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N.º 1 · primavera 2018 · obomfimjornal@gmail.com · edição gratuita

Franklin Freitas

Na sua loja, na rua de São Victor, o senhor Franklin fazia há décadas reparações de máquinas de lavar roupa, entre muitas outras coisas.

A poucos dias de ter de abandonar um espaço que já não é mais o seu, Franklin recorda toda a sua vida, pelos objetos que ali se amontoam.


Um Jardim Romântico na Rua Barão de Nova Sintra

«O Bomfim» O grelhado misto da churrasqueira dá para uma família inteira e a cerveja veio fresca do bufete da esquina. Subimos as escadas, onde repousam dicas de supermercado. Estoura uma bola na rua e um cão já não se cala. Assim chegamos a casa e aconteceu um jornal. «O Bomfim», que é mesmo assim, é a nossa vizinhança: um jornal escrito por aqui e por aí, a várias vozes, e a andar às voltas. Sai quando entra nova estação, isto se o aquecimento global o permitir. Vamos dar a capa a um rosto do Bonfim, ficar na conversa com alguém, narrar uma história do sítio, reportar uma experiência pela gastronomia local e registar a lápis uma montra do comércio tradicional. E como o melhor do mundo são as crianças, há uma página inteira onde elas mandam. Todos estão convidados a colaborar nestas rubricas, como ainda a partilhar as suas receitas, publicitar os anúncios que entenderem e divulgar programação cultural. Pelo final, há também um espaço de opinião, onde se devem manifestar num estilo livre, ou até mesmo de bruços. Se ainda estão a ler este editorial, agradecemos do fundo do Padrão.

Com a chegada da primavera, e aproveitando as celebrações do Dia Mundial da Árvore, foi inaugurado a 21 de março o recuperado espaço dos jardins e mata da Quinta de Nova Sintra – lugar a que alguns também chamam de «Jardins das Águas» e, mesmo, «Jardins Românticos de Nova Sintra». Com algumas variações ao longo dos anos, este espaço esteve já aberto ao público: aos fins de semana das décadas de 70 e 80 do passado século, tendo adotado em 1987 um horário de visitas semanal, das 9 às 17 horas. No entanto, sob requerimento à empresa Águas do Porto, foram quase sempre possíveis as visitas ao espaço. Nos últimos anos, e com visíveis marcas de abandono, foi imperativa a requalificação das várias obras do património histórico que por lá se encontram, para além da reabilitação dos jardins. O Parque de Nova Sintra, amplamente documentado em diversos portais e publicações nacionais, é recorrentemente tratado como um “tesouro escondido” do Porto. A sua localização na zona oriental da cidade, bem como o facto de estar integrado na sede da empresa de águas do concelho, poderão ter contribuído para este isolamento. De todo o modo, bem perto dos bonfinenses e “à porta” da estação de metro do Heroísmo, não há agora razões para o esquecer. Uma das recentes aquisições, fruto da intervenção de recuperação, é a obra Self-portrait as a Fountain do escultor Julião Sarmento, o que aguça ainda mais a curiosidade de regressar aos jardins. De resto, é neste antigo jardim de um palacete familiar (outrora propriedade dos Reid) que vive uma alargada diversidade botânica, havendo por lá algumas espécies raras, por exemplo a criptoméria do Japão e a acácia da Austrália. E, claro, o curioso “cemitério” de fontes e chafarizes, brasões e esculturas do Porto, noutros tempos espalhados por outras moradas na cidade, tudo elementos que tornam este parque num verdadeiro museu ao ar livre, com muitas histórias para contar sobre a Invicta.

O Bomfim Jornal da vizinhança N.º 1 Edição e Textos Joana Estrela, Rita Ferreira e Sara Sá Jones Ilustração Joana Estrela Composição gráfica e Fotografia Rita Ferreira Revisão Sara Sá Jones Impressão Norcópia 250 exemplares Este número só foi possível produzir com o apoio amigo de: Francisco Ferreira, The Worst Tours, Kiki Pimentel e Eduarda Sá Andresen

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e até ao desporto, que agora todos podemos fazer, gratuitamente, de segunda a sexta das 10h00 às 18h00, e sábados, domingos e feriados das 9h00 às 19h00 (de abril a setembro) e das 10h00 às 18h00 (de outubro a março).

A generosa área com cerca de 68.000 m2, as vistas desafogadas para o rio Douro, as alamedas e os recantos, são, com certeza, razões que convidam a observações da natureza, caminhadas, refeições ao ar livre O Bomfim · N.º 1 · primavera 2018

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GUI — na conversa com

Gui Conceição é um amigo e vizinho. Mas é também um músico e artista dos palcos que começou por aqui mesmo no Bonfim a mostrar-nos o que é “Claiana”, através do seu outro “Gui Lee”. A sua música é comandada pela energia do mestre Bruce Lee, em ritmos que vão do Zouk das Caraíbas ao Funaná de Cabo Verde, mas com todo o Pop de ídolos como os Kassav’, Patrick Saint-Éloi e Michael Jackson. 4

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Nasceste em Cabo Verde, passaste pela Holanda e depois acabaste por vir ter a Portugal, onde te fixaste no Bonfim. Podes falar-nos um pouco sobre este percurso?

Bem, esta influência de trabalho é do Porto, mesmo. Das pessoas com quem eu convivi, do meu estado na altura – nem sempre fixe, não é? A inspiração é sempre da situação em que estás no momento. No próximo CD já não vai ser aquele estado de espírito que está ali. Há músicas que fiz, andava ali a trabalhar para cima, pelo Marquês, dias em que andei com chuva, ficava todo molhado… depois tentava criar uma sonoridade ou outra, e tinha aquele clima, tinha aquele clima! As músicas têm um ritmo, mas no fundo está lá a alma das pessoas no momento.

Depois de sair de Cabo Verde, fui para os Açores. Para a ilha do Faial, cidade da Horta. Fui lá trabalhar com o meu primo, tinha 27 anos… Depois apareceu uma proposta para ir para a Holanda e estive lá para aí um ano. E lá gravei um CD, chamava-se Pesadelo (risos). Não sei se já ouviram isso… Pois, já tinhas algumas músicas gravadas, em crioulo.

Acaba quase por ser uma ironia, não? Uma música que vem de um estado de espírito tão triste e que depois é música para alegrar o pessoal…

Sim, foi tudo em crioulo. E já consideravas isso “Claiana”?

É, é incrível, é… Eu saía de lá à meia-noite, de ir lá para O Mais Velho trabalhar, uma chuvaria… Ventania! Vinha para casa… E depois acabei por ir parar ao Sporting de São Vítor muitas vezes e tudo isso inspirou. Antes disso, eu tinha parado. Não tocava, passei muitos anos sem pegar na guitarra. Foi o pessoal das Belas Artes que me pôs a tocar. O meu irmão disse: «ele é um artista» e então começaram a chegar à minha beira. Eu andava no Cifrão a ver os jogos de futebol.

Não… ainda não fazia. Queria fazer! Só meti a voz e estive no arranjo – «mais assim, mais assado» – mas não mexi em instrumentos na altura. Era uma colaboração com mais dois rapazes, mas nunca mais ouvi falar deles. Acabei por gravar o trabalho, andei à procura de uma editora e aquilo foi uma confusão tão grande… acabei por voltar aos Açores. O meu primo ficou de falar com uma editora da Damaia, em Lisboa, mas nunca mais ouvi falar daquele trabalho, não sei se ficou bem, se ficou mal. Acabou por ser um pesadelo. A verdade do nome… E eu, constrangido com os acontecimentos, tinha o meu irmão aqui, então vim para o Porto. Em 2003, tinha 28 ou 29 anos. E fiquei aqui… como é que se diz? A ruminar aquilo. Até curar. Curar e esquecer.

Então, se antes tocavas com uma guitarra e agora na tua música se ouvem outros sons mais eletrónicos, tu achas que foram esses novos amigos, o pessoal das Belas Artes… Sim, isto era normalmente acústico. Agora, o que está ali na música, o baixo, por exemplo, tudo isso foi metido depois. Mas foi o Luís Figueiredo. Punha-me a tocar nas saídas à noite com o pessoal das Belas Artes. Foi também o Zé Peneda, o Esperança…

Tiveste uma desilusão, lá na Holanda… Sim. E levou muito tempo para passar. E vieste logo para o Bonfim?

Então terá vindo daí a componente mais eletrónica?

Andei ali na Rua de Santo Ildefonso, vivi lá com o meu irmão, enquanto ele estava nas Belas Artes. Acabei por ficar sempre na área, habituei-me. É tipo uma pequena aldeia para mim. Ainda passei pelas Fontainhas e agora estou ali, em Pinto Bessa.

Sim, o Luís gosta… O que no fundo se enquadrou nas tuas influências… Sim. Enquadrou porque ele é um rapaz do Pop. Ele gosta daqueles batimentos do Pop. E então, eu, normalmente, começava com guitarra ou teclados e ele depois ia

Como é que tu achas que o Porto, e em especial a zona do Bonfim, influenciaram a tua forma de fazer música?

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«… esta influência de trabalho é do Porto, mesmo. Das pessoas com quem eu convivi, do meu estado na altura – nem sempre fixe, não é?»

meter aqueles batimentos. Acabou por ter um bocadinho de Zouk com Pop. Depois, começamos a ter uma boa ligação e ele começou a saber logo fazer os batimentos, meteu algumas cenas eletrónicas que ficaram fixes. E isto começou em 2009, quando o Luís Figueiredo apareceu e disse «vamos p’ra casa, pá, gravar umas coisas». E foi ali, muito rudimentar, em São Vítor, com um computador todo banido, galinhas a picar do outro lado, lá num atelier… E eu fui só para cantar, ele não sabia que eu tinha noção de outras coisas. Depois é que ele me foi conhecendo. E agora, quem produziu este álbum foi a Favela Discos? Quem editou. E quem fez a masterização. A produção fui eu e o Luís. Eu tenho a sensação de que tu, nos últimos 10 anos, fizeste muito mais música nos palcos. E que agora, finalmente, é editado um álbum em Portugal… Exato. E foi isso o que aconteceu… essas músicas… na altura fizemos uns espetáculos. E depois, passando um tempo, eram músicas que eu julgava que ninguém ia editar. Houve uma primeira editora que se propôs, mas depois quis mudar a coisa: queria pôr uma banda. Isso ia distorcer tudo, mudar tudo. E eu ia ser praticamente um vocalista… E pronto, nunca pensei que essas músicas fossem ser lançadas.

Claiana Vol. 1, editado pela Favela Discos, é o álbum de estreia de Claiana em Portugal. Mais informações em: faveladiscos.bandcamp.com/album/claiana-vol-1

Músicas que existiam naturalmente em palcos foram agora para um estúdio ser produzidas. O que sentes em relação a isso? Elas foram “educadas” para o formato álbum, ou pelo contrário: cresceram? Aquilo foi realmente isso. Foi levar as músicas parece que para “reciclar”. Digamos que foi uma reciclagem para purificar o som e eu tive de meter a voz atual. Achei interessante. Aquilo teve um resultado que brilhou, parece que aquilo brilhou. Os rapazes da Favela Discos disseram «queremos gravar isto». Achei piada: «é isto que queremos». O pessoal no Porto conhecia, mas há muita gente que ainda não tinha ouvido isto… e isto editado dá outra luz. Podia estar perdido e foi aproveitado. O Bomfim · N.º 1 · primavera 2018

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«… nem eu sabia que era assim! Foi naquele dia que descobri um personagem estranho.»

As pessoas conhecem-te por Gui. Mas depois há o “Gui Lee”, essa personagem que és em palco. E ainda se fala de “Claiana”… “Claiana” vem do meu pai. Na altura ele morreu… Ainda estavas em Cabo Verde? Não, quando cheguei na Holanda, para gravar aquele álbum, ele morreu. E fiquei triste porque não tive hipótese de ir vê-lo. Fiquei a assistir àquilo. Foi difícil de digerir. Então, esta cena de “Claiana”… eu tinha suprimido isso. Eu escrevi crioulo naquele álbum, não arrisquei na altura. E “Claiana” nasceu porque, quando eu era pequeno, as músicas que eu ouvia, eu cantava. Mas cantava sem saber letra nenhuma! Como eu percebia. Música inglesa ou francesa – o Patrick Saint-Éloi e os Kassav’, o Michael Jackson –, eu cantava aquilo tal como ouvia. E o meu pai dizia «ele ’tá a fazer “claiana”!» Então essa ideia, depois de ele morrer eu disse «eu tenho de adotar isso, em memória dele, esse “claiana”». E então estou à vontade, vou para o palco do zero, desde que eu saiba onde a música vai, eu canto por improviso à vontade. E, se calhar, «isto é para levar para a frente», pensei. Depois, como estive com o pessoal das Belas Artes, que é cheio de conceitos… artísticos… o meu irmão e o pessoal disseram «isto tem conceito, é bonito».

Pois, é de louvar que tenham feito o registo. E parece que não “danificou” em nada a música. É de louvar. Mas agora vais de novo levá-lo para os palcos? Sim. E vou tocar também com uma banda, lá com a Favela Discos, que os rapazes lá tocam. E vou preparar novas músicas. Isto é Claiana Vol. 1 porque foi uma escolha daquelas muitas músicas que tocava. Tu lembras-te da primeira vez que, em palco, fizeste “Claiana”? Olha: foi o Esperança que convidou para aquela cena que ele faz, O Jantar do Bigode, ali em cima num caminho que vai para o Marquês. Em novembro de 2009.

E é muito honesto. Muito genuíno. Exato. É bonito. E esse pessoal das Belas Artes deu-me ainda mais força para ver que «é nisto que eu vou!». Antes de eu tomar a decisão, eu tive de ouvir o mundo das artes.

Eu sinto que quando te vejo no palco, não estou a ver o Gui. É um ser transformado, é o “Gui Lee”. Sentiste isso logo no primeiro concerto? Foi a tua estreia naquilo, porque normalmente era guitarra, e de repente fazes um show…

Queres dizer alguma coisa sobre o "Lee"? O “Gui Lee” é por causa do Bruce Lee. Para mim foi um dos grandes artistas. Da primeira vez que eu fui ao cinema, tinha 14 anos ou quê, em Cabo Verde, apareceu lá O Invencível. Achei aquilo deslumbrante, a energia que ele tinha. Ele faz um «Kiay!» que é um falsete. Fiquei fã daquilo, pensei «poça, esse gajo é incrível». Comecei logo a praticar umas cenas de Karaté, em casa, só para adquirir aquela força, aquela energia que ele tinha.

Aquilo foi surpreendente. Até para o Luís. Aquilo nem eu sabia que era assim! Foi naquele dia que descobri um personagem estranho. Faz diferença com o Gui normal. Ou Aguinaldo, que é o meu nome. E “Claiana”: para ti é o teu nome ou a tua música? “Claiana” é uma cena que… pá, às vezes fico emocionado a falar disso. 8

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Onde vais passear no Porto e aqui, no Bonfim?

Começava a fazer uns pontapés no ar, uns movimentos incríveis. E já estavam karatecas a pedir-me disputa, combate. E eu «por amor de Deus,» (risos) «isto é só espetáculo»… E depois comecei a ler umas coisas dele, a filosofia dele é muito forte. Tanto na vida como nas artes. Ele era professor de Filosofia. E estudou Cinema. Portanto, ele tinha vários ramos no seu mundo, era um gajo muito inteligente, com uma capacidade de ir longe nas coisas, de ir perceber coisas muito longe. E ajudou-me muito com a filosofia dele, ajudou-me a ultrapassar coisas incríveis… Há um documentário dele que, hoje em dia, qualquer modalidade desportiva dá muito valor. As pessoas inspiram-se muito nas palavras dele. Então, ele ajudou-me a ultrapassar, a ganhar uma força interior muito grande… E ajudou-me a pensar: às vezes dizemos «a atitude de alguém foi assim, então aquilo é negativo» – mas às vezes é positivo. Nem tudo o que parece negativo, é. Pode ser positivo, tens de tirar alguma coisa de positivo de lá, porque tem positivo lá. Isso ajudou-me a interpretar todas essas coisas que se passaram comigo na vida. Em vez de eu levar aquilo como uma coisa má, não. «Aquilo é mau? Mas porquê? O que levou as pessoas a portarem-se assim comigo?» Não é porque eu sou mau… se eu fosse mau, não me ligavam nenhuma, não perdiam tempo comigo.

O Porto é um sítio fixe para passear. Ando por ali na área dos Poveiros. O centro do Porto é bonito para passear. E eu corria nas Fontainhas, cheguei a correr muito nas Fontainhas… Com o rio ali ao lado, «Be water my friend»… É (risos). O treino físico faz muito bem: fortalece as cordas vocais e a nível mental ficas bem. A nível de saúde faz bem. Sentes-te mais confiante: «Estou forte, estou duro». As pessoas se pudessem fazer exercício… 20 minutos chegava. Umas flexões… um skipping… uns agachamentos… uns abdominais… uma boa caminhada: 30 minutos. Tudo isso faz bem a tudo, faz bem à criação, relaxas. E também abre a mente, és mais criativo, sentes-te mais capaz, ajuda à reflexão, ajuda a resolver pequenas coisas que a gente às vezes dá uma importância incrível – e que não têm importância nenhuma! Ajuda-nos a resolver hoje o que é para resolver hoje e o que não tem solução “pendura-se”, deixa-se estar, a solução há de chegar. Isso é o que às vezes as pessoas não gerem bem. As pessoas gerem bem o dinheiro, mas depois gerir as preocupações, o que é prioritário, o que é para ter calma… Para manter o equilíbrio mental. E o equilíbrio mental ajuda na saúde física: uma pessoa que tem um bom equilíbrio mental não vai ter problemas daqui para ali (gesticula um movimento da cabeça ao estômago), porque o organismo está a funcionar como um relógio. O que faz com que as pessoas tenham muitas doenças, “isto-e-aquilo”, é a descoordenação entre a mente e o físico – não se entendem… E depois, a parte física começa a ceder. Por isso, é muito importante equilibrar isto (aponta para cabeça), porque se isto não está equilibrado, o teu corpo não aguenta. Eles têm que bater assim (os dois punhos a bater um contra o outro), não é este que vem bater aqui (um punho bate com força no outro). Mas está tudo na mente… E eu aprendi isto com quem? Bruce Lee.

“Gui Lee” é então um alter ego que dá um grande pontapé no rabo à desilusão. Exatamente. Surgiu quando me levantei daquela desilusão. Hoje, se vejo uma pessoa virar-me a cara, não me faz nada… «Está-me a virar a cara porquê? Porque é mau? Não: porque tem algo especial em mim que ele gostava de ter.» Foi este tipo de conceito que o Bruce Lee incutiu em mim. Vês o mal, mas no fundo tem bem. E vais buscar o que interessa ali, e fortaleces-te cada vez mais. E não vives com rancor a ninguém, és melhor pessoa. Melhor pessoa.

Gostas de viver aqui, no Bonfim?

E espetáculos próximos, por aqui?

Sim. Até porque me ajuda a fazer umas grandes caminhadas (risos).

Se calhar em maio, mas nada confirmado. O Bomfim · N.º 1 · primavera 2018

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aconteceu no bonfim

Um amor de perder a cabeça de São Francisco. Foi aquando da transladação do cadáver da sua Teresa que Henriqueta pediu aos presentes um momento “a sós”, para uma última despedida. E é aqui que o impensável acontece: a nossa Henriqueta decapita Teresa com uma navalha de barba e embrulha a sua cabeça num lenço e saco, levando-a consigo para casa. Já nessa morada, algures na rua do Heroísmo, lavaria o crânio em água a ferver para o depositar numa urna de pau-preto, como um troféu que lá se exibia, adornado com rendas e alumiado por uma lamparina de azeite, despreocupadamente à vista de quem por lá passava… Como seria de esperar, o burburinho cresceu e não tardou a chegar aos ouvidos do administrador da zona oriental da cidade. Foi no dia 8 de março de 1869 que, após buscas na sua habitação, se deu ordem de prisão a Henriqueta, sendo esta remetida para o juízo criminal pelo crime de profanação de cadáver. A cabeça de Teresa de Jesus terá sido então levada para o necrotério e Henriqueta da Conceição detida e interrogada. Permaneceu dois dias nos calabouços da Polícia e, após reunir com alguma dificuldade o montante da fiança, acabaria por ser libertada. Mas se esta não é já uma estranhíssima narração, ainda há mais: o caso não chegaria a ser julgado, mas sim arquivado. E apenas uma nota camarária sobre o processo resta: «Deo se n’esta transferencia o desacato de Henriqueta levar para sua caza a caveira de Thereza, facto que não foi por profanação mas sim por dedicação por aquella familiar». Sobre este “perdão”, pode-se concluir que Henriqueta terá gozado da influência de amigos junto do tribunal – isto porque para além do crime da profanação, estava ainda em causa o crime de homossexualidade, punível por lei aquando desta história. O caso inspirou artistas do palco e da rua na época, tornando-se tema para espetáculos e canções. E ainda hoje esta história vive nas pessoas: não é raro ver o túmulo de Teresa decorado com flores e velas, apesar de um “é proibido colocar cera”… Sim, a ameaça à conservação da estátua é real.

Estamos de visita ao Prado do Repouso, o primeiro cemitério público do Porto, inaugurado no ano de 1839. Este curioso “museu da morte” tem tanta história como estórias: nele repousa um vasto conjunto de obras de interesse artístico e arquitetónico, desde estátuas e lápides, a capelas e jazigos; mas também é aqui que muitas vidas se contam pelas histórias que estes túmulos encerram. E o episódio que hoje se conta nestas linhas é o da paixão de Henriqueta e Teresa. Descendo a avenida principal do cemitério, quem vem pela entrada do Largo de Soares dos Reis, encontramos mais ao fundo, do lado direito, o setor 33. Seguindo por lá, vemos a meio do troço, à esquerda, uma estátua em mármore de São Francisco de Assis, imagem que Henriqueta Emília da Conceição (1845-1874) mandou construir em 1868 no jazigo de uma jovem mulher, Teresa Maria de Jesus. E estes são os factos. De todo o modo, esta homenagem de Henriqueta a Teresa leva-nos a desenterrar uma história de amor com contornos tão bizarros, que se poderia tratar mesmo de uma lenda. Henriqueta da Conceição, extravagante e formosa senhora que se vestia somente como queria e que tinha hábitos, dizia-se, apenas reservados aos homens do seu tempo, era uma mulher endinheirada e que poderia escolher a companhia de qualquer cavalheiro. Como será de esperar, Henriqueta era tida pela sociedade oitocentista portuense como meretriz, mas sobre ela corriam ainda os boatos de ser uma astuta criminosa e até hermafrodita. Levou uma vida rodeada de homens, no entanto, foi por uma rapariga que Henriqueta caiu de amores e com a qual terá vivido uma intensa paixão: Teresa de Jesus. Porém, e para grande desgosto de Henriqueta, Teresa iria perder a vida muito cedo, com apenas 22 anos, vítima de tuberculose. A falecida teria sido então sepultada no anexo do Cemitério do Prado do Repouso, num talhão da Ordem do Terço. Mas Henriqueta tinha outros planos para os restos mortais da sua amada: comprou uma porção de terreno no Cemitério onde se fez um jazigo mais digno, ornamentado com a estátua 10

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r ally das tascas

Bufete Catauba R. DA CO NS

Jardins Dr. Francisco Sá Carneiro

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Escola Secundária Aurélia de Sousa

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Escola Artística de Soares dos Reis

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Cemitério do Bonfim

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Campo de 24 de Agosto

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Escola EB 2,3 Augusto Lima

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Escola Secundária Alexandre Herculano

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Museu Militar do Porto

Faculdade de Belas Artes

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Jardins de Nova Sintra

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Cemitério do Prado do Repouso

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Lavadouro das Fontainhas

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Colégio dos Salesianos

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Cheiros há que, quando nos entram pelas narinas adentro, nos chutam de imediato para o passado, sem nos apercebermos sequer porquê. No caso da sopa do Catauba, café-tasco na esquina da D. João IV com a Rua das Oliveirinhas, a sopa cheira e sabe ao infantário. Reconfortante, barata e cheia até à borda, tem isso em comum com o vinho a copo que acompanha petiscos, da salada de polvo às moelas, das bifanas aos rissóis. A quem se aproxima, vindo do Padrão, um bebedouro recusa-se a apontar o caminho, com um ar de «juízo – a água não empobrece nem envelhece». Seguindo em frente, atravessa um grupo de pessoas de todas as idades, que o cumprimentam com um solene «boa tarde». Acalmado o medo existencial com esse pêndulo sonoro que nunca muda, passa a soleira do bufete, cuja porta o empurra para uma descida abrupta: ao cair, ainda apanha um fora de jogo no ecrã, pega numa cerveja ao balcão, desvia-se dos troféus que o dono arrecadou nas corridas de bandeja e, vindo de baixo, ouve o leve ronco de um senhor que dorme agarrado a um objeto que já não consegue identificar, enquanto mais cervejas e petiscos vão surgindo e… Silêncio. Na praceta abandonada, a brisa da madrugada faz rolar um copo de plástico que bate contra o bebedouro e ali permanece. Está na cama e tem sede. Pelo menos tirou os sapatos.

Rua de D. João IV, n.º 152 segunda a sábado, das 08h00 às 02h00; encerrado ao domingo A não perder: Salada de Polvo Preços: Petiscos, sopa, copo de vinho e café ≈7,5€ 12

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m o n t ra s d e cá

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hoje há

Doce de nêspera Abril, maio e junho são os meses das nêsperas. Este fruto, também conhecido por magnório no norte do país, tem um elevado teor em antioxidantes e é, portanto, um ótimo alimento para ajudar a fortalecer o sistema imunológico. Partilhamos aqui uma forma de aproveitar as nêsperas a mais, numa receita de compota que irá acompanhar com gosto os vossos pequenos-almoços e lanches.

Ingredientes

Confeção

1600 g de nêsperas

1. Colocar as nêsperas numa taça com água, juntando-lhe as rodelas do limão à medida que são descascadas.

500 g de açúcar sumo de 1 laranja sumo de ½ limão 1 limão em rodelas 1 pau de canela

2. Retirar o caroço às nêsperas e colocá-las numa panela com o açúcar por cima. 3. Adicionar o sumo de uma laranja e de meio limão e o pau de canela. 4. Levar ao lume e deixar ferver. 5. Quando a fruta estiver cozida, triturar com a ajuda da varinha mágica. 6. Assim que se obtiver o ponto estrada*, retirar do lume. 7. Guardar em frascos esterilizados.

Conservação: Cerca de 6 meses, bem fechada em recipiente de vidro. Depois de aberta, 15 dias no frio.

*Ponto de estrada: Quando, ao passar uma colher de madeira no fundo do recipiente onde se encontra a calda, se formar como que um caminho que deixa ver o fundo, tem-se o ponto de estrada (se tiverem termómetro, o mesmo deverá marcar 110 ºC).

classificados

trabalho ∙ imóveis ∙ mensagens ∙ tudo mais Revisão/Paginação Teses

Armazém/Loja

Cadeira de escritório

Futebol Amador

Profissional com 10 anos de experiência na área editorial dispõe de serviços de revisão ortogramatical e/ou composição gráfica de teses, entre outras publicações. Acompanha a impressão. Contacto: obomfimjornal@gmail.com Assunto: "Teses 01"

Procura-se espaço para alugar na zona do Bonfim (máximo 400€), com as características de um pequeno armazém (acima dos 50 m2), idealmente com logradouro, para nele se sediar uma Associação Cultural. Contacto: obomfimjornal@gmail.com Assunto: "Armazém 01"

Vende-se cadeira de gama profissional, com pouco uso e em bom estado. Da marca Haworth, modelo Very, cor preta, com apoio lombar e todo o tipo de ajustes (altura, braços, inclinação). Valor: 250€ Contacto: obomfimjornal@gmail.com Assunto: "Cadeira 01"

Procuram-se pessoas para jogar futebol semanalmente, em local a combinar na zona do Bonfim. Maiores de idade, sem restrições de género, para jogos informais, apenas pelo exercício e lazer. Vale tudo, só não vale estouros. Contacto: obomfimjornal@gmail.com Assunto: "Futebol 01"

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rebenta a bolha!

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opinião de Rita Ferreira

crónico

Sempre a mesma tecla Há um quiosque no cruzamento da Rodrigues de Freitas com a D. João IV que, em vez de vender tabaco e jornais, é a casa das Worst Tours, isto é, os Passeios do Piorio, que os seus criadores, Margarida Castro Felga e Pedro Figueiredo, organizam há já cinco anos pelo Porto. Para além de mostrarem um lado menos conhecido da cidade nos seus percursos (a turistas e não só), é no quiosque que também se podem afixar cartazes, comprar publicações e ilustrações, ou ficar apenas para duas de letra sobre o Porto. Contudo, o quiosque terá de fechar as suas janelas em maio. O que aconteceu? Em meados de 2015, a Margarida e o Pedro propuseram à Câmara Municipal do Porto um contrato de cedência temporária daquele espaço (que estava em debilitado estado). O contrato foi celebrado e o quiosque foi reabilitado em 2016 (com o esforço e investimento dos concessionários). O contrato foi renovado no ano seguinte e estaria em vigor até maio de 2018. No entanto, em novembro de 2017 chega a denúncia de contrato ao quiosque, pelo que a associação lá sediada teria de o abandonar até final de 2017. A Margarida e o Pedro tentaram perceber o porquê desta cessação antecipada e, sem resposta, reagiram publicamente: lançaram uma petição e juntaram centenas de assinaturas em papel (mais de 700, até à data), às quais se somaram centenas de cartas endereçadas à CMP (cerca de 450, vindas de todo o mundo), pela manutenção do contrato. Foi em dezembro, em reunião de executivo

da CMP, que a Câmara voltou atrás, respeitando-se então o contrato até maio de 2018, pelo motivo de que a associação teria a legítima expetativa da conclusão do mesmo. Nessa altura, o Pedro conseguiu finalmente questionar o Presidente da Câmara sobre o porquê da não renovação do contrato. Motivo: talvez os fiscais tenham visto o quiosque fechado e achado que não estava a uso… Mais: o quiosque não tem interesse para a requalificação urbana que se prevê nos passeios daquela zona e será, então, demolido após o termo do contrato. Em fevereiro (num último esforço), os Passeios do Piorio apresentam uma proposta de compra do espaço à CMP, que responde dias depois, reservando-se o direito de, em tempo oportuno, decidir sobre o destino do quiosque – e onde uma Hasta Pública de arrendamento do mesmo poderá, eventualmente, acontecer. E agora: como vai a associação competir com potenciais interessados naquele espaço, grupos bem mais poderosos economicamente? Faz falta outro quiosque de Sightseeing Tours? Ou ainda estamos com fome para mais uns hamburgers gourmet? Não estão cool aqueles cartazes ali? Ou estarão melhor numa Galeria Municipal™? Os passeios pelas traseiras do Porto não têm valor? Ou têm mais valor as frentes bonitas? É uma questão de gosto? Mas então não tinham gosto? Porquê novembro e não outubro? Porquê maio e não abril? É sempre a mesma tecla: é um grande ponto de interrogação, e não um ponto final, ó “maior”.

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seguir

Aula aberta de Esgrima Medieval

A beleza, pequena conferência Projeto Teatral

2-5-3 Matrecos ou Matraquilhos

Aula promovida pelo Grupo de Esgrima Medieval e Artes de Combate, no Museu Militar do Porto. Não é necessária a inscrição e apenas se solicita aos alunos o uso de roupa e calçado confortáveis. 1.º sábado de cada mês / 10h30–12h30 / Museu Militar do Porto

O que é a beleza? Como se explica a crianças e jovens o que é a beleza? Foi esse o desafio a que o filósofo francês Jean-Luc Nancy tentou responder numa pequena conferência que é agora recuperada pelos artistas Maria Duarte, Gonçalo Ferreira de Almeida e João Rodrigues. Recorrendo às dinâmicas naturais da representação e ao texto da conferência de Nancy, questiona-se e argumenta-se o que é o belo, uma ideia aparentemente simples, mas tão difícil de definir e caracterizar. Esta iniciativa integra a programação do Cultura em Expansão 2018. 12 Maio / 16h00 / Associação de Moradores da Lomba

Já se começam a afinar as mesas de jogo para o que é o evento desportivo anual mais divertido do Bonfim. Estejam atentos às inscrições, ou apareçam apenas para um dia bem passado, com barriga para a gostosa bifana israelita. Maio, em data a anunciar / Praça da Alegria Futebol Clube

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O Bomfim · N.º 1 · primavera 2018

O Bomfim N.º 1  

O Bomfim, jornal da vizinhança. Primavera 2018

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