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O problema do paradoxo do zero e miscelâneas

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O PROBLEMA DO PARADOXO DO ZERO

&

MISCELÂNEAS DA CONTEMPORANEIDADE

PRIMEIRA EDIÇÃO

2014

WILSON LUQUES COSTA


Para a minha esposa Raquel, farol que me ilumina.


Todos os direitos para Wilson Luques Costa

.

A IMPORTÂNCIA PREPONDERANTE DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS FRENTE A QUALQUER OUTRO ELEMENTO DA FILOSOFIA COMO UM TODO


Resumo

O principal objetivo de nosso trabalho é justificar A importância preponderante dos problemas filosóficos frente a qualquer outro elemento da filosofia como um todo. Para tanto, centrar-no-emos na necessidade da aritmética, especialmente em Kant e Frege que parecem acreditar em seus pressupostos. No desenvolvimento procuraremos

de

nosso

demonstrar

a

trabalho, possível

precariedade da sua justificativa racional, sobretudo, quando lidamos com o número 5


zero. Queremos também enfatizar que não é objeto desse trabalho a audácia de questionar filósofos universais, mas colocar perguntas que poderão despertar o desejo de respondê-las ou

problematizá-las

porventura,

puderem

assunto.

6

por

aqueles

que,

se

interessar

pelo


Palavras-chave Necessidade, Contradição, Verdade, Filosofia, Kant, Frege.

7


Abstract The main objective of our work is to justify

the

overriding

importance

of

philosophical problems facing any other element of philosophy as a whole. Therefore, we will focus on the need of arithmetic, especially Kant and Frege who seem to believe in their assumptions. In the development of our work, we aim to show the potential precariousness of their rationale, especially when dealing with the number zero. We also want to emphasize that this work is not subject to universal philosophers audacity to question,

8


but to ask questions that might arouse the desire to answer them or problematize them by those who, perhaps, may be interested in the subject.

9


Keywords Need, Contradiction, Truth, Philosophy, Kant, Frege.

10


Introdução O presente trabalho tem como escopo mostrar que não podemos ainda considerar a chamada ciência matemática como a mais fiel portadora

daquilo

que

se

denomina

necessidade. Podemos ainda dizer que a palavra necessidade é um conceito muito usado pelos filósofos para demonstrar algo que está próximo da verdade ou que não contém contradição. Consoante as palavras do filósofo 11


alemão Immanuel Kant (1724 – 1804), “o uso dogmático da razão sem crítica conduz (...) a afirmações infundadas” (KANT, 1988, p.34). Por isso que para justificar o nosso trabalho, pretendemos apontar algumas inconsistências na matemática, sobretudo na aritmética, quando envolvemos o número zero numa relação trabalho,

multiplicativa. vamos

Ao

relacionar

longo

desse

os

nossos

apontamentos críticos a algumas passagens de textos do filósofo alemão Immanuel Kant e do matemático alemão Gottlob Frege (1848 – 1925), para ao cabo dele propormos um olhar mais atento para a aritmética antes de considerá-la como exemplo de necessidade e de não contradição. Esperamos também que o

12


fazer filosófico aponha o seu olhar de coruja vigilante diante de estados tidos como já dados e que vele pela verdade somente demonstrada pelas justificativas racionais que não lhe apontem uma contradição, como

parece

acontecer ainda quando tratamos da aritmética. Não

obstante

tratarmos

de

conceitos

filosóficos mais adstritos a quem se interesse pelo filosofar aparentemente mais esotérico, pensamos que esse trabalho aponta para uma clareza de entendimento que só será percebida quando houver a vontade livre de compreender do que ele trata. Assim sendo, o nosso trabalho tem o propósito de fazer um elogio às problematizações.

13


Um olhar de espanto sobre a necessidade aritmética

Há com efeito em todo filosofar um processo dialógico com os textos. Para tanto, é necessário embrenhar-se de tal forma com eles para que se efetive a sua compreensão. E foi por ter contatado como o livro Crítica da razão pura do filósofo alemão Immanuel Kant, que percebemos a nossa não compreensão da certeza depositada por ele naquilo que se denomina

matemática.

A

nossa

dúvida

emanou-se quando percebemos que, não obstante a matemática gozar de um status racional em suas relações, a razão nem sempre está ali para acudi-la com os seus critérios. É o caso, quando, por exemplo, numa 14


relação multiplicativa envolvemos o chamado número natural zero. É comum aceitarmos em nossos afazeres diários e acharmos até natural que 1 x 0 = 0 é uma relação que resulta numa verdade incontestável e absoluta. Todavia, ao procurarmos

nos

estribar

nos

critérios

racionais, percebemos que temos dificuldades extremas em justificar essa denominada verdade. E foi pensando nisso que viemos propor um olhar mais atento àquilo que julgamos ser uma possível contradição. O fato de citarmos o pensador de Königsberg, não tem a intenção de imiscuirmo-nos em seu tratado magno, nem muito menos tangenciar o seu pensamento ou tentar denegá-lo; muito pelo

contrário,

pretendemos

15

isto

sim


simplesmente dialogar com alguns excertos seus para alertar que a sua compreensão e conceituação de juízo a priori como necessário e universal colocam-se em xeque, quando o filósofo alemão toma como fundamento para as suas explicações à chamada matemática e principalmente a aritmética. O mesmo pode-se dizer em relação ao matemático alemão Gottlob Frege, que também à maneira de Kant aponta

a

aritmética

como

exemplo

de

necessidade. O nosso propósito, portanto, é fazer um contato com algumas pequenas asserções, principalmente dos dois pensadores já citados, para tentarmos apontar que as suas certezas ainda carecem de uma justificativa do tipo racional.

16


Pretendemos também elaborar uma conclusão propondo um olhar mais atento às aporias matemáticas e justificar com o nosso pequeno

trabalho

contribuição

do

a

importância

perguntar

e

da das

problematizações para o processo filosófico. Sempre é de bom tom saber que a filosofia é um diálogo sobre as conceituações como também sobre os ajustes e retificações que se fazem necessários, quando erros e desvios impregnam-se na linguagem. É sabido que verdades arbitrárias e não fundadas no estrito juízo da razão pressupõem outras tantas arbitrariedades. Sendo assim, não devemos dar desprezo a pontos fulcrais da filosofia que possam aparentar meras vaidades egocêntricas

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que não nos servem para nada. É, por exemplo, quando se trata da própria ciência ou da própria ética. No livro Crítica da razão pura, o filósofo alemão Immanuel Kant vai tratar da definição do que é experiência e não experiência, para poder tratar de juízos a priori e não a priori, ou tratar antes da matemática para firmar a sua conceituação e por fim para tratar, desde que tudo racionalmente fundado, das nossas ações em outros textos ou livros. De modo que o conceitual interfere no factual e o factual, menos talvez, no conceitual. E é por isso que é preciso fazer uma revisão nas afirmações, para que essas possam ser fundadas pela própria razão e não pelo consenso dos princípios das autoridades; Kant

18


é claro em aceitar que "ciência é algo que progride, que avança, que acumula" por isso " o conhecimento científico deve pois ser necessário,

universal

extensivo.”

E

foi

e

acumulativo

pensando

nisso

ou que

propusemos uma leitura sobre os fundamentos da aritmética para nos convencer, após disso, de sua necessidade e universalidade e, por conseguinte,

de

suas

fundamentações

ulteriores; no Capítulo primeiro do livro Crítica da razão pura, Kant fará uma distinção entre o Conhecimento Puro e Empírico: “Os conhecimentos“ a priori” ainda podem dividirse

em

puros

e

impuros.

Denomina-se

conhecimento “a priori” puro ao que carece completamente

de

qualquer

19

empirismo”


(KANT, 1988, p. 22); e para isso ele vai se valer da importância da experiência como a base da linguagem e por consequência de nossos conhecimentos. Parece ser o propósito de Kant primeiro fazer uma distinção entre o conhecimento empírico do não empírico, para poder, depois disso, fazer a distinção ou distinções que podem ocorrer naquilo que se denomina de a priori, ou seja, o conhecimento que não passa pela experiência. É sabido que Kant não nega o valor da experiência, pois o próprio Kant inicia o I parágrafo da Crítica da razão pura afirmando o caráter primordial da experiência para a aquisição de nossos conhecimentos; ele já enceta o parágrafo confirmando o valor da experiência: “não se

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pode duvidar de que todos os nossos conhecimentos começam com a experiência” (KANT, 1988, p. 21). Todavia, percebemos que ao invés de Kant começar definindo o que é experiência, ele prefere fazer uma primeira explicação tomando como base não uma definição conceitual que virá no final do parágrafo, mas a relação de nossos sentidos com os chamados objetos sensíveis, o que pode dificultar a leitura e o entendimento do texto, porque Kant parece supor que todos já compreendam o que é experiência: “como haveria a exercitar-se a faculdade de se conhecer, se não fosse pelos objetos que, excitando os nossos sentidos, de uma parte, produzem, por si mesmos, representações, e de

21


outra parte, impulsionam a nossa inteligência a compará-los entre si, a reuni-los ou separá-los, e deste modo à elaboração da matéria informe das

impressões

sensíveis

para

esse

conhecimento das coisas que se denomina experiência? (KANT, 1988, p. 21). Parece ser o

intuito

de

Kant

fixar-se

menos

na

experiência do que no a priori, porque para Kant o a priori, ao contrário do conhecimento empírico, tem o caráter da necessidade e, por conseguinte, da universalidade. Kant bem define no próprio capítulo citado o que é conhecimento a priori, pois para ele são “todos aqueles que são absolutamente independentes da experiência.” (KANT, 1988, p. 22). Mas esse não seria a nosso ver o problema que nos

22


leva a citá-lo; Kant quando distingue o empírico do a priori, envolve-se numa não aparente tão difícil tarefa de também distinguir os conhecimentos a priori em puros e em impuros. Entretanto, em meio a tantas particularidades da obra magna do mestre de Königsberg, o que nos faz focar em parte de sua obra é a sua fé, digamos assim, do caráter necessário da aritmética; pois acreditamos que a

matemática

ainda

não

possui

a

universalidade e necessidade tão esperadas, porquanto incorre em não soluções ensejadas em seu próprio núcleo, que preferimos provisoriamente denominá-las de anomalias. É preciso antes compreender que não são, a nosso parecer, para Kant a matemática e 23


a aritmética o seu foco principal. Kant as utiliza mais no sentido de dar uma base fundadora

para

as

suas

argumentações.

Entretanto, não podemos tergiversar e assim dar crédito às suas argumentações por se tratar de Kant. É necessário compreender de onde provém essa necessidade da aritmética que muitos acreditam sem tanto questionar ou colocar-lhe suspeitas como sobre as coisas metafísicas. Sabemos que Kant vai colocar a Metafísica abaixo da ciência matemática por não conseguir responder às fundamentações racionais, mas será que, não obstante a sua linguagem artificial criada pelos homens, a aritmética não cai nesse impasse se também não responde a muitas outras fundamentações?

24


O caráter de nossa suspeita tem uma explicação, se não lógica pela sua própria fundamentação, porque percebemos que, e não desdenhando outras tantas anomalias que já possam ocorrer (Parece que fica difícil também saber se os números são finitos ou infinitos) a chamada aritmética não consegue explicar porque um determinado número natural, a saber, zero, quando se envolve numa relação multiplicativa com outros números ou com o próprio zero cria algo, por um tipo de condição

de

prova,

anômalo

ou

não

explicativo, o que não ocorre com os demais números denominados de naturais. E foi por perceber esse estado anômalo que procuramos, pela via da filosofia e não da matemática,

25


questionar esse talvez provisório problema, para que não sejam justificadas as palavras do próprio Kant que já nos diz sobre esses possíveis embaraços, porque “o desejo de estender os nossos conhecimentos é tão grande que só detém seus passos quando tropeça numa contradição claríssima” (KANT, 1988, p. 26). Como pretendemos ampliar essas questões num trabalho de maior fôlego, intencionaremos

aqui

tão somente

fazer

algumas demonstrações para poder comparálas posteriormente com a obra do próprio Kant e de outro grande matemático, Frege, que também parece depositar uma fé inabalável na chamada aritmética. Somos sabedores dos abismos que poderemos encontrar, ao tentar

26


trabalhar com um tema de especialistas e de difícil

consenso,

porém

julgamos

serem

necessárias as exposições de nossas dúvidas, sobretudo quando acreditamos que fizemos se não completa alguma razoável inserção pela compreensão

dos

problemas,

através

de

leituras e de releituras dos próprios autores como de seus mais diretos comentadores. Por isso que para o bom funcionamento didático de nossa exposição, preferiremos tratar de alguns assuntos que procurarão seguir uma determinada ordem.

27


De onde provém a necessidade da aritmética?

É comum, mesmo entre os filósofos, acreditar na necessidade da aritmética. Porém seria de se perguntar: De onde provém a necessidade da aritmética? São sabidamente conhecidas e reconhecidas as dúvidas que se colocam

quanto

às

questões

de

Deus,

liberdade, alma etc. O próprio filósofo alemão Immanuel Kant nos dá esse exemplo, quando aborda sobre a Metafísica, dizendo-nos que “sua marcha é, no princípio, dogmática; quer dizer, ela enceta confiadamente o seu trabalho sem ter provas de potência ou impotência de nossa razão para tão grande empresa” (KANT, 1988, p. 25). Mas deixa de elaborar a mesma pergunta à matemática e principalmente à 28


aritmética por acreditá-la e creditá-la ao que parece infalível. Kant em seu livro já nos informa de sua necessidade e universalidade, sem pelo menos nos explicitar o porquê dessa certeza;

ao

contrário,

mostra-nos

essa

confiança como coisa simplesmente dada de si para si, sem ao menos questioná-la: “pois desfrutando de certeza uma parte de nossos conhecimentos, a Matemática, concebe-se a fagueira esperança de que os demais cheguem ao mesmo ponto” (KANT, 1988, p. 26). O que efetivamente estamos procurando fazer é um perguntar a essa certeza kantiana. Será que Kant não percebia que essa certeza estava possivelmente eivada de um possível processo indutivo? Como poderia Kant depositar essa

29


certeza sobre os números se não o conhecemos em sua plena totalidade? Sabemos que o processo indutivo, que parte do particular para o geral, não nos afirma nada sobre a totalidade das

coisas;

por

isso

também

que,

independentemente da dúvida da condição da prova

que

proporemos

nesse

trabalho,

julgamos precipitada essa certeza kantiana, que deveria ser antes tratada, para se chegar às suas questões transcendentais. É como que, como grande filósofo que foi e é se desinteressasse ou não percebesse a dimensão deste possível problema. Nesse sentido, Kant, a nosso ver, não procurou usar os instrumentos da razão para creditar a razão e posteriormente os seus tão elementares e transcendentais

30


argumentos. Como bem nos informa uma passagem do livro: A filosofia a partir de seus problemas, “o núcleo essencial da filosofia não é

constituído

de

crenças

tematicamente

definidas e racionalmente fundadas, senão de problemas e soluções”. No texto trabalhado no curso de Especialização em Docência em Filosofia pela Unesp, podemos destacar que aprendemos com Antonio Trajano Menezes de Arruda que filosofia é espanto; “ com efeito, nada é capaz de provocar espanto/perplexidade a não ser um problema, uma questão” (ARRUDA, 2011, p.11). Por isso esse trabalho não tem a objetivação primeira de definir um problema e, por conseguinte, a sua solução, que seria, a nosso ver, uma tarefa um tanto

31


quanto despropositada para o momento; esse trabalho vem mais no intuito de se fazer um elogio às problematizações filosóficas que, excetuando alguns poucos trabalhos até o momento publicados, não vem se constituindo como o leitmotiv de um filosofar que pretenda sair do seu secular “comentarismo”, pois “o “comentarismo” é o principal fator que tem entravado o aparecimento na universidade brasileira de uma reflexão filosófica original regular e consistente.” Outro ponto que nos leva à consecução do que aqui se pretende tratar é a tentativa de mostrar que é necessário fazer um ajuste na chamada aritmética, se se pretende tê-la como um paradigma de uma ciência que se constitui nas bases seguras da

32


necessidade e universalidade. Sem pretender adentrar e nem sequer perpassar as obras titânicas de Kant e Frege, objetiva-se aqui também mostrar que a conceituação de a priori coloca-se em xeque na matemática, quando ela não

consegue

explicitar

pelos

próprios

instrumentos da razão as suas possíveis aporias e contradições. Mas como demonstrar essas possíveis contradições e aporias que a matemática

e,

sobretudo,

a

aritmética incidem? Como encetar e embasar o método ou caminho? São justamente essas perguntas que também se colocam à própria ciência, porquanto é deveras difícil demonstrar uma razão, sem que se aponte para perguntas que já se problematizam. Por isso que em face

33


dessas dificuldades

que

gerariam

outras

dificuldades, pretende-se não tirar o foco do assunto e seguir num abrir de janelas que não poderiam ser fechadas, funcionando menos como janelas esclarecedoras, que é o propósito desse trabalho. Para isso, agora, pretendemos apresentar aquilo que preferimos denominar de condição da prova. Podemos dizer que a condição da prova é um tipo de fórmula, a saber, a x b = c sse c : b = a que tenta explicar a não contradição dos números nela aplicados num efeito de multiplicação e divisão. Não obstante, a dificuldade de esclarecer ou justificar lógica ou racionalmente como essa vamos chamá-la provisoriamente assim condição da prova se deu, deve-se, no entanto,

34


atentar como e por que os elementos nela testados (chamemos de números naturais) apresentam-se ora como imagens idênticas, ora não. Apresentada a condição da prova, passaremos a aplicar os elementos numéricos naturais para a justificação das imagens. Na condição da prova, chamaremos valores de verdade e de não contradição quando os elementos possuírem a mesma imagem, e não incidirem em contradição e chamaremos de contradição ou aporia, quando houver pelo menos uma ou mais imagens diferentes, ou imagens idênticas, mas que geram contradição. Para tanto, embasamo-nos nas ideias do filósofo austríaco Wittgenstein acerca das regras: “somente por meio do seguimento

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correto da regra pode-se demonstrar, ou seja, julgar se uma demonstração tem força comprobatória.” (BUCHHOLZ, 2008, p.37). Exemplo 1. a = 2

b=3

c = ? Escolhidos

esses números, vamos aplicá-los na Condição da Prova: 2 x 3 = 6 sse 6 : 3 = 2. Após a aplicação da condição da prova aos elementos naturais escolhidos acima, podemos perceber que as imagens são idênticas para a, b e c; sendo a = 2 b = 3 e c = 6.

dentro

Sendo

assim,

podemos

considerar

das

regras

estabelecidas

como

verdadeiros e não contraditórios. Agora vamos escolher os números maiores ou iguais a zero, a saber, a = 1 b = 0 c = ? -- escolhidos esses números, vamos à aplicação da condição da 36


prova: 1 x 0 = 0 sse 0 : 0 = 1. Feita a aplicação da condição da prova, envolvendo agora o número zero, percebemos que para as imagens serem idênticas, haveria que ocorrer uma contradição na matemática ou aritmética, o que concorreria para algumas análises que pretendemos condições

fazer,

ou

apresentadas,

melhor,

nessas

ocorreu

uma

contradição num juízo a priori e a aritmética colocou-se em xeque diante dos juízos da razão: Princípio da Identidade, Princípio do Terceiro

Excluído,

Princípio

da

Causa

Eficiente, Princípio da não Contradição. Verificamos que o número zero causa um problema para a justificação racional de seu produto.

Desse

modo,

37

parece

que

nos


encontramos diante de um problema na matemática e, em particular, na aritmética. Evidente é que quando tentamos colocar esse problema, não estamos advogando, nem nos embasando na frase conhecida de Marx (1818 – 1883) que afirma que “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos” (GIANNETTI, 2008, p.25) -- e é diante disso que preferimos a definição de que “um problema é formulável na linguagem, em uma sentença interrogativa” e estribando-nos

nessa

definição

que

formulamos a seguinte pergunta: Por que a condição da prova aponta uma contradição na matemática e, em particular, na aritmética, quando trabalhamos com o número zero? Se

38


retornarmos ao livro A filosofia a partir de seus problemas (de Mario Ariel Gonzáles Porta), vamos encontrar a seguinte afirmação: “O núcleo essencial da filosofia não é constituído de crenças tematicamente definidas e racionalmente fundadas, senão de problemas e soluções”. Nesse sentido, é oportuno apontar para a necessidade primeira de um perguntar e dialogar, do que propriamente a volição de uma problematização e a consequente solução; mister é pois destacar que, não obstante o tema tratar das problematizações, o intuito é um perguntar,

posto

haver,

em

nosso

entendimento, uma diferença de grau entre o perguntar e o problematizar. Entendemos que há uma diferença de grau entre o perguntar e o

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problematizar, já que o perguntar traria em seu bojo menos um conhecimento holístico dos problemas tratados; o perguntar seria a antesala das problematizações, porquanto traz em si ainda a não compreensão plena das problematizações; no perguntar subjaz, talvez, a

pátina

das

compreensões

parciais;

o

perguntar seria uma primeira etapa que precisa ser trabalhada e polida, seria a escada que poderia levar às problematizações, mas não o seu patamar. Se o perguntar é a ante-sala das problematizações, a problematização, por seu turno, é o patamar do perguntar ao problema; de maneira que enquanto a pergunta duvida tout court, a problematização pergunta para os problemas, ou melhor dizendo, sabe dos

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problemas,

por

isso

pergunta;

a

problematização é um perguntar consciente, porque

tem

seu

alvo,

seu

télos;

a

problematização seria um diálogo interposto entre outros diálogos, por isso dialético. Como bem se afirma, “se o público em geral não entende o que os filósofos fazem e crê que cada um simplesmente diz o que quer isso se deve, em grande medida, ao fato de que não entende o problema ou, mais ainda, não toma consciência de um problema”. Por isso são, com efeito, de vital importância para a filosofia os problemas filosóficos,

porque

ao

problematizarem

mostram e denotam que o filosofar é um in fieri e que as problematizações vêm adicionar 41


ou corrigir alguns pontos não tão claros ou evidentes; mas para isso como bem nos informa o texto trabalhado em nosso curso “é preciso desvencilhar-se do hábito, pois “o hábito, embora seja em geral uma coisa vantajosa, pois sem ele teríamos que estar sempre

reaprendendo

as

coisas

e

as

habilidades, tem o inconveniente de gerar uma impressão falsa de conhecimento‟‟ e “para neutralizar esse inconveniente, é preciso vencer a tendência para se comportar segundo a inércia do hábito, do costume” e a pergunta é como fazer para desvencilhar-se do hábito já que o hábito é um empecilho para o caminho das problematizações? Por isso, “a coragem intelectual” é um meio de quebrar esses

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grilhões que nos acorrentam. Todavia, não é o ser simplesmente corajoso que valida as problematizações, porque um homem corajoso é somente um homem corajoso; é preciso saber

dos

problemas;

coragem

sem

conhecimento é um modo temerário de postarse diante dos problemas; a coragem filosófica exige o denodo pela compreensão intelectual; e é nisso que a filosofia diferencia-se da prática do senso comum; por isso a filosofia não é um perguntar simplesmente vazio. Voltando às problematizações, podemos dizer que elas são também a tentativa de um ajuste que enjeita por isso uma teleologia sistêmica, porque, conforme Kant, “todos os filósofos que construíram sistemas viveram num intenso

43


sentimento de fragilidade.” (BOTUL, 2000, p. 54) e elas muitas vezes não são e nem pretendem ser a negação (apóphasis) ou a eliminação de um paradigma, nem muito menos

uma

aceitação

passiva;

as

problematizações são um estímulo ao filosofar e ao espanto; é também uma penetração obsessiva pelos textos, ou melhor, um mergulho constante nos seus enredamentos, ou seja, um auscultar mais de perto e não um simples passar; não se problematiza a filosofia e os filósofos, se não lemos ou conhecemos as suas

obras

e

os

seus

mais

argutos

comentadores. Depois de abordarmos sobre o perguntar e as problematizações, cabe agora interpor uma pergunta entre dois filósofos, não

44


no escopo de problematizar, já que fizemos a distinção entre problema e pergunta; e a pergunta surge no intuito de tentar elucidar, antes, se ela é cabível. Mas antes gostaríamos de tomar o quadrado dos opostos para tentar demonstrar o nosso perguntar primeiro para Kant e depois para Frege. O quadrado dos opostos é uma figura crida pelos “lógicos medievais” (CHAUI, 2010, p.129). Essa figura possibilita, segundo as suas regras, “visualizar as

proposições

segundo

a

qualidade,

quantidade, a modalidade e a relação.” (CHAUI,

2010,

p.129).

Desse

modo,

procuraremos, abaixo, apresentar o quadrado dos opostos para facilitar a nossa análise. O quadrado dos opostos é constituído de “vogais

45


minúsculas que indicam a quantidade e a qualidade (a, e, i, o)” (CHAUI, 2010, p. 129), onde (a) Universal Afirmativa e (o) Particular negativa. Pelo quadrado dos opostos, somos informados pelas suas regras que (o) coloca-se em contradição com A. Sendo assim, tomamos como proposição universal para (a) Toda aritmética é necessária e (o) Alguma aritmética não é necessária. Nesse sentido, podemos dizer que quando a razão não consegue justificar racionalmente por que 1 x 0 = 0 , devemos alocá-la em (o) – numa sentença particular que irá contraditar a universalidade de sua necessidade.

46


(A) Toda aritmética é necessária (O) Alguma aritmética não é necessária Posta essa concisa e breve explicitação, urge apor as seguintes perguntas: 1. De onde provém a necessidade da aritmética e se é de fato

verdadeira?

De

onde

provém

racionalmente tal assertiva? Desenvolvidas 47


essas breves considerações anteriores, iremos tratar dos princípios da razão relacionados com o problema ou o perguntar colocado pela aporia. Para isso é preciso, antes, darmos uma pequena definição desses princípios. Como bem nos informa o livro Introdução à filosofia de Marilena Chauí, a razão tem os seus princípios, pois “desde seus primórdios, a filosofia considerou que a razão opera segundo certos princípios...” (CHAUI, 2010, p.71). Podemos assim dizer que são quatro os princípios que constituem a razão: 1. Princípio da Identidade 2. Princípio da não contradição 3. Princípio do Terceiro Excluído 4. Princípio da Causa Suficiente.

48


Antes de tudo, pretendemos deixar claro que não é objeto desse trabalho a problematização desses princípios, embora problematizáveis.

Todavia, queremos nos

escorar em pelo menos dois desses princípios para podermos elaborar um tipo de teste, já que sem tais princípios a razão ficaria comprometida. Ao observarmos, na condição da prova, a expressão 1 x 0 = 0 sse 0 : 0 = 1, vamos reparar que o que resulta no teste fere de um certo modo o princípio da contradição que “ afirma que uma coisa ou uma ideia da qual algo é afirmado e negado, ao mesmo tempo e na mesma relação, são coisas ou ideias que se negam a si mesmas e que por isso se autodestroem.” (CHAUI, 2010, p.72).

49


O que queremos destacar é que, conforme a nossa exposição, para ser verdade que 1 x 0 = 0, é preciso reconhecer que 0 : 0 = 1 (ad hoc), o que parece não ser aceito momentaneamente na

matemática. Assim

sendo, e tomando como critério o princípio citado, não queremos reconhecer, conforme esse princípio enuncia “que as coisas e as ideias

contraditórias

são

impensáveis

e

impossíveis” (CHAUI, 2010, p.72). Desse modo,

pretendemos

apontar

para

uma

preocupação com o impasse criado e não com a destruição de um paradigma que vem sendo aceito até com muita eficácia. Somos, com efeito, sabedores dos avanços da chamada pósmodernidade; sabemos ainda que é quase

50


impossível e de um esforço hercúleo abranger a totalidade dos avanços e descobertas tanto na ciência como entre outros campos; mas isso não nos impede de tratar questões que estão em meio à sociedade. Entretanto, aprendemos ainda que, ao menos no senso comum, há o falso (F) e o verdadeiro (V), sobretudo e particularmente na aritmética. Se temos 2 x 3 = 6 não pode resultar cinco, dadas as devidas regras e não seria possível ser 5, nem 4, nem 2. Sabemos também, embora questionável a nosso ver, da universalidade da causação, ou seja, 2 x 3 é a causa de 6. Se entendemos que 2 x 3 é a causa de 6, a pergunta é: qual é ou são a causa e/ou causas de Zero (0)? E por que para ser verdade que 1 x 0 = 0, ou seja, que

51


zero posposto à igualdade é consequência de 1 x 0 ser 0 : 0 a causa do 1? O que desejamos demonstrar com os exemplos citados é que são gerados problemas para a aritmética e por consequência em parte substancial da chamada matemática universal. Vale lembrar que se tomarmos

o

número

cinco,

é

possível

especular sobre as suas quase infindas causas, a saber, (30/6), (2 + 3), (60/12) etc (isso seria a nosso ver também outro problema) -- só para citarmos alguns poucos exemplos. Já no que concerne ao número zero, teríamos algumas dificuldades em provar a sua causalidade no estrito juízo da razão, a saber, 1 x 0 (?); 2 x0 (?) ad infinitum. Nos exemplos citados acima, estamos tratando da causalidade, quando

52


consideramos o envolvimento de relações e sinais da regra do jogo; não estamos considerando os números simplesmente dados e colocados numa sequência como no exemplo (0, 1, 2, 3, 4...). Embora o enfoque de nosso trabalho repouse sobre a possível contradição que se estabelece quando aplicamos o número zero numa multiplicação e divisão, caberia ressaltar também que aqui consideramos o conceito de número a priori, ou seja, independente de qualquer experiência. O próprio matemático alemão Johann Gottlob Frege já nos diz que “a aritmética não tem absolutamente nada a ver com sensações.” (FREGE, 1989, p.89). O foco desse trabalho não é a questão se o número pode relacionar-se

53


funcionalmente, e isto Frege já confirma em seu livro Os Fundamentos da Aritmética: “para que uma verdade seja a posteriori requer-se que sua demonstração não se possa manter sem apelo a questão de fato.” (FREGE, 1989, p.89). Por isso, Frege já define a matemática a priori: “é possível conduzir a demonstrar apenas a partir de leis gerais que não admitem nem exigem demonstração.” (FREGE, 1989, p.89). É preciso antes notar e saber que a nossa demonstração não se refere à demonstração de fato, ou seja, empírica.

54


Um passar por Kant e Frege Em seu livro Crítica da razão pura, o filósofo alemão Immanuel Kant faz uma alusão ao conhecimento

a

priori,

ou

seja,

o

conhecimento que se dá sem o uso da experiência e faz a seguinte afirmação referindo-se à matemática e ao próprio conhecimento a priori: “ora, é fácil demonstrar que

no

conhecimento

humano

existem

realmente juízos de um valor necessário e na mais rigorosa significação universal; por conseguinte, juízos puros, a priori. Se se quer um exemplo da própria ciência, basta reparar em todas as proposições da matemática.” (KANT, 1988, p.23). Claro está que não pretendemos adentrar a perquerição do que é 55


matemática para Kant no século XVIII. É do conhecimento por aqueles que se interessam por

Kant

o

que

Kant

entendia

como

matemática. Todavia, essa afirmação, mesmo que a matemática não contemplasse na visão de Kant o que entendemos hoje matemática com o seu avanço e a sua dinâmica, parece-nos um pouco precipitada; primeiro, talvez, porque Kant

possuísse

uma

inabalável

fé

na

matemática; segundo porque não acreditava numa possível contradição ou aporia. Nesse sentido, podemos considerar que um juízo a priori para Kant, no caso a matemática, porquanto a aritmética entrega o corpus da matemática universal, deixa ser necessário e universal e não a priori. Se considerarmos que

56


há uma aporia ou uma não justificação racional, então poderíamos questionar se a matemática é necessária e universal? Como vimos, necessidade implica não contradição e a contradição coloca em xeque também a sua universalidade. Kant parece ter uma fé extrema de que o a priori é sinônimo também de necessidade e vice-versa, pois é resoluto mais uma vez ao informar em seu livro, mais precisamente no capítulo II de sua Introdução: “se encontramos uma proposição que tem que ser pensada com caráter de necessidade, tal proposição é um juízo “ a priori”( KANT 1988, p.23). Sendo assim, poderíamos também perguntar ao texto de Kant que, se assim for, a matemática não é mais um a priori? Quanto à a

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prioridade da matemática, podemos dizer que, a nosso ver, essa não seria afetada, apesar de Kant afirmar na sua Crítica da razão pura mais o seguinte: “ um juízo, pois, pensado com rigorosa universalidade, quer dizer, que não admite exceção alguma, não se deriva da experiência e sem valor absoluto a priori” (KANT, 1988, p.23). Mas a nossa resposta a contrapelo de Kant é dizer que o que caracteriza o a priori, antes de ser a sua necessidade capacidade

e

universalidade,

é

de

estabelecer

independentemente

se de

toda

e

a

sua

qualquer

experiência. Por isso, a necessidade de tentar corrigir os desvios e anomalias do sistema, antes de se tentar eliminar paradigmas

58


seculares. O objetivo é mostrar as anomalias da aritmética e que a sua verdade absoluta está longe de nos confortar. Com efeito, Frege (1848-1925) foi um matemático que revolucionou a lógica, a partir do século XIX. Podemos ainda dizer que Frege é um desses luminares do mesmo coturno de Kant e que a sua contribuição talvez não possa ainda ser mensurada com a devida e ilibada capacidade. Todavia julgamos que não seria de todo uma afronta à sua capacidade, se pudéssemos estabelecer um pequeno diálogo como o seu pensamento. Para isso, entretanto, e não ignorando a extensa bibliografia que gira em torno do seu pensamento, pretendemos nos valer de alguns excertos retirados do excelente 59


artigo do professor da Unesp, Lúcio Lourenço Prado, intitulado “ Frege e o Elogio da razão pura”, publicado na revista Cognitio, número 2, volume 10. Nesse artigo, podemos, para o nosso propósito, destacar a seguinte afirmação “a demonstração de qualquer teorema da aritmética, se a consideramos analítica em sentido fregiano, deve, pois, ser levada adiante até que se chegue aos primeiros princípios lógicos

elementares,

como

os

de

não

contradição ou de identidade.” No texto, vamos encontrar a crença de Frege na aritmética, quando no texto se compara a aritmética com a geometria ou com as demais matemáticas e principalmente quando se afirma sobre a aritmética: “mas não se pode,

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de maneira alguma conceber alguma outra aritmética na qual os princípios sejam outros [...] “portanto, para Frege, aritmética é, como a lógica, a manifestação pura dessas leis necessárias da razão.” [...] “ A aritmética é, pois, ao contrário da geometria, absolutamente universal em sua aplicação e abrangente, pois, se aplica a todo universo do entendimento humano.

Apresentados

esses

pequenos

excertos do artigo sobre Frege, poderíamos perguntar se não caberia, antes do problema, uma dúvida acerca dessas supostas certezas. Se ocorrer, de fato, uma contradição na aritmética ou se não for resolvido esse impasse ou aporia, não seria temeroso, sob os estritos ritos da razão, aceitarmos essas „certezas´?

61


Em seu livro Discurso do Método, o filósofo francês René Descartes (1595 - 1650) já nos alerta sobre o “nunca aceitar, por verdadeira, cousa nenhuma que não conhecesse como evidente” (DESCARTES, ????., p.63). Nesse sentido, observamos que alguns aspectos da aritmética,

se

não

são

inteiramente

paralógicos, causam-nos ao menos uma dúvida ou uma suspeita diante dos critérios de ordem racional; o pai da filosofia moderna, Descartes, ainda nos ensina que se deve “evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; e nada incluir em “nossos” juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente...” (DESCARTES, ????, p.63); e isso significa dizer que a clareza e a distinção exigidas da

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aritmética encontram-se a nosso juízo sob suspeição. Após tratarmos do perguntar da necessidade e universalidade da aritmética e, por conseguinte, da matemática universal, pensamos já estarmos em condições de, ao invés de responder aos impasses apresentados, formular a seguinte pergunta: Por que a matemática goza de uma aceitação plena de sua necessidade e universalidade, sem que se tenha ainda pelo que apresentamos o estofo suficiente para isso? Kant no prefácio à Segunda Edição da Crítica da Razão Pura (1787) confirma que “a matemática, desde as eras mais longínquas a que remonta a história da razão humana, ingressou, entre o povo

63


admirável dos gregos, no caminho seguro de uma ciência” (KANT, 1988, p.32).

64


Conclusão Com

isso,

pretendemos

também

considerar justificados os nossos esforços na escolha do tema proposto por essa ínclita universidade: A importância preponderante dos problemas filosóficos frente a qualquer outro elemento da filosofia como um todo. Por outro lado, queremos esclarecer que isso não significa dizer que a ciência matemática foi relegada a uma metafísica menor; muito pelo contrário: o que se deseja aqui com esse singelo trabalho é alertar para as possíveis falhas dos sistemas e para as suas possíveis correções, para que a ordem do discurso racional não se coloque sub-judice filosófico. Nesse sentido, podemos dizer que esse 65


trabalho, não obstante aparentar um discurso com laivos matemáticos coloca-se e insere-se naquilo que compreendemos como o processo do

espanto

filosófico

e

das

suas

problematizações. É em certa medida, e em última instância, tudo isso um distanciamento e um olhar “oblíquo de Capitu” para as questões matemáticas e de ordem racional que, de

uma

maneira

ou

outra,

interferem

decididamente nos discursos filosóficos e quiçá estéticos e políticos. É sabido que discursos de teor estético talvez não gozem de tanta razão como a matemática tem gozado; talvez porque o belo não necessite da razão como a própria razão necessita dela da própria razão.

O

belo,

embora

66

passível

de


discordância, nos espanta pela sua própria razão,

porque

pode

ser

apenas

uma

concordância ou uma contradição entre a causa eficiente e o sujeito cognoscente; já a razão impõe-nos

as

suas

próprias

objetivamos, com efeito, segui-la.

67

leis,

se


NOTAS

[1] Necessidade lógica: Conforme o Dicionário

Básico De Filosofia (JUPIASSÚ, p.198), “ é necessária a proposição cuja contraditória implica a contradição, seja em termos absolutos, seja dependendo de certos pressupostos do universo do discurso. [2] Tomamos a figura da coruja como símbolo da vigilância filosófica. [3] Aqui consideramos o tipo de verdade necessária, aquela que se daria “independente da experiência “. O conceito de verdade é um campo aberto às discussões filosóficas. Mas para o que pretendemos no texto, esse conceito parece-nos bem apropriado. [4] Para as nossas considerações, aplicamos o sentido de esotérico no sentido de tradição, o que equivale a dizer que se aplica “aos iniciados”, ou melhor, para aqueles que sabem do que se trata. [5] Aqui não pretendemos dizer que pode ser outro o resultado, mas mostrar a precariedade da prova.

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[6] Tratamos no texto rapidamente sobre Juízo a

priori. Entendamos aqui Juízo a priori como aquele que não passa pela experiência. O que focamos é que parece que para Kant é dado que Juízo a priori possui as características já inerentes de necessário e universal e é esse o nosso propósito mostrar que Kant talvez se engane. [7] Justificativa do tipo racional é principalmente a que segue as leis da razão citadas no próprio texto. [8] Conforme Murachco, a carência, necessidade. A nosso ver, conforme ainda Murachco, seria melhor áporos: difícil, sem saída. p.465 [9] Colocamos não experiência no sentido daquilo que não passa pelos sentidos. [10] Factual no sentido dos fatos; das coisas vividas. [11] Revista Cognitio, v.10 – n.2 – julho/dezembro, 2009. [12] Objetos Sensíveis são tudo aquilo que sensibiliza os sentidos. [13] Já explicitamos numa nota anterior. [14] Essa afirmação será demonstrada à frente. [15] É preciso saber que, para esse singelo trabalho, não é a obra monumental de Kant que nos interessa, mas sim as suas assertivas acerca da matemática. [16] Para uma maior compreensão desse tema, sugestionamos o livro A Filosofia a partir de seus problemas. (Vide Bibliografia).

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[17] Embora tenhamos também uma crença de os

números serem infinitos, nada ainda pode provar essa verdade, a nosso parecer. Aliás, o conceito infinito cairia numa contradição se provado. Pensamos que confundimos conceitualmente infinito com extenso. [18] Esse tema deverá ser aprofundado com outros diálogos. Mas julgamos que o que aqui está exposto, já nos dá uma base suficiente para o que objetivamos propor. [19] A Filosofia a partir de seus problemas (PORTA, Mario Ariel Gonzáles Porta), São Paulo. Loyola, 2002, p.25 [20] Texto de Antonio Trajano Menezes Arruda. Unesp. Filosofia Geral e Problemas Metafísicos. (d01). São Paulo, 2011. [21] Arruda, op. cit., p.34 [22] Adotamos simplesmente um tipo de regra para um jogo acordado entre os jogadores. A ideia é trabalhar com um tipo de resposta padrão. O desvio é considerado anômalo. Esse é um assunto que gera um filosofar sem fim, que é a nosso ver o que move o processo filosófico. [23] Usamos a Condição da prova para nos dar um pouco do exemplo de possível não solução; é preciso compreender que o intuito não é demonstrar a condição da prova, mas perceber que aquilo que pode ser questionado pela razão, comprova a razão. Para esse caso, julgamos ser necessária uma análise mais pormenorizada em outro trabalho. [24] Ao fazermos a demonstração da condição da prova, observamos que a aritmética responde de modo contraditório ao que se tem respondido. 70


[25] Arruda, op. cit. pp.11/12 [26] Porta, op. cit. p.25 [27] Porta, op. cit. p.26 [28] Arruda, op. cit. p.5 [29] Arruda, op. cit. p.6 [30] Língua grega: visão semântica, lógica,

orgânica e funcional. 2.ed. São Paulo. Discurso Editorial. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.2v. [31] Ao tentarmos elaborar essa sucinta demonstração, pretendemos menos obscurecer do que clarificar, pois julgamos que o Quadrado dos Opostos pode nos auxiliar na nossa argumentação. [32] Figura retirada da internet para auxiliar-nos na explicitação da contradição. [33] É bem possível problematizar os juízos da razão, mas não é esse por ora o nosso objetivo. [34] Intencionamos somente apontar para um desvio ou um problema que poderá ser solucionado. [35] São esses a nosso ver outros problemas que pretendemos trabalhar em outro trabalho. [36] Os excertos referentes acerca de Kant foram extraídos do Livro Crítica da Razão Pura. Trad. J. Rodrigues de Mereje. EMMANUEL (sic) Kant. Crítica da Razão Pura. São Paulo. Ediouro. Consultamos, todavia, outros tantos livros que não foram aqui citados. Cotejamos os textos com o livro com tradução de Valerio Rhoden e Udo Baldur. São Paulo. Nova Cultural. Como nesse trabalho não nos apoiamos no texto original ou em outras línguas modernas, vale considerar as nossas posições diante dos textos traduzidos. É sabido que a tradução muitas vezes subverte o 71


texto original, mas não cremos que esse seja o caso em tela. Preferimos o texto da Ediouro, porque julgamos mais simples e esclarecedor, sem a similaridade com a língua alemã sintética. [37] Cognitio. op. cit., [38]Cognitio. op. cit. p.274 [39] Cognitio. op. cit. PP. 274/275 [40] Referimo-nos às certezas do senso comum ou do princípio da autoridade ou não justificadas pelos critérios da razão. O filósofo inglês Francis Bacon faz uma abordagem pertinente a esse assunto, quando trata daquilo que ele denomina ídolos.

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Bibliografia ARRUDA, Antonio Trajano Menezes. In: Filosofia Geral e Problemas Metafísicos. São Paulo. Unesp/Redefor. 2011. BOTUL, Jean-Baptiste. A vida sexual de Immanuel Kant. Trad. Isabel Maria Lureiro. São Paulo. Unesp. 2002. BUCHHOLZ, Kai. Compreender Wittgenstein. Trad. Vilmar Schneider. Editora Vozes. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. CHAUI, Marilena. Iniciação à filosofia: ensino médio, volume único. São Paulo: Ática -2010.

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DESCARTES, René. Discurso do Método. Trad. João Cruz Costa. São Paulo. Ediouro. S/D. FREGE,

Gottlob.

Os

fundamentos

da

aritmética. Trad. Luiz Henrique dos Santos. 4. Ed. São Paulo: Nova Cultural. 1989. (Os Pensadores). GIANNETTI, Eduardo. O livro das citações: um breviário de idéias replicantes. São Paulo: Companhia das Letras. 2004. JAPIASSÚ, Hilton. Dicionário básico de filosofia / Hilton Japiassú e Danilo Marcondes. 4 ed. Atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed, 2006.

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KANT, Imannuel. Textos Seletos. In: Prefácio à Segunda Edição da Crítica da Razão Pura (1787).

Vozes.

Petrópolis,

1985.

Trad.

Raimundo Vier. Edição Bilíngue. ______________Crítica da Razão Pura. Trad. Valerio Rohden e Udo Baldur Mosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Os Pensadores). _______________ Crítica da Razão Pura. Trad.

J.

Rodrigues

de

Merege.

Ediouro.1988(?). MURACHCO, Henrique Graciano. Língua Grega: visão semântica, lógica, orgânica e funcional. 2 ed. São Paulo. Discurso Editorial. Petrópolis. Editora vozes, 2002, 2v.

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PORTA, Mario Ariel Gonzáles. A filosofia a partir de seus problemas. São Paulo. Loyola, 2002. PRADO, Lúcio Lourenço. Revista Cognitio – Volume 10 – Número 2 - Julho – Dezembro 2009. In: `Frege e o “ Elogio da Razão Pura”.

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MISCELÂNEAS DA CONTEMPORANEIDADE

WILSON LUQUES COSTA

ANO 2014

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Sou formado em jornalismo. Mas nunca atuei num jornal. Formei-me nem sei por que motivo. Como eu gostava de futebol, optei por jornalismo. Talvez para suprir o meu sonho de ser jogador de futebol. Mas dista tanto tempo que nem sei o motivo mesmo. Fiz jornalismo na UMC. Uma porque não passei na USP. E eram essas as únicas opções para um capiau da vila ré como eu que só gostava do Corinthians e de jogar bola. Eu não gostava nada nada de estudar. Eu lia, se lia, só o frontispício do jornal afixado na banca lá da vila granada. Mas nem sei como se deu o vestibular UMC.

na

Consta que fui classificado em trigésimo terceiro lugar. A UMC é longe daqui, imagine nos anos 80.

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Precisamente no ano de 1980. E foram viagens naqueles trens abarrotados de estudantes que eu ia todo dia mas nem ligava para as aulas, como já tive oportunidade de relatar aqui em outros posts. Eu ia lendo alguns livros que a Editora Brasiliense lançava. De modo que a minha faculdade foi a Brasiliense, as revistas, os jornais e não a UMC. Eu lia no trem, indo para a universidade e voltando da universidade e depois em casa até uma ou duas da manhã e depois logo pela manhã voltava a ler nos ônibus lá pelos cinco ou seis da manhã. Li Kafka, Sartre, Simone de Beauvoir, Camus, a Folha de São Paulo, Veja e até bula de remédio. Foram momentos de muitas leituras. Principalmente literatura contemporânea da época, clássicos como Balzac, Tolstoi, Dostoievski etc e muita política. Em dois anos eu já discursava melhor que hoje - se querem saber. Ou seja, me lembro de um dia que me peguei lendo no fundo da sala de aula e um aluno

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me dizendo que a aula tinha acabado e que eu ia perder o trem. Lembro-me também que eu descia para tomar um café no intervalo e que subia rapidamente para continuar alguma leitura. Eu nem frequentava as aulas de redação nem nada. Não me recordo de nenhum professor nem de colegas. A não ser de alguns colegas que pegavam o trem comigo. Li quase tudo dos Primeiros Passos e uma mancheia de livros e jornais, principalmente a Folha de São Paulo. Lembro-me que ficava sabendo das provas no dia. Alguém me dizia assim: você estudou para a prova de sociologia? E eu redarguia: mas que sociologia? Ou: você preparou o trabalho de rádio? E eu respondia com outra pergunta: mas qual trabalho de rádio? Ou seja: não fazia absolutamente nada. Eu acho que nem caderno eu tinha.

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Eu tinha livros. Ah, isso

eu tinha.

E não era um somente. Eram vários. Era uma biblioteca ambulante. Só sei que certa vez tive que fazer às pressas um programa de rádio. Lembro-me que estava na seguradora onde eu trabalhava. Era hora do almoço e me pus a inventar uns diálogos com um monte de LP que eu colecionava. Tinha de Djavan, Chico, Gil, Caetano, Alceu Valença. E eu inventava patrocinadores e colocava música. Inventava notícias: roubos, festas, assassinatos e colocava música. Esse era o meu script, só para me livrar do trabalho final. Sei que cheguei na universidade e me indicaram o estúdio que eu nem sabia onde ficava.

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Houve um colega que tinha uma família suicida que me ajudou me dando os sinais da locução. Sei que fiz o trabalho e gostei da brincadeira. Nem sei como entreguei a fita. Era uma fita cassete. Dizem que o professor era da Jovem Pan. Chegando na Vila Ré, lá pelas onze horas, parei no bar do Gérsão que era o meu point e mostrei para uns colegas que colocaram a fita no casset de um fusca. Recordo-me que os caras gostaram pra caramba. Talvez pela minha voz que é forte e que muitos já elogiaram e até hoje elogiam. Mas nunca atentei para isso. Podia ser um radialista como me dizem até hoje. Sei que estou formado por uma universidade que nunca me envolvi a contento. Fiz sim a Faculdade da Brasiliense. Recordo-me ainda que fui com o meu colega Geraldo fazer a minha colação.

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Lembro-me muito bem da assinatura e do orgulho da minha formação acadêmica. Após a minha formação, entrei num processo depressivo, porque queria trabalhar num grande jornal e continuava a trabalhar numa seguradora de pelegos para a época. Hoje, todo mundo é revolucionário e progressista! Arre! Dali em diante nunca mais parei de estudar. Ou seja, sempre fui um aluno virtual. Como se diz: estou lá, mas estou sempre por aqui, principalmente com os meus livros. Eu fui, com efeito, talvez, o primeiro aluno virtual que apareceu na história desse nosso Brasil; se é que me faço entender. Se eu tivesse entrado na USP, sinceramente, não sei o que seria de mim nem daquela minha parca biblioteca...

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Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia (Fernando Pessoa)

Falamos muito sobre esse sujeito é conservado, como sinônimo de 'ele não tem valor'. Hoje, com a dissolução do maniqueísmo esquerda/direita não sabemos o que querem dizer com conservadorismo. É fácil rotularmos as pessoas. Eu sou liberal em certas coisas e em outras não. Nem por isso sou liberal ou totalmente conservador. No plano moral é a mesma coisa. Clinton era um tipo democrata-liberal. Mas vocês se lembram da Mônica? Bush era conservador, mas era dependente do álcool.

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Nelson Rodrigues era conservador e escrevia como um liberal da rua dos Andradas. Machado era um sujeito de poucas palavras, uma porque tartamudeava e até já se suspeitou que Capitu tenha sido um ato falho de sua parte. Vejo homens da esquerda e poetas pósmodernos vibrarem com Pound que era tido como antissemita e até Nietzsche que era declaradamente misógino. Digo tudo isso porque antes de julgarmos o valor de um pensamento, julgamos moralmente a pessoa. Eu que não bebo atualmente não lerei então Bukowski? Ou eu que não uso drogas não lerei Rimbaud ou Villon, Poe ou Charles Baudelaire? Já percebi que o fato de eu receber elogios de Olavo de Carvalho descredencia o que penso. E o pior é que ninguém se interessa em saber o porquê do panegírico do filósofo. Pronto: se fosse de um homem de esquerda aí sim os meus estudos teriam valor.

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O que mais intriga é esse julgamento precipitado até de supostos filósofos que teriam no mínimo o dever de saber do que estamos falando. Não podemos revivenciar o não provei e não gostei. Por favor, senhores scholars, não morram mais uma vez abraçados com as suas vis ignorâncias.

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Eu sei que muitos não podem acreditar, mas não aceito do fundo do meu coração os apodos de poeta e filósofo. Já tive oportunidade de escrever sobre isso. Mas torno a ele. Muito menos escritor. Eu gosto de pensar acerca dos problemas que me incomodam sob o ponto de vista de uma ratificação. Eu gosto mesmo de fazer as minhas anotações em cadernos ou folhas separadas. Nem a atitude épica de um livro me agrada muito ultimamente. Eu sei que muitos não vão acreditar, mas é isso que ocorre comigo. Eu gosto de dividir informações, e nunca é no intuito de exibir-me. Embora eu tenha certeza que a maioria pensa assim de mim. Que sou metido e esnobe. E isso não é verdade.

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Eu fico no fundo até encabulado. Também não gosto muito do estudo regular. Gosto de estudar pelo prazer de estudar. E isso vocês vão perceber pela minha formação que é tardia e toda fragmentada. Mas isso não significa dizer que nunca estudei. Aliás, estudava muito mais, mas muito mais mesmo, antes do que agora. O problema aqui no Brasil, infelizmente, é que há uma competição muito grande em todas as esferas. E ninguém aceita uma relevância do outro. Somos muito atrasados ainda nesse ponto. Há um embate curricular que é detestável. É o famoso: você sabe com quem está falando? E saca as credenciais. Alguém agora mesmo poderá pensando assim: e você o que faz, não é isso a toda hora? Mas essa pessoa não percebe que eu sou meio sátiro.

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Escrevo sempre rindo por dentro. Porque sempre me encheram com isso. E agora exagero. Eu não quero criar inimizade com ninguém. Mas ao mesmo tempo não deixarei de dizer o que penso. Chega de censura e o pior: de autocensura. Se as pessoas ficam chateadas porque fui elogiado por alguém que elas são rivais, eu não tenho nada a ver com isso. Por isso digo: fiquem tranquilos. Porque não sou filósofo, poeta, escritor, cantor, pintor, gênio ou qualquer coisa que o valha. Não pretendo tirar a cátedra de ninguém. Eu só quero ser feliz e pensar. O que as pessoas me dizem, pertence a elas, não a mim.

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Estudos Neokantianos

Estou a ler Estudos Neokantianos de Mario Ariel Gonzáles Porta. Leio e releio também a todo o momento A filosofia a partir de seus problemas, que é um livro de importância seminal para quem estuda ou pretende estudar filosofia. Para quem pensa que filosofia não serve para nada, eu sugestiono a iniciação com esses dois livros, porque aí o cara vai ter um pouco mais de humildade e correrá atrás das conceituações e de um bom arrazoado de instrumentais. Já deixei notório que tive algumas dificuldades nas aulas do Mário no Mestrado em Filosofia da PUC. Talvez pela minha personalidade que é um pouco forte também. Mas não confundo as coisas e nem guardo mágoas. Sei separar o joio do trigo.

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E tudo que leio, digo ou contraponho, é no escopo de dialogar no plano filosófico. Não levo para a casa as rusgas filosóficas e é isso que todos deveriam fazer. O livro Estudos Neokantianos é de difícil leitura. É necessária uma boa iniciação em Kant, porque o livro dialoga com o pensamento de Kant. Portanto, é mister entender Kant para voltar a ele. E o livro a Filosofia a partir de seus problemas pode nos auxiliar nessa empreitada. Há vários textos. E pode-se iniciar pelo princípio ou pelo fim. Eu faço muitas anotações. Estou namorando o texto e toureando até pegá-lo pelos chifres. Vejo valores e vejo defeitos. Não obstante o texto ter um sabor estritamente filosófico, há alguns vícios na

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escrita que julgo excessivos, como, por exemplo, o uso da palavra decisivo: “...e isso é decisivo (excesso); ou

´A filosofia não é outra coisa que.... A objetividade não é outra coisa que... ou A experiência não é outra coisa que...” Citei as frases ao meu bel prazer só para dizer que há um uso excessivo dessas construções no livro...

O professor poderia dizer p.e:

a filosofia é.... a experiência é.... a objetividade é... E esse tipo de escrita que é derivada de sua oralidade é até bonita e surpreendente num primeiro momento, mas se desgasta e vai aos pouco perdendo o seu brilho e se tornando um vício, o que torna o que poderia ser mais claro, menos transparente; o que transforma , por vezes, também a sua filosofia um pouco mais nebulosa, fazendo-nos

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parecer inacessível -- sem desconsiderar o fato de que essa escrita pode esconder ou homiziar ou tornar arcano aquilo que não se poderia mesmo mostrar ou dizer. Porque muitas vezes não temos mesmo muito a dizer, mas dizemos pelo simples fato ou instinto de dizer. O que no caso poderia muito bem caber aquela velha máxima wittgensteiniana.

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21/12/2011

O editorial da Folha de hoje, mais uma vez, faz crítica veemente à medida do governo em nivelar as disciplinas de filosofia e sociologia com as demais disciplinas, ficando, contudo ainda, abaixo das disciplinas de matemática e português. Para variar, a crítica incorre em filosofia e sociologia, disciplinas tidas pelo senso comum desde a Grécia (Φιλοσοφία) como supérfluas. E digo que são, sobretudo para aqueles que têm uma visão muito superficial da filosofia e da sociologia. A justificativa é sempre que a filosofia leva de nenhum lugar para lugar nenhum, pelo menos é isso que compreendemos. E isso é até justificável, na medida em que se faz uma opção por um modus vivendi que não pode ser questionado. Mas o que mais me causa estranheza não é o fato de se colocar a velha pergunta: Filosofia serve para quê? E eu efetivamente também confesso que não sei responder.

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Mas talvez contraditasse com outra questão: e a vida serve para quê ? Para comprar todo domingo a Folha de São Paulo ? Para ler os anúncios de carros zero quilômetro, sem que peçamos todo esse cabedal de besteira? Mas há outra coisa que mais me intriga além dessas perguntas já citadas que é perceber que quem tenta discorrer sobre filosofia não tem competência para questioná-la. Porque a filosofia está tão elevada que só pode ser criticada por filósofos ou amantes da filosofia e não por editorialistas gazeteiros que confundem o conceito experiência, como se se estivesse desejando formalizar um curriculum vitae, coisa que só interessaria aos aduladores do homo faber capitalista. De fato, a Folha com o seu editorial comprova a tese de que não nascemos para pensar e que sempre estaremos à disposição para aqueles que pensam por nós e não por nós.

O problema é que quando não pensamos o corpo padece como já dizia a velha máxima. Pensar cansa a alma, já dizia um filósofo.

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Com efeito, temos, como diriam os gringos, uma grande disposição para o não pensar, e isso deverá se aguçar se tudo depender da vontade da Folha de São Paulo que julga possuir o mais dileto poder de nossa autoridade. Me poupem, xô!

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Eu não sei o que a literatura tem, mas que tem algo de diferente tem. Mesmo que você tenha feito o seu PhD em Roma ou Paris, você não está satisfeito e irá publicar o seu livro de contos, poesia ou romance. Dizem e diziam que a literatura está com os dias contados, mas não há um que não sucumba ao seu encanto. A maré está cheia, está até tendo vazante. O ideal mesmo é esperar o tsunami passar. Depois que o tsunami passar e o vulcão arrefecer é que poderemos contar e salvar o rescaldo. É muita chama ardente. É muito fogo-fátuo. Digo fátuo de fatuidade.

Na educação, estamos a todo tempo tentando construir algo que não sabemos muito bem o que é; e como não sabemos como a construir ou a destruir, invariavelmente a reformamos sobre os seus mesmos pilares.

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25/11/2011

Ou eu não estou entendendo patavinas do que está acontecendo na USP ou alguém está mentindo. É verdade que num embate ou na guerra a primeira a perder é a verdade. Mas lendo blogues, jornais e outros tantos meios não sabemos de que lado ficar, correndo o risco de não percebermos uma revolução que está para chegar ou acontecer. E eu não quero ficar alheio a esse processo. Não quero ser anacrônico, aliás eu sempre propugnei pela extemporaneidade, se assim me permitem. E eu pergunto a todos vocês: o que efetivamente está acontecendo na USP? Quem com total moral ilibada poderá nos fornecer essa informação? Há algo de estranho no reino da USP. De um lado alguns se sentindo jacobinos; do outro, os girondinos os arrostando.

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Nessa história, ainda não sabemos quem são ou serão os Hamlets, os Iagos e os Otelos dessa grande tragédia ou comédia. Eu só temo mesmo que toda essa revolução não seja mais um daqueles partinhos de um ratinho numa imensa cratera bem repleta de fumaça.

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24/11/2011

Tenho lido os jornais ultimamente. Retomei essa prática consuetudinária há quase um ano, porque anos atrás eu a havia abandonado por mera vontade. Os jornais não me estavam acrescendo nada e a minha irritabilidade agravava-se sem eu saber por que; e esse era o motivo. Mas voltei às Gazetas. Continuo tendo o mesmo pensamento: que o jornal nada me acresce e só me irrita e instiga-me a um tipo de posicionamento maniqueísta, quando eu deveria estar aquém ou além e apesar dele. Mas tudo isso para dizer que li umas matérias legais, ou melhor: pequenos textos, quase ensaios: o primeiro foi do Pondé sobre as Universidades; o segundo do Juca Kfouri sobre o timão e o Adriano e um outro hoje do Antonio Prata, quando faz uma quase mea culpa sobre a crítica aos movimentos estudantis e sobretudo sobre os uspianos que ele mesmo fez. Concordo em parte com o seu pensamento; é quase verdade que perdemos uma pouco

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daquela nossa juventude e isso nos deixa cáusticos e não utópicos. Mas eu quando era jovem, eu era um idealista muito independente e eu nunca fui muito de manada; apesar de ficar bebendo com os amigos e sonhando com a revolução. Sempre fui librorum, e fui à luta também. Mas nunca gostei que me dominassem o pensamento. Esses lances até que são muito legais, notadamente a um jovem na flos tempi e as suas externalidades nem sempre são a transmutação do mundo, mas um beijo aqui, uma transa acolá, uma bebedeira aqui, uma noitada no apê da mina e com a mina do seu melhor camarada (é verdade: os camaradas também traem os amigos: o fogo amigo), uma esbórnia acolá e aqui e é isso que fica -- fica mais que qualquer revolução que sonhamos por aí. É verdade: recordo-me mais das minhas inúmeras mil noitadas do que das minhas lágrimas no Anhangabaú. E é isso que fica quando nos tornamos um pouco mais conservadores.

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Certa vez li riscado na parede de uma escola: teremos terríveis pesadelos, quando não for mais possível sonhar. E eu creio que são eles, esses terríveis pesadelos, que eu estou tendo agora. Em que lugar mesmo eu deixei a minha juventude perdida? Se vocês porventura a encontrarem por aí, me avisem! Porque eu preciso urgentemente e novamente sonhar!

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22/11/2011

O papel da observação já coloca, pareceme, outra pergunta, além da proposta: estamos falando em verdade universal, na qual prescindiríamos do sujeito cognoscente homem? Mas parece-me que a ideia de verdade interessa unicamente ao homem. De maneira que os sentidos lhe são de fundamental importância; embora uma verdade matemática pareça estruturar-se sem a necessidade do homem. Falar em universalidade e necessidade, parece-me muitas vezes também perigoso e temeroso. Creio que a necessidade e universalidade padeçam o mesmo mal dos sentidos em sua eficácia, porque não temos, e não sei se teremos, ainda um domínio de todo sistema que compõe o cosmos. De modo que julgo que há verdades modulares, ou seja, que apontam para uma

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aproximação mais fidedigna do objeto. Quanto aos sentidos que é a pergunta primeira e principal, acredito numa essência de verdade, que seria similar do tipo intersubjetiva. Nesse sentido, julgo que tanto o sujeito, quanto o objeto colaboram na constituição da percepção sensorial. Se fosse de outro modo, julgo que seria quase impossível a compreensão e a elaboração da própria linguagem. É certo que desvios ocorram, mas poderíamos situá-los mais no quesito das disfunções sensoriais, que seriam também objeto de estudo tanto de filósofos, quanto de psicólogos que deveriam também ter todos os atributos não disfuncionais, para poderem melhor julgar.

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Acerca da totalidade

Quando falo da totalidade do sistema, poderíamos pensar que na matemática haveria uma universalidade. Mas qual é a garantia que temos de os números se comportarem em lugares jamais imaginados? Vejamos os exemplos da própria aritmética que vai incorrendo em não soluções, à medida que vai se ampliando no seu escopo. Abordando um pouco mais sobre os sentidos, é importante notar que há uma hierarquia na experiência com os objetos do mundo. Por exemplo, fazemos o maior uso da visão em relação a uma montanha; quanto a um chocolate podemos dispensar talvez o tato e a visão, privilegiando o paladar, embora todos exerçam, de um modo ou outro, o

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seu papel na chamada experiência. Quando falamos no objeto sensível fogo, qual seria o nosso conhecimento desse objeto pelo paladar? E pela audição? Notoriamente percebemos que o objeto fogo é menos aberto a um sentido que outros. Mas invariavelmente o definimos por um sentido tido como mais essencial. Poderíamos também perguntar sobre o sabor da música; quanto ao seu tato etc. Há quem sente a música, evidentemente que sentimos a sua vibração, entretanto, fazemos mais o uso da audição para poder melhor defini-la. Há objetos mais abertos à totalidade de nossos sentidos; outros há que parecem se destinar a um outro mais específico. É o caso da montanha que se abre aos nossos olhos, na mesma proporção que se recalcitra ao nosso paladar.

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15/11/2011

John Stuart Mill Ontem estive na Livraria Cultura com a Raquel. Lá na própria Livraria Cultura, fui ter com alguns livros. Li uma boa parte da autobiografia de John Stuart Mill, na qual relata os seus primeiros anos de estudos. Mill relata que foi iniciado no grego e no latim numa idade nada provecta: dos três aos oito anos, se não me falha a memória. Creio que é a nossa obrigação acreditar nos homens, sobretudo nos grandes homens -- mas Mill conta-nos coisas de enrubescer qualquer adulto iniciado no grego. Leu os grandes autores na idade de cinco, seis anos, e são autores seminais que eu até hoje nem folheei. Não sei. Creio que seria bom vocês julgarem antes de mim e irem ao encontro de sua gostosa autobiografia. Eu fiquei meio cismado. Sou um pouco cético com certas coisas.

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Donizete Galvão

Li, en passant, mas fixado nos poemas, o último livro de Donizete Galvão O homem inacabado. Achei-o regular. Há dois ou três bons poemas, os demais mais para compor o livro. O título do livro nos leva a pensar que existe uma temática do homem inacabado, mas não é o que ocorre, a meu ver. Esse livro foi classificado para o Telecom. Eu não sei quais são os critérios. Ou sei?

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Ferreira Gullar Li mais uma vez o livro de Ferreira Gullar Em Alguma Parte Alguma. HĂĄ poemas bons, Ferreira leva-os bem. Outros ibidem (DG). Mas como nĂŁo esgotamos os livros numa assentada, volverei a ele, Em Alguma Parte Alguma, para um melhor garimpo. Nas primeiras fornadas, uma pedra ou outra. Os demais, normais para um poeta do seu porte. Julgo, por enquanto, Muitas Vozes superior. QuestĂŁo de gosto ou desgosto.

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Ademir Assunção Também vi o poeta Ademir Assunção conversando com Evandro Affonso Ferreira. Cheguei até o Ademir e o cumprimentei. Trocamos algumas ideias. Sou agradecido ao Ademir e à Revista COYOTE que publicaram um texto meu. O estranho de tudo é que ambos ganharam meses depois o Prêmio Jabuti. Posso estar errado, mas isso tudo me lembra Shakeaspeare e algo de errado no Reino da Dinamarca.

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12/11/2011

Muita fumaça por nada

Tenho acompanhado muito de longe os últimos acontecimentos da USP, envolvendo novamente os estudantes e a Polícia Militar. Eu, como todos sabem, não fiz a graduação na USP. Fiz depois a distância uma especialização em Psicologia e tive um conto meu constando numa tese de mestrado de Geografia que já é para mim uma honra. Também não merecia estudar lá, quando me formei no antigo colegial, porque eu não estudava e não gostava de estudar, isso veio acontecer a posteriori. Mas eu fico receoso em dar uma opinião. Penso que precisamos muitas vezes nos distanciar, para podermos melhor analisar. Nada como o tempo. Mas quero tentar me posicionar: 1) Não fumo maconha e detesto o cheiro da maconha e até aí nada contra quem fuma --

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mas longe de mim; 2) Se a lei do antifumo é vigente em espaços públicos, alguém deve estar ferindo essa lei, se for extensiva à canabis; 3) Julgo esse movimento despropositado, porque penso sim que a polícia deve atuar em todos os espaços públicos e manter uma certa ordem; 4) Sou contra a todo tipo de violência; 5) Penso que se for a maconha a maior das nossas reivindicações, estamos perdidos; 6) Muitos agora devem estar pensando que sou um reacionário; 7) Talvez; 8) Não creio que a USP seja frequentada por burgueses, como bem explica o texto do Alvaro Pereira Junior na Folha de hoje na Ilustrada: 9) Sempre achei a maioria dos uspianos metidos; 10) Muitos se julgam gênios só porque estudam ou estudaram lá; 11) Cito jornalistas, poetas, filósofos e muitos que tem o rei na barriga, mas que percebemos que vivem somente da etiqueta: 12) Normalmente são filhos da classe pobre ou média que conseguem o acesso e procuram se vingar dos que lá por inúmeros motivos não estiveram e por aí vai (coisa de pobre mal resolvido/ Freud explica));

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13) Muitos podem me achar um ressentido à maneira de Nietzsche, um fraco e fracassado; 14) Talvez; 15) Mas como disse, já tenho a sua etiqueta no meu CV; 16) Eu creio que a USP e alguns uspianos (nem todos) inebriaram-se demais e pararam no tempo -- não obstante os avanços [meros números estatísticos que nem sempre refletem a realidade]: 17) Sem estudo não se chega a lugar nenhum e isso vale para muitos uspianos que só vão passear no campus; 18) Deve-se colocar pensamentos na cabeça e não fumaça; 19) Temo que haja da minha parte precipitação nessa minha sinceridade;

uma

20) Temo que esse movimento desencadeie outros e que todos esqueçam como tudo começou (mera fumaça); 21) É o que sempre acontece, e depois dá uma trabalheira danada para o historiador; 22) Gosto de todo movimento juvenil e estudantil que propugne mudanças que elevem a liberdade e o homem (não julgo a canabis libertadora/ aliás alienante); 23) Por favor, não me chamem de reacionário;

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24) Mas é que eu precisava dessa terapia; 25) Acho que tem muita fumaça por nada; 26) Como dizia um certo pensador: ´o único direito da juventude é errar impunemente´; 27) Desculpem-me, mas nessa eu não estarei com vocês; 28) Quem sabe, de maio de 68;

quando pintar

um

revival

29) E aí podem me chamar que eu vou; 30) Vou na frente, lendo Simone, Camus na ala dos desatinados com o megafone na mão; 31) Aí sim é que eu vou tirar o maior barato; 32) Vou meter sem dó todo Sartre pra dentro da minha cabeça; 33) Aí sim, é que eu vou fazer a minha cabeça com todos vocês, manos, minas e irmãos...!

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O ESPANTO FILOSÓFICO

Que a filosofia é espanto parece-nos que há uma concordância a princípio. Todavia é elementar que a filosofia não caia no cipoal das platitudes filosóficas. Fica meio evidenciado que de um lado há o senso comum do não espanto; os nãofilósofos com os seus meros problemas, as suas meras angústias não percebidas, a sua submissão não assumida, a sua estética não construída, a sua moral mal resolvida e a sua não ética por si escolhida. E nesse maniqueísmo dicotômico, apresentam-se os filósofos ou amantes da filosofia que se espantam e que, por outro lado, tem ou supõem ter a ação panaceica do mundo pelo espanto. E pensando e julgando dessa maneira, julga-se que de um lado reside a não verdade, pelo suposto que do outro ela já existe -- e sendo assim, dando-se por

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acabado o espanto e, por conseguinte, o filosofar.

Sendo, desse modo, portanto, a atividade filosófica da linha escatológica do mundo. E é justamente aí que se diferencia o texto de Trajano, que, no texto Filosofia Geral e Problemas Metafísicos, nos ensina e nos adverte:` Portanto, uma primeira condição para trilhar o caminho da epistéme, portanto da Filosofia, é procurar desvencilhar-se da inércia do hábito. Somente vencendo a inércia do hábito podemos fazer uma pergunta sobre determinado objeto como se estivéssemos vendo-o pela primeira vez. (Arruda, Página 5). É evidente que esse excerto se lido na sua não contextualização poderá nos indicar aquilo que nós tentamos, no bom sentido, criticar: que até os problemas do senso comum filosóficos precisam ser problematizados e que valem a pena problematizá-los.

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O problema é: como fazê-lo? E a primeira coisa que pensamos é fazê-lo não olhando para o exterior e sim para os nossos órganons. Devemos primeiro nos perguntar: 1 ) Onde se embasam as nossas certezas? 2) Através de qual linguagem as recebemos? 3) Por que as aceitamos? 4) Quais foram os métodos persuasivos, pelos quais nos persuadimos? 5) Por que nos deixamos levar pela persuasão da linguagem? 6) Por que a linguagem é um acordo explícito e não uma derivação racional? 7) Por que questionamos a tradição com o instrumento recebido pela tradição e não a própria estrutura gramatical e literária? 8) É possível criar uma linguagem racional que a critique, fora dela e não dentro dela? 9) Será que é possível filosofar dentro dos limites da linguagem particular humana?

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Esses são, a nosso ver, alguns problemas que podemos criar, não obstante dependentes da linguagem herdada. Prosseguindo: 10) Será que é possível abdicar da linguagem cotidiana e filosófica? 11) Romper os seus limites impostos? 12) Será que ao invés de filosofar não fazemos um discurso pleonástico, onde as sinonímias não são observadas pelos nossos hábitos (mesmo que na condição de aprendizes de filosofia)? 13) É possível a atividade filosófica? Se a filosofia é uma atividade, ela é, parece-nos, um processo, não um fim; ela é um jogo, uma arte. E se é jogo é mister que seja bem jogado dentro das regras acordadas ou racionalizadas. Se é arte, é técnica; e técnica não é substituir uma pedra pela outra. Como nos assevera Arruda, (Página 5) ´... nós estamos habituados a ver a chama sem fazer muitas perguntas, porque a chama é

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algo que vemos, e com que convivemos, desde criança.´ E nesse sentido, acabamos percebendo que a palavra espanto caiu simplesmente no lugar comum, na ação maquinal dos que perpassam pelo discurso filosófico. O problema, e aí, a nosso ver, o grande problema, é que problematizamos o mundo, porque o mundo nos problematiza, antes de problematizar a linguagem. De maneira que aquilo que são problemas, e não deixam de ser, são problemas mais de ordem social, política, estética, moral, são mais problemas axiológicos do que os problemas da linguagem. É comum nos depararmos e nos espantarmos com a pobreza, com a corrupção, com a ideia já quase ultrapassada que vai vem e volta da estética, mas são questões não da Filosofia e sim de umas chamadas disciplinas filosóficas. Há, com efeito, que se ter um senso moral, uma autonomia na escolha, é certo ou quase certo. Mas a grande problematização talvez seja aquela que eles, os outros e todos nós ainda não percebemos.

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É mister, urgente, descermos do Olimpo para do vale nos espantarmos.

Eu não vejo a filosofia como um phármakon ou um veneno. Penso num desconstruir e reconstruir - não sei se isso já está em Derrida -- mas desconstruir para compreender a desnaturalização do mundo. Não vejo a filosofia como salvacionista. Aliás, creio que nenhum de nós será salvo, muito menos pela filosofia. Nesse sentido, considerar a filosofia sebastianista é lhe dar características de um sagrado próximo e muito atinente às religiões ou até mesmo às fugas laicas - sem o embasamento de um discurso que perpasse ou tente perpassar por um discurso próximo ao racional. O espanto seria, a meu ver, apenas um leitmotiv para um procedimento pensante acerca das coisas. A filosofia pode, muitas vezes - antes de nos salvar fazer nos perder. E se esse perder nos levar a outro espanto e a outra problematização, é aí que ela, a filosofia, talvez, cumpre a sua missão, se missão houver para a filosofia.

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É importante notar que a filosofia tem uma data de nascimento, por assim dizer, e isso significa que nem todo espanto ou perplexidade é sinônimo de um processo filosófico. Aliás, podemos dizer que quase todo ser humano se espanta diante da morte -- todavia nem todos seres humanos problematizam a morte como o filósofo problematiza - antes, muitos lamentam-na o que é diferente de uma problematização do que é a morte ou a vida no sentido filosófico-conceitual. Por isso ser a linguagem uma das estruturas precípuas de todo filosofar. É através da língua e linguagem que dizemos vida, vita, bíos etc. Com isso pretendo dizer que a língua também é um importante componente axiológico. Uma coisa é o brasileiro temer a morte. No entanto, o que seria temer para o próprio brasileiro thanatós ou mors? A simbolização que se adquire com a língua é, a meu ver, um fator que deve também ser investigado. Ou seja, as representações da linguagem em suas relações sistêmicas, plurais e mesmo monodais.

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O interesse da filosofia dá-se quando o homem percebe que há uma construção histórica e que o mundo é linguagem - para tanto, todavia, é preciso ter uma apreensão de uma linguagem e de toda uma conceituação a ser retrabalhada. É preciso voltar-se para si antes de voltar-se para o mundo. O mundo está simbolicamente construído e de uma maneira ou outra assomamos num mundo em permanente construção -- e num primeiro momento somos nós essa cera passiva que se moverá mais adiante para demarcar e remarcar os símbolos do mundo; e esse movimento requer um método que nos norteará numa dialética conosco mesmo, com o mundo e com o outro; e isso servirá até para nos demover de nossas certezas que não sabemos se são tão certas assim. O processo filosófico serve, muitas vezes, mais para nos demover do que para convencer o outro.

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Sempre os bois de piranha

Há uma nova proposta circulando para a educação. Foi publicada nos jornais e já causa polêmica. Pela proposta, haveria uma redução substancial das aulas de matemática e português no Ensino Médio, aumentando por outro lado a quantidade de aulas de história, filosofia, sociologia, espanhol -- matérias tidas invariavelmente pela sociedade como dispensáveis e supérfluas. Eu, como professor de filosofia do Ensino Médio, estou longe de advogar para mim qualquer proselitismo ou monopólio -- sempre digo que não sou o arauto da filosofia; mas o que quero abordar não é nem se a carga de português ou matemática deve ser ampliada ou não, mas, outrossim, que a discussão da carga torna-se inócua se não forem levados a efeito os problemas básicos da educação. Para mim, o problema não é de carga, mas de assimilação e interesse. Há algo errado no início de nossa educação e isso é repassado como nas corridas do bastão; desconhecimento gera mais desconhecimento. O problema a meu ver está na base. E nisso não foram os professores de filosofia e sociologia que

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falharam; e tentar suprimir ou diminuir as disciplinas de filosofia e sociologia como sugere a Folha de São Paulo é simplesmente tapar o sol com a peneira. É querer acrescer algo que deveria ter sido feito no passado. A Folha diz que há uma gama enorme de disciplinas para os alunos. Até posso concordar. Mas se o aluno não aprendeu a ler ou somar não é culpa da sociologia ou filosofia, desculpem-me. Então quer dizer que a Língua Portuguesa e a Matemática vão nos ensinar que existiu um Hitler, um Mussolini e que o racismo é uma construção histórica, ou que a nossa língua pátria é um tipo de linguagem, e que o mundo é uma percepção dos sentidos, ou que somos ou não uma tabula rasa, e que passamos por alguns estágios, que a verdade da Folha pode ser questionada sob o ponto de vista filosófico e que do jeito que se apresenta elimina uma característica de toda sociedade que se pretende democrática que é a chamada dialética? O mundo não é só falar o português casto, do tipo machadiano, ou fazer somas, divisões ou multiplicações, e isso seria uma das inúmeras questões que a sociologia e a filosofia poderiam debater, sempre no escopo de somar e jamais dividir ou subtrair, se possível for isso um dia.

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A FELICIDADE PRECIFICADA E O PRINCÍPIO DO PRAZER

A Pós-modernidade vem criando no Sistema Capitalista o conceito de prazer precificado; é o prazer advindo de uma relação nãobiunívoca com a materialidade e que pode ser comprado como qualquer outra mercadoria. Hoje, além de demandarmos o produto material, naquilo que ele tem de específico, demandamos também a externalidade que seu prazer pode nos proporcionar. Exemplo: quando compramos um veículo, além de adquirirmos a sua funcionalidade, adquirimos também o status de possuí-lo, notadamente se esse veículo for novo e belo; não há preço em ir numa padaria com o nosso veículo ou passearmos pelas nossas vicinais sendo invejado pelos nossos vizinhos. Não preocupa mais a alienação econômica e/ou intelectual. Hoje, poucos, é verdade, principalmente das classes média e baixa, compram o seu prazer em 60 ou 50 prestações fixas ou num papagaio dilatado em qualquer banco. Se isso é felicidade e se pode ser comprada, por que então não sacarmos os nossos cartões ou os nossos

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talões de cheques? Quanto àqueles que se decepcionam com essa condição, e que ainda se indignam de seus reluzentes apartamentos das Perdizes, Morumbi ou Butantã, melhor mesmo seria comprar uma gleba bem pertinho de Sierra Maestra ou adjacências e imediatamente mudarem-se para lá. É senso comum pensar que somos apenas senso comum. Queremos sim, a partir de agora, a nossa felicidade a qualquer preço. Se vamos conquistá-la e quitá-la um dia, só o futuro mesmo poderá nos dizer!

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Muitas vezes, a não fama ou a fama tardia pode tornar-se um antídoto contra a morte. Digo morte física, quanto espiritual. Precisamos compreender que o que vale não é a chegada, mas o percurso. Como alguém já disse: a vida é como uma cebola, mas somos nós que damos o tempero a cada camada.

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21/04/2011

Nesses dias assisti a dois filmes: Cartola e O bandido da luz vermelha. Adorei Cartola e não me entusiasmei tanto pelo filme do Sganzerla, não obstante reconhecer-lhe os méritos. É simplesmente uma questão de gosto. Não sou cinéfilo e não compreendo a técnica cinematográfica. Falo como um insipiente. Entre hoje e amanhã verei O Poderoso Chefão com Marlon Brando.

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20/04/2011 O PRIMEIRO LIVRO, BEM OU MAL, O AUTOR JAMAIS ESQUECE

No dia 17 de abril, fez 10 anos do lançamento do meu primeiro livro Contos de Arrabalde. São 34 contos. Há alguns contos que eu mudaria uma coisa ou outra; outros eu suprimiria totalmente. Não sei, depois que se escreve não dá mais para voltar atrás. O que eu posso fazer é relançá-los com outros contos um dia. Mas não sei se irei fazer. Um conto, bem ou mal, consta no Livro O Céu Aberto na Terra, que é uma tese de mestrado do Departamento de Geografia da USP; outro foi motivo de prova, também de Geografia, da Escola Estadual São Paulo; os outros eu não sei. Livros são como filhos, os geramos e eles se recriam.

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Os contos foram organizados pelo meu amigo Camelo Ponte. E se não fosse ele, eles estariam ainda num disquete qualquer. Sim, disquete sim! Como há mudanças intermináveis nesse meu mundo de meu deus. Os contos de maior fôlego são os que menos gosto; os contos curtos, curtíssimos, são os de minha predileção. Não obstante essa minha remissão, o livro levou-me a organizar a primeira oficina literária na Livraria Cortez, que poderá se tornar algo histórico para a Livraria. Eu não me considero um escritor. Necessito me expressar pela escrita, e os contos vieram em socorro àquela expressão da época. O que eu não posso prever é o que efetivamente aonde tudo isso vai ou não vai dar.

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LITERATURA E FILOSOFIA BRASILEIRAS

MISCELÂNEAS DA CONTEMPORANEIDADE

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edição independente

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2014

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