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Como acessar o modelo de gestão 4.0 das startups

REVISTA DA ESPM • ANO 24 • EDIÇÃO 111 • Nº2 • ABRIL/MAIO/JUNHO 2018 • R$ 32,00

O MUNDO 4.0 VEM AÍ!

Ultrapassando os limites da tecnologia, surge uma nova era que tornará o mundo mais rico, complexo e cheio de desafios

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Artigos

GESTÃO

Como acessar o modelo de gestão 4.0 das startups de tecnologia

Analisar o conceito de empreendedorismo inovador e a forma como surgem as startups de tecnologia no Brasil pode ajudar grandes empresas a embarcar na era da 4ª Revolução Industrial

Por Nei Grando

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Q uando pensamos no que somam os conceitos de empreendedorismo e de inovação na prática, a memória nos traz as startups, que utilizam intensamente a tecnologia em seus negócios.

As novas empresas, geralmente, não possuem todos os recursos necessários ao crescimento, tais como espaço físico, pessoas e fundos, nem a confiabilidade e a legitimidade que o conhecimento, a experiência e a marca das grandes empresas conquistam ao longo dos anos — criando, produzindo e fornecendo novas tecnologias ou produtos de qualidade ao mercado.

Para as startups, é ainda mais difícil superar essas responsabilidades de novidade e pequenez, pois, conforme as definições de Steve Blank, Eric Ries e Paul Graham, elas são associadas com: — Agilidade e crescimento rápido. — Um modelo de negócios repetível, escalável e lucrativo. — Desenvolvimento e/ou fornecimento de produtos e/ ou serviços em condições de extrema incerteza. — Potencial de excelente retorno sobre o investimento. Onde, então, está a magia de como as startups superam tais dificuldades?

No modelo de gestão 4.0 das startups, cujo DNA é formado por conceitos como os de transparência das informações, autonomia na tomada de decisões, resiliência perante as dificuldades, flexibilidade na gestão e relacionamento próximo com o consumidor e com os demais interessados do ecossistema. Esses conceitos, somados ao uso de novas formas de competir, ou melhor, de “coopetir” no mercado, mostram que as startups já nascem digitais e com uma “Cultura 4.0”. Alinhadas com a economia do século 21, elas utilizam as novas tecnologias e os novos modelos de negócio como ferramenta para melhorar a experiência do cliente.

Sim, já nascem digitais, mas o que podemos destacar na forma de ser e agir 4.0 das startups?

Cada empreendedor tem seu próprio estilo, perfil e comportamento e cada startup possui propósitos, visão e modelo de negócios diferentes e preferencialmente únicos para competir num mundo tão volátil, incerto, complexo, ambíguo e acelerado. Há, porém, alguns aspectos que são comuns às startups bem-sucedidas e que podemos destacar a seguir:

· Geralmente, partem de uma mentalidade de fundador, com um ou dois sócios, equipe pequena, multifuncional, competente, comprometida, focada e motivada.

· O propósito, a visão e os valores são compartilhados, considerando respeito, transparência e excelência na execução.

· No planejamento, utilizam metodologias como design thinking, modelagem de negócios e startup enxuta ( lean) em recursos, processos...

· No desenvolvimento do produto, consideram a interação contínua com o cliente e utilizam um processo científico, leve e iterativo por experimentação: construir, medir e aprender — na geração de protótipos e produtos minimamente viáveis, onde a falha é uma opção.

· A “pivotagem”, ou seja, uma mudança estratégica de alguns elementos do modelo de negócios, pode ocorrer mais de uma vez.

· Buscam o crescimento sustentável, mas com velocidade, inovação e transformação contínua.

· Utilizam poucas métricas, porém essenciais para o acompanhamento e a gestão.

· Obtêm recursos financeiros por meio de rodadas de investimento medido com base em evidências de que os marcos foram atingidos, apresentados em relatório de progresso.

· Utilizam novas tecnologias de forma intensa, como: computação em nuvem para uso, gestão e disponibilização de aplicações, dados e relatórios; fornecimento de acesso via dispositivos móveis; mídias sociais na estratégia de marketing digital e de comunicação com o cliente; interfaces de programas de aplicação (APIs) para acesso à infraestrutura, integração com sistemas diversos, uso e disponibilização de informações; impressão 3D para prototipação física; inteligência artificial e big data para otimização de uso de dados e melhor interação com o cliente; internet das coisas para acessos a sensores, máquinas e robôs; realidade virtual e realidade aumentada para simulações etc.

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Outro ponto a considerar são as fases macro de aprendizagem e execução, bem como suas características. O processo se dá basicamente nesses estágios:

· Durante a aprendizagem, os empreendedores procuram transformar a ideia em um negócio, que precisa ser estruturado, testado e validado.

· A partir do modelo de negócios, eles validam o problema, depois a solução e por fim ajustam o produto ao mercado.

· Fazem uso de protótipos e versões de um produto mínimo viável para os primeiros clientes e buscam pela tração — que é demonstrada por meio do crescimento de receita, lucro, clientes, clientes-pilotos, usuários não pagantes e até mesmo hipóteses verificadas a respeito dos problemas dos clientes.

· No início, a startup enfrenta incertezas — sobre tecnologia, mercado, ambiente externo e recursos — que precisam ser identificadas, trabalhadas e reduzidas.

· Durante o processo, o modelo de negócios vai ficando mais maduro — até com possíveis ajustes estratégicos (pivot), a equipe de sócios e primeiros colaboradores vai se consolidando, e o “namoro” com os investidores vai acontecendo, surgindo assim os primeiros investimentos.

· O negócio só terá sucesso se o produto tiver valor e encantar o cliente a ponto de ele se tornar um parceiro na divulgação.

· Depois do ajuste do produto ao mercado e de adquirir tração, começa a execução, com a estruturação da empresa e preparação dos processos para o crescimento.

A capacidade de experimentar, aprender e escalar, já desenvolvida na cultura das startups, permite que os problemas sejam resolvidos de forma rápida e eficiente, gerando melhores resultados.

Em comum, as startups têm boas ideias com grande potencial de crescimento, agilidade organizacional e disposição para arriscar

O que e como aprender com as startups?

As grandes empresas estão sendo cada vez mais pressionadas a acelerar seus processos de inovação devido ao reduzido ciclo de vida do produto, ao aumento da concorrência e à crescente complexidade, especialização e convergência de tecnologias. Assim, enfrentam o dilema entre continuar a busca pela eficiência de explorar seus recursos ao máximo — que inclui a busca de melhorias de processo e inovações incrementais — e também o de criar produtos e serviços com inovações radicais e disruptivas para poderem se manter competitivas.

De um lado, as grandes empresas têm uma marca reconhecida, recursos, escalas e rotinas dedicadas à execução de um modelo de negócios comprovado. Por outro lado, as startups têm ideias com grande potencial de crescimento, agilidade organizacional e disposição para arriscar.

Usando os conceitos de inovação aberta — que nada mais é que uma abordagem mais distribuída, participativa e descentralizada da inovação —, as grandes empresas podem comercializar ideias externas e internas, implantando dentro ou fora de seus mercados atuais. Nesse sentido, para acelerar seus processos de inovação e simplificar seus modelos de negócio, elas podem utilizar métodos, técnicas e ferramentas das startups, que permitem alavancar oportunidades, testar ideias, fazer experimentos com protótipos e lançar produtos inovadores, mesmo que tragam em si algumas incertezas.

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Desde o lançamento do livro Empreendedorismo Inovador: como criar startups de tecnologia no Brasil (Editora Évora, 2012), esperava-se ver o Brasil como uma nação empreendedora e inovadora, contando com incentivos governamentais, bases de conhecimento científico de universidades e presença de capital de risco. Isso aos poucos vem se tornando realidade, pois:

· O governo tem lançado programas nacionais de apoio para startups, como Fundo Criatec, Startup Brasil, Inovativa Brasil, Finep Startup, Conexão Startup-Indústria, além de programas estaduais e, em alguns casos, municipais.

Isso pode ser feito de duas formas: por meio de pequenas equipes de startup interna, ou seja, grupos multifuncionais focados em testar suposições sobre novos produtos em potencial com metodologias ágeis, recursos enxutos e produtos mínimos viáveis; ou interagindo com startups externas, combinando os pontos fortes de cada lado para juntas criarem um valor substancial e alcançar seus objetivos com sucesso.

A evolução do ecossistema de startups

O Brasil é um país de muitas oportunidades, conta com o colossal tamanho de seu território e de sua população, ou seja, um grande mercado, além de ter muitos problemas de infraestrutura e outras áreas esperando por soluções. Empreender por aqui implica complexidade com a arrecadação de altos impostos e taxas, burocracia desde o momento de abertura da empresa, pouca parceria efetiva com universidades, dificuldade de encontrar colaboradores preparados, além de baixa disponibilidade em financiamentos e capital de risco.

Essas razões culturais e históricas exigiram do empreendedor brasileiro o desenvolvimento de enorme capacidade de improvisação para contornar seus problemas. Ele tem fama de ser tão “criativo” e bem relacionado, porém, no geral, não se destaca nos campos científico e tecnológico, o que o torna mais empreendedor do que inovador.

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· Universidades como a USP, a Universidade Federal do ABC (UFABC) e tantas outras têm lançado cursos, núcleos de empreendedorismo e eventos focados em startups. E as incubadoras estão mais ativas.

· No mercado, as aceleradoras estão mais maduras, assim como seus processos de busca, treinamento e lançamento de startups, bem como o relacionamento com investidores-anjo e fundos de capital de risco.

· Muitas empresas de grande e médio portes têm buscado interagir com as startups de diversas formas, incluindo eventos com prêmios, hackathons, programas de plataformas para desenvolvedores, espaços de coworking, incubadoras, aceleradoras e parcerias de negócios.

· Surgiram novos livros e eventos sobre o tema, treinamento presencial e on-line, encontros presenciais de empreendedores (meetups) e muitos produtos/serviços inovadores lançados com sucesso.

Hoje vemos um Brasil com muitos exemplos de startups vencedoras, cujos modelos de gestão podem servir de exemplo para empresas tradicionais estabelecidas, que buscam inovar de forma ágil, utilizando menos recursos para atingir melhores resultados.

Nei Grando

Mestre em ciências pela FEA-USP com MBA pela FGV, organizador e autor do livro Empreendedorismo Inovador: como criar startups de tecnologia no Brasil, mentor de startups, consultor, professor e palestrante sobre inovação e negócios

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