O selo João Ubaldo Ribeiro é um prêmio que vai muito além da publicação de livros, visa abertura de caminhos, de oportunidade, de afirmação de talentos e carreiras. É incentivo à leitura e valorização dos escritores baianos. A cada dois anos são lançados oito novos livros que são doados para bibliotecas públicas de Salvador e da Bahia. Esse prêmio faz parte do Programa Caminhos da Leitura, e é promovido pela Prefeitura da Cidade de Salvador, desenvolvido pela Gerência de Biblioteca Livro e Leitura da Fundação Gregório de Matos.
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EPP Publicações e Publicidade Ltda. 1ª Edição Salvador/Bahia - 2022
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Coordenação geral: Claudijane Palma Comissão de avaliação Ano III Cássia Dolores Costa Lopes - gênero: Dramaturgia. Fernanda Maria Brito Gonçalves Almeida - gênero: Categoria livre. Hugo Brito Canuto Oliveira - gênero: Literatura infantil. Lindinalva Amaro Barbosa - gênero: Conto. Luciany Aparecida Alves Santos - gênero: Poesia. Marcus Vinicius Couto Rodrigues - gênero: Crônica. Victor Uchoa Firmo - gênero: Romance. Títulos participantes do Selo João Ubaldo Ribeiro Ano III A história do Bicho-Folhagem – Stael Mamed (Literatura infantil) Alimentando as Feras – Aícha Marques (Dramaturgia) As Fotos Roubadas – Breno Fernandes (Romance) A travessia do grão profundo – Paulo Atto (Dramaturgia) Efemérides – Márcia Monteiro (Categoria livre) Fuxico, resenha, mexerico nas esquinas e buzus de Salvador – Daiana Soares (Crônica) Sobre quatro patas há um lugar seguro – Aruane Garzedin (Conto) Soprando o vento – Tiago D. Oliveira (Poesia) Daiana Soares 1ª Edição
Edição e organização: Fernando Oberlaender Ilustrações internas e capa: Fernando Oberlaender Projeto Gráfico: Fernando Oberlaender Diagramação: Neilton Oliveira Revisão: Rita Canário Produção Editorial: EPP Publicações e Publicidade Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica JB Ltda. Esta é uma obra de ficção. Quaisquer semelhanças com personagens ou situações da vida real é pura coincidência.
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lançamento da coleção do Selo Literário João Ubaldo Ribeiro – Ano III reafirma a importância do investimento na produção literária de Salvador e consolida esse programa como referência de incentivo à leitura e como política de inclusão e promoção dos nossos escritores e escritoras. São oito obras escritas por soteropolitanos, editadas por uma editora soteropolitana, abarcando gêneros como romance, poesia, crônica, conto, literatura infantil, dramaturgia e gênero livre, distribuídas gratuitamente ao público e às principais bibliotecas de Salvador. Será lançada também uma versão digital no site da Fundação Gregório de Mattos. Essa ação fortalece a identidade do nosso povo e movimenta a economia local, abrindo espaço para nossos criadores literários. Lançado em 2014, o edital Selo Literário João Ubaldo Ribeiro já selecionou e publicou, em suas três edições, 24 obras, todas escolhidas por comissões de profissionais consagrados na área. A Coleção cumpre o disposto no Decreto Municipal 24.883 de 02 de abril de 2014, que instituiu o Selo, e dispõe que “incumbe ao poder público garantir a todos o acesso às fontes de cultura, apoiando e incentivando a produção, valorização e difusão das manifestações culturais”, consoante com o art. 262 da Carta Orgânica Municipal e as diretrizes da Lei 8.551/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Cultura. Quero agradecer a todos os envolvidos na criação, no fortalecimento e na continuidade desse projeto, com destaque para a equipe da Gerência de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura da Fundação, coordenada por Jane Palma, e à Comissão de Avaliação, que selecionou as obras. Boa leitura! Fernando Guerreiro Presidente da Fundação Gregório de Mattos
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Prefeito Bruno Soares Reis Secretária Municipal de Cultura e Turismo Andrea Almeida Mendonça Presidente da FGM Fernando Guerreiro Chefe de Gabinete Patricia Lins Assessora Chefe Viviane Vergasta Ramos Assessor Técnico Plutarco Drummond de Magalhães Neto Gestor do Núcleo de Tecnologia da Informação Clidério Evangelista Bastos Assessora Jurídica Kaiale Santos Araújo Gerente Administrativo-Financeiro Gildete Nascimento Ferreira Diretora de Planejamento e Projetos Culturais Silvia Maria Russo de Oliveira Gerente de Promoção Cultural Felipe Dias Rêgo Gerente de Equipamentos Culturais Chicco Assis Diretora de Patrimônio e Humanidades Milena Luisa da Silva Tavares Gerente de Patrimônio Cultural Vagner José Rocha Santos Gerente de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura Claudijane Pereira Palma
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Sumário
Aos fuxiqueiros de plantão..................................... 11 Agradecimentos..................................................... 13 Nove de novembro de 2018................................... 15 Oito de novembro de 2018.................................... 17 Quatro de novembro de 2018................................ 19 Três de novembro de 2018..................................... 20 Vinte e um de setembro de 2018............................ 21 Quatorze de setembro de 2018............................... 22 Dezessete de janeiro de 2018.................................. 24 Trinta de dezembro de 2017................................... 25 Vinte e um de setembro de 2017............................ 26 Seis de dezembro de 2017...................................... 28 Quinze de novembro de 2018................................ 29 Quatorze de novembro de 2018 ............................ 30 Dezoito de outubro de 2018.................................. 32 Onze de outubro de 2018...................................... 33 Vinte e quatro de setembro de 2018....................... 36 Seis de setembro de 2018....................................... 37 Sete de dezembro de 2018...................................... 38 Onze de dezembro de 2018.................................... 40 Vinte e dois de junho de 2019............................... 41 Dezoito de junho de 2019..................................... 42 Onze de junho de 2019......................................... 43
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Dois de junho de 2019.......................................... 45 Trinta e um de maio de 2019................................. 46 Vinte e nove de maio de 2019................................ 47 Vinte e quatro de maio de 2019............................. 48 Quatorze de maio de 2019 .................................... 49 Quatorze de abril de 2019...................................... 51 Trinta de março de 2019........................................ 52 Quatorze de março de 2019................................... 53 Doze de março de 2019......................................... 55 Quatorze de fevereiro de 2019............................... 56 Seis de fevereiro de 2019........................................ 58 Dois de fevereiro de 2019...................................... 59 Vinte e três de julho de 2019................................. 60 Dezoito de julho de 2019....................................... 61 Onze de julho de 2019........................................... 62 Sete de julho de 2019 ............................................ 64 Dois de julho de 2019........................................... 66 Vinte e quatro de agosto de 2019 .......................... 68 Vinte e dois de agosto de 2019............................... 69 Dezesseis de agosto de 2019 .................................. 71 Quinze de agosto de 2019...................................... 72 Onze de setembro de 2019..................................... 74 Nove de setembro de 2019..................................... 76 Vinte e quatro de outubro de 2019........................ 78 Quatro de novembro de 2019................................ 80
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Aos fuxiqueiros de plantão
Daiana Soares
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Fuxico... começou a ser escrito em 2017, tendo como ambiente de inspiração transportes coletivos de Salvador, especificamente o buzu e o metrô. As situações mais retratadas foram vivenciadas diariamente no percurso de ida para o trabalho e volta para casa, outras ocorreram na feira livre, no ferryboat, na rua, enquanto algumas vieram diretamente da memória afetiva da infância. A intenção foi transcrevê-las do modo mais realista possível, e para não deixar escapar o calor do momento, especialmente das histórias acontecidas durante os engarrafamentos no buzu, utilizei o bloco de notas do celular e uma caderneta para rabiscar o que viria a se transformar nos textos aqui reunidos. A rua também é protagonista desta obra, pois o ato de fuxicar parece injetado nas veias baianas, e isso se constata desde o ato de debruçar os cotovelos nas janelas e espiar o que não é da conta até os olhares curiosos, os mexericos e as reações inusitadas nas resenhas que se passam em cada esquina. Antecipo que as histórias foram escritas numa linguagem própria do falar baiano, reforçada pela característica descontração de nossa gente. Os diálogos são embalados pela musicalidade do sotaque, pela identidade impressa em cada palavra pronunciada,
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em cada gíria lançada. Tudo tão expressivo quanto naturalmente transgressor da chamada norma culta. Tudo no mais legítimo baianês. Sinceramente, foi uma experiência muito boa para mim. Espero que seja para você também, meu caro leitor.
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Minha reverência a Deus, Iansã e Santa Bárbara. Aos que me guardam encantadamente. Aos dois irmãos de Guiné-Bissau, um doce abraço. A mainha, Diana Maria, e a painho, Mario Dias, pelo apoio e amor incondicionais. A minha irmã Mariana, que me incentivou nos estudos desde criança. Aos amigos e familiares, meu respeito e gratidão. Por fim, ao meu longo processo de escrever no celular, em pé, no ônibus, durante os engarrafamentos, e também no metrô; aos ouvidos bem abertos para catar os fuxicos e às minhas altas gargalhadas acordando a vizinhança do Beco da Rabada na Liberdade, Linha 8. Eis a obra!
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Nove de novembro de 2018
Vou chamar essa criatura de Homem do Além. Aqui na Liberdade tem uma figura curiosa, entre tantas. Trabalhador ambulante durante muitos anos. Recordo a passagem do seu pai, já falecido, murmurando coisas que ninguém entendia, subindo e descendo pelas ruas da antiga Estrada das Boiadas. Só sei que vários cães o acompanhavam, vira-latas pretos, robustos, aproveitadores da xepa de pelancas e ossos gigantes, fortificante natural. Vá encostar nesse senhor! Ia receber uma dentada e iscurraçada deles. Uma tropa de quatro patas. Após seu falecimento, os cães começaram a seguir o filho dele. Um dia desses bem babadeiros — não tenho culpa se as coisas ocorrem na minha frente pra eu prontamente tomar nota da vida alheia — estava eu voltando do meu lugar, o Pelourinho, às 23h30min — bem cedo, né? — quando tomei aquele susto de passar a lombra alcoólica de qualquer um! Me bato com essa barreira de cães e o Homem do Além. Eu pensei: o que tinha nessa bebida, Senhor?! Em vez de sair picada, observei estática o alinhamento dessa matilha retada: andavam em formato de H, com o “protegido” no centro. Eu pensei: eita, disgrama! Não sei como não me viram. Só sei que é um esquema de segurança particular que até carro-forte ficaria com inveja. Maluco tem é arte. Cachorro também, e na minha terra todo
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mundo é artista e estreia sabendo performar com estilo de nascença. Brinque com baiano, sua miséria!
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Oito de novembro de 2018
Sobre premonições de barracos de busão. Lá vou eu voltando do dentista, partindo para a práxis diária do trabalho, e então pego o buzu para aquela costumeira prática teile e zaga1 buzu ‒ metrô. Escrevo neste momento a história em pé. Não se perde o babado, senão foge da mente. Estava a maior discussão de três senhores sobre política, e eu, como observadora, me roendo para me meter na treta. Sabe quando o tinhoso que arde no mármore lhe espeta pra que você se meta? Aí o papo só era de quem votou no 13, aí citei, entre uma conversa e outra, uma das minhas formações: sou professora. Falamos das exigências do mercado, do caralho a quatro de forma pacífica. De repente, surge uma voz de mulher atrás de mim: — Esses professores jovens são todos malucos! Tá repreendido o espírito do lulismo! Queima, Jesus!
Refere-se à música de pagode da banda La Fúria, acompanhada da coreografia narrada pela pernambucana estudante de engenharia Alcione Alves, que explica o termo “teile” como a forma de empinar brutamente a bunda e “zaga” como o movimento do quadril feito de lado, indo até o chão. A dança surgiu em 2018, no período pré- eleitoral e virou meme nas redes sociais.
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Rapaz, eu dei aquela olhada pra trás, já me sacudindo com a mão nas cadeiras, já na baixaria: não disse nada, fiz uma careta típica dos meus cacoetes, a cara já estava arrepiada, pronta para um salto de Bolt. Pratiquei o mantra que me ensinaram e ela desceu do buzu. Eu pensei: carai! Que mantra poderoso. Respira e vai.
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Quatro de novembro de 2018
Sobre contação de casos: na birosca, vendo a vida dos outros, Dona Josefina me apresenta uma senhorinha de uns quase 80 anos, de acordo com ela. Ela diz: — Olha, minha filha, minha pressão vai em São Paulo e por lá fica. Tomo meu Tenoló e um gole de corote. Eu, na inocência, achando que corote era alguma medicação... é a bombinha velha de guerra! Eu dei muita risada. Ainda me disse que quando foi em Salvador correu do mar, mas gostou.
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Três de novembro de 2018
Das rotinas sertanejas, da poeira de redemoinho e o sol escaldante. Vida nada fácil ou mansa, no que diz respeito às longas caminhadas do centro da cidade às comunidades periféricas. Da morte dos rios, das águas dos tanques que evaporam quando o sol frita a gente na sensação térmica de 45 graus. Se a vida missionária já não é fácil, a escassez se torna sagrada aos olhos de viajantes. O respeito à variedade do sagrado é muito interessante. Comunidades indígenas como a dos Kiriris convivem, dialogam com as práticas do catolicismo incorporadas às práticas dos rituais aos encantados e saudação à Mãe-Terra. Sincretismo religioso, catequização, resistência quilombola e práticas do candomblé. Bom sabedor é o que não sabe de nada mesmo e observa os saberes alheios, de contar nos dedos e fazer matemática assim. As altas risadas de Dona Josefina sobre sua história de acertar e errar na vida. Ela diz: “Sou dona da casa e da família”. O temor do cacique Lázaro com os rumos do país. O Nordeste neste momento é o melhor lugar. Força, resistência, luta e sorriso... Se somos estranhos, não acho. Sei que se vence todos os dias e não vemos.
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Vinte e um de setembro de 2018
Burburinho urbano.... Era final de tarde e um cara vendendo barra de cereal de banana. Uma criatura aborda o vendedor e questiona: — Quero saber as especificidades, características e vantagens de adquirir esse produto. Eu dei aquela rabiada de olho para espiar o lero e pensei: será que esse mano estava numa banca de defesa de mestrado? Ou estava comprando um carro zero? Ou era mão de vaca mesmo? O produto de R$1! Tenha paciência!
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Quatorze de setembro de 2018
As peraltices em setembro. Aquela picula de uma ruma de guri correndo com as mochilas da escola pra pegar todo tipo de queimado no dia 27 não era história de livro de Jorge Amado, mas era uma vivência baiana com uma pitada de molequeira e muita alegria. Antes era uma sequência de carurus para ir em toda a vizinhança e adjacências... As tradições estão se perdendo aos poucos por “n” motivos: pessoas que aderiram a outras religiões, escassez de recursos para fazer caruru, gourmetização das sacolinhas de bala. Antigamente era cada doce da hora, agora até produto fit querem colocar, como vi no Face de alguém. Aí, camará, não tem santo que ajude! Tinha um caruru de sete meninos aqui na rua que colocavam os copinhos descartáveis com um dedo de vinho mais suco de uva, e a gente, com a mente de guri, se achava adulto; eu bebia uns três copinhos dos amiguinhos que não gostavam. Caruru de mão na panela... Ficar perto da parte que tinha mais galinha era tipo o prêmio. Aquela meleira com gosto de felicidade, expressa em recompensa com a blusa no meio da barriga, melada de vatapá e cheia de queimado de mel! Setembro e outubro têm um quê de esperança, parece até que é pra não nos esquecermos do guri doce que, no fundo, vive dentro de cada um de nós! Este
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textão para dizer: me chamem para caruru e no final saio saltitante se guardar minha sacolinha de balas! Amo!
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Dezessete de janeiro de 2018
Quinta, nesta manhã soteropolitana. Vou chegando na estação do Campo da Pólvora, andando me sacudindo, me bulindo como de costume. Quem me conhece, sabe que eu ando assim. Me bato com um brother que vende mingau e me reconheceu. Veio cheio de braço aberto, com aquele bocão: — E aí, figura! Porra, você tá sumida do Centro. — Oi, nego — abraçando ele. Não trabalho mais na Carlos Gomes. — Bom te ver, nega, mas quando puder passa lá pra tomar um mingau. — Beleza, parceria, tenha um bom dia! — Muita prosperidade para você, nega. — Pra você também, pai! Ser lembrada não tem preço. Ou melhor, na lógica do baianês, isso que é consideração. Consideração pra baiano raiz é coisa séria. Tipo ser Bahia ou Vitória.
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Trinta de dezembro de 2017
E no último sábado do ano, como está a Liberdade, linha oito e adjacências? Folhas, incensos, frutas e gente andando arrastando o pé, empurrando o outro com a barriga. Você quer andar, passa um carro de som tocando pagode na hora da groovada e a pessoa tá na sua frente quebrando como se não houvesse amanhã, aí você ri, pois aqui é a Terra do Nunca, de tudo se faz. Segura o bolso que hoje tá o verdadeiro bolo doido mesmo!
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Vinte e um de setembro de 2017
Sabe aqueles contos de metrô? Hoje, cumprindo as rotinas labutárias, sentaram-se perto de mim uma idosa, um rapaz aparentando uns quarenta e poucos anos e um garoto. Como é muito comum em Salvador, na verdade um rito da baianidade, conhecer e conversar com desconhecidos, de repente, sem nos apresentarmos muito, passei para a idosa a informação de onde saltar na Estação Mussurunga. Aí o neto dela veio falar comigo: — Oi, tia! Eu sou Pedro, tenho 10 anos. Quando se tem quase 30, o ‘tia’ lhe acompanha, e eu já encarnei a tia. Eu disse: — Oi, Pedro. Ele disse: — Eu escrevo músicas, posso cantar para a senhora. De repente, a avó dele quase ia cortando o garoto, mas eu falei que ele podia cantar. Sabe aquele talento bem precoce, lindo, singelo, e ele superempolgado, me contando como tinha as ideias para escrever? Nisso, já estávamos os quatro entretidos nas inspirações de Pedro, inclusive aconselhei a avó a já comprar um violão para ele. Gente, achei tão fofo isso, dessas artimanhas da vida de colocar luz numa manhã de um dia aparentemente comum. Vamos deixar nossas crianças livres
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para a criação, a fruição e a expressão dentro dessa riqueza dos dons artísticos enquanto não são podados pela ignorância desumana. Então, segue a estação!
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Seis de dezembro de 2017
Contos de Salvador. Aí você vai tentar fazer o recadastramento biométrico, pega a senha duzentos e lascou. Faz amizade com quatro pessoas do Luís Tarquínio, Garcia, Nordeste, Calabar, conhece, fala mal de Temer e companhia, sobre a permanência do Vitória na série A, para onde vai no Ano Novo, come pão de queijo de dois reais, compra água mineral, picolé, toma aquele sol todo e desiste porque não pode esperar pelas atividades. Foi aí que uma das figuras com quem eu estava conversando me disse: — Oxe, negona, não vá não, mãe. Eu disse: — Aonde, pai, vou me picar. Ele disse: — Feliz Ano Novo! Eu disse: — Para ti e o pessoal também! Salvador é uma viagem! Eu que já não gosto de prosear...
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Quinze de novembro de 2018
Tem um grupo de crianças de um certo beco muito conhecido das narrativas da autora aqui que vive dando nó em pingo de éter. Chamo de bando “Me libera, nega”. No lançamento dessa música, de MC Beijinho, eles cantavam dia e noite, com aquele timbre parecido com miado de gato, e no sobe e desce das escadas pulavam de três em três degraus! Hoje estavam na maior farra pintando toda a rua com giz de cera, brincando de amarelinha, futebol... jogos que só eles entendem, meninos e meninas... Bahia joga com Vitória, Real Madrid, Brasil e França. Uma partida que difere de qualquer ponteiro de futebol de 90 minutos. O jogo começa 14h e termina 20h ... isso quando não termina mais tarde. Uma vez, quando estava de férias, me chamaram para brincar e ser a juíza do jogo. Aí, para testar eles, falei: como assim, uma juíza no futebol? Um garotinho me respondeu: “Tia, mulher hoje faz tudo! Mainha trabalha em casa e na rua. Aqui no nosso time, menina é igual a menino, e a gente quer uma juíza”. Dei muita risada, pois a resposta foi incrível e eu ainda continuo a bulir com a sabedoria de pequenos gigantes.
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Quatorze de novembro de 2018 — Venha cá, rapaz, né você que é fuxiqueira andante? No Paripe – Barroquinha, quarta-feira, maravihosamente entro no buzu e tenho a sorte de me bater com outro cobrador ‘cantor’. E esse era bonito, viu? Negro, cheio de marra, lupão no rosto, careca, barba alinhada faraônica, coreografando olhando para o nada a música do Sorriso Maroto: “Me olha nos olhos e diz”, numa pressão com os braços para cima, como se tivesse vendo Deus. Aí, todo mundo rindo no buzu, é claro, entra um passageiro coroa, com a camisa aberta, barrigudão, e fala: — Cobra tá apaixonado... Ele disse: — Porra, man, amanhã é feriado e eu tô folgando! Já pensando na carne que eu vou queimar amanhã com minha Itaipava... Na maior intimidade, continuaram o papo como amigos de infância. Nisso, chega um cara do lado de fora: — Motô, meu pivete, me dá uma carona, na “omildade”... — Dá não, véi... tô na correria aqui, pai! Vai e vem de buzu, de manhã cedo, só não se anima com essas situações quem é muito chato nesta Bahia de meu Deus. Às vezes as pessoas se comportam dessa forma para esquecer as mazelas pessoais. Viver assim é bemmmm mais divertido, viu.
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Dezoito de outubro de 2018
Salvador é assim: sem tirar, sem pôr. O frisson de uma pessoa de manhã cedo cantando e performando loucamente uma música de Cazuza, atravessando a rua, ignorando o movimento cotidiano do mundo externo, me fez entender que fone de ouvido é ponto de fuga de geral!
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Onze de outubro de 2018
Das marmotas de buzu agora de manhã. Uma senhora de uns 50 anos aparentemente, conversando com uma outra mulher ao lado dela: — Minha filha, você ainda tem um tesão para se jogar na calada da noite, e eu? Nada! Vou pintar meu cabelo para ver se floresce. Deus sabe de todas as coisas! O varão está vindo! Eu respirei, fui me sentar no fundo e me acabei de dar risada. Aos lafuriosos2 de plantão, varão é homem de Deus, viu, gente osada?
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Jeito frenético e ousado dos fãs da banda baiana de pagode La Fúria.
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Cinco de outubro de 2018
Um sextou diferente está pairando hoje. Amanheceu, todo mundo saiu de casa para cumprir suas rotinas operárias no buzu e no metrô, e eu acreditando que iria me bater com o silêncio amargo matinal, mas foi o oposto. Parece que antes estava tudo entupido e, num piscar de olhos, bocas falantes, discussões sobre o debate dos candidatos à presidência, exposições e argumentos em choque. A batida do coração impregnada pelas nossas paixões ideológicas, reacionárias, irracionais e outros olhares — poucos — fingindo demência, a não querer se pronunciar. A coisa tá quente, o babado é forte. Um cara olhou pra outro e disse: — Colé de mesmo, meu pivete? Isso vai passar! Logo vamos meter dança no Carnaval. Outro olhou e disse: — Você não passa de um abestalhado, marionete do sistema. Aí o outro disse: — O sistema é a disgraça! E realmente ele tem razão. Continuei a observar e, doida para me meter na história, segurei a bacurinha e fiquei num silêncio de mosteiro. Não conheço um educador dessa Bahia de meu Deus — ou sem Deus — que não esteja preocupado com o que pode acontecer. E quem não se preocupa é
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porque não está entendendo a gravidade ou realmente finge demência. Haja garapa de limão!
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Vinte e quatro de setembro de 2018
Vira e mexe, entre um mexerico e outro, fico impressionada com o que vejo. Alegria de guri faz qualquer coração sorrir. Estava eu voltando da minha baldeação buzus ‒ metrôs, esperando o transporte naquela ausência de frescor noturno baiana, quando um guri sentado no ponto larga: — A vida é tão difícil! Eu rapidamente espiei para procurar quem era um dos premiados a porta-voz do muro das lamentações. Aí entrei na história, coisa que um observador não deve fazer: — Qual sua idade? Ele animado: — Oi, tia! Meu nome é Matheus, tenho 6 anos e a vida é difícil e pronto. Eu vou dizer o que mais? Vai cutucar criança!
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Seis de setembro de 2018
Para relaxar, aquele conto pós-expediente das aventuras rotineiras do buzu de Salvador. Noite de quinta, busão lotado, eu voltando do trampo e a Paralela daquele jeito, eis que o cobrador com a sua playlist começa a performar cantando uma das músicas do grupo Roupa Nova. Eu estava já chorando de rir, quando ele inventa de cantar “Dona”, flertando comigo na parte “não há pedra em teu caminho, não há ondas no teu mar, não há vento ou tempestade que te impeça de voar”... Muito engraçado, que onda! E bate logo aquele climão nas feições das pessoas, uma moça com o olhar perdido vendo a chuva cair pela janela, um cara rindo, pensativo, só faltou uma breja e depois ele mudar pra Pablo. Do caos a momentos de distração! Ó paí, ó!
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Sete de dezembro de 2018
Singular é a arte de contar histórias. História tem cheiro de rua. Pela sedução noturna, o papo com as parcerias, pois ser conhecida é muiiiitoo bom, melhor que ser “tapado”, diz um certo amigo. Venho andando para o ponto de ônibus, com a mão nas cadeiras, hábito rotineiro, me param duas pessoas e uma me diz: — Negaaa! Vamos descer de barreira que é melhor. Eu não neguei a trupe recém-formada e já fiz logo amizade porque sou dessas! Tinha um senhor de idade nesse trio, trajando uma camiseta vermelha e preta brilhante, cheio de marra, tirado a novinho, e me relatou sobre os antigos carnavais. Falamos sobre a Festa da Conceição, ele me disse gargalhando que festa boa é festa em que se arranja briga. Dei aquela olhada atravessada e ele disse: — Por acaso lhe ofendeu? Eu disse: — Negativo... para brigar comigo tem que ser muuuuito bom! Ele disse: — Sim, poderosa! Dona do quarteirão do centro da Av Sete. Mas a senhorita é muita da ousada! Acabamos rindo bem alto pela rua, uma moça que estava acompanhando também se embalou nas risadas e cada
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um seguiu seu destino. Pensei: que gaiatice! Só aqui em Salvador essas resenhas surgem. No ponto de ônibus, o povo metendo dança, só no vrauuu! E eu na minha, me remexendo disfarçadamente, porque o quê de pagodeira raiz é inegável. Afinal, sextou!
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Onze de dezembro de 2018
Na feira logo cedinho, tipo 6h45min, tirando aquela onda de geração saúde e que faz uso de frutas pensando no pós-rango de meio-dia. Ela virou a sensação desfilando em meio a cascas de banana e lama, tipo aquelas peruas do “Leblon” da novela, com cara de tapadas, escolhendo o que levar, por andarem muito na cozinha pra não dizer o contrário. Surge o mexerico: — Toda metida, ali nem tratar um galeto ou bifar uma carne sabe. Outro, que estava na outra banca, respondeu: — É melhor que você fique na sua, mestre, as mulheres hoje tão viradas no cabrunco, direitos iguais. Você é muito machista! Eu mesmo chego em casa e já encontro tudo pronto, não faço nada... a mulé deixou tudo em ordem! Esse era o verdadeiro falador passa mal! Crente e abafando que entendia sobre igualdade de direitos, duplicou o machismo. Certo é aquele ditado, que a gente larga no veneno: “Vale mais a pena ser um sábio calado do que um papagaio mal-informado.”
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Vinte e dois de junho de 2019
É São João: tem chileno, equatoriano, baiano. Colar acolá. Me pinte para a Timbalada, Binho! É quando o vento sacode a cabeleira! — Segure o bolso, pare de ser abestalhado, vacilão, e coloque tudo enfiado — disse uma figura baiana que não perde um tilintar no prato. — Casal que marca metro quadrado e não dança, antes só que mal acompanhada — disse ela virando uma dose de licor. E antes, na abrideira, ricamente, uma dose de Seleta; deu uma alta risada. Tudo cheira a milho e bolo doce. Um camelô, conversando na porta do Elevador Lacerda, já havia aberto um leque de idiomas na cara da figura e depois disse: — Deve ser baiana, me apaixonei! Aquela rabiada de olho com o chapéu por cima da cara, ri novamente. Chega uma terceira voz: — Viva Chileeee! Um cara grita: — Viva Chile uma disgraçaaaaa. Bora Baêa! Salvador é tipo já um braço na camisa de força.
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Dezoito de junho de 2019
Tomar parte é a ciência popular diurna baiana. Ele foi seguindo viagem a partir da estação de metrô Detran, todo cheio de assunto, escrevendo no zap, rindo, e a letra era gigante. Eu de cá espiando o fuxico sorrateiramente. No diálogo escrito: “Querida, vc é meu anjo. Meu único amor!” A reposta veio em seguida: “Diekê de discarado, isso sim kkkk!” Depois ele mudou, escreveu a mesma mensagem para outras três criaturas. Contei certinho 1, 2, 3. Aí, ao lado, tinha um cara lendo a biografia Elis furacão. Eu pensei na dinâmica dos furacões, na leviandade dos corações e nas engenhosidades de homem que até God dúvida. Baratino dos bons esse.
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Onze de junho de 2019
O hábito de curiar nas janelas daqui da rua é antigo. Quando éramos crianças, na casa da minha madrinha, ficávamos na expectativa de ver os vendedores da vassoura, da tapioca e da folha, para remedar (imitar). O da tapioca passava com uma bacia na cabeça, cheia de beiju e colar de licuri, na maior postura, gritando: “Ê tapioca! É tapioca!”; o da folha passava: “Capim-santo, erva-cidreira, espinho cheiroso e mãe-boa!”; e o da vassoura era o melhor de todos. Na memória de criança parecia tipo aqueles super-heróis. Cheio de vassouras. E a vassoura que a gente amava era a que chamávamos de “vassoura da bruxa”, aquela de limpar telhado gigante. Ele passava: vassoureiro! Sempre mainha reclamava pra gente parar de abusar imitando os vendedores. Era muito divertido ficar dependurado na janela, na expectativa dessas figuras aparecerem. Isso diz muito de como o nosso povo baiano não nega trabalho e labuta muitas vezes pela herança do saber dos nossos antepassados: rolete de cana na cabeça, acarajé, bala de açúcar queimado, acaçá. Dessa história bom sabedor compreende!
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Dois de junho de 2019
O Pelourinho é minha pintura impressionista, de tarde esse jogo de luz e sombra lembra muito esse estilo. Aqui, na escadaria da Casa de Jorge Amado esperando as amigas, me surge um cara vestido de índio, pintando as pessoas com o símbolo da Timbalada. Cai uma moeda, um real. Todo posando de herói, novamente me vem Alencar, quando escreveu O Guarani. Imagina que mistura? Salvador é uma viagem antropológica. A baiana com a mão nas cadeiras, já invocada, que lucro difícil de dar! O outro tem na camisa escrito “acarajé, vatapá, camarão e pimenta é R$1”. Reparando os arredores, essas amigas que não chegam, e eu que só vim tomar uma, porque de vida alheia eu não gosto. Um gaiato gritou: “Olhe, mulher, macaco sabe o pau que sobe!”, e o outro respondeu: “Que delícia!” E eu, bem inocente, não entendi nada, não é mesmo?
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Trinta e um de maio de 2019
Quem fica na espreita é outro! Vão as três amigas conversando no metrô, falando alto para minha surpresa, pois a galera fica bem quietinha, sem resenhar. Inclusive, merece um estudo de comportamento: baiano no metrô e baiano no buzu. Como não estou para resenhar sobre isso neste momento, continuei a espiar o papo das amigas. — Mulher, detesto esses boys que abraçam e deixam o perfume fuleiro todo na roupa da pessoa. Eu pensei: realmente, ninguém merece; odeio! Aí a outra amiga: — Queria eu, viada, ter um boy cheirando a no mínimo sabonete Senador e Alfazema. Rapaz, nessa hora todo mundo gargalhou, menos uma moça que estava ao meu lado, lendo Immanuel Kant e a política da paz perpétua entre os estados, em plena sexta-feira! Me poupe, pessoa conceitual acadêmica. Tirou tanta onda, repreendendo com muxoxo e balançando a cabeça para as meninas. As amigas nem aí estavam. Uma coisa é ser estudiosa, outra coisa é ser chata. Gente chata a gente mata sorrindo. Bom dia!
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Vinte e nove de maio de 2019
Empatia realmente é a palavra do momento. Uma pena que a cada dia o carecer desse ato prevaleça, seja nos discursos institucionais ou no cotidiano. Hoje vi a cena mais linda da manhã: passando de buzu nas imediações da JJ Seabra, uma moça, preocupada com uma senhora que mora na rua, foi comprar um lanche para lhe ofertar. O motorista do ônibus esperou a moça, que precisava atravessar a rua para comprar e ao mesmo tempo pegar o ônibus. Não interessa aqui se o motorista conhecia a passageira, o que é positivo é a dupla empatia que nasceu diante da atitude. Nessas horas a esperança nossa fica tipo fogueira gigante, mexe com nossas estruturas, a percepção aflora para o ideal: a coisa é simples e não precisa de holofote para destacar protagonismos, o que fica é o ato mesmo.
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Vinte e quatro de maio de 2019
Das altas risadas e burburinhos, as duas falavam pelos cotovelos no buzu: — Amiga, ele viu o dele, coloquei no meu status uma sequência de música clássica desde 5h da manhã! O discarado só espiando e eu bem plena, nega. Eu pensei: é, deve ser Beethoven ou um figurão bem erudito... Eu desconfiada, sem perder um lance da vida alheia, ela respondeu: — As melhores, para mim, são as do Poeta, A invasão, e a estourada “Shallow now.” Comecei minha sexta, como boa baiana, com uma playlist de pagodeira para animar, pois a poesia é lírica, popular, e a periferia poetisa todos os dias para amenizar o caos em que estamos inseridos. E você, já trabalhou seu caos interior hoje?
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Quatorze de maio de 2019
Novamente nas minhas andanças de buzu. Vem uma mulher com sua cara de pau lambuzada, que passa na frente de todo mundo para pegar o ônibus circular no CAB, destrinchar fracos argumentos logo para mim, fazedora da gira girar... olhe que hoje não é quarta! — Ah, minha filha, a culpa do povo passar na frente de todo mundo é do órgão que criou esse ponto improvisado com bancos e cobertura. Eu passei a mão nos cabelos e, numa tacada de punhalada de circo, respondi: — Moça, na Universidade que frequentei havia uma senhora pós-doutora, e eu me curvo diante de sua sabedoria, que me dizia o seguinte: “Na escrita de um artigo científico, você precisa procurar ‘culpados’ (referências) para justificar suas constatações”. Nessa mesma linha, nos isentamos de carregar as culpas pelas nossas atitudes ou ausência de ações para justificar a falta de educação. Compreendeu a comparação? Um cara gritou: — Língua universitária, língua de maçarico com um talo de
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pimenta malagueta. Nocauteou sem pena, negona. Dei as costas e desci porque, graças a Deus, chegou o destino e eu ia fugir da feiura de ser humano e da surra que ela ficou com vontade de me dar. Viu, sua miséria?! Bom dia! Terçou!
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Quatorze de abril de 2019 Gente, tempo de quaresma não se fuxica. Entregue à força do hábito, voltando no buzu lotado da caminhada de Ramos, no meu traje de devota com a camisa de Santo Antônio, na minha, concentrada, um cara me olhando e eu desviando a vista, até que ele falou: — Uma mulher de Deus nesse mundo raro, religiosa e indígena... Eu olhei para ele e perguntei: — Indígena? Ele disse: — Sim. Esse seu colar veio de longe, da comunidade dos Kiriris... Calou minha boca. Quando íamos remendar conversa, ele já sacando o celular para me pedir meu número, surge aquele vozeirão familiar: — Dona Daiana Maria, chegou o ponto! Ai, meu Deus! Cortada de Painho até de Maria ele me chama... de novo. Viu, para vocês que amam um pecado, tome! Glorioso Antônio não vai me casar nunca. Dos caprichos de fazer arte, recordei de minha vó ao mesmo tempo, de quando a gente ia saber bem sabido o gosto do couro quente da bainha de facão enquanto dançava “Alibabá”, o que quase fez o povo voar pela janela na casa da fazenda. Quaresma é coisa séria. E quando mais velho fala, acontece!
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Trinta de março de 2019
Das histórias da noite. Chovendo, novamente protagonizando uma das histórias, vou passando pela Liberdade, com minha echarpe na ventania, quando um senhor de repente me aborda: — Minha Santa, me concede uma dança? Eu prontamente dei uma risada. Ele fez o gesto tira-chapéu... chapéu preto de fita vermelha carmim, como nos romances alencarianos. Respondi: — Meu senhor, infelizmente, desta vez não bailarei contigo pois tá chovendo. Ele, elegantemente, estendeu a sua mão e beijou a minha delicadamente. Nisso, de parte, estava parado o carro do lixo, com a plateia da batalha se acabando de rir. Um deles comentou com outro: — Velho discarado, chavequeiro! O outro: — Rapaz, isso sim que é cortejar uma dama, como dizia meu velho pai. É por isso que as novinhas só querem os coroas, viu? Aí eu pensei... quem é a novinha?
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Quatorze de março de 2019
Sobre a rainha das tretas matinais. No movimento rotineiro de remexer as cadeiras, no sobe desce, lá vou eu entrando no buzu e de repente minha bolsa térmica abre, quase derrubando o alimento sagrado da guerra diária. Aí um gaiato exclama: — Cheirou, cabocla! E deve ser um bife suculento! Um show de risada, e eu bem bicuda e desaforenta dei aquela olhada segura, arrancando os óculos escuros como protagonista de filme hollywoodiano. Não satisfeito, outro cara disse: — A cabocla tem olhar de matadora, Deus é mais! Parece que a gaiatice transborda nesse dendê aqui. Achando pouco, ele continuou: — É, ela é indígena, você viu que tem uma parada amarela na marmita, deve ser cuscuz. Novamente o povo gargalhando. Eu não me aguentei de rir e ele continuou: — Tem espírito de pedreiro, apesar de ser meio madame! Mistura a porra toda para pegar a sustância, retada! Eu pensando nesse papo miscigenado, regateiro... É verdade, a comida conta muito de que lugar cada qual é... Na hora de descer:
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— Olhe, nega, venha de novo com essa marmita incendiária e traga caruru que amanhã é sexta! Desço morta de vergonha, saculejando meu almoço, que realmente é bife com cuscuz. Ah, minha Salvador!
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Doze de março de 2019 Bem linda, batendo às 6h30min da manhã na quitanda da laranja da feira, ele abriu um sorrisão para me vender naquele frete seco baiano. E eu correspondendo, porque mainha não se dá. Ele disse: — Minha preta, tava por onde esses dias? Num tom de satisfação, dando risada, eu disse: — Meu preto, foi Carnaval... Ele disse: — É mesmo, mãe. Amei esse seu batom cor de uva... tô vendendo uvas da cor dele. Eu rindo novamente... Nisso, surge um vozeirão familiar: — Dona Daiana Oliveira!... Lá vem painho entrando na feira e me filmando há muito tempo. Ele disse: — Olhe, estou de olho na senhora! E eu no sorriso amarelo discarado... Ele disse: — Essa menina dá nó até em laranja... querendo enganar puta velha! Eu pensando... Poxa, nem peguei a minha quebra grátis. Laranjada mesmo!
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Quatorze de fevereiro de 2019
Novela baiana no Campo da Pólvora: a gente se olhou, ele em seu look monocromático sem sal, um belo sorriso baiano, subindo as escadas rolantes... Eu, descendo, claro que retribuí o sorriso, aquela girada de pescoço já dando um torcicolo, e ele sumindo, até o fim da escadaria. Podia ser Carlos Daniel, Rogério Rodrigo Rodolfo, mas aqui não é novela mexicana. É Salvador, é verão e ninguém aqui flerta... se freta é que fala. Bom dia!
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Seis de fevereiro de 2019
No cruzamento do busão na rotatória da Barroquinha, novamente ele entra com seu uniforme de jogador. Na verdade, acho que ele deve ter uma coleção de camisa de time. Bocas e olhos reviram porque ele chega acompanhado de sua caixa de som e toda a discografia de Pablo. Tem gente que se embala no som, arrochando em silêncio e sorrindo, lembrando das tretas amorosas possivelmente. Um cara na minha frente, já no ritmo de dois para lá e pra cá, dependurado no ferro do buzu, sensualiza dando pala de fileta de cueca vermelha da “Calvin Klein”, famosa nas prateleiras do comércio baiano, e dá aquele sorriso de canto para mim... e tinha um tanquinho, papai, que mainha viu e deu risada. Um outro impistiou o buzu — como disse uma moça — com cheiro de sabonete Palmolive. E outra disse: — Esse não tem perfume em casa! Ai, gente, não registrar seria pecado. Quartou mesmo!
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Dois de fevereiro de 2019
Um pescador falou que dia de Odoyá é dia de gente de todo tipo. Pediu a Mãe Inaê, Dona Janaína, na beira do mar, no Rio Vermelho, que lhe desse paciência para 2019. Aparentemente estava só e feliz, como ouvi sussurrando. Azul no mais profundo tom, branco de nuvens, flores brancas e azuis se tiram espinhos, não se presenteia ninguém espetando. O mais lindo de se ver é o povo de santo — candomblecistas, umbandistas — no mais profundo respeito. Turbantes, bordados, ojás, panos da costa, pulseiras, contas e muito o que se contar. Pelo que percebi, existem várias formas de se fazer presente em Iemanjá, como escutei muitos comentarem: pessoas que permanecem no alto de suas varandas nas proximidades da festa, pessoas que nem sequer ofertaram uma rosa, gente que só dá um close e se sai, pessoas abastadas que só faltam lhe derrubar para exibir e disputar entre os seus qual barquinha é mais bonita. Se acompanha com os olhos e o arquear das sobrancelhas a mais genuína simplicidade e a mais pura arrogância de posturas. Um velho muito sabido falou: “Filhinha, você não entendeu. Há Iemanjás e Iemanjás nesta cidade, sacou?” Entendi perfeitamente o que o bom velho me disse. Pois então, minha saída, bem estratégica, foi às 12h do dia, a típica boa hora.
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Vinte e três de julho de 2019
Nos olhamos discretamente... pela primeira vez consegui ser um pouco discreta. Os dois estavam envolvidos em suas leituras: ele lia um livro de Karnal, e eu, bem bizoiuda, vi que o parágrafo a que ele se atentava fazia menção a Schopenhauer (filósofo). A gente começou a se olhar e ele era um gato tipo o Pantera Negra do filme. Peraínnn que ainda são 6h30 da manhã. Haja coração! Eu, como sou um pouco ‘tímida’, iniciei a conversa: — Bom dia. Posso ver o que está lendo? — Bom dia. Sim. Olhei a capa e iniciamos um segundo diálogo. Falamos dos livros de Bauman, da Teoria da Relatividade, da Grécia Antiga, histórias mil... Cheia dos diekês e das quarrás como sou, chegamos na estação Acesso Norte e cadê a troca de telefone, mainha? Já dizia o nosso filósofo, músico contemporâneo, Silvano Sales: “Que pena que você saltou!” Eita! E só é terça...
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Dezoito de julho de 2019
Um minuto de alegria para nossas angústias futuristas: ontem uma senhora me deu uma verdadeira aula que me levou à janela da formação do passado: o magistério. Sempre ouvi dizer que esta formação lapidou muita gente melhor que o próprio curso de pedagogia. Para não desfocar, voltando à senhora em questão: ela sorria orgulhosamente, vestida num jaleco com seu nome e o da disciplina que rege bordados. Eu brinquei, perguntando se era médica, e ela me respondeu: — Os professores, nos primórdios da regência de classe, raspavam de um material bruto para gerar o giz, e para não se apresentarem salpicados de pó utilizavam um jaleco branco. Essa era a imagem que ela recordava de uma professora que inspirou sua carreira. Se orgulhava falando da sua docente preferida. Eu amei essa história e curti essa senhora tão feliz ainda em ser professora. E não sabia que o uso do jaleco pertenceu à nossa categoria. Veneráveis mestres! Fiquei emocionada de ver e ouvir isso ontem.
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Onze de julho de 2019
Ele gracejava em tom de esperteza o seu desenrolar com as vendas, baixa estatura, bem franzino: — Tia, prefiro vender minha mercadoria escondido no shopping. Aqui, o que vendo de R$1, lá eu vendo de R$2! Muita gente no ônibus achando lindo, romantizando, e eram 20h no buzu, vendendo na Paralela. Uma senhora exclamou: — É digno, ele poderia estar nos assaltando! Meu olho nem revirava mais, só faltou sair da caixa. Poderíamos pensar múltiplas teorias: quem sabe ele ajuda a sustentar a casa, não estuda, tá ali por diversão (tem gente louca que já ouvi falando isso), mas a história que trago aqui hoje é velha para os nossos olhares. Antepassados, pais, conhecidos que passaram por isso. Sem espaço para cumprir o tempo certo de despertar o ser brincante. Tem gente que aplaude: “Que pessoa esforçada!”, mas esforçado é um termo que deveria ser abolido dos dicionários, remete à escravidão, à servidão sorrateira e costumeira fixada neste país de tanta gente medíocre, às vezes periférica e que acha que é burguesa. Foda-se sem licença poética e pouco respeito aos ouvidos da sensibilidade. Tudo é muito subliminar ultimamente, caríssimos. Segura o rojão que vai ser pesado, se apegue à sua crença ou descrença, porque como Gonzaguinha pensava
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na “pureza da resposta das crianças”, eu penso como nós, educadores, conduziremos esses jovens no futuro. Como vou encarar a sala de aula hoje?
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Sete de julho de 2019
Deixa eu lhe contar um fuxico cinematográfico. Acredito que nem Almodóvar tem noção da natureza tragicômica do baiano em eventuais episódios de condução de ferryboat com chuva. Lá íamos nós sendo despachados em Bom Despacho e aquela nuvem carregada se aproximando. Todo mundo se acomodando na embarcação, cheio de gaiatice, bebendo, dançando, casal fazendo pose clássica de Rose e Jack no último andar, quando de repente geral recolheu os sorrisos largos e rolou aquela fechada de cara coletiva e apreensiva. Eu, que sou a menina da risada, séria não permaneci. Olhei para a garrafa do licor que eu portava, de nome Gabriela, e pensei: os insanos recorreriam à abstração imediata dos fatos engolindo o litro. Permaneci lúcida, comendo meu beiju molhado, não optando por cair nos encantos dionisíacos. De repente o ecumenismo se instalou no ferry, que chacoalhava, e eu com a mente maquinante, cantando para dentro “Se a canoa não virar, olê olê olá, eu chego lá”; uma mulher olhou para o mar, chamando Inaê; uma senhora cantando Noites traiçoeiras ao meu lado, e eu já agoniada; uma velhinha bem rabugenta falava que era fim de mundo e que Jesus ia voltar. De tanto fuzuê, me engasguei com o beiju na hora da melhor dentada, quando caiu uma pingueira no último pedaço. Me ofereceram uma cerveja e eu não quis, não sabia se ria da
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situação, quando em seguida vi um garotinho, desses de uns 5 anos, bem invocadinho, observando tudo. A mãe agoniada, abraçada a ele, e o menino largou: — Todos medrosos! Eu pensando no que esse torcedor mirim do Bahia falou. Ele todo vestido do time. Parecia aquele personagem das narrativas de Maurício de Souza, “Do Contra”. Quando a tempestade foi se acalmando, o saldo do dia: estávamos todos agradecendo aos múltiplos deuses, molhados e felizes de ver a Feira de São Joaquim e todos aqueles prédios da localidade da Cidade Baixa. Tipo filme. “Terra à vista” nunca fez tanto sentido. Ufaaa!
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Dois de julho de 2019
— Você não sabe é de nada! — respondeu um vendedor de cerveja a outro. — Rapaz, essa festa já deu bom, meu isopor tá cheio. Quero ver a galera em água! O observador falou: — Nem a galera da política foi forte este ano. Tá todo mundo cabreiro. — Aonde, pai? A gente é baiano, não tenho culpa se roupa de homem não dá em menino! Tudo culpa desse presidente! Essa disgraça! E eu só olhando... — Rapaz, vamos encerrar esse assunto? Deixa eu tomar minha cerveja, esperar meu samba e pegar o gorduroso para de noite ver o jogo daquela outra disgraça! Desviando a atenção dessas figuras curiosas, começou o samba. Só me lembrava da colega do trabalho com seus termos engraçados: só os modelitos shorts “beira-cu”, samba de bater a bunda no pandeiro e marcar remexendo, acompanhando o tantan. Era o povo da Liberdade com o Sambrasil engolindo o Centro Histórico com cada figura cheia de graça, esquecendo um pouco os problemas, sambando na cara do desemprego, das injustiças, no prato cheio de risada que vê o céu da boca, chamando todo mundo de caboclo e cabocla porque a resistência ancestral é o caldo do nosso balanço e a ousadia que
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faz a gente acordar bem linda amanhã para ir trabalhar, como se nada tivesse acontecido. Baiano não é brincadeira, samba de cacete na mão até ficar velhinho. De pensar que tem tanto jovem chato e mal-humorado. Toma vergonha e pega visão!
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Vinte e quatro de agosto de 2019
Cheiro de peixe exalando no buzu em plena ladeira do São Caetano! A novidade não é essa. Um rapazinho cego gracejava a sua própria condição e todos riam em meio àquele aroma de sardinha. Uma mulher disse: — Sardinha atabacada! Só podia ser nesse bairro! Um cara disse: — Ô bença! Primeiro lugar, boa tarde! Colé de mesmo que você tá falando de meu bairro? Se pique do buzu! Nisso, o rapaz que era cego disse: — Eu vejo mais do que vocês, suas disgraças! Estou voltando de um níver que vai render marmita pra três dias. Fiquem aí brigando qual favela é melhor. É por isso que eu fico na minha, que ninguém me bole, viu! Um cara, dando risada, falou: — É melhor que você feche seu cu, de menor! Não vêêêêêêê, mas fala demais. A galera inteira rindo e nada de o buzu sair da ladeira. Esquecemos o cheiro do peixe, e o protagonismo dessa história ficou na boca de geral! Quem guenta?
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Vinte e dois de agosto de 2019
Daquela telenovela soteropolitana... — Olha que eu cheguei! Olha a banana, olha banana! E ela passou bem sorrateira na banca de frutas, com seu saltinho alto, se sentindo a madame da Feira de São Joaquim. Como no filme da antiga Feira de Água de Meninos. Quando a avistou ele encheu o peitoral (Afeeemaria) e, com um chapéu de palha gigante e um short que a Liberdade inteira tem, se exibiu gritando: — Olha a banana graúuuuuda! Dando risada, ela perguntou: — Bom dia, tem banana da prata? Ele respondeu: — Da que você quiser eu invento, negona! Quer pra quantos quilos? Tem da terra, da água, do céu... Ela, dando uma gargalhada, respondeu: — Depois eu pego! Um cara de parte, na banca da melancia, disse: — Eita que hoje só tem caroço! Na linguagem das vendas, caroço é aquela pessoa que olha e não compra nada. — É mole! O espião bocudo quase estraga o frete matinal! Ele, bem sorridente, falou:
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— Não demora de vir pegar não, hem? Quer meu zap pra comprar de quilo? E aquele velho migué deixei de gelo e no mistério, só distribuindo sorrisos, pois com sorrisos se compram não só bananas, mas o mundo!
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Dezesseis de agosto de 2019
Na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas existia um ser encantado chamado “Disseram”, que participava de quase tudo, desde os acontecimentos reais até as situações mais pitorescas da Ufba. Disseram provocou risadas, discórdias e ninguém sabe até hoje quem responde pela origem desse ser, salvador dos trabalhos malfeitos e daqueles trabalhos ditos com louvor. Disseram era o melhor argumento para um dia de atraso. Uma quarrá engraçada da qual alguns dos meus leitores vão lembrar, foi quando Disseram disse que não haveria aula de uma disciplina. Disseram brincava com a gente feito criança truqueira. Quando quase saíamos da faculdade, o mestre da disciplina chegou de carro, nos perseguindo, utilizando do “valte”. Dessa vez, um “valte” acadêmico e refinado. Foi a peça mais safada que Disseram nos pregou! Será que ele saiu da faculdade? Quem te disse, menina?!
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Quinze de agosto de 2019
Seria aquele itinerário noturno comum... comum que nada, vc mora em Salvador. Corre todo mundo no ponto e um bocudo grita: — Lé vem o buzu de ar condicionado! Sai todo mundo correndo, e naquele aperta e esfrega na catraca vem um entrando, registrando a passagem, colocando o cartão na boca, segurando a sacola, se requebrando. A senhora cheia de muxoxo falou: — Parece que é abestalhado! À toa! Tabaréu! A galera toda encantada, o busão realmente lotou e o frio comendo no centro. Um gritou: — Botou pocando, pai, tá filé! Vontade de dormir aqui! Ô mainha, já chegou nas Sete Portas. A mãe, toda envergonhada, não parava de rir. Uma moça toda descabelada, com cara de cansada do trampo, saca da bolsa o saco cheio de bolacha de Maizena quebrada. Nisso, o ônibus freou e foi bolacha para todo lado. Um pedaço da iguaria caiu na cabeça de um homem careca. Sabe essas trajetórias de arremesso que nem a física explica? Todo mundo deu risada, pois a bolacha grudou no topo da cabeça. Rapidamente, envergonhado, o cara tirou. E eu pensando que ia rolar um bafafá! “Ainda existem pessoas de boa nesta cidade”, disse um gaiato.
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Outra mulher esperou a dona da bolacha descer e se pronunciou: — Se fosse eu, ela ia ver o dela! Aos poucos, esvaziando a ‘carruagem real’, uma mãe quase dá um peteleco na orelha do filho, que ia descer no ponto errado, acompanhado de um grito que nem precisava de otorrino. — Ô mininoooo! Valllllteeeee! Tá aí uma palavra que amo nesta cidade; “valte”, no bom baianês, é a mesma coisa que “volte”. E voltando as histórias brotam, e eu aqui só captando. Que onda!
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Onze de setembro de 2019
O maior alvoroço! O motorista começou a gritar: — Ohhh gente! Na moral, chama essa rasta que tá dormindo, esse é o ponto dela! Já chegando na Barroquinha, o pessoal fez logo uma agonia: de forma nada delicada deram aquele solavanco, sacudindo a moça. — Eiiiii, acordeeee! Chegou seu ponto! Um rapaz soltou ironicamente: — Deve ser limusine fretada para a princesa. A maior risadaria no buzu. Uma outra disse: — Oh gente, olha onde ela trabalha! Que lugar barriado! Como se todos fossem amigos de infância, cada um soltava uma piada, bem característico do comportamento baiano: intimidades que são geradas do nada! A moça acordou esbaforida, agradeceu ao ônibus inteiro. Um filósofo de buzu que tomava parte da situação, assim como eu, disse uma pérola: — Consideração na nossa terra é tipo doce do bom. Uma mulher que balançava a cabeça em sinal de afirmação disse: — Verdade, nego! Dou valor a quem me consideraaaa! Aí um cara dando risada disse: — Motô, a pergunta que não quer calar: cê tava na maldade, doido pra levar a moça pra garagem... Cês não pegaram a visão,
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inocentes! Ninguém se aguentava no riso. Ele continuou: — O buzu virou consultório sentimental, sou cabeça feita para dar conselho, bem vivido. Uma voz no fundo gritou: — Você é corno, isso sim! Chegou a descida e quem sabe o que rolou adiante? Toda Barroquinha tem seu fim.
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Nove de setembro de 2019
Afinal de contas, que fila gigante era aquela? A padaria sensação da Liberdade, tanta gente num tapete vermelho que não era o de Hollywood, mas a clientela em questão se sentia com suas altas risadas. Mulher, homem e aquelas crianças que saem arrastando o saco de pão respingando a água da chuva. A criança maior falou com a outra menor: — Mainha vai te dar um piau! Uma tapa que cê vai ver! E como em toda resenha baiana, olha o cheiro de confusão! Duas mulheres no estica e puxa de uma embalagem que parecia um bolo... eu olhando de canto, na expectativa para ver o fuxico: —Eiiii! Salte meu brioche! A outra: — Epaaa! Peguei primeiro, é igual ao da mulher da novela dos ingleses! Rapaz, viuuu que a Liberdade não decepciona? A galera com altas referências cults. E nesse estica e puxa, a briga pelo brioche virou amizade. Resolveram dividir e começaram a comer, pois iam comprar o pão. Tinha um velho nessa fila resmungando: — Cadê a fila de prioridade? Um rapaz falou: — Meu senhor, quando o senhor fica na Piedade de manhã
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cedo batendo papo e tomando parte da vida dozôto é gostoso, né? Dissscaradooo velho! Diante de tanto lero-lero, encontrei um admirador que falou: — Nega, meu coração bateu! Eu respondi: — Ótimo! Sinal de que está vivo... Dá licença que é minha vez de pegar meus oito pães por dois reais! Está valendo mais a pena. Eu achei que falei baixo. Quem disse? O povo na fila rindo e um gaiato falou: — A dona do brioche é ela! Rainha da Inglaterra ela bota no chinelo porque aqui na Liberdade também tem majestade! Cheio de osadia, porque baiano já nasce assim. Boa noite pra quem é de boa noite!
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Vinte e quatro de outubro de 2019
Regra número um: as discussões matinais podem ser evitadas... fique aí! Não esqueça que você está em Salvador; novela mexicana nada! Aqui é atuação cinematográfica digna de Oscar. Você vai passando na rua e um carro parado começa a jogar água para todos os lados! Aí vc respira, achando que respira os ares da paz do Tibet... Nada! — Eiiiiiiii! — dando duas tapas no carro. O dono do veículo, bem sarcástico: — Sim, dona da rua! A Lima e Silva é dela agora... Respirei fundo: — Olhe, se feche que você não tem razão, existem pedestres na rua. No arrudiar do confuseiro, os fuxiqueiros que tomavam parte: a mulher do mingau, o gari e o homem da banana. Nem piscavam! Nisso, o sinal estava verde, ele pegou e disse: — Deus lhe acompanhe, viu, moça! Eu respondi: — E o diabo que lhe carregue, miséria! Continuei meu trajeto caminhando, o gaiato passou bem devagar com o carro, abriu o vidro, buzinou e falou: — Vamos ficar de boa! Te achei bonita, nega, me dá seu contato. Olhando direito para a cara do boy... não é que ele era
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gato? Como diz o ditado do lero-lero: mudou-se o rumo da prosa e o conto já ficou de outra natureza. Me deixe, viu!
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Quatro de novembro de 2019
— Te dou 12 laranjas por dois reais, morenona! Dei risada e respondi: — Quero sim, nego! Entre sorrisos e suspiros no meio das laranjas, a manhã de segunda ficando gostosa e esse frete de primeira, a milésima temporada, nem editor tá conseguindo acompanhar os capítulos da treta soteropolitana. Uma vendedora em frente, sentada e gargalhando lendo um livro, me chamou a atenção. Comia a mercadoria mais que vendia. Me aproximei e vi que lia aqueles romances de mil novecentos e bolinha, Júlia, Sabrina. Eu perguntei: — O que tem de engraçado aí? Ela me olhou bem sisuda e disse: — Intrometida, vou largar o doce. Ô livro bom! Só tem osadia hahaha. E outra, parece o trelelê de vocês dois. Eu superbancando a ingênua, fiz cara de Sandy... — Eu e quem? — Sim, sonsiane! — ela respondeu — Vá trabalhar, viu, mulé! E não deixa a sorte passar! Recado dado e prontamente recebido. Com essa, retoquei meu batom pela lente de um espelho de uma moto estacionada, ao som de fiu fiu, mainha! Minha terra tem laranjais, e o gorjear das aves humanas é incontrolável. Eita!
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Impresso no dia 8 de julho de 2022, na Gráfica JB Ltda, com miolo em papel Polen Bold 90g; e editorado com a fonte Adobe Garamond Pro corpo 12. Tiragem: 1000 exemplares.
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