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Imagem: acervo revista Toque

“Só o fato de pessoas doarem uma parte do seu dia para me ajudar, é indício de que são pessoas com quem se vale a pena conviver”, conta emocionado o deficiente visual Luis Chaves, a respeito dos voluntários de leitura do Setor Braille. Com 25 anos e apenas 10% da visão, Chaves consegue amenizar suas limitações diárias graças a pessoas que toda semana fazem leitura para grupos de deficientes visuais.

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“Clara manhã, obrigado. O essencial é viver”. Assim o escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade salda a vida. Não viver sozinho, não se isolar, celebrar através da literatura. Isso é muito mais é o que oferece o acervo da Biblioteca Pública Luiz de Bessa, pertencente ao Circuito Cultural Praça da Liberdade. Embarcar na aventura proposta é a oportunidade de conhecer e dividir experiências.

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A mística viagem que envolve o acesso à literatura pelos lábios e ouvidos de uma relação além de voluntária

Uma viagem literária o acervo da vida contado pelo voluntariado

Nos versos de um livro qualquer: um coração e um ouvido


Luís e seu irmão nasceram com 30% da visão, e por muito tempo não tiveram consciência de que eram deficientes. Somente na adolescência ambos descobriram que havia algo

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errado. A partir de então, as limitações passaram a se apresentar rotineiramente. Andar a noite e usar o computador passaram a ser atividades inviáveis. Na época, Chaves cursava Direito e teve que desenvolver outros métodos para conseguir concluir a faculdade. Hoje, formado, ele estuda para concursos públicos e tem na leitura o maior de seus desafios. Além do braille, faz o uso de diversas ferramentas para deficientes visuais, como, lente de aumento para textos e aparelhos que digitalizam arquivos para leitura-áudio, em computadores. Todos podem ser voluntários, desde crianças até idosos. O revezamento é para orientar os deficientes em pesquisas e os inserir no mundo da literatura. E, ao contrário do que se imagina, não é só quem ouve que ganha com o vínculo que se estabelece na relação. Há três anos, o aposentado Renato Barbosa da Silva, 73, é voluntário e vai à biblioteca para fazer as leituras. “Quando conheci o trabalho me surpreendi, e a cada semana é um novo aprendizado”, diz ele. Renato mora em um bairro distante da biblioteca, mas conta que tenta realizar o trabalho com regularida-


de. Ele explica que o caráter e o esforço dos deficientes é o que faz com que ele esqueça a idade que tem e se mova em prol dos que necessitam do serviço. “A determinação dessas pessoas em superar suas dificuldades é

Amizade Iiterária Além de despertar o prazer pela leitura e ficar com a sensação de estar cumprimento seu papel social, os frequentadores do Setor Braille mantêm uma amizade que é selada pelas discussões, promovidas pelas obras que são lidas e pela troca de experiências em comum. Sorrindo, Luis fala que boa parte de suas amizades veio desses grupos, e explica que as relações ali estabelecidas são muito ricas, já que, segundo ele, quem participa são pessoas com alto nível moral e cultural. Na época em que cursava a 5ª série, Luis se

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bem, não damos valor a isso”, explica.

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incrível, enquanto nós, que enxergamos tão

com muita dificuldade, fazia as mesmas provas que eram aplicadas para todos os outros alunos. Ao lembrar do desgaste que tinha, ele revela – “Posso dizer que as pessoas mais importantes da minha vida conheci nos grupos

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de leitura voluntária da biblioteca”.

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esforçava para estudar sozinho. Além de ler


Deficiência estrutural Em Belo Horizonte não há editoras que publicam livros em linguagem braille, por isso, o espaço de leitura tem grande carência de obras transcritas na linguagem. Hoje, o acervo desse departamento tem cerca de 5.600 volumes, adquiridos por doações de instituições visual. Além disso, o setor tem uma impressora que realiza as traduções dos títulos. “Mas tudo ocorre com pequena escala de produção e, por isso, não conseguimos atender às demandas de forma contínua e vasta como gostaríamos que fosse”, conta Viviane Pereira, coordenadora do Setor Braille.

Com desafios, tanto por parte das limitações dos deficientes visuais quanto pelo atendimento, a única que coisa faz com que essa relação se mantenha é a determinação dos dois lados. A cada dia, voluntários e beneficiados buscam maior absorção do conhecimento: “Aqui mais aprendo do que repasso informações, todo dia é uma emoção diferente”, comemora Viviane.

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que trabalham com pessoas com deficiência

Além das leituras em grupo, há voluntários que fazem leitura viva-voz em um estúdio que fica dentro da própria biblioteca. No local são realizadas gravações em áudio-livros que podem ser feitas por aqueles que têm menos tempo de frequentar os grupos. “Tudo é um somatório de um serviço para ajudar os deficientes com suas barreiras diárias”, explica Viviane.

Imagem: acervo Biblioteca Municipal Luiz de Bessa


As visitas podem ser feitas na sede da Biblioteca, na Praça da Liberdade, de segunda à sexta-feira, de 8h às 18h, e nos sábados até o meio-dia. Outras informações pelo telefone (31) 3269-1218.

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Atualmente, 401 leitores cadastrados utilizam os serviços de empréstimo domiciliar, que conta com livros transcritos para o sistema braille e audiolivros (livros falados compostos por arquivos de som no formato MP3, gravados e estruturados de forma a facilitar a navegação). O espaço também disponibiliza acesso à internet por meio de computadores com sintetizador de voz (JAWS) para as pessoas cegas; ampliador de tela (MAGIC) e lupa eletrônica para leitores com baixa visão.

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O acervo é composto por literatura infantojuvenil, literatura brasileira e estrangeira, periódicos, livros informativos e dicionários. Os visitantes também podem acessar os arquivos em áudio, sendo mais de 200 deles referentes ao curso de Direito.

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#seliga


Arnaldo Marchesotti

Senta que lá vem história...

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No contexto histórico da Itália em 1918, a gripe espanhola, variação da gripe comum que devastou a Europa, matando, em números imprecisos, entre 20 e 50 milhões de pessoas. No contexto político, o Fascismo, doutrina totalitária de origem italiana que ganhou terreno com a chegada de Mussolini ao poder, em 1922. Ines e Ricardo, casal italiano, viviam na cidade de Como, nos arredores de Milão. Ele, especialista em montagem e conserto de motores e bombas hidráulicas, ofício muito prestigiado na I Guerra Mundial, em que combateu. Ela, como a maior parte das mulheres da época, dona de casa e mãe de quatro filhos, que acreditava que a vida iria melhorar depois da guerra. Os eventos que iniciam essa história foram determinantes na trajetória da família. Já abalados pela devastação que a gripe causou, os italianos que se opunham ao regime totalitarista eram radicalmente perseguidos. Esses dois fatos fizeram que a família se mudasse para o Brasil onde os irmãos de Ricardo haviam montado uma fábrica de tecido. Mas a gripe deixou marcas profundas: o velho Ricardo foi desenganado, a filha, Ângela, ficou com deformação nos membros inferiores e o caçula, Arnaldo, perdeu totalmente a visão aos 18 meses de vida. Desembarcando no porto de Santos em 1926, a escolha por Belo Horizonte para que a família se estabelecesse levou em consideração as necessidades de Arnaldo, filho que se despontava como talento musical, apesar das barreiras visuais. A presença do professor de música, Pedro de Castro, no Instituto São Rafael, foi um dos fatores que levaram a escolha. Assim começa a história de sucesso de um dos maiores pianistas do mundo. Aos nove anos se apresentou no Teatro Municipal de São Paulo e aos onze no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sempre com grande repercussão na mídia ressaltando sua genialidade. Em Belo Horizonte, concluiu seus estudos em 1932, como o primeiro pianista cego a diplomar-se no Brasil. Apresentou-se em mais de 150 cidades brasileiras, todas as capitais, Estados Unidos e América Latina. Realizou atividades radiofônicas tocando na Rádio Inconfidência desde sua fundação até aposentar-se em 1968, na Rádio Ministério da Educação, Jornal do Brasil, Rádio Educadora Paulista, além de audições na TV Itacolomi e na TV Tupi. Foi crítico musical na Folha de Minas e lecionou no Instituto São Rafael por 30 anos. Leituras em braile, estudo de idiomas (o músico falava seis línguas) e exercícios diários ao piano faziam parte de sua rotina diária. Até que um dia, em 1979, Arnaldo entrou no seu salão de música, tocou piano e não mais saiu. A morte por um tiro na boca nunca foi totalmente esclarecida, mas é certo que nem ela pode calar as notas do mestre.

Esse artigo foi produzido com o apoio das netas de Arnaldo, Letícia e Ana Paula. A versão feita por elas pode ser lida no blog Trem da História.

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