbana, teve que voltar para o espaço doméstico”, afirma. É nesse momento que nasce a produção pela qual Alice passaria a ser mais reconhecida.
O corpo, a intimidade e o autorretrato deixam de ser elementos ocasionais e passam ao centro da investigação visual. Mas seria superficial reduzir essa transformação a uma simples virada autobiográfica. O que acontece em sua obra é mais complexo. A intimidade, em Alice Dote, não surge como confissão. Surge como construção.
As cenas íntimas que aparecem em suas pinturas não funcionam como exposição narcísica nem como romantização do privado. Elas parecem interessadas em compreender de que maneira o corpo carrega memória, violência, desejo, luto e presença.
Existe também um enfrentamento importante da tradição histórica da representação feminina na arte. Durante séculos, o corpo da mulher foi pintado sobretudo como objeto de contemplação. A história da arte ocidental está repleta de mulheres observadas, enquadradas, consumidas visualmente. Alice parece operar exatamente na fissura dessa tradição. Em sua obra, o corpo feminino não se oferece passivamente ao espectador. Ele impõe consciência. Impõe tensão. Muitas vezes, parece devolver o olhar de forma quase desconfortável.
A própria ideia de uma “política sexual do olhar”, frequentemente associada à sua produção, nasce desse deslocamento. Não se trata apenas de representar erotismo. Trata-se de questionar as estruturas que historicamente organizaram quem podia desejar, quem podia olhar e quem podia ser transformado em imagem.
E há algo profundamente contemporâneo nisso. Num tempo em que intimidade e exposição pública se confundem constantemente, a obra de Alice trabalha justamente na contramão da superficialidade visual. Suas imagens não performam intimidade para consumo rápido. Elas complexificam a intimidade.
Talvez por isso sua pintura provoque uma sensação tão ambígua: aproxima e afasta ao mesmo tempo. O espectador entra na cena, mas nunca a domina completamente.
Outro aspecto decisivo de sua trajetória é a relação com Fortaleza e com o Nordeste brasileiro. Embora Alice afirme que seu trabalho não seja “temático” nesse
HÁ ARTISTAS
QUE TENTAM PRODUZIR RESPOSTAS. ALICE DOTE
sentido — ou seja, não toma o Nordeste como assunto direto — ela reconhece que o espaço inevitavelmente atravessa a obra. “É impossível que o nosso trabalho não seja atravessado por um certo espaço-tempo que a gente habita”, afirma.
Essa percepção aparece de forma particularmente bonita quando fala da luz. “A luz que existe hoje na minha pintura só é possível aqui”, diz a artista ao comparar Fortaleza com cidades como São Paulo. Porque mostra que o território não entra na obra apenas como tema. Ele entra como atmosfera. Como temperatura. Como modo de ver.
Isso aproxima Alice de uma geração importante de artistas nordestinos contemporâneos que têm produzido investigações sofisticadas sobre corpo, afetividade e subjetividade fora do eixo Rio–São Paulo.
Existe também um detalhe importante em sua fala: a ideia de trabalhar com “a matéria do cotidiano”. “Minha produção hoje tem uma matriz autobiográfica e são pinturas que partem de algo que já existe”, explica. Essa talvez seja uma das definições mais precisas de sua produção.
Porque suas pinturas partem de algo já vivido, já observado, já tocado pela experiência. Fotografias, cenas domésticas, fragmentos de presença, objetos íntimos. Tudo parece nascer de uma relação concreta com o mundo antes de atravessar a pintura.
Mas o que emerge na tela nunca é mera reprodução do real. A pintura transforma a experiência em outra coisa. E é justamente nessa transformação que reside a força de sua obra.
Há artistas que tentam produzir respostas. Alice Dote parece mais interessada em construir perguntas visuais. Perguntas sobre desejo. Sobre presença. Sobre vulnerabilidade. Sobre memória. Sobre o que significa habitar um corpo num tempo em que quase tudo é rapidamente transformado em imagem.
Suas pinturas não gritam. Elas permanecem.
eu sou a que voltará sempre 2024-2025, óleo sobre tela, 120 x 160 cm
dupla sabotagem é o nome do treino de hoje ela é uma red flag e o touro que ao seu aceno não resiste. não, que o busca o chama o inventa porque nunca estive à beira de me afogar e não serei ovacionada com um par de orelhas e um rabo nas mãos
resta apenas um minuto para o fim quando inicio. isso, por si, já pode me dizer. hesitação e impulso. aqui, uma demora até quase não ou quase nunca chegar. ali, aqui do lado, compulsão por começos: preparar terras, acender camas, levantar camadas mortas. abrir telas. minhas mãos estão sempre ocupadas. sujas.
o que pintei quando desisti de
pintar 2024, óleo sobre tela, 90 x 70 cm
é raiva ou tristeza não é só mania de gravidade melancolia seriedade concentração em não se sabe o que mas deve ser importante pra que ela corra assim feito o coelho de alice é tarde é tarde tão tarde até que arde ai ai meu deus alô adeus é tarde é tarde é tarde
parede
2023, óleo, tinta látex e carvão sobre tela, 167 x 214 cm
hoje eu não vou pintar.
escrever tem que se tornar uma obsessão.
mas e se eu desenhar?
novena 2024, óleo, cera, carvão, grafite e ponta-seca sobre tela, 45 x 63 cm
O valor da liderança feminina na publicidade
Eliziane Alencar
CEO DA ADVANCE, CONDUZINDO UM TIME DE LÍDERES EQUILIBRADO
ENTRE HOMENS E MULHERES. GRADUADA EM ECONOMIA, ESPECIALISTA EM COMUNICAÇÃO E MARKETING, VEGANA E ANIMALISTA. COLUNISTA DA EDITORIA DE CIÊNCIA & SAÚDE NO O POVO E DO QUADRO SAÚDE VEG DA RÁDIO O POVO CBN.
O avanço da participação feminina nos espaços de alta gestão das corporações tem sido uma conquista lenta. Levantamento recente da Diversitera, consultoria dedicada a promover diversidade, equidade e inclusão nas empresas, mostrou que mulheres ocupam apenas 35% dos cargos de alta liderança nas organizações no Brasil. Outro estudo de 2024, realizado pela consultoria Fesa Group, revelou que apenas 17,4% dos CEOs eram mulheres, 60% das empresas não possuíam mulheres na vice-presidência e 30% das empresas não tinham nenhuma mulher na diretoria.
Já na área de marketing e publicidade, os avanços têm sido mais rápidos. O levantamento Elite InfoMoney 2026 mapeou, recentemente, que dos 50 CMOs (Chief Marketing Officer), mais influentes do Brasil, 52% são mulheres, apresentando um crescimento em relação a anos anteriores.
Talvez não seja um acaso o crescimento mais acelerado da participação feminina nas lideranças de marketing. Trata-se de uma das áreas mais impactadas pelas transformações digitais, que sofre pressão por resultados em um ambiente dinâmico de mudanças rápidas e muita inovação. Isso exige lideranças estratégicas, antenadas e com capacidade de engajar times com velocidade e efetividade. Uma realidade compartilhada também na publicidade.
Especificamente nas agências de publicidade, espaço onde atuo, a maioria dos CEOs ainda são homens. Mas, os cargos de gerência e diretoria já seguem
bem representados por mulheres, que atuam com brilhantismo e enriquecem a consistência dos projetos desenvolvidos pelas agências.
Para além das habilidades estratégicas de liderança mais naturais do universo feminino, a presença de nós mulheres nas lideranças da publicidade é também fundamental porque temos o lugar de fala de quem mais influencia nas decisões de consumo dos domicílios. Não só em lojas físicas, como também nas vendas digitais. Em 2022, 80% das compras online foram realizadas por mulheres, segundo levantamento da Linx, empresa de tecnologias para o varejo. Influência que envolve aquisição não só de itens de consumo do dia a dia, mas também de compras de maior valor. Somos nós que entendemos sobre como tocar o coração de quem domina o consumo.
Não estamos falando de uma competição entre sexos. Mas de um equilíbrio de diversidade que representa um retrato mais próximo da sociedade. A liderança feminina na publicidade é um exemplo de como a equidade dos gêneros na alta gestão gera valor efetivo para o negócio e traduz-se em diferenciais competitivos para as organizações.
Escrita de mulher
Regina Ribeiro
JORNALISTA FORMADA PELA UFC, MESTRE EM LITERATURA COMPARADA
PELA MESMA INSTITUIÇÃO. ATUOU POR MAIS DE 30 ANOS NO O POVO COMO
REPÓRTER E EDITORA DE POLÍTICA, ECONOMIA E CULTURA. FOI EDITORA
DA FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA E PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESCRITA CRIATIVA. ESTUDA PSICOLOGIA NA FBUNI E PSICANÁLISE.
Falar sobre as mulheres no jornalismo é percorrer um tempo permeado pelo silêncio cúmplice de uma história que considerava estranho a escrita de uma mulher. No ensaio ficcional “Um teto todo seu” a escritora inglesa Virgínia Woolf descreve, em 1928, a figura meio absurda de um gato sem rabo, como metáfora de uma mulher que escrevia no mundo londrino da época. No Ceará, Francisca Clotilde, Ana Facó, Alba Valdez, Emília Freitas foram desbravadoras da escrita na imprensa cearense.
A jornalista Suzana de Alencar Guimarães escreveu a primeira reportagem publicada no O POVO, meses após a criação do jornal, em 1928. Porém, quando o professor Geraldo Nobre publicou a “História do Jornalismo Cearense”, nomeou 51 profissionais de imprensa do Ceará nos anos de 1920, mas nenhum deles era nome de mulher. A escritora Rachel de Queiroz também inovou na imprensa cearense ao editar a coluna “Jazz Band” no jornal “O Ceará”, na qual publicava o que havia de mais moderno nas letras locais e nacionais. No O POVO, Rachel escreveu crônicas por mais de meio século. Adísia Sá se tornou uma das primeiras jornalistas profissionais do Estado, e dividiu o jornalismo com a carreira acadêmica.
Hoje, o jornalismo conta com uma forte presença feminina em praticamente todas as mídias. As mudanças na atividade jornalística a partir de metade do século XX, com empresas do setor de comunicação
consolidadas e a criação dos cursos de jornalismo criaram um ambiente favorável à presença feminina no jornalismo brasileiro e cearense. No entanto, ainda são poucas as mulheres que dirigem redações Brasil afora. O POVO é destaque nesse quesito. Também é importante lembrar que as mulheres jornalistas são as mais atacadas nas redes sociais.
Em 2024, a Coalizão em Defesa do Jornalismo, em parceria com o Laboratório de Internet e Ciências de Dados da UFES, mostrou que 50,8% dos ataques feitos no ambiente das redes sociais eram destinados às mulheres jornalistas, principalmente em São Paulo, Fortaleza, Cuiabá e Porto Alegre. Isso mostra o quanto os gatos sem rabos ainda assustam.
TUDO QUE MOVE É SAGRADO
Erica linhares
FISIOTERAPEUTA FORMADA PELA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA
(UNIFOR) DESDE 2005, ESPECIALISTA EM OSTEOPATIA. SÓCIAPROPRIETÁRIA DA CLÍNICA FERFISIO, ATUA COM FOCO EM REABILITAÇÃO, QUALIDADE DE VIDA E ATENDIMENTO HUMANIZADO, UNINDO EXPERIÊNCIA CLÍNICA E CUIDADO INDIVIDUALIZADO.
O investimento mais valioso, rentável e seguro é você. O movimento não pode parar, pois é ele que realmente traz retorno: não apenas financeiro, mas físico, emocional e espiritual. Investir em nossa saúde é, antes de tudo, empreender na própria vida.
Como filha, fisioterapeuta, esposa, mãe, dona de casa, dona de clínica, empresária, corredora e praticante de crossfit… ufa! Insisto: praticar atividade física salva a minha rotina. É o ponto de equilíbrio entre tantas responsabilidades e papéis que assumo diariamente.
Os desafios são importantes. Ao mesmo tempo em que empreendemos, acumulamos diversas tarefas. Muitas de nós atuamos promovendo saúde e bem-estar. E é justamente aí que reside um dos pontos centrais de nossas vidas. Sabemos que, para seguirmos firmes em nosso propósito, precisamos ter disciplina como principal combustível motivacional e manter nossa saúde física e emocional em dia.
O empreendedorismo feminino acontece, em grande parte, nos bastidores de uma vasta rotina. Ninguém vê onde tudo começa, mas é ali, na surdina da arrumação das mochilas, no preparo do lanche dos filhos, no chacoalhar do pré-treino e no calçar dos tênis que tudo acontece. São nesses pequenos gestos, repetidos todos os dias, que construímos força, constância e resultado.
É assim que funciona: tudo junto e misturado, sem desprezar, ainda, minha importante rede de apoio, que torna possível sustentar essa dinâmica intensa e, ao mesmo tempo, cheia de propósito.
Buscar saúde e qualidade de vida é um compromisso com a nossa própria existência e com aqueles que nos cercam. Não se trata apenas de estética ou desempenho, mas de presença, energia e longevidade para viver plenamente cada papel que exercemos.
Com toda essa gestão organizada, nós, mulheres, já estamos prontas para empreender para além do espaço doméstico. Levamos conosco não apenas competência, mas também sensibilidade, resiliência e visão ampliada de cuidado.
Mais do que uma tendência econômica, o empreendedorismo feminino na área da saúde representa uma transformação social. Ele evidencia a força das mulheres, mas também a necessidade de repensar padrões de trabalho, autocuidado e distribuição de responsabilidades.
É necessário cuidar de si para cuidar do outro. Afinal, promover saúde exige, antes de tudo, não abrir mão dela, nem mesmo nos momentos mais exigentes.
Como já diz a música: “Tudo que move é sagrado”.
Mova-se.
Presença, Coragem e Resultado
Luciana Grinstein
EXECUTIVA NAS ÁREAS COMERCIAL, DE MARKETING E PRODUTO, ATUA
NA CONSTRUÇÃO DE MARCAS, NO DESENVOLVIMENTO DE MERCADO E NA
LIDERANÇA DE EQUIPES. DEFENDE UMA GESTÃO FEMININA ORIENTADA
POR RESULTADOS, SENSIBILIDADE, CORAGEM E FORMAÇÃO DE PESSOAS.
Falar sobre protagonismo feminino na gestão, para mim, é falar de realidade. É falar de mulheres que sustentam rotinas exigentes, tomam decisões difíceis, formam equipes, enfrentam pressão, entregam resultados e seguem capazes de perceber pessoas e contextos com profundidade.
Durante muito tempo, liderança foi associada a um único tipo de força: mais dura, mais vertical, mais distante. Como se autoridade precisasse vir acompanhada de rigidez. Como se firmeza e sensibilidade não pudessem coexistir. Mas podem. E essa combinação produz ambientes mais fortes, decisões mais conscientes e negócios mais sustentáveis.
Na prática, protagonismo não é discurso. É entrega. É decidir quando nem tudo está pronto. É conduzir pessoas sem perder de vista metas, cultura e futuro.
Liderar pede amplitude: visão, firmeza, escuta, segurança e discernimento. E é nessa combinação que muitas mulheres têm demonstrado uma força particular: unir resultado, leitura de contexto e construção de confiança.
Cada mulher que ocupa um espaço de liderança com consistência transforma mais do que a própria trajetória. Amplia referências, reposiciona conversas e abre caminho para que outras também se reconheçam como vozes legítimas da estratégia e do negócio.
No meu olhar, gestão é compromisso com resultado, mas também com gente. Exige visão estratégica, disciplina, leitura de mercado, capacidade de execução e coragem para corrigir rotas. Exige também formar pessoas, fortalecer times, proteger a cultura e construir confiança.
Uma das maiores contribuições da liderança feminina está aí: unir objetividade e percepção, exigência e presença, performance e construção. O mercado atual não pede líderes que apenas comandem. Pede líderes que compreendam a complexidade e saibam ler o negócio, o consumidor, o time e a operação.
O trabalho também empodera. Amplia escolhas, gera autonomia, fortalece a voz e ensina a mulher a reconhecer, com mais clareza, o próprio valor.
Por isso, falar de protagonismo feminino na gestão é falar de competência, mas também de legado. Um legado construído nas decisões diárias, na firmeza diante dos desafios e na coragem de abrir portas sem perder a excelência.
Acredito em uma liderança feminina que não precisa endurecer para ser respeitada, nem se esconder para ser aceita. Uma liderança que entrega, influencia, transforma e inspira. Porque, no fim, protagonismo não é apenas ocupar espaço. É mudar o espaço com a própria presença.
O fio de Aracne e o desafio das lideranças femininas
Neila Fontenele
JORNALISTA, PSICÓLOGA CLÍNICA, ESPECIALIZAÇÃO EM PSICANÁLISE DO SÉCULO XXI (FAAP), EDITORACHEFE DE CIÊNCIA & SAÚDE NO O POVO E ÂNCORA DO PROGRAMA CIÊNCIA & SAÚDE, NA RÁDIO O POVO CBN.
O jornalista e pesquisador Muniz Sodré já analisou a branquitude da imprensa no Brasil —manifestada não apenas pela presença física das pessoas de pele clara, mas também pela ideologia dominante na produção da notícia. Essa estrutura é uma herança da colonização que, felizmente, vem sendo repensada.
Situação semelhante ocorre conosco, mulheres. Embora ocupemos muitos postos de liderança, a figura feminina ainda provoca estranhamento. Como dizia Simone de Beauvoir, somos o "segundo sexo" porque não somos o primeiro; e não somos o primeiro porque ainda existe a dificuldade de integração de todos os gêneros apenas na categoria "gente".
Este é um problema com desdobramentos na política, no mercado de trabalho e na segurança pública. O fato é que muitos mitos ainda perseguem o nosso imaginário. Somos assombradas pela ideia da "costela de Adão" em várias situações e formas discursivas, produzidas muitas vezes de forma inconsciente.
Até na indústria do audiovisual, o mito da “costela de Adão” empobrece a cultura com personagens como a Thor (derivada do Thor) ou a Capitã Marvel (versão feminina do Capitão Marvel). Enquanto isso, questionamos: por onde anda a Poderosa Ísis, que dominava as forças da natureza?
No jornalismo, entretanto, existem outros mitos que merecem atenção. Confesso que, durante muito tempo, fui perseguida pelo "Complexo de Cassandra". Na mitologia, a princesa de Troia aceitou receber de Apolo
o dom da profecia. A partir de então, ela passou a ter visões sobre eventos futuros, mas foi amaldiçoada para que ninguém acreditasse nela.
Em vários momentos, relacionei Cassandra ao jornalismo que alerta sobre desastres iminentes, muitas vezes ignorados pelas autoridades. Mais tarde, fui desafiada por uma amiga a buscar outro mito e encontrei Aracne.
Diferente da princesa profetisa, Aracne era uma mulher comum. Uma tecelã que exercia seu ofício com excelência até ser levada a uma disputa com a deusa Atena. Aracne desafiou a divindade e acabou transformada em aranha, condenada a tecer suas teias pelo resto da vida.
Vale lembrar que, assim como o tecelão entrelaça os fios, quem escreve entrelaça as palavras, muitas vezes desafiando os "deuses". É um trabalho humano, repleto de desafios.
Assumir um posto de liderança — seja no jornalismo, na política ou em qualquer outra área — talvez seja atuar como Aracne. É preciso ter a coragem de desafiar os "deuses" do status quo e tecer novos caminhos. Não precisamos ser a Mulher-Maravilha, mas sim ter o poder de costurar novos fios e construir novas histórias.
A vida deve ser bárbara
Tainah Marinho Aldigueri
PRIMEIRA-DAMA DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA
DO CEARÁ (ALECE), ENGENHEIRA CIVIL, LÍDER
DO COMITÊ DE RESPONSABILIDADE SOCIAL.
Um projeto que nasce com o propósito de ampliar o protagonismo feminino lança um olhar atento à pluralidade e aos significados que compõem a sociedade. Dar vez às mulheres é, fundamentalmente, dar voz à própria vida e aos diversos sujeitos que integram essa categoria rica em identidades e experiências, permitindo que as questões de gênero ocupem o centro do debate.
Antes de entrar no tema principal, algo mais me chama a atenção. O nome Bárbara carrega dupla força simbólica: é o adjetivo para aquilo que surpreende e, simultaneamente, o nome de uma figura icônica do Ceará. Bárbara de Alencar representa a mulher nordestina, destemida e "arretada", características essenciais para o enfrentamento cotidiano feminino. Tendo desafiado as normas patriarcais da sua época e se recusado ao confinamento doméstico para se tornar uma das principais protagonistas da história cearense, em um contexto onde o silêncio era imposto de forma violenta.
Entretanto, Bárbara de Alencar foi alvo de uma invisibilização histórica. Em uma narrativa escrita predominantemente no masculino, ela não recebeu o título de heroína oficial, como aconteceu com tantas figuras masculinas da história do Brasil. Como aponta a historiografia, ela foi a primeira mulher a disputar a arena política no Brasil e a primeira vítima de violência política de gênero, sendo presa por suas convicções revolucionárias (Araújo, 2017).
Essa trajetória evidencia a primeira estrutura que urge destruir: a naturalização da submissão feminina e a aceitação do silenciamento, seja no ambiente doméstico, profissional ou na política. É imperativo construir uma educação antimachista onde a responsabilidade seja dividida e onde a autoafirmação não dependa da humilhação do outro. Precisamos de uma cultura de respeito imediata, que compreenda que o fim de um relacionamento deve ser um ciclo de reconstrução, e não de posse, agressão ou morte.
A autonomia é a chave: homens precisam dela para seguir suas vidas, e mulheres, para continuarem vivas. A cultura que buscamos estabelecer celebra a vida produtiva, livre e segura, manifestada na arte, na política, no trabalho e na voz das mulheres. Não aceitamos menos que o fim de todas as formas de violência de gênero contra as mulheres. Propomos uma revolução histórica e cultural para que, finalmente, a vida de todas as cearenses seja, verdadeiramente, bárbara.
além do algoritmo
Enquanto as redes sociais transformam vidas em performance, jovens mulheres tentam preservar profundidade, identidade e humanidade. A influencer Yasmin Djalo ocupa o digital sem abrir mão da própria complexidade. Junto à psicanalista Simone Faustino, ela ajuda a entender o que mudou e o que aprisiona a nova geração de mulheres nas redes.
Yasmin Djalo foi procurada pela revista Bárbaras por ser influencer. Após seis stories e depois do deslizamento do polegar umas três vezes no feed de seu Instagram, percebe-se que os algoritmos que levam seu público à sua principal rede reúnem exuberâncias complexas. Tem, ali, uma autenticidade efetiva, um respeito genuíno à sua parecença e uma influência regida por profundezas. Mulher preta ativista, jovem modelo, cerimonialista reconhecida por sua consciência negra, designer de moda, surfista, mestra e cientista em Antropologia.
De Fortaleza, Yasmin foi parida pela união entre uma educadora brasileira, da capital do Ceará, e um pesquisador de Guiné-Bissau. “Sou assim: nem cearense demais nem guineense de menos, é assim que pulso”, explica Yasmin. Mas não foi assim sempre, durante um tempo, rendeu-se a adequações: ajustou seu cabelo, seu jeito de andar, o tom da sua voz, seus modos de existir.
“Até que fui à Suécia, onde mora meu tio, meu tio que passou a ser meu pai, desde que meu pai faleceu. Fui para o casamento dele e, lá, vivi, por dias, com primos, primas, tias, tios paternos. E entendi muito sobre mim. Encontrei naquela minha gente meu jeito de andar, o jeito que sempre quis ‘corrigir’. Entendi sobre o meu falar e rir alto. Entendi mais sobre minha pele, meu cabelo, sobre ser quem sou. Dali pra frente, passei a não mexer em minhas extravagâncias, passei a não resistir a mim”, conta Yasmin.
O tio ao qual ela se refere chama-se Hanbala. Foi ele quem assumiu, afetivamente, a função paterna após a morte do irmão. Na família de Yasmin, marcada por deslocamentos entre Guiné-Bissau, Senegal, Suécia e Brasil, parentesco não é uma estrutura rígida, mas um território coletivo de cuidados. “Na minha família não existe muito essa separação de primo, tio, irmão. Todo mundo cuida de todo mundo. Os tios viram pais, as tias viram mães também”, explica.
O pai de Yasmin chegou ao Brasil na década de 1990 para estudar. Carregava consigo memórias atravessadas pelas guerras de libertação da África Ocidental e por uma linhagem familiar politicamente ativa. Parte da família migrou para o Senegal, durante os conflitos. Outra parte, mais tarde, para a Europa. Yasmin cresceu entre referências cruzadas, tentando entender a si mesma dentro de um trânsito identitário permanente. Talvez por isso sua relação com a ciência tenha se tornado também uma busca íntima. “Muito da minha pesquisa fala sobre mim, mas também fala sobre outras pessoas. E, no fim, dá tudo no mesmo. Porque nós somos esse coletivo”, diz Yasmin.
Ao atravessar oceanos, simbólicos e reais, ela entendeu que não havia nada de errado em ser o que se é. O que era contradição passou a fazer todo sentido pra ela e a compor sua rede social. Uma rede que passou a influenciar pessoas sem que Yasmin se atentasse a isso, a influenciar com o trançado de sua própria vida, com base em suas bases. Seus conteúdos foram virando carrosseis de si.
O espaço que ela ocupa passou a acolher seus estudos acadêmicos, seus sentimentos, sua liberdade. Passou a atrair olhares, a influenciar comportamentos. E, desde então, a jovem influencer tem ocupado redes sem se encaixar completamente nelas, tem negociado, diariamente, pertencimento, movimento e identidade com um mundo que promete autonomia, mas que ainda cobra performance unilateral. Uma contradição também presente nos dias da pesquisadora e psicanalista Simone Faustino.
E talvez seja justamente isso que faça Yasmin um retrato tão preciso da nova geração: mulheres que recusam caber em uma única definição, mas que continuam atravessadas por velhas estruturas de poder. Porque parece que mudou muita coisa. E, ao mesmo tempo, quase nada.
HÁ ANOS ESCUTANDO
ADOLESCENTES E JOVENS MULHERES
EM PESQUISAS SOBRE
CULTURA DIGITAL, SAÚDE MENTAL E
SUBJETIVIDADE, SIMONE PERCEBE QUE AS REDES SOCIAIS
TRANSFORMARAM A FORMA DE EXISTIR, MAS NÃO ELIMINARAM AS VIOLÊNCIAS
HISTÓRICAS QUE MOLDAM O FEMININO.
Para Simone, inclusive, não existe neutralidade absoluta quando se pesquisa sofrimento humano. “Quem pesquisa não é máquina. Somos atravessados por gênero, classe, raça, memória e experiências. O problema não é ser atravessado pelo tema. O problema seria não reconhecer isso criticamente”, afirma Simone. Ela própria percebeu, cedo, como aparência, autoestima e validação atravessavam sua vida.
Cresceu escutando comentários sobre corpo e imagem, desenvolveu transtorno alimentar na adolescência e, anos depois, encontrou justamente nesses atravessamentos parte das perguntas que moveriam sua trajetória acadêmica. “Quando comecei a escutar adolescentes de perto, principalmente meninas, percebi que havia algo muito mais profundo acontecendo. Não eram jovens apenas consumindo redes sociais. Eram sujeitos tentando existir em ambientes de exposição permanente”, revela Simone.
controle mais sofisticado
“Hoje, jovens mulheres falam mais sobre saúde mental, racismo, abuso, ansiedade, identidade. Existe linguagem para nomear sofrimentos que antes eram silenciados. Isso é novo e, ao mesmo tempo, muito potente”, afirma Simone. Declaração que se contrapõe ao seu testemunho seguinte: “mas o controle sobre o corpo feminino não desapareceu, ficou mais sofisticado”.
Tanto não desapareceu como fica muito evidente em uma passagem narrada por Yasmin, quando foi convidada para desenvolver publicidade de uma marca de produtos para alisamento capilar. “Minha negativa imediata não teve a ver com críticas a mulheres que alisam o cabelo, teve a ver com o respeito que tenho, hoje, à minha identidade preta, teve a ver com a verdade que quero entregar ao meu público”, explica Yasmin.
A experiência de existir passa a ter que ser mediada por imagens, visualizações e validação pública. A pessoa não pode mais só viver, é como ter que se narrar, o tempo inteiro.
Simone Faustino
Se antes as cobranças vinham apenas da família, da escola, da publicidade tradicional, agora, elas chegam também por trends, algoritmos, por meio de métricas invisíveis de validação. É o feminino, os passos femininos, a dinâmica feminina seguindo como alvo de um regime contínuo de controle, como um projeto em permanente vigilância. E, agora, mediado por curtidas.
Segundo Simone, as plataformas transformaram reconhecimento em indicador público de valor pessoal, comentários e visualizações operam quase como provas de existência social. A jovem mulher contemporânea, explica Simone, vive sob exigências contraditórias: precisa ser autêntica, independente, produtiva, sensual, saudável, bem resolvida emocionalmente e interessante o tempo inteiro. Tudo junto, coexistindo, sincronizado. E online!
Uma lógica que Yasmin percebe e que negocia, diariamente, com ela mesma. Yasmin não posta todos os dias. Não segue fórmulas. Não aceita trabalhos que possam silenciar suas defesas. “Pra mim, rede social deve ampliar voz, não silenciar”, afirma a influencer.
foto: lia de paula | simone faustino
o on é off e vice-versa?
É Yasmin quem administra sua carreira. E, ainda que seu CNPJ sustente tópicos que agregam, sim, sua imagem, ela hesita quanto a excessivas exposições de si. “Mesmo honrando minha natureza, tenho o entendimento de que se aceitar é um exercício diário de não se abandonar nem por um instante. Ainda são muitas as vezes que tenho, sim, medo de julgamentos. Já cheguei, inclusive, a não postar por causa disso”, expõe Yasmin.
E o que ela descreve individualmente aparece na fala de Simone, como fenômeno coletivo. “As redes criaram uma cultura de curadoria permanente de si. Editar, corrigir, selecionar, manter coerência com uma versão pública da identidade. É uma gestão permanente de si”, explica a pesquisadora. Além disso, para ela, existe uma diferença importante (e quase invisível) entre se expressar, que é elaborar a própria existência, e se expor, que é como transformar vulnerabilidade em moeda de permanência digital.
“A intimidade virou estratégia de visibilidade em muitos casos”, complementa Simone. Segundo ela, boa parte dos jovens influencers cresceu já dentro dessa lógica de superexposição. Uma lógica em que desaparecer, descansar ou simplesmente não performar pode soar como fracasso. “A performance nunca pode parar”, resume.
Yasmin tenta encontrar esse limite, diariamente. Talvez por isso sua relação com as redes seja marcada pela certa lentidão exposta por ela. Ela conta que pensa muito antes de publicar. Demora. Reescreve. Ausentase da sua rede por uns dias. Retorna. “Eu penso muito no que vou postar. Tenho responsabilidade com quem me acompanha e com quem eu sou”, atesta Yasmin. E responsabilidade é uma palavra que aparece frequentemente em sua fala. Talvez por compreender algo que a lógica acelerada da internet tenta apagar: o virtual também é real.
Ela faz questão de frisar que “rede social não é só sua, tem gente sendo atravessada pelo que você fala.”
Sobre isso, inclusive, diz: “trocas cintilam do virtual para a vida pessoal, o online faz parte da vida real, isso é muito evidente”. Simone concorda que boa parte do sofrimento psíquico contemporâneo nasce justamente da falsa ideia de que a vida digital seria menos concreta do que a física. E não é. Algoritmos elaboram repercussões emocionais muito concretas.
Quando percebi que as trocas virtuais reverberavam diretamente na vida pessoal das pessoas, entendi que precisava lidar com aquilo com responsabilidade.
Yasmin Djalo
“Hoje, meninas acordam e dormem diante de câmeras, filtros e métricas, o olhar do outro deixou de ser episódico. Tornou-se permanente”, observa Simone. Talvez uma das maiores contradições desta geração esteja exatamente aí: nunca se falou tanto sobre saúde mental, ao mesmo passo que nunca houve tantas jovens emocionalmente exaustas.
Dados divulgados, neste semestre, pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com os ministérios da Saúde e da Educação, destacam cenário de vulnerabilidade emocional, sobretudo entre jovens meninas de escolas públicas e privadas. Uma em cada quatro meninas considera que a vida não vale a pena ser vivida, um índice que é o dobro do registrado entre os meninos.
Simone observa que a hiperconexão também tem produzido solidão. “Nunca foi tão fácil se comunicar e, ao mesmo tempo, muitos adolescentes relatam sensação profunda de isolamento”. Para ela, existe uma diferença importante entre compreender racionalmente os mecanismos de opressão e conseguir, emocionalmente, escapar deles.
“Muitas meninas conseguem identificar violências estéticas e padrões inalcançáveis, mas continuam sofrendo profundamente para corresponder a tais violências”. Ela menciona, ainda, casos públicos de adoecimento psíquico de influenciadores digitais como sintomas de uma lógica mais ampla. “A vida real não consegue sustentar permanentemente a versão editada e desejável que precisa ser performada nas redes”, aponta Simone.
TALVEZ ESSA SEJA A
VERDADEIRA NOVIDADE
DESSA GERAÇÃO: A
CORAGEM DE ENXERGAR, SENTIR, NOMEAR E BULIR EM DESCONFORTOS.
consciências geram curas
Consciente do quadro, Yasmin anda de mãos dadas com a universidade, com a terapia e com frentes que, frequentemente, fazem com que ela mergulhe nela e entregue conteúdos em tempo e substância “mais saudáveis”, segundo ela própria qualifica.
Por exemplo, ir ao mar, flutuar nele, conectar-se com as ondas do off é puder compor um on mais profundo e saudável a ela e ao seu público. “Para mim, surfar é como me conectar e me fortalecer nas dores e nos enfrentamentos do meu povo preto trazido cruelmente por entre as águas do Atlântico, é como estar num ato político. Sempre que me equilibro numa crista do mar é como ocupar, com a licença somente dos meus antepassados, um território historicamente hostil a nós”, confessa Yasmin, emocionada, como quem reza.
A influencer lembra que o Atlântico foi lugar de violência, de morte, de travessia forçada. “Conheço pessoas africanas que sequer entram no mar”, diz. Ainda assim, Yasmin encontrou no surf uma forma de reconstruir pertencimento. “O surf também é um lugar de disputa. Existe machismo no mar. E, ao encontrar outras surfistas negras, no equilíbrio das águas comigo, encontrei acolhida também ali”.
Yasmin transforma trauma em presença, firmeza e corpo vivo. E Simone percebe isso nas jovens que escuta, quando diz que “elas criam comunidades de apoio, denunciam violências, compartilham experiências, recusam certos silenciamentos, existe uma recusa crescente em abrir mão da própria dignidade emocional”.
Para Simone, possivelmente exista aí uma das maiores potências contemporâneas. “Muitas jovens já não aceitam tão facilmente relações abusivas, ambientes violentos ou padrões impostos sem questionamento”. As redes, apesar das armadilhas, também permitiram a circulação mais rápida de contra-discursos, denúncias e apoio.
Simone segue tentando construir espaços mais humanos de escuta. Atualmente, participa de uma pesquisa nacional, ligada à Secretaria de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, sobre experiências digitais de crianças e adolescentes brasileiros, incluindo populações indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência. “Talvez estejamos começando, finalmente, a construir respostas menos adultocêntricas para os desafios digitais do presente”, afirma.
Olhando menos para plataformas e mais para gente, Yasmin conclui: “quando a gente vê uma mulher numa rede social, precisa lembrar que existe uma pessoa por trás daquela imagem. Uma pessoa com histórias, dores, família, inseguranças e sonhos”. E quem sabe seja exatamente isso que as redes mais tentam apagar hoje: a profundidade humana existente atrás de toda imagem perfeitamente enquadrada.
Mulheres no centro das políticas públicas
Luísa Cela
PSICÓLOGA E GESTORA PÚBLICA CEARENSE, EX-SECRETÁRIA DA CULTURA
DO ESTADO DO CEARÁ E PRÉ-CANDIDATA A DEPUTADA FEDERAL.
GRADUADA EM PSICOLOGIA PELA UFC, ESPECIALISTA EM ARTETERAPIA
E MESTRA EM SAÚDE DA FAMÍLIA, TEM TRAJETÓRIA EM POLÍTICAS CULTURAIS, DIREITOS HUMANOS, CIDADANIA E ECONOMIA CRIATIVA.
A política brasileira tem um vício: adora falar sobre as mulheres, mas detesta que elas decidam. Sabemos que a desigualdade de gênero não é um erro de percurso. Ela é um projeto estruturado e retroalimentado há séculos. O sistema foi desenhado para nos manter à margem de qualquer protagonismo, e um desenho só se muda com outro que desfaça esse molde.
Falar de políticas públicas para mulheres é compreender que a mudança estrutural não acontece de forma imediata. Ela é resultado de disputa, permanência e enfrentamento constantes. Minha trajetória na gestão pública, incluindo o período como secretária da Cultura do Ceará, me fez perceber que, quando a política ignora essas estruturas, ela falha. No caso das mulheres, as dificuldades de acesso à renda, à formação e aos espaços de poder não são individuais.
Ao tratarmos a cultura como geração de renda, corrigimos uma distorção e demos escala ao que já existia nos territórios. Política pública só cumpre seu papel quando produz autonomia econômica. Nos territórios, isso é concreto. Mulheres sustentam redes de cuidado e organização social, muitas vezes sem suporte para transformar esse esforço em autonomia. Há trabalho, capacidade e iniciativa; faltam condições mais justas.
Na cultura, por exemplo, essa força movimenta economias locais, mas, por muito tempo, não foi reconhecida como parte de uma engrenagem produtiva estruturada. Ao tratá-la como geração de renda, ampliamos o alcance das políticas para quem já produz, mas ainda encontra limites para se sustentar.
Outro aspecto central é a distribuição territorial dessas ações. A desigualdade também se expressa no acesso. Levar políticas públicas para além dos grandes centros, simplificar processos e reconhecer as especificidades locais são etapas fundamentais para ampliar o alcance das iniciativas e evitar que as oportunidades fiquem concentradas.
Esse processo envolve disputa de orçamento, enfrentamento de preconceitos e resistência. Por isso, a presença das mulheres nos espaços de poder não pode ser secundária. Quando mulheres ocupam esses espaços, há mudança nas prioridades. Trata-se de incidência real sobre o que é considerado urgente e possível em um País composto majoritariamente por mulheres.
Ampliar essa participação não resolve tudo, mas altera o campo de poder e aproxima a política da realidade. E é nesse ponto que a política deixa de ser discurso e passa a ser decisão.
Pensamos, logo existimos
Vera Rodrigues
PROFESSORA NO PROGRAMA ASSOCIADO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA
UFC- UNILAB, DIRETORA DA ABA (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA), COORDENADORA DO PROJETO DE EXTENSÃO "MULHERES NEGRAS RESISTEM: PROCESSO FORMATIVO TEÓRICO-POLÍTICO PARA MULHERES NEGRAS", MEMBRA DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO INSTITUTO DRAGÃO DO MAR.
Quando refletimos sobre o Brasil e as contribuições da população negra para a sociedade, é comum que essas contribuições sejam associadas quase exclusivamente ao campo da cultura. Frequentemente, evocamos manifestações artísticas como o samba, o maracatu ou, ainda, pratos tradicionais como a feijoada e o vatapá. Essa leitura, embora reconheça aspectos importantes, acaba por restringir o protagonismo negro a uma dimensão cultural, como se não houvesse presença, voz e legado em outras esferas da vida social e intelectual. Essa limitação não é casual: ela decorre de um processo histórico marcado pelo racismo estrutural, herança direta do colonialismo europeu. Para justificar a escravização de seres humanos, construiu-se uma lógica determinista que dividia a humanidade entre aqueles considerados racionais, capazes de pensar e produzir conhecimento, e aqueles vistos como meramente emocionais, aptos apenas ao trabalho braçal. Essa narrativa sustentou a colonização e a escravidão, legitimando a exclusão dos africanos e seus descendentes dos espaços de poder e prestígio.
O impacto dessa construção é profundo e duradouro. Assim como demorou séculos para que a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhecesse, só em março de 2026, o tráfico transatlântico de escravizados como “o crime mais grave contra a humanidade”, também as mudanças no imaginário social e nas estruturas institucionais se processam lentamente. Contudo, iniciativas como as ações afirmativas buscam
corrigir essas distorções. Nesse contexto, a frase do filósofo Descartes - “Penso, logo existo” - ganha nova ressignificação quando apropriada por pensadoras negras como a nigeriana Sophie Oluwole e a brasileira Katiúscia Ribeiro: “Pensamos, logo existimos”. Essa reformulação afirma a centralidade da intelectualidade negra, que não apenas pensa, mas produz conhecimento e transforma a academia brasileira.
A presença de intelectuais negras e negros na universidade é prova incontestável desse protagonismo.
Nomes como Beatriz Nascimento, Jaqueline Goes, Nilma Lino Gomes, Lélia Gonzalez, Sonia Guimarães, Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, Zelma Madeira, entre tantas outras referências, evidenciam que a produção acadêmica no Brasil é marcada pela contribuição da intelectualidade negra. Também exemplo de protagonismo feminino e negro. São cientistas, professoras e pesquisadoras que desafiam estereótipos, ampliam horizontes e reafirmam que pensar é existir, e existir é resistir.
MYRTHA
Roberta
Ari
ECONOMISTA, COM MBA EM GESTÃO NA ÁREA DA SAÚDE PELA
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV) E PÓS-GRADUAÇÃO EM GESTÃO DE NEGÓCIOS PELA FUNDAÇÃO DOM CABRAL (FDC). ATUOU POR MUITOS ANOS NA GESTÃO FINANCEIRA DO HOSPITAL GASTROCLÍNICA.
Tinha nome de flor. E isso, por si só, já parecia rabiscar um destino. Aprendi cedo que sua força não estava na delicadeza do nome, mas no jeito firme com que viveu. Minha mãe era bonita, mas, acima de tudo, era presente. Não se impunha pelo barulho, e sim pela constância. Generosa sem alarde, altruísta sem plateia. Tinha o sorriso como hábito. Iluminava resolvendo.
Filha de um paulista e de uma cearense, cresceu entre disciplina e afeto. Ainda jovem, começou a namorar meu pai, Edgard Nadra Ary, estudante de medicina. Havia entre eles algo que sustentava o tempo. Casaramse, construíram uma família, e viemos nós, os filhos. Para ela, ser mãe nunca foi título: foi compromisso de vida. Participava, observava, sabia quando agir e quando apenas estar.
Durante os estudos do meu pai, aproximou-se da medicina. Ouvia, perguntava, interessava-se. Poderia ter seguido a profissão, mas escolheu priorizar a família. Não foi renúncia sofrida, foi decisão consciente. Em 1977, juntos, fundaram a Gastroclínica. Fez curso de administração hospitalar, e a clínica cresceu até se tornar hospital. O diferencial estava no cuidado: respeito, organização e atenção.
Ela sempre esteve presente. Conhecia equipes e pacientes pelo nome. Percebia falhas, resolvia conflitos, ajustava caminhos. Tinha firmeza sem arrogância. Mesmo sem diploma de médica, aprendeu com a convivência. Lembro de um paciente na UTI que permanecia sem diagnóstico. Os médicos discutiam
possibilidades. Ela acompanhava tudo. Perguntou com simplicidade se já haviam pensado em leucemia. Não para se impor, realmente acreditava que podia ser. Os exames confirmaram, e o tratamento começou.
Em outra situação, um recém-nascido precisava de transfusão urgente, mas a família resistia por causa da religião. Ela ouviu os argumentos, respeitou a fé, mas trouxe a conversa para o essencial: a vida do bebê. A família concordou. A criança viveu. Era assim que ela fazia: sem espetáculo, apenas presente.
Anos depois, ainda sou apresentada como “a filha da Myrtha”. Digo que é brincadeira, mas sinto orgulho de ter sido criada por uma mulher correta, trabalhadora e carinhosa. Ela morreu em um domingo de Dia das Mães. A data tornou tudo mais simbólico. Foi esposa parceira, mãe atenta, avó presente, referência para muita gente. Viveu de atitudes até o fim.
E volto ao começo. Myrtha, nome de flor. Não pela fragilidade que a palavra sugere, mas pela raiz que sustenta sem aparecer. A delicadeza estava no nome. A força estava no caráter. Deixou permanência no sorriso.
O “A” não é detalhe
Ana Celina Bueno
FUNDADORA DA ACESSO ESTRATÉGIA CRIATIVA, EM FORTALEZA, TEM 26 ANOS DE ATUAÇÃO NO MERCADO. FORMADA EM SERVIÇO SOCIAL E SOCIOLOGIA, COM PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA URBANA E MARKETING DE VAREJO, PRESIDIU O SINAPRO-CE E INTEGRA O CONSELHO SUPERIOR DO CENP. ATUAL PRESIDENTE DA FENAPRO, ATUA EM ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO PARA ENTIDADES E GRANDES EMPRESAS.
Na publicidade, tudo comunica. Cada palavra, cada escolha, cada construção. Por isso, talvez não seja coincidência que a própria definição da atividade comece com um artigo feminino: é a publicidade.
O “A” não é detalhe.
Pode parecer apenas uma convenção gramatical, mas, quando observamos a essência da atividade, essa escolha revela mais do que aparenta.
Historicamente, à mulher coube o papel de formar valores, educar e construir cultura dentro do núcleo familiar. Ainda que essa responsabilidade não seja exclusiva — e deva ser compartilhada —, é inegável que, ao longo do tempo, foi a mulher quem esteve mais próxima da formação de comportamentos.
E o que faz a publicidade, em sua essência, senão exatamente isso? Forma percepções, constrói valores, influencia escolhas e molda comportamentos. Essa não é uma coincidência. É uma convergência.
Há também outra dimensão nessa analogia. A publicidade sempre carregou uma aura de charme, brilho e celebração. Mas quem vive o setor sabe que, por trás disso, existe uma rotina intensa, exigente, feita de estratégia, horas de trabalho e busca pela melhor entrega.
Essa dinâmica dialoga com a vida da maioria das mulheres: múltiplas jornadas, responsabilidade ampliada, dedicação contínua e, ainda assim, a capacidade de celebrar, de se apresentar com força e presença nos momentos de conquista.
A publicidade também é assim. Trabalha intensamente, mas sabe celebrar. Constrói, entrega, vibra.
Por muito tempo, no entanto, o setor foi majoritariamente masculino em suas posições de liderança, especialmente na criação, reflexo de estruturas sociais mais amplas.
Esse cenário vem mudando. Levantamento recente da Fenapro, com apoio da consultoria Celerh, aponta que 59% dos colaboradores das agências brasileiras são mulheres. Elas ainda não ocupam, na mesma proporção, os cargos de liderança, mas avançam de forma consistente.
Esse movimento não é apenas uma questão de equidade. É um alinhamento com a própria natureza da atividade.
A publicidade é sensível, estratégica, relacional. É feita de escuta, interpretação e construção simbólica. E é justamente na diversidade de gênero, repertório e vivência que encontra sua maior potência.
Sim, o “A” não é detalhe. Por mais que também seja artigo de tantas outras profissões, no caso da publicidade ele se conecta ao seu centro.
A meu ver, a publicidade é feminina em sua essência. É também a paixão de todos que comungam dessa natureza sensível, criativa e comprometida com a construção de novas realidades.
Por um mercado que também seja plural
Isabel Costa
JORNALISTA, EDITORA CHEFE DO VIDA&ARTE, PROFESSORA, MEDIADORA DE LEITURAS E CRONISTA DO O POVO. GRADUADA EM LETRAS E EM JORNALISMO, ACUMULA EXPERIÊNCIA NA COBERTURA DE CULTURA.
O jornalismo funciona como a lente de uma câmera fotográfica — uma fisheye em busca de todos os ângulos. Através dos veículos de comunicação — atualmente ramificados em diferentes frentes —, a sociedade enxerga a si mesma com problemas, questionamentos, vulnerabilidades, avanços e questões inerentes à existência humana.
É através do registro jornalístico que os recortes da realidade — precisos, éticos e necessários — são veiculados para o entendimento geral e guardados como forma de manter a memória coletiva para as próximas gerações. O jornalismo olha o mundo, mas será que estamos calibrando as lentes da forma correta?
Se o olhar jornalístico for unitário, uníssono ou esvaziado, vamos esbarrar nos recortes sociais que favorecem apenas determinados grupos. E todas nós sabemos quem são os beneficiados nesse jogo. Certamente, não somos nós: mulheres, periféricas, donas de corpos dissidentes. É por isso que, a cada dia, nas diferentes configurações das empresas de comunicação, é mais que necessário ter mulheres ocupando postos de liderança reais.
Não falo sobre os números pré-estabelecidos para cumprir qualquer tipo de cota. Falo sobre uma forma de liderar que seja palpável. Pois não é uma liderança qualquer: é aquela pautada na tomada de decisão assertiva; ouvidora dos pares e dos ímpares; analítica dos múltiplos lados da moeda; feita com estudo e dedicação; centrada no mercado e em suas nuances.
Sendo uma área de trabalho que não pode fugir dos dilemas sociais, obviamente, cabe a nós, mulheres jornalistas, lidar com questões que figuram em tantas outras profissões: salários díspares em relação aos homens em cargos semelhantes, promoções de posto que nunca chegam e uma carga que, além de homérica, chega a ser injusta.
Enquanto líder em uma redação de jornal, o que eu encontrei foi uma rede de apoio — composta por mulheres e também por homens. Profissionais da comunicação sempre dispostos a encarar o mercado de trabalho de maneira justa — e praticantes de uma liderança empática aliada a um olhar verdadeiramente plural para o jornalismo, o mundo ao redor, as pessoas, as questões sociais e o poder público. Mas, devo dizer, sou detentora da sorte de estar em um ambiente amigável e promotor dos direitos humanos em vários sentidos. A minha realidade, entretanto, não deveria ser uma “boa exceção” ou um “privilégio” — deveria ser a regra.
Mulheres na gestão: a dor e a delícia
Juliane Pereira
GERENTE DE MARKETING DO O POVO, COLUNISTA
DA LAYOUT. FORMADA EM PUBLICIDADE E PROPAGANDA, MBA EM BRANDING. MÃE DE DOIS MINI-CANADENSES CURIOSOS.
Filha, irmã, mãe, profissional. Os dias se misturam entre as agendas dos filhos e os incontáveis compromissos profissionais. Os desafios são tantos que, muitas vezes, achamos que não vamos conseguir dar conta. Essa encruzilhada tem sido a rotina de muitas mulheres Brasil afora. A habilidade feminina de transitar entre diferentes universos, conectar pontos e manter atenção ao que nem sempre é visível transforma ambientes e impacta negócios de forma efetiva.
O crescimento das mulheres no mercado de trabalho e, em cargos de gestão, precisa ser celebrado. Empoderar mulheres ocupando espaços que, durante muito tempo, foram desenhados para homens é uma responsabilidade nossa. Esse crescimento acontece como resultado das mudanças educacionais e sociais, e também em decorrência do esforço das líderes que lutaram e abriram esse caminho ao longo dos anos. Se compararmos o mercado de trabalho atual com décadas atrás, vemos um avanço significativo.
Mas será que essa mudança acontece na velocidade que deveria? A resposta ainda é não. Uma pesquisa realizada pela Deloitte, empresa global de consultoria e auditoria, revelou que somente 6% dos CEOs no mundo são mulheres. Existe um avanço dentro das empresas que mostra os benefícios da diversidade de gênero em ambientes corporativos. Por trazerem perspectivas diferentes na resolução de problemas, as mulheres contribuem com mais inovação e, com isso, tendem a tomar melhores decisões. Ambientes com diferentes visões de mundo costumam ser mais colaborativos e mais preparados para lidar com os desafios.
A equidade na liderança não é apenas uma pauta social, mas também uma estratégia inteligente para o crescimento econômico das empresas. O mercado já reconhece os benefícios da presença feminina na liderança; agora, o desafio é transformar essa consciência em ação.
Existe também um aspecto simbólico: quando as mulheres chegam a cargos de liderança, outras se inspiram e passam a acreditar que também podem ascender profissionalmente. Quando as mulheres se tornam líderes, elas colocam o tapete para muitas outras que virão. A jornada ainda é longa, as dificuldades são grandes, mas comemorar cada conquista feminina é essencial, nas empresas ou na sociedade. Avante!
Maria da Penha
Todas as mulheres em uma
entre a dor íntima e a luta coletiva, maria da penha, homenageada com o troféu bárbaras em 2023, transformou uma tragédia pessoal em uma das mais importantes mobilizações sociais do brasil — e segue lembrando que a violência contra a mulher começa muito antes do primeiro golpe.
foto: joão filho
Há pessoas que entram para a história porque desejaram o poder. Outras porque buscaram reconhecimento. Algumas porque nasceram cercadas de privilégios e oportunidades. Mas existem aquelas que são lançadas à história pela violência. Arrancadas da vida comum por acontecimentos que jamais escolheriam viver.
Maria da Penha pertence a essa última categoria.
Seu nome atravessou as fronteiras do país, virou legislação, símbolo, política pública, palavra repetida em delegacias, tribunais, campanhas educativas e reportagens. Tornou-se referência internacional no enfrentamento à violência doméstica. Mas, por trás da força simbólica que o Brasil aprendeu a reconhecer, existe uma mulher que ainda fala da própria trajetória sem triunfalismo. Uma mulher que admite que nunca venceu completamente o medo. Que carrega o peso de representar milhares de outras histórias. E que sabe que sua imagem pública nasceu de uma violência que jamais deveria ter acontecido.
“Eu não queria ser um símbolo da violência”, afirma. “Mas me sinto feliz em ser um símbolo da transformação”. A frase resume uma existência marcada pela contradição entre dor e reconstrução.
Ao longo da entrevista, Maria da Penha fala como quem aprendeu que nenhuma transformação coletiva nasce sozinha. Sua narrativa desmonta a ideia da heroína isolada. Ela não reivindica para si a imagem da mulher invencível. Ao contrário, insiste em lembrar das mãos que a sustentaram quando ainda não conseguia sequer compreender o que lhe acontecia.
Quando sofreu a tentativa de feminicídio que mudaria sua vida, em 1983, o Brasil ainda não possuía sequer vocabulário jurídico para nomear esse tipo de crime. Violência doméstica era tratada como assunto privado. Muitas mulheres cresciam acreditando que agressões, humilhações e ameaças faziam parte do casamento, que não havia colher que as salvassem. Em cidades pequenas, o silêncio era praticamente obrigatório. Em grandes cidades, o medo também.
Ela própria admite que, naquele período, tinha o mesmo desconhecimento de tantas outras brasileiras. Foi o movimento de mulheres do Ceará que lhe apresentou outra possibilidade de existência. O acolhimento veio através de organizações femininas que a orientaram, fortaleceram e fizeram com que entendesse que sua dor não era individual.
Talvez uma das maiores forças de Maria da Penha esteja justamente nessa recusa em transformar sua história em narrativa de excepcionalidade. Ela nunca fala apenas sobre si. Sua memória é sempre coletiva.
Quando relembra a denúncia levada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, ela faz questão de destacar o protagonismo dos movimentos femininos que sustentaram aquela luta. Não existe vaidade em sua fala. Existe consciência histórica. E talvez por isso sua trajetória continue tão poderosa depois de duas décadas da criação da lei que leva seu nome. Porque Maria da Penha compreendeu algo que o país ainda luta para entender plenamente: a violência doméstica não começa na agressão física.
Ela começa antes. Muito antes.
Começa quando o controle excessivo é confundido com amor. Quando o ciúme é romantizado. Quando uma mulher é afastada da própria família. Quando o parceiro monitora suas amizades, suas roupas, seu dinheiro, seus deslocamentos. Quando a chantagem emocional substitui o diálogo. Quando o medo se instala silenciosamente dentro da rotina.
Há uma lucidez dura em sua maneira de falar sobre esses mecanismos. Maria da Penha sabe que o feminicídio raramente surge de forma repentina. Ele costuma ser o ponto final de uma escalada gradual de violências que foram relativizadas, desculpadas ou ignoradas pela sociedade. Por isso ela insiste em repetir algo que pode soar brutal, mas que carrega a contundência de quem conhece profundamente o assunto: “Os cemitérios estão cheios de mulheres que perdoaram”.
Não se trata de condenar vítimas. Trata-se de denunciar uma estrutura que ensina mulheres a suportarem o insuportável. E as consequências dessa estrutura não terminam na morte da vítima.
Um dos momentos mais impactantes da conversa surge quando Maria da Penha fala sobre as crianças órfãs do feminicídio. Ela cita uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará que aponta que cada mulher assassinada deixa, em média, três filhos órfãos.
São crianças atravessadas por traumas quase impossíveis de medir. Ela chama essas crianças de “vítimas invisíveis” da violência doméstica. Meninos e meninas que crescem sem acolhimento psicológico adequado, muitas vezes disputados entre famílias destruídas pela tragédia, expostos a narrativas conflitantes sobre o próprio crime que marcou suas vidas.
“O que vão dizer para essa criança?”, pergunta. A pergunta permanece ecoando mesmo depois de a entrevista terminar. Porque ela escancara uma dimensão frequentemente esquecida do feminicídio: ele não mata apenas uma mulher. Ele reorganiza violentamente gerações inteiras.
Maria da Penha fala também sobre outro problema estrutural brasileiro: a desigualdade entre capitais e pequenos municípios no acesso à proteção. Em muitas cidades, afirma, sequer existe uma rede mínima de acolhimento. E, paradoxalmente, a proximidade social desses lugares torna a denúncia ainda mais difícil. Todos sabem da vida de todos. Tudo circula rapidamente. O medo da exposição cresce.
Por isso ela defende algo que vai além da criação de delegacias especializadas. Sua proposta passa pela capacitação das equipes de saúde e das escolas. Ela acredita que médicos, psicólogos, professores e profissionais da rede pública precisam aprender a identificar sinais de violência antes que ela se transforme em tragédia irreversível.
Sua visão sobre educação é talvez uma das partes mais contundentes da entrevista. Maria da Penha não acredita que o machismo seja um destino biológico. Para ela, trata-se de uma construção cultural aprendida desde a infância. “Nenhuma criança nasce machista, racista ou preconceituosa”, afirma.
As crianças aprendem. Aprendem dentro de casa, nas ruas, nas redes sociais, nas escolas despreparadas, nos discursos normalizados, nas piadas repetidas, nos silêncios permitidos.
Por isso ela insiste tanto na formação das equipes pedagógicas. Em um exemplo aparentemente simples, mas profundamente revelador, conta a história de um menino punido por empurrar uma colega sem que a escola tivesse investigado o contexto da situação. O episódio levou a criança a verbalizar ressentimento contra mulheres e professores.
Para Maria da Penha, é justamente nesse ponto que nascem as futuras distorções. Ela observa com preocupação o crescimento de movimentos digitais que transformam ressentimento masculino em discurso de ódio contra mulheres. A chamada “machosfera”, alimentada por redes sociais, fóruns e influenciadores misóginos, aparece em sua fala como mais uma prova de que a violência está constantemente se reinventando.
E ela conhece pessoalmente o poder destrutivo desses ambientes. Em 2021, tornou-se alvo de uma intensa campanha de fake news que tentava desacreditar sua história e atacar a legitimidade da lei criada a partir de sua trajetória. Grupos misóginos espalharam mentiras afirmando que tudo teria sido baseado em invenções.
As consequências foram devastadoras. Maria da Penha relata ter reduzido drasticamente suas saídas públicas. Passou a sentir medo em supermercados, bancos, salas de espera e espaços cotidianos. Em determinado momento, um homem aproximou-se dela dentro de um banco para dizer: “Muito prazer, eu sou um ex-agressor”. Ela conta o episódio com serenidade impressionante, mas o impacto é evidente.
Há algo profundamente simbólico nessa cena. A mulher que se tornou sinônimo de proteção legal para vítimas de violência precisou voltar a reorganizar a própria rotina por medo da hostilidade pública produzida pelas redes.
É como se o país revelasse, mais uma vez, o quanto ainda resiste a confrontar sua cultura de violência contra mulheres. Ainda assim, Maria da Penha não fala a partir do ressentimento. Ela fala a partir da responsabilidade.
MARIA DA PENHA NUNCA FALA
APENAS SOBRE SI. SUA MEMÓRIA É SEMPRE COLETIVA
Sua crítica é firme, mas nunca simplista. Em vez de transformar homens em inimigos abstratos, ela aponta para a raiz estrutural do problema: a ausência de respeito. “O resumo de tudo isso é falta de respeito”, afirma. Falta de respeito pelas mulheres. Pelas crianças. Pela autonomia feminina. Pela dignidade humana.
Talvez seja essa capacidade de ampliar a discussão que faz com que sua voz permaneça tão atual depois de tantos anos.
Maria da Penha não reivindica privilégios. Não fala sobre superioridade feminina. Não propõe inversões de poder. Sua luta é por igualdade concreta, por proteção efetiva e por uma sociedade capaz de ensinar meninos e meninas a reconhecerem humanidade uns nos outros.
Ao final da entrevista, quando questionada sobre quem seriam as “bárbaras” do Brasil contemporâneo, sua resposta abandona completamente qualquer ideia de celebridade ou excepcionalidade. Para ela, bárbaras são as mulheres que sobrevivem e recomeçam diariamente. As mães que sustentam famílias inteiras. As cuidadoras invisibilizadas. As líderes comunitárias. As mulheres que denunciam mesmo sentindo medo. As que lutam não apenas por si, mas pelas outras.
E então, conclui: “Bárbara é toda mulher que resiste sem perder a esperança”.
Talvez seja impossível definir melhor sua própria trajetória. Porque, no fundo, Maria da Penha continua sendo exatamente isso: uma mulher que resistiu sem permitir que a violência lhe roubasse completamente a esperança. E é justamente por isso que seu nome deixou de pertencer apenas à dor.
Hoje, ele pertence também à possibilidade de transformação.
foto: joão filho
Protagonismo feminino no mercado
Andrea Rios
CEO DA CONSTRUTORA ARA, ENGENHEIRA CIVIL E ARQUITETA E URBANISTA. ATUA NA GESTÃO ESTRATÉGICA DE PROJETOS DO SETOR
DA CONSTRUÇÃO CIVIL. É CASADA COM ALEXANDRE MONTENEGRO E MÃE DE REBECA, MARIA CECÍLIA E MARIA EDUARDA.
Cresci em um ambiente familiar acolhedor. Éramos apenas meu irmão e eu. A preocupação dos meus pais sempre foi a formação do ser humano que nos tornaríamos. O interessante é que o fato de eu ser mulher não me trazia vantagens nem desvantagens. O foco estava nos estudos, no valor do trabalho e em tudo o que esse universo representava para a nossa construção como pessoas.
Hoje, com mais maturidade, reconheço o quanto essa base influenciou a minha forma de enxergar o mundo. Essa convicção me fortaleceu e me preparou para a vida. No entanto, ao me inserir no mercado, percebi que essa vivência não é regra para todas as mulheres. Ainda existem barreiras que limitam oportunidades e evidenciam uma grande distância entre o que idealizamos e a realidade encontrada.
Avançamos como sociedade, mas ainda enfrentamos desafios nas relações humanas e em suas particularidades. O protagonismo feminino no mercado reflete esse momento de transformação. Promover equilíbrio entre os gêneros não é apenas uma questão de justiça, mas também de inteligência social e econômica. Ambientes diversos tendem a ser mais inovadores, produtivos e sustentáveis, beneficiando tanto os negócios quanto a sociedade. Investir em educação, políticas públicas e práticas corporativas mais inclusivas fortalece não apenas as mulheres, mas todo o ecossistema em que estamos inseridos.
Em certa ocasião, participei de uma reunião com lideranças empresariais e políticas. Foi impactante perceber atitudes machistas e desrespeitosas por parte de alguns participantes. Pouco tempo depois, encontrei um deles em uma loja de produtos para casa, acompanhado da esposa. Ao observar o casal, identifiquei o mesmo comportamento visto na reunião: uma postura de desqualificação, em uma tentativa de afirmar superioridade. Naquele momento, pensei que sua trajetória como liderança estava próxima do fim, pois atitudes assim se tornam cada vez menos compatíveis com organizações e sociedades que buscam evoluir.
As empresas já reconhecem os benefícios do protagonismo feminino em diferentes áreas. Os espaços tendem a ser ocupados de forma natural por mulheres e homens, e as organizações se beneficiam dessa complementaridade. O preconceito perde força diante do tempo e das transformações sociais. Sigo desejando uma sociedade mais justa e equilibrada, com liberdade, respeito e oportunidades reais, capaz de gerar um ambiente de negócios mais ético, eficiente e humano.
Cuidar com poder: a virada que falta fazer
Mariana Matos
EXECUTIVA COM 20 ANOS DE EXPERIÊNCIA EM LIDERANÇA, MARKETING E ESTRATÉGIA DE CRESCIMENTO. MENTORA, CONSULTORA E CONSELHEIRA, ATUA NA INTERSEÇÃO ENTRE ALTA PERFORMANCE, DESENVOLVIMENTO DE LIDERANÇAS E GESTÃO HUMANIZADA. É COLUNISTA DO PORTAL NOSSO MEIO.
Por séculos, o cuidado foi atribuído à mulher como destino. Não como escolha, não como competência, não como valor. Como obrigação natural e não remunerada. A mulher cuida porque é mulher. E ponto.
Esse pressuposto moldou famílias, sistemas de saúde e estruturas inteiras de poder. A mulher foi colocada no centro do cuidado e, ao mesmo tempo, afastada do centro das decisões sobre ele. Executora por excelência. Protagonista, raramente.
Para ocupar uma cadeira de liderança, durante muito tempo, a mulher precisou endurecer. Operar como os homens, adotar o tom deles, o ritmo deles, a lógica deles de poder. Como se tudo aquilo que ela havia desenvolvido ao longo de uma vida — a escuta, a empatia, a capacidade de enxergar o humano antes do cargo — não coubesse naquele espaço. Muitas fizeram essa escolha. Não por fraqueza. Por sobrevivência.
O que está em curso hoje é uma virada. As mesmas habilidades que a mulher desenvolveu no exercício do cuidado são exatamente as competências que o mundo corporativo hoje chama de essenciais. Empatia, colaboração e inteligência emocional deixaram de ser virtudes complementares e passaram a ser reconhecidas como power skills. Não por acaso. Porque mulheres chegaram a posições de decisão e provaram, com resultado, que firmeza e sensibilidade não se excluem. Fortalecem-se.
Ressignificar o cuidado é reconhecer que a mulher que chegou à liderança não deixou essa habilidade para trás. Ela a transformou. O que antes era atribuído à natureza feminina revela-se, na prática da gestão, como método. E é esse método que está mudando a qualidade das decisões, das equipes e dos ambientes onde ele é aplicado.
Na saúde, esse movimento tem consequências ainda mais profundas. O setor é operado majoritariamente por mulheres, mas, historicamente, dirigido por homens. Quando essa equação muda, o sistema inteiro responde. O que antes era decidido à distância passa a ser governado por quem carrega esse repertório como parte da própria formação.Equipes lideradas por mulheres tomam decisões mais centradas no paciente. O cuidado deixa de ser apenas entregue e passa a ser desenhado por quem o conhece por dentro.
Protagonismo feminino na saúde não começa com uma nomeação. Começa com a consciência de que aquilo que sempre foi visto como obrigação carrega uma forma de liderar que o mundo está aprendendo, finalmente, a reconhecer.
Eu e o Lar de Clara
Jaqueline Barbosa
PRESIDENTE DO LAR DE CLARA E SÓCIA FUNDADORA DA INSTITUIÇÃO, ATUA
TAMBÉM NA CONSTRUTORA RMIRANDA AO LADO DA FAMÍLIA. NATURAL DE FORTALEZA, CONSTRUIU TRAJETÓRIA MARCADA PELA DEDICAÇÃO FAMILIAR, PELO TRABALHO E PELA ATUAÇÃO SOCIAL, COM FOCO EM CUIDADO, SOLIDARIEDADE E REINVENÇÃO DIANTE DAS ADVERSIDADES.
Minha história com o Lar de Clara começou há 26 anos, de forma simples e inesperada. Eu e meu marido fomos a um terreno em Iparana, Caucaia, para avaliar um poste de alta tensão que poderia oferecer risco à comunidade. Ali, aos sábados, aconteciam ações solidárias, com sopa e evangelização. Como Ricardo é engenheiro civil, foi chamado a opinar sobre a segurança do espaço.
O resultado foi simbólico: o poste saiu, muitas pessoas passaram, e nós permanecemos. Foi assim que nasceu o Lar Beneficente Clara de Assis, carinhosamente chamado de Lar de Clara, uma obra social sem fins lucrativos, construída com amor, solidariedade e compromisso.
Desde o início, entendemos que uma obra social precisa ir além da assistência básica. Era necessário unir o olhar social à educação como ferramenta de transformação. Por isso, construímos salas de aula para que, além da alimentação e da evangelização, pudéssemos oferecer conhecimento, valores, higiene e saúde.
Hoje, temos quase 700 alunos, sendo 106 neurodivergentes e 556 em tempo integral. Atendemos crianças do Infantil 2 ao 5º ano e buscamos parcerias para que permaneçam conosco até o 9º ano. Queremos acompanhá-las por mais tempo, para que cresçam firmes em seus valores e preparadas para escolhas conscientes. Também oferecemos esporte, cultura e arte, com tecnologia, esportes, música, coral e teatro. Ao longo desses anos, acumulamos histórias de superação de famílias inteiras. Elas nos impulsionam e reforçam uma certeza: todos têm talentos e potencial, mas a igualdade só é real quando todos acessam oportunidades.
Sinto-me privilegiada por ser ponte para a transformação de vidas. É imensurável ver o sorriso de uma criança e saber que ali ela pode ser criança: livre, feliz, amada e segura. A primeira infância constrói a base da vida. A criança de hoje é o adulto de amanhã, e todos somos responsáveis por isso.
Trabalhar no terceiro setor não é fácil, mas é gratificante. Vejo-o como aliado do Estado em áreas de vulnerabilidade. No Lar de Clara, cuidamos também das famílias, com apoio social, palestras, encaminhamentos para saúde e órgãos públicos, além de cursos profissionalizantes.
Nosso objetivo não é assistencialismo, mas transformação. Acreditamos em ensinar a pescar, oferecendo ferramentas para que cada pessoa conquiste autonomia e viva com dignidade. Se tocou você, venha conhecer o Lar de Clara, em Iparana. Toda ajuda importa. Todo gesto transforma. Podemos plantar hoje o mundo melhor que queremos colher amanhã.
ESCREVER: UMA ATITUDE BÁRBARA
Luciana Targino
ESCRITORA E PESQUISADORA CEARENSE, PÓS-DOUTORA EM
LITERATURA, CULTURA E CONTEMPORANEIDADE PELA PUC-RIO.
PESQUISA A OBRA DE ZÉLIA GATTAI, É AUTORA DE PARIS SÓ DE IDA, DE CRÔNICAS, E COAUTORA DE QUANDO A MARÉ ENCHER, DE CONTOS.
Na competição do mercado literário, começamos a corrida dois corpos atrás dos homens, que encontram um mundo muito mais disponível para si. Virginia Woolf, em seu célebre ensaio Um teto todo seu (1929), reivindicava que, para uma mulher escrever, era preciso ter um teto só para si, independência e tempo para criar. Em 2026, a condição de tempo para si, para uma mulher, ainda é algo raro. Proponho, então, que olhemos para o passado, para o legado deixado pelas mulheres que nos antecederam — escritoras ou personagens — e que tornaram o nosso caminho possível.
Quando o francês Gustave Flaubert publicou o conto Um coração simples, em Três contos (1877), causou estranhamento ao dar destaque à personagem Félicité, uma empregada doméstica que teimava em amar. Devotava seu amor à patroa, aos filhos da casa, ao sobrinho e, à medida que era desprezada ou perdia aqueles a quem amava, mudava de amor, resistia amando. A sociedade da época se viu diante de uma protagonista vinda do invisível quarto dos fundos e que, ainda assim, conseguia ser feliz. Chamava-se Félicité: Felicidade.
Quase oitenta anos depois, irrompe na cena literária brasileira Carolina Maria de Jesus. Uma catadora de papel, preta, favelada, que, como forma de resistir à dureza que a vida lhe impunha, escrevia. Em seu diário, surgiam reflexões como: “O Brasil precisa ser dirigido
por uma pessoa que já passou fome” e “A favela é o quarto de despejo da cidade”. Houve quem duvidasse de que tivesse sido Carolina a autora de Quarto de despejo. Assim como na recepção de personagens como a de Flaubert, houve quem questionasse o protagonismo de uma mulher, sobretudo nas condições de Carolina.
Clarice Lispector, por sua vez, pavimentou o caminho de dentro. Alguém que escreveu o indizível em nós. Alguém que, ao falar de si, escreveu: “Vive em mim um cavalo preto. E às vezes ele relincha. Eu tento dominá-lo, mas é difícil”. Clarice parecia escrever a partir da dor e do impulso. Talvez da dor de ter nascido cercada pela esperança de curar a mãe de uma enfermidade, fruto de uma violência; e de um impulso que fazia de sua escrita não uma escolha, mas uma necessidade. Clarice escrevia para viver, para sobreviver.
Como legado de Félicité, Carolina e Clarice, proponho a você, que quer seguir no propósito de escrever: segure firme as mãos dessas três mulheres bárbaras e nunca perca a vontade de amar, a ousadia para romper barreiras e a coragem impulsiva de olhar para as profundezas, para que nunca se perca de si.
Mudar a cultura: maior desafio das mulheres
Ludmila Campos
ENGENHEIRA ELETRICISTA, ESPECIALISTA EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO PELA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA (UNIFOR), EM ADMINISTRAÇÃO DA QUALIDADE, E MESTRA EM ADMINISTRAÇÃO E CONTROLADORIA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC). É DIRETORA EXECUTIVA DA ASSOCIAÇÃO DAS EMPRESAS DO COMPLEXO INDUSTRIAL E PORTUÁRIO DO PECÉM (AECIPP).
A Revolução Industrial proporcionou às mulheres as primeiras oportunidades no mercado de trabalho. Entretanto, foi a Segunda Guerra Mundial que ampliou sua presença no ambiente profissional e fortaleceu o debate sobre gênero no trabalho. Mesmo com as conquistas alcançadas desde então, elas ainda enfrentam desafios para ascender na hierarquia corporativa.
Quando comparadas aos homens, as mulheres encontram maiores dificuldades para construir trajetórias de ascensão em cargos estratégicos. Com frequência, deparam-se com barreiras de liderança descritas por metáforas conhecidas: o “teto de vidro”, expressão usada no meio acadêmico para tratar dos limites invisíveis impostos às mulheres; o “labirinto de liderança”, que se refere aos obstáculos encontrados quando buscam cargos de gestão; e a “abelha rainha”, que discute desafios nos processos de ascensão feminina.
Compete-nos frisar que gênero não se restringe à anatomia. A biologia identifica o sexo, mas é preciso considerar também o aspecto cultural no qual a sociedade está inserida. Sob essa perspectiva, observase que as mulheres lutam há décadas para superar a condição de minoria, empenhando-se para serem reconhecidas, em especial nas organizações.
O comportamento de cada gênero é construído culturalmente pela sociedade. Historicamente, os homens ocuparam o papel de provedores, enquanto às mulheres foi atribuído o papel de proteger a família, cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos, tarefas
muitas vezes não remuneradas. Nesse contexto, o mundo do trabalho foi concebido como pertencente ao homem, não responsabilizado pelas atividades domésticas e, portanto, mais disponível para trabalhar.
A liderança feminina é tão eficaz quanto a masculina, e seu estilo tem grande valor. No entanto, para ser aceita por superiores e subordinados, muitas vezes a mulher adota um estilo masculinizado. Nesse cenário, não é simples para quem ocupa cargo estratégico exercer uma liderança feminina, pois ela esbarra em estereótipos de gênero que orientam julgamentos nas organizações.
Concluindo, as mulheres vivenciam paradoxos do tipo double-bind: são cobradas por duas exigências incompatíveis. Se são firmes, podem ser consideradas difíceis; se são colaborativas, podem ser vistas como fracas. Em resumo, a liderança feminina em setores estratégicos não enfrenta apenas barreiras de acesso, mas também dilemas estruturais, pois as regras invisíveis de avaliação impõem às mulheres exigências incompatíveis de forma simultânea.
Os desafios do protagonismo feminino
Irvina Leite de Sampaio
PSICÓLOGA GRADUADA PELA UNIFOR (UNIVERSIDADE DE FORTALEZA), PSICANALISTA COM ATUAÇÃO EM CONSULTÓRIO PARTICULAR, SUPERVISORA CLÍNICA, MESTRE EM PSICOLOGIA PELA UFC (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ) E PROFESSORA UNIVERSITÁRIA DA PÓS-GRADUAÇÃO NA ESPECIALIZAÇÃO EM “PSICANÁLISE E SUAS EXTENSÕES” NA UNIFOR.
A etimologia da palavra protagonismo é grega, une protos (primeiro) e agon (luta). Dito isto, lanço a questão: Como é possível o protagonismo feminino na sociedade patriarcal? O patriarcado é o sistema estrutural no qual homens são detentores majoritários do poder e subjugam mulheres. Friedrich Engels associou o surgimento da propriedade privada e da família burguesa ao homem tomar a mulher como posse. Fala de um teórico do século XIX que ainda vale hoje. Protagonismo feminino só existe na sociedade patriarcal como fruto de muita luta.
Lélia Gonzalez, genial intelectual brasileira, ao falar da divisão sexual do trabalho no Brasil, constatou que o sexismo faz com que o homem se ache superior à mulher. Ainda vemos mulheres ganhando menos, mesmo exercendo a mesma função que os homens. Lélia fala também do racismo na divisão de trabalho: mulheres negras estão na base da pirâmide em funções precarizadas e desvalorizadas: babás, empregadas domésticas etc. Herança colonial maldita vinda da relação Casa Grande/Senzala. Num Brasil que foi colonizado, não há como falar de protagonismo feminino sem tocar em raça. É preciso pensar essa questão de modo interseccional, articulando raça, classe, gênero e território, como nos ensina a brilhante dra. Carla Akotirene.
O pacto da branquitude faz com que desafios enfrentados por mulheres brancas, sejam potencializados para mulheres negras e indígenas. Cida Bento, psicóloga e dra. define branquitude como
o sistema que confere privilégios às pessoas brancas numa sociedade estruturalmente racista. Machismo e misoginia são os principais desafios que o patriarcado impõe ao protagonismo feminino. Mulheres negras e indígenas, fora do pacto da branquitude, sofrem esses efeitos de forma mais violenta a partir da intersecção raça, gênero e classe. Enfrentam, além do machismo e sexismo, racismo e classismo. Sugiro a série brasileira “Coisa mais linda” que trata do tema.
O feminismo é a saída coletiva para a mulher ser protagonista da sua vida, mesmo no sistema patriarcal. Concordo com Lélia Gonzalez ao dizer que o feminismo hegemônico (branco) não representa todas as mulheres, ele é excludente. Ela propõe um feminismo afrolatinoamericano, que inclui mulheres negras, indígenas, brancas, ciganas, PCDs, cis, trans, a fim de construir protagonismo feminino na sociedade. Falar de protagonismo feminino no Brasil é pensar na descolonização psíquica, trabalho árduo e necessário para que as mulheres façam frente ao patriarcado.
Mundo estruturado:
gestão (exaustão) feminina
Entre jornadas sem fim e cuidados invisíveis, mulheres sustentam a vida cotidiana enquanto negociam, diariamente, o direito de existir para além do cansaço.
No Brasil, milhões de mulheres acordam sem que o relógio social se importe com o cansaço delas. Elas não escolheram a pressa nem o cansaço nem a rotina esmagadora delas mesmas. Mas, mesmo não sendo uma opção, o tempo delas findou dividido entre trabalho remunerado, cuidado doméstico e gestão da vida de outras pessoas.
De acordo com os últimos indicativos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado em relação aos homens, mesmo quando estão inseridas no mercado formal de trabalho.
Para a economista Ana Maria Fontenele, esses números revelam apenas uma parte do problema. Segundo ela, “o trabalho invisível das mulheres pode ser compreendido a partir de três dimensões: “o uso do tempo, os impactos no mercado de trabalho e a forma como a sociedade organiza a própria sobrevivência cotidiana”. A professora Ana explica que, quando se fala em trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, refere-se a atividades sem as quais a economia formal simplesmente não funcionaria.
Para Ana Maria, o fato de esse trabalho não circular pelo mercado não significa ausência de valor econômico. “Como ele não recebe remuneração direta, tende a desaparecer das medidas econômicas tradicionais. Mas desaparecer das estatísticas não significa desaparecer da realidade. Pelo contrário: significa que uma parte central da sustentação da sociedade é realizada sem reconhecimento, sem remuneração e, muitas vezes, sem proteção social”.
Essa desigualdade não é residual, é estrutural. Mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres. E o país conta com mais de 10 milhões de mães solo, segundo o IBGE. Em muitos casos, elas são, ao mesmo tempo, provedoras financeiras, cuidadoras principais e responsáveis pela organização integral da vida doméstica. Isso não é sobre “dar conta”, é sobre sustentar um sistema.
Lygia Gomes e Ana Kássia são mulheres cearenses que exemplificam o cenário. Não gostariam, mas ilustram. Em uma interlocução de saberes, a professora Ana Maria e a psicóloga Keyla Monteiro entrelaçam experiências e conhecimentos para lançar luz sobre o mundo estruturado a partir da gestão (exaustão) feminina.
lygia: três turnos, múltiplos mundos
Na Barra do Ceará, zona Oeste de Fortaleza, Lygia Gomes, mulher preta, periférica, organiza o(s) dia(s) como quem administra múltiplos mundos. Mãe solo de duas meninas, durante a semana, é supervisora administrativa. Aos fins de semana, trabalha em uma hamburgueria. Entre os intervalos, é empreendedora da própria loja online de pudins, a Pudim da Lyh.
Quando solicitada pela revista Bárbaras a dizer os horários de início e término de cada uma de suas
atividades, Lygia revelou: “confesso que é algo bem difícil de responder, depende muito do dia, e, sinceramente, nunca pensei sobre isso, preciso responder agora?”. A resposta diz menos sobre não saber exatamente, diz menos sobre indecisão. Seu argumento diz mais sobre continuidade, diz mais sobre um fazimento sem nem se dar conta.
Para a pesquisadora Ana Maria Fontenele, professora doutora da Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade da Universidade Federal do Ceará (UFC), essa dificuldade em responder quantas horas trabalha não é casual. Ela reflete um tipo de atividade historicamente apagada das noções tradicionais de produtividade.
“A formação econômica tradicional deu centralidade ao trabalho remunerado, ao mercado, à renda monetária. Com isso, atividades essenciais realizadas dentro dos domicílios, especialmente por mulheres, foram tratadas como externas ao ‘núcleo duro’ da economia”, pontua a professora, que também é coordenadora da pesquisa sobre o Trabalho de Cuidado, do Programa Cientista Chefe, iniciativa fruto de parceria entre a Secretaria do Trabalho do Governo do Ceará, a UFC e a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
A reação de Lygia conversa bem com uma abordagem elucidada por Keyla Monteiro, psicóloga, psicoterapeuta de orientação junguiana, especialista em psicologia analítica e em equilíbrio emocional. Criadora e facilitadora do Círculo de Mulheres e diretora do Centro de Psicologia Analítica do Ceará (Cepa), Keyla observa que, muitas vezes, o trabalho invisível é tão naturalizado que sequer é percebido por quem o executa:
lia de paula | keyla monteiro
Para Lygia, é como se o trabalho não terminasse, como se ele apenas mudasse de forma. Mesmo em casa, seu pensamento segue ativo: novos produtos, estratégias de venda, vídeos para aprender técnicas.
“Estou sempre buscando aprimorar e trazer novidades para os meus clientes, uma postura que julgo fundamental também para que eu alcance uma arrecadação mensal melhor, caso contrário, o mês fecha com contas penduradas”, expressa Lygia. Além disso, na modalidade de Educação à Distância (EAD), Lygia está concluindo a faculdade de Recursos Humanos e iniciou graduação em Gestão. Duas formações que já inicia especialista, por toda experiência, narrado até aqui.
Segundo Lygia, o que mais pesa não é o trabalho formal, mas as funções que não têm crachá nem horário. “O serviço de casa é sem limites, sem fim, sem descanso. O descanso não tem feito parte das regras de casa, talvez porque também seja nesse meu lugar que me solto para criar outros rumos e outras possibilidades para eu conseguir dar conta da minha vida e das vidas das minhas meninas”, diz.
Não me surpreende uma mulher não compreender o trabalho invisível. A gente é ensinada desde que nasce a entender que isso não é trabalho.
Keyla Monteiro
Esse “serviço de casa” ao qual Lygia se refere inclui alimentação da sua família de três, escola e organização emocional das filhas, limpeza, previsibilidade da rotina e a administração constante de imprevistos. Ao lado de sua equipe multidisciplinar - formada por professores, doutorandos e equipe técnica composta por psicólogos e assistentes sociais - a professora Ana Fontenele conta que, na Economia, esse conjunto de tarefas possui nome: trabalho de cuidado não remunerado.
E, embora frequentemente tratado como extensão do afeto, ele sustenta a rotina de milhões de famílias.
foto:
“O cuidado direto - de crianças, idosos, pessoas enfermas ou pessoas com deficiência - é apenas uma parte. Existem também trabalhos silenciosos frequentemente assumidos por mulheres: gestão da rotina familiar, acompanhamento escolar, marcação de consultas, organização emocional da casa, mediação com serviços públicos, cuidado comunitário e até atividades produtivas informais confundidas com ‘ajuda’”, explica Ana Fontenele.
Um trabalho sem pausa, sem reconhecimento e sem contabilidade. Especialistas chamam isso de carga mental - o esforço contínuo de antecipar tudo o que precisa ser feito para que a vida funcione. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que a tarefa de cuidado não remunerada movimentaria trilhões de dólares na economia global se fosse contabilizada. Ainda assim, permanece fora das métricas econômicas tradicionais.
A invisibilidade, segundo a professora Ana, não ocorre apenas porque esse trabalho é silencioso, mas porque há uma estrutura que se beneficia dele. Sem redistribuir responsabilidades. Segundo a pesquisadora: “Há uma naturalização histórica da ideia de que mulheres nascem sabendo cuidar. Quando algo é visto como amor, dever ou instinto, deixa de ser reconhecido como trabalho”.
E ela acrescenta que existe também uma razão econômica: “tornar esse trabalho visível obrigaria a sociedade a discutir quem deve pagar, quem deve compartilhar e quem deve ser protegido. A invisibilidade é conveniente porque permite que famílias, Estado e mercado se beneficiem desse trabalho sem necessariamente remunerá-lo ou redistribuí-lo”.
Mas o corpo sente o que a economia não mede. Lygia relata insônia, enxaqueca crônica e culpa quando precisa parar. Segundo Keyla, muitas mulheres só percebem a dimensão da sobrecarga quando adoecem. “Quando os sintomas físicos aparecem - uma enxaqueca, doenças crônicas, hipertensãomuitas seguem tomando remédio e continuam. Só param, muitas vezes, quando existe um adoecimento incapacitante ou psíquico”, ilustra Keyla. Para ela, isso que muitas mulheres vivem, na grande maioria das vezes, não é reconhecido como trabalho.
“A gente vive numa sociedade que nos obriga a pensar que trabalho é aquilo que dá retorno financeiro. Mas não é. O trabalho invisível, esse trabalho que não tem remuneração direta é geralmente feito pelas mulheres. E quando elas entraram no mercado de trabalho, não deixaram esse outro trabalho para trás”, destaca a psicóloga. Uma observação evidente numa outra exposição feita por Lygia, quando ela diz: “Para eu descansar, eu preciso adiar alguma atividade. Sinto meu corpo pedindo descanso, mas não tenho como parar, e, quando paro, minha cabeça não estaciona, e eu me sinto ainda mais esgotada, por isso, vou fazendo as coisas”.
Há uma naturalização histórica da ideia de que mulheres nascem sabendo cuidar. Quando algo é visto como amor, dever ou instinto, deixa de ser reconhecido como trabalho.
Descansar, para ela, não elimina o trabalho, parece só uma reorganização do ritmo de esgotamento, explica Keyla. Para ela, o descanso torna-se difícil porque muitas mulheres permanecem mentalmente em estado de operação sem fim. “Mesmo quando param, elas continuam pensando: preciso fazer o almoço, tirar a comida do congelador, resolver o agora, o amanhã. Existe uma autocobrança gigantesca. Nós viramos nossas próprias chefes”, afirma.
A desigualdade não está apenas no cotidiano individual, mas na estrutura. Segundo o IBGE, mulheres dedicam quase o dobro do tempo ao trabalho doméstico. Mais de 10 milhões de brasileiras são mães solo. Em lares chefiados por mulheres, a renda média tende a ser menor e a sobrecarga maior.
Ana Maria Fontenele
foto: lia de paula | ana maria fontenele
Para eu descansar, eu preciso adiar alguma atividade. Sinto meu corpo pedindo descanso, mas não tenho como parar, e, quando paro, minha cabeça não estaciona, e eu me sinto ainda mais esgotada, por isso, vou fazendo as coisas.
Lygia Gomes
A OIT aponta que o trabalho de cuidado é majoritariamente não remunerado e invisível, na economia formal. Essa combinação produz o que pesquisadores chamam de economia do cuidado invisível, um sistema que depende do trabalho feminino para funcionar, mas não o reconhece como trabalho.
Para Ana Fontenele, a expressão “economia do cuidado invisível” não é metáfora. Ela descreve uma engrenagem concreta da vida social. “Se esse trabalho fosse contabilizado, estudos estimam que ele acrescentaria algo em torno de 13% ao Produto Interno Bruto brasileiro. E as mulheres responderiam por mais de 65% dessa contribuição”, afirma a pesquisadora.
Junto à sua equipe, ela faz questão de destacar que a invisibilidade não deveria mais causar surpresa a ninguém. “Nenhum de nós teria dificuldade de responder quem realiza trabalho de cuidado não remunerado no Brasil: mulheres, negras e de baixa renda. Não precisamos de pesquisa para reconhecer isso. O papel dos estudos é entender qual estrutura social produziu essa realidade e como construir soluções”, explica a professora.
ana kássia: o cuidado como herança e ruptura
Mulher quilombola, moradora da Serra do Evaristo, no Maciço de Baturité, região do Norte cearense, Ana Kássia é mãe de quatro filhos (dois atípicos), artesã, pequena empreendedora, educadora social, liderança comunitária. Ela cresceu dentro de uma lógica onde cuidar é destino.
Ana Kássia conta: “Há um tempo, quando dizia que ia descansar, eu não descansava de verdade, fazia um pequeno passeio, mas não desligava inteiramente, ficava conferindo tudo por telefone, por mensagem, não parava para vivenciar realmente o passeio”.
O “não descansar”, mesmo em um passeio, exposto por Ana Kássia é evidenciado por Keyla, quando a psicóloga diz: “a gente aprende a ser mulher olhando mulheres da nossa casa, das nossas comunidades. Se os exemplos apontam para a mulher fazendo tudo e o homem não dividindo as tarefas, aquilo, certamente, passa a parecer natural”.
Este é um ponto também trazido pela professora Ana Fontenele. De acordo com ela, “existe uma naturalização da ideia de que mulheres cuidam melhor ou nasceram sabendo cuidar. Quando algo é entendido como amor, dever ou instinto, deixa de ser percebido como trabalho”. O resultado, segundo ela, é uma distribuição desigual do tempo e da vida.
“Reconhecer o cuidado como trabalho significaria rever jornadas. Não é apenas uma mudança de linguagem, é uma mudança na forma como a sociedade distribui tempo, renda, direitos e responsabilidades”, explica Ana Fontenele. Ana Kássia conta que demorou muito para começar a questionar esse padrão de cansaço. Ela apenas o repetia, era um padrão que ela observava a seu redor. Até que seu corpo começou a falhar, a cobrar, a solicitar parcerias.
Ana Kássia viveu vínculos íntimos marcados por controle, desgaste emocional e episódios de violência psicológica e física. Em um momento bem delicado, ela entendeu que permanecer na relação poderia ser sinônimo de desaparecer de si mesma. “Eu compreendi que precisava salvar a minha própria vida”, ressalta. A saída não foi imediata nem simples. Envolveu ruptura afetiva, instabilidade financeira e adoecimento emocional.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que mulheres expostas à violência doméstica e à sobrecarga crônica têm maior risco de desenvolver ansiedade, depressão, distúrbios do sono, todos sintomas associados ao esgotamento prolongado. Ana Kássia descreve esse período como um colapso de identidade: “não tinha mais perspectiva de vida, de sonhos, mas consegui dar um basta”.
E isso é o corpo de Ana Kássia, assim feito o de Lygia, transformado em território de sustentação. Ambas vivem algo que a socióloga estadunidense Arlie Hochschild definiu como “segunda jornada”, o trabalho doméstico que se soma ao trabalho
remunerado e nunca se encerra. No Brasil, essa segunda jornada é naturalizada como parte do feminino. E isso produz um efeito silencioso: culpa.
Segundo Keyla, o medo de não dar conta ocupa um lugar central na experiência feminina. Citando pesquisas de outra socióloga, Brené Brown, reconhecida por seus estudos em vulnerabilidade e coragem, Keyla afirma que “o grande medo da mulher é ser vista como alguém que não dá conta, então, nós enxergamos o excesso de atividades como falha, fraqueza ou incompetência”.
Lygia sente culpa ao descansar. Ana Kássia sentiu culpa ao romper. Duas formas diferentes de uma mesma estrutura. E isso dialoga, inclusive, com debates consolidados sobre divisão sexual e racial do cuidado, interseccionalidade, herança colonial da escravização e a construção social da mulher preta (por extensão, da mulher quilombola) como alguém “naturalmente” destinada ao cuidado. Essa estrutura, lembra Ana Fontenele, não pesa igualmente sobre todas as mulheres.
“A negociação dentro de casa não acontece em condições abstratas de igualdade. Ela depende de renda, raça, território, dependência econômica, acesso a serviços públicos, presença de rede de apoio e oportunidades no mercado de trabalho”, explica a professora.
Por isso, segundo ela, há risco em individualizar um problema estrutural. “Quando se diz apenas que a mulher precisa negociar melhor, impor limites ou se empoderar, o problema pode ser transformado em falha individual. Para muitas mulheres, negociar não é simples, é uma disputa em condições profundamente desiguais”, afirma a pesquisadora.
A antropóloga Lélia Gonzalez aponta que racismo e sexismo, no Brasil, produziram uma imagem histórica da mulher preta associada ao serviço, ao cuidado e à subalternidade, sobretudo, por conta da figura da “mãe preta”: doméstica, cuidadora. E
isso tem contribuído com o sustentáculo cruel que é a expectativa social sobre parecer muito óbvio que mulheres negras cuidem.
Keyla ressalta, ainda, que a sobrecarga não atinge todas as mulheres da mesma forma. “Uma mulher preta e periférica tem muito mais preocupações. O nível de estresse dela é muito maior. Falta muito mais a ela. Ela foi muito mais marginalizada, foi mais castigada, mais inferiorizada, ela teve mais direitos e oportunidades arrancados”, enumera Keyla.
quando a liberdade tem preço
Para muitas mulheres, sair de relações ou mudar condições de vida implica custo financeiro direto.
O impacto econômico do cuidado, segundo Ana Fontenele, aparece de forma brutal quando mulheres precisam decidir entre permanecer ou sair de relações.
“O cuidado não remunerado consome tempo, energia física, disponibilidade emocional e capacidade de planejamento. Para muitas mulheres, isso significa reduzir jornada, aceitar empregos mais precários, abandonar oportunidades de formação, trabalhar na informalidade ou sair completamente do mercado de trabalho”, afirma a pesquisadora.
O efeito ultrapassa o presente. Há perda de renda hoje e perda de proteção amanhã. “Quando uma mulher não consegue contribuir regularmente para a previdência porque cuida sozinha de crianças, idosos ou familiares dependentes, isso compromete aposentadoria, direitos e autonomia futura”, descreve a professora Ana.
Lygia conta que permaneceu em uma relação por medo de não conseguir arcar com as despesas. Keyla, por sua vez, afirma: “Muitas mulheres só conseguem dimensionar a sobrecarga quando adoecem. Enquanto o corpo não adoece, seguem sustentando
foto : lia de paula | lygia gomes e suas filhas
relações, trabalho e mantendo um mecanismo que parece, muitas vezes, para elas, um sistema de sobrevivência”. E, de fato, Lygia conta que só saiu da relação mencionada quando seu corpo começou a adoecer. “Olhei pra mim, senti e entendi que minha paz deveria ser inegociável”, reflete, a partir de uma frase que é a síntese de uma decisão difícil: trabalhar mais para sofrer menos.
Segundo a DataSenado, plataforma de dados e informações legislativas, a dependência financeira ainda é um dos principais fatores que mantêm mulheres em relações abusivas no Brasil. Não se trata apenas de escolha, trata-se de estrutura. Um sistema percebido e já recusado, hoje, por Ana Kássia e Lygia. Para a economista, insistir apenas em soluções individuais pode mascarar uma desigualdade produzida socialmente.
“O discurso do empoderamento é importante quando amplia renda, autonomia e direitos. Mas ele se torna limitado quando sugere que basta mudar postura individual”, argumenta a professora Ana Maria Fontenele.
Segundo Ana Maria, sem redistribuição do cuidado, o risco é apenas ampliar o acúmulo de responsabilidades. “Não basta dizer para a mulher ocupar espaços se, ao chegar em casa, ela continua responsável sozinha pelos filhos, alimentação, limpeza, saúde da família e organização emocional do lar”, relata a pesquisadora. Neste sentido, Lygia relata: “Se não for para dividir igualmente, se não for para entender que cuidar é uma tarefa que solicita responsabilidades excessivas, se não for para estar na relação por completo, dividindo mesmo, eu não quero. Passei a me dar conta absolutamente sobre isso”.
Lygia e Ana Kássia passaram a não aceitar a naturalização do cuidado como destino feminino. “Tirando o nascimento dos filhos, todas as outras atividades são do ser humano, e não só da mulher”, diz Ana Kássia, deslocando o sistema de cuidados do campo individual para o social, para o coletivo. O cuidado, como está organizado hoje, não é apenas uma função. É uma distribuição desigual de tempo, energia e vida.
o direito ao descanso
Ana Kássia e Lygia chegam a um ponto comum: a recusa da normalização do cansaço. Enquanto Ana Kássia afirma que “não podemos normalizar o cansaço e não descansar”, Lygia sintetiza sua
travessia dizendo que “fase não é fim, entendi o que não aceito mais, ainda que isso me cause outros cansaços, mas minha dignidade humana, hoje, segue mais em paz”.
Entre uma frase e outra, entre uma sabedoria e outra, há um território em disputa: o direito ao descanso. Porque o que está em jogo não é apenas trabalho. É tempo, tempo de existir sem estar em função de alguém. Tempo de não sustentar tudo sozinha, de não transformar sobrevivência em rotina. Elas sabem do peso, conhecem o cansaço, habitam a sobrecarga. Mas passaram a recusar a ideia de que sofrimento feminino seja um destino.
Keyla frisa que cuidar do direito que as mulheres têm ao descanso não é uma questão individual. “Esse é um nó psíquico, social e também de políticas públicas. O papel de cuidar é um papel necessário, mas ele não pode continuar sendo sustentado por mulheres exaustas”, destaca a psicóloga.
Entre panela no fogo, planilhas, contas a pagar, filhas e filhos precisando de colo e de outras formações, elas seguem insistindo numa pergunta que já nem é tão silenciosa: e se viver não precisasse doer tanto para as mulheres? Na economia feminista, há uma formulação conhecida como os “5 Rs do cuidado”: reconhecer, reduzir, redistribuir, remunerar e representar.
Para Ana Fontenele, esse talvez seja o caminho mais concreto para romper a lógica da exaustão feminina. Reconhecer significa tornar visível aquilo que sustenta a vida. Reduzir significa criar serviços públicos e infraestrutura que aliviem a sobrecarga. Redistribuir significa dividir responsabilidades entre homens, Estado, mercado e comunidade. Remunerar significa proteger quem cuida. E representar significa garantir voz política às mulheres que sustentam esse sistema invisível.
“Sem isso, continuaremos chamando de amor aquilo que também é trabalho e tratando como destino aquilo que é desigualdade”, sintetiza a professora Ana Maria. Enquanto tempo e divisões de atividades seguem desiguais, milhões de mulheres continuam vivendo em estado de presença contínua. Cuidando, resistindo, trabalhando, sustentando. E seguem tudo isso não por ser leve. Mas porque parar não se apresenta como uma opção.
Novas lideranças para uma nova indústria
Dana Nunes
SUPERINTENDENTE DO IEL
CEARÁ, LÍDER DA ÁREA DE FORTALECIMENTO
SINDICAL DA FIEC E DO PORTFÓLIO DE TRANSFORMAÇÃO DIGITAL DO SISTEMA FIEC. GRADUADA EM ADMINISTRAÇÃO (UECE) E LETRAS (UNIFOR), ESPECIALISTA EM ADMINISTRAÇÃO E GESTÃO DE NEGÓCIOS (IBMEC), DIVERSAS FORMAÇÕES NO MIT, HONG KONG UNIVERSITY E LONDON COLLEGE.
Os avanços tecnológicos estão sempre no centro das discussões sobre o futuro da indústria. Mas, esse debate precisa passar, inevitavelmente, por outro eixo central: as pessoas. Afinal, não são apenas as máquinas que movem o setor. As pessoas são, e sempre serão, fundamentais para liderar as transformações que irão impulsionar as empresas. Nesse contexto, ampliar a presença das mulheres em posições de liderança precisa ser tratado como prioridade estratégica.
Nos últimos anos, temos observado uma mudança gradual, porém consistente, na participação das mulheres tanto na força de trabalho quanto em espaços de decisão no setor industrial. A indústria foi, inclusive, o setor em que houve maior expansão na participação das mulheres na gestão, alcançando 32% dos cargos de liderança.
A indústria vive uma transição impulsionada pelas novas tecnologias, inteligência artificial, novas diretrizes de governança e sustentabilidade, o que exige novos perfis de liderança, ainda mais adaptáveis. Quando homens e mulheres lideram juntos, somam competências para ajustar com mais assertividade e rapidez as estratégias da empresa em cenários incertos ou de mudança. É a partir da união de diferentes perspectivas que se potencializa a inovação. Inovar é, acima de tudo, a capacidade de pensar diferente, antecipar tendências e inspirar a transformação. Liderando juntos, homens e mulheres ampliam a capacidade de enxergar oportunidades e soluções mais eficientes para desafios complexos.
O IEL Ceará tem atuado de forma estratégica para fortalecer o protagonismo feminino nas empresas cearenses por meio de um programa que desenvolve habilidades essenciais para que mulheres atuem como líderes de si, líderes de equipes e líderes de negócios. Ao estimular o autoconhecimento e a confiança para liderar, a iniciativa contribui para preparar mais mulheres para ocupar posições de influência e participar ativamente da construção de um setor produtivo mais dinâmico e competitivo.
Consolidar uma indústria mais inovadora, competitiva e sustentável impõe a inclusão, de forma efetiva, das mulheres na liderança. A indústria que queremos exige reconhecer que talento não tem gênero. Transformar essa visão em realidade exige compromisso, investimento em desenvolvimento e, sobretudo, a compreensão de que diversidade não é apenas um valor, mas um ativo estratégico que impacta diretamente no desempenho do setor.
Quando as mulheres avançam, toda a indústria evolui junto com elas e amplia seu potencial de impactar a economia e o desenvolvimento do Estado, do país.
Cozinha de elite: A vez das vozes femininas
Marina Araújo
DIRETORA DO MERCADO ALIMENTACE, GESTORA CULTURAL, PESQUISADORA E COZINHEIRA. DESENVOLVE EXPERIÊNCIAS QUE
CONECTAM PESSOAS POR MEIO DA CULTURA ALIMENTAR, DOS SABERES ANCESTRAIS, DA HOSPITALIDADE E DE NARRATIVAS QUE FORTALECEM A COMUNIDADE.
No início da interação entre os seres humanos a posição do homem e da mulher era igual, muitas vezes, a mulher era até superior. Já está mais do que provado que a mente feminina foi fundamental para o desenvolvimento e evolução da nossa espécie na Terra. A mulher que decidiu tecer fios naturais e criar tecidos para cobrir o corpo e se proteger, a mulher determinou fincar raízes em um lugar específico e ao plantar, garantiu mais estabilidade para todos à volta. E, mais uma vez, foram elas que usaram argila e barro para modelar e desenvolveram utensílios para o uso doméstico, criando a possibilidade de algo que viria a ser comensalidade. Ou seja, a mulher domina a cozinha e as atividades correlatas há milhares de anos.
Corta a cena, em 1890, o famoso chef francês Auguste Escoffier declarou: “o homem é mais rigoroso no seu trabalho” e “mais atento sobre os vários detalhes que são necessários para produzir um prato verdadeiramente perfeito”. Como fomos parar de essenciais na evolução humana para meras coadjuvantes responsáveis “unicamente” pela invisível manutenção e zelo da vida no lar familiar? O apagamento da força e do protagonismo feminino é um projeto bem pensado para garantir a hegemonia masculina nos espaços de poder, sabemos. Mas a pergunta que fica é a seguinte: como reverter essa situação?
Já aviso que a missão não é simples, mas acredite, é mais simples pra nós hoje do que foi algum dia para as nossas ancestrais. Mais do que ocupar espaços, é preciso redesenhar as regras do jogo. Valorizar trajetórias, reconhecer saberes invisibilizados e criar ambientes onde mulheres não apenas entrem, mas permaneçam e prosperem. A alta gastronomia precisa deixar de ser território de exceção feminina para se tornar espaço de equidade real. E isso passa por formação, incentivo, visibilidade e, sobretudo, por mudança de mentalidade, de quem contrata, de quem consome e de quem narra essas histórias. Um grande acordo coletivo. Não se trata de concessão, mas de justiça e reparação histórica. Quando mulheres ocupam a cozinha como protagonistas, não estão pedindo licença: estão retomando um lugar que sempre foi seu.
Não posso deixar de mencionar a importância crucial das políticas públicas afirmativas voltadas para a reinserção feminina nos espaços de gestão de diversas áreas, esse movimento possibilita um olhar potencialmente mais favorável à chegada, e permanência, de muitas outras aos lugares da tomada de decisão. Lembrando que essa conquista não é uma novidade, e sim, o retorno de onde as mulheres nunca deveriam ter saído: o topo.
Mulheres velhas vivem mais, e podem viver com saúde
Márcia
Alcântara
MÉDICA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC), PÓS-GRADUAÇÃO EM
PNEUMOLOGIA, MESTRA EM EPIDEMIOLOGIA. ARTICULISTA DO O POVO, COORDENA A REABILITAÇÃO PULMONAR DO PULMOCENTER, AUTORA DO LIVRO POÇO.
O Brasil envelhece, e envelhece com rosto de mulher. Dados recentes do IBGE mostram o crescimento contínuo da população com mais de 60 anos. Já somos mais de 35 milhões de pessoas idosas, sendo as mulheres a maioria expressiva. Vivemos mais; a pergunta agora é: como viver melhor sendo uma mulher idosa?
Envelhecer traz limites reais, mas também pode trazer liberdade. Para as velhas, essa liberdade chega como possibilidade de fazer o que se pode, reinventar caminhos e contornar os embates do corpo e da mente. Cuidar de si, de modo altivo, é também um gesto de resistência — um desprender-se das opressões sociais que, por tanto tempo, invisibilizaram as mulheres e limitaram sua vida plena.
As doenças que mais impõem limitações são, em geral, crônicas: hipertensão, diabetes, doenças pulmonares (como DPOC e asma), doenças coronarianas, arritmias, AVC, obesidade e doenças reumáticas. Somam-se a elas os quadros psíquicos, como depressão e ansiedade, além das doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, e o risco de quedas com consequências graves.
O controle dessas condições depende de políticas públicas eficazes, mas há um ponto decisivo: o autocuidado. Quando associado ao tratamento médico, ele tem força vital e pode reduzir significativamente as limitações impostas pela idade.
Em muitos casos, essas doenças refletem hábitos acumulados ao longo da vida: sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool e alimentação inadequada, rica em ultraprocessados. Por isso, o autocuidado se constrói no cotidiano, com práticas simples e constantes: Movimentar-se diariamente: caminhar, dançar, fortalecer o corpo; Alimentar-se melhor: priorizar alimentos naturais e reduzir ultraprocessados; Dormir bem: o sono regula o equilíbrio entre corpo e mente; Cuidar do corpo: da pele, unhas, cabelos e da higiene ao bem-estar geral.
Outro pilar essencial é a vacinação. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece vacinas seguras e fundamentais para essa fase da vida: Covid-19; Influenza (gripe); Pneumocócica (pneumonia e meningite); Febre amarela (conforme orientação médica); Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola, para quem não foi vacinado).
Cuidar-se não é vaidade, é estratégia de vida. A velhice não é apenas perda. Mesmo com limitações, ainda é possível escolher. O autocuidado amplia a autonomia, reduz dependências e sustenta a liberdade de viver com dignidade.
Guardiãs do fogo
Lília Quinderé
ARTICULADORA CULTURAL NO SEGMENTO DAS ARTES, CONECTA ARTISTAS, ARQUITETOS, DESIGNERS DE INTERIORES E ESPAÇOS EXPOSITIVOS. COM 18 ANOS DE ATUAÇÃO EXECUTIVA NA CASA COR CEARÁ, COORDENA ESPAÇOS CULTURAIS EM FORTALEZA.
O avanço do protagonismo feminino é visível e ocupa a pauta do debate público. A presença, contudo, não se converte, por si só, em empoderamento efetivo, especialmente quando os critérios de relevância e legitimidade ainda não acompanham esse avanço.
No Ceará, os dados ajudam a dimensionar essa realidade. As mulheres são maioria da população, mais de 51%, lideram os indicadores educacionais e representam seis em cada dez pessoas com diploma de ensino superior do Prouni. Mesmo assim, recebem, em média, cerca de 10% a menos do que os homens. Levantamento do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará, com base na PNAD/IBGE 2024, mostra que a dissociação entre formação e remuneração não é pontual. A presença feminina se amplia, mas o alcance de seu poder permanece limitado.
Na cultura, esse processo assume uma forma ainda mais persistente. A produção feminina cresce, circula e amplia espaço, enquanto a memória segue organizada a partir de uma tradição hegemonicamente masculina. A história da arte cearense consolidou nomes como Raimundo Cela, Antônio Bandeira e Aldemir Martins como referências. Até aí, tudo bem. Em contraste, a produção de mulheres ainda tem pouco registro e projeção. Quem, fora dos meios acadêmicos, incluiria nesse repertório Sinhá D’Amora (1906-2002), pioneira e uma das maiores pintoras cearenses?
Essa lógica atravessa o tempo. Em diferentes contextos históricos, às mulheres coube sustentar aquilo que garantia continuidade, muitas vezes restritas ao âmbito privado. Em sociedades ancestrais, eram as guardiãs do fogo, responsáveis por manter acesa a chama que aquecia, alimentava e reunia. Uma função indispensável à vida coletiva, cujo reconhecimento, no entanto, raramente se traduziu em centralidade.
O que se observa hoje é um deslocamento consistente, mas ainda insuficiente para alterar, de forma afirmativa, as estruturas que organizam o protagonismo feminino. Aquilo que uma sociedade registra e preserva define o lugar de cada grupo ao longo do tempo. Avançar nesse debate exige mais do que reconhecer presença ou celebrar conquistas recentes. É preciso rever os mecanismos que legitimam trajetórias, abrir critérios de reconhecimento e criar condições reais para que o protagonismo feminino avance.
Sem essa revisão contínua, a desigualdade se reproduz em silêncio: menos visível, mas igualmente presente nas estruturas que definem visibilidade e acesso, inclusive no campo das artes.
Uma ode ao protagonismo feminino
PSICÓLOGA, PSICANALISTA, ESPECIALISTA EM SAÚDE MENTAL, MESTRE EM SAÚDE PÚBLICA PELA FACULDADE DE MEDICINA
DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC), PROFESSORA DA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA (UNIFOR) E COLUNISTA DO O POVO.
O debate sobre a longevidade feminina na música serve aqui de mote para pensarmos o nosso tempo e o protagonismo feminino. No palco, a rainha da pop music Madonna, convidada de Sabrina Carpenter na 27º edição do festival de arte e música Coachella que aconteceu na Califórnia agora em 2026. Fora do palco, comentários machistas e misóginos, vindos de homens e também de mulheres, sinalizam a urgência de não recuarmos no movimento de resistência diante das violências contra a mulher porque, como disse o professor da Universidade de Yale, Tymothy Snyder (sobre o fascismo do século XX), em seu livro “On Tyranny”, de 2017, “a história não se repete, mas instrui”.
Nesse mesmo cenário, escutamos o supremacista estadunidense de extrema direita Nicholas Fuentes, conhecido como Nick Fuentes, de 27 anos, afirmar, sem o menor constrangimento, que eliminaria, se lhe fosse dado o poder, o direito ao voto das mulheres. Certamente é a maneira dele de nos provocar. Parece uma piada. E é. Ele é uma piada. Dizendo o que diz nos convoca a pensar, a resistir, a não nos acomodarmos. Assim como não se acomodaram mulheres pioneiras da psicanálise como as russas Sabina Spielrein e Lou Andreas-Salomé e a alemã Karen Horney, que foram muitas vezes relegadas ao esquecimento em função de um protagonismo masculino.
Em uma participação no Grammy há dez anos, a mesma Madonna, então com 57 anos, disse que não existem regras na sociedade se você for homem, mas se você for mulher, precisa jogar o jogo. Nunca envelheça, porque envelhecer é um pecado, completou. Em tempos narcisistas, de individualismo, tempo no qual a tristeza e o desamparo não têm lugar, a velhice (de maneira infinitamente mais marcante, da mulher) é o lugar da invisibilidade. Acontece que o desejo não envelhece! Eros não envelhece. Simone de Beauvoir dizia que inércia é sinônimo de morte. Mudar é a lei da vida, completa a filósofa francesa. A imortal da Academia Brasileira de Letras e dama das artes, nossa Fernanda Montenegro que o diga. Aos 96 anos, em cartaz nos cinemas do nosso país com o filme “Velhos Bandidos” nos dizendo que, protagonismo e agonia têm a mesma raiz, no sentido de luta contra as próprias dificuldades. Fernanda e Madonna são mulheres que se recusam a ser espectadoras nessa estrutura social que pretende nos alienar. Elas resistem e essa deveria ser a tarefa de todas nós, sermos protagonistas a esculpir e tecer a própria vida e o tempo.
Sabrina Matos
A voz da mulher no Legislativo
Augusta Brito
SENADORA DA REPÚBLICA (PT), ENFERMEIRA E BACHAREL
EM DIREITO. PREFEITA DA CIDADE DE GRAÇA POR DOIS
MANDATOS, SECRETÁRIA DE EDUCAÇÃO EM SÃO BENEDITO
E DEPUTADA ESTADUAL EM DUAS LEGISLATURAS.
A presença feminina nos espaços de poder não é apenas uma questão de justiça social, é também uma condição indispensável para a consolidação da democracia e a eficácia das políticas públicas. Ao longo da minha atuação legislativa, desde os primeiros passos na Assembleia Legislativa do Ceará e chegando, hoje, ao Senado Federal, percebi que a nossa presença não apenas diversifica o debate, mas altera as próprias leis que regem o país.
No Parlamento estadual, vi de perto como as políticas públicas são mais eficazes quando as mulheres participam da sua formulação. Lutar pela implementação dos equipamentos de combate à violência doméstica e pela autonomia financeira das mulheres me mostrou que, quando uma mulher legisla, ela traz consigo as demandas de toda uma comunidade que, por séculos, foi silenciada nas esferas de poder. Entendi que a representatividade é o primeiro passo para a transformação social.
A transição para o Senado federal ampliou a escala dessa responsabilidade. Enfrentamos estruturas historicamente masculinas, onde cada fala nossa é uma conquista e cada projeto aprovado é um rompimento de barreiras. Não se trata apenas de votar projetos, trata-se de disputar o orçamento, de presidir comissões estratégicas e de garantir que a perspectiva de gênero não seja um capítulo isolado, mas o eixo transversal de toda e qualquer política pública.
A representatividade feminina na política impacta diretamente a qualidade do debate legislativo. Nesse contexto, iniciativas como a criação do Guia da Candidata, produzido pela Procuradoria da Mulher do Senado, torna-se fundamental, pois fornece suporte técnico e orientações práticas para ampliar e fortalecer a presença das mulheres em espaços de poder, deixando-o mais diverso e inclusivo.
A política feita por mulheres não é apenas para mulheres, mas para uma sociedade mais justa e equilibrada para todos. Ocupar o Legislativo é um ato de resistência e de esperança. A democracia só será plena quando a composição dos nossos parlamentos refletir a face real do povo brasileiro: majoritariamente feminina, diversa e perseverante.
O nosso compromisso deve ser o de continuar abrindo caminhos. A política deve ser um lugar de acolhimento e de transformação. Que cada menina que nos veja hoje na tribuna, seja no Ceará ou em Brasília, saiba que o seu sonho de mudar o mundo através da política não é apenas possível, mas essencial.
Ana Canosa
Autoras de suas próprias vidas
entre o corpo que a sociedade vigia e o desejo que insiste em sobreviver, ana canosa construiu uma trajetória
rara: a de quem transforma intimidade em reflexão política sem perder a delicadeza humana. Nesta entrevista à revista Bárbaras, ela fala sobre sexualidade, envelhecimento, autonomia feminina, redes sociais, machismo estrutural e os conflitos de uma geração que aprendeu a falar sobre liberdade, mas ainda tropeça no medo de exercê-la. O resultado é um mergulho profundo nas contradições do feminino contemporâneo — e um convite urgente para que mulheres voltem a ocupar o centro das próprias histórias.
foto: arquivo pessoal
Antes de se tornar uma das principais vozes brasileiras quando o assunto é sexualidade, relacionamentos e comportamento, Ana Canosa era uma adolescente que gravitava em torno dos vulneráveis. Os amigos “fora do padrão”, os invisíveis da escola, os que não ocupavam o centro das rodas sociais. Talvez tenha começado ali — ainda que ela só compreendesse isso décadas depois.
Filha de um professor de Direito Penal e de uma diretora de escola, Ana cresceu cercada pelo valor do estudo, da leitura e da docência. Mas não havia psicólogos na família. Nem referências claras de que aquele seria o seu caminho. “Eu nunca tive aquela coisa concreta de ‘vou ser psicóloga’. Fui me colocando na vida e percebendo que tudo fazia sentido para quem eu era”, diz.
Ela conta que começou a fazer terapia aos 18 anos, já na faculdade de Psicologia, e ouviu da terapeuta uma definição que levaria muitos anos para decifrar: intuitiva. “Só fui entender isso muito tempo depois, com a carreira já consolidada. Minha trajetória nunca foi linear. Mas ela sempre esteve profundamente conectada com quem eu sou.”
O interesse pela sexualidade também chegou de forma intuitiva. Um ginecologista lhe apresentou, em 1994, um dos primeiros cursos de educação sexual de São Paulo. “Ele falou: ‘isso tem a sua cara’. E tinha mesmo”. Ela sorri ao lembrar que os próprios amigos não se surpreenderam. “Eles diziam: ‘Ana, isso é muito você’. Eu sempre fui muito livre”.
Mas liberdade, em sua história, nunca significou irresponsabilidade. “Eu vinha de uma família extremamente comprometida com estudo e ética. Então minha relação com a sexualidade sempre teve consciência, cuidado, prevenção”. Talvez por isso Ana fale sobre sexo sem vulgaridade, sem espetáculo, sem culpa. Como quem trata do corpo com a mesma naturalidade com que se fala da vida.
Ao longo da conversa, Ana retorna várias vezes a uma palavra: autonomia. Para ela, boa parte da desigualdade entre homens e mulheres nasce exatamente da dificuldade histórica feminina em ocupar plenamente o próprio desejo — e não apenas no campo sexual. “Quando eu falo desejo, não estou falando só de sexo. Estou falando de ambição, realização, prazer, vontade de existir para além do amor”.
Segundo ela, a mulher foi educada para investir emocionalmente quase tudo no “dispositivo amoroso”: casamento, maternidade, cuidado, dedicação ao outro. E quando toda a identidade feminina é construída a partir disso, sobra pouco espaço para a própria individualidade.
“As mulheres foram conduzidas a acreditar que o amor deveria ser o principal foco da existência delas. E isso produz uma vida extremamente vulnerável”.
Ela explica que essa lógica atravessa séculos de patriarcado, religiosidade e estruturas sociais que colocaram a mulher dentro do espaço privado, enquanto os homens foram educados para autonomia, conquista e prazer individual.
“O homem aprende desde cedo que pode desejar independentemente do amor. A mulher aprende que só pode desejar se amar profundamente alguém”.
Na prática, isso produz mulheres que sentem vergonha de dizer do que gostam, que colocam o prazer do parceiro acima do próprio corpo e que, muitas vezes, sequer conhecem os próprios desejos.
“Como alguém vai saber o que te dá prazer se nem você sabe? Como o outro vai conhecer seu corpo se você nunca foi autorizada a explorá-lo?”.
Quando questionada sobre o que a sexualidade revela sobre o Brasil, Ana responde sem hesitar: a dificuldade da sociedade em aceitar mulheres autônomas.
convidadas
Ela cita os discursos cotidianos que seguem culpabilizando mulheres por comportamentos considerados “livres”. A amante que “roubou o marido”. A mulher que é julgada por usar o próprio corpo. A profissional sexual condenada moralmente enquanto homens consumidores permanecem invisíveis.
Mas há um ponto que a atravessa particularmente: o feminicídio. “O feminicídio geralmente acontece quando a mulher diz: ‘eu quero ir embora’. É quando aparece a autonomia dela. E muitos homens ainda não suportam isso”.
Para Ana, a violência extrema nasce justamente da incapacidade estrutural de aceitar que mulheres possam desejar sair, romper, escolher outro caminho. “A autonomia feminina ainda não é plenamente suportada socialmente”.
Ela acredita que a sociedade brasileira avançou muito no debate sobre igualdade de gênero, mas alerta para algo mais silencioso: o machismo que sobrevive nos detalhes. “As pessoas escorregam no discurso. Está nas pequenas frases, nos julgamentos cotidianos, nas piadas, nos lugares de poder”.
a geração que fala sobre liberdade — mas faz menos sexo
Se há um tema que intriga Ana atualmente, é a relação das novas gerações com a sexualidade. Para ela, existe um paradoxo curioso acontecendo.
Ao mesmo tempo em que adolescentes e jovens falam mais abertamente sobre gênero, orientação sexual e diversidade, pesquisas no mundo inteiro mostram que eles estão fazendo menos sexo. “Muitos jovens têm discursos mais livres, mas comportamentos extremamente tradicionais”.
Ela observa também um fenômeno que define como dessensibilização do desejo. “Eu sinto os jovens menos desejantes. Menos interessados em desbravar o mundo, experimentar, viver encontros”.
A MULHER FOI ENSINADA A OFERECER PRAZER AOS OUTROS. AGORA ELA PRECISA APRENDER A DESEJAR.
Parte disso, acredita, está ligada à forma como a tecnologia passou a mediar relações humanas. Não apenas pelo excesso de informação, mas pela ausência de elaboração crítica sobre o que se consome. “A internet é maravilhosa. O problema não é o acesso ao conteúdo. O problema é a falta de formação crítica para lidar com ele”.
Segundo Ana, adolescentes expostos a discursos radicais acabam utilizando essas narrativas para preencher vazios emocionais. Solidão, rejeição, baixa autoestima, bullying, frustração amorosa — tudo isso encontra respostas rápidas em discursos simplistas e agressivos.
Ela menciona os influenciadores da chamada “machosfera”, que transformam frustração masculina em misoginia. “O jovem escuta alguém dizendo que ele sofre porque as mulheres não escolhem ele. E aquilo vira verdade”.
Para ela, a saída não está em “palestrinhas” pontuais sobre comportamento. “Isso precisa começar na família. Os adultos precisam entender o universo digital dos filhos. Não dá mais para educar adolescentes usando apenas referências de outra geração”.
Em um dos momentos mais fortes da entrevista, Ana fala sobre envelhecimento feminino. E sua análise vai muito além da estética. Ela lembra que a sociedade sempre associou erotismo, beleza e valor feminino à juventude. “O corpo desejável sempre foi o corpo jovem”.
Enquanto homens historicamente construíram valor social por meio de poder, dinheiro e posição, mulheres foram treinadas para sustentar pertencimento através da aparência.
“A menopausa já exige muito da mulher biologicamente. Cai energia, motivação, disposição. E ainda existe toda uma estrutura dizendo: agora você ficou invisível”.
Ela reconhece avanços recentes — campanhas com mulheres maduras, maior debate sobre menopausa, tratamentos voltados à qualidade de vida — mas alerta para a armadilha do mercado da juventude eterna. “Existe um lado positivo dos tratamentos, claro. Mas também existe uma mensagem cruel: para continuar pertencendo, você precisa parecer mais jovem”.
Ainda assim, Ana acredita que existe uma potência enorme na maturidade. Uma liberdade construída pela experiência. “Chega uma hora em que você escolhe o caminho da autenticidade. E do ‘foda-se’.
É libertador”.
Ela ri ao falar dos próprios cabelos brancos. Conta que às vezes se olha no espelho e pensa em pintar tudo imediatamente. Depois respira. E escolhe permanecer como está. “É uma negociação constante entre o ideal e o real”.
Sua frase favorita resume essa travessia: “Entre o ideal e o real, existe o possível”.
Ao final da conversa, Ana Canosa fala sobre referências femininas. Cita Frida Kahlo, Madonna, Michelle Obama e a escritora bell hooks. Mulheres que, cada uma à sua maneira, desafiaram os lugares impostos.
Mas talvez sua principal mensagem esteja menos nas referências e mais na urgência que atravessa toda a entrevista: a necessidade de mulheres retomarem a autoria das próprias vidas. “Ser protagonista da própria história. Acho que é isso”.
A frase parece simples. Mas dita por alguém que passou décadas ouvindo dores íntimas femininas, ela ganha peso político.
Porque talvez a grande revolução contemporânea não esteja apenas em falar sobre liberdade.
Mas em suportar, finalmente, mulheres livres.
foto: arquivo pessoal
Mulheres têm muito a ensinar sobre liderança
Ana Márcia Diógenes
ESCRITORA E JORNALISTA. AUTORA DE NOVE PUBLICAÇÕES, ENTRE ELAS O ROMANCE “BURACO DE DENTRO”, SEMIFINALISTA NO PRÊMIO OCEANOS 2025. É COLUNISTA DE COMPORTAMENTO NO PORTAL O POVO+. FOI DIRETORA DE REDAÇÃO DO O POVO, SECRETÁRIA ADJUNTA DA CULTURA DO CEARÁ E COORDENADORA DO UNICEF.
Inúmeros debates, reflexões e posicionamentos políticos ainda precisam acontecer para que a sociedade entenda que não há diferença intelectual entre mulheres e homens. Ao longo da evolução da humanidade, a força física, aliada à questão da reprodução feminina, se interpôs a esse entendimento, principalmente porque foi na relação de força, de poder e de privilégios do sujeito masculino que o patriarcado se estabeleceu.
São séculos de pressão e opressão da sociedade sobre a mulher a partir da trágica falácia de sermos inferiores ao homem. Essa compreensão, deturpada, fez com que em todos os segmentos da sociedade –economia, política, cultura, esportes – o homem fosse favorecido, em detrimento da mulher.
Na história, as mulheres tiveram, e continuam tendo, que lutar para obter e manter cada conquista, seja no direito de escolher o parceiro, de se separar, de trabalhar, de viajar, de publicar um livro, de praticar um esporte, de cantar. O que deveria ser direito, teve que seguir sendo conquistado pela estratégia e persistência.
Muito ainda precisa ser conquistado para que venha a ser exercido, em sua plenitude, o direito das mulheres de estar em todos os espaços de decisão, poder, conhecimento e possibilidades.
No jornalismo, não é diferente. As desigualdades estruturais da sociedade brasileira afetam mais mulheres do que homens. A feminização das
redações jornalísticas é visível: somos 58%, segundo o último “Perfil do Jornalista Brasileiro”. Mesmo assim, nas coberturas, somos alvo de ameaças, intimidações e violências.
Ser liderança feminina no jornalismo é, ao mesmo tempo, desafio e necessidade. Desafio porque mulheres estão mais expostas às consequências de uma sociedade machista, desdobram-se para tentar conciliar a chefia com projetos familiares e provar sua capacidade. Também é necessidade porque podemos fazer melhor do que vem sendo feito.
A voz feminina na liderança jornalística é fundamental para dar ritmo democrático a este caminhar ainda lento da sociedade. Não apenas pelo necessário reconhecimento da igualdade de possibilidades entre gêneros, mas porque é por meio da comunicação que vários direitos humanos se tornam conhecidos e podem ser exercidos.
Comunicação, em si, já é liderança. A presença e a atuação das mulheres são fundamentais para que a democracia se concretize. Nós, mulheres, somos seres que, desde nossas ancestrais, lutamos por direitos. Os homens, iludidos de que seriam líderes natos, precisam aprender muito conosco sobre como liderar.
O tempo certo das conversas difíceis
Marília Fiuza
COACH EXECUTIVA DESDE 2007, ATUA NO DESENVOLVIMENTO DE LÍDERES DE ALTA GESTÃO. PALESTRANTE PROFISSIONAL E AUTORA DO LIVRO VIVER MELHOR, TEM TRAJETÓRIA LIGADA AO AUTOCONHECIMENTO, À LIDERANÇA HUMANIZADA E AO PLANEJAMENTO COMO BASES PARA RESULTADOS SUSTENTÁVEIS.
Existe uma pergunta simples, mas profundamente estratégica, que deveria anteceder qualquer conversa difícil: “este é mesmo o momento?”
Muitas vezes, não é o conteúdo que está errado. É o tempo. E saber esperar o tempo certo não é omissão; é maturidade. É entender que a forma como uma mensagem chega depende também do ambiente em que ela é dita.
Vivemos um paradoxo. De um lado, há quem use o tempo como desculpa para fugir. Não conversa hoje, nem amanhã, nem nunca. Uma pesquisa do Chartered Management Institute (CMI) , do Reino Unido, aponta que 57% das pessoas fazem qualquer coisa para evitar uma conversa difícil. É um medo que supera, inclusive, o de falar em público. Nesses casos, a pergunta sobre o “momento certo” vira apenas um pretexto elegante para a fuga.
Mas há o outro extremo, e é sobre ele que precisamos refletir com mais atenção: os afoitos. Aqueles que acreditam que tudo precisa ser dito agora, sem preparo, sem leitura de contexto, sem considerar o outro lado da mesa. Falam porque precisam falar, não porque aquela seja a melhor hora de dizer.
Entre a fuga e a impulsividade, existe uma habilidade essencial: discernir o tempo.
No campo profissional, isso fica ainda mais evidente. Antes de qualquer pleito, é preciso olhar para o contexto. Não dá para tratar apenas do próprio interesse ignorando o cenário maior. Ter “mente
de dono” é justamente isso: sair da lógica individual e compreender o todo, o momento da empresa, os desafios coletivos. Esse cuidado não diminui a legitimidade do pedido; ao contrário, aumenta sua chance de ser ouvido com seriedade.
Mas a sensibilidade com o tempo também vale no caminho inverso. Um líder que decide cobrar metas e indicadores sem perceber que seu colaborador está atravessando um momento pessoal delicado, por exemplo, está sendo desconectado, não firme. E desconexão nunca gera resultado sustentável.
No fundo, toda conversa difícil é também um exercício de empatia. É sobre o que dizer, como dizer e, principalmente, quando dizer.
Nem sempre o diálogo imediato é a melhor solução. Às vezes, não conversar naquele momento faz parte da estratégia. Esperar não significa evitar; significa preparar melhor o terreno para que a conversa, quando acontecer, produza efeito.
Talvez o grande aprendizado seja esse: comunicação é sobre expressão e também sobre timing. E quem domina o tempo das palavras constrói relações mais maduras, decisões mais inteligentes e ambientes mais saudáveis.
O valor da antiguidade no estilo
Mariana Marques
ARTESÃ E REDATORA, INTERESSADA NAS CULTURAS MATERIAIS
E ESCRITAS. COLECIONADORA DE OBJETOS ANTIGOS, DE BROCHES A PORCELANAS, VIVE EM FORTALEZA E CULTIVA UM OLHAR SENSÍVEL PARA O BELO NO COTIDIANO, COM UMA ALEGRIA QUE ATRAVESSA SUA FORMA DE ESTAR NO MUNDO.
Tudo tem caminhado depressa, e há tempo. Não de repente, a novidade deixou de ser exceção para virar obrigação. A cada semana surgem microtendências e objetos que envelhecem antes de chegar às nossas mãos. O consumo ligeiro fez do “novo” um valor quase moral: acompanhar, substituir, recomeçar. No meio dessa dança, uma pergunta ganha força: o excesso do novo estaria esvaziando o conceito de estilo?
A discussão não é apenas sobre moda, mas sobre identidade. Em um cenário em que tudo é reproduzido e descartado rapidamente, a antiguidade passa a carregar algo raro: permanência. Roupas herdadas ou garimpadas, móveis marcados pelo tempo e referências de outras épocas oferecem profundidade, memória.
O estilo pessoal não nasce do excesso de novidade, mas da capacidade de escolher referências que nos emprestem significado. O que torna alguém elegante não é vestir o que acabou de ser lançado — quase sempre não é —, mas sustentar escolhas coerentes com sua memória, repertório e jeito de sentir. Há diferença entre consumir tendências e construir linguagem própria.
Peças antigas possuem um valor que o mercado raramente reproduz. Há o valor material, pois a qualidade de acabamentos, tecidos e processos artesanais muitas vezes se perdeu. Mas há também o valor simbólico: o dos objetos para além do preço. Uma cadeira herdada, uma bijuteria de família ou um vestido de bazar carregam histórias afetivas. A estética deixa de ser aparência e passa a funcionar como memória.
Durante muito tempo, aprender a se vestir, decorar uma casa ou reconhecer qualidade vinha da observação dos mais velhos. O gosto era transmitido em convivência, não apenas em telas. Recuperar a antiguidade é recuperar essas trocas: elegância pode nascer da continuidade ou da ruptura.
O antigo também funciona como contenção ao consumismo. Quando um objeto é valorizado por sua história e permanência, deixa de ser descartável. A lógica se inverte: em vez de comprar para preencher vazios, passa-se a escolher melhor aquilo que merece ficar. O antigo não se opõe ao contemporâneo; ele o qualifica.
Talvez o verdadeiro luxo contemporâneo não esteja naquilo que acabou de surgir, mas naquilo que atravessou o tempo sem perder relevância. Misturar tempos pode ser uma forma de escapar da pasteurização visual dos algoritmos. Em tempos de consumo instantâneo e identidades moldadas por tendências apressadas, estaria decretada a morte do estilo pessoal? Ou seria o contrário, bastando um pouco mais de esforço?
A cultura inclusiva nos 300 anos de Fortaleza
Cristiane Leitão
PRIMEIRA-DAMA DE FORTALEZA, PRESIDENTE DO PLANO FORTALEZA INCLUSIVA. FORMADA EM FONOAUDIOLOGIA E MESTRE EM SAÚDE PÚBLICA, ATUA DESDE 1993 EM PROJETOS SOCIAIS E DE INCLUSÃO. IDEALIZOU O ESPAÇO GIRASSOL, A REVITALIZAÇÃO DA CIDADE DA CRIANÇA E O PROGRAMA INFÂNCIA VIVA FORTALEZA.
Fortaleza chega aos seus 300 anos vivendo um dos momentos mais importantes da sua história. Mais do que celebrar o passado, a cidade olha para o futuro com a certeza que desenvolvimento de verdade só acontece quando todas as pessoas podem participar da vida urbana em igualdade. Desde o último ano, a capital cearense tem fortalecido uma agenda de inclusão mais humana e necessária. E essa transformação vai além das obras, serviços e políticas públicas. Ela também passa pelos palcos, pelas praias, pelos parques, pelos estádios e pelos grandes eventos que fazem parte da alma fortalezense.
Durante muito tempo, pessoas com deficiência enfrentaram barreiras físicas, sociais e culturais. Em muitos casos, ficaram distantes dos espaços de lazer, celebração e convivência. Hoje, seguimos evoluindo para que todas as pessoas sejam acolhidas e tenham espaço para participar ativamente.
A cidade tem avançado em diversas frentes. Na empregabilidade, oportunidades vêm sendo ampliadas por meio de processos seletivos inclusivos. Na saúde e no acolhimento, políticas públicas como a Rede Girassol têm fortalecido o apoio a famílias que buscam diagnóstico e atendimento especializado. Na educação, no esporte e no acesso aos direitos, os avanços também revelam uma nova mentalidade pública.
Existe um ponto que merece atenção especial: o impacto da cultura na construção de uma sociedade mais inclusiva. A cultura aproxima pessoas, quebra preconceitos e cria experiências coletivas capazes de transformar mentalidades. Quando um evento é
acessível, quando uma festa popular acolhe todos os públicos ou quando artistas com deficiência ocupam o centro da cena, a cidade inteira evolui. Fortaleza tem dado exemplos concretos disso. O FestiDown, hoje parte do calendário oficial da cidade, simboliza esse novo momento ao reunir protagonismo, arte e emoção. A Corrida Girassol Evoluir também reforça essa visão ao integrar uma grande causa social à prática esportiva em uma das cidades que mais vivem o esporte no Brasil. Aos poucos, Fortaleza vai consolidando uma cultura de pertencimento, onde cada pessoa pode ocupar a cidade com dignidade, alegria e liberdade.
Ao completar 300 anos, Fortaleza mostra maturidade para entender que progresso sem inclusão é incompleto. O futuro será mais justo quanto mais coletivo ele for. Celebramos nossa cidade com orgulho da sua história e esperança no futuro, comemorando cada conquista de um lugar que avança quando escolhe incluir, acolher e caminhar junto.
Empatia, essa mulher fascinante
Nara Aciolly
DIRETORA DA DIALOGUE DESENVOLVIMENTO HUMANO, É FORMADA
EM ADMINISTRAÇÃO E MARKETING E LIDERA EMPRESA ESPECIALIZADA
EM CONSULTORIA EM DESENVOLVIMENTO HUMANO, COM ATUAÇÃO
VOLTADA AO FORTALECIMENTO DE PESSOAS, EQUIPES E ORGANIZAÇÕES.
Sempre achei curioso como a vida imita a arte e, de uns tempos para cá, sinto que o mundo corporativo também resolveu se olhar no espelho. Ideias que antes habitavam livros e estudos começaram a fazer parte da nossa rotina. Penso, por exemplo, na palavra “resiliência”. Durante muito tempo, ela pertenceu quase exclusivamente ao vocabulário da engenharia, descrevendo materiais capazes de suportar pressão e voltar ao seu estado original. Hoje, vejo essa ideia sendo aplicada às pessoas como uma qualidade desejável, quase indispensável.
Ser resiliente passou a significar enfrentar desafios, lidar com mudanças e seguir em frente, mesmo quando tudo pesa. Mas vamos pensar juntas: entre todas essas palavras que migraram para o universo das relações humanas, nenhuma me chama mais atenção do que “empatia”. De origem grega, ela carrega o sentido de “sentir a partir do lugar do outro” e, para mim, deixou de ser apenas um conceito bonito para se tornar uma necessidade real.
Percebo como a empatia se tornou essencial tanto para quem lidera quanto para quem constrói junto. Deixou de ser um diferencial; passou a ser básica. Em ambientes cada vez mais exigentes, compreender o outro deixou de ser apenas um gesto de gentileza e passou a ser condição para a convivência e também para resultados mais verdadeiros.
Quando reflito sobre isso, me aproximo da forma como Marshall Rosenberg traduz a empatia: não como mero discurso, mas como presença genuína. Estar ali de verdade, ouvir com atenção, acolher sem julgar. Isso, para mim, é empatia na sua forma mais viva.
Tenho visto, também, como as empresas vêm despertando para essa realidade. Aos poucos, elas entendem que ambientes mais humanos funcionam melhor. Quando as pessoas se sentem respeitadas e ouvidas, entregam-se mais, participam mais e se conectam com o que fazem. A liderança também mudou. Já não cabe aquela postura baseada apenas em comando e cobrança. Hoje, liderar exige sensibilidade: compreender pessoas, reconhecer limites e respeitar diferenças.
No fundo, tudo se resume a algo simples e, ao mesmo tempo, profundo: empresas são feitas de pessoas. Quanto mais humanas forem essas relações, maiores serão as chances de construirmos ambientes saudáveis, produtivos e preparados para os desafios do agora.
Trocando em miúdos, empatia é uma palavra feminina. E isso, para mim, não é por acaso: é destino, é propósito e faz todo sentido.
O Brasil lê menos, mas quem lê vai além: de que lado você está?
PRESIDENTA DO FUNDO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO (FNDE), FOI SECRETÁRIA DA FAZENDA DO CEARÁ ENTRE 2019 E 2022. COM TRAJETÓRIA NA GESTÃO PÚBLICA, ATUA EM ÁREAS LIGADAS A EDUCAÇÃO, FINANÇAS PÚBLICAS E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL. LEITORA VORAZ.
Imagine uma sala com cem pessoas. Divida-a em dois grupos: um com 47 pessoas e outro com 53. Agora, escolha um dos grupos. Nos 47, teremos o grupo de leitores do país. O grupo dos 53 não tem o hábito de ler. No mundo real, mudar de grupo não é sorte; é uma escolha que transforma quem somos.
É isso mesmo: o Brasil possui hoje em torno de 93 milhões de leitores, ou 47% da população, segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. E o lamentável é que esse número já foi maior: perdemos 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Inúmeros fatores podem ser apontados para esse declínio, e podemos dizer que se trata de um dado histórico em um país ainda marcado por atrasos na educação, com mais de 66 milhões de pessoas que não concluíram a educação básica e nove milhões de analfabetos.
Mas há duas boas notícias. Apesar da queda no número de leitores, os dados apontam que quem lê está lendo mais. Segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), em 2025, o varejo de livros cresceu 7,75% em volume de obras vendidas. Influenciadores digitais e escritores arrastam multidões de seguidores, e clubes de leitura chegam a alcançar mais inscritos que outros nichos de lazer.
Além disso, em 2025, alcançamos o maior percentual de crianças ao final do segundo ano do ensino fundamental que aprenderam a ler e a escrever na idade certa: 66%. Isso significa que duas em cada três crianças agora dominam a leitura e a escrita na “hora certa”. É o combustível que pode levar o Brasil a um novo patamar educacional.
E, falando especificamente para o grupo das 53 pessoas do início deste artigo, como se cria o hábito da leitura? Aqui reside um dos maiores desafios da psicologia comportamental, pois a formação de novos hábitos envolve resistência, persistência, continuidade, descoberta de sensações, recompensas, entre outras complexidades. Mas, para falar simples: associe a leitura a momentos de prazer, tranquilidade e bem-estar.
Comece em pílulas. Vale a leitura de “Hábitos atômicos”, de James Clear, que traz um passo a passo não só para a leitura, mas para a criação de outros bons hábitos. E, por fim, lembre-se: nesse universo dos livros, estamos mais bem acompanhados do que nunca. As redes sociais facilitaram o acesso a escritores e produtores de conteúdo. Siga quem inspira, descubra novos mundos e permita que os livros transformem sua rotina. Se possível, deixe-se cercar por eles. Afinal, a próxima página pode ser aquela que muda tudo para melhor.
Fernanda Pacobahyba
Elas lideram
exportações, ocupam cadeiras históricas no Legislativo, conduzem empresas que transformam mercados e vidas. Mesmo assim, seguem passando por embaraços, sendo questionadas, desvalorizadas e obrigadas a justificarem a própria presença.
Elas lideram exportações, ocupam cadeiras históricas no Legislativo, conduzem empresas que transformam mercados e vidas. Mesmo assim, seguem passando por embaraços, sendo questionadas, desvalorizadas e obrigadas a justificarem a própria presença.
Há mulheres que chegam ao poder pela urna, pela persistência, pelo senso coletivo. Outras, pela dedicação, pela meritocracia e por inspirações. Outras, ainda, por tentativas visionárias, pela coragem e vontade de pisar em veredas ainda menos trilhadas. Contudo, em todos os casos, existe um detalhe (que não é pormenor) latente: apesar de elas estarem, hoje, em maior número nos espaços de poder e terem mais direitos garantidos, a estrutura que as cercam seguem quase intactas.
Embora as políticas de diversidade e inclusão tenham ganhado espaço em várias empresas, a presença feminina em níveis mais altos de liderança no país ainda é pequena. É o que revelam dados apresentados pela Diversiter, no último ano, após análise que durou dois anos e oito meses, junto a 90 mil pessoas de 70 empresas dos mais diversos setores.
Um dos apontamentos revela que somente 35 por cento dos cargos de alta liderança - C-level, diretoria, gerência executiva - são ocupados por mulheres, na medida em que elas representam 70 por cento das funções operacionais, a exemplo de limpeza e recepção.
Tem-se observado, sim, nos últimos anos, mulheres ocupando mais as universidades, o mercado de trabalho, abrindo empresas, disputando eleições, assumindo diretorias. Nota-se uma presença crescente de discursos de empoderamento em campanhas publicitárias, ambientes corporativos e em arenas políticas.
Por qual razão mulheres ainda precisam provar pertencimento em espaços de decisão - no mercado, no empreendedorismo, na política, mesmo já estando no topo.
Percebe-se uma celebração a mulheres que “chegam lá”. A questão é que ainda se trata pouco sobre “mas a preço de que?”. Não é apenas sobre presença. É sobre autorização. A engrenagem silenciosa do poder, do poder que decide quem fala, quem é ouvido, quem permanece e quem é descartado, continua profundamente masculina.
o poder que não entrega o microfone
Na política, o símbolo da conquista feminina costuma chegar antes da experiência real de poder. A deputada estadual Larissa Gaspar sabe exatamente onde essa diferença mora. Aos 43 anos, advogada, mãe, parlamentar e primeira mulher a ocupar o cargo de 2ª vice-presidente da mesa diretora em 191 anos de história do parlamento cearense.
E, mesmo diante do fato histórico, Larissa descreve um cotidiano em que a legitimidade feminina continua sendo negociada minuto a minuto. “São muitas as vezes que, quando é uma mulher representando o Legislativo, a palavra sequer lhe é dada”, afirma a parlamentar. A violência, em situações como a descrita por Larissa, raramente chega aos gritos. Ela opera, digamos, numa frequência menos aguda.
São muitas as vezes que, quando é uma mulher representando o Legislativo, a palavra sequer lhe é dada.
Larissa Gaspar
Aparece, feito a parlamentar expõe, na fala e presença ignoradas. Em interrupções recorrentes. Na presidência de uma comissão mais decisiva que nunca chega às mulheres. No homem que atravessa o corpo feminino para ocupar o centro da cena sem sequer perceber que fez isso. “O ambiente político, de um modo geral, reage tentando nos desqualificar, o tempo todo”, diz Larissa, acrescentando: “você é taxada como problemática, porque não aceita naturalizar violências.”
foto: lia de paula | larissa gaspar
histórias
O mecanismo é sofisticado: permitir a entrada, mas limitar a incidência. A mulher pode até ocupar a cadeira, desde que não altere demais a disposição da sala. Larissa fala sobre apagamentos, silenciamentos e perseguições de bastidor como quem descreve uma arquitetura invisível. Porque é exatamente isso: uma estrutura desenhada para parecer neutra, enquanto distribui privilégios de maneira desigual.
“Os colegas homens sempre têm mais espaço institucional, mais direito à fala”. E este abre e fecha aspas da parlamentar traz um detalhe que, talvez, seja das maiores forças do machismo estrutural contemporâneo: muitas vezes, ninguém nota violências assim, a masculinidade hegemônica não precisa ser explícita para continuar funcionando. Uma indicação, inclusive, da cientista social australiana Raewyn Connell, exaltada por seus estudos de gênero e ciência política.
De acordo com Connell, essa hierarquia não depende de violência direta constante, mas de um sistema social que organiza a desigualdade de vantagens entre mulheres e homens. Para a pesquisadora, ‘masculinidades são configurações de práticas estruturadas pelas relações de gênero.” As barreiras sistêmicas para mulheres não precisam estar explícitas, elas operam dum modo airoso, institucional e simbólico, reproduzidas como “normalidade” nos mais diversos ambientes sociais.
AS MULHERES
CHEGARAM AOS
ESPAÇOS DE PODER. O PROBLEMA É QUE OS
ESPAÇOS CONTINUAM FUNCIONANDO COMO SE ELAS FOSSEM VISITANTES.
barreiras invisíveis como pedágio
As três trajetórias presentes nesta reportagem encontram-se na sensação da necessidade de dar provas sobre capacidade, o tempo inteiro. Larissa descreve uma rotina de hipervigilância constante. Mais horas. Mais esforço. Mais preparo. Mais desgaste. “A cobrança que existe sobre nós não existe com relação aos homens”, resume a parlamentar. Ela fala das abdicações silenciosas: o tempo com o filho, com o marido, com a família, com a própria saúde.
Consultas médicas canceladas. Autocuidado estacionado. Corpo convertido em ferramenta de resistência. “Para conseguir exercer meu direito e dever de fazer a política que acredito, coletiva, preciso abrir mão de muitas coisas”, explica Larissa. Do lado de fora da política institucional, o cenário muda roupagem, mas mantém lógica similar. No Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), um dos principais corredores econômicos do país, Rebeca Oliveira tornou-se a primeira mulher diretora e a primeira mulher vice-presidente da história da instituição.
foto
A gente não pode ser exceção. A gente precisa ser ponte.
Rebeca Oliveira
A trajetória de Rebeca foi construída em um universo tradicionalmente masculino: cargas, navios, exportações, operações portuárias, logística internacional. “Comecei trabalhando com operação de navio. Só há pouco tempo, estou lidando, coordenando, gerindo pessoas”, um registro que desmonta uma caricatura antiga: a ideia de que mulheres nascem naturalmente aptas apenas ao cuidado, enquanto homens nascem para ocupação de mercado mais técnicas e estratégicas.
Mas, mesmo Rebeca trilhando um caminho contrário às imposições sociais, ela não conseguiu se livrar das barreiras invisíveis. “Quando estou, por exemplo, em viagem internacional, perguntam onde deixei meu filho. Nunca ouvi isso sendo perguntado a um homem, a um colega meu de trabalho”, ilustra Rebeca.
A misoginia cotidiana já não impede mulheres de votar, estudar ou ter passaporte. Mas continua operando nos bastidores de sua legitimidade. Ela aparece na pergunta aparentemente inocente. No comentário casual. No convite que nunca chega. “Seguem existindo alguns ambientes, ambientes onde decisões acontecem, onde nós mulheres seguimos sem convite pra estar neles. E eu me refiro a uma lógica de atuação universal mesmo”, desabafa Rebeca.
Formada em Direito, especialista em Comércio Exterior e Gerenciamento de Mercado, atuou em grandes empresas do setor logístico portuário, a exemplo da alemã Hamburg Süd. Integrou o programa International Visitor Leadership Program – programa de intercâmbio profissional financiado pelo Bureau de Assuntos Educacionais e Culturais do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Foi diretora de Relações Institucionais do Complexo do Pecém. Presidiu a Câmara Setorial de Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará.
Após a entrega deste brevíssimo resumo profissional, Rebeca lembra das tantas vezes que precisou tomar atitudes mais firmes, durante o desempenho de suas missões, nos ambientes em que já atuou. “Precisei, inclusive, ‘me masculinizar’, algumas vezes. Usei roupas mais parecidas com as que são utilizadas mais rotineiramente por homens. Precisei ter atitudes que julgo grosseiras, como ‘bater em mesa’. Fui chamada de ‘louca’, óbvio”, conta Rebeca.
Na escuta de Rebeca e de outras mulheres para esta publicação, ‘louca’ aparece inúmeras vezes como atributo direcionado com frequência a mulheres, quando elas exercem autoridade sem suavizar a própria presença. Homens firmes costumam ser vistos como líderes. Mulheres firmes, como difíceis. E existe outra camada ainda mais brutal nessa história: a culpa.
Rebeca lembra de um episódio aparentemente banal. Foi barrada no curso de inglês do próprio filho, porque ninguém a conhecia ali… “Precisaram ligar para o pai, meu marido”. Aquela cena foi como o resumo da película inteira de sua vida. Uma vice-presidente responsável por operações internacionais sendo deslocada simbolicamente da autoridade materna.
“Eu quis muito o Rodrigo, meu filho, fiz tratamento, tentei fertilização in vitro por 11 vezes. A chegada dele foi, para mim, a ressignificação do Dia das Mães, 13 anos após minha mãe falecer. Naquele momento que vivi aquela cena, ali no Inglês do Rodrigo, pensei, imediatamente, em duas frases. Uma de Raquel de Queiroz, que a tenho tatuada, inclusive, e que diz ‘cada coisa no seu tempo, cada tempo, sua importância’. E a outra, uma máxima que é ‘escolha suas batalhas’. Quis e quero Rodrigo, profundamente. Quis e quero minha profissão, profundamente. De ambos, nunca largarei”, reflete a mãe e executiva.
Reconhecer ônus e bônus diários. Talvez seja exatamente isso que tantas mulheres feito Rebeca aprendem, a administrar, permanentemente, os próprios desgastes e as próprias vantagens. Para ela, ainda que, muitas vezes, seja real o fator ‘invisibilidade’, chegar ao topo da missão profissional que se almeja deve ser uma busca feminina constante.
E faz um chamamento: “trinque os dentes, e vá! Se tiver que se arrepender que seja por ter ido, nunca por não ter vivido. Os espaços que nos foram tirados precisam ser recuperados. E, ao agir assim, uma mulher não age só em benefício próprio, sempre será por todas nós, o movimento sempre será coletivo, serviremos como exemplo e, assim, puxamos outras. A gente não pode ser exceção, a gente precisa ser ponte”.
criar o próprio território
Se Larissa disputa o direito de fala dentro da política e Rebeca tensiona estruturas econômicas históricas, Lia Quinderé escolheu outro movimento: criar o próprio território de poder. À frente da Sucré Pâtisserie, empresa que transformou uma marca cearense em referência nacional, Lia representa uma liderança construída fora dos sistemas clássicos de validação. Para ela, “empreender também é criar o espaço que você não encontrou pronto”.
Empreender trouxe à empresária autonomia para construir um lugar onde as regras fizessem sentido para ela e para as pessoas que trabalham com ela. Sua empresa tornou-se a primeira indústria de salgados congelados do Nordeste em vendas e a quarta do Brasil. Uma construção consolidada, segundo ela, “com muito trabalho, muita teimosia e muita certeza de que uma empresa cearense com uma mulher à frente pode, sim, competir com grandes indústrias do Sul e do Sudeste”.
E diz isso ao mesmo passo que rejeita a ideia de que sucesso empresarial precise existir separado de impacto social. “Empresas sem propósito têm prazo de validade”, posiciona-se muito fortemente a empresária. Ao fazer uma síntese biográfica, Lia afirma que é possível construir um negócio sólido e escalável. Não acredita que propósito e performance sejam opostos.
“A Sucré emprega mães em situação de vulnerabilidade que encontram na empresa uma porta aberta. Para mim, negócio é instrumento e impacto é o ponto”, conta Lia. Cerca de 40 por cento da sua equipe é formada por mães. “Quando uma mulher tem renda, a casa dela muda. A autoestima dela muda. A Sucré não resolve tudo, mas eu acredito que emprego digno é a política social mais poderosa que existe”.
Esta fala de Lia atravessa diretamente os relatos de Larissa e Rebeca. Porque as três, em áreas completamente diferentes, descrevem a mesma engrenagem: a necessidade constante de justificar a própria presença. Lia chama isso de ‘teto da credibilidade’. Segundo ela, “ninguém barra formalmente você, mas você percebe quando precisa chegar mais preparada do que qualquer outra pessoa para ser levada a sério”.
Quando uma mulher tem renda, a casa dela muda. A autoestima dela muda.
Lia Quinderé
Lia conta que foi construindo autoridade em seu lugar de atuação sendo exatamente quem ela é, “sendo mãe, mulher, nordestina de fé, com visão de negócio e coração aberto ao serviço”. Isso gerou estranhamento em alguns momentos, e respeito genuíno em outros. “Entendo que poder real vem de você ter a condição de se conhecer profundamente, de conseguir entregar bons resultados e de ter clareza sobre por que você está ali”, reflete Lia. Para ela, quando a mulher consegue entender isso, fica mais difícil alguém tirar essa mulher do lugar que escolheu profundamente estar.
o novo discurso e a velha estrutura
Existe uma pergunta pairando sobre o presente: o discurso de empoderamento realmente mudou as estruturas? As três entrevistadas concordam que houve avanço. Mais mulheres lideram empresas. Mais mulheres disputam eleições. Mais mulheres ocupam diretorias. Mas as três reconhecem que a cultura ainda se move mais vagarosamente que os números.
“Existe distância entre ocupar o espaço e ter poder real”, diz Larissa. “O básico do machismo segue”, resume Rebeca. “O resultado ainda é a melhor resposta ao ceticismo”, afirma Lia. Decerto essa seja a principal discrepância (ou incoerência) desse nosso tempo atual: nunca se falou tanto sobre liderança feminina, mas a experiência concreta de muitas mulheres ainda é marcada pela vigilância, pelo desgaste e pelo peso simbólico da representatividade.
Quando um homem falha, falha sozinho. Quando uma mulher falha, frequentemente falha “como mulher”. Por isso, tantas carregam a sensação de não poder cair. Como expõe Rebeca: “eu não posso mais cair, porque muitas cairão comigo”. Uma frase que revela um dos custos mais silenciosos da liderança feminina: o peso de representar mais do que a si mesma.
o próximo capítulo começa neste instante
Ainda assim, nenhuma das três fala a partir da amargura. Larissa aposta na educação e no enfrentamento direto à misoginia estrutural. Rebeca insiste em formar mulheres dentro do porto, treinando operadoras, bombeiras e lideranças comunitárias. Lia constrói uma empresa onde a maternidade não seja vista como obstáculo, mas como parte legítima da vida.
Nenhuma delas parece interessada apenas em ocupar espaço. O objetivo é alterar a lógica do espaço. Talvez seja essa a diferença entre presença e transformação. Porque mulheres no poder já existem, o desafio, agora, é fazer com que deixem de ser lidas como exceção. Até lá, seguirão atravessando ambientes que ainda as recebem como novidade, mesmo ela estando nesses pátios (sem cômodos), há muito tempo.
lia de paula
foto: lia de paula | lia quinderé
A perspectiva de gênero fortalece o jornalismo diverso
Sara Oliveira
JORNALISTA, ESTUDANTE DE PEDAGOGIA, EDITORA DE CIDADES E COLUNISTA DO O POVO SOBRE TEMAS RELACIONADOS À
DESIGUALDADE E VIOLÊNCIA DE GÊNERO, ALÉM DE DIREITO E LIBERDADE DAS MULHERES. MÃE DO LÉO E DO CADU.
Observar o fluxo de uma redação de jornal ao longo de quase duas décadas tem sido transformador. Acompanhar o fazer das mulheres no universo da notícia mostra diferentes realidades sobre a sociedade que temos.
Atualmente, as bancadas das editorias do O POVO são ocupadas por muitas mulheres. Mais presença feminina é um movimento que vem sendo registrado pelo setor de comunicação há algumas décadas. Realidade também nas esferas empresarial e pública.
Desde as pioneiras do jornalismo, como Maria Josefa Pereira Pinto, ainda nos anos de 1800, muita coisa mudou. Redações, radiojornalismo e telejornalismo, espaços historicamente tão resistentes à atuação das mulheres, já têm a presença, mas imprime inúmeras desigualdades.
Ainda se vê o crescimento das adversidades enfrentadas por jornalistas mulheres, que têm como pano de fundo as questões de gênero. São diferenças salariais, hierárquicas e de demandas profissionais. Infelizmente, os jornalistas homens ainda obtêm vantagens em ascensões e projetos por não serem socialmente os principais responsáveis por afazeres domésticos e parentais.
Lembro que quando fui questionada por alunos de Jornalismo sobre os nomes de jornalistas mulheres que me inspiravam, citei aquelas com as quais trabalhei e aprendi. Apuração, ética, honestidade, coletividade, certeza e sensibilidade foram algumas das características em comum entre os nomes citados.
O papel do jornalismo nas assimetrias de gênero é disruptivo, a cada pauta, entrevista ou decisão editorial. A subjetividade feminina tem impacto em diferenciais da cobertura, principalmente em relação a aspectos éticos e de abordagem mais complexa sobre assuntos da atualidade.
A perspectiva de gênero, a luta feminista e a interseccionalidade são conceitos que, quando aplicados à cobertura jornalística, fortalecem a diversidade. O bom jornalismo traz em si, em suas narrativas, também as impressões de quem conta a história.
Precisamos mudar culturas para que a inclusão das mulheres esteja no topo das prioridades e estratégias institucionais. Seja do lado de quem entrevista, seja do lado de quem é entrevistado, com uma maior procura por fontes diversas.
É preciso romper a bolha que insiste em separar homens e mulheres quando os assuntos são política e economia. Assim como se faz urgente dar mais voz, mas também mais oportunidades. A liderança feminina no jornalismo existe e pode ser constatada diariamente, só não é ainda valorizada e reconhecida como deveria.
O Poder da Liderança Feminina no Turismo
Ivana Bezerra
ECONOMISTA E SÓCIA-DIRETORA DO HOTEL SONATA DE IRACEMA E DA IRB
EMPREENDIMENTOS. PRESIDENTE DA ABIH-CE E VICE-PRESIDENTE DA ABEOC-CE, REÚNE TRAJETÓRIA NOS SETORES BANCÁRIO, HOTELEIRO E IMOBILIÁRIO, COM
ATUAÇÃO NO TURISMO, EM ENTIDADES DE CLASSE E CONSELHOS SOCIAIS.
O turismo é, essencialmente, uma atividade humana feita de pessoas para pessoas. No coração dessa engrenagem, o protagonismo feminino não é apenas uma tendência, mas a força motriz que sustenta e inova o setor hoteleiro. No Ceará, esse movimento ganha contornos ainda mais nítidos por meio da atuação da ABIH-CE, onde a sensibilidade, aliada à gestão técnica, tem transformado desafios em oportunidades de crescimento sustentável.
Historicamente, as mulheres sempre ocuparam a base da pirâmide operacional do turismo. No entanto, o cenário atual revela uma transição necessária: a ascensão feminina aos cargos de alta gestão e decisão. Exercer a presidência de uma entidade com quase cinco décadas de história exige mais do que competência administrativa; demanda resiliência para romper barreiras invisíveis e coragem para implementar visões de longo prazo que contemplem a diversidade e a inclusão.
O protagonismo de que falamos vai além de ocupar uma cadeira de destaque. Ele se manifesta na capacidade de liderar com empatia, na atenção aos detalhes que definem a excelência dos serviços e na articulação política que fortalece o destino Ceará nos mercados nacional e internacional. Quando uma mulher lidera no turismo, ela carrega consigo um olhar atento à sustentabilidade social, compreendendo que o sucesso de um hotel está intrinsecamente ligado ao bem-estar da comunidade que o cerca.
À frente da ABIH-CE, observamos que o fortalecimento da hotelaria passa, obrigatoriamente, pela valorização das profissionais que compõem nosso setor. Estimular o empreendedorismo feminino e garantir espaços de voz para as mulheres é garantir um setor mais dinâmico, criativo e preparado para os desafios contemporâneos. O turismo cearense, conhecido mundialmente por sua hospitalidade, encontra na figura feminina a síntese perfeita entre o acolhimento e a eficiência empresarial.
Ainda há um longo caminho a percorrer para que a equidade seja plena, mas os avanços são inegáveis. O protagonismo feminino é o pilar de um novo ciclo para o turismo, em que a inteligência emocional e o rigor técnico se fundem para criar experiências memoráveis. Seguimos firmes na missão de projetar nosso estado, cientes de que a liderança feminina é peça-chave para um futuro próspero, ético e inspirador. O turismo do futuro já começou, e ele tem a força, o rosto e a voz das mulheres que não aceitam nada menos que o horizonte como limite.
Quando políticas públicas salvam vidas
Lia Ferreira Gomes
DEPUTADA ESTADUAL NO CEARÁ (PSB). FOI SECRETÁRIA DAS
MULHERES DO CEARÁ, ONDE LIDEROU A AMPLIAÇÃO DA REDE DE PROTEÇÃO E POLÍTICAS DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA, COM FOCO NA ESCUTA, NO ACOLHIMENTO E NA GARANTIA DE DIREITOS.
Por trás de cada política pública para as mulheres, existe uma vida que precisa ser protegida. Colocar essas políticas em prática é assumir um compromisso com a transformação concreta da realidade. Não se trata apenas de reconhecer desigualdades históricas, mas de enfrentá-las com ações estruturadas, contínuas e capilares.
Nas últimas décadas, o Brasil avançou na consolidação de direitos, mas ainda convivemos com desigualdades profundas que impactam diretamente a vida das mulheres — seja no mercado de trabalho, na participação política ou no enfrentamento à violência de gênero. Nesse contexto, o papel do Estado é essencial para promover equidade e garantir que nenhuma mulher fique para trás.
No Ceará, de fevereiro de 2025 até março de 2026, enquanto estive à frente da Secretaria das Mulheres, avançamos de forma significativa no fortalecimento dessa agenda. Um dos principais eixos foi a ampliação da rede de proteção às mulheres em situação de violência. Saímos de 48 para 106 equipamentos de acolhimento em funcionamento. Esse crescimento representa mais portas abertas, mais acesso à proteção e mais dignidade para milhares de cearenses.
Ao mesmo tempo, avançamos na interiorização das políticas públicas, ampliando significativamente os organismos voltados às mulheres nos municípios. E isso foi decisivo. Política pública que não chega à ponta não transforma realidades.
Outra relevante contribuição foi a da escuta: Ouvir as mulheres, suas dores, suas urgências e suas esperanças. A construção do Plano Estadual de Políticas para as Mulheres nasceu desse diálogo coletivo, com a participação de milhares de cearenses que ajudaram a transformar suas vivências em propostas concretas.
Mais recentemente, consolidamos um compromisso de longo prazo com a instituição do Plano Estadual de Metas para o Enfrentamento da Violência contra a Mulher (2025–2035) e o lançamento do Pacto Ceará contra o Feminicídio. São iniciativas que deixam claro: combater a violência contra as mulheres não é ação pontual, é política de Estado.
Mas é preciso ir além. O Brasil ainda convive com desigualdades profundas, e a pauta das mulheres não pode ser tratada como acessória. Ela precisa estar no centro das decisões — na economia, na educação, na segurança e no desenvolvimento social.
Porque quando uma mulher avança, não é apenas ela que avança. Avança sua família, sua comunidade e toda a sociedade.
Políticas públicas para as mulheres não são um favor. São uma obrigação. E, acima de tudo, são um caminho possível — e necessário — para um futuro mais justo.
Liderar é transformar intenção em ação
Magda Busgaib
PROVEDORA DA IRMANDADE BENEFICENTE DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE FORTALEZA. POR TODA A SUA TRAJETÓRIA
PROFISSIONAL, CONSTRUIU UMA CARREIRA SÓLIDA PAUTADA
NA GESTÃO E NO COMPROMISSO COM RESULTADOS.
Aos 12 anos, em visitas ao Lar Torres de Melo, tive meu primeiro contato real com o que significa cuidar. Ver de perto a vulnerabilidade ensinou cedo que sentir não basta, é preciso agir. Cresci cercada por mulheres que construíram seu espaço com determinação, e isso me ensinou muito.
Essa compreensão moldou a forma como entendo liderança. Hoje, à frente da Irmandade Beneficente da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza, como a primeira mulher a ocupar a provedoria em 165 anos, e também na minha trajetória como empresária, essa visão se traduz em prática. Por isso, ampliar a presença das mulheres em posições de decisão faz parte desse caminho e já estava refletido na chapa que montei quando decidi concorrer ao cargo de provedora, com mais mulheres entre os mordomos, não como concessão, mas por competência.
Na Irmandade, não lidamos apenas com processos, mas com vidas e uma história que atravessa gerações. Mesmo com a Santa Casa sob gestão pública municipal, sigo acompanhando decisões e participando das reuniões com a equipe de intervenção.
É nesse contato com realidades tão distintas que reconheço o caminho que me trouxe até aqui. Ao longo da minha trajetória, esse impulso de agir sempre me acompanhou. Na década de 1980, estive à frente da concepção do Pré-Carnaval de Fortaleza, ajudando a movimentar a economia local. Nos anos
1990, idealizei também o Fortal, que contribuiu para consolidar Fortaleza como destino turístico em um período estratégico do ano, além de outros eventos, como réveillons e iniciativas ligadas à cultura popular. Esse trabalho também se estendeu ao interior, com a realização dos Carnavais em cidades como Aracati, Paracuru, Camocim, Beberibe, Cascavel, Pecém e Taíba. Ao mesmo tempo, participei de iniciativas em diferentes frentes, como a Parada da Diversidade, a Caminhada com Maria e a Marcha para Jesus, além de campanhas políticas dentro e fora do estado. Na prática, liderar é reunir pessoas em torno de um propósito, e a soma dessas pessoas constrói resultados que não se alcançam sozinhos.
Foram e são muitas histórias vividas, experiências que se somaram e construíram o que hoje aplico no dia a dia. Mais do que conceitos, a gestão que pratico é resultado desse percurso, que envolve força, organização e capacidade de adaptação. Estar em diferentes ambientes, assumir responsabilidades e lidar com realidades distintas me fez crescer como pessoa e como profissional, reforçando a importância de uma liderança que combina firmeza, sensibilidade e respeito.
Representatividade feminina em debate
ADVOGADA ELEITORALISTA, ESPECIALISTA EM DIREITO E PROCESSO ELEITORAL (PUC MINAS), PROCURADORA MUNICIPAL, PRESIDENTA DA COMISSÃO ESPECIAL DE ENFRENTAMENTO AO FEMINICÍDIO E VIOLÊNCIA DE GÊNERO DA OAB-RMF E MEMBRA DA ABRADEP.
Ampliar a presença das mulheres na política e nos tribunais brasileiros exige mais do que discurso. Exige políticas públicas afirmativas e mecanismos para enfrentar desigualdades estruturais que limitam o acesso feminino ao poder. Segundo a ONU Mulheres, o Brasil ocupa a 133ª posição no ranking global de representação parlamentar feminina, embora as mulheres sejam maioria da população e do eleitorado. Ainda assim, o percentual de mulheres eleitas não alcança 20%, evidenciando a distância entre a norma e a realidade da representatividade feminina.
Os desafios são diários e se manifestam nas dinâmicas profissionais, nos espaços de fala, no acesso a oportunidades e na constante necessidade de reafirmação da própria competência. Soma-se a isso o acúmulo de responsabilidades domésticas e de cuidado, ainda invisibilizadas, o que dificulta a inserção, a permanência e a ascensão das mulheres em cargos de alta representatividade.
No campo político-eleitoral, houve avanços relevantes, como a cota mínima de 30% das candidaturas por gênero, a destinação proporcional de recursos para campanhas femininas, o investimento partidário voltado à promoção da participação das mulheres e a punição de fraudes à cota de gênero.
Também merece destaque a Lei nº 14.192/2021, que criminaliza a violência política de gênero, visando coibir a misoginia no âmbito legislativo e eleitoral, bem como a Resolução nº 23.746/2025 do Tribunal
Superior Eleitoral, que passou a exigir a participação feminina nas listas da classe dos juristas (advocacia), com vistas a promover maior equilíbrio de gênero.
Ainda assim, os resultados seguem aquém do necessário. A exigência do percentual mínimo nem sempre se concretiza na prática, persistindo candidaturas fictícias, subfinanciamento e práticas que afastam mulheres da disputa em condições de igualdade, além de decisões judiciais que, por vezes, acabam por revitimizá-las.
É preciso evitar que as mulheres sejam colocadas em situações de desigualdade que não atingem homens nas mesmas circunstâncias, avançando-se para medidas mais efetivas, como a reserva de cadeiras, e não apenas de cotas, conforme já debatido no PL nº 112/2021, que trata da Reforma do Código Eleitoral. Do mesmo modo, é fundamental ampliar a diversidade de gênero nos tribunais, em todas as esferas e carreiras jurídicas.
Não há democracia verdadeira e inclusiva sem a participação efetiva das mulheres nos espaços de decisão, sob pena de esvaziar o próprio conceito de representatividade.
Sara Sombra
Mulheres do Ceará, Fortalezas Empreendedoras
Águeda Muniz
DIRETORA DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS DA AMBIENTAL CEARÁ, DOUTORA EM ARQUITETURA E URBANISMO E ESPECIALISTA EM GESTÃO E FINANÇAS PÚBLICAS. EXECUTIVA COM ATUAÇÃO NA GESTÃO
PÚBLICA E NA INICIATIVA PRIVADA, REÚNE EXPERIÊNCIA EM RELAÇÕES INSTITUCIONAIS, PLANEJAMENTO URBANO E GESTÃO ESTRATÉGICA.
No Ceará, o empreendedorismo feminino deixou de ser tendência para se afirmar como força econômica e social. De acordo com a Junta Comercial do Estado do Ceará (JUCEC), o estado reúne cerca de 800 mil empresas ativas e mais de 630 mil mulheres registradas como sócias em seus quadros societários, revelando um protagonismo que se espalha da capital ao interior e transforma a dinâmica produtiva cearense.
Esse avanço revela uma nova cultura, marcada por melhor formação, capacidade de adaptação, escuta ativa e visão estratégica. Em um ambiente econômico cada vez mais competitivo, as mulheres cearenses têm demonstrado habilidade para inovar, liderar equipes, ocupar mercados e conciliar eficiência com sensibilidade social.
Os números mais recentes reforçam essa trajetória. Apenas no primeiro bimestre de 2025, o Ceará registrou 12.371 empresas abertas com sócias mulheres, alta de 65,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. O setor de serviços lidera esse movimento, seguido pelo comércio e pela indústria, sinalizando a diversificação da presença feminina nos negócios.
Fortaleza concentra a maior parte dessas lideranças. Municípios como Caucaia e Juazeiro do Norte também se destacam, comprovando que o empreendedorismo feminino já é um vetor de desenvolvimento regional. Quando uma mulher empreende e gere bem, ela
movimenta renda, amplia oportunidades e fortalece redes locais de trabalho, consumo e cooperação. Ou seja, o impacto do empreendedorismo feminino ultrapassa o viés empresarial e influencia a dinâmica e a qualidade do crescimento econômico de comunidades, bairros e cidades.
O empreendedorismo feminino também exige acesso a crédito, qualificação continuada, inovação digital e ambientes institucionais mais favoráveis ao crescimento sustentável. Incentivar mulheres a empreender é importante; garantir condições para que seus negócios amadureçam e prosperem é decisivo. O próprio ecossistema de apoio no estado mostra avanços, com iniciativas de capacitação, conexão e fortalecimento de redes para mulheres empreendedoras. Quando conhecimento, política pública e iniciativa privada caminham juntos, o resultado é um ambiente mais inclusivo e mais competitivo para todos.
Falar de empreendedorismo feminino no Ceará, portanto, é falar de passado, presente e futuro. Um futuro construído por mulheres que não apenas abrem empresas, mas lideram transformações, geram impacto e ajudam a redesenhar a economia do estado. Nossas Fortalezas Empreendedoras.
Sobre poemas e granadas
Claudia Roquette-Pinto
entre memórias familiares, erotismo da linguagem e uma sensibilidade que transforma tudo em matéria poética, claudia roquette-pinto reflete sobre criação, feminilidade, desejo e o lugar da palavra em tempos de excesso e silêncio. uma conversa sobre poesia. como explosão, presença e forma radical de existir.
foto: arquivo pessoal
Há artistas que parecem ter aprendido a transformar o mundo em linguagem. Outros, porém, dão a impressão de terem nascido atravessados por ela. Com Claudia Roquette-Pinto, a palavra nunca foi apenas instrumento: foi matéria viva, febre, obsessão, forma de respirar. Ainda criança, buscava definições em dicionários como quem procura uma espécie de portal secreto. Enquanto outras meninas brincavam na rua, ela brincava também — mas havia um fascínio paralelo acontecendo em silêncio: o encontro precoce com a potência das palavras. “Eu brincava com as palavras como outras crianças brincam com pedrinhas”, diz. E talvez essa frase explique quase tudo.
Ao longo de mais de três décadas de literatura, Claudia construiu uma das obras mais singulares da poesia brasileira contemporânea. Desde a estreia com “Os dias gagos”, em 1991, passando por “Corola” — vencedor do Prêmio Jabuti — até “Entre lobo e cão”, livro que incorpora colagens, assemblages e uma aproximação radical com as artes plásticas, sua escrita nunca se acomodou. Cada livro parece nascer da destruição do anterior. Cada obra procura uma nova forma de tensão entre linguagem, corpo e percepção.
Ela rejeita a ideia de estabilidade estética. Para Claudia, encontrar uma voz não significa permanecer nela para sempre. Seus livros não conversam a partir da repetição, mas da reinvenção. “O poema é sempre o poema possível”, afirma. Existe algo profundamente físico na forma como fala da escrita: cortar palavras, abandonar ideias, sacrificar excessos, lidar com o poema como quem enfrenta uma luta corporal. A poesia, em sua visão, não nasce do controle absoluto, mas da tentativa de aproximar-se de algo que jamais será completamente capturado.
Talvez por isso ela compare o poema a uma granada. “Você chega perto dele e ele explode.”
A definição não soa como metáfora de efeito. Em Claudia, a linguagem parece realmente operar como impacto. Há uma eletricidade permanente em sua fala, como se pensamento e emoção acontecessem ao
mesmo tempo, sem filtros intermediários. Não à toa, descreve a si própria como alguém de “sensibilidade extremada”. Tudo a atravessa. Tudo reverbera. Durante anos, essa intensidade veio acompanhada de crises de ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Com o tempo, aprendeu a criar “uma casca para sobreviver”, embora sem perder aquilo que considera essencial: a capacidade de sentir o mundo em excesso.
“O poeta é uma deformidade”, diz em um de seus poemas. A frase carrega ironia, mas também verdade. Em Claudia, a criação não aparece romantizada como dom celestial. Surge antes como uma condição inevitável — às vezes luminosa, às vezes dolorosa. Há algo de exposição permanente em sua forma de existir. Talvez por isso sua poesia provoque uma sensação rara de intimidade radical. Seus poemas não parecem escritos de fora da experiência, mas de dentro dela, como se cada verso fosse uma tentativa de suportar o próprio excesso de percepção.
Essa intensidade também atravessa sua visão sobre o feminino.
Claudia pertence a uma geração que cresceu naturalizando estruturas profundamente machistas dentro do meio intelectual e literário. Quando começou a circular no universo da poesia, quase todos os críticos, editores e legitimadores culturais eram homens. Mulheres escreviam, mas precisavam furar uma camada muito mais espessa de invisibilidade para serem lidas. Ela lembra que, na juventude, muitas violências estruturais sequer eram percebidas como violência — eram apenas “o modo como as coisas funcionavam”.
Hoje, observa a transformação desse cenário com lucidez. Reconhece os avanços trazidos pelas redes de apoio entre mulheres, pelas pautas identitárias e pela ocupação de espaços historicamente negados. Ao mesmo tempo, recusa simplificações panfletárias sobre literatura.
convidadas
Para Claudia, poesia não é slogan. “O tema não faz o poema”, resume. Sua defesa da arte passa pela recusa de uma escrita reduzida apenas à agenda política. Um poema sobre opressão feminina, afirma, só se sustenta se também existir enquanto potência estética. Forma e conteúdo são inseparáveis. A linguagem precisa vibrar. Precisa abrir uma fissura. Precisa atingir o leitor naquele lugar onde pensamento e sensação se confundem.
É nesse ponto que surge outra palavra central em sua trajetória: erotismo. Mas não um erotismo simplificado ou exclusivamente sexual. O erotismo, em Claudia, é uma relação intensa com a própria linguagem. A palavra excita porque nunca alcança totalmente aquilo que deseja dizer. Existe sempre um “quase”. Uma aproximação imperfeita entre experiência e expressão. E é justamente nessa falha que nasce a poesia. “A palavra acerta no quase”, diz.
Sua obra inteira parece construída nesse território instável entre presença e ausência, entre revelação e perda. Não por acaso, ela se interessa tanto pelas imagens de fronteira: margem, travessia, sombra, corpo, silêncio, animalidade. Em “Entre lobo e cão”, por exemplo, a escrita encontra as colagens que produz desde os anos 1980, aproximando literatura e artes visuais numa espécie de cartografia fragmentada da percepção.
Há também uma herança feminina muito forte atravessando sua formação. A avó, intelectual brilhante impedida pelas convenções sociais de viver plenamente uma vocação literária. A mãe, criativa, intensa, imaginativa, mas igualmente confinada às expectativas de sua época. Claudia fala dessas mulheres como quem reconhece uma transmissão silenciosa: desejos interrompidos que encontraram nela alguma continuidade possível.
Talvez escrever também tenha sido isso: romper um ciclo.
Dar voz ao que antes precisava permanecer contido.
foto: arquivo pessoal
CLAUDIA PERTENCE A UMA GERAÇÃO
QUE CRESCEU
NATURALIZANDO
ESTRUTURAS
PROFUNDAMENTE
MACHISTAS
DENTRO DO MEIO
INTELECTUAL E LITERÁRIO.
Depois de anos sem publicar livros inéditos de poesia, Claudia voltou recentemente ao centro da cena literária com a reunião de sua obra e o lançamento de “Alma Corsária”. O reencontro com leitores mais jovens provocou um fenômeno inesperado: uma nova geração passou a descobrir sua poesia ao mesmo tempo em que ela própria redescobria a dimensão pública de sua escrita.
Nas redes sociais, onde começou a publicar leituras de poemas durante a pandemia, encontrou um público que talvez jamais tivesse chegado à sua obra pelos caminhos tradicionais do mercado editorial. A poeta que durante anos viu seus livros desaparecerem das livrarias agora encontra leitores diariamente através da própria voz.
E talvez isso faça sentido. Porque ouvir Claudia falar é perceber que sua literatura não termina na página. Existe algo performático em sua maneira de pensar a palavra. Algo que pulsa entre conversa, reflexão filosófica e combustão emocional. Como se a linguagem estivesse sempre acontecendo diante do outro, em tempo real.
Ao definir o que considera uma “mulher Bárbara”, Claudia não fala em força como imposição ou dureza. Fala em presença. Em coragem de olhar para o próprio desejo. Em escuta. Em sensibilidade diante do mundo e das dores coletivas. Para ela, uma mulher Bárbara é alguém “atualizada consigo mesma”.
Talvez seja exatamente isso que sua poesia faça há tantos anos: uma atualização permanente da sensibilidade. Uma recusa em anestesiar o olhar. Uma insistência feroz em permanecer viva dentro da linguagem.
Quando uma mulher decide ir além
Joselma Oliveira
EMPRESÁRIA E FUNDADORA DA PARDAL SORVETES, NATURAL DE PICUÍ (PB). INICIOU SUA TRAJETÓRIA COM A VENDA DE PICOLÉS EM FEIRA LIVRE E, AO LONGO DE 35 ANOS, CONSOLIDOU UMA INDÚSTRIA ALIMENTÍCIA NO CEARÁ, COM ATUAÇÃO MARCADA PELA GERAÇÃO DE EMPREGOS, PRODUÇÃO REGIONAL E EMPREENDEDORISMO.
Nem toda mulher tem aptidão para as tarefas domésticas. Insistir nessa ideia pode estar atrasando muitas histórias de sucesso e gerando um sentimento de incompletude em grande parte delas.
Durante anos, foi naturalizado que o lugar da mulher era dar conta de tudo dentro de casa, como se isso fosse instinto, e não uma construção social. Mas, na prática, muitas mulheres não têm aptidão, desejo nem energia para sustentar essa rotina. E, quando se forçam a isso, acabam abrindo mão de algo maior: o próprio crescimento.
A realidade é que empreender, liderar e construir resultados exige foco, energia e direção. Ninguém sustenta isso tentando fazer tudo sozinha. Ter uma rede de apoio é estratégia. Contar com alguém com quem se possa dividir responsabilidades, seja um familiar, um amigo ou uma pessoa contratada, é o que permite que muitas mulheres avancem sem se perder no caminho.
Não se trata de dar conta de tudo, mas de decidir o que realmente importa carregar. Muitas histórias de mulheres empreendedoras nascem da necessidade, do improviso ou da urgência. É justamente nesse cenário que se desenvolvem habilidades essenciais: tomar decisões, adaptar-se rapidamente e não parar diante das dificuldades. Mas transformar urgência em caminho exige mais do que força: exige consciência sobre limites, prioridades e escolhas possíveis.
Na minha experiência de vida e no acompanhamento de outras mulheres nessa jornada desafiadora que é empreender, compreendi que quem vive no improviso constante está sempre correndo atrás. Já quem se organiza, planeja e se antecipa às crises constrói mais estabilidade e evolui com mais consistência. É importante destacar que começar com o que se tem, naquele momento, não anula a necessidade de buscar conhecimento para seguir crescendo.
O que se exige, no fim, é coragem para sair do lugar esperado, fazer escolhas diferentes e seguir em frente, mesmo sem garantia. Depois da coragem, vem a disciplina. Porque crescer exige manter o ritmo quando o entusiasmo passa e continuar construindo, mesmo quando ninguém está aplaudindo.
Entre a casa, os filhos e o trabalho, muitas mulheres estão redesenhando suas trajetórias. E são essas escolhas, muitas vezes difíceis, que podem levá-las ao sucesso e à realização profissional e financeira. Assim nasce a liderança de verdade: quando a mulher deixa de apenas cumprir um papel e passa a construir o próprio caminho, sem culpa.
Ouvidoria como instrumento essencial à Justiça
Andréa Mendes Bezerra Delfino
DESEMBARGADORA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO CEARÁ (TJCE), OUVIDORA DO PODER JUDICIÁRIO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO CEARÁ, COORDENA O ÓRGÃO CENTRAL DE MACROGESTÃO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA DO TRIBUNAL. GRADUADA EM DIREITO PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC), ESPECIALISTA EM DIREITO CONSTITUCIONAL. MAGISTRADA DESDE 1993, DESEMBARGADORA DESDE 2022.
O ideal de justiça é um conceito dinâmico que, ao longo dos séculos, tem sido moldado pela sociedade. Da Grécia Antiga à Idade Média, do Iluminismo à Era Digital, a humanidade tem transformado seus propósitos e expectativas, buscando redefinir suas concepções e, naturalmente, sua compreensão existencial.
Nessa linha evolutiva, o posicionamento do Judiciário como expressão de parcela do Poder Estatal também tem sido alcançado pelas mudanças constantes acerca de sua postura perante a sociedade. Se, antes, já seria suficiente a tripartição estática de Poder desenhada por Montesquieu, o avanço da sociedade impôs um descortinamento operacional das funções do Judiciário.
Por certo, isso não significa que o Judiciário deve invadir competências que não lhe são próprias. Em verdade, desde o século XX e, particularmente, com a Era Digital inaugurada massivamente no novo milênio, as aspirações sociais se avolumaram de forma mais aprofundada, inclusive quanto à atuação do Judiciário.
Agora, para além do exercício fiel da função da julgar, almeja-se do Judiciário uma atuação que promova a dignidade da pessoa humana, seja na atuação razoável do processo, seja no acolhimento pessoal, respeitoso e sensível do indivíduo.
Esse novo momento transborda os limites que, por séculos, distanciaram o Judiciário do cidadão. Nessa releitura, a concepção de Justiça avançou
para alcançar o jurisdicionado em áreas até então distantes das funções tradicionais desse Poder, alargando fronteiras na busca pela proteção do indivíduo em sua plenitude.
É nesse novo contexto que a Ouvidoria do Poder Judiciário encontra sua razão primordial de existência. Posicionada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como um órgão autônomo e integrante da alta administração dos Tribunais, a Ouvidoria tem assumido um papel essencial na aproximação do Judiciário ao cidadão, não apenas como um canal de atendimento, mas, sobretudo, como um órgão atento e acolhedor, interessado na proteção do indivíduo.
Dentro dessa conjuntura, a escuta atenta avança para medidas concretas como, por exemplo, o lançamento dos protocolos “Respeito é o melhor exercício” e “Escute o silêncio”, ações práticas que alertam e desafiam a sociedade na imprescindível missão de proteger mulheres, crianças e adolescentes em diferentes contextos.
Ouvir com propósito; agir com justiça, mais do que um slogan, traduz a nova mentalidade que desafia o papel da Ouvidoria a atuar como órgão de concretização da justiça perante a sociedade.
Os sonhos de dona Bárbara também são nossos
SECRETÁRIA DA CULTURA DE FORTALEZA. GRADUADA EM CIÊNCIAS SOCIAIS (UFC), ESPECIALISTA EM GESTÃO E POLÍTICAS CULTURAIS (ITAÚ CULTURAL/UNIVERSIDADE DE GIRONA) E GESTÃO CULTURAL CONTEMPORÂNEA (ITAÚ CULTURAL/INSTITUTO SINGULARIDADES). FOI SUPERINTENDENTE DO CENTRO DRAGÃO DO MAR, GESTORA
EXECUTIVA NO CENTRO CULTURAL PORTO DRAGÃO, ASSESSORA DE PROJETOS
ESPECIAIS NA SECULT CEARÁ E DIRETORA NO INSTITUTO ECOA.
Uma cabeça-sonho, um peito sangrando e dois pés insurgentes: da Fazenda Caiçara ao Passeio Público da capital, dona Bárbara de Alencar, no dizer do escritor Juarês Ayres, “incorporou-se à legião dos sonhadores”. Abraçou as ideias que selavam o movimento revolucionário e encarou as brancas e frias paredes do forte. Bárbara não se calou. Com ternura e atrevimento, conduziu uma navegação vivaz. Um dos principais músicos da geração cearense, Ednardo canta: “Tão loucos foi Bárbara sonhar”. Numa sociedade que, entre atos e intimidações, invisibiliza o protagonismo, gritando “cala a boca, Bárbara”, a dama, nascida em Exu, continuou de peito erguido.
Na mão, um sonho e, na outra, a espada: a energia de dona Bárbara transformou o lugar da mulher na política. Ainda que, tal como o sonho, a política cultural seja também o lugar onde germinam os lampejos da inventividade, temos desafios históricos da quebra de grilhões. É inadiável a promoção e a consolidação das políticas públicas de cultura que avancem na quebra de estereótipos e preconceitos, no legado repulsante do machismo estrutural e da violência política de gênero.
O campo da cultura é também uma arena da disputa de poder. Somos 50% do público em salas de cinema, mas as mulheres assumem, apenas, cerca de 20 a 24% das direções no audiovisual brasileiro, segundo dados da Ancine (2020-2023). As mulheres lideram a pós-
graduação, representando 57% de mestras e doutoras, porém, assinam menos que 30% das publicações, conforme apontam grandes editoras brasileiras. Estudos indicam uma crescente participação feminina no circuito artístico, entretanto, no mercado da arte, nossa representatividade se limita a 25% dos acervos. Seguimos em busca de ruptura dos espaços de desigualdades.
Sem a capacidade de carregar a primavera nos dentes, não conseguimos avançar nas narrativas do contrapoder. É preciso, cada vez mais, fortalecer uma política cultural que incentive o fortalecimento dos espaços de confiança, incite o indivíduo à insurgência e ao apoderamento das suas liberdades. Ocupar cargos de liderança e gestão prevê critérios de diversidade. Garantir a participação feminina nos editais de amplo alcance e fomentar espaços de criação liderados pelo público feminino são algumas estratégias. Somos sementes dos sonhos de dona Bárbara: aquela política que transforma, que remodela e que tem como fundamento o sonho e a resiliência, pois é “nela que cabe soltar os punhos, a língua, a linguagem.” (Nina Rizzi).
Helena Barbosa
Fortalecendo redes de proteção à mulher
Adriana Almeida
VEREADORA DE FORTALEZA (PT), PROFESSORA, BIÓLOGA E MESTRA. LIDERA A PROCURADORIA DA MULHER E PRESIDE A COMISSÃO DE EDUCAÇÃO DA CÂMARA
MUNICIPAL DE FORTALEZA, ATUA HÁ 20 ANOS NO ENSINO PÚBLICO COM FOCO EM PAUTAS FEMINISTAS, ANTIRRACISTAS E POR UMA CIDADE MAIS JUSTA E INCLUSIVA.
A construção de uma sociedade justa, segura e igualitária em Fortaleza passa, obrigatoriamente, pelo fortalecimento contínuo e estratégico das políticas públicas voltadas às mulheres. Como parlamentar e procuradora especial da Mulher na Câmara Municipal de Fortaleza, compreendo que o nosso papel no Legislativo vai muito além da fiscalização dos atos do Executivo; é, sobretudo, o de criar mecanismos institucionais que garantam dignidade, segurança jurídica e autonomia socioeconômica para todas as fortalezenses. O enfrentamento à violência de gênero e o fomento ao empreendedorismo feminino não são apenas pautas setoriais ou de nicho, mas sim pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico e social sustentável da nossa capital.
A implementação de políticas que integram as áreas de educação, saúde e assistência social é o exemplo mais claro de como podemos acolher a mulher de forma sistêmica e humanizada. Não basta oferecer um serviço isolado; é preciso que o Estado esteja presente em todas as etapas da vida da cidadã.
Precisamos de uma cidade que olhe com empatia e eficiência para as mães, para as chefas de família que sustentam seus lares sozinhas e para as jovens que buscam a primeira oportunidade em um mercado de trabalho ainda desigual.
Nesse sentido, propostas voltadas à ampliação de vagas em creches em tempo integral e o fortalecimento dos centros de referência são prioridade. Sem um suporte para o cuidado com os filhos, a mulher fica
impedida de exercer sua cidadania com plenitude e de buscar sua independência. Além disso, a qualificação profissional surge como a ferramenta mais poderosa de libertação. Quando investimos em cursos técnicos e capacitações descentralizadas, levando o conhecimento diretamente aos bairros e comunidades, estamos oferecendo o instrumento necessário para que muitas mulheres rompam ciclos históricos de dependência financeira e, consequentemente, ciclos de violência doméstica.
É um trabalho contínuo de escuta ativa e articulação política, transformando demandas reais, ouvidas nas ruas, em leis sólidas e projetos que mudam a vida de quem mais precisa.
Seguiremos vigilantes, propositivos e firmes, reafirmando o compromisso de que Fortaleza se torne, cada vez mais, uma cidade acolhedora, inclusiva e segura para todas as mulheres, independentemente da sua condição social. A luta por direitos é diária e exige coragem para transformar a indignação em ação política efetiva. Juntas e juntos, estamos pavimentando um caminho de esperança, respeito e conquistas que servirão de alicerce para as futuras gerações de fortalezenses.
A força indomável da mulher cearense
Patrícia
Aguiar
PREFEITA DE TAUÁ. CASADA COM O EX-VICE-GOVERNADOR DOMINGOS FILHO, MÃE DA VICE-PREFEITA DE FORTALEZA, GABRIELLA AGUIAR, E DE DOMINGOS NETO, DEPUTADO FEDERAL. SUAS GESTÕES RECEBERAM PRÊMIOS, DESTACANDO-SE PROJETOS COMO CIDADE DIGITAL E O PRÊMIO NACIONAL DO SEBRAE DE 2024 NA CATEGORIA COMPRAS GOVERNAMENTAIS.
A história do Ceará é tecida pela bravura de mulheres que nunca aceitaram o silêncio. No centro dessa linhagem de coragem, o nome de Bárbara de Alencar ecoa não apenas como um registro do passado, mas como um farol para o presente. A primeira presa política do Brasil, que lutou pela liberdade e pelos ideais republicanos, nos ensina que a ocupação dos espaços de poder e a defesa da dignidade humana são batalhas que exigem uma força inabalável.
Em Tauá, trazemos essa herança para a gestão pública com a consciência de que a mulher cearense é, historicamente, o pilar de sustentação da nossa sociedade. Governar para as mulheres não é um apêndice da administração, mas o eixo central de um desenvolvimento justo. Assim como Bárbara rompeu as correntes da opressão colonial, nosso trabalho é romper as correntes invisíveis da desigualdade de gênero, da violência e da falta de oportunidade que ainda tentam limitar o potencial das nossas cidadãs.
Nossa atuação se baseia em um tripé fundamental: autonomia econômica, proteção e saúde integral. Entendemos que fortalecer a mulher é fortalecer a economia local e a identidade do nosso povo. Por meio dos programas de microcrédito orientado, como o fomento ao empreendedorismo feminino, estamos transformando vocações em negócios sustentáveis. Quando uma mulher conquista sua independência financeira, ela ganha voz e poder de decisão, quebrando ciclos de vulnerabilidade.
Na área da proteção, avançamos com equipamentos de acolhimento que respeitam a trajetória de luta de cada uma. A sensibilidade no atendimento público é o que diferencia uma gestão humanizada. Não basta oferecer o serviço; é preciso garantir que a mulher sinta o poder público como um aliado. Na saúde, priorizamos o cuidado em todas as fases da vida, compreendendo que o bem-estar feminino é a base para uma comunidade forte e produtiva.
Bárbara de Alencar enfrentou prisões e perseguições por acreditar em um ideal de justiça. Hoje, nosso desafio é enfrentar as barreiras estruturais do preconceito. Ser prefeita me permite olhar nos olhos de cada mãe, estudante e trabalhadora, e reafirmar: o tempo da submissão ficou na história. O tempo agora é de direitos plenamente exercidos.
Seguimos inspiradas pela determinação das nossas antepassadas, construindo um Brasil onde ser mulher é sinônimo de ter voz e respeito. A liberdade pela qual Bárbara lutou, hoje se traduz em políticas públicas eficazes, garantindo que o brilho e a força da mulher cearense continuem a iluminar o futuro da nossa terra.
Envelhecer não é desaparecer, faz parte do viver
Juçara Rocha Soares Mapurunga
PSICÓLOGA, MESTRE E DOUTORA EM PSICOLOGIA, PROFESSORA DO CURSO DE PSICOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA (UNIFOR), PSICANALISTA MEMBRO DO LAEPCUS E AUTORA DE LIVROS.
Em tempos atuais, as mulheres em processo de envelhecimento se queixam de ficarem invisíveis diante dos outros. Refletindo sobre este acontecimento, lembro do poema de Adélia Prado no qual diz que, só as mulheres entre as coisas envelhecem e que nesta altura da vida, diante do aparecimento de um desejo à sua porta só sendo santa para fechá-la e só sendo doida para abri-la. Bela metáfora dizendo o mesmo que a Psicanálise ao enunciar que o desejo gera conflito psíquico e não envelhece, podendo aparecer em qualquer idade.
O sujeito para a Psicanálise é o sujeito do inconsciente, essa parte obscura de nós mesmos que guarda o saber dos nossos desejos, assim, em todas as idades desconhecemos o que desejamos até este ter acesso à nossa consciência. Este inconsciente está encarnado em um corpo que biologicamente envelhece, é disso que falam as mulheres nas suas narrativas da sensação de desaparecimento perante os outros. Por que será que só as mulheres entre as coisas envelhecem?
São as mulheres que guardam o mistério da geração de vidas, e, são relegadas à condição de coisa que fica velha e deve ser descartada. No Brasil, segundo a historiadora Mary Del Priore, o etarismo é conduzido pelo preconceito contra o velho, desvalorizando a mulher madura, principalmente através de expressões linguageiras que as marginalizam ou as tornam invisíveis a partir da menopausa. A menopausa não é
mais o marco da entrada para a velhice no feminino, é o momento de virada biológica e psíquica que configura quase a metade da vida, já que a expectativa de vida aumentou e o Brasil não é mais um país majoritariamente jovem como em outros tempos e já lida com o envelhecimento de sua população.
Esse envelhecimento é constatado subjetivamente e, principalmente, pelo olhar do outro, modificando a relação de cada um com o tempo, com o mundo e sua história, causando um estranhamento. Segundo Simone de Beauvoir, a velhice é difícil de assumir porque sempre a consideramos uma espécie estranha, fazendo-nos indagar como nos tornamos uma outra pessoa e permanece dentro de nós a mesma pessoa que sempre nos habitou. Não há idade para envelhecer, mas, permanecer em novos desejos é exercício diário que leva para enigmas como o de Adélia diante da porta do desejo. O importante é viver e sempre aparecer.
Construir demais, viver de menos
Vera Saboia
ARQUITETA E URBANISTA, ESPECIALISTA EM DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL E ECONOMIA CIRCULAR PELA PUC-RS.
MULTIPLICADORA DO SISTEMA B BRASIL. ATUA COM PROJETOS DE IMPACTO POSITIVO, COM EXPERIÊNCIA EM GESTÃO PÚBLICA, COMERCIAL E CULTURAL.
“A casa mais sustentável é a que nunca foi construída.”
A frase pode parecer exagerada, mas expõe uma verdade incômoda: construir, como temos feito, custa caro ao planeta e a nós.
A construção civil está entre as atividades que mais impactam o meio ambiente. Consome recursos naturais em larga escala, gera resíduos, transforma paisagens e, muitas vezes, exclui comunidades. Ainda assim, seguimos como se o espaço urbano fosse infinito e como se o clima não respondesse às nossas escolhas.
Mas o impacto não é apenas ambiental. As cidades também adoecem. Ilhas de calor, poluição e escassez de áreas verdes afetam corpos e mentes. O aumento de doenças respiratórias, do estresse e da ansiedade não é desvio: é consequência direta da forma como ocupamos o espaço urbano.
Ao longo desse processo, nos afastamos do essencial. A natureza, antes parte do cotidiano, cedeu lugar a superfícies frias, temperaturas artificiais e espaços que pouco acolhem. Perdemos a sombra das árvores, o vento atravessando a casa, o contato com o chão e, sem perceber, nos desconectamos daquilo que sustenta a vida.
As cidades foram moldadas sob a lógica de substituir o natural pelo concreto. Em Fortaleza, o desmatamento da área próxima ao aeroporto evidencia esse modelo: a retirada da vegetação intensificou alagamentos, elevou temperaturas e impactou a vida ao redor.
Esse debate não é contra o desenvolvimento. É contra a ideia de que toda expansão urbana seja, automaticamente, progresso. Crescer também exige critério, escuta e responsabilidade. Cada obra carrega uma escolha: pode ampliar desigualdades e danos ambientais ou pode regenerar vínculos entre cidade, pessoas e natureza.
Expressões como “o rio corta a cidade” retratam essa lógica de tratar a natureza como obstáculo e mostram como a linguagem também molda escolhas. Individualmente, ao optar por construções que ignoram o clima local, com pouca ventilação e alta dependência de ar-condicionado e luz artificial, reforçamos um padrão insustentável.
Há soluções. O conceito de cidades-esponja, aplicado no Parque Rachel de Queiroz, propõe devolver ao solo sua capacidade de absorver a água da chuva. A economia circular, que prioriza reutilização, adaptação e redução do desperdício, também aponta caminhos possíveis. É preciso rever como produzimos e vivemos nas cidades.
Talvez o maior desafio não seja construir mais, mas construir melhor — ou, em alguns casos, simplesmente não construir.
Justiça, democracia e liderança feminina
christiane leitão
PRESIDENTE DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL – SECÇÃO CEARÁ (OAB-CE), NA GESTÃO 2025-2027, CHRISTIANE DO VALE LEITÃO É A PRIMEIRA MULHER A OCUPAR O CARGO EM 93 ANOS DE HISTÓRIA DA INSTITUIÇÃO. É ADVOGADA, PROFESSORA UNIVERSITÁRIA E MESTRE EM DIREITO CONSTITUCIONAL PELA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA (UNIFOR).
A presença das mulheres nos espaços de poder é uma das mais importantes transformações institucionais das últimas décadas. Não se trata apenas de uma conquista individual, é, sobretudo, um avanço democrático, capaz de tornar as instituições mais plurais e mais conectadas com a realidade da sociedade que representam.
E esses avanços conquistados merecem ser celebrados. Hoje, temos mulheres ocupando posições de destaque nos tribunais, nos parlamentos, nas universidades, nas empresas, nas entidades de classe e em diversas instituições públicas e privadas. Cada uma dessas trajetórias representa uma vitória coletiva. No sistema de Justiça, esse movimento de ampliação da presença feminina nos espaços de decisão fortalece o compromisso democrático com a igualdade.
Entretanto, é preciso reconhecer que a violência política de gênero, o preconceito e a sobrecarga decorrente da dupla jornada permanecem como obstáculos concretos à plena participação feminina na vida pública. Sabemos que ainda há muito a ser feito. O cenário de violência contra as mulheres no Brasil continua alarmante e nos mostra, todos os dias, que a luta por uma sociedade livre de machismo e misoginia permanece urgente e necessária.
Por essa razão, o debate sobre liderança feminina não pode ser tratado como uma pauta setorial ou restrita às mulheres. Trata-se de uma agenda de interesse coletivo. Instituições mais diversas tendem a ser mais inovadoras, mais equilibradas e mais
capazes de responder aos desafios contemporâneos. A presença feminina nos espaços de poder produz transformações que vão além dos números. Ela inspira novas lideranças, amplia horizontes e contribui para romper ciclos históricos de exclusão. Meninas e jovens precisam enxergar, nas posições de destaque, exemplos concretos de que seus sonhos e projetos profissionais são possíveis.
Como primeira mulher a presidir a OAB Ceará em mais de 90 anos de história da instituição, reconheço o significado desse marco. Não como um ponto de chegada, mas como parte de um processo de transformação que precisa continuar avançando.
Tenho consciência de que cada mulher que ocupa um espaço de liderança ajuda a ampliar oportunidades e a abrir novas portas para aquelas que virão depois.
O futuro que desejamos passa, necessariamente, pela construção de espaços de poder cada vez mais diversos, inclusivos e representativos. E exige que continuemos trabalhando para que a igualdade não seja apenas um ideal, mas uma realidade concreta na vida de todas as mulheres.
aprender teu nariz 2022
óleo sobre tela 90 x 70 cm
O NÚMERO DA
A SINTONIA DO CANAL FDR.
Para quem tem sede de aprender e paixão por ensinar, o destino é um só. O Canal FDR reúne videoaulas, filmes, séries e muito mais, em parceria com o Canal Futura, da Fundação Roberto Marinho. Mudamos o número, mas continuamos com o mesmo compromisso: transformar a sociedade por meio da educação.
fdr.org.br/canalfdr
O círculo que une todas as vozes
A NOTÍCIA GIRA, A IDEIA CIRCULA, VOCÊ SE ENCONTRA.
Tudo que circula se transforma. Em um mundo de ideias, uma roda de conversas ou um ciclo de histórias em eterno movimento. Na TV O POVO , multiplicamos os pontos de vista para que nenhuma voz fique de fora. Somos a lente que foca no jornalismo sério e o espaço onde todos os ângulos se encontram. Nossa conexão com a TV Cultura amplia esse diálogo, trazendo o que é relevante no país para o centro do debate. E toda essa informação só ganha vida quando circula com você.
SINTONIZE NA TV ABERTA
Claro/NET: 523 (HD) 23 (SD), Brisanet 138 e Alares 23