INVASORAS
Raquel Garbelotti Ilha da Pólvora, Vitória, ES, Brasil, 2021
Raquel: Lucas, podemos considerar o cacto encontrado (Coleocephalocereus fluminensis) como uma espécie vulnerável ou com algum grau de ameaça? Sei que existe o risco de extinção, por exemplo, da Coleocephalocereus fluminesis subsp. decumbens (Ritter), em Minas Gerais e a Coleocephalocereus purpureus está ameaçado de extinção por causa da Mineração.
Lucas: Oi Raquel, segundo a avaliação da IUCN Coleocephalocereus fluminensis está em uma categoria não ameaçada. Somente a subespécie Coleocephalocereus fluminesis subsp. decumbens foi avaliado pelo Centro Nacional da Flora, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro como EN, ou seja, em Perigo de Extinção.
Segundo a Flora do Brasil 2020, hoje existem duas espécies: Coleocephalocereus fluminensis e Coleocephalocereus decumbens, e ambas precisam ser reavaliadas. Por ser um espécies de Cactaceae, ela merece uma atenção maior para conservação, pois está incluída na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção – CITES. Além disso, Coleocephalocereus fluminensis tem regis-
tros só no Sudeste, e é a única espécie endêmica do Brasil. Ela é uma das espécies da ilha que você me enviou e que identificamos.
Raquel: Encontrei menções a esta espécie (Coleocephalocereus fluminensis) no documento do Plano Nacional de Ação Nacional para a Conservação das Cactáceas: série de espécies ameaçadas no 24, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade MMA) realizado no Governo Dilma Rousseff.
Lucas: O Plano Nacional de Ação das Cactáceas incluiu todas as espécies de Cactos que estavam ameaçados de extinção, dentre elas Coleocephalocereus fluminesis subsp. decumbens, quando ela era subespécie. No entanto, houve esta alteração taxonômica.
Pelas imagens que você me enviou da área, parece ser um local bem antropizado e com regeneração recente. E por isso temos predominância de espécies ruderais. Mas a regeneração em locais antropizados também pode trazer novas descobertas para a biodiversidade. Essa espécie de Cacto representa bem a necessidade de conhecer melhor a composição de espécie destes locais. Talvez um estudo florístico mais completo na área possa descobrir alguns novos registros de espécies para a Ilha.
Dedico esta publicação a Alice Ball. Primeira mulher afro-americana a fazer um mestrado em Química na Universidade do Havaí. Descobriu uma solução hidrossolúvel a partir da raiz de Kava e do óleo de Chaulmoogra, poderosos remédios contra a Hanseníase. Ball faleceu em 1916 antes de ver a publicação de seus estudos. Estes foram continuados por Arthur L Jean, que nunca mencionou o trabalho de Ball.
Atipografia escolhida para a publicação é de Zuzana Licko, desenhada em 1996. Seu estilo foi baseado em Baskerville, criador da referente tipografia em 1757. A tipografia Mr. Eaves, refere-se a mulher que se tornou a esposa de John Baskerville. Sarah Eaves fora a eventual ajudante de composição e impressão de Baskerville. A escolha do nome Mr. Eaves, na tipografa Zuzana Licko, homenageia uma das mulheres esquecidas na história da tipografia.
Mr. Eaves foi também escolhida para esta publicação, por assemelhar-se ao movimento de plantas. Licko percebeu qualidades do próprio chumbo que Baskerville utilizou nos tipos ao invés das espécimes impressas. Penso que o termo espécimes utilizado na linguagem tipográfica, coincide aqui nesta publicação com espécimes de plantas.
Todo acesso as plantas pelos taxonomistas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ocorreu por meio de imagens enviadas por mim ao botânico Lucas CM Lopes. A relação entre coleta e determinação, sem a presença de campo dos botânicos, mas mediada por mim, pelas imagens das espécimes que coletei na Ilha da Pólvora, relaciona-se sobretudo, com momento pandêmico da COVID 19. Esta mediação pela imagens foi incorporada aqui como tática de produção deste trabalho.
*Idedicate this publication to Alice Ball. First afro-american woman to obtain a master’s degree in Chemistry at the University of Hawaii. She discovered a water-soluble solution from Kava’s root and Chaulmoogra’s oil, powerful medicines against leprosy. Ball died in 1916 before seeing her studies published. These were continued by Arthur L Jean, who never mentioned Ball’s work.
The typography chosen for this publication is made by Zuzana Licko, drawn in 1996. Her style was based in Baskerville, creator of this typography in 1757. The Mr. Eaves typography refers to the woman that became John Baskerville’s wife. Sarah Eaves was Baskerville’s eventual composition and printing assistant. The chosen of the name Mr. Eaves, in Zuzana Licko typography, honors one of the forgotten women in typography’s history.
Mr. Eaves was also chosen to this publication because it looks like the plant’s movement. Licko realized the qualities of its own lead that Baskerville used on printings instead of printed specimens. I think that the term “specimens” used into typography language matches “plant specimens” in this publication.
All the access to the plants by taxonomists of Rio de Janeiro Botanic Garden happened through imagens sent by me to the botanical Lucas CM Lopes. The relationship between collecting and determination, without botanical’s fieldwork, but intervened by me, and by the specimen images I collected in Ilha da Pólvora, is mainly related with the pandemic moment of COVID-19. This mediation by the images was incorporated here as a tactical way of producing this work.
COLEOCEPHALOCEREUS FLUMINENSIS AND ILHA DA PÓLVORA: SHORT TALK
WITH LUCAS CM LOPES
Raquel: Lucas, can we consider the cactus found (Coleocephalocereus fluminensis) as a vulnerable specie or a threatened one? I know that some of them are endangered, as an example, the Coleocephalocereus fluminesis subsp. decumbens (Ritter), in Minas Gerais, and the Coleocephalocereus purpureus is endangered because of mining.
Lucas: Hello, Raquel, according to IUCN Coleocephalocereus fluminensis is in a non-threatened category. Only the sub specie Coleocephalocereus fluminesis subsp. decumbens was rated by Centro Nacional da Flora, in Jardim Botânico of Rio de Janeiro as EN, in other words, endangered.
According to Flora do Brasil 2020, nowadays there are two species Coleocephalocereus fluminensis and Coleocephalocereus, and both need to be reconsidered.
For being a Cactaceae specie, it deserves higher attention to its conservation, because it is included in Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção — CITES. Besides, has only be seen in Southeast, and it is the only endemic specie from Brazil, among the other species from the island that you sent me and we detected.
Raquel: I found references to this specie (Coleocephalocereus fluminensis) into the document Plano Nacional de Ação Nacional para a Conservação das Cactáceas: série de espécies ameaçadas no 24 from ICMBio, implemented into Dilma Rousseff’s government. Lucas: O Plano Nacional de Ação das Cactáceas included all cactus species that were endangered, among them Coleocephalocereus fluminesis subsp. decumbens, when it was a sub-specie. However, this taxonomic change happened. From the images of the area that you sent to me, it seems to be a highly anthropized place and recently regenerated. And that’s why we have prevalence of ruderal species. But the regeneration in anthropized places also can bring new discoveries to biodiversity. This cactus specie represents really well the need to know better the species composition of these places. Maybe a fuller floristic study in the area can find some new species records to the Island.
CONSULTA BOTÂNICA
As espécies observadas são comuns de áreas antropizadas (ruderais), dentre as quais foi detectada uma espécie exótica invasora — Leucaena leucocephala (Lam.) de Wit. No entanto, muitas são plantas nativas, citadas como úteis em comunidades tradicionais no Espírito Santo (Crepaldi & Peixoto 2010; Lopes & Lopes 2103) e uma espécie é endêmica do Brasil — Coleocephalocereus fluminensis (Miq.) Backeb, ocorrendo apenas na região sudeste (Zappi, D.; Taylor, N.P. 2020). Neste sentido, ressaltamos que o levantamento de espécies em áreas antropizadas e que apresentam presença de espécies exóticas invasoras vem sendo apontado como importante para a descoberta de novos registros (Lopes et al. 2019). Também recomendamos outros estudos direcionados para o levantamento florístico e fitossociológico na área, que poderão aprofundar o conhecimento sobre a flora local.
BOTANICAL CONSULTATION
The observed species are common in anthropized (ruderal) areas, among which an invasive exotic species was detected — Leucaena leucocephala (Lam.) of Wit. However, many are native plants, known as useful in traditional communities in Espírito Santo (Crepaldi & Peixoto 2010; Lopes & Lopes 2103) and one species is endemic from Brazil - Coleocephalocereus fluminensis (Miq.) Backeb, appearing only in the southeast region (Zappi, D.; Taylor, NP 2020). In this way, we emphasize that the survey of species in anthropized areas and that present the presence of invasive exotic species has been pointed out as important for the discovery of new records (Lopes et al. 2019). We also recommend other studies aimed at the floristic and phytosociological survey in the area, which may develop the knowledge about the local flora.
REFERÊNCIAS
Crepaldi, M.O.S. & Peixoto, A.L. 2010. Use and knowledge of plants by ‘‘Quilombolas’’ as subsidies for conservation efforts in an area of Atlantic Forest in Espírito Santo State, Brazil. Biodiversity and Conservation, 19: 37-60. Lopes, L.C.M., & Lobão, A.Q. (2013). Etnobotânica em comunidade de pescadores artesanais no litoral norte do Espírito Santo, Brasil. Boletim Museu de Biologia Mello Leitão, 32(1), 29-52. Lopes, L.C.M. Amorim, T.A., Barbaliolí, L.M. Rosado, B.H.P. The importance of sampling anthropized areas of Atlantic forest for new records of woody species. Revista do Instituto Florestal, 31(1), 75-80.
Zappi, D.; Taylor, N.P. 2020. Cactaceae in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj. gov.br/reflora/floradobrasil/FB1475>. Acesso em: 30 jun. 2021
prancha 01 leucaena [deserto verde]
prancha 02 ficus l. [ficus]
prancha 04 selenicereus
prancha 03 cecropia loefl [embaúba]
prancha 06 eugenia l. [pitangueira]
prancha 07 pteris l. [samambaia]
prancha 05 schinus [aroeira]
prancha 09 talinum adans [maria gorda]
prancha 10 cissus l. [insulina-vegetal]
prancha 08 coleocephalocereus backeb
prancha 11 ansevieria [espada de são jorge]
H<< não sair até o rojão estourar >> é uma provocação à construções e inversões de narrativas coletivas sobre uma paisagem aparentemente inerte. Propomos uma ocupação nas ruínas da Ilha da Pólvora, vulgarmente apelidada de Ilha do Medo ou do Diabo. Situada ao lado da Ilha da Cal no extremo oeste da Baía de Vitória, está margeada pelos bairros de Santo Antônio (Vitória) e Porto de Santana (Cariacica). De um lado tem-se o horizonte marcado pela Basílica de São Pedro, de outro, algumas palafitas e de lá é sempre mar, sempre rio. Uma ilha dentro da ilha, apartada não apenas por sua condição geográfica, mas pela historicidade do que ali resta.
Construído em 1925, nela funcionou por décadas um hospital de isolamento para tratamento de hanseníase e de tuberculose. Uma estrutura que monumentaliza um procedimento comum aos arquitetos e urbanistas modernos, herdeiros dos engenheiros sanitaristas higienistas do século XIX, de transferir ao território um modo de fazer análogo ao trabalho médico. A partir de diagnósticos das cidades-organismo, “urbanistas cirurgiões” prestam-se a tratá-las. Esse tipo de relação, demiúrgica, confere à governança um poder de cura que permite encontrar uma tradução espacial nos projetos de urbanismo das cidades, quase sempre de forma padronizada e tecnicista.
À exclusão, fragmentação e marginalidade que desta visão higienista decorrem, se soma a representação da síntese geográfica da Ilha Pólvora. O isolamento é sua condição intrínseca e desde que o Hospital Osvaldo Monteiro foi desativado na década de 90 pairam apenas as tensões do abandono. As ruínas das edificações ainda revelam os mistérios da distribuição íntima e carcerária, embora suas estruturas estejam ruídas pela maresia e pelos furtos de suas esquadrias e fiação. Assim são os rastros das presenças furtivas na ilha, cujos textos estão inscritos ou escavados nos muros: << não
sair até o rojão estourar >>. Seus apelidos vulgares decorrem da paisagem socioespacial formada em torno de sua presença fantasmática. Hoje a vegetação, força viva no território, brota entre os escombros e ocupa salões como se voltassem a ser terra. A umidade penetra as paredes de modo que o limo tinge por completo alguns ambientes. É um manifesto do mofo, um elogio à matéria. As ruínas vão sendo retomadas pela natureza, uma natureza caída que revela tanto a história natural, quanto a experiência humana: uma imagem barroca. Nela as ruínas revelam a história não como processo de vida eterna tal como eram para os humanistas a quem a natureza servia para experiência de contemplação de ciclos conclusos, mas como um progredir de um inevitável declínio. O culto moderno às ruínas, lente pela qual somos forçados a olhar a Ilha, também existe na compreensão do progresso histórico como destruição. As ruínas são os vestígios desse processo.
Contrapondo a relação de distanciamento e contemplação posta à Ilha, propõe-se uma ocupação temporária dela. Tal proposta parte da compreensão que o distúrbio e a diferença são constituintes ao processo de se fazer cidade, ao urbanismo, e que a arquitetura não trata de um objeto estático, mas de uma produção espacial coletiva que está em contínuo movimento e negociação. Logo, uma ocupação se refere a uma prática espacial e implica temporalidade e ação crítica.
<< não sair até o rojão estourar >> convoca uma proximidade radical à Ilha da Pólvora, é um deixar queimar, é reclamar o esquecimento. Significa criar condições de possibilidade para o encontro entre tudo aquilo que compõe o ambiente, sem o protagonismo dos sujeitos, mas dando igual relevância à arranjos de espécies orgânicas e atores abióticos. Desfazer, mesmo que circunstancialmente, a tradição de uma suposta relação de dominação entre sujeito e objeto empreendida pela explicação científica moderna, cujo pilar está na separação entre natureza e cultura ou entre natureza e sociedade.
A ocupação << não sair até o rojão estourar >> é um elogio aos modos da natureza e sua temporalidade: em retomada e em contínua transformação. Ao ressaltar a condição de ruína, a ocupação expõe os artifícios humanos modernos e sua insuficiência, neste caso a falência do projeto urbanístico moderno que se assenta na higienização. Ali, natureza e cultura são indissociáveis e interdependentes, e o espaço praticado uma realidade da experiência do corpo. Uma vez dentro da ilha, na natureza, nos tornamos paisagem, uma paisagem sem contemplação.
ços e seus habitantes: o espaço como realidade da experiência dos corpos que o habitam na mesma medida em que tais corpos e suas memórias são resultantes das experiências espaciais por eles vividas. Uma relação de reciprocidade.
A ocupação convoca a uma ruptura momentânea no modo como a Ilha da pólvora, enquanto paisagem distanciada, está significada, para assim readequar tal significação à novas molduras de interpretação crítica e de fabulação coletiva. A ideia é retomar o espaço a uma realidade da experiência do corpo para construção de novas articulações espaciais, de modo que tal paisagem distanciada converta-se em espaço vivido e ocorra uma mudança de significação e valor sistêmico. Para dar conta de projetos de cidades nas suas reais complexidades, a formação do espaço público e a paisagem desempenham um papel central.
separated not only by its geographical condition, but by the historicity that remains there. Built in 1925, in there operated for decades an insulation hospital for leprosy and tuberculosis treatment. A structure that enhance a regular procedure to architects and modern urbanists, successors of the 19th century hygienist sanitary engineers, by transferring to the territory a way of acting similar to medical work. Stem from city-organisms’ diagnoses, “surgical urbanists” started to treat them. This kind of relationship, as a divine creation, gives the governance a healing power that allows to find a special translation into cities urbanist projects, that almost always are done in a standardized and technical way.
Exclusion, fragmentation and marginality that take place from this hygienist vision, there is also an addition of the representation of Ilha de Pólvora geographical synthesis. The isolation is its intrinsic condition and, since Osvaldo Monteiro Hospital was deactivated in the 1990s, only the abandoned tensions hover around there. The constructions’ ruins still reveal the mysteries of the intimate and prison distribution, although their structures are ruined by the sea air and the theft of their squareness and wiring. So are the traces of stealthy presences on the island, the texts are inscribed or excavated on the walls << do not leave until the firecracker explodes >>. Their vulgar nicknames came from the socio-spatial landscape formed around their ghostly presence.
Nesse sentido, quais formas (materiais ou não) novas narrativas coletivas podem ser construídas e traduzidas numa participação ativa do fazer cidade? Tais inquietações são propulsoras da ocupação << não sair até o rojão estourar >>, que tem a prática espacial como o eixo transdisciplinar capaz de abarcar questões comuns à arte, à arquitetura e urbanismo e à vida cotidiana. Pretende-se assim articular uma série de ações e diálogos que nos levem a habitar justamente as fronteiras compartilháveis de tais campos de saber.
Entender a cidade no contra-fluxo do que a torna um mero cenário é apreende-la como configurações de um processo relacional entre os espa-
L<< do not leave until the firecracker explodes >> is an affront to the constructions and inversions of collective narratives about an apparently inert landscape. We propose an occupation on the ruins of Ilha de Pólvora, commonly termed as Ilha do Medo, or do Diabo. Placed besides Ilha da Cal in the extreme West of Vitoria Bay, it’s bordered by the neighborhoods of Santo Antônio (Vitória) and Porto de Santana (Cariacica). On one hand, there’s the horizon marked by Basílica de São Pedro, on the other hand, some stilts and from there it is always sea, always river. An island inside an island,
Nowadays, the vegetation, a living force on the territory, bloom between the rubbles and it takes halls as it becomes earth again. The humidity enters into the walls in a way that the slime paints some environments at all. It’s a mold manifesto, a compliment to the matter. The ruins are being resumed by nature, a fallen nature that reveals natural history as much as human experience: a baroque image. In that, the ruins reveal the history not as a eternal life process, as it was to the humanists to whom the nature served as an experience of contemplating of completed cycles, but as a progress to an unavoidable decline. The modern cult to the ruins, lens which we are forced to look for the island, also exists while comprehending the historical progress as destruction. The ruins are the traces of this process.
Against the relationship between distance and contemplation set to the island, it is proposed a temporary occupation of it. This proposal came from the comprehension that the disturb and the difference are city process components, to the urbanism, and that the architecture is not a static object, but it came from a collective spatial production that is in a continuous movement and negotiation. So, to occupy refers to a spatial practice and implies temporality and critical action.
<< do not leave until the firecracker explodes >> calls a radical proximity to Ilha da Pólvora, it is a let it burn, it’s to claim the oblivion. It means to create possibility terms to the meeting between everything that composes the environment, without the subject protagonist, but giving the same relevance to organic species arrangements and abiotic actors. Undo, even if circumstantially, the tradition of a supposed relation of domination between subject and object taken by the modern scientific explanation, which the pillar is into the split among nature and culture or among nature and society.
The occupation << do not leave until the firecracker explodes >> is a compliment to the nature behavior and its temporality: in resumption and continuous transformation. When highlighting the condition of ruin, the occupation exposes the human artifices and its insufficiency, in this case, the modern urbanistic project failure that lays on the hygienization. There, nature and culture are inseparables and interrelated, and the practiced space a reality of body experience. Once inside the island, into nature, we become landscape, a non-contemplated landscape.
In this way, which forms (materials or not) new collective narratives can be built and translated into an active participation to make the city? These concerns are propelling of the <<do not leave until the firecracker explodes>>>> occupation, that has the spatial practice as a transdisciplinary axis able to embrace art, architecture and urbanism and daily life common questions. It is intended, in this way, articulate a set of actions and dialogues that take us to live the rightly shareable frontiers of those fields of knowledge.
To understand the city in the counter-flow of what makes it a mere scenario is to seize it as configurations of a relational process between spaces and their citizens: the space as a reality of the bodies’ experience that live in the same dimension that such bodies and their memories are the result of their living spatial experiences. A reciprocal relationship.
The occupation calls for a momentary rupture in the way that Ilha da Pólvora, as a detached landscape, it’s meant, in order to rearrange this meaning to new frames of critical interpretation and collective fantasy. The idea it to take back the space to a reality of body experience to build new spatial connections, so that distant landscape convert itself in a living space and a meaning and systemic value change happen. To succeed in cities projects in its real complexity, the public space formation and the landscape play a central role.
leucaena[deserto verde]
nome específico
gênero
família forma de vida substrato habitado origem
domínio
endemismo
nome popular determinador observação
INVASORAS
Raquel Garbelotti Ilha da Pólvora, Vitória, ES, Brasil, 2021prancha 01 0 1 2 3 4 5 leucaena benth [deserto verde]
Leucaena leucocephala (Lam.) de Witi
Leucaena Benth
Fabaceae
Árvore
Terrícola
Naturalizada
Flora 2020, exótica invasora
Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica
Não endêmica do Brasil
Deserto Verde, Árvore do conflito
Davi Nepomuceno
A espécie é considerada exótica invasora pela literatura especializada e invade principalmente áreas antropizadas
deserto verde o ano todo produz sementes dentro de longas vagens verdes de início acastanham-se caem na terra um banco de sementes sob sua copa dormentes potentes não espera chuva nutriente convite leucaena leucocephala (lam.) de wit incide agressiva na fragilidade insular intimida espécies originárias despreparadas isoladas com competitiva intrusão nesta ilha o chão é de escombros pedaços de azulejos despencam pedaços de paredes cobogós telhas partidos na queda ocupam os cômodos destroços da construção que rui alheias a furtos maresia abandono leucenas emergem verdes folhas delicadas bipinadas crescendo três metros em um ano entre as paredes que não tombaram formando não planejada alameda
se espicham dentro dos quartos sem teto ao redor do corredor sem portas rápidas ganham altura espaço luz intolerantes à sombra se inclinam esguias no vão de janela arco laje rampa invasoras exóticas não contamos quantas as leucenas aqui muitas
sementes resistentes aguardam em feral paciência na perturbada ilha fazendo encontro e arquivo de modos de ser em formação participam e criam paisagem relações inter intra multi especificas entrelaçadas como escreve anna tsing li que podem se dispersar em pneus sapatos vento li que não interagem quase como toca comida abrigo de pássaros li que atrapalham inibem excluem espécies vegetais nativas aqui é a mais populosa meu pai disse no telefone um rato come as sementes de leucenas em fernando de noronha e comendo vai multiplicando os seus numa equação que incomoda nossa superpopulação de desenvolvimento rápido alta reprodução resiliência a condições precárias características nossas e delas a ilha foi tomada para afastar e isolar contagiosas pessoas doenças a construção de alas de isolamento tratamento para hanseníase tuberculose distúrbios psicossociais derrubou outras muitas plantas fazendo de concreto depósito do que temiam as pessoas que não vieram para a ilha pólvora loucura doenças como mofos e infiltrações as leucenas se espalham silenciosas foram trazidas do méxico para o brasil na década de 40 pioneiras encarregadas de recuperação florestal as leucenas fazem aliança simbiótica com bactérias fixadoras de nitrogênio, vivendo com pouco crescendo proliferando com eficiência e rapidez melhorando a fertilidade do solo degradado suportando secas com seu potencial forrageio foram deslocadas dos seus modos e lugares de vida no nosso desejo (de espécie que também se faz em simbiose com bactérias) de simplificar homogeneizar acelerar como chegaram as sementes como saem me pergunto li que pacientes morriam afogados tentando fugir depois li que é preocupante a capacidade de adaptação dominação li que reduzem o potencial germinativo interferindo dificultando a vida de plantas nativas parente da mimosa pudica sensitiva dormideira planta que se contrai quando tocada como francis ponge escreve não escolho os sujeitos mais fáceis acusada de reduzir a biodiversidade a leucena é ruderal (palavra que vem do latim para dizer entulho) ou invasora interroga um artigo sobre sua potencial invasão expansão persistência o vegetal é denso, profundo, sem mania de ter razão diz o pai da poeta
24 árvores a cada segundo foram derrubadas no ano passado de epidemia e isolamento mais ou menos três décadas depois que o último paciente saiu da ilha
ficus l. [ficus]
nome específico gênero família
forma de vida
substrato habitado origem domínio endemismo
nome popular determinador observação
INVASORAS
Raquel Garbelotti
Ilha da Pólvora, Vitória, ES, Brasil, 2021
prancha 02 0 1 2 3 4 5 ficus l. [ficus]
Ficus sp1
Ficus L. Moraceae
Mata Atlântica Lucas CM Lopes
INVASORAS
cecropia loefl [embaúba]
0 1 2 3 4 5
INVASORAS
selenicereus prancha 04
nome específico gênero família forma de vida
substrato habitado origem domínio
endemismo nome popular determinador observação
INVASORAS
Raquel Garbelotti Ilha da Pólvora, Vitória, ES, Brasil, 2021
prancha 04
selenicereus
Selenicereus setaceus (Salm-Dyck) Berg
Selenicereus (A.Berger) Britton & Rose
Cactaceae
Liana/volúvel/trepadeira
Epífita, Hemiepífita, Rupícola, Terrícola
Nativa
Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal
Não endêmica do Brasil
D.R.Gonzaga
prancha 05
schinus [aroeira]
nome específico gênero família forma de vida
substrato habitado origem domínio endemismo nome popular
determinador observação
entrei num dos quartos pisando em pó cacos folhas uma cachopa um cupinzeiro vermelha esférica aromática a fruta é tempero alimento de pássaro a aroeira brava lithraea mellioides lança no ar óleos vegetais na pele provoca urticária coceira queimadura inflamação causa algumas das mais graves dermatites fitogênicas nem precisa tocar na floração passar por baixo basta para ser tocado as plantas nos lembram voláteis acontecimentos nos afetam no ar respirável por obra vegetal o mundo entra em mim quando inspiro quando expiro me projeto nele troca imersiva o ar não é atmosfera acidental não é alto o céu em toda parte li que a mansa aroeira schinus molle l. em decocto ajuda a remediar o ardor da brava periquiteira fruta do sabiá nomes associados aos que as comem e também a cores cinzenta vermelha rosa branca há sete dias li de safra colhida em mutirão de 40 famílias em comunidade quilombola 15 toneladas de pimenta rosa quase não arde anne carson observa que proust shakespeare gostam de identificar a vida sexual das plantas com o desejo feminino ofélia afogada em meio a plantas albertine para evitar ser completamente possuída tem as possibilidades de adormecer mentir ser lésbica morrer adormecendo, proust escreve, ela se transforma em uma planta anne carson insiste que as plantas não dormem não mentem não blefam entretanto expõem a genitália aroeira mansa como se diz de um bicho domado controlado domesticado é considerada invasiva onde é exótica pioneira para recuperação florestal suave para capsicófagos
eugenia l. [pitangueira]
nome específico
gênero
família forma de vida
substrato habitado origem domínio endemismo nome popular
determinador observação
INVASORAS
Raquel Garbelotti Ilha da Pólvora, Vitória, ES, Brasil, 2021
prancha 06 0 1 2 3 4 5 eugenia l. [pitangueira]
Eugenia uniflora L.
Eugenia L. Myrtaceae
Arbusto
Terrícola
Nativa
Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa Não endêmica do Brasil
Pitanga ou Pitangueira
Augusto Giaretta
Espécies citada para uso alimentar por comunidade de pescadores artesanais no Norte do ES – Lopes, L. C. M., & Lobão, A. Q. (2013). Etnobotânica em comunidade de pescadores artesanais no litoral norte do Espírito Santo, Brasil. Boletim Museu de Biologia Mello Leitão, 32(1), 29-52.
da madeira do barco piso na pedra um passo para parar se move devagar sem o motor uma corda o mantém atado a pedra a maré baixa do outro lado as casas pequenas sobem o morro são quatro minutos só de barco a nado não sei eugenia uniflora l. chegou aqui por pássaro morcego talvez uma pitangueira e outra no corredor no chão garrafas cuecas sapatos chinelos camisetas embalagem de salgadinho preservativo o que não está aqui? ouvimos pássaros? pergunto não ouvi trânsito samba nem rumor elétrico o telefone de alguém tocava às vezes uma lancha passava quem vem à noite? vimos ratos? pergunto as plantas se movem por extensão por dispersão a polpa da fruta atrai cuida da semente sem blindar esconder separar mas por sedução passa de verde amarelo laranja vermelho maturando uma mulher se enterra de pé até os joelhos como se plantasse a si mesma na fotografia de fina miralles no filme farol a tia diz que sonhou ser uma árvore os brotos são arroxeados dobrados em si da fruta colhida comida no caminho germinou esquecida a semente numa garrafinha de boca estreita espécie de estufa involuntária que suava e guardava umidade cortei a superfície plástica para saírem diminutas semente caule raiz para a terra num vaso e depois no quintal é mais alta mais velha que minha casa
ybá fruto pytang avermelhado não se vende porque maduro frágil tenro no transporte se estraga quando morei fora levei sementes num envelope dobrado também recebi sementes pelo correio plantada viveu três invernos chuvoso depois rigoroso frio dentro da sala quando esfriava não voltou nas malas ficou vivendo ainda no vaso em outra casa com outras pessoas suponho que siga sentindo muita falta como eu de calor sol verde companhia fiona tan fala de dobrar um lugar uma ilha colocá-la no bolso fala da ilha como um barco uma prisão uma lupa aqui uma outra no vaso o porteiro diz que a raiz vai tocar o fundo e ela não vai dar fruto a flor é muito branca as abelhas fazem mel os brotos ligeiramente mais macios cor de vinho onde despontam não há verde ainda depois se desenha o broto todo envolto em si cresce e se desdobra mantendo a pontinha rosada desenha folhas de verdes os mais sedosos pode amarelar enrugar curvar de novo enrijecida por praga doença falta de um desejo assim perfeito enlouquece escreve shahrnush parsipur no começo do livro precisa ficar invisível para viajar uma mulher senão é condenada a não sair de casa um jardim vazio refúgio afastado da cidade passada prostituição estupro casamento opressão cinco mulheres sem homens se planta no chão uma mulher diz o corretor pode tolerar uma árvore pessoa infeliz já enraizada virar árvore não é vergonha ela diz ele diz é preciso ficar doido como essa coitadinha para o ato de ramificação quem vai querer ele pergunta mahdokht se plantou no outono na margem do rio gemia tremia congelava olhando a água correr rebentavam dos dedos os pés enraizando hiberna cessa de crescer até o fim do inverno quando brotam galhos folhas germina descobre que ser árvore é armazenar tudo metamorfose em semente viaja na água visitante convidada pelo mundo
pteris l. [samambaia]
nome específico gênero família forma de vida substrato habitado origem domínio endemismo nome popular determinador observação
INVASORAS
Raquel Garbelotti Ilha da Pólvora, Vitória, ES, Brasil, 2021
prancha 07
0 1 2 3 4 5 pteris l. [samambaia]
Pteris sp. Pteris L. Pteridaceae E.D.M.Kirchn.
Mata Atlântica
Samambaia Lucas CM Lopes
a floresta segura o mundo
o que sobrou diminutos quartos azulejados banheiros sem louças entre as peças quadradas brancas do mesmo tamanho todas alinhadas samambaias em buraco de cano aberto vão de pia levada fresta de rejunte que resseca de cerâmica partida por onde sente passa absorve úmido contato pendem do teto as raízes suas cordas uma pequena uma maior na parede como se vasos ou xaxins houvesse na luz suave complexa de sombras fetos arbóreos os cobogós caídos a luz e a paisagem entram nos quartos custo a imaginar o que era estar aqui
você ouve os sussurros das sombras? no poema nesse espaço apertado vazado de concreto na regularidade asséptica revestida corpo a ser curado disciplinado separado isolado alguns eram trazidos para morrer li no jornal
penso na katherine mansfield no aborto escondido na tuberculose no dinheiro pouco não pagava o aquecimento e a pereira bliss êxtase atração erótica pela árvore pear convidada amante pearl do marido pear-tree pair-tree pair-three tem esporos o texto ou produzem sementes ou flores me pergunto remediadora uma samambaia parece capaz remove arsênico do solo da mineração dos pesticidas da água acumula nos seus tecidos
você sente escuta a folha parte sua mastigada?
ham ã’bae o que se torce em espiral no dicionário çama-mbai trançado de cordas na wikipédia trama confusa afectas aos sortilégios amorosos enrolada encolhida toda em si desenrola crescendo esticando em espiral movimento cíclico expansivo ela pende o mundo pende desaba quem adia ajuda a adiar me pergunto como
dois conjuntos de poesias a cativa a parede e uma colônia de leprosos filmada no irã em 1963 a casa é negra forough farrokhzad começa com uma mulher um lenço no rosto no espelho a doença a exclusão social desenho palavras minhas de outros de poema jornal tese livro blog verbete artigo filme para impedir de fugir para longe pensamento imagem de samambaia como se faz para gravar marcar enraizar dentro vegetal outra forma de pensamento vida fora do caminho estéril queimado espinhudo de consumo arrogante antropocentrado me pergunto
as plantas não se movem mas prestam extrema acurada desmedida atenção ao seu redor toda afetação toda conversa fazem com lenta transpiração melhor o ambiente sustentam bichos homens que desertificam sem pulmões respiram
INVASORAS
coleocephalocereus backeb
nome específico gênero família forma de vida substrato habitado origem domínio endemismo nome popular determinador observação
INVASORAS
Raquel Garbelotti Ilha da Pólvora, Vitória, ES, Brasil, 2021
prancha 08
5 coleocephalocereus backeb
Coleocephalocereus fluminensis (Miq.) Backeb
Coleocephalocereus Backeb Cactaceae Arbusto
Rupícola
Nativa Mata Atlântica
Endêmica do Brasil
D.R.Gonzaga
se debruça ele como se num balcão varanda não despenca não cai se inclina na borda em cada ponto em roda espinhos
uma ilha para percorrer ao redor de outra ilha
agora estou na ilha e sempre estou à distância, inacessível habitada por ninguém
ilha flutuante feita póstuma em uma semana com arquiteto paisagista empreiteiro engenheiro gerente de projeto trabalhadores da arte de fardos de feno sob a terra escondido enchimento 18 toneladas de volume grande leve para não afundar dez arvores desenterradas três grandes pedras de três toneladas emprestadas 50 toneladas de grama arbustos solo compostagem a viúva queria pássaros guardou consigo desejo projeto desenho a ilha sobreviveu principalmente na cabeça de nancy holt escreve o jornalista flutua se move puxada por dois cabos um barco vermelho paisagem parque deslocado um caminho e ninguém dentro não percorreu tudo não foi vista o tempo todo espécies nativas ele escreveu mas a única árvore mencionada um chorão não era no chão olhei escrevi detritos escombros destroços (embaixo era escuro e dava algum receio) ilhado se diz de isolado plantado de imóvel enraizado imóvel mesmo
árvore içada em terra a terra em tecido estopa redes de arame e cordas pela grua como um cesto truncadas embrulhadas as raízes o que são plantas modernas o que fazem os homens artistas com árvores ilhas me pergunto como uma ilha que afunda no rio de uma cidade pequena deixa nela seu nome como o prego na parede lembra de algo retrato quadro gaiola pendurado que não está mais duzentas casas de um balneário sob o mar que avança as mulheres de vanuatu fazem música com na água do mar para não desaparecer o mundo o mágico desaparece suporta enterrado plantado sob a terra no filme de ildikó enyedi simon descobre o culpado ouvindo as vibrações da planta testemunha do crime
aterrar afundar enterrar plantar ser comida de bicho pequeno no colóquio sobre a poetisa ouvi a linguagem é jardim o poema é floresta então, eu pensei mata de invasoras e pancs que não cabem em canteiros plantation paisagismo
se debruça e avança rupícula decumbente deitado cresce mantendo a extremidade erguida é longo costelado verde acinzentado nas partes mais velhas forma touceira forma comunidade com outras espécies na pedra superfície mineral aquecida de sol virado para vila velha e cariacica de um lado de costas para vitória endêmico está aqui muitas espécies desaparecem desconhecidas despercebidas fazem falta
INVASORAS
talinum adans [maria gorda]
nome específico
gênero família forma de vida
substrato habitado origem domínio
endemismo nome popular determinador observação