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— CAPÍTULO UM —

Olhos vermelhos

Eu lembro que tentava abrir os olhos. A brisa fresca levantava meus cabelos, que de ruivos, brilhavam dourados ao sol da tarde de inverno. Meu vestido era preto, da cor do vazio que tomava conta de mim… e do alto das minhas botas, eu me sentia tão pequena quanto a formiga que carrega o farelo de pão. Naquele momento, eu não conseguia sequer pensar; meus olhos ardiam, e minha garganta estava travada. As lágrimas não me deixavam enxergar nada, e tentar levantar as pálpebras dessa forma era inútil. Eu sentia olhares postos em mim. Meio que penalizados, eles pareciam não saber o que fazer e a solução que encontravam (aquelas tapinhas no meu ombro) não me faziam me sentir melhor. Eu estava estagnada, sentindo uma dor inexplicável no meu peito. Era meu coração que havia se partido. Resolvi lutar contra a vontade do meu corpo e abri os olhos. Todas aquelas rosas pareciam negras através das lentes dos meus óculos escuros, assim como tudo à minha volta se tornava preto e branco. Aquele vão cavado no chão me lembrava que eu poderia ser uns seis metros quadrados daquele cemitério, aquela cova ainda vazia seria a representação perfeita da falta que ela deixaria. Eu tentava me despedir da minha mãe. Passarinhos cantavam do alto da árvore ao lado do túmulo, e parecia que eles estavam fazendo sua própria canção de despedida, bem quando terminou a bênção do padre. Ele segurou uma mão com a outra e baixou a cabeça, sinalizando o momento final. Nas minhas próprias mãos, tremia um envelope branco, que recebera naquela manhã. Me lembrei da felicidade que senti ao abri-lo, quando uma só frase quase me fez pular de alegria ao lê-la: “É com pra9


zer que informamos que a Srta. Abby Montenegro está apta ao Curso de Artes da Universidade Gama da Ilha de Montenegro”. Nesse exato momento, segundo soube, o corpo da minha mãe estava sendo levado à espera de ser reconhecido, após uma batida brutal de carro que foi o suficiente para lhe causar morte instantânea e, supunha-se, indolor. Pouco depois, fui chamada à mais que dolorosa tarefa de confirmar, como testemunha oficial, que estava sozinha no mundo, que estava fadada a chorar sem previsão de fim. Porque era a minha mãe que estava ali, desfigurada e eternamente imóvel, sobre aquela maca. E eu nem pude lhe contar a novidade. Tentei imaginar o que ela diria. Provavelmente iria sorrir pra mim e dizer “eu sabia que conseguiria”. Iria me pagar um almoço italiano e tiraria centenas de fotos enquanto comíamos e passeávamos pelo centro, comprando “roupas novas para uma época nova”, como costumava dizer. À noite, ia me forçar a assistir a um filme triste só para adormecer na metade, acordar a tempo de ver os créditos e chorar desesperadamente ao lembrar da primeira cena, jogar o DVD sobre o criado mudo e me fazer jurar que ia assistir de novo, porque fora o melhor filme que já vira na vida. E iria adormecer novamente, cheia de migalhas de pipoca nos cabelos. Mas agora, minha mãe iria dormir e eu sabia que não acordaria a tempo de ver os créditos. Ao invés de migalhas de pipoca, havia pétalas de rosas sobre ela, dormindo eternamente serena e envolvida no seu manto de madeira. Este ia baixando lentamente, assim como a minha pressão… eu senti o mundo girar, e revirei os olhos. Pouco antes de desmaiar, senti que alguém me segurava. Foi naquele exato momento que percebi o quanto eu, de fato, sempre necessitei de amparo.

Eu tinha um mês para me programar. A Universidade Gama ficava numa ilha, a cento e cinquenta quilômetros da 10


costa de Nova Esperança, uma cidade ao sul do país, e eu já tinha previamente calculado as despesas com viagem, hospedagem e o aluguel de uma casa. A morte da minha mãe, há quatro meses, tinha mudado minha situação financeira completamente. Fiz o melhor que pude para dar a ela um sepultamento bonito, embora que às pressas. Fiquei um tanto incomodada com a quantia que ela me deixara de herança, afora as pequenas posses. Não me sentia muito confortável ao perceber que, de determinado ponto de vista, lucrei com a morte dela. Um pensamento desses ultrapassava a classificação de cruel. Mas enfim, vendi o nosso carro e aluguei a nossa casa, que era grande e ia assegurar um bom dinheiro mensal. Eu lembro que ao fechar o negócio, e deixar o casal à porta, quase gritei os chamando de volta, com vontade de cancelar o aluguel, de desistir de tudo, absolutamente tudo: do curso, da mudança, da viagem, do meu futuro… Minha vontade era de me largar em cima da cama e ficar ali, criando mofo, tentando imaginar quanto tempo levariam pra me achar ali, se alguém daria a minha falta. Outra grande vontade que tinha era de virar o pote de tranquilizantes da minha mãe, e tomar todos de uma vez. Eu quis desistir da minha vida, por fim. Deus, como pode algo tão natural doer tanto? Ao andar pela casa, eu via em cada aresta de parede uma marca deixada por ela: o abajur florido sobre o criado mudo, a colcha de retalhos feita à mão, o troféu de Jornalista do Ano tão empoeirado como sempre. Ela nunca ligara para o que diziam dela, fosse de bem, fosse de mal. Dizia que só existia três alguém capazes de importar: Deus, a Virgem Maria — de quem era muito devota —, e eu. Ao deixar o quarto onde dormíamos, desci as escadas largas em direção à sala. Como que magicamente atraídos, meus olhos recaíram sobre o console da lareira, onde havia uma foto maior que o tamanho padrão, estampando nossos rostos. Minha mãe sorria tanto que olhos mal se abriam; eu apenas olhava a máquina, um tanto aborrecida pela mania exagerada de fotos que ela tinha, e foi lembrando disso que, com a visão 11


turva, peguei o porta-retrato. O vidro protegeu a foto das minhas lágrimas, que caíam espessas e pesadas. Após alguns momentos olhando as gotas escorrerem pelo vidro, passei o braço em sua superfície, secando lentamente as lágrimas com a manga da blusa que vestia. Carinhosamente, desparafusei o porta-retrato e retirei a foto. Como a gente sempre faz, cedi ao costume de olhar o verso da fotografia. E lá, com a letra quase itálica da minha mãe, estava escrito: À minha amada Abby, que não queria tirar esta foto. Estarei sempre com você, filha. Sempre. Evelin

Abracei a foto tão forte que a amassei nas bordas. Eu até quis sorrir, mas as saudades me doíam tanto, que o que eu podia fazer era chorar. Chorar, chorar, chorar até secar. Enquanto essa dor agia em mim como um outono, secando o meu corpo, arranhando minha alma com seu vento gélido e pesaroso. Mas não, eu não sequei. Com o passar dos dias, as lágrimas iam diminuindo, e a solidão passava a ser natural. Vez ou outra acordava à noite e chorava por horas a fio, até o dia amanhecer. Me atrasava para o trabalho e não podia esquecer os óculos escuros, ou todos estranhavam e imaginavam efeito de drogas, mas era só tristeza. Eram só aqueles tristes olhos vermelhos outra vez. E quando eu achei que poderia espantar aquele silêncio de casa, foi chegando o dia da viagem. Dia após dia, gradativamente, os choros desesperados foram se transformando em um choro quieto de saudades. As lágrimas silenciosas se tornaram suspiros profundos, e eu já não conseguia lembrar a última vez em que rira de verdade. Tão dolorosa fora a perda, tão doloroso foi perceber a superação; eu me sentia culpada, com medo. Medo de esquecer a pessoa mais importante no mundo, medo de tocar minha vida e sentir o olhar triste da minha mãe do alto de uma nuvem ao ver que a filha dela estava seguindo despreocupada, solene, como se nada tivesse 12


acontecido. Alguém uma vez me disse que era exatamente o contrário, que ela ia preferir me ver sorrindo. Nesse instante, as lágrimas encontraram o caminho através dos meus olhos outra vez. O tempo passou, sempre muito devagar. Eu me desdobrava para dar conta de tantos afazeres: negócios, trabalho, limpeza, mudança. Eu parecia carregar o peso de toda aquela casa sobre os meus ombros redondos e, triste em notar, gravemente caídos. Decidi que iria levar pouca coisa. Doei muitas roupas, joguei fora coisas com pouca utilidade ou nenhuma, e a mobília ficou montada na casa. Pedi ao casal que fechou contrato comigo que não se desfizessem de nada, se pudessem. Deixei a mobília carregada de lembranças doloridas, mas ainda assim eram memórias que vez ou outra me lembravam das vezes em que eu batia a cabeça numa quina, e minha mãe vinha correndo assoprar o ferimento, fazendo seu milagre de mãe. A mobília ficaria, tudo ficaria: eu já estava de partida. No dia da viagem, recebi os Manson e os convidei para o café. Repassamos alguns termos do acordo do aluguel, e relaxamos um pouco. O Sr. Manson era um homem robusto de meia idade, simpático e de nariz pontiagudo. Tinha um ar centrado, um gracioso quê de seriedade matura. Era um gentleman, e parecia se relacionar com sua esposa caladinha, tímida e magrinha — aparentemente da mesma idade —, como se fosse um escudeiro fiel e dedicado, o valete preferido, o amante temerário. Tamanha dedicação só poderia partir de uma tremenda sensibilidade, e esta o fez notar, embora não fosse preciso ser realmente um especialista para isso, que eu estava ainda muito abatida. Num dado momento em que a conversa foi silenciando, ele me olhou grave e disse: — Eu sinto tanto, filha, essa dor que está sentindo… Eu estiquei os cantos da boca como sinal de agradecimento, e inusitadamente, ele tomou as minhas mãos nas suas, sobre a mesa, e me disse: — Por mais difícil que seja, minha filha, nunca se esqueça de sorrir. Essa é a parte mais importante. Apegue-se a Deus, 13


sempre. Ele sabe que sua dor tem conforto, e se é de alguém que sente falta, achará um dia alguém que lhe traga conforto. Não se perca no desespero. Não corra o risco de se perder do amor. Do contrário, a tristeza lhe invadirá e passará para o seu corpo. Você envelhecerá, e se nessa fase da sua vida você não tiver o amor dentro de si, tudo estará praticamente perdido, porque o que somos é uma casca. O que importa é o que somos por dentro. E se o nosso interior está repleto de amor, não importa por quem, Deus também estará em nós, e você terá sempre força pra seguir em frente. Aquelas palavras me comoveram instantaneamente e as lágrimas correram por meus olhos, mas eu não consegui dizer nada. Ele acariciou minha mão, e eu quase senti correntes de bons ventos numa transição de suas mãos para as minhas. A Sra. Manson se levantou, deu a volta na mesa e me abraçou de trás da cadeira, beijando meus cabelos suavemente. Aquele abraço era um abraço fraternalmente materno. Eu me perdi no morno daqueles braços já enfraquecidos pelo tempo, e chorei. Chorei como se fosse o primeiro dia, como se estivesse vivendo tudo de novo, como se tivesse acabado de acontecer. Me perguntava o que eu podia ter feito, queria assumir a culpa, queria imaginar que eu podia ter feito mais cafés da manhã, mais agrados, poderia ter cantado uma canção de natal melhor, ter feito tudo o que não ligamos de fazer quando não lembramos que estamos a um passo ínfimo de perder. E enquanto eu chorava naquele ninho quente e desconhecido, eu gritava silenciosamente pelo meu verdadeiro ninho, pela asa que eu tanto amava, que eu tanto lembrava que tinha sobre mim. Solidão. Apesar desta, uma sensação inédita crescia dentro de mim: a vontade verdadeira de continuar seguindo em frente. E quando me recompus, alguns minutos depois, olhei o relógio. Tinha pouco mais de duas horas para me arrumar e estar no aeroporto. O Sr. Manson me ofereceu uma carona, que aceitei de bom grado. Subi as escadas para um banho rápido, o último naquele banheiro estonteantemente branco. Deixei que o pesar fosse indo embora com a água. O sa14


bonete que limpava minha pele parecia estar lavando minha alma, e as palavras do bom homem ecoavam na minha mente, como aquelas cenas de filme em que se ouve a voz da pessoa que escreveu a carta trágica que a protagonista lê aos prantos. Começava a não mais me impressionar o fato de que absolutamente tudo na minha volta se remetia à dor. Eu própria era um massacre. Sei que ao enrolar a toalha no meu corpo, olhei as minhas mãos — teatralmente, creio. Fiquei olhando as linhas nas quais os quiromantes tanto viam segredos e revelações. E enquanto me perguntava afinal o que eu tinha feito de realmente relevante na vida, as levei ao rosto e tive medo. Tamanho medo de ser uma casca vazia. O chamado da Sra. Manson me lembrando da hora me aportou outra vez na realidade fúnebre, e eu tratei de me apressar. Alguns minutos depois, trancamos a casa e rumamos para o aeroporto. Eu levava pouca bagagem, que consistia somente em uma mala de carrinho, uma mochila e uma bolsa de mão. Oculta no bolso interno do meu casaco, a foto com a minha mãe. À entrada principal do aeroporto, o Sr. Manson me ofereceu companhia para esperar o voo, no que foi apoiado pela esposa. Forçando um sorriso, agradeci e dispensei o incômodo. A carona já estava de bom tamanho. Só depois de uma breve insistência, os convenci de que ficaria bem. Nos despedimos, e quando fechei a porta do carro, ouvi a Sra. Manson dizer: — Boa sorte, querida. Faça boa viagem. — Obrigada. Fiquem bem vocês também. E meu olhar cruzou o olhar com o Sr. Manson e foi como se ele dissesse: “Não se esqueça: sorria; sempre!”. Queria poder ter certeza de que olhei de volta dizendo “não esquecerei”, mas me recordo que apenas acenei e o observei dar a partida no carro. De onde estava, os vi se distanciando na estrada, e só depois de vê-los sumir numa curva mais à frente, me virei para a enorme construção atrás de mim e suspirei. Era hora de dar o primeiro passo.

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