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AS FOTOS ROUBADAS| Caramurê Publicações | Selo João Ubaldo Ribeiro

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O selo João Ubaldo Ribeiro é um prêmio que vai muito além da publicação de livros, visa abertura de caminhos, de oportunidade, de afirmação de talentos e carreiras. É incentivo à leitura e valorização dos escritores baianos. A cada dois anos são lançados oito novos livros que são doados para bibliotecas públicas de Salvador e da Bahia. Esse prêmio faz parte do Programa Caminhos da Leitura, e é promovido pela Prefeitura da Cidade de Salvador, desenvolvido pela Gerência de Biblioteca Livro e Leitura da Fundação Gregório de Matos.

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Breno Fernandes

EPP Publicações e Publicidade Ltda. Salvador - Bahia 2022 1ª Edição

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Coordenação geral: Claudijane Palma Comissão de avaliação Ano III Cássia Dolores Costa Lopes - gênero: Dramaturgia. Fernanda Maria Brito Gonçalves Almeida - gênero: Categoria livre. Hugo Brito Canuto Oliveira gênero: Literatura infantil. Lindinalva Amaro Barbosa - gênero: Conto. Luciany Aparecida Alves Santos - gênero: Poesia. Marcus Vinicius Couto Rodrigues gênero: Crônica. Victor Uchoa Firmo - gênero: Romance. Títulos participantes do Selo João Ubaldo Ribeiro Ano III A história do Bicho-Folhagem – Stael Mamed (Literatura infantil) Alimentando as Feras – Aícha Marques (Dramaturgia) As Fotos Roubadas – Breno Fernandes (Romance) A travessia do grão profundo – Paulo Atto (Dramaturgia) Efemérides – Márcia Monteiro (Categoria livre) Fuxico, resenha, mexerico nas esquinas e buzus de Salvador – Daiana Soares (Crônica) Sobre quatro patas há um lugar seguro – Aruane Garzedin (Conto). Soprando o vento – Tiago D. Oliveira (Poesia)

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1ª Edição

Edição e organização: Fernando Oberlaender Ilustrações internas e capa: Mike Sam Chagas Projeto Gráfico: Fernando Oberlaender Diagramação: Neilton Oliveira Revisão: Rita Canário Produção Editorial: EPP Publicações e Publicidade Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica JB Ltda. Esta é uma obra de ficção. Quaisquer semelhanças com personagens ou situações da vida real é pura coincidência.

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lançamento da coleção do Selo Literário João Ubaldo Ribeiro – Ano III reafirma a importância do investimento na produção literária de Salvador e consolida esse programa como referência de incentivo à leitura e como política de inclusão e promoção dos nossos escritores e escritoras. São oito obras escritas por soteropolitanos, editadas por uma editora soteropolitana, abarcando gêneros como romance, poesia, crônica, conto, literatura infantil, dramaturgia e gênero livre, distribuídas gratuitamente ao público e às principais bibliotecas de Salvador. Será lançada também uma versão digital no site da Fundação Gregório de Mattos. Essa ação fortalece a identidade do nosso povo e movimenta a economia local, abrindo espaço para nossos criadores literários. Lançado em 2014, o edital Selo Literário João Ubaldo Ribeiro já selecionou e publicou, em suas três edições, 24 obras, todas escolhidas por comissões de profissionais consagrados na área. A Coleção cumpre o disposto no Decreto Municipal 24.883 de 02 de abril de 2014, que instituiu o Selo, e dispõe que “incumbe ao poder público garantir a todos o acesso às fontes de cultura, apoiando e incentivando a produção, valorização e difusão das manifestações culturais”, consoante com o art. 262 da Carta Orgânica Municipal e as diretrizes da Lei 8.551/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Cultura. Quero agradecer a todos os envolvidos na criação, no fortalecimento e na continuidade desse projeto, com destaque para a equipe da Gerência de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura da Fundação, coordenada por Jane Palma, e à Comissão de Avaliação, que selecionou as obras. Boa leitura! Fernando Guerreiro Presidente da Fundação Gregório de Mattos

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Prefeito Bruno Soares Reis Secretária Municipal de Cultura e Turismo Andrea Almeida Mendonça Presidente da FGM Fernando Guerreiro Chefe de Gabinete Patricia Lins Assessora Chefe Viviane Vergasta Ramos Assessor Técnico Plutarco Drummond de Magalhães Neto Gestor do Núcleo de Tecnologia da Informação Clidério Evangelista Bastos Assessora Jurídica Kaiale Santos Araújo Gerente Administrativo-Financeiro Gildete Nascimento Ferreira Diretora de Planejamento e Projetos Culturais Silvia Maria Russo de Oliveira Gerente de Promoção Cultural Felipe Dias Rêgo Gerente de Equipamentos Culturais Chicco Assis Diretora de Patrimônio e Humanidades Milena Luisa da Silva Tavares Gerente de Patrimônio Cultural Vagner José Rocha Santos Gerente de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura Claudijane Pereira Palma

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Sumário Nota do autor. Capítulo I....................................................... 11 Capítulo II...................................................... 18 Capítulo III..................................................... 25 Capítulo IV..................................................... 29 Capítulo V...................................................... 36 Capítulo VI..................................................... 45 Capítulo VII................................................... 49 Capítulo VIII.................................................. 55 Capítulo IX..................................................... 57

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screvi As fotos roubadas em 2015, movido pelo que só mais tarde descobriria ser sólida tradição literária baiana: um estilo que Antonio Risério chamou de neobarroco afrorromântico. Vem daí meu interesse por uma pontuação mais expressiva do que normativa, por uma linguagem que mistura a formalidade e a informalidade, por cunhar neologismos ou fazer aportuguesamentos que enriqueçam tanto meu texto quanto a língua brasileira. Fiquei aliás muito feliz quando um leitor desta história comentou que a dicção do narrador observador — repleta de expressões da oralidade contemporânea, com ritmo veloz, mas também com gosto pela firula a serviço do humor — faz dele quase um personagem. “Era essa a intenção”, respondi sorridente. Porém faltou dizer que tal tipo de narrador não é invenção minha. Eu o descobri lendo meu mestre maior: João Ubaldo Ribeiro. Por isso, quando surgiu este selo, me animei a tirar o texto da gaveta, pensando: “Não seria maravilhoso se As fotos roubadas viesse a público numa coleção que homenageia quem o inspirou?” E aqui está o livro. Em suas mãos. Maravilhosamente. Breno Fernandes 9

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oi ver a magreza das canelas que abriam o gás no rumo da Praça da Aclamação e Evandro fez menção de persegui-las. Mas antes de ele sair da calçada o repuxo e o reclame de Carina o demoveram: “Não me deixa aqui sozinha!” Por tropeço ou desfalecimento — nem ela soube o que aconteceu — a moça teria caído em seguida, não fosse o noivo ampará-la. Enquanto ajudava Carina a se firmar de pé, com o canto do olho Evandro viu o ladrão sumir pelas escadas que davam caminho à Gamboa. Na mesma hora chegou um murmúrio vindo do Passeio Público, de cuja entrada estavam pertinho. Ato reflexo, os dois viraram a cara naquela direção. Lá dentro estava tão escuro quanto cá fora; a luz mirrada do poste mais próximo servia melhor para Evandro e Carina se sentirem expostos. 11

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No entanto perceberam depressa que só tinham escutado o vento e o medo. Não havia ninguém ali além deles e de suas sombras projetadas nas pedras portuguesas. “Tem polícia no Campo Grande, bora logo”, disse Evandro, arrastando a mulher. “Pera! Eu não vou conseguir correr.” “Então fica no Quintal, é seguro. Eu vou e volto rápido.” “Eu não quero ficar sozinha! Eu já disse!” “Caramba, amor! Você não vai estar sozinha, o pessoal continua aí. E essa é a única chance que eu tenho de recuperar sua bolsa. Tudo da gente tá lá: carteira, celular, chave de casa. Eu preciso ir, ok?” Rispidez à parte, o argumento do noivo a convenceu. Nos minutos seguintes, descendo a inclinada escadaria de acesso ao bar Quintal, o cuidado em se manter a salvo, caso as pernas tornassem a falhar, ajudou Carina a se acalmar um pouco. Mas quando viu Rafael e Juliana indo a seu encontro, os rostos muito graves de quem notava que algo se passara, e quando recebeu do casal de amigos o abraço protetor de que precisava, a moça se sentiu à vontade para desabar de vez e chorar, chorar, chorar. Sentaram-na, puseram em suas mãos um copo de cerveja e um cigarro. No que o enjoo dos goles e tragadas afobados começou a substituir o nervosismo, Carina pôde contar os detalhes: “Menina, parece que eu tava adivinhando… Na hora que a gente saiu daqui, ainda na escada, me veio uma coisa e eu dei a bolsa pra Evandro levar, dizendo pra ele que se eu já não gosto de andar nessa área aqui de dia, veja lá de noite. Ele pã e guarda na bolsa a carteira e o celular, pra não ter volume marcando a calça. Aí a cinco passos da porta, do nada, aparece uma figura gritando ‘É um assalto!’, bota um estilete 12

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ou canivete ou sei lá o que nas costas de Evandro, puxa a bolsa e sai correndo. Coisa de dois segundos tudo.” "Putz, Salvador tá cada dia mais foda", queixou-se Rafael. “Amiga, ó, não se preocupe. A gente tá com dinheiro aqui e qualquer coisa vocês dois vão dormir lá em casa.” “Ai, Ju, brigada, mas eu queria tanto minha casinha nessa hora, sabe?” “Eu sei de um chaveiro vinte e quatro horas no Garcia”, falou Rafael. “Assim que Vanvan chegar, a gente passa nele.” “E ainda tem isso: Evandro na rua, desesperado atrás de polícia, sem lenço nem documento. Agora imagine se eu tô com a bolsa, gente… Do jeito que eu sou, eu congelava e o ladrão metia a faca em mim pra cortar a alça. Foi deus quem mandou eu dar a bolsa pra Evandro, fora de brincadeira.” “Falando no diabo…” O rosto e a camisa do recém-chegado estavam encharcados de suor. Ele arfava, porém não quis se sentar. Escorado nos ombros de Rafael e de Carina, Evandro contou que dera uma volta na Praça do Campo Grande e nem rastro da polícia; até o módulo policial que ficava na esquina com o Canela estava deserto, as luzes apagadas. Incontinente, pediu o carro emprestado ao amigo: queria checar se porventura, depois de pegar o que lhe interessasse, o assaltante não teria largado a bolsa na rua. As chances de isso acontecer eram baixíssimas, ele bem o sabia. Entretanto só se sentiria em paz com a certeza de que fizera tudo para reaver a bolsa de Carina, mesmo as ideias mais descabidas. Compadecido, Rafael se predispôs a ser o motorista, de modo que Evandro dedicasse total atenção a sua busca. E como as garotas também quisessem ajudar, os quatro deixaram o Quintal. O veículo, por sorte, estava mais próximo à porta do bar do que o ponto onde acontecera o 13

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roubo. Ainda assim eles correram. De trás dos vidros fechados exploraram os arreadores da Gamboa por meia hora. Percorreram inúmeras vezes a Gamboa de Cima, a Banco dos Inglêses e os dois sentidos da Contorno, da altura do MAM à Praça Cairu. A cada volta encontravam os mesmos mendigos, os mesmos usuários de crack, as mesmas crianças e uma ou outra cara nova, gente que parecia moradora da área a caminho de casa depois do trabalho. Contudo ninguém usava a camisa vermelha e a bermuda azul do assaltante, nem tinha em mãos bolsa parecida com a de Carina. Nas últimas voltas, Evandro mal reparava a rua, focado em se maldizer pelo desleixo de ter passado perto demais da porta escura do Passeio Público, de onde saíra o ladrão; pela bobeira de ter colocado seu celular e carteira com os de Carina; pela facilidade com que cedera a bolsa, sem tentar negociar. Essa última mea-culpa foi motivo de discórdia, sem concessões de Evandro aos louvores à vida e à integridade física entoados pela noiva e pelos amigos. Somente depois de confundir a irritabilidade da voz de Carina em relação a sua fala com mágoa direcionada a sua pessoa, ele se aquietou, resignado, seguro de seu baixo valor. Nem mesmo a má vontade do policial que o atendeu na delegacia do Politeama, onde fez o BO, o tirou desse estado. E quando o chaveiro, no carro, a caminho da porta a ser destrancada, deu início ao tradicional rito de presentear recém-assaltados com um balaio de histórias de roubo, Evandro riu de tossir com o caso do bandido que, após assaltar o chaveiro, se compadeceu do pedido deste para lhe deixar o da passagem, foi até uma barraca de coco, trocar o dinheiro que acabara de afanar, e voltou de lá com um coco em mãos, o qual compartilharam enquanto esperavam o ônibus juntos, para garantir que a 14

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vítima não fosse atrás da polícia. “Porra, velho! E o cara tava com uma parada perto da boca, uma pereba que eu não sabia se era herpes ou o quê.” “Que. No! Jo!”, exclamou Juliana, lacrimejando. “Nem me fale. Eu até tentei me sair, disse pro bróder que não tava com sede, não, mas ele soltou um ‘Oxe, toma aí, cabeça; na moral, foi com seu dinheiro!’, aí fazer o quê, né? A gente ficou lá, pagando de casal, cada um com um canudinho, e nada do miserável do Praça da Sé passar!” A gastação em torno do episódio do coco rendeu até o elevador levar embora o chaveiro, Rafael e Juliana. Trancada a porta do quarto e sala, Evandro abriu uma cerveja e se juntou a Carina, que fumava na janela do quarto. Se abraçaram e se beijaram até sentir que estavam definitivamente em casa. “Agora o quê?”, quis saber ela. “Os cartões são prioridade. É sair cancelando tudo e amanhã ir ao banco pedir outros.” “Assim que eu acabar o cigarro. Tem o do plano de saúde também; tem de mandar fazer um novo. Ai, e RG, título de eleitor… Eu nem sei direito os papéis que eu tinha naquela carteira.” “Eu cansei de te falar pra não sair com mais que o necessário.” Carina deixou passar o sermão. Deu uma tragada forte e soprou fumaça para a Baía de Todos-os-Santos, à sua frente. “Geralmente, nos dias em que eu odeio muito Salvador, é só dar de cara com essa vista e a vontade de ir embora some. Hoje, nem isso”, comentou a moça, deixando de fitar o vazio do mar breu pontilhado de barcos incandescentes para acompanhar a queda das cinzas do vigésimo primeiro andar até o asfalto esburacado da ruela onde viviam, numa transversal 15

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da Direita da Piedade. Evandro falava sobre o serviço de agendamento online do SAC, que talvez os poupasse algum tempo na hora de tirar nova documentação, entretanto Carina o cortou a fim de tratar de algo mais urgente: “Não esquece de fazer aquilo de apagar o conteúdo dos celulares.” Ela viu o rosto do noivo se camuflar à parede branca em que ele se recostava. “O que foi, Evandro?” O gaguejo e os engasgos do homem o obrigaram a ter de explicar a situação duas vezes seguidas. E houve ainda uma terceira, que a noiva, entre fula e cética, demandou. Na quarta vez, foi a própria Carina que contou a história inteira, na esperança de tê-la compreendido mal. Só que não. Encarando o companheiro desde cima — pois Evandro, a cada repetição, deslizara mais e mais rumo ao piso até se sentar aí —, encarando-o dessa forma, prestes a tomar a garrafa de Skol que ele tinha em mãos, quem sabe para a quebrar na cabeça do noivo, que não tirava os olhos do rótulo, Carina acendeu outro cigarro e, pela quinta vez, voltou ao assunto: “Quer dizer que nos cinco anos que a gente tá junto você me enche o saco diariamente com mimimi de segurança e privacidade, me obriga a aprender um monte de porcaria que não me interessa, tipo pra que serve PIN, pra que serve IMEI, me convence a botar uma porra de senha de tracinho que até me desmotiva a usar o telefone porque faz eu me sentir o Zorro atacando a tela, e agora vem me dizer que seu aparelho tava sem bloqueio automático porque você precisava responder mais rápido a um cliente chato?” “Amor!”, o noivo finalmente a mirava. “Eu sinto muito! Te juro que não faz duas semanas que eu desativei o bloqueio, 16

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era só porque…” “Duas semanas?!”, atalhou Carina. “Você tava andando pra lá e pra cá com esse celular desbloqueado por duas semanas?!” “F-Foi, s-sim. Foi burrada, eu sei! Tinha pra mais de quinze anos que eu não era assaltado, comecei a dar mole! Que merda!” “Você pode dar o mole que quiser, Evandro. Agora dê mole quando o prejudicado é só você. Se tem outra pessoa envolvida, é melhor ficar esperto!”, um risinho suspirado de nervoso obrigou Carina a uma pausa. “E o pior nem é isso. Pior é a mentira. Me dizer que tava apagando as fotos que eu te mandava, pra chegar nessa altura e eu saber que não.” Agora um minuto de silêncio. O mar coberto com lona. O castanho da garrafa. “Cacá! Eu…” “Não fala nada, Evandro. Não tem desculpa”. Ela lhe chutou de leve os tênis. “Levanta daí e vamos resolver o que tem de ser resolvido, que a gente tá perdendo tempo. E trate de rezar pra nenhum nude meu cair na internet.”

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uando os olhos do repórter se encontraram com os de Evandro, este temeu que a câmera viesse em sua direção e por isso voltou a examinar os papéis que segurava. Contudo a vítima escolhida foi uma mulher de touca e chinelas, em pé e com um garotinho abraçado à sua cintura, os lábios crispados denunciando que sua paciência beirava o fim. Como era pequena a sala de atendimento da 1ª Delegacia, a mesma em que Evandro estivera na noite anterior, todos puderam escutar o diálogo entre o repórter e a senhora, que estava em busca de seu menino mais velho, supostamente detido durante a madrugada e mandado para lá segundo informações que chegaram a seus ouvidos. O policial que acompanhava o repórter se intrometeu na conversa para dizer que ele estivera de plantão a noite inteira e que ali não chegara ninguém parecido com o adolescente da foto que

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a mãe lhe mostrava. O repórter contemporizou a desavença iminente antes da tréplica da mulher e a convidou a contar sua versão dos fatos diante da câmera, prometendo que se as autoridades estivessem certas a divulgação do desaparecimento poderia ajudá-la a achar o menino mais rápido. Ela concordou e o iluminador da filmadora portátil se acendeu. Sem conter as lágrimas, a mulher falou da aflição da madrugada em claro, com maus pressentimentos em relação ao primogênito, que nunca tardava a chegar em casa ou, quando o fazia, dava sempre um jeito de avisá-la. Depois falou do bochicho da vizinhança sobre uns garotos levados gratuitamente por policiais militares, entre os quais o rapaz estaria. E logo falou sobre a índole imaculada do jovem, bom filho, bom irmão e bom cristão, evangélico repudiador das drogas, mesmo as lícitas. À medida que a escutava, Evandro sentia-se fútil por estar ali buscando reaver um aparelho celular, ainda que a lembrança da cara de decepção de Carina na noite passada fosse estímulo bastante para o manter sentado à espera de ser atendido. Felizmente a presença da tevê na delegacia deu uma injeção de produtividade nos policiais gordos e morosos que na última hora recepcionaram apenas três cidadãos, e assim os dois que faltavam até a vez de Evandro foram chamados e dispensados em quinze minutos. “Bom dia, em que posso ajudá-lo?” “Bom dia, oficial Uzêda”. Evandro leu o nome do polícia no crachá que este trazia pendurado no pescoço. “É o seguinte: eu fui assaltado ontem na porta do Passeio Público, aqui tá o BO, feito nesta delegacia mesmo…” “Evandro Meira de Andrade”, o policial viu no boletim. “É o senhor?” “Sou eu, sim, oficial. Como eu dizia, roubaram a mim e a 20

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minha namorada ontem de noite. Este é o BO dela. Levaram uma bolsa com nossas carteiras e celulares. Acontece que tanto o meu aparelho quanto o dela têm rastreio por GPS. E eu descobri que os dois foram parar aqui, ó”, Evandro fez uma pausa para entregar ao outro um mapa impresso do Google Maps. “Nessa paralela da avenida principal do Uruguai, tá vendo a marcação? Daí eu queria saber se…” “Seu Evandro, sinto lhe dizer, mas tá fora da nossa alçada fazer qualquer coisa pelo senhor em relação a isso. Isso aqui — o oficial suspendeu o mapa e deixou que ele caísse pairando de volta à mesa —, isso aqui não pode ser aceito como prova.” “Como não pode?” Mesmo sem espiar atrás de si, Evandro sentia que os olhos de todos na sala estavam cravados em sua nuca por causa da nota mais alta em que sua voz acabara de sair. Pigarreou antes de continuar. “Como não pode? Os senhores não confiam em satélites?” “Não se trata disso, senhor”, respondeu o policial entredentes, espreitando se o repórter prestava atenção a sua baia. “O fato de o celular se encontrar nessa residência não implica que o meliante viva aí. É possível, inclusive, que ele já tenha repassado o aparelho.” “Ainda assim, quem quer que esteja com o aparelho receptou um produto roubado, e isso é ilegal, certo? A polícia tem o direito de sondar esse tipo de ação, não é mesmo? De ir lá, pedir uma nota fiscal ou algo que o valha.” “Seu Evandro, vamos imaginar que a gente vá lá e que questione o cidadão que more no lugar. Se ele se recusa a colaborar, só com um mandado do juiz pra entrar na casa dele. Mas daí a que se consiga esse mandado o senhor acha mesmo que esse celular já não vai ter desaparecido de lá?” 21

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“Mas… Mas…” O sono sem descanso e a falta de cooperação do policial deixavam o homem meio atordoado. “Não tem jeito de conseguir um mandado de primeira?” “Senhor”, o oficial Uzêda se inclinara sobre a mesa e com o indicador fizera um chamamento; Evandro foi a seu encontro e ouviu baixinho: “Eu vou ser sincero com o senhor. Em uma situação normal, isso já seria difícil de acontecer, porque o recurso da polícia, e tô falando aqui tanto a nível material quanto a nível financeiro, certo? O recurso da polícia é escasso, é pequeno. Agora imagine nesses tempos de crise. O senhor viu os cortes do governo? Viu no jornal o alarme de greve? Viu a briga do pessoal do reda que não foi convocado? Pois então. O senhor acha mesmo, seu Evandro, que um juiz vai dar osadia de gastar o pouco que a gente tem pra recuperar um celular? O dispêndio dessa movimentação toda já dava pra pagar pelo menos uns dois iPhones novos. Ainda mais se cê olha onde foi parar esse negócio: essa quebrada é chapaquente, seu Evandro, a polícia só entra aí de comboio. Meu conselho pro senhor é o seguinte: Ricardo Eletro, Casas Bahia, Insinuante. Tem promoção todo dia nessas lojas. O senhor vai lá, compra um celular novo, porreta, divide no cartão em vinte vezes e esquece o que já foi.” A deixa para o fim do atendimento foi dada depois que o oficial Uzêda se empertigou na cadeira: “Tamos conversados?” De repente o policial estava com a mão estendida, esperando um cumprimento de adeus, enquanto o rapaz ainda ponderava se era pertinente ou não mencionar as fotos nuas da noiva armazenadas em seu aparelho roubado. Ao mesmo tempo queria reiterar o fato de que desde a madrugada, quando o monitoramento começou, até a hora em que saíra de casa, 22

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de manhãzinha, o GPS apontava para o mesmo lugar, o que era um forte indício de que os celulares ainda não haviam sido repassados, não? No entanto a mão do oficial Uzêda o impelia a se calar, e como se isso não bastasse a mulher em busca do filho desabara e começou a gritar que só acreditaria na palavra do policial que negava a presença do menino no recinto se ele a deixasse conferir as celas uma por uma, e pedia isso de joelhos, uma mão agarrada no coturno da autoridade, a outra no jeans do repórter, enquanto o garotinho, chorando com a mãe e expelindo catarro pelo nariz, era o único tentando reerguê-la. O oficial Uzêda aproveitou quando os colegas ficaram de pé para assistir ao ocorrido e, desistindo do aperto de mãos, ofertou a Evandro um aceno, um sorriso e sumiu por uma porta lateral.

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ra uma casa de esquina, de um só andar, com fachada verde. O portão de ferro da entrada dava para um corredor de chão cimentado abaixo do nível da calçada e não deixava ver se o acesso ao ambiente interno era feito pela lateral ou pelos fundos. Evandro então passou a observar a rua: reparou no lixo, nos buracos, no fóssil de um carro sem pneus tomando metade do passeio em determinado trecho e nas casas que expunham seus esqueletos de tijolos. Também viu crianças brincando no meio do asfalto, um grupo de velhos na calçada sentados à sombra de um fícus, carros novos e limpos estacionados à porta de garagens; um cenário de comunidade pobre, mas que em nada indicava a guerra de facções do crime organizado que estava acontecendo no bairro do Uruguai e que servira tanto a Rafael quanto ao pai de Evandro, seu Amadeu, como argumento para chamarem seu plano de ir até lá de ideia de 25

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jerico e para se negarem peremptoriamente a acompanhá-lo. “Rapaz, pra você ter noção, os colegas de praça que rodam na Cidade Baixa não tão nem pegando corrida praquelas bandas”, contou-lhe seu Amadeu, taxista há mais de quarenta anos. “Quem vai lá é coelho! Se não acredita em mim, liga no Bocão e vê”. O noticiário! Evandro fechou a página do Google Street View exibida em seu enorme monitor da Apple e ligou a tevê no canal de mesmo logotipo daquele estampado na camisa do repórter da delegacia, queria descobrir o que sucedera com a mãe desesperada. Por ora exibiam matéria sobre lotes de restituição do imposto de renda. Ao lado do televisor, entre duas placas de vidro, Carina o fitava séria, como se soubesse de sua mentira. Sentindo o estômago arder, Evandro refez os cálculos de tempo: o assalto sucedera mais ou menos às seis e meia da noite. O horário indicado no BO era sete e quarenta e dois. Nove e cinco, ele se lembrava, fora a hora em que ligou o computador para acessar os celulares remotamente. De imediato conseguiu bloquear o da noiva, contudo o seu estava inacessível, provavelmente porque o bandido desligara a conexão de internet. Restava-lhe entrar em contato com a operadora e solicitar a trava por sinal de celular fornecendo o IMEI, o número de identificação do aparelho que ele tinha anotado numa agenda. É claro que para que Carina não se zangasse ou se agoniasse o noivo lhe dissera que ambos os telefones haviam sido desativados pela internet e que aquela ligação era medida complementar. “O seguro morreu de velho, não é mesmo?” “Hum. Agora você fala isso…”, resmungou ela a caminho do banho. Evandro matou a cerveja para não engolir em seco. Nove e vinte e oito a moça da operadora protocolara a requisição de bloqueio, a ser executada em prazo de duas a 26

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vinte e quatro horas. Onze e meia Evandro voltara a ligar e ficou vinte minutos na espera até o atendente de plantão lhe confirmar que, sim, o processo fora realizado. Saldo total: cinco horas e vinte de vantagem para o mequetrefe sondar à vontade suas conversas e seus arquivos, as fotos em família, as fotos da última viagem feita para a ilha de Boipeba, as dezenas de fotografias da noiva nua que ele guardava para apreciar nos momentos de tédio e de tesão. Carina em closes, em poses, em aberturas que só de pensá-las sendo vistas por outra pessoa lhe fazia a veia-mor da têmpora latejar e vir à tona o arrependimento de não ter corrido atrás do assaltante. Evandro não era de briga, porém de bom grado bateria contra o asfalto a cabeça do magricela até… O pensamento foi interrompido por um aumento da dor no estômago. De volta da cozinha, onde esquentara uma das marmitas de almoço que a noiva lhe preparara no final de semana, ele alcançou o notebook e entre uma e outra garfada de arroz com estrogonofe de frango googlou: “IMEI celular fotos”. Os resultados da busca eram controversos. Alguns sites diziam que o bloqueio pelo número de série somente desabilitava os serviços de telefonia. Outros afirmavam que todo o sistema operacional do celular se trancava, impossibilitando a bisbilhotice a aplicativos e arquivos. O jeito que encontrou para decidir em que acreditaria foi contabilizar nas primeiras três páginas do Google quantos sites diziam uma coisa e quantos diziam outra. Tão imerso Evandro esteve nessa contagem que só ouviu a tevê dando a reportagem da mulher da delegacia no finalzinho desta, na cena em que ela desaba no chão e seu filhinho tenta suspendê-la. Logo o apresentador voltou à tela, fez um comentário chocho sobre o menino ainda estar desaparecido, sobre aquela ser uma situação delicada, e 27

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de súbito anunciou o tema da próxima matéria: um caminhão de cerveja que no início da manhã virara na entrada da cidade, na BR-324, e cuja carga desaparecera minutos depois de os curiosos se acercarem. “Mas antes vamos falar sobre a importância de, numa cidade cada vez mais violenta como Salvador, ter um bom seguro pro seu veículo…”

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egro, magro, cabelo curto cortado à máquina: a descrição se aplica a boa parte da população masculina jovem de Salvador, Evandro o pôde comprovar nos dois últimos dias, atento às pessoas a seu redor na ânsia de identificar ‘seu’ ladrão ou ao menos um ladrão por perto. Não foram dias bons. Quando o mal-estar não advinha da taquicardia sentida ao ver algum rapaz negro, seco e molambento já perto de si sem o ter percebido se aproximar, era provocado pela constatação de seu preconceito. Melhor dizendo, pela consciência de que um preconceito de cuja existência ele sabia e que se esforçava para ocultar e dirimir agora estava revigorado e fora de controle. Tudo isso ele comentou com Carina no quarto, no escuro de antes de dormir, mas somente depois que a noiva lhe confessara que dera para trocar de 29

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calçada toda vez que via alguém parecido com o assaltante. E por causa disso é que ele questionou a si próprio se havia algo a mais no rapaz que acabara de chegar à Praça Thomé de Souza para além do fato de ser negro, magro e de ter a cabeça quase raspada. Sim, havia. Talvez um gingado que no andar ou no correr estivesse sempre presente; talvez algum traço específico que o inconsciente do assaltado gravara, o nariz afilado, o brinco de brilhante falso. Havia algo, sim. Evandro engoliu de uma só colherada o resto de sorvete que tinha em mãos e, pisando decidido, saiu da sombra da entrada do Elevador Lacerda para o sol da praça, pronto para interceptar o garoto antes que ele e que a senhorinha com quem tinha os braços entrelaçados subissem as escadas da prefeitura. “Ei, você!” O rapaz o fitou e rapidamente desviou os olhos. Todavia Evandro lhe notara a mudança de ritmo, o tremelique do lábio inferior. “Você sabe quem eu sou?”, indagou o homem, se lançando em frente à dupla. “Não, senhor. Dá licença aqui”, disse o garoto, cabisbaixo, tentando a saída à esquerda. “A gente se conheceu terça-feira, no Passeio Público”. Evandro deu um passo para o lado e tornou-lhe a obstruir a passagem. “Tá lembrado?” “Você conhece esse senhor, André?”, perguntou a velhinha, intrigada. “Não senhora, minha vó.” “A senhora, como se chama?” “Valdete Teixeira da Conceição. O senhor?” “Eu me chamo Evandro, dona Valdete. O seu neto mora 30

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com a senhora, certo?” “Mora, sim. O senhor é da prefeitura?” “A senhora sabe dizer onde ele tava terça de noite?” “Terça de noite? Por quê? O senhor é quem mesmo?” “Bora logo, minha vó!”, reclamou o garoto, sem desgrudar a vista dos paralelepípedos, tentando novo escape pela direita. “A senhora mora no Uruguai, né, dona Valdete?”. Evandro se moveu para manter o bloqueio. “Numa casa verde, de portão de ferro?” “É, sim, senhor. O senhor é da prefeitura? É o negócio do IPTU, é?” “E a senhora mora com mais alguém além de seu neto?” “Responda mais nada pra esse cara, não, minha vó!”, gritou André, encarando Evandro por um segundo. “Tá vendo crachá na camisa dele? Não tem! Não é da prefeitura, não. É caçando caso.” “Oxe, mas não tá vendo que ele sabe quem é a gente, menino? O senhor me diga, o senhor quer o quê? Como é que o senhor conhece nossa casa?” “Realmente, eu não sou empregado da prefeitura, dona Valdete. Eu sou editor de vídeo. Mas o que eu vim falar com seu neto aqui não tem a ver com meu trabalho, não. Tem a ver com um assalto que eu sofri terça de noite. Eu e minha noiva.” A parte do rastreio Evandro tentou explicar com o máximo de cautela e o mínimo de termos técnicos para a velha compreender. Entretanto na segunda frase ela já julgava saber o suficiente daquela prosa. “Escute aqui, filho de uma quenga!”, atalhou a mulher, exaltada. “Você não me venha na minha frente chamar meu neto de ladrão, não, viu? Quem você pensa que é pra chamar 31

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meu neto de ladrão? Só porque é preto é ladrão?” “D-Dona Valdete, eu s-só…”, engasgou-se o homem. “O s-satélite apontou…” “O bostélite! Não tô interessada nem no que o senhor nem no que seu computador fez pra ir bater lá em casa. Meu neto não tem nada a ver com isso, oxente!” “E que garantia a senhora tem disso?”, o tom da voz de Evandro também se elevou. “A criação que eu dei, seu filhote de cruz-credo! E agora sai da minha frente, senão…”, a velhinha preferiu agir a falar. Evandro teve de levar os braços à frente do rosto para o proteger das bolsadas repentinas. “Pare com isso, minha vó, na moral, na moral!”, pedia André, tentando conter a mulher. Mas só o zunir de um apito conseguiu interromper seu ataque. “Que zorra tá acontecendo aqui?!”, vociferou o guarda municipal que se aparatara ao lado deles. Seu dedo escolheu Evandro: “O senhor.” “Vai, pergunta pro branco primeiro, negão!”, queixou-se dona Valdete. “Como. É. Que. É? Minha. Senhora?”, de pronto o dedo do guarda mudou de alvo. “Fica quieta, minha vó!”, murmurou André, cutucando-a de leve. “Desculpa aí, meu irmão…” “Agente Xavier pra você!” “Desculpe, seu agente! É senhora de idade!” “Sou velha, mas não sou caduca!”, zangou-se a mulher, retirando da bolsa um envelope branco meio coberto com a fita amarela do sedex. “Policial, pode olhar no papel. Eu vim aqui porque a prefeitura mandou chamar a gente pro negócio do brinde do IPTU. E aí esse senhor me aparece 32

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na minha frente dizendo que meu neto roubou ele e que a internet do satélite ou qualquer porqueira assim foi quem disse que foi meu menino”, dona Valdete respirou fundo e, como não pudesse mais descontar a raiva no desconhecido, deu um tapa estalado no braço de André. “Tá vendo por que eu mando você largar de ficar no computador? Só tem bestagem!” “Hum…”, balbuciou o guarda, aparentemente mais concentrado em averiguar o papel que a mulher lhe dera do que em escutá-la. “O senhor agora”, fez um meneio de cabeça na direção de Evandro, os olhos ainda na leitura. Mais uma vez, a saga do rastreio. “O senhor sabe que esse tipo de localização é imprecisa, né?”, falou o agente Xavier ao fim do relato. “Eu sei que pode ser imprecisa”, emendou Evandro. “Que já foi muito imprecisa no passado. Mas já tem uns dois anos que eu uso o GPS do celular com um índice de acerto bastante alto. É por isso que eu acho que tô com a razão.” “Diz o burro que faz arroz na panela de pressão”, resmungou dona Valdete, ganhando outra cutucada do neto. “E a senhora sabe que isso aqui é balela, né? O prefeito tá é querendo aumentar o IPTU, imagina se ele vai dar dinheiro de volta.” A expressão no rosto da velha arrancou um risinho sádico do guarda. “A senhora pode ir lá checar, mas eu duvidê-ó-dó.” Dona Valdete arrancou o papel da mão do homem, puxou o neto pelo braço e começou a subir as escadas da prefeitura. Evandro e Xavier seguiam atrás deles. “O senhor tá ligado que falsificação de documento público é crime, né?”, cochichou o oficial. 33

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“Eu não tenho nada a ver com isso, não, seu guarda!”, contestou Evandro em falsete. “Mas eu tô dizendo que foi o senhor? Eu tô dizendo que, primeiro, documento da prefeitura não vai por sedex. Segundo, que quando convoca aparece lá escrito o nome do proprietário do imóvel, sem isso de chamar todo mundo que é morador da casa”, alardeou o agente, dessa vez com um riso de desdém. “Pra mim, quem manda um negócio assim é porque ou quer deixar a casa vazia ou quer descobrir quem mora na casa…” Dito isso, o homem da lei silenciou. “Me dá uma força, seu guarda! Eu armei isso porque o celular que esse moleque aí me levou, e eu tenho certeza que foi ele, o celular tava desbloqueado, e eu tinha salvado umas fotos íntimas de minha noiva. Fiquei na pilha de isso cair na internet, que nem aconteceu com aquela atriz da Globo. E não tinha como eu bater na porta dele sem saber com quem eu tava lidando, né?” Nenhuma resposta. “Eu não fiz por mal! Não quero nem que prenda o menino. Só quero o celular de volta. Aliás, eu já comprei outro, então eu até deixo com ele o aparelho roubado se ele me deixar apagar as fotos.” Zero comentário. “Será que o guarda não consegue dar uma pressionada na velhinha pra pelo menos ela deixar a gente fazer uma varredura na casa, não? Eu perdi o sinal da casa quarta de noite, e hoje é sexta: a essa altura ele já pode ter passado adiante os aparelhos, mas vai que… Se a gente fosse só conferir…” “A gente é muita gente, seu Evandro”, falou o guarda

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finalmente. “Se o senhor já foi na delegacia, e eles não quiseram ir lá com o senhor, não tem nada que eu possa fazer.” “Mas...” O dedo em riste de Xavier bastou para o outro se calar. O homem de farda ofereceu um sorriso a Evandro e acrescentou: “Pelo menos, não em serviço.” “Entendo.”

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V

“Salvador tem pra mais de trezentas igrejas”, perorava o guarda Miguel ao passarem pelo Largo dos Mares. “O povo costuma dizer que tem 365, uma pra cada dia do ano, mas ninguém sabe ao certo. Certeza mesmo é que essa daí é a única da cidade com arquitetura gótica!” Se ele esperava algum comentário exclamativo, este não veio. “Tão vendo essa torrezinha estreita e cheia de frufrus? Gótica é isso aí!” O oficial ainda se virou para os passageiros do banco de trás, regateando um sorriso em troca de réplica, contudo ninguém se animou a fechar negócio. Decerto a culpa pelo silêncio nada punha em xeque o talento de guia turístico do guarda, evidenciado desde que deixaram o centro da cidade em seu Fiat Uno modelo 2010, com Xavier ao volante, Miguel no carona e, nos 36

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fundos, Evandro, dona Valdete e André no meio. No trajeto até os Mares, o agente Miguel compartilhara curiosidades variadas sobre os locais por onde passaram: falou do título de rua mais antiga do Brasil, ostentado pela Rua Chile; da autoria da nobilíssima estátua de Castro Alves: um italiano radicado na Bahia, chamado Pasquale de Chirico; do rico acervo que havia no Museu de Arte Sacra, na Rua do Sodré; da acústica excelente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, elogiada à larga pela gente da música erudita; falou do desapercebido fato de não haver referência à Alemanha entre as ruas e praças do Comércio batizadas com nomes de países europeus, por razão de aquela região ter sido reformada na época da Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil também entrou em guerra contra os alemães; e mais adiante contou que o próprio dom Pedro II batera a pedra fundamental do Monumento Riachuelo, na Praça Riachuelo, construído em honra à vitória do império brasileiro na Guerra do Paraguai. Se ninguém lhe deu atenção foi porque o humor não estava propício para conversa. Na traseira, Evandro e André estavam demasiado desconfortáveis um ao lado do outro, ao passo que dona Valdete resmungava consigo mesma, entre indignada pelo acachapamento das autoridades em relação a revistarem sua casa e orgulhosa para provar que o filhinho de papai que teve o celular roubado estava errado sobre seu neto, tendo feito questão de convidá-lo a se juntar à expedição. O guarda Xavier, por sua vez, preenchia os intervalos das pílulas de turismo com ameaças tanto a André, a fim de garantir que nem ele nem sua avó dessem uma de espertos e alardeassem a presença da polícia em casa, quanto a Evandro, para justificar os oitocentos reais a serem pagos por este pelo serviço de investigação particular da dupla, que se colocara devidamente 38

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à paisana para entrar no Uruguai. A presença de Miguel, a quem Xavier prometera metade do dinheiro, se devia tanto ao empréstimo do veículo quanto ao fato de um primo seu ser dono de oficina no bairro, o que serviria de desculpa para sua presença ali, caso fossem parados pelos traficantes. Haja vista que André era a única família de dona Valdete, seria arriscado eles se passarem por parentes dela. Ao chegarem à Rua do Uruguay, André indicou o caminho pelas transversais e paralelas estreitas. A ruazinha e a casa eram exatamente como mostrara o Google Street View. A entrada, descobriu Evandro, dava-se por uma porta existente no corredor estreito entre a parede lateral e o muro. O interior denunciava que ali era mesmo uma casa de vó: porta-retratos, toalhinhas e badulaques católicos estavam por todo canto. “Vocês aceitam alguma coisa? Um cafezinho, um copo d’água?”, ofereceu dona Valdete. E, em resposta à expressão que ela leu no rosto dos visitantes indesejados, completou: “Que foi? Sou pobre mas tenho educação. Até com quem não merece.” Os homens recusaram a gentileza com agradecimentos. No imóvel havia a sala, a cozinha, o quintal – que era também área de serviço – e três quartos: um para cada morador e o terceiro preservado tal qual a filha de dona Valdete o deixara antes de se matar tomando chumbinho, acometida de depressão pós-parto. Quem contou isso foi o próprio órfão, empurrado à frente do grupo pelo agente Xavier. O guarda Miguel quis saber do pai do menino. “Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”, respondeu André em falsete. Dona Valdete, atrás do oficial, cochichou-lhe que o infeliz do genro sumira no mundo depois que a filha morrera, nunca fizera questão de saber do rebento. 39

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O cômodo-altar e o quarto da senhorinha foram vasculhados polidamente, sem sofrerem desarrumação. Já o do garoto viraram de ponta-cabeça. Embaixo da cama; debaixo do colchão; em possíveis buracos de acesso ao enchimento do colchão; em meio à espuma do travesseiro; o guarda-roupa do topo à base, sem esquecer da parte de trás; dentro dos tênis e dos bolsos das calças; nas meias e camisas emboladas; no cesto de roupa suja; atrás dos pôsteres do time do Bahia; nas gavetas da escrivaninha; e nada. “Eu tô dizendo! Eu tô dizendo!”, alardeava André. “Eu não tenho nada a ver com o roubo desse celular aí, não, pai! Eu sou é estudante. Sou bandido não!” “Só vou acreditar quando eu revistar cada buraco dessa casa!”, desafiou-o o guarda Xavier. E, de fato, mesmo o monturo e os buracos dos tijolos sem reboco do muro do quintal foram perscrutados. Não acharam nadica do que estava na bolsa de Carina. “E então, seu Evandro?”, quis saber Miguel, conferenciando com o colega e com o cliente em uma rodinha de sussurros no meio da sala de dona Valdete. “A gente faz o quê? Na certa, se tava aqui e não tá mais, ele já repassou a parada.” “E se a gente disser que o moleque tem de ir assinar uns papéis na delegacia e, no meio do caminho, der uma prensa nele, fizer ele desembuchar?”, sugeriu Xavier com a fisionomia dos que se concentram para matar uma charada. “Não!” Evandro se lembrou do caso do filho da mulher da delegacia, que continuava desaparecido. “Se não tá aqui, paciência. Agora é comigo.” Dito isso, ele se virou para os moradores: “Bom, eu peço desculpas a vocês”. A satisfação raivosa no rosto da senhorinha fez a cara do homem arder. Por um 40

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instante ele teve de pausar o que dizia, a fim de se concentrar na manutenção do contato visual. “Pelo incômodo. Pela bagunça. Dona Valdete, a senhora tem mil motivos para me odiar…” “Eu não te odeio, não, filho”, cortou-o a velha. “Meu ódio vale mais do que você merece.” Naquele instante, só naquele instante, não deu para ficar olho no olho. “André, também peço desculpas a você. Eu sei que, sendo jovem, você deve viver no celular e sabe que a gente guarda muita coisa pessoal no aparelho. Por isso eu espero que você entenda o desespero que me deu e que gerou toda essa celeuma…” “Hã…”, zumbiu o garoto. “Agora a gente vai embora”, adiantou-se o guarda Xavier. “Tá aqui os celulares de vocês de volta. Mas atenção! Eu já passei o nome e o endereço de vocês pra galera da Rondesp. Se acontecer alguma coisa com a gente na saída daqui, o bicho vai pegar. Nada de ligar pra ninguém, entendido?” “Vocês acompanhem a gente até a saída, fazendo o favor”, ordenou o guarda Miguel, apontando para a porta. A velhinha foi à frente e já se segurava no batente da porta para descer até o nível do corredor quando Evandro deu um grito: “Um instante!” Todos o encararam. “Faltou ver num lugar.” Seguido pelos outros, Evandro tomou a dianteira e se dirigiu para o quarto de André. Sentou-se à escrivaninha e ligou o notebook que estava lá. “Oxe, que ideia! Mexe aí, não!”, protestou o jovem, avançando sobre o computador. Xavier o puxou para trás. “Foi ele mesmo quem disse, seu guarda, que as paradas dos outros é pessoal. Aí ele vai e mexe nas minhas?!” 41

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“Tá com medinho, André?”, escarneceu o policial. “Deixa, meu filho”, consolou-o dona Valdete. “Quem não deve não teme!” “Ô, véi!”, exasperou-se o garoto, levando as mãos à cabeça. “Minhas coisas…” “Acho que ele tá com medo de a gente ver as putarias que ele tem aí!”, riu o guarda Miguel. Só até perceber a zanga com que dona Valdete lhe olhou. “Desculpe, minha tia!” “O que é que o senhor tá caçando, seu Evandro?”, indagou Xavier. “Sabe o WhatsApp?” Evandro tirou o novo celular do bolso e começou a alternar entre mexer nele e mexer no notebook. “Então: toda foto que você manda por ele fica salva no celular com um nome específico: IMG-, a data em que a foto foi recebida, -WA00… seguido de um número. Daí, como hoje a gente tira muita fotografia, na hora de passar pro computador quase ninguém renomeia os arquivos. Eu tô me lembrando aqui de uma data específica em que eu tenho certeza que recebi uma foto de minha noiva: o dia de nosso aniversário de noivado. Se eu fizer uma busca parcial…” Os dedos foram mais rápidos do que a boca: antes de Evandro conseguir terminar a explicação, a busca no disco rígido do computador terminara. Carina apareceu, os peitos e a língua de fora na frente do espelho do banheiro. Uma mão no celular, a outra no cós do shortinho do pijama, puxando-o para baixo até a pelugem aparecer. No segundo em que a moça da tela conseguiu distrair os guardas, André cavou espaço entre a vó e o agente Miguel e correu para a porta da rua. Evandro vislumbrou um reluzir metálico quando Xavier e seu colega foram atrás do garoto. 42

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Porém, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o homem instintivamente saltou da cadeira a fim de amparar a velhinha, prestes a despencar sobre ele, tão atônita estava. “A senhora tá bem?”, perguntou Evandro, firmando-a pelos ombros e dando uma leve sacudida. Os olhos da mulher davam a impressão de seguirem enxergando, através do peito dele, a foto à mostra no notebook. “Ei, dona Valdete! Tá me ouvindo?” Um soluço incompatível com aquele corpo franzino, estrondoso como o arroto de um homenzarrão, tirou-a do estatelamento, empurrou o choro para fora. Este também não se assemelhava ao choro dos velhos, parco de lágrimas e de gemidos; mais lembrava o de uma criança: agudava até o limite das cordas vocais e depois era uma sequência de tossoluços roucos, em ciclo. Evandro a abraçou forte. “Calma, dona Valdete. Vai ficar tudo bem.” A senhora falava algo cuja clareza era intransponível à barreira de suas mãos no rosto e destas no peito de Evandro. Ele afrouxou o abraço e dobrou as pernas, ficando da altura dela, as mãos ainda sobre seus ombros, à procura de seus olhos ou da boca sob a máscara de dedos. “O quê?”, perguntou de modo afável. “Apaga tudo! Apaga tudo!”, implorava dona Valdete.

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VI

“E o menino, nada?” “Nada. Também, os caras nem tinham como procurar direito sem dar pinta no bairro. Não devem nem ter saído da rua. Quando eu vi, já tavam de volta, dando pressa pra gente vazar. Eles queriam que eu levasse o notebook do rapaz, só que eu não ia fazer isso, né?” “Oxe, por que não?”, Carina tragou o cigarro e baforou na janela com vista para o mar. “Quem garante que era dele?” “Ainda assim, né, Cá? Eu até levaria, se sentisse que ele tinha espalhado as fotos pelo HD. Mas tava tudo numa mesma pasta dentro de Imagens. Um shift-delete resolvia. Ah, e sabe como se chamava a pasta?”, Evandro sorriu para a noiva e bebericou da cerveja antes de responder. “Gostosa do Campo Grande. Gostosa com zê.” Ambos gargalharam. 45

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Entre risos, enroscaram-se em um abraço. Evandro beijou o pescoço de Carina e, no que se demorava por lá, recebeu uma advertência: “Sossega, que hoje não tem nada pro senhor aqui, não. Eu ainda não engoli você ter mentido pra mim.” “Amor!”, ronronou ele. “Eu me redimi, vai!” “Vou pensar no seu caso”, concedeu ela, afagando-lhe o rosto enquanto se desprendia dele. “Mas vou pensar enquanto durmo, que eu pego cedo amanhã no laboratório.” Era tarde mesmo, todavia Evandro estava empolgado demais para se deitar. Teve vontade de bater uma punheta, bastava Carina entrar no sono. Nesse ínterim, abriu outra cerveja e sentou-se à escrivaninha da sala, em frente ao computador. Respondeu a e-mails e a mensagens em todas as redes sociais de que participava. Aproveitou para manter os amigos a par das peripécias do dia; escreveu um post ficcional contando que se encontrara com o assaltante, por acaso, dentro do Elevador Lacerda, e que, sem ter como fugir nem o atacar, este tivera de ouvir poucas e boas dele; tirara satisfação bonito; lavara a alma; fora à desforra. Inventou ainda que o bandido começara a ser vaiado pelos demais e que, tão logo a porta do elevador se abrira, escapulira pianinho, sob vaias persistentes e gritos de polícia! e de pega ladrão! “Não recuperei o que me foi roubado, mas recuperei a paz de espírito”, concluiu Evandro. Em instantes, os comentários e compartilhamentos alcançaram a casa das dezenas. “Que situação tensa, hein, amigo? Mas fico feliz por ter, no mínimo, tirado o que lhe estava entalado na garganta. É isso que dá úlcera, kkkkkkk”, “Já aconteceu comigo de ver o cara que me roubou no ônibus, dias depois, andando no shopping. Pensei em fazer o mesmo que você, mas me faltou coragem, rs. Parabéns!”, 46

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“Meu herói!”. Era nesse tom a maioria dos comentários. Alguns, entretanto, pesavam a mão. Um deles lamentou que o povo não tivesse linchado o bandido. Evandro abriu outra cerveja e replicou, enfático, que era contra a violência física e, apesar dos pesares, ainda tinha fé na justiça. Outro apontou a ausência de policiamento na história e, por conseguinte, na cidade, o que fez Evandro inventar que, de fato, faltara polícia no dia do assalto, mas, dessa vez, ele conseguira falar com dois guardas municipais muito solícitos, que até se esforçaram para perseguir o fugitivo, porém este sumira de vista nas entocas do entorno do Elevador. E, para não terminar o texto com o relato de um insucesso, acrescentou uma tirada com base no que ouvira do guarda Miguel: “É aquela coisa: no Comércio pode até não ter rua com o nome da Alemanha, mas o que tem de ‘alemão’ ali…”. O comentário seguinte o deixou hesitante. Evandro se levantou e foi até o banheiro, fuçar no bolso da calça com a qual chegara da rua. Quando retornou, viu que outros amigos copiaram o mesmo comentário, acrescentando, a cada repetição, um número sequencial entre colchetes. A coisa ia pelo 4. Alega a ciência que, à noite, determinados arranjos hormonais nos tornam mais destemidos, derrubam barreiras psicológicas que os hormônios do dia colocam. Nesse rearranjo noturno estaria a causa de nos sentirmos mais ousados nesse período, como mostra a disposição a fazer planos e mudanças radicais para a vida antes de dormir. Se isso é verdadeiro, pode ter sido o que motivou Evandro — sem desconsiderar, é claro, os comentários favoráveis da internet, repletos de figurinhas de aplausos e de risadas em maiúsculas; as cinco cervejas; o desprezo que atacava coletivamente o personagem inventado —, pode ter sido tudo isso mais os hormônios o que motivou 47

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Evandro a plugar o pendrive no computador, selecionar uma das fotos da pasta Imagens que havia nele e publicá-la nos comentários de seu próprio post, respondendo aos pedidos de “Se tirou alguma foto do FDP, mostra pra gente, pra galera ficar ligada quando andar pelo centro! [12]” Na foto escolhida, André estava de bermuda, sem camisa e, ademais do vê de vitória acrescido do dedão, o garoto dava língua para a câmera.

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VII

O

dia seguinte era um sábado. Evandro acordou perto do meio-dia e, antes de se levantar, catou o telefone e checou suas redes sociais. O número espantou o resto de sono: entre compartilhamentos de sua própria postagem e postagens alheias com seu nome marcado nelas, havia 250 notificações de replicação da foto de André. As legendas que a acompanhavam eram variações da mesma nota: “Atenção! Este bandido atua no centro da cidade!” Alguns desses alardes estavam escritos sobre o rosto do garoto, em letras coloridas seguidas de muitas exclamações. Às treze, do banco do carona do táxi de seu pai, parado à porta de um laboratório de exames clínicos da Garibaldi, Evandro acenou para a noiva e, juntos, os três partiram para a casa de seu Amadeu, em Itapuã. Quarenta minutos depois, chegaram ao pequeno village onde moravam o 49

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taxista e sua esposa, dona Laurinda. Encontraram a mesa já posta, com uma travessa de feijoada soltando cheiro e fumaça. Três vizinhos compunham o restante dos convidados. Sentados à vontade nos dois sofás em volta da mesinha de centro, enfeitada com um prato contendo três bolas verdes de porcelana e uma caixa em forma de livro com capa de um postal da Torre Eiffel, eles bebiam cerveja e falavam alto, ignorando o que o âncora do Jornal Hoje informava na tela da tevê pendurada na parede. “Eu sabia que vocês tavam chegando!”, gabou-se dona Laurinda, sacudindo o celular para os recém-chegados. “Vanvan me avisou pelo zape-zape!” “Quem diria, a senhora, toda tecnológica!”, festejou a nora, cumprimentando-a com abraços e beijos. “A gente criou um grupo da galera aqui”, falou Galindo, um engenheiro carioca, aposentado pela Petrobras; voz tronitruante e risada escandalosa. “Chama Entre Um Gole e Outro. Só tem besteirol e baixaria! Vou botar vocês depois!” Evandro e Carina sorriram amarelo para o convidado e, entre si, trocaram um olhar de cinismo cúmplice. Eles achavam fofo o fato de os mais velhos, nos últimos tempos, sobretudo depois do advento dos esmartifones e dos tábletes, estarem descobrindo os prazeres e as vantagens da internet. Porém, uma vez que o jovem casal adolescera com a rede, seu gosto por conteúdo e práticas online já não comportava mais algumas das predileções dos novatos, tais quais passar correntes adiante, enviar imagens com inscrições de autoajuda ou dar bom dia, boa tarde e boa noite diariamente, na crença de que nunca se pode deixar morrer a conversação pelo chat do celular. Em suma, eles não entrariam no grupo dos coroas. “Falar nisso, Vanvan, eu tava até comentando com sua mãe que vi no seu perfil um relato de você ter se batido 50

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com o cara que te assaltou, dentro do Elevador Lacerda. Vi foto e tudo do ladrão”, disse Sônia, enquanto prendia o cabelo escovado, excessivamente loiro, em um rabo de cavalo e começava a se abanar na nuca. A roupa de ginástica que ela estava usando explicava o corpo magro e atlético à beira dos cinquenta anos, em contraste com a redondez ovoide do marido a seu lado, o pacato Carlúcio, que pediu a Evandro detalhes sobre o tal encontro. “É, amor! Conta!”, insistiu Carina, mas só pela boca, porque os talheres repentinamente parados em suas mãos e suas sobrancelhas franzidas estavam dizendo outra coisa. Diziam: “Que história é essa?! Por que eu não tô sabendo disso?!” Aos tropeços de língua e sem desgrudar a vista de Carina, Evandro narrou a ficção criada na noite anterior. “Você quer me matar do coração, onça?”, chiou a noiva, minutos depois, na cozinha, onde o casal catava a louça de sobremesa e o sorvete napolitano. “Eu achando que você tinha espalhado por aí a história dos nudes…” “Oxe, eu sou maluco, é?!”, riu-se Evandro. “Maluco você é, sim. Se seu pai souber o que aconteceu de verdade, ele te mata! E outra: pra que você me foi espalhar a foto desse menino na internet? Ele já conhece sua cara, sabe seu nome, vai que ele descobre e resolve se vingar...” “Nada! Eu conheci o menino: é guri ainda. Não tem maldade, não; roubou na molecagem mesmo, provavelmente pra tirar uma grana. Fora isso, a foto já tá rodando por outros perfis, ou seja, tem gente sem vínculo nenhum comigo compartilhando isso aí. Se chegar nele, no máximo ele toma um susto e endireita de vez. Isso se dona Valdete já não deu uma endireitada nele com uma surra de cabo de vassoura”. Evandro tornou a rir ao se lembrar da velhinha e arrotou sem querer. 51

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“Mesmo assim, você sabe como eu sou: você mesmo que me deixou cabreira com essas coisas. Será que você podia deletar o post? Por mim?” “Tá bom, pó deixar, dona Carina. Aqui, ó. Porra! 480 compartilhamentos! 300 marcações do meu nome!” “Apaga tudo!” Evandro teve um déjà vu ao ouvir aquilo. A sensação esquisita lhe tirou o ânimo, e ele iniciou o deletamento de suas ligações com André. De volta à sala, após a infame pergunta sobre se a demora do casal na cozinha teria a ver com alguma coisinha gostosa que eles porventura tivessem comido antes da sobremesa, Galindo anunciou que baixara a foto do bandido e começara a compartilhá-la entre amigos. No caso da turma de seu Amadeu e de dona Laurinda, o balaio de casos de roubo ofertado a quem acaba de ser assaltado demorou de aparecer mas chegou a tempo do café. Na boresta em que se puseram na varanda, à espera de qualquer brisa que o mar não muito longe dali pudesse trazer para afrescar a tarde, todos tinham pelo menos um relato pessoal para encher o cesto. Donos de um mercadinho de bairro, Sônia e Carlúcio começaram e, “para encurtar conversa” (risos), pularam os furtos e as abordagens na rua e contaram somente sobre as três vezes em que seu estabelecimento fora assaltado à luz do dia, com armas apontadas pra suas cabeças em todas as ocasiões. Galindo, às gargalhadas, tendo afirmado que queria manter o nível da ação, considerou que não tinha “histórias soteropolitanas decentes” para além de relógios e correntes de ouro perdidos. Todavia compensou essa falta com um emocionante sequestro relâmpago sofrido no Rio de Janeiro, quando o mantiveram no porta-malas por quase uma manhã inteira, enquanto faziam saques de pouquinho em pouquinho, numa época em que 52

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havia um intervalo obrigatório entre um saque e outro. “Hoje, com esse negócio de biometria, deve ser foda! Os caras aí devem cortar dedo a torto e a direito”, concluiu ele, alisando a pança que, àquela altura, estava doida para rasgar a camiseta branca na qual se lia, em meio a uma mancha de caldo de feijão, um pedido de intervenção militar já. Seu Amadeu tomou a palavra e contou, com impressionante memória temporal, dos oito assaltos dos quais foi acometido em sua vida de taxista, o pior deles também envolvendo um passeio no porta-malas e a humilhação de ter sido deixado no meio da Estrada Velha do Aeroporto, nu, à noite, para buscar ajuda. “Agora, imagina se alguém em sã consciência ia parar pra um sujeito nessas condições?”. O pai de Evandro ria estapeando o joelho. “Quer dizer, ter gente assim tem, né? Que, graças a deus, parou, se compadeceu de meu estado.” “Hum… Tô achando que não foi compaixão, não, hein?! Tô achando que foi sua bundinha aí”, zombou Galindo, puxando um urro geral. “Ai, meu deus! Só rindo pra não chorar!”, consentiu dona Laurinda. “Eu não sei aonde esse mundo vai parar, não, viu? Hoje em dia o cidadão direito vive preso”, e com um gesto de cabeça ela apontou para o muro do condomínio, seus cacos de vidro pontiagudos e a cerca elétrica. “Enquanto isso bandido vive solto.” “É o tal dos direitos humanos”, bufou Sônia, se abanando com a edição do dia do jornal Massa!. “Direitos humanos, minha…”, Galindo hesitou mas soltou: “Direitos humanos, minha pica. Direitos humanos bom é aquele lá do Tropa de Elite, lembram? O porrete?” “Eu sei que a justiça brasileira tem problemas, é lenta, é injusta, as investigações são precárias”, continuou Sônia. “Eu 53

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sei de tudo isso. Mas tinha que ter pena de morte, minha gente! Pelo menos pra assustar! Não dizem que a gente aprende pelo amor ou pelo medo? Se não tem amor…” Todos concordaram. “No tempo do Cabeça Branca era diferente…”, lembrou seu Amadeu com um suspiro. “Bandido não vinha pra Bahia. Quando saía do Rio ou de São Paulo, ficava tudo no Espírito Santo, ou subia direto pra Recife. Mas, se ficasse aqui, o couro comia solto!” “Eu não peguei essa época, infelizmente”, acrescentou Carina. “Mas eu já li isso mesmo. Um livro muito bom, daquele rapaz da Globo, como é mesmo?… Caco Barcellos! Um livro sobre um traficante do Rio, chamado Marcinho VP”. Os mais velhos, Galindo em especial, fizeram coro de reconhecimento. “E diz que, quando ele veio pra Salvador, mas este homem tomou tanta porrada, menino, tanta porrada, que nunca mais pisou aqui de novo!” “Esse governo de agora é uma bela de uma bosta!”. Na voz de Carlúcio a frase soava tão inofensiva quanto um comentário sobre o tempo. Que, aliás, estava fechado; o céu cinzento e o ar abafado anunciavam uma noite de tempestade logo mais. Daí desandaram a falar de outros temas de política: a inflação, a corrupção, os programas de redistribuição de renda — ou ‘programas de formação de vagabundos’, na opinião de todos os presentes —, da sempiterna vocação do Brasil para dar um passo à frente e dois para trás. E assim a tarde em Itapuã passou.

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VIII

N

o domingo, Evandro e Carina fizeram faxina e deixaram pronto todo o almoço da semana. Além disso, transaram três vezes. Uma no balcão da cozinha americana, uma na cadeira da escrivaninha, a outra na cama. Nessa última, depois de breve negociação, na qual alegou a falta de conteúdo em seu celular novo, Evandro teve concessão para gravar um pouco, conquanto não flagrasse o rosto de Carina. À noite, viram um filme de super-herói no cinema do Shopping Barra, com Rafael e Juliana, e depois jantaram os quatro no Outback. Comeram cebola frita, costela e, de sobremesa, maçã com canela. Mas alguma coisa não desceu bem pelo estômago de Evandro. No carro de Rafael, a caminho de casa, ele pediu para o amigo sentar o pé no acelerador. No minuto e meio que demorava para o antigo elevador do prédio chegar 55

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ao vigésimo primeiro andar, onde moravam, o homem suou frio e contorceu-se, para a diversão de Carina. No vaso, ele tentou se distrair da cólica e das pontadas no baixo-ventre navegando nas redes sociais e falando com Carina, pelo chat do celular, sobre os odores desagradáveis que estavam chegando ao quarto. Durante um repuxão particularmente dolorido, chegou mensagem de um novo contato. Trazia a foto de um corpo caído próximo a um córrego de água escura, desses que se formam nos meios-fios. No peito nu, contavam-se quatro escaras circulares, pouco menores que os mamilos do morto. “Recebi agora no grupo dos colegas. Pelo que disseram, foram os próprios amiguinhos de André que fizeram o serviço. Quem anda com porcos… rsrs. Menos um! Fica na paz, meu irmão!”, lia-se na mensagem do agente Xavier.

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IX

E

vandro se ofereceu para fazer o café, mas foi instado a permanecer à mesa. Para não ter as mãos desocupadas, perguntou se poderia ficar no degrau que ligava a cozinha ao quintal, fumando. Permissão concedida, tirou do bolso a carteira de emergência de Carina, furtada da gaveta da noiva, e acendeu um Lucky Strike filtro branco. Nos últimos dias, seu status de fumante evoluíra de esporádico para diário. Uma parte de si culpava Carina pelo novo vício: se ela não insistisse tanto para que ele a esperasse manejar uma folga no trabalho, de modo a poder acompanhá-lo, aquela visita já teria sido feita, e Evandro já estaria de volta aos eixos, já conseguiria trabalhar e tocar a vida, em vez de preencher as horas de desconcentração total com cigarros e programas de tevê mundo-cão. Fera por fera, melhor encarar a noiva, 57

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pensou, quando a quinta-feira chegou e ele decidiu ir ao Uruguai sem Carina, sem sequer a avisar. A moça conseguira uma folga para o sábado, mas era uma data por demais longínqua, ponderou o homem. Antes de pegar o ônibus, gastou meia hora em uma delicatessen do Dois de Julho, ponderando que espécie de quitute seria gentil levar consigo. Gostara da cara dos salgadinhos, minicoxinhas e miniquibes com recheio farto, no entanto se tocou logo de que havia algo de celebratório no ato de comer salgadinhos. E doces. Por isso mesmo desistiu de levar o brigadeirão vistoso e a torta de chocolate toda enfeitada com morangos. Mas também não queria se passar por canguinha, levando uma bandeja de queijadinhas ou um pote de sequilhos. Evandro então tornou ao apartamento e voltou à lojinha com uma boleira em mãos, na qual depositou um bolo formigueiro grande e com aparência de caseiro. Disse a dona Valdete, assim que entrou no ambiente interno da casa da mulher, que fora Carina quem o fizera, especialmente para ela, como gesto de pesar e pedido de desculpas por não poder estar ali, com o noivo. Por um instante, ainda parado em frente ao portão da rua, ele suspeitara de que, depois de espiar pelas frestas entre as chapas metálicas quem a gritava, a velha não o deixaria entrar. Entretanto — reavaliou observando-a do quintal — confundira em seu olhar o distanciamento com a zanga. Dona Valdete parecia ter a mente noutro canto. E o corpo, esquecido na casinha verde, curvara-se ainda mais sem o peso no alto da cabeça que a obrigava a forçar um alinhamento maior da coluna. “E teve missa, culto, alguma coisa assim, dona 58

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Valdete?”, quis saber Evandro. “Desculpe, eu não sei muito dos costumes evangélicos”. “Teve os dois. Me disseram que o pastor não gostou que eu acendi vela no velório, mas pra mim ele não falou um pio. Se o próprio nome já diz: velório! Como é que não vai ter vela?”, questionou a senhora, incisiva. “Vai ter missa de sétimo dia também. Na paróquia de Nossa Senhora dos Alagados, aqui perto. Onde ele foi batizado, fez a primeira comunhão, a crisma…” De repente, a assertividade sumiu da sua voz. O esforço para engolir o choro a obrigou a apoiar-se na pia com ambas as mãos. Evandro abriu a boca para perguntar se ela estava bem, contudo se deu conta a tempo da estupidez da pergunta. “Sabia que teve uma época que meu André quis ser padre?” A velhinha olhou para o homem com um sorriso que não era para ele. “Assunta! Foi só entrar na fase das namoradinhas e largou a ideia de mão. Depois, quando ele virou crente, eu até brincava com ele, dizendo que, se o problema fosse não poder namorar, ele já tinha resolvido, já podia ser pastor”. Uma pausa para tentar se empertigar; não adiantou, o corpo cedeu. “Você sabe, eu comecei a ir no templo mais por causa dele e porque era aqui perto, na rua de trás. Ele que me levou. Mas eu nunca deixei de ir na minha missa dia de domingo”. Evandro quis dizer-lhe que André era um bom menino, só que em vez disso: “A senhora tem parente no bairro?” “Nem no bairro, nem na cidade, nem no mundo”, condoeu-se a mulher. “Agora sou eu e deus.” O homem ficou à espera de que ela contasse algo de seu passado, contudo ela ficou calada, ajeitando os pratos na mesa. Depois foi passar o café em coador de pano. Ele 59

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apagou o cigarro e voltou para a cozinha. “A senhora pode contar comigo pro que precisar, viu?” Ele fez menção de aproximar-se e abraçá-la, mas desistiu quando viu que ela permaneceu de costas, segurando o coador, e respondeu à proposta com um “Hum”. “Falo sério, dona Valdete”. Ele notou que, com ela de costas, ganhara mais coragem. “Eu sei que a gente se conheceu numa situação complicada. Mas eu admiro a senhora pra caramba. A senhora é uma guerreira! Batalhadora!” Dona Valdete se virou, com a térmica em mãos. Evandro emudeceu. “O senhor não precisa me dizer o que eu sou e o que eu não sou, não. Eu bem sei.” Ele não estava mais tão certo se o olhar era mesmo distanciamento, e não zanga. “E sei também que o senhor tá aqui porque tá se sentindo culpado pela morte do meu neto. Mas fique sossegado, que o tiro não veio do senhor, não. Eu sei de onde veio.” Ele não soube o que dizer. Ficou quieto, observando-a servir-lhe café e bolo. Em seguida, dona Valdete pediu que a esperasse um instante, ela tinha algo para ele. Evandro hesitou em comer na ausência da convidada, mas, se a boca já não falava, era impossível para as mãos permanecerem quietas. Na quarta garfada, no terceiro gole do café açucaradíssimo e com gosto de pó de má qualidade a velhinha voltou. Trazia o notebook e o carregador do aparelho. “Ó, é pra você. Eu não quero esse troço aqui dentro mais não. Vai ser a única coisa que eu vou tirar do quarto dele”. Pelo visto, um segundo altar seria montado em casa. “Mas dona Valdete…” 60

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“Isso aqui fui eu que comprei pra ele, mas me lembra mais o senhor que ele. E me lembra também que meu menino se envolveu em coisa errada.” Evandro, àquela altura, já havia ligado o computador, esperava o sistema iniciar. “Mas, dona Valdete, aqui também tem lembranças do seu neto. Deixa eu te mostrar.” Ele virou a tela para que ambos os campos de visão a enxergassem. “Tem fotos aqui. Eu posso fazer elas ficarem passando, que nem um porta-retrato, e aí vai ser mais uma lembrança pra senhora.” A área de trabalho apareceu. Havia uma foto de André na escola, com a farda, fazendo a pose que lhe era típica: o “vê” de vitória, acrescido do dedão. Dona Valdete não conseguiu conter o choro. Evandro também estancou. Sentiu uma vertigem na cabeça e ao mesmo tempo uma dor lancinante no estômago. Vertigem e dor dispararam a caminho da garganta, onde se chocaram, lançando um jato de vômito sobre a tela e o teclado do notebook, um pouco também na roupa e no rosto da mulher. Evandro sentiu os olhos entrando e saindo fora de foco, sem atender a seus comandos. Olhou para dona Valdete, assustado, e num dos lampejos de foco viu a velha limpando o vômito e as lágrimas com a ponta da toalha de mesa. Uma queimadura de gelo lhe encheu o tórax. A sensação partia do meio do peito em dois vetores que iam até as axilas, faziam os pulmões arderem e desciam em arco pelos flancos até se juntarem de novo atrás do umbigo, que latejava. Evandro tentou estender as mãos à senhora, mas essa aflição do peito as levou de automático 61

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para a pele. Ele rasgou os botões da blusa e começou a coçar sobre o coração, como se quisesse alcançá-lo à unha. Dona Valdete se levantou apressada e foi até a pia. Voltou de lá com uma garrafa plástica, que depositou à frente do homem. Os olhos mal o deixavam ver a movimentação que ela fazia, mas, em outro lapso de foco, conseguiu ler o nome Vulcão Negro na embalagem plástica. Evandro então entendeu. O queimor gelado chegara às pernas, mas ele decidiu tentar ficar de pé. Apoiou ambas as mãos na mesa e sentiu cãimbras na panturrilha, sentiu os peitos dos pés protestarem com batidas fortes contra as línguas dos sapatênis. No primeiro passo, ele caiu no chão. O som do maxilar se partindo lhe soou na cabeça como se ouvisse papelão sendo rasgado. Um ruído distante, pois que os ouvidos também latejavam, recusando-se a deixar as ondas sonoras entrarem. Ele só escutou dona Valdete porque ela se agachou, com dificuldade, e encostou a boca a centímetros da sua orelha. “Meu neto nunca tinha passado uma noite fora de casa até o senhor aparecer. Tá lembrado de como ele saiu fugido daqui? Aquela foi a última vez que eu vi ele com vida. Ele não voltou. Sabe por quê? Vergonha. Ficou achando que era um desgosto pra mim. O senhor tá me entendendo? Ele foi pra essa guerra porque não queria voltar pra dentro de casa. Porque a casa onde arranjou pra ficar era toca de traficante e pra dormir lá e pra comer lá com eles tinha de ser um deles na rua também. Ele não voltou pra casa, tá me entendendo? Ele morreu achando que eu não amava mais ele!” Evandro tentou falar alguma coisa, mas quanto mais tentava esticar a língua para a bater contra os dentes, mais ela se emaranhava no fundo da garganta. 62

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“Eu não sei o que é pior”, continuou dona Valdete, sem dar uma chance a que os grunhidos do homem virassem palavra. “Eu não sei o que é pior: morrer de tiro ou morrer de desamor.”

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Esta história não teria sido escrita sem o incentivo de Davi Boaventura e de Saulo Dourado, dois mestres da ficção dos quais sou aprendiz. Dedico a eles As fotos roubadas.

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