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Efemérides | Caramurê Publicações | Selo João Ubaldo Ribeiro

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O selo João Ubaldo Ribeiro é um prêmio que vai muito além da publicação de livros, visa abertura de caminhos, de oportunidade, de afirmação de talentos e carreiras. É incentivo à leitura e valorização dos escritores baianos. A cada dois anos são lançados oito novos livros que são doados para bibliotecas públicas de Salvador e da Bahia. Esse prêmio faz parte do Programa Caminhos da Leitura, e é promovido pela Prefeitura da Cidade de Salvador, desenvolvido pela Gerência de Biblioteca Livro e Leitura da Fundação Gregório de Matos.

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Dia do


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Efemérides Márcia Monteiro

EPP Publicações e Publicidade Ltda.

1ª Edição Salvador/Bahia - 2022

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Coordenação geral: Claudijane Palma Comissão de avaliação Ano III Cássia Dolores Costa Lopes - gênero: Dramaturgia. Fernanda Maria Brito Gonçalves Almeida - gênero: Categoria livre. Hugo Brito Canuto Oliveira - gênero: Literatura infantil. Lindinalva Amaro Barbosa - gênero: Conto. Luciany Aparecida Alves Santos - gênero: Poesia. Marcus Vinicius Couto Rodrigues - gênero: Crônica. Victor Uchoa Firmo - gênero: Romance. Títulos participantes do Selo João Ubaldo Ribeiro Ano III A história do Bicho-Folhagem – Stael Mamed (Literatura infantil) Alimentando as Feras – Aícha Marques (Dramaturgia) As Fotos Roubadas – Breno Fernandes (Romance) A travessia do grão profundo – Paulo Atto (Dramaturgia) Efemérides – Márcia Monteiro (Categoria livre) Fuxico, resenha, mexerico nas esquinas e buzus de Salvador – Daiana Soares (Crônica) Sobre quatro patas há um lugar seguro – Aruane Garzedin (Conto) Soprando o vento – Tiago D. Oliveira (Poesia)

Efemérides Márcia Monteiro 1ª Edição

Edição e organização: Fernando Oberlaender Ilustrações internas e capa: Larissa Seixas Projeto Gráfico: Fernando Oberlaender Diagramação: Neilton Oliveira Revisão: Rita Canário Produção Editorial: EPP Publicações e Publicidade Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica JB Ltda.

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“O deserto tem uma umidade que é preciso encontrar de novo.” Clarice Lispector

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Prefeito Bruno Soares Reis Secretária Municipal de Cultura e Turismo Andrea Almeida Mendonça Presidente da FGM Fernando Guerreiro Chefe de Gabinete Patricia Lins Assessora Chefe Viviane Vergasta Ramos Assessor Técnico Plutarco Drummond de Magalhães Neto Gestor do Núcleo de Tecnologia da Informação Clidério Evangelista Bastos Assessora Jurídica Kaiale Santos Araújo Gerente Administrativo-Financeiro Gildete Nascimento Ferreira Diretora de Planejamento e Projetos Culturais Silvia Maria Russo de Oliveira Gerente de Promoção Cultural Felipe Dias Rêgo Gerente de Equipamentos Culturais Chicco Assis Diretora de Patrimônio e Humanidades Milena Luisa da Silva Tavares Gerente de Patrimônio Cultural Vagner José Rocha Santos Gerente de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura Claudijane Pereira Palma

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lançamento da coleção do Selo Literário João Ubaldo Ribeiro – Ano III reafirma a importância do investimento na produção literária de Salvador e consolida esse programa como referência de incentivo à leitura e como política de inclusão e promoção dos nossos escritores e escritoras. São oito obras escritas por soteropolitanos, editadas por uma editora soteropolitana, abarcando gêneros como romance, poesia, crônica, conto, literatura infantil, dramaturgia e gênero livre, distribuídas gratuitamente ao público e às principais bibliotecas de Salvador. Será lançada também uma versão digital no site da Fundação Gregório de Mattos. Essa ação fortalece a identidade do nosso povo e movimenta a economia local, abrindo espaço para nossos criadores literários. Lançado em 2014, o edital Selo Literário João Ubaldo Ribeiro já selecionou e publicou, em suas três edições, 24 obras, todas escolhidas por comissões de profissionais consagrados na área. A Coleção cumpre o disposto no Decreto Municipal 24.883 de 02 de abril de 2014, que instituiu o Selo, e dispõe que “incumbe ao poder público garantir a todos o acesso às fontes de cultura, apoiando e incentivando a produção, valorização e difusão das manifestações culturais”, consoante com o art. 262 da Carta Orgânica Municipal e as diretrizes da Lei 8.551/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Cultura. Quero agradecer a todos os envolvidos na criação, no fortalecimento e na continuidade desse projeto, com destaque para a equipe da Gerência de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura da Fundação, coordenada por Jane Palma, e à Comissão de Avaliação, que selecionou as obras. Boa leitura! Fernando Guerreiro Presidente da Fundação Gregório de Mattos

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Sumário Nota da autora......................................... 11 efemérides................................................ 13

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ste livro me pedia para ser escrito e eu me demorava a dizer sim. Quando me decidi, algumas ideias logo despontaram: imaturas, cheias de si, até um pouco prepotentes, queriam acontecer de qualquer jeito. Outras, cautelosas, pediam mais tempo. A maior parte do que compõe Efemérides quis fugir à frivolidade das primeiras, mas também evitar que sob o disfarce de prudência o medo falasse mais alto e dissolvesse tudo em silêncio. Escrever Efemérides foi das melhores coisas que me permiti. O livro foi finalizado, o texto, no entanto, continua inacabado e pode ser reescrito a cada nova leitura. Márcia Monteiro

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efemérides. Plural de efeméride e, de acordo com o meu exemplar do Aurélio, edição de 1986: “diário, livro ou agenda em que se registram fatos de cada dia”. Domingo. Todos os começos são iguais: uma mesma semente que explode, ganha corpo e feições e se deixa atravessar pela glória e sordidez do mundo. Por ora não me ocorre enredo nem trama, o que sobe à superfície são amenidades. Estou disposta a contar em detalhes fatos desimportantes e corriqueiros. Por exemplo, Jota, meu marido, tem o hábito de acumular guardanapos a um canto da pia de nossa cozinha. Guardanapos meio amarrotados para os quais encontrará algum uso novo. Por exemplo, Jota desceu a ladeira para nos comprar pão em um dia chuvoso e, antes que ele saísse, recomendei que tivesse cuidado com as poças, com o limo da calçada e com todas as incertezas da vida. Um homem alto, retornando para casa com o saco de papel pardo exalando a pão novo. Jota é de uma ternura que eu desconhecia e seu abraço é diferente de 13

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tudo o que eu esperava e queria, se é que esperava, se é que queria. Um homem encurvado, cujo abraço rude tem o feitio de ossos maduros e meio deformados pela idade ou pelo mau uso, enfiando em minha boca sua língua, enorme e impura, e nunca estive mais virginal, mais casta. Um só homem, nem de longe o mais sagaz ou o de mais posses, e, no entanto, o único. Excluindo meu filho, meu pai, meu irmão, o único. Afinal começo. Mas devo confessar que antes foi preciso entender que nem todos possuem o dom da prosa, da inteligência penetrante, do texto refinado e arguto; em contrapartida, preservo traços de franqueza, resguardo um fiozinho de coragem para quando for o caso. Seria conveniente e de grande utilidade se tivesse me rendido a fórmulas como fazem escritores do meu porte. No entanto, sempre me quis fora das medidas, sempre ansiei viver mais além desse globo limitado a meia dúzia de palavras que se propõem a narrar tudo. O que me vale é o dicionário palavroso: mil oitocentas e trinta e oito páginas de claustro e clavicórdio; de palavras às escâncaras, inexatas, nodosas, lamacentas; plêiades movendo-se compassadamente; espadas e lenimento; túmulo e túnel saídos de uma mesma página. Tenho o legítimo direito de escancarar a boca e gritar no meio da rua: orbe, orbícola, orbicular, como uma provocação ao pedestre que caminha distraído, como um xingamento ao motorista insensível que dirige com os vidros do carro eternamente fechados, e se não o faço é porque receio ser repelida pela imensa comunidade dos medianos, o que me deixaria sem nenhum lugar no mundo. 14

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É desconcertante que me deixe afetar, logo eu, que afirmo amar palavras acima de bichos e de pessoas. Não que eu queira, de caso pensado ninguém escolhe ter uma pinta escura no centro da testa, ou um pé maior que o outro, ou seios cujos mamilos apontam em direções opostas. Não é justo que deva me afligir, se é mesmo verdade que aprecio palavras mais do que bichos e pessoas. Como se já não me bastasse a frustração de nunca encontrar o melhor arranjo e jamais alcançar a proporção exata entre simplicidade e beleza. Além disso, ninguém se regozija com o que lhe dá medo e, por vezes, envergonha e põe de lado, aí pelos cantos, a esperar, a ver se os outros perdoam o fato de eu ser o que sou. Como se intencionalmente eu me determinasse a amar o que amo. 14 de julho. Comecei hoje porque não me bastava viver adiando, como se o meu tempo não fosse idêntico ao dos relógios de pulso, dos sóis e das luas, como se fosse do tipo que não se acaba e nunca tem fim, como se o tempo fosse um bem que me pertencesse, e não, e nunca. Adiando como em criança a última colherada do doce. Adiando por prazer e por vontade a última colherada do doce da infância. A mim me fazia falta este outro verbo com que escrevo e conjugo e o mais honesto é confessar que recomecei hoje, porque antes houve Elisa. Sim, Elisa, a que me consumiu um ano inteiro antes que concluísse que ela não valia a pena, pois era preciso amá-la como se ama o filho e o marido imperfeitos, e isso não, ainda que houvesse muito de mim naquelas páginas. Quando Jota lamentou todo um trabalho perdido, quando o Revisor me 15

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deu a entender que aquele era um projeto viável, mesmo indo contra os dois, encerrei o assunto: de Elisa já não desejo reaver fragmentos. 2019. Recoloco o Antunes sobre o móvel ao lado da cama, imóvel depois de uma semana. Dessas leituras a respeito das quais ingenuamente pensamos “vai ser mais uma” e, no entanto, desde o início, livro-chamamento, livro-convocação, eis-me, eis-me. Baobá-embondeiro vertendo água em solo seco. O Antunes, quem diria, testemunha ocular desse recomeço. Diga-se de passagem, não concebo enredo nem trama, personagens nenhumas, tão somente esta chama de insônia me tirando mais cedo da cama que fica ao lado do móvel sobre o qual está fechado o Antunes depois de uma semana de leitura. Esta prosa-exsudação vai depositando gotículas na superfície do papel, límpidas algumas, outras inflamadas. Esta prosa-experimento vai se inclinar sobre o dicionário com a sensualidade própria de um amante, com a sublime devoção dos sacerdotes. É bom que se saiba que houve um tempo em que os costumes eram outros e se usava o papel para embrulhar, desenhar, escrever, imprimir, por estranho que isso possa parecer. Livros eram de folhas impressas costuradas ou coladas em cadernos até formarem um volume. Moldados para o desejo, fosse efêmero ou duradouro, poucos leitores escapavam ilesos. Não escapei. Que eu saiba, herdei de L esse gosto, mas ela logo perdeu a propensão pelas letras e o prazer em viver, entre uma perda e outra, não sei discernir o que foi causa, o que foi consequência. 16

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É bom que se diga que aos 15 tive catapora, faltei a aulas, faltei a provas, um verdadeiro inferno. Foi aos 15, quando tive catapora, que li Como era verde o meu vale, de um autor estrangeiro cujo nome poderia ser resgatado com uns poucos toques no teclado, mas não pretendo me dar ao trabalho. Em L existia certa propensão para os estrangeiros, pois durante a adolescência li autores estrangeiros quase exclusivamente. Ao todo, eram poucos os títulos do acervo particular, porque L me parece que amava as letras mais de boca que de fato. É verdade que em mim essa impressão nunca ficou restrita aos livros. Quando li pela primeira vez Como era verde o meu vale, senti, se não me falseia a memória, o que penso sentir até hoje e ainda me inspira mil e uma precauções: o desejo de nunca retornar da leitura; tomada de êxtase, corri o sério risco de me perder para sempre. Das aves que vivem nas planícies, diz-se “pedinornito”; da família de plantas floríferas, da ordem das urticales, diz-se “ulmácea”. Se tivesse podido escolher, e não pude, não teria querido ser uma ave que habita nas planícies, não teria querido ser da ordem das urticales, não teria sequer escolhido ser M, teria sido uma personagem vivendo estritamente dentro de um livro, habitando páginas, indo aonde quer que a levassem. De bom grado teria sido Capitu, Mrs. Dalloway ou Santiago, e, creio, com maior proveito do que me tem auferido ser M ao longo de quase seis décadas. Não ficará sem punição a insanidade de eu me querer Macabéa ou Fraülein Elza, acabarei por receber uma marca infamante, a qual me será concedida sem demora pelo CID de 17

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publicação mais recente. Quando S era vivo e completei 36, quando S era vivo e eu ganhava presentes de aniversário, pedi o Aurélio: três quilos e mais um pouco de palavras impressas em papel! Desde os 37 não recebo mais presentes de S. O dicionário que ganhei dele não cheira mais a novo, ganhou manchas e uns riscos esparsos, perdeu a capa original e se soltou uma folha que começa com “abelha-comum” e termina com “ab intestato”. Corri a página do dicionário com a extremidade do dedo até encontrar “sentido”, palavra que traz entre suas acepções: visão, audição, olfato, gosto e tato. Diferentemente do que ensinam e aprendi, tenho seis órgãos dos sentidos, o das palavras, entre todos, é o que mais estimo. No ambiente ficcional, sempre me pareceu, o ar é mais respirável e as condições de existência são menos sufocantes. E eu, personagem arrancada das páginas de um livro, despegada do miolo até as bordas, saindo de má vontade, de cara amarrada, rescaldada e impotente até a alma, para ser M. Está claro que não me refiro a livros quaisquer, e sim a todos os que me fizeram saber que para se estar viva é imprescindível correr a página do dicionário com a extremidade do dedo até encontrar sentido pleno. Talvez eu tenha falhado em compreender que o dilema não reside em ser M quando quisera ter sido Emma, Ana, Blimunda. O verdadeiro embaraço consiste em não dilatar as dimensões do espaço-tempo quando poderia fazê-lo, em admitir o ar menos respirável e as condições de existência mais circunscritas quando suponho saber 18

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uma maneira de mudar tudo isso num piscar de olhos, num estalar de dedos. Trata-se tão somente de juntar palavras que mal chegam a formar uma linha, uma página, uma folha, muito menos um encadeamento de ideias. O parágrafo diário, mediano, minguado, nesse ritmo que beira a desistência, falência múltipla de órgãos e de vontade. Longe, muito longe do ideal, à margem do possível, flertando com o fracasso, rondando de perto os abismos e, entretanto, resistindo, resistindo sempre a ser uma medíocre habitando entre dessemelhantes. Olhando minha imagem no espelho e, desiludida: então é isso? Sim, vai ser sempre isso. O suor brotando, a mão nervosa arrancando mais um fio de cabelo, uma fisgada bem abaixo do umbigo, o pavor, porque não é por dormir que se tem pesadelos. Sou toda feita de aflições diurnas, diuturnas. Meu medo é à minha imagem e semelhança. Olho minha vida e, desenganada: então é isso? Sim, vai ser sempre isso. Mil distrações à espreita: celular, redes, casa por limpar, unhas por fazer, Jota buscando minha boca para o beijo da despedida antes de sair para o trabalho, o compromisso com a amiga logo mais à tardinha, uma lista de coisas para resolver quando chegar ao shopping e, ainda hoje, renovar os empréstimos na biblioteca, não esquecer, não esquecer; o interfone toca, deixe que chame dez, doze vezes, esse irritante toque da campainha do interfone que me convoca para o dever, reluto, não posso mais. A zeladora me pede orientações e as chaves do quarto onde fica guardado o material de limpeza: sou a mulher das chaves neste edifício de poucos apartamentos. Lamentável. 19

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Antes de atender ao chamado, li o parágrafo recém-escrito e, desolada: então é isso? Sim, isso. Antes de tudo foi preciso deixar de lado a soberba e o tom solene com que encobria a recusa em habitar nos limites de um corpo. Como se eu fosse impalpável e o meu tempo fosse outro que não o dos horríveis relógios de parede, dos sóis e luas, como se não fizesse parte do que se acaba e morre. Antes, foi preciso ser matéria e perguntar toda trêmula: então sou isso? E não houve quem me respondesse, não houve quem me reconduzisse ao lugar do meu início, e nada pude senão encarar o insabido e tomar este nome de empréstimo, esse que me deram, e não há meio de aceitá-lo por inteiro. Afinal, “o que não é reconhecido não existe”. Esta é a mais límpida verdade, o registro de um nome pouco diz da existência. M é um tipo, exterioridade daquilo em que talvez esteja me tornando. Quanto à classificação, sou do tipo de pessoa que faz promessas e juramentos, o que é idêntico a contar mentiras. Estas palavras que tomo do dicionário, está evidente, não me pertencem. Tomo-as emprestadas, mal e mal disponho delas, arranjo-as conforme meu gosto duvidoso e o que manda a conveniência do momento. Dou-lhes uma feição seminova e temporária, conforme o que me é possível, tal como fiz com os móveis da minha sala: sofá, mesa de jantar com quatro cadeiras estofadas, o apoio onde fica a TV, a acanhada estante de livros, pouquíssimos livros, ao que parece venho amando as letras mais de boca que de fato. É verdade que em mim isso nunca se restringiu aos 20

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livros. Minha sala é bastante comum e modesta, em nada atrai o visitante raro, tal como isso a que atribuo o nome de prosa-experimento, segundo antevejo, não atrairá os olhos ávidos da leitora, a única que seria capaz de transformar páginas impressas em um objeto-livro. Continuo disposta a registrar em detalhes fatos desimportantes e corriqueiros. Por exemplo, essa música que ouço nos fones de ouvido: “Try, try, try, just a little bit harder”. Janis foi única. De fato, sempre foram duas: uma no palco e a outra. No palco o ar era mais respirável e as circunstâncias eram menos restritas. As letras que ela cantava eram sua vida na cadência do blues-rock e outros ritmos. Há aquelas pessoas a que só se pode chegar através de sua arte, Janis, a do palco, era uma dessas. O grande risco, ao dilatar as dimensões do espaço-tempo, consiste em não se encaixar nos moldes ultraconservadores de Port Arthur ou do planeta Terra. Não deixa de ser uma felicidade, mas tem lá o seu preço. Há pessoas que nascem para a arte, e não era justo que Janis se sentisse mal por isso; de caso pensado, ninguém jamais escolheu ter uma pinta escura no centro da testa, ou um pé maior que o outro, ou seios cujos mamilos apontam em direções opostas. A propósito, os seios de Janis me parece que eram perfeitos. Quando sinto saudades de sua voz imensa, rouca, sexy, ouço gravações que parecem ter sido feitas hoje cedo, quando o sol era ainda uma estrela de ínfima luz cujo calor nada aquecia. “No rules, my little girl blue”. Nenhuma regra, exceto os limites do seu corpo, do seu tempo. Quanto à classificação, sou do tipo que 21

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dificilmente transgride, por isso me faz uma tremenda falta todo tipo de arte. Com apuro deixarei registrada grande quantidade de fatos desimportantes e corriqueiros. Por exemplo, ao higienizar as alfaces do almoço vou usar gotas de água sanitária diluídas em água potável e depois enxaguarei com abundância. O segredo é a mistura, tudo está na proporção da mistura. Dosar peso e leveza, medir doçura e rigor. Porque intensidade é o tipo de coisa que incomoda. Por esse motivo, aprendi a simular um pouco de leveza e doçura, mesmo contrafeita, mesmo desgostosa. Devo confessar que sempre me desagradou ter a pouca densidade de uma borboleta, me incomoda ser de fácil digestão, só eu sei o quanto me custa ser flexível, modelável como o material plástico que infesta o planeta Terra. A intensidade não deixa de ser uma felicidade, mas tem lá o seu preço e talvez eu não esteja disposta a pagar até o último pico na veia. Talvez no fundo tudo o que Janis mais desejava era ter vivido a vidinha pacata de moça bem-nascida em Port Arthur, Texas, United States of America, mas terminou sendo expulsa do Copacabana Palace, no coração do Rio de Janeiro. E só porque tomou banho nua na piscina do Copa, só porque tinha seios perfeitinhos, que não podiam ser vistos sem despertar ódio e desejo. Talvez bem no fundo tudo que eu mais queira seja me tornar o tipo dócil, adaptável como matéria plástica ordinária, mediana com os medianos e, afinal, feliz, se é que isso de ser feliz alguma vez existiu para mim. “Try, try, try, just a little bit harder”, M. 23

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Não me refiro ao tipo de intensidade que mata aos 27, mas àquela que faz viver aos 58, aos 59, extravasando gota a gota, estancando o que eu julgava ser fúria e era medo. Meu medo era à minha imagem e semelhança, porém essa prosa vai mudando sua aparência de parágrafo em parágrafo. Ninguém me diz de quantas linhas preciso para transudar essa febre que não me abandona. Por acaso, uma boa alma se lembrou de calcular quantas canções teriam sido suficientes para que Janis transpirasse toda dor e tristeza? Talvez haja um estado de coisas para o qual a arte não baste, não importando o quanto alguém se esforce e tente tente tente. Algumas pessoas simplesmente não se encaixam, não importa o quanto. “Women is losers. Womens is losers, Lord, Lord, Lord!” Na hipótese de que os parágrafos anteriores tenham sido demasiado densos, eis um parêntese para retomar o estado de coisas que se pretendem não densas, intensas jamais, nem cogitar. É um dia de domingo e chove, a umidade invade a sala e quero me abrigar. De lembranças, prefiro distância. Talvez um século seja distante o suficiente, talvez um século deposite poeira e impregne de esquecimento e de sono tudo o que me inquieta. E me sufoca o jeito como você me olha e segue. Cada milímetro, intervalo, reentrância, cavidade onde tento esconder meus segredos. Por instinto, depois de saciado, um animal esconde os restos de sua caça, antecipando a fome. O tédio não deixa de ser uma forma de saciedade, fastio, aborrecimento. Esse dia de domingo em que chove. É um dia de domingo e chove, a umidade invade a sala e 24

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quero me abrigar de lembranças. Prefiro distância, talvez um século seja distante o suficiente, talvez um século deposite poeira e impregne de esquecimento e de sono tudo o que me inquieta e me sufoca. O jeito como você me olha e segue cada milímetro. Intervalo, reentrância, cavidade onde tento esconder meus segredos por instinto. Um animal, depois de saciado, esconde os restos de sua caça antecipando a fome, o tédio. Não deixa de ser uma forma de saciedade, fastio, aborrecimento, esse dia de domingo em que chove. Fecho o parêntese de consistência compacta. De fato, o Revisor havia me alertado sobre a importância de seduzir os leitores, mas não me ensinou como se faz. O que apresento é o parágrafo minguado, medíocre, e ainda por cima adoeço de não sei que febre, não sei que dor, náuseas e suores e fadigas, mas adoeço e é o que basta para alterar a ordem, a disposição do parágrafo diário, que longe, muito longe do ideal seguia pela margem do possível. Um corpo doente é uma recusa em seguir regulamentos e roteiros. Vórtice consumindo com voracidade desconcertante todos os cuidados e zelos de uma só vez. Um corpo doente pede compaixão e paciência, e na melhor das hipóteses retribui todo o desvelo com um parágrafo mutilado, feito de ideias meãs e de raciocínios embebidos em suores noturnos. Quando retornei ao normal dos dias perdurava a singela imagem de uma criança de pele morena que não me recordo de haver conhecido senão nos sonhos que a febre inventou nos três dias em que estive acamada. A menina adoeceu de um mal a que ninguém se lembrou 25

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de dar nome, nem remédio, nem cura. Dormiu à noite sem sobressaltos, pela manhã era como se tivesse acordado para o sonho e dizia ser do povo tupinambá e descrevia em pormenores sua vida na floresta. Dormiu outra noite sem sustos, pela manhã era como se tivesse acordado para o sonho e dizia ser da tribo dos Caingangues e descrevia em detalhes sua vida na floresta. Quanto a esse mínimo aspecto, ela se confundia e se enredava: não podia afirmar sua origem. E, durante todo o dia, o lamento da criança, a que ninguém nunca se lembrou de dar ouvidos, nem alívio, nem reparo. Quando retornou ao normal dos dias perdurava a singela imagem de uma mulher de pele clara, que a criança não se recordava de haver conhecido senão nos sonhos que a febre inventou nos três dias em que esteve acamada. Foi na página 1050 que alcancei o vocábulo “lucidez”, podendo assim retomar a tarefa de anotar essas efemérides de acordo com o que me propus desde o início, com o máximo de honestidade, sendo fiel aos fatos, às impressões dos fatos, para que ao findar o meu trabalho eu possa afinal dizer que me conheço, me reconheço nessa imagem refletida no espelho, qualquer imagem, qualquer espelho. A curvatura de uma espiral é a forma que encontro para que nada fique demasiado distante ou excluído; avançando e retrocedendo, caminhando para frente e tornando atrás vou juntando termos que quase não chegam a formar uma linha, uma página, uma folha, um mísero encadeamento de ideias. Desprovida de enredo e trama, um após o outro vou acrescentando fatos corriqueiros e desimportantes. 26

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Por exemplo, o som estridente é de todos o único que não tolero. Seria dispensável, mas ainda que ninguém ouça sempre faço questão de me explicar: nenhum outro som é tão anunciador de catástrofes, nenhum outro tem o caráter de introduzir o horror, de despertar angústias e gemidos. Nenhum penetra a imaterialidade do sonho, nenhum rompe a linha que até então separava dois mundos. Não é outro o som que vem das sirenes ou o que sai dos despertadores para fazer saber a todos da aproximação do infortúnio. Por isso, estabeleceu-se entre o casal o seguinte: jamais acordar quem dorme pelo uso do perverso dispositivo que, em hora determinada, rompe o frágil limite que até então separava dois mundos: o dos sonhos e o outro, o dos fatos corriqueiros e desimportantes dos quais me sirvo agora para compor tediosa e lenta narrativa. Por sinal, faz dias que não avanço além desta página de número incerto, faz dias que anda à minha volta a visão que me assombra e paralisa e me priva, e se mesmo no calor do sol a pino tenho calafrios e sofro tremores desde a raiz dos cabelos é por causa dessa visão. Por que haveria de ser poupada do que me atemoriza? Por que haveria de receber melhor sina? Habito nesta cidade que se repete e se reproduz em dias perfeitamente iguais e terminam se impondo como fardos e acabam por se anular e se tornam resíduos do que poderiam ter sido. Habito neste corpo que se repete e se reproduz em dias perfeitamente iguais e terminam se impondo como fardos e acabam por me anular e me tornar a sombra do que eu gostaria de ter sido. Por isso a urgência com que volto a procurar o Revisor, para 27

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que depois eu própria não me acuse de muito me inquietar e pouco fazer; escrevo a ele para pedir uma resposta, afinal foram cinco os e-mails trocados desde que lhe falei sobre esse novo projeto, e o último que enviei continua sem resposta. Em menos de dois minutos, por absoluta falta de tempo na agenda, o Revisor me deu um “não” como resposta. É mesmo de lamentar que eu disponha de tão pouco tempo para lamentações e já esteja à procura de um novo Revisor, ao qual enviarei o primeiro e-mail e do qual esperarei a primeira resposta. Se é que é tão simples. Tivesse eu podido escolher, e não pude, não teria escolhido ser M, sem dúvida preferiria pertencer à ordem das urticales, pois quando se trata de anatomia vegetal é sempre viável alcançar o durame, o cerne, a parte mais escura, no centro do tronco; e quanto a mim não sei de quase nada, quase tudo é vislumbre, não obstante a exatidão dos vocábulos: âmago, essência, íntimo que de nada me servem. De fato, o que conheço de mim são segmentos, lascas, filamentos, manchas, superfícies, camadas, saliências, canais, extensas lacunas, e isso é o pouco que posso concluir a meu respeito. Sendo M um modo de estar no mundo, chegará ao termo, porém é cedo, é o tempo das palavras que precedem as coisas definitivas, é o tempo de introduzir o que virá pela altura da palavra de número 6051, quando chegarei ao ponto mais ou menos equidistante entre os dois extremos, ou seja, ao meio, ao centro, e uma vez mais constatarei que nunca se alcança a parte mais íntima de qualquer pessoa. A cada uma das partes iguais em que se divide este escrito se chama metade, 28

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e juntas não garantem o todo, não somam um inteiro. Pretendo me aperfeiçoar, me levar a sério, seguir adiante com o plano, portanto, é mais que oportuno começar a escrever como quem debulha grãos-ideias-sementes, retirar toda casca e pele, deitar fora o que é resto, fazendo passar por entre dedos ágeis, ligeiros pequenas esferas vítreas opacas com um orifício no meio, às quais atribuo um nome qualquer, pois no final das contas sou eu quem decide se o melhor é atar as duas extremidades e criar uma prosaornamento ou se me convém romper de uma vez, lançar por terra contas-ideias-pedrinhas e com o mesmo gesto intolerante descriar essa prosa. Afinal, escrever não é um ato que decorre em completa solidão? Posso deliberar por minha conta e risco. A mim não me cabe convencer ninguém, nem tenho como provar, mas posso garantir que sob este texto jaz outro que fiz desaparecer pelo processo de raspagem, técnica muito conhecida e praticada pelos antigos, que a chamavam palimpsesto; obviamente, o problema desta vez não foi a escassez do pergaminho, foi mesmo a qualidade questionável do texto, que agora jaz enterrado para sempre. RIP. Me dão nostalgia uns poucos trechos que recito de memória e me espanto que soem tão meus e embarguem minha voz, mas diante da folha em branco antevejo o que suponho ser o novo texto de superior força e beleza. Tentei em vão recordar em que livro, em que filme havia uma personagem-pai que se recusava a reconhecer em seu filho a personificação de um escritor, posto que este escrevera um livro, único e de tão poucas páginas 29

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que não se sustentava em pé sobre a prateleira da estante. Outro dia, observei no stand de uma editora local alguns exemplares que me evocaram essa lembrança do livro ou filme de cujo nome não sou capaz de me recordar agora. Eram exemplares que dependiam de certa estratégia que consistia em deslocar as abas que vêm dobradas para dentro. Abrindo-as, a atendente improvisava um triângulo que mantinha os livros em pé, frágil arquitetura à qual estava sujeita grande parte do acervo. Folheei um exemplar e percebi que continha ilustrações entremeando os textos; com fingida inocência, indaguei se se tratava de um livro para crianças. A vendedora me respondeu que não. Comprei um desses exemplares que não se sustentam de pé e, a cada vez que o vejo sobre o móvel onde antes esteve o Antunes, devolvido à biblioteca no devido prazo, retornam questões que não encontram respostas que me satisfaçam: de quantas páginas preciso afinal para que meu livro se sustente? De quantas ideias consistentes se faz uma narrativa que se quer duradoura? De quantas ilustrações posso dispor sem ocultar sob elas o que me faltou em palavras? Por quanto tempo resistirão ainda as palavras, antes que sejam completamente substituídas por gravuras nesses livros que supostamente se destinam a leitores adultos? Em todo caso, estou decidida a exigir, se chegar a conseguir um editor, que de modo algum projete abas para essas efemérides; sejamos íntegros, não usemos de subterfúgios: um livro que não se sustenta em pé por seu texto, que permaneça na posição que melhor lhe condiz. O próximo parágrafo contemplará um Novo Revisor; 30

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para ser exata, uma Revisora, que lendo essas páginas com cerca de quatro mil palavras fará comentários a respeito do parágrafo anterior, mais especificamente sobre o trecho “Folheei um exemplar e percebi que continha ilustrações entremeando os textos [...]”. Por trás dos óculos de armação vermelha a Revisora me advertirá de que ilustrações são textos e textos são ilustrações. Bom, que seja, ainda que ela esteja certa não modifica em nada o meu raciocínio nem responde às questões que continuam a me intrigar. Para demonstrar que sou capaz de um pouco de boa vontade, toleraria, no máximo, letras capitulares em fonte Vivaldi. Ficou para trás a última vez que mencionei Jota, o que está em flagrante desacordo com a forma em espiral pela qual me decidi justamente para que não acontecesse de eu ser arrastada por ideias desconexas, o que produziria confusão e desgaste desnecessários. Para corrigir minha falta acrescento que, exceto por meu pai, meu irmão e meu filho o único homem a quem declarei explicitamente o meu amor vive à base de instintos, essa força que o leva direto ao ponto. Quanto a mim, gosto de vagar, peço devagar, o que Jota de maneira nenhuma aceita, e se entedia, e se aborrece, e me põe de lado, aí pelos cantos, a esperar, a ver se ele me perdoa o fato de ser quem sou. Não me admira, vivendo de instintos, como um cão ou um gato doméstico, não me admira que ele se aborreça quando faço objeção aos seus avanços e me diga que esse é o meu jeito de dizer que não o quero, não o amo. E quase me convence de que esse é o meu jeito de dizer que não o quero, não o amo o bastante. E 31

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desconheço o raio de força que me arrebata e me faz salivar como um cão e me contorcer como um gato doméstico e suplicar a Jota: mais um pouco, mais um pouco. O calendário avançou, a narrativa segue, urge uma palavra inédita, imprevista e impetuosa porque o tempo é essa coisa que me escapa e me abrevia, mesmo quando tenho a ilusão do oposto, penso se seria boa hora para uma reviravolta, quem sabe o súbito aparecimento de personagens, enredo e tramas, quem sabe um ghost writer pudesse tomar para si a tarefa de escrever daqui em diante, porque meu destino não previu senão interrupções interrupções interrupções, e são elas que me fazem colocar em dúvida cada frase, oração, parágrafo, página, folha, capítulo, todo o projeto do livro. Se tudo se resumisse a ter persistência, estaria sossegada, pois sei persistir em erros, equívocos, enganos. Se existisse, a personagem central seria uma mulher como eu, talvez mais jovem, com certeza mais jovem, com um filho pequeno e marido. Dividida entre o trabalho e a vida doméstica como essas mulheres modernas, fazendo tudo pela metade, deixando circuitos sempre por completar; trazendo na boca um travo que ela, por equívoco, atribui à refeição da noite anterior, desconhecendo que é o gosto amargo da vida que está levando, da vida pela qual se tem deixado levar, não importando nada ou importando de menos questões acerca de sabor e insipidez. A temperatura do escritório em que ela trabalha foi programada para os 18 graus centígrados; a invariável temperatura não concebe, portanto, suores, febres, intensidades, extremos. 32

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No escritório, tudo é perfeitamente controlado e previsível, as oito horas diárias transcorrem ao som de músicas apropriadas para o ambiente, que exige muita concentração e método, sobretudo método. O rapazinho da firma de contabilidade vem uma vez por semana, o rosto cheio de espinhas; o cabelo liso e um pouco mais sujo do que se espera de alguém que, em tese, deveria se preocupar com a aparência; o ar displicente e aéreo; inseparáveis fones de ouvido, parecendo sempre pouco à vontade, dando a perceber isso pelo modo como posiciona o corpo, assim meio de lado, como se ainda não tivesse chegado por completo e já se colocasse de saída. Em certa ocasião, essa mulher chegara a escrever um e-mail para a empresa que lhes presta serviços de contabilidade solicitando que substituíssem o rapazinho por outro de melhor aparência e gênio, mas desistira de enviar o texto antes de entender a razão. Em outra ocasião, tentara ser simpática, fizera o esforço a que não se via obrigada, perguntando com um meio sorriso que tipo de música ele ouvia nos inseparáveis fones e recebeu a resposta seca e sem meios sorrisos nem nada: “Janis”. Tudo o que conseguiu responder foi um “Ah” sem graça e logo se apressou em despachá-lo, parecendo ainda mais desconfortável que ele. Apenas por curiosidade, no final daquele mesmo dia procurou em seu smartphone qualquer informação adicional sobre a cantora a respeito de quem pouco conhecia além do fato de que supostamente morrera de overdose quando era ainda muito jovem, talvez menos jovem do que o rapazinho da contabilidade. Chegou a ouvir “Get it while 33

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you can”, na verdade não foi até o fim, achou que aquilo não se parecia nada com música, muito diferente do que estava acostumada a escutar no escritório. Ainda que ela não chegasse a compreender, alguma coisa lhe provocou uma terrível insônia e naquela mesma noite voltaram as tremuras. Dessas tremuras ainda nada foi revelado, apenas eu e ela sabemos: vêm e vão há exatos seis anos e dez meses. Não sei se desejará tratar sobre o assunto, são lembranças dolorosas, de fato, ela nem sabe que as tremuras têm relação com aquelas lembranças, acredita que se devem a eventuais tensões no trabalho. Tem a mais absoluta certeza de que se passasse mais tempo com o filho pequeno, e o casamento de sete anos recém-completados pudesse chegar perto do que foram os tempos de namoro, acredita firmemente que desse modo tudo ficaria bem. A quem pretendo enganar, até onde chegaria com essa tolice? Entregar a prosa nas mãos de uma mulher como Ática, de quem pouco se sabe além do fato de que trabalha em um escritório cuja temperatura mantém-se sempre estável, o que é aconselhável para evitar suores, febres, intensidades, extremos, e apresenta uma incapacidade temporária para interligar um sintoma às nervosas lembranças do que aconteceu logo após ter completado dois meses de casada. Talvez não seja boa a ideia de abandonar a solidez do dicionário para mergulhar na obscuridade dessas lembranças que nem me pertencem. E que dizer desse Matias, que consome Janis com avidez e regularidade, o que por si só caracteriza um caso de dependência. O rapaz trabalha há quase um ano na empresa de contabilidade e 35

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são outras as tremuras de que vem padecendo, perdeu as contas das vezes que despiu a secretária abrindo de um em um os botões rosa-pálidos da blusa, descendo com pressa o fecho da saia enquanto antecipava o volume e a maciez das coxas e, ali mesmo, sobre a mesa do escritório, entre o computador e o material de expediente, sussurrava Ática Ática Ática e não demorava a convulsionar, e tinha sempre o máximo cuidado de não molhar os lençóis, que foram trocados pela mãe ontem. Sobra-lhe tempo antes que batam à porta, tempo suficiente para atenuar o rubor no rosto cheio de espinhas, para reaver a robustez do corpo e a densidade de um único pensamento. Hoje não terá que suportar o ar de reprovação com que a secretária o olha, como se recusasse cada espinha inflamada em seu rosto, cada fio de seu cabelo oleoso, cada ruga na camisa azul-celeste da farda que usa quando vai ao escritório. É bom deixar claro que este é o ponto mais ou menos equidistante dos extremos, ou seja, o meio, o centro, e uma vez mais constato que nunca se alcança o íntimo de qualquer pessoa. Atingi a metade desta narrativa, e como até aqui não há testemunhas, não há quem me parabenize pelo feito, cabe a mim: “Well done well done”. Se tudo se resumisse a ser persistente, estaria sossegada. Afinal, volto ao dicionário da língua portuguesa para escrever com essas palavras que tomo de empréstimo e presumo que depois de muito trabalho ainda me faltará a palavra que procuro; é possível que tenha sido enterrada com seu último falante: a língua que me daria a palavra de que mais necessito está morta. Sendo assim, nunca 36

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decifrarei meu segredo, nunca preencherei o espaço em que cabe a palavra que deixou de existir há muito muito tempo. Tudo o que possuo é esta que foi trazida no bojo de caravelas, talvez por isso soe sempre um pouco vaga aos meus ouvidos e jamais a alcance, jamais compreenda seu vasto e complexo sistema. Trouxeram-na no bojo de caravelas, resistiu à longa travessia; já em terra firme, armou emboscadas, estabeleceu acordos, tomou à força terras e mulheres, fez promessas, quebrou juramentos, usurpou riquezas e reinos, com as próprias mãos cavou túmulos e a eles entregou os corpos de suas vítimas. Talvez por isso tenho na boca um travo que por equívoco atribuo à refeição da noite anterior, desconhecendo que é o gosto amargo dessa língua portuguesa com que falo e escrevo, língua pela qual me tenho deixado levar, importando de menos questões acerca de descobrimentos e genocídios. Matias responde às batidas na porta com um grunhido, nem sabe ao certo se respondeu. Esta é sem dúvida a pior parte do dia, não fosse por Janis seria insuportável, ela diz uma dezena de palavras roucas em seu ouvido e o peso na nuca desaparece quase por completo. Melhor resultado nenhum analgésico lhe daria, e ainda repetem por aí que “toda arte é completamente inútil”. A pior parte do dia começa depois das três batidas da mãe à porta. A realidade de Matias é composta por dez doze avos de tédio. Levanta-se às 6h, perto das 8h começa na firma de contabilidade, descansa entre 12h e 14h e leva o trabalho até as 18h; pouco antes das 20h chega em casa, pouco depois das 23h mergulha no sono agitado esperando que 37

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por um golpe de sorte não acorde na manhã seguinte. Nada mais improvável, se justamente por lhe ter faltado a boa sorte é que Matias veio a ser um desses em quem pouco é investido e, em troca, dele nada é esperado, exceto que consuma os mirrados dias de sua existência em ordem e silêncio. Porque antes lhe faltou a sorte, é débil a chama que dele emana, e se apaga sem que tenha conhecido o ardor com que lhe teria sido possível viver. O jovem Matias acabou de completar 19, mas todas as manhãs sente como se tivesse o dobro, o triplo da idade. Pensa que a sensação de cansaço que o acomete se deve à asma brônquica que o acompanha desde a infância: o esforço para encher o peito de ar, a respiração rápida e curta, a dor, a ânsia que cada fôlego lhe custa. O quarto mede qualquer coisa menos que sete metros quadrados, um cubículo onde cabem a cama de solteiro e o guarda-roupas, além de uma prateleira meio despencada; o que sobra não é bastante para incluir um sonho ou uma gravura na porta do armário. Faz alguns anos, nos instantes que se seguem ao horário em que acorda, Matias mantém o hábito que consiste em se deitar de barriga para cima, com os braços cruzados sobre o peito; depois de uma olhada em volta do minúsculo quarto, permanece imóvel, tanto quanto possível, até conseguir a ilusória sensação de que aquele quarto, na verdade, é seu túmulo. Do momento em que alcança essa sensação até o momento em que a interrompe pelo mesmo ato de vontade transcorrem lentos minutos, o tempo que ele suporta sem desencadear uma crise de falta de ar. É essa sensação de quase morte que, por vezes, 38

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parece a Matias o lugar mais próximo da vida que jamais atingiria de outra maneira. Ele recorda desse seu jogo de morto-vivo durante o percurso do metrô que o leva até o terminal onde pega o ônibus que o deixa a duas quadras da firma em que trabalha. Basta isso para que os olhos se encham de lágrimas, o que ele acha muito estranho por não ser pessoa a quem os olhos marejem à toa. O que lhe vale é estar com óculos de sol, que disfarçam de escuras olheiras a almas bastante doloridas. Na última quadra, retarda os passos, não sente que o faz, os pés fazem por ele, se fosse melhor observador teria percebido a exígua fração de tempo que lhe teria permitido o recuo, o desvio ou outro movimento qualquer, mas Matias nada reconhece além do automatismo com que ultrapassa o marco do portão da firma de contabilidade às 7h50min. A propósito, desde ontem que a unha do dedo grande do pé direito o incomoda, durante a caminhada esteve a ponto de parar, mas faltava uma quadra e ele achou pequena a distância e digno o esforço, portanto, continuou. E tudo teria sido resolvido se apenas tivesse folgado o cadarço, a parte mais difícil é sempre o gesto simples com que se folga um cadarço e tudo o mais se dilata, e é possível perceber que é grande a dor, bem maior do que se supunha a princípio. No sanitário, tira o sapato, repara na vermelhidão da pele junto ao canto da unha, faz uma careta e, sem demora, improvisa com o papel higiênico uma generosa faixa com que trata de enrolar o dedo. Apoiando o pé no piso frio, aprova o resultado, recoloca o sapato e tem agora, diante de si, a 39

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jornada de trabalho. Cada passo pressiona o dedo contra o calçado, mas felizmente a dor está em grande parte anestesiada. A grande parte anestesiada é o que permite a Matias atravessar o corredor; entrar na sala quando o chamam; confirmar que entendeu cada ordem recebida com o movimento afirmativo da cabeça; sair quando o dispensam; organizar os documentos conforme os escritórios aos quais se destinam; preencher planilhas de pouca complexidade; ler e-mails de conteúdo simples e objetivo; enviar e-mails com respostas objetivas e simples; fechar uma gaveta a chave; descer até o restaurante onde lhe servem o prato comercial; beber o café coado pela manhã, que a térmica foi incapaz de conservar quente; caminhar as duas quadras até o ponto e aguardar o ônibus que o levará até o centro da cidade, onde ficam clientes que precisam despachar ainda hoje algum documento importante; retornar à firma antes das 16h para executar tarefas de praxe antes que termine o expediente. A perda parcial de sensibilidade é, como se vê, bastante útil a Matias, não somente para aliviar sua dor, como também para permitir a prática de todas as atividades concernentes a seu cargo, cujo nome está escrito em letras grandes e legíveis no crachá que traz à altura do peito. O improviso produziu o efeito desejado, duradouro como deve ser nesses casos, o que, no entanto, não significa dizer infalível, pois por volta das 18h a dor é latejante e aguda. Matias aumenta o volume, precisa ter alguém de confiança por perto, alguém que o compreenda, sente-se pior quando imagina que sua dor é a de um só, exclusiva, inábil em convocar compaixão. 40

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“Misery’n”. Quanto à classificação, essa dor é do tipo que atinge pessoas cujas vidas não ultrapassam a metade de um inteiro. A metade que falta é, de fato, a que dói. Ele sabe o que fez a dor chegar com intensidade, sabe que o motivo não vem apenas da pele inflamada junto ao canto da unha. A chefe de Matias mandou chamá-lo depois do almoço e, sem rodeios, expôs que estava transferindo para outro uma atividade que, em princípio, caberia a ele. Era uma atividade de todo maçante que decerto não lhe traria qualquer satisfação íntima. Teria sido de esperar que a Matias sobreviesse uma sensação de alívio, à qual se somariam sentimentos de gratidão e de singela felicidade por ter sido poupado e estar livre de uma atividade que em nada o atraía. Se não aconteceu assim é pelo motivo de que Matias equivale à metade de um inteiro, portanto, quando sua chefe “expôs que estava transferindo para outro uma atividade que em princípio caberia a ele”, na realidade, ela estava subtraindo um pedaço à metade que Matias costuma reconhecer como sendo a totalidade do que ele tem sido; mesmo sem intenção, o que ela fez foi torná-lo ainda menos que uma metade. É preciso entender em caráter definitivo que Matias não está em condições de perder mais nada, um milímetro do chão em que pisa, uma partícula de poeira, uma lufada de vento, uma gota que seja, pois desse pouco ele se vale para manter o equilíbrio, sempre precário, sempre incerto. A parte que lhe falta é a que dói. Na metade que falta estão, por exemplo, todos os livros que ele não leu, é quase certo que não lerá. Tampouco a parentela que o antecedeu lia, a maior parte deles sequer 41

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conheceu o alfabeto. Depois de tantos anos de espera, os livros acumulam camadas de poeira-umidade-fungos, de tal modo que faria um terrível mal a Matias, a quem as crises de asma atacam e aborrecem, se buscasse restabelecer a estabilidade, sempre insuficiente, sempre débil, através de livros que não lerá. A mãe estranhou que Matias não tivesse sentado à mesa para tomar a sopa, que aliás costuma engolir com avidez, alternando as colheradas com grandes mordidas no pão de sal. Matias respondeu à mãe com um grunhido, nem sabe ao certo se respondeu antes de se fechar no quarto. Está furioso e teria chorado se conseguisse, se ao menos acreditasse que isso de algum modo o aliviaria. Deitado, olha fixamente o teto branco, não pisca, passado um tempo, terá assimilado a indiferença do teto branco. What else, what else is there to do? A grande parte anestesiada é que lhe permite levantar e caminhar até a cozinha, requentar a sopa e comer sem fome nenhuma. A mãe já se recolheu, melhor assim. Do quarto vem o som da TV ligada, ela não perde um capítulo da novela. Matias odeia novelas, odeia séries de sucesso, tudo o que o vicia. Corrige incisivamente o pensamento que de pronto o acusa: Janis é uma necessidade, e não um vício! Seria dispensável, porém faz questão de se explicar: vício é o que passa dos limites, o que excede. Matias está ensaboando o prato que acabou de usar quando percebe que a voz dela sumiu dos fones, para imediatamente e quase grita: mas que merda é essa? Pensa que certamente é um defeito qualquer na porcaria dos fones e lembra que já não tem nenhum de 42

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reserva. Não consegue cogitar a possibilidade de ficar sem a companhia de Janis durante as horas que tem pela frente antes de mergulhar no sono inquieto lá pelas 23h. Vasculha com insistência as gavetas em busca de sobressalentes, que tem a mais absoluta convicção de não possuir; há que se compreender que é o gesto de desespero de quem se vê privado da única coisa que existe e faz sentido. Agora que preciso interromper a escrita, não me custa nenhum esforço entender como o jovem Matias se sente. Devo providenciar que se faça no devido prazo a recarga dos extintores de incêndio desse edifício de apartamentos, poucos apartamentos, felizmente. Resisto, desisto, o dever me convoca. Matias não sabe ao certo quando poderá retomar a única coisa que existe e faz sentido. No momento, concentra-se em viver sua inelutável e pequena tragédia. O golpe de sorte que lhe faltou uns parágrafos atrás será reparado antes do que se supõe: depois de uma noite maldormida, a manhã reserva o feliz encontro de Matias com o vendedor ambulante que irrompe ônibus adentro anunciando com voz estridente suas mercadorias de grande utilidade pública, entre as quais, os fones de ouvido que devolverão como por milagre todas as coisas aos seus devidos lugares, portanto, uma Janis afásica será de imediato substituída por outra, senhora de sua voz e seu destino. O dia começou bem, Matias já está recuperado, a unha já não o incomoda como antes, usou uma pomada seguindo o conselho da mãe. Acaba de se dar conta de que hoje é dia de levar o malote até o escritório em que Ática trabalha e a sensação que lhe sobe ao estômago tem um 43

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gosto que ele ainda não aprendeu a decifrar. Mistura de agrado e desgosto, pendendo ora para um lado, ora para o outro. Seria mais fácil se a secretária não o olhasse como quem recusa cada espinha inflamada em seu rosto, cada fio de cabelo oleoso, cada ruga na camisa azul-celeste da farda que ele usa quando vai ao escritório. Está decidido a tirar os fones de ouvido antes de entrar na sala climatizada em que ela trabalha, está disposto a aparar os cabelos no intervalo do almoço e concorda até mesmo em pagar por uma lavagem com shampoo profissional; quanto ao amassado da camisa, é tarde para qualquer providência, ela que trate de aceitar e conviver com a realidade, afinal, até aqui, Ática não tem sido mais que um caso vivido entre quatro paredes, requerendo de Matias o único cuidado de não molhar os lençóis que a mãe lava com tanto esforço na máquina semiautomática que ele adquiriu com os recursos do décimo terceiro no ano passado. Pouco antes das 20h, a mãe anuncia com voz estridente que a sopa está servida. Matias não demora a atender ao chamado, só não esperava pela reação dela. A mulher leva as duas mãos ao rosto num simulacro de concha, onde se recolhe, e depois de instantes deixa vir à tona o sorriso enquanto tenta traduzi-lo com palavras simples: “Ai, meu filho ficou lindo!”, e de novo as mãos lhe tapam a boca e metade do rosto. Matias é capaz de jurar que aquilo são lágrimas. Como é possível? Um corte de cabelo, uma lavagem com shampoo profissional num salão até que modesto são lá coisas que mereçam uma manifestação desproporcional como essa? As mães são umas tolas. E o 44

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elogio e essa manifestação toda lhe desagradam tanto mais porque daquela de quem ele esperava ter uma resposta que afinal fizesse a balança parar de oscilar para um lado, para o outro, não veio reação nenhuma. Pareceu não ter notado, na verdade Ática nunca o havia despachado com tanta pressa e mau jeito, sequer o olhou, tomou o envelope de suas mãos, substituindo-o por outro que continha documentos que deveriam ser entregues ao setor de pessoal da firma de contabilidade. Matias se aproximou da mesa do escritório, onde fica o computador e o material de expediente, mas desta vez com um propósito bem mais inocente: observar melhor um livro em formato pocket e título em letras brancas e pretas sobre um retângulo vermelho, era Bartleby, o escriturário. Já no elevador lhe ocorreu a ideia de dar uma passada pelo sebo que fica nas proximidades da firma. Quem sabe, encontra ali um exemplar de Bartleby. A simples ideia de entrar no lugar fez com que a garganta ardesse de leve e o nariz começasse a coçar, antevendo poeira-umidade-fungos, mas logo se distraiu tentando em vão se recordar do nome esquisito da rua por onde passou incontáveis vezes: “Cambuquiras”, “Cuiambuca”, não chegou a se decidir. É um desses nomes cuja pronúncia nos embaraça e confunde e, mais raramente do que seria desejável, nos fazem lembrar da gente que possuía essa terra antes que ela fosse “descoberta” por estrangeiros. Assim que o elevador parou no térreo, a ideia se mostrou claramente descabida: seria incapaz de ler unicamente para impressionar uma mulher. No dia seguinte, chegando ao local onde funciona 45

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o velho sebo, verifica como são compridas as fileiras de estantes, mal se sustentam sob o peso dos livros. O atendente, um homenzinho emburrado, não parece disposto a lhe oferecer qualquer ajuda. Depois de alguns minutos, Matias desiste de compreender o raio da lógica de que se serviram para organizar o acervo, se é que existiu, de maneira que lhe é de todo impossível localizar o maldito livro. Dá pela presença de um homem sentado num banquinho, a fisionomia lhe parece vagamente familiar, não consegue distinguir se é um cliente como ele, se é outro funcionário do sebo; ainda que ele esteja concentrado na leitura e alheio à sua aproximação, pelo menos não tem o jeito carrancudo do outro. Arrisca-se: “Boa tarde, tem ideia de onde posso encontrar Bartleby, o escriturário... de... de...”. O homem levanta os olhos. Matias completa depois de consultar o celular: “... de Herman Melville?”. O homem é Martim e acrescenta com uma ponta de ironia que definitivamente não o encontrará atrás de um biombo verde. Matias sorri todo sem jeito porque a frase não faz o menor sentido. Martim, por sua vez, aponta e acrescenta com voz grave: “Terceira estante, segunda prateleira de baixo para cima, da esquerda para a direita, dois exemplares, sugiro levar o que foi editado pela Rocco”. Matias não esperava por informação assim tão detalhada e já não está seguro de que seja capaz de localizar o bendito livro. Faz menção de agradecer, mas o homem já retomou a leitura. Segue à risca as precisas indicações e, de fato, não encontra dificuldade de chegar aos dois volumes, porém despreza a sugestão e escolhe o de formato pocket, 46

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idêntico ao de Ática, somente um pouco mais amarelado. Se restava alguma dúvida quanto a comprar ou não, esta frase na contracapa o impele: “Bartleby é um escriturário que faz cópias de documentos burocráticos”. Ora, Matias sabe muito bem o que são documentos burocráticos e logo se sente familiarizado, e ao mesmo tempo um pouco espantado pelo fato de um escriturário ter alcançado o status de protagonista. No trajeto entre a terceira estante e o caixa, Matias arrisca ainda outra tentativa de agradecer, mas o homem permanece com os olhos grudados no livro. Paga os 15 reais e segue a pé para o restaurante, e agora sem o menor esforço vem à sua mente o lugar de onde conhece o leitor obstinado: pois se os dois almoçam religiosamente no mesmo restaurante, de segunda a sexta-feira! Matias já havia reparado que o homem come rápido, mastiga como quem se desvencilha de um encargo, nunca pede a sobremesa, está sempre desacompanhado. Não duvida de que ele já tenha almoçado hoje, supõe com acerto que o homem necessite do intervalo do almoço para um assunto mais além do estômago: as compridas fileiras de estantes de onde retira o seu alimento diário, o banquinho imundo onde se senta, os corredores estreitos e abafados do sebo da Rua das Guibuguiras, 176. É verdade que Martim tem pavor de que o interrompam enquanto lê, entretanto, admite que não lhe desagradou indicar ao jovem o lugar em que poderia encontrar o título de Melville. Sentiu-se até reconfortado por saber que, à parte desse globo reduzido a meia dúzia de ideias, um jovem anseie tanto por encontrar Bartleby, o 47

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escriturário “palidamente limpo, tristemente respeitável e incuravelmente pobre”. O próprio Martim tem predileção por livros de poucas páginas, os quais prescindem do apoio das duas mãos para a leitura, como esse antigo exemplar de O velho e o mar, que resolveu reler hoje, uma de suas histórias prediletas; ademais, o auxílio de uma mesa, o amparo de um colo ou de outro elemento parecem-lhe sempre acréscimos artificiais, superfluidades que, não raro, chegam a afetar a indispensável intimidade entre o leitor e o texto. De acordo com a tese de Martim, a um autor sensato, cuja principal aspiração é sempre a de não entediar nem aborrecer seu leitor, não deve faltar talento para o cálculo, o que lhe permitirá não ir além de um certo número de páginas. Martim, se vê, aprecia livros impressos em papel e autores cuja ambição não ultrapasse um total de oitenta, cem páginas: compacto e leve, como um prolongamento da mão daquele que o lê, tal livro nunca será um fardo, não demandará tempo e atenção demasiados como uma criança mimada ou um adulto vaidoso. Poucos alcançaram semelhante proeza e Martim lhes concede lugar de honra em sua modesta biblioteca: Hemingway, o próprio Melville, além deles, Nassar, Gilman, Lunardi; terá, certamente, esquecido de mencionar alguém e corrigirá seu erro em tempo e lugar oportunos, se houver. Depois de conferir capa, contracapa e o número de folhas, o jovem Matias se estende na cama e começa a leitura. Como se trata de um acontecimento extraordinário, escolhe a melhor posição para o corpo e o mais adequado 48

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estado de espírito. Entre “Já sou um homem de certa idade” e “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” passaram-se duas horas, portanto, é um pouco depois de meia-noite. Ele acaba de fechar o livro, se senta, cotovelos dolorosamente apoiados nas pernas magras, cabeça entre as mãos, o choro vem. O efeito da leitura pode ser melhor avaliado no dia seguinte, durante o percurso até o trabalho. Faz sol, a manhã está fresca, o jovem Matias aguarda a luz verde do sinal de pedestres, não tem pressa. Exceto pelos fones de ouvido, ele mal se reconhece. Não suspeita que isto seja o que alguns dão o nome de leveza. O peso do corpo, quase 75 quilos, distribuído de tal maneira que pela primeira vez experimenta o mais perfeito equilíbrio, a firmeza nobre de cada passo, o ritmo brando com que avança, go on, go on. É preciso que se saiba que, além do proprietário do nº... de Wall Street, Matias foi o único a comparecer ao enterro do pobre Bartleby, durante o qual chorou com tamanha sinceridade, alternando soluços com longos períodos de silêncio, ao fim dos quais mergulhou num sono plácido que durou tanto quanto possível. De fato, quando ouviu as batidas na porta já estava acordado e sentiu, acho que pela primeira vez, uma profunda compaixão pela mãe. Durante o almoço, na presença de pessoas a quem conhece de passagem, sabe que não está de todo perdido ou sozinho, tem a rara sensação de conexão e isso é o mais próximo do aconchego que jamais alcançou. De um modo ou de outro, teria chegado à conclusão de que não existe sentimento tão definidor da humanidade quanto o desamparo. Pensa em compartilhar as novas impressões com o homem que está 49

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na mesa ao lado, que não é outro senão Martim, o leitor obstinado, mas Matias sequer o conhece pelo nome, esse é um privilégio que cabe somente ao leitor e a mim. Antes que Matias termine de conduzir o fio do pensamento, Martim já engoliu a última garfada de comida e não é nenhum mistério para onde ele vai com tamanha pressa, de modo que o melhor é deixá-lo seguir em paz. A noite trará ao jovem Matias uma nova oportunidade de compartilhar as tais novas impressões, mas ele não conseguirá transpor o receio de que a mãe nunca o compreenda e se decidirá por elogiar a sopa, achando que é o bastante, e é o suficiente, além de muito aconselhável quando se quer evitar com tenacidade o tipo de desilusão que supõe uma vida inteira e engenhos mais ou menos complexos até que esteja curada, se chegar a tanto. Tampouco Ática é uma leitora assídua. Falta-lhe tempo e, de acordo com o severo julgamento que faz de si mesma, falta-lhe um tanto mais de diligência. Este, por exemplo, a vizinha lhe emprestou com as melhores recomendações, ainda assim, mal o folheou, e permanece no mesmíssimo lugar, na mesa do escritório, entre o computador e o material de expediente. Mas de uma coisa Ática não duvida: as melhores leituras são de fato aquelas feitas sem interrupção, e não há de lhe faltar o fôlego exato ou a condição ideal para esse pequeno Bartleby, o escriturário. Afinal, não foi assim com os demais? A despeito de Ática ser uma mulher de poucas leituras, nem por isso deixará de ser exigente e de todo contrária a ler por puro entretenimento, o que considera um completo desperdício de tempo e 50

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dinheiro. Embora pouco numeroso, não é desprezível o repertório a que ela chama amorosamente de “seu”, porque lhe parece ter sido primordialmente moldada por cada frase de Vestida de preto e aperfeiçoada pelo humor desencantado de Esquina, para em seguida permitir que Um copo de cólera a devastasse com fúria semelhante à das saúvas abrindo um tremendo rombo na cerca viva, e só depois, bem depois, é que O Papel de parede amarelo lhe comunicaria toda a loucura que sempre foi sua, e em Mônica vai jantar descobriu que o ritmo alucinante da narrativa lhe dava a ilusão de movimento enquanto, de verdade, tudo se resumia a estar perplexa e sozinha no mundo, e bem na altura de Vésperas, meu Deus, ali se tornou inadiável para Ática a constatação da finitude, e foi com Efemérides que ela pretendeu alcançar alguma espécie de renascimento, mas vai ver tudo não passou de um projeto equivocado desde o princípio. Passando das 3h da tarde, tendo acabado de despachar o rapazinho da contabilidade, Ática enxerga uma pequena mancha entre a cadeira de rodízios em que voltou a se sentar e a poltrona de cor cinza, agora vazia. Automaticamente se levanta para recolher o que acredita ser um pedacinho da embalagem que recobria o tablete de chocolate que foi a sua sobremesa de hoje. Enquanto se reclina, não consegue deixar de se recriminar pela falta de cuidado e pensa na vergonha que teria sido ver o chefe, ele próprio, a quem o senso de ordem nunca abandona, se reclinar como ela faz nesse instante para catar o papelzinho inoportuno. Ática solta um gritinho agudo, abafado pelo susto. Não era o que 51

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pensava, sente ao tocar a coisa macia nas pontas dos dedos, e atesta que se trata de um pequeno inseto de asas, morto, ao qual sequer sabe atribuir o nome exato. Não entende como a coisa veio parar justamente ali, pois as janelas estão sempre fechadas nesse escritório cuja temperatura foi programada para os 18 graus centígrados, invariável temperatura que não concebe suores, febres, intensidades, extremos. Como não atribuir esse aborrecimento ao rapazinho da contabilidade? Certamente carregou o pequeno inseto no solado do sapato e nem se deu conta. Esse fato banal teria sido mais ou menos indigno de registro não fosse o caso de Ática ter se recordado imediatamente da outra ocasião em que soltou semelhante gritinho agudo e abafado, mas as circunstâncias eram muito diversas e, inclusive, aterrorizantes. Pronto, basta isso para estragar o humor e o resto da tarde, e no princípio da noite ela mal consegue sorrir das gracinhas que o filho costuma utilizar para chamar sua atenção, e de maneira nenhuma consegue olhar o marido, olhá-lo nos olhos: não tem dúvida de que ele conseguiria atribuir o nome exato à expressão que Ática tem no rosto. Há uma distância intransponível entre a raiva que se pode expressar e a raiva implodida. É precisamente essa a distância que se interpõe entre Ática e o marido, com quem ela jamais pôde conversar sobre o ocorrido sem colocar em risco o casamento e tudo o mais em que supõe acreditar. Ninguém pode dar garantias de que este seja o momento, se é que existe o momento certo para tratar de um assunto como esse, são lembranças dolorosas. Ela 52

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não sabe mais como camuflar as tremuras sob o pijama de flanela: vai explodir, vai explodir, Ática vai jogar tudo de uma vez na cara dele, não vai sentir dó nenhuma, não vai mesmo. Ele precisa sofrer. Vai começar dizendo que tudo teria sido diferente se ele tivesse sido um homem de verdade. Vai começar dizendo que ele não passou de um covarde, que lhe dá nojo só de lembrar. Vai começar dizendo que ele poderia ter gritado, lutado, feito o diabo, até morrido se fosse o caso, mas não fez nada. Nada. Vai dizer que nunca o perdoará por tê-la feito se perceber tão vulnerável e aterrorizada como naquela noite, quando eles tinham mais ou menos dois meses de casados. Vai dizer que ele foi um verme, pior que um verme, conseguiu representar tudo o que uma mulher não pode admitir que o homem que ela ama seja. E se ele tivesse tido um mínimo de honra teria sido o primeiro a reconhecer com que covardia a abandonou à própria sorte. E foi ela quem teve que passar por tudo aquilo, e ela não consegue se esquecer do horror que foi ter vivido tudo aquilo. E ela agora só tem vontade de desabar no choro, mas se recusa a agir como uma menina tola que ainda não aprendeu a se defender. Vai começar a dizer o que precisa ser dito depois que for até a cozinha e tomar um gole de água ou de coragem. Vai fazer o que precisa ser feito depois que retornar do quarto do filho pequeno, que já pegou no sono há muito tempo. Vai dizer tudo depois que respirar fundo. Sob a mira de armas um homem e uma mulher não passam de uma coisinha de nada. Ela mesma poderia ter gritado, lutado, feito o diabo, até morrido se fosse o caso, 53

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mas não. Teve que passar por tudo aquilo e não consegue se esquecer do horror que foi ter vivido tudo aquilo. Nessas horas, trata-se apenas de preservar a vida, faz-se qualquer coisa para não morrer. Ela prefere estar viva, mas às vezes é tão fácil confundir os dois estados. A noite está de um calor sufocante, ela precisa fazer alguma coisa depois que voltar ao quarto do casal. A essas horas ele dorme e até ronca. Seria necessário acordá-lo, ainda bem que ele tem o sono leve e qualquer coisa o desperta. Se ao menos ele tivesse pedido a ela que o perdoasse por ter sido o grande nada que foi. Mas nessas horas trata-se apenas de preservar a vida, faz-se qualquer coisa para não morrer. Ela prefere que ele esteja vivo, mas às vezes é tão difícil discernir entre os dois estados. Ela tropeça, ele acorda sobressaltado: “O que foi?”. Ela responde que não foi nada. Ática vai custar a dormir. Vai ser uma daquelas noites longas. Tudo o que ela consegue enxergar no escuro são flashes, quando as imagens aparecem mais ou menos nítidas ela muda de posição, faz um movimento qualquer com o corpo, somente para evitar, para não ver o que não quer ver, o que gostaria de nunca ter visto: pareciam dois homens, na verdade, eram dois demônios, Ática precisa acreditar que eram demônios aqueles dois. O de baixa estatura foi o pior, não lhe bastou roubar coisas materiais do casal, foi de uma crueldade indescritível fazê-la perder a fé, o pior de tudo, perder a fé no homem com quem estava casada há apenas dois meses. Porque nunca se sentiu tão desamparada, até por si mesma, completamente desamparada. Poderia ter gritado, deveria ter mordido 55

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com força e arrancado sangue da porra do pau daquele demônio, porque aquilo não era um homem, um homem nunca pode ser uma coisa daquelas, porque se aquilo fosse de fato um homem, então Ática preferiria nunca ter nascido mulher. É de um desamparo grande demais e é uma ferida terrível demais para carregar para sempre, por isso Ática precisa acreditar que eram demônios aqueles dois. Porque no fundo ela não consegue entender que tanto valor a vida possa ter a ponto de fazer com que uma mulher como ela tivesse que se submeter e, no fundo, ela não consegue se perdoar por ter se submetido, teria sido preferível morrer, porque há coisas terríveis, coisas que machucam demais. Não foi um assalto a mão armada, foi de uma violência indescritível, levaram tudo, limparam a casa, mas não se tratou simplesmente de coisas materiais. Naquela mesma noite Ática percebeu o que era ser a porra de uma mulher. Porque ele também ficou sob a mira de um revólver, mas não teve que passar por tudo aquilo, e ela não consegue se esquecer do horror. E até ali, aos dois meses de casada, Ática parecia não ter percebido que era uma mulher, talvez menina, talvez princesa, talvez uma idiotice qualquer como essas, mas naquela noite ela não teve mais dúvidas, não teve como fugir à verdade e ao destino de ser uma mulher e se sentiu impotente, e se sentiu castrada mesmo. Janis sabia o que era ser isso, ser a porra de uma mulher. “Women is losers. Womens is losers, Lord, Lord, Lord!” E fica tão difícil perdoar o marido e perdoar a si mesma, mas sabe que já é tempo de encarar que não existe sentimento tão definidor da humanidade quanto o 56

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desamparo. E é preferível isso a negar a fragilidade, porque nenhuma força vem de negar uma fragilidade que é toda sua, e Ática por fim abraça o marido: “O que foi agora?”. Ela responde: “Não foi nada, amor, durma, durma”. E logo se levanta e vai até a sala, caminha até a cadeira onde está a bolsa, dali retira o pequeno volume e, depois de conferir capa, contracapa e número de folhas, Ática se apoia no encosto da poltrona. Entre “Já sou um homem de certa idade” e “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” passaram-se duas horas, portanto, é bem mais que meia-noite. Ela acaba de fechar o livro, cotovelos dolorosamente apoiados nas pernas roliças, cabeça entre as mãos, o choro vem. No dia seguinte, o primeiro pensamento: Bartleby é o cúmulo da humanidade, mas esse nem é um pensamento original. Ática se levanta e vai cuidar das coisas que uma mulher como ela precisa cuidar antes de sair para o trabalho. Matias, por sua vez, dormiu bem e se recorda de cada palavra que os dois trocaram ontem. Pela primeira vez, desde que pisou no escritório climatizado em que Ática trabalha, ele se sentou. E lembra que era uma poltrona de cor cinza, e viu o pequeno Bartleby no mesmo lugar, entre o computador e o material de expediente, e apontando: “A senhora já leu?”. Surpreendida, porque naquele dia, desde o momento em que ele entrou no escritório climatizado em que ela trabalha, não apenas retirou os inseparáveis fones de ouvido, como também se sentou e, mais espantosamente, abriu a boca para dizer outra coisa que não fosse o “Bom dia” e o “Sim, senhora” de sempre. Ela não pôde esconder o espanto e ficou um pouco sem 57

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jeito, mas foi questão de segundos e a resposta veio seca: “Ainda não”. E ele, mais espantosamente ainda, insistiu: “A senhora vai ler?”, e ela, mais cortante: “Pretendo”, e ele, por incomum que pareça: “Vale muito a pena, é um livro inesquecível; e taxativo: “Bartebly é o cúmulo da humanidade!”, e ela apenas sorriu, entre incrédula e um pouco encantada. Depois que ele saiu, Ática colocou o livro na bolsa e prometeu a si mesma que daquela semana não passava. Como não era mulher de não cumprir promessas, bastou o horror de um inseto morto, que por sua vez despertou outra sorte de horrores avivados, e na madrugada do dia seguinte Ática cumpriria a promessa, inclusive, chegaria a idêntica conclusão à que antes Matias chegara. Era de se esperar que Ática saísse de casa atrasada depois da noite que passou. Era de se esperar que se demorasse um pouco mais no banho e deixasse o lugar todo rescendendo ao hidratante com cheiro de flor de cerejeira. E o marido fica surpreso de que ela tenha escolhido justamente o vestido de viscose, o lindo vestido com flores miúdas que usou muito pouco, e que só por um milagre se pode explicar que ele não tenha sido doado ao Grande Bazar Beneficente da igreja, como os demais vestidos. E o filho nunca esteve menos queixoso no banco traseiro, em compensação, Ática pega todos os semáforos fechados e nem por um segundo isso a dissuade de conservar a sensação a que muitos dão o nome de leveza. O peso do corpo, quase 60 quilos, distribuído de tal maneira que pela primeira vez experimenta a mais perfeita simetria, a 58

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firmeza de cada gesto, a plenitude, o ritmo brando com que avança, go on, go on. Se não foi de uma insanidade completa ter abandonado o que parecia ser a solidez de um Aurélio para afundar em tamanha obscuridade! Sem dúvida, retornarei ao dicionário de língua portuguesa para escrever com palavras tomadas de empréstimo e presumo que depois de tanto trabalho, escritas exatas doze mil palavras, ainda me escapará aquela que procuro. Suponho que a tenham enterrado com seu último falante: a língua que me daria a palavra de que mais necessito foi morta a sangue-frio. Sendo assim, nunca chegarei a decifrar meu segredo, nunca preencherei o espaço em que cabe a palavra que deixou de existir muito, muito tempo atrás, quando os homens não haviam ainda sido inventados pela palavra.

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Impresso no dia 8 de julho de 2022, na Gráfica JB Ltda, com miolo em papel Polen Bold 90g; e editorado com a fonte Adobe Garamond Pro corpo 12. Tiragem: 1000 exemplares.

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