O selo João Ubaldo Ribeiro é um prêmio que vai muito além da publicação de livros, visa abertura de caminhos, de oportunidade, de afirmação de talentos e carreiras. É incentivo à leitura e valorização dos escritores baianos. A cada dois anos são lançados oito novos livros que são doados para bibliotecas públicas de Salvador e da Bahia. Esse prêmio faz parte do Programa Caminhos da Leitura, e é promovido pela Prefeitura da Cidade de Salvador, desenvolvido pela Gerência de Biblioteca Livro e Leitura da Fundação Gregório de Matos.
livro
Dia do
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 1
25/07/2022 16:57:45
2
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 2
25/07/2022 16:57:45
Paulo Atto
EPP Publicações e Publicidade Ltda. 1ª Edição Salvador/Bahia - 2022
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 3
25/07/2022 16:57:45
Coordenação geral: Claudijane Palma Comissão de avaliação Ano III Cássia Dolores Costa Lopes - gênero: Dramaturgia. Fernanda Maria Brito Gonçalves Almeida - gênero: Categoria livre. Hugo Brito Canuto Oliveira - gênero: Literatura infantil. Lindinalva Amaro Barbosa gênero: Conto. Luciany Aparecida Alves Santos - gênero: Poesia. Marcus Vinicius Couto Rodrigues - gênero: Crônica. Victor Uchoa Firmo - gênero: Romance. Títulos participantes do Selo João Ubaldo Ribeiro Ano III A história do Bicho-Folhagem – Stael Mamed (Literatura infantil) Alimentando as Feras – Aícha Marques (Dramaturgia) As Fotos Roubadas – Breno Fernandes (Romance) A travessia do grão profundo – Paulo Atto (Dramaturgia) Efemérides – Márcia Monteiro (Categoria livre) Fuxico, resenha, mexerico nas esquinas e buzus de Salvador – Daiana Soares (Crônica) Sobre quatro patas há um lugar seguro – Aruane Garzedin (Conto) Soprando o vento – Tiago D. Oliveira (Poesia) Paulo Atto 1ª Edição
Edição e organização: Fernando Oberlaender Ilustrações internas e capa: Lígia Aguiar Projeto Gráfico: Fernando Oberlaender Diagramação: Neilton Oliveira Revisão: Rita Canário Produção Editorial: EPP Publicações e Publicidade Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica JB Ltda. Esta é uma obra de ficção. Quaisquer semelhanças com personagens ou situações da vida real é pura coincidência.
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 4
25/07/2022 16:57:45
Depois do mundo Lugar da gente Do grão profundo Da terra quente Paulo Vasconcelos / Tenison Del Rey “O Sertanejo”
Para Celina Lopes Nuno, Enedina Chaves Batista e Eldésia Hermínia de Souza In memoriam
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 5
25/07/2022 16:57:45
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 6
25/07/2022 16:57:46
O
lançamento da coleção do Selo Literário João Ubaldo Ribeiro – Ano III reafirma a importância do investimento na produção literária de Salvador e consolida esse programa como referência de incentivo à leitura e como política de inclusão e promoção dos nossos escritores e escritoras. São oito obras escritas por soteropolitanos, editadas por uma editora soteropolitana, abarcando gêneros como romance, poesia, crônica, conto, literatura infantil, dramaturgia e gênero livre, distribuídas gratuitamente ao público e às principais bibliotecas de Salvador. Será lançada também uma versão digital no site da Fundação Gregório de Mattos. Essa ação fortalece a identidade do nosso povo e movimenta a economia local, abrindo espaço para nossos criadores literários. Lançado em 2014, o edital Selo Literário João Ubaldo Ribeiro já selecionou e publicou, em suas três edições, 24 obras, todas escolhidas por comissões de profissionais consagrados na área. A Coleção cumpre o disposto no Decreto Municipal 24.883 de 02 de abril de 2014, que instituiu o Selo, e dispõe que “incumbe ao poder público garantir a todos o acesso às fontes de cultura, apoiando e incentivando a produção, valorização e difusão das manifestações culturais”, consoante com o art. 262 da Carta Orgânica Municipal e as diretrizes da Lei 8.551/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Cultura. Quero agradecer a todos os envolvidos na criação, no fortalecimento e na continuidade desse projeto, com destaque para a equipe da Gerência de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura da Fundação, coordenada por Jane Palma, e à Comissão de Avaliação, que selecionou as obras. Boa leitura! Fernando Guerreiro Presidente da Fundação Gregório de Mattos
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 7
25/07/2022 16:57:46
Prefeito Bruno Soares Reis Secretária Municipal de Cultura e Turismo Andrea Almeida Mendonça Presidente da FGM Fernando Guerreiro Chefe de Gabinete Patricia Lins Assessora Chefe Viviane Vergasta Ramos Assessor Técnico Plutarco Drummond de Magalhães Neto Gestor do Núcleo de Tecnologia da Informação Clidério Evangelista Bastos Assessora Jurídica Kaiale Santos Araújo Gerente Administrativo-Financeiro Gildete Nascimento Ferreira Diretora de Planejamento e Projetos Culturais Silvia Maria Russo de Oliveira Gerente de Promoção Cultural Felipe Dias Rêgo Gerente de Equipamentos Culturais Chicco Assis Diretora de Patrimônio e Humanidades Milena Luisa da Silva Tavares Gerente de Patrimônio Cultural Vagner José Rocha Santos Gerente de Bibliotecas e Promoção do Livro e Leitura Claudijane Pereira Palma
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 8
25/07/2022 16:57:46
Sumário
Nota do autor ..........................................................11 Cena 1 – CALOR .....................................................13 Cena 2 – A PASSAGEM DAS HORAS .................15 Cena 3 – A RAZÃO DA TRAVESSIA ...................17 Cena 4 – A MENINA..............................................21 Cena 5 – A VELHA DONIA...................................25 Cena 6 – A CARNE..................................................33 Cena 7 – ORAÇÃO DE MENINO .........................37 Cena 8 – O BICHO-FERA.......................................43 Cena 9 – O PAI ........................................................47
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 9
25/07/2022 16:57:46
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 10
25/07/2022 16:57:46
O
grão profundo é a afirmação de uma identidade e uma diversidade cultural nossas. O menino Zinho vê seu pai abandonar a terra em que viviam. Já adulto, o jovem, movido pela angústia da perda, saí em busca do pai. A viagem que empreende pela caatinga proporciona o confronto com seus medos e bravuras, o amor e o sexo, sua religiosidade difusa e as gentes feitas de “poeira e sol”. A sua travessia/narrativa está encharcada de lirismo e da visão onírica do seu mundo, fundindo fantasia e realidade nas profundezas do sertão mítico. Zinho nos conta com seu linguajar e seu imaginário essa trilha e seus percalços, inventando e recriando palavras, reproduzindo expressões sertanejas que o autor ouviu de sua avó, aqui a Velha Donia, misturando um português arcaico a expressões populares, mergulhando no prazer carnal entre a natura pura e o desejo sacro, “porque o sagrado tá na vida, eu sei!”, ali na “gruta verde dos umbuzeiros”. Embebida pelos sons da caatinga e por um calor severo, a jornada de Zinho é a travessia de si mesmo. Paulo Atto
11
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 11
25/07/2022 16:57:46
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 12
25/07/2022 16:57:46
Cena 1 – calor (O jovem Zinho caminha cansado em meio à caatinga e ao sol causticante balbuciando expressões desconexas. Onomatopeias e sussurros substituem as palavras. A única palavra audível claramente é “Calor”.) ZINHO – Calor! Calor! Calor! Vixe. Epa. Num chove. Nem uma gota... Calor! Calor, moço. Feijão não dá mais não. Planto nada. E cebola também, é saco, saco, saco! O teu gado morreu? O meu insiste. Nem palma a gente tem... (Cenas recorrentes sem texto. O jumento empacado. Tangendo bicho. O sinal da cruz. Gestos nos quais se exprimem o imenso efeito do calor.) (Zinho se arrasta, lentamente, cobrindo o rosto com um chapéu que seu pai deixou para ele.)
13
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 13
25/07/2022 16:57:46
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 14
25/07/2022 16:57:46
Cena 2 – a passagem das horas
(Projeção. Imagens da caatinga, paisagens desoladas, bichos soltos, pôr de sol. Música.) TEXTO EM OFF: O sol derrete lentamente a paisagem sem gestos. Cancelas abertas. Caminhos fechados. Não anoitece em lugar algum da mata branca. O vento brinca como menino em paisagens imóveis. Há em todos os viventes um desejo de água. Como um testemunho de fé ela virá da chuva. É a água do céu que a terra abriga como a lágrima que o tempo instiga, a memória fabrica e o corpo comemora.
15
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 15
25/07/2022 16:57:46
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 16
25/07/2022 16:57:46
Cena 3 – a razão da travessia
Sim. Sim! Vou contar ao sinhô tudo que me alembro sem esconder nada. Apertando minha memória pra recordar de todos os acontecidos quando saí de viagem em busca de pai por este mundo de Deus. Conto tudo que se assucedeu. Sem tirar nem pôr. Não digo nem desdigo que esse homem — meu pai — era um desinfeliz sem razão. Se por sua própria cisma desatinou sua sina de perdição. Desrazoado. Escapuliu pelo mundo num lombo de jegue sem nunca mais dar notícia nem lembrança. Saiu por aí montado no nosso Chiquinho, o burro que vivia lá na roça comendo raiz e roupa estendida. Ai, Chiquinho! E dessa mesma sina, no modo de viver perdido e apartado de tudo, eu fiz pra mim todo o tento, padecendo do mesmo destino, do mesmo jeito, na mesma coragem.
17
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 17
25/07/2022 16:57:46
Aqui comigo levo pouca coisa e de variado mesmo só a roupa de festa de pai e este chapéu velho. A sua roupa de gala de vaqueiro, que era seu orgulho e encantamento. Deste homi não tenho juízo firmado, mas meu pai ele é, e para o sempre será. A ele devo ao menos a gratidão da existência. Por isso sigo caçando esta criatura como fugitivo por esta terra de poeira e sol. Pra mó de quê? Ora, pra mó de nada. Mas quá... Sem desrazão nenhuma. Havera de ter alguma? Eu sei lá... Pra no encontro me achar nos seus olhos, pra marejar uma lembrança de menino... pra lhe pedir benção e consentimento: bença, pai! Quem sou eu pra ajuizar sentença? Que eu! A vida destrata o modo da gente sonhar o destino. O que será que é feito de tudo que a gente sonha? A vida tem seus planos. Vixe. Nem um se apercebe de nosso juízo, num se acabrunha diante de nossos desejos. Queta! Vai mesmo levando este existir aí, a esmo, sem importar vontade de ninguém. O homi era um bruto! Mas se bruto ele era, inda meu pai era também, por gosto ou desgosto, e isto havia de ser pelo sempre de meu Deus. O primeiro antes de arribar viagem foi de pedir benção a mãe e a Deus. Pois que sempre valha meu nosso sinhô meus passos nessa caatinga de pó e alma. Que nessas
18
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 18
25/07/2022 16:57:46
paragens sempre num me falte meu jesusinho, que nunca me abstenha, que nunca me estranhe, que nunca me desapanhe nem desgarre, porque na sua farta só resta minha faca bem amolada, e fé no brilho da ponta de minha menina num decido não, é ela que me leva, que me desgoverna, se não por minha mão e vontade por culpa do sol na moleira, que vai cozinhando o juízo do cabra e desmiola o sujeito, que fica cegado do seu brilho, como um lampejo de sol que corre na ponta da desdita. E assim se assucedeu. E por aí fui eu. Aprumado nos passos no encalço de pai. E foi como te digo. Desse jeito que vou te contar.
19
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 19
25/07/2022 16:57:46
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 20
25/07/2022 16:57:46
Cena 4 – a menina
Num sou de causo, mas me alembro dos muitos acontecidos. Me alembro e já me esqueço. E assim meio desmemorado ainda lembro direitinho do dia que tava metido e apertado num terno de traça e fui acompanhar meu cumpadi Socó lá no fórum da cidade. Hum? Socó, homi. Filho de Doca que é coxo da perna, primo terceiro de Binho do Bar e neto de Dona Jana, que já morreu... Apois, é esse mesmo! Então. Num é pra me gabar, não, mas eu me caprichei. Tava todo aprumado no linho, com meu sombreirinho de palha fina, fivela ajustada no umbigo, dessas que têm a cara do boi, e sapato de verniz lustrado. E treis anel. Em cada mão! Tava no capricho. Vixe! E pra mó de proteção levei comigo minha menina. Nunca se sabe... E por que não havera de levar comigo
21
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 21
25/07/2022 16:57:46
minha menina bem achegada na minha cintura? Dela num me separo, e deste jeito entrei naquele tal prédio do Fórum da cidade. Tava na educação e nos conforme do lugar e num é que aparece na minha frente um homem agravatado, todo apertado num terno preto, estilo ‘tora ovo’, que me falou com voz de besta: “O senhor está armado! Aqui é o Fórum da cidade, não pode entrar aqui assim. Ordeno que me entregue esta faca imediatamente!” De lampejo fiquei apoquentado! E já ia entregando a minha menina quando minha cabeça sustou e de estalo lhe perguntei: E quem me pergunta? Quem é vossa senhoria mesmo? E ele todo empertigado disse: “Sou o Juiz da Comarca de Lagoa Seca e Mulungu da Serra”. Num átimo trouxe de volta pra minha cintura minha menina. E lhe disse sem piscar: oxi, oxi, oxi, oxi, oxi! Mas quá! Achei que o senhor era um puliça! Me dá de vorta minha faca que juiz não é ninguém! Tomar minha faca, vai tomar no teu... E dali escapuli sem deixar rastro! O doutor ficou lá parado com cara de besta. Nunca mais vortei. Saí foi amolestado daquele negócio. Vou dizer uma coisa aqui, de amigo pra amigo, esse negócio de Fórum de justiça né lugar pra gente decente não. Se já foi num vorte e se nunca foi nem vá! Esse foi um dos últimos acontecidos antes da
22
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 22
25/07/2022 16:57:46
travessia. Isso foi antes de eu sair por aí, no ermo, embrenhado pela caatinga, no intento de achar pai! Esbarrando em meio mundo de gente e de bicho. E de muitas espécie de bicho e de gente, foi tudo que vi. Passando por cachoeira, capão, vereda, rio e capoeira. Me metendo em cada gruta! Umas que eram daqui pra ali. Umas que fica só os pezinhos de dentro e o corpo de fora. Tenteando as rochas no silêncio grosso da noite. E vendo tanta coisa tão espantosa que o sinhô num ia nem acreditar. Vi gente que parecia feita só de ossos e poeira. Gente que errava pelas eiras e beiras que nem alma descarnada. Meu jesusinho! Assombração o sinhô ia dizê? Mas dou meu testemunho que era gente humana. Muitas com sabedoria, tino e mãos de cura. Como a Véia Donia. A velha mais esperta que encontrei nestas capoeiras. Véia Donia que conhecia de cada folha e as suas devidas curas. Véia Donia e seu sorriso amarelo de malícia. Seus olhinhos de muito saber. Sempre com uns gravetos nas mãos escrevinhando coisas no chão. Cega doida...
23
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 23
25/07/2022 16:57:47
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 24
25/07/2022 16:57:47
Cena 5 – A velha Donia
(O ator deve trocar de roupa na frente do público e transformar-se na Velha Donia. Ela arqueada. Falando onomatopeias. Risos. Muxoxos. Expressões dela.) A Velha Donia tinha seus muitos saber e olhava a gente no fundo das brenhas de nossa alma. Seu olho não piscava, nem desviava sua vista de nossa prosa. Tava sempre investigando, assuntando o sujeito. Toda entrupigaitada. Era uma velha desvariada de seus mais de cem anos. O corpo moqueado, a carne curtida nas carreiras do desconhecido, mas brava que nem aroeira. Vivia catando folhas, tralhas, de esqueleto e pena de bicho a pedregulhos da caatinga, tudo pra seus benzimentos. Coisa que fazia gente se rastear de lonjuras pra ser benzida e ter consulta com a
25
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 25
25/07/2022 16:57:47
velha. Diziam que sarava de tudo: de mal de cabeça a quebrante. E ainda mau-olhado, que todo mundo sabe só é curado através de reza bem dita nos melhores ditados e conformes. Eu cheguei esfalfado no seu roçado, gasto de pelejar sem norte por toda mataria, rompendo touceira de quiabento, raspando cansanção e urtiga. Adernei no seu terreiro, embaixo de um pé de bugalho, e ela veio com a sua latomia se cercando de mim... E me esmiuçava... E pedia: “Prova da minha garapa, Nem? Oh! Nem. Prova da minha garapa!” (TEXTO EM OFF REPETIDO: “Prova da minha garapa, Nem? Oh! Nem. Prova da minha garapa! Num se avexe, não. Só no gole gole. Prova, Nem...”) (Transição para Velha Donia. Velha Donia recita o benzimento.) Com dois te botaram com três eu te tiro depois te levanto e te ponho adiante. São Salustinano te tire o quebrante São Miguel Arcanjo que dê tua desforra, nas tuas veias teu sangue purificado Nossa Senhora te dê aforra Que depois de benzido estarás curado
26
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 26
25/07/2022 16:57:47
Deus te viu, Deus te criou, Jesus que te livre do mal e de quem te botou E assim, com este sinal, tiro o mau-olhado de riba Que Nosso Pai seja saudado de cima de sua estriba São Francisco de Assis, Glorioso Francisco divino, Dá a esse moço seu destino Por esta cruz estarás defendido Deus te livre do marvado maligno Amém! VELHA DONIA — Tu tá melhor, Nem? Tu tá muito esmerdeado. Parece que fugiu de Boquira, correste de um cristé? Ou foi cuspido da sambiquira? Levou uma surra, foi, seu pingarelho? Vixe. Vixe. Tu tá cheirando a cu de bode velho. (Risos) (Reza) Senhora Santa Sofia tinha três fias: uma lavava, outra cozia, outra em chama de fogo se ardia. A mãe perguntou pras fia: com que se curava, com que se curaria? Com o untó do porco e o pó da guia? Com os culhão do boi e o tixé da gia. (Risos) Tá miorando, Nem? Tu tem que ter muito tino pra errar por estas capuava. Aqui recebo pouca gente,
27
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 27
25/07/2022 16:57:47
posso até contar nos dedos: já teve um mangaio notário chegado de muitas léguas, alguma gente perdida, povo com moléstia e ferida, muié de dois amantes querida, dessas veio um bocado. E até um sujeito sinsfrônio com umas queixadas de pacaçu, apanhado num terno cáqui, feito um soldado, mas esse coitado era corno e pra isto não tem benzimento. Eu mesma lamento. Santa Luzia me valha! Uma vez corno, num há zebedeu que se alivre das gaia. Nem com reza e nem lambança de pau lavrado, de pau-ferro, de pau de taca, de pau de peia e pau de mandioca. E de todos os outros paus conhecido e desconhecido. Pode juntar os paus todo numa cruzeta. Que a mulher corneira fica até zambeta, mas num deixa de seguir seu destino. Quando resolve que vai se oferecer a outro sujeito é promessa que cumpre com louvor e tino! Chifrudo uma vez, chifrudo sempre! Juro pelo fiofó da Luzemar que corno no mundo nunca vai de acabar! Pois é, Nem. No final acho até que veio muita gente! Juro pelos fios de minhas veias que já vi de um tudo nessa peia. Coisas do coração sustar. A vida tem seus espanto! Não tem um só que não tremeu nem tropeçou neste lajedo, o que sei com toda certeza te digo sem arremedo: quem tem fiofó, tem muito
28
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 28
25/07/2022 16:57:47
medo! (Risada) Me disculpa o palavrório, viu, Nem! A Velha Donia já tá muito gasta. Tem mais tempo pra compostura não. Tem nada! Por isso rezo todas as noites por estas caiporas perdida. Porque pra tudo neste mundo existe benzidos. Tenho rezas e benditos pra espinhela caída, cobreiro bravo, dor de tutano, vento caído — que é das coisas mais difícil de tratar —, carne triada, isipela, variza, queda de cabelo, inchaço de binga, escorrimento de xexeca e caganeira braba. Tenho reza forte pra espantar mosquito, abeia, besouro, percevejo, carrapato, mosca e grilo. E até largata e broca de plantação eu tiro. Deixo tudo benzido, mas eu mermo faço é nada, quem faz é Deus Nosso Senhor Jesus Cristo! Se tiver bicho na plantação, eu rezo minhas quadras e pode apanhar as favas, pode descalpelar o algodão, pode arar tudo que a praga: sinisfrói! Vai embora. Se pica! Te digo tudo isto pra mó de saber que Dona Donia tem suas mãos de cura. Tu vai miorá depois de beber dessa infusão de garapa que o sol azedou no oco da minha cabaça. Primeiro tu vai sentir um azedume e até um cheiro de xoroca! Num se assuste não.
29
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 29
25/07/2022 16:57:47
Tu tem que tomar de toda a infusão pra dar uma suadeira. É o suor da vida! Depois passa a suadeira e o azedume é um gosto esquecido. Aí tu cumpre teu destino. Tu num é moço de coragem rala. Risca o teu rumo. Sei de tua procura, viu, Nem. Sei de tudo. Tu é um moço que especula muito com tua cabeça. As gentes daqui são gado demais! Um rebanho de gente frouxa. Povo mofino! Fracalhão. Tu não! Tu é muito brioso e desempenado. Mas escute meu aviso: tua busca é por coisa que tu ainda não sabe. Acolhe o que te digo: nem rastro nem rosto deste teu pai tu vai achar. Assunte: nem sempre a gente procura o que quer encontrar... Desassuste, agora a garapa vai fazer efeito. Se aprume no chão. Pronto, tá feito. (Cantando) Pelas cinco chagas de Cristo. Pelas cinco partes do mundo. Pela pena de São Mateus. Dou só o que Deus me deu. Jesus quando andava no mundo, tudo que achou levantou. Alevante o quebrante do moço com o vosso divino amor! (Velha Donia se vai. Retorna o filho errante, Zinho.) Essa coisinha pequena, distraída, se arrastando aqui e ali embaixo do sol, se escondendo, deslizando
30
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 30
25/07/2022 16:57:47
no tempo que é puro conforto, eu podia ter ficado estendido lá na roça num catre velho feito calango, ou no chão, com a carne curtida esperando meu pequeno bocado que a vida sempre dá. A Velha Donia tava certa? O que é mesmo que eu fui buscar? Mas alguma coisa eu encontrei por lá. Foi no terreiro da Velha Donia que esbarrei nela, na minha promessa. “Brisa” se chamava. A moça já carregava no nome o seu destino: Brisa! Com ela veio o desatino e o bafejo do amor
31
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 31
25/07/2022 16:57:47
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 32
25/07/2022 16:57:47
Cena 6 – a carne
Ela era toda uma prosa florida e muito doce nos seus modos; quando pisava distraída no chão do terreiro meu coração chega balançava, era gangorra de pau d’arco amarrada com cipó fraco, mas era nessa caída que eu me sustentava, as duas pernas como gravetos espetados no lajedo imenso, firme por fora, tremendo por dentro. Sacolejava em mim umas vontades de carne, desejos de esquecimento, coração trovejava um desbalanço, mas não fraquejava, ficava só neste arrupeio, como um cãozinho, latindo por uma promessa. E eu logo fazia o sinal da cruz pra bendizer aqueles pensamentos fora de razão. Afinal o que me dava aquele sentir sem motivo? Desrazoado de todo o juízo, achei até que, se aquilo se não fosse loucura pura era uma
33
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 33
25/07/2022 16:57:47
revelação, porque o sagrado tá na vida, eu sei, e eu com todo respeito e cerimônia sempre tive meu zelo pelas coisas do céu, mesmo que nunca fui de promessa nem de acerto, prometi nada, pra seu ninguém, nem pra pai, nem pra mãe, nem pra ela, nem pra mim mesmo, esses acordo nunca me pareceu justo com o que é santo, mas devoto fui de minha vida merma, só tinha devoção pela minha vida e por meu chão, e foi como digo, assim... até encontrar ela... E prometer nada era nosso chamego, nunca fiz promessa de casa nem de boda nesses conformes da mocidade de quem tudo deseja, nada disso eu fiz, ficava só nos pormenor, nos olhar de esguelha, num modo de ser distraído, roubando aqui e acolá uma atençãozinha ou um sorrisozinho, no jeito de tocar os dedos pra entregar uma erva, no chazinho no fim da tarde em cima do banco de couro, ela assentada esperando o brotar da lua, toda querendo ser uma cor do ângelus. Ela sempre assim: de soslaio, cheia de aleivosia e mistério. Ah! Mas ela se ria. Ah! Se ria! E naquela boca se rindo, nisso bastava minha alegria. A minha promessa foi só um silêncio só naquela noite da vereda da lua vermelha, com o céu estampado só pra nós dois, um escar-céu de bandeira estrelada, um infinito escancarado de nossas promessas, assim era nós estirados naquele chão, pronto pra um mergulho.
34
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 34
25/07/2022 16:57:47
E assim foi, e assim se assucedeu, como te digo, ali embaixo daquele umbuzeiro do Caruá, por dentro do oco dos seus galhos, foi ali naquela gruta verde que deitamos na terra coalhada de umbus maduros, todos espapaçados... aquele chão todo molhado, derramando um cheiro de gostosuras de suas polpas. E a luz da lua trespassada pelos galhos, se intrometendo em nosso segredo: xiiii... Minha boca selou aquele destino num silêncio respirado, mordendo sua língua quente com uma respiração de mil palavras, de mil desejos... Os meus dedos cegos e avexados acharam depressa o caminho do seu umbigo e melados do umbu maduro foram se aconchegando e se perderam nas suas profundezas. Meus dedos cavaram a semente daquele segredo. Minha língua toda mergulhou naquela polpa. Tomei coragem e numa suspiração funda montei nela como quem amansa um alazão selvagem. Mergulhei naquela carne e um gozo riscou meu ventre com cheiro de umbu e mulher misturados. Pronto, pensei: eu sou dela e ela é minha! Mas não foi! “Ela minha” era um engano, bestage! Mas a ilusão daquela promessa colheu meu coração para sempre. E foi aí que eu me perdi na carne dela, foi assim, como te digo: sem palavras, sem promessas, assim um do
35
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 35
25/07/2022 16:57:47
outro derramados, frutos misturados em sumo, polpa e carne. Eu para sempre seu devoto e ela a minha devoção... Até aquele dia em que ela se perdeu na estrada. Sei lá como foi isso, homi. Maluqueceu com a quentura do sol. Só pode. Desatino. Coisas que são como a morte. Foi na miragem de um mandacaru em flor que minha promessa se foi e nunca mais voltou. Será que é isso que chamam de amor? Nada! O amor mesmo é só uma miragem! (Música)
36
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 36
25/07/2022 16:57:47
Cena 7 – oração de menino
(Transição. O ator veste roupas de criança. Zinho menino corre com uma pipa. Prende-a na árvore, desenterra um cavalinho. Brinca com o bicho.) ZINHO MENINO – Passarim, ô passarim, tu que tá nas estriba de riba, encontra pai pra mim? Bate as asinhas e vigia cada cantinho dessas brenhas de mata. E vem rapidinho grugulejar o acontecido. E faço uma jura contigo. Oia meu badogue, tá vendo aqui? Tá sem pedra. Agora esse badogue só atira flor, tá vendo, passarim? Uma florzinha pra lá, outra pra acolá. E mais um monte! Tziu!Tziu!Tziu! Com esse meu badogue de flor quero selar minha jura contigo. Voa, pipiuzinho, até as extremas do mundo. Oia, flor atirou! Oia,
37
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 37
25/07/2022 16:57:47
atirou flor! Tziu!Tziu!Tziu! Vai voando que eu fico aqui embaixo desse abacateiro. Trespassando reza até pai voltar. (Voz feminina de fora chamando: “Zinho”) Dezinha. Me deixa, mana! Vou agora não, Dedeta. Ô, maninha, tô com meu cavalinho! Na montaria, trotando (Simula montaria e galope). E depois inda vou tomar banho no poção de Dotô Zoroélio. Poção, não. Piscina! É a piscina da gente, né, Dé? Eu sei que a água tá verde, mas faz mal não. Tá podre nada, é só limo! Tem piaba dentro! Tem tanta piaba que até belisca a gente. Só tomo banho de calção, senão periga elas beliscar minha binga (Risos). Oxi, a binga é minha, eu cuido é dela! Saí daí, Dé. Se mete com minha binga não! (Trotando) Dé. Ô Dé, avisa a mãe que vou já (Trotando). Mas tu sabe que vou não, né? Que mané tarde. Tarde nada. (Vendo a amiga Bel de forma imaginária) E sabe quem chegou aqui agorinha? Foi minha comadre Bel. Sai daí, Dé, ela é minha comadre, sim, a gente pulou a fogueira junto na derradeira noite de São João. Fica aí, besta! E foi pulada treis veis certinha pro compadrio ser forte. Tô aqui prosando com ela. Sim, Bel, a muda. Filha de D. Aída do bandolim. Pois tô prosando com ela.
38
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 38
25/07/2022 16:57:47
Prosando, Dé! Oxiii, sei que ela é muda, mas a gente conversa. Conversa sim! Eu entendo tudinho que ela diz. Só que ela fala de outro jeito. Ela fala assim com as mãos, com os pés, com os braços, com a cabeça e até com os zoios. Tá bom! Ela num diz palavra, mas faz assim trejeito, careta e som! E os sons eu entendo é tudo. É sim, Dé. Se ela tá feliz, ela faz assim, ó (Faz o som da emissão de voz de Bel, a muda, sem palavras). Tá vendo?! E se tá triste (Som). E se tá cismando (Som). Se quer é assim (Som). E se não quer (Som). Na dúvida, faz desse jeito (Som). Tá vendo! Nóis se entende é muito. (Vira-se para a Bel imaginária) Ô Bel, tem que ir, né? Mãe tá chamando! Sei como é (Faz um aceno com um som para se despedir de Bel). Eu não queria falar na presença dela porque eu sou respeitoso. Mas Dezinha, quando ela tá com raiva é diferente de tudo: é medonho! É assim (Faz gesto e som assustadores). Dá até um arrupeio! Sabe que foi desse jeito igualzinho que ela chiou na vez que Dita, de Seo Melquia do Curralinho, pegou nos peitos dela. É. Ele disse que ia brincar de esconder, deixou ela distraída. E aí, quando ela começou a contar de zóios fechados, tadinha. O remanchão buliu com as mãos gulosa nos peitos dela e saiu picado. Eu?! Eu não! Foi Dita. Juro e rejuro que num fui eu! Oxi, Dedeta. Tô dizendo, minha irmã. Juro picado e piripicado. Eu até
39
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 39
25/07/2022 16:57:47
aumento, mas não invento nada. Ela chinelou atrás de Dita feito fera doida, e as peitchola balangando prum lado e pro outro. E todo mundo se rindo. E prum lado e pro outro. Dita se escafedeu. Esse Dita é assim: cheio de arte! Matreiro. Bel tava tão descaramunhada que quando quietou estalou um grito (Faz o som). Eu até hoje tenho comigo que ela gritou: fio de puta! (Risos) Eu? Eu não, viu! Me respeite, Dezinha! Eu não ando com Dita, não. Ele é da turma dos maior. E também num sou amigo de quem é amasiado com jumenta. Esse fio de rapariga! É sim, ele faz coisa com a égua de Seo Neném. Os menino todo diz. Ele se bandeia lá pras cercas de Seo Neném com um tamburetinho nas mãos. Nem se acabrunha. Pois então... E aí me diga: pra mó de que esse tamburete? Hum... Hum? E fica com a bicha um tempão, os dois deslavado embrenhado no matão. E sabe como ele chama a jega? “Minha potrinha” (Risos). Pois eu cismo que ele é um jumento pra ela. A verdade mais verdadeira é que a bichinha da jega num pode vê Dita que sai relinchando atrás dele. E bafeja demais quando vê o sujeito (Relincha). A gente fica até com pena da jeguinha! Deve de ficá com saudade dele, né, Dedeta. Assim são as coisas! Os dois tão diferentes e a égua num pode se vê apartada daquele tongo. Vai entender o amor! Essas coisas do coração se explica
40
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 40
25/07/2022 16:57:47
não. É jumenta com Dita, é gato com galinha, é cadela com porco. Dizem até que já viram saruê com gia. Tá tudo assim, destrocado. Os meninos fundam nos matos pra ficá de lá zoiando. Eu? Eu mesmo não! Eu juro que nunca fui! Eu? Juro, Dé. Pela hóstia divina! E Seo Neném desconfiado já descobriu o causo e tá bravo que nem ichu. Tá na intenção de Dita pra lhe dar um corretivo. Seo Neném! Oxi, conhece não?! Tu num conhece é seo ninguém dessas banda! Tem que andar mais comigo. O homi é um pereço, Dezinha. Mãe corre dele que se péla. Por quê? Espie: ele é faiado dos dentes e vive com a dentadura nas mãos. Apois, é esse mesmo. Cada vez que esbarra em alguém, rapidinho Seo Neném enfia o pivô na boca e com a mesma mão da dentadura quer cumprimentar o sujeito e puxar prosa. E aquela mão ensebada e babenta da dentadura dá uma agonia, dá um engulho! Virge! O povo vive se escapando dele. Dona Celina, lá da rua da Linha, a que tem o armarinho e a janela de doces, se escapa dele por detrás da cerca e ele passa falando: “Bom dia, Dona Celina, como vão os meninos? Tá se escondendo dos netinhos, né?”. Oia o cabra como é. Nem se apercebe! Assim são as coisas! Mas a gente toda afirma e afiança que na mocidade foi homi de muitas galhardias, bravuras
41
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 41
25/07/2022 16:57:47
e acontecidos. Homi ardido de pegar onça com os dentes. Será que assucedeu assim do pobre ficar desdentado? Todo xexelento! Quem imagina que este perreco banguelo foi um dia um bravo cavaleiro? Testemunham: tinha coragem que nem pai... Ai, Dé. Por onde pai andará perdido? Ocê tem saudade de pai, Dedeta? (Silêncio) Homi desassustado e atirado tava ali. Sempre se alembro que pai me repetia: “Filho, nunca tive medo porque nunca tive dúvida!” (Repete a frase como adulto) “Filho, nunca tive medo porque nunca tive dúvida!”. Eu repito isso todas as noites, pai (Retirando a roupa de criança). É minha oração desde menino, desde que tu se embrenhou no sumidouro da caatinga. E só agora eu entendi: para ter coragem é preciso crer! Mas a gente acredita de verdade em que mesmo? No que eu posso ainda acreditar, meu pai?
42
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 42
25/07/2022 16:57:47
Cena 8 – o bicho-fera
Eu cresci sem nenhum receio, sem nenhum desbrio. Me apanhei um menino sem medo, medo foi coisa que nunca tive, nem do escuro, nem de assombração, nem de mula sem cabeça, nem de lobisomem. Nem da fome. Não tive medo nem do tempo... E foi justo o tempo que foi meu professor e como mestre-mor me incutiu o medo. Medo do sem-fim, medo das profundezas de mim mesmo, medo de não poder acreditar em mais nada... E só uma vez eu senti o medo lambujando o meu couro. Foi no trespassar de uma madrugada que escutei pela primeira vez um ronco abafado, que num se respirava nem esguinchava bruto. (Ruídos. Relinchos. Cascos.) Oxi. Quem vem lá? Que barulho é esse? (Ruídos) Um bicho? Uma fera? Era menos um relincho
43
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 43
25/07/2022 16:57:47
e mais um soprar de ventas. Por certo o ruído era uma coisa que saía de suas ventas, coisa espessa, desconfiei. Era o cão danado? O desconjurado, atinei. O rasta-chifres, o engrunhido, o escamoso que se aprochegava. Eu digo que sim e que não! E logo um baque atrás do outro, sem descanso. O calor descambou um batuque das horas perdidas. Madrugada molhada de desassossego. Minha moleira escorria no pescoço como se de mim saísse uma bica. Fora dos roncos do bicho, os barulhinhos da noite nem se escutava, nem pio de coruja, nem grilo, nem silfo de besouro, nem chocalho de cascavel, só os troncos passando uns nos outros num ruído esquisito, era tudo um agouro extremado... E eu e minha menina prontos pra soltar na carcaça da fera, fosse lá o que fosse... Ia ser eu, o bicho e a morte por testemunha. Será que minha hora derradeira chegava neste desembeste? Sozinho por completo com este bicho desvairado, este bicho-fera? Tava macomunado com o cascudo terrível, só podia! A gente do Sertão já nasce sabendo no couro que a vida é labuta sem recompensa, e no meio de tudo isso só uns agrado, coisa pouca pra dar alívio... Mas a fúria da existência não cessa! E o cão não tem moradia certa, tá espalhado por aí de esguelha, de tocaia e nunca se
44
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 44
25/07/2022 16:57:47
esquece da gente, não! E aí foi chegando perto, foi chegando, chegando! E então... se revelou... O Batuque, aquelas cores. Línguas-gargalhadas. A música. Um treme-terra! Uma festa! Era uma festa! Uma festa, homi! (Sons aumentando, pífaros, sons de festa. Imagens ao fundo, sons de patas no chão, o ator coloca um chapéu de reisado, pega um pandeiro e sai cantando) Cantiga de Dona Chica: Dona Chica me dê o mingau/ me dê o mingau/me dê o mingau Dona Chica que mata a cobra, mas não mostra o pau Corre o cão e o bicho-fera Serpente fugida no meio do vau Dona Chica sacode a saia No terreiro da mata risca o sinal Dona Chica cabocla danada melissa erva-doce pamonha curau Dona Chica cabocla danada melissa erva-doce pamonha curau Dona Chica me dê o mingau/ me dê o mingau/me dê o mingau Dona Chica que mata a cobra, mas não mostra o pau
45
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 45
25/07/2022 16:57:47
Dona Chica era dona do reisado, que bailava todo aprumado, indo de portão em portão; Chica carregava sua bandeira de porteira em qualquer beira, era Chica cabocla encantada, de histórias pelo avesso viradas. Era a avó do baixão verde. Chica por todos afamada, índia de alfazema perfumada deslizando pelo terreiro nas candeias do meu chão. (Retoma o refrão da música e vai aos poucos parando de tocar)
46
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 46
25/07/2022 16:57:47
Cena 9 – o pai
É preciso tomar coragem e tento! Me disse mainha. Carecia de passar sabença aprendida porque carecia de ser a última vez. A última vez, pai? Me perguntei. Sua mão acarinhava meu rosto tocante de ser pai. Não sou mais uma criança no relento que divaga. Mainha não me deixa quieto, num quer que eu faça a travessia. Diz que tu sumiu, escapou. “Teu pai fugiu! Escapou, menino!” O senhor sabe como faz este povo. Diziam: “O homem bebe demais, merece porque merece ser tratado pelo sertão” — que a senhora sabe, o sertão tudo cura. Havia de atravessar o seco do leito do rio pra do outro lado achar mata virgem. De cobra, teiú, pacaçu e onça do mato. Diziam que lá tudo tinha. E só lá era o lugar
47
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 47
25/07/2022 16:57:47
dele se refazer. Pai montou no lombo do burro ciente de seu destino. Sabia que da parte da família eles até queriam o bem, mas sempre teimavam o mal. O calor atinava uma moleza, o sol queimava um sem-juízo. Ele mirou o horizonte, fitava o pôr do sol como flecha certeira que foi atirada pelos montes até onde a vista não alcança. O povo sentenciava: tá macomunado com o desdito! Oia só, comadre, tá perdido, fazendo acordo com o cão! O homi resolveu selar o bicho, tomar montaria e encravar as esporas, mas antes me olhou. Te digo sem pestanejar que meu coração desatinou do meu peito. Parecia ouvir tudo daquele olho, ver as palavras daquela boca, respirar aquela suspiração. Pai seguiu rumo ao seu destino, levando suas poucas coisas. Deixou pra mim só seu chapéu e sua roupa de gala de vaqueiro. E ele rumava... E o povo dispersava... Só eu restei lá, pregado. Não ia arredar o pé até ver pai se apagar na vereda. E ele foi... trotando com constância até o mei do capão. Ali, parecendo doido, sem aviso. Parou. No mei, parado. Do jeito que ficou num parecia ter um pingo de vontade de sair dali. O sol era brabo, calor, pensei, mas ele tava ali com uma calma tão espantada que seu retrato chega divergia.
48
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 48
25/07/2022 16:57:47
Enraizado que nem mandacaru antigo. Ali, decerto, era seu lugar: vi! Não sei o que me deu, mas senti que com ele ali estando, eu ali ficava, atracado igual. E aí uma frieza me subiu dos extremos do corpo. A luz do sol se apagou. Num vi nem a hora que ele mergulhou no horizonte. Desacordado fiquei estirado na terra. Depois que despertei, dia após dia pensava que ele ainda estava lá. O povo fazia contagem: se apostavam. “Vorta!”. “Num vorta mais! Morreu!”. Morreu? Foi aí que virei de costume passar as noites imaginando acompanhado de meu pai, em um tamburete velho assim. Contava as coisa pra ver se ele me escutava. Dizia como andava a vida na roça, como iam meus irmãos, como ia mãe trabalhando e como eu ia em meus estudos com Mestre Sizinho, no Vau das Bretas. Pai, tô aprendendo a desenhar as letras. E os números? Tô multiplicando que é uma beleza. Noves fora nada, né, pai? Cismando. Numa noite eu senti mais fome, mais frio, mais tudo, só a esperança que ia virando favinho de grão. Talvez
49
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 49
25/07/2022 16:57:47
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 50
25/07/2022 16:57:48
eu devesse largar mãe. Num é isso que tu quer? Coração de menino é fraco, num aguenta isso tudo, não. Mãe entende, né? Apois então me decidi. Larguei qualquer traço de memória naquela roça de fim de mundo e fui embora. Ora por que, pai? O dormir era sempre difícil. Sentia proximidade com o desdito. Tive sonho, pesadelo. No tamburete em que eu me sentava observava teu rosto, pai, teu rosto não demudara. Por que estava ali em sonho? – pensei. De repente, demudou. Virou de rosto, me olhou, de novo disse tudo, mas desta vez ainda disse mais. Vi claramente. A bebedeira ferrenha se ajuntou em painho, o corpo costumou, pedia uma gorotinha de cachaça a mais – há muito tempo que não tomava. Diabo atenta, pede cumprir seus querer ou faz de nós sofredor de suas artimanhas. Subiu uma tremedeira pelando do fim da tarde, da ponta da unha até os fiapos de cabelo restantes. Tudo se extremava no desconhecido. Fogo dos inferno, parecia. Os olhos perdidos, corpo de pai balangava de cima do lombo do burro feito rabo cortado de
51
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 51
25/07/2022 16:57:48
lagartixa! A língua desemborcava. Parecia cobra preparando o bote. Aí desabô. Peso de pai escapuliu da montaria. Resvalô de cima do lajedo. O juízo se abriu feito melaço derramando no chão... Aí eu acordei suado feito cuscuz, despertei de salto e grito e chamei: Mainha! Era cedo da manhã, mas ali ninguém ficava delongado em cama, não. Apressei o passo pra ir ver o lugar da travessia, ali tinha de tirar dúvida. Me tremia todo, ofegava, só podia. E aí me veio memória: “É preciso tomar coragem e tento”, lembrei. E decidi errar por todos os cantos. E então andei de perna esticada, de chicotar o destino com violência, pressa de menino em sede. Mas chegando lá num tinha nada. Nada? Nada... Juro por este chão que tua busca findou, pai. Deus é juramento? Pois então tá juramentado e decretado: tu tá morto, pai. Morto! Sem enterro, sem luto, sem corpo, sem missa pra encomendar tua alma. Tu não existe mais. Mesmo que quase vivo por aí, que no ermo ainda teime, tu tá mortinho no mais profundo breu. No deserto da minha memória só ficou poeira e sol, minha alma tá curtida dos nossos descaminhos. Meu coração balangou, balangou, mas se aprumou no sossego. “Vi!”
52
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 52
25/07/2022 16:57:48
Não sou mais menino. Aquele teu moleque mercadejou suas lembranças pelas capuavas da caatinga, descambando por toda brenha até dar gastura nos pés. Travessando cerca sem receio nem perdão. Em todo cafundó abafado arrastei minha sombra magra. Tocaiando ligeiro o destino pra morte não me dar emboscada. E encontrando de mim a tua parte, pai, te dei memória, destino e cova. Assim o trato tá feito: tu mesmo morto vai comigo, e não é só sangue e tripas, num é só tua roupa de gala e montaria que tu me deixou, num é só um rosto talhado, nem cicatriz na alma. Tu tá morto por minha coragem e tento! Morte é nada. Vida é nada: passagem de cada qual pro seu próprio contentamento. E se um filho meu me perguntar amanhã por seu avô, vou dizer a ele, tá aqui (Apontando para um filho imaginário) e aqui dentro de mim, ele é o relicário que nos alumia pra arrastar nossa teimosia de viver nesse chão coalhado, nessa sede de entendimento, nesse calor do cão. “Dá um abraço, meu filho!” (Abraça o filho imaginário) A jornada findou! Atravessar toda esta terra quente é como atravessar a gente mesmo. Passagem do nosso
53
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 53
25/07/2022 16:57:48
silêncio, passagem do nosso deserto. A travessia da terra toda é como atravessar um grão. Dona Donia, Dezinha, Dona Chica, os fantasmas, Bel, Mainha, Seo Neném, o Bicho-fera, Brisa, até o Demo, tudo isto tava no fundo de minha natureza, tudo fruto da mesma laia, feito do mesmo estofo. Todos filhos do mesmo silêncio extenso. Um grão profundo só bastava! Esse grão profundo: isso é o sertão. Foi por ele que me embrenhei na tua busca. E dei fé! Deus? É só um juramento! Bença, pai. Pra os que me perguntarem se enfim te encontrei, só tenho uma coisa pra dizer: sim! É... Sim! É... Sim. FIM
54
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 54
25/07/2022 16:57:48
55
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 55
25/07/2022 16:57:48
Impresso no dia 8 de julho de 2022, na Gráfica JB Ltda, com miolo em papel Polen Bold 90g; e editorado com a fonte Adobe Garamond Pro corpo 12. Tiragem: 1000 exemplares.
A TRAVESSIA DO GRÃO PROFUNDO.indd 56
25/07/2022 16:57:48