O selo João Ubaldo Ribeiro é um prêmio que vai muito além da publicação de livros, visa abertura de caminhos, de oportunidade, de afirmação de talentos e carreiras. É incentivo à leitura e valorização dos escritores baianos. A cada dois anos são lançados oito novos livros que são doados para bibliotecas públicas de Salvador e da Bahia. Esse prêmio faz parte do Programa Caminhos da Leitura, e é promovido pela Prefeitura da Cidade de Salvador, desenvolvido pela Gerência de Biblioteca Livro e Leitura da Fundação Gregório de Matos.
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Alimentando as Feras Aícha Marques Caramurê Publicações
Primeirta Edição Salvador Bahia - 2022
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Dedico essa peça às minhas queridas atrizes e colegas de trabalho Evelin Buchegger e Mariana Moreno, que ao longo do processo me incentivaram na escrita da peça. Ter como inspiração essas duas mulheres incríveis foi, sem dúvida, um dos pilares mais importantes deste trabalho. Agradeço imensamente às duas pela colaboração, incentivo e dedicação. Evoé e vida longa!
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Prefeito Bruno Soares Reis Secretária Municipal de Cultura e Turismo Andrea Almeida Mendonça Presidente da FGM Fernando Guerreiro Chefe de Gabinete Patricia Lins Assessora Chefe Viviane Vergasta Ramos Assessor Técnico Plutarco Drummond de Magalhães Neto Gestor do Núcleo de Tecnologia da Informação Clidério Evangelista Bastos Assessora Jurídica Kaiale Santos Araújo Gerente Administrativo-Financeiro Gildete Nascimento Ferreira Diretora de Planejamento e Projetos Culturais Silvia Maria Russo de Oliveira Gerente de Promoção Cultural Felipe Dias Rêgo Gerente de Equipamentos Culturais Chicco Assis Diretora de Patrimônio e Humanidades Milena Luisa da Silva Tavares Gerente de Patrimônio Cultural Vagner José Rocha Santos Gerente de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura Claudijane Pereira Palma
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O
lançamento da coleção do Selo Literário João Ubaldo Ribeiro – Ano III reafirma a importância do investimento na produção literária de Salvador e consolida esse programa como referência de incentivo à leitura e como política de inclusão e promoção dos nossos escritores e escritoras. São oito obras escritas por soteropolitanos, editadas por uma editora soteropolitana, abarcando gêneros como romance, poesia, crônica, conto, literatura infantil, dramaturgia e gênero livre, distribuídas gratuitamente ao público e às principais bibliotecas de Salvador. Será lançada também uma versão digital no site da Fundação Gregório de Mattos. Essa ação fortalece a identidade do nosso povo e movimenta a economia local, abrindo espaço para nossos criadores literários. Lançado em 2014, o edital Selo Literário João Ubaldo Ribeiro já selecionou e publicou, em suas três edições, 24 obras, todas escolhidas por comissões de profissionais consagrados na área. A Coleção cumpre o disposto no Decreto Municipal 24.883 de 02 de abril de 2014, que instituiu o Selo, e dispõe que “incumbe ao poder público garantir a todos o acesso às fontes de cultura, apoiando e incentivando a produção, valorização e difusão das manifestações culturais”, consoante com o art. 262 da Carta Orgânica Municipal e as diretrizes da Lei 8.551/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Cultura. Quero agradecer a todos os envolvidos na criação, no fortalecimento e na continuidade desse projeto, com destaque para a equipe da Gerência de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura da Fundação, coordenada por Jane Palma, e à Comissão de Avaliação, que selecionou as obras. Boa leitura! Fernando Guerreiro Presidente da Fundação Gregório de Mattos
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Sumário Nota da autora . Cenário Personagens ... ATO I CENA 1 ...................................................... Fátima no divã ...... Psicodrama de Fátima Psicodrama de Celice .. Psicodrama de Helô .
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sta peça de teatro surgiu da vontade de três atrizes trabalharem juntas. Nós tínhamos o elenco, mas não tínhamos o texto. Assumi escrevê-lo. Em certo momento, surgiu o desejo de falarmos de mulheres palpáveis, críveis, ditas “reais”, idiossincráticas. Na literatura universal há várias delas. Com maior ou menor transparência, existem muitas personagens femininas riquíssimas que poderiam nos inspirar. Daí pensei: por que as atrizes não podem ser minha inspiração? Somei a isso histórias reais de mulheres do nosso tempo que captei nas minhas andanças pelo YouTube. A peça se delineou rapidamente na cabeça. Mesmo que as questões das personagens não sejam questões pessoais das referidas atrizes, a inspiração veio da disposição de cada uma delas em assumir personagens inseguras e assertivas; generosas e mesquinhas; amáveis e cruéis; vítimas e vitimadoras. Fui movida também pelo desejo brincante de nos ver sob muitas tormentas. Quis alimentar as feras! Obrigada, Mariana Moreno. Aícha Marques
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Cenário
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ala ampla. Estilo vitoriano. Janela grande de vidro ao fundo com plotagem de uma cidade que possibilite ter efeito de luz e mostre a passagem de tempo. Cortinas esvoaçantes. Um nicho onde se serve café, água, chá, bebidas e afins. Um banheiro que será simbolizado por uma meia-parede que permite ver apenas uma parte do tronco. Uma pequena estante de livros, um criado mudo, uma mesa de centro, três poltronas, sendo que uma se destaca das demais, e um divã vintage. Alguns abajures espalhados pelo ambiente. Um palco de 2 m x 2 m com altura de 40 cm e uma rotunda ao fundo, acoplado a um conjunto de cortinado com alguns panôs com texturas e pinturas temáticas. Um pequeno equipamento de som. Um ventilador de pedestal, alguns equipamentos de luz, voltados para o palquinho onde acontece o psicodrama, e uma máquina de fumaça portátil perto do palquinho.
Personagens Celice Mulher alta e elegante. Rica de berço. Tem dois filhos. Casada há dez anos com Petronília, deputado federal. Tem TOC. Trabalha no governo, comissionada. Egocêntrica e nervosa, mas socialmente engana a todos com trejeitos suaves e modos educados.
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Fátima Casada há vinte anos com Carlos Alberto, advogado. Dona de casa. Carrega uma tensão por debaixo da submissão. Vive para o marido. Tem horror a rejeição, por isso quer sempre agradar. Solícita. É atormentada pelo sentido de culpa e pecado. Helô Vulgar e falastrona. Nova rica. Sua inteligência é intuitiva. Seus modos são extravagantes e abusivos. Fala o que pensa e não mede as palavras. Seu marido é dono de uma rede de fast-food (Frango Frito no Balde). Conhecido como JR, veio de família classe média. Boris O psicanalista das três. Ele não aparece, mas é mencionado o tempo todo. Homem alto, íntegro, viril e extremamente profissional. Faz uso da psicanálise e do psicodrama para conduzir as sessões. Ele faltou à sessão nesse dia por um motivo que será revelado no final.
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ATO I CENA 1 HELÔ (Primeira a chegar.) ‒ Que calor! (Balbucia frivolidades... abre as cortinas. Atende ao telefone.) Alô! Fala, meu bem! (Ele fala.) Estou na análise. (Ele fala.) Gastando seu dinheiro, é minha única finalidade na vida... (Ele fala.) Não é para você entender por que eu estou fazendo terapia, JR, isso é problema meu. (Ele fala.) Imagina! (Ri.) É mais fácil eu enlouquecer eles do que eles a mim. (Ele fala.) Está bem, jantar às 20h. (Jocosa) Beijos, bolota de preocupação (Desliga o telefone). Não se acostuma... impressionante! (Chega alguém.) FÁTIMA – Olá! O Boris não chegou? HELÔ – Não. FÁTIMA – E Odete? HELÔ – Não sei... a porta estava destrancada e ela não estava aqui. Mas eu entrei assim mesmo. FÁTIMA (Celular toca.) ‒ Opa! (Atende e sai.) Alô! Fala, Neyde! (Ela fala.) Estou bem!
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(Ela fala.) Não vou ao jantar de família porque não posso. Claro que está tudo bem. Se não estivesse, lhe contaria! Pode deixar. Seu irmão vai! (Ela fala.) Deve ser a TPM. Come melancia que passa. Minha ginecologista, Marluce, disse que melancia ajuda muito... pois é! (Ela fala.) Se você quiser eu posso levar uma melancia para você. (Ela fala.) Eu levo. Pode deixar. Fique bem. Beijos. (Desliga.) HELÔ (Ouve tudo.) ‒ Amiga ou parente? FÁTIMA – As duas coisas. HELÔ – Ou é amiga ou é parente. Não dá para ser as duas coisas... eu não misturo. O sangue fala mais forte. Já caí numa cilada de confiar em parente pensando que era amigo... FÁTIMA – Cada um com sua experiência, não é? HELÔ – Eu odeio a intimidade que só parente é capaz de produzir. Uma intimidade grudenta; liga quando quer, fala o que quer, acha que pode perguntar tudo... FÁTIMA – Vendo por esse prisma... HELÔ – Além do que, parente não guarda segredo para outro parente, isso tá no DNA do parente. FÁTIMA – Bem capaz!
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CELICE – Boa tarde! Boris chegou? Me atrasei. (Olha tudo.) Não chegou? HELÔ E FÁTIMA – Não. CELICE – E Odete? Vocês viram Odete? HELÔ – Quando cheguei a porta estava destrancada e sem Odete... talvez ela tenha ido resolver algo aqui perto. CELICE – Boris mandou mensagem para vocês? Alguém mandou mensagem para ele? FÁTIMA – Não! Vou mandar. Mas deve ser o trânsito. (Sai de cena e vai até a recepção/ coxia.) CELICE (Celular toca.) ‒ Um minutinho! (Afasta-se. Atende ao celular, calma.) Alô. Oi, Fernando. (Ele fala.) Não vou, Fernando. Inventa uma desculpa, consegue um atestado com o médico da família, porque eu não vou. (Ele fala.) Eu não estou podendo hoje... nem semana que vem. (Ele fala.) Alô! Alô! Fernando, está me ouvindo? Eu não gosto desses lugares, eu não me sinto bem... você me entende? (Ele fala.) Sei que você pode resolver isso. Agora preciso ir! (Desliga.) FÁTIMA (Chega da recepção / coxia.) ‒ Odete saiu e levou a bolsa... nenhum bilhete. Alguém quer café? TODAS – Eu quero!
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CELICE – Boris não costuma atrasar... (Congela de modo estranho.) HELÔ (Bisbilhotando os livros de Boris.) ‒ Está sentindo alguma coisa? Teve uma visão? CELICE – Visão? De vidência? Claro que não! Só estou analisando o padrão de Boris. Ele nunca atrasa. Quando sabe que vai atrasar, desmarca. Faço análise individual com Boris há quatro anos. FÁTIMA – Estou com Boris há sete anos e realmente ele nunca atrasa. A impressão é que ele mora aqui. Esse é o padrão dele. A gente chega e ele já está ali. (Todas olham para a poltrona de Boris.) (Fátima serve café.) HELÔ (Depois de um tempo.) ‒ Uma vez vi Boris na praia... de sunga (Reação geral). Foi tão assustador (Fala em cima da risada das outras). Deu um nó na minha cabeça. Porque nunca sequer tinha visto o antebraço dele e de repente... Bumm! De sunga! (Gargalha) Boris tem padrão, é? (Ri de jeito obsceno.) FÁTIMA – Você está com Boris em sessão individual há quanto tempo? HELÔ – Há um ano mais ou menos... CELICE – Todo mundo tem padrão... de comportamento. É uma espécie de modus operandi. Todo mundo tem um jeito de fazer as coisas. Afinal, estamos aqui para quê? (Pausa.) Para mudar certos padrões autodestrutivos... (Silêncio.)
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HELÔ – É a primeira vez que vocês fazem terapia em grupo? FÁTIMA – Há dois anos fiz parte de um grupo de terapia experimental, mas só durou três meses. CELICE – Nunca fiz e confesso que não sei por que Boris me propôs isso. HELÔ – Você não perguntou a ele? CELICE (Demora de responder. Visivelmente com preguiça da pessoa de Helô.) FÁTIMA – Eu perguntei. Ele disse que me faria bem interagir com outras pessoas. Perceber que todos têm problemas. Que somos iguais... HELÔ – Quando ele me propôs, achei que ele queria me juntar a pessoas parecidas comigo, sabe (Ri), formar um grupo de amigas (Irônica)... Depois vi que não tem nada a ver... (Clima.) CELICE – As razões se mostram com o tempo. Boris prefere que descubramos por nós mesmas. HELÔ – Desde que começamos, há um mês, tento entender por que ele juntou nós três. Adoro desvendar mistérios. CELICE – Sei... Claro! Mas você está sabendo que esse não é o foco da terapia, não é?
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FÁTIMA – Prefiro, em vez de questionar, aceitar. Sei que parece simplista, mas acredito que Boris quer o melhor para nós três. HELÔ (Como se não ouvisse as outras.) ‒ Sei... pois é... o que temos em comum? Quase nada... a não ser o fato de conhecermos Boris (Ri). Se bem que conheço um pouco mais ele do que vocês porque vi ele de sunga (Ri). Não, peraí! Também descobri que somos casadas, nossos maridos são bem de vida... eu não tenho filho, você não tem filho, mas você tem, então não tem nada a ver com maternidade, outra coisa pode ser... CELICE – Mas esse não é o foco da terapia! FÁTIMA – Boris está muito atrasado. Será que ele vem ainda? Não entendo por que Odete não deixou uma mensagem no celular... HELÔ – Temos acima de 40 anos. Alguém aqui passou dos 50? (Todas olham para ela.) Está bem, pula essa parte. TODAS (Dispersão geral. Pegam as bolsas. Celice limpa a mão com álcool em gel. Olham os celulares. Fazem coisas a partir do que cada uma tem na bolsa.) CELICE – Eu acho que talvez a diferença de personalidade seja proposital. Estilos diferentes, linguagens diferentes ativam nossa tolerância, exigem mais de nossa paciência. HELÔ – Então isso pressupõe que nós não somos tolerantes? Me diz uma coisa: nós tiramos sua paciência?
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CELICE – Absolutamente! Eu quis dizer... FÁTIMA – Ouviram esse barulho? Será que é Boris? (Silêncio para escutar.) Não, não é ele. CELICE – Então, não quis ofender ninguém. O que disse serve para todas. Eu acho que... te irrito, por exemplo (Para Helô). HELÔ – Não é bem assim... CELICE – Mesmo eu não entendendo o porquê, eu sei que te irrito. Assim como, às vezes, você me irrita (Para Fátima), assim como você (Para Helô) deve irritar ela (Fátima), por exemplo, e vice-versa. HELÔ – Sei... Coisa de ser humano contemporâneo, todo mundo irrita todo mundo. Beleza, não gostamos de gente. Temos mais uma coisa em comum então! FÁTIMA – Estamos fazendo terapia de grupo? Tá parecendo terapia de grupo. HELÔ – Palmas para Boris. Ele, mesmo não estando presente, está trabalhando (Bate palmas). Mas por que exatamente nós três? Isso é que me intriga. FÁTIMA – Na terapia o que importa é o processo, não a chegada. HELÔ – Isso. Falando em processo... eu preciso confiar em vocês,
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colocar meus podres na mesa e não ser julgada por isso... esse cenário (Pausa) não é convidativo. Percebe? Esse lance de grupo carecia de afinidade, de intimidade... pessoas que se parecem... meio que amigas! CELICE – Não acho que precise de afinidade ou intimidade para haver entrega. Talvez o excesso de intimidade possa virar algo pessoal e até prejudicar a análise. Prefiro que haja menos contato pessoal e mais processo terapêutico. FÁTIMA – Não podemos esquecer que o processo terapêutico é alicerçado sobre a confiança, e não sobre a intimidade necessariamente. HELÔ – Difícil encontrar sentido em tudo isso... na busca, no processo, em nós, em Boris, na terapia em si... CELICE – Mas poderíamos ter dito não a Boris. E não dissemos... ou seja, aceitamos o desafio. HELÔ – Por vaidade, talvez? Ou porque gostamos de desafios? FÁTIMA – Eu não aceitei por vaidade. Aceitei por confiança. Eu confio no trabalho de Boris. CELICE – Boris me disse algo que me convenceu. Ele disse: “Celice, você devia fazer terapia em grupo para descobrir o quanto nossa dor pode ser risível”.
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HELÔ – Não entendi (Para Fátima). Você entendeu? FÁTIMA – Ele quis dizer que seria bem possível que ela risse de certos problemas que veria aqui. CELICE – E com isso eu poderia entender que certos problemas meus também são risíveis, quando vistos por outra pessoa, de outro ângulo. Enfim... HELÔ – Não sei se gostaria que rissem de mim após um desabafo. Acho isso bem escroto, desculpe! CELICE – Não é nada disso... (Sem acreditar.) Realmente não sei por que Boris nos escolheu... (Afasta-se.) FÁTIMA (Muda de assunto bruscamente.) ‒ Boris podia chegar agora, né?! Seria muito bom, muito bom mesmo... HELÔ – Acho que por hoje está bom para mim... Tchau! (Sai bruscamente.) (As duas ficam paralisadas.) CELICE (Fala depois que Helô sai.) ‒ Acho que vou também... tenho compromisso. (Levemente sem graça. Para diante da saída e congela.) FÁTIMA – Eu vou ficar mais um pouco... (Nervosa, vendo as mensagens no celular.) De qualquer sorte, estou em horário de terapia mesmo. Vou daqui a pouco.
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CELICE (Volta do congelamento.) – Acho que também vou esperar um pouco aqui. Meu compromisso é para depois... não quero ficar rodando pela cidade. (Senta-se.) FÁTIMA – Acho que perdemos uma colega de terapia. CELICE – Acho que ela não entendeu a finalidade da terapia em grupo... Você entendeu o negócio do risível, né? FÁTIMA – Claro! Eu acho que ela também. Ela só não queria dar o braço a torcer... Mas Boris falou risível? CELICE – Não exatamente... falou um sinônimo... não lembro agora. (Muda o tom) Ela insiste em saber o porquê de nós três, quando o que importa é o que faremos depois daqui. FÁTIMA – Claro! Difícil mesmo é pôr em prática! CELICE – Sim! Porque, afinal, quase sempre erramos nas mesmas coisas... FÁTIMA – O tal do padrão errático... li um artigo, não sei de quem, que dizia que definimos nossos padrões de escolhas na adolescência. A partir daí passamos a vida repetindo as mesmas escolhas. Você acredita nisso? CELICE – Repetimos padrões definidos na adolescência? No período
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mais confuso da nossa vida? Tá explicado... tem jeito não! HELÔ – Olá! (As outras se assustam.) HELÔ (Sem fôlego.) ‒ Tudo parado lá fora. Nenhum carro se mexe. Boris com certeza está nesse engarrafamento... (Olha pela janela.) Deve ser uma passeata... Ele deve chegar a qualquer momento, com certeza (Senta-se). Paramos onde na terapia? CELICE – Isso aqui não é um jogo. Não podemos fazer isso... HELÔ – Bobagem. Esses cinco minutos que conversamos aqui aprendi um monte de coisa... FÁTIMA – Podemos conversar, mas não fazer terapia. HELÔ –Acho que podemos ser mais diretas que Boris... Esse lance de terapia tem muito de você descobrir por você mesma bêbêbê caixa de fósforo... demora. Eu, às vezes, gostaria que Boris fosse mais direto, sabe? Que poupasse meu tempo, que falasse francamente, olho no olho, entende? Como uma amiga deveria falar com a outra... CELICE – Francamente! (Visivelmente sem paciência.) (Os telefones de Fátima e Helô tocam.) (Celice aproveita para olhar as mensagens.) HELÔ – Ops! (Atende ao celular.) Alô!
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FÁTIMA – Alô! CELICE (Afasta-se para ouvir uma mensagem.) (Voz em off do celular) “Celice, você tem que comparecer à delegacia para depor, agora! Vá para a delega...” (Celice desliga a mensagem no meio.) FÁTIMA (Responde.) ‒ Passei a vida me desdobrando para fazer as vontades dele, Neyde. Não sou idiota. Ele quer a separação? Pois eu não dou. Diga a seu irmão que ele vai morrer casado comigo. (Cunhada fala.) HELÔ – Ah... Pensei que ia lhe ver esta semana... Saudade! (Ele fala.) Não acredito! Ele vai lhe mandar para outra cidade? Mas por quê? FÁTIMA (Responde.) – Você não sabe de nada, Neyde. Deixa eu tomar coragem para postar no grupo de WhatsApp da família a verdadeira razão do Carlos Alberto querer a separação. Até mais. (Desliga.) CELICE (Manda mensagem baixinho.) ‒ Fernando, eu não tenho condição de ir ao lugar que você sugeriu (Disfarça). Obrigada pela compreensão (Desliga e guarda o celular). HELÔ – Mas já temos mais de 15 lanchonetes de Frango Frito no Balde! Para que mais? (Ele fala.) Okay. Beijos (Desliga). Eu ouvi alguém dizer algo sobre postar uma bomba no WhatsApp da família. Posso saber o que é? CELICE – Também ouvi.
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FÁTIMA (Irônica.) ‒ Eu ouvi alguém falar sobre depor na delegacia? Posso saber o que é? (Para Helô) E seu amante, vai bem? Bom, cada uma com seus problemas. HELÔ (Para Celice) ‒ Depor na delegacia? CELICE (Para Helô) ‒ Cada uma com seus problemas. HELÔ – Não tenho nada a esconder de vocês (Mostra a foto do amante no celular). Impossível dizer não para esse deus, não é? Lindo! Seria um pecado não pegar ele (Suspira). FÁTIMA (Irritada.) ‒ Por que as pessoas não podem ser fiéis? CELICE – Acho que está na hora da gente ir embora (Pega a bolsa resoluta e vai em direção à rua. Para. Respira. Lembra que não tem para onde ir. Volta. Senta-se. Limpa a mão com álcool em gel.). Pensando bem, acho que podemos brincar de terapia em grupo (Senta-se, convencida de que pode ganhar mais tempo ali). Comece você, Helô, já que você disse que não tem nada a esconder. Senta aí no divã (Luz do abajur de pedestal que ilumina o divã se acende). FÁTIMA (Fazendo alguma operação no celular. Divide a atenção entre o celular e as colegas.) ‒ Sério! Não sei se isso é prudente! Inclusive deve ser ilegal... (Olha o celular confusa) Boris não vai gostar... (Percebe que fez besteira) Droga! Droga! Droga! (Pulando e correndo pela sala) Não pode ser, não pode ser... Meu Deus! Está feito? Sim, está
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feito... Postei! Postei... não tem mais jeito!!! Está feito (Joga o celular no divã). TODAS – O que foi? (Helô e Celice, devagar, olham o celular de Fátima no divã.) Meu Deus! (Afastam-se.) CELICE – Seu marido? HELÔ – Com outro homem? CELICE – Seu marido é gay? FÁTIMA – Sim. CELICE – Sinto muito! (Abraça Fátima.) Com um homem deve ser bem mais difícil... HELÔ – Como assim? Se fosse com mulher seria diferente? CELICE – Seria. Pelo menos para mim, seria. FÁTIMA – Para mim também, claro! Eu preferiria que fosse com mulher! Muita humilhação. HELÔ – Nossa! Como vocês são preconceituosas. Nada a ver. Corno é corno! Um namorado meu se descobriu gay... Eu tinha uns
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20 anos... Disse: beleza. Se fosse uma mulher, aí, sim, ficaria chateada. Afinal, o que ela tem que eu não tenho? Mas um homem? Não posso competir com um homem, então que se comam, que se fodam. Literalmente. Desculpe! Eu xingo! É mais forte que eu... FÁTIMA (Arrependida, apontando para o celular.) ‒ Foi sem querer.... Eu sou atrapalhada... Eu queria postar, mas não agora, e talvez não no grupo da família... Por que fiz isso? (Repete três vezes e dá uns tapas bem fortes nas mãos.) HELÔ – Acting out ou passagem ao ato, vulgo ato falho, né? Freud! Andei lendo... CELICE – Mas você pode apagar a foto. Ainda tem tempo... FÁTIMA – Como assim? (Corre para o celular.) CELICE – Tem essa opção agora... HELÔ – Agora? Já faz tempo isso (Puxa o celular da mão de Fátima). Para que desfazer o incidente? Por que você vai guardar esse segredo para você? CELICE – WhatsApp da família não é lugar de briga de casal. É lugar de “Bom dia”, “Boa noite”, “Feliz Páscoa”... A mãe dele é viva e está no grupo? FÁTIMA – Sim! E tem 87 anos. (Arrependida.)
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HELÔ – Neste caso... (Devolve o celular.) É melhor tirar. Mãe é mãe. FÁTIMA – Droga! Alguém viu já... O que eu faço? Neyde, minha cunhada, está gravando um áudio... CELICE – Tira mesmo assim. Às vezes, só uma pessoa viu... FÁTIMA (Nervosa.) ‒ Como é que tira? Como é que tira? CELICE – Pronto. Tirei... (Barulho de mensagem chegando. Todas se olham. Clicam para ouvir no viva-voz.) (Voz em off da cunhada enfurecida.) NEYDE – Fátima... você quer desgraçar esta família? Com sua cara de boazinha. Sempre solícita. Tudo para envenenar minha família. Pois se minha mãe morrer por sua causa eu te mato, viu, Fátima, eu te mato! Como você conseguiu fazer essa montagem? Você não merece meu irmão. Você nunca conseguiu dar um filho a ele. Seu ventre é seco, Fátima... você não presta! (Helô interrompe o áudio.) HELÔ – Ah! Cunhados! Não te falei? Ou é amigo ou é parente. CELICE – Ela não pode falar assim com você... FÁTIMA – Ela acha que é montagem? (Começa a rir.) Ela acha que é
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montagem. Ninguém acredita em mim (Olha o celular). O outro irmão dele está digitando (Riso nervoso). Está aqui dizendo que vai me processar por calúnia... que a montagem é ordinária (Ri muito). Ninguém acredita em mim (Chora e ri)... Ninguém acredita! (Raivosa) Que loucura!!!!! CELICE – A era da pós-verdade... (Olha o celular) Por que Boris não responde ao celular? Ele seria tão útil agora... (Limpa a mão com álcool em gel, que está sempre a seu alcance.) HELÔ – Responde a eles... Tem mais foto? Chuta o pau da barraca. Posta tudo que tem. Deixe que eles te processem. Vai ser pior para eles. CELICE – Não responde nada sem pensar. Calma. Vamos analisar os fatos. Uma coisa é certa, não importa que seja homem ou mulher; foi um traição e ponto final. A coisa deve ser analisada dessa forma. É o que Boris nos diria. HELÔ – Concordo plenamente. FÁTIMA (Implora.) ‒ Eu quero Boris! (Duas vezes). (Choro e agonia). Não quero fazer terapia com vocês, vocês não batem bem da cabeça... HELÔ – Isso não é terapia. Estamos pensando juntas o seu problema. FÁTIMA – Isso é terapia! HELÔ – Estamos em horário terapêutico. Boris é que não chegou!
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CELICE – Calma! Respira! (Senta Fátima no divã.) (Atmosfera intimista se instala. Da janela vê-se o pôr do sol).
Fátima no divã HELÔ – Olá, Fátima. FÁTIMA – O que é isso? (Acendem as luzes. Quebra do clima intimista.) Para que essa formalidade? Isso é teatro? Você chegou agora, por acaso? Como assim (Imita) “Olá, Fátima”?! CELICE – Também acho... HELÔ – Nossa! Usem a imaginação! Se eu não crio um clima etecétera e tal... como você vai se abrir? Usem a cabeça... vamos lá! CELICE – Vamos seguir... FÁTIMA – Tudo bem! Tudo bem... Eu gosto de teatro, mas só quero saber quando estou fazendo um... só isso! (Luzes convertem para clima intimista.) HELÔ – Você gosta de teatro? Essa é a principal questão. Você faz teatro
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o tempo todo, Fátima! FÁTIMA – Como é? HELÔ – Aguenta aí (Celice quase se levanta). Ouçam. Tentem entender o cerne da questão. Você vive em constante ilusão. (Celice tenta falar e Helô interrompe.) Shiiii.... Como é que você está casada há vinte anos com um sujeito e não sabe que ele é gay, criatura? CELICE – Que horror! HELÔ – Entendam, a questão é o teatro, é a ilusão que criamos e que acreditamos nela. FÁTIMA – Ela tem razão (Consciente). Infelizmente ela tem razão. CELICE (Para Helô) ‒ Isso está indo longe demais. HELÔ (Para Celice) ‒ Vamos deixar a coisa fluir. FÁTIMA – Foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Assim que soube, eu tive a constatação de que minha vida é um teatro. CELICE – Coitados dos atores... (Para Helô, que a fulmina.) Desculpe.
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FÁTIMA – Encarar esse fato é atormentador (Olha para as duas). Vivi uma ilusão? Foi isso? Que lástima! Que vida desperdiçada! Que vida desgraçada, meu Deus! (Chora.) HELÔ – A questão agora é saber por que você escolheu viver na ilusão. Por que a verdade não foi sua primeira e única escolha? Do que você tem medo, Fátima? CELICE – De morrer. Todo mundo tem medo de morrer. Resposta clássica. Onde se fundamenta a maioria das questões filosóficas universais... HELÔ – Fátima. A pergunta foi para Fátima. FÁTIMA – Tenho medo de ficar sozinha. Tenho pânico de viver só. Eu vivo para o Carlos Alberto... não tenho ambições nem aspirações só minhas, tudo que eu quero envolve alguém. HELÔ (Fala baixinho para Celice.) ‒ Interessante... ela é boa, né? De natureza boa... CELICE – Se se é boa só para o outro e não para si também, de que adianta ser boa? Isso é masoquismo. FÁTIMA (Rompe a cena em sua defesa.) ‒ Ah, tá bom! Eu sou masoquista. E você, Celice, é o quê? Muito fácil falar do outro... fala de você! Começa dizendo como foi seu dia...
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CELICE – Como assim? (Pega um álcool em gel da bolsa e limpa as mãos.) HELÔ – Realmente, você não parece que está num bom dia, Celice. Você está mais agitada do que de costume. Passa para cá o álcool em gel. (Celice passa o frasco com resistência. Helô põe na mesa de centro.) FÁTIMA – Como foi seu dia? CELICE – Vocês nem me conhecem... Preciso respirar. (Luz intimista, foco em Celice.) Como é? (Respira.) Meu dia? Bem, meu dia foi... quer dizer, está sendo emocionante (Silêncio). Estou bem. Acordei... tomei meu café... li o jornal on-line. Falei com mamãe... HELÔ – Pelo amor de Deus! (Luzes acendem.) Não é porque não somos suas terapeutas que você não pode ser sincera! Francamente! CELICE – Mas o que é que eu fiz? FÁTIMA – Helô tem razão. Assim não dá, Celice. HELÔ – Vamos fazer o seguinte: vamos adotar um alerta vermelho. Quando nós acharmos que alguém aqui está fingindo ou fugindo ao tema, mentindo ou evitando dizer a verdade, nós vamos sinalizar dizendo... deixe-me ver... (Pensa.) MELHOR! Isso, vamos dizer: MELHOR! É a dica pra gente refazer a frase de maneira que nos convença. Que acham?
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FÁTIMA – Gosto disso. Concordo. Eu topo. HELÔ – Celice, você aceita a regra? CELICE – Sim. Por que não? Sem problemas. Melhor, né? Está bem. (Luz intimista se instala. Foco em Celice.) FÁTIMA – Bem, Celice. Como você se sente? CELICE – Bem. HELÔ – Melhor! CELICE – Quer dizer, já tive dias melhores. FÁTIMA – Melhor! CELICE – Estou péssima. HELÔ – Ótimo! FÁTIMA – Antes, fale de sua infância. Sua família. CELICE – Nasci rica. Minha família tem muitos recursos.
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HELÔ – Melhor! CELICE – Como assim? Você acha que não sou rica? FÁTIMA – Melhor! CELICE – Estamos sempre na crista, no topo da sociedade... Não importa a situação do país. Sempre damos um jeito. Assim se define minha família. (Pausa.) FÁTIMA/ HELÔ (Juntas.) ‒ Melhor! CELICE – Não somos mais ricos, se vocês querem saber, mas com o que temos dá para viver como se fôssemos. Deu para entender? HELÔ – Agora, sim! Isso se chama privilégio. Até na terapia tem questões de classe. Quem diria! FÁTIMA – Não polemiza. Você se considera feliz? CELICE – Não sou feliz porque essa nunca foi minha meta. Quando vi papai perder a fortuna da família em mesa de jogo, sabia que a felicidade não era o foco, mas a manutenção do meu padrão de vida. Diferentemente de você, Fátima, não sinto pena de ninguém. Muito menos de mim mesma. Não sou masoquista, não moldo minha vida a partir do que os outros vão dizer. Sem querer lhe ofender.
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FÁTIMA – Se preocupar com a opinião do outro também é um jeito de se preocupar consigo mesma. HELÔ (Séria.) ‒ Nem sempre, Fátima. Nunca vamos satisfazer a todos. Isso indica que você tem necessidade de aceitação. O lance da melancia mesmo é um absurdo! (Luzes se acendem.) CELICE – Que melancia? HELÔ – Como alguém pode levar uma melancia para outra pessoa que só está de TPM? (Para Celice) Foi antes de você chegar. (Para Fátima) Aprenda! Mesmo você ajudando a família dele, na hora “H” de que lado eles ficam? Não é da melancia... CELICE – Não estou entendendo nada. FÁTIMA – Você tem razão. Agora eu sei! O sangue fala mais alto e está acima da verdade, pelo visto. HELÔ (Para Celice) ‒ Parentes! (Celular de Fátima recebe mensagem) (Todas partem para o celular de Fátima. Clicam para ouvir a mensagem em viva-voz.) (Marido de Fátima.) (Voz em off.) CARLOS ALBERTO – Alô, Fátima! Desde quando você sabe? (Pausa.) Minha mãe
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está no hospital. Está sedada... por favor, entra lá no grupo e pede desculpa. Fala que foi montagem. Diz que enlouqueceu por causa do divórcio... eu vou terminar com ele, Fátima. Foi um erro... uma fraqueza minha... faz isso, por favor, e liga para mim. (Fim da mensagem de voz.) HELÔ – Direto, né?! (Olha para Fátima, arrasada no divã.) CELICE – Não entendi. Ele quer terminar com o cara? Então ele tinha uma relação séria com o amante? Há quanto tempo? FÁTIMA – (Foco em Fátima, encolhida no divã.) Há quatro anos, pelas minhas contas. CELICE – Bom, ele quer acertar as coisas... estava com a voz calma. HELÔ – Desculpa, mas eu acho que ele tá tirando onda de calminho porque quer que Fátima se finja de louca no grupo da família para livrar a cara dele e depois se separar. Tá na cara que ele está em outra... CELICE – Calma aí! Não julgue as pessoas! (Sai luz intimista.) HELÔ (Acha a pergunta idiota.) ‒ Você acabou de me julgar, Celice! Nossa! Um pouco de franqueza ajuda! Essa relação de Fátima já deu... CELICE – Mas quem é você para falar de relação, Helô? (Irônica.) Não sei se você já amou, se você já teve uma relação séria...
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HELÔ – Sou diferente de vocês, mas entendo de homem! FÁTIMA – Nenhuma aqui é parecida com a outra. Que fique claro. Somos três ilhas. (Muda o tom.) Helô, de alguma maneira, eu aprendo muito com você... você passa a ideia de ser tão despachada... livre... Afinal, o que te trouxe para cá? HELÔ (Foco em Helô. Luz intimista.) ‒ Por uma razão que agora percebo que é bem idiota (Ri). Queria ser normal. Queria acordar de manhã e fazer o que tem que fazer... como uma pessoa normal. Veja que idiotice! (Irônica.) CELICE – O que você considera normal? HELÔ – A maioria das pessoas se cortam, se machucam... é só uma metáfora. Daí elas colocam uma atadura e continuam em frente. CELICE (Irônica) ‒ E o que você faz? HELÔ – Eu continuo sangrando. Metaforicamente. FÁTIMA – Então você acha que ser normal é ter uma ferida... fazer um curativo e continuar a vida? HELÔ – Não é assim que funciona? Não é isso que todos fazem? Continuam em frente, não importa o que aconteça?
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CELICE – É o que você realmente quer? HELÔ (Pensa. Muda o tom.) ‒ Tem uma inquietação angustiante aqui (Bate no peito). Não sei o que eu quero. Nada está bom para mim. E simplesmente não sei como sair dessa... (Lamenta.) FÁTIMA – Você se considera do bem ou do mal? (Todas a olham.) Sei que essa pergunta parece ridícula. Mas sei lá! Enfim, em que time você joga? HELÔ (Sonsa e jocosa.) ‒ Eu, quando me aproximo das pessoas, sei que causo um certo caos na vida delas, eu sei disso... é que eu faço uma leitura rápida da pessoa... aí eu conheço logo as fraquezas dela e não me aguento e... pirraço... é maior que eu... e o pior, me divirto com isso (Ri). Sou uma pessoa terrível. Tenho consciência. CELICE – Fale de sua infância. HELÔ – Não quero falar de infância, não quero transar com meu pai nem matar minha mãe. Eu sou o problema. (Longo silêncio.) FÁTIMA – Melhor! HELÔ – Tive uma infância classe média, feliz até certo ponto. CELICE – Melhor!
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HELÔ – Meu pai era um fracassado. Falia tudo em que botava a mão. Minha mãe era a luz da casa... Enfim, eu me lasquei também porque, além disso tudo, eu era a única filha mulher numa família de seis filhos. E também a única que cursou universidade. Acreditem: sou formada em Assistência Social! CELICE – Sua mãe ainda é viva? HELÔ – Não. Desligamos a máquina há cinco anos. Ninguém quis ficar na hora. Nem meu pai, nem meus cinco irmãos. Acho engraçado. Dizem que os homens são fortes, mas fui eu que fiquei segurando a mão dela. Não houve nenhum som, nem um tremor. Só paz! (Pausa.) Eu percebi que tenho sorte de ser mulher. Eu estava lá quando ela entrou na minha vida. E eu estava lá quando ela saiu. CELICE – Você é feliz no casamento? HELÔ (Muda o tom.) ‒ Depende de com quem me relaciono fora dele. E quer saber? Também acho que JR não me ama, ele ama ter alguém. Não alimento essa ilusão... FÁTIMA – Então por que vocês estão juntos? HELÔ – Pelos mesmos motivos de vocês, né? Segurança (Reação das outras). Ah! Não venham me dizer o contrário... O amor é para os jovens. Ninguém aqui procura amor. Procuramos segurança, conforto, ascensão social... Posso dizer que isso é amor? Sim.
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Amo meu marido porque posso ter outros... Por isso acho que seu marido lhe amava, porque você deixava ele ter outras. Você permitia porque talvez você soubesse, intuitivamente, que isso fazia dele um ser completo. A coisa talvez tenha mudado porque foi um homem. Enquanto você achava que era uma mulher, estava tudo bem... ou eu estou enganada?! CELICE – Você suspeitava que era um homem, Fátima? FÁTIM – De um tempo para cá, sim! (Elas reagem.) HELÔ – Imagino que o sexo entre vocês devia ser bem rarefeito... FÁTIMA (Pausa) ‒ Sim. HELÔ – Seu marido realizava com o amante o que você não realizava com ele, entende? Alguém fazia seu papel. CELICE – Com certeza. Sem querer machucar você, houve sim um consentimento seu. Senão ele não teria tanta liberdade para ter um caso há quatro anos. FÁTIMA – Falhei em ser mulher em todos os sentidos... não lhe dei filhos... era só um enfeite. Eu via que ele estava feliz e sabia que não era eu que proporcionava aquilo... CELICE – Segundo Freud, “a mulher já nasce castrada”. Ele defende que a mulher já nasce na falta. Então, sendo assim, quando ele te trai, ele traz isso para o real; ele te relembra o que te falta...
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HELÔ – E falta é coisa na gente... principalmente coragem. E neles sobra, sobra autoconfiança... Cara de pau! CELICE – E a traição sendo com um homem, isso é multiplicado. Ele reafirma, e com contundência, o que você não tem. HELÔ – Ou seja, ele esfregou literalmente o pau na sua cara... Freud, hein! Mas não tem problema! É receber a bola e chutar para frente. Vida nova. Na esquina há de ter um pote de felicidade reservado para você. FÁTIMA – Ser feliz... (Lamenta sua situação.) No meio de tudo isso, encontrar um jeito de ser feliz... CELICE (Foco em Celice. Luz intimista.) ‒ Felicidade? Perdi quando entrei aqui. Eu era feliz. Até que resolvi fazer terapia e Boris tratou de me tirar da vida confortável que tinha. Agora, não sei por que, sinto remorso, culpa! Acabou minha paz. Até meu casamento eu questiono. HELÔ – O que te atraiu no deputado? CELICE – As pessoas acham muito sexy os músculos dele, o cabelo, o sotaque, a cor dos olhos. Sabe o que me atrai em um homem? A inteligência fora do normal, misturada a uma vida desregrada. Não gosto de gente previsível. Certinha. Nem de gente burra. HELÔ – Li numa revista feminina que isso se chama Sapiofilia.
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CELICE – Como? HELÔ – Sapiofilia... Sei que soa como fuder com um sapo. Mas é uma atração sexual pela inteligência. Sapio (inteligência) / filia (amor). É isso aí. CELICE – Então, tenho isso. Tive excelentes partidos, homens bons, gentis, sem vícios, mas sempre me interessava por homens inteligentes e controversos. Consegui casar com um deles. E tenho dois filhos. Essa sou eu. FÁTIMA – Por que toma remédios? CELICE – Homeostase. HELÔ – Como é? CELICE – É a propriedade do sistema, no caso, do corpo humano, que regula o ambiente interno de modo a manter um estado constante de calma. Alguns sistemas precisam de ajuda. FÁTIMA – Você se sente só? CELICE – Gente demais me dá aflição. Pessoas precisam ser assimiladas em doses homeopáticas... definitivamente me sinto só.
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HELÔ – Você se considera boa ou má? Me fizeram essa pergunta... CELICE (Pausa.) ‒ Quando conheci Alberto, ele era lindo, ainda é, mas era de chamar a atenção. Eu nem me importava com a beleza, eu observava era o modo como ele convencia as pessoas. Sua inteligência! Um político nato. Não é à toa que ele é deputado federal pela terceira vez. Ele podia ter qualquer mulher, mas escolheu a mim. Eu me perguntava: o que ele viu em mim? Com o tempo, a resposta veio. Ele me enxergou como eu era. Ele sabia que eu era insensível, fria e sozinha. Ele sabia que eu era capaz de saber de suas falcatruas e não ter crise de culpa. Ele foi a única pessoa que me viu de verdade. Como não amar esse homem? HELÔ – Melhor. Nesse caso é um elogio. E sexo? Tem praticado? Você trai? Se trai, qual a frequência? Gosta de ficar por cima ou por baixo? FÁTIMA – Você está brincando, Helô! HELÔ – Falo sério. Para mim sexo é muito sério. CELICE (Muda o tom. Para Helô.) ‒ Por que você fala que sexo é sério e banaliza tanto? O que o sexo significa de fato para você, Helô? Gostaria de saber... por mim até. HELÔ (Foco em Helô. Luz intimista.) ‒ Sexo é vida! FÁTIMA – Melhor!
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HELÔ – Amo sexo. Vocês não notaram isso? CELICE – Melhor! FÁTIMA – Você tem orgasmo? HELÔ (Explode de rir.) ‒ Como é? Como posso gostar de sexo sem gozar? FÁTIMA – Melhor! HELÔ – Olha aqui: amo sexo. Amo fuder! FÁTIMA – Melhor! HELÔ – Gosto de sexo. Procuro sexo fora do casamento, vocês não viram? CELICE – Melhor! HELÔ – Talvez devesse gozar mais... tudo bem! Mas nem sempre dá tempo. Nem sempre eles sabem me fazer gozar. CELICE – Melhor! HELÔ – Tenho problemas para gozar (Silêncio). Mas já estou
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resolvendo isso. Não tem a ver com o meu corpo. Está tudo na cabeça... FÁTIMA – Eu nunca brinquei de médico. Sequer entendo meu corpo, mas tenho orgasmos. Helô, agora te entendo um pouco mais. Seu comportamento sedutor camufla sua falta. Freud! CELICE – O que te bloqueia? HELÔ – Não sei. Não sei... não sei... CELICE – Calma! Normal... Boris sabe? HELÔ – Sim. Ele sabe. Na verdade, essa foi a minha verdadeira razão para procurar uma terapia. (Quebra luz intimista.) FÁTIMA – Isso que importa. Você veio procurar ajuda. Agora entendo a sua infidelidade... Diferentemente de mim, Carlos Alberto foi meu terceiro namorado. Nossa relação era tradicional. Ele sempre deixou claro que eu era a única... HELÔ – Única mulher, pelo visto. Sem querer ofender. De certa forma ele foi leal a você nesse quesito e infiel porque se apaixonou. Eu entendo assim. CELICE – Mas agora a questão é outra. Agora você tem que se preocupar com você. Toda vez que levamos um corno corremos o risco de achar que a culpa é nossa. Olhem para mim... já levei,
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pelo menos, uns cinco cornos, que eu lembre agora. O Alberto traiu a primeira mulher dele comigo. O que esperar de um cara assim? Tive que me adaptar. FÁTIMA – Não importa. O que sei é que minha relação não pode ser comparada com a sua... nem com a sua... Fui uma idiota. HELÔ – Como venho dizendo, não estamos falando de amor... CELICE – Estamos falando de que, então? HELÔ – De Ego. FÁTIMA – Calma... não estamos aqui para julgar ninguém. HELÔ – Mas não é um julgamento. Meu relacionamento é por interesse também. Amo o JR, mas amo porque ele me deixa livre. Ele é mais que um marido... CELICE (Nervosa.) ‒ Pois eu não durmo com meu pai. Não pratico incesto... Casei apaixonada (Limpa a mão com álcool em gel freneticamente). Mas sabia que ele não era um homem de uma mulher só. Só tive que me adaptar. HELÔ – O que mudou na sua relação? CELICE (Foco em Celice. Luz intimista.) ‒ Algo quebrou... não sei o que foi...
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FÁTIMA – Como anda sua situação financeira hoje? CELICE – Tenho crédito em banco. Posso numa operação bancária sumir deste país. FÁTIMA – Melhor! CELICE – O dinheiro de Alberto está bloqueado há três meses e estamos perdidos (Limpa a mão com álcool em gel). Vamos ter que demitir a empregada (Chorosa). Magnólia está conosco há dez anos. Sabe onde está tudo na casa. Eu não sei viver sem Magnólia (Chora). Sei que parece ridículo, mas sem ela eu não sou nada. Claro que eu tenho o domínio da casa... sou uma boa dona de casa... HELÔ – Melhor! CELICE – Tento ser uma boa dona de casa e boa mãe... FÁTIMA – Melhor! CELICE – Sou péssima dona de casa e péssima mãe. É isso que vocês querem saber? FÁTIMA – Não é nada pessoal. Não estamos julgando você.
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HELÔ – Só queremos que você experimente dizer a verdade. Apenas isso. CELICE – Sou péssima mãe e dona de casa. Isso é verdade. Sou egoísta. Boris sabe disso. E Alberto, ele... bem... (Desaba.) Ele pode ser preso a qualquer momento. FÁTIMA – Por que você se recusa a depor na delegacia? CELICE – Porque eu não gosto daquele lugar. Eu não fui preparada para isso. Não vou suportar... FÁTIMA – Do que você tem medo? CELICE – De morrer. HELÔ – Melhor! CELICE – Tenho medo de não saber responder às perguntas do delegado. HELÔ – Melhor! CELICE – Chega! Quantas vezes pedi champanhe sem necessidade, só para ostentar? Gastei muito. Entendam! Teve um ano que consegui não repetir uma roupa nos eventos. As amigas comemoravam o feito com mais champanhe. Tenho mais de 300 pares de sapatos. Tem até sapato fechado, com etiqueta, e roupas que nunca usei, no closet.
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FÁTIMA – Você fica aliviada quando gasta? Se considera compulsiva? CELICE – Com toda certeza. HELÔ – Melhor. Neste caso é um elogio. Respira. Vai ficar tudo bem... CELICE (Recompondo-se.) ‒ A compulsão é mais comum do que imaginamos... FÁTIMA (Mudou a luz.) ‒ Não generaliza! CELICE (Insiste.) ‒ Compulsão é bem básico, gente, todo mundo tem. HELÔ – Compulsão tem a ver com repetição, não é? Padrão etecétera e tal... Fátima, você falou umas três vezes neste mês sobre um fato de sua infância... CELICE – Boa lembrança. Uma amiga que você queria ajudar... FÁTIMA – Uma amiga de infância que foi acusada de roubo injustamente. HELÔ – Isso. E qual é o grilo mesmo? FÁTIMA – Eu não ajudei ela, fiquei paralisada... podia ter ajudado...
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HELÔ – Mas e daí? Vocês tinham a mesma idade... o que você poderia ter feito? FÁTIMA (Foco em Fátima. Luz intimista.) ‒ Não sei... sempre tem algo a fazer. Eu realmente me importo com o outro. CELICE – Vamos por partes. Você só poderia ajudá-la se soubesse quem roubou ou se tivesse certeza de que não foi ela, concorda comigo? Você sabe quem roubou? FÁTIMA (Divagando.) ‒ Não sei... HELÔ – “Não sei...” de dúvida? Ou “não sei” de quem não sabe mesmo? CELICE – Vamos fazer o seguinte: vamos relembrar esse evento. (Vai para o palco preparar a cena.) HELÔ – Como é o nome de sua amiga? (Ajuda nos preparativos.) FÁTIMA – Selma.
Psicodrama de Fátima (Elas sobem ao palco. Vestem algumas roupas dispostas no cabideiro. Se arrumam. Luzes criam clima de cena teatral. Trilha infantil.)
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HELÔ/ ACUSADOR – Selminha, sumiu da sala da diretora um colar de ouro com um pingente de brilhante. Por acaso não terá sido você que, sem querer, pegou? CELICE/ SELMA (Tentando parecer uma criança.) ‒ Eu não peguei nada, tio. Eu só fui lá na diretora entregar... entregar... (Inventa.) entregar o cartaz que fizemos da gincana. HELÔ/ ACUSADOR – Sei. Então você não se importaria que eu mexesse em sua bolsa? CELICE/ SELMA (Chorando.) ‒ Por que você acha que fui eu? Não fui eu... Fátima sabe que não fui eu. Ela estava comigo. Não é, Fátima? Você viu eu roubando? Fala, Fátima, que não fui eu... (Fátima corre da cena.) HELÔ – Corta! (Quebra a cena.) Fátima, o que houve? FÁTIMA (Atônita.) HELÔ – Você está bem? Quer parar? FÁTIMA (Afirma com a cabeça.) HELÔ (Conduz Fátima até o divã.) ‒ Vamos respirar juntas, vamos... todas juntas; ar para dentro, ar para fora (Repete duas vezes.)... Não é algo tão grave assim... (Passa a mão no cabelo dela.) CELICE – Vocês entraram na diretoria para que, afinal?
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FÁTIMA (Ainda com voz infantil.) ‒ Falar do Auto de Natal. CELICE – Então muita gente entrou na sala da diretora naquele dia? FÁTIMA (Ainda na personagem.) ‒ Sim. CELICE – Você gostava de Selminha. FÁTIMA – Sim. Todo mundo gostava dela. Ela era a mais amada e a mais linda da escola. HELÔ / MÃE (Se posiciona no palco e, usando um refletor, projeta sua sombra gigante na parede. Fala ao microfone. Trilha de tensão.) (Ríspida.) ‒ Fátima, vem aqui! Fátima... FÁTIMA/ CRIANÇA (Contracena com a sombra.) ‒ Sim, mamãe! HELÔ/MÃE – Cadê seu boletim? FÁTIMA/ CRIANÇA – Aqui, mamãe. HELÔ/ MÃE – Você sabe quanto Selminha tirou na média geral? FÁTIMA/ CRIANÇA – Dez.
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HELÔ/ MÃE – O que você merece ouvir, Fátima? FÁTIMA/CRIANÇA – Que eu não me esforço? Que sou fraca? Lenta, preguiçosa, burra, feia... (Começa a bater na sombra.) (Helô e Celice tentam acalmá-la.) HELÔ – Fátima! Pare, Fátima! Chega! Volta! Volta! (Fátima se esconde atrás da poltrona.) CELICE – Fátima! Calma! Respira. Você tem todo tempo do mundo.... não tenha pressa. Estamos aqui pra te ajudar. (Pausa grande. Helô e Celice bebem água.) HELÔ – Posso te fazer uma pergunta, Fátima? Você pode responder daí... (Silêncio.) Quem foi que disse na direção que podia ser Selminha? (Silêncio.) Okay. Não precisa responder. Vamos fazer o seguinte. Se a resposta for sim, você fica em silêncio. Se for não, você empurra a poltrona um pouco. Está bem? (Pausa.) Foi você, Fátima, que disse na direção que Selminha roubou o colar? (Silêncio.) CELICE – Por que Selminha precisava ser punida, Fátima? Por que ela era mais bonita, mais inteligente, mais amada que você? (Silêncio.) HELÔ – Foi você que roubou o colar, Fátima, para acusar Selminha? FÁTIMA (Empurra a poltrona, corre para o banheiro e se tranca.)
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CELICE (Fala baixinho uma com as outras) ‒ Será que Boris sabe disso? HELÔ – Duvido. CELICE – Será que ela desenvolveu cleptomania ou algo assim? HELÔ – Será? CELICE – Você não lembra que Boris nos perguntou sobre uma estatueta de Jung que havia sumido? HELÔ – Para! Não pode ser... (Vai até a porta do banheiro.) Fátima, você, por acaso, pega as coisas de outra pessoa sem querer ainda? Continua praticando... um roubinho de vez em quando... você faz isso ainda? FÁTIMA (Fala do banheiro.) ‒ Eu não sou uma cleptomaníaca convencional. Só roubo quando me sinto acuada. Com medo. CELICE (Fala baixinho para Helô.) ‒ Que é quase sempre, né? HELÔ (Para Fátima.) – Boris sabe disso? Da cleptomania? FÁTIMA – Não! CELICE (Aos berros, vai em direção à bolsa.) – Loucura Boris não saber disso! Pagamos terapia para quê?
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Para fingir? Para mentir? (Vasculha a bolsa para ver se algo foi roubado.) HELÔ (Conversa baixinho com Celice.) ‒ Para com isso... (Tira a bolsa dela.) Calma, não exagera! CELICE – A coisa é séria... Cleptomania! HELÔ –Também roubei muito chocolate nas Lojas Americanas, normal. CELICE – Quando você era adolescente, pressuponho. HELÔ – Sim, mas roubei muito, muito, muito chocolate. Você não faz ideia. CELICE – Não foi um colar de ouro. Uma estatueta de seu analista. E você parou com isso. Não é o caso de Fátima. HELÔ – Você pega pesado. CELICE – Um colar de ouro?! E ainda acusa a amiga! (Pega a bolsa e olha se está faltando algo.) HELÔ (Segura a bolsa.) ‒ Era uma criança... Eu mesma peguei minhas joias e vendi tudo quando tinha 17 anos e fui para Morro de São Paulo com umas amigas, por exemplo. CELICE – Eram suas joias, e não de outra pessoa. Isso tem uma enorme diferença.
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HELÔ – Você tem razão. Cleptomania é foda. (As duas pegam a bolsa para olhar.) Troço difícil de entender! (Telefone de Fátima dá sinal de que recebeu mensagens. Elas se olham e resolvem ouvir.) (Voz em off.) CARLOS ALBERTO – Fátima! Você não fez o que eu pedi... Acabou! (Voz raivosa.) Eu não consigo perdoar o que você fez... foi um golpe muito baixo. Sempre fui solidário com suas crises de autoflagelo. Ninguém da família sabe. Porque te respeito...Você anda se cortando ou se mordendo? Você vai acabar se matando... Pois não me culpe por isso! (Helô e Celice deixam o celular e correm para a porta do banheiro.) HELÔ – Fátima! CELICE – Fátima! FÁTIMA – O que é? HELÔ – O que você está fazendo? FÁTIMA – Nada demais... (Desmaia. Ouve-se o corpo dela cair no chão.) HELÔ (Força a porta e entra.) ‒ Fátima!
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(Helô e Celice trazem ela para o divã.) CELICE – Você tentou se matar? FÁTIMA (Ri) ‒ Não tenho coragem. Mas bem que gostaria. HELÔ – Calma. Boris sabe que você... FÁTIMA – Sim. Ele sabe que me autoflagelo. Acreditem, é a única forma que tenho para relaxar, no momento. (Ela respira intensamente. Parece se reconciliar consigo mesma.) Estou bem agora. A dor me ajuda a pensar. CELICE – Isso é muito para minha cabeça... preciso tomar minhas pílulas... (Pega a bolsa.) HELÔ (Pega a bolsa da mão de Celice.) ‒ Não. Não foge. Fica aqui. A gente precisa de você, Celice. CELICE – Não. Nem pensar. Devolve minha bolsa. Eu quero meus calmantes. Eu vou enlouquecer. Vocês não tomam nada? Como vocês conseguem ficar em pé? Eu já teria enlouquecido... Socorro! Dá meus remédios, por favor, Helô! HELÔ – Não. Por alguns instantes, fica aqui, por favor! FÁTIMA – Fica aqui. Preciso de você, por favor, Celice. Não se preocupe tanto comigo. Afinal, isso é uma terapia. Não vamos
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resolver tudo hoje... CELICE – Desculpa... não dá, não dá. (Tendo acesso de nervoso. Começa a tremer.) Que frio! Fecha tudo. Que frio. (Elas fecham tudo. Já é noite.) Talvez tenha alguém nos observando... A polícia... (Limpa a mão com álcool em gel.) A polícia pode chegar a qualquer momento. Eu preciso tomar minhas pílulas. Não me toquem. Suas mãos... estão sujas. Eu vejo tanta sujeira aqui nesse consultório. Aqui precisa de uma limpeza... Estou sentido falta de ar... abre a janela. Não. Alguém pode estar observando. Vocês estão sentindo falta de ar? Tá faltando ar, não tá? Eu quero ar... FÁTIMA – Calma! (Helô e Fátima abanam Celice.) Celice, você sente sempre falta de ar? CELICE – Sempre... de um tempo para cá... um sonho... tenho tido um sonho. Nele, alguém me acorda e eu me afogo. (Sem fôlego, sobe ao palco e começa a narrar seu sonho.)
Psicodrama de Celice (À medida que fala, o sonho se realiza, com as outras fazendo os efeitos: vento, fumaça, panôs e o que ocorrer.) CELICE (Trilha alegre.) ‒ É alto-mar. O dia está lindo! Estamos em pleno mar. Vento batendo no rosto. É como em um filme, perfeito... tudo perfeito... de repente o vento leva meu chapéu... (Pausa.) Um copo quebra... o vento aumenta e vira um inferno... A tempestade toma conta de tudo e nos engole. É impossível ajudar (Gritos). Pessoas caem ao mar e eu não posso fazer nada.
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Até que uma onda gigante... (Grita.) AÇÃO: Ela é engolida pela onda (um tecido de voil) e levada até o fundo do oceano. Sem conseguir prender mais a respiração, em pânico, ela respira na água, mas, para sua surpresa (trilha muda, agora é suave e divina; o ventilador é desligado; muda o tom da cena), Celice se dá conta de que respira dentro da água. Sua felicidade se mistura com surpresa e bem-estar. Cena lírica e visual. Ela faz a cena atrás de um voil, que simboliza o mar, até que a voz de alguém, distorcida e com eco, rompe a experiência. É Fátima que a chama. Ela desperta dentro da água e, com o susto, se afoga. Começa a sentir falta de ar de verdade. As meninas param o psicodrama. Desmontam o clima. Tentam ajudá-la. Ela continua sufocando, sem conseguir respirar. Fátima joga um copo de água no rosto de Celice, que desperta do pesadelo. (O clima do psicodrama se desfaz.) HELÔ (Elas acodem Celice.) ‒ Nossa, Celice! Que foi isso? FÁTIMA – Acho que Boris não vai gostar do que estamos fazendo... HELÔ – Rezo para Boris não aparecer mais hoje... CELICE (Respirando ofegante.) ‒ Finalmente sei o que o sonho quer dizer. Respirar dentro da água pode significar aprender algo que até então seria inacreditável para mim. HELÔ – Como o que, por exemplo? CELICE – Trabalhar. Meu trabalho é indicação política... uma enrolação.
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Eu ganho bem para não fazer nada. Sujei as mãos na política... (Esfrega as mãos freneticamente.) FÁTIMA – O fundo do mar também pode ser o inconsciente. HELÔ – O fundo do mar também pode significar o fundo do poço. Não tem mais como descer... só resta subir. É positivo de certa forma. CELICE – Preciso pegar o timão do meu barco e chegar a um porto seguro por minhas próprias mãos. Alberto é uma tempestade constante. FÁTIMA – Com certeza, o oceano pode simbolizar seu mar de ilusões, o teatro todo que você criou para se justificar. HELÔ – Criamos nossas próprias matrices. Criamos tudo... somos os arquitetos da nossa vida. Se criamos, podemos mudar. CELICE – Se eu continuar nesse mar de ilusões, posso morrer afogada. Não quero isso. Quero ser reconhecida por algo. HELÔ – E quem te acorda no sonho? FÁTIMA – O marido dela talvez... HELÔ – Talvez o anjo da guarda dela.
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CELICE – Eu que me acordei. Eu acordei. Sabe de uma? Vou depor. Depois que sair daqui, vou depor. FÁTIMA – Podemos ir com você, se você quiser. CELICE – Posso ser presa. Mas quero depor. Preciso depor. Não tenho medo de mais nada, agora. Sou livre, inclusive, para ser presa. Fodam-se todos! HELÔ – É meu lema. Podemos ir com você.... Tanta coisa que passamos juntas... agora somos íntimas! CELICE – Claro! Eu ficaria lisonjeada. Desde criança sempre tive poucas amigas. FÁTIMA – Definimos nossos padrões de escolhas na adolescência... Lembra? Estamos quebrando os padrões! (Celice e Fátima riem.) HELÔ – Como assim? CELICE – O tal artigo... com certeza. É por onde devemos começar. (As duas olham para Helô.) Algum evento triste na infância, Helô? CELICE E FÁTIMA – Melhor! HELÔ (Pausa. Luz intimista. Foco em Helô, que olha fixamente para Celice.)
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‒ Quem não tem? (Dá risada.) FÁTIMA (Com austeridade.) ‒ Melhor! CELICE (Secamente.) ‒ Melhor! HELÔ (Respira.) ‒ Querem que eu abra a caixa de Pandora? Pois então... Minha família hospedava um homem, sempre no verão, e um belo dia ele me estuprou, quando eu tinha 13 anos. CELICE (Silêncio longo.) CELICE (Gaguejante.) ‒ E... como... como foram seus dias a partir desse evento? HELÔ – Frios. FÁTIMA (De boca aberta e lentamente.) ‒ Discorra melhor sobre isso. HELÔ – Existe um lugar dentro da gente, que todos têm, onde fica nossa parte mais íntima; aquele pedaço que faz com que você seja você, e não outra pessoa... Aquele homem destruiu isso. E no lugar do vazio, preencho com loucura e obscenidades. FÁTIMA – Já relatou isso a Boris, em terapia individual? CELICE – Melhor!
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HELÔ – Ainda não! CELICE – Mas por que não? HELÔ – É muito pessoal. CELICE – Isso não faz sentido. Coitado do Boris. Coitada de você. Coitada da gente. Desculpa. Mas por que mentimos tanto? HELÔ – Não contei porque não queria que ele sentisse pena de mim... FÁTIMA – Eu entendo... A verdade queima. CELICE – É um queimar que alivia. E a mentira é um alívio rápido que queima por uma vida. Você precisa falar mais sobre isso... (Levanta-se e inicia a arrumação do palco.) Quantos anos ele tinha? HELÔ – 22 anos. (Falam enquanto arrumam o palco.) FÁTIMA – Era jovem, então? Quando você falou pensei logo em um velho babão. Acho que é por conta de um vizinho que eu tinha... (Todas param o que estão fazendo.) Calma, não fui abusada. Mas ele me comia com os olhos. CELICE – Ele era bonito, Helô?
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HELÔ – Ele era um monstro... (Pausa.) Bonito (Elas a olham.), mas era um monstro. CELICE – Como ele conquistou sua confiança? Se é que você confiava nele. HELÔ – Confiava. Era amigo da família. Ele me dava atenção. Coisa que adulto nenhum fazia. Só ele.
Psicodrama de Helô (Enquanto conversam, arrumam o palco. Panô ao fundo de um jardim florido. Trilha infantil incidental. Helô toma agora feições de menina. Sua voz e seu corpo mudam. Ela segura uma boneca. A cena é assustadoramente levada a sério. Elas se concentram antes de cada momento desses.) CELICE/ ESTUPRADOR – Oi, Helô, como vai? HELÔ (Interrompe a cena.) ‒ Ele me chamava de “minha menina”. CELICE – Típico. (Cena volta ao clima intimista.) CELICE/ ESTUPRADOR ‒ Como vai você, minha menina? Está fazendo o quê?
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HELÔ/ CRIANÇA – Brincando de boneca (Faz uma pirueta com a boneca). Alice... o nome dela é Alice. CELICE/ ESTUPRADOR – Posso brincar também? HELÔ/ CRIANÇA – Pode. Toma. CELICE/ ESTUPRADOR (Brinca com a boneca.) ‒ Olá, Alice! Como você é bonita! Sua roupa é linda. Deixa eu ver uma coisa... (Olha por debaixo da saia da boneca.) Ela está nua! HELÔ/CRIANÇA (Ri muito.) ‒ Deixa ver (Ri). Ela está nua. CELICE/ ESTUPRADOR (Ela ataca de vez Helô.) ‒ Venha cá, minha gostosa... HELÔ (Agressiva, ela pressiona Celice no chão.) ‒ Para! Não foi assim. Não foi... (Ela troca os personagens.) Eu faço ele (Ríspida). Do início (As duas sentadas no chão). HELÔ/ESTUPRADOR – Minha menina! (Pega ela, beija, cheira, faz massagem nas costas enquanto conversa). Ficou com saudade de mim? CELICE/ CRIANÇA – Sim. HELÔ/ ESTUPRADOR – Pensei muito em você durante o inverno... CELICE/CRIANÇA – Eu também...
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HELÔ/ ESTUPRADOR – Eu penso em você mais do que gostaria! CELICE/CRIANÇA – Eu também... HELÔ/ ESTUPRADOR – Você está cada vez mais bonita. Impressionante. Para onde vai com tanta beleza? Dá um pouquinho pra mim... (Faz cócegas nela, levanta-se e pega um pacote.) Olhe o que eu trouxe para você! CELICE/ CRIANÇA (No chão.) ‒ O que é? Deixa eu ver? Me dá! (Fala sorrindo; ela de joelhos, ele em pé.) HELÔ/ ESTUPRADOR (Ele se senta) ‒ Tome. CELICE/ CRIANÇA – Que lindo! Bota aqui... HELÔ/ ESTUPRADOR – Deixa eu colocar! Dois corações... o meu e o seu... juntinhos para sempre... (Olhando nos olhas dela.) Heloisa, você se casa comigo? Eu espero você crescer. CELICE/ CRIANÇA (Atônita.) ‒ Sim. HELÔ/ESTUPRADOR – Que bom! Vou esperar você crescer, então. (Faz cara de quem espera.) Vou esperar? Estou esperando! Bumm... Cresceu? (Faz cócegas nela.) CELICE/CRIANÇA (Rindo.) ‒ Está bem... está bem... (Fica de pé.) Cresci. Pronto. Tenho 18 anos.
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HELÔ/ ESTUPRADOR – Bora se casar no jardim? Vamos lá, então? Quero lhe mostrar o local do nosso casamento. (Saída dos dois... Música acompanha o drama da cena.) FÁTIMA – Corta! (Fim da encenação. Muda a luz.) É o suficiente... que canalha! Escroto ele... muito escroto! CELICE (Se desfazendo do personagem.) CELICE (Para Helô, constatando.) ‒ Você amava ele. FÁTIMA – Mas está errado. Ele não poderia induzir Helô a sentir esse tipo de amor por ele. Escroto ele. Canalha. Muito escroto ele. CELICE – Não estou defendendo ele. Mas está claro que ele foi a primeira paixão juvenil de Helô. FÁTIMA – Não alimente isso, Celice... ela foi induzida a esse sentimento... claro que ela não o amava... HELÔ (Num rompante.) ‒ Eu amava ele. Eu amava ele com toda minha força... de um jeito que só uma menina de 13 anos é capaz de amar. Ele era o ar que eu respirava... Eu sentia febre quando o verão se aproximava, porque sabia que ele ia chegar... e adoecia no outono, quando ele ia embora. Por isso não conto essa história para ninguém. É angustiante lembrar que um dia eu gostei dele (Grita e as outras a acodem.) ‒ Estou bem... estou bem. Não sintam pena de mim. Não sintam...
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FÁTIMA (Longo silêncio.) ‒ Não é questão de pena, mas de entendimento. Imagino que depois do que lhe aconteceu você tenha perdido a confiança no outro. Como amar a partir disso? Como gozar a partir desse evento? HELÔ – Fátima, é possível ser feliz após um estupro, eu sou a prova disso. CELICE – Mas você não gozar é prova de que esse evento ainda precisa ser elaborado. Ele não está totalmente resolvido. FÁTIMA – Eu, com toda minha falta de experiência, eu gozo. Você não gozar é um contrassenso. Qualquer um que olhasse a gente aqui, agora, diria que eu não gozo, que você goza quando quer e que você é uma máquina de gozar. Tem algo errado aqui. HELÔ – Admito que tem. Mas não vamos resolver tudo hoje. O que importa é o processo, não é isso? Droga! Vocês vão olhar para mim com pena. (Afasta-se.) CELICE – Vaidade... Isso é o Ego falando. FÁTIMA – Não gosto desse tipo de foco. (Procura algo no bar.) Até porque o estupro não explica tudo. CELICE – Mas pode explicar muita coisa! HELÔ – Que seja! Levei anos para entender que a culpa não era minha... e que existe gente má no mundo! Eu só dei azar... Olha o que achei! (Abre um champanhe.)
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CELICE – Logo champanhe? HELÔ – Desculpa. Tem cachaça... CELICE – Ótimo! (Se levanta) – Pois é o que eu vou beber (Vai até o bar e se serve de cachaça). Bebida nacional! HELÔ – Acho que sua mudança vai fazer você mudar de voto. FÁTIMA – Não polemiza. Aí é outra sessão. Por favor... (Estende o copo e pede para Helô lhe servir.) CELICE – Um brinde a nossa coragem! FÁTIMA – Um brinde pela nossa força! HELÔ – Um brinde pela nossa confiança! FÁTIMA – Confiança é bom. (Bebem.) CELICE – Viver não é fácil... HELÔ – Viver é uma das coisas mais difíceis da vida (Pausa). Mas o melhor da vida é estar vivo!
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CELICE – Brindemos à vida! (Bebem muito.) FÁTIMA (Se serve de mais bebida.) ‒ Tenho que aprender a beber entre amigas, afinal, agora estou solteira! (Comemoram.) HELÔ – Será que Deus estava certo quando disse que não devíamos ter comido o fruto da árvore do conhecimento? Saber das coisas, sem dúvida, dá mais trabalho. (Desmaia no divã.) CELICE – Deus devia fazer análise. Ele falhou muito criando o ser humano. Ato falho/ Deus falho. FÁTIMA – Isso sempre me intrigou nessa metáfora bíblica... A meu ver, Deus falou do fruto da árvore do conhecimento porque já sabia que íamos comê-la. Ele só queria se certificar de que iríamos negar até o fim e ainda colocar a culpa no outro (Ri). HELÔ – Com certeza, porque senão não é ser humano (Todas riem). Negar até o fim e culpar o outro sempre. É o lema humano (Riem e brindam). CELICE – Princípio básico da sobrevivência... Negar e culpar o outro (Riem). FÁTIMA – Quer fazer um ser humano fazer algo? Diga a ele para não fazer (Riem).
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HELÔ – Mas Eva se fudeu! O pior castigo foi o dela; servir ao homem sem questionar, vá se lascar! FÁTIMA – Esses homens são espertos, escreveram toda a história do ponto de vista deles... surreal! CELICE (Sobe ao palco, coloca umas coisas na cabeça, pega um abajur e mira no rosto para parecer um ser divinal. Trilha grandiosa.) ‒ Adão! Adão! FÁTIMA (Faz Adão) ‒ Sim, Deus! CELICE/ DEUS – Adão, no meio do jardim tem a árvore do conhecimento do bem e do mal. (Helô procura algo para ser a árvore e acha um livro com Freud estampado na capa. Põe em cima de outro abajur, acende a luz, e a árvore toma aspecto de totem à psicanálise.) CELICE/DEUS ‒ Não coma do fruto dessa árvore, porque no dia que comer, certamente, você morrerá. (Adão faz menção de sair.) ‒ Um minuto. Não é bom que o homem esteja só; é perigoso... farei alguém que o auxilie e lhe corresponda. (Encenação do nascimento de EVA/HELÔ a partir da costela de ADÃO/ FÁTIMA. O Praticável gira. O ventilador faz os tecidos esvoaçarem. Trilha grandiosa. Mulher nasce.) HELÔ/ EVA (Vaga pelo Éden.) CELICE/ SERPENTE – (Celice se enrola em uma manta que cobre a poltrona de Boris.
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Faz a serpente). (Para Eva) ‒ Foi isto mesmo que Deus disse: “Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim”? HELÔ/EVA – Não. Ele disse: “Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim; a árvore do conhecimento”... Do contrário morreremos. CELICE/ COBRA – E você acreditou? Vá por mim. Ele teme que, no dia que comer, seus olhos se abrirão, e você, como Deus, será conhecedora do bem e do mal. (Olha a árvore/ totem exposta na sala.) (A cobra sai.) HELÔ/ EVA – Até que a árvore é agradável aos olhos, tem cheiro bom... Humm interessante (Abre o livro e lê). Muito bom. Venha, Adão. Venha ver.… coma desse fruto. FÁTIMA/ ADÃO – Hã?! (Mostra o livro para ele) ‒ Não, Eva. Vamos se fuder... Hummm (Ele lê.) Humm, que interessante... CELICE/ DEUS (Voz de trovão) ‒ Adão! Mas que absurdo, eu disse para não ler! Adão, você leu? FÁTIMA/ ADÃO – Li, mas foi Eva que me deu. CELICE/ DEUS – Eva! Você leu? HELÔ/ EVA – Li, mas foi a serpente que me deu. (Procura a serpente e não acha.) CELICE/ DEUS – Pois você vai sofrer ao parir e seu marido a dominará
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(Desfaz-se dos trajes. Quebra o clima). Pronto. Nosso inferno começou no paraíso. FÁTIMA – Todos nessa história mereciam fazer análise. HELÔ – Ninguém toma a responsabilidade para si! CELICE – A maioria empurrando a culpa para o outro. HELÔ – O erro de Eva foi achar que Adão estava preparado para comer a maçã... CELICE – Nota-se que a cobra é a única que age como uma cobra. FÁTIMA – “O inferno são os outros”. Sartre. HELÔ (Vasculha a estante.) ‒ Gente, o diário de Boris (As meninas reagem). Calma, eu não vou ler. Olha a capa (Mostra a capa com uma frase e a lê): “O fim da nossa exploração será chegar onde começamos e conhecer o lugar pela primeira vez”. T. S. Eliot. (Ela guarda o diário.) (Todos os telefones recebem mensagem. Elas correm para o celular.) FÁTIMA – É mensagem de Odete. Até que enfim! CELICE – Também recebi mensagem dela. HELÔ – Eu também.
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(Todas deixam os celulares no viva-voz. A mensagem é igual para todas. A voz de Odete surge em cânone.) (Voz em off.) ODETE – Dona Fátima, Dona Helô e Dona Celice (Choraminga). Não tenho uma boa notícia para dar. Boris sofreu um acidente e... (Chora) faleceu. Sinto muito dizer desta forma... (Chora) O velório será amanhã pela manhã. Mandarei o endereço por escrito. (Fim da mensagem.) CELICE – É isso? Acabou? HELÔ – Não sabia que analistas morriam... FÁTIMA – O teatro acabou. (Elas se abraçam. As luzes se apagam.) FIM
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Sobre a autora Graduada em Artes Cênicas pela UFBA (1997). No teatro fez Fale-me de Amor, de Sérgio Farias (Prêmio de melhor atriz no Festival Nacional de Florianópolis); A Casa de Eros e Ensina-me a Viver, de José Possi Neto (Prêmio Braskem de melhor atriz coadjuvante). Colaborou no roteiro da peça Uma vez, nada mais (Direção de Hebe Alves e Prêmio Braskem de melhor atriz e melhor espetáculo); Alvoroço e Alvorocinho e assinou a dramaturgia das peças Mistério no Museu, Apartamento 1201 e As barrigudas. No audiovisual colaborou no roteiro do documentário Trieletrizado, de Jorge Alfredo (TVE) e no argumento da série Meu irmão Nerd (Direção de Cecília Amado, pela Amazon) e assinou o roteiro de O Mundo Acabou? (Web-série e curta). Como atriz no audiovisual atuou na novela Gabriela (Globo); Depois da chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes; Irmã Dulce, de Vicente Amorim. Abaixo a Gravidade, de Edgar Navarro; Francisco só quer jogar bola, de So
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Coordenação geral: Claudijane Palma Comissão de avaliação Ano III Cássia Dolores Costa Lopes - gênero: Dramaturgia. Fernanda Maria Brito Gonçalves Almeida - gênero: Categoria livre. Hugo Brito Canuto Oliveira - gênero: Literatura infantil. Lindinalva Amaro Barbosa - gênero: Conto. Luciany Aparecida Alves Santos - gênero: Poesia. Marcus Vinicius Couto Rodrigues - gênero: Crônica. Victor Uchoa Firmo - gênero: Romance. Títulos participantes do Selo João Ubaldo Ribeiro Ano III A história do Bicho-Folhagem – Stael Mamed (Literatura infantil) Alimentando as Feras – Aícha Marques (Dramaturgia) As Fotos Roubadas – Breno Fernandes (Romance) A travessia do grão profundo – Paulo Atto (Dramaturgia) Efemérides – Márcia Monteiro (Categoria livre) Fuxico, resenha, mexerico nas esquinas e buzus de Salvador – Daiana Soares (Crônica) Sobre quatro patas há um lugar seguro – Aruane Garzedin (Conto) Soprando o vento – Tiago D. Oliveira (Poesia)
Aícha Marques 1ª Edição
Edição e organização: Fernando Oberlaender Ilustrações internas e capa: Bel Borba Projeto Gráfico: Fernando Oberlaender Diagramação: Neilton Oliveira Revisão: Rita Canário Produção Editorial: Caramurê Publicações Impressão e acabamento: Gráfica JB Ltda. Esta é uma obra de ficção. Quaisquer semelhanças com personagens ou situações da vida real é pura coincidência.
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