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Esboçodaloucura

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ESBOÇO DA LOUCURA WILSON LUQUES COSTA EDIÇÃO PARTICULAR DO AUTOR

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Bem, fale-me de seus problemas. Bem, eu não tenho problemas. Como não tem problemas? Eu estou até que um pouco melhor. Então quer dizer que já passou aquele desejo incontrolável de matar a todos que você encontra no meio do caminho? Então quer dizer que passou aquela vontade de sair com todas as mulheres que você conhece?

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Então quer dizer que está respeitando a vizinha do número 26, a do número 38, e as dos números 45 e 72? Quer dizer que parou de se masturbar, quando vê a Glorinha, a sua sobrinha? E a megalomania? O que você tem a me dizer sobre a sua megalomania?

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Quer dizer que já não furta mais cinzeiros coloridos de restaurantes de beira de estrada? E as calcinhas das empregadas? Quer dizer que parou de roubar do varal as calcinhas das empregadas de seus vizinhos? Quer dizer que já não prefere mais as calcinhas pretas de lacinho?

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E quanto às porcas e galinhas? Quer dizer que eu já posso ficar tranquilo sobre esse desejo infrene de traçar todas as porcas e galinhas do sítio do seu Pedro das Pitangas? E quanto às cunhadas? Quer dizer que já não bolina mais as cunhadas e concunhadas, quando vai a festas de casamento ou aniversário ou está a sós com elas?

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E no serviço? Quer dizer então que já não faz mais fofocas de seus companheiros e inventa estórias cabeludas? E quanto às mães de suas amigas? Posso ficar sossegado quanto ao seu desprendimento junto àquelas senhoras mais austeras? Quer dizer então que parou de beber Gim com Coca-Cola misturados com Tang e Cavalinho?

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Já não quer mais sair dirigindo a 200 km por hora e sair atropelando os transeuntes pelo meio do caminho? Posso ficar tranquilo quanto às avarias dos capôs de todos os veículos da cidade? E a vontade de ser Napoleão, Catarina de Medicis, Rasputin, Mussolini e Hitler? Bem, na verdade, eu tenho percebido ao longo desses anos todos que você tem sofrido melhoras consideráveis!

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Comparando o seu prontuário, eu penso que você realmente, com efeito, verdadeiramente, efetivamente, absolutamente, por todos esses quadrantes, eu decididamente... Eu tenho muito pensado, até refletido muito e quando me vejo frente a frente com você eu vou percebendo que ultimamente, ademais, tirante um senão ou outro fora dos patamares lineares da absorção dos fatos empíricos e retilíneos, Eu acho até que tudo tem fluido para uma melhora considerável.

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As casuísticas e o modus vivendi que temos praticado e tirante algumas disfunções não tão precípuas como se tem apregoado e reduzindo um certo silogismo absoluto, ou desviando desse maniqueísmo secular, eu penso que não necessitaremos de Freud nem de Jung ou como dizem as donzelas; Jungue! O máximo que precisaremos é de uma dose ínfima de Rogers ou uma pitadinha de Lacan!

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Mas eu julgo que você está muito bem! Eu apenas lhe recomendo algumas moderações. Como essa coisa de se achar Deus ou qualquer herói mitológico ou essa crença na sua perenidade ou de ser enterrado ao som da heroica.

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Eu lhe recomendo uma redução substancial de sua frota de caminhonetes. As contas bancárias, eu julgo que devem ser moderadas, se muito, dez contas com dois milhões de dólares cada. Claro que as contas da Suíça devem ser degeladas e delegadas às suas amantes.

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Eu vou lhe receitar um regime que deve ser seguido à risca, senão não obteremos uma melhora eloquente. Bem, a partir de hoje, sem nenhuma procrastinação, você não poderá ter mais do que três amantes. A composição pode ser feita da melhor maneira que lhe aprouver.

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Pode ser três loiras, como pode ser três morenas. Como pode ser duas loiras e uma morena ou duas morenas e uma loira. Mas jamais ingeri-las todas de uma vez, porque poderá sofrer uma congestão sexual, que poderá impossibilitá-lo nesta prática para sempre. Sem atentarmos para o fato de que ainda possui uma bela esposa lhe aguardando em casa, embora saibamos que a dose será mais moderada, já que comida caseira hoje em dia está mais frugal do que nunca.

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Ou pensar no fato que jamais deveremos olvidar de que este regime é seguido rigidamente pelas mulheres muito bem casadas em nossa sociedade. Elas têm absorvido uma quantidade bastante razoável de garotos de programas ou personal trainers que fazem um trabalho de consumação imediata muito eficiente.

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Mas isso não quer dizer que a moderação seja salutar e boa. Para que sair com as três amantes num espaço menor que vinte e quatro horas... Não! Isso não é bom para a sua saúde! Claro que trabalhar vez em quando, é bom... Mas vá com muita moderação! Ou você quer ficar louco...

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Saiba que os excessos podem lhe levar à loucura e eu não quero ter um paciente louco... Eu disso me orgulho muito... Jamais tive um louco como cliente... A normalidade para mim é tudo... Devemos ser moderados... Eu lhe recomendo a leitura dos estoicos... Mas não vá exagerar...

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Nada de incensos da riqueza, da pobreza, da maldade, da inveja, da volúpia, da sagacidade... Aliás, penso que você deve praticar todos os pecados... Não! Não se abstenha da inveja... A inveja é um sinal de sabedoria, porque mostra a nossa incapacidade diante de nosso semelhante...

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Nem se abstenha da luxĂşria pois a luxĂşria nos mostra o quanto necessitamos de adornos e atavios sobre esses nossos corpos desnudados... Mostra-nos a incapacidade de um Deus que fracassou em nos fazer belos e apolĂ­neos...

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Quanto à mulher do próximo, eu já falei... Mas cuidado! Observe se o marido dela não está tão próximo! Resguarde os seus tímpanos e as suas artérias... É óbvio que dependendo você poderá estar fazendo um grande negócio para o seu suposto rival... Por isso, cuidado! Cuidado com as minas e granadas pelos atalhos!

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Mas se estiver fazendo um grande negócio para o seu rival, cobre... Cobre uma taxa considerável! Faça um tipo de imposto progressivo para poder se livrar de vez desses inconvenientes! Quanto a roubar, eu lhe recomendo o roubo mitigado... Aquilo que você já faz há muito tempo...

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Monte uma empresa de assessoria, um consultório ou uma indústria ou vá para o governo... Seja um ministro ou um assecla qualquer... Bem, um aspone liberal... E não tenha receios de ganhar dinheiro! Mas ao mesmo tempo, você tem que praticar a filantropia... E aí você não pode falhar! E o que você deve ser... Como eu já lhe disse muitas vezes: o homem que pratica a filantropia jamais se tornará um misantropo...

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Então vá aos bordéis e dê ao menos um dízimo às prostitutas... Este é um trabalho que deve ser louvado, por ser a profissão mais antiga e menos remunerada... Veja: as prostitutas são as verdadeiras mulheres... Dão-nos o colo, os seus úberes, o seu sexo e ainda nos fazem pueris... Dão-nos toda a promiscuidade e cobram muito pouco... Ainda nos xingam e nos vilipendiam e fazem as maiores perversões que nossas “esposas pudicas” ousariam fazer...

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Vá, se possível, dez vezes por mês aos bordéis e esteja livre desse peso... Assuma os seus pecados! Conviva com eles, como se convivesse consigo mesmo...

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Agora olhe bem para mim... Encare-me de frente... Está achando muito pesada essa obrigatoriedade de ir ao menos dez vezes aos bordéis... Então não farei disso uma injunção! Faça quantas vezes o desejar!

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Quanto ao roubo, estou franqueando-lhe também esse desejo. Quanto a matar o semelhante, isso eu acho muito normal e não considero uma transgressão de sua parte, já que se encaixa dentro dos cânones vigentes! Eu até não gostaria de estar fazendo uma longa digressão sobre esse assunto, já que somos assassinos potentes e potenciais...

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Mas por que assassinamos o outro... Assassinamos o outro porque estamos persuadidos de nós mesmos! Aliás, eu penso que este é o desejo mais recorrente em nosso dia a dia... Quantas vezes não tivemos a vontade de matar os nossos vizinhos, os nossos sócios, as nossas amantes, as nossas mulheres, o marido da vizinha, as nossas professoras, os maus motoristas, os péssimos poetas, os atores histriões, a menina que não nos dá a mínima ou até quem sabe praticarmos o próprio suicídio...

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E quantas vezes as nossas amantes, as nossas esposas, os nossos patrões, os nossos vizinhos, os nossos médicos, os nossos outros eus não tiveram essa mesma vontade... O homem na vida tem ao menos uma centena de oportunidades de praticar o genocídio, o suicídio, o latrocínio e todas as formas de ídio...

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Veja, a morte não se faz apenas de balas, cordas, baldes, forquilhas de árvores ou todas as espécies de venenos... O repertório é vasto! Aguarde o momento certo! Não me venha falar de ateísmo! Não me venha com outro ismo! Isso também é normal! Somos todos ateus! Acreditamos apenas na possibilidade de nossa salvação! Nisso somos crédulos!

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Somente acreditamos na nossa salvação e para obtermos o que desejamos, barganhamos a salvação do outro! Intentamos sempre contra Deus! Mas não se pode acreditar em um Deus superior a nós mesmos! Somos os próprios deuses do individualismo! Por isso, tenha calma! Porque Deus não lhe punirá! Você não pode ser punido por aquilo que não acredita!

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A única divindade que pode açoitá-lo é a sua própria consciência, mas deste açoite você e toda a humanidade estão salvos! Então faça a sua própria bíblia! Faça o seu próprio alcorão! Faça a sua própria Torá e permita-se a indulgência que os outros homens não terá a capacidade de lhe conceder!

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Creia, quando nos perdoamos, estamos quites com Deus, porque nos julgamos o próprio Deus... A única dúvida a suscitar é se os demais deuses desse e de outros planetas lhe perdoarão... Mas você como um deus amotinado irá à guerra caso eles não lhe perdoem...

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Talvez porque você seja um novo Deucalião ou quem sabe um Hesíodo a lançar sobre nós a sua nova Teogonia ou quem sabe uma antiteogonia de um deus desconhecido e perdulário...

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Bem, já falamos de sua bestialidade... Já falamos um pouco de sua luxúria e de sua pequena avareza... Agora o que podemos mais falar...

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Não tenha medo de me encarar! Eu estou aqui para isso! Afinal, eu recebo os meus emolumentos em dia e eu não posso perder sequer um terço dessa minha clientela que foi carreada ao longo desses cinquenta anos de labuta... A minha função é manter todos os meus clientes num estado de semi-sanidade psíquica... A cura completa é vedada pelos manuais de psiquiatria e loucura...

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Por isso, eu preciso encontrar a medida exata da semiloucura e da alienação... Um alienista de minha capacidade precisa de anos de experiência para atingir o ponto culminante ou a bissetriz concêntrica que divide o ângulo da sanidade e da loucura...

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Não pense que um homem semilouco seja nefasto para a sociedade... E não pense que um homem em seu total equilíbrio seja benéfico... Não! Não gostamos dos extremos! Os extremos são perigosos!

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Não podemos passar a vida inteira a só ouvir Mahler ou Cage... Mas ao mesmo tempo não podemos ficar sentados numa cadeira debaixo de uma árvore observando as pessoas passarem...

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A sociedade é uma amálgama de delitos e perdões... Quem nunca teve na vida ao menos algum pensamento que julgasse nefasto... E eu tenho certeza que você os teve e muitos... Entretanto, olhe você aqui comigo pagando apenas uma pequena taxa para depurar esses irrelevantes males e voltando incólume à sociedade... Veja que não sai muito!

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Hoje, nós somos a terceirização do clero... A igreja cansou-se das indulgências e não podendo mais suportar a demanda excessiva de seus clientes e julgando os custos muito elevados, julgou por bem transformar-nos em seus sacerdotes supremos... Agora, não pedimos para se rezar dez ou doze ave-marias ou vinte pais-nossos... Não, agora damos pequenos eletrochoques seguidos de uma ducha fria e aviamos algumas drágeas soporíferas, só para termos um controle mais imediato sobre a nossa clientela que vem crescendo muito ultimamente...

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O importante para que haja uma total sinergia entre nĂłs todos, ĂŠ que estejamos fazendo um diĂĄlogo franco... Temos que abrir todos os canais para que possam sair todos os pensamentos iconoclastas...

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E essa sua mania de querer degolar o presidente de seu país, só porque a economia não vai muito bem, é diagnosticada em nossos manuais como mais uma patologia de sua parte... Você tem que atentar para o fato de que isso é normal... Mas voltando ao problema que eu julgo mais premente e que requer um monitoramento mais de perto, é essa coisa de ser insaciável em seus desejos sexuais... Sobretudo agora que já se encontra numa idade mais provecta... As enfermeiras muito têm reclamado de suas atitudes diante delas...

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Veja, a masturbação excessiva pode lhe ocasionar algumas escoriações na glande o que não seria bom para você... Agora, tente melhorar esse seu mau-humor... Quando acordar de manhã, vá regar as plantas, observar os pássaros, olhar para o céu, caminhar pelas ruas, mas não perturbe a cabeça de quem encontrou a paz... Você com essas atitudes desenfreadas de reclamar de todos que o circundam não é salutar... Decididamente não é...

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A mitomania se me afigura como algo que não está correndo normal... Claro que às vezes uma mentirinha ou outra vale a pena... Mas o mentir por mentir, só para contrariar aqueles que lhe deram a concessão da verdade se torna patológico... É claro que isso é uma forma de insurreição e de revolta... Claro que você tenta com essas artimanhas iludir os outros e a si próprio de que você é um homem competente...

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Mas por que falar que foi a Paris se só foi até... Por que falar que comprou um... se nem possui uma lacraia velha... Por que falar que saiu com a Lurdinha, a Teresinha, a Mariazinha e uma sucessiva relação de inhas, se no máximo não conseguiu nem um olá da Isildinha... Não vá me dizer que é para acabar com a solidão... Saiba que a solidão é boa... A solidão nos faz viver conosco mesmos... A solidão nos centraliza... nos dá o perfeito equilíbrio...

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Mas como falamos minutos atrás, o equilíbrio não é bom... O equilíbrio paralisa... O equilíbrio é a morte em vida... Ah, já sei... O que você não suporta mesmo é a vida... A vida lhe pesa mais que tudo...não é mesmo...

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Você tenta sair indene ida vida, mas a vida lhe escorraça... A vida lhe maltrata... A vida lhe impõe afazeres que seriam insuportáveis até para um gato siamês... Mas a vida de um felino lhe levaria à loucura...

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O que você procura é dar um certo sentido àquilo que não tem sentido... A sua carência é a falta de carência... Você é um ser fornido de provisões... Você desenhou todo o seu percurso e as vertentes... O seu vetor desde jovem foi o successful...

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A imagem do mundo é a sua própria imagem... O mundo é o lago onde você pode refletir a sua própria imagem... O mundo para você é este grande lago que se transformou na mais abjeta charneca, onde chapinham as suas angústias e as suas maledicências... E hoje em torno de você só há espelhos a refleti-lo... Você está no seu próprio labirinto...

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Todas as imagens refletem você... Você não pode mais se ausentar de você nem por um segundo... Você é o inexorável de si mesmo... Por onde você olha, você só enxerga você... Por isso, quando você odeia, você odeia você... Por isso, quando você ama, você ama você...

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Você está condenado a não mais amar o outro... Você está condenado a não mais odiar o outro... Você é um mundo feito de você... Você é uma ilha de você... Você é um arquipélago de você... Você é um país de você... Você é um continente de você... Você é o e o conteúdo e o contido de você... Você se alimenta do seu próprio você... Hoje eu lhe condeno a ser perenemente você...

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Por isso, lhe dou esse espelho... Por isso, eu mostro vocĂŞ para o mundo... Por isso, eu lhe desnudo...

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Esse espelho é a sua consciência... O espelho é a consciência do mundo... Quando morremos deixamos as nossas imagens no mundo... As imagens baças vão ficando no meio do caminho... Esse caminho que nos desvia de nós mesmos... Esse caminho que insinua um findar, porque é cheio de espelhos... Porque nos ilude a chegada... É o que nos faz caminhar em volta de nós mesmos sem ao menos entrever a chegada... Porque a chegada está no início...

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Lembre-se que uma sucess찾o de espelhos nos p천em no infinito... Esse infinito que n찾o tem partida nem mesmo chegada... Esse infinito que n찾o se chega...

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Mas você acredita que caminha sem ao menos ter dado um passo... Você só será, quando livre quando puder quebrar os seus próprios espelhos... Então faça uma festa grega... Dance e estilhace todos os espelhos...

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O que você precisa é de uma vida obscura... É do nada que você precisa... Mergulhe neste vale de nada... Procure o caos que reside em você... Vá ao encontro desse outro ser que é você mesmo...

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É... eu sei que é difícil compreender tudo isso... Saiba que nem mesmo eu entendo... O explicável é fácil... Mas eu quero o desentendimento... É o desentendimento que faz emergir... É o desentendimento que faz baloiçar... O desentendimento inquieta... O desentendimento desassossega... Precisamos do desentendimento... Por isso, não procure me compreender...

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A incompreensão é a força motriz da vida... Saiba que há muito que eu venho protelando esse momento... Mas eu acho que é chegada a hora... Diga-me o que será de você sem mim... Eu que fui o seu baluarte... Eu que lhe subjuguei por todos esses anos... Eu que lhe dei a canga para que você caminhasse sobre mim e fosse mais longe... Mas você não foi mais longe... Você ficou parado... Mas também não me venha dizer que você caminhou... Não... você não caminhou...

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Você simplesmente vigiou-me a vida inteira... Você iludiu-me a vida inteira... Eu que sempre fui o seu second hand... Sim, agora você vai me ouvir... Coloque os seus ouvidos aqui... Escute-me bem de perto... Não perca esse momento... Apague as luzes... Deixe a escuridão penetrar em nossos corpos... A escuridão também ilumina...

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Sim, encare-me de frente... Eu que sou o seu eterno companheiro de viagem... Eu que sou o seu inconfundível... Eu que sou o seu gênio e o seu louco... Eu que sou o seu sórdido e o seu hígido... Eu que sou o seu duplo... Encare-me de perto... Venha, aproxime-se de mim... O que eu mais quero é a sua aproximação... Você que vive pregado em mim...

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Certifique-se se todas as luzes foram apagadas... Você está me enxergando bem... Você não repara que somos o duplo de nós mesmos... Qual será a linha tênue que nos separa e divide... Qual será esse ponto que faz as nossas congruências e interseções... Não tenha medo! Eu me dispo para você... Veja como somos inconfundíveis... Veja como estamos condenados a sermos nós mesmos com nossas indiferenças... Até essa verruga em seu rosto me pertence... Não tenha medo de se despir...

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Tiremos as nossas roupas... Já estamos tatuados de solidão... Dancemos a última valsa! O espelho trinca em mil pedaços... Somos um amalgama do dessaber... Precisamos nos reinventar! Precisamos estabelecer esse ser híbrido... Assumamos o que sempre negamos... Agora se cale! Pois eu vou acender as luzes... Sim! Eu vou acender as luzes! As luzes a partir de agora não mais nos escurecerão!

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