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Nem açúcar, nem glúten

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A incidência da doença celíaca é maior nos diabéticos tipo 1.

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uitas vezes, ao ler o rótulo de um produto no supermercado, nos deparamos com o aviso de que ele contém ou não glúten. Mas o que realmente significa essa informação e o quanto ela pode ser importante? O glúten é uma proteína encontrada em cereais e existem pessoas que são intolerantes a ela. É a chamada doença celíaca, uma patologia autoimune. É como se fosse uma falha na comunicação entre o intestino e o sistema de defesa de nosso

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organismo, quando entra em contato com a mucosa do intestino delgado, as células de defesa o consideram como um inimigo, e atacam as paredes desse órgão, dificultando a absorção de diversos outros nutrientes importantes para o metabolismo e causando reações físicas. “Ele é reconhecido como algo ruim, levando a produção de anticorpos”, explica a nutricionista Celeste Viggiano. Os demais sintomas dessa confusão feita pelo organismo são diarréia, dor abdominal, náuseas e


vômito. Em crianças, fase em que essa doença normalmente é diagnosticada, também pode causar irritabilidade e déficits no crescimento e desenvolvimento. E quando não tratada, traz consequências futuras, como osteoporose, infertilidade e anemia crônica. Mas qual a ligação disso tudo com o diabetes?

Em dose dupla

A cada 100 diabéticos tipo 1, três apresentam a doença celíaca. O número até parece pequeno, mas não é. “Na população geral, a proporção fica em torno de um celíaco a cada 500 pessoas”, contabiliza Magda Bahia, especialista em gastroenterologia pediátrica. E isso não é mera coincidência, justamente porque ambos os males ocorrem por alterações no sistema imunológico. “Uma leva a destruição das células-beta do pâncreas (produtora de insulina), e a outra acarreta na criação de anticorpos contra o glúten”, compara Eduardo Lorena, endocrinologista. Já o tipo 2 não tem relação direta com essa patologia. A conexão provavelmente tem origem genética. Pesquisadores acreditam que diabéticos e celíacos sofrem mudanças semelhantes na cadeia de DNA, que fazem o sistema imunológico atacar o pâncreas ou o glúten, respectivamente. Outros apontam que talvez a intolerância ao glúten, por estar relacionada à absorção dos nutrientes, possa ser um fator que desencadeie os anticorpos do diabetes nas pessoas que tem predisposição.

Alimentação em cheque

Mas quem tem esses dois diagnósticos simultâneos acaba precisando seguir uma dieta ainda mais restrita. “O cardápio sem glúten é a única possibilidade de tratamento para a doença celíaca. Ele deve ser rigoroso, pois mesmo pequenas quantidades trazem consequências

negativas”, ressalta Lorena. A proteína é um nutriente próprio do trigo, cevada, malte, aveia e centeio. E não adianta aquecer ou triturar esses ingredientes, isso não traz modificações no composto. A restrição elimina uma série de alimentos do dia a dia (veja o quadro ao lado), entre eles os pães, bolos e algumas massas, que levam farinha de trigo em sua composição. Esses itens precisam então ser preparados em casa, usando como substitutos a farinha de arroz, polvilho e fécula de batata ou mandioca... Ou podem ser encontrados em lojas de produtos naturais ou orgânicos. E muita atenção para com os industrializados. Por mais que eles não contenham os ingredientes vetados, podem ser contaminados quando feitos nas mesmas máquinas que outros produtos com glúten. Por isso e importante verificar o rótulo antes da compra. Tudo bem, retirar parte dos carboidratos do cardápio é benéfico para a dieta do diabético, pois eles são convertidos em açúcar durante a digestão. Porém, os grãos integrais têm grande aporte de fibras, um nutriente que, ao se misturar com a água no estômago, forma uma camada gelatinosa que interfere na absorção do açúcar, tornando-a mais lenta e evitando picos glicêmicos. Mas há formas de repor estas substâncias e poder aproveitar esse benefício: “as leguminosas oferecem fibras solúveis, por exemplo: feijões, ervilhas, grão de bico, lentilha, soja e fava”, lista Celeste. O arroz integral também é liberado, assim como as frutas e verduras ricas em fibras. A adaptação ainda é mais complexa ao lidar com o cardápio infantil. “Se a família participar de forma adequada, sem ter sentimentos de culpa ou excesso de proteção, a criança conseguirá superar as limitações que o regime lhe impõe”, ensina Magda. 

Quem deve ou não ser cortado

Veja a lista de alimentos proibidos e permitidos para quem é celíaco. E cuidado, verifique sempre as embalagens, pois muitos industrializados podem conter traços deste nutriente.

Contém glúten Achocolatados, aveia, bolos, carnes à milanesa, Centeio, cerveja, embutidos, farinha de trigo, malte, massas, pães, queijos fundidos, vodca, whisky

Não contém glúten Arroz, batata, carnes, ervilha, fubá, inhame, leite e derivados, mandioca, margarina, milho, óleos, ovos, polvilho, vinho

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Mas há vantagens nessa alimentação glúten free. Pesquisas mostram que crianças celíacas e diabéticas têm menos produtos finais de glicolização avançada (PFGAs) em seu organismo. Esse é o nome complicado representa substâncias formadas na célula quando há uma grande quantidade de glicose acumulada dentro dela. Sua presença no corpo facilita o aparecimento de complicações, como a insuficiência renal. Isso é mais comum em diabéticos, devido ao quadro de hiperglicemia. Mesmo assim, a dieta também pode ajudar no aumento dessa taxa, e alguns dos alimentos mais ricos nesses produtos são as farinhas e industrializados, itens abolidos do cardápio de quem tem doença celíaca. Além deles, ítens como comidas gordurosas, carnes e leite, também contém este produto. A teoria foi baseada em um estudo realizado no Royal Children’s Hospital em Melbourne, na Austrália, verificou que crianças com diabetes e doença celíaca tinham menor índice de PFGAs no corpo. “Porém, esse tema ainda está em pesquisa e 20

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não temos recomendações em consensos e diretrizes”, alerta Celeste. Eduardo Lorena completa: “quem tem diabetes deve seguir um cardápio saudável e balanceado, o que significa restringir, mas não proibir o consumo desses itens”. Além disso, não existem evidências concretas de que a retirada do glúten seja mesmo benéfica. “O Conselho Regional de Nutricionistas faz recomendações expressas de que ele só deve ser evitado por indivíduos com intolerância”, ressalta a nutricionista. Portanto, a menos que haja desconfiança da doença celíaca, esta proteína não precisa ser riscada terminantemente do cardápio. 

Dra. Magda Bahia é professora do Departamento Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, gastroenterologista pediátrica; Dr. Eduardo Lorena é endocrinologista, colaborador do Grupo de Obesidade da disciplina de Endocrinologia do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC/FMUSP); Celeste Viggiano é nutricionista, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e da Salute Consultoria Nutricional.

Será que sou celíaco?

O glúten só fará mal a quem é intolerante a seu consumo. Para descobrir isso, primeiro é preciso ficar atento aos sintomas, como diarreia, dor abdominal, náuseas, vômito, irritabilidade excessiva. Ela normalmente se manifesta entre um e três anos de idade, mas também pode aparecer depois da fase adulta. Se houver desconfiança, basta procurar um gastroenterologista, que aplicará os exames para identificar se há o quadro de doença celíaca.


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Nem açúcar, nem glúten by Nathalie Ayres de Franco - Issuu