O selo João Ubaldo Ribeiro é um prêmio que vai muito além da publicação de livros, visa abertura de caminhos, de oportunidade, de afirmação de talentos e carreiras. É incentivo à leitura e valorização dos escritores baianos. A cada dois anos são lançados oito novos livros que são doados para bibliotecas públicas de Salvador e da Bahia. Esse prêmio faz parte do Programa Caminhos da Leitura, e é promovido pela Prefeitura da Cidade de Salvador, desenvolvido pela Gerência de Biblioteca Livro e Leitura da Fundação Gregório de Matos.
livro
Dia do
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Sobre quatro patas há um lugar seguro
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EPP Publicações e Publicidade Salvador - Bahia 2022 1ª Edição
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Coordenação geral: Claudijane Palma Comissão de avaliação Ano III Cássia Dolores Costa Lopes - gênero: Dramaturgia. Fernanda Maria Brito Gonçalves Almeida - gênero: Categoria livre. Hugo Brito Canuto Oliveira gênero: Literatura infantil. Lindinalva Amaro Barbosa - gênero: Conto. Luciany Aparecida Alves Santos - gênero: Poesia. Marcus Vinicius Couto Rodrigues gênero: Crônica. Victor Uchoa Firmo - gênero: Romance. Títulos participantes do Selo João Ubaldo Ribeiro Ano III A história do Bicho-Folhagem – Stael Mamed (Literatura infantil) Alimentando as Feras – Aícha Marques (Dramaturgia) As Fotos Roubadas – Breno Fernandes (Romance) A travessia do grão profundo – Paulo Atto (Dramaturgia) Efemérides – Márcia Monteiro (Categoria livre) Fuxico, resenha, mexerico nas esquinas e buzus de Salvador – Daiana Soares (Crônica) Sobre quatro patas há um lugar seguro – Aruane Garzedin (Conto) Soprando o vento – Tiago D. Oliveira (Poesia) Sobre quatro patas
há um lugar seguro
Aruane Garzedin 1ª Edição
Edição e organização: Fernando Oberlaender Ilustrações internas e capa: Juarez Paraíso Projeto Gráfico: Fernando Oberlaender Diagramação: Neilton Oliveira Revisão: Rita Canário Produção Editorial: EPP Publicações e Publicidade Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica JB Ltda.
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lançamento da coleção do Selo Literário João Ubaldo Ribeiro – Ano III reafirma a importância do investimento na produção literária de Salvador e consolida esse programa como referência de incentivo à leitura e como política de inclusão e promoção dos nossos escritores e escritoras. São oito obras escritas por soteropolitanos, editadas por uma editora soteropolitana, abarcando gêneros como romance, poesia, crônica, conto, literatura infantil, dramaturgia e gênero livre, distribuídas gratuitamente ao público e às principais bibliotecas de Salvador. Será lançada também uma versão digital no site da Fundação Gregório de Mattos. Essa ação fortalece a identidade do nosso povo e movimenta a economia local, abrindo espaço para nossos criadores literários. Lançado em 2014, o edital Selo Literário João Ubaldo Ribeiro já selecionou e publicou, em suas três edições, 24 obras, todas escolhidas por comissões de profissionais consagrados na área. A Coleção cumpre o disposto no Decreto Municipal 24.883 de 02 de abril de 2014, que instituiu o Selo, e dispõe que “incumbe ao poder público garantir a todos o acesso às fontes de cultura, apoiando e incentivando a produção, valorização e difusão das manifestações culturais”, consoante com o art. 262 da Carta Orgânica Municipal e as diretrizes da Lei 8.551/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Cultura. Quero agradecer a todos os envolvidos na criação, no fortalecimento e na continuidade desse projeto, com destaque para a equipe da Gerência de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura da Fundação, coordenada por Jane Palma, e à Comissão de Avaliação, que selecionou as obras. Boa leitura! Fernando Guerreiro Presidente da Fundação Gregório de Mattos
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Prefeito Bruno Soares Reis Secretária Municipal de Cultura e Turismo Andrea Almeida Mendonça Presidente da FGM Fernando Guerreiro Chefe de Gabinete Patricia Lins Assessora Chefe Viviane Vergasta Ramos Assessor Técnico Plutarco Drummond de Magalhães Neto Gestor do Núcleo de Tecnologia da Informação Clidério Evangelista Bastos Assessora Jurídica Kaiale Santos Araújo Gerente Administrativo-Financeiro Gildete Nascimento Ferreira Diretora de Planejamento e Projetos Culturais Silvia Maria Russo de Oliveira Gerente de Promoção Cultural Felipe Dias Rêgo Gerente de Equipamentos Culturais Chicco Assis Diretora de Patrimônio e Humanidades Milena Luisa da Silva Tavares Gerente de Patrimônio Cultural Vagner José Rocha Santos Gerente de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura Claudijane Pereira Palma
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Sumário Nota do autor.................................................... 9 E Luzia acordou diferente................................ 11 Guarde o meu lugar na fila.............................. 15 O avesso de cada palavra................................. 21 Cronograma amoroso...................................... 25 Coletivo 042................................................... 31 Passaporte para leveza...................................... 35 Consultório sentimental.................................. 39 Muros líquidos................................................ 45 Este canto é meu............................................. 49 Uma nova cosmologia..................................... 55 Relatos de uma breve visão.............................. 59 Um salto no caminho...................................... 67 Porque não se salvam as aranhas...................... 71 La urbana Pietà............................................... 77 Sobre quatro patas há um lugar seguro............ 81 Escola para borboletas e camaleões.................. 87 Diário em preto e branco................................. 91
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Tudo era irreparável Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada), que o mundo ia acabar às 7e 45. - “Aurora” Carlos Drummond de Andrade
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e o mundo acabar ficam as histórias. Era a certeza infantil que eu tinha. E se hoje sei que também elas morrem, ainda me pergunto de onde elas nascem. Não sei. As que aqui apresento surgem do mesmo lugar de onde brota a minha pintura: do olhar que se espanta ante as aparências banais, o costumeiro, o diário – ante o próprio mundo. E se a literatura não pode mudar a realidade cotidiana, talvez possa alterar o seu peso, pois a escrita é matéria de vida impregnada de tintas e devolvida ao leitor para que ele próprio estabeleça novos sentidos e ligações diante do que lê. Os contos deste livro tratam de vidas anônimas, às quais ofereço mais espaço nas situações que protagonizam em contextos visíveis em qualquer lugar ou naqueles delineados com as cores que encontro mais na Bahia, em um permanente diálogo entre o particular e o universal. Aruane Garzedim 9
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E Luzia acordou diferente
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lvaro desceu do ambiente refrigerado do ônibus e foi logo envolvido pelo calor daquela pequena cidade que ele bem conhecia, mas pouco se lembrava, desde que tinha estado ali, há duas décadas. Procurou um táxi em frente à rodoviária, e só havia um motorista adormecido dentro do carro parado. Resolveu ir andando até a casa da sua mãe. Mais tarde, sentado à mesa da cozinha e mais aliviado dos momentos mais difíceis da chegada, Álvaro observava Luzia em seus movimentos junto à pia. A curvatura daquelas costas lhe pareceu mais proeminente, as pernas pareciam mais finas. O cabelo ralo, de uma cor difusa, deixava à mostra trechos do rosado couro cabeludo. As unhas dos pés pintadas de rosa não combinavam com a figura austera daquela mulher, nem com o piso antigo e fosco de cor indefinida do chão da cozinha. Coando café, Luzia mencionava o calor que fazia, os vizinhos que haviam morrido, o cachorro que tinha sido adotado pelos moradores do prédio 11
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e outras coisas mais. As palavras se perdiam ante o vestido dela, de flores laranja em um fundo bege que contrastava com o azul celeste do armário antigo de fórmica sob a pia. Era só o que ele via. Hum, o cheiro do café! Que estranho poder exercia sobre ele o cheiro do café! Em qualquer lugar do mundo, esse perfume era a senha para um lugar mítico, em que haveria um eterno e suave encontro familiar. Talvez tenha sido esta imagem de sua memória afetiva a responsável por ter percorrido o que lhe parece uma enorme distância no tempo e no espaço para estar ali agora, como se nunca tivesse saído, mas com a mesma sensação de que não era aquele o seu lugar. — Você está bem? — pergunta ela. — Sim, mãe, um pouco cansado da viagem. E ela continuou a falar, agora à sua frente, com a mesma voz forte que ele conhecia, enquanto comia uns biscoitos molhando a pontinha de cada um no café. Álvaro fingia interesse. Aquele cômodo de cores desbotadas parecia ter vida apenas pela presença dela; o armário dos pratos com as portas de vidro, a fruteira sobre o balcão, as cortinas de renda no basculante sobre a pia e os vasos com flores plásticas, emoldurados pela claridade lá de fora. Na porta de madeira pintada de branco, uma caixa cheia de boletos de pagamento. Que espécie de fonte alimentava o perene e estranho gosto da mãe pela vida, e que parecia inalterável pela rotina, perguntou-se. Após o café, Álvaro saiu para andar um pouco, precisava tomar um pouco de ar fresco, ver o mar. Uma hora depois, entrou em casa muito pálido e ofegante. Sentou-se na poltrona marcada pelo peso da mãe, em frente à televisão. Fechou os olhos. Enquanto isso, era observado de soslaio pela mulher idosa com ar preocupado, que fingia arrumar a sala, com as 12
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mãos um pouco trêmulas. — Mãe, não ando me sentindo bem, acho que vou morrer... Ela se aproximou e levou a mão à boca do filho, calando-o: — Nunca mais diga isso! Você sempre foi um pouco exagerado e sensível! Ao contrário do seu irmão, pensa muito e tem a imaginação fértil. Seu pai sempre disse que você era um artista. Álvaro recuou e olhou para ela surpreso. Ela mentia. Uma das frases marcantes da sua infância fora pronunciada pelo pai, depois de jogar fora o João, um boneco de pano que o menino fizera, que havia se tornado o seu fiel companheiro e até dormia ao seu lado. Naquela noite, ele ouviu a mãe dizer: — Ele é um menino criativo... Ao que o pai respondera: — Um fraco da cabeça, isso sim! Sem querer, ele pôs a mão no nariz torto para a esquerda, uma inclinação que para ele havia custado algumas conquistas amorosas e parte de sua autoestima. Lembrava-se exatamente da surra que levou de um colega e do olhar cheio de desprezo que recebeu do pai ao chegar em casa. O telefone celular de Álvaro toca. Ele olha para o visor, olha para a mãe e não atende. Um pouco constrangida, ela comenta: — A gente não escolhe a quem amar, meu filho. Eu me apaixonei pelo seu pai, ele era um homem bom, mas um tirano. Não há como julgar, mesmo quando a gente não quer aceitar. Mais tarde, deitado na cama, Álvaro pensa nas palavras da mãe. Sempre estranhou a ausência de perguntas dela sobre mulheres, casamento e filhos. Toda mulher quer netos... Não tem o emprego fixo e a estabilidade que o pai tanto prezava. A poesia foi o que sempre lhe interessou. Com as mulheres, nunca teve um relacionamento satisfatório; na verdade, as temia. Agora, necessitava de coragem 13
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para romper uma relação com a pessoa que é o amor de sua vida, mas que não lhe merece mais. Sente-se um fraco. Talvez esteja mesmo muito doente, não apenas estressado. Luzia roncava no quarto ao lado. Antes, havia tomado uma dose de comprimidos para driblar o sentimento de mãe abandonada e outros indesejáveis que costumavam ressurgir em fila sempre que ia para a cama. Lembrou-se da última vez que esteve na casa do filho, no centro antigo de Recife. Recordase perfeitamente de dois postais dentro de um livro sobre a escrivaninha. Um deles falava sobre Morro de São Paulo, um lugar paradisíaco na Bahia, relembrando o momento onde Álvaro e outro homem haviam se conhecido. O outro, o desenho de um rosto atormentado, no verso trazia firmado o compromisso de uma viagem de lua de mel à Itália juntos. Desde então ela não mais se queixou da distância dele e apenas as conversas banais ao telefone uma vez por mês os unia. Luzia se ocupava das coisas próximas. “Ah, hum! Só os mimados acham que podem ter tudo na vida; a gente tem o que pode ter”, ela dizia. O sono chegou, mas a aparência envelhecida do filho não lhe saiu da cabeça. Luzia acordou diferente. Álvaro já estava desperto e olhou curioso para o rosto animado da mãe entrando em seu quarto sem pedir licença. Ela lhe devolveu um sorriso estranho e foi mancando, decidida, até à janela, mas não conseguiu abri-la sozinha; estava emperrada. Então, ela pediu com os olhos mais quentes e a voz poderosa de sempre: — Venha, meu filho, ajude, vamos arejar a casa.
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Guarde o meu lugar na fila
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hamo-me Maristela. Tenho estatura mediana, olhos e sorriso comum. Sou baiana, e não gosto de samba. Filha do meio de uma família grande, me acostumei a ser invisível por timidez e silenciosa por excesso de autocrítica. Não tolero grandes reuniões (nem mesmo grupos de WhatsApp), não me hospedo em casa de ninguém e odeio filas — um trauma de infância. Maristela é uma somatória de respostas acumuladas em meu HD, que atua em dias e situações normais em conformidade com a história que me coube. Mas quando a vida exige mais, aciono a Fernanda, o meu alter ego. Ela burla a minha programação, possibilitando novos arranjos diante de situações e pessoas. Poderia chamá-la de minha Exu. Quando Fernanda assume o comando, eu falo, depois penso; o desejo é o Norte, e a liberdade é o mote de cada momento. Seduzo, se necessário, e ‘rodo a baiana’ quando a situação é insuportável. Com a ajuda 15
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dela, consigo ser quase popular, administrar perfis e contatos nas redes sociais. Ao invocar a Fernanda, imagino a sua boca grande de dentes enormes que se juntam em uma meia-lua, deixando dois vazios laterais entre eles e os lábios. Sua forma de gesticular com os braços finos e as mãos ágeis parece um jeito de embaralhar tudo sem tocar em nada. Sua bunda grande e espalhada se apoia em duas pernas, que quase bailam de tão leves e atrevidas. Ela gosta de deixar-se ir. E lá vamos nós. Constatei que o IPVA do meu carro estava vencido, às vésperas de uma viagem. Comecei os trâmites burocráticos imediatamente e no dia seguinte cheguei ao departamento de trânsito da cidade, às seis da manhã. Para a minha surpresa, já havia uma fila grande. Às sete horas, ela era maior. Sua forma, como toda fila nesta cidade tropical banhada pelo Atlântico, era regulada pelo astro rei. Inicialmente, formava uma linha onde o cheio e o vazio eram regulares; as pessoas, preservando uma pequena distância entre si, seguiam a sombra projetada pela cobertura do edifício. Ao final deste, fazia-se um hiato, que correspondia ao pátio cimentado sob o sol, onde ninguém aguentava permanecer. Mais adiante, a fila reaparecia acompanhando a sombra linear e estreita do poste que ficava no início do estacionamento. Nessa parte da trajetória, havia mais cheios que vazios (as pessoas ficavam mais juntas, um corpo fazendo sombra para o outro). Suando e já prevendo o adiamento da viagem, senti os primeiros ventos de Fernanda: — O que está acontecendo, gente, a fila não anda e muitas pessoas estão passando direto? Perguntei, me abanando, meio afetada. — Normal, aqui o serviço é devagar mesmo! — disse uma 16
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voz feminina. — Acho que devíamos conferir se as pessoas que estão entrando direto no prédio estão sendo atendidas — insisti com a voz meio esganiçada. — Neste país, não adianta reclamar. Gente, eu tenho problemas de varizes, preciso ficar sentada. Vou deixar aqui as minhas sandálias guardando o meu lugar, viu? Dizendo isso, a senhora gordinha de olhos espertos se deslocou sorrindo e saltitando sobre o piso quente e foi para o banco junto ao canteiro que beirava o muro. Logo seu exemplo foi seguido por duas outras mulheres que abdicaram também dos seus calçados e se sentaram à sombra dos hibiscos, com os pés nus. “Deus sabe o que faz. Às vezes é melhor tá em algum lugar assim, conhecendo pessoas, do que em casa, botando café pros outros. Não é? Eu aqui estou é descansando, minha filha.” A cada dois minutos algum vendedor oferecia cafezinho, água ou lanches. Havia negociações. E a dinâmica interna da fila não parava de mudar. Com todos os bancos ocupados, era uma ordenação impossível de ser mapeada por quem chegava. “Onde é o fim da fila” tornou-se o mantra daquele desnorteio. As pessoas sentadas conversavam, de olhos nos seus objetos imóveis na fila. Enquanto isso crescia a inquietação daquelas de pé. Um rapaz que trazia um violão ensacado tentava proteger o instrumento do calor, agarrando-se a ele. Um senhor, ao meu lado, que desfiava baixinho para o vizinho sua questão familiar do momento, me incluiu na conversa. — A senhora acha que um apartamento na Vitória, por menor que seja, vale mais que um em Nazaré? Surpresa, disse apenas um “depende”. Ele insistiu, detalhando o caso do cunhado, “um boa-vida que o passara para trás em uma herança”. 17
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Foi interrompido com uma leve pancada na cabeça. — Olha para onde anda, moleque, não está me vendo não? O rapazinho, que vendia sombrinhas para o sol, pediu desculpas sem interromper a sua cantilena de vendas: “Chega de queimação, olha o câncer de pele, minha tia, olha a careca, meu tio, sombrinha a dez reais…” Uma gota de suor me escorreu pelas costas. Ui, me sacudi levemente e decidi. — Vou ver o que está acontecendo. Por favor, amigo, guarde o meu lugar na fila — falei para o homem e em bom som para todos. Entrei no prédio e fui até os guichês. Mandaram-me falar com o fiscal. O cara se antecipou e veio a mim perguntando qual era o meu problema, com um jeito nada simpático. Diante dele, cocei o lábio superior com o indicador e passei a mão pelo queixo, finalizando o gesto com a mão fechada, como se estivesse trazendo algo dali. Era o sinal de Fernanda, o tempo de ela entrar em cena. — Por que a fila oficial não anda e o movimento paralelo segue muito bem? O senhor pode explicar? — falei com a voz firme, as mãos na cadeira e o queixo empinado. O fiscal disse que era impressão minha, que as pessoas já estavam agendadas. Quando ameacei confirmar esta informação com a mulher que tinha visto entrar há pouco e que estava sendo atendida, ele disse com ar conciliador: — Senhora, se acalme, diga o que precisa e vamos lhe atender agora mesmo. — Eu preciso que esta instituição funcione, que o fiscal abra os olhos e que a fila ande! É isso que quero, para poder viajar por uma estrada ruim, pagar um pedágio alto e milhares de impostos embutidos nas taxas do carro e no combustível. 18
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Todos agora olhavam para mim. A Fernanda começou a gostar da sua performance e moveu as pernas finas sobre os quadris. O fiscal olhou em volta e, falando baixo, convidoume ao gabinete do superintendente para agilizar a solução do “meu” problema. — Sou igual a todo mundo, não quero ser privilegiada, não aceito ser retirada da fila nem ter meu lugar nela alterado, entendeu? — Já me ofereci para resolver o “seu” problema. Ah, a senhora é uma comunista e quer fazer balbúrdia, já vi tudo. — Eu também já entendi o seu serviço: fiscalizar para que todos tenham um serviço precário, sem reclamar. E aos insatisfeitos a instituição oferece o privilégio de atender no tempo justo em troca de propina. Não é? Como é o nome dessa ideologia? O homem, tomado de raiva, tocou o meu braço. Insistia que eu fosse ao gabinete do seu chefe, confiando que eu era um caso para um ente acima de si na hierarquia. Soltei-me rapidamente. As pessoas se aproximaram. Logo eu me vi no centro de uma pequena multidão. Veio o pânico e a vontade de encolher de volta ao meu silêncio habitual. — Peraí, dá um tempo, Maristela! — Fernanda reagiu. Abri a bolsa, tirei o batom vermelho, passei em volta dos olhos e depois contornei uma boca imensa em volta de uma língua solta. Imantada com esta imagem, comecei a rir diante de um fiscal abobalhado e de uma plateia curiosa. — Vamos lá, minha gente, quando um problema não tem solução, a gente rebola. Eu vou ficar aqui dançando, o tempo todo, enquanto a fila estiver parada! Senti a minha bunda mexendo e os pés inquietos. A Fernanda assumiu uma dança engraçada. Um dos rapazes que 19
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me olhavam com a cara divertida estendeu a mão convidando para uns passos a dois. Da porta dos fundos apareceu o cara da fila que portava o violão. A música tomou conta de todo o salão. Imediatamente, uma equipe de funcionários pediu silêncio e comunicou que a fila seria transferida para dentro do prédio. E que em 40 minutos, no máximo, todos estaríamos atendidos. A fila se refez, com a mesma ordem de participantes. Mas o clima era outro, não só pelo ar condicionado do salão. Todos conversavam sobre o que acontecia ali, sobre o país, sobre o mundo. As vozes estavam um tom acima e o lugar parecia energizado. Agora formávamos realmente uma “fila indiana”, um pé no rastro do outro.
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O avesso de cada palavra
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ejo tarde demais que deixei o melhor de mim em modo avião. E que não haverá aterrissagem, simplesmente porque não há voo. Se tivesse asas, escaparia; mas tenho quatro patas e não há tempo para rodeios. Sou uma asna mesmo. Sem carga, digo, sem bateria no celular. E encurralada neste prédio em chamas. Que bizarro, vou morrer e escrevo uma carta que não será lida porque logo será cinzas como eu, nesta merda de apartamento, neste edifício perverso, sem escadas de fuga ou portas corta-fogo. É horrível saber que vou morrer acompanhada de pessoas desconhecidas, enquanto o mundo lá fora segue normal; pensar que não farei falta a você, que até desconhece que sempre foi o meu grande amor. Por não poder ser muito em sua vida, optei por ser nada. Uma mulher religiosa não deve aceitar um homem comprometido. Mas nada salva e tudo me condena porque, ainda assim, só penso em você. Mesmo depois de tantas preces, eu vou 21
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morrer, vejo que nem Deus é fiel, ele que me perdoe. Escondi o jogo e agora quero desvirar as cartas; quero te mostrar o avesso de cada palavra dita, a energia em cada gesto evitado, a enorme paisagem por trás de cada janela fechada. Sabe o café que não tomamos na semana passada porque eu estava atrasada para outro compromisso? Mentira. Enquanto eu me afastava subindo as escadas rolantes do shopping, sentia meu corpo descendo, na outra via, ao encontro do seu. Céu e inferno haviam trocado de lugar, alto e baixo, significados, nada fazia sentido, e eu só rezava. Aquele dia em que nos beijamos na copa, na festa de confraternização da empresa, eu passei mal, sim, mas não foi o álcool que me levou a nocaute; ele só baixou a guarda, foi o pânico mesmo. Medo de ficar para sempre ligada naquela frequência cardíaca acelerada, sentindo o sangue chegando rápido a todas as extremidades, a pele quente querendo mais, o meu corpo em chamas. Ai, que metáfora estúpida nesta hora! Em nosso último fim de semana juntos, nossa despedida oficial, eu mantive a altivez de quem está dando as cartas. Nos neguei tudo. Pura tática de sobrevivência, esperança de que o milagre acontecesse e virasse o leme daquele barco. Que em vez de ser eu a que afundava, fosse você a me implorar por mais carícias, tempo, trocas, tapas, sei lá o que mais. Que ao negar o que pedia, receberia em dobro, como se o jogo das demandas e as regras de mercado se aplicassem à valorização do amor ou pelo menos ao dimensionamento da sua perda. Agora vem a parte mais difícil, não tenho nada mais a perder. Sabe aquela promoção que você tanto esperava e que não chegou? Desculpas, embora não seja dada a fanfarronice, e tenha até mais modéstia do que o nível considerado bom no mercado de trabalho, você sabe da minha competência e 22
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da minha capacidade de articulação. O que você não sabe, nem eu sabia, é o tamanho e a potência da minha raiva. Aliás, acho que eu não lidei adequadamente com este sentimento. Menosprezei. Agora vejo que ele elevou ao máximo a minha capacidade de sedução. Me deixou corajosa, despudorada mesmo, e até ganhei senso de humor. Imagino que você sabe o quanto o nosso chefe é vulnerável a um elogio qualquer e às mulheres em geral. Confesso que não foram ruins as nossas poucas saídas e até me diverti escolhendo as palavras certas para puxar o seu tapete enquanto ele beijava o meu. Sabe, o incrível é que esta parece ser a única coisa que valeu a pena. Não pelo resultado, confesso que agora tanto faz para mim que tenha perdido ou não a sua promoçãozinha. Olhando do alto desse voo despressurizado, esse gesto quase perverso me fez crescer, mesmo sentindo culpa e arrependimento. Não posso dizer o mesmo de tudo que não fiz por amor próprio, medo da crítica dos homens ou da punição divina. Esses gestos abordados e todos os que não terei tempo de te revelar me fazem sentir pena de mim e uma vontade enorme de chorar. Tenho vontade de pedir perdão, amor, por tudo que eu não te fiz.
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Cronograma amoroso
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les não se conheciam, mas ocupavam cadeiras vizinhas em um aeroporto, esperando um voo para um mesmo destino. Sem olhares ou cumprimentos, os dois passageiros avizinharam-se por meia hora, imersos em lagos internos e naturezas particulares, até o breve sorriso de Marta aparecer para Pedro junto a uma pergunta casual. As duas horas seguintes quase não foram percebidas e, ao final da viagem, eles haviam feito pontes e preparado o terreno para explorações mútuas. Durante um ano, tantas e tão apreciadas foram as incursões íntimas que, um ano depois, Pedro e Marta se casaram, em uma igreja simples, à frente de poucas pessoas, em uma cerimônia rápida como lhes convinha. Usaram o dinheiro da festa para uma viagem de lua de mel em praias do Nordeste, por duas longas e inesquecíveis semanas, e se dedicaram com entusiasmo a explorar os próprios corpos até o primeiro choro de Alan, hoje com cinco anos bem 25
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alimentados e bem cuidados. Marta não tinha planejado ser a estudante grávida que despertava o olhar crítico dos professores e a simpatia das colegas. Tampouco lhe agradava estar sempre pedindo prazos, justificando atrasos e distribuindo simpatia para colher certa tolerância com suas atrapalhações e com as dificuldades de quem havia dado um passo maior que a perna. Depois de casados, Pedro se dividiu entre os estudos e a administração da padaria do pai. A cada pão que saía do forno, via minguar a sua alegria, enquanto se mantinha em níveis mínimos o reservatório de suas expectativas de consumo e de aventuras. Seu pai, já idoso, relutava em deixar o negócio que sustentava a família desde que aqui chegara, jovem aprendiz em país estranho, trabalhando de domingo a domingo com um tio, a troco, inicialmente, apenas de casa e comida. Depois de se estabelecer com uma parte no negócio, tendo economizado o bastante para abrir a sua própria empresa, ele fez da manutenção da vida a sua serventia. Seus filhos também nasceram para assegurar os próximos membros da família. Para ele, isso só não bastava para quem nasceu rico ou para loucos e artistas, uma categoria de gente que se gabava de mal conhecer. Em um dia de sábado, Pedro, ao fazer a barba, deparou-se no espelho com um rosto moreno cansado e aproximou-se para apreciar melhor. Bem sobre a testa, viu horrorizado um saliente fio branco destacando-se na cabeleira negra que sempre lhe rendera elogios. Considerando isso um prenúncio, naquela noite saiu com amigos e não voltou para casa. Marta ficou com Alan, amaldiçoando a dor de coluna que a incomodava nos fins de semana, culpando aquele trabalho no shopping, ao qual dedicava todo o seu dia, desde que tivera de deixar o curso de Arquitetura por falta de recursos para 26
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pagar a faculdade. Ela acordou de madrugada com a ausência do marido no lado da cama e imaginou há quanto tempo estava a sonhar sem companhia. Com esforço, levantou-se e apanhou o celular em busca de uma mensagem dele. Mas em lugar disso encontrou algumas fotos de Pedro nas redes sociais. Atônita, voltou à cama e ali ficou a olhar o teto, sem saber o que pensar, com a sensação de estar em plena queda livre, enquanto o dia amanhecia. Olhou em volta para aquele quarto atulhado de objetos, e ele lhe pareceu vazio e desabitado. Sentia-se uma linha articulada e dolorida sobre um colchão macio, conectando um turbilhão de pensamentos e sensações desencontrados a duas pernas curtas, agora imóveis, porque não queriam obedecer ou por não haver ordens claras. Depois de algum tempo, deixou que seus pés a levassem até a janela. Já era dia e ela ficou olhando o movimento leve do trânsito lá embaixo, a contar os carros vermelhos que apareciam. Era assim que brincava com sua irmã na infância. Enquanto isso, desejos esquecidos nos porões da inconsciência subiam sem pressa escadas imaginárias, libertos. Ela sorriu. Algumas horas antes, Pedro estava em uma praia da cidade. Há quanto tempo não via o sol nascer assim sobre o mar! Sentia-se radiante na companhia de dois amigos e uma linda jovem que conhecera, seguindo o ritmo daquela frenética noite em um bar, depois num dancing. Eram todos jovens e sorriam. Um deles registrou aquele momento em várias situações: os amigos todos juntos, brindando; Pedro e a menina, sozinhos; depois, Pedro, a menina e o beijo. E de pronto compartilhou! “Bebi demais, peguei pesado”, pensou Pedro ao acordar com uma brutal dor de cabeça em uma cama de um quarto desconhecido, ao lado de uma jovem adormecida, de quem ele 27
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quase nada sabia. Depois de vomitar, olhou em seu celular a mensagem escrita, mas não enviada. Aliviado, tomou uma rápida chuveirada e pegou um táxi para casa. Ao contrário da alegria que experimentara no dia anterior, sentia-se pesado. Olhou o relógio, que marcava 17h, e se apressou em subir as escadas do edifício em que vivia no segundo andar. Antes de abrir, tocou a campainha da porta. Mas teve de usar a própria chave para conferir o silêncio onde esperava encontrar mulher e filho. Na sala, sobre a mesa, estava um bilhete escrito à mão com um batom rosa encarnado: Pedro, Há muito tempo vinha economizando para comprar a nossa casa, mas tinha vontade de conhecer o Rio; também queria ouvir sinos de igreja em algum lugar, tomando sorvete de biquíni. O Alan adorou a ideia de ficar um tempo com os meus pais. Marta Ele não acreditou e chamou a mulher várias vezes ao celular, antes de correr para a casa dos pais dela, onde pensou encontrá-la. Ainda no táxi, recebeu uma fotomensagem: uma gaiola aberta, um pássaro voando para longe e um texto: O sonho, o amor liberta. Chegando ao apartamento dos sogros, foi recebido por Alan com um sorriso. — Pai, a mãe me disse que precisou viajar, e eu vou ficar aqui e com você também, mas é por um tempinho. Ele mal ouviu e perguntou: — Cadê ela? Encontraram-se no aeroporto. Marta carregava uma mala apenas e estava vestida de modo simples, com sandália baixa e nenhuma maquiagem. Sentia-se imbuída de coragem, mas não se enganava; a liberdade que ansiava precisou do aval de um gesto correspondente de Pedro. Há muito tempo sua vontade 28
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vinha ganhando terreno para o desejo, a praticidade para a sua criatividade, e a segurança para o amor; tudo sob o reino abstrato do medo, sentimento que se instalara desde que o conhecera, desde que sentiu o imenso prazer em viver que a ele atribuía, e que não queria perder. — Me perdoa, por favor — ele falou de várias maneiras. Ela apenas olhava para ele, impassível. Queria culpá-lo, mas não conseguia vê-lo inteiramente como algoz, seu marido traidor. Não sabia quem traía quando os sonhos se perdiam, se era aquele que agia ou quem apenas esperava. — Não se culpe, eu preciso ir, meu voo já teve sua última chamada. A reação fria de Marta doeu mais em Pedro que a fúria esperada. Dirigiu sem rumo pelas ruas da cidade, com a imagem dela em sua mente e cuspindo palavras velhas e termos usados por seu pai em alguma ocasião, por esportistas em seus vestiários, pelos homens traídos. Com certeza, a vadia tinha outro, a disfarçada, a santa puta, a vagabunda! Depois, em casa, derramou lágrimas quentes e constrangidas de quem descobre que, quando se foi, a festa não acabou, o jogo sem ele continuou e, pior, o time ganhou. No dia seguinte, Pedro não voltou à padaria. Foi à praia fazer surf, esporte que sempre fizera desde adolescente. Nenhum dinheiro compraria o prazer de pegar ondas frias nas primeiras horas da manhã e depois voltar para casa com cheiro de mar. Vendeu o terreno que tinha na ilha de Itaparica e passou a dar instruções de mergulho e aulas de natação em uma praia da cidade, depois de um quase rompimento com o pai, que, inconformado, continuava a questioná-lo sobre o futuro, a idade, a segurança da família. Também passou a brincar com Alan e a desfrutar mais da sua companhia. 29
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Marta falava com o filho quase todos os dias e mandava fotos. Andou por algumas praias do Sul e depois foi passar um tempo com uma tia no Rio, onde fez aulas avulsas de artes, ioga e começou a praticar meditação. Decidiu que, quando voltasse para casa, iria fazer um novo vestibular para o curso de Artes Visuais, ainda que para custear os estudos tivesse de voltar a trabalhar no shopping. Agora, três meses depois que a mulher se fora e há sete anos do dia em que se conheceram, Pedro estava sentado na sala do aeroporto, em frente ao desembarque doméstico, esperando o retorno de Marta. Aproximando o rosto ansioso ao do filho sorridente, afastou o braço e clicou os dois. Depois, escreveu sobre a foto que postou do celular: “Eu e Alan, ansiosos, esperando você”. Antes disso, ele havia recebido de Marta uma foto da obra de um artista mexicano, cujo título ela traduzira: “Até encontrar outra Schwalbe amarela”. O artista havia andado com uma motoneta dessa marca durante três meses pela Alemanha, buscando outra da mesma marca e cor. Quando encontrou, registrou a imagem das duas juntas. Mais que a fotografia final, a obra era também ou, sobretudo, o próprio processo de busca, explicou ela. O avião pousou no pátio e, dentro dele, ainda na poltrona, antes de a aeronave parar completamente, Marta abriu um sorriso para o homem e o menino na foto, que lhe mandam beijos com as mãos.
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Coletivo 042
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om licença, diz o rapaz, acomodando-se no ônibus, ao lado de Michele. “Conseguir lugar sentado esse horário não é fácil”, diz ela, sorrindo, como se o conhecesse, pois sempre o via entrar no ônibus naquele horário. Ele concorda, mas diante dos lábios cor de rosa da moça fica em silêncio. Arruma a mochila no colo. O ônibus segue por uma ladeira comprida com a marcha de força acionada. Ela mantém o celular nas mãos de dedos longos e unhas azuis; a do indicador tem uma flor desenhada. Gil não consegue desviar os olhos dela. Um freio brusco faz cair o aparelho no assento entre os dois. Ele o recupera com rapidez e, ao fazê-lo, traz consigo a ponta do vestido florido dela. Uma coxa muito branca aparece na atmosfera azulada do veículo. “Epa”, diz ele, constrangido, e o celular vai ao chão. “Pode deixar, eu mesma pego”, diz ela, inclinando o corpo em direção ao piso do ônibus. Ele se levanta, deixando a busca dela mais livre. Naquela posição, vê os cabelos 31
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pintados de loiro escorrendo pelos lados do pescoço, e as costas tatuadas, que o vestido não cobria. Ao voltar-se à posição vertical, Michele encontra a mochila pesada dele no meio do caminho. “Ai, caramba!”, ela solta um grito. Todos olham para Gil. O ônibus para e ele se dirige com passos rápidos até a porta. Desce em uma parada que não é a sua. D. Janete, ao chegar à casa onde morava com a família, contou para uma das irmãs: — Um rapaz alto, bem moreno, bonito, mas com os cabelos grandes assanhados, sentou-se no ônibus ao lado de uma moça que estava à minha frente, tipo uma falsa loura, do cabelo alisado, sabe? Vi eles conversando e ela sorrindo para ele. Era bonitinha, ela, embora meio gordinha, cadeiruda. Sabe? Tinha as unhas enormes, eu vi pois não soltava o celular. Como todo jovem hoje, né? Ele parecia encolhido, e ela ocupava a cadeira toda em um vestido florido e muito curto. Provavelmente por isso que ele olhava tanto para ela. Como ela não percebeu? Para mim, ela sabia e estava provocando-o. Não sei o que aconteceu, mas eu vi que o vestido dela se levantou e ela falou alguma coisa. Fez que se assustou. O ônibus deu um freio, péssimo esse motorista, merecia uma queixa, mas quem tem tempo pra reclamar de tanta coisa errada? Daí o celular dela caiu no chão e ele tentou pegar. Mas ela foi mais rápida e apanhou o aparelho. Ele a agrediu com algo escondido na mochila e saiu correndo para a porta dos fundos. É assim, ninguém está mais a salvo nesses transportes, é tanta coisa que acontece… Gil, ao sair do ônibus quase correndo, preferiu ir andando para a casa de um amigo em vez de tomar uma segunda condução até em casa. Precisava de tempo para digerir o que acontecera. E enquanto tomavam uma cerveja, ele não 32
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parava de falar: — Fazia muito calor e as janelas do ônibus estavam emperradas. Eu estava em pé, como sempre, naquele horário. Um pouco adiante, vejo ela. Os cabelos pareciam mais louros e mais lisos. Diferentes. O passageiro ao seu lado se ergueu e eu me adiantei. Sentei com a mochila no colo e olhei para ela. Ela me sorriu e comentou alguma coisa. É ainda mais bonita do que eu pensava! Sempre a via no ônibus e nunca pude me aproximar. Tem que ser agora, pensei. Sentia a perna dela quase tocando a minha, o tecido macio e bem colorido. Não me ocorria o que lhe dizer, o ônibus parecia bem barulhento e ela não parava de olhar o celular. Via as suas mãos teclando, talvez estivesse falando com o namorado. De repente, o ônibus freou e o aparelho caiu entre nós dois, no banco. Eu o peguei e, não sei como, o vestido veio junto. Imagine o susto que ela levou. E eu, com que cara fiquei? Soltei o celular, que caiu ao chão. Ela se abaixou para procurá-lo, dizendo alguma coisa que eu nem entendi. Resolvi ficar em pé para facilitar a busca. Mas o pior aconteceu: quando ela se levantou, bateu a cabeça na garrafa de vidro com água polarizada que eu levava na mochila. Soltou um grito e todos olharam para mim no ônibus. Que vexame, eu quis sumir! Desci na primeira parada e andei até em casa. Não tenho sorte com as mulheres. Michele, a moça do vestido colorido que todos os dias pegava o ônibus 042, neste momento, ainda se deslocava pela cidade. Hoje, excepcionalmente, em vez de descer na esquina da Rua Bela Vista com a Napoli, seguiu até o Terminal e de lá pegou outra condução até o Bar do Anísio, para um happy hour com as amigas. Mas não conseguiu esperar para falar pessoalmente e ligou para uma delas. — Oi, amiga, tudo bem? Estou no caminho, viu? Mas 33
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preciso te falar: Sabe aquele moreno alto e bonito que eu te falei que sempre encontrava no 042, quando voltava do trabalho? A gente nunca conversou, mas tinha uns olhares... enfim, hoje rolou um encontro. — Nossa, que legal! — Pois é, quando ele se sentou eu fiquei toda animada e pensei: É hoje! Falei com ele alguma coisa, para puxar conversa, mas ele não disse nada. Eu sorri e ele só me olhou. E acho que é tímido, ou não estava em um bom dia, sei lá. Daí o meu chefe começou a mandar mensagens, que saco! Não entende quando acaba o expediente. O rapaz continuava calado, mas eu sentia que me olhava. Uma freada brusca do ônibus e o meu celular caiu no assento, entre nós dois. Daí ele foi rápido e pegou o aparelho. E então, amiga, sei lá se foi de propósito ou não, a sua mão levantou o meu vestido e quase me deixou nua! Imagina! Tomei um susto, claro! E sabe o que ele disse? Nada! Apenas falou um “Epa”. Sequer pediu desculpas, e ainda deixou o celular cair no chão. Eu, na hora, me abaixei para pegá-lo. E quando me levantei, bati a cabeça em sua mochila. Caramba, soltei um grito! Era uma garrafa de vidro! E o cara não teve nenhuma reação, você acredita? Ficou me olhando, com uma cara de bobo por trás de sua enorme mochila. Por sorte não aconteceu nada grave. Mas, poxa, o encanto acabou! O príncipe encantado virou sapo e desapareceu. Saltou. Quando vi, já não estava mais. E não era a parada dele. Isso eu sei.
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Passaporte para leveza
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inha quarenta anos e nunca havia feito uma viagem de férias sozinha. Uma grave crise conjugal a fez sair da zona de conforto e arriscar a dor ou o deleite da própria companhia. Agora, ela voltava para casa sentindo-se mais confiante e com melhor disposição para enfrentar a vida, que nunca é fácil, como lhe dizia a mãe. O avião sobrevoava o território brasileiro há uma hora, mas ela nem se dava conta, imersa na leitura de um romance de época. No momento, seguia atentamente uma carroça no século XIII, na qual viajava um barbeiro a curar, pela fé ou pela sorte, almas e corpos enfermos. Na poltrona ao seu lado, um homem moreno claro, magro, calvo e com ar circunspecto bebia vagarosamente a cerveja servida pela aeromoça, como se cada gole lhe ajudasse a deixar os próprios pensamentos e os músculos no modo pausa. Antes de acompanhar o barbeiro nas páginas do livro, as mãos daquele homem, com pelos bem distribuídos, haviam 35
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chamado a atenção de Lívia. A viagem transcorria normalmente, e os passos firmes da tripulação jovem e elegante que circulava pelo corredor em serviço de bordo pareciam evocar um terreno firme e seguro, fazendo-a esquecer que estavam a muitos pés de altura do chão. De repente, PLIM! — O aviso de apertar cintos. Lívia tirou os olhos da página para mirar em torno de si. Viu um casal sentado em uma fileira de cadeiras próximas, que se tocava com as mãos suadas, mal disfarçando a excitação, marinheiros de primeiro voo e na atividade reprodutiva, ela a ostentar uma redonda barriga, e ele, uns olhos assustados. Ao lado deles, um rapaz alto, de rosto e mãos finas segurava uma revista dedicada a pessoas bem-sucedidas, informando-se sobre o que pensava e fazia uma artista, bela, magra e rica, que mostrava um sorriso de dentes bem brancos e alinhados, em foto de página inteira. Antes de voltar ao livro, ela ouviu, sem querer, a voz monótona de uma senhora idosa que conversava com alguém sobre a neta que comprava demasiado, que era mais vaidosa do que lhe parecia adequado à sua idade e como isso afetava sua vida naquele momento. O aviso luminoso acendeu novamente — APERTAR CINTOS! —, seguido de mensagem de voz — TURBULÊNCIA! Pouco tempo depois, um estremecimento sacudiu a todos de um lado para o outro, e a aeronave, como se estivesse percorrendo uma estrada com grandes buracos, começou a movimentar-se aos saltos, deixando todos em silencioso alerta. Uma nova sucessão de movimentos mais bruscos e seu livro caiu ao chão. O ambiente se tornou tenso, exclamações se ouviam enquanto mãos procuravam agarrar-se nos assentos. Rezas e pedidos mudos encheram o espaço interno da aeronave, 36
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que não parava de balançar. Lívia se sentia inteiramente viva e totalmente presente naquele ambiente estreito e comprido, entre asas, entre nuvens. Como se toda a sua história estivesse em suspensão, segurava o ar no pulmão com medo de que ele lhe saísse como último suspiro. O avião embicou, em movimento para frente e para baixo, uma manobra perigosa que provocou a queda de objetos e gritos dos passageiros. Ela ouviu os gritos da mulher grávida em toda a sua perplexidade repetir: “Mi amor, mi amor!...”. A mesinha de sua poltrona, onde antes estava o livro, evitava agora que seu corpo se elevasse. Sentiu uma vertigem, e seu coração parecia haver se deslocado em direção à boca. Com olhos fechados, agarrou a mão do homem ao seu lado, ainda gelada da cerveja que antes tomava e que se esparramara no chão. Ele apertou firme os dedos dela e abriu mais os olhos como a saudar alguém com quem vai se viver a eternidade de um destino comum e agora tão provável — uma moradia grande e espaçosa no fundo do mar. Ela se perguntava se haveria tempo em sua oração para algum verbo do tipo redimir, justificar, esclarecer ou algo próprio de se usar em ritos de passagem. Mas não lhe ocorria nenhum pensamento importante, digno de ser registrado na hora da morte de alguém. Não lhe vinham retrospectivas, uma espécie de filme da vida em alta velocidade, conforme ouvira em relatos que falavam de um quase fim; tampouco sentiu que ainda havia algo imprescindível a ser feito, como lhe ocorrera anos atrás, quando pensou que vivia o seu último dia. Novas chacoalhadas, e a aeronave pareceu se estabilizar na altura, mas não no equilíbrio, e a agonia de todos permanecia, agora sob a forma de um silêncio abismal, cada minuto parecendo horas. Sentindo-se prestes a deixar a vida, ela imaginou seus dois 37
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filhos já adultos e todas as pessoas que amava alheios ao que ali acontecia, ocupados com suas agendas diárias. Aquela cápsula que mantinha os passageiros apartados do mundo, agora desgovernada no céu, pareceu-lhe uma antessala da morte, sem recepcionista ou alguém que requeresse dos presentes qualquer registro ou inscrição. Uma raiva impotente surgiu diante da impressão de absoluta insignificância e anonimato, o que a fez pensar que a sensação de morrer poderia ser pior que a morte em si. E então, como quem se pendura no único galho disponível em uma trajetória de queda livre, ela se agarrou ao pescoço daquele desconhecido. E o beijou. Sem tempo para falas ou explicações, ele correspondeu à sua companheira de viagem. Assim, de olhos fechados, cabeças e mãos juntas, eles permaneceram mesmo quando os movimentos bruscos da aeronave começaram a se espaçar. Uma voz anunciou o pouso próximo. Lívia sentia-se uma outra mulher. Muita coisa havia sido eliminada da sua vida em apenas poucos minutos. Havia apenas o desejo, aquela mão, que ela ainda segurava, e que, depois veio a saber, pertencia a Alex, um homem gentil, solitário e muito calado, que naquele dia sobrevoava um país desconhecido.
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Consultório sentimental
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lisa resolveu ir para casa mais cedo naquele dia, o ar-condicionado do escritório dera pane e estava cansada. Ela tinha pesadelos à noite, desde a sua recente separação, e nos últimos dias dormia na casa da mãe, onde sempre se sentiu protegida. Era a mais nova de cinco irmãos em uma família alegre e barulhenta, que sabia aproveitar as coisas boas da vida e evitar os problemas. Sentia-se grata por isso, mas, às vezes, culpava essa boa herança pela forma como adiava o enfrentamento de medos ocultos que a acompanhavam, sabotando a sua alegria. Um dos seus medos era o de espaços abertos e bem ventilados; evitava, também, lugares muito movimentados e barulhentos, com muitas pessoas e veículos circulando. Por sorte, ao pisar na calçada em frente ao escritório, logo parou um táxi, após um aceno seu. Sentou-se no banco de trás, aliviada pela temperatura fresca que poderia desfrutar até sua casa, sentindo-se mais segura e confortável naquele ambiente fechado. 39
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Assim que informou o destino ao motorista, ele, que não possuía máquina de cartão, lhe perguntou se ela dispunha de dinheiro trocado. Olhou-o surpresa, e ele, com um sorriso simpático: — Estou separado há pouco tempo da minha mulher, e o meu filho, muito chateado, não deixa um centavo em minha carteira. Menino danado! Puxou ao gênio da mãe! — completou, antes de fazer uma pausa quase imperceptível para ver se vinha alguma reação do banco de trás. E continuou, mesmo sem ela ter se manifestado: — Não fui eu quem quis a separação. A mulher, do nada, botou na cabeça que não dá mais certo. Estou perdido! Afinal, foram catorze anos juntos, um filho, uma história em comum. Brigamos sim, mas qual o casal que não tem problemas? Acho muito triste voltar para a casa da minha mãe, com quarenta anos, mas agora faço companhia a ela, já idosa — prossegue falando, olhando para ela pelo retrovisor. Elisa fecha os olhos para desencorajá-lo a continuar por aquele terreno íntimo e experimenta uma espécie de vertigem ao sentir o carro em movimento. Mas ele continua, determinado: — Sabe que eu ainda gosto dela? Ainda não consigo desistir, mas, como foi ela quem quis se separar, fica difícil. Eu tenho para mim que esse negócio de Facebook, WhatsApp, essas coisas de agora não são boas para o casal. As amigas postam coisas e fotos que deixam as outras com inveja. As mulheres ficam exigindo demais dos maridos. Enquanto o motorista continuava a falar, ela abriu os olhos a tempo de observar, pelo vidro dianteiro do veículo, um casal de namorados atravessando a rua, de mãos dadas. Viu que ele não diminuiu a marcha e quase gritou assustada, mas não 40
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chegou a dizer nada. Os jovens haviam voltado para a calçada, temerosos um pelo outro, após um desencontro de tempos e avaliações da travessia. — Olha aí, é assim que morre o casal. Ninguém mais confia em seguir junto, disse o homem, sem reduzir a marcha do veículo e tentando fazer piada. Depois, sorriu descontraído: — É brincadeira, não ia acontecer nada... Elisa agora fingia estar adormecida, até sentir o veículo ganhar velocidade na Avenida Garibaldi. Só então abriu os olhos para apreciar melhor os ipês-rosas do canteiro central que sabia estarem floridos nessa época e que, por alguns momentos, desfilaram majestosos pela janela, em uma breve cena urbana que até o falante motorista admirou, em seu breve silêncio. Com todos os semáforos em verde, o veículo chegou ao Rio Vermelho, bairro em que ela vive há nove anos, e diminuiu a velocidade ao passar por uma rua pavimentada com paralelepípedos. Sentindo-se refém e com olhos atentos ao percurso, Elisa sabia que devia fazer algo, sair da passividade em que se encontrava, mas não se movia. Olhou para o retrovisor buscando mais referências do seu condutor e viu duas sobrancelhas grossas a se juntar sobre dois olhos que pareciam grandes e inocentes. Um sentimento de empatia a tranquilizou. Ela própria vivia momentos dolorosos por uma separação que não envolvia filhos ou bens comuns. E sentia-se um pouco triste e amedrontada. Teve pena daquele homem, confuso e perdido, na tentativa de entender os desacertos da sua vida amorosa. — Homem não gosta de perder o que é seu. Mesmo quando faz bobagem e até quando não quer muito o relacionamento — disse o motorista, após uma breve pausa. — Acho que é por medo de ficar só. 41
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— O senhor vai virar à esquerda — lembrou ela. — Mulher é mais corajosa — disse ele após frear o veículo para fazer o que ela lhe indicava. O semblante de Elisa voltou a se contrair. Passaram ao lado do rio que dá nome ao tradicional bairro, mas que corre triste e confinado no lugar em que antes se fazia largo e espaçoso. Ela não via as suas águas, mas sentia o seu cheiro de esgoto. — Por favor, o senhor siga o rio e depois vire à esquerda — pediu, apontando para um canal de concreto, entre duas pistas. — Também, não vou negar, eu já aprontei algumas. Homem faz isso; não sei se todos, mas a maioria. E eu caí em tentação várias vezes. Não é que o sexo fosse ruim. Não, entre a gente a coisa sempre ia bem. Mesmo depois que o menino nasceu, isso não mudou muito. Enquanto o homem falava, os olhos dele acompanhavam uma jovem que seguia pela calçada levando um enorme cão pela coleira. Elisa sentiu um frio no estômago. Percebeu-se confinada em um espaço pequeno e móvel, conduzida por um estranho, de cuja sanidade mental não tinha qualquer garantia. Tinha cara de boa gente e parecia mesmo alguém que sofria. Parecendo adivinhar-lhe os pensamentos, ele falou: — A senhora me desculpe. Estou lhe incomodando? E continuou: — Ela era linda. Um pouco cheinha, é verdade, mas eu não ligo para isso. A gente se conheceu na porta do Colégio Central, onde ela estudava. O pai dela não queria, mas teve de aceitar, porque ela não desistiu. Eu sinto a falta dela e até das nossas brigas. A voz dele agora soou diferente, como a de alguém prestes a chorar. Já se sentindo perto de casa, Elisa ficou mais tranquila. — O senhor pode diminuir a marcha que o meu prédio é 42
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logo ali, na próxima quadra. Enquanto ele obedecia, ela continuou: — Olha, moço, não se preocupe, a separação é dolorosa, mas posso lhe garantir que a vida volta ao normal. Eu mesma estou passando por isso e, a cada dia que passa, me sinto melhor sozinha. — A senhora não pensa em voltar com o seu marido? — Não, de jeito nenhum! Fui eu quem quis me separar. Então, com o veículo já estacionado, Elisa assistiu atônita ao motorista desabar no choro, curvado sobre o volante. Esperou por alguns instantes ele se recuperar, com o pagamento da corrida suspenso no ar, sem saber o que fazer. Depois, tocando timidamente o ombro dele, falou: — Moço, tudo é passageiro. Logo, logo, o senhor vai ficar bem, tenho certeza. Olha aqui o dinheiro, e o troco dê para seu filho, mas não brigue com ele, tá? O homem se recompôs rapidamente, pôs a mão sobre a dela e, olhando para ela com olhos molhados, disse: — Agradeço muito o seu apoio. O que a senhora quiser, pode me chamar e estarei aqui a seu dispor. Tome aqui o meu cartão. Puxando a mão para si rapidamente, sem olhar para ele, Elisa abriu a porta e se curvou para sair do veículo. Mas antes ouviu: — Obrigado, linda! Elisa esperou o táxi seguir pela rua até sumir em uma esquina. Caminhou rápido mais uma quadra até o prédio onde morava sua mãe e entrou em casa com uma certeza. Precisava urgentemente comprar um carro!
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Muros líquidos
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epois das tantas idas e vindas que constituíam o seu costumeiro itinerário da manhã, sentara-se ali, já não sabia desde quando, perdida há décadas. Daquele muro à sua frente, ela já havia esquadrinhado suas medidas, percebido seus volumes, apreciado suas cores e fixado seus mínimos detalhes. O muro baixo e despretensioso crescera lentamente aos seus olhos e, em vez da foto 3x4 que sempre fora, transformara-se no cartão-postal daquele dia lamacento e triste. Nada tinha de especial, mas crescera há mais ou menos dois metros de distância do hemisfério esquerdo da varanda, único local iluminado pelo sol naquela casa, parte do mundo que um dia comprara ao chegar naquela cidade. Aquela construção lhe parecia agora um organismo incrivelmente complexo. Suas partes não eram iguais, e a homogeneidade banal do todo não resistiu ao olhar atento e cuidadoso 45
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que ora lhe dedicava. Em algumas áreas, a massa de cimento que unia as pedras de arenito rosa parecia mais densa e mais escura. Em outros locais, já não se alojava certinha entre dois blocos de pedra, mas se derramava desatenta e fluida. Havia ainda alguns lugares em que a argamassa cinza se espalhava grosseiramente, espatifada, como se houvesse sido vítima de um gesto não calculado ou cheio de ira. Como boa cozinheira que era, sempre pensava: “A boa receita não garante inteiramente o produto; havia os suores e os humores”. Provavelmente, também sabiam disso os pedreiros. Na região central daquela construção, algumas pedras se sobressaíam oferecendo sem pudores ao sol as rugosidades e as saliências da sua geometria. Levantou-se da cadeira movida por um impulso de tocá-las, como se quisesse colocá-las de volta ao alinhamento e eliminar daquela superfície mural qualquer figuração. Olhando para ele, pensou em uma frase conhecida: “De perto, ninguém é normal”. E como que dialogando com alguém, retrucou que o mais adequado seria: “De perto, nada é igual”. Tudo bem, não havia ninguém para lhe contestar mesmo. “Ficamos de acordo, então”. Foi em direção à pedra mais saliente, mas, ao aproximar-se, sua atenção foi fisgada para um mundo de acontecimentos estranhos e novos figurantes. Uma, duas, três... várias formigas escalavam um dos lados da pedra. Com esforço, iam chegando organizadamente, uma de cada vez. A cena se estruturava assim: de um lado, uma pequena concentração de pontos minúsculos formava uma mancha escura e frenética; do lado oposto, bem no extremo da pedra, ou à beira do precipício, uma única e solitária formiga constituía um ponto negro imóvel, do qual se destacavam apenas antenas em movimento. 46
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À espera de novos acontecimentos, a mulher observava a solitária formiga em angustiante indecisão. Seria uma duvidosa e solitária desistência da banalidade da vida de inseto? Um gesto de desespero diante de sofrimento maior que o suportável? Quem sabe, estivesse diante de uma espécie de linchamento a um modo não humano? Estariam, então, uns a exigir a morte de outro ser de sua espécie, ou induzindo-o a isso, por atitudes transgressoras ou consideradas negativas à sobrevivência de uma vida comunitária? Essas e outras perguntas de igual dramaticidade povoaram a mente ágil daquela mulher, a dar cores escuras aos fatos. Mas, em seguida, como se uma luz cálida redefinisse a cena, suavizando seus duros contrastes anteriores, ela cogitou, ainda que debilmente e quase a contragosto, que a solidão, o desprezo, o rechaço, a exclusão, a baixa autoestima e todos os outros sentimentos presentes em sua interpretação da cena formigueira não estavam lá, no muro. E duvidou se haveriam seus olhos escolhido, sem saber que o faziam, um único feixe de possibilidades de leitura, retirando daquele animal solitário a mexer as antenas a possibilidade de ser protagonista de outras versões mais alegres e até festivas da cena presenciada. Ao dar a meia-volta, essa dúvida que crescia em seu adentro lhe chegou ao peito e, por fim, aos olhos, liquefazendo-se. Então, ela sentiu o peso e o volume (mas não ainda o conteúdo) da tristeza que há muito carregava incógnita, por não saber identificar-lhe as causas. Esse sentimento, como uma presença sorrateira e subterrânea, projetava sombras, como refletores ao revés, em tudo o que os seus olhos tocavam. Seres racionais tendem a considerar realidade apenas aquilo que podem entender, e essa é a sua maior desgraça e pequenez — o perceber-se tão maior que uma formiga a escalar um 47
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muro —, ela pensou. A verdadeira grandeza humana estava soterrada sob a falsa dicotomia entre observador e objeto e tudo o que supunha estar entre ele e o mundo. Nada era sempre o mesmo. Cada olhar era uma construção feita de cimento e sentimentos; de matéria concreta e da energia associadas ao sentido que era atribuído, individual ou coletivamente, ao que era visto. Aquele muro, antes um limite ou uma separação, agora não era senão a passagem rugosa e cheia de arestas que a conduzira às profundezas dos seus porões. Quando retornou à cadeira, o céu de nuvens esparsas daquele dia de maio surgiu nítido e luminoso. Fechou os olhos sem muros. Sim, agora o via.
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Este canto é meu
U
ma senhora idosa levantou-se da cama, arrastou os chinelos até a cozinha, tomou um gole de água e dois comprimidos para dormir. Fazia algumas horas que uma música frenética ecoava em toda a cidade. Em uma rede desbotada no fundo da casa ela esperou a droga fazer efeito ao som de “é o fim da nossa cama, não vale mais o drama, foi você que escolheu, agora eu vou em frente porque a fila anda, a fila anda…” Na casa vizinha, a mãe sacudia nervosamente o filho desperto e assustado. Às vezes, ela lhe cobria os ouvidos com as mãos em concha. Agora ela tentava cantar junto com o som eletrônico que entrava por todos os poros da casa “sai da toca, menina, quero você em minha vida …” De vários pontos da cidade, pessoas atônitas ligaram para a delegacia de Polícia reclamando do grave e onipresente compasso que fazia tremer os alicerces em Santa Maria. Josué, o cabo de plantão, depois de repetir várias vezes “vamos averiguar o 49
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caso e tomar as devidas providências”, não teve outro remédio senão levantar da cadeira e ir fazer o que dizia. Na única praça da cidade estava estacionado um carro preto importado, com um símbolo prateado brilhando ao sol e o porta-malas aberto. Em volta dele, quatro rapazes, todos com um copo na mão, pareciam se divertir com o espanto que causavam naquela cidade pacata. Um deles, de cabelos cortados mais curtos nas laterais e rosto comprido, ao ver o homem franzino e fardado se aproximar, inflou o peito musculoso de modo que a camiseta justa ganhou em largura e perdeu em comprimento o suficiente para revelar o cabo do revólver que trazia na cintura. A imponência do carro, a placa de fora e a arma tiveram um efeito imediato sobre a disposição do cabo, que atravessou a rua de paralelepípedos sentindo-se diminuir até chegar junto ao grupo. — Boa tarde, eu vim aqui…. — Veio por que mesmo? Não me diga que é proibido ouvir música neste fim de mundo? — Não, o que é isso, eu só queria pedir aos senhores para baixar um pouco o som. Só um pouquinho — falou com uma voz trêmula, unindo os dedos polegar e indicador. Os homens que estavam em frente ao Bar da Praça viram os rapazes dar risadas enquanto o cabo sumia apressado, ao som do refrão da música “você está louca por mim, mas agora eu disse fim”, seguido de queixas e lamentos sobre um amor perdido e jamais esquecido. Tudo isso misturado ao forte cheiro de carne de carneiro e queijo frito. Aquilo prometia algo mais que o tédio costumeiro, pensou Jonga, ao encher o primeiro copo, em sua mesa favorita em frente ao bar Floresta, do outro lado da praça. Ele era o 50
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alcoólatra mais famoso da cidade, temido pelas loucuras que fazia como motoqueiro e admirado pelo jeito diplomático e educado, que nunca perdia, em qualquer situação. Dizia-se que era filho de um homem muito rico, que tinha sido renegado pela família; o certo é que há cinco anos vivia sozinho em um sítio nos arredores de Santa Maria. Observando o grupo, Jonga serviu-se de um gole. — O som desta caixa preta furiosa tem o mesmo alcance em distância que os morteiros dos navios holandeses que atacaram Santa Maria pelo mar, em 1638. Por acaso, agora estamos sendo invadidos por terra? — Os holandeses eram um povo educado, aliás, foi uma desgraça nossa eles não terem conseguido vencer os portugueses. Esta rapaziada está mais para bárbaros invadindo a civilização — ele mesmo respondeu. — Civilização, Santa Maria? — falou o seu companheiro de tragos, um cara magro, de nariz enorme e olhos saltados, conhecido como Adelão. — Você já se esqueceu da surra que levou o Gomes, coitado, aqui na praça mesmo, só porque bebeu e resolveu andar como veio ao mundo? Acho eu que o caralho deste artefato sonoro é coisa de gente primitiva. Melhor o povo de Santa Maria começar a tocar os tambores e colocar as máscaras para afastar os inimigos. Vamos assistir, meu amigo, a uma luta tribal! — deu uma gargalhada. As casas de Santa Maria pareciam ainda mais unidas em torno da praça. Janelas e portas fechadas, àquela hora do dia, realçavam seu ar de presépio colorido sob um céu sem nuvens. Até os cachorros que costumavam se espalhar por ali haviam sumido, e ao lado da única mesa ocupada do bar estava apenas um cão velho que desde a morte do dono tinha mania de dormir embaixo dos carros. Agora ele estava acordado, e atento. 51
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Duas garotas se dirigiam à “Nalvinha lanches”, uma delas com uma mochila, e, ao passarem pelo grupo, um dos rapazes as conduziu, envergonhadas, até o carro. Uma das meninas queria ir embora, mas teve que dançar. A outra agora dançava com um baixinho de pernas arqueadas, ao som da música: “Se tu não sabe o que quer, eu sei o que te dar… Para ser minha mulher, vai ter que rebolar.” — Olha, Jonga, primeiro foi o regimento de farda e agora alguém da inteligência; duas espiãs foram introduzidas no agrupamento inimigo. Estão se fazendo de difíceis, mas toparam a parada. Uma das moças tentou sair, mas foi puxada pela mão pelo rapaz que portava o revólver e que parecia ser o líder do grupo. — Os outros riam. — Cara, isso é um sequestro, não vê? A guerra só está começando. — Jonga fez uma careta. Apertando os olhos e levantando os óculos escuros, Adelão gritou: — Olha lá, agora temos em campo a diplomacia, alguém resolveu negociar. Um homem idoso se deslocava pela praça ao lado do coreto malcuidado, em direção ao grupo de rapazes. Talvez não se trate de negociar, mas de apelar para a piedade — pensou Jonga ao ver a cena. Porém, o ritmo seguro dos passos comandados pela bengala que avançava como um batedor apressado chamou a sua atenção. Se arrumou na cadeira curioso. O homem chegou junto ao carro e pronunciou algumas palavras, que se perderam, abafadas pela música estrondosa. Ele não desistiu. Se aprumou e, do alto da magreza que o cinto amarrava ao meio, falou com a voz potente para todos ouvirem: — Boa tarde, amigos, eu sei que o som de vocês é muito bom. Mas, se não for incomodar, eu queria pedir para 52
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analisarem o volume. — E por que a gente deveria fazer isso, vovô? — Eu perdi a vista e não pude fazer nada, foi Deus quem quis. Em compensação, me deixou os ouvidos muito bons, e isso eu não posso perder. — E eu com isso? Ah, quer saber, saia daqui agora seu ceguinho gagá — falou um dos rapazes. — Vá, aproveite que estamos de bom humor — disse outro. O homem encarou o vazio com o rosto vermelho de raiva. Levantou a bengala do chão e andou com ela apontada para frente. O conjunto ganhou uma velocidade inesperada até o fundo do carro. Um dos rapazes, surpreso, ainda tentou detê-lo, inutilmente. A bengala desceu firme sobre a caixa de som, deixando-a muda e arruinada. Quase no mesmo instante, ouviu-se um estampido e depois um baque. O velho homem caiu ao solo, como um pacote de ossos desconjuntados, e ali ficou. Imóvel. A bengala atirada ao longe, os olhos abertos a enxergar o nada, uma perna para o lado e um fio de sangue escorrendo pela testa até o chão. Os rapazes do grupo pareciam paralisados. As portas foram se abrindo aqui e ali. O agressor olhou em volta, sentindo o silêncio pesado ao seu redor, e em seguida, o vozerio de homens e mulheres que chegavam de todos os lados da praça. — O que fizeram com seu João, seus desgraçados? Alguém com um porrete na mão, gritava: — Não deixem os marginais fugirem, acabou a festa! O rapaz forte empunhou a arma e com os olhos meio esbugalhados mantinha as pessoas do lugar à distância, enquanto seus companheiros moviam-se rápido até o carro. Ele foi o último a entrar no veículo, que arrancou em disparada, com o porta-malas aberto, pela via principal, deixando atrás 53
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de si um rastro de poeira. Jonga e o amigo se surpreenderam ao ver que iam em direção ao mar, e não à rodovia. — Esta rapaziada tá mais pra animal em busca de fêmea. Parecem pássaros em busca de acasalamento. Mas acham que é a potência, e não o canto mesmo que cativa as bichinhas. — Sei não, às vezes o cara tem tudo, mas sente falta de emoção... Jonga colocou a mão na boca, mas não conseguiu conter uma tosse velha. Depois ficaram calados, observando o movimento dos grupos que se formavam na praça. Mais de vinte homens em quatro carros partiram em direção à rodovia. Na saída da cidade montaram uma barricada.
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Uma nova cosmologia
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oi num sábado, ao meio-dia, à vista de todos, em plena praça. Ela gritava a todos os pulmões. As palavras se deslocavam como fragmentos soltos de uma construção, em dias de tempestade. Xingamentos e expressões chulas voavam como pedras desencaixadas de um muro que ela própria construíra. Os vazamentos continuavam a se suceder também por gestos inusitados: ela levava as mãos aos cabelos, mexia as cadeiras, dava voltas em torno de si, apresentando um sorriso desvairado e quase selvagem de fêmea no cio, em pleno exercício de sua natureza. Os cabelos, agora soltos e eriçados, se elevavam acima da cabeça morena, desgalhados, e se desmanchavam em ondas negras a se chocar nos ombros, braços e pescoço, ao ritmo de suas gargalhadas. Desarvorava-se. Destituía-se de raízes, abdicando de qualquer parcela de terreno firme. Refazia o caminho traçado pelo medo, desconstruindo 55
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cada trecho. De lugares mais difíceis, saíam restos de infância incrustados de meias-verdades. Alguns lamentos que haviam se solidificado ameaçavam desfazer-se em pequenos gemidos, enquanto ela dançava freneticamente, agitando aquele lugar pacato. Algumas pessoas haviam interrompido sua marcha rumo a algum lugar para se juntarem em um círculo curioso. Com os olhares presos em cada movimento daquela mulher, a assistência, masculina em sua maioria, esperava sem saber o quê, imobilizada por um impulso ancestral, biológico ou cultural, que não se preocupava em desafiar. Caíam-lhe pelos braços as alças da blusa. Sob ela, suas carnes tremulavam, e os dois seios se alternavam em idas e vindas, desencontrados. Ouvem-se assovios e palmas. Ela abre os braços e parece convidar o mundo para o seu espetáculo particular. De repente, a plateia atônita se divide entre o delírio e o desconcerto. Ela, de pronto, havia tirado a blusa, expondo os seios, e em seu colo, entre os dois mamilos, assinaladas por duas setas, estava escrito, em letras garrafais, as palavras vistas por todos: ALIMENTO O MUNDO! Certa tensão se fez, aumentando a necessidade de ar. Exclamações e gritos dos presentes, agora em número bem maior, vindos de ruas próximas até onde os rumores haviam alcançado. As flores do tecido eram manchas de cor em movimentos líquidos, ao som que só ela escutava, enquanto as suas pernas se ocupavam em apoiar as ancas, ora para um lado, ora para o outro. Em sua dança louca, ela começou a abaixar a saia, primeiro bem devagar, como se lhe fosse custar a vida revelar aquela verdade conhecida por todos, porém negada, escondida, 56
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esquecida e aviltada. Seus olhos se fecharam por um momento, sentindo-se fraca para tão grande tarefa, como provavelmente um dia se sentiu quem revelou que o Sol não girava em torno da Terra. Tomou coragem e, tirando do ventre toda a sua força e dele também toda a roupa, fez a sua saia resvalar pelas pernas, expondo a outra metade do corpo. Acima da virilha negra e escura como uma mata virgem, para ela apontava uma seta; e, para ausentar dúvidas, uma frase sobre a pele morena dizia: DOU ORIGEM AO MUNDO! Antes, ela estivera em uma delegacia de polícia, onde fora denunciar o homem com quem se casara há doze anos, com o qual tivera dois filhos e a quem não podia mais amar. Com o corpo machucado, havia se apresentado com um casaco por cima de um vestido rasgado, a atestar mais uma violência que sofrera, dessa vez por ter saído de casa com uma roupa que lhe parecera confortável para o calor sufocante daquele dia, mas cujo decote ele não aprovara. Dois guardas se aproximavam do local com passos firmes, decididos a proteger a moral e a manter a ordem. Um tremor percorreu o corpo da mulher ao pensar em voltar para aquela repartição policial, para outra vez se sentir humilhada e desprestigiada. Dane-se, não mais suportava uma cidadania de segunda classe, um tutorado perverso que lhe concedia uma liberdade vigiada, controlada e reduzida, mesmo sobre o seu corpo, seus anseios e sua libido. Partira para o confronto direto, escancarando-se ao mundo, não por ideologia, feminismo ou outros -ismos, mas porque aquele foi o caminho curto percorrido naquele dia pelas suas emoções reprimidas, fustigadas até a exaustão. Talvez soubesse, inconscientemente, 57
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que um gesto era melhor que qualquer argumento para transformar algo dentro de si. Abordaram-na os guardas, e ela levantou as mãos rendendo-se, vitoriosa, e exibindo um olhar límpido de quem fez uma faxina, removendo as algemas que lhe impediam de apropriar-se de seu corpo, seus sonhos e sua importância. A plateia, então silenciosa, assistiu à mulher ser levada, não sem certa surpresa e um visível constrangimento. Ao caminhar em direção à viatura, ela, de cabeça erguida, deu as costas ao público, oferecendo a última cena aos seus celulares e, depois, ao mundo, levada pelas redes sociais. A foto mostraria uma mulher morena, de corpo nu, algemada, entre dois policiais. Em suas costas se lia: ESTE CORPO É MEU! Em uma sala aquecida, em outro lugar do mundo, uma mulher jovem, com o corpo tatuado e um piercing na língua, ao ver aquela imagem postada por uma amiga, se pergunta vagamente: “E alguém ainda duvida disso?” Simultaneamente, em outra parte do planeta, uma mulher de olhos negros e com um lenço na cabeça cobrindo os longos cabelos enrubesceu ao ver a curiosa cena, antes de fechar apressadamente o computador e voltar à cozinha.
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Relatos de uma breve visão
E
ntre outros gostos, ele tinha um interesse sincero por casas antigas, pelas camadas de risos, choros e silêncios que acreditava abrigarem-se na pátina densa do tempo que se incrustava em paredes e frestas, habitando seus espaços ocos. Entendia as casas como repositórios de saberes, acadêmicos ou não, em constante dinamismo, um testemunho silencioso das transformações urbanas e da sociedade. Pensava nisso enquanto sentia, ali, parado, um mal-estar no peito, ao olhar o terreno exposto em tons laranja com texturas de máquinas, no lugar onde existia uma casa térrea, situada bem em frente à sua, na rua em que vivia desde que nasceu. Um muro provisório de chapas metálicas e uma placa de grandes dimensões propagavam o futuro daquele lote bem localizado e de entorno nobre, em cores vivas, sorrisos jovens e tons azuis de piscina e mar, para todos aqueles que pudessem pagar por aquele sonho anunciado. Sim, dali do terreno se veria facilmente o mar, ele constatou, surpreso por 59
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nunca haver pensado nisso quando via aquela casa. Demorou-se pensando nos futuros moradores dos últimos andares e achou que, além de uma visão privilegiada da cidade, eles possuiriam uma mobilidade mais fácil no mundo, não apenas pelo número de garagens ali anunciadas em destaque. Comparou-os a pássaros inquietos que esvoaçam livremente pelos galhos altos das árvores, em contraposição a outros animais como as lesmas, que se movem pela terra com lentidão. Ao deitar-se, ainda pensava naquela velha casa, nas histórias secretas de seus habitantes. Fechando os olhos, sentiu-se, a contragosto, tomado por sons e imagens que obstruíam a zona da consciência liberando as amarras do encantamento e da fantasia. E foi assim que ouviu o relato que se segue: Eu era uma casa desde meados dos anos 1970, quando, neste bairro, o verde ainda predominava quase absoluto, as águas da chuva penetravam no solo e também circulavam pelos canais dos fundos dos vales, como sempre fizeram desde que o mundo é mundo. Poderia constar na página imobiliária de qualquer jornal da época como uma ‘casa de família’ de padrão bom, três quartos, suíte, sala, varanda, dependências e copa/cozinha, com terreno de 400 metros quadrados. O desenho nada tinha de original e fora copiado de uma revista, com algumas modificações. Na essência, era uma casa funcional, setorizada, de inspiração modernista, mas o telhado e o piso de cerâmica rústica, o beiral e as janelas do tipo guilhotina faziam alusão ao colonial. Sabia que era uma mescla de estilos sem personalidade, e não uma presença identificável ou singular, como poucas da mesma rua. Com certo constrangimento e nenhuma dificuldade, me plasmei no verde frondoso do entorno e me sentia bem assim. 60
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Meus primeiros ocupantes chegaram apressados quando parte de mim ainda era tijolo e cimento, dispostos a poupar o resto das economias de que dispunham para garantir-me uma forma habitável. Ruidosa e alegre, a minha primeira família era composta de um simpático casal, três filhos (duas crianças e uma adolescente). De todos eles, a Maria José (peço desculpas por não lembrar o nome de todos), uma ajudante doméstica já quase de meia-idade, com suas mãos rápidas e experientes, me marcou pela forma como limpava meus compartimentos e superfícies com a disposição de quem precisa e com o gosto de quem aceita o desafio da idade. Nessa primeira versão de mim mesma, havia uma copa, espaço que não tinha o status da sala de jantar nem a importância crucial da cozinha, com a qual se comunicava por meia-parede. Mas era ali, lembro bem, que se reunia a família, três vezes ao dia, e, em suas paredes vitrificadas de azulejo azul claro, os segredos familiares não pronunciados reverberavam até se tornarem outra coisa. Foi o caso da gravidez imprevista e do casamento acordado da filha mais velha do casal, Marília, aos 17 anos, resolvido sem choros nem alegrias. Em quinze anos, vi as crianças se tornarem adultas e o casal aumentar de volume e de patrimônio, enquanto a alegria e a paciência entre si tornavam-se cada vez mais raras. Assisti à decrepitude de Maria José com o seu onipresente radinho de pilha, e de quem não tive mais notícias, desde que, num domingo de março de 1988, me vi fechada para reformas, após ter sido vendida. Tornaram-me outra. Portas e janelas de madeira foram substituídas por esquadrias de vidro e alumínio, paredes receberam massa corrida e tinta especial. A copa deixou de existir e foi integrada à cozinha. Um dos quartos uniu-se à sala, que por sua vez abriu-se, por uma ampla porta de correr, 61
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para a área dos fundos. O espaço do antigo quintal ganhou novo paisagismo, e uma das suas passagens laterais foi fechada para comportar um canil. O casal de médicos (Dr. Fernando e Dra. Meire) estava sempre fora de casa, e seus dois filhos adolescentes (Saulo e César) viviam envolvidos em atividades esportivas. A presença mais constante era Kadu, um pastor-alemão. Várias empregadas se sucederam, mas apenas uma delas ficou gravada em minha memória: a Dalvinha. Ela adorava plantas e pássaros, e dedicava parte do seu tempo a preencher superfícies desocupadas do terreno para fazer dali brotar cebolinhas e coentros, rosas e outras flores. Alimentava tudo com amor e casca de ovo, sob o olhar atento do cachorro e o desinteresse da patroa, que, como o marido, dedicava à profissão o melhor do seu tempo. O almoço era rápido e nem todos comiam à mesma hora. A televisão sempre ligada marcava, com a sua programação, o ritmo da casa com um som homogêneo e perturbador, geralmente interrompido por latidos e buzinas de carros, cujo trânsito se intensificava ao nosso redor. Quando um filho casou e o outro foi morar fora do país, o casal mudou-se para um apartamento e a Dalvinha levou consigo o cachorro, para não vê-lo em mãos desconhecidas. A partir de uma tarde de verão de 2005 até o inverno daquele mesmo ano, permaneci fechada. Formigas e outros insetos passeavam livremente por plantas secas, ervas daninhas e por toda parte. Internamente, os armários habitados por cupins tornavam-se mais leves a cada dia, ao mesmo tempo que pesava o ar umedecido pela falta de luz. Dessa vida miúda e interativa, fui mais que apenas território, fui também alimento com o meu corpo em decomposição. Finalmente, um dia, novos habitantes chegaram arejando-me 62
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os cômodos que cheiravam a mofo, como se, naqueles gestos, as suas almas também se abrissem ao mundo renovadas e, por meio de mim, vislumbrassem uma nova vida. E logo o mundo parecia desfazer-se em água, tinta, inseticida, detergentes e vernizes, rompendo a cadeia de nascimento e morte que era a minha deterioração. Minha aparência externa se iluminou com um amarelo ouro contrastando com a vestimenta roxa da buganvília que sobrevivera ao abandono e, desde então, me namorava o telhado. À minha frente, a parte de gradil deu lugar a uma alvenaria cega mais alta, e um porteiro eletrônico instalado em suas entranhas passou a intermediar a minha relação com a rua. Os novos moradores eram um casal de idosos, Sr. Joaldo e D. Irene, sua filha divorciada e um par de netos gêmeos que estudavam para o vestibular. Traziam também um papagaio e um canarinho de estimação, que acrescentaram novos sons ao quintal, frequentado apenas pelo Sr. Joaldo. Três anos mais tarde, após um assalto nas redondezas e muitas precauções, reativaram o velho canil com a presença de um cão de guarda intolerante, que ficava preso durante o dia destilando sua raiva em latidos que acompanhavam sistematicamente qualquer manifestação sonora do papagaio. Naquela época, parte da área verde do quintal foi substituída por um cimentado duro e áspero, mais fácil de manter, segundo disseram. Após um período de doença no qual o ar tornou-se triste, o Sr. Joaldo ausentou-se para sempre, deixando a sua companheira inconsolável. Mais ou menos seis meses mais tarde, quando alguns sorrisos e ruídos cotidianos haviam se restaurado, eu me vi de novo vazia e escura. As cortinas foram deixadas cerradas, a assinalar-me como uma espécie de túmulo, muito embora recebesse visitas de potenciais moradores. 63
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Uma transformação radical em minha aparência e a instalação de um letreiro luminoso me deixaram apta a uma nova função. O muro desfeito permitiu o contato direto com a rua. A varanda, agora envidraçada, tornou-se uma vitrine que me expunha sem pudor aos transeuntes. Para tanto, acharam necessária a derrubada da enorme cássia-azul, que há vários anos havia sido plantada pelo primeiro morador na minha calçada e que soltava flores em meu regaço. Paredes foram retiradas, e a minha organização interna se estruturava, então, em dois grandes espaços interligados, um escritório e um depósito. A área do jardim em frente foi pavimentada para servir de estacionamento a clientes motorizados, e a parte posterior caiu no ostracismo, depósito de inutilidades. Esse novo status me manteve disponível aos olhos e ao deleite do público feminino durante pouco tempo e teve o seu limite no dia 22 de um maio ensolarado do ano de 2010, quando o movimento de fregueses, que já vinha escasseando, cessou de vez. Mais uma vez, encontrei-me desabitada. Antes que me acostumasse com a minha nova fase de latência, operários silenciosos e rápidos retiraram tudo o que em mim podia ter algum valor no mercado. Depois disso, assustada, passei a sonhar com a visita de famílias, que haveriam de chegar animadas e me fariam de novo sentir-me segura em suas mãos, como parte de seus sonhos e de seus projetos de vida. Por duas semanas, estive encerrada a exalar a memória de tudo e de todos que por mim passaram, a vasculhar vestígios de histórias antigas, a sentir cheiros pretéritos, a ouvir vozes póstumas. 64
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Em algumas manhãs, quando o sol incidia mais forte e brilhante sobre a buganvília teimosa e ainda faceira, eu tinha espasmos de esperança e acreditava nas imagens fortuitas do outdoor ali fincado; esperava que uma família linda como a que ali estava exposta me trouxesse de volta ao mundo das coisas habitadas e tocadas. Mas elas não chegaram... E também não vieram cachorros ou pássaros...
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Um salto no caminho
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perna da passageira acomodada graciosamente sobre o joelho deixava o sapato de salto alto apontado para o corredor entre as cadeiras do ônibus, obstruindo a passagem e oferecendo-se à vista por um ângulo inusitado. Permaneci alguns instantes no caminho, sem decidir por um pedido de licença, como que magnetizada por aquele imponente obstáculo de aproximadamente 14 centímetros, que se projetava além de um solado brilhante, finalizado por um círculo de metal. Aquele objeto pontiagudo e bem conhecido de todos sempre foi, para mim, cercado de mistério e desconfiança, desde a infância. Em meu estranhamento, via no sapato de salto alto um desenho arrojado e elegante perfeitamente adequado a um objeto de decoração, destinado a ocupar um lugar privilegiado em cima de um móvel, para deleite e apreciação estética pelos seus variados materiais, formas e cores. Poderia 67
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também ser uma arma mortífera, se movida em direção ao outro por um coração ferido ou uma vaidade aviltada. Mas, na visão corrente, era um objeto inofensivo, a não ser em seus efeitos psicológicos, sobretudo no sexo oposto ao que os portava. O prestígio de um salto alto parece ser indiscutível no mundo da moda, e sua capacidade de reforçar e promover a imagem da mulher gira em torno de vários adjetivos: poder, sensualidade, decisão, elegância, leveza e tantos outros considerados bem-vindos à arte da sedução. Em minha cabeça, a me confundir, outra nuvem de palavras pulula em volta desse objeto: tortura, submissão, desconforto, desequilíbrio, insegurança e outros tantos vocábulos historicamente presentes no universo feminino. Não há dúvidas de que os pés, esse acabamento do corpo que tem a função de nos sustentar sobre a terra e nos pôr em movimento, têm também o poder de levantar voos na imaginação erótica, em forma de fetiche. Impressionam-me muito as histórias que li sobre a atrofia dos pés femininos, tão comuns na China arcaica e tradicionalista. Recordome perfeitamente de um conto romântico no qual a jovem e amada esposa morre precocemente de uma insuficiência respiratória causada pela mobilidade apenas precária que seus minúsculos e venerados pés lhe permitiam. Nos limites entre a infância e a adolescência, antes tão marcados, sapatos de salto alto estavam obrigatoriamente no caminho, como a primeira dança de salão ou a primeira depilação. Rejeitá-los naquele período foi uma das várias dificuldades que encontrei na afirmação de uma feminilidade desejada, mas que não se adequava às formas concebidas para sua expressão. E então, encontrar apelo estético nos sapatos 68
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desprovidos de salto, em geral fabricados para pessoas idosas, tornou-se uma tarefa difícil. Pela janela do ônibus via caminhar por uma calçada estreita e de piso irregular uma trôpega adolescente, com passos difíceis, apoiados em minúsculos pontos de contato. Sendo o corpo uma estrutura móvel e articulada destinada a funcionar em equilíbrio dinâmico, as acomodações necessárias à coluna, pés e panturrilhas para o arriscado ato de andar acima do solo só podem ser entendidas como parte do caminho preparatório para futuras recompensas. Esse caminho, embora menos penoso, não se encontra tão distante de um passado cheio de limites. Alguém no ônibus toca a campainha avisando sua descida na próxima parada e, com os passos meio bêbados pelo veículo em movimento, finalmente, resolvi pedir passagem. Fui atendida prontamente com um rápido descruzar de pernas pela linda e simpática jovem, que me sorri com os dentes sujeitados por fios metálicos, aparentemente bem equipada para morder a fatia de prazer e de dor que lhe cabe neste mundo.
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Porque não se salvam as aranhas
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m bilhete é escrito com rapidez por uma mão de dedos longos e unhas cuidadosamente pintadas. Alguns anéis dourados vagalumeiam com o movimento da caneta sobre o papel ao registrar ordens precisas: Estarei em reunião até as13h. Cheque mais uma vez a passagem para Singapura. Ligue para marcar, por favor, uma depilação para mim no lugar de costume. Obrigada. Depois de deixar as recomendações sobre a mesa da secretária, Alice sobe ao quarto andar do edifício onde trabalha como advogada de uma grande empresa. Após certificar-se de que os documentos estão à mão e a sua fala devidamente pronta para a reunião, ela vai ao banheiro para os últimos retoques. A roupa, a maquiagem, os 71
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acessórios e até o perfume, tudo é repassado pelo seu olhar crítico que põe na mesma balança vaidade, poder, eficiência e ambição. Alice olha para a imagem dos seus quarenta anos e aprova o resultado, com algumas restrições. Gosta de cultivar um ar inteligente e despachado de quem sabe o que quer. O jeito de olhar fixo e sério reflete, porém, certa rigidez de caráter e alguma intransigência na defesa de suas ideias, o que costuma lhe causar problemas, mas que ela tenta compensar com certa leveza nos gestos e na forma de se expressar. Abre a boca mostrando os dentes para relaxar os músculos da face e para treinar o sorriso. Depois da reunião na empresa, que não foi exatamente um sucesso, em sua opinião, tampouco um fracasso do ponto de vista dos seus interesses, ela está cansada. Viajaria no dia seguinte para fora do país, a trabalho. Resolve que, após o almoço e depois da depilação, que detestava fazer, mas considerava um mal necessário, se permitiria um tempo livre para estar com Felipe. Combinam de encontrar-se na casa dele no final da tarde. Há algum tempo, Felipe reclamava que só ele tinha de abrir mão da sua casa e ir para a dela, se quisessem passar o final de semana juntos. Alice reconhecia, sem confessar ao namorado, que toda vez que o visitava, apesar do aspecto limpo e arrumado da casa, vagos traços de sujidade no banheiro e na cozinha atraíam o seu olhar como se fossem moscas para o mel. Procurava, em vão, minimizar o fato de que pequeninas manchas de mofo e a aparência fosca dos metais, louças e vidros a incomodavam. Afinal, nem morava ali. Chega mais cedo ao flat onde ele morava. Estava ansiosa com a viagem e não conseguia relaxar. Ao contrário, seu corpo 72
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precisava de movimento. Então, sem resistir a um impulso que parecia desafiar a sua razão, veste um short e uma camiseta e, munida de balde e esponja, começa a limpar aquele pequeno espaço como se estivesse decidida a eliminar daquelas superfícies todo o resíduo que o tempo acumulara. Tira o pó de lugares quase inalcançáveis, vasculha o teto em busca de insetos e arrasta móveis de lugar. Dentro do guarda-roupa, encontra uma caixa de papelão fechada, em cuja tampa está escrito: FOTOGRAFIAS. Alice pega a caixa, curiosa, mas antes que a abrisse uma pequena aranha de pernas elegantes e espaçadas sai desesperada do canto do armário onde costumava ficar. Assustada, ela levanta a mão que ainda segurava o pano de limpeza e a desce com toda a força sobre a prateleira do armário. Em seguida vem arrastando para fora o que havia pelos cantos, como se não quisesse perder daquela caça um mínimo pedaço. Com uma expressão de nojo e um quase grito, ela sacode o pano com a mão. Um minúsculo ponto preto, ou o que havia restado do que lhe pareceu um enorme inseto, caiu ao chão. A caixa continuou no mesmo lugar. Após duas horas de muito trabalho e de se incluir na faxina, Alice está se sentindo muito bem, porém um pouco cansada. Recebe Felipe com olhos brilhantes. Ele põe na cozinha o que havia trazido para o jantar, vai ao quarto e, depois, ao banheiro. Mais tarde, saindo do banho e enxugando o cabelo, Felipe pergunta: — Amor, não encontro o meu pente. Você sabe onde está? — Aqui está ele, quase no mesmo lugar. A única coisa que fiz foi colocá-lo neste recipiente com tampa, diz ela. Ele arruma os cabelos, em frente ao espelho, levantando uma das sobrancelhas, como invariavelmente fazia nesses 73
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momentos, sem perceber. Ela, atrás dele, olhando satisfeita para a superfície limpa e brilhante que refletia a imagem dos dois, pergunta: — Felipe, você não está vendo nada de diferente em sua casa? — Não. Por quê? Ele olha para o reflexo dela no espelho sem se virar. Ela está séria. Ele recua, olha em volta e, com a toalha presa na cintura, vai até o quarto em que já estivera e depois à sala, onde deixara a mochila ao chegar. Vê o copo de água pela metade sobre a mesa. Vira-se para ela, buscando pistas, de novo, com um olhar interrogativo. — Você não consegue ver nada de diferente? — ela pergunta com um tom quase acusativo. — Não acredito que eu passei duas horas limpando, faxinando, deixando a sua casa arrumada e linda para você, e fiz tudo isso para nada? Felipe olha em volta, ainda tentando ver os indícios do que ela falava, mas apenas diz constrangido: — Querida, imagino que você tenha trabalhado muito. Acredito mesmo nisso, mas, sinceramente, não estou vendo qualquer mudança neste infeliz apartamento. Ela baixa os olhos, decepcionada. Ele segura os seus ombros e puxa-a para si. Ela se solta delicadamente. — Tudo bem, mas eu preciso ir para casa, depois a gente se fala — diz Alice pegando a bolsa. Logo a seguir, sai fechando a porta. Felipe vai até o sofá e permanece ali sentado uns momentos, muito irritado. Depois, aciona o controle remoto da televisão. — Não é TOC, não é TOC — pensa Alice, enquanto dirige com rapidez, a caminho de casa. — Por que ele não viu nada? Na sala bem decorada do seu apartamento, ela abre as janelas deixando a lua a descoberto. Sentada no sofá, fica olhando a 74
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luz suave refletida sobre o tapete, iluminando uma faixa de cor azul, bege e laranja, em desenhos abstratos. Depois, pega o telefone ao seu lado. — Mãe, você lembra que eu não depilava as axilas e não suportava salão de beleza? — Claro, todo mundo falava disso, era uma coisa que dava impressão de sujeira. — Você lembra por que eu fiquei fora de casa um mês, na casa de tia Marli? — Eu não aguentava a sua bagunça de adolescente. Com ela, que é mais organizada e exigente que eu, achei que você ia aprender a deixar a casa arrumada, ou pelo menos o seu quarto. Ao ouvir isso, Alice desliga o telefone. Ele toca algumas vezes, mas ela não se mexe, deitada no sofá. Onde se escondia aquela menina quando a mulher se olhava no espelho afiando as garras para conquistar o mundo? Que batalhas haveria ela verdadeiramente vencido? Sem sair do lugar, assiste, deitada no sofá, a um desfile imaginário de inúmeras mãos femininas que se movem no ar a dançar, à sua revelia, ali na sala, uma música sem som. Naquela procissão fantasmagórica de mãos sem braços e sem corpo que se move dando voltas à mesa e passando diante do sofá, há mãos calejadas com unhas disformes; mãos negras e fortes; mãos magras e ossudas; mas também mãos pálidas e cansadas e mãos salpicadas de veias escuras e manchas senis. Todas elas ostentam infindáveis padrões de gestos e seus correspondentes utensílios: panos de chão, fogões, baldes, vassouras, ferros de engomar com fole e brasa, pilões, tanques, caldeirões, barras de sabão, escovas, escovões e outros mais. Vê a si própria percorrendo um imenso sótão, entre móveis e antiguidades de família, iluminando com uma lanterna nuvens 75
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de poeira e emaranhados fios de aranha. Ao tentar matar com uma vassoura um desses insetos gigantes, suas pernas tropeçam e ela cai em suas teias, de onde desperta arquejante, molhada de suor. Pela manhã, ao tomar café na mesa pequena, mas de bom gosto, da sua moderna cozinha, Alice vê com surpresa, sob o armário na parede, um fio que brilhava ao sol, ligando-se à janela por onde a luz entrava no ambiente. Lá, em um dos extremos recônditos do fio, observa uma pequena aranha doméstica e inofensiva a trabalhar em silêncio o corpo de um mosquito já seco. Tem nojo, mas nenhuma disposição a move para afastá-la.
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La urbana Pietà
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m uma bela cidade de um país vizinho, vaguei horas a fio, desocupando-me de ser turista de locais específicos. Gosto de não ter de ir a lugares ícones, destinos considerados obrigatórios, imagens de cartão-postal. Antes, prefiro aguçar os sentidos e deixar-me embalar por ritmos cotidianos e modos de ser distintos, em meio a novos sons, cores, texturas e cheiros. Deixo os meus olhos passear pela pele da cidade como fazem os dos amantes em encontros fortuitos, desprovidos das supostas certezas dos amores longos e das cegueiras que lhes correspondem. Viagens de ônibus a lugar nenhum são os meus passeios preferidos, no intuito de partilhar novas realidades urbanas. Nessas tantas horas lentas vividas nos transportes coletivos em Montevidéu, vi pessoas apressadas, tristes ou ensimesmadas; cruzei com olhares alegres, vibrantes e cheios de vida; surpreendi gentilezas e apreciei o valor de sorrisos; recuei diante de barreiras intransponíveis 77
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e, quando também não fui uma, abri portas inesperadas. Ter perdido o meu celular pouco tempo depois de estar lá contribuía para o meu estado de inteira presença, assim como me levava a tentar fixar mentalmente várias situações vividas, em lugar de fotografá-las. Enquanto aguardava um voo de conexão de volta para casa, uma cena parecia insistir em ser registrada, ainda que a posteriori. Em uma clara manhã de verão, ao voltar de um desses itinerários aleatórios pela cidade, meu olhar ocupava-se em fazer uma espécie de inventário dos vários tipos de árvores que coloriam a cidade, outrora cinza. Além do ruído do motor do ônibus, ouvia-se uma inesquecível canção dos Beatles, escolhida pelo motorista para si naquele momento e, por tabela, para todos os passageiros, como costuma ser nos coletivos em Montevidéu. Embalados pela música e pela marcha cadenciada do percurso com seus arranques e paradas, meus olhos cansados de verde se fixaram em uma cena urbana balançante: uma mulher profundamente adormecida em um banco em frente ao meu. Em seu colo, uma menina de não mais que dois anos também dormia profundamente, com a cabeça em seu peito e as pernas em balanço. Era uma jovem mulher e poderia ser bela não fosse a aparência dos seus cabelos desbotados, secos, assim como a sua pele pálida e sem vida. Ou talvez fosse uma velha disfarçada, a julgar pelo peso que seu corpo parecia estar acostumado a carregar, talvez por anos a fio. Sua blusa eventualmente se abria no decote entregue ao vento, mas revelava pouco, assim como sua boca, cujos lábios, ao penderem relaxados, deixavam à mostra parte dos seus dentes gastos. Em estado quase letárgico, o corpo oscilante e adormecido 78
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da mãe, mergulhado em sonhos ou pesadelos, era apenas o vestígio de uma ausência, e não fosse a mão que mantinha a criança próxima ao peito, em um contato tênue, nada parecia ligá-lo à realidade. Algumas tentativas de controle ocasionalmente se esboçavam: um penoso e rápido abrir de olhos sem, no entanto, nada mirar, um esforço para trazer a cabeça caída de volta ao eixo, sempre em vão. Se, diante de mim, tudo parecia abandono e fragilidade, eu era pura tensão e expectativa à espera da hora de poder segurar a criança, caso aquela mão resvalasse, vencida, ou se erguesse embalada por um sonho ruim. Pensava que talvez pudesse agasalhar melhor a pequenina criatura naquele dia fresco e abraçar as suas perninhas que se moviam inertes aos sacolejos do veículo. Assim, passei um bom tempo a velar o sono das duas, já totalmente esquecida das árvores que se sucediam na janela do ônibus. Ao ver aproximar-se a minha morada provisória naquela cidade, pensei, então, em despertar a mãe e avisar-lhe que ia descer e que, a partir de então, seguiriam sozinhas. Mas o que aconteceria? Ela emergiria de onde estava lançando para mim um olhar de brumas e voltaria ao seu mar profundo de ondas cadenciadas? Ou será que me devolveria um olhar de ódio pela ousadia de buscá-la em tão recôndito e rico mundo para tão corriqueira situação? Talvez, simplesmente, soltasse umas boas risadas zombando do meu zelo em controlar as coisas, presa a uma velha ilusão de segurança que a vida não cansava de burlar. Com esforço, disfarcei o gesto, e a mão já quase estendida levei aos cabelos, ajeitei o cinto e me preparei para o mundo lá fora. Alguns passos adiante, com o vento soprando mais forte 79
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em uma esquina à beira do Rio de la Plata, pude então respirar sem a presença das duas. O equilíbrio instável daquela cena urbana talvez inspirasse um escultor a petrificá-la, em um gesto mais de proteção do que artístico. E, talvez, ainda assim a fizesse, tal como Michelangelo com a sua Pietà, transpor espaços e tempos, a representar a força e a delicadeza do vínculo mãe/filho, a fragilidade das fronteiras e da própria vida e outros tantos significados possíveis. A mim coube apenas esquecê-la assim que fechei a porta do apartamento... ou não...
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Sobre quatro patas há um lugar seguro
N
a mais antiga lembrança que Celina tinha de si mesma, o chão sobre o qual se apoiava não era firme, mas era seguro. Ela se lembrava de ter sido levantada pela cintura e colocada sobre um tapete negro com manchas brancas, de ter ficado sentada sobre aquela textura áspera segurando algo sólido e meio rugoso, até o momento em que gritou de pavor quando sentiu o terreno se mover. Todos riram à sua volta. Em suas mãos, ela segurava a fotografia amarelada daquele momento que ela guardava como uma preciosa relíquia, pois era a única lembrança que tinha do pai, que partira logo depois daquele dia, e de quem nunca mais soubera. Um homem alto e magro, rosto ossudo, calças largas, camisa branca, chapéu panamá na cabeça, estava em pé junto a uma criança de rosto redondo ornado de pequenos cachos negros, vestido de cintura alta e 81
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franzido. A menina sentada sobre o lombo de uma vaca segurava os chifres do animal, que olhava manso e pacientemente para a câmara, com olhos de eternidade. Compondo a foto daquele dia de festa, em volta dos dois, amigos e parentes conversavam e riam alegremente. Agora ela entendia o amor e o respeito que tinha por animais de quatro patas, sobretudo os que derramavam leite de suas tetas, berravam o som mais profundo que já ouvira sobre o mundo, moviam-se com lentidão, comiam fragmentos de um tempo circular, batiam a cauda espantando moscas e permitiam que os pássaros e também as crianças brincassem em seu lombo. Aos sete anos de idade, chegou a São Paulo tão assustada como a mãe, que se viu obrigada a reconstituir os prováveis passos do marido, que ali fora para arranjar trabalho. Nos primeiros dias da chegada, mãe e filha, com os pertences reunidos em uma mala, mudaram-se de um lugar para outro, morando de favor na casa de parentes já assentados, embora precariamente, naquela cidade. Sem nada encontrar do marido senão vagas referências, uma delas envolvendo uma viagem para Mato Grosso e, até mesmo, outra família, Celina passou a viver em casas de família, nas quais era aceita como uma extensão da mãe, desde que não ocupasse espaço, desde que não fizesse ruído, desde que se ausentasse em vida. Assim viveram as duas até a mãe alugar um quarto apertado, mas em que cabiam com mais folga as suas brincadeiras de menina. Depois de concluir o ensino primário em bairro pobre, Celina viu suas esperanças de concluir o ginasial se desmoronarem quando a mãe perdeu o emprego e precisou dela em seus trabalhos informais. Já adolescente, ela foi vendedora em várias lojas e supermercados da periferia e, depois de outros tantos empregos, 82
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passou a morar com uma família rica, à qual se integrou como pôde num modo misto de conveniência e afeto, de necessidade e solidão, de ressentimento e gratidão. Celina nunca se casou, embora tenha vivido alguns amores fracassados, alguns tristes, outros nem tanto, todos sem filhos, apegos ou lamentos que lhe impedissem outras tentativas. Quando a mãe morreu, achou que estava na hora de fazer o que sempre quis: ter a sua própria casa, em uma cidade pequena qualquer, onde teria vizinhos e flores. Também pensava em adotar um filho, desejo que não confessava a ninguém, nem a si mesma, para não ouvir de algum juiz que há muito tempo estava fora do jogo, que o seu tempo havia passado. Com o dinheiro que economizou durante anos dormindo no emprego, e sem ter com quem gastar, Celina comprou uma passagem para uma pequena cidade na Bahia, a terra onde vivera quando criança com seus pais. A calmaria do lugar só era rompida pela feira que acontecia aos domingos, onde se vendia de tudo um pouco, como costumam ser as feiras em cidades do interior. Um dia aconteceu um bingo para reforma do coreto da praça, e ela resolveu participar para integrar-se mais às pessoas do lugar. Entre os prêmios oferecidos estava uma novilha, amarrada a uma árvore; junto a ela, um balde de água e um monte de capim. Depois que o seu número de sorte foi pronunciado, ela não sabia o que fazer com aquele animal de pelo negro com manchas brancas que lhe foi entregue por um dos organizadores. Celina possuía um terreno cercado, com uma casa simples, de telha-vã, e um pequeno pomar cercado e com um portão azul. Pensava em criar algumas galinhas e confeccionar peças de tricô para fazer frente às despesas da nova vida, somando-se à sua minguada aposentadoria. Considerou um bom presságio ver o animal com um enorme laço de fita no pescoço naquele pedaço 83
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de chão que para ela seria a sua última morada, antes do túmulo. Melícia, foi o nome que deu ao animal, que cresceu alimentado por ração e pelo capim que ela recolhia nos terrenos baldios da região. Celina adorava contemplar da varanda a luz avermelhada do entardecer destacando a silhueta negra do animal, e sorria, enquanto a mão rápida, embora envelhecida, enrolava os fios em volta de uma agulha, fabricando abrigos para crianças que iam nascer. Passados alguns meses, a novilha, sem qualquer rebeldia, passou a adiar a comida e a ficar cada vez mais tempo a enxotar moscas com a cauda, encostada na cerca junto a um mourão. Celina achou que era falta de espaço e, com uma espécie de coleira feita a quatro mãos com um sapateiro, começou a passear com ela aos finais de tarde, pelas ruas da cidade. Na primeira saída que fizeram, crianças corriam com medo, pessoas entravam em suas casas, e outras se perguntavam como podia alguém andar com um animal daquele porte, ao que ela respondia que tamanho não era o problema. A cena se repetia ao entardecer, todos os dias, e durante quase um ano. Em algumas ruas da cidade, a vizinhança esperava uma mulher idosa de corpo arredondado, vestido estampado e tênis, acompanhada do seu animal de estimação, despontar em uma esquina e sumir na outra, até chegar a uma pequena praça. Ali, Samuel, um fotógrafo conhecido da região, tornou-se o lambe-lambe de plantão; todo dia, às cinco da tarde, registrava a mesma cena: uma criança a sorrir para o mundo, sobre o lombo do animal de quatro patas e olhos de mansidão. Em um dia de outono, a pequena comitiva foi barrada por alguém fardado, que desceu de um veículo de repartição: — A senhora está proibida de fazer esses passeios pela 84
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cidade porque são uma ameaça à segurança do tráfego. — Mas aqui quase não passa carro — Celina argumentou surpresa. — A senhora deve saber, um animal deste porte oferece riscos à população. A senhora não pode sair por aí puxando uma novilha como saem à rua as pessoas com o seu cão. — Mas as pessoas estão acostumadas e tem gente que espera Melícia passar todas as tardes! — retrucou ela. — Entendo que ela seja como um filho para a senhora, mas a minha função é zelar pela segurança da população. — Mas a Melícia são quilos de mansidão, não oferece riscos, não! Parece até que ela entende os sinais de trânsito. Não suja a rua, faz tudo antes de sair de casa, garantiu Celina. — Me desculpe, mas devo proteger os interesses coletivos, disse o guarda. Em casa, Celina chorou como há muito tempo não fazia. Depois disse para si mesma: se o animal der leite, terá uma função social; logo, será de interesse coletivo. E se os passeios forem nas primeiras horas da manhã, não haverá carros na rua nem também polícia. Ladrão, naquela cidade, quase não havia, graças da Deus, pensou ela, animada. Conseguiu um touro de raça mestiça e boa constituição. O dono do animal, interessado no negócio que ela propôs, pagou o transporte de Melícia até a fazenda, que ficava fora da cidade, e a sua volta com a barriga cheia de vida, uma vaca, enfim, cumprindo a sina natural de fêmea: a reprodução. Em troca, Celina prometeu que doaria ao fazendeiro o bezerro, após o período de amamentação. Depois de redobrar a ração para alimentar uma vaca recémparida e sua cria, Celina construiu sozinha um teto de palha junto ao depósito para proteger melhor o local onde ficavam os 85
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dois. Quando achou que estavam prontas, saíram, ela e a vaca, em nova missão. Durante dois meses seguidos, percorreram ruas da cidade ao amanhecer de cada dia. Os primeiros clientes a lhes darem atenção foram os gatos, que recebiam vasilhas de leite deixadas no portão. Depois, foram os seus donos, e Celina e sua vaca eram esperadas por mães solteiras, viúvos, madrugadores esportistas e insones de plantão. Em um dia frio que anunciava o começo de uma nova estação, pouco depois de sair de casa, o ruído do chocalho da pequena comitiva que avançava lentamente foi bruscamente interrompido por uma camionete que vinha na direção contrária. Primeiro, uma nuvem de poeira levantou-se do piso da rua, com a manobra do carro, depois ouviu-se o canto de pneus, o ruído de freios e logo um baque surdo. Dois homens armados e de farda saltaram do veículo, deixando-o com as portas abertas e os faróis iluminando, sob a neblina, uma confusa cena invernal; uma mulher, uma vaca, sangue, patas, leite e gemidos. Ajoelhada ao chão, Celina tentou se levantar, mas, em vez disso, cobriu com o seu corpo o da vaca, abraçando-a. Depois, gritou tentando inutilmente levantá-la, colocar de novo aquele corpo sobre quatro patas. O animal urrava agonizante. Então, um deles tomou uma decisão. Levantou a arma, apontou para o ponto entre dois chifres, e onde dois olhos refletiam assustados as luzes do farol do veículo, e disparou, apagando-os. Em meio à neblina, via-se uma mulher curvada sobre um relevo difuso, em um solo manchado de preto, branco e vermelho. Dias depois, na varanda de casa, com uma perna engessada e escoriações nos braços e mãos, Celina observava a cria de Melícia, correndo em saltos até o portão.
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Escola para borboletas e camaleões
C
arol o chamava de “Meu Metamorfose Ambulante”, “Meta”, ou simplesmente “Mê”. Sabia que os olhos do marido iam de castanhos a mel puro quando ele sentia desejo sexual, fome ou carência, que assumiam de verde-oliva a um verdeesperança se ele estava pouco ou muito alegre, tornavam-se azuis ao menor sinal de tristeza ou nostalgia, e negros como duas azeitonas sob efeito da raiva ou do medo. Para compensar a indiscrição involuntária dos seus olhos, que o deixava em estado de transparência no mundo, Erick era seletivo e poucas eram as pessoas que podiam se aproximar dele. Os óculos escuros haviam se tornado o seu escudo invisível, a tarja preta para fotos impublicáveis, a máscara precária que protegia a sua intimidade, seus sentimentos, algo que surge internamente e costuma ter a expressão e 87
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publicidade controlada pelo sujeito. Erick se via privado desse direito pois possuía olhos que mudavam de cor, de acordo com o estado psicológico e de humor. Tudo ia bem até ela trazer a gata para casa. O animal o mantinha à distância, ignorando-o completamente. Com o tempo, ele começou a nutrir uma raiva secreta pela gata, que se arrepiava, levantava o peito e mantinha uma pata no ar quando ele tentava uma brincadeirinha ou um afago. Um dia, com uma bolinha amarela nas mãos e um sorriso falso entre os lábios, ouviu a voz da mulher em tom de ironia: — Amor, seus olhos estão mais negros que o pelo de Safira… Erick começou a se sentir como um livro aberto entre as duas. Mas a luz vermelha com a mulher se acendeu mais tarde. Estavam com amigos em um bar, já tinham tomado muitas cervejas, e uma das garçonetes, que era conhecida do grupo, sentou-se ao lado de Erick. Carol, sentada em frente, prestava atenção aos dois, mas fingia interesse na conversa da amiga ao lado. Em determinado momento, ao cruzar o seu olhar com o do marido, percebeu uma luz alaranjada que tornava os seus olhos castanhos feito mel, da mesma cor que permaneceram durante o primeiro final de semana juntos sem sair da cama. Aquele brilho dourado foi como raio em noite de tempestades e Carol foi direto ao desfiladeiro entre os seios da mulher ao lado do marido, como se ali tivesse caído a descarga elétrica ou talvez fosse ali a origem e não o destino. Com a voz um pouco alterada pelo álcool, falou para ele: — Pensava que seu olhar era mais seletivo, mas vejo que me enganei. Basta um par de melões para amarelar as suas pupilas, hein? Não satisfeita, dirigiu-se à garçonete: — E você, mocinha, o que está fazendo aqui, não está 88
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trabalhando? Daí em diante ele usava artifícios para prevenir sinais visuais que pudessem ser mal interpretados pela mulher. Foi assim que, ao ser atendido em uma emergência hospitalar por uma enfermeira muito charmosa, morena de cabelos sedosos e de saltos altos, ao ver as curvas da moça de costas para ele, começou a pensar em cenouras e alfaces. Carol o acompanhava na consulta. Para Carol não era fácil. Temia que Erick percebesse que a sua alma era para ela um território mapeado e que os olhos multicores balizavam as ações e reações dela na vida de casal. Quando ele perdeu o emprego e acordava no meio da noite com pesadelos de que alguém invadia a sua casa, ela acolhia a criança de olhos negros até o sono vir novamente. Disfarçava a alegria quando brigavam e ele, por orgulho, fingia indiferença, mas os seus olhos, quando se encontravam, estavam de um castanho claríssimo de desejo. Daí para as pazes bastava um toque casual por baixo dos lençóis. Se o verde custava a aparecer nos olhos de Erick, ainda que ele apresentasse um sorriso amarelo, ela se culpava pela infelicidade do marido ou o acusava por não sentir mais prazer em sua companhia. Com o tempo passou a suspeitar quando ele usava óculos escuros em casa. E quando queria fazer amor sem a luz do abajur. Brigavam cada vez mais. Preferia não ter acesso aos sótãos e catacumbas do marido, melhor seria nadar apenas na profundidade permitida entre pessoas normais, circular por espaços psicológicos sem ajuda dos olhos de metamorfose, lampiões da alma alheia. Um dia, ao chegar em casa, encontrou Erick com a gata nas mãos. Quando ele a viu, abriu um sorriso largo, mas a Carol não passou despercebido o pânico do animal, o brilho escuro 89
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do olhar de Erick...e as janelas abertas. — Oi amor, você brincando com Safira? — Acho que ela é muito sozinha, precisa sair um pouco... — É verdade, vou ter que visitar a minha mãe em Teresópolis e acho que ela vai gostar de ir comigo. — Se quiser, posso cuidar dela — disse ele, olhando pela janela para o jardim do prédio onde moravam. Naquele momento os seus olhos ficaram mais verdes do que nunca, não por mimese, mas porque esta é a cor dos seus olhos quando ele se sente alegre. Teria todo o fim de semana para si, o primeiro depois de dois anos. Carol tinha viajado para a casa dos pais e levado Safira, aquele felino genioso e cheio de caprichos que defendia seu território com unhas e miados, sobretudo aquela janela do quarto que servia de escritório. Erick tomou uma ducha rápida, vestiu um calção, resgatou a prancha sob um monte de malas no armário da área de serviço e saiu para surfar na praia do Arpoador. “Nossa, como passei tanto tempo sem fazer o que mais gosto?” Ao final da tarde, concluía que a mistura olhos verdes e pele bronzeada alcançava excelente cotação no mercado de possibilidades amorosas. Tentou manter este arranjo físico durante todo o final de semana recorrendo até a imagens felizes do passado; o primeiro trenzinho que ganhou, aquele momento na piscina com os amigos, os primeiros dias com Carol... Ora, quem nunca fez isso?
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Diário em preto e branco
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oje é quarta-feira, mas poderia ser outro dia qualquer da semana. 13:00 – Selenita, depois de lavar os pratos do almoço, faz alguma coisa aqui, outra ali, e dirige-se à pequena sala de seu apartamento. Anda com passos curtos, balançando as ancas altas e um pouco assimétricas. Reclama de Deus por suas dores lombares crônicas ao abaixar para pegar a costura, preparando-se para ocupar a poltrona em frente à televisão. 14:00 – Na tela passa o programa vespertino preferido que ela acompanha sem olhar, como se ouvisse um rádio. Aperta os lábios enquanto as mãos de dedos roliços manipulam a agulha de tricô com agilidade. Mas isso não a impede de interagir com o assunto trazido à sua sala pela apresentadora de TV. — Que absurdo, mas é cada uma que a gente vê, o cara não quer mais a mulher e não quer que ela tenha outro namorado — diz. 91
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— Eu tive sorte com você, Dedé, mas se a gente se casasse hoje seria muito diferente — fala sozinha, com um sorriso enigmático. — As mulheres de hoje também não aguentam mais nada! Só querem saber de flanar, pondera. Meia hora depois, na poltrona de veludo gasto, ela cochila com as linhas entre as mãos. Os pensamentos que costumam sair em voz alta agora se calam. A cabeça tomba sobre o peito e Selenita ronca. 15:00 – O celular ao seu lado sinaliza mensagens e ela acorda. Algumas amigas passam horas nesses aparelhos anunciando o fim do mundo, o avanço do comunismo, a morte da família e sei lá mais o quê. Lê as mensagens mais curtas sem óculos, mas não responde. Não tem paciência. Logo elas irão se encontrar. — Ah, hum, esse mundo tá perdido mesmo, para que desperdiçar tanto tempo? 15:30 – Olha para o relógio antigo sobre a pequena mesa de jantar. Apanha a toalha no varal sob a janela do único quarto que bate sol naquele apartamento e se dirige ao banheiro, no corredor. Ao tirar a roupa, olha por cima das elevações dos seios e do abdômen meio aplainados pela idade. O piso cinza realça o brilho rosa perolado das unhas dos seus pés pequenos e chatos. Após o banho usa um pouco de lavanda, passa o pó de arroz com validade vencida no rosto e abre as portas escuras do guarda roupa. — Nossa, esses casacos estão meio puídos! — Ah, hum, velho que precisa de muita coisa, pensa que não vai morrer! Faz tempo que comprou uma roupa. Não é vaidosa, mas detesta unhas sem fazer e cabelos indisciplinados. Veste-se e dá uma borrifada de fixador no penteado. 92
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16:00 – Chega à lanchonete onde se encontra diariamente com as amigas. — Tudo bem, Janete, o que temos hoje, o mesmo de todo dia? — diz com a risada de sempre. A garçonete vem logo atender a velha cliente. Tem medo de Selenita, pequena, de voz potente e destemida capaz de fazer um “barraco” se a colherzinha do açucareiro estiver incrustada de açúcar. Isso lhe era insuportável tanto quanto o café servido frio. Conhecia bem aquela mulher e a sua capacidade de se interessar vivamente por todos que lhe afetam diretamente, por tudo em seu raio de visão e, em especial, por aquilo ao alcance da sua mão. O corpo avantajado de Janete não raro era motivo de riso para Selenita, que via no excesso de tecido adiposo alguma culpa escondida, uma perversão não revelada. Na mesa junto à calçada, que costuma ocupar com as amigas, ela chama a atenção para todas as pessoas acima do peso que passam, em especial as mulheres, às quais se refere de modo peculiar: — Olha aquela gorrrrrrda — diz prolongando os erres, como o ponteiro da balança faz com os quilos. Janete procura ignorar isso. Quando o seu pai estava no hospital e ela gastava o que não tinha com remédios, a velha cliente ouviu suas queixas com lágrimas nos olhos. Lembra que recebeu uma boa quantia do grupo de amigas, mobilizado pelos humores eloquentes da enérgica senhora. 17:30 – Hora de voltar para casa. Na padaria, pega duas sacolas de pães frescos e troca palavrinhas animadas com o dono. Ao chegar no prédio onde mora, entrega uma delas ao porteiro. Ao avistá-la, o rapaz corre para o elevador e abre a porta para ela com reverência. 93
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— Muito boa noite, D. Selenita. — Boa noite, meu querido, fique com Deus. 18:00 – Hora de rezar. Todo dia pede a Deus que a livre de tudo que detesta e que traga ao seu caminho tudo que lhe faz bem. Assim seja. Amém. 19:00 – Vai à cozinha esquentar a sopa e as torradas. Ao lado do prato, um comprimido de Rivotril. Hoje vai experimentar uma nova novela, que não tenha beijo entre pessoas do mesmo sexo nem filhos desrespeitando a autoridade dos pais. 21:00 – Espera não sonhar nem ficar divagando. Nunca gostou disso. O remédio está fazendo efeito.
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Impresso no dia 8 de julho de 2022, na Gráfica JB Ltda, com miolo em papel Polen Bold 90g; e editorado com a fonte Adobe Garamond Pro corpo 12. Tiragem: 1000 exemplares.
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